Ria5

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Ria5

  1. 1. Regina GouveiaReflexões e interferências
  2. 2. Diz António Gedeão que todo o tempo é de poesia,desde a arrumação do caos à confusão da harmonia.Por sua vez, Inês Pedrosa diz que a poesia é umabarragem contra a desumanidade.Talvez seja por isso que Regina Gouveia escrevepoesia. Escreve-a e guarda-a num ficheiro decomputador.Achei que a sua poesia tinha que ganhar asas e assimconsidero- me um pouco responsável por este livro.Falar da autora e da sua poesia? Tudo o que eudissesse poderia parecer suspeito. Por isso, limito-mea citar o que outros disseram.Conheci Regina Gouveia porque ela é uma daquelaspessoas de que nunca mais nos ausentamos, depoisde as conhecermos. Foi porisso que um seu antigo aluno, hoje um prestigiadotécnico superior, me falou dela, de uma forma tãoespecial que a quis conhecer.Reconhecemo-nos, após marcarmos encontrotelefónico, sem senhas nem códigos, numa confeitariado Porto, e foi como se nos tivéssemos conhecidodesde sempre. E é o conhecimento dessa Regina quegostava de partilhar.O seu corpo de aspecto frágil, a sua voz suave, nãochegavam para esconder uma paixão enorme pelo quefazia: ensinar. Era(é) quase comovedor ouvi-la falar do que faz, da suaentrega na tentativa de transmitir a alunos e futurosprofessores esse amor pela partilha do saber e porgostar de aprender, esse conhecimento de que tudoestá em todos. Descobri, entretanto, que há muitousava a Poesia como elemento motivador para oensino da sua disciplina, Física e Química, eque se não tinha esquecido de semear esse presenteem todos aqueles que lhe passavam por perto.Impressionava-me o seu conhecimento de literatura ea sua capacidade para descobrir opoema certo para cada assunto. E uma obra suaexplicando como se tinha tornado professora,entretanto publicada, mostrava como a sua prosa eraigualmente poética. Não podia deixar de lhe perguntar 2
  3. 3. por que não escrevia Poesia. Respondeu-me comaquele seu sorriso delicado e modesto:" E quem lhedisse que não escrevo? "Tinha que a ler e em brevetive o prazer e a honra de ter em mãos os seusescritos. Li-os com um certo espanto: eram tão reais,falavam das coisas de todos os dias e, ao mesmotempo, mostravam-nas de uma forma que nospermitia vê-las como se pela primeira vez.É, pois, para mim, uma honra poder dizerque fui das primeiras pessoas a ver em ReginaGouveia uma Poeta que, escrevendo e ensinando,partilha um Dom mais que humano.Pois não serão os Poetas os Profetas do nosso tempo?(Extractos do texto de apresentação da autoria da DrªMaria do Carmo Cruz e que consta da colectâneaTempera(Mental), na qual foram incluídos seispoemas da autoraPequenos poemas impressionistas nos quais aspalavras, lançadas como pequenas pinceladasdescrevem os sentimentos da autora, motivados porfactores tão diversos como a Natureza, uma conversaou uma notícia na televisão. Um conjunto de textospautados pelo ritmo e pela melodia, onde a alegria dememórias passadas contrasta com os problemas dasociedade presente.(Texto de apreciação do júri do Concurso on-line"Novos Talentos" promovido pela Porto Editora,concurso a que a autora concorreu e no qual lhe foiatribuída a classificação de 4 estrelas) Fernando Gouveia 3
  4. 4. AusênciaHoje não estou para ninguém.Se alguém telefonar, nem que seja algum ministro,(como se fosse vulgar algum ministro ligar...)digam só que eu não existo, ou então fui viajar,que ando à deriva no espaço, que estou morta decansaço.Sentada no meu terraço, hoje não estou paraninguém.Quero ver o pôr do sol, mais logo, ao entardecer,quero ver Vénus nascer e a lua desabrochar.Quero dormir ao luar, é noite de lua cheia.Quero ter como lençol este céu que me rodeia,um céu de estrelas pejado.Quero ver a estrela polar, Marte, Júpiter, DragãoCassiopeia, Leão,quero ver estrelas cadentes, correndo no céuestreladobrilhando, muito luzentes.Quero sonhar com pulsares com galáxias, quasares,e à luz das constelações embriagar-me de amor.Quero esquecer meus pesares e todo este amargorque por dentro me consome ao pensar que ainda háum ror,são oitocentos milhões, de gente que passa fome.NavegaçãoNo meu barco de sonhos icei vela, vela latina.Não sei se o meu barco é nau ou caravelasei que me fiz ao largo, de bolina.e não usei de Bernouilli o teorema.Para navegar, só precisei de um poema de Sofiacom gosto a mar e cheiro a maresia 4
  5. 5. NaveNão tem nome minha nave seja de um deus ou de umsábio.Sem bússola, sem astrolábio, computador ou radar,cá vou eu na minha nave mais uma vez a girar,no meu passeio orbital. Minha nave é espacial.Com qualquer velocidade e momento linear,vai girando minha nave com seu momento angular.Minha nave é singular.Minha nave não precisa de impulsão nem gravidade,pelo espaço ela desliza, só precisa liberdade.Não tem motores de explosão, não há qualquercombustão nem reacção nuclear.Ela pode viajar sem energia solar e sem ajuda dovento.O motor da minha nave é só o meu pensamento.EnleiosO poeta enleia palavras e faz um soneto,o compositor, enleando notas compõe um concerto,uma valsa, uma polka, uma sonata,que por vezes a um poema se adapta.Os químicos não recorrem às líricas;com números e letras escrevem fórmulas empíricas,moleculares, iónicas, racionais,e tantas outras com nomes que tais.Enleando números, físicos e matemáticos,tentam deslindar casos problemáticos.Enleando fios, a minha tia Ausendafazia toalhas e colchas de renda,enquanto enleada num amor passado,continuava à espera do príncipe encantado. 5
  6. 6. IndeterminismoO nosso Universo é quadrimensional,a quarta dimensão é fundamentale já não faz sentido a seta do tempo.Daí eu não saber se este sofrimento,esta angústia infinda que me invade o peito,afinal é causa ou será efeito.TempoPara os físicos, o tempo é uma grandeza,não por ser grande, com toda a certeza.É grandeza porque é mensurávele é esta ideia que eu acho contestável.Usando raciocínios, em geral profundos,os físicos, a contratempo, em horas, minutos esegundos,tentam dividir o tempo.E ainda usam múltiplos, outras vezes submúltiplos,como nano, pico, fento.Ora há minutos que duram como vidase há vidas que nem segundos duram,como há imagens que ficam esquecidasenquanto outras para sempre perduram.O tempo do calendário e da agendaé simplesmente um tempo por encomenda.Que saudades eu tenho do tempo de criança,tempo da ilusão, do sonho, da esperança, tempo dequimera,em que o tempo não era tempo,porque o tempo, simplesmente não era.Mas voa o meu pensamento para as crianças da rua,que embaladas pelo vento, tendo a velá-las a lua,dormem no chão ao relento,enquanto passa, alheio, o tempo. 6
