Revista HISTEDBR On-line                                                                  Artigo



            SOCIEDADE CAPITALISTA E EDUCAÇÃO: UMA LEITURA DOS
                      CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA.


                                                                               Marcos Cassin
                                                     Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
                                                                  Universidade de São Paulo


RESUMO:
A relação entre Sociedade e Educação, ou seja, como os homens se organizam para
produzir e distribuir os bens de que necessitam para viver e que papel a educação cumpri
historicamente no desenvolvimento das sociedades. A partir desta perspectiva buscaremos
entender o papel que a educação cumpri na Sociedade Capitalista através dos clássicos da
sociologia. Em Karl Marx (1818-1883) podemos encontrar em vários de seus escritos
referências críticas ao papel da educação na sociedade capitalista e sua superação, apesar
de não ter escrito nenhuma obra específica sobre educação. Com relação a Émile
Durkheim (1858-1917), a educação tem papel fundamental na própria constituição e
manutenção da sociedade. A educação no pensamento sociológico do autor é fundamental,
pois é através dela que o homem se socializa, se constitui enquanto ser social. Por último,
cabe anunciar a contribuição de Max Weber (1864-1920), esse como Marx também não
deixou uma obra especifica sobre educação, mas podemos encontram suas principais
referências em três textos: A ciência como vocação, Os letrados chineses e, Burocracia.
Palavras-chaves: Educação. Ensino. Pedagogia. Sociedade Capitalista.


  CAPITALIST SOCIETY AND EDUCATION: A READING OF THE CLASSICS
                         OF SOCIOLOGY

ABSTRACT:
The relation between Society and Education, that is, as the men if organize to produce and
to distribute the goods of that they need to live and that paper the education I fulfilled
historicamente in the development of the societies. From this perspective we will search to
understand the paper that the education fulfilled in the Capitalist Society through the
classics of sociology. In Karl Marx (1818-1883) we can find in several of its writings
critical references to the paper of the education in the capitalist society and its overcoming,
although not to have written no specific workmanship on education. With regard to Émile
Durkheim (1858-1917), the education has basic paper in the proper constitution and
maintenance of the society. The education in the sociological thought of the author is basic,
therefore it is through it that the man if socializes, if constitutes while to be social. Finally,
it fits to announce the contribution of Max Weber (1864-1920), this as Marx also did not
leave a workmanship specifies on education, but we can find its main references in three
texts: Science as vocation, The Chinese scholars e, Bureaucracy.
Key-words: Education. Education. Pedagogia. Capitalist Society.




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Introdução

        A relação entre Sociedade e Educação, ou seja, como os homens se organizam para
produzir e distribuir os bens de que necessitam para viver e que papel a educação cumpri
historicamente no desenvolvimento das sociedades. A partir desta perspectiva buscaremos
entender o papel que a educação cumpri na Sociedade Capitalista através da leitura dos
clássicos da sociologia, Marx, Durkheim e Weber, autores que viveram e escreveram suas
obras na metade do século XIX e início do XX e tomaram como seus objetos de
investigação a sociedades capitalista industrial e os novos fenômenos sociais como
conseqüência da reorganização social.

Os clássicos
        Karl Marx (1818-1883) considerado um clássico da sociologia e apesar de não ter
escrito nenhuma obra específica sobre educação, deixou sua contribuição a respeito da
relação sociedade e educação. Podemos encontrar em vários de seus escritos referências
críticas ao papel da educação na sociedade capitalista e propostas de uma nova educação
que contribua na luta pela superação da sociedade capitalista e a construção de uma
sociedade que supere as relações sociais de produção capitalista. No “Manifesto do Partido
Comunista”, escrito, em 1848, por Karl Marx e Friedrich Engels, a questão do ensino
público, gratuito e unido ao trabalho e à formação do homem onilateral já aparece como
proposta de superação da educação burguesa que se sustenta na divisão do trabalho, na
propriedade privada e na formação do homem unilateral.
        Para Marx o trabalho é um principio educativo, somente a partir da unidade entre
trabalho e ensino que se poderia constituir o homem novo. No texto que o autor escreve
aos delegados do “I Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores em 1866”
fica explicita sua concepção de educação que articula trabalho e ensino. Neste texto, que
recebe o título de “Instruções aos Delegados do Congresso da AIT”, Marx pela primeira
vez define o conteúdo pedagógico do ensino socialista:

                       Por educação, entendemos três coisas:
                       1. Educação intelectual;
                       2. Educação corporal, tal como é produzida pelos exercícios de ginástica
                       e militares;
                       3. Educação tecnológica, abrangendo os princípios gerais e científicos de
                       todos os processos de produção, e ao mesmo tempo iniciando as crianças
                       e os adolescentes na manipulação dos instrumentos elementares de todos
                       os ramos de indústria.
                       A divisão das crianças e dos adolescentes em três categorias, de 9 a 18
                       anos, deve corresponder um curso graduado e progressivo para a sua
                       educação intelectual, corporal e politécnica. Os custos destas escolas
                       politécnicas devem ser em parte cobertos pela venda das suas próprias
                       produções.(Marx & Engels, 1978, p. 223)

       Quanto à relação sociedade, Estado e educação, Marx em seu texto “Crítica ao
Programa de Gotha” defende o ensino estatal sem estar sob o controle do governo,
apontando que o ensino deve ser mantido pelo Estado e controlado pela sociedade civil.
Referindo-se a proposta de “educação popular a cargo do Estado” do Programa do Partido
Operário Alemão, afirma:

