Os que morrem e os que vivem

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Os que morrem e os que vivem

  1. 1. OS QUE MORREM, OS QUE VIVEMChampinha, estuprador e assassino, continua preso apesar de ter cumprido sua penaRevista Piauí 53 – fevereiro 2011por Luiz Henrique LigabueAri Friedenbach passeava de bermuda, tênis e camiseta com Toddy, o labrador da família,numa manhã ensolarada de um sábado de primavera. Ele lembra bem que estava na frente doedifício Louveira, um projeto de Vilanova Artigas no bairro de Higienópolis, em São Paulo,quando olhou as horas. Era cedo, oito da manhã, mas mesmo assim telefonou para a filha,Liana. O advogado, um quarentão calvo, tinha o hábito de ligar para ela, a mulher e o filhodiversas vezes ao dia. Não precisava ouvir nada de especial, um “tudo bem” e um “te vejo maistarde” lhe bastavam.Liana disse que estava tudo em ordem. Mas o pai estranhou o silêncio em volta dela: afinal, aadolescente de 16 anos estava num ônibus que levava jovens da Congregação IsraelitaPaulista a Ilhabela. Perguntou por que não havia barulho. “Estão todos meio dormindo”, elarespondeu. Fazia sentido. Despediram-se e Friedenbach continuou o passeio com o cachorro.A mochila estava pesada. Os quilos extras faziam com que o tênis All Star de Liana,impregnado pelo pó da estrada, deixasse rastros no chão de terra. Magra e de seios grandes, amenina sempre atraía olhares. Não foi diferente naquela manhã, o primeiro sábado denovembro de 2003: o motorista da perua que a levara do centro de Embu-Guaçu até a estradado Belvederenão esqueceria os olhos azuis, os longos cabelos castanho-claros e a pele muitobranca, herança dos antepassados judeus, russos, poloneses e alemães.O motorista se perguntou o que uma garota como aquela, de pele clara e tênis caro, estariafazendo ali, na cidade que há cinquenta anos era um pacato vilarejo na roça e hoje é arrabaldeda periferia pobre de São Paulo. Ia com ela um rapaz de 19 anos, moreno, alto e forte, decabelos curtos, cavanhaque e brinco de argola na orelha esquerda. Era Felipe Silva Caffé, seuprimeiro namorado. Seguiam para um fim de semana longe dos pais. Estavam alegres.O casal desceu no ponto final da van e começou a caminhada até o local onde pretendiamacampar, sob um velho caramanchão de um sítio abandonado. No final da manhã, cruzaramcom dois homens e trocaram cumprimentos. Um deles era Paulo César da Silva Marques, quemorava na Vila Prel, na periferia sul da capital. Semanas antes, andando ao léu pela região,Marques parou em uma pequena loja de consertos, pediu emprego e acabou lixando umageladeira. Como fez bem o serviço, foi contratado, por 10 reais ao dia, para pintar a casa dodono da loja, que vivia em Embu-Guaçu.Perto da casa que pintava morava o seu acompanhante naquela manhã de sábado, RobertoAparecido Alves Cardoso, um adolescente franzino de 16 anos, cujo rosto é marcado peloslábios grossos e uma protrusão dentária que o deixa bicudo. A mãe de Roberto, Maria, é donade casa. Seu pai, o caseiro Genésio, aposentou-se por invalidez quando teve um derramecerebral. Roberto Cardoso, que sempre teve dificuldade de aprendizado, deixou a escola no4oano do ensino fundamental.A renda da família Cardoso era completada pelo irmão mais velho, que trabalhava em umafábrica de instrumentos musicais, e pela irmã, balconista em uma loja de bolsas. E também porRoberto Cardoso, que trabalhava como ajudante de caseiro. Ganhava 150 reais por mês emais algumas diárias de serviços rurais. Gostava de andar no mato, caçar, fumar, frequentarbares e, vez ou outra, dançar forró. Era tido como encrenqueiro. Em 2001, se envolveu noassassinato de Liberato de Andrade. Numa rixa, deu-lhe duas facadas. Todos o chamavampelo apelido, Champinha.Paulo Marques e Champinha aproveitavam o sábado de sol para caçar tatu na mata. Estavamcom uma espingarda velha e um facão. Ao cruzar com o casal de jovens, o mais velho
