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VIGNA DA CUNHA OLIVEIRA      O EROTISMO COMO REPRESENTAÇÃO DA     TRANSGRESSÃO: A AFIRMAÇÃO DA MULHER    CONTEMPORÂNEA EM ...
"A mulher é uma substância tal, que, por mais que a estudes,    sempre encontrarás nela alguma coisa totalmente nova".    ...
AGRADECIMENTOS      Em primeiro lugar agradeço a Deus por me iluminar e me dar forças parachegar até aqui. A toda a minha ...
RESUMO       O presente trabalho tem como temática o erotismo na literatura de autoriafeminina contemporânea. Ao observarm...
ABSTRACT       The present work has as its theme the erotic into literature of contemporaryfemale authors. By observing th...
SUMÁRIO     INTRODUÇÃO                                                              081.   REPRESSÃO, LUTAS E CONQUISTAS: ...
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9Elódia Xavier (1991), Alfredo Bosi (1996), Massaud Moisés (2001), Georges Bataille(1988), Helena Parente Cunha (1999), Ma...
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23realização literária que a mulher anseia e, aos poucos, vem conquistando, Freitas(2002), diz que                     [.....
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29imaginação da primeira [...]” (MENDONÇA, 1991, p. 25) - reflete as contradiçõesvividas pela mulher, dividida entre o que...
30configurar suas personagens em busca de afirmação e independência. Nessecontexto, Helena Parente Cunha ganha destaque, u...
31                     Cansei-me de morrer coagulada, afivelada, sem ninguém [...] Vocês acham                     ridícul...
32insatisfações das mulheres contemporâneas, ao mesmo tempo em que, representao desejo de mudança e a transgressão vivida ...
33                            CONSIDERAÇÕES FINAIS      Após o estudo teórico e a análise literária, pode-se concluir que,...
REFERÊNCIASALVES, Ivia. Imagens da mulher na literatura na modernidade e contemporaneidade.In: FERREIRA, Sílvia Lúcia; NAS...
KEHL, Maria Rita. Sexualidade recontextualizada. In: FERREIRA, Sílvia Lúcia;NASCIMENTO, Enilda Rosendo do (Orgs.). Imagens...
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  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIVCOLEGIADO DE LETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS - LICENCIATURA VIGNA DA CUNHA OLIVEIRA O EROTISMO COMO REPRESENTAÇÃO DA TRANSGRESSÃO: A AFIRMAÇÃO DA MULHER CONTEMPORÂNEA EM MULHER NO ESPELHO, DE HELENA PARENTE CUNHA Conceição do Coité 2012
  2. 2. VIGNA DA CUNHA OLIVEIRA O EROTISMO COMO REPRESENTAÇÃO DA TRANSGRESSÃO: A AFIRMAÇÃO DA MULHER CONTEMPORÂNEA EM MULHER NO ESPELHO, DE HELENA PARENTE CUNHA Monografia apresentada ao Departamento de Educação, Campus XIV, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas - Licenciatura, como parte do processo avaliativo para obtenção do grau de Licenciada em Letras. Orientador: Prof. Dr. Luiz Antonio de Carvalho Valverde. Conceição do Coité 2012
  3. 3. "A mulher é uma substância tal, que, por mais que a estudes, sempre encontrarás nela alguma coisa totalmente nova". Léon Tolstoi
  4. 4. AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar agradeço a Deus por me iluminar e me dar forças parachegar até aqui. A toda a minha família pelo carinho e incentivo oferecido. Agradeçotambém a meu orientador, Luiz Valverde, pela dedicação e competência com queconduziu a elaboração dessa monografia. Agradeço ainda a todos os professores que, cada um ao seu modo,marcaram e contribuíram para a minha formação acadêmica. Enfim agradeço atodos os meus caros colegas pelos conhecimentos e dúvidas partilhadas, pelacumplicidade e amizades construídas, pelos momentos enriquecedores einesquecíveis que me proporcionaram. A todos vocês a minha gratidão e o meu carinho eterno!
  5. 5. RESUMO O presente trabalho tem como temática o erotismo na literatura de autoriafeminina contemporânea. Ao observarmos que essa literatura de gênero tem inscritoem seus textos o corpo e a sexualidade feminina, o principal objetivo desse estudo éinvestigar e compreender de que modo a literatura feminina utiliza o erotismo, com opropósito de garantir afirmação e autonomia às mulheres, a partir da análise do livroMulher no Espelho de Helena Parente Cunha. Fundamentado em pesquisasbibliográficas, aparecem aqui conceitos e teorias de pesquisadores como Maria JoséMotta Viana (1995), Carole Pateman (1993), Mary Del Priori (2006), Joel Birman(2001), Heliana Ometto Nardin (2000), Ivia Alves (2002), Zilda de Oliveira Freitas(2002), Octavio Paz (1994), Elódia Xavier (1991), Alfredo Bosi (1996), MassaudMoisés (2001), Georges Bataille (1988), Helena Parente Cunha (1999), RitaTherezinha Schmidt (1999) entre outros. Com base em tais pesquisas conclui-se quena obra analisada, o erotismo tem representado um mecanismo de transgressão,liberdade e prazer para as mulheres na contemporaneidade.Palavras-chave: Erotismo. Transgressão. Literatura feminina. Contemporaneidade.
  6. 6. ABSTRACT The present work has as its theme the erotic into literature of contemporaryfemale authors. By observing that this literature of gender has inscribed in its textsthe body and female sexuality, the main objective of this study is to investigate andunderstand how the female literature uses the eroticism, in order to ensureaffirmation and empower women, from the analysis of the book Woman in the Mirrorof Helena Parente Cunha. Based on literature searches, appear here concepts andtheories of researchers such as Maria Jose Motta Viana (1995), Carole Pateman(1993), Mary Del Priori (2006), Joel Birman (2001), Heliana Ometto Nardin (2000),Ivia Alves (2002), Zilda Freitas de Oliveira (2002), Octavio Paz (1994), Elodia Xavier(1991), Alfredo Bosi (1996), Massaud Moisés (2001), Georges Bataille (1988),Helena Parente Cunha (1999), Rita Therezinha Schmidt (1999) among others. Basedon these studies it is concluded that in the work analyzed, the eroticism has been amechanism of transgression, freedom and pleasure for women nowadays.Keywords: Eroticism. Transgression. Womens literature. Contemporaneity.
