A diminuição da maioridade penal discursivizada                                               em cartuns de Angeli        ...
O presente artigo estuda três cartuns de Angeli originalmente publicados no jornalFolha de S. Paulo, que possuem como tema...
como um permanente jogo de retomadas, empréstimos e deslocamentos de sentidos já ditosem contextos anteriores e exteriores...
possível extrair um conteúdo, uma mensagem ali encapsulada. Na direção oposta, considera odiscurso em seu funcionamento e ...
Para a teoria da Análise do Discurso, o sujeito não é o indivíduo empírico, o ser emsua estrutura biológica, psicologizant...
como mecanismo que naturaliza sentidos, torna clara uma palavra e nubla outras tantas. Comosabemos, pelo acesso à teoria d...
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A cena discursiviza a passividade das crianças, já que estão representadas imóveis ecaladas, produzindo o sentido de que n...
depois, na repressão em si exercida aos que se intrometem a afrontar o lugar que lhes "cabe".No entanto, como a ideologia ...
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ocorrida em 1992 no presídio Carandiru, comandada por policiais contra os detentos) e pelaquantidade de homens que estão s...
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selecionados sob o título em comum denominado “Redução da maioridade penal” evocamsentidos múltiplos, conforme suas condiç...
_____. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. 3. ed. 1997. Editora daUNICAMP.PROPP, V. Comicidade e riso....
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A diminuição da maioridade penal discursivizada em cartuns de Angeli

  1. 1. A diminuição da maioridade penal discursivizada em cartuns de Angeli The decrease of the penal’s majoritary in discoursivity in cartoons of the Angeli Francis Lampoglia1 (USP) Jonathan Raphael Bertassi da Silva2 (USP) Lucília Maria Sousa Romão3 (USP) Resumo: Esse artigo estuda o funcionamento discursivo de três cartuns de Angeli – originalmente publicados pelo jornal Folha de S. Paulo em 2007– que tratam sobre a questão da redução da maioridade penal no Brasil. As formas como são trabalhados a memória discursiva, os sentidos e o posicionamento do sujeito são especialmente observados. Para tanto, trabalharemos com a teoria da Análise do Discurso de linha francesa, fundada por Michel Pêcheux e Jean Dubois em 1969 e os estudos de Mikhail Bakhtin sobre dialogismo e polifonia, conceitos esses que embasam nosso trabalho. A análise preliminar dos dados aponta para a emergência de um espaço de ruptura e contestação do sentido dominante sobre o que é considerado óbvio e natural quando se fala em reduzir a maioridade penal no país. Palavras-chave: Análise do Discurso, polifonia, memória discursiva. Abstract: This article aims to study the discoursive functionament of three Angeli’s cartoons – originally publicated by Folha de S. Paulo’s newspaper in 2007 – about the decrease of the penal´s majority in the Brasil. The way the discoursive memory is worked, the senses and the positionament of subject are specially looked. For this, we will work with the theory of the French Discourse Analysis, created by Michel Pêcheux and Jean Dubois in 1969, and the studies of the Mikhail Bakhtin’s theories about dialogism and polyphony, concepts theses that underlies our work. A preliminary analysis points to the emergence of a space of rupture and resistance of the dominant sense which is considered natural and obvious when it comes to decreasing the penal´s majoritary in the country. Keywords: Discourse analysis, polyphony, discursive memory.1. Introdução Se prestares atenção no teu discurso, perceberás que ele é guiado pelos teus propósitos menos conscientes.- George Eliot1 francidusp@hotmail.com2 cid_sem_registro@yahoo.com.br3 luciliamsr@uol.com.brLinguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 1
  2. 2. O presente artigo estuda três cartuns de Angeli originalmente publicados no jornalFolha de S. Paulo, que possuem como tema efeitos de crítica em relação à redução damaioridade penal na legislação brasileira. Para tanto, adentraremos pelos caminhos teóricospropostos por Bakhtin (1997), discutindo as noções de dialogismo, intertextualidade epolifonia. Em seguida, traçaremos conceitos de discurso, condições de produção, ideologia esujeito na Análise do Discurso de matriz francesa, observando os efeitos de sentidoproduzidos em uma materialidade discursiva. Posteriormente, faremos a análise discursiva docorpus coletado que obedecerá a uma seqüência gradativa segundo a idade das criançasretratadas e, por fim, faremos nossas considerações finais. Com este trabalho, damos continuidade a análises já tecidas em outro artigo(LAMPOGLIA; SILVA; ROMÃO, 2010) que, a partir do mesmo referencial teórico, tratoude investigar os sentidos de resistência de/em diferentes materialidades (fotografia e cartum)operando movimentos de deslocamentos na formação discursiva (FD) à qual se filiam jornaisbrasileiros. Tal como neste texto, aquele artigo tratou do silenciamento da discursividade dossujeitos sobre o qual o riso se desdobra, no presente caso, sobre a voz do Estado e da leipunitiva a respeito da criança e jovem infrator. Registramos aqui análises feitas apenas comcartuns, sendo todos publicados no primeiro semestre de 2007 no jornal já citado; neles a vozdo cartunista Angeli discursivizou sentidos de denúncia e desagravo em relação àcriminalização da criança e do adolescente.2. Dialogismo, intertextualidade e discurso “Cada eco leva uma voz adiante.”