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FRONTEIRAS DO CORPO: FENOMENOLOGIA DO
ESPAÇO CORPORAL E DA DANÇA A PARTIR DE
MERLEAU-PONTY
Alexandre Batista Reis
Diretor da Contemplo Cia de Dança
Resumo
Há uma grande maioria de autores
que classificam o espaço corporal e
a dança como sendo distintos entre
si. Outros consideram que ambos
possuem o mesmo sentido ou estão
intimamente ligados entre si. Neste
trabalho é importante compreender
estes fenômenos e sua inserção
filosófica extremamente
contemporânea e, infelizmente,
ainda pouco prestigiada em nossa
literatura.
Palavras-chave: Corpo, Dança,
Fenomenologia da percepção e
Espaço Corporal.
Abstract
There is a vast majority of authors
classify the body space and dance
as being distinct from each other.
Others consider that both have the
same meaning or are closely linked
together. This work is important to
understand these phenomena and
their extremely contemporary
philosophical insertion and
unfortunately still little prestige in our
literature.
Keywords: Body, Dance,
Phenomenology of Perception and
Body Space
Bahia, dezembro de 2000
2
O Corpo como extensão e movimento
O corpo em sua extensão, forma e função possuem características que só podem ser
tomadas como um todo unificado. O corpo em movimento está atado ao mundo e sua
consequente fragmentação não traduz o espaço objetivo de seu alcance. Vejamos que na fase
embrionária do homem o espaço não é corpo e os subsequentes movimentos determinados
pelas células reprodutivas desencadeiam a amplitude da extensão do corpo que surge (o
embrião).
A questão da extensão e do movimento acompanha o pensamento do filósofo francês
escolhido para a heurística deste trabalho, Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). Merleau-Ponty
nunca teve a intenção de construir um sistema, pois, para ele, a filosofia deve ser uma
interrogação constante
1
. Vários filósofos, além de Merleau-Ponty, discutiram sobre o
pensamento e a linguagem. Tendo em vista que se conhece o homem mais por suas condutas
que por seus pensamentos, então poderíamos afirmar que “somos o corpo” e eu considero
meu corpo, que é meu ponto de vista sobre o mundo, como um dos objetos desse mundo
2
.
Este corpo precisa ser reapropriado e realocado, pois ele não para de se transformar.
Observemos, por exemplo, o desenvolvimento motor humano para alcançar os objetos do
mundo. Este percurso, gerador de sentidos, fundamenta uma estrutura própria e simbólica da
relação homem-objeto. O corpo é o portador dessa estrutura, ou seja, ele é o facilitador do
conjunto de intenções no espaço e, por conseguinte o maior transformador de sua existência.
Os símbolos que o homem atribui ao corpo são, em sua primeira instância, uma
condição para estabelecer significados de sua existência. Esta é marcada por uma infinidade
de intenções que se desenvolve num continuum motriz. A pesquisa em motricidade humana
pode decompor o movimento e o espaço corporal em sequências mecânicas e físicas ou
segmentos articulares numa tentativa de explicar suas características procurando em vão pela
unidade que é própria do todo.
O objetivo do primeiro capítulo será localizar a Fenomenologia da Percepção dentro do
campo de conhecimento filosófico aportando sua lógica histórico-crítica segundo Barral (1984)
e buscando subsídios em outras disciplinas que se relacionam com a Filosofia para um bom
desenvolvimento da pesquisa teórico-metodológica.
Dentre estas disciplinas vale mencionar que o capítulo II dedicar-se-á aos conceitos
estabelecidos na teoria neurocientífica de Gardner (1994) que possibilita considerações sobre
o espaço corporal (forma e conteúdo) e a dança; há no capítulo III uma relação das ideias de
Figueiredo (1997) posicionadas à primeira parte (o corpo) da obra Fenomenologia da
Percepção e uma advertência sobre a necessidade de pensarmos o hiato dança-filosofia.
3
A Fenomenologia e a Fenomenologia da
Percepção: concepções determinantes para o
espaço e o movimento corporal
Na gramática grega o verbo phaíno significa brilhar, mostrar ou aparecer. Já a noção
Husserliana de fenômeno difere tanto daquela Kantiana como Hegeliana. Edmund Husserl é
chamado o pai da Fenomenologia e ele apropria o termo como um novo entendimento da
realidade:
“O fenômeno da fenomenologia transcendental pode ser caracterizado como
não real (irreal)... resumindo, o transcendental especificamente, “purifica” o
fenômeno psicológico para aquele o qual empresta à eles realidade, e há nisso
uma situação no mundo real. Nossa fenomenologia pode ser uma teoria do Ser
essencial, entendido não com o real, porém com o fenômeno
transcendentalmente reduzido”.
3
Husserl também nos adverte que a Psicologia não consegue resolver o problema
fundamental da teoria do conhecimento. Pois não é possível que o sujeito cognoscente
alcance, objetivamente através dela, uma realidade que lhe é exterior. Para Husserl a
consciência constitui o pensamento do mundo.
A psicologia pré-científica estava entrelaçada à filosofia ao invés de ter-se a ideia de
que estava emaranhada com a medicina. A psicologia, como ciência, passa a ser encarada
com esforço e seriedade a partir da segunda metade do século XIX e também quando Jean
Piaget lança suas obras: O Nascimento da Inteligência na Criança (1933), A Construção do
Real na Criança (1937) e A Formação do Símbolo na Criança (1946) onde ele mostra que
diferentes crianças possuem diferentes ritmos. Surge também a psicologia da Gestalt
(Gestaltphisycologie) que introduz o conceito de forma. A vantagem da forma, ou estrutura,
consiste exatamente em superar a contradição do em si para si.
Compreender a importância da psicologia ao mencionar o autor de Fenomenologia da
Percepção é de grande relevância, pois a psicologia muito contribuiu nos trabalhos de Merleau-
Ponty:
“Ainda que a filosofia tenha se mantido como interesse básico e eixo de sua
obra, (...) não podemos deixar de notar o interesse especial que dedicou à
psicologia. Os temas de suas duas obras iniciais (comportamento e percepção)
são originalmente temas clássicos no desenvolvimento da psicologia como
ciência a partir da segunda metade do século XIX”.
4
4
Ele agradece sensivelmente a Husserl, porém aborda distintamente sua concepção
sobre o fenômeno, pois as possibilidades de reduções propostas por Husserl seriam no mínimo
questionáveis. Husserl aponta uma fenomenologia que seja:
“(...) antes de tudo um método de apreensão das essências e de constituição
da filosofia como ciência rigorosa e, portanto, voltado para a fundamentação de
todo e qualquer saber com a pretensão de validade universal”.
5
Husserl admite o princípio de que o mundo real está fundamentado no “pensamento”
que se faz parecer como fenômeno e realmente considerá-lo (o mundo) não distante como
realidade ou existência. O autor escolhido para este trabalho recoloca as essências na
existência. Isso significa que em Merleau-Ponty a realidade não é preferivelmente um
“pensamento”, ela tem um caráter “existencial”. O fenômeno deve de fato ser considerado em
sua condição existencial, à qual permite que “na filosofia ele seja mais aparente daquele que
ele era na redução de Husserl”.
6
A perspectiva cartesiana propõe-nos que abandonemos a concepção estabelecida na
natureza corpórea das coisas. O corpo humano também fora entendido enquanto essa
concepção. As sensações somestésicas extrapolam, numa perspectiva cartesiana, significando
um para além do corpo.
O corpo é meu ponto de vista sobre o mundo. Todas as relações que estabeleço e
suas significações, sobretudo aquelas mediadas pelo caráter ordinário de sua natureza estão
contextualizadas no mundo e sendo a cultura corporal o eixo principal deste estar no mundo,
fechá-la em si mesma seria eliminar sua dialética transhistórica.
O valor de culto ao corpo teve diferentes conjecturas no decorrer da história da
humanidade. Nessa interface a psicologia cognitiva, engendrada pela cultura corporal,
desenvolveu sua técnica a partir destes determinantes históricos. Buscamos determinar a
concepção de espaço corporal e de movimento do corpo como um fenômeno não somente
cultural ou psicológico, a consciência
7
do movimento é que manifesta o fenômeno. Para
Merleau-Ponty a primeira revelação do fenômeno será indubitavelmente uma experiência
perceptiva.
Entretanto, a consciência é passível de julgamento no mundo e para Merleau-Ponty, já
que ela se manifestará, é parte do mundo. Vejamos o trecho que segue para melhor esclarecer
a concepção merleau-pontyana sobre o alcance do fenômeno:
“(...) o fenômeno é aquilo que se manifesta em si mesmo, falando claramente,
qualquer coisa que manifesta-se em si mesmo - a qual é capaz de aparentar-se
em consciência - pode ser objeto da reflexão fenomenológica.”
8
Essa constante não pode ser uma resposta unívoca, aplicável para toda e qualquer
investigação fenomenológica. Observo que com meu corpo posso executar sistematicamente
um movimento logo manifesto o movimento e, assim como, posso organizar minha consciência
a partir de uma introspecção, sobre o movimento que eu não manifesto. A práxis da
motricidade é fundamental para que esta execução desencadeie essa consciência, ou melhor,
este conhecimento de uma condição praticamente executada.
