poesia marginal pps

959 visualizações

Publicada em

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
959
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
1
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
15
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

poesia marginal pps

  1. 1. prewilton textoscardosmarjnauso
  2. 2. PARTE Idescursoagora agora
  3. 3. aviso aos marjnautas esta página expirouquando o poeta espirrou em seu zênite zen (auge transcen dente) ninguém (nenhum leitor) leitor marjnauta a espiou
  4. 4. quero um texto claro precisoágua límpida doce didáticaquase matemática lógicametros ritos incisivossobre a carne das palavrasreduzidas a osso e ococubos e axiomas sem ecoe depois de toda essa assepsiainjetar algumas gotas de anexatoo mínimo milímetro precisopara ante tanta limpidez desse desertoestontear todas as rotas suascorpo repleto
  5. 5. sob o pre texto de ensaio textos anex atos por onde possam passar uns fios de vida
  6. 6. ela lendo como se fosseme lembra um falsoa avó como se a vozque será a linha fossea vó da lenda um fio sem fimde sempre sem meadaa linda vó enleada em seudas vozes todas tecerdos meninostodos de todos como se fosse paros cantos um parecer de voz em voz de vez em vez me vem a voz talvez tal vez venha de muito longe embora apenas perto a vejo figura do meu ou vido vida vidra a voz desfigurada por mim por quem produz ida?
  7. 7. narciso se vê na f(r)onte na f(r)onte de todos os mitos narciso se transforma
  8. 8. errar a gramáticaerrar a rimaerrar a raivaerrar com raiva e força (e riso)errar tudo e tantoaté o (de) sempre sero último espantoaté que reste apenas penasde um vôo errante
  9. 9. enas margens dos netgócioso net()ócio
  10. 10. idílios de um burocrata
  11. 11. vento nas folhaspassar as tardes longevendo o vidromostrar-me o lentofluxo de tempoe a chuva chegandoesquecer todos os manda-chuvasvolver-me todo (e só sei se entregar-mese tragar-me até o último pulso)ao luxo de um frêmito de vácuocaos e acaso miríades ninguénsacolhei estas ondas quase domadasquase concêntricas em si (mim)lançai-as ao descompasso anexatodo fluxo desta chuvanão reconhecer-seesquecer todos os abismosapagar as cismassoltá-las prismacacos nacosde lembranças refugadasnum cismanego-me e pego apenaspenas flutuantesamantes de uma luade ruachuvajamais me houve
  12. 12. estar doentetem suas vantagensde ver assim meio de esgueiogente bicho coisaassim querendo caira gente atravessa o mundo de ladomeio deslumbrado meio soçobradoa vida trisca num quasenum se ou numa frasenem doída nem satisfeitaviver doente empestiado ou dementeassim meio sem jeito é feitofazer de qualquer pontoda vida uma tangente
  13. 13. aqui dentrobom dia doutor diz a secretáriabom dia de volta e pensa:vou te comer salafráriae ela consigo: seu pança seu velho canalhame faz um favor doutor...aqui dentrobom dia doutor e lá forabarulhos de carros e dançasde folhas ao vento na tardecalor de sol e de asfaltopedaços de céu nas vidraçasum doido vadia as ruascigarras dormem nos galhoscomo a vida mais vida valiase a vida fosse toda foramais lia mais ria mais diavadia vazando mais vida
  14. 14. a vida toda um foraolharmo-nos nos olhose esquecer as teias todasserpeando entre nóse o mundo esquecerinclusive nós mesmosnada mais ocultosob nosso olharapenas ar e margelo e areia desertardesterrarmo-nos do mundode tudo o que é profundosuspensossem nenhum mistériogravidade algumaentre nosso olharvazio de nósvadia calmo o caos
  15. 15. a música vitaltranscorre na arritmiada viola incontrolávele sua báquica melodia embriaga as razõesna harmonia do caos