  2. 2. perguntou a Champinha: “Quem é a gostosa?” Pelas mochilas, o mais novo concluiu: vãoacampar.Os dois amigos seguiram em frente. Foram tomar pinga na casa de um conhecido, AntônioCaetano Silva, um caseiro já com 50 anos. À tarde, veio-lhes a ideia de assaltar os forasteirosbem-vestidos. Não tiveram dificuldade em encontrá-los. À noite, entraram em ação. Com umgolpe de facão, Champinha rasgou a lona da barraca. Marques entrou gritando: “Acorda!Acorda!” Cutucando o casal com o cano da espingarda, perguntou: “Quem aqui é filhinho depapai?” A moça respondeu que sua família tinha dinheiro e o rapaz disse que trabalhava. Osassaltantes terminaram a garrafa de vinho aberta pelo casal.Com os rostos cobertos pelas toalhas que levavam, Liana Friedenbach e Felipe Caffé foramconduzidos por cerca de 2 quilômetros até o casebre de Antônio Caetano Silva. Ao lhesretirarem as vendas, se viram numa saleta com uma cadeira velha, um banquinho mal-ajambrado, duas mesas pequenas e um fogão a lenha cuja fumaça impregnava as paredes eencardia o teto. Jogados, três machados, uma enxada, duas foices e um facão davam ao lugara aparência de depósito agrícola. Num cômodo havia uma cama de casal com várias camadasde colchões rasgados, com a espuma à vista, caixas de papelão e lixo. No outro, além da camahavia armários decrépitos.Felipe Caffé foi levado para um dos quartos por Paulo Marques. Champinha arrastou Lianapara o outro e avisou: “Abaixa a calça que eu vou te comer.” A menina, que era virgem, tremia.Foi estuprada seis vezes pela dupla durante a noite.Às seis da manhã de domingo, os amigos saíram com o casal, andaram uma hora e entraramnuma trilha fechada. Marques ia à frente com Felipe. Atrás, Champinha e Liana. O adolescenteordenou que Liana parasse. Marques, 100 metros à frente, aproximou-se de Felipe Caffé,levantou a espingarda 28 e deu-lhe um tiro na nuca. A morte foi instantânea: o cartucho haviasido carregado artesanalmente com rolimã e bucha de cera.Paulo Marques foi embora. Champinha e Liana voltaram para a mesma casa de onde haviamsaído horas antes. Passaram o domingo ali. Ele voltou a currá-la.Ao desligar o telefone, depois de falar com Liana, Ari Friedenbach teve um sábado sossegado.À noite, não conseguiu falar com a filha: o telefone estava fora de área. Não comentou nadacom a mulher, mas ficou apreensivo. No final do domingo, como o celular continuava mudo, foipara o ponto na rua Minas Gerais onde o grupo de jovens da Congregação Israelita deveriadesembarcar. Não havia ninguém. O advogado ligou para a melhor amiga da filha e pediuexplicações. A garota contou que Liana tinha ido acampar com o namorado.Bateu o desespero, taquicardia. Fuçou a agenda de Liana e encontrou o endereço queprocurava, o de Felipe Caffé. Foi à casa dele, na Vila da Saúde, e descobriu que o rapaz saíradizendo que iria acampar com amigos em Embu-Guaçu. “Eles perderam o último ônibus paravoltar”, pensou o pai, aliviado. “Isso já aconteceu comigo, são jovens.” Na companhia de umamigo, seguiu direto para Embu. Rodou pela cidade até as três da manhã. Nem sinal da filha.Voltou para São Paulo e registrou um Boletim de Ocorrência por desaparecimento no 4oDistrito Policial, o da Consolação. O clima em sua casa pesou. Ilan, de 12 anos, chorou aosaber que a irmã desaparecera: ela lhe contara em segredo que viajaria com o namorado, eprometera ligar avisando que estava tudo bem. Mas o celular do garoto nunca tocou. “Relaxa,filho, eu teria feito a mesma coisa”, consolou-o Friedenbach. “Tive irmão mais velho e tudo oque você quer na sua idade é ser cúmplice dele.”Às sete da manhã de segunda-feira o advogado já estava de volta ao Embu. No terminal deônibus, descobriu o motorista da perua que havia levado a menina clara e de roupas boas àestrada do Belvedere. Na hora do almoço, encontrou a barraca debaixo do caramanchão,rasgada e revirada. O celular da filha estava lá.Liana estava a 2 quilômetros dali, no barraco de Antônio Caetano Silva, que voltara há pouco.Sentada em um banquinho, de cabeça baixa, nua, ela chorava. Outro amigo se juntara ao