- Adriana Calcanhoto Mikhail Bakhtin lançou, em 1929, as bases da teoria do dialogismo que anos maistarde influenciou a formulação do conceito de intertextualidade, proposto por Julia Kristeva.De acordo com essas teorias, todo texto é embrião e produto de outros textos em uma espiralde movimentos que aponta, tanto para a anterioridade, quanto para o futuro. Ou seja, nãoexiste produção textual isolada ou inaugural, dado que sempre haverá influências de outrasvozes e de outros ditos na constituição de um dizer. Conforme Barros (1997, p.34), odialogismo “define o texto como um ‘tecido de muitas vozes’, ou de muitos textos oudiscursos, que se entrecruzam, se completam, respondem umas às outras ou polemizam entresi no interior do texto (...)”. Isso implica levar em consideração que a linguagem se constituiLinguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 2
  3. 3. como um permanente jogo de retomadas, empréstimos e deslocamentos de sentidos já ditosem contextos anteriores e exteriores. (...) as relações dialógicas, que implicam necessariamente o conceito de vozes, não podem ser reduzidas nem às relações lógicas, nem às relações psicológicas, nem às relações naturais ou mecânicas. Elas constituem uma classe específica de relações de sentidos, cujos participantes podem ser unicamente enunciados completos, ou vistos como completos, e por trás dos quais estão os sujeitos discursivos (BRAIT, 2003, p.25). Nessa direção, os atos de linguagem são permanentemente marcados pela presença de(um) outro(s) que retorna(m), que atravessa(m) e que constitui(em) o enunciado, promovendoum giro na concepção de que o sujeito inaugura a linguagem a cada momento, de que sua vozé centrada nela mesma e de que os sentidos estão em estado de dicionário congelados namudez da monofonia; longe disso, temos sempre a prática dialética de menção à palavra de outrem, como constitutiva de todo dizer, não se evidencia por seu caráter mostrativo, empírico, mas no jogo das relações de sentidos que atravessam a enunciação (...) passam, portanto, a desconstruir a evidência ou o acobertamento do fato de que o território não pode ser reduzido a fronteiras estruturais, ou a simples relações de pertencimento individual (ZANDWAIS, 2005, p.97). As bases conceituais de dialogismo, intertextualidade e polifonia lançadas por Bakhtintêm ressonância em vários estudos posteriores em campos diversos tais como literatura,educação, filosofia. No campo dos estudos discursivos, também é possível escutar os ecos dodiscurso de outrem na forma como o interdiscurso é concebido. O dialogismo em Bakhtin comporta uma dupla dimensão: por um lado, diz respeito ao permanente diálogo, nem sempre simétrico e harmonioso, existente entre os diferentes discursos que configuram uma comunidade, uma cultura, uma sociedade. E, nesse sentido, podemos interpretá-lo como o elemento que instaura a constitutiva natureza interdiscursiva da linguagem (GREGOLETO, 2005, p.119). A Análise do Discurso de matriz francesa, corrente de estudos ao qual este trabalho sefilia, foi fundada em 1969 por Michel Pêcheux e Jean Dubois, sinalizando um tripé deinterfaces entre a lingüística, o marxismo e a psicanálise. A língua em funcionamento, o jogotenso das relações de poder entre as classes e o inconsciente serão estruturantes paracompreender "um processo de significação no qual estão presentes a língua e a história, emsuas materialidades, e o sujeito, devidamente interpelado pela ideologia." (FERREIRA, 1998,p. 203). Tendo como objeto o discurso, definido como efeitos de sentido entre interlocutores(PÊCHEUX, 1975), a AD vai além da noção de texto, fechada e estanque, de onde seriaLinguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 3
  4. 4. possível extrair um conteúdo, uma mensagem ali encapsulada. Na direção oposta, considera odiscurso em seu funcionamento e permanente movimento de deslocamentos, errâncias efluxos de sentidos. Isso nos coloca em contato com uma teoria que reclama o reconhecimentoda opacidade e da incompletude como constitutivas da linguagem, já que buscamos uma“abordagem materialista do funcionamento das representações e do ‘pensamento’ nosprocessos discursivos. Isso supõe, como veremos, o exame da relação do sujeito com aquiloque o representa.” (PÊCHEUX, 1997, p. 125). O discurso, em AD, é tomado, não como transmissão de informação ou da mensagem,mas como sentido(s) possível(eis) entre/para interlocutores, o que inclui a situação, o contextohistórico-social, as condições de produção. (...) as CP do discurso mostram a conjuntura em que um discurso é produzido, bem como suas contradições. Nessas condições, o sujeito produz seu discurso não como fonte de conhecimento, mas como efeito dessa rede de relações imaginárias, constituindo-se tal discurso na representação desse imaginário social (INDURSKY, 1997, p.28). Para escutar o discurso e(m) seu jogo, é fundamental compreender dois conceitos-chave da teoria discursiva, a saber, ideologia e sujeito. Sobre o primeiro, temos que ela é omecanismo que produz evidências e naturaliza sentidos para o sujeito a partir