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MARIA MONTESSORI EA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES PARA A FORMAÇÃO
INTEGRAL DA CRIANÇA NO CONTEXTO DA INCLUSÃO.
Tatiana Coelho
Simone Helen Drumond Ischkanian
Gladys Nogueira Cabral
Juliana Balta Ferreira
Silvana Nascimento de Carvalho
Sandro Garabed Ischkanian
Neusa Venditte
O presente estudo intitulado Maria Montessori e a Educação: Contribuições para a Formação Integral da
Criança no Contexto da Inclusão constitui uma investigação de caráter bibliográfico e documental que
busca analisar, a partir de fontes clássicas e contemporâneas, a relevância da pedagogia montessoriana para
a educação inclusiva e para a formação integral da criança. Fundamentando-se em obras de referência,
como Mente Absorvente e Pedagogia científica de Maria Montessori, além de biografias, estudos sobre a
infância e a família, e pesquisas sobre educação especial, o trabalho oferece uma compreensão abrangente
sobre os princípios que norteiam a educação centrada na criança e na promoção do desenvolvimento
integral em contextos diversificados. A pesquisa evidencia que Maria Montessori propôs uma abordagem
educativa inovadora, baseada no respeito à individualidade da criança, na liberdade com responsabilidade e
na observação científica como ferramenta pedagógica. Essa perspectiva contribui para a valorização do
aprendizado ativo, da autonomia e da construção do conhecimento por meio de experiências concretas,
fundamentais para a inclusão de crianças com diferentes necessidades e ritmos de aprendizagem. Nesse
sentido, a obra de Montessori dialoga com os conceitos de inclusão escolar, discutidos por Mantoan (2003),
e com a educação especial, explorada por Lustosa (2017) e Tezzari (2009), reforçando a necessidade de
práticas pedagógicas adaptadas às especificidades de cada aluno, promovendo equidade e respeito às
diferenças. O estudo também recorre a referências históricas e sociológicas, como Ariès (1981), Aranha
(1989) e Saviani (2019), permitindo compreender a evolução da concepção de infância e educação no
Brasil e no mundo, bem como as mudanças na percepção social sobre a deficiência e as políticas inclusivas.
Obras de Vigotsky (1997; 1998) e Gardner (1997) oferecem suporte teórico para compreender o
desenvolvimento cognitivo, emocional e artístico das crianças, enriquecendo a análise sobre como práticas
educativas centradas na criança podem favorecer a formação integral e o desenvolvimento de habilidades
múltiplas. O contexto delineado em cada etapa do artigo destaca a relevância social do tema, evidenciando
como a pedagogia montessoriana oferece respostas efetivas para os desafios da inclusão escolar e da
valorização das diferenças, contribuindo para a formação de cidadãos autônomos, críticos e socialmente
responsáveis. A pesquisa bibliográfica e documental possibilita identificar práticas educativas que
promovem não apenas o desempenho acadêmico, mas também o desenvolvimento socioemocional, a
autoestima e a capacidade de convivência em sociedade. A metodologia adotada, centrada na análise de
obras clássicas e contemporâneas, permite articular os princípios teóricos de Montessori com evidências
históricas, pedagógicas e sociais, demonstrando a consistência e a atualidade de suas ideias frente às
demandas educacionais do século XXI. Ao destacar a inter-relação entre educação, inclusão e
desenvolvimento integral da criança, esta investigação contribui para o aprofundamento de debates
acadêmicos, políticas educacionais e práticas pedagógicas, reforçando a importância de uma educação que
respeite a diversidade, promova a equidade e favoreça a realização plena do potencial de cada criança. Esta
pesquisa reforça a centralidade da pedagogia montessoriana como referência para a educação inclusiva e
integral, oferecendo subsídios teóricos e práticos para educadores, gestores e pesquisadores interessados em
construir práticas pedagógicas que valorizem a individualidade, promovam o desenvolvimento integral e
atendam às necessidades de todos os alunos, contribuindo para uma sociedade mais justa e inclusiva.
Palavras-chave: Maria Montessori; educação inclusiva; formação integral; pedagogia;
desenvolvimento infantil.
3.
3
MARIA MONTESSORI ANDEDUCATION: CONTRIBUTIONS TO THE INTEGRAL
DEVELOPMENT OF THE CHILD IN THE CONTEXT OF INCLUSION.
Tatiana Coelho
Simone Helen Drumond Ischkanian
Gladys Nogueira Cabral
Juliana Balta Ferreira
Silvana Nascimento de Carvalho
Sandro Garabed Ischkanian
Neusa Venditte
O The present study entitled Maria Montessori and Education: Contributions to the Integral Development
of the Child in the Context of Inclusion is a bibliographic and documental investigation that seeks to
analyze, based on classical and contemporary sources, the relevance of Montessori pedagogy for inclusive
education and the integral development of the child. Grounded in reference works such as The Absorbent
Mind and The Discovery of the Child by Maria Montessori, as well as biographies, studies on childhood
and family, and research on special education, the study provides a comprehensive understanding of the
principles guiding child-centered education and the promotion of integral development in diverse contexts.
The research demonstrates that Maria Montessori proposed an innovative educational approach based on
respect for the individuality of the child, freedom with responsibility, and scientific observation as a
pedagogical tool. This perspective contributes to the appreciation of active learning, autonomy, and
knowledge construction through concrete experiences, which are fundamental for including children with
different needs and learning paces. In this sense, Montessori's work aligns with the concepts of school
inclusion discussed by Mantoan (2003) and with special education, explored by Lustosa (2017) and Tezzari
(2009), reinforcing the need for pedagogical practices adapted to the specificities of each student,
promoting equity and respect for differences. The study also draws on historical and sociological
references, such as Ariès (1981), Aranha (1989), and Saviani (2019), allowing for an understanding of the
evolution of the concepts of childhood and education in Brazil and worldwide, as well as changes in social
perceptions of disability and inclusive policies. Works by Vygotsky (1997; 1998) and Gardner (1997)
provide theoretical support for understanding the cognitive, emotional, and artistic development of
children, enriching the analysis of how child-centered educational practices can foster integral development
and multiple skill acquisition. Each stage of the study emphasizes the social relevance of the theme,
showing how Montessori pedagogy offers effective responses to the challenges of school inclusion and the
appreciation of differences, contributing to the formation of autonomous, critical, and socially responsible
citizens. The bibliographic and documental approach allows the identification of educational practices that
promote not only academic performance but also socio-emotional development, self-esteem, and the
capacity for social interaction. The methodology, focused on the analysis of classical and contemporary
works, enables the articulation of Montessori's theoretical principles with historical, pedagogical, and social
evidence, demonstrating the consistency and relevance of her ideas in the face of twenty-first-century
educational demands. By highlighting the interrelation between education, inclusion, and the integral
development of the child, this research contributes to academic debates, educational policies, and
pedagogical practices, reinforcing the importance of an education that respects diversity, promotes equity,
and fosters the full potential of every child. In summary, this research reinforces the centrality of
Montessori pedagogy as a reference for inclusive and integral education, providing theoretical and practical
guidance for educators, administrators, and researchers interested in building pedagogical practices that
value individuality, promote integral development, and meet the needs of all students, contributing to a
fairer and more inclusive society.
Keywords: Maria Montessori; inclusive education; integral development; pedagogy; child
development.
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O LEGADO DEMONTESSORI
Tatiana Coelho
Simone Helen Drumond Ischkanian
Gladys Nogueira Cabral
Juliana Balta Ferreira
Silvana Nascimento de Carvalho
Sandro Garabed Ischkanian
Neusa Venditte
No silêncio atento da criança a aprender,
Surge um mundo que deseja conhecer.
Cada gesto, cada olhar, cada passo a explorar,
Mostra que a educação é muito mais que ensinar.
Montessori ensinou com amor e razão,
Respeitando o ritmo, o coração, a paixão.
Liberdade com limites, autonomia com cuidado,
Um caminho onde o saber é descoberto lado a lado.
O ambiente preparado, cada canto pensado,
Materiais concretos, toque e olhar guiado.
O educador observa, conduz, não impõe,
Transforma curiosidade em conhecimento que se
põe.
Inclusão e igualdade, a base de seu pensar,
Crianças diversas juntas a aprender e amar.
Autoconfiança, disciplina e concentração,
Formam cidadãos de mente e de coração.
E assim seu legado atravessa o tempo e o espaço,
Guiando mãos pequenas, iluminando cada passo.
Montessori, mestra do desenvolvimento integral,
Mostrou que educar é respeitar o potencial.
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6
MARIA MONTESSORI EA EDUCAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES PARA A FORMAÇÃO
INTEGRAL DA CRIANÇA NO CONTEXTO DA INCLUSÃO.
Tatiana Coelho
Simone Helen Drumond Ischkanian
Gladys Nogueira Cabral
Juliana Balta Ferreira
Silvana Nascimento de Carvalho
Sandro Garabed Ischkanian
Neusa Venditte
1. INTRODUÇÃO
Maria Montessori desenvolveu uma abordagem educacional inovadora, voltada para a
formação integral da criança, que vai além do simples aprendizado acadêmico. Seu método
enfatiza a importância da autonomia e da liberdade orientada, reconhecendo que cada criança
possui um ritmo próprio de desenvolvimento. Ao observar atentamente os alunos e organizar o
ambiente de forma planejada, o educador atua como um facilitador do aprendizado, promovendo o
crescimento cognitivo, emocional e social de forma equilibrada e respeitosa. Essa perspectiva
transforma a educação em um processo dinâmico e individualizado, no qual o aluno é protagonista
de seu próprio desenvolvimento.
O método Montessori valoriza a singularidade de cada criança, respeitando suas
habilidades, interesses e limitações. Os materiais concretos e as atividades autônomas são
cuidadosamente planejados para estimular a exploração, a concentração e a autodisciplina. Por
meio dessas experiências, a criança aprende a tomar decisões, a resolver problemas e a
desenvolver confiança em suas próprias capacidades. Essa autonomia não apenas promove a
independência, mas também incentiva a responsabilidade e o compromisso com o próprio
aprendizado, criando um ambiente de aprendizagem ativo e significativo.
A pedagogia montessoriana oferece contribuições importantes para a inclusão, pois
reconhece a diversidade como um elemento natural do processo educacional. Ao ajustar as
atividades e os recursos às necessidades de cada aluno, o método possibilita que crianças com
diferentes habilidades e desafios participem plenamente do processo de aprendizagem. O respeito
ao ritmo individual e a adaptação do ambiente promovem equidade, permitindo que todos os
estudantes desenvolvam suas potencialidades de forma justa e igualitária. Essa abordagem torna a
educação verdadeiramente inclusiva, integrando aspectos cognitivos, sociais e emocionais no
desenvolvimento de cada criança.
7.
7
As atividades queexigem concentração e esforço, muitas vezes chamadas de ―trabalho‖
no método, contribuem para o desenvolvimento da atenção, da autoconfiança e do equilíbrio
emocional. Ao integrar princípios de autonomia, inclusão e respeito à individualidade, a pedagogia
montessoriana oferece um modelo educativo completo, capaz de formar crianças preparadas para
enfrentar desafios acadêmicos, sociais e emocionais, promovendo o desenvolvimento integral e a
construção de cidadãos conscientes e responsáveis.
A educação contemporânea busca incessantemente caminhos que promovam o
desenvolvimento integral da criança, reconhecendo sua singularidade e respeitando diferentes
ritmos de aprendizagem. A pedagogia de Maria Montessori emerge como uma proposta inovadora
e transformadora, capaz de articular autonomia, liberdade e observação científica como
fundamentos para o aprendizado significativo. A presente pesquisa, fundamentada em referências
bibliográficas e documentais de autores clássicos e contemporâneos, como Montessori (1949;
1965), Kramer (1976), Mantoan (2003), Lustosa (2017), Vigotsky (1997; 1998) e Saviani (2019),
visa compreender como o método montessoriano contribui para a formação integral da criança no
contexto da inclusão.
Montessori reconheceu a criança como sujeito ativo do próprio aprendizado, capaz de
autodireção e motivada pelo interesse natural de explorar o mundo. Por meio de um ambiente
cuidadosamente preparado e da mediação do educador como facilitador, o método promove o
desenvolvimento cognitivo, emocional, social e físico, valorizando a individualidade e respeitando
o ritmo de cada criança. Essa abordagem não apenas favorece a autonomia e a autodisciplina, mas
também cria condições para uma aprendizagem genuinamente inclusiva, capaz de atender crianças
com diferentes necessidades e habilidades, conforme discutido por Mantoan (2003) e Lustosa
(2017).