  7. 7. SUMÁRIO INTRODUÇÃO 081. REPRESSÃO, LUTAS E CONQUISTAS: A HISTÓRIA DA MULHER NA SOCIEDADE BRASILEIRA 101.1 O patriarcalismo e a repressão sexual das mulheres 101.2 A reação feminina: a mulher em busca do seu espaço no cenário social 141.3 A escrita feminina como instrumento de libertação e inserção da mulher na sociedade 162. LITERATURA E EROTISMO: UMA ÍNTIMA RELAÇÃO 192.1 Literatura contemporânea 192.2 Literatura feminina 212.3 O erotismo 232.4 O erotismo na literatura de autoria feminina contemporânea 253. MULHER NO ESPELHO: REFLEXOS DA MULHER CONTEMPORÂNEA, EROTIZADA 27
  8. 8. 3.1 Mulher no Espelho: um retrato da mulher contemporânea, dividida entre a repressão falocêntrica e a aventura da transgressão 273.2 O erotismo em Mulher no Espelho: uma fonte de afirmação e Felicidade 29 CONSIDERAÇÕES FINAIS 33 REFERÊNCIAS
  9. 9. 8 INTRODUÇÃO Discutir a literatura feminina é falar de um tema atual, uma vez que a escritafeminina só se consolida como objeto de pesquisas e análises a partir da década de1980 e, ainda hoje, apresenta-nos um leque de aspectos e temáticas a sereminvestigados. A representação da mulher na literatura tem sido uma questãoamplamente discutida nas academias de todo o país, pois, busca-se compreendercomo a mulher, ficcionalmente, se inscreve dentro da sociedade contemporânea e arelação existente entre essa ficção e as lutas pela liberdade e auto-afirmação dessegênero. O erotismo como representação da transgressão da mulher contemporânea éa temática discutida nesse estudo que objetiva, em primeiro lugar, compreender deque modo a literatura de gênero utiliza o corpo e a sexualidade para revelar asrupturas e firmar a autonomia feminina. Tenciona-se aqui também analisar como oerotismo possibilita a conquista da independência e da realização da mulher frente àhierarquia falocêntrica. Partindo do contexto histórico de submissão e passividade em que vivem asmulheres no regime patriarcal, esse trabalho traça a trajetória das mulheres, areação e as lutas feministas em busca de espaço e respeito social. O presenteestudo revela que a conquista do direito à voz e o acesso à escrita possibilitaram-lhes um grande salto em direção à independência e à afirmação feminina e que, pormeio da literatura de gênero, a mulher tem denunciado a “condição feminina” e serebelado contra a repressão masculina. Essa pesquisa tem como objeto de análise o romance Mulher no Espelho, deHelena Parente Cunha, que retrata a mulher contemporânea cheia de medos eincertezas, mas que, mesmo assim, busca a liberdade e a realização plena dos seusdesejos. E é justamente por meio da aceitação do seu corpo e da exploração da suasexualidade que ela consegue concretizar os seus anseios. Baseada unicamente em pesquisas bibliográficas, essa análise da literaturafeminina contemporânea pelo viés do erotismo apóia-se em teóricos como Ivia Alves(2002), Zilda de Oliveira Freitas (2002), Elaine Showalter (1994), Octavio Paz (1994),
  10. 10. 9Elódia Xavier (1991), Alfredo Bosi (1996), Massaud Moisés (2001), Georges Bataille(1988), Helena Parente Cunha (1999), Maria Helena Mendonça (1991), Jorge deSouza Araujo (2003), entre outros, que dão subsídio teórico para as questõeshistóricas e sociais abordadas no transcorrer do texto. A partir desse estudo teórico e literário, intenta-se ao final compreender eexplicitar como e por que o erotismo tem representado, para a mulher, na escritafeminina contemporânea, uma instância de resistência, poder e transgressão, pormeio do qual ela se liberta, realiza os seus desejos e encontra a felicidade.
  11. 11. 101. REPRESSÃO, LUTAS E CONQUISTAS: A HISTÓRIA DA MULHER NA SOCIEDADE BRASILEIRA O presente capítulo se propõe a discutir a trajetória das mulheres nasociedade brasileira, desde a repressão patriarcal, regime político-social no qual asmulheres viviam em completa submissão e passividade, às lutas e conquistasfemininas, sua circulação no espaço público, em posição de igualdade com oshomens, alcançando o direito de poderem falar e escrever sobre si mesmas, livresda ideologia falocêntrica, que até então, as definiam e controlavam.1.1 O patriarcalismo e a repressão sexual das mulheres As mulheres, historicamente, cumprem demandas e papéis que lhes sãoimpostos pela sociedade patriarcal. Foram séculos de repressão, durante os quais asupremacia androcêntrica calou e subjugou a mulher. Para estas, sob a perspectivado olhar e dos interesses machistas, criaram-se modelos e estabeleceram-sepadrões de comportamento, a fim de sustentar a virilidade masculina e garantir ahierarquia entre os sexos. Saffioti (2000), ao tratar da falocracia, argumenta que “[...]esse regime não deriva de um contrato entre homens e mulheres; ele deriva de umcontrato entre homens e por isso ele é baseado no medo e no controle” (p. 22).Viana (1995) também relata a condição de subserviência da mulher diante àhegemonia do falo ao afirmar que A mulher [...] não pôde fugir também à segregação imposta por uma ideologia sexista fundada e sustentada no patriarcado, em que o homem detém o poder e o mando sobre a função, o espaço e o desejo dela. Até a virada desse século, essa mulher ou era a sinhazinha, [...] ou era escrava, [...]. Piedosa, abnegada e sobretudo fiel e subserviente aos desejos e
  12. 12. 11 demandas paternas ou maritais, durante séculos essa foi a sua realidade (p. 24-5). Essa dominação dos homens sobre as mulheres resulta, segundo Pateman(1993), de um pacto original, um contrato “sexual-social” que institui, na sociedade,uma ordem patriarcal moderna. O pacto original é tanto um contrato sexual quanto social: é sexual no sentido de patriarcal – isto é, o contrato cria o direito político dos homens sobre as mulheres –, e também sexual no sentido do estabelecimento de um acesso sistemático dos homens aos corpos das mulheres (p. 17). Ao abordar o patriarcalismo a autora trata desse sistema como um “conceitoque se refere especificamente à sujeição da mulher, e que singulariza a forma dedireito político que todos os homens exercem pelo fato de serem homens” (p. 39).Assim, sob o comando masculino, excluídas do cenário social, sem acesso àeducação e ao mercado de trabalho, não restava, às mulheres, alternativa senãosubmeter-se à vontade dos pais e maridos, respeitando-os e reverenciando-os. A sociedade patriarcal determinou padrões de comportamento e estabeleceuos espaços em que as mulheres deveriam atuar. Dessa forma, para ser aceita erespeitada no meio social, a mulher deveria corresponder à imagem de inocência esujeição e deter-se no cumprimento dos encargos a ela atribuídos, na sua condiçãode “rainha do lar”. De acordo com Alves (2002), “Estas imagens são construídascomo modelo com a finalidade de controlar o comportamento da mulher que vai seinserir no espaço doméstico (a virgem pura e a mãe de família)” (p. 85). Restringida ao ambiente familiar, a mulher vivia, segundo Del Priori (2006),numa situação de “[...] escrava doméstica exemplarmente obediente e submissa.Sua existência justificava-se por cuidar da casa, cozinhar, lavar a roupa e servir aochefe da família com o seu sexo” (p. 22). O casamento e a maternidade eram asprincipais funções femininas, para as quais eram moldadas. A fidelidade, apassividade e a castidade eram os requisitos essenciais para a configuração damulher ideal - esposa e mãe assexuada. A essas constatações, de como seconfigurou o ser feminino, Viana (1995) acrescenta que
  13. 13. 12 [...] reservaram-se para a mulher características ditas naturais, como passividade, submissão, fragilidade, menor capacidade de raciocínio e maior emotividade. Essas características, ao serem ora aceitas, ora rejeitadas pela mulher, contribuíram para fazer dela o lugar dos paradoxos. Se as aceitava, estava cumprindo a contento o papel de abrigo do divino, lugar de repouso do desejo do outro [...] (p. 13). O patriarcalismo sempre teve a seu favor instrumentos como a Igreja Católica,com seus sermões e manuais de comportamento, a literatura e o Estado que muitocontribuíram para a “educação” feminina. Segundo Del Priori (2006), “A esposadevia amar o companheiro ‘como fazem as boas, virtuosas e bem procedidasmulheres de qualidade’, explicava um juiz eclesiástico em pleno século XVIII” (p. 24).A autora cita ainda trechos de manuais e guias de casamento escritos pela Igreja, afim de garantir a disciplina e a boa conduta das mulheres na relação conjugal. “O marido é a cabeça da mulher, e os membros devem acomodar o mal da cabeça se o há”, insiste um desses manuais. Extensão orgânica da vontade masculina, da razão do esposo, cabia à mulher obediente acudir-lhe os males, os desmandos e os desvarios. [...] “A mulher deve amar seu marido com respeito, e o marido deve amá-la com ternura” [...].“É o homem que deve mandar, a mulher somente criada para obedecer [...]” (p. 28-9). A Igreja regulamentou a união matrimonial heterossexual sem prazer e comfins exclusivamente reprodutivos. Controlava a prática sexual dos cônjuges nocasamento, determinava as posições “certas” e proibia o uso de métodoscontraceptivos. A continência dos desejos, principalmente os das mulheres, era umdos maiores desígnios da Igreja que pretendia domesticar o “amor-paixão” eassegurar o recato e a submissão feminina aos interesses androcêntricos. O instinto sexual não controlado pelas regras do casamento se transformava em luxúria e paixão nas páginas de moralistas. Ou em doença grave, nas teorias médicas da época. Ao ordenar as práticas sexuais pelos campos do certo e do errado, do lícito e do ilícito, a igreja procurava controlar justamente o desejo (DEL PRIORI, 2006, p. 23). Dessa forma, o cristianismo, segundo Foucault (2006), encontrou um meio de“controlar os indivíduos através de sua sexualidade, concebida como alguma coisada qual era preciso desconfiar, alguma coisa que sempre introduzia no indivíduo
