Apostilhas de-teologia-fundamental

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Apostilhas de-teologia-fundamental

  1. 1. APOSTILHAS de TEOLOGIA FUNDAMENTAL (Tradução de Resumo do livro “Teología Fundamental” de César Izquierdo Urbina. Ed. EUNSA. Pamplona 1998) Professor Pe. José Josivan Bezerra de Sales Recife, 2005
  2. 2. 2 TEOLOGIA FUNDAMENTAL - ÍNDICE I.ORIGEM REAL E HISTÓRICA. ............................................................................................................................07 I.1. História I.2. Panorama das concepções mais importantes de Teologia Fundamental. I.2b. Duas “formas” essenciais de Teologia Fundamental I.3. O objeto da Teologia Fundamental I.3.1. A revelação, objeto primário. I.3.2. A credibilidade como objeto da Teologia Fundamental. I.3.3. Pressupostos dogmáticos. I.3.4. Conseqüências metodológicas. II. CONCEITO GERAL DE REVELAÇÃO ................................................................................................................10 II.1. Os elementos básicos sobre a revelação II.2. Vocabulário bíblico sobre a revelação II.3. Padres da Igreja II.4. A revelação na Idade Média II.5. Concílio de Trento II.6. Vaticano I II.7. Vaticano II: Dei Verbum III. A REVELAÇÃO NA HISTÓRIA .........................................................................................................................13 III.1. Revelação primitiva III.2. A revelação em Israel. III.2.2. Moisés III.2.3. O profetismo e a Monarquia III.2.4. A revelação do Antigo Testamento. III.3. Cristo, plenitude da revelação III.3.1. Cristo revelador e plenitude da revelação III.3.1.1. Cristo mediador III. 3.1.2. Cristo, revelação plena de Deus III.3.2. Revelação e encarnação. III.3.3. A revelação na Cruz e ressurreição III.3. A ação do Espírito Santo IV. A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO .................................................................................................................17 IV.1. Os apóstolos na transmissão da revelação IV.1.1. Os “Doze”, os apóstolos IV.1.2. Os Apóstolos, testemunhas da Revelação de Cristo IV.1.3. Os Apóstolos ensinados pelo Espírito Santo IV.1.4. A missão apostólica
  3. 3. 3 IV.1.5. A Transmissão apostólica da Revelação IV.1.6. Encerramento da RevelaçãO IV.1.7. O depósito da fé IV.2. A revelação entregue à Igreja IV.2.1. A fé apostólica na Igreja IV.2.2. A revelação confiada à Igreja IV.2.3. Modo divino-humano da transmissão da revelação IV.2.4. A “inteligência da fé” da Igreja: “sensus fidei” e magistério IV.2.4.1. O “sentido da fé” como intérprete da revelação crida. IV.2.4.2 O magistério da Igreja, intérprete autêntico da revelação IV.2.5. A indefectibilidade da Igreja V. NATUREZA DA REVELAÇÃO ............................................................................................................................21 V.1. Revelação e salvação V.2. O chamado do homem à comunhão com Deus, pressuposto e fim da revelação. V.3. Revelação natural, histórica e escatológica. V.3.1. Revelação natural V.3.2. Revelação histórica V.3.3. Revelação escatológica V.3.4. Luz do conhecimento da revelação VI. A REVELAÇÃO, ATO COMUNICATIVO .............................................................................................................23 VI.1. A revelação como palavra e como encontro VI.1.1. Palavra VI.1.2. Encontro VI.2. A experiência da revelação VI.3. O plano da revelação VI.4. Complementaridade de ações e palavras VII.TRANSCENDÊNCIA E SOBRENATURALIDADE DA REVELAÇÃO........................................................................24 VII.1. A verdade da revelação VII.4. Noção teológica de mistério VIII. A FÉ ............................................................................................................................................................26 VIII.1. A fé na Sagrada Escritura. VIII.1.1. A fé no Antigo Testamento. VIII.2.2. A Fé no Novo Testamento VIII.3. Tradição e magistério sobre a fé VIII.3.1. Até o século VI. VIII.3.2 Idade Média VIII.3.3 Séculos XVI ao XIX.
  4. 4. 4 IX. FÉ HUMANA E FÉ DIVINA .............................................................................................................................29 IX.1. A fé humana. IX.2. Estrutura epistemológica da fé IX.3. Entendimento e vontade IX.4. A fé quanto conhecimento. IX.5. A fé em Deus: caráter teologal da fé. IX.5. Credere Deum (que Deus), Credere Deo ([a] Deus), Credere in Deum (em Deus). IX.6. Caráter eclesial da fé. X. A FÉ, DOM DE DEUS E COMPROMISSO DO HOMEM ..................................................................................32 X.1. Propriedades do ato de fé. X.2. Motivo e motivos da fé. X.3. Graça e liberdade no ato de fé. XI. REVELAÇÃO E RELIGIÃO..............................................................................................................................33 XI.1. História da questão XI.1.1. Novo Testamento XI.1.2. Os Padres XI.1.3. Idade Média XI.1.4. A Ilustração XI.2. A polêmica sobre a religião no protestantismo. XI.3. A teologia católica XI.4. O magistério da Igreja XI.5. Vaticano II XI.7. Reflexão Teológica XII. A FALTA DE FÉ ............................................................................................................................................37 XII.1. Delimitação de conceitos XII.2. Origens da falta de fé XII.2.1. Ateísmo no período pré-cristão e não cristão XII.2.2. A crítica da revelação: Idade moderna XII.3. Crítica da religião e revelação: O ateísmo moderno XII.3.1. Os Hegelianos XII.3.2. O ateísmo em nome dos valores e da liberdade. XII.3.3. O ateísmo em nome da ciência XII.4. Raízes antropológicas da falta de fé XII.5. Fenomenologia da falta de fé contemporânea XII.5.1. Secularização XII.5.2. Indiferença XII.5.3. Agnosticismo e Deísmo XII.6. Magistério da Igreja
  5. 5. 5 XII.7. A teologia diante da falta de fé XII. 8 . Vias de acesso ao conhecimento de Deus. XII.9. A possibilidade da revelação: pressupostos teológicos e antropológicos XIII. A CREDIBILIDADE DA REVELAÇÃO (Nível Objetivo) ....................................................................................43 XIII.1.1. A credibilidade pelos sinais na Sagrada Escritura XIII.1.2. As apologias patrísticas XIII.1.3. A credibilidade no Magistério XIII.2. Noção teológica de credibilidade XIII.3. Os sinais de credibilidade XIV. A RACIONALIDADE DA FÉ (Nível subjetivo) ..............................................................................................45 XIV.1. Raízes da fé na psicologia humana XIV.2. Racionalidade e Liberdade XIV.3. Os signos de credibilidade XV. O MILAGRE .................................................................................................................................................46 XV.1.1.Sagrada Escritura XV.1.2. Nos Padres XV.1.3. A crítica ilustrada XV.1.4. Magistério XV. 2. Essência do milagre: XV.3. Teologia do milagre XVI.1. A PROFECIA .............................................................................................................................................48 XVI.2. O sentido bíblico de profecia XVII. CRISTO, SINAL PRIMORDIAL DE CREDIBILIDADE. O ACESSO HISTORICO A JESUS ....................................48 XVII.1. Fontes do conhecimento histórico sobre Jesus XVII.1.1. Testemunhos extra-bíblicos XVII.1.1.1. Fontes romanas XVII.1.1.2. Fontes judias XVII.1.1.3. Os evangelhos apócrifos XVII.1.2. Testemunhos do Novo Testamento XVII.2. O conhecimento histórico de Jesus através dos evangelhos XVII.2.1. Sim a Jesus, não a Cristo XVII.2.2. Não a Jesus, sim a Cristo XVII.2.3. Sim a Jesus o Cristo XVII.3. Historicidade dos evangelhos XVII.3.1. O conhecimento histórico XVII.3.2. Princípios de interpretação XVII.3.2.1. O princípio dogmático
  6. 6. 6 XVII.3.2.2. O princípio literário XVII.3.2.3. O princípio histórico XVII.4. Critérios de autenticidade histórica XVII.4.1. Critérios fundamentais XVII.4.2. Critério secundário ou derivado XVII.4.3. Critérios mistos XVII.4.3.1. Inteligibilidade interna do relato XVII.4.3.2. Interpretação diversa e acordo de fundo XVIII. CRISTO, SINAL PRIMORDIAL DE CREDIBILIDADE (II) A CONSCIÊNCIA DE JESUS: MESIAS E SENHOR ......53 XVIII.1. Os títulos cristológicos XVIII.1.1. Messias XVIII.1.2. Filho do Homem XVIII.1.3. Filho de Deus XVIII.2. A autoridade de Jesus XVIII.2.2. Jesus e o reino XVIII.2.3. A Autoridade de Jesus XVIII.3. Os milagres de Jesus XVIII.3.1. Os milagres nos evangelhos XVIII.3.2. Historicidade dos milagres XVIII.4 Jesus diante da morte XVIII.4.1. Historicidade da morte em cruz de Jesus XVIII.4.2. Por que foi Jesus condenado XVIII.4.3. A previsão de Jesus sobre sua própria morte XVIII.4.4. O sentido que Jesus deu a sua própria morte XIX. A RESSURREIÇÃO DE JESUS .....................................................................................................................58 XIX.2. O testemunho apostólico XIX.3. O sepulcro vazio e as aparições XIX.3.1. As aparições XIX.4. Em que sentido é histórica a ressurreição? XX. A IGREJA DE CRISTO, SINAL DE CREDIBILIDADE ........................................................................................60 XX.1. A “Eclesiologia Fundamental”: História da questão XX.2. A fundação da Igreja XX.2.1.2. Teologia contemporânea XX.2.2. Magistério da Igreja XX.2.3. A fundação da Igreja por Jesus XX.2.3.1. Jesus e a Igreja XX.2.3.2. O Reino de Deus XX.2.3.3. O novo Povo de Deus XX.2.3.4. Os Doze XX.2.3.5. Pedro XX.2.3.6. A Ceia
  7. 7. 7 XX.2.4. Cristo, fundamento da igreja XX.3. A Igreja, sinal XX.3.1. Via notarum XX.3.2. Via empírica XX.3.3. Igreja como sinal unido a Cristo XX.3.4. Os sinais da Igreja XX.3.5. A santidade da Igreja NATUREZA DA TEOLOGIA FUNDAMENTAL I. Origem real e histórica. Origem real. É o resultado da pergunta do crente por seu próprio ser e situação de fiel. Teologia fundamental. Uma reflexão sistemática e científica a partir da atitude espontânea que surge em todo fiel: a fé que procura entender (fides quaerens intellectum). Origem histórica. Nasce a partir da apologética. Este nome substituiu o de apologética, como uma nova orientação de sua tarefa, motivada pela evolução da ciência, a cultura e o pensamento filosófico e teológico. I.1. História Novo Testamento: Mostra claramente a intenção de dar razão da fé já que tendem a demonstrar a judeus e pagãos que Cristo é Messias. Juan (10, 37): Jesus apela a suas obras como provas de sua origem no pai. Os quatro evangelhos apresentam a história de Jesus como o desígnio claro de levar à fé nele como Messias At 2,32 acentua o valor demonstrativo das aparições depois da ressurreição. Pablo em At 17, estabelece uma relação entre a religião dos atenienses e seu pregação. A carta magna da apologética é 1 Pd 3,15: “Sempre dispostos a dar razão da esperança a quem vos peça contas dela”. No NT o anúncio de Jesus é um anúncio situado que tem em conta os ouvintes concretos, a cuja racionalidade apela como caminho para chegar à fé. a) Os Santos Padres