da posição queele ocupa. (...) é a ideologia que, através do “hábito” e do “uso, está designando, ao mesmo tempo, o que é e o que deve ser, e isso, às vezes, por meio de “desvios” lingüisticamente marcados entre a constatação e a norma e que funcionam como um dispositivo de “retomada do jogo”. É a ideologia que fornece as evidências pelas quais “todo mundo sabe” o que é um soldado, um operário, um patrão, uma fábrica, uma greve, etc., evidências que fazem com que uma palavra ou um enunciado “queiram dizer o que realmente dizem” e que mascaram, assim, sob a “transparência da linguagem”, aquilo que chamaremos o caráter material do sentido das palavras e dos enunciados (PÊCHEUX, 1997, p.160). Apesar disso, através dos esquecimentos enunciativo e ideológico (PÊCHEUX, op.cit.), o sujeito não se dá conta de não ser a fonte do que diz, nem de que poderia dizer deoutras formas, quando na verdade ele precisa, tanto para significar quanto para produzirsentidos, assujeitar-se ao pré-construído, à memória discursiva e a sentidos que já forampostos em circulação antes. O sujeito se define historicamente: a relação do sujeito com a linguagem é diferente, por exemplo, na Idade Média, no século XVII e hoje. (...) A relação com a linguagem, da forma- sujeito característica das nossas formações sociais, é constituída da ilusão (ideológica) de que o sujeito é a fonte do que diz quando, na verdade, ele retoma sentidos preexistentes e inscritos em formações discursivas determinadas (ORLANDI, 1988, p.77).Linguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 4
  5. 5. Para a teoria da Análise do Discurso, o sujeito não é o indivíduo empírico, o ser emsua estrutura biológica, psicologizante ou sociológica; mas uma posição discursiva, o queimplica considerar o sujeito interpelado pela ideologia, atravessado pela captura de algo quelhe parece evidente na posição em que está e, além disso, constituído por múltiplas vozes queembasam seu dizer. (...) para a Análise do Discurso, não se focaliza o indivíduo falante, compreendido como um sujeito empírico, ou seja, como alguém que tem uma existência individualizada no mundo. Importa o sujeito inserido em uma conjuntura social, tomado em um lugar social, histórica e ideologicamente marcado; um sujeito que não é homogêneo, e sim heterogêneo, constituído por um conjunto de diferentes vozes (FERNANDES, 2005, p.13). Tomado pela ideologia, o sujeito tem a ilusão de ser a origem do que diz, esquecendo-se dos fios discursivos, sempre alheios, que compõem a malha de seu dizer, o que acarreta noque Pêcheux (1997) denomina de esquecimento de número 1. Esse esquecimento é condiçãonecessária para que o sujeito possa dizer de/sobre si e os outros, constituindo-se como supostafonte das palavras e lugar originário da linguagem. (...) apelamos para a noção de “sistema inconsciente” para caracterizar um outro “esquecimento”, o esquecimento nº 1, que dá conta do fato de que o sujeito-falante não pode, por definição, se encontrar no exterior da formação discursiva que o domina. Nesse sentido, o esquecimento nº 1 remetia, por uma analogia com o recalque inconsciente, a esse exterior, na medida em que – [...] esse exterior determina a formação discursiva em questão (PÊCHEUX, 1997, p. 173). O esquecimento de número 2 pertence à ordem da enunciação e diz respeito ao fato deque o sujeito tem a ilusão de que seu dizer só pode ser dito de uma só forma, com aquelaspalavras e não outras (ORLANDI, 2005). Isto implica o apagamento de tantas outras maneirasde dizer e significar a linguagem, o que promove a evidência dos sentidos pertinentes ao lugarem que o sujeito está e de onde ele fala. Concordamos em chamar esquecimento nº 2 ao “esquecimento” pelo qual todo sujeito-falante “seleciona” no interior da formação discursiva que o domina, isto é, no sistema de enunciados, formas e seqüências que nela se encontram em relação de paráfrase – um enunciado, forma ou seqüência, e não um outro, que, no entanto, está no campo daquilo que poderia reformulá-lo na formação discursiva considerada (PÊCHEUX, 1997, p. 173). Estes esquecimentos pavimentam o processo de constituição do sujeito no discurso,processo este dado pela submissão do sujeito ao que ele pensa (e tem certeza) saber, fazendo-o deixar de lado a assertiva de que outros saberes e dizeres pode(ria)m vir a assaltá-lo emoutro momento. Assim, trabalhar com esta noção de sujeito reclama compreender a ideologiaLinguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 5
  6. 6. como mecanismo que naturaliza sentidos, torna clara uma palavra e nubla outras tantas. Comosabemos, pelo acesso à teoria do discurso, tais processos – interpelação ideológica econstituição do sujeito – estão ancorados em bases sócio-históricas ligadas ao modo deprodução econômico, a relações de poder entre as instituições, a sentidos tidos comodominantes e legitimados. Assim sendo, as noções de memória e interdiscurso também sãofundamentais para analisarmos os cartuns. No caso da primeira, "deve ser entendida aqui nãono sentido diretamente psicologista da ‘memória individual’, mas nos sentidos entrecruzadosda memória mítica, da memória social inscrita em práticas, e da memória do historiador"(PÊCHEUX, 1999, p. 50). Deste modo, a memória discursiva é uma memória dos sentidos,que garante o dizível e que possibilita ao