SlideShare uma empresa Scribd logo
1 de 2
OS TEXTOS MEMORIALISTAS 
Consistem no relato ulterior de vivências/experiências pessoais passadas que se articulam com o contexto histórico-cultural 
das mesmas. 
Estes textos têm um valor documental, porque neles o autor não se limita a relatar o seu percurso autobiográfico e 
apresenta um testemunho do tempo e do espaço em que ocorreram as suas vivências. 
TEXTO I 
Enquanto andei na primeira classe, entrava às oito da manhã e saía à uma da ta rde. Ficava com a ta rde l ivre para brincar, 
e i s so era bom, mas nunca me habituei a acordar cedo. A minha mãe acordava-me todos os dias com uma tigela de papa. Comia 
ainda na cama. Sentado, mas ainda a dormir. Depois, fazia o caminho para a escola, que demorava cerca de meia hora. Chegava 
atrasado todos os dias. A professora tinha afixado um cartaz feito em papel quadriculado com o nome de todos os alunos da sala e 
um mapa com todos os dias de aulas. À chegada, tínhamos de pinta r o quadradinho correspondente com uma caneta verde, 
amarela ou vermelha, consoante chegássemos a horas, atrasados ou muito atrasados. Ter uma linha de quadrados vermelhos ou 
a ma relos à fre nte do nome era considerado mau. Eu chegava atrasado todos os dias. Quando che ga va , di zi a “dá l i ce nça , mi nha 
s e nhora?”. Essa e ra uma pergunta a que não esperava que a professora respondesse. Dirigia-me à minha carteira e, depois, dirigia - 
me ao cartaz. A professora perguntava sempre qual era a cor que nós achávamos que devíamos uti l i zar. Eu di zia sempre: 
“a ma re l o”, na e s pe ra nça de que a profe s s ora de i xas se pas sar. 
Tive sempre a mesma professora da primeira à quarta classe. Cada vez que nos dirigíamos a ela, tratávamo-la por “minha 
s e nhora”. Todas as frases a cabava m em “mi nha senhora”: “posso ir a fiar o lápis , mi nha s e nhora ?”, “pos s o i r à casa de banho, 
mi nha senhora?”, “posso ir a o quadro, minha s enhora?”. De fa cto, a professora e ra di fe re nte de toda s a s mul he re s que ti nha 
conhecido até aí e que eram as mulheres da minha rua. Tinha anéis com pedras em quase todos os dedos. Tinha o ca belo sempre 
arranjado. Tinha os olhos pintados. Falava de maneira diferente. Falava como as pessoas da televi são. Falava corretamente. A 
profe s s ora , “mi nha s e nhora ”, e ra uma s e nhora . […] 
José Luís Peixoto, in JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, 29 setembro – 12 outubro, 2004 
TEXTO II 
"Contei noutro lugar como e porquê me chamo Saramago. Que esse Saramago não era um apel ido do lado paterno, mas s im a 
alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que indo o meu pai a declarar no Registo Civi l da Golegã o nas cimento do seu 
segundo filho, sucedeu que o funcionário (chamava-se ele Silvino) estava bêbado (por despeito, disso o acusaria sempre meu pai ), 
e que, sob os efeitos do álcool e sem que ninguém se tivesse apercebido da onomás tica fraude, decidiu, por sua conta e ri s co, 
