Meditação

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  • Eu sofria muito com problemas emocionais, mais preferi os tratamentos alternativos que funcionaram mais do que os metódos tradicionais, um treinamento online que me ajudou bastante o foi o da Meditação Emocional, vou deixar o link aqui, me ajudou muito: http://supercursos.besaba.com/meditacao-emocional
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Meditação

  1. 1. 0CURSO LIVRE DE FORMAÇÃO DE INSTRUTORES DE YOGA – 2010/2011CASA DE YOGA SHANTI-OMINSTRUTORA: MARIA LAURA GARCIA PACKERALUNA: DANIELA TARTARI BRUSCO MEDITAÇÃO: UM CAMINHO PARA A AUTO-CURA. FLORIANÓPOLIS 2011
  2. 2. 1 “A verdadeira felicidade pode ser atingida mas sua fonte eterna está dentro do homem, e não fora. Ao dirigir a atenção para dentro, e não totalmente para fora, um portal se abre naquilo que pode, até então, ter parecido uma parede sem passagem. Aqueles que aprendem a passar através deste portal adentram um mundo novo.”1 Ao meu amor Artur11 GARDNER, Adelaide. Meditação, Um Estudo Prático. Tradução Pedro R.M. de Oliveira. Ed.Teosófica: Brasília, 1991. Pg. 24 e 25.
  3. 3. 2 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 31. O QUE É MEDITAÇÃO 6 1.1. Técnicas de meditação 7 1.2. A meditação segundo o Yoga de Patanjali 14 1.2.1. Pratyãhãra 17 1.2.2. Dhãrana 19 1.2.3. Dhyãna 19 1.2.4. Samãdhi 20 1.3. A meditação segundo o budismo 21 1.3.1. Os Caminhos do Budismo 23 1.3.2. O Visuddhimagga 24 1.3.3. O processo de purificação 25 1.3.4. A concentração e os jhanas 26 1.4. A meditação na Bhagavad-Gita 292. OS SAMSKÁRAS E OS VÁSANAS 34 2.1. Os samskáras e os vásanas na estrutura psíquica do ser humano 34 2.1.1. Samskára (impressões) 34 2.1.2. Vásanas (tendências) 35 2.2. Samskáras e condicionamentos emocionais 36 2.3. A tirania dos samskáras 37 2.4. Samskáras e a ilusão ou maya 39 2.5. O fim dos samskáras 413. O VISÃO DO YOGA DE SAÚDE E DOENÇA 44 3.1. Pequena nota sobre doenças, genética e dor 464. A MEDITAÇÃO E A SAÚDE 495. DESCOBERTAS CIENTÍFICAS SOBRE A MEDITAÇÃO 526. CONCLUSÃO 577. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 59
  4. 4. 3 INTRODUÇÃO A influência da meditação no ocidente teve início no século XX, maisprecisamente nas décadas de 60 e 70, quando o interesse ocidental pela meditaçãoganhou força. Algumas décadas depois, as coisas mudaram. Atualmente, a meditação sefaz presente na nossa cultura, e, especialmente nos Estados Unidos, milhões de norte-americanos incorporaram a meditação a suas vidas super ocupadas. Aqui no Brasil, oyoga e a meditação também já ganharam espaço na academia e inúmeras pesquisascientíficas são realizadas a fim de se conhecer os efeitos da prática do yoga e dameditação. Chamando a atenção por seus efeitos terapêuticos, a meditação hoje ocupa lugarnos negócios, nas profissões e no mundo acadêmico. Segundo Daniel Goleman ―aspessoas meditam em seus trabalhos para aumentar sua eficiência, médicos epsicoterapeutas ensinam-na a seus pacientes e estudantes universitários escrevem sobreela‖2. Adelaide Gardner na sua obra ―Meditação, Um Estudo Prático‖ também apontapara uma atração da psicologia ocidental para as tradicionais doutrinas orientais, sendoque o mais notável paralelo é o que foi feito por Carl Jung, psicólogo que ―dispôs asquatro fases da psicanálise numa ordem que convida a uma íntima comparação comPatanjali e toda a antiga tradição da busca pela iluminação: primeiro vem a confissão –a recordação e o encarar os fatos da confusa experiência passada; depois a explicação ea compreensão – o uso da mente racional para apreciar o significado do passado; emseguida vem a reeducação, um período em que a inteligência criativa deveria serexortada a operar e a liberdade da experiência criativa não apenas descoberta mas usadae desfrutada. Finalmente, vem a fase da transformação – para aqueles capazes deprogredir até este ponto. Nesta última fase, o ―homem velho‖ é deixado de lado e umnovo espírito emerge de dentro, criativo, restaurador, trazendo à velha vida uma novavisão de seu significado e intenção.‖2 GOLEMAN, Daniel. A Mente Meditativa.Tradução Marcos Bagno. 5ª Edição. Editora Ática. São Paulo:1997.Pg. 22.
  5. 5. 4 No entanto, apesar de seus efeitos práticos e terapêuticos, a verdadeira intençãoda meditação é a ampliação da consciência, da sabedoria, ou seja, é uma buscaespiritual. O propósito da nossa existência terrena é o desenvolvimento da nossasabedoria, e para que isso ocorra progressivamente, em um dado momento se tornanecessária a compreensão da natureza da nossa mente e da nossa capacidade de se auto-direcionar e a meditação é um método que nos impulsiona neste sentido. Além do desenvolvimento individual, é preciso estar atento para o fato de que ahumanidade como um todo necessita desenvolver uma compreensão mais rica eprofunda sobre sua própria natureza. Porém, esta compreensão deve ter origem a partirde uma profunda percepção, de uma visão intuitiva e, portanto, da visão interior de cadaum, o que pode surgir a partir de práticas meditativas. Segundo Adelaide Gardner ―A psicanálise tem feito muito para descobrir osvários níveis da mente humana, mas no homem há algo mais do que apenas umavariedade de modos de sentir e de pensar. A técnica de meditação foi concebida, e aindaexiste, para auxiliar os homens individualmente a descobrirem dentro de si própriosaquele centro profundamente oculto da Vida uma criativa que é o direito inato de todomembro da raça humana. A partir desse centro pode-se compreender muito do que seriade outra forma obscuro. A partir desse nível muito pode ser feito pelo mundo pois,embora nosso mundo necessite de alimento para as suas milhões de bocas famintas,com ainda maior urgência, de luz para a escuridão de suas miríades de almashumanas.‖3 O propósito deste trabalho é explicar em linguagem simples e direta osprocessos que ocorrem na mente daquele que pratica a meditação e em que medida estesprocessos serão responsáveis pelo melhoramento da qualidade de vida do meditador e,principalmente, na qualidade da sua saúde, implicando por vezes, na cura completa dedoenças. No presente trabalho será analisada a relação entre o desenvolvimento da práticada meditação e o processo de cura de doenças, levando-se em conta a visão do yoga,3 GARDNER, Adelaide. Ob. Cit. pg. 26.
  6. 6. 5segundo a qual ―toda doença é apenas um reflexo do desequilíbrio interno‖4, e que―existe apenas uma doença, que é o nível de distanciamento entre o ego e o ser‖. De maneira expositiva, não exaustiva e através de explicação simplificada,algumas técnicas de meditação serão apresentadas como métodos de auto-treinamentoque podem conduzir a elevação do nível de consciência do praticante. Outras formas demeditação serão apresentadas como um panorama da meditação que se faz presente nasmais antigas tradições orientais, budistas, hinduístas, judaicas e até mesmo cristãs. Por fim, serão apresentados alguns casos práticos de cura através da meditação.4 PACKER, Maria Laura Garcia. A Senda do Yoga. Filosofia, Prática e Terapêutica. 2ª edição. Blumenau:Nova Letra; 2009.pg. 339.
  7. 7. 6 1. O QUE É MEDITAÇÃO De acordo com Joseph Goldstein, mestre de meditação, meditação é puramatemática: ―todos os sistemas de meditação têm por meta o Um ou o Zero – a uniãocom Deus ou o esvaziamento. A via para o Um é através da concentração n´Ele; para oZero é a penetração no vazio da própria mente.‖5 Matemática ou não, a prática da meditação tem como objetivo senão a cessação,ao menos o apaziguamento das modificações mentais, capazes de elevar o pensamentohumano a níveis superiores aos do persistente diálogo interno pessoal, insistentementepreocupado com afazeres mundanos. Segundo Pedro Kupfer6: meditar é parar de pensar. Adelaide Gardner cita que ―Patanjali descreve a natureza do pensamento e aorigem e estrutura da mente pessoal da seguinte forma: O Homem é, em essência, puroespírito (purusha); o homem essencial existe tanto além como dentro da mente. Aassociação de espíritos humanos individuais (purushas) com a forma de energiachamada pensamento (manas) leva à consciência da experiência individual – sensações,sentimentos, reproduções interiores do ambiente, percebidas individualmente – e assimà formação das mentes pessoais. A mente pessoal é normalmente apenas uma série derespostas e idéias automáticas que ligam um homem, com mais ou menos êxito, ao seuambiente. A pura consciência humana (purusha) jaz dentro e além do conjunto pessoalde automatismos (vasanas) e é responsável por eles, mas não é usualmente capaz detornar o cérebro de vigília cônscio de sua existência, pois os automatismos, carregadospesadamente com sentimentos (kama), são muito dominantes no campo da vida pessoal.Assim, enquanto os automatismos permanecem incontestados, o homem espiritual é poreles isolado da consciência de vigília. Resulta que a natureza pessoal é infeliz, gastando-se a vida diária em incidentes confusos e pouco compreendidos, isolada do Eu internopercebedor: o purusha sempiterno, o vidente. É a ignorância da verdadeira natureza eexistência do Eu que leva a uma conduta resultante e dor, dor que, felizmente, no fim,leva o homem a buscar a explicação de seus sofrimentos e, assim, da própria vida. Se equando os automatismos puderem ser serenados e o Eu descoberto por trás do5 GOLEMAN, Daniel. A Mente Meditativa, pg. 16.66 KUPFER, Pedro. Ob. Cit. Pg. 8.