  14. 14. 13possibilidades de tentação e de queda” (p. 27). Assim, garantiu-se a obediência e aperpetuação dos desígnios patriarcais. Nesse sentido, é possível observar que a repressão dos desejos sexuaisfemininos foi sempre uma das principais preocupações do androcentrismo. Nessesentido, Saffioti (2000) afirma que “a primeira coisa na qual o regime pensa é nocontrole da sexualidade feminina. [...] o regime patriarcal controla a sexualidadefeminina.” (p. 22). Para esse sistema social, a única função da sexualidade femininaera a procriação e, de acordo com Birman (2001), “tudo que pudesse interferir, ouaté mesmo competir com a finalidade reprodutora seria uma ameaça para asociedade [...]” (p. 63). Por isso, segundo Kehl era “preciso coibir, inibir, refrear, demodo a desenvolver nela o pudor e o recato sexuais [...]” (p. 12). Assim, para asmulheres, a relação sexual se efetuava desvinculada do prazer erótico, cumprindoapenas os propósitos da maternidade. À mulher, era negada a realização dos seus desejos e do prazer sensual, poisestes eram vistos como pecado e imoralidade. Nessa perspectiva, Birman (2001) dizque “O erotismo feminino era concebido como essencialmente perigoso, pelaameaça de desordem que representava” (p. 64), e acrescenta que A mulher desejante passou a figurar, assim, uma possibilidade real para o Mal e para o desvio social, na medida em que, enquanto sustentação do desejo, estaria se deslocando do reto caminho da maternidade e da mulher virtuosa (p. 65). Com uma vida de subserviência e repressão, presa às prescrições dasociedade falocêntrica, a mulher viu seus anseios e aspirações serem refreados eaquelas que se opusessem às atribuições (de esposa e mãe) a que eram destinadase liberassem o seu desejo erótico, vivendo plenamente a sua sexualidade, eramdescriminadas, encaradas como a encarnação do mal, relegadas à prostituição oumesmo consideradas loucas, histéricas. Nesse sentido, Birman (2001) relata que [...] as mulheres que fugiam e se desviavam do reto e sagrado caminho de maternidade eram ativamente culpabilizadas, moralmente diminuídas em seu valor e até mesmo criminalizadas pela assunção de outras figurações sociais (p. 75).
  15. 15. 14 Entretanto, é justamente a partir dessa imagem de mulher que se rebelacontra os padrões patriarcais e assume o seu erotismo, que o feminino começa aconfigurar a sua estratégia de ruptura e transgressão ao sistema opressor vigente.1.2 A reação feminina: a mulher em busca do seu espaço no cenário social Apesar da longa e severa história de repressão vivida pelas mulheres, elasnão permaneceram inertes diante de tantas imposições e humilhações. Nessecontexto, emergem figuras femininas que tentam resistir e burlar as proibições a fimalcançar os seus objetivos e realizar seus desejos. Surge aí, a tentativa desubversão dos modelos recebidos e a construção de novos valores capazes degarantir à mulher a liberdade de escolha e de expressão. Mesmo excluídas do meio social, condenadas a exercer papeis marginaisdentro da sociedade, as mulheres não se encerraram pacífica e voluntariamente nasparedes do lar, pelo contrario, elas demonstraram resistência e buscaramalternativas para driblar esse controle institucional. Essa luta por direitos sociais eigualdade entre os sexos só se expande a partir da inserção da mulher no mercadode trabalho. De acordo com Nardin (2000), “é pelo trabalho, pela profissionalizaçãoque ela cobre em grande parte a distância que a separa do homem, [...] só otrabalho pode assegurar-lhe uma liberdade concreta” (p. 62). Desse modo, o acessoao espaço público e aos recursos econômicos possibilitou a esse gênero umamudança nas atribuições familiares e a elaboração de paradigmas que questionem eredefinem a supremacia masculina. Nardin (2000) complementa tais informações aosustentar que Somente no século XX, depois de séculos de construção ocidental da civilização judaico-cristã, de submissão da mulher ao modelo masculino de poder que lhe impede de sair da imanência e da tutela, é que a mulher pela profissionalização, utilizando o mesmo instrumental que o homem para pensar e se construir, impõe à sociedade direitos iguais aos do homem, afirma-se como semelhante em seus projetos de vida e ação política (p. 68).
  16. 16. 15 Mesmo submetendo-se a duras e precárias condições de trabalhos, comserviços pesados, irregulares e mal remunerados, as mulheres, principalmente as declasses menos favorecidas, sempre trabalharam e lutaram por melhores condiçõesde vida. Entretanto, essa possibilidade de adentrar num cenário (social e trabalhista)que até então era restrito a atuação masculina, só se concretizou a partir dodesenvolvimento científico e industrial. Tais avanços melhoraram as circunstânciaslaborais, alargaram as oportunidades à mão de obra feminina e, ainda, permitiu àsmulheres o poder sobre seus corpos, já que, com o surgimento da pílulaanticoncepcional, a maternidade deixou de ser uma fatalidade e estas conquistaramo direto de escolha e decisão dos seus destinos. Nesse sentido, Nardin (2000)argumenta que A ciência e a indústria ocidentais libertaram as mulheres dos trabalhos tediosos e do perigo. A pílula neutraliza a fertilidade. Parir não é mais fatal. Considera que a linha apolínea de racionalidade ocidental produziu a agressiva mulher moderna, que pode pensar como o homem e escrever livros desagradáveis (p. 71). Nessa lenta e árdua batalha por direito a uma vida pública, a um novo lugar euma nova identidade, a mulher começa a organizar o seu discurso por meio do qualse contrapõe às imagens e aos parâmetros estabelecidos pelos homens e reivindicaos direitos do sexo feminino. Aos poucos foram se levantando vozes de protesto contra a subordinação damulher. É, principalmente, a partir da década de 60 que vozes femininas seorganizam e se fazem ouvir através de reivindicações e declarações públicas e,mesmo a altos custos, as mulheres, a partir dessa década, começam a se"enxergar" como tal e reclamar autonomia, respeito e liberdade. Brigaram enfim,para tornarem-se sujeitos atuantes no processo de criação de seu próprio discursoe, consequentemente, da sua própria vida, ou seja, exigiram uma posição deigualdade em relação aos homens. Considerando tais lutas, anseios e progressos, Viana (1995), afirma que amulher [...] passa agora a revelar-se, mais do que isto, revelar-se a si mesma, através dos diversos caminhos sócio-culturais e políticos. Do confinado
  17. 17. 16 espaço das cozinhas e alcovas, espalha-se e se apossa também das salas, varandas, jardins e do resto dividindo com os homens espaços, ocupações e principalmente linguagens que lhe eram antes inacessíveis (p. 13). Ao investir-se de voz, a mulher se insere no processo histórico, do qual, pormuito tempo, foi excluída, já que, até então, a história era construída e centrada nohomem. Dessa forma, ao ter acesso à fala e à escrita, esse gênero abre espaçopara se discutir a condição feminina de marginalizada e dominada, além de buscar aafirmação da identidade e a reafirmação dos valores e desejos femininos.1.3 A escrita feminina como instrumento de libertação e inserção da mulher na sociedade Desprovida de linguagem própria, a mulher sempre se viu configurada eescrita pelo olhar e pelas mãos masculinas. O comportamento e posturasestabelecidos pelo homem eram internalizados pelas mulheres que se resumiam adesempenhar o papel do outro, ou seja, não eram tidas como sujeitos providos dedireitos e vontade individual, mas, ao contrário, atendiam, unicamente, aosinteresses e conveniências do sistema falocêntrico. Somente a partir do momentoem que a mulher torna-se consciente da precária condição feminina e se reconhececomo um ser capaz de se auto-definir, é que ela começa a transpor os limitessociais, se engajando então, num movimento de construção de uma nova identidadee de um novo destino. Para Viana (1995), Essa ampliação do espaço feminino torna-se viável à medida que a mulher toma posse da linguagem, [...] À medida que a mulher não reivindica para si o direito à fala, no sentido político-ideológico que o sistema lingüístico envolve, e não consegue ser ouvida, não pode também ser percebida como ser dotado de razão, potencial de trabalho e sensibilidade discernente (p. 13-4). Ainda segundo essa autora, “[...] a apropriação da escrita significou umarevolução no âmbito sócio-cultural e psicológico da mulher. O reapropriar-se dapalavra viabiliza a quebra de um institucional e codificado silêncio feminino” (p. 33).
