Eles são 30 homens,mulheres e 
agremiações. Comsua vida, escrevema 
cultura pernambucana. Alimentamum 
mundo imaginário habitado por gigantes, 
calungas, bichos que falam, santos que 
se transfiguramemúsicas demuitos 
acordes. Quase todos vêmda periferia, 
dos arredores, de onde o vento faz a 
curva.Não falamemlinha reta, mas em 
voltas. Contamde ummundo só deles, 
que encanta e, às vezes, faz doer. São os 
Patrimônios Vivos de Pernambuco, 
mantêma rica tradição da cultura popular 
do Estado.Homens,mulheres e agremiações 
que você vai conhecer agora.
Eles são só nossos e, ao mesmo 
tempo, do mundo todo. Dão co-res, 
sons e vozes à identidade 
pernambucana. Homens, mulheres e 
agremiações de muitos talentos, eles es-crevem 
com suas vidas trechos da histó-ria 
do Estado. Não a história oficial, so-bre 
vencedores e vencidos. Mas as narra-tivas 
poéticas e maravilhosas que fazem 
do mundo em que habitam um lugar úni-co. 
Pela imensa contribuição que dão ao 
seu povo,mereceramo título de Patrimô-nios 
Vivos de Pernambuco. Hoje e na 
próxima terça-feira, dia 29 de outubro, o 
Jornal do Commercio publica os cader-nos 
Pernambuco Vivo, apresentando aos 
leitores um pouco da trajetória de arte e 
encantamento desses 30 guerreiros. 
O título oficial de Patrimônio Vivo 
de Pernambuco é oferecido pelo gover-no 
do Estado, por meio de um edital da 
Secretaria de Cultura. Anualmente, 
uma comissão estadual, formada espe-cificamente 
para a eleição, reúne-se, 
avalia os nomes inscritos e seleciona 
três novos membros para o grupo. O 
processo passa pelo aval do Conselho 
Estadual de Cultura. O reconhecimen-to 
foi estabelecido por lei em 2002 – 
ainda que os primeiros 15 nomes só te-nham 
sido anunciados em 2006, retroa-tivamente. 
Desde então, a cada ano, três 
novos artistas ou agremiações são esco-lhidos. 
Eles têm que morar no Estado há 
pelo menos 20 anos e comprovar atua-ção 
dentro da cultura local. Mensal-mente, 
recebem uma bolsa vitalícia 
– R$ 1.021,62 para pessoas físicas; ou 
R$ 2.043,24 para instituições sem 
fins lucrativos. É um incentivo para 
que se mantenham em atuação e re-passem 
seus conhecimentos. 
Para contar um pouco dessa história, 
os Patrimônios Vivos de Pernambuco 
abriram as portas de suas casas, ateliês 
e sedes de instituições. Às vezes, as me-mórias 
se diluem no tempo, e os regis-tros 
se inscrevem nas entrelinhas. Suas 
biografias se confundem com a arte que 
professam. Nas reportagens presentes 
nos dois cadernos – complementadas 
por um site (já no ar), um e-book e uma 
exposição, que ficam prontos em novem-bro 
–, o leitor vai perceber que, para es-sas 
pessoas, vida e obra são uma coisa 
só. Foram 18 meses percorrendo o Esta-do 
para encontrar cada um deles. O re-sultado 
reflete a própria formação cultu-ral 
do Estado, em sua diversidade ímpar. 
Maracatus, caboclinhos, frevos, sam-bas 
e afoxés. Poetas da madeira, da cerâ-mica 
e das letras. Atores e bailarinos. 
Desenho, pintura e escultura. É uma in-crível 
multiplicidade de manifestações 
culturais que se desdobram neste espe-cial 
Pernambuco Vivo. Nomes que vão 
além do Carnaval, do São João e do Na-tal. 
Artistas que, como já havia alertado 
o poeta Padre Antônio Vieira, deveriam 
estar na boca do povo, nas salas de aula. 
Durante toda a viagem, impressiona 
o sorriso no rosto de cada um deles. 
Com orgulho, deixaram que seu mun-do 
fosse compartilhado com os leito-res. 
Só assim foi possível narrar o retor-no 
ao sucesso da cirandeira Lia de Ita-maracá 
e da coquista Selma do Coco, ho-je 
grandes amigas. A contorcionista Ín-dia 
Morena redescobre a infância. O ele-gante 
Galo Preto fala de superação. As 
criações dos xilogravuristas e cordelis-tas 
Dila, J. Borges e José Costa Leite re-velam 
cores e rimas. Abrem-se as corti-nas 
do Teatro Experimental de Arte. Zé 
do Carmo, Maria Amélia e Nuca fazem 
orações em forma de esculturas. Arte e fé 
se encontram na Confraria do Rosário e 
nos batuques dos maracatus Leão Coroa-do, 
Estrela Brilhante e Estrela de Ouro. 
Mateus Araújo 
Quem são eles, de onde vêm, 
que alegria é essa tão conta-giante, 
que nem os dias tristes 
abalam o seu canto e o seu vi-ver? 
Que mundo é esse, feito de sonho 
e poesia, onde cantar é lei, criar é do-te? 
Quem são esses filhos do povo, ir-mãos 
da arte, esses pastores da divina 
criação, ungidos que se escondiam no 
anonimato e que agora saem do seu pe-queno 
mundo para a posteridade? Fo-ram 
por toda sua existência pelotiquei-ros 
e saltimbancos da grande comédia 
humana – que agora são resgatados pa-ra 
obra e graça dos seus contemporâ-neos, 
porque homenagem póstuma é 
uma visão distorcida da história pre-sente. 
Alguns deram vida ao barro, ou-tros 
perpetuaram a imagem. Todos 
eles honraram a vida e escreveram 
uma pequena epopeia. Esses homens e 
essas mulheres que hoje são persona-gens 
deste caderno especial Pernambu-co 
Vivo, essas instituições sacrossantas 
mais amadas do que conhecidas, são 
um pedaço vivo do povo de suor e san-dálias, 
da história e do orgulho de Per-nambuco. 
Que sejam todos louvados, 
com licença de Vinicius de Morais. 
Louvada seja Selma do Coco, preta e 
sábia, elegante na sua echarpe colorida, 
faceira nos brincos de ametista – 
guardiã das melhores tradições do nos-so 
cancioneiro popular: o coco, sob suas 
mais diversas manifestações. Coco que 
já rendeu a Selma nove discos, um DVD 
e cinco filmes, patrimônio tão expressi-vo 
que bate o demuitos famosos do sho-wbiz 
norte-americano. Seja louvada Lia 
de Itamaracá, cujo nome e cuja fama se 
espalham por esses brasis tão brasilei-ros, 
dado que a ela se credita o resgate 
da autêntica ciranda. E ciranda, como 
se sabe, não é coisa para amador. Louva-da 
seja Índia Morena, que mambembou 
pelos picadeiros dos circos mais famo-sos 
aos mais humildes, fazendo da co-bertura 
de lona o teto seu de cada cami-nhada 
– e que neste mundo de fantasia 
corre chão há mais de meio século. Não 
ganhou dinheiro, não fez fortuna, não 
tem patrimônio – mas virou Patrimônio 
e tem o riso largo dos que carregam nas 
mãos os prazeres da vida. Seja louvada 
Maria Amélia, rainha do barro e da cria-ção 
– as imagens moldadas pelas suas 
mãos talentosas são ornamentos admira-dos 
bem pra lá do horizonte. E o que di-zer 
de Galo Preto, hoje de barba branca, 
com seu pandeiro e seu improviso, cor-tante 
como o chicote de um feitor – vai-doso 
sempre com seu chapéu quebrado? 
Este suplemento especial que hoje 
estamos entregando aos leitores, com 
textos de Mateus Araújo, fotos de Heu-des 
Regis, criação gráfica de Ícaro Bio-ne 
e edição de Diana Moura, tem bem 
mais no seu rico conteúdo. Ele fala de 
personagens e instituições que se tor-naram, 
por justiça e merecimento, Pa-trimônios 
Vivos de Pernambuco. Perfi-lam 
nesta honrosa galeria os grandes 
ceramistas Zezinho de Tracunhaém 
e Zé do Carmo, o Mestre Dila da gra-vura, 
o cordelista José Costa Leite, o 
xilogravurista J. Borges, parceiro do 
não menos famoso Ariano Suassuna, 
instituições como os Maracatus Leão 
Coroado e Estrela de Ouro, a Confra-ria 
do Rosário e o Caboclinho Sete 
Flexas. Pioneiro do cinema pernam-bucano, 
louvado seja Fernando Spen-cer, 
há mais de meio século envolvi-do 
coma sétima arte. Dá pra ver, por-tanto, 
que a leitura deste suplemento 
será prazerosa e enriquecedora – um 
diferencial que estamos colocando ho-je 
nas mãos de nossos leitores. 
Ivanildo Sampaio 
Diretor de Redação 
Lia tinha um medo. Em abril de 
1998, a cirandeira da Ilha de Itama-racá 
foi convidada para cantar no 
festival Abril pro Rock (APR), no Recife. 
“Olha, eu me meti no meio dos roqueiros. 
Menino, me deu um medo. Eu pensei: ci-randa 
com essa batucada será que casa, 
meu Deus?. E fui embora.” Lia estava lon-ge 
da mídia. Lançou um LP em 1977, A rai-nha 
da ciranda, e sumiu do mapa. O convi-te 
representava uma possível volta. “Ra-paz, 
o show foi tão bom, mas tão bom, 
que, se eu pudesse, estava lá todo dia. Os 
roqueiros ficaram doidos. Dançaram, can-taram, 
bateram palma. Parecia que eu es-tava 
ali dentro há séculos.” Depois disso, 
já gravou mais dois álbuns, Eu sou Lia 
(2000) e Ciranda de ritmos (2008), e parti-cipou 
de filmes, entre eles o incrível Reci-fe 
frio, de Kleber Mendonça Filho. Lia é 
um Patrimônio Vivo de Pernambuco. 
O título lhe engrandece a alma. “É bom 
ter o trabalho reconhecido com a pessoa vi-va. 
Se alguém tiver de fazer alguma graça 
pra mim, faça comigo viva, para eu ver. 
Não faça depois de eu morrer, não. Esse 
negócio de a Rua de Lia, a Praça de Lia, a 
estátua de Lia... Faça comigo viva”, avisa. 
Além da projeção nacional, conquistou res-peito 
ao redor do mundo. Foi chamada de 
“diva da música negra”, pelo jornal norte-americano 
The New York Times, e com-parada 
à voz da cabo-verdiana Cesária 
Évora, pelo jornal francês Le Parisien. 
Mas sua história não é feita só de alegrias. 
Aos 69 anos, completados em 12 de ja-neiro, 
a artista vive um momento tranqui-lo 
depois de muitos altos e baixos. A can-tora, 
que nos anos 1970 experimentou o 
apogeu da ciranda, conheceu o abando-no 
na década seguinte e voltou a brilhar 
fora da ilha depois de ser apadrinhada 
pelo movimento manguebeat, no APR. 
Altiva e elegante, Lia era chamada de 
Rainha da Ciranda na década de 1970. A 
classe média e o público universitário 
saíam da capital nos finais de semana em 
busca das rodas de cantiga à beira-mar. O 
destino era Itamaracá ou a praia do Janga 
– onde morava a famosa Dona Duda. No li-vro 
Do frevo ao manguebeat, o crítico musi-cal 
do JC, José Teles, explica que outros 
artistas também foram importantes na 
afirmação da ciranda. Em 1967, Teca Cala-zans 
lançou um disco com a canção mais 
conhecida da cirandeira, Quem me deu foi 
Lia, gravada inicialmente por Expedito Ba-racho. 
A autoria da música foi discutida 
por muito tempo. “E no fim das contas a 
música termina sendo minha mesmo, né? 
Quem deu foi Lia e acabou”, brinca. Hoje 
a composição é de domínio público. 
Foi no auge da popularidade, em 1977, 
que Lia lançou seu primeiro álbum. Logo 
depois foi esquecida. Na virada dos anos 
1970 para a década seguinte, as indústrias 
fonográfica e cultural passaram a margina-lizar 
a música popular brasileira não eliti-zada. 
Esse ostracismo, somado ao alcoolis-mo 
e à má administração da carreira, levou 
a cantora a uma crise artística e pessoal. 
“Eu vivia dentro de um poço.” Hoje ela 
credita a fama e a vida estável que tem ao 
trabalho do seu empresário Beto. Depois 
do show do APR, ela conquistou a admira-ção 
do público jovem e ganhou o mundo. 
“Perdi a conta de lugares por onde já an-dei. 
Eu pensei que nunca ia sair dessa 
ilha. Aqui é um mato sem cachorro. Nin-guém 
olha pela cultura. Mas já fui à Ale-manha, 
Paris, Lisboa. Menino, eu já bati 
o mundo, Jesus!”, sorri, sem esconder a 
satisfação. Mesmo assim, diz que não 
quer ser a “rainha da cocada preta”. 
Lia tem a humildade daqueles que já per-deram 
tudo e tiveram que recomeçar. Não 
uma vez. Mas várias. No verão de 1988 pa-ra 
89, ela teve a residência incendiada. 
Eram 2h da madrugada quando a casa de 
taipa começou a pegar fogo. “Foi muita in-veja. 
Eu tinha acabado de ganhar uma ge-ladeira, 
e os vizinhos estavam de olho 
grande. No outro dia, acharam uma espé-cie 
de tocha no chão. Alguém tinha toca-do 
fogo na minha casa.” As idas e vindas 
da vida e da ciranda obrigaram Lia a ser, 
por 28 anos, merendeira em uma escola 
pública da ilha, trabalho que lhe deu sus-tento 
durante o período longe dos palcos. 
A casa onde mora com o marido foi her-dada 
da mãe adotiva – a quem Lia foi da-da, 
aos dez anos, por falta de condições fi-nanceiras 
dos pais biológicos. Chegar até 
lá é tarefa fácil. Ela mora em Jaguaribe, 
uma comunidade periférica da Ilha de Ita-maracá, 
no Litoral Norte do Estado, que 
ainda vive da pesca e do verão. “Chegan-do 
em Jaguaribe, é só perguntar onde é 
minha casa que todo mundo sabe.” E sa-be 
mesmo. “Pegue à direita e vá em fren-te. 
A casa dela tem uns nomes no muro”, 
diz um ilhéu. São os nomes da própria ar-tista, 
grafados em mosaico na parede. 
Uma batida na porta, e a mulher de 1,87m 
de altura atende com um sorriso largo e 
um abraço forte. Morena da beira do 
mar, queimada do sal e do sol, Lia é doce. 
A conversa é no terraço, de frente ao jar-dim. 
As paredes da pequena casa guardam 
emolduradas as lembranças dos 50 anos de 
carreira. Entre reportagens e cartazes, ela 
também eterniza seu amor pelo marido, 
Antônio. As fotografias dos dois são interca-las 
por pequenas frases de declarações de 
amor. “Acho que vi um gatinho” é uma de-las. 
Uma foto de Mestre Salustiano relembra 
a amizade dos dois. No jardim, entre plantas 
e flores, estão esculturas de pássaros, sapos, 
golfinho e de Nossa Senhora da Graças. 
Como boa filha de Iemanjá, Lia gosta 
de azul e de enfeites. Usa colares, pulsei-ra 
e brincos. Adora batom. Da Rainha 
das Águas, diz que herdou o amor pelo 
mar, mas não frequenta o candomblé. 
“Só vou num terreiro quando estou pre-cisando 
de ajuda. Aí faço uns trabalhos. 
Não faço o mal para ninguém, só peço 
ajuda para mim.” Transitando pelo sa-grado 
e o profano que se unem na cul-tura 
afro-brasileira, Lia é amiga do pa-dre 
da capela de Jaguaribe, a quem pro-meteu 
só começar suas apresentações 
após às 21h, quando termina a missa. O 
templo está localizado bem pertinho 
do Centro Cultural Estrela de Lia. “Às 
vezes a gente estava ali com a ciranda, 
aí tinha maracatu, tinha coco. Tudo 
quase na porta da igreja. E o padre com 
a hóstia na mão. Eu via a hora o santo 
cair. Aí ele pediu para eu só começar 
quando a missa acabasse”, explica. 
Nas lembranças que tem da infância 
em Itamaracá, Lia guarda as imagens 
e a alegria das noites de pastoril e cava-lo- 
marinho na praça de Jaguaribe. En-tre 
seus 21 irmãos, ninguém canta, dan-ça 
nem participa dos brinquedos. Só 
ela. Desde criança se interessou pela 
ciranda. Aos 12 anos, já dava entrevis-ta 
a jornais e rádios e aos 18 se firmava 
como cantora. Atualmente a senhora 
de sorriso largo faz da beira do mar 
seu palco e sua inspiração. Há três 
quarteirões de casa fica o Centro Cul-tural 
Estrela de Lia, na areia da praia. 
Às noites de sábado, o lugar recebe a 
famosa roda de cirandeiros, com cerca 
de 500 pessoas, entre ilhéus e turistas. 
A cantora fez da sua vida uma roda de 
ciranda. A velhice que chega lhe aflige. 
Há um medo do esquecimento, como 
também há um medo do ócio. À beira 
das águas, ela compõe suas músicas. 
Sentada na praia, escreve as letras que 
são apagadas pelas ondas, e reescritas, e 
cantadas. “É da areia para o cérebro, do 
cérebro para o papel. Depois eu canto.” 
Há 15 anos, Lia tinha medo de subir 
no palco dos roqueiros. Agora tem me-do 
do futuro. Ela se ressente da falta 
de um sucessor. A artista conta que te-ve 
quatro filhos, “mas nenhum quis ci-randar”. 
Todos morreram recém-nas-cidos. 
Já perdeu a esperança que depo-sitava 
no sobrinho Ezaquiel, 22 anos: 
“O negócio dele é futebol”, lamenta. 
“Tanta coisa que você tem. Seu traba-lho, 
sua força, sua luta. E você vai em-bora 
e não tem ninguém que diga ‘eu 
vou cantar hoje, vou fazer o trabalho 
dela, vou fazer o show dela’. Infeliz-mente, 
cada cabeça é um mundo.” 
Ricardo B. Labastier/JC Imagem
São Francisco de Assis escora as 
lembranças lentas de Zezinho 
de Tracunhaém. “Vou começar 
pelo começo. Num é melhor?”, diz o 
artista – que incorporou ao codinome 
artístico o nome da cidade que forne-ce 
o barro que lhe deu fama. Nascido 
em Vitória de Santo Antão, deixou de 
se chamar José Joaquim da Silva pa-ra 
assumir outra terra em sua graça. 
Principal escultor entre os santeiros 
da Zona da Mata Norte, Zezinho, aos 
74 anos, já não dá mais passos largos 
sozinho. Ele precisa da ajuda dos fi-lhos 
para atravessar a rua e chegar 
até o ateliê. A memória responde com 
hiatos aos estímulos da entrevista. 
Zezinho chegou ao artesanato por 
acaso e necessidade: se tornara pai de 
uma família que nasceu da aventura de 
dois jovens. “Aos 20 anos, num domin-go, 
noite de lua clara que só o dia, rap-tei 
Maria. A gente queria se casar, o pai 
dela não deixou. Resolvemos fugir. Fo-mos 
para Vitória e ficamos morando 
no sítio da minha irmã, numa cochei-ra 
transformada em casa. Só depois 
meu sogro me aceitou e me chamou 
para trabalhar com ele em Nazaré.” 
Em 1966 – quando ganhava a vida 
arando solo massapê –, em passagem 
rápida pela vizinha Tracunhaém, 
descobriu as obras de Lídia Vieira, o 
primeiro destaque da arte sacra pro-duzida 
na Zona da Mata Norte. 
Zezinho percebeu que dava para ga-nhar 
dinheiro e decidiu se arriscar. 
“Fiz umas coisas bem-feitas. Um dia, a 
jornalista Mariette Pessoa, da Gazeta 
de Nazaré, foi à minha casa, viu as pe-ças 
e me convidou para expor na biblio-teca 
da cidade”, recorda. A primeira 
Exposição de Arte Popular de Nazaré 
foi a vitrine de Zezinho. Ele vendeu 
todas as 60 estátuas pequenas de per-sonagens 
do cotidiano que apresen-tou. 
Com os 120 mil cruzeiros que re-cebeu, 
comprou uma casa para morar 
e outra que transformou em ateliê. 
Zezinho ganhou cada vez mais fama 
no Estado e no exterior – pela delica-deza 
e precisão das suas criações, em 
tons particulares de terracota. Seu car-ro- 
chefe é a produção de peças sacras 
– “adoro esculpir São Francisco de As-sis, 
pela bondade dele” – mas também 
envereda por outros mundos. Uma Ie-manjá 
cheia de curvas e rica em deta-lhes 
está na catalogação que o próprio 
artista fez por muitos anos, detalhan-do 
peça por peça que produziu. 
Com o destaque que ganhou, o anal-fabeto 
Zezinho virou porta-voz dos ce-ramistas. 
Não se furtou a criticar a fal-ta 
de união entre os profissionais de 
Tracunhaém quando, em 1999, a crise 
os afetou – embora ele, ao contrário, vi-vesse 
um bom momento na sua carrei-ra. 
Hoje, 14 anos depois e também so-frendo 
com a diminuição na venda do 
artesanato, Zezinho sustenta a família 
com suas peças – agora produzidas 
com ajuda dos filhos e da esposa – e o 
auxílio que recebe como Patrimônio 
Vivo. E alimenta um sonho: conhecer 
o exterior. “Quero dar curso lá fora”, 
diz o senhor, apaixonado pela família e 
crente na bondade de São Francisco. 
Num final de tarde, véspera 
do dia de Santo Antônio, de-bruçada 
sobre uma mesa pe-quena, 
com as mãos engelhadas pelo 
tempo, Maria Amélia relembra, tocan-do 
o barro, da sua infância, de seus 
primeiros passos como ceramista. 
Atualmente, ela é a única mulher ce-ramista 
que tem o título de Patrimô-nio 
Vivo de Pernambuco. No seu ros-to 
manso, os problemas de saúde dei-xaram 
marcas, sequelas de um aciden-te 
vascular cerebral (AVC). No seu 
corpo curvo, o derrame deixou do-res 
diárias. Mas nada tirou de dentro 
dela a menina que continua redesco-brindo 
no barro força e vitalidade. 
Maria Amélia, hoje com 90 anos, co-meçou 
a esculpir aos oito. Era uma brin-cadeira, 
um “castigo” do pai oleiro, que 
levava a filha para evitar qualquer tra-quinagem 
da menina e lhe entregou 
uma bacia com água, um paninho e 
barro. “Ele me mandou sentar e fi-car 
fazendo uns bichinhos.” Era um 
pai amoroso, coruja, que achava lin-das 
as lagartixas desengonçadas que 
a filha fazia para passar o tempo. 
Nas idas semanais às feiras (sobre-tudo 
à de Carpina), nas quais a famí-lia 
vendia panelas, bacias e jarros, 
Amélia foi descobrir a inspiração pa-ra 
suas obras. Com sua delicadeza e 
simpatia, a artista reproduz imagens 
de anjos e santos com desenho naïf. 
São lindos e bem trabalhados, com 
traços de rostos simples e rechon-chudos, 
embora imponentes. Santo 
Antônio, São José, Santa Luzia e São 
Jorge, os preferidos de Amélia. 
Patrimônio Vivo de Pernambuco 
desde 2011, ela segue se recuperan-do 
do AVC sofrido em agosto de 
2012. “Dói tudo. Agora está doendo 
até na mão. Às vezes nem posso tra-balhar”, 
lamenta. “Eu não consigo 
ficar longe do barro. Mesmo quan-do 
estou com muita dor ou muito 
aperreada, chego aqui, pego a argi-la 
e me esqueço dos problemas. Fi-car 
parada é muito ruim. É triste.” 
No dia da entrevista, Maria Amélia 
dividia com o filho a tarefa de prepa-rar 
novas peças para serem vendidas 
na Feira Nacional de Negócios do Arte-sanato 
(Fenearte), que acontece anual-mente 
em Olinda. Viúva, a artista tem 
apenas um filho, Ricardo, de 45 anos. 
“Eu quero deixar minha profissão pa-ra 
Ricardo. Ele trabalha, viu? Ele me 
ajuda. Faz peça, dá acabamento. Ele 
faz tudo certo. Meu pai deixou para 
mim, e eu vou deixar para ele. Que-ria 
que meu neto pegasse, mas ele é 
preguiçoso”, comenta, queixosa. 
Diariamente, nos intervalos do tra-balho 
– agora já mais raros –, Maria 
Amélia também faz fisioterapia. Uma 
das mais antigas ceramistas de Tracu-nhaém, 
ela orgulha a cidade, mas não 
abre mão de sua simplicidade e bom 
humor. Mesmo em meio à queda na 
venda de artesanato – crise que come-çou 
no fim da década de 1990 –, 
Amélia sempre se mostrou positiva. E 
continua. Se diz feliz, não se cansa de 
viver. E redescobre sempre a força no 
seu grande amor: a arte do barro. 
Priscila Buhr/JC Imagem 
Antigo Testamento, livro de 
Gênesis, 2,7: “O Senhor Deus for-mou, 
pois, o homem do barro da 
terra, e inspirou-lhe nas narinas um so-pro 
de vida e o homem se tornou um ser 
vivente”. Zé do Carmo, que completa 80 
anos em dezembro, é temente a Deus. 
Nunca quis ser Deus, mas passou a fazer 
do barro a imagem e semelhança do uni-verso 
divino. Em Goiana, cidade da Zo-na 
da Mata Norte do Estado, o artista vi-ve 
entre imagens sacras e lembranças 
barrocas. Sua mãe queria que ele fosse 
padre. O desejo materno, no entanto, 
perdeu para o preconceito. Diante da 
imagem de Nossa Senhora do Rosário 
dos Pretos, o padre renegou o menino de 
12 anos. O seminário dificilmente aceita-ria 
um padre negro. Restaria a sacristia, 
aceita como um amém. Mas entre as Ave- 
Marias, hóstias e novenas, o menino desa-fiava 
os dogmas com a inocência de 
quem não aceita que dois mais dois são 
quatro antes de ouvir uma boa explica-ção. 
“Por que numa igreja dedicada aos 
negros as imagens dos anjos e dos santos 
tinham rostos de gente europeia?”, inda-gava, 
recriminado pela mãe por heresia. 
Aos 6 anos, José do Carmo Souza 
aprendeu em casa o ofício de artista. Sua 
mãe, Joana Izabel de Assunção, era lava-deira 
e uma das mais famosas ceramistas 
de Goiana. O pai, Manuel de Souza dos 
Santos, era padeiro e nas horas vagas fa-zia 
máscaras de papel machê para serem 
vendidas nas feiras livres. Dos primeiros 
contatos com o barro foram surgindo 
criaturas com feições humanas, que, 
com toques de imaginação de criança, 
anunciavam uma arte classificada depois 
de irreverente, desafiadora e nordestina. 
“Quando eu era pequeno, costumava 
ir com os outros meninos caçar passari-nho, 
derrubar com badoque. Minha 
mãe dizia que eu não fizesse aquilo. 
Por isso eu geralmente ficava só olhan-do 
os pássaros. Um dia, quando voltei 
pra casa, resolvi colocar asas em um 
dos bonecos que eu tinha feito. E fi-cou 
como um anjo. Minha mãe recla-mou, 
disse que aquilo era errado.” 
Era tudo muito complexo para a cabe-ça 
de uma criança. Havia um duelo en-tre 
o que pensava ser certo e errado. En-quanto 
andava por entre os bancos da 
igreja, sob as estátuas santas que compu-nham 
a decoração, Zé, menino, não con-seguia 
associar as palavras de igualdade 
das pregações aos rostos que, a dois pal-mos 
dos seus olhos, destoavam dos ter-mos 
proferidos na igreja. Não dava para 
entender que os anjos não tivessem as ex-pressões 
nordestinas, caboclas. E por 
que harpas, e não sanfonas? Incom-preensível 
também para sua mãe, que 
logo se opôs à arte do filho. Talvez ela 
também tivesse a mesma dúvida, mas 
preferia silenciar e aceitar com mais 
um amém tudo o que o padre, a Bíblia e 
o papa diziam: é assim e acabou-se. “Mi-nha 
mãe me proibiu de fazer imagens.” 
A região em que vive Zé do Carmo é 
uma das referências pernambucanas 
dos artistas santeiros. Como elenca o 
jornalista Jamildo Melo no livro Artesa-nato 
emPernambuco, publicado pela As-sembleia 
Legislativa do Estado em 
2003, um dos nomes mais conhecidos 
de Goiana, na década de 1940, foi o 
mestre Doca, que formou vários artis-tas 
como seus discípulos, incluindo o 
próprio Zé e também seu irmão Antônio. 
Por muito tempo, Zé do Carmo se-guiu 
a fórmula comum a muitos dos ar-tistas 
da cidade. Fez santos, anjos, ani-mais 
e utensílios de barro com uma for-ma 
dogmática. Aos 9 anos, ganhou de 
um vereador goianense um forno para 
dar acabamento às peças. Mas dentro 
daquele menino que se dividia entre a 
arte e a fé havia uma provocação, um 
desejo de ir além, de criar e mudar. 
Com a morte de sua mãe, o mestre pas-sou 
a ditar suas próprias regras: pôde, de 
vez, fazer seu artesanato no modelo em 
que sempre quis. Mas foi na década de 
1980 que o nome do ceramista virou, de fa-to, 
assunto nacional e até internacional. 
“(O então arcebispo de Olinda e Recife) 
DomHelder Câmara me procurou e pediu 
para que eu fizesse umas peças para dar 
de presente ao papa João Paulo II, que 
estava vindo para Pernambuco”, lembra. 
Preparadas as peças, novamente a here-sia 
– assim vista pela Igreja – assombra-va 
a arte de Zé do Carmo. “Fiz um trio 
de arcanjos tocadores de pífanos e um an-jo 
do cangaço, como um Lampião. Dom 
Helder mandou voltar o Lampião, avisou 
que não ia dar ao papa. ‘Como já se viu, 
um anjo cangaceiro?’, ele me disse.” 
Era julho de 1980 quando João Paulo 
II veio a Pernambuco. Os anjos tocado-res 
de pífanos, segundo a Cúria do Reci-fe, 
foram entregues a Sua Santidade. O 
presente rejeitado por Dom Helder, o 
cangaceiro de asas de 1,5 m, é a única 
lembrança concreta que o artista tem da 
visita. A obra está na entrada do ateliê de 
Zé do Carmo, no Centro de Goiana. Sen-tado 
numa escrivaninha de madeira, 
imerso entre pilhas de pastas e papéis, 
cercado por miguéis, gabriéis e rafaéis 
que ocupam as prateleiras, o mestre é 
uma figura representativa da cidade. 
Sua casa recebe visitantes diariamen-te. 
O senhor mora com a esposa e o fi-lho 
– ninguém divide o ofício com ele. 
São dois espaços com esculturas entu-lhadas 
e um sonho de transformar tudo 
aquilo num museu. O artista, com o tem-po, 
foi guardando peças da sua mãe e de 
seu irmão. Preserva também as suas pró-prias 
– hoje pura lembrança do trabalho 
que fazia no passado: “Passei muita fome 
vivendo de arte”. Há décadas, Zé trocou 
a cerâmica pela pintura – após viagens 
para exposições no Sudeste e no exte-rior, 
e de fugas para tentar uma vida me-lhor 
na utópica São Paulo dos retirantes, 
de onde voltou em 1972. Rendeu-se às te-las 
e às frases de efeito. Um dos seus xo-dós 
mais recentes é o Zumbi anjo – o 
Moisés do quilombo: a figura heroica ne-gra 
dos Palmares que representa a liber-dade 
de povos. “Mostrei ao padre e ele 
reclamou. Disse que não tem nada a ver 
comparar Zumbi com Moisés. Eu disse 
que tem sim: do mesmo jeito que Moi-sés 
libertou o povo do Egito, Zumbi li-bertou 
os escravos das senzalas”, expli-ca, 
em tom ao mesmo tempo cético e 
crente, o homem que sobrevive dos 
quadros e da bolsa vitalícia que o gover-no 
do Estado lhe paga mensalmente. 
Sua história é contada em uma conver-sa 
circular. Ele vai levando o interlocu-tor 
de quadro em quadro. Junto de uma 
pintura, uma fotografia. Gilberto Freyre, 
aqui, é louvado como “o doutor Gilber-to”, 
o “padrinho” do Vovô Vitalino – 
que é um Papai Noel caboclo que desfila 
pelas ruas locais no final do ano. 
Entre Pai-Nossos e Ave-Marias, Zé 
do Carmo vai seguindo sua arte, contrarian-do 
a muitos com sua fé. A discordância 
lhe dá fôlego. Enquanto continua a se 
ajoelhar e comungar todos os domin-gos, 
sob a companhia das imagens da 
Igreja do Rosário dos Pretos, segue 
firme no seu jeito nordestino de ver 
o divino. Sobre os dogmas, é pedra: 
“Eu gosto de provocação”.
Lampião é moreno, chocho e tem 
olhos azuis.EmCaruaru, no Agres-te 
de Pernambuco, vive escondido 
em uma casa pequena, com dois quartos 
apertados e uma sala minúscula, longe de 
luxos, pratarias, ouros e couros. As paredes 
frágeis guardam o cangaceiro de traços for-tes 
e pele amadeirada em tons de verde, 
preto e azul. Lampião está vivo com esses 
traços e cores dentro da memória e da 
obra de José Soares da Silva, Mestre Di-la. 
O xilogravurista e cordelista, que nas-ceu 
em 23 de setembro de 1937 (embora 
durante a entrevista ele diga ter nascido 
em 12 de agosto do mesmo ano) no vila-rejo 
Pirauá, no município de Macapara-na, 
Zona da Mata Norte do Estado, veio 
ao mundo dez meses antes de Lampião 
desaparecer (ou morrer assassinado pe-las 
volantes, como narra a história). 
Na sua memória de infância, entretan-to, 
ainda sobrevivem não só o senhor do 
cangaço, como detalhes de sua fisiono-mia 
e seus feitos. Há 60 anos, Dila desco-briu 
os versos da poesia popular e os de-senhos 
entalhados na madeira com o pai 
caricaturista, Domingos Soares da Silva, 
num sítio na cidade natal. A ligação com 
cangaceiros também seria herança pater-na: 
“Meu pai e alguns dos meus irmãos 
eram do cangaço. Conheciam Lampião. 
Eu vi Lampião”. Dila teve 11 irmãos. 
Na casa em que mora no Centro de Ca-ruaru 
– cidade para a qual se mudou des-de 
1952 –, Mestre Dila empilha as marcas 
de Virgulino em uma estante de cinco 
prateleiras, no canto da sala, perto da por-ta 
de entrada. Nas matrizes de madeira e 
borracha em que talha formas, rostos, ani-mais 
e palavras, reconstrói com a imagi-nação 
as aventuras e as histórias de mitos 
nordestinos. “Eu gosto de escrever sobre 
Lampião. É o que vende mais. Sempre fa-lei 
sobre o cangaço. Escrevia e vendia 
bem. Tinha pessoas da família dos canga-ceiros 
que compravam de uma vez só 
uns 100 ou 200 folhetos para distribuir.” 
É por detrás do Parque Luiz Gonzaga, 
principal polo das festas juninas de Carua-ru, 
que fica a casa de Dila. Na fachada há 
uma placa com sua foto. A casa de dois 
quartos, de sala e cozinha espremidas, é 
um destino de turistas. Eram mais nume-rosos 
quando se vendia cordel em deze-nas. 
Hoje a pessoa compra no máximo 
dois ou três, ao preço de R$ 1 casa. A tra-dição 
ensaia desaparecer, mas o desejo 
de mantê-la viva não para de aflorar. 
Os rostos sorridentes nos porta-retratos 
espalhados pela sala, sob a intercessão 
dos santos e santas enfileirados ao lado da 
televisão, já não têm nome. Dila, entre 
olhares baixos e risos de canto de boca, 
teima com a memória, mas fica nas reti-cências. 
Aos 76 anos, as únicas certezas 
que habitam sua cabeça são escritas em 
rimas. Nas mais de seis décadas como 
cordelista e xilogravurista, percorrendo 
as feiras livres de Pernambuco, Paraíba, 
Ceará e Alagoas, a vida lhe rendeu bons 
causos. Nesse caminho, revelou-se sua fé 
em padre Cícero Romão e frei Damião, 
além do seu respeito por Lampião. 
O poeta ainda se recupera de um aci-dente 
vascular cerebral (AVC), sofrido 
em junho de 2012. Depois de cinco dias 
internado no Hospital Regional do 
Agreste, em Caruaru, ele passou a viver 
sob cuidados da esposa, dona Valdeci, e 
dos seis filhos. Dila passou meses sem 
andar e falar. Agora vai aos poucos rea-prendendo 
tudo, com calma e timidez. 
A mulher pede para que encare a câma-ra, 
mas o rosto continua curvado sob a 
mesinha em que trabalha diariamente, 
das 8h às 16h. Há muito o que se falar 
de Lampião, não há tempo para perder. 
A vida que Dila leva como poeta popu-lar 
é a mesma de muitos outros artistas. 
Para ele, pouco importa a origem dos 
folhetos no medievo europeu. A tradi-ção 
chegou a esses homens do interior 
nordestino como expressão de uma 
cultura oralizada, rimada e ritmada, 
sob tom de humor e sarcasmo, que foi 
ganhando espaço nas feiras. Debaixo 
do sol, com varais de livretos, os cor-delistas 
contam suas narrativas, provo-cam 
o público, recriam o épico e o mí-tico. 
No caso de mestre Dila, sua técni-ca 
foi cada vez mais aperfeiçoada. 
Ele descobriu os artifícios da fabrica-ção 
de carimbos e passou a usar a borra-cha 
na produção de seus trabalhos. Dila 
lançou um modo particular de impri-mir 
seus cordéis (o que o pesquisador 
pernambucano Roberto Benjamin cha-ma 
de “folk-off-set”): seja nas cores di-versas 
que usa em uma só matriz ou 
nas combinações de várias formas sepa-radas 
e depois unidas em um conjunto 
único. A partir dos anos 1970, ele inova 
e passa a imprimir folhetos coloridos. 
Autor de cordéis como O sonho de 
um romeiro com o padre Cícero Romão 
e A bagagem do Nordeste, o poeta usa 
o dinheiro que recebe como Patrimô-nio 
Vivo de Pernambuco para ajudar a 
manter a casa e a comprar os remé-dios 
para hipertensão e diabetes. Ele 
torce para que o dinheiro não atrase. 
A família se vira como pode. Na sua ca-sa, 
Dila mantém a editora Art Folheto 
São José. Além de imprimir os livretos 
populares, faz rótulos de bebida. 
Há sempre um segredo prestes a ser re-velado 
pelo artista. O homem que no pas-sado 
tagarelava, mas hoje vive de pou-cas 
palavras, é dono de uma doçura, 
mansidão e carinho emaranhados de 
mistério. A conversa é quase sempre 
uma visita às memórias. Esquecido pe-la 
plateia que o aplaudia nos anos 
1970, o mestre já chegou a ser interna-do 
três vezes para tratamento psiquiá-trico. 
A fantasia lhe rendeu, socialmen-te, 
o nome de louco. Mas seu talento 
se sobressai. Dentro do mestre poeta, 
um mundo se move, e a figura de Lam-pião 
retorna frequentemente: homem 
moreno, chocho e com olhos azuis. 
O universo dos bandos armados que 
espalhavam o medo pelo Sertão nordes-tino 
no embrião da República (início do 
século passado), com relatos de saques 
a fazendas, ataques a comboios e seques-tros, 
é tão bem desenhado aos olhos de 
Dila que arrebatam as grades do incons-ciente 
dele para se erguer com veracida-de 
nos ouvidos de quem escuta a fala do 
poeta. Os netos dele, seus sucessores, 
já não sabem falar de cangaço. Não sa-bem 
porque não entendem nada sobre 
o tema – é o mestre que diz. Na verda-de, 
Dila parece estar tão a par do que 
narra, que agora conta uma história de 
um Nordeste muito seu. Um Nordeste 
que talvez só ele conheça. Uma histó-ria 
da qual ele é próprio dono. 
Lampião – que para Mestre Dila é 
uma espécie de Dom Sebastião, o rei 
português desaparecido numa batalha 
contra os mouros e eternamente 
aguardado – talvez nunca tenha sido 
tão cultuado quanto dentro desta casa 
pequena e apertada. Sentado, encosta-do 
na parede, com o rosto que vez ou 
outra escapa do flash fotográfico, Dila 
olha a rua e suspira. Ensaia dizer algo. 
Os segredos e as histórias vão se mo-vendo 
dentro dele com as reticências. 
Um silêncio de quem quer lembrar ou 
procura a fala: “Morreu há dois anos, 
num interior de Minas Gerais. Vivia 
escondido por lá. Muita gente se pas-sava 
por ele, inclusive aquele que ma-taram 
em 1938”, diz, retomando a con-versa. 
O rosto moreno, o corpo cho-cho, 
os olhos azuis de Virgulino Fer-reira 
da Silva jamais vão sair das lem-branças 
de Dila, que continua a vida 
talhando madeiras, contado histórias 
e criando seus próprios fatos: “Para 
realizar, eu não tenho mais nada”. 
Ele nasceu na Paraíba, viajou o 
Nordeste todo, foi à França, 
mora em Pernambuco e está 
apaixonado por Mossoró. Todo dia é 
sempre igual: Marinês e Gonzaga can-tam 
na vitrola enquanto o cordelista 
vai colocando em versos, num papel, 
a criatividade que ferve dentro dele 
nos 365 dias do ano. “Ninguém vira 
poeta. A gente nasce poeta”, garante 
José Costa Leite, que, aos 86 anos, 
conta todos os causos do mundo. 
Costa Leite – “tão importante para o 
Brasil quanto Goeldi”, segundo o seu 
conterrâneo Ariano Suassuna – é natu-ral 
de Sapé, um município de pouco 
mais de 50 mil habitantes na Zona da 
Mata paraibana, mas chegou a Pernam-buco 
aos 8 anos, ficando até hoje em 
Condado. Como um daqueles persona-gens 
retirantes de João Cabral de Melo 
Neto, ele e sua família fugiam de uma 
seca ainda mais estorricante: o pai aca-bara 
de ser envenenado a mando de 
um feitor de usina. “Foi após uma briga 
por causa de jogo do bicho. O meu pai 
passava bicho, e o feitor foi dizer que ti-nha 
tirado o prêmio, mas na verdade o 
talão do jogo dele era de um dia ante-rior. 
Ele mandou envenenar meu pai.” 
Sem jamais frequentar uma escola, o 
menino foi observando nas feiras públi-cas 
as rimas dos poetas. Foi assim, ga-rante, 
que aprendeu a escrever. Costa 
Leite viveu a infância como um adulto. 
Foi cambista, mascate e camelô de fei-ra. 
Em 1947 começou a vender cordel 
pelas ruas e dois anos depois criou 
suas próprias histórias: Eduardo e Alzi-ra 
e Discussão de José Costa com Ma-nuel 
Vicente. Aos poucos, também foi 
aprendendo a ilustrar suas rimas com 
xilogravura, tornando-se, anos depois, 
uma das grandes referências dos traços 
nordestinos talhados em madeira. 