sujeito recortar algumas regiões do já-dito paragarantir e sustentar o seu dizer. Essa memória, em sua relação com os sentidos, não éhomogênea e rígida, mas sim passível de disjunções e deslocamentos. (...) uma memória não poderia ser concebida como uma esfera plena, cujas bordas seriam transcendentais históricos e cujo conteúdo seria um sentido homogêneo, acumulado ao modo de um reservatório: é necessariamente um espaço móvel de divisões, de disjunções, de deslocamentos e de retomadas, de conflitos de regularização... Um espaço de desdobramentos, polêmicas e contra-discursos (PÊCHEUX, 1999, p. 56). Para o estudo do nosso corpus, as noções de ideologia, sujeito, memória einterdiscurso mostram-se indispensáveis, uma vez que a materialidade do cartum no dizerjornalístico recorre a outros discursos já falados antes em outro lugar (ORLANDI, 1999),retoma de modo jocoso o que circula em outras páginas do jornal, desloca o sentidocristalizado fazendo falar o outro, o diferente, o estranho.3. Redução da maioridade em três cartuns de Angeli Eu era uma criança, esse monstro que os adultos fabricam com as suas mágoas - Jean- Paul Sartre A partir de agora iremos analisar três cartuns de Angeli, publicados na Folha de S.Paulo, nos quais buscamos flagrar o funcionamento discursivo, especialmente o modo como osujeito se constitui, como a ideologia o interpela e como a memória sustenta a possibilidadedo deslocamento. Também está no nosso horizonte especular sobre a possibilidade de elesdialogarem entre si, marcados pela inscrição histórica dos sentidos de criança, crime epunição no país.Linguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 6
  7. 7. A repetição do mesmo título marca a intertextualidade entre os três cartuns e tambémreforça o sentido dominante muito recorrente na mídia hegemônica, em favor de reduzir aidade para o julgamento e a punição penal de jovens no país. Esse sentido dominante tenta seimpor como literal, apagando os outros. Sabemos que "o sentido literal é um efeito discursivo.O que existe, é um sentido dominante que se institucionaliza como produto da história: o‘literal’. No processo que é a interlocução, entretanto, os sentidos se recolocam a cadamomento, de forma múltipla e fragmentária" (ORLANDI, 1996, p. 144). Sendo assim, o título(quase) igual dos três cartuns faz falar a paráfrase ad infinitum desse assunto na mídia demodo a provocar uma fala seriada já que existe o cartum número um, dois, etc. O efeito de escárnio inscrito pela voz de Angeli é colorido se considerarmos ailustração com policiais armados, contando os minutos para encarcerar os recém-nascidosdesde o berçário. 34 Os policiais discursivizados na posição de des-humanizados interessam-se em vigiar epunir os bebês; não é em vão, portanto, que a única cor pujante no cartum é o preto nas vestesdos agentes da lei. No uso da cor preta, ainda cabe uma nuance que por si só daria uma análiseà parte: o contraste entre os óculos dos policiais e os do cidadão comum. Enquanto os4 Cartum de Angeli extraído do blog PICICA em 08 de maio de 2007, originalmente publicado na Folha de S.Paulo. Endereço: <http://rogeliocasado.blogspot.com/2007_05_01_archive.html>. Acesso em: 30 mar. 2009.Linguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 7
  8. 8. primeiros usam óculos escuros, o segundo possui lentes brancas, amenas. Isso marca ointerdiscurso do que significa usar óculos escuros, enquanto representante do Estado. Umfascículo da coleção "A ditadura militar no Brasil", editado pela Caros Amigos, corrobora amemória das lentes opacas utilizadas por ditadores sul-americanos: "Nas sombras dos óculoso ditador observa tudo sem que ninguém saiba o que. Não permite saber o que lhe passa noíntimo, porque os olhos são o espelho da alma. E o que lhe vai na alma é melhor esconder" (ADITADURA, 2007, p. 261). Dito isso, o sujeito-leitor, identificável na pele do cidadãocomum ilustrado por Angeli, é mostrado passivo diante do poderio armamentista da repressãopolicial, mas tem o chapéu na mão, com lentes claras e, assim, cabeça e olhos (os chamados"espelhos da alma") visíveis para os agentes, enquanto estes dirigem suas lentes escuras para avigilância dos menores, dos sujeitos na posição de bebês, sem que seja possível identificarpara qual deles seus olhares são dirigidos. Pelo acesso à memória discursiva, temos o sentido dominante de que em um“berçário” estão colocados bebês inofensivos e frágeis que reclamam cuidado dos adultospara tudo, em especial para sobreviver. A ruptura nesse sentido legitimado provoca odesarranjo, isto, é o deslocamento do sujeito-bebê do lugar de indefeso para outro, a saber,aquele em que será discursivizado como perigoso, possível autor de crimes e, portanto,responsável juridicamente por seus próprios atos. Daí o efeito ácido de crítica que perpassa avoz do cartunista, criando uma ruptura na teia da memória discursiva, fazendo furo nossentidos de criança e de inocência tais como um bebê recém-nascido evoca. No berçário,dentro de uma maternidade, a palavra polícia aparece marcada em dois uniformes, indicandoque os policiais têm trabalho a realizar ali, promovem investigação, tentam reconhecer asdigitais, identificar os criminosos bebês. Essas marcas lingüísticas – berçário, policiais,redução da maioridade penal – apontam para um modo de representar os bebês na posição deagressores, ainda que não tenham força física nem para se virar no berço da maternidade;deriva daí justamente o efeito de riso e também de crítica. Como culpabilizar um bebê daautoria de um crime? Como responsabilizá-lo pela condenação de algo que ele desconhece enão tem condições de efetuar? Tais questões ficam sem resposta, escorrendo dos traços epalavras marcados no cartum.Linguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 8
