O Comércio do Sagrado: origem e implicações
Pr. Dionísio Oliveira da Silva.
http://www.imel.org.br/artigos/livro_csagrado.htm 2.7.07

A proposta deste texto é ajudar ou pelo menos fornecer pistas para a compreensão
da experiência religiosa, (espiritualidade) que se constrói apenas, se a pessoa tiver
uma mudança no nível de vida econômica e social, o que envolve um intenso
comércio religioso de bens simbólicos mediado pela igreja, que se transforma em
intermediaria do negócio entre o fiel e Deus como parece transparecer dos
discursos que justificam este tipo de espiritualidade.
Uma forma de compreender este processo (a que utilizo) é partir da busca das
pessoas por uma solução da sua dificuldade pessoal que pode ser financeira, de
saúde, de sentido, ou qualquer outra que afeta a sua felicidade. Normalmente
essas pessoas procuram a igreja (religião cristã ou evangélica) depois de várias
outras tentativas propostas que segundo elas não produziram o efeito desejado.
O que se constata é que por conta da falência ou ineficiência dos mecanismos
governamentais ( saúde, educação, habitação, emprego, etc.), a religião tem se
tornado a esperança de mudanças, para o “aqui e agora”, para a grande maioria
das pessoas que são marginalizadas na sociedade. Nessa fase de desilusão elas
estão dispostas a apostar tudo o que possuem e até o que não possuem para ter
uma mudança em suas vidas.
Com essa disposição (ou desespero) essas pessoas chegam às igrejas, e tem
contato com a experiência de um culto que na maioria das vezes promete e
garante que tudo será diferente daquele dia em diante, aqui e agora. Pois eles dão
prioridade àquilo que é capaz de satisfazer imediatamente. Isso pode ser
verdadeiro ou falso. Depende de como essa pessoa será conduzida na sua
experiência com Deus a partir do seu primeiro contado com a mensagem. Porem,
em qualquer que seja a igreja, o primeiro passo tem a ver com a conversão
intermediada por aquela igreja. Normalmente o primeiro discurso aponta o poder
de Deus como elemento transformador da situação vivida pela pessoa. Isso faz
com que muitas pessoas de fato (e isso pode ser constatado) creiam em Deus e
na graça de Jesus Cristo o que resulta em sua primeira experiência da presença
de Deus na intimidade do seu coração – isso é a conversão que leva a entrega
total da pessoa a Deus, mas mediado pela igreja, ou pastor que teve o primeiro
contato com ela. Essa entrega sem reservas é edificante para quem experimenta,
mas danosa e perigosa se cair em mãos inescrupulosas. Mas, infelizmente a
experiência religiosa da conversão tem este ponto frágil; ela pode ser manipulada
pelas pessoas. Mas apesar disso é ela que coloca a pessoa numa relação direta
com a graça de Deus, quando ocorre de verdade. É essa conversão genuína, que
chamo de “experiência de fé teologal”. A conversão pode acontecer em qualquer
igreja, (cristã ou evangélica), pois Deus não tem preferência especial por qualquer
uma delas, que na realidade são privilegiadas por essas ocorrências. A partir
desse ponto a pessoa está literalmente na mão da igreja na qual ela teve a sua
experiência de conversão. A porta está aberta para todo tipo de heresia e desvio
teológico e eclesial danosos para ao novo convertido.
Essa experiência religiosa que embora tenha sido particular e subjetiva vai ser
interpretada e explicada para a pessoa por um especialista da igreja, e será
conformada dentro do contexto da igreja onde ela se deu, de forma a atender não
a pessoa em si, mas os interesses da igreja. Este momento é crítico para a
pessoa, pelo fato de ficar sujeita a diversos tipos de manipulações, que podem ser
confirmados pelas interpretações que fazem de certos princípios da Bíblia, mas
infelizmente, por causa do valor que a experiência teve para a vida da pessoa
envolvida, ela não percebe que está sendo manipulada, e mesmo que percebesse,
ela se submete por causa da “autoridade” do especialista da igreja, que
normalmente estava presente no dia da sua conversão. Isso torna o trabalho da
igreja mais fácil. É dai que surge a “teologia” da experiência religiosa especifica a
partir da conversão, que pode servir aos interesses particulares da igreja que fará
as devidas orientações de acordo com os resultados que deseja alcançar.
Nessa altura dos acontecimentos, poderíamos perguntar: como isso é possível?