acres centar Saramago ao lacónico José de Sousa que meu pai pretendia que eu fosse. E que, desta maneira, finalmente, graças a 
uma intervenção por todas as mostras divina, refiro-me, claro está, a Baco, deus do vinho e daqueles que se excedem a bebê-lo, 
nã o pre cisei de inventar um pseudónimo para, futuro havendo, a s s i na r os me us l i vros . […]. Entre i na vi da ma rca do com e s te 
apelido de Saramago sem que a família o suspeitasse, e foi só aos sete anos, quando, para me matricular na instrução primária, foi 
necessário apresentar certidão de nascimento, que a verdade saiu nua do poço burocrático, com grande indignação de meu pai , a 
quem, desde que s e tinha mudado para Lisboa, a alcunha desgostava. Mas o pior de tudo foi quando, chamando-se ele unicamente 
José de Sousa, como ver s e podia nos seus papéis, a Lei, severa, desconfiada, quis saber por que bulas tinha ele então um fil ho cujo 
nome completo era José de Sousa Saramago. Assim intimado, e para que tudo ficasse no próprio, no são e no honesto, meu pai não 
teve outro remédio que proceder a uma nova inscrição do seu nome, passando a chamar-se, ele também, José de Sousa Saramago. 
Suponho que deverá ter sido este o único caso, na história da humanidade, em que foi o filho a dar o nome ao pai. Não nos serviu 
de muito, nem a nós nem a ela, porque meu pai, firme nas suas antipatias, sempre quis e conseguiu que o tratas sem unicamente 
de Sousa." 
José Saramago, As pequenas memórias 
TEXTO III 
Daquela mesma varanda, tempos mais tarde, namorei uma rapariga de nome Deolinda, mais velha do que eu três ou quatro anos , 
que morava num prédio de uma rua paralela, a Travessa do Calado, cujas tra seiras davam para as da minha casa. Há que esclarecer 
que namoro, o que então s e chamava namoro, dos de requerimento formal e promessas mais ou menos para durar («A menina 
quer namorar comigo?», «Pois sim, s e são boas as suas intenções»), nunca o chegou a ser. Olhávamo -nos muito, fazíamos s inai s , 
conversávamos de varanda para varanda por cima dos pátios intermédios e das cordas da roupa, mas nada de mai s avançado em 
matéria de compromissos. Tímido, acanhado, como me estava no carácter, fui algumas vezes a casa dela (vivia, creio recordar, com 
uns avós), mas, ao mesmo tempo, decidido a tudo ou ao que calhasse. Um tudo que daria em nada. Ela era muito boni ta , de 
ros tinho redondo, mas, para meu desprazer, tinha os dentes estragados, e, além do mais, deveria pensar que eu era demas iado 
jovem para empenhar comigo os seus sentimentos. Divertia-se um pouco à falta de pretendente idóneo, mas, ou muito enganado 
ando desde então, tinha pena de que a diferença de idades se notasse tanto. Em certa altura desisti da empresa. Ela tinha o apelido 
de Bacalhau, e eu, pêlos vistos já sensível aos sons e aos sentidos das palavras , não queria que mulher minha fos se pela vida 
ca rre ga ndo com o nome de De ol i nda Ba ca l ha u Sa ra ma go.” 
José Saramago, As pequenas memórias
Os textos de memória

