Cartilha preparatória - 56º CONEA

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Cartilha preparatória - 56º CONEA

  1. 1. Federação dos Estudantes de Agronomia do BrasilCartilha de Textos Pré-CONEA56º Congresso Nacional dos Estudantes de Agronomia“O PAPEL DO(A) AGRÔNOMO(A) EM FORMAÇÃO NA REALIDADEINDÍGENA E NAS COMUNIDADES TRADICIONAIS”Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy RibeiroCampos dos Goytacazes,RJJunho de 2013
  2. 2. Cartilha pré-CONEAOrganizadores: FEAB-Campos dosGoytacazes-RJDesign gráfico: André Rocha(FEAB-Belém/PA) e Raphael LopesDiagramação: Braullio Paz(DCE-UENF),João Luiz Oliveira Barbosa e LucasMoretz-Sohn(FEAB-Campos dosGoytacazes-RJ)
  3. 3. Sumárioi Apresetação…………………………………………………………………………………………………………………………………………..4iiBreve introdução da história da FEAB………………………………………………………………………………………….…………5I Texto do NTP de Juventude, Cultura, Valores, Raça e Etnia……………………………………………………………………6II Raça e Etnia………………………………………………………………………………………………………………………………………….7III O PAPEL DO(A) AGRÔNOMO(A) EM FORMAÇÃO NA REALIDADE INDÍGENA E NAS COMUNIDADESTRADICIONAIS……………………………………………………………………………………………………….………………………………..9IV Breve introdução à realidade e a questão indígena no Brasil: Inserindo a FEAB em um debatenecessário……………………………………………………………………………………………………………………………………………..11V Terra à vista: Uma visão sobre as relações educacionais dentro do contexto da culturaindígena……………………………………………………………………………………………………………………………………….……….21VI Agronomia e Etnoconhecimento: Um diálogo necessário………………………………………………………………….24VII Líder Guajajara acredita na forca feminina, na educação e no orgulho de ser indígena, como fatoresde mudança…………………………………………………………………………………………………………………………..………………28VIII Sem a prática não dá, extensão universitária nos currículos já! Por um(a) Agrônomo(a) comconsciência social e ecológica……………………………………………………………………………………..…………………………34IX O Movimento Estudantil, as Relações Internacionais e a CONCLAEA…………………………..…………………….40X NOTA DE REPÚDIO AO NOVO PL 2177/2011……………………………………………………………….………………….….44XI Grade 56º CONEA……………………………………………………………………………………………………….……………………..47Anexo: ORGANIZAÇÃO E APOIOS…………………………………………………………………………..………………………………48
  4. 4. 4i. ApresentaçãoO presente material traz o acúmulo da Comissão Organizadora do 56º Congresso Nacionaldos Estudantes de Agronomia, com textos que auxiliaram no processo da escolha da temática doevento, e também, já com esta definição, textos de acúmulo de estudantes organizados na Federaçãodos Estudantes de Agronomia do Brasil. Esperamos que com esta cartilha, os estudantes possam estarse preparando para nosso 56º CONEA, em reuniões para aprofundar os temas tratados, não baseandoapenas em textos que contém nesta.Gostaríamos aqui de agradecer todos (as) estudantes de Agronomia que nos apoiaram paraassumir esta tarefa, as Organizações Indígenas e Quilombolas, que tem sido fundamentais para odesfecho deste trabalho; à Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, por seu apoioirrestrito para execução do evento; e as demais pessoas que nos auxiliaram e auxiliam, nestacaminhada.No ano que nossa Universidade completará seus 20 anos, sendo essa idealizada pelo mestreDarcy Ribeiro, sentimo-nos honrados por estar fazendo valer a suas palavras na aula inaugural daquele16 agosto de 1993: vamos encher a UENF de gente! Gente consciente, que virá pra discutir o papel do(a) agrônomo (a) na realidade indígena, e nas comunidades tradicionais!Todos (as) estudantes de Agronomia rumo ao 56º CONEA! E uma boa leitura!Comissão Organizadora do56º Congresso Nacional dos Estudantes de Agronomia“O PAPEL DO (A) AGRÔNOMO(A) EM FORMAÇÃO NA REALIDADE INDÍGENA E NAS COMUNIDADESTRADICIONAIS”
  5. 5. 5ii. Breve introdução da história da FEABCriada no ano de 1972, no 15º Congresso Nacional, a FEAB é a entidade que representatodos(as) estudantes de Agronomia do Brasil. Embora iremos fazer 41 anos de FEAB este ano, aorganização estudantil da Agronomia tem seu início no ano de 1951, quando estudantes de Agronomiae Veterinária, criam a União dos Estudantes de Agronomia e Veterinária do Brasil(UEAVB).No decorrer da sua história, a FEAB encampou inúmeras mobilizações, tendo papel crucial noMovimento Estudantil nacional. Das conquistas e discussões encampadas pelos estudantes deagronomia, a Lei dos Agrotóxicos, a obrigatoriedade do uso do receituário agronômico, o fim da Lei doBoi, foram algumas conquistas iniciais. No final dos anos 70, início de 80, trouxe à tona a fragilidade, e oquão desigual é esse modelo hegemônico de agricultura, organizando eventos nacionais de AgriculturaAlternativa (EBAAs). Foi no final da década de 80, que também inicia a organização de um importanteespaço de formação profissional, técnica, política e humana: os Estágios Interdisciplinares de Vivência;que inclusive levou a Federação a receber um prêmio da UNESCO. No início dos anos 90, é intensificadoo debate das Relações Internacionais, tendo como resultado o I Congresso Latino-Americano eCaribenho de Entidades Estudantis da Agronomia (I CLACEEA), que foi sediado na FAEM (UFPel), emPelotas/RS, em 1991. Somos hoje norteados por bandeiras (horizonte político) que defendemos, sendoelas: Agroecologia; Universidade; Ciência e Tecnologia; Relações Internacionais; Juventude, Cultura,Valores Raça e Etnia; Gênero e Sexualidade; Formação Profissional & Movimentos Sociais Populares.Falando em Movimentos Sociais, temos clara a importância de estarmos construindo lutasconjuntas com estes, uma vez que só assim mudaremos a realidade injusta do campo brasileiro e dasociedade, e por isto, desde 2002, compomos a Via Campesina no Brasil! E em nosso fórum máximo dediscussão e deliberação, no 56º CONEA, não hesitaremos em continuar denunciando essas mazelas,rumo à transformação que almejamos!Plenária Nacional de Entidades de Base da FEAB, UFPR, Matinhos-PR, 31/03/13.
  6. 6. 6I. Debater a questão indígena e das comunidades tradicionais não é uma tarefa fácil,pois historicamente essas populações vêm, resistindo desde a chegada doscolonizadores até os dias atuais. O cenário dessas comunidades é de umaresistência cotidiana, pois a homogeneização deflagrada a partir da globalizaçãoperversa regida pelo modo de produção capitalista, tenta impor a esses povosuma lógica perversa e excludente. Ao observar em uma perspectiva territorial,encontramos de um lado o discurso do capital, que vê a diversidade como umaameaça ao desenvolvimentismo concentrador, e por outro lado há os queacreditam na diversidade como possibilidade de luta, e alternativa a umasociedade heterogênea do ponto de vista cultural e socialmente horizontal!!!Eis o desafio que temos por enfrentar...NTP de Juventude, Cultura, Valores, Raça e EtniaUFRB,Cruz das Almas - 2012/2013ApresentaçãoPara que cada povo trame os fios de sua história*O Brasil é um país de vários povos. Diversos segmentos da sociedade brasileira são marcadospor identidades coletivas próprias. Cerca de 8 milhões de brasileiros e brasileiras fazem parte de povos ecomunidades tradicionais, ocupando 1/4 do território nacional. Inclui, entre outros grupos, 2 milhões dequilombolas, 1 milhão de atingidos por barragens, 435 mil indígenas, 400 mil quebradeiras de coco, 37mil seringueiros e 163 mil castanheiros. Estima-se, por exemplo, que 27% do território amazônico éocupado por terras indígenas.Esse contexto não é diferente do de toda a América Latina, onde 10% da população, oequivalente a 44 milhões de pessoas, é composta por 522 povos de diferentes etnias. No Brasil e naAmérica Latina, esses povos ajudaram a definir as fronteiras e garantir os territórios e o vem fazendo atéhoje, apesar do etnocídio que vem sofrendo desde a época dos descobrimentos. Não se pode maisignorar a importância e a força da contribuição de povos e comunidades tradicionais com suas visões demundo, organização social, sistemas de significado e saberes ancestrais.Não acreditamos que o Brasil seja a soma de seus grupos étnicos tomados individualmente.Acreditamos na força criadora da associação, da aliança desses vários modos de ser e estar no mundo.Acreditamos que o país precisa alargar-se para que em seu interior caibam, de fato, todos os mundos.(Mais sobre o contexto dos povos e comunidades tradicionais no Brasil [adaptado da PNPCT])Em razão de processos históricos diferenciados, diversos segmentos da sociedade brasileira,podendo-se mencionar entre eles os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, seringueiros, caiçaras,pescadores artesanais, geraizeiros, caatingueiros, vazanteiros, chapadeiros, açorianos, caboclos,quebradeiras de coco babaçu, castanheiros, caipiras, campeiros, ciganos, jangadeiros, pantaneiros,praieiros, sertanejos, marisqueiros, faxinaleiros, povos de terreiro, pomeranos, comunidades de fundo
  7. 7. 7de pasto, entre outros, desenvolveram modos de vida próprios e distintos dos demais, ocasionando aomesmo tempo riqueza sócio-cultural e invisibilidade perante a sociedade e as políticas públicas de modogeral.Tal invisibilidade, se reflete na ausência de instâncias do Poder Público responsáveis pelaarticulação e implementação de Políticas Públicas para estes povos e comunidades, especialmente noque diz respeito às políticas para inclusão social. Mesmo no caso daqueles para os quais já existe umreconhecimento constitucional, como os povos indígenas e as comunidades quilombolas, ainda existemquestões primordiais pendentes como o acesso à terra ou à saúde e educação diferenciadas. Emboravenham desempenhando um importante papel na conservação dos recursos biológicos e dosconhecimentos tradicionais a eles associados, inclusive na manutenção da agrobiodiversidade, os povose comunidades tradicionais têm vivido uma situação de agravamento das situações relacionadas àspossibilidades de permanência e controle de seus territórios.Assegurar o acesso ao território significa manter vivos na memória e nas práticas sociais ossistemas de classificação e de manejo dos recursos, os sistemas produtivos, os modos tradicionais dedistribuição e consumo da produção, além de elementos simbólicos essenciais à sua identidade cultural.Assim, os territórios tradicionais além de assegurar a sobrevivência dos povos e comunidadestradicionais, constituem a base para a produção e a reprodução de todo o seu patrimônio cultural. Essarealidade reflete a urgência de uma mudança significativa que permita a estes povos e comunidades aexperiência de viver sua cidadania de modo integral, sem que para isso tenham que abrir mão de suaspráticas culturais, sociais e econômicas.* Essa frase foi inspirada na fala da Profª. Rita Laura Segato, antropóloga da UnB.Texto extraído de: http://www.ocarete.org.br/ocarete/apresentacao/II. Raça e Etnia*Retirado da Apresentação do Prof. Edmilson Mota, que subsidiou o respectivo debate no Seminário deConstrução do 56º CONEA.Purificar a raça. Aperfeiçoar o homem. Evoluir a cada geração. Se superar. Ser saudável. Serbelo. Ser forte. Todas as afirmativas anteriores estão contidas na concepção de eugenia. Para ser omelhor, o mais apto, o mais adaptado é necessário competir e derrotar o mais fraco pela concorrência.Luta de raças. Para a política, luta de classes.Etimologicamente, o conceito de raça veio do italiano razza, que, por sua vez, veio do latimratio, que significa sorte, categoria, espécie. Na história das ciências naturais, o conceito de raça foi
