Projeto monografia patrícia

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Projeto monografia patrícia

  1. 1. 1 Patrícia Cappuccio de Resende A “TRANSMISSÃO” FAMILIAR DA LEITURA E DA ESCRITA: UM ESTUDO DE CASO Projeto de monografia apresentado ao curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da UFMG. Orientador: Antônio Augusto Gomes Batista Belo Horizonte Agosto de 2004
  2. 2. 2 Índice 1) Apresentação p. 03 2) Justificativa e fundamentação teórica p. 03 3) Objetivos Objetivo geral p. 08 Objetivos específicos p. 09 4) Metodologia p. 09 Os sujeitos da pesquisa p. 10 Procedimentos Metodológicos p. 12 Como coletar os dados p. 12 Procedimentos de Análise p. 15 5) Cronograma p. 16 6) Referências bibliográficas p. 17
  3. 3. 3 Apresentação Esta pesquisa situa-se no campo da Sociologia da Educação, mais especificamente no cruzamento dos estudos das ciências sociais a respeito da família e de suas práticas de transmissão cultural, sobretudo aquelas relacionadas à leitura e à escrita. O projeto tem como objeto os modos pelos quais uma determinada família tem buscado transmitir um conjunto de saberes, práticas e disposições que visam assegurar o sucesso nas aprendizagens escolares da leitura e da escrita e a construção de um “gosto” pela leitura, bem como o modo pelo qual, nessa configuração familiar específica, os filhos se apropriam desses saberes, práticas e disposições. Para isso, pretende-se estudar uma família pertencente às classes médias que apresenta dois casos de sucesso escolar. Esta família é constituída por um professor do ensino fundamental, médio e superior, o chefe da família, casado com uma dona-de-casa, estudante do ensino superior. O casal tem três filhos: uma menina de 13 anos, outra de dez anos, um menino de um ano e aguardam a chegada do próximo filho. As duas primeiras filhas vêm apresentando trajetórias escolares de sucesso segundo a escola, sendo que a primeira possui, de acordo com os pais, a escola e a própria criança, considerável desenvoltura nas habilidades de leitura e escrita e gosto por essas práticas, enquanto os interesses da segunda filha seguem outra direção, ligada à área de Matemática. Justificativa e fundamentação teórica De acordo com Nogueira et al. (2003), diferentemente das produções estrangeiras, nas quais há um grande número de pesquisas que buscam compreender os processos de escolarização dos diferentes grupos sociais, as pesquisas brasileiras no campo da Sociologia da Educação sobre as relações entre família e escola são ainda pouco expressivas. Nesse tema, são ainda menos expressivas as pesquisas que se dedicam às práticas educativas das classes médias brasileiras.
  4. 4. 4 Apesar dessa lacuna na produção científica, cabe salientar que a família não esteve absolutamente ausente dos estudos educacionais. Conforme os mesmos autores, as teses ambientalistas e deterministas do “handicap” sociocultural são exemplos de pesquisas que consideraram a família. No entanto, segundo os autores, essas teses têm sido denunciadas por serem discriminatórias e excludentes à medida que desqualificam especialmente as famílias mais desfavorecidas.1 Por essa razão, os estudos recentes (tomando como dada a crítica às teses ambientalistas)2 procuram “superar análises deterministas da relação entre as condições sociais e escolares e se abrir para a capacidade de ação dos atores sociais” (NOGUEIRA et al., 2003, p.11). Para isso, da mesma forma que tem sido feito em outros estudos, esta pesquisa pretende privilegiar um olhar sociológico sobre as pequenas unidades de análise, ou seja, pretende voltar-se para “domínios mais restritos da realidade social”, como as práticas e as estratégias cotidianas de leitura e da escrita da família, de sua transmissão e os significados que essas práticas assumem para o grupo familiar. (NOGUEIRA et al., 2003, p.11). Vale ressaltar que as novas pesquisas apontam que a transmissão cultural não acontece de forma automática. Esta é uma idéia fundamental ao se estudar classes médias, já que, sob este ponto de vista, o sucesso escolar de crianças pertencentes a famílias desse grupo deixa de ser visto como resultado direto da transmissão do capital cultural e escolar3 acumulado pela família. Assim, passa-se a pensar que: “a transmissão dos capitais familiares requer condições adequadas e um trabalho de apropriação por parte do ‘herdeiro’, sem o que a cadeia da transmissão corre o risco de ser rompida.” (NOGUEIRA et al., 2003, p.11) 1 Sobre as teorias de deficiências culturais e lingüísticas de famílias de meios desfavorecidos, ver SOARES (2002). 2 Para uma crítica mais geral às análises das relações entre condições sociais de origem e desempenho escolar, cf. SOARES (2002). 3 “De acordo com o sociólogo francês Pierre Bourdieu citado em JOHNSON (1997, p.29), o capital cultural consiste em idéias e conhecimentos que pessoas usam quando participam da vida social. Tudo, de regras de etiqueta à capacidade de falar e escrever bem pode ser considerado capital cultural”. De acordo com a sociologia de Pierre Bourdieu, o capital cultural, embora seja, de certo modo, um arbitrário cultural, é visto como um bem em si mesmo e não como uma construção social.
