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Podemos começar nossa reflexão discutindo porque as questões relativas as mulheres são tratadas sob o termo de Gênero? O termo Gênero foi um conceito construído socialmente buscando compreender as ...

Podemos começar nossa reflexão discutindo porque as questões relativas as mulheres são tratadas sob o termo de Gênero? O termo Gênero foi um conceito construído socialmente buscando compreender as relações estabelecidas entre os homens e as mulheres, os papéis que cada um assume na sociedade e as relações de poder estabelecidas entre eles.


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  • 1. GÊNERO: UMA QUESTÃO FEMININA? Lúcia Cortes da Costa1Podemos começar nossa reflexão discutindo porque as questões relativas as mulheres sãotratadas sob o termo de Gênero? O termo Gênero foi um conceito construído socialmentebuscando compreender as relações estabelecidas entre os homens e as mulheres, os papéisque cada um assume na sociedade e as relações de poder estabelecidas entre eles.No mundo onde vivemos existem três reinos: o reino animal, o reino vegetal e o reinomineral. No reino animal, os seres sexuados dividem-se em machos e fêmeas. As diferençassexuais são baseadas nas diferenças biológicas. O organismo do macho é diferente do dafêmea. Essa diferença natural também marca o desenvolvimento da espécie humanaNa espécie humana temos o ser masculino e o ser feminino. A reprodução da espéciehumana só pode acontecer com a participação desses dois seres. Para perpetuar a espécie,os homens e as mulheres foram criando uma relação de convivência permanente econstante. Surgiu com o desenvolvimento da espécie humana, a sociedade humana.A sociedade humana é histórica, muda conforme o padrão de desenvolvimento daprodução, dos valores e normas sociais. Assim, desde que o homem começou a produzirseus alimentos, nas sociedade agrícolas do período neolítico (entre 8.000 a 4.000 anosatrás), começaram a definir papéis para os homens e para as mulheres.Nas sociedades agrícolas já havia a divisão sexual do trabalho, marcada desde sempre pelacapacidade reprodutora da mulher, o fato de gerar o filho e de amamentá-lo. O aprendizadoda atividade de cuidar foi sendo desenvolvido como uma tarefa da mulher, embora elatambém participasse do trabalho do cultivo e da criação de animais.1 Doutora em Serviço Social pela PUC de São Paulo.Docente do curso de Serviço Social da UEPG.
  • 2. Surgem as sociedade humanas, divididas em clãs, em tribos e aldeias. Na fase pré-capitalista o modelo de família era multigeracional e todos trabalhavam numa mesmaunidade econômica de produção. O mundo do trabalho e o mundo doméstico eramcoincidentes.A função de reprodutora da espécie, que cabe à mulher, favoreceu a sua subordinação aohomem. A mulher foi sendo considerada mais frágil e incapaz para assumir a direção echefia do grupo familiar. O homem, associado a idéia de autoridade devido a sua forçafísica e poder de mando, assumiu o poder dentro da sociedade. Assim, surgiram associedades patriarcais, fundadas no poder do homem, do chefe de família.A idéia de posse dos bens e a garantia da herança dela para as gerações futuras, levou ohomem a interessar-se pela paternidade. Assim, a sexualidade da mulher foi sendo cada vezmais submetida aos interesses do homem, tanto no repasse dos bens materiais, através daherança, como na reprodução da sua linhagem. A mulher passou a ser do homem, comoforma dele perpetuar-se através da descendência. A função da mulher foi sendo restrita aomundo doméstico, submissa ao homem.As sociedades patriarcais permaneceram ao longo dos tempos, mesmo na sociedadeindustrial. Porém, nas sociedades industriais o mundo do trabalho se divide do mundodoméstico. As famílias multigeracionais vão desaparecendo e forma-se a família nuclear(pai, mãe e filhos). Permanece o poder patriarcal na família, mas a mulher das camadaspopulares foi submetida ao trabalho fabril. No século XVIII e XIX o abandono do lar pelamães que trabalhavam nas fábricas levou a sérias conseqüências para a vida das crianças. Adesestruturação dos laços familiar, das camadas trabalhadoras e os vícios decorrentes doambiente de trabalho promíscuo fez crescer os conflitos sociais.A revolução industrial incorporou o trabalho da mulher no mundo da fábrica, separou otrabalho doméstico do trabalho remunerado fora do lar. A mulher foi incorporadasubalternamente ao trabalho fabril. Em fases de ampliação da produção se incorporava amão de obra feminina junto à masculina, nas fases de crise substituía-se o trabalho
  • 3. masculino pelo trabalho da mulher, porque o trabalho da mulher era mais barato. As lutasentre homens e mulheres trabalhadoras estão presentes em todo o processo da revoluçãoindustrial. Os homens substituídos pelas mulheres na produção fabril acusavam-nas deroubarem seus postos de trabalho. A luta contra o sistema capitalista de produção apareciapermeada pela questão de gênero. A questão de gênero colocava-se como um ponto deimpasse na consciência de classe do trabalhador.Assim, nasceu a luta das mulheres por melhores condições de trabalho. Já no século XIXhavia movimento de mulheres reivindicando direitos trabalhistas, igualdade de jornada detrabalho para homens e mulheres e o direito de voto.Ao ser incorporada ao mundo do trabalho fabril a mulher passou a ter uma dupla jornada detrabalho. A ela cabia