  7. 7. CertezaFalavam-nos de heróis e de vilões,e eram sempre os outros os vilões.Contavam-nos batalhas e traições,falavam de epopeias, de façanhas,de guerras desiguais, mesmo assim ganhas.A meio da lição, já eu montava no meu alazãoe uma vezes era D. João,outras vezes D. Sebastiãoou D. Fernando, morto em Fez,ou então, D Filipa, a linda Inês,o Decepado, sempre com a bandeira,ou ainda Brites, a famosa padeira.Cresci e desde então não mais sonheiusar a espada, guerrear, ser realeza.Passei a confrontar-me com a certezaque um belo dia nada mais sereique molécula, átomo ou ião,mistura de cinza com poeiraprovavelmente pisada no chão.InfinitoO que é o infinito?Será um estado de alma num dia de muita calma,em que o ar fica parado de tão sereno e tão quente?Será um oito deitado dos que vêm nas sebentas,nos compêndios, nos opúsculos,ou serão as tardes lentas que precedem oscrepúsculos?Ou será o quociente em toda e qualquer divisão,sem indeterminação, em que zero é o divisor?Ou será um grande amor?Ou será a imensa dor sentida ao perder alguém?Ou será a imensidão do Universo em expansão?Ou será mesmo o Além?Será a suprema alegria de ver um filho nascer?Será talvez a magia de ver a vida crescer?O que é o infinito?Talvez seja aquele grito que eu tento a custo suster 7
  8. 8. OzonoO ozono é um gás de fórmula O3,que diminui ano a ano, mês a mês,lá nas camadas da estratosfera,porque o homem, com a sua insensatez,continua a lançar "CêEfeCês",todos os dias na atmosferaE uma menina de seu nome Vera,de olhos azuis e com clara tez,que faria cinco anos no próximo mês,morreu de melanoma, no passado dia três.EnsinamentosCom o meu pai aprendi a olhar o céu,que era mais belo quando da cor do breu.Com ele aprendi o que era um cometae que a estrela da tarde era apenas um planeta.Foi ele quem me ensinou a identificaro norte, o sul, o nascente e o poente,o futuro, o passado e o presente.Então eu não podia imaginar,no futuro tanto passado e tanto ausente.AbrigoA minha capa inglesa com setenta anosabrigou amores, sonhos, desenganos.Era de meu pai.Apesar da idade que não se adivinhaainda me protege da chuva que cai, forte oumiudinha,e ainda me abriga do frio e do vento.Só não me protege daquela saudade,que, qual neve, invade o meu pensamento 8
  9. 9. NeveA neve é um cristal com padrão hexagonal.De origem molecular, tem átomos de hidrogénioligados a oxigénio de uma forma regular.Em flocos, lembrando enxames, e com o vento aajudar,volteia com ademanes antes de no chão pousar.Transforma-se em branco manto, e é motivo deespanto,de êxtase, contemplação.É fonte de inspiração para poetas, pintores,para amantes sonhadores.Ela é todas as cores em uma só reunidas,mas também é mãos doridas em gentes desprotegidasdo frio cruel, cortante, que enregela num instante.Cobrem-se com velhos trapos, com jornais e comfarrapos,e nós fechamos os olhos a todos estes escolhos.É cómodo ignorar.É bem mais fácil pensar nos cristais hexagonaise na neve dos postais.IndicadorIndicador, o que indica, pode ser dedo da mão,mas também identifica carácter de solução.Pode ser o tornesol, ou a fenolftaleína,pode ser bromotimol, ou também heliantina.Há quem não encontre o rumo e precise de um sinal,talvez um fio de prumo que lhe indique a vertical.Há quem passe pela vida, só entregue à sua sorte,com a bússola perdida, jamais encontrando o norte,deixando confusos rastos.Há quem diga que os astros no Universo em expansãosão grandes indicadores.Há quem neles leia amores, venturas e dissabores.E há quem leia uma paixão num simples ramo deflores. 9
  10. 10. PoesiaGosto do narciso poeta i aquela flor cuja corola,por dentro amarela, é branca por fora.Colhi duas. Uma decidi comê-lacuidando assim engravidar de poesiaMas a poesia, tão arredia, riu-se de mim.Cheia de mágoa, à beira da águalancei ao mar a outra flor, daquelas duas.E fiquei a olhar, a flor boiarna onda que vai e que logo vem,que se reflecte e se refracta,que interfere e se difracta.A luz do sol bateu no mar fê-lo de prata,reflexão também.Por entre os meus dedos, a areia fluía suavemente.A flor boiava dolentemente e a onda, sempre a ir evoltar,e o som do mar com seus segredose o gosto a sal a pairar no ardeixando um cheiro a maresia.Então, por magia, luz , céu e ar, onda do mar, no ir evoltar,areia, sal , flor a boiar, tudo em redor foi poesiaSorrisoJunto à campa da minha mãenasceram lírios no passado mês.Alguns dos seus elementos, o magnésio talvez,já terão sido, por certo, pertença da minha mãe.Há momentos, passava pertode um lírio que ali corteie quando o olhar fixei,pareceu-me ver alguémque sorria para mim.Doce, o sorriso, sem fim.Por certo era a minha mãe,só ela sorria assim. 10
  11. 11. MarMar, lugar de encantamentoonde por vezes o vento se agita em remoinhos,mar de baleias, golfinhos, de algas e de corais,mar de sais...Mar de navios, veleiros, e de grandes petroleiros,mar de botes e traineiras, de grandes frotaspesqueirasque navegam norte e sul,mar azul...Mar que tantos nomes usas, mar de argonautas,medusas,mar, que ora estás encrespado, ora calmo,mar parado onde a lua se retrata,mar de prata....Mar que namoras estrelas, mar de naus e caravelas,mar de istmos e estreitos, mar de navios desfeitos,guardando tanto tesouro,mar de ouro...Mar de ondas e de vagas, mar que as areias afagas,mar de águas frias e quentes, mar que ligascontinentese ilhas em todo o mundo,mar profundo...Mar de viagens, naufrágios,mar de bons e maus presságios, mar de piratas,corsários,mar de homens temerários, mar de gente destemida,mar de vida....Mar onde espreita a tormenta, mar da rota da pimentae de outras especiarias, da seda, das pedrarias,mar que Neptuno reclama,mar de fama...Mar onde nadam sereias, mar das grandes epopeias,mar do cabo Bojador, do gigante Adamastor,mar de Gama e de Cabral,mar fatal...Mar de tanta fantasia, mar da grande nostalgia,de sonho e desilusão, mar de vida e mar de morte,temo pela tua sortenas garras da poluição. 11