  8. 8. 8 Século II. Três destinatários: (1) os imperadores e autoridades civis, em defesa das acusações contra os cristãos, (2) os judeus e pagãos para convencê-los de seus erros, (3) os mesmos cristãos para confirmá-los na fé no meio das provas. Século V. Santo Agostinho: De Vera Religione, De Utilitate Credendi e De Civitate Dei. É o iniciador de uma linha apologética que procura no interior do homem, no coração inquieto, o ponto de conexão para levar o outro à fé. b) Idade Média. Na sociedade medieval todos são cristãos. O impulso apologético decai. Santo Tomás de Aquino: Summa contra gentis, Summa Theologiae. Na Summa contra gentis distingue as verdades sobre Deus que são acessíveis à razão e as reveladas por Deus que excedem o alcance do entendimento humano. Há que mostrar que as verdades de fé não são opostas à razão natural c) O humanismo e a Reforma Há novas descobertas geográficas (s. XIV e XV), uma nova valoração de épocas pré-cristãs como as civilizações romana e grega. Isto propõe a elaboração de tratados De Vera Religione: Marsilio Ficino (1433-1499) A razão vai sendo um princípio que atua independentemente da fé. Influências da Reforma protestante: (1) a pergunta pela verdadeira religião se prolonga agora na pergunta pela verdadeira Igreja de Cristo, (2) diferente importância dada à relação da razão com a fé. Princípio “sola Scriptura”: só a Escritura é fonte de conhecimento teológico, não o Magistério nem a Tradição. A razão se desenvolve autonomamente, e acaba entregada ao juízo e opinião pessoais e ao subjetivismo: (a) interpretação pessoal, (b) fundamentalismo: toma-se literalmente e não há nada que interpretar. Princípio “sola fides”: somente a fé salva, uma fé sem apoios ou fundamentos racionais, puro abandono e confiança, a fé não é algo razoável; não se podem ter razões para crer. Estrutura-se então um Esquema Apologético: Três argumentos para demonstrar três verdades. (1) argumentação religiosa para demonstrar que Deus existe (De Religione ), contra os céticos (2) argumentação cristã para demonstrar que Deus falou através de Cristo (De Vera Religione), contra judeus e mulçumanos e (3) argumentação católica para demonstrar que Deus fundou a Igreja Católica por meio de Cristo (De Vera Ecclesia Christi), contra os protestantes e *acatólicos. Este esquema está vigente mais ou menos assim até hoje. A obra de Pierre Cahrron (1541-1603) Dês Trois Verites é um primeiro delinear-se das três demonstrações: a religiosa, a cristã e a católica. Fontes. Necessidade de responder aos protestantes sobre a Tradição e Magistério como “lugares” (fontes) dos que a Teologia podia extrair seu conhecimento da revelação. Melchor Cano: De locis theologicis d) Séculos XVII-XVIII. A apologética agora será a união dos dois tratados: o das três demonstrações e o de locis. A mudança de ponto de partida na filosofia (separação fé-razão) acabou afetando diretamente à
  9. 9. 9 teologia. A filosofia vai considerando progressivamente injustificável racionalmente a teologia. A Ilustração (só o que se apóia na razão vale) polarizou a apologética fazendo que se orientasse a demonstrar o caráter veritativo da fé, isto é, que a revelação é verdade. Depois de Kant, o racionalismo da Ilustração começa a ser idealismo, isto é, uma filosofia do sujeito e do espírito. A fé numa revelação não pode ser já resposta a algo objetivo que vem de fora do sujeito. As possibilidades são: (1) agnosticismo: não se pode afirmar nem que Deus existe nem que não existe; (2) panteísmo; (3) a redução da revelação a filosofia, da fé a conhecimento racional. e) Século XIX Século da apologética, atravessado pelo problema da relação fé-razão. Vaticano I. Constituição dogmática sobre a fé Dei Filius: ocupou-se da revelação, da fé e das relações entre fé e razão. f) Século XX M. Blondel: “método de imanência”: o verdadeiramente importante não é uma demonstração intelectual da origem divina do cristianismo, sobre a base de argumentos extrínsecos, mas dar atenção ao conjunto de disposições interiores do sujeito. Cultiva-se a apologética clássica: Gardeil, Garrigou-Lagrange, Bainvel, Tanqueray, Nicolau. I. 2. Panorama das concepções mais importantes de Teologia Fundamental. Objeto: não é tudo o relacionado com a fé, sim são as realidades de caráter fundamental: A REVELAÇÃO, A FÉ e a Credibilidade, que faz possível que a revelação chegue ao mesmo homem. Método: (1) apologético: racional mas sem prescindir da fé (2) dogmático: a partir da fé, tomando a Escritura, a Revelação e os documentos da Igreja. Credibilidade. A partir do aspecto apologético, adquire relevo esta propriedade da revelação. Cinco pontos de referência. (1) revelação, (2) fé, (3) credibilidade, (4) método dogmático, (5) método apologético. I. 2b. Duas “formas” essenciais de Teologia Fundamental *Teologal. Considera como elemento fundamental o fato da revelação divina entendida como mistério e dom de Deus. A fé como resposta é necessária. Atende primeiramente à Sagrada Escritura e à Tradição. A mediação eclesial tem lugar através do Magistério e do sensus fidei. Estuda também a credibilidade, considerando o espírito humano em sua dimensão cognoscitiva. Na linha de Dei Verbum. Teologia Fundamental desde acima, da ação de Deus à recepção humana. *Antropocêntrica. Enfrenta a análise do espírito humano chamado a acreditar na revelação de Deus. Reflete sobre as formas e categorias que determinam a atividade-receptividade do sujeito. Com isto se consideram as condições de possibilidade de toda revelação. Teologia Fundamental desde abaixo.
  10. 10. 10 I.3. O objeto da Teologia Fundamental I. 3. 1. A revelação, objeto primário. Objeto primário: A REVELAÇÃO em quanto tal. Constituída pela revelação da pessoa, as obras e palavras de Jesus Cristo. Não é só um conceito que se determina formalmente, senão que é a autocomunicação pessoal e livre de Deus aos homens; é Deus que vai ao encontro do homem para salvar-lhe e introduzir-lhe em sua vida divina. A revelação não supõe o desaparecimento do mistério de Deus, senão que representa ao mesmo tempo a máxima aproximação a Deus e a máxima transcendência. A revelação é sobrenatural, dom gratuito de Deus, realidade divina. I.3.2. A credibilidade como objeto da Teologia Fundamental. É necessário que entre a revelação e o espírito humano se dê uma descontinuidade (porque se não pertenceria ao mundo do naturalmente conhecível) e uma continuidade (caso contrário não poderia ser conhecida). A revelação apela ao homem histórico com vocação sobrenatural, diante do qual se apresenta como uma oferta e uma resposta perfeitamente adequada ao que ele precisa. Interroga ao nível de sua razão, de sua existência pessoal e de sua vida em sociedade. Apresenta-se como credível (digna de fé porque responde à busca da verdade plena). A revelação exige o homem saia de si mesmo e responda com a entrega da fé, entrega orientada não só ao futuro, mas também ao presente. I. 3.3. Pressupostos dogmáticos. Deus. O Deus que se revela é o Deus absconditus a quem ninguém viu jamais, Deus misterioso que se manifesta como Pai através de seu Filho encarnado por meio do Espírito Santo. Esta revelação de Deus só tem lugar pelo amor e a misericórdia. Homem. O homem, caído e necessitado, está chamado com uma vocação sobrenatural à vida divina. Criação e revelação. A revelação não está no mesmo plano que a criação. A revelação não se situa na ordem do devido e sim do gratuito, não vem limitar a natureza ou corrigi-la, mas dar a conhecer o amor de Deus a suas criaturas e o âmbito divino ao que foram elevadas. I.3.4. Conseqüências metodológicas. Método fundamentalmente dogmático: aquele proceder que considera como fontes do conhecimento teológico da revelação a Sagrada Escritura e a Tradição recebidas e interpretadas na fé da Igreja. Na prática se utilizará também o método apologético, sobretudo ao tratar da credibilidade. O método apologético se caracteriza por procurar um discurso da fé, que seja válido ao ser dirigido a quem não têm fé. Também se adiciona uma verdadeira análise fenomenológica do espírito humano. II. CONCEITO GERAL DE REVELAÇÃO II.1. Os elementos básicos sobre a revelação A revelação é a autocomunicação de Deus ao homem, que implica a vontade amorosa de Deus de entregar o mistério de sua vida aos homens.
  11. 11. 11 II.2. Vocabulário bíblico sobre a revelação Antigo Testamento: não existe propriamente o conceito de revelação divina (se consideram as palavras e ações de Deus como um todo). A revelação de Deus se descreve como uma presença e uma palavra de Deus através de: teofanias (Ex 24,16ss: o Sinai; Ex 40,34), de manifestação de Deus em forma humana (Abraão: Gen 18), em acontecimentos históricos (saída de Egito Sl 77,15-21). A revelação de Deus no Antigo Testamento tem lugar através de sua palavra, a revelação é fundamentalmente ouvida. O Dabar Yahwé se designa como palavra de Deus Não só signo lingüístico da realidade mediante o conhecimento, mas uma realidade expressiva e cheia de energia. Implica a idéia de projeção para adiante do que está detrás, no coração (Gn 12,17) e de “dizer” (Sl 45,2; Gn 11,1). É o que sai da boca ou dos lábios, mas tem sua origem no coração. O conteúdo da palavra não é só a expressão de uma idéia, mas uma verdadeira comunicação pessoal pelo que o sujeito se introduz de alguma maneira em sua palavra, dando-lhe assim uma força e eficácia que se convertem em fidelidade. Debar Yahwé: 242 vezes no Antigo Testamento. Modo de comunicar algo (sentido noético) e primeiro momento do desígnio salvador de Deus, quando Deus se dá a conhecer (sentido dinâmico). ´amar *Yahwé: 90 vezes. Originalmente “ser claro”, depois passou a significar “dizer”. A palavra dita, a manifestação visível do interior da coisa (Sl 19, 3 ss; Job 22,28). Novo Testamento: também não aparece um termo que englobe a revelação de Deus. Ainda que, o desvelar-se de Deus (1 Tm 6,16) segue-se dando pela palavra. Sinópticos: o que Cristo faz é pregar (khruvssein) ou evangelizar (eujaggelivzeqai), ensinar (didavskein), revelar (ajpokaluvptein). Prevalecem: pregar (khruvssein) e ensinar (didavskein). São Paulo: Esquema fundamental: mistério e evangelho. O mistério revelado de Deus constitui a boa nova da salvação. Distingue entre a ação de Deus e dos Apóstolos. São João: não aparece “revelar”, “pregar” nem “evangelizar”, senão “testemunho” (marturiva) 13 vezes II.3. Padres da Igreja Sua reflexão nos três primeiros séculos se caracteriza por: (1) caráter não sistemático (2) a revelação era uma novidade de vida trazida por Cristo (3) Jesus Cristo ocupa o centro do que os Padres afirmam sobre a revelação As constantes na apresentação patrística da revelação são as seguintes: 1) Deus saiu de seu mistério e manifestou-se aos homens. 2) A revelação de Deus significa que o Pai deu a conhecer seu mistério por Cristo. 3) O plano da revelação, responde a uma ação pedagógica de Deus (Santo Ireneu, Clemente, etc.) é uma condescendência (sugkata) de Deus. 4) A revelação de Deus tem caráter histórico, 5) A revelação de Deus é diferente das “novitates” dos hereges, revelação que se transmite, “parádosis”. O critério indicador da interpretação autêntica é o da apostolicidade. II. 4. A revelação na Idade Média A revelação equivale à Sagrada Escritura. Identificam revelação com a Bíblia. Não há distinção entre revelação e inspiração. Conceito formal de revelação: a revelação de Deus se caracteriza porque supera a capacidade da razão humana.
