Adolescencia

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Adolescencia

  1. 1. CARACTERIZAÇÃO DA ADOLESCÊNCIA: IMPLICAÇÕES NODESENVOLVIMENTO E NA APRENDIZAGEMANO LECTIVO 2004/2005PAULA FERREIRA DA SILVA Nº10883 ENSINO DE BIOLOGIA/GEOLOGIA
  2. 2. ÍNDICEIntrodução ----------------------------------------------------------------------------- 2Caracterização da adolescência ----------------------------------------------------- 3O que é a adolescência? ---------------------------------------------------------- 3Desenvolvimento físico ---------------------------------------------------------- 4Desenvolvimento cognitivo ----------------------------------------------------- 6Desenvolvimento social --------------------------------------------------------- 8Desenvolvimento sexual -------------------------------------------------------- 9Desenvolvimento moral --------------------------------------------------------- 10Os adolescentes a escola e a aprendizagem -------------------------------------- 10A adolescência de Hoje ------------------------------------------------------------ 12Discussão sobre ideias relevantes/conclusão ------------------------------------ 15Bibliografia -------------------------------------------------------------------------- 17Anexos ------------------------------------------------------------------------------- 192
  3. 3. IntroduçãoAtravés da opinião de vários autores tentou-se descortinar, tentou-se levantar aponta do véu, e perceber o que se passa na adolescência. A sociedade começa a estarsensibilizada para um conjunto de problemas dos adolescentes de hoje (gravidez naadolescência, o consumo de drogas, o stress, falta de tempo dos pais, a indisciplina naescola, a depressão) e a prova disso, é que, escreve-se sobre a adolescência em todo olado, e fala-se também, por exemplo, vai ocorrer em Lisboa um congresso sobre aadolescência agora em Maio (Ver anexo).Ao longo do trabalho referiu-se a importância dos grupos de pares, onde osadolescentes ensaiam o comportamento que vão ter na sociedade dos adultos, anecessidade de integração nos grupos, e de se ser aprovado por estes, e onde se vivem asprimeiras experiências sexuais. Não se pode falar de adolescência sem falar de gruposde pares, mas também, segundo Helena Fonseca, podem surgir fenómeno de isolamentosem patologias associadas, o que levou alguns autores a denominar a adolescência comoa “fase do armário”.Salientou-se também que a adolescência não tem de ser necessariamente dramática,mas que quanto mais frágil for o adolescente, maiores vão ser os riscos que ele vaicorrer.Quanto aos pais, é fundamental que estes tenham disponibilidade para amar osfilhos, num amor que se quer total e firme.Relativamente ao papel da escola viu-se que esta deve agir de acordo com osinteresses dos adolescentes, ou então irá continuar a “remar contra a maré”. No caso dequerer colaborar tem um papel importantíssimo a desempenhar, quer na detecçãoprecoce de problemas que possam surgir (p. ex.:detectar a depressão) como tambémproporcionando um ambiente de convívio saudável, e fomentar a prática desportiva, quecomo se pode ler em anexo tem inúmeras vantagens (Ver anexo). Por outro lado, viu-setambém, que não há escola que resista ao abandono dos filhos pelos próprios pais. Afalta de estabilidade familiar, de segurança (“os filhos precisam da nossa segurançaquando a deles teima em fugir”), de amor, complica muito a vivência da infância e daadolescência.3
  4. 4. Caracterização da adolescênciaO que é a adolescência?A adolescência é um estádio de transição entre infância e a idade adulta quecompreende a faixa etária dos 11/12 aos 19/20 anos. Durante esta fase vai ocorreralterações significativas a três níveis: orgânico psicológico e social. A adolescênciapode ser dividida em três fases; uma fase inicial situada entre os 11 e os 14 anos(puberdade ou pré-adolescência), uma fase intermédia situada entre os 13 e os 16 anos(adolescência propriamente dita), e uma fase final situada entre os 15 e os 21(juventude), sendo que, em cada uma destas fases os aspectos fundamentais da estruturada personalidade são os físicos, cognitivos e sociais respectivamente (Tavares eAlarcão, 1999).Embora haja maior evolução de um ou de outro aspecto da estrutura dapersonalidade em diferentes fases, esta também ocorre nas fases anteriores e nas fasesposteriores, assim: “Estas fases não são estanques nem independentes. As suasprincipais características encontram-se nas outras fases e interferem na forma comocada uma é ultrapassada” (Manual de PDA, 2004/2005, p.71).O início adolescência altera com o tempo, e isto deve-se ao facto de os fenómenosbiológicos que assinalam este início, dependerem de múltiplos factores como porexemplo: a nutrição, a hereditariedade, o clima, o exercício físico e o estado de saúde. Àtendência que existe para que a maturação física ocorra cada vez mais cedo chama-setendência secular (Sprinthall e Collins, 2003 ).Para Claes (1985), o início da adolescência é mais fácil de definir por se tratar deum “ponto de partida biológico”, ao passo que o encerramento, que consiste na entradado indivíduo na sociedade dos adultos, por ser de natureza cultural, vai ser variávelconsoante o contexto histórico. De acordo com Helena Fonseca (2004), está a verificar-se que a adolescência se prolonga mais no tempo, e uma das razões poderá ser oprolongamento dos estudos e outra a maior dificuldade que há hoje em construir aidentidade.“Alguém designou a adolescência como os «wonder years». A segunda década davida é, na realidade, uma época de charneira, cheia de surpresas, admiração e maravilha.No entanto pode haver momentos de algum desconforto, conflito e angústia […]”(Helena Fonseca, 2004, p.110 ).4