  12. 12. SaturnoUsando a minha luneta observo o céu nocturnoe eis que me surge Saturno, um fabuloso planeta..É de uma estranha beleza com os seus anéis geladosque brilham iluminados.Para o sistema solar é um planeta gigantemas, ideia extravagante, poderia flutuarse pousado em grande mar.Fascina tanta grandeza deste infinito universoem que o mundo está imerso.Possui-me um grande fervor e agradeço ao Criador,seja lá Ele qual for, e agradeço a Galileupor me ajudar a olhar o Céu.ChamaDançava a chama, voluptuosa,espalhando em redor um tom vermelho-rosaAs achas ardiam na lareirae a criança batendo as palmas, rindo,dizia "lindo, lindo", apontando a fogueira.Era uma chama voluptuosae ao mesmo tempo etérea, por causa do plasma,o quarto estado da matéria.Vibravam núcleos e iões,e em estranhas convulsões,electrões davam saltos quânticos.Era a energia que assim se emitiaem passos de dança, sensuais, românticos.A criança que, batendo as palmas, rindo,dizia "lindo, lindo", adormeceu sorrindo.E então a louca chama, pressentindoque a criança já estava dormindo,deu em esmorecer, foi-se extinguindo. 12
  13. 13. CorA cor, o que é afinal? Energia, no essencial.É emissão de fotões, é um salto de electrões,absorções, emissões, ou também interacçõesentre a luz e a matéria. Pode ser sublime, etérea.Ela é interferência é período, é frequênciaela é excitação, e logo desexcitação,ela é inspiração na paleta do pintor.Afinal o que é a cor?È o vermelho de Almada? É o azul de Chagall?Seja ela tudo ou nada, a cor é fundamental.Seja no azul do mar, que às vezes é cor de breu,seja no azul do céu ou no verde de um olhar,seja no roxo dos montes, seja no cinza das fontes,nas searas amarelas, perturbantes de tão belas,seja no verde das plantas, no colorido das mantas,seja em janelas, portadas, seja em telhados,fachadas, em azulejos, vitrais ou em tantas coisasmais, a cor é fundamental.O que é a cor afinal? Energia, no essencialSidaTomás morreu ontem com sida na flor da vida.Entretanto, num casino da Florida,Joe, traficante de heroína,de ecstasy, crack e cocaína,jogava a vida de Tomás.ApoloPara os antigos romanos Apolo era deus da Artee como deus, imortal.Após mais de dois mil anos o homem, simples mortal,projecta idas a Marte.Da Lua, pisou o solo, viajando na Apolo,uma nave espacial.. 13
  14. 14. ExploraçãoQual exploradora, parti um dia.Embrenhei-me na selva da vidaonde sabia andar escondida a poesiaEncontrei-ana luz ténue do sol ao fim do dia,na molécula, no átomo, no quantum de energia,nas leis de Newton, no conceito de entropia.Encontrei-ana reflexão da luz, na impulsão no ar,no cheiro a maresia e nas algas do mar,no orvalho, na geada, na chuva, no luar.Encontrei-ano ínfimo e no imenso que a vista não alcança,nas rugas dum idoso, no rir de uma criança,numa tela, num concerto, numa dança.Encontrei-ano voo da gaivota, na pétala da flor,na chama que tremula e se multiplica em core que irradia energia na forma de calorEncontrei-anas estrelas, nas galáxias mais distantes,no olhar apaixonado daqueles dois amantes,nos extintos dinossauros de dimensões gigantes.Encontrei-aem medusas, corais, nos fundos oceanos,no vento a agitar nas árvores os ramos,em pinturas rupestres com vários milhares de anosEncontrei-ana violeta escondida no canto do jardime no frasco que continha essência de jasmim.Tentei então guardá-la só para mim.Foi assim que ela se evoloue de novo eu aqui estou a procurá-la. 14
  15. 15. PastoralAinda hoje não sei se apenas o sonhei ou foi real.A orquestra tocava a Pastoral e eu, comovida,aplaudia.Pareceu-me ver que estremecia a flor que eu usava nalapela.Creio que também ela se comovia.Ou então seria por causa da tal da ressonância.Sei que a minha mente era toda ela sinfonia efragrância.Ao allegro seguia-se o andante e mais adianteum outro allegro, a tempestade- Beethoven, a genialidade.O som crescia, enchia todo o ar, e, de repente,um dos violinos pareceu-me ser um querubimnão sei se aquele do canto do jardimse o outro, na capela à direita no altar.Pareceu-me que eu estava a flutuare que a orquestra tocava a Pastoral só para mim.Ainda hoje não sei se tudo isto eu sonheiou se foi mesmo assim tudo real.AmazóniaA floresta Amazónica é o pulmão do mundoe, segundo a segundo, está a desaparecer,porque homens, sem qualquer ideal,para além do vil metal, a mandam abater.Rancorosos, brutais,mandaram abater o Chico Mendes e outros mais,só porque eles não queriam vera Amazónia desaparecer.A Amazónia é o pulmão do mundo,a Amazónia não pode morrer.A Amazónia é o pulmão do mundo,a Amazónia não pode morrer.A Amazónia é o pulmão do mundo,a Amazónia não pode morrer. 15
  16. 16. ImagemMinha mãe era brasileira de alma e coração,para ela, o Brasil era país de eleição.O meu pai era brasileiro de torna- viageme assim, do Brasil eu construí uma imagem.Nessa imagem há uma miscelânea talque vai de Salvador até ao Carnaval,de Copacabana à aguardente de cana.É Elis, Betânia, Caetano, Jobimé jeito de samba, sabor de quindim.São as cataratas do Iguaçue as cachoeiras lá em AvaréÉ jaca, acerola, pitanga, cajugosto de garapa, cheiro de café,É Sena, Pelé.É Oscar Niemeyer disperso em Brasíliaé toda a famíliaIrmãos, tios, primos, sobrinhos, sei lá,ali em S.Paulo, Goiás, ParanáSanta Catarina.È Chico Buarque, o meu cantor dilecto,Cabral de Melo Neto,"Vida e Morte Severina"É Manuel Bandeira e é Jorge AmadoÉrico Veríssimo, Alcântara MachadoDi Cavalcanti, Vinicius, Heitor Villa Lobos.É impossível enumerar todos.É a bandeira, verde e amarela,é cheiro de cravo, sabor a canelaÉ telenovela,coronéis, jagunços, grandes fazendeiros,fazendas, engenhos, bois e boiadeiros.É praia e é mar, é Sol a brilharÉ o Céu Azul e o Cruzeiro do SulÉ pamonha de milho e é vatapáEnfeitando os jardins, é o manacáÉ um povo que canta e seus males espantaÈ a Amazónia e é o Pantanal,Pedro Álvares CabralÉ um testemunho bem colonialcomo em Olinda e em Parati, 16