                       Isso de ‘educação popular a cargo do Estado’ é completamente
                       inadmissível. Uma coisa é determinar, por meio de uma lei geral, os

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                        recursos para as escolas públicas, as condições de capacitação do pessoal
                        docente, as matérias de ensino, etc, e velar pelo cumprimento destas
                        prescrições legais mediante inspetores do Estado, como faz nos Estados
                        Unidos, e outra coisa completamente diferente é designar o Estado como
                        educador do povo! Longe disto, o que deve ser feito é subtrair a escola a
                        toda influência por parte do governo e da Igreja.(Idem, Ibid, p. 223)

       Ainda sobre o conteúdo do ensino escolar, Marx polemiza com o operário inglês
Milner no Conselho Geral da AIT em 1869, sobre a proposta, deste, que as escolas
deveriam transmitir, também, o ensino de economia política. A crítica que Marx faz a esta
proposta aparece nos relatórios da reunião do Conselho, expresso assim:

                        A proposta do cidadão Milner não é adequada para ser discutida
                        juntamente com a questão escolar; este ensino os jovens devem recebê-lo
                        dos adultos na luta cotidiana pela vida...
                        Nem nas escolas elementares, nem nas superiores, se deve introduzir
                        matérias que admitam uma interpretação de partido ou de classe.
                        Apenas matérias como ciências naturais, gramática etc., podem ser
                        ensinadas na escola. As regras gramaticais, por exemplo, não mudam
                        quando explicadas por um crente tory ou por um livre pensador. Matérias
                        que admitem conclusões diferentes não devem ser ensinadas na escola;
                        delas podem ocupar-se os adultos sob a orientação de professores, como a
                        senhora Law, que dava lições sobre religião. (Manacorda, 1991, 90-91)

       Apesar do objetivo aqui não ser discutir as concepções dos clássicos da sociologia,
mas indicar que a relação sociedade e educação é uma problemática que aparece com o
surgimento da sociologia, através de seus fundadores, temos aqui a necessidade de um
breve comentário a respeito da citação acima. Em nosso entender, Marx em seu combate à
influência da religião e da economia política burguesa no interior das escolas, cai numa
defesa de sustentação positivista da escola, defendendo que esta só deveria ministrar
matérias que tivessem apenas uma interpretação, defendendo a neutralidade da escola e de
seus conteúdos, frente aos interesses de classe. Neste sentido a opinião de Manacorda é
providencial:

                        Parece-nos, no entanto, que justamente essa realidade obriga a ajustar as
                        contas seriamente com a exigência marxiana de não admitir na escola o
                        discutível, aquilo que possa permitir conclusões de grupo. Porque, se é
                        verdade, como dizia Lênin, que a escola separada da política é uma
                        mentira e uma hipocrisia, se é verdade que toda escola é ideologicamente
                        orientada, queiram ou não todos aqueles que atuam em seu interior ou
                        que a julgam do exterior, é também verdade que, tanto mais por razão, se
                        torna necessário determinar de que modo e até que ponto esse tipo de
                        compromisso social da escola deva ou possa realizar-se. (Idem, Ibid, p.
                        105)

       Claro que esta questão, como também a da articulação do ensino com o trabalho
produtivo das crianças, devem ser levantadas com cuidado e que ela não seja tomada
isoladamente como referências do pensamento de Marx sobre educação e se minimize a
contribuição revolucionária de Marx e Engels em unir o ensino ao trabalho (esse como
principio educativo), ensino politécnico, gratuito, público e universal. Os escritos desses, e
outros, autores devem ser compreendidos historicamente, quais, as contradições daquele


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contesto, com quem estão dialogando e que necessidades sociais, políticas e econômicas
respondem num determinado quadro de correlações de forças.

       Émile Durkheim (1858-1917), apontado como um dos primeiros e grandes
teóricos da sociologia e da sociologia da educação, tem a educação enquanto fenômeno
social e exercendo papel fundamental na própria constituição e manutenção da sociedade.
Para Durkheim, os indivíduos, ao nascerem, encontram a       sociedade já composta por
normas morais e legais, costumes, cultura e outros elementos que a compõem e, para a
integração destes indivíduos ao mundo social, a educação passa a ser instrumento
impositivo do já estabelecido pela sociedade. A educação no pensamento sociológico do
autor é fundamental, pois é através da educação que o homem se socializa, se constitui
enquanto ser social.
        Durkheim tem uma extensa obra escrita, sobre o método, ética, moral, religião
entre outros temas da sociologia, e em especial sobre educação. Entre seus escritos
destacamos “A evolução pedagógica” e “Educação e Sociologia”, neste último o autor
define educação como:

              a ação exercida, pelas gerações adultas, sobre as gerações que não se encontrem
              ainda preparadas para a vida social; tem por objetivo suscitar e desenvolver, na
              criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela
              sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio especial a que a criança,
              particularmente, se destine.(Durkheim, 1978, 41)

       Portanto, a educação, para Durkheim, tem a finalidade de formar o ser social, que se
distingue do ser individual, sendo aquele o ser que se relaciona com outros seres na
construção social de forma solidária, solidariedade mecânica constituída pelas sociedades
menos desenvolvidas e solidariedade orgânica nas sociedades mais desenvolvidas.
Durkheim ao se referir à finalidade da educação afirma:

              conclui-se que a educação consiste numa socialização metódica das novas
              gerações. Em cada um de nós, já o vimos, pode-se dizer que existem dois seres.
              Um constituído de todos os estados mentais que não se relacionam senão conosco
              mesmo e com os acontecimentos de nossa vida pessoal; é o que se poderia chamar
              de ser individual. O outro é um sistema de idéias, sentimentos e hábitos, que
              exprimem em nós, não a nossa individualidade, mas o grupo ou os grupos
              diferentes de que fazemos parte; tais são as crenças religiosas, as crenças e as
              práticas morais, as tradições nacionais ou profissionais, as opiniões coletivas de
              toda espécie. Seu conjunto forma o ser social. Constituir esse ser em cada um de
              nós – tal é o fim da educação. (Idem, Ibid, p. 41-42)