Atualmente, José Costa Leite já não 
vai mais às feiras. Vive em casa com a 
esposa e um neto, mas passa o dia no 
seu ateliê, nos fundos da residência, es-crevendo 
e ilustrando. Não trabalha 
sem ouvir as músicas de Luiz Gonzaga 
e Marinês. É aí que se lembra também 
do tempo em que compunha canções, 
algumas delas gravadas em três LPs pe-lo 
Conservatório Pernambuco de Músi-ca. 
“Ave-Maria, hoje, sem voz, não can-to 
nem rapariga”, brinca o senhor, que 
atualmente aproveita o tempo livre pa-ra 
continuar viajando pelo Nordeste, 
só que agora é por puro divertimento. 
O tempo vai dando sinal de fim para 
o ofício de cordelista. Entulhados em 
quatro prateleiras num quarto dentro 
de casa, o escritor guarda 10 mil folhe-tos, 
além de matrizes. Não sabe o que 
fazer com o acervo: “Por favor, anun-cie 
isso na sua matéria. Preciso do di-nheiro. 
Vendo tudo por R$ 20 mil”. 
Ricardo B. Labastier/JC Imagem 
Aquela pequena sala do buro-crático 
prédio da reitoria da 
Universidade Federal de Per-nambuco 
(UFPE), no Recife, nunca 
serviu como cenário para tantas foto-grafias 
como foi naquele dia da coleti-va 
de imprensa convocada pelo pro-fessor 
e escritor Ariano Suassuna. 
Ainda mais quando o cheiro do livro 
recém-lançado por ele dava pano pa-ra 
as mangas aos jornais do País. Qua-tro 
repórteres corriam a caneta so-bre 
o bloquinho de papel. Ariano des-ta 
vez não era o foco do encontro, só 
adjetivava sua descoberta: um ilustra-dor 
que nunca sequer havia escutado 
falar d’O Romance da Pedra do Reino, 
nem mesmo do escritor paraibano, vi-rou 
notícia no Brasil. “O melhor gra-vador 
popular do Nordeste”, dizia 
Suassuna. J. Borges jamais esqueceu 
tudo aquilo – e jamais foi esquecido. 
Xilogravurista e cordelista, o mais 
pop dos artistas Patrimônios Vivos 
mora em Bezerros, numa boa casa às 
margens da BR 232, principal rota 
que liga o Litoral ao Sertão de Per-nambuco. 
J. Borges nasceu num sí-tio 
a 16 km do centro da cidade, em 
1935. “Eu comecei a trabalhar aos 
16 anos, na agricultura, com o meu 
pai. Aí fomos morar na Zona da Ma-ta 
Sul, em Ribeirão e depois em Es-cada. 
Foi lá que comecei a traba-lhar 
com cordel, fazer gravura”, diz 
José Francisco Borges, 78 anos. 
“Chegava nas cidades, colocava o 
tripé com folhetos e abria a mala. De-pois 
comprei um alto-falante. Quem 
tinha isso era chamado de ‘camelô ri-co’. 
Pobre declamava era no peito bra-bo. 
Às vezes, a polícia dava uma bron-ca, 
proibia o som. Era uma confusão. 
Eu vendia bastante”, relembra. 
Em meados da década de 1970, 
Suassuna vivia um auto-exílio. Mas 
resolveu abrir uma exceção. Precisa-va 
conhecer aquele homem que sa-bia 
traduzir tão bem a sua obra atra-vés 
da xilogravura. “Mandou me le-varem 
até ele. Eu tive sorte.” A entre-vista 
foi numa terça-feira. “No sába-do 
da mesma semana, já começaram 
a chegar carros lá em casa e até hoje 
eu não tive mais sossego na vida”, 
brinca J. Borges, que só estudou dez 
meses e abandonou a escola ainda na 
infância, por determinação da avó, 
que temia que o neto fosse atacado 
pelo papa-figo nas ruas de Bezerros. 
Foi tudo muito rápido. Nem o pró-prio 
J. Borges se dava conta do 
quanto sua vida ia mudando. Famo-so, 
é talvez o Patrimônio Vivo que 
mais sabe o valor comercial do seu 
trabalho. Calcula o preço de cada 
peça feita na grande prensa que ocu-pa 
um espaço enorme de uma das 
salas anexas ao seu ateliê. Já levou 
sua arte para a Europa, países da 
América Latina e do Norte, ilustrou 
obras do uruguaio Eduardo Galea-no, 
mas continua gravando as coi-sas 
de Pernambuco, “porque os tu-ristas 
querem as coisas daqui”. 
“A palavra do velho (Ariano Suas-suna) 
é muito forte. Ele me chamou 
de melhor gravador popular do Nor-deste, 
na opinião dele. E o povo acre-ditou, 
rapaz. O povo é besta. Depois 
ele começou, nas andanças dele, di-zendo 
que eu era o melhor do Brasil. 
Agora, que ele já não sabe mais o que 
diz, fala que sou o melhor do mun-do”, 
brinca J. Borges, antes de confes-sar 
a razão de tudo isso: “Trabalho 
no meu traço, nunca mudei. E nunca 
saí de dentro da minha região”. 
Ricardo B. Labastier/JC Imagem
Era 19 de outubro de 1996 quando, 
no sítio do famoso Pai Adão, em 
Água Fria, bairro da periferia do 
Recife, os atabaques anunciavam uma mu-dança 
importante. No lugar em que resi-de 
a matriz do culto nagô em Pernambu-co, 
Afonso Aguiar era escolhido presiden-te 
do Maracatu Leão Coroado, o mais an-tigo 
maracatu-nação do Estado em ativi-dade 
ininterrupta – que em dezembro 
completa um século e meio. Naquele ano, 
a agremiação não havia desfilado por fal-ta 
de integrantes. Por causa da crise, os 
orixás foram consultados. Nanã escolheu 
e avisou a Mestre Luiz de França. Herdei-ro 
do folguedo criado pelo seu pai, ele en-tregou 
seu tesouro antes que fosse tarde, 
antes que tudo virasse peça de museu. 
Nanã, a senhora poderosa que sabe co-mo 
afastar amorte, é uma dasmais respei-tadas 
orixás. Talvez por isso não houves-se 
o que temer, pois o futuro do Leão Co-roado 
estava em suas mãos. Mestre Luiz 
perguntou, Nanã ordenou. O veterano pe-diu 
para que Afonso também consultasse 
a divindade, e ela reiterou a ordem: o ma-racatu 
precisava de um novo presidente, 
e essa pessoa tinha que ser Afonso. 
A transição foi mediada pela Comissão 
de Folclore da Cidade. Os folcloristas e 
pesquisadores Roberto Benjamin e José 
Fernando de Souza e Silva e o babalorixá 
Manuel Papai estavam à frente da cerimô-nia. 
Manoel, sucessor de Adão no terrei-ro, 
era uma provável indicação para ser o 
novo presidente, mas não quis a respon-sabilidade. 
Afonso aceitou, embora não 
soubesse nada sobre maracatu. Entretan-to, 
já era naquela época um dos privile-giados 
sábios dos mistérios da tradição 
iorubá, da religião nagô, o candomblé. 
Com tantos atributos de fé, Afonso é 
intransigente com o lado profano da 
festa: “Maracatu é mais religião do 
que Carnaval”. Há 17 anos à frente da 
nação, ele rege os tambores do Leão 
Coroado – fundado em 8 de dezembro 
de 1863, no centro da capital pernam-bucana 
– seguindo à risca todo o apren-dizado 
que herdou de Luiz de França. 
Atualmente, o folguedo se localiza em 
uma das mais conhecidas comunidades 
da periferia de Olinda. Em Águas Compri-das, 
as ruas são estreitas e espremem ain-da 
mais as casas – ora trepadas em dois 
andares, ora rasteiras, com portas e jane-las 
escancaradas. São bairros como esse 
que abrigam boa parte das pessoas e dos 
grupos culturais descendentes de negros 
em Pernambuco. Foram empurrados, pe-la 
especulação imobiliária, para lugares 
cada vez mais distantes do centro. 
Por uma viela e outra, chega-se à sede 
do Leão. A voz forte de Afonso dá as boas-vindas. 
Na garagem da casa simples, acon-tece 
a conversa. Basta um olhar ao redor 
para perceber que naquele espaço tudo 
respira maracatu. O estandarte da 
agremiação, vermelho e branco – cores 
de Xangô –, saúda quem chega. A peça, 
guardada com cuidado, envolvida em um 
saco plástico para proteger da poeira que 
sobe da rua sem calçamento, foi um dos 
objetos que o presidente recebeu duran-te 
a cerimônia de transição, em 1996. 
Junto com ele vieram duas calungas, bo-necas 
que guardam os espíritos dos an-cestrais, 
os eguns protetores da nação. 
Com ajuda do pesquisador Roberto 
Benjamin e dos outros integrantes da Co-missão 
de Folclore, Afonso conseguiu res-taurar 
os instrumentos e as roupas, reco-locando 
o Leão Coroado na rua no Carna-val 
de 1997. Atualmente quem escuta a 
agremiação de longe logo reconhece a ba-tida 
de suas alfaias, dando ginga a cerca 
de 90 integrantes. O toque de Luanda, 
com a cadência mansa e lenta da percus-são, 
relembra o som que embala as toa-das 
– ou recados, na linguagem afrorreli-giosa 
– do candomblé. O nome da nação 
tem ligação clara com o título dado ao 
Estado após a guerra contra os holande-ses 
no século 17, na Insurreição Per-nambucana 
(1645-1654). O “coroado”, 
por sua vez, refere-se à sua realeza. 
A cor da pele, os cabelos brancos e a 
voz forte do Mestre Afonso são um retra-to 
de tudo o que ele representa e honram 
as heranças deixadas pelo povo africano. 
Nada que se aprenda em livros: religião e 
cultura foram repassadas oralmente de 
uma geração para outra. Os princípios da 
cultura afro-brasileira guiam o Leão Co-roado, 
cuja fé é depositada em Xangô. “Há 
grupos por aí que estão fazendo da cultura 
um trampolim de artista: é mestre tal, mú-sica 
de mestre tal. No Leão Coroado, nós 
não estamos preocupados com essa fa-ma. 
Queremos é preservar a tradição”, 
diz o presidente, babalorixá ortodoxo. 
Por causa do desvirtuamento religioso, 
Afonso retirou o Leão do circuito oficial 
do Carnaval do Recife, em que há disputa 
entre maracatus. A decisão causou polêmi-ca, 
mas, segundo o mestre, foi uma abertu-ra 
de caminhos para a nação. Por não se 
render à pasteurização e às mudanças es-truturais 
às quais muitas nações têm aderi-do 
– como a renúncia dos instrumentos tí-picos 
e a abertura para integrantes não ini-ciados 
no candomblé –, ele optou por 
sair das competições. “Hoje os maraca-tus 
saem por aí com toques dos abês... É 
bonito demais, só que não é coisa de ma-racatu. 
No toque do candomblé, da na-ção 
nagô, não há abês. Todos usam abês 
e dizem que são nagôs. Fazem isso por 
causa da competição. Mas eu não vou me 
passar para uma coisa dessas”, justifica. 
Quando Nanã aprovou a nomeação de 
Mestre Afonso na presidência do Leão Co-roado, 
marcou o início de mais uma etapa 
na história do grupo – que ao longo dos 
seus 150 anos chegou a ter sua existência 
posta em xeque. A agremiação assistiu à 
modernização do Estado e sofreu seus 
impactos. Fundada por um estivador, 
nasceu no centro da capital, em meio a 
atividades portuárias, mas teve a sede 
transferida. Passou por Afogados e Água 
Fria até chegar a Águas Compridas. 
Embora distante do centro, o maracatu 
sempre refaz, no Carnaval, os caminhos do 
passado. Sob a proteção da calunga Isabé, 
o Leão Coroado entoa cânticos saudando 
os orixás. No Recife, concentra suas cele-brações 
no Pátio do Terço, ponto de encon-tro 
de todas as nações. Quando o babalori-xá 
Afonso recorreu à sabedoria dos santos 
do terreiro sobre a possibilidade de deixar 
o concurso do Carnaval, não imaginava 
que seria tão abençoado. Depois disso tu-do 
mudou. O Leão Coroado foi reconheci-do 
como Patrimônio Vivo de Pernambu-co, 
recebeu o prêmio Cultura Viva, do Mi-nistério 
da Cultura, e se tornou um dos 
grupos que mais viajou pelo mundo como 
representante da cultura afro-brasileira. 
“Eu defendo a cultura da gente, embora 
seja difícil. Graças a Olorum e aos orixás, 
nós ainda temos essa bolsa de R$ 2 mil, do 
Patrimônio Vivo, que nos dá um jeitinho 
para caminhar, restaurar as roupas, os ins-trumentos, 
ajudando também nas nossas 
viagens.” Como o dinheiro das apresenta-ções 
(cobramcachê de R$ 5mil) não dá pa-ra 
remunerar os integrantes, cabe ao mes-tre 
cativar o apoio dos membros. “Aqui to-do 
mundo desfila por amor”, orgulha-se. 
Nossa Senhora já intercedeu 
por todos eles: a menina que 
queria ser médica passou no 
vestibular; o homem acidentado, que 
por pouco não foi degolado pela carca-ça 
do carro, ficou sem sequelas. Nossa 
Senhora sai todo ano da senzala para a 
igreja. Há mais de 200 anos que o man-to 
azul e branco é carregado pelos ne-gros 
nas ruas de Floresta, sob o forte 
sol do Sertão das manhãs de 31 de de-zembro. 
A mãe de Cristo intercedeu 
por todos eles. Mercedes, João, Ma-ria, 
Antônio, José, Celina, os quase 60 
marianos dobram os joelhos diante 
da imagem da mulher branca, mãe 
também dos escravos que trocaram o 
iorubá pelo latim. Aqui são todos con-frades, 
crentes na Virgem Maria. 
Em frente à Igreja de Bom Jesus dos 
Aflitos, na calçada da pequena casa de 
número 111, eles vão se sentando. Vão 
arrastando os bancos para fora, enfilei-rando 
as cadeiras de balanço. É final 
de tarde na cidade cujo passado é mar-cado 
pela troca de farpas, tiros e juras 
de morte entre as famílias Novaes e 
Ferraz, que assombra os moradores 
desde 1913. Dezenas de pessoas foram 
assassinadas por questões políticas. A 
última cena trágica no município foi 
em 1999, quando o então prefeito Oscar 
Ferraz Filho foi morto ao sair da missa. 
Mas Nossa Senhora, aquela da imagem 
veneravelmente guardada no armário 
de madeira antiga, protege todos. 
A casa da Confraria do Rosário é 
centenária: foi doada pelos senhores 
aos descendentes do povo negro es-cravizado, 
que hoje dobram os joe-lhos 
e rezam a Salve-Rainha. Os fa-zendeiros 
deram essa casa aos escra-vos 
para que eles ficassem aqui duran-te 
a festa; para não se misturarem 
com o povo branco. Maria das Mer-cês 
tem certeza disso. Historiadora e 
professora do ensino fundamental 
da rede de escolas públicas de Flores-ta, 
ela é rainha perpétua da confraria 
e vive essa história desde criança. 
“Não temos uma eleição para ser 
perpétuo. Cada posto é passado de ge-ração 
em geração. A última rainha foi 
minha tia (Lúcia de Amaro), que pas-sou 
o posto para mim, como a avó dela 
passou para ela”, explica Mercês. “Mi-nha 
tia sempre participou das reu-niões. 
Eu também, desde pequena. Até 
que ela adoeceu e descobriu que esta-va 
com ‘cê-á’ (Mercês teme pronun-ciar 
a palavra câncer, a doença que 
matou sua tia). Numa reunião ela dis-se 
que os postos dela seriam meus.” 
Em 2009, quando Lúcia foi obriga-da 
pela vida a deixar de ser majestade 
para sempre, a sobrinha assumiu a co-roa. 
Hoje é rainha e juíza de rainha. 
Mas até 2024 emprestará o trono a ou-tras 
mulheres, devotas que alcança-ram 
graças pela intercessão de Nossa 
Senhora e prometeram, como retribui-ção, 
serem rainhas. “O posto de rei e 
de rainha tem sempre uma pessoa fi-xa. 
João é rei perpétuo, mas a gente 
só assume a coroa quando não tiver 
ninguém pagando promessa”, explica. 
Na Confraria do Rosário de Floresta 
do Navio, há leis e estatuto. Para ser con-frade, 
a pessoa tem que frequentar por 
dois anos ininterruptos as reuniões do 
grupo. Participar de todas as atividades. 
Fielmente. Depois desse tempo, o conse-lho 
superior – formado por juízes (ou 
conselheiros, anjos da guarda, proteto-ras, 
guias) da bandeira, da rainha, do rei 
e dos espadachins, e pelas próprias majes-tades 
– decide se abre ou não a “porta do 
céu” da confraria para aquele cristão. 
Na aspereza da geografia sertane-ja, 
no passado acre da escravidão, o 
canto dos negros que trabalhavam 
nas grandes fazendas da região aos 
poucos foi domesticado pela cateque-se. 
Nas terras das propriedades Cur-ralinho, 
Paus Pretos e Fazenda Gran-de, 
às margens dos rios Pajeú e São 
Francisco, surgiu a povoação de Flo-resta. 
Na segunda metade do século 
18, o chão rachado daquele Sertão 
guardava, temporariamente, o gado 
que vinha da Bahia para abastecer os 
engenhos de açúcar pernambucanos. 
Os negros trazidos do Congo ara-vam 
o solo e cuidavam dos bichos. 
Das senzalas vinham orações. No 
único dia livre do ano, os escravizados 
louvavam a liberdade agradecendo à 
Virgem Maria. O primeiro registro ofi-cial 
da procissão data de 1792, mas a 
devoção deve ter começado antes. 
É madrugada ainda, no dia 31 de de-zembro, 
quando os confrades saem às 
ruas em cortejo. O rei vai buscar a rai-nha. 
Os espadachins abrem o caminho, 
riscando as espadas no chão, tirando 
faísca do atrito. Os fiéis aplaudem, 
acompanham o itinerário com fanfar-ras. 
No final, todos se confraternizam 
ao som de maracatu e frevo. Todo 
mundo quer tocar no manto da reale-za. 
“A roupa abençoa quem a toca”, di-zem 
os que creem. Foi assim que Dona 
Ursulina, 64 anos, obteve uma graça. 
“Faz 20 anos. Meu irmão foi para o Reci-fe 
e, no caminho, sofreuumacidente.Ocar-ro 
capotou e faltou um milímetro para ele 
não ser degolado pelas ferragens”, lembra. 
Ursulina se ajoelhou. Rezou o terço e pe-diu 
a intercessão da mãe de Cristo. “Se 
meu irmão sobrevivesse, eu seria rainha. E 
Fotos: Ricardo B. Labastier/JC Imagem 
ele ficou bom.” A gratidão foi recompensa-da 
com um vestido lindo, daqueles vistos 
nas revistas demoda, cheio de pequenos es-pelhos 
e lantejoulas, reluzindo o brilho do 
sol – que parece mais perto daquela gente 
do que da gente de qualquer outro lugar. 
Ursulina, hoje juíza da rainha, é também 
um catálogo ambulante de quase todas as 
promessas dos outros. Lembra-se de tudo. 
A história de Rosa Ferraz, por exem-plo, 
Ursulina sabe de cor e salteado. Já 
faz tempo, a moça rica estudava no Reci-fe 
e queria ser médica. Pediu para que 
Nossa Senhora a ajudasse a passar no 
vestibular. Aprovada, a futura doutora 
prometeu ser rainha por um ano. Rosa 
fez o oposto dos confrades pretos: vestiu 
a roupa mais simples. “Nós, negros, bota-mos 
muito luxo. Enquanto Rosa foi de al-percatinhas, 
bem simplezinha. Ela é 
branca. Nós, negros, somos amostrados. 
É a tradição: muito brinco e leque.” 
O bê-a-bá católico apostólico roma-no, 
entre credos e ladainhas, foi enrai-zado 
no sangue dos descendentes dos 
primeiros confrades. Foi assim com 
Manoel Cassiano, 27 anos, que já nas-ceu 
dentro da Confraria. Nem imagina 
como é viver fora do grupo. Repassa a 
criação para o filho. Ele e os outros 
mais jovens são a extensão de uma 
ponte que liga passado e futuro. Enten-dem 
que têm uma responsabilidade de 
levar adiante uma fé tão particular, de 
uma irmandade criada ainda na época 
da escravidão como fruto de uma 
catequização dos povos negros. 
Aqui só se fala no Cordeiro de Deus, 
aquele que tira o pecado domundo.OCor-deiro 
que, sob a forte intercessão mariana, 
ilumina e protege os negros de uma cida-de 
de terra acre, de sol desabrido e de seca 
severina. Nossa Senhora já intercedeu e 
continua intercedendo por todos eles. 
Heudes Regis/Jc Imagem Ricardo B. Labastier/Jc Imagem
Eles foram para provocar. Che-garam 
com palavras complica-das, 
expressões acadêmicas, 
teorias e metodologias estranhas para 
quem vivia ali. Aliás, desconhecidas 
pela maioria mesmo daqueles que su-biam 
ao palco para interpretar. O que 
a trupe de professores e atores vin-dos 
da universidade da capital levou 
para o Agreste foi pura provocação. 
O Festival de Teatro Universitário che-gou 
a Caruaru rasgando a história da cida-de 
em dois eixos, como aqueles que divi-dem 
a humanidade entre antes e depois 
deumgrande acontecimento, estabelecen-do 
o fim e o início de uma época. Era ju-nho 
de 1962. E, dali por diante, amador 
passou a ser uma palavra incômoda – ou, 
usando a linguagem de Bertolt Brecht, o 
termo passou a causar estranhamento. Na-quele 
tempo, o Teatro de Amadores de Ca-ruaru 
atraía as atenções e os olhos da socie-dade 
ainda imune à febre da televisão. No 
Recife chegava a notícia deumfestival uni-versitário 
com oficinas, palestras e espetá-culos 
que, embora simples, prezavam por 
um trabalho ainda desconhecido por ali: a 
preparação cênica e corporal dos atores. 
Até então fazer teatro em Caruaru 
seguia uma receita: escolher o texto, di-vidir 
os papéis e correr para o ensaio. 
Tudo errado. Aquelas oficinas mostra-ram 
isso. Apontaram o quanto era im-portante 
preparar o ator teoricamente, 
mesmo que ele tivesse muito talento. 
Todo aquele escarcéu foi a gota d’água 
e o impulso que faltava para a criação 
do Teatro Experimental de Arte (TEA). 
“Naquele momento, vimos o quanto es-távamos 
atrasados na nossa maneira de 
fazer teatro”, lembra a atriz Arary 
Marrocos, que começava a dar as pri-meiras 
lições como professora nas es-colas 
caruaruenses, quando a cidade 
vivia o auge de uma produção teatral. 
Arary seguiu os passos do marido, 
Argemiro Pascoal, que foi o nome à 
frente da fundação da companhia. Ar-gemiro 
e seu grupo pediram ajuda ao 
professor Joel Pontes, que integrava a 
equipe dos acadêmicos. Eles solicita-ram 
e o mestre topou. “Arranjamos 
hospedagem e durante dois meses, a 
cada final de semana, vinha um profes-sor 
do Recife para cá nos dar aulas. Par-te 
do Teatro de Amadores não quis. 
Quem queria terminou saindo e fun-dando 
o TEA, em 17 de julho de 1962.” 
Durante 16 anos, os ensaios e encontros 
do Teatro Experimental ocorreram no au-ditório 
da Rádio Difusora de Caruaru. Em 
1978 os ensaios passaram a ser realizados 
na garagem da casa de Arary e Argemiro. 
O casal decidiu então que era hora de 
construir uma sede própria. Tudo aos pou-cos, 
tijolo por tijolo, moeda por moeda. 
Hoje o pequeno palco italiano – com uma 
plateia de 60 cadeiras de plástico, coxias e 
camarim – guarda nas paredes preenchi-das 
por fotos e cartazes a memória de 
uma história de mais de cinco décadas. 
Desde a criação, o TEA encenou 54 es-petáculos, 
além de promover cursos e ofi-cinas 
de teatro, palestras, debates e semi-nários. 
Levou ainda a sua arte a 65 cida-des 
brasileiras. Em agosto do ano passa-do, 
o grupo entrou em uma nova fase. Ar-gemiro 
morreu, aos 83 anos, deixando 
para Arary e o filho Fábio a tarefa de sus-tentar 
um sonho de teatro numa cidade 
em que os palcos que interessam à gran-de 
plateia já são outros: os do forró. 
A criação do TEA foi resultado de 
uma reverberação de ideias. Havia, 
sim, o desejo de se profissionalizar. 
Mas o impulso de tudo foi a vontade 
de fazer do tablado o espelho do po-vo. 
Quando a caravana acadêmica che-gou 
a Caruaru, Pernambuco assistia 
ao crescimento do Movimento de Cul-tura 
Popular (MCP). Germano Coe-lho 
lançava sua cartilha político-cultu-ral 
com base nos rebuliços que fervi-lhavam 
nas ruas e praças da Europa. 
Argemiro Pascoal estava entre os ar-tistas 
que participaram da reunião do 
MCP no Recife. Nascido em Bezerros, 
ele se mudou para Caruaru aos 18 anos 
e lá iniciou a carreira teatral. O a-bê-cê 
da Cultura Popular chegava à cena do 
Teatro de Amadores da cidade e, poste-riormente, 
do TEA através de monta-gens 
de textos norteadas pelos pensa-mentos 
brechtianos. A primeira peça en-cenada 
pelo grupo, em 1963, foi Um ele-fante 
no caos. O texto de Millôr Fernan-des 
causara frisson três anos antes no Rio 
de Janeiro e em São Paulo, mergulhando 
no teatro do absurdo, refletindo sobre as 
hipocrisias e a corda bamba dos momen-tos 
que antecediam o Golpe de 1964. 
O TEA é referência nas artes cênicas 
pernambucanas. Além de formar atores, 
o grupo foi responsável pelo fortaleci-mento 
da cena teatral no interior, crian-do 
festival estudantil e mostra com espe-táculos 
nacionais. Mas nem tudo são lu-zes 
na ribalta. Este ano, Arary recusou o 
convite do Festival de Teatro de Curiti-ba, 
um dos mais importantes do Brasil, 
por falta de verba para arcar com as des-pesas 
de viagem, hospedagem e alimen-tação 
durante a estada da trupe no Pa-raná. 
Em 2012 eles haviam participado 
da mostra, mas conseguiram o dinheiro 
com muito sacrifício, pedindo ajuda a 
empresários locais. A bolsa de Patrimô-nio 
Vivo oferece ao grupo apenas uma 
parte da verba necessária para sua sus-tentação. 
Arary se vê dividida entre os 
cálculos do escritório de contabilidade 
e as aulas de história do teatro no TEA. 
Mestre Gilmar consegue asso-ciar, 
de forma espontânea, o 
maracatu ao significado das 
três palavras escritas nas paredes da sede 
do Estrela Brilhante de Igarassu: “amor, 
vida, paz”. Negro, descendente de escra-vos 
africanos, ele aprendeu que esses atri-butos 
estão nas batidas das alfaias que 
marcam, a cada cortejo, o compasso das 
baianas, da rainha e da dama do passo. 
Aos cinco anos, Gilmar começou a 
brincar maracatu. Aos 16, já ocupava a 
função de mestre. Além de ditar o ritmo 
das alfaias, também comanda o coco de 
roda que movimenta as noites de sexta-feira 
do município, na Região Metropoli-tana, 
a 30 quilômetros do Recife. Ensaios 
do Estrela Brilhante são raros. Só quan-do 
há uma nova loa. “O pessoal do mara-catu 
mora aqui, já toca há muito tempo, 
não precisa ficar ensaiando”, afirma. 
O Estrela, uma das agremiações mais 
antigas do Brasil, foi fundado em 1824. No 
seu livro Viagens ao Nordeste do Brasil, es-crito 
no início do século 19, o pesquisador 
inglês Henry Koster conta que o grupo 
teria começado na Ilha de Itamaracá, nu-ma 
das cerimônias de coroação dos Reis 
do Congo, da qual participavam escra-vos 
e negros livres, sob a sombra dos vi-gários 
da paróquia. É a origem do mara-catu 
de baque virado em Pernambuco. 
A genealogia dos batuques do conheci-díssimo 
folguedo de Igarassu – que já foi 
tema de matérias na TV, pauta de jornais 
locais e do exterior e figurante de novela – 
começou com o bisavô de Gilmar, seu 
João Francisco. Ele repassou as alfaias e o 
estandarte para Manoel Próspero de Santa-na, 
seu genro, casado com Dona Mariú. 
Foi ela, no entanto, que se transformou na 
grande estrela da nação, em que esteve des-de 
os 12 anos no posto de dama-regente, 
ou dama do passo. Era como uma guardiã, 
que portava a calunga Emília, na qual es-tão 
os ancestrais pretos-velhos da nação. 
A boneca, dedicada a Oxum, é cuidadosa-mente 
vestida de amarelo, com muitos 
acessórios, e guardada a sete chaves. 
Dona Mariú morreu em 2003, aos 104 
anos de idade, cinco anos antes tinha en-tregado 
à filha, Olga Santana, o posto de 
matriarca do maracatu. No seu centená-rio, 
em entrevista ao JC, Mariú expli-cou 
que, por estar debilitada fisicamen-te, 
entregou a agremiação à filha. “Tive 
19 filhos. Nasceram 16 de tempo e três 
foram abortos, mas só criei nove. So-mente 
dois entraram no maracatu – Ol-ga 
e um outro que já morreu. Se ainda 
fosse vivo, teria entregado o maracatu a 
ele. Organizar a brincadeira é muito ser-viço 
para Olga sozinha”, declarou. 
Gilmar nasceu sob o matriarcado do 
Estrela Brilhante. Viu sua avó entregar 
o folguedo à mãe. E ficou ao seu lado 
desde então. No último dia 3 de agosto, 
Dona Olga morreu, aos 74 anos, após so-frer 
dois infartos. Gilmar assumiu seu 
destino e, além de mestre, aceitou o pos-to 
de novo presidente da agremiação. 
A vida não estava fácil para a matriar-ca. 
Em novembro de 2011, quando ela deu 
entrevista ao JC sobre a calunga Joventi-na 
– a primeira boneca do maracatu, que 
figura na capa deste especial, foi roubada 
há mais de 100 anos, recuperada e hoje é 
exposta no Museu do Homem do Nor-deste 
–, as sequelas de um acidente vas-cular 
cerebral nublavam as suas lembran-ças, 
embaralhavam passado e presente. 
Com um estilo de comando menos apai-xonado 
que suas antepassadas, Gilmar dá 
início a uma nova fase na história do Estre-la 
Brilhante de Igarassu. Dita as regras lan-çando 
sobre o grupo um olhar muito cen-trado 
na música e nos batuques – em detri-mento 
à religiosidade do folguedo. “Eu não 
gosto muito de falar sobre religião. Tem 
gente que fica dizendo que para participar 
de maracatu tem que estar na macumba. 
Não tem nada a ver. Eu tenho minha reli-gião, 
eu gosto, faço minhas obrigações. 
Mas maracatu é só um folguedo, é uma 
brincadeira. Por isso que a gente tenta se-parar 
uma coisa da outra”, diz o novo pre-sidente. 
Na agremiação, que ainda preser-va 
a separação entre o masculino e o femi-nino 
– mulher não toca; homem não dança 
–, o sagrado não é exposto ao público. 
Se no passado, no início de tudo, há qua-se 
200 anos, o racismo assombrava o ma-racatu, 
hoje o que preocupa os brincantes 
é a falta de envolvimento da comunidade – 
que dona Mariú já disse ter sido a grande 
força do Estrela Brilhante. “Ainda existe 
gente batendo na tecla de que maracatu, 
coco e ciranda é coisa de negro, de pobre e 
catimbozeiro. Coisa de rico e branco é ópe-ra, 
música clássica e MPB. Juntar o povo 
que gosta de maracatu está cada dia mais 
complicado. Adolescente só gosta de brega. 
A gente tem uns jovens que tocam, mas são 
da nossa família”, diz o mestre, que minis-tra 
oficinas na sede do grupo, em outros 
Estados e fora do País. “Para assumir o ma-racatu 
é preciso conhecê-lo, estudar, sa-ber 
tocar todos os instrumentos”, afirma. 
Um maracatu que corre o risco de 
se esvaziar é motivo de apreensão. É 
preciso atrair os jovens de volta para 
o folguedo. O Estrela Brilhante de Iga-rassu 
tem papel de destaque na cultu-ra 
pernambucana e não se pode per-mitir 
que a sua história se perca. 
Lourenço relutou e renegou mais de 
três vezes antes de aceitar o seu des-tino. 
Nunca gostou de maracatu e 
reforçou o desinteresse quando foi estudar 
em Aliança. Ele fora mordido pelo bicho da 
urbanização, epidemia na Zona da Mata 
Norte de Pernambuco. “Quem iria namorar 
gente de maracatu?”, pensou. Queria ser da 
Marinha. Não adiantou. O caminho escrito 
pela vida deu conta de desaguar seu rio 
num oceano de encanto. Em 1991, décadas 
depois da fuga, Lourenço voltou de vez ao 
sítio Chã de Camará para assumir a heran-ça 
deixada pelo pai, o mestre Batista: entre 
terras e plantações, havia um maracatu de 
baque solto, o Estrela de Ouro de Aliança. 
O pai de Lourenço era nome conhecido 
na região. Nasceu em 1934, seis anos de-pois 
de Aliança se emancipar. Batista era 
filho único e cresceu sob os cuidados da 
mãe, dos avós e do tio materno. Em casa, 
foi descobrindo a cultura popular. As fes-tas 
da família sempre foram entranhadas 
pelos folguedos. Sua mãe, Joana, entre-tanto, 
nunca deixou que entrasse para o 
brinquedo. Mas era impossível conter o 
brincante que vivia em Batista. Em 1º de 
janeiro de 1966, um ano depois da morte 
de Joana, ele fundou o Maracatu Estrela 
de Ouro. Tesouro que preservou até sua 
morte, quando o legou para Lourenço. 
“Ele via em mim a continuação. Como 
eu não quis, respeitou minha decisão. Fui 
morar no Recife aos 17 anos e voltava em 
Aliança de vez em quando. Ia ver meu pai 
se apresentar no Recife, mas nunca quis 
saber de participar.” Hoje, José Louren-ço, 
59 anos, refaz quase diariamente o tra-jeto 
da capital até a sua cidade natal. Nes-se 
caminho, da janela do carro, vê que a 
estrada que corta o canavial não é mais 
de barro. Parte do verde é coberta pela 
poeira das construções e duplicações da 
rodovia. Agora, mais do que nunca, vários 
bichos da urbanização picaram a Zona da 
Mata. Mas essas estradas de cana-de-açú-car 
ainda abraçam as cores e o reluzir de 
uma tradição mística e sedutora, ritmada 
pelos chocalhos dos homens caboclos. 
Foi desse feitiço que Lourenço não con-seguiu 
escapar. Mesmo sem muitos recur-sos, 
ele investiu todo o dinheiro que tinha 
no maracatu. Aos poucos, em parceria 
com o produtor cultural Afonso Oliveira, 
foi criando e aprovando projetos em edi-tais 
públicos – estaduais e federais. Em 
1998, o Estrela de Ouro gravou uma das 
faixas do CD Maracatu atômico. De 
2000 a 2005, o grupo foi vice-campeão 
do Carnaval do Recife. Em 2004, o sítio 
Chã de Camará – que abriga também um 
cavalo-marinho, um boi, um grupo de co-co 
e uma ciranda – foi titulado Ponto de 
Cultura pelo Ministério da Cultura, rece-bendo 
por isso, no período de três anos, 
cerca de R$ 185 mil. Com essa verba, 
Lourenço fez a reforma do espaço, a ma-nutenção 
das roupas e dos instrumentos 
e comprou equipamentos audiovisuais. A 
internet, agora, é uma porta sempre aber-ta 
para quem vive no local. Antes de ter-minar 
essa entrevista, uma foto do encon-tro 
já estava no Facebook do maracatu. 
Lourenço não consegue esconder que 
foi arrebatado. O mesmo brilho que se 
destacava nos olhos do mestre Batista há 
60 anos ressurge na mirada do filho. “Ho-je 
eu acredito em destino”, responde o 
homem, que não sabe para quem vai dei-xar 
a tradição. No Recife, suas duas fi-lhas 
também não se interessam pelo fol-guedo. 
Uma estuda medicina; a outra, di-reito. 
Mas é ele quem diz: “Nunca se sa-be 
o que a vida prepara para a gente”. 
No sítio Chã de Camará, anexo à sede 
do Estrela de Ouro, há o Centro Nossa 
Senhora da Conceição – Pai Mário, do 
babalorixá que também é rei do brinque-do. 
O espaço abriga os rituais cuja essên-cia 
é guardada como um segredo pelos 
participantes do maracatu. A cada Car-naval, 
os brincantes passam por ritos de 
purificação espiritual, que incluem absti-nência 
de sexo e de bebida alcoólica. No 
caso do Estrela de Ouro, a cerimônia não 
é obrigatória. Só participa quem quer. 
Para tocar o folguedo, Lourenço conta 
ainda com a ajuda de dois mestres. Ne-gro 
de rugas bem desenhadas e sorriso ca-tivante, 
Zé Duda, 75 anos de vida, 65 de 
maracatu, puxa as toadas. O tímido Zé 
Luiz é o mestre dos caboclos de lança. O 
primeiro é alfabetizado só no folguedo. 
Nunca aprendeu a ler. “Estudar endoida. 
Eu lá tinha tempo? Só pensava em mara-catu.” 
Desconfiado, o segundo tem olhos 
que escapam ao interlocutor e traz uma 
peixeira presa à cintura. Com a cabeleira 
amarela, caminha com seus homens co-mo 
um guardião. Guerreiros misteriosos, 
cortam o canavial sob a proteção sagrada 
das golas reluzentes, bordadas à mão 
com lantejoulas de cores vivas. Das li-nhas 
estreitas traçadas sob a poeira, eles 
fazem um caminho de arte, tradição e fé. 
Ricardo B. Labastier/JC Imagem
“Ra-rá. Êêêê, tchá. Ra-rá. 
Tchá, tchá, tchá, tchá”. 
Dona Selma do Coco, 78 
anos, entoa essa onomatopeia em toda 
música que canta. Repete-a também, 
intercalando às suas respostas, duran-te 
a entrevista. Virou uma fórmula, 
um cacoete indispensável quando ela 
sobe ao palco ou assume a postura da 
figura pública que conquistou fama 
no Estado, no Brasil e fora daqui, gra-ças 
ao melô da rolinha fujona, sucesso 
no final dos anos 1990. Assim como 
Lia de Itamaracá, a coquista também 
foi redescoberta pela mídia nacional 
numa edição do Abril pro Rock, em 
1997, um ano antes que a amiga. A 
projeção conquistada colocou a ex-ta-pioqueira 
do Alto da Sé em pontes aé-reas 
até então inimagináveis por ela. 
Aquela noite continua bem viva nas 
lembranças da senhora cuja boca reluz 
ouro a cada sorriso desde os 15 anos. 
Ela escancara com orgulho o pivô dou-rado 
que já virou refrão de uma de 
suas músicas: “Moreninha do dente de 
ouro, parece um tesouro a boquinha de-la. 
Se eu pudesse e tivesse dinheiro, eu 
ia em Barreiros e casava com ela”. O 
show no APR foi, de certa forma, fruto 
da ligação que a cantora alimentava 
com Chico Science (1966-1997). O íco-ne 
do manguebeat gostava de beber 
da fonte do trabalho, da experiência e 
da sabedoria de Selma do Coco, co-mo 
afirma o crítico musical José Te-les, 
no livro Do frevo ao manguebeat. 
Acostumada a cantar na praieira e 
popular Festa da Lavadeira, Dona 
Selma padecia do mesmo medo que 
afligia Lia em relação aos roqueiros. 
“O único show que eu fiz em que fi-quei 
cismada de ninguém me derru-bar 
do palco foi o Abril pro Rock. Ali é 
dose, né? É um perigo para não cair do 
palco. Misturar coco com rock, Ave- 
Maria, não foi fácil, não. Eu fui porque 
sou doida mesmo. Ra-rá. Sempre pen-so 
assim: se perdi, perdi; se ganhei, ga-nhei. 
Menino, o povo gostou mais do 
meu show do que do show dos roquei-ros. 
Os roqueiros ficaram arretados 
comigo. Pegaram os panos de bunda 
e foram embora. Ra-rá. Eu dei tanta 
entrevista depois daquilo”, recorda. 
Antes desinibida e alegre, Dona Sel-ma 
tem se dobrado ao tempo e às in-tempéries 
da vida. Tornou-se uma 
mulher de humor retraído, demora 
a se soltar e traz o sorriso acompa-nhado 
por um olhar evasivo. Na casa 
em que mora com uma nora e as netas, 
passa os dias sentada em frente à televi-são: 
“Se chegar gente, eu converso. Se 
não chegar, eu não converso”. Quando 
não está se apresentando, ela rima na 
cabeça a saudade que guarda do filho 
Zezinho, que era seu braço direito, ami-go 
e produtor musical. Ele morreu em 
abril de 2010. “Nem sempre a gente 
tem o que quer. Não vou dizer que não 
sou feliz. Dependendo do meu Deus, 
eu sou feliz, e do meu coco. Só não 
sou mais feliz porque eu tinha uma 
pessoa que vivia do meu lado, era tu-do 
na minha vida, mas Deus levou.” 
Ela recebe a equipe de reporta-gem 
numa sala pequena, no térreo 
de uma casa de primeiro andar bem 
conhecida entre os moradores do 
Largo do Amparo, no sítio histórico 
de Olinda. Sarcástica e com respos-tas 
curtas no início da conversa, Do-na 
Selma atropela palavras ao nar-rar 
lembranças com uma voz cansa-da, 
marcada pelo peso da idade. Diz 
que chegou à música encaminhada 
pela família. “Meu pai e minha mãe. 
Minha avó e meu avô. Todos eles 
cantavam. Quando eu cantei o pri-meiro 
coco, tinha na base de uns 
dez anos.” Mas ainda não pensava 
na música como um ganha-pão. 
Nascida em Vitória de Santo 
Antão, Dona Selma – o sobrenome 
Ferreira da Silva ela quase nem se 
lembra de usar – veio para o Recife 
aos 10 anos e por muito tempo foi 
apenas mais uma entre os milhares 
demoradoras do bairro daMustardi-nha, 
Zona Oeste do Recife. “Eu vivia 
abandonada. Ninguém me conhecia 
na rua. Hoje todo mundo me conhe-ce. 
Tu me conheceria se eu morasse 
lá ainda?”, pergunta a coquista. 
O anonimato saiu de sua vida quando 
ela passou a vender tapioca no Alto da 
Sé, em Olinda. Foi peneirar a goma de 
mandioca e fazer a alegria dos turistas. 
“Tapioqueira, antes, só tinha na Sé. 
Agora tem em todo canto. Como o coco 
de roda. Antes só havia perto de onde ti-nha 
escravidão. Agora tem em tudo 
que é lugar. Mas não tem a mesma qua-lidade”, 
alfineta. “Aliás, tem. Não vou 
nem dizer que não tem qualidade, pra 
não dar confusão”, desconversa. Ra-rá. 
Era exatamente na Sé que a coquista 
dialogava sobre música e cultura com 
Chico Science. Na febre dos anos 1990, 
que misturava lama e caos, alfaia e gui-tarra, 
Dona Selma viu seu trabalho ser 
aproximado do pop – o mesmo proces-so 
que contagiou a ciranda de Lia de Ita-maracá. 