5
Com Merleau-Ponty notamos que o fenômeno do espaço determina uma concepção
corporal, ele designa que ser corpo é estar atado a um certo mundo, e nosso corpo não está
primeiramente no espaço: ele é no espaço. De fato, Merleau-Ponty renuncia a análise que nos
traz para distinguir consciência que situa e consciência situada.
9
Preencho o espaço com o meu braço e posso conduzi-lo a diferentes espaços,
preservada a pertinência de suas inserções anátomo-funcionais e as possibilidades angulares
a partir de um eixo articular. Vejamos o exemplo a seguir em que Merleau-Ponty nos fala de
seu próprio espaço corporal:
“Se fico em pé diante de minha escrivaninha e nela me apoio com as duas
mãos, apenas minhas mãos estão acentuadas e todo meu corpo vagueia (...).
O espaço corporal pode distinguir-se do espaço exterior e envolver suas partes
em lugar de desdobrá-las, porque ele é a obscuridade da sala necessária à
clareza do espetáculo, o fundo de sono ou a reserva de potência vaga sobre os
quais se destacam o gesto e sua meta”.
10
Nossos ossos se alinham anatomicamente de acordo com a motricidade de nosso
corpo com o mundo. Quando articulo um determinado segmento corporal posso me concentrar
significativamente neste ato e, por outro lado, quanto mais articular ou quanto mais mobilizar
diferentes segmentos corporais, mais próximo estarei de compreender meu corpo inteiro.
Percebo a mobilidade articular e suas zonas limítrofes quando, por exemplo, executo uma
rotação da cabeça sobre os meus ombros.
Com o desenvolvimento do culto ao corpo nas últimas décadas poderíamos,
provavelmente, afirmar que nosso corpo evoluiu. Mas com o advento das tecnociências o corpo
deixou de alcançar sua consciência e sua compreensão como corpo apenas pelo
aprimoramento de suas habilidades motoras.
Os diferentes usos do corpo diante dessa avassaladora possibilidade técnica reorienta
uma corporeidade que no mundo contemporâneo extrapola o nível biológico. O desafio de
estar presente no mundo tem distanciado o ambiente próprio do corpo, quiçá estendido seu
alcance para um além-corpo. Essa transcendência do corpo é permitida pelo avanço das novas
tecnologias de informação e comunicação, mas, em contrapartida, elas criaram uma tendência
de isolamento anímico, gerada em função do movimento inter-relacional que as fronteiras
globalizantes propõem na atualidade.
6
O gesto, o espaço corporal e a dança como
expressão de existência
Merleau-Ponty, como vimos nos advertiu que o espaço corporal é o anteparo, o fundo,
a base sobre a qual o gesto se destaca. Aquele indivíduo que escolhe o gesto como expressão
de existência habilita-se numa inteligência típica. Seu corpo mantém-se em movimento e
procura exprimi-lo (corpo) como suporte primeiro e único de linguagem que proporciona uma
consciência criativa do mundo. Ao fazê-lo utiliza códigos culturais variados que identificam essa
linguagem.
“Cabe ao mímico criar a aparência de um objeto, de uma pessoa ou de uma
ação; e esta tarefa requer caricatura engenhosa, um exagero de movimentos e
reações, caso deseje que os componentes sejam reconhecidos e costurados
sem ambiguidade numa performance sem emendas.”
11
O mímico aqui também pode ser entendido como o dançarino, para ambos seu corpo é
o suporte da comunicação que estabelecem com o mundo. Quando o corpo é o suporte da
comunicação podemos utilizar o exemplo que Gardner (1994) nos dá sobre o mímico que
constrói no corpo sua expressão como meio simbólico:
“O mímico é um performer e de fato, um performer extraordinariamente novo.
As inteligências sobre as quais ele se baseia não se encontram amplamente
desenvolvidas em nossa cultura. Ainda assim, talvez exatamente por esta
razão ele indique de uma forma particularmente notável as ações e
capacidades associadas a uma inteligência corporal-cinestésica (ou, para
encurtar, corporal) altamente desenvolvida. Característica desta inteligência é a
capacidade de usar o próprio corpo de maneiras altamente diferenciadas e
hábeis para propósitos expressivos assim como voltados a objetivos”.
12
O gesto é um fenômeno do espaço corporal. Ele é transcendente ao corpo em si e é
aqui compreendido como intencional para expressar o que o performer pretende comunicar
com o mundo. Mas sobre este ponto vale mencionar que nem sempre o uso do corpo
interligou-se àquela reflexão sobre consciência. E, que, numa abordagem fenomenológica o
gesto é para o mímico a “essência de sua existência”, assim ele (mímico) somente existe se o
seu gesto o realiza como tal.
A própria análise do fenômeno, como aquilo que analisa o desejo ou a doutrina,
demonstra desde os gregos uma consciência neste sentido, ou seja, enquanto consciência
redutível à reflexão fenomenológica.
7
“Ao falar do uso perito do corpo, é natural que pensemos nos gregos, e há um
sentido no qual esta forma de inteligência atingiu seu apogeu no Ocidente
durante a era clássica. Os gregos reverenciaram a beleza da forma humana e,
através de suas atividades artísticas e atléticas, buscavam desenvolver um
corpo que fosse perfeitamente proporcional e gracioso em movimento,
equilíbrio e tonicidade. De forma mais abrangente, eles buscavam uma
harmonia entre corpo e mente, com uma mente treinada para usar o corpo
adequadamente e o corpo treinado para responder aos poderes da mente”.
13
O fenômeno do espaço corporal é aqui compreendido como interseccional (corpo-
mente), repleto de experiências favorecidas pela cognição. E Gardner (1994) diz que o uso do
corpo prova ser central, como os inventores ou os atores.
Na Grécia o uso que se fez do corpo buscava a abrangência harmônica entre mente e
corpo. Assim um corpo habilidoso responderia aos poderes expressivos da mente que usaria
adequadamente este corpo. A perícia na utilização do corpo remonta a era clássica, e talvez o
uso do corpo como uma forma de inteligência pode proporcionar níveis altamente dinâmicos na
expressão de existência. O ideal grego como condicionante do corpo fundamentou as ideias
filosóficas de nossa civilização ocidental. O desenvolvimento no tratamento que é dirigido ao
corpo teve momentos de descontinuidade ideológica através do tempo.
Para a filosofia contemporânea, Merleau-Ponty é quem melhor traduz a dimensão
fenomenológica corpórea do Ser. E para ele a percepção é forma de existência e
principalmente, de existência corporal. Ainda que os avanços da Neurociência em nosso tempo
não permitam o acesso integral do “inconsciente cognitivo” contamos com o resgate perceptivo
dos fenômenos determinados pelo corpo, mas, impossibilitar a promulgação de nosso
“inconsciente cognitivo” seria também ocultar nossa história pessoal como seres humanos na
interface do século XX e XXI.
Mencionar sobre a percepção também é vislumbrar forma e conteúdo no mundo
sensível e no nível da filosofia o corpo e os movimentos são concomitantes a essa expressão
que nos indica consciência.
“Paradoxalmente enquanto o córtex serve como centro “mais elevado” na
maioria das formas de atividade humana, são os relativamente inferiores
gânglios basais e o cerebelo que contém as formas mais abstratas e
complexas de “representação de movimentos”; o córtex motor está mais
diretamente ligado à medula espinhal e à execução física de movimentos
musculares específicos.”
14
Ou seja, o sistema motor extrapiramidal, reconhecido nos gânglios basais, é essencial
para algumas formas de plasticidade relacionadas com a aprendizagem na dança. Ocupo este
espaço de variadas formas e sentidos. A unidade corporal se expressa através de variadas
experiências, portanto escolhemos o fenômeno da dança como significado da existência
humana. O aprender um movimento de dança significa um “logos”
15
sensível e que não pode
ser traduzido como objetivo. O movimento é alcançado como percepto ulterior do corpo que
aqui está sendo habituado constantemente a esse movimento.
A dança é um fenômeno que integra o espaço-corpo ulterior. Em si, o corpo que dança
reflete sobre sua existência e mesmo quando pensamos no corpo que não possui suas
8
faculdades visuais ainda assim o corpo é capaz de exprimir sua consciência e
consequentemente sua existência. Pois o corpo do cego demonstra-nos que o cego existe
também a partir da experiência do corpo. Portanto o corpo exprime na dança, ainda que
deficiente, sua consciência. Merleau-Ponty nos mostra que:
“Os lugares no espaço não se definem como posições objetivas em relação à
posição objetiva de nosso corpo, mas eles inscrevem em torno de nós o
alcance variável de nossos objetivos ou de nossos gestos”.
16
O uso do corpo pelo fenômeno da dança redimensiona as espacialidades conhecidas e
contribui para uma compreensão de corpo multifacetada. A própria percepção que o indivíduo
tem de mundo é afetada pelo status das atividades motoras.
Quando direcionamos um movimento ocorre uma série de ajustes sensório-motores
que fazem com que alcancemos a exatidão do mesmo. A dança é um fenômeno de caráter
corporal. Fenômeno que se converte em Arte e, consequentemente, arte essencialmente
envolvida com a percepção efetiva do espaço corporal. O corpo que dança considera e
apropria o espaço. Tanto o espaço do corpo em si como aquele ocupado fora de si, o corpo e o
espaço são objetos do mundo.