       Portanto, para ele, a educação das crianças não é determinada pelos pais,
professores ou qualquer pessoal: sua determinação é dada pela sociedade em que vivem.
“É uma ilusão pensar que educamos nossos filhos como queremos. Somos forçados a
seguir as regras estabelecidas no meio social em que vivemos” (Idem, Ibid, p. 60).
       Durkheim concebe a educação como fato social, portanto, ela não poder ser tomada
como responsabilidade privada, mas sim, de âmbito coletivo. Sendo a educação
essencialmente social, o Estado tem papel fundamental. O autor ao se referir a papel do
Estado na educação, afirma que

              tudo o que seja educação, deve estar até certo ponto submetido à sua influência.
              Isto não quer dizer que o Estado deva, necessariamente, monopolizar o ensino. A

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               questão é muito complexa para que se trate dela assim de passagem. Pode-se
               acreditar que o progresso escolar seja mais fácil e mais rápido onde certa margem
               se deixe à iniciativa privada. O indivíduo é sempre mais renovador que o Estado.
               Mas, o fato de dever o Estado, no interesse público, deixar abrir outras escolas que
               não as suas, não se segue que deva tornar-se estranho ao que nelas se venha a
               passar. Pelo contrário, a educação que aí se der deve estar submetida à sua
               fiscalização. Não é mesmo admissível que a função de educador possa ser
               preenchida por alguém que não apresente as garantias de que o Estado, e só ele,
               pode ser juiz. (Idem, Ibid, p. 48)

        O autor, mesmo concebendo a possibilidade da iniciativa privada a abrirem escolas,
estas não tem o direito de ensinar o que lhe convém, pois elas sempre estarem sobre a
fiscalização do Estado, garantindo que o ensino das escolas estatais e privadas atenda as
necessidades da sociedade determinada historicamente.

       Por último, cabe anunciar a contribuição de Max Weber (1864-1920), esse como
Marx também não deixou uma obra especifica sobre educação, mas podemos encontram
suas principais referências em três textos: A ciência como vocação, Os letrados chineses e,
Burocracia.
       Quanto ao primeiro, esse originalmente um discurso pronunciado na Universidade
de Munique em 1918. Nele, Weber se propõe a fazer uma análise das condições da
produção da ciência e da carreira universitária na Alemanha, para isso utiliza-se de
comparações com as condições nos Estados Unidos, pois, esse é o país que mais se
contrasta com a realidade alemã.
       Nesse seu esforço, Weber apresenta a tendência da racionalização, burocratização e
a especialização cada vez maior na Alemanha.

               Ultimamente, podemos observar distintamente que as universidades alemãs nos
               amplos campos da ciência evoluem na direção do sistema americano. Os grandes
               institutos de Medicina ou Ciências Naturais são empresas “capitalista estatais”, que
               não podem ser administradas sem consideráveis recursos.(Weber, 1982, p.156)

        Sobre a burocratização da universidade e a comparação desta às empresas, o autor
afirma que os docentes das universidades estão passando pelo mesmo processo de
desapropriação de suas ferramentas e da especialização do trabalho que os artesões haviam
passado com o aparecimento da indústria.
        No decorre do texto e mantendo seu instrumento de análise, Weber apresenta
contrastes na universidade, na carreira docente e na ciência. O autor pontua especificidades
entre a erudição e a docência; o diletante e o perito; o líder e o professor; a ciência e a arte;
o profeta e o demagogo; o acaso e a capacidade.
        Weber finaliza o texto reafirmando a tese do desencantamento do mundo.

               O destino de nossos tempos é caracterizado pela racionalização e intelectualização
               e, acima de tudo pelo “desencantamento do mundo”. Precisamente os valores
               últimos e mais sublimes retiraram-se da vida pública, seja para o reino
               transcendental da vida mística, seja para a fraternidade das relações humanas
               diretas e pessoais. (Idem, Ibid, p. 182)

       Para o autor, esse desencantamento é resultado da dominação racional-legal
burocrática. Essa problemática Weber vai sistematizar em seu texto “Burocracia”, nesse
ele apresenta as especificidades da burocracia de “tipo ideal”.

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              A BUROCRACIA MODERNA funciona da seguinte forma específica:
              I. Rege o princípio de áreas de jurisdição fixas e oficiais, ordenadas de acordo com
              regulamentos, ou seja, por leis ou normas administrativas...
              II. Os princípios da hierarquia dos postos e dos níveis de autoridades significam um
              sistema firmemente ordenado de mando e subordinação...
              III. A administração de um cargo moderno se baseia em documentos escritos
              (“arquivos”), preservados em sua forma original ou em esboço...
              IV. A administração burocrática, pelo menos toda a administração especializada –
              que é caracteristicamente moderna – pressupõe habitualmente um treinamento
              especializado e completo...
              V. Quando o cargo está plenamente desenvolvido, a atividade oficial exige a plena
              capacidade de trabalho do funcionário, ...
              VI. O desempenho do cargo segue regras gerais, mais ou menos estáveis, mais ou
              menos exaustivas, e que podem ser aprendidas. O conhecimento dessas regras
              representa um aprendizado técnico especial, a que se submetem esses funcionários.
              Envolve jurisprudência, ou administração pública ou privada. (Idem, Ibid, p. 229-
              231)

