Introdução
       No Brasil, é importante perceber que são poucos os estudos sobre a
masculinidade, como ela é construída individualmente, suas características primordiais,
e onde elas se manifestam no dia a dia.
       Pensando numa frase de Maciel Jr. (2006), “Muito além do sexo, os homens não
nascem homens, tornam-se homens” (p. 9) é importante relembrar que a mesma coisa
que Simone de Beauvoir afirma para as mulheres, vale também para os homens: a
masculinidade mantém-se em constante movimento e isso não apenas diferencia uma
mulher de um homem, mas um homem de outro. Além disso, não é a característica
física que miraculosamente dá ao homem biológico, ou ao homem transexual (por mais
que as bases biológicas da transexualidade estejam sendo ainda confirmadas) sua
masculinidade: ela é construída, muito além do que o biológico apresenta ou
potencializa.
       É relevante também ressaltar que a masculinidade hegemônica perpassa as
masculinidades subordinadas: cada indivíduo constrói-se a partir de uma história de
vida durante o desenrolar de seu ciclo vital, dos acontecimentos sócio-econômicos e
históricos e da cultura inserida em determinado espaço geográfico.
       Segundo Connelll (apud Maciel Jr.,2006)
                          “masculinidade hegemônica pode ser definida como a
                  configuração de uma prática de gênero que incorpora a resposta
                  aceita ao problema de legitimidade do patriarcado, que garante
                  (ou que se ocupa em garantir) a posição dominante dos homens e
                  a subordinação das mulheres” (p. 55)
       Portanto, a masculinidade hegemônica refere-se a uma dinâmica cultural pela
qual um grupo exige e sustenta uma posição de poder na vida social. Ela constrói-se na
relação com outras masculinidades e feminilidades, submetendo-as e dissimulando-as.
Há masculinidades dominantes, ou seja, consideradas hierarquicamente superiores, e
outras cúmplices, subordinadas ou marginalizadas, que são transformadas em duvidosas
e desprezíveis.
       A masculinidade hegemônica refere-se ao homem “normal, verdadeiro”, viril na
aparência e nas atitudes, não efeminado, ativo e dominante. Segundo Connell (1995) as
outras masculinidades todas, como a gay e a transexual, por exemplo, são
masculinidades subordinadas.

                                                                                     1
De acordo com Maciel Jr. (2006) a “masculinidade hegemônica é um modelo
dificilmente alcançado por todos os homens, embora tenha ascendência sobre os demais
modelos” (p.60). Oliveira (2004) afirma que a masculinidade
                         “(...) destacou-se como valor básico sobre o qual a
               sociedade burguesa construiu sua auto-imagem. Os “desviantes”
               forneciam o modelo às avessas, “contratipo” que figurava a
               antinorma, o antiparadigma do homem burguês.”(p.78)
       Esta pesquisa se propõe a investigar como a masculinidade é construída por
homens transexuais, homo e heterossexuais, para que se possa refletir sobre como a
masculinidade hegemônica permeia os ideais e o imaginário social. A compreensão das
articulações e negociações entre a masculinidade hegemônica e as subordinadas ao
longo da história dos participantes permitirão uma reflexão sobre as comunalidades e
diferenças entre eles.
       Podemos evidenciar que a relação entre masculinidade e homoafetividade muitas
vezes é deixada em detrimento da não-relação entre sexualidade e gênero, que muitas
vezes é abordada na literatura queer, como é o caso de Sullivan (2003) ou Jagose(1996).
Porém é algo que devemos nos deter de modo a comprovar ou modificar tais
afirmações, de modo a entender melhor como esta relação (se é que ela existe) ocorre.
       A partir de pesquisas anteriores (Carvalho, Lopes e Ghetler, 2008; Bento, 2006)
verificou-se também que o tema da transexualidade é muito pouco abordado pela
Psicologia. Faltam principalmente conhecimentos acerca dos homens transexuais
(pessoas com o sexo feminino e gênero masculino), que são menos evidenciáveis
devido à dificuldade da cirurgia de transgenitalização (pelo risco que ela traz de um
processo de necrose do neo-falo, e pelo preço). De acordo com Saadeh (2004) eles
também são minoria se comparados às mulheres transexuais (pessoas com o sexo
biológico masculino e gênero feminino), numa proporção que varia mundialmente de
1:1 a 1:4.
        Para entendermos do que se trata o trabalho, é preciso explicar alguns conceitos
chave que irão nortear a pesquisa.
       A transexualidade de acordo com Bento (2008) é a


                           “Dimensão identitária localizada no gênero, e se
               caracteriza pelos conflitos potenciais com as normas de gênero à
               medida    que   as   pessoas   que   a   vivem   reivindicam   o

                                                                                        2
reconhecimento social e legal do gênero diferente ao informado
               pelo     sexo,     independentemente     da    cirurgia    de
               transegenitalização” (p. 144).



       Ou seja, é um fenômeno que se origina da dissonância entre o sexo biológico e a
identidade de gênero de um indivíduo situado em determinada sociedade em um dado
momento histórico e situação geográfica. Por esta razão diferencia-se do travesti, que de
acordo com Kulick (2008), as travestis “consideram sinal de psicose o caso de homens
que pretendem ser mulheres” (p.102), ou seja, por mais que mudem sua aparência para
uma que denuncia traços das normas de gênero oposto ao sexo, não sentem-se em
discrepância com seu sexo biológico. Também se diferenciam dos homossexuais, pois,
como Rubin (1989) afirma, sexualidade e gênero são âmbitos completamente diferentes
e se a escolha de um indivíduo é homoerótica não significa necessariamente que suas
características de gênero irão se alterar. Essas confusões entre travestis, gays e
transexuais sempre foram muito comuns, pois como cita Bento (2006) apenas nas
décadas de 60 e 70 eles foram diferenciados pela Ciência e muitas dúvidas e preconceito
ainda se mantêm.
       O fenômeno da transexualidade é bastante incomum na sociedade ocidental, e
considerado pela medicina como expressão de gênero não pertencente à normalidade.
Por isso pode ser encontrado inclusive no DSM-IV pelo termo de transtorno de
identidade de gênero e transexualismo, no CID-10. É importante perceber que há
intersecções entre a Psicologia e a Medicina na busca de compreensão do fenômeno
transexual. Grande parte dos psicólogos referem-se ainda ao fenômeno com o termo
transexualismo, e chamam os indivíduos com esta característica de transexuais
masculinos, quando o sexo biológico é masculino e vice-versa, dando maior ênfase ao
corpo biológico e não ao gênero.
       No entanto, se formos observar o fenômeno transexual com as/os próprias/os
transexuais e alguns psicólogos com quem se entrou em contato, percebe-se que não
necessariamente os próprios transexuais vão se auto-denominar desta forma. Aliás,
preferem ser chamados pelo gênero que assumem, minimizando a importância do
próprio corpo. Foi por este motivo que neste trabalho foi utilizada a denominação
homem transexual, para respeitar os colaboradores da pesquisa e percebê-los como
realmente são ou como querem se tornar.

                                                                                       3
É também importante salientar que, como Bento (2008) afirma, não
necessariamente estes indivíduos vão ter desconforto com seu próprio corpo; existem
transexuais que preferem não fazer a cirurgia de re-designação sexual como podemos
perceber de P. (Carvalho, Lopes e Ghetler, 2008), uma mulher transexual com a qual
entrou-se em contato para pesquisas anteriores, que afirma que, por não ser mais tão
jovem, e pelo fato de que é algo muito íntimo com que não deixa ninguém ter contato,
não mudaria em seu corpo. Porém o nome é algo extremamente importante para ela,
pois só dessa forma ela pode exercer sua profissão. Sendo que obteve muitos feitos com
a identidade masculina, dos quais é muito orgulhosa, na arquitetura, só pode recobrá-los
após sua alteração de nome.
         Outro caso é de E., que logo ao falar com seu psicólogo, no começo da transição,
avisou-o de que não faria a cirurgia, pois não sentia isso como necessidade e não
percebia sua genitália como parte integrante de um gênero específico ou não. Oito anos
depois, é uma mulher em aparência que vive com seu marido e filhos (filhos seus com
outra esposa) e continua sem ter feito a cirurgia. Considera-se mulher como qualquer
outra.
         Preferiu-se, portanto, utilizar a denominação de Bento (2008) de transexualidade
por ser mais generalista e, assim, não descartarmos sujeitos que fogem às regras
diagnósticas, mesmo que a característica fundamental da transexualidade, a
incongruência de sexo e gênero e o possível sofrimento a respeito das normas sociais
associadas ao sexo biológico também se encontre nos manuais diagnósticos.
         É crucial pensar na homoafetividade aqui como sendo apenas o fato de alguém
de um gênero específico sentir-se atraído emocionalmente por alguém do mesmo gênero
que o seu, visto que existem variações sobre o que a homoafetividade significa
enquanto sexualidade, gênero, e o efetuar deste desejo ou não. Desta forma, nas
entrevistas, foi respeitado o critério dos entrevistados, de modo a perceber da forma
mais concreta o que isto significa para eles.
         É importante também diferenciar sexo e gênero, pois em grande parte da história,
acreditou-se que os dois necessariamente andavam de mãos dadas e isso não é completamente
verdadeiro.

         O sexo de um indivíduo é atribuído pelas bases biológicas cientificamente formuladas.
Isso implica atualmente nos caracteres sexuais presentes, sendo eles primários (gônadas, órgãos
sexuais tais como pênis, útero e caracteres genéticos) e secundários (protusão de mamas,
                                                                                             4
localização de depósitos de gordura, localização de pêlos, densidade óssea, diferença de
quantidade de hormônios sexuais tais como progesterona, testosterona, estrógeno, entre outros).

        Já gênero é uma denominação criada nos entremeios dos movimentos feministas para
designar, de acordo com de Barbieri (1990) “el sexo socialmente construído” e

                             “En otras palabras: los sistemas de género/sexo son los
                   conjuntos de prácticas, símbolos, representaciones, normas y
                   valores sociales que las sociedades elaboran a partir de la
                   diferencia sexual anátomo-fisiológica y que dan sentido a la
                   satisfacción de los impulsos sexuales, a la reproducción de las
                   especie humana y en general al relacionamiento entre las
                              1
                   personas”. (p.100)

        Com essa frase, entende-se que gênero é o sexo socialmente construído: refere-se a
relações de poder (homem-homem; mulher-mulher; homem-mulher) que se inscrevem num
determinado momento histórico e espaço geográfico. Articula-se com outras desigualdades
como as raciais, étnicas, geracionais, de nível sócio-econômico, etc, como se refere Connelll
(2000) ao dizer que essa bimodalidade é construída socialmente, mantendo-se apenas pelas
relações de poder, que são veiculadas por práticas e discursos nem sempre coincidentes.

Beauvoir (apud Bento, 2006) completa:

                            “em verdade, basta passear de olhos abertos para
                   comprovar que a humanidade se reparte em duas categorias de
                   indivíduos, cujas roupas, rostos, corpos, sorrisos, atitudes,
                   interesses, ocupações são manifestadamente diferentes”(p. 71)

      De acordo com Scott (1986), o gênero é uma forma primária de dar significado às relações
de poder. Só se dá na relação, ou seja, não há a feminilidade sem a masculinidade, além de que
não há subordinado sem o subordinador, e vice-versa. É de forma dinâmica que se dão as
relações de gênero e subseqüentemente os papéis de gênero.

        Rubin (1989), afirma que sexualidade e gênero são âmbitos separados, ou seja, a
sexualidade é um âmbito completamente diferente e deve ser analisada independente da
categoria de gênero. Isso contribui muito para entendermos, por exemplo, o caso de um



1
 “Em outras palavras: os sistemas de gênero/sexo são os conjuntos de práticas, símbolos, representações,
normas e valores sociais que as sociedades elaboram a partir da diferença sexual anatomo-fisiológica e
que dão sentido à satisfação dos impulsos sexuais, à reprodução da espécie humana e em geral para o
relacionamento entres as pessoas”
                                                                                                      5
transexual que possui uma escolha homo-afetiva ( ou seja, deseja pessoas com o mesmo gênero
identitário que o seu).

        Mais recentemente surge Judith Butler (1993) que afirma veementemente que a
construção de gênero na ótica feminista acompanhou o sexo biológico para fazer uma leitura
crítica da situação da opressão feminina, e isso na verdade foi inclusive moldado numa
construção já autorizada socialmente, e tão imperceptível quanto a própria linguagem. Como
comenta em seu livro “Bodies that Matter: on the discursive limits of ‘sex’ “:

                          “It seemed to many, I think, that in order for feminism to
                   proceed as a critical practice, it must ground itself in the sexed
                   specificity of the female body. Even as the category of sex is always
                   reinscribed as gender, that sex must still be presumed as the
                   irreducible point of departure for the various cultural constructions it
                   has come to bear. And this presumption of the material irreducibility
                   of sex has seemed to ground and to authorize feminist epistemologies
                   and ethics, as well as gendered analyses of various kinds. In an effort
                   to displace the terms of this debate how and why “materiality” has
                   become a sign of irreducibility, that is, how is it that materiality of
                   sex is understood as that which only bears cultural constructions and,
                   therefore, cannot be a construction?” (1993, p. 28)2




        E assim, pode-se perceber que gênero, assim como todos os constructos subjetivos, é
formulado socialmente. Na transexualidade isso é importantíssimo, pois o gênero não
acompanha o corpo e a vivência transexual é então possível e não patológica, pois não se funda
no corpo     e sim na experiência descrita por Bento (2008) como                “experiência identitária
caracterizada pelo conflito com as normas de gênero”(p. 15). Mas então o que seriam estas
normas de gênero, que delimitam possibilidades de ser e estar não apenas de transexuais, mas de
qualquer ser humano?

        À feminilidade foram atribuídas tradicionalmente características como a sensibilidade e
a emoção aflorada, a fragilidade (“em uma mulher não se bate nem com uma rosa”), a falta ou
déficit de uma razão lógica, uma beleza construída através de valores que mudam com a “moda”
(hoje, é ter cabelos compridos, repicados, soltos e lisos; na Idade Média era tê-los sempre presos


2“
   Parece para muitos, eu acho, que para o feminismo continuar sendo uma prática crítica, ele precisou se
firmar na especificidade sexuada do corpo feminino. Mesmo a categoria de sexo sempre ter sido inscrita
como gênero, aquele sexo ainda precisa ser o ponto irredutível de partida de várias construções culturais
com as quais teve de lidar. E essa presunção da irredutibilidade material do sexo parece ter dado chão e
autorizado as epistemologias e éticas feministas, assim como análises de gênero de vários tipos. Em um
esforço para retirar os termos deste debate de como e por que a “materialidade” chegou a ser um sinal de
irredutibilidade, isso é, como a materialidade do sexo é entendida como aquela que só se dá com
construções culturais e, portanto não pode ser uma construção?”
                                                                                                       6
em coque ou debaixo de panos e chapéus, e de preferência, com cachos; hoje é importante o
valor da magreza e da proeminência de seios e glúteos; nas sociedades feudais era importante a
opulência, para significar riqueza). Segundo Bandeira (1999)

                                 “ser mulher, ter um corpo de mulher em nossa
                        sociedade significa responder a uma série de apelos que o
                        ideário da cultura estabeleceu – ter um corpo dócil,
                        desejante, harmonioso, uma sexualidade sadia, e, ao mesmo
                        tempo,   estar   inserida   num   sistema   pautado   pela
                        subordinação, submetido às práticas sexuais normativas
                        (procriação)” (p. 191).

       A Psicanálise, como outras abordagens em Psicologia, pode ser considerada como
exemplo de difusor deste valor, como indicam a resolução bem sucedida do complexo de Édipo
e da fase genital da mulher. Freud deu à mulher permissão ao orgasmo, embora apenas ao
vaginal.

           Segundo Hime(2004),

                                  “As diferenças de gênero têm raízes históricas em
                        formas e estruturas de relacionamento segundo as quais os
                        homens têm maior status que as mulheres. No passado elas
                        dependiam dos homens para definir suas identidades e
                        organizar sua vida e era esperado que fossem subservientes
                        e atentas a eles. Os homens eram considerados a autoridade
                        legítima na casa e era esperado que mantivessem sua
                        posição, que dessem proteção a seus dependentes e
                        evitassem a vulnerabilidade emocional. Embora os ideais de
                        relacionamento tenham mudado, muitos estereótipos de
                        gênero persistem. Influenciam nosso comportamento,
                        principalmente quando ficam invisíveis”(p. 11).

           Assim como maior status, eles devem também ter maior controle emocional, já que a
expressividade seria característica das mulheres: tornar-se homem implica, ainda nos dias de
hoje, em diferenciar-se das mulheres e dos gays. “Homem não chora” é um ditado popular que
revela a imagem de homem presente no imaginário social: o dono da razão, da frieza e da
dureza, capaz de controle e domínio.

           Além disso, seu corpo também é regulamentado. Devem ser brutos, resistentes e
esculpidos para qualquer combate que tiverem, seja nas grandes empresas, com ternos,

                                                                                            7
gravata e ombros largos, ou com músculos para a batalha física de uma guerra, contra
oponentes que não lhes darão trégua. A masculinidade então é percebida como oposta e
complementar à feminilidade: o masculino é viril, contém a força, dá grande valor à
penetração, é demonstrativo (no sentido que só existe ao demonstrar-se em relações), se
utiliza sempre da razão, acredita num poder centralizado (falo), situa-se no mundo
público, preza a individualidade, a produção, a atividade e a agressividade. São estes
valores que, de acordo com Maciel Jr (2006) vão servir como modelos do que os
homens devem ser e como devem se relacionar, sejam eles homens transexuais ou
homens biológicos: o gênero revela-se nas práticas e nos discursos, e manifesta-se por
exemplo na relação do indivíduo consigo, com pessoas do mesmo ou do outro sexo,
com os filhos, com a família, com a sociedade e suas normas, regras e valores, na
vivência da sexualidade, etc.
        A partir desta rápida contextualização que buscou oferecer uma compreensão ainda que
sintética do âmbito no qual está inserido o problema de pesquisa, apresenta-se a seguir o
objetivo e a justificativa.



Objetivo:
        O objetivo deste estudo é compreender como são construídas e expressas as
masculinidades de homens homo, hetero e transexuais, utilizando-se o conceito de
gênero. Este permite uma forma plural de pensar, o que será valioso para que se possa
refletir sobre as articulações entre a masculinidade hegemônica e as subordinadas.
        Será dada atenção às intersecções entre o aspecto biológico, o pessoal e o social
na construção da subjetividade, priorizando-se um olhar atento à complexidade do tema
abordado.


Justificativa
        Pretende-se com esse trabalho não apenas contribuir para ampliar o
conhecimento relativo às relações de gênero e à sexualidade, mas também gerar
informações que possam embasar intervenções psicológicas que visem a promoção de
saúde, a prevenção de dificuldades pessoais e relacionais e a psicoterapia.
        Os homens transexuais muitas vezes não têm acesso a informações acerca de sua
condição e das complexidades que a envolvem, vivenciando dor e sofrimento numa


                                                                                          8
sociedade a que não sentem pertencer e que não os aceita nem como homens, nem como
mulheres.
       Grande parte das pesquisas realizadas com homens diz respeito à área médica e
muitas vezes não revelam sensibilidade às suas questões psíquicas. Esta pesquisa
pretende dar voz aos participantes homo, hetero e transexuais, possibilitando maior
compreensão sobre as intersecções entre sexo e gênero nas diferentes formas de
expressão da masculinidade.
      Sendo o psicólogo um agente ideológico, esta é uma oportunidade para que a
aluna-pesquisadora reflita sobre a atuação psicológica nos vários âmbitos (clínica,
pesquisa, institucional, hospitalar, educação, etc) a fim de desenvolver a atenção e um
olhar crítico à interferência dos valores e ideologias no “fazer Ciência”. Dessa maneira
poderá contribuir para dar visibilidade às desigualdades de gênero, concorrendo para
transformações no âmbito da subjetividade, assim como no social mais amplo.
       Desta forma, nos deteremos no primeiro capítulo no histórico sobre a
masculinidade, de modo a entender como ela se moldou ao longo dos anos para se
tornar hoje o que vemos em nosso cotidiano. Neste capítulo foi feito uma revisão
bibliográfica sobre a masculinidade em vários contextos históricos e alguns culturais,
como a Idade Média na cultura japonesa e árabe, também formadoras da visão atual da
masculinidade brasileira.
       No segundo capítulo, iremos trabalhar com as relações em que a masculinidade
se mostra, de modo a destrinchá-la enquanto característica relacional. São relações
como o homem e sua sexualidade ou seu trabalho os refúgios da masculinidade
individual e coletiva ao mesmo tempo, e pretende-se neste capítulo explorar esta
característica masculina de modo sintético na bibliografia disponível.
       O terceiro capítulo trará à luz o método com o qual esta pesquisa foi produzida,
explicitando como foram as entrevistas, a forma de análise escolhida e o quanto esta
pesquisa se preocupa com a ética e a não-maleficência às pessoas envolvidas na
pesquisa.
       O quarto capítulo traça uma análise individual de oito dos vinte e três
entrevistados da pesquisa, delineando os resultados desta em relação à bibliografia.
       No capítulo da discussão, juntamos dados de todas as entrevistas para então
tentarmos perceber como tem se desenvolvido a masculinidade atual, observando tanto
a literatura quanto a realidade apresentada pelos entrevistados.
                                                                                       9
Finalmente, no sexto capítulo, trazemos as conclusões percebidas durante a
pesquisa, e desta forma a encerramos, tentando então perceber de que forma esta
pesquisa pode auxiliar na captação de uma masculinidade atual e brasileira.




                                                                              10
Capítulo I - Histórico
       Se pensarmos em uma perspectiva histórica e dialética, os homens tiveram
várias maneiras de expressar sua masculinidade durante a história da humanidade, e isso
retroage nos ideais formados para este grupo populacional hoje em dia. De acordo com
Oliveira (2004) é importante pensarmos dessa forma, pois cada época possuiu um ideal
para a masculinidade que permanece em resquícios no ideal seguinte, como uma marca
d’água em um novo desenho. Este autor explica que este valor social, que é chamado de
masculinidade, só pode ocorrer devido a complexas elaborações culturais, e também
não pode ser visto apenas como um recorte, pois isso simplificaria todo um processo
extenso que é o destrinchar de um valor social.
       Iremos, para tanto, desvendar os valores sociais de momentos históricos
específicos, desde a Idade Antiga, passando pela Grécia e Roma, até chegarmos a
características das masculinidades contemporâneas, de forma a contextualizar cada ideal
de masculinidade vigente e perceber no que as masculinidades atuais se pautam.
       É importante afirmar que a história, até há muito pouco tempo atrás, era escrita
por homens e para homens, pois como afirma Beauvoir (1949), eles estiveram “no
poder” por muito tempo, no controle do conhecimento e do mundo público, assim como
das vias escritas e faladas das eras passadas.
       Como afirma Guggenbühl (1997)
                     “Se nos voltarmos para a história, descobriremos dúzias de
            exemplos da grandiosidade masculina, de homens que trouxeram
            lágrimas e sofrimento a milhares ou pior, mataram milhares. Napoleão
            Bonaparte mandou incontáveis soldados aos portões de Moscou, onde
            congelaram até a morte pelas suas fantasias imperialistas. Foi este
            mesmo Napoleão que disse de si mesmo ‘Meu nome viverá tanto
            quanto o nome de Deus’. Hernán Cortez (1485-1547), comandando
            quatro mil soldados, destruiu o totêmico império Asteca de uma vez
            por todas para a glória do rei espanhol Charles. Com seus sonhos de
            banhos de ouro, ele entregou à morte esta cultura antiga. (...)
                     A grandiosidade masculina nos faz lembrar de homens que
            impuseram suas vontades ao mundo, que colocaram a todos suas
            ambições por poder, e que perseveraram na imutabilidade de suas
            próprias idéias.(...) A grandiosidade masculina é onerosa”(p. 104).
       E realmente é difícil ao ler nos livros de História conhecer o outro lado; e os
outros seres humanos que estavam na terra também naqueles períodos sublinhados

                                                                                    11
como importantes à história da humanidade? Até chamar a humanidade de “os homens”
nos faz esquecer que somos extremamente preconceituosos quanto às outras formas de
humanidade, como as mulheres, travestis, transexuais, etc.
       A partir disso, Welzer-Lang (2004) comenta que o androcentrismo, ou seja,
centrar o homem como o mais importante em detrimento de outras formas de gênero, é
algo mal notado na sociedade, mas deve ser considerado quando pesquisamos gênero de
forma a sermos menos parciais. Para que possamos desconstruir e analisar o masculino
é imprescindível que não excluamos as mulheres dos estudos, dando atenção especial às
relações em que estas também se situam.
       Scott (1990) afirma que ao pensarmos em uma história permeada pelos
excluídos além dos hegemônicos, até o modo como a escrevemos deve ser diferente,
pois o valor dado a certas características que antes eram deixadas de lado como a
subjetividade e o mundo privado, a sexualidade e os relacionamentos amorosos, os
diferentes modos de vida e as pluralidades de vínculos deverão vir à tona, além do poder
e do mundo público, além das guerras feitas por homens sedentos de riquezas. Deve
haver a preocupação de se estudar não apenas as mulheres (no início do feminismo,
estudava-se apenas as mulheres, e os excluídos em geral), mas toda a gama de seres
humanos, como a autora reforça abaixo:
                     “Só podemos escrever a história desse processo se
           reconhecermos que “homem” e “mulher” são ao mesmo tempo
           categorias vazias e transbordantes; vazias porque elas não têm
           nenhum significado definitivo e transcendente; transbordantes porque,
           mesmo quando parecem fixadas, elas contêm ainda dentro delas
           definições alternativas negadas ou reprimidas”(p. 9)
        Em grande parte da história não se fala além da heteronormatividade. Um
homossexual no poder, imagine... Só em conto de fadas queer (aludindo aos estudos
queer, que comentaremos mais adiante), ou polêmicas da papa/papisa Giliberta (mito ou
não, é preciso comentar). Tentaremos aqui então sermos os mais imparciais possíveis,
de forma a relembrar como a masculinidade foi se moldando através das épocas e como
a história ocorreu para todos os envolvidos.


       I.1. Grécia
       Na Grécia Antiga, durante seu apogeu entre os séculos VII e III a.C., situa-se o
momento pioneiro da valorização da razão e da força física. Algumas cidades gregas
                                                                                     12
foram cruciais para entendermos a masculinidade neste momento histórico. Atenas, por
exemplo, com a política, teatros e comunas tinha a fervilhar o pensar, o ser culto, o
conhecimento. É importante salientar que estes homens não tinham como valor
primordial a heteronormatividade, de forma que quem não fosse homossexual3 ou no
mínimo tivesse relações com homens, era mal visto pela sociedade. Era inclusive o
único modo de Paidéia (educação) o relacionamento entre um homem mais velho,
erestes (o amante) com um jovem de 12 a 18 anos, o eromano (o amado), já que a
mulher não ensinava, e o pai, o qual devia estar incumbido desta tarefa, não o fazia por
estar envolvido com a vida social. O eromano deveria ser sempre passivo, aquele que
receberia o conhecimento e presentes do erestes, além deste papel em relações sexuais,
segundo Corino (2006). Além disso, o autor afirma que estes eromanos, logo que
chegassem a uma certa idade, deveriam se desligar de seus erestes, apenas mantendo
uma relação de amizade com os mesmos, para então desposar uma mulher e ter filhos.
        Outros valores incorporados nessa época eram a busca pela liberdade (afinal os
escravos mal humanos eram) a valorização do corpo (a deficiência física era vista como
defeito, problema, incapacidade). É importante ressaltar que nessa época é bem forte a
diferenciação entre homens e mulheres, com características excludentes umas das
outras. Ora, quem era homem não haveria de ser mulher nunca, certo? Isso por que a
mulher na época era vista como ser inferior ao homem, incapaz do amor e da amizade, e
deficiente por não ter o órgão genital masculino, além de incapaz mental e fisicamente,
servindo apenas para a procriação e o cuidado dos filhos até os 6 anos de idade.
        O cuidado dos filhos pelas mães até esta idade também era realizado em Esparta,
grande valorizadora da força física, da guerra, competitividade e da imposição de poder.
Esparta era controlada por mulheres, pois os homens se mantinham guerreando durante
grande parte dos seus 35 anos de vida. A homossexualidade também era comum durante
a guerra (era a homossexualidade viril, como citada também bem mais tarde no
Hagakure, manual japonês dos samurais, do qual falaremos posteriormente), mas a
família como a percebemos hoje (mãe, pai, filhos) era também comum, de modo a
revelar uma relação entre homens e mulheres menos restrita à reprodução; entretanto,




3
 Quando se fala em homossexualidade em outras épocas que não a moderna, se quer dizer ter
preferência por relacionamentos amorosos ou sexuais de pessoas do mesmo gênero, mas a conotação e
os significados de nossa época não podem ser generalizados àquela época de que se fala.
                                                                                              13
não deixava de ser excludente, pois elas não tinham a possibilidade de ir para a guerra, e
também carregavam aproximadamente o mesmo estereótipo das atenienses.


        I.2. Roma
        Roma teve como característica primordial suas conquistas bélicas, veiculando
marcadamente um ideal de masculinidade parecido com o dos espartanos. Com a
diferença que, pelo fato de que a política em Roma se baseava no Panis et Circensis4, os
gladiadores e os ideais em relação à sociedade e o entretenimento muito puderam
influenciar o atual ideal de masculinidade hegemônica.
        Para isso, é preciso entender o Gládio. Os gladiadores eram ex-escravos que
eram colocados para lutar entre si, com animais, em bigas, etc, onde o mais forte, aquele
que matava todos os outros, permaneceria lutando. A desistência era então algo
desonroso, pior que a morte, pois seria como desistir da própria vida, acima da luta.
Estes casos eram julgados pela platéia, que a tudo assistia nas arenas, e o César, que
tinha o poder de definir se aquele que estava lá iria morrer ou viver. Já o gladiador que
se encontrava em posição superior, podendo matar seu oponente, se quisesse por
misericórdia não fazê-lo sair-se-ia bem, pois de qualquer forma, a honra era sua, e não
tomar a vida significaria ter alguém grato para sempre.
        Também são da Roma antiga os primeiros relatos de pessoas que se travestiam
e/ou ocupavam funções sociais de pessoas do sexo oposto. Segundo Saadeh(2004) Filo,
um filósofo judeu, é o primeiro a relatar a existência destes no século I d.C.,
comentando que alguns homens passavam a se vestir como mulheres, eliminavam suas
características secundárias masculinas e podiam extirpar os testículos e até mesmo o
pênis, de modo a viver como mulheres. Saadeh também comenta sobre Manilus e
Juvenal a respeito dos poemas que estes autores faziam a respeito do ódio que tinham
quando um destes que trocavam as funções sociais de um gênero para outro eram
colocados no sexo de nascença. Segundo este autor, vários imperadores romanos
travestiam-se e isso era algo considerado comum na época.
        No final do império romano, impérios bárbaros invadiram as cidades, e isso foi
muito importante, pois grande parte destes era composto por povos nórdicos, que


4
 Um sistema no qual a população das grandes cidades era inativa devido à grande quantidade de
pessoas que era absorvida pelo império romano através das guerras e era preciso entretê-los (Circensis)
assim como fornecer comida (Panis) para que não houvesse revoltas.
                                                                                                     14
valorizavam as mulheres muito mais que o império romano. Estas mulheres guerreavam
junto com os homens, tinham papéis sociais significativos e eram muito mais bem
quistas que as mulheres romanas. As culturas nórdicas em grande parte valorizavam a
mulher pelo fato de que esta poderia gerar vida e portanto, estava muito mais ligada à
terra e às divindades que os homens, e isso influenciou em parte a idade média, como
no significado da caça às bruxas, e na dicotomia Eva-Maria da qual se falará mais
tarde.


         I.3. Idade Média
         O medievalismo, ou idade média, foi marcada veementemente pela formação de
hierarquias entre as masculinidades, assim como um aumento na imposição de poder.
Várias características consideradas fundamentais para a masculinidade moderna foram
cunhadas nessa época, e portanto nos prolongaremos mais neste momento histórico.
          Os feudos funcionavam de acordo com a fé cristã, o que significava que a
mulher teria a função reprodutora, deveria ser dócil e recatada, uma esposa fiel, e de
acordo com sua casta, deveria mais ou menos favores (inclusive sexuais) ao dono do
feudo. Ao homem, então, era atribuída a função política, como guerreiro ou nobre da
corte (obviamente dependendo de sua classe social), a de chefe da casa em uma
hierarquia que privilegia mais os homens do que qualquer mulher( mesmo a esposa),
pregavam ou lutavam pelo clero, portanto sendo ousados para conquistar o que lhes era
devido.
         Quanto às relações amorosas, é também dentro do medievalismo que surge o
amor cortês, diferente daquele referenciado à Deus (o amor cristão); o amor torna-se
singularizado, e a Dama substitui Deus. O homem entoava hinos de amor à sua amada,
intocável e incrivelmente bela, enquanto estava em combate, o que traz o caráter de
servidão para com o outro, desde que este fosse puro, sem sexo, idealizado. É
importante perceber nesse momento a transformação da mulher, também dicotômica: há
“aquela que é pura” e também “aquela é devassa”, como é comentado através da
dicotomia Eva-Maria em Carvalho, Lopes e Ghetler (2008): esse padrão vai se
manifestar no modo como o homem irá se relacionar com as mesmas. “Se ela é pura,
será uma boa esposa e terá filhos saudáveis”, “se ela for uma devassa, me divertirei
bastante com ela, mas não passará disso”.


                                                                                   15
Diferente do que ocorria na Grécia Antiga, a homossexualidade era vista como
qualquer desvio da heteronormatividade, como bruxaria, o mal personificado e atuado, e
portanto, não era um ideal a se seguir. Porém, nas guerras, o companheirismo e a
amizade tornaram-se valores estimados pois, não podendo voltar para casa, os amigos
guerreiros eram os únicos confidentes. Aliás, o cavaleiro medieval cristão, segundo
Zamboni(2005), era um exemplo de conduta masculina a ser observado, pois a retidão e
fé inabalável eram imprescindíveis para os valores morais da época. Então, ao detentor
da força e da ousadia, nada mais sensato do que incumbir-lhe tal fardo, o de
desempenhar o papel de exemplo. Mesmo as dores da batalha eram vistas como
positivas, pois se agüentasse (sem reclamar) a dor e o sofrimento, teria um lugar ao céu.
       Um curioso detalhe histórico descrito por Saadeh(2004) é que no século IX, um
papa (há controvérsias, pois a Igreja nega), João VIII, teria sido na realidade do sexo
feminino, e teria morrido dando à luz, coisa que até hoje não se tem certeza pela
omissão destas informações. Seu nome de batismo era Giliberta, e teria sido papa por
dois anos, sete meses e quatro dias.
       Uma característica também muito útil para nossa reflexão aqui são os duelos.
Neste aspecto do medievalismo que acaba inclusive invadindo o renascimento e até a
                                            emergência da futura classe burguesa da
                                            Revolução Industrial, a honra era prezada de
                                            tal forma, que algo que a sujasse seria tão
                                            vil que teria de resultar em morte; do
                                            desonrado ou daquele que desonrou. A
                                            coragem, o “sangue frio”, o poder nele
                                            implicado, a dignidade eram postos à prova
                                            em um duelo. O próprio “por à prova” se
                                            tornou instituído, assim como o precisar
                                            provar às pessoas ao seu redor que sua
                                            honra não está manchada. Além disso,
                                            marcas deixadas no corpo por um duelo
                                            como cicatrizes, amputações, etc. eram
                                            vistas quase como troféus, simbolizando
 Figura 1 – Armadura Infantil no Musée de
 l’Armée, Paris, França                     dignidade e eram como um atestado de que
                                            este homem era destemido, não tinha fugido
                                                                                       16
ao combate.
       Como também pode se perceber nas armaduras (foto) utilizadas na época, o
corpo devia ter certas características específicas, como os ombros largos, nariz
comprido, peitoral definido e uma postura altiva, inspirando literalmente ares de
nobreza; também podemos evidenciar que o exemplo a ser seguido é o homem que tudo
agüenta, que não deixa transparecer nada, nem deixa que nada o atinja. Parece começar
daí o hino de todos os pais aos filhos: “homem não chora!”.




       I.4. O Hagakure: Livro de prescrições para os Samurais; um olhar sobre o
Oriente
       Este livreto escrito por Yamamoto Tsunemoto em 1710 representa desde o
século XI até o XIX, a época dos samurais no Japão. Escolheu-se este país para
contribuir à nossa revisão pois ele traz à tona o homem da Idade Média oriental, visto
que o Japão disseminou sua cultura ao oriente, desde a Rainha Himiko, quando no
Século III D.C. fazia contatos com a China, até hoje em dia em períodos globalizados, o
quanto a cultura revela e nos afeta com os Mangás, a comida típica, até o modo de ser e
estar no mundo. Por estarmos interessados neste estudo sobre o modo como os homens
expressaram sua masculinidade, e como os guerreiros samurais são o expoente dessa
sociedade na era feudal, é importante comentar alguns trechos de suas prescrições para
entendermos qual era este ideal (afinal, o Hagakure foi escrito por um homem, para
homens).
       O Hagakure explicita em vários momentos como os homens devem se portar,
andar, falar, expressar sua sexualidade, como sua honra era mantida, como era
destituída, os rituais de sepukku e harakiri (suicídios rituais diferentes no caso de uma
honra irrestituível), etc. Alguns destes dados são:
                              “Todos nós desejamos viver. E na maioria das
                     vezes, construímos nossa lógica de acordo com o que
                     gostamos. Mas não atingir nosso objetivo e continuar a
                     viver é covardia” (p. 28)
       Podemos perceber que aqui, a vida de nada vale se o homem não se doa a sua
tarefa, é prático e objetivo. A subjetividade portanto não é importante.

                                                                                      17
“É de mau gosto bocejar na frente dos outros.
                     Esfregar a mão na testa pode impedir um bocejo repentino.
                     (...) O mesmo ocorre com o espirro, que ridiculariza a
                     pessoa...” (p. 34)
       Aqui vemos a valorização que se dá às boas maneiras, da educação e discrição.
                              “Existe uma maneira de um samurai criar seu
                     filho. Desde sua infância ele deve ser encorajado à bravura,
                     e deve-se evitar assustá-lo ou provocá-lo com trivialidades.
                     Se uma criança for afetada pela covardia, isso permanecerá
                     como uma cicatriz para toda a vida. (...) Uma mãe ama sua
                     criança incondicionalmente, e será parcial a ela quando o
                     pai repreendê-la. Se a mãe se tornar uma aliada para a
                     criança, existirá a discórdia entre a criança e o pai. Devido à
                     superficialidade de sua mente, uma mulher vê a criança
                     como seu ponto de apoio na velhice” ( p. 56)
       Aqui vê-se o valor da bravura e da imparcialidade masculina, em detrimento da
mente feminina, considerada superficial.
       Em outras passagens fala-se a respeito da homossexualidade, que deve ser
discreta, porém é permitida desde que os dois estejam dentro do relacionamento afetivo,
e estejam dispostos a passar a vida juntos.
       A morte é um valor cultuado, desde que seja honrosa. Dessa forma, ela é ainda
melhor que a vida, pois a vida sem a honra é algo do que se envergonhar, e pelo qual é
insuportável passar. As pessoas cometem erros, mas eles não devem ser desvios de sua
própria índole, muito menos se deve abandonar ensinamentos de um mestre. O mestre é
tão importante quanto a própria vida destes indivíduos, pelo qual se deve viver e morrer.
O valor da hierarquia então é salientado em vários momentos do livro, demonstrando
alto grau de importância desta característica na expressão da masculinidade.
       É importante ressaltarmos que este é apenas um recorte da expressão da
masculinidade do Japão observada em um livro importante até hoje na cultura japonesa,
e não um estudo detalhado a respeito do tema, no qual não nos deteremos mais por ser
apenas mais uma das facetas observadas neste trabalho.