  5. 5. Desenvolvimento físicoAs alterações físicas que ocorrem na fase inicial adolescência e culminam com amaturidade reprodutiva, durante o período designado por puberdade, são sem dúvida asalterações mais visíveis, e por isso, são também capazes de provocar grande tensão eansiedade nos adolescentes, por duas razões: a primeira prende-se com factoresculturais, e a segunda tem a ver com o facto de os adolescentes não entenderem o quelhes está acontecer, assim:“ O adolescente interroga-se o tempo todo sobre a suanormalidade. Vendo os outros diferentes de si, interroga-selegitimamente «Quem será normal, eu ou os outros?».[…] Asalterações a nível físico que ocorrem na adolescência são universais,mas o seu timing é completamente único, ocorrendo ao ritmo de cadaum.[…] À medida que o corpo muda e tudo que rodeia o adolescentemuda, vão surgir sentimentos novos, nomeadamente sentimentoscontraditórios face aos pais.[…] O adolescente precisa de ganhardistância em relação à família, mas sentindo que continua a pertencer aela” ( Helena Fonseca, 2004, p.104 ).A propósito do ritmo de cada um, Sprinthall & Collins (2003) através de umestudo longitudinal, em que seguiram um grupo desde a pré-adolescência até à idadeadulta, concluíram que a maturação precoce ou tardia tem consequências psicológicasmuito importantes. Deste modo, os rapazes com maturação precoce são bem vistos(mais atraentes e mais competentes) pelos colegas, usufruindo destas vantagens até àvida adulta, por oposição aos outros com maturação tardia que se tornaram mais tensose ansiosos. No que concerne às raparigas, as que têm maturação precoce, podem tornar-se menos populares, mais introspectivas, mais inseguras, menos equilibradas e menosexpressivas.Na puberdade ocorre um pico de crescimento, ou seja, há um crescimento ósseo(crescimento alternado, em que primeiro crescem os ossos longos e não todos ao mesmotempo, o que confere aos adolescentes um aspecto deselegante e desengonçado) muitoacelerado que conduz a um salto do crescimento em altura. Posteriormente ocorre umdesenvolvimento muscular que aumenta consideravelmente a força física. Nas raparigaseste “salto em altura" acontece dois anos mais cedo que nos rapazes. A maioria dos5
  6. 6. tecidos acompanham este crescimento acelerado, mas o cérebro não, econsequentemente o crânio também não, o ligeiro aumento que este sofre deve-se aoespessamento dos ossos que o constituem ( Pais Ribeiro, 1990 ).Para além das alterações em altura, ocorre também um conjunto de transformações aonível da forma do corpo (características sexuais secundária) que vai permitir distinguirum corpo feminino (mamas, deposição do tecido adiposo, forma do esqueleto, etc.) deum corpo masculino (distribuição dos pêlos pelo corpo, a voz, o desenvolvimentomuscular, etc.). Ocorre também nesta fase, desenvolvimento dos aparelhos sexuaismasculino (crescimento e alargamento do pénis e do escroto) e feminino (aumento dovolume da vagina), são as denominadas características sexuais primárias (Pais Ribeiro,1990).O quadro 1 mostra a sequência das principais características físicas na adolescência(extraído do manual de PDA, 2004/2005)Quadro 1: Sequência das principais características físicas na adolescência.As hormonas são as responsáveis por todas estas transformações anteriormentedescritas, e na opinião de Helena Fonseca (2004), serão também elas as responsáveispelas mudanças súbitas de humor nos adolescentes.Pode descrever-se o processo hormonal do seguinte modo: o hipotálamo (glândula situada na base do cérebro) produz hormonas que vão estimular a6
  7. 7. hipófise(glândula situada na base do cérebro) a produzir gonadotrofinas (hormonas quevão estimular as gónadas, ovários e testículos). As glândulas sexuais ou gónadas, aoserem estimuladas vão produzir hormonas sexuais masculinas (testosterona) oufemininas (estrogénios) que vão ser responsáveis pelo desenvolvimento dascaracterísticas sexuais primárias e secundárias assim como pelo pico de crescimento(Pais Ribeiro, 1990).Desenvolvimento cognitivoNa fase intermédia da adolescência, o adolescente começa a apresentarcaracterísticas de comportamento distintas da fase anterior, começa a emergir oadolescente pensante. Ocorre a transição gradual do estádio da inteligência operatóriaconcreta para o estádio da inteligência operatória formal (Tavares e Alarcão, 1999).“ O tipo de pensamento característico do pensamento operatório formal échamado pensamento abstracto. É o tipo de pensamento que permite ao indivíduopensar sobre o pensamento e pensar sobre o pensamento das outras pessoas”( PaisRibeiro, 1990, p.62 ).Para Piaget, os indivíduos adolescentes encontram-se no estádio das operaçõesformais, no entanto sabe-se que isto pode não ser verdade, pois muitas pessoas nãoalcançam o estádio operatório formal (Pais Ribeiro, 1990).Sprinthall & Collins (2003), referem uma limitação à teoria de Piaget, que seprende com o facto da transição do pensamento concreto para o pensamento formal serfeito de forma gradual e não abrupta como defende Piaget, até porque um indivíduopode apresentar um pensamento muito desenvolvido numa situação e muito imaturo naoutra (Piaget reconheceu que o pensamento e o raciocínio em determinadas situaçõespodem parecer característicos de estádios anteriores, e noutras de estádios posteriores),assim:“ As imaturidades estruturais podem ser globais afectando asprincipais áreas de desenvolvimento, como a afectiva, a cognitiva,psicomotora ou linguagem ou especificas, dizendo apenas respeito aatrasos numa área em particular.[…].É importante termos a ideia deque apesar de todas as crianças nascerem com um potencial de base,incluindo o cognitivo, só o desenvolvem se houver uma adequada7