Esta programação motora depende de uma origem estimulatória complexa que recruta
células musculares exigindo coordenação de grande variedade de componentes neurais como
o córtex cerebral, o tálamo, os gânglios basais e o cerebelo. A programação motora controlará
formas mais abstratas e complexas de “representação de movimentos”. Há uma relação
intrincada com os olhos e o segmento que se movimenta na regulação do movimento diante do
espelho numa sala de dança. O corpo que dança considera e apropria o espaço. Tanto espaço
do corpo como aquele ocupado fora de si. O corpo e o espaço são objetos do mundo e
Figueiredo (1997) considera que:
“A relação do diálogo da arte com o corpo não é superficial, ele é embebido
dos sentidos e dos reflexos internos e externos de nós mesmos. Com algo que
possui o universo. O incorporar é esse todo, uma vivência que enraíza os pés
na terra e derrama sobre nós todas as experiências com omundo.”
17
Experimentar a dança é experimentar o corpo e evidencia uma oportunidade única de
comunicação gestual, mimética e lúdica. Estes movimentos percorrem um espaço e
proporcionam comportamentos conscientes manifestos em si mesmo. Do ponto de vista
fenomenológico observamos que o corpo é penetrante em seus significados. Ao dançar
pertenço e manifesto um conhecimento, ao dançar interponho-me aos objetos ou eles a mim. O
fenômeno dança aqui é apontado como capacidade corporal de manifestar-se em si mesmo.
Os fenômenos habituais e os gestos cotidianos representam o conceito que estabeleço
entre esse espaço e o meu entorno. Figueiredo (1997) menciona que perceber e sentir são
fenômenos que exploram as nossas potencialidades, adquirindo vida a cada gesto, a cada
toque. O gesto que emana do espaço é talvez o mais complexo modo de expressão. O gesto e
o toque são categorias de expressão únicas, eles podem ser repetidos, porém jamais
precisarão o mesmo trajeto ainda que se trate de um movimento linear, onde as partes se
movimentam à mesma distância, mesma direção e mesmo tempo.
9
A dança ocupa essa dimensão física do gesto, é também através dela que o espaço
corporal ocupa seu espaço em frações contínuas. Quando dançamos ocupamos espaços
através do movimento, por assim dizer, vamos “borrando” o espaço à nossa volta. Isso significa
que o nosso corpo desdobra-se em movimentos de dança.
O tema principal do trabalho de Figueiredo (1997) mostra-nos ser possível também tal
regulação do movimento para a pessoa portadora de deficiência visual. Uma abordagem
peculiar, pois demonstra-nos que o cego existe também a partir da experiência do corpo.
Portanto o corpo exprime, ainda que deficiente de suas faculdades visuais, sua consciência.
Figueiredo (1997) reflete ainda sobre o universo perceptivo da pessoa portadora de deficiência
visual que experienciou o fenômeno dança enquanto expressão dessa consciência. Contudo,
utilizando este referencial do trabalho da autora percebemos que Merleau-Ponty já apontara
algumas considerações ao tema. Observemos o trecho que se segue:
“(...) pois se é verdade que tenho consciência de meu corpo através do mundo,
que ele é, no centro do mundo, o termo não percebido para o qual todos os
objetos voltam a sua face, é verdade pela mesma razão que meu corpo é o
pivô do mundo: sei que os objetos têm várias faces porque eu poderia fazer a
volta em torno deles, e neste sentido tenho consciência do mundo por meio de
meu corpo.”
18
Para Husserl a consciência constitui o pensamento no mundo. E, por outro lado,
Merleau-Ponty nos adverte que adquirimos consciência do mundo à nossa volta mais pelo
contato com os objetos. Todos estes objetos foram conceituados a partir da experiência visual,
assim foram determinados historicamente em seus significados. Mas se tomamos como
exemplo o corpo que não vê, estes significados participam de uma experiência outra, uma
conquista que Figueiredo (1997) menciona:
“Movimentar é conquistar e explorar o meio no qual estamos, mas de repente
se este corpo não se enxerga no espelho ou não vê o outro ele se torna “cego”,
pois o mundo é cheio de conquistas a serem realizadas com os olhos.”
19
A autora apresenta-nos aqui uma redução eidética20 da percepção visual, pois o mundo
é geralmente percebido através da faculdade visual. A essência do sentido do mundo que leva
consciência desse mundo se faz pelo que foi percebido visualmente e devidamente significado.
Neste contexto o filósofo Merleau-Ponty (1999) aponta que:
“(...) a consciência desenvolve livremente os dados visuais para além de seu
sentido próprio, ela se serve deles para exprimir seus atos de espontaneidade,
como o mostra suficientemente a evolução semântica que atribui um sentido
cada vez mais rico aos termos da intuição, evidência ou luz natural. Mas,
reciprocamente, não um só desses termos, no sentido final que a história lhes
atribui, que se compreende sem referência às estruturas da percepção
visual.”
21
10
Esta consciência que tanto fala Merleau-Ponty
22
é embebida em si mesmo na
existência, o fenômeno aparenta-se como ideal satisfatório e ainda é enriquecido com sua
significância existencial. Figueiredo (1997) ao abordar os resultados de sua pesquisa diz o
quanto é difícil definir a dança, pois corremos o risco de reduzi-la a estilos ou estratificá-la no
tempo e no espaço, portanto resta-nos ainda uma pergunta crucial: como o gesto, o espaço
corporal e a dança determinam expressão de existência? Seria apenas pela relação
olho/segmento? A resposta para tais questões pode ser ambígua. Provavelmente teríamos
condições de relacionar os fenômenos (gesto e dança) às mais diversas expressões humanas,
como no trabalho e nos esportes. Merleau-Ponty esclarece que é no corpo que:
“(...) aprendemos a conhecer esse nó entre a essência e a existência que em
geral reencontraremos na percepção, e que precisaremos então descrever
mais completamente.”
23
A dança é um modo de existir e trata-se de um modo de existir por completo. Cada um
pode realizar ou entender um movimento de uma maneira diferente, cada um percebe e tem
uma consciência de movimento e por este motivo escolhemos o trabalho de Figueiredo (1997),
uma vez que ela reflete sobre o universo perceptivo da pessoa portadora de deficiência visual
que experienciou o fenômeno dança enquanto expressão e presença do ser-no-mundo.
11
O espaço corporal e a percepção do espaço no
contexto da dança
O espaço corporal é aquele que envolve nosso ser-no-mundo. Desde que existo ocupo
um lugar no espaço. A percepção efetiva do espaço corporal humano surge com o movimento.
Conhecemos, segundo Barral (1984), a própria Fenomenologia Merleau-Pontyana como um
movimento e de acordo com a sua redução fenomenológica deste existimos enquanto
sensações que são desencadeadas à medida que alcançamos objetos ou deslocamos nosso
corpo.
“Os lugares no espaço não se definem como posições objetivas em relação à
posição objetiva de nosso corpo, mas eles inscrevem em torno de nós o
alcance variável de nossos objetivos ou de nossos gestos.”
24
.
Também podemos classificar o movimento, que é um fenômeno do corpo, a partir de
suas sensações vividas neste corpo. Desse modo temos, em Merleau-Ponty (1999, p.114) que:
“(...) essa “experiência do corpo” é ela mesma uma “representação”, um “fato
psíquico”, que a este título ela está no final de uma cadeia de acontecimentos
físicos e fisiológicos que são os únicos a poderem ser creditados ao “corpo
real”.
25
O estar presente no mundo confere à dança, que é fenômeno de expressão artística,
uma abordagem intencional particular. Submete tanto o executante (dançarino) como o
espectador (público) numa experiência perceptiva. Dançamos com o corpo, com ele
descrevemos essa capacidade de inteligência cinestésica, mas o corpo do outro que assiste
também participa percebendo formas espaciais que estão sendo descritas por aquele corpo
que é semelhante ao seu próprio. Merleau-Ponty durante seus cursos na Sorbonne entre 1949-
1952 propusera que:
“Hoje esse problema está superado, por ter dado direito de existência à noção
de estrutura. O corpo do outro, funcionando, realiza nos seus movimentos o
deslocamento de certas formas corporais cuja apreensão não é a simples
soma de percepção de movimentos vistos, e meu corpo também me é dado
não como uma soma de sensação, mas como um todo. Entre os dois, há esse
laço da forma comum às percepções visuais e táteis; é através delas que se
comunicam. Tudo se passa como se as intuições e realizações motrizes do
12
outro se achassem numa espécie de relação de imbricamento intencional,
como se meu corpo e o do outro formassem um sistema”.
A filosofia de Merleau-Ponty nos mostra que o homem jamais pode ser um destacado
espectador do mundo. Quando ele fala de percepção ele fala que o homem está
definitivamente comprometido com o mundo, seus movimentos corporais completam esta
relação, e o corpo do outro é sempre um meio de experiência e de comunicação.
Quando sugiro aos meus alunos movimentos que exijam maior domínio dos diferentes
segmentos, por exemplo, movimentos de membros superiores (braços) e de membros
inferiores (pernas) alternados e executados simultaneamente verifica-se neles uma grande
dificuldade em coordená-los. É muito comum encontrar indivíduos com dificuldades de
locomover os membros em sentido contrário. Se os movimentos partem de um mesmo lado e
com um mesmo ângulo de execução há maior facilidade de execução e velocidade do
movimento. Evidentemente que este exemplo não se aplica ao trabalho de Figueiredo (1997),
entretanto, ele pode ser um excelente exemplo a fim de avaliar este fenômeno como imanente
à existência humana.