        Nesse texto podemos encontrar também algumas contribuições de Weber para a
educação. Podemos observar na citação acima, a preocupação do autor indicar o tipo de
formação exigida pela moderna burocracia na busca cada vez maior da eficiência e da
técnica. O conjunto do texto aponta a exigência cada vez maior de peritos na ocupação dos
cargos nas estruturas públicas como das privadas, sendo os “exames especiais” e seus
certificados os critérios de seleção.
        A idéia de formação, treinamento e educação na ocupação dos cargos nas estruturas
burocráticas como a da formação do homem culto, educação para a vida, que aparece nesse
texto, vai ser mais bem desenvolvida em “Os letrados chineses”. Nesse último, Weber
apresenta como a China organizou uma estrutura de formação e educação dos ocupantes de
cargos em sua burocracia. Uma das singularidades dessa formação está em seu caráter
laico e literário. A relação da educação com a burocracia chinesa e o conjunto da sociedade
aparece já no primeiro parágrafo, assim descrito:

              Durante doze séculos, a posição social na China foi determinada mais pelas
              qualificações para a ocupação de cargos do que pela riqueza. Essa qualificação, por
              sua vez, era determinada pela educação, e especialmente pelos exames. A China
              fizera da educação literária a medida do prestigio social de modo o mais exclusivo,
              muito mais do que na Europa durante o período dos humanistas, ou na Alemanha.
              (Idem, Ibid, p. 471)

        Essa educação dos letrados, funcionários, dava-lhes prestígio e carisma, não porque
possuíam qualidades sobrenaturais, mas por dominar os conhecimentos da escrita e da
literatura, legitimados pelos exames que “comprovavam se a mente do candidato estava
embebida de literatura e se ele possuía ou não os modos de pensar adequados a um homem
culto e resultantes do conhecimento da literatura” (Idem, Ibid, p. 484).
        Nesse texto, “Os letrados chineses”, Weber apresenta seus “tipos ideais” de
pedagogia e sua finalidades: a pedagogia do carisma e, seu oposto, a pedagogia do
treinamento e entre essas a pedagogia do cultivo assim descrita pelo autor.

              Historicamente, os dois pólos opostos no campo das finalidades educacionais são:
              despertar o carisma, isto é, qualidades heróicas ou dons mágicos; e transmitir o


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              conhecimento especializado. O primeiro tipo corresponde à estrutura carismática
              do domínio; o segundo corresponde à estrutura (moderna) de domínio, racional e
              burocrático. Os dois tipos não se opõem, sem ter conexões ou transições entre si. O
              herói guerreiro ou o mágico também necessita de treinamento especial, e o
              funcionário especializado em geral não é preparado exclusivamente para o
              conhecimento. São porém pólos opostos dos tipos de educação e formam os
              contrastes mais radiais. Entre eles estão aqueles tipos que pretendem prepara o
              aluno para a conduta de vida, seja de caráter mundano ou religioso. De qualquer
              modo, a conduta de vida é conduta de estamento. (Idem, Ibid, p. 482)

        Com relação à pedagogia do cultivo essa tem como finalidade “educar um tipo de
homem culto, cuja natureza depende do ideal de cultura da respectiva camada decisiva. E
isto significa educar um homem para certo comportamento interior e exterior na vida”
(Idem, Ibid, p. 483).
        Os tipos ideais de pedagogia e suas diferenças são as mesmas apresentadas pelo
autor nos tipos ideais de dominação, ou seja, a pedagogia do carisma esta para a
dominação carismática como a pedagogia do cultivo esta para a dominação tradicional e a
pedagogia do treinamento esta para a dominação racional-legal. Portanto, no campo da
educação Weber também se mostra saudoso das formas pré-capitalista e pessimista em
relação às formas capitalistas de sociedade.

Conclusão
        Os clássicos da sociologia nos permitem apropriar de instrumentos para análises do
papel da educação na sociedade capitalista do final do século XX e inicio do XXI,
compreendendo quais os novos elementos que estão sendo produzidos na educação, em
especial na escola, que contribuam para a reprodução das relações sociais em seu caráter
mais amplo, ao mesmo tempo em que identificam quais os elementos que estão sendo
reproduzidos para garantir as novas formas produzidas pelo capital para garantir seu poder
de dominação.
        Por outro lado, também contribui na identificação dos novos elementos produzidos
na educação e que contribuem para a luta pelas transformações das relações sociais de
produção capitalista e os próprios elementos que são reproduzidos na educação e na escola
como formas de resistência à exploração imposta pelo capital.
        Portanto, defendemos a tese de que, para melhor compreendermos as
transformações hoje na educação e o papel que a escola cumpre no processo de
globalização da economia e da implementação da política neoliberal, faz-se necessário
retomarmos os clássicos da sociologia, não como ecletismo teórico, mas sim tomarmos
como referencial teórico-metodológico e incorporando contribuições valiosas do
pensamento clássico como elementos subordinados ao referencial teórico-metodológico
escolhido.




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Bibliografia
DURKHEIM, E. Educação e sociologia. 11ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1978.
MANACORDA, M. A. Marx e a pedagogia moderna. São Paulo: Cortez, 1991.
MARX, K.; ENGELS, F. Crítica da educação e do ensino. Lisboa: Moraes, 1978.
WEBER, M. Ensaios de sociologia. 5ª ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos
Editora, 1982.




