Avatar - O outro sou eu

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Artigo sobre "Avatar", de James Cameron, publicado na revista Retrato do Brasil, no. 32 (www.oretratodobrasil.com.br)

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  1. 1. CInemAAvAtAR:o outRoSou eu No maior sucesso de bilheteria de todos os tempos, James Cameron constrói um mundo para reafirmar o poder do cinema clássico americano de assumir novas caras sem mudar sua essência por Leandro Saraiva A AtrAção mmaior é Pandora, espécie de Amazônia 2.0, onde tudo e todos estão conectados a Eywa, a divindade panteísta de seus habitantes, os Na’vi. Apresentada como uma realidade meio espiritual, meio bioquímica (uma rede de conexões quase neurais entre os seres do planeta), essa versão sci-fi do conceito de Gaia faz uma aproximação entre ciência e religião bem ao estilo do pensamento contemporâneo new age, herdeiro esotérico da contracultura, segundo o qual estamos entrando na Era de dos interesses em conflito na Amazônia: painel de Monet, as sardas na pele azul dos Aquário, marcada pela evolução espiritual da não há ONGs nem pirataria biológica, lutas Na’vi, a brilhante Árvore das Almas. Um humanidade. para ocupação do solo, lideranças locais contraste brutal com o mundo da base O herói que nos conduz por esse mundo negociando com os poderes ocidentais, terráquea, que, à imagem e semelhança de novo é Jack Sully, ex-fuzileiro, ferido em nem coberturas jornalísticas compradas, nosso caos urbano, isola-se da natureza combate na Terra (na Venezuela...), agora corrupções e traições (se você prefere abor- numa cápsula cinza metálica, morta, de onde paralítico, recrutado como mercenário dagens mais realistas, veja Corumbiara, de Pandora é vista como o “inferno verde” pela Companhia – uma versão do século Vicent Carelli, o documentário que venceu que Euclides da Cunha viu na Amazônia XXI da antiga Companhia das Índias, mas o Festival de Gramado no ano passado). O em tempos mais positivistas. As pernas também evidente metáfora, desimpedida objetivo, aqui, não é a mimese realista da inúteis de Jack encarnam a esterilidade dos dos aborrecimentos da política, da força política da floresta, mas uma dicotomia que invasores, a despeito de toda a arrogância. civilizatória do complexo industrial-militar valorize a beleza da utopia holística nativa Apesar do clichê da longa sequência déjà americano. A motivação da empreitada – diante da feiura materialista e estéril dos vu da “batalha final”, há uma antológica mineração – traça uma linha de continuidade terráqueos/ocidentais. cena-síntese do choque dessas civilizações: a entre o mercantilismo das navegações e os As cores importantes e vibrantes são as destruição da majestosa árvore onde vivem constantes conflitos com garimpeiros em que Jack (e cada espectador) experimenta os Na’vi. Momento forte de identificação terras indígenas amazônicas. no mergulho pessoal em Pandora: a floresta entre espectadores (ocidentais e, sobretudo, Mas essa coloração política da história que brilha à noite, os insetos luminosos, os americanos – de fato ou ideologicamente) e é suave. Estamos longe da complexidade dragões vermelhos, o lago que parece um nativos, a cena lembra as imagens do 11 de48 | retratodoBRASIL 32
  2. 2. Setembro, invertendo e jogando sobre o mi- e saboreando uma fruta pandoriana, é um um modo tão consumível que vai bem comlitarismo americano a pecha do terrorismo grito de libertação). Trata-se da clássica Coca e pipoca. Como em outras fantasias(ainda que de modo abstrato, sem conexões jornada do herói, o paradigma narrativo hollywoodianas sobre os bons selvagens –possíveis com alvos menos românticos que mítico sistematizado por Joseph Campbel, Dança com Lobos, Pocahontas e afins –,os Na’vi, como iraquianos ou palestinos, com grande circulação em Hollywood desde os nativos são nossos retratos retocados.por exemplo). Star Wars (George Lucas, 1977), aqui numa Tanto que a rotineira historinha de amor seTal como Eywa, a tecnologia futurista do versão que, sem deixar de ser de ação, é (ou adapta muito bem ao ecossistema ficcionalavatar, possibilitando a Jack entrar no corpo pretende ser), sobretudo, iniciática. Jack é de Pandora.de um Na’vi, fica entre a ciência e a espiritu- “como um bebê”, diz Neytiri, sua guia (e, Tem seu charme a ideia da ponta das tran-alidade. O fuzileiro paraplégico passa por um inevitavelmente, namorada), que, literalmen- ças dos Na’vi como “cabo USB” – comorenascimento, que lembra as viagens astrais te, renasce como Na’vi – ou, poderíamos a denominou Eugênio Bucci em artigoe xamânicas. O núcleo da utopia de Avatar, dizer, como ser humano. publicado em O Estado de