A perspectiva montessoriana reforça a importância do ―trabalho‖ como instrumento de
desenvolvimento, em que atividades concentradas e desafiadoras promovem equilíbrio,
autoconfiança e concentração. O método também valoriza a colaboração entre crianças,
educadores e famílias, estabelecendo uma comunidade educativa que fortalece a inclusão social e
o respeito às diferenças. Historicamente, Montessori inovou ao trabalhar com crianças com
deficiência, demonstrando a eficácia de seus métodos, e ao criar as ―Casa dei Bambini‖, espaços
em que o aluno se torna protagonista do aprendizado (Kramer, 1976; Lagoa, 1981).
A pesquisa explora as bases históricas e pedagógicas que sustentam a educação inclusiva
e integral, com referências como Ariès (1981), Aranha (1989) e Saviani (2019), e teorias do
desenvolvimento cognitivo e socioemocional, como Vigotsky (1997; 1998) e Gardner (1997).
8.
8
Esse conjunto evidenciaque o método Montessori vai além do ensino tradicional, oferecendo
ferramentas para a construção de práticas pedagógicas equitativas e socialmente responsáveis.
Este estudo não apenas analisa os princípios montessorianos, mas também evidencia sua
relevância social, mostrando que a educação inclusiva e centrada na criança contribui para a
formação de cidadãos autônomos, críticos e capazes de interagir em sociedade com confiança,
empatia e responsabilidade. Ao integrar conhecimento histórico, pedagógico e social, a pesquisa
propõe uma reflexão sobre o potencial transformador da pedagogia de Montessori para a educação
do século XXI.
No método Montessori, a criança não é entendida como um recipiente passivo que apenas
recebe conhecimento; ela é reconhecida como um sujeito ativo, curioso e capaz de construir seu
próprio aprendizado. A independência é um dos pilares dessa abordagem, pois permite que a
criança aprenda a cuidar de si mesma, a organizar suas atividades diárias e a tomar decisões de
forma consciente, fortalecendo a confiança em suas próprias capacidades. A autodireção refere-se
à habilidade da criança de planejar e gerenciar seu próprio aprendizado, escolher tarefas que
despertam interesse e seguir seu ritmo individual. Esse processo não se limita ao desenvolvimento
cognitivo; ele engloba também aspectos emocionais e sociais, incentivando a criança a lidar com
desafios, tomar decisões, resolver problemas e aprender com os erros de maneira construtiva. Ao
promover essas habilidades, o método Montessori contribui para formar indivíduos mais
autônomos, resilientes e preparados para enfrentar situações diversas ao longo da vida. A
independência e a autodireção estimulam a motivação intrínseca, fazendo com que o aprendizado
se torne significativo e duradouro, já que a criança participa ativamente da construção do próprio
conhecimento.
No contexto Montessori, o papel do educador difere do modelo tradicional, em que o
professor é o principal transmissor de conhecimento. O educador atua como facilitador do
aprendizado, criando um ambiente estruturado e cuidadosamente preparado para que a criança
possa explorar, experimentar e descobrir conceitos por conta própria. Ele organiza materiais,
propõe atividades e observa atentamente cada criança, intervindo apenas quando necessário para
orientar ou apoiar o desenvolvimento. O adulto não impõe respostas nem controla rigidamente o
processo de aprendizagem; ele oferece recursos, encoraja a curiosidade e promove oportunidades
para que a criança se autoeduque. Essa postura fortalece a autonomia, a iniciativa e o pensamento
crítico, ao mesmo tempo em que desenvolve habilidades sociais e emocionais. O educador,
portanto, atua como um guia paciente, criando condições para que cada criança seja protagonista
do próprio aprendizado, consolidando seu crescimento integral e preparando-a para lidar de
maneira consciente e responsável com desafios acadêmicos, pessoais e sociais.
9.
9
O método Montessorireconhece que cada criança possui um ritmo próprio de
aprendizagem, habilidades distintas e necessidades específicas. Valorizar essa individualidade é
um princípio essencial, especialmente no contexto da inclusão, pois permite que crianças com
diferentes capacidades e desafios participem plenamente do processo educativo. Ao respeitar o
tempo e a forma de cada aluno aprender, o método promove não apenas a aquisição de
conhecimentos, mas também o desenvolvimento da autoestima, da confiança e da autonomia,
criando um ambiente em que todos se sentem valorizados e reconhecidos.
Os materiais educativos são acessíveis, concretos e projetados para estimular a
aprendizagem por meio da ação e da exploração sensorial. Essa estrutura não apenas facilita a
compreensão de conceitos complexos, mas também torna o aprendizado mais inclusivo, sendo
eficaz tanto para crianças com deficiência quanto para aquelas sem necessidades especiais. O
espaço preparado possibilita que cada aluno explore, experimente e desenvolva suas habilidades
de forma independente, promovendo um aprendizado ativo e significativo.
A pedagogia Montessori também enfatiza a importância da colaboração entre educadores,
colegas e familiares, fortalecendo o sentido de comunidade e pertencimento. A educação inclusiva
não se limita à sala de aula; ela se expande para a construção de relações de respeito, apoio e
cooperação. Ao envolver pais, professores e colegas no processo educativo, cria-se um ambiente
seguro e acolhedor, no qual a diversidade é reconhecida como um valor e cada criança encontra
condições para se desenvolver plenamente.
As atividades propostas no método Montessori são frequentemente chamadas de
―trabalho‖, pois exigem concentração, esforço e dedicação. Esse foco no trabalho contribui para o
desenvolvimento do equilíbrio emocional, da autoconfiança e da concentração, ao mesmo tempo
em que ajuda a resolver desequilíbrios comportamentais e cognitivos. O engajamento em tarefas
estruturadas permite que a criança experimente a satisfação de alcançar objetivos, promovendo um
crescimento saudável e equilibrado. O trabalho não é apenas uma atividade educativa, mas uma
ferramenta para o desenvolvimento integral, englobando aspectos físicos, emocionais, sociais e
cognitivos.
2. DESENVOLVIMENTO
Maria Montessori desenvolveu uma abordagem educativa inovadora, voltada para a
formação integral da criança, fundamentada em observação, autonomia e respeito à
individualidade. Suas experiências com crianças com deficiência mental em Roma, durante dois
anos, foram decisivas para a construção de seu método. Guiando-se pelos textos de Séguin e pelas
10.
10
experiências de Itard,Montessori elaborou materiais didáticos ricos e funcionais, que permitiam às
crianças explorar, experimentar e aprender ativamente (Montessori, 1965, p. 31). Essa prática
pioneira demonstrou que o aprendizado efetivo só ocorre quando a criança é protagonista de seu
desenvolvimento, tendo acesso a recursos que estimulam a autonomia, a concentração e o senso de
responsabilidade.
[...] prossegui em Roma minhas experiências com os deficientes mentais, educando-os
durante dois anos. Guiava-me pelo livro de Séguin e as experências de Itard constituíam
para mim um verdadeiro tesouro. Além disso, baseada nesses textos fiz fabricar
riquíssimo material didático (Montessori, 1965, p.31).
Ao estudar cuidadosamente as obras de Séguin, Montessori percebeu que o método do
educador e médico não havia sido compreendido e, portanto, não aplicado com eficácia. Ela
constatou que a preparação do educador é tão importante quanto os materiais utilizados: os
docentes devem ser atentos, observadores e capazes de conduzir o aprendizado de maneira sutil e
sensível.
Séguin recomendava que o educador possuísse aspecto físico e voz agradáveis, cuidasse
de gestos e entonação como um artista dramático, conquistando a confiança de crianças frágeis e
auxiliando-as a se desenvolverem diante dos desafios da vida (Montessori, 1965, p. 32). Esse
cuidado com a formação docente é um componente essencial da educação inclusiva, pois garante
que todos os alunos, independentemente de suas necessidades, recebam apoio adequado para seu
desenvolvimento integral.
E sobre a preparação desses educadores, Séguin tem uma concepção verdadeiramente
original: parecem conselhos para quem se prepara para representar o papel de sedutor!
Para Séguin, o educador deveria ter aspecto físico atraente e voz agradável e sedutora.
Deveria cuidar minuciosamente de sua pessoa, estudando os gestos e modulação da voz,
como se fosse um artista dramático preparando-se para entrar em cena, pois deve
conquistar almas frágeis e prepará-las para as grandes vicissitudes da vida. (Montessori,
1965, p. 32).
Um dos aspectos centrais da pedagogia montessoriana é o ambiente preparado,
cuidadosamente projetado para favorecer a autonomia, a concentração e o aprendizado ativo da
criança. Esse ambiente não é apenas um espaço físico, mas uma estrutura pedagógica pensada para
oferecer oportunidades de exploração, descoberta e desenvolvimento integral. Cada elemento,
desde os móveis até os materiais didáticos, é organizado de maneira que a criança possa acessar e
utilizar os recursos de forma independente, promovendo a responsabilidade sobre seu próprio
aprendizado.
Montessori defendia que o material didático e as atividades práticas devem permitir que a
criança cresça em paz, integrando responsabilidades e experiências sociais à sua rotina diária. Essa
11.
11
integração torna oaprendizado significativo, pois conecta o conhecimento à vida real, permitindo
que a criança compreenda seu papel no mundo ao redor. A educação não se limita à aquisição de
conteúdos acadêmicos, mas inclui habilidades de convivência, disciplina, empatia e cooperação,
fundamentais para a formação integral.
Ao participar das atividades de ―vida prática‖, a criança adquire não apenas habilidades
cognitivas e motoras, mas também desenvolve autoconfiança e senso de competência. Cada tarefa
realizada com sucesso reforça a autoestima e promove o bem-estar emocional, mostrando que o
aprendizado é uma experiência prazerosa e recompensadora. Essa abordagem incentiva a criança a
assumir responsabilidade por suas ações e decisões, fortalecendo a capacidade de autodireção e
autonomia.
O ambiente preparado também contribui para a inclusão, pois permite que crianças com
diferentes necessidades e ritmos de aprendizagem participem de maneira igualitária. Materiais
adaptáveis e atividades diversificadas possibilitam que cada criança explore suas potencialidades
de acordo com seu desenvolvimento, garantindo que nenhuma delas seja excluída do processo
educativo. Dessa forma, o espaço físico e pedagógico funciona como mediador do aprendizado
inclusivo, promovendo equidade e respeito às diferenças.
O ambiente montessoriano estimula a curiosidade e a exploração independente, aspectos
essenciais para o desenvolvimento da criatividade e do pensamento crítico. Ao interagir com os
materiais, a criança descobre relações de causa e efeito, aprimora habilidades motoras finas e
grossas e constrói conhecimentos de forma concreta e significativa. O papel do educador, nesse
contexto, é observar, guiar e intervir apenas quando necessário, garantindo que a criança tenha
liberdade para aprender por si mesma, respeitando seu ritmo e interesses.
O ambiente preparado fortalece a percepção de crescimento interior da criança. Ao
realizar atividades que exigem atenção e concentração, ela experimenta uma sensação de
realização e progresso pessoal, sentindo-se capaz e competente. Esse aspecto é essencial para a
formação integral, pois integra desenvolvimento cognitivo, emocional e social, preparando a
criança para enfrentar desafios futuros com autonomia e confiança. O ambiente preparado torna-se
um elemento pedagógico indispensável para a educação montessoriana, combinando liberdade,
disciplina e aprendizagem significativa em um espaço pensado para o pleno desenvolvimento
infantil.
As crianças parecem ter a sensação de seu crescimento interior, a consciência das
aquisições que fazem desenvolvendo-se a si mesmas. Elas manifestam exteriormente, por
uma expressão de felicidade, o crescimento que se produziu nelas. (Montessori, 1976, p.
92).
12.
12
Montessori ressaltava aindaa importância de compreender a psicologia infantil nos
primeiros anos de vida, período em que a mente da criança apresenta uma capacidade única de
absorver experiências e realizar descobertas extraordinárias. Essa fase, que ela chamou de ―mente
absorvente‖, é marcada pela intensa plasticidade cognitiva e emocional, o que possibilita à criança
aprender de forma espontânea e natural a partir de tudo aquilo que a cerca. Compreender os
processos psicológicos e emocionais que ocorrem nesse estágio é essencial para criar condições
adequadas que favoreçam um desenvolvimento pleno, equilibrado e significativo.
O papel do adulto, nesse contexto, não se limita a ensinar de maneira direta ou a impor
conteúdos previamente estabelecidos. Ao contrário, Montessori defendia que a função do
educador é auxiliar a mente infantil em seu próprio trabalho de desenvolvimento, fornecendo
estímulos adequados e organizando um ambiente rico em possibilidades de aprendizagem. Essa
postura exige do educador sensibilidade para observar, paciência para respeitar o tempo da criança
e preparo para intervir apenas quando necessário, garantindo que o aprendizado seja resultado da
descoberta ativa e da vivência concreta.