  8. 8. 8primeiramente usado na zoologia e na botânica para classificar as espécies animais e vegetais. Do pontode vista da genética, não existe raça branca ou negra. Não existe raça ariana ou latina. Também nãoexiste raça brasileira. O racista cria a raça no sentido sociológico, ou seja, a raça no imaginário do racistanão é exclusivamente um grupo definido pelos traços físico. A raça, em sua concepção, é um gruposocial com traços culturais, linguísticos, religiosos, que ele considera naturalmente inferiores aos dogrupo ao qual ele pertence. A primeira origem do racismo deriva do mito bíblico de Noé do qual resultaa primeira classificação religiosa da diversidade humana entre os três filhos de Noé. Jafé (ancestral daraça branca), Sem (ancestral da raça amarela) e Cam (ancestral da raça negra).Raça é uma construção social, No século XVIII, a cor da pele foi considerada como um critériofundamental e divisor de água entre as chamadas raças. Com isto, a espécie humana ficou dividida emtrês raças estanques que resistem até hoje no imaginário coletivo e na terminologia científica: raçabranca, negra e amarela. No século XIX, acrescentaram-se ao critério da cor outros critériosmorfológicos como a forma do nariz, dos lábios, do queixo, do crânio, o ângulo facial etc. paraaperfeiçoar a classificação. No século XX, pesquisas comparativas levaram também à conclusão de queos patrimônios genéticos de dois indivíduos pertencentes a uma mesma raça podem ser mais distantesque os pertencentes a raças diferentes; um marcador genético característico de uma raça pode, emboracom menos incidência, ser encontrado em outra raça. No século XX, pesquisas comparativas levaramtambém à conclusão de que os patrimônios genéticos de dois indivíduos pertencentes a uma mesmaraça podem ser mais distantes que os pertencentes a raças diferentes; um marcador genéticocaracterístico de uma raça pode, embora com menos incidência, ser encontrado em outra raça.Hoje, utilizamos o conceito raça num sentido ideológico e político (a relação de poder edominação). A raça, sempre apresentada como categoria biológica, isto é, natural, é de fato umacategoria etnossemântica. De outro modo, o campo semântico do conceito raça é determinado pelaestrutura global da sociedade e pelas relações de poder que a governam. Os conceitos de negro, brancoe mestiço não significam a mesma coisa nos Estados Unidos, Brasil, África do Sul, Inglaterra. Por isso, oconteúdo dessas palavras é etnossemântico, político e não biológico. Para o geneticista e para o biólogomolecular a raça não existe, no imaginário e na representação coletivos de diversas populaçõescontemporâneas existem ainda raças fictícias e outras construídas a partir das diferenças fenotípicascomo a cor da pele e outros critérios morfológicos.A segunda origem do racismo tem uma história conhecida e inventariada, ligada ao modernismoocidental. Ela se origina na classificação dita científica derivada da observação dos caracteres físicos corda pele, traços morfológicos. Da explicação divina passou para a explicação biológica, para odeterminismo racial. Carl Von Lenné, o Lineu, o mesmo naturalista sueco que fez a primeira classificaçãoracial das plantas, oferece, também no século XVIII, o melhor exemplo da classificação racial humana: Oamericano: o próprio classificador descreve como moreno, colérico, cabeçudo, amante da liberdade,governado pelo hábito, tem corpo pintado; Asiático: amarelo, melancólico, governado pela opinião epelos preconceitos, usa roupas largas; Africano: negro, fleumático, astucioso, preguiçoso, negligente,governado pela vontade de seus chefes (despotismo), unta o corpo com óleo ou gordura, sua mulhertem vulva pendente e quando amamenta seus seios se tornam moles e alongados; Europeu: branco,sanguíneo, musculoso, engenhoso, inventivo, governado pelas leis, usa roupas apertadas.
  9. 9. 9Racismo é um conceito criado por volta de 1920. Com base nas relações entre “raça” e “racismo”,este seria teoricamente uma ideologia essencialista que postula a divisão da humanidade em grandesgrupos chamados raças contrastadas que têm características físicas hereditárias comuns, sendo estesúltimos suportes das características psicológicas, morais, intelectuais e estéticas que se situam numaescala de valores desiguais. O conceito da raça é morfobiológico e o da etnia é sociocultural, histórico epsicológico. Uma etnia é um conjunto de indivíduos que, histórica ou mitologicamente, têm umancestral comum, têm uma língua em comum, uma mesma religião ou cosmovisão, uma mesma culturae moram geograficamente num mesmo território.Por que o conceito raça tornou-se um critério de acessibilidade à universidade, para os gruposétnicos e raciais indígenas e negros? Para garantir a inclusão social destes grupos que historicamentesempre foram marginalizados. Para que a lei 10.639/03 que torna obrigatório o ensino da História e acultura afro-brasileira na escola, no currículo escolar? Para garantir uma ressignificação e valorizaçãocultural das matrizes africanas que formam a diversidade cultural brasileira. Portanto, os professoresexercem importante papel no processo da luta contra o preconceito e a discriminação racial no Brasil. Oconceito etnia não daria conta para tratar das diferenças coletivas? Não, tendo em vista a seguinteafirmação, ‘‘uma etnia é um conjunto de indivíduos que, histórica ou mitologicamente, têm umancestral comum, têm uma língua em comum, uma mesma religião ou cosmovisão, uma mesma culturae moram geograficamente num mesmo território’’.Enfim, ao analisarmos o texto, nota-se que se tratando de Brasil, o preconceito é de classe, raça ecor.III. O PAPEL DO(A) AGRÔNOMO(A) EM FORMAÇÃO NA REALIDADE INDÍGENA E NASCOMUNIDADES TRADICIONAISA escola de Campos dos Goytacazes/RJ assumindo a Comissão Organizadora do 56º CONEA, no 55ºCONEA, em Cruz das Almas/BA, em 21 de agosto de 2012.No processo de colonização no Brasil, os indígenas sofreram um duro processo de‘desculturalização’, medida imposta pelos colonos, como forma de ‘domesticar’ os povos que aqui
  10. 10. 10habitavam. Ainda mais grave, foi à dizimação que estes povos sofreram, quando a ‘domestificação’ erainviabilizada por atos de resistência a violência que sofriam.Em Campos dos Goytacazes, município inicialmente habitado pelos indígenas Goitacás, estarealidade não foi diferente. Quando por aqui os portugueses chegaram, encontraram muitasdificuldades para conter a resistência dos povos locais. Com isto, conforme visto na literatura, osindígenas foram dizimados por uma epidemia de varíola, doença até então desconhecida para eles, queos mesmos não resistiram. Com a colonização do município já consolidada, entra o processo dasoligarquias rurais, subsidiada pela produção sulcro-alcooleira, que utilizava de mão-de-obra escravapara manutenção e produção dos grandes engenhos de cana-de-açúcar. Fato curioso, e imprevisto, foi àvinda de um Príncipe Negro trazido para ser escravo, chamado Kurango, que ao chegar à região deCampos, foi reconhecido pelos outros escravos que aqui estavam, e acabou liderando inúmeras revoltasna época. Anos mais tarde, sua filha acabou ficando grávida de um Padre local, e o filho renegado pelopai, foi um renomado político abolicionista e republicano: chamado de José do Patrocínio.No âmbito nacional, a pauta indígena e das comunidades quilombolas, sofrem arduamentecom a estrutura engessada do Estado brasileiro. Não bastasse já todo o processo histórico quepassaram, esses povos ficam sempre a margem da ganância de uma mesma classe: as oligarquias rurais.Colocando em dados, desde a Constituição de 1988, quando em cinco anos eram previstas ademarcação de todo o Território Indígena (o que até hoje, 20 anos depois deste prazo ter sido esgotado,ainda não foi feito), até os dias atuais, quando a bancada ruralista através da PEC 215, tenta passar doExecutivo para o Legislativo a decisão desta demarcação (assim como dos Territórios de ComunidadesTradicionais), deixa claramente para nós, o quão agravante é este problema. Em outro caso dos povosquilombolas, fica o exemplo do Quilombo Rio dos Macacos, quando em prol de uma suposta segurançanacional, tentam a todo custo à desapropriação da área, que historicamente lhes é de direito.E passando por todo este processo histórico, entra novamente o nosso papel, enquantoagrônomos (as) em formação, com a realidade destes Povos Tradicionais e Indígenas. É um importantemomento que vivenciamos na FEAB, quando já vamos para o terceiro Congresso consecutivo discutir apauta dos Povos Tradicionais, e agora com mais centralidade, os Povos Indígenas. Justamente na cidadeem que a população não faz ideia, majoritariamente, de quem foram esses índios Goitacás que aquihabitavam, e mais além, das Comunidades Quilombolas que se mantém no município. Sediado naUniversidade idealizada por Darcy Ribeiro, ilustre humanista brasileiro, que nos vinte anos da fundaçãoda instituição, celebraremos sediando o 56º CONEA. E ainda o recente caso na capital fluminense, aondevimos a grande problemática que enfrentaram os indígenas e apoiadores da Aldeia Maracanã, quandona desocupação do lugar em que muitos habitavam, e tinham como referencial cultural e histórico, ointeresse privado falou mais alto, os grandes projetos!E ainda mais sensibilizados, procurando referenciar inúmeros companheiros e companheirasque foram tombados, vítimas dos conflitos agrários e dos interesses do capital, faremos um Congressopara lembrá-los, sem um minuto de silêncio, mas toda uma vida em luta!
  11. 11. 11CÍCERO GUEDES E REGINA DOS SANTOS, PRESENTES, PRESENTES, PRESENTES!56º Congresso Nacional dos Estudantes de Agronomia:“O PAPEL DO(A) AGRÔNOMO(A) EM FORMAÇÃO NA REALIDADE INDÍGENA E NASCOMUNIDADES TRADICIONAIS.”Reunião com estudantes Indígenas da UnB, Brasília/DF, out/2012.Seminário de Construção do 56º CONEA, UENF, Campos dos Goytacazes/RJ, 07 à 09/12/12.IV. Breve introdução à realidade e a questão indígena no Brasil: Inserindo a FEABem um debate necessário.Contribuições para o 56º Congresso Nacional de Estudantes de Agronomia – UENF Campos dosGoytacazes/RJ.Ramon Neves – Militante da FEAB 2006-2010(escola de Campos dos Goytacazes0RJ, UENF). Eng.Agrônomo/Indigenista FUNAI.
