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Vila criança

  1. 1. 1
  2. 2. E ra uma vez... No Reino Encantado da Vila das Artes, um lugar de sonhos, onde viviam algumas crianças que tinham o coração enfeitado de arte. A cada dia, cada uma delas procurava trazer para o Reino Encantado muita alegria e bom humor. Algumas tinham os cabelos dourados feito fios de ouro, outras tinham madeixas escuras que mais pareciam feitas de chocolate, outras pareciam feitas de mel... Mas o que importava mesmo é que, com tanta arte brotando de cada coração, elas, juntas faziam daquele reino um belo lugar. Nenhum outro reino ao redor chegava a se comparar. Era florido, limpo, arejado, bem grande. Todos que lá chegavam ficavam admirados e de lá não queriam mais sair. Lá, cabia muita gente, de todo jeito. Os que lá chegavam também eram contaminados por aquele sentimento colorido e divertido e se transformavam em gente que parecia ter um brilho no olhar e tudo que faziam se transformava em artefato bonito. Muitas saíam pelo mundo, encantando a todos, levando um pedacinho daquele lugar por onde passavam. Cada um tinha uma história interessante para contar. 3
  3. 3. Tinha a menina que caiu do beliche, a que passou por uma experiência de quase morte; a garota que adorava passear com o pai e os irmãos; a que morava em uma casa cheia de gente boa e de bichos; o menino que se perdeu por causa da sua pipa; o garoto que fazia a mãe passar vergonha; o que foi levado por um jumento em disparada; a garota que tinha festas animadíssimas; a que tinha uma super irmã que a defendia; a menina que ficava na janela esperando o ‘sol baixar’ para poder brincar na rua; o menino que tinha um amigo e, juntos gostavam de se deitar no meio da rua, e sentir as deformações das pedras no corpo; e a história da menina que tinha o cabelo liso, com pontas enroladas que a mãe mandou cortar para enrolar por inteiro. Cada um deles fazia do Reino Encantado da Vila das Artes um ambiente alegre, divertido e leve. Lá era tão encantado, tão encantado que quem por lá passasse tinha a vida recheada de boas novas. Era tanta alegria, mas tanta alegria que era difícil ver gente chorar. Era gente que casava, mulheres que davam à luz, papais ganhavam não um, mas dois presentes da cegonha... Enfim, lá quem estava triste, rapidinho ficava feliz. 4 5
  4. 4. A ndria Magalhães E ra a noite de 21 de janeiro de 1996. A mãe tava na sala preparando o bolo do meu aniversário de oito anos. “ “ Mãe, posso ficar aqui? Pra ver a senhora fazendo o bolo?” Não!” A mãe não tem coração. Eu insisti. “Ô, mãe, deixa. Amanhã é o meu aniversário e quero ver o bolo ficar pronto.” “Vá dormir! Se você dormir, logo o dia amanhece e você vê o bolo.” Acreditei nela e fui dormir. Escalei o beliche num salto e me estirei no colchão. Fechei os olhos com força e abri um segundo depois: a mãe ainda confeitava o bolo. Fechei os olhos novamente. Abri. A mesma cena. Repeti a brincadeira até dormir de verdade. Este é o som que eu faço enquanto durmo: Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz... Este foi o som que minha mãe escutou enquanto batia a massa do bolo: PLEFT PLOFF. Podia ser um saco de batatas caindo, mas era eu. Tinha rolado e despencado da altura do primeiro andar do beliche que eu dividia com as minhas irmãs. Como eu não tivesse acordado, a mãe nem ligou. Este foi o som que eu fiz enquanto dormia no chão do quarto à espera do dia do meu aniversário: Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz... 6 7
  5. 5. A C láudia Pires nderson Damasceno “N o dia das mães de 1999 nossa professora da extinta alfabetização nos obrigou a passar batom vermelho e elaborar um cartão com beijos de batom e frases bonitinhas para as mamães. “A dorava os passeios matutinos diários com o pai e os irmãos Renato e Fábio, mas na hora de voltar pra casa dava um trabalhão. Obrigado tia Lucinda! Fugia correndo e se escondia adentrando as portas abertas da vizinhança. E aí, só a mãe pra resgatá-la de volta ao lar. Por outro lado, foi sempre muito afeita à observação. Gostava muito de apreciar o movimento da rua sentada na janela de casa.” 8 9
  6. 6. C D hristiane de Lavor Gomes “Q uando eu tinha uns 5 ou 6 anos tive uma experiência incrível de quase morte. Em um dia qualquer, que não lembro qual era, depois de um dia exaustivo de muito brincadeira e diversão, (espero) me recolhi aos meus aposentos para iniciar mais uma noite de descanso. Qual não foi a minha surpresa quando, no meio da noite eu acordei e vi um mundo extremamente escuro. Quando me mexi, percebi que estava em um lugar estreito, pois não havia espaço para levantar os braços. Comecei a apalpar a superfície que estava sobre mim. Era de madeira. Meu coração disparou. Fiquei apavorada. Percebi que estava enclausurada. Seria aquela superfície de uma tampa de CAIXÃO??? Quando a dúvida se fez certeza, fiquei apavorada. Meu coração, que já estava aos pulos, quase saía pela boca. Na hora, não