Olhar e ver esta peça é entrar no âmago da pintura

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Olhar e ver esta peça é entrar no âmago da pintura

  1. 1. Sobre a pintura de Maria João Franco"Olhar e ver esta peça é entrar no âmago da pintura, é perceber-lhe acarne e a palpitação. O que o século XX trouxe para o domínio dasartes, além da sua destruição, foi a gratificação e a reinventar, arran-cando-lhe novos símbolos e perturbantes reconstruções.Hoje, a carne da pintura pendura-se do gancho do imaginário, plural,convivente, desde a tela lisa aos mares tormentosos onde flutuam osdestroços da nossa civilização. Entre estes seres rochosos, cúmulos daadversidade e da aventura dos materiais semi-livres."de Rocha de Sousa Cristo para o altar de todos os Espantos
  2. 2. OLHARESRocha de SousaMaria João FrancoCORPO TANGÍVELA certa altura da vida, Maria João Franco sentiu o seu corpo partido em dois, entre umsilêncio frio e um fact0 lancinante. Metade de si soçobrava com a morte de alguém. E a outrametade, ardente e tangível, teve de abraçar toda a vida já vivida, além da que estaria parase acercar de si, a cobrar-lhe as contas do presente e do futuro. O sonho de então foisimultaneamente tumular e sangrento, sobretudo através de uma pintura que tinha de serfeita, assim, segundo o protesto surdo do medo, na solidão e na intransigência das imagens. Épor isso que ela parece ter fixado um estilo, um imparável modo de formar.Maria João vive, digamos assim, uma ancoragem inabalável à memóroa do corpo que aindalhe resta e que representa, afinal, dos ângulos mais difíceis, na vertigem mais insuportável,assumindo todas as diferenças e todas as semelhanças com a matéria orgânica, os metaisbrutos, a pedra cinzelada de forma a sugerir diversos pontos de decomposição e restos aindalisos da pele. Pele por vezes amaciando músculos aquém das mutilações pressentidas oumesmo expostas.Esta prioridade conferida ao discurso matérico, de alguma violência, tem de se compreendera montante e na hora em que a escolha está contida num espaço restrito, no estreitamentoda dor. Fazendo da sua metade anímica um projecto de vida, um modo de se exprimir pelatotalidade, Maria João abriu à força das mãos um caminho ao mesmo tempo preciso masquase insustentável nas insistentes dilacerações. O corpo era assunto e era tema, minuto dosinstante tangíveis em que tudo se duplicava pelas entregas, um abraço de desejo, de partilha,exposto como nudez escultórica, bronze ou pedra, tudo vertido para a palpitação textural dapintura — medida, tempo, angústia. Os meios de instauração plástica traduziam, assim, umaampla oratória dos gestos, grafias insondáveis, recortes perceptíveis, o habitual e antigodesafio da expressão aos limites da percepção. Mas o sofrimento e a grandeza destacam-se damassa, presos no campo como os contrastes da forma fingidamente inacabada dos «Escravos»,de Miguel Ângelo.Os nomes intensos e humanosMaria João Franco não tem sido eleita entre os eleitos, apesar da sua obra juntar tradiçõesmodernas com nomes intensos, com valores de um profundo sentido do humano. Hoje voltama ser louvadas as «histórias», em contradição com a anterior exigência incontrolável da formaabstracta: porque os restos figurativos da perplexidade e da revolta já só tinham lugarmuseológico e nenhum futuro à vista. Quem retratava ou representava, fazia bonecos,circunscrevia-se ao pior da tradição, pequeno discurso de narrativas ilustradas. Mas asideologias da estética totalitária mão tinham verdadeiro cabimento no domínio das disciplinasde índole artística, porque, como já tenho sublinhado, a arte não se realiza sob o império dosdogmas nem se encerra num só tamanho da verdade na variedade. Todos os modos de darforça expressiva à comunicação pelas imagens, por exemplo, são processos de um fazerentregue ao imaginário, tornando os sonhos coláveis ao real para o «tornar visível». E as artesmais se abriram à inovação, a matérias e formas surpreendentes, inundando o espaço socialde uma grande harmonia de discursos não coincidentes. Isso dá nome à civilização queentretanto se globaliza e aceita fazer-se sobre o fio da navalha.Na sua consolidação tremendista, a pintura de Maria João Franco pratica uma certaconvocação rochosa do corpo humano — ou do corpo simplesmente. Dois caminhos têmconfluido para isso, a dor da perda e graves impressões do exterior, encontro que sempreacabou por devolver às mãos da pintora fragmentos amassados na devidamaturação, corpos recuperados sob o impulso da vontade poética, entre a morte e a vida.