Para espanto geral, o que se constata é que o próprio novo convertido cria todos
os meios para a sua manipulação acontecer. O novo convertido se entrega e
facilita a ação dos “especialistas”, visando a melhora prometida de sua situação
com a garantia dada por Deus. Isso ocorre porque toda pessoa, com raras
exceções tem em si esperanças e certezas de que as coisas realmente podem ser
diferentes se elas receberem os estímulos apropriados. Talvez isto exista em
conseqüência da própria natureza humana possuir sempre uma capacidade
mesmo mínima de que é possível superar os problemas se um mínimo de ajuda
estiver à sua disposição. Essa vontade e disposição abre nova porta e ponto de
apoio para a ação da igreja, e isso não tem nada de mal e nem está errado, desde
que fosse para um boa causa e com a intenção certa. O problema aparece quando
junto com a ajuda existem interesses velados que não simplesmente a
transformação
da
situação
da
pessoa.
Mas, para quem já apostou tudo, qualquer coisa que sinalize para sua esperança
uma mínima chance, vale qualquer sacrifício. É bom lembrar que o discurso da
mensagem das igrejas que adotam o procedimento de relacionar espiritualidade
com prosperidade, enfatiza insistentemente e intencionalmente que qualquer que
seja a esperança da pessoa ela se tornará realidade, apesar da vontade de Deus,
se as atitudes certas forem tomadas.
Mas, como o desejado é sempre diferente da realidade, e isso é uma regra, a
pessoa mesmo sendo motivada pelos discursos triunfalistas da igreja, terá
dificuldades de fazer com a devida segurança o percurso entre a sua realidade e
aquilo que determinou alcançar, pois pode abater sobre ela a dúvida, embora essa
dúvida seja a chance dela não ser manipulada. Para resolver o problema das
dúvidas as igrejas trabalham com os depoimentos de pessoas. Eles têm a
finalidade de encurtar o caminho e aguçar a fé determinadora ( fé sobrenatural)
para se conseguir as coisas do modo que se deseja, tendo Deus como garantia.
Para fins de esclarecimentos é necessário dizer que o problema aqui não é o
testemunho, pois isso de fato funciona (se for sincero), e sim a forma como eles
são compartilhados. No depoimento das testemunhas é possível perceber que
Deus somente pode ser visto em coisas que são do interesse da igreja e das
pessoas, e isso se concretiza apenas nas coisas materiais que trazem prazer e
satisfação humana. Para elas a experiência com Deus é sinônimo apenas de
experiências com a superação das dificuldades sociais e econômicas. Deus passa
a ser visto apenas e então somente nas coisas que o fiel possui e que lhe traz
felicidade humana. Ocorre o fenômeno que produz a sujeição de Deus aos bens –
mercadorias – desejados ou possuídos pelas pessoas. É este Deus que somente
pode ser percebido dessa maneira, que chamo de “sagrado mercadoria”, pois se
iguala e está sujeito às mercadorias, para ter valor e visibilidade para o fiel.
Teologicamente falando, a revelação de Deus é possível apenas numa forma
materializada.
Neste ponto o sentido da vida do fiel depende totalmente do sentido que o bem lhe
confere e isso é valorativo para sua espiritualidade, ou seja, é a forma de
autenticação da sua espiritualidade. É como se a mercadoria (bens) assumisse
para si a vida e sentido presentes na pessoa de Deus e conferisse esta vida à
pessoa. Como o discurso dessas igrejas dá prioridade ao ter em relação ao ser, ou
seja, o que vale é o “tenho, logo existo”, este pensamento facilmente afeta a
pessoa de Deus, que passa a ser visto como o “faça, logo você existe”. Dessa
forma, a existência de Deus é comunicada pelo sentido e aferida apenas por aquilo
que ele concede a mercadoria. Como no sistema capitalista de mercado é o
mercado que determina a vida e a morte das mercadorias (dos bens que podem
ser comercializados), assim, ocorre com Deus que é submetido às mesmas regras
e se manifesta apenas nas mercadorias, pois caso ele não siga o ritmo e a vida
das mercadorias, como única forma de poder ser experimentado, fatalmente está
fadado ao esquecimento e ser descartado. Isso explica porque um discurso
consistente e centrado na palavra de Deus, não tem sentido para esta nova forma
de religiosidade.
Quando o discurso desse tipo de religiosidade entra em cena, o elemento
fundamental é a sua “linguagem” religiosa e simbólica, ou seja, as formas
lingüísticas, simbólicas, hermenêuticas que são utilizadas. Nas igrejas que
constroem o sagrado mercantilizado, o discurso é sutilmente construído com uma
linguagem que representa os valores escolhidos pela imaginação do próprio fiel a
partir da influencia do sentido que o consumismo propõe. Uma linguagem
simbólica que comunica diretamente o sentido e a realidade que o fiel necessita
para tomar suas decisões.
