8 • P2 • Quarta-feira 16 Dezembro 2009




 Alice
 Vieira
 Só gosto da minha vida
 a partir dos 20 e tal anos
 Começou no jornalismo e entrou pela literatura. Primeiro para crianças e jovens, depois para
 os outros. Poesia incluída. Diz-se “amigodependente”, recebe e faz chamadas às três da manhã.
 Já foi menos católica, pensa por frases e fala sozinha na rua. Não entra em cemitérios
 e tem poucas memórias de infância. Hoje vai a uma festa temática: 30 Anos de Livros
                                         de muitos telefonemas e cartas,       toda a vida”, diziam-lhe. “Afinal”,      sou, aquilo que faço, aquilo que         a recordações e não a deixa lembrar-
 Rita Pimenta
                                         quando a escritora foi trabalhar,     conta, “quando tive o ‘cancro da        escrevo, foi muito obra dele. Sinto,     se de quando era criança. “Recordo-
 a Há 30 anos que escreve livros.        como jornalista, para o Diário de     praxe’ e fui operada, ele é que foi o   no entanto, algum remorso por            me de muito pouca coisa da minha
 Mas foi há mais tempo que Alice         Lisboa. Pouco depois, iria para o     meu enfermeiro. A quimioterapia         ele se ter afastado da escrita por       infância. Lembro-me assim de
 Vieira enviou o primeiro texto          Diário Popular. “As pessoas, quando   custou-me muito. Há 20 anos, os         minha causa. Para eu poder fazer         momentos do género: eu estou aqui
 para um jornal. Não o publicaram.       têm um relacionamento, não devem      produtos eram mais agressivos e eu      a vida que fiz, ele não publicou          sentada ao pé de alguém. Mas não
 Tinha 14 anos e recebeu uma carta       trabalhar no mesmo sítio. Seja        vomitava bastante. Ele obrigava-me      tanto como devia. Escrever escrevia      me lembro de mim. Acho que é uma
 do Diário de Lisboa a pedir que         marido e mulher, pai e filho. Por      a ir imediatamente para o jornal        (tenho muitos inéditos), mas não         defesa.”
 não desistisse. Assinatura: Mário       isso, atravessei a rua e fui para o   trabalhar. Acho que nem estive um       publicava.”                                 No entanto, quando se pergunta
 Castrim. Tentou uma e outra vez e       Diário Popular.” Seguiu-se o Record   mês de baixa. E ainda bem que me           E repete várias vezes: “Tive sorte,   se era maltratada, responde:
 viu muitos textos serem impressos.      e o Diário de Notícias.               obrigou. Se não fosse isso, eu podia    tive sorte”. E ele? “Acho que sim. Ele   “Não. Eu era super bem tratada.
 Casou com ele, o remetente.                Castrim foi a pessoa mais          ter ido abaixo. Assim, tinha mais que   também teve.”                            Mas maltratar não é só andar ao
    Uma paixão de 40 anos. “Mas          importante da sua vida. Toda a        fazer do que estar infeliz.”                                                     estalo às crianças. Eu vivi sempre
 paixão mesmo”, diz Alice quando         gente a desaconselhou a viver com        E recorda como sempre a              “Não me lembro de mim”                   com pessoas que me diziam (e era
 fala do jornalista e escritor. Tinham   ele, pela diferença de idades e       estimulou a escrever, nunca             Alice Vieira, de 66 anos, passou         verdade) que não eram nem o meu
 23 anos de diferença de idades e        pelos problemas de saúde que lhe      deixando de ser muito crítico. “Não     a infância com tias velhas e não         pai nem a minha mãe. E portanto
 só se conheceram “ao vivo” depois       adivinhavam. “Vais ser a enfermeira   tenho dúvida de que aquilo que          gostou. A memória decidiu poupá-la       eu não era filha deles e não tinham
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                                                                                                              na altura a actual licenciatura em        Estou a trabalhar no horário de
                                                                                                                                                        E
                                                                                                              Línguas e Literaturas Modernas,           outras pessoas. Vou porque gosto,
                                                                                                                                                        o
                                                                                                              variante de Inglês e Alemão, a            porque vejo satisfação nos olhos
                                                                                                                                                        p
                                                                                                              escolha de ser jornalista não foi         dos miúdos e isso é bom. Mas não
                                                                                                                                                        d
                                                                                                              lá muito bem vista pela família.          tenho obrigação de fazer com que
                                                                                                                                                        t
                                                                                                              “Quando acabei o curso, já era            os meninos gostem de ler. Noventa
                                                                                                                                                        o
                                                                                                              maior e vacinada. Jurei e cumpri          por cento das escolas nem sequer
                                                                                                                                                        p
                                                                                                              que fazia a faculdade. Tinham de          compram os meus livros. E pagam
                                                                                                                                                        c
                                                                                                              aceitar a minha escolha, mas nunca        as minhas visitas a contragosto.