  17. 17. é o negro Zumbi, os Tupi-GuaraniÉ onça pintada, tatu, colibriÉ cheiro a cocada, gosto de siriÉ mistura de gentesÉ o TiradentesÉ o LampiãoÉ o Rio Amazonas e o MaranhãoÉ arroz com feijãonem sempre na mesaÉ a extrema pobrezados descamisados,marginalizados,dos sem terra e sem pão,gente do sertão.É Carmen Miranda, afinal portuguesa,tudo isto é Brasil com toda a certezaPazPalavras leva-as o vento.Também leva o pensamento,leva ainda as folhas soltasque caem no fim do tempoe vão por aí revoltas,revoltas, a ondularquais aves a esvoaçar.Palavras leva-as o ventoe não as pode arrumar,tantas são, tão diferentes,umas duras, outras quentes,outras um pouco dormentes,que podem significarcoisas tão surpreendentes,e tantas coisas diversas!Palavras leva-as o ventoe andam por vezes dispersassem ninguém que as queira usar.Veja-se a palavra paz,tão bonita, como jazperdida por esse mundo,completamente esquecidaqual folha morta caída,num charco sombrio, imundo 17
  18. 18. MinaMina faz lembrar minério e também algum mistério,naquelas muito profundas e muitas vezes imundas,onde espreita frio e cru o perigo do grisu.Mina lembra ouro, diamantes,e as condições degradantesem que se extraem da terra.Mina também lembra guerracom todo o horror que encerra.Gimbi, menino de Angola, não vai mais jogar à bolapois ficou estropiado, sem as pernas, mutilado,ao pisar em chão minado.VidaO mundo com todas as suas fragrânciasé feito de elementos, misturas, substâncias.Elementos mais ou menos cem.Como pode acreditar alguém, com senso,que a diversidade de um universo tão imensoa partir de tão pouco seja conseguida?Mas o mais estranho é o que agora vem.Muito menos elementos temaquilo a que resolvemos chamar vida.EstrelasA estrela que ambos olhamos pode já não existirhá vários milhões de anos.E tu olhas-me a sorrir, pensas que estou a mentir.A luz que então enviou pelo espaço vagueoue só agora chegou, enquanto a pobre da estrela,que em tempos fora tão bela, foi minguando,definhou,e em anã se transformou,ou então foi em gigante, talvez em buraco negro.É como o desaconchego daquela paixão de amanteque ao morrer, depois de intensa,deixa uma dor negra imensa. 18
  19. 19. MãeComo eu me lembro bem, mãe.Catorze anos seria talvez a minha idade,uma colega do liceudisse que tu eras a senhora mais bonita da cidadeE eu fiquei toda cheia de vaidade.Lembro-me de tanta outra coisa mãeDo linho esticado dentro do bastidore dos teus bordados em ponto pé-de flor,em matiz, ponto de sombra ou de grilhão,ao sabor da imaginação,como o vestido da minha comunhão.Lembro-me dos cozinhados que fazias com paixão;chamavas-lhe quitutes, mãe.Receita portuguesa, brasileira, italiana,ainda hoje os teus quitutes têm famaentre os amigos que os saborearam.Ainda há dias alguns os recordaram.Lembro-me ainda que não era só o sabor,era o aspecto. Em tudo colocavas muito afectoe sempre a tua a sensibilidade infinda.Além de sensível eras tolerante, corajosa,lutadora, criativa, generosa.Como eu recordo, mãe,tantas histórias inventadas por ti,em que o sabiá e a surucucu contracenavamcom o colibri, com a jibóia e o bicho tatu.Como eu recordo, mãe,a tua lindíssima voz de sopranocantando árias de Verdi, de Puccini,(da Madame Butterfly, da Traviata),do barbeiro de Sevilha de Rossini,ou ainda Shubert, a serenata,tentando eu acompanhar-te no pianoque, por falta de talento, mal tocava,o que algum desgosto te causava.Um dia, já a tua mente muito vária,apercebi-me de que não gravara a tua vozTentei então que cantasses uma áriapara ficar com os registos entre nósTarde demais.De reconhecer a música tu foste incapazTinhas apenas cinquenta e oito anos. 19
  20. 20. E a partir daí a doença, tão voraz,foi-te destruindo dia a dia a mente,dia após dia causando mais danose eu, recusando-me a aceitar tais desenganos,era contigo que me revoltava, mãe.Que foi feito de ti mãeoutrora tão sensata, inteligente?Que foi feito da tua sensibilidade,da tua coragem e força de vontade?Porque te deixaste assim destruir, mãe?Ficaram as fotos, a recordação,tanto vazio no meu coração,tantas lembranças, algumas em bocados.Como herança deixaste o bastidor,as partituras, as receitas, os bordados.Ficaram sentimentos de culpa e muita dor.Por dizer ficou ainda tanto amor.HeroínaPara mim, em criança, heroínaera pessoa, obviamente feminina.Podia ser Maria, Brites ou Joana,era mulher, de grande lenda e fama.Mais tarde vim-me a aperceberdas que não tinham direito a notícias,lutavam, morriam, sofriam sevícias,mas delas não rezava a históriaque, na escola, eu tinha que aprender.Hoje, esculpe-se na minha memóriacom fino escopro, a expressão da dorem rostos de mulheres ao mundo divulgados,e por câmeras para sempre fixados,no Kosovo, na Argélia, em Timor.Por isso, dar o nome de heroínaa uma droga que mata e arruina,só pode ser uma questão de negro humor. 20
  21. 21. ImaginárioO meu imagináriolembra, em imagens, um caleidoscópio,sem o sonho, seria como um baroscópio,a que faltou o ar para o empurrar.No meu imaginário cruzam-se dois mundosligados por laços, em geral, profundosNo meu imaginário há onças pintadas,mouras encantadas, há o bem-te-vi,há o colibri, há a andorinha,e a joaninha, que voa, que voa vai para Lisboa,há o bicho tatu, a surucucu, há o gato e o cão,a assombração, o bicho papão.Há jaboticabas, caquis e goiabas,há nozes, amêndoas, pitangas e mangashá cerejas, castanhas e jacas, tamanhas.Há cocos, coqueiros bolotas, sobreiros.Há cheiro a jasmim, há o alecrim,há o sabiá, há o jacaré.Há frio e há fumo que sai da chaminéHá montes e há sol, há neve e há mar,histórias ao luar.Há o Zé do Telhado, há o Lampiãoo lobo, a raposa, a cobra pitãohá o mocho, há o cuco, a perdiz, o tucanohá o vira, o malhão, samba todo o ano.Há todas as gentes e todas as cores,múltiplos cheiros, múltiplos sabores.Há bacalhau no Natal e no fim do ano,há arroz doce, folar, e há couve mineirahá feijoada, bem à brasileira,há pão- de - ló, leite creme, rolete de cana,há pé de moleque e cocada baiana.Há bonecas de trapos e de porcelana.Há navegantes e há bandeirantes,há escravos, há reis e há imperadores,há grandes senhores,há marqueses, vilões, condes e barões,burguesia, nobreza e muita pobreza.Há muito opressão, muita exploração.Há jugo e há canga, grito do Ipiranga. 21