  12. 12. 121 - IntroduçãoA ideia deste texto é levantar os elementos principais da questão indígena e seus atuais embates nocampo político, usando textos e referências dos movimentos indígenas e aproveitando elementos domeu artigo de conclusão da especialização em Agroecologia, Educação do Campo e Questão Agrária naPan-amazônia no IALA Amazônia. Ao mesmo tempo partilhar algumas experiências como antigomilitante da Feab e hoje trabalhando diretamente com o tema, de modo a contribuir com os debates eauxiliar na compreensão de uma temática tão complexa. Como e porque a FEAB e os estudantes deagronomia precisam se apropriar deste debate e aonde pode se dar a contribuição dos diversosmilitantes do Brasil no avanço das lutas dos povos indígenas.2 - Os povos indígenas do Brasil – atualidades2.1 - Situação atual dos índios do Brasil.Segundo o último censo do IBGE, a população indígena esta estimada em 800.000 indígenaestalhados por todos os estados e com uma enorme diversidade étnica e lingüística: 215 sociedadesindígenas, 55 grupos de índios isolados, 180 línguas.Hoje, das 1.046 terras indígenas, somente 363 estão regularizadas. “335 terras encontram-seem alguma fase do procedimento de demarcação e outras 348 são reivindicadas por povos indígenas noBrasil. As terras demarcadas totalizam 113 milhões de hectares, cerca de 12,5% do território nacional.Desta terras, 98% se encontram na Amazônia residindo 60% da população indígena do Brasil. Nos outros2% das terras indígenas demarcadas nas demais regiões do Brasil, residem 40% da população indígena.A Constituição brasileira de 1988, atualmente em vigor, considera como bens da União asterras tradicionalmente ocupadas pelos índios (Art. 20, XI). No Art. 231 reconhece seus direitosoriginários sobre essas terras; e as define como sendo aquelas por eles habitadas em caráterpermanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dosrecursos necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seususos, costumes e tradições. Reconhece-lhes a posse permanente dessas terras e usufruto exclusivo dasriquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. Essas terras são inalienáveis e indisponíveis, e osdireitos sobre elas são imprescritíveis. Entretanto, o mesmo Art. 231 permite o aproveitamento dosrecursos hídricos, inclusive potenciais energéticos, e a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terrasindígenas, se autorizados pelo Congresso Nacional, após ouvir as comunidades afetadas que terãoparticipação nos resultados da lavra, o que não ocorre muito na prática.Embora a Constituição tenha estabelecido o limite de 5 anos para a conclusão da demarcaçãode todas as terras indígenas, isto de fato não ocorreu. A dificuldade em cumprir começa peçainsuficiência de recursos (financeiro e humano) para fazê-lo, além dos obstáculos levantados,atualmente, pelo agronegócio e a oligarquia rural. Mesmo assim, uma parte considerável das terrasindígenas já foi demarcada.O reconhecimento de uma terra indígena é um processo demorado. Há, primeiro, os estudosde identificação para averiguar qual a terra e até onde uma sociedade indígena a utiliza. Uma vez
  13. 13. 13identificada, é preciso demarcá-la fisicamente e depois encaminhar para homologação do Presidente daRepública. Porem, em todas essas etapas, existe uma forte tentativa de impedir os seus avanços porpartes dos setores conservadores do campo, muitas vezes , aliados com as justiças estaduais, ajudam atravar por meses ou anos qualquer uma das etapas, quando não usam da força para intimidar o poderpúblico de cumprir o seu papel. Hoje, grande parte da demanda por demarcação de terras indígenas seencontra no centro-oeste, sul e sudeste do país, regiões em que a terra é extremamente valorizada e osproprietários se confundem com a justiça. Casos com o dos Guaranis, Kaiangang e Xavante se arrastampor anos sem solução.2.2 - O Movimento indígenaO movimento indígena no Brasil, desde a sua criação/organização, vem atuando em busca dagarantia, efetivação e defesa dos direitos indígenas. Tais reivindicações se dão pela necessidade dospovos indígenas obterem proteção especial, sem ferir o princípio da organização social e de autonomiade cada povo, por considerarmos inúmeros fatores que ameaçam a reprodução física e cultural denossos povos. Assim sendo, o movimento indígena pautou como eixo mobilizador da luta a Terra.A força tarefa do movimento indígena em torno da “terra” se dá em vários enfoques: a regularização fundiária das terras indígenas, que se dá pelo processo de demarcação. fortalecimento das atividades de fiscalização, nas áreas já demarcadas, que possam garantirque essas terras indígenas, não sejam descaracterizadas. a luta pela ampliação das terras indígenas que encontram-se demarcadas, por conta dotamanho da T. I. ser reduzido e insuficiente para estabilidade étnica nesse espaço,dificultando a permanência das famílias indígenas. luta pelo fortalecimento dos povos e organizações indígenas, no combate as instalações deempreendimentos que causam impactos ambientais e sociais para as comunidades.A “terra” vem sendo considerada pelo movimento indígena brasileiro a condição necessária paraacessar os demais direitos, tais como: educação e saúde diferenciada, meio ambiente, projetos desustentabilidade, etc., haja vista que há necessidade do direito a terra para que esses outros sejamverdadeiramente efetivados.A luta pela terra se dá também no campo do reconhecimento étnico, como forma de negação dosdireitos indígenas, criando-se uma visão e posicionamento governamental de invisibilidade, ou atémesmo, de negar a existência de povos indígenas em várias regiões do país, haja vista que o sistemajurídico atual, condiciona as populações indígenas, a necessidade deestudos antropológicos, portanto, comprovação de origem étnica, para daí sim, trilhar a luta pelo direitoa demarcação.
  14. 14. 14A dificuldade de organização no movimento indígena, dá-se pela limitação em diversos fatores,desde a dificuldade de mobilização, por conta da localização de inúmeros povos, comunicação, atémesmo manipulações políticas de várias entidades indigenistas (ONGs), que forçadamente tentam falarpelos povos indígenas até a ineficiência do Estado com relação aos povos indígenas, fazendo com que asetnias, muitas vezes fiquem atrelados a ações assistencialistas, que provocam a dispersão dessascomunidades a continuarem lutando pelas suas bandeiras de luta. As dificuldades que o movimentoindígena ainda encontra, e ainda a de não se ter reconhecida e validada a autonomia das comunidades,e de respeitar o protagonismo das lideranças e povos indígenas.O crescimento do movimento indígena brasileiro, o amadurecimento político das lideranças eorganizações indígenas, faz do movimento indígena hoje o principal instrumento de reivindicação dosdireitos indígenas. Porém, ainda trata-se de um movimento que tem dificuldade de se unificar devido asua diversidade. Por vezes o movimento perde o foco, e algumas lideranças estabelecem uma disputapara ver quem será o primeiro indígena a assumir a FUNAI, como se assumir esse órgão fosse,automaticamente, resolver todos os problemas dos povos indígenas. O movimento indígena tambémtem muita dificuldade de se relacionar com outros movimentos sociais e partidos de esquerda, muitaslideranças locais chegam a se eleger lideranças indígenas ou terceiros como vereadores, prefeitos edeputados por partidos anti-indígenas, contribuindo ainda mais para a divisão do movimento e a perdado foco. De fato, já algum tempo tornou-se possível demonstrar que no caso da promoção e defesa dosdireitos indígenas, faz pouca diferença ser governo de direita ou de esquerda, pelo menos no Brasil. Issonão significa desconsiderar a importância de correntes ideológicas ou programáticas mais progressistas,como opções estratégicas e ideais políticos, mas, de perceber a importância e a necessidade de educartambém a esquerda e os movimentos sociais a ela afinadas, como os partidos e os sindicatos. Todos oselementos colocados anteriormente devem ser superados caso o movimento indígena queira sepolitizar ainda mais, se aproximando em termos organizativos e sendo combativos como os movimentosindígenas na Bolívia ou na Guatemala.Mesmo assim, a organização do movimento indígena, cria iniciativas para enfrentar as dificuldadesenfrentadas, a mobilização dos povos em manifestações sociais, fez com que o movimento obtivesserespeito do governo e da sociedade brasileira. A dificuldade ainda a ser superada, para possibilitar ofortalecimento integral do movimento indígena é da necessidade de criação de uma organizaçãoindígena de representação nacional dos povos no Brasil.3 - Terras indígenas: a bola da vez da ganância do Agronegócio.Após as vitórias das forças conservadoras no parlamento com relação ao Código Florestal,entra em cena uma nova empreitada do Agronegócio liderada pela bancada Ruralista. Encontram-setramitando na Câmara e no Senado diversos projetos visando limitar ainda diminuir ainda mais osdireitos dos povos indígenas. Ademais de projetos que autorizam a exploração de recursos hídricos eminerais em terras indígenas, sem dar muita importância a opinião das populações indígenas sobreessas atividades. Com o travamento da reforma agrária e o retrocesso das questões ambientais os índiose suas terras passaram a ser a bola da vez e o alvo a ser batido pelos ruralistas sob o argumento queexiste muita terra para pouco índio.
  15. 15. 15É interessante notar que nos últimos meses por conta das diversas mobilizações (Belo Monte,Aldeia Maracanã e Guaranis) a questão indígena tem estado em evidência junto à opinião pública. Osruralistas tem usado sua força econômica e política para influenciar a sociedade em relação ao tema, atodo momento são publicadas “pesquisas”, reportagens e entrevistas apresentando o que eles chamamde “o outro lado”. Alguns setores representativos do agronegócio brasileiro, com a CNA à frente, temcomo meta principal, uma vez ganha a batalha do Código Florestal, modificar o rito de demarcação deterras indígenas, evitando a regularização de novas áreas. A novidade é a tentativa de colocar na bocados índios a afirmação de que já não precisam mais de suas terras tradicionais pois eles já estãointegrados pelo consumo dos bens de consumo dos “brancos”.Que as sociedades indígenas estejam cada vez mais interessadas na aquisição dos chamadosbens do “mundo dos brancos”, não é uma novidade. Assim como o restante da sociedade brasileirainserida nas classes econômicas menos privilegiadas, eles também vêm aumentando o consumo de benscomo televisão ou rádios. Mas daí afirmar que isso é um sinal de “urbanização” e que, por isso, eles jánão precisam mais de terras para caçar, pescar e plantar vai uma enorme distância.Num momento em que o país assiste a dramática luta dos Guarani pelo direito de retomaruma pequena parte de seu território tradicional, não há como não pensar que essas afirmações são, naverdade, uma cortina de fumaça. O que existe ai é um apagamento da história, em que todos osprocessos anteriores são propositalmente esquecidos para se reforçar uma opinião e retirar o direitodos indígenas a todo custo, de preferência pelas vias legais e com o apoio da opinião pública.Dentre as iniciativas parlamentares concretas em curso, as mais preocupantes são a PEC 215e o projeto de lei que regulamenta a Mineração em terras indígenas. Outras iniciativas fora da esferaparlamentar como a Portaria AGU 303 e as grandes obras do PAC também sinalizam um ataque doEstado brasileiro aos direitos indígenas.3.1------ PEC 215A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215 tramita desde 2000 e propõe a transferênciada demarcação e homologação de terras indígenas, quilombolas e áreas de conservação ambiental doPoder Executivo para o Congresso Nacional. A proposta é defendida pelas bancadas ruralista eevangélica da Câmara e do Senado. A interpretação é de que o legislativo é a “casa do povo” e por só elateria legitimidade para tal. Na prática o legislativo não dispõe do corpo técnico necessário e nemcompetência para de identificar e reconhecer uma terra indígena, processo que implica em uma série deestudos e pesquisas, o que sujeitará o processo demarcatório a correlação de forças do congresso e suasbarganhas políticas. A PEC 215 possui uma série de inconsistências jurídicas, pois altera as funções dopoder executivo que foram delimitadas pela Constituição, e por isso pode vir a ser barrada no judiciário.Entretanto, esse avanço das forças conservadoras é preocupante e se não for desde já combatida, podeimpor muitas derrotas aos movimentos sociais e a esquerda.Os parlamentares querem alterar a Constituição Federal para garantirem a ampliação doacesso ao território brasileiro por parte um grupo muito reduzido e já intensamente privilegiado degrandes fazendeiros, e grandes empresas transnacionais que atuam no Brasil. Caso a PEC 215 sejasancionada, poderá paralisar os processos de demarcação das terras indígenas em curso.