  9. 9. 5 Em fevereiro de 2007, o menino João Hélio Fernandes Vieites, de seis anos, foi mortovítima de um assalto no Rio de Janeiro. Embora a questão da violência nas grandes cidadesseja uma constante nos noticiários sem, contudo, despertar grandes mobilizações no sentidode mudanças para a reversão desse quadro, o caso de João Hélio chamou a atenção dasociedade, em especial a mídia, pelo modo como foi assassinado. Preso ao cinto de segurançado carro no qual se encontrava, o menino foi arrastado por cerca de sete quilômetros,ocasionando sua morte. A brutalidade do crime, coligada à exploração mórbida da mídia,causou celeuma e revolta na população, que passou a discutir a questão da maioridade penal,dado que entre os criminosos que vitimaram a criança estava um menor de 16 anos. Partindo desse contexto sócio-histórico, Angeli produziu o cartum acima, publicadoem 12 de fevereiro de 2007 sob o título “Redução da maioridade penal”, diJonathanalogandocom a imagem de bebês em seus respectivos bercinhos, agora carrinhos, o que gera o efeito deironia, reforçado pela representação de uma grade ao fundo. Considerando que a ironia “éuma figura que exprime um conceito contrário do que se pensa ou do que realmente se querdizer. Por isso, muitas vezes, só pode ser percebida quando se considera o contexto"(MESQUITA, 1994, apud ROMUALDO, 2000, p. 78), o efeito é dado pelo caso extremo dese enclausurar bebês que são incapazes até de se locomover por conta própria, provocando oriso.5 Cartum de Angeli extraído do jornal Folha de S. Paulo, 12 fev. 2007.Linguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 9
  10. 10. A cena discursiviza a passividade das crianças, já que estão representadas imóveis ecaladas, produzindo o sentido de que nem sequer são capazes de contestar sua condição.Passivos e quietos, os bebês despertam o sentido de não oferecerem perigo à sociedade, o quecontrasta com o ambiente em que se encontram, principalmente pela grade na janela ao fundoda cela, que mobiliza o sentido de periculosidade. A grade reforçada ao fundo por uma telaremete, pelo acesso à memória discursiva, ao efeito de proteção, seja da sociedade - caso emque o ser aprisionado ofereça perigo a ela, se solto - seja do enclausurado, como as grades deum berço, por exemplo. Contudo, aqui a grade simboliza também a forma de proteçãoescolhida pelo Estado contra a ameaça que esses sujeitos-bebês representam à sociedade e nãoa proteção dos mesmos, invertendo a posição do Estado como defensor dos cidadão comumpara apresentá-lo como algoz. O cartum ainda apresenta um contraste ao representar a cela como um lugar escuro,com rachaduras, em contraposição com o azul do lado de fora, azul que instiga o sentido deliberdade, de horizonte aberto no fundo do céu, no caso, impossível de ser visto tanto pelascrianças quanto por nós leitores. Além disso, o ambiente monocromático e sombrio da celacontrasta com o colorido em tom pastel das roupas que vestem os bebês, sinalizando umlitígio entre o escuro do espaço e a inocência ou singeleza dos prisioneiros-bebês. Esteconflito simbólico entre as cores é também marcado pela tez rosada das crianças, emcontraponto ao cinzento tanto das paredes quanto dos carrinhos. Neste ponto, podemosperceber a retomada de sentidos parafrásticos já colocados em discurso no primeiro cartum.Se antes os bebês eram colocados na posição de infratores, aqui este sentido se confirma, vistoque eles estão enjaulados em uma cela com enormes paredes que se erguem para muito alémda altura possível de ser alcançada para os bebês. Assim, constrói-se o efeito de denúncia dosujeito-cartunista marcando o absurdo e o inominável (no último cartum, faltam as palavras)da condenação e do aprisionamento dado a priori aos sujeitos-bebês, destinando-os já nonascimento, nas primeiras horas de vida e na primeira infância ao lugar de criminosos. Dos itens mencionados, a manifestação mais emblemática da subjugação das crianças(os sentidos de ruptura) à formação discursiva dominante é indicada em tons sorumbáticos,melancólicos até, por meio dos carrinhos, que se fazem presente em todas as crianças, semexceção. Ou seja, apesar da pluralidade de sentidos dos bebês, conforme percebemos nasvestimentas, essa potencial ruptura é dependente do assujeitamento ao pré-construído e àhistoricidade da luta de classes inerente ao capitalismo (logo, a discursividade dos adultos),sob pena de não conseguirem locomoção. O encarceramento dos bebês / sentidos de ruptura,por isso, acontece duas vezes: primeiro na inevitável subserviência ao sentido dominante e,Linguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 10