  3. 3. Corpos míticos, também, sonho transitado de alguma Renascença, memória problematizadados clássicos e dos avanços expressionistas que se expandiram pelo século XX todo. O que setraduz em testemunho, em grito, em dilaceração, com a manipulação do gesto e das matérias(líquidas ou substanciais) por forma a ocupar o campo de presenças ao mesmo tempo carnaise de pedra. Fusão de metais igualmente, embora a verdade técnica se determine sobretudono domínio da pasta acumulada sobre esboços gráficos ou já pulsantes e líquidos.um trajecto de coerência e forçaA forma plástica em Maria João Franco assenta, além de tudo, numa sedentarização positiva,de núcleo tormentoso, e desenha no espaço um trajecto de coerência, de proximidadesignificante entre as peças, o que determina grande continuidade das várias presenças, umainusitada força nas massas pictóricas, de cor surda, onde por vezes um fio de sangue aflora,ou até na pele falsamente envelhecida sob a sua intocável frescura. De perto, visível a maiordistância, nítido ou desfocado, quase metalizado, aparentemente escultórico, o corpo(assunto-tema) lembrado e representado por Maria João Franco é fruto de uma importanteconquista em termos de discurso, na obstinação, na recuperação da imagem e da ideia — aliberdade do fazer, em suma, num aparente paradoxo que liga e desliga a memória dorida docorpo partido em dois e a necessidade de sublimar a brutalidade obscena dessa injustiça.Porque a liberdade de que a autora dá importantes provas, da metodologia escolhida aosmateriais de instauração plástica,não significa que ela esteja isenta de pensar o modo de formar, quais as razões da força aopetrificar-se, ao escorrer como tinta de facto, que objectivos aí se envolvem, que limites eregras assistem à própria amputação anatómica. Na verdade, Maria João sabe perfeitamenteem que condições está a agir e o que lhe sobra de talento depois dos cortes de acerto, daspessoas que premeia: ela cria processos de catarse para si mesma, sabendo, entretanto, queestá processando um legado a alguém, com a marca de que as obras, no futuro, terão deconter um inalienável testemunho de vida.OBRA ENQUANTO VIDAFoi numa espécie de silêncios ensurdecedores que Maria João Franco sobreviveu, emergiu várias vezes, e soltaagora, ao expor mais uma vez, o seu grito de intransigência perante as «forças» que carreiram modos, modas,os autores e ordens em vigor, com frequentes violações do trabalho independente, para a constelaçãointernacional, sucesso a termo, porque outras barreiras selectivas e obscuras existirão neste século.Desdelonga data que Maria João Franco foi dando prioridade a um discurso matérico e de alguma violência,proferido entre uma abstracção de teor expressionista e a convocação rochosa do corpo humano — ou do corposimplesmente. Passo a passo, o seu imaginário recebia impressões graves do exterior, da experiência exógena,acabando por devolver às mãos da pintora fragmentos amassados na devida maturação, coisas endógenas,reanimações poéticas da morte e da vida. Tais verdades interiores, sempre em transformação mas nunca emruptura, contrariavam o terreno minado pela cultura urbana, formações espúrias, filiação nos concursosrápidos ou guerra dos prémios. Com a sua arte reaprendemos algumas versões de valor porventura romântico,até de raiz na memória dos clássicos problematizantes, a par de uma afirmação expressionista (da mesmamágoa) assente mo testemunho de outros renascimentos e no sentido da revolta. A manipulação do gesto,abarcando logo grande parte do campo, entra depois no domínio da pasta, matéria acumulada sobre esboçoslíquidos. Alguns dos quais parecem despontar propositadamente nas zonas onde a autora preferiu aderir àtransparência e por vezes, quando acha necessário conter a catarse, a decisão de aplicar mansas velaturassobre troncos antropomórficos duros, brutais, escultóricos. Essa aparente moderação lírica avança com umbrilho baço sobre aquelas carnações decepadas, de largas texturas e aparência lítica. Esta busca, algoarriscada, passa por matérias e cores sobretudo acinzentadas, exprimindo de facto a pedra da escultura queevoca o corpo, é um trabalho quase contínuo, quase sisifiano, princípio e fim de um todo que também nospertence, embora sempre nos escape. Anunciada assiduamente pela sua diversidade, o percurso coerente deMaria João Franco parece abalado, sem que as suas bases se ressintam, dado que esse ponto de vista implicadiferença, a simbiose entre diferença e semelhança, o que, apesar de todos os paradoxos, confere uma forçainusitada a estas massas onde algum fio de sangue aflora, e mesmo nos casos em que a autora representa (na