  16. 16. 163.2------ Mineração em Terra indígenaA regulamentação da mineração em terra indígena entrou em pauta a partir da proposta desubstitutivo ao Projeto de Lei 1610/96, que dispõe sobre a exploração e o aproveitamento de recursosminerais em terras indígenas, disponibilizada pelo deputado federal Édio Lopes (PMDB/RR), relator daComissão Especial da Câmara que trata do tema. A tramitação da matéria e o teor do substitutivo emquestão seguem o mesmo conjunto de instrumentos legislativos e administrativos que vem sendointensivamente usados pelos setores anti-indígenas para invadir, explorar e mercantilizar as terrasindígenas. O intuito é um só: implementar o desenvolvimentismo agro-extratitivista exportador eaprofundar a territorialização e a acumulação do capital.O substitutivo apresentado é flagrantemente inconstitucional, um acúmulo de equívocos earbitrariedades que desconstroem os direitos dos povos e beneficiam exclusivamente as empresaspotenciais mineradoras das terras indígenas. Dentre os inúmeros absurdos do substitutivo, chamamos aatenção para os seguintes aspectos:1- “Qualquer interessado” poderá requerer ao Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) odireito de minerar qualquer terra indígena no Brasil. Este elemento associado à anulação de todos osdireitos minerários em terras indígenas, concedidos antes da promulgação da nova lei, deverá provocaruma verdadeira “corrida” de não-índios às terras indígenas do país.2- O direito de consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas é reduzido a mero ato formal,denominado “consulta pública”. No entanto, a vontade dos povos não terá qualquer influência sobre acontinuidade do processo de exploração mineral na própria terra. O substitutivo reaviva a figura datutela sobre os povos indígenas. Caso não haja concordância “das comunidades indígenas” na realizaçãodas atividades de exploração mineral nas terras por eles ocupadas, o processo será encaminhado a uma“Comissão Deliberativa”, sem participação indígena, que “decidirá”, dentre as propostas apresentadas,“qual a melhor” para as comunidades indígenas afetadas.Os povos indígenas estão diante de mais este cruel ataque patrocinado pelos interessespolítico-econômicos adversos, ao mesmo tempo em que se associa e reforça a reivindicação histórica domovimento indígena no Brasil segundo o qual o Congresso Nacional não deverá legislar, de formafracionada, sobre temas que lhes dizem respeito.3.3------ Grandes projetosOs grandes projetos de desenvolvimento e a expansão de atividades agrícolas e extrativasconstituem, hoje, uma grande ameaça aos povos indígenas.O governo deve assegurar que qualquer projeto de desenvolvimento que tenha impactosobre as comunidades indígenas seja feito com seu consentimento prévio, livre e bem-informado.Qualquer decisão sobre construção de represas, hidroelétricas, barragens, oleodutos, estradas,atividade mineradora e extrativa que tenha impacto sobre comunidades indígenas só deve ser tomada apartir de extenso processo de consulta e a partir de seu consentimento. Por outro lado, as empresas
  17. 17. 17envolvidas devem se comprometer publicamente a respeitar, em suas atividades, todos os padrõesinternacionais de direitos humanos.Porém, o governo e as empresas não vêm cumprindo o seu papel. A construção dahidroelétrica de Belo Monte é exemplo da falta de diálogo e respeito às comunidades indígenas. Oempreendimento tem impacto direto sobre o ambiente e meio de vida das comunidades, provocandotambém o deslocamento de milhares de pessoas. Por isso mesmo, o envolvimento e a participação dascomunidades são essenciais em todas as etapas do projeto. A falta de diálogo tem levado aoacirramento do conflito na área. Outros impactos como o isolamento geográfico das comunidades, adiminuição de acesso a serviços básicos, além de impactos ecológicos, e a possibilidade do aumento deconflitos por terra e recursos naturais na região. É certo que houve problemas nos procedimentos deconsulta, acesso a informação e divulgação de documentos importantes, tornando impossível que aspessoas estivessem totalmente informadas e conscientes a respeito do projeto.Além de Belo Monte, outras grandes projetos estão impactando direta ou indiretamentevárias comunidades indígenas pelo país. Os exemplos citados são a transposição do Rio São Francisco, oscomplexos hidroelétricos do Rio Madeira e do Rio Tocantins e as demais hidrelétricas em construção ouprevistas no Rio Xingu, Tapajós, Teles Pires e Araguaia, bem como a construção e duplicação derodovias. Segundo o CIMI, são aproximadamente 434 empreendimentos que atingem os territóriosindígenas e geram impactos em 182 terras indígenas de pelo menos 108 povos.3.4------ AGU 303Uma portaria publicada em Julho, com a assinatura do advogado-geral da União, pretendiarevogar dispositivos constitucionais relativos aos direitos dos índios, além de afrontar disposições legais.Trata-se da Portaria nº 303, de 16 de julho de 2012, que em sua ementa diz que “dispõe sobre assalvaguardas institucionais às terras indígenas”. Ela foi baseada a partir dos condicionantes debatidospelo STF durante o julgamento da demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol, porém ojulgamento não foi finalizado e as condicionantes podem ser alteradas ou anuladas. Não fosse amobilização dos indígenas em conjunto com os servidores da FUNAI em greve, a portaria não seriasuspensa na semana seguinte. A portaria não tem a força da lei nem da jurisprudência, não obrigando osque não forem subordinados da autoridade que faz sua edição. É evidente o erro, pois o advogado-geralda União não tem competência para impor sua interpretação a quem não é seu subordinado. Essa éuma das impropriedades jurídicas da referida portaria. Para dar uma aparência de suporte jurídico aosdispositivos da portaria, nela foram inseridas, literalmente, restrições aos direitos constitucionais dosíndios.Principais pontos da Portaria que trazem grandes prejuízos aos povos indígenas:1. Afirma que as terras indígenas podem ser ocupadas por unidades, postos e demais intervençõesmilitares, malhas viárias, empreendimentos hidrelétricos e minerais de cunho estratégico, sem consultaaos povos e comunidades indígenas;
  18. 18. 182. Determina a revisão das demarcações em curso ou já demarcadas que não estiverem deacordo com o que o STF decidiu para o caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol;3. Ataca a autonomia dos povos indígenas sobre os seus territórios. Limita e relativiza o direito dospovos indígenas sobre o usufruto exclusivo das riquezas naturais existentes nas terras indígenas;É sintomático o amplo apoio que a Portaria 303 recebe do agronegócio. De acordo comrepresentantes deste, essa iniciativa do governo, daria mais segurança jurídica aos “proprietários” nãoíndios que ocupam as terras indígenas, porque não seriam mais obrigados a devolvê-las aos povosindígenas e ainda teriam a possibilidade de estenderem seus latifúndios sobre as terras indígenas jádemarcadas.Ao mesmo tempo que o Executivo tenta legislar sobre os direitos indígenas, que não é seupapel constitucional, tem optado também por desmontar totalmente o órgão indigenista, a Funai.Anular a atuação do órgão faz parte de toda essa maléfica estratégia contra os diretos dos povosindígenas.A Funai desmontada, a SESAI (Secretaria Especial de Saúde Indígena) inoperante, o MEC(Ministério de Educação) ausente, podemos concluir que os povos indígenas brasileiros estão entreguesà própria sorte e por força da necessidade submetidos a madeireiros, garimpeiros, empreendimentosdesenvolvimentistas, políticos inescrupulosos, etc.4 - Para além da compreensão, as possibilidades de contribuir para o avanço das lutas.Acredito que existam dois grandes eixos para contribuir na mudança do panorama colocado.Um em relação ao estudante de Agronomia, futuro técnico/pesquisador/extensionista e o outro quantoentidade política FEAB, com suas lutas e bandeiras, compreendendo, convergindo e abraçando as lutasdos povos indígenas. Por isso trabalharei esses dois pontos separadamente para facilitar a discussão.4.1- Atuação quanto futuros técnicos/pesquisadores/extensionistas e também indigenistas.OEngenheiro Agrônomo Ramon Neves, em atividade na FUNAI/PA.