  5. 5. 5 Outro fator que justifica a relevância do estudo refere-se às condutas das classes médias quanto à escolarização dos filhos, comportamento que merece ser mais investigado. Conforme Nogueira (1995), as famílias de classe média tendem a valorizar a escolarização dos filhos, vendo nela a possibilidade de um futuro melhor. Assim, utilizam diferentes recursos para que os filhos atinjam altos níveis de escolaridade: “(...) as classes médias dão provas de uma imensa adesão aos valores escolares, e fazem da escolaridade dos filhos ‘o elemento central de seus projetos’”. (NOGUEIRA, 1995, p.17) Além disso, pesquisas como as de Devouassoux-Merakchi (1975), Duru-Bellat e Van- Zanten (1992), Nogueira (1991), Lienard e Servais (1982), Sirota (1994), Romanelli (1994) indicam que as famílias de classes médias, especialmente as mais intelectualizadas – como , de certo modo, é o caso da família a ser pesquisada, como se verá, detalhadamente, mais à frente – “têm se revelado as mais capazes de incitar ao êxito escolar” (NOGUEIRA, 1995, p. 12). Tal capacidade merece ser pesquisada a fim de se compreender melhor em que sentido as classes médias diferenciam-se das demais nos processos de transmissão do capital cultural e escolar que podem resultar na escolarização bem sucedida dos filhos. Dessa forma, para o desenvolvimento deste estudo, alguns conceitos desenvolvidos pelas pesquisas no campo da Sociologia da Educação serão utilizados. O primeiro deles é o conceito de configuração social desenvolvido por Norbert Elias e retomado por Bernard Lahire (1997). De acordo com Lahire, a explicação para o sucesso escolar, bem como para o fracasso, não está relacionada a um fator isolado. Para o sociólogo, as explicações para o sucesso e para o fracasso4 são encontradas no modo como, em uma configuração familiar específica, os indivíduos se apropriam dos saberes, práticas e disposições transmitidas pela família (LAHIRE, 1997, p. 39-40). Lahire define configuração social como o: “Conjunto de elos que constituem uma ‘parte’ (mais ou menos grande) de realidade social concebida como uma rede de relações de interdependência humana.” (LAHIRE, 1997. p.39-40)
  6. 6. 6 Outro conceito a ser utilizado é o de mobilização familiar, à medida que um investimento familiar é necessário para que haja “conversão do capital cultural em capital escolar” (NOGUEIRA, 2003. p.150), conversão esta positiva para o sucesso na escola. Uma das possibilidades de abordar a mobilização familiar é entendê-la, conforme Maria José Viana, como um investimento escolar familiar. Para a autora esse investimento é “um conjunto de práticas e atitudes voltadas intencionalmente para o rendimento escolar. Estas práticas e atitudes constituem-se, tanto de intervenções práticas (controle sistemático de atividades escolares, escolha dos estabelecimentos de ensino e das carreiras escolares, encaminhamento de atividades de reforço e para- escolares, comparecimento às reuniões pedagógicas e conselhos de classe, etc.), quanto de sustentação moral e afetiva (diálogos sobre a escola, apoio nos momentos mais difíceis).” (VIANA, 1998, p.67) Além do conceito de mobilização familiar, convém ressaltar a importância da mobilização dos próprios filhos na apropriação dos capitais familiares, já que a “tradição sociológica nos habituou a pensar que a transmissão intergeracional de capital cultural se fazia, à semelhança da herança biológica, por um processo quase que automático de transferência do patrimônio” (NOGUEIRA, 2003, p.151). Dessa forma, Nogueira refere-se ao sociólogo François de Singly que nos mostra que, se por um lado, a mobilização da família na escolarização dos filhos é fator que influencia o sucesso escolar, por outro, a mobilização dos filhos em se apropriar do capital cultural familiar também é importante para trajetórias escolares de sucesso (NOGUEIRA, 2003, p.151). Sobre o processo de herança, Singly aponta que “pour comprendre l’appropriation de l’héritage par l’héritier, il faut prêter attention aux formes de la transmission et aux manières dont elles sont perçues par les héritiers” (SINGLY, 1996, p. 163). Neste estudo, pretende-se investigar as duas faces da mobilização: a da família e a dos filhos. No caso da leitura, quanto a sua transmissão na família, esta pesquisa baseia-se, 4 Evidentemente quando se passa da escala societária para a escala do grupo familiar e dos indivíduos.
