A construção historiográfica educacional

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A construção historiográfica educacional

  1. 1. A CONSTRUÇÃO HISTORIOGRÁFICA EDUCACIONAL DO GRUPO ESCOLAR NO INTERIOR DE SERGIPE Cristiane Tavares Fonseca de Moraes Nunes (UFS/SE) cristiane@fslf.com.br Jorge Luiz Cabral Nunes (FSLF/SE) jorge@fslf.com.br ResumoO trabalho de pesquisa para compreender os processos vividos pode ser realizado por caminhosmetodológicos diversos. Podemos considerar a “história de vida” um puzzle que acabou de serfinalizado. Estamodalidade se constitui em importante fonte de informação sobre a práticaprofissional docente. Desta forma, a trajetória de vida profissional de uma professora primária,no período de1955 a1976 serve de subsídio para as reflexões sobre as práticas educacionaisescolares da época. Professora do Estado de Sergipe, Eunice Pereira da Fonseca instituiu, poriniciativa própria, a merenda escolar e a educação de adultos no município de Santa Luzia doItanhy, onde foi além de professora, diretora do Grupo Escolar Comendador Calazans.Estabeleceu, também, a prática do uso do uniforme escolar completo através de campanhas dedoação. Foi líder e ativista políticanuma época em que a maior parte das mulheresainda vivia aplenitude do ambiente doméstico, cuidando do marido e dos filhos.Neste estudo, o passado foievocado pela memória e pelas lembranças da própria professora Eunice que, através de relatos,nos permite compreender as práticas do cotidiano escolar e verificar elementos da História daEducação no grupo escolar em que atuava. Sob a luz de candeeiros e velas, a professora Eunicepromoveu a educação de adultos, contribuindo na região com o Movimento Paulo Freire e asaulas radiofônicas transmitidas pela Rádio Cultura de Sergipe, em parceria com a igrejacatólica, sob a coordenação de Dom José Vicente Távora, que indicou a professora Eunice paracoordenar o movimento no Sul do Estado de Sergipe. Militante do Partido Social Democrático –PSD, num período, e em outro da União Democrática Nacional – UDN, tentava equilibrar-senopoder considerando a alternância dos partidos. Buscando referencial na contribuição de RogerChartier para a História Cultural, o texto opera com categorias como “práticas” e“representações”. A investigação utilizou as entrevistas concedidas à autora pela professoraEunice e por outros atores que conviveram com ela. Também foram analisados documentos,atas, registros de aulas e relatórios. As suas relações políticas permitiam que a professora Eunicefosse vista pela sua comunidade como alguém capaz de resolver problemas em face das suasrelações com políticos e usineiros, principais expressões da vida local. As atas analisadasrevelam as visitas que a professora fazia às famílias dos alunos e daqueles que nãofreqüentavam a escola, com o intuito de recrutá-los para o ambiente escolar. Os registros dãoconta do recrutamento de 209 crianças através dessas visitas, reafirmando a concepçãoeducacional salvacionista assumida pela professora. Os registros da sua personalidade forteforam também anotados em depoimentos que deram conta do ambiente doméstico. Educou seusdois filhos com muito rigor, como lembra o seu depoimento, por acreditar no crescimentoprofissional somente por intermédio dos estudos. Por isto, fazia o possível na tentativa degarantir aos próprios filhos uma formação de boa qualidade.Palavras-chave: Estudo biográfico; História de Vida; História da Educação.