                                                                                                                                                        a
                                                                                                              foi profissão de que gostassem             Quando eu quiser dar o meu
                                                                                                                                                        Q
                                                                                                              muito. Nós ainda hoje rimos porque,       trabalho, dou, mas sou eu que
                                                                                                                                                        t
                                                                                                              quando se falava das sobrinhas,           escolho.”
                                                                                                                                                        e
                                                                                                              as tias diziam: a fulana é médica,           No entanto, tem muita dificuldade
                                                                                                              a outra é advogada e a Alice, essa,       em dizer “não” quando a convidam,
                                                                                                                                                        e
                                                                                                              lá anda na vida que ela escolheu...       mesmo se o pagamento não está
                                                                                                                                                        m
                                                                                                              Parecia que eu era uma perdida”,          previsto. “Agora, felizmente, a Leya
                                                                                                                                                        p
                                                                                                              diz, no meio de uma gargalhada.           trata disso. Gere a minha agenda e
                                                                                                                                                        t
                                                                                                                 Mas o jornalismo era, desde            eu já não tenho de andar a negociar
                                                                                                                                                        e
                                                                                                              cedo, uma paixão, não o escolheu          com as escolas. O ano de 2010 já está
                                                                                                                                                        c
                                                                                                              para contrariar as tias. “Ver as          completo. A Leya foi o melhor que
                                                                                                                                                        c
                                                                                                              coisas publicadas, com o nome             me aconteceu.” Mas não só por isto.
                                                                                                                                                        m
                                                                                                              cá em baixo. Eu assinava Alice
                                                                                                              Vassalo Pereira. E, depois, o             R
                                                                                                                                                        Romance em Porto Santo
                                                                                                              cheiro do chumbo conquistou-me            A escritora divide-se entre quatro
                                                                                                              definitivamente.” Até hoje. Continua       editoras (Caminho, Texto, Casa
                                                                                                                                                        e
                                                                                                              a escrever crónicas para o Jornal de      das Letras, Oficina do Livro e Dom
                                                                                                                                                        d
                                                                                                              Notícias e para as revistas Activa,       Quixote) e o facto de pertencerem
                                                                                                                                                        Q
                                                                                                              Audácia e Tempo Livre. “E ainda           todas ao mesmo grupo facilita-lhe
                                                                                                                                                        t
                                                                                                              adoro fazer entrevistas.”                 a vida. “No outro dia, o patrão
                                                                                                                 Os livros vieram mais tarde, em        da Leya dizia-me: quer trabalhar
                                                                                                                                                        d
                                                                                                              resultado do prémio da Gulbenkian,        em mais alguma editora? Diga,
                                                                                                                                                        e
                                                                                                              em 1979, de Literatura Infantil Ano       que a gente compra. Eu dou-me
                                                                                                                                                        q
                                                                                                              Internacional da Criança pela obra        bem com eles porque sou muito
                                                                                                                                                        b
                                                                                                              Rosa, Minha Irmã Rosa. Na altura,         profissional e cumpridora. Eu
                                                                                                                                                        p
                                                                                                              ganhou 75 contos (375 euros) e levou      preciso de prazos. Se não me põem
                                                                                                                                                        p
                                                                                                              os filhos a Atenas: Catarina, hoje         prazos, não faço nada. E trabalho
                                                                                                                                                        p
                                                                                                              com 40 anos, e André, com 39.             muito mais e até melhor se tiver
                                                                                                                                                        m
                                                                                                                 “Às vezes, penso: eu comecei a         muitas coisas para fazer ao mesmo
                                                                                                                                                        m
                                                                                                              escrever tarde, podia ter começado        tempo. Isso vem do jornalismo.