“A análise do “movimento abstrato” entre os doentes mostra melhor ainda esta
posse do espaço, esta existência espacial que é a condição primordial de toda
percepção viva.”
26
Merleau-Ponty estabelece uma diferenciação entre movimento abstrato e movimento
concreto onde “o fundo do movimento concreto é o mundo dado, o fundo do movimento
abstrato, ao contrário, é construído.” Merleau-Ponty menciona que o movimento abstrato
aprofunda-se no interior do mundo pleno.
“(...) no qual se desenrolava o movimento concreto, uma zona de reflexão e de
subjetividade, ele sobrepõe ao espaço físico um espaço virtual ou humano. O
movimento concreto é, portanto centrípeto, enquanto o movimento abstrato é
centrífugo; o primeiro ocorre no ser ou no atual, o segundo no possível ou não-ser; o
primeiro adere a um fundo dado, o segundo desdobra ele mesmo seu fundo.”
27
Tal como Figueiredo (1997), suas análises fenomenológicas do corpo pensado e
percebido no âmbito dos movimentos abstratos e concretos partem de observações em
indivíduos doentes28. Para o doente o mundo exterior, suas formas, distâncias, coordenadas
espaciais e os objetos ali existentes estão destorcidos da realidade que pertence aos
indivíduos sadios.
Os indivíduos sadios têm condição de pensar e perceber o corpo. Porém, mesmo que o
mundo seja um mundo dado, inquestionável, resoluto e imobilizado, ainda assim Figueiredo
(1997) nos mostra ser possível ao portador de deficiência visual desenvolver uma história
motora e ser possível o processo motor na sua dança, pois a dança supera a dificuldade do
cego em vivenciar seu corpo. Dançar nos permite ver a vida com os olhos do corpo.
No capítulo II aponto a dança como um fenômeno que manifesta a percepção do
espaço corporal. Tais formas mais abstratas de “representação de movimentos” , como já
13
disse, dependem de um complexo e imbricado sistema orgânico e fisiológico. Neste sentido,
Figueiredo (1997) indica que a ausência de uma capacidade neste sistema não inviabiliza, a
priori, a expressão dos movimentos no corpo.
“A representação visual não explica o movimento abstrato, pois ela própria é
habitada pela mesma potência de projetar um espetáculo que se manifesta no
movimento abstrato e no gesto de designação.”
29
O espaço corporal é um tecido sólido e que compromete o homem como noema
30
e
noese
31
do ser-no-mundo. A expressão contínua dessas essências corpóreas, quando
orientadas para a aquisição artística de movimentos, é específica da expressão corporal e da
dança. Ao envolver este tecido na expressão corporal e consecutivamente na dança, mais
possibilidades teriam de colocar essência em minha existência com busca de significância.
Valendo-me das palavras do filósofo Merleau-Ponty
32
considera que “a aquisição do hábito é
sim a apreensão de uma significação motora”.
Considerações Finais
Há uma grande maioria de autores que classificam o espaço corporal e a dança como
sendo distintos entre si. Outros consideram que ambos possuem o mesmo sentido ou estão
intimamente ligados entre si. Neste trabalho é importante compreender estes fenômenos e sua
inserção filosófica extremamente contemporânea e, infelizmente, ainda pouco prestigiada em
nossa literatura.
O cego existe, e para sentir o mundo ele necessita tocar. Quando ele toca, ele constrói
o mundo a sua volta e, além disso, o reduz eideticamente. As pessoas sadias percebem o
mundo por meio de vários sentidos. Merleau-Ponty diz que estamos indiscutivelmente inseridos
neste mundo e ao dançar me envolvo mais profundamente com a minha existência, dançando
eu consigo ampliar as fronteiras limitantes de meu corpo no mundo.
Com o conhecimento da dança eu aproprio o meu espaço corporal e sou capaz de
desdobrar-me em direção ao limite, à fronteira do corpo. Meu corpo pode ser ampliado a partir
dessa experiência e meu espaço corporal é inserido em outros espaços. Ainda assim,
considerando a minha existência “cega” diante dessa dança infinita e desafiadora para os meus
limites, procurarei um sentido mais amplo para a minha existência enquanto puder dançar.
“Nunca me torno inteiramente uma coisa no mundo, falta-me sempre a
plenitude da existência como coisa, minha própria substância foge de mim pelo
interior e alguma intenção sempre se esboça.”
33
14
Notas
1 COELHO Jr. e Carmo. Merleau-Ponty: filosofia como corpo e existência. 1991, p. 14.
2 MERLEAU-PONTY, M . Fenomenologia da Percepção. 1999, p.108.
3 HUSSERL, 1931, apud. BARRAL, M. R. The Body in Interpersonal Relations. 1984, p. 06: “(...) The
phenomena of transcendental phenomenology will be characterized as non-real (irreal)... Reductions, the specifically
transcendental, “purify” the psychological phenomena from that which lends them reality, and therewith a setting in
the “real” world. Our phenomenology should be a theory of essential Being, dealing not with real, but with
transcendentally reduced phenomena.”
4 COELHO Júnior e Carmo. Op cit. 1991, p.38.
5 COÊLHO in BICUDO, Maria Aparecida Viggiani & CAPELLETTI, Isabel Franchi (orgs.).
Fenomenologia: uma visão abrangente da Educação. 1999, p.63.
6 HUSSERL, 1931, apud. BARRAL, M. R. Op cit., p. 06
7 Para COÊLHO in BICUDO, Maria Aparecida Viggiani & CAPELLETTI, Isabel Franchi (orgs.). Op. cit., p. 67:
“Consciência (por exemplo, a percepção, a memoração ou a imaginação) é animada por sua intencionalidade
específica, responsável pelas diferenças essenciais que constituem como distintas umas das outras. Se a consciência é
sempre, em virtude de sua natureza, consciência de algo, todo objeto é, por sua vez, objeto para uma consciência. Na
percepção este é posto como percebido, na imaginação como imaginado e no desejo enquanto desejado”.
8 BARRAL, M. R., Op cit., p. 09: “(...) phenomenon is that which manifests itself, broadly speaking, anything which
manifests itself - which is capable of appearing in consciousness - can be the object of phenomenological reflection.”
9 Idem, ibid., 1984, p. 08: “in fact Merleau-Ponty renounces the analysis which brings us to distinguish
consciousness which situates and situated consciousness.”
10 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 146.
11 GARDNER, H., Estruturas da Mente: A Teoria das Inteligências Múltiplas. 1994, p. 160.
12 GARDNER, H., Op cit., p. 161.
13 Idem, ibid., p.161.
14 GARDNER, H., Op cit., p. 161
15 Segundo COÊLHO, Ildeu Moreira, apud. BICUDO, Maria Aparecida Viggiani (org.). In: Fenomenologia e
Educação, p. 61: O verbo légo (infinitivo: légein) em grego possui vários significados: juntar, contar, enumerar,
dizer, declarar, anunciar, designar (...). O substantivo logos, originário desse verbo, significa: palavra, o que é dito,
discurso, revelação divina, resposta de um oráculo, máxima, sentença, exemplo, decisão, resolução, ordem, matéria
de estudo ou de conversação, argumento, pensamento, inteligência, juízo, explicação, estudo, razão ou valor ou valor
de uma coisa, motivo, fundamento, justificação. Logos é o que permite ver, oferece a razão, o sentido, a natureza, a
causa, o fundamento de alguma coisa.
16 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 199.
17 FIGUEIREDO, Valéria M. C. Olhar para o Corpo que Dança: um sentido para a pessoa portadora de
deficiência Visual. 1997, p. 109.
18 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 122.
19 FIGUEIREDO, Valéria M. C. Op cit., p. 114.
20 Para HUSSERL redução eidética significa a atitude que conduz do fenômeno psicológico para a essência pura.
21 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 191.
22 BARRAL, M. R., Op cit. 1984, p. 07: “To consciousness, which is itself steeped in existence (this will later on be
seen as the condition for ambiguity), the phenomenon appears as ideal content and yet enriched with its existential
significance.”
23 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 204.
24 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 199.
25 Idem, ibid., p.114.
26 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 158.
27 Idem, ibid., p.160.
28 Como é o caso de “Schn.” doente com deficiências motoras e intelectuais.
29 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 164.
30 Na fenomenologia significa o aspecto objetivo da vivência, o objeto considerado pela reflexão em seus diferentes
modos de ser dado: o percebido, o pensado, o imaginado.
31 Na fenomenologia significa o aspecto subjetivo da vivência constituído por todos os atos que tendem a apreender
o objeto: o pensamento, a percepção, a imaginação, etc.
32 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 198.
33 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 228.
15
Referências Bibliográficas
BARRAL, Mary Rose. The Body in Interpersonal Relations. New York: University Press of
America, 1984.
BICUDO, Maria Aparecida Viggiani & CAPELLETTI, Isabel Franchi (orgs.); COÊLHO, Ildeu
Moreira & GARNICA, Antonio Vicente Marafioti. Fenomenologia: uma Visão Abrangente da
Educação. São Paulo: Olho d'Água, 1999.
CESAR, Constança Marcondes. Merleau-Ponty na Sorbonne: resumo de cursos. Campinas:
Papirus, 1990.
COELHO JÚNIOR, Nelson & CARMO, Paulo Sérgio do. Merleau-Ponty: filosofia como corpo
e existência. São Paulo: Escuta, 1991.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de
Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986.