Nesse período, as duas se torna-ram 
grandes amigas. “Quando eu estou 
arretada, esculhambo com ela. Digo: 
‘canta aí, nêga safada’”, comenta Dona 
Selma, numa gargalhada. A mulher, 
que não tem papas na língua, começa a 
se soltar na entrevista. Trinta minutos 
depois, ela se convence de que a repor-tagem 
chegou para conversar. Mas aler-ta: 
“Não gosto de dar entrevista não. Es-tou 
gostando de dar entrevista a vocês 
porque eu gostei de vocês”. Rá-rá. 
Em 60 anos de carreira, Selma do 
Coco já gravou nove discos, um DVD, 
fez participação em trabalhos de ou-tros 
artistas e em cinco filmes per-nambucanos. 
Ela sabe todos os núme-ros 
de cor. Em casa, há uma sala só pa-ra 
guardar discos, títulos, troféus e re-cordações 
– espaço que ela e a nora 
pretendem transformar em um pe-queno 
museu. “Morre quem canta, 
mas a cultura num morre nunca.” 
A neta Polyana, aos 9 anos, olha de 
lado a avó fazendo pose para as fotos. 
A menina talvez não compreenda al-gumas 
frases tristes, ditas displicente-mente, 
entre gargalhadas, por Dona 
Selma. “Eu estou morrendo.” A mu-lher 
que já gravou disco na Alemanha, 
conheceu a Europa e fez shows no Bra-sil 
inteiro aos poucos vai preparando a 
neta mais nova para cantar. Já tem ou-tras 
netas que lhe acompanham nos 
palcos,mas Polyana agora é a sua prio-ridade. 
“Vou colocar ela para dar três 
palavras para o vídeo de vocês. Vou co-locar 
ela aqui do meu lado. Eu estou 
ensinado e vou ensinar. Porque, quan-do 
eu morrer, ela vai ficar com a mãe 
dela tomando conta do meu trabalho.” 
A metodologia que naquela casa se se-gue 
não tem mistério. É sem rodeios. 
Cantar coco é abrir a boca e cantar. 
Aprender a letra e sair entoando. A úni-ca 
exigência da matriarca é que a pessoa 
tenha energia e ritmo. “Num é todo mun-do 
que tem não”, diz Dona Selma. “Ra-rá”, 
solta Poly ao finalizar uma das músi-cas, 
no colo da avó, imitando a coquista. 
A senhora já não tem a mesma força 
que antes. Nos shows, alterna-se ao micro-fone 
com outras pessoas. A idade vai dan-do 
os seus sinais. Algumas lembranças 
começam a lhe escapar da memória. 
Saudosista, ela confronta o presente 
comumcerto ressentimento sobre o vai-vém 
da cultura pop. “As pessoas cha-mam 
para os shows quem tem fama, 
quem é bonita, quem todo mundo co-nhece. 
Se você pudesse escolher entre 
eu e aquela menina da Bahia (Ivete San-galo), 
para contratar para um show, esco-lheria 
quem? Aí é uma questão de gosto.” 
Dona Selma, que em 2011 ganhou o prê-mio 
Afro-latino como destaque de mu-lher 
negra do País – ficou em segundo lu-gar, 
depois da atriz Zezé Mota e à frente 
da cantora Margareth Menezes –, agora 
leva uma vida calma, depois de ter se de-dicado 
à família e à música. A vaidade vi-rou 
apenas obrigação de quem é famosa, 
deixou de ser um prazer. “Eu era vaido-sa. 
Agora num sou mais não. Sou velha, 
desarrumada. Estou arrumada agora pa-ra 
dar entrevista. Você pega essa matéria 
e vai botar no jornal. O povo vai me ver. 
Não posso estar rabugenta no jornal. 
Eu tenho que ajeitar o pixaim, pra ver 
se chego à metade do que era.” Ra-rá. 
Tomaz Aquino Leão, Mestre 
Galo Preto, enfrenta uma vi-da 
de adversidades e supera-ção. 
Uma confusão o levou a um pe-ríodo 
de ostracismo num momento 
decisivo para sua carreira. Em 1992, 
às vésperas das eleições, o embola-dor 
e coquista foi preso acusado de 
liderar um grupo de extermínio, em 
Peixinhos, uma das comunidades da 
periferia de Olinda. Foram dois 
anos, dois meses e seis dias na ca-deia. 
Ele sabe de cabeça. Não havia 
prova que o condenasse. Nenhuma 
testemunha sequer. Mas ficou a rai-va 
e a vergonha. Nesse período, Galo 
Preto deixou de ver e viver a eclosão 
da manguebeat, a época em que uma 
nova geração em Pernambuco exal-tou 
os mestres da cultura popular. 
Nascido em Bom Conselho, no dis-trito 
de Princesa Isabel, no Agreste, 
ele chegou ao Recife aos 12 anos. Veio 
com o irmão, o cantador Preto Limão. 
“Fomos morar no bairro de Campo 
Grande. Meu pai não vivia em casa e 
meu irmão terminou sendo um segun-do 
pai. Naquela época, Preto Limão fa-zia 
uma dupla de embolada com ou-tro 
irmão nosso, Curió, cantando nas 
praças e nosmercados do Recife.Mui-ta 
gente me confundia com eles. Mas 
eu não gostava de cantar na rua, de ro-dar 
o chapéu para pedir dinheiro”, 
lembra o artista, hoje com 78 anos. 
O jovem Tomaz, recém-chegado ao 
Recife, em1947, semainda ter sido ba-tizado 
com apelido artístico, foi ven-der 
frutas nas ruas da capital e termi-nou 
chamando a atenção do influente 
poeta Ascenso Ferreira. “Como eu 
gostava de futebol e música, meu ir-mão 
me colocou para trabalhar como 
ambulante. Disse que não queria que 
eu virasse vagabundo. Mas eu saía 
vendendo fruta fazendo rima. E passa-va 
todo dia na porta de Ascenso Fer-reira, 
até que um dia ele me chamou e 
disse que gostava da minha música. 
Ele me deu um cartão de Zil Matos, 
que tinha um programa de rádio na 
época, e fui atrás. Lá cantei minha pri-meira 
música, que eu tinha feito aos 
nove anos, chamada A pinta.” Dali pra 
frente, a vida foi de altos e baixos. 
Galo Preto resolveu seguir carreira 
solo, sem a parceria de Curió, após par-ticipar 
do programa de rádio. Partici-pou 
de caravanas culturais de uma 
emissora local. Terminou sendo enga-nado 
e voltou sem cachê. Na década de 
1970, época em que as televisões locais 
veiculavam programação musical, o ar-tista 
– àquela altura também tocando ja-zz 
– alimentou parcerias com nomes 
importantes da música brasileira, como 
Jackson do Pandeiro, Cauby Peixoto, 
Arlindo dos Oito Baixos e Luiz Gonza-ga. 
Com sua cantoria, foi criar jingles 
em repente para as campanhas políti-cas 
de Miguel Arraes. “Eu era procura-do 
por todo mundo, porque o repente 
fazia sucesso com o povo. E dizem que 
nessa arte eu sou bom”, brinca o artista. 
Décadas depois, se Galo Preto perdeu 
o bonde da história por conta de sua pri-são 
– quando tinha tudo para estar no 
elenco de artistas populares das edições 
históricas do Abril pro Rock, como Lia de 
Itamaracá e Dona Selma do Coco, em 
1997 e 1998 –, ao tentar refazer a vida, ele 
foi valente. Sem desistir da carreira, Galo 
Preto conseguiu aos poucos abrir seu espa-ço 
na atual cena musical pernambucana. 
Em 2007, a convite da Secretaria de 
Saúde de Olinda, o coquista foi inte-grar 
um grupo de músicos locais que 
participou de uma campanha publicitá-ria, 
ao lado de Beth de Oxum, Dona 
Selma, Aurinha do Coco e Zeca do Ro-lete; 
e depois foi personagem-tema do 
documentário O menestrel do coco, de 
Wilson Freire. De rima em rima foi 
limpando o seu nome, reconquistando 
a fama. Na semana passada, ele fez sho-ws, 
em São Paulo, dividindo o palco 
com o cantor pop pernambucano Otto. 
Senhor elegante, ele não dispensa a 
roupa clara. Em toda apresentação, es-tá 
sempre com terno, calça e chapéu. 
“Recentemente eu estava com um em-presário 
que começou a dizer para o 
povo que eu era de candomblé, só por-que 
me visto todo de branco. Como 
sou negro, me ligavam a um preto ve-lho. 
Mas não sou do candomblé nem 
tenho nada contra. Só não quis que 
alimentassem uma mentira”, conta. 
Hoje o mestre mora na casa da filha, 
com ela e o genro. Ele se casou cinco 
vezes, mas agora está viúvo. Galo Pre-to 
tem um herdeiro musical: o filho 
Telmo Anum, de 39 anos, que é guitar-rista 
e percussionista. O título de Patri-mônio 
Vivo, no caso de Galo Preto, foi 
mais do que um reconhecimento artís-tico, 
um incentivo ao seu trabalho. Pa-ra 
ele, foi uma resposta à sociedade.
Era mais uma noite de calouros 
no Circo Democratas e Margari-da 
Pereira de Alcântara queria 
participar do concurso. Tinha decidido 
cantar o bolero Coração materno, de Vi-cente 
Celestino, um dos seus preferi-dos. 
Ela precisava ganhar o corte de te-cido 
e o par de sapatos. Quando pisou 
no picadeiro, era evidente o seu nervo-sismo. 
De repente, uma vaia. Ninguém 
tinha pago ingresso para ver aquela me-nina 
com pouco mais de 9 anos, franzi-na, 
catadora de crustáceo, malvestida e 
descuidada fazer qualquer coisa. Da pla-teia, 
alguém gritava para ela sair e ir to-mar 
banho. “Era preconceito daquele 
povo. Pedi o microfone e disse que eu 
estava malvestida porque não tinha con-dições 
de me arrumar e que catava siri 
para que meus irmãos não precisassem 
ir pra porta deles pedir esmola.” 
O silêncio na arquibancada eviden-ciou 
a perplexidade do público. Alguém 
ensaiou bater palmas, e começaram a 
surgir novos gritos, desta vez diziam 
que a menina já tinha ganhado. Talvez a 
resposta dada já bastasse e lhe tivesse 
feito vencedora. “Eu disse que eles não 
podiam dizer que eu tinha ganhado sem 
cantar. E cantei. Todo mundo parou pra 
escutar.” É possível que a menina nem 
soubesse o que significavam aqueles tris-tes 
versos sobre a ingratidão de um fi-lho. 
Sua voz firme e seu jeito precoce au-mentaram 
o espanto de quem a assistia 
e garantiram de vez a premiação. O pa-no, 
ela dividiu com as duas irmãs e fez 
uma roupa para usar com os sapatos no 
Natal, que estava próximo. Tudo que ga-nhasse 
era lucro. Havia perdido o pai há 
pouco tempo e partilhava com a mãe as 
tarefas de casa para sustentar os quatro 
irmãos mais novos. Na escola, sequer 
terminou a quarta série. O Circo Demo-cratas 
foi embora e a menina ficou. 
Pouco tempo depois, uma nova trupe 
mambembe aparece na vida deMargari-da. 
Um macaquinho na porta de casa, 
de manhã cedo, assustou a mãe da meni-na, 
que naquela época já tinha 10 anos. 
O animal tinha fugido do circo que aca-bara 
de chegar à Vila São Miguel, no 
bairro de Afogados, comunidade onde 
ela morava. Margarida foi devolvê-lo 
ao grupo e conquistou a amizade da do-na 
do circo, que depois foi convidada 
para ser sua madrinha de crisma. A re-compensa 
da menina foi ir a todos os 
espetáculos de graça. “Logo na primei-ra 
apresentação que eu fui, a contorcio-nista 
me chamou atenção. O nome dela 
era Linda Morena. Eu olhei e disse: ‘Eu 
vou fazer aquilo que ela faz. Vou fazer 
até melhor’. E todo dia eu ia lá ver.” 
No dia em que o Circo Itaquatiara foi 
embora, a menina deixou a casa e se-guiu 
com a trupe, autobatizando-se de 
Índia Morena. O pouco dinheiro que 
ganhava nas apresentações era o sufi-ciente 
para ajudar a mãe e os irmãos. 
Índia, a mais famosa contorcionista 
do Estado e uma das artistas Patrimônio 
Vivo de Pernambuco, reside hoje em 
uma casa simples e pequena, em Muri-beca 
dos Guararapes, uma comunidade 
pobre da Região Metropolitana do Reci-fe, 
bem próxima ao lixão. As paredes ra-chadas 
chamam a atenção para o perigo 
em que vivem a artista e sua família. Ela 
mora comomarido, uma filha e umne-to. 
Enquanto aguarda o início da refor-ma 
a ser bancada pelo Governo do Es-tado, 
a mulher guarda entulhados, nas 
estantes da sala, pastas com recortes 
de jornais, troféus, cartas de autorida-des, 
prêmios, fotos e vídeos que duran-te 
os quase 60 anos de carreira for-mam 
o acervo de uma vida dedicada à 
arte circense. Na véspera desta entre-vista, 
ela tinha ganhado o título de Mu-lher 
Evidência – concedido pela Câma-raMunicipal 
do Jaboatão dos Guarara-pes. 
Um dia depois, foi titulada cidadã 
jaboatonense. “Parece ser um dos 
maiores reconhecimentos da minha vi-da. 
O que eu não tive na juventude es-tou 
recebendo agora na velhice.” 
Em dezembro de 2011, um incêndio 
destruiu o trailer do seu Gran Londres 
Circo. Um dos artistas da trupe acen-deu 
uma vela e terminou dormindo. 
“Conseguimos salvar a lona por sorte, 
porque estava longe. Agora estou sem 
me apresentar.” Em quase seis décadas, 
é a primeira vez que ela fica longe do pi-cadeiro. 
Índia passou por 50 compa-nhias, 
integrou o Garcia e o New Ameri-can 
Circus, que a levaram à Argentina, 
ao Paraguai e à Bolívia. Além de contor-cionismo, 
a artista já se apresentou no 
trapézio voador, na escada giratória e 
no arame vertical. Aos 69 anos, ela é 
mestre de cerimônias; mas decidiu tam-bém 
se aventurar na corda bamba so-cial 
da defesa da classe mambembe. 
Com uma vida marcada por tristezas 
– seu ex-marido, pai de dois dos seus fi-lhos, 
que morreram ainda bebês, a traiu 
com uma parceira de circo –, Índia foi 
parar no hospital. Um problema de pul-mão, 
há cerca de 30 anos, deixou a artis-ta 
internada. “Eu passei dois meses hos-pitalizada. 
Aí, como eu fiz amizade com 
o pessoal, o médico me deixou ficar 
mais um mês, para eu me recuperar me-lhor. 
Foi quando conheci Maviael, tam-bém 
internado por causa do pulmão”, 
conta. Maviael é o seu atual marido. 
Hoje os dois compartilham o amor, a 
responsabilidade de cuidar da família e 
do circo. O casal pretende inaugurar 
um circo-escola e também está à frente 
da Associação dos Proprietários e Artis-tas 
Circenses do Estado de Pernambu-co. 
O trabalho é duro, requer sacrifícios, 
recursos e valorização. “Eu tenho luta-do 
é por uma classe de minorias. Hoje 
eu tenho lutado por alcoólatras, droga-dos, 
esquecidos e abandonados. Ser ar-tistas 
de circo não é fácil”, desabafa.
Eles não têm dia de descanso. Trabalho 
e vida, cultura e arte, beleza e poesia: 
uma coisa só. São os Patrimônios Vivos 
de Pernambuco. Homens, mulheres e 
agremiações que transformam o 
território pernambucano num lugar 
melhor e mais bonito. Moldam nossa 
identidade, nos brindam com a tradição 
e encantam com o novo. O JC lhes dedica 
hoje este segundo caderno especial. 
kwww.jconline.com.br/pernambucovivo
Eles são parte da história cultural do 
Estado. Não porque produziram 
uma peça memorável – um livro, 
uma tela, uma sinfonia –, mas porque cria-ram 
várias, inúmeras, incontáveis obras de 
arte. Suas biografias podem ser narradas 
em quantidade e qualidade, num painel tão 
rico e diversificado quanto suas trajetórias. 
Neste segundo e último caderno especial 
Pernambuco Vivo – que faz parte da série 
iniciada semana passada –, passeiam mes-tres 
no Carnaval mais colorido do mundo. 
Reverenciamos O Homem da Meia-Noite, 
descemos ladeiras ao som dos frevos rasga-dos 
dos maestros Duda e Nunes e nos emo-cionamos 
ao ritmo hipnotizante dos cabocli-nhos. 
Também trilhamos estradas para en-trar 
nos salões do forró sertanejo, conhece-mos 
o vigor das bandas filarmônicas da Zo-na 
da Mata e ainda nos permitimos rever 
grandes ceramistas. Neste caderno, por fim, 
nos despedimos dos Patrimônios que já se 
foram. 
Com delicados enredos de vida, os ar-tistas 
abriram suas casas e, sem receio, 
descreveram sonhos, amores, canções; e 
confidenciaram medos. Mesmo aqueles 
que esqueceram alguma parte da histó-ria 
pelo caminho, todos ainda acreditam 
num final feliz. Salvaguardados por um 
título que os torna representantes ofi-ciais 
da arte pernambucana, mestres do 
barro, músicos, cineasta e carnavalescos 
recontam narrativas tão suas, ao mesmo 
tempo tão nossas. 
Além de Mateus Araújo, este segundo ca-derno 
tem textos de José Teles, Bruno Al-bertim 
e Diogo Guedes. O projeto Pernam-buco 
Vivo começou a ser produzido há 18 
meses, mas não se encerra aqui. No próxi-mo 
mês, lançamos uma exposição com fo-tografias 
de Heudes Régis, Ricardo Labas-tier 
e Priscilla Buhr, e um e-book criado 
por Ícaro Bione e Fábio Monteiro, com edi-ção 
de vídeos de Caíque Mulatinho. 
Fotos desta página: Igo Bione/JC Imagem 
Às 18h do Sábado de Carnaval, pon-tualmente, 
começa uma festa que 
quase ninguém conhece. Uma ce-lebração 
em surdina, trancada a sete cha-ves. 
Inebriado pela cachaça, um homem 
cumpre a tarefa mais misteriosa de Olinda: 
vestir o Homem da Meia-Noite. Talvez ha-ja 
música ou oração como trilha sonora. Al-guns 
objetos – que não podem ser revela-dos 
de jeito nenhum – são jogados no chão. 
Representam oferendas, pedidos de prote-ção, 
num ritual para abrir caminhos. Há 
apenas uma mulher entre vários homens. 
E só uma criança entre vários adultos. “Se-riam 
para Iemanjá os pedidos?”. “Digamos 
que sim. Digamos que o calunga tem força 
própria, mas que Iemanjá o protege”, res-ponde 
Luiz Adolpho, presidente do Clube 
de Alegoria de Crítica O Homem da Meia- 
Noite. A agremiação carnavalesca, uma das 
mais famosas de Pernambuco, ganhou fa-ma 
no Brasil e no mundo graças ao caris-ma 
do seu gigante.OHomemda Meia-Noi-te 
é Patrimônio Vivo de Pernambuco. 
O bloco surgiu em Olinda em 7 de janeiro 
de 1931, de uma dissidência da troça Cariri – 
que abria a folia da cidade nos primeiros 
raios de Sol do domingo de Momo, por vol-ta 
das 5h, desde 1921. Um encanador, um 
marceneiro, um pintor de parede, um sapa-teiro 
e um encadernador de livros rompe-ram 
com a agremiação e montaram seu pró-prio 
brinquedo. Saíram de forma tímida à 
meia-noite do sábado. Como estandarte, 
apenas um relógio e uma chave gigantes. 
“Aí ficou uma rixa entre a gente e o Cariri, 
para saber quem abriria o Carnaval de Olin-da”, 
lembra Luiz Adolpho, 49 anos, há 11 à 
frente do grupo – foi eleito presidente em 
2002, após a morte do pai, Tárcio Botelho, 
que por 11 anos ditou as regras do bloco. 
Só em 1932 a cidade foi apresentada à 
personificação do galanteador que dá no-me 
à agremiação, o Homem da Meia-Noi-te. 
Luiz explica que a peça é um calunga e 
não recomenda que o tratem por “boneco”. 
Ele já nasceu gigante, com 3,5 metros e 50 
kg, no dia de Iemanjá, 2 de fevereiro. Saiu à 
Rua do Amparo pela primeira vez embala-do 
por uma orquestra de frevo, acompa-nhado 
por, naquele momento, dezenas de 
foliões. Inspirado na curiosa figura de um 
boêmio que circulava pelas ruas olinden-ses 
às madrugadas e pulava as janelas das 
donzelas para seduzi-las, o Homem da 
Meia-Noite estampa um sorriso largo, com 
o brilho de um dente de ouro, embelezado 
por um elegante fraque e uma gravata bor-boleta, 
além de uma inseparável cartola. 
“O Homem foi feito por seu Benedito 
Bernardino da Silva, um dos fundadores do 
bloco, e outros dois carpinteiros. Benedito 
era músico também e compôs o hino. Algu-mas 
pessoas acreditam que a saída do calun-ga 
no dia de Iemanjá à meia-noite,umhorá-rio 
místico, foi planejada. Outros dizem que 
foi coincidência”, diz o presidente. Defen-sor 
da tese de que O homem da Meia-Noite 
nasceu propositalmente naquele dia e hora, 
Luiz Adolpho leva adiante uma trajetória 
de misticismo. “Há muitas coincidências 
ao longo desses anos na vida de quem faz 
parte dessa história. Uma delas é que a se-gunda 
sede do clube ficava na Rua do Am-paro, 
número 301, onde hoje eu moro. 
Comprei essa casa sem saber disso. Ou se-ja, 
OHomem saía do quintal da minha ca-sa”, 
conta Luiz, num tom de voz tão enig-mático 
quanto os fatos que ele cataloga. 
Nesses 82 anos da agremiação, O Ho-memda 
Meia-Noite se tornou figura sincré-tica 
em meio a uma festa profana. A multi-dão 
que se aglomera à porta da pequena ca-sa 
de fachada estreita e colorida em verde e 
branco, no Sábado de Zé Pereira, aguarda a 
pontualidade do senhor misterioso. Essa é 
quarta sede do grupo, a definitiva.Empleno 
pátio da Igreja de Nossa Senhora do Rosá-rio 
dos Pretos, na Cidade Alta de Olinda, no 
bairro do Bonsucesso, a saída de O Homem 
da Meia-Noite é sempre um momento úni-co, 
que vai além do frevo e dos clarins, e ter-mina 
entrando em um patamar religioso. 
Quem está do lado de fora nem sequer 
imagina o que existe do lado de dentro da se-de. 
Um ritual é preparado, bem antes, para 
a saída do calunga. Desde o momento em 
que é vestido até os minutos que antecedem 
a meia-noite, o gigante é envolvido em um 
clima de adoração. “Para se ter uma noção, 
eu só toco no Homem quando ele já está to-talmente 
vestido. Porque antes disso só toca 
nele quem bebe cachaça. Eu não bebo”, ex-plica 
o presidente, que se nega a entrar em 
detalhes sobre a cerimônia de preparação 
do desfile. “Quando ele sai por essa porta, 
há quem trema, há quem chore, há quem fi-que 
encantado. É sempre muita emoção.” 
Luiz Adolpho nunca se imaginou presi-dente 
d’O Homem da Meia-Noite. Só de-cidiu 
concorrer às eleições para o posto 
quando seu pai morreu. Quis honrar o no-mede 
Tárcio, já que uma outra chapa fala-va 
mal dele. Concorrendo com o bone-queiro 
Sílvio Botelho, Luiz ganhou. Des-de 
2002, ele se divide entre a sala de aula 
e as responsabilidades com o bloco. Pro-fessor 
de educação física em quatro esco-las 
da cidade, o carnavalesco lançou uma 
administração com caráter bem político. 
“Nossa gestão foi responsável por abrir 
as portas de O Homem da Meia-Noite pa-ra 
além da comunidade. Demos nova di-mensão 
a ele. Fizemos parcerias comjorna-listas 
e pessoas públicas; cuidamos da es-trutura 
da sede e da própria imagem do ca-lunga.” 
No ano passado, após a morte do al-faiate 
oficial d’O Homem, Seu Brasil, a figu-rinista 
pernambucana Xuruca Pacheco foi 
convidada para assumir o posto, que a par-tir 
de então será renovado a cada ano (o no-me 
de 2014 é guardado em segredo, bem 
como o tema que o bloco vai abordar). 
Em outubro de 2002, quatro meses de-pois 
de tomar posse, Luiz Adolpho criou o 
projeto Gigante Cidadão, que oferecia aulas 
de dança, música e teatro para 70 crianças e 
jovens das comunidades próximas ao Largo 
do Amparo e do Bonsucesso, em Olinda. A 
ação, que chegou a ser ponto de cultura, 
acabou em 2009, mas o presidente já pensa 
em sua retomada, assim como também pla-neja 
a criação de uma escola de frevo, a pri-meira 
da cidade para formar tanto músicos 
quanto passistas. Segundo Luiz, o caráter 
social pesou positivamente na hora da sele-ção 
do bloco como Patrimônio Vivo de Per-nambuco 
em 2006. “Não foram só a histó-ria 
e a tradição.O lado social foi decisivo pa-ra 
nos transformar em patrimônio”, afirma. 
Graças à bolsa vitalícia, o clube teve a 
sede reformada, onde ficam expostos 
quadros, fotografias e uma réplica do gi-gante 
feita pelo conhecidíssimo pai dos 
bonecos olindenses, Sílvio Botelho. Além 
disso, um pequeno museu, no primeiro 
andar, reúne troféus, reportagens e ví-deos 
sobre o bloco. O espaço fica aberto à 
visitação de quinta a domingo, a partir de 
novembro até o Carnaval. “Não ficamos 
abertos o ano inteiro por falta de seguran-ça 
pública e de uma estrutura de turismo 
da Cidade Alta, o que é uma pena.” 
O Homem da Meia-Noite virou também 
números e contabilidade. Figura tarimba-da 
e recorrente quando o assunto é repre-sentar 
Olinda ou o Carnaval pernambuca-no, 
o calunga é o ícone mais lembrado, jun-to 
com a sombrinha de frevo. Essa deman-da 
também pode custar caro. A figura do 
galanteador foi patenteada pelo clube. “De-pendendo 
de como ele está sendo usado, a 
gente cobra direitos de imagem. Porque 
havia umas empresas de publicidade que 
faziam campanha tendo a figura do calun-ga 
em destaque sem pagar nada. Agora es-se 
dinheiro é também mais uma forma de 
a gente manter o bloco”, explica Luiz.
Uma felicidade espontânea ilu-mina 
o rosto de dona Juracy 
Simões a cada quinze dias. 
Numa cadeira no alpendre da casa on-de 
nasceu e vive, no coração da Bom-ba 
do Hemetério, observa as evolu-ções 
das muitas crianças, jovens e al-guns 
curiosos de fora da comunidade 
no treino do caboclinho Canindé. 
“Nasci em Canindé, cresci com Canin-dé. 
Canindé é minha vida, minha he-rança”, 
diz ela, o sorriso involuntário 
aumentado no rosto a cada vez que 
pronuncia o nome da agremiação. 
Com 116 anos de história, o Canin-dé 
é o mais antigo caboclinho de Per-nambuco 
em atividade – e, portanto, 
do mundo. Na casa, vida e entidade 
se misturam. Num quarto ao lado da 
cozinha da casa ampla, a imagem de 
papel machê e fibra de vidro repou-sa 
a maior parte do ano em meio às 
fantasias e alegorias. Só sai para os 
desfiles ou, de quando em quando, 
para os rituais espirituais de home-nagem 
e agradecimento. 
A escultura, afinal, simboliza a enti-dade 
transcendente de um caboclo 
consagrado pela jurema sagrada, uma 
manifestação religiosa tipicamente 
brasileira que funde práticas do can-domblé 
africano ao kardecismo e ao 
xamanismo indígena – para alguns, a 
mais antiga religião do Brasil. “Canin-dé 
tem força e nos protege”, diz dona 
Juracy, também zeladora espiritual 
da agremiação. Brincadeira e religiosi-dade 
unidas, os caboclos mais respei-tosos 
costumam frequentar os terrei-ros 
de Jurema para saudar e honrar a 
divindade tratada como Rei Canindé. 
Durante os ensaios, o som dos cul-tos 
evangélicos de domingo na co-munidade 
são abafados pela música 
hipnótica, mântrica e harmônica do 
caboclinho. A gaita conferindo melo-dia 
à marcação do tarol e do tam-bém 
percussivo caracaxá. São eles 
que conduzem os passos do cortejo 
relativamente simples, vestido de 
penas em alusão à ascendência indí-gena: 
porta-bandeira, caciques, pu-xantes, 
batedores de flechas, ta-puias, 
curumins, rei e rainha. 
Segundo uma apostila que o pró-prio 
grupo elaborou para repassar aos 
membros sua história centenária, Ca-nindé 
foi fundado pelos estivadores 
Elesbão e Eduardo, na Rua das Crian-ças, 
não na Bomba, mas em Afogados, 
no distante março de 1897. No princí-pio, 
era formado unicamente por 
crianças. Adolescente do grupo, Ma-noel 
Rufino, antigo rei de outro cabo-clinho, 
recebeu dos fundadores a mis-são 
de assumir e manter a tribo. 
Além de organizar o grupo, pro-moveu, 
dentre outras inovações, a 
presença de adultos no cortejo. Em 
princípios do século passado, Rufi-no 
se mudou com a Tribo Canindé 
para a Bomba do Hemetério. 
Mas nem tudo era harmonia. Como 
estivesse desrespeitando ou negligen-ciando 
princípios sagrados do cabocli-nho, 
Rufino começou a receber críti-cas 
sucessivas até sua expulsão, por 
parte de outros dirigentes, na década 
de 1950. Os principais descontentes 
com a atuação de Rufino eram os pró-prios 
irmãos, Severino e Miguel Batis-ta 
da Silva. Expulso, Rufino partici-pou 
de várias agremiações, sem nun-ca 
se fixar em uma delas. Virou o que 
se chama de “caboclo corre-campo”. 
Severino Batista da Silva, o mestre 
Bibiano, assumiu a direção. Ele é o 
pai de dona Juracy, a menina que 
veio ao mundo no meio da cultura do 
caboclinho em 1945. Com o acidente 
vascular cerebral que acometeu seu 
pai em 1984, a herdeira assumiu a 
agremiação. “Foi muito difícil, mas Ca-nindé 
mostrou sua força para seguir”, 
diz ela. Mestre Bibiano passou dez 
anos como presidente de honra de Ca-nindé 
até 1994, ano de sua morte. 
“Juracy é a primeira mulher a diri-gir 
um caboclinho em Pernambuco 
e, portanto, no Brasil”, diz o amigo, 
professor de música e gaiteiro da Tri-bo 
Canindé, Washington Guedes. Ele 
e a sobrinha Nana são os parceiros di-retos 
e constantes de dona Juracy na 
condução da agremiação. “São os her-deiros 
de Canindé”, aponta a líder. 
Dona Juracy não teve filhos. 
Comela, Canindé, organizado, pro-fissionalizado, 
passou a acumular tí-tulos 
até não mais poder. Foi o início 
do tempo também de muitas viagens 
ao exterior e da consagração de Ca-nindé 
como hors concours entre as 
agremiações tradicionais do Carna-val 
do Recife. Embora tenha sido, 
em 1935, um dos fundadores da Fede-ração 
Carnavalesca de Pernambuco, 
Canindé já não desfila mais em bus-ca 
de troféus. Ao longo da trajetória, 
acumulou nove títulos consecutivos 
do Carnaval de Pernambuco. 
“Canindé já cumpriu sua missão, 
não pode competir mais. Já fez seu 
papel na passarela”, diz dona Juracy. 
“Não existe como competir com um 
caboclinho como Canindé”, diz ela, 
enquanto prova uma fatia da melan-cia 
na bandeja que será servida aos 
brincantes assim que terminem de 
treinar as manobras e passos simboli-zando 
movimentos de guerra, aproxi-mação 
e recuo, entre tribos rivais. Ca-boclinho 
é dança guerreira. 
(Bruno Albertim) 
Há nove anos, quando visitava 
o Recife, a bailarina alemã 
Pina Bausch se encantou pe-lo 
compasso apressado e marcado pe-los 
pés dos caboclos da tribo Sete Fle-xas. 
“Ela disse que a gente foi o único 
balé descalço de que ela gostou”, lem-bra 
o mestre José Alfaiate, 89 anos, 
com um sorriso de canto a canto no 
rosto. O senhor de voz cansada e jeito 
calmo criou há 45 anos uma das mais 
importantes agremiações carnavales-cas 
do Recife, que mantém até hoje 
numa estreita viela no bairro de Água 
Fria, na Zona Norte, uma das mais 
mestiças comunidades da cidade. 
Seu José começou a brincar cabocli-nho 
muito cedo, aos 10 anos. Apaixona-do 
pelas cores e pelos sons das tribos 
dançantes, fitava os desfiles dos Carijós 
e Canindés. “Eu era fã de Carijós”, lem-bra. 
Criado só pela mãe porque o pai 
morreu quando ele tinha 2 anos, José Al-faiate 
passava o ano se divertindo nos 
ensaios das agremiações. Chegou até a 
entrar para o clube Tabajara, mas não 
saía no Carnaval porque não tinha di-nheiro 
para comprar a fantasia. “Naque-la 
época, era cada um por si, todo mun-do 
que comprasse suas roupas. Como 
eu não tinha condições, não desfilava.” 
Ao som dos atabaques, preacas (ar-cos 
e flechas), tarol e caracaxás, o Se-te 
Flexas desfila pelas ruas do Esta-do 
puxado pelas loas (cânticos), colo-rido 
com lantejoulas, penas e pena-chos 
verdes e brancos. A jurema – 
uma mistura de cachaça, vinho, 
champanhe, folhas de alfavaca e mel 
– limpa o corpo dos brincantes en-quanto 
a fumaça do cachimbo do pa-jé 
abre os caminhos e protege o gru-po. 
Os cortejos são formados por ca-ciques, 
curandeiros, guias, curumins 
e caboclos. Nas apresentações eles 
executam coreografias temáticas: há 
as danças do cipó, da rede, da caça e 
do casamento de uma tribo com outra. 
Paulinho Sete, filho de José Alfaia-te, 
coordena tudo. Sempre ao lado do 
pai, o rapaz é quem vai se preparando 
para no futuro assumir o caboclinho. 
Criado dentro da agremiação, ele en-tende 
e conhece todos os passos e rit-mos 
do folguedo. Foi Paulinho que 
dançou para Pina Bausch e ensinou à 
bailarina as coreografias dos caboclos. 
Em 2005, Pina o convidou para dan-çar 
em seu balé, na França. O Sete Fle-xas 
é uma das bases de pesquisa do 
dançarino e músico Antônio Carlos 
Nóbrega, que também convidou Pauli-nho, 
na época aos 14 anos, para dar aulas 
no Teatro Brincante, a escola de artes cê-nicas 
do multiartista em São Paulo. 
Até conquistar esse reconhecimento 
entre bailarinos e se tornar Patrimônio 
Vivo de Pernambuco, a agremiação en-frentou 
uma longa trajetória, que come-ça 
em 1968. Quando tinha pouco mais 
de 40 anos de idade, o alfaiate foi ten-tar 
uma vida melhor em Maceió, Ala-goas. 
Por lá, numa visita a um centro 
de umbanda, fez um pedido ao caboclo 
Sete Flexas e foi prontamente atendi-do. 
Para agradecer à entidade espiri-tual, 
José criou a tribo e deu-lhe o no-me 
do caboclo. “No ano seguinte botei 
o brinquedo na rua, lá em Maceió. Foi 
tudo muito simples, as roupas eram ca-misas 
de meia e tênis. Ainda assim, ga-nhamos 
o prêmio de estandarte mais 
bonito. Em 1970, voltei para o Recife e 
registrei o Sete Flexas. Eu trabalhava 
para o caboclinho dos outros e nunca 
tinha direito a nada. O meu, lutei, pe-di 
muita comissão (dinheiro) no meio 
do mundo – naquele tempo nem o go-verno 
nem a prefeitura ajudavam. 
Saía batendo nas portas pedindo.” 
Assim como o candomblé está para 
o maracatu, a umbanda está para o ca-boclinho, 
que os brincantes conside-ram 
uma fonte de energia e proteção. 
Fiel, José Alfaiate conta que, já moran-do 
na capital pernambucana, teve um 
sonho no qual via médiuns sentados 
em tendas, incorporando espíritos. 
“Eu me acordei manifestado, tinha bai-xado 
o Sete Flexas”, afirma. “Conheço 
muito ele hoje. Sempre aparece para 
mim. É alto, tem cabeça comprida, ros-to 
afilado, com expressão de um índio. 
Ele é um caboclo sozinho, não tem 
uma tribo. É um caboclo mestiço.” 
A cada Carnaval, uma semana antes 
das festas, José faz oferendas ao cabo-clo 
protetor. Leva para mata mel e fru-tas, 
a fim de pedir proteção. Em 45 
anos de existência, a agremiação só 
passou por uma situação de conflito. 
“Eu tive num terreiro nagô e, por sim e 
por não, mandei botar o jogo. A mu-lher 
disse que Sete Flexas queria uma 
obrigação: uma lebre na mata. Com-prei 
uma, fui com a mãe de santo cor-tar 
o bicho na mata e fiz um pedido. Is-so 
foi para limpar a frente do clube no 
Carnaval. Mas no dia do desfile, quan-do 
a gente saiu na rua, veio outro blo-co, 
e foi uma briga, uma confusão enor-me. 
Tinha garoto pequeno manifesta-do 
com Exu. Pense”, recorda o alfaiate. 
“Naquele dia a gente estava indo para 
o Cabo, depois seguia para a passarela 
de desfile na Avenida Dantas Barreto, 
no Recife. Tinha uma criança manifes-tada 
que dizia que eu ia morrer se fos-se 
para a passarela. Quando cheguei ao 
Cabo, tive que comprar vela e passar 
no meu corpo. Nunca peço nada para 
derrubar ninguém, principalmente 
meus amigos que têm clube. Minha de-voção 
é pedindo paz”, afirma José.
Ofrevo, para o maestro Duda, 
não é um simples gênero mu-sical 
– ou um patrimônio da 
humanidade, como o próprio músico 
é do Estado de Pernambuco. O gênero 
sempre esteve na trajetória e no coti-diano 
do múltiplo instrumentista 
mais do que como acordes, partituras 
e arranjos. Duda é capaz de se magoar 
com o frevo, demonstrar seu amor 
por ele, temer o futuro, dar conselhos 
para o presente. São duas personalida-des 
fortes, talvez, em uma relação de 
amor incondicional e mágoa reticen-te. 
Aos 78 anos, o maestro deve seu 
prestígio em Pernambuco ao frevo, 
mas a alegria do título traz também o 
ressentimento como pouco reconheci-mento 
das suas outras composições. 
Porque, além de mestre do frevo, José 
Ursicino da Silva, nome de cartório de 
Duda, é um maestro múltiplo, que pas-seia, 
como todo bom mestre, do erudito 
ao popular. A música faz parte do seu 
corpo, como se corresse no seu sangue. 
Mais do que contagiado pelo vírus da 
música, Duda acredita que já nasceu 
com ele; estava fadado aos instrumentos, 
notas, partituras, suítes, arranjos e, claro, 
suor. “Quando criança, aprendi a tocar 
em uma banda, a mesma em que meu 
pai tocava, a mesma em que meu avô to-cava. 
Não tinha internet, porque hoje to-do 
mundo nem sai dela. Naquele tempo 
não tinha internet, não tinha televisão, 
música era o que eu tinha pra fazer. Eu 
não tinha outra opção, não”, aponta. 
Diz logo que a sua história, que come-ça 
em Goiana, pode ser facilmente en-contrada 
na internet. E pode mesmo, 
nas mais diversas formas, de enciclopé-dias 
de música até duas dissertações de 
mestrado. “Mas, se você quiser, conto no-vamente.” 
Pernambucano e paraibano 
ao mesmo tempo, Duda se considera um 
“meeiro”, por ter nascido a 62 km de Re-cife, 
perto do limite com a Paraíba. O co-meço 
na música, seguindo os passos pa-ternos, 
foi na banda Saboeira, a grande 
rival do grupo Curica. Ali, aos oito anos, 
conheceu o saxofone, seu companheiro 
de décadas que lhe introduziria ao fre-vo, 
à partitura e a todo o universo musi-cal. 
Dois anos depois, aos 10, já mostra-va 
a sua criatividade precoce: depois de 
ver um filme com o mesmo nome no ci-nema, 
compôs Furacão, o seu primeiro 
frevo, com “um arranjo simples”. 
A partir dali, foram mais de 500 dis-cos 
gravados. Veio para o Recife em 
1950 tocar na lendária Jazz Acadêmica, 
fundada por Capiba. Sua trajetória se 
confunde com o frevo, mas ultrapassa 
em muito o gênero. A Suíte nordestina, 
por exemplo, já foi executada por or-questras 
americanas, japonesas e ale-mãs 
– “e todas as bandas brasileiras”. 
“As orquestras sinfônicas do mundo to-do 
e as bandas sinfônicas e filarmônicas 
do Brasil inteiro tocam músicas mi-nhas. 
Tem frevo no meio. Mas tem 
baião, tem xote, tem maracatu, tudo 
que é música nordestina tem”, conta. 
“O maestro Júlio Medalha disse em 
uma entrevista que, se eu tivesse nasci-do 
nos Estados Unidos, eu seria um 
Quincy Jones”, revela, com orgulho. 
Nas composições eruditas, quase 
sempre arranja um modo de ressaltar 
sua origem, carregando-as do popular. 
Só que sua capacidade de arranjador 
não para aí. Vai de hinos de colégio 
(“Vez ou outra paro um estudante do 
Colégio Bandeira, na frente de casa, di-go 
‘venha cá’ e peço pra ele cantar o hi-no, 
só para brincar. Depois digo que eu 
compus”) até arranjos para CDs de 
igrejas, de suítes a frevos de rua. “Músi-ca 
para mim tem que ser boa. Pode ser 
erudita, popular, sacra, evangélica.” 
Ao explicar uma música, Duda para o 
que estiver dizendo e começa a cantaro-lar. 
Acompanha a voz com a mão, como 
se regesse a si mesmo. A melodia é um 
idioma à parte para o maestro, uma lin-guagem 
afetiva, em que ele é capaz de 
contar a história do Brasil, homenagear 
um filho ou um amigo, representar uma 
região, contar suas dores ou alegrias. 
A música é essa linguagem particular 
para Duda; o frevo, a sua primeira e mais 
dúbia paixão. O ritmo é parte da sua vi-da. 
Compôs um para cada um de seus fi-lhos. 
Um dos mais famosos é em home-nagem 
àquele que seguiu seus passos na 
música, Nino Pernambuquinho, hoje pro-fessor 
do Conservatório Pernambucano. 
O problema é que, como o frevo quase 
não é lembrado fora do período carnava-lesco, 
o maestro se ressente da falta de 
trabalho. “Só se lembram de mim no 
Carnaval, durante três dias. E o resto do 
ano?”, diz. “Para tocar aqui em Pernam-buco, 
tenho que enfatizar mais o frevo, 
o resto da minha obra é esquecida. Afi-nal, 
santo de casa não faz milagre.” 