  19. 19. 19A FEAB ao longo de 30 anos vem pautando a necessidade da construção de novos paradigmaspara agricultura e nesse debate se tornou uma das pioneiras a empunhar a bandeira da agriculturaalternativa e da agroecologia. Dentro do vasto campo que a Agroecologia procura trabalhar, osestudantes que tem contato com o tema através dos espaços da FEAB, tem se familiarizado comconceitos como Educação Popular, sementes Crioulas, Agricultura Camponesa e outros. Conceitos essesque para além de questões práticas trazem em si conteúdo ideológico político e se inserem dentro doprojeto que a Federação procura construir para combater e denunciar o Agronegócio.Entretanto, no meio Rural brasileiro se encontram uma diversidade imensa de sujeitos e écom eles que os estudantes atuarão durante a graduação e depois como profissionais. É com essadiversidade que o projeto do qual conhecemos e construímos precisa dialogar.Se existem muitas diferenças (cultural, econômico e social) entre um agricultor no sul do país, uma agricultora no nordeste e um quilombola no sudeste, existe também muita diferença entre essascategorias e os povos indígenas. Porém, pela falta de conhecimento, os povos indígenas são colocadosem uma categoria única, como se todos fossem iguais. Só que as sociedades indígenas têm universosculturais próprios, variando no tempo e no espaço. Estamos falando de 215 grupos indígenas, 215universos culturais próprios, cada um com seus elementos e suas particularidades e que muita vezes ostécnicos que trabalham com esses povos, estão longe de entender.As visões cosmológicas de uma sociedade pode dizer muito sobre sua organização sócio-política e também sobre suas práticas agrícolas. Os Kayapó, por exemplo, possuem um mito do qualexplicam a diversidade lingüística dos grupos próximos e que também acaba por explicar as diversasvariedades de milho existente. Segundo o mito, os ancestrais Jê (ancestrais que deram origem aosKayapó e outros grupos) viviam juntos como um grupo só, até que descobriram uma grande quantidadede milho nas margens do Tocantins. À medida que colhiam as sementes de milho, começaram a falarlínguas diferentes e a se dividirem. No caso de povos como os Krahôs e os Guaranis, a semente éelevada ao status de sagrada e possui uma simbologia muito forte nas suas sociedades.Recentemente, os povos indígenas do alto rio Negro (Amazonas) tiveram as suas práticasagrícolas reconhecidas como patrimônio da humanidade devido à riqueza com que conservavam suasraízes culturais. Fruto de um trabalho de profissionais interdisciplinares em conjunto com as liderançasindígenas da região que desejavam preservar e mostrar a importância da sua forma de agricultura parao mundo.O Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro organiza um conjunto de saberes e modos defazer enraizados no cotidiano dos povos indígenas que habitam a região. Esse bem cultural acontece emum contexto multiétnico e multilinguístico em que os grupos indígenas compartilham formas detransmissão e circulação de saberes, de práticas, de serviços ambientais e de produtos. É possívelidentificá-lo, uma vez que ele é elaborado constantemente pelas pessoas que o vivenciam.Só de visualizarmos elementos tão ricos como estes, temos a dimensão do trabalho que ostécnicos encontram quando atuam com os povos indígenas. Para podermos atuar com qualidade,primeiro precisamos entender o ambiente em que determinado povo esta inserido. Compreender ofuncionamento dos agroecossistemas locais, por meio da descrição das atividades agrícolas e da
  20. 20. 20organização dos espaços de cultivo, segundo a lógica do calendário agrícola de cada etnia, considerandoa importância da cosmologia e dos saberes indígenas tradicionais na regulação e nas estratégias deadaptação desses agroecossistemas ao bioma em que se encontra. A expectativa é que com isso sejapossível subsidiar e pensar junto com os povos indígenas a estruturação de arranjos produtivosfuncionais, localmente adaptados, que garantam os meios para a soberania e a segurança alimentar daspopulações, com a preservação do solo e da diversidade de espécies.Ao observar o processo de transformação das sociedades indígenas em tempos recentes,nota-se como os grupos vem incorporando novos conhecimentos ao repertório das técnicas agrícolastradicionais. Deve-se salientar que muitos povos indígenas estão inseridos em um contexto fortementemarcado pela expansão do agronegócio, com ênfase para a pecuária e a lavoura mecanizada, o que geraexpectativa na comunidade relacionada à experimentação de novas técnicas. Por outro lado, a demandapor bens e serviços não disponíveis no âmbito local exerce igualmente pressão no sentido de aumentarou agregar valor à produção de modo a obter recursos para ter acesso às mercadorias produzidas forada aldeia. Logo, o nosso trabalho junto aos povos indígenas, além de pensar a sua reprodução social,precisa elaborar estratégias que agreguem valor aos seus produtos para que possam adquirir os bens deconsumo que não produzem. Deve-se levar em conta o tempo necessário para a manutenção e práticade suas atividades culturais (artesanato, festas, rituais, etc).A FEAB que tem como uma das estratégias principais a disputa da Universidade, pode e develevar esse debate para o campo acadêmico, repensando a forma que esta enxerga os povos indígenas ecomo os futuros profissionais podem atuar. É um debate com muitos elementos e opiniões, mas quepode ser decisivo na construção da autonomia dos povos indígenas no Brasil.4.2 – Inserção da FEAB do debate político da questão indígena.Acredito que se a FEAB deseja uma aproximação com a causa indígena o seu primeiro passoé superar a superficialidade com que de dá o debate dentro dos espaços da federação. Durante os 5anos que participei ativamente dos espaços da FEAB, não me lembro de ter participado de umadiscussão ou debate sobre o tema, e quando muito, era algum debate que incluía os indígenas comosujeitos afetados em grandes projetos do capital, mas sem compreender como realmente eles eramafetados. Também me lembro de algumas citações em místicas ou imagens em cartazes de eventos.Compreender quem são os índios do Brasil e quais as suas condições é fundamental para entendermoscomo e onde podemos contribuir para com as lutas indígenas.A aproximação com as entidades indígenas ou indigenistas como APIB (Articulação dos povosindígenas do Brasil), CIMI (Conselho indigenista missionário), ANSEF (Associação dos servidores daFunai) e as diversas associações indígenas locais pode enriquecer muito os debates da FEAB, assim comoa mesma também pode contribuir para o debate dessas entidades. Existem também as associaçõesestaduais de estudantes indígenas, que nos estados da Amazônia e do centro-oeste são muito fortes eatuantes, é um canal interessante para entender como a juventude indígena percebe a universidade,inclusive muitos estudantes indígenas cursam agronomia e poderiam estar organizados na FEAB.Das ferramentas que a FEAB dispõe hoje para a formação dos seus militantes, percebo que oEIV é uma que, em determinadas regiões, pode trazer um saldo muito interessante para a organização.
  21. 21. 21Os indígenas também estão inseridos no debate da questão agrária, mas diferente dos camponeses, elestem outras motivações para lutar pela terra e para se manterem nela. Em lugares como Dourados/MS, omovimento indígena costuma ser mais combativo do que o movimento camponês, realizandoocupações e manifestações para conseguirem a retomada de suas terras. Não por acaso Dourados étambém o lugar onde surgiu o EIV. Entendo que a relação com as entidades é o que determina as áreasdos EIV, porém a FEAB precisa ter em seu horizonte a estratégia de incluir as áreas indígenas na vivênciados estudantes, precisa abrir canais de diálogos com o movimento indígena para viabilizar essa vivência.Além dos NTPs que também podem incluir a temática indígena em suas discussões, principalmente oNTP de Juventude, valores , cultura, ETNIA, Gênero e sexualidade, ademais do NTP de Agroecologia quepode ter a percepção indígena da construção dessa bandeira.Acredito que um CONEA colocar em pauta a Questão Indígena é um grande avanço para aentidade, com possibilidades de grandes avanços na discussão. Certamente os militantes terão muito aaprender e discutir durante o congresso, mas precisam trabalhar para que a temática não fique apenasno congresso e que esteja um pouco mais presente nas bandeiras da FEAB. Sendo Campos dos”Goytacazes”, mesmo com estes sendo exterminados pela colonização, um congresso com essatemática ganha um simbolismo muito forte. Vale lembrar também que a UENF foi pensada e elaboradapor Darcy Ribeiro, um reconhecido indigenista e defensor das causas indígenas, e mesmo a UENF tendoele como fundador nunca trouxe para dentro das salas de aula a temática indígena.No mais gostaria de desejar um bom debate e um ótimo congresso. E a Feab é? De Luta!Sugestão de leitura:“Experiências de Assistência Técnica e Extensão Rural junto aos Povos Indígenas: O Desafioda Interculturalidade”, link para baixar:http://www.mda.gov.br/portal/arquivos/view/cnater/documentos-referencia/Experie%02ncias%20de%20ATER%20junto%20aos%20Povos%20Indi%01genas%20-%20O%20desafio%20da%20Interculturalidade.pdfV. Terra à vista: Uma visão sobre as relações educacionais dentro do contexto dacultura indígena.Contribuição do Núcleo de Trabalho Permanente em Educação,Gestão 2012/2013Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil – FEAB Fortalez, UFCQuando falamos do começo da história de nosso país, tendemos a liga-la erroneamente com a
  22. 22. 22“descoberta” das terras do Brasil pelos portugueses e sua inserção devastadora a partir do ano de 1500,que se intensificou ainda mais em 1532, com o inicio da colonização, a criação de povoamentoseuropeus e a exploração das terras brasileiras. Porém, a história desse processo não se deu através deuma descoberta, e sim, através de uma invasão e da conquista de uma classe dominante sob um povo,como Paulo Freire relata no texto “Descobrimento da América”:“Não penso nada sobre o “descobrimento” porque o que houve foiconquista. E sobre a conquista, meu pensamento em definitivo é o darecusa. A presença predatória do colonizador, seu incontido gosto desobrepor-se, não apenas ao espaço físico, mas ao histórico e culturaldos invadidos, seu mandonismo, seu poder avassalador sobre as terrase as gentes, sua incontida ambição de destruir a identidade cultural dosnacionais, considerados inferiores, quase bichos, nada disto pode seresquecido quando, distanciados no tempo, corremos o risco de amaciara invasão e vê-la como uma espécie de presente “civilizatório” dochamado Velho Mundo.” (FREIRE, 1992)Porém, no ano de 1500, os portugueses encontraram no Brasil um povo grandioso, não só emnúmero, mas principalmente, grandiosos em diversidade cultural, em costumes, línguas e religião.Através disso, podemos analisar um fato determinante e primordial para entendermos toda a relação dedominação entre os europeus e os povos indígenas do Brasil na época: as suas culturas distintas.A chegada dos colonizadores europeus colocou em confronto direto a cultura europeia, quetinha como base a monarquia, o mercantilismo e o cristianismo. E a cultura indígena, que valorizava avida comunitária, a relação com a natureza e o xamanismo. Além disso, os povos indígenas dividiamentre si tudo o que era produzido em suas aldeias, dando a essa relação um caráter de comunismoprimitivo. As consequências desse choque cultural reverberaram em consequências devastadoras paraos povos tradicionais da época, que viram a destruição de sua cultura original e o extermínio de suastribos.A colonização no Brasil ocorreu por etapas, caracterizadas pela posse e exploração da terra, aeducação enquanto mecanismo de destruição de suas culturas, e por fim, a catequese.Para que houvesse uma expansão da colonização europeia, era de interesse dos portuguesesque existisse uma intensificação do processo de dominação. Essa dominação não se deu apenas atravésde um embate físico, mas também com a imposição da cultura europeia aos povos tradicionais daépoca. Esse fato é importante, pois em qualquer sociedade explorada, uma das primeiras atitudes dosdominadores é extinguir a cultura original dos dominados para que os mesmos percam a sua identidade.Como um dos primeiros exemplos desse processo, podemos citar a vinda dos Jesuítas aoBrasil, em 1534.Os jesuítas eram padres da Igreja Católica, religião dominante na Europa, e que faziam parte daCompanhia de Jesus. A criação dessa companhia teve como principal objetivo difundir a religião católicanas regiões recém-descobertas, no século XVI, principalmente na América. Através da difusão dessa