  3. 3. grupo: Agnaldo Pires, um alcoólatra barbudo e desgrenhado que vivia de bicos. Champinha lheexplicou o que se passava: “É sequestro, o cara nós matou e essa eu já comi. Ela é gostosa,pode usar.” Pires, de 41 anos, abaixou a calça e atacou a menina. “Não consegui gozar porqueestava bastante bêbado”, disse.Lá ficaram o dia todo. Liana não falou nada. “Nunca ouvi a voz dela”, disse Agnaldo Pires.Antônio Caetano Silva fez comida, café e serviu a todos. Disse que não violou a menina.Champinha e Pires voltaram a agredi-la sexualmente.Ari Friedenbach moveu mundos para buscar a filha. Pressionou as polícias Civil e Militar, ogoverno do estado, emissoras de rádio e televisão. Conseguiu com que helicópteros, veículospoliciais e equipes de repórteres varressem Embu-Guaçu. Mais um dia se passou. E nada.Na terça-feira de manhã, o grupo fez Liana andar 4 quilômetros. Foram para a casa de outroconhecido, Antônio Matias de Barros, dono de uma pequena casa perto de um laguinho. Aochegar, Champinha apresentou-lhe a menina como “prima” e “namorada”.À tarde, Gilberto Cardoso chegou ao lugar, procurando pelo irmão, Champinha. Viera avisarque havia chegado uma intimação policial, e o irmão deveria se apresentar no dia seguinte àdelegacia. A polícia queria saber de Liana e Felipe Caffé. O irmão foi embora e, no meio damadrugada, Champinha decidiu voltar à casa de Antônio Caetano. Tomaram café e partiram.Chegaram lá às cinco da manhã. Beberam outro café e Champinha saiu com Liana. Andaram 3quilômetros e entraram na mata. Liana ia um pouco à frente. Ao passarem por um riacho,Champinha a chamou. Ela se virou, ele ergueu o facão acima da cabeça e gritou: “Agora vocêvai morrer!”O golpe de cima para baixo atingiu o lado esquerdo do pescoço da garota. Ela caiu de costas emurmurou qualquer coisa. Com força, Champinha levantou e baixou a peixeira sobre eladiversas vezes. Liana conseguiu se virar e recebeu vários golpes nas costas. Uma pancadachapada, com o lado sem gume do facão, provocou o traumatismo craniano que terminou dematar Liana.Champinha lavou a peixeira no riacho e seguiu por dentro da mata até a casa da mãe. Poucoantes de chegar, tirou a roupa suja de sangue e com ela enrolou a arma do crime. Amarrou opacote com um arame e o pendurou dentro de um poço. Entrou em casa e dormiu. Acordou efoi se apresentar na delegacia de Embu-Guaçu, onde prestou depoimento. Satisfeita com asexplicações, a polícia o liberou. Ele foi para a casa da tia, em Itapecerica da Serra.Dias depois, a polícia chegou a Antônio Caetano, que acusou Champinha. Este foi localizadona casa da tia e conduzido à delegacia para um novo interrogatório. Confessou, então, oassassinatoe levou os policiais aos cadáveres.Ari Friedenbach tem lembranças entrecortadas dos dias de procura da filha. São flashes quelhe vêm à mente. Num deles, recorda que era noite e estava na delegacia de Embu. O amigoque o acompanhava chegou e lhe disse: “Acharam o corpo da Liana.” Ele caiu no chão echorou compulsivamente. Levou alguns minutos para se levantar e, amparado, pegou o celulare discou para casa: “Márcia...”Os quatro adultos envolvidos no sequestro, na sevícia e no assassinato de Felipe Caffé e LianaFriedenbach foram julgados e condenados. A pena maior foi de Antônio Caetano Silva: 124anos de prisão. A menor, de Antônio Matias de Barros: seis anos. Paulo Marques pegou110anos, Agnaldo Pires, 47 anos. Roberto Cardoso, o Champinha, que tinha 16 anos de idade, foiencaminhado à Fundação do Bem-Estar do Menor para ser reeducado durante três anos, oprazo máximo permitido pela legislação.Na campanha eleitoral do ano passado, um candidato resoluto precisava de menos de dezsegundos para passar a sua mensagem no horário gratuito. Em meio a ex-jogadores defutebol, pseudocelebridades, artistas aposentados, sindicalistas, desocupados, exibicionistas e