  18. 18. 17Dessa forma, fica claro que é, essencialmente, por meio da escrita que a mulhercomeça a se mostrar, a se construir como ser social, pensante, apto a falar o que é eo que quer, livre dos modelos masculinos que lhes foram predeterminados. Ao tratar da escrita feminina, Freitas (2002), explica que os passos maisconsistentes em direção à libertação e autonomia feminina foram dados no séculoXX, a partir das lutas feministas. Dentre as conquistas alcançadas por essa classe, aintrodução das mulheres no cenário literário parece ser uma das mais importantes,pois a escrita representou para estas a oportunidade de falar tudo o que por muitotempo foi silenciado, de escrever o que não podia ser escrito. A narrativa feminina neste período vai mostrar a insatisfação da mulher com olugar de submissão, apresentando assim, questionamentos aos valores impostospelo patriarcalismo dominante, mostrando, muitas vezes, o conflito entre ser a donado lar e a realização do desejo de liberdade e independência, reconhecendo ereconstruindo, desse modo, a sua própria feição. A literatura não é para as mulheres uma simples transgressão das leis que lhes proibiam ao acesso à criação artística. Foi, muito mais do que isso, um território liberado, clandestino. Saída secreta da clausura da linguagem e de um pensamento masculino que as pensava e descrevia in absentia. [...] a literatura feminina é mais um registro escrito do inconformismo da mulher àquelas leis (FREITAS, 2002, p. 119). Freitas (2002) esclarece ainda que “A criação artística e, sobretudo, aliteratura, [...] abre para a mulher uma fenda na muralha, revolve o estagnadocenário cultural masculino, apresenta-a a este mesmo cenário” (p. 121). Assim, paraa autora, “[...] a mulher que escreve estabelece seu mundo imaginário, procurandodizer de si mesma aos outros e propondo maneiras inovadoras de estar e de fazer”(p. 120). Esse desejo de revelar-se e de conquistar autonomia e liberdade é firmado etematizado pela literatura de autoria feminina, na qual a representação do mundo éfeita pela ótica feminina, o que difere da autoria masculina, na medida em que é amulher que se compõe, recompõe e se impõe à hegemonia do falo. A construção identitária de uma escrita propriamente feminina é um processonecessário para desfazer as condições repressoras que lhes eram impostas econstruir uma nova imagem de mulher. Se opondo aos moldes estabelecidos pela
  19. 19. 18literatura clássica patriarcal, as personagens das narrativas de gênero são mulherestransgressoras, que tentam, a qualquer preço, transpor as regras e viver além doslimites infligidos pelo poder masculino. Tais personagens, assim como as suas autoras, reclamam o direito a umespaço na esfera pública, um lugar onde possam ser vistas e ouvidas, livres daideologia patriarcal. De acordo com Viana (1995), a escrita se apresenta a essasmulheres como a melhor e mais acessível “forma de se apropriarem do discurso,domínio e campo do masculino” (p. 26), para então, conquistarem tal espaço tãomerecido e desejado. Em suma, é notório que, ao apropriar-se da linguagem e da escrita e,somente através de tais recursos, a mulher consegue, enfim, adentrar o espaçopúblico, quebrar barreiras e assegurar para si uma posição de respeito e autonomiaem ralação aos homens. Entretanto, sabe-se também que muitas lutas precisamainda ser travadas e vencidas para que estas mulheres alcancem de fato “um lugarao sol” na sociedade que, até hoje, preserva conceitos e valores da hierarquiamasculina. Por fim, é cabível ressaltar que, apesar de toda a opressão vivida pelasmulheres, estas lutaram incansavelmente por liberdade e autonomia, buscaram umespaço digno onde pudessem sair da tutela e se tornarem independentes, capazesde construir a própria identidade e de determinarem seu destino. Foi através dotrabalho e da escrita que o feminino começou a transgredir e desconstruir ospadrões patriarcais para enfim alcançar um lugar de respeito e destaque na esferapública. Contudo, é bem verdade que há ainda um longo caminho a ser percorrido emuito a ser discutido e conquistado para que as mulheres possam, efetivamente, serealizarem como sujeitos autônomos e libertos das imposições sociais.