  16. 16. hoje amanheceu tão fresconão a manhã nem o arnem esta brisa em mim tão leveamanheceu o dia em mimcomo há muito não faziasoprou uma brisa breveno meu pensamentofez-me esquecer de pensaresquecer do dia duro por viresquecer de mim tão leveeu estive esta manhãa alma tão calma tão novatão alva quase não haviacomo em menino tudoera descoberta e magiatão fresco amanheceu-me o dia
  17. 17. oração da volta do supermercado carro trânsito compras serviço amanhã dívidas ontem são baco e santo orfeu protegei-me para que eu nunca perca o poder de perder-me num pôr de sol como este
  18. 18. não ter que lernão ter que fazernão ter que verse vai dar ou faltarnão comedirnem se angustiaraugusto o diaem que como vocêvelhonão ter que ter
  19. 19. e agora zé literatura acabou contra-cultura é a favor utopia rodou pé na estrada é turismo ismo nenhum sobrou todo sonho so çobrou e agora zé droga é mercado marginal é orga nizado toda rima é suspeita de conspirar com uma cifra cisma alguma vai dar n’algum cismae agora zéque fazer do que resta da festaque que eu faço com o agora
  20. 20. palmo a palmo o espaço digital izadoas margens sempre mais estreitas tornar-se mais rar efeito vazar pelos poros das mar gens tornar-se mais mar ginal
  21. 21. ex-litteraa metáfora desaforadao poema sem temaa tradição travestidaa decadência da transcendênciao resto dos mestreso simulacro sublimeo todo didático do texto avali(z)adoa fábrica têxtil toda avariada
  22. 22. a coisa é feita de ruídospuídos ou recémnascidosdoloridos ou nãonão importam muito osidosdesde que bem imbricadosos ruídosé um ofício difícilprecisa estar concentradoaté o último lancede dadosos neurônios todosligadospor outro ladoé extremamente fácilbasta estar distraído(como dizia o leminski)pra (ou)vir um bom ruídoa gente faz o que podealguma vez vai bemna maior partese fode
  23. 23. levecomo plumana penumbrado sentidoque se atreveinsinuardesentendidonenhum papelme cabevácuo virtualsou breve
  24. 24. levemais leve que uma plumanem um temaque o queiramais profundoteoremamenos denso que a espumade uma ondatenso como o gritode uma corda(no espaçode um lapso)lema algumleva este pretexto ao abismodo sentidoum riscoronda este dizerse tornar menos que istotraço ao infinitodo não ditosuma
  25. 25. não declame poemasnem os canteno máximo sussurre-oseles odeiam cordas vocaisamam somente o somsilente atravessando a mente
  26. 26. UMA LUZ QUASE NULAUMA VOZ QUASE MUDAUM POEMA QUASE NADA
  27. 27. em silêncio dançano silêncio dançado silêncio
  28. 28. PARTE II dizcursoa tradição travestida
  29. 29. a morteno instante da morteé um cortee no instante do corteo gostodo gozono instante do gozo a gosma num ácido instante e numenal semblante como a rosa aberta instantânea na tênue eterna névoa fragrante no ar a dama consorte a lavar e amar nossa sorte a planar aspirar expirar um acorde da sonata espiral
  30. 30. o papel do poeta é algo mudando para algo mundano que algodo mundo(que) algo agouroum mal agouro do mundoe o papel do poetanão se encharca das tintasnão é mais amarelo que amarela com o tempo e tornaporoso e ásperoque colorem as tintasque vão se descolorindo num sem tom descolorque são todas as cores: brancaesbranquiçadasretornam por todos os poros e afloramtal qual primavera reflorampor todos os cantos colorem de todas as cores refloremnão são maistintas papéis e poetasnão maiscores e poros e algonão sei mais