  8. 8. estimulação do meio envolvente, independentemente do meio sócio-cultural” ( Pedro Strecht, 2001, p.102 ).O pensamento formal adquirido gradualmente à medida que o adolescente vaievoluindo no seu desenvolvimento (que é qualitativamente diferente em cada estádio) eque se traduz pela capacidade do indivíduo em raciocinar sobre hipóteses (formulamhipóteses sobre coisas que não existem), pela capacidade de operar com operações desegunda ordem (exemplo: sabem que 3x4=12, mas também que 12 está para 3, assimcomo, 4 está para1), pela capacidade de manipular variáveis, e capacidade de tomar aperspectiva dos outros, contribui para o aparecimento de uma característica dopensamento dos adolescentes que atingem este estádio (formal), chamada egocentrismoadolescente (Pais Ribeiro, 1990).“O egocentrismo do adolescente faz com que aquilo que ele(adolescente) pensa no momento, por ser tão importante para si, tenhatambém de ser para os outros. […] Essa incapacidade de se descentrarde si próprio, de ver o ponto de vista dos outros, por vezes surpreende-nos [...]”( Helena Fonseca, 2004, p.82 ).O adolescente considera que vive emoções que mais ninguém viveu, sente-sediferente daquilo que era e diferente dos outros. Está “espantado” com o ele próprio,pelo que algumas manifestações de isolamento podem surgir (sem patologiasassociadas), constituindo uma característica desta fase do desenvolvimento, e por essa“razão a adolescência tem sido descrita por alguns como a fase do armário” (HelenaFonseca, 2003, p. 112).Apesar de terem a capacidade de entender que outros têm pontos de vista diferentesdo seu, e de serem capazes de formular hipóteses sobre possibilidades, os adolescentesnão têm motivação para o fazer, estão voltados para si próprio, a tentar entender asmodificações físicas e comportamentais que têm sofrido ( Pais Ribeiro, 1990 ).8
  9. 9. Desenvolvimento socialNa última fase da adolescência, portanto entre os 15 e os 21 anos, o fenómenomais significativo que ocorre é a integração do adolescente na sociedade adulta, isto é,este adquire o estatuto de adulto, à custa do estabelecimento de novas relações,nomeadamente com os grupos de pares, e também através da alteração das relações jáexistentes como por exemplo com a família.Nesta fase o adolescente vai desenvolver “a capacidade para diferenciar,coordenar e integrar diferentes pontos de vista sobre uma dada situação interpessoal é,pois, a tomada de perspectiva social (TPS)”( Luís Coimbra, 1990, p.19).Perante tantas mudanças, o adolescente tem necessidade de descobrir a suaidentidade e construir a sua autonomia, num jogo de vinculação/autonomia, e é tambémnesta dinâmica que “o adolescente reformula a imagem que tinha criado dos paisdurante a infância “( Isabel Menezes, 1990, p.55 ).Esta fase de procura de identidade, denominada por Erikson como crise deidentidade, pode ser um processo mais ou menos doloroso, e gerador de ansiedade econfusão. Na opinião de Pedro Strecht (2001) os adolescentes com vinculações seguras,vão estar mais predispostos a aprender, a relacionar-se com amigos, estabelecendorelações mais duradouras e estáveis ao longo da vida. Por outro lado: “A necessidadeimensa de oposição que muitos adolescentes têm face aos pais inscreve-se numadificuldade de autonomização” ( Helena Fonseca, 2003, p.104 ).Relativamente aos grupos de pares, estes assumem um papel fundamental nasocialização dos jovens, “pois as interacções com os parceiros do mesmo sexo e do sexooposto oferecem um protótipo das relações que, adultos, eles realizarão no plano social,profissional e sexual” ( Claes,1985, p. 144 ).De acordo com Isabel Soares (1990), há três aspectos fundamentais na relação degrupos de pares: Primeiro, é mais fácil construir um percurso entre iguais, há maisapoio; segundo, as relações com os pais estão em fase de reestruturação; terceiro, sendoesta fase, uma fase de transição para a vida adulta, os adolescentes necessitam deensaiar e experimentar novos papéis, novas emoções e novas formas de se relacionarcom os outros (a esta fase Erikson chamou moratória psicossocial), no entanto, asexperiências tanto são boas como dolorosas, e por isso torna-se importante oenvolvimento entre iguais.9
  10. 10. Desenvolvimento sexualNa fase inicial da adolescência desenvolve-se a parte biológica da sexualidade, e àmedida que se vai avançando no desenvolvimento, há definição da sexualidade doindivíduo em termos culturais ( Sprinthall & Collins, 2003).“ Em termos gerais a sexualidade engloba as emoções, oscomportamentos, e as atitudes que estão associadas não apenas ao sercapaz de procriar, mas também aos padrões sociais e pessoais queacompanham as relações físicas íntimas durante a vida do indivíduo”(Sprinthall & Collins, 2003, p.405).O desenvolvimento das componentes de socialização sexual dos adolescentes,passar por definir uma preferência de um objecto sexual (interesse por indivíduos domesmo sexo ou do sexo oposto), definir a identidade do género (convicção de que se érapaz ou rapariga, sem se limitar à identificação do sexo em termos biológicos) e definiros papéis sexuais (está sempre ligada à identidade do género, é especifica de cadacultura e portanto evolui com a História). Os adolescentes revelam-se muitointeressados pelas questões da sexualidade, o que faz com que na adolescência aaquisição conhecimentos e de valores assuma grande relevância, há um fortedesenvolvimento das componentes de socialização sexual. A sociedade tem tido nestasquestões um papel fundamental. A “prescrição social”refere-se precisamente “àsexpectativas apreendidas e ao significado social associado a certos padrões deactividade sexual, esperando-se que estes padrões sejam apreendidos pelo adolescente ereforçados pelos indivíduos que o rodeiam”. Contudo a principal ( e nem semprecorrecta) fonte de informação dos adolescentes é o grupo de pares, e onde muitas vezesse vivem as primeiras experiências que durante a adolescência vão ser muitas, “podeconsiderar-se na adolescência a oportunidade de uma moratória sexual-afectiva, isto é,um período de namoro, de flirts, dos investimentos amorosos, e das grandes paixões ”(Manual de PDA, 2004/2005).10