Artigo recebido em: 29/02/2008
Aprovado para publicação em: 29/12/2008




Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.32, p.150-157, dez.2008 - ISSN: 1676-2584      157

Sociedade capitalista e educação

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    Revista HISTEDBR On-line Artigo SOCIEDADE CAPITALISTA E EDUCAÇÃO: UMA LEITURA DOS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA. Marcos Cassin Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Universidade de São Paulo RESUMO: A relação entre Sociedade e Educação, ou seja, como os homens se organizam para produzir e distribuir os bens de que necessitam para viver e que papel a educação cumpri historicamente no desenvolvimento das sociedades. A partir desta perspectiva buscaremos entender o papel que a educação cumpri na Sociedade Capitalista através dos clássicos da sociologia. Em Karl Marx (1818-1883) podemos encontrar em vários de seus escritos referências críticas ao papel da educação na sociedade capitalista e sua superação, apesar de não ter escrito nenhuma obra específica sobre educação. Com relação a Émile Durkheim (1858-1917), a educação tem papel fundamental na própria constituição e manutenção da sociedade. A educação no pensamento sociológico do autor é fundamental, pois é através dela que o homem se socializa, se constitui enquanto ser social. Por último, cabe anunciar a contribuição de Max Weber (1864-1920), esse como Marx também não deixou uma obra especifica sobre educação, mas podemos encontram suas principais referências em três textos: A ciência como vocação, Os letrados chineses e, Burocracia. Palavras-chaves: Educação. Ensino. Pedagogia. Sociedade Capitalista. CAPITALIST SOCIETY AND EDUCATION: A READING OF THE CLASSICS OF SOCIOLOGY ABSTRACT: The relation between Society and Education, that is, as the men if organize to produce and to distribute the goods of that they need to live and that paper the education I fulfilled historicamente in the development of the societies. From this perspective we will search to understand the paper that the education fulfilled in the Capitalist Society through the classics of sociology. In Karl Marx (1818-1883) we can find in several of its writings critical references to the paper of the education in the capitalist society and its overcoming, although not to have written no specific workmanship on education. With regard to Émile Durkheim (1858-1917), the education has basic paper in the proper constitution and maintenance of the society. The education in the sociological thought of the author is basic, therefore it is through it that the man if socializes, if constitutes while to be social. Finally, it fits to announce the contribution of Max Weber (1864-1920), this as Marx also did not leave a workmanship specifies on education, but we can find its main references in three texts: Science as vocation, The Chinese scholars e, Bureaucracy. Key-words: Education. Education. Pedagogia. Capitalist Society. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.32, p.150-157, dez.2008 - ISSN: 1676-2584 150
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    Revista HISTEDBR On-line Artigo Introdução A relação entre Sociedade e Educação, ou seja, como os homens se organizam para produzir e distribuir os bens de que necessitam para viver e que papel a educação cumpri historicamente no desenvolvimento das sociedades. A partir desta perspectiva buscaremos entender o papel que a educação cumpri na Sociedade Capitalista através da leitura dos clássicos da sociologia, Marx, Durkheim e Weber, autores que viveram e escreveram suas obras na metade do século XIX e início do XX e tomaram como seus objetos de investigação a sociedades capitalista industrial e os novos fenômenos sociais como conseqüência da reorganização social. Os clássicos Karl Marx (1818-1883) considerado um clássico da sociologia e apesar de não ter escrito nenhuma obra específica sobre educação, deixou sua contribuição a respeito da relação sociedade e educação. Podemos encontrar em vários de seus escritos referências críticas ao papel da educação na sociedade capitalista e propostas de uma nova educação que contribua na luta pela superação da sociedade capitalista e a construção de uma sociedade que supere as relações sociais de produção capitalista. No “Manifesto do Partido Comunista”, escrito, em 1848, por Karl Marx e Friedrich Engels, a questão do ensino público, gratuito e unido ao trabalho e à formação do homem onilateral já aparece como proposta de superação da educação burguesa que se sustenta na divisão do trabalho, na propriedade privada e na formação do homem unilateral. Para Marx o trabalho é um principio educativo, somente a partir da unidade entre trabalho e ensino que se poderia constituir o homem novo. No texto que o autor escreve aos delegados do “I Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores em 1866” fica explicita sua concepção de educação que articula trabalho e ensino. Neste texto, que recebe o título de “Instruções aos Delegados do Congresso da AIT”, Marx pela primeira vez define o conteúdo pedagógico do ensino socialista: Por educação, entendemos três coisas: 1. Educação intelectual; 2. Educação corporal, tal como é produzida pelos exercícios de ginástica e militares; 3. Educação tecnológica, abrangendo os princípios gerais e científicos de todos os processos de produção, e ao mesmo tempo iniciando as crianças e os adolescentes na manipulação dos instrumentos elementares de todos os ramos de indústria. A divisão das crianças e dos adolescentes em três categorias, de 9 a 18 anos, deve corresponder um curso graduado e progressivo para a sua educação intelectual, corporal e politécnica. Os custos destas escolas politécnicas devem ser em parte cobertos pela venda das suas próprias produções.(Marx & Engels, 1978, p. 223) Quanto à relação sociedade, Estado e educação, Marx em seu texto “Crítica ao Programa de Gotha” defende o ensino estatal sem estar sob o controle do governo, apontando que o ensino deve ser mantido pelo Estado e controlado pela sociedade civil. Referindo-se a proposta de “educação popular a cargo do Estado” do Programa do Partido Operário Alemão, afirma: Isso de ‘educação popular a cargo do Estado’ é completamente inadmissível. Uma coisa é determinar, por meio de uma lei geral, os Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.32, p.150-157, dez.2008 - ISSN: 1676-2584 151