  20. 20. 192. LITERATURA E EROTISMO: UMA ÍNTIMA RELAÇÃO Abordando aspectos da literatura contemporânea e da literatura feminina,tenciona-se, neste capítulo, discutir a relação existente entre literatura e erotismo,considerando o erótico como um instrumento de transgressão e liberdade, já que,autoras contemporâneas têm usado esse artifício para construir suas histórias,revelar seus desejos e opor-se à “condição feminina”.2.1 Literatura contemporânea Em um contexto social de pós-guerra, marcado pela evolução tecnológica eindustrial, pelo capitalismo e por diversas crises no meio político e econômico,emerge, no Brasil, uma geração insatisfeita e contestadora, capaz de provocar epromover profundas mudanças sócio-culturais. Novas ideias, novos desejos, novastendências, subjazem o período contemporâneo que começou a configurar-sedepois da década de 30 e se prolonga até os dias atuais. Pode-se definir contemporâneo como aquilo que pertence ao tempo do qualse fala, ao tempo atual. Nesse sentido, Bosi (1996, p. 383) afirma que “O termocontemporâneo é, por natureza, elástico e costuma trair a geração de quem oemprega”. E acrescenta que “Somos hoje contemporâneos de uma realidadeeconômica, social, política e cultural que se estruturou depois de 1930” (BOSI, 1996,p. 383). Ao tratar da geração contemporânea, Moisés (2001) diz que essa “Geraçãonascida sob o signo da análise, não poderia deixar de manifestar-se de modorelevante no específico terreno da crítica” (p. 291). Provindos da rebeldia, davontade de mudança e da busca por soluções para os problemas da sociedademoderna, os contemporâneos exprimem, principalmente nas manifestações
  21. 21. 20artísticas, essa procura por novos caminhos e a ruptura com valores tradicionais,revelando, então, de forma crítica e sarcástica, a realidade de um país sufocado pelarepressão e desigualdade social. Nesse contexto, a literatura revela-se umsignificativo instrumento para a quebra de conceitos e padrões ultrapassados, e àafirmação desse novo tempo marcado por transformações de cunho social, histórico,cultural e psicológico. Em se tratando da literatura como veículo de mudanças e da influência que astendências contemporâneas exerceram sobre essa e as demais artes, Moisés (2003)argumenta que “[...] as mudanças em curso no pós-guerra recobrem praticamentetodas as modalidades do fazer literário” (p. 339). E Bosi (1996) relata ainda que “[...]as obras [...] de 30 a 40 e a 50 mostram à sociedade que novas angústias e novosprojetos enformavam o artista brasileiro e o obrigava a definir-se na trama do mundocontemporâneo” (p. 385). A partir de tais concepções é possível afirmar que a produção literáriacontemporânea reflete a realidade de uma época repleta de mudanças, novidades,conflitos e incertezas, uma época em que tudo é muito inconstante e liquefeito. O fazer literário na contemporaneidade é marcado por formas mais diretas ecomplexas de observar e representar o cotidiano e as relações sociais da vidamoderna. O homem em sociedade é apresentado com todos os seus embatespessoais, suas buscas, anseios, escolhas e dúvidas. São esses os temas quedefinem o percurso e postura dos personagens da literatura brasileira atual. ParaBosi (1996), o [...] caráter próprio da melhor literatura de pós-guerra é a consciente interpenetração de planos (lírico, narrativo, dramático, crítico) na busca de uma “escritura” geral e onicompreensiva, que possa espelhar o pluralismo da vida moderna; [...] (p. 388). Enfim, podemos constatar que a literatura contemporânea espelha amultiplicidade e as turbulências da sociedade moderna, uma sociedade que ainda seencontra em processo de formação e transformação. A literatura desse períodotraduz, principalmente, os sentimentos e as contradições vividas por sujeitos quedesejam se reencontrar, se redefinir e se autoafirmar numa época em que os valoressão movediços e os conceitos indefinidos.
  22. 22. 212.2 Literatura feminina As mudanças e inovações sócio-culturais ocorridas no âmbito dacontemporaneidade possibilitaram a mobilidade de grupos que, até então, eramexcluídos e silenciados pela sociedade. Tais grupos passaram a brigar para seremvistos e ouvidos como sujeitos integrantes do todo social e, aos poucos, com muitaluta, a margem tem conquistado espaço e visibilidade ante as classes dominantes. Dentre estes grupos que buscavam inserção e ascensão social, as mulheresse destacam com suas ideias feministas, que tomaram vulto na década de 70.Considerando Schmidt (1999), pode-se afirmar que o feminismo é um movimentosocial que [...] se engaja na crítica cultural, teórica e epistemológica em curso, a partir da passagem dos sujeitos sociais femininos construídos no campo da experiência histórica, para o âmbito dos processos de produção de conhecimento, nas diversas áreas [...] (p. 29). Nesse sentido, cabe acrescentar que o intuito primeiro do feminismo é aconstrução de novos conhecimentos e a ressignificação da história e da condiçãodas mulheres, a fim questionar e repensar a realidade social do feminino. É sabidoentão, que é, a partir desses ideais feministas, que as mulheres passam a produzir edivulgar, em maior escala, a “literatura feminina”. Pautada na desconstrução de ideologias patriarcais e na valorização dodiscurso feminino que, durante muito tempo foi negado, a escrita da mulher, deacordo com Schmidt (1999), [...] constitui um movimento de resistência ao paradigma de essencialismo, homogeinização e universalismo que sustenta a institucionalização da literatura e que subjaz às noções vigentes de tradição e cânone literário, [...] herdados e legitimados na cultura patriarcal” (p. 36). Essa literatura, escrita e centrada na mulher, reivindica a visibilidade destacomo sujeito capaz de pensar e de falar por si mesma, capaz de se reconstruir
  23. 23. 22independente dos padrões e papeis sociais que a hegemonia masculina lhesinstituiu. Ao examinar-se a produção literária da mulher brasileira a partir da década de70, pode-se observar que as escritoras contemporâneas estão, a cada dia,construindo um espaço literário, onde as vozes que se ouvem são, realmente,femininas, libertas dos parâmetros determinados pelo discurso falocêntrico que, pormuito tempo, configurou o comportamento e a imagem da mulher. Nessa perspectiva, Freitas (2002) salienta que é ao reconhecer-se comodiferente do homem que a mulher passa a produzir uma escrita essencialmentefeminina, revelando nela o seu universo, sua experiência histórica e sócio-cultural.Ainda segundo essa autora, “Ao afastar-se do estilo masculino, assumindo suainexperiência e imperfeição, a mulher encontra o seu verdadeiro jeito de escrever. Ouniverso masculino é olvidado, para que se instaure o feminino” (p. 121). Sobre essa literatura caracteristicamente feminina, Xavier (1991) constata que“A condição da mulher, vivida e transfigurada esteticamente, é um elementoestruturante nesses textos; não se trata de um simples tema literário, mas dasubstância mesma de que se nutre a narrativa” (p. 11), ou seja, as experiências e ossentimentos vividos pelas mulheres são elementos inerentes às construçõesliterárias feita por elas. Ainda considerando essa autora, podemos compreender quea representação do mundo feita pela ótica feminina difere daquela feita pelo olharmasculino, pois é construída a partir de uma perspectiva e de uma condição de vidadiferente, especial, desprovida dos privilégios que a falocracia, durante muito tempo,assegurou aos homens. Essa “condição feminina” é narrada, em seus textos, por meio de uma vozque emerge do corpo e do imaginário feminino e revela um discurso contra-ideológico, que vem sendo organizado pelas mulheres com a finalidade de encontraruma linguagem autêntica, capaz de expressar essa nova mulher e construir paraesta, uma nova identidade. Uma escritura autônoma e autenticamente feminina revela a forma singular damulher pensar e sentir, reflete as incertezas e os desejos dessas escritoras quebuscam a auto-afirmação e o reconhecimento da sua presença, do seu discurso e doseu espaço no meio histórico-social em que vivem. Sobre essa liberdade e