  11. 11. Desenvolvimento moralOs três níveis de pensamento moral definidos por Kohlberg, caracterizam-se daseguinte forma: No nível pré-convencional, onde se encontram as crianças e algunsadolescentes, “ para categorizar as suas acções ou as dos outros […] o sujeito refere-seàs consequências físicas da sua acção (punições e castigos), ou ao poder dos queenunciam essas regras de conduta”. No nível convencional “a definição do bem e domal ultrapassa a simples obediência às regras e às autoridades. […] O sujeito concebevalores em si mesmo, independentemente das consequências”. No nível convencional[…] o sujeito distancia-se das regras e define valores em termos de princípiosuniversais, livremente escolhidos ( Luís Coimbra, 1990 ).Por volta dos 13, 14 anos (estádio 2, 3), as questões morais parecem ser encaradasdo ponto de vista materialista (ganhos próprios ou aprovação dos outros). Osadolescentes nesta idade, pela vulnerabilidade pessoal ao nível do juízo moral e dogrupo de valores e pela instabilidade do grupo de referência, tendem a considerarsobretudo as opiniões dos outros, principalmente a do grupo de pares. Por volta os 16,18anos (estádio 3), os valores e juízos morais são ainda comandados pelo grupo depertença do adolescente, visto que este tem interesse em ser admirado e respeitado peloeste, muito embora se reconheça um desenvolvimento de acordo com os estádios dekohlberg. Especificamente durante o ensino secundário, as questões de valores dosadolescentes começam a ter como referência um conjunto de regras e leis sociais(estádio 4) ( Manual de PDA, 2004/2005 ).Os adolescentes a escola e as aprendizagensAo nível dos programas são encontrados dois pontos a enfatizar: um é, osprogramas não responderem aos interesses dos alunos; outro é, a existência de umadesadequação dos programas às capacidades destes.De acordo com Tavares e Alarcão (1999) a escola continua a cometer o erro derealizar tarefas que na maior parte dos casos não servem o interesse dos alunos, isto énão têm em conta as transformações que estes estão a sofrer e que lhes despertam omáximo de interesse.11
  12. 12. “Para Martorano, o pensamento formal emerge durante a adolescência, mas nãopode ser considerado como uma realidade tipicamente deste período.” (Claes, 1985, p.101). De facto, através de estudos, foi possível constatar que apenas um reduzidonúmero de alunos de nível secundário atingiu este raciocínio e que havia umadesadequação dos programas relativamente às capacidades destes (Claes, 1985).Para Pedro Strecht (1999), não é por falta de capacidades intelectuais que ascrianças e adolescentes não aprendem, até porque em algumas áreas possuem muitomais aptidões do que aquelas que são requeridas pela escola, mas sim pelo pesoadverso de factores emocionais. “As capacidades de aprendizagem é uma das primeirasáreas a ficar afectada no funcionamento de uma crianças ou adolescente, sempre quehá uma perturbação emociona” (Pedro Strecht, 1999, p. 197). Na opinião desteespecialista, a inteligência tem um peso hereditário, contudo a estimulação afectiva eemocional (familiar, social, e cultural) e as experiências relacionais que as crianças eadolescentes vivem determinam a possibilidade de desenvolver esse potencial inato. Apropósito deste assunto, Gomes-Pedro deu uma entrevista interessante à revista Pais &Filhos (Ver anexo).Ainda segundo Pedro Strecht (1999), é comum os estados emocionaisperturbados das crianças e adolescentes afectarem mentalmente os adultos que asconhecem, nomeadamente professores, desencadeando nestes sentimentos próximos dossentidos pelos primeiros. Neste caso é imprescindível distinguir o que se passa dentrode si daquilo que se passa com os outros.Para mim, neste processo os pais não podem ser esquecidos. Contudo, por vezes,eles esquecem-se demais. E como escreve Pedro Strecht,“a ausência de responsabilidade parental colide com os mais altosinteresses da criança. Quando se pede à escola que cubra falhas quenão podem ou devem dizer respeito, estão abertas brechas que marcama perversidade do próprio sistema educativo” (1999, p. 205).Determinados factores sócio familiares (p.ex.:mau processo de vinculação aospais) são geradores de dificuldades de separação/individualização acabando por criarconfusão na definição de limites (no próprio interior e de interior com exterior) decrianças e adolescentes, pelo que se torna muito difícil gerir a distância emocional. Aindisciplina na escola tem aqui as suas raízes ( Pedro Strecht, 1999 ).12
  13. 13. Os professores têm também um papel muito importante “ na construção do sucessoou insucesso” do aluno, são as atitudes destes que permitem aos alunos criarem umaimagem de si e agir mediante o que esperam dele. Perante experiências negativas,criam-se expectativas negativas e por um efeito amplificador o aluno entra numprocesso de autodesvalorização (Daniel Sampaio, 1994).A adolescência de HojeA adolescência é, e sempre foi, influenciada pelas vivências de cada época ( por ex.: aGrande Depressão afectou significativamente a forma de viver dos adolescentes deentão). As expectativas, as pressões, não passaram nem passam despercebidas aosadolescentes. E hoje, num mundo em constante mudança, onde reina a agitação, onde osadolescentes passam cada vez mais tempo afastados dos pais comendo “comida rápida”para a seguir se sentar em frente do computador ou da televisão, onde os pais parecemjá não serem capazes de estabelecer limites e regras aos seus filhos (talvez na ânsia deos compensar do tempo em que não estão juntos), onde a família parece ser cada vezmenos o “porto seguro” e cada vez mais o “muro das lamentações”, onde constituir umanova família é cada vez mais difícil, como é que tudo isto se reflecte na vivência daadolescência?Por tudo isto, somos constantemente bombardeados com notícias sobre oaumento do consumo do álcool e outras drogas entre os jovens, aumento de casos deobesidade infantil, aumento dos problemas de comportamento, de delinquência juvenil,etc.Com o prolongamento dos estudos, também “a adolescência cada vez se prolongamais no tempo”, tornando-se mais difícil a construção da identidade, o que é exacerbadopelas sociedades ocidentais, que reforçam o individualismo e portanto não contribuempara a consolidação de um sentimento de pertença. “A não construção da identidadepode manifestar-se por uma dificuldade em encontrar um equilíbrio entre o individual eo colectivo, entre as dimensões publica e privada da vida”. Por outro lado, os ritos depassagem para a idade adulta que existiram em algumas culturas (e na nossa sociedadenão existem) ajudavam a construir a identidade, “o que nos confere a segurança deexistir em nome próprio, a segurança de uma permanência do ser, apesar das13