                                                                                                                                                        t
                                                                                                              mais cedo. Mas depois penso               Há uma sobrecarga de trabalho e
                                                                                                                                                        H
                                                                                                              que não. Se eu tivesse começado           a gente despacha tudo ( jornalismo
                                                                                                              antes… mas eu não sou nada a favor        diário, claro).
                                                                                                                                                        d
                                                                                                              de quem começa muito cedo. As                Há autores que me dizem: ‘Como
                                                                                                              pessoas têm de viver um bocadinho,        é que tu podes saber que daqui
                                                                                                              têm de crescer. Quando digo que           a uns dias tens um livro pronto?
                                                                                                              podia ter começado uns anos antes,        E se não consegues?’ Tenho de
                                                                                                               se calhar não podia. Ou tinha            conseguir. Essa relação de trabalho
                                                                                                                                                        c
                                                                                                                começado pior, não sei.”                para mim é boa. Por exemplo, agora
                                                                                                                                                        p
                                                                                                                    Em 30 anos, já publicou mais        sei, mas sei rigorosamente que até
                                                                                                                                                        s
                                                                                                                  de 70 livros, vendeu perto de 2       dia 16 [hoje], mesmo dia 16, tenho
                                                                                                                                                        d
                                                                                                                  milhões de exemplares e ganhou        de entregar um romance.” Chama-
                                                                                                                                                        d
                                                                                                                   dez dos mais significativos           se Meia Hora para Mudar a Minha
                                                                                                                                                        s
                                                                                                                   prémios literários da literatura     Vida, “como a cantiga da Adriana
                                                                                                                                                        V
                                                                                                                    infantil e juvenil. Foi nomeada     Calcanhotto”.
                                                                                                                                                        C
                                                                                                                    este ano para o Astrid Lindgren        Será mais um romance juvenil
                                                                                                                    Memorial Award, um dos mais         com uma rapariga de 16 anos como
                                                                                                                                                        c
                                                                                                                    importantes prémios nesta           protagonista. Uma actriz de teatro
                                                                                                                                                        p
                                                                                                                    área, com o valor de 500 mil        amador. Passa-se em Lisboa, sempre
                                                                                                                                                        a
                                                                                                                    euros.                              Lisboa. “Sou muito lisboeta e não
                                                                                                                                                        L
                                                                                                                       Não escreve por dinheiro,        gosto de escrever sobre coisas que
                                                                                                                                                        g
                                                                                                                    mas gosta de ser paga pelo seu      não conheço. Não dá para chegar a
                                                                                                                                                        n
                                                                                                                   trabalho. Irrita-se que lhe digam    um sítio, estar lá dois dias e escrever
                                                                                                                                                        u
                                                                                                                   que a escrita é um hobby. “Vou       uma história. Ou é um romance
                                                                                                                                                        u
                                                                                                                  a escolas quase todos os dias e       histórico ou então não consigo.