pensei que se já estava morta, não tinha de sentir medo já que estava sem jeito mesmo. Pois bem, comecei a chorar e a apalpar com mais vigor a ‘tampa do caixão’ e a chorar e gritar, desesperada pela minha mãe: “Mãe, Mãe...”, mesmo sabendo que ela não poderia surgir ali, embaixo da terra para me salvar, a menos que ela tivesse se transformado em um verme e iria fagocitar meu lindo corinho. Não, seria macabro demais. Minha mãe não faria isso. Ou faria?! Continuei a minha saga solitária de tentar, a todo custo, um contato mais imediato com minha mãe. Quando o desespero atingia alto grau, vi uma luz no fim do túnel. Literalmente! Quando olhei para os lados, vi que havia luz e o som da voz da minha mãe, ao longe – que nesse dia, nunca pareceu tão agradável e reconfortante – quando ouço, ela perguntar – “Onde é que tu ta, menina?” E foi aí que resolvi me mexer. Coloquei a cabeça para fora e disse “Tô aqui”. Foi então que percebi que tinha caído da cama e rolando para baixo e nem sequer acordei. “S enta que lá vem a história, e segue anexado apenas uma foto 3 x 4, os registros da minha infância estão mais na minha memória, e também vai a minha pulseirinha da maternidade, porque fui adotada apenas com três dias de nascido e ainda estava com essa pulseirinha. E sou uma Elis Regina, nascemos no mesmo dia e mês, rs. Morei sempre numa casa cheia de gente boa e bichos. Cavalos, vaca, cachorro, gato, tartaruga, porco, cabra... Pois é, imagina só que loucura, eu brincava o dia todo, tomava leite quentinho da vaca pela manhã, assistia os partos das vacas, e também via muito bezerro, cavalinho morrer nos partos que minha fazia. Tomavámos banho de cacimba, minha irmã saia correndo atrás de mim, para passar caco de telha nas minhas costas para tirar o ceroto, rsrs, eca, eu sofria pra tomar banho, odiava, porque tinha essa parte de higienização massacrante. Tinha leite para a pivetada toda da favela. A gente tirava os carrapatos enormes dos bichos e ficava espetando com pedaço de arame quente, rsrssrsr. pense numa imundice, mas, é criança, e brincadeira de criança é isso, rrsrssr. Brincava de escolinha, ZIG ZAG e outras.” Graças a deus que foi apenas um susto. Ficou a história para contar e muitas risadas depois.” 10 ani 11
  7. 7. E noque Ferreira “Q L eandro Ferreiras “N a parada de ônibus, Indo pra casa da minha avó com meus pais, minha mãe percebeu que havia logo à frente um deficiente físico e logo desviou minha atenção para o outro lado, segurou forte minha mão e fez com que eu me interessasse por outra coisa. Não adiantou, vi aquele homem e logo quis soltar da mão dela, ela já sabendo o que aconteceria segurou mais forte, mas não adiantou, saí correndo e fui encará-lo, fiquei rodando várias vezes ao redor dele procurando a outra perna, pra mim aquilo era muito estranho. Logo gritei perguntando aos meus pais: -MÃE, CADÊ A OUTRA PERNA? uando eu tinha 12 anos estava correndo atrás de uma raia (pipa). Corri tanto... Atravessei um rio, entrei em uma mata fechada, então me perdi. Fiquei com muito medo, já era noite, comecei a chorar. Para minha sorte, estava passando um carroceiro em uma estrada próxima à mata, que viu meu desespero e me levou para casa.” Outra estória parecida aconteceu dentro do ônibus indo para o interior onde minha mãe nasceu, estávamos olhando a paisagem quando minha mãe desviou minha atenção para alguns cavalos, eu sem muito interesse logo percebi que na porta do ônibus havia um deficiente físico também sem uma perna e logo gritei: - MÃE, OLHA UM SACI PÊ-LE-LE! Minha mãe sem dar atenção me fazia olhar pra outro lado, e vendo que ela não me dava atenção, eu gritava mais alto ainda, queria que ela visse o Saci Pêle-le. Isso fez com que todo mundo do ônibus caísse na gargalhada, até mesmo o deficiente, menos minha mãe, que ficou morrendo de vergonha. E parece que isso sempre acontecia comigo, porque perto de onde moro morava uma família de anões, e tão grande foi minha surpresa quando vi mãe e filha anãs pela primeira vez que gritei no meio da rua: - OLHA MÃE, UMA MÃE PEQUENA! Acho que o meu forte era sempre fazer minha mãe passar vergonha.“ 12 13
  8. 8. V anessa Marinho “M e pediram uma história de quando eu era pequena. M arina Carleial “N essa época, eu tinha festas de aniversário animadíssimas, cheias de convidados, muita alegria, bolinhos, docinhos e lembrancinhas! Tudo decorado artesanalmente pela minha mãe. Lembro que a casa ficava cheia de papéis coloridos e bombons meses antes!” 