Nesse vaivém sentimental, em de-terminado 
período da vida deixou de 
compor frevos. Até nas suítes com rit-mos 
populares, escolhia o maracatu e 
a ciranda. É a mágoa que continua vi-va. 
Duda, no entanto, não consegue es-conder 
por muito tempo a relação ín-tima 
com o mais pernambucano dos 
ritmos: se preocupa com seu futuro 
como se ele fosse um filho que vai se-guir 
aqui quando o maestro se for. 
Outro desapontamento é não ser cha-mado 
para mais atividades. O título de 
Patrimônio é um orgulho, mas ele não 
quer ser entronizado em um título: 
quer continuar tocando o tanto quanto 
possível. “Já que eu estou vivo, sou pa-trimônio 
e estou me locomovendo, me 
usem! Estou pronto para trabalhar, eu 
preciso trabalhar”, avisa. “Apesar de es-tar 
com 78 anos de idade, eu estou vi-vo”, 
brinca. Seu sonho é poder não só 
tocar, mas ensinar seu conhecimento 
sobre o frevo para alunos, até para co-nectá- 
los com a essência do ritmo. 
“Estão descaracterizando o frevo. A 
juventude está pensando que o que é fei-to 
hoje é o frevo de verdade. É preciso 
que se conheça o frevo, não se pode co-locar 
ele numa vitrine, tombar, como 
uma igreja, um museu”, alerta. O proble-ma, 
para ele, não é a modernização do 
ritmo, mas sim ver o frevo ser valoriza-do 
cada vez mais no palco e não na rua. 
“Por mais moderno que um frevo seja, é 
a orquestra na rua que toca ele como 
ele é. Não tem solista, não, é só a orques-tra 
tocando frevo”, ensina, lamentando 
que, em 2012, entre os três primeiros lu-gares 
do concurso municipal, nenhuma 
canção era de rua – todas seguiam ar-ranjos 
que só serviriam para shows. “O 
frevo é contagiante, o frevo é para balan-çar 
o povo, não é formal. Ficar sentado 
ouvindo frevo como num velório? O fre-vo 
não foi feito para isso”, sentencia. 
(Diogo Guedes) 
Em 2003 o maestro Nunes, com 
a autoridade dos seus então 72 
anos, lançou dois álbuns de fre-vos, 
um de rua, outro canção. Ambos 
com composições inéditas. Algo raro, 
numa época em que o ritmo andava 
por baixo, vivendo de regravações. 
Ele repetiria o feito cinco anos depois, 
quando completou seis décadas dedi-cadas 
não apenas ao gênero, mas aos 
diversos ritmos pernambucanos. 
Obviamente ele é mais conhecido 
pelos frevos instrumentais que com-pôs, 
alguns quase de domínio públi-co, 
como é o caso de Cabelo de fogo, 
que divide com Vassourinhas (de Joa-na 
Batista e Matias da Rocha) o títu-lo 
de marcha-frevo mais executada 
nas ruas do Estado durante o Carna-val. 
É uma melodia que todo 
conterrâneo conhece de cor, embora 
boa parte não saiba o nome do autor. 
Nascido em Vicência em 26 de ju-nho 
de 1931, Patrimônio Vivo de Per-nambuco 
desde 2009, José Nunes 
de Souza tem uma trajetória artísti-ca 
muito parecida com a de outros 
grandes nomes do frevo, como Levi-no 
Ferreira, Capiba, José Menezes. 
Começou a tocar ainda de calças cur-tas, 
passou por bandas de música do 
interior e veio desaguar no mar. 
No Recife passou por diversas 
agremiações musicais, como Banda 
União Operária, Banda Manoel Óleo, 
União Operária da Macaxeira e Banda 
do Liceu de Artes e Ofícios, onde fez 
curso formal de música. Também to-cou 
na banda do Cassino Americano, 
no Pina, e foi funcionário da Banda da 
Cidade do Recife. Sua ligação com o 
Partido Comunista do Brasil o levou a 
trabalhar não apenas com as citadas or-questras 
operárias, como a ser um dos 
mais atuantes músicos do Movimento 
de Cultura Popular, o MCP, criado no 
primeiro governo Miguel Arraes. 
Militância que não justifica, mas 
explica um pouco o ostracismo pelo 
qual o maestro Nunes passou ao lon-go 
dos anos. Ele tocou frevo na As-sembleia 
Legislativa, na posse de Mi-guel 
Arraes como governador em 
1960, como também esteve no palá-cio 
do Campo das Princesas no dia 
1º de abril de 1964, quando o Exérci-to 
ocupou o local e prendeu o gover-nador. 
Ele costumava contar que se-guiu 
em passeata até o palácio para 
se solidarizar com o governo eleito 
pelo povo. No caminho, os manifes-tantes 
esbarraram nas forças milita-res 
que, embora o grupo que protes-tava 
estivesse desarmado, dispara-ram 
os mosquetões contra aqueles 
que faziam resistência ao golpe. No 
extinto programa do apresentador 
Roger de Renor na TV Universitá-ria, 
Nunes contou que correu da 
Praça da República, onde fica o Palá-cio 
do governo, até a Praça do En-troncamento. 
Quando chegou em 
casa, criou logo um frevo. Depois 
passou alguns meses escondido no 
campo para não ser morto. 
Além de ter trabalhado em vários 
projetos do MCP, que empregava a 
cultura popular para politizar, alfabeti-zar 
e, claro, divertir, Nunes militava 
no PCB a ponto de dar uma de gazetei-ro 
vendendo o jornal Novos Rumos, ór-gão 
do partido que funcionou de 1959 
a 1964 e dava destaque aos aconteci-mentos 
em Pernambuco. Essa atuação 
o levou a ser demitido da banda muni-cipal 
e amargar o isolamento de ser 
oposição, num tempo em que muita 
gente fazia questão de ser situação. 
Numa curta entrevista disponível 
no YouTube, Nunes afirma que nun-ca 
compôs pensando em dinheiro. 
Atendia o apelo da música, que corre 
no seu sangue desde que nasceu: 
“Aceito a música como se fosse uma 
mulher que eu amasse e, ao mesmo 
tempo, ela fosse ingrata para mim”. 
Talvez ingrata,mas nempor isso dei-xou 
de ser fonte de inspiração. Uma 
fontemais que generosa, que lhe ren-deu 
cerca de três mil composições. 
No citado álbum 60 anos de frevo, Nu-nes, 
a exemplo do fez Lamartine Ba-bo, 
homenageia diversas agremiações 
carnavalescas, dedicando-lhes frevos 
inéditos. Foi o caso dos títulos Este ca-chorro 
é feio, mas não morde, para a tro-ça 
Cachorro Feio de Santo Amaro, ou 
Pra você doutora Mércia, feito para a 
Turma da Jaqueira Segurando o Talo. 
Entre seus clássicos mais consagra-dos, 
estão Cabelo de fogo, É de perder 
o sapato (que batizou o álbum duplo 
dedicado ao centenário do frevo em 
2007), e Mosquetão. Esta última é a 
citada composição inspirada nos epi-sódios 
que viveu no fatídico 1º de 
abril de 1964, quando fugiu para não 
morrer dos tiros disparados pelos sol-dados, 
que feriram e mataram mani-festantes. 
A vingança do maestro foi 
um frevo: “Onde o coronel usava o 
mosquetão, eu usava a alegria”. 
Uma alegria que ele espalhou pelo 
Carnaval, apesar de durante muito 
tempo ter sido subestimado como 
compositor, pela estrutura simples 
dos seus frevos, nos quais incorriam 
poucos acidentes na execução. No en-tanto, 
a geração que já há algum tem-po 
dá as cartas no frevo tem Nunes co-mo 
uma das principais influências, 
chegando a estudar com ele, como 
Francisco Amâncio de Souza, o Maes-tro 
Forró: “Com uma habilidade tal-vez 
inconsciente, Nunes começou a 
compor de uma maneira que sua músi-ca 
pode ser executada por uma orques-tra 
de qualquer nível. Muita gente cri-ticava, 
mas acabou que a minha gera-ção 
– eu, Spok e muitos outros músi-cos 
– passou pela escola de Nunes. 
Meu primeiro professor de música su-geriu 
que os alunos fossem ensaiar na 
escola de Nunes, ali no Pátio de Santa 
Cruz. Fui várias vezes. Ele foi de gran-de 
importância para o frevo. Conse-guiu 
criar um frevo instrumental boni-to, 
simples e de fácil execução, o que é 
uma tarefa muito difícil”. 
A escola de frevo do Maestro Nunes, 
dirigida principalmente para crianças, 
filhos de integrantes de agremiações 
carnavalescas, foi uma das responsá-veis 
pela renovação de instrumentistas 
no Carnaval pernambucano. Na sua ofi-cina 
na Casa do Carnaval, no Pátio de 
Santa Cruz, ele cuidava com zelo e pa-ciência 
da restauração de antigas parti-turas 
de frevo. Aos 82 anos, infelizmen-te, 
o maestro do povo foi pego pelo mal 
de Alzheimer. Fica a dúvida se real-mente 
esqueceu a música, “mulher 
amada e ingrata”, que o tratou com ca-rinho 
e desprezo ao longo de mais de 
sete décadas de vida a ela dedicadas. 
(José Teles) 
Marcos Michael/JC Imagem/22-1-2007
As fotografias e os pôsteres 
pendurados na parede do 
terraço de casa estão entre 
as histórias de que o cineasta Fer-nando 
Spencer ainda se lembra 
com mais facilidade. Imagens dos 
irmãos Lumière em preto e branco, 
cenas da juventude e diplomas de 
prêmios recebidos vão aos poucos 
esmaecendo sob a luz solar. Alguns 
resistem apenas como fragmentos 
de memória. As mãos, que pouco a 
pouco perdem a luta contra o tre-mor, 
por anos guiaram as câmeras 
que registraram enredos e fizeram 
a alegria do cinema pernambuca-no. 
Da lista de nomes do Super 8 
ao time dos Patrimônios Vivos de 
Pernambuco, Spencer vive um sau-dosismo 
emaranhado no difícil ro-teiro 
do esquecimento. 
Os olhos, na infância, descobriram 
a alegria e os movimentos da sétima 
arte nos trejeitos de Charles Chap-lin 
e nas aventuras dos caubóis nor-te- 
americanos. Descendente de ale-mães, 
Spencer era levado pelo pai, 
Nicodemes Brasil Hartmann, aos ci-nemas 
do Recife. Aos 12 anos, ga-nhou 
seu maior presente: um proje-tor 
de filmes de 35 mm. Ali nascia 
uma paixão para a vida toda. Ele 
montou nos fundos de casa o Cine 
Metro, para 20 pessoas. 
Em 1969, o cineasta começou a 
carreira de realizador. Filmou em 
preto e branco A busca, o primeiro 
de seus 44 curtas, rodado em 16 
mm. Nos anos 1970 ele descobriu o 
Super 8, uma bitola que tinha pelí-culas 
mais baratas e fáceis de manu-sear, 
dispensando um aparato técni-co 
caro e sofisticado. Virou uma re-ferência 
no formato, enfaticamente 
defendido nas críticas que publica-va 
no Diario de Pernambuco. Hoje, 
com mal de Alzheimer, o cineasta 
se queixa da aposentadoria: “Você 
passa a ser esquecido”. 
Em janeiro do ano passado, para 
custear o tratamento médico dele e 
da mulher, vendeu parte do seu acer-vo 
à Fundação Joaquim Nabuco. 
“Me arrependo, mas eu precisava”, 
conta o cineasta das três bitolas, co-mo 
ficou conhecido por já ter roda-do 
em Super 8, 16 mm e 35 mm. 
Opagode, no bar do Didi, aconte-ce. 
Não é agendado. Tudo co-meça 
com um encontro de ami-gos. 
Há 32 anos, Valdemir de Sousa re-solveu 
deixar o trabalho de gerente no 
restaurante português Adega da Moura-ria, 
no Bairro de Santo Antônio, para 
abrir seu próprio negócio. Levou consi-go 
um violão, a coragem de viver um so-nho 
e a ousadia de ser seu próprio che-fe. 
Ele nem esperava que as suas parti-turas 
de clássicos da MPB dariam lugar 
às rodas de samba que já trouxeram ao 
Recife grandes nomes nacionais antes 
mesmo de se tornarem famosos. 
No apertado estabelecimento da es-treita 
Rua Ulhoa Cintra, em meio ao 
caos do Centro do Recife, seu Didi re-lembra 
a vida de festas. Enquanto arru-ma 
o bar para mais uma noite de rodas 
de samba, que tomam o espaço de quin-ta 
a sábado, das 18h às 23h, o senhor de 
cabelos grisalhos vai fazendo listas. 
“Aqui eu deixo todos os meus instrumen-tos: 
violão, cavaquinho, reco-reco, pan-deiro. 
Mais tarde os meninos chegam e 
pegam os instrumentos, aí vira pagode”, 
diz. Foi assim que as coisas começaram. 
Recifense, Didi viveu a infância na 
Bomba Grande, Zona Oeste da capital, 
onde brincava à beira do rio. Em casa, 
acompanhava a boemia do pai, que vira-va 
a noite tocando boleros, tangos, val-sas 
e sambas no violão. O menino gosta-va 
de ver o pai e seus amigos tocarem. 
Observava cada nota, prestava atenção 
nos acordes e aprendeu assim, só de 
olhar. O pai não queria. “Naquela época, 
andar com violão debaixo do braço era 
perigoso. Você podia ser preso e era des-criminado. 
Hoje a turma tem respeito.” 
Já adulto, dominando o violão, Didi foi 
trabalhar na Adega da Mouraria. Antes ha-via 
sido almoxarife, datilógrafo e auxiliar 
de escritório. Na Adega da Mouraria, viu 
passar nomes importantes da música na-cional 
e lusitana: Jair Rodrigues, Cauby 
Peixoto, Amália Rodrigues, Pery Ribeiro 
e Agnaldo Timóteo. Na mesma época, era 
aluno do Conservatório Pernambucano. 
Foi no beco estreito do bairro de San-to 
Antônio que Didi conseguiu unir 
suas paixões: a música e um restauran-te 
só seu, de onde tirou sustento para 
criar os três filhos. “Hoje eu sou a refe-rência 
do pagode em Pernambuco”, 
diz, com orgulho de ser pagodeiro. 
Tudo dói. Mas o boi está quase de 
pé. As costas doem. Mas o casa-mento 
já está pronto. As pernas e 
os braços estão cansados. Mas as mãos con-tinuam 
remexendo o barro. Tem um Nor-deste 
enfileirado na prateleira de ferro, 
num ateliê pequeno, imprensado entre as 
casas de fachadas chochas, numa rua es-treita 
e ainda mais apertada pelo aglomera-do 
de gente que se aperta dançando forró. 
É São João no Alto do Moura, em Carua-ru, 
e Manuel Eudócio, 82 anos, vai se guar-dando 
timidamente entre as miniaturas de 
gente que ele faz com as mãos todos os 
dias. Vai guardando com carinho as suas 
crônicas coloridas cheias de arquétipos de 
um povo que vive de saudade e alegria, 
mesmo quando a vida nem sempre é festa. 
“Tive cobreiro em janeiro. Era dor de mor-rer. 
Tomei tanto remédio, injeção no nervo. 
Eu sofri tanto no mundo. Emagreci seis qui-los. 
Estou tomando remédio ainda. Mas sin-to 
dor, cansaço, fraqueza”, diz o artista que, 
além de ser Patrimônio Vivo de Pernambu-co, 
carrega o título de discípulo do Mestre 
Vitalino. Ele começou na cerâmica aos oito 
anos. Como muitos, iniciou numa brinca-deira. 
Sua avó, que era louceira, enquanto 
fazia panelas, dava a ele um pedaço de bar-ro 
para passatempo. Ali foram surgindo pe-quenos 
cavalos desajeitados, mas vivíssi-mos 
aos olhos criativos de uma criança. 
Nascido no Alto do Moura, Manuel, tí-mido 
e orgulhoso, observava de longe o 
jeito do renomado Mestre Vitalino traba-lhar. 
“Ele veio morar aqui bem pertinho 
e vi suas peças. Nunca fui pedir para ele 
me explicar como fazia. Adolescente, eu 
ia olhando e aprendendo por mim mes-mo. 
Até que comecei a trabalhar direiti-nho. 
Aqui tinha bem pouquinha casa e 
na estrada nem passava carro. Comple-tou 
65 anos que trabalho nessa arte.” 
As referências da infância foram ga-nhando 
forma na argila. Eudócio, que 
dançava os olhos vendo as apresenta-ções 
de reisado, resolveu levar o univer-so 
do folguedo para o barro. Umamanei-ra, 
segundo ele, de eternizar o brinque-do. 
“É tão difícil ver um reisado. Quan-do 
eu era menino, o reisado começava 
de noite e ia até o outro dia. A gente só 
parava para tomar café.” No seu ateliê, a 
festa foi recriada em mais de 200 peças. 
Ao lado de nomes como Vitalino e Zé 
Caboclo, Manuel Eudócio foi responsável 
pela valorização da cerâmica produzida 
no Alto do Moura, que ganhou espaço no 
rol da arte popular. Protestante, o artista 
leva uma vida tranquila, em casa, ao lado 
dos filhos que prometem continuar seu 
trabalho. Para quem costumava dizer que, 
“quando completasse 50 anos, ia fazer co-mo 
Pelé e pendurar as chuteiras”, seu Ma-nuel 
hoje faz o contrário. “Quando eu 
adoeço, fico ainda mais doente porque 
não posso trabalhar.” Entre dores e analgé-sicos, 
o mestre segue a vida sem abando-nar 
a arte. “Não posso parar”, diz. E se 
emociona ao falar de Mestre Vitalino, que, 
segundo ele, morreu abandonado. “Ele es-tava 
doente, ninguém queria socorrer.” 
No radinho de pilha, no canto da 
sala, Roberto Carlos canta As 
canções que você fez pra mim. 
Mestre Nuca falava sobre Maria. A vida 
não tem sido fácil para ele, e as saudades 
de sua mulher dificultam ainda mais. Tu-do 
agora são lembranças e passos lentos. 
“Eu me sinto sozinho. Preciso arrumar 
uma nova companheira, alguém que me 
faça companhia. Depois que Maria mor-reu, 
fiqueimuito só. Preciso conversar pa-ra 
que os pensamentos ruins não che-guem”, 
diz o ceramista, que ficou famoso 
no País por causa dos seus leões de barro. 
Aos 76 anos, Nuca esconde o sorriso de 
canto de boca, ao mesmo tempo em que res-munga 
por não conseguir mais fazer suas pe-ças. 
O lado esquerdo do corpo ficou paralisa-do 
após um acidente vascular cerebral 
(AVC). O coração lhe pregou várias peças. 
Na casa pequena onde mora em Tracu-nhaém, 
Manoel Borges da Silva cons-truiu 
uma família de artistas. Dos cinco fi-lhos 
que teve com Maria, três atuam na 
cerâmica. Ele nasceu num engenho de 
Nazaré da Mata em agosto de 1937, mas 
se mudou para Tracunhaém aos 3 anos. 
Aos 8, vendia bonecos de barro na feira 
de Carpina. Foi aperfeiçoando o trabalho. 
Em 1968, apaixonado pelo Sport Club e 
influenciado pelo leão da bandeira do 
Recife, resolveu representar os bichi-nhos 
na argila. As peças, com uma postu-ra 
altiva e a juba lisa, destoavam da arte 
feita na cidade naquela época, quando o 
barro só dava forma a santos e anjos. 
“Criei minha família com a minha arte.” 
Para falar sobre a carreira, o ceramista 
vai, aos poucos, puxando os fatos na me-mória. 
Em suas melhores lembranças es-tão 
a amizade com o ex-governador Jar-bas 
Vasconcelos, um bom comprador, e 
com a colecionadora e arquiteta Janete 
Costa. Entre as recordações que hoje 
doem, estão o amor por Maria e a sau-dade 
que ela deixou. Em dezembro de 
2012, Nuca ficou viúvo. Foi ela quem 
deu a ideia de transformar as jubas li-sas 
em pequenos cachos, que se torna-ram 
uma marca registrada do artista. 
Morando sozinho, o mestre tem reapren-dido 
a cuidar de si. “O derrame é uma 
doença triste. Quando não mata, deixa pa-ralítico. 
Tudo que aconteceu comigo foi 
por causa da pressão alta. Ela mandava eu 
cuidar, eu não cuidava. Agora tenho toma-do 
os remédios.” Ele junta o salário de apo-sentado 
e a bolsa do Patrimônio Vivo para 
comprar medicamentos. A fisioterapia, 
que fazia três vezes por semana no hospi-tal 
da Restauração, no Recife, ele abando-nou: 
“Ficava muito ruim para ir e voltar”. 
Mas garante que continua a repetir os 
exercícios que aprendeu no tratamento. 
O que mais o incomoda é não poder 
trabalhar. Em meio à saudade de Maria e 
à impossibilidade de criar, Nuca confessa 
uma alegria, a de ver seu trabalho reco-nhecido. 
“Ser Patrimônio me enche de 
orgulho. Me deixa feliz saber que repre-sento 
Pernambuco”, diz o homem que, 
mesmo triste, parece ter força de leão. 
Ricardo Labastier/JC Imagem
Maria nem quis ver a novela, ti-rou 
os bobes dos cabelos e 
saiu de casa às pressas para 
não se atrasar. Antônio foi direto do tra-balho. 
Francisco levou os netos. Severi-na 
e João saíram correndo da escola, as-sim 
que as aulas acabaram. Todo mundo 
foi chegando de mansinho, se sentando 
nas cadeiras de plástico para assistir à 
apresentação. Todo mundo foi se cum-primentando. 
Todo mundo se conhecia. 
Bastou o maestro abrir a pasta de parti-turas 
e erguer a batuta para os cochi-chos 
silenciarem. E começou o concerto 
em Goiana, na Zona da Mara Norte. 
Patrimônio Vivo de Pernambuco, a 
banda filarmônica Curica se orgulha 
também do outro título: é a mais anti-ga 
em atividade da América Latina. O 
grupo, inicialmente com 15 músicos, 
foi fundado em 1848 por José Conra-do 
de Souza Nunes, na Igreja de Nos-sa 
Senhora do Amparo dos Homens 
Pardos, para tocar nas festas católicas 
da cidade. A origem do nome da 
agremiação tem duas versões. Há 
quem diga que uma senhora chamada 
Iria, ao ouvir o som que a banda fazia 
na rua, disse ao maestro que a música 
parecia o grito de uma curica (um pás-saro 
de canto estridente). Outros afir-mam 
que Iria, escutando uma das pol-cas 
do repertório, achou que o refrão 
soava como “cu-ri-ca-cá”. 
Se nenhuma dessas versões prevalece 
sobre a outra, é consenso que a filarmô-nica 
acabou se transformando em um 
mimo dos moradores. Não de todos, 
mas de uma parte deles. Os goianenses 
dividem sua paixão entre duas bandas, 
a Curica e a Saboeira, fundada anos de-pois, 
em 1855. “Filarmônica de interior 
é que nem time de futebol da capital: ca-da 
família torce por uma”, explica Ed-son 
Júnior, presidente da Curica. 
Edson e a família são exemplos des-sa 
devoção à banda. Ele chegou à 
agremiação ainda criança, sonhava em 
ser músico. Lembra-se daquela época 
com orgulho. “A gente mal tinha instru-mento 
e uniforme, se mantinha a par-tir 
da ajuda dos sócios-colaboradores. 
Quando eu ia fazer a cobrança, não da-va 
nem um salário mínimo. Cada um 
contribuía com R$ 4, R$ 2”, diz. 
Durante dois anos, ele ficou na filar-mônica 
estudando teoria musical, já 
que seus pais não tinham dinheiro para 
comprar instrumento. Um convite do 
maestro da Saboeira fez com que ele 
saísse da Curica e fosse para o grupo ri-val. 
“Lá eu teria instrumento. A Saboei-ra 
sempre teve mais condições, porque 
é uma banda de comerciantes, gente ri-ca. 
A Curica é do povo mais humilde, 
dos operários”, explica o músico. “De-pois 
que aprendi a tocar e com o dinhei-ro 
que juntei, comprei o trompete e vol-tei 
para minha banda de origem.” 
Orgulho é uma palavra-chave den-tro 
da Curica. Na história que é repas-sada 
pelas gerações de músicos, uma 
das lembranças sempre recontada é 
a do dia em que a banda tocou com o 
batalhão da Guarda Nacional que re-cebia 
o imperador Dom Pedro II, 
quando ele visitou Goiana em dezem-bro 
de 1859. Essa presença em mo-mentos 
importantes da história na-cional, 
aliada à sua resistência em fa-zer 
música no interior, terminou for-talecendo 
a imagem da Curica no res-tante 
do Brasil e fora do País. Em 
1944, a filarmônica recebeu a visita 
do musicólogo uruguaio Francisco 
Curt, para pesquisar de perto, na se-de 
da banda, partituras do século 19. 
Patrimônio Vivo de Pernambuco 
desde 2005, atualmente o grupo se 
reúne para os ensaios na rua da Igre-ja 
de Nossa Senhora de Rosário dos 
Negros, no Centro de Goiana. A casa-sede 
foi uma doação recebida no dia 
do centenário da filarmônica. O acer-vo 
do repertório da Curica reúne cer-ca 
de 800 peças, entre músicas reli-giosas, 
clássicos da MPB, composi-ções 
barrocas e dobrados. Quando 
chega o Carnaval, os 60 músicos se 
dividem também nas orquestras de 
frevo que animam as festas locais. 
Um dos integrantes mais jovens da 
Curica é Victor, 14 anos, há quatro 
dentro da filarmônica. São 165 anos 
que o distanciam da primeira geração 
do grupo. “Ninguém me incentivou. 
Eu mesmo quis vir. Minha mãe não 
gosta que eu faça parte, porque quer 
que eu vá estudar, mas eu me esfor-cei 
e entrei. No começo é difícil. Mas, 
quando a gente se acostuma, passa”, 
diz. Tímido, o pequeno trompetista 
vai se entrelaçando aos mais expe-rientes 
e é um dos destaques das re-tretas. 
Dois dias por semana ele tem 
aula de música na sede da banda. De 
Goiana já viajou para Maceió e Portu-gal, 
a fim de se apresentar. Cursando 
o nono ano do ensino fundamental, o 
menino que adora tocar frevo – “O 
meu preferido é Vassourinhas” – so-nha 
com o futuro: “Quero ser da Ma-rinha 
ou do Exército, mas sem deixar 
a música de lado. Meus amigos da es-cola 
acham isso chato, falam para eu 
sair. Mas eu não vou sair, não. Gosto 
de futebol, mas prefiro a banda”. 
Toda a cidade estava lá para 
assistir à estreia. Em 
Timbaúba, Zona da Mata, o 
povo se aglomerava na Praça Dona 
Guiomar (hoje Praça João Pessoa) pa-ra 
ver a primeira apresentação da 
banda Filarmônica Euterpina de 
Timbaúba. Fundada em fevereiro de 
1928, só dez meses depois ela fazia 
seu primeiro dobrado, no mesmo lu-gar 
em que havia sido criada, como 
se fosse um grito de independência 
dado pelo professor José Mendes 
da Silva, na época aos 23 anos. 
“Existia a Sociedade Musical Pri-meiro 
de Novembro, mas a banda 
sozinha já não dava conta da de-manda 
dos eventos da cidade. As 
apresentações eram muitas e havia 
muitos músicos por aqui”, lembra o 
atual presidente da Euterpina de 
Timbaúba, Eder Gomes. 
Batizada com um nome que faz alu-são 
à deusa da música, Euterpe, a 
banda filarmônica é um orgulho de 
timbaubenses. A sede do grupo fica 
no centro da cidade, ao alto, de onde 
se pode ver parte do comércio e das 
avenidas principais. A banda surgiu 
em nove de fevereiro de 1928. Atual-mente 
as coisas vão bem para a filar-mônica, 
mas nem sempre foi fácil. 
Em 1962, enquanto o Brasil fervilha-va 
por causa dos movimentos políti-co- 
sociais e conflitos partidários, a 
falta de incentivo público fez com 
que a Euterpina de Timbaúba fechas-se 
as portas. “Foram problemas exter-nos, 
de perseguição política; e inter-nos, 
de divergências da própria dire-toria”, 
diz Eder. Só em 1989 é que o 
grupo foi remontado, por decisão de 
ex-integrantes e com ajuda de sócios 
e colaboradores, agora na sede atual. 
O prédio de dois galpões, que aos 
poucos vai sendo reestruturado, guar-da 
as lembranças e a história da músi-ca 
de Timbaúba. Aqui 42 músicos 
com idades de 17 a 65 anos redesco-brem 
todo dia o prazer da arte e lu-tam 
para se modernizar. Desde 1995 
à frente da regência da banda, o maes-tro 
Josivânio Rique de Lima, 41 anos, 
deu uma revirada no repertório das 
apresentações, incorporou novos ar-ranjos 
e canções contemporâneas às 
retretas, incluindo uma feliz releitura 
de Toque de Luanda, criada a partir 
das partituras do Maestro Forró, da 
Orquestra Popular da Bomba do He-metério. 
“O público jovem não estava 
muito interessado nas nossas apresen-tações. 
Mudamos o repertório da ban-da, 
tocamos músicas mais jovens e fa-zemos 
algumas coreografias desde 
que o novo maestro assumiu.” 
O resultado é que, além de con-certos 
mais atrativos, o grupo ga-nhou 
mais alunos. A cada mês, gra-ças 
a um projeto municipal, a Eu-terpina 
e a Primeiro de Novembro 
circulam pelos bairros mais caren-tes 
da região levando música para 
todos. A banda de Timbaúba é Pa-trimônio 
Vivo de Pernambuco des-de 
o final de 2012. Além da filarmô-nica, 
o grupo também tem uma or-questra 
de frevo, criada em 2010. 
“As bandas de interior equi-valem 
aos conservatórios 
da capital.” A afirmação 
é feita por João Paulo Ferreira da Ho-ra, 
42 anos, presidente e maestro da 
Banda Euterpina Juvenil Nazarena, de 
Nazaré da Mata. Ele é o próprio exem-plo 
de suas palavras. Foi no grupo que 
começou a dar os primeiros passos co-momúsico. 
Hoje ganha o País como in-tegrante 
da banda do cantor Siba. 
A Juvenil Nazarena foi criada no dia 
1º de janeiro de 1888. À época, Nazaré 
era uma cidade pequena, onde existia 
um grêmio dos comerciantes locais – 
músicos nas horas vagas. Por isso sur-giu 
a ideia de se criar uma banda. Como 
é tradição no interior, o grupo passou a 
celebrar o aniversário de fundação com 
um churrasco de bode. O animal era ca-pado 
meses antes. “Quando o povo da 
cidade via os músicos passarem, dizia: 
‘lá vão os capa-bode’”, diz João, expli-cando 
a origem do nome popular que a 
banda recebeu na cidade: Capa-Bode. 
Num bonito casarão, em frente à Pra-ça 
do Frevo, fica a sede do grupo, onde 
acontecem ensaios e reuniões. Tem fa-chada 
de platibanda com desenho mar-cante 
e dentro um lindo piso de ladrilho 
hidráulico. Há cinco anos o lugar pas-sou 
por uma reforma para consertar o 
telhado, danificado pelas chuvas. Nas pa-redes, 
as recordações desses 125 anos de 
história estão enfileiradas em fotogra-fias 
e pôsteres, ao lado de uma imagem 
de Santa Cecília, padroeira dos músicos. 
Manter uma banda filarmônica não 
é tarefa fácil nem barata. Os custos pa-ra 
comprar e manter os instrumentos 
são altíssimos. Graças ao título de Patri-mônio 
Vivo, que concede uma bolsa 
mensal à Capa-Bode, a situação melho-rou 
um pouco, segundo João Paulo. “A 
gente pode dar uma gratificação aos 
músicos. O trabalho é de inclusão so-cial. 
A gente prepara o cidadão, dá 
uma profissão. Os professores que es-tão 
aquimuitas vezes trabalhamvolun-tariamente. 
Mas eles precisam ganhar 
alguma coisa, têm família”, diz ele, que 
também é representante comercial. 
“Tiramos muita gente do meio da rua 
e formamos profissionais. Há pessoas 
que saíram daqui e hoje são professo-res 
do Conservatório Pernambucano 
ou tocam em grupos de renome.” 
Além da banda, a Juvenil Nazarena 
mantém uma escola de formação na 
qual atende crianças a partir dos 8 
anos. Ao todo, são 60 alunos. Eles tam-bém 
se dividem em uma orquestra de 
frevo. Uma das maiores dificuldades 
da agremiação, no entanto, é a preser-vação 
de sua memória. Com mais de 
um século de existência, a filarmônica 
deixou de registrar vários fatos do pas-sado 
e agora não tem como resgatá-los.
João Silva, 78 anos, confirma o ve-lho 
ditado sobre a força que as coi-sas 
parecem ter quando precisam 
acontecer. Roupa do couro como único 
patrimônio, 16 anos incompletos, resol-veu 
se mandar para o Rio de Janeiro, a en-tão 
feérica capital federal. “Queria ser ar-tista 
de todo jeito”, lembra ele, que mora-va 
com a mãe no bairro recifense de Ca-jueiro. 
“Grande m...”, gargalha ele, dono 
de um humor tão indomável quanto o ta-lento. 
“Peguei uma carona em Garanhuns 
e fui-me embora até Alagoas.” 
No caminho se ofereceu para trabalhar 
num trem. Como pagamento, teria a pas-sagem. 
“O sujeito perguntou quem conhe-cia 
o Rio e eu disse logo que conhecia.” 
João nunca tinha saído de Pernambuco. 
O candidato a artista chegou ao Rio para 
entregar a planilha de passageiros da via-gem 
e, sonho maior, conseguir uma vaga 
na Rádio Nacional. Morou por três dias 
num albergue público. “Se eu não arru-masse 
emprego, teria que sair de lá.” 
Menos de três luas depois, tinha arru-mado 
não só ocupação como moradia. 
“Fui trabalhar na oficina de uns portu-gueses 
e fiquei morando por lá. Lavava a 
roupa e ficava de cueca, esperando se-car”, 
diz ele. Uma semana depois, os pri-meiros 
sinais concretos da prosperidade: 
já tinha dinheiro para mudar de trajes. 
A arte lhe deu mais que camisas. Com 
uma carreira ascendente nos tempos áu-reos 
da rádio brasileira, iria se tornar um 
dos maiores parceiros de Luiz Gonzaga, 
conterrâneo que só conheceria na Cidade 
Maravilhosa. O filho de Januário gravaria, 
ao longo da vida, nada menos que 140 can-ções 
assinadas por João. Uma pequena 
parte, contudo, de seu enorme cancionei-ro. 
Com mais de mil composições, ele 
costuma ser regravado por gente como 
Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Ivete San-galo... 
“Ivete é uma danada, uma beleza 
de cantora”, diz ele, que teve a sua Nem 
se despediu de mim gravada recentemen-te 
pela sacolejante diva baiana. “É tam-bém 
uma amiga arretada. Vai longe na 
conversa de safadeza”, brinca. 
Gonzaga é tão importante na vida de 
João como ele o foi na trajetória do ami-go. 
“Faz uma falta arretada, um buraco 
que ninguém tapa”, diz ele, os olhos ma-rejados 
ao se lembrar do Velho Lua. 
Quando João se tornou um bem-sucedi-do 
cantor de baiões na Rádio Nacional, 
Gonzaga já era majestade. Mas, contra-ditoriamente, 
vendia muito pouco. 
Atuando como produtor, João dispa-rou 
as vendas do Trio Nordestino, que al-cançou 
a marca de 280 mil unidades. Gon-zaga, 
apesar da fama, vendia mirradas 2,5 
mil cópias por álbum. “A BMG me cha-mou 
para produzir o disco de Gonzaga. E 
eu disse que, se não desse um disco de ou-ro 
a ele, nunca mais precisavam falar co-migo”, 
lembra o homem que aprendeu a 
tocar violão sozinho, aos 10 anos. Sua es-cola 
foram os cabarés de Arcoverde. 
João Silva se dispôs a mexer, justamen-te, 
no espírito lírico do Rei do Baião. “Gon-zaga 
era um gênio, foi quem criou o baião. 
Mas só cantava lamento, Asa-Branca, o so-frimento 
do retirante... Eu disse que o po-vo 
queria mais era esquecer, não lembrar 
o sofrimento.” Na ocasião, houve a primei-ra 
das muitas brigas entre os dois. “Ele dis-se 
que não ia gravar embolada, que aquilo 
não era coisa para ele. Mas faltavam só 
dois dias para entrar no estúdio e eu dis-se 
que, se ele não gravasse, eu sairia do 
disco.” Com seis músicas de João progra-madas 
para o álbum Danado de bom, Gon-zaga 
não teve escolha. Ou aceitava as im-posições, 
ou ficava com o disco esvaziado 
de última hora. “Eu ainda disse a ele: 
‘Olhe, se eu tivesse chegado antes, quem 
era o rei do baião era eu, e não tu!’.” No 
que Gonzaga assentiu: “E era mesmo!”. 
Rebelde, João exigiu também o des-monte 
de um esquema mais ou menos co-mum 
nas gravadoras. “Os caras gastavam 
uma fortuna. Ninguém sabia para onde ia 
aquele dinheiro.” Com um disco drastica-mente 
mais barato, ele impôs a aplicação 
da verba economizada. “Eu disse: vão pe-gar 
o dinheiro e fazer dois Fantásticos e 
um Globo de ouro.” Estrategista impa-gável 
do marketing, Silva dirigiu Gonzaga 
num clipe em que ele aparecia na caçam-ba 
de um pau de arara, anunciando o ca-minho 
inverso. “Gonzaga dizia no vídeo 
que ia largar tudo e voltar ao sertão, que 
aquele era o último disco dele. Gonzaga 
era um artista, um ator, chorou logo”, ri. 
Disco pronto, João Silva voltou para Ar-coverde 
tremendo de insegurança. “Passa-va 
os dias bebendo, com medo de não che-gar 
ao Disco de Ouro”, diz. Mas o álbum 
Danado de bom (1984) vendeu nada menos 
que 1,6 milhão de cópias. “Gonzaga só 
aprendeu a ganhar dinheiro comigo”, ri, 
mais uma vez, dando um trago comedido 
no cigarro que fuma com cada vez mais 
parcimônia. “Emtrêsmeses, Gonzaga ven-deu 
três discos de ouro!” Coautor de Sanfo-ninha 
choradeira, Pagode russo e Nem se 
despediu de mim, João Silva seria o grande 
parceiro de Gonzaga a partir daí. O que aju-dou 
o mestre a ganhar um prêmio Shell. 
João não ficou rico. Mas consegue, co-mo 
poucos, viver de direitos autorais, com 
mais de duas mil composições gravadas 
por grandes nomes da MPB. Os 49 anos de 
vida no Rio, precisamente no subúrbio de 
Duque de Caxias, não foram suficientes pa-ra 
mudar o sotaque nitidamente pernam-bucano 
do compositor. “E eu sou besta?! 
Tem gente que nem chega no Rio e já está 
entronchando a boca”, ri mais uma vez. 
Há seis anos, João Silva voltou ao Reci-fe. 
Veio em busca de paz interior. “Fiquei 
viúvo da mulher com quem passei minha 
vida toda, o maior amor, minha grande 
amiga na vida”, diz. Como não conseguis-se 
recobrar as forças, ouviu os conselhos 
de um amigo psicanalista. O terapeuta dis-se 
para arrumar as malas, largar as lem-branças 
e a condição de viúvo coitado a 
que estaria confinado na comunidade em 
que vivia. “Minha mulher era tão arreta-da 
que disse que, se ela morresse antes, 
eu chorasse um pouquinho, mas arrumas-se 
logo um rabo de saia”, diz ele, as lágri-mas 
rompendo a moldura das pálpebras, 
ao se lembrar de dona Sebastiana Gomes. 
Virou patrimônio Vivo de Pernambu-co 
há quatro anos. “O dinheiro até que 
é bonzinho. Mas bom mesmo é o reco-nhecimento, 
o prestígio, né?”, diz ele, 
que até largou a boemia. “Tinha todos 
os defeitos do bêbado, ficava rico e cha-to. 
Agora que sou patrimônio, tenho 
que manter a compostura!”, gargalha. 
(Bruno Albertim) 
Reginaldo Alves Ferreira, Mes-tre 
Camarão, tinha 7 anos 
quando fez seu primeiro 
grande show. Foi submetido ao crivo 
dos sanfoneiros da sua família, numa 
das reuniões no quintal da Fazenda 
Camalaú, no interior da Paraíba. Ti-nha 
sido levado pelo pai, Antônio, e 
a mãe, Josefa. Foi tão aprovado que 
tomou gosto. Continua um nota 10 
até hoje, sempre que empunha a san-fona 
sobre os palcos – agora maiores 
e na presença de outros públicos. 
Nascido na véspera de São João 
de 1940, o músico, que foi apelidado 
aos 18 anos pelo cantor Jacinto Sil-va, 
por causa das suas bochechas 
avermelhadas, é natural de Brejo da 
Madre de Deus, no Agreste de Per-nambuco. 
Ele aprendeu sanfona 
olhando o pai tocar. Aproveitava a 
ida de Antônio à lavoura para en-saiar 
algumas notas no instrumento. 
Aos 10 anos, foi para Caruaru. Aos 
18, já fazia parte do elenco de músi-cos 
contratados da Rádio Difusora. 
O trabalho em Caruaru foi amplian-do 
a bagagem de Camarão. Em 1961, 
mesmo ano em que representou o Es-tado 
na festa de aniversário de Brasí-lia 
com o Trio Nortista (ele, Jacinto 
Silva e Ivanildo Peba), gravou seu pri-meiro 
disco, pela Rozenblit. Foi nu-ma 
das apresentações na Difusora 
que Camarão tocou com nomes como 
Hermeto Pascoal e, claro, o onipre-sente 
Luiz Gonzaga. Novamente o 
Rei do Baião deixa sua marca impres-cindível 
na história dos Patrimônios 
Vivos de Pernambuco. O Velho Lua 
levou Camarão para gravar dois dis-cos 
com ele, em 1969 e 1970, na RCA. 
“Nossa amizade durou enquanto 
ele foi vivo. Luiz Gonzaga também 
lutou pelos sertanejos, pela família 
dele, por Exu. Foi quem levou a (ro-dovia) 
BR até em cima da Serra do 
Araripe. Ele chegou a trocar shows 
por alimentos, na época de seca, pa-ra 
levar para o povo dele”, lembra 
o sanfoneiro, em entrevista no ca-marim 
da TV Jornal, no Recife. 
No entanto, o que transformou 
Camarão em um grande mestre foi 
sua ousadia e inovação. O sanfonei-ro 
criou em 1968 a primeira banda 
de forró do País, a Bandinha do Ca-marão, 
em que introduziu ao ritmo 
– até então compassado pela zabum-ba, 
o triângulo, o pífano e a sanfona 
– instrumentos de sopro como tuba, 
trombone e clarinete. No mesmo 
ano lançou a Orquestra Sanfônica, 
projeto no qual a sanfona deu base 
também para o frevo e o maracatu. 
Era um encontro de família. 
Atualmente Camarão dá aulas na 
escolinha Acordeon de Ouro, que 
criou em casa, no bairro da Estân-cia, 
no Recife. Ensina as primeiras li-ções 
do instrumento a crianças e 
adultos. Com três filhos, todos músi-cos, 
ele garante a continuidade da 
sua obra, mas padece de uma saúde 
fragilizada. Há quatro anos, fez uma 
cirurgia para a retirada dos rins e 
hoje precisa se submeter a três ses-sões 
de hemodiálise por semana. 