  4. 4. boa memória académica) os nus falsamente envelhecidos na sua intocável frescura.A forma plástica, em MariaJoão Franco, recupera do espaço da memória, da própria dor, com obstinação, a ideia e a imagem do corpo,mesmo quando este não se aperta entre os limites do campo e se projecta gestualmente no espaço. Aliberdade do fazer, no acesso a qualquer metodologia e materiais próprios, não isenta o formador de pensarquais as razões da sua luta, quais as razões do seu objectivo, o que implica a criação ou aceitação de limitesou regras. Maria João sabe perfeitamente essa condição, porque a condição sobra mesmo quando traída comtalento. Neste caso, a pintora está sobretudo ao serviço de si mesma, legando a alguém, a verdade da obra serum destino de vida.ROCHA DE SOUSA _2010MARIA JOÃO FRANCOConheci Maria João Franco como aluna da Escola de Belas Artes, numa altura em que, paraalém dos alunos em idade escolar, esta era procurada por muitas pessoas que, ou paracompletarem habilitações ou porque sempre tinham tido um desejo secreto de se tornaremartistas, a procuravam. Maria João vinha dum curso de Arquitectura no Porto, masefectivamente a pintura era o seu caminho. Desde então, tenho seguido com algum interessea sua carreira de artista – mulher – com uma continuidade que nem sempre se encontra nomeio das artes plásticas no feminino, não obstante as vicissitudes que a vida lhe temdeparado.A sua arte é uma arte sofrida, que se a quisermos classificar será deexpressionismo, um expressionismo matérico em que o tema dominante é o corpo.Expressando-se através da pintura e do desenho, numa forma que se afasta decididamente dequalquer representação académica, embora o seu ponto de partida seja, efectivamente, omesmo – o corpo nu – nos seus corpos contorcidos, dolorosos, por vezes apenas evocadosnuma linguagem quase abstracta, sente-se o pulsar de alguém que não tem tido um percursode vida fácil.Os seus nus não são eróticos – pelo menos não os sentimos assim – mesmo quandoos títulos das obras o podem fazer supor (Intimidades). Mulheres, muitas vezes assim aspercebemos pelos seios caídos de mulheres maduras, pela zona púbica aflorada, por vezesapenas fragmentos evocativos de um corpo – e por isso falamos de uma quase abstracção –evocam essencialmente dor, muitas vezes de evidência física que não é mais do queexpressão de uma dor da alma.Nesta exposição, como acontece na sua obra, aborda tambémoutros corpos, quase silhuetas, de animais, dificilmente identificáveis, talvez feridos, queequacionam memórias pré-históricas no observador (Bestiário). Podem ser cães, lobos – nãotemos a certeza – mas participam certamente da mesma dor dos humanos.A opção pela formado tríptico apresenta-se como uma solução original, de acentuado ênfase religioso, em queduas formas de pintar - a do painel central mais densa, mais escura, também mais dramática– em contraste com as abas, de tonalidades mais suaves, evocando processos do desenho, mastambém o contraste dos antigos trípticos do final da Idade Média, entre a cor intensa dopainel central e as grisalhas das abas. Os nus das abas, em pose contorcida, trazem por suavez à memória não a pintura medieval mas Ignudi miguelangelescos, portanto uma época detensões mais acentuadas, talvez como a nossa (Retábulo para o altar dos espantos).Há umcerto barroquismo na obra de Maria João Franco, pelos jogos de claro-escuro, pelos toques devermelho que evocam martírios contra-reformistas, mesmo pela densidade matérica que asua pintura normalmente demonstra. Maria João é também poeta, aliás quer através dapalavra, quer da imagem, a sua obra é poesia no sentido pleno da palavra e aqui não temosde citar Horácio – ut pictura poesis – porque afinal as duas formas emergem paralelamente daactividade criadora da artista.Dra. Margarida Calado,Historiadora, Professora da Faculdade de Belas Artes da Faculdade de Lisboa
  5. 5. A sua pintura faz-me sempre lembraros mitos da dor, uma espécie de destino castigo, como em Sísifo ou Prometeu, paranão falar da urdidura permanente de Penélope, algo que se faz e desfaz na espera dealguèm e para afastar os assediadores.O destino tocou-a (ou Deus) e a sua dor (mesmo que a não sinta) vem pelo«expressionismo romântico» marcar cada peça que faz. Esta figura petrificando-seserá assim, um dia, transforada em perda,grandiosa mesmo na morte.Rocha de Sousa
  6. 6. Contemporary Portuguese Artists: MARIA JOAO FRANCODuring her 40 years of career, Maria João Franco has become an intransigent pursuerof interior truth and liberty, being an artist in constant changing yet managing toremain true to herself.Maria João Franco marks the contour, captures the movement,turns into reality an idea, within a pictorial imagery which gained her a noteworthyplace in the Portuguese Fine Arts.Her art is deeply connected with the body, be iteither the human body or the body of things.There is a warm and tender involvementin her paintings which figurates our condition, and which confers harmony andbeauty to the triviality of the ordinary life.Her painting, in which rhythm is a stylisticelement, declares the autonomy of colour, of utmost importance.It is a painting ofimmediate gesture, of capture of space, of the vanity of existing, by restoring thelost childhood and creating a new way in which we look at things.Maria João Franco’s art is extremely sensitive to the fluidity of the languages of theforms, to the strong materiality of the colour, to the force and charm of its evasionand its ecstasy. It is a fascinating and wonderful journey, both spiritual as well astechnical.Therefore, her works are the materialization of feelings of longing, dreams, andbecame important notes in the Contemporary Portuguese Painting.The devotion and commitment of Maria João Franco reveal to us the definite factthat we stand in the presence of a great painter, an excellent artist, recognised assuch not only in Portugal, but also abroad.