  7. 7. 7 principalmente, no clássico trabalho de Shirley Brice Heath (1986). Neste estudo, a autora aponta que a interpretação que as crianças fazem dos livros e a relação que estabelecem entre o seu conteúdo e o mundo não são naturais, e sim aprendidas, sobretudo no interior do grupo familiar.5 De acordo com esse estudo, são nos eventos de letramento6 (como ouvir histórias antes de dormir, ler caixas de produtos alimentícios, placas, legendas na televisão e interpretar instruções de jogos e brinquedos) que as crianças aprendem a dar significado aos diversos tipos de escritos, formam-se como leitores, são inseridos no interior da cultura escrita e em suas formas específicas de construir e compreender significados. Evidentemente, tais eventos variam de família para família, de grupo social para grupo social, levando as crianças a aprenderem diferentes procedimentos de interpretação do que lêem e, logo, a reagirem diferentemente na aprendizagem da leitura e da escrita na escola. Ainda no caso da leitura, serão utilizados os trabalhos de Singly sobre a apropriação da herança cultural, mais especificamente quando aborda a apropriação da leitura como herança cultural.7 Para o autor, a herança cultural não pode ser comparada com um bem de consumo, ela “est temoigne d’une histoire”, ela “est signe d’um lien” (SINGLY, 1996, p. 158). Suas pesquisas mostram que, ao contrário da herança econômica, a herança da leitura deve ser, em razão das implicações geradas, nas sociedades modernas, pela necessidade de construção de uma identidade individual, distinta da identificação paterna ou materna, ”plutôt masque pour que lê plaisir puísse naître” (SINGLY, 1996, p. 158) Em sua pesquisa, a maioria dos estudantes leitores filhos de pais leitores têm dificuldade, tendo em vista a afirmação identitária, em assumir uma herança direta. Convém explicitar que esta pesquisa utiliza-se do conceito de classes médias em Bourdieu. De acordo com Nogueira, “se a expressão ‘classes médias’ não deixa de ser 5 Ver também a respeito, SINGLY (1996). 6 De acordo com Heath, eventos de letramento são “ocasions in which writtten language is integral to the nature of participants’ interactions and their interpretive processes and strategies” (HEATH, 1986, p.98). 7 Ver, por exemplo, SINGLY (1993).