                                                                                                                                                        h
                                                                                                                     durante as horas em que estou      Só tenho um romance juvenil que
                                                                                                                                                        S
                                                                                                                          lá não estou a desenvolver    é metade em Lisboa, metade na
                                                                                                                                o meu trabalho          zona das Gafanhas, Aveiro, que é
                                                                                                                                                        z
                                                                                                                                   de escrita.          donde eu sou: Viagem à Roda do Meu
                                                                                                                                                        d
nada de fazer aquilo que
     a                                                                                                                                                  Nome.”
                                                                                                                                                        N
estavam a fazer. Foi sempre
     vam                                                                                                                                                   Hoje, depois da festa (e de
um relacionamento um bocado                                                                                                                             entregar o livro), ficará mais liberta
                                                                                                                                                        e
frio, uma coisa entre velhos. Eu só
    ,                                                                                                                                                   para pensar num romance de base
                                                                                                                                                        p
encontrei miúdos da minha idade
     ontrei                                                                                                                                             histórica que lhe anda a passear na
                                                                                                                                                        h
quando entrei para o liceu. Até aí,
     ndo                                                                                                                                                cabeça há uns tempos. “Passa-se na
                                                                                                                                                        c
nunca tinha tido gente da minha
     ca                                                                                                                                                 ilha de Porto Santo, no séc. XVI. Fui
                                                                                                                                                        i
idade ao pé de mim. Roubarem-me
    de                                                                                                                                                  à Madeira e aproveitei para recolher
essa parte, foi complicado. Isso pode
    a                                                                                                                                                   umas informações que faltavam. Em
                                                                                                                                                        u
dar cabo de uma pessoa”. Não deu.                                                                                                                       1533, houve uma heresia, a heresia
                                                                                                                                                        1
   Depois de conseguir ter amigos,
     epois                                                                                                                                              dos profetas, que pôs a ilha a ferro
                                                                                                                                                        d
tornou-se, como diz, numa
    nou-se,                                                                                                                                             e fogo. Só no Porto Santo, nem
verdadeira “amigodependente”. E
    dadeira                             eram bons.”                                                                                                     chegou à Madeira. Quando estava
                                                                                                                                                        c
alguns até a fizeram ser de novo mais
    uns                                 Esta é das suas                                                                                                 a escrever sobre os Açores, sobre
católica. Porque são padres, poetas
    ólica.                              poucas memórias                                                                                                 uma heroína de Angra do Heroísmo,
                                                                                                                                                        u
ou missionários. “É impossível não      claras de infância.                                                                                             descobri esta história. Por isso,
                                                                                                                                                        d
se ficar tocado por estas pessoas.”         “Isso [o passado] serviu-me para                                                                             a palavra ‘profeta’ é um bocado
Pode telefonar a um amigo “às três
     e                                  ser a pessoa que sou hoje, para ser                                                                             pejorativa na ilha. E não digo mais
                                                                                                                                                        p
da manhã”. Mas também os atende a       profundamente optimista, acreditar                                                                              nada.” Não é preciso.
                                                                                                                                                        n
todos e a qualquer hora. Eles sabem
    os                                  que as coisas se resolvem desde                                                                                    Alice Vieira tem quatro netos
                                                                              ILUSTRAÇÃO: BERNARDO CARVALHO




que os acompanha até ao fim. Só não      que queiramos. Não podemos estar                                                                                (Adriana, de 14 anos; Diogo, 10;
                                                                                                                                                        (
entra no cemitério. “Eu tinha uma
    ra                                  à espera que as soluções caiam do                                                                               Pedro, nove; Isabel, cinco), muitos
                                                                                                                                                        P
tia muito mórbida. Todas as quartas-    céu, do céu só cai a chuva. Mas só                                                                              amigos, muitos leitores e um
                                                                                                                                                        a
feiras, íamos para o Alto de São João
    as,                                 gosto da minha vida a partir dos                                                                                namorado. Às 17h, têm encontro
                                                                                                                                                        n
limpar as campas. E logo ela, que
    par                                 vinte e tal anos.”                                                                                              marcado no Jardim de Inverno
                                                                                                                                                        m
era má para as pessoas e lhes fazia a      Depois do curso tirado,                                                                                      do Teatro de São Luiz, em Lisboa.