  14. 14. circunstâncias de vida e de grandes mudanças que, eventualmente, possam ocorrer”(Helena Fonseca, 2004, p. 110).No que diz respeito à maturação física, esta acontece cada vez mais cedo,segundo Sprinthall & Collins (2003), em cada década, a idade em que aparece amenarca diminui cerca de 3 a 4 meses, o que poderá estar a levar a um início daactividade sexual cada vez mais cedo entre os adolescente, sem a utilização de métodosanticoncepcionais, e com todas as consequências que daí advêm como se pode ler noestudo sobre o perfil social, reprodutivo e sexual de adolescentes atendidas emambulatório de ginecologia de São Paulo (Ver anexo).Actualmente, desde muito cedo os pais sobrecarregam os filhos com actividadesde todos os géneros para que se desenvolvam mais, para serem os melhores, ou parachegarem onde os pais não foram capazes. Contudo, expectativas demasiado altas epouco adequadas ao desenvolvimento psico-emocional dos adolescentes podem sercontraproducentes. Pois em vez de lhes ser transmitida uma mensagem de confiança é-lhes transmitido pelos pais o medo de que estes não correspondam as suas expectativas (Helena Fonseca, 2003). Como dizia Mário Cordeiro, no programa do canal 2 Conselhode Estado do dia 14/04/2004, “ cada vez mais encontro adolescentes em consulta quenão querem crescer, motivado pela imagem negativa que os pais lhes transmitem sobreo que é ser adulto.[…] Se eles (pais) sabem que todos os dias vão encontrar fila noIC19, porque é que em vez de sistematicamente ligarem o rádio para saberem otamanho da fila e começarem a martirizar-se (e aos filhos também), não aproveitam paraconversar com os filhos que vão no banco de trás”.Como foi referido anteriormente, alguns autores descrevem a adolescência como a“fase do armário”, pelo facto de nesta fase poderem ocorrer fenómenos de isolamentosem patologias associadas, mas a dificuldade reside exactamente em distinguir onde“acaba a sensação de estar chateado e começa a depressão”. O suicídio, dependendo dascasuísticas, oscila entre a segunda e terceira causa de morte na adolescência, cujascausas se devem a : separação dos pais, perda ou separação de alguém, incapacidade decorresponder às expectativas, baixa auto-estima, alcoolismo, consumo de drogas, etc.Os sintomas são vários, (sensação prolongada de cansaço inexplicável, sensação deinsucesso, de que não se vale nada, dificuldade em adormecer, dores com as maisdiversas localizações e com carácter rotativo, etc.) e os professores estão numa posiçãoprivilegiada para os detectar como refer Helena Fonseca em entrevista aoEDUCARE(Ver anexo)(Helena Fonseca, 2003).14
  15. 15. O uso da internet por parte dos adolescentes para “longas conversas” com osamigos e com os menos amigos também, é cada vez mais frequente. Pelo que PedroStrecht (2003), alerta para a necessidade que há em combater a fragilidade daqueles quearriscam no desconhecido, através de relações virtuais, aumentando a riqueza e aqualidade das relações afectivas e emocionais das suas vidas. Por outro lado as relaçõesvirtuais não são tão completas como as relações humanas, “não há leitura emocional queé paralela mas também transcende a comunicação escrita”. Na opinião de HelenaFonseca (2003), “muitos adolescentes vivem presos nas rédeas do universo virtual”muitas vezes para substituir a ausência de um adulto. Estes substitutos sãoempobrecedores porque tiram à criança a possibilidade de colmatar esta ausência deuma forma criativa. No que diz respeito à utilização prolongada de Game-Boy, estepode levar o adolescente a achar que praticar desporto na vida real é frustrante e difícilperante tanta facilidade que encontra no écran. E por outro lado “para que o adolescentedesenvolva o pensamento abstracto é importante que imagine o que está ausente, o quese torna difícil face à limitação da fixação na imagem”. Há ainda a considerar aqui aquestão da violência que entra constantemente pelo écran.Os adolescentes vivem cada vez mais a noite até mais tarde, agora até seprolonga até ao dia nas «afterhours» e os pais assistem sem capacidade de negociarhoras aceitáveis de os filhos chegar a casa, a não ser quando notícias de acidentes deviação com jovens os atormentam. Ao que parece, Portugal nesta questão apareceisolado, “não há país nenhum onde os adolescentes tão novos vivam uma noite tãotardia”. Esta vivência nocturna está ligada aos grupos de pares, onde os adolescentespretendem ser aceites, onde a sua identidade se dilui, vestindo-se, falando ecomportando-se da mesma maneira ( Helena Fonseca, 2003).O consumo de drogas tem aumentado entre os adolescentes, e para Pedro Strecht(2001) o que estes adolescentes têm em comum é uma fragilidade narcísica “originadapor uma insuficiência afectiva ou por uma falha sentida entre aquilo que se recebeu etem e aquilo que se deseja ou quer”. Em todos há uma sensação de vazio e um desejo deo preencher, muitas vezes consumindo drogas. E depois da primeira sensação deplenitude, de bem-estar, querem mais outras, e surge a dependência. Depois, “dependeduma intervenção precoce, da força do que para trás e no momento existe de ligaçõespositivas à vida, como a qualidade de experiências emocionais, a consistência dafamília, o círculo de amigos…”15