  8. 8. 8 utilizada por Bourdieu, é, sem dúvida, sobre o termo ‘pequena burguesia’ que recai sua preferência” (NOGUEIRA, 1997, p.112). Internamente, a pequena burguesia, é dividida por Bourdieu (citado por NOGUEIRA, 1997, p.113)8 em três frações: “a ‘pequena burguesia em declínio’, a ‘pequena burguesia de execução’ (ou de promoção), e a ‘nova pequena burguesia’”. Essas frações representam para Bourdieu o sentido da trajetória social que o grupo está percorrendo9 (NOGUEIRA, 1997, p. 112). Os primeiros contatos com a família a ser pesquisada evidenciaram traços sociais e culturais relacionados à ‘pequena burguesia de execução’. Entre esses traços, destaco as seguintes características que foram atribuídas por Bourdieu citado em Nogueira (1997) a essa fração das classes médias: “Ocupando uma posição central na estrutura capitalista e desfrutando de uma posição relativamente estável no quadro das condições sócio- econômicas presentes, essas frações caracterizam-se pela posse de um capital cultural que, embora maior do que as frações anteriores, é relativamente pequeno face aos quadros superiores (...). Mas é a esse capital cultural que seus membros devem a posição que ocupam na estrutura social, e o fundamento das expectativas de elevação social que nutrem.” Objetivos Objetivo Geral Descrever e analisar: (i) os modos pelos quais uma determinada família busca transmitir um conjunto de saberes, práticas e disposições que visam assegurar o sucesso nas aprendizagens escolares da leitura e da escrita e a construção de um “gosto” pela leitura; 8 BOURDIEU, Pierre. La Distinction, Paris: Minuit, 1979. 9 Para Bourdieu citado em Nogueira o sentido da trajetória que a família está percorrendo é importante já que se sabe que “as disposições (os habitus) tendem a expressar não as posições de classe, mas sim o sentido do trajeto (‘la pente’) que percorre o indivíduo ou o grupo ao qual pertence. (NOGUEIRA, 1997, p. 112)
  9. 9. 9 (ii) o modo pelo qual, em uma configuração familiar específica, os filhos se apropriam desses saberes, práticas e disposições. Objetivos Específicos (i) Descrever a configuração familiar; (ii) descrever o envolvimento dos pais e filhos com as práticas de leitura e escrita da família; (iii) reconstituir e apreender o processo de mobilização da família na transmissão de saberes, práticas e disposições que visam assegurar o sucesso nas aprendizagens escolares da leitura e da escrita e a construção de um “gosto” pela leitura; (iv) reconstituir e apreender o modo pelo qual os filhos se apropriam desses saberes, práticas e disposições e como vêem esse processo. Metodologia Tendo em vista a natureza do problema deste estudo, que se volta, como já foi dito anteriormente, para os processos familiares de transmissão e apropriação de um conjunto de saberes, práticas e disposições que visam assegurar o sucesso nas aprendizagens escolares da leitura e da escrita e a construção de um “gosto” pela leitura, e considerando esse objeto uma tentativa de compreensão de fenômenos sociais complexos, utilizarei o estudo de caso como estratégia de pesquisa. Essa escolha baseia- se nos trabalhos de Yin, que nos diz que, “a clara necessidade dos estudos de caso surge do desejo de se compreender fenômenos sociais complexos, permitindo uma investigação que preserve as características holísticas e significativas dos eventos da vida real.” (YIN, 2001, p. 21) Além disso, este me parece ser o tipo de abordagem metodológica adequada, uma vez que o foco da pesquisa encontra-se “em fenômenos contemporâneos inseridos em um contexto da vida real.” (YIN, 2001, p.21) A adequação ao estudo de caso se justifica,
  10. 10. 10 ainda, por último, em razão de os processos a serem analisados nesta pesquisa confundirem-se com o próprio contexto familiar. Nas palavras de Yin (2001): “Um estudo de caso é uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre fenômeno e o contexto não estão claramente definidos.” (p. 32) Os sujeitos da pesquisa A família a ser pesquisada mora na cidade de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. A residência se localiza no bairro Jardim Riacho, considerada, ao que tudo indica, região de prestígio médio. A família se constitui de cinco pessoas e aguarda a chegada de mais um filho.10 Para se compreender melhor os traços culturais e sociais da família, segue um quadro com a idade, escolarização, ocupação, local de nascimento e local onde passou a maior parte da vida dos membros da família (geração 2 e 3)11 e da geração anterior (geração 1): Geração 3 Sujeitos Filha mais velha Filha do meio Idade 13 anos 11 anos Escolarização Cursando 7ª série do Ensino. Fundamental Cursando 4ª série do Ensino. Fundamental Local de nascimento Belo Horizonte Belo Horizonte Local onde passou a maior parte da vida Contagem Contagem Geração 2 Sujeitos Mãe Pai Idade 39 anos 39 anos Escolarização Técnica em eletrônica, cursando Técnico em eletrônica, licenciado 10 Evidentemente, no que diz respeito ao controle da natalidade, a família parece não apresentar traços de famílias de classes médias, muito atentas a esse controle em razão dos investimentos educacionais. Essa característica da família, entretanto, será um interessante aspecto a ser melhor explorado, estando, talvez, relacionado, como se verá mais adiante, à trajetória em ascensão da família. 11 Os dados do filho mais novo não estão presentes no quadro, já que este possui apenas um ano e ainda não freqüenta a escola.
