A televisão mais bonita do mundo    Sempre que era para ir a algum lugar de demorar,o tio Chico dizia que íamos à «casa an...
cerveja e não ficava bêbado, podia mesmo conduziro carro dele nas calmas. Só não podia misturar. Umdia o tio Chico misturo...
que os mais-velhos adormecem quando estão na casa dealguém com um funeral e o morto também. Eu não gos-tava dos móveis que...
Mandaram-nos sentar. O Lima carregou no botãoe nada. Ele transpirava. Ficou triste de repente. Mexeuna tomada, acendeu e a...
o Gustavo com três fios de cabelo e até a Pantera Cor--de-Rosa com o cigarro bem comprido. «Tudo a cores,como uma aguarela...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

A televisão mais_bonita_do_mundo

381 visualizações

Publicada em

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
381
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
2
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

A televisão mais_bonita_do_mundo

  1. 1. A televisão mais bonita do mundo Sempre que era para ir a algum lugar de demorar,o tio Chico dizia que íamos à «casa andeia». Nunca per-cebi aquilo. Era uma dica dos mais-velhos. Nem mesmoa tia Rosa fazia só o favor de me explicar. Nada. Todosriam e eu apanhava do ar. Nessa noite o tio Chico falou: – Dalinho, vamos à casa andeia. Deviam ser umas sete da noite e fazia frio de cacim-bo fresco. Isso da «casa andeia» muitas vezes era então ficar-mos sentados num bar com os mais-velhos a beber ummonte de cerveja e a comer quase nada. Se havia outrascrianças eu ainda ia brincar mas normalmente nem já is-so. Os homens conversavam, a tia Rosa também bebiamas ficava muito tempo calada. Eu brincava um poucose houvesse jardim ou mesmo rua. Depois sentava-meno colo da tia Rosa e começava a «encher o saco», comodizia o tio Chico. Começava a perguntar se já íamos em-bora, dizia que tinha sono e fome, mas só me respon-diam que estava quase a chegar a hora de irmos. E vi-nham mais cervejas. Muitas mais. A cerveja era a bebida preferida do tio Chico. A cer-veja em muita quantidade, para dizer bem as coisas.O tio Chico era uma pessoa que podia beber muita 15
  2. 2. cerveja e não ficava bêbado, podia mesmo conduziro carro dele nas calmas. Só não podia misturar. Umdia o tio Chico misturou vinho e whisky e depois man-dou parar o carro que o filho dele ia a conduzir, come-çou a me abraçar e a falar à toa. Eu fiquei com vonta-de de chorar mas a tia Rosa veio me dizer que aquiloera normal. Mas se fosse só cerveja, acho que ninguémaguentava o tio Chico. Um dia, num desses lanches defim de tarde, enquanto eu comia, ele, o amigo dele e atia Rosa varreram assim uns trinta e nove copos decerveja. Desta vez o tio Chico disse que íamos à «casa an-deia» mas era só a brincar. No caminho eu ouvi ele di-zer à tia Rosa que íamos à casa do Lima buscar umascadeiras para o quintal. O Lima era um senhor muitomagrinho que também bebia bem, tinha os olhos sem-pre a brilhar e a boca sempre a rir. Era simpático o Li-ma, e devia ser amigo do tio Chico porque o tio Chicogostava de lhe chamar «o sacana do Lima». Chegámosà casa do sacana do Lima numa rua bem escura que erapreciso cuidado quando andávamos para não pisar naspoças de água nem na dibinga dos cães. Eu ainda aviseia tia Rosa, «cuidado com as minas», ela não sabia que«minas» era o código para o cocó quando estava assimna rua pronto a ser pisado. O Lima veio abrir a porta, os olhos dele brilhavammuito e trazia já na mão uma nocal bem gelada. Passoua garrafa para a mão esquerda e apertou a mão de todoo mundo, mesmo da tia Rosa, e a mão dele estava muitogelada. Isso era bom na casa do Lima, as bebidas esta-vam sempre a estalar, eu assim me imaginei já a sabo-rear uma fanta bem gelada. E me deram mesmo. Ainda estávamos no quintal, o Lima mostrou ao tioChico as tais cadeiras encomendadas. O Lima vendiamobílias muito feias, com um aspecto assim de cadeiras16