Para fortalecer ainda mais o discurso, a igreja usa uma leitura bíblica
fundamentalista e literal, com a finalidade de projetar na mente do fiel personagens
bíblicos vitoriosas, que servem de modelos para os fieis, cujas experiências eles
passam a copiar. Isso faz as propostas adquirirem uma roupagem bíblica. O uso
da esperança das pessoas, juntamente com os testemunhos e os personagens
bíblicos como modelos, resulta numa postura do fiel que o distancia da sua fé
unicamente em Deus, pois a fé da sua experiência de conversão sofre uma
alteração para ser uma fé a partir dos depoimentos e experiência de outras
pessoas que tiveram (?) experiência com Deus. É essa fé que chamo de “fé
antropológica”.
Como isso se mantém e satisfaz a necessidade espiritual da pessoa?
A primeira razão que já comentamos é a linguagem do discurso religioso. A forma
como a igreja faz seu sermão e sua pregação serve como elemento de persuasão
das pessoas, por ser uma linguagem direta e que fala do que as pessoas
realmente desejam ouvir, embora haja corrupções das idéias bíblicas por eles
utilizadas, e esta corrupção está ligada ao fato de materializarem a presença de
Deus nos interesses das pessoas. Porem ela tem a favor de si o fato de estar
diretamente relacionadas às perguntas existenciais que estão sendo feitas e por
isso a resposta é elemento pratico que pode ser usado imediatamente. É uma
linguagem que resgata valores escolhidos pelas próprias pessoas como sendo
importantes para solução das suas necessidade e utiliza símbolos facilmente
compreendidos e assimilados pelas mentes mais simples, pois não exige altos
exercícios de interpretação. Por fim, é um tipo de linguagem que faz com que o
discurso sempre acrescente sentido e esperança na imaginação fiel. Mas, que
fique claro, que toda essa beleza e simplicidade do discurso estão a serviço do
interesse comercial dessas igrejas, que não se penalizam pelos que não
conseguem dar a volta por cima.
A instabilidade do processo que pode colocar em risco todo projeto dessas igrejas
é solucionada quando a igreja faz o fiel migrar continuamente entre os pólos da
conversão e da sua realização pessoal intencionada. Se algo proposto falhar, a
igreja como simples mediadora do processo, remete o fiel de novo a sua primeira
experiência para que resgate forças para recomeçar novamente a caminhada, que
inclui uma série de reuniões e rituais. O principal mecanismo são as correntes e
campanhas realizadas pela igreja, que servem para motivar o fiel sempre através
de uma aposta, um ato de fé radical, que serve também para camuflar a ineficácia
dos passos anteriormente realizados. Isso serve também para ocupar o fiel com os
procedimentos da igreja evitando que repense a sua situação em vista de outras
possibilidades. Normalmente a permanência é mantida pela proibição e o perigo de
ser castigado por Deus, caso as correntes sejam quebradas, sendo ensinados que
seu sucesso está em permanecer dentro da igreja onde ele começou. A propósito
do fato, isso ocorre analogamente com as regras do mercado; quem não se
submete a elas literalmente está morto comercialmente. O sagrado do mercado
assimila este mesmo esquema. Ele realiza os desejos, mas também tem os seus
próprios, que não podem ser negligenciados sem penalidades.
Isso nos revela outro motivo da permanência do fiel neste processo religioso. O
fato de ter investido seus bens para receber outros maiores, pois nada neste
processo se faz sem dinheiro, e sem a determinação da fé sobrenatural em Deus,
que sendo perfeito e vendo a fé investidora e sacrificial da pessoa jamais deixará
de honrá-la com um resultado generoso. Por sua coragem e fé a pessoa (o fiel)
passa a se ver como um credor diante de Deus, como ocorre nas relações
comerciais e financeiras no mercado. Essa consciência de credor faz com que ele
continue
também
crendo
do
jeito
que
lhe
foi
ensinado.
Se depois de todo esforço e fé, ainda continua sem resposta e sem o resultado
material esperado, embora nesta altura dos acontecimentos com certeza ela esteja
muito mais pobre do que chegou, e a igreja muito mais rica do que era, ele começa
a ser visto como indesejado. Sua fé é questionada e passa a ser vitima de um
processo desumano de desprezo e indiferença diante da igreja, pois não serve
como referencia nem de propaganda e marketing do sistema. A situação se tornará
muito pior na maioria dos casos, pois toda a sua esperança e fé desmoronam, pois
não resultaram nos bens que ele havia tanto esperado e se esforçado para obter.
Neste ponto é que o sagrado mercadoria mostra a sua cara e se pode perceber
que nada tem a ver com o Deus da sua primeira experiência. O fiel percebe que foi
vitima da sua própria ganância, que serviu apenas para enriquecer outras pessoas
e criar um “deus” à imagem da sua própria necessidade. Caso ele tivesse aplicado
em si mesmo o que aplicou na igreja com a mesma fé e empenho com que
normalmente agem, a muito ele teria mudado de situação.