  24. 24. 23realização literária que a mulher anseia e, aos poucos, vem conquistando, Freitas(2002), diz que [...] a escrita feminina é justamente este livre expressar-se do universo feminino, paralelo ao masculino, sem imitá-lo, mas também sem desconhecê-lo. A realidade da produção literária do nosso século opõe os contrários, sem que a mulher precise adotar o estilo do elemento masculino dominador, mantendo a sua natureza feminina (p. 122). Assim, fica perceptível que a literatura de autoria feminina vem alcançandoindependência, visibilidade e respeito num cenário em que os paradigmas ainda sãoandrocêntricos e o cânone literário, predominantemente masculino.2.3 O erotismo Na etimologia, do erotismo encontramos a palavra grega “Eros” que significaamor. Atualmente, o erotismo está muito mais relacionado à sexualidade do que àafetividade da ligação amorosa. São muitas as definições que os dicionáriosatribuem ao erotismo (manifestação do amor sensual, da sexualidade; estado deexcitação sexual; liberação dos desejos sexuais etc.), todas voltadas para a relaçãosexual humana. Entretanto o conceito de erotismo vai muito além de tais descriçõese o significado desse termo, apesar de ser amplamente discutido por teóricos epesquisadores, não é algo fechado, concreto ou definitivo. É bem verdade que ao falarmos em erotismo, imediatamente, relacionamo-loà prática sexual, contudo é importante assinalar que “[...] o erotismo não tem porobjeto o enfoque do ato sexual em si, mas a infinita gama de matizes sensuais quepresidem a intimidade entre os sexos” (FRANCONI, 1997, p. 17). O erotismo faz parte da natureza humana, é uma forma de expressão que vaialém do comportamento sedutor, é algo instintivo e espontâneo que busca, na suaexistência interior, superar os limites, quebrar leis e restrições sociais, alcançandoassim um estado de realização plena do sujeito. Nesse sentido, Bataille (1988)afirma que
  25. 25. 24 O Erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem. Se não damos conta disso, é porque o Erotismo busca incessantemente fora dele um objeto de desejo. Esse objeto, contudo, corresponde à interioridade do desejo [...] O Erotismo é, na consciência do homem, o que leva a pôr o ser em questão (p. 25). O erotismo é uma constante em todos os homens, ao mesmo tempo, ocontexto sociocultural instalou controle e proibições em sua vivência, configurando-o,assim, como algo ilícito que deve ser negado e ocultado. Nessa perspectivapodemos adotar o conceito de erotismo proposto por Bataille (1988), que ocompreende como um contraste aos comportamentos e juízos habituais. Podemosentão, utilizar as suas palavras, quando diz que “o erotismo deixa transparecer oavesso duma fachada, cuja correta aparência nunca é desmentida: nesse avesso serevelam sentimentos, partes do corpo e modos de ser de que vulgarmente temosvergonha” (p. 85). Desse modo, podemos enxergar o erotismo como um dispositivo deresistência que traça caminhos transgressores, capaz de escapar da vigilância e dopoder disciplinador que regula comportamentos, dentro de uma moral queestabelece o permitido e o proibido, na qual os sujeitos são conduzidos a enquadrarsuas sexualidades. Enfim, podemos compreender que o erotismo possibilita aosujeito exprimir suas subjetividades. Sendo o erotismo um mecanismo de manifestação da consciência e dosdesejos humanos, é ele o elemento que difere a sexualidade do homem, da animal.De acordo com Paz (1994), o erotismo é uma ação específica do ser humano, é ummovimento que desvia ou muda o impulso sexual reprodutor e transforma-o em umarepresentação. “O erotismo é a dimensão humana da sexualidade; aquilo que aimaginação acrescenta à natureza” (p. 104). Fica evidente assim que o erotismo estámuito mais relacionado ao aspecto psicológico, às fantasias, aos desejos, àsensualidade, do que à realização física e rudimentar do ato sexual humano. Por fim, pode-se entender erotismo como a manifestação dos anseios maisíntimos do sujeito, ao passo que, possibilita a este, quebrar regras e se libertar deamarras sociais que regulamentam e controlam a pratica sexual. Por ser uma formade representação de sentimentos e emoções, o erotismo é também um instrumentode transgressão, afirmação e autonomia do homem diante da sociedade e da vida.
  26. 26. 252.4 O erotismo na literatura de autoria feminina contemporânea Com o intuito de desconstruir os padrões androcêntricos e se auto-afirmar, asescritoras contemporâneas, passaram a imprimir em seus textos a nova face damulher questionadora, transgressora, que mesmo repleta de medos e dúvidas,revela suas insatisfações e seus desejos, dá visibilidade a seu corpo. De acordo comFreud (1908 apud Showalter 1994) “[...] os sonhos e desejos insatisfeitos dasmulheres são sobretudo eróticos; estes são os desejos que formam os enredos daficção feita por mulheres” (p. 42). Por ter sua sexualidade reprimida e controlada durante séculos pelo sistemapatriarcal, a mulher na contemporaneidade, em meio às reivindicações etransformações desse período, tomou para si o domínio do seu corpo e da suavontade. Nesse sentido, sua produção literária começa a revelar o anseio pelarealização plena do prazer erótico. Cunha (1999) ressalva a importância dasmulheres terem ousado a falar de si mesmas, dos seus desejos e fantasias, paraela, “[...] ao retomarem o caminho do prazer rejeitado pela dominação falocêntrica,atuam em nome de Eros, não da força do falo falocêntrico. A fala da mulher saifinalmente do silêncio imposto para falar do seu corpo e do seu desejo” (p. 168). A literatura feminina contemporânea ultrapassa os limites preestabelecidos,busca novos caminhos e reclama para as mulheres o direito de decidirem seusdestinos. Nessa procura por auto-definição e independência, reivindicam,principalmente, a realização livre e prazerosa da sua sexualidade, o que por tantotempo lhes foi negado. O desejo sexual feminino é concebido, na escrita de gênero,como uma instância de liberdade e poder. Em relação a essa transgressão femininade viver e expor o seu erotismo, Cunha (1999) diz que Angélica Soares ao se referir ao discurso transgressor e libertário da sexualidade feminina, aponta-o como lugar da ressingularização da experiência erótica, instaurando assim novas modalidades de valorização relativas à subjetividade e à socialidade (CUNHA, 1999, p. 168). A vivência plena dos desejos eróticos representa para as mulheres asuperação das regras que lhes eram impostas e a afirmação de sua autonomia, do
  27. 27. 26seu poder de escolha e decisão. É por meio da aceitação e exploração do seuerotismo que as mulheres, tanto as da ficção quanto as reais, tornam-se donas dosseus corpos e senhoras da própria vontade. Sendo assim, a literatura eróticabrasileira de autoria feminina possibilita, através da recriação do erotismo, aformação de uma nova consciência feminina, enquanto percepção de si mesma e dasociedade. O erotismo como elemento estruturante na literatura feita por mulheres refletea ressiginificação da condição feminina na sociedade e a sua realização erótica. Aoinscrever experiências e aspirações eróticas em sua produção literária a mulherproclama a emancipação e liberdade sexual. Conforme Cunha (1999), “[...] se podeconsiderar a liberação do desejo como uma das modalidades de ultrapassar aslimitações impostas pelo jugo da razão [...]” (p. 162). Essa nova moral erótica, ousada e liberta, apresentada na literatura femininacontemporânea, surge a partir da participação das mulheres no cenário público,onde começam a experimentar a igualdade de direitos entre os sexos.Parafraseando Paz (1994), podemos dizer que a finalidade do erotismo é adominação do sexo e a sua inserção na sociedade. Então, fica claro que, por meiodo resgate do seu prazer erótico, proibido pela civilização machista, a mulherconseguiu quebrar silêncios e, em parte, conquistar independência ereconhecimento social. Para concluir podemos afirmar que essa transgressão feminina de falar sobresuas insatisfações e seus desejos mais íntimos tornou-se possível graças àstransformações trazidas pela contemporaneidade. Foi nesse período que a literaturafeminina conseguiu se firmar e se expandir como uma arma feminista na luta contrauma sociedade regida por valores falocêntricos. Ao estampar o erotismo em suaprodução literária, as mulheres mostraram ousadia e coragem nessa árdua batalhapor autonomia e liberdade, uma batalha que ainda está em curso e não tem previsãopara findar.