  11. 11. 11 Pedagogia na UFMG. em Matemática pela UNI-BH, pós- graduado em Educação Matemática pela UNI-BH, mestrando em educação na UFMG. Ocupação Dona-de-casa, professora de aula particular de matemática. Professor de matemática dos níveis fundamental e médio (rede particular e municipal – BH), professor do Ensino Superior (Curso de Pedagogia – UEMG), coordenador e professor esporádico do curso de especialização em Psico-pedagogia (UEMG). Local de nascimento Belo Horizonte Belo Horizonte Local onde passou a maior parte da vida Belo Horizonte Belo Horizonte Geração 1 (Avós paternos) Sujeitos Avô Avó Idade 70 anos 64 anos Escolarização 4ª série do Ensino Fundamental 4ª série do Ensino Fundamental Ocupação Aposentado como mestre de obras da Manesman Dona-de-casa Local de nascimento Moeda – MG Belo Vale – MG Local onde passou a maior parte da vida Belo Horizonte e Belo Vale Belo Horizonte e Belo Vale Geração 1 (Avós maternos) Sujeitos Avô Avó Idade Falecido em 1998 com 63 anos. 69 anos Escolarização 4ª série do Ensino Fundamental 6ª série do Ensino Fundamental Ocupação Vendedor de consórcio médico hospitalar e posteriormente atendente e administrador de uma farmácia da família. Dona-de-casa Local de nascimento Rochedo de Minas – MG Juiz de Fora – MG Local onde passou a maior parte da vida Belo Horizonte Belo Horizonte
  12. 12. 12 Convém ressaltar que as filhas do casal freqüentam uma escola particular de prestígio de Contagem, mesma instituição na qual trabalha o pai como professor de matemática dos níveis fundamental e médio. A escolha deste caso justifica-se uma vez que se trata de uma família com uma considerável diferença de capital escolar entre as duas primeiras gerações. Enquanto os avós tiveram poucos anos de escolarização (4 a 6 anos), seus filhos (pai e mãe da família pesquisada) chegaram ao nível superior ou até mesmo à pós-graduação, no caso do pai. Além disso, a família (geração 2), que, ao que tudo indica, iniciou sua mobilidade social na primeira geração, está em marcado processo de acumulação, ainda que extemporâneo, de capital cultural de conquista de uma nova posição no espaço social, transmite com êxito os capitais cultural e escolar, já que as filhas mais velhas são casos de sucesso escolar. A designação de sucesso escolar está baseada nas afirmações dos pais, através de conversas informais, e da escola, através dos elogios nas reuniões de pais, dos prêmios recebidos, bem como das notas das duas filhas. O caso apresenta ainda uma peculiaridade interessante, já que a filha mais velha exprime considerável gosto e desenvoltura nas práticas de leitura e escrita escolares, enquanto a filha mais nova prefere à matemática. Tal diferença no gosto e envolvimento das filhas, que provavelmente receberam investimentos familiares muito semelhantes, torna o caso singular. Procedimentos metodológicos Como coletar os dados A coleta de dados será feita por meio de entrevistas e da observação. As entrevistas, que serão gravadas e transcritas, constituirão a estratégia privilegiada para a recolha de dados e irão se basear em alguns temas determinados previamente, conforme se verá mais adiante. Para evitar a inibição dos sujeitos, optarei por realizar “perguntas que exigem exploração” do entrevistado. Esta escolha está baseada nas considerações de Bogdan e Biklen a respeito das estratégias para um pesquisador qualitativo:
  13. 13. 13 “É evidente que uma estratégia-chave para um investigador qualitativo no campo do trabalho consiste em evitar, tanto quanto possível, perguntas que possam ser respondidas com ‘sim’ e ‘não’. Os pormenores e detalhes são revelados a partir de perguntas que exigem exploração.” (BOGDAN & BIKLEN, 1994, p. 136) Acredito que os temas a serem tratados nas entrevistas deverão estar voltados para a apreensão dos traços sócio-culturais da família, de suas disposições éticas e culturais, bem como de seu percurso. Uma possibilidade seria priorizar os traços pertinentes à leitura sociológica desenvolvidos por Lahire (1997). São eles: • “As formas familiares da cultura escrita”, procurando apreender as diferentes práticas de leitura e escrita da família, bem como a freqüência com que ocorrem. • “Condições e disposições econômicas”, buscando conhecer melhor as condições econômicas da família que, por sua vez, conforme Lahire (1997) influenciam na constituição da cultura escrita familiar e de uma moral da perseverança e do esforço. (LAHIRE, 1997, p.24) • “A ordem moral doméstica”, investigando a existência e importância de uma moral familiar baseada nos bons comportamentos e no respeito às autoridades escolares. • “As formas de autoridade familiar”, procurando conhecer as diferentes formas de exercício da autoridade familiar que, segundo Lahire (1997) influenciam no respeito às regras escolares. (LAHIRE, 1997, p. 28) • “As formas familiares de investimento pedagógico”, tentando apreender como a família se mobiliza para a escolarização dos filhos. Além desse traços, a pesquisa pretende estar atenta, ainda, • as interações entre pais e filhos e avós, e as formas de uso da linguagem (mais próximas ou menos próximas da escrita, mais ou menos explícitas) nelas presentes, uma vez que estudos clássicos sobre socialização primária e uso da linguagem evidenciam a importância da oralidade na construção de disposições em relação à linguagem.. Inicialmente, para apreender todos esses dados, as entrevistas serão realizadas com os avós, os pais e as filhas. A opção em ouvir as três gerações decorre do interesse em
  14. 14. 14 realizar uma genealogia da família. Decorre, em primeiro lugar, da constatação, compartilhada entre historiadores, de que “uma dinâmica social se faz no mínimo em duas gerações, jamais em uma”.12 Além disso, em segundo lugar, o trabalho com a genealogia parece ser valorizado por pesquisas no campo da Sociologia da Educação: Maria José Viana (2003), referindo-se a Laurens (1992)13 , afirma que “algumas práticas e significados escolares só se tornam compreensíveis quando colocados no contexto da genealogia familiar.” (p.48) Nas entrevistas, procurarei deixar os indivíduos à vontade para falar sobre suas histórias de vida. Minhas intervenções serão no sentido de pedir descrição dos aspectos relacionados à escolarização e à leitura. A observação, por sua vez, será utilizada como estratégia secundária para a recolha de dados. Seu objetivo será o de recolher dados descritivos sobre a forma como a família se organiza. Assim, durante as visitas na casa da família, procurarei registrar em um caderno de campo algumas observações, tais como: • a organização do espaço, descrevendo a residência da família: número de quartos, presença de cômodos para o estudo, situação do imóvel (alugado ou próprio), • a organização do tempo, buscando apreender os tempos na família: o tempo do trabalho, do estudo, do lazer, da leitura, etc, • as práticas de leitura da família que venham a ocorrer nos momentos da visita, • a organização dos materiais de leitura da família, observando se há um espaço específico para esses, como estantes ou biblioteca, e também buscar observar como é o acesso dos filhos a esses materiais, • a relação das filhas com as outras crianças, observando se há restrições quanto ao contato com algumas crianças. 12 De acordo com Jean HÉBRARD (notas de seminário de pesquisa; Ceale/Fae/UFMG, 17/08/2004) 13 LAURENS, Jean-Paul (1992). 1 sur 500 – La réissite scolaire em milieu populaire. Tolousse, Presses Universitaires du Mirrail.