Essa concepção é profundamente relevante no âmbito da inclusão, pois reconhece que
cada criança aprende de maneira única, apresentando ritmos, interesses e potenciais distintos. Ao
invés de padronizar ou comparar desempenhos, o método montessoriano valoriza as
singularidades de cada aluno, permitindo que todos tenham acesso a experiências de aprendizagem
que respeitem suas necessidades específicas. Isso significa que tanto crianças com deficiência
quanto aquelas sem dificuldades particulares encontram no ambiente montessoriano um espaço de
acolhimento e de desenvolvimento integral.
Ao considerar a psicologia infantil como base para a prática pedagógica, Montessori
antecipou discussões contemporâneas sobre a personalização do ensino e a importância de
metodologias que promovam equidade. Essa visão sustenta que a educação deve ir além da
simples transmissão de conteúdos, configurando-se como um processo de acompanhamento do
crescimento humano em toda a sua complexidade. A proposta montessoriana oferece
contribuições fundamentais para pensar a inclusão como prática efetiva, em que cada criança é
respeitada como sujeito ativo, capaz de aprender, de se desenvolver e de encontrar no ambiente
educativo os recursos necessários para florescer em sua singularidade.
O estudo da psicologia da criança, em seus primeiros anos de vida, descortina ante nossos
olhos tais maravilhas que ninguém, vendo-as com entendimento, pode furtar-se a ficar
profundamente sensibilizado. Nosso trabalho como adultos não consiste em ensinar, mas
em auxiliar a mente infantil no seu trabalho de desenvolvimento‖ (Montessori,1949, p.
128)
13.
13
A pedagogia montessorianaapresenta contribuições significativas para a educação
inclusiva e para a formação integral da criança, uma vez que se fundamenta no princípio de que
todo ser humano possui potencialidades únicas que devem ser respeitadas e estimuladas. Para
Montessori, a escola deve ser um espaço de oportunidades equitativas, no qual cada criança possa
explorar suas capacidades, sem ser limitada por padrões rígidos ou comparações externas. Essa
concepção rompe com a lógica tradicional da homogeneização do ensino e abre caminho para uma
educação mais humana, centrada no indivíduo e em suas possibilidades de crescimento.
Ao integrar materiais adequados e cuidadosamente planejados, a pedagogia
montessoriana proporciona condições para que a criança aprenda de forma ativa e concreta. Os
materiais não são meros recursos de apoio, mas instrumentos pedagógicos concebidos para
favorecer a autonomia, a concentração e a compreensão de conceitos por meio da manipulação e
da experiência sensorial. Além disso, as atividades práticas estimulam a criança a relacionar o
aprendizado escolar com a vida cotidiana, ampliando seu repertório cultural e fortalecendo a sua
autoconfiança.
O ambiente preparado, pensado como extensão da proposta pedagógica e estruturado para
favorecer a liberdade com responsabilidade. Nele, a criança encontra um espaço organizado,
acessível e acolhedor, que respeita seu ritmo e incentiva sua capacidade de escolha. Esse ambiente
inclusivo permite que crianças com diferentes necessidades — sejam elas relacionadas a
deficiências, ritmos de aprendizagem ou interesses específicos — encontrem condições de
desenvolver-se plenamente, garantindo que cada uma seja vista e valorizada em sua singularidade.
A atuação do educador também é decisiva nesse processo, pois exige uma postura
diferenciada em relação ao modelo tradicional. Em vez de transmitir conteúdos de forma direta, o
professor assume o papel de mediador e observador atento, intervindo apenas quando necessário e
oferecendo suporte para que a criança descubra, experimente e construa conhecimentos de
maneira autônoma. Essa mudança de perspectiva fortalece a autodireção, o equilíbrio emocional e
o senso de responsabilidade, favorecendo não apenas o aprendizado, mas também a formação de
cidadãos conscientes e ativos na sociedade.
Montessori construiu um modelo educativo capaz de atender à diversidade de
necessidades presentes em uma sala de aula, promovendo a integração entre aspectos cognitivos,
sociais, emocionais e físicos do desenvolvimento infantil. Mais do que uma metodologia, sua
proposta constitui uma filosofia de vida que valoriza o respeito, a colaboração e a equidade. A
pedagogia montessoriana oferece caminhos consistentes para uma educação inclusiva, capaz de
formar indivíduos autônomos, sensíveis e preparados para contribuir de maneira significativa na
construção de uma sociedade mais justa e plural.
14.
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2.1. AMBIENTE PREPARADOE MATERIAIS DIDÁTICOS
O ambiente preparado, tal como proposto por Maria Montessori, é considerado o núcleo
de sua pedagogia, uma vez que nele a criança encontra condições para desenvolver-se de maneira
integral, tanto em termos cognitivos quanto emocionais, sociais e físicos. Montessori afirmava que
a criança possui uma ―mente absorvente‖, capaz de captar com intensidade as experiências de seu
entorno, o que torna o ambiente um elemento essencial na mediação do processo educativo
(Montessori, 1949). Organizar o espaço de forma intencional significa oferecer oportunidades de
aprendizado que respeitem o ritmo individual de cada aluno, assegurando a participação ativa de
todos, inclusive daqueles que apresentam necessidades específicas.
Ao refletir sobre a importância do espaço escolar, Alves (2001) lembra que educar é criar
condições para que a criança se encante com o conhecimento, e isso só acontece quando o
ambiente é significativo e estimulante. Essa perspectiva dialoga diretamente com a proposta
montessoriana, em que cada detalhe do ambiente é cuidadosamente planejado: desde a disposição
dos móveis até os materiais acessíveis, de modo que a criança não dependa exclusivamente do
adulto para agir. O ambiente torna-se não apenas um suporte físico, mas uma extensão da própria
pedagogia.
A história da educação, conforme ressalta Aranha (1989), mostra que por muito tempo o
espaço escolar foi marcado por rigidez e disciplina, afastando-se da experiência viva da criança.
Montessori rompe com essa tradição ao defender que o ambiente deve favorecer a autonomia, a
curiosidade e a autodireção. Para ela, o espaço não é neutro, mas um agente educativo que, quando
bem organizado, possibilita à criança desenvolver-se em paz, aprendendo a cuidar de si mesma e a
interagir com os outros de maneira responsável.
A compreensão da infância como uma construção histórica e social, apresentada por
Ariès (1981), também contribui para entender a inovação de Montessori. Se em outras épocas a
criança era vista apenas como um ―adulto em miniatura‖, Montessori ressignifica esse olhar ao
perceber que a infância possui necessidades próprias que devem ser respeitadas. Nesse sentido, o
ambiente preparado atende à singularidade da criança, permitindo que ela explore o mundo em
consonância com seu estágio de desenvolvimento e suas capacidades únicas.
15.
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Os materiais didáticosdesempenham papel central nesse ambiente. Eles não são
brinquedos comuns, mas instrumentos pedagógicos com funções específicas de aprendizagem.
Como destaca Kramer (1976), em sua biografia sobre Montessori, os materiais foram concebidos a
partir de observações científicas do comportamento infantil e da psicologia do desenvolvimento.
Cada peça tem como objetivo não apenas ensinar um conteúdo, mas estimular a concentração, a
coordenação motora, a disciplina interna e a autonomia da criança.
Lagoa (1981), ao estudar o sistema Montessori com base na análise experimental do
comportamento, reforça que o uso dos materiais promove a autorregulação e o aprendizado ativo,
pois a criança é estimulada a descobrir soluções por si mesma. Essa característica é fundamental
para a inclusão, uma vez que respeita as diferentes formas de aprender, oferecendo múltiplos
caminhos para alcançar o mesmo objetivo educativo. Em outras palavras, os materiais são
adaptáveis e possibilitam que cada criança, independentemente de suas condições, participe de
forma plena.
Howard Gardner (1997), ao apresentar sua teoria das inteligências múltiplas, traz um
suporte contemporâneo à pedagogia montessoriana. Para ele, cada criança possui diferentes
formas de expressão e de aprendizado, que podem se manifestar na música, na linguagem, no
corpo, na lógica ou na natureza. O ambiente montessoriano, com seus materiais variados e
multisensoriais, atende justamente a essa diversidade de inteligências, criando condições para que
cada aluno encontre o caminho mais eficaz para desenvolver-se.
Gil (2002), ao discutir métodos de pesquisa, ressalta que a aprendizagem se torna mais
efetiva quando o sujeito participa ativamente do processo. Esse princípio ecoa na pedagogia
montessoriana, pois a criança, ao manipular os materiais, faz suas próprias descobertas, aprende
com os erros e conquista a independência intelectual e prática.
Ao longo da história da educação, muitos ambientes escolares foram pensados como
espaços de controle e repetição. Montessori subverte essa lógica ao propor um ambiente que
liberta e, ao mesmo tempo, organiza. Aranha (1989) lembra que a função da escola deve ser
formar cidadãos capazes de interagir criticamente com o mundo. O ambiente montessoriano torna-
se espaço de exercício da liberdade responsável, onde a criança aprende a ser sujeito de sua
própria aprendizagem.
É preciso destacar também que o ambiente montessoriano promove inclusão de maneira
natural. Ao dispor de materiais acessíveis e de um espaço organizado para favorecer a autonomia,
ele permite que crianças com deficiência tenham acesso às mesmas experiências que as demais.
Ariès (1981) mostra que, historicamente, a deficiência foi motivo de exclusão; Montessori, ao
16.
16
contrário, inclui essascrianças no centro de sua prática pedagógica, reconhecendo seu potencial de
desenvolvimento.
A importância da estética e da ordem no ambiente não pode ser negligenciada.
Montessori acreditava que um espaço limpo, belo e organizado transmitia à criança a sensação de
cuidado e respeito. Alves (2001) defende que o aprendizado nasce do encantamento, e o ambiente
montessoriano é justamente isso: um espaço encantador, onde a criança se sente acolhida e
motivada a aprender. A estética não é mera formalidade, mas parte integrante da pedagogia.
Kramer (1976) destaca que Montessori observava atentamente as crianças para ajustar o
ambiente às suas necessidades. Essa postura científica permitiu que ela criasse materiais e
atividades que respondiam aos interesses e desafios reais da infância, tornando o espaço escolar
dinâmico e vivo. O ambiente montessoriano não é estático, mas constantemente renovado em
diálogo com as crianças que dele fazem parte.
A formação integral da criança só é possível quando se considera a inter-relação entre
aspectos cognitivos, emocionais, sociais e físicos. Gardner (1997) reforça que a educação deve ir
além da instrução acadêmica, contemplando também as artes, o movimento e as relações humanas.
O ambiente montessoriano, ao reunir atividades de vida prática, materiais sensoriais e experiências
coletivas, favorece esse desenvolvimento abrangente, essencial para a inclusão.
O educador, nesse contexto, assume o papel de mediador e não de transmissor de
conhecimento. Lagoa (1981) observa que o ambiente montessoriano só se concretiza plenamente
quando o professor compreende sua função de guia, respeitando o protagonismo da criança. Essa
postura pedagógica exige preparo e sensibilidade, pois o adulto precisa estar atento para intervir
no momento certo, sem tolher a autonomia do aluno.
Montessori acreditava que a educação era o caminho para transformar a sociedade, e que
ambientes que valorizam a colaboração e a responsabilidade ajudam a formar cidadãos
conscientes e solidários. Aranha (1989) lembra que a escola tem papel social decisivo, e nesse
sentido o ambiente preparado é mais do que um espaço de aprendizado: é um espaço de formação
ética.
O ambiente preparado promove a autorreflexão e a autoconstrução da criança. Montessori
(1976) descreve que, ao realizar atividades de concentração, as crianças demonstravam expressões
de felicidade, revelando seu crescimento interior. Esse desenvolvimento subjetivo, ainda que
intangível, é essencial para a formação integral, pois fortalece a autoestima, a confiança e a
percepção de si no mundo.
O ambiente montessoriano, aliado aos materiais didáticos, constitui um modelo educativo
capaz de responder de forma concreta às demandas contemporâneas por uma educação inclusiva,
17.
17
democrática e humanizadora.Montessori estruturou sua pedagogia a partir da observação
científica da criança e da compreensão de que a aprendizagem só acontece de maneira plena
quando há condições reais para que cada sujeito seja respeitado em sua singularidade.
A organização do espaço e a escolha dos materiais não são elementos secundários, mas
constituem o eixo central de sua proposta, que busca harmonizar autonomia, responsabilidade e
cooperação no processo educativo. Gil (2002) afirma que todo projeto pedagógico precisa estar
apoiado em fundamentos sólidos e coerentes, e o método Montessori exemplifica esse princípio ao
manter correspondência direta entre teoria e prática, oferecendo resultados visíveis no
desenvolvimento integral da criança.