  11. 11. depois, na repressão em si exercida aos que se intrometem a afrontar o lugar que lhes "cabe".No entanto, como a ideologia é um ritual com falhas, não podendo silenciar todas asmanifestações de resistência, as rachaduras na parede e o azul do céu ainda se fazem presentepara as crianças, apesar de, supostamente, serem inatingíveis, mas de qualquer maneiraevidenciando as lacunas e divisões do sujeito-adulto, o qual edificou esse sistema prisional. Além disso, o cartum também incita um outro tema polêmico, debatidoconstantemente pela mídia e pela sociedade, que é o problema da superlotação das cadeiaspúblicas. A representação de inúmeras cadeirinhas contendo bebês preconiza o sentido de quemudam-se os infratores, porém as condições físicas permanecem as mesmas, mobilizando amemória cristalizada sobre a prisão como solução para os males sociais, culminando nanecessidade da construção de outros presídios, uma vez que no espaço retratado existemtantos bebês que ao fundo as imagens até se confundem. Aqui o cartum inscreve aointerdiscurso com a obra de Machado de Assis, “O Alienista”, que depois de prender em umsanatório todos os habitantes do lugar retratado, o alienista acaba por soltá-los e internar-se asi mesmo, percebendo que o problema não era com a população, mas com ele. O cartum fazfalar a obra de Machado à medida que o Estado pode ser metaforizado e personificado nafigura do alienista, já que ambos tomam medidas paliativas para o tratamento dos malessociais, quando na verdade é o agente que efetua as prisões (o alienista e o Estado) quemprecisa de tratamento, de um estudo, de uma análise. Esse desconforto subversivo causadopelo cartum é ainda ratificado pela imersão do sujeito-leitor naquele contexto, pois verifica-seque na cela não há grades que separam o leitor do da cena, num movimento de aproximar eenvolver aquele que lê o quadrinho com a situação retratada. Convém lembrar que o Estado é comumente notado na estrutura social como extensãoda família, esta tida como sua "unidade", sua "célula". Sendo assim, o estabelecimentorepressor estatal representado pelo sistema carcerário dirigido às crianças de colo nos expedeainda a outra região do interdiscurso, a saber, o poder instituído aos pais com relação aosfilhos para educá-los, fazendo uso de penitências para controlar os sentidos não desejáveis nascrianças. Trata-se aí do conflito entre o velho e o novo para (re)significar o que é justiça, ondeo pré-construído, simbolizado pelos pais e pelo Estado, trava embate com a potencial rupturade sentidos nas crianças, de modo a perpetuar as condições de produção tidas como evidentes.Ou seja, a denúncia inscrita no cartum, se observada por esse prisma, vai além da merareprimenda à idéia dos supostos benefícios da redução da maioridade penal para fazer circulardizeres sobre a situação do sujeito-criança num contexto mais amplo, tendo as grades e asLinguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 11
  12. 12. paredes monocromáticas também o interdiscurso de outras "prisões" para os sentidos intrusosdos menores, a fim de domesticá-los, desde a família até as instituições pedagógicas. 6 Dois dias após a publicação de “Redução da maioridade penal”, é divulgado o cartumintitulado “Redução da maioridade penal (2)”, num movimento intertextual que recupera tantoo contexto sócio-histórico quanto a discussão gerada pelo tema em questão. Nesse cartum, acriança - que já não é mais um bebê - aparece sentada desenhando, num movimento deexpressar seus sentimentos e pensamentos. Aqui a criança já consegue se expressar,diferentemente do primeiro cartum publicado em que os menores se encontravam estáticos. Otítulo do cartum, no entanto, instala um efeito de paráfrase que vem carregado de denúncia,pois é exatamente o mesmo do recorte anterior, com o acréscimo de um número, remontandoà idéia de mera seqüência enumerativa, ou seja, sem nenhuma mudança de fato entre umacena e outra. Assim sendo, o "(2)" do título também significa, dado que a ausência dessesignificante produz outros efeitos de sentido. Portanto, não é em vão que o número vem entreparênteses, reforçando a insignificância da mudança de postura do sujeito-criança de umcartum para o outro, pois embora o menor infrator supostamente tenha menos dependência dosujeito-adulto e mais expressividade nessa cena, a mudança causada pelo transcorrercronológico é apenas aparente e continua aqui falando a crítica do primeiro cartum. Daí o usodos parênteses, reiterando a condição de potencial resistência materializada no desenho do6 Cartum de Angeli extraído do jornal Folha de S. Paulo,14 fev. 2007.Linguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 12
  13. 13. menino, que é o grande diferencial em relação ao primeiro cartum, mas ao mesmo tempolembrando que esse desenho pode ser sumariamente ignorado, tal como as palavras que sãolinguisticamente marcadas entre parênteses são convencionalmente tidas como portadoras desentidos opcionais, ou secundários. Na cena, há a separação nítida entre o universo adulto, representado pelos três homenssentados e a parede com inscrições na qual se encontram apoiados. Esta cena reflete aformação imaginária (FI) que o sujeito que produziu o cartum tem daqueles que sãoretratados. O desenho colorido da criança simboliza a FI do sujeito-cartunista tem do que ummenor de idade pode querer ou pensar num ambiente prisional, e os desenhos e escritos daparte da parede que se encontram os adultos refletem pensamento que o autor imagina queesses presos tenham. Segundo Orlandi : Na relação discursiva, são as imagens que constituem as diferentes posições. E isto se faz de tal modo que o que funciona no discurso não é o operário visto empiricamente mas o operário enquanto posição discursiva produzida pelas formações imaginárias (ORLANDI, 2005, p. 40- 41). O cartum marca a oposição entre o universo adulto e o infantil através das inscriçõesque cada grupo produz. Enquanto a criança desenha seus sonhos de uma família, uma casa,sendo todo o desenho pintado com cores vivas e variadas, os adultos traçam a realidade emque vivem, demonstrado pela palavra “crime” e pelo desenho de um homem mascarado,representado convencionalmente como um bandido, com uma metralhadora na mão. Em mais um movimento intertextual com o cartum precedente, notamos aqui a paredemonocromática e as inscrições feitas nela simbolizando os modos de resistência à coaçãoestatal. Por conseguinte, enquanto a parede do sujeito-adulto é suporte para inscrições quecobrem toda sua extensão, com significantes verbais e não verbais, a única oposição dosujeito-criança a essa realidade vem por meio do escapismo com o desenho, que cobre umaárea ínfima do concreto cinzento. Nota-se, portanto, não apenas as cisões nos modos deresistência dos sujeitos inscritos aqui, mas do alcance dela, quer dizer, da capacidade parafazer falar sentidos que se opõem à implacável coerção prisional. Nesse sentido, é digno denota que a criança seja retratada sozinha, enquanto o adulto pode se organizar com o outro ere-significar toda a contenção (representada pela parede) que lhe é dirigida – não por acasoexpondo num dos dizeres a palavra "união". Enquanto a criança tem em mente a idéia defamília e casa, significantes que remetem à idéia de segurança e proteção, os adultosprisioneiros vêem na organização criminosa, marcada pelas palavras “união”, “salve ocomando Z. N.”, “Pavilhão Zero” (em intertextualidade com o pavilhão 9, cenário da chacinaLinguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 13
  14. 14. ocorrida em 1992 no presídio Carandiru, comandada por policiais contra os detentos) e pelaquantidade de homens que estão sentados juntos, os seus conceitos de proteção e segurança.Ou seja, o cartum sugere a diferença entre os dois mundos, demarcando as idéias e ospensamentos de cada grupo. Os desejos dos adultos também são representados, como as figuras de mulheres nuasou seminuas e pela palavra “sexo”, encoberta parcialmente por um dos cartazes, marcando,com isso, a distinção entre o mundo infantil colorido com o de cores neutras adultas. Percebe-se também que a criança está isolada, sentada no chão, numa posição inferior aos de seuscompanheiros de cela que estão sentados em uma espécie de banco/cama. A posição inferiordo menino remete à submissão em que se encontra em relação aos prisioneiros adultos,podendo estes, por coibição física, influenciá-lo futuramente. O desenho da criança também faz falar a memória das redações que muitas escolasinfantis pedem aos seus alunos para falar de suas férias, embora o desenho não tenha palavras,já que ao invés de estar na escola, o menor está na prisão. Esta questão também é marcadapelos objetos dispostos próximos aos prisioneiros, demonstrando, através de utensílios de usopessoal como prato, colher, copo, caneca, chinelo, a necessidade física dos adultos,diferentemente dos lápis ao redor da criança, que remete à carência intelectual, a falta daescola e do aprendizado de ler e escrever. Por isso mesmo, nota-se que no pequeno espaço dodesenho infantil não se encontram significantes lingüísticos, a não ser talvez abaixo dasfiguras humanas ali retratadas, bem diferente da parede do sujeito-adulto, toda coberta por umemaranhado confuso de dizeres verbais e não-verbais justapostos, remetendo ao efeito desujeito "formado", capaz de significar diversas linguagens, enquanto a criança émarginalizada do ensino alfabético. O aprendizado e a escola apresentam-se, desta forma,como alternativas para a contenção da criminalidade entre menores, sendo a prisão umamedida paliativa, que poderia até mesmo exercer uma influência negativa à criança, o queremete à memória do sistema prisional brasileiro na atualidade como “escola do crime”. Outrodetalhe a ser notado é a grade da janela da cela, marcada, mais uma vez, pela tela que ironizaa idéia de proteção, remetendo ao cartum publicado dois dias antes. Inserir essa figura de elo entre os dois lados envolvidos pela discussão suscitada pelocaso de João Hélio (a Lei e os menores delituosos) tem, em vista disso, papel ideológicocrucial nos gestos de leitura socialmente inscritos para o sujeito-leitor através da única figuraidentificável, cujo laço de responsabilidade, supõe-se, é mais com o bebê do que com ospoliciais. Por fim, percebem-se desenhos no interior do berçário, gravados nas paredes. Acolonização repressiva dos menores encontra aqui sua última resistência, num ambienteLinguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 14