  12. 12. 12 Há uma aceitação da filosofia aristotélica. A filosofia e teologia são platônica, pela influência de Santo Agostinho: o homem está feito para a verdade e toda verdade lhe aperfeiçoa. Não há diferença entre iluminação de um conhecimento ou de outro, o que deu lugar a uma mútua assimilação entre cultura e revelação, o cristianismo se considerava como a verdadeira sabedoria. A revelação se dá como um ensinamento divino: Deus é o mestre que ensina aos homens o fim que atribuiu à vida humana e como quer conduzir essa vida a seu fim. O homem aceita, crê essa instrução divina. A revelação: o revelado é aquilo cuja verdade se afirma além e independentemente do alcance da razão. II. 5. Concílio de Trento Os postulados teológicos do protestantismo acabaram afetando a noção de revelação, pelo qual interveio o Concílio de Trento. Aspectos particulares da interpretação protestante: (1) a redução de fato e explícita, do papel da razão no conhecimento de Deus; o único conhecimento de Deus que interessa é o que nos vem pela revelação de Jesus Cristo (2) a fé fiducial: A única fé que justifica é a “fé-confiança”. Crer é entregar-se a um Deus externo ao homem, um Deus juiz que por graça olha ao homem com benevolência e perdão. Princípio da Sola Scriptura: a Sagrada Escritura é a única regra de fé, e sua interpretação a realiza o indivíduo com a assistência do Espírito Santo. A fé não conta já com a mediação da Igreja. Abre-se um caminho para o subjetivismo e o racionalismo. Concílio de Trento: Sobre a doutrina da Sagrada Escritura e a Tradição, e a natureza da fé. 1) Decretum de libris sacris et traditionibus recipiendis: sessão IV (8 de abril de 1546). O Concílio utiliza o termo Evangelho para designar a revelação. A Igreja ensina: (1) recebeu a boa nova anunciada pelos profetas, promulgada por Jesus Cristo e pregada pelos Apóstolos a toda criatura. O Evangelho é a fonte única de toda verdade saudável e de toda disciplina de costumes. (2) a verdade salvífica e a lei do atuar moral, cuja fonte única é o Evangelho, contém-se nos livros sagrados e na tradições não escritas. (3) recebe com igual piedade e reverência os livros do Antigo Testamento e do Novo Testamento e as tradições não escritas que procedem da boca de Cristo ou do ditado do Espírito Santo e se conservam na Igreja Católica mediante a sucessão apostólica. 2) Decretum de iustificatione (sessão VI, 13 de janeiro de 1547) Cap 5: necessidade da graça e da livre cooperação do homem com a ação divina. Cap 6: atuação da fé para a justificativa : II. 6. Vaticano I Dei Filius: Antes de tratar do conhecimento natural de Deus e da revelação desenvolve, no capítulo I o ensino sobre a criação. Afirma a distinção de Deus respeito ao mundo, e que Deus o criou livremente e não para atingir maior perfeição. Frente ao deísmo afirma que Deus cuida e governa o mundo com sua providência.
  13. 13. 13 Capítulo 2 (De revelatione) Afirma a cognoscibilidade natural de Deus. A revelação é afirmada como ação que manifesta o se de Deus. A revelação é um ato de amor (bondade) e de ensino (sabedoria); é um ato de transmissão do conhecimento que Deus tem de si mesmo e de seu desígnio salvador sobre os homens. São verdades que podem ser conhecidas pela razão, e que graças a que foram reveladas podem ser conhecidas “por todos, facilmente, com firme certeza e sem mistura de erro”. A revelação é absolutamente necessária para participar dos bens divinos aos que o homem está chamado, e que superam absolutamente à inteligência humana (D.3005/1786). Capítulo 3 (De fide) A revelação em relação com a razão: Pela fé cremos que “são verdadeiras as coisas reveladas por Deus não pela intrínseca verdade das coisas conhecidas com a luz natural da razão, senão pela autoridade do mesmo Deus que se revela, que não pode nem enganar-se nem enganar-nos” (D.3008/1789). A revelação é uma comunicação realizada por Deus que é aceita pela autoridade do mesmo Deus que se revela e não pela evidência da manifestação. II. 7. Vaticano II: Dei Verbum Constituição Dogmática Dei Verbum: promulgada oficialmente o 18 de novembro de 1965, recolhe o termo revelação divina, tema central da Teologia. II. 7.a. Perspectiva de Dei Verbum Situa-se no rastro dos concílios de Trento e Vaticano I. Quis oferecer uma apresentação completa sobre a revelação. Dei Verbum consta de cinco capítulos, dos quais a Teologia Fundamental se interessa pelo capítulo I (De ipsa revelatione) e II (De divinae revelationis transmissione), e mais em concreto pelos números 2-7. Descreve sumariamente a natureza da revelação (nº 2), a revelação no povo de Israel (nº 3), em Cristo (nº 4). Só depois de tratar da fé (nº 5) refere-se ao conhecimento de Deus pela criação (nº 6). No nº 7, já dentro do capítulo II, sobre a transmissão, trata-se do papel dos Apóstolos, o qual serve de introdução ao ensino sobre a Tradição e as relações entre Sagrada Escritura, Tradição e Magistério (nº 8-10). II. 7. b. Natureza e objeto da revelação (Dei Verbum 2) A revelação não é uma mera comunicação de uma mensagem, mas um encontro no que Deus fala como um amigo e convida a entrar em sua companhia: auto-comunicação de Deus ao homem. Há uma centralidade teologal da revelação divina: não se trata já de uma realidade que se define por sua relação negativa com outra, mas pelo mesmo mistério de Deus que se apresenta e fundamenta desde si mesmo, e cuja ação entre os homens não tem outra razão de ser que sua liberdade. O mistério de Deus é sua vida íntima, trinitária, manifestada por Cristo, e à qual os homens têm acesso pelo mesmo Cristo no Espírito. A autocomunicação de Deus não implica somente a abertura e manifestação de alguns atributos de Deus, mas também do desígnio salvador de Deus. A revelação de Deus é apresentada desde o princípio numa essencial união com a salvação. A revelação responde a um plano, a uma economia, que se administra pelas palavras e fatos (gesta, verba), intrinsecamente conexos entre si. Os fatos e as palavras evocam a “bondade e sabedoria” de Deus que se manifestam na revelação inseparavelmente unidas. A revelação tem lugar na história, como história de salvação, e ao mesmo tempo é uma comunicação de verdade. Os fatos “manifestam e confirmam a doutrina”. Inseparabilidade entre gesta e verba: característica sacramental da revelação. Através das palavras e dos fatos, é o mistério de Deus o que se entrega. Autocomunicação que tem sua plenitude em Cristo “mediador e plenitude de toda revelação”, palavra feita carne.
  14. 14. 14 III. A REVELAÇÃO NA HISTÓRIA A característica fundamental da autocomunicação divina é a liberdade. Deus interveio na história, em lugares e tempos determinados. O concílio se refere em primeiro lugar ao “testemunho perene de si mesmo nas coisas criadas” que Deus dá na criação e conservação (DV 3). Deus se manifestou pessoalmente desde o princípio aos primeiros pais. Depois da queda, alentou neles a esperança da salvação. A ação de Deus é dupla: com respeito ao gênero humano: “um cuidado incessante… para dar a vida eterna a todos os que procuram a salvação com a perseverança nas boas obras (cfr. Rm 2,6-7) (DV 3); quando à promessa “de redenção”, começa a se realizar por meio do povo de Israel, ao que Deus elege e mediante o qual atua na história e dá a conhecer seu plano de salvação. III.1. Revelação primitiva O magistério da Igreja não se pronunciou nunca sobre a revelação primitiva como tal. A revelação histórica começa propriamente com a vocação de Abraão (Gn 12). Os relatos anteriores (Gn 1-11) formam a revelação das origens, uma “protología”. III.2. A revelação em Israel. Começa com Abraão. A partir dele, todo o Antigo Testamento recolhe as relações de Deus com o povo que se origina no patriarca. A revelação a Abraão começa como uma vocação acompanhada de uma promessa. Abraão responde com fé: marcha de sua terra (Gn 12,4), e crê a promessa recebida de Deus (Gn 15,6). Revela-se uma promessa cujo correlato é a obediência da fé. Da revelação a Abraão nasce o Povo de Israel, o Povo de Deus. Deus sela a constituição do Povo com uma Aliança cujo conteúdo é uma relação de fidelidade: Deus será sempre fiel a sua promessa, e a mudança exige que o Povo lhe reconheça como único Deus (Gn 17,3-8). A revelação de Deus se mostra inseparavelmente unida à salvação: o Deus que se revela é um Deus salvador (Gn 15,14-16). “Por ti serão abençoadas todas as linhagens da terra” (Gn 12,3). A eleição de Israel é, desta maneira, o começo de um cuidado mais intenso de todas as nações. Destino universal da bênção de Deus. III. 2.2. Moisés Deus se manifesta a Moisés para cumprir a Aliança feita com o Povo. A ocasião é a escravidão e o aniquilamento a que estão sendo submetidos os israelitas no Egito. Na teofania da sarça ardendo (Ex 3), Deus se revela a Moisés como o Deus vivo da história: o “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob” (Ex 3,6; 6,3), o Deus da Aliança que vai cumpri-la; e ao mesmo tempo se revela pela primeira vez como Yahwé, como O que é, (“Eu sou o que sou”; “Eu sou” me enviou a vocês»: Ex 3,14, cfr. Ex 6,3). À revelação de Deus lhe acompanha o chamado a Moisés, o envio para cumprir uma missão: “Eu te envio a Faraó para que tire o meu povo” (Ex 3,10). A ação salvadora e reveladora de Deus se mostra com as palavras e as ações. Estes fatos são, por um lado, realização da promessa inicial, mas por outro, não são a realização definitiva, mas somente sua figura.
  15. 15. 15 No Sinai, Deus confirma solenemente a Aliança com Israel e determina os conteúdos nos que a fidelidade do Povo se deve expressar: “as dez palavras”, a Torah (Ex 20-24). A partir desse momento, Deus quer habitar no meio de seu Povo (a Arca da Aliança). A resposta do Povo à Aliança não está isenta de traições (Ex 32). III. 2.3. O profetismo e a Monarquia: Yahwé segue sendo o único Deus e Senhor de Israel, mas seu governo se realiza através de um mediador. É o rei que tem uma particular relação com Deus. Tem lugar a construção do Templo, fenômeno histórico do que se serve Yahwé para conduzir o Povo para um sentido mais pleno de sua presença e do culto que lhe deve. As tentações dos reis de Israel são o esquecimento, a apostasia e a infidelidade à Aliança. Deus decide pôr fim a Israel como povo. Por volta do ano 600 a.C. Israel é deportado a Babilônia. É neste momento quando o profetismo adquire toda sua importância. A revelação de Deus pelos profetas começa com o chamado dos mesmos profetas por parte de Yahvé: Ele chama para que transmita sua palavra e a interprete ante os homens. Experimentam a ação da palavra de Deus, que tem eficácia exterior. É a boca de Yahvé (Jer 15,19), através da qual Deus proclama sua mensagem aos homens. Interpretam a história reclamando ao povo a fidelidade à Aliança. Época do desterro: a voz dos profetas se faz clamor, desvelam o sentido dos acontecimentos (sua infidelidade). O povo deve preparar-se para a vinda do Messias, Yahvé fará uma nova aliança no interior do homem que atingirá todos os povos. (Is 19,19 ss; 55,3; sobretudo Jer 31,31-34). III.2.4. A revelação do Antigo Testamento. Características: a) A revelação do Antigo Testamento é a revelação da promessa. A revelação-promessa faz que o passado seja signo do que vai vir, do que chegará com o Novo Testamento. b) Verdadeira revelação de Deus. Deus se dá a conhecer como Senhor (El Sadday), único Deus, ser vivo que escuta, Criador de céu e terra. Deus se dá a conhecer como Deus glorioso. c) A revelação é histórica. Deus intervém na história através dos fatos. Cumprimento e ao mesmo tempo expectação são os elementos da experiência reveladora e salvadora de Israel. d) A revelação de Deus no Antigo Testamento chega ao Povo através de mediadores (profetas), que falam as palavras de Deus aos homens e) O Antigo Testamento conhece uma revelação de Deus que se dá a conhecer a todo homem através da criação e do sentido moral. III.3. Cristo, plenitude da revelação Cristo completa a revelação e confirma a salvação do pecado e da morte. Dei Verbum fala de uma centralização teologal da revelação (é trinitária). A revelação é o encontro com o mistério de Deus vivo que se entrega e se dá a conhecer aos homens. É o Pai que no Espírito se revela pelo Filho: “Por Cristo, a Palavra feita carne, no Espírito Santo, se tem acesso ao Pai e se fazem partícipes da natureza divina” (Dei Verbum 2). A auto-comunicação de Deus acaba abrindo o mistério íntimo de Deus (intima Dei: DV 4).