  4. 4. até políticos, ele dizia: “Para que não aconteça com os seus o que aconteceu com minha filha,vote em Ari Friedenbach, 2332.”Aos 50 anos, o advogado tem as pontas dos cabelos descoloridas e o rosto está mais cheio.Seu partido é o PPS, que, nascido da implosão do Partido Comunista Brasileiro, não sedistingue hoje do Democratas. Filiou-se na última hora, quando vencia o prazo de inscriçãopara as eleições. Quis ser deputado federal porque, justamente, não conseguiu nada dospolíticos.Desde o assassínio da filha, esteve umas dez vezes em Brasília. Levava abaixo-assinados,manifestos, participava de movimentos e comissões disso e daquilo. De concreto, conseguiuapertos de mãos e o papel de coadjuvante em fotos com espécimes da fauna política nacional.Em São Paulo, transformou seu escritório em comitê eleitoral. O pequeno conjunto comercialfica em um pomposo prédio neoclássico na avenida Angélica, a poucos quarteirões de suacasa. Durante a campanha, a advocacia foi exercida por sua sócia em uma sala apertada,enquanto as demais dependências ficavam tomadas pelo material de propaganda.Só dois amigos ajudavam na divulgação da candidatura, mas Friedenbach não esmoreceu:acendendo um cigarro na bagana do outro, respondia a e-mails, telefonava, planejavaencontros. A porta se abriu e alguém informou que um fabricante de adesivos doaria o serviço.O advogado vibrou. “É pouco provável, difícil, mas vai dar, tenho esperança”, disse.A campanha custou 130 mil reais. Com 85 281 votos, o advogado não se elegeu. Mas,animado, continua na sua cruzada pela mudança das leis. Ele quer que o prazo máximo deinternação dos adolescentes infratores suba para dez anos e que, no caso dos crimeshediondos, os menores recebam penas de adultos.Champinha fez 17 anos 34 dias depois de matar Liana. Nas vésperas de chegar ao limite deinternação, em 2006, quando seria libertado, dois fatos se sucederam. Primeiro, houve osjulgamentos de seus quatro comparsas, condenados a penas pesadas. Depois, ele fugiu daFebem, sendo recapturado no mesmo dia.Nos programas sensacionalistas do rádio e da televisão, nas colunas e seções de cartas dosjornais, em todos os lugares se atacava a lei que colocaria o estuprador e assassino emliberdade. Dava-se aquilo que magistrados costumam chamar de “clamor popular”.Wilson Ricardo Coelho Tafner, promotor do Departamento de Execução da Infância eJuventude, imaginou uma saída legal. Baseado em um dos laudos de avaliação psiquiátrica deChampinha, ele pediu a suspensão do prazo de internação e aplicou uma medida protetiva detratamento psiquiátrico, com contenção. Na sequência, pediu a interdição cível. Pronto, o casoestava resolvido: o assassino virava doente mental e, na prática, continuaria preso. Bastavaachar uma instituição onde pudesse ser “tratado”.Como tal instituição não existia, o imbróglio continuou. Até o secretário de Saúde da época,Luiz Roberto Barradas Barata, foi obrigado a andar com um habeas corpus no bolso: haviauma ordem de prisão emitida contra si mesmo por não destinar Champinha a uma instituiçãopsiquiátrica onde pudesse ser internado à força.Foi nesse contexto que nasceu a Unidade Experimental de Saúde, a ues, onde Champinhaestá até hoje. A Unidade é uma Guantánamo jurídico-psiquiátrica: ela existe num vácuo legal, éum arremedo que ninguém quer desativar.A avaliação psiquiátrica que mantém o assassino preso estabeleceu que ele tem um transtornoorgânico de personalidade. É o termo “transtorno de personalidade” que abre a brecha legalpara se manter uma pessoa afastada da sociedade: na prática, a expressão quer dizer que otranstornado tem baixíssima probabilidade de recuperação e, portanto, oferece risco para asociedade.