  23. 23. 23religião, os Jesuítas ajudaram a fortalecer a dominação dos europeus sobre os povos indígenas, uma vezque tinham como função catequiza-los, lhes transmitindo a língua inglesa e espanhola, além de impor areligião católica a esses povos. Para isso, os jesuítas agrupavam as tribos em reduções, isto é, aldeiascriadas para fixa-los em locais determinados, com a supervisão constante dos padres e autoridadesportuguesas.O papel dos padres jesuítas corroborou com o etnocídio dos povos indígenas, e desde então, passoua ter uma função central na colonização do Brasil e na manutenção desse processo. Os portugueses, porsua vez, deram continuidade a uma ação dominante da qual podemos considerar hegemônica, pois nãodeu importância a cultura indígena em questão, pelo contrário, tentaram impor de todas as formas ospadrões da sociedade europeia, em um processo de colonização intenso.A relação entre o processo de colonização do Brasil, a educação e os impactos da mesma na formaçãoprofissional do/a Engenheiro/a Agrônomo/a.Essa relação histórica gerou efeitos diretos na sociedade em que vivemos atualmente, pois serefletiu, por exemplo, na Educação que temos hoje. Uma vez que o processo de etnocídio continuaintenso e ainda afeta a população indígena que mantém seus traços culturais próprios.Além disso, vivemos em um contexto de educação bancária, tradicionalista, onde se é consideradoque o professor é o detentor do conhecimento e o aluno funciona apenas como uma máquina dearmazenar as informações transmitidas pelo educador. Em nenhum momento é colocado para o aluno aopção de questionar, o que acaba reduzindo-o a um mero espectador.Portanto, podemos constatar que existe uma semelhança entre a educação formal que temos hojee o processo de imposição hegemônica dos europeus, que ocorreu a mais de 500 anos atrás. A educaçãoque temos hoje, apesar de muito diferente da prática educacional dos jesuítas, mantém uma relação emcomum com a mesma; Ambas possuem um caráter de exclusão, negando a realidade do individuo e asua cultura. E mais, utiliza-se da educação como forma de manutenção da ordem e do caráter dedominação, extinguindo qualquer forma de libertação do oprimido, e gerando estereótipos de todosaqueles que não estão condizentes com o padrão de sociedade imposto.A verdade é que, a educação que temos atualmente (juntamente com a mídia), cumpre o papel demascarar a realidade indígena. Nos livros de história, por exemplo, somos levados a entender que osinvasores portugueses são, na verdade, heróis, e os indígenas citados são colocados como indivíduosque não se adequam a normalidade do mundo atual, ou pior, como algo distante de nossa realidade,quase místicos.Dessa forma, passamos pelo ensino básico, ensino fundamental, médio e universitário, sendolevados a entender tudo o que acontece apenas do ponto de vista de uma classe dominante, sob aguarda de uma educação formal que não nos permite pensar e questionar a realidade. Então, quandosaímos da universidade para exercer nossa profissão – Engenheiro/a Agrônomo/a, por exemplo –reproduzimos todo o contexto histórico de educação, que discutimos desde o começo deste texto;Mantemos uma visão equivocada da realidade, e ao entrar em contato direto com os povos tradicionais,
  24. 24. 24reafirmamos a postura de não respeita-los culturalmente e impomos valores de uma sociedadecapitalista e opressora.Precisamos, portanto, integrar um novo modelo de educação a um novo modelo de sociedade,tendo em vista que a Educação é o primeiro passo para incentivar as pessoas a transformar o que estáimposto. Uma educação que ensine a inconformidade diante das injustiças, que seja do povo e feitapara o povo, que respeite o ser humano onde ele está inserido, valorizando suas diferenças e não asapagando. Através disso, essa educação vai se refletir em quem somos quanto indivíduos e queprofissionais iremos nos tornar.O futuro é dos povos, e não dos impérios. – Paulo FreireVI. Agronomia e Etnoconhecimento: Um diálogo necessárioPor Jefferson Brandão, Coordenação Nacional da FEAB,UFRB-Gestão 2012-2013O afastamento entre as ciências agrárias e as especificidades ambientais e sócio - culturaisque compõem os meios rurais vem se intensificando cada vez mais a medida que, os mercadosassumiram papel preponderante como componente de regulação da sociedade. A modernização daagricultura retirou do agricultor o controle do conhecimento associado ao seu próprio trabalho, criandoum mecanismo que ao mesmo tempo expropriou o saber-fazer das comunidades rurais e transferiu essepoder para as corporações do agronegócio transnacional. Dessa forma, a dependência tecnológicaconverteu-se em invasão cultural, imobilizando as capacidades autônomas de inovação local epromovendo a desconexão da agricultura com relação aos ecossistemas, às comunidades e ao consumode alimentos.O saber das comunidades tradicionais foi por muito tempo subestimado pelos cientistas, quenegligenciavam outras formas ou sistemas de conhecimento. A valorização do saber tradicional, porparte dos etnobiólogos e etnoecólogos, tem produzido alternativas para os paradigmas correntes, comefeitos benéficos para o conhecimento científico-acadêmico. (POSEY, 1987, p.15)A origem do termo Agronomia nos remete ao grego “agrônomos” na sua origem, a palavraagrônomo designava, em Atenas, o magistrado encarregado da administração da periferia agrícola dacidade. Os termos “agrônomo” ou “engenheiro agrônomo” já eram amplamente utilizados no períododa revolução francesa (final dos anos 1700), no entanto ganhou uma maior dimensão a partir de 1848,com a fundação na França do Instituto Nacional Agronômico de Versailles (1848-1852).Dessa forma observamos que ao longo do tempo o Engenheiro Agrônomo/Agrônoma estásendo formado/a para executar os manejos e práticas agrícolas condizentes ao modelo de agriculturavigente, que por sua vez é definido pelo mercado e que definitivamente nada tem há ver com osprincípios do conhecimento agronômico crítico cujo principal função deve-ser a de: conhecer, pensar,propor ou até mesmo criar formas de manejar os sistemas agrícolas, levando em consideração, suas
  25. 25. 25múltiplas variáveis que envolvem desde as dimensões: ecológicas e tecno-científicas até os princípiospolíticos, sociais, territoriais e culturais.Já a etnociência é um campo intrinsecamente complexo que comporta diferentes abordagense problemas teóricos remetendo a uma união de competências desde o aspecto cultural ao biológico.É oestudo dos conhecimentos e conceitos desenvolvidos por qualquer cultura sobre as diferentes áreas. Aetnociência ganhou impulso a partir dos anos cinqüenta do século XX com pesquisas, principalmente,entre populações autóctones da América Latina. Inicialmente, os estudos da etnociência voltaram-separa análises de aspectos lexicográficos das classificações de folk ou etno classificações e sobrecategorias de cores, plantas e parentesco próprias de diferentes sociedades (HAVERROTH, 1997).Há uma tendência em considerar como etnociência as pesquisas sobre o conhecimento degrupos populacionais particulares (etnias, tradicionais, indígenas, comunidades, etc.) sobre o seu meio esua relação com esse meio.O prefixo “Etno” tem sido muito usado por ser uma maneira curta e fácil de referir-se aomodo como outras sociedades olham o mundo. Usado após o nome de uma disciplina acadêmica,implica que os pesquisadores estão buscando as percepções de sociedades locais dentro desse recorteacadêmico (MARTIN, 1995). Faz referência aos aspectos e conhecimentos específicos de povos ouetnias, ou seja, aos “conhecimentos” de grupos naturais de indivíduos de igual cultura. O papel dasETNOS como “ciências”, disciplinas, áreas, métodos ou ferramentas é o estudo das outras realidades, doconhecimento das relações e interações, do uso e manejo dos recursos naturais pelas comunidadeslocais através do tempo, de todos os processos culturais envolvidos nas relações povos-natureza(BERÓN, 2006).A diversidade cultural está fortemente ligada à diversidade biológica, notadamente deplantas cultivadas e manipuladas pelas sociedades tradicionais. A valorização dos saberes tem geradoalternativas para os paradigmas correntes. A etnociência atravessa um período de revitalização que sedeve, em parte, à sua vocação para a multidisciplinaridade e multiculturalidade, elementos chaves paraabordar os complexos problemas ambientais e sociais atuais.Os conhecimentos das comunidades Tradicionais e Povos indígenas se conformam em umaacumulação dinâmica, pois se constituem em um verdadeiro patrimônio coletivo, convertendo-se emum sistema organizado de investigação e descobrimentos, através de experiências milenares quederivam das relações entre prática, experimentação, aprendizado, reprodução e transformação darealidade a partir de um processo de co-evolução, dada sua estreita e contínua inter-relação homem-natureza, onde as formas de uso e as técnicas de manejo, estão vinculadas um conhecimento profundoe integral do meio onde se encontram inseridos, respondendo a uma visão particular de interação com omundo. Por intermedio da práctica-seleção-práctica é que se há produzido e se segue produzindo umainfinidade de conhecimentos especializados e inovações que garantem a manuntenção e asobrevivência de uma série de comunidades e de seu entorno, mantendo assim a sua reproduçãocultural e social.Assim retomada das distintas fontes do saber, dar forma e sentido a muitos conhecimentosnos mais variados campos das ciências, surgindo assim a Etnobotânica, Etnoecologia, a Etnopedologia,
  26. 26. 26Etnoentomologia, Etnozoologia, a Etnofarmacologia, a Agroecologia, paralelamente a outras áreas dasentão chamadas “etnociências”, cujo o principal método de estudo utilizado é a etnografia que podeabrir mão de métodos como: pesquisa ação, observação participante dentre outros que garantam aconvivência e a interação com o meio estudado. Como analisa (MARLI, 1995): Esse tipo de pesquisapode propocionar a descoberta de novos conceitos, novas relações, novas formas de entendimento darealidade.O ramo da botânica, por exemplo: pode ser utilizado para estudar o uso das plantasmedicinais utilizadas empiricamente pela população é chamado de etnobotânica. Uma definiçãobastante aceita de etnobotânica é a que diz que é: “[...] estudo das relações mútuas entre as plantas eculturas humanas, incluindo estudos sobre como as plantas são classificadas, nomeadas, usadas emanejadas, e como sua exploração pelos homens influenciou a sua evolução” (COTTON, 1996, apudKOCH, 2000, p. 12).De acordo com (WOODS, 2009): Enormes áreas do planeta têm sido modificadas pormecanismos variados como resultado, da ocupação humana que alterou e modificou o solo bem como,outros materiais superficiais. Esses sedimentos e os solos ao longo do tempo sofram numerosasmudanças físicas e químicas em nas áreas de habitação humana. No entanto o mais interessante é queuma série de nutrientes, são concentrados através da deposição de detritos orgânicos e inorgânicos,oriundos de produtos animais e vegetais trazidos ao local da habitação, seja com a finalidade deconsumo direto pelo homem ou indireto através de animais domésticos, materiais de construçãoe combustíveis.Extrativismo e manejo florestal (fauna e flora): Outros elementos centrais para a maior partedos povos indígenas brasileiros, o extrativismo e o manejo florestal têm finalidades múltiplas, comoalimentação, construção, elaboração de artefatos, comercialização, entre outros. Dependendo doambiente no qual vivem os povos indígenas, bem como seu conhecimento e técnicas tradicionais,variam as atividades do manejo, que podem estar voltadas tanto para itens da flora (frutas, fibras,madeiras, óleos e resinas etc.), como da fauna (peixes, animais silvestres, aves etc.).Alguns povos indígenas têm uma forte relação alimentar com itens do extrativismo, como acastanha do Brasil e o açaí na Amazônia, pequi e baru no cerrado, pinhão na região Sul, umbu na regiãoNordeste etc. Muitos sistemas de habitação tradicional indígena dependem de materiais doextrativismo, como palmeiras (buriti, caraná, obi) e madeiras. Além disso, diversos povos indígenasenvolveram-se e ainda se envolvem em atividades extrativistas voltadas para a comercialização, comomadeira, seringa e balata (borracha), pupunha, castanha e óleos e resinas (copaíba, andiroba, breu etc.),além de uma série de outras plantas e animais que são utilizadas com finalidades mítico-ritualísticas.O Decreto Presidencial de nº 6040/2007, que institui a Política Nacional de DesenvolvimentoSustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais:“I – Povos e Comunidades Tradicionais: gruposculturalmente diferenciados que se reconhecem como tais,que possuem formas próprias de organização social, queocupam e usam territórios e recursos naturais como
  27. 27. 27condição para sua reprodução cultural, social, religiosa,ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovaçõese práticas gerados e transmitidos pela tradição”Sem dúvidas é um importante marco estratégico que institui as bases necessárias eimprescindíveis para se pensar as ações e intervenções junto aos sujeitos e ou comunidades queapresentam as especificidades elencadas acima.Por fim podemos salientar que o “saber tradicional” se constitui no conhecimento “vivo” dasetnias e comunidades tradicionais, e por isso mesmo se constitui no sentido comum que fundamentametodologicamente o etnoconhecimento que por sua vez, deve ser respeitado e encarado de formaética pelos profissionais, que de maneira alguma devem usar essas experiências acumuladas eselecionadas durante milhares de anos, para usurpá-las e mercantilizá-las em detrimento do bem estardesses povos e ou comunidades bem como dos bens naturais que permitem sua sobrevivência.Entre os desafios que estão postos para a agronomia, está à possibilidade de pensar sobreuma teoria agronômica que oriente a ação dos agrônomo/as nos mais distintos campos onde pode - serealizar suas funções, sem dúvidas o que fica para a reflexão da práxis na agronomia é a tarefa deretomar a historicidade da agricultura, aplicando então uma verdadeira dialética entre ação e reflexãosobre os sistemas agrários atuais tendo como base os agroecossistemas, mais antigos.Quanto às práticas da extensão rural temos a tarefa de trabalhar com uma perspectivapedagógica onde as orientações e princípios estejam centrados na educação do campo. Quanto ao casode exercitar a ATER (Assistência Técnica e Extensão Rural) junto aos povos e comunidades tradicionais,temos nas Leis, 10.639/2003 e 11.645./2008 que versão sobre a inserção no currículo das escolas, oensino dos conteúdos sobre a história e cultura dos povos afrodescendentes e indígenas no Brasil, umimportante referencial para se pensar e propor algumas das possíveis dimensões tendo em vista umaATER contextualizada às diversas realidades sócio-culturais.Sugestão de leitura:http://www4.planalto.gov.br/consea/documentos/san-dos-povos-indigenas-populacoes-negras-e-povos-e-comunicades-tradicionais/documento-201cetnodesenvolvimento-nas-politicas-de-san-para-povos-e-comunidades-tradicionais201dBibliografia Consultada:ALMEIDA, J. A AGRONOMIA ENTRE A TEORIA E A AÇÃO, Porto Alegre – RS, 2004.BARBOZA, R. R. Duarte. A etnoecologia dos tatus-peba (Euphractus sexcinctus (Linnaeus, 1758) e tatuverdadeiro (Dasypus novemcinctusLinnaeus, 1758) na perspectiva dos povos do semi-árido paraibano[manuscrito]. João Pessoa – PB, 2009.