  3. 3. que os mais-velhos adormecem quando estão na casa dealguém com um funeral e o morto também. Eu não gos-tava dos móveis que o Lima vendia, mas aquelas cadei-ras até que eram fixes, pintadas de uma cor clara comfitas assim de um plástico verde. Da cor da cadeiracomprida, verde também, que estava sempre no quintalda minha casa. Mas o tio Chico não gostou muito, disseque estavam mal soldadas e que aquilo era perigoso.O Lima riu, mas o tio Chico não estava a brincar. – Ó meu sacana, já viste se eu sento aí a minha sograe ela cai no chão, como é que tu vais ficar quando eu teder essa notícia? O Lima transpirava. Passou a mão na testa, olhoua cadeira. – A malta dá um jeito nisso depois, não te preocu-pes. Entra, Chico. Entrámos todos, mas até tenho que dizer aqui umacoisa. Nessa altura, em Luanda, não apareciam muitosbrinquedos nem coisas assim novas. Então nós, ascrianças, tínhamos sempre o radar ligado para qual-quer coisa nova. Mal entrámos no quintal, vi uma cai-xa de papelão bem grande e restos de esferovite nochão. Isso só podia significar uma coisa: havia materialnovo naquela casa, podia ser fogão, geleira ou outracoisa qualquer, e mesmo acho que era essa a razão deestar toda gente com bebidas na mão. Eu tinha pensa-do isso tudo, mas calado e, quando entrámos, entendi:na estante, havia uma televisão nova tipo um bebé da-queles acabados de nascer. Os olhos do Lima brilha-ram mais ainda: – Olha lá esta maravilha, Chico. Foi buscar com a mão ainda fresca da cerveja ummanual de instruções dentro de um plástico que cheira-va a novo. Eu já nem liguei mais à gasosa, fiquei a olhara estante com bué de fotos da família do Lima. 17
  4. 4. Mandaram-nos sentar. O Lima carregou no botãoe nada. Ele transpirava. Ficou triste de repente. Mexeuna tomada, acendeu e apagou a luz da sala. O tio Chicocom a cerveja dele. A tia Rosa de braços cruzados. Euà espera da imagem a qualquer momento. Olhei o cin-zento da televisão e umas três luzes apareceram de re-pente como se fossem um semáforo maluco e tive a cer-teza que aquela era mesmo a televisão mais bonita domundo. Fez um ruído tipo um animal a respirar e acen-deu devagarinho. Não consegui ficar calado e disse bemalto: «chéeeeeee, essa televisão é bem esculú!», e todosriram do meu espanto assim sincero: era a primeira tele-visão a cores que eu via na minha vida. A imagem apareceu bem nítida e cheia de cores. Eralindo e eu nunca tinha reparado que um apresentadorde televisão podia vestir uma roupa com tantas cores.Lembro-me ainda hoje: estava a dar o noticiário em lín-gua nacional tchokwe. Ninguém entendia nada, baixa-ram o som. A tia Rosa disse-me «fecha a boca, vai entrarmosca», e todos riram outra vez. Não me importei. Falaram de novo das cadeiras. O Lima dizia tudoque sim, que podia ser resolvido. Mexeu nos botões datelevisão e a cor ficou ainda mais viva. Na imagem tudojá estava misturado, parecia um quadro molhado comaguarelas bem exageradas. Pensei nos meus primos,a essa hora lá na casa da Praia do Bispo, com a televisãoda avó Agnette a preto-e-branco, e aquele plástico azulque até hoje não sei para que servia. Quando eu contas-se da televisão a cores exageradas na casa do Lima, osprimos iam me acreditar, ou será que todos iam rir e mechamar de mentiroso com força? Fiquei com inveja dos filhos do Lima que todos diasiam ver cores naquela televisão a cores: a telenovela Bem--Amado com o Odorico e o Zeca Diabo, o Verão Azulcom o Tito e o Piranha, os bonecos animados do Mitchi,18
  5. 5. o Gustavo com três fios de cabelo e até a Pantera Cor--de-Rosa com o cigarro bem comprido. «Tudo a cores,como uma aguarela bem bonita», pensei, enquanto a tiaRosa me fazia festinhas na cabeça. 19

×