Texto: Matheus Picanço Nunes
Ilustrações: Juliana Chagas
Amenina sabia que só podia ser umsonho. Ehavia
coisa melhor doque saber que estava sonhando? Poderia
fazer o que quisesse. Aqueleera seu mundo! Sorriu
alegremente efalou:
—Olá, senhorgato!
— Vamos, miau, estamos atrasados! —foi a única coisa
que o gato-homem ou homem-gato lhe diria antes de
dar-lhe as costas e desaparecer pela parede.
6 7
Laurinha saltou da cama e o seguiu. Encontraria
novamente o gato parado na frente de um laguinho
no quintal:
— Venha, Laura! —dito isso, o bichano saltou e
sumiunas águas escuras dolago. Laura hesitou.
Estava depijamas, iria se molhar toda. Eaquela
água parecia estar tão friiiiaaa... “Mas estou
sonhando... Emsonhos, a gente se molha?” Epulou
deolhos fechados nas águas dalagoa. Quandoabriu
os olhos, estava numa rua também escura, estreita e
sem cor nenhuma. Ascasas daquela ruazinha eram
cinzentas, grandes e antigas. Até o céu eraestreito
e acinzentado, como filme antigo. Ouviua voz do
gato-homem:
—ARainha expulsou as cores dessa cidade.
—E onde essa Rainha está? Por que fez isso?
— Ninguémsabe, miau. Aliás, nunca ninguém a
viu. Só a obedecemos,senão....
8 9
—Senão o quê? —estranhou Laurinha, ainda se
acostumando com aquele gato esquisito.
10 11
—Miau, todos que desobedeceram às ordens da
Rainha, desapareceram misteriosamente. Ela é má,
miauuuuu.Olha ali... —apontou o gato para umcastelo
detorres negras. —Aqueleé o seu castelo. Está ali,
agora, mas vive mudandodelugar. Podeestar dolado de
onde nasce o Sol, assim como dolado deonde se põe. Às
vezes nem o vemos. Porisso, é impossível chegar nele.
Miau. Querdizer, pelo menos impossível para nós que
somos desse mundo... Você, talvez...
Agarota não pareceu surpresa. Desdeo início,
suspeitava que estivesse, ali, poralgummotivo.
– Seu gato, como poderia fazer isso?
– Se conseguir chegar, lá, antes que ele troque de
lugar ou suma, você encontrará umapassagem secreta,
que é tão secreta, que nem a rainha sabe que existe.
12 13
Daí, o gato, segurando a mão dela, atravessou uma
casinha. Aoentrar nela, Laura ficou maravilhada. Todas
as suas antigas bonecas estavam, ali, mas agora eram
grandes e piscavam seus olhinhos deplástico.
14 15
Eles passaram entre duasdelas que, ocupadas em
contar histórias deLaurinha, nem notaram a visita. Foi
quando entraram numa espécie detúnel. Ogato parou:
– Daquiemdiante, é com você. Miau. Se o castelo
estiver dooutro lado, ainda, você chegará lá. Caso
contrário, não sei se nos veremos denovo.
– E se der certo, seu Gato, o que eu farei quando
chegar lá?
– Minha querida, miau, se você conseguir chegar, lá,
acredite, saberá o que fazer.
Dizendo isso, o Gato entregou-lhe um desenho da
cidade cinzenta e de ruas vazias e desertas, porque as
pessoas se escondiam no escuro.
16 17
Laura era corajosa e acreditava que podia acessar o
castelo. Apressou-se. Compouco, a voz dogato ia
desaparecendo, assim como o escuro aumentava. De
repente, sentiu-se tonta e caiu. Levantou a cabeça e
percebeu estar numa sala grande e também escura. Foi
quando ouviu passos e escondeu-se por trás deuma
poltrona deseda.
18 1
9
A porta abriu numestrondo. Dela, surgiu, entre
dois espelhos, a Rainha, arrastando umalonga capa
vermelha. A menina não conseguia ver seu rosto, pois
usava umamáscara.