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    Revista HISTEDBR On-line Artigo recursos para as escolas públicas, as condições de capacitação do pessoal docente, as matérias de ensino, etc, e velar pelo cumprimento destas prescrições legais mediante inspetores do Estado, como faz nos Estados Unidos, e outra coisa completamente diferente é designar o Estado como educador do povo! Longe disto, o que deve ser feito é subtrair a escola a toda influência por parte do governo e da Igreja.(Idem, Ibid, p. 223) Ainda sobre o conteúdo do ensino escolar, Marx polemiza com o operário inglês Milner no Conselho Geral da AIT em 1869, sobre a proposta, deste, que as escolas deveriam transmitir, também, o ensino de economia política. A crítica que Marx faz a esta proposta aparece nos relatórios da reunião do Conselho, expresso assim: A proposta do cidadão Milner não é adequada para ser discutida juntamente com a questão escolar; este ensino os jovens devem recebê-lo dos adultos na luta cotidiana pela vida... Nem nas escolas elementares, nem nas superiores, se deve introduzir matérias que admitam uma interpretação de partido ou de classe. Apenas matérias como ciências naturais, gramática etc., podem ser ensinadas na escola. As regras gramaticais, por exemplo, não mudam quando explicadas por um crente tory ou por um livre pensador. Matérias que admitem conclusões diferentes não devem ser ensinadas na escola; delas podem ocupar-se os adultos sob a orientação de professores, como a senhora Law, que dava lições sobre religião. (Manacorda, 1991, 90-91) Apesar do objetivo aqui não ser discutir as concepções dos clássicos da sociologia, mas indicar que a relação sociedade e educação é uma problemática que aparece com o surgimento da sociologia, através de seus fundadores, temos aqui a necessidade de um breve comentário a respeito da citação acima. Em nosso entender, Marx em seu combate à influência da religião e da economia política burguesa no interior das escolas, cai numa defesa de sustentação positivista da escola, defendendo que esta só deveria ministrar matérias que tivessem apenas uma interpretação, defendendo a neutralidade da escola e de seus conteúdos, frente aos interesses de classe. Neste sentido a opinião de Manacorda é providencial: Parece-nos, no entanto, que justamente essa realidade obriga a ajustar as contas seriamente com a exigência marxiana de não admitir na escola o discutível, aquilo que possa permitir conclusões de grupo. Porque, se é verdade, como dizia Lênin, que a escola separada da política é uma mentira e uma hipocrisia, se é verdade que toda escola é ideologicamente orientada, queiram ou não todos aqueles que atuam em seu interior ou que a julgam do exterior, é também verdade que, tanto mais por razão, se torna necessário determinar de que modo e até que ponto esse tipo de compromisso social da escola deva ou possa realizar-se. (Idem, Ibid, p. 105) Claro que esta questão, como também a da articulação do ensino com o trabalho produtivo das crianças, devem ser levantadas com cuidado e que ela não seja tomada isoladamente como referências do pensamento de Marx sobre educação e se minimize a contribuição revolucionária de Marx e Engels em unir o ensino ao trabalho (esse como principio educativo), ensino politécnico, gratuito, público e universal. Os escritos desses, e outros, autores devem ser compreendidos historicamente, quais, as contradições daquele Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.32, p.150-157, dez.2008 - ISSN: 1676-2584 152
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    Revista HISTEDBR On-line Artigo contesto, com quem estão dialogando e que necessidades sociais, políticas e econômicas respondem num determinado quadro de correlações de forças. Émile Durkheim (1858-1917), apontado como um dos primeiros e grandes teóricos da sociologia e da sociologia da educação, tem a educação enquanto fenômeno social e exercendo papel fundamental na própria constituição e manutenção da sociedade. Para Durkheim, os indivíduos, ao nascerem, encontram a sociedade já composta por normas morais e legais, costumes, cultura e outros elementos que a compõem e, para a integração destes indivíduos ao mundo social, a educação passa a ser instrumento impositivo do já estabelecido pela sociedade. A educação no pensamento sociológico do autor é fundamental, pois é através da educação que o homem se socializa, se constitui enquanto ser social. Durkheim tem uma extensa obra escrita, sobre o método, ética, moral, religião entre outros temas da sociologia, e em especial sobre educação. Entre seus escritos destacamos “A evolução pedagógica” e “Educação e Sociologia”, neste último o autor define educação como: a ação exercida, pelas gerações adultas, sobre as gerações que não se encontrem ainda preparadas para a vida social; tem por objetivo suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio especial a que a criança, particularmente, se destine.