  16. 16. A exposição quase telegráfica dos problemas da adolescência de hoje, deve-se aofacto de estes serem bastantes e terem muitas consequências, e o seu desenvolvimentoultrapassaria os limites deste trabalho.Discussão sobre ideias relevantes/conclusãoA adolescência começa na infância e é a qualidade desta que vai determinar emgrande parte a maneira como o adolescente vai viver os seus «wonder years»” ( HelenaFonseca, 2004, p. 110). A segunda década da vida nem sempre é problemática a ponto denecessitar de intervenção clínica, contudo necessita de ser compreendida para quepossamos ajudar os adolescentes a viver “num equilíbrio dinâmico. Tal como quando seaprendeu a andar de bicicleta e se percebeu que é em andamento que nos vamosequilibrando. É na dinâmica do desequilíbrio que se encontra o equilíbrio.” (HelenaFonseca, 2004, 82)De resto já se sabe que “muitos adolescentes correm para o risco”, há por vezesuma “associação no mesmo adolescente de diferentes tipos de risco”, e embora aadolescência seja uma fase de experimentação, esta pode ser feita com limites. Contudo,parece que os adolescentes que mais procuram o risco, são os que têm baixa auto-estima, que ainda não aprenderam a gostar de si, que têm medo de ser eles próprios, eportanto quanto mais frágil for o adolescente mais necessidade tem de se proteger eparadoxalmente tem mais necessidade de se envolver em comportamentos de risco,provavelmente para se pôr à prova e ser aprovado pelo seu grupo de pares, queassumem uma importância fundamental, dado que “ao ser integrado pelo grupo a suaauto-estima vai sair reforçada” (Helena Fonseca, 2003).Relativamente à escola, penso que a solução para alguns problemas (pelo menosos que são causados pelo próprio desenvolvimento) que existem com os alunos, passepor fomentar actividades desportivas. Tal como refere Pedro Strecht as vantagem sãoimensas. (Ver anexo)Para concluir diria que o factor que me parece preponderante para a instabilidadedas crianças e adolescentes é a falta de apoio da família. Ou porque não há tempo, ouporque o tempo é de fraca qualidade. Pedro Strecht, refere um poema em que AlexandreO`Neill escreve: «O amor continua muito alto/ Muito acima, muito fora da vida, muito16
  17. 17. raro/ E difícil (O amor) devia ser fiel/ Fiel em cada dia/ Paciente e natural em cada dia/Profundo e ao mesmo tempo aéreo/ Verde e simples/ Como uma árvore.»17
  18. 18. Bibliografia- Campos, B.P. (Org.) (1990) Psicologia do desenvolvimento e educação de jovens.Vol. I Lisboa: Universidade Aberta.- Claes, M. ( 1985 ) Os problemas da adolescência. Lisboa: Verbo.-Costa-Paiva, L., et al (2004). Perfil social, reprodutivo e sexual de adolescentesatendidas em ambulatório de ginecologia. Revista de Ciências Médicas.4, 298–305.- Fonseca, H., (2003) Cresce & aparece. Pais & Filhos, 146, 104.- Fonseca, H., (2003) Cresce & aparece. Pais & Filhos, 147, 106.- Fonseca, H., (2003) Cresce & aparece. Pais & Filhos, 148, 126.- Fonseca, H., (2003) Cresce & aparece. Pais & Filhos, 149, 112.- Fonseca, H., (2003) Cresce & aparece. Pais & Filhos, 150, 112.- Fonseca, H., (2003) Cresce & aparece. Pais & Filhos, 154, 106.- Fonseca, H., (2003) Cresce & aparece. Pais & Filhos, 155, 104.- Fonseca, H., (2004) Cresce & aparece. Pais & Filhos, 157, 82.- Fonseca, H., (2004) Cresce & aparece. Pais & Filhos, 158, 110.- Manual de Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem (2004/2005).Universidade de Aveiro.- Menezes, I., (1990). Desenvolvimento no contexto familiar.In B.P. Campos (Coord.)Psicologia do desenvolvimento e educação de jovens. Vol. II. Lisboa: UniversidadeAberta.- Ribeiro, A., (1990). Desenvolvimento físico. In B. P. Campos (Coord.) Psicologia dodesenvolvimento e educação de jovens. Vol. II. Lisboa: Universidade Aberta.- Sampaio, D. (1994). Inventem-se novos pais.( 2ª Ed. ). Lisboa: Caminho.- Soares, I.,(1990). O grupo de pares e a amizade. In B.P. Campos (Coord.) Psicologiado desenvolvimento e educação de jovens. Vol. II . Lisboa: Universidade Aberta.- Sprinthall, N.A., & Collins, W. A., (2003). Psicologia do adolescente: umaabordagem desenvolvimentalista . (3ª Ed.) Lisboa: Gulbenkian.- Strecht, P. (1999). Preciso de ti. Perturbações psicossociais em crianças eadolescentes. Lisboa: Assírio & Alvim.- Strecht,P.(2001). Interior. Pais &Filhos, 121, 90.-Strecht,P.(2001). Interior. Pais &Filhos, 123, 82.-Strecht,P.(2001). Interior. Pais &Filhos, 128, 102-Strecht,P.(2002). Interior. Pais &Filhos, 134, 96.18
  19. 19. -Strecht,P.(2003). Interior. Pais &Filhos, 147, 76.- Tavares, J. & Alarcão, I. (1999). Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem.Coimbra: Almedina.19
  20. 20. Anexos20
  21. 21. 8.º Congresso de Medicina do Adolescente11.04.2005De 11 a 14 de Maio, Lisboa acolhe especialistas de todo o Mundo num evento em que se vai discutir omundo do adolescente.Lisboa acolhe nos próximos dias 11 a 14 de Maio o 8.º Congresso Internacional de Medicinado Adolescente, organizado pela International Association for Adolescent Health. O eventorealiza-se de quatro em quatro anos e reúne os maiores especialistas mundiais em saúdeadolescente.Helena Fonseca, médica e presidente do comité de organização, destacou ao EDUCARE.PT asmais-valias para Portugal por acolher este encontro. "O congresso vai reunir os maioresespecialistas mundiais em adolescência, pessoas que estudam há muitos anos estaproblemática. Penso que é importante investir na formação dos professores nesta área e estecongresso será uma oportunidade única para os professores interligarem com osprofissionais de saúde e actualizarem os seus conhecimentos", sublinhou a coordenadora daconsulta de adolescentes do serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria.O encontro - que se realiza no Centro Cultural de Belém - é subordinado ao tema "PositiveYouth