  15. 15. diverso das celas nos cartuns anteriores, mas, conforme ilustrado, passível de observação pelavidraça, sendo mais uma vez só aparente a liberdade das crianças, na distopia de Angelisubjugadas pelos adultos desde o berço, literalmente. Vale lembrar ainda, que atualmente existem mulheres grávidas nas penitenciáriasbrasileiras, marcando que, mesmo em feto, o indivíduo já se encontra inserido no sistemacarcerário. Sendo que, após uma breve passagem pelo hospital para a realização do parto, obebê já retorna, nos braços da mãe, para a penitenciária, recebendo os cuidados maternosdurante um tempo determinado. Embora passível de ser interpretado pelo sentido dessarealidade já existente, o sentido dominante no cartum, no entanto, remete à idéia de que é osujeito-criança o autor do delito, ratificado pelo título “Redução da maioridade penal”, já quenão é a mãe, mas sim os policiais armados, que esperam o sujeito-criança pelo lado de fora doberçário. Convém ressaltar também que o título “Redução da maioridade penal”, emboraintertextualize com os outros dois cartuns aqui estudados, não apresenta um símbolo quemarque alguma seqüência ou que faça referências aos cartuns divulgados sob esse título,produzindo, com isto, um efeito de silenciamento sobre os outros trabalhos já publicados,como se antes desse cartum nada mais houvesse a respeito.4. Considerações finais Buscamos, à luz da Análise do Discurso de matriz francesa, interpretar três cartunsassinados por Angeli e publicados em 2007 na Folha de S. Paulo, veículo da imprensamajoritária que, com a divulgação desses cartuns, deu espaço à denúncia tida como pueril elúdica dos cartuns, mas que ao invés disso rompem com os sentidos ideologicamentecristalizados daquele periódico, de modo semelhante às rachaduras na parede de concreto quetentam limar os sentidos de ruptura conforme vimos na obra do cartunista. Com a mobilizaçãodos pressupostos da AD francesa, evidenciamos o interdiscurso materializado nessasilustrações, desvendando possibilidades de leitura menos ingênuas do discurso não-verbal.Verificamos também como os sentidos podem ser deslocados e reconfigurados conforme ocontexto sócio-histórico em que as materialidades discursivas são produzidas. No decorrer deste trabalho pudemos perceber como o sujeito-cartunista toma a idéiade criança, qual a formação imaginária que esse sujeito tem do universo infantil. No caso dosdesenhos da família, do berçário e dos carrinhos de bebê, observamos, através desseselementos, sentidos que remetem à necessidade de proteção por parte das crianças, que estasprecisam ser protegidas pelo Estado, e não ao contrário. Com isto, verifica-se que os cartunsLinguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 15
  16. 16. selecionados sob o título em comum denominado “Redução da maioridade penal” evocamsentidos múltiplos, conforme suas condições de produção, dentre eles os sentidosparafrásticos na denúncia do ridículo das situações, na ironia e no equívoco da solução deaprisionar crianças ao invés de educá-las.5. Referências bibliográficasARBEX JR., J. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela, 2001.BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: HUCITEC, 1997.BARBOSA, P. L. N. O papel da imagem e da memória na escrita jornalística da história dotempo presente. In: GREGOLIN, M. R. (Org.). Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo.São Carlos: Claraluz, 2003. Coleção Olhares Oblíquos.BARROS, D. L. P.. Contribuições de Bakhtin às teorias do discurso. In: BRAIT, B. (Org.).Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas, Editora da Unicamp, 1997.BERGSON, H. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. Relógio d’água ed.: Lisboa,1991.BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas, Editora daUnicamp, 1997.CITELLI, A. Linguagem e persuasão. São Paulo: Ática, 2005.A DITADURA militar no Brasil: a história em cima dos fatos. Por que ditador gosta deóculos escuros?. São Paulo: Caros Amigos Editora, 2007. v. 9. (Coleções Caros Amigos)FERNANDES, C. A. Análise do Discurso: reflexões introdutórias. Goiânia: Trilhas Urbanas,2005.FERREIRA, M. C. L. Nas trilhas do discurso: a propósito de leitura, sentido e interpretação.In: ORLANDI, E. (Org.). A leitura e os leitores. Campinas: Pontes, 1998. p. 201-208.FOUCAULT, M. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciadaem 2 de dezembro de 1970. 13. ed. Edições Loyola: São Paulo, 1996. 2006.INDURSKY, Freda. A fala dos quartéis e as outras vozes. Campinas: Editora da Unicamp,1997.LAMPOGLIA, F.; SILVA, J. R. B.; ROMÃO, L. M. S. Da fotografia ao cartum, um percursode sentidos sobre detentos e deputados. Revista do GEL, São Paulo, v. 7, n. 1, p. 156-174.2010 .LIEBEL, V. Humor gráfico: apontamentos sobre a análise das charges na história. XIIISimpósio Nacional de História. História: guerra e paz. Londrina, 2005. Disponível em:<http://www.anpuh.uepg.br/Xxiii-simposio/anais/textos/VIN%C3%8DCIUS%20AUR%C3%89LIO%20LIEBEL.pdf>. Acessoem: 05 nov. 2007.MUSSALIM, F. Análise do Discurso. In: _____ (org.); BENTES, Anna Christina (org.).Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2004. cap. 4. p.101-142.ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 6. ed. Campinas: Pontes,2005._____. Discurso e leitura. Campinas: Editora da UNICAMP, 1988. p. 75-82._____. O sentido dominante: a literalidade como produto da história. In: ORLANDI, E. P. Alinguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. Campinas: Pontes, 1996.PÊCHEUX, M. Papel da memória. In: ACHARD, Pierre et. al.. Papel da Memória.Campinas: Pontes, 1999.Linguagens e Diálogos, v. 1, n. 2, p. 1-17, 2010 16
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