cuidar da prole, dos afazeres domésticos e também do trabalhoremunerado. As mulheres pobres sempre trabalharam. A remuneração do trabalho damulher sempre foi inferior ao do homem. A dificuldade de cuidar da prole levou asmulheres a reivindicarem por escolas, creches e pelo direito da maternidade.Na sociedade capitalista persistiu o argumento da diferença biológica como base para adesigualdade entre homens e mulheres. A mulheres eram vistas como menos capazes queos homens. Na sociedade capitalista o direito de propriedade passou a ser o ponto central,assim, a origem da prole passou a ser controlada de forma mais rigorosa, levando adesenvolver uma série de restrições a sexualidade da mulher. Cada vez mais o corpo damulher pertencia ao homem, seu marido e senhor. O adultério era crime gravíssimo, poiscolocava em perigo a legitimidade da prole como herdeira da propriedade do homem.No século XX as mulheres começaram uma luta organizada em defesa de seus direitos. Aluta das mulheres contra as formas de opressão a que eram submetidas foi denominada defeminismo e a organização das mulheres em prol de melhorias na infra-estrutura social foiconhecida como movimento de mulheres. A luta feminina também tem divisões dentrodela. Os valores morais impostos às mulheres durante muito tempo, dificultaram a luta pelodireito de igualdade. As mulheres que assumiram o movimento feminista foram vistas
  • 4. como "mal amadas" e discriminadas pelos homens e também pelas mulheres que aceitavamo seu papel de submissas na sociedade patriarcal.A luta feminina é uma busca de construir novos valores sociais, nova moral e nova cultura.É uma luta pela democracia, que deve nascer da igualdade entre homens e mulheres eevoluir para a igualdade entre todos os homens, suprimindo as desigualdades de classe.Após a década de 1940 cresceu a incorporação da força de trabalho feminina no mercadode trabalho, havendo uma diversificação do tipo de ocupações assumidas pelas mulheres.Porém, no Brasil, foi na década de 1970 que a mulher passou a ingressar de forma maisacentuada no mercado de trabalho. A mulher ainda ocupa as atividades relacionadas aosserviços de cuidar (nos hospitais, a maioria das mulheres são enfermeiras e atendentes, sãoprofessoras, educadoras em creches), serviços domésticos(ser doméstica), comerciárias euma pequena parcela na indústria e na agricultura.No final dos anos 1970 surgem movimentos sindicais e movimentos feministas no Brasil. Adesigualdade de classe juntou os dois sexos na luta por melhores condições de vida. Omovimento sindical começou a assumir a luta pelos direitos da mulher. Na década de 1980,quando nasceu a CUT, a bandeira das mulheres ganhou mais visibilidade dentro domovimento sindical. Surgiu na década de 1980 a Comissão Nacional da MulherTrabalhadora, na CUT.A luta pela democratização das relações de gênero persistiu e com a Constituição Federalde 1988 a mulher conquistou a igualdade jurídica. O homem deixou de ser o chefe dafamília e a mulher passou a ser considerada um ser tão capaz quanto o homem.Na década de 1990, no Brasil, a classe trabalhadora enfrentou o problema da desestrutraçãodo mercado de trabalho, da redução do salário e da precarização do emprego. As mulheressão as mais atingidas pela precarização do trabalho e pela gravidade da falta deinvestimentos em equipamentos sociais (creches, escolas, hospitais). Embora sejam maisempregáveis que os homens, isso decorre da persistente desigualdade da remuneração do
  • 5. trabalho da mulher. A mulher passou a ter um nível educacional igual e as vezes atésuperior ao do homem, porque como enfrenta o preconceito no mundo do trabalho, ela devese mostrar mais preparada e com maior escolarização para ocupar cargos que ainda sãosubalternos.Os critérios de contratação das mulheres no mundo do trabalho estão impregnados pelaimagem da mulher construída pela mídia e colocada como padrão de beleza. O empregadorainda busca a moça de "boa aparência". Assim, as mulheres sofrem dupla pressão nomercado de trabalho, a exigência de qualificação profissional e da aparência física. Oassédio sexual ainda é uma realidade para a mulher no mundo do trabalho, isso decorre daprópria cultura patriarcal que foi colocando o homem como o senhor do corpo da mulher.Apesar de tantas dificuldades as mulheres conquistaram um espaço de respeito dentro dasociedade. As relações ainda não são de igualdade e harmonia entre os gênero feminino e omasculino. O homem ainda atribui à mulher a dupla jornada, já que o lar é suaresponsabilidade, mas muitos valores sobre as mulheres já estão mudando. O homemtambém está em conflito com o papel que foi construído socialmente para ele, hoje serhomem não é nada fácil, pois as mulheres passaram a exigir dele um novo comportamentoque ele ainda está construindo.Quando a igualdade de gênero se coloca, cresce o espaço da democracia dentro da espéciehumana. A democratização efetiva da sociedade humana passa pela discussão das relaçõesde gênero, neste sentido a luta das mulheres não está relacionada apenas aos seus interessesimediatos, mas aos interesses gerais da humanidade.BIBLIOGRAFIA:BESSA, Karla Adriana Martins (ORG). Trajetórias do Gênero, masculinidades... CadernosPAGU. Núcleo de Estudos de Gênero. UNICAMP. Campinas, São Paulo. 1998.MURARO, Rose Marie. Sexualidade da mulher brasileira. Corpo e Classe social no Brasil.Rio de Janeiro: Vozes, 1983.