14 Pensei: Meu Deus, qual? E voltei no tempo, no tempo bom, tempo que podíamos correr na calçada só de calcinha, tempo bom de quando a gente roubava goiaba do vizinho, tempo bom que na Páscoa a gente ganhava pinto do colégio e no 7 de setembro ia desfilar nas ruas. Aquele tempo que não tínhamos tanto brinquedo (eu pelo menos não tinha tanto assim), mas que a gente ficava olhando pra janela pra ver que quando “o sol baixasse” como dizia minha mãe pra gente poder descer ou sair de suas casas pra brincar com os vizinhos de coisas tão simples mas que naquela época era tudo: pega pega, esconde esconde, carimba entre outros. E os doces? Pirulito do zorro, quebra queixo do baixinho lá da portaria da Antônio Sales do Santo Inácio. Eita, como passa um filme na cabeça da gente, e eu agradeço a Deus por ter guardada na minha memória todas essas lembranças, lembranças boas, gostosas e qua dá uma saudade e vontade de voltar a ser criança. Hoje minhas filhas olham pra mim e dizem: “mãe eu quero logo ficar grande como você”, e eu respondo: Filha, curta sua fase criança, aproveite essa etapa tão linda, tão gostosa da sua vida, pra quando você crescer poder olhar pra trás como a mamãe e ter saudade de bons tempos que tivemos. Obrigada meu Deus, obrigada meus pais, por tudo. Feliz dia das crianças!” 15
  9. 9. V R ictor Furtado “Q uando tinha 7, Caio sempre me acompanhava nas brincadeiras. Era ele o vizinho da esquina da nossa rua de pedra. O que mais gostávamos de fazer era deitar no meio da rua, sentir as deformações das pedras no corpo, desafiar o parco tráfego do bairro. De certa forma, ali pulsava um pacto inconsciente pelo desejo de morte. Eu, que nesse carnaval fechava os olhos ao abraçar meu amigo, não via que Caio encarava a câmera como se soubesse de seu destino infalivelmente precoce. A morte foi bem vinda, acredito. Havia um desejo mórbido que traduzia nossa vida juntos.” 16 ruth Lopes “L embrança da infância tem gosto de saudade, no tempo que podíamos brincar na rua com nossos amigos, brincadeiras de pega-pega, elástico, corda, carimba, enfim, são várias essas que eram feitas tudo na rua. Eu era bobinha, quando brigavam comigo não sabia revidar, mas tinha minha super irmã pra me defender. Mas, nós brigávamos muito e ela dizia que me defendia por que só ela podia brigar comigo. Tempo bom, nessa época nossa única preocupação era com o carro preto que roubavam crianças. (risos)” 17
  10. 10. R úbia Mercia A ndreia Pires “E u era criança e gostava do cabelo de elba ramalho, porque era grande e cacheado.“ 18 19
  11. 11. M V Rocha arcos Martins “A ictória minha infância foi trabalhando: fazenda, interior então era muito bom e me divertia. Uma vez, andei de jumento e ele disparou, eu em cima de uma cangaia, pedindo socorro para a minha mãe e para o meu pai. Até que cheguei em casa. Não sei como não cai. Era uma distância como daqui à Casa Amarela. Era eu segurando e o jumento pinotando.” “N a foto, eu estava no Jardim I e acho que a cara meio emburrada era por conta do short do vestido que eu não gostava. Porém, minha história mesmo diz respeito ao cabelo. Minha mãe sempre teve o cabelo muito liso, mas adorava cachos e como não podia tê-los, depositava em mim a esperança dos cabelos cacheados. O meu, por sua vez, era ondulado e tinha pequenos cachos nas pontas, que ela cuidava com carinho e não cortava na torcida para que os cachos aumentassem. Fiquei até o final da alfabetização sem cortar de verdade o cabelo (que já estava na cintura), apenas “aparando” levemente as pontas. Até que, em um belo dia, alguém disse à minha mãe que se cortasse o meu cabelo, ele cacheava de vez. Ela, lógico, apenas esperou passar o “ABC” e correu comigo pro salão. Eu, afoita e extasiada com a novidade de cortar o cabelo, pedi à cabeleireira que cortasse quase na orelha. Pedido que ela prontamente atendeu. O inesperado, entretanto, aconteceu: ao ver os cabelos longos caírem desatei a chorar e minha mãe teve suas esperanças cortadas junto com os fios, já que meu cabelo nunca mais teve cachos de verdade, ficando apenas ondulado.” 20 21
  12. 12. O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA D Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira. A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. ani Santos A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água O mesmo que criar peixes no bolso. O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos. A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos. Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito porque gostava de carregar água na peneira Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira. No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo. O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E E começou a fazer peraltagens. Foi capaz de interromper o voo de um pássaro botando ponto final na frase. Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor! A mãe reparava o menino com ternura. A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta. Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos. (Manoel de Barros) rnesto Gadelha R afael Rafão Domingos Para Dani Santos, Ernesto gadelha, Rafael Domingos e todos os meninos e meninas que enchem “os vazios com suas peraltagens” e com a sua imaginação! 22 23
  13. 13. E assim, todos que lá viviam, foram felizes para sempre... 24 25
  14. 14. 26

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