  22. 22. Há guerras com Espanha, e a RestauraçãoHá muita façanha e muito visionário.No meu imaginário, que une dois mundos,há laços profundos, de muita beleza.Há canto de canário, sabor a medronho,há quimera e sonho, cheiro a maresia,alguma tristeza, e muita nostalgia,cor azul turquesa.AfectosHoje eu decidi escrever um poemacom os afectos por tema.Podia ser sobre a buganvília,sobre a família, sobre o gosto do mel,sobre o bolero de Ravel,sobre o meu filho Miguel , que em pequenino,os olhos a cintilar de amor,aplaudia ao ver qualquer flora que chamava tanta,sobre os livros de Florbela Espanca,Pessoa, Saramago, AquilinoManuel Alegre, Gedeão, Quental.Podia ser sobre o Natalcom a família reunida à mesae as chaminés a expelir fumoPodia ser sobre a Cláudia, sobre a Teresasobre o meu filho Nunoque me dizia, em pequenito,gosto de ti até ao infinito.Podia ser sobre o cheiro do tomilho,o sabor da pamonha de milho,sobre o meu gato andarilho,sobre a minha mãe, que cantava tão bemde Verdi, a Traviata, de Schubert, a serenata.Podia ser sobre o alecrim que, aos molhos,faz chorar os olhos, como cantava o meu pai.Podia ser sobre o meu bonsaiPodia ser sobre as cadeiras que herdei da avó,tal como do avô a caixa do rapé,podia ser sobre as colchas em filé, rede de nó,rendadas, bordadas, feitas por várias tias.Podia ser sobre as tristezas e as alegrias 22
  23. 23. que partilho, por inteirocom o marido, amante e companheiro.Podia ser sobre os chapéus da mãe e as suas luvas,podia ser sobre o gosto das uvasnas vindimas, em Setembro.Podia ser sobre Paris, sobre Veneza,sobre as conversas à mesaou sobre as histórias ao serão, em Dezembro.sobre Mozart, Chopin, sobre Gauguin, Renoir,sobre o sol, sobre a lua, sobre o mar,sobre a areia quente no verão,sobre a neve a cobrir o chão,sobre a amizade, sobre a saudade.Mas eu decidi que ia escrever um poematendo os afectos por tema.E o poema que escrevi fala de afectosFala de afectos nas linhas, e nas entrelinhas,fala de afectos através de imagens e de viagenspelo espaço e pelo tempoOs afectos estão dispersos, implícitos nos váriosversos.Com afectos povoei meu pensamento.HiroximaFoi no Japão.Mil novecentos e quarenta e cinco, era Verão,caiu a morte em Hiroxima.Poucos ficaram para contardaquela bomba tão assassina,chamada bomba nuclear,que transportada no Enola Gay,alguém lançou mesmo por cima.Quantos morreram, isso não sei.Foi no Japão,mil novecentos e quarenta e cinco, era Verão,e ainda ontem, em Hiroxima,nasceu sem vida uma menina,por causa da bomba assassina 23
  24. 24. AfagosA onda rasga-se em espuma, a bruma seduz o ar,e o vento afaga a duna.Escondo-me dentro da bruma, torno-me em coisanenhuma,e deitada sobre a duna, afago a espuma do marPalavrõesQuando em pequenina, mãe,me contavas histórias aos serões,também me dizias: Não se dizem palavrões.Mal sabias, quando contavas histórias aos serões,que eu iria aprender muitos, muitos palavrões.Não aqueles a que te referias nos serões,mas outros geradores de muitas confusões.Os nucleões que são os neutrões e os protões,e os que giram á volta do núcleo e como piões,e que são chamados de electrões,todos eles aos biliões, de biliões, de biliões.Mais tarde vieram os bariões,os mesões e os positrões,os antiprotões e os antineutrões,e ainda os fotões, os muões e os fermiões.Havia os ciclotrões que aceleravam iões,os betatrões acelerando electrões,os sincrotões, podiam ser bevatrões,que aceleravam protões.Tantos, tantos palavrões....Ouvia falar de charme, de spin, de estranheza,e do princípio da incerteza.Apanhada de surpresa, que saudades tinha, então,de estar contigo ao serão. 24
  25. 25. MiragemEstou sentada no café do cais aqui na Ribeira junto aorio,um passante segue pela rádio o desafio,e, ao meu lado, uma jovem enlevadaolha com o olhar perdido a outra margem,enquanto um casal recorda uma viagem.Os demais conversam sobre tudo.Aqui e além falares dispersos.Aqueles ali creio que falam eslavoe conversam com um ar muito sisudoNa minha mesa está pousado um cravoe o livro que ando a ler "Primeiros versos"iiNão me apetece ler, de enamoradaque fico ao olhar esta paisagemmista de sonho e de realidade,nem sei se ela existe ou se é miragem.Do outro lado, as caves imponentes;atravesso a ponte e já me encontro em Gaia,na vila nova que agora é cidade.Vejo o Douro, os barcos rio acimalevam turistas e passam indolentes,vejo as fachadas de granito, e bem por cimaameaçando chuva o céu cinzento.Um ar frio perpassa-me, é o ventoo tal a que chamam de nortada.Regresso e inicio uma viagem,entro num carro eléctrico, na parageme aí vou eu vagueando com o olhar,S. Francisco, S. Pedro em Miragaia,a Alfândega, Massarelos , vários cais.O eléctrico avança um pouco maise do outro lado já vejo o Cabedelo,o rio encontrou o Oceano, entrou no mar.Difusos através da bruma,uma traineira, um navio parado,que para entrar na barra ao largo aguarda.enquanto o mar se agita e regurgita espuma.A difusão da luz torna tudo mais belo,mas o meu passeio vai findar, não tarda.O meu corpo está enregelado 25
  26. 26. e o vento desalinha-me o cabelo.É quase noite, urge regressarmas é difícil ter que abandonarestas paisagens de bruma e de granito.Não sei se adivinhando o meu pensaruma gaivota solta um pio, aflito.GraveGrave era o acento, da ortografia,quando á era à e eu não sabiae, por isso, dava erros quando escrevia,redigia, era assim que se dizia.Grave era o ar do Sr. Jorge Aragão,com relógio de ouro e bengala na mão,ou o do Sr. Abade, pregando o sermão,ou o da minha tia Conceição,sempre suspirando profundo,dizendo que vinha aí o fim do mundo,que já levara lá para bem fundo,o pobre do meu tio Edmundo,que confundindo sonho e realidade,subira à torre mais alta da cidade,e se deixara cair, que ingenuidade,ignorando não só as leis da gravidade,mas que grave não era apenas o acento,nem o ar do Sr. Jorge Aragão em outro tempo,nem o ai da tia Conceição, que sofrimento,nem o sermão do abade, que tormento!Grave é também a folha solta ao vento. 26
  27. 27. TelejornalVejo o Telejornal no canal doisA apresentadora fala da BSE, de clonagem,do Kosovo e, logo depois,de um acidente no Cais do Sodrée da instabilidade na Guiné.E eu empreendo no tempo uma viagem...O Braima, a Binta, o Adrião,onde andarão neste momento?Conheci-os em Bafatá, há muito tempo,iam buscar o "cume" no fim da refeição.Recordo os seus olhos vivos de criançaspele negra, dentes alvos, sem igualos passos apressados quando o ventoanunciava em breve um temporalEu era aluna e eles mestresdo crioulo de que mal guardo lembranças.Das mulheres, recordo as suas vestesfossem mulheres grandes ou "bajudas"no tronco, eram em geral desnudas,presos na cinta panos coloridosque, de compridos, chegavam quase ao chão.Algumas eram de tal modo belasque pareciam extraídas de telasRecordo, servindo-me o café, o Infalicom aquele seu olhar tão doce e tristetalvez o ar mais triste que eu já vi.Será que o café ainda existe?Recordo aquele condutor, o Mamadumostrando com orgulho o seu meninoQue terá feito deles o destino?Recordo os passeios na estrada do Gabuos mangueiros, os troncos de poilão,a mesquita, o mercado, a sensaçãode paz que tudo irradiava,apesar do obus de Piche que atroava,apesar da maldição da guerracujo espectro por cima pairava.Recordo ainda o cheiro e a cor da terra,o Colufe e o Geba sinuososonde canoas esguias deslizavam,recordo macaquitos numerososque entre os ramos das árvores saltavam 27