  2. 2. 2INTRODUÇÃOO objeto de estudo é uma leitura da trajetória de Eunice Pereira da Fonseca, umaprofessora primária do Estado de Sergipe, que dirigiu durante trinta anos um grupoescolar no interior do Estado. Adentrar no seu universo é imaginar um tempo que ficoumuito distante, lá atrás, silenciado, e que ecoa agora pelas vozes do passado. Na série deentrevistas concedidas pela professora estudada, uma frase em particular chama muito aatenção: “disse ao meu marido: não podemos ter muitos filhos, pois resolvi serprofessora e minha missão é cuidar dos filhos dos outros”. Há várias observações nestafrase. Simboliza um tempo em que a educação era sim papel da escola, sem muitodebate sobre a participação da família. Até porque, cabe lembrar, que a população eraconstituída pela maioria de analfabetos. Assim, a família transferia mesmo para a escolaa função de educar os filhos. Em muitos momentos, no próprio relato da professora, épossível identificar que as mães entregavam a educação a ela, para que agisse como mãetambém na formação daquelas crianças, podendo inclusive atribuir-lhes castigos físicos,como era comum à época.Portanto, ouvir essas vozes do silêncio ou retirar a mordaça que o tempo sobrepõe àsvidas modificadas pela atividade profissional ou pela sua ausência é buscarnestesantepassados os vestígios de uma prática e de uma cultura escolar como um desafioposto.Por isso, ninguém melhor do que a própria protagonista para falar do que viveu eexperienciou. O passado é evocado pela memória e pela história de sua vida. Contudo,apesar da matéria-prima comum, é a compreensão oposta a mais difundida entre muitosestudiosos, na perspectiva de que memória e história não se confundem, pois a Históriatem na memória seu mais importante suporte. Assim, a memória é sempre vivida, físicaou afetivamente. No instante em que o grupo desaparece, a única forma de salvar aslembranças, é fazer o seu registro.A memória é história viva e vivida e permanece no tempo, renovando-se. A históriaviva é, portanto, o lugar da permanência e nela o desaparecimento das criações grupais ésomente uma aparência. A memória, na perspectiva de Halbwachs, é a possibilidade derecolocação das situações escondidas que habitam na sociedade profunda, nasensibilidade (HALBWACHS, 1990).Tal subjetividade enfatiza que: A nova história da educação promove uma ampliação sem precedentes da noção de fonte e de objeto trazendo à pesquisa educacional aspectos antes descurados pela historiografia como arquitetura da escola, regras e normas de conduta, rituais escolares, tipos e modos de dar aula, postura e comportamento docente, mobiliário e materiais didáticos, distribuição das atividades, relacionamento entre alunos e professores, festas e lazeres escolares, atitudes de conformação e rebeldia discente, enfim, a história dos lugares, das pessoas, dos saberes e dos fazeres que envolvem o ato de ensinar e aprender (GRAÇA, 2002)Todos estes aspectos devem ser considerados não apenas nas instâncias oficiais deprodução cultural, mas também em relação aos usos e costumes que caracterizam asociedade examinada pelo historiador. São práticas culturais não apenas a escrita de umlivro, uma determina técnica artística ou uma modalidade de ensino, mas também os
  3. 3. 3modos como, em uma dada sociedade, os homens convivem e brigam, se alimentam ouse relacionam, ouvem e se calam, enfim, o modo de vida dessas pessoas.Ao tentar compreender a cultura de uma dada época, é importante considerar asinfluências do tempo presente. No entanto, se os Grupos Escolares tiveram uma importância singular na construção simbólica da escola primária brasileira e na produção da história da infância no Brasil, não é certo dizer que sua influência foi única no período que se estendeu até os anos 1970. (VIDAL, 2006).Compreende-se, assim a cultura escolar, como tudo que envolve os saberes, as condutase as práticas usadas para transmissão desses saberes dentro da escola. Este universorevela traços importantes da vida escolar e todo o seu “em torno”, numacontextualização que vai além dos portões das instituições e atinge a sociedade em seusmúltiplos aspectos.Souza (2000, p.11) nos coloca que, além das fontes documentais tradicionalmenteutilizadas para a História da Educação, um conjunto diversificado e significativo defontes pode ser empregado no estudo da cultura escolar, isto é, documentos produzidospelos órgãos da administração do ensino para serem utilizados pelas escolas (relatórios,anuários, periódicos educacionais, orientações didáticas, manuais escolares, programasde ensino, despachos, entre outros) e documentos produzidos pelos agenteseducacionais como diários, semanários, cadernos e trabalhos de alunos, provas, livrosdidáticos, fotografias, depoimentos orais, entre outros.Essas considerações revelam que, para se