       I.5. O Jardim Perfumado do Xeque Nefzaui: manual erótico; A
masculinidade sob a ótica Árabe



                                                                                       18
Como é sabido, a cultura árabe muito influenciou e influencia a cultura nacional,
devido à ocupação árabe de Portugal durante a Idade Média, o que incluiu nos valores
sociais da mesma várias informações, saberes e modos de ser e estar representados e
repetidos até a presente data não apenas neste país, mas também em outras ex-colônias.
O manual estudado, assim como o Hagakure, é um manual escrito de homens para
homens de modo a ensinar a estes como se comportar e não ser daqueles que “merecem
censura”.
       O Jardim perfumado foi escrito pelo Xeque Omar Ibn Muhammad Nefzaui no
século XVI e tem como intuito auxiliar homens a se portar em sua sexualidade, e como
lidar com as mulheres. É importante mais uma vez ressaltar que este é apenas um
recorte da cultura árabe, e portanto, não uma análise detalhada sobre a mesma, pois é de
nosso interesse perceber tal cultura, e não nos aprofundarmos nela por ser apenas mais
uma das facetas do trabalho.
       Logo no primeiro capítulo, o Xeque faz uma análise dos homens dignos de
louvor: seu pênis deve ser “avantajado e de comprimento amplo”(p. 29), pois a mulher
só se apaixonaria pelo homem através do coito. Seu corpo deve conter as seguintes
características: “tórax largo e a parte posterior do corpo bem fornida, bem como saber
controlar sua emissão e ter ereções prontamente.”(p. 29) ; deve usar odores perfumados
para atrair e inebriar a mulher. Deve ser belo aos olhos delas e ter proporções coerentes
em seu corpo. Sinceridade e verdade são valores presentes também neste homem ideal,
além de generosidade, coragem e modéstia.
       Ele deve, sempre que puder, seduzir mulheres belas e “dignas de louvor”, ou
seja, aquelas que tem curvas arredondadas, cabelos e íris bem negros, rosto oval, lábios
e língua bem vermelhos, entre outras características. Mulheres valorizadas só falam ou
riem em poucos momentos, não deixam a casa, não têm amigas, não são falsas, não têm
segredos, e só são devotas a um marido, ao passo de que o homem pode ter quantas
mulheres conseguir, mesmo que elas sejam comprometidas com outro homem.
       O homem digno de desprezo é aquele
                            “deformado, que tenha aspecto grosseiro, e cujo
                    membro seja curto, fino e flácido, é desprezível aos olhos
                    das mulheres.” (p. 83)
                            “Desprezível também é o homem que é falso no
                    que diz, não cumpre o que promete, que mente sempre que


                                                                                      19
fala, e que esconde da mulher tudo o que faz, exceto os
                    adultérios que comete.” (p.84)
       Percebe-se também ao longo do texto um enorme desprezo por mulheres que
sejam independentes ou que possuam sentimentos externalizados. Em compensação, o
homem tem maior liberdade para ser quem é, e deve procurar mulheres que estejam em
conformidade com seus traços de personalidade. As mulheres são em essência más e
traiçoeiras, características tais que devem ser percebidas e domadas pelos homens.
       Este livro traz uma visão, aos nossos olhos contemporâneos, machista e
preconceituosa a respeito das mulheres, porém muito nos faz pensar a respeito do ideal
de masculinidade atual: o homem hoje também deve ser viril, conquistador e não deve
confiar nas mulheres. As mulheres devem ser bonitas, porém não muito mais do que
isso; também são vistas como perigosas (dicotomia Eva-Maria presente em nossa
cultura), e devem ser tratadas com cautela. Devem sempre ser conquistadas, enquanto
que o homem deve ter atributos físicos e morais para atrair as mulheres.


       I.6. Idade Moderna
       No Iluminismo, fim da “era das trevas”, temos como valor primordial o
conhecimento. À ciência ficam a cargo as prescrições, os corpos, os pensamentos, etc. A
burguesia vitoriana também modifica muito os pensamentos a respeito da sexualidade,
colocando-a em grilhões muito mais rígidos do que antes do século XVII. Segundo
Foucault(1988), antes deste período
                             “ainda vigorava uma certa franqueza. As práticas
                    não procuravam o segredo; as palavras eram ditas sem
                    reticência excessiva e, as coisas, sem demasiado disfarce;
                    tinha-se como o ilícito, uma tolerante familiaridade. Eram
                    frouxos os códigos da grosseria, da obscenidade, da
                    decência, se comparados os do século XIX. Gestos diretos,
                    discursos sem vergonha, transgressões visíveis, anatomias
                    mostradas e facilmente misturadas (...); os corpos
                    “pavoneavam.””(p. 9)
       O mesmo autor comenta que existem várias razões para tal mudança; uma
possibilidade seria a incompatibilidade do uso da energia para os prazeres e para o
trabalho, agora muito necessária devido à Revolução Industrial. Outra possibilidade,
agora muito mais relevante, seria o uso deste artifício de repressão para um enorme
poder sobre o que o ser humano pode ou não fazer.
                                                                                     20
“Se o sexo é reprimido, isto é, fadado à proibição,
                     à inexistência e ao mutismo, o simples fato de falar dele e
                     de sua repressão possui como que um ar de transgressão
                     deliberada. Quem emprega essa linguagem coloca-se, até
                     certo ponto, fora do alcance do poder; desordena a lei;
                     antecipa, por menos que seja, a liberdade futura. Daí esta
                     solenidade com que se fala, hoje em dia, do sexo” (p. 12)
       Bento(2006) também afirma que é nesta época que é criado o bissexismo, ou
seja, ao invés da mulher ser vista como um homem defeituoso, como em muitas culturas
se acreditava, ela então é vista como diferente, outro sexo. Como Beauvoir(1949)
afirmou, um segundo sexo, necessariamente inferior (primeiramente afirmado pela
Igreja, depois então pela Ciência).
       Beauvoir comenta que como haveria um sentimento de “medo” do que a mulher
pode significar, é mais fácil classificá-la de fêmea, coisa que seria um insulto ao
homem, pois isto o encerraria ao seu sexo. A ciência, de acordo com a autora seria um
instrumento de controle, mais um artifício para a dominação das mulheres, o homem
“projetando na mulher todas as fêmeas de uma vez. Ele a faz uma única fêmea.” (p. 35).
Isso seria uma redução da mulher ao animal, não dando a ela chance de demonstrar suas
próprias características enquanto mulher humana, senhora de seus próprios rumos,
como deveria ser, segundo a autora. Beauvoir, como outras feministas que a seguiriam,
modificaram o modo da humanidade pensar a respeito da mulher e do homem; porém, e
quanto ao meio do caminho, a/o transexual, o/a travesti, o/a homossexual e todos os
outros meios de caminho?
       É no século XIX que os primeiros textos médicos a respeito de sexualidade e
gênero (na época, essa diferenciação não existia) começam a surgir com maior ênfase
em um conhecimento que se afastasse da moral vitoriana de acordo com Saadeh(2004).
Este autor também afirma que o livro Psychopathia Sexualis, publicado em 1886 por
Richard Von Krafft-Ebing é o primeiro livro a classificar a sexualidade do modo como
conhecemos hoje.
       Foucault(1988) vai afirmar que a nosologia, a classificação da sexualidade vai
ajudar no controle da mesma, reduzindo as pessoas que tinham estas características a
apenas estas mesmas, de modo a catalogar, porém não analisar ou perceber suas
vivências. De qualquer modo, o conhecimento produzido por Krafft-Ebing e por muitos
outros que o seguiram ajudou de forma crucial a pensarmos a respeito destas várias

                                                                                   21
características, antes levadas ao esquecimento ou à fogueira devido à Idade Média, e
que agora são vistas com maior naturalidade e percebidas como potencialidades
humanas, não como desvios segundo vários autores que estudam gênero. Alguns autores
que pensam desta forma são Bento(2006), Bruns(2004), Dorais(1988), Connell(2005),
entre outros.
       A burguesia traz valores como firmeza, repressão de sentimentos, e na literatura
isso se expressa no período do realismo e do naturalismo. Um exemplo disto é o
personagem Albino do livro “O Cortiço” de Aloísio de Azevedo. Esta obra marca na
literatura a entrada do cientificismo e do Darwinismo Social, trazendo à tona uma visão
de homem marcada pela imutabilidade de caráter associada à classe social a que este
pertencia. Ora, se sou de uma classe social menos privilegiada, necessariamente meu
caráter também terá menos virtudes. Este personagem, assim como outros, na sociedade
da época, era visto como fora da normalidade. O trecho que se segue deste livro faz a
primeira apresentação de Albino, um homem afeminado que gostava de travestir-se de
mulher no carnaval.
                              “Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino,
                      um sujeito afeminado e fraco, cor de espargo cozido e com
                      um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía,
                      numa só linha, até ao pescocinho mole e fino. Era lavadeiro
                      e vivia sempre entre as mulheres, com quem já estava tão
                      familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa do
                      mesmo sexo; em presença dele falavam de coisas que não
                      exporiam na presença de outro homem; faziam-no até
                      confidente dos seus amores e de suas infidelidades, com
                      uma franqueza que não o revoltava, nem comovia. (...) não
                      arredava os pezinhos do cortiço, a não ser nos dias de
                      carnaval, em que ia, vestido de dançarina, passear à tarde
                      pelas ruas e à noite dançar nos bailes dos teatros. Tinha
                      verdadeira paixão por este divertimento; ajuntava dinheiro
                      durante o ano para gastar todo com a mascarada. E ninguém
                      o encontrava, domingo ou de dia de semana, lavando ou
                      descansando, que não estivesse com a sua calça branca
                      engomada, a sua camisa limpa, um lenço ao pescoço, e,
                      amarrado à cinta, um avental que lhe caía sobre as pernas
                      como uma saia.” (p. 40)



                                                                                    22
Obviamente, de acordo com José de Alencar, ele haveria de viver no cortiço
devido às suas características. O mundo só haveria de vê-lo no carnaval, onde tudo é
permitido, desde que motivo de chacota. Albino era um homem afeminado, e com
pretexto de que isto era biológico, imutável, haveria de ter também características
morais condizentes. Isso acompanhou o homem atual no sentido em que qualquer que
seja sua “falha” quanto à masculinidade ideal, ele necessariamente será subordinado,
visto como imoral, doente, (até o DSM-IV em parte, onde a homossexualidade é
retirada dos manuais diagnósticos, porém não as vivencias da travestilidade ou a
transexualidade, consideradas como os indivíduos mais comprometidos sexualmente do
espectro citado desde o livro de Ebbing em 1886) ou marginal.
       O exemplo de José de Alencar em “O Cortiço” traz também imagens sobre a
masculinidade ideal a ser seguida pela burguesia letrada da época: o homem deve ser
culto, buscar ser algo melhor na vida, obter posses sempre que possível, ter um corpo e
comportamento másculo, ocupar profissões          ditas masculinas, ser branco e
heterossexual. E isso é apenas um espelhamento brasileiro da cultura vigente da época,
que trazia a ciência em primeiro plano, como nos dias de hoje, dando suporte e
justificativas às representações de feminilidade e masculinidade. Quem deve construir
este conhecimento científico? O homem. Quem deve passá-lo adiante através da
cultura? A mulher.
       A fêmea humana tem grandes obrigações desde o começo do século XX até a
presente data: reproduzir o conhecimento. É a ela que é dado o papel de educadora das
crianças, cuidadora, portadora das emoções e do 6o sentido... Uma sensibilidade que só
ela pode ter. E ao homem, seu oposto: produzir conhecimento. Ser forte, cheio de razão,
nunca chorar (ao menos não ser visto chorando). Até os anos 50 do século XX, o
homem era alocado no espaço público, a mulher, no privado. O homem, o self-made-
man. A mulher, a rainha do lar. Cada um com seu papel. E quem não tem papel, na
sociedade não está. Minorias homossexuais, transexuais e travestis eram resumidos aos
livros de patologias e às ruas sujas e estreitas do esquecimento. O binarismo do gênero
invalida completamente outras possibilidades de ser e estar no mundo que não sejam
essas duas, homem e mulher. Ser homem, identificar-me com o masculino e gostar de
mulheres. Ser mulher, identificar-me com o feminino e gostar de um homem. E os
entremeios?


                                                                                    23
Além dos estudos psicopatológicos, surgiram nos anos 80 e 90 os estudos
Queer5. Estes foram empreendidos por autores como Judith Butler, Lauren Berlant,
Michael Warner, e tinham como objetivo primordial desatar as categorias gênero, sexo e
sexualidade, com o interesse de observá-las de forma separada, desfazendo o ideal da
heteronormatividade6 que guiava os estudos psicopatológicos. Inicialmente, a teoria
Queer se ocupou de comportamentos homoafetivos, porém logo se fez presente no
campo das transgeneridades, do cross-dressing, dos trânsitos de gênero, de sexo e de
sexualidade, pondo à prova até os termos “homem”e “mulher”. Os estudos queer
revolucionaram o modo de olhar para como se forma a identidade de alguém nos
âmbitos citados acima, e influenciaram áreas do conhecimento diversas, como as
ciências psi, as ciências sociais, a história, o direito, e várias outras, mudando o foco das
desigualdades entre os gêneros, como fazia o feminismo, para as vivências de pessoas.


        I.7. Atualmente: A Masculinidade em Questão
        Na época atual vigora a Pós Modernidade7. Não chegamos aos carros voadores,
mas alcançamos uma sociedade em que os veículos motorizados são utilizados até para
ir à esquina. O consumo desenfreado é característica marcante nas relações e aqueles
que não possuem meios de comprar o que querem quando querem, são jogados à
margem. Tudo pode ser consumido, desde máquinas de lavar até os “Identikits” como
cita Oliveira(2004):
                                 “Se há problemas, ótimo, nós temos a solução! O
                        mercado não tarda a oferecer seus préstimos. Quereis
                        identidade? Oferecemos várias possibilidades em cores,
                        diferentes tamanhos e para todos os bolsos. Identikits são
                        oferecidos “sob medida”, atendendo a todas as diferentes
                        individualidades, isto é, “personalizados”. Você pode ser
                        uma mulher moderna, liberada, desembaraçada, ou então

5
  Queer pode ter vários sentidos na língua inglesa, entre eles, alegria e homossexualidade. Muitas vezes,
esta palavra é empregada no sentido pejorativo, mas o intuito dos Queer Studies é exatamente utilizar o
termo e tornar seu sentido como algo positivo, a ser admirado.
6
   Heteronormatividade significa segundo Maciel Jr.(2006), Heteronormatividade se refere a uma
ideologia que promove uma perspectiva convencional das relações de gênero e da heterossexualidade, e
uma visão tradicionalista da família, como a maneira correta das pessoas viverem.
7
  A pós modernidade, ou “modernidade líquida” segundo Bauman(1991), é o período logo após a queda
do Muro de Berlim em 1991 que tem como principais características a ambivalência de valores sociais, a
sociedade individualista, capitalista, onde não há tempo suficiente para o estabelecimento de novos
valores pois estes “se dissolvem”, como afirma o autor, tão rápido quanto foram criados. Segundo Rossi
(s/d), “na cultura pós-moderna, tudo é muita coisa, sempre é muito tempo; nada deve durar demais e cada
indivíduo é, por si só, autosuficiente, um conjunto já bem saturado de dilemas e insatisfações”(p. 5)
                                                                                                      24
uma dona-de-casa responsável, ponderada, amável, ou
                    ainda uma jovem romântica, antenada, sensível, e isso só
                    para começar. Para os homens, temos o identikit magnata
                    impiedoso, autoconfiante, empreendedor; ou o jovem
                    intelectual, estudioso, doutorando, talentoso; ou ainda o pai
                    responsável, educado, charmoso, mas ao invés de ser o pai
                    responsável, temos o solteiro bom partido, atlético, sexy,
                    macho de físico exuberante. Se não gostar de nenhum
                    desses, pode-se fazer uma bricolage self-service, onde o
                    cliente escolhe duas características de cada um e ele próprio
                    compõe seu identikit.”(p. 133)
       A cultura tornou-se tão representada pelos meios de consumo que ela não só
ajuda a vender mais, mas modifica em alguns anos a bagagem cultural de cada um. Não
apenas as culturas são múltiplas, mas também fluidas, mutantes, o que traz ao homem
contemporâneo angústia e falta de identidade fixa, que lhe dê segurança.
       O mercado de trabalho é composto por homens e mulheres, ambos grandes
usuários da tecnologia e julgados por sua performance e competência, mas as mulheres
ainda ganham menos que os homens, são tratadas como potenciais mães (como afirma
Beauvoir(1949), encerradas em seu sexo biológico), e passíveis de “mudanças
hormonais”, a TPM, sempre que reivindicam algo melhor, ou brigam por algum motivo,
seja sobre o controle remoto da TV, seja por melhores condições de vida. E claro, quem
não cabe na definição homem ou mulher de forma bem dicotômica, não é nem
considerado como parte da sociedade (isso afinal não mudou, transgêneros em geral
continuam marginalizados e encerrados à escória da humanidade e aos livros de
degenerações mentais e físicas).
       Outra característica crucial de nossa sociedade é o individualismo: é difícil o
envolvimento amoroso ou afetuoso com algo ou alguém. E por não nos apegarmos,
participamos de uma sociedade onde os valores são supérfluos, as relações superficiais,
e o amor, algo que desperta medo, por mais que este seja ainda celebrado como ideal. O
feminismo trouxe vários efeitos importantes para revermos as questões relativas à
desigualdade de gênero, a sexualidade, comportamentos masculinos e femininos. Mas a
mudança é individual e ainda não reverteu para uma sociedade mais igualitária ou justa
para todos. Os direitos são usufruídos individualmente e os deveres são cobrados dessa
forma também, então, nossa sociedade continua favorecendo uns e desfavorecendo
outros de acordo com os critérios que poucos dela decidem.
                                                                                    25
Bauman(2007) comenta que nossa sociedade passou de estado “sólido” ao
“líquido”, ou seja,
                      “uma condição em que as organizações sociais
             (estruturas   que   limitam   as   escolhas    individuais,
             instituições que asseguram a repetição de rotinas,
             padrões de comportamento aceitável) não podem mais
             manter sua forma por muito tempo (nem se espera que o
             façam), pois se decompõem e se dissolvem mais rápido
             que o tempo que leva para moldá-las e, uma vez
             reorganizadas, para que se estabeleçam.” (p. 7)
       Em alguns anos na história do ser humano houve tantas mudanças que mal
conseguimos nos adaptar psicologicamente a todas estas novas demandas, as quais
continuam muitas vezes permeadas pelos padrões antigos de modo imperceptível,
presentes em como nos comportamos, e como refletimos sobre o mundo.
       A masculinidade então é percebida também nos dias de hoje como oposta e
complementar à feminilidade: o masculino é viril, contém a força, dá grande valor à
penetração e à intrusão, é demonstrativo (no sentido que só existe ao demonstrar-se em
relações), se utiliza sempre da razão, acredita num poder centralizado (falo), situa-se no
mundo público, possui iniciativa, preza a individualidade, a produção, a atividade e a
agressividade. São estes valores que, de acordo com Maciel Jr. (2006) vão servir como
modelos do que os homens devem ser e como devem se relacionar, sejam eles homens
transexuais ou homens biológicos: o Gênero revela-se nas práticas e nos discursos, e
manifesta-se por exemplo na relação do indivíduo consigo, com pessoas do mesmo ou
do outro sexo, com os filhos, com a família, com a sociedade e suas normas, regras e
valores, na vivência da sexualidade, etc. O homem deve mostrar ao espelho e ao mundo
que é homem. Mas de que isso vale atualmente?
       Pode-se dizer por meio de Dorais(1988) que o homem cavou para si mesmo sua
cova; isso porque espera de si e dos outros o ideal de masculinidade, enquanto só
encontra masculinidades subordinadas, inclusive a sua própria: o homem não deve
chorar, mas sente e tem vontade quando passa por uma situação impactante em sua
vida; o homem tem que ser viril, mas não consegue ser potente o tempo inteiro em
qualquer fase de sua vida. Ele deve ser o provedor, mas como se não consegue emprego,
e sua mulher sim, ou se ganha menos que sua mulher? E nas relações amorosas, o
                                                                                       26
homem não pode se envolver? Tantos questionamentos devem deixar os homens
confusos... (nota da pesquisadora) A mulher não é mais o sexo complicado, frágil; e
agora, quem poderá salvar o “homem desamparado”? Como afirma o mesmo autor:
                            “Esta confusão e esta insegurança decorrem das
                    transformações sociais e culturais que, em menos de trinta
                    anos, produziram uma reviravolta nas principais fontes da
                    identidade masculina. O trabalho, o poder, a família, e
                    mesmo a aparência física e a sexualidade do homem se
                    modificaram. Essas mudanças não apenas exigiram
                    adaptações por parte dos homens, mas mudaram a própria
                    noção de masculinidade” (p. 18)
       Outros pesquisadores como Maciel Jr.(2006) também percebem estas mudanças.
Estudos diversos citados em sua tese de doutorado remontam um panorama
completamente novo sobre os homens, principalmente por que antes de pesquisarem
sobre a feminilidade e o gênero, nada haviam falado sobre a “nova masculinidade”, e
como os homens se relacionam com ela. Quais as diferenças agora entre homens e
mulheres? Um pedestal tão avidamente construído pelos homens agora bate de encontro
com o das mulheres, se choca e se mistura em pedras ambíguas, não se sabe mais de
quem é o pedestal, ou se ele ainda existe apesar dos escombros.
       Oliveira(2004) também ressalta a masculinidade atual como muito influenciada
por uma tentativa de desconstrução de valores antigos, inclusive a própria
masculinidade, o que resulta em um declínio nas classes médias e altas quanto ao
domínio exercido. Isso por que existe uma luta às hierarquias no período da pós-
modernidade (aliás, o termo pós-modernidade vem das artes, um período de
desconstrução do ideal do período perfeito na arte, para colocar as tendências lado a
lado, apenas diferentes), uma busca pelo consumo (reprodução) ao invés da
criação(produção), uma descentralização de poderes.
       Nesse estudo, espera-se compreender como se processam estas transições no
âmbito pessoal e relacional tão cheias de expoentes e influências. Será a masculinidade
atual a mesma do passado, com uma roupagem mais “bonitinha” (mandando e
desmandando com um terno Armani® e as unhas pintadas com base)? Ou as angústias e
conflitos tomaram este papel e transformaram os homens para sempre? Buscamos
compreender como se revelam as possibilidades de construção e expressão das
masculinidades por meio de categorias de análise relacionais, ou seja, como discutimos

                                                                                    27
que a masculinidade é demonstrativa e é sempre negociada por meio da relação do
homem com outros objetos, inclusive ele mesmo, é importante observarmos como ela se
expressa em cada campo relacional (como ele se relaciona consigo mesmo, com
homens, mulheres, filhos, no trabalho, entre outros).




                                                                                28
Capítulo II - Em que campos a Masculinidade se expressa?


        Estamos nos referindo nessa pesquisa a gênero, ao gênero masculino.
        Pedrosa(2009), ao discutir gênero, trabalha com a vertente comportamental
quando diz que são comportamentos reforçados através do convívio social que geram a
identidade de gênero. Então gênero referir-se-ia a vários comportamentos que,
reforçados pela sociedade, dão origem aos papéis de gênero, feminino e masculino, que
se modificam através do tempo de acordo com os comportamentos reforçados ou
eliminados.
         Hime(2004) também nos ajuda a entender o gênero quando afirma que “o
gênero revela como as diferenças sociais se estruturam a partir das diferenças entre os
sexos e como se atribui significado às relações de poder”(p. 7) observando assim como
Maciel(2006), Welzer-Lang(2004), Connell(2005) entre outros, que as relações sociais
são primordiais para a identidade de gênero, e que elas ditam muitas vezes como
devemos interagir com homens, com mulheres e com ambos.
        Barbieri (1990) afirma que o sexo socialmente construído, ou gênero é

                              “En otras palabras: los sistemas de género/sexo son
                    los conjuntos de prácticas, símbolos, representaciones, normas
                    y valores sociales que las sociedades elaboran a partir de la
                    diferencia sexual anátomo-fisiológica y que dan sentido a la
                    satisfacción de los impulsos sexuales, a la reproducción de las
                    especie humana y en general al relacionamiento entre las
                               8
                    personas” (p.100)

        Esta autora é importante, pois localiza a origem do gênero no corpo, como
Beauvoir(1949), e faz do gênero algo que se vincula às características corporais. As
mulheres, por causa da possibilidade de gravidez, do corpo propenso a armazenar
gordura em locais específicos, das mamas, etc, deve ter características femininas como
o cuidado, a passividade, e portando serão oprimidas pelos homens, que tem os
músculos mais desenvolvidos, possuem um pênis de modo a penetrar, e portanto
oprimirão, serão ativos e se utilizarão da força e do poder que seu corpo lhes gera. É

1
 “Em outras palavras: os sistemas de gênero/sexo são os conjuntos de práticas, símbolos, representações,
normas e valores sociais que as sociedades elaboram a partir da diferença sexual anatomo-fisiológica e
que dão sentido à satisfação dos impulsos sexuais, à reprodução da espécie humana e em geral ao
relacionamento entre as pessoas”
                                                                                                     29
desse olhar unido às descobertas científicas que abstraímos que o conceito de sexo é
construído através das características corporais sexuais primárias (pênis, testículos e
útero, ovários) assim como secundárias (pêlos corporais, localização de gordura,
aumento ou não de mamas, desenvolvimento muscular, etc).
       Essa visão é reproduzida em vários textos feministas e em textos científicos
também; até hoje, e essa é uma das teorias mais aceitas quanto ao início do conceito de
gênero: o corpo. Segundo a definição de Barbieri (1991), todas as sociedades, para
sobreviver, precisam de mulheres em idade fértil. Como só elas são capazes de gerar
vida em seus corpos, as sociedades lhes atribuem um poder. Este fato leva à necessidade
de controlá-las sem, no entanto, destruí-las. Este controle se dá por meio da capacidade
reprodutiva, da capacidade erótica e de sua força de trabalho. Assim, há uma
transformação do pênis em falo, exato símbolo de poder, e um valor é colocado na
virgindade, na infidelidade feminina, valorada de maneira muito diferente da masculina,
considerada algo sem importância. Embora o corpo feminino e masculino possam dar e
ter prazer, apenas o feminino é considerado objeto sexual. E finalmente, a capacidade de
trabalho feminina poderia dar às mulheres a autonomia necessária ao questionamento
das relações de dominação-submissão. Para esta autora, a partir das diferenças
biológicas constroem-se as desigualdades entre homens e mulheres.
       Para outros autores, como Kimmel, Connell, Maciel Jr. e Butler, o ponto de
partida é o social, arena onde se articulam as relações de gênero que veiculam o poder,
sustentado pela criação de heranças biológicas, usadas para justificar as desigualdades.
Mas como pessoas então podem ter gêneros e sexos diferentes?
       É a partir desta questão que Bento(2006) expõe um outro universo, seguindo
autoras como Butler(1999) que questiona os entremeios do gênero: existem pessoas que
não são homens nem mulheres? Onde elas se localizam no espectro binário de gênero
construído pela nossa sociedade? Como podemos compreendê-los/as? Esta autora então
desconstrói o gênero para então entender o que se passa para que sejamos masculinos ou
femininos. Ela afirma por fim que, diferentemente de Barbieri(1991) e grande parte das
feministas, o corpo não é a matriz do gênero e sim, valores sociais e constructos da fala
e da cultura que são a matriz de como vemos o corpo, e dessa forma, construímos nossa
visão do gênero e do corpo. Isso significa que o corpo que conhecemos é permeado de
valores, e são eles que nos fazem afirmar que um corpo é masculino ou feminino e que
também se deve agir de modo feminino ou masculino. Por ser um constructo idealizado
                                                                                      30
pelo ser humano, o corpo e suas normas hegemônicas se modificam ao longo do tempo
e do espaço e desta forma podem se modificar em relação ao momento histórico-social e
o lócus geográfico. Essas normas, ou leis, como afirma a autora, se materializam no
decorrer de um processo, nunca de uma vez só, apenas no nascimento ou através de um
ritual.
          Mas também não é possível enxergarmos o corpo pelo corpo, sem as normas de
gênero, pois elas se constituem como um ideal hegemônico, e é muito difícil nos
desviarmos deste valor que nos é ensinado e que atuamos desde bebês. Bento(2006)
afirma que
                      “Quando o médico diz ‘é um menino/uma menina’ produz-se
              uma invocação performativa e, nesse momento, instala-se um
              conjunto de expectativas e suposições em torno deste corpo. É em
              torno dessas suposições e expectativas que se estruturam as
              performances de gênero. As suposições tentam antecipar o que seria o
              mais natural, o mais apropriado para o corpo que se tem”(p. 88)
          Também não é possível pensar que o corpo não influi no gênero, que ele é
completamente passivo em relação às normas sociais, e que estas não têm uma base no
mundo físico. Mas a cultura se constrói como o corpo se constrói, e existe uma dialética
entre as construções sociais sobre o corpo e o gênero, de forma que a materialidade do
corpo também é capaz de produzir, além de reproduzir, como foi pensado por Beauvoir.
Butler(1993) nos traz estas indagações e dessa forma é possível pensar no/a transexual,
n@9 travesti, nos drag kings e drag queens como o faremos neste trabalho.
          Os estudos de gênero são deste século e muito se referiram às mulheres, aos
homossexuais, aos desviantes em geral e suas angústias, suas disfunções dentro de uma
sociedade que se baseia em uma heteronormatividade, onde o macho é divinizado pelas
suas características inatingíveis. Por que então, agora, falar deste macho? Será que ele
também não tem funcionado dentro da lógica criada por ele e para ele?
          É importante também contextualizar os estudos sobre a masculinidade para que
entendamos em que ponto estamos na pesquisa. O feminismo foi precursor nos estudos
sobre gênero e até se escrevia sobre as “hombridades” de forma escassa antes das

9
  O arroba, quando substitui a vogal de uma palavra que contenha como característica o gênero, tem como
significado um gênero não conhecido, ou diferente do masculino ou feminino. Entre @s travestis, isso é
muito comum, pois é falta de respeito na maioria do tempo chama-l@s de homens, e nem tod@s se
reconhecem como mulheres, ou se percebem dessa forma. Por essa razão, a linguagem utilizada pel@s
mesm@s é essa, e aqui será reproduzido em respeito ao como el@s querem ser denominad@s, segundo
conversas informais com estas pessoas durante os anos de 2008 a 2010.
                                                                                                    31
feministas de acordo com Maciel Jr.(2006), mas até Nicole-Claude Mathieu, em 1971, o
estudo das mesmas se resumia às mulheres; os desviantes eram o problema a ser
“dissecado” como afirma Welzer-Lang(2004). Mathieu foi a primeira pesquisadora de
que se tem notícia a propor que estudemos os homens tanto quanto as mulheres, pois
sendo ambos formadores de um sistema relacional, o estudo de uma categoria de gênero
fica incompleto se deixarmos de estudar a outra.
       Como Cecchetto(2004) comenta, não é possível falarmos que o tema da
masculinidade foi completamente esquecido antes deste século, mas é importante frisar
que apenas um tipo de masculinidade não deixou de aparecer: o modelo hegemônico de
cada época.
       Porém a masculinidade como um todo ficou às escuras por tempo demasiado
após Mathieu. Isso não quer dizer que não houve sociólogos, psicólogos, historiadores e
médicos olhando para questões do masculino, porém este foram raros em comparação
com o florescimento dos estudos de gênero. Podemos citar algumas revistas como
Types- Paroles d’hommes e Contraception Masculine- Paternité, e autores renomados
na década de 70 como Lefaucheur e Falconnet(1975), e no começo da década de 80,
Emmanuel Reynaud e Guido de Ridder, além de Michel Foucault, Philippe Ariès, Jean
Genet e Michaël Pollack entre alguns outros.
       Como foi dito por Maciel Jr.(2006),
                           “Na segunda metade da década de 80, iniciaram-se
                     estudos e pesquisas centradas no tema-questão dos homens
                     e da masculinidade, tendo como característica principal a
                     rejeição ao modelo tradicional vigente que interpretava a
                     experiência masculina como a norma”(p. 10)
       Então, o homem não mais é um ser já prescrito, moldado como sendo agressivo,
competitivo, caçador, dominador, entre tantas outras características que ele pode
apresentar. Ele pode ser isso, mas pode também não ser. E foram estes estudos na
década de 80 que começaram a perceber o homem e a masculinidade como
possibilidades diferentes e até excludentes em alguns casos, como podemos ver nos
ideais das mulheres e homens transexuais. São poucos os estudos sobre a masculinidade
se comparados aos outros estudos de gênero, mas eles formam um panorama geral a
respeito de quem são estas pessoas, mostrando as várias possibilidades do “ser” e do
“tornar-se” homem.


                                                                                    32
Quando estudamos gênero, é imprescindível notar como as relações de poder se
inscrevem entre as possibilidades de gênero, seja dos homens para com as mulheres,
seja entre homens e entre mulheres, ou qualquer outra possibilidade. Como os estudos
de gênero e mais tarde os men’s studies foram baseados com razão nessa desigualdade,
porque ela existia, era perceptível e continua sendo através dos olhos de Maciel
Jr.(2006), Welzer-Lang(2001, 2004), Hime(2004), Monteiro(1997) entre vários outros
autores, observar apenas as diferenças seria deixar de olhar uma das mais importantes:
quem construiu a história até há pouco foram homens, e eles detém todo este know-how,
em detrimento das outras formas de gênero, que andaram à margem dos livros e da
História humana, deixando suas marcas em leves pinceladas através de olhares
masculinos.
       Uma característica da expressão da masculinidade é que diferentemente das
mulheres, os homens precisam provar o tempo inteiro que são masculinos, que cultivam
estes ideais e valores, seja para si, seja para outras pessoas. Se o homem fraqueja em
demonstrar que é masculino, é como se esta característica se esvanecesse para fora de si.
Ele reforça isso para seus colegas de sexo e também para as mulheres, dizendo o que
devem ou não fazer. Suas prescrições também são para si, para lembrar em toda e
qualquer situação de que é um homem, de que é forte, detém o poder, é racional, etc.
       Weininger, no começo do século XX, foi um dos primeiros a afirmar que estas
constantes demonstrações de masculinidade se deviam ao fato de um hermafroditismo
original que faz com que o homem, diferentemente da mulher, tenha que diferenciar-se
da mesma, se não seu “outro lado” transpareceria. Apesar de como via as mulheres,
Weininger, segundo Cecarelli(1998), influenciou toda uma geração sobre a indefinição
de gênero inata dos seres humanos, e sobre o fato da masculinidade não ser algo detido
pelos homens, mas sim algo desejado e necessariamente inatingível enquanto ideal.
Connelll(2005) então formula a possibilidade de várias masculinidades, todas passíveis
de transformação ao longo do ciclo da vida, da sociedade em questão, da cultura, e ,
principalmente, de como este homem se relaciona.
       Por essa razão, é impossível perceber a masculinidade e como ela se expressa se
não está em relação, se não se expressa a algo ou alguém. Algumas categorias de análise
relacionais a seguir podem ser exemplificadas como portadoras das relações em que se
inscreve a masculinidade, as quais estudaremos com mais afinco por meio das
entrevistas.
                                                                                       33
II.1. O homem consigo mesmo
     O homem demonstra a si que é homem. Quando olha no espelho, vê
características que o fazem sentir-se masculino, de forma diferente das mulheres, como
afirma Beauvoir(1949) quando explana que a mulher foi presa em seu corpo de forma a
ser subordinada à razão masculina, em detrimento das sensações e sentimentos
considerados ponto forte feminino. Connell (1995) comenta que ao olharem para seus
corpos, os homens esperam transpirar, inerentemente, sua masculinidade, que é algo de
que não têm controle e que os liga ou desliga de certos comportamentos (liga-os à
violência, e desliga-os do cuidado com crianças, como exemplos). O corpo masculino
pode ser observado de duas formas: por meio da ciência biologicista, onde o sexo
produz as diferenças de gênero (o homem tem um pênis e deve ser ativo, como
possibilidade desse pensamento) ou o simbolismo impresso no corpo por sua sociedade
vigente (o homem é visto como o provedor, por exemplo, ativo, produtivo).
Butler(1993) com sua teoria de gênero nos aprofunda na compreensão do homem de
modo a percebê-lo como atravessado pelas regras sociais, pelos valores de uma
sociedade.
     Quando veste uma roupa, quando senta, quando fala, revela a si mesmo
características consideradas masculinas, e se mune consciente e inconscientemente
destas em seus pensamentos e de como foi-se percebendo enquanto homem ao longo de
seu ciclo vital;   É dessa forma que um homem transexual sabe que é do gênero
masculino, por exemplo, pois sua identidade de gênero demonstra a si estas
características, relaciona-se com a maneira que ele se percebe, e não ao seu sexo
biológico. Vamos entender então como se forma essa identidade de gênero, no geral.
     Helen Bee (2000), grande psicóloga desenvolvimental, afirma que para que um
ser humano tenha em sua identidade o gênero e o papel sexual, é preciso que ele possua
a constância de objetos, que ele perceba que ele é diferente do mundo e que permaneça
no espaço e no tempo. Através desse processo, o bebê começa a ter um senso de eu.
Mas não apenas isso; ele precisa dar qualidades a si mesmo, compreender-se como
objeto no mundo, dar-se um gênero, um tamanho, um nome, além de outras qualidades.
Essa segunda fase do desenvolvimento do Self começa com o bebê de aproximadamente
21 meses e vai se moldando daí em diante, através da interação com o mundo do
indivíduo.
                                                                                     34
Quanto ao desenvolvimento de gênero, este possui três fases primordiais: a
identidade de gênero, ou seja, o reconhecimento de homens e mulheres, inclusive a si
mesmo (que acontece entre 9 meses e 1 ano), a estabilidade de gênero que constitui
uma certa constância do sexo durante a vida (ocorrendo por volta dos 4 anos) e enfim, a
constância de gênero, onde a criança geralmente reconhece que alguém não muda de
gênero ao usar roupas diferentes, que ocorre durante o 5º e 6º ano de vida.
      Quanto ao papel sexual, ou às performances de gênero, começam a ocorrer dos 18
aos 24 meses de idade, quando os bebês começam a preferir brinquedos “femininos” ou
“masculinos”. Ela ainda ressalta que meninos normalmente têm estereótipos de papel
sexual mais rígidos e tradicionais que as mulheres, levando à hipótese de que as
características masculinas de gênero são mais valorizadas e reforçadas em nossa
sociedade, e por isso, as características consideradas femininas em nossa sociedade não
são alvo de desejo destes meninos, mas sim para as meninas, que flexibilizam mais seus
estereótipos de gênero para que estas características também caibam em sua definição
dos gêneros (existirão homens que gostam de se vestir de meninas também, usar o nome
feminino, ou até se tornarem mulheres, o que nos faz pensar que nem todos querem ser
pessoas com características masculinas, mas esta incógnita será resolvida em trabalhos
futuros.).
      Essa autora também comenta sobre crianças de sexo cruzado, citando John Money
ao falar que o gênero de criação da criança nutrirá sua identidade de gênero. Mas
também afirma que caso haja um desequilíbrio hormonal na mãe durante a gestação,
isto pode gerar meninas com características mais masculinas ou meninos com
características mais femininas. Até hoje, não firmou-se nenhum diagnóstico conclusivo
a respeito do aparecimento de pessoas transexuais e, até este segundo momento,
sabemos muito pouco como isso acontece. Mas nem pistas biológicas, nem pistas
sociais podem nos dar algo conclusivo sobre o tema. Mesmo assim, existem várias
teorias que poderão embasar nossa reflexão com as quais analisaremos os homens, e a
principal neste trabalho será citada a seguir.
      Quando falamos de identidade de gênero, precisa-se fazer uma ressalva: não
podemos considerar sexo como sinônimo de gênero; nem gênero como sexualidade.
Quando alguém considera-se homem fisicamente, não necessariamente se considerará
masculino, nem muito menos terá uma sexualidade pré-determinada. Temos
homossexuais, travestis, transexuais, crossdressers, drag-kings e drag-queens (entre as
                                                                                    35
variedades de trânsitos de gênero, sexualidade e sexo) para provar que nestes três
campos, nada é a priori, e as combinações originam um leque sem fim de possibilidades
de ser e estar no mundo. Os autores principais desta vertente teórica são Butler(1993),
Scott(1990), Derrida(apud Bento,2006). É importante que se considere como aquele ser
humano se constrói enquanto ser social que trará sua auto-imagem, como ele se vê e
como se sente sobre isso, ou seja, como sua auto-estima se constrói e reconstrói ao
longo do seu ciclo vital.
      Este ponto é fundamental para compreendermos a masculinidade, pois apesar de
nos situarmos em uma sociedade com concepções rígidas acerca do masculino, homens
transexuais e homens homossexuais são tão homens quanto homens biológicos e
homens heterossexuais e talvez esse seja o ponto de convergência mais gritante: “Eu
sou homem, ué...”
      Ademais, assim como Beauvoir afirma que mulheres não nascem mulheres,
tornam-se mulheres, os homens negociam suas masculinidades a vida inteira, e se
tornam homens a cada momento em que vivem desta forma. Quando crianças, quando
idosos, quando adultos, os homens atuam diferentemente suas masculinidades e
exercem seus papéis de forma diferente durante suas vidas, com o que concordam
Welzer-Lang (2001; 2004) e Maciel Jr. (2006). O primeiro comenta sobre as relações
entre homens que chama de “a casa dos homens”:
                          “Nessa casa dos homens, a cada idade da vida, a cada
                  etapa de construção do masculino, em suma está relacionada
                  uma peça, um quarto, um café ou um estádio. Ou seja, um
                  lugar     onde   a   homossociabilidade   pode   ser   vivida   e
                  experimentada em grupos de pares. Nesses grupos, os mais
                  velhos, aqueles que já foram iniciados por outros, mostram,
                  corrigem e modelizam os que buscam o acesso à virilidade.
                  Uma vez que se abandona a primeira peça, cada homem se
                  torna ao mesmo tempo iniciado e iniciador.” (p. 3)
      E a cada etapa do masculino, assim como qualquer pessoa, ele ressignifica as
épocas passadas e vê de modo diferente que tipo de homem quer ser no futuro.
Pensando que existem vários tipos de homens em etapas diferentes e modos diferentes
de exercer sua masculinidade, como estes reagem quando estão com outros homens?