  8. 8. 7comportamento conflitante da mente e dos sentimentos, só então os relacionamentosfundamentais poderão ser compreendidos, tornando possíveis a iluminação e afelicidade.‖7 Com a prática da meditação o homem desenvolve a capacidade de observar-se,de perceber os automatismos de sua mente, as samskaras e os vasanas, e com isso,conhecer melhor a sua própria natureza. Com ela, o homem é capaz de descobrir queexistem vários níveis de pensamento e que pode direcionar a sua atenção para o nívelque desejar, desde que sua mente esteja treinada para isso. Por isso as várias técnicas demeditação existentes podem ser adaptadas a cada personalidade diferente, permitindoque todo ser humano seja capaz de meditar. Como foi dito na citação acima de Patanjali, a meditação permite a prática danão identificação com os mecanismos da mente e do corpo ligados aos sentidos, aerradicação das samskaras, e com isso, pode-se descobrir um caminho de retorno ànatureza divina humana. Através da meditação e com a cessação das modificaçõesmentais, o retorno ao passado e a projeção do futuro cessam e o viver o momentopresente se torna então possível. E viver no presente é o que dá plenitude ao ser. 1.1. As técnicas de meditação A mente humana pode ser dividida em consciência sensorial, referente aossentidos — visão, audição, olfato, paladar, tato — e consciência mental. Esta últimaatravessa níveis grosseiros como ódio ou desejo até níveis mais sutis como calma eclaridade. Nela estão incluídos os processos intelectuais, os sentimentos e emoções, amemória e os sonhos. A meditação é uma atividade da consciência mental. Ela envolve uma parte damente que observa, analisa e lida com o resto da mente. Para praticar a meditaçãoexistem várias técnicas, sendo que a tradição clássica da meditação divide estas técnicasem cinco categorias: concentrada (concentrar), conscienciosa (plena atenção),devocional (intuitiva), criativa (visualização) e reflexiva (reflexão). As técnicas7 GARDNER, Adelaide. Ob. Cit. pg. 13 e 14.
  9. 9. 8constituem importante instrumento para o alcance do propósito maior da meditação queé o treinamento e a sutilização da mente até o alcance de estados mentais e espirituaismais elevados. Cada pessoa deve praticar uma das técnicas de meditação e através da auto-percepção descobrir com qual delas se identifica melhor, a ponto de poder alcançar seuobjetivo maior. Além disso, é importante conhecer os caminhos aos quais cada técnicairá induzir a mente do meditador. Estes caminhos estão descritos em tratados como oVisuddhimagga budista, considerada a mais ampla e detalhada obra de psicologiatradicional dos estados de consciência humana. Buda identificou que pessoas com temperamentos diferentes se adaptam melhora alguns tipos de meditação e até mesmo a temas de meditação que a outros. OVisuddhimagga também identifica os locais mais adequados para meditação de acordocom o tipo de personalidade do meditador, mas isso será tema tratado mais adiante. Sendo a meditação um estado mental de percepção ampliada, a sua prática podeser formal ou informal. Ela será formal quando o meditador sentar diariamente, nomesmo horário e local, alinhando o corpo, se sintonizar com a respiração e praticar atécnica que julgar ser a mais apropriada. Este tipo de meditação gera uma disposiçãointerna que acaba por mobilizar a presença contínua do percebimento da realidade. Elaserá informal quando praticada a partir da focalização da mente sempre no momentopresente, em todas as atividades que se está praticando, por exemplo, trabalhando,caminhando, cozinhando, andando de ônibus. Com a prática da meditação formal ou informal a meditação pode se tornar ummeio de vida. Com isso, também é desenvolvida a plena atenção, que é a via principalpara a concentração. Se não há concentração, a mente é atraída para as mais diversasdireções, indo para lá e para cá sem atingir qualquer objetivo ou propósito. E, ao iniciara prática da meditação, o primeiro ponto que se percebe é a intensa modificação mentale a desconexão entre os caminhos percorridos pela mente, durante todo o períododesperto, e, inclusive, à noite, durante os sonhos. Mas, entre os pensamentos existe umespaço vazio, e é ali que reside o Ser.
  10. 10. 9 O ato de olhar para a mente e observar a sua condição diminui a intensidade dofluxo dos pensamentos, e pode revelar o espaço vazio que existe entre eles. Quanto maisobservada, mais apaziguada a mente se torna. A transformação da mente é um processolento e gradual, porém pode ser iniciado a qualquer momento, com o treinamento daplena atenção por meio da respiração consciente, da conscientização de cada ato darotina diária e pela consciência do momento presente8. A seguir, serão apresentadas algumas técnicas de meditação formal maisconhecidas, porém, não de maneira exaustiva. Como o objetivo deste trabalho não éconstituir um manual de meditação, mas sim apresentar seus benefícios, aquele quepretende praticar alguma das técnicas deverá se instruir em livros apropriados parapraticar a meditação que entender mais apropriada. 1. Meditação da Respiração: o meditador senta, observa e se conscientiza da sua respiração. O objetivo é não controlar a respiração, apenas observá-la, sem qualquer julgamento e sem identificação com os pensamentos que vão surgindo na mente. 2. Meditação de fixação ocular ou trátaka: o meditador escolhe um ponto qualquer e deve fixar seus olhos nele por um longo período. O ponto pode ser na parede, ou a chama de uma vela. Com a fixação ocular, o meditador promove também a fixação da mente em um único foco. Toda vez que a mente se afasta do ponto, o meditador deve retornar novamente a ele. 3. Meditação Vipassana: vipassana significa ―ver claramente‖. Esta técnica é baseada na auto-observação. O meditador deve sentar e observar um objeto que se destaca no momento presente, podendo ser a respiração, uma dor no corpo, um sentimento. A mais conhecida é a plena atenção nas narinas, no ar que entra e que sai, sem se identificar com os pensamentos que surgem na mente. O primeiro plano desta técnica é desenvolver a percepção na respiração, e o segundo plano é perceber a transitoriedade de todas as coisas.88 PACKER, Maria Laura Garcia. Ob. Cit. Pg. 292.
  11. 11. 104. Meditação nos Chakras: esta meditação consiste em levar a consciência para cada um dos chakras, mentalizando a figura correspondente a ele, e a sua cor, iniciando pelo muladhara chakra e finalizando no sahasrara.5. Meditação no yantra: yantras são símbolos ou diagramas que representam imagens do macrocosmos que se refletem no microcosmos. As suas imagens se comunicam diretamente com o Eu profundo. Podem ser desenhadas em papel, pedra, madeira ou no chão, podendo constituir imagens geométricas simples ou bastante complexas. Nesta meditação, o meditador deve fixar o olhar sobre a figura e visualizá-la mentalmente, até o ponto de ser capaz de desconstituir mentalmente a figura e após, reconstruí-la novamente.6. Meditação em mandalas: as mandalas foram concebidas para serem instrumentos de meditação. Para Jung, renomado psicólogo, as mandalas representam a unidade e a totalidade da psique e abrangem o consciente e o inconsciente. Nesta meditação, deve ser desenvolvido o olhar da alma, treinando a visão interna do objeto.7. Nispanda Bhava: concentração no mundo sonoro. Nesta técnica, o meditador deve levar sua atenção para os sons do momento presente em que se encontra, procurando não julgar, nem se apegar a eles. A partir de um momento, o meditador deve escolher um único som contínuo e fixar nele a sua atenção, voltando para ele toda a vez que a mente se distrair.8. Mantra So’Ham: so’ ham significa eu sou e é o som natural da respiração. Aqui, o meditador deve trazer a atenção para a inspiração, quando produz o som so e para a exalação, quando produz o som ham. Então, inala produzindo mentalmente o som SO, e exala produzindo HAM. A plena atenção na respiração e no som produz profunda concentração e acalma a mente.9. Meditação no mantra OM: o meditador deve sentar-se e trazer sua atenção para o ponto entre as sobrancelhas repetindo mentalmente o mantra OM,
  12. 12. 11 continuamente, com a língua parada, tocando no céu da boca, de preferência no palato mole. 10. Atma-vicara: é a meditação da investigação do EU – ―quem sou eu?‖. O meditador senta, com a mente apaziguada e repete mentalmente: ―eu não sou o meu corpo físico e nem as sensações que o afetam...‖. Depois: ―eu não sou o meu corpo emocional e nem as emoções que emanam dele...‖. Depois: ―eu não sou o meu corpo mental nem os pensamentos que passam por ele...‖. Praticando a observação, o meditador passa então a mentalmente se perguntar ―quem sou eu‖. Seja qual for a técnica escolhida sempre que se pratica meditação se estarálidando com a consciência, com a mente e com o cérebro. Consciência é algo inerente a todo ser humano e está ligada a atributos pessoaiscomo individualidade, personalidade, inteligência e vontade própria, mas em um grausuperlativo e transcendente. Individualmente, ela está relacionada àquilo queconhecemos como alma humana, que é a identidade suprema dos seres humanos e queestá conectada com a Consciência Cósmica superior ou bhagavan. A consciência seriapurusha individualizado, sem a sua percepção pela mente. Quando transcendemos amente, aumentamos a nossa consciência e podemos, ainda que por breves instante,perceber purusha em nós. A consciência pode variar de acordo com o conhecimento de cada um, daintensidade de sua perspicácia, com a sua educação e experiência – quanto maiseducada e experiente, maior a sua consciência. Sendo a consciência ligada ácapacidade do indivíduo de perceber o mundo e de se perceber no mundo, quando oconhecimento do ser humano e o alcance dos objetos de conhecimento se aprofundam,assim como o seu entendimento, a mente pode desenvolver seu pleno potencial. A mente, então, é um instrumento da consciência e nela estão contidos oscondicionamentos, padrões de pensamento, memória e raciocínio. A mente trabalhaininterruptamente, mesmo quando estamos dormindo. Para o yoga, a mente é citta.
  13. 13. 12 Citta é uma palavra ―derivada de cit ou citt (IV-34), um dos três aspectos do Paramãtmã, chamado Sat-cit-ãnanda no Vedanta. Este é o aspecto em que se baseia o lado-forma do universo e através do qual ele é criado. O reflexo deste aspecto na alma individual, que é um microcosmo, é chamado citta. Citta é assim, aquele instrumento ou meio através do qual jivãtmã materializa seu mundo individual, nele vive e evolui, até que se torne perfeito e unido com o Paramãtmã. Em termos gerais, citta corresponde à mente da psicologia moderna, mas tem um alcance e um campo de atuação mais abrangente. (...) Não devemos, entretanto, cometer o erro de imaginar que citta como uma espécie de meio material moldado sob diferentes formas quando diferentes tipos de imagens mentais são produzidas. Fundamentalmente, sua natureza é a da consciência, que é imaterial, mas afetada pela matéria. De fato, pode-se dizer que citta é um produto de ambos, consciência e matéria, ou purusha e prakriti, sendo ambos necessários para seu funcionamento. É como uma tela intangível, que permite que a luz da consciência seja manifestada no mundo manifestado. Mas o segredo real de sua natureza essencial subjaz na origem do universo manifestado e somente pode ser conhecido quando se atinge a Iluminação.‖9 Por fim, temos o órgão material humano, o cérebro, que dá lugar para a manifestação material da mente humana, e que coordena todo o sistema nervoso, o qual, por sua vez, permite que o indivíduo perceba e interaja com o meio. O cérebro é o local onde ocorrem as funções mentais e é formado por neurônios que transferem informações entre si. É no cérebro que informações oriundas dos sentidos são processadas, onde ocorre a comunicação com o mundo físico, onde acontece o raciocínio, a concentração, a criatividade e imaginação. É nele que ocorrem as incessantes modificações que se quer ver acalmadas pela meditação. A meditação irá trabalhar com estes três elementos: cérebro, mente e consciência. O domínio da mente acontece com o desenvolvimento da respiração, da plena atenção e da concentração.99 TAIMNI, I.K. Ob. Cit. Pg. 20.