  31. 31. lunarsubi a escadadecantada de ladrilhos pétreoscomunguei ao pé da igreja velhaum olhar para trása cidade nebulosa vivasem alma viva que se movaa esta hora desta noitese movia a ouvia seu respirar vivazeu a revia idosa revivia idademe moviaem direção ao templo queria ver em tempoo que escondia densas ásperas pesadas paredesdessas lisas trêmulas vacilosas mãos deslizamas dobras do tecido duro frio não vaticina o ventoarrepio sem pensar se move rumo à quinao mar revolto se revela vento revolvia olhar e viaolhar o mar quebrar em brancosilêncio ao mara vozà voz volver o olhar daquelaalva voz tenaz olhar fugaz contemplartodos os anos passados naquele ato inatoum estender a mãoum entender de fato a faltavestida pelo manto escuro véu cobrindo lisos talosque se deslizam aéreos pela alva teceo mar medita algomar
  32. 32. Amo-te dementecaridoso morrereiremorsoso e mórbidoculpar-te-ei.Culpar-te-ás e partirás tambémao imaterial abraço de teu reie escravo?Escravo e rei não heide entristecer em meu sofrerpois me dareia tie a ti possuireicomo tantos, como tantos, por devermorrerei, morreramospelo carma dum caudal impiedosoe ressuscitaremoseu pedrae tu a flor do outro monte que um pássaronum arco sobre as árvorestrouxe o olorvagodissipado pelo vento da manhãum frescorainda um frescor à rocha desventurada
  33. 33. era uma casa muito engraçada não tinha teto não tinha nada v.m.aquele que não posso ser está vivendonão sei o que ele quer na funda noite escuradaquele quarto ao fundo que sequer eu entroa casa agora estranha e a amada não escutaa voz daquele eu mudo que agora já não amadesenvolta ela passeia e se deita em sua camae o quarto não clareia e mesmo assim enche de luzeste outro a possui enquanto a casa se revelaantiqüíssima morada de deuses que conduzaquele eu cego a viver à luz de velasver sem velas ou sol imponderáveis nuances delacasa sem piso oitão ou teto vizinha do infinitoum rociar de eternidade impregna os cômodos disformesfoi tudo ti culpada amada a voltear por cômodos famintosde não sei quê de além amor a entristecê-la enquanto dormesco’este outro e sem meu toque nos perdoeluz inconsciente a lumiar o mar profundoem que mergulha aquele que se diz euna busca indefinida de um mapa o mar inundacômodos e casa e tudo bóia e se perdeudo eu amar e amada cômodos e casa e aquele outroainda chora o que não sinto e às vezes tem(tenho certeza) amada em leito seu e amor um poucoque (náufrago) não sei e luz é assim, às vezes vem...
  34. 34. vela que o vento leva que o vento come vela suspensa no ar e no escuro mar vela que voa ao longo do horizonte vela que incendeia por sobre o monte vela do desatino do aventureiro vela que voga a lua na noite cheia vela inflada de uma lufada vela inflamável no fim do olhar vela que vela a luz do plenilúnio vela da tua vala vela velha comadre de um sino vela entre deus e meus olhos vela que me leva vela que me lava do escuro breu vela vento que passou vela luz que enluou vela vala de minh’alma valo do meu corpo morto caravela da vidatênue vela ao ventoao sopro do vento que a voa que apaga
  35. 35. teus olhos são tão solque molhas meu solquando me olhas farolque me banha de tanta luz tamanhatanta cruz estranhasoa no meu sol uma luz tamanhaoutra luz de tuas entranhasoutra luz estranhaa tua luz nuaque luze em tua ruacurva e turva e puravia para as tuas duas luasque me viasvias tão estreitas que diantede tua luz tamanha, estranha nas entranhassãopuro leite vias leito impuro leite pleno leito planolácteas de estrelas leite amplo leito estreitoleito de estrelas divino leite leito profanoestrada de sóisextracto de luzentre o teu leite e o teu leitoas deito no desamparoluas na minha rua nuame tuas duasno teu jeito de me deixar solde me deixar sousó no descampadodesta luz tua: lua