Ao integrar o ambiente, os materiais e a postura do educador, Montessori cria uma rede
de interações que favorece tanto a aprendizagem individual quanto a convivência coletiva. Isso
significa que a criança não é apenas estimulada a adquirir conhecimentos acadêmicos, mas
também a desenvolver habilidades socioemocionais, como a empatia, o respeito ao outro e a
cooperação. A coerência entre esses elementos garante que o processo formativo não seja
fragmentado, mas abrangente, preparando os alunos para a vida em sociedade. Tal visão se torna
ainda mais relevante quando se considera a crescente diversidade presente nas salas de aula atuais,
onde o desafio não é apenas ensinar conteúdos, mas formar cidadãos críticos e participativos.
O papel do educador como guia e facilitador garante que o ambiente preparado e os
materiais didáticos sejam usados de forma adequada, estimulando descobertas e aprendizagens
significativas. Esse equilíbrio entre liberdade e orientação possibilita a construção de um espaço
democrático, no qual as regras são compreendidas não como imposições, mas como parte da
convivência saudável. A criança experimenta, desde cedo, o exercício da cidadania e da
responsabilidade, valores essenciais para uma educação humanizadora.
A proposta de Montessori também dialoga com princípios da inclusão, ao criar um
ambiente acessível e adaptável às necessidades individuais. Crianças com deficiência ou com
ritmos diferenciados de aprendizagem encontram, nesse espaço, possibilidades reais de
participação e de desenvolvimento. Isso ocorre porque os materiais foram elaborados para serem
autocorretivos e multisensoriais, permitindo que o erro seja parte natural do processo e que cada
criança encontre caminhos próprios para a compreensão. A inclusão não é vista como um adendo
ou um desafio, mas como parte constitutiva da própria lógica pedagógica.
O ambiente montessoriano promove uma visão de educação que ultrapassa os limites da
sala de aula tradicional. Ao estimular a autonomia e a autodisciplina, a pedagogia montessoriana
prepara a criança para enfrentar desafios futuros de forma crítica e criativa, cultivando
competências necessárias para uma sociedade em constante transformação. Esse aspecto reforça o
18.
18
caráter humanizador daproposta, pois a formação integral não se limita ao desenvolvimento
intelectual, mas abrange também aspectos éticos, emocionais e sociais.
Ao aliar ambiente preparado, materiais didáticos específicos e a atuação sensível do
educador, Montessori construiu um modelo educativo de grande atualidade, capaz de oferecer
respostas concretas às exigências do século XXI. Sua pedagogia continua a inspirar escolas no
mundo todo justamente porque mantém a coerência entre teoria e prática, como destaca Gil
(2002), e porque se ancora em princípios universais de respeito, autonomia e cooperação. Trata-se
de uma proposta que não apenas ensina, mas transforma, formando crianças críticas, criativas e
profundamente conscientes de seu papel no mundo.
2.2. FORMAÇÃO E PAPEL DO EDUCADOR
A formação e o papel do educador no método Montessori ocupam uma posição central
dentro da proposta pedagógica, pois o professor não é concebido como aquele que transmite
conhecimento, mas como um mediador que prepara o ambiente, oferece estímulos adequados e
acompanha o desenvolvimento da criança com respeito e atenção. Maria Montessori (1965)
afirmava que a verdadeira função do educador é ―guiar sem interferir, observar sem julgar e
oferecer sem impor‖, ressaltando que o processo educativo deve nascer da própria atividade
infantil. O docente deve desenvolver sensibilidade para perceber o momento em que a criança
necessita de apoio e o momento em que deve ser deixada livre para explorar e aprender sozinha.
Essa concepção exige uma preparação diferenciada, que vai além da formação técnica
tradicional. O educador montessoriano precisa cultivar a paciência, a capacidade de observação e
uma postura ética de respeito à individualidade, pois cada criança apresenta um ritmo e uma forma
própria de aprender. Libâneo (1994) reforça que a prática docente deve estar sempre orientada por
uma didática que reconheça a diversidade, permitindo que o professor atue como organizador das
condições de ensino, mas sem reduzir o aluno a um mero receptor de informações. No caso do
método Montessori, essa organização se traduz na criação de ambientes ricos em possibilidades,
nos quais a criança possa se autoeducar.
A literatura especializada mostra que a preparação do educador é também essencial para
o trabalho com a inclusão. Lustosa (2017) observa que Maria Montessori, ao longo de sua
19.
19
trajetória, dedicou-se especialmenteàs crianças com deficiência, demonstrando que, com o
ambiente adequado e a postura correta do professor, elas eram capazes de realizar aprendizagens
significativas e de se desenvolver integralmente. Essa experiência marcou a pedagogia
montessoriana como uma das pioneiras na defesa da educação inclusiva, onde a função do
professor é possibilitar condições para que todos tenham acesso ao conhecimento,
independentemente de suas limitações.
Mantoan (2003) destaca que a inclusão escolar não pode ser pensada apenas como a
inserção física da criança na escola, mas deve estar baseada em práticas pedagógicas adaptadas e
humanizadoras, nas quais o papel do educador é fundamental. O docente precisa ser capaz de
reconhecer as necessidades de cada aluno e propor estratégias que favoreçam sua participação e
aprendizado. O método Montessori, nesse sentido, oferece uma base sólida, pois já pressupõe
ambientes acessíveis, materiais autocorretivos e uma postura docente voltada à mediação e não ao
controle.
Para O’Donnell (2007), uma das maiores contribuições de Montessori foi redefinir a
imagem do professor, retirando-o do lugar centralizado de autoridade absoluta e colocando-o
como um facilitador da aprendizagem. Essa mudança, aparentemente simples, transforma toda a
lógica do processo educativo, pois desloca o foco do ensino para a aprendizagem, e coloca a
criança como protagonista de sua própria formação. Esse reposicionamento do papel docente
continua sendo um desafio atual, sobretudo em contextos marcados pela diversidade e pelas
exigências da educação inclusiva.
Montessori (1949) já alertava que o educador deve estar preparado não apenas em termos
de conhecimento pedagógico, mas também em termos de formação pessoal e ética, pois ―ensinar
não é apenas uma função técnica, mas sobretudo um ato de amor e respeito à vida em
desenvolvimento‖. A formação do professor precisa contemplar tanto o domínio de metodologias
quanto a capacidade de se colocar a serviço do desenvolvimento da criança, promovendo uma
educação integral e humanizadora.
O processo de formação de um educador que deseja atuar com o método montessoriano é
bastante diferenciado, pois exige não apenas o domínio de técnicas e metodologias pedagógicas,
mas sobretudo uma transformação de postura, de olhar e de compreensão acerca da infância.
Montessori (1949) afirmava que o primeiro passo para esse preparo é o reconhecimento de que a
criança é um ser ativo e capaz de construir seu próprio conhecimento. O educador deve aprender a
renunciar ao papel tradicional de transmissor de conteúdos para assumir a função de guia e
facilitador do processo de aprendizagem.
20.
20
A preparação desseprofessor inicia-se pelo estudo teórico da pedagogia montessoriana,
de sua história, fundamentos filosóficos e psicológicos. Isso inclui compreender os conceitos de
―mente absorvente‖, ―períodos sensíveis‖, ―autoeducação‖ e ―ambiente preparado‖, que
estruturam a prática montessoriana (Montessori, 1965). Esse embasamento teórico fornece ao
futuro educador uma visão clara de como o desenvolvimento infantil ocorre e de como o ambiente
pode favorecer ou limitar esse processo.
O estudo teórico é apenas uma parte da formação. O educador também precisa de um
treinamento prático com os materiais montessorianos. Esses recursos didáticos foram criados por
Maria Montessori para favorecer a aprendizagem por meio da ação e dos sentidos. Durante sua
formação, o professor aprende a apresentar esses materiais às crianças, a observar suas reações e a
respeitar seu ritmo individual. O uso adequado dos materiais exige preparo, pois o docente deve
saber como introduzi-los de forma precisa e, ao mesmo tempo, quando se afastar para permitir que
a criança explore por conta própria.
Montessori (1949) sublinha que a observação científica é uma das ferramentas mais
poderosas do educador montessoriano. Por meio dela, o professor identifica interesses,
necessidades, dificuldades e progressos das crianças, ajustando suas intervenções sem impor ou
restringir. Essa prática requer treino constante, já que não se trata apenas de olhar, mas de
interpretar e compreender os sinais que a criança manifesta no cotidiano.
A formação envolve uma preparação pessoal e ética. O educador montessoriano precisa
desenvolver paciência, humildade e respeito, características indispensáveis para lidar com a
diversidade de ritmos e estilos de aprendizagem. Montessori insistia que o professor deveria
―purificar-se de preconceitos e impaciências‖, aprendendo a confiar no potencial da criança e a
valorizá-la como sujeito único. Esse processo formativo, portanto, não se limita ao campo
profissional, mas também alcança o crescimento pessoal do docente.
Os cursos de formação montessoriana, oferecidos por centros especializados e
associações reconhecidas internacionalmente, geralmente incluem módulos teóricos, práticas com
materiais, observação em sala de aula, estágio supervisionado e reflexões sobre a postura do
educador. Esse percurso garante que o profissional esteja preparado para criar ambientes
acessíveis, democráticos e inclusivos, capazes de acolher crianças com ou sem deficiência. Como
observa Lustosa (2017), essa preparação se torna ainda mais relevante em contextos inclusivos,
pois exige do professor não apenas conhecimento técnico, mas também sensibilidade para adaptar
práticas às necessidades de cada criança. Neste contexto, os autores prepararam 100 perspectivas
relacionadas ao contexto ―Maria Montessori e a Educação: contribuições para a formação integral
da criança no contexto da inclusão‖.
21.
21
Ambiente preparado emateriais didáticos
1. Organização estética do espaço como estímulo para a aprendizagem.
2. Acessibilidade como princípio do ambiente inclusivo.
3. Materiais concretos que favorecem a aprendizagem sensorial.
4. Relação entre ambiente físico e autonomia infantil.
5. Silêncio e harmonia como elementos pedagógicos.
6. Mobilidade livre da criança no espaço escolar.
7. Ambiente como ―terceiro educador‖ (Montessori).
8. Integração da vida prática com o ambiente escolar.
9. Materiais que permitem autocorreção.
10. Espaços que promovem cooperação em vez de competição.
Formação e papel do educador
11. Professor como guia, não transmissor.
12. Capacidade de observação científica do educador.
13. Formação ética e pessoal do docente.
14. Sensibilidade para lidar com ritmos diferentes.
15. Educação como vocação e missão social.
16. Formação continuada e reflexão constante.
17. Educador como organizador do ambiente.
18. Professor como mediador da inclusão.
19. Postura de respeito e humildade diante da criança.
20. Flexibilidade pedagógica como prática inclusiva.
22.
22
Criança como protagonista
21.Criança como ser ativo e construtor do próprio conhecimento.
22. Mente absorvente nos primeiros anos.
23. Períodos sensíveis para aprendizagem.
24. Respeito ao ritmo individual de cada aluno.
25. Desenvolvimento da autodisciplina.
26. Aprendizado por meio da ação.
27. Capacidade de autoconcentração infantil.
28. Liberdade com responsabilidade.
29. Criança como sujeito social.
30. Formação da autoconfiança desde cedo.
Inclusão e diversidade
31. Educação como direito universal.
32. Inclusão como prática de equidade.
33. Respeito às diferenças cognitivas e motoras.
34. Participação plena de crianças com deficiência.
35. Ambiente adaptado como recurso de inclusão.
36. Currículo flexível para atender à diversidade.
37. Valorização das potencialidades de cada criança.
38. Relação entre inclusão e justiça social.
39. Combate à exclusão escolar.
40. Perspectiva multicultural na educação.
23.
23
Vida prática esocial
41. Atividades cotidianas como recursos educativos.
42. Integração entre escola e vida real.
43. Cooperação entre pares.
44. Responsabilidade coletiva no ambiente escolar.
45. Experiências concretas como base da aprendizagem.
46. Educação para a cidadania.
47. Formação de hábitos de cuidado pessoal.
48. Desenvolvimento de habilidades sociais.
49. Participação ativa na comunidade escolar.
50. Conquista de autonomia por meio de práticas diárias.
Dimensão cognitiva e emocional
51. Desenvolvimento integral da criança.
52. Emoções como parte do processo educativo.
53. Educação da atenção e da concentração.
54. Pensamento crítico desde a infância.
55. Aprendizagem significativa e duradoura.
56. Autocontrole e disciplina interior.
57. Estímulo à criatividade.
58. Promoção do raciocínio lógico.
59. Educação da sensibilidade estética.
60. Integração entre razão e emoção.
24.