                                                                                      36
II.2. O homem com outros homens


         A pergunta feita no subtítulo acima traz ainda mais dúvidas: como o indivíduo
percebe outros do seu próprio gênero, objetivamente e subjetivamente? Onde e o que
eles conversam em cada ambiente que freqüentam? Como estas relações se transformam
ao longo do tempo? Como é uma amizade entre homens? Como um homem deve agir
quando deve dar um exemplo a um outro homem mais novo? E quando a relação se
inverte? Do que eles tanto contam vantagem? E as competições intermináveis entre
colegas de trabalho, nos esportes, etc.? Como é a relação amorosa homossexual?
Podemos ver que este tópico “dá pano
para a manga” e muitas destas questões
vão ser respondidas de forma simples
demais     para as      reflexões     que elas
oferecem. Mas vamos tentar aqui passar
por todas estas e quem sabe, ainda outras
que surjam pelo caminho...
      Os homens têm algumas relações
com outros homens autorizadas pela
sociedade vigente e outras que não, mas
nem por isso deixam de fazê-lo. Os
homens podem ser pais, filhos, colegas de
trabalho, amigos, competidores, inimigos,
conhecidos, namorados, amantes. E como
afirma      Connell     (2005),      essas   Figura 2 – Homer Simpson, um personagem da televisão
relações podem se dividir em quatro          com seu filho, Bart Simpson; a relação entre
                                             masculinidades é bem presente nesta série de televisão,
grandes       blocos:       hegemonia,       principalmente quanto à relação pai e filho, mas também a
subordinação,         cumplicidade      e    respeito do homem e como ele atua com outros homens.

marginalização, cada qual com suas características principais:
  •   A hegemonia ocorre quando uma forma de masculinidade é exaltada em
      detrimento de outras formas de masculinidades e formas de gênero, e é o tipo de
      relação mais comum e bem aceita na história da humanidade; depende da
      correspondência desta com ideais culturais e poder institucional. Tem como ponto
      chave a autoridade e às vezes a violência pode lhe dar suporte. A hegemonia
                                                                                                 37
masculina pode muito bem ser erodida por outras formas de gênero e, portanto, se
      altera. Um exemplo de masculinidade hegemônica através dos tempos é o homem
      branco heterossexual machista.
  •   A subordinação existe em razão da hegemonia, e tem vários efeitos sociais, como
      a baixa auto-estima destas pessoas, a violência e humilhação verbal e física para
      manter os subordinados em seu lugar, a discriminação de forma negativa de suas
      características, apesar de haver outras que se encaixariam no perfil hegemônico
      (como a discriminação econômica). Podemos citar como exemplo histórico de
      masculinidade considerada subordinada os homossexuais, os homens negros, os
      homens transexuais, homens com deficiências físicas e mentais, entre muitos e
      muitos outros (veja bem, se um tipo de masculinidade é hegemônica, neste
      momento, todas as outras são subordinadas).
  •   A cumplicidade é a relação em que não se exerce poder sobre outras pessoas,
      existe um mútuo acordo entre as partes e não se pensa muito sobre o modelo
      hegemônico de masculinidade, mesmo que ele exista e influa nessa relação
      também. É onde o respeito e a amizade podem estar, como na relação entre pai e
      filho, e exige profundidade.
  •   A marginalização é a relação em que mesmo que os grupos subordinados possam
      trazer características boas, eles não serão inclusos na masculinidade hegemônica.
      Exige a autorização do grupo a ser marginalizado.
      Então, através dessas relações, cada um dos tipos de vínculo que estes homens
formam pode ser diferente. Um homem pode namorar outro homem e mantê-lo
subordinado a ele, ou pode ser cúmplice e viver um relacionamento entre iguais.
      Outro autores como Williams(1985), falando sobre a amizade entre homens,
comenta que as relações de poder permeiam muito estas amizades, e que têm muito
mais a ver com possuir um grupo que o apóie caso se sinta ameaçado do que dividir
confidências ou se sentir bem quando seus amigos estão lá. Demonstrar intimidade seria
então algo a se fazer a uma mulher e de preferência na cama, nunca com um colega
homem. Williams também comenta que dependendo do quão feminino ou masculino
um homem for, isto varia, pois os nos padrões femininos de amizade incluem-se a
intimidade e a liberdade de expressar sentimentos.
      Já Migliaccio(2009) e Kimmel(2000) percebem que os modos como vemos a
intimidade estão extremamente ligados à intimidade feminina, sendo esta a única forma
                                                                                    38
de afeto considerada na maioria das pesquisas de gênero. Estes autores consideram que
o modo masculino de demonstrar afeto existe e é diferente do feminino e, portanto
menos observável (não estão olhando para onde deveriam olhar, em outras palavras).
Isto significa que homens têm amizades plenas, dividem intimidades, fazem coisas
juntos, mas têm maneiras de fazê-los diferente das mulheres.
     Cecchetto(2004), no Brasil, ao observar as “galeras” do funk no Rio de Janeiro,
nota que existe grande companheirismo entre membros de comunidades amigas,
servindo a lógica “quem é inimigo do meu inimigo, é meu amigo”. Os “sangue-bom”
são aqueles em quem se pode confiar para entrar em conflito conta inimigos, chamados
de “alemães”. A luta em facções organizadas do crime os une e a lealdade os mantém
amigos. Mas a competição de força física existe entre membros da mesma facção,
mesmo que por motivos de afirmação.
     Aliás, como foi dito anteriormente, um dos valores de demonstração da
masculinidade, não apenas a outros homens, mas também a outras formas de gênero é
exatamente esta auto-afirmação de características ditas masculinas por uma
masculinidade que escapa ao ser homem em qualquer momento, como diz Welzer-
Lang(2001).
     Isso nos ajuda a responder a primeira questão: como eles se vêem mutuamente?
Objetivamente, homens parecem ter richas com outros homens, brigam por status social
de forma a atingir a masculinidade hegemônica, aquela da racionalidade, da não-
demonstração de sentimentos, da busca por grandiosidade. Porém se observarmos mais
a fundo, homens tem relacionamentos duradouros de amizade, dividem seus
sentimentos, e não vêem qualquer homem como um competidor por presas fáceis
(outros homens, mulheres, etc). Mas isso não quer dizer que baixem a guarda quando
estão com estes colegas de gênero, ou muito menos quando falam deles. Acredita-se que
esta seja uma dificuldade metodológica de uma entrevistadora mulher, visto que é difícil
infiltrar-se nas relações masculinas quando a abertura é escassa, mas falaremos mais a
respeito da metodologia no próximo capítulo.
     Quanto aos temas sobre os quais conversam em cada ambiente em que estão, estes
dizem muito a respeito de como são os vínculos estabelecidos. Importa também
considerar os locais que os homens freqüentam e se outras pessoas de gêneros outros
também se encontram ali. Quando se pergunta a respeito do que se conversa, a resposta
irá depender muito dos gostos pessoais do grupo e do momento histórico e social, e
                                                                                     39
normalmente se discute poucos temas, mas todos eles a fundo, em extensão. Em
conversa a respeito das relações entre homens, um homem conta que “80% do que se
conversa entre homens é bobagem: é futebol, vídeo-game, mulher; o resto você tem que
prestar atenção, se não cai no conceito do cara.” Outro comenta que futebol e negócios
são temas recorrentes. Ainda outro, comenta que assuntos recorrentes são o trabalho e
negócios, carros, notícias, política e mulher (principalmente os atributos físicos) e que
com cada homem se conversa a respeito de um assunto; existem assuntos a se conversar
com cada amigo, e o vocabulário é tão próprio que ao verem uma mulher ou alguém de
hierarquia diferente, as palavras a serem empregadas em certas situações são outras.
         Como estas relações se transformam ao longo do tempo? Welzer-Lang(2001) vai
comentar que a cada época da vida de um homem, o interesse nas relações homem-
homem vai se alterando, modificando-se de acordo com as necessidades que as
permeiam. No caso de um adolescente que tem um grupo de amigos homens, a relação
que mantém será de um companheirismo e competitividade, de forma a dar mais leveza
aos vários rituais da idade. Já os relacionamentos entre homens em idade produtiva será
menos vinculativa, visto que estes homens muitas vezes já têm um par (sexualmente
falando, seja de qualquer gênero), e já não comentam tanto a respeito de sentimentos,
família ou assuntos mais íntimos com estes colegas ou amigos. Quanto aos idosos,
podemos pensar que como suas ansiedades em relação à morte e à solidão são
emergentes e muitas vezes transbordantes, os amigos são grandes alicerces para uma
vida plena. Já quando pensamos nas relações sexuais entre homens, podemos pensar
que a idade e o contexto proximal e distal em que se passam estes relacionamentos
também influi nas características dessas relações. Relacionamentos entre homens mais
jovens       normalmente       envolvem      o    sexo    como      característica   primordial;   já
relacionamentos de homens mais velhos, ou entre casais, tem mais a característica de
companheirismo, cuidado de um pelo outro, amizade, e sentimentos relatados de afeição
e amor, além da honestidade de poder demonstrar quem se é para outrem.
         Leon10, um homem transexual de 35 anos que freqüenta o CRD (Centro de
Referência da Diversidade de São Paulo o qual também é freqüentado pela autora desde
2008), relata em conversa que suas experiências de relacionamentos amorosos foram tão
diversas que ele namorou travestis, homens e mulheres e comenta que com um@
travesti que namorou, a relação baseava-se em uma troca muito grande, pois “El@ tinha

10
     Os nomes foram trocados em respeito ao sigilo de identidade.
                                                                                                   40
o que eu queria para mim, e el@ queria o que eu tinha. Foi um relacionamento muito
intenso.”. Kulick(2008) afirma que @ travesti não tem apenas atributos femininos, mas
também masculinos, houve uma relação entre masculinidades, assim como entre
feminilidades, e isso trouxe uma troca muito grande.
      Márcio, outro homem transexual de 40 anos palestrante em um simpósio a
respeito de homens transexuais, comenta que como os outros como ele fazem questão
de mostrar-se sempre como homens, másculos, heterossexuais, hegemônicos, muitos
preferem esconder seu gosto por homens, principalmente no Brasil. Já no exterior, conta
que é bem diferente: homens transexuais “saem do armário” também, e tem
relacionamentos duradouros com outros homens.
      Como um homem deve agir quando deve dar um exemplo a um outro homem
mais novo? E quando a relação se inverte? Vimos no capítulo passado que dos séculos
VII a III a.C., mais precisamente em território grego, a educação era passada de um
homem mais velho para um mais novo e isso parece se repetir nos dias de hoje. Quando
um homem entra para comunidades com grande concentração de pessoas homoafetivas
como bares, clubes, restaurantes, etc., habitualmente um homem mais velho iniciará um
mais novo, irá seduzi-lo e mostrará como ele deve fazer, se portar naquela comunidade.
      Aos seus filhos, o homem comumente procura ensinar os valores da
masculinidade hegemônica, de forma que eles reproduzam os valores que lhe foram
ensinados mas, como afirma Dorais(1988), estes ensinamentos em momento algum tem
o afeto demonstrado ou misturado a eles. Mesmo que o homem sinta grande amor por
seu filho homem, terá dificuldade de falar sobre tal sentimento com o rebento, ou
demonstrá-lo com abraços, beijos e carinhos, como já consegue com suas filhas
mulheres. Isso de certa forma pode gerar rebeldia, profunda tristeza, carência de afeto
ou mesmo retaliação relativa à função paterna por parte destes filhos, e gerar escaras
para o resto da vida destes homens.
      Além disso, os conflitos são constantes entre pai e filho pois existe também
grande necessidade dos pais e dos filhos de se auto-afirmarem enquanto homens, o que
significa que pode existir uma relação mais turbulenta do que com uma filha mulher,
por exemplo. Existe grande identificação entre um e outro, o que gera desconforto, por
exemplo, quando seu filho faz algo de não-masculino (hegemonicamente falando),
como tornar-se amigo de várias mulheres, não é o “macho-alfa”, e a mesma coisa ocorre
de filho para pai.
                                                                                    41
Como afirma Dorais(1988)
                     “A ausência, a frieza, às vezes a brutalidade, eis como é,
            frequentemente, a atitude dos pais em relação aos filhos. As reações
            destes últimos não se fazem esperar” (p. 68)
      E essas reações muitas vezes são retroativas ao pai; se o pai é ausente, o filho, por
exemplo, poderá fazer de tudo para chamar sua atenção, seja fazendo algo que ele
detesta, seja se auto-destruindo com drogas, seja se tornando igual a ele. E essa relação
poderá se repetir quando os filhos forem pais, porque não houve um modelo positivo
para estes filhos.
      Loureiro(2009) explica que até há pouco tempo atrás, a função parental era
incipiente, e começou a ter importância para a educação dos filhos na sociedade
burguesa. Anteriormente, o valor que cabia ao homem era basicamente continuar sua
linhagem de sangue e de nome (coisa que até hoje é um constructo social importante
para várias culturas).
      Essa função exige cuidado e dedicação por parte deste homem e por isso, muitos
pais abdicam dessa tarefa quando são inseguros demais para exercê-la, por falta de
maturidade ou por não conseguir lidar com o relacionamento amoroso com a mãe da
criança, o que pode gerar dificuldades ainda maiores. Lembremos também que só por
que uma pessoa contribuiu para o espermatozóide que gera um ser humano não significa
que será pai deste indivíduo, que atualmente existem várias formas de ser pai, biológico,
padrasto, avô, entre outros, e que aqui, tentaremos falar de pais que tem relações sociais
com seus filhos, que os encontram com freqüência razoável.
      Outro aspecto importantíssimo a ser focado são as competições: estas ocorrem
freqüentemente entre homens, pois é preciso provar e demonstrar, existe uma
necessidade de se auto-afirmar crucial às relações entre homens, sejam elas quais forem.
Alguns indivíduos falam que isso é divertido, que é uma forma de interação, dá
“emoção” às relações. Outros sofrem muito com isso, é uma pressão constante por parte
de pais, amigos, colegas e de pessoas que nem se conhece.
      É inegável o fator de união que as competições propiciam. Homens jogam futebol,
brigam por uma hora e meia a fio, se batem, xingam um ao outro, e depois saem todos
juntos para beber cerveja e comentar o jogo. Competem acerca de notas na escola, com
quantas mulheres eles transaram naquele mês, quantos homossexuais eles agrediram.
Quantas regras quebraram em suas casas, quantas vezes eles traíram suas esposas.

                                                                                        42
Quantas doses beberam naquela festa, como são muito melhores no xadrez e no gamão
e como ganham muito mais que o outro. Qualquer assunto é fonte de competição, e isso
é visto como atributo masculino hegemônico por quase todos os homens. Aqueles que
não gostam de competir, ou de demonstrar sua superioridade em algo costumam sair
perdendo prestígio, serem colocados no “saco” dos “maricas”, “bichinhas”, “frangotes”,
etc. Estes, como se sentem?
     Este grupo de homens, ao não compartilhar de certos interesses que são discutidos
entre homens, são discriminados, considerados medrosos e representantes de
masculinidades subordinadas. Um homem que não entende nada de futebol, ou não
gosta de enganar mulheres, ou que não abomina os homossexuais pode ser excluído dos
grupos sociais se não fingir nem um pouquinho que concorda com seus interlocutores
homens. Existe grande parcela de sofrimento nisso, pois lutar contra seus preceitos para
ser aceito socialmente é uma faca de dois gumes. Como um homem se sente quando
deve fazer isso para ser considerado um bom pai, um camarada, “sangue-bom” em sua
comunidade?
     Connelll (2005) comenta que na ótica capitalista em que vivemos, derivada de
outras épocas apontadas no capítulo anterior, é impossível que não haja competidores
por todos os lados, desde o trabalho, até como se vive na família. O filho algum dia
substituirá o pai, como ele um dia o fez com seu pai. Se você não for competente o
bastante, seu trabalho será ocupado por alguém que faz a mesma função e ainda pede
menos dinheiro. A competição se reflete em todos os cantos, e as relações entre homens
não haveriam de ser diferentes.
     Pensando em pesquisas sobre masculinidade, é impossível esquecer que o homem,
em sua grande maioria, escolhe o palavreado com o qual falará com o seu interlocutor,
os assuntos e como ele irá falar. Como disseram à autora em conversas informais, a
maioria dos homens fala com outros homens sobre futebol, negócios, mulheres e carros,
quando muito. Não há grande expressão de sentimentos na maioria do tempo. Se
perguntarmos a uma mulher, ela não falará com uma amiga sobre seus sentimentos se
ela não for confiável, nem se estes forem intensos demais para que sejam partilhados
numa conversa comum. Será que quando um homem não fala sobre seus sentimentos,
isso significa a mesma coisa, que ele não confia na maior parte de seus colegas de sexo,
e que a intensidade de seus sentimentos é demais para ser compartilhada em um bate-
papo simples? Será que a intenção masculina de não expressar seus sentimentos tem
                                                                                     43
algo a ver com o poder e a racionalidade que tanto são culpados por tornar como valores
hegemônicos? Isso nos dá a oportunidade de discutirmos sobre suas relações com as
mulheres, como eles percebem suas diferenças (se é que elas existem) e como estes
sentimentos vem à tona com elas.




      II.3. O homem com as mulheres


                                                             Sou mais macho que muito homem!
                                                                                  (Rita Lee, PAGU)


      Os homens da sociedade ocidental, depois do apogeu grego, se diferenciaram de
um espécime humano que só servia para parir filhos, cuidar de crianças pequenas, não
era capaz de amizades e não tinha o intelecto desenvolvido pois era como se fosse um
homem defeituoso. Hoje a masculinidade sofre grande mudança em relação a este ser
diferente, diabólico porém angelical, amoroso porém traiçoeiro, competente tanto
quanto ele em basicamente tudo. O homem por muito tempo foi hegemônico, teve poder
total sobre o mundo público, sobre a produção da história da humanidade. Hoje, ele tem
uma companheira para isso.
      As mulheres são atualmente a maior força de trabalho, lutaram contra os
estereótipos de gênero e abalaram o mundo com o feminismo. Ruíram as antigas
crenças sobre a procriação, sobre a maternidade, sobre a feminilidade, a sensibilidade e
os modos de ser no mundo. E de meio século para cá, nada as detém em sua
determinação pela igualdade, além do Tchan11 e as novelas de alguns canais que tem
interesse na mulher do passado cheia de bloqueios, romântica sem noção de realidade,
que pertence aos homens (primeiro ao pai, depois ao marido), é passiva e se mantém
calada às atrocidades que as vezes sofriam e sofrem impostas por homens. Aliás, de
acordo com a Fundação Perseu Abramo em 2003, 43% das mulheres brasileiras
afirmam já ter sofrido alguma violência por parte de um homem, mas apenas 19%


11
  Grupo musical dos anos 1990, onde a mulher é tratada basicamente como um objeto de desejo, veste
roupas curtas de modo a mostrar a maior parte possível do seu corpo sem chocar as mães de família e
seus filhos, que na época dançavam “hits” como “Na Boquinha da Garrafa” e “A Nova Loira do Tchan”.
Este grupo musical influenciou muitos outros e influencia até hoje grupos do tipo musical Axé e do Funk
Carioca com a visão da mulher como objeto útil apenas para o prazer sexual.
                                                                                                    44
afirmam sem alguma estimulação a respeito do tema, o que significa que muitas ainda
continuam quietas a respeito deste assunto.
     Estas novas mulheres alteraram completamente o ideal de masculinidade
hegemônico até então, tornando alguns outros ideais importantes: a sutileza, a
sensibilidade, a flexibilidade. Hime(2004) afirma que as diferenças entre homens e
mulheres vem se estreitando em seus relacionamentos amorosos, e outros campos
também agora possuem maior gama de mulheres, como o trabalho, a pesquisa científica,
o mundo público em geral. Em compensação, cada vez mais homens entram em
profissões ditas “femininas” (enfermagem, psicologia, pedagogia, entre outras), cuidam
dos filhos, tem relacionamentos plenos com mulheres, sejam elas suas mães, amigas,
filhas ou esposas, contam de seus sentimentos a elas, sentem-se à vontade em ambientes
ditos anteriormente como femininos.
     Vale afirmar que, apesar disso, a desigualdade ainda existe e é perceptível, que as
mulheres ainda são segregadas em grupos de profissões consideradas femininas, ainda
ganham bem menos que os homens, são desconsideradas ou rechaçadas em várias
situações do mundo público como a política e o setor industrial de trabalho, ainda
sofrem preconceito se inovam em suas áreas, ainda são ligadas primordialmente ao seu
corpo através da maternidade e da beleza física, mas isso tudo é bem mais sutil do que
era há 50 anos.
     Alguns homens se sentem à vontade na frente de mulheres, pois elas não irão
julgá-lo tanto se ele não agir da forma masculina hegemônica como outros homens o
fariam. Ele pode deixar a máscara de lado e falar de suas conquistas homossexuais, de
como é apaixonado por uma pessoa, de como sua mãe lhe dá nos nervos, de como MPB
é inteligente e sagaz (com palavras que ele leu, mas dificilmente usa com outros
homens) ao invés do Heavy Metal que ouve com os colegas, de como um livro o fez
chorar às pencas pela morte do pai das crianças da história... Ele pode demonstrar outro
lado de si, um lado desconhecido de outros homens.
     Mas também pode gritar, bater, estuprar, demonstrar que é superior, que doma e
tem o poder sobre aquela vida. Pode ser ciumento com elas até depois da morte das
mesmas, ou até depois de sua morte, com juramentos para evitar que a mulher se
casasse novamente. Pode prendê-las, impedi-las de trabalhar, fazer monólogos sem fim
sobre assuntos que não as interessam, ter preconceitos, ser machista também. Isso nos
faz perceber a ambivalência das relações entre homem e mulher que é até hoje
                                                                                     45
escancarada: um homem tem o direito ainda de fazer o que quiser com sua esposa? As
leis dizem que não, mas ele o faz. Ele pode ser amigo de uma? Sua cultura pode dizer
que não, mas mesmo assim ele também o faz. O que tornam as relações entre homem e
mulher tão especiais que elas quebram regras sociais, que fogem dos estereótipos de
gênero (para o bem ou para o mal, do feminino e do masculino)? De que forma as
mulheres influenciam no comportamento masculino? Mulheres também podem ser
masculinas, e homens, femininos? Como são estas relações ao longo da vida de alguém,
como elas ocorrem no tempo e no espaço? Como os homens pensam das mulheres
quando estão com elas e quando estão com outros homens?
     A diferença de gênero nos é instalada antes mesmo de nascermos, quando existem
previsões sobre qual será nosso sexo. Se o médico diz que será uma menina, pronto: o
quarto, as roupinhas, até boinas de bebê serão róseas, roxas, e se nossos pais forem um
pouco modernos, quem sabe um branco ou amarelinho. E vice-versa com os meninos. O
ultra-som, como afirma Bento(2006) é prescritivo, não apenas descritivo, como haveria
de ser, e transforma a vida do pobre ser antes mesmo que ele respire fora de um útero.
Estas normas, que nos são impostas desde o momento que somos um feto até o dia de
nossa morte, moldam também nossas relações com nosso sexo e com o sexo oposto.
     Desde quando colocamos crianças para brincar, seus modos de comunicação se
diferenciam, as brincadeiras são diferentes e somos colocados para não gostar do sexo
oposto; ainda. Meninas e meninos têm rixas sobre como fazer as coisas, os penteados,
as roupas, o modo de agir e se portar perante o outro. Meninas pulam amarelinha, ficam
conversando, jogam elástico, cantam cantigas femininas ao pular corda, têm suas
bonecas que cuidam como suas filhas. Meninos jogam futebol, têm bonecos de heróis e
brincam de lutinha, de bandido e ladrão, de animais ferozes que têm de ser domados, de
carrinho. Relacionamo-nos muito bem com pessoas do mesmo sexo, temos vários
amigos, mas do outro... Até nossos 8 ou 9 anos, as relações entre meninos e meninas é
turbulenta, cheias de brigas e derivam em muitos puxões de cabelo, pontapés e
arranhões, com algumas raras exceções. Mais tarde, os puxões de cabelo e os arranhões
serão por outros motivos (e não necessariamente entre meninos e meninas).
     Alguns anos são suficientes para que as relações entre homens e mulheres se
alterem. Mais uma vez as normas de gênero irão ditar como devemos agir: como dois
pólos que se atraem, como yin e yang, como chave e fechadura; encaixando-se. Muitos
irão concordar com este esquema: o diferente me trará mais que o igual, o que
                                                                                    46
significam amizades mistas, namorados e namoradas. Outros perceberão que as normas
de gênero são restritas demais para sua existência, e irão ficar com pessoas do mesmo
sexo, como no subtítulo anterior foi comentado. Outras, ainda, ficarão com pessoas, não
se preocupando com o gênero que apresentam. Cada um, nesse aspecto irá se relacionar
de uma forma. Mas falemos um pouco sobre o relacionamento amoroso heterossexual e
seus desdobramentos como o casamento.
     O amor romântico é um valor que reverbera até hoje em nossa sociedade, e é
buscado por grande parte das mulheres e alguns homens, nem que seja de forma
inconsciente. Somos influenciados desde os contos de fadas até os filmes dramáticos,
dos livros de amor até as novelas dos horários nobres da televisão. E é um desejo de
realizar-se por completo em uma única relação amorosa, onde os dois são feitos um para
o outro, que serão felizes para sempre. É um valor que constitui-se, segundo
Hime(2004) de crença em uma universalidade (ou seja, o mesmo amor ocorreu antes e
agora, não é possível fugir do “verdadeiro amor”), de um sentimento involuntário e
incontrolável, impossível se desvencilhar, e indispensável para a felicidade, uma vida
sem amor nada seria.
     Porém, estes valores são todos constructos sociais, mutáveis através do momento
histórico e social, e portanto, a época atual influi e muito em como vivenciamos o amor.
Depois da década de 50 do século passado, com adventos como a pílula
anticoncepcional, o casamento e o amor não são mais focados na reprodução, e
mulheres, assim como homens, podem vivenciar o prazer da sexualidade e do amor sem
ter que se preocupar com terceiros resultantes da relação.
     Além disso, como anteriormente havia grande preocupação em manter as
hierarquias de gênero, a relação entre homens e mulheres era vivenciada com certa
violência e desprezo por parte dos homens em relação às mulheres, o que atualmente se
atenuou devido à busca pelo fim destas hierarquias, através do feminismo, pelas iguais
oportunidades entre os gêneros e pela oferta e procura do mercado de trabalho por
características humanas diversas, sendo elas consideradas femininas ou masculinas.
Para uniões entre os diferentes sexos esta preocupação também alterou muito as
características dos interesses entre as partes que as integram. Isto decorre de o homem
ter perdido seu valor como único provedor, e a mulher não necessariamente irá querer
filhos, ou se envolver emocionalmente, como quase sempre era a regra.


                                                                                     47
Até o final do século XVIII, o casamento entre pessoas de sexo diferentes
dissociava amor da sexualidade. Hoje, isso é praticamente algo impensável. Até os
anos 60, o casamento era indissolúvel, hoje ele é tão fluido que não dura nem até os dois
dizerem “eu aceito”. As relações eram hierárquicas e pendiam positivamente sempre ao
marido. Hoje, se uma mulher não está feliz com seu casamento, ela divorcia-se sem
grandes delongas. Mas algumas coisas mantiveram-se: o casamento significa a
constituição de uma família e a transmissão de valores sociais. Existindo grandes
influências cristãs em nossa cultura, o casamento ainda é visto como uma união que tem
sempre como resultado filhos. Casais que não conseguem ter filhos e preferem não
adotar ainda são recriminados, mesmo que de modo mais velado que meio século atrás.
      Quanto às amizades entre homens e mulheres, é possível também observar
grandes mudanças. Como Kimmel (2000) relata, até há um século atrás, acreditava-se
que apenas homens eram capazes de ter amizades plenas, sendo valores primordiais na
amizade a bravura, a lealdade, o heroísmo e o dever. A intimidade não era um valor
importante, pois era considerado que esta forma de se relacionar era restrita à
sexualidade e ao amor entre homem e mulher; nem à amizade com elas este valor era
atribuído como positivo.
      Porém, com o advento do feminismo e pelas lutas por igualdades de gênero, a
intimidade se tornou algo positivo, e até foi discutido que o homem não conseguiria ter
amizades plenas porque não possuiria intimidade com seus amigos, esta sendo uma
característica considerada puramente feminina. Porém, como este mesmo autor afirma,
como houve uma feminização do conceito de intimidade, e da amizade
conseqüentemente; esqueceu-se de observar a amizade de um homem com outra forma
de gênero que não fosse irreal pela falta de uma intimidade que ele não pôde aprender
por não ser do sexo feminino. Isso significa que não necessariamente um homem não
será intimo com seus amigos, apenas o demonstrará de forma diferente, como foi
discutido no subtítulo anterior.
      Em conversa, um homem comenta que quando está “batendo papo” com outros
homens e uma mulher entra na roda, o assunto, o palavreado, as entonações e as visões
de mundo mudam abruptamente. Mais uma vez percebe-se que dependendo de seu
público, um homem modificará o jeito e o assunto que comunica para adequar-se à
situação. Com mulheres, não haveria de ser diferente. A masculinidade hegemônica, ao
preservar a racionalidade como valor primordial, irá fazer com que aquele homem meça
                                                                                      48
as palavras que irá usar com a mulher com a qual conversa, e isso influi não apenas
quando se fala de amizade, mas também quanto à colegas de trabalho, conhecidos,
pessoas na rua, etc. O modo como elas influenciam o comportamento deles dependerá
muito da relação estabelecida, mas não há dúvidas que mulheres mudam o
comportamento masculino, estejam elas presentes ou não no momento em que ele
interage com o mundo, pelo menos nos dias de hoje em nossa sociedade.
     O homem com sua mãe, no começo de sua vida, a terá como ponto de apoio e
estrutura emocional para suas outras relações com o mundo. Ela é importantíssima para
ele neste momento da vida e o será também até a sua morte, tanto que o pior
xingamento a se fazer a um homem é falar de sua mãezinha querida. Ela é vista em
grande parte das vezes como assexuada, angelical e partidária em seu favor, uma grande
ajudante nas questões emocionais pelo menos até o casamento heterossexual. Em casos
de homens homossexuais, esta mulher será de grande importância na decisão ou não de
contar ao mundo sobre a sexualidade, e ela será de grande influencia sobre a auto-
estima destes homens, e principal fonte de apoio ou desprezo em caso de homens e
mulheres transexuais, sendo elas as que normalmente respeitam (em detrimento dos
pais) e ajudam no apoio emocional necessário à transição das performances de gênero,
como afirmam Carvalho, Lopes e Ghetler(2008), onde as entrevistadas dizem que suas
mães são em grande parte colaboradoras emocionais e modelos de conduta moral
cruciais à uma transição menos turbulenta, como é o caso de C.M., P.M. e A.S., pessoas
que compartilharam suas histórias nessa pesquisa destes autores.
     Se pensarmos a respeito de como os homens se relacionam com mulheres,
também é de suma importância pensamos como é a relação destes homens com a
sexualidade, seja ela com homens e mulheres, quais as diferenças entre os
relacionamentos hetero e homossexuais, por que esta diferença é tão marcada e influi
tanto no comportamento relacional entre os sexos, sendo de forma tímida como no
trabalho, seja pronunciadamente como no relacionamento amoroso.


     II.4. O homem com sua sexualidade


     Pensando em como o homem se relaciona com sua sexualidade, várias questões
vêm à tona, como bombas de um campo minado, prestes a explodir à menor pressão, ou
como ilhas desconhecidas, esperando serem descobertas. Por que este campo relacional
                                                                                   49
atrai tanto os olhares dos pesquisadores e quanto mais trabalhos são feitos a respeito do
sexo, mais parece que nada sabemos sobre ele? E de que forma ele pode ser tão
perigoso que desperta hordas de fúria ao ser levemente tocado? Nesse subtítulo,
exploraremos como a construção e a expressão da sexualidade por homens se dá, quais
são os momentos mais importantes para a sexualidade de um homem, sejam de escolha
da sexualidade, conflitos como a impotência, crises como amor e sexo, e de que modo
são enfrentados (ou não) pelos homens. Também tentaremos trabalhar como a
sexualidade deixa suas marcas na masculinidade, e como as relações de poder se
envolvem aí. Além de tudo isso, o que é relevante neste âmbito para um homem, e o
que ele preza em uma relação sexual, seja com homens ou mulheres, e o que lhe dá
prazer nesta área.
      Mas antes de nos envolvermos com a sexualidade masculina, é importante
contextualizarmos a sexualidade em si, em que momento histórico-social ela se encontra
em nossa sociedade e no que isso altera o imaginário social não apenas a respeito deste
tema, mas como estabelecemos relações com o mundo a partir disso.
      Nossa sociedade valoriza muito o sexo, a consumação carnal do desejo sexual, e
esta valoração não é novidade em comparação com épocas anteriores. A grande
diferença é o propósito da união sexual e a visão desse ato impossível de ser esquecido
quando falamos de humanidade. De acordo com Eisler(1996), a sexualidade na idade da
pedra era algo crucial para a organização das sociedades, pois a união entre os sexos
aproximava os seres humanos da natureza, e portanto, das divindades criadoras. Aliás, a
mulher era extremamente valorizada, sendo a vulva, a vagina e o útero muitas vezes
representados em templos antigos para demonstrar a possibilidade de criação e de gerar
a vida da qual a mulher era capaz. Estas representações se repetem em todos os
continentes datando desde oito mil anos a.C. até pouco depois do nascimento de Cristo,
em várias culturas, da Índia à Romênia, da França à América Latina. Era comum a
alusão destes templos à sexualidade, ao prazer sexual, aos comportamentos que
levassem aos relacionamentos entre corpos e almas de homens e mulheres, ambos
necessários para a ordem social.
      Aos poucos, em prol de uma cultura de dominação, o prazer e a igualdade
presentes em culturas não tão destoantes da nossa, como afirma a autora, se tornaram
uma forma de chegar ao inferno. O prazer sexual foi eliminado em favor de uma
sexualidade com fins apenas reprodutivos, reprodutores de uma sociedade onde o
                                                                                      50
gênero feminino foi retirado de uma posição igualitária para se tornar escravo por
muitos anos dos desejos masculinos. A mulher de três gerações anteriores à nossa não
poderia ter prazer algum nas práticas sexuais, o sexo necessariamente deveria ser
normatizado pela religião e mais tarde, pela lei e favorecia, necessariamente, o homem
na relação. Essa dominação permanece até os dias de hoje, e a sexualidade é um dos
campos onde a dominação entre os gêneros mais explicitamente aparece, desde revistas
pornográficas até o próprio ato.
      Como afirma o já mencionado Kimmel (2000), em nenhum outro campo se
observa mais as diferenças entre os gêneros que na sexualidade, principalmente em sua
análise sobre o século passado. Apesar de todas as barreiras às mulheres para sua
sexualidade (não para o seu corpo, como afirma Beauvoir (1949)), os homens eram
encorajados a entrar em contato com esta possibilidade relacional o mais rápido que
pudessem depois do período da infância. Pais levavam seus filhos em bordéis para que
se iniciassem sexualmente com 11, 12 anos, enquanto torciam e controlavam o quanto
podiam para que suas filhas não deixassem sua virgindade antes do casamento, onde
outro homem tomaria conta da sexualidade de suas filhas.
      E mesmo que nossa sociedade tenha mudado bastante em suas atitudes perante o
sexo, os pensamentos em muitos casos continuam os mesmos. O homem que tem vários
relacionamentos sexuais é um garanhão, um verdadeiro macho, enquanto uma mulher
que faz o mesmo é considerada uma “vadia”, uma “cadela”, não é mais uma dama. Elas
devem esperar por um príncipe encantado, enquanto eles devem nunca sê-lo. Acredita-
se em metáforas como “os homens são de Marte, as mulheres de Vênus”, e até há pouco
tempo atrás acreditava-se que mulheres unanimemente eram anorgásmicas. É evidente
que elas eram, apenas 30% das mulheres conseguem ter um orgasmo através da
penetração, e 59% das pessoas não acredita que o sexo possa ser mais que isso: chave e
fechadura. O sexo oral? Bobagem. Anal e masturbação? Pecado! E as preliminares?
Bah, coisa de maricas... Por causa destes pensamentos que a mulher teve que
masculinizar-se para conseguir obter prazer sexual.
      Ela teve que se tornar a caçadora, transar com quantos homens quisesse, ser
competitiva no mercado de trabalho, dominar ao invés de ser dominada. Um exemplo
muito interessante desta mudança feminina é o filme “Down with Love”, do diretor
Peyton Reed; o enredo trata de um livro escrito pela protagonista vivida pela atriz Renée
Zellweger que incentiva as mulheres a tomarem conta de suas próprias vidas,
                                                                                      51
satisfazerem seus desejos sexuais com quem quiserem, e comerem chocolate caso se
sentissem sós. Por trás de seu livro, vive uma mulher frustrada por um desafeto
amoroso, que decidiu se vingar de todo e qualquer homem. Para isso, decidiu
masculinizar suas atitudes no âmbito comercial e sexual, mas que no fundo, quer se
apaixonar e ter um final feliz. Como grande parte dos filmes holywodianos, o final dela
é feliz, mas muito nos faz pensar sobre como queremos o comportamento sexual dos
seres humanos: ele deve ser dominador e hierarquizante, seja do lado dos homens, seja
do lado das mulheres? Ou deve ser algo que acrescente, trazendo prazer e satisfação à
todas as partes envolvidas?
      Logo feita nossa rápida contextualização de como andam os rumos da sexualidade
atual, vamos entender como a sexualidade masculina vem se expressando, assim como
sua construção ao longo do ciclo vital. Assim como dito anteriormente, a sexualidade
por parte dos homens é algo realmente importante para sua auto-afirmação como
masculinos durante a maior parte de suas vidas.
      Na infância, como afirma Bee(2000), criamos nossas performances de gênero, e
assim como Pereira(2005) completa, descobrimos nossa sexualidade na adolescência.
De acordo com o segundo autor, a orientação sexual é definida multifatorialmente, por
características hormonais pré-natais, pela genética e por fatores ambientais inclusive.
      Na adolescência, aprendemos muito sobre o comportamento sexual com nossas
experiências e através da instrução escolar e familiar (quando ela existe), nos
interessamos mais neste novo mundo que se abre a nós, e dessa forma muitas formas de
perceber o mundo nesta época se modificam drasticamente. Como afirma
Kimmel(2000), o modo como aprendemos sobre a sexualidade é diferente para cada
gênero, e isso se expressa nas fantasias sexuais, nos objetivos da relação sexual, no
modo como conceituamos o sexo e como cada um lida com este tópico tão importante.
Para os homens, as fantasias sexuais são baseadas normalmente em situações com
pessoas desconhecidas ou atrizes/atores, são bem descritivas e, como um filme, a cena
tem um começo, um meio e um fim. A forma de escolher o outro com o qual ir-se-á
fantasiar tem como critério primordial as características físicas, e pouco se sabe sobre o
ambiente onde a cena acontece ou os sentimentos envolvidos, além da excitação sexual.
      Como continua o autor de “The Gendered Society”, os homens consideram ter
feito sexo com alguém principalmente o ato da penetração e do orgasmo, enquanto
todos as outros comportamentos envolvidos com a sexualidade, como sexo oral,
                                                                                          52
carícias, tomar banho juntos, entre outros, como “preliminares” e não contam pontos
aos seus colegas de gênero, aos quais irá contar como foi de modo a ser aprovado por
estes colegas, e não pela parceira, necessariamente. O objetivo principal da relação
sexual para o homem consiste então no orgasmo, e não no prazer que a situação lhe
causa enquanto está no ato. Antes de aproveitar ter beijado a moça, ele já planeja em
como tirar a blusa dela, e ela, ao invés de também aproveitar o momento de intimidade
com ele, pensa se irá deixá-lo seguir adiante.
      Outra característica comentada pelo autor diz respeito à linguagem de trabalho
utilizada no ato sexual, como “dei conta do recado” ou “cuidei do serviço”, assim como
a nomeação do pênis como “Long Tom”ou no diminutivo de seu nome, como se este
órgão tivesse uma própria personalidade. Kimmel(2000) comenta que esta é uma forma
de se distanciar emocionalmente da sexualidade, ao nomeá-la como um objeto. Além
disso, a sexualidade masculina normalmente é considerada falocêntrica, ou seja,
centrada no pênis, o que explica muito bem o motivo do foco dos mesmos na
penetração e o cuidado com esta parte do corpo com nomes específicos, asseio, fixação
em tamanho e forma do mesmo ao invés de outras partes do corpo que tem a potência
de serem erógenas também, como o são para a maioria das mulheres.
      A sexualidade é para a masculinidade como a farinha é para o bolo, é
extremamente importante em sua estrutura e isso pode ser evidenciado quando algo dá
errado, existem problemas de disfunção erétil, ejaculação precoce, por exemplo. O
mesmo autor relata que quando estes casos acontecem, não apenas a sexualidade é
envolvida nesse momento, mas também de modo às vezes mais gritante, a identidade de
gênero, pois estes homens relatam não se sentirem mais “tão homens”, não conseguirem
dar prazer a uma mulher, e se sentirem inferiores a outros homens.
      Quando se fala em sexualidade, é impossível deixar de falar na sua influência na
masculinidade em homens homoafetivos. Se pensarmos de acordo com o senso comum,
homens homossexuais possuem laços estreitos com a feminilidade, e mulheres
homossexuais, com a masculinidade. Ora, se isso fosse a realidade, o gênero estaria
intimamente ligado à sexualidade assim como suas performances na sociedade. Homens
homoafetivos, de acordo com Michael Kimmel, possuem as mais altas taxas de
parceiros sexuais enquanto mulheres homoafetivas, as menores taxas. Como também
afirma, homens heterossexuais tem mais parceiras sexuais que mulheres, o que nos faz
pensar no comportamento sexual masculino a respeito da poligamia. Homens homo ou
                                                                                   53
heteroafetivos possuem as maiores taxas de parceiros sexuais, então não há muita
diferença em questão de quantidade. Quanto à igualdade entre os parceiros, os casais
homoafetivos conseguem atingir escores bem maiores que os casais hetero. Se falarmos
também de experiências sexuais que não penetração, os casais homoafetivos também
ganham na disputa, pois conseguem construir uma maior intimidade com seus parceiros.
      Quando pensamos no homem idoso, se ele chega a essa idade(pois de fato a taxa
de mulheres que sobrevivem para chegar na velhice em nosso país é consideravelmente
maior(para cada 100 idosas, existem 81,6 idosos de acordo com o censo do IBGE de
2000, sendo que as mulheres vivem em média 8 anos a mais que os homens de acordo
com o mesmo censo), a sexualidade não é um tema de discussão em muitos casos, pois
o imaginário social nos traz a imagem do idoso como assexuado em muitas situações.
Se associarmos com o fato de que a sexualidade masculina se resume muitas vezes à
penetração, será comum fazer a ponte disfunção erétil = não-sexualidade. Além disso,
como esta geração é mais marcada com valores a respeito do sexo apenas dentro do
casamento, é complicado, depois de viúvo, um homem querer outro/a parceiro/a,
mesmo que isso aconteça em maior proporção que as mulheres viúvas. Ademais, nossa
sociedade preza em excesso a beleza do jovem, e o idoso fica na desvantagem neste
aspecto. Financeiramente, ele também não é nenhum Don Juan, pois a aposentadoria
paga muito pouco no Brasil.
      Porém muito destes pré-supostos vem mudando ao longo dos anos. Com algumas
“pílulas azuis” e o controle pela medicina moderna da hipertensão e diabetes, muitos
homens podem ser sexualmente ativos até muito depois da andropausa12. Não apenas
isso, mas é importante lembrar que nem todos os homens passam pela andropausa, e
muitos mantêm o apetite sexual até seus 80 ou 90 anos.
      Mesmo sendo esta uma geração marcada pelo forte apelo religioso e portanto
menos propensa a casar-se novamente, muitos homens já tinham relações com outras
mulheres ou homens que não sua esposa antes de que esta morresse, então, eles são
muito mais propensos a encontrarem novos/as parceiros/as depois da morte do cônjuge
do que mulheres da mesma idade. Isso acontece inclusive pois o status, o charme, a