                                                                                                                                                        d
vida negra. Depois de mortos é que
    a negra                             Germânicas, como se designava
                                        Germânicas                                                                                                      Porque está de parabéns.
                                                                                                                                                        P

Alice pdf

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    8 • P2• Quarta-feira 16 Dezembro 2009 Alice Vieira Só gosto da minha vida a partir dos 20 e tal anos Começou no jornalismo e entrou pela literatura. Primeiro para crianças e jovens, depois para os outros. Poesia incluída. Diz-se “amigodependente”, recebe e faz chamadas às três da manhã. Já foi menos católica, pensa por frases e fala sozinha na rua. Não entra em cemitérios e tem poucas memórias de infância. Hoje vai a uma festa temática: 30 Anos de Livros de muitos telefonemas e cartas, toda a vida”, diziam-lhe. “Afinal”, sou, aquilo que faço, aquilo que a recordações e não a deixa lembrar- Rita Pimenta quando a escritora foi trabalhar, conta, “quando tive o ‘cancro da escrevo, foi muito obra dele. Sinto, se de quando era criança. “Recordo- a Há 30 anos que escreve livros. como jornalista, para o Diário de praxe’ e fui operada, ele é que foi o no entanto, algum remorso por me de muito pouca coisa da minha Mas foi há mais tempo que Alice Lisboa. Pouco depois, iria para o meu enfermeiro. A quimioterapia ele se ter afastado da escrita por infância. Lembro-me assim de Vieira enviou o primeiro texto Diário Popular. “As pessoas, quando custou-me muito. Há 20 anos, os minha causa. Para eu poder fazer momentos do género: eu estou aqui para um jornal. Não o publicaram. têm um relacionamento, não devem produtos eram mais agressivos e eu a vida que fiz, ele não publicou sentada ao pé de alguém. Mas não Tinha 14 anos e recebeu uma carta trabalhar no mesmo sítio. Seja vomitava bastante. Ele obrigava-me tanto como devia. Escrever escrevia me lembro de mim. Acho que é uma do Diário de Lisboa a pedir que marido e mulher, pai e filho. Por a ir imediatamente para o jornal (tenho muitos inéditos), mas não defesa.” não desistisse. Assinatura: Mário isso, atravessei a rua e fui para o trabalhar. Acho que nem estive um publicava.” No entanto, quando se pergunta Castrim. Tentou uma e outra vez e Diário Popular.” Seguiu-se o Record mês de baixa. E ainda bem que me E repete várias vezes: “Tive sorte, se era maltratada, responde: viu muitos textos serem impressos. e o Diário de Notícias. obrigou. Se não fosse isso, eu podia tive sorte”. E ele? “Acho que sim. Ele “Não. Eu era super bem tratada. Casou com ele, o remetente. Castrim foi a pessoa mais ter ido abaixo. Assim, tinha mais que também teve.” Mas maltratar não é só andar ao Uma paixão de 40 anos. “Mas importante da sua vida. Toda a fazer do que estar infeliz.” estalo às crianças. Eu vivi sempre paixão mesmo”, diz Alice quando gente a desaconselhou a viver com E recorda como sempre a “Não me lembro de mim” com pessoas que me diziam (e era fala do jornalista e escritor. Tinham ele, pela diferença de idades e estimulou a escrever, nunca Alice Vieira, de 66 anos, passou verdade) que não eram nem o meu 23 anos de diferença de idades e pelos problemas de saúde que lhe deixando de ser muito crítico. “Não a infância com tias velhas e não pai nem a minha mãe. E portanto só se conheceram “ao vivo” depois adivinhavam. “Vais ser a enfermeira tenho dúvida de que aquilo que gostou. A memória decidiu poupá-la eu não era filha deles e não tinham