(Durkheim, 1978, 41) Portanto, a educação, para Durkheim, tem a finalidade de formar o ser social, que se distingue do ser individual, sendo aquele o ser que se relaciona com outros seres na construção social de forma solidária, solidariedade mecânica constituída pelas sociedades menos desenvolvidas e solidariedade orgânica nas sociedades mais desenvolvidas. Durkheim ao se referir à finalidade da educação afirma: conclui-se que a educação consiste numa socialização metódica das novas gerações. Em cada um de nós, já o vimos, pode-se dizer que existem dois seres. Um constituído de todos os estados mentais que não se relacionam senão conosco mesmo e com os acontecimentos de nossa vida pessoal; é o que se poderia chamar de ser individual. O outro é um sistema de idéias, sentimentos e hábitos, que exprimem em nós, não a nossa individualidade, mas o grupo ou os grupos diferentes de que fazemos parte; tais são as crenças religiosas, as crenças e as práticas morais, as tradições nacionais ou profissionais, as opiniões coletivas de toda espécie. Seu conjunto forma o ser social. Constituir esse ser em cada um de nós – tal é o fim da educação. (Idem, Ibid, p. 41-42) Portanto, para ele, a educação das crianças não é determinada pelos pais, professores ou qualquer pessoal: sua determinação é dada pela sociedade em que vivem. “É uma ilusão pensar que educamos nossos filhos como queremos. Somos forçados a seguir as regras estabelecidas no meio social em que vivemos” (Idem, Ibid, p. 60). Durkheim concebe a educação como fato social, portanto, ela não poder ser tomada como responsabilidade privada, mas sim, de âmbito coletivo. Sendo a educação essencialmente social, o Estado tem papel fundamental. O autor ao se referir a papel do Estado na educação, afirma que tudo o que seja educação, deve estar até certo ponto submetido à sua influência. Isto não quer dizer que o Estado deva, necessariamente, monopolizar o ensino. A Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.32, p.150-157, dez.2008 - ISSN: 1676-2584 153
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    Revista HISTEDBR On-line Artigo questão é muito complexa para que se trate dela assim de passagem. Pode-se acreditar que o progresso escolar seja mais fácil e mais rápido onde certa margem se deixe à iniciativa privada. O indivíduo é sempre mais renovador que o Estado. Mas, o fato de dever o Estado, no interesse público, deixar abrir outras escolas que não as suas, não se segue que deva tornar-se estranho ao que nelas se venha a passar. Pelo contrário, a educação que aí se der deve estar submetida à sua fiscalização. Não é mesmo admissível que a função de educador possa ser preenchida por alguém que não apresente as garantias de que o Estado, e só ele, pode ser juiz. (Idem, Ibid, p. 48) O autor, mesmo concebendo a possibilidade da iniciativa privada a abrirem escolas, estas não tem o direito de ensinar o que lhe convém, pois elas sempre estarem sobre a fiscalização do Estado, garantindo que o ensino das escolas estatais e privadas atenda as necessidades da sociedade determinada historicamente. Por último, cabe anunciar a contribuição de Max Weber (1864-1920), esse como Marx também não deixou uma obra especifica sobre educação, mas podemos encontram suas principais referências em três textos: A ciência como vocação, Os letrados chineses e, Burocracia. Quanto ao primeiro, esse originalmente um discurso pronunciado na Universidade de Munique em 1918. Nele, Weber se propõe a fazer uma análise das condições da produção da ciência e da carreira universitária na Alemanha, para isso utiliza-se de comparações com as condições nos Estados Unidos, pois, esse é o país que mais se contrasta com a realidade alemã. Nesse seu esforço, Weber apresenta a tendência da racionalização, burocratização e a especialização cada vez maior na Alemanha. Ultimamente, podemos observar distintamente que as universidades alemãs nos amplos campos da ciência evoluem na direção do sistema americano. Os grandes institutos de Medicina ou Ciências Naturais são empresas “capitalista estatais”, que não podem ser administradas sem consideráveis recursos.(Weber, 1982, p.156) Sobre a burocratização da universidade e a comparação desta às empresas, o autor afirma que os docentes das universidades estão passando pelo mesmo processo de desapropriação de suas ferramentas e da especialização do trabalho que os artesões haviam passado com o aparecimento da indústria. No decorre do texto e mantendo seu instrumento de análise, Weber apresenta contrastes na universidade, na carreira docente e na ciência. O autor pontua especificidades entre a erudição e a docência; o diletante e o perito; o líder e o professor; a ciência e a arte; o profeta e o demagogo; o acaso e a capacidade. Weber finaliza o texto reafirmando a tese do desencantamento do mundo. O destino de nossos tempos é caracterizado pela racionalização e intelectualização e, acima de tudo pelo “desencantamento do mundo”. Precisamente os valores últimos e mais sublimes retiraram-se da vida pública, seja para o reino transcendental da vida mística, seja para a fraternidade das relações humanas diretas e pessoais. (Idem, Ibid, p. 182) Para o autor, esse desencantamento é resultado da dominação racional-legal burocrática. Essa problemática Weber vai sistematizar em seu texto “Burocracia”, nesse ele apresenta as especificidades da burocracia de “tipo ideal”. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.32, p.150-157, dez.2008 - ISSN: 1676-2584 154
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    Revista HISTEDBR On-line Artigo A BUROCRACIA MODERNA funciona da seguinte forma específica: I. Rege o princípio de áreas de jurisdição fixas e oficiais, ordenadas de acordo com regulamentos, ou seja, por leis ou normas administrativas... II. Os princípios da hierarquia dos postos e dos níveis de autoridades significam um sistema firmemente ordenado de mando e subordinação... III. A administração de um cargo moderno se baseia em documentos escritos (“arquivos”), preservados em sua forma original ou em esboço... IV. A administração burocrática, pelo menos toda a administração especializada – que é caracteristicamente moderna – pressupõe habitualmente um treinamento especializado e completo... V. Quando o cargo está plenamente desenvolvido, a atividade oficial exige a plena capacidade de trabalho do funcionário, ... VI. O desempenho do cargo segue regras gerais, mais ou menos estáveis, mais ou menos exaustivas, e que podem ser aprendidas. O conhecimento dessas regras representa um aprendizado técnico especial, a que se submetem esses funcionários. Envolve