24
Relação família-escola
61. Famíliacomo parceira no processo educativo.
62. Comunicação aberta entre pais e educadores.
63. Apoio familiar na autonomia infantil.
64. Formação parental sobre a filosofia Montessori.
65. Escola como extensão do lar.
66. Colaboração família-escola na inclusão.
67. Envolvimento dos pais no ambiente preparado.
68. Respeito às culturas familiares.
69. Educação como processo comunitário.
70. Diálogo intergeracional como prática educativa.
Aspectos históricos e filosóficos
71. Influência de Itard e Séguin no pensamento de Montessori.
72. Relação da pedagogia montessoriana com a medicina.
73. Origem das ―Casa dei Bambini‖ em Roma.
74. Pedagogia científica como inovação do século XX.
75. Montessori como precursora da inclusão escolar.
76. Filosofia humanista na educação.
77. Relação entre Montessori e as teorias de Vigotsky.
78. Comparação entre Montessori e Piaget.
79. A pedagogia montessoriana como movimento social.
80. A herança internacional do método Montessori.
25.
25
Educação e sociedade
81.Escola como espaço democrático.
82. Formação de cidadãos críticos e autônomos.
83. Educação para a paz (Montessori).
84. Inclusão como prática de justiça social.
85. Educação contra desigualdades.
86. Impacto da pedagogia montessoriana no século XXI.
87. Escola como promotora de equidade.
88. Desenvolvimento de valores éticos.
89. Transformação social por meio da educação.
90. Educação como caminho para uma sociedade humanizadora.
Perspectivas futuras
91. Relevância do método Montessori na educação contemporânea.
92. Aplicações do método em contextos digitais.
93. Desafios da inclusão no século XXI.
94. Educação integral como resposta às demandas sociais.
95. Potencial da pedagogia montessoriana na educação infantil.
96. Expansão do método Montessori em escolas públicas.
97. Integração entre pedagogia montessoriana e novas tecnologias.
98. Formação de professores inclusivos.
99. Montessori como referência em políticas educacionais.
100. Consolidação da educação inclusiva como direito humano.
A formação do educador montessoriano é um processo contínuo. Mantoan (2003) lembra
que a inclusão e a diversidade desafiam constantemente a escola a rever práticas e posturas. O
professor deve manter-se em permanente aprendizado, refletindo sobre sua prática, aprofundando
estudos e reinventando estratégias pedagógicas. Trabalhar com o método Montessori, não é apenas
aplicar uma técnica, mas adotar uma filosofia de vida que coloca a criança no centro,
reconhecendo-a como protagonista de sua educação e de sua formação integral.
26.
26
2.3. INCLUSÃO ERESPEITO À DIVERSIDADE
A proposta de Maria Montessori para a educação apresenta-se como um caminho
privilegiado para o debate sobre inclusão e respeito à diversidade, pois parte do princípio de que
cada criança possui um ritmo único de aprendizagem e necessidades específicas que devem ser
acolhidas e respeitadas. Ao contrário de modelos tradicionais que tendem a padronizar o ensino, a
pedagogia montessoriana promove um ambiente de equidade, no qual as diferenças não são vistas
como barreiras, mas como possibilidades de enriquecimento coletivo. Como aponta Perrenoud
(2001), a pedagogia das diferenças deve buscar superar a lógica do fracasso escolar, criando
condições para que cada aluno seja reconhecido em suas potencialidades, em vez de ser rotulado
por suas limitações. Montessori se antecipa a muitas discussões contemporâneas sobre diversidade
ao propor um espaço de convivência onde a cooperação e a valorização da individualidade são
elementos centrais.
Ao lidar diretamente com crianças em situação de deficiência, Montessori compreendeu
que o ambiente educativo deveria ser preparado para possibilitar a participação plena de todos,
independentemente de suas condições físicas, cognitivas ou sociais. Essa perspectiva dialoga com
os estudos de Pessotti (1984), que ressalta como historicamente a deficiência foi tratada sob a
ótica da superstição e do preconceito, sendo apenas posteriormente reconhecida como uma
questão científica e educacional. A pedagogia montessoriana, nesse contexto, contribuiu para
romper com estigmas, oferecendo às crianças oportunidades concretas de aprendizagem, por meio
de materiais sensoriais, atividades práticas e do respeito à autonomia.
A inclusão proposta por Montessori também se conecta ao pensamento histórico-
pedagógico de Saviani (2019), que mostra como as ideias educacionais no Brasil e no mundo
passaram por transformações significativas para acolher a diversidade. O método montessoriano,
ao colocar a criança no centro do processo, fornece uma resposta pedagógica humanizadora às
demandas de uma escola democrática, favorecendo a construção de uma sociedade mais justa e
participativa. Nessa linha, Tezzari (2009) reforça que o trabalho docente em educação especial
exige não apenas domínio técnico, mas também postura ética e pedagógica que favoreça a
valorização das diferenças, algo que se encontra fortemente presente na proposta montessoriana.
27.
27
Os fundamentos deVigotsky também iluminam esse debate, sobretudo quando ele afirma
que o desenvolvimento humano se dá na interação social, mediada pela cultura e pelo outro
(Vigotsky, 1997). Ao considerar que crianças com e sem deficiência aprendem em conjunto,
Montessori estabelece condições para que a aprendizagem ocorra de forma cooperativa,
valorizando a diversidade como recurso pedagógico. Essa visão é reforçada em suas reflexões
sobre defectología (Vigotsky, 1998), que apontam para a necessidade de compreender a
deficiência não como ausência, mas como diferença que pode ser compensada socialmente por
meio de práticas educativas inclusivas.
A importância metodológica de se investigar e avaliar práticas inclusivas se sustenta em
abordagens como a pesquisa qualitativa defendida por Yin (2016), que valoriza a compreensão
aprofundada dos contextos educacionais. A pedagogia montessoriana, quando analisada sob essa
perspectiva, mostra-se consistente em articular teoria, prática e pesquisa, oferecendo elementos
sólidos para fundamentar práticas inclusivas na contemporaneidade. Inclusão e respeito à
diversidade, na visão de Montessori, não são conceitos periféricos, mas o coração de uma
pedagogia que busca formar indivíduos autônomos, conscientes e capazes de conviver em
harmonia numa sociedade plural.
2.4. INTEGRAÇÃO ENTRE VIDA PRÁTICA,
DESENVOLVIMENTO INTEGRAL E ATIVIDADES SENSORIAIS PARA CRIANÇAS
A integração entre vida prática e desenvolvimento integral é um dos pontos centrais da
pedagogia montessoriana e evidencia a originalidade de sua proposta em relação às concepções
tradicionais de ensino. Para Montessori (1965), a criança não deve ser limitada a atividades
escolares descontextualizadas, mas precisa ter acesso a experiências concretas do cotidiano que a
preparem para a vida em sociedade.
As atividades de vida prática – como organizar o ambiente, servir a refeição, cuidar de
plantas ou arrumar materiais – vão além de meros exercícios mecânicos, pois são estruturadas para
estimular a autonomia, a coordenação motora, a atenção e a responsabilidade. O aprendizado
torna-se significativo, pois está conectado à experiência diária da criança, reforçando a ideia de
que o desenvolvimento integral é indissociável da vivência prática.
28.
28
Kramer (1976), aoanalisar a trajetória de Montessori, destaca que seu contato com
crianças em situação de vulnerabilidade permitiu-lhe compreender a importância de ligar a
educação a experiências reais. Essa percepção levou-a a criar um método no qual a criança se
torna protagonista de sua própria formação, desenvolvendo confiança em suas capacidades e
consciência de seu papel no coletivo. Do mesmo modo, Lagoa (1981) aponta que, do ponto de
vista experimental, as atividades de vida prática no sistema Montessori estimulam processos de
autorregulação e de autodisciplina, aspectos fundamentais para a constituição de sujeitos
autônomos e equilibrados. Esse tipo de prática rompe com a visão da criança como sujeito
passivo, reforçando seu papel ativo na construção de saberes e atitudes.
Montessori (1949) também observa que, ao realizar essas tarefas, a criança experimenta
um crescimento interior que se manifesta em bem-estar e felicidade. O ato de participar de
atividades comuns não apenas a prepara para a vida adulta, mas também fortalece suas dimensões
socioemocionais, favorecendo o equilíbrio psíquico e o desenvolvimento da autoestima. Para
Libâneo (1994), a didática deve estar articulada às condições reais de aprendizagem do aluno,
considerando tanto sua inserção social quanto suas experiências cotidianas. O método
montessoriano antecipa uma concepção de ensino que integra teoria e prática, conhecimento e
ação, criando um processo formativo mais completo e significativo.
No campo da educação inclusiva, Mantoan (2003) reforça que a valorização da vida
prática é um caminho para que crianças com e sem deficiência participem de forma equitativa no
ambiente escolar. Isso porque tais atividades são flexíveis, acessíveis e podem ser adaptadas às
necessidades de cada criança, garantindo sua participação efetiva e o desenvolvimento de
habilidades que extrapolam o espaço escolar. Lustosa (2017) também argumenta que o legado de
Montessori para a educação especial se expressa justamente nessa valorização do cotidiano como
fonte de aprendizagem, transformando a escola em um espaço mais democrático e acessível.
Perrenoud (2001) lembra que a escola, ao reconhecer as diferenças e os ritmos de
aprendizagem, precisa criar situações nas quais todos os alunos tenham a possibilidade de
desenvolver competências para a vida. As atividades de vida prática propostas por Montessori
oferecem oportunidades para que cada criança, em seu próprio ritmo, fortaleça tanto habilidades
cognitivas quanto socioemocionais, superando a visão fragmentada do ensino. O’Donnell (2007),
ao interpretar a obra montessoriana, ressalta que essa integração entre vida prática e
desenvolvimento integral é o que confere ao método uma atualidade permanente, pois dialoga
diretamente com as demandas contemporâneas de uma educação inclusiva, crítica e
humanizadora.
29.
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Os materiais sensoriaiscriados por Maria Montessori, no final do século XIX,
representam um dos pilares de sua pedagogia e refletem sua genialidade em unir ciência,
observação e prática pedagógica. Esses recursos foram pensados para transformar experiências
abstratas em vivências concretas, estimulando os sentidos da criança e ajudando-a a compreender,
organizar e classificar o mundo ao seu redor. Ao manipular tais materiais, a criança não apenas
desenvolve sua percepção sensorial, mas também aprende a pensar de maneira lógica e
sistemática, construindo o conhecimento por meio da ação e da exploração ativa.
As atividades sensoriais montessorianas têm como objetivo refinar os cinco sentidos –
tato, visão, audição, olfato e paladar. Montessori observou que, entre os 2 e 6 anos, as crianças
atravessam um período particularmente receptivo ao desenvolvimento sensorial. É nesse momento
que o ambiente e as experiências têm impacto decisivo em sua formação. Por isso, oferecer uma
variedade de vivências sensoriais nessa fase contribui para ampliar não apenas as capacidades
cognitivas, mas também emocionais e sociais, favorecendo uma formação integral.
Os materiais sensoriais seguem critérios rigorosos, seja em sua versão original ou em
adaptações feitas à mão. Cada material possui uma qualidade isolada a ser explorada, como cor,
forma, tamanho, textura ou som. Apresentam um "controle de erro", que permite à própria criança
perceber quando a tarefa não foi concluída corretamente, favorecendo a autonomia e a autocrítica.
Outro aspecto relevante é a preparação indireta que esses materiais oferecem para aprendizados
futuros, como acontece com atividades compostas por dez peças, que introduzem a lógica do
sistema decimal. Assim, além de desenvolver os sentidos, o trabalho sensorial prepara a criança
para conceitos matemáticos, linguísticos e científicos.
Para Montessori, a criança é um "explorador sensorial". Desde o nascimento, ela busca
compreender o ambiente por meio de seus sentidos, e o papel da educação é oferecer
oportunidades estruturadas e significativas para esse processo. Ao lidar com experiências
sensoriais, a criança passa a adquirir informações mais claras e organizadas, o que a ajuda a
construir categorias e a interpretar o mundo com maior profundidade. Essa compreensão é
essencial para a construção da inteligência e para o fortalecimento da autonomia intelectual.
Entre os exemplos de materiais visuais, táteis e de classificação, destacam-se os blocos de
empilhar, como a Torre Rosa, que introduz noções de tamanho e proporção; os botões coloridos,
que estimulam a percepção visual e a lógica; e os jogos de memória com formas geométricas, que
desenvolvem atenção, raciocínio e memória visual. No campo auditivo, atividades com cilindros
sonoros, instrumentos musicais ou simples brincadeiras com feijões em recipientes permitem que
a criança aprenda a diferenciar intensidades, timbres e ritmos, ampliando sua sensibilidade
musical e auditiva.
30.
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No desenvolvimento tátil,atividades como o ―saco misterioso‖ ou a combinação de
texturas ajudam a criança a reconhecer superfícies, temperaturas e materiais sem depender da
visão, o que aguça sua percepção e estimula a concentração. No âmbito do olfato e do paladar,
experiências como as garrafas de perfume, os aromas de ervas e a degustação de frutas ou líquidos
com sabores contrastantes oferecem à criança a oportunidade de identificar e comparar sensações,
refinando a memória sensorial e promovendo um aprendizado prazeroso.