Mais difícil é entender que há um Deus presente nesta religiosidade como as
igrejas desse movimento ensinam, e que ele é o Deus da Bíblia. Na realidade ele
não o é. Ele é uma imagem do Deus da Bíblia. Uma imagem sem sentimentos,
uma imagem construída pelo consumismo desenfreado do mercado, que engana e
devora a vida dos pobres e excluídos, fazendo-os mais pobres e ainda mais
excluídos, como o próprio sistema de mercado com sua mão invisível faz, quando
atrai e seduz as pessoas com a promessa de realização e sentido para suas vidas
através da posse daquilo que ele lhes oferece com um alto preço, escondendo o
fato de que ao ser seduzido pela sua proposta a pessoa perder a sua própria vida
e passa a viver segundo o que ele estabelece. O Deus da Bíblia é bem diferente.
Os mecanismos da religiosidade da mercadoria com a sua espiritualidade de
mercado, que manifesta como providência com a pretensão de responder até às
necessidades espirituais na realidade não passa de um engano, cuja linguagem
bem elaborada pode até ser interessante, mas no fim a alma fica sem resposta e
morre. A experiência com um sagrado que se compara a uma mercadoria e pode
ser comercializado é uma idolatria e a causa dessa morte.
As divisões do Livro são as seguintes:
Capitulo
I
Apresento as várias possibilidades da experiência religiosa ser entendida, além de
mostrar os problemas com a explicação da experiência pela linguagem do discurso
religioso, e a possibilidade dela ser manipulada.
Capitulo
II.
Trato principalmente o que a pós-modenidade trouxe como influência que
transformou o imaginário religioso antes existente e com conseqüência a
individualização e o secularismo como método de nova visão religiosa e do
Sagrado. Aqui podemos ver como é possível construir um sagrado mercantilizado,
que se torna uma mercadoria comercializável como qualquer outra e sua
espiritualidade.
Capitulo
III
Aqui eu procuro explicar o fato da fé sua função para a vida, bem como apresento
os elementos que podem condicioná-la. Também analiso o processo de escolha
dos valores que realizam a fé, a relação da fé com a realidade (ideologia) e os
dados transcendentes, úteis a fé antropológica.
Capitulo
IV.
Faço uma analise de caso usando a IURD como objeto de pesquisa. A abordagem
feita é de cunho teórico, embora os fatos analisados sejam concretos e presentes
na literatura da IURD e em revistas, jornais e artigos de especialistas e religião e
sociologia. Minha intenção neste capitulo foi de comprovação principalmente dos
conceitos de “dados transcendentes”, “fé teologal”, “fé antropológica”, e
“testemunhas referenciais”.
Capitulo
V.
Aqui faço minha pré - conclusão analisando as implicações e conseqüências de
uma experiência religiosa a partir de um sagrado sujeito às mercadorias e que
também se transforma em mercadoria. As implicações são centradas no político,
social e teológico. As conseqüências se referem ao problema de uma nova crise
para os fieis dessas igrejas, para a experiência religiosa com relação ao seu
aspecto demoníaco e da idolatria.
O
questionamento
principal
do
livro
é:
Como um Sagrado Mercantilizado pode se manter e proporcionar uma experiência
religiosa fundamental para a pessoa humana?
A tese é: Um discurso com uma linguagem simbólica bem elaborada a partir de
valores propostos pelo imaginário da própria pessoa dá conta dessa sustentação e
do sentido da experiência religiosa e do “sagrado mercadoria” que pode ser
comercializado.
O termo “Comércio do Sagrado” está relacionado ao entendimento que alguns
tipos de teologias têm de que a espiritualidade se alcança e se comprova por meio
da prosperidade econômica e financeira das pessoas, sem as quais afirmam elas,
a espiritualidade e a presença de Deus não podem ser percebidas. O meio de
atingir essa espiritualidade é através da posse das mercadorias, normalmente
casas, carros, apartamentos, que são alcançados fazendo provas de Deus através
de investimentos na igreja e muita fé para acreditar que Deus dará sempre
proporcionalmente ao que foi investido no reino dos céus. É como se Deus fosse
um investidor cujo relacionamento com o fiel se dá dependendo dos seus
investimentos no reino, digo, na igreja.
Como todo o sentido espiritual se concentra na posse de mercadorias, produtos
disponíveis e comercializáveis no mercado, e sendo Deus a fonte de todo sentido
espiritual, ele passa a ser materializado nas próprias mercadorias. Como tudo
nessas teologias envolve dinheiro, a transação que envolve o comércio das
mercadorias, representa também o comercio do sagrado representado por estas
mercadorias. Ao se comprar um bem, também se adquire espiritualidade.
Se a espiritualidade está relacionada à Deus, e só pode ser experimentada através
da posse de bens e mercadorias, e por sua vez essas mercadorias devem ser
compradas no mercado, resulta que Deus é também comercializado nestas
mercadorias e sujeito às regras do mercado.