  36. 36. leite puro leito impuroleite pleno leito planoleite amplo leito estreitodivino leite leito profano entre o teu leite e o teu leitome deito no desamparono teu jeito de me deixar sol de me deixar sousó no descampadodesta luz tua: lua
  37. 37. ontem nasceu narcisofogo de ritosnarciso de amor fogepreso no próprio risorio de narcisode mim não sei se precisofrio rio de lava nos lábios de narciso narciso se vê na fonte na fronte de todos os mitos narciso se transforma
  38. 38. estava tão mudo em hadeslodo de muro antigo pelas frestaspelas festas de dionísioum quintal me invade!tardes de narcisoriso de narcisosiso de narciso ris?rio calmo como a morterio forte narciso se vê na fronte na fonte de todos os mitos narciso se transforma
  39. 39. era narciso que falava fala de narciso de que falo era narciso entre as águas sai o eco de narciso pelas ondas zeros se es palham — zeus! da lágrima de narciso por um tris te narcisonarciso se vê na fonte na fonte de todos os mitos narciso se transforma
  40. 40. josarráquem dera ter do mundoo silêncio que necessitas agoraem que sentes sede de contemplare o teu semblantedestemido a pairarmal recobres o que descobre ao bulirem tais sonhos que tens teu olharteu olhar, teu pobre olharjosarrá, mashá um cheiro negro no arque colore os teus sonhos meninose redescobre a cada olharnos teus cantos, lugares, teu larque enraíza o alicerce da casae se espalha aos vãos de teu chãoteu piso, e sobes enfim por teus móveisalcançando por fim teu telhadotuas vigas de cheiro ocreadotuas telhas de aranha que vêm que vãonão em vão tua vida emaranhatantos casos de casa encantadapelo vão das paredes caminhamcaminham tanto e não chegam a lugarque luares tu queres panharjosarrá? não te notas, não queres notarnão deves, não podes voarpor teares tecidos de arnão deves negar tuas coresteu manto, teus tantos encantosde uma cor que de cores te enchesolta o pranto que queres chorar e dizjosarrá, diz que o cheiro permeia o arque vem de tão longe e tanto tempo ajorrare deságua num rompante de dordesnorteia o poente do sol que brotasagora em teu sonhartua solidão, josarráteu amar.
  41. 41. tentativa
  42. 42. de um lado o lodo da noitedo outrooutro lodo e as gramas putrefatas vicejandoesta faixa dura e noturnadividindo o desertoé uma serpente sem casadeglutindo metais e peidando gases vomitando vísceras ao pasto de lama indiferentetu: reflexo de serpente no olho perdido no horizonte perdido
  43. 43. vieste para fugir mas encontraste buscar e voltas encontrarásvieste para encontraro que por onde passou nunca deixou atrás deixou este fino olor quase partido este calor bafo e o amargor seco na bocaeste vago eco de amor quase um toque de dor branco do seu palor grito cego de uma flor alheia do seu compor pobre de uma só cor que insetos sabem de cor
  44. 44. foges mas deves voltar sem nunca sair deste norte como nunca saíste do não norte e não um são sempre no mesmo lugar sempre no agora mesmo que o vento soprar mesmo que o norte voar
  45. 45. no entanto a um passo está o norte no entanto um abismo de morte desenha entre nós este corte que o nada só o nada em acorde transpõe esta linha este forte apague dos olhos o norte cale o norte da boca e ouça! o vento do norte zunir a sua melô dia louca trazendo o norte pra dentrosoprando na vela rouca
  46. 46. norte ensaio de morte de onde voltamos cada vez maisdeus ateus cada vez mais