  14. 14. 13 As técnicas de desenvolvimento e controle da respiração é, na realidade, ocontrole da energia vital, ou pranayãma, sobre o qual será discorrido mais adiante. A plena atenção é desenvolvida praticando a focalização mental em um únicoponto. Com isso, é possível perceber cada vez que a mente sai do foco, ou seja, semodifica, e trazer ela novamente aquele ponto. Isso desenvolve o observador interno,aquele que percebe as modificações mentais e que está atento de si mesmo durantetodo o dia, e durante todas as atividades do meditador. O meditador desenvolvidopermite que agir de acordo com a consciência e não de acordo com oscondicionamentos mentais. Para se alcançar o estado meditativo, primeiramente, é necessário desenvolver aconcentração da mente em um único ponto. Isso é dhãrana do Yoga, o sexto membrodo Yoga Sutra de Patãnjali, que antecede a meditação e é um estado de nãomovimentação da mente, apenas focalização em um único ponto. Vários objetos, figuras e imagens podem servir para foco de concentração. Elesserão um meio para atingir o estado meditativo. Quando a mente consegue seconcentrar inteiramente no objeto ele irá tornar-se um ponto de obstrução, e somentequando ele desaparecer a meditação ocorrerá. Por fim, a respiração também deve ser levada em conta, já que no oriente ela éconsiderada um fenômeno fisiológico, psíquico e prânico. O controle da respiração éum meio de controle da mente. Sempre que focamos a respiração, a mente volta para omomento presente. A seguir, uma breve apresentação da meditação no Yoga, no budismo e noBhagavad-Gita irá mostrar que elementos como mente, consciência, respiração,concentração estarão sempre presentes quando se trata de meditação.
  15. 15. 14 1.2. A meditação, segundo o Yoga de Patañjali I-2) ―Yogas citta-vritt-nirodhah‖ I -2) Yoga é a inibição das modificações da mente.10 A meditação ou dhyãna é o objetivo do yoga. É para a meditação que a práticados ásanas deve ser direcionada. A meditação é o que dá sentido ao yoga. Para Patañjali, no Yoga-Sutra, ―III. 1. Concentração é o confinamento da mentedentro de uma área mental limitada (objeto de concentração). III.2.Fluxo ininterrupto(da mente) na direção do objeto (escolhido para meditação) é contemplação. III.3. Amesma (contemplação), quando há consciência somente do objeto de meditação e nãode si mesma (a mente), é samãdhi.”11 De acordo com Maria Laura Garcia Packer, a meditação é resultado depratyãhãra, que é a reeducação dos sentidos ou o recolhimento dos sentidos que irá, porsua vez, conduzir à concentração ou dhãrana. O resultado da concentração em um únicoobjeto, sem mais modificações mentais, é a contemplação ou dhyãna. O último estágiode concentração da mente é o desaparecimento da mente da consciência sobre simesma: o samãdhi. Antes de entrar no estudo destes termos, é importante mencionar que o RajaYoga, cuja obra clássica e autorizada pela tradição antiga da Índia é o Yoga Sutra dePatañjali, determina os métodos e práticas que podem levar um indivíduo ao totaldomínio da mente. O objetivo final do Yoga é a autorrealização, que pode ser atingidapelo domínio das aflições humanas, do klesas, e pela total cessação das modificaçõesmentais ou cittavrittis. O método de autorrealização descrito por Patañjali possui oitopassos, sendo eles: 1. Yama: conjunto de condutas morais e éticas, refreamentos;10 Yoga Sutra de Patanjali, citado em TAIMNI, I.K. A Ciência do Yoga. Comentários sobre os Yoga-sutras de Patanjali à luz do pensamento moderno. Tradução Milton Lavrador. Brasília, Editora Teosófica,2006. 4ª edição, pg. 19.1111 TAIMNI.I.K. ob. Cit. Pgs, 217, 219 e 221.
  16. 16. 15 2. Niyama: conjunto de condutas disciplinares, auto-disciplina; 3. Ásana: posturas psicofísicas; 4. Prãnayãma: controle do prana – energia vital; 5. Pratyãhãra: recolhimento ou retração dos sentidos; 6. Dhãrana: concentração; 7. Dhyãna: meditação; 8. Samãdhi: êxtase. Antes de prosseguir com o estudo dos 4 últimos passos, que serão os maisdiscorridos a seguir, cabe mencionar alguns pontos importantes sobre yamas e nyamas,posto que ambos são de extrema importância para a vida e para a prática daquele quetem como objetivo a prática da meditação. “Yamas correspondem ao desenvolvimento de uma conduta moral e ética sadia,capaz de evitar toda e qualquer dor em quem quer que seja. Yama em sânscrito,significa morte, ou seja, deixar morrer tudo o que em nós se torne obstáculo para atingira iluminação.‖12 As condutas morais e éticas, ou yamas, consistem em:  Ahimsã: não violência contra toda e qualquer forma de vida;  Satya: veracidade ou abstenção da mentira, perfeita coerência entre pensamento, palavras e atos;  Asteya: abstenção do roubo;  Brahmacarya: domínio das energias ou não perversão sexual;  Aparigraha: não possessividade e abandono da ânsia pela conquista e manutenção de bens materiais. Os niyamas ―correspondem aos aspectos internos que necessitam serdesenvolvidos na senda de retorno, o caminho à consciência. Caracterizam oflorescimento das virtudes da alma e despertam nossa natureza real.‖13Portanto, osnyamas são sempre referente à vida interior.12 PACKER, Maria Laura Garcia. Ob. Cit. Pg. 27.13 Idem, pg. 28.
  17. 17. 16 Estas condutas auto-disciplinares ou regras de vida, consistem em:  Sãuca: ou pureza nos aspectos físico, mental e emocional;  Santosa: ou contentamento. É a alegria, o deleite que surge, natural e espontaneamente, resultante do desapego dos frutos da ação e da indiferença em relação às circunstâncias;  Tapas: ou auto-esforço, perseverança. É a vontade forte empregada para superar limitações e alcançar o objetivo.  Svãdhyãyã: auto-estudo. É estudar-se a si próprio, é a meditação sobre si mesmo;  Isvara-pranidhãna: ou entraga ao Absoluto, ou a Deus. É entregar a Deus todas as suas ações, implicando em total renúncia aos frutos de qualquer ação, já que todos os passos são entregues a Deus. Por fim, é importante falar sobre o controle do prãna, ou prãnayãmas, que constituem o quarto passo do caminho da Autorrealização do Yoga, que foram acima mencionados. O prãna ou energia vital é responsável pela conexão entre o corpo e a mente, ou seja, ele é o elo que une a matéria e a energia. Por conseguinte, ―expressando-se através da mente, a consciência não pode entrar em contato com a matéria e atuar através dela sem a presença intermediária do prãna. A matéria, em associação com a energia, não pode afetar a consciência, a não ser por intermédio de prãna.” De acordo com o Yoga Sutra II- 49 de Patañjali: ―Isto tendo sido (realizado), (segue-se) prãnayãma, que é a cessação de inspiração e expiração”.14 O objetivo do controle da respiração através da prática dos prãnayãmas é obter o controle consciente das correntes prânicas do corpo e por consequência, obter o controle dos cittavrittis, ou modificações mentais e as mudanças na consciência. Os prãnayãmas preparam, então, a mente para os passos seguintes: dhãrana, dhyána e samãdhi. Assim, “Yamas e Nyamas eliminam as perturbações causadas pelos desejos epelas emoções descontroladas. Ásana e prãnayãma eliminam as perturbaçõesprovenientes do corpo físico. Pratyãhara, desligando a mente dos órgãos sensoriais,14 TAINMI, I.K. Ob. Cit. Pg. 204.
  18. 18. 17isola o mundo externo e as impressões por ele produzidas na mente. A mente fica, pois,completamente isolada do mundo externo (...). Somente nestas condições é que épossível a prática exitosa de dhãrana, dhyãna e samãdhi.”15 1.2.1. Pratyãhãra De acordo com o Yoga Sutra II-54: ―Em pratyãhãra, ou abstração, é como se ossentidos imitassem a mente, retirando-se dos objetos.”16 Para que ocorra a concentração, é necessário que ocorra um estado derelaxamento que dê condições para que a mente seja acalmada ou serenizada. Issosignifica que a mente deve estar e estado de não reação, não identificação com sentidos,com aversão ou com apego. Para isso, o recolhimento dos sentidos é absolutamenteimprescindível, pois sem eles, a mente se distrai, seguindo os sentidos e impedindo aconcentração em um único objeto. De acordo com o Samkhya, depois da formação do ego, ocorre uma bifurcaçãoentre os mundos objetivo e subjetivo, sendo que os cinco sentidos serão a base dapercepção do mundo externo, com seus elementos e qualidades sensíveis. Pratyãhãraseria o recolhimento destes sentidos de modo a fazer com que eles não atuem sobre afaculdade da ação e que a mente não se identifique com o que foi sentido. Para que issoocorra, é necessário que o ato de recolhimento, ou supressão, seja consciente evoluntário, pois se assim não for, ocorrerá uma repressão inconsciente, que acabará porresultar no indivíduo um sentimento de perda. Praticando pratyãhãra, os desejos, o prazer e a dor são dominados uma vez quea percepção torna-se uma tomada de consciência e não uma identificação física. Aimportância de pratyãhãra reside no fato de que ele trata da relação do homem com omundo exterior. ―Em primeiro lugar, o mundo exterior se dá à consciência comosensação, há um estímulo e uma resposta da consciência. Quando esta resposta passapor uma elaboração mental, o que era sensação se transforma em percepção: a sensaçãode ruído se transforma na percepção de que caiu alguma coisa. Em segundo lugar,15 Idem, ob. Cit. Pg. 217.16 TAIMNI, I.K. Ob. Cit. Pg. 211.