  7. 7. Flowers of MouldBy Bianca Andreea MarinAnd the will there in lieth, which dieth not.Who knoweth the mysteries of the will, with its vigor? For God is but a great willpervading all things by nature of its intentness. Man doth not yield himself to theangels, nor unto death utterly, save only through the weakness of his feeblewill.Joseph GlanvillCharles Baudelaire once said that art has the miraculous privilegeto turn ugliness into beauty, and that pain, when rhythmic and cadenced, fills thespirit with a quiet joy.When verses turn into colours, ideas into textures, feelingsinto substances we enter an eerie world where poetry meets painting, birth meetsdeath, love meets pain and flowers meet mould. It is the strange and delicate worldof a painter, Maria João Franco, a poetess of the canvas. I would dare say that shedoes not paint, she writes verses using colours, forms and shades, light and darknessinstead of words.What is a word? It is an instrument by means of which we send amessage, convey a feeling. If this definition is accurate, then her paintings areletterless words, because they overwhelmingly transmit feelings and emotions.Herworks are a confession of hopes, dreams, failures and sins expressed by plasticmetaphors, chromatic epithets, where the immateriality of all the most importantthings (love, despair, sadness, tragedy) embraces the cloak of the flesh until they lie,exposed, strip naked on the canvas, bleeding like a baby first ripped out of hermother’s womb. They tremble, amazed at their own existence, at their own life. Thepainful, tragic, screaming moment of birth that also seals our doom. It is difficult tolook at them, at human emotions and fears. How would we live if our feelings
  8. 8. materialized in front of us? This seems to be the questions that Maria João Francoboldly asks. We would not be able to hide from them, nor to force them out of ourmind. It would be our most terrible tragedy, as human beings, to be forced to look atour materialized, touchable emotions, at our utmost secrets and thoughts. Nobodywould survive the screaming sincerity of facing ourselves and the world would turninto a desolated sanatorium with people trying to escape from themselves.Have youever had a dream whose powerful image haunted you the day after? Imagine livingeach and every day under the constant assault, a material, colourful, loud siege ofnot one, but all of your desires, dreams, fears, anger. Even love would become aburden, as true love generally is so hard to bear.When we look at one of Maria João´spaintings, our faces unconsciously make a grin, and our eyes seem to want to turnaway, but at the same time they are drawn to them as if hypnotised. It is because weall recognise parts of ourselves in them, and usually there are the parts that wemostly like to hide: fear of death, horror of putrefaction, lost of faith, the never-ending questions of the man seeking Immortality, unwilling to give in to the decay ofthe body and the claws of death.What if we should look of them in the eyes? What ifthe key to ending the pain is embracing it, facing it? What if the only way to conquerdeath is by accepting it? What if the only way to love is to let ourselves be consumedby it?I am drawn to these paintings in the same way as I am drawn to the poetry ofBaudelaire, Arghezi or Blaga. Baudelaire’s Fleurs du Mal attempts to extract beautyfrom the malignant. Unlike traditional poetry that relied on the serene beauty of thenatural world to convey emotions, Baudelaire thought that beauty could evolve on itsown, irrespective of nature and even fuelled by sin. The result is a clear oppositionbetween two worlds, "spleen" and the "ideal." Spleen signifies everything that iswrong with the world: death, despair, solitude, murder, and disease. In contrast, theideal represents a transcendence over the harsh reality of spleen, where love ispossible and the senses are united in ecstasy.Just as in Baudelaire’s verses, MariaJoõa Franco is endlessly confronted with the fear of death, the failure of her will,and the suffocation of her spirit.One of the most amazing similarities lie in thecomparison of Baudelaire’s poems ―The Cat‖ (inspired by Edgar Allen Poes Tales ofMystery and Imagination, where he saw Poes use of fantasy as a way of emphasizingthe mystery and tragedy of human existence) and Maria João Franco’s painting ―TheDog‖.