  16. 16. 16 III.3.1. Cristo revelador e plenitude da revelação Concílio: Cristo é “ao mesmo tempo mediador e plenitude de toda a revelação” (Dei Verbum 2), isto é, revelador e revelação de Deus ao mesmo tempo e necessariamente. Partindo de que Jesus Cristo pertence a Deus e aos homens, é possível abordar a revelação de Deus que ele é tomando em conta tanto seu caráter de mediador (forma da revelação) como de plenitude da revelação (conteúdo da revelação). III.3.1.1. Cristo mediador Afirmação fundamental: Cristo é o revelador de Deus, mediador perfeito da revelação já que como Verbo de Deus que se encarnou é Deus eterno e homem perfeito; realiza as obras de Deus; fala do que viu; conhece a Deus e sabe o que há no homem. Revelação veterotestamentária: parece excluir em princípio uma revelação do Deus Trino já que afirma que Yahvé é único e um. A resposta a dá o Novo Testamento: Cristo, o Filho de Deus, é o “Tu” eterno do Pai, os homens são em Cristo “tu” de Deus. A revelação cujo Mediador é Jesus Cristo apresenta uma forma trinitária, tem lugar como revelação de tal modo que aparece claro que a Trindade, além de conteúdo, é princípio formal da mesma revelação. Desde fora de Deus não há acesso à profundidade de seu mistério, só se abrem desde dentro, por seu Filho. Por Cristo a invisibilidade do Pai se faz visível. III. 3.1.2. Cristo, revelação plena de Deus A revelação é revelação do mistério, autocomunicação que o Pai faz do mistério do próprio ser. O mistério que Deus dá a conhecer: “mistério de sua vontade” (Ef 1,9), desígnio salvador de Deus que nos *predestina a ser seus filhos por Jesus Cristo (Cfr. Ef 1,14). Não é outro que o “mistério de Cristo” (Ef 3,4). Em Cristo, Deus se dá a conhecer como Pai e salvador. A revelação do amor de Deus em Cristo é já salvadora, sua verdade é verdade salvadora. A resposta a essa revelação é a aceitação de Cristo, não só de uma doutrina, senão do mistério de Deus que chama a participar em sua própria vida divina. Cristo revela ao Pai quanto que é o Filho e o Verbo eterno. É autêntica revelação de Deus: quanto Filho, Cristo é a glória de Deus; quanto Verbo, sua verdade. Cristo-Filho: Em S. Juan se expõe o modo como o Filho é a revelação do Pai: “Se me conhecêsseis, conheceríeis também a meu Pai” (Jo 8,25); ou “o Pai e eu somos um” ( Jo 10,30); ou finalmente, “quem me vê a mim vê ao Pai” (Jo 14,9). O texto mais claro é Jo 17: Jesus deu a conhecer a seus discípulos o Nome do Pai (Jo 17,6), e o deu a conhecer através de Si mesmo. A manifestação do Nome do Pai é a mesma pessoa de Cristo que equivale a glorificar ao Pai. A revelação de Cristo como Filho consiste em fazer visível ao Pai, dar a conhecer seu Nome e comunicar a salvação. Cristo-Verbo:O termo Logos aparece somente três vezes no Novo Testamento (Jo 1,1; 1Jn1,1-2; Apoc 19,13). No seio de Deus há já um falar eterno. Desde a eternidade o Pai diz sua Palavra, que é seu Filho; fala de uma forma única, estabelecendo ao mesmo tempo unidade e distinção eternas, comunicação mútua absoluta no espírito Santo. O Logos é a verdade, o que nos dá a conhecer a mesma verdade porque é a Palavra do Pai, o Filho único que vive no seio do Pai e, ao mesmo tempo, a síntese da revelação “Verbo vivente da verdade divina” Quanto Verbo aponta à
  17. 17. 17 interioridade do Pai, a seu mistério e à liberdade de sua manifestação. Por isso, a verdade que o Verbo comunica é sempre a verdade do amor de Deus. III.3.2. Revelação e encarnação. “O Verbo se fez carne” significa que o Verbo eterno entrou na história, fez-se palavra histórica, próxima aos homens. Em Cristo, a revelação de Deus que tem lugar “pela palavra e fatos intrinsecamente unidos” (Dei Verbum 2) , é Palavra feita carne, é mais do que mensagem, é um fato, carregado de significação. A autocomunicação de Deus culmina na encarnação do Filho-Logos. É a suprema comunicação de Deus à criatura intelectual, por isso, a função reveladora está necessariamente incluída na mesma constituição de Cristo, e se compreende à luz de alguns dados fundamentais: *realismo do ser humano de Cristo *caráter pessoal de Cristo como Filho de Deus, imagem de seu ser divino, palavra eterna do Pai *a encarnação como apropriação de nosso ser humano pelo Filho de Deus *experiência religiosa própria do homem Jesus como Filho de Deus: nela vive o mistério de sua filiação divina. *o testemunho de Cristo como auto-revelação pessoal de Deus aos homens. A encarnação é o ponto crucial onde o divino e o humano se articulam de acordo com uma estrutura sacramental que regula não só a comunicação da graça, senão a mesma revelação de Cristo. A revelação de Cristo tem lugar pela tensão criadora a que dá lugar a inseparabilidade entre a humanidade e a Pessoa do Verbo. Em Jesus Cristo, Deus se fez maximamente próximo e compreensível para o homem a quem revela não só o mistério de Deus, senão o mistério do próprio homem. A revelação em Cristo se apresenta não só *somo a “resposta esperada” mas também como a iluminação do que no homem ficaria sem ela ignorado. Este homem que Cristo revela ao mesmo homem é o destinatário da revelação, o que permite que se possa falar de caráter “antropológico, e inclusive antropocêntrico, da revelação oferecida aos homens em Cristo”. III.3.3. A revelação na Cruz e ressurreição O modo como Cristo leva a cabo a revelação o explica Dei Verbum 4: Evoca o gestis verbisque do n. 2 que se repete por três vezes: (1) o Filho-Verbo foi enviado para manifestar a profundidade de Deus e para habitar entre os homens; (2) Jesus Cristo fala palavras de Deus e leva a cabo a obra da salvação que o Pai lhe confiou; (3) depois de expor o modo da revelação, afirma-se que Deus vive entre nós para liberar-nos do pecado e da morte. A revelação salvadora de Deus tem seu momento culminante na morte e ressurreição de Jesus Cristo. Lutero destaca a tal ponto a revelação da Cruz —a theologia crucis— que pensa que aí se encerra o autêntico conhecimento de Deus: “o ser de Deus se faz visível e presente no mundo como representado no sofrimento e a cruz”. A Cruz é, segundo Lutero, a origem do verdadeiro conhecimento de Deus. A teologia católica: não admite a proposta dualista luterana da theologia crucis oposta ao
  18. 18. 18 conhecimento natural de Deus (theologia gloriae). A revelação na Cruz se constitui junto com a ressurreição como o momento cume da revelação divina. Deus já se manifestou abundantemente antes da Cruz. Mas a morte de Jesus na Cruz é a síntese e o núcleo de sua mensagem. Na Cruz, Deus revela que assume o destino do homem até as últimas conseqüências: Deus é amor, amor mais forte do que o pecado e do que a morte, amor que ante o mau se converte em misericórdia. A Cruz é o extremo ao que pode chegar Deus em seu amor. A Cruz revela, junto com o amor do Pai aos homens, a atuação plena da filiação divina de Jesus. A resposta do Pai à entrega de Cristo é a ressurreição na que recebe a glorificação como “Senhor”. Quanto “Senhor”, Cristo envia ao Espírito Santo aos homens. O Espírito Santo é o perpétuo doador de sentido, da verdade do mistério de Cristo para sua Igreja. III.3. A ação do Espírito Santo: A partir do envio do Espírito Santo, a economia cristã é definitiva: completou-se a revelação e salvação, as quais, desde agora, anunciam-se e realizam na história com a atualidade que lhe dá o mesmo Espírito Santo que preside o hoje da graça e no entendimento. Não se deve esperar nenhuma revelação pública que complete ou aperfeiçoe à recebida de Cristo no Espírito Santo. As tentativas de superar ao Espírito Santo de Cristo, com a conseguinte apelação a uma nova economia reveladora, respondem a propostas defeituosas desde o ponto de vista da teologia trinitária e da eclesiologia, e estabelecem um dualismo destruidor da unidade da história. IV. A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO IV.1. Os apóstolos na transmissão da revelação Os Apóstolos são o elo essencial entre Cristo e a Igreja de todos os tempos, e sua pregação constitui a norma da fé para os crentes. IV.1.1. Os “Doze”, os apóstolos Mc 3, 13 e Lucas narra: “Quando chegou o dia chamou a si os discípulos e escolheu a doze deles a quem deu o nome de Apóstolos” (Lc 6, 13). Os Doze. Ao eleger doze discípulos Cristo estabelece uma ruptura e uma continuidade, ao mesmo tempo, com o povo de Israel. Doze tinham sido os patriarcas e doze as tribos descendentes deles, que formavam o povo. Por isso, o número “doze” era signo de plenitude. “Os Doze” simbolizam, e ao mesmo tempo são o começo e fundamento do novo Povo de Deus que descansa sobre eles como sobre seus alicerces. Apóstolos. O termo apóstolo (“apostolos”) já existia no âmbito extrabíblico. No entanto o significado que tem no Novo Testamento é completamente original. Pode significar o fato do envio de uma frota ou a frota mesma; mais tarde significou um grupo de colonizadores e a mesma colonização. O enviado não é “apostolos” mas “aggellos” ou “khrux”. O uso que os cristãos fizeram da palavra “apóstolo” inclui a idéia de autorização. Se a instituição do apostolado não pode ser deduzida da cultura extrabíblica, tem estreita relação com a instituição judia do “schaliach”: é o mandatário de uma ou várias pessoas a quem representa e defende. Está obrigado a cumprir exatamente a missão para a que está autorizado.
  19. 19. 19 IV.1.2. Os Apóstolos, testemunhas da Revelação de Cristo Para anunciar aos homens que foram salvos, por fatos que tiveram lugar uma só vez, num momento e lugar determinados, requerem-se testemunhas: A Igreja, por isso, está fundada sobre a obra de Cristo e sobre o testemunho dos apóstolos. Testemunhas: em sentido estrito são somente “os Doze”. Eles são conscientes da especificidade de seu depoimento (2Pe 1, 16; At 2, 32). A eleição de Matias (At 1, 15-26) supõe, por um lado completar o número dos Doze “” depois da traição de Judas; e por outro conferir, a quem já era testemunha, a missão do depoimento. Os apóstolos são as testemunhas privilegiadas, “eleitos de antemão” (At 10, 41) e “separados” (Rom 1,1) para ser “ministros da palavra” (Lc 1, 2) e “fundamento” da Igreja (Ef 2, 20-21). Cristo os chamou, convocou-os, para que estivessem com ele, para que fossem seus colegas de viagem, os ouvintes de sua palavra, as testemunhas de suas ações. Sua missão é uma participação na missão que Cristo recebeu do Pai. Rasgos característicos pelos que os apóstolos são as testemunhas de Cristo num sentido único: 1) ter sido eleitos por Deus; 2) ter convivido com Cristo sendo testemunhas de sua vida pública e depois da ressurreição; 3) ter recebido a missão. IV.1.3. Os Apóstolos ensinados pelo Espírito Santo Dei Verbum: “tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo” Há por tanto aqui um ensino sobre a fonte pneumatológica da revelação originária. A missão reveladora de Cristo inclui a ação do Espírito Santo, que é o Amor revelador presente já na origem da Encarnação (Lc 1, 35) e que como dom para a Igreja foi ganhado por Cristo na Cruz: a revelação do Espírito Santo faz parte da mesma revelação de Cristo. Concílio Vaticano II: “com o envio do Espírito completa a revelação” (Dei Verbum 4). IV.1.4. A missão apostólica Pregar a Boa Nova, o Evangelho (Mc 3, 13-14; Mt 28, 19). A missão de pregar que eles recebem é única entre os demais, porque deriva de sua eleição particular como testemunhas de Cristo e ensinados pelo Espírito Santo. Eles são as testemunhas autenticamente diretas de Cristo, os únicos que têm o conhecimento imediato e pleno do mistério revelador do Verbo encarnado. O envio dos Apóstolos por Cristo é um momento ulterior do envio de Cristo pelo Pai. A missão apostólica responde a uma disposição eterna do Pai. A pregação apostólica do que Cristo fez e disse, bem como sua inteligência do mistério (Ef 3,4) tem valor de Revelação. IV.1.5. A Transmissão apostólica da Revelação Os Apóstolos realizam a encomenda de transmitir o Evangelho de um duplo modo: pela pregação oral e por meio de seus escritos (cfr. DV 7). Da mesma forma que Jesus ensinou de palavra, a pregação apostólica é desde o princípio oral, e essa pregação era a que dava testemunho de Cristo e convertia à fé (cfr. At 2 e 3). A transmissão da fé é por tanto inicialmente pela pregação oral e, como adiciona o Concílio Vaticano II “in exemplis et institutionibus”, isto é através da própria vida dos Apóstolos e das instituições (ritos sacramentais e formas de organização, etc.) que neles têm sua origem.