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Uma análise da obra amor de perdição de
Uma análise da obra amor de perdição deUma análise da obra amor de perdição de
Uma análise da obra amor de perdição de
Fernanda Pantoja
 
Amor de Perdição (exceto cap. VI, VII, VIII) de Camilo Castelo Branco
Amor de Perdição (exceto cap. VI, VII, VIII) de Camilo Castelo BrancoAmor de Perdição (exceto cap. VI, VII, VIII) de Camilo Castelo Branco
Amor de Perdição (exceto cap. VI, VII, VIII) de Camilo Castelo Branco
Lurdes Augusto
 

Mais procurados (20)

Os Maias - Capítulo III
Os Maias - Capítulo IIIOs Maias - Capítulo III
Os Maias - Capítulo III
 
Uma análise da obra amor de perdição de
Uma análise da obra amor de perdição deUma análise da obra amor de perdição de
Uma análise da obra amor de perdição de
 
Conectores discurso
Conectores discursoConectores discurso
Conectores discurso
 
A Minha Autobiografia(Joana)
A Minha Autobiografia(Joana)A Minha Autobiografia(Joana)
A Minha Autobiografia(Joana)
 
Relatório de estágio cursos profissionais
 Relatório de estágio  cursos profissionais Relatório de estágio  cursos profissionais
Relatório de estágio cursos profissionais
 
Ano da morte
Ano da morteAno da morte
Ano da morte
 
Recursos expressivos
Recursos expressivosRecursos expressivos
Recursos expressivos
 
Valor modal das frases
Valor modal das frasesValor modal das frases
Valor modal das frases
 
Crítica, cartoon e crónica
Crítica, cartoon e crónicaCrítica, cartoon e crónica
Crítica, cartoon e crónica
 
Os Maias, capítulos I a IV
Os Maias, capítulos I a IVOs Maias, capítulos I a IV
Os Maias, capítulos I a IV
 
Gil vicente, farsa de inês pereira
Gil vicente, farsa de inês pereiraGil vicente, farsa de inês pereira
Gil vicente, farsa de inês pereira
 
Os Maias - Capítulo IV
Os Maias - Capítulo IVOs Maias - Capítulo IV
Os Maias - Capítulo IV
 
Maias Episódio Corrida no Hipódromo
Maias Episódio Corrida no HipódromoMaias Episódio Corrida no Hipódromo
Maias Episódio Corrida no Hipódromo
 
A mulher no estado novo
A  mulher no estado novo  A  mulher no estado novo
A mulher no estado novo
 
Deíticos
DeíticosDeíticos
Deíticos
 
Análise estrutural da narrativa em "O diário de Anne Frank"
Análise estrutural da narrativa em "O diário de Anne Frank"Análise estrutural da narrativa em "O diário de Anne Frank"
Análise estrutural da narrativa em "O diário de Anne Frank"
 
O resumo de Os Maias
O resumo de Os MaiasO resumo de Os Maias
O resumo de Os Maias
 
Memorial do Convento
Memorial do ConventoMemorial do Convento
Memorial do Convento
 
Os Lusíadas - Reflexões do Poeta
Os Lusíadas - Reflexões do PoetaOs Lusíadas - Reflexões do Poeta
Os Lusíadas - Reflexões do Poeta
 
Amor de Perdição (exceto cap. VI, VII, VIII) de Camilo Castelo Branco
Amor de Perdição (exceto cap. VI, VII, VIII) de Camilo Castelo BrancoAmor de Perdição (exceto cap. VI, VII, VIII) de Camilo Castelo Branco
Amor de Perdição (exceto cap. VI, VII, VIII) de Camilo Castelo Branco
 

Semelhante a Os textos de memória

Slide sequencia didática crônica memória poesia
Slide sequencia didática crônica memória poesiaSlide sequencia didática crônica memória poesia
Slide sequencia didática crônica memória poesia
Jomari
 
[Infantil] ruth rocha marcelo marmelo martelo
[Infantil] ruth rocha   marcelo marmelo martelo[Infantil] ruth rocha   marcelo marmelo martelo
[Infantil] ruth rocha marcelo marmelo martelo
Vanessa Reis
 
Marcelo marmelo martelo livro
Marcelo marmelo martelo livroMarcelo marmelo martelo livro
Marcelo marmelo martelo livro
Andréa Silveira
 
Livro, marcelo o marmelo.pdfxcxcxccccccc
Livro, marcelo o marmelo.pdfxcxcxcccccccLivro, marcelo o marmelo.pdfxcxcxccccccc
Livro, marcelo o marmelo.pdfxcxcxccccccc
LetciaSousa100
 

Semelhante a Os textos de memória (20)

A minha história
A minha históriaA minha história
A minha história
 
Rosa lobato faria[1]
Rosa lobato faria[1]Rosa lobato faria[1]
Rosa lobato faria[1]
 
Slide sequencia didática crônica memória poesia
Slide sequencia didática crônica memória poesiaSlide sequencia didática crônica memória poesia
Slide sequencia didática crônica memória poesia
 