Do meio do chão de terra bati-da, 
num sábado de show na 
Exposição de Animais do Re-cife, 
nos anos 1960, Arlindo viu seu ído-lo 
pela primeira vez bem de pertinho. 
Luiz Gonzaga pisava no mesmo palco 
em que ele acabara de tocar. O Rei do 
Baião chamava Marinês para cantar e 
queria alguém que a acompanhasse 
com a sanfona. “Coruja, dono da banda 
de que eu fazia parte, era amigo de 
Gonzaga e disse a ele que tinha um 
sanfoneiro na exposição. Gonzaga 
mandou me chamar. Eu subi no palco, 
ele me deu a sanfona. Toquei duas mú-sicas. 
Quando Marinês acabou, Gonza-ga 
me mandou ficar e chamou Waldi-ck 
Soriano. Toquei com ele também. 
Quando acabou, ele me agradeceu e 
disse que eu era muito bom.” O desti-no, 
sem que o músico ainda soubesse, 
fez de Luiz Gonzaga o alto-falante da 
música de Arlindo dos Oito Baixos. 
Patrimônio Vivo de Pernambuco des-de 
dezembro de 2012, atualmente ele 
passa as tardes sentado no sofá de casa 
e relembra alguns dos muitos fatos mar-cantes 
da carreira. Arlindo começou a 
tocar sanfona ainda na infância, como 
passatempo, em Sirinhaém, na Zona da 
Mata Sul. Aos 18 anos, foi tentar a car-reira 
de músico e, aos 23, dividia seu 
tempo entre shows e o trabalho como 
barbeiro em Beberibe, no Recife. Já era 
casado, com três filhos, e se apresenta-va 
com vários artistas locais quando co-nheceu 
Gonzagão. Não demorou muito 
para que se tornassem parceiros. Foi 
do show na Exposição de Animais a 
uma conversa, no dia seguinte, na casa 
do próprio Arlindo, que durou quatro 
horas. Luiz Gonzaga abriu as portas da 
música nacional para o colega. 
“Gonzaga me convidou para tocar 
com ele. Viajei muito. Um dia, pedi 
para gravar um disco. Ele disse que, 
para eu gravar, tinha que mudar de 
instrumento, trocar a sanfona, que as 
gravadoras já tinham muitas, pelos 
oito baixos. Fui em Caruaru, com-prei 
um acordeom oito baixos de Zé 
do Estado e fiquei estudando. Oito 
meses depois ele teve aqui e se lem-brou. 
Perguntou se eu estava treinan-do. 
Aí eu mostrei. Ele disse que esta-va 
bom, me levou para São Paulo e 
gravamos. Mandou colocar na capa 
‘Arlindo dos Oito Baixos, Mestre do 
Beberibe’, e daí ficou meu nome.” 
Simpático, sempre solícito, Arlindo 
conquistou o carinho e a admiração 
de muitos artistas. O sanfoneiro que 
já tocou com nomes como Elba Rama-lho 
e Dominguinhos, a quem conside-ra 
um grande amigo e mestre, conta 
com a ajuda de alguns parceiros para 
seu tratamento médico. Ano passado, 
antes de ser laureado, ele passou por 
duas cirurgias para amputar parte 
das pernas. A bolsa de Patrimônio e a 
aposentadoria não são suficientes pa-ra 
cuidar da saúde. Logo após os pro-cedimentos, 
vários artistas se reuni-ram 
para um show beneficente, no 
Forró de Arlindo, espaço cultural que 
ele mantém no quintal de casa, em 
Dois Unidos, onde acontecem apre-sentações 
culturais e aulas de sanfona. 
Guga Matos/JC Imagem/11-6-2009
Senhores e senhoras donos do 
seu tempo, os Patrimônios Vivos 
de Pernambuco representam pa-ra 
a arte do Estado um novo capítulo 
da história de sua cultura. São como 
pontes, que unem passado e presente, 
corpo e movimento, memória e cria-ção. 
Inscrevem, com suas obras, novas 
tradições pernambucanas. Três desses 
mestres já se foram, mas deixaram pa-ra 
o futuro um legado que a morte não 
consegue apagar. Refundaram a vida. 
Famoso no Brasil e mundo afora, Mes-tre 
Salustiano (1945-2008) foi um dos 
mais conhecidos brincantes merecedo-res 
do título. Patrimônio eleito em 
2005, entre os primeiros nomeados, sua 
história foi coroada de desafios, perseve-rança 
e glórias. Saiu da Zona da Mata pa-ra 
Olinda na década de 1960. Trazia con-sigo 
o maracatu de baque solto e o cava-lo- 
marinho que fizeram parte da sua in-fância, 
presentes do avô João Salustia-no. 
Mestre Salu deixou também sua he-rança, 
preservada até hoje pelos 15 fi-lhos. 
Aprendizado que rompeu a barrei-ra 
do divertimento e virou lição de vida. 
Num sítio na Cidade Tabajara, na peri-feria 
olindense, Salu construiu sua forta-leza. 
Alémdemoradia, o espaço se trans-formou 
há dez anos na Casa da Rabeca, 
onde acontecem apresentações cultu-rais, 
palco de resistência dos caboclos de 
lança. O chão é de cimento batido, as pa-redes 
decoradas e o teto com bandeiro-las, 
tudo cercado de casas onde mora 
parte da família de brincantes. Após a 
morte do mestre, em agosto de 2008, 
aos 62 anos, de problemas cardíacos 
provocados pela doença de Chagas, os 
filhos dele assumiram também a lide-rança 
do Maracatu Rural Piaba de Ou-ro. 
A memória e o trabalho de Salu são 
guardados com orgulho pelos herdei-ros, 
entre rabecas e fotografias. Eles 
pretendem criar um museu, o Centro 
de Referência da Cultura Popular Mes-tre 
Salustiano, onde o material ficará 
exposto para pesquisa e visitação. 
No Sertão pernambucano, na divisa 
do Estado com a Bahia, Ana das Carran-cas 
(1923-2008) fez sua história, conti-nuada 
com firmeza no trabalho de duas 
de suas três filhas: Ângela Lima e Ma-ria 
da Cruz. A artista – Patrimônio Vivo 
em 2005 – nasceu no município Santa 
Filomena, em Pernambuco, e morreu 
em 2008, aos 85 anos, após uma parada 
cardiovascular. Ela sofreu um acidente 
vascular cerebral (AVC) em 2004 e vi-veu 
os últimos dias com a saúde muito 
debilitada. Filha de uma índia e de um 
descendente de escravos, ela aprendeu 
em casa a arte do barro. Sua mãe, para 
sustentar a família durante os períodos 
de seca, fazia jarros e panelas para ven-der 
nas feiras do interior. Fugindo da 
estiagem, Ana chegou a Picos, no Piauí, 
onde se casou, teve duas filhas, adotou 
a terceira, enviuvou e se casou nova-mente, 
com José Vicente de Barros. 
Em 1954, o áspero clima sertanejo lhe 
fez descobrir Petrolina, cidade à beira 
do perene Rio São Francisco, onde jun-tou 
o barro à lenda das carrancas, ima-gens 
que protegiam os barqueiros con-tra 
os maus espíritos. “Mamãe era uma 
mulher batalhadora. A gente só não pas-sou 
fome porque ela sempre trabalhou, 
buscou alguma coisa para fazer. Ela foi 
uma supermãe”, lembra Maria da Cruz. 
De expressões fortes e traços bemdefini-dos, 
as carrancas de Ana foram ganhan-do 
fama não só por desobedeceremà tra-dição 
das peças de madeira (a maioria 
produzida na região), mas também por 
uma peculiaridade: as figuras sombrias 
e lendárias que ela criava ganharam 
olhos vazados. Uma homenagem que a 
artista fez ao marido, que era cego. To-da 
a obra deixada por Ana está atual-mente 
reunida no Centro Cultural Ana 
das Carrancas, em Petrolina, criado na 
antiga casa da artista. Administrado 
por suas filhas, o espaço recebe diaria-mente 
estudantes e turistas que vão co-nhecer 
o legado marcado na cerâmica. 
Embora não fosse pernambucano, o 
músico Canhoto da Paraíba (1926-2008) 
Alexandre Belém/JC Imagem/30-1-2006 Tom Cabral/JC Imagem/23-7-2006 
foi nomeado Patrimônio Vivo com mui-to 
orgulho para o Estado, em 2005. Nas-cido 
em Princesa Isabel, no Sertão parai-bano, 
numa família em que música era 
quase sobrenome, o neto de clarinetista 
e filho de violonista se transformou em 
uma referência do choro brasileiro. Ele 
chegou a Pernambuco em 1958, após 
morar por seis anos em João Pessoa. So-nhou 
alto e começou a carreira musical 
ainda adolescente, aos 16 anos, em 1953, 
quando assinou contrato com a Rádio 
Tabajara, na capital do Estado vizinho. 
A influência do avô e do pai e a con-vivência 
com artistas da sua terra na-tal 
tornaram-no um músico completo. 
Canhoto, ele ficou conhecido também 
pela maneira com a qual dedilhava o 
violão, de modo invertido, sem alterar 
a ordem das cordas – já que dividia o 
instrumento com os irmãos destros. A 
cultura popular pernambucana in-fluenciou 
grande parte de suas compo-sições. 
O músico incorporou à sua 
obra elementos de ritmos como frevo, 
xaxado, xote e baião, e ganhou a admi-ração 
de nomes como Paulinho da Vio-la, 
Radamés Gnattali e Baden Powell. 
Canhoto da Paraíba morreu em 
abril de 2008. Morava com a filha na 
cidade de Paulista. Dez anos antes, já 
tinha se afastado da carreira musical, 
após sofrer uma isquemia cerebral. 
Rodrigo Lobo/JC Imagem/22-1-2008

Pernambuco Vivo

  • 1.
    Eles são 30homens,mulheres e agremiações. Comsua vida, escrevema cultura pernambucana. Alimentamum mundo imaginário habitado por gigantes, calungas, bichos que falam, santos que se transfiguramemúsicas demuitos acordes. Quase todos vêmda periferia, dos arredores, de onde o vento faz a curva.Não falamemlinha reta, mas em voltas. Contamde ummundo só deles, que encanta e, às vezes, faz doer. São os Patrimônios Vivos de Pernambuco, mantêma rica tradição da cultura popular do Estado.Homens,mulheres e agremiações que você vai conhecer agora.
  • 2.
    Eles são sónossos e, ao mesmo tempo, do mundo todo. Dão co-res, sons e vozes à identidade pernambucana. Homens, mulheres e agremiações de muitos talentos, eles es-crevem com suas vidas trechos da histó-ria do Estado. Não a história oficial, so-bre vencedores e vencidos. Mas as narra-tivas poéticas e maravilhosas que fazem do mundo em que habitam um lugar úni-co. Pela imensa contribuição que dão ao seu povo,mereceramo título de Patrimô-nios Vivos de Pernambuco. Hoje e na próxima terça-feira, dia 29 de outubro, o Jornal do Commercio publica os cader-nos Pernambuco Vivo, apresentando aos leitores um pouco da trajetória de arte e encantamento desses 30 guerreiros. O título oficial de Patrimônio Vivo de Pernambuco é oferecido pelo gover-no do Estado, por meio de um edital da Secretaria de Cultura. Anualmente, uma comissão estadual, formada espe-cificamente para a eleição, reúne-se, avalia os nomes inscritos e seleciona três novos membros para o grupo. O processo passa pelo aval do Conselho Estadual de Cultura. O reconhecimen-to foi estabelecido por lei em 2002 – ainda que os primeiros 15 nomes só te-nham sido anunciados em 2006, retroa-tivamente. Desde então, a cada ano, três novos artistas ou agremiações são esco-lhidos. Eles têm que morar no Estado há pelo menos 20 anos e comprovar atua-ção dentro da cultura local. Mensal-mente, recebem uma bolsa vitalícia – R$ 1.021,62 para pessoas físicas; ou R$ 2.043,24 para instituições sem fins lucrativos. É um incentivo para que se mantenham em atuação e re-passem seus conhecimentos. Para contar um pouco dessa história, os Patrimônios Vivos de Pernambuco abriram as portas de suas casas, ateliês e sedes de instituições. Às vezes, as me-mórias se diluem no tempo, e os regis-tros se inscrevem nas entrelinhas. Suas biografias se confundem com a arte que professam. Nas reportagens presentes nos dois cadernos – complementadas por um site (já no ar), um e-book e uma exposição, que ficam prontos em novem-bro –, o leitor vai perceber que, para es-sas pessoas, vida e obra são uma coisa só. Foram 18 meses percorrendo o Esta-do para encontrar cada um deles. O re-sultado reflete a própria formação cultu-ral do Estado, em sua diversidade ímpar. Maracatus, caboclinhos, frevos, sam-bas e afoxés. Poetas da madeira, da cerâ-mica e das letras. Atores e bailarinos. Desenho, pintura e escultura. É uma in-crível multiplicidade de manifestações culturais que se desdobram neste espe-cial Pernambuco Vivo. Nomes que vão além do Carnaval, do São João e do Na-tal. Artistas que, como já havia alertado o poeta Padre Antônio Vieira, deveriam estar na boca do povo, nas salas de aula. Durante toda a viagem, impressiona o sorriso no rosto de cada um deles. Com orgulho, deixaram que seu mun-do fosse compartilhado com os leito-res. Só assim foi possível narrar o retor-no ao sucesso da cirandeira Lia de Ita-maracá e da coquista Selma do Coco, ho-je grandes amigas. A contorcionista Ín-dia Morena redescobre a infância. O ele-gante Galo Preto fala de superação. As criações dos xilogravuristas e cordelis-tas Dila, J. Borges e José Costa Leite re-velam cores e rimas. Abrem-se as corti-nas do Teatro Experimental de Arte. Zé do Carmo, Maria Amélia e Nuca fazem orações em forma de esculturas. Arte e fé se encontram na Confraria do Rosário e nos batuques dos maracatus Leão Coroa-do, Estrela Brilhante e Estrela de Ouro. Mateus Araújo Quem são eles, de onde vêm, que alegria é essa tão conta-giante, que nem os dias tristes abalam o seu canto e o seu vi-ver? Que mundo é esse, feito de sonho e poesia, onde cantar é lei, criar é do-te? Quem são esses filhos do povo, ir-mãos da arte, esses pastores da divina criação, ungidos que se escondiam no anonimato e que agora saem do seu pe-queno mundo para a posteridade? Fo-ram por toda sua existência pelotiquei-ros e saltimbancos da grande comédia humana – que agora são resgatados pa-ra obra e graça dos seus contemporâ-neos, porque homenagem póstuma é uma visão distorcida da história pre-sente. Alguns deram vida ao barro, ou-tros perpetuaram a imagem. Todos eles honraram a vida e escreveram uma pequena epopeia. Esses homens e essas mulheres que hoje são persona-gens deste caderno especial Pernambu-co Vivo, essas instituições sacrossantas mais amadas do que conhecidas, são um pedaço vivo do povo de suor e san-dálias, da história e do orgulho de Per-nambuco. Que sejam todos louvados, com licença de Vinicius de Morais. Louvada seja Selma do Coco, preta e sábia, elegante na sua echarpe colorida, faceira nos brincos de ametista – guardiã das melhores tradições do nos-so cancioneiro popular: o coco, sob suas mais diversas manifestações. Coco que já rendeu a Selma nove discos, um DVD e cinco filmes, patrimônio tão expressi-vo que bate o demuitos famosos do sho-wbiz norte-americano. Seja louvada Lia de Itamaracá, cujo nome e cuja fama se espalham por esses brasis tão brasilei-ros, dado que a ela se credita o resgate da autêntica ciranda. E ciranda, como se sabe, não é coisa para amador. Louva-da seja Índia Morena, que mambembou pelos picadeiros dos circos mais famo-sos aos mais humildes, fazendo da co-bertura de lona o teto seu de cada cami-nhada – e que neste mundo de fantasia corre chão há mais de meio século. Não ganhou dinheiro, não fez fortuna, não tem patrimônio – mas virou Patrimônio e tem o riso largo dos que carregam nas mãos os prazeres da vida. Seja louvada Maria Amélia, rainha do barro e da cria-ção – as imagens moldadas pelas suas mãos talentosas são ornamentos admira-dos bem pra lá do horizonte. E o que di-zer de Galo Preto, hoje de barba branca, com seu pandeiro e seu improviso, cor-tante como o chicote de um feitor – vai-doso sempre com seu chapéu quebrado? Este suplemento especial que hoje estamos entregando aos leitores, com textos de Mateus Araújo, fotos de Heu-des Regis, criação gráfica de Ícaro Bio-ne e edição de Diana Moura, tem bem mais no seu rico conteúdo. Ele fala de personagens e instituições que se tor-naram, por justiça e merecimento, Pa-trimônios Vivos de Pernambuco. Perfi-lam nesta honrosa galeria os grandes ceramistas Zezinho de Tracunhaém e Zé do Carmo, o Mestre Dila da gra-vura, o cordelista José Costa Leite, o xilogravurista J. Borges, parceiro do não menos famoso Ariano Suassuna, instituições como os Maracatus Leão Coroado e Estrela de Ouro, a Confra-ria do Rosário e o Caboclinho Sete Flexas. Pioneiro do cinema pernam-bucano, louvado seja Fernando Spen-cer, há mais de meio século envolvi-do coma sétima arte. Dá pra ver, por-tanto, que a leitura deste suplemento será prazerosa e enriquecedora – um diferencial que estamos colocando ho-je nas mãos de nossos leitores. Ivanildo Sampaio Diretor de Redação Lia tinha um medo. Em abril de 1998, a cirandeira da Ilha de Itama-racá foi convidada para cantar no festival Abril pro Rock (APR), no Recife. “Olha, eu me meti no meio dos roqueiros. Menino, me deu um medo. Eu pensei: ci-randa com essa batucada será que casa, meu Deus?. E fui embora.” Lia estava lon-ge da mídia. Lançou um LP em 1977, A rai-nha da ciranda, e sumiu do mapa. O convi-te representava uma possível volta. “Ra-paz, o show foi tão bom, mas tão bom, que, se eu pudesse, estava lá todo dia. Os roqueiros ficaram doidos. Dançaram, can-taram, bateram palma. Parecia que eu es-tava ali dentro há séculos.” Depois disso, já gravou mais dois álbuns, Eu sou Lia (2000) e Ciranda de ritmos (2008), e parti-cipou de filmes, entre eles o incrível Reci-fe frio, de Kleber Mendonça Filho. Lia é um Patrimônio Vivo de Pernambuco. O título lhe engrandece a alma. “É bom ter o trabalho reconhecido com a pessoa vi-va. Se alguém tiver de fazer alguma graça pra mim, faça comigo viva, para eu ver. Não faça depois de eu morrer, não. Esse negócio de a Rua de Lia, a Praça de Lia, a estátua de Lia... Faça comigo viva”, avisa. Além da projeção nacional, conquistou res-peito ao redor do mundo. Foi chamada de “diva da música negra”, pelo jornal norte-americano The New York Times, e com-parada à voz da cabo-verdiana Cesária Évora, pelo jornal francês Le Parisien. Mas sua história não é feita só de alegrias. Aos 69 anos, completados em 12 de ja-neiro, a artista vive um momento tranqui-lo depois de muitos altos e baixos. A can-tora, que nos anos 1970 experimentou o apogeu da ciranda, conheceu o abando-no na década seguinte e voltou a brilhar fora da ilha depois de ser apadrinhada pelo movimento manguebeat, no APR. Altiva e elegante, Lia era chamada de Rainha da Ciranda na década de 1970. A classe média e o público universitário saíam da capital nos finais de semana em busca das rodas de cantiga à beira-mar. O destino era Itamaracá ou a praia do Janga – onde morava a famosa Dona Duda. No li-vro Do frevo ao manguebeat, o crítico musi-cal do JC, José Teles, explica que outros artistas também foram importantes na afirmação da ciranda. Em 1967, Teca Cala-zans lançou um disco com a canção mais conhecida da cirandeira, Quem me deu foi Lia, gravada inicialmente por Expedito Ba-racho. A autoria da música foi discutida por muito tempo. “E no fim das contas a música termina sendo minha mesmo, né? Quem deu foi Lia e acabou”, brinca. Hoje a composição é de domínio público. Foi no auge da popularidade, em 1977, que Lia lançou seu primeiro álbum. Logo depois foi esquecida. Na virada dos anos 1970 para a década seguinte, as indústrias fonográfica e cultural passaram a margina-lizar a música popular brasileira não eliti-zada. Esse ostracismo, somado ao alcoolis-mo e à má administração da carreira, levou a cantora a uma crise artística e pessoal. “Eu vivia dentro de um poço.” Hoje ela credita a fama e a vida estável que tem ao trabalho do seu empresário Beto. Depois do show do APR, ela conquistou a admira-ção do público jovem e ganhou o mundo. “Perdi a conta de lugares por onde já an-dei. Eu pensei que nunca ia sair dessa ilha. Aqui é um mato sem cachorro. Nin-guém olha pela cultura. Mas já fui à Ale-manha, Paris, Lisboa. Menino, eu já bati o mundo, Jesus!”, sorri, sem esconder a satisfação. Mesmo assim, diz que não quer ser a “rainha da cocada preta”. Lia tem a humildade daqueles que já per-deram tudo e tiveram que recomeçar. Não uma vez. Mas várias. No verão de 1988 pa-ra 89, ela teve a residência incendiada. Eram 2h da madrugada quando a casa de taipa começou a pegar fogo. “Foi muita in-veja. Eu tinha acabado de ganhar uma ge-ladeira, e os vizinhos estavam de olho grande. No outro dia, acharam uma espé-cie de tocha no chão. Alguém tinha toca-do fogo na minha casa.” As idas e vindas da vida e da ciranda obrigaram Lia a ser, por 28 anos, merendeira em uma escola pública da ilha, trabalho que lhe deu sus-tento durante o período longe dos palcos. A casa onde mora com o marido foi her-dada da mãe adotiva – a quem Lia foi da-da, aos dez anos, por falta de condições fi-nanceiras dos pais biológicos. Chegar até lá é tarefa fácil. Ela mora em Jaguaribe, uma comunidade periférica da Ilha de Ita-maracá, no Litoral Norte do Estado, que ainda vive da pesca e do verão. “Chegan-do em Jaguaribe, é só perguntar onde é minha casa que todo mundo sabe.” E sa-be mesmo. “Pegue à direita e vá em fren-te. A casa dela tem uns nomes no muro”, diz um ilhéu. São os nomes da própria ar-tista, grafados em mosaico na parede. Uma batida na porta, e a mulher de 1,87m de altura atende com um sorriso largo e um abraço forte. Morena da beira do mar, queimada do sal e do sol, Lia é doce. A conversa é no terraço, de frente ao jar-dim. As paredes da pequena casa guardam emolduradas as lembranças dos 50 anos de carreira. Entre reportagens e cartazes, ela também eterniza seu amor pelo marido, Antônio. As fotografias dos dois são interca-las por pequenas frases de declarações de amor. “Acho que vi um gatinho” é uma de-las. Uma foto de Mestre Salustiano relembra a amizade dos dois. No jardim, entre plantas e flores, estão esculturas de pássaros, sapos, golfinho e de Nossa Senhora da Graças. Como boa filha de Iemanjá, Lia gosta de azul e de enfeites. Usa colares, pulsei-ra e brincos. Adora batom. Da Rainha das Águas, diz que herdou o amor pelo mar, mas não frequenta o candomblé. “Só vou num terreiro quando estou pre-cisando de ajuda. Aí faço uns trabalhos. Não faço o mal para ninguém, só peço ajuda para mim.” Transitando pelo sa-grado e o profano que se unem na cul-tura afro-brasileira, Lia é amiga do pa-dre da capela de Jaguaribe, a quem pro-meteu só começar suas apresentações após às 21h, quando termina a missa. O templo está localizado bem pertinho do Centro Cultural Estrela de Lia. “Às vezes a gente estava ali com a ciranda, aí tinha maracatu, tinha coco. Tudo quase na porta da igreja. E o padre com a hóstia na mão. Eu via a hora o santo cair. Aí ele pediu para eu só começar quando a missa acabasse”, explica. Nas lembranças que tem da infância em Itamaracá, Lia guarda as imagens e a alegria das noites de pastoril e cava-lo- marinho na praça de Jaguaribe. En-tre seus 21 irmãos, ninguém canta, dan-ça nem participa dos brinquedos. Só ela. Desde criança se interessou pela ciranda. Aos 12 anos, já dava entrevis-ta a jornais e rádios e aos 18 se firmava como cantora. Atualmente a senhora de sorriso largo faz da beira do mar seu palco e sua inspiração. Há três quarteirões de casa fica o Centro Cul-tural Estrela de Lia, na areia da praia. Às noites de sábado, o lugar recebe a famosa roda de cirandeiros, com cerca de 500 pessoas, entre ilhéus e turistas. A cantora fez da sua vida uma roda de ciranda. A velhice que chega lhe aflige. Há um medo do esquecimento, como também há um medo do ócio. À beira das águas, ela compõe suas músicas. Sentada na praia, escreve as letras que são apagadas pelas ondas, e reescritas, e cantadas. “É da areia para o cérebro, do cérebro para o papel. Depois eu canto.” Há 15 anos, Lia tinha medo de subir no palco dos roqueiros. Agora tem me-do do futuro. Ela se ressente da falta de um sucessor. A artista conta que te-ve quatro filhos, “mas nenhum quis ci-randar”. Todos morreram recém-nas-cidos. Já perdeu a esperança que depo-sitava no sobrinho Ezaquiel, 22 anos: “O negócio dele é futebol”, lamenta. “Tanta coisa que você tem. Seu traba-lho, sua força, sua luta. E você vai em-bora e não tem ninguém que diga ‘eu vou cantar hoje, vou fazer o trabalho dela, vou fazer o show dela’. Infeliz-mente, cada cabeça é um mundo.” Ricardo B. Labastier/JC Imagem
  • 3.
    São Francisco deAssis escora as lembranças lentas de Zezinho de Tracunhaém. “Vou começar pelo começo. Num é melhor?”, diz o artista – que incorporou ao codinome artístico o nome da cidade que forne-ce o barro que lhe deu fama. Nascido em Vitória de Santo Antão, deixou de se chamar José Joaquim da Silva pa-ra assumir outra terra em sua graça. Principal escultor entre os santeiros da Zona da Mata Norte, Zezinho, aos 74 anos, já não dá mais passos largos sozinho. Ele precisa da ajuda dos fi-lhos para atravessar a rua e chegar até o ateliê. A memória responde com hiatos aos estímulos da entrevista. Zezinho chegou ao artesanato por acaso e necessidade: se tornara pai de uma família que nasceu da aventura de dois jovens. “Aos 20 anos, num domin-go, noite de lua clara que só o dia, rap-tei Maria. A gente queria se casar, o pai dela não deixou. Resolvemos fugir. Fo-mos para Vitória e ficamos morando no sítio da minha irmã, numa cochei-ra transformada em casa. Só depois meu sogro me aceitou e me chamou para trabalhar com ele em Nazaré.” Em 1966 – quando ganhava a vida arando solo massapê –, em passagem rápida pela vizinha Tracunhaém, descobriu as obras de Lídia Vieira, o primeiro destaque da arte sacra pro-duzida na Zona da Mata Norte. Zezinho percebeu que dava para ga-nhar dinheiro e decidiu se arriscar. “Fiz umas coisas bem-feitas. Um dia, a jornalista Mariette Pessoa, da Gazeta de Nazaré, foi à minha casa, viu as pe-ças e me convidou para expor na biblio-teca da cidade”, recorda. A primeira Exposição de Arte Popular de Nazaré foi a vitrine de Zezinho. Ele vendeu todas as 60 estátuas pequenas de per-sonagens do cotidiano que apresen-tou. Com os 120 mil cruzeiros que re-cebeu, comprou uma casa para morar e outra que transformou em ateliê. Zezinho ganhou cada vez mais fama no Estado e no exterior – pela delica-deza e precisão das suas criações, em tons particulares de terracota. Seu car-ro- chefe é a produção de peças sacras – “adoro esculpir São Francisco de As-sis, pela bondade dele” – mas também envereda por outros mundos. Uma Ie-manjá cheia de curvas e rica em deta-lhes está na catalogação que o próprio artista fez por muitos anos, detalhan-do peça por peça que produziu. Com o destaque que ganhou, o anal-fabeto Zezinho virou porta-voz dos ce-ramistas. Não se furtou a criticar a fal-ta de união entre os profissionais de Tracunhaém quando, em 1999, a crise os afetou – embora ele, ao contrário, vi-vesse um bom momento na sua carrei-ra. Hoje, 14 anos depois e também so-frendo com a diminuição na venda do artesanato, Zezinho sustenta a família com suas peças – agora produzidas com ajuda dos filhos e da esposa – e o auxílio que recebe como Patrimônio Vivo. E alimenta um sonho: conhecer o exterior. “Quero dar curso lá fora”, diz o senhor, apaixonado pela família e crente na bondade de São Francisco. Num final de tarde, véspera do dia de Santo Antônio, de-bruçada sobre uma mesa pe-quena, com as mãos engelhadas pelo tempo, Maria Amélia relembra, tocan-do o barro, da sua infância, de seus primeiros passos como ceramista. Atualmente, ela é a única mulher ce-ramista que tem o título de Patrimô-nio Vivo de Pernambuco. No seu ros-to manso, os problemas de saúde dei-xaram marcas, sequelas de um aciden-te vascular cerebral (AVC). No seu corpo curvo, o derrame deixou do-res diárias. Mas nada tirou de dentro dela a menina que continua redesco-brindo no barro força e vitalidade. Maria Amélia, hoje com 90 anos, co-meçou a esculpir aos oito. Era uma brin-cadeira, um “castigo” do pai oleiro, que levava a filha para evitar qualquer tra-quinagem da menina e lhe entregou uma bacia com água, um paninho e barro. “Ele me mandou sentar e fi-car fazendo uns bichinhos.” Era um pai amoroso, coruja, que achava lin-das as lagartixas desengonçadas que a filha fazia para passar o tempo. Nas idas semanais às feiras (sobre-tudo à de Carpina), nas quais a famí-lia vendia panelas, bacias e jarros, Amélia foi descobrir a inspiração pa-ra suas obras. Com sua delicadeza e simpatia, a artista reproduz imagens de anjos e santos com desenho naïf. São lindos e bem trabalhados, com traços de rostos simples e rechon-chudos, embora imponentes. Santo Antônio, São José, Santa Luzia e São Jorge, os preferidos de Amélia. Patrimônio Vivo de Pernambuco desde 2011, ela segue se recuperan-do do AVC sofrido em agosto de 2012. “Dói tudo. Agora está doendo até na mão. Às vezes nem posso tra-balhar”, lamenta. “Eu não consigo ficar longe do barro. Mesmo quan-do estou com muita dor ou muito aperreada, chego aqui, pego a argi-la e me esqueço dos problemas. Fi-car parada é muito ruim. É triste.” No dia da entrevista, Maria Amélia dividia com o filho a tarefa de prepa-rar novas peças para serem vendidas na Feira Nacional de Negócios do Arte-sanato (Fenearte), que acontece anual-mente em Olinda. Viúva, a artista tem apenas um filho, Ricardo, de 45 anos. “Eu quero deixar minha profissão pa-ra Ricardo. Ele trabalha, viu? Ele me ajuda. Faz peça, dá acabamento. Ele faz tudo certo. Meu pai deixou para mim, e eu vou deixar para ele. Que-ria que meu neto pegasse, mas ele é preguiçoso”, comenta, queixosa. Diariamente, nos intervalos do tra-balho – agora já mais raros –, Maria Amélia também faz fisioterapia. Uma das mais antigas ceramistas de Tracu-nhaém, ela orgulha a cidade, mas não abre mão de sua simplicidade e bom humor. Mesmo em meio à queda na venda de artesanato – crise que come-çou no fim da década de 1990 –, Amélia sempre se mostrou positiva. E continua. Se diz feliz, não se cansa de viver. E redescobre sempre a força no seu grande amor: a arte do barro. Priscila Buhr/JC Imagem Antigo Testamento, livro de Gênesis, 2,7: “O Senhor Deus for-mou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um so-pro de vida e o homem se tornou um ser vivente”. Zé do Carmo, que completa 80 anos em dezembro, é temente a Deus. Nunca quis ser Deus, mas passou a fazer do barro a imagem e semelhança do uni-verso divino. Em Goiana, cidade da Zo-na da Mata Norte do Estado, o artista vi-ve entre imagens sacras e lembranças barrocas. Sua mãe queria que ele fosse padre. O desejo materno, no entanto, perdeu para o preconceito. Diante da imagem de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, o padre renegou o menino de 12 anos. O seminário dificilmente aceita-ria um padre negro. Restaria a sacristia, aceita como um amém. Mas entre as Ave- Marias, hóstias e novenas, o menino desa-fiava os dogmas com a inocência de quem não aceita que dois mais dois são quatro antes de ouvir uma boa explica-ção. “Por que numa igreja dedicada aos negros as imagens dos anjos e dos santos tinham rostos de gente europeia?”, inda-gava, recriminado pela mãe por heresia. Aos 6 anos, José do Carmo Souza aprendeu em casa o ofício de artista. Sua mãe, Joana Izabel de Assunção, era lava-deira e uma das mais famosas ceramistas de Goiana. O pai, Manuel de Souza dos Santos, era padeiro e nas horas vagas fa-zia máscaras de papel machê para serem vendidas nas feiras livres. Dos primeiros contatos com o barro foram surgindo criaturas com feições humanas, que, com toques de imaginação de criança, anunciavam uma arte classificada depois de irreverente, desafiadora e nordestina. “Quando eu era pequeno, costumava ir com os outros meninos caçar passari-nho, derrubar com badoque. Minha mãe dizia que eu não fizesse aquilo. Por isso eu geralmente ficava só olhan-do os pássaros. Um dia, quando voltei pra casa, resolvi colocar asas em um dos bonecos que eu tinha feito. E fi-cou como um anjo. Minha mãe recla-mou, disse que aquilo era errado.” Era tudo muito complexo para a cabe-ça de uma criança. Havia um duelo en-tre o que pensava ser certo e errado. En-quanto andava por entre os bancos da igreja, sob as estátuas santas que compu-nham a decoração, Zé, menino, não con-seguia associar as palavras de igualdade das pregações aos rostos que, a dois pal-mos dos seus olhos, destoavam dos ter-mos proferidos na igreja. Não dava para entender que os anjos não tivessem as ex-pressões nordestinas, caboclas. E por que harpas, e não sanfonas? Incom-preensível também para sua mãe, que logo se opôs à arte do filho. Talvez ela também tivesse a mesma dúvida, mas preferia silenciar e aceitar com mais um amém tudo o que o padre, a Bíblia e o papa diziam: é assim e acabou-se. “Mi-nha mãe me proibiu de fazer imagens.” A região em que vive Zé do Carmo é uma das referências pernambucanas dos artistas santeiros. Como elenca o jornalista Jamildo Melo no livro Artesa-nato emPernambuco, publicado pela As-sembleia Legislativa do Estado em 2003, um dos nomes mais conhecidos de Goiana, na década de 1940, foi o mestre Doca, que formou vários artis-tas como seus discípulos, incluindo o próprio Zé e também seu irmão Antônio. Por muito tempo, Zé do Carmo se-guiu a fórmula comum a muitos dos ar-tistas da cidade. Fez santos, anjos, ani-mais e utensílios de barro com uma for-ma dogmática. Aos 9 anos, ganhou de um vereador goianense um forno para dar acabamento às peças. Mas dentro daquele menino que se dividia entre a arte e a fé havia uma provocação, um desejo de ir além, de criar e mudar. Com a morte de sua mãe, o mestre pas-sou a ditar suas próprias regras: pôde, de vez, fazer seu artesanato no modelo em que sempre quis. Mas foi na década de 1980 que o nome do ceramista virou, de fa-to, assunto nacional e até internacional. “(O então arcebispo de Olinda e Recife) DomHelder Câmara me procurou e pediu para que eu fizesse umas peças para dar de presente ao papa João Paulo II, que estava vindo para Pernambuco”, lembra. Preparadas as peças, novamente a here-sia – assim vista pela Igreja – assombra-va a arte de Zé do Carmo. “Fiz um trio de arcanjos tocadores de pífanos e um an-jo do cangaço, como um Lampião. Dom Helder mandou voltar o Lampião, avisou que não ia dar ao papa. ‘Como já se viu, um anjo cangaceiro?’, ele me disse.” Era julho de 1980 quando João Paulo II veio a Pernambuco. Os anjos tocado-res de pífanos, segundo a Cúria do Reci-fe, foram entregues a Sua Santidade. O presente rejeitado por Dom Helder, o cangaceiro de asas de 1,5 m, é a única lembrança concreta que o artista tem da visita. A obra está na entrada do ateliê de Zé do Carmo, no Centro de Goiana. Sen-tado numa escrivaninha de madeira, imerso entre pilhas de pastas e papéis, cercado por miguéis, gabriéis e rafaéis que ocupam as prateleiras, o mestre é uma figura representativa da cidade. Sua casa recebe visitantes diariamen-te. O senhor mora com a esposa e o fi-lho – ninguém divide o ofício com ele. São dois espaços com esculturas entu-lhadas e um sonho de transformar tudo aquilo num museu. O artista, com o tem-po, foi guardando peças da sua mãe e de seu irmão. Preserva também as suas pró-prias – hoje pura lembrança do trabalho que fazia no passado: “Passei muita fome vivendo de arte”. Há décadas, Zé trocou a cerâmica pela pintura – após viagens para exposições no Sudeste e no exte-rior, e de fugas para tentar uma vida me-lhor na utópica São Paulo dos retirantes, de onde voltou em 1972. Rendeu-se às te-las e às frases de efeito. Um dos seus xo-dós mais recentes é o Zumbi anjo – o Moisés do quilombo: a figura heroica ne-gra dos Palmares que representa a liber-dade de povos. “Mostrei ao padre e ele reclamou. Disse que não tem nada a ver comparar Zumbi com Moisés. Eu disse que tem sim: do mesmo jeito que Moi-sés libertou o povo do Egito, Zumbi li-bertou os escravos das senzalas”, expli-ca, em tom ao mesmo tempo cético e crente, o homem que sobrevive dos quadros e da bolsa vitalícia que o gover-no do Estado lhe paga mensalmente. Sua história é contada em uma conver-sa circular. Ele vai levando o interlocu-tor de quadro em quadro. Junto de uma pintura, uma fotografia. Gilberto Freyre, aqui, é louvado como “o doutor Gilber-to”, o “padrinho” do Vovô Vitalino – que é um Papai Noel caboclo que desfila pelas ruas locais no final do ano. Entre Pai-Nossos e Ave-Marias, Zé do Carmo vai seguindo sua arte, contrarian-do a muitos com sua fé. A discordância lhe dá fôlego. Enquanto continua a se ajoelhar e comungar todos os domin-gos, sob a companhia das imagens da Igreja do Rosário dos Pretos, segue firme no seu jeito nordestino de ver o divino. Sobre os dogmas, é pedra: “Eu gosto de provocação”.
  • 4.