aproximar ao máximo do cotidiano escolar, ospesquisadores precisam realizar um levantamento minucioso e organizado das fontes,que podem ser encontradas nos arquivos tradicionais, mas principalmente, em arquivospessoais, nos guardados de ex-alunos e profissionais da instituição. Não é demais falarem seriedade, comprometimento e persistência para conseguir se estabelecer umarelação de confiança entre o pesquisador e o “guardião” de tão preciosas fontes.As inter-relações formadas em seu em torno podem demonstrar que as instituiçõesescolares tanto se apresentam em seu aspecto formal, de disciplinas, normas ecurrículos, como também em suas características informais, mas de grande importânciana definição de sua própria cultura. Demonstram, também, as relações de poderestabelecidas em seu interior. Nesse espaço, Os grupos escolares deram à formação cívica importância fundamental. A partir da implantação do Grupo Escolar Modelo e ao longo de toda a primeira metade do século XX foram muitas as iniciativas dos governos que objetivaram criar condições para que os grupos escolares priorizassem a formação cívica dos seus alunos. Livros de leituras morais, sempre com a preocupação de fixar valores relativos ao cumprimento do dever, ao culto da responsabilidade, do amor, do bem, da solidariedade, do respeito às leis, dos valores morais. (NASCIMENTO, p. 162, 2006)No estudo iniciado, percebemos, de fato, que as comemorações cívicas eram muitoprestigiadas na cidade, contando sempre na escola com a presença das autoridades doMunicípio, a exemplo do próprio prefeito e também de representantes da instruçãopública do Estado. Isso está presente em todo o material pesquisado, principalmente nos
  4. 4. 4boletins de ocorrência, nos quais eram descritas as práticas na escola, bem como asatividades, reuniões pedagógicas e festividades.A atuação da professora Eunice é presente em iniciativas de pedir auxílio aos feirantes enas casas da comunidade, angariando alimentos para que pudesse servir a merendaescolar. Também está presente na fabricação dos uniformes escolares, solicitando aosusineiros da região o tecido para que pudessem, ela e as mães, produzir o uniforme dascrianças. Outra prática foi a educação de adultos viabilizada pelas aulas radiofônicas doMovimento Paulo Freire através de uma ação da igreja católica via Rádio Cultura deSergipe.As condições sob as quais trabalhou a professora Eunice foram determinantes da opçãode periodizar que se fez no presente estudo. O ponto de partida é o ano de 1955,encerrando-se o período analisado em 1976, considerando-se os registros existentesacerca da atuação da docente estudada.Não obstante haver a professora estabelecidoresidência no município de Santa Luzia do Itanhy por mais de 30 anos, o período de 21anos aqui estabelecido é verificado em face da existência de atas e outros documentos.Após o ano de 1976, quando se aposentou encerrando a sua carreira docente, aprofessora Eunice foi colaborar com o marido tabelião no trabalho que estedesempenhava no cartório da cidade, o que não é objeto de análise por parte desteestudo. Na década de 80 do século XX, o casal mudou-se da cidade de Santa Luzia paraAracaju.I – ATUAÇÃO DA PROFESSORA PRIMÁRIAEunice demonstrou desde muito cedo, uma liderança entre os irmãos, sendo respeitadapor todos e tratada por eles como “tia”. Durante a infância assumiu responsabilidades demãe, nos afazeres domésticos, na agricultura de subsistência e no cuidado com osirmãos. O cotidiano familiar que percorreu sua juventude foi de dedicação às tarefasdomésticas.Entretanto, nunca descuidou dos estudos. Apesar de economicamente modestos, seuspais não dispensavam a formação escolar dos filhos. Eunice começou, ainda cedo, aensinar as crianças, suas vizinhas, a ler e a escrever.Sua mãe, Bertulina, tinha uma irmã, que teve influência muito grande nas idéias quemais tarde a professora assumiria. A Tia, Pureza, comerciante no mercado municipalTales Ferraz, em Aracaju, interessada pela militância política, abriu as portas da suabarraca de feirante para abrigar e esconder militantes perseguidos pela ditadura militarna década de 60. Assim, o contato com ela era uma espécie de processo de formaçãopolítica socialista, preparando sua personalidade e fortalecendo seu discurso acerca daliberdade.Por influência da Tia Pureza, professora Eunice mudou para a cidade de Aracaju, a fimde prosseguir com os estudos. A Tia Pureza era militante do Partido Comunista econvivia com diversas lideranças de esquerda em Aracaju. Entendia que justiça social edistribuição de riqueza só poderiamacontecer quando implementadas as propostas do“partidão”1. Foi responsável, na década de 60 por algumas invasões de terrenos emAracaju, como por exemplo, a área da Rua São Francisco, atualmente Rua Rafael de1 O Partido Comunista Brasileiro.