  9. 9. In two separate poems both entitled "The Cat," the poet is horrified to see the eyesof his lover in a black cat whose chilling stare, "profound and cold, cuts and crackslike a sword."( ―Je vois avec étonnement/ Le feu de ses prunelles pâles,/ Clairsfanaux, vivantes opales/Qui me contemplent fixement).In ―The Dog‖ the same terroris provoked by the big, stout dog with his face directed to a river of blood, and onecan easily distinguished the form of a human face appearing in the place of the dog’shead. It is as if Baudelaire’s verses came to life in images, it is sheer Baudelairepoetry on canvas.Moreover in ―The Laying woman‖(Deitada) a feminine figure seemsto be sleeping or laying dead, her body torn into hundreds of little atoms, reduced tosmall dispersed fragments, traces of paint flowing from her like drops of water. It isyet another example of how beauty can reside even in the most horrible moments.The image created by the irregularity of the forms and the play of the splashes ofpaint is so beautiful that it seems as if flowers were growing out of her decayingbody, the fertilizing territory of human flesh. Flowers of putrefaction, flowers ofmould, the Romanian poet Tudor Arghezi would say. Maria João Franco makescaresses out of open wounds, ―out of furuncles moulds and mud‖ (Tudor Arghezi,Testament) she creates ―new beauties and treasures‖ (Tudor Arghezi,Testament)Maria João Franco is not obsessed with the ugliness or the pain. Sheaccepts all the aspects of humanity, even the most infamous, because, as I saidbefore, this may be the only way to extinguish them. The objective of her paintingsis not to shock, but to heal. Her love for the human being is such, that its physicaldecay hurts her to the extent of endlessly trying to conquer it. It is a painful, deeplove for the transient human body in all its circumstances, even in death. We canhear Maria Jiao Franco’s voice speaking to us through the words of poet Lucian Blagain his poetic statement ―I will not crush the world’s corolla of Wonders‖: ―I enrichthe darkening horizon with chills of the great secret. All that is hard to knowbecomes a greater riddle under my very eyes because I love alike flowers, lips, eyes,and graves‖.In order to understand a painting we should look at it with eyes of apoet. It is easy to recognized fragments of Maria Jiao Franco’s paintings in the versesof a poem. I tried to present here her paintings as seen through the verses of threepoets that explain them better than any critical essay. There are no boundaries in
  10. 10. art, and it would be no wonder if some day a poet would inspire himself from one ofMaria João Paintings to create his poetry.―Un matin nous partons,le cerveau plein de flamme,Le coeur gros de rancune et de désirs amers,Et nous allons, suivant le rythme de la lame,Berçant notre infini sur le fini des mers.‖inhttp://www.artreview.com/profiles/blog/show?id=1474022%3ABlogPost%3A301745MARIA JOÃO FRANCO – PINTORA E POETA "TU NÃO ACONTECES, QUANDO EU TEQUERO"Quando a olhamos pela primeira vez, apercebemo-nos de imediato que estamosperante uma alma feminina marcada. Não de uma forma azeda, como tantasmulheres que se afundam nas suas impotências ou incapacidades, mas de uma formaprofunda e reflexiva, de uma forma emotiva, humana e silenciosa.Maria João Franco,esteve recentemente nos Açores, e o seu encanto foi imediato, brevemente irá voltarpara cá expor. Ao contrário da maioria dos artistas, tem o dom da palavra e o seutom de voz grave funciona como um fio condutor, que transporta cada uma das suaspalavras, ao local do córtex devido. Porquê essa diferença acentuada em relação àmaioria dos artistas plásticos? Resposta enganadoramente simples – trata-se dumapintora poetisa.A sua exposição ―Tu Não Aconteces, Quando Eu Te Quero‖ estápatente no Museu da Água é, como não poderia deixar de ser um misto líquido entrea poesia e a pintura –―tu não aconteces, quando eu te quero,Não falas ainda, quandoeu te escuto,Tu não dizes, quando eu te encontro,Tempos passados de sabersentido,Tempos esquecidos de saber sofridoNão sabes ainda quanto eu teentendo‖―Ao longo de quarenta anos de carreira, Maria João Franco tem vindo a seruma intransigente pesquisadora de verdades e de liberdades interiores, não cessandode se transformar, mantendo-se, no essencial, fiel a si mesma.‖ Quem o diz é ÁlvaroLobato de Faria, director do MAC – Movimento de Arte Contemporânea ao qual aartista aderiu em 2006, com a exposição ―Mulher e Eu‖, tendo na altura lhe sido