Bandeja a trecho
Bandeja a trechoBandeja a trecho
Bandeja a trecho
 
O enigma de Santo Antônio do Paraibuna
O enigma de Santo Antônio do ParaibunaO enigma de Santo Antônio do Paraibuna
O enigma de Santo Antônio do Paraibuna
 
Infantilruthrocha marcelomarmelomartelo
Infantilruthrocha marcelomarmelomarteloInfantilruthrocha marcelomarmelomartelo
Infantilruthrocha marcelomarmelomartelo
 
[Infantil] ruth rocha_-_marcelo_marmelo_martelo
[Infantil] ruth rocha_-_marcelo_marmelo_martelo[Infantil] ruth rocha_-_marcelo_marmelo_martelo
[Infantil] ruth rocha_-_marcelo_marmelo_martelo
 
[Infantil] ruth rocha_-_marcelo_marmelo_martelo
[Infantil] ruth rocha_-_marcelo_marmelo_martelo[Infantil] ruth rocha_-_marcelo_marmelo_martelo
[Infantil] ruth rocha_-_marcelo_marmelo_martelo
 
[Infantil] ruth rocha_-_marcelo_marmelo_martelo
[Infantil] ruth rocha_-_marcelo_marmelo_martelo[Infantil] ruth rocha_-_marcelo_marmelo_martelo
[Infantil] ruth rocha_-_marcelo_marmelo_martelo
 
Marcelo marmelo martelo
Marcelo marmelo marteloMarcelo marmelo martelo
Marcelo marmelo martelo
 
[Infantil] ruth rocha marcelo marmelo martelo
[Infantil] ruth rocha   marcelo marmelo martelo[Infantil] ruth rocha   marcelo marmelo martelo
[Infantil] ruth rocha marcelo marmelo martelo
 
Marcelo marmelo martelo livro
Marcelo marmelo martelo livroMarcelo marmelo martelo livro
Marcelo marmelo martelo livro
 
Documento de josy lima(5)
Documento de josy lima(5)Documento de josy lima(5)
Documento de josy lima(5)
 
Marcelo marmelo martelo
Marcelo marmelo marteloMarcelo marmelo martelo
Marcelo marmelo martelo
 
MARCELO, MARMELO, MARTELO E OUTRAS HISTÓRIAS DE RUTH ROCHA
MARCELO, MARMELO, MARTELO E OUTRAS HISTÓRIAS DE RUTH ROCHAMARCELO, MARMELO, MARTELO E OUTRAS HISTÓRIAS DE RUTH ROCHA
MARCELO, MARMELO, MARTELO E OUTRAS HISTÓRIAS DE RUTH ROCHA
 
A caminho do verão - Sarah Dessen
A caminho do verão - Sarah DessenA caminho do verão - Sarah Dessen
A caminho do verão - Sarah Dessen
 
Livro, marcelo o marmelo.pdfxcxcxccccccc
Livro, marcelo o marmelo.pdfxcxcxcccccccLivro, marcelo o marmelo.pdfxcxcxccccccc
Livro, marcelo o marmelo.pdfxcxcxccccccc
 
OLP e TAL
OLP e TALOLP e TAL
OLP e TAL
 
OLP e TAL
OLP e TALOLP e TAL
OLP e TAL
 
O meu mundo é igual ao teu
O meu mundo é igual ao teuO meu mundo é igual ao teu
O meu mundo é igual ao teu
 

Último

atividade para 3ª serie do ensino medi sobrw biotecnologia( transgenicos, clo...
atividade para 3ª serie do ensino medi sobrw biotecnologia( transgenicos, clo...atividade para 3ª serie do ensino medi sobrw biotecnologia( transgenicos, clo...
atividade para 3ª serie do ensino medi sobrw biotecnologia( transgenicos, clo...
WelitaDiaz1
 

Último (20)

atividade para 3ª serie do ensino medi sobrw biotecnologia( transgenicos, clo...
atividade para 3ª serie do ensino medi sobrw biotecnologia( transgenicos, clo...atividade para 3ª serie do ensino medi sobrw biotecnologia( transgenicos, clo...
atividade para 3ª serie do ensino medi sobrw biotecnologia( transgenicos, clo...
 