  28. 28. enquanto que lagartos, preguiçosos,ao sol, pelos caminhos se espraiavame uma miríade de insectos buliçososao nosso redor sempre volteavam.Recordo o batuque daquele casamentoNa foto ficou bem impresso o momentoem que o dançarino fazia um mortalnuma fantástica expressão corporalFoi lá na Ponte Nova, naquela tabancaonde de azul se coloriam panosque as mulheres usavam em volta da ancae que desciam quase até ao chão.Tudo isto se passou há muitos anos.A apresentadora fala agora em danoscausados por uma longa estiageme mostra uma desértica paisagem.Eu regresso da minha viageme tento organizar o pensamento.O telejornal está quase no final.Deve seguir-se a previsão do tempo.AlteridadeQuando, em pequenina,me via ao espelho daquele guarda fatostentava abrir a porta, em busca da meninaque eu achava estar do outro lado.Já então eu achava que a meninaera uma outra menina que não eu.Hoje, quando me vejo no espelho daquele guardafatosou em outro qualquer, não importa qual,sei também que o que vejo não sou eu.Tudo o que eu faço, do outro lado,a outra faz em simetria.Saúdo-a com a minha mão direitae ela que me espreita, talvez por ironia,devolve-me com a esquerda a saudação.Eis a razão de eu não conhecer o meu realporque a outra que de lá me respondeunão era eu mas a imagem simétrica, direita, virtual. 28
  29. 29. TchadorDéboras, Irinas, Svetlanasucranianas, sul- americanas, não importa.Partiram em busca de uma portaque lhes desse acesso a melhores vidas.e acabaram ludibriadas, iludidas,nas mãos de proxenetas.São traficadas são exploradas,vezes sem conta são violadase quando, apesar de jovens, acabadas,são abandonadas, jogadas nas sarjetas.Sandras, Bintas, não importa o nome,a vida deu-lhes até hoje violência e fome.Aquela com onze anos, tão menina,de uma outra menina já é mãe.Por certo é a primeira boneca que ela tem.E nos olhos, em vez de ódio e de revolta,uma lágrima solta, enquanto embala a filha comamor.Aquela outra ali é argelina,talvez a "pietá" que correu mundo.Nos olhos um desgosto tão profundo,maior que o próprio mundo.E aquelas outras das quais não vejo o rostoque, se doentes, não podem ser tratadas,que são impuras, se desvirginadas,que se forem violadaspoderão por castigo ser queimadas?O que dirão os seus olhos por baixo do tchador?Humilhação?Desgosto?Resignação?Rancor?Talvez revolta?Se eu um dia usar tchador por meu quereracreditem que não é para me esconderé só para tentar não ver tanta injustiça, tanto horror,tanto fanatismo, tanta dor,neste mundo cruel à nossa volta. 29
  30. 30. Arco-írisPasseio no jardim das Tulherias,o céu é cinza, o ar é baço.Pelo espaço ecoam doces melodiasque uma criança extrai da concertina.Não sei se é menino ou se é menina,só vejo as mãos e os olhos de um negro penetrante.Um velho casaco do irmão, talvez do paicobre-lhe a cabeça e sobre os ombros cai,tentando protegê- la do frio que é cortanteÉ Abril, um Abril de chuva e frio, o dia é sombrio.No Céu, um arco íris imensocobre a cidade com um halo intenso.Lá ao fundo o obelisco hirto e só,recorda o Egipto, e um certo faraó.Mais além o Arco do Triunfo e la Défense"Honni soit qui mal y pense".Para trás, o Louvre e a Catedralali à esquerda, sempre monumental,a torre Eiffel qual torre de Babelonde se ouvem os idiomas mais diversos,são os turistas, por Paris dispersos.Lá em cima, o Sacré Coeur, Monmartre,esta é a cidade luz, da boémia e da arteno país de Renoir, Rodin, Ravel e Sartre,Belmondo, Godard, Chevalierdo grande Le Corbusier, de Descartes e Lavoisier,de Aznavour, Piaff e JulietteParis dos Boulevards, de la Vilette,do centro Pompidou, Beaubourg, Les Hallesdo Moulin Rouge e de Pigalle, da Ópera, daMadalena,das pontes sobre o Sena.É Abril, um Abril de chuva e frio.A música flutua no ar denso e no Céu, sombrio,um arco íris imenso.Tudo isto me fascina e me seduz:Paris, o som da concertina, e a dispersão da luz 30
  31. 31. ImpulsãoArquimedes não descobriu Ganimedes,que é uma lua.Diz a lenda que saiu nu para a rua,gritando Eureka, Eureka, com enorme satisfação.Acabara de descobrir a impulsão.E é essa a principal razãopor que, volvidos mais de dois mil anos,navios continuam a cruzar os oceanos.MoleSe me falam em mole, por associação,posso pensar em macio, em massa informe,mas posso pensar em rígido, isso conformepensar no significado ou na oposição.Mas estranho é falar de mole como quantidade,a que corresponde aquela enormidade,seis vezes dez elevado a vinte e três.É estranho ou esotérico talvez,mas é assim que o nosso mundo é feito.Não deixaria ninguém satisfeito uma mole de pãojá que nos esmagaria e, de tal jeito,nem poderíamos morrer de indigestão.Mas se ao mundo chegasse uma mole de amor,por certo o mundo desabrocharia em flor.A exploração, a xenofobia,a guerra, a fome, tudo acabariae um novo mundo, então, começaria. 31
  32. 32. NormalNormal.Pode ou não ser vertical, a algo é perpendicular.Pode significar regular como alguns poliedros,cubos e tetraedros,como alguns verbos também que, outros, defeitostêm,o que não impede ninguém de sempre os utilizarde uma forma natural.Normal.Basta apor-lhe só um A e não normal aí está,o que nem todos respeitam por vezes até rejeitam.É isto a intolerância, fruto da ignorância,pois a água, substância à vida fundamental,não é lá muito normal.Durante o aquecimento, em vez de o volume sofrerum continuado aumento, começa por decresceraté um dado momento, de máxima densidade,depois começa a crescer, quase com normalidade.Tudo isto é anormal, e é essa anormalidadeque vai permitir explicar que se a água congelaro gelo fique a boiar, como acontece no marduma região polar.Tal qual como um cobertor, o gelo, isolador,cobre o mar com muito amor, não deixa a água gelar.A vida dentro do mar pode assim continuar.Para a vida é fundamentale tudo isto, afinal, porque a água é anormalMeninosNum dia primaveril, numa escola em Arganil,meninos de bibe anil, entoam canções de Abril,enquanto que no Brasil, meninos, bem mais de mil,entregues à sua sorte, temem o esquadrão da mortee na ilha de Timor meninos, também um ror,envoltos em muita dor tentam esquecer o horror. 32