  11. 11. atribuído por este Movimento o Prémio Carreira ―MAC´2006‖.Iniciou-se a ―sério‖ nasartes plásticas muito cedo, com 15 anos já frequentava cursos de Artes plásticas.Muito influenciada por uma família cujo universo considera ―mágico‖, com enfoqueespecial em seu pai – Miguel Franco – reconhecidamente um dos dramaturgos maisimportantes da década de setenta em Portugal, pela natureza histórica da sua obraque se confronta então com o espírito do ―regime‖, e pelo seu marido, Nelson Dias,Professor de Desenho e de Pintura da Escola de Belas Artes de Lisboa, artista quedeixou uma inestimável obra de qualidade plástica e uma outra criação na área dabanda desenhada, que faz igualmente parte da história de Portugal de BandaDesenhada, também relativa à década de setenta. Dois homens que a marcaramprofundamente, quer no plano afectivo, no espaço que naturalmente cada um ocupa,quer no seu desempenho artístico, quer na sua consciência social e postura perante avida e a morte. E como o sofrimento é o alimento do artista, cada título de cadaexposição de Maria João Franco é em si, arte: ―A Terra dos Mitos‖― O amanhecer damemória‖, ―Um olhar de Pele‖, "Estórias do Corpo"."Tempo de o Senso e o Ser "―Lírica do nu entre Sombras‖, "tu vens tão perto...que a distância existe" epoderíamos continuar, porque as exposições foram muitas, estando certos porém quecom apenas os seus títulos temáticos, este texto se embelezaria.―amo-tee os fumosdo último atentado ainda não aconteceramamo-tee a luz que nos iluminanão nasceuaindaamo-te, amo-teé a chave do esconderijodos meus sonhose a palavraa senhaparaentrar de novono meu canto de hinode novoa alegria.‖Esta sua notável sensibilidade,realça uma honestidade nas palavras a que não podemos ser indiferentes. É com amesma honestidade e frontalidade que fala sobre aqueles que considera ― gravesproblemas‖ que afectam a cultura Portuguesa e mais particularmente as artesplásticas. ―Um dos maiores problemas que os artistas têm que enfrentar são os―lobbys‖ das galerias. ―A maioria das galerias está exclusivamente vocacionada paravender quadros, e só por esse prisma enaltecem e promovem os ´seus` artistas.Fecham o círculo, apertando-o em torno de um número reduzido de pessoas, algumasefectivamente com qualidade, outras talvez nem tanto, mas assim, fecham-se portase veta-se à ignorância artistas importantes, por vezes geniais, porque não seencaixam nesse circuito, ou porque estão demasiado embrenhados a produzir obras,ou porque simplesmente não se encaixam‖. E continua – isto é muito grave, porque àsombra desta mecânica se vetam ao desconhecimento valores emergentes, mastambém ao esquecimento valores reconhecidos e inequivocamente valiosos para aidentidade cultural deste povo.‖Esta frontalidade, como anteriormente demos aentender nasce com a sua convivência familiar. Tal como se lê na sua biografia -―Uma forte ligação triangular "Miguel Franco - Maria João Franco - Nelson Dias "desencadeia no espírito ainda jovem de Maria João Franco o seu sentido de busca, deprocura e de pesquisa. Fortemente marcada pelo "expressionismo abstracto" Maria