  47. 47. pelo que há de vão infindo no seio dele pela música que soa nadeante no seu silêncio pelo que ele não é sendo nas profundezaspelo desmarcamento das margens esparramadas pela marca da fluidez no seio dos demarcados
  48. 48. apenas eu sem mim nesta cidade que me rodeia sem outros sem si mudos à minha volta nesta avenida absorta em si no seu barulho surdo ao lençol de silêncio dos olhos que me olham de dentro do meu nada mais pro fundo do negror de minha ausência pálidas nuvens passam ignoradas e sob plácidos lagos serenosdorme a morte que seremos e dentro dela com ela comungando e a corroendo um átimo de norte dói correndo e salta leve brisa raio vento fogo do pensamento e fura a vida da avenida
  49. 49. ave em fúria gula sem nome que nos consome comida de nossas feridasque nos ilumina e a cada pedra destroçada do asfaltoa cada ato ao acasoao cheiro de gasolina a cada passo apressado mal sabe os homens o norte deste instante da face de joén nos seus semblantes do urro de prazer dos dois amantes da flor sem haste que brotou na face do tempo sem depois nem antes agora deste norte desnorteante
  50. 50. todo o vento num momentotodo o tento num instante o vento e seu ventre aberto entre dois semblantes sempre dois movimentos vendo o abismo deserto arco precário istmo arbitrário centelha dissipada de vísceras vácuo o nada desse buraco esse sovaco no cerrado olhar fixo de vossas vozes ávidas de barro e engasgadas de catarro esse pigarro cósmico semi desnatadoe carcomido de fragmentos iaras e suas árias aéreas o norte e sua sorte incerta
  51. 51. de norte
  52. 52. meus velhos versos de segundavento e pássaros relva e riodissolvo-me neles na esperançana esperança como nas lembrançasem que vingo a má venturaonde perdem-se as razões, a harmonia e a sextinae o ritmo com as pulsaçõesdentro e forafora-se toda a fruideze qualquer pertencimento à entidades obscurasque passaram a fluirtranse e embriaguezdoçura e torturaperderam-se, perdi-os e todos se lançarame lancei junto com elesa qualquer alvode água, de madeira ou de metalestou à salvo, não estoutalvez... talvez...
  53. 53. PARTE IIIo lugarejo da província sal-dades
  54. 54. fala da palestrantea mulher do senador hermenegildo de moraesna época das frutasabria os portões da sua casapara que o povodesfrutasseda quantidade de frutasque vocêtinha dentro daquela casa!
  55. 55. quando, ainda criança, me deparei com aquele livro misto de causos e exaltação dosgrandes vultos morrinhenses (intelectuais, políticos, artísticos), cujo título MORRINHOS: DE CAPELA A CIDADE DOS POMARESpensei significar (por um desses equívocos que só as crianças podem cometer com suaprodigiosa imaginação) : MORRINHOS DE CAPELA: A CIDADE DOS POMARESentão algo surrealista – uma cidade travestida de capela, carregando umacarapaça/capela – emergiu do texto... foi a melhor leitura que fiz do livro, até hoje benditos sejam erros meninos
  56. 56. neste livro um soneto lírio parnasoflorido em pleno pós-guerrade guilherme xavier poeta-doutorquando a língua de bilac já era dada como mortae enterrada: Meu coração é uma cidade antiga, De casas brancas e compridos muros, Com pomares amplíssimos, escuros, E gente simples de feição amiga. Seus habitantes não são todos puros, Talvez entre eles haja alguma intriga. Mas a harmonia geralmente abriga, E ajunta, rindo-se, os rivais mais duros. Sua alegria buliçosa e clara Esconde mágoas que ninguém suspeita Nem descobrir impertinente ousara. E julga-se feliz, pois, sem vaidade, Confunde na modéstia mais perfeita, Tranqüilidade com felicidade.