  20. 20. 20 Os Apóstolos puseram por escrito, num segundo momento, a mensagem da salvação. Neles, sob a inspiração do Espírito Santo se fixa por escrito a mesma pregação apostólica, a memória Christi dos Doze que eles tinham entregado, e continuavam fazendo-o, à Igreja. Ao pôr por escrito a pregação oral, os Apóstolos atuavam em linha de continuidade com o Antigo Testamento. Os Apóstolos primeiro pregaram e depois deixaram a pregação por escrito. IV.1.6. Encerramento da Revelação Enquanto eles viviam neste mundo, o tempo da Revelação permanecia aberto porque podiam seguir dando sua palavra e mostrando a vida de testemunhas únicas, no sentido já assinalado, de Cristo. Esta missão fundante da revelação e da Igreja tem seu final quando o último Apóstolo desaparece da história. Por isso a revelação pública ficou encerrada com a morte do último Apóstolo (D. 3421). Se a Revelação acabou com o desaparecimento dos Apóstolos isto quer dizer que a partir desse momento, a fé em Cristo passa essencialmente pela mediação apostólica. Pôde-se falar por isso de uma transmissão vertical da revelação (de Cristo e do Espírito Santo aos Apóstolos) e de uma transmissão horizontal (dos Apóstolos a seus sucessores, ou à Igreja). A traditio apostolica é a norma de qualquer outra tradição eclesiástica e o critério de qualquer ulterior desenvolvimento da fé. IV.1.7. O depósito da fé Depósito: (1Tim 6, 20) Contido da pregação apostólica que foi recebido de uma vez para sempre e tem de ser transmitido fielmente, sendo assim medida da fé ortodoxa. Uma vez terminada a pregação apostólica, esta adquire o caráter de um depósito, o depositum fidei: “A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da palavra de Deus confiado à Igreja” (DV 10). O depósito da fé implica exclusividade, contém tudo e só aquilo que os Doze receberam e transmitiram. Neste sentido a alteração do depósito, as novitates de que falam os Santos Padres, supõe uma falta de fidelidade que situa a quem o pretenda fora da communio fidelium. A custódia e a fidelidade ao depósito da fé não exclui um autêntico progresso, não na extensão do conteúdo, mas na inteligência do inesgotável mistério de Cristo. IV.2. A revelação entregue à Igreja IV.2.1. A fé apostólica na Igreja Com a morte do último apóstolo, o testemunho apostólico se acha completo e concluído. “Ide e ensinai a todas as gentes (... ) Eu estarei convosco até a consumação do mundo” (Mt. 28, 29). “Deus dispôs que o que tinha revelado para a salvação de todas as gentes, conservasse-se íntegro e fora transmitido a todas as gerações” (DV. 7). O serviço de conservar e transmitir a revelação cristã que compete à Igreja não é o resultado de uma pura determinação histórica. Tem que evitar o perigo de corrupção, dissolução e encapsulamento. IV.2.2. A revelação confiada à Igreja
  21. 21. 21 A revelação foi confiada à Igreja, com a missão de ser-lhe fiel (conservá-la) e anunciá-la (transmitir). Por isso, a Igreja se acha na mesma linha da mediação de Cristo participada pelos Apóstolos. Ela continua essa mediação que faz acessível aos homens a mensagem da Salvação, e os introduz no mistério de Deus revelado em Cristo. A relação entre revelação e Igreja não se deve entender como uma relação extrínseca, mas como uma dependência mútua, de forma que a Igreja implica a revelação, e a revelação implica a existência da Igreja. Conclusão: é necessário ter fé na Igreja, num duplo sentido: como âmbito e lugar da revelação: ter fé na Igreja é chegar a Jesus Cristo e encontrar-lhe na Igreja. O sentido de lugar da fé que corresponde à fé na Igreja, deve ir além, até confessar à Igreja como objeto mesmo de fé. Ter fé em lhe Igreja significa também reconhecer sua relação essencial com a revelação e seu caráter divino, quanto realidade querida por Deus, e que tem sua origem na Santíssima Trindade. IV.2.3. Modo divino-humano da transmissão da revelação O “depósito” não é propriedade da Igreja; ela está a seu serviço. O sentido da Igreja depositária é essencialmente dinâmico, porque o depósito é a revelação vivente e atuante que só se conserva realmente na medida em que é vivido e transmitido. A Igreja transmite quanto lhe foi entregado pelos Apóstolos através de sua palavra, de sua vida e de seu culto (DV 8). A Igreja não transmite um objeto, mas seu próprio ser, sua essencial relação com Cristo e o Espírito Santo que são os que a fazem existir; transmite sua fé e sua entrega à Santíssima Trindade. A doutrina e a vida como meios de transmissão prolongam as palavras e os fatos por meio dos quais tem lugar a revelação (DV2) . Culto, da liturgia, a qual “contribui um sumo grau a que os fiéis expressem em sua vida, e manifestem aos demais, o mistério de Cristo e a natureza autêntica da verdadeira Igreja” (SC 2) O culto está constituído por uma “palavra-ação”, e por sua natureza sacramental, é a representação mais clara do caráter divino-humano da transmissão da revelação. A conservação e transmissão da revelação foi confiada à Igreja em sua totalidade: toda a Igreja está chamada a presencializar a revelação de Deus. O serviço à revelação de Deus se realiza na Igreja de acordo com a igualdade radical que provem do batismo, e a diferença ministerial. A Igreja não é uma mera comunidade de crentes, senão uma realidade animada pelo Espírito Santo. IV.2.4. A “inteligência da fé” da Igreja: “sensus fidei” e magistério A inteligência da revelação se realiza na Igreja através do “sentido sobrenatural da fé” ( ou simplesmente “sensus fidei” ) e do magistério da Igreja. IV.2.4.1. O “sentido da fé” como intérprete da revelação Concilio Vaticano II: Os fiéis, quando unanimemente crêem uma verdade como pertencente ao depósito da fé, não podem equivocar-se, senão que neles atua o Espírito Santo, e por isso são infalíveis em sua fé (infalibilidade in credendo). Pode-se falar de uma função ativa na ordem da vida de fé e caridade, que encontra sua expressão no consentimento universal de todo o Povo de Deus numa verdade revelada. Para que esse consentimento seja infalível é preciso que tenha unanimidade, ao menos moral, na verdade crida.
  22. 22. 22 IV.2.4.2 O magistério da Igreja, intérprete autêntico da revelação “Munus docendi”: transmitido pelos apóstolos a seus sucessores, os Bispos, junto com o “munus regendi” e o “munus santificandi” As relações entre revelação e magistério aparecem descritas na Constituição Dogmática Dei Verbum 10. O ensino do concílio se pode resumir nos seguintes pontos: 1) O depósito sagrado da palavra de Deus (Tradição e Sagrada Escritura) foi confiado à Igreja — pastores e fiéis— a qual se mantém unida na fidelidade à doutrina apostólica, através da conservação, prática e profissão da fé recebida. 2) Só o magistério interpreta autenticamente a Palavra de Deus 3) O magistério não está acima da palavra de Deus, senão a seu serviço. O magistério “não é norma constitutiva da fé senão diretiva”. 4) O Espírito Santo garante com sua assistência o cumprimento do mandato divino sobre o magistério. 5) Por último, o Concílio ensina a íntima relação entre Tradição, Escritura e Magistério, de maneira que não possa dar-se nenhum deles sem que os demais fiquem essencialmente afetados, e perdida a garantia eficaz da salvação das almas. IV.2.5. A indefectibilidade da Igreja Só se a Igreja é indefectível tem autêntico sentido sua fidelidade à missão de conservar e transmitir a revelação bem como a adesão que pede aos fiéis. A indefectibilidade, se aplica a seu conhecimento e expressão da verdade da revelação, chama-se infalibilidade. Possui um carisma recebido de Deus mediante o qual em seu ato essencial de conhecimento, de expressão e de pregação do dom da revelação divina que lhe foi confiada, não pode equivocar-se. Uma exposição sistemática sobre a indefectibilidade da Igreja e sua concretização na infalibilidade compreende os seguintes pontos: 1. A indefectibilidade em quanto permanência através do tempo, em identidade consigo mesma é uma propriedade da Igreja que lhe assegura que chegará à vida eterna. 2. A indefectibilidade não só afeta ao ser da Igreja, senão também a sua fazer. 3. A infalibilidade da Igreja é participada e relativa. O único infalível é Deus. 4. A Igreja é infalível porque goza da assistência infalível 5. Só a Igreja é, estritamente falando, infalível. Essa realidade se realiza tanto no crer (in credendo: sentido da fé) como no ensino (in docendo: magistério). A infalibilidade do sucessor de Pedro, do Concílio Ecumênico e do magistério ordinário universal são os modos concretos como o Espírito Santo assiste aos Pastores. V. NATUREZA DA REVELAÇÃO V.1. Revelação e salvação A revelação foi definida anteriormente como a autocomunicação de Deus. Vai essencialmente unida ao ato pelo que Deus chama ao homem a sua intimidade e o libera do mal e do pecado. A revelação vai essencialmente unida à salvação. A revelação é o aspecto cognoscitivo da salvação. Ilumina a
  23. 23. 23 história da salvação, dá o sentido profundo dos fatos, descobre a presença e a ação de Deus na história. A revelação faz parte da salvação, mas não se confundem. V.2. O chamado do homem à comunhão com Deus, pressuposto e fim da revelação. A revelação e salvação que Deus oferece ao homem existem já desde os primeiros pais (Dei Verbum 3). Há dois momentos sucessivos nesta salvação: (1) o chamado do homem à comunhão com Deus (elevação à ordem sobrenatural), (2) a salvação depois da queda, do pecado e de suas conseqüências. A elevação do homem à ordem sobrenatural é outra maneira de dizer que a revelação divina é livre e dom de amor, e não está implicada no puro ato criador. O chamado do homem ao dom gratuito da comunhão com Deus é pressuposto e fim de toda revelação. V.3. Revelação natural, histórica e escatológica. Ao falar de revelação de Deus, referimo-nos à revelação histórica, a que tem lugar num tempo e num espaço determinados. Também se pode falar do plano natural e escatológico. V.3.1. Revelação natural A possibilidade de um conhecimento de Deus unido à natureza aparece com clareza na Sagrada Escritura. Em Sb 13,1; Sl 19, 1-2; At. 17,24-29, a Deus se pode encontrar através da criação. O texto bíblico mais claro é o de Rm 1, 19-21, no que se afirma a cognoscibilidade do Deus invisível a partir da criação visível. A “revelação” natural responde —como afirma São Paulo— a uma autêntica iniciativa de Deus, de maneira que não é só a conseqüência de um estado de coisas. Concílio Vaticano I afirma a cognoscibilidade racional de Deus. Só se o homem pode conhecer naturalmente a Deus, pode-se dar o passo seguinte e “chamar ao homem um ser religioso” (Catecismo, 28). V.3.2. Revelação histórica Coincide com o que chamamos revelação sobrenatural de Deus. A revelação de Deus é um acontecimento localizado no tempo e no espaço, num contexto cultural e lingüístico determinados, por sua ação e palavra. A revelação não tem lugar num ponto único da história, mas através de uma sucessão de intervenções descontinuas. A revelação é um acontecimento progressivo. Conseqüência do caráter histórico da revelação: a importância que adquirem a cultura, as categorias, a linguagem, as sociedades concretas, através das quais teve lugar a revelação. V.3.3. Revelação escatológica