  12. 12. João Franco segue na senda de Nelson Dias a tendência expressionista quer naabstracção, quer na sua passagem para a figuração. Sentindo como fortes expoentesda pintura portuguesa Rocha de Sousa, Gil Teixeira Lopes, Artur Bual, Luís Dourdil,Júlio Pomar, Resende bebe neles a influência tendo em mira o extravasar de umapintura de emoções contidas num expressionismo lírico de uma sensualidade quase"aquática" ou meramente fluida que adquire os tons da tragédia atlântica nas suasvagas de tombar profundo. A gravura é outra das suas paixões. Mas a esse respeito, avárias vezes premiada (em 1987 o 1º Prémio de Gravura no concurso de gravuraintegrado nas comemorações do Ano Internacional do Ambiente Setúbal/Beauvais.Ainda em 97 tem o Prémio de Edição na "IV Exposição Nacional de Gravura"Cooperativa de Gravadores Portugueses / Fundação Calouste Gulbenkian – Lisboa)Maria João Franco denuncia a desvalorização e a recusa da maioria das Galerias emaceitar expor gravuras. ―A razão prende-se com o facto da gravura ser mais acessívelno preço em relação à pintura a óleo, acrílico ou qualquer outro material. A maioriadas galerias teme que o mercado se habitue a adquirir gravuras em detrimento dasoutras obras que obviamente são mais proveitosas do ponto de vistafinanceiro.‖Contudo, esta artista plástica reconhece não ser este o único problema―a reprodução indevida, em série de gravuras – uma desonestidade – transformam asobras em algo que não era suposto – um produto reproduzível e logo menos valioso.Quando se produz gravuras, as chapas devem ser eliminadas – isso nem sempreacontece.‖Quanto ao estado mais geral da cultura em Portugal, é clara a sua posição― sem cultura não há identidade, e é frágil o apoio, o reconhecimento dos artistasplásticos, e não só, neste país. Muitos, passaram grandes dificuldades, mesmoaqueles que viram o seu talento reconhecido. O que é uma injustiçadolorosa.‖Recapitulando – a dor alimenta a alma do artistaA Mãe‖Estou triste. O sofrimento enegrece-me a alma. Se eu o pudesse abraçar e passarpara mim um pouco de tanta tortura. Como o amor de mãe pode tornar-se em tantaangústia. Já foi. A leveza da criança loira a correr pelo jardim. Já foi o calor mornodo colo da mãe. Ainda Maio. E a morte ronda a Mãe. O colo já não é morno. O peitojá não é terno. A mãe morre devagar e ainda é Maio e o meu amigo sofre. Quanto doamor, quanto da ternura quanto das memórias lhe guarda o corpo.E ainda é Maio...‖ Maria João Francoentrevista por Margarida Neves Pereira para Açoriano Oriental
  13. 13. Ao longo de quarenta anos de carreira, Maria João Franco, tem vindo a seruma intransigente pesquisadora de verdades e de liberdades interiores, nãocessando de se transformar – mantendo-se, no essencial, fiel a simesma.Maria João Franco perfaz o contorno, realiza o movimento,concretiza a ideia num imaginário pictórico único que lhe atribui um lugarmarcante nas artes plásticas portuguesas.A sua arte tem uma estreitarelação com o corpo, com o corpo das coisas, com a ideia primeira dematéria mater, que refaz incessantemente numa busca interminável, comose procurasse o princípio e o fim de um todo que sente ser o nosso, mas, nasua pesquisa, anseia sempre por um fim ou princípio outro.Aqui assentatoda a diversidade da sua obra em que o fio condutor submerge e emerge,consentindo e confirmando toda a sua versatilidade como artista plástica,como criativa e autora.No envolvimento cálido e terno nas pinturas quefiguram a nossa condição, e que confere harmonia e beleza à trivialidade doquotidiano, sabe-se a vontade e o modo de subtrair riqueza plástica a umseu muito pessoal universo imagético.O grafismo, aqui afirmado comoelemento estilístico, afirma a autonomia da cor, que polariza e atrai afluidez antropomórfica das formas, é na sua obra de uma importânciafundamental.Fala-nos pela incidência da cor que transporta e assume opapel de interlocutor entre a obra e o espectador.Estamos agora peranteuma artista sem hesitações, de um saber constante e ritmado, onde cadatomada de consciência nos abre o caminho para o seu mundomultidisciplinar, onde cada gesto tem o sabor de uma certeza.A arte deMaria João