Boletim da ufmg patrick charaudeau

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Boletim da ufmg patrick charaudeau

  1. 1. O sujeito voltouVicente Cardoso Jr.Fotos Foca LisboaCharaudeau: "A sociedade não se vê mais por intermédio da visão simplificada de um dominante e um dominado"A mídia, o espaço público, as ciências: toda a sociedade é campo de embate discursivo. Para acompreensão das relações de forças que constituem o mundo social, o professor PatrickCharaudeau, um dos maiores especialistas contemporâneos em análise do discurso, volta suareflexão para o sujeito como ator central desse processo, desfazendo a noção de que ele seriaapenas o “portador das ideias da sociedade”. Entre os dias 17 e 21 de maio, Charaudeau, que évinculado à Universidade de Paris XIII, ministrou um minicurso na Faculdade de Letras. Em um dosintervalos de sua programação, concedeu a seguinte entrevista ao BOLETIM.A análise do discurso é uma área de conhecimento própria ou um método do qualdiferentes áreas do conhecimento se valem?O mais importante atualmente é pensar numa perspectiva interdisciplinar. Análise do discurso é aanálise da linguagem do homem que vive em sociedade, em relação com o outro. Esse sujeitoproduz muitos discursos no espaço público. E eles dependem da organização social, da história, dapsicologia, da mentalidade, da cultura. Todas são áreas autônomas, mas têm interesse em searticular umas com as outras. Cada disciplina deve tomar da outra conceitos que lhe são válidos,mas com o seguinte pensamento: qual é esse conceito, como ele se define dentro da outradisciplina, e como, ao tomá-lo e integrá-lo à minha disciplina, vou redefini-lo?E quais são os principais objetos de estudo da análise do discurso hoje?São três os principais. Há o discurso das mídias, que engloba todo o sistema de comunicação,incluindo aquele que ocorre nas novas formas de comunicação na internet: blogs, fóruns e redescomo o Facebook. São lógicas de interação que ainda estão se estabelecendo. A partir daexperiência, da reconstrução constante, o sujeito vai descobrindo de que maneira pode serelacionar com o outro, que identidade pode construir de si e que identidade vai construindo dooutro. Também há o discurso político, aqui visto em sentido mais amplo, pois se entende comopolítico tudo o que circula no espaço público. Em terceiro lugar, o discurso de divulgaçãocientífica, que tem ganhado muita importância. Antes, as ciências que chamávamos de duras ouexatas, como a física, a química ou até a biologia, permaneciam em um campo fechado. Mascomeçamos a enxergar que toda descoberta científica gera uma controvérsia social, que obriga osatores a intervir. Assim se estabelece um novo problema, que diz respeito ao que devemos fazer
  2. 2. com os resultados da ciência. Essa decisão deve ser tomada no mundo social e político,extrapolando o campo da ciência, como vemos com as questões da bioética, da economia, dascrises financeiras, da clonagem, do transgênico.O sujeito do discurso se destaca em suas pesquisas e é tema central na proposta do seuminicurso aqui na UFMG. Por que a preocupação em trabalhar esse conceito?Houve uma época, não muito distante, em que as ciências humanas e sociais passaram adesconsiderar a voz do sujeito, partindo de um conceito segundo o qual a sociedade falava e osujeito não era mais do que portador de suas ideias. Isso representa uma corrente de pensamentoque vem da filosofia da antiguidade e, mais recentemente, foi incorporada pela filosofia esociologia marxistas. Agora, há uma espécie de retorno da relevância do sujeito. Dentro daantropologia, da sociologia, da psicologia social, da análise do discurso, voltou-se a estudar acentralidade do sujeito: se ele é individual ou coletivo, se tem margem de autonomia sobre suasvontades, se tem consciência ou não etc.Que prejuízo o “desaparecimento” do sujeito trouxe para essa reflexão?Vivíamos em um mundo dividido em classes sociais, entre dominantes e dominados, sem alteraçãodesses lugares. Os dominantes tinham a possibilidade de construir uma justificativa para suacondição pelos discursos que produziam, sem explicitar a dominação. É o que se chamava deideologia dominante, o que está dentro de toda a teoria marxista. Essa concepção foi retomada,redefinida e criticada por uma série de sociólogos e filósofos pós-modernistas, que disseram queefetivamente existem sistemas ideológicos, mas que eles atravessam toda a sociedade, todas ascamadas sociais. Qualquer que seja o grupo social, ele estabelece seu próprio sistema depensamento. Passou-se a estudar não só a ideologia dominante, mas todos os sistemas de valoresque se constroem dentro dos grupos sociais. Um grupo étnico constrói sua ideologia; assim comoum grupo religioso ou um grupo profissional, por exemplo, que também constroem sistemas devalores próprios.Esse modo de análise é mais adequado para compreender o sujeito contemporâneo, porrevelar um caráter mais plural em sua identidade?Isso é a salvação da democracia, porque, a partir do momento em que se concebe que ideologiasão sistemas de ideias e valores que surgem em todos os grupos sociais, vemos como ademocracia é uma relação entre sistemas de poder e de contrapoder. A democracia não é adominação de uma maioria, e sim a possilidade de as minorias se expressarem e defenderem noespaço público seus próprios sistemas ideológicos. A sociedade não se vê mais por intermédio davisão simplificada de um dominante e um dominado. Passa-se a enxergar como aquele que édominado em alguma situação pode ser dominante em outra. Todo o jogo que se desenvolve emum espaço público envolve relação de forças, de muitas estratégias que podem ser acionadaspelos indivíduos. Essa visão deixa para cada um a possibilidade de existir com mais autonomia, oque é bem diferente de uma sociedade em que dominantes são sempre os mesmos, e osdominados também.

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