  19. 19. 18determinados estímulos produzem como reação estados emocionais, ou seja, umadisposição geral do organismo que se traduz, por exemplo, como ira, medo, pesar oudeleite. Quando as emoções perduram, transformam-se em sentimentos: amor, ódio,tristeza, etc. Daí que o controle dos sentidos abarque uma gama imensa de fenômenossubjetivos: sensação, percepção, emoção, sentimento, o que, sem dúvida, repercuteintensamente nas relações do ego com o mundo e consigo mesmo.‖17 Neste contexto, as sensações são o principal alvo de pratyãhãra, em especial, assensações de calor, de frio, de dor e de deleite. Isso porque o sistema nervoso humano,da maneira como é formado e, sendo os impulsos nervosos de natureza química, porémcom propriedades elétricas, levam os seres humanos a facilmente confundirem ossentidos ou serem confundidos por eles. Por exemplo: se colocarmos alternadamenteuma mão em um balde de água fria e depois em um de água quente, em pouco temponão saberemos distinguir qual é o com água quente e qual é o com água fria. Às vezes,um frio intenso queima e é recebido como uma sensação de calor. Por outras, em umestado de febre muita alta, sente-se calafrios. A explicação de pratyãhãra dada por Taimni é mais física, porém não mesmoprofunda e consiste no fato de que os estímulos externos provocam vibrações nosórgãos sensoriais. Se a mente não estiver ligada ao órgão sensorial, estas vibraçõespermanecem desapercebidas. Isso ocorre, em parte, e com algumas vibrações, no nossodia a dia. Por exemplo: quando um barulho constante produzido por um relógio deparede não é percebido por alguém trabalhando compenetrado na sala. No entanto,apesar de ignorarmos algumas vibrações no dia a dia, outras são absolutamenteincontroláveis. E é delas que estamos nos referindo quando se trata de supressão dossentidos. Na realidade, pratyãhãra implica numa total e voluntária abstração dossentidos, na exclusão da atenção ou concentração em qualquer objeto do mundoexterior,―a retirada da mente para dentro de si mesma. É um tipo de abstração tãocompleto que os órgãos sensoriais param de funcionar.‖1817 HENRIQUES, Antônio Renato. Yoga e Conciência: a Filosofia Psicológica dos Yoga-Sutras dePátañjali. Porto Alegre, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1984., pg. 202.18 TAIMNI, I.K. Ob. Cit. Pg. 213.
  20. 20. 19 1.2.2. Dhãrana O próximo passo é a concentração, ou dhãrana. De acordo com o Yoga SutraIII-I: ―Concentração é o confinamento da mente dentro de uma área limitada (objeto deconcentração).19 Como a mente está sempre em um processo ininterrupto de movimentação, eladeve ser fixada em um único objeto mental e sempre que se distrair dele, ela deveimediatamente a ele retornar. Este objeto pode ser interno ou externo ao corpo. Oobjetivo do meditador deve ser, pouco a pouco, impedir a fuga da mente do objeto e apermanência da concentração nele, pelo máximo de tempo possível, com a maior nitideze fixação possíveis. Diz-se que a movimentação mental fica limitada ao objeto porque um objetopossui vários aspectos aos quais a mente pode se apegar durante o processo deconcentração. Por exemplo, se a concentração for sobre uma flor, a mente pode seconcentrar nas folhas, no caule, nas pétalas, na cor. São campos de movimentaçãomental, mas delimitados sempre na flor. Se a mente for para o jardim, para o vaso ondeela está plantada, ou para o bouquê recebido no último aniversário, ocorreu a distração eela deve retornar à flor, unicamente. Esta repetição do retorno da mente ao objeto acabapor cansar a mente, que em um dado momento, de tanto ser a ele trazida, irá repousarnaturalmente sobre ele. O objeto ―deve funcionar como um centro gravitacional da atenção, que, apesarde dinâmica, não escapa de um determinado campo. Com isto a concentração mental éadquirida e a atenção fixada passa de dinâmica à imóvel. A partir deste momento,iniciamos o processo de dhyãna.”20 1.2.3. Dhyãna De acordo com o Yoga Sutra III-2: “Fluxo ininterrupto (da mente) na direçãodo objeto (escolhido para meditação) é contemplação.”2119 Idem, pg. 217.20 HENRIQUES. Ob. Cit. Pg. 205.2121 TAIMNI, I.K. Ob. Cit. Pg. 219.
  21. 21. 20 Como foi mencionado no último parágrafo do item anterior, quando o fluxo damente é ininterrupto em direção a um único objeto, sem qualquer interferência dequalquer outro pensamento e pelo tempo que desejar, ocorre então dhyãna, oucontemplação. Se houver a interrupção por outro pensamento, ocorre a distração e acabao estado contemplativo. Neste estágio ocorre do meditador poder aumentar o espaço vazio entre umpensamento e outro. Como nestes espaços vazios não há o trabalho da mente (vrittis), oalargamento destes espaços conduz ao próximo estágio, para além da mente, para oencontro com o SER, ou o samãdhi. 1.2.4. Samãdhi O último estágio passo da Autorrealização é o samãdhi. Yoga Sutra III-3: “Amesma (contemplação), quando há consciência somente do objeto de meditação e nãode si mesma (a mente), é samãdhi. Para melhor explicar o samãdhi, vale citar as palavras de Taimni: ―Quando oestado de dhyãna tiver sido bem estabelecido e a mente puder reter o objeto dameditação sem quaisquer distrações, será possível conhecer o objeto muito maisintimamente do que no pensamento comum, mas, mesmo então, não será possível obterum conhecimento direto da sua verdadeira essência e a realidade nele oculta pareceráescapar ao yogi. Ele é semelhante a um general que alcançou os portões do forte quetem de conquistar, os quais, no entanto, estão fechados, e ele é incapaz de entrar. O quese interpõe entre ele e a realidade do objeto que ele quer conhecer? III-3 dá umaresposta a esta pergunta. A própria mente está impedindo a compreensão da verdadeiraessência do objeto da meditação. Todas as distrações foram completamente eliminadas ea consciência está plenamente focada no objeto de meditação. De que modo a menteinterfere na total compreensão da essência do objeto? Interpondo a consciência de simesma entre a realidade oculta por trás do objeto e a consciência do yogi. É estaautoconsciência, ou subjetividade, pura e simples, que serve como véu para separá-la doobjeto e ocultar a realidade que o yogi está procurando.‖222222 TAIMNI, I.K. ob. Cit. Pg. 221.
  22. 22. 21 É o desaparecimento da autoconsciência, o desapego final da mente, que farácom que os portões se abram para o samãdhi. Quando some a autoconsciência,desaparece também a relação sujeito-objeto (de dhyãna) e o meditador entra em totalunidade com o próprio objeto, ocorrendo a realidade oculta por trás do objeto. Aqui, omeditador ultrapassa o último estágio da mente ou da matéria prakriti, e entra emcontato com purusha. ―Podemos compreender agora como os tattvas descritos pelo Samkya estão, naprática do Yoga, imersos uns nos outros, no sentido inverso ao de sua emanação:através do pratyãhãra, os sentidos se retiram do mundo exterior e convergem nafaculdade mental (manas); através do dhãranã e do dhyãna, as modalidades dopsiquismo são suspensas e unificadas ao eu individual (ahamkara); no samãdhi comsuporte, o eu individual se reabsorve em Buddhi, o princípio de pura inteligência, semforma e supra-individual; e mais adiante veremos como, na última forma de samãdhi, aprópria Buddhi é absorvida no Ser absoluto.‖23 1.3. A meditação do budismo “Ó mente! Por que pairas incansavelmente assim sobre as cambiantes circunstâncias da vida? Por que me deixas tão confuso e inquieto? Porque me incitas a coligir tantas coisas? És como o arado que se quebra em pedaços antes de começar a arar. És como o leme que se desmantela, no momento em que te aventuras neste mar da vida e da morte. Para que servem os muitos renascimentos se não fazemos bom uso desta vida? Ó mente minha! Uma vez me levaste a nascer como rei e outra me levaste a nascer como um pária e a mendigar meu alimento. Às vezes me faz nascer em divinas mansões dos deuses e a morar na luxúria e êxtase, depois me atiras nas chamas do inferno.23 HENRIQUES, Antônio Renato. Ob.cit. pg. 208
  23. 23. 22 Ó minha tola, tola mente! Assim me conduziste por longos e diversos caminhos e sempre te fui obediente e dócil. Mas agora que ouvi os ensinamentos de Buda, não mais me perturbarás ou me causarás sofrimentos. Busquemos juntos a Iluminação, humilde e pacientemente. Ó mente minha! Se pudesses aprender que tudo é não-substancial e transitório. Se pudesses aprender a não te apegares às coisas, por elas não ansiares, a não dares vazão à cobiça, ira e tolice, então, poderemos caminhar em paz. Se rompermos os grilhões dos desejos com a espada da sabedoria, se não nos abalarmos com as mutáveis circunstâncias da vida, com a vantagem ou desvantagem, com o bem ou o mal, com a perda ou lucro, com o louvor ou o abuso, então,poderemos viver em paz. Ó mente querida! Foste tu que primeiro despertaste em nós a fé e foste tu que sugeriste a nossa procura da Iluminação. Por que, facilmente, dás lugar à cobiça, ao amor pelo conforto e ao prazer novamente? Ó minha mente! Por que saltitas para cá e para lá, sem um definido propósito? Cruzemos este bravio mar da ilusão. Até aqui agi como desejaste, mas agora deves agir como eu quiser e juntos seguiremos os ensinamentos de Buda. Ó mente querida! Estas montanhas. Estes rios e mares são inconstantes e fontes de sofrimento. Onde, neste mundo de ilusão, poderemos encontrar paz? Sigamos o ensinamento de Buda e atinjamos a outra praia da Iluminação.”2424 KYOKAI, Bukkyo Dendo, Sociedade para a divulgação do Budismo. A Doutrina de Buda. 4ª edição.Impresso por RRDonnelley Moore. Pg. 156, 157 e 158.
  24. 24. 23 1.3.1. Os Caminhos do Budismo25 Para o Buda, aqueles que buscam a iluminação devem fazer de suas mentes umcastelo e decorá-lo. Para o budismo, existem três caminhos que aquele que busca ailuminação deve seguir: 1) disciplina do comportamento prático; 2) corretaconcentração da mente; 3) sabedoria. A disciplina é referente ao controle dos sentidos e do comportamento, aconcentração refere-se ao cultivo da mente pura e tranquila e a sabedoria é a capacidadede compreensão das Quatro Nobres Verdades: 1) conhecer o fato do sofrimento e suanatureza; 2) conhecer a fonte do sofrimento; 3) conhecer o que constitui o término dosofrimento; 4) conhecer o Nobre Caminho que leva ao término do sofrimento. A análise dos três Caminhos revelam os Oito Nobres Caminhos, os quatropontos de vista a serem considerados, os quatro corretos procedimentos, as cincofaculdades do poder a serem empregadas e a perfeição das seis práticas. Os Oito Nobres caminhos são: 1) a percepção correta: compreender as Quatro Verdades, acreditar na lei dacausa e efeito e não ser enganado pelas aparências e desejos; 2) pensamento correto: não nutrir desejos, não ser ganancioso e irritadiço enão praticar atos nocivos; 3) fala correta: evitar palavras falsas, inúteis, abusivas e ambíguas; 4) comportamento correto: não matar nenhuma forma de vida, não roubas enão cometer adultério; 5) meio de vida correto: evitar a vida que possa causar vergonha; 6) esforço correto: dar o melhor de si e agir com diligência; 7) atenção correta: manter mente pura e atenta; 8) concentração correta: manter a mente correta e tranqüila, procurando acompreensão da sua pura essência.25 Este item foi resumido do livro A Doutrina de Buda. 4ª edição. Impresso por RRDonnelley Moore,página 164 à 177.