Franco, extraordinariamente sensível na fluidez da linguagemdas formas, na vigorosa materialidade da cor, na força e no encanto da suaevasão e do seu êxtase, é uma fascinante e esplêndida aventura espiritual etécnica.As suas obras, são pois materialização de anseios e de sonhos,notas de realce, na Pintura Portuguesa Contemporânea.A devoção e ogrande profissionalismo, a continuidade e o grande empenho que MariaJoão Franco nos transmite nas suas obras, revelam-nos estar perante umagrande pintora e uma excelente artista, reconhecida não só em Portugalcomo internacionalmenteEm “tu não aconteces, quando eu te quero” títuloda exposição que agora nos apresenta, mostra-nos a sua constanteevolução, a sua busca sem fadiga, a qualidade intranquila da sua poética,que faz de cada momento uma reencarnação imprevisível, nova umaconquista, um constante enriquecimento.O vigor e qualidade do conjunto
  14. 14. destas obras fará, com toda a certeza, que ele ocupe um significativo lugarna excelente pintura que Maria João Franco vem construindo e a que já noshabituou, confirmando o grande talento e sobretudo a surpreendentequalidade técnica e criativa desta grande artista das artes plásticas donosso país.Álvaro Lobato de FariaDirector Coordenador do MAC-Movimento Arte ContemporâneaTexto de catálogo da Exposição ―Tu não aconteces quando eu te quero‖tu não aconteces, quando eu te queronão falas ainda, quando eu te escuto.tu não dizes, quanto eu te encontro.Tempos passados de saber sentidoTempos esquecidos de saber sofridoNão sabes ainda quanto eu te entendo.Numa pesquisa, aliada a uma auto reflexão constante do ser/estar criado erecriado, ainda que numa atmosfera imersa, paradigma de todas asrealizações encontradas, e não…Que o título da exposição: “tu nãoaconteces, quando eu te quero” denuncia já a busca incessante do encontroefectivo e afectivo com a “coisa” /”pessoa” amada.O universo plástico emque me situo denuncia-se pelo equívoco meio das ilusões em que as leiturasvárias se sobrepõem deixando ao espectador o disfarce amplo para asmúltiplas e constantes leituras.“tu não dizes, quanto eu te encontro”negação aparente de diálogo com a ”coisa” em que o “quanto” nega ainda odar a conhecer a infinidade das possibilidades dele mesmo.“não sabes aindaquanto eu te entendo” é o passo anunciado para a próxima realização emque o acto está já contido no “tu não te encontras, quando eu te quero”,impossibilidade de simultaneidade de actos e realizações de ser e estarafectivo e efectivo.Poema/projecto de formalizaçãoplástica e autobiográficaMaria João FrancoLisboa Março de 2008
  15. 15. Tu não aconteces, quando eu te queroA obra de Maria João Franco é talvez o último reduto de sensualidade neste mundocada vez mais individualista e asséptico.É pura poesia que habita na tela, na construção da cor e verbo — na palavra que éindissociável da obra final.Mais do que uma linguagem estética e uma metalinguagem através da palavra aartista criou uma translinguistica que contempla ambas.Uma translinguististica sobre o amor, sobre o corpo, sobre a sensualidade, sobre nóse sobre como nos relacionamos no tocar da pele, sobre o respeito no fogo do prazer,sobre a sacralidade da água que escorre de nós no extâse.―Tu não aconteces, quando eu te quero‖ é uma exposiçãosobre a dádiva e a negação no amor.Porque quando amamos e queremos e o outro ser não acontece, morre um pedaço denós.Ensombra-se a claridade do amor puro e pára o movimento para a frente que odistingue.A Maria João Franco pinta esse jogo de claridade e sombra dos corpos e das almas,conhece dimensões imperceptíveis do amor e estuda o Mistério.Fala-nos de mulheres e homens que não se contentam em ser comuns e tentam serDeus.Agradeço à Maria João Franco a reverência do amor e a sua arte belíssimaMargarida Ruas Gil - Directora do Museu da Água da EPALLisboa,Março de 2008doc. 24 de Outubro de 2011

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