S. Paulo. Mas,desejada em todo o mundo (por motivos O mérito político da narrativa de Avatar desacompanhada de outras formas deóbvios) está aí: a esperança de romper o é afirmar, para centenas de milhões de ter- expressão da conexão holística com Pan-pobre casulo de um corpo semimorto ráqueos sentados em cinemas de shopping dora, não deixa de ser uma reificação um(como a cultura da qual faz parte) e renascer por todo o mundo, consumindo oceanos de tanto utilitária dessa cosmovisão. Os rituaispara uma realidade intensa, viva, transcen- Coca-Cola, o valor de uma cultura alternati- de iniciação pelos quais passa Jack (caçar,dental (a bela primeira cena de Jack em seu va, comunitária, espiritualizada e integrada à correr e pular de árvores enormes, escalarnovo corpo, correndo por uma plantação natureza. Mas, ao mesmo tempo, o faz de rochedos – voadores, é verdade –, domar 32 retratodoBRASIL | 49
  3. 3. dragões) são também basicamente físicos. a uma cosmologia não antropocêntrica Nada há que lembre as duras provas xamâ- quanto seu herói. nicas (os rituais de morte e renascimento) Mas Cameron é genial – se o critério for ou mesmo – se preferirmos não exagerar o do mercado de entretenimento (o filme na aproximação da experiência de Jack com faturou, até o final de janeiro, mais de 2 o xamanismo – outros rituais de alteridade bilhões de dólares). O espírito ecológico, mais profunda. new age e politicamente diet é funcional ao Talvez para nós, brasileiros, o simplismo gancho narrativo do “avatar”, conceito de da história pseudoiniciática seja especialmen- base dos jogos on-line, como Second Life. te irritante. O que disse Roberto Schwarz O feito tecnológico da indiferenciação dos sobre a cultura nacional pós-desmonte dos atores reais e dos “avatares” cinematográ- projetos nacionais – que passam a flutuar ficos (personagens virtuais moldados pela publicitariamente no mercado, agora como captura das expressões de atores) garante casca vistosa, como um estilo de vida uma imersão inédita no ambiente virtual. simpático a ser consumido – bem se aplica Se o objetivo do cinema é (é?) nos fazer à fantasia amazônica de Avatar. Além da esquecer do mundo real e nos submergir complexa realidade política e econômica na ficção (a clássica identificação), o que da região, onde a trama política é tão densa pode ser mais sedutor do que um mundo quanto a mata, há a riqueza cultural a partir completamente exótico e novo, vivenciado da qual Cameron abstrai o que apresenta em absoluta e deslumbrante riqueza de como arquétipos universais. Enquanto isso, detalhes, em 3D? na Amazônia real, o antropólogo Eduardo De quebra, ninguém vai querer assistir Viveiros de Castro (projeto AmaZone, a Avatar numa cópia pirata que passa no http://amazone.wikia.com) descobre nas televisor da sala. Pandora foi salva, e as sa- filosofias ameríndias uma visão de mundo las de cinema, também. Cameron – e Jack, (chamada por ele de perspectivismo) se- seu avatar – seduzem naturalistas, adeptos gundo a qual todos os seres compartilham da Nova Era, jogadores de videogame, uma natureza indistintamente humana e espectadores de filmes de aventura, enfim, não humana e cada grupo ontológico (por centenas de milhões de pessoas. Quem não exemplo, onças ou mesmo inhames), vê a quer ter três metros, voar montado num si mesmo como humano. Um pensamento dragão, salvar a Mãe Natureza, se apaixonar tão complexo e distinto que põe em cheque, e transar sob uma mística árvore de luz? Até simplesmente, o sujeito cartesiano. Pouco o mais ranzinza dos críticos... humana seria, descobrimos com a filosofia ameríndia, a atitude moderna de opor hu- manidade e animalidade, natureza e cultura, sujeito e objeto. O xamã, aquele capaz de transitar pelas diferentes situações ontológicas (homem, onça, inhame, dragões, Na’vi), faz a tradução dessas “perspectivas” ao custo de profundas perturbações no curso da viagem transcen- dental. Jack Sully, no entanto, transita entre a condição terráquea e Na’vi sem qualquer choque ou radical alteridade. Com toda a badalada imaginação e realização plástica de Avatar, o filme não arrisca nem uma imagem sequer de evocação dessa conver- são de uma cultura cartesiana a uma cultura perspectivista. Basta ver as fotos de Cláudia Andujar (em especial as fotomontagens do ensaio “Sonhos”, publicado em A vulnerabilidade do ser, Cosac Naify, 2005) ou ler o texto de Davi Kopenawa sobre a visão xamânica dos ianomâmi (http://amazone.wikia. com/wiki/A_Floresta_de_Cristal) para ver que é possível, e poderosa, a busca de representações artísticas dessas experiências. Cameron, entretanto, parece tão alheio50 | retratodoBRASIL 32

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