12
   Acredita-se que em torno dos 50 anos, grande parte dos homens perde o apetite sexual que costumavam
ter anteriormente por mudanças hormonais decorrentes do envelhecimento, como a diminuição de
andrógenos como a testosterona. Além disso, devido à problemas circulatórios, muito comuns nesta idade
e nas próximas, homens tem maior dificuldade de produzir ou manter uma ereção completa e existem
vários outros sintomas relacionados à andropausa, como irritabilidade, aumento da gordura abdominal e
diminuição da quantidade de cabelos no corpo.
                                                                                                   54
experiência e o poder são atributos valorizados em um homem mais que sua beleza
física, o que para a mulher é o contrário, e estes tem um maior espectro de pretendentes
nesta idade do que estas por serem mais valorizados, segundo Costa (2008).
     É essencial quando exploramos sexualidade masculina citar o poder que é
envolvido não apenas na relação sexual, mas também no vínculo criado por estas
relações. De acordo com grande parte dos estudos a respeito dos homens,(Maciel Jr.
(2006), Welzer-Lang (2001,2004), Oliveira (2004), Dorais (1988), entre outros) a
sexualidade é uma forma de auto-afirmação e poder muito importante na constituição da
masculinidade. Isso porque a mesma se forma a partir de valores como a atividade em
detrimento da passividade, a imposição de poder e a hierarquia.
     A atividade em detrimento da passividade se expressa na sexualidade, pois
aquela/e que é penetrada/o é percebido como passivo, enquanto aquele/a que penetra é
percebido como ativo na relação sexual, de forma a permitir a atividade àquele que
impõe e barrar com a passividade aquele que permite uma intrusão. É inclusive de
acordo com essa concepção que Kimmel (2000) comenta que algumas feministas
discordam da possibilidade heterossexual pois seria “aceitar a imposição masculina em
detrimento da liberdade de performance de gênero feminina”. Quando se pensa dessa
forma, a sexualidade da forma como o homem a impõe é sexista e reproduz a
desigualdade de gênero, principalmente porque a sexualidade não apenas se resume às
quatro paredes (ou não) da relação sexual. A conquista, por exemplo, é uma forma de
exercer a sexualidade; o homem precisa conquistar, e a mulher, ser conquistada, e se um
dos dois não cumpre bem seu papel nessa “disputa”, são desconsiderados pelos seus
colegas de gênero.
     A pornografia também é um bom exemplo de como a sexualidade exercita a
imposição de poder. Segundo Eisler (1996), as produções pornográficas mantém a
imagem da mulher objeto, a “gostosa” que serve quase como um prato de comida que
acabou de sair do forno. Além disso, os homens devem estar sempre prontos a manter a
ereção por horas e massacrar a tudo e a todos, homens ou mulheres, inclusive mutilando
os órgãos, humilhando física e psicologicamente, mostrando uma brutalidade típica de
um animal. Mas ele é humano. Assim como todos os personagens e produtores destes
filmes, revistas, animes, essas criações são humanas, e representam o imaginário social
sobre o sexo. Não apenas isso, mas de acordo com Kimmel (2000), a primeira figura do
sexo oposto nua vista por homens normalmente é pornográfica e é dessa forma que eles
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conhecem a sexualidade: através de exemplos violentos, que depreciam as outras formas
de gênero.
     Quando falamos de hierarquia, vemos um sistema vigente em nossa sociedade:
alguns mandam, o resto obedece. Isso seria interessante se o papel feito por ambas as
partes fosse considerado como importante para o crescimento daquela sociedade, mas
não o é. O chefe é aquele que possui o poder, e os empregados, aqueles que para possuir
algum poder também, se submetem ao poder do chefe. E o vínculo entre masculinidades
hegemônicas e outras formas de gênero não é diferente, segundo Welzer-Lang (2004),
mantendo como às desiguais classes sociais, as desigualdades de gênero.
     Como pudemos ver, a sexualidade é crucial para entender como a masculinidade
se expressa. Mas pensando na sexualidade, e então casamento, e relacionamentos de
afeto, grande parte das pessoas pensará em... filhos! Vejamos no próximo subtítulo
como essa relação se expressa.


     II.5. Do homem com seus filhos
     O homem atual não tem mais a função singular de trazer dinheiro para casa. De
algumas décadas para cá, mais homens se preocupam em cuidar afetivamente de seus
rebentos, observar seu crescimento, dar conselhos e sugestões aos mesmos a respeito da
vida e do mundo, coisa que quando foram filhos, muitos destes pais não puderam ter.
     Segundo Kimmel(2000), de 1650 até antes da revolução industrial, o homem
assim como a mulher tinha obrigações com o lar, como cuidar e educar filhos homens,
limpeza, etc. Seu horário de trabalho respeitava mais o horário da família e este era mais
dividido entre o homem e a mulher. As decisões a respeito da escolha marital eram
normalmente feitas através do afeto e não mais pela linhagem familiar, e isso
colaborava para um relacionamento mais igualitário entre o casal e entre pais e filhos.
Este marco levou o homem a sair de casa para trabalhar muito mais do que era o
esperado, e a mulher se resumiu ao mundo privado do lar. Os homens não mais
educavam as crianças ou ajudavam em casa, esta era uma função agora feminina,
enquanto o papel de pai cuidador se tornou cada vez mais apagado da vida familiar.
     Na década de 50, o homem era apenas encarregado de suprir a família com bens
materiais, enquanto a mulher ficava em casa preocupada com a educação dos filhos. Ele
era obrigado a produzir riquezas, e não tinha tempo para ajudar na reprodução de
valores e na percepção de como era a vida dos seres humanos que tinha posto no
                                                                                       56
mundo. Muitos pais se arrependem de não ter podido ajudar seus filhos em várias
situações, e muitos filhos, que atualmente são pais, sentem falta de um direcionamento
paterno.
     Ruitenbeek(1967), um autor que retrata a masculinidade já na década de 60,
afirma que a dominação das mulheres do mercado de trabalho muda drasticamente a
função do homem na sociedade, e faz observações de que esta mudou para pior, gerando
confusão e discórdia. Se o homem não será o provedor, não é mais quem decide as
coisas, não controla a família e não mais pode reproduzir valores de imposição da força
física, como ele deve reagir à estas forças destruidoras de sua masculinidade, como a
rejeição de valores masculinos e a retomada de dignidade feminina? O autor comenta a
respeito do homem norte-americano:
                    “Uma nova masculinidade para o homem não demanda a
             potência sexual em si mesma ou a exibição de qualidades
             masculinas, mas requer, nas décadas vindouras, um senso de
             decisão, escolha, tranqüilidade, calma e paz consigo próprio. Não
             nos devemos iludir com a idéia de que os problemas do homem
             americano contemporâneo se podem resolver recorrendo-se aos
             preceitos; em última instância, só se pode resolver pela renovação do
             homem e pelo redescobrimento do seu senso de dignidade”(p. 196)
     Este teórico dirá que não adianta retomar os princípios básicos da masculinidade
de forma a reaver seu poder, é preciso refazer a masculinidade, mudá-la de modo a usar
a potência sim, mas não do jeito com o qual ela era utilizada. Mas não é errado pensar
na dominação masculina e na sua dignidade vinda desta dominação. Não seria a auto-
afirmação o caminho (mesmo que no final, acabou sendo o ocorrido, visto que os
homens continuam demonstrativos a respeito de sua masculinidade, e atos são muito
mais que pensamentos quando se fala no comportamento masculino, de acordo com
Maciel Jr.(2006), mas sim a tomada de rédeas de seu próprio destino(e dos outros
também). Mas outras coisas aconteceram desta época para cá.
     Com a demanda do mercado de trabalho por mulheres em vários cargos, e a
revolução sexual dos anos 60, mais homens começaram a exercer a função paterna do
cuidado dos filhos, da preocupação com a educação destes. Isso ocorreu por conta de
vários fatores: segundo Dorais(1988), os homens não mais são considerados os
provedores, pois cada vez mais, os dois cônjuges trabalham, e não mais o homem, como
acontecia anteriormente. Isso significa maior renda em menos tempo de trabalho do

                                                                                     57
casal. A primeira coisa que é verificada a partir disso é um maior contato destes homens
com a vida privada, antes monopolizada pelas mulheres. Eles são obrigados a trocar
fraldas, arrumar a casa e se envolver emocionalmente com sua família, não apenas
monetariamente.
       Além dos casais, que são atualmente uma parcela muito menor da população
economicamente ativa do que se era anteriormente, os solteiros têm que aprender a
cozinhar, arrumar suas casas, limpar banheiros, passar roupas e cuidar de seus filhos de
relações diversas. Segundo o senso do IBGE de 2000, 24% das famílias são
monoparentais no Brasil, ou seja, 24% das famílias brasileiras são formadas ou pela
mãe, ou pelo pai. Estes homens, separados de suas ex-esposas, solteirões, homoafetivos,
assexuados, tem que cuidar de crianças de seus casamentos antigos muitas vezes, pois
nem sempre a guarda destes será materna atualmente, podendo ser compartilhada ou
não.
       E ainda existem aqueles que adotam, pois querem realmente fazer parte da
educação de uma criança e amá-la, mesmo se não podem gerá-la, não convivem com
uma mulher que queira gestar ou são homoafetivos. Segundo Costa(2005), as brigas
atuais por adoções para casais homoafetivos estão se tornando cada vez mais comuns no
Brasil e no mundo, sendo este um assunto que vem revolucionando a instituição
familiar nos vários campos que ela abrange.
       A definição adotada nessa pesquisa a respeito de parentalidade vem de
Loureiro(2009), quando fala que
                    “Existem importantes trocas entre o cuidador e quem recebe
             o cuidado e é no cuidar que se estabelece o vínculo, a forma
             primeira de se envolver com a criança, numa relação em que as
             emoções não ficam de fora e que propicia os subsídios necessários
             para a criança desenvolver as competências de explorar o mundo.(...)
             O cuidado envolve o atendimento das necessidades básicas
             promotoras    do    desenvolvimento,      sociabilidade,   além    da
             sobrevivência da espécie, respeitando aspectos da inidividualidade.
             O cuidador é, pois, a figura que supre, dá limites e socializa, e a
             relação pais-filhos é construída no dia-a-dia, nas pequenas coisas, no
             vivenciar de atividades rotineiras, com tempo para o filho e com a
             atenção voltada para ele.”(p. 26,27)
       Feita esta rápida contextualização, algumas questões vêm à baila: como é o
cuidado feito por homens de filhos e filhas e como fica a função materna com este
                                                                                      58
homem com um papel diferente no sistema familiar? Vamos tentar abordar estas duas
questões neste subtítulo e entender um pouco mais da função paterna.
      Kimmel(2000) irá comentar que mesmo hoje em dia, os pais passam pouquíssimo
tempo com seus filhos, e o cuidado é crescente de acordo com a idade da criança.
Poucos pais acompanham seus filhos durante a pré-escola, porém muito entendem o
quanto ser pai é mais importante atualmente do que era no passado e que muitos são
mais atuantes do que seus próprios pais, o que significa um avanço no ideal da função
paterna.
      Complementar a isso, Costa(2002) afirma que o papel da paternidade é muito
importante para a reafirmação do homem enquanto masculino. Isso porque a
masculinidade hegemônica é constituída através da virilidade, que tem como uma de
suas faces conseguir produzir filhos, e a moralidade, que vai exigir deste pai que ele
eduque e sustente este filho. A honra também está envolvida nesta questão, de modo
que se enreda na relação de cuidado com seus filhos. De acordo com uma aula dada por
Elizabeth Brandão em 201013, o pai tem função primordial em desfazer a relação
simbiótica entre mãe e filho/a e introduzir a criança no mundo da cultura. Isso significa
que o pai não deveria ter a função passiva de educar seus filhos, mas deveria se
envolver ativamente na tarefa, de modo a:
      a) Deixar que a mãe possa voltar ao papel de mulher, de alguém que tem
           necessidades além de suprir as do bebê;
      b) Trazer à criança novas experiências, incluindo-a na realidade e “cortando o
           cordão umbilical” da criança com a mãe, assim como introduzindo esta
           criança no mundo desejante;
      Isso significa que assim como a mãe, o pai tem funções muito importantes para o
desenvolvimento do bebê, e elas são necessárias para a boa adaptação deste na
sociedade. Mas quando os filhos crescem sua função não deixa de ser importante. Além
de prover, junto com a mãe atualmente, o sustento, a escolaridade, todos os custos de
uma criança, e até adolescente, ele tem a função de prepará-lo/a para o mundo exterior.
Deve ensinar coisas a respeito da vida do trabalho (não que a mulher não possa fazê-lo,
mas o homem tem como valor construtor de sua identidade o trabalho, coisa mais
complementar à mulher, em alguns casos.), da vida sexual, especialmente para seu filho

13
  Elizabeth Brandão é professora no Núcleo de Psicodiagnóstico na Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo.
                                                                                                  59
homem, como sua filha deve agir se um homem tentar qualquer coisa sexual com ela
(desde a piscada do outro canto da sala até como dizer não em uma situação de coação).
      “Quando minha filha de 15 anos me pergunta se pode sair com um garoto,
pergunto quem ele é, o que faz da vida, sua idade, onde eles vão, e fico torcendo que
seja um cara boa pinta, que não a machuque. Sabe como é, né, a gente sabe como os
outros homens são... Já com meu filho, se ele vai sair, só falo para ele se divertir, e não
voltar muito tarde... Sei lá, a gente tem medo de que aconteça algo com a menina, já
com o menino, não tanto” , falou um homem de 49 anos, em conversa informal com a
pesquisadora. E realmente, o tratamento de filhos e filhas é diferente, segundo
Flood(2007). Este autor afirma que com seus filhos, o homem tende a exigir os valores
hegemônicos da masculinidade, de modo a prepará-lo para o mundo fora do micro-
cosmos familiar, então exige dele uma postura de decisão, força, astúcia, e
heterossexual principalmente, mas o modo como o homem irá criar seu filho depende
muito de sua própria masculinidade, esta ligada à masculinidade hegemônica, como
discutimos anteriormente. As brincadeiras com meninos, segundo Kimmel(2000) são
mais cheias de regras e utilizam mais a força física, como lutas de brincadeira, o próprio
futebol, entre outros.
      Já com sua filha, (esta relação é menos estudada como afirma Flood(2007) devido
ao pouco valor dado à filha na sociedade patriarcal), o pai tende a dar mais limites e
controlar para que a menina siga mais um comportamento respeitável a uma mulher, de
acordo com o que ele acredita que seja este comportamento. Pais acreditam que
mulheres são mais delicadas e gentis, e a doçura e comportamento cooperativo são mais
reforçados por estes.
      A importância do pai atualmente é vista como crucial à família como um todo,
pois diminui a carga das mulheres no cuidado da casa e do trabalho (Double Shift),
aumenta o contato dos filhos com a realidade masculina e une mais os laços de afeto e
companheirismo desta organização sistêmica. Vamos no próximo subtítulo falar um
pouco mais sobre esta complexa gama de relações que nos ensina sobre nosso papel na
sociedade, do qual o homem não deve estar alienado: a família.


      II.6. Do homem com sua família
      A família, como descrevem Souza & Norgren (2002) contribui para a organização
social e cultural por meio dos cuidados com os filhos e da transmissão de valores. Ela
                                                                                        60
envolve pessoas em um mesmo ideal, ela é uma rede de relações costuradas pela
genealogia, a conjugalidade, convivência com outras pessoas e sua ajuda mútua, seja ela
afetuosa, seja por laços de sangue. Como explicita Macedo (1994) apud Souza &
Norgren (2002),
                   “a família é vista como o primeiro espaço psicossocial,
             protótipo das relações a serem estabelecidas com o mundo. É a
             matriz de identidade pessoal e social, uma vez que nela se
             desenvolve o sentimento de pertinência que vem com o nome e
             fundamenta a identidade social, bem como o sentimento de
             independência e autonomia, baseado no processo de diferenciação,
             que permite a consciência de si mesmo como alguém diferente e
             separado do outro” (p. 12)
     A família sofreu várias mudanças desde a década de 50, pois o modelo de família
da época despendia muito esforço de todas as partes envolvidas: a esposa deveria
arrumar a casa, cuidar dos filhos, manter-se no mundo privado do lar, ou seja, não
poderia trabalhar. O homem, contrário à esposa, deveria servir de provedor da casa, e
vez ou outra levar o filho homem para fazerem atividades juntos. Também era ele quem
impunha as regras da casa, mesmo que a mulher as fizesse cumprir. As crianças
deveriam apenas estudar, obedecer e aprender muito bem aquela dinâmica familiar, para
que um dia pudessem reproduzi-la.
     Este modelo de família logo se dissolveu por exigir uma postura muito rígida dos
seus participantes, e pouco tempo depois, com a revolução sexual, a onda de divórcios,
a gigante quantidade de famílias sem os pais, a delinqüência juvenil (inclusive retratada
muito bem pela história da música na época, que até os anos 50 tinha como hits cantores
como Frank Sinatra, dançarinos como Bing Crosby, e que já na década de 60 tinha o
“rei” Elvis Presley, os Beatles e o começo do rock’n roll, música altamente contestadora
dos valores sociais até hoje, e que na época lutava contra esta maré de racionalidade aos
sentimentos e sensações, inclusive sexuais, dos jovens.), pais alienados da vida com
seus filhos, mulheres infelizes com sua posição doméstica, o “american way of life” se
transformou em apenas mais uma das formas do sistema familiar.
     Kimmel(2000), ao fazer um histórico da família, comenta que esta nos anos 70 e
80, era muito mais resiliente por formarem-se não pela conformação “perfeita” da
esposa – marido - casal de filhos – cachorro, mas por respeitar a diversidade de pessoas
envolvidas no contexto familiar, que tinha mais o intuito de apoio psicológico além da

                                                                                      61
transmissão de valores. Os papéis de gênero eram mais flexíveis, pais conseguiam
passar mais tempo com seus filhos e as mães poderiam se empenhar mais em suas vidas
profissionais. Além disso, com conhecimento sobre a sexualidade e sobre controles de
natalidade, o casal poderia se enredar mais no relacionamento e ter um nível maior de
intimidade.
      Foi um pouco antes desse período, em 1969, que a população de lésbicas e gays
“pôs sua cara a bater” para a sociedade, de acordo com Jagose(1996), e trouxe suas lutas
para as esferas públicas e políticas. Como ela cita, não era apenas o movimento gay que
tinha objetivos diferentes para a sociedade mais conservadora da época, mas sim toda
uma contra-cultura baseada em novas formas de viver na sociedade, como o movimento
hippie, o movimento dos negros e sua reivindicação por melhores condições de vida e
outros ativistas que muito influenciaram a organização familiar no mundo e no Brasil
inclusive, moldando nossos ideais a respeito desta instituição até hoje.
      O Brasil é um país onde a família é uma instituição fundamental para explicarmos
sua estrutura e isso ocorre devido à fundação de nossos valores no patriarcado14,
exercido e reverberado na mente brasileira em vários âmbitos da vida pública e privada.
Na família, isto é percebido na autoridade paterna altamente evidenciada, presente às
vezes na autorização dada pelas mulheres. Segundo a pesquisa a respeito da mulher
brasileira da Fundação Perseu Abramo lançada em 2003, ainda 30% das mulheres
acreditam que nas decisões importantes, é justo que o homem tenha a última palavra,
24% pensam que a mulher deve satisfazer o marido sexualmente mesmo se não tem
vontade e 11% concordam que se a mulher trair o marido, é justo que o mesmo bata na
esposa, o que representa que ainda estes valores permeiam muito nossa sociedade, de
forma direta ou indireta.
      Além disso, uma discussão iniciada no subtítulo anterior aqui se torna muito
importante: a instituição familiar vem passando por alterações extremamente bruscas,
como o aumento do divórcio, os recasamentos, a homoparentalidade, e muito da
dinâmica familiar vem se transformação desde a ida das mulheres em massa para o
mercado de trabalho. Mais homens tem se embrenhado nos afazeres domésticos, assim

14
   O patriarcado, ou patriarcalismo, segundo Oliveira(2004) caracteriza-se por ser um sistema onde a
autoridade masculina se sobrepõe à mulher e aos filhos no âmbito familiar, de forma violenta muitas
vezes. Para que isto continue ocorrendo, o patriarcalismo deve fazer parte de outras instituições também,
como os meios de trabalho, do consumo, da política e da cultura. É importante citar que por mais que as
constituições familiares tenham se alterado muito nos últimos anos, o patriarcalismo ainda é retomado no
ideário social nacional.
                                                                                                      62
como muito mais mulheres passam seus dias trabalhando, e isso inclusive altera também
o cuidado e a transmissão de valores para as crianças na família. Inclusive, com o êxodo
rural que ocorreu no Brasil nos anos 60, estas dinâmicas se transformaram
drasticamente.
     Segundo Kimmel(2000), muito mudou no papel do homem na família, mas pouco
a respeito das tarefas domésticas. As mulheres continuam tendo que arcar com estas
responsabilidades, ainda que trabalhem, e poucos homens realmente ajudam nas tarefas
do lar. Isso no Brasil também é verdadeiro, pois de acordo com a pesquisa de 2003 da
Fundação Perseu Abramo, 96% das mulheres (avós, mães e filhas) fazem os afazeres
domésticos, enquanto apenas 3% das mulheres entrevistadas não têm nenhum trabalho
remunerado. A masculinidade tem se mostrado bem resistente a adentrar e viver
também no mundo privado.
     Como vimos nos relacionamentos explicitados anteriormente, a relação com os
filhos, com um/a esposo/a, com a sexualidade, e com a sociedade, como falaremos mais
adiante, estarão presentes na relação que o homem estabelece com sua família. É com
ela que ele percebe seu lugar na sociedade, e é com ela que ele fundamenta sua
identidade social, onde ele ensaia seu contato com o mundo onde vive. A família, como
instituição reprodutora de valores, reproduz as dinâmicas de gênero, e é isso que temos
como base para esta relação presente na masculinidade.
     Muitos pontos serão abordados neste subtítulo: como o homem define sua família,
como ele percebe sua função neste enredamento, quais os papéis que deve exercer sendo
este homem avô, pai ou filho, como acha que as outras pessoas da constituição familiar
devem agir perante ele. Quais as principais transições familiares que o homem vivencia,
e como isso ocorre? Como ele lida com as crises envolvidas neste sistema? Como o
homem se relaciona com sua família gera muito mais questões, mas tentaremos nos ater
a estas neste momento.
     Para grande parte dos homens, a família é onde ele se situa enquanto ser
relacional, desde criança, quando relaciona-se com seus pais e irmãos até quando avô ou
bisavô. Sua função enquanto homem é demonstrar aspectos da masculinidade
hegemônica em todas as fases da vida, que serão reforçadas quando o indivíduo é
criança, copiadas quando o indivíduo faz a função parental, e estáticas e imutáveis
enquanto idoso. Mas dentro da família atual, grande parte das mulheres detém o
controle sobre regras e educação dos filhos. Ora, elas assim o foram até meados da
                                                                                     63
década de 60, como as coisas mudariam tão rápido? Vale apenas ressaltar o que
Hime(2004) comenta em sua tese de Doutorado: a subjetividade das pessoas não avança
na velocidade da realidade, e os indivíduos demoram a se acostumar psicologicamente
com novos pressupostos, tecnologias, verdades e situações de seu mundo cotidiano.
      Por exemplo, ainda acredita-se que o homem deve ser o provedor principal de
recursos financeiros da casa, e que “homem não tem jeito para cuidar de bebê”. É
evidente que o homem não tem um modo de criar seus filhos igual ao de uma mulher,
pois ele não é uma e não foi criado para sê-lo, como pudemos ver no subtítulo anterior.
Além disso, generalizar que todos eles devem ser os principais provedores também não
condiz com a realidade, visto que cada vez mais existem mulheres de sucesso no
mercado de trabalho. Não é fácil modificar a estrutura psíquica de uma pessoa, que dirá
de uma sociedade inteira.
      Ademais, como a sociedade atual espera do homem atitudes que condigam com a
masculinidade hegemônica, ele espera uma sociedade de pessoas que se curvem ao seu
poder, toda e qualquer forma de gênero dentro da família deve obedecer ao patriarca
legítimo (ou não), as mulheres não devem trabalhar e sim cuidar de seus herdeiros, o
que muito tem a ver com o capital, segundo aula ministrada pela pós-doutora em
ciências sociais Carla Cristina Garcia na PUC-SP15. Ela afirma que a visão que o
homem tem sobre a mulher é de superioridade, de que ela é romântica (segundo o
Romantismo no século XIX) e é sua, desde o momento em que não é mais do pai dela.
Portanto, lhe deve favores como os trabalhos domésticos.
      Pensando nas transições que homem vive na família, a que mais o vem chamando
para o convívio familiar é o nascimento de um filho, seja de qual sexo ele for
independente do número de filhos que ele tiver. Kimmel(2000) descreve que nos
tempos de pós-modernidade, 90% dos homens vão à maternidade quando seus filhos
nascem, enquanto esta proporção era quase nula há 30 anos. Segundo Freitas, Coelho &
Silva(2007), mesmo antes do nascimento esta é uma experiência marcante aos homens,
em seu estudo com pais que freqüentam uma clínica de reprodução humana:
                     “No que tange ao sentimento de paternidade tendo como
              referência a notícia da gravidez e o processo vivido a partir dela,
              posicionamentos de sujeitos do estudo revelaram que, a paternidade



15
  Professora nos cursos de Ciências Sociais e Psicologia na Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, nas disciplinas relacionadas à introdução da Sociologia e Questões de Gênero
                                                                                                64
foi uma experiência social significativa desde o momento em que
             tomaram conhecimento da gravidez” (p.140)
     O casamento também é uma transição importante na vida familiar de um homem,
visto que é nesse momento que ele fará sua escolha afetiva a respeito de quem gostaria
de ter ao seu lado (ou aos seus pés). Enquanto seus filhos não nasceram, ou quando seus
filhos saem de casa, a união estável com outra pessoa é algo muito importante. Tão
importante é que, se o outro/a cônjuge falece, ou existe a separação, o luto é algo tão
dolorido que aquela masculinidade perde um de seus pilares principais.
     Aliás, a morte do/a cônjuge também é uma das possíveis transições familiares
mais importantes para um homem, podendo levá-lo até a problemas físicos mais sérios,
pois normalmente a qualidade de vida do idoso cai com esta situação como afirma
Haddad(2008), e ele fica mais propenso a doenças físicas e mentais.
     Existem várias crises que a masculinidade pode enfrentar na família. Estas
incluem revelar uma homossexualidade, uma gravidez indesejada da parceira, um
aborto espontâneo, uma doença que afete o sistema familiar, um divórcio (ou mais), a
morte de alguém importante na família, como seu próprio pai ou sua mãe, ou até mesmo
de um filho, entre muitas e muitas outras possíveis crises dentro da dinâmica familiar.
Como esmiuçar cada uma das possíveis crises não é nosso intuito nesta pesquisa,
falaremos mais a respeito de uma crise em particular: “sair do armário”.
     Assumir a homossexualidade para si mesmo, muitas vezes já é uma tarefa árdua.
Isso porque assumir o desejo homoafetivo é claramente dizer a si mesmo dentro dos
valores da masculinidade hegemônica contemporânea: “possuo uma masculinidade
subordinada, serei humilhado perante a sociedade, pois não cumpro meu papel de
homem, aquele que domina outras formas de gênero. Sou um dos dominados. Não gosto
do que me completa, mas do que me complementa, e quero um relacionamento
igualitário, diferente do meu pai, ou do que os meus amigos dizem.”. E em grande parte,
estes pensamentos vão estar ligados àquilo que outros irão pensar, e não com o
relacionar-se sexualmente com homens.
     Então quando uma informação deste tipo é revelada aos demais integrantes da
família, todos ficam mobilizados. O pobre moço, sedento por aprovação, nervoso das
liberdades e privações que terá a partir desta informação dada aos pais. A mãe,
sentindo-se fracassada enquanto educadora das normas de gênero, pois ela acredita que
se seu filhinho deixar de dominar mulheres, e até espancá-las ocasionalmente, e

                                                                                    65
começar a beijar a e transar com homens é um tremendo mal negócio para ele. Ele vai, a
seus olhos, se tornar mais feminino invariavelmente (E aqui nem falamos da
transexualidade. Muitos/as transexuais são obrigados a sair de casa por assumirem suas
verdadeiras identidades e isto é péssimo se pensarmos o quanto estas pessoas precisam
do apoio emocional para a transição). Isso se não for seu próprio marido que assumiu
que a vida inteira preferiu homens a mulheres. É algo enlouquecedor de se pensar a
algumas delas, ser trocada por um homem...
     Mas se não for este o caso, o pai também não se sentirá nem um pouco bem com
um filho homossexual. Em culturas menos urbanas, é comum ouvir relatos de pais que
tentaram matar seus filhos ao descobrirem a homoafetividade dos mesmos, ou
afastaram-nos dos outros irmãos, como se esta característica fosse uma doença
contagiosa, como é o caso de X, nas pesquisas de Connell (2005), onde os pais privaram
o irmão homossexual do contato com seus outros irmãos.
     Além disso, o papel de gênero do pai também se abala se seu filho é homossexual,
pois isso pode demonstrar que ele não está cumprindo sua função de educá-lo enquanto
homem viril, heterossexual, dominador, e não dominado.
     A família, como o sistema solar, vai se ajustando com as órbitas gravitacionais
dos outros astros, e enfim, chega ao equilíbrio. Mas os custos com isso são tempestades,
furacões e explosões em cada um dos envolvidos. É um esforço que todos estão
dispostos a passar?
     Outra crise pela qual um homem pode passar em relação à sua família é a perda de
seu emprego. Como veremos no subtítulo seguinte, o trabalho é um aspecto central da
identidade masculina.


     II.7. Do homem com seu trabalho
     Ao comunicar-se com outro homem, muitas vezes o primeiro comenta “sou
Fulano, do banco Tal. E você?”. Isso nos traz alguns questionamentos a respeito da
função do trabalho na masculinidade. De que forma ele a constitui? “O trabalho
engrandece o homem”? Como os homens se comunicam a respeito de seus trabalhos a
outros homens? E a mulheres? Quais as relações estabelecidas por homens no trabalho,
e como elas afetam a masculinidade do sujeito? Quais são as relações de produtividade?
Como o poder aparece nessas relações? Existem profissões ditas femininas ou
masculinas? Analisaremos esta relação neste subtítulo tão edificador da masculinidade.
                                                                                     66
Como vimos anteriormente na pesquisa, alguns dos valores mais importantes na
masculinidade hegemônica veiculada no ocidente são a racionalidade, a busca pela
excelência, a manutenção da honra e da imagem da força, assim como a hierarquização
de características e por conseqüência, pessoas que as detém de acordo com sexo,
sexualidade e função na sociedade.
     Um homem é constituído das várias funções na comunidade onde vive, segundo
Kimmel (2000). A maior delas, com certeza, foi por anos e anos a de provedor da
família e portanto, a força de trabalho de uma sociedade. Para que o homem traga o
sustento de sua família e possa contribuir para o crescimento de sua comunidade, ele
deve exercer uma função relevante à mesma, de forma a, por meio de troca do seu
serviço por dinheiro (depois do Mercantilismo) ou mesmo comida, roupas e outros
objetos que ele não produzia, manter sua esposa e filhos de forma material.
     Mas seu ofício, antes da revolução industrial, não se resumia a isso. Ele tinha
funções no lar também, auxiliando, como descrito no subtítulo a respeito de família, na
educação dos filhos e nos trabalhos domésticos. Após esta revolução, muito mudou em
seu ofício: agora, deveriam trabalhar de 14 a 16 horas por dia, em locais insalubres
muitas vezes, e não mais de acordo com o horário da família como era entes deste
momento histórico. Esta alteração no modo de ver e de exercer o trabalho em muito
modificou a visão do trabalho pelo homem, assim como sua função na família.
     Durante os anos dourados, os homens trabalhavam menos devido às leis
trabalhistas, porém pouco mudou no ideal de masculinidade, permeado pelo homem
provedor, importante parte para o sustento dos filhos. E o trabalho constituía sua
masculinidade pois era nele que ele se tornava independente, era lá que com outros
competia e se sentia vivo dentro do sistema social, segundo Gusmán(2009). Essa autora
discute que o desemprego relacionado à entrada das mulheres no mercado de trabalho
nas últimas décadas resultou em um balanço muito forte dos valores de significação da
masculinidade. Como afirma a autora
                    “Los desempleados sufren la pérdida de su estructura
             temporal habitual, “los días se alargan cuando no hay algo que
             hacer..., el aburrimiento y La perdida del tiempo se convierte en algo
             cotidiano... Los desempleados experimentan un sentimiento de
             carencia de objetivos (para sí y para los otros), acompañado por uma
             sensación de exclusión y aislamiento. Durante el desempleo se
             produce una reducción de los contactos sociales y un incremento de

                                                                                      67
la tensión familiar; se percibe una perdida de estatus y de identidad”
               16
                    (p. 41)
      Como Kimmel(2000) comenta, a entrada das mulheres no mundo do trabalho foi
efetuada em menos de um século, enquanto os homens sempre fizeram seus ofícios.
Este espaço era deles, e nós, mulheres, nos incluímos na força de trabalho. É evidente
que por mais que a quantidade de pessoas necessárias para trabalhar tenha aumentado
muito nestas últimas décadas, o mercado não consegue absorver a todos. Como as
mulheres se submeteram à qualquer tipo de trabalho, muitos homens ficaram
desempregados, e são estes os homens que Gusmán (2009) entrevista no México e na
Argentina.
      Ao falar sobre as subjetividades contemporâneas, Eccel (2009) comenta que um
dos maiores medos das subjetividades contemporâneas é não ter espaço na sociedade,
razão de existir ou tornar-se um refugo e vai além do desemprego, pois este ainda é
temporário. No âmbito do trabalho, essa característica do homem contemporâneo se
torna ainda mais evidenciável.
      O trabalho transforma a masculinidade no sentido em que é um facilitador para a
vida pública de um indivíduo, e em seu enquadre na sociedade, como afirma
Guzmán(2009) e Kimmel(2000). É no trabalho que ele fará sua rede social, é lá que ele
terá chance de demonstrar sua masculinidade, é neste âmbito que ganhará status e
exercerá o poder. Isso significa que para conseguir estes benefícios à sua identidade, ele
também deve adequar-se à regras sociais como a produtividade e a hierarquia antes que
exercite seu ofício, deve usar roupas específicas (como o terno e a gravata, o macacão
do operário como exemplos) e portar-se como o empregado de tal empresa,
emblemando os valores da mesma em seus atos. Deve performaticamente agir de forma
racional e direcionada, sendo sempre bem sucedido e ambicioso por mais desafios,
dinheiro e status. Inclusive mulheres devem agir dessa forma caso queiram ser bem
sucedidas em seus trabalhos.
      Isso significa que o trabalho constitui as identidades masculinas do mesmo jeito
que estas constroem a estrutura da instituição do trabalho, suas formas de exercer o
poder e de normatizar o gênero. Sem o trabalho, seu local de iniciação na sociedade, o

16
  Os desempregados sofrem a perda de sua estrutura temporal habitual, “os dias se alargam quando não
se tem o que fazer..., o tédio e a perda do tempo se torna algo cotidiano... Os desempregados
experimentam um sentimento de carência de objetivos (para si e para os outros), acompanhado de uma
sensação de exclusão e isolamento. Durante o desemprego há a produção de uma redução dos contatos
sociais e um aumento na tensão familiar; se percebe uma peeda de status e de identidade.
                                                                                                 68
homem se percebe sem rumo, sem essência e vazio de significados. Kimmel(2000)
afirma que mesmo que estejam infelizes com seus trabalhos e que muitas vezes queiram
passar mais tempo com suas famílias, a grande maioria dos homens não abdica deste
espaço pois não tem tempo para pensar sobre suas necessidades dentro do ambiente de
trabalho, além do status que consegue ao avançar em sua carreira.
      Quanto à comunicação a respeito de seus trabalhos, grande parte dos homens se
baseia no quanto àquela firma em que ele trabalha é valorizada no mercado de trabalho.
Então, é mais fácil ouvir de um homem “Sou Fulano, do Banco Tal” do que “Sou
Fulano, lixeiro da prefeitura” ou “Sou Fulano, sou michê da Rua Tal”. Profissões como
lixeiro, profissional do sexo, jornaleiro, cozinheiro, pedagogo, traficante de drogas (a
não ser onde estas profissões sejam valorizadas como positivas, como afirma Cecchetto
(2004)) não funcionam muito bem como “sobrenomes” se pensarmos na população
brasileira. Raramente são posições de prestígio para a maior parte da população
masculina ou até feminina.
      Como foi dito em um documentário na Rádio CBN sobre a vida dos recolhedores
de lixo em São Paulo no ano de 2010, muitos mentiam sobre suas posições de trabalho
quando conheciam homens ou mulheres, e principalmente na frente destas, escondiam
até detalhes da rotina, que poderiam ser diurnos ou até noturnos. Essa profissão, como
afirmavam as pessoas que dela participavam, é “invisível” às outras esferas de trabalho,
mesmo que seja extremamente importante para a sociedade como um todo.
      Outras profissões como esta, no ambiente de trabalho, se sentem consideradas na
base da pirâmide hierárquica entre as masculinidades. Isso realmente é uma impressão
condizente com a realidade, pois aquele que tem um cargo superior, normalmente trata
aqueles que estão abaixo dele com menos atenção e apreciação que seus superiores
diretos, e estes, por sua vez, autorizam esta desvalorização, se relembrarmos o que fala
Connell (2005) a respeito da complementaridade dos marginalizados e dos
hegemônicos, enquanto um autoriza o outro a ter seu lugar dentro da sociedade de
acordo com o que estes grupos aceitam. O poder, no campo do trabalho, é onde mais
claramente aparecem as relações de poder entre homens e mulheres evidenciados não
apenas com a hierarquia, mas também com outros expoentes, como a segregação de
gênero, o assédio moral ou sexual no trabalho, o valor monetário e atribuído à cada uma
das profissões.