  57. 57. é consenso considerar o parnasianismo um período literáriomuito renitente no caso do brasil (vide cândido e bosi)é preciso dizer que o parnaso foi mais [muito muito +]algo como um estado de espírito artístico-intelectual (uma economia mental)coisa de doutores e damas entre togas e cetinsdiga-se também (na companhia de bandeira) que o parnasonão deixou de ser uma continuação (+ contida) de seu suposto desafetoo romantismo – que por estas bandas é muito # de seu congênere europeudigamos então que impregnou o brasil fim de séc XIX um estado de espírito:romântico-parnasiano
  58. 58. melhor que ―período‖, ―estado de espírito‖ ou ―economia mental‖digamos que houve uma atmosfera:ATMOSFERA ROMÂNTICO-PARNASIANA (ARP)uma atmosfera é espacial, um período é temporalela se dissipa, ele é superadoela é mais palpável (respirável) que um estado de espíritoa ARP começou a se dissipar no brasil a partir de uma pequena explosãode luzes e ruídos, ocorrida na são paulo de 20, chamada modernismo:outra atmosfera se criava e se expandia contra as ondas bolorentas daantiga ARPmas sua dissipação foi muito mais lenta e custosa nos rincões maisremotos do paísem plena década de 70 uma pessoa de faro mais fino podia sentir apersistência da ARP em lugares ermos como, por exemplo, naCidade dos Pomares!
  59. 59. masuma província tem duas bandas duas atmosferasimbricadasa dos doutores damas e coronéis ARPfreudiana perturbada complexo de inferioridadeinconformada por não ser centro faz de tudopara que pelo menos em seu pequeno mundohaja quem seja umbigo haja quem seja mudohaja quem seja tudo haja quem nunca ajaa outra banda-atmosferaa da gentalha analfabeta dos meninos e dos velhosbicho mato tapera(vide drummond ramos e barros)toda tosca sem pertences nem complexosubiqüidade desumbigadaalguns a chamam sertão (mar)essa é toda margem
  60. 60. e pra complicarcomo estão imbricadasuma entra na outrade modo que a gentalha respira ARPe togas e cetins se impregnam de sertãonos dias de festa (de banda e discurso)vê-se bem como o povo respirae aspira a ARPembora casa grande e móveis coloniaiscom aquele ar de calma e fixidezamados pelo parnasoaquele ambiente aconchegantesó pode ser pra uns poucosa custa do suor e do sangue de muitosna lida dura e mal paga do campoque a gentalha anônima têm de cumprir dia após diapra que a sinhazinha leia no seu aconchegoos seus romances românticosentre móveis coloniaise gatos perfumadosencantando os poetas parnasianosque a chamarão de ninfaem seus virtuosos sonetos
  61. 61. mas tudo tudo isto hojesão apenas lembrançasde quem não viveuaquela atmosfera em seu esplendore apenas passou meninopela cidade dos pomaresquando restavam quase dissipadosuns cheiros de ARPe restam aindaumas saudades doentias de velhodaqueles móveis de jacarandá e peroba rosanos quais quando se fecha os olhosvê-se ainda a donzela trêmulade amor sem objetodevorando seus folhetinsumas saudades que são apenas mais uns cacosem meio aos fragmentos de agoraoutra atmosfera estanem ARP nem sertãonem mesmo modernistacheia de máquinas mínimase cálculos enormes
  62. 62. benedito venturaque (nesta vida) só foi velho e meninoafável e bonachão com aquele ar de bobãomas só pra quem não olha nos olhos perdidos de sertãopoeta da província um pouco douto outro caipira-caiporarespirador de dois ares cheio de vícios e ofíciostribunas e altaresmas também de sóis de luarestaperas e margenscomo deixaria de ser o que é?mestre bené