  28. 28. 28BARENHO E MACHADO. Contribuições do Marxismo e da Etnoecologia para o estudo das relaçõessocioambientais. Rio Grande – RS, 2005.BARTH. HACIA UNA AGRONOMIA DESDE LA COMPLEJIDAD: Conceptos, contextos, métodos de trabajoy algunos resultados. Colômbia, 2009.Brandão, D. J. As influências afrodecendentes na América Latina: Contribuições da cultura Bantuatravés do Candomblé da Nação Angola no Brasil. Foz do Iguaçú – PR, 2011.GUZMÁN M. S. Sobre los orígenes de la agroecología en el pensamiento marxista y libertario. La Paz –Bolivia, 2011.NETO e RODRIGUES. Os besouros (Insecta: Coleoptera) na concepção dos moradores de Pedra Branca,Santa Terezinha, Estado da Bahia. Maringá-PR, 2006.TEIXEIRA; KERN; MADARI; LIMA; WOODS. As terras pretas de índio da Amazônia: sua caracterização euso deste conhecimento na criação de novas áreas / Manaus: Embrapa Amazônia Ocidental, 2009.VERDUM, Ricardo e ARAÚJO, André (Org.) Experiências de Assistência Técnica e Extensão Rural juntoaos Povos Indígenas: O Desafio da Interculturalidade. Brasília, DF: NEAD / SAF, 2010.VII. Líder Guajajara acredita na forca feminina, na educação e no orgulho de serindígena, como fatores de mudança.Por Cid FurtadoFilha de um povo guerreiro, o povo Guajajara Tentehar(MA), a pequenina e simpática SôniaBone Guajajara, 38 anos, tem se destacado como uma importante liderança do movimento indígenabrasileiro. Com perspicácia e uma visão clara e objetiva das questões que afetam os povos indígenas,tem esperança de ver, algum dia, um país mais justo com os habitantes originais do Brasil. A construçãodesse futuro, acredita, passa por fatores fundamentais, entre eles a educação, respeito aos direitos docidadão indígena, a preservação das diferentes culturas e modo de vida, a preservação e ampliação doorgulho de sua identidade étnica indígena.Casada e mãe de três filhos Sônia Guajajara (nome pelo qual ficou conhecida no movimentoindígena), atua no movimento em defesa dos indígenas há 23 anos. Além do aprendizado na luta pelosdireitos indígenas, é graduada em Letras e Pós-graduada em Educação Especial pela UniversidadeEstadual do Maranhão.Sua atuação no movimento começou cedo, na adolescência, ainda no ensino médio,discutindo e debatendo com colegas, pais e professores as questões indígenas. Ao voltar para aldeiacontinuou atuando e estudando. Nas lutas e viagens do movimento sempre ajudou a colocar asreivindicações e posições de seu povo de forma clara para índios e não índios, o que lhe valeu o carinho
  29. 29. 29e respeito da comunidade. “Para os anciãos, caciques e lideranças me tinham como relatora oficial dosGuajajara: “A grande pequenina”. Era assim que me chamavam”.Trabalhou em escolas públicas e privadas, na FUNAI, APAE e em diversas outras organizaçõese seu crescimento no movimento foi sendo construído com o passar dos anos, com a participação emdezenas de encontros, reuniões e mobilizações, locais, regionais e nacionais. Foi diretora de uma dasentidades mais representativas da luta indígena no Maranhão, a COAPIMA – Coordenação dasOrganizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão por um período de 6 anoscorrespondente a 2 mandatos, hoje é Vice Coordenadora da COIAB – Coordenação das OrganizaçõesIndígenas da Amazônia Brasileira com sede em Manaus(AM).Mais recentemente participou do Fórum Permanente da ONU - Organização das NaçõesUnidas para Questões Indígenas, realizado no ano passado (2011), em Nova Iorque.A trajetória de luta dessa líder Guajajara é exemplo para líderes, sejam eles índios ou nãoíndios. Uma oportunidade única para nós de Brasileiros de Raiz, homenagearmos a força da mulherindígena, celebrando o dia 5 de setembro, Dia Internacional da Mulher indígena e oferecendo a elas oespaço para que defendam suas ideias e possam continuar contribuindo com o movimento indígenacomo já o fazem em outros canais de comunicação.“Plantamos vida, não alimentamos a morte. Eis o que aprendemos e o que queremosensinar”, destaca a Sônia, que você vai conhecer melhor a parti de agora.BDR - Qual o papel da mulher indígena dentro e fora da aldeia?Sônia Guajajara - Embora cada povo indígena tenha a sua organização política própria e divisão depapéis entre homens e mulheres, em geral a participação das mulheres é mais discreta ou menosevidente. Porém, mesmo assim dentro das tradições indígenas sempre encontram formas de influenciarnas decisões da comunidade. As mulheres não vão para as reuniões na casa do guerreiro ou no pátio,mas exercem uma enorme pressão sobre seus maridos e influenciam significativamente sobre o queestes vão dizer nas reuniões. Fora da comunidade essa participação se da quando ela já adquire aconfiança e passa a assumir o papel de liderança, neste patamar, geralmente expressa uma voz altiva erespeitada pelos seus povos e organizações.BDR - A liderança da mulher indígena sempre existiu ou surgiu de alguns anos pra cá?Sônia Guajajara - A mulher sempre teve um papel importante na condução das boas práticas e esseespírito de líder é muito presente, pois sempre assumimos as tarefas mais difíceis e de maiorresponsabilidade. Como em muitos povos a mulher tem pouca visibilidade e não participa dasdiscussões mais públicas e coletivas quando uma liderança mulher desponta, sempre há resistências.Porém, sua força e determinação acabam sendo reconhecidas, pois muitas vezes ajuda seu povo oucomunidade a ter conquistas que os homens sozinhos não conseguem. O reconhecimento e aceitaçãoda liderança da mulher varia muito conforme os costumes tradicionais de cada povo.BDR - Como as lideres mulheres tem trabalhado dentro do movimento indígena?
  30. 30. 30Sônia Guajajara - Como viemos de uma cultura onde predomina a voz masculina, ainda hoje há muitaresistência em ceder espaços baseados na espontaneidade do homem, muito se tem que lutar paraocupar e desempenhar o papel de liderança, mas há de se reconhecer que todas as mulheres atuantesno movimento indígena desempenham uma postura firme, decisiva e comprometida com os objetivosda luta. Cito por exemplo o reconhecido caso da Tuíra Kayapó que em 2009 passou seu terçado na carado representante da Eletronorte em protesto contra a já polêmica Usina Hidrelétrica de Belo Monte,uma imagem que valeu por milhares de palavras de 500 homens presentes, naquele momento.BDR - O papel delas evoluiu também ou o papel ainda é de criar os filhos transmitir os ensinamentos alíngua e etc?Sônia Guajajara - Essas funções são desempenhadas naturalmente pela figura da mãe, mulher, esposa,filha, sempre assumimos diversos papéis e isso é o que mantém os laços e nossa cultura viva. Ao lado dopapel fundamental de mãe as mulheres assumem mais uma tarefa, um desafio, muitas das vezes, umsacrifício, na representação política. Não necessariamente temos que deixar de fazer determinadasobrigações para assumir outras. Cito aqui o meu caso pessoal, mesmo ausente em determinadosmomentos(que são muitos), assumo a função de mãe de meus 3 filhos e ainda de filha cuidando eorientando meus pais. A propósito, quantas vezes já se viu um homem levando seus filhos a umareunião?? As mulheres sempre levam.BDR - É possível conciliar o trabalho tradicional com a participação nas lutas e no movimento indígena?Sônia Guajajara - Isso me faz lembrar muito um líder indígena Carajá que dizia: “Eu posso ser quem vocêé, sem deixar de ser quem sou”, então se eu posso ser qualquer profissional, qualquer especialista semdeixar de ser indígena, pra luta é ainda muito mais tranquilo, conciliar a luta do movimento com asraízes, pois uma coisa não está desconectada da outra, a luta só faz sentido se tiver esse viés de manteras tradições, e o direito a diferença, afinal a nossa luta do dia a dia é pela defesa dos direitos decontinuar sendo indígena e ser reconhecido como tal. Garanto que a luta não é fácil, nem para oshomens nem para as mulheres, as lideranças como um todo, mas todo esforço ou sacrifício vale a pena.Nosso povo está sempre preparado, estando na aldeia ou na cidade o sangue indígena prevalece.BDR - Como você acredita que está a preservação da cultura indígena de uma forma geral no Brasil?Sônia Guajajara - Aos 512 anos de massacre, violência, tentativas de extermínio, podemos somartambém muita luta, força e resistência de nossos povos. Já tentaram nos integrar à sociedadeenvolvente como previa Darci Ribeiro, mas estamos aqui, cada povo com a sua cultura, sua tradição, seumodo de vida; muitos não falam mais a sua língua materna, devido ao doloroso processo decolonização, outros, se autoafirmam como indígenas, se identificam enquanto povos, mas lhe foinegado, pelo sistema, o seu nome, a sua origem. Mas uma vez indígena, sempre responderemos emnome dos nossos antepassados. Os povoamentos aproximaram-se de nossas terras e nos foramapresentadas outras culturas, outro jeito de ser, e foram nos envolvendo. Certamente que houve umamodificação em alguns rituais, que também pode ser visto como um enriquecimento, desde que sejabaseado no orgulho de ser indígena.