  5. 5. Ocorre que outros laudos psiquiátricos desconsideraram totalmente a hipótese de queChampinha tenha transtorno de personalidade. Esses exames atestaram que Roberto Cardosonão é um doente. Ele é um limitado intelectual, de QI 73, sendo que a deficiência mental ficaestabelecida no Brasil por um QI inferior a 70. Faltaria a Champinha refinamento intelectivo: eleconsegue discernir o certo do errado, mas tem uma noção precária das consequências dosseus atos. É um homem extremamente influenciável, vulnerável e, dependendo do meio emque esteja inserido, uma fonte de problemas. Ele saberia, em resumo, o que não pode fazer,mas não o porquê.Todos os laudos concordam que Champinha não age dominado pela fúria de um louco.Quando deu repetidas facadas em Liana, não teve prazer: queria acabar com o problema, selivrar da menina da qual abusara. Nos seus termos: “Se ela saía, a polícia pegava eu.” Ou seja,se Liana fosse libertada, ele seria preso. Para um de seus avaliadores, ele contou que deu “ummonte de facada, mas ela morreu antes porque a primeira foi no pescoço”. O que pode parecerindício de frieza, característica dos psicopatas, seria, no caso de Champinha, um entendimentosuperficial dos próprios atos.Quirino Cordeiro, um médico forte e baixo nascido em Garça, no interior paulista, é umestudioso de presos com problemas psiquiátricos. O tema do seu doutorado, defendido naUniversidade de São Paulo, foi sobre as variantes genéticas ligadas à esquizofrenia. Hoje ele éperito forense, diretor do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental do Juquery, professorda Santa Casa e membro do Conselho Penitenciário. Com seu forte sotaque interiorano,Cordeiro explicou que o louco tem delírios, ou seja, vê coisas, ouve sons, sente-se possuído.Tem, em suma, uma experiência irreal da realidade. Doenças como esquizofrenia, transtornobipolar ou quadros psicóticos, induzidos ou não por drogas, podem gerar esse deslocamentode realidade.A loucura de Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, que por não ser reconhecido como Jesus Cristoassassinou o cartunista Glauco e seu filho Raoni, em março do ano passado, é um exemplo dedelírio. Surtado, Sundfeld ainda roubou um carro e foi de São Paulo até Foz do Iguaçu, trocoutiros e feriu um dos policiais da fronteira na Ponte da Amizade, até ser preso. Quadrospsicóticos como esse podem ou não ser revertidos por medicamentos e longos tratamentos.No caso de Wellington Menezes de Oliveira, o autor da matança na escola de Realengo, noRio, a perturbação mental é de outra natureza. Breno Montanari Ramos, psiquiatra forensecom mais de trinta anos de experiência, acha que Wellington Oliveira é um caso clássico detranstorno de personalidade esquizoide: um doente solitário e ressentido que cria o seu mundo,e arquiteta uma vingança. Ele tem na sistematização de seus delírios uma forma de expurgartensões internas e aliviar seu sofrimento mental. O isolamento completo de Wellington Oliveira,depois da morte da mãe adotiva, fez com que perdesse o contato com a realidade.Ao conversar sobre as mortes em Realengo, Friedenbach se alterou. Era um final de tarde, achuva antecipava a chegada da noite e alunas da Fundação Armando Álvares Penteadopassavam, bem-vestidas e bem penteadas, em frente à sorveteria onde estávamos. “Eu sofribullying”, ele disse, com a respiração acelerada, as sobrancelhas subitamente arqueadas, aspalavras disparadas com rapidez. “Sempre fui o baixinho, o gordinho, o narigudo, o quatro-olhos. Mas não atirei em ninguém, não bati, nunca fui agressivo. Bullying, bullying, bullying, ficoputo com essa história. O que temos que discutir é que há pessoas que não têm condições deconviver em sociedade.” Casos de violência mexem profundamente com o advogado.Minutos antes, enquanto comia um biscoito, Friedenbach lembrara com deleite a época maisfeliz de sua vida: quando tinha 20 anos e foi morar num kibutz em Israel. Trabalhava duro. Àsseis da manhã já estava na plantação de abacaxis, onde ficava até as quatro da tarde. Depois,ajudava na oficina de tratores. Era voluntário para trabalhar durante o shabat, o dia dedescanso. Fez amigos, namorou, estava realizado. Antes de voltar para o Brasil e continuar ocurso de direito na Pontifícia Universidade Católica, passou três meses viajando pela Europa.Sua experiência mais traumática, dor que ele pensava jamais voltar a sentir, foi a da perda doirmão mais velho, Ivo. Em abril de 1996, o coordenador de informática do Colégio Bandeirantesfoi encontrado morto, aos 38 anos, em seu apartamento na Pompeia, intoxicado por um