QUESTÃO 4 Os estudos das competências pessoais é de extrema importância, pr...
QUESTÃO 4   Os estudos das competências pessoais é de extrema importância, pr...QUESTÃO 4   Os estudos das competências pessoais é de extrema importância, pr...
QUESTÃO 4 Os estudos das competências pessoais é de extrema importância, pr...
 
O que é literatura - Marisa Lajolo com.pdf
O que é literatura - Marisa Lajolo com.pdfO que é literatura - Marisa Lajolo com.pdf
O que é literatura - Marisa Lajolo com.pdf
 
5. EJEMPLOS DE ESTRUCTURASQUINTO GRADO.pptx
5. EJEMPLOS DE ESTRUCTURASQUINTO GRADO.pptx5. EJEMPLOS DE ESTRUCTURASQUINTO GRADO.pptx
5. EJEMPLOS DE ESTRUCTURASQUINTO GRADO.pptx
 
Edital do processo seletivo para contratação de agentes de saúde em Floresta, PE
Edital do processo seletivo para contratação de agentes de saúde em Floresta, PEEdital do processo seletivo para contratação de agentes de saúde em Floresta, PE
Edital do processo seletivo para contratação de agentes de saúde em Floresta, PE
 
Histogramas.pptx...............................
Histogramas.pptx...............................Histogramas.pptx...............................
Histogramas.pptx...............................
 
425416820-Testes-7º-Ano-Leandro-Rei-Da-Heliria-Com-Solucoes.pdf
425416820-Testes-7º-Ano-Leandro-Rei-Da-Heliria-Com-Solucoes.pdf425416820-Testes-7º-Ano-Leandro-Rei-Da-Heliria-Com-Solucoes.pdf
425416820-Testes-7º-Ano-Leandro-Rei-Da-Heliria-Com-Solucoes.pdf
 
Química-ensino médio ESTEQUIOMETRIA.pptx
Química-ensino médio ESTEQUIOMETRIA.pptxQuímica-ensino médio ESTEQUIOMETRIA.pptx
Química-ensino médio ESTEQUIOMETRIA.pptx
 
Dados espaciais em R - 2023 - UFABC - Geoprocessamento
Dados espaciais em R - 2023 - UFABC - GeoprocessamentoDados espaciais em R - 2023 - UFABC - Geoprocessamento
Dados espaciais em R - 2023 - UFABC - Geoprocessamento
 
O que é, de facto, a Educação de Infância
O que é, de facto, a Educação de InfânciaO que é, de facto, a Educação de Infância
O que é, de facto, a Educação de Infância
 
As teorias de Lamarck e Darwin para alunos de 8ano.ppt
As teorias de Lamarck e Darwin para alunos de 8ano.pptAs teorias de Lamarck e Darwin para alunos de 8ano.ppt
As teorias de Lamarck e Darwin para alunos de 8ano.ppt
 
UFCD_10659_Ficheiros de recursos educativos_índice .pdf
UFCD_10659_Ficheiros de recursos educativos_índice .pdfUFCD_10659_Ficheiros de recursos educativos_índice .pdf
UFCD_10659_Ficheiros de recursos educativos_índice .pdf
 
SQL Parte 1 - Criação de Banco de Dados.pdf
SQL Parte 1 - Criação de Banco de Dados.pdfSQL Parte 1 - Criação de Banco de Dados.pdf
SQL Parte 1 - Criação de Banco de Dados.pdf
 
Peça de teatro infantil: A cigarra e as formigas
Peça de teatro infantil: A cigarra e as formigasPeça de teatro infantil: A cigarra e as formigas
Peça de teatro infantil: A cigarra e as formigas
 
APRENDA COMO USAR CONJUNÇÕES COORDENATIVAS
APRENDA COMO USAR CONJUNÇÕES COORDENATIVASAPRENDA COMO USAR CONJUNÇÕES COORDENATIVAS
APRENDA COMO USAR CONJUNÇÕES COORDENATIVAS
 
Poema - Aedes Aegypt.
Poema - Aedes Aegypt.Poema - Aedes Aegypt.
Poema - Aedes Aegypt.
 