                                                                                     69
Quanto aos possíveis ofícios, nos dias atuais, não existem funções na sociedade
exercidas apenas por homens ou apenas por mulheres. Existem sim algumas melhor
avaliadas pela sociedade como aquelas que são quase considerados “inúteis” (que só
não o são porque se a sociedade os criou, eles hão de ter uma utilidade, certo?).
Normalmente, os trabalhos que possuem características consideradas “masculinas” são
mais valorizados com a moeda corrente e o prestígio social. Isso inclui profissões de
pensamento racional, onde o poder pode ser plenamente exercido, a força física pode ser
necessária, além de outras características que foram várias vezes ressaltadas neste
trabalho sobre a masculinidade hegemônica. Isso inclui ofícios associados à construção
civil, aos cargos políticos e militares, a posições de comando, entre outros.
      Já profissões com características típicas do comportamento feminino como cuidar,
agüentar situações de stress, obedecer a ordens e cuidar da estética, são vistas na
sociedade como supérfluas, desnecessárias, ou úteis até certo ponto, onde podem
reproduzir valores da segregação de gênero. Profissões ligadas ao ensino, ao cuidado
das tarefas domésticas e de crianças, à saúde, à arte e outras correlacionadas são menos
valorizadas, no pagamento e no prestígio atingido pela sociedade.
      E como afirma Kimmel(2000), uma mulher que faz uma profissão masculina
perde sua feminilidade e vice versa, sendo ainda mais discriminada. Isso acontece pois
ela fica muito visada pelo resto da organização, mas invisível enquanto pessoa ou como
trabalhadora, e normalmente é contratada porque é estigmatizada. Este autor chama
estes indivíduos de Tokens, que muito têm que se esforçar para que seu trabalho seja
notado, mas pouco precisam fazer para chamarem atenção dentro daquele espaço.
Porém até sendo um token, ser mulher ou homem causa impressões vividas opostas.
      Homens, quando tokens, são considerados mais capazes e sobem mais rápido na
hierarquia de suas profissões que as próprias mulheres que dividem sua profissão.
Quando na organização, ganham mais dinheiro e ocupam cargos de mais prestígio que
suas companheiras. Porém, quando fora destas organizações, estes podem sofrer
estigmatizações a respeito de sua sexualidade e forma de exercer sua masculinidade.
Mas em si, levam a hegemonia masculina para onde vão, como afirma o autor.
      Muito da ótica de gênero é reproduzida no trabalho e isso mantém a desigualdade
não apenas nas organizações, mas também em como a vida em sociedade é
experienciada pelas masculinidades. Como esta lida com as masculinidades diversas?


                                                                                     70
Esta é uma questão que discutiremos no subtítulo final: a relação do homem com a
sociedade.


      II.8. Do homem com a sociedade como um todo
      É importante ao falarmos neste subtítulo que os homens estabelecem relações com
o todo (a sociedade e os ideais e estereótipos que ela prega) e com as partes (com
homens, com mulheres, com seus filhos, etc.) e que ambos os campos estão
intimamente ligados. Quando explicitamos que o homem exerce e recebe violência
desde tenra idade, estaremos aqui colocando como a sociedade reage a ele e como ele
reage a ela, mas ele vai interagir com pessoas, não com a sociedade inteira. Mas ao
interagir mesmo que com uma caneta ao assinar o nome em um cheque até quando ele
vota em uma eleição federal (aliás, o que logo acontecerá), ele imerge em valores
sociais, históricos e geográficos, e ele não consegue deixar de ser influenciado por estes.
      Então, percebermos como o homem se sente ao viver na sociedade em que vive,
no que contribui para a cristalização e mudança de valores desta sociedade e como ele
se vê como cidadão desta, principalmente aos cidadãos brasileiros, nosso foco de
estudo, é fundamental. Como ele acredita que é seu papel enquanto homem? Quais os
padrões, normas e valores sociais que forjam a masculinidade hegemônica e o que cria
as subordinadas? Quais as mudanças perceptíveis acerca da masculinidade hegemônica
que têm surgido depois da revolução sexual, e no que isso influiu na vida do homem
atual? Iremos então neste subtítulo final do segundo capítulo fazer uma tentativa de
explicitar as respostas para estas questões e fechar o mesmo com as informações
demonstradas nos subtítulos anteriores para então movermo-nos para a pesquisa prática,
e o método com o qual a realizaremos.
      Percebeu-se durante todo o capítulo que o homem tem de mostrar sempre para si e
para o mundo sua masculinidade. Ela é demonstrativa e relacional, pois se mostra
enquanto o indivíduo se apresenta, no modo de falar, de pensar sobre algo ou alguém,
etc. Este subtítulo é extremamente complexo, pois ao mesmo tempo em que ele engloba
os outros, ele determina os outros.
      Quando falamos a respeito da relação com o si-mesmo, com o corpo e mente do
indivíduo, suas teorias sobre si são formuladas a partir do que a sociedade prega como
masculinidade hegemônica. O homem compara-se com o mundo, e percebe-se como
igual, ou diferente, melhor ou pior que a média ou outro indivíduo.
                                                                                        71
Na relação com outros homens e mulheres, os ideais sociais também aparecem,
trazendo modos de agir, falar, pensar sobre o outro. Mais uma vez ele irá comparar-se a
si mesmo com outras formas de gênero e poderá inclusive estabelecer valores em uma
hierarquia a cada uma delas, dependendo de várias características do outro sujeito com o
qual se relaciona.
      Uma delas é o parentesco e a família, que por mais que tenha surgido com normas
bem rígidas, atualmente é incerta e diferente, no sentido que mudou. Ser pai não é como
ser o filho, mas um controla o papel do outro e a os valores sociais como o próprio
patriarcado são veiculados na família brasileira, gerando forças instituintes à repressão e
mais confusões para os participantes desta complexa instituição.
      Pensando em instituições, o trabalho é edificador da masculinidade e local de
negociações entre as masculinidades e as feminilidades sendo a masculinidade o âmbito
caracterizado por intensa competitividade e segregação, como se vê nas as organizações
contemporâneas. Homens e mulheres são forças de trabalho e isso também alterou as
famílias de um modo geral, e algumas gerações de uma sociedade que logo começarão a
gritar por seus pais.
      As expressões e significados associados à sexualidade, por sua vez, também vem
mudando drasticamente, e com ela a sexualidade de todos os homens. Não existe mais
um padrão rígido a seguir, mas muito homens ainda acreditam na força, no orgasmo
como única fonte de prazer e desvalorizam as lutas feministas pelo não-uso de poder
“nos países baixos”, nos relacionamentos sexuais e amorosos.




                                                                                        72
Capítulo III - Método


     Pudemos neste trabalho estabelecer dados teóricos que suportem as informações
da realidade que buscamos quando nos propusemos a fazer uma pesquisa prática. Para
então termos um método para compreender as masculinidades que estudamos, foi
crucial que o instrumento se adequasse à realidade destes homens, e não à algo
longínquo e distanciado como a pesquisa quantitativa. Segundo Flick (2009)
                    “Diferente de um estudo quantitativo, o pesquisador não usa
             a literatura existente sobre seu tema com o objetivo de formular
             hipóteses a partir dessas leituras, para, então, basicamente testá-las.
             Na pesquisa qualitativa, o pesquisador utiliza os insights e as
             informações provenientes da literatura enquanto conhecimento sobre
             o contexto, utilizando-se dele para verificar afirmações e
             observações a respeito de seu tema de pesquisa naqueles contextos.”
             (p. 62).
     Ademais, como não existe apenas uma masculinidade, (e isso foi proposto e
explicado nos capítulos anteriores) foi importante ouvirmos as vivências individuais do
ser masculino, e como isso se expressa nas relações que este estabelece com seu mundo,
que se modifica ao longo do tempo e do espaço.
     De modo a atingir os objetivos proposto no projeto, que são de compreender como
são construídas e expressas as masculinidades de homens homo, heterossexuais e
transexuais, utilizando-se o conceito de gênero, dando atenção às relações que ele
estabelece com seu corpo, com sua própria masculinidade e com o mundo que o rodeia,
foi preciso que nosso modelo de pesquisa fosse qualitativo, no sentido que Flick (2009)
comenta:
                    “A pesquisa qualitativa é de particular relevância ao estudo
             das relações sociais devido à pluralização das esferas de vida. As
             expressões chave para esta pluralização são a ‘nova obscuridade’
             (Habermas,1996), a crescente ‘individualização das formas de vida e
             dos padrões biográficos’(Beck, 1992) e a dissolução das ‘velhas’
             desigualdades sociais dentro da nova diversidade de ambientes,
             subculturas estilos e formas de vida. Essa pluralização exige uma
             nova sensibilidade para o estudo empírico das questões” (p. 20).
     E este autor também nos lembrou que devemos estar atentos ao ambiente em que
a pesquisa se dará, e como este ambiente altera a pesquisa. Para entendermos suas

                                                                                       73
individualidades, tão únicas e diversas, e percebermos as vivencias destes homens não
como queremos, mas como elas são realmente, foi importante que estes construíssem
significados sobre suas vidas, como ressaltam Ludke e André (1986), objetivo nem
sempre alcançado com a pesquisa quantitativa, devido ao limite de respostas que o
sujeito poderia dar.
         Mas ao mesmo tempo, os homens que foram entrevistados nesta pesquisa, por
fazerem parte deste contexto, têm que dar algumas informações factuais de modo a
poderem se adequar aos critérios de inclusão propostos pela, como veremos ao falar dos
participantes. De acordo com Luna (2000), informações factuais são aquelas que não
dependem de interpretação nem de quem a fornece, nem de quem a registra, como
idade, nome, estado civil, escolaridade, etc. Esta pesquisa tem como objetivo trabalhar
com o sujeito questões factuais sim, mas sua ênfase e foco serão localizados nas
questões não factuais.
         As situações, ações e interações complexas foram analisadas em seus contextos, a
partir do ponto de vista do sujeito, para se obter uma compreensão do fenômeno e dos
processos envolvidos como afirma Moon (1990), assim como do significado a eles
atribuído.
           Para este trabalho foi organizado um roteiro de entrevista semi-aberto, com a
intenção de obter uma amostra de dados que respeita a individualidade do indivíduo
(assim assumindo que cada participante da pesquisa possui seu próprio pensamento,
opções, sentimentos e ações). Ademais, deu-se maior liberdade ao colaborador para
fornecer os dados que ele queria dar, focando-se apenas em certas questões norteadoras.
           Por ser uma entrevista semi aberta, há uma flexibilização da mesma dando uma
sensação de liberdade ao indivíduo, ele se sente mais à vontade. Isso por que, segundo
Maciel Jr.(2006), a entrevista pode representar ao homem uma ameaça à sua
masculinidade, e deixá-lo no controle da situação é uma alternativa para conseguir
dados consistentes sem maiores resistências como a minimização, descrita pelo autor
como uma forma de desqualificar o entrevistador e a entrevista dando respostas evasivas
ou curtas.
         Isso foi percebido no primeiro pré-teste da entrevista, quando o entrevistado
Rodrigo17, no começo da entrevista, se mantém com uma postura corporal defensiva,
usa óculos escuros mesmo em ambiente fechado, e dá respostas evasivas e gerais a

17
     Os nomes foram trocados em respeito ao sigilo dos entrevistados.
                                                                                      74
respeito das questões colocadas, e no final se solta mais, sorri, dá respostas mais
pessoais e se evade menos das questões, evidenciando que é necessário sim um “jogo de
cintura” quando entrevistam-se homens, e que é necessário conversar um pouco com o
entrevistado antes da entrevista propriamente dita para quebrar estas possíveis
resistências. Este é um dado observado pelo autor citado acima, que os homens
demonstram sua masculinidade também ao responder a entrevistas, assim como em
qualquer situação social. É preciso então segundo Smith & Drummond (2003) apud
Maciel Jr.(2006), “jogar conversa fora”, “quebrar o gelo” para que o entrevistado
perceba que não irá ser julgado, e trazer um sentimento de confiança e estreiteza de
laços para o mesmo, garantindo assim o sucesso da entrevista. Já no segundo pré-teste,
com Marcos, esta técnica funcionou substancialmente, deixando o entrevistado muito
mais confortável para falar de suas experiências.
      Este entrevistado também colaborou a respeito do formato da entrevista, que
considerou muito longo e cansativo, e sua sugestão foi diminuir a quantidade de
questões e deixá-las mais ricas de informação, assim dando a possibilidade de não
perder dados verbais dos entrevistados que virão.
        Pensando a respeito da entrevista em si, se ela é mais flexível, Shwabe &
Wolkomir (2003) comentam:
                     “This is the kind of interview that is most likely to evoke the
             masculinity displays that block communication and call for
             interviewing skill in drawing out unarticulated meanings”(p. 55).18
        Isso significa que a entrevista, quando semi-estruturada, dá maior liberdade para
que o homem demonstre características masculinas que bloqueariam a comunicação, e
isso pede do entrevistador uma observação mais criteriosa dos significados não
articulados pelo entrevistado. É de suma relevância, portanto, perceber para esta
pesquisa quais são os pontos onde o silêncio se deu com mais freqüência, para então
saber que características masculinas aí também estão presentes.
        Os obstáculos para se realizar uma entrevista com homens também deram o
formato da pesquisa com o gênero masculino, assim se tornando grande fonte de
informação apesar de muitas vezes serem vistas como barreiras. De forma discreta estas
barreiras constituem os conhecimentos a serem obtidos na pesquisa.
        Como continuam Schwalbe e Wolkomir (2003),

18
  “Este é o tipo de entrevista que mais provavelmente vai evocar as demonstrações de masculinidade que
bloqueiam a comunicação e pedem por técnicas de entrevista para delinear significados não articulados”
                                                                                                   75
“For men, the dramaturgical task is to signify possession of
                an essentially masculine self, a self with desires and that warrant
                membership in the dominant group. Precisely, what must be
                signifyied, and how it must be done, will vary by age, ethnicity,
                social class, sexual orientation, local culture, and immediate
                circumstance. A masculine self is thus always the product of a
                performance tailored to the situation at hand” (p. 56).19

         Portanto, como cada sujeito que foi entrevistado nessa pesquisa possui uma
masculinidade individual, é importante delimitarmos quem foram nossos participantes.



       III.1. Participantes
       Tendo o gênero como foco de pesquisa, a idade delimitou-se dos 20 aos 55 anos
de idade, sendo esta a faixa etária onde o indivíduo já em grande maioria construiu sua
identidade de gênero, possui um julgamento moral já elaborado, inclusive sobre o que
quer como ser masculino e desejante (sexualidade), e de acordo com a teoria
psicossocial de Erik Erikson (1968), “(...) domina ativamente seu ambiente, mostra uma
certa unidade de personalidade e é capaz de perceber corretamente o mundo e a si
mesma.”(p. 68). Dessa forma, ele tem mais condições de refletir e compartilhar com a
aluna pesquisadora suas vivências, sentimentos e atitudes acerca da masculinidade.
       Além disso, é uma faixa etária em que o indivíduo está preocupado com suas
funções sociais mais importantes, de acordo com uma normatividade cultural brasileira:
procura uma atividade profissional para tornar-se independente, tenta encontrar um par
conjugal (seja ele homem ou mulher) e também é quando busca deixar seus
descendentes, e assim poder agora ser responsável pelo papel social que lhe cabe:
profissional, marido e pai, veiculando as normas de gênero na família e na sociedade. É
evidente que nem todos querem ter filhos, ou mesmo casar, ou ainda até ter uma
profissão fixa. Por essa razão acredita-se que o homem não pode demonstrar sua
masculinidade sem estar em relação, seja com outros homens (em ritos de passagem,
brincadeiras de limite e dor física/psicológica), com outras mulheres, (na diferenciação
destes delas e/ou nas relações com as mesmas) entre outros, tendo como premissa de

19
   “Para homens, a tarefa dramatúrgica é significar que ele possui um self essencialmente masculino, um
self com desejos e que garanta ser membro do grupo dominante. Precisamente, o que precisa ser
significado e como isso deve ser feito, vai variar na idade, classe social, orientação sexual, cultura local e
a circunstância imediata. Um self masculino é sempre então o produto de uma performance talhada pela
situação que se apresenta.”
                                                                                                           76
que a masculinidade é um valor social e que não apenas deriva-se da relação com outras
pessoas, mas reproduz-se nelas como comenta Welzer-Lang (2001).
     A etnia nesta pesquisa não é ponto norteador para encontrar os colaboradores pois
acredita-se que o ideal de masculinidade permeia a todos, não importando idade, etnia,
sexo, gênero, escolaridade, entre outros, embora estas categorias se articulem de formas
complexas. Porém se era possível coletar mais dados a respeito de onde aquela
masculinidade surgiu isso foi feito e explorado como dado daquela individualidade.
     O grau de escolaridade do pesquisado é no mínimo o segundo grau completo. Esta
escolaridade foi escolhida supondo-se que haveria uma reflexão, devido ao grau de
conhecimento, sobre sua própria existência, de modo a conseguirmos entender melhor a
linguagem, o passado e o presente dos entrevistados na questão sobre sua masculinidade
e a dos outros, conceitos (supostamente) ensinados pelas escolas até o 3º colegial.
     Os participantes foram 23 homens pertencentes à região da grande São Paulo,
sendo 8 homossexuais, 8 heterossexuais e 7 transexuais.


     III.2. Instrumento
       Foram usadas entrevistas semi-dirigidas como instrumento de coleta de dados. É
importante considerar o pesquisador como parte do processo de coleta e análise dos
dados: deve estar envolvido e ao mesmo tempo manter certo distanciamento, que lhe
permita posteriormente pensar sobre o que ouviu. É co-participante da realidade
observada, tendo responsabilidade pelo material produzido.
     É importante comentar também que assim como tentamos perceber a vivência e a
experiência do entrevistado, as impressões da entrevistadora também foram levadas em
conta visto que, como afirma Flick (2009)
                    “Na pesquisa qualitativa, o pesquisador e seu entrevistado
             têm uma importância peculiar. Pesquisadores e entrevistados, bem
             como suas competências comunicativas, constituem o principal
             “instrumento” da coleta de dados e de reconhecimento. Por este
             motivo, os pesquisadores não podem adotar um papel neutro no
             campo em seus contatos com as pessoas a serem entrevistadas ou
             observadas. Em vez disso, devem assumir certos papéis e posições –
             ou serão designados para tanto (...)” (p. 110)
         Criou-se um primeiro roteiro de entrevista com itens que foram reformulados
   no decorrer da revisão da literatura e do preparo para a pesquisa de campo, assim

                                                                                      77
como em campo, principalmente através das entrevistas pré-teste, que de acordo
   com Rubano et al (2008) são muito úteis para avaliar a adequação da técnica e do
   instrumento de coleta de informações aos objetivos da pesquisa, à situação e aos
   sujeitos, a adequação de cada item do instrumento, a adequação da linguagem
   utilizada, do registro das informações e da apresentação da pesquisadora ao abordar
   os participantes.
          Por meio da literatura, pudemos perceber que a masculinidade é relacional e
   demonstrativa não apenas em palavras, mas em atos. Para coletar as informações
   referentes às relações levemente abordadas no Capítulo 2, foi importante trazer ao
   roteiro de entrevista estas mesmas relações em questões claras, abrangentes mas ao
   mesmo tempo direcionadas, que estão presentes no Anexo I. Como as questões são
   abrangentes de modo a atingir todos os dados que estamos pesquisando, existem
   temas em cada questão que foi abordada na entrevista em que o entrevistado poderia
   ou não tocar espontaneamente. Se algum destes temas não fosse tocado, a
   entrevistadora poderia perguntar a respeito destes, mas sem desconsiderar que um
   tema não-dito pode possuir significados, como afirma Maciel Jr.(2006) ao comentar
   a respeito de entrevistas com homens, que as manifestações (ou não) de informações
   verbais e gestuais vão trazer dados relevantes à demonstração da masculinidade
   daquele entrevistado.


      III.3. Procedimento
       Os participantes foram contatados através de indicações de conhecidos e
também através de pesquisa em meios de comunicação tais como a internet; as
entrevistas duraram desde 21 minutos, a 2 horas e 23 minutos, dependendo do relato do
entrevistado. Foram realizadas onde era mais cômodo para os entrevistados, portanto, o
local foi indicado por eles, assim respeitando o “território” seguro para os mesmos,
onde poderiam se abrir sem medos ou preocupações. O único pré-requisito era que fosse
em local onde a privacidade, o sigilo e a tranqüilidade seriam garantidos.
       No início do encontro com cada participante foram explicados novamente os
objetivos do estudo. As questões éticas foram reafirmadas, com garantia de sigilo
relativo à identificação do participante e das pessoas por ele citadas na entrevista.




                                                                                        78
Após o término do relato, foi oferecido ao participante a possibilidade de fazer
perguntas, esclarecer dúvidas, explicitar sentimentos ou pensamentos relativos à sua
entrevista, de modo a garantir a beneficência do sujeito.
      Dados não verbais também foram observados, como postura, roupa, olhares, entre
outros, de modo a captar mais informações que o participante deseja passar à
entrevistadora e ao mundo que o cerca.


       III.4. Procedimento de análise dos resultados
       As entrevistas foram gravadas com a permissão dos participantes e transcritas na
íntegra. Consideramos também os comportamentos não verbais e as reflexões e
sensações da aluna-entrevistadora como dados relevantes acerca da expressão da
masculinidade.
       Fizemos inúmeras leituras e sínteses das narrativas, a fim de obtermos um relato
condensado que ao mesmo tempo contivesse as informações mais significativas.
              Esses dados foram analisados à luz do material que consta nos capítulos
teóricos desenvolvidos. Além das análises e reflexões acerca da construção e expressão
das masculinidades dos participantes, foram feitas e discutidas as comparações entre
eles, a fim de se destacar as comunalidades e diferenças existentes.


      III.5. Considerações Éticas
      Nesta pesquisa destacam-se também as questões éticas, pois as informações
obtidas envolvem um elevado grau de intimidade. Consideramos as normas previstas
pelo Conselho Nacional de Saúde (Resolução 196/96): garantimos sigilo profissional
pelo comprometimento de não revelar a identidade dos participantes, bem como a
utilização dos registros obtidos apenas no âmbito acadêmico. O termo de consentimento
informado e esclarecido consta do Anexo II e foi lido e explicado a cada um dos
participantes para obter sua concordância.
      Além disso, como afirma Flick (2009) a respeito de pessoas que possam ocupar o
mesmo ambiente, como é o caso de nossa pesquisa pois ela se guia por indicações de
conhecidos,
                       “A questão da confidencialidade ou do anonimato pode se
               tornar uma problemática quando a realização da pesquisa envolver
               membros que compartilhem o mesmo ambiente. Quando o
               pesquisador entrevista diversas pessoas na mesma empresa ou vários

                                                                                    79
membros de uma família, a necessidade de confidencialidade não
             ocorre apenas em relação ao público externo àquele ambiente. (...).
             Com esse propósito, o pesquisador deverá alterar detalhes
             específicos para a proteção das identidades e tentar garantir que
             colegas não possam identificar os participantes a partir das
             informações que forneceram. (...)” (p. 55)



       Houve atenção e cuidado com a carga emocional que poderá ser mobilizada nos
encontros. Colocamos-nos à disposição para outros contatos que foram necessários para
a elaboração das vivências relatadas, de forma a garantir a não maleficência, a
beneficiência, a autonomia do participante e a justiça.
      Este projeto foi encaminhado ao Comitê de Ética da PUC/SP, e aprovado em 1º de
Julho de 2010, conforme o Anexo III.




                                                                                   80
Capítulo IV - Análise dos dados


      Foi possível perceber durante as várias entrevistas, diversos dados que
demonstram como a masculinidade hegemônica que discutimos nos primeiros capítulos
deste trabalho está presente nas masculinidades dos entrevistados. Também foi possível
perceber, no entanto, que a masculinidade hegemônica apenas permeia as
masculinidades individuais e não se mostra concretamente, e é um fator que influencia
em diferentes graus cada masculinidade. Isto nos traz uma sensação de universalidade
das diferenças: cada masculinidade é diferente, e portanto todas são masculinidades.
      Desta forma, faz-se necessário que analisemos de forma mais profunda pelo
menos 8 dos entrevistados, das 23 entrevistas efetuadas (visto que houve uma saturação
de dados) de modo a trazer informações mais intrínsecas de cada um destes. O critério
de escolha dentre os vinte e quatro entrevistados buscou trazer à tona diferentes
masculinidades de modo aleatório, de modo a ilustrar esta diversidade tão presente nos
homens paulistas. Eles foram escolhidos em ordem também aleatória, de modo a
respeitar o fato de que é impossível também fazer uma análise de todas as
masculinidades percebidas nessa pesquisa devido ao tempo restrito da mesma. São eles
Rodrigo, Fábio, Ramón, Maurício, Gustavo, Artur, Glauber, e Mauro. Quatro deles são
heteroafetivos, dois homoafetivos e dois homens trans heterossexuais.
      É importante afirmar que todos os entrevistados tiveram seus nomes e dados
pessoais trocados ou omitidos de modo a respeitar o sigilo presente na pesquisa através
da ética que esta preza. Todos eles leram e assinaram o termo de consentimento livre e
esclarecido autorizado pelo Comitê de Ética da PUC-SP e caso qualquer um deles
decida que seus dados sejam retirados da pesquisa, até a entrega da mesma para
avaliação do departamento de Desenvolvimento. Isto será feito e outra entrevista será
utilizada para a análise, discussão e conclusão da pesquisa.
      Os locais onde foram feitas as entrevistas foram escolhidos pelos participantes,
que foram desde as casas destes até academias, cafés, local de trabalho ou de estudo,
cabelereiro, entre vários outros. Os contatos foram feitos através de e-mails, blogs, sites
de relacionamentos, telefones de conhecidos e contatos fornecidos pelos próprios
entrevistados, caracterizando o método bola-de-neve de busca de participantes.
      As entrevistas tiveram durações extremamente variadas, podendo durar desde 21
minutos até 2 horas e 23 minutos, dentre um e dois encontros, e estiveram de acordo
                                                                                        81
com as disponibilidades de cada um dos entrevistados e portanto é difícil afirmar que a
média faça jus a todos os participantes. Foi feita uma ficha de todos os colaboradores no
anexo IV contendo todos os entrevistados, sua identidade de gênero, seu objeto de
desejo sexual, sua idade, profissão, dados sobre relacionamentos amorosos, se fez ou faz
psicoterapia e alguns comentários a respeito de suas vidas, além de dados referidos por
estes que são importantes para a análise de cada masculinidade. Comecemos então as
análises.


      Rodrigo
      Rodrigo foi entrevistado no bar onde trabalha, e recebeu a entrevistadora de modo
cordial porém frio, com postura altiva e óculos escuros, que permaneceram durante toda
a entrevista, mesmo que o local da mesma fosse feito em local fechado. Rodrigo fez
parte do curso de filosofia em uma faculdade particular paulista, porém trancou e então
decidiu por buscar sua independência financeira e só então terminar a faculdade. Ele
teve um relacionamento estável com uma mulher mais velha que ele durante
aproximadamente dois anos, porém este terminou e hoje em dia se relaciona
sexualmente com várias mulheres ao mesmo tempo, chegando a namorar algumas
enquanto tem outros relacionamentos.
      Este homem de 28 anos foi um dos únicos que não deu dados pessoais a respeito
de sua família durante a entrevista, porém através de contatos posteriores, afirmou ter
sido criado por sua mãe, que engravidou do mesmo na França, onde mora seu pai. Ano
passado, foi vê-lo pela primeira vez, e muito se identificou com ele. É importante
afirmar que ele estava nervoso e sempre com os braços ou então com as pernas
cruzadas.
      A primeira questão, respondeu basicamente por dados físicos a respeito do que é
ser um homem: ter um pênis, não ter mamas, possuir uma postura altiva. Depois,
afirmou que existem diferenças entre mulher e homem psicologicamente, como a
delicadeza feminina, diferente da força masculina. Além disso afirmou que a mulher, a
não ser que seja masculina, no mínimo tem profissões as quais homens não são capazes
de fazer, e vice-versa.
      As características que fazem com que ele seja masculino na sociedade são: ter um
corpo masculino, funções masculinas na sociedade, assim como demonstrar o mínimo
de afeto, não chorar na frente de ninguém. Também comentou que uma mulher ser
                                                                                      82
masculina diz respeito à sua postura, se ela anda diferente, fala diferente, ou tem
atitudes consideradas masculinas, como falar grosso, brigar, entre outros.
     Rodrigo falou que quando conversa com outros homens, fala muito de assuntos
que tenham a ver com o que seu interlocutor comente. Isso pode significar falar sobre
futebol, mulher, carros ou qualquer outro assunto extremamente superficial. Rodrigo
não foi criado pelo pai e por isso não tem uma vivência com o mesmo, nem tem irmãos
com os quais conviveu, o que significa que ele não teve uma vivência com homens em
sua família. Comenta também que o volume e o tom de voz se alteram quando por
exemplo uma mulher adentra o recinto. Então ele falou suas diferenças de uma mulher:
ele comenta mais uma vez do corpo, e também frente as situações de conflito, como elas
reagem de forma menos objetiva. Afirmou também que nada o faz parecido com uma
mulher, apenas o fato de serem humanos. Afirma se comportar completamente diferente
quando uma mulher entra no recinto, sendo ela mãe e irmã filha ou qualquer outro tipo
de vínculo.
     Comenta que mãe ou irmã são mulheres sagradas, intocáveis ou não possuidoras
de sexo ou sexualidade. Ele ri, porém afirma que existem mulheres e existe família, o
que significa que é importante evitar falar a respeito sobre o comportamento e sexual
destas, " mãe é santa, qualquer outra mulher tem a capacidade de ser vadia. Por isso não
se pode confiar nas mulheres." é importante lembrar que a ascendência de Rodrigo é
árabe, o que muito pode ter a ver com sua visão da mulher.
     Com relação à sexualidade masculina, Rodrigo respondeu e que o homem deve
conquistar, assim como a preferência masculina e heterossexual, pela mulher. Comenta
na necessidade de virilidade masculina, e que existe uma diferença bem grande entre
sexo e amor, porém os dois podem estar juntos, mesmo que raro. Rodrigo comenta que
sua sexualidade muito tem a ver com a expressão da masculinidade, pois é nesse
momento que ele a demonstra.
     A respeito do que uma parceira quer de um homem, diz que o que a mulher quer é
carinho e compreensão, assim como respeito, mas não são todas as mulheres que
pensam da mesma forma.
     Afirmou que o homem deve tratar seus filhos principalmente com regras, assim
como o sustento necessário à vida. Explica que existem várias diferenças entre filhos e
filhas, como o controle que deve ser feito quando existe a filha mulher, tomando
cuidado para que ela não perca a virgindade com alguém que "não presta", e considera-a
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como uma santa também. Quanto a um filho, Rodrigo comenta que é necessário educá-
lo para tentar respeitar as mulheres, do jeito que elas são. Ele diz também que existem
brincadeiras com as quais brincar com cada um dos tipos de filho, sendo que seria o
sensato jogar futebol com um menino, assim como deixar a educação da menina e para
a mãe. Comenta que a família é um núcleo de pessoas que se relacionam através do
vínculo sangüíneo ou não, que costumam morar em um mesmo local, e que tem a
função de passar certos conhecimentos para pessoas mais jovens. Um homem tem como
papel na família suprir as necessidades financeiras da mesma, deve também impor
regras que auxiliem na educação dos filhos, e afirma que uma família é muito difícil de
formar, pois são necessárias muitas responsabilidades. Acredita que na frente de sua
família, um homem deve dar exemplo enquanto pessoa responsável e deve mentir se
necessário para manter este lócus.
      Rodrigo acredita que o trabalho é extremamente importante e para a formação da
masculinidade do indivíduo, pois edifica-o assim como traz independência. Afirma que
uma mulher no trabalho pode ter um pensamento diferente de um homem, pois faz
fofocas, possui modificações de humor e isso altera o ritmo do trabalho. Isso não quer
dizer que não existam mulheres que trabalhem com funções ditas masculinas, mas isso
ainda é muito novo. Finalmente, comenta que mulheres têm maior facilidade para lidar
com situações de cuidado, o que as torna muito mais sensíveis aos problemas que
ocorrem no dia a dia em detrimento dos homens, que são mais focados e o portanto, têm
dificuldade em de ver a figura total.
      Quanto à relação entre homem sociedade, o participante comentou que a função
do homem diz respeito a fazer a história, a manter o que a sociedade já construiu, assim
como coordenar as pessoas para novas mudanças. Acredita também a que a
masculinidade é construída pela sociedade, assim como a sociedade é construída pelos
homens, o que significa que eles têm um papel de retroação um no outro. Afirma que
cada homem é diferente do outro da forma como lida com as situações e isso o torna
único.
      Rodrigo é um homem que possui muitos traços machistas em sua fala, e tenta ao
máximo pertencer ao patamar talhado pela masculinidade hegemônica. Sua visão não é
igualitária, por mais que diga isto, e que busque de uma certa forma, atingir tal feito.




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Fábio
      Fábio é um jovem de 28 anos que convidou a entrevistadora a fazer a entrevista
em sua casa. Foi extremamente gentil, oferecendo água, deixando-a ao máximo
confortável. Ele possui duas gatas pequenas, que no dia da entrevista não pareciam ter
mais que três meses.
      Ele é loiro de olhos azuis, usa camiseta e bermuda de sarja. Fumou durante a
entrevista inteira. Ele é professor de inglês e inclusive perguntou se a entrevista poderia
ser feita nesta língua, e realmente em alguns momentos ela foi feita dessa maneira,
especificamente ao se tratar de sexualidade e relação entre mulheres, muito
provavelmente pois para ele, este era um assunto mais delicado e complexo.
      Afirma que ser homem é algo bem amplo e que a única diferença entre homens e
mulheres é o órgão sexual, apenas é uma questão corporal, e não psicológica. Também
comenta que homens e mulheres tem características masculinas, como usar a força bruta
em um primeiro momento. Coloca que gosta de tratar homens e mulheres de forma
igual, e não se prende em esteriótipos. Fala que masculinidade é uma postura, e também
não chega a ser dominação (visto que sua mãe é uma mulher muito feminista, ficou
claro de onde ele chegou neste link após a entrevista, quando ele mesmo falou sobre
esta relação de sua mãe com o feminismo). Para ele, uma mulher seria masculina se
tentasse atingir o estereótipo masculino, seria mais firme, mais “moleca” ou mesmo
lésbica. Comenta que não se percebe um homem que atua devido à pertinência a um
gênero específico, mas sim devido ao seu jeito.
      Quanto à sua relação com outros homens, Fábio tenta sempre ser justo e
respeitoso, para ser tratado de forma igual, independentemente do interesse de cada um
com a relação. Comenta que para ele, as amizades são importantes em sua vida, e
conversa sobre tudo com eles, desde como a menina que passa é “gostosa” até fofocas
(nesse momento ele se recrimina, e se defende falando que todo mundo faz fofocas),
futebol, depende muito do momento. Fábio coloca que não teve uma relação próxima
com seu pai, pois ele foi ausente até a fase adulta do entrevistado. Mesmo assim, agora
que eles tem saído mais, as conversas são mais superficiais. Termina o assunto falando
que apóia muito a relação de sua mãe com o novo namorado e passa a outra questão.
      Ao falar sobre diferenças entre ele e uma mulher, diz que depende de que mulher
estamos falando. Isso pois se for o estereótipo feminino “Barbie”, ele se considera
completamente diferente. Mas da maioria, existem apenas diferenças nos caracteres
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sexuais e quanto ao temperamento. Afirma que as mulheres possuem muitas alterações
de humor devido aos ciclos hormonais. Mas em todos os outros aspectos, como em
direitos e deveres, ele percebe-se muito parecido com uma.
      Ao falar com uma mulher de sua família, Fábio considera que não age tão
diferente, porém com amigas sim, mede palavras e toma cuidado para saber “onde está
pisando”. Já com namoradas ele chega a ser mais íntimo, mas demora um pouco para
que ele possua completa liberdade em falar o que pensa. Diz também que dependendo
da situação é necessário ser mais duro com mulheres, “agir como homem”, colocando
limites, mas isto depende da situação (nota da pesquisadora: não fica claro neste
momento se o pesquisado tem a intenção de intimidar a pesquisadora, se os limites de
que ele comenta chegam a subordinar a mulher ou apenas significa que como qualquer
ser humano, existem limites de direitos e deveres nas relações.)
      Quando fala de sua sexualidade, Fábio comenta que é heterossexual e que tem
como tabu a conquista. Não consegue conquistar, para ele é “antinatural” e que não
consegue “chavecar”. Fala que o relacionamento deve ser construído, e não forçado, na
opinião dele. Além disso, diz que sente por parte das mulheres uma pressão para que ele
efetue a conquista, mas ele gostaria que fosse mais igual.
      Afirma que ele é um “ímã para mulheres loucas”, é muito difícil ele namorar com
alguém que não queira cortar os pulsos, ou roubar a senha do cartão de crédito da mãe
dele. Sua primeira namorada era bem mais velha que ele, e sua primeira relação não foi
nem um pouco romântica e portanto “zoada”. Ao mesmo tempo, não desiste de achar
alguém legal, mas não sonha casar-se.
      Quanto à relação entre sexo e amor, Fábio diz que existe o sexo com amor e o
sexo por esporte, assim como outras formas de amor sem sexo. “sexo com amor é bem
melhor, não, é diferente” ao comparar os dois. E quanto à sexualidade e masculinidade,
fala que a masculinidade demonstra-se em maior grau na sexualidade, o homem é mais
incisivo.
      Ao dizer sobre come ele deve se portar na relação sexual, faz seu marketing
pessoal falando que “atende a todos os gostos”, que gosta de variedade e que sente que
deve ter um jeito especial com as mulheres, o que é chamado em termos comuns de “a
pegada”. Fábio tenta prezar o gozo da parceira sempre antes do seu, e até se sente mais
confortável para chegar ao orgasmo quando ela vai primeiro. Quanto à questão da
virilidade, ele faz o seguinte comentário: “algum dia vai acontecer, eu vou broxar, ou
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também nem todo mundo tem tesão o tempo inteiro, e acredito que com as meninas
também acontece a mesma coisa, só porque elas não tem um pau não quer dizer que elas
não broxem. O ser humano cria a máquina e quer que todo mundo seja igual a ela,
pronto 24 horas.” O que faz muito sentido se pensarmos no que Oliveira (2004)
comenta sobre a relação entre o homem e a modernidade, citado anteriormente.
      Comenta que tem várias fantasias sexuais, mas algumas que ele se interessa mais
são lingeries, gozar na cara da parceira, passar chantily na parceira, sexo oral, algemas,
em locais públicos como elevadores, entre outros. Para ele, é importante que haja
variedade, e que o casal esteja de acordo.
      Pensando no que uma mulher realmente quer de um homem, “a mulher no geral
quer apoio, carinho, amor, companheirismo, cumplicidade, tamanho do pênis, depende
da pessoa, a respeito de dominação ou não, atenção, preocupação com o que a pessoa
está sentindo ou pensando.”
      Quando falamos na relação entre homens e filhos, Fábio veementemente afirma
que não pretende ter filhos, mas que um pai deveria brincar com seus filhos, além de
ajudar na educação e na imposição de regras. Um pai para ele não pode super-proteger
nem deixar os filhos de lado, deve dar atenção e se relacionar de igual para igual. Um
pai deve ainda, na concepção deste entrevistado, brincar com seus filhos do modo como
a criança quiser, sendo menino ou menina. Afirma também que o controle exercido
deve ser igual para filhos e filhas, mas as brincadeiras devem respeitar o porte de cada
criança, menino ou menina.
      Para ele, a família é introjetada em cada um, uma raiz, a base da ética, das regras,
é “a semente que você vai ser”. Fala que é um apoio muito importante, principalmente
quando se é idoso, para ele seria um vazio grande não deixar uma continuidade ( e é
nesse momento que comenta que sua decisão de não ter filhos o afetaria neste instante
da vida). Fábio acredita que uma família se estabelece por vários motivos: um ajuda o
outro, duas pessoas se conhecerem, e são pessoas que estão lá uma para a outra. Para
ele, não é preciso ter filhos para criar família, podem ser pessoas sem laços de sangue,
desde que se conheçam e estejam juntas. Ele percebe a função da família como dar
continuidade à sociedade, aprimorá-la, propagar novos valores e verdades. Para ele, é
um “sistema retroativo da humanidade de se auto melhorar”.
      Sua função enquanto homem em sua família atualmente é de ajudar
monetariamente, fazer algumas das tarefas de casa e principalmente cuidados com seu
                                                                                       87
avô, que possui mais idade e precisa em alguns momentos ser levantado ou levado a
algum lugar, coisa que sua mãe não consegue fazer pela força física.
      Quanto à relação entre homem e trabalho, afirma que se estivesse desempregado,
seria menos feliz, mas não se perceberia menos homem por causa disso. Também não se
sente mal por ocupar uma profissão percebida como hegemonicamente feminina, é o
que gosta de fazer, e é o que lhe traz dinheiro. Percebe também que existem várias
vantagens de um homem para com uma mulher dentro de sua área de trabalho, porém
isso não deveria ocorrer, afinal eles possuem capacidades iguais.
      Fábio já não vê mais marcadamente papéis ditos femininos e masculinos, e coloca
que homens deriam possuir mais características femininas como a sensibilidade para
cuidarem do mundo, e preocuparem-se mais com a vida e menos com futilidades.
Quanto ao que o diferencia, diz sentir-se mais confortável em andar na rua sozinho à
noite, pois é menos visado em assaltos. Mas além disso, faz o possível para fugir de
estereótipos e é isto que o torna diferente.
      Ele quis fazer um café para a entrevistadora, e insistiu tanto que ela aceitou um
suco que também foi oferecido. Ele mostrou suas gatas, com as quais tem grande
carinho e afeição, e a entrevistadora delicadamente se despediu.
      Fábio é um homem que ao mesmo tempo em que possuiu uma formação
feminista, tem conflitos com sua masculinidade individual e mesmo que
inconscientemente, pode perceber a mulher como objeto em alguns momentos. Apesar
disso, policia-se para manter suas relações igualitárias. É um homem que acredita
inclusive que faz parte da mudança da masculinidade hegemônica.