  24. 24. 24 A revelação escatológica é a manifestação plena das realidades que percebemos pela fé, não já através de palavras ou signos, senão em si mesmas, como tais realidades; é a visão (1Jo 3,3), a “epignosis”,ou conhecimento perfeito (1Cor 13,12). Visão de Deus (“cara a cara “:1Cor 13,12) e ilimitado (“como Ele é”: 1Jn 3,3). Será uma “revelação de Jesus Cristo”, uma “revelação de sua glória” (1Tim 6,14; 1Pe 4,13). Os únicos limites do conhecimento serão os de nossa própria finitude. V.3.4. Luz do conhecimento da revelação A cada etapa da comunicação de Deus corresponde uma iluminação particular de nosso conhecimento: COMUNICAÇ ÕES DE DEUS conteúdo do conhecido características modo de conocer luz atitude Revelação natural Deus como causa; Deus pessoal, livre e transcendente mediata; impessoal Pelas obras criadas (Sb 13,1; Sl 19,1-2; At 17,24-29; Rm 1,19-21) inteligência (lumen rationis) adoração Revelação histórica Deus no seu mistério (mistério para a fé) imediata (através dos Apóstolos e profetas); pessoal pelos sinais, ações, palavras (Hb 1) fé (lumen fidei) piedade filial (aceitar o compromisso da fé) Revelação escatológica Deus no seu mistério (mistério que supera a capacidade de visão) pela visão beatífica (1 Jo 3,3; 1 Cor, 13,12; 1 Tim 6,14; 1 Pe 4,13) visão epignosis (lumen gloriae) piedade filial VI. A REVELAÇÃO, ATO COMUNICATIVO Tem seu âmbito de entendimento na conexão com a salvação: Deus se autocomunica pela palavra e pela graça que justifica e salva. VI.1. A revelação como palavra e como encontro VI.1.1. Palavra “O falar consiste num intercâmbio espiritual imediato entre seres dotados de inteligência”, um sujeito com quem se encontra o falante e com quem mantém um intercâmbio espiritual. É uma forma de entrega, acompanhada da esperança de ser atendido, entendido, aceitado e respondido. Deus se expressa por sua palavra, o Verbo de Deus, a Palavra eterna que existia no princípio, “estava junto a Deus e era Deus” (o 1,1). Deus fala: (1) profere sua Palavra desde a eternidade, Deus engendra ao Filho-Verbo,
  25. 25. 25 (2) a “encarnação” progressiva da palavra de Deus é a plenitude da revelação tanto por ser a palavra última e definitiva de Deus como por oferecer a máxima inteligibilidade possível através de sua humanidade (3) a comunicação de Deus aos mediadores da revelação, a que se chamou “inspiração profética” ou “carisma de profecia” : recebem a palavra para transmití-la. (4) fala, ademais, através de palavras, aos profetas que transmitem uma mensagem divina (“Assim diz Yahwé; “Yahwé me disse”), e sobretudo as palavras de Jesus Cristo. Com elas tem lugar o encontro de Deus com seu interlocutor humano. VI.1.2. Encontro Na ação de falar a alguém já tem lugar um encontro. A iniciativa reveladora de Deus dá lugar a um encontro com o homem quando este responde com a fé. A revelação e a fé com as que Deus e o homem se encontram são essencialmente interpessoais. Características do encontro levado a cabo pela fé: 1.- Deus tem sempre a iniciativa. 2.- O encontro com Deus em sua palavra implica uma opção básica e definitiva. 3.- O encontro com Deus dá passo a uma profunda comunhão do homem com Deus. VI.2. A experiência da revelação A revelação cristã não é uma mera comunicação de uma mensagem objetiva que o homem deve aceitar intelectualmente sem que afete ao sujeito em seu ser total. A experiência da revelação consiste em viver a revelação recebida na fé. A experiência da revelação na consciência dos que tem fé é uma experiência vivida sob o regime da fé. VI.3. O plano da revelação A apresentação da revelação como “locutio Dei atestans” foi relativamente comum na teologia. A revelação seria a ação de Deus que fala testemunhando, independentemente da história. Os fatos somente contribuem um elemento exterior certificante: os milagres. Os fatos fazem parte da revelação divina junto com as palavras (“gestis verbisque intrinsece inter se connexis” : Dei Verbum, 2). A revelação se dá de um modo descontinuo na história, sem identificar-se com ela. “kairós”, “kairoi” designa os tempos de especial densidade nos que tem lugar a revelação, designa no tempo um momento determinado por seu conteúdo. Diferencia-se de “aion “: duração, um espaço de tempo. No Novo Testamento, “kairòs” é empregado para designar o momento ou a ocasião especialmente favorável frente à história da salvação. São os momentos escolhidos por Deus para realizar sua salvação os que formam a história da revelação e salvação de Deus. VI.4. Complementaridade de ações e palavras A economia da revelação inclui às palavras e aos fatos como elementos essenciais da autocomunicação divina, intrinsecamente unidos entre eles. “Dei Verbum”: as obras manifestam e confirmam a doutrina e as afirmações transmitidas pela palavra; por sua vez, as palavras proclamam as obras e esclarecem o mistério que nelas se contém. Ao ter lugar a revelação por meio de
  26. 26. 26 palavras e fatos intrinsecamente unidos, a teologia descobriu que se dá nela uma analogia com os sacramentos, nos que há também palavras e fatos que unidos realizam a salvação pela graça. Por isso se falou do caráter sacramental da revelação. VII.TRANSCENDÊNCIA E SOBRENATURALIDADE DA REVELAÇÃO Quanto ato comunicativo, a revelação divina entrega a verdade de Deus. A revelação de Deus é sempre a manifestação de um “logos” que alumia a inteligência do que tem fé e a abre a uma verdade mais plena que deve receber como dom. Esta comunicação de logos chega a sua plenitude com a encarnação, na que o Logos pessoal de Deus se faz presente entre os homens. VII.1. A verdade da revelação Vários teólogos apoiados na diferença entre uma verdade bíblica e uma verdade filosófica, acabam afirmando que a única verdade é Cristo em quem se realiza a fidelidade, a sabedoria, a revelação do desígnio salvador de Deus. Parece chegar-se a uma oposição entre a verdade bíblica e a verdade no âmbito da filosofia e das ciências, ou entre uma verdade existencial e uma verdade objetiva. Teólogos como W. Kasper reagiram contra as simplificações a que leva essa proposta. Em último termo, se a Teologia Fundamental —ciência da revelação— pretende realizar afirmações gerais e cientificamente comunicáveis, não pode extrair-se à necessidade de responder à pergunta pela verdade da revelação de Deus. Trata-se de saber se são verdadeiras no sentido de reais, não imaginárias nem subjetivas. Da resposta a estas perguntas, provem precisões essenciais sobre a mesma natureza da revelação, e sobre as relações entre fé e razão. O Concílio Vaticano I: Deus quis revelar “por outra via e esta sobrenatural a si mesmo e os eternos decretos de sua vontade ao gênero humano” (D.3004/1785). Vaticano II: especifica o conteúdo dessa revelação, que é “o mistério de sua vontade pelo que os homens, por mediação de Cristo, Verbo feito carne, têm acesso no Espírito Santo ao Pai” ( Dei Verbum 2). Existe, por tanto uma realidade que só se conhece por revelação. VII.4. Noção teológica de mistério A categoria que permite expressar a transcendência e sobrenaturalidade da revelação é a mistério. Este mistério que Deus dá a conhecer em sua revelação não é a só manifestação do que o homem não pode chegar a conhecer, senão que é principalmente o “mistério de sua vontade” (Ef. 1,9), isto é o mistério do desígnio salvador de Deus, o “mistério de Cristo” (Ef.3,4). O mistério nunca é algo absurdo ou contraditório. O mistério se refere ao âmbito divino, e só secundariamente a outras verdades de fé. O mistério aponta à realidade de Deus que se revela. Essa é a razão pela que se considera tradicionalmente que existem três mistérios fundamentais (mysteria stricte dita): 1) o mistério de Deus Trino, 2) o mistério da encarnação do Verbo,
  27. 27. 27 3) e o mistério da graça. A revelação cristã dá a conhecer o mistério como mistério salvador. Propriedades que caracterizam os mistérios: 1. Transcendência: o Vaticano I a expressa através da idéia bíblica do que está oculto: “mysteria in Deo abscondita” 2. Gratuidade: já que não há conexão necessária entre o conhecimento humano e os mistérios, só pode chegar o homem a eles se os recebe como dom gratuito. 3. Cognoscibilidade analógica: uma vez revelados, os mistérios não são verdades herméticas que há que aceitar sem saber nada do que contêm. Os mistérios podem ser objeto de reflexão e de conhecimento que será sempre insuficiente. VIII. A FÉ Introdução. A fé é resposta. Deus tem a iniciativa de autocomunicar-se. O homem acolhe a revelação com a fé: é sua reposta. Correlato subjetivo. A fé vem depois da revelação. A fé é o correlato subjetivo correspondente ao correlato objetivo que é a revelação. São estes os dois termos da relação. Ato complexo e simples. A fé em Deus é um ato complexo pelos diversos aspectos da pessoa que devem cooperar para que tenha lugar. É também um ato simples porque crer é só isso. Acreditar em Deus e crer a Deus é um ato único no homem: do modo como se acredita em Deus e a Deus não se acredita em nada nem a ninguém. Aqui vai interessar-nos o ato da fé, não a virtude da fé. Teologia do ato fé. Desenvolveu-se modernamente igual que a Teologia da revelação. Segundo como se entenda a revelação, assim se entenderá a fé. A Teologia da fé aparece com clareza desde o princípio da reflexão cristã. VIII.1. A fé na Sagrada Escritura. VIII.1.1. A fé no Antigo Testamento. Etimologia. No Antigo Testamento não existe um único termo para a fé senão mas bem um campo semântico, pelo qual o conceito de fé é muito amplo. ‘amam: manter-se fiel a, ser estável, estar fundado, Deste verbo procede o “amém” que significa a resposta incondicional da fé. *batah: esperar confiantemente em alguém. *bè emín: apoiar-se em algo ou em alguém. Este termo aparece 13 vezes. A forma normal do homem de relacionar-se com Deus é “apoiar-se” ou “acredita em Deus”. O homem deve crer que Deus cumprirá sua promessa apesar de que o homem se encontre às vezes afastado de Deus (no exílio ou ao sair do Paraíso) e apesar de que veja situações que desmentem a promessa de Deus. Esta promessa se converte em pacto com Noé (Gn 9,16) e em aliança com Abraão (Gn 17).