  33. 33. Amón-RáKeops, Kefren, Mikerinos,as monumentais Pirâmides em GizéEu ali ao lado, em pé,senti-me menor que um grão de areiadaquela que as pirâmides rodeiano deserto, uma imensidade,ali mesmo ao lado da cidade.Sobrevoar o Egipto é impressionanteTudo é deserto, apenas junto ao Nilouma estreita faixa verdejante.Navegar no Nilo é emocionanteKarnak, Luxor, Edfu, Kom Ombo,Assuão, a ilha Elefantina, assim se navega rio acima.São vários os templos ao longo das margens,veleiros deslizam ao sabor das aragens.Tudo impressiona naquelas paragens.Assuão lembra o paraíso,pelo menos é assim que o ajuízo,uma calma, uma beleza, todo um encantamentoque não provém só da natureza.È uma melopeia de inúmeros sons,são os cheiros e as cores, em infinitos tons.Ir ao Egipto é recuar muito no tempoCleópatra, Ramsés, TutankhamonAkhenaton, a rainha Hatschepsut,deuses e deusas, como a deusa Nut,o deus Hórus ou o deus Aton,a deusa Hathor da alegria e do amor,Amon Rá, deus dos deuses, deus do Sol,o mesmo Sol que, volvidas tantas gerações,ainda presenteia o Egipto com fotões.ElasticidadeNão sei se obedece à lei de Hooke ou não,mas é elástico o coração.Uns são muito elásticos, outros não.Uns têm o amor como bandeirapodem amar a humanidade inteira,outros vão amando aqui e além,outros amam sempre alguém 33
  34. 34. e há os que nunca amam ninguém.Tem que haver uma razãopara tanta desigualdade.Só vejo uma explicação,a constante de elasticidadeLuzComo deve estar cansada, direi mesmo extenuada,sempre, sempre a viajar, e sem poder descansar,mudando de direcção, reflexão e refracção....Por vezes até nos finta, viajando pelo Mundoa três vezes dez à quinta quilómetros por segundo.Viaja há quanto tempo, perscrutando o firmamento ?Terá muito que contar se alguém a quiser escutar.Os físicos e os poetas, os amantes e os profetasescutam-na à sua maneira, mas em toda esta viagemela traz uma mensagem para a humanidade inteira.Da forma que as coisas vão poderá acontecerque ela deixe de correr e fique tudo em escuridão.TransformaçõesPodem ser físicas e químicas as transformações.Às segundas chamamos reacções,mas há as que ocorrem nos coraçõese que vão de paixonetas a paixões,que podem destruir, quais furacões,que a cinzas podem reduzir, como vulcões,esperanças, sonhos e ilusões.Foi isso o que aconteceu ao meu tetravô Bartolomeu,que com um enfarte morreupor causa duma paixão que (não) viveu...LataQuando ia à praia, em criança,levava pá e balde em lata,que eram azuis e cor da prata.Lembro também, eu criança,que em casa da família Malcata,que usava talher de prata,trabalhava a senhora Liberata, 34
  35. 35. que vivia num bairro de latae que, um dia, emigrou para França.O seu endereço, perto da Flandres,tenho-o na agenda, em papel almaço.O balde e a pá, azul e pratacom que eu brincava em criança,e a casa da senhora Liberataque um dia emigrou para França,eram de lata- folha de Flandres,folha que é feita com estanho e aço.XenofobiaQuando era criança deram-me a boneca da primaRebecaTinha uma trança loira, cor do trigo.Chamei-lhe Constança.Usava um vestido que ia até ao chãoe quando a voltava era a sensaçãoiiiEis a Joaninha com um negro rosto e negra carapinha.Vê-la dava gosto.As duas vestiam o mesmo vestido, muito colorido,e lá se entendiam.De qual mais gostava sei que não sabia,pois tenho a ideia que a cor não contava,e a ambas eu queria.Eu não conhecia. a xenofobia.Palavra tão feia, quem a quer usarnão teve a boneca da prima Rebeca p´ra poderbrincar.GuerraGuerra rima com terra e com serra.Estranhamente, guerra não rimacom dor,com horror,com terror,mas a guerra é um estupor.Estranhamente, guerra também não rimacom milhõesde vidas desperdiçadas à toa, 35
  36. 36. com biliõesem dinheiro, seja o dólar ou a coroa,que vai enriquecer mafiosos,nem um pouco escrupulosos.Estranhamente,guerra que devia rimar com dor,rima com terra e com serraque deveriam rimar com flor.BetãoO menino ouvia, ouvia enquanto o avô descreviao que em pequenino via sempre que à janela ia.Via uma floresta densa que se espraiava, imensa,árvores grandes, frondosas.Na floresta havia esquilos, répteis, batráquios, grilos,muitas aves, mariposas, lebres, coelhos e gamos.O menino ouvia, ouvia, enquanto o avô descreviao que via há muitos anos.Havia líquenes, fungos, e meninos de olhos profundoscorriam pela floresta.Os dias eram de festa, davam-se grandes passeiose ali nasciam enleios.A floresta era pujança, era vida, era esperança.Fecha os olhos o menino e tenta, tenta imaginar.Chega até a acreditar que quando os olhos abrira floresta vai surgir.Que grande desilusão! Abre os olhos o meninomas só vê o desatino de uma floresta em betão.AmosiaSofro de um estranho mal que se agrava dia a diaJá fiz muita endoscopia raios X, tomografia,LASER e sonografia, uma densitometria, e atécintilografia. 36
  37. 37. O relatório final, lacónico, por sinal, reza apenas nasentençaDesconhecida a doença..Há dias aconteceu algo estranho e anormal.Vi surgir, vindo do céu, um ser de forma espiral,com uma voz de metal, oriundo doutra galáxia.Falei logo no meu mal, dele era conhecedor.Não o disse por falácia pois donde vinha é banal.É doença bem estudada e tem por nome amosia.Sabe-se ser provocada por vírus de nome amore bactéria poesia.É de fácil solução, basta usar medicação,KXcalomelanos.Não a trouxe na bagagem e a fórmula não quis dizerPorém, ficou de a trazer já na próxima viagem,daqui a mil milhões de anos.PoetaIsto de se ser poeta é pior que uma peçonha,é uma peste medonha que o corpo e a mente infectaNum turbilhão de emoções o sangue arde, crepita,o corpo sua, tirita, a mente toda se agitaem tremendas convulsões.Sob uma angústia infinita e a sensação de abandono,perde-se a fome e o sono, cuida-se de ensandecer.Depois de dura agonia, após a obra nascere o poema virar flor, surge uma branda acalmia.Mas ao poeta, coitado, sem forças, desalentado,banhado em mental suor, só lhe apetece morrerou então permanecer em estado de torpor. 37