FIGUEIREDO, Valéria Maria Chaves de. Olhar para o Corpo que Dança: um sentido para a
pessoa portadora de deficiência visual. Dissertação (mestrado em Artes) - Universidade
Estadual de Campinas, 1997.
FOLSCHEID, Dominique & WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica. São
Paulo: Editora Ática, 1991.
GARDNER, Howard. Estruturas da Mente: A Teoria das Inteligências Múltiplas. Porto
Alegre: Artes Médicas Sul, 1994.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes,
1999.

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  • 1. FRONTEIRAS DO CORPO: FENOMENOLOGIA DO ESPAÇO CORPORAL E DA DANÇA A PARTIR DE MERLEAU-PONTY Alexandre Batista Reis Diretor da Contemplo Cia de Dança Resumo Há uma grande maioria de autores que classificam o espaço corporal e a dança como sendo distintos entre si. Outros consideram que ambos possuem o mesmo sentido ou estão intimamente ligados entre si. Neste trabalho é importante compreender estes fenômenos e sua inserção filosófica extremamente contemporânea e, infelizmente, ainda pouco prestigiada em nossa literatura. Palavras-chave: Corpo, Dança, Fenomenologia da percepção e Espaço Corporal. Abstract There is a vast majority of authors classify the body space and dance as being distinct from each other. Others consider that both have the same meaning or are closely linked together. This work is important to understand these phenomena and their extremely contemporary philosophical insertion and unfortunately still little prestige in our literature. Keywords: Body, Dance, Phenomenology of Perception and Body Space Bahia, dezembro de 2000
  • 2. 2 O Corpo como extensão e movimento O corpo em sua extensão, forma e função possuem características que só podem ser tomadas como um todo unificado. O corpo em movimento está atado ao mundo e sua consequente fragmentação não traduz o espaço objetivo de seu alcance. Vejamos que na fase embrionária do homem o espaço não é corpo e os subsequentes movimentos determinados pelas células reprodutivas desencadeiam a amplitude da extensão do corpo que surge (o embrião). A questão da extensão e do movimento acompanha o pensamento do filósofo francês escolhido para a heurística deste trabalho, Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). Merleau-Ponty nunca teve a intenção de construir um sistema, pois, para ele, a filosofia deve ser uma interrogação constante 1 . Vários filósofos, além de Merleau-Ponty, discutiram sobre o pensamento e a linguagem. Tendo em vista que se conhece o homem mais por suas condutas que por seus pensamentos, então poderíamos afirmar que “somos o corpo” e eu considero meu corpo, que é meu ponto de vista sobre o mundo, como um dos objetos desse mundo 2 . Este corpo precisa ser reapropriado e realocado, pois ele não para de se transformar. Observemos, por exemplo, o desenvolvimento motor humano para alcançar os objetos do mundo. Este percurso, gerador de sentidos, fundamenta uma estrutura própria e simbólica da relação homem-objeto. O corpo é o portador dessa estrutura, ou seja, ele é o facilitador do conjunto de intenções no espaço e, por conseguinte o maior transformador de sua existência. Os símbolos que o homem atribui ao corpo são, em sua primeira instância, uma condição para estabelecer significados de sua existência. Esta é marcada por uma infinidade de intenções que se desenvolve num continuum motriz. A pesquisa em motricidade humana pode decompor o movimento e o espaço corporal em sequências mecânicas e físicas ou segmentos articulares numa tentativa de explicar suas características procurando em vão pela unidade que é própria do todo. O objetivo do primeiro capítulo será localizar a Fenomenologia da Percepção dentro do campo de conhecimento filosófico aportando sua lógica histórico-crítica segundo Barral (1984) e buscando subsídios em outras disciplinas que se relacionam com a Filosofia para um bom desenvolvimento da pesquisa teórico-metodológica. Dentre estas disciplinas vale mencionar que o capítulo II dedicar-se-á aos conceitos estabelecidos na teoria neurocientífica de Gardner (1994) que possibilita considerações sobre o espaço corporal (forma e conteúdo) e a dança; há no capítulo III uma relação das ideias de Figueiredo (1997) posicionadas à primeira parte (o corpo) da obra Fenomenologia da Percepção e uma advertência sobre a necessidade de pensarmos o hiato dança-filosofia.
  • 3. 3 A Fenomenologia e a Fenomenologia da Percepção: concepções determinantes para o espaço e o movimento corporal Na gramática grega o verbo phaíno significa brilhar, mostrar ou aparecer. Já a noção Husserliana de fenômeno difere tanto daquela Kantiana como Hegeliana. Edmund Husserl é chamado o pai da Fenomenologia e ele apropria o termo como um novo entendimento da realidade: “O fenômeno da fenomenologia transcendental pode ser caracterizado como não real (irreal)... resumindo, o transcendental especificamente, “purifica” o fenômeno psicológico para aquele o qual empresta à eles realidade, e há nisso uma situação no mundo real. Nossa fenomenologia pode ser uma teoria do Ser essencial, entendido não com o real, porém com o fenômeno transcendentalmente reduzido”. 3 Husserl também nos adverte que a Psicologia não consegue resolver o problema fundamental da teoria do conhecimento. Pois não é possível que o sujeito cognoscente alcance, objetivamente através dela, uma realidade que lhe é exterior. Para Husserl a consciência constitui o pensamento do mundo. A psicologia pré-científica estava entrelaçada à filosofia ao invés de ter-se a ideia de que estava emaranhada com a medicina. A psicologia, como ciência, passa a ser encarada com esforço e seriedade a partir da segunda metade do século XIX e também quando Jean Piaget lança suas obras: O Nascimento da Inteligência na Criança (1933), A Construção do Real na Criança (1937) e A Formação do Símbolo na Criança (1946) onde ele mostra que diferentes crianças possuem diferentes ritmos. Surge também a psicologia da Gestalt (Gestaltphisycologie) que introduz o conceito de forma. A vantagem da forma, ou estrutura, consiste exatamente em superar a contradição do em si para si. Compreender a importância da psicologia ao mencionar o autor de Fenomenologia da Percepção é de grande relevância, pois a psicologia muito contribuiu nos trabalhos de Merleau- Ponty: “Ainda que a filosofia tenha se mantido como interesse básico e eixo de sua obra, (...) não podemos deixar de notar o interesse especial que dedicou à psicologia. Os temas de suas duas obras iniciais (comportamento e percepção) são originalmente temas clássicos no desenvolvimento da psicologia como ciência a partir da segunda metade do século XIX”. 4
  • 4. 4 Ele agradece sensivelmente a Husserl, porém aborda distintamente sua concepção sobre o fenômeno, pois as possibilidades de reduções propostas por Husserl seriam no mínimo questionáveis. Husserl aponta uma fenomenologia que seja: “(...) antes de tudo um método de apreensão das essências e de constituição da filosofia como ciência rigorosa e, portanto, voltado para a fundamentação de todo e qualquer saber com a pretensão de validade universal”. 5 Husserl admite o princípio de que o mundo real está fundamentado no “pensamento” que se faz parecer como fenômeno e realmente considerá-lo (o mundo) não distante como realidade ou existência. O autor escolhido para este trabalho recoloca as essências na existência. Isso significa que em Merleau-Ponty a realidade não é preferivelmente um “pensamento”, ela tem um caráter “existencial”. O fenômeno deve de fato ser considerado em sua condição existencial, à qual permite que “na filosofia ele seja mais aparente daquele que ele era na redução de Husserl”. 6 A perspectiva cartesiana propõe-nos que abandonemos a concepção estabelecida na natureza corpórea das coisas. O corpo humano também fora entendido enquanto essa concepção. As sensações somestésicas extrapolam, numa perspectiva cartesiana, significando um para além do corpo. O corpo é meu ponto de vista sobre o mundo. Todas as relações que estabeleço e suas significações, sobretudo aquelas mediadas pelo caráter ordinário de sua natureza estão contextualizadas no mundo e sendo a cultura corporal o eixo principal deste estar no mundo, fechá-la em si mesma seria eliminar sua dialética transhistórica. O valor de culto ao corpo teve diferentes conjecturas no decorrer da história da humanidade. Nessa interface a psicologia cognitiva, engendrada pela cultura corporal, desenvolveu sua técnica a partir destes determinantes históricos. Buscamos determinar a concepção de espaço corporal e de movimento do corpo como um fenômeno não somente cultural ou psicológico, a consciência 7 do movimento é que manifesta o fenômeno. Para Merleau-Ponty a primeira revelação do fenômeno será indubitavelmente uma experiência perceptiva. Entretanto, a consciência é passível de julgamento no mundo e para Merleau-Ponty, já que ela se manifestará, é parte do mundo. Vejamos o trecho que segue para melhor esclarecer a concepção merleau-pontyana sobre o alcance do fenômeno: “(...) o fenômeno é aquilo que se manifesta em si mesmo, falando claramente, qualquer coisa que manifesta-se em si mesmo - a qual é capaz de aparentar-se em consciência - pode ser objeto da reflexão fenomenológica.” 8 Essa constante não pode ser uma resposta unívoca, aplicável para toda e qualquer investigação fenomenológica. Observo que com meu corpo posso executar sistematicamente um movimento logo manifesto o movimento e, assim como, posso organizar minha consciência a partir de uma introspecção, sobre o movimento que eu não manifesto. A práxis da motricidade é fundamental para que esta execução desencadeie essa consciência, ou melhor, este conhecimento de uma condição praticamente executada.