  63. 63. PARTE IV Benedito VenturaPoeta do gran circo imperial das togas
  64. 64. não chores amada miaque choras de amarga a vidapois saibas que a vida vinhadevindo das idas miasaté que a vida um diaenvia por não sei viasao pranto que tão doíaà vida que então se viasem vida e que só temiaque amargo não cessariaamada que amar-me-ia não digas amada meiga que o pranto quer não quer queirapois saibas amada mia despenca da ribanceiraque a dor do ir existe não chores amada amigapois saibas que a dor insiste pois olhas e então me digaque a vida porém persiste se alguma qualquer feridae saibas que amar permite se achou maior um diaque saibas que embora triste que um dia de alegriamui triste que o amor existe na vida de amada mia há chama alegre da vida maior que a dor da vida que o sol do meio dia sabes que a dor existe eu sei e sabes que o pranto insiste e tens saberes que a sina é triste e bem sabes que a dor persiste e vem vindo demais e tensa e hei de querer e embora não sei da dor que existe intensa a lei que amar de amar e de amar demais que amar te tenho e te tenho paz
  65. 65. Ora!Tudo que quero é dizer que amo. Amo-te de um amor menino.Só um velho como eu pode dizer tal coisa, hoje. Mas que redundância! Queres coisa mais infantilAmo-te Que amar infante?De incondicional amor intransitivoComo o dos poetas, como tem que ser. Amo-te simplesmente Mas isto também já foi dito por muitosComo o amor dos tolos, de um se dar desmedido. (por todos os que amam)Como os profetas, cegos de amar e ver. Mas não importa para quem ama.De um amor lascivo como o de animais, Se algo importasse para quem amaPuro instinto e violência, sangue e gozo. não haveria amor. Como poesia não haveriaO amor do Cristo que me purificais se o poeta pensasse antes.Límpido e eterno, cristalino, água e fogo. Se o amante pensasse antes não haveria amante,Do amor que flui de dentro para fora, não haverias tu, amada e exaltadaDe fora para dentro como o teu olhar em mim. por esta alma desarmada, desarrumada. Nem alma, se me permita Deus, haviaDo amor que fica, mesmo indo embora, se amor não houvesse.Tão dentro e forte ante a distância sem fim Pois que amo-te enfimDa morte ou de um simples ir em meio à tempestadePara outro cômodo que não sei seguir. e em princípio é princípio meu amar a ti e amando-te transbordarAmo-te de um amor impossível, o amor.De impossível exprimir. E amar a todos e a tudo,Mas tão impossível a mim e amar o amor.Que nem espremo palavrasPara vos dizer. Amo-te como quem ama.Quem saiba assim o digaNeste sereno não dizer...
  66. 66. noite grande da cidadecasas depois de tantas casasluzes que tampam estrelaspostes e mais postesteia de fios metálicosestalando lâmpadas no arruas depois de ruasteias de ruas sem fimdeste quarto pequeninimeste magro meninimsolta a imaginaçãoaté o mais longe desvãomas não há desvão!cada vão cada valevale um pedaço de casadesta teia de casa até onde?desta teia que o fio se esconde esta noite tem tanta invençãodestas veias noturnas escorrem luminosa ela tem tanto escurélcarros roncando pra onde de noite grandesonha-se a noite que movecada carro pros confins pelos morros ondula a malha de luzesasfálticos da sua pele há luzes a mais depois dos morros? morro de vontade dissolver-me nesta idade nesta cidade nesta sede de enredar-me nesta rede vede!