  25. 25. 24 Os quatro pontos de vista a serem considerados são: 1)Considerar o corpoimpuro e procurar afastar todo o apego a ele; 2) Considerar os sentidos como fonte desofrimento, sejam sentimentos de dor ou prazer; 3) Considerar a mente como estandoem constante estado de fluência; 4) Considerar a impermanência de todas as coisas. Os quatro procedimentos corretos são: 1) evitar o início do mal; 2) eliminar todoo mal; 3) induzir a prática de boas ações; 4) prosseguimento das boas ações quecomeçaram. As cinco faculdades do poder são: 1) fé em acreditar; 2) vontade em se esforçar;3) boa e segura memória; 4) concentração mental; 5) manter clara a sabedoria. As seis práticas perfeitas para atingir a sabedoria são: 1) prática da caridade; 2)prática de observar os preceitos; 3) prática da tolerância; 4) prática do esforço; 5) práticada concentração mental; 6) prática da sabedoria. Os discípulos de Buda ainda devem praticar cinco preceitos: não matar, nãoroubar, não cometer adultério, não mentir e não se intoxicar com nenhuma substância.Este seria, de modo bem resumido, o código de conduta do budismo, para que a mentese liberte das causas de suas modificações e para a cessação do sofrimento do indivíduo.Na prática, o clássico budista Visuddhimagga dá uma noção da aplicação dos preceitosde conduta e de seus efeitos sobre os processos mentais no caminho da Iluminação, quepassa pela meditação. Como o objetivo deste trabalho não é o de exaurir o tema dameditação, a seguir será dada uma pequena noção da meditação na obra clássicabudista. 1.3.2. O Visuddhimagga O clássico budista Visuddhimagga, é considerado por Daniel Goleman ―a maisampla e detalhada psicologia tradicional dos estados de consciência.‖26 Ele começaindicando os melhores ambientes para praticar a meditação e as atitudes que preparam o26 GOLEMAN, Daniel. A Mente Meditativa.Tradução Marcos Bagno. 5ª Edição. Editora Ática. SãoPaulo: 1997.Pg. 25.
  26. 26. 25meditador para a prática. Descreve também como o meditador deve treinar sua atençãoe o que ele encontra pelo caminho da meditação até atingir o estado de nirvana. Para o Visuddhimagga, a meditação deve começar pelo cultivo da virtude ou dapureza moral. O cultivo sistemático da pureza e da virtude no pensamento, na palavra ena ação do meditador o ajudam a concentrar energia para alterar a consciência no estadode meditação. De acordo com esta obra, pensamentos impuros ou não virtuosos são umaperda de energia e de tempo. Por exemplo, fantasias sexuais, raiva, ódio induzem àdistração no momento de meditar. O ―treinamento‖ budista para atingir a Iluminação possui três grandes divisões:o processo de purificação, a concentração meditativa e a introvisão. Os três estãointimamente ligados: ―esforços para purificar a mente facilitam a concentração inicial,que permite a introvisão sustentada. Desenvolvendo a concentração ou a introvisão, apureza se torna, em vez de um ato de vontade, fácil e natural para o meditador. Aintrovisão fortalece a pureza, enquanto ajuda a concentração; a forte concentração podeter como subprodutos a introvisão e a pureza. A interação não é linear; odesenvolvimento de qualquer uma facilita as outras.‖27 1.3.3. O processo de purificação O processo de purificação tem inicio com a observância de um código dedisciplina para leigos, nocivos e monges totalmente ordenados. O leigo deve não matar,não roubar, não ter relações sexuais ilegais, não mentir e não se intoxicar. Para osdemais a lista de abstenções se amplia, mas de qualquer maneira, a intenção dasproibições é a preparação para a meditação, tendo em vista que a pureza deve serembutida nas atitudes mentais do meditador, de onde surgirão o discurso, a ação e opensamento puros e adequados. A intenção é liberar a mente de pensamentos ―impuros‖como remorso, culpa, vergonha, que irão atrapalhar a meditação. Assim, o comportamento também deve ser controlado porque ele acaba porafetar a mente e a produção de pensamentos. A conduta moral pura tem o objetivo depurificar e acalmar a mente.27 Idem, pg. 27.
  27. 27. 26 Para ter a mente calma, dominada e pura, é necessário a contenção dos sentidospor meio da atentividade. É o pratyãhãra do Yoga Sutra de Patañjali. ―Na atentividade,o controle dos sentidos advém através do cultivo do hábito de simplesmente observarpercepções sensoriais, sem permitir que estimulem a mente em cadeias de pensamentos.A atentividade é a atitude de prestar aos estímulos sensoriais o mínimo de atenção.Quando sistemicamente desenvolvida na prática do vipassana (ver as coisas como são),a atentividade torna-se o caminho para o estado nirvânico.‖28 Na prática, a atentividade desenvolve o observador. O meio de vida corretotambém é indicado para o meditador, por exemplo, a fonte de seus recursos financeirosdeve ser tal que não cause desconfianças, as posses devem ser mínimas, a alimentaçãodeve ser moderada, o suficiente para garantir a saúde física, a morada deve ser ao largodo mundo, no caso de impossibilidade, deve o meditador ter um local próprio, exclusivoe retirado para meditação, a preocupação indevida com o corpo deve ser evitada. O meditador, ainda, deve agir sem avidez e cercar-se de pessoas que pensamcomo ele. Por fim, praticando estas ações, o meditador não deve se orgulhar das suaspráticas e de seus frutos, em detrimento daqueles que não as praticam. Todas asconquistas são perdidas no orgulho, prejudicando a pureza. 1.3.4. A concentração Então, a pureza é o estado psicológico fundamental para a concentração, sendoela responsável pela eliminação sistemática de fontes de distração. Já a concentraçãorequer a não distração e sua meta é fixar a mente em um único objeto (tal como aconcentração do Yoga Sutra de Patañjali). Para o Visuddhimagga, os diferentes objetos de concentração possuemconsequências diferentes para o resultado da meditação e a natureza, a profundidade esubprodutos da concentração. Ele indica quarenta temas de meditação:28 GOLEMAN, Daniel. Ob. Cit. Pg. 28.
  28. 28. 27 - ―Dez kasinas, rodas coloridas com cerca de trinta centímetros decircunferência: terra, água, fogo, ar, azul-escuro, amarelo, vermelho-sangue, branco,luz, espaço delimitado; - Dez asubbas, cadáveres repulsivos, decompostos: Por exemplo, um cadáverintumescido, um cadáver corroído, um cadáver infectado de vermes, etc., incluindo umesqueleto; - Dez reflexões: sobre os atributos de Buda, a Doutrina, o sangha, paz, aprópria pureza da pessoa, a própria liberalidade da pessoa, a própria posse de qualidadesdivinas da pessoa, ou sobre a inevitabilidade da morte; contemplação sobre as 32 partesdo corpo ou na inspiração- expiração; - Quatro estados sublimes: benevolência, compaixão, alegria na alegria deoutrem e serenidade; - Quatro contemplações sem forma: do espaço infinito, da consciência infinita,do reino do nada e do reino da ―nem percepção nem não percepção‖; a repugnância dacomida; - Os quatro elementos físicos: terra, ar, fogo, água como forças abstratas (istoé, extensão, mobilidade, calor, coesão).‖29 Para Buda, o temperamento de cada pessoa se enquadra melhor com umdeterminado tipo de meditação e local para meditação. O budismo também recomendaum mestre para apontar o caminho ao discípulo, devendo ele ser escolhido de acordocom o nível de progresso na prática da meditação. Na concentração, a unidirecionalidade da mente por longos períodos éresultado do progresso da prática da meditação e, quando o meditador conseguealcançar longos períodos de concentração, ele também é capaz de abandonar hábitosmentais antagônicos. É, na realidade, o resultado da prática do desapego aoscondicionamentos mentais. O alcance de estágio onde o período de concentração leva o meditador aexperimentar estados de beatitude, e, por ser um estágio muito próximo da ―absorçãototal‖, é chamado de ―concentração acesso‖. Neste estágio o meditador pode29 GOLEMAN, Daniel. Ob. Cit. Pg. 31.
  29. 29. 28experimentar sensações de alegria, arrebatamento, prazer, serenidade, ele pode vir a tervisões, assustadoras, inclusive, mas é um estado precário de meditação. A meta domeditador deve ir além dessas sensações e destas visões e, para alcançar o próximoestágio, o meditador deve abandonar estas sensações. Quando houver o abandono, o meditador penetra totalmente no objeto deconcentração, rompendo totalmente com a consciência normal e atingindo o primeirojhana, ou absorção total. Os pensamentos cessam assim como as percepções sensoriaise corporais. Assim o primeiro jhana é atingido quando o meditador atingesimultaneamente, a atenção sustentada no objeto e a consciência é dominada peloêxtase, pela beatitude e pela unidirecionalidade. Alcançado o primeiro jhana a meta do meditador passa a ser o alcance dejhanas mais profundos, sendo o último o oitavo. Para atingir o próximo estágio, omeditador sempre será impelido a se desapegar dos êxitos alcançados no estágioanterior. A seguir é apresentado o esquema das etapas das vias de concentração com assensações alcançadas por cada jhana. O esquema é tal que é visível que cada jhanarepousa no anterior, sendo necessário sempre o desapego para atingir o estágio superior.A progressão em cada jhana implica na sutilização progressiva da matéria mental e naconsciência. Este esquema conta o livro A Mente Meditativa de Daniela Goleman, pg.38: 1- Estados de acesso: pensamentos estorvantes superados, outros pensamentos permanecem. Consciência de dados sensoriais e estados corporais. O primeiro objeto de concentração domina o pensamento. Sensações de êxtase, felicidade, serenidade. Pensamentos iniciais sustentados no primeiro objeto. Centelhas de luz ou leveza corporal. 2- 1º Jhana: cessam todos os pensamentos estorvantes, a percepção sensorial, a consciência da dor corporal, a atenção inicial e ininterruptamente sustentada ao primeiro objeto de concentração. Sensações de êxtase, beatitude e unidirecionalidade.