  • 5. 5 Com Merleau-Ponty notamos que o fenômeno do espaço determina uma concepção corporal, ele designa que ser corpo é estar atado a um certo mundo, e nosso corpo não está primeiramente no espaço: ele é no espaço. De fato, Merleau-Ponty renuncia a análise que nos traz para distinguir consciência que situa e consciência situada. 9 Preencho o espaço com o meu braço e posso conduzi-lo a diferentes espaços, preservada a pertinência de suas inserções anátomo-funcionais e as possibilidades angulares a partir de um eixo articular. Vejamos o exemplo a seguir em que Merleau-Ponty nos fala de seu próprio espaço corporal: “Se fico em pé diante de minha escrivaninha e nela me apoio com as duas mãos, apenas minhas mãos estão acentuadas e todo meu corpo vagueia (...). O espaço corporal pode distinguir-se do espaço exterior e envolver suas partes em lugar de desdobrá-las, porque ele é a obscuridade da sala necessária à clareza do espetáculo, o fundo de sono ou a reserva de potência vaga sobre os quais se destacam o gesto e sua meta”. 10 Nossos ossos se alinham anatomicamente de acordo com a motricidade de nosso corpo com o mundo. Quando articulo um determinado segmento corporal posso me concentrar significativamente neste ato e, por outro lado, quanto mais articular ou quanto mais mobilizar diferentes segmentos corporais, mais próximo estarei de compreender meu corpo inteiro. Percebo a mobilidade articular e suas zonas limítrofes quando, por exemplo, executo uma rotação da cabeça sobre os meus ombros. Com o desenvolvimento do culto ao corpo nas últimas décadas poderíamos, provavelmente, afirmar que nosso corpo evoluiu. Mas com o advento das tecnociências o corpo deixou de alcançar sua consciência e sua compreensão como corpo apenas pelo aprimoramento de suas habilidades motoras. Os diferentes usos do corpo diante dessa avassaladora possibilidade técnica reorienta uma corporeidade que no mundo contemporâneo extrapola o nível biológico. O desafio de estar presente no mundo tem distanciado o ambiente próprio do corpo, quiçá estendido seu alcance para um além-corpo. Essa transcendência do corpo é permitida pelo avanço das novas tecnologias de informação e comunicação, mas, em contrapartida, elas criaram uma tendência de isolamento anímico, gerada em função do movimento inter-relacional que as fronteiras globalizantes propõem na atualidade.
  • 6. 6 O gesto, o espaço corporal e a dança como expressão de existência Merleau-Ponty, como vimos nos advertiu que o espaço corporal é o anteparo, o fundo, a base sobre a qual o gesto se destaca. Aquele indivíduo que escolhe o gesto como expressão de existência habilita-se numa inteligência típica. Seu corpo mantém-se em movimento e procura exprimi-lo (corpo) como suporte primeiro e único de linguagem que proporciona uma consciência criativa do mundo. Ao fazê-lo utiliza códigos culturais variados que identificam essa linguagem. “Cabe ao mímico criar a aparência de um objeto, de uma pessoa ou de uma ação; e esta tarefa requer caricatura engenhosa, um exagero de movimentos e reações, caso deseje que os componentes sejam reconhecidos e costurados sem ambiguidade numa performance sem emendas.” 11 O mímico aqui também pode ser entendido como o dançarino, para ambos seu corpo é o suporte da comunicação que estabelecem com o mundo. Quando o corpo é o suporte da comunicação podemos utilizar o exemplo que Gardner (1994) nos dá sobre o mímico que constrói no corpo sua expressão como meio simbólico: “O mímico é um performer e de fato, um performer extraordinariamente novo. As inteligências sobre as quais ele se baseia não se encontram amplamente desenvolvidas em nossa cultura. Ainda assim, talvez exatamente por esta razão ele indique de uma forma particularmente notável as ações e capacidades associadas a uma inteligência corporal-cinestésica (ou, para encurtar, corporal) altamente desenvolvida. Característica desta inteligência é a capacidade de usar o próprio corpo de maneiras altamente diferenciadas e hábeis para propósitos expressivos assim como voltados a objetivos”. 12 O gesto é um fenômeno do espaço corporal. Ele é transcendente ao corpo em si e é aqui compreendido como intencional para expressar o que o performer pretende comunicar com o mundo. Mas sobre este ponto vale mencionar que nem sempre o uso do corpo interligou-se àquela reflexão sobre consciência. E, que, numa abordagem fenomenológica o gesto é para o mímico a “essência de sua existência”, assim ele (mímico) somente existe se o seu gesto o realiza como tal. A própria análise do fenômeno, como aquilo que analisa o desejo ou a doutrina, demonstra desde os gregos uma consciência neste sentido, ou seja, enquanto consciência redutível à reflexão fenomenológica.
  • 7. 7 “Ao falar do uso perito do corpo, é natural que pensemos nos gregos, e há um sentido no qual esta forma de inteligência atingiu seu apogeu no Ocidente durante a era clássica. Os gregos reverenciaram a beleza da forma humana e, através de suas atividades artísticas e atléticas, buscavam desenvolver um corpo que fosse perfeitamente proporcional e gracioso em movimento, equilíbrio e tonicidade. De forma mais abrangente, eles buscavam uma harmonia entre corpo e mente, com uma mente treinada para usar o corpo adequadamente e o corpo treinado para responder aos poderes da mente”. 13 O fenômeno do espaço corporal é aqui compreendido como interseccional (corpo- mente), repleto de experiências favorecidas pela cognição. E Gardner (1994) diz que o uso do corpo prova ser central, como os inventores ou os atores. Na Grécia o uso que se fez do corpo buscava a abrangência harmônica entre mente e corpo. Assim um corpo habilidoso responderia aos poderes expressivos da mente que usaria adequadamente este corpo. A perícia na utilização do corpo remonta a era clássica, e talvez o uso do corpo como uma forma de inteligência pode proporcionar níveis altamente dinâmicos na expressão de existência. O ideal grego como condicionante do corpo fundamentou as ideias filosóficas de nossa civilização ocidental. O desenvolvimento no tratamento que é dirigido ao corpo teve momentos de descontinuidade ideológica através do tempo. Para a filosofia contemporânea, Merleau-Ponty é quem melhor traduz a dimensão fenomenológica corpórea do Ser. E para ele a percepção é forma de existência e principalmente, de existência corporal. Ainda que os avanços da Neurociência em nosso tempo não permitam o acesso integral do “inconsciente cognitivo” contamos com o resgate perceptivo dos fenômenos determinados pelo corpo, mas, impossibilitar a promulgação de nosso “inconsciente cognitivo” seria também ocultar nossa história pessoal como seres humanos na interface do século XX e XXI. Mencionar sobre a percepção também é vislumbrar forma e conteúdo no mundo sensível e no nível da filosofia o corpo e os movimentos são concomitantes a essa expressão que nos indica consciência. “Paradoxalmente enquanto o córtex serve como centro “mais elevado” na maioria das formas de atividade humana, são os relativamente inferiores gânglios basais e o cerebelo que contém as formas mais abstratas e complexas de “representação de movimentos”; o córtex motor está mais diretamente ligado à medula espinhal e à execução física de movimentos musculares específicos.” 14 Ou seja, o sistema motor extrapiramidal, reconhecido nos gânglios basais, é essencial para algumas formas de plasticidade relacionadas com a aprendizagem na dança. Ocupo este espaço de variadas formas e sentidos. A unidade corporal se expressa através de variadas experiências, portanto escolhemos o fenômeno da dança como significado da existência humana. O aprender um movimento de dança significa um “logos” 15 sensível e que não pode ser traduzido como objetivo. O movimento é alcançado como percepto ulterior do corpo que aqui está sendo habituado constantemente a esse movimento. A dança é um fenômeno que integra o espaço-corpo ulterior. Em si, o corpo que dança reflete sobre sua existência e mesmo quando pensamos no corpo que não possui suas
  • 8. 8 faculdades visuais ainda assim o corpo é capaz de exprimir sua consciência e consequentemente sua existência. Pois o corpo do cego demonstra-nos que o cego existe também a partir da experiência do corpo. Portanto o corpo exprime na dança, ainda que deficiente, sua consciência. Merleau-Ponty nos mostra que: “Os lugares no espaço não se definem como posições objetivas em relação à posição objetiva de nosso corpo, mas eles inscrevem em torno de nós o alcance variável de nossos objetivos ou de nossos gestos”. 16 O uso do corpo pelo fenômeno da dança redimensiona as espacialidades conhecidas e contribui para uma compreensão de corpo multifacetada. A própria percepção que o indivíduo tem de mundo é afetada pelo status das atividades motoras. Quando direcionamos um movimento ocorre uma série de ajustes sensório-motores que fazem com que alcancemos a exatidão do mesmo. A dança é um fenômeno de caráter corporal. Fenômeno que se converte em Arte e, consequentemente, arte essencialmente envolvida com a percepção efetiva do espaço corporal. O corpo que dança considera e apropria o espaço. Tanto o espaço do corpo em si como aquele ocupado fora de si, o corpo e o espaço são objetos do mundo. Esta programação motora depende de uma origem estimulatória complexa que recruta células musculares exigindo coordenação de grande variedade de componentes neurais como o córtex cerebral, o tálamo, os gânglios basais e o cerebelo. A programação motora controlará formas mais abstratas e complexas de “representação de movimentos”. Há uma relação intrincada com os olhos e o segmento que se movimenta na regulação do movimento diante do espelho numa sala de dança. O corpo que dança considera e apropria o espaço. Tanto espaço do corpo como aquele ocupado fora de si. O corpo e o espaço são objetos do mundo e Figueiredo (1997) considera que: “A relação do diálogo da arte com o corpo não é superficial, ele é embebido dos sentidos e dos reflexos internos e externos de nós mesmos. Com algo que possui o universo. O incorporar é esse todo, uma vivência que enraíza os pés na terra e derrama sobre nós todas as experiências com omundo.” 17 Experimentar a dança é experimentar o corpo e evidencia uma oportunidade única de comunicação gestual, mimética e lúdica. Estes movimentos percorrem um espaço e proporcionam comportamentos conscientes manifestos em si mesmo. Do ponto de vista fenomenológico observamos que o corpo é penetrante em seus significados. Ao dançar pertenço e manifesto um conhecimento, ao dançar interponho-me aos objetos ou eles a mim. O fenômeno dança aqui é apontado como capacidade corporal de manifestar-se em si mesmo. Os fenômenos habituais e os gestos cotidianos representam o conceito que estabeleço entre esse espaço e o meu entorno. Figueiredo (1997) menciona que perceber e sentir são fenômenos que exploram as nossas potencialidades, adquirindo vida a cada gesto, a cada toque. O gesto que emana do espaço é talvez o mais complexo modo de expressão. O gesto e o toque são categorias de expressão únicas, eles podem ser repetidos, porém jamais precisarão o mesmo trajeto ainda que se trate de um movimento linear, onde as partes se movimentam à mesma distância, mesma direção e mesmo tempo.