O desejo irrestrito de possuir como sentido para a vida, faz de Deus não só um
grande comerciante dono de uma grande loja onde se compra tudo o que se quer,
como também a própria mercadoria que a igreja comercializa a um custo
elevadíssimo.

6. espiritualidade na teologia da prosperidade

  • 1.
    O Comércio doSagrado: origem e implicações Pr. Dionísio Oliveira da Silva. http://www.imel.org.br/artigos/livro_csagrado.htm 2.7.07 A proposta deste texto é ajudar ou pelo menos fornecer pistas para a compreensão da experiência religiosa, (espiritualidade) que se constrói apenas, se a pessoa tiver uma mudança no nível de vida econômica e social, o que envolve um intenso comércio religioso de bens simbólicos mediado pela igreja, que se transforma em intermediaria do negócio entre o fiel e Deus como parece transparecer dos discursos que justificam este tipo de espiritualidade. Uma forma de compreender este processo (a que utilizo) é partir da busca das pessoas por uma solução da sua dificuldade pessoal que pode ser financeira, de saúde, de sentido, ou qualquer outra que afeta a sua felicidade. Normalmente essas pessoas procuram a igreja (religião cristã ou evangélica) depois de várias outras tentativas propostas que segundo elas não produziram o efeito desejado. O que se constata é que por conta da falência ou ineficiência dos mecanismos governamentais ( saúde, educação, habitação, emprego, etc.), a religião tem se tornado a esperança de mudanças, para o “aqui e agora”, para a grande maioria das pessoas que são marginalizadas na sociedade. Nessa fase de desilusão elas estão dispostas a apostar tudo o que possuem e até o que não possuem para ter uma mudança em suas vidas. Com essa disposição (ou desespero) essas pessoas chegam às igrejas, e tem contato com a experiência de um culto que na maioria das vezes promete e garante que tudo será diferente daquele dia em diante, aqui e agora. Pois eles dão prioridade àquilo que é capaz de satisfazer imediatamente. Isso pode ser verdadeiro ou falso. Depende de como essa pessoa será conduzida na sua experiência com Deus a partir do seu primeiro contado com a mensagem. Porem, em qualquer que seja a igreja, o primeiro passo tem a ver com a conversão intermediada por aquela igreja. Normalmente o primeiro discurso aponta o poder de Deus como elemento transformador da situação vivida pela pessoa. Isso faz com que muitas pessoas de fato (e isso pode ser constatado) creiam em Deus e na graça de Jesus Cristo o que resulta em sua primeira experiência da presença de Deus na intimidade do seu coração – isso é a conversão que leva a entrega total da pessoa a Deus, mas mediado pela igreja, ou pastor que teve o primeiro contato com ela. Essa entrega sem reservas é edificante para quem experimenta, mas danosa e perigosa se cair em mãos inescrupulosas. Mas, infelizmente a experiência religiosa da conversão tem este ponto frágil; ela pode ser manipulada pelas pessoas. Mas apesar disso é ela que coloca a pessoa numa relação direta com a graça de Deus, quando ocorre de verdade. É essa conversão genuína, que chamo de “experiência de fé teologal”. A conversão pode acontecer em qualquer igreja, (cristã ou evangélica), pois Deus não tem preferência especial por qualquer uma delas, que na realidade são privilegiadas por essas ocorrências. A partir desse ponto a pessoa está literalmente na mão da igreja na qual ela teve a sua experiência de conversão. A porta está aberta para todo tipo de heresia e desvio teológico e eclesial danosos para ao novo convertido. Essa experiência religiosa que embora tenha sido particular e subjetiva vai ser
  • 2.