O trabalho sensorial no método Montessori não se limita a desenvolver habilidades
motoras ou cognitivas. Ele contribui para que a criança construa uma relação mais profunda com o
mundo, baseada na observação, no respeito ao próprio ritmo e no prazer de aprender. Cada
experiência sensorial é, ao mesmo tempo, um exercício de autonomia, de concentração e de
descoberta, transformando o aprendizado em um processo natural e significativo.
Classificar objetos (2 a 5 anos): Botões coloridos são uma boa opção. Ao classifica-los
por cor, forma e tamanho, a criança trabalha o tato e a visão. Além disso desenvolve a
concentração e raciocínio lógico.
Blocos de empilhar (18 meses a 3 anos): Empilhar blocos de madeira de tamanhos
graduados permite com que as crianças possam desenvolver a noção de tamanho. Um exemplo é a
atividade com a Torre de cubos cor-de-rosa.
Quebra-cabeças simples (2 a 5 anos): Uma boa opção é optar por quebra-cabeças de
madeira com imagens atrativas e deixar que a criança monte sozinha.
Combinar amostras de tintas coloridas (3 a 5 anos): Crie um mostruário de cores para que
a criança combine os pares de cores. Comece utilizando cores primárias e a medida que a criança
for conseguindo fazer as combinações corretas, você poderá aumentar a dificuldade da tarefa
adicionando novas cores.
Jogo da memória (3 a 5 anos): Esse tipo de atividade permite com que a criança
desenvolva a memória visual e a habilidade para identificar padrões. É possível confeccionar o
jogo da memória em casa, utilizando papelão com desenhos de formas geométricas.
Feijão-manteiga seco (18 meses a 4 anos): Para essa atividade basta colocar os feijões em
uma tigela e deixar a criança brincar, enchendo uma concha de feijões e despejando-os na tigela.
Dessa forma a criança passa a melhorar a identificação da origem dos sons.
Cilindros sonoros (3 a 6 anos): Uma atividade que permite com que a criança aprimore a
identificação dos sons é o uso de cilindros sonoros. Você pode construí-los com qualquer
recipiente disponível em casa, preenchendo-os com objetos diferentes para que a criança possa
sacudi-los (de olhos fechados) e adivinhar seu conteúdo.
31.
31
Ouvir música (18meses a 6 anos): Atividades envolvendo músicas possibilitam que a
criança possa identificar os sons de cada instrumento e refinar sua capacidade auditiva. Encoraje
seu filho a cantar, dançar e acompanhar o ritmo das músicas.
Combinação de texturas (3 a 5 anos): Para essa atividade você pode confeccionar pares
de objetos de diferentes texturas, utilizando tecidos, velcros, lixas, sementes, entre outros
materiais. Então basta pedir para a criança fechar os olhos e combinar os objetos de mesma textura
utilizando o tato.
Saco misterioso (3 a 6 anos): Essa é uma atividade simples e uma das favoritas das
crianças. Consiste em colocar objetos dentro de um saco e deixar que a criança tente identificá-los
através do toque.
Garrafas de perfume (3 a 5 anos): Reúna 12 recipientes idênticos com tampa e coloque
um chumaço de algodão umedecido com essência dentro de cada um deles. Utilize essências com
cheiros conhecidos pela criança para que ela possa identificá-los.
Aromas de ervas (3 a 5 anos): Uma atividade prazerosa que permite contato com a
natureza. Ter um jardim em casa com ervas aromáticas pode ser uma boa opção para trabalhar as
habilidades olfativas da criança.
Salada de frutas frescas: A salada de frutas é multissensorial. Permite não só com que a
criança possa aprimorar o paladar como também o tato, olfato e até mesmo os sons de cada
mordida.
Garrafinhas de provar (3 a 5 anos): Encha seis garrafinhas de tampa conta-gotas com
líquidos de diferentes sabores (doce, salgado, azedo, amargo). Deposite as gotas nas mãos de seu
filho para que ao lamber ele tente identificar o sabor.
A pedagogia montessoriana mostra que a verdadeira formação integral não pode ser
dissociada da experiência prática. Ao preparar crianças para lidar com responsabilidades
cotidianas e sociais desde cedo, o método contribui para a formação de cidadãos conscientes,
críticos e capazes de interagir de maneira positiva na sociedade.
A escola, nesse modelo, deixa de ser apenas um
espaço de transmissão de conteúdos para se
transformar em um ambiente de vida, no qual
aprender e viver se tornam dimensões
indissociáveis de um mesmo processo.
32.
32
2.5. AUTONOMIA EAUTODIREÇÃO DA CRIANÇA
A pedagogia montessoriana coloca a autonomia e a autodireção da criança como
elementos centrais do processo educativo, reconhecendo-a como sujeito ativo e protagonista de
sua própria aprendizagem. Para Montessori, a criança não deve ser tratada como um recipiente
passivo de informações; ela possui capacidade natural de explorar, investigar e construir
conhecimento a partir de experiências significativas. Essa perspectiva está alinhada com os
estudos de Vygotsky (1997; 1998), que ressaltam a importância da interação social e da mediação
pedagógica para o desenvolvimento de habilidades cognitivas e socioemocionais. A autonomia
permite que a criança aprenda a tomar decisões, resolver problemas e organizar suas próprias
atividades, fortalecendo a confiança em suas capacidades e incentivando a autodisciplina.
A escolha de tarefas e a possibilidade de seguir o próprio ritmo são princípios que
favorecem a inclusão, pois reconhecem que cada criança possui necessidades, habilidades e ritmos
diferentes. Perrenoud (2001) enfatiza que uma pedagogia das diferenças deve criar condições para
que todos os alunos tenham oportunidades equitativas de desenvolvimento, evitando a
padronização que gera fracasso escolar. Montessori oferece um ambiente estruturado, porém
flexível, em que crianças com diversas habilidades podem se engajar em atividades adequadas às
suas capacidades, promovendo aprendizado significativo e respeitando a individualidade.
O desenvolvimento da concentração e da autodisciplina também é um resultado direto da
autonomia proporcionada pelo método Montessori. Ao realizar atividades que despertam interesse
genuíno, a criança aprende a sustentar atenção por períodos mais longos e a executar tarefas com
precisão e cuidado. Saviani (2019) observa que essas práticas contribuem para a formação
integral, englobando aspectos cognitivos, emocionais e sociais, e reforçando o papel da educação
como instrumento de desenvolvimento humano pleno. A criança, ao aprender a gerir suas próprias
atividades, internaliza regras e limites de forma natural, sem imposições externas, promovendo seu
crescimento ético e moral.
A autonomia e a autodireção também se tornam essenciais para a inclusão de crianças
com deficiência ou necessidades especiais. Pessotti (1984) ressalta que a educação deve oferecer
oportunidades de participação ativa a todos os alunos, permitindo que cada um desenvolva suas
33.
33
potencialidades em umcontexto seguro e estimulante. Tezzari (2009) complementa ao destacar
que práticas pedagógicas que incentivam a autodireção favorecem não apenas o aprendizado
cognitivo, mas também a autoestima, a motivação e a integração social, elementos fundamentais
para o sucesso escolar e a construção de relações saudáveis.
A implementação de atividades autônomas exige um papel pedagógico diferenciado do
educador. Ele atua como facilitador, observador e mediador, oferecendo suporte apenas quando
necessário e criando condições para que a criança explore, descubra e aprenda por conta própria.
Yin (2016) enfatiza que compreender o contexto e as particularidades de cada aluno é essencial
para a efetividade do ensino, reforçando que a autonomia não significa ausência de orientação,
mas sim um equilíbrio entre liberdade e suporte pedagógico.
A prática da autonomia e da autodireção fortalece a capacidade da criança de se tornar
um indivíduo crítico, responsável e preparado para interagir de maneira positiva com a sociedade.
Ao integrar princípios montessorianos com fundamentos teóricos de Vygotsky, Perrenoud, Saviani
e demais estudiosos, percebe-se que a autonomia não é apenas uma estratégia pedagógica, mas um
princípio educativo que transforma o aprendizado em experiência significativa, inclusiva e
formadora de cidadãos capazes de exercer suas potencialidades de forma plena e consciente.
2.6. ATIVIDADES MONTESSORI POR IDADE E ESTÁGIO
EDUCACIONAL
As atividades Montessori apresentam uma flexibilidade notável, permitindo que sejam
adaptadas conforme a idade e o estágio educacional da criança, garantindo que cada experiência
seja significativa e adequada ao seu nível de desenvolvimento. Nos primeiros anos, voltados para
a faixa etária de zero a três anos, o foco está no desenvolvimento sensorial, motor e emocional,
por meio de atividades que estimulam a exploração tátil, auditiva, visual e motora. Bebês e
crianças pequenas são incentivados a interagir com objetos que favoreçam a coordenação motora
fina e grossa, promovam a percepção do espaço e incentivem a curiosidade natural. Nessa fase,
materiais como blocos de empilhar, brinquedos de encaixe e atividades de vida prática simples,
como segurar copos ou manusear utensílios, são essenciais para desenvolver autonomia desde
cedo.
34.
34
Entre os trêse seis anos, período considerado a primeira infância plena, as atividades
Montessori se expandem para estimular a linguagem, o pensamento lógico, a criatividade e a
independência. A criança passa a manipular materiais sensoriais mais complexos, como cilindros,
blocos coloridos, quebra-cabeças e jogos de correspondência, que aprimoram habilidades
cognitivas e a capacidade de classificação, comparação e análise. As tarefas de vida prática
ganham maior complexidade, envolvendo cuidados com o ambiente, organização de objetos e
participação em atividades sociais, promovendo a autodisciplina, a responsabilidade e o senso de
pertencimento ao grupo.
Na faixa etária de seis a doze anos, correspondente ao ciclo fundamental I, as atividades
Montessori são projetadas para estimular o pensamento abstrato, o raciocínio lógico e o
aprendizado interdisciplinar. Materiais e projetos pedagógicos passam a integrar matemática,
ciências, geografia e linguagem, incentivando a investigação, a pesquisa e a solução de problemas
de maneira autônoma. O método valoriza a colaboração entre colegas, o trabalho em grupo e a
aplicação prática do conhecimento, fortalecendo habilidades sociais e de comunicação, ao mesmo
tempo em que mantém o foco na autodireção e na responsabilidade individual.
Para adolescentes, entre doze e quinze anos, as atividades são ainda mais complexas e
voltadas para a integração do conhecimento, a reflexão crítica e o desenvolvimento de projetos de
maior alcance. Nesse estágio, Montessori propõe experiências que envolvem a pesquisa científica,
a expressão artística, o engajamento social e o empreendedorismo, permitindo que o jovem
consolide competências cognitivas, socioemocionais e práticas. As tarefas deixam de ser
meramente manipulativas e passam a exigir planejamento, execução e avaliação, promovendo
autonomia na aprendizagem, organização pessoal e capacidade de lidar com desafios de forma
responsável.
A adaptação das atividades Montessori também leva em consideração as necessidades
individuais de cada criança, permitindo que aquelas com deficiências ou dificuldades de
aprendizagem participem plenamente das experiências propostas. Materiais podem ser ajustados
em complexidade, tamanho, sensorialidade ou tempo de execução, garantindo que o aprendizado
seja acessível, inclusivo e motivador. Essa flexibilidade é essencial para consolidar os princípios
de equidade e respeito à diversidade presentes na pedagogia montessoriana, alinhando-se às
demandas contemporâneas de educação inclusiva e personalizada.
A adaptação das atividades Montessori ao longo do desenvolvimento infantil e juvenil
reflete a centralidade da criança como protagonista de seu aprendizado. Cada fase oferece
oportunidades para que ela explore, descubra, organize e compreenda o mundo à sua maneira,
fortalecendo não apenas habilidades acadêmicas, mas também competências socioemocionais,
35.
35
senso ético eautonomia pessoal. Essa abordagem integrada garante que o aprendizado seja
contínuo, progressivo e adaptado às características de cada faixa etária, promovendo o
desenvolvimento integral e preparando o aluno para interagir com a sociedade de forma crítica,
responsável e colaborativa.
Atividades Montessori para bebês (0-18 meses): Durante os primeiros dezoito meses de
vida, os bebês passam por um período de intenso desenvolvimento físico, cognitivo e emocional,
sendo fundamentais experiências que promovam a exploração sensorial e a construção das
primeiras noções de espaço, objetos e relações sociais. As atividades Montessori nessa faixa etária
são cuidadosamente planejadas para oferecer estímulos seguros, acessíveis e significativos,
permitindo que o bebê descubra o mundo por meio da ação e da interação com materiais
concretos. Segundo Montessori (1949), a mente infantil nos primeiros anos é extraordinariamente
receptiva, funcionando como uma ―mente absorvente‖ que capta e organiza informações do
ambiente de maneira natural e espontânea.