  5. 5. 5Aguiar. Como não se casara, procurava educar os sobrinhos e Eunice não foi a única areceber a sua influência ideológica, incentivo à formação como professora edesenvolvimento da auto-estima.Eunice concluiu seu curso primário no Colégio Tobias Barreto (1936), sob a direção doprofessor José de Alencar Cardoso, o “Professor Zezinho2”, profissional influente naspráticas educacionais em Sergipe durante a primeira metade do século XX. O professorhavia fundado um colégio na cidade de Estância em 1909, transferindo-o depois paraAracaju. Oferecendo ensino para ambos os sexos, o seu colégio valorizava a formaçãomilitar para os alunos do sexo masculino.O ginásio, Eunice cursou no Colégio Atheneu Sergipense, concluindo o curso em 1942.Nas suas memórias ficou o registro da importância do trabalho dos professores AbdiasBezerra, Felte Bezerra e José Barreto Fontes, entre outros, que contribuíram einfluenciaram sua formação: “tempos em que o professor era respeitado e a sociedadeentendia a importância social, cultural, econômica de um professor e o via como co-responsável na formação integral do aluno”.Já casada com Otacílio da Fonseca, aos 20 anos, e de volta ao município de Pedra Mole,teve seu primeiro filho Jeferson e logo depois sua filha Gicelmaque faleceu acometidade difteria aos dois anos de idade. Ingressou no serviço público estadual, em 03 demarço de 19473, como professora, em sua cidade natal, Pedra Mole, interior do Estadode Sergipe, na escola pública4 daquela cidade, sendo transferida aproximadamente doisanos depois para o povoado de Areias, no município de Divina Pastora. Mas, logodepois, uma nova remoção. Desta vez para a Escola Rural da Fazenda Angicos, nomunicípio de Poço Redondo, Vila de Santa Luzia, atualmente a cidade de Barra dosCoqueiros. Mais uma transferência, agora para o município de Ribeirópolis ondetrabalhou durante oito anos. Lá nasceu outra filha, Sônia, em 1954. Em Ribeirópolisestabeleceu laços de amizade com a influente família Ceará, o que lhe possibilitouacesso à direção do Grupo Escolar Abdias Bezerra, naquele município: “ou o professorera do lado do prefeito ou era perseguida por ele e aí era transferida, o que era chamado deremoção”.De Ribeirópolis, professora Eunice foi ainda transferida para o município de Itabi e, emseguida, para o de Campo do Brito. De lá, recebeu a última remoção, desta feita para acidade de Santa Luzia do Itanhy, em 1955, onde permaneceu morando mesmo após asua aposentadoria, em 1976. Somente na metade da década de 80, já aposentada,resolveu fixar residência em Aracaju.Em Santa Luzia do Itanhy, no Grupo Escolar Comendador Calazans 5 contribuiu maispara o planejamento escolar, inovando ações e instituindo práticas pedagógicas noensino primário que moldaram sua identidade na gestão da escola.2 Professor Zezinho foi expulso da Escola Militar do Realengo em virtude de ter se envolvido na revoltade novembro de 1904. Faleceu em 1964 aos 86 anos.3 Conforme consta na Declaração datada de 12 de março de 1990, da Diretoria Regional de Educação deEstância/SE.4 Eram consideradas Escolas Públicas Isoladas as escolas implantadas pelo governo estadual empropriedades particulares como fazendas e sítios fora da área da cidade. Posteriormente, passaram achamar-se escola rural.5 O Grupo Escolar Comendador Calazans foi criado através do Decreto nº 244 de 07/11/1953, assinadopor Arnaldo Rollemberg Garcez e Acrízio Cruz.