  30. 30. 29 3- 2º Jhana: Sensações de êxtase, beatitude e unidirecionalidade.. Nenhum pensamento do primeiro objeto de concentração. 4- 3º Jhana: sensações de beatitude, unidirecionalidade e serenidade. O êxtase cessa. 5- 4º Jhana: serenidade e unidirecionalidade, beatitude. Todas as sensações corporais de prazer cessam. 6- 5º Jhana: consciência do espaço infinito. Serenidade e unidirecionalidade. 7- 6º Jhana: consciência infinita do não objeto. Serenidade e unidirecionalidade. 8- 7º Jhana: Consciência do nada, serenidade e unidirecionalidade. 9- 8º Jhana: nem percepção nem não percepção, serenidade e unidirecionalidade. Apesar da sua complexidade para os olhos de um liego, o Visuddhimaggaentende que o domínio dos jhanas não passa de um jogo de uma mente bem treinada naconcentração, tendo isso importância secundária para atingir a sabedoria arguta oupuñña. Esta é alcançada começando pela atentividade, prosseguindo pela introvisão ouvipassana e terminando no nirvana. A obra clássica aponta ainda outros caminhos, quenão serão aqui tratados. 1.4. A meditação na Bhagavad-Gita Na Bhagavad-Gita a meditação está presente no capítulo VI – O Yoga doAutodomínio: 1. O Senhor Bem-aventurado disse: Aquele que realiza tal ação como dever, independentemente do fruto da ação, é um asceta, é um Iogue, e não aquele que carece de fogo e rituais. 2. O que se chama renúncia, deves conhecê-lo como Yoga, Oh Pandava, tampouco ninguém torna-se um Iogue sem renunciar a vontade formativa. 3. Para o Sábio que busca o Yoga, a ação é chamada meio; para o mesmo sábio entronizado no Yoga, a serenidade é chamada o meio. 4. Quando um homem não sente apego pelos objetos dos sentidos nem por ações, renunciando à vontade formativa, então diz-se que está entronizado no Yoga.
  31. 31. 305. Que ele eleve o eu mediante o SER, e que o eu não se deprima, pois, verdadeiramente, o SER é o amigo do eu, e também o SER é o inimigo do eu;6. O SER é o amigo do eu daquele em quem o eu é vencido pelo SER; mas para o eu não subjugado, em verdade o SER torna-se hostil como um inimigo.7. O EU superior daquele que é auto-controlado e pacífico, é uniforme no frio e no calor, no prazer e na dor, bem como na honra e na desonra.8. O Iogue que, firmemente, se satisfaz com a sabedoria e o conhecimento, aquele cujos sentidos estão subjugados, aquele para quem um torrão de terra, uma pedra e ouro são a mesma coisa, diz-se que está harmonizado.9. Excele quem considera imparcialmente bemquerentes, amigos e inimigos, estranhos, neutros, estrangeiros e parentes, bem como virtuosos e iníquos.10. Que o Iogue se dedique constantemente ao Yoga, permanecendo em um local secreto, com o pensamento e o eu subjugados, livre de cobiça e de expectativa.11. Em um lugar puro, e firme para sentar, de sua propriedade, nem muito alto, nem muito baixo, tendo sobre si um pano, uma pele de antílope negro e erva kusha, um sobre o outro.12. Ali, havendo tornado a mente unidirecional, com o pensamento e as funções dos sentidos subjugados, firme em seu assento, ele pratica Yoga para a purificação do eu.13. Mantendo o corpo, a cabeça e o pescoço eretos, imovelmente firme, olhando para a ponta do nariz, com o olhar vago;14. Com o eu sereno, sem temos, firme no voto do Brahmachãri, a mente controlada pensando em Mim, harmonizado, que permaneça sentado aspirando por Mim.15. O Iogue, sempre assim unido com o SER, com a mente controlada segue para a Paz, para a Bem-aventurança suprema que habita em Mim.16. Em verdade, Yoga não é para quem come demais, nem para quem se abstem em excesso, nem para quem é demasiado afeito a dormir, nem para quem é demasiado afeito à vigília, Oh Arjuna.17. O Yoga mata todo sofrimento para aquele que é moderado na comida e na diversão, moderado na realização das ações, moderado no sono e na vigília.18. Quando seu pensamento subjugado está fixo no SER, livre da cobiça de todas as coisas desejáveis, então se diz que [o Iogue]”está harmonizado”.
  32. 32. 3119. Assim como uma lâmpada não tremeluz em um lugar sem vento, a tal se assemelha o Iogue de pensamento subjugado, absorto no Yoga do SER.20. Aquele no qual a mente acha repouso, aquietada pela prática do Yoga; aquele no qual o Iogue vendo o SER por meio do SER, com o SER se satisfaz;21. No SER ele encontra o deleite supremo que a Razão pode alcançar além dos sentidos, onde estabelecido, [o Iogue] não se move da Realidade.22. Que, havendo-a obtido, pensa não haver maior ganho além dela; onde está estabelecido, ele não é abalado por qualquer sofrimento;23. Esta desconexão do vínculo com a dor, deve conhecer-se pelo nome de Yoga. A este Yoga deve-se aderir com uma firme convicção e mente livre de desalento.24. Abandonado sem reserva todos os desejos nascidos da imaginação, controlando com a mente o agregado dos sentidos por todos os lados.25. Que pouco ganhe tranqüilidade, por meio da Razão controlada com firmeza; tendo feito que a mente habite no SER, que não pense em nada.26. Controlando a mente com tanta frequência quanto ela for oscilante e instável, que a traga sob o controle do SER.27. A alegria suprema vem para esse Yogue cuja nem é pacífica, cuja natureza passional é calma, que é imaculado e da natureza do ETERNO.28. O Iogue que assim sempre harmonizando o eu, eliminou o pecado, facilmente se deleita com a bem-aventurança infinita do contato com o ETERNO.29. O eu, harmonizado pelo Yoga, vê o SER que habita em todos os seres, e todos os seres no SER; em toda a parte vê o mesmo.30. Aquele que Me vê em toda a parte, e vê tudo em mim, Eu nunca o abandonarei, e ele jamais se perderá de Mim.31. Aquele que, estabelecido na unidade, Me adora, habitando em todos os seres, esse Iogue vive em Mim, seja qual for seu modo de vida.32. Aquele que, através da semelhança com o SER, Oh Arjuna, vê igualdade em tudo, seja agradável ou doloroso, é considerado um Iogue perfeito.33. Arjuna disse: Eu não vejo um alicerce para esse Yoga que Tu declaraste existir pela equanimidade, devido ao desassossego;34. Pois a mente é em verdade inquieta, Oh Krishna; é impetuoso, forte e difícil de subjugar. Julgo que é tão difícil de controlar quanto o vento.
  33. 33. 3235. O Senhor Bem-aventurado disse: Sem dúvida, Oh potentemente armado, a mente é difícil de subjugar e inquieta; porém ela pode ser controlada pela prática constante e pelo desapego.36. Eu penso que o Ioga é difícil de alcançar por um eu descontrolado; mas para quem controla o Eu, é alcançável pela energia dirigida apropriadamente.37. Arjuna disse: Aquele que não se subjulgou, mas que possui fé, com a mente divagando longe do Yoga, fracassando em alcançar a perfeição no Yoga, que senda percorre, Oh Krishna?38. Tendo fracassado em ambos, Oh potentemente armado, está ele destruído como uma nuvem despedaçada, indeciso, iludido na senda do ETERNO?39. Digna-te, Oh Krishna, a dissipar completamente esta minha dúvida; pois além de Ti não há ninguém que possa encontrar para dissipar esta dúvida.40. O Senhor Bem-aventurado disse: Oh filho de Prithã, nem neste mundo nem na vida vindoura há destruição para ele; jamais ninguém que trabalhe com retidão, Oh amado, percorre a senda da perdição.41. Após alcançar os mundos das ações puras, e havendo habitado lá por anos imemoriais, quem não alcançou o Yoga renasce numa casa pura e abençoada;42. Ou pode até nascer em uma família de sábios Iogues; porém, semelhante nascimento é muito difícil de se obter neste mundo.43. Ali recupera características pertencentes ao seu corpo anterior, e com estas trabalha novamente para alcançar a perfeição, Oh alegria dos Kuru-s.44. O [Iogue], por aquelas práticas anteriores, se vê irresistivelmente impelido. Apenas por desejar conhecer o Yoga, até quem busca o Yoga vai além da palavra Brãhmica.45. Porém, o Iogue que trabalha com assiduidade, purificado do pecado, plenamente aperfeiçoado através de múltiplos nascimentos, alcança a meta suprema.46. O Iogue é maior do que os ascetas; é considerado até maior do que os sábios; o Iogue é maior do que os homens de ação; portanto, torna-te um Iogue, Oh Arjuna.
  34. 34. 33 47. E entre todos os Iogues, ao que está pleno de fé, com o SER interior habitando em Mim, ao que Me adora, é por Mim considerado como o mais completamente harmonizado.”30 É importante notar que o capítulo inicia com o sutra em que o Senhor Krishnaexplica para Arjuna a importância do desapego com relação ao resultado que se esperade alguma ação. No caso da meditação, o desapego é o que vai resultar o alcance dosamadhi. No entanto, a vontade e a determinação do meditador é fundamental para oalcance dos resultados. A questão principal é o apego ―a que‖. Até se chegar aodesapego total, o meditador vai se despegando de alguns padrões mentais para ascendera um mais elevado. Uma vez atingido um mais elevado, ele novamente necessita sedesapegar para atingir um patamar mais alto, e assim, sucessivamente, até o desapegofinal. Outra questão importante com relação ao apego aos frutos de uma ação é que esteapego pode acabar por produzir expectativa e a ansiedade, sendo que ambas, por suavez, podem gerar decepções e uma série de resultados pouco positivos que podemacabar por atrapalhar o caminho daquele que deseja praticar a meditação. Nota-se também que o Sr. Krishna explica as atitudes mentais que o Iogue devepraticar: o desapego, a serenidade, auto-conhecimento, auto-controle, equanimidadediante das circunstâncias (frio/calor, prazer/dor, honra/desonra); o sub-julgação dossentidos. Esta seriam atitudes internas que preparam o yogue para o Yoga, que é adesconexão do vínculo com a dor (nº23). Em seguida, o Sr. Krishna sugere o local onde a prática da meditação deveacontecer, a postura corporal e a atitude mental. Veja que a dificuldade do controlemental é questionada por Arjuna e reconhecida pelo Mestre, que menciona anecessidade de várias vidas no caminho da prática e de trabalho assíduo para seconseguir atingir o estado de aperfeiçoamento do Yoga. No entanto, é na busca peloSenhor dentro de si mesmo que se encontra a harmonia com o próprio SER divino.30 BHAGAVAD-GITÃ. A Canção do Senhor. Tradução de Ricardo Lindemann. Brasília, Editorateosófica, 2010.