    Lampião é moreno,chocho e tem olhos azuis.EmCaruaru, no Agres-te de Pernambuco, vive escondido em uma casa pequena, com dois quartos apertados e uma sala minúscula, longe de luxos, pratarias, ouros e couros. As paredes frágeis guardam o cangaceiro de traços for-tes e pele amadeirada em tons de verde, preto e azul. Lampião está vivo com esses traços e cores dentro da memória e da obra de José Soares da Silva, Mestre Di-la. O xilogravurista e cordelista, que nas-ceu em 23 de setembro de 1937 (embora durante a entrevista ele diga ter nascido em 12 de agosto do mesmo ano) no vila-rejo Pirauá, no município de Macapara-na, Zona da Mata Norte do Estado, veio ao mundo dez meses antes de Lampião desaparecer (ou morrer assassinado pe-las volantes, como narra a história). Na sua memória de infância, entretan-to, ainda sobrevivem não só o senhor do cangaço, como detalhes de sua fisiono-mia e seus feitos. Há 60 anos, Dila desco-briu os versos da poesia popular e os de-senhos entalhados na madeira com o pai caricaturista, Domingos Soares da Silva, num sítio na cidade natal. A ligação com cangaceiros também seria herança pater-na: “Meu pai e alguns dos meus irmãos eram do cangaço. Conheciam Lampião. Eu vi Lampião”. Dila teve 11 irmãos. Na casa em que mora no Centro de Ca-ruaru – cidade para a qual se mudou des-de 1952 –, Mestre Dila empilha as marcas de Virgulino em uma estante de cinco prateleiras, no canto da sala, perto da por-ta de entrada. Nas matrizes de madeira e borracha em que talha formas, rostos, ani-mais e palavras, reconstrói com a imagi-nação as aventuras e as histórias de mitos nordestinos. “Eu gosto de escrever sobre Lampião. É o que vende mais. Sempre fa-lei sobre o cangaço. Escrevia e vendia bem. Tinha pessoas da família dos canga-ceiros que compravam de uma vez só uns 100 ou 200 folhetos para distribuir.” É por detrás do Parque Luiz Gonzaga, principal polo das festas juninas de Carua-ru, que fica a casa de Dila. Na fachada há uma placa com sua foto. A casa de dois quartos, de sala e cozinha espremidas, é um destino de turistas. Eram mais nume-rosos quando se vendia cordel em deze-nas. Hoje a pessoa compra no máximo dois ou três, ao preço de R$ 1 casa. A tra-dição ensaia desaparecer, mas o desejo de mantê-la viva não para de aflorar. Os rostos sorridentes nos porta-retratos espalhados pela sala, sob a intercessão dos santos e santas enfileirados ao lado da televisão, já não têm nome. Dila, entre olhares baixos e risos de canto de boca, teima com a memória, mas fica nas reti-cências. Aos 76 anos, as únicas certezas que habitam sua cabeça são escritas em rimas. Nas mais de seis décadas como cordelista e xilogravurista, percorrendo as feiras livres de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Alagoas, a vida lhe rendeu bons causos. Nesse caminho, revelou-se sua fé em padre Cícero Romão e frei Damião, além do seu respeito por Lampião. O poeta ainda se recupera de um aci-dente vascular cerebral (AVC), sofrido em junho de 2012. Depois de cinco dias internado no Hospital Regional do Agreste, em Caruaru, ele passou a viver sob cuidados da esposa, dona Valdeci, e dos seis filhos. Dila passou meses sem andar e falar. Agora vai aos poucos rea-prendendo tudo, com calma e timidez. A mulher pede para que encare a câma-ra, mas o rosto continua curvado sob a mesinha em que trabalha diariamente, das 8h às 16h. Há muito o que se falar de Lampião, não há tempo para perder. A vida que Dila leva como poeta popu-lar é a mesma de muitos outros artistas. Para ele, pouco importa a origem dos folhetos no medievo europeu. A tradi-ção chegou a esses homens do interior nordestino como expressão de uma cultura oralizada, rimada e ritmada, sob tom de humor e sarcasmo, que foi ganhando espaço nas feiras. Debaixo do sol, com varais de livretos, os cor-delistas contam suas narrativas, provo-cam o público, recriam o épico e o mí-tico. No caso de mestre Dila, sua técni-ca foi cada vez mais aperfeiçoada. Ele descobriu os artifícios da fabrica-ção de carimbos e passou a usar a borra-cha na produção de seus trabalhos. Dila lançou um modo particular de impri-mir seus cordéis (o que o pesquisador pernambucano Roberto Benjamin cha-ma de “folk-off-set”): seja nas cores di-versas que usa em uma só matriz ou nas combinações de várias formas sepa-radas e depois unidas em um conjunto único. A partir dos anos 1970, ele inova e passa a imprimir folhetos coloridos. Autor de cordéis como O sonho de um romeiro com o padre Cícero Romão e A bagagem do Nordeste, o poeta usa o dinheiro que recebe como Patrimô-nio Vivo de Pernambuco para ajudar a manter a casa e a comprar os remé-dios para hipertensão e diabetes. Ele torce para que o dinheiro não atrase. A família se vira como pode. Na sua ca-sa, Dila mantém a editora Art Folheto São José. Além de imprimir os livretos populares, faz rótulos de bebida. Há sempre um segredo prestes a ser re-velado pelo artista. O homem que no pas-sado tagarelava, mas hoje vive de pou-cas palavras, é dono de uma doçura, mansidão e carinho emaranhados de mistério. A conversa é quase sempre uma visita às memórias. Esquecido pe-la plateia que o aplaudia nos anos 1970, o mestre já chegou a ser interna-do três vezes para tratamento psiquiá-trico. A fantasia lhe rendeu, socialmen-te, o nome de louco. Mas seu talento se sobressai. Dentro do mestre poeta, um mundo se move, e a figura de Lam-pião retorna frequentemente: homem moreno, chocho e com olhos azuis. O universo dos bandos armados que espalhavam o medo pelo Sertão nordes-tino no embrião da República (início do século passado), com relatos de saques a fazendas, ataques a comboios e seques-tros, é tão bem desenhado aos olhos de Dila que arrebatam as grades do incons-ciente dele para se erguer com veracida-de nos ouvidos de quem escuta a fala do poeta. Os netos dele, seus sucessores, já não sabem falar de cangaço. Não sa-bem porque não entendem nada sobre o tema – é o mestre que diz. Na verda-de, Dila parece estar tão a par do que narra, que agora conta uma história de um Nordeste muito seu. Um Nordeste que talvez só ele conheça. Uma histó-ria da qual ele é próprio dono. Lampião – que para Mestre Dila é uma espécie de Dom Sebastião, o rei português desaparecido numa batalha contra os mouros e eternamente aguardado – talvez nunca tenha sido tão cultuado quanto dentro desta casa pequena e apertada. Sentado, encosta-do na parede, com o rosto que vez ou outra escapa do flash fotográfico, Dila olha a rua e suspira. Ensaia dizer algo. Os segredos e as histórias vão se mo-vendo dentro dele com as reticências. Um silêncio de quem quer lembrar ou procura a fala: “Morreu há dois anos, num interior de Minas Gerais. Vivia escondido por lá. Muita gente se pas-sava por ele, inclusive aquele que ma-taram em 1938”, diz, retomando a con-versa. O rosto moreno, o corpo cho-cho, os olhos azuis de Virgulino Fer-reira da Silva jamais vão sair das lem-branças de Dila, que continua a vida talhando madeiras, contado histórias e criando seus próprios fatos: “Para realizar, eu não tenho mais nada”. Ele nasceu na Paraíba, viajou o Nordeste todo, foi à França, mora em Pernambuco e está apaixonado por Mossoró. Todo dia é sempre igual: Marinês e Gonzaga can-tam na vitrola enquanto o cordelista vai colocando em versos, num papel, a criatividade que ferve dentro dele nos 365 dias do ano. “Ninguém vira poeta. A gente nasce poeta”, garante José Costa Leite, que, aos 86 anos, conta todos os causos do mundo. Costa Leite – “tão importante para o Brasil quanto Goeldi”, segundo o seu conterrâneo Ariano Suassuna – é natu-ral de Sapé, um município de pouco mais de 50 mil habitantes na Zona da Mata paraibana, mas chegou a Pernam-buco aos 8 anos, ficando até hoje em Condado. Como um daqueles persona-gens retirantes de João Cabral de Melo Neto, ele e sua família fugiam de uma seca ainda mais estorricante: o pai aca-bara de ser envenenado a mando de um feitor de usina. “Foi após uma briga por causa de jogo do bicho. O meu pai passava bicho, e o feitor foi dizer que ti-nha tirado o prêmio, mas na verdade o talão do jogo dele era de um dia ante-rior. Ele mandou envenenar meu pai.” Sem jamais frequentar uma escola, o menino foi observando nas feiras públi-cas as rimas dos poetas. Foi assim, ga-rante, que aprendeu a escrever. Costa Leite viveu a infância como um adulto. Foi cambista, mascate e camelô de fei-ra. Em 1947 começou a vender cordel pelas ruas e dois anos depois criou suas próprias histórias: Eduardo e Alzi-ra e Discussão de José Costa com Ma-nuel Vicente. Aos poucos, também foi aprendendo a ilustrar suas rimas com xilogravura, tornando-se, anos depois, uma das grandes referências dos traços nordestinos talhados em madeira. Atualmente, José Costa Leite já não vai mais às feiras. Vive em casa com a esposa e um neto, mas passa o dia no seu ateliê, nos fundos da residência, es-crevendo e ilustrando. Não trabalha sem ouvir as músicas de Luiz Gonzaga e Marinês. É aí que se lembra também do tempo em que compunha canções, algumas delas gravadas em três LPs pe-lo Conservatório Pernambuco de Músi-ca. “Ave-Maria, hoje, sem voz, não can-to nem rapariga”, brinca o senhor, que atualmente aproveita o tempo livre pa-ra continuar viajando pelo Nordeste, só que agora é por puro divertimento. O tempo vai dando sinal de fim para o ofício de cordelista. Entulhados em quatro prateleiras num quarto dentro de casa, o escritor guarda 10 mil folhe-tos, além de matrizes. Não sabe o que fazer com o acervo: “Por favor, anun-cie isso na sua matéria. Preciso do di-nheiro. Vendo tudo por R$ 20 mil”. Ricardo B. Labastier/JC Imagem Aquela pequena sala do buro-crático prédio da reitoria da Universidade Federal de Per-nambuco (UFPE), no Recife, nunca serviu como cenário para tantas foto-grafias como foi naquele dia da coleti-va de imprensa convocada pelo pro-fessor e escritor Ariano Suassuna. Ainda mais quando o cheiro do livro recém-lançado por ele dava pano pa-ra as mangas aos jornais do País. Qua-tro repórteres corriam a caneta so-bre o bloquinho de papel. Ariano des-ta vez não era o foco do encontro, só adjetivava sua descoberta: um ilustra-dor que nunca sequer havia escutado falar d’O Romance da Pedra do Reino, nem mesmo do escritor paraibano, vi-rou notícia no Brasil. “O melhor gra-vador popular do Nordeste”, dizia Suassuna. J. Borges jamais esqueceu tudo aquilo – e jamais foi esquecido. Xilogravurista e cordelista, o mais pop dos artistas Patrimônios Vivos mora em Bezerros, numa boa casa às margens da BR 232, principal rota que liga o Litoral ao Sertão de Per-nambuco. J. Borges nasceu num sí-tio a 16 km do centro da cidade, em 1935. “Eu comecei a trabalhar aos 16 anos, na agricultura, com o meu pai. Aí fomos morar na Zona da Ma-ta Sul, em Ribeirão e depois em Es-cada. Foi lá que comecei a traba-lhar com cordel, fazer gravura”, diz José Francisco Borges, 78 anos. “Chegava nas cidades, colocava o tripé com folhetos e abria a mala. De-pois comprei um alto-falante. Quem tinha isso era chamado de ‘camelô ri-co’. Pobre declamava era no peito bra-bo. Às vezes, a polícia dava uma bron-ca, proibia o som. Era uma confusão. Eu vendia bastante”, relembra. Em meados da década de 1970, Suassuna vivia um auto-exílio. Mas resolveu abrir uma exceção. Precisa-va conhecer aquele homem que sa-bia traduzir tão bem a sua obra atra-vés da xilogravura. “Mandou me le-varem até ele. Eu tive sorte.” A entre-vista foi numa terça-feira. “No sába-do da mesma semana, já começaram a chegar carros lá em casa e até hoje eu não tive mais sossego na vida”, brinca J. Borges, que só estudou dez meses e abandonou a escola ainda na infância, por determinação da avó, que temia que o neto fosse atacado pelo papa-figo nas ruas de Bezerros. Foi tudo muito rápido. Nem o pró-prio J. Borges se dava conta do quanto sua vida ia mudando. Famo-so, é talvez o Patrimônio Vivo que mais sabe o valor comercial do seu trabalho. Calcula o preço de cada peça feita na grande prensa que ocu-pa um espaço enorme de uma das salas anexas ao seu ateliê. Já levou sua arte para a Europa, países da América Latina e do Norte, ilustrou obras do uruguaio Eduardo Galea-no, mas continua gravando as coi-sas de Pernambuco, “porque os tu-ristas querem as coisas daqui”. “A palavra do velho (Ariano Suas-suna) é muito forte. Ele me chamou de melhor gravador popular do Nor-deste, na opinião dele. E o povo acre-ditou, rapaz. O povo é besta. Depois ele começou, nas andanças dele, di-zendo que eu era o melhor do Brasil. Agora, que ele já não sabe mais o que diz, fala que sou o melhor do mun-do”, brinca J. Borges, antes de confes-sar a razão de tudo isso: “Trabalho no meu traço, nunca mudei. E nunca saí de dentro da minha região”. Ricardo B. Labastier/JC Imagem
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    Era 19 deoutubro de 1996 quando, no sítio do famoso Pai Adão, em Água Fria, bairro da periferia do Recife, os atabaques anunciavam uma mu-dança importante. No lugar em que resi-de a matriz do culto nagô em Pernambu-co, Afonso Aguiar era escolhido presiden-te do Maracatu Leão Coroado, o mais an-tigo maracatu-nação do Estado em ativi-dade ininterrupta – que em dezembro completa um século e meio. Naquele ano, a agremiação não havia desfilado por fal-ta de integrantes. Por causa da crise, os orixás foram consultados. Nanã escolheu e avisou a Mestre Luiz de França. Herdei-ro do folguedo criado pelo seu pai, ele en-tregou seu tesouro antes que fosse tarde, antes que tudo virasse peça de museu. Nanã, a senhora poderosa que sabe co-mo afastar amorte, é uma dasmais respei-tadas orixás. Talvez por isso não houves-se o que temer, pois o futuro do Leão Co-roado estava em suas mãos. Mestre Luiz perguntou, Nanã ordenou. O veterano pe-diu para que Afonso também consultasse a divindade, e ela reiterou a ordem: o ma-racatu precisava de um novo presidente, e essa pessoa tinha que ser Afonso. A transição foi mediada pela Comissão de Folclore da Cidade. Os folcloristas e pesquisadores Roberto Benjamin e José Fernando de Souza e Silva e o babalorixá Manuel Papai estavam à frente da cerimô-nia. Manoel, sucessor de Adão no terrei-ro, era uma provável indicação para ser o novo presidente, mas não quis a respon-sabilidade. Afonso aceitou, embora não soubesse nada sobre maracatu. Entretan-to, já era naquela época um dos privile-giados sábios dos mistérios da tradição iorubá, da religião nagô, o candomblé. Com tantos atributos de fé, Afonso é intransigente com o lado profano da festa: “Maracatu é mais religião do que Carnaval”. Há 17 anos à frente da nação, ele rege os tambores do Leão Coroado – fundado em 8 de dezembro de 1863, no centro da capital pernam-bucana – seguindo à risca todo o apren-dizado que herdou de Luiz de França. Atualmente, o folguedo se localiza em uma das mais conhecidas comunidades da periferia de Olinda. Em Águas Compri-das, as ruas são estreitas e espremem ain-da mais as casas – ora trepadas em dois andares, ora rasteiras, com portas e jane-las escancaradas. São bairros como esse que abrigam boa parte das pessoas e dos grupos culturais descendentes de negros em Pernambuco. Foram empurrados, pe-la especulação imobiliária, para lugares cada vez mais distantes do centro. Por uma viela e outra, chega-se à sede do Leão. A voz forte de Afonso dá as boas-vindas. Na garagem da casa simples, acon-tece a conversa. Basta um olhar ao redor para perceber que naquele espaço tudo respira maracatu. O estandarte da agremiação, vermelho e branco – cores de Xangô –, saúda quem chega. A peça, guardada com cuidado, envolvida em um saco plástico para proteger da poeira que sobe da rua sem calçamento, foi um dos objetos que o presidente recebeu duran-te a cerimônia de transição, em 1996. Junto com ele vieram duas calungas, bo-necas que guardam os espíritos dos an-cestrais, os eguns protetores da nação. Com ajuda do pesquisador Roberto Benjamin e dos outros integrantes da Co-missão de Folclore, Afonso conseguiu res-taurar os instrumentos e as roupas, reco-locando o Leão Coroado na rua no Carna-val de 1997. Atualmente quem escuta a agremiação de longe logo reconhece a ba-tida de suas alfaias, dando ginga a cerca de 90 integrantes. O toque de Luanda, com a cadência mansa e lenta da percus-são, relembra o som que embala as toa-das – ou recados, na linguagem afrorreli-giosa – do candomblé. O nome da nação tem ligação clara com o título dado ao Estado após a guerra contra os holande-ses no século 17, na Insurreição Per-nambucana (1645-1654). O “coroado”, por sua vez, refere-se à sua realeza. A cor da pele, os cabelos brancos e a voz forte do Mestre Afonso são um retra-to de tudo o que ele representa e honram as heranças deixadas pelo povo africano. Nada que se aprenda em livros: religião e cultura foram repassadas oralmente de uma geração para outra. Os princípios da cultura afro-brasileira guiam o Leão Co-roado, cuja fé é depositada em Xangô. “Há grupos por aí que estão fazendo da cultura um trampolim de artista: é mestre tal, mú-sica de mestre tal. No Leão Coroado, nós não estamos preocupados com essa fa-ma. Queremos é preservar a tradição”, diz o presidente, babalorixá ortodoxo. Por causa do desvirtuamento religioso, Afonso retirou o Leão do circuito oficial do Carnaval do Recife, em que há disputa entre maracatus. A decisão causou polêmi-ca, mas, segundo o mestre, foi uma abertu-ra de caminhos para a nação. Por não se render à pasteurização e às mudanças es-truturais às quais muitas nações têm aderi-do – como a renúncia dos instrumentos tí-picos e a abertura para integrantes não ini-ciados no candomblé –, ele optou por sair das competições. “Hoje os maraca-tus saem por aí com toques dos abês... É bonito demais, só que não é coisa de ma-racatu. No toque do candomblé, da na-ção nagô, não há abês. Todos usam abês e dizem que são nagôs. Fazem isso por causa da competição. Mas eu não vou me passar para uma coisa dessas”, justifica. Quando Nanã aprovou a nomeação de Mestre Afonso na presidência do Leão Co-roado, marcou o início de mais uma etapa na história do grupo – que ao longo dos seus 150 anos chegou a ter sua existência posta em xeque. A agremiação assistiu à modernização do Estado e sofreu seus impactos. Fundada por um estivador, nasceu no centro da capital, em meio a atividades portuárias, mas teve a sede transferida. Passou por Afogados e Água Fria até chegar a Águas Compridas. Embora distante do centro, o maracatu sempre refaz, no Carnaval, os caminhos do passado. Sob a proteção da calunga Isabé, o Leão Coroado entoa cânticos saudando os orixás. No Recife, concentra suas cele-brações no Pátio do Terço, ponto de encon-tro de todas as nações. Quando o babalori-xá Afonso recorreu à sabedoria dos santos do terreiro sobre a possibilidade de deixar o concurso do Carnaval, não imaginava que seria tão abençoado. Depois disso tu-do mudou. O Leão Coroado foi reconheci-do como Patrimônio Vivo de Pernambu-co, recebeu o prêmio Cultura Viva, do Mi-nistério da Cultura, e se tornou um dos grupos que mais viajou pelo mundo como representante da cultura afro-brasileira. “Eu defendo a cultura da gente, embora seja difícil. Graças a Olorum e aos orixás, nós ainda temos essa bolsa de R$ 2 mil, do Patrimônio Vivo, que nos dá um jeitinho para caminhar, restaurar as roupas, os ins-trumentos, ajudando também nas nossas viagens.” Como o dinheiro das apresenta-ções (cobramcachê de R$ 5mil) não dá pa-ra remunerar os integrantes, cabe ao mes-tre cativar o apoio dos membros. “Aqui to-do mundo desfila por amor”, orgulha-se. Nossa Senhora já intercedeu por todos eles: a menina que queria ser médica passou no vestibular; o homem acidentado, que por pouco não foi degolado pela carca-ça do carro, ficou sem sequelas. Nossa Senhora sai todo ano da senzala para a igreja. Há mais de 200 anos que o man-to azul e branco é carregado pelos ne-gros nas ruas de Floresta, sob o forte sol do Sertão das manhãs de 31 de de-zembro. A mãe de Cristo intercedeu por todos eles. Mercedes, João, Ma-ria, Antônio, José, Celina, os quase 60 marianos dobram os joelhos diante da imagem da mulher branca, mãe também dos escravos que trocaram o iorubá pelo latim. Aqui são todos con-frades, crentes na Virgem Maria. Em frente à Igreja de Bom Jesus dos Aflitos, na calçada da pequena casa de número 111, eles vão se sentando. Vão arrastando os bancos para fora, enfilei-rando as cadeiras de balanço. É final de tarde na cidade cujo passado é mar-cado pela troca de farpas, tiros e juras de morte entre as famílias Novaes e Ferraz, que assombra os moradores desde 1913. Dezenas de pessoas foram assassinadas por questões políticas. A última cena trágica no município foi em 1999, quando o então prefeito Oscar Ferraz Filho foi morto ao sair da missa. Mas Nossa Senhora, aquela da imagem veneravelmente guardada no armário de madeira antiga, protege todos. A casa da Confraria do Rosário é centenária: foi doada pelos senhores aos descendentes do povo negro es-cravizado, que hoje dobram os joe-lhos e rezam a Salve-Rainha. Os fa-zendeiros deram essa casa aos escra-vos para que eles ficassem aqui duran-te a festa; para não se misturarem com o povo branco. Maria das Mer-cês tem certeza disso. Historiadora e professora do ensino fundamental da rede de escolas públicas de Flores-ta, ela é rainha perpétua da confraria e vive essa história desde criança. “Não temos uma eleição para ser perpétuo. Cada posto é passado de ge-ração em geração. A última rainha foi minha tia (Lúcia de Amaro), que pas-sou o posto para mim, como a avó dela passou para ela”, explica Mercês. “Mi-nha tia sempre participou das reu-niões. Eu também, desde pequena. Até que ela adoeceu e descobriu que esta-va com ‘cê-á’ (Mercês teme pronun-ciar a palavra câncer, a doença que matou sua tia). Numa reunião ela dis-se que os postos dela seriam meus.” Em 2009, quando Lúcia foi obriga-da pela vida a deixar de ser majestade para sempre, a sobrinha assumiu a co-roa. Hoje é rainha e juíza de rainha. Mas até 2024 emprestará o trono a ou-tras mulheres, devotas que alcança-ram graças pela intercessão de Nossa Senhora e prometeram, como retribui-ção, serem rainhas. “O posto de rei e de rainha tem sempre uma pessoa fi-xa. João é rei perpétuo, mas a gente só assume a coroa quando não tiver ninguém pagando promessa”, explica. Na Confraria do Rosário de Floresta do Navio, há leis e estatuto. Para ser con-frade, a pessoa tem que frequentar por dois anos ininterruptos as reuniões do grupo. Participar de todas as atividades. Fielmente. Depois desse tempo, o conse-lho superior – formado por juízes (ou conselheiros, anjos da guarda, proteto-ras, guias) da bandeira, da rainha, do rei e dos espadachins, e pelas próprias majes-tades – decide se abre ou não a “porta do céu” da confraria para aquele cristão. Na aspereza da geografia sertane-ja, no passado acre da escravidão, o canto dos negros que trabalhavam nas grandes fazendas da região aos poucos foi domesticado pela cateque-se. Nas terras das propriedades Cur-ralinho, Paus Pretos e Fazenda Gran-de, às margens dos rios Pajeú e São Francisco, surgiu a povoação de Flo-resta. Na segunda metade do século 18, o chão rachado daquele Sertão guardava, temporariamente, o gado que vinha da Bahia para abastecer os engenhos de açúcar pernambucanos. Os negros trazidos do Congo ara-vam o solo e cuidavam dos bichos. Das senzalas vinham orações. No único dia livre do ano, os escravizados louvavam a liberdade agradecendo à Virgem Maria. O primeiro registro ofi-cial da procissão data de 1792, mas a devoção deve ter começado antes. É madrugada ainda, no dia 31 de de-zembro, quando os confrades saem às ruas em cortejo. O rei vai buscar a rai-nha. Os espadachins abrem o caminho, riscando as espadas no chão, tirando faísca do atrito. Os fiéis aplaudem, acompanham o itinerário com fanfar-ras. No final, todos se confraternizam ao som de maracatu e frevo. Todo mundo quer tocar no manto da reale-za. “A roupa abençoa quem a toca”, di-zem os que creem. Foi assim que Dona Ursulina, 64 anos, obteve uma graça. “Faz 20 anos. Meu irmão foi para o Reci-fe e, no caminho, sofreuumacidente.Ocar-ro capotou e faltou um milímetro para ele não ser degolado pelas ferragens”, lembra. Ursulina se ajoelhou. Rezou o terço e pe-diu a intercessão da mãe de Cristo. “Se meu irmão sobrevivesse, eu seria rainha. E Fotos: Ricardo B. Labastier/JC Imagem ele ficou bom.” A gratidão foi recompensa-da com um vestido lindo, daqueles vistos nas revistas demoda, cheio de pequenos es-pelhos e lantejoulas, reluzindo o brilho do sol – que parece mais perto daquela gente do que da gente de qualquer outro lugar. Ursulina, hoje juíza da rainha, é também um catálogo ambulante de quase todas as promessas dos outros. Lembra-se de tudo. A história de Rosa Ferraz, por exem-plo, Ursulina sabe de cor e salteado. Já faz tempo, a moça rica estudava no Reci-fe e queria ser médica. Pediu para que Nossa Senhora a ajudasse a passar no vestibular. Aprovada, a futura doutora prometeu ser rainha por um ano. Rosa fez o oposto dos confrades pretos: vestiu a roupa mais simples. “Nós, negros, bota-mos muito luxo. Enquanto Rosa foi de al-percatinhas, bem simplezinha. Ela é branca. Nós, negros, somos amostrados. É a tradição: muito brinco e leque.” O bê-a-bá católico apostólico roma-no, entre credos e ladainhas, foi enrai-zado no sangue dos descendentes dos primeiros confrades. Foi assim com Manoel Cassiano, 27 anos, que já nas-ceu dentro da Confraria. Nem imagina como é viver fora do grupo. Repassa a criação para o filho. Ele e os outros mais jovens são a extensão de uma ponte que liga passado e futuro. Enten-dem que têm uma responsabilidade de levar adiante uma fé tão particular, de uma irmandade criada ainda na época da escravidão como fruto de uma catequização dos povos negros. Aqui só se fala no Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado domundo.OCor-deiro que, sob a forte intercessão mariana, ilumina e protege os negros de uma cida-de de terra acre, de sol desabrido e de seca severina. Nossa Senhora já intercedeu e continua intercedendo por todos eles. Heudes Regis/Jc Imagem Ricardo B. Labastier/Jc Imagem
  • 7.
    Eles foram paraprovocar. Che-garam com palavras complica-das, expressões acadêmicas, teorias e metodologias estranhas para quem vivia ali. Aliás, desconhecidas pela maioria mesmo daqueles que su-biam ao palco para interpretar. O que a trupe de professores e atores vin-dos da universidade da capital levou para o Agreste foi pura provocação. O Festival de Teatro Universitário che-gou a Caruaru rasgando a história da cida-de em dois eixos, como aqueles que divi-dem a humanidade entre antes e depois deumgrande acontecimento, estabelecen-do o fim e o início de uma época. Era ju-nho de 1962. E, dali por diante, amador passou a ser uma palavra incômoda – ou, usando a linguagem de Bertolt Brecht, o termo passou a causar estranhamento. Na-quele tempo, o Teatro de Amadores de Ca-ruaru atraía as atenções e os olhos da socie-dade ainda imune à febre da televisão. No Recife chegava a notícia deumfestival uni-versitário com oficinas, palestras e espetá-culos que, embora simples, prezavam por um trabalho ainda desconhecido por ali: a preparação cênica e corporal dos atores. Até então fazer teatro em Caruaru seguia uma receita: escolher o texto, di-vidir os papéis e correr para o ensaio. Tudo errado. Aquelas oficinas mostra-ram isso. Apontaram o quanto era im-portante preparar o ator teoricamente, mesmo que ele tivesse muito talento. Todo aquele escarcéu foi a gota d’água e o impulso que faltava para a criação do Teatro Experimental de Arte (TEA). “Naquele momento, vimos o quanto es-távamos atrasados na nossa maneira de fazer teatro”, lembra a atriz Arary Marrocos, que começava a dar as pri-meiras lições como professora nas es-colas caruaruenses, quando a cidade vivia o auge de uma produção teatral. Arary seguiu os passos do marido, Argemiro Pascoal, que foi o nome à frente da fundação da companhia. Ar-gemiro e seu grupo pediram ajuda ao professor Joel Pontes, que integrava a equipe dos acadêmicos. Eles solicita-ram e o mestre topou. “Arranjamos hospedagem e durante dois meses, a cada final de semana, vinha um profes-sor do Recife para cá nos dar aulas. Par-te do Teatro de Amadores não quis. Quem queria terminou saindo e fun-dando o TEA, em 17 de julho de 1962.” Durante 16 anos, os ensaios e encontros do Teatro Experimental ocorreram no au-ditório da Rádio Difusora de Caruaru. Em 1978 os ensaios passaram a ser realizados na garagem da casa de Arary e Argemiro. O casal decidiu então que era hora de construir uma sede própria. Tudo aos pou-cos, tijolo por tijolo, moeda por moeda. Hoje o pequeno palco italiano – com uma plateia de 60 cadeiras de plástico, coxias e camarim – guarda nas paredes preenchi-das por fotos e cartazes a memória de uma história de mais de cinco décadas. Desde a criação, o TEA encenou 54 es-petáculos, além de promover cursos e ofi-cinas de teatro, palestras, debates e semi-nários. Levou ainda a sua arte a 65 cida-des brasileiras. Em agosto do ano passa-do, o grupo entrou em uma nova fase. Ar-gemiro morreu, aos 83 anos, deixando para Arary e o filho Fábio a tarefa de sus-tentar um sonho de teatro numa cidade em que os palcos que interessam à gran-de plateia já são outros: os do forró. A criação do TEA foi resultado de uma reverberação de ideias. Havia, sim, o desejo de se profissionalizar. Mas o impulso de tudo foi a vontade de fazer do tablado o espelho do po-vo. Quando a caravana acadêmica che-gou a Caruaru, Pernambuco assistia ao crescimento do Movimento de Cul-tura Popular (MCP). Germano Coe-lho lançava sua cartilha político-cultu-ral com base nos rebuliços que fervi-lhavam nas ruas e praças da Europa. Argemiro Pascoal estava entre os ar-tistas que participaram da reunião do MCP no Recife. Nascido em Bezerros, ele se mudou para Caruaru aos 18 anos e lá iniciou a carreira teatral. O a-bê-cê da Cultura Popular chegava à cena do Teatro de Amadores da cidade e, poste-riormente, do TEA através de monta-gens de textos norteadas pelos pensa-mentos brechtianos. A primeira peça en-cenada pelo grupo, em 1963, foi Um ele-fante no caos. O texto de Millôr Fernan-des causara frisson três anos antes no Rio de Janeiro e em São Paulo, mergulhando no teatro do absurdo, refletindo sobre as hipocrisias e a corda bamba dos momen-tos que antecediam o Golpe de 1964. O TEA é referência nas artes cênicas pernambucanas. Além de formar atores, o grupo foi responsável pelo fortaleci-mento da cena teatral no interior, crian-do festival estudantil e mostra com espe-táculos nacionais. Mas nem tudo são lu-zes na ribalta. Este ano, Arary recusou o convite do Festival de Teatro de Curiti-ba, um dos mais importantes do Brasil, por falta de verba para arcar com as des-pesas de viagem, hospedagem e alimen-tação durante a estada da trupe no Pa-raná. Em 2012 eles haviam participado da mostra, mas conseguiram o dinheiro com muito sacrifício, pedindo ajuda a empresários locais. A bolsa de Patrimô-nio Vivo oferece ao grupo apenas uma parte da verba necessária para sua sus-tentação. Arary se vê dividida entre os cálculos do escritório de contabilidade e as aulas de história do teatro no TEA. Mestre Gilmar consegue asso-ciar, de forma espontânea, o maracatu ao significado das três palavras escritas nas paredes da sede do Estrela Brilhante de Igarassu: “amor, vida, paz”. Negro, descendente de escra-vos africanos, ele aprendeu que esses atri-butos estão nas batidas das alfaias que marcam, a cada cortejo, o compasso das baianas, da rainha e da dama do passo. Aos cinco anos, Gilmar começou a brincar maracatu. Aos 16, já ocupava a função de mestre. Além de ditar o ritmo das alfaias, também comanda o coco de roda que movimenta as noites de sexta-feira do município, na Região Metropoli-tana, a 30 quilômetros do Recife. Ensaios do Estrela Brilhante são raros. Só quan-do há uma nova loa. “O pessoal do mara-catu mora aqui, já toca há muito tempo, não precisa ficar ensaiando”, afirma. O Estrela, uma das agremiações mais antigas do Brasil, foi fundado em 1824. No seu livro Viagens ao Nordeste do Brasil, es-crito no início do século 19, o pesquisador inglês Henry Koster conta que o grupo teria começado na Ilha de Itamaracá, nu-ma das cerimônias de coroação dos Reis do Congo, da qual participavam escra-vos e negros livres, sob a sombra dos vi-gários da paróquia. É a origem do mara-catu de baque virado em Pernambuco. A genealogia dos batuques do conheci-díssimo folguedo de Igarassu – que já foi tema de matérias na TV, pauta de jornais locais e do exterior e figurante de novela – começou com o bisavô de Gilmar, seu João Francisco. Ele repassou as alfaias e o estandarte para Manoel Próspero de Santa-na, seu genro, casado com Dona Mariú. Foi ela, no entanto, que se transformou na grande estrela da nação, em que esteve des-de os 12 anos no posto de dama-regente, ou dama do passo. Era como uma guardiã, que portava a calunga Emília, na qual es-tão os ancestrais pretos-velhos da nação. A boneca, dedicada a Oxum, é cuidadosa-mente vestida de amarelo, com muitos acessórios, e guardada a sete chaves. Dona Mariú morreu em 2003, aos 104 anos de idade, cinco anos antes tinha en-tregado à filha, Olga Santana, o posto de matriarca do maracatu. No seu centená-rio, em entrevista ao JC, Mariú expli-cou que, por estar debilitada fisicamen-te, entregou a agremiação à filha. “Tive 19 filhos. Nasceram 16 de tempo e três foram abortos, mas só criei nove. So-mente dois entraram no maracatu – Ol-ga e um outro que já morreu. Se ainda fosse vivo, teria entregado o maracatu a ele. Organizar a brincadeira é muito ser-viço para Olga sozinha”, declarou. Gilmar nasceu sob o matriarcado do Estrela Brilhante. Viu sua avó entregar o folguedo à mãe. E ficou ao seu lado desde então. No último dia 3 de agosto, Dona Olga morreu, aos 74 anos, após so-frer dois infartos. Gilmar assumiu seu destino e, além de mestre, aceitou o pos-to de novo presidente da agremiação. A vida não estava fácil para a matriar-ca. Em novembro de 2011, quando ela deu entrevista ao JC sobre a calunga Joventi-na – a primeira boneca do maracatu, que figura na capa deste especial, foi roubada há mais de 100 anos, recuperada e hoje é exposta no Museu do Homem do Nor-deste –, as sequelas de um acidente vas-cular cerebral nublavam as suas lembran-ças, embaralhavam passado e presente. Com um estilo de comando menos apai-xonado que suas antepassadas, Gilmar dá início a uma nova fase na história do Estre-la Brilhante de Igarassu. Dita as regras lan-çando sobre o grupo um olhar muito cen-trado na música e nos batuques – em detri-mento à religiosidade do folguedo. “Eu não gosto muito de falar sobre religião. Tem gente que fica dizendo que para participar de maracatu tem que estar na macumba. Não tem nada a ver. Eu tenho minha reli-gião, eu gosto, faço minhas obrigações. Mas maracatu é só um folguedo, é uma brincadeira. Por isso que a gente tenta se-parar uma coisa da outra”, diz o novo pre-sidente. Na agremiação, que ainda preser-va a separação entre o masculino e o femi-nino – mulher não toca; homem não dança –, o sagrado não é exposto ao público. Se no passado, no início de tudo, há qua-se 200 anos, o racismo assombrava o ma-racatu, hoje o que preocupa os brincantes é a falta de envolvimento da comunidade – que dona Mariú já disse ter sido a grande força do Estrela Brilhante. “Ainda existe gente batendo na tecla de que maracatu, coco e ciranda é coisa de negro, de pobre e catimbozeiro. Coisa de rico e branco é ópe-ra, música clássica e MPB. Juntar o povo que gosta de maracatu está cada dia mais complicado. Adolescente só gosta de brega. A gente tem uns jovens que tocam, mas são da nossa família”, diz o mestre, que minis-tra oficinas na sede do grupo, em outros Estados e fora do País. “Para assumir o ma-racatu é preciso conhecê-lo, estudar, sa-ber tocar todos os instrumentos”, afirma. Um maracatu que corre o risco de se esvaziar é motivo de apreensão. É preciso atrair os jovens de volta para o folguedo. O Estrela Brilhante de Iga-rassu tem papel de destaque na cultu-ra pernambucana e não se pode per-mitir que a sua história se perca. Lourenço relutou e renegou mais de três vezes antes de aceitar o seu des-tino. Nunca gostou de maracatu e reforçou o desinteresse quando foi estudar em Aliança. Ele fora mordido pelo bicho da urbanização, epidemia na Zona da Mata Norte de Pernambuco. “Quem iria namorar gente de maracatu?”, pensou. Queria ser da Marinha. Não adiantou. O caminho escrito pela vida deu conta de desaguar seu rio num oceano de encanto. Em 1991, décadas depois da fuga, Lourenço voltou de vez ao sítio Chã de Camará para assumir a heran-ça deixada pelo pai, o mestre Batista: entre terras e plantações, havia um maracatu de baque solto, o Estrela de Ouro de Aliança. O pai de Lourenço era nome conhecido na região. Nasceu em 1934, seis anos de-pois de Aliança se emancipar. Batista era filho único e cresceu sob os cuidados da mãe, dos avós e do tio materno. Em casa, foi descobrindo a cultura popular. As fes-tas da família sempre foram entranhadas pelos folguedos. Sua mãe, Joana, entre-tanto, nunca deixou que entrasse para o brinquedo. Mas era impossível conter o brincante que vivia em Batista. Em 1º de janeiro de 1966, um ano depois da morte de Joana, ele fundou o Maracatu Estrela de Ouro. Tesouro que preservou até sua morte, quando o legou para Lourenço. “Ele via em mim a continuação. Como eu não quis, respeitou minha decisão. Fui morar no Recife aos 17 anos e voltava em Aliança de vez em quando. Ia ver meu pai se apresentar no Recife, mas nunca quis saber de participar.” Hoje, José Louren-ço, 59 anos, refaz quase diariamente o tra-jeto da capital até a sua cidade natal. Nes-se caminho, da janela do carro, vê que a estrada que corta o canavial não é mais de barro. Parte do verde é coberta pela poeira das construções e duplicações da rodovia. Agora, mais do que nunca, vários bichos da urbanização picaram a Zona da Mata. Mas essas estradas de cana-de-açú-car ainda abraçam as cores e o reluzir de uma tradição mística e sedutora, ritmada pelos chocalhos dos homens caboclos. Foi desse feitiço que Lourenço não con-seguiu escapar. Mesmo sem muitos recur-sos, ele investiu todo o dinheiro que tinha no maracatu. Aos poucos, em parceria com o produtor cultural Afonso Oliveira, foi criando e aprovando projetos em edi-tais públicos – estaduais e federais. Em 1998, o Estrela de Ouro gravou uma das faixas do CD Maracatu atômico. De 2000 a 2005, o grupo foi vice-campeão do Carnaval do Recife. Em 2004, o sítio Chã de Camará – que abriga também um cavalo-marinho, um boi, um grupo de co-co e uma ciranda – foi titulado Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura, rece-bendo por isso, no período de três anos, cerca de R$ 185 mil. Com essa verba, Lourenço fez a reforma do espaço, a ma-nutenção das roupas e dos instrumentos e comprou equipamentos audiovisuais. A internet, agora, é uma porta sempre aber-ta para quem vive no local. Antes de ter-minar essa entrevista, uma foto do encon-tro já estava no Facebook do maracatu. Lourenço não consegue esconder que foi arrebatado. O mesmo brilho que se destacava nos olhos do mestre Batista há 60 anos ressurge na mirada do filho. “Ho-je eu acredito em destino”, responde o homem, que não sabe para quem vai dei-xar a tradição. No Recife, suas duas fi-lhas também não se interessam pelo fol-guedo. Uma estuda medicina; a outra, di-reito. Mas é ele quem diz: “Nunca se sa-be o que a vida prepara para a gente”. No sítio Chã de Camará, anexo à sede do Estrela de Ouro, há o Centro Nossa Senhora da Conceição – Pai Mário, do babalorixá que também é rei do brinque-do. O espaço abriga os rituais cuja essên-cia é guardada como um segredo pelos participantes do maracatu. A cada Car-naval, os brincantes passam por ritos de purificação espiritual, que incluem absti-nência de sexo e de bebida alcoólica. No caso do Estrela de Ouro, a cerimônia não é obrigatória. Só participa quem quer. Para tocar o folguedo, Lourenço conta ainda com a ajuda de dois mestres. Ne-gro de rugas bem desenhadas e sorriso ca-tivante, Zé Duda, 75 anos de vida, 65 de maracatu, puxa as toadas. O tímido Zé Luiz é o mestre dos caboclos de lança. O primeiro é alfabetizado só no folguedo. Nunca aprendeu a ler. “Estudar endoida. Eu lá tinha tempo? Só pensava em mara-catu.” Desconfiado, o segundo tem olhos que escapam ao interlocutor e traz uma peixeira presa à cintura. Com a cabeleira amarela, caminha com seus homens co-mo um guardião. Guerreiros misteriosos, cortam o canavial sob a proteção sagrada das golas reluzentes, bordadas à mão com lantejoulas de cores vivas. Das li-nhas estreitas traçadas sob a poeira, eles fazem um caminho de arte, tradição e fé. Ricardo B. Labastier/JC Imagem
  • 8.