– Sei que você está aí, menina. Veio roubar meu
lugar?
– Não. Não quero nada de você, sua malvada.
Estou sonhando. Preciso acordar e, para isso, tenho
que devolver as cores para a cidade —desafiou Laura,
mesmo tremendo muito.
20 21
A Rainha não acreditou naquela coragem da
menina egargalhou:
– As cores não me agradam, menininha. E eu sou a
Rainha. Não me importo com aquele povinho. Ele nem
as merecem. Evocê, sua metida, vai sair daqui agora.
22 23
A Rainha, entretanto, também estava nervosa. Na
pressa, enrolou-se naquela sua longa capa, única cor do
local e, caiu de cara no chão, deixando cair a máscara.
Foi quando Laura descobriu algo impressionante: a
Rainha mátinha o seu mesmorosto, como se fosse uma
irmã gêmea daprópria Laura.
24 25
– Você... sou eu? Não é possível!
Acapa vermelha enroscou todo o corpo darainha,
escondendo o rosto assustado dela atédesaparecer.
Laura, sem saber o que fazer, viu também que o chão
se tornava umredemoinho, puxando-a para baixo,
enquanto todas as coisas se comprimiam e se escondiam
numa gaveta dacômoda... até sumir tudo.
26 27
Triiiiimmmmmmmmmmmmmm!foi o som que
Laura ouviu ao abrir os olhos e reconhecer a janela de
seu quarto, iluminada pelo dia que chegava.
– Laurinha, Laurinha, hora deir à escola, minha
filha. Chamava,a suamãe.
28 29
Aoseu lado, umgato manhoso e sorridente dormia
enrolado emseu lençol. Embaixo dele, umdesenho
amassado revelava umacidadezinha, cheia decasarões
coloridos, com ruas repletas depessoas alegres e um céu
azul-anil dacor de sonho.
30 31
O castelo das cores perdidas

O castelo das cores perdidas

  • 1.
    Texto: Matheus PicançoNunes Ilustrações: Juliana Chagas
  • 2.
    Amenina sabia quesó podia ser umsonho. Ehavia coisa melhor doque saber que estava sonhando? Poderia fazer o que quisesse. Aqueleera seu mundo! Sorriu alegremente efalou: —Olá, senhorgato! — Vamos, miau, estamos atrasados! —foi a única coisa que o gato-homem ou homem-gato lhe diria antes de dar-lhe as costas e desaparecer pela parede. 6 7
  • 3.
    Laurinha saltou dacama e o seguiu. Encontraria novamente o gato parado na frente de um laguinho no quintal: — Venha, Laura! —dito isso, o bichano saltou e sumiunas águas escuras dolago. Laura hesitou. Estava depijamas, iria se molhar toda. Eaquela água parecia estar tão friiiiaaa... “Mas estou sonhando... Emsonhos, a gente se molha?” Epulou deolhos fechados nas águas dalagoa. Quandoabriu os olhos, estava numa rua também escura, estreita e sem cor nenhuma. Ascasas daquela ruazinha eram cinzentas, grandes e antigas. Até o céu eraestreito e acinzentado, como filme antigo. Ouviua voz do gato-homem: —ARainha expulsou as cores dessa cidade. —E onde essa Rainha está? Por que fez isso? — Ninguémsabe, miau. Aliás, nunca ninguém a viu. Só a obedecemos,senão.... 8 9
  • 4.
    —Senão o quê?—estranhou Laurinha, ainda se acostumando com aquele gato esquisito. 10 11 —Miau, todos que desobedeceram às ordens da Rainha, desapareceram misteriosamente. Ela é má, miauuuuu.Olha ali... —apontou o gato para umcastelo detorres negras. —Aqueleé o seu castelo. Está ali, agora, mas vive mudandodelugar. Podeestar dolado de onde nasce o Sol, assim como dolado deonde se põe. Às vezes nem o vemos. Porisso, é impossível chegar nele. Miau. Querdizer, pelo menos impossível para nós que somos desse mundo... Você, talvez...