  28. 28. 28 VIII.2.2. A Fé no Novo Testamento No Novo Testamento se designa a relação filial do homem com Deus que se revelou. No Novo Testamento a fé é como a essência do ser cristão. (2 Ts 1, 10: chama aos cristãos os que acreditam) Etimologia: pistis, pisteuein: aceitação de verdades escatológicas (Mc13,21), crença nos milagres (Mc 2,5), cumprimento da lei. A fé vai através dos mediadores no Antigo Testamento enquanto no Novo a fé é aceitação da mensagem de salvação que por iniciativa divina tem lugar de uma vez para sempre em Cristo. Em Cristo, Deus fala “com rosto”, há uma personalização da fé: o que importa já não é tanto a fidelidade do povo senão a conversão pessoal do indivíduo. A fé é o ato com o que tem lugar a conversão, no que se faz presente a esperança e confiança. Aspecto subjetivo: “fides qua creditur” (a fé com a que se crê) e aspecto objetivo: “fides quae creditur” (a fé que se crê, que é o conteúdo da revelação). VIII.3. Tradição e magistério sobre a fé VIII.3.1. Até o século VI. Ao princípio se vive do ensino bíblico sobre a fé. Pouco a pouco se vai elaborando uma reflexão sobre a revelação. a) Gnosticismo. século II. Consideram que a fé é um conhecimento de segundo ordem e opõem este conhecimento (pistis) ao verdadeiro (gnose). A fé é opinião pessoal, (doxa), sem fundamento, que deve ser substituída a fé pelo conhecimento perfeito (gnose). A isto a Igreja reagiu assinalando o caráter de certeza da fé (episteme), é conhecimento rigoroso e fundado. Não se mede pela fragilidade do homem senão pela fidelidade de Deus b) Regula Fides. Este termo o utilizam os Padres para referir-se à fé que se devia ter por norma. Nos séculos II, III e IV tem lugar um processo de ordenação de verdades. A Regula Fides (regra da fé) se refere aos elementos essenciais da fé que o fiel deve aceitar. O termo contrasta o que é a fé frente às heresias: a regula fides é o que está em relação com o caráter apostólico, o que vem da tradição apostólica. Tem que ver mais com a fides quae (o que se crê) do que com a fides qua (a fé com do que se crê, que é o aspecto subjetivo). c) Santo Agostinho. Possui uma profunda capacidade de análise psicológica do homem que se move ou se resiste à fé. Distingue três tipos de conhecimento: contemplação, ciência e fé. A fé se orienta por uma autoridade ou por um testemunho a diferença da contemplação ou a ciência. A fé é o termo ao que chega o «coração inquieto» do homem que não encontra sua felicidade enquanto não consegue descansar em Deus. Define assim a fé: «crer é pensar com consentimento» («credere est cum assensione cogitare) VIII.3.2 Idade Média Santo Tomás expõe a fé sobre o conceito aristotélico de ciência. A fé é um modo de saber no qual o objeto do saber é conhecido mediante o testemunho de um terceiro, de uma testemunha, que é Deus. Ao crer em Deus, o homem tem acesso a uma ciência objetiva que é a ciência de Deus. «Actus credentis non terminatur ad enuntiabile sede ad rem» [O ato (de fé) do fiel não se detém no enunciado, senão na realidade (enunciada)] (S. Th. 2-2, 1, 2, ad2)
  29. 29. 29 O ato de fé se relaciona com o amor, este impulso que no homem leva à fé procede da vontade. A virtude da fé é o hábito da mente com o que começa a vida eterna em nós, fazendo ao intelecto assentir a realidades que não se vêem. VIII.3.3 Séculos XVI ao XIX. 1. Martinho Lutero. Reage contra o que considera um abandono da mensagem da Escritura, e defende que a justificação tem lugar pela fé somente, fé que não é a que se expressa por meio de afirmações intelectuais, mas o encontro existencial com um Deus benigno, que é entrega confiada e sem reservas (fé fiducial) ao Deus incompreensível em sua vida e sua graça. Pelo princípio sola fides ao excluir-se a justificação pelas obras se acaba excluindo a possível colaboração da inteligência com a fé. A fé é agora confiança verdadeira e segurança plena e forte do coração pela qual se acede ao cristianismo. Aqui falta o elemento de consentimento às verdades de fé. 2. Concílio de Trento. Dá resposta a Lutero e aos protestantes. Não se ocupa diretamente da fé, mas se tem um ensino sobre a fé que se pode resumir nos seguintes seis pontos: (1) A fé faz parte das disposições para a justificação (D1526/798). A fé é graça, resposta e consentimento à verdade da revelação salvadora. (2) A fé, a esperança e a caridade se recebem no ato da justificação junto com a remissão dos pecados (D1530/800). (3) A fé é o começo da salvação, e o fundamento e raiz de toda justificação (D1532/801). (4) Não existe nenhum sinal seguro de predestinação verdadeira pelo que não convém abandonar- se temerariamente à confiança de estar justificado. Para estar justificado não é necessária uma fé fiducial de que se está justificado, mas uma firmíssima esperança (D1541/806). (5) A fé e as obras cooperam no crescimento e aumento de justificativa. (6) Pelo pecado grave se perde a graça e a caridade, mas não a fé, a não ser que se trate de um pecado contra a fé. A fé pode manter-se como fé morta. 3. A Ilustração. Neste tempo a fé se vê rebaixada progressivamente em sua função cognoscitiva e finalmente relegada ao campo do irracional. 4. Concílio Vaticano I. Interessa o ato de fé «De fide» (capítulo 3). Vaticano I não quis recolher um ensino completo sobre a fé, mas ressaltar alguns aspectos importantes postos em perigo pelos erros modernos: Estamos obrigados a prestar à fé um pleno obséquio de nosso intelecto e vontade. Sobre a fé diz o concílio: é início da salvação humana (humanae salutis initium) (citando a Trento). D1789: é “uma virtude sobrenatural mediante a qual, impulsionados e ajudados pela graça de Deus, cremos que são verdadeiras as coisas divinamente reveladas por Ele, não pela verdade intrínseca das coisas conhecidas com a luz da razão, mas pela autoridade do mesmo Deus que se revela, que não pode nem se enganar nem enganar-nos”. Apresenta a fé como afirmação da verdade dos “credenda” o que se há de acreditar. Fala também da relação da fé com a razão no mesmo ato de fé: a fé é serviço conjunto da razão e não um “movimento cego do espírito”. A fé vai preparada por signos externos (milagres e profecias) que
  30. 30. 30 acompanham aos auxílios da graça e fazem à fé razoável. Por outra parte a fé é dom de Deus e não só decisão humana, que o homem deve aceitar livremente. 5. Concílio Vaticano II. Dá um breve ensino explícito sobre a fé, preparado pela teologia da primeira metade do século XX. Vaticano II assinala também o caráter pessoal da revelação (DV2 e 4) e da fé (DV5). A ação da fé e suas relações com as diversas manifestações do mundo moderno: relações da fé com a cultura (GS 57-59) e sua eficácia frente ao ateísmo (GS 21), o mesmo que a ação e o papel da fé frente à evangelização do mundo e à conjuntura da segunda metade do século XX (LG 23, AG 36). Ensinos explícitos do Concílio sobre o ato de fé em si mesmo: (1) Dignitate Humanae (n. 10): A Liberdade do ato de fé: afirma-se o caráter voluntário da resposta de fé ensinado na Palavra de Deus e nos Padres: o ato de fé é voluntário por sua própria natureza, já que o homem, não pode aderir-se a Deus que se revela a si mesmo, se, atraído pelo Pai, não rende a Deus o obséquio racional e livre da fé. Não se pode impor nada em matéria religiosa. (2) Dei Verbum (n. 5): Depois de apresentar a revelação em Israel (3), em Cristo (4), ocupa-se da fé (5): A Deus que se revela, se lhe outorga a obediência da fé mediante a qual o homem presta um consentimento voluntário à Revelação dada por Ele; o homem se confia inteira e livremente. Para chegar à fé é necessário a graça de Deus e os auxílios internos do Espírito Santo. Caráter pessoal da Fé: A fé afeta não só à inteligência, mas à inteira existência do crente. A fé é, antes de tudo uma entrega total da pessoa a Deus. A fé adquire a mesma propriedade que a revelação (2-4), a personalização. O necessário consentimento da inteligência no ato de fé, faz parte da mesma entrega da pessoa em sua totalidade. Isto não supõe fechar o passo à atividade da inteligência fora do âmbito da fé (6). 6. Catecismo da Igreja Católica. Ocupa-se ao mesmo tempo do caráter pessoal e eclesial da fé. Trata da fé depois de ter-se ocupado não só da revelação divina em sua constituição (Israel, Cristo), mas depois inclusive da presença da revelação na Igreja (Escritura, tradição). Pela fé o homem submete completamente sua inteligência e sua vontade a Deus. Com todo seu ser, o homem dá seu consentimento a Deus que se revela (DV 5) N. 143 150: «A fé é antes de mais nada uma adesão pessoal do homem a Deus; é ao mesmo tempo e inseparavelmente o consentimento livre a toda a verdade que Deus revelou.» Características da fé: É graça (153), ato humano (154), livre (160), necessário para a salvação (161), começo da vida eterna (163). Pela primeira vez se apresenta a fé em sentido trinitário: crer só em Deus (150), em Jesus Cristo (151), no Espírito Santo (152). IX. FÉ HUMANA E FÉ DIVINA Introdução. A fé é a resposta do homem à autocomunicação de Deus; situa-se no contexto da fé humana, da fé como modo de relacionar-se entre os homens, como atitude vital e como modo de conhecimento.
  31. 31. 31 IX.1. A fé humana. O verbo crer está cheio de matizes (a) Crer: acreditar em o sentido de opinar. (b) Acreditar em algo ou ter crendices (c) Crer algo a alguém. Alguém deixou uma mensagem para ser aceita. (d) Fé em Deus. A fé religiosa pode acompanhar ao conhecimento natural de Deus. O conhecimento que aqui se tem de Deus procede do mundo (cosmos) e de si mesmo (consciência). Esta fé é um dos elementos essenciais da religião natural. (f) Fé interpessoal (“eu creio em ti”; “acredito em ti”). O outro está maximamente personalizado: o conhecemos e sabemos qual é sua atitude para nós. Esta fé entre pessoas é uma forma de conhecimento e também de encontro. Afeta o conjunto da pessoa e não só o aspecto intelectual: é uma forma de entrega e de aceitação mútuas. Latim: credere: cor–dare (dar o coração). Inglês: believe: be love (ser amor). (g) Fé no Deus revelado, fé em Cristo. Não é a fé religiosa ou a fé em Deus porque agora o homem não responde a um conhecimento indireto de Deus, mas responde a Deus que se comunica ao homem como um “eu” a um “tu”, entregando-se e pedindo uma resposta. A fé sobrenatural é um caso excepcional e único da fé interpessoal (“acredito em ti”). Quando o “tu” é Deus, adquire um sentido único porque Deus é o fundamento da verdade e da realidade. Esta fé se converte num dinamismo de entrega absoluta que é a explicação do que significa “acreditar em” Cristo. IX.2. Estrutura epistemológica da fé Se procura explicarem que lugar exato do conhecimento humano se situa a fé. Santo agostinho tinha caracterizado a fé como «cum assensione cogitare». Santo Tomás em De Veritate desenvolve cinco modos de conhecer que se articulam em torno do consentimento e à investigação. A posição central da fé é expressão de sua imperfeição e de sua grandeza: A investigação (cogitatio) e o consentimento (assensus), em princípio se excluem o um ao outro. Em tanto existe a investigação, não pode haver consentimento. Quando tem lugar este consentimento, a investigação cessa. A Fé ocupa um lugar intermédio. Por um lado é consentimento firme, não pela evidência do objeto, mas sob o império da vontade que empurra à inteligência a cobrir o trecho que leva da credibilidade à fé. Essa credibilidade é o objeto da investigação anterior ao consentimento; Depois do consentimento, a investigação continua como busca teológica. O seguinte quadro resume a análise de Santo Tomás em torno dos dois termos da definição de fé de Santo Agostinho, e que se encontra em De Veritate, q. 14, a. 1 dúvid a opinião fé ciência evidência de simples apreensão Cogitatio investigaçã o Investigação anterior ao assentimento e que continua depois Investigacão anterior, mas diminuída logo nada
  32. 32. 32 pela evidência da demonstração Assensus assentiment o nada certo assentimento, mas acompanhado de dúvida e de temor de que o contrário seja verdadeiro Total e pleno, firme sob a força da vontade, pois não há evidência objetiva firme, pela evidência mediada pelo raciocínio evidência imediata A fé não pode ser reduzida nem à opinião, nem à ciência. O consentimento da fé é total e firme. A fé é subjetivamente inferior à ciência porque procura a evidência em seu conhecer (fides quaerens intellectum) sem que por isso a falta de evidência afete à firmeza do consentimento. A fé como conhecimento implica necessariamente a intervenção da inteira pessoa que deve aceitar o compromisso que supõe chegar à fé. IX.3. Entendimento e vontade Crer é, entre outras coisas, fazer um juízo que afirma a verdade do revelado (isto é assim, amém). A inteligência intervém em três momentos: (1) entende a palavra que se diz, (2) julga a similitude com a verdade, possibilidade e a credibilidade, (3) intervém no ato de fé confessando a verdade do revelado (consentimento). A fé não é só assunto da inteligência como pretende o racionalismo. No ato de fé intervém a vontade. É livre: “creio se quero, porque quero” e “se não quero, não creio”, a vontade assente voluntariamente ao que a inteligência conhece. No entanto, não basta querer crer para crer, porque a fé é graça, ainda que é necessário querer para crer. “Crio porque quero” se entende também num sentido amplo como “creio porque amo”. É a fé interpessoal, o “te crio a ti” que se dá entre dois sujeitos. Entendimento e vontade intervêm harmonicamente no ato de fé. A inteligência conhece e julga, sem chegar à evidência subjetiva; a vontade é a que decide crer. Se não interviesse a inteligência o ato de fé seria cego. Se não interviesse a vontade não se chegaria ao ato de fé nunca, ou a fé seria ciência (só inteligência). A fé tem um caráter pessoal: afeta a toda a pessoa, é entregar-se totalmente a Deus e deixar-se afetar em toda a profundeza de seu ser. Por isso a ação própria do crente é o depoimento, ser testemunha até o final, mediante a palavra, a vida e até a morte. O crente se entregou a uma pessoa tal que tem a capacidade de exigir o dom total e sem condições, da vida e da morte. Esta pessoa só pode ser Deus. Quando o homem se entrega dessa maneira a Deus, não se perde a si mesmo senão que atinge a plenitude. IX.4. A fé quanto conhecimento.