    “Ra-rá. Êêêê, tchá.Ra-rá. Tchá, tchá, tchá, tchá”. Dona Selma do Coco, 78 anos, entoa essa onomatopeia em toda música que canta. Repete-a também, intercalando às suas respostas, duran-te a entrevista. Virou uma fórmula, um cacoete indispensável quando ela sobe ao palco ou assume a postura da figura pública que conquistou fama no Estado, no Brasil e fora daqui, gra-ças ao melô da rolinha fujona, sucesso no final dos anos 1990. Assim como Lia de Itamaracá, a coquista também foi redescoberta pela mídia nacional numa edição do Abril pro Rock, em 1997, um ano antes que a amiga. A projeção conquistada colocou a ex-ta-pioqueira do Alto da Sé em pontes aé-reas até então inimagináveis por ela. Aquela noite continua bem viva nas lembranças da senhora cuja boca reluz ouro a cada sorriso desde os 15 anos. Ela escancara com orgulho o pivô dou-rado que já virou refrão de uma de suas músicas: “Moreninha do dente de ouro, parece um tesouro a boquinha de-la. Se eu pudesse e tivesse dinheiro, eu ia em Barreiros e casava com ela”. O show no APR foi, de certa forma, fruto da ligação que a cantora alimentava com Chico Science (1966-1997). O íco-ne do manguebeat gostava de beber da fonte do trabalho, da experiência e da sabedoria de Selma do Coco, co-mo afirma o crítico musical José Te-les, no livro Do frevo ao manguebeat. Acostumada a cantar na praieira e popular Festa da Lavadeira, Dona Selma padecia do mesmo medo que afligia Lia em relação aos roqueiros. “O único show que eu fiz em que fi-quei cismada de ninguém me derru-bar do palco foi o Abril pro Rock. Ali é dose, né? É um perigo para não cair do palco. Misturar coco com rock, Ave- Maria, não foi fácil, não. Eu fui porque sou doida mesmo. Ra-rá. Sempre pen-so assim: se perdi, perdi; se ganhei, ga-nhei. Menino, o povo gostou mais do meu show do que do show dos roquei-ros. Os roqueiros ficaram arretados comigo. Pegaram os panos de bunda e foram embora. Ra-rá. Eu dei tanta entrevista depois daquilo”, recorda. Antes desinibida e alegre, Dona Sel-ma tem se dobrado ao tempo e às in-tempéries da vida. Tornou-se uma mulher de humor retraído, demora a se soltar e traz o sorriso acompa-nhado por um olhar evasivo. Na casa em que mora com uma nora e as netas, passa os dias sentada em frente à televi-são: “Se chegar gente, eu converso. Se não chegar, eu não converso”. Quando não está se apresentando, ela rima na cabeça a saudade que guarda do filho Zezinho, que era seu braço direito, ami-go e produtor musical. Ele morreu em abril de 2010. “Nem sempre a gente tem o que quer. Não vou dizer que não sou feliz. Dependendo do meu Deus, eu sou feliz, e do meu coco. Só não sou mais feliz porque eu tinha uma pessoa que vivia do meu lado, era tu-do na minha vida, mas Deus levou.” Ela recebe a equipe de reporta-gem numa sala pequena, no térreo de uma casa de primeiro andar bem conhecida entre os moradores do Largo do Amparo, no sítio histórico de Olinda. Sarcástica e com respos-tas curtas no início da conversa, Do-na Selma atropela palavras ao nar-rar lembranças com uma voz cansa-da, marcada pelo peso da idade. Diz que chegou à música encaminhada pela família. “Meu pai e minha mãe. Minha avó e meu avô. Todos eles cantavam. Quando eu cantei o pri-meiro coco, tinha na base de uns dez anos.” Mas ainda não pensava na música como um ganha-pão. Nascida em Vitória de Santo Antão, Dona Selma – o sobrenome Ferreira da Silva ela quase nem se lembra de usar – veio para o Recife aos 10 anos e por muito tempo foi apenas mais uma entre os milhares demoradoras do bairro daMustardi-nha, Zona Oeste do Recife. “Eu vivia abandonada. Ninguém me conhecia na rua. Hoje todo mundo me conhe-ce. Tu me conheceria se eu morasse lá ainda?”, pergunta a coquista. O anonimato saiu de sua vida quando ela passou a vender tapioca no Alto da Sé, em Olinda. Foi peneirar a goma de mandioca e fazer a alegria dos turistas. “Tapioqueira, antes, só tinha na Sé. Agora tem em todo canto. Como o coco de roda. Antes só havia perto de onde ti-nha escravidão. Agora tem em tudo que é lugar. Mas não tem a mesma qua-lidade”, alfineta. “Aliás, tem. Não vou nem dizer que não tem qualidade, pra não dar confusão”, desconversa. Ra-rá. Era exatamente na Sé que a coquista dialogava sobre música e cultura com Chico Science. Na febre dos anos 1990, que misturava lama e caos, alfaia e gui-tarra, Dona Selma viu seu trabalho ser aproximado do pop – o mesmo proces-so que contagiou a ciranda de Lia de Ita-maracá. Nesse período, as duas se torna-ram grandes amigas. “Quando eu estou arretada, esculhambo com ela. Digo: ‘canta aí, nêga safada’”, comenta Dona Selma, numa gargalhada. A mulher, que não tem papas na língua, começa a se soltar na entrevista. Trinta minutos depois, ela se convence de que a repor-tagem chegou para conversar. Mas aler-ta: “Não gosto de dar entrevista não. Es-tou gostando de dar entrevista a vocês porque eu gostei de vocês”. Rá-rá. Em 60 anos de carreira, Selma do Coco já gravou nove discos, um DVD, fez participação em trabalhos de ou-tros artistas e em cinco filmes per-nambucanos. Ela sabe todos os núme-ros de cor. Em casa, há uma sala só pa-ra guardar discos, títulos, troféus e re-cordações – espaço que ela e a nora pretendem transformar em um pe-queno museu. “Morre quem canta, mas a cultura num morre nunca.” A neta Polyana, aos 9 anos, olha de lado a avó fazendo pose para as fotos. A menina talvez não compreenda al-gumas frases tristes, ditas displicente-mente, entre gargalhadas, por Dona Selma. “Eu estou morrendo.” A mu-lher que já gravou disco na Alemanha, conheceu a Europa e fez shows no Bra-sil inteiro aos poucos vai preparando a neta mais nova para cantar. Já tem ou-tras netas que lhe acompanham nos palcos,mas Polyana agora é a sua prio-ridade. “Vou colocar ela para dar três palavras para o vídeo de vocês. Vou co-locar ela aqui do meu lado. Eu estou ensinado e vou ensinar. Porque, quan-do eu morrer, ela vai ficar com a mãe dela tomando conta do meu trabalho.” A metodologia que naquela casa se se-gue não tem mistério. É sem rodeios. Cantar coco é abrir a boca e cantar. Aprender a letra e sair entoando. A úni-ca exigência da matriarca é que a pessoa tenha energia e ritmo. “Num é todo mun-do que tem não”, diz Dona Selma. “Ra-rá”, solta Poly ao finalizar uma das músi-cas, no colo da avó, imitando a coquista. A senhora já não tem a mesma força que antes. Nos shows, alterna-se ao micro-fone com outras pessoas. A idade vai dan-do os seus sinais. Algumas lembranças começam a lhe escapar da memória. Saudosista, ela confronta o presente comumcerto ressentimento sobre o vai-vém da cultura pop. “As pessoas cha-mam para os shows quem tem fama, quem é bonita, quem todo mundo co-nhece. Se você pudesse escolher entre eu e aquela menina da Bahia (Ivete San-galo), para contratar para um show, esco-lheria quem? Aí é uma questão de gosto.” Dona Selma, que em 2011 ganhou o prê-mio Afro-latino como destaque de mu-lher negra do País – ficou em segundo lu-gar, depois da atriz Zezé Mota e à frente da cantora Margareth Menezes –, agora leva uma vida calma, depois de ter se de-dicado à família e à música. A vaidade vi-rou apenas obrigação de quem é famosa, deixou de ser um prazer. “Eu era vaido-sa. Agora num sou mais não. Sou velha, desarrumada. Estou arrumada agora pa-ra dar entrevista. Você pega essa matéria e vai botar no jornal. O povo vai me ver. Não posso estar rabugenta no jornal. Eu tenho que ajeitar o pixaim, pra ver se chego à metade do que era.” Ra-rá. Tomaz Aquino Leão, Mestre Galo Preto, enfrenta uma vi-da de adversidades e supera-ção. Uma confusão o levou a um pe-ríodo de ostracismo num momento decisivo para sua carreira. Em 1992, às vésperas das eleições, o embola-dor e coquista foi preso acusado de liderar um grupo de extermínio, em Peixinhos, uma das comunidades da periferia de Olinda. Foram dois anos, dois meses e seis dias na ca-deia. Ele sabe de cabeça. Não havia prova que o condenasse. Nenhuma testemunha sequer. Mas ficou a rai-va e a vergonha. Nesse período, Galo Preto deixou de ver e viver a eclosão da manguebeat, a época em que uma nova geração em Pernambuco exal-tou os mestres da cultura popular. Nascido em Bom Conselho, no dis-trito de Princesa Isabel, no Agreste, ele chegou ao Recife aos 12 anos. Veio com o irmão, o cantador Preto Limão. “Fomos morar no bairro de Campo Grande. Meu pai não vivia em casa e meu irmão terminou sendo um segun-do pai. Naquela época, Preto Limão fa-zia uma dupla de embolada com ou-tro irmão nosso, Curió, cantando nas praças e nosmercados do Recife.Mui-ta gente me confundia com eles. Mas eu não gostava de cantar na rua, de ro-dar o chapéu para pedir dinheiro”, lembra o artista, hoje com 78 anos. O jovem Tomaz, recém-chegado ao Recife, em1947, semainda ter sido ba-tizado com apelido artístico, foi ven-der frutas nas ruas da capital e termi-nou chamando a atenção do influente poeta Ascenso Ferreira. “Como eu gostava de futebol e música, meu ir-mão me colocou para trabalhar como ambulante. Disse que não queria que eu virasse vagabundo. Mas eu saía vendendo fruta fazendo rima. E passa-va todo dia na porta de Ascenso Fer-reira, até que um dia ele me chamou e disse que gostava da minha música. Ele me deu um cartão de Zil Matos, que tinha um programa de rádio na época, e fui atrás. Lá cantei minha pri-meira música, que eu tinha feito aos nove anos, chamada A pinta.” Dali pra frente, a vida foi de altos e baixos. Galo Preto resolveu seguir carreira solo, sem a parceria de Curió, após par-ticipar do programa de rádio. Partici-pou de caravanas culturais de uma emissora local. Terminou sendo enga-nado e voltou sem cachê. Na década de 1970, época em que as televisões locais veiculavam programação musical, o ar-tista – àquela altura também tocando ja-zz – alimentou parcerias com nomes importantes da música brasileira, como Jackson do Pandeiro, Cauby Peixoto, Arlindo dos Oito Baixos e Luiz Gonza-ga. Com sua cantoria, foi criar jingles em repente para as campanhas políti-cas de Miguel Arraes. “Eu era procura-do por todo mundo, porque o repente fazia sucesso com o povo. E dizem que nessa arte eu sou bom”, brinca o artista. Décadas depois, se Galo Preto perdeu o bonde da história por conta de sua pri-são – quando tinha tudo para estar no elenco de artistas populares das edições históricas do Abril pro Rock, como Lia de Itamaracá e Dona Selma do Coco, em 1997 e 1998 –, ao tentar refazer a vida, ele foi valente. Sem desistir da carreira, Galo Preto conseguiu aos poucos abrir seu espa-ço na atual cena musical pernambucana. Em 2007, a convite da Secretaria de Saúde de Olinda, o coquista foi inte-grar um grupo de músicos locais que participou de uma campanha publicitá-ria, ao lado de Beth de Oxum, Dona Selma, Aurinha do Coco e Zeca do Ro-lete; e depois foi personagem-tema do documentário O menestrel do coco, de Wilson Freire. De rima em rima foi limpando o seu nome, reconquistando a fama. Na semana passada, ele fez sho-ws, em São Paulo, dividindo o palco com o cantor pop pernambucano Otto. Senhor elegante, ele não dispensa a roupa clara. Em toda apresentação, es-tá sempre com terno, calça e chapéu. “Recentemente eu estava com um em-presário que começou a dizer para o povo que eu era de candomblé, só por-que me visto todo de branco. Como sou negro, me ligavam a um preto ve-lho. Mas não sou do candomblé nem tenho nada contra. Só não quis que alimentassem uma mentira”, conta. Hoje o mestre mora na casa da filha, com ela e o genro. Ele se casou cinco vezes, mas agora está viúvo. Galo Pre-to tem um herdeiro musical: o filho Telmo Anum, de 39 anos, que é guitar-rista e percussionista. O título de Patri-mônio Vivo, no caso de Galo Preto, foi mais do que um reconhecimento artís-tico, um incentivo ao seu trabalho. Pa-ra ele, foi uma resposta à sociedade.
  • 9.
    Era mais umanoite de calouros no Circo Democratas e Margari-da Pereira de Alcântara queria participar do concurso. Tinha decidido cantar o bolero Coração materno, de Vi-cente Celestino, um dos seus preferi-dos. Ela precisava ganhar o corte de te-cido e o par de sapatos. Quando pisou no picadeiro, era evidente o seu nervo-sismo. De repente, uma vaia. Ninguém tinha pago ingresso para ver aquela me-nina com pouco mais de 9 anos, franzi-na, catadora de crustáceo, malvestida e descuidada fazer qualquer coisa. Da pla-teia, alguém gritava para ela sair e ir to-mar banho. “Era preconceito daquele povo. Pedi o microfone e disse que eu estava malvestida porque não tinha con-dições de me arrumar e que catava siri para que meus irmãos não precisassem ir pra porta deles pedir esmola.” O silêncio na arquibancada eviden-ciou a perplexidade do público. Alguém ensaiou bater palmas, e começaram a surgir novos gritos, desta vez diziam que a menina já tinha ganhado. Talvez a resposta dada já bastasse e lhe tivesse feito vencedora. “Eu disse que eles não podiam dizer que eu tinha ganhado sem cantar. E cantei. Todo mundo parou pra escutar.” É possível que a menina nem soubesse o que significavam aqueles tris-tes versos sobre a ingratidão de um fi-lho. Sua voz firme e seu jeito precoce au-mentaram o espanto de quem a assistia e garantiram de vez a premiação. O pa-no, ela dividiu com as duas irmãs e fez uma roupa para usar com os sapatos no Natal, que estava próximo. Tudo que ga-nhasse era lucro. Havia perdido o pai há pouco tempo e partilhava com a mãe as tarefas de casa para sustentar os quatro irmãos mais novos. Na escola, sequer terminou a quarta série. O Circo Demo-cratas foi embora e a menina ficou. Pouco tempo depois, uma nova trupe mambembe aparece na vida deMargari-da. Um macaquinho na porta de casa, de manhã cedo, assustou a mãe da meni-na, que naquela época já tinha 10 anos. O animal tinha fugido do circo que aca-bara de chegar à Vila São Miguel, no bairro de Afogados, comunidade onde ela morava. Margarida foi devolvê-lo ao grupo e conquistou a amizade da do-na do circo, que depois foi convidada para ser sua madrinha de crisma. A re-compensa da menina foi ir a todos os espetáculos de graça. “Logo na primei-ra apresentação que eu fui, a contorcio-nista me chamou atenção. O nome dela era Linda Morena. Eu olhei e disse: ‘Eu vou fazer aquilo que ela faz. Vou fazer até melhor’. E todo dia eu ia lá ver.” No dia em que o Circo Itaquatiara foi embora, a menina deixou a casa e se-guiu com a trupe, autobatizando-se de Índia Morena. O pouco dinheiro que ganhava nas apresentações era o sufi-ciente para ajudar a mãe e os irmãos. Índia, a mais famosa contorcionista do Estado e uma das artistas Patrimônio Vivo de Pernambuco, reside hoje em uma casa simples e pequena, em Muri-beca dos Guararapes, uma comunidade pobre da Região Metropolitana do Reci-fe, bem próxima ao lixão. As paredes ra-chadas chamam a atenção para o perigo em que vivem a artista e sua família. Ela mora comomarido, uma filha e umne-to. Enquanto aguarda o início da refor-ma a ser bancada pelo Governo do Es-tado, a mulher guarda entulhados, nas estantes da sala, pastas com recortes de jornais, troféus, cartas de autorida-des, prêmios, fotos e vídeos que duran-te os quase 60 anos de carreira for-mam o acervo de uma vida dedicada à arte circense. Na véspera desta entre-vista, ela tinha ganhado o título de Mu-lher Evidência – concedido pela Câma-raMunicipal do Jaboatão dos Guarara-pes. Um dia depois, foi titulada cidadã jaboatonense. “Parece ser um dos maiores reconhecimentos da minha vi-da. O que eu não tive na juventude es-tou recebendo agora na velhice.” Em dezembro de 2011, um incêndio destruiu o trailer do seu Gran Londres Circo. Um dos artistas da trupe acen-deu uma vela e terminou dormindo. “Conseguimos salvar a lona por sorte, porque estava longe. Agora estou sem me apresentar.” Em quase seis décadas, é a primeira vez que ela fica longe do pi-cadeiro. Índia passou por 50 compa-nhias, integrou o Garcia e o New Ameri-can Circus, que a levaram à Argentina, ao Paraguai e à Bolívia. Além de contor-cionismo, a artista já se apresentou no trapézio voador, na escada giratória e no arame vertical. Aos 69 anos, ela é mestre de cerimônias; mas decidiu tam-bém se aventurar na corda bamba so-cial da defesa da classe mambembe. Com uma vida marcada por tristezas – seu ex-marido, pai de dois dos seus fi-lhos, que morreram ainda bebês, a traiu com uma parceira de circo –, Índia foi parar no hospital. Um problema de pul-mão, há cerca de 30 anos, deixou a artis-ta internada. “Eu passei dois meses hos-pitalizada. Aí, como eu fiz amizade com o pessoal, o médico me deixou ficar mais um mês, para eu me recuperar me-lhor. Foi quando conheci Maviael, tam-bém internado por causa do pulmão”, conta. Maviael é o seu atual marido. Hoje os dois compartilham o amor, a responsabilidade de cuidar da família e do circo. O casal pretende inaugurar um circo-escola e também está à frente da Associação dos Proprietários e Artis-tas Circenses do Estado de Pernambu-co. O trabalho é duro, requer sacrifícios, recursos e valorização. “Eu tenho luta-do é por uma classe de minorias. Hoje eu tenho lutado por alcoólatras, droga-dos, esquecidos e abandonados. Ser ar-tistas de circo não é fácil”, desabafa.
  • 10.
    Eles não têmdia de descanso. Trabalho e vida, cultura e arte, beleza e poesia: uma coisa só. São os Patrimônios Vivos de Pernambuco. Homens, mulheres e agremiações que transformam o território pernambucano num lugar melhor e mais bonito. Moldam nossa identidade, nos brindam com a tradição e encantam com o novo. O JC lhes dedica hoje este segundo caderno especial. kwww.jconline.com.br/pernambucovivo
  • 11.
    Eles são parteda história cultural do Estado. Não porque produziram uma peça memorável – um livro, uma tela, uma sinfonia –, mas porque cria-ram várias, inúmeras, incontáveis obras de arte. Suas biografias podem ser narradas em quantidade e qualidade, num painel tão rico e diversificado quanto suas trajetórias. Neste segundo e último caderno especial Pernambuco Vivo – que faz parte da série iniciada semana passada –, passeiam mes-tres no Carnaval mais colorido do mundo. Reverenciamos O Homem da Meia-Noite, descemos ladeiras ao som dos frevos rasga-dos dos maestros Duda e Nunes e nos emo-cionamos ao ritmo hipnotizante dos cabocli-nhos. Também trilhamos estradas para en-trar nos salões do forró sertanejo, conhece-mos o vigor das bandas filarmônicas da Zo-na da Mata e ainda nos permitimos rever grandes ceramistas. Neste caderno, por fim, nos despedimos dos Patrimônios que já se foram. Com delicados enredos de vida, os ar-tistas abriram suas casas e, sem receio, descreveram sonhos, amores, canções; e confidenciaram medos. Mesmo aqueles que esqueceram alguma parte da histó-ria pelo caminho, todos ainda acreditam num final feliz. Salvaguardados por um título que os torna representantes ofi-ciais da arte pernambucana, mestres do barro, músicos, cineasta e carnavalescos recontam narrativas tão suas, ao mesmo tempo tão nossas. Além de Mateus Araújo, este segundo ca-derno tem textos de José Teles, Bruno Al-bertim e Diogo Guedes. O projeto Pernam-buco Vivo começou a ser produzido há 18 meses, mas não se encerra aqui. No próxi-mo mês, lançamos uma exposição com fo-tografias de Heudes Régis, Ricardo Labas-tier e Priscilla Buhr, e um e-book criado por Ícaro Bione e Fábio Monteiro, com edi-ção de vídeos de Caíque Mulatinho. Fotos desta página: Igo Bione/JC Imagem Às 18h do Sábado de Carnaval, pon-tualmente, começa uma festa que quase ninguém conhece. Uma ce-lebração em surdina, trancada a sete cha-ves. Inebriado pela cachaça, um homem cumpre a tarefa mais misteriosa de Olinda: vestir o Homem da Meia-Noite. Talvez ha-ja música ou oração como trilha sonora. Al-guns objetos – que não podem ser revela-dos de jeito nenhum – são jogados no chão. Representam oferendas, pedidos de prote-ção, num ritual para abrir caminhos. Há apenas uma mulher entre vários homens. E só uma criança entre vários adultos. “Se-riam para Iemanjá os pedidos?”. “Digamos que sim. Digamos que o calunga tem força própria, mas que Iemanjá o protege”, res-ponde Luiz Adolpho, presidente do Clube de Alegoria de Crítica O Homem da Meia- Noite. A agremiação carnavalesca, uma das mais famosas de Pernambuco, ganhou fa-ma no Brasil e no mundo graças ao caris-ma do seu gigante.OHomemda Meia-Noi-te é Patrimônio Vivo de Pernambuco. O bloco surgiu em Olinda em 7 de janeiro de 1931, de uma dissidência da troça Cariri – que abria a folia da cidade nos primeiros raios de Sol do domingo de Momo, por vol-ta das 5h, desde 1921. Um encanador, um marceneiro, um pintor de parede, um sapa-teiro e um encadernador de livros rompe-ram com a agremiação e montaram seu pró-prio brinquedo. Saíram de forma tímida à meia-noite do sábado. Como estandarte, apenas um relógio e uma chave gigantes. “Aí ficou uma rixa entre a gente e o Cariri, para saber quem abriria o Carnaval de Olin-da”, lembra Luiz Adolpho, 49 anos, há 11 à frente do grupo – foi eleito presidente em 2002, após a morte do pai, Tárcio Botelho, que por 11 anos ditou as regras do bloco. Só em 1932 a cidade foi apresentada à personificação do galanteador que dá no-me à agremiação, o Homem da Meia-Noi-te. Luiz explica que a peça é um calunga e não recomenda que o tratem por “boneco”. Ele já nasceu gigante, com 3,5 metros e 50 kg, no dia de Iemanjá, 2 de fevereiro. Saiu à Rua do Amparo pela primeira vez embala-do por uma orquestra de frevo, acompa-nhado por, naquele momento, dezenas de foliões. Inspirado na curiosa figura de um boêmio que circulava pelas ruas olinden-ses às madrugadas e pulava as janelas das donzelas para seduzi-las, o Homem da Meia-Noite estampa um sorriso largo, com o brilho de um dente de ouro, embelezado por um elegante fraque e uma gravata bor-boleta, além de uma inseparável cartola. “O Homem foi feito por seu Benedito Bernardino da Silva, um dos fundadores do bloco, e outros dois carpinteiros. Benedito era músico também e compôs o hino. Algu-mas pessoas acreditam que a saída do calun-ga no dia de Iemanjá à meia-noite,umhorá-rio místico, foi planejada. Outros dizem que foi coincidência”, diz o presidente. Defen-sor da tese de que O homem da Meia-Noite nasceu propositalmente naquele dia e hora, Luiz Adolpho leva adiante uma trajetória de misticismo. “Há muitas coincidências ao longo desses anos na vida de quem faz parte dessa história. Uma delas é que a se-gunda sede do clube ficava na Rua do Am-paro, número 301, onde hoje eu moro. Comprei essa casa sem saber disso. Ou se-ja, OHomem saía do quintal da minha ca-sa”, conta Luiz, num tom de voz tão enig-mático quanto os fatos que ele cataloga. Nesses 82 anos da agremiação, O Ho-memda Meia-Noite se tornou figura sincré-tica em meio a uma festa profana. A multi-dão que se aglomera à porta da pequena ca-sa de fachada estreita e colorida em verde e branco, no Sábado de Zé Pereira, aguarda a pontualidade do senhor misterioso. Essa é quarta sede do grupo, a definitiva.Empleno pátio da Igreja de Nossa Senhora do Rosá-rio dos Pretos, na Cidade Alta de Olinda, no bairro do Bonsucesso, a saída de O Homem da Meia-Noite é sempre um momento úni-co, que vai além do frevo e dos clarins, e ter-mina entrando em um patamar religioso. Quem está do lado de fora nem sequer imagina o que existe do lado de dentro da se-de. Um ritual é preparado, bem antes, para a saída do calunga. Desde o momento em que é vestido até os minutos que antecedem a meia-noite, o gigante é envolvido em um clima de adoração. “Para se ter uma noção, eu só toco no Homem quando ele já está to-talmente vestido. Porque antes disso só toca nele quem bebe cachaça. Eu não bebo”, ex-plica o presidente, que se nega a entrar em detalhes sobre a cerimônia de preparação do desfile. “Quando ele sai por essa porta, há quem trema, há quem chore, há quem fi-que encantado. É sempre muita emoção.” Luiz Adolpho nunca se imaginou presi-dente d’O Homem da Meia-Noite. Só de-cidiu concorrer às eleições para o posto quando seu pai morreu. Quis honrar o no-mede Tárcio, já que uma outra chapa fala-va mal dele. Concorrendo com o bone-queiro Sílvio Botelho, Luiz ganhou. Des-de 2002, ele se divide entre a sala de aula e as responsabilidades com o bloco. Pro-fessor de educação física em quatro esco-las da cidade, o carnavalesco lançou uma administração com caráter bem político. “Nossa gestão foi responsável por abrir as portas de O Homem da Meia-Noite pa-ra além da comunidade. Demos nova di-mensão a ele. Fizemos parcerias comjorna-listas e pessoas públicas; cuidamos da es-trutura da sede e da própria imagem do ca-lunga.” No ano passado, após a morte do al-faiate oficial d’O Homem, Seu Brasil, a figu-rinista pernambucana Xuruca Pacheco foi convidada para assumir o posto, que a par-tir de então será renovado a cada ano (o no-me de 2014 é guardado em segredo, bem como o tema que o bloco vai abordar). Em outubro de 2002, quatro meses de-pois de tomar posse, Luiz Adolpho criou o projeto Gigante Cidadão, que oferecia aulas de dança, música e teatro para 70 crianças e jovens das comunidades próximas ao Largo do Amparo e do Bonsucesso, em Olinda. A ação, que chegou a ser ponto de cultura, acabou em 2009, mas o presidente já pensa em sua retomada, assim como também pla-neja a criação de uma escola de frevo, a pri-meira da cidade para formar tanto músicos quanto passistas. Segundo Luiz, o caráter social pesou positivamente na hora da sele-ção do bloco como Patrimônio Vivo de Per-nambuco em 2006. “Não foram só a histó-ria e a tradição.O lado social foi decisivo pa-ra nos transformar em patrimônio”, afirma. Graças à bolsa vitalícia, o clube teve a sede reformada, onde ficam expostos quadros, fotografias e uma réplica do gi-gante feita pelo conhecidíssimo pai dos bonecos olindenses, Sílvio Botelho. Além disso, um pequeno museu, no primeiro andar, reúne troféus, reportagens e ví-deos sobre o bloco. O espaço fica aberto à visitação de quinta a domingo, a partir de novembro até o Carnaval. “Não ficamos abertos o ano inteiro por falta de seguran-ça pública e de uma estrutura de turismo da Cidade Alta, o que é uma pena.” O Homem da Meia-Noite virou também números e contabilidade. Figura tarimba-da e recorrente quando o assunto é repre-sentar Olinda ou o Carnaval pernambuca-no, o calunga é o ícone mais lembrado, jun-to com a sombrinha de frevo. Essa deman-da também pode custar caro. A figura do galanteador foi patenteada pelo clube. “De-pendendo de como ele está sendo usado, a gente cobra direitos de imagem. Porque havia umas empresas de publicidade que faziam campanha tendo a figura do calun-ga em destaque sem pagar nada. Agora es-se dinheiro é também mais uma forma de a gente manter o bloco”, explica Luiz.
  • 12.
    Uma felicidade espontâneailu-mina o rosto de dona Juracy Simões a cada quinze dias. Numa cadeira no alpendre da casa on-de nasceu e vive, no coração da Bom-ba do Hemetério, observa as evolu-ções das muitas crianças, jovens e al-guns curiosos de fora da comunidade no treino do caboclinho Canindé. “Nasci em Canindé, cresci com Canin-dé. Canindé é minha vida, minha he-rança”, diz ela, o sorriso involuntário aumentado no rosto a cada vez que pronuncia o nome da agremiação. Com 116 anos de história, o Canin-dé é o mais antigo caboclinho de Per-nambuco em atividade – e, portanto, do mundo. Na casa, vida e entidade se misturam. Num quarto ao lado da cozinha da casa ampla, a imagem de papel machê e fibra de vidro repou-sa a maior parte do ano em meio às fantasias e alegorias. Só sai para os desfiles ou, de quando em quando, para os rituais espirituais de home-nagem e agradecimento. A escultura, afinal, simboliza a enti-dade transcendente de um caboclo consagrado pela jurema sagrada, uma manifestação religiosa tipicamente brasileira que funde práticas do can-domblé africano ao kardecismo e ao xamanismo indígena – para alguns, a mais antiga religião do Brasil. “Canin-dé tem força e nos protege”, diz dona Juracy, também zeladora espiritual da agremiação. Brincadeira e religiosi-dade unidas, os caboclos mais respei-tosos costumam frequentar os terrei-ros de Jurema para saudar e honrar a divindade tratada como Rei Canindé. Durante os ensaios, o som dos cul-tos evangélicos de domingo na co-munidade são abafados pela música hipnótica, mântrica e harmônica do caboclinho. A gaita conferindo melo-dia à marcação do tarol e do tam-bém percussivo caracaxá. São eles que conduzem os passos do cortejo relativamente simples, vestido de penas em alusão à ascendência indí-gena: porta-bandeira, caciques, pu-xantes, batedores de flechas, ta-puias, curumins, rei e rainha. Segundo uma apostila que o pró-prio grupo elaborou para repassar aos membros sua história centenária, Ca-nindé foi fundado pelos estivadores Elesbão e Eduardo, na Rua das Crian-ças, não na Bomba, mas em Afogados, no distante março de 1897. No princí-pio, era formado unicamente por crianças. Adolescente do grupo, Ma-noel Rufino, antigo rei de outro cabo-clinho, recebeu dos fundadores a mis-são de assumir e manter a tribo. Além de organizar o grupo, pro-moveu, dentre outras inovações, a presença de adultos no cortejo. Em princípios do século passado, Rufi-no se mudou com a Tribo Canindé para a Bomba do Hemetério. Mas nem tudo era harmonia. Como estivesse desrespeitando ou negligen-ciando princípios sagrados do cabocli-nho, Rufino começou a receber críti-cas sucessivas até sua expulsão, por parte de outros dirigentes, na década de 1950. Os principais descontentes com a atuação de Rufino eram os pró-prios irmãos, Severino e Miguel Batis-ta da Silva. Expulso, Rufino partici-pou de várias agremiações, sem nun-ca se fixar em uma delas. Virou o que se chama de “caboclo corre-campo”. Severino Batista da Silva, o mestre Bibiano, assumiu a direção. Ele é o pai de dona Juracy, a menina que veio ao mundo no meio da cultura do caboclinho em 1945. Com o acidente vascular cerebral que acometeu seu pai em 1984, a herdeira assumiu a agremiação. “Foi muito difícil, mas Ca-nindé mostrou sua força para seguir”, diz ela. Mestre Bibiano passou dez anos como presidente de honra de Ca-nindé até 1994, ano de sua morte. “Juracy é a primeira mulher a diri-gir um caboclinho em Pernambuco e, portanto, no Brasil”, diz o amigo, professor de música e gaiteiro da Tri-bo Canindé, Washington Guedes. Ele e a sobrinha Nana são os parceiros di-retos e constantes de dona Juracy na condução da agremiação. “São os her-deiros de Canindé”, aponta a líder. Dona Juracy não teve filhos. Comela, Canindé, organizado, pro-fissionalizado, passou a acumular tí-tulos até não mais poder. Foi o início do tempo também de muitas viagens ao exterior e da consagração de Ca-nindé como hors concours entre as agremiações tradicionais do Carna-val do Recife. Embora tenha sido, em 1935, um dos fundadores da Fede-ração Carnavalesca de Pernambuco, Canindé já não desfila mais em bus-ca de troféus. Ao longo da trajetória, acumulou nove títulos consecutivos do Carnaval de Pernambuco. “Canindé já cumpriu sua missão, não pode competir mais. Já fez seu papel na passarela”, diz dona Juracy. “Não existe como competir com um caboclinho como Canindé”, diz ela, enquanto prova uma fatia da melan-cia na bandeja que será servida aos brincantes assim que terminem de treinar as manobras e passos simboli-zando movimentos de guerra, aproxi-mação e recuo, entre tribos rivais. Ca-boclinho é dança guerreira. (Bruno Albertim) Há nove anos, quando visitava o Recife, a bailarina alemã Pina Bausch se encantou pe-lo compasso apressado e marcado pe-los pés dos caboclos da tribo Sete Fle-xas. “Ela disse que a gente foi o único balé descalço de que ela gostou”, lem-bra o mestre José Alfaiate, 89 anos, com um sorriso de canto a canto no rosto. O senhor de voz cansada e jeito calmo criou há 45 anos uma das mais importantes agremiações carnavales-cas do Recife, que mantém até hoje numa estreita viela no bairro de Água Fria, na Zona Norte, uma das mais mestiças comunidades da cidade. Seu José começou a brincar cabocli-nho muito cedo, aos 10 anos. Apaixona-do pelas cores e pelos sons das tribos dançantes, fitava os desfiles dos Carijós e Canindés. “Eu era fã de Carijós”, lem-bra. Criado só pela mãe porque o pai morreu quando ele tinha 2 anos, José Al-faiate passava o ano se divertindo nos ensaios das agremiações. Chegou até a entrar para o clube Tabajara, mas não saía no Carnaval porque não tinha di-nheiro para comprar a fantasia. “Naque-la época, era cada um por si, todo mun-do que comprasse suas roupas. Como eu não tinha condições, não desfilava.” Ao som dos atabaques, preacas (ar-cos e flechas), tarol e caracaxás, o Se-te Flexas desfila pelas ruas do Esta-do puxado pelas loas (cânticos), colo-rido com lantejoulas, penas e pena-chos verdes e brancos. A jurema – uma mistura de cachaça, vinho, champanhe, folhas de alfavaca e mel – limpa o corpo dos brincantes en-quanto a fumaça do cachimbo do pa-jé abre os caminhos e protege o gru-po. Os cortejos são formados por ca-ciques, curandeiros, guias, curumins e caboclos. Nas apresentações eles executam coreografias temáticas: há as danças do cipó, da rede, da caça e do casamento de uma tribo com outra. Paulinho Sete, filho de José Alfaia-te, coordena tudo. Sempre ao lado do pai, o rapaz é quem vai se preparando para no futuro assumir o caboclinho. Criado dentro da agremiação, ele en-tende e conhece todos os passos e rit-mos do folguedo. Foi Paulinho que dançou para Pina Bausch e ensinou à bailarina as coreografias dos caboclos. Em 2005, Pina o convidou para dan-çar em seu balé, na França. O Sete Fle-xas é uma das bases de pesquisa do dançarino e músico Antônio Carlos Nóbrega, que também convidou Pauli-nho, na época aos 14 anos, para dar aulas no Teatro Brincante, a escola de artes cê-nicas do multiartista em São Paulo. Até conquistar esse reconhecimento entre bailarinos e se tornar Patrimônio Vivo de Pernambuco, a agremiação en-frentou uma longa trajetória, que come-ça em 1968. Quando tinha pouco mais de 40 anos de idade, o alfaiate foi ten-tar uma vida melhor em Maceió, Ala-goas. Por lá, numa visita a um centro de umbanda, fez um pedido ao caboclo Sete Flexas e foi prontamente atendi-do. Para agradecer à entidade espiri-tual, José criou a tribo e deu-lhe o no-me do caboclo. “No ano seguinte botei o brinquedo na rua, lá em Maceió. Foi tudo muito simples, as roupas eram ca-misas de meia e tênis. Ainda assim, ga-nhamos o prêmio de estandarte mais bonito. Em 1970, voltei para o Recife e registrei o Sete Flexas. Eu trabalhava para o caboclinho dos outros e nunca tinha direito a nada. O meu, lutei, pe-di muita comissão (dinheiro) no meio do mundo – naquele tempo nem o go-verno nem a prefeitura ajudavam. Saía batendo nas portas pedindo.” Assim como o candomblé está para o maracatu, a umbanda está para o ca-boclinho, que os brincantes conside-ram uma fonte de energia e proteção. Fiel, José Alfaiate conta que, já moran-do na capital pernambucana, teve um sonho no qual via médiuns sentados em tendas, incorporando espíritos. “Eu me acordei manifestado, tinha bai-xado o Sete Flexas”, afirma. “Conheço muito ele hoje. Sempre aparece para mim. É alto, tem cabeça comprida, ros-to afilado, com expressão de um índio. Ele é um caboclo sozinho, não tem uma tribo. É um caboclo mestiço.” A cada Carnaval, uma semana antes das festas, José faz oferendas ao cabo-clo protetor. Leva para mata mel e fru-tas, a fim de pedir proteção. Em 45 anos de existência, a agremiação só passou por uma situação de conflito. “Eu tive num terreiro nagô e, por sim e por não, mandei botar o jogo. A mu-lher disse que Sete Flexas queria uma obrigação: uma lebre na mata. Com-prei uma, fui com a mãe de santo cor-tar o bicho na mata e fiz um pedido. Is-so foi para limpar a frente do clube no Carnaval. Mas no dia do desfile, quan-do a gente saiu na rua, veio outro blo-co, e foi uma briga, uma confusão enor-me. Tinha garoto pequeno manifesta-do com Exu. Pense”, recorda o alfaiate. “Naquele dia a gente estava indo para o Cabo, depois seguia para a passarela de desfile na Avenida Dantas Barreto, no Recife. Tinha uma criança manifes-tada que dizia que eu ia morrer se fos-se para a passarela. Quando cheguei ao Cabo, tive que comprar vela e passar no meu corpo. Nunca peço nada para derrubar ninguém, principalmente meus amigos que têm clube. Minha de-voção é pedindo paz”, afirma José.
  • 13.
    Ofrevo, para omaestro Duda, não é um simples gênero mu-sical – ou um patrimônio da humanidade, como o próprio músico é do Estado de Pernambuco. O gênero sempre esteve na trajetória e no coti-diano do múltiplo instrumentista mais do que como acordes, partituras e arranjos. Duda é capaz de se magoar com o frevo, demonstrar seu amor por ele, temer o futuro, dar conselhos para o presente. São duas personalida-des fortes, talvez, em uma relação de amor incondicional e mágoa reticen-te. Aos 78 anos, o maestro deve seu prestígio em Pernambuco ao frevo, mas a alegria do título traz também o ressentimento como pouco reconheci-mento das suas outras composições. Porque, além de mestre do frevo, José Ursicino da Silva, nome de cartório de Duda, é um maestro múltiplo, que pas-seia, como todo bom mestre, do erudito ao popular. A música faz parte do seu corpo, como se corresse no seu sangue. Mais do que contagiado pelo vírus da música, Duda acredita que já nasceu com ele; estava fadado aos instrumentos, notas, partituras, suítes, arranjos e, claro, suor. “Quando criança, aprendi a tocar em uma banda, a mesma em que meu pai tocava, a mesma em que meu avô to-cava. Não tinha internet, porque hoje to-do mundo nem sai dela. Naquele tempo não tinha internet, não tinha televisão, música era o que eu tinha pra fazer. Eu não tinha outra opção, não”, aponta. Diz logo que a sua história, que come-ça em Goiana, pode ser facilmente en-contrada na internet. E pode mesmo, nas mais diversas formas, de enciclopé-dias de música até duas dissertações de mestrado. “Mas, se você quiser, conto no-vamente.” Pernambucano e paraibano ao mesmo tempo, Duda se considera um “meeiro”, por ter nascido a 62 km de Re-cife, perto do limite com a Paraíba. O co-meço na música, seguindo os passos pa-ternos, foi na banda Saboeira, a grande rival do grupo Curica. Ali, aos oito anos, conheceu o saxofone, seu companheiro de décadas que lhe introduziria ao fre-vo, à partitura e a todo o universo musi-cal. Dois anos depois, aos 10, já mostra-va a sua criatividade precoce: depois de ver um filme com o mesmo nome no ci-nema, compôs Furacão, o seu primeiro frevo, com “um arranjo simples”. A partir dali, foram mais de 500 dis-cos gravados. Veio para o Recife em 1950 tocar na lendária Jazz Acadêmica, fundada por Capiba. Sua trajetória se confunde com o frevo, mas ultrapassa em muito o gênero. A Suíte nordestina, por exemplo, já foi executada por or-questras americanas, japonesas e ale-mãs – “e todas as bandas brasileiras”. “As orquestras sinfônicas do mundo to-do e as bandas sinfônicas e filarmônicas do Brasil inteiro tocam músicas mi-nhas. Tem frevo no meio. Mas tem baião, tem xote, tem maracatu, tudo que é música nordestina tem”, conta. “O maestro Júlio Medalha disse em uma entrevista que, se eu tivesse nasci-do nos Estados Unidos, eu seria um Quincy Jones”, revela, com orgulho. Nas composições eruditas, quase sempre arranja um modo de ressaltar sua origem, carregando-as do popular. Só que sua capacidade de arranjador não para aí. Vai de hinos de colégio (“Vez ou outra paro um estudante do Colégio Bandeira, na frente de casa, di-go ‘venha cá’ e peço pra ele cantar o hi-no, só para brincar. Depois digo que eu compus”) até arranjos para CDs de igrejas, de suítes a frevos de rua. “Músi-ca para mim tem que ser boa. Pode ser erudita, popular, sacra, evangélica.” Ao explicar uma música, Duda para o que estiver dizendo e começa a cantaro-lar. Acompanha a voz com a mão, como se regesse a si mesmo. A melodia é um idioma à parte para o maestro, uma lin-guagem afetiva, em que ele é capaz de contar a história do Brasil, homenagear um filho ou um amigo, representar uma região, contar suas dores ou alegrias. A música é essa linguagem particular para Duda; o frevo, a sua primeira e mais dúbia paixão. O ritmo é parte da sua vi-da. Compôs um para cada um de seus fi-lhos. Um dos mais famosos é em home-nagem àquele que seguiu seus passos na música, Nino Pernambuquinho, hoje pro-fessor do Conservatório Pernambucano. O problema é que, como o frevo quase não é lembrado fora do período carnava-lesco, o maestro se ressente da falta de trabalho. “Só se lembram de mim no Carnaval, durante três dias. E o resto do ano?”, diz. “Para tocar aqui em Pernam-buco, tenho que enfatizar mais o frevo, o resto da minha obra é esquecida. Afi-nal, santo de casa não faz milagre.” Nesse vaivém sentimental, em de-terminado período da vida deixou de compor frevos. Até nas suítes com rit-mos populares, escolhia o maracatu e a ciranda. É a mágoa que continua vi-va. Duda, no entanto, não consegue es-conder por muito tempo a relação ín-tima com o mais pernambucano dos ritmos: se preocupa com seu futuro como se ele fosse um filho que vai se-guir aqui quando o maestro se for. Outro desapontamento é não ser cha-mado para mais atividades. O título de Patrimônio é um orgulho, mas ele não quer ser entronizado em um título: quer continuar tocando o tanto quanto possível. “Já que eu estou vivo, sou pa-trimônio e estou me locomovendo, me usem! Estou pronto para trabalhar, eu preciso trabalhar”, avisa. “Apesar de es-tar com 78 anos de idade, eu estou vi-vo”, brinca. Seu sonho é poder não só tocar, mas ensinar seu conhecimento sobre o frevo para alunos, até para co-nectá- los com a essência do ritmo. “Estão descaracterizando o frevo. A juventude está pensando que o que é fei-to hoje é o frevo de verdade. É preciso que se conheça o frevo, não se pode co-locar ele numa vitrine, tombar, como uma igreja, um museu”, alerta. O proble-ma, para ele, não é a modernização do ritmo, mas sim ver o frevo ser valoriza-do cada vez mais no palco e não na rua. “Por mais moderno que um frevo seja, é a orquestra na rua que toca ele como ele é. Não tem solista, não, é só a orques-tra tocando frevo”, ensina, lamentando que, em 2012, entre os três primeiros lu-gares do concurso municipal, nenhuma canção era de rua – todas seguiam ar-ranjos que só serviriam para shows. “O frevo é contagiante, o frevo é para balan-çar o povo, não é formal. Ficar sentado ouvindo frevo como num velório? O fre-vo não foi feito para isso”, sentencia. (Diogo Guedes) Em 2003 o maestro Nunes, com a autoridade dos seus então 72 anos, lançou dois álbuns de fre-vos, um de rua, outro canção. Ambos com composições inéditas. Algo raro, numa época em que o ritmo andava por baixo, vivendo de regravações. Ele repetiria o feito cinco anos depois, quando completou seis décadas dedi-cadas não apenas ao gênero, mas aos diversos ritmos pernambucanos. Obviamente ele é mais conhecido pelos frevos instrumentais que com-pôs, alguns quase de domínio públi-co, como é o caso de Cabelo de fogo, que divide com Vassourinhas (de Joa-na Batista e Matias da Rocha) o títu-lo de marcha-frevo mais executada nas ruas do Estado durante o Carna-val. É uma melodia que todo conterrâneo conhece de cor, embora boa parte não saiba o nome do autor. Nascido em Vicência em 26 de ju-nho de 1931, Patrimônio Vivo de Per-nambuco desde 2009, José Nunes de Souza tem uma trajetória artísti-ca muito parecida com a de outros grandes nomes do frevo, como Levi-no Ferreira, Capiba, José Menezes. Começou a tocar ainda de calças cur-tas, passou por bandas de música do interior e veio desaguar no mar. No Recife passou por diversas agremiações musicais, como Banda União Operária, Banda Manoel Óleo, União Operária da Macaxeira e Banda do Liceu de Artes e Ofícios, onde fez curso formal de música. Também to-cou na banda do Cassino Americano, no Pina, e foi funcionário da Banda da Cidade do Recife. Sua ligação com o Partido Comunista do Brasil o levou a trabalhar não apenas com as citadas or-questras operárias, como a ser um dos mais atuantes músicos do Movimento de Cultura Popular, o MCP, criado no primeiro governo Miguel Arraes. Militância que não justifica, mas explica um pouco o ostracismo pelo qual o maestro Nunes passou ao lon-go dos anos. Ele tocou frevo na As-sembleia Legislativa, na posse de Mi-guel Arraes como governador em 1960, como também esteve no palá-cio do Campo das Princesas no dia 1º de abril de 1964, quando o Exérci-to ocupou o local e prendeu o gover-nador. Ele costumava contar que se-guiu em passeata até o palácio para se solidarizar com o governo eleito pelo povo. No caminho, os manifes-tantes esbarraram nas forças milita-res que, embora o grupo que protes-tava estivesse desarmado, dispara-ram os mosquetões contra aqueles que faziam resistência ao golpe. No extinto programa do apresentador Roger de Renor na TV Universitá-ria, Nunes contou que correu da Praça da República, onde fica o Palá-cio do governo, até a Praça do En-troncamento. Quando chegou em casa, criou logo um frevo. Depois passou alguns meses escondido no campo para não ser morto. Além de ter trabalhado em vários projetos do MCP, que empregava a cultura popular para politizar, alfabeti-zar e, claro, divertir, Nunes militava no PCB a ponto de dar uma de gazetei-ro vendendo o jornal Novos Rumos, ór-gão do partido que funcionou de 1959 a 1964 e dava destaque aos aconteci-mentos em Pernambuco. Essa atuação o levou a ser demitido da banda muni-cipal e amargar o isolamento de ser oposição, num tempo em que muita gente fazia questão de ser situação. Numa curta entrevista disponível no YouTube, Nunes afirma que nun-ca compôs pensando em dinheiro. Atendia o apelo da música, que corre no seu sangue desde que nasceu: “Aceito a música como se fosse uma mulher que eu amasse e, ao mesmo tempo, ela fosse ingrata para mim”. Talvez ingrata,mas nempor isso dei-xou de ser fonte de inspiração. Uma fontemais que generosa, que lhe ren-deu cerca de três mil composições. No citado álbum 60 anos de frevo, Nu-nes, a exemplo do fez Lamartine Ba-bo, homenageia diversas agremiações carnavalescas, dedicando-lhes frevos inéditos. Foi o caso dos títulos Este ca-chorro é feio, mas não morde, para a tro-ça Cachorro Feio de Santo Amaro, ou Pra você doutora Mércia, feito para a Turma da Jaqueira Segurando o Talo. Entre seus clássicos mais consagra-dos, estão Cabelo de fogo, É de perder o sapato (que batizou o álbum duplo dedicado ao centenário do frevo em 2007), e Mosquetão. Esta última é a citada composição inspirada nos epi-sódios que viveu no fatídico 1º de abril de 1964, quando fugiu para não morrer dos tiros disparados pelos sol-dados, que feriram e mataram mani-festantes. A vingança do maestro foi um frevo: “Onde o coronel usava o mosquetão, eu usava a alegria”. Uma alegria que ele espalhou pelo Carnaval, apesar de durante muito tempo ter sido subestimado como compositor, pela estrutura simples dos seus frevos, nos quais incorriam poucos acidentes na execução. No en-tanto, a geração que já há algum tem-po dá as cartas no frevo tem Nunes co-mo uma das principais influências, chegando a estudar com ele, como Francisco Amâncio de Souza, o Maes-tro Forró: “Com uma habilidade tal-vez inconsciente, Nunes começou a compor de uma maneira que sua músi-ca pode ser executada por uma orques-tra de qualquer nível. Muita gente cri-ticava, mas acabou que a minha gera-ção – eu, Spok e muitos outros músi-cos – passou pela escola de Nunes. Meu primeiro professor de música su-geriu que os alunos fossem ensaiar na escola de Nunes, ali no Pátio de Santa Cruz. Fui várias vezes. Ele foi de gran-de importância para o frevo. Conse-guiu criar um frevo instrumental boni-to, simples e de fácil execução, o que é uma tarefa muito difícil”. A escola de frevo do Maestro Nunes, dirigida principalmente para crianças, filhos de integrantes de agremiações carnavalescas, foi uma das responsá-veis pela renovação de instrumentistas no Carnaval pernambucano. Na sua ofi-cina na Casa do Carnaval, no Pátio de Santa Cruz, ele cuidava com zelo e pa-ciência da restauração de antigas parti-turas de frevo. Aos 82 anos, infelizmen-te, o maestro do povo foi pego pelo mal de Alzheimer. Fica a dúvida se real-mente esqueceu a música, “mulher amada e ingrata”, que o tratou com ca-rinho e desprezo ao longo de mais de sete décadas de vida a ela dedicadas. (José Teles) Marcos Michael/JC Imagem/22-1-2007
  • 15.