Entre os objetivos centrais dessa fase está o desenvolvimento da coordenação motora
grossa e fina. O bebê é incentivado a engatinhar, alcançar objetos, manipular brinquedos simples e
explorar texturas variadas. Materiais como blocos macios, cubos empilháveis e brinquedos de
encaixe permitem que ele aprenda a controlar movimentos e perceba relações de causa e efeito.
Essas experiências ajudam a criança a ganhar consciência corporal e desenvolvem habilidades que
servirão como base para tarefas mais complexas em fases posteriores (Lagoa, 1981).
Desde cedo, os materiais são escolhidos para que a criança explore diferentes cores,
formas, sons, cheiros e texturas, refinando seus cinco sentidos. Montessori (1949) enfatiza que,
através da exploração sensorial, a criança começa a compreender o ambiente e a estabelecer
categorias de percepção que sustentarão aprendizagens futuras. Brinquedos sonoros, tecidos com
texturas distintas e objetos coloridos são exemplos de recursos que ajudam a criança a diferenciar
estímulos e a desenvolver atenção, memória e percepção crítica desde os primeiros meses.
As atividades visam a construção da independência e da autodireção, ainda que de
maneira adaptada à faixa etária. Por exemplo, incentivar o bebê a pegar objetos por conta própria,
experimentar movimentos e interagir com o ambiente promove autonomia e confiança nas
próprias capacidades. Mesmo nessa idade precoce, Montessori (1965) defendia que a criança é
capaz de agir por si mesma quando o ambiente é organizado para permitir sua exploração segura e
significativa, iniciando o desenvolvimento da responsabilidade e da autoestima.
A interação com os adultos também é essencial. O educador ou cuidador atua como
facilitador, oferecendo apoio quando necessário, mas permitindo que o bebê descubra e
experimente por conta própria. Observação atenta, diálogo simples e demonstração de atividades
36.
36
ajudam o bebêa compreender ações e efeitos, estimulando a curiosidade natural e fortalecendo
vínculos afetivos que são fundamentais para o desenvolvimento emocional. Libâneo (1994)
reforça que a mediação do adulto deve ser sensível, equilibrando orientação e liberdade, mesmo
nos primeiros meses de vida.
As atividades Montessori para bebês criam uma base sólida para aprendizagens futuras,
promovendo desenvolvimento integral, incluindo aspectos físicos, cognitivos, socioemocionais e
sensoriais. Ao respeitar o ritmo de cada criança e oferecer experiências estruturadas, porém
flexíveis, o método Montessori contribui para que o bebê se torne um explorador ativo do mundo,
adquirindo confiança, curiosidade e habilidades iniciais de resolução de problemas. Essa
abordagem demonstra, desde os primeiros meses, a centralidade da autonomia, da observação e do
ambiente preparado na formação integral da criança, princípios que se estenderão por toda a
educação montessoriana.
Atividades Montessori para bebês de até 12 meses: Nos primeiros doze meses de vida, os
bebês passam por um período de descobertas intensas, durante o qual a exploração sensorial e
motora é fundamental para o desenvolvimento integral. Nesse estágio, as crianças são
extremamente receptivas a estímulos visuais, táteis, auditivos e motores, o que torna essencial um
ambiente cuidadosamente preparado e seguro, onde possam explorar livremente, sem riscos, e
desenvolver confiança nas próprias habilidades (Montessori, 1949).
Para favorecer essa exploração, é importante disponibilizar objetos que despertem os
sentidos de forma organizada e intencional. Brinquedos com diferentes cores, formas, tamanhos e
texturas permitem que o bebê manipule, observe e compare, estimulando a percepção tátil e visual.
Montessori defendia que a manipulação de materiais concretos ajuda a criança a compreender o
mundo ao seu redor, desenvolvendo habilidades cognitivas iniciais e percepção de causa e efeito,
mesmo antes da linguagem formal (Montessori, 1965).
A segurança dos materiais é igualmente essencial. Brinquedos macios, leves e sem peças
pequenas garantem que a criança possa manusear, levar à boca e explorar sem perigo. Esse
cuidado promove a confiança no ambiente e incentiva a autonomia, permitindo que o bebê realize
movimentos e experiências por conta própria, fortalecendo a coordenação motora fina e grossa,
bem como a noção de espaço (Lagoa, 1981).
A organização do espaço tem papel central. Um ambiente limpo, ordenado e acessível,
com objetos ao alcance da criança, facilita a exploração independente. Ao proporcionar liberdade
dentro de limites seguros, os bebês aprendem a escolher atividades, a se movimentar com
segurança e a compreender o próprio corpo em relação ao espaço, consolidando habilidades
motoras, cognitivas e socioemocionais de maneira integrada (Libâneo, 1994).
37.
37
A observação doadulto é fundamental nesse processo. O cuidador atua como facilitador,
oferecendo suporte discreto e intervenções pontuais quando necessário, mas permitindo que a
criança explore e descubra por si mesma. Esse equilíbrio entre liberdade e orientação promove não
apenas a autonomia, mas também a confiança, a curiosidade e a capacidade de resolver problemas
simples, princípios centrais da pedagogia Montessori (Montessori, 1949; 1965).
As atividades Montessori para bebês de até 12 meses estabelecem a base para um
desenvolvimento integral contínuo, preparando a criança para as etapas posteriores da educação
montessoriana. Ao integrar estímulos sensoriais, manipulação de objetos, espaço organizado e
presença atenta do adulto, cria-se um ambiente que respeita o ritmo individual, promove a
autonomia e fortalece habilidades essenciais para o crescimento físico, cognitivo e emocional do
bebê.
Atividades Montessori para bebês de 12 a 18 meses: Entre os 12 e 18 meses, os bebês
começam a demonstrar um avanço significativo em suas habilidades motoras finas e grossas, além
de uma crescente curiosidade pelo ambiente ao redor. Nesta fase, a pedagogia Montessori busca
oferecer experiências que estimulem a exploração ativa, a percepção sensorial e o
desenvolvimento cognitivo, respeitando o ritmo individual de cada criança (Montessori, 1949). As
atividades são projetadas para apoiar a autonomia, a concentração e a coordenação, fundamentais
para o aprendizado integral.
Uma das estratégias mais eficazes é a introdução de brinquedos que permitam a
classificação por forma, tamanho e cor. Esses materiais incentivam a criança a observar, comparar
e categorizar objetos, promovendo o desenvolvimento do raciocínio lógico, da percepção visual e
da atenção aos detalhes. Montessori (1965) ressalta que a manipulação de objetos concretos
permite à criança internalizar conceitos abstratos de maneira natural, preparando-a para
aprendizagens futuras mais complexas.
Quebra-cabeças simples, com peças grandes e fáceis de manusear, são outra ferramenta
central para essa faixa etária. Ao encaixar corretamente as peças, o bebê aprimora a coordenação
motora fina, a percepção espacial e a concentração. Além disso, atividades como essas estimulam
a persistência, a paciência e a resolução de problemas, promovendo a autodisciplina e o senso de
realização, elementos essenciais para a formação integral do indivíduo (Lustosa, 2017).
Atividades práticas do dia a dia, como despejar líquidos de um recipiente para outro ou
encher e esvaziar potes, também são altamente valorizadas no método Montessori. Esses
exercícios desenvolvem a coordenação motora, o controle de movimentos e a independência,
permitindo que o bebê participe ativamente de tarefas cotidianas e compreenda a relação entre
ação e resultado. Montessori (1949) enfatiza que essas experiências práticas promovem a
38.
38
autoconfiança e obem-estar, pois a criança percebe sua capacidade de realizar tarefas de forma
competente.
O ambiente preparado continua sendo fundamental nessa etapa. Espaços acessíveis,
seguros e organizados permitem que os bebês explorem materiais de forma autônoma, reduzindo a
necessidade de intervenções constantes do adulto e favorecendo o aprendizado autodirigido. A
liberdade dentro de limites estruturados garante que a criança desenvolva iniciativa e
responsabilidade, ao mesmo tempo em que se sente segura para experimentar, observar e descobrir
(Libâneo, 1994).
A interação do adulto permanece central, mas com um papel de observador e facilitador.
O educador ou cuidador orienta discretamente, demonstra procedimentos quando necessário e
oferece apoio pontual, permitindo que o bebê explore, experimente e aprenda com seus próprios
erros. Essa abordagem reforça a independência, fortalece a confiança na própria capacidade e cria
uma base sólida para aprendizagens futuras, alinhando-se aos princípios de inclusão, respeito à
diversidade e desenvolvimento integral propostos por Montessori.
Atividades Montessori para crianças em idade pré-escolar (18 meses – 3 anos): Durante a
faixa etária de 18 a 36 meses, as crianças apresentam avanços notáveis na coordenação motora,
linguagem, habilidades cognitivas e sociais. Montessori observava que, nesse período, os
pequenos demonstram intensa curiosidade e vontade de participar ativamente das atividades do dia
a dia, tornando essencial um ambiente cuidadosamente preparado que estimule autonomia,
concentração e desenvolvimento integral (Montessori, 1949). As atividades Montessori para esta
fase são planejadas para equilibrar estímulos sensoriais, experiências práticas e oportunidades de
interação social, permitindo que a criança aprenda por meio da ação e da descoberta.
As atividades de linguagem assumem papel central nessa etapa. É recomendado
incentivar a comunicação por meio de livros ilustrados, cartões de vocabulário e pequenas
histórias contadas pelos educadores ou familiares. Montessori (1965) enfatiza que a exposição a
palavras, objetos e imagens ajuda a criança a relacionar símbolos e significados, promovendo a
aquisição precoce da linguagem, a ampliação do vocabulário e a capacidade de expressão oral.
Essas experiências também fortalecem a memória e a atenção, preparando o caminho para
aprendizagens mais complexas.
O desenvolvimento da concentração é igualmente valorizado. Nesta idade, quebra-
cabeças mais complexos, jogos de correspondência e atividades de classificação e
emparelhamento desafiam a criança a focar, planejar e resolver problemas. A prática repetitiva
dessas tarefas permite que a criança exercite paciência, autodisciplina e habilidades de raciocínio
39.
39
lógico, elementos queMontessori considerava essenciais para a formação de indivíduos
autônomos e críticos (Lagoa, 1981).
As atividades práticas da vida constituem outro pilar da educação Montessori para esta
faixa etária. Envolver a criança em tarefas simples do cotidiano, como regar plantas, arrumar
objetos ou ajudar a colocar a mesa, contribui para a autonomia, responsabilidade e senso de
pertencimento à comunidade. Montessori (1949) argumentava que a integração entre vida prática e
aprendizagem não apenas desenvolve habilidades motoras finas e coordenação, mas também
promove autoestima, equilíbrio emocional e noções de cooperação e respeito pelos outros.
O ambiente preparado continua a desempenhar um papel estratégico, com espaços
organizados, materiais acessíveis e opções de atividades variadas, permitindo que a criança
escolha e execute tarefas de acordo com seus interesses e ritmo. Libâneo (1994) observa que, ao
oferecer liberdade dentro de limites estruturados, o método Montessori promove autodireção e
responsabilidade, elementos cruciais para a inclusão de crianças com diferentes necessidades e
estilos de aprendizagem.
A participação do educador mantém-se essencial, mas seu papel é de observador, guia e
facilitador. O adulto orienta a criança quando necessário, oferece demonstrações e supervisiona,
mas evita intervenções excessivas, permitindo que a criança descubra e aprenda por conta própria.
Esse equilíbrio entre liberdade e orientação favorece o desenvolvimento integral, estimulando
autonomia, pensamento crítico e habilidades socioemocionais, consolidando os princípios de
inclusão e respeito à diversidade defendidos por Montessori.
Atividades Montessori para crianças do Ensino Infantil e Ensino Fundamental (3-6 anos):
Na faixa etária de 3 a 6 anos, conhecida por Montessori como período da infância sensível, as
crianças apresentam uma curiosidade intelectual intensa e a capacidade de concentração mais
prolongada. Durante essa etapa, o método Montessori busca promover a autodisciplina, a
responsabilidade, o trabalho em equipe e a aprendizagem ativa, integrando aspectos cognitivos,
sociais e emocionais (Montessori, 1965). O ambiente preparado permanece essencial, oferecendo
materiais e experiências adaptadas às necessidades e interesses individuais, estimulando a
exploração, o raciocínio e a criatividade.
O trabalho sensorial continua a ser um pilar central nesta fase. As crianças interagem com
materiais que refinam os sentidos, como o cilindro de cores, o armário de cheiros ou blocos de
textura, permitindo que elas percebam diferenças sutis em cor, forma, tamanho e cheiro.