QUESTÃO 4 Os estudos das competências pessoais é de extrema importância, pr...
QUESTÃO 4   Os estudos das competências pessoais é de extrema importância, pr...QUESTÃO 4   Os estudos das competências pessoais é de extrema importância, pr...
QUESTÃO 4 Os estudos das competências pessoais é de extrema importância, pr...
 
Religiosidade de Assaré - Prof. Francisco Leite
Religiosidade de Assaré - Prof. Francisco LeiteReligiosidade de Assaré - Prof. Francisco Leite
Religiosidade de Assaré - Prof. Francisco Leite
 
Sequência didática Carona 1º Encontro.pptx
Sequência didática Carona 1º Encontro.pptxSequência didática Carona 1º Encontro.pptx
Sequência didática Carona 1º Encontro.pptx
 
Power Point sobre as etapas do Desenvolvimento infantil
Power Point sobre as etapas do Desenvolvimento infantilPower Point sobre as etapas do Desenvolvimento infantil
Power Point sobre as etapas do Desenvolvimento infantil
 

Os textos de memória

  • 1. OS TEXTOS MEMORIALISTAS Consistem no relato ulterior de vivências/experiências pessoais passadas que se articulam com o contexto histórico-cultural das mesmas. Estes textos têm um valor documental, porque neles o autor não se limita a relatar o seu percurso autobiográfico e apresenta um testemunho do tempo e do espaço em que ocorreram as suas vivências. TEXTO I Enquanto andei na primeira classe, entrava às oito da manhã e saía à uma da ta rde. Ficava com a ta rde l ivre para brincar, e i s so era bom, mas nunca me habituei a acordar cedo. A minha mãe acordava-me todos os dias com uma tigela de papa. Comia ainda na cama. Sentado, mas ainda a dormir. Depois, fazia o caminho para a escola, que demorava cerca de meia hora. Chegava atrasado todos os dias. A professora tinha afixado um cartaz feito em papel quadriculado com o nome de todos os alunos da sala e um mapa com todos os dias de aulas. À chegada, tínhamos de pinta r o quadradinho correspondente com uma caneta verde, amarela ou vermelha, consoante chegássemos a horas, atrasados ou muito atrasados. Ter uma linha de quadrados vermelhos ou a ma relos à fre nte do nome era considerado mau. Eu chegava atrasado todos os dias. Quando che ga va , di zi a “dá l i ce nça , mi nha s e nhora?”. Essa e ra uma pergunta a que não esperava que a professora respondesse. Dirigia-me à minha carteira e, depois, dirigia - me ao cartaz. A professora perguntava sempre qual era a cor que nós achávamos que devíamos uti l i zar. Eu di zia sempre: “a ma re l o”, na e s pe ra nça de que a profe s s ora de i xas se pas sar. Tive sempre a mesma professora da primeira à quarta classe. Cada vez que nos dirigíamos a ela, tratávamo-la por “minha s e nhora”. Todas as frases a cabava m em “mi nha senhora”: “posso ir a fiar o lápis , mi nha s e nhora ?”, “pos s o i r à casa de banho, mi nha senhora?”, “posso ir a o quadro, minha s enhora?”. De fa cto, a professora e ra di fe re nte de toda s a s mul he re s que ti nha conhecido até aí e que eram as mulheres da minha rua. Tinha anéis com pedras em quase todos os dedos. Tinha o ca belo sempre arranjado. Tinha os olhos pintados. Falava de maneira diferente. Falava como as pessoas da televi são. Falava corretamente. A profe s s ora , “mi nha s e nhora ”, e ra uma s e nhora . […] José Luís Peixoto, in JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, 29 setembro – 12 outubro, 2004 TEXTO II "Contei noutro lugar como e porquê me chamo Saramago. Que esse Saramago