  38. 38. BalcãsA guerra dos Balcãsé, aliás, como todas as guerras,irracional.Tentam fugir delaa criança, o homem, a mulher bela.A guerra dos Balcãsé, aliás, como todas as guerras,brutal.Tenta fugir da guerra dos Balcãsaquele ancião cheio de cãs.A guerra dos Balcãsé, aliás, como todas as guerras,sensacional.Na comunidade internacionalpode ver-se em qualquer telejornale homens e mulheres falam dela na ruaE a guerra ? Ah, a guerra, essa continua...InternetAtravés da Internet, a estrada da informação,escrevi ao primo João, casado com a prima Arlete,que nasceu no Maranhão e vive lá no Japão.O seu e-mail escrevi-o endereço electrónico-e logo a seguir recebi a resposta do nipónico,que afinal é brasileiro.Maravilhosa invenção!Pensar eu que o electrão, com ajuda do fotão,é um grande mensageiro em toda esta transmissão,que numa fracção de segundo liga entre si todo omundo! Ausência .......................................................................... 4 38
  39. 39. Navegação ...................................................................... 4Nave.................................................................................. 5Enleios.............................................................................. 5Indeterminismo ............................................................ 6Tempo .............................................................................. 6Certeza............................................................................. 7Infinito.............................................................................. 7Ozono ............................................................................... 8Ensinamentos ................................................................ 8Abrigo ............................................................................... 8Neve.................................................................................. 9Indicador ......................................................................... 9Poesia ............................................................................. 10Sorriso............................................................................ 10Mar .................................................................................. 11Saturno .......................................................................... 12Chama............................................................................ 12Cor ................................................................................... 13Sida ................................................................................. 13Apolo............................................................................... 13Exploração .................................................................... 14Pastoral.......................................................................... 15Amazónia ...................................................................... 15Imagem ......................................................................... 16Paz ................................................................................... 17Mina ................................................................................ 18Vida ................................................................................. 18Estrelas .......................................................................... 18Mãe.................................................................................. 19Heroína .......................................................................... 20Imaginário .................................................................... 21Hiroxima ........................................................................ 23Afagos ............................................................................ 24Palavrões....................................................................... 24Miragem......................................................................... 25Grave .............................................................................. 26Telejornal ...................................................................... 27Alteridade...................................................................... 28Tchador.......................................................................... 29 39
  40. 40. Arco-íris ......................................................................... 30 Impulsão ....................................................................... 31 Mole................................................................................. 31 Normal ........................................................................... 32 Meninos.......................................................................... 32 Amón-Rá ....................................................................... 33 Elasticidade .................................................................. 33 Luz ................................................................................... 34 Transformações .......................................................... 34 Lata ................................................................................. 34 Xenofobia ...................................................................... 35 Guerra ............................................................................ 35 Betão .............................................................................. 36 Amosia ........................................................................... 36 Poeta............................................................................... 37 Balcãs ............................................................................. 38 Internet.......................................................................... 38i É assim designado, por vezes, o narciso cuja campânulacentral é amarela e em que as pétalas exteriores são brancasii de António Nobreiii quando eu era criança brinquei com uma boneca que tinhaduas cabeças opostas, uma branca, outra negra. . Quandoexibia uma, a outra ficava coberta pelo vestido. 40

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