  • 5.
    Agarota não pareceusurpresa. Desdeo início, suspeitava que estivesse, ali, poralgummotivo. – Seu gato, como poderia fazer isso? – Se conseguir chegar, lá, antes que ele troque de lugar ou suma, você encontrará umapassagem secreta, que é tão secreta, que nem a rainha sabe que existe. 12 13
  • 6.
    Daí, o gato,segurando a mão dela, atravessou uma casinha. Aoentrar nela, Laura ficou maravilhada. Todas as suas antigas bonecas estavam, ali, mas agora eram grandes e piscavam seus olhinhos deplástico. 14 15 Eles passaram entre duasdelas que, ocupadas em contar histórias deLaurinha, nem notaram a visita. Foi quando entraram numa espécie detúnel. Ogato parou: – Daquiemdiante, é com você. Miau. Se o castelo estiver dooutro lado, ainda, você chegará lá. Caso contrário, não sei se nos veremos denovo.
  • 7.
    – E seder certo, seu Gato, o que eu farei quando chegar lá? – Minha querida, miau, se você conseguir chegar, lá, acredite, saberá o que fazer. Dizendo isso, o Gato entregou-lhe um desenho da cidade cinzenta e de ruas vazias e desertas, porque as pessoas se escondiam no escuro. 16 17
  • 8.
    Laura era corajosae acreditava que podia acessar o castelo. Apressou-se. Compouco, a voz dogato ia desaparecendo, assim como o escuro aumentava. De repente, sentiu-se tonta e caiu. Levantou a cabeça e percebeu estar numa sala grande e também escura. Foi quando ouviu passos e escondeu-se por trás deuma poltrona deseda. 18 1 9
  • 9.
    A porta abriunumestrondo. Dela, surgiu, entre dois espelhos, a Rainha, arrastando umalonga capa vermelha. A menina não conseguia ver seu rosto, pois usava umamáscara. – Sei que você está aí, menina. Veio roubar meu lugar? – Não. Não quero nada de você, sua malvada. Estou sonhando. Preciso acordar e, para isso, tenho que devolver as cores para a cidade —desafiou Laura, mesmo tremendo muito. 20 21
  • 10.
    A Rainha nãoacreditou naquela coragem da menina egargalhou: – As cores não me agradam, menininha. E eu sou a Rainha. Não me importo com aquele povinho. Ele nem as merecem. Evocê, sua metida, vai sair daqui agora. 22 23
  • 11.
    A Rainha, entretanto,também estava nervosa. Na pressa, enrolou-se naquela sua longa capa, única cor do local e, caiu de cara no chão, deixando cair a máscara. Foi quando Laura descobriu algo impressionante: a Rainha mátinha o seu mesmorosto, como se fosse uma irmã gêmea daprópria Laura. 24 25
  • 12.
    – Você... soueu? Não é possível! Acapa vermelha enroscou todo o corpo darainha, escondendo o rosto assustado dela atédesaparecer. Laura, sem saber o que fazer, viu também que o chão se tornava umredemoinho, puxando-a para baixo, enquanto todas as coisas se comprimiam e se escondiam numa gaveta dacômoda... até sumir tudo. 26 27
  • 13.
    Triiiiimmmmmmmmmmmmmm!foi o somque Laura ouviu ao abrir os olhos e reconhecer a janela de seu quarto, iluminada pelo dia que chegava. – Laurinha, Laurinha, hora deir à escola, minha filha. Chamava,a suamãe. 28 29
  • 14.
    Aoseu lado, umgatomanhoso e sorridente dormia enrolado emseu lençol. Embaixo dele, umdesenho amassado revelava umacidadezinha, cheia decasarões coloridos, com ruas repletas depessoas alegres e um céu azul-anil dacor de sonho. 30 31