  35. 35. 34 2. OS SAMSKÁRAS E OS VÁSANAS 2.1. Os samskáras e os vasanás na estrutura psíquica do ser humano Não há como se falar em meditação sem antes mencionar e explicar termoscomo samskáras e vásanas. Eles já foram mencionados anteriormente neste trabalho,mas cabe aqui uma parada importante para compreender o que eles significam, de quemaneira estão ligados com doenças e com a meditação. 2.1.1 Samskára (impressões) Pátanjali denomina ―os processos mentais (chittavritti) deixam na menteimpressões subconscientes‖, samskára. ―Estas impressões permanecem na mente demodo latente, influenciando a vida psíquica, são o que o Yoga chama também de"sementes" (bíja), que produzem "tendências" (vásana), novos pensamentos,redemoinhos mentais (vrittis). Cabe ao praticante de Yoga impedir o surgimento dossamskára e destruir as impressões e tendências que buscam atualização‖31. Quando as tendências ou impressões são atualizadas, elas se transformam emhábito (mental) e se o hábito não for superado, suprimido ou sublimado, ele setransformará em samskára. Os vícios, manias e hábitos repetitivivos são samskáras.Para visualizar melhor o conceito, podemos imagimar que samskáras são comocicatrizes, marcas, impressões deixadas na mente, e, consequentemente, no corpoastral. Estas cicatrizes podem ter origem tanto em situações de cunho positivo, quandoem situações de cunho negativo. ―Por exemplo: se alguém experimenta um cafezinho num intervalo de trabalho,tendo isto como algo agradável, tenderá a repetir a experiência em todos os intervalosde trabalho, e se sentirá necessitado de um café no dia em que tal atualização não forpossível.‖32 Esse é um bom exemplo para compreender o que o samskára significa nonosso dia a dia e percebermos que os mecanismos mentais e seus automatismos são, namaioria das vezes, fruto dos samskáras e dos vásanas, que a seguir serão analisados.31 HENRIQUES, Antônio Renato. Yoga e Consciência: a Filosofia Psicológica dos Yoga-Sutras de Patãnjali.Porto Alegre, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1984, pg. 85.32 Idem, Idem.
  36. 36. 35 ―Para Pátañjali samskára é o mesmo que memória, já que sem memória nãopermaneceria na mente impressão alguma, e tampouco haveria desejo de reprisarqualquer ato que fosse.‖33 2.1.2 Vásana (tendências) A palavra vásana é usada por Pátañjali num sentido quase igual ao desamskára, e pode ser entendida como tendência latente ou impulso. A pequenadiferença entre ambas consiste no fato de que samskára possui uma conotação estáticade impressão, registro, e vásana possui uma conotação dinâmica da impressão,constituindo a manifestação do samskára em forma de tendência ou desejo. No entanto, a distinção é feita por poucos teóricos e, em essência, ambos sãoiguais, ou a mesma coisa. Neste trabalho, trataremos ambos como sendo a mesma coisa.A distinção pode ser feita mediante a leitura cuidadosa e analítica do texto, tendo emmente o principal ponto distintivo entre amos: a impressão fixa e da tendência manifestapelos desejos. Os processos mentais são uma contínua descarga de vásanas (se considerar oseu dinamismo, a manifestação do samskára) que constituem os vrittis. É importantenotar que o ser humano está constantemente atualizando seus vásanas e são eles quecondicionam o caráter do indivíduo. Estes condicionamentos estão de acordo com aherança das experiências vividas e com a situação kármica de cada um. Então, os samskáras, que são as impressões do passado ocorridas nesta vida ouem outra, movem-nos através de comportamentos padrões e repetitivos, juntamente comoutros fatores (sociais e culturais, por exemplo) que moldam nosso comportamento.Mais de 87%34 dos pensamentos que passam pela mente de um ser humano a cada diasão repetitivos. Podem estar configurados em situações diferentes e povoados porpersonagens diferentes, mas no fundo, o processo é repetitivo. Daí o condicionamentohumano.33 Idem, idem.34 http://yogajournal.terra.com.br/show_yoga.php?id=1258, por Sandro Bosco, visitado em 09/05/2011.
  37. 37. 36 2.2. Samskáras e condicionamentos emocionais Agora então vamos citar um exemplo da atuação de um samskára em um nívelincosciente das atividades mentais. Se uma mulher é estuprada por seu pai quando temdezesseis anos, este fato deixa um rastro em sua organização psicológica, e este rastro éum samskára. O modo dela se relacionar com outros homens nunca mais será o mesmo.Em várias situações de vida, este rastro influenciará seu comportamento emocionalprofundamente. Isto significa que o samskára não é nem neutro nem mudo. Melhordizendo, é dotado de um dinamismo poderoso – uma carga emocional. Gera emoções,atrações e repulsões que modificarão a vida interna desta pessoa significativamente.Sendo associado com tantas memórias traumáticas e dolorosas, o samskára nãopermanece calado; ele se expressa de um modo consciente ou inconsciente. Isto seaplica a todos os samskára – não apenas para alguns casos particulares. Percebendo ounão, em suas profundezas, os samskáras estão constantemente berrando para seremcurados. Agora, supomos que esta mulher, ao invés de ser estuprada com dezesseisanos, tenha sido atacada quando ela tinha três anos. Sua experiência foi ainda maisterrível e traumática, porque como uma garotinha, ela não tinha meios de compreendero que estava acontecendo. Para ela, a agressão foi como um assassinato. Mas o choquefoi tão insuportável que ela esquece tudo, apagando completamente o episódio de suamemória consciente. O samskára foi armazenado com uma carga emocional aindamaior do que no caso da menina de dezesseis anos; e neste caso, o samskára estácompletamente inconsciente. Mais tarde, como adulta, sua vida emocional e sexualinteira será minada por um trauma escondido do qual ela é completamentedesinformada. O critério para que um grande samskára seja impresso não é dor, masintensidade. Fortes samskáras são gravados no corpo astral quando um episódio éassociado com intensidade emocional. Isso se deve ao fato de que quando se enfrentauma situação com forte carga emocional, todos os sentidos estão amplamente abertos, eo indivíduo está totalmente ciente e vigilante. Não é uma nuvem obscura que é
  38. 38. 37imprimida na memória, mas um conjunto definido e preciso de pensamentos,sentimentos e percepções. Nem todos os samskáras são criados a partir de grandes eventos, mas sim, dasfortes reações emocionais que o próprio indivíduo gera a partir do evento.Os samskáraspodem ser dotados de forte carga emocional, quando são chamados grandes samskárasou de pequena carga emocional, quando são chamados micro- samskáras ou samskárasaceitáveis. Não importa qual, todos eles estão armazenados na nossa mente. As impressões recebidas pelos órgãos dos sentidos são em parte mantidas nosubconsciente da mente e, quando os sentidos recebem o estímulo apropriado, estasimpressões podem ser relembradas. Exemplo disso são músicas antigas que, quandoescutadas no presente, fazem com que o indivíduo viva novamente seu passado oucheiros que experimentados no presente, remetem a situações vividas no passado. Porisso, Patanjali diz que os samskáras são o mesmo que memória. 2.3.A tirania dos samskáras Se admitirmos que estamos em busca de liberdade, aquela liberdade da alma,que liberta a nossa natureza divina, então fica claro que os principais obstáculos paraque esta liberdade se realize são os samskáras. ―De acordo com as Upanishads, oscapítulos finais dos Vedas, assim que o último laço de samskáras no coração fordesatado, o estado mais alto de consciência é conhecido, liberdade absoluta é alcançada,e martyo mrto bhavati ―o mortal fica imortal.‖35 Há circunstâncias na vida que limitam e restringem a liberdade do indivíduo ea mais impressionante delas são os samskáras. São eles os responsáveis pelo serhumano viver numa constante ilusão, sob o véu de maya. Em sânscrito, maya significa―mágico‖. Os samskáras funcionam numa ditadura absoluta e mágica, sobre a qualpoucos se importam ou mesmo se dão conta. A ditadura começa antes do nascimento enão pára com a morte. Obstrói o livre arbítrio de manhã até a noite, em cada dia gastoneste planeta e são passados de uma vida para a outra.35 http://www.clairvision.org/portugues/regressao-a-terapia-de-vidas-passadas-para-a-libertacao-imediata.html#Cap1,consulta em 03/05/2011.
  39. 39. 38 Os samskáras também possuem a tendência de se repetir eternamente. Comouma ferida emocional do samskára pode ser extremamente dolorosa, ela não conseguepermanecer neutra, ela clama pela cura. A carga emocional associada a ele é tão intensaque se não for resolvida tende a gerar circunstâncias que permitem que se expresse. Emmuitos casos, isto resultará na repetida vivência de circunstâncias semelhantes, de vidapara vida. ―No Yoga os impulsos inconscientes possuem uma dimensão muito ampla,pois estão associados à idéia do karma. São as ações que cobram suas conseqüênciasnum circuito de causa e efeito, em que os atos se registram como expressões deexperiências agradáveis ou desagradáveis, em que as impressões se transformam emtendências que, ao se atualizarem na consciência, conduzem irremediavelmente e denovo ao ato. Este círculo é rompido quando o espírito (Purusha) deixa de ser arrastadopela matéria (Prakrití); a ignorância se desfaz quando o yogi adquire o discernimento efaz uso das técnicas do Yoga. Escreve Pátañjali: "Hetu-phálashrayálambanaih samgrihítatvád eshám abháve tad- abhávah"."Estando interligados (samgrihitatvád) como causa-efeito, substrato- objeto (ashraya = apoio, suporte, substrato; alambanaih = objeto), os efeitos desaparecem (abhávah) quando a causa desaparece (abháve)".Y. S. - IV, 11‖36 Outra tendência do mecanismo dos samskáras é fazer com que o indivíduo criecircunstâncias de vida pelas quais eles podem se manifestar. Eles não só aumentam ador e emoções atuais através da superimposição, mas também manipulam o indivíduo acriar dificuldades nas quais as emoções podem ser vividas de novo. Eles atuam comotendências latentes, influenciando fortemente no destino das pessoas. 2.4. Samskáras e a ilusão, ou maya.36 Henriques. Ob. Cit. Pg. 86.