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    P2 • Quarta-feira16 Dezembro 2009 • 9 na altura a actual licenciatura em Estou a trabalhar no horário de E Línguas e Literaturas Modernas, outras pessoas. Vou porque gosto, o variante de Inglês e Alemão, a porque vejo satisfação nos olhos p escolha de ser jornalista não foi dos miúdos e isso é bom. Mas não d lá muito bem vista pela família. tenho obrigação de fazer com que t “Quando acabei o curso, já era os meninos gostem de ler. Noventa o maior e vacinada. Jurei e cumpri por cento das escolas nem sequer p que fazia a faculdade. Tinham de compram os meus livros. E pagam c aceitar a minha escolha, mas nunca as minhas visitas a contragosto. a foi profissão de que gostassem Quando eu quiser dar o meu Q muito. Nós ainda hoje rimos porque, trabalho, dou, mas sou eu que t quando se falava das sobrinhas, escolho.” e as tias diziam: a fulana é médica, No entanto, tem muita dificuldade a outra é advogada e a Alice, essa, em dizer “não” quando a convidam, e lá anda na vida que ela escolheu... mesmo se o pagamento não está m Parecia que eu era uma perdida”, previsto. “Agora, felizmente, a Leya p diz, no meio de uma gargalhada. trata disso. Gere a minha agenda e t Mas o jornalismo era, desde eu já não tenho de andar a negociar e cedo, uma paixão, não o escolheu com as escolas. O ano de 2010 já está c para contrariar as tias. “Ver as completo. A Leya foi o melhor que c coisas publicadas, com o nome me aconteceu.” Mas não só por isto. m cá em baixo. Eu assinava Alice Vassalo Pereira. E, depois, o R Romance em Porto Santo cheiro do chumbo conquistou-me A escritora divide-se entre quatro definitivamente.” Até hoje. Continua editoras (Caminho, Texto, Casa e a escrever crónicas para o Jornal de das Letras, Oficina do Livro e Dom d Notícias e para as revistas Activa, Quixote) e o facto de pertencerem Q Audácia e Tempo Livre. “E ainda todas ao mesmo grupo facilita-lhe t adoro fazer entrevistas.” a vida. “No outro dia, o patrão Os livros vieram mais tarde, em da Leya dizia-me: quer trabalhar d resultado do prémio da Gulbenkian, em mais alguma editora? Diga, e em 1979, de Literatura Infantil Ano que a gente compra. Eu dou-me q Internacional da Criança pela obra bem com eles porque sou muito b Rosa, Minha Irmã Rosa. Na altura, profissional e cumpridora. Eu p ganhou 75 contos (375 euros) e levou preciso de prazos. Se não me põem p os filhos a Atenas: Catarina, hoje prazos, não faço nada. E trabalho p com 40 anos, e André, com 39. muito mais e até melhor se tiver m “Às vezes, penso: eu comecei a muitas coisas para fazer ao mesmo m escrever tarde, podia ter começado tempo. Isso vem do jornalismo. t mais cedo. Mas depois penso Há uma sobrecarga de trabalho e H que não. Se eu tivesse começado a gente despacha tudo ( jornalismo antes… mas eu não sou nada a favor diário, claro). d de quem começa muito cedo. As Há autores que me dizem: ‘Como pessoas têm de viver um bocadinho, é que tu podes saber que daqui têm de crescer. Quando digo que a uns dias tens um livro pronto? podia ter começado uns anos antes, E se não consegues?’ Tenho de se calhar não podia. Ou tinha conseguir. Essa relação de trabalho c começado pior, não sei.” para mim é boa. Por exemplo, agora p Em 30 anos, já publicou mais sei, mas sei rigorosamente que até s de 70 livros, vendeu perto de 2 dia 16 [hoje], mesmo dia 16, tenho d milhões de exemplares e ganhou de entregar um romance.” Chama- d dez dos mais significativos se Meia Hora para Mudar a Minha s prémios literários da literatura Vida, “como a cantiga da Adriana V infantil e juvenil. Foi nomeada Calcanhotto”. C este ano para o Astrid Lindgren Será mais um romance juvenil Memorial Award, um dos mais com uma rapariga de 16 anos como c importantes prémios nesta protagonista. Uma actriz de teatro p área, com o valor de 500 mil amador. Passa-se em Lisboa, sempre a euros. Lisboa. “Sou muito lisboeta e não L Não escreve por dinheiro, gosto de escrever sobre coisas que g mas gosta de ser paga pelo seu não conheço. Não dá para chegar a n trabalho. Irrita-se que lhe digam um sítio, estar lá dois dias e escrever u que a escrita é um hobby. “Vou uma história. Ou é um romance u a escolas quase todos os dias e histórico ou então não consigo. h durante as horas em que estou Só tenho um romance juvenil que S lá não estou a desenvolver é metade em Lisboa, metade na o meu trabalho zona das Gafanhas, Aveiro, que é z de escrita. donde eu sou: Viagem à Roda do Meu d nada de fazer aquilo que a Nome.” N estavam a fazer. Foi sempre vam Hoje, depois da festa (e de um relacionamento um bocado entregar o livro), ficará mais liberta e frio, uma coisa entre velhos. Eu só , para pensar num romance de base p encontrei miúdos da minha idade ontrei histórica que lhe anda a passear na h quando entrei para o liceu. Até aí, ndo cabeça há uns tempos. “Passa-se na c nunca tinha tido gente da minha ca ilha de Porto Santo, no séc. XVI. Fui i idade ao pé de mim. Roubarem-me de à Madeira e aproveitei para recolher essa parte, foi complicado. Isso pode a umas informações que faltavam. Em u dar cabo de uma pessoa”. Não deu. 1533, houve uma heresia, a heresia 1 Depois de conseguir ter amigos, epois dos profetas, que pôs a ilha a ferro d tornou-se, como diz, numa nou-se, e fogo. Só no Porto Santo, nem verdadeira “amigodependente”. E dadeira eram bons.” chegou à Madeira. Quando estava c alguns até a fizeram ser de novo mais uns Esta é das suas a escrever sobre os Açores, sobre católica. Porque são padres, poetas ólica. poucas memórias uma heroína de Angra do Heroísmo, u ou missionários. “É impossível não claras de infância. descobri esta história. Por isso, d se ficar tocado por estas pessoas.” “Isso [o passado] serviu-me para a palavra ‘profeta’ é um bocado Pode telefonar a um amigo “às três e ser a pessoa que sou hoje, para ser pejorativa na ilha. E não digo mais p da manhã”. Mas também os atende a profundamente optimista, acreditar nada.” Não é preciso. n todos e a qualquer hora. Eles sabem os que as coisas se resolvem desde Alice Vieira tem quatro netos ILUSTRAÇÃO: BERNARDO CARVALHO que os acompanha até ao fim. Só não que queiramos. Não podemos estar (Adriana, de 14 anos; Diogo, 10; ( entra no cemitério. “Eu tinha uma ra à espera que as soluções caiam do Pedro, nove; Isabel, cinco), muitos P tia muito mórbida. Todas as quartas- céu, do céu só cai a chuva. Mas só amigos, muitos leitores e um a feiras, íamos para o Alto de São João as, gosto da minha vida a partir dos namorado. Às 17h, têm encontro n limpar as campas. E logo ela, que par vinte e tal anos.” marcado no Jardim de Inverno m era má para as pessoas e lhes fazia a Depois do curso tirado, do Teatro de São Luiz, em Lisboa. d vida negra. Depois de mortos é que a negra Germânicas, como se designava Germânicas Porque está de parabéns. P