Development - Empowering Youth in a World in Transition" e será composto por seissessões plenárias dadas por especialistas de renome. Nestas palestras serão debatidas,nomeadamente, as questões da resiliência e os factores protectores no desenvolvimento doadolescente a vários níveis.Os temas mais prementes ligados à adolescência serão abordados ao longo de 55 workshopse 75 apresentações feitas por médicos, professores e investigadores oriundos de mais de 25países. De Portugal participam, entre outros, Mário Cordeiro, Gomes-Pedro, Pedro Strecht eDaniel Sampaio.O evento destina-se a professores mas também a médicos, enfermeiros, psicólogos, técnicosde saúde, investigadores e estudantes.As inscrições podem ser feitas através da Mundiconvenius ( 21 364 94 98), que tambémdisponibiliza o programa do congresso, que tem como patrocinadores institucionais, entreoutros, a Sociedade Portuguesa de Pediatria, a Câmara Municipal de Lisboa e a FundaçãoCalouste Gulbenkian.21
  22. 22. PEDRO STRECHT E A IMPORTÂNCIA DO DESPORTO22
  23. 23. ENTREVISTA A GOMES-PEDRO POR LAURINDA ALVES23
  24. 24. 24
  25. 25. 25
  26. 26. Consultas para adolescentes30.03.2005A "idade do armário" é complexa e muitos adolescentesnecessitam de apoio clínico para vivê-la. Helena Fonseca,responsável pelo serviço de consultas de adolescentes doHospital de Santa Maria, defende mais estruturas para o seuatendimento.Em entrevista ao EDUCARE.PT, Helena Fonseca, coordenadora da consulta de adolescentes doserviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria, defende que os pais devem demonstrar afecto edisponibilidade, mas impondo regras e limites.EDUCARE.PT: O que leva um jovem a uma consulta de adolescentes?Helena Fonseca: Nas nossas consultas atendemos adolescentes dos 10 até ao final dos 18 anos.São adolescentes que, em princípio, já foram a um centro de saúde e que por apresentarem umasituação que o médico de família considerou que necessita de cuidados mais especializados foramreferenciados para o nosso serviço. Neste momento, o serviço de urgência do Hospital de SantaMaria é a nossa principal fonte de referenciação. Se um determinado adolescente que está a serseguido noutra especialidade apresenta uma problemática que se insere no tipo de atendimentoque fazemos, essa situação é-nos referenciada. É o caso, por exemplo, de um adolescente que éseguido na endocrionologia por um hipertireoidismo e que chega à adolescência com problemasde adesão à terapêutica: esquece-se de tomar a medicação ou recusa-se a fazê-lo porque seacha diferente dos outros.E: Essas patologias são próprias da fase de desenvolvimento que estão a viver?HF: Existem patologias que são, de facto, particularmente prevalentes na segunda década davida. A patologia dermatológica (acne) tem um peso muito importante, assim como todas asdúvidas relacionadas com o desenvolvimento pubertário e o crescimento: "Será que o meudesenvolvimento se está a processar a um ritmo acelerado ou lento demais, será que sou igualaos pares da minha idade e do mesmo sexo, será que o período ainda vai tardar muito achegar?".Também são recorrentes as questões do foro ginecológico (dismenorreias, dores menstruais,alterações do fluxo menstrual), as obesidades e as grandes magrezas - inscritas ou não naanorexia nervosa -, assim como casos de alterações de comportamento, que são habitualmentetransitórias e que se prendem com a fase de desenvolvimento em que o adolescente se encontra.Existem outros casos de dificuldades de comunicação com a família, nos quais tentamos seragentes facilitadores dessa comunicação.E: A própria adolescência não pode ser vista como algo de linear…HF: A adolescência contempla três períodos: dos 10 aos 13, dos 13 aos 16 e dos 16 aos 19 anos.Estas são fases relativamente distintas em termos de características e no que diz respeito àautonomia, à construção da identidade e ao desenvolvimento cognitivo. No 1.º e 2.º períodos, oconhecimento formal do adolescente não está completamente alicerçado e portanto ele ainda nãoé capaz de estabelecer raciocínios lógicos e abstractos em pleno. Fruto também dessa limitação,não é capaz de verbalizar um sofrimento psicológico e, como tal, acaba por se expressar atravésdo corpo. Queixas como "dói-me a barriga" ou "dói-me a cabeça" são muito frequentes ao níveldo serviço de urgência e invariavelmente canalizadas para as consultas de adolescentes.E: Que tipo de preocupações e de dúvidas apresentam os jovens na última fase daadolescência?26
  27. 27. HF: Nessa fase estão a caminhar para uma identidade já construída, são miúdos maisautónomos, responsáveis, aos quais se colocam as questões da escolha da carreira. Do ponto devista da afectividade, o comportamento já é muito mais próximo do comportamento de umadulto, pelo que as relações perduram mais no tempo. Em termos da família, é uma fase em quejá não existe tanta fricção. A fase média da adolescência, entre os 13 e os 16 anos, é descritacomo a mais crítica na relação com os pais. São anos em que há um afastamento dosprogenitores, que tende a inverter-se no final da adolescência ou no início da juventude.E: O tempo de espera de uma consulta de adolescentes é demorado?HF: Não penso que seja muito demorado, por vezes desconhece-se é a sua existência. Quandohá necessidade de iniciar uma psicoterapia, como se trata de um seguimento longo, aí sim, émais difícil em termos de escoamento fazer a ponte para os serviços de saúde mental.E: A maioria dos adolescentes vai à consulta com os pais ou sozinho?HF: A maioria vem com os pais, embora tenhamos sempre um atendimento individualizado doadolescente. Esta é uma das características essenciais do atendimento: que haja um espaço eum tempo reservados para o adolescente a sós com o técnico de saúde.No caso dos adolescentes que nos são referenciados por escolas, muitos vêm acompanhados porpessoal da escola ou pelo treinador do grupo desportivo, ou