  6. 6. vazamento de gás. O golpe abalou toda a família. Friedenbach passou a chorar facilmente.Hoje tem os sentimentos à flor da pele.Liana não virou um assunto proibido na família. Falam dela com naturalidade e afeto. Osentimento de perda bate quando Friedenbach vê as amigas da filha crescendo: “Aí lembrodaquilo de que estou sendo privado.” Durante a campanha, houve quem o acusasse de usarLiana para se eleger. Sua resposta era dura, mas objetiva: “Uso, sim, para evitar que essadesgraça aconteça com os seus filhos.” Ainda nos primeiros dias de campanha, recebeu umaproposta de financiamento para trocar de legenda. A resposta foi mais ríspida: “Estou usando onome da minha filha. Não faço concessões, não fico com o rabo preso, não entrei nisso paraconseguir um emprego.” Ficou no PPS.Friedenbach tem um expediente duplo. Às sete e meia já está na banca advocatícia, onde ficaaté as dez e meia, indo então para a Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho, ondeocupa um cargo de confiança. Foi nomeado pelo secretário Davi Zaia, companheiro de partido.Trabalha na coordenação de dois projetos, o Selo Paulista da Diversidade, que certificaempresas que praticam ações de não discriminação a todos os tipos de diferenças, e oprograma Pró-Egresso, que procura qualificar e reinserir ex-presos no mercado de trabalho.Ajuda também nos assuntos de ordem jurídica, que envolvem a secretaria. Chega em casasempre tarde da noite.Se antes dizia que só concorreria a deputado federal, hoje acha que a experiência naadministração pública é rica e ajuda a entender a máquina do Estado. Ano que vem, serácandidato a vereador. Levantará as mesmas bandeiras, ainda que um vereador não possafazer absolutamente nada pela mudança da lei sobre crimes de adolescentes. Está animadocom a perspectiva de se eleger.Roberto Cardoso está desanimado. Segue em tratamento na Unidade Experimental de Saúdee não sabe quando vai sair. Vive em uma das cinco casas dentro da UES. A sua, que dividecom um menor de idade, é a única com uma tela isolando-a das demais. Foi colocada porqueele está duplamente jurado de morte no sistema prisional: por ser estuprador e também por serconsiderado o responsável pela criação da UES.Todos os presos ali – hoje são seis – se sentem injustiçados. Cometeram crimes aindamenores de idade, já são maiores e cumpriram todos os prazos da recuperaçãosocioeducativa, mas não voltaram para a rua. Estão civilmente interditados. Saem de lásomente depois que um laudo atestar que sua periculosidade cessou e um juiz endossar talavaliação. Como cometeram crimes hediondos ou violentos, e tiveram sua sanidade mentalcontestada, a perspectiva é de que apodreçam ali até silenciar o “clamor popular”.Esse Guantánamo jurídico tem na raiz a questão da menoridade penal. José Geraldo Taborda,professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, explica que,juridicamente, o Brasil passou por diversas idades criminais. Dos 14 anos previstos peloCódigo Penal do Império, a idade penal passou para os 9 anos no primeiro Código daRepública. Depois, voltou para os 14 anos e só em 1940 é que surge a imputabilidade aos 18anos.Para o professor Taborda, o marco legal deveria ser os 14 anos – um pouco depois do início dapuberdade. Nessa idade seria feito, caso a caso, um estudo que atestasse as reais condiçõesde entendimento do menor infrator.A ala contrária ao rebaixamento da idade penal alega, na substância, que diminuir a idadecriminal é tirar o foco do verdadeiro problema: a falta de recursos dos adolescentes pobres. Opromotor Wilson Tafner diz que 50% dos menores infratores estão detidos na Fundação Casa(antiga Febem), estão lá por crimes contra o patrimônio, 30% por tráfico de drogas, 7% porcrimes contra a vida e o restante da conta é pulverizado. Cruzando esses dados com umapesquisa do perfil dos internos, descobre-se que a grande maioria dos infratores é de jovenspobres das periferias que têm os maiores déficits de políticas públicas.