  6. 6. 6Durante todo esse período, o Estado possuía uma política de treinamentos ecapacitações permanentes. O Departamento de Educação do Estado, àquela época,correspondia a atual Secretaria da Educação. Certamente, a partir da década de 40 doséculo XX e até os anos 50 da mesma centúria o seu diretor mais influente foi oprofessor Acrísio Cruz (1906-1969), tendo orientado e dirigido trabalhos de destaquedurante o governo de José Rollemberg Leite (1947-1951). Na verdade ele já atuava noDepartamento desde 1944 como técnico em educação. Acrísio foi responsável pelainstalação de vários grupos escolares em Sergipe, ampliando as possibilidades de acessoà escola. Os seus ideais pedagógicos escolanovistas foram concretizados nas açõesdestinadas à instrução pública estadual. Acrísio e a professora Eunice se conheceram noColégio Tobias Barreto, ele como professor e ela como aluna. Depois, no trabalho, elecomo dirigente do Departamento de Educação e ela na condição de professora.Estabeleceram relações profissionais, depois transformadas em amizade que resultou noconvite para que o professor fosse padrinho de uma das suas filhas.II - AS PRÁTICAS ESCOLARESA sugestão para que a professora Eunice se submetesse aos concursos públicos, partiudo antigo mestre Acrísio Cruz, que foi professor de Eunice no Colégio Tobias Barreto.Essa amizade lhe daria muitas indicações para que pudesse participar das seleções paraocupação da função de diretora de escola, como aconteceu em Santa Luzia do Itanhy. No Estado de Sergipe, delineava-se nesse período um panorama econômico marcado pelo declínio da economia canavieira e da indústria têxtil e da expansão da atividade agropecuária. Em contrapartida, no final dos anos 50 e início dos 60, sob influência dos debates e iniciativas de caráter nacional, o Estado passou a experimentar um período rico de mudanças, sobretudo a partir da criação da SUDENE, que sinalizou caminhos para sua industrialização e modernização. (SANTOS, 2003)A posição de diretora de grupo escolar permitiu que a professora Eunice tambémestabelecesse relações com a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste –Sudene e participasse de cursos e outros projetos da autarquia.O grupo escolar Comendador Calazans tinha, em sua dependência, uma área que serviade moradia da professora e de sua família, composta de dois cômodos e uma área livre. O prédio contava apenas com quatro salas de aula, uma diretoria que funcionava também como secretaria, quatro sanitários, sendo dois masculinos e dois femininos, um pátio coberto, cozinha, depósito para guardar a merenda, e a casa do professor, casa que D. Eunice residiu por muito tempo. (Iza6)Aos sábados, Eunice fazia reunião com todas as outras professoras para traçar os planosde aula e o planejamento da vida escolar.6 Maria Luiza Quintela Leite, conhecida na cidade por Iza, era professora e atualmente é secretária naescola, onde ainda permanece em atividade até a data da entrevista (30/03/2009)
  7. 7. 7O registro dessas atividades está arquivado em formulários depositados na Secretaria deEstado da Educação de Sergipe7. Nos documentos é possível verificar a autoridade dadiretora e a participação das lideranças políticas do município na vida escolar.Como diretora do grupo escolar no município de Santa Luzia do Itanhy (Grupo EscolarComendador Calazans), a professora Eunice implementou algumas práticaspedagógicas, como educação de adultos (com “luz de candeeiro e velas”, como elaconta, onde cada aluno levava o seu candeeiro para as aulas).A professora Eunice participou também ativamente do Movimento Paulo Freire, com ométodo de alfabetização de adultos, aulas transmitidas pela Rádio Cultura de Sergipeem uma parceria com a igreja católica, sob a coordenação do bispo de Aracaju, DomJosé Vicente Távora, que indicou a professora Eunice para coordenar o movimento nosul do Estado de Sergipe. Neste projeto, ela atuou ainda como multiplicadora naalfabetização de centenas de adultos. O aparelho receptor de rádio alimentado por umabateria de caminhão era instalado na escola. Educação de adultos eu fiz muito, e era a luz de velas e candeeiro. Os alunos levavam cada qual o seu candeeirinho. Me dava tristeza uma pessoa no meu país não saber escrever o nome dele (professora Eunice)Além do aparelho de rádio, a escola recebia cartilhas que eram distribuídas àsprofessoras, com a explicitação da metodologia de ensino. A primeira palavra a ser ensinada era Tijolo e continha todo um simbolismo em toda aquela construção. Ninguém recebia nada para fazer isso. Existiam