    interpretada e explicadapara a pessoa por um especialista da igreja, e será conformada dentro do contexto da igreja onde ela se deu, de forma a atender não a pessoa em si, mas os interesses da igreja. Este momento é crítico para a pessoa, pelo fato de ficar sujeita a diversos tipos de manipulações, que podem ser confirmados pelas interpretações que fazem de certos princípios da Bíblia, mas infelizmente, por causa do valor que a experiência teve para a vida da pessoa envolvida, ela não percebe que está sendo manipulada, e mesmo que percebesse, ela se submete por causa da “autoridade” do especialista da igreja, que normalmente estava presente no dia da sua conversão. Isso torna o trabalho da igreja mais fácil. É dai que surge a “teologia” da experiência religiosa especifica a partir da conversão, que pode servir aos interesses particulares da igreja que fará as devidas orientações de acordo com os resultados que deseja alcançar. Nessa altura dos acontecimentos, poderíamos perguntar: como isso é possível? Para espanto geral, o que se constata é que o próprio novo convertido cria todos os meios para a sua manipulação acontecer. O novo convertido se entrega e facilita a ação dos “especialistas”, visando a melhora prometida de sua situação com a garantia dada por Deus. Isso ocorre porque toda pessoa, com raras exceções tem em si esperanças e certezas de que as coisas realmente podem ser diferentes se elas receberem os estímulos apropriados. Talvez isto exista em conseqüência da própria natureza humana possuir sempre uma capacidade mesmo mínima de que é possível superar os problemas se um mínimo de ajuda estiver à sua disposição. Essa vontade e disposição abre nova porta e ponto de apoio para a ação da igreja, e isso não tem nada de mal e nem está errado, desde que fosse para um boa causa e com a intenção certa. O problema aparece quando junto com a ajuda existem interesses velados que não simplesmente a transformação da situação da pessoa. Mas, para quem já apostou tudo, qualquer coisa que sinalize para sua esperança uma mínima chance, vale qualquer sacrifício. É bom lembrar que o discurso da mensagem das igrejas que adotam o procedimento de relacionar espiritualidade com prosperidade, enfatiza insistentemente e intencionalmente que qualquer que seja a esperança da pessoa ela se tornará realidade, apesar da vontade de Deus, se as atitudes certas forem tomadas. Mas, como o desejado é sempre diferente da realidade, e isso é uma regra, a pessoa mesmo sendo motivada pelos discursos triunfalistas da igreja, terá dificuldades de fazer com a devida segurança o percurso entre a sua realidade e aquilo que determinou alcançar, pois pode abater sobre ela a dúvida, embora essa dúvida seja a chance dela não ser manipulada. Para resolver o problema das dúvidas as igrejas trabalham com os depoimentos de pessoas. Eles têm a finalidade de encurtar o caminho e aguçar a fé determinadora ( fé sobrenatural) para se conseguir as coisas do modo que se deseja, tendo Deus como garantia. Para fins de esclarecimentos é necessário dizer que o problema aqui não é o testemunho, pois isso de fato funciona (se for sincero), e sim a forma como eles são compartilhados. No depoimento das testemunhas é possível perceber que Deus somente pode ser visto em coisas que são do interesse da igreja e das pessoas, e isso se concretiza apenas nas coisas materiais que trazem prazer e satisfação humana. Para elas a experiência com Deus é sinônimo apenas de experiências com a superação das dificuldades sociais e econômicas. Deus passa
  • 3.
    a ser vistoapenas e então somente nas coisas que o fiel possui e que lhe traz felicidade humana. Ocorre o fenômeno que produz a sujeição de Deus aos bens – mercadorias – desejados ou possuídos pelas pessoas. É este Deus que somente pode ser percebido dessa maneira, que chamo de “sagrado mercadoria”, pois se iguala e está sujeito às mercadorias, para ter valor e visibilidade para o fiel. Teologicamente falando, a revelação de Deus é possível apenas numa forma materializada. Neste ponto o sentido da vida do fiel depende totalmente do sentido que o bem lhe confere e isso é valorativo para sua espiritualidade, ou seja, é a forma de autenticação da sua espiritualidade. É como se a mercadoria (bens) assumisse para si a vida e sentido presentes na pessoa de Deus e conferisse esta vida à pessoa. Como o discurso dessas igrejas dá prioridade ao ter em relação ao ser, ou seja, o que vale é o “tenho, logo existo”, este pensamento facilmente afeta a pessoa de Deus, que passa a ser visto como o “faça, logo você existe”. Dessa forma, a existência de Deus é comunicada pelo sentido e aferida apenas por aquilo que ele concede a mercadoria. Como no sistema capitalista de mercado é o mercado que determina a vida e a morte das mercadorias (dos bens que podem ser comercializados), assim, ocorre com Deus que é submetido às mesmas regras e se manifesta apenas nas mercadorias, pois caso ele não siga o ritmo e a vida das mercadorias, como única forma de poder ser experimentado, fatalmente está fadado ao esquecimento e ser descartado. Isso explica porque um discurso consistente e centrado na palavra de Deus, não tem sentido para esta nova forma de religiosidade. Quando o discurso desse tipo de religiosidade entra em cena, o elemento fundamental é a sua “linguagem” religiosa e simbólica, ou seja, as formas lingüísticas, simbólicas, hermenêuticas que são utilizadas. Nas igrejas que constroem o sagrado mercantilizado, o discurso é sutilmente construído com uma linguagem que representa os valores escolhidos pela imaginação do próprio fiel a partir da influencia do sentido que o consumismo propõe. Uma linguagem simbólica que comunica diretamente o sentido e a realidade que o fiel necessita para tomar suas decisões. Para fortalecer ainda mais o discurso, a igreja usa uma leitura bíblica fundamentalista e literal, com a finalidade de projetar na mente do fiel personagens bíblicos vitoriosas, que servem de modelos para os fieis, cujas experiências eles passam a copiar. Isso faz as propostas adquirirem uma roupagem bíblica. O uso da esperança das pessoas, juntamente com os testemunhos e os personagens bíblicos como modelos, resulta numa postura do fiel que o distancia da sua fé unicamente em Deus, pois a fé da sua experiência de conversão sofre uma alteração para ser uma fé a partir dos depoimentos e experiência de outras pessoas que tiveram (?) experiência com Deus. É essa fé que chamo de “fé antropológica”. Como isso se mantém e satisfaz a necessidade espiritual da pessoa? A primeira razão que já comentamos é a linguagem do discurso religioso. A forma como a igreja faz seu sermão e sua pregação serve como elemento de persuasão das pessoas, por ser uma linguagem direta e que fala do que as pessoas realmente desejam ouvir, embora haja corrupções das idéias bíblicas por eles
  • 4.