  7. 7. Em síntese: a baixa escolaridade, o desemprego, a remuneração baixa, as famílias miseráveise a falta de perspectivas empurram as crianças para o crime. “Os Champinhas, os assassinos,são minoria”, disse Tafner. Ele tem razão. Mas os Champinhas existem.Os nove internos que passaram pela Unidade Experimental de Saúde onde está Champinhachegaram lá por causa dos crimes graves que cometeram na adolescência. Lá, se depararamcom condições únicas nas prisões brasileiras: salas de terapia ocupacional, de computação,vídeo, musculação e área verde. Dispõem de tal estrutura porque não estão em uma cadeia, esim sob a égide da Secretaria Estadual de Saúde.“Eu não conjugo o verbo perdão: quem perdoa é Deus, e espero que ele encontre Champinhao mais rápido possível para ser perdoado”, a frase incisiva saiu da boca de Ari Friedenbach, aovivo, durante um programa policial popular. A expressão no rosto não deixava dúvidas sobresua sinceridade. Falava da possível saída do assassino de sua filha da prisão. Ele espera queChampinha morra logo.Durante os onze meses do luto judaico, Friedenbach ia sozinho ao quarto da filha para rezar.Passou a tomar antidepressivos e voltou à terapia, que faz até hoje. Em 2008, decidiu pararcom os remédios, pois sentia que eles o amorteciam. Hoje está mais vulnerável às emoções enão se importa em chorar. Diz que se controla durante as entrevistas, para não parecer piegasnem marqueteiro.Outro advogado formado pela universidade católica prestou atenção no caso de Champinhadesde o início. Daniel Adolpho Assis, de 30 anos, trabalha no Centro de Defesa dos Direitos daCriança e do Adolescente, o Cedeca, de Interlagos. Em maio de 2007, quando Champinhafugiu, achou que era hora de agir. Anotou que mais de 23 meios de comunicação, entreemissoras de tevê, jornais, revistas e sites, expuseram o nome, o rosto e os detalhes doprocesso, o que é proibido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.O Cedeca costuma atuar em casos de grande repercussão, para promover o debate dequestões básicas e difíceis. Achou no de Champinha, além dos excessos da imprensa, aoportunidade de se discutir o uso da psiquiatria contra os adolescentes infratores. Para tanto,Daniel Assis virou advogado de Champinha.Advogando gratuitamente, Assis vai duas vezes por mês visitar o cliente. Fica cerca de duashoras e meia com ele, conversando sobre o andamento do processo, discutindo possíveisações, transmitindo recados de parentes e escutando reclamações. No último aniversário deChampinha, levou-lhe de presente um quebra-cabeça de 500 peças que forma um mapa dasAméricas Central e do Sul. Com ele, mostrou o estatuto jurídico de adolescentes em váriospaíses. O preso gostou tanto que o advogado comprou-lhe outro: um de mil peças, em formatotridimensional.Daniel Assis fica incomodado de ter que ouvir sempre a mesma pergunta do cliente: “E aí, esteano vai?” O advogado permanece em silêncio. “Então, mais dois ou três anos eu saio?”Silêncio. “Roberto sonha em voltar para o mato”, disse Assis. Ari Friedenbach sonha emreformar as leis sobre a minoridade penal. Felipe Caffé sonhava em cursar direito e virardelegado federal. Liana sonhava em passar um ano em um kibutz em Israel.

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