jurisprudência, ou administração pública ou privada. (Idem, Ibid, p. 229- 231) Nesse texto podemos encontrar também algumas contribuições de Weber para a educação. Podemos observar na citação acima, a preocupação do autor indicar o tipo de formação exigida pela moderna burocracia na busca cada vez maior da eficiência e da técnica. O conjunto do texto aponta a exigência cada vez maior de peritos na ocupação dos cargos nas estruturas públicas como das privadas, sendo os “exames especiais” e seus certificados os critérios de seleção. A idéia de formação, treinamento e educação na ocupação dos cargos nas estruturas burocráticas como a da formação do homem culto, educação para a vida, que aparece nesse texto, vai ser mais bem desenvolvida em “Os letrados chineses”. Nesse último, Weber apresenta como a China organizou uma estrutura de formação e educação dos ocupantes de cargos em sua burocracia. Uma das singularidades dessa formação está em seu caráter laico e literário. A relação da educação com a burocracia chinesa e o conjunto da sociedade aparece já no primeiro parágrafo, assim descrito: Durante doze séculos, a posição social na China foi determinada mais pelas qualificações para a ocupação de cargos do que pela riqueza. Essa qualificação, por sua vez, era determinada pela educação, e especialmente pelos exames. A China fizera da educação literária a medida do prestigio social de modo o mais exclusivo, muito mais do que na Europa durante o período dos humanistas, ou na Alemanha. (Idem, Ibid, p. 471) Essa educação dos letrados, funcionários, dava-lhes prestígio e carisma, não porque possuíam qualidades sobrenaturais, mas por dominar os conhecimentos da escrita e da literatura, legitimados pelos exames que “comprovavam se a mente do candidato estava embebida de literatura e se ele possuía ou não os modos de pensar adequados a um homem culto e resultantes do conhecimento da literatura” (Idem, Ibid, p. 484). Nesse texto, “Os letrados chineses”, Weber apresenta seus “tipos ideais” de pedagogia e sua finalidades: a pedagogia do carisma e, seu oposto, a pedagogia do treinamento e entre essas a pedagogia do cultivo assim descrita pelo autor. Historicamente, os dois pólos opostos no campo das finalidades educacionais são: despertar o carisma, isto é, qualidades heróicas ou dons mágicos; e transmitir o Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.32, p.150-157, dez.2008 - ISSN: 1676-2584 155
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    Revista HISTEDBR On-line Artigo conhecimento especializado. O primeiro tipo corresponde à estrutura carismática do domínio; o segundo corresponde à estrutura (moderna) de domínio, racional e burocrático. Os dois tipos não se opõem, sem ter conexões ou transições entre si. O herói guerreiro ou o mágico também necessita de treinamento especial, e o funcionário especializado em geral não é preparado exclusivamente para o conhecimento. São porém pólos opostos dos tipos de educação e formam os contrastes mais radiais. Entre eles estão aqueles tipos que pretendem prepara o aluno para a conduta de vida, seja de caráter mundano ou religioso. De qualquer modo, a conduta de vida é conduta de estamento. (Idem, Ibid, p. 482) Com relação à pedagogia do cultivo essa tem como finalidade “educar um tipo de homem culto, cuja natureza depende do ideal de cultura da respectiva camada decisiva. E isto significa educar um homem para certo comportamento interior e exterior na vida” (Idem, Ibid, p. 483). Os tipos ideais de pedagogia e suas diferenças são as mesmas apresentadas pelo autor nos tipos ideais de dominação, ou seja, a pedagogia do carisma esta para a dominação carismática como a pedagogia do cultivo esta para a dominação tradicional e a pedagogia do treinamento esta para a dominação racional-legal. Portanto, no campo da educação Weber também se mostra saudoso das formas pré-capitalista e pessimista em relação às formas capitalistas de sociedade. Conclusão Os clássicos da sociologia nos permitem apropriar de instrumentos para análises do papel da educação na sociedade capitalista do final do século XX e inicio do XXI, compreendendo quais os novos elementos que estão sendo produzidos na educação, em especial na escola, que contribuam para a reprodução das relações sociais em seu caráter mais amplo, ao mesmo tempo em que identificam quais os elementos que estão sendo reproduzidos para garantir as novas formas produzidas pelo capital para garantir seu poder de dominação. Por outro lado, também contribui na identificação dos novos elementos produzidos na educação e que contribuem para a luta pelas transformações das relações sociais de produção capitalista e os próprios elementos que são reproduzidos na educação e na escola como formas de resistência à exploração imposta pelo capital. Portanto, defendemos a tese de que, para melhor compreendermos as transformações hoje na educação e o papel que a escola cumpre no processo de globalização da economia e da implementação da política neoliberal, faz-se necessário retomarmos os clássicos da sociologia, não como ecletismo teórico, mas sim tomarmos como referencial teórico-metodológico e incorporando contribuições valiosas do pensamento clássico como elementos subordinados ao referencial teórico-metodológico escolhido. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.32, p.150-157, dez.2008 - ISSN: 1676-2584 156
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    Revista HISTEDBR On-line Artigo Bibliografia DURKHEIM, E. Educação e sociologia. 11ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1978. MANACORDA, M. A. Marx e a pedagogia moderna. São Paulo: Cortez, 1991. MARX, K.; ENGELS, F. Crítica da educação e do ensino. Lisboa: Moraes, 1978. WEBER, M. Ensaios de sociologia. 5ª ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora, 1982. Artigo recebido em: 29/02/2008 Aprovado para publicação em: 29/12/2008 Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.32, p.150-157, dez.2008 - ISSN: 1676-2584 157