    utilizadas, e estacorrupção está ligada ao fato de materializarem a presença de Deus nos interesses das pessoas. Porem ela tem a favor de si o fato de estar diretamente relacionadas às perguntas existenciais que estão sendo feitas e por isso a resposta é elemento pratico que pode ser usado imediatamente. É uma linguagem que resgata valores escolhidos pelas próprias pessoas como sendo importantes para solução das suas necessidade e utiliza símbolos facilmente compreendidos e assimilados pelas mentes mais simples, pois não exige altos exercícios de interpretação. Por fim, é um tipo de linguagem que faz com que o discurso sempre acrescente sentido e esperança na imaginação fiel. Mas, que fique claro, que toda essa beleza e simplicidade do discurso estão a serviço do interesse comercial dessas igrejas, que não se penalizam pelos que não conseguem dar a volta por cima. A instabilidade do processo que pode colocar em risco todo projeto dessas igrejas é solucionada quando a igreja faz o fiel migrar continuamente entre os pólos da conversão e da sua realização pessoal intencionada. Se algo proposto falhar, a igreja como simples mediadora do processo, remete o fiel de novo a sua primeira experiência para que resgate forças para recomeçar novamente a caminhada, que inclui uma série de reuniões e rituais. O principal mecanismo são as correntes e campanhas realizadas pela igreja, que servem para motivar o fiel sempre através de uma aposta, um ato de fé radical, que serve também para camuflar a ineficácia dos passos anteriormente realizados. Isso serve também para ocupar o fiel com os procedimentos da igreja evitando que repense a sua situação em vista de outras possibilidades. Normalmente a permanência é mantida pela proibição e o perigo de ser castigado por Deus, caso as correntes sejam quebradas, sendo ensinados que seu sucesso está em permanecer dentro da igreja onde ele começou. A propósito do fato, isso ocorre analogamente com as regras do mercado; quem não se submete a elas literalmente está morto comercialmente. O sagrado do mercado assimila este mesmo esquema. Ele realiza os desejos, mas também tem os seus próprios, que não podem ser negligenciados sem penalidades. Isso nos revela outro motivo da permanência do fiel neste processo religioso. O fato de ter investido seus bens para receber outros maiores, pois nada neste processo se faz sem dinheiro, e sem a determinação da fé sobrenatural em Deus, que sendo perfeito e vendo a fé investidora e sacrificial da pessoa jamais deixará de honrá-la com um resultado generoso. Por sua coragem e fé a pessoa (o fiel) passa a se ver como um credor diante de Deus, como ocorre nas relações comerciais e financeiras no mercado. Essa consciência de credor faz com que ele continue também crendo do jeito que lhe foi ensinado. Se depois de todo esforço e fé, ainda continua sem resposta e sem o resultado material esperado, embora nesta altura dos acontecimentos com certeza ela esteja muito mais pobre do que chegou, e a igreja muito mais rica do que era, ele começa a ser visto como indesejado. Sua fé é questionada e passa a ser vitima de um processo desumano de desprezo e indiferença diante da igreja, pois não serve como referencia nem de propaganda e marketing do sistema. A situação se tornará muito pior na maioria dos casos, pois toda a sua esperança e fé desmoronam, pois não resultaram nos bens que ele havia tanto esperado e se esforçado para obter. Neste ponto é que o sagrado mercadoria mostra a sua cara e se pode perceber que nada tem a ver com o Deus da sua primeira experiência. O fiel percebe que foi
  • 5.