  67. 67. noite grande do sertãovede esta noite longalarga noite profundavede esta noite de redesvede esta noite de malhasvede este céu repicadovede o repisque de estrelasvede este cheiro de noitee o cheiro do galho picadosalpicado de orvalhoesta noite picadas escurasesta cíclica noite de luastrês luas e não luavede esta noite sem ruas deste carro ou destao cheiro verde vai entranhando as narinas tapera solta no sertãoa poeira não passa o vento não vem solta o menino a sua ilusãonem vai nesta noite imóvel que nos cerca de ver o invisível que não sabeteias de terras teias de verdes teias o indizível que não se vêde tantos galhos que se cruzam no cruzeiro saindo de si sobre a serraniateias de quanto mistério quantas grotas sem seu olhar brotam agora neste instante de noite fulgurante? tantas formigas fervilhando e estrelas nos olhando estalando a nos brilhar
  68. 68. noite minha pequenininhanoite contida eu seide cada canto seucada recanto de breuou brilhonoite pequena eu seisó não sei porque o de todo dia toda noiteeu não sei mais noite mais íntima seionde acabas com as casasonde as asas se divisamonde as abas desta noitesó não sei porque estas beirasme cheiram sem eira nem beiranão sei porque que te beijammeus beiços com tanto ardor tu és em cada poste cada luz cada lua e cada estrelalua cheia de quintal cada telha cada casaencheste o meu portal e casa-te com cada para-para o sem fim de mim lelepípedo negro de amortão pequeninim que te carrega de dianoite do meu morrim e se consome de noite no seu fulgor abraçando-nos brincando-nos de nós nos nós do futuro noite o futuro é escuro quero-te passada luz-minada
  69. 69. o nariz frio do cachorro alegree um portão monstruosoo muro altovelhoverde de lodoe descascado cascas de árvores e passeios de praças bicicletas e bolas bobas meninas e meninos sonsos e tristes alegres e tristes postes de luzes cinzas e janelas mortas e abertas tortas ruelas voltas e voltas mortas e tristes vilas e rodas vivas e noites vivas e mortas manhãs e tardes quentes e longas
  70. 70. faz frio na rua nuafrio de batê- queixofaz cheiro de chuva molhadavai ter pardal no fiovai ter pinguinho nas folhasque hoje eu sei que é orvalhoamanhã de manhã tem friotem cheiro de terra frescaflor de jabuticabadepois do aguaceiro
  71. 71. tapera é uma esperano meio do nadano veio do dia plantadano seio da noite rebrotadatapera abando nada beira de ninguém sem eira na esteira do musgo e do lodo na esteiratapera na capoeiragrota de vaca fugidagreta de visco ungido fundida no cisco fugido pro zóio doído de luz que tampa a tapera tapera uma sombra salpicada de sol picada de noite no veio do dia
  72. 72. jurubeba é uma biloca verdemargosa feito felque levada ao céuda boca leva a bocaao céufeito o amor depois da dorfeita a vida desfeita de uma feridajurubeba é um ensina dorjurubeba é um amar goré uma esfera repleta de florantes e depois de florna embriagada línguaeufóricasofridaqueimada de antiflorjurubeba é um desvéu que desvela o amargo-doceé um favo de fel no céuda boca ávida de melé mel tão apurado que amarga
  73. 73. souo que lembro e o que lembroé mandinga pr’eu ter sidoo que sonhei um dia idoe dolorido não sei se setembronão sei se me relembro ou a lembrançaque há de vir ao ar se insinuaré o enchimento amanhã do esvaziarque ficou perdido na manhã esperançaacordes pobres de pardais infânciafios de postes das catadupas ignoradaspela alegria brincando sem nadapensar sobre as pedras da rua sem ânsiasobre a perda a distância medita esferográficasobre a mesa dos tempos idos só doridose sarados neste retraçar floridode alma velha sem viço pra ginásticaó pardais e jabuticabas bobos e boloscidade natal pós-modernamente em cacosnesta cabaça podre que a guarda sacode gatos lentos e sem unhas do desconsolo
  74. 74. arrasto um punhado de pó pelas ruasarauto das casas desertas e puídaspelo silêncio e pela treva carcomidade luz entrante de uma fresta (festa de meninos)gatos conhecem-na biblicamenteentre móveis silentes calmamenteroçam pêlos nas suas entranhascasa estranha trêmulo vácuoarrepio de frio sob a tarde de morrinhosquintal pomar escuro mar de podridão docemuro de frinchas funcho e hortelãlã estas redes de madeira tetotateante alto de barro piso em falsoum braço de halosobra do sol que arrasto
  75. 75. joaquim papudovagueias ruas alheias paradas vivas

×