  • 9. 9 A dança ocupa essa dimensão física do gesto, é também através dela que o espaço corporal ocupa seu espaço em frações contínuas. Quando dançamos ocupamos espaços através do movimento, por assim dizer, vamos “borrando” o espaço à nossa volta. Isso significa que o nosso corpo desdobra-se em movimentos de dança. O tema principal do trabalho de Figueiredo (1997) mostra-nos ser possível também tal regulação do movimento para a pessoa portadora de deficiência visual. Uma abordagem peculiar, pois demonstra-nos que o cego existe também a partir da experiência do corpo. Portanto o corpo exprime, ainda que deficiente de suas faculdades visuais, sua consciência. Figueiredo (1997) reflete ainda sobre o universo perceptivo da pessoa portadora de deficiência visual que experienciou o fenômeno dança enquanto expressão dessa consciência. Contudo, utilizando este referencial do trabalho da autora percebemos que Merleau-Ponty já apontara algumas considerações ao tema. Observemos o trecho que se segue: “(...) pois se é verdade que tenho consciência de meu corpo através do mundo, que ele é, no centro do mundo, o termo não percebido para o qual todos os objetos voltam a sua face, é verdade pela mesma razão que meu corpo é o pivô do mundo: sei que os objetos têm várias faces porque eu poderia fazer a volta em torno deles, e neste sentido tenho consciência do mundo por meio de meu corpo.” 18 Para Husserl a consciência constitui o pensamento no mundo. E, por outro lado, Merleau-Ponty nos adverte que adquirimos consciência do mundo à nossa volta mais pelo contato com os objetos. Todos estes objetos foram conceituados a partir da experiência visual, assim foram determinados historicamente em seus significados. Mas se tomamos como exemplo o corpo que não vê, estes significados participam de uma experiência outra, uma conquista que Figueiredo (1997) menciona: “Movimentar é conquistar e explorar o meio no qual estamos, mas de repente se este corpo não se enxerga no espelho ou não vê o outro ele se torna “cego”, pois o mundo é cheio de conquistas a serem realizadas com os olhos.” 19 A autora apresenta-nos aqui uma redução eidética20 da percepção visual, pois o mundo é geralmente percebido através da faculdade visual. A essência do sentido do mundo que leva consciência desse mundo se faz pelo que foi percebido visualmente e devidamente significado. Neste contexto o filósofo Merleau-Ponty (1999) aponta que: “(...) a consciência desenvolve livremente os dados visuais para além de seu sentido próprio, ela se serve deles para exprimir seus atos de espontaneidade, como o mostra suficientemente a evolução semântica que atribui um sentido cada vez mais rico aos termos da intuição, evidência ou luz natural. Mas, reciprocamente, não um só desses termos, no sentido final que a história lhes atribui, que se compreende sem referência às estruturas da percepção visual.” 21
  • 10. 10 Esta consciência que tanto fala Merleau-Ponty 22 é embebida em si mesmo na existência, o fenômeno aparenta-se como ideal satisfatório e ainda é enriquecido com sua significância existencial. Figueiredo (1997) ao abordar os resultados de sua pesquisa diz o quanto é difícil definir a dança, pois corremos o risco de reduzi-la a estilos ou estratificá-la no tempo e no espaço, portanto resta-nos ainda uma pergunta crucial: como o gesto, o espaço corporal e a dança determinam expressão de existência? Seria apenas pela relação olho/segmento? A resposta para tais questões pode ser ambígua. Provavelmente teríamos condições de relacionar os fenômenos (gesto e dança) às mais diversas expressões humanas, como no trabalho e nos esportes. Merleau-Ponty esclarece que é no corpo que: “(...) aprendemos a conhecer esse nó entre a essência e a existência que em geral reencontraremos na percepção, e que precisaremos então descrever mais completamente.” 23 A dança é um modo de existir e trata-se de um modo de existir por completo. Cada um pode realizar ou entender um movimento de uma maneira diferente, cada um percebe e tem uma consciência de movimento e por este motivo escolhemos o trabalho de Figueiredo (1997), uma vez que ela reflete sobre o universo perceptivo da pessoa portadora de deficiência visual que experienciou o fenômeno dança enquanto expressão e presença do ser-no-mundo.
  • 11. 11 O espaço corporal e a percepção do espaço no contexto da dança O espaço corporal é aquele que envolve nosso ser-no-mundo. Desde que existo ocupo um lugar no espaço. A percepção efetiva do espaço corporal humano surge com o movimento. Conhecemos, segundo Barral (1984), a própria Fenomenologia Merleau-Pontyana como um movimento e de acordo com a sua redução fenomenológica deste existimos enquanto sensações que são desencadeadas à medida que alcançamos objetos ou deslocamos nosso corpo. “Os lugares no espaço não se definem como posições objetivas em relação à posição objetiva de nosso corpo, mas eles inscrevem em torno de nós o alcance variável de nossos objetivos ou de nossos gestos.” 24 . Também podemos classificar o movimento, que é um fenômeno do corpo, a partir de suas sensações vividas neste corpo. Desse modo temos, em Merleau-Ponty (1999, p.114) que: “(...) essa “experiência do corpo” é ela mesma uma “representação”, um “fato psíquico”, que a este título ela está no final de uma cadeia de acontecimentos físicos e fisiológicos que são os únicos a poderem ser creditados ao “corpo real”. 25 O estar presente no mundo confere à dança, que é fenômeno de expressão artística, uma abordagem intencional particular. Submete tanto o executante (dançarino) como o espectador (público) numa experiência perceptiva. Dançamos com o corpo, com ele descrevemos essa capacidade de inteligência cinestésica, mas o corpo do outro que assiste também participa percebendo formas espaciais que estão sendo descritas por aquele corpo que é semelhante ao seu próprio. Merleau-Ponty durante seus cursos na Sorbonne entre 1949- 1952 propusera que: “Hoje esse problema está superado, por ter dado direito de existência à noção de estrutura. O corpo do outro, funcionando, realiza nos seus movimentos o deslocamento de certas formas corporais cuja apreensão não é a simples soma de percepção de movimentos vistos, e meu corpo também me é dado não como uma soma de sensação, mas como um todo. Entre os dois, há esse laço da forma comum às percepções visuais e táteis; é através delas que se comunicam. Tudo se passa como se as intuições e realizações motrizes do
  • 12. 12 outro se achassem numa espécie de relação de imbricamento intencional, como se meu corpo e o do outro formassem um sistema”. A filosofia de Merleau-Ponty nos mostra que o homem jamais pode ser um destacado espectador do mundo. Quando ele fala de percepção ele fala que o homem está definitivamente comprometido com o mundo, seus movimentos corporais completam esta relação, e o corpo do outro é sempre um meio de experiência e de comunicação. Quando sugiro aos meus alunos movimentos que exijam maior domínio dos diferentes segmentos, por exemplo, movimentos de membros superiores (braços) e de membros inferiores (pernas) alternados e executados simultaneamente verifica-se neles uma grande dificuldade em coordená-los. É muito comum encontrar indivíduos com dificuldades de locomover os membros em sentido contrário. Se os movimentos partem de um mesmo lado e com um mesmo ângulo de execução há maior facilidade de execução e velocidade do movimento. Evidentemente que este exemplo não se aplica ao trabalho de Figueiredo (1997), entretanto, ele pode ser um excelente exemplo a fim de avaliar este fenômeno como imanente à existência humana. “A análise do “movimento abstrato” entre os doentes mostra melhor ainda esta posse do espaço, esta existência espacial que é a condição primordial de toda percepção viva.” 26 Merleau-Ponty estabelece uma diferenciação entre movimento abstrato e movimento concreto onde “o fundo do movimento concreto é o mundo dado, o fundo do movimento abstrato, ao contrário, é construído.” Merleau-Ponty menciona que o movimento abstrato aprofunda-se no interior do mundo pleno. “(...) no qual se desenrolava o movimento concreto, uma zona de reflexão e de subjetividade, ele sobrepõe ao espaço físico um espaço virtual ou humano. O movimento concreto é, portanto centrípeto, enquanto o movimento abstrato é centrífugo; o primeiro ocorre no ser ou no atual, o segundo no possível ou não-ser; o primeiro adere a um fundo dado, o segundo desdobra ele mesmo seu fundo.” 27 Tal como Figueiredo (1997), suas análises fenomenológicas do corpo pensado e percebido no âmbito dos movimentos abstratos e concretos partem de observações em indivíduos doentes28. Para o doente o mundo exterior, suas formas, distâncias, coordenadas espaciais e os objetos ali existentes estão destorcidos da realidade que pertence aos indivíduos sadios. Os indivíduos sadios têm condição de pensar e perceber o corpo. Porém, mesmo que o mundo seja um mundo dado, inquestionável, resoluto e imobilizado, ainda assim Figueiredo (1997) nos mostra ser possível ao portador de deficiência visual desenvolver uma história motora e ser possível o processo motor na sua dança, pois a dança supera a dificuldade do cego em vivenciar seu corpo. Dançar nos permite ver a vida com os olhos do corpo. No capítulo II aponto a dança como um fenômeno que manifesta a percepção do espaço corporal. Tais formas mais abstratas de “representação de movimentos” , como já