  33. 33. 33 A fé é uma forma de conhecimento específico que é verdadeiro e irredutível a qualquer outra forma de conhecer. O que crê sabe, chega à verdade mediante o testemunho de outro que conhece diretamente. Magistério da Igreja. A fé é consentimento às verdades reveladas não pela intrínseca verdade das coisas, mas pela autoridade do mesmo Deus que revela (Trento, Concílio Vaticano I). Fides quae e fides qua. Fides quae. Conteúdo da fé plasmado em proposições ou dogmas. Sentido objetivo. Fides qua. Ato ou atos interiores do sujeito mediante os quais se decide a crer. Sentido subjetivo. IX.5. A fé em Deus: caráter teologal da fé. A fé em Deus é diferente da fé humana. Na fé humana não é lícito crer de uma maneira absoluta e incondicional em nada nem em ninguém porque o “tu” humano não é infalível. A mera fé interpessoal não é salvadora. A fé em Deus é diferente da fé religiosa. O acreditar em Deus está afetado da incondicionalidade porque Deus é infalível. A fé meramente religiosa é teìsta, é fé em Deus a partir de uma mediação do cosmos e da consciência, e é provisória porque está sujeito a uma possível correção: a que Deus se revele e se faça interlocutor meu. A fé cristã não é teísta, mas teologal. Estabelece uma relação imediata entre Deus que se revela e o homem que crê (destinatário da revelação). A fé cristã tomada a obediência e a incondicionalidade da fé religiosa, e tomada o caráter interpessoal da fé humana. O «acredito em ti» se dirige ao “Tu” absoluto que condescendeu a chamar, em Cristo, “tu” a sua criatura. Expressão da fé teologal: A fé é uma ato singelo e nítido (creio), mas ao mesmo tempo um ato pessoal de natureza complexa que afeta e compromete a todo o sujeito. IX.5. Credere Deum (que Deus), Credere Deo ([a] Deus), Credere in Deum (em Deus). Santo Agostinho: Tratado sobre o evangelho de São João, 29 . Santo Tomás: Suma Teológica. Estas três formas explicitam diversos níveis da fé teologal: credere Deum: Deus como objeto material da fé. Crer que existe Deus. credere Deo: Deus como objeto formal da fé. Crer a/em Deus que se revela e crer-lhe por sua autoridade. credere in Deum: Deus como fim. Crer para Deus. Expressa o matiz voluntário e dinâmico da fé. Manifesta o caráter vital e o caráter escatológico da fé. As três formas manifestam um mesmo ato de fé do que Deus é o centro, fundamento e fim.
  34. 34. 34 IX.6. Caráter eclesial da fé. A revelação nos chega na Igreja. Nós acreditamos (em+a) Igreja. A fé é um ato pessoal. Mas a fé não é um ato isolado, e por isso este ato precisa ser completado com a dimensão eclesial do crer. “«Crer» é um ato eclesial. A fé da Igreja precede (creio in Ecclesia), engendra (é a Igreja a que em mim põe a fé), conduz e alimenta (mediante os sacramentos) nossa fé”. Para que o ato de fé seja pessoal e eclesial deve dar-se uma identificação do fiel com a Igreja: (1) O fiel está na Igreja e dela recebe o conteúdo e o modo de crer. O ouvir a fé (auditus fidei) (Cf. Rm 10, 17) é “in Ecclesia” e “per Ecclesiam”; o cristianismo é necessariamente eclesial. (2) A Igreja é communio fidelium (comunidade dos fiéis). Há um envolvimento mútuo entre o ato de fé do fiel a fé da Igreja. A coerência fé-vida dos fiéis é um importante signo de credibilidade. (3) O “creio” da fé é o creio do indivíduo e ao mesmo tempo expressão da Igreja que crê. Os Concílios expressavam a fórmula: “esta é a fé da Igreja Católica (IV de Toledo)”. X. A FÉ, DOM DE DEUS E COMPROMISSO DO HOMEM X.1. Propriedades do ato de fé. No ato de fé convergem a ação de Deus que chega ao homem com a graça e a resposta livre do homem a essa graça. A fé sem o dom de Deus (graça) seria pura decisão humana por algo criado. Por outro lado, a fé seria uma imposição se não tivesse resposta livre. A fé é consentimento livre a toda a verdade que Deus revelou e adesão pessoal do homem a Deus que se revela em Cristo (Cf. Catecismo da Igreja Católica 150). (a) sobrenatural. Não é o resultado da liberdade humana . (b) escura. Só pode ter fé aquele que não vê ou não sabe por si mesmo, mas que aceita o testemunho de outro. Todo ato de fé humano ou sobrenatural é escuro . (c) verdadeira. Quanto consentimento total à Revelação, a certeza acompanha necessariamente a fé. Seu fundamento é a autoridade infalível de Deus As “dúvidas” em tanto não afetem a certeza do crer não constituem um estado de dúvida; podem desempenhar um impulso para a fé. (d) livre. A liberdade da fé não é só uma propriedade específica sua. Desde o lado humano a liberdade é a causa da fé. Só se quer acreditar . X.2. Motivo e motivos da fé. Motivo formal da fé. É Deus mesmo e sua autoridade (motivo objetivo e subjetivo). Nesta fé tudo está fundado se é Deus quem fala, e se não é Deus quem fala, nada dessa fé está fundado. Motivos da fé. É tudo aquilo que move a crer. Os motivos atuam sobre o sujeito e lhe movem a crer. Atuam na ordem subjetiva, na ordem da credibilidade. X.3. Graça e liberdade no ato de fé. A fé é graça de Deus e ato humano ao mesmo tempo. O homem se pode preparar para a fé, mas ao final a fé é sempre dom de Deus. «A fé é um dom de Deus, uma virtude sobrenatural infundida por ele» (Catecismo da Igreja Católica 153). O homem só crê se conhece o objeto de fé e livremente quer crer. Sobrenaturalidade do ato de fé: aparece claramente na iniciativa gratuita de Deus-Trinidad através do dom do Espírito Santo no ato de fé.
  35. 35. 35 O homem é chamado à fé e realiza essa vocação na história, no livre acontecer histórico e em sua própria autodeterminação. O chamado à comunhão com Deus já é graça, pois esse chamado não é parte da natureza humana. Textos onde se afirma a ação de Deus que leva crer. «Por aquele tempo exclamou Jesus: “Pai, Senhor do céu e da terra, eu te louvo porque mantiveste ocultas estas coisas aos sábios e prudentes e as revelaste aos pequeninos”» (Mt 11, 25). «Jesus lhe respondeu: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque isso não to ensinou a carne nem o sangue, mas meu Pai que está nos céus”» (Mt 16, 17). (At 16, 14). (2 Cor 4, 6). (2 Cor 1, 21-22). (Jo 6, 44-45). (1 Jo 5, 6). Todos expressam que a iniciação na fé é obra de Deus, que Deus faz primeiro e convida a crer. Tema XI. REVELAÇÃO E RELIGIÃO A religião é objeto de análise e estudo no âmbito filosófico, e faz parte também do objeto da teologia, que se ocupa disso na Teologia das Religiões, que estuda a relação entre as diversas formas religiosas que existem e a salvação trazida por Cristo. Questão teológico-fundamental: antes que tivesse lugar a revelação judeu-cristã, existiram e existem outras formas de relação dos homens com a divindade ou com Deus. O fato da religião é em si bom, porque a relação religiosa do homem com Deus expressa a natureza humana. A revelação cristã se apresenta como a última, definitiva e plena palavra de Deus aos homens, e A Cristo como o único nome em que podemos ser salvos (At 9, 12). Uma vez que teve lugar a revelação em Cristo conservam as diversas religiões algum valor, ou foram todas elas anuladas e substituídas pelo cristianismo?. Qual a relação entre fé e crença religiosa e o modo como tem lugar a salvação: a salvação de Cristo atua independentemente das religiões, ou atua através das religiões? XI.1. História da questão XI.1.1. Novo Testamento O anúncio de Cristo se faz a judeus e a gregos; a crentes e pagãos. At 17, 16-34: mostra como São Paulo estabelece uma relação entre religião e cristianismo. Ao tomar como ponto de partida o altar “ao Deus desconhecido”, assume o valor da religiosidade como preparação para a fé, mas não da religiosidade em general senão de uma forma indeterminada de divindade ao que Paulo se propõe dar um nome e um conteúdo. XI.1.2. Os Padres Duas orientações: 1) Pensam que as religiões recolhem realidades autênticas porque Deus está presente em toda criatura, e toda verdade tem sua origem última nele (Justino , Clemente de Alexandria) 2) Inclina-se a uma consideração negativa da religião pagã que, devido a sua profunda corrupção moral era vista como obra do diabo (Tertuliano, etc.) XI.1.3. Idade Média
  36. 36. 36 A questão da religião passa a um segundo plano. Duas linhas merecem ser postas de relevo: a permanência da doutrina de Santo Agostinho e a polêmica com judeus e muçulmanos. Santo Tomás: analisa o ato de fé cristã, recolhe a doutrina do Hiponense em seu tratado da virtude da religião (moral). Não é uma comparação entre o cristianismo e as religiões, mas da religião como virtude, como estrutura do atuar humano, na que se fundamenta a fé cristã, que é a verdadeira “religação” com Deus.Reconhece que os infiéis podem realizar obras boas e admite sua salvação sempre que possuam a fé em Cristo Redentor; esta fé pode ser, de todos modos, implícita. XI.1.4. A Ilustração Começa a pôr-se em dúvida a oportunidade e a possibilidade de uma religião positiva e revelada, que implicaria uma exclusão das demais que não o são. Surgiu o ideal de uma religião natural independente de toda revelação e ação histórica. Cherbury, Tindal, Locke, Toland, entre outros, seguidos por Voltaire, Rousseau, defendem uma religião que seja meramente uma dedução racional de verdades morais sem base histórica. XI.2. A polêmica sobre a religião no protestantismo. XI.2.1. F. Schleiermacher (1768-1834) O homem se relaciona com Deus não pelo conhecimento, senão pelo “sentimento” do infinito, experiência universal e específica que caracteriza à religião Todas os religiões expressam esse sentimento, pelo que todas são radicalmente válidas. XI.2.2. K. Barth Entre revelação e religião há oposição irreconciliável. Com sua teologia dialética afirma que Deus não é conhecido nem como objeto de raciocínio teológico (via positiva), nem de forma somente negativa, pensando o que Deus não é (via negativa), mas como sujeito que misteriosa e milagrosamente se revela a si mesmo aos homens em sua própria liberdade incondicional. O único acesso a Deus é a gratuidade do ato divino pelo que ele se aproxima: não há conhecimento de Deus fora de Cristo. Deus é o totalmente outro, no entanto, vem à história: manifesta-se em Israel, faz-se presente em Cristo, atua na Escritura e na Igreja Distingue entre a fé cristã, baseada na revelação que faz Deus de Si mesmo em Jesus Cristo, e toda religião que representa para o homem uma busca inútil. A partir da oposição absoluta entre religião e revelação propugnada por Barth, alguns de seus seguidores chegaram à conclusão de que é melhor preparação para a fé o ateísmo do que a atitude religiosa (Bonhoeffer). Todo este conjunto de idéias acabou influindo na Teologia “da morte de Deus” com suas idéias de um “ateísmo cristão”. XI.3. A teologia católica Primeira postura: (Danièlou, H. de Lubac, Maurier, Cornelis). As religiões não cristãs pertencem ao reino da criação; por tanto, a uma esfera diferente da salvação. A partir da ferida que a criação recebeu pelo pecado, as religiões são meios ambíguos e constituem obstáculos para a salvação. Não são caminhos de salvação, porque carecem de meios

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