seja, pela pessoa que estavapreocupada com eles e que resolveu fazer a ponte com o serviço. Os mais velhos e aqueles quejá estão a ser seguidos há algum tempo são mais autónomos e costumam vir sozinhos.E: Em média, qual é a duração do acompanhamento clínico de um adolescente?HF: A duração é extraordinariamente variável. Situações pontuais, em que o sintoma não estáexcessivamente cristalizado, resolvem-se muitas vezes com duas, três sessões, findas as quais oadolescente retorna ao médico de família. Depois há situações mais longas, nomeadamente asque exigem psicoterapia.E: Segundo o professor Daniel Sampaio há uma ideia generalizada, ainda que errada,de que a adolescência é obrigatoriamente uma fase problemática, quando apenas 15%dos jovens desenvolvem uma patologia digna de intervenção clínica. Concorda?HF: Concordo plenamente com essa visão mas eu não diria "apenas 15%" - 15% de adolescentesque necessitam de intervenção clínica é muito! E é muito sobretudo tendo em conta que nãotemos muitos serviços vocacionados para o atendimento a este grupo etário.Os serviços que existem não são suficientes para atender com qualidade a população adolescenteque necessita de apoio, embora a panorâmica tenha evoluído positivamente nos últimos anos.E: Que serviços são esses?HF: Há muitos centros de saúde com consultas de adolescentes e há centros de atendimento aadolescentes ligados aos cuidados de saúde primários. Muitos hospitais também já têm consultasde adolescentes a funcionar, ao nível dos serviços de pediatria. Na zona de Lisboa existem naEstefânia, São Francisco Xavier, Amadora e Garcia de Orta. O mesmo sucede, por exemplo, noshospitais de Viseu, Évora e Porto.E: Esse tipo de intervenção também poderia ser feita nas escolas?HF: Há especialistas que defendem que deveria haver na própria escola um gabinete deatendimento e há outros que entendem que devia existir uma melhor ligação entre as escolas eos vários grupos que atendem. Há quem não goste muito de ver os gabinetes de atendimentoinseridos na própria escola porque de algum modo isso estigmatiza o aluno que lá vai e osadolescentes gostam de preservar o seu anonimato.Penso que as duas concepções são válidas, há é que perceber que modelo funcionará melhor no27
  28. 28. nosso País.E: Os docentes portugueses têm formação adequada para identificar os adolescentesque requerem acompanhamento clínico?HF: Muitos professores já estão bastante alertados para o tipo de problemas mais prevalentes naadolescência. Penso contudo que deveria existir um maior intercâmbio de formação entreprofessores e profissionais de saúde, de modo a que a referenciação por parte dos professoresfosse ainda mais eficaz e generalizada. Porque efectivamente os professores estão numa posiçãoprivilegiada para detectar precocemente determinadas situações, nomeadamente as alteraçõesde comportamento alimentar. A par da família, a escola é, de facto, a arena importante nestaligação que os serviços de saúde têm de fazer com outros parceiros.E: De que forma é que os progenitores podem ajudar os filhos a viver tranquilamente aadolescência?HF: É extraordinariamente importante que a família ajude a promover a autonomia doadolescente, que não o controle demasiado, mas que simultaneamente saiba estabelecer regras elimites. Os pais devem mostrar afecto, muita disponibilidade, mostrar que estão lá, permitir queo seu filho se desenvolva autonomamente - porque sem autonomia não há adolescência - masfornecendo em simultâneo alguma estrutura, para que o desenvolvimento se possa efectuar daforma mais harmoniosa possível.Tudo isto tem razões do ponto de vista científico: o córtex pré-frontal é a zona do nosso cérebroque permite tomar decisões, planear a médio e longo prazo, saber escolher. O que acontece éque o seu desenvolvimento só está terminado por volta dos 25 anos, o que significa que não é sóa mania do adolescente de dar connosco em doidos. Por vezes não cumprem horários ou nãosabem planificar o seu trabalho a nível da escola porque, de facto, ainda não têm essacapacidade. E nós temos de os ajudar.E: As consultas de adolescentes podem ajudar também os pais nessa tarefa?HF: Damos sempre um pouco de apoio aos pais na educação dos filhos, mas obviamente queesta é uma matéria que ultrapassa o âmbito dessas consultas. Daí que eu veria com muito bonsolhos a existência de grupos de suporte nas juntas de freguesia, nos vários serviços de cuidadosde saúde primários, nas associações de pais nas escolas, onde os pais de adolescentes pudessemdiscutir, entre eles, estas questões.E: Muitas das complicações que surgem na adolescência têm as raízes na infância?HF: Determinados comportamentos não começaram, de facto, de um dia para o outro. Já vêm detrás, e aí vale muito a pena que os pais que têm filhos pequenos façam desde cedo um trabalhode prevenção de alguns comportamentos. Nomeadamente na questão das regras e dos limites: émuito importante que uma criança saiba aceitar um "não" sem ficar revoltado, percebendo queos pais ou os professores estão ali para ajudar. Esta é uma área em que desde pequeninos sepode fazer bastante, no sentido da criança não chegar à adolescência com uma incapacidadecompleta de aceitar regras.PERFILHelena Fonseca é médica e coordenadora da Consulta de Adolescentes do Serviço de Pediatria doHospital de Santa Maria. É presidente da Secção de Medicina do Adolescente da SociedadePortuguesa de Pediatria e vice-presidente da International Association for Adolescent Health.Depois de "Compreender os Adolescentes - um desafio para Pais e Educadores", prepara-se paralançar, em Maio, "Viver com Adolescentes". A obra pretende ajudar os pais a perceber quecomportamentos são, afinal, normais nos filhos e outros que lhes passam despercebidos mas quevale a pena agarrar, de modo a prevenir comportamentos de risco.28
  29. 29. Anexos29

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