não era um apel ido do lado paterno, mas s im a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que indo o meu pai a declarar no Registo Civi l da Golegã o nas cimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcionário (chamava-se ele Silvino) estava bêbado (por despeito, disso o acusaria sempre meu pai ), e que, sob os efeitos do álcool e sem que ninguém se tivesse apercebido da onomás tica fraude, decidiu, por sua conta e ri s co, acres centar Saramago ao lacónico José de Sousa que meu pai pretendia que eu fosse. E que, desta maneira, finalmente, graças a uma intervenção por todas as mostras divina, refiro-me, claro está, a Baco, deus do vinho e daqueles que se excedem a bebê-lo, nã o pre cisei de inventar um pseudónimo para, futuro havendo, a s s i na r os me us l i vros . […]. Entre i na vi da ma rca do com e s te apelido de Saramago sem que a família o suspeitasse, e foi só aos sete anos, quando, para me matricular na instrução primária, foi necessário apresentar certidão de nascimento, que a verdade saiu nua do poço burocrático, com grande indignação de meu pai , a quem, desde que s e tinha mudado para Lisboa, a alcunha desgostava. Mas o pior de tudo foi quando, chamando-se ele unicamente José de Sousa, como ver s e podia nos seus papéis, a Lei, severa, desconfiada, quis saber por que bulas tinha ele então um fil ho cujo nome completo era José de Sousa Saramago. Assim intimado, e para que tudo ficasse no próprio, no são e no honesto, meu pai não teve outro remédio que proceder a uma nova inscrição do seu nome, passando a chamar-se, ele também, José de Sousa Saramago. Suponho que deverá ter sido este o único caso, na história da humanidade, em que foi o filho a dar o nome ao pai. Não nos serviu de muito, nem a nós nem a ela, porque meu pai, firme nas suas antipatias, sempre quis e conseguiu que o tratas sem unicamente de Sousa." José Saramago, As pequenas memórias TEXTO III Daquela mesma varanda, tempos mais tarde, namorei uma rapariga de nome Deolinda, mais velha do que eu três ou quatro anos , que morava num prédio de uma rua paralela, a Travessa do Calado, cujas tra seiras davam para as da minha casa. Há que esclarecer que namoro, o que então s e chamava namoro, dos de requerimento formal e promessas mais ou menos para durar («A menina quer namorar comigo?», «Pois sim, s e são boas as suas intenções»), nunca o chegou a ser. Olhávamo -nos muito, fazíamos s inai s , conversávamos de varanda para varanda por cima dos pátios intermédios e das cordas da roupa, mas nada de mai s avançado em matéria de compromissos. Tímido, acanhado, como me estava no carácter, fui algumas vezes a casa dela (vivia, creio recordar, com uns avós), mas, ao mesmo tempo, decidido a tudo ou ao que calhasse. Um tudo que daria em nada. Ela era muito boni ta , de ros tinho redondo, mas, para meu desprazer, tinha os dentes estragados, e, além do mais, deveria pensar que eu era demas iado jovem para empenhar comigo os seus sentimentos. Divertia-se um pouco à falta de pretendente idóneo, mas, ou muito enganado ando desde então, tinha pena de que a diferença de idades se notasse tanto. Em certa altura desisti da empresa. Ela tinha o apelido de Bacalhau, e eu, pêlos vistos já sensível aos sons e aos sentidos das palavras , não queria que mulher minha fos se pela vida ca rre ga ndo com o nome de De ol i nda Ba ca l ha u Sa ra ma go.” José Saramago, As pequenas memórias