  15. 15. 15 Procedimentos de análise Os procedimentos de análise acontecerão concomitantemente à recolha de dados através da construção de um perfil sociológico. Essa escolha está baseada nos trabalhos de Lahire (1997) que, comentando sobre sua pesquisa “Sucesso Escolar nos Meios Populares”, aponta que “se tivéssemos abordado separadamente traços, teríamos perdido de vista o que nos parece o mais importante a destacar, ou seja, que esses traços (características, temas) se combinam entre si e só têm sentido sociológico, para nosso objeto, se inseridos na rede de seus entrelaçamentos concretos” (LAHIRE, 1997, p. 72). O mesmo pode ser tipo para a presente pesquisa. Abordar separadamente os traços que evidenciam o processo de transmissão e apropriação de um conjunto de saberes, práticas e disposições que visam assegurar o sucesso nas aprendizagens escolares da leitura e da escrita e a construção de um “gosto” pela leitura significaria desconsiderar que esses traços só existem na relação uns com os outros. Finalmente, para a construção do perfil, a pesquisa procurará considerar as exigências que este tipo de análise sugere, conforme Lahire: O perfil, como gênero científico livremente inspirado no gênero literário, comporta duas exigências fundamentais: de um lado, baseado em ‘dados’ e preocupado com a crítica dos contextos de sua produção, é a pintura, diferente portanto do discurso literário, de um modelo particular existente na realidade. Por outro lado, deve deixar transparecer claramente a maneira específica de pintar, o ponto de vista a partir do qual o pintor observa e explicita o mundo.” (LAHIRE, 1997, p. 15)
  16. 16. 16 Cronograma Set 2004 Out 2004 Nov 2004 Dez 2004 Jan 2005 Fev 2005 Mar 2005 Abr 2005 Mai 2005 Jun 2005 Leituras X X X X X X X Coleta de Dados (entrevista s e observaçã o) X X X X X Transcriçã o dos Dados X X X X X X Análise dos Dados e Redação da Monografi a X X X X X
  17. 17. 17 Referências Bibliográficas BOGDAN, Robert; BIKLEN, Sari. Trabalho de campo: entrevistas. In: Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Tradução de Maria João Alvarez, Sara Bahia dos Santos e Telmo Mourinho Batista. Porto: Porto Editora, 1994, p.134-139. Original em inglês. DE SINGLY, François. L’appropriation de l’heritage culturel. In: Lien social et Politiques. Paris, numéro 35, 1996, p. 153-165. DE SINGLY, François. Les jeunes e la lecture. In: Les dossiers: education, formation. Paris, numéro 25, 1993, 205 p. JOHNSON, Allan G. Capital cultural. In: Dicionário de sociologia: guia prático da linguagem sociológica. Tradução: Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. p.29. Original em Inglês. HEATH, Shirley Brice. (1986) What no bedtime story means: narrative skills at home and school. In: Language Socialization across cultures. Cambridge University Press, June/1987, p.97-124. HEBRÁRD, Jean. In: ENCONTRO DE PROFESSORES E BOLSISTAS DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DO CEALE. 17 de agosto de 2004. Belo Horizonte: Centro de Estudos de Alfabetização, Leitura e Escrita / Faculdade de Educação da UFMG. NOGUEIRA, Maria Alice. (1997) Convertidos e Oblatos – um exame da relação classes médias/escola na obra de Pierre Bourdieu. Educação Sociedade e Culturas.Porto. n. 7, mai.,. p. 109-129. NOGUEIRA, Maria Alice (et al). Família e Escola: trajetórias de escolarização em camadas médias e populares. 2ª edição. Petrópolis: Vozes, 2003. Introdução, p. 9-15. Formatado Formatado Excluído: ¶
  18. 18. 18 NOGUEIRA, Maria Alice. A construção da excelência escolar: um estudo de trajetórias feito com estudantes universitários provenientes das camadas médias intelectualizadas. In: NOGUEIRA, Maria Alice (et al). Família e escola: trajetórias de escolarização em camadas médias e populares. 2ª edição. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 125-154. NOGUEIRA, Maria Alice. Famílias de camadas médias e a escola: bases preliminares para um objeto em construção. Educação e Realidade.Porto Alegre v.20, n.1, p. 9-25, jan./jul. 1995. SOARES, Magda. Linguagem e escola: uma perspectiva social. 17ª edição. São Paulo. Editora Ática.2002. 85 p. VIANA, Maria J. Braga. Longevidade escolar em famílias de camadas populares: algumas condições de possibilidade 1998.302 f. (Tese de Doutorado) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1998. VIANA, Maria J. Braga. Longevidade escolar em famílias de camadas populares: algumas condições de possibilidade. In: Família e Escola:: trajetórias de escolarização em camadas médias e populares. 2ª edição. Petrópolis: Vozes, 2003. Introdução, p. . ROMANELLI, Geraldo. Famílias de camadas médias e escolarização superior dos filhos: o estudante trabalhador. In: NOGUEIRA, Maria Alice (et al). Família e escola: trajetórias de escolarização em camadas médias e populares. 2ª edição. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 99-124. YIN, Robert K. Estudo de caso: planejamento e métodos. Tradução de Daniel Grassi.. 2ª edição. Porto Alegre: Bookman, 2001. 205 p. Original Inglês.

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