  31. 31. 31BDR - É possível manter a cultura e o modo de vida tradicional vivos e conciliar isso com as vantagens econfortos da vida moderna, da cidade e do branco?Sônia Guajajara - Posso assegurar que o nos dias de hoje o que nos mantém aqui na cidade dosbrancos, é essa necessidade de fazer a luta, de estar sempre perto, vigilantes para não nos enfiaremgoela abaixo as imposições de um desejo desenfreado por acúmulo de bens. Precisamos estarconstantemente cuidando de uma tarefa que teoricamente seria dos representantes do povo, ospolíticos, que são eleitos para cuidar dos interesses populares e que, no entanto, cuidam apenas de simesmos. Por isso nós precisamos estar aqui 24h para defender os interesses de nossos povos. Como senão bastasse apenas violar os direitos já adquiridos, querem acabar com os que temos. Numa situaçãocomo estas como é que podemos ficar apenas nas aldeias? Precisamos estar nas cidades acompanhandoe participando dos debates. Felizmente temos pra onde voltar e voltando temos lá a nossa casa, nossosparentes, nossas festas tradicionais, para nos confortar. Mas é naturalmente possível manter a culturae usufruir dos bens e confortos da vida moderna, afinal somos seres humanos e cidadãos de ummesmo Brasil.BDR - Você acha que por querer ter os confortos e vantagens da vida moderna, da cidade, o índio querdeixar de ser índio?Sônia Guajajara - Esta pergunta é sempre feita e, na verdade, demonstra um preconceito contra osindígenas. Por várias razões: não é só na “vida moderna” que existe conforto e vantagens. Na vida dasaldeias, temos muito conforto e vantagens também: qualidade de vida, qualidade ambiental, relaçõesde confiança (não temos roubos, nem desigualdade nas aldeias); nas cidades não existem apenasvantagens e conforto. Para a maior parte da população, existe sim a pobreza, precariedade de moradiaetc.Além disso, acho importante ressaltar que o contato é uma questão de troca. Assim como os indígenasquerem aproveitar e assimilar o que tem de bom em outras sociedades, o pessoal da cidade tambémquer se aproveitar dos benefícios das aldeias: a base alimentar do Brasil tem muitos itens indígenas(farinha etc), a medicina “ocidental” se aproveitou do conhecimento tradicional milenar indígena paraproduzir seus remédios, a relação dos índios com a natureza ajuda na preservação ambiental do planetae assim por diante. Então é uma TROCA, de duas vias.É claro que não se deixa de ser índio por usar um celular, um notebook, um tablet, ipad, esses meiostecnológicos são instrumentos que utilizamos para fortalecer as nossas relações com outros povos,afinal somos 305 povos diferentes, com modos de vida e culturas diferentes, 185 línguas faladas. É umadiversidade muito rica, precisamos dessas ferramentas para nos conectar com o mundo aqui fora eassim nos preparar melhor para enfrentarmos as lutas no mesmo nível. Por acaso um brasileiro nãoindígena que usa produtos japonês ou norte americanos(como é comum no mundo burgûes)... eledeixa de ser brasileiro?BDR - O índio quer abandonar sua identidade, quer nega-la?Sônia Guajajara - O índio verdadeiro jamais nega a sua identidade para assumir outra, ele pode ir paraoutro planeta, ele sempre terá orgulho de pertencer a um povo, porém durante um certo tempo, aopressão colonial fez com que muitos indígenas escondessem sua identidade. Mas esconderam não poropção, por coerção. Isso é o etnocídio.Hoje um exemplo concreto é o resultado do último censo do IBGE onde houve um aumentoconsiderável da população indígena, pois houve uma adequação ao formulário que possibilitou as
  32. 32. 32pessoas a terem a opção de se identificarem como indígena e a autoafirmação aconteceu, isso mostraque cada vez mais o povo brasileiro está reconhecendo a sua origem.BDR - O preconceito da sociedade contra os indígenas brasileiros é grande em muitos lugares do País.Qual o caminho para superar o preconceito?Sônia Guajajara - Posso dizer que quanto mais próximas às cidades ou povoados das comunidadesindígenas, maior é o preconceito dessa população, e em muitos lugares ainda se usa o termo“civilizado”, para diferenciar indígenas de não indígenas. É muito comum as pessoas chegarem pra mime perguntar você é índia ou civilizada? Eu respondo, sou índia civilizada. Há quem pergunte ainda, você éíndia de verdade? Sou sim, porquê? Ah, você nem parece, tá toda limpinha, arrumadinha e por aí vai!Acho que o preconceito existe por pura falta de conhecimento, melhor dizendo, ignorância mesmo daspessoas sobre a diversidade étnica e cultural. Precisam saber simplesmente que não somos Ets, apenassomos pertencente a um povo que originou o Brasil e que optamos por fazer a resistência pra nosmanter, enquanto povos, diferentes. Isso tem que ser trabalhado nas escolas desde o ensino básicoaté a faculdade.BDR - Você acredita que os povos indígenas que foram contatados mais recentemente são mais índiosque os índios que foram contatados desde o descobrimento?Sônia Guajajara - No meu entendimento não há mais índios ou menos índios. Há indígenas comculturas e modos de vida diferentes. O que diferencia é que os contatados mais recentes felizmenteainda não conheceram tudo que o mundo globalizado oferece, então possuem menos conhecimentossobre essa sociedade e vivem mais conforme a sua cultura, ao passo que os contatados há 300 anos oumais, já conhecem, mesmo que tenha sido na base de muita porrada, opressão, violência, comterritórios usurpados, foram forçados a assimilar novas formas de vida, etc., conhecendo assim os doismundos. É como uma criança que vai descobrindo aos poucos.BDR - Muitos indígenas têm preconceito com índios do sul ou do nordeste, porque eles perderam quasetoda sua cultura, com o passar dos anos e com a pressão constante para que eles se integrassem àsociedade. Como vencer esse preconceito entre os próprios índios?Sônia Guajajara - Em primeiro lugar, este preconceito é dos não indígenas!!!! Com índio sempre tempreconceito. Se está na aldeia, no seu modo de vida tradicional, é primitivo, atrasado etc. Se está maisintegrado aos costumes urbanos, não é mais índio... Então alguns povos acabam assimilando estepreconceito que é dos não indígenas.Ao longo desses anos foi se perpetuando a ideia de que índio tinha que ter olhos puxados , cabelospretos e lisos, aquele que não tivesse essas características não era considerado indígena, e claro queesse conceito ganhou o mundo. As mulheres indígenas foram abusadas e violentadasmonstruosamente, nascendo assim os mais variados biótipos indígenas, porém com o conceito jáformado é preciso lutar pra vencer este pré-conceito.BDR - Uma das grandes preocupações hoje é com o desrespeito aos direitos indígenas. Não a um ououtro mais a quase todos. Quais os caminhos que as mulheres indígenas vêm para garantir os direitos deseus povos?
  33. 33. 33Sônia Guajajara - Estamos numa fase difícil de retrocesso de direitos conquistados, de ameaças, decriminalização de lideranças indígenas, ou seja de vítimas passam a ser réus como é o caso dos Xucurusem Pernambuco. É como se estivéssemos vivendo o período da colonização, onde se conquistava um diaapós o outro, todos eram vítimas do processo, hoje somos vitimas do sistema governamental, docapitalismo, do progresso. Tudo legalizado para acabar com nossos direitos. Estamos no meio de umfogo cruzado, de um lado um sistema, de outro os donos do capital que comandam seus pistoleiroscomo é o caso emblemático de MS e Nordeste Brasileiro. A garantia de direitos se faz ao caminhar numaluta conjunta de todos os povos, fazendo fileiras pela vida e pela dignidade.BDR - Acredita que algum dia a sociedade brasileira vai mudar a imagem que tem dos índios e irárespeitar seus direitos e cultura?Sônia Guajajara - Temos que acreditar numa sociedade mais justa e igualitária. Lutamos pra isso!BDR – O que fazer para que essa realidade mude e indígenas e não indígenas convivam com respeito eharmonia?Sônia Guajajara - Acho que essa transformação é possível por meio da educação, é preciso umamotivação maior para esse despertar. Acredito que a juventude de hoje já está começando a entender aexistência dessa diversidade étnica e cultural, basta que haja maior investimentos nas redes de ensinoque promovam intercâmbios culturais, inserção do tema nas grades curriculares. Não sobre o índio queexistia, mas sobre o índio que existe e resiste .Só conhecendo a realidade é que se alcança o respeito.BDR - Além da questão dos direitos quais são os outros problemas dos índios brasileiros na atualidadeem sua opinião?Sônia Guajajara - A bandeira de luta principal do movimento indígena sempre foi pelos Territórios, emesmo assim, com muita gente falando que “é muita Terra para pouco índio”, ainda temos muitosindígenas sem terra, que vivem debaixo de lonas no MS, que vivem em acampamentos no Sul( são 60acampamentos hoje), que lutam por retomadas na Bahia e Pernambuco e não podemos esquecer dosgrandes empreendimentos de infraestrutura do governo federal, que consideram apenas o crescimentoeconômico sem considerar as questões socioambientais; a criminalização de lideranças indígenas noNordeste e a falta de políticas públicas adequadas e condizentes com as realidades indígenas.BDR - Qual é o futuro que você vê para os Povos Indígenas brasileiros?Sônia Guajajara - Bom eu penso em um, embora a realidade brasileira aponte outro. O futuro idealseria todos os povos vivendo com seus territórios demarcados, protegidos e livres de ameaças. Para issonão podemos cochilar, é preciso que nos ponhamos de pé sempre prontos para o embate e com amente direcionada. ”Se não nos permitem sonhar então não os deixaremos dormir” e seguimosdefendendo um Brasil plural, que seja dos brasileiros, incluindo os indígenas e respeitando e valorizandoseu papel no país.
  34. 34. 34BDR - Qual recado gostaria de mandar para outras mulheres indígenas que atuam no movimento comovocê?Sônia Guajajara - Que o nosso espírito de guerreiras jamais esmoreça. A luta para as futuras gerações jácomeçou!BDR - Que mensagem gostaria de deixar para índios e não índios?Sônia Guajajara - Que o mundo é redondo e tudo que suceder à Terra, sucederá também aos filhos daTerra e principalmente para aqueles que não respeitam a terra. A Terra é nossa mãe, não pode vender anossa mãe.BDR - Você é a primeira líder indígena a falar a Brasileiros de Raiz. O que gostaria de dizer aos leitores?Sônia Guajajara - A causa indígena é de todos nós. Apoie você também esta causa!Fonte: Revista Brasileiros de Raiz, nº 9, Ano II, Ago/Set 2012.VIII. Sem a prática não dá, extensão universitária nos currículos já!Por um(a) Agrônomo(a) com consciência social e ecológica.Texto subsídio para a campanhapela curricularização da extensão universitária,Coordenação Nacional da FEAB 2011-2012 & 2012-2013,Santa Maria e Frederico Westphalen – RS & Cruz das Almas-BA.“Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; senão é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade quetenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes.”(Paulo Freire)A Agronomia no Brasil do seu inicio até hoje tem sido um campo da ciênciahegemonicamente (predominantemente) voltado aos interesses do latifúndio, da produção emmonoculturas de commodities e do uso de agroquímicos e máquinas em grande escala beneficiandograndes transnacionais estrangeiras. Esta dura realidade para além do conteúdo de nossos estudos seexpressa também na forma de como é feita a produção do saber universitário. A estrutura organizativadas universidades baseada no tripé Ensino, Pesquisa e Extensão, orienta-se pela tese daindissociabilidade dos seus três pilares a serviço do desenvolvimento da sociedade, o que até estemomento hegemonicamente não tem deixado de ser uma mera tese. O Processo de formaçãoprofissional e construção do conhecimento demonstra um exemplo (da mediocridade humana) deconstrução acrítica e descompassada da realidade sócio política em que estamos inseridos, (onde) poisos estudantes se tornaram máquinas de decorar com pouco raciocínio e os professores se tornaram os“donos” de todo o saber existente e o narram da maneira (menos emocionante,) mais retórica, estáticae cartesiana possível. Juntos, os mesmos fazem uma dita pesquisa que na maioria das vezes se resume a

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