      Ramón
      Ramón escolheu seu prédio como local da entrevista. Ele, com seus 1,55m de
altura, cabelos curtos e corpo levemente “gordinho”, me chamou para conversarmos
onde ele pudesse fumar, já que mora com seu sobrinho aqui em São Paulo e este é
alérgico. Ramón é um dos 112 (aproximadamente) homens transexuais paulistas que
procuram modificações cirúrgicas pelo diagnóstico de transexual FtM (Female to
Male). Já realizou a cirurgia de mastectomia (retirada dos seios), toma hormônios como
testosterona e realizará este ano o processo de mudança de nome e de sexo na justiça.
Ele tem um relacionamento estável a doze anos com uma mulher mais velha que ele, e
atualmente é servidor público, e faz também transcrições de áudio.
                                                                                    88
Foi extremamente acessível para que a entrevista fosse realizada, ligou inclusive
para confirmar a mesma e para antecipá-la para um hora antes, pois conseguiu adiantar
seu trabalho. Foi gentil, oferecendo após a entrevista que ficasse para um café.
      A respeito da relação consigo mesmo, afirma que é difícil responder mas traz,
como atributos de um homem, basicamente características físicas como a barba, as
mamas não desenvolvidas, e comportamentais, como o cavalheirismo, a impossibilidade
de realizar mais de uma tarefa ao mesmo tempo, assim como as mulheres que conhece,
e a questão da postura, várias vezes citada pelos outros homens, que é sutil porém
entendida pelas pessoas em nossa sociedade. Acredita também que ser o provedor de
sua esposa é uma característica que o faz masculino, e comenta que quando não pôde
fazê-lo, sentiu-se mal a ponto de nunca mais querer que isto ocorresse novamente.
Afirma também que outra característica que o faz masculino é a facilidade com mapas,
em comparação com sua esposa “que pode virar o mapa do avesso que ela não acha o
caminho”. Ramón também coloca que ser masculino também é uma expressão de
maturidade e respeito perante outras pessoas e vai de encontro com o que
Kimmel(2008) escreve a respeito da mudança do menino para o homem, que é preciso
agir de forma diferente ao se tornar um homem, ser mais forte, se impor, respeitar as
mulheres (do jeito que o homem entender o que é o respeito por uma mulher, pois isso
difere para cada homem na pesquisa), por mais que estas características tem demorado a
vir cada vez mais em nossa época. No caso de Ramón, respeitar uma mulher significa
entendê-la enquanto complementar ao homem, e bem diferente dele.
      Ramón comenta a respeito da relação entre homens que o que se faz é sair para
beber, jogar bilhar, falar a respeito de mulheres e de preferência, falar “muita besteira”.
É o “clube do bolinha”20, que ele afirma ter sido seu recinto desde jovem, e que é onde
se sentiu confortável para bater papo, falar de suas conquistas amorosas (das quais
falaremos mais adiante). Ramón também explicita que ele mede muito a pessoa para
cada assunto, e tem assuntos específicos com cada homem que existe em sua vida. Seu
pai, por exemplo, é uma pessoa que gosta muito de conversar, mas não é com ele que
conta para falar a respeito de emoções ou família. Já o pai de sua esposa é mais aberto a
isso, e ele conversa bastante com o sogro a respeito deste assunto. Com seus amigos,
cerveja é um dos papos possíveis. E com desconhecidos, como taxistas, ele deixa que a
20
  Clube do Bolinha significa um espaço de construção e afirmação da masculinidade, partilhado apenas
por homens. É um sinônimo da “Casa dos Homens” citada por Welzer-Lang (2001).

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pessoa dê um assunto para que conversem, e atribui esta característica de tentar perceber
melhor o outro ao fato de ser profissional da saúde.
      A respeito da relação homem – mulher, ele diz que nunca achou que fosse mulher,
mesmo antes da passabilidade21 (ver Ghetler, Pinto & Lopes (2008)). A mesma coisa
afirma sobre ser lésbica, e que esta nomenclatura foi utilizada basicamente para fazer
com que outros entendessem que ele gostava de mulheres. Conta que “mesmo quando
eu socialmente me portava como mulher, eu me sentia um traveco”, e que era
extremamente anti-natural para ele.
      Diz também que sempre sentiu-se parte do “grupo do bolinha”, e que quando este
não era presente, sentia muita falta. Mas completa que são poucas as diferenças entre
homens e mulheres porque, na verdade, estas são características atribuídas pela
sociedade, e assim como sua esposa é ótima em consertar telhados ou pintar prédios, ele
é ótimo em lavar louças e cozinhar. Vai muito das características de cada indivíduo do
casal, e não do que a sociedade estipula. Também muitas características físicas são
sociais, como sua mãe, que tinha músculos extremamente bem definidos devido a uma
doença congênita e que era o corpo que “todo trans homem gostaria de ter”; rebate ao
colocar sua altura como feminina (1,53m).
      Quando conversa com mulheres, Ramón mede muito bem o que irá falar, assim
como o modo de expressão, não brinca tanto nem fala palavrões, e muito menos espera
isto delas. Coisas de sua intimidade sexual são assuntos apenas mencionados com sua
esposa, e só fala de outras mulheres com seus amigos.
      Quanto à sexualidade, Ramón conta que sempre teve sua libido aflorada, mesmo
antes de tomar os hormônios para a transição. Teve sua primeira relação sexual com 14
anos e este foi um evento bem marcante, visto que na época (na década de 70) e no local
(interior de São Paulo), ele se considerou jovem ao fazê-lo. Diz que acabou “pintando e
bordando muito”, não gostando de ter relacionamentos duradouros, tanto com homens
quanto com mulheres. Mas afirma que a grande maioria dos homens com quem esteve
se assumiram homoafetivos ou se tornavam mais amigos que namorados, o que não
acontecia com as meninas com quem tinha relacionamentos, que queriam manter os
mesmos, e isto não acontecia; “um, dois, três encontros e tchau. Ninguém podia dizer
que eu não avisava antes que eu não ia ligar”. Ramón passou sua adolescência sempre
21
  Termo que indica quando uma pessoa que possui a vivência da transexualidade consegue passar
despercebida pela sociedade em geral enquanto realiza a transição das características físicas e
comportamentais comuns a esta vivência.
                                                                                            90
com pessoas mais velhas que ele, e atualmente percebe o quanto faziam como “troca –
troca” (quando pessoas, principalmente meninos, têm relações sexuais com outros
jovens do mesmo gênero para experimentar a sexualidade; normalmente a idade é bem
tenra, desde os 8, 9 anos até 13, 14 anos, quando ainda se sabe muito pouco sobre o
assunto). Diz também que seus pais foram muito esclarecedores neste aspecto, e sempre
“se cuidou”. Ao falar sobre o assunto, comenta que foi por tentativa e erro que
descobriu sua sexualidade, e que atualmente tem muita liberdade com a esposa,
principalmente quando começou a fazer as transições como a mastectomia e o uso de
hormônios. Antes disso, tudo neste âmbito tinha mais travas, e sua esposa não o
desejava tanto quanto atualmente; “quando uma pessoa vivencia o próprio corpo, se
sente, ele tem um relação entre sexualidade e ser”, completa.
     Também comenta que não existe jeito certo de se portar na cama, porém sustenta
a importância do homem ser viril assim como responsável pelo prazer da(o) parceira(o).
Comenta que seu clitóris é grande e é com ele que ele penetra sua esposa, e que admira
a forma como as mulheres podem ter vários orgasmos em comparação com ele
enquanto homem, não tantos. Termina este assunto falando que uma parceira realmente
quer de um homem atenção, apoio, lazer, e de sentir que existe apoio. Além disso, quer
ter alguém para dividir as coisas, ter com quem construir uma vida, e que ele resolva
coisas que ele é bom. Ele fala que é pelo menos o que sempre esperaram dele, e isso
influi em uma responsabilidade que afeta de certa forma sua masculinidade.
     Quanto às questões a respeito da relação homem – filhos, para Ramón, filhos
devem ser orientados tanto quanto supridos, devem brincar com os pais, assim como
receber apoio. Afirma também que existem jeitos diferentes de criar um menino e uma
menina, mas as informações passadas devem ser as mesmas. Uma coisa que ele sente é
medo, por exemplo de cuidar de uma menina e acabar machucando-a de alguma forma,
como em uma brincadeira. Afirma que o controle deve ser igual entre filhos e filhas e
que caso um de seus filhos tenha filhos, não importando o sexo, ele ou ela haverá de
assumir.
     Ramón respondeu que só conheceu o que era família ao ter mais contato com a
família da esposa, que se apóia mutuamente, é rigidamente hierárquica (avô, pai, mãe,
filhos), e deveria ser um porto-seguro para qualquer indivíduo. Afirma fazer pouco
contato com seu pai, já que sua mãe é falecida e que não se sente tanto dentro de uma


                                                                                   91
família com se sente na família da esposa. Completa falando que famílias se formam
através da convivência.
      Inserido na família, o homem deve ser sempre o provedor, deve dar exemplos
tanto aos homens mais novos quanto às mulheres, deve ser prático e resolver o que lhe
cabe (como ser o “motorista” para sua esposa, ou lavar o carro). As vezes, o homem
também pode dar medo, tornado tratos combinados mais sérios, como é o caso do irmão
da esposa de Ramón, que deve dinheiro e sua esposa colocou o nome de Ramón caso o
irmão não devolvesse o dinheiro ao casal. Nosso participante sente que deve “segurar a
onda” quando está em família, não chorar, por exemplo, mas tenta agir o mais natural
possível, de modo a tornar este espaço seu. Em outro momento, coloca que a família de
sua esposa tem papéis muito específicos para cada um e isto configura uma estrutura
familiar.
      O trabalho para a vida de Ramón é central para o sustento, além de que ele não
consegue ficar parado, sente-se incapaz, menos homem, improdutivo. Ele tem que fazer
no mínino as tarefas de casa, desde que a esposa deixe que ele as faça (pois ela afirma
que ele é muito ruim em fazer certas tarefas, como dobrar camisas por exemplo.).
      Coloca que em seu ramo de trabalho, homens são mais objetivos, por mais que
isto não seja uma regra de acordo com ele. Comenta também que existem tarefas mais
adequadas a pessoas diferentes independente do sexo que elas possuam. Afirma também
que é cultural que a mulher cuide dos filhos, por exemplo, e falte mais por isso, pois
ambos os pais podem fazer o trabalho de cuidar de uma criança.
      Quanto a o que o diferencia na sociedade enquanto homem, ele comenta que
muito tem a ver com postura, tipo de roupa e corte de cabelo. Que ao ser percebido
como homem na sociedade, se tornou mais cobrado em não sentir dor, em observar e
manter preconceitos e ele percebe menos igualdade entre os gêneros. Ele comenta que a
sociedade ainda impõe à mulher a jornada dupla, o cuidado com os filhos, assim como
responsabilidades diversas e afirma que cada um deveria fazer o que sabe fazer bem e
não o que a sociedade determina.
      Ramón foi muito cordial ao final da entrevista, levou a entrevistadora para que
conhecesse seu apartamento, o qual divide com seu sobrinho, enquanto a esposa mora
em Sorocaba, onde realmente considera sua casa, mas que seu trabalho é aqui. Quis
fazer um café, mas este foi recusado cordialmente também e ele a levou até embaixo e


                                                                                    92
se ofereceu a levá-la ao estacionamento, embora este se localize a meia quadra do
prédio.
      Este entrevistado possui uma visão concreta da masculinidade, já razoavelmente
formada. Entende inclusive onde pode ser considerado machista, e de onde vêm estes
pensamentos, principalmente na questão do trabalho. Em contraste, sua sexualidade
muito colabora para uma visão mais igualitária, assim como a visão do masculino.
Ramón não precisou procurar a masculinidade. Ele já a possuía antes mesmo de alterar
caracteres físicos e isto demonstra o quanto estes dados não necessariamente possuem
laços tão rígidos.


      Maurício
      Maurício é um homem alto e razoavelmente gordinho. Combinou de encontrar a
pesquisadora em um café dentro de um centro comercial reconhecidamente freqüentado
por homossexuais. Este participante demorou cinqüenta minutos a me encontrar e me
explicou quando chegou que tinha acabado de participar de uma seleção para trabalhar
em uma sauna específica para o público homoafetivo. Maurício é educado e se senta
inclinado para a frente, curioso pela pesquisa. O contato foi feito através de um blog
escrito por ele, e o encontro foi “às escuras”, ou seja, a pesquisadora conheceu-o
presencialmente (tanto sua voz quanto fisionomia) no momento da entrevista, como
aconteceu com a maioria dos entrevistados.
      A respeito da primeira questão, o participante afirma que ser homem é ser
definido pelo gênero masculino, e não tem a ver com responsabilidades ou sobre o que é
preciso fazer. Afirma também que não existem características físicas que diferenciem o
homem da mulher. “No meu ponto de vista, ser homem é apenas um gênero”. Porém,
quando afirma as características que o fazem masculino, responde a respeito da força
dos traços de seu rosto, da barba (que gosta de deixar por fazer), dos pêlos, dos “traços
fortes que os homens tem”, principalmente por traços físicos. Quanto ao que o faz
masculino perante a sociedade, ele afirma que o jeito de se vestir, o corte de cabelo, a
barba o fazem assim ser percebido, e que traços comportamentais variam de pessoa para
pessoa, mas a primeira característica que faz por exemplo uma mulher ser masculina são
comportamentais, como postura, pró-atividade principalmente, e percebeu-se como
machista ao afirmar tal frase, quase desculpando-se ao falar isso para a entrevistadora.
Ela repetiu o discurso a respeito da individualidade do sujeito e do não julgamento que
                                                                                      93
teria ao entrevistá-lo, e ele então re-afirmou que mulheres pró-ativas demais são
masculinizadas. Fomos adiante.
     A respeito da relação com outros homens, comenta que lida de forma linear, que
conversa da mesma forma que conversaria com uma mulher, a não ser quando a relação
é amorosa com outro homem. Comenta que a única diferença é que ele se abre mais
com mulheres do que com homens, e coloca que a razão deste fenômeno se deve à sua
sexualidade. Afirma que existe inclusive uma dificuldade em conversar e em se abrir
com outros homens, e que isto facilita que haja assuntos em comum com mulheres. Um
exemplo de assunto em comum é a moda. Outra razão pela qual ele tem mais amigas
mulheres é que “elas abrem mais a guarda”, e não o julgam, não existe a preocupação
do homem desejando ou não. Diz que fala a respeito de outros homens de conquistas,
música e ainda coloca que a maioria de seus amigos são homoafetivos como ele. Em
outros casos, como na faculdade que está fazendo, (Sociologia), diz conversar muito
sobre a sociedade.
     A respeito da relação com mulheres, Maurício coloca o gênero como diferença e
por conseqüência o comportamento (ou seja, devido aos gêneros diferentes, cada um
age e se comporta de modo binário), e que isso o torna diferente “apesar” de se sentir
atraído sexualmente por homens (como a maioria das mulheres, segundo ele); é desta
forma que se torna diferente de uma mulher.
     Em compensação, ao falar das semelhanças coloca a característica de ser sensível
tanto como algo feminino que compartilha quanto algo pejorativo: generaliza isto ao
mundo gay. Coloca ainda que esta sensibilidade lhe traz uma percepção de mundo
diferente. Finalmente diz que ao estar na frente de uma mulher não percebe nenhuma
mudança em seu comportamento, “me comporto como ser humano”. Sua sexualidade
para ele é motivo para não ter travas e portanto para que possa se comportar de qualquer
forma com uma mulher, inclusive dar-lhe um beijo se este for seu desejo “da mesma
forma como eu faço com meus amigos gays”.
     A respeito de sua sexualidade, Maurício diz que os homens, diferentemente das
mulheres, conseguem chegar muitas vezes à plenitude sexual, e atribui ao falso
moralismo da sociedade o fato de que elas tenham que ter menos prazer e menos
possibilidades que os homens.      Afirma que houve eventos marcantes relativos à
sexualidade principalmente na infância: o primeiro momento em que descobriu que
gostava de homens foi na oficina de costura de sua mãe, que confeccionava lingeries;
                                                                                     94
gostava de ver revistas de homens e não de mulheres seminuas, porem não atribui a este
evento a única causa de sua homossexualidade, e inclui em seu discurso fatores
genéticos assim como ambientais.
      Afirma também que não existe relação alguma entre sexo e amor e ainda dá mais
valor ao sexo que ao amor. Justifica tal visão explicando que acabou de sair de um
relacionamento longo, e por mais que ame muito seu ex, jamais faria sexo com ele de
novo, “sexo com amor é muito mais gostoso, mas são coisas que andam muito bem
sozinhas”. Para ele, o homem é criado para ser forte no sexo, e isso o influencia
sobremaneira, assim como o machismo, e percebe que nessa sociedade isso acontece,
não em todas. Ele se porta de forma “dada”, porém prefere ser ativo; então faz a
analogia entre ser um ativo – passivo, ou seja, alguém que penetra porém gosta de ser
guiado no sexo. Sente que será alguém participativo também em outros ramos da vida,
comentando que se algum dia se casasse, seria tão útil quanto seu companheiro,
ajudando-o nas tarefas de casa. Comenta que isso é raro, que existe sempre a
“menininha e o menininho da relação no casal gay”, reproduzindo padrão heteroafetivos
de relacionamento. “Não sei porque o casamento é tão importante”, complementando
este discurso a respeito do casal gay.
      Nesse momento a entrevista precisou ser interrompida e só dois dias depois,
retomada.
      Continuando a entrevista, Maurício diz que o que um parceiro realmente quer de
um homem é satisfação, seja ela sexual ou sensual.
      Quanto a filhos, ele comenta ter vontade de tê-los, e que na relação anterior
conversava muito com o parceiro sobre ter filhos biológicos. Porém “achar uma amiga
lésbica que queira ter um filho é muito fácil, agora, eu quero ter um filho pra criar, (...),
será que ela vai deixar isso?” e deixou a história esfriar. Tem um sobrinho e gosta muito
de cuidar dele, e sonha com filhos biológicos, e nem pensa sobre filhos adotivos. Para
Maurício, não existe como ser pai ou mãe, isso é inventado, e afirma que um pai deve
tanto cuidar quanto nutrir um filho no momento em que o tem.
      Os pais, sendo hetero ou homoafetivos, devem dividir as tarefas que se sentem
mas confortáveis em fazer. Tem um discurso extremamente inflamado a respeito disso,
e levanta a voz ao dizer que todos são iguais em responsabilidade e que a sociedade traz
estes papéis que necessariamente não serão benéficos às pessoas que deles se utilizam.
Comenta que crianças são extremamente intuitivas e portanto os pais devem perceber
                                                                                          95
estas demandas para cada um dos sexos das crianças, porém existem sim jeitos
diferentes de tratar filhos e filhas, principalmente na questão de sexualidade (o homem é
o ‘pegador’ e a menina a ‘santa’) e coloca que sim, a mulher é mais frágil que o homem.
      Afirma que apesar de pensar desta maneira, não foi fácil que seus pais o
aceitassem, e que inclusive levou surras do seu pai “por ser gay”, e que eles por serem
protestantes, encararam-no como alguém possuído pelo demônio. Porém “o amor da
família supera tudo” e hoje em dia sua mãe o entende, torce por ele, e o respeita. Seu pai
já não toca no assunto, porém deixa que ele tome suas próprias escolhas. Outra coisa
característica de sua família é que eles não o deixam sair de casa, em oposição a vários
amigos seus também gays, que os pais forçaram a “deixar o ninho”.
      Para ele, família é um aglomerado de pessoas que tem um objetivo em comum,
que se ajuda, mas não necessariamente tem laços de sangue. “O que gays mais se
aproximam de famílias são os seus amigos”, afirma. Acrescenta que em sua família,
existe uma hierarquia a ser seguida assim como regras ditadas pelos pais, e que estas
convenções são comuns a todas as famílias que conhece. Maurício acredita que uma
família heteronormativa (termo utilizado por ele) se forma através da busca por filhos,
enquanto a família não-heteronormativa se consolida através de escolhas feitas pelos
seus integrantes. A família para ele é feita também de conquistas e afinidades. As
funções da família para ele são manter um equilíbrio, ou como “norma de controle”,
devido à facilidade de controle deste tipo de estrutura pelo estado.
      Quanto a trabalho, diz que sua única função é o sustento, não importando o gênero
nem o tipo de trabalho. Além disso, não existem funções masculinas ou femininas
especificamente, isto é cultural e pode ser alterado.
      Finalmente, sobre a função do homem na sociedade, Maurício é hesitante em
afirmar se realmente existe um papel específico ao homem, e que mesmo que alguns
papéis lhe sejam atribuídos, estes só serão reais ou não de acordo com cada indivíduo.
Afirma também que antigamente estes papéis eram mais definidos, porém atualmente
eles se mantém de forma velada. Coloca que a mulher é o “sexo forte” e que ela
controla um homem como ninguém o poderia fazer.
      Mesmo assim, o poder hoje em dia é exercido por homens, ainda que isso seja
socialmente construído. “Se elas não estão no poder, é falta de oportunidade,
machismo.” Maurício diz que enquanto homem gay, ele é infeliz com a sociedade em
que vive, pois tem vários direitos negados, como o casamento, herança, direitos
                                                                                       96
previdenciários. Comenta que em nossa carta magna, os direitos são iguais, porém na
prática isto não ocorre, devido ao preconceito.
      Terminando a entrevista, Maurício cordialmente acompanhou a entrevistadora até
o caixa do café onde estavam, pagaram cada um suas bebidas e se despediram.
      Pode-se ver que este entrevistado está entre as convenções sociais e o que gostaria
de acreditar, e seu pensamento é um reflexo disso, cheio de contradições, às vezes em
um mesmo tipo de relação. Isso nos traz o aspecto da masculinidade hegemônica como
modelo ideal em conflito com a masculinidade individual, como se elas não pudessem
coexistir. Maurício está formando suas acepções sobre nossa sociedade, e assim como a
própria masculinidade, está em transição, demonstrando racionalidade, mas fazendo
escolhas com o coração.


      Gustavo
      Gustavo é um homem baixo, de barba expessa e olhar fixo, que parece querer
analisar o mundo que o cerca. Tem 33 anos e nasceu no estado do Rio de Janeiro, no
interior. Mudou-se para São Paulo devido à sua esposa, que já morava por aqui.
Trabalha como tradutor e está fazendo a faculdade de psicologia.
      Encontrei-o no Blog que escreve, onde faz questão com todas as letras de afirmar
que apóia a causa trans, principalmente por se sentir assim desde pequeno. “Mesmo
quando eu era criança, eu já não gostava de usar vestido, aquela não era eu”. Faz
terapia há um ano e seis meses, e hoje em dia participa como auxiliar em um grupo para
homens trans, tendo como objetivo causar identificação e entender também um pouco
de sua própria vivência.
      Para Gustavo, ser homem é ser si mesmo, é olhar para si e se reconhecer, é
entender que existe tanto a feminilidade como a masculinidade em si, estando
confortável com sua própria situação. Mas afirma também que nunca abre mão do
símbolo “barba”, e isso o faz se sentir mais masculino, mas não certos estereótipos
como a questão de ser o provedor de sua família, não ser frágil ou ser agressivo. Coloca
que anteriormente isso era muito difícil, principalmente no começo de sua transição de
papéis de gênero22, pois havia uma questão do excesso da masculinidade para rebater

22
   Se pensarmos na vida de um indivíduo que possui a vivência da transexualidade, é sempre importante
frisar que a transição efetuada nos corpos, nas roupas e nas atitudes não são mudanças de gênero
necessariamente, mas sim de comportamentos mais ou menos aceitos na sociedade de acordo com o que a
sociedade identifica como gênero. Portanto, um/a transexual não muda seu gênero, ele muda o modo
                                                                                                  97
uma feminilidade externa. Porém ao se deparar com o homem que era, isto foi
mudando.
      Comenta que ao se relacionar com outros homens hoje em dia, já confortável
consigo, ele é capaz até de ter um relacionamento afetivo com um homem, abraçá-lo ou
mesmo beijá-lo sem que isto cause dúvidas. “Depende da pessoa, depende do
momento”, afirma então, e coloca que dependendo do homem, ele reage de modo
diverso. E isso abrange tanto vocabulário, quanto tom de voz, quanto assunto.
      Quanto às diferenças que percebe comparando-se a mulheres, Gustavo aponta
para a mastectomia23. Nesse momento ele diz que ainda não fez a cirurgia de
neofaloplastia24, e nem pretende, pois considera sinal de saúde psíquica alguém não
querer fazer uma alteração corporal tão invasiva quanto essa. Inclusive, coloca que fazer
esta escolha o coloca como uma pessoa diferente, criando algo “a mais”, uma
individualidade própria sua, “por que eu não podia me apoiar em termos de falo, pra
dizer, ‘sou homem’.”. Além disso, componentes que o diferenciam das mulheres são a
barba, a histerectomia25, a ooferectomia26: foca nestas duas últimas pelo aspecto de não
mais menstruar assim como não ter mais as mudanças hormonais cíclicas femininas.
Quanto à personalidade, não percebe nenhuma diferença física que possa mudar o modo
de pensar feminino e masculino, e diz que não sabe até que pontos estas diferenças são
construídas socialmente. Comenta que existem mais homens sensíveis, e mulheres mais
pragmáticas.
      Quando falou nas características que o faziam parecido com uma mulher, afirma
que uma das características com as quais ele se percebeu foi a sensibilidade, e que uma
das coisas que ele teve que reaprender em terapia, o sentir. Coloca que quando se é
transexual, é necessário reaprender a sentir, a se relacionar, como uma criança. “Eu vou
me relacionar como eu me sinto, ou eu vou me relacionar como esperam que eu faça?”
coloca. E afirma que esta experiência para ele acaba sendo fantástica, pois consegue ver
a sociedade de mais ângulos, “você está inserido mas você consegue olhar de fora”, e


como a sociedade o/a enxerga, mas a priori, ele/a já possuía aquele gênero, que era invisível à percepção
empírica humana e foi demonstrado a partir de atos, roupas e mudanças corporais efetuadas pela pessoa
em questão.
23
   Cirurgia onde são retiradas as mamas e o excesso de pele do seio feminino, assim como a diminuição
das auréolas.
24
   Cirurgia onde é criado um pênis com pele do indivíduo, sendo que existem algumas variações de
cirurgias, como com órtese(de silicone) assim como o alongamento do clitóris.
25
   Retirada do útero.
26
   Retirada dos ovários.
                                                                                                      98
afirma que as pessoas o olham de forma diferente quando ele andava como mulher e
atualmente.
     Na frente de mulheres, ele tenta sempre ser gentil, ser cavalheiresco, e considera
isso bom dependendo da pessoa, e como ela reage a isso (lembrando que ele não me
deixou pagar meu próprio café, e inclusive o trouxe para mim.). Faz o paralelo a
respeito de como se porta na frente de homens, depende muito de quem é que está
diante dele. Quanto às mudanças hormonais, comenta que quando sua esposa as têm, ele
prefere ficar mais quieto e dar presentes como chocolates para que ela fique mais
tranqüila, além de tentar ser paciente (coloca que não é por que ele já teve estes
períodos que compreende completamente sua esposa quando ela os têm), e tenta fazer
com que o diálogo seja o pilar da relação que têm com sua esposa.
     Quanto à sexualidade masculina, afirma que é mais rápida, as respostas corporais
são mais rápidas, e que não necessariamente são cruciais certos estímulos para que a
excitação ocorra. Gustavo afirma também que a excitação não obrigatoriamente vem da
pessoa de que você gosta, não é algo tão constituído com afeto. Quando começou a
tomar hormônios masculinos, o desejo mudou muito, e as sensações em zonas erógenas
aumentaram assim como o tamanho do clitóris. A vontade de fazer sexo também
aumentou muito, e isso alterou a vida de casal que possuía, e possui até hoje. Comenta
que levou um tempo razoável até se acostumar com sua nova libido, e que essa é uma
característica muito diferente entre o desejo masculino e o feminino. Diz que chegava
em momentos a pensar em sexo o dia inteiro e até sua esposa reclamou da freqüência
que ele pedia que ela tivesse relações sexuais com ele. “É a puberdade, literalmente.
Mas depois as coisas vão amansando.”
     Neste momento ele também coloca que isto aconteceu com ele, mas que não
necessariamente o desejo diminui para outros homens trans, principalmente pois esta
característica de ser viril o tempo inteiro é estereotipicamente hegemônica, e portanto
buscada pela maioria deles. Isso implica inclusive em problemas relacionais com as
cônjuges muitas vezes, pois elas tem a impressão de que este aumento da libido vai
diretamente de encontro à traições, independentemente do amor sentido pelos dois.
“Muitas vezes tenho que explicar para namoradas de amigos trans que não é porque ele
está tomando hormônios que ele vai querer transar com qualquer árvore que aparece na
frente dele.”. Comenta que isso depende do respeito mútuo e a confiança entre os dois.
Fala que com sua esposa existem várias diferenças pois ela gosta muito de sair com
                                                                                    99
amigos de antes do namoro, e ele não gosta deles, mas existe respeito, e se por um acaso
a situação se inverte, o apoio também existe.
         Eles estão juntos há bastante tempo, e ela passou pela transição com Gustavo,
respeitando-o em seu momentos mais difíceis. Conta que nem sempre foi a pessoa
segura que é hoje, e que quando era adolescente, teve vários problemas psicopatológicos
começando por uma compulsão alimentar, depois então invertendo para anorexia, e
então surtando. Também era percebido que ele tinha uma postura masculina desde
pequeno. Assumiu-se homossexual para sua família na adolescência mais para dar nome
à sua preferência sexual do que realmente descrever o que sentia sobre si, e seus pais
logo aceitaram. Porém em relacionamentos amorosos, suas parceiras percebiam que não
estavam namorando bem uma “menina”, e eles logo terminavam. Com as dietas na
adolescência para emagrecer e as rejeições, a saúde de Gustavo foi minada de tal forma
que ele entrou em uma síndrome anoréxica, desmaiou e teve um trauma crânio-
encefálico grave. Ficou em coma e ao sair do hospital, passou de quatro a seis anos em
depressão e com episódios de automutilação. Passou por uma psicóloga por um ano e
meio e ela ajudou-o a entender-se um pouco e questionar-se mais ainda. “Teve uma
sessão em que ela falou para mim ‘você não tem gênero’ isso me indignou; é claro que
eu tinha, eu só não sabia qual era!”. Passou por psiquiatras e tomou variados
psicotrópicos, como Prozac, anti-psicóticos, lítio. Para ele, foi um momento de deixar
de ser “Maria27” e se tornar alguém, alguém sem um nome procurando um modo de ser
no mundo condizente a si. Então, ao assistir o filme “Meninos não Choram” que conta a
história de Brandon Teena, um homem trans, que Gustavo começou a perceber seu
rumo. Afirma que este período foi um divisor de águas importantíssimo para chegar a
ser quem é atualmente.
         Quanto à masculinidade e sexualidade, ele diz que a expressão da masculinidade
não precisa estar condicionada a uma sexualidade específica, não dá para colocá-los em
relação do modo como a maioria das pessoas coloca. Falando sobre como um homem
deve se portar na cama, coloca que não conseguiria ser passivo. Em relação ao gozo,
comenta que é impossível que os dois cheguem no mesmo momento ao orgasmo, afirma
que isto é uma ilusão e que é uma delicadeza deixar que a mulher chegue primeiro. E
fala que uma fantasia sexual masculina sua é a da enfermeira, pois o cuidar é muito
significativo para ele.

27
     O nome foi trocado para respeitar a identidade do sujeito.
                                                                                    100
Para Gustavo, o que uma parceira realmente quer de um homem é
companheirismo, amizade, afeto, ainda mais depois de uma relação de longa duração, é
estar com o outro, tomar café juntos, ao invés do sexo ou da paixão inicial. É baseada
no diálogo, na conversa, é chegar em consensos.
      Quanto à relação com filhos, ele acredita que é preciso cuidar deles com afeto. Em
sua vida pessoal, Gustavo teve uma relação muito confusa com seus pais (os dois eram
ausentes, nunca moraram juntos e uma série de outros fatores fazem com que Gustavo
classifique sua relação com seus pais desta forma), e não gostaria de reproduzi-la com
seus filhos. Não acha que seja possível não errar em algum grau no cuidado com os
filhos, porém, é preciso tomar cuidado, “ainda mais nos dias atuais”. E como seus pais
não demonstravam afeto nunca, ele afirma que não gostaria de repetir isso em sua
própria família. Porém outras pessoas em sua família foram importantes em sua vida, e
isso o auxiliou a ser quem é hoje.
      Quanto a limites, ele acredita que é algo necessário, porém que não chegue em
abuso ( como por exemplo ajoelhar no milho). “O filho tem que aprender o não, tem
que aprender a lidar com as próprias frustrações.”. Tem como princípio que é
importante colocar limites sem podar possibilidades de ser para assim ensinar a criança.
      Quanto a diferenças entre filhos e filhas, ele comenta que como ele considera a
adoção um meio possível e desejado de ter filhos, a pessoa que escolher sua família será
sua prole, não importando o sexo biológico.
      A respeito de família, Gustavo afirma que é algo muito importante para se sentir
acolhido, que são pessoas com quem compartilhar, cuidar, se preocupar e exige um
tempo razoável de sua vida. Pontua também que uma família não precisa ter laços de
sangue para existir e é a base que dá forças para que as pessoas cresçam. Não apenas
isso, para Gustavo não existem funções fixas sobre o que ele deveria fazer enquanto
homem dentro de uma família, pois isto depende da capacidade e dos limites de cada
um. Comenta que na frente de sua família, mantém sua postura, as vezes muda apenas
de assunto.
      Quanto à função do trabalho em sua vida, já se cobrou bastante, mas hoje é mais
tranqüilo. Teve uma época em que não conseguia trabalho pela cidade onde morava por
causa da questão transexual, mas hoje em dia gosta de seu trabalho e foca em mudar de
carreira, estudando psicologia. Outro ponto que coloca é que ganha muito mal como
tradutor, e se priorizasse ser o provedor em sua casa, estaria perdido. Afirma também
                                                                                     101
que não existem diferenças entre homens e mulheres em seu campo de trabalho, porém
esta característica organizacional pode não se repetir talvez em trabalhos braçais.
      Quanto ao papel que o homem exerce na sociedade atual, Gustavo tem como
premissa que as pessoas continuam tendo pensamentos bem arcaicos e machistas quanto
à relação entre gêneros; que o homem tem que ser “o provedor, aquele que não chora,
etc.”; coloca que o preconceito e a diferenciação das funções masculinas e femininas
ainda existe, e está enraizado no modo de ambos pensarem. Finaliza esta questão ao
dizer que as diferenças entre pessoas de gêneros distintos na realidade são individuais e
não do gênero em si. Ao diferenciar-se de outros homens, a característica de ter
conseguido assimilar a parte feminina sem que fosse gerada angústia ou mais
preconceitos o coloca em destaque para si. Afirma que é preciso exigir direitos, porém
eles virão no momento em que exista uma igualdade entre as individualidades e não o
ressaltar das diferenças.
      Gustavo fez questão de pagar o café da entrevistadora, e gentilmente se despediu.
      Este entrevistado passou por várias complicações em seu caminho e estas foram
cruciais para o descobrimento de sua masculinidade. Hoje, tem dentro de si segurança e
força para auxiliar seus colegas de vivência, pois muito provavelmente gostaria que
quando ele estava no momento de transição, que alguém o tivesse ajudado desta forma.
Acredita-se que sua masculinidade individual é atualmente concreta, porém, sem fixar-
se completamente. É na fluidez de sua existência que ele vai montando e desmontando
dados que formam sua masculinidade, e isto a torna completamente diferente das outras,
pois é apenas sua.