    vitima da suaprópria ganância, que serviu apenas para enriquecer outras pessoas e criar um “deus” à imagem da sua própria necessidade. Caso ele tivesse aplicado em si mesmo o que aplicou na igreja com a mesma fé e empenho com que normalmente agem, a muito ele teria mudado de situação. Mais difícil é entender que há um Deus presente nesta religiosidade como as igrejas desse movimento ensinam, e que ele é o Deus da Bíblia. Na realidade ele não o é. Ele é uma imagem do Deus da Bíblia. Uma imagem sem sentimentos, uma imagem construída pelo consumismo desenfreado do mercado, que engana e devora a vida dos pobres e excluídos, fazendo-os mais pobres e ainda mais excluídos, como o próprio sistema de mercado com sua mão invisível faz, quando atrai e seduz as pessoas com a promessa de realização e sentido para suas vidas através da posse daquilo que ele lhes oferece com um alto preço, escondendo o fato de que ao ser seduzido pela sua proposta a pessoa perder a sua própria vida e passa a viver segundo o que ele estabelece. O Deus da Bíblia é bem diferente. Os mecanismos da religiosidade da mercadoria com a sua espiritualidade de mercado, que manifesta como providência com a pretensão de responder até às necessidades espirituais na realidade não passa de um engano, cuja linguagem bem elaborada pode até ser interessante, mas no fim a alma fica sem resposta e morre. A experiência com um sagrado que se compara a uma mercadoria e pode ser comercializado é uma idolatria e a causa dessa morte. As divisões do Livro são as seguintes: Capitulo I Apresento as várias possibilidades da experiência religiosa ser entendida, além de mostrar os problemas com a explicação da experiência pela linguagem do discurso religioso, e a possibilidade dela ser manipulada. Capitulo II. Trato principalmente o que a pós-modenidade trouxe como influência que transformou o imaginário religioso antes existente e com conseqüência a individualização e o secularismo como método de nova visão religiosa e do Sagrado. Aqui podemos ver como é possível construir um sagrado mercantilizado, que se torna uma mercadoria comercializável como qualquer outra e sua espiritualidade. Capitulo III Aqui eu procuro explicar o fato da fé sua função para a vida, bem como apresento os elementos que podem condicioná-la. Também analiso o processo de escolha dos valores que realizam a fé, a relação da fé com a realidade (ideologia) e os dados transcendentes, úteis a fé antropológica. Capitulo IV. Faço uma analise de caso usando a IURD como objeto de pesquisa. A abordagem feita é de cunho teórico, embora os fatos analisados sejam concretos e presentes na literatura da IURD e em revistas, jornais e artigos de especialistas e religião e sociologia. Minha intenção neste capitulo foi de comprovação principalmente dos conceitos de “dados transcendentes”, “fé teologal”, “fé antropológica”, e
  • 6.
    “testemunhas referenciais”. Capitulo V. Aqui façominha pré - conclusão analisando as implicações e conseqüências de uma experiência religiosa a partir de um sagrado sujeito às mercadorias e que também se transforma em mercadoria. As implicações são centradas no político, social e teológico. As conseqüências se referem ao problema de uma nova crise para os fieis dessas igrejas, para a experiência religiosa com relação ao seu aspecto demoníaco e da idolatria. O questionamento principal do livro é: Como um Sagrado Mercantilizado pode se manter e proporcionar uma experiência religiosa fundamental para a pessoa humana? A tese é: Um discurso com uma linguagem simbólica bem elaborada a partir de valores propostos pelo imaginário da própria pessoa dá conta dessa sustentação e do sentido da experiência religiosa e do “sagrado mercadoria” que pode ser comercializado. O termo “Comércio do Sagrado” está relacionado ao entendimento que alguns tipos de teologias têm de que a espiritualidade se alcança e se comprova por meio da prosperidade econômica e financeira das pessoas, sem as quais afirmam elas, a espiritualidade e a presença de Deus não podem ser percebidas. O meio de atingir essa espiritualidade é através da posse das mercadorias, normalmente casas, carros, apartamentos, que são alcançados fazendo provas de Deus através de investimentos na igreja e muita fé para acreditar que Deus dará sempre proporcionalmente ao que foi investido no reino dos céus. É como se Deus fosse um investidor cujo relacionamento com o fiel se dá dependendo dos seus investimentos no reino, digo, na igreja. Como todo o sentido espiritual se concentra na posse de mercadorias, produtos disponíveis e comercializáveis no mercado, e sendo Deus a fonte de todo sentido espiritual, ele passa a ser materializado nas próprias mercadorias. Como tudo nessas teologias envolve dinheiro, a transação que envolve o comércio das mercadorias, representa também o comercio do sagrado representado por estas mercadorias. Ao se comprar um bem, também se adquire espiritualidade. Se a espiritualidade está relacionada à Deus, e só pode ser experimentada através da posse de bens e mercadorias, e por sua vez essas mercadorias devem ser compradas no mercado, resulta que Deus é também comercializado nestas mercadorias e sujeito às regras do mercado. O desejo irrestrito de possuir como sentido para a vida, faz de Deus não só um grande comerciante dono de uma grande loja onde se compra tudo o que se quer, como também a própria mercadoria que a igreja comercializa a um custo elevadíssimo.