as cartilhas que eram distribuídas aos outros professores com o método a ser repassado aos alunos. Quando meu irmão Jeferson foi preso, seu Toinho da prefeitura foi em casa avisar para queimar todas as cartilhas pois a polícia do 28 BC estava vindo. (Sônia, filha de Eunice)É conhecida a posição que os militares dirigentes da ditadura que se implantou em 1964assumiram em face do método concebido pelo professor Paulo Freire, considerando oprojeto subversivo, determinando a prisão do autor da proposta que foi forçado a sair dopaís e viver no exílio.Nas diversas atividades constantes no calendário escolar, a participação de alunos,professores e comunidade era bastante expressiva.Apesar de não ter vínculo partidário formal, a professora Eunice exercia uma influênciapolítica na comunidade. Prestava serviços a todos e providenciava auxílio a todos quenecessitavam. Quando alguém morria e a família não dispunha de meios, era aprofessora quem assumia a responsabilidade de buscar ajuda junto ao governomunicipal para o velório. Chegou a encomendar a produção de um caixão comunitário,com fundo falso, que era reaproveitado em vários sepultamentos.7 Nesses formulários, são claramente discorridos alguns temas, como a recuperação daqueles alunos quenão foram aprovados pormédia. Foi verificado o período de 1972 a 1975. Há um enfoque em palestrascívicas, conforme formulário datado de 23/03/1973. Há ainda outra menção a comemoração dos 150 anosda criação do poder legislativo brasileiro em maio de 1823 e outra citação de 26/05/1973 com explicaçõessobre o Congresso Nacional e os três poderes.
  8. 8. 8Essas práticas assistencialistas levaram a professora Eunice a exercer influência eleitoralno município, o que a fazia objeto do assédio dos dirigentes políticos locais. Minha mãe sabia quantos votos ela tinha em cada urna, os eleitores chegavam, iam lá para casa e minha mãe distribuía, dizendo, é para votar nesse e ela ia esperar na porta de cada urna para poder fazer o controle. (Sônia, filha de Eunice)Foi este espírito que a levou a instituir um programa de merenda escolar8 na instituiçãoque dirigia.A professora Eunice organizava mutirões e envolvia as lideranças locais paraobter verduras e legumes, arroz, carne e os demais insumos necessários à refeição dosestudantes. Os feirantes eram participantes ativos do projeto. Os alunos do Grupo Escolar Comendador Calazans merendavam 10 horas da manhã e 3 horas da tarde (professora Eunice)No exercício da direção, mantinha uma postura de força e de imposição da suaautoridade pedagógica e administrativa. Os registros da freqüência do pessoaladministrativo e docente demonstram que a professora Eunice buscava legitimar a suaautoridade através do exemplo, sendo a primeira a chegar e a ultima a se retirar daescola.O mesmo tipo de prática que assumia no ambiente familiar. Acreditava firmemente napossibilidade do sucesso profissional e social como conseqüência de uma sólidaformação escolar. Seu filho Jeferson, aos onze anos, foi morar em Aracaju, a fim de darcontinuidade aos estudos, em face da ausência de oportunidades no interior do Estado.Sônia, dez anos mais nova que o irmão, ficou em Santa Luzia com os pais.III – CONSIDERAÇÕES FINAISAs memórias da professora Eunice são reveladoras dos elementos próprios à vida socialde meados do século XX, como a presença forte dos partidos políticos no interior deSergipe, influenciando na escolha dos dirigentes das escolas; as ações e práticaspedagógicas impactandoa vida dos estudantes e dascomunidades;práticas de assistênciasocial como a organização de projetos de merenda escolar sem o financiamento público. Práticas como as de organização de programas de merenda escolar semfinanciamento público ajudavam na obtenção de prestígio político pessoal, mas tambémeram mobilizadoras da comunidade e estimulavam o desenvolvimento da consciência deautogoverno e da responsabilidade coletiva em colaborar e contribuir para a manutençãoda escola. Esse entendimento leva a professora Eunice a produzir críticas as relaçõesestabelecidas atualmente entre os profissionais da Educação e as instituições escolares, apartir do entendimento do magistério como missão sacralizada: O magistério hoje está diferente, pois os professores só trabalham pelo dinheiro, diferente daquele tempo, onde havia devoção acima de tudo (professora Eunice).8 O programa criado pela professora Eunice era mantido com a participação de todos. Ela cotava com aparticipação das professoras e dos feirantes para a obtenção dos insumos necessários à produção damerenda escolar.