      Artur
      Este entrevistado foi encontrado no clube que ele costuma freqüentar, assistindo
seu filho de 12 anos jogar badminton. Ele atualmente é casado pela segunda vez, está no
auge de sua vida profissional e redescobrindo várias características de si ao aprender a
se abrir mais (No começo do ano passado, fez pela primeira vez 6 meses de terapia e
isto lhe abriu horizontes). Artur possui uma paralisia hemiplégica, ou seja, não consegue
mexer as pernas e não possui sensação táctil até o peito, que pelo que o entrevistado
comenta, é algo que possui desde a infância. As possuir 54 anos, ele teoricamente
estaria fora do continuum pesquisado, porém se observarmos seu momento de vida, ele
se encaixa com o de outros pesquisados em se tratando de momento profissional,
                                                                                      102
pessoal, amoroso e existencial. Então foi decidido mantê-lo no espectro de
masculinidades que observamos durante a pesquisa.
      Artur possui uma postura bem rígida e no começo da entrevista manteve-se de
braços cruzados e olhos cerrados. No peito sem camisa, via-se um crucifixo dourado e
pelos brancos contrastando com sua pele bronzeada. Sentado em sua cadeira de rodas,
ele começou falando pouco. Mais tarde, foi se soltando ao perceber acolhimento.
Inclusive, foi um dos únicos a mandar e-mails para a entrevistadora pós-entrevista
explicitando mais questões que o faziam ser como era.
      Para ele, ser homem significa cumprir as funções que tem como designadas, como
pai, marido e dono de casa. Também significa trazer tranqüilidade e proximidade
àqueles ao seu redor. Percebe-se como masculino através de várias características.
Fisicamente, do seu jeito, da barba que usa, seu tamanho e altura. Já psicologicamente,
coloca que características como ser mais fechado, teimoso, emburrado, duro são o que o
faz masculino, assim como a potência de querer mudar estas características também.
Acredita também que ao ser honesto com os outros e consigo, ter metas, ser bom, estar
em paz, tratar bem as outras pessoas, tentar fazer o que gosta, e mostrar aos filhos a ter
o mesmo tipo de atitude também são atitudes que transformam-no em alguém mais
masculino.
      Quanto à relação com outros homens, Artur afirma que possui “dois modos de
funcionamento: inseguro, no qual eu fico disputando com os outros homens, e seguro,
no qual, eu aprendo, convivo e troco idéias e sentimentos”. Esta divisão nos faz lembrar
muito as relações entre homens romanos, que ia da profunda amizade entre colegas de
batalha, que os entendiam e percebiam sua dor além de seus ganhos, e os próprios
inimigos de batalhas, na qual a disputa era a própria relação.
      Os assuntos que conversa com outros homens são geralmente valores, notícias,
filhos, esporte, carro, temas da vida diária, esposa, vida sentimental e amorosa, mal-
estares, assim como estágios da vida. Aqui o que comentamos a respeito de relações
entre homens no capítulo sobre as relações é válido, visto que cada assunto que Artur
conversa, ele o faz dependendo de que homem está na sua frente.
      Quanto a sua relação com mulheres, afirma que fisicamente, ele é completamente
diferente de uma (reafirmando a questão dos opostos), porém existem aspectos em
comum com algumas delas, como filhos e gastronomia, visto que esta é uma de suas
paixões. Também põe como ponto comum direitos e deveres e reafirma diferenças
                                                                                      103
comportamentais e de atitudes como entregar-se em uma relação amorosa; afirma que
mulheres não se entregam se acreditam que um relacionamento terá fim, enquanto ele
enquanto homem      não age desta forma. Afirma que em função de sua infância,
adolescência e casamento, possui uma carência afetiva vinda do sexo feminino grande, e
percebe-se como um homem com baixa auto-estima. Por isso, ao relacionar-se com
uma, já pensa se poderia conquistá-la ou se ela poderia ser dele. (neste ponto da
entrevista a pesquisadora se sentiu desconfortável; estaria ela na frente de um caçador?
O que percebe-se é que a intenção desta fala não foi apenas explicitar pensamentos, mas
intimidar alguém que o intima, se defender de algo que o faz sentir-se desconfortável:
abrir-se.) Coloca que altera o tom de voz dependendo da aproximação que tem com
alguma mulher. Quanto aos assuntos que ele só fala com mulheres, são relacionados a
sexualidade e sentimentos. Quanto a algo que só fala com homens, é a frase “como
aquela mulher é gostosa”. Diz que já tentou falar isto com mulheres, porém elas não
gostavam, mesmo este sendo para Artur um elogio, e não algo pejorativo. “Elas vêm a
gente como o lobo mau” afirma.
     Quanto à sua relação com sua sexualidade, ele a considera terrível, pois depende
muito de seus estado mental. “Se a cabeça está prejudicada,toda a atividade também
segue o mesmo rumo da cabeça, inclusive a sexualidade”. Afirma que possui uma baixa
auto-estima devido ao relacionamento que teve com seu irmão e pai. Apenas namorou
com uma mulher, e foi com ela que se casou, querendo muito que este casamento desse
certo. Não foi o que aconteceu. Com a esposa atual existem divergências a respeito de
sexo, visto que ela gosta menos que ele das relações sexuais. Uma vez ele disse algo a
ela, e ela se blindou completamente neste aspecto; ele então tem estado entre a espera e
a luta por ela (Porém é possível deduzir que tem perdido várias batalhas, e este é um dos
motivos que o incentivaram buscar terapia no começo do ano passado.).
     Sobre a conquista, Artur afirma que é mútua, pois a conquista em si está dentro de
todo e qualquer ser humano, independentemente do objeto a ser conquistado. Para ele, a
conquista nunca é suprida, e é por esta razão que os homens trocam objeto de desejo
rapidamente; isto inclui mulheres cada vez mais novas e mais bonitas aos olhos da
sociedade, carros cada vez mais atuais, a tecnologia mais avançada. Quanto a eventos
marcantes em seu ciclo vital que o tornaram deste jeito, ele relembra de seu pai, que era
muito envergonhado por ser homem e passou isto aos filhos. “Para o meu pai,
demonstrar masculinidade na frente de uma mulher era muito feio. E isso ele passou
                                                                                     104
para a gente.” Além disso, afirma que não era muito fã de sair até tarde da noite, ou
beber com seus irmãos e amigos. Gostava dos esportes, e era muito tímido com as
mulheres. Namorou apenas uma vez, e casou-se com esta mesma mulher. Diz que
apenas teve relações sexuais com sua primeira esposa 4 dias depois da cerimônia,
“depois de muita falta de jeito” como coloca. Esta esposa não gostava de dormir junto
com ele, o que dificultava muito na intimidade dos dois.
      A relação que faz entre sexo e amor remete muito à idade para este entrevistado.
Ele comenta que se a idade é tenra, o sexo é algo mais importante, e apenas mais tarde
que o amor é descoberto.
      Quanto à relação entre masculinidade e sexualidade nos fala algo completamente
novo: ele se sente extremamente masculino, mesmo que sua sexualidade não
acompanhe seu desejo. Mas ele percebe que na maior parte dos homens, isto é diferente,
que sexualidade muito tem a ver com masculinidade. Comenta que possui sensações até
os ombros, e que quando faz sexo com sua mulher, ela lhe dá beijos no pescoço, nas
bochechas e na parte superior do peitoral e ele sente prazer, e manipula-a com as mãos e
a língua. Comenta que não existe jeito certo de se portar na relação sexual, que é preciso
espontaneidade, sentir as sensações que vem com o prazer. Ele preza como Fábio o
prazer da parceira em primeiro lugar.
      Uma fantasia sexual que cita é a de ver as pessoas que nadam na piscina tirarem a
roupa, o proibido (na questão estética), que chama de “teasing”. Outra que cita é ver
uma situação onde cai um biquíni ou um sutiã de uma moça, ou mesmo quando uma
mulher se abaixa poder ver seus seios ou em posições de ginástica, algo visto de acordo
com a circunstância.
      Afirma que o que uma parceira realmente quer de um homem é segurança
financeira e de bens materiais, visto que as pessoas atualmente são muito ligadas ao
mundo material. “talvez o que as mulheres queiram e não saibam necessariamente, é
amor, mas ela percebe que pouquíssimos homens estão dispostos para dar isso pra ela,
então elas guardam isso no inconsciente, e vão atrás de outra coisa.” Comenta.
      Artur comenta que ao cuidar de seus filhos, não possui uma função enquanto
homem, mas sim como pessoa. Afirma que o relacionamento deveria ser de igual para
igual, um ensinando o outro a viver. Comenta também sobre as expectativas que alguns
pais põe em seus filhos: “você não pode matar seu filho, ele tem a vida dele; se ele tem
a vida dele, ele não poder ter a tua própria vida. Se você impuser a sua vida, o seu jeito,
                                                                                       105
as tuas coisas, é como se você tivesse matando ele”. Comenta que age de forma mais
natural com sua família, e tenta agradar seus filhos fazendo companhia para eles,
ensinando-os sobre as causas e efeitos no mundo.
      Comenta também que existem diferenças cruciais entre filhos e filhas, e que os
dois nunca poderiam ser tratados de modo igual, a não ser quanto a controle, que deve
ser exercido em ambos os sexos. Para o entrevistado, família é um grupo de pessoas que
se amam e que possuem um compromisso uma com a outra, nem que de forma
inconsciente, segundo ele, para formar um grupo que dê sustentação. Artur destaca que
não existe um roteiro específico de como um homem deveria se portar perto de sua
família, e que depende muito da demanda que é apresentada a ele. Para o entrevistado,
as coisas boas de estabelecer uma família são a convivência, e ter contato com as
pessoas que se gosta. As coisas ruins, no entanto, remetem a alguém específico dentro
da dinâmica familiar que possa atrapalhar o relacionamento com os demais.
      Para Artur, o trabalho não possui função edificadora, como para Ramón. Em
contraste, é apenas fonte de renda, e afirma que não gosta de sua função. Quanto às
diferenças entre homens e mulheres em seu ramo de trabalho, estas são várias: para ele,
homens evitam perder tempo, tentam resolver conflitos, fazem menos bagunça e muito
menos fofoca, têm menos medo de chefes ou de perder o emprego. Além disso, acredita
que as mulheres não acham ruim errar, e que estas possuem uma auto-estima baixa de
acordo com a família que tem e, portanto, têm menos medo de perder o emprego. Outra
característica feminina no campo de trabalho é que elas alterariam seu estado de humor
dependendo de elogios ou reclamações, coisa que não acontece com homens segundo
Artur.
      O papel do homem para este entrevistado depende de como ele é se porta no
mundo onde vive. Para ele, um homem que quer ser uma pessoa boa deveria conversar,
debater, explicar e discutir suas idéias. Além disso, coloca que quem constrói os papéis
na sociedade são o transistor, a psicologia e a linha de produção. Isto porque o transistor
aumentou a rapidez das informações, tudo se torna descartável na medida em que o
tempo passa. Além disso, a psicologia ensinou ao marketing como criar e incutir desejos
nas pessoas, então nos tornamos consumistas. Enfim, a linha de produção dita padrões
que deveríamos seguir, lembrando os identikits colocados por Oliveira (2004). Desta
forma, hoje em dia existem várias personagens estereotipadas, e não há mais troca de
papéis, se não as pessoas não se sobressaem em sua área de interesse. Finalmente, o que
                                                                                       106
o faz diferente de outros homens é a coragem de ser do seu jeito, e a vontade de
influenciar as pessoas a seguirem um bom caminho.
     Artur é um homem esclarecido que sente possuir uma missão em vida: ensinar.
Suas características formaram um homem sensível a mudanças em sua sociedade assim
como suas próprias alterações na masculinidade. Ele se percebe responsável pelo seu
filho assim como por sua sociedade, e quer que ela seja mais igualitária.


     Glauber
     Este entrevistado é uma pessoa muito simples, que se veste de acordo com seu
trabalho no dia da entrevista. Ele é zelador de um prédio no centro da cidade, e dessa
forma, acaba morando no centro também. Sua família de origem veio de Taboão da
Serra e seus dois filhos assim como cachorro moram com ele.
     Ele tem 42 anos, cabelos bem pretos, e sempre um sorriso estampado no rosto. Já
fez terapia familiar quando era pequeno, mas atualmente não se encontra em terapia.
Suas pernas estiveram cruzadas em grande parte do tempo da entrevista, e suas mãos
dadas em cima da mesa. A entrevista foi no prédio em que trabalha, sendo este local
escolhido pelo colaborador.
     Para ele, ser homem significa ter caráter, responsabilidade, ser positivo, firme nas
decisões, assumir uma família de modo que a mesma consiga perceber o que o homem
pode trazer, ser fiel tanto à esposa quanto à família, ser responsável, assim como manter
sua postura na educação dos filhos. É também importante para ele que um homem
trabalhe, se sustente e sustente a todos que são de sua família, e mantenha sua postura
masculina, como ele acredita que Deus lhe deu. (É necessário perceber uma visão
criacionista ao olhar para este entrevistado, sendo que em vários momentos ele coloca
palavras religiosas no meio de seu discurso.)
     Uma característica que o faz sentir-se masculino remete à sua sexualidade; por
gostar do sexo oposto ao seu, e por perceber que uma mulher masculina
necessariamente irá gostar do mesmo sexo, há uma mistura de conceitos neste
momento. Além disso, ele acredita que uma mulher masculina possui ou uma
deficiência ou sofreu uma desilusão amorosa para que se sentisse desta forma, e ainda
exerce funções masculinas na sociedade. Outras características que o fazem masculino
são ter respeito pelo próximo, pelas pessoas que ama e ser honesto com elas. Sua
postura muito remete ao que Sullivan(2003) afirma ser uma característica comum sobre
                                                                                     107
o pensamento da sociedade a respeito da relação entre gênero e sexualidade, em como
ele percebe que alguém masculino necessariamente gosta de mulheres e vice versa.
      Quanto à relação entre masculinidades, ele comenta que na frente de um homem,
age naturalmente, sempre respeitando o outro e o espaço do outro. Com seu filho, em
compensação, ele procura principalmente orientá-lo nas questões amorosas e sexuais.
Conversa com seus amigos a respeito de mulheres e faz a seguinte afirmação: “O
homem faz a mulher”, tentando explicar que ao falarem de uma, eles a colocam como
objeto, seja qual for o teor que este objeto terá.
      Quanto ao que o faz diferente de uma mulher, comenta que sua postura e
características físicas o colocam como diferente. Coloca também a seguinte frase:
“mulher tem que ser submissa, frágil, ela é delicada, ela é uma coisa que Deus deixou
para ser companheira do homem, jamais a gente deve se igualar a uma mulher, ela é
algo a ser almejada.”. Para ele, um homem é mais rígido, bruto.
      Já o que faz parecido com uma, comenta que é bem sentimental com crianças,
animais, e diz que é carinhoso enquanto pai, e admite ser frágil nesta parte. Quanto ao
como ele se porta na frente de uma mulher, comenta que “no convívio, uma mulher
querida, quero dialogar e dar atenção, mas fazer sempre valer a última palavra minha,
dentro de um contexto que não venha a ofender, a magoar, uma coisa que venha a ser p/
ambas as partes. Trato ela como ela deve ser tratada, pela fragilidade, pela sensibilidade,
procuro dar carinho, deixando prevalecer minha postura masculina.”. Comenta também
que dependendo da situação, ele só consegue se abrir com outros homens ou outras
mulheres. Um exemplo dado foi traição com o qual só conversa com homens, e nunca
conversaria sobre isso com sua mulher.
      Quanto à sua relação com sua sexualidade, percebe como sendo algo natural, que
depende do momento e é algo que necessita de “clima”. Glauber se considera
heteroafetivo e para ele, o sexo não pode pesar na consciência.
      Em relação à conquista, este entrevistado relata que na época em que namorava, a
conquista era feita por homens, porém hoje em dia, ele acredita que elas também estão
tomando parte desta função. Comenta “que hoje em dia, tanto faz, a mulherada se
igualou muito nos relacionamentos; atualmente, não conquisto nem sou conquistado,
porque estou divorciado, perdi um pouco desta sensibilidade, me tornei frio a respeito
disso, convivo com a pessoa com quem me casei e ainda falta alguma coisa, o perdão e
o “ir para frente”. Segundo ele, houveram momentos de auge com esta esposa, assim
                                                                                       108
como momentos de decisão, quando ele fez a vasectomia aos 28 anos. Comenta que
tinha muita certeza do que queria, e que atualmente não se arrepende, mesmo que seus
médicos na época o alertavam da possibilidade da não-continuação do relacionamento
com a esposa, visto que esta era uma possibilidade a ser alertada.
     Ele, como a maioria dos entrevistados separa criteriosamente amor e sexo: amor é
fidelidade, companheirismo, dedicação, dividir sentimentos e opiniões, respeito,
enquanto o sexo remete apenas ao ato sexual, uma aventura. Quanto à relação entre
sexualidade e masculinidade, revela que a preocupação de ser viril e de gostar do sexo
oposto exprimem a masculinidade, e que estas duas características só trazem a
masculinidade ao sujeito se conjugadas. De acordo com ele, uma parceira espera de um
homem segurança, carinho, companheirismo, fidelidade, garantia de um amor
verdadeiro (principalmente para que haja uma vida sexual abundante), uma vida sexual
saudável.
     Para Glauber, o homem é quem cria os filhos, já que não os gera, e portanto lhes
deve sustento, educação e deve sempre arcar com a conseqüência, visto que no
momento em que põe um indivíduo no mundo, deve sempre pensar nisso. Afirma
também que o pai dificilmente tem tempo para conversar ou dar carinho aos filhos, e
que ele tenta fazer isso com seu filho homem. Já sua filha mulher, deixa à cargo de sua
ex-esposa. Porém percebe que nem todas as famílias funcionam desta forma, e que
depende muito da relação entre o casal para a forma em que vão criar os filhos.
     Comenta sobre as diferenças entre filhos e filhas que seu menino lhe pergunta
sobre sexo, vida amorosa, como lidar com uma mulher. Já sua filha, pede auxílio
monetário assim como uma “opinião masculina” a respeito de roupas, acessórios.
Comenta que esta é mais frágil, carente e consumista que o menino, e que possui mais
afinidades quanto a brincadeiras.
     Para este entrevistado, uma família é um grupo de pessoas que se formou na união
de um homem e uma mulher que residem dentro de um mesmo teto, participam das
mesmas atividades, e ficam juntos, do mesmo sangue da mesma índole, mesma fé,
mesmo caráter, e pode permanecer assim como mudar. Uma função que dá à família é
que ao ser colocada em um currículo, as chances de pegar uma vaga são maiores, que a
família deve formar religiosamente seus filhos, assim como educar e trazer saúde aos
mesmos. Existe uma dinâmica, visto que ela possui movimento e mudanças fazem parte
dela. É como um organismo vivo, se uma parte está ruim, o organismo inteiro sofre.
                                                                                     109
Comenta que seu papel dentro de uma família é orientar, cuidar e sustentar. Visto
que é o pilar da casa, se ele “quebra”, todos “quebram”. Sente-se com necessidade de
ser o exemplo positivo, sendo que ele acaba por ser pai sendo um exemplo. Diz que
deve cuidar, orientar, deve estar atento a tudo e a todos na família e a esposa deve
auxiliá-lo. Glauber afirma que inclusive é responsável por cuidar de sua mãe que tem
Mal de Alzheimer e de seu pai, que tem câncer de próstata, e que não poderia abandonar
seus pais de forma alguma.
     Quanto à relação com o trabalho, comenta que “é uma grande responsabilidade
em primeiro lugar, mas também é algo que me dá caráter, me dá dignidade de sustentar
minha família. Me dedico bastante durante o dia inteiro, existem até críticas quanto ao
quanto eu trabalho, são muitas atividades e tem também os bicos, vivo em função do
meu trabalho. Moro e trabalho no mesmo local, e não abro mão do trabalho em dia
algum. Em 12 anos de trabalho, faltei dois dias por um torcicolo.”. Além disso, comenta
que a atividade profissional estimula sua masculinidade, o faz se sentir honrado, e ser
um pai melhor.
       Afirma que mulheres não são tão responsáveis nem tão dedicadas quanto os
homens em sua profissão, visto que elas trabalham por dignidade, mas se forem
demitidas não há tanto problema, pois ela será sustentada pelo marido, demonstrando
uma visão bem machista sobre as razões de entrada das mulheres no mercado de
trabalho. Diz também que um homem desempregado fica em pânico, diferentemente da
mulher.
       Quanto aos ramos de trabalho mais ou menos adequados a cada um dos sexos,
Glauber coloca que hoje em dia existe uma igualdade maior em relação a isso, mas não
percebe, por exemplo, “uma mulher sendo policial militar”, que Deus não a colocaria lá,
mas ela escolhe de acordo com as possibilidades de emprego que possui.
     Na relação entre homem e sociedade, este entrevistado comenta que o homem
nasceu com papel que possui para mandar, ser superior, buscar estar sempre acima da
mulher, e deve garantir que sua palavra seja sempre a última. Mas (com um sorriso na
boca, e rindo levemente) isto tem mudado um pouco, devido à presidente Dilma
Roussef eleita. Para ele, quem constrói o papel masculino na sociedade é a necessidade,
no decorrer do dia do homem. É ele quem constrói tanto o papel feminino quanto o
masculino. Finalmente, o que o diferencia de outros homens é sua postura, sua vontade
de vencer, sua perseverança e honestidade, segundo ele. Se compara a outros homens
                                                                                   110
comentando que “tem pouco homem, tem muito veste calça” e que são poucos os que
fazem jus às calças que vestem, visto que para este entrevistado, este papel exige várias
responsabilidades.
      O entrevistado agradeceu a entrevista, comentando que tinha sido muito
interessante e logo se despediu.
      Glauber é um homem que é tranqüilo com sua masculinidade, mesmo com as
situações adversas que poderiam perturbá-la. Ele, como Rodrigo, faz questão de
permanecer na masculinidade hegemônica, mas possui esta clareza de forma muito mais
extereriorizada que o outro. Ao mesmo tempo, percebe-se que ele cristalizou seu papel,
ou seja, não percebe outras formas de se relacionar com o mundo a não ser esta, visto
que sua dominância é clara na frente da entrevistadora, e ele poderia ter “floreado”. Isto
só traz mais dados sobre o machismo de nossa sociedade, o quanto ele impregna
pensamentos, trazendo viseiras para outras possibilidades de vivências.


      Mauro
      Mauro é um homem simpático, e sempre está sorrindo. A entrevistadora o
conheceu em um grupo para travestis e transexuais, onde ele foi visitar uma amiga. Foi
muito receptivo para fazer a entrevista, e chegou adiantado ao local onde combinamos.
      Ele fez jornalismo, porém trabalha em área administrativa. Mora com sua mãe e
irmã, e atualmente namora a 6 meses um homem. Diz não ser nada acanhado, e que
gosta muito de falar.
      Ao comentar o que seria um homem para ele, respondeu que ser um homem é a
questão de possuir uma atitude íntegra, séria, cumprir um papel no qual se tem
responsabilidades. Para ele, não têm a ver com o corpo (estatura, cor, etnia, ou outras
características) ou com a orientação sexual, apenas difere de um “moleque”, alguém que
não tem responsabilidades. A postura masculina, de acordo com Mauro, tem muito a ver
com a atitude. Se percebe masculino através de o que as pessoas vêem nele, como elas
“projetam o que elas vêem de mim, pra mim”, características como virilidade presentes
na voz, pêlos, postura, e como ele se coloca diante das situações tendo como
característica relacional sua maturidade, sua visão de mundo, entre outros lados do
fenômeno. Ao ser homem, ele evita demonstrar fragilidade, sentimentos, sensibilidade,
“fazer coisas caracterizadas como coisas de menina”. Afirma que para a masculinidade,
é mais importante prestar atenção no que você não pode fazer, que atitudes permitidas.
                                                                                      111
Uma mulher é masculina para Mauro no momento em que ela evita ser frágil,
vaidosa, e tenta se guiar através de diretrizes determinadas à homens, como usar roupas
mais sóbrias, cortar seu cabelo curto, falar palavrões, fumar na rua, isso a deixa
masculinizada, mais perto dos homens. De alguma forma, e ele relaciona uma mulher
masculina a uma falta de aceitação da feminilidade em contraposição de uma super-
valorização masculina.
      Ao se relacionar com outros homens, comenta que sua sexualidade de certa forma
direciona suas amizades a um mundo LGBT e amigas mulheres ou homens gays.
Aqueles com quem ele se relaciona obrigatoriamente e são héteros são normalmente
colegas de trabalho, na faculdade e em sua casa, e afirma que é difícil a convivência
com estes. Todos os outros amigos são gays. Com os héteros, as conversas são
superficiais e muitas vezes remetem a cultura, enquanto com seus amigos gays, ele os
percebe com naturalidade, e se identifica com eles. Comenta que assuntos abordados
com estes amigos são baseados em sentimentos, impressões mais abstratas,
relacionamentos, ele afirma que é mais fácil possuir intimidade com eles. Com sua
família, relaciona-se superficialmente e de forma distante com seus irmãos, e não
conhece as intimidades da vida deles, e nem eles a de Mauro. Seu pai é falecido.
      Em uma situação onde ele não conhece o outro homem, comenta que fala
bastante, é simpático e não deixa transparecer de forma alguma sua orientação sexual.
      Relacionado a mulheres comenta que as diferenças são extremamente subjetivas, a
não ser a maternidade, a qual ele coloca como um poder, um papel fundamental e maior
que o masculino. Percebe as mulheres como completas, abençoadas, características que
ele não possui. Ao mesmo tempo, percebe as mulheres como “erráticas”, pois o
comportamento é turbulento devido ao foco fragmentado que elas possuem segundo ele.
Possui inclusive um grau de condescendência quando o humor feminino se altera, e
atribui   estas   características   ao   biológico.   Percebe-se   como    mais    estável
psicologicamente que uma mulher, e mais previsível conseqüentemente. Comenta que
no trabalho é muito diferente uma mulher em cargo de comando em relação a um
homem, visto que as mulheres para ele são mais suscetíveis ao meio em que estão.
      Quanto a características físicas, comenta que a pele é diferente quanto à textura, a
fragilidade na pele, as feições femininas das masculinas. O que o faz parecido remete à
questão de falar sobre sentimentos, de estabelecer intimidade ou mesmo ser mais
afetuoso, carinhoso, tentar entender outras pessoas, o cuidado intrínseco às mulheres
                                                                                      112
segundo ele. Ele também se considera muito vaidoso, usa cremes todos os dias, pensa
em dietas, entre outras características.
       Ao se portar na frente de uma mulher, este entrevistado comenta que com cada
pessoa, representa um papel diferente. Isso significa que quando sua mãe esta na sua
frente, por exemplo, ele evita “dar pinta”, se mostra como homem hétero, responsável,
que está sempre pronto para resolver os problemas e é o provedor da casa (visto que não
saiu de casa até este momento) e portanto deve se portar como “o homem da casa”.
       Já com amigas de longa data, ele é o “homem legal”, que vai entendê-las, vai
perceber nuances de cor em uma camiseta, por exemplo, não vai “atacá-las” e sim
respeitá-las. Ele se sente responsável em mostrar às mulheres que existem homens que
discutem, conversam sobre relacionamentos, que são cultos, tentam entendê-las, ao
invés de demonstrar o estereótipo do “homem das cavernas, com o tacape e que bate na
mulher e puxa pelos cabelos”. Afirma, porém, que um de seus maiores problemas
exatamente por isso é receber muitas cantadas de amigas, pois elas se interessam por
ele.
       Diz que já “ficou” com duas mulheres, mas as duas tinham características muito
masculinizadas, segundo o entrevistado. Ele flerta com mulheres desconhecidas, não
deixando transparecer seu desejo por homens, talvez de modo a demonstrar o quanto ele
é passível de ser encaixado em um mundo heteronormativo. Em compensação, não
consegue flertar com homens, é mais retraído nestas situações e normalmente espera
conquista vinda de outrem, nunca de si. Finalmente, comenta que não há nada que só
falaria com mulheres, visto que possui tanto amigos como amigas para os quais ele
contaria tudo. O inverso é verdadeiro, visto que também não possui um assunto que só
dividiria com homens.
       Quanto à sexualidade, ele considera este aspecto como sendo crucial à sua
vivência, e que qualquer âmbito de sua vida se relaciona a como ele se porta
sexualmente. Gosta de vivenciá-la sempre que pode, em situações diversas, desde
livros, filmes, observações no dia-a-dia, etc. Comenta que se sentiria muito desesperado
se perdesse seu pênis, e tivesse que viver sem ele.
       Quanto à conquista, com mulheres ele é sedutor, aquele que flerta e conquista.
“Olha, tá vendo? Eu consigo conquistar até uma mulher!” afirma que é uma forma de se
auto-afirmar, de aumentar sua auto-estima. Em contraste, com homens, percebendo que
o flerte pode ter conseqüências concretas, ele fica sério e é o conquistado da relação.
                                                                                    113
Acredita que como o homem é muito agressivo na conquista e competitivo, prefere “não
entrar no jogo”, não competir, de modo que acaba deixando-se entrar na relação através
do flerte de outrem. Comenta que existe uma externalização dos papéis de dominador e
dominado, e que às vezes muitas mentiras são contadas em razão de uma conquista.
     Os eventos marcantes na sua vida a respeito de sua sexualidade foram alguns.
Segundo ele, a perda de sua virgindade foi premeditada, ou seja, 20 de dezembro 1998,
com vinte anos. Ele tinha marcado que iria a um prostíbulo com um amigo, e este
evento seria à noite. Ele tinha dúvidas sobre o que queria quanto à sua sexualidade. À
tarde do mesmo dia, no entanto, tinha sido marcada com um cara para que ele perdesse
a virgindade com ele. Ele perdeu então a virgindade tanto hétero quanto homoafetiva no
mesmo dia.
     O segundo evento marcante foi quando descobriu que poderia proporcionar prazer
a outro homem, pois tinha problemas com auto-estima devido ao fato de que costumava
ser gordinho, e ficou vislumbrado com esta sua nova possibilidade de ser, alguém que
dá prazer. Comenta que queria fazer isto a toda hora. Todas as suas relações por um ano
a um ano e meio consistiam neste objetivo para Mauro. Este objetivo modificou-se e
então ele teve seu terceiro evento marcante.
     Ele chegou a ter um relacionamento amoroso de seis meses com outra pessoa, o
relacionamento acabou e ele descobriu que seu ex-namorado havia falecido “de HIV”.
“Foi a experiência mais devastadora que poderia me ser incutido, que me bloqueou, até.
Depois que eu fiz isso, eu fiquei desesperado, porque tínhamos feito várias vezes sexo
sem proteção e eu não sabia se ele tinha contraído o vírus antes ou depois que nós
tivéssemos separados.”, desabafa. Fez o teste para saber se tinha pego, mas tinha certeza
que tinha contraído a doença durante meses antes do teste, e descobriu que não estava
com a doença. Não acreditava no resultado do teste, e o fez várias vezes. Passou um ano
inclusive sem nem beijar novas pessoas devido à esta angústia. Depois deste evento, não
consegue mais fazer sexo sem proteção, e mesmo com seu namorado, ele nunca o faz.
     Outro evento marcante foi quando percebeu novamente que poderia fazer sexo
com amor. Afirma que normalmente são assuntos desvinculados um do outro, que ele
não precisaria ser monogâmico para ser fiel. Atualmente isto mudou um pouco, visto
que com este novo namorado, está mantendo um relacionamento monogâmico, devido
ao amor que sente por este (e também é possível supor que pelos problemas de auto-


                                                                                     114
estima do entrevistado, ele pode querer que seu cônjuge tenha a mesma atitude que ele,
ser fiel.).
       Ele relaciona sua masculinidade e sua sexualidade de forma extremamente
conjugada, ou seja, todos os atributos masculinos de seu corpo são aquilo que ele
percebe como atrativo sexual para si, além de que é o que tem a oferecer ao outro, não
conseguiria pensar nestes âmbitos em separados. Além disso, percebe que não existem
regras na hora de exercer a sexualidade, nada é proibido e as possibilidades são
ilimitadas, os limites de atividade/passividade, virilidade. Sua fantasia sexual (que ainda
não realizou, visto que não costuma deixar de realizá-las) relaciona-se a fazer sexo com
vários homens e ter vários espectadores ao mesmo tempo, de forma a se exibir. Afirma
que seu namorado não cogitaria jamais fazer esta fantasia, mas isto não o intimida para
realizar outras fantasias.
       Quanto à relação com filhos, Mauro pensa em não tê-los (nem biológicos nem
adotivos) e percebe que é uma responsabilidade muito grande colocar um filho no
mundo do jeito que ele está. Além disso, não se percebe estruturado suficiente para
trazer uma estrutura a um filho seu. Mesmo assim, um pai deveria tratar seus filhos com
amizade, companheirismo, intimidade e abertura, como um relacionamento ideal, mas
percebe que muitas vezes não é assim na vida real. Acredita que deveria haver uma
igualdade entre os modos de tratar filhos e filhas, quanto a controle, regras e
comportamentos. Mas mais uma vez, afirma que existem muitas vezes diferenças entre
os sexos na sociedade, e tenta fazer com que sua irmã tenha a liberdade que ele mesmo
teve quando pequeno.
       Para este entrevistado, família pode ser separada em duas: a família que se vive e
a família que se fala. A família que se vive é aquela composta pela própria dinâmica
familiar do indivíduo, enquanto a que se fala é aquela representada aos amigos, colegas,
pessoas que trabalham no mesmo ambiente. E ele comenta que se sente dividido entre
estas duas famílias. Sente-se acolhido e ama seus familiares e ao mesmo tempo, sente-se
controlado por eles. Prioriza a família em momentos de festividades, como Natal e ano
novo, porém em outros momentos, prefere passar com seus amigos e namorado. Seu
papel enquanto homem dentro de sua família depende de que lugar ele fala. Como
chefe, ele é o norte, o provedor, que toma conta das tarefas práticas, e é o para-raio, ou
seja, a pessoa que tem como função auxiliar em tudo que está errado. Sente-se que tem a
responsabilidade de ser o exemplo para seus irmãos, de ter caráter, ser pontual, e ter
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responsabilidade. Além de ser o norte, ele deveria se esforçar em ser cuidadoso, mas é
difícil para a maioria das pessoas, um dos papéis para ele se sublima.
      O apoio da família é o ponto forte desta assim como a continuação da mesma,
presente nos filhos. Em compensação, a família demanda dedicação quase que integral
das pessoas envolvidas, o que pode ser um peso e um contraponto.
      As funções do trabalho em sua vida, em relação de masculinidade, são as de
inserção na sociedade através de uma capacidade dele, a integração entre pessoas, mas
isto pouco tem a ver com sua masculinidade em si, visto que o intelecto neste caso é
mais importante que seu gênero ou sexualidade. Sente que sua masculinidade nunca foi
afetada com seus trabalhos, mesmo nos trabalhos anteriores.
      Porém para Mauro existem vários pontos onde uma mulher se diferencia de um
homem em seu ramo de trabalho: a mulher tem um foco alterado segundo ele que
modifica o jeito de executar tarefas, como a falta de pragmatismo delas. A gestão feita
por homens e mulheres são diferente para ele, e isto reflete no ambiente profissional.
Afirma que as mulheres aceitam mais, enquanto os homens são mais objetivos e
resistentes. Percebe que existe muito machismo em seu local de trabalho, visto que
pessoas como ele ou mulheres têm dificuldade de ascender, mesmo sendo ótimos
profissionais.
      O papel do homem na sociedade para este entrevistado é o mesmo da mulher, ser
honesto, íntegro, consciente dos papéis que exerce enquanto pai, filho, profissional entre
outros, ser igual a uma mulher. Afirma que todas as influências que se sofre ao longo da
vida constituem e guiam os papéis masculinos. O que o diferencia enquanto homem
perante a sociedade diz respeito às suas verdades, e capacidades, e que estas estão
abertas a quem quiser ver.
      Mauro é um homem que procura ser o mais liberto possível de amarras que
possam surgir dentro de sua masculinidade, porém algumas coisas o engessam, como a
falta que seu pai fez quando faleceu, criando um Mauro preocupado em participar dos
padrões sociais familiares, profissionais, etc. Percebe a mulher não como sendo
complementar, melhor ou pior, mas sim completamente diferente do homem, e isto
baseia sua relação com elas. Sua auto-estima muito influi em seu papel masculino no
exercer da sexualidade assim como na vida profissional, e a relação que faz dos papéis
só completa o que pensamos a respeito das várias masculinidades.


                                                                                      116
Capítulo V – Discussão


      Neste capítulo, iremos unir as informações da análise nas entrevistas e a teoria que
se encontra no capítulo I e II, de modo a perceber como as duas se relacionam. As
categorias relacionais que utilizamos para as entrevistas aqui são extremamente úteis,
visto que elas dividem ao mesmo tempo em que compreendem as várias possibilidades
de liaison masculina.
      É importante ressaltar que as inúmeras leituras das conversas com os homens
demonstraram a abrangência do instrumento, visto que nenhum dos entrevistados sentiu
que “faltava” algo; melo contrário, em algumas situações eles inclusive relatavam o
quão minuciosa era a entrevista. Desta forma nos utilizaremos dos temas para abordar
tais reflexões.


      V.1 –Relação entre homem e sociedade.


      Como pudemos observar e compreender, realmente a frase de Maciel Jr. (2006)
que comentamos no começo também se baseia na realidade; as masculinidades se
mantêm em constante movimento e isto se evidencia não apenas na teoria, como na vida
de nossos entrevistados. E é realmente impossível perceber a masculinidade sem que ela
esteja em relação, ela expressa-se apenas desta forma, e da maneira como as pessoas
sentem estas relações.
      Estando no período histórico da pós modernidade, é crucial evidenciar dados
como o consumismo (tanto de “mulheres objetos” quanto de sexos masculinos para uma
maioria dos homens homoafetivos), uma sociedade hierárquica e que além de ter
direitos e deveres iguais entre iguais (isso obviamente não exclui o fato de que nossa
sociedade agrupa alguns pelos graus de igualdade), possui o sofrimento como
característica coletiva, assim como uma busca por identificação às vezes mesmo para
atenuar este sofrimento. E apesar de nosso mundo ter mudado bastante, nossa mente
mantém padrões anteriores, como percebemos em Patrício, Carlos, Cássio, Frederico ou
Marcel. E isto nos dá dados que confirmam o que Dorais(1988) diz a respeito da
masculinidade. Ela, como está atualmente, é atuada de modo completamente diferente
de como as pessoas a pensam e um exemplo claro disso é o depoimento de Maurício,
cheio de contradições entre pensamentos e ações.
                                                                                      117
O que se percebe ao falar com Joe e Mateus, assim como o conjunto de
entrevistados é que a masculinidade é tão fluida quanto a pós-modernidade de Bauman:
suas inúmeras possibilidades se mesclam em pessoas, e é impossível pensar em um
representante modelar para estes indivíduos.
     Existe o ideal do homem verdadeiro, daquele que é ativo, dominante, viril. Mas o
ideal não existe enquanto pessoa. Todos os nossos entrevistados são desviantes de
alguma forma, o que nos faz pensar que o desvio é exatamente a masculinidade
hegemônica, a que foge da norma no sentido estatístico de maior freqüência de eventos
continua. Mas ao ser algo buscado ainda por muitos homens (por que outros não mais a
procuram conscientemente), a masculinidade hegemônica encontra suporte nas
instituições que regem nossa sociedade. Para Artur, por exemplo, quem rege o papel
masculino na sociedade é “o transistor, a psicologia e a linha de produção”, explicando
que o transistor faz com que as informações sejam mais rápidas, a psicologia é utilizada
para criar o desejo das propagandas e do marketing e a linha de produção fez com que a
sociedade se padronizasse, e para ele são estas características que simbolizam a
masculinidade atual.
     Já Gustavo acredita que este papel é construído e reproduzido pelas pessoas, tanto
homens quanto mulheres, e é mantido por ambos também independentemente do gênero
com o qual se identifiquem. Cada um dos entrevistados vê facetas deste papel, mas sua
origem para eles é desconhecida. Apontam que, inclusive, alterações no meio ambiente
podem causar mudanças no modo de pensar dos indivíduos.
     O fato de Dilma Roussef ter ganhado as eleições foi de extrema relevância para
vários de nossos entrevistados quanto ao papel do homem na sociedade, visto que ela
representa mais um passo para a igualdade de gênero para muitos deles (apesar da frase
sarcástica de Glauber ao afirmar que ela será uma boa governanta para o país ao
exemplo de Lula). Mas é evidente que ela será marcante na história brasileira quanto às
relações de poder exercido.
     Algo que também remete ao homem público é a dificuldade do mesmo em falar
de suas diferenças em relação ao papel hegemônico de masculinidade. Não foi nada
fácil a Artur e Fernando falarem de suas deficiências físicas, ou mesmo para Márcio
demonstrar seu desejo por homens, mesmo na frente de seu namorado.
     Assim como existem estas dificuldades, existe uma exigência social que homens
devam demonstrar status e capacidade de acordo com o que aquela sociedade específica
                                                                                    118
preza. Não é à toa que pelo menos metade dos entrevistados não deixou que a
entrevistadora pagasse o café, ou que Artur e Fausto pratiquem esportes
competitivamente. É preciso, de modo que eles se sintam confortáveis em sua situação
enquanto homens, que eles demonstrem atributos valorizados, como força física ou
poder aquisitivo.
      Já características que não são vistas como positivas para nossa sociedade são
escondidas, como ocorre com Mauro, que inclusive seduz suas amigas e não “dá
pinta”28, além disso a heteronormatividade foi reforçada em sua vida em vários
momentos, embora sinta desejo por homens. Sua história é muito interessante neste
aspecto, pois no mesmo dia em que perdeu a virgindade com um homem, também o fez
em outro momento com uma prostituta contratada por amigos seus, incentivando-o a
seguir padrões heterossexuais.
      Como comentamos anteriormente, nossa sociedade se fecha para pessoas que são
diferentes da maioria, que são excluídas, arcando com o peso dos preconceitos. Luís
sentiu muito isto ao ir para a prisão ou mesmo ao ter sido rechaçado em baladas GLS
quando andava com sua ex-esposa, uma travesti e experiências como estas em sua vida
o marcaram muito enquanto pessoa. Maurício também sofreu preconceito ao falar para
seus pais que era homossexual, sofrendo até agressões físicas de seu pai, e agressões
verbais que deixaram escaras em seu modo de ser. Mas em algum momento, eles foram
em frente e viveram suas vidas, plenamente, como desejavam.