  28. 28. 273. MULHER NO ESPELHO: REFLEXOS DA MULHER CONTEMPORÂNEA, EROTIZADA Relatando a trajetória da protagonista de Mulher no Espelho, este capítulopropõe-se a analisar como essa personagem, vivenciando os conflitos da mulhercontemporânea, conseguiu, através da realização erótica, transgredir, conquistarliberdade e prazer. Intenta-se aqui também o estudo da presença do erotismo naobra supracitada e a observância de como ele tem possibilitado a redefiniçãoidentitária da mulher, proporcionando-lhe mais autonomia e felicidade.3.1 Mulher no Espelho: um retrato da mulher contemporânea, dividida entre a repressão falocêntrica e a aventura da transgressão O romance Mulher no Espelho, de Helena Parente Cunha, publicado em1985, retrata a mulher contemporânea que, mesmo estando ainda presa eatormentada pelo regime falocêntrico, busca incessantemente uma redefiniçãoidentitária e independência. Essa obra conta a história de uma mulher inominada (o que demonstra queesta pode ser a história de qualquer mulher) de quarenta e poucos anos, que até omomento da narrativa, viveu na mais absoluta “submissão passiva”. Vinda de umafamília nuclear burguesa, chefiada por um pai autoritário que, com um podersupremo, aniquila sua liberdade, impõe padrões de comportamento, limita seus atose suas perspectivas e define quem ela deverá ser, seguindo o modelo androcêntrico,que se repete após se casar com um homem também prepotente, com quem temtrês filhos. Vemos aí a imagem da mulher fragmentada que tenta lidar com essarepressão acumulada durante anos e controlar seus conflitos pessoais. É em frenteaos espelhos e através do diálogo com seu alter ego que a protagonista começa a
  29. 29. 28se questionar quem é, e o que quer. Dividida entre a ordem patriarcal e seus desejosainda não assumidos, a personagem revela a necessidade da reinvenção daidentidade feminina e da redefinição do seu papel na sociedade. Cunha (1999), ao teorizar “aspectos da literatura de autoria feminina”, analisaMulher no Espelho e relata a trajetória da sua personagem A personagem nasceu em tradicional família da Bahia, regida pelo pai implacável que proibia a menina de brincar com meninos e com gente preta [...] Casou-se com um homem herdeiro dos mesmos preconceitos e formalismos do pai e, após vinte e tantos anos de união e dedicação ao marido e aos três filhos, se viu abandonada e só. Decidiu então viver o lado rebelde e passou a praticar toda ordem de transgressões, [...] relacionando- se com muitos homens, inclusive casados e, por fim, apaixonando-se por um negro, dançarino de música afro-baiana e seguidor do candomblé (p. 157-8). Ainda, nessa perspectiva analítica, a autora afirma que esse romance [...] constitui um [...] exemplo do sujeito ambíguo e deslizante, dividido em extremos opostos, entre os quais a protagonista oscila, sem saber quem é. De um lado está a representação do eu fiel ao paradigma falocêntrico, enquanto no oposto se encontra a representação antitética (p. 157). A dupla identidade da personagem resulta numa reflexão sobre a mulhercontemporânea, deslocada, que já não aceita as imposições da sociedade patriarcal,porém ainda não consegue transgredir e viver plenamente a sua liberdade eautonomia. Por isso se enfrentam, se questionam, se criticam e se distanciam. Eu sou eu. Ela é ela. Extrovertida e alegre, ela. Fechada e séria, eu. Ela se descerra, eu me concluo. [...] Ela e eu, trança de não de sim de talvez. Aceitei que meu pai gostasse mais de meu irmão. Aceitei que meu marido não permitisse que eu saísse sozinha. [...] Aceitei, aceitei, risco e perda, solitário ganho. Ela fugia da casa dos pais, nunca se casou, conheceu muitos homens. Triunfo e perigo, solitária perda. O que é mais autêntico? Bradar não, com estardalhaço? Sussurrar sim, em surdina? (CUNHA, 2003, p. 23-4). O confronto travado entre as duas faces da mesma personagem – “[...] umaextremamente reprimida e outra excessivamente liberal; esta última existindo na
  30. 30. 29imaginação da primeira [...]” (MENDONÇA, 1991, p. 25) - reflete as contradiçõesvividas pela mulher, dividida entre o que é e o que quer ser. Essas imagens contraditórias que se projetam nos espelhos só sereencontram e se completam quando a protagonista resolve enfrentar os seusmedos, se rebelar contra os papéis que a sociedade lhe impôs e assumir os seusdesejos, vivendo plenamente a independência conquistada. A partir de então ocorre uma transformação, [...] a mulher reprimida transforma-se na mulher liberal, mais instintos que consciência; [...] a mulher reprimida aprendeu a rir sem medo, assumiu a profissão de escritora, conseguiu seu orgasmo, experimentou, enfim, uma outra vivência, na qual os condicionamentos, preconceitos e complexos, impostos desde a infância, emergem do inconsciente, diluindo-se pelo simples reconhecimento (MENDONÇA, 1991, p. 25-6). Tais mudanças acontecem somente quando essa mulher aceita a suasexualidade e se entrega à realização do desejo erótico. Ora, eu que durante toda a minha vida procurei agir e reagir como se não tivesse sexo, envergonhada e confusa quando estremecia por causa de cenas eróticas em filmes ou livros, eu, a mãe de família exemplar, a filha obediente e abnegada, a esposa casta e cheia de virtudes, eu, a tímida e pura, a inocente e a ingênua, eu, eu proclamo a legitimidade do prazer praticado por livre vontade e com a pessoa escolhida, independente de vínculos matrimoniais. [...] Pela primeira vez na minha vida, pude sentir-me livremente, integralmente, plenamente fêmea. E ávida. Esta sensação me dá uma vertigem, uma alegria nunca antes experimentada, nem sequer suspeitada (CUNHA, 2003, p. 121-2). Fica claro assim que é, principalmente, através da satisfação sexual que apersonagem finalmente consegue transgredir, reconhecer-se, redefinir-se e auto-afirmar-se, encontrando enfim a felicidade.3.2 O erotismo em Mulher no Espelho: uma fonte de afirmação e felicidade Mulher no Espelho apresenta-se como um exemplo ímpar no cenário dasautoras contemporâneas que utilizam o erotismo para estruturar suas narrativas e
  31. 31. 30configurar suas personagens em busca de afirmação e independência. Nessecontexto, Helena Parente Cunha ganha destaque, uma vez que suas obras discuteme denunciam o sistema patriarcal repressor, ao passo que apresentam-nos mulherestransgressoras, que buscam a realização dos desejos e a felicidade. No romance em questão observamos a presença do erotismo já que é atravésda exploração da própria sexualidade que a protagonista encontra a possibilidade dese rebelar contra a repressão masculina e conquistar liberdade e prazer. Pois, comoafirma Araujo (2003), o “[...] erotismo alcança dimensões libertadoras mesmo nascondições mais adversas” (p. 116). Essa libertação proporcionada pelo erotismopode ser notada no trecho a seguir Eu vou virar a mesa. De agora por diante estou livre de todo e qualquer preconceito. Necessito de gozar a vida da qual fui banida. Continuarei a criar a minha realidade de independência da mesma forma que inventei a minha submissão (CUNHA, 2003, p. 117). A experiência erótica possibilita, nesse romance, um processo deautoconhecimento que leva a personagem a fortalecer e afirmar a sua subjetividadealcançando assim poder e controle sobre seu próprio destino. A erotização aírepresenta a libertação através do prazer e da sensualidade. Alegria que nunca suspeitei pudesse existir, alegria plena de ser mulher e me sentir desejada, totalidade na entrega a um homem que não é balofo, nem sua, nem baba no orgasmo. Descoberta do prazer. O prazer natural. O prazer do prazer. Animalidade saudável, sem reservas, sem subterfúgios (CUNHA, 2003, p. 120). Com uma linguagem desvelada, Helena Parente Cunha expressa uma novamoral erótica na qual a personagem se embasa para concretizar as transformaçõese rupturas que por tanto tempo foram desejadas e sufocadas em nome dos valores edos bons costumes pregados pela falocracia. Essa metamorfose vivida pelapersonagem e promovida pelo erotismo confirma a fala de Bataille (apud Araujo,2003, p. 115) “o erótico se apóia num projeto transgressor, subversivo, iconoclastado real”.