    As fotografias eos pôsteres pendurados na parede do terraço de casa estão entre as histórias de que o cineasta Fer-nando Spencer ainda se lembra com mais facilidade. Imagens dos irmãos Lumière em preto e branco, cenas da juventude e diplomas de prêmios recebidos vão aos poucos esmaecendo sob a luz solar. Alguns resistem apenas como fragmentos de memória. As mãos, que pouco a pouco perdem a luta contra o tre-mor, por anos guiaram as câmeras que registraram enredos e fizeram a alegria do cinema pernambuca-no. Da lista de nomes do Super 8 ao time dos Patrimônios Vivos de Pernambuco, Spencer vive um sau-dosismo emaranhado no difícil ro-teiro do esquecimento. Os olhos, na infância, descobriram a alegria e os movimentos da sétima arte nos trejeitos de Charles Chap-lin e nas aventuras dos caubóis nor-te- americanos. Descendente de ale-mães, Spencer era levado pelo pai, Nicodemes Brasil Hartmann, aos ci-nemas do Recife. Aos 12 anos, ga-nhou seu maior presente: um proje-tor de filmes de 35 mm. Ali nascia uma paixão para a vida toda. Ele montou nos fundos de casa o Cine Metro, para 20 pessoas. Em 1969, o cineasta começou a carreira de realizador. Filmou em preto e branco A busca, o primeiro de seus 44 curtas, rodado em 16 mm. Nos anos 1970 ele descobriu o Super 8, uma bitola que tinha pelí-culas mais baratas e fáceis de manu-sear, dispensando um aparato técni-co caro e sofisticado. Virou uma re-ferência no formato, enfaticamente defendido nas críticas que publica-va no Diario de Pernambuco. Hoje, com mal de Alzheimer, o cineasta se queixa da aposentadoria: “Você passa a ser esquecido”. Em janeiro do ano passado, para custear o tratamento médico dele e da mulher, vendeu parte do seu acer-vo à Fundação Joaquim Nabuco. “Me arrependo, mas eu precisava”, conta o cineasta das três bitolas, co-mo ficou conhecido por já ter roda-do em Super 8, 16 mm e 35 mm. Opagode, no bar do Didi, aconte-ce. Não é agendado. Tudo co-meça com um encontro de ami-gos. Há 32 anos, Valdemir de Sousa re-solveu deixar o trabalho de gerente no restaurante português Adega da Moura-ria, no Bairro de Santo Antônio, para abrir seu próprio negócio. Levou consi-go um violão, a coragem de viver um so-nho e a ousadia de ser seu próprio che-fe. Ele nem esperava que as suas parti-turas de clássicos da MPB dariam lugar às rodas de samba que já trouxeram ao Recife grandes nomes nacionais antes mesmo de se tornarem famosos. No apertado estabelecimento da es-treita Rua Ulhoa Cintra, em meio ao caos do Centro do Recife, seu Didi re-lembra a vida de festas. Enquanto arru-ma o bar para mais uma noite de rodas de samba, que tomam o espaço de quin-ta a sábado, das 18h às 23h, o senhor de cabelos grisalhos vai fazendo listas. “Aqui eu deixo todos os meus instrumen-tos: violão, cavaquinho, reco-reco, pan-deiro. Mais tarde os meninos chegam e pegam os instrumentos, aí vira pagode”, diz. Foi assim que as coisas começaram. Recifense, Didi viveu a infância na Bomba Grande, Zona Oeste da capital, onde brincava à beira do rio. Em casa, acompanhava a boemia do pai, que vira-va a noite tocando boleros, tangos, val-sas e sambas no violão. O menino gosta-va de ver o pai e seus amigos tocarem. Observava cada nota, prestava atenção nos acordes e aprendeu assim, só de olhar. O pai não queria. “Naquela época, andar com violão debaixo do braço era perigoso. Você podia ser preso e era des-criminado. Hoje a turma tem respeito.” Já adulto, dominando o violão, Didi foi trabalhar na Adega da Mouraria. Antes ha-via sido almoxarife, datilógrafo e auxiliar de escritório. Na Adega da Mouraria, viu passar nomes importantes da música na-cional e lusitana: Jair Rodrigues, Cauby Peixoto, Amália Rodrigues, Pery Ribeiro e Agnaldo Timóteo. Na mesma época, era aluno do Conservatório Pernambucano. Foi no beco estreito do bairro de San-to Antônio que Didi conseguiu unir suas paixões: a música e um restauran-te só seu, de onde tirou sustento para criar os três filhos. “Hoje eu sou a refe-rência do pagode em Pernambuco”, diz, com orgulho de ser pagodeiro. Tudo dói. Mas o boi está quase de pé. As costas doem. Mas o casa-mento já está pronto. As pernas e os braços estão cansados. Mas as mãos con-tinuam remexendo o barro. Tem um Nor-deste enfileirado na prateleira de ferro, num ateliê pequeno, imprensado entre as casas de fachadas chochas, numa rua es-treita e ainda mais apertada pelo aglomera-do de gente que se aperta dançando forró. É São João no Alto do Moura, em Carua-ru, e Manuel Eudócio, 82 anos, vai se guar-dando timidamente entre as miniaturas de gente que ele faz com as mãos todos os dias. Vai guardando com carinho as suas crônicas coloridas cheias de arquétipos de um povo que vive de saudade e alegria, mesmo quando a vida nem sempre é festa. “Tive cobreiro em janeiro. Era dor de mor-rer. Tomei tanto remédio, injeção no nervo. Eu sofri tanto no mundo. Emagreci seis qui-los. Estou tomando remédio ainda. Mas sin-to dor, cansaço, fraqueza”, diz o artista que, além de ser Patrimônio Vivo de Pernambu-co, carrega o título de discípulo do Mestre Vitalino. Ele começou na cerâmica aos oito anos. Como muitos, iniciou numa brinca-deira. Sua avó, que era louceira, enquanto fazia panelas, dava a ele um pedaço de bar-ro para passatempo. Ali foram surgindo pe-quenos cavalos desajeitados, mas vivíssi-mos aos olhos criativos de uma criança. Nascido no Alto do Moura, Manuel, tí-mido e orgulhoso, observava de longe o jeito do renomado Mestre Vitalino traba-lhar. “Ele veio morar aqui bem pertinho e vi suas peças. Nunca fui pedir para ele me explicar como fazia. Adolescente, eu ia olhando e aprendendo por mim mes-mo. Até que comecei a trabalhar direiti-nho. Aqui tinha bem pouquinha casa e na estrada nem passava carro. Comple-tou 65 anos que trabalho nessa arte.” As referências da infância foram ga-nhando forma na argila. Eudócio, que dançava os olhos vendo as apresenta-ções de reisado, resolveu levar o univer-so do folguedo para o barro. Umamanei-ra, segundo ele, de eternizar o brinque-do. “É tão difícil ver um reisado. Quan-do eu era menino, o reisado começava de noite e ia até o outro dia. A gente só parava para tomar café.” No seu ateliê, a festa foi recriada em mais de 200 peças. Ao lado de nomes como Vitalino e Zé Caboclo, Manuel Eudócio foi responsável pela valorização da cerâmica produzida no Alto do Moura, que ganhou espaço no rol da arte popular. Protestante, o artista leva uma vida tranquila, em casa, ao lado dos filhos que prometem continuar seu trabalho. Para quem costumava dizer que, “quando completasse 50 anos, ia fazer co-mo Pelé e pendurar as chuteiras”, seu Ma-nuel hoje faz o contrário. “Quando eu adoeço, fico ainda mais doente porque não posso trabalhar.” Entre dores e analgé-sicos, o mestre segue a vida sem abando-nar a arte. “Não posso parar”, diz. E se emociona ao falar de Mestre Vitalino, que, segundo ele, morreu abandonado. “Ele es-tava doente, ninguém queria socorrer.” No radinho de pilha, no canto da sala, Roberto Carlos canta As canções que você fez pra mim. Mestre Nuca falava sobre Maria. A vida não tem sido fácil para ele, e as saudades de sua mulher dificultam ainda mais. Tu-do agora são lembranças e passos lentos. “Eu me sinto sozinho. Preciso arrumar uma nova companheira, alguém que me faça companhia. Depois que Maria mor-reu, fiqueimuito só. Preciso conversar pa-ra que os pensamentos ruins não che-guem”, diz o ceramista, que ficou famoso no País por causa dos seus leões de barro. Aos 76 anos, Nuca esconde o sorriso de canto de boca, ao mesmo tempo em que res-munga por não conseguir mais fazer suas pe-ças. O lado esquerdo do corpo ficou paralisa-do após um acidente vascular cerebral (AVC). O coração lhe pregou várias peças. Na casa pequena onde mora em Tracu-nhaém, Manoel Borges da Silva cons-truiu uma família de artistas. Dos cinco fi-lhos que teve com Maria, três atuam na cerâmica. Ele nasceu num engenho de Nazaré da Mata em agosto de 1937, mas se mudou para Tracunhaém aos 3 anos. Aos 8, vendia bonecos de barro na feira de Carpina. Foi aperfeiçoando o trabalho. Em 1968, apaixonado pelo Sport Club e influenciado pelo leão da bandeira do Recife, resolveu representar os bichi-nhos na argila. As peças, com uma postu-ra altiva e a juba lisa, destoavam da arte feita na cidade naquela época, quando o barro só dava forma a santos e anjos. “Criei minha família com a minha arte.” Para falar sobre a carreira, o ceramista vai, aos poucos, puxando os fatos na me-mória. Em suas melhores lembranças es-tão a amizade com o ex-governador Jar-bas Vasconcelos, um bom comprador, e com a colecionadora e arquiteta Janete Costa. Entre as recordações que hoje doem, estão o amor por Maria e a sau-dade que ela deixou. Em dezembro de 2012, Nuca ficou viúvo. Foi ela quem deu a ideia de transformar as jubas li-sas em pequenos cachos, que se torna-ram uma marca registrada do artista. Morando sozinho, o mestre tem reapren-dido a cuidar de si. “O derrame é uma doença triste. Quando não mata, deixa pa-ralítico. Tudo que aconteceu comigo foi por causa da pressão alta. Ela mandava eu cuidar, eu não cuidava. Agora tenho toma-do os remédios.” Ele junta o salário de apo-sentado e a bolsa do Patrimônio Vivo para comprar medicamentos. A fisioterapia, que fazia três vezes por semana no hospi-tal da Restauração, no Recife, ele abando-nou: “Ficava muito ruim para ir e voltar”. Mas garante que continua a repetir os exercícios que aprendeu no tratamento. O que mais o incomoda é não poder trabalhar. Em meio à saudade de Maria e à impossibilidade de criar, Nuca confessa uma alegria, a de ver seu trabalho reco-nhecido. “Ser Patrimônio me enche de orgulho. Me deixa feliz saber que repre-sento Pernambuco”, diz o homem que, mesmo triste, parece ter força de leão. Ricardo Labastier/JC Imagem
  • 16.
    Maria nem quisver a novela, ti-rou os bobes dos cabelos e saiu de casa às pressas para não se atrasar. Antônio foi direto do tra-balho. Francisco levou os netos. Severi-na e João saíram correndo da escola, as-sim que as aulas acabaram. Todo mundo foi chegando de mansinho, se sentando nas cadeiras de plástico para assistir à apresentação. Todo mundo foi se cum-primentando. Todo mundo se conhecia. Bastou o maestro abrir a pasta de parti-turas e erguer a batuta para os cochi-chos silenciarem. E começou o concerto em Goiana, na Zona da Mara Norte. Patrimônio Vivo de Pernambuco, a banda filarmônica Curica se orgulha também do outro título: é a mais anti-ga em atividade da América Latina. O grupo, inicialmente com 15 músicos, foi fundado em 1848 por José Conra-do de Souza Nunes, na Igreja de Nos-sa Senhora do Amparo dos Homens Pardos, para tocar nas festas católicas da cidade. A origem do nome da agremiação tem duas versões. Há quem diga que uma senhora chamada Iria, ao ouvir o som que a banda fazia na rua, disse ao maestro que a música parecia o grito de uma curica (um pás-saro de canto estridente). Outros afir-mam que Iria, escutando uma das pol-cas do repertório, achou que o refrão soava como “cu-ri-ca-cá”. Se nenhuma dessas versões prevalece sobre a outra, é consenso que a filarmô-nica acabou se transformando em um mimo dos moradores. Não de todos, mas de uma parte deles. Os goianenses dividem sua paixão entre duas bandas, a Curica e a Saboeira, fundada anos de-pois, em 1855. “Filarmônica de interior é que nem time de futebol da capital: ca-da família torce por uma”, explica Ed-son Júnior, presidente da Curica. Edson e a família são exemplos des-sa devoção à banda. Ele chegou à agremiação ainda criança, sonhava em ser músico. Lembra-se daquela época com orgulho. “A gente mal tinha instru-mento e uniforme, se mantinha a par-tir da ajuda dos sócios-colaboradores. Quando eu ia fazer a cobrança, não da-va nem um salário mínimo. Cada um contribuía com R$ 4, R$ 2”, diz. Durante dois anos, ele ficou na filar-mônica estudando teoria musical, já que seus pais não tinham dinheiro para comprar instrumento. Um convite do maestro da Saboeira fez com que ele saísse da Curica e fosse para o grupo ri-val. “Lá eu teria instrumento. A Saboei-ra sempre teve mais condições, porque é uma banda de comerciantes, gente ri-ca. A Curica é do povo mais humilde, dos operários”, explica o músico. “De-pois que aprendi a tocar e com o dinhei-ro que juntei, comprei o trompete e vol-tei para minha banda de origem.” Orgulho é uma palavra-chave den-tro da Curica. Na história que é repas-sada pelas gerações de músicos, uma das lembranças sempre recontada é a do dia em que a banda tocou com o batalhão da Guarda Nacional que re-cebia o imperador Dom Pedro II, quando ele visitou Goiana em dezem-bro de 1859. Essa presença em mo-mentos importantes da história na-cional, aliada à sua resistência em fa-zer música no interior, terminou for-talecendo a imagem da Curica no res-tante do Brasil e fora do País. Em 1944, a filarmônica recebeu a visita do musicólogo uruguaio Francisco Curt, para pesquisar de perto, na se-de da banda, partituras do século 19. Patrimônio Vivo de Pernambuco desde 2005, atualmente o grupo se reúne para os ensaios na rua da Igre-ja de Nossa Senhora de Rosário dos Negros, no Centro de Goiana. A casa-sede foi uma doação recebida no dia do centenário da filarmônica. O acer-vo do repertório da Curica reúne cer-ca de 800 peças, entre músicas reli-giosas, clássicos da MPB, composi-ções barrocas e dobrados. Quando chega o Carnaval, os 60 músicos se dividem também nas orquestras de frevo que animam as festas locais. Um dos integrantes mais jovens da Curica é Victor, 14 anos, há quatro dentro da filarmônica. São 165 anos que o distanciam da primeira geração do grupo. “Ninguém me incentivou. Eu mesmo quis vir. Minha mãe não gosta que eu faça parte, porque quer que eu vá estudar, mas eu me esfor-cei e entrei. No começo é difícil. Mas, quando a gente se acostuma, passa”, diz. Tímido, o pequeno trompetista vai se entrelaçando aos mais expe-rientes e é um dos destaques das re-tretas. Dois dias por semana ele tem aula de música na sede da banda. De Goiana já viajou para Maceió e Portu-gal, a fim de se apresentar. Cursando o nono ano do ensino fundamental, o menino que adora tocar frevo – “O meu preferido é Vassourinhas” – so-nha com o futuro: “Quero ser da Ma-rinha ou do Exército, mas sem deixar a música de lado. Meus amigos da es-cola acham isso chato, falam para eu sair. Mas eu não vou sair, não. Gosto de futebol, mas prefiro a banda”. Toda a cidade estava lá para assistir à estreia. Em Timbaúba, Zona da Mata, o povo se aglomerava na Praça Dona Guiomar (hoje Praça João Pessoa) pa-ra ver a primeira apresentação da banda Filarmônica Euterpina de Timbaúba. Fundada em fevereiro de 1928, só dez meses depois ela fazia seu primeiro dobrado, no mesmo lu-gar em que havia sido criada, como se fosse um grito de independência dado pelo professor José Mendes da Silva, na época aos 23 anos. “Existia a Sociedade Musical Pri-meiro de Novembro, mas a banda sozinha já não dava conta da de-manda dos eventos da cidade. As apresentações eram muitas e havia muitos músicos por aqui”, lembra o atual presidente da Euterpina de Timbaúba, Eder Gomes. Batizada com um nome que faz alu-são à deusa da música, Euterpe, a banda filarmônica é um orgulho de timbaubenses. A sede do grupo fica no centro da cidade, ao alto, de onde se pode ver parte do comércio e das avenidas principais. A banda surgiu em nove de fevereiro de 1928. Atual-mente as coisas vão bem para a filar-mônica, mas nem sempre foi fácil. Em 1962, enquanto o Brasil fervilha-va por causa dos movimentos políti-co- sociais e conflitos partidários, a falta de incentivo público fez com que a Euterpina de Timbaúba fechas-se as portas. “Foram problemas exter-nos, de perseguição política; e inter-nos, de divergências da própria dire-toria”, diz Eder. Só em 1989 é que o grupo foi remontado, por decisão de ex-integrantes e com ajuda de sócios e colaboradores, agora na sede atual. O prédio de dois galpões, que aos poucos vai sendo reestruturado, guar-da as lembranças e a história da músi-ca de Timbaúba. Aqui 42 músicos com idades de 17 a 65 anos redesco-brem todo dia o prazer da arte e lu-tam para se modernizar. Desde 1995 à frente da regência da banda, o maes-tro Josivânio Rique de Lima, 41 anos, deu uma revirada no repertório das apresentações, incorporou novos ar-ranjos e canções contemporâneas às retretas, incluindo uma feliz releitura de Toque de Luanda, criada a partir das partituras do Maestro Forró, da Orquestra Popular da Bomba do He-metério. “O público jovem não estava muito interessado nas nossas apresen-tações. Mudamos o repertório da ban-da, tocamos músicas mais jovens e fa-zemos algumas coreografias desde que o novo maestro assumiu.” O resultado é que, além de con-certos mais atrativos, o grupo ga-nhou mais alunos. A cada mês, gra-ças a um projeto municipal, a Eu-terpina e a Primeiro de Novembro circulam pelos bairros mais caren-tes da região levando música para todos. A banda de Timbaúba é Pa-trimônio Vivo de Pernambuco des-de o final de 2012. Além da filarmô-nica, o grupo também tem uma or-questra de frevo, criada em 2010. “As bandas de interior equi-valem aos conservatórios da capital.” A afirmação é feita por João Paulo Ferreira da Ho-ra, 42 anos, presidente e maestro da Banda Euterpina Juvenil Nazarena, de Nazaré da Mata. Ele é o próprio exem-plo de suas palavras. Foi no grupo que começou a dar os primeiros passos co-momúsico. Hoje ganha o País como in-tegrante da banda do cantor Siba. A Juvenil Nazarena foi criada no dia 1º de janeiro de 1888. À época, Nazaré era uma cidade pequena, onde existia um grêmio dos comerciantes locais – músicos nas horas vagas. Por isso sur-giu a ideia de se criar uma banda. Como é tradição no interior, o grupo passou a celebrar o aniversário de fundação com um churrasco de bode. O animal era ca-pado meses antes. “Quando o povo da cidade via os músicos passarem, dizia: ‘lá vão os capa-bode’”, diz João, expli-cando a origem do nome popular que a banda recebeu na cidade: Capa-Bode. Num bonito casarão, em frente à Pra-ça do Frevo, fica a sede do grupo, onde acontecem ensaios e reuniões. Tem fa-chada de platibanda com desenho mar-cante e dentro um lindo piso de ladrilho hidráulico. Há cinco anos o lugar pas-sou por uma reforma para consertar o telhado, danificado pelas chuvas. Nas pa-redes, as recordações desses 125 anos de história estão enfileiradas em fotogra-fias e pôsteres, ao lado de uma imagem de Santa Cecília, padroeira dos músicos. Manter uma banda filarmônica não é tarefa fácil nem barata. Os custos pa-ra comprar e manter os instrumentos são altíssimos. Graças ao título de Patri-mônio Vivo, que concede uma bolsa mensal à Capa-Bode, a situação melho-rou um pouco, segundo João Paulo. “A gente pode dar uma gratificação aos músicos. O trabalho é de inclusão so-cial. A gente prepara o cidadão, dá uma profissão. Os professores que es-tão aquimuitas vezes trabalhamvolun-tariamente. Mas eles precisam ganhar alguma coisa, têm família”, diz ele, que também é representante comercial. “Tiramos muita gente do meio da rua e formamos profissionais. Há pessoas que saíram daqui e hoje são professo-res do Conservatório Pernambucano ou tocam em grupos de renome.” Além da banda, a Juvenil Nazarena mantém uma escola de formação na qual atende crianças a partir dos 8 anos. Ao todo, são 60 alunos. Eles tam-bém se dividem em uma orquestra de frevo. Uma das maiores dificuldades da agremiação, no entanto, é a preser-vação de sua memória. Com mais de um século de existência, a filarmônica deixou de registrar vários fatos do pas-sado e agora não tem como resgatá-los.
  • 17.
    João Silva, 78anos, confirma o ve-lho ditado sobre a força que as coi-sas parecem ter quando precisam acontecer. Roupa do couro como único patrimônio, 16 anos incompletos, resol-veu se mandar para o Rio de Janeiro, a en-tão feérica capital federal. “Queria ser ar-tista de todo jeito”, lembra ele, que mora-va com a mãe no bairro recifense de Ca-jueiro. “Grande m...”, gargalha ele, dono de um humor tão indomável quanto o ta-lento. “Peguei uma carona em Garanhuns e fui-me embora até Alagoas.” No caminho se ofereceu para trabalhar num trem. Como pagamento, teria a pas-sagem. “O sujeito perguntou quem conhe-cia o Rio e eu disse logo que conhecia.” João nunca tinha saído de Pernambuco. O candidato a artista chegou ao Rio para entregar a planilha de passageiros da via-gem e, sonho maior, conseguir uma vaga na Rádio Nacional. Morou por três dias num albergue público. “Se eu não arru-masse emprego, teria que sair de lá.” Menos de três luas depois, tinha arru-mado não só ocupação como moradia. “Fui trabalhar na oficina de uns portu-gueses e fiquei morando por lá. Lavava a roupa e ficava de cueca, esperando se-car”, diz ele. Uma semana depois, os pri-meiros sinais concretos da prosperidade: já tinha dinheiro para mudar de trajes. A arte lhe deu mais que camisas. Com uma carreira ascendente nos tempos áu-reos da rádio brasileira, iria se tornar um dos maiores parceiros de Luiz Gonzaga, conterrâneo que só conheceria na Cidade Maravilhosa. O filho de Januário gravaria, ao longo da vida, nada menos que 140 can-ções assinadas por João. Uma pequena parte, contudo, de seu enorme cancionei-ro. Com mais de mil composições, ele costuma ser regravado por gente como Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Ivete San-galo... “Ivete é uma danada, uma beleza de cantora”, diz ele, que teve a sua Nem se despediu de mim gravada recentemen-te pela sacolejante diva baiana. “É tam-bém uma amiga arretada. Vai longe na conversa de safadeza”, brinca. Gonzaga é tão importante na vida de João como ele o foi na trajetória do ami-go. “Faz uma falta arretada, um buraco que ninguém tapa”, diz ele, os olhos ma-rejados ao se lembrar do Velho Lua. Quando João se tornou um bem-sucedi-do cantor de baiões na Rádio Nacional, Gonzaga já era majestade. Mas, contra-ditoriamente, vendia muito pouco. Atuando como produtor, João dispa-rou as vendas do Trio Nordestino, que al-cançou a marca de 280 mil unidades. Gon-zaga, apesar da fama, vendia mirradas 2,5 mil cópias por álbum. “A BMG me cha-mou para produzir o disco de Gonzaga. E eu disse que, se não desse um disco de ou-ro a ele, nunca mais precisavam falar co-migo”, lembra o homem que aprendeu a tocar violão sozinho, aos 10 anos. Sua es-cola foram os cabarés de Arcoverde. João Silva se dispôs a mexer, justamen-te, no espírito lírico do Rei do Baião. “Gon-zaga era um gênio, foi quem criou o baião. Mas só cantava lamento, Asa-Branca, o so-frimento do retirante... Eu disse que o po-vo queria mais era esquecer, não lembrar o sofrimento.” Na ocasião, houve a primei-ra das muitas brigas entre os dois. “Ele dis-se que não ia gravar embolada, que aquilo não era coisa para ele. Mas faltavam só dois dias para entrar no estúdio e eu dis-se que, se ele não gravasse, eu sairia do disco.” Com seis músicas de João progra-madas para o álbum Danado de bom, Gon-zaga não teve escolha. Ou aceitava as im-posições, ou ficava com o disco esvaziado de última hora. “Eu ainda disse a ele: ‘Olhe, se eu tivesse chegado antes, quem era o rei do baião era eu, e não tu!’.” No que Gonzaga assentiu: “E era mesmo!”. Rebelde, João exigiu também o des-monte de um esquema mais ou menos co-mum nas gravadoras. “Os caras gastavam uma fortuna. Ninguém sabia para onde ia aquele dinheiro.” Com um disco drastica-mente mais barato, ele impôs a aplicação da verba economizada. “Eu disse: vão pe-gar o dinheiro e fazer dois Fantásticos e um Globo de ouro.” Estrategista impa-gável do marketing, Silva dirigiu Gonzaga num clipe em que ele aparecia na caçam-ba de um pau de arara, anunciando o ca-minho inverso. “Gonzaga dizia no vídeo que ia largar tudo e voltar ao sertão, que aquele era o último disco dele. Gonzaga era um artista, um ator, chorou logo”, ri. Disco pronto, João Silva voltou para Ar-coverde tremendo de insegurança. “Passa-va os dias bebendo, com medo de não che-gar ao Disco de Ouro”, diz. Mas o álbum Danado de bom (1984) vendeu nada menos que 1,6 milhão de cópias. “Gonzaga só aprendeu a ganhar dinheiro comigo”, ri, mais uma vez, dando um trago comedido no cigarro que fuma com cada vez mais parcimônia. “Emtrêsmeses, Gonzaga ven-deu três discos de ouro!” Coautor de Sanfo-ninha choradeira, Pagode russo e Nem se despediu de mim, João Silva seria o grande parceiro de Gonzaga a partir daí. O que aju-dou o mestre a ganhar um prêmio Shell. João não ficou rico. Mas consegue, co-mo poucos, viver de direitos autorais, com mais de duas mil composições gravadas por grandes nomes da MPB. Os 49 anos de vida no Rio, precisamente no subúrbio de Duque de Caxias, não foram suficientes pa-ra mudar o sotaque nitidamente pernam-bucano do compositor. “E eu sou besta?! Tem gente que nem chega no Rio e já está entronchando a boca”, ri mais uma vez. Há seis anos, João Silva voltou ao Reci-fe. Veio em busca de paz interior. “Fiquei viúvo da mulher com quem passei minha vida toda, o maior amor, minha grande amiga na vida”, diz. Como não conseguis-se recobrar as forças, ouviu os conselhos de um amigo psicanalista. O terapeuta dis-se para arrumar as malas, largar as lem-branças e a condição de viúvo coitado a que estaria confinado na comunidade em que vivia. “Minha mulher era tão arreta-da que disse que, se ela morresse antes, eu chorasse um pouquinho, mas arrumas-se logo um rabo de saia”, diz ele, as lágri-mas rompendo a moldura das pálpebras, ao se lembrar de dona Sebastiana Gomes. Virou patrimônio Vivo de Pernambu-co há quatro anos. “O dinheiro até que é bonzinho. Mas bom mesmo é o reco-nhecimento, o prestígio, né?”, diz ele, que até largou a boemia. “Tinha todos os defeitos do bêbado, ficava rico e cha-to. Agora que sou patrimônio, tenho que manter a compostura!”, gargalha. (Bruno Albertim) Reginaldo Alves Ferreira, Mes-tre Camarão, tinha 7 anos quando fez seu primeiro grande show. Foi submetido ao crivo dos sanfoneiros da sua família, numa das reuniões no quintal da Fazenda Camalaú, no interior da Paraíba. Ti-nha sido levado pelo pai, Antônio, e a mãe, Josefa. Foi tão aprovado que tomou gosto. Continua um nota 10 até hoje, sempre que empunha a san-fona sobre os palcos – agora maiores e na presença de outros públicos. Nascido na véspera de São João de 1940, o músico, que foi apelidado aos 18 anos pelo cantor Jacinto Sil-va, por causa das suas bochechas avermelhadas, é natural de Brejo da Madre de Deus, no Agreste de Per-nambuco. Ele aprendeu sanfona olhando o pai tocar. Aproveitava a ida de Antônio à lavoura para en-saiar algumas notas no instrumento. Aos 10 anos, foi para Caruaru. Aos 18, já fazia parte do elenco de músi-cos contratados da Rádio Difusora. O trabalho em Caruaru foi amplian-do a bagagem de Camarão. Em 1961, mesmo ano em que representou o Es-tado na festa de aniversário de Brasí-lia com o Trio Nortista (ele, Jacinto Silva e Ivanildo Peba), gravou seu pri-meiro disco, pela Rozenblit. Foi nu-ma das apresentações na Difusora que Camarão tocou com nomes como Hermeto Pascoal e, claro, o onipre-sente Luiz Gonzaga. Novamente o Rei do Baião deixa sua marca impres-cindível na história dos Patrimônios Vivos de Pernambuco. O Velho Lua levou Camarão para gravar dois dis-cos com ele, em 1969 e 1970, na RCA. “Nossa amizade durou enquanto ele foi vivo. Luiz Gonzaga também lutou pelos sertanejos, pela família dele, por Exu. Foi quem levou a (ro-dovia) BR até em cima da Serra do Araripe. Ele chegou a trocar shows por alimentos, na época de seca, pa-ra levar para o povo dele”, lembra o sanfoneiro, em entrevista no ca-marim da TV Jornal, no Recife. No entanto, o que transformou Camarão em um grande mestre foi sua ousadia e inovação. O sanfonei-ro criou em 1968 a primeira banda de forró do País, a Bandinha do Ca-marão, em que introduziu ao ritmo – até então compassado pela zabum-ba, o triângulo, o pífano e a sanfona – instrumentos de sopro como tuba, trombone e clarinete. No mesmo ano lançou a Orquestra Sanfônica, projeto no qual a sanfona deu base também para o frevo e o maracatu. Era um encontro de família. Atualmente Camarão dá aulas na escolinha Acordeon de Ouro, que criou em casa, no bairro da Estân-cia, no Recife. Ensina as primeiras li-ções do instrumento a crianças e adultos. Com três filhos, todos músi-cos, ele garante a continuidade da sua obra, mas padece de uma saúde fragilizada. Há quatro anos, fez uma cirurgia para a retirada dos rins e hoje precisa se submeter a três ses-sões de hemodiálise por semana. Do meio do chão de terra bati-da, num sábado de show na Exposição de Animais do Re-cife, nos anos 1960, Arlindo viu seu ído-lo pela primeira vez bem de pertinho. Luiz Gonzaga pisava no mesmo palco em que ele acabara de tocar. O Rei do Baião chamava Marinês para cantar e queria alguém que a acompanhasse com a sanfona. “Coruja, dono da banda de que eu fazia parte, era amigo de Gonzaga e disse a ele que tinha um sanfoneiro na exposição. Gonzaga mandou me chamar. Eu subi no palco, ele me deu a sanfona. Toquei duas mú-sicas. Quando Marinês acabou, Gonza-ga me mandou ficar e chamou Waldi-ck Soriano. Toquei com ele também. Quando acabou, ele me agradeceu e disse que eu era muito bom.” O desti-no, sem que o músico ainda soubesse, fez de Luiz Gonzaga o alto-falante da música de Arlindo dos Oito Baixos. Patrimônio Vivo de Pernambuco des-de dezembro de 2012, atualmente ele passa as tardes sentado no sofá de casa e relembra alguns dos muitos fatos mar-cantes da carreira. Arlindo começou a tocar sanfona ainda na infância, como passatempo, em Sirinhaém, na Zona da Mata Sul. Aos 18 anos, foi tentar a car-reira de músico e, aos 23, dividia seu tempo entre shows e o trabalho como barbeiro em Beberibe, no Recife. Já era casado, com três filhos, e se apresenta-va com vários artistas locais quando co-nheceu Gonzagão. Não demorou muito para que se tornassem parceiros. Foi do show na Exposição de Animais a uma conversa, no dia seguinte, na casa do próprio Arlindo, que durou quatro horas. Luiz Gonzaga abriu as portas da música nacional para o colega. “Gonzaga me convidou para tocar com ele. Viajei muito. Um dia, pedi para gravar um disco. Ele disse que, para eu gravar, tinha que mudar de instrumento, trocar a sanfona, que as gravadoras já tinham muitas, pelos oito baixos. Fui em Caruaru, com-prei um acordeom oito baixos de Zé do Estado e fiquei estudando. Oito meses depois ele teve aqui e se lem-brou. Perguntou se eu estava treinan-do. Aí eu mostrei. Ele disse que esta-va bom, me levou para São Paulo e gravamos. Mandou colocar na capa ‘Arlindo dos Oito Baixos, Mestre do Beberibe’, e daí ficou meu nome.” Simpático, sempre solícito, Arlindo conquistou o carinho e a admiração de muitos artistas. O sanfoneiro que já tocou com nomes como Elba Rama-lho e Dominguinhos, a quem conside-ra um grande amigo e mestre, conta com a ajuda de alguns parceiros para seu tratamento médico. Ano passado, antes de ser laureado, ele passou por duas cirurgias para amputar parte das pernas. A bolsa de Patrimônio e a aposentadoria não são suficientes pa-ra cuidar da saúde. Logo após os pro-cedimentos, vários artistas se reuni-ram para um show beneficente, no Forró de Arlindo, espaço cultural que ele mantém no quintal de casa, em Dois Unidos, onde acontecem apre-sentações culturais e aulas de sanfona. Guga Matos/JC Imagem/11-6-2009
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    Senhores e senhorasdonos do seu tempo, os Patrimônios Vivos de Pernambuco representam pa-ra a arte do Estado um novo capítulo da história de sua cultura. São como pontes, que unem passado e presente, corpo e movimento, memória e cria-ção. Inscrevem, com suas obras, novas tradições pernambucanas. Três desses mestres já se foram, mas deixaram pa-ra o futuro um legado que a morte não consegue apagar. Refundaram a vida. Famoso no Brasil e mundo afora, Mes-tre Salustiano (1945-2008) foi um dos mais conhecidos brincantes merecedo-res do título. Patrimônio eleito em 2005, entre os primeiros nomeados, sua história foi coroada de desafios, perseve-rança e glórias. Saiu da Zona da Mata pa-ra Olinda na década de 1960. Trazia con-sigo o maracatu de baque solto e o cava-lo- marinho que fizeram parte da sua in-fância, presentes do avô João Salustia-no. Mestre Salu deixou também sua he-rança, preservada até hoje pelos 15 fi-lhos. Aprendizado que rompeu a barrei-ra do divertimento e virou lição de vida. Num sítio na Cidade Tabajara, na peri-feria olindense, Salu construiu sua forta-leza. Alémdemoradia, o espaço se trans-formou há dez anos na Casa da Rabeca, onde acontecem apresentações cultu-rais, palco de resistência dos caboclos de lança. O chão é de cimento batido, as pa-redes decoradas e o teto com bandeiro-las, tudo cercado de casas onde mora parte da família de brincantes. Após a morte do mestre, em agosto de 2008, aos 62 anos, de problemas cardíacos provocados pela doença de Chagas, os filhos dele assumiram também a lide-rança do Maracatu Rural Piaba de Ou-ro. A memória e o trabalho de Salu são guardados com orgulho pelos herdei-ros, entre rabecas e fotografias. Eles pretendem criar um museu, o Centro de Referência da Cultura Popular Mes-tre Salustiano, onde o material ficará exposto para pesquisa e visitação. No Sertão pernambucano, na divisa do Estado com a Bahia, Ana das Carran-cas (1923-2008) fez sua história, conti-nuada com firmeza no trabalho de duas de suas três filhas: Ângela Lima e Ma-ria da Cruz. A artista – Patrimônio Vivo em 2005 – nasceu no município Santa Filomena, em Pernambuco, e morreu em 2008, aos 85 anos, após uma parada cardiovascular. Ela sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em 2004 e vi-veu os últimos dias com a saúde muito debilitada. Filha de uma índia e de um descendente de escravos, ela aprendeu em casa a arte do barro. Sua mãe, para sustentar a família durante os períodos de seca, fazia jarros e panelas para ven-der nas feiras do interior. Fugindo da estiagem, Ana chegou a Picos, no Piauí, onde se casou, teve duas filhas, adotou a terceira, enviuvou e se casou nova-mente, com José Vicente de Barros. Em 1954, o áspero clima sertanejo lhe fez descobrir Petrolina, cidade à beira do perene Rio São Francisco, onde jun-tou o barro à lenda das carrancas, ima-gens que protegiam os barqueiros con-tra os maus espíritos. “Mamãe era uma mulher batalhadora. A gente só não pas-sou fome porque ela sempre trabalhou, buscou alguma coisa para fazer. Ela foi uma supermãe”, lembra Maria da Cruz. De expressões fortes e traços bemdefini-dos, as carrancas de Ana foram ganhan-do fama não só por desobedeceremà tra-dição das peças de madeira (a maioria produzida na região), mas também por uma peculiaridade: as figuras sombrias e lendárias que ela criava ganharam olhos vazados. Uma homenagem que a artista fez ao marido, que era cego. To-da a obra deixada por Ana está atual-mente reunida no Centro Cultural Ana das Carrancas, em Petrolina, criado na antiga casa da artista. Administrado por suas filhas, o espaço recebe diaria-mente estudantes e turistas que vão co-nhecer o legado marcado na cerâmica. Embora não fosse pernambucano, o músico Canhoto da Paraíba (1926-2008) Alexandre Belém/JC Imagem/30-1-2006 Tom Cabral/JC Imagem/23-7-2006 foi nomeado Patrimônio Vivo com mui-to orgulho para o Estado, em 2005. Nas-cido em Princesa Isabel, no Sertão parai-bano, numa família em que música era quase sobrenome, o neto de clarinetista e filho de violonista se transformou em uma referência do choro brasileiro. Ele chegou a Pernambuco em 1958, após morar por seis anos em João Pessoa. So-nhou alto e começou a carreira musical ainda adolescente, aos 16 anos, em 1953, quando assinou contrato com a Rádio Tabajara, na capital do Estado vizinho. A influência do avô e do pai e a con-vivência com artistas da sua terra na-tal tornaram-no um músico completo. Canhoto, ele ficou conhecido também pela maneira com a qual dedilhava o violão, de modo invertido, sem alterar a ordem das cordas – já que dividia o instrumento com os irmãos destros. A cultura popular pernambucana in-fluenciou grande parte de suas compo-sições. O músico incorporou à sua obra elementos de ritmos como frevo, xaxado, xote e baião, e ganhou a admi-ração de nomes como Paulinho da Vio-la, Radamés Gnattali e Baden Powell. Canhoto da Paraíba morreu em abril de 2008. Morava com a filha na cidade de Paulista. Dez anos antes, já tinha se afastado da carreira musical, após sofrer uma isquemia cerebral. Rodrigo Lobo/JC Imagem/22-1-2008