      V.2. A relação do homem com sua família.


      A aceitação familiar, para muitos deles é fator decisivo para saúde emocional.
Mauro se baseia completamente na felicidade de sua família para escolher seu caminho,
e Luís ao sair da prisão, sentiu-se muito só percebendo que sua família não queria mais
nada com ele. A aceitação das mães de Juliano fora tão crucial para sua mudança de
fenótipo que ele sente -se grato todos os dias quando pensa no apoio que elas lhe dão,
evidenciando o fator de apoio psicológico que a família pode lhe proporcionar.
      A família também tem papéis muito importantes na auto-aceitação de certas
características por parte de cada um de nós. Em caso positivo, quando Gustavo obteve a
28
  “dar pinta” é uma expressão comum entre a comunidade LGBT brasileira, que significa demonstrar
comportamentos marcadamente femininos em nossa sociedade, ou mesmo demonstrar em peças de roupa,
acessórios ou atos sua homossexualidade.
                                                                                            119
aceitação de seus pais a respeito de seu gosto por mulheres (lembrando que este é um
homem trans, e que seus pais na época o viam como mulher), isto o tornou mais
confiante.
     Em compensação, existem as exceções como Eduardo, que se sente muito melhor
depois que deixou sua casa e não mais dá satisfações aos pais. Ele se vê como sua
própria família, com quem ele pode contar e refletir sobre si mesmo.
     Também outra possibilidade de pensar a família é a de pais homoafetivos, que é o
que Maurício gostaria de ter, ou mesmo o que Álvaro possui, ao falar de sua afilhada.
As questões aqui são as mais diversas, desde a fala de Maurício a respeito de arranjar
uma amiga lésbica para ter filhos biológicos, ou mesmo a adoção que o namorado de
Eduardo gostaria de ter. São questões extremamente relevantes se pensarmos nas novas
constituições familiares que percebemos cada vez mais em nossa sociedade.
     Ao pensar nas crises familiares... Realmente nos detemos aqui, pois todos os
nossos entrevistados possuem ao menos um problema sério de relacionamento com os
pais, que não se tratam de crises normativas, de algum modo previsíveis. Para a sua
superação, é necessário mobilizar os recursos existentes ou criar novos recursos,
pessoais ou advindos do meio. Alguns são gerados por ocasião de maior vulnerabilidade
e portanto de risco a disfunções psicológicas ou mesmo físicas. Uns devido à revelação
da homossexualidade, como Maurício e Márcio, possuem conflitos com sua família.
Outros devido à crises com a parceira como a traição de Glauber, doenças que afetam a
dinâmica familiar como a esclerose múltipla de Fernando, divórcios como Artur, a
morte do pai de Mauro, entre várias outras, que mudam o equilíbrio desta galáxia com
planetas em órbita. Cada um teve seu jeito de lidar com estes fenômenos comuns à vida
moderna ou não. Alguns voltaram-se à religião, outros se tornaram chefes de casa, e
ainda outros remoem todos os dias este acontecimento em suas vidas. Mas estes
marcam a todos eles pois nenhum deles se resolve em um passe de mágica.


     V.3. A relação entre sexualidade e masculinidade.


     Quando pensamos a respeito da relação entre gênero e sexualidade, também
vemos vários conflitos que afloram. O caso de Artur nos ajuda muito a entender o
quanto estes âmbitos estão separados, mesmo se interceptando. O fato dele se achar
muito masculino não possuindo uma sexualidade convencional nos ajuda a explorar este
                                                                                  120
tema, que é o X da discussão sobre o que percebemos como senso comum na sociedade.
O fato de Mauro ser homoafetivo e de ser extremamente másculo, assim como
Maurício, também demonstra que masculinidade não se liga necessariamente à uma
sexualidade heteronormativa, viril, falocêntrica. Além disso, existe grande dificuldade
de alguns homens em abrir informações sobre suas sexualidades, como se este aspecto
vital fosse profundo suficiente para significar obscuro.
      É importante salientar que ao falarmos de uma sociedade que se baseia em uma
masculinidade falocêntrica, poderíamos imaginar que todos os homens trans deveriam
almejar a neo-faloplastia. No entanto não é o que ocorre na prática. Tanto Gustavo
quanto Juliano, por exemplo, expressaram com todas as palavras que esta não é uma
ambição para eles. Não apenas isso, mas eles ainda colocam que tal tipo de cirurgia não
deveria ser feita, tamanha é a invasão e as possibilidades de erros que a mesma pode
acarretar. Em compensação, Patrício afirma que só terá relações sexuais depois desta
cirurgia: percebe-se grande diversidade de olhares para a mesma questão entre eles.
      Outra característica que percebemos é que o homoafetivo viril é mais valorizado
perante outros homens, inclusive pelos de mesma opção sexual, colocando inclusive
apelidos naqueles que não são desta forma. A quantidade não tem a ver com a virilidade
necessariamente neste aspecto, mas o quanto este homem possui características
marcadamente masculinas em seu porte físico, modo de falar ou andar, entre outros
atributos.
      Além disso, depois de períodos de ascensão e queda, a homoafetividade hoje é
razoavelmente aceita em nossa cidade, claro que dentro da “redoma” LGBT (Ainda se
percebe que o “gueto” existe, a exemplo das falas de Maurício, mas que ele causa uma
sensação de tranqüilidade e bem estar, e portanto, não exige que as pessoas que
freqüentam este grupo procurem outras vivências.). É importante salientar que fora
deste grupo, é impossível não perceber o preconceito e os vários obstáculos que jovens
homoafetivos ou transexuais ainda tem de suportar. Mas muito mudou, visto que nossos
entrevistados foram tranquilamente exercer seus desejos bem jovens, (com raras
exceções, como Eduardo e Álvaro) e a maioria das famílias aceita bem este fato, caso
não seja muito religiosa.
      Existe também uma característica muito peculiar a respeito da atividade e
passividade no sexo homoafetivo: não existe para eles apenas uma forma de ser gay;
alguém pode ser passivo (gosta de ser penetrado) e dominado (gosta que lhe dêem
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ordens), passivo e dominante (gosta de dar ordens, definir o trajeto da relação sexual),
ativo (gosta de penetrar) dominante ou dominado, como nos explicou Maurício. E
segundo ele, muitos desta comunidade se baseiam nisso inclusive para escolher seus
parceiros com maior tempo de relação como é o caso de Álvaro que continua depois de
20 anos com o mesmo homem. Aí percebe-se muito que os padrões heteronormativos
de imposição de poder se mantém mesmo em casais homoafetivos, existe, como afirma
este mesmo entrevistado, “a mulherzinha e o homenzinho da relação”, onde o penetrado
ou passivo é visto como inferior, o subordinado, e aquele que penetra, e é dominador, o
chefe da relação.
     Além disso, percebe-se que casais homoafetivos possuem maior intimidade que
casais heterossexuais, vide os casos de Jaques, André, Maurício (com seu ex), Mauro e
Carlos, o que concorda com o que Kimmel (2000) comenta a respeito deste grupo.
Acredita-se que isto se deve ao fato de que há uma busca por uma relação mais
igualitária, não existem papéis rígidos a serem seguidos na relação e isto vai de encontro
com um respeito maior dos parceiros uns com os outros.
     Quanto à relação homossexual em várias idades, podemos perceber com Eduardo
(que tem 21 anos) um foco na sexualidade enquanto relação sexual. Já Álvaro (com 50)
comenta que não há mais tanto fervor quanto havia antigamente com seu parceiro, mas
outros sentimentos afloram com maior intensidade, como companheirismo, intimidade,
respeito, entre outros. A iniciação de jovens gays não se dá necessariamente por homens
mais velhos também como se pensava anteriormente. Com o advento da internet e das
boates GLS extremamente acessíveis a todos os públicos, homens como Carlos,
Maurício ou André tiveram toda a liberdade de logo resolver seus desejos, sem a
necessidade de que alguém lhes mostrasse algo.
     A relação entre amor e sexo é algo unânime: são dois sentimentos que existem em
separado, e de vez em quando, andam juntos. Mesmo que o que um/a parceiro/a queira
de um homem amor e carinho, não necessariamente será o que vai acontecer na relação.
O que observamos a respeito da cultura árabe também é demonstrado em nossa
sociedade a respeito da relação entre sexo e amor: não existe amor se o sexo inexiste,
com exceção do que dizem Artur e Patrício, que não exercem sua sexualidade de forma
convencional, e amam suas esposas.
     Algo que Artur comenta e é extremamente importante quando pensamos na
sexualidade masculina remete à conquista. Se pensarmos nesta questão à luz de
                                                                                      122
Kimmel(2000), nossa sociedade coloca que as mulheres devem ceder aos encantos
masculinos, enquanto os homens devem conquistar. Esta, característica normalmente
atribuída por nossa sociedade aos homens, de acordo com vários entrevistados com
Artur é vista como sendo algo muito próprio da humanidade, e não de um gênero
específico. Para este colaborador da pesquisa, ser humano é desejar, e portanto
conquistar quando lhe é possível. Não especificamente algo de um dos parceiros.
     Aliás, as fantasias masculinas colocadas pelos nossos entrevistados foram das
mais diversas possíveis, desde fazer sexo dentro de um frigorífico a sado-masoquismo,
passando por fantasias de enfermeira até em praias desertas ou mesmo orgias. Apenas
um falou de uma personalidade famosa, não foram nem um pouco descritivos e citaram
cenas, mas não colocaram situação que levasse ao ato. Kimmel(2000) neste ponto não
concorda com o que nossos colaboradores dividiram conosco, o que nos faz pensar que
nossa amostra difere da pesquisada por ele. Isso só prova o quanto a masculinidade e
sua relação com a sexualidade é diversificada.
     É essencial comentar que na masculinidade heteroafetiva existe uma preocupação
com virilidade, mesmo que as mulheres não exijam diretamente este aspecto. Eles
mesmos se cobram muito serem sempre “prontos ao ataque”, e em casos como o de
Artur, é algo que ele não se sente bem em comentar. Mas a grande maioria lida bem
com este valor hegemônico.
     É verdade que muitos casos persistem em manter com unhas e dentes o ideal
hegemônico de masculinidade, como Glauber, Patrício ou Fausto. Eles querem possuir
controle emocional, controle sobre suas esposas, controle sobre a sociedade que lhes
deve respeito. Mas Fábio já afirma o quanto é pesado ter que se manter “durão” o tempo
inteiro, o fato de que homens precisam manter uma pose a maior parte do tempo. Este,
por exemplo, afirma o quanto a sensibilidade, antes do campo feminino, deve entrar no
mundo globalizado tanto em razão ao meio ambiente, quanto na questão da
sustentabilidade humana. Gustavo concorda com este participante, afirmando que ao
esquecer que todos temos características femininas e masculinas, estamos nos fechando
para o mundo em que estamos, diminuindo a gama de seres humanos que podemos ser.
     Quanto a homens transexuais homoafetivos, não conversamos com nenhum
durante a pesquisa, porém em redes de relacionamento na internet isto é até bem
comum, não apenas fora do Brasil, mas também por aqui. Inclusive é algo que alguns
homens trans comentaram na pesquisa; que homens trans homoafetivos existem, porém
                                                                                  123
muitos não querem “sair do armário”, visto que já são masculinidades que se
consideram subordinadas e não gostariam de serem percebidos com mais um fator que
possivelmente poderia subordiná-los ainda mais.
      Um dado muito interessante que renderá muito provavelmente pesquisas
posteriores é que todos os homens trans com quem se teve contato já tinham uma taxa
de testosterona mais alta que de uma mulher mesmo antes de começar a transição.
Hipóteses são incontáveis para este resultado, como o funcionamento cerebral da pessoa
gerenciado a maior produção deste hormônio, ou a superprodução deste hormônio
devido a uma alteração congênita, mas é algo que vale ser explorado em pesquisas
posteriores.
      A grande maioria dos homens trans comenta o quanto o corpo feminino é ligado à
maternidade. Isso pois fenômenos como a menstruação e as alterações hormonais antes
da transição são extenuadamente agressivos à estas masculinidades, então muitas vezes
comentam que não desejam este fim a ninguém, muito menos a eles próprios, como
afirmam Caio e Luís ao darem o exemplo de um homem trans que engravidou.29
      Algo também curioso sobre os homens trans é que em alguns casos, assumir-se
trans depois de assumir-se homoafetivo é um alívio para os pais, pois existe um motivo
para que aquela pessoa goste do mesmo sexo biológico com o qual ela nasceu. Mas isto
não é regra, como no caso de Caio, que mudou de Brasília para o Rio de Janeiro, e
depois para São Paulo para começar o tratamento. Seus pais não o entendiam, e os
conflitos eram constantes. Neste caso, a ocupação profissional foi um ganho de
independência, tal como foi para Renato. Também foi espaço de convivência com
outras pessoas, muito importante inclusive como suporte para a construção da
identidade masculina.




      V.4. A relação de homens com homens.


      Se pensarmos nas relações entre homens, percebe-se a estratificação dos gêneros
muito marcada. Homens héteros não conversam com gays e vice-versa. Homens que
possuem certo estigma possuem menos possibilidades de amizades com outros homens,

29
  Thomas Beatie, um homem transexual estadosunidense, engravidou em durante os anos de 2009 e
2010, dando à luz a 3 filhos. Ele é considerado um dos primeiros homens a engravidar.
                                                                                         124
como é o caso de Artur, e acabam tendo mais amizades com mulheres, como Gustavo,
Mauro ou Fernando, talvez devido ao fato do que Connell (2005) comenta sobre os
tipos de relações entre homens, onde há espaço para a amizade e respeito, ainda que de
acordo com as normas ditadas pela sociedade sobre submissão e dominação.
     Também é perceptível o valor que os homens dão à seus amigos, como podemos
perceber em Fábio e Juliano ao falarem de seus “ companheiros de batalha”. São
pessoas que estão presentes em qualquer caso, faça chuva ou sol, e muito remetem ao
ideal de companheirismo medieval. Mesmo em relacionamentos homoafetivos,
podemos ver uma relação que se baseia em direitos iguais às partes, como no caso de
Jaques.
     Em relações que não a de amizade, muitos não percebem relações de hegemonia
entre suas masculinidades e outras, como Juliano ou Cássio, e muitos se subordinam à
norma vigente de modo a manterem-se hegemônicos, como Álvaro ou Marcos, ou
mesmo Artur, que tenta “apesar” de possuir uma deficiência física, ser um engenheiro
fantástico, de modo que haja uma compensação e negociação das relações através do
status social. A profissão, neste aspecto, é campo fértil das relações de subordinação e
dominação presentes nos campos relacionais masculinos, e no caso de Artur, que possui
uma profissão que é vista como hegemonicamente masculina, este dado pronuncia ainda
mais sua busca por aceitação.
     Além disso, os assuntos abordados entre eles dizem respeito aos temas
mencionados pela teoria, (mulheres, negócios, futebol, carros, entre outros) e dependem
muito do público que irá ouvi-los. Também é importante citar que eles comentam sim
sobre seus sentimentos com amigos, caso os tenham desde tempos anteriores a vida
adulta, como são os casos de Juliano, Artur, Maurício e Glauber. Aliás, nenhum de
nossos entrevistados gosta de jogar futebol ou mesmo assistir aos jogos constantemente,
nenhum era “fã de carteirinha” de time nenhum, o que nos faz perguntar então por que
eles falam disso com outros homens, ou mesmo assistem os jogos com seus amigos ao
invés de ir tomar um café, ou fazer outro esporte.
     De acordo com Artur, existem dois modos de um homem agir na frente de outro
homem: ele pode agir de modo seguro, quando ele percebe-se acolhido pelo outro
homem e não há por que esconder sentimentos e conflitos, ou ele pode agir do modo
inseguro, precisando provar-se melhor na frente de qualquer pessoa, tanto homens
quanto mulheres, e para isso não medirá esforços. É nesta definição que
                                                                                    125
compreendemos os times de futebol, existe um desejo por parte dos homens de serem
melhores, e nada mais simbólico que o esporte nacional para demonstrar tal hegemonia
sobre outrem.


     V.5. A relação do homem com seus filhos.


     Ao falar sobre as relações de pai e filho, é importante citar que existem raras
exceções como Joe e Artur enquanto pais, e a relação entre Cássio, André e Ramón com
seus pais, onde há demonstrações de carinho. Homens como Fábio ou Juliano nem
foram criados pelos pais, outros sempre se deram mal com eles, como Maurício ou
Márcio. Pode-se dizer que as relações entre pais e filhos estão um pouco diferentes do
olhar de Dorais (1988), mas ainda percebe-se que muito precisa ser mudado, e isso é
presente na fala destes homens quanto ao papel de pai.
     A maioria dos entrevistados afirma com veemência (a não ser Fernando) que o
papel de pai vai além do suprimento material das necessidades de um filho, mas que
muito tem a ver com a educação e carinho, respeito e brincadeiras. Além disso, eles
também colocam que existem jeitos diferentes de tratar filhos e filhas, mas a educação
deve ser a mesma para os dois (salvo Fernando e Márcio).
     Um fato interessante neste âmbito é que muitos de nossos entrevistados não
querem ter filhos, vide Rodrigo, Fábio, André, Fernando, Luís, Carlos, Eduardo, e
Jaques. E inclusive, alguns os teriam por suas esposas, como Gustavo e Cristiano, mas
não teriam filhos se estivessem sós. Uma relação possível a este fato é que não existe a
vontade de muitos deles de passarem seus valores (inclusive sobre ser pai) a futuras
gerações. Isso não significa que não possuem um ideal de pai, afinal eles mesmos
tiveram um, presente ou não.
     Um olhar diferente dos demais foi o de Eduardo que comenta que não precisa ter
filhos para possuir uma família, coisa que outros entrevistados não verbalizaram e que
muito vai de encontro à visão de família atual, fluida e diversa, onde o intuito
primordial já não é mais possuir uma prole.
     Outra questão abordada remete ao fato de que nossa sociedade coloca que o filho
deve obedecer ao pai sempre que possível, ao patriarca legítimo. No caso de André, que
possui três pais, quem é o patriarca de sua família? Seu pai biológico que bebia? Ou o
atual, que faz tudo o que sua mãe quer? De qualquer forma, ele se dá bem à sua maneira
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com os três, mas é muito complicado pensar em um modelo de família tão antigo que
não mais corresponde à atualidade ainda orientando as escolhas de “quem deve mandar
na casa”. Mais uma vez é sumário relembrar o que Hime (2004) comenta sobre a
sobreposição de pensamentos e ações que necessariamente irão destoar: os preceitos
anteriores demoram mais tempo para se alteraram em comparação com as atitudes e os
comportamentos.


      V.6. A relação entre homens e mulheres.


      Quanto à relação de homens e mulheres, muito mudou da relação de amor cortês.
Aos dias de hoje elas até podem ser vistas como objetos, tanto de desejo quanto de
endeusamento, mas também pode ser uma grande amiga ou companheira, aquela para
quem se mostra todas as facetas. Mesmo na relação sexual heterossexual, muito mudou,
como é o que aparece no depoimento de Fábio, que fala que a mulher pode ser ativa (e
as vezes deve) tanto quanto qualquer pessoa na relação. O amor ainda é buscado, mas
de modo romântico, como é o caso de Gustavo, Ramón, Patrício e Fernando ao
buscarem alguém que os complete, que some suas características às deles.
      Ainda se atribui à feminilidade a fragilidade e a sensibilidade em muitos
momentos, e é pejorativo se um homem as tiver aflorado. Em compensação, quanto à
característica de flexibilidade uma vez atribuída às mulheres, hoje em dia é muito bem
vista pelos homens, tanto em relação a regras sociais, ao trabalho e nas relações.
Inclusive, a flexibilidade nos modos de se portar no mundo é algo relacionado à
inteligência.
      Segundo os colaboradores, uma mulher masculina possui uma característica
básica, que muitos não souberam exemplificar com palavras, apenas com gestos e
expressões: postura. Segundo eles, a postura masculina pode deixar uma mulher
masculinizada, como usar roupas masculinas, falar palavrões, andar como um homem,
ou mesmo “coçar o saco”, mesmo que este inexista. Houve exceções como Maurício,
que comentou que mulheres que se atiram demais no mercado de trabalho, ou que não
querem ter filhos são masculinas (o que traz à tona dados sobre quanto uma mulher para
Maurício deveria estar no mundo privado, e não no público), ou mesmo Glauber que
relaciona masculinidade em uma mulher com o fato de ela gostar de outras mulheres
(que exemplifica a confusão feita em nossa sociedade a respeito da relação entre gênero
                                                                                   127
e sexualidade). A maioria percebe que existe algo de diferenciado entre homens e
mulheres, no jeito em que a masculinidade e a feminilidade são atuados, mas não coloca
estes como pejorativos necessariamente, com exceção de Glauber e Cássio.
     Os homens entrevistados possuem amigas, em exceção de Fernando e Glauber,
daquelas de se contar absolutamente tudo. Inclusive, a maioria dos homens
homoafetivos preferia ter amigas mulheres, assim como os homens trans. Comentam
que com elas, normalmente ficam mais tranqüilos para expressar seu interior, coisa que
não acontece, por exemplo, com uma mãe. Neste caso, muitos mudam tom de voz, e
evitam falar palavrões. Esta segundo Rodrigo, é assexuada, santa e deve ser protegida a
todo custo de outros homens. Já não foi o que aconteceu na família de André, onde ele
reconhece três pais, maridos de sua mãe em momentos diferentes. Mas em si, um dos
possíveis motivos para que os homens mudem sua postura na frente de suas mães é
medo de não ser aceito (se cruzarmos com a relação entre mãe e criança, os filhos
tendem a querer ser aceitos pelos familiares, em especial a mãe), ou mesmo a falta de
confiança na mãe para entenderem quem são, como é o caso de Eduardo, que evita falar
sobre sua vida à mãe pois “ela não entenderia”, segundo ele.
     A relação entre homens e mulheres é extremamente complexa, e é muito
dificultoso explorar todos os dados que nos fora passado neste ramo de relações,
principalmente porque as próprias entrevistas se deram em relação entre homem e
mulher, e muitos dados são de difícil acesso neste caso.


     V.7. A relação entre homem e trabalho.


     Um aspecto que tínhamos a impressão de achar mais dados do que realmente
foram encontrados foi a com o trabalho. Eles logo mudavam o assunto, falavam pouco,
com exceção de Ramón, Jaques, Caio Glauber e Álvaro. A maioria falou que é apenas
um meio de subsistência, algo que traz “dinheiro” para casa, e pouco tem a ver com a
masculinidade. Porém, visto que a menos de meio século atrás o papel
predominantemente masculino era atuado no mundo público, se faz necessário que
levantemos esta questão, mesmo que para contextualizar-mo-nos em relação à
masculinidade atual.
     Pudemos perceber poucos de nossos entrevistados em profissões em que eles se
sentem realizados, como Jaques, Álvaro ou Fernando. E a não ser Fernando, nenhuma
                                                                                   128
destas profissões é de destaque como profissões idealmente masculinas, como podemos
ver na tabela de entrevistados do anexo IV.
     Outra questão que talvez nos auxilie a observar a relação entre homens e trabalho
é que vários entrevistados comentaram que suas esposas (ou mães) ganham mais que
eles, e isso não é vivido de forma negativa, vide Fábio, Gustavo ou Caio, o que talvez a
algum tempo atrás seria motivo de fracasso profissional. Outra possibilidade atual é a
do trabalho dentro de casa, vide Gustavo ou Artur, que fazem seu serviço estando dentro
de casa, e isso altera em muito a dinâmica familiar.
     O trabalho exerce funções importantes na vida destes homens como afirma
Ramón, mas qualquer mulher poderia realizar-se tanto quanto ele em seu trabalho,
tornando-o parte de sua identidade, fazendo-o fonte de rede social ou mesmo de auto-
afirmação.


     É importante evidenciar que os homens ainda fazem muito pouco esforço para se
auto-conhecerem, mesmo sofrendo, e não são ávidos em procurar as psicoterapias como
principal objeto que aplaque angústias. De nossos entrevistados, 5 estão fazendo terapia
atualmente de forma obrigatória, (a não ser André, que é psicólogo e faz terapia desde
os 15 anos de idade) devido à transição comum ao tratamento efetuado pelos homens
transexuais.
     Porém a mesma é efetiva, como visto no caso de Artur e Luís, que conseguiram se
perceber melhor no mundo mesmo depois de pouco tempo em processo terapêutico
(Artur, por exemplo, esteve apenas 6 meses em terapia, e ele afirma que esta muito
mudou sua vida.). A associação de terapia com demonstração de fraqueza é uma
resposta possível para este resultado, assim como a crença social de que existe uma
imutabildade de caráter, como explicitamos na revisão bibliográfica, porém, esta
questão não se esgota e deve ser aprofundada em trabalhos posteriores, devido à riqueza
de detalhes que este dado pode trazer ao trabalho psicoterápico com homens.




                                                                                    129
Capítulo 6 – Considerações Finais
     Pode-se dizer que este trabalho foi extremamente difícil. Acredito que a pior parte
foi terminá-lo, do jeito em que está para ser entregue. Prazos são prazos, porém se
pudesse, haveria muito a modificá-lo. Sempre falta algo, ou por que está incompleto, ou
porque percebemos novas facetas de nosso trabalho. Reconheço-me em pessoas que
dizem que é impossível chegar na inteireza de um fenômeno, mesmo se você o vivencia.
Minha angústia é de não captar mais em menos tempo. Um tema tão apaixonante como
este me tocou de tal forma que é impossível olhar para os homens da mesma forma.
     Em primeira instância, pensou-se que sendo a entrevistadora uma mulher, os
homens não se abririam. O engano foi tal que vários entrevistados se comunicaram com
a entrevistadora inclusive depois da entrevista sobre assuntos complicados para eles,
assim como para convidá-la para um café com outros que passam pela mesma situação.
Como afirma Maciel Jr. (2006), é preciso “quebrar o gelo” antes da conversa e é dessa
forma que muitos demonstraram posturas de conforto com a pesquisadora. Então, é bem
provável que a característica de diferenças de gênero não tenha sido marcante quanto à
vinculação dos colaboradores com a entrevistadora, e sim a forma como a relação se
constrói. Muito foi aprendido com cada um dos entrevistados, tanto neste aspecto como
em outros.
     O que foi possível apreender principalmente é da universalidade das diferenças,
mesmo que em massa nós os percebamos como estáveis e parecidos entre si. Eles são
apenas humanos. Eles dominam ou não, pensam em sexo ou não, sentem-se úteis no
trabalho ou não. Como qualquer possibilidade humana. Assim como o gênero não
constitui sexualidade ou sexo, também não vai definir comportamento ou modo ser e
sentir. Nossas complexas vidas nos tornam o que somos, não apenas o que a sociedade
nos impôs necessariamente.
     É bem verdade que a masculinidade hegemônica existe, e ela permeia homens em
todos os âmbitos de alguma forma. Inclusive, em algumas entrevistas, a pesquisadora,
ao ter uma postura que vai contra estes princípios, se sentiu agredida pelos
entrevistados, porém, respeitando a individualidade dos sujeitos, ela ficou quieta e as
entrevistas seguiram, de modo a respeitar a opinião do entrevistado, e para que ele se
sentisse confortável para expressar esta opinião. Mas este machismo também permeia
mulheres, e hermafroditas, e qualquer outra forma de expressão sexual. A
masculinidade hegemônica permeia a sociedade inteira, assim como a instituição da
                                                                                    130
família e da religião. Cabe ao ser humano perceber o que fará com estas instituições,
deveres e direitos que constituem o equilíbrio do mundo moderno. Percebem-se
alterações gritantes entre as masculinidades dos homens que são nossos participantes e a
masculinidade hegemônica, e isso deve ser evidenciado, pois isto clareia o quanto desta
forma assumida idealmente pela masculinidade está sendo alterada.
     E assim como foi citado anteriormente, como Oliveira (2004) muito bem
evidencia, a masculinidade hegemônica é plástica em razão do tempo e da sociedade em
que se encontra e parece que uma transição está surgindo. Ainda temos homens como
Glauber e Fausto, resistentes em suas masculinidades, que ainda mantêm relações
hierárquicas, colocando o masculino acima de qualquer outra forma de gênero. Mas
também temos homens como Joe, Mateus, André, Luís e tantos outros, que demonstram
que cada masculinidade é o que cada vivência faz com ela.
     Estamos em momento de alteração da masculinidade. Aliás, masculinidades!




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                                                                                 134
ANEXO I - ROTEIRO DE ENTREVISTA


              Nome:___________________________________
              Idade:___________________________________
              Profissão:________________________________
              Natural de:_______________________________Mora em:___________________________________
              Faz terapia?_______________ Se sim, há quanto tempo?____________________________________


       Homem consigo mesmo
       1.         O que é ser um homem para você?
       - fisicamente
       - socialmente
       - psicologicamente


        2.         Quais as características que fazem você
ser masculino?
        - fisicamente
        - na sociedade
        - no que se é preciso fazer (responsabilidades) e nos
direitos
        - no que faz um homem masculino
        - no que faz uma mulher ser masculina


        Homem – Homem
        3.          Como você, enquanto homem, lida com
outros homens?
        - o que conversam
        - no trabalho
        - na família
        - com amigos
        - com outros homens desconhecidos (ex: cara do
taxi, cara da fila no banco)


       Homem – Mulher
       4.         O que te faz diferente de uma mulher?
       - aspectos físicos
       - responsabilidades
       - direitos
       - aspectos psicológicos e comportamentais


       5.         O que te faz parecido com uma?
       - aspectos físicos
       - responsabilidades
       - direitos
       - aspectos psicológicos e comportamentais




                                                                                                   135
6.         Como você, enquanto homem, se
comporta com uma mulher?
       - mãe;
       - irmã;
       - filha;
       - esposa/ amante;
       - qualquer mulher.
       - Como estas relações se alteram durante o tempo
       - Como se fala de uma mulher com outros homens, e
o que se conversa com mulheres que não com homens


      Homem- Sexualidade
      7.         Como é a sexualidade masculina,
pensando em sua vivência da sexualidade?
      - qual a preferência sexual
      - como deve ser a conquista/ quem deve conquistar
      - se houveram eventos marcantes no ciclo vital
      - sexo X amor
      - relação entre sexualidade e masculinidade


       8.          Como você, enquanto homem, deve se
portar na cama?
       - força
       - atividade/passividade
       - em questão ao gozo, ele deve prezar primeiro a(o)
parceira(o) ou a si mesmo
       - virilidade
       - fantasias masculinas


       9.      O que um(a) parceiro(a) realmente
quer de um homem, e o que isso muda no exercer da
sexualidade masculina?


       Homem – Filhos
       10.        Como você enquanto homem deve
tratar seus filhos?
       - em relação à regras
       - cuidado X sustento
       - brincadeiras


          11.     Existem diferenças em tratar de filhos e
filhas?
       - em relação à regras/ controle
       - cuidado (dos mais simples, como trocar uma fralda
até os mais específicos como escolher uma tiara para a
filha)
       - sustento
       - brincadeiras


          Homem – Família



                                                             136
12.        O que é família?
      - aspectos de dinâmica
      - como ela se forma
      - o que ela abarca
      - quais suas funções na sociedade


      13.        Qual o seu papel enquanto homem em
uma família?
      - em relação a receber e impor regras
      - cuidado com os filhos e esposa
      - cuidado de pessoas idosas, (avós, etc)
      - coisas boas e ruins de estabelecer uma família


       14.       Como você se porta perante sua
família?
       - em questão a respeito
       - exemplos que deve dar ou não
       - verdades/mentiras


       Homem – Trabalho
       15.      Quais as funções do trabalho na sua
vida, em relação à sua masculinidade?

     16.        Quais são as diferenças de um homem e
de uma mulher em uma empresa?
     - causas de absenteísmo
     - relações com pares e trabalhos em grupo
     - subordinados e superiores
     - uso do tempo
     - tarefas mais ou menos adequadas



       Homem – Sociedade
       17.        Qual o papel do homem na sociedade?
       - em relação ao poder exercido
       - em relação à visão global/focal em problemas
       - hierarquia
       - competitividade
       - o que guia e quem constrói o papel masculino na
nossa sociedade



     18.        O que diferencia você, enquanto
homem, perante a sociedade?
     - direitos
     - deveres
     - o que cada homem tem de diferente de outros
homens

Comentários:




                                                           137
ANEXO II – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO


TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO




       Eu, ________________________________, RG__________________, declaro,
por meio deste termo, que concordei em ser colaborador voluntário na pesquisa de
campo referente ao projeto intitulado “Características do papel de gênero masculino em
homens transexuais com homens biológicos”, desenvolvido pela Faculdade de
Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Fui informado, ainda, que
a pesquisa é orientada pelo Prof. Dr. Plínio de Almeida Maciel Jr., a quem poderei
contatar a qualquer momento que julgar necessário através do telefone 36708320.
        Fui informado dos objetivos estritamente acadêmicos do estudo, que, em linhas
gerais é, observar como a masculinidade hegemônica permeia a sociedade, como ela faz
parte das masculinidades individuais, perceber como isso se dá em homens biológicos e
homens transexuais em São Paulo e quais são as semelhanças e diferenças entre as
masculinidades individuais dos dois grupos numa análise qualitativa de entrevistas
semi-dirigidas.
        Fui também esclarecido de que os usos das informações por mim oferecidas
estão submetidas às normas éticas destinadas à pesquisa envolvendo seres humanos, da
Comissão Nacional de Ética em Pesquisa do Conselho Nacional de Saúde, do
Ministério da Saúde.
       Minha colaboração se fará de forma anônima, por meio de entrevista a ser
gravada.
       Estou ciente de que, caso eu tenha dúvida ou me sinta prejudicado(a), poderei
contatar o pesquisador responsável ou seu orientador, ou ainda o Comitê de Ética em
Pesquisa da PUCSP.
       A pesquisadora principal do estudo me ofereceu uma cópia assinada deste
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme recomendações da Comissão
Nacional de Ética em Pesquisa.
Fui ainda informado(a) de que posso me retirar deste estudo a qualquer momento, sem
qualquer prejuízo .
Dados para contato:

Mariana Ghetler

(11) 8380-0240

maghetler@hotmail.com



                                   São Paulo, ____ de __________________ de 2009.

                            _______________________________________________
                                                                                  138
(nome em letra de forma)

_______________________________________________

                                       (assinatura)




                                               139
ANEXO III - PARECER DO COMITÊ DE ÉTICA

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA DA PUC-SP
SEDE CAMPUS MONTE ALEGRE
Protocolo de Pesquisa nº 147/2010
Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde
Psicologia
Orientador(a): Prof.(a). Dr.(a). Plínio de Almeida Maciel Junior
Autor(a): Mariana Ghetler
PARECER sobre o Protocolo de Pesquisa, em nível de Iniciação científica, intitulado
Construção
e expressão da masculinidade em homens homo, hetero e transexuais: um olhar a partir
do gênero
CONSIDERAÇÕES APROVADAS EM COLEGIADO
Em conformidade com os dispositivos da Resolução nº 196 de 10 de outubro de 1996 e
demais resoluções do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde (MS), em
que os critérios da relevância social, da relação custo/benefício e da autonomia dos sujeitos da
pesquisa pesquisados foram preenchidos.
O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido permite ao sujeito compreender o significado, o
alcance e os limites de sua participação nesta pesquisa.
A exposição do Projeto é clara e objetiva, feita de maneira concisa e fundamentada, permitindo
concluir que o trabalho tem uma linha metodológica bem definida, na base do qual será
possível retirar conclusões consistentes e, portanto, válidas.
No entendimento do CEP da PUC-SP, o Projeto em questão não apresenta qualquer risco ou
dano ao ser humano do ponto de vista ético.
CONCLUSÃO
Face ao parecer consubstanciado apensado ao Protocolo de Pesquisa, o Comitê de
Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP – Sede
Campus
Monte Alegre, em Reunião Ordinária de 07/06/2010, APROVOU o Protocolo de Pesquisa nº
147/2010.
Cabe ao(s) pesquisador(es) elaborar e apresentar ao CEP da PUC-SP – Sede Campus
Monte Alegre, os relatórios parcial e final sobre a pesquisa, conforme disposto na Resolução nº
196 de 10 de outubro de 1996, inciso IX.2, alínea “c”, do Conselho Nacional de Saúde (CNS)
do Ministério da Saúde (MS), bem como cumprir integralmente os comandos do referido texto
legal e demais resoluções do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde (MS).
São Paulo, 07 de junho de 2010.
_____________________________________________
Prof. Dr. Edgard de Assis Carvalho
Coordenador do Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP




                                                                                            140
ANEXO IV – FICHA DE ENTREVISTADOS


Nome        Identidade   Sexualida   Idade   Profissão         Relac.          Terapia?      Comentários
fictício    de gênero    de                                    Amoroso
Rodrigo     Homem        Hetero      28      barman            Relac. aberto   Não, já fez   Fam. Árabe, ele nasceu na
                                                                                             França, mora sozinho.
Marcos      Homem        Hetero      27      economista        solteiro        não           Fam. Japonesa, veio para
                                                                                             São Paulo estudar
Joe         Homem        Hetero      40      Pesquisador e     Divorciado      não           Afro-descendente, tem um
                                             filósofo                                        filho, estuda desigualdades.
Ramón       Homem        Hetero      42      Func. Público     Casado 12       sim           Fam. Testemunha de Jeová,
            trans                            e faz transcr.    anos                          funcionário publico com
                                                                                             formação em fisioterapia
Fábio       Homem        Hetero      26      Professor de      solteiro        Não, já fez   Fam. Feminista, mora com a
                                             inglês                                          mãe, percebe mulheres como
                                                                                             melhores em alguns
                                                                                             aspectos.
Maurício    Homem        Homo        32      Trab. Sauna       ficando         Não           Mora com os pais, esta
                                             gay                                             fazendo sociologia, acabou
                                                                                             de terminar um
                                                                                             relacionamento de 6 anos.
Gustavo     Homem        Hetero      33      tradutor          Casado 10       Sim           Hospital das Clínicas, veio
            trans                                              anos                          do Rio pela esposa, está
                                                                                             fazendo psicologia
Fausto      Homem        Hetero      32      advogado          Noivo por 3     não           Atleta, pretende casar-se
                                                               anos                          logo e ter filhos.
Artur       Homem        Hetero      54      engenheiro        Casado 12       Não, já fez   Def. físico, filho de 12 anos,
                                                               anos                          timidez na adolescência
André       Homem        Homo        31      Psicólogo,        Relac.          Sim, desde    3 pais, uma mãe,
                                             ativista p/       Aberto por 3    os 15 anos    relacionamento aberto.
                                             causa             anos
                                             homoafetiva
Glauber     Homem        Hetero      42      zelador           Divorciado,     Não, já fez   2 filhos, hist. de traição,
                                                               mas mora                      novo filho vindo.
                                                               com ex
Fernando    Homem        Hetero      31      advogado          Divorciado      Não, já fez   Esclerose múltipla que não
                                                                                             se sabe se está curada,
                                                                                             trabalhou em NY com
                                                                                             entretenimento
Mauro       homem        Homo        32      Auxiliar adm.     Nomoro 6        Não           1º namorado com AIDS,
                                                               meses                         mora com a mãe
Patrício    Homem        hetero      42      Comerciante       Casado 2        Sim, 2        Nasceu em recife,
            trans                            de informática    anos            anos          farmacêutico, HC
Álvaro      Homem        Homo        52      Publicitário      Casado 20       Não           Empresário, possui um blog,
                                                               anos                          escreve respostas a
                                                                                             perguntas para uma revista
                                                                                             de público feminino