  32. 32. 31 Cansei-me de morrer coagulada, afivelada, sem ninguém [...] Vocês acham ridículo que eu, aos quarenta e cinco anos, isto é, quarenta e seis, [...] me sinta fêmea? E ávida? E deseje um homem? Eu que nunca tive da vida um ínfimo prazer? Vocês acham ridículo que eu me faça de vítima agora? Pois muito bem, vocês pensem o que quiserem, podem rir, podem até gargalhar, eu sei que os meus espelhos não me enganam. O homem que tem vindo me amar estas noites, não viria se eu não pudesse despertar nele uma real sedução (CUNHA, 2003, p. 124). Nota-se, a partir do trecho acima, que a eroticidade nesta obra está voltadapara o plano instintivo da valorização da sexualidade feminina frente ao processo denegação e superação da condição subalterna da mulher e da necessidade imperiosada realização sexual, satisfação da qual, durante anos, a mulher foi privada. Em meio a essa realidade de submissão e abstenção, o erotismo significapara a mulher a proclamação da liberdade em um mundo de repressão. Nessaperspectiva, por meio da expressão erótica, a literatura de autoria femininacontemporânea, tem descrito o processo de afirmação e autonomia do sujeitofeminino. No romance estudado, presenciamos esse processo de transgressãofeminina e podemos constatar que foi no sexo que essa mulher se libertou, seredefiniu e reencontrou a felicidade. Você é o homem que nestes próximos momentos estará empenhado em me proporcionar o maior orgasmo que qualquer mulher possa pretender, possa imaginar. Suas mãos delgadas e enxutas, deslizando na minha pele macia. Entrarei no seu romance como a fêmea ávida, em busca do prazer máximo. Voraz. Insaciável. Sofreguidão do mergulho absoluto. Ânsia do grito impossível (CUNHA, 2003, p. 140). Temos aí o retrato da mulher contemporânea que, rompendo com ascorrentes que aprisionavam-na à hierarquia patriarcal, busca, sem culpa nem receio,a realização dos seus desejos mais íntimos e ousados, a efetivação do seu prazererótico. Nesse sentido percebemos que Mulher no Espelho aponta a necessidade dequestionarmos a forma como a nossa sociedade enxerga a sexualidade feminina erevela a urgência de desassociarmos a prática sexual de uma ideologia hierárquica efalocêntrica na qual a mulher é eroticamente anulada. Em suma, ao examinarmos a trajetória da protagonista de Mulher no Espelho,notamos que essa personagem traduz todas as contradições, incertezas e
  33. 33. 32insatisfações das mulheres contemporâneas, ao mesmo tempo em que, representao desejo de mudança e a transgressão vivida por muitas dessas mulheres, queatravés do erotismo, romperam com paradigmas androcêntricos e alcançaramafirmação e felicidade. Essa personagem inominada é o reflexo da mulher contemporânea que viveusob a égide do patriarcalismo, sistema que, como disse Viana (1995), detinha opoder sobre a função, o espaço e os desejos femininos. Entretanto, essapersonagem quebrou tabus, venceu seus medos e enfrentou dificuldades, críticas epreconceitos, mas, enfim, conseguiu romper com os valores machistas que aescravizavam e, através da realização erótica, conquistou independência eautoafirmação. Desse modo, o erotismo aparece nesse romance numa perspectivacondizente com as teorias defendidas por Bataille (1988) e Paz (1994), queenxergam o erotismo como uma manifestação dos sentimentos e desejos humanosque, em consonância com a moral e os bons costumes, deveriam ser negados esufocados. Por isso, para estes autores, o erotismo possibilita a transgressão dessasregras sociais e satisfação plena do sujeito. A obra em questão, aqui estudada mostra-se como um brilhante exemplo daliteratura feminina na contemporaneidade que, como bem constatou Cunha (1999),utiliza o discurso erótico para sair do silêncio, ultrapassar limites, reivindicar o direitosobre seus corpos e seus destinos e assegurar respeito e valorização no meiosocial. Enfim, fica evidente que em Mulher no espelho, assim como em outras obrascontemporâneas de gênero, a sexualidade feminina começa a ser pensada comoum elemento fundamental para a construção da identidade liberta, autônoma erealizada do ser mulher. As escritoras na contemporaneidade pretendem revelarseus desejos mais íntimos e fazer da literatura um instrumento de manifestação daliberdade, do erotismo e do prazer feminino.
  34. 34. 33 CONSIDERAÇÕES FINAIS Após o estudo teórico e a análise literária, pode-se concluir que, o erotismo,na literatura de autoria feminina, representa uma estratégia de resistência aosmodelos patriarcais, em que o corpo da mulher é idealizado na imagem da virgemvirtuosa cujos desejos são reprimidos, sufocados. Como pudemos observar emMulher no Espelho, o discurso erótico proporciona, à mulher contemporânea, umaredefinição da sua própria sexualidade, possibilita o rompimento com valoresfalocêntricos e assegura sua liberdade e auto-afirmação. A partir das pesquisas realizadas durante a execução desse trabalho, ficouevidente que, na obra supracitada, bem como em outras obras de gênero, aerotização do corpo e a exposição dos desejos mais íntimos e ousados significam,para as personagens da literatura feminina, um mecanismo de transgressão pormeio do qual estas se opõem aos modelos comportamentais destinados à mulherpela cultura machista, e revelam o verdadeiro eu feminino na busca por seu espaçona sociedade contemporânea. Por fim, pode-se afirmar que o erotismo se configura, no romance analisado,como uma instância de autonomia e poder que proporciona prazer e realização àmulher, abrindo caminhos às suas lutas por independência e felicidade. Dessaforma, o erotismo revela-se, de fato, um eficiente instrumento para a efetivação dasrupturas e conquistas femininas na contemporaneidade.
  35. 35. REFERÊNCIASALVES, Ivia. Imagens da mulher na literatura na modernidade e contemporaneidade.In: FERREIRA, Sílvia Lúcia; NASCIMENTO, Enilda Rosendo do (Orgs.). Imagens damulher na cultura contemporânea. Salvador: NEIM/UFBA, 2002.ARAUJO, Jorge de Souza. Dionísio e Cia. na moqueca de dendê: desejo, revoluçãoe prazer na obra de Jorge Amado. Rio de Janeiro: Relume Dumará; Salvador, BA:Academia de Letras da Bahia, 2003.BATAILLE, Georges. O Erotismo. Lisboa: Antígona, 1988.BIRMAN, Joel. Gramáticas do erotismo: a feminilidade e as suas formas dasubjetivação em psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 34.ed. São Paulo: Cultrix,1996.CUNHA, Helena Parente. Mulher no espelho. 9.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,2003.CUNHA, Helena Parente. O desafio da fala feminina ao falo falocêntrico: Aspectosda literatura de autoria feminina na ficção e na poesia dos anos 70 e 80 no Brasil. In:RAMALHO, Christina (Org.). Literatura e feminismo: propostas teóricas e reflexõescríticas. Rio de Janeiro: Elo, 1999.DEL PRIORE, Mary. História do amor no Brasil. 2.ed. São Paulo: Contexto, 2006.FOUCAULT, Michel. Ética, Sexualidade, Política. Rio de Janeiro: ForenseUniversitária, 2006.FRANCONI, Rodolfo A.. Erotismo e poder na ficção brasileira contemporânea. SãoPaulo: ANNABLUME, 1997.FREITAS, Zilda de Oliveira. A literatura de autoria feminina. In: FERREIRA, SílviaLúcia; NASCIMENTO, Enilda Rosendo do (Orgs.). Imagens da mulher na culturacontemporânea. Salvador: NEIM/UFBA, 2002.
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