Montessori (1949) enfatiza que a exploração sensorial contribui para a construção de conceitos
abstratos e auxilia a criança a organizar e compreender seu ambiente de maneira lógica e
40.
40
estruturada. Essas atividadestambém fortalecem a concentração, a coordenação motora fina e a
capacidade de observação, preparando a criança para aprendizagens mais complexas.
Atividades matemáticas são introduzidas por meio de materiais concretos que permitem a
manipulação e experimentação, como contas, blocos e cartões numéricos. A aprendizagem de
conceitos como numeração, contagem, adição e subtração ocorre de forma prática e visual,
tornando os conceitos abstratos mais compreensíveis e significativos (Lagoa, 1981). Montessori
ressaltava que, ao explorar a matemática de forma concreta, a criança desenvolve habilidades de
pensamento lógico, raciocínio sequencial e resolução de problemas, que são essenciais para a
autonomia intelectual.
A ciência prática também é incentivada, por meio de experimentos simples que
despertam o interesse pela observação, experimentação e descoberta. Atividades como plantar
sementes, observar o ciclo da água ou explorar propriedades de líquidos e sólidos permitem que a
criança compreenda conceitos científicos básicos de maneira concreta e significativa (Kramer,
1976). Esse tipo de abordagem não apenas desperta a curiosidade natural, mas também estimula o
pensamento crítico e a capacidade de formular hipóteses, elementos essenciais para a formação
integral.
O trabalho em grupo e a colaboração entre pares são promovidos. Atividades coletivas,
como jogos de correspondência, projetos de arte ou pequenas tarefas práticas da vida em conjunto,
ajudam as crianças a desenvolver habilidades sociais, empatia, cooperação e respeito à
diversidade. Montessori enfatizava que a interação social é fundamental para o desenvolvimento
integral e que, em um ambiente inclusivo, cada criança aprende a valorizar e respeitar as
diferenças, fortalecendo o senso de comunidade (Lustosa, 2017; Mantoan, 2003).
O papel do educador nesta etapa é de facilitador e observador atento. Ele organiza o
ambiente, oferece orientação pontual, sugere desafios adequados e acompanha o progresso de cada
criança, mas sempre permitindo autonomia e escolha individual. Essa postura garante que o
aprendizado seja ativo e significativo, promovendo autodireção, autoconfiança e responsabilidade,
enquanto respeita o ritmo e as necessidades de cada aluno.
Atividades Montessori para o ensino fundamental I, II e ensino médio: A metodologia
Montessori se estende também às faixas etárias do ensino fundamental II e do ensino médio,
demonstrando sua flexibilidade e capacidade de atender às necessidades de aprendizagem de
adolescentes e jovens em desenvolvimento. Nessa fase, os estudantes apresentam maior
capacidade de abstração, pensamento crítico e reflexão sobre o mundo, exigindo um ambiente
educativo que promova autonomia, responsabilidade, criatividade e engajamento intelectual.
Montessori (1965) defendia que a educação não deve ser apenas transmissiva, mas que o aluno
41.
41
deve tornar-se protagonistado seu próprio aprendizado, integrando teoria e prática em atividades
significativas.
Os projetos de pesquisa constituem uma estratégia central. Os estudantes podem escolher
temas de seu interesse, realizar investigações detalhadas e apresentar suas conclusões,
desenvolvendo habilidades de pesquisa, análise crítica e comunicação. Segundo Gil (2002), a
elaboração de projetos permite ao aluno aplicar conhecimentos teóricos a problemas concretos,
fortalecendo sua autonomia e capacidade de tomada de decisão. Essa abordagem respeita o ritmo
individual, estimulando o envolvimento ativo e a responsabilidade pelo próprio aprendizado.
O trabalho em grupo é igualmente relevante, promovendo a colaboração, a negociação e a
empatia entre os participantes. Atividades coletivas, como debates, projetos interdisciplinares e
resolução de problemas complexos, ajudam os alunos a desenvolver competências
socioemocionais essenciais para a vida em sociedade, além de valorizar a diversidade de opiniões
e experiências. Lustosa (2017) destaca que a interação entre pares é crucial para consolidar
aprendizagens e desenvolver habilidades sociais em ambientes inclusivos.
Atividades de autogestão e planejamento também são incorporadas, permitindo que os
adolescentes desenvolvam competências de organização, gerenciamento de tempo e execução de
projetos de longo prazo. Montessori (1949) enfatizava que a capacidade de planejar, monitorar e
avaliar o próprio aprendizado é fundamental para a formação de indivíduos independentes e
críticos. Essas experiências preparam os jovens para lidar com responsabilidades acadêmicas e
pessoais de maneira estruturada e consciente.
O ambiente preparado continua a desempenhar papel essencial, oferecendo recursos,
materiais e tecnologias adequadas à faixa etária. Espaços que incentivam a pesquisa, a
experimentação, o estudo colaborativo e a reflexão individual contribuem para a formação
integral, combinando desenvolvimento cognitivo, socioemocional e ético. Aranha (1989) e Saviani
(2019) reforçam que a educação deve estar intimamente ligada à vida prática e à realidade do
estudante, tornando o aprendizado mais significativo e aplicável.
O papel do educador mantém-se como facilitador, orientador e observador atento,
proporcionando suporte personalizado e desafios adequados, sem controlar rigidamente as
atividades. Ele incentiva a autodireção, promove a autonomia e garante que cada aluno tenha
oportunidades de crescimento integral. Segundo Libâneo (1994) e O’Donnell (2007), essa postura
docente fortalece a autoconfiança e a responsabilidade, essenciais para a formação de cidadãos
críticos, éticos e socialmente conscientes.
Cada atividade dentro do método Montessori é cuidadosamente estruturada para
favorecer o desenvolvimento integral da criança, estimulando aspectos cognitivos, emocionais,
42.
42
sociais e físicosde maneira equilibrada. Ao permitir que a criança explore, manipule e descubra
por si mesma, as atividades promovem não apenas a aquisição de conhecimento, mas também a
construção de competências essenciais para a vida, como concentração, raciocínio crítico,
autonomia e responsabilidade.
O enfoque na aprendizagem autônoma possibilita que cada criança avance conforme seu
próprio ritmo, respeitando suas necessidades e interesses individuais. Montessori (1965) enfatiza
que, quando a criança tem liberdade para escolher suas atividades dentro de um ambiente
preparado, ela se torna protagonista de seu aprendizado, desenvolvendo autodisciplina e confiança
em suas capacidades. Essa abordagem fortalece a capacidade de tomada de decisão, de resolver
problemas e de lidar com desafios de maneira independente.
A metodologia proporciona experiências significativas que conectam o aprendizado ao
contexto real da vida. Atividades práticas, sensoriais e cognitivas são interligadas, permitindo que
a criança compreenda conceitos abstratos de forma concreta e funcional. Essa prática prepara os
alunos para enfrentar situações complexas na vida adulta, capacitando-os a agir com autonomia,
ética e senso crítico.
O trabalho contínuo com materiais específicos e atividades diversificadas também
contribui para a inclusão e o respeito à diversidade, pois cada criança, independentemente de suas
habilidades ou limitações, pode participar ativamente e progredir dentro de seu próprio ritmo.
O método Montessori não apenas promove aprendizagem eficaz, mas também prepara os
indivíduos para uma vida adulta equilibrada, autônoma e socialmente responsável.
3. CONCLUSÃO
A análise do trabalho de Maria Montessori evidencia de forma contundente a relevância
de sua pedagogia para a formação integral da criança no contexto da inclusão. Ao longo das
décadas, suas ideias permaneceram atuais, demonstrando que a educação centrada na criança é
capaz de promover autonomia, autodireção e desenvolvimento holístico, respeitando a
individualidade e o ritmo de aprendizagem de cada aluno. A contribuição de Montessori vai além
da simples transmissão de conhecimento, oferecendo um modelo educativo que considera a
criança como protagonista de seu próprio aprendizado.
O conceito de ambiente preparado, aliado ao uso de materiais concretos, acessíveis e
sensoriais, garante que crianças com diferentes necessidades e habilidades possam participar
ativamente das atividades, promovendo equidade e inclusão. Esse espaço cuidadosamente
43.
43
estruturado possibilita experiênciassignificativas, permitindo que cada criança explore, descubra e
compreenda conceitos de forma prática e concreta. A integração de vida prática, materiais
sensoriais e atividades acadêmicas promove o desenvolvimento cognitivo, motor, emocional e
social, consolidando a aprendizagem de forma completa e equilibrada.
Outro aspecto central da pedagogia montessoriana é a valorização da autonomia e da
autodireção. As crianças são incentivadas a tomar decisões sobre suas atividades, escolher tarefas
de interesse e organizar seu próprio aprendizado, desenvolvendo responsabilidade, concentração e
autoconfiança. Esse enfoque não apenas fortalece habilidades cognitivas, mas também contribui
para o desenvolvimento socioemocional, preparando os alunos para interações colaborativas e
para enfrentar desafios de forma independente.
O papel do educador no método Montessori reforça essa abordagem. Em vez de atuar
como transmissor de conhecimento, o professor assume a função de facilitador e observador,
oferecendo suporte adequado e criando condições para que a criança se autoeduque. Essa postura
docente valoriza a observação cuidadosa, a sensibilidade e a capacidade de adaptação, garantindo
que as necessidades individuais sejam atendidas e que a inclusão se torne prática cotidiana.
A inclusão e o respeito à diversidade ocupam lugar central na pedagogia montessoriana.
Ao reconhecer o ritmo, as preferências e as potencialidades de cada criança, Montessori promove
um ambiente educativo equitativo, em que as diferenças são percebidas como oportunidades de
aprendizado conjunto. Essa perspectiva fortalece a interação social, o senso de comunidade e a
colaboração entre alunos, educadores e famílias.
As atividades de vida prática desempenham papel crucial no desenvolvimento integral.
Por meio de tarefas cotidianas, como cuidado pessoal, organização do espaço e trabalhos de
cozinha ou jardinagem, a criança adquire habilidades motoras, cognitivas e sociais, além de
desenvolver senso de responsabilidade e autonomia. Essas experiências conectam o aprendizado à
vida real, tornando o conhecimento mais significativo e preparando os alunos para a vida adulta.
Os materiais sensoriais, cuidadosamente projetados, contribuem para a percepção
refinada dos sentidos, organização mental e desenvolvimento cognitivo. Atividades que envolvem
exploração de cores, formas, texturas, sons, aromas e sabores permitem que a criança compreenda
seu ambiente e desenvolva pensamento lógico, memória, atenção e criatividade. Esses recursos
tornam o aprendizado ativo e prazeroso, reforçando a importância da manipulação concreta como
meio de internalizar conceitos abstratos.
Desde os estímulos sensoriais e motores para bebês, passando por atividades de
linguagem, matemática e ciência para a infância, até projetos de pesquisa, trabalho em grupo e
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autogestão para adolescentes,a metodologia mantém coerência e eficácia, promovendo
desenvolvimento integral e inclusão em todas as etapas da formação escolar.
A pedagogia Montessori também promove habilidades socioemocionais essenciais, como
empatia, cooperação, resolução de conflitos e autoconfiança. Ao participar de atividades
colaborativas e respeitar os diferentes ritmos e capacidades dos colegas, a criança aprende a
valorizar a diversidade e a interagir de forma positiva em sociedade, fortalecendo sua cidadania e
senso ético.
O método ainda contribui para a formação de indivíduos críticos e reflexivos. Ao permitir
escolhas, incentivar a investigação e estimular o raciocínio independente, Montessori promove a
construção de conhecimento de forma significativa, tornando o aluno capaz de analisar, questionar
e propor soluções para problemas complexos. Essa abordagem prepara a criança para enfrentar
desafios acadêmicos, profissionais e sociais ao longo da vida.
A metodologia é compatível com os princípios de inclusão e educação democrática. Ao
integrar crianças com diferentes habilidades, limitações e estilos de aprendizagem, o método
Montessori demonstra que é possível criar ambientes educacionais justos, equitativos e
estimulantes, onde cada aluno tem oportunidades de desenvolver seu potencial máximo.
A pedagogia montessoriana oferece contribuições fundamentais para a educação
inclusiva e para a formação integral da criança. Ao unir ambiente preparado, materiais sensoriais,
atividades práticas, autonomia, autodireção e papel facilitador do educador, Montessori constrói
um modelo educacional que atende às demandas contemporâneas de aprendizagem e
desenvolvimento. Sua metodologia promove habilidades cognitivas, socioemocionais e éticas,
respeita a diversidade e prepara indivíduos capazes de atuar com responsabilidade, criatividade e
empatia na sociedade. Maria Montessori permanece uma referência sólida e inspiradora,
demonstrando que a educação centrada na criança é, ainda hoje, uma das estratégias mais eficazes
para formar cidadãos plenos e conscientes.
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