Louis Lavelle - Viver na verdade
Primeiramente, é necessário apreender a verdade total por uma espécie de intuição sem
objeto, onde as verdades particulares são, por assim dizer, suas partes. Então, estas
aparecem, por sua vez, em um movimento adequado e luminoso. Mas quem só se apega às
verdade particulares, pensando que elas se bastam a si, nelas encontra uma massa sombria
que não consegue atravessar; a sutilidade pela qual se esforça aumenta a obscuridade ao
invés de esclarecê-la.
A dificuldade nas ciências, nas artes como na filosofia está em cumprir esta dupla operação,
que consiste em analisar e recriar o real, contudo sempre mantendo um contato com este, ao
remontar à totalidade de sua presença - nós mesmos lhe fazendo parte - , sabendo aludir a
ele, antes do mais, todas as visões sucessivas que dele podemos ter.
Para descobrir a verdade, ou apenas para percebê-la, faz-se mister simplicidade e, se
podemos assim dizer, nudez de coração. A curiosidade e os esforços da razão retêm e
embarassam o espírito em cadeias de vaidade.
O princípio fundamental do método é que só podemos ter a experiência de um ato, e que
este ato, ao ser experimentado, é também realizado.
Não se trata de forçar nosso espírito, mas de pô-lo neste ponto onde se poderá descobrir
tudo e ver todos os aspectos do real destacarem-se diante de si antes mesmo que se
empregue esforço para os perscrutar. Então, nossa atividade encontra não apenas o termo,
mas a perfeição de seu exercício. Ela me dá não tão-somente a posse de um bem adquirido
uma vez por todas, mas a livre disposição de uma faculdade que a renova e a multiplica
indefinidamente. Nada terei feito por ela se não a conduzir até aí.
Não sabemos realmente aquilo que limitamo-no a reter, mas não usamos. Um
conhecimento só é adquirido no momento onde deixa de ser um conhecimento, onde ele se
torna eu mesmo, i. e., meu ser pessoal e agente. Isso demonstra que o conhecimento é o
meio de existência de um ser cuja essência inteira é participante. Pois é no momento em
que o conhecimento cessa de ser abstrato, e objetivo (o que dá no mesmo), i. e., onde cessa
de ser um conhecimento, que ele se incorpora ao eu, à própria vida da pessoa, a qual é
ademais transformada e recriada por ele.
O próprio método nos permite reconhecer estes momentos de lucidez, quando a realidade se
ilumina, e multiplicá-los, guardá-los na lembrança e fazê-los a conduta habitual de nossa
vida.
É mais importante saber estatuir-se verdades antigas que descobrir verdades novas.
Não existe questão particular em que possamos pensar onde, algum dia, se introduzirá uma
nova claridade. Carregamos em nós toda a verdade, se bem que não a tenhamos direta e
inteiramente, de modo que, quando pensamos que ela está aumentando, é aí que
descobrimos a sua riqueza própria. Todo conhecimento está em uma análise do si, onde a
percepção do mundo é apenas um instrumento.
O conhecimento é uma comunicação espiritual cujo tipo mais puro é realizado pela
amizade: somente nela se realiza esta forma perfeita da relação do sujeito e do objeto, que é
a reciprocidade, da relação entre o mesmo e o outro, que é sua comunhão. Este é ainda o
modelo sobre o qual se devem reger o conhecimento da natureza, de si ou de Deus.
posted by Luiz de Carvalho @ 10:05 PM

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    Louis Lavelle -Viver na verdade Primeiramente, é necessário apreender a verdade total por uma espécie de intuição sem objeto, onde as verdades particulares são, por assim dizer, suas partes. Então, estas aparecem, por sua vez, em um movimento adequado e luminoso. Mas quem só se apega às verdade particulares, pensando que elas se bastam a si, nelas encontra uma massa sombria que não consegue atravessar; a sutilidade pela qual se esforça aumenta a obscuridade ao invés de esclarecê-la. A dificuldade nas ciências, nas artes como na filosofia está em cumprir esta dupla operação, que consiste em analisar e recriar o real, contudo sempre mantendo um contato com este, ao remontar à totalidade de sua presença - nós mesmos lhe fazendo parte - , sabendo aludir a ele, antes do mais, todas as visões sucessivas que dele podemos ter. Para descobrir a verdade, ou apenas para percebê-la, faz-se mister simplicidade e, se podemos assim dizer, nudez de coração. A curiosidade e os esforços da razão retêm e embarassam o espírito em cadeias de vaidade. O princípio fundamental do método é que só podemos ter a experiência de um ato, e que este ato, ao ser experimentado, é também realizado. Não se trata de forçar nosso espírito, mas de pô-lo neste ponto onde se poderá descobrir tudo e ver todos os aspectos do real destacarem-se diante de si antes mesmo que se empregue esforço para os perscrutar. Então, nossa atividade encontra não apenas o termo, mas a perfeição de seu exercício. Ela me dá não tão-somente a posse de um bem adquirido uma vez por todas, mas a livre disposição de uma faculdade que a renova e a multiplica indefinidamente. Nada terei feito por ela se não a conduzir até aí. Não sabemos realmente aquilo que limitamo-no a reter, mas não usamos. Um conhecimento só é adquirido no momento onde deixa de ser um conhecimento, onde ele se torna eu mesmo, i. e., meu ser pessoal e agente. Isso demonstra que o conhecimento é o meio de existência de um ser cuja essência inteira é participante. Pois é no momento em que o conhecimento cessa de ser abstrato, e objetivo (o que dá no mesmo), i. e., onde cessa de ser um conhecimento, que ele se incorpora ao eu, à própria vida da pessoa, a qual é ademais transformada e recriada por ele. O próprio método nos permite reconhecer estes momentos de lucidez, quando a realidade se ilumina, e multiplicá-los, guardá-los na lembrança e fazê-los a conduta habitual de nossa vida. É mais importante saber estatuir-se verdades antigas que descobrir verdades novas. Não existe questão particular em que possamos pensar onde, algum dia, se introduzirá uma nova claridade. Carregamos em nós toda a verdade, se bem que não a tenhamos direta e inteiramente, de modo que, quando pensamos que ela está aumentando, é aí que descobrimos a sua riqueza própria. Todo conhecimento está em uma análise do si, onde a
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    percepção do mundoé apenas um instrumento. O conhecimento é uma comunicação espiritual cujo tipo mais puro é realizado pela amizade: somente nela se realiza esta forma perfeita da relação do sujeito e do objeto, que é a reciprocidade, da relação entre o mesmo e o outro, que é sua comunhão. Este é ainda o modelo sobre o qual se devem reger o conhecimento da natureza, de si ou de Deus. posted by Luiz de Carvalho @ 10:05 PM