  • 13. 13 disse, dependem de um complexo e imbricado sistema orgânico e fisiológico. Neste sentido, Figueiredo (1997) indica que a ausência de uma capacidade neste sistema não inviabiliza, a priori, a expressão dos movimentos no corpo. “A representação visual não explica o movimento abstrato, pois ela própria é habitada pela mesma potência de projetar um espetáculo que se manifesta no movimento abstrato e no gesto de designação.” 29 O espaço corporal é um tecido sólido e que compromete o homem como noema 30 e noese 31 do ser-no-mundo. A expressão contínua dessas essências corpóreas, quando orientadas para a aquisição artística de movimentos, é específica da expressão corporal e da dança. Ao envolver este tecido na expressão corporal e consecutivamente na dança, mais possibilidades teriam de colocar essência em minha existência com busca de significância. Valendo-me das palavras do filósofo Merleau-Ponty 32 considera que “a aquisição do hábito é sim a apreensão de uma significação motora”. Considerações Finais Há uma grande maioria de autores que classificam o espaço corporal e a dança como sendo distintos entre si. Outros consideram que ambos possuem o mesmo sentido ou estão intimamente ligados entre si. Neste trabalho é importante compreender estes fenômenos e sua inserção filosófica extremamente contemporânea e, infelizmente, ainda pouco prestigiada em nossa literatura. O cego existe, e para sentir o mundo ele necessita tocar. Quando ele toca, ele constrói o mundo a sua volta e, além disso, o reduz eideticamente. As pessoas sadias percebem o mundo por meio de vários sentidos. Merleau-Ponty diz que estamos indiscutivelmente inseridos neste mundo e ao dançar me envolvo mais profundamente com a minha existência, dançando eu consigo ampliar as fronteiras limitantes de meu corpo no mundo. Com o conhecimento da dança eu aproprio o meu espaço corporal e sou capaz de desdobrar-me em direção ao limite, à fronteira do corpo. Meu corpo pode ser ampliado a partir dessa experiência e meu espaço corporal é inserido em outros espaços. Ainda assim, considerando a minha existência “cega” diante dessa dança infinita e desafiadora para os meus limites, procurarei um sentido mais amplo para a minha existência enquanto puder dançar. “Nunca me torno inteiramente uma coisa no mundo, falta-me sempre a plenitude da existência como coisa, minha própria substância foge de mim pelo interior e alguma intenção sempre se esboça.” 33
  • 14. 14 Notas 1 COELHO Jr. e Carmo. Merleau-Ponty: filosofia como corpo e existência. 1991, p. 14. 2 MERLEAU-PONTY, M . Fenomenologia da Percepção. 1999, p.108. 3 HUSSERL, 1931, apud. BARRAL, M. R. The Body in Interpersonal Relations. 1984, p. 06: “(...) The phenomena of transcendental phenomenology will be characterized as non-real (irreal)... Reductions, the specifically transcendental, “purify” the psychological phenomena from that which lends them reality, and therewith a setting in the “real” world. Our phenomenology should be a theory of essential Being, dealing not with real, but with transcendentally reduced phenomena.” 4 COELHO Júnior e Carmo. Op cit. 1991, p.38. 5 COÊLHO in BICUDO, Maria Aparecida Viggiani & CAPELLETTI, Isabel Franchi (orgs.). Fenomenologia: uma visão abrangente da Educação. 1999, p.63. 6 HUSSERL, 1931, apud. BARRAL, M. R. Op cit., p. 06 7 Para COÊLHO in BICUDO, Maria Aparecida Viggiani & CAPELLETTI, Isabel Franchi (orgs.). Op. cit., p. 67: “Consciência (por exemplo, a percepção, a memoração ou a imaginação) é animada por sua intencionalidade específica, responsável pelas diferenças essenciais que constituem como distintas umas das outras. Se a consciência é sempre, em virtude de sua natureza, consciência de algo, todo objeto é, por sua vez, objeto para uma consciência. Na percepção este é posto como percebido, na imaginação como imaginado e no desejo enquanto desejado”. 8 BARRAL, M. R., Op cit., p. 09: “(...) phenomenon is that which manifests itself, broadly speaking, anything which manifests itself - which is capable of appearing in consciousness - can be the object of phenomenological reflection.” 9 Idem, ibid., 1984, p. 08: “in fact Merleau-Ponty renounces the analysis which brings us to distinguish consciousness which situates and situated consciousness.” 10 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 146. 11 GARDNER, H., Estruturas da Mente: A Teoria das Inteligências Múltiplas. 1994, p. 160. 12 GARDNER, H., Op cit., p. 161. 13 Idem, ibid., p.161. 14 GARDNER, H., Op cit., p. 161 15 Segundo COÊLHO, Ildeu Moreira, apud. BICUDO, Maria Aparecida Viggiani (org.). In: Fenomenologia e Educação, p. 61: O verbo légo (infinitivo: légein) em grego possui vários significados: juntar, contar, enumerar, dizer, declarar, anunciar, designar (...). O substantivo logos, originário desse verbo, significa: palavra, o que é dito, discurso, revelação divina, resposta de um oráculo, máxima, sentença, exemplo, decisão, resolução, ordem, matéria de estudo ou de conversação, argumento, pensamento, inteligência, juízo, explicação, estudo, razão ou valor ou valor de uma coisa, motivo, fundamento, justificação. Logos é o que permite ver, oferece a razão, o sentido, a natureza, a causa, o fundamento de alguma coisa. 16 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 199. 17 FIGUEIREDO, Valéria M. C. Olhar para o Corpo que Dança: um sentido para a pessoa portadora de deficiência Visual. 1997, p. 109. 18 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 122. 19 FIGUEIREDO, Valéria M. C. Op cit., p. 114. 20 Para HUSSERL redução eidética significa a atitude que conduz do fenômeno psicológico para a essência pura. 21 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 191. 22 BARRAL, M. R., Op cit. 1984, p. 07: “To consciousness, which is itself steeped in existence (this will later on be seen as the condition for ambiguity), the phenomenon appears as ideal content and yet enriched with its existential significance.” 23 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 204. 24 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 199. 25 Idem, ibid., p.114. 26 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 158. 27 Idem, ibid., p.160. 28 Como é o caso de “Schn.” doente com deficiências motoras e intelectuais. 29 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 164. 30 Na fenomenologia significa o aspecto objetivo da vivência, o objeto considerado pela reflexão em seus diferentes modos de ser dado: o percebido, o pensado, o imaginado. 31 Na fenomenologia significa o aspecto subjetivo da vivência constituído por todos os atos que tendem a apreender o objeto: o pensamento, a percepção, a imaginação, etc. 32 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 198. 33 MERLEAU-PONTY, M., Op cit., p. 228.
  • 15. 15 Referências Bibliográficas BARRAL, Mary Rose. The Body in Interpersonal Relations. New York: University Press of America, 1984. BICUDO, Maria Aparecida Viggiani & CAPELLETTI, Isabel Franchi (orgs.); COÊLHO, Ildeu Moreira & GARNICA, Antonio Vicente Marafioti. Fenomenologia: uma Visão Abrangente da Educação. São Paulo: Olho d'Água, 1999. CESAR, Constança Marcondes. Merleau-Ponty na Sorbonne: resumo de cursos. Campinas: Papirus, 1990. COELHO JÚNIOR, Nelson & CARMO, Paulo Sérgio do. Merleau-Ponty: filosofia como corpo e existência. São Paulo: Escuta, 1991. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986. FIGUEIREDO, Valéria Maria Chaves de. Olhar para o Corpo que Dança: um sentido para a pessoa portadora de deficiência visual. Dissertação (mestrado em Artes) - Universidade Estadual de Campinas, 1997. FOLSCHEID, Dominique & WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica. São Paulo: Editora Ática, 1991. GARDNER, Howard. Estruturas da Mente: A Teoria das Inteligências Múltiplas. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.