  40. 40. 39 Para entender um pouco melhor sobre como a mente e os samskáras funcioname como eles criam uma realidade falsa para o indivíduo, atrapalhando a percepção dopresente, vamos a um exemplo. O sujeito entra na cozinha de um amigo onde há umcheiro particular no ar. Imediatamente este cheiro o faz lembrar uma cozinha onde elepassou parte de sua infância. Nesta cozinha havia um gato que dormia embaixo damesa, e havia uma velha senhora trabalhando. Todos os tipos de recordações voltam àsua mente. Se ele se sentia bem naquela cozinha, o sentimento bom volta a enquanto eleestá na cozinha de seu amigo. Assim, talvez, ele se sinta confortável e fale para seuamigo ―gostei da sua cozinha!‖ Agora, suponhamos que o sujeito se sentia extremamente incômodo com a suaavó, porque ela o forçava a comer alcachofras que ele odiava. E neste dia em particularacontece que seu amigo está cozinhando alcachofras. O mal-estar será relembrado – aansiedade no peito, a tensão em sua barriga. Ele não está se sentindo realmente ansiosoe tenso, mas as lembranças são vívidas. De qualquer maneira, ele está completamenteseparado da cozinha de seu amigo enquanto as recordações acontecem. Se o amigoestiver falando com ele nesse momento, é bem provável que ele tenha que lhe pedir querepita o que disse. Ele foi seqüestrado por este episódio do passado. Este exemplo presume que o sujeito poderia, conscientemente, se lembrar doepisódio durante o qual o samskára foi impresso. Suponha agora que o sujeito tenhaesquecido tudo sobre a sua avó. É provável que algo diferente aconteça. Ele entra nacasa de seu amigo, o clima geral e o cheiro ativam uma conexão inconsciente com oepisódio esquecido, e resulta num certo mal-estar. Há um certo grau de ansiedade emseu peito e tensão em sua barriga, e ele não sabe o porquê. Ele não se lembra dequalquer detalhe específico da cozinha da sua avó, só o mal-estar existe. O fardoemocional do passado é superimposto sobre a consciência atual pelo vínculo do cheiro,mas o sujeito não percebe isto. Ele só está ciente de duas coisas: a cozinha e o seudesconforto. Então, ele bem pode pensar: ―eu não gosto da vibração desta casa!‖, ou ―eunão me sinto confortável com estas pessoas‖. Claro que, a cozinha é exatamente a mesma, é só a percepção do sujeito quemuda. Olhando assim, percebe-se que o julgamento é completamente irrelevante e
  41. 41. 40absurdo, entretanto, tudo isso vem à mente do sujeito de forma muito natural elogicamente. Enquanto o indivíduo permanece neste modo de reação, ele pode pensar que oque está vendo é a cozinha de seu amigo. Mas ele está se enganando completamente,pois em seu mundo, ele está vendo a cozinha da sua avó, cheia de projeçõesinconscientes de alcachofra-fantasmas, e o que seu amigo está vendo na cozinha dele écompletamente diferente. A cozinha projetada na mente não tem nada a ver com acozinha real, não é nada mais que uma construção mental. Naquele momento, o sujeitoestá completamente desconectado; ele está vivendo em um mundo imaginário, como sefosse uma gaiola; ele está em qualquer lugar, menos ―aqui e agora‖. Seu julgamento éprejudicado por um fator não visto, e qualquer decisão importante que tivesse que tomarnesta cozinha, provavelmente seria distorcida. O próximo passo é ver que essas superimposições acontecem constantemente,não apenas durante o dia, mas até mesmo durante os sonhos. Ciente disto ou não, asituação é tal que inúmeras memórias parecidas estão constantemente nublando apercepção atual do mundo. Com muita frequência, vários samskáras são ativadossimultaneamente, cada um sobrepondo seu próprio conjunto de emoções e impressõesque aumentam a confusão. Muitos samskáras secundários não são associados a umaemoção evidente, mas só com um sentimento vago de mal-estar ou alegria. Quandoativados, eles apenas sobrepõem uma certa atração ou repulsão, uma névoa sutil sobre apercepção atual. Somadas às influências de todos os samskáras-gigantes, aos de tamanho médioe aos pequenos, têm-se uma noção do que é maya (ilusão). Não há nenhumanecessidade de negar a realidade física do mundo para concluir que vivemos emcompleto maya ou ilusão. Mestres hindus gostam, frequentemente, de enfatizar o caráter dramático destasituação. Nós gastamos nosso tempo ficando chateados com os dramas de nossa vida,mas todos estes dramas são apenas ninharias, comparados à tragédia de estarmos,permanentemente, isolados em uma nuvem de ilusão, uma gaiola, gerada pelos
  42. 42. 41samskáras. Nós nunca vemos o mundo, nós apenas podemos ver o nosso mundo, queestá cheio dos fantasmas do nosso passado. Nós estamos desconectados e vivemos emuma nuvem, e nós nem mesmo suspeitamos disto. ―Demonstra o Yôga que os samskáras e vásanas são grandes obstáculos àiluminação, o inconsciente se opõe à ascese, por isso se impõe seu necessário domínio econscientização. Há também o medo, pois as pulsões inconscientes temem não seatualizarem, e o ego teme sucumbir às forças totalizadoras do inconsciente. A satisfação dos desejos e a manifestação de formas são impulsos egóicos deexteriorização, mas realizar um desejo é esgotá-lo, e a plenitude de ser das formas estána consumação das mesmas. Donde se fala de uma ânsia de não ser, as tendênciaskármicas querem todas se auto-destruir, satisfazer-se. Todo o universo material(Prakrití) caminha em direção ao repouso, à reabsorção numa unidade original.‖37 Uma maneira de sair da nuvem e, se não retornar, mas chegar mais perto depurusha pode ser pela prática do Yoga e da meditação, uma vez que ambos atuam demaneira e livrar a mente de seus condicionamentos, da ―tirania‖ dos samskáras. 2.5. O fim dos samskáras Com a prática da meditação, os samskáras ou a ação deles pode ser neutralizadaou eles podem até mesmo ser completamente erradicados. Porém, até não se atingir omais alto grau de Iluminação ou mesmo o samãdhi, os samskáras permanecerão pelomotivo de que a nossa mente/ manas é formada por eles e pelos vãsanas. A substânciareal do corpo astral é feita de samskáras. Ou seja, a maioria dos indivíduos vive identificada com o mano-maya-kosa, oucorpo ilusório, que é constituído pela matéria mental, astral, e emoções. Ele é a sede dosdesejos e das paixões humanas, constituído pelos cinco órgãos do conhecimento. ―Amente atua por meio dos cinco sentidos. É pelos órgãos dos sentidos que ela capta ainformação das experiências sensoriais e as transforma em percepções mentais. Esteestado mental é associado com a gama de emoções e sentimentos, portanto, este37 HENRIQUES, Antônio Renato. Ob. Cit. Pg. 87.
  43. 43. 42invólucro é uma mistura de pensamentos e emoções e na maioria das vezes não sabemosse estamos sentindo ou pensando. Esta mente está mais identificada com os padrõesemocionais e sensações do que verdadeiramente com o Eu Superior. É a mentereativa.‖38 A grande mudança na vida do indivíduo que medita ocorre quando ele consegueadentrar totalmente em uma camada diferente de sua consciência. É a mudança deconsciência passando a viver ligado aos sentimentos e não simplesmente reagindo àsemoções. É quando ele passa a desenvolver buddhi, e abandona progressivamentemanas. Isso significa que a meditação desenvolve o vijñãna-maya-kósa. O vijñãna-maya- kosa é o corpo feito de conhecimento. ―É a mente superior.Aquela que investiga, discerne, intui. Nela temos todo o poder da sabedoria em latência.Cabe-nos estimulá-la com elevados e sutis pensamentos para poder pôr em ação o maisalto estado de consciência. Seu estado predominante é o sáttvico, de equilíbrio eluminosidade. É portador da luz interior. Nele está o poder do conhecimento que temcomo sua propriedade o discernimento (viveka) e determinação. Podemos ativar esteinvólucro por meio da meditação, cantos de mantras e elevados sentimentos epensamentos.‖39 Esta passagem de manas para buddhi corresponde a uma verdadeiratransformação alquímica pela qual todos os corpos irão passar. Esta transformação élenta e gradual, mas pouco a pouco a mente reativa vai perdendo sua força e suacapacidade de prender o indivíduo em rotinas mecânicas e vai crescendo a intensidade ea presença constante da autoconsciência. Com isso, o indivíduo pode passar a distinguira dor do sofrimento, percebendo a diferença da natureza de ambas: a dor é invevitávelna condição humana e deriva da existência em um corpo físico. Ela é física. Já osofrimento e fruto de uma reação da mente/manas à dor. A mente é capaz de aumentar aintensidade da dor e acrescer a ela vários ―enfeites‖ emocionais e vibracionais. Emmuitos casos, a dor é passageira, mas se o indivíduo desejar, sempre pode somaremoções a ela, criando ilimitáveis e infinitos motivos para sofrer.38 PACKER, Maria Laura Garcia. Ob. Cit. Pg. 44.39 Idem.Pg. 44.
  44. 44. 43 Portanto, melhorando a qualidade de manas, desenvolvendo buddhi,abandonando condicionamentos mentais negativos, inúmeros resultados positivos irãosurgir nos demais corpos do indivíduo, até mesmo, no corpo físico, o Anna-maya-kosa. 3. 4. A VISÃO DO YOGA DE SAÚDE E DE DOENÇA
  45. 45. 44 Estando o Yoga ancorado sobre a visão holística do ser, seu objetivo é que oindivíduo tenha tanto saúde mental quanto a física. Para o Yoga, a doença reflete umdesequilíbrio interno, e significa um ―nível de distanciamento entre o ego e o Ser.Quanto mais distantes nos encontramos de nós mesmos, ou seja, da nossa essênciaeterna e divina, mais doentes nos encontramos. Todas as doenças físicas e mentais sãosintomas desta causa primeira. A dor (duhkha) é o mecanismo de nos trazer para maisperto de nós mesmos, para percebermos aquilo que clama internamente pedindoatenção.‖40 ―Nosso Ser existe em uma dimensão que transpõe o corpo físico. Somossentimentos, pensamentos, energia potencializada. Estas dimensões fazem parte danossa percepção do mundo e com elas criamos a nossa realidade relativa instante ainstante. Tornamo-nos aquilo que projetamos com nossa mente distanciada daRealidade Absoluta que somos. Com tudo isso, vamos criando padrões e crenças,condutas, hábitos, tendências que vão gerando dor, levando sofrimento e produzindoenfermidades no corpo físico como forma de liberar a energia antagônica e destoante doSer.‖41 Para que a saúde do indivíduo se reestabeleça, é necessário o reencontro com oseu Ser divino. Para isso, a liberação dos samskáras, que significa odescondicionamento, o desapego dos hábitos, crenças e atitudes negativas que gerarama doença é o único caminho para a cura a nível físico, energético, emocional, mental, eespiritual. Para Patañajali, a causa de todos os sofrimentos ou duhkha, são os klésas, oucinco aflições humanas que são: 1. Ignorância: não sabemos quem somos na realidade, desconhecemos nossa natureza divina; 2. Egoísmo: é a identificação do vidente com o visto, isto é, crença em que o não Ser é o Ser; 3. Apego: apego a tudo aquilo que gera prazer;40 PACKER, Maria Laura Garcia. Ob. Cit. Pg. 339.41 Idem, idem, pg. 339.

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