  9. 9. 9As memórias da professora Eunice contribuem para a compreensão de categoriaspróprias ao universo da chamada História Cultural, formuladas por teóricos como RogerChartier9. O seu fazer e o discurso presente nas suas memórias se articulam como“práticas” e “representações” presentes em formações culturais nas quais a professoraEunice viveu e trabalhou.Formações sociais nas quais os profissionais do magistério produziam de sirepresentações de pessoas conduzidas por uma vocação com características desacerdócio, onde a professora era uma espécie de “mãe” substituta dos alunos, posto quea escola era vista como instituição destinada a oferecer práticas educativas quesubstituíam a responsabilidade familiar. Mesmo porque, os núcleos familiares, em boaparte dos casos não apresentavam as condições necessárias a colaborar com o processode letramento, posto que a maior parte dos seus membros era composta por analfabetosque não podiam ou não se sentiam em condições de cumprir esse papel. A diferença daquela época para os dias de hoje é que antes os professores eram mais dedicados, a pesar do salário baixo, eles não deixavam de cumprir o seu dever talvez pelo fato de naquela época não sofrerem influências dos movimentos sindicais. O ano letivo transcorria sem interrupção de greves ou paralisações contava com cento e oitenta dias letivos e quatro disciplinas na grade curricular, o rendimento dos alunos no final de ano era satisfatório. Outro fator importante daquela época era o apoio da família, pois os pais acompanhavam efetivamente na educação dos filhos. Os alunos daquela época eram mais disciplinados, respeitavam os professores como se fossem os próprios pais (Iza)Naquele tipo de comunidade, o trabalho do professor era visto como portador de luzesque indicariam os caminhos do sucesso profissional e da ascensão social.Por isto, a função docente impunha renúncias àquele que optava por ela, o que levavaprofissionais, como a professora Eunice a colocar suas responsabilidades ao marido:“não vamos ter muitos filhos, sou professora, minha missão é cuidar dos filhos dosoutros”. A vocação para o magistério era já legitimamente feminina e responsabilidadeque se impunha cada vez mais predominantemente como papel profissional da mulher.Papel socialmente muito bem recebido.9 Ver: Roger Chartier em A História Cultural, publicado em 1990.
  10. 10. 10Referências BibliográficasCHARTIER, Roger. A História Cultural:entre práticas e representações, Lisboa:DIFEL, 1990.FREITAS, Anamaria Gonçalves Bueno de. “Vestidas de Azul e Branco” um estudosobre as representações de ex-normalistas (1920-1950). São Cristóvão: Grupo deEstudos e Pesquisa em História da Educação/NPGED, 2003.GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. História da Educação Brasileira. São Paulo: Cortez,2008.HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.HOBSBAWN, Eric J. Sobre Historia. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.LOPES, Eliane Martha Teixeira; GALVÃO, Ana Maria de Oliveira. História daEducação. RJ: DP&A Editora, 2001.MENDONÇA, José Antonio Nunes. A Educação em Sergipe. Aracaju: LivrariaRegina, 1958.NASCIMENTO, Jorge Carvalho do; VASCONCELOS, José Geraldo. História daEducação no Nordeste Brasileiro. UFC Edições: Fortaleza, 2006.NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. Historiografia Educacional Sergipana: UmaCrítica aos Estudos de História da Educação. São Cristóvão: Grupo de Estudos ePesquisas em História da Educação/NPGED, 2003.Nóvoa, A. (1992). Os Professores e as Histórias da sua Vida. In A. Nóvoa (ed.),Vidas de Professores. Porto: Porto Editora, 11-30NUNES, Maria Thétis. História da Educação em Sergipe. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1984.SANTOS, Fábio Alves dos. Olhares de Clio sobre o universo educacional. Umestudo das monografias sobre educação do Departamento de História da FS – 1996-2002. São Cristóvão: Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação, 2003.VIDAL, Diana Gonçalves (Org.).Grupos Escolares: cultura escolar primária eescolarização da infância no Brasil (1893-1971). Campinas, SP: Mercado dasLetras, 2006.VIDAL, Diana G.; FARIA FILHO, Luciano M. História da educação no Brasil: aconstituição histórica do campo (1880-1970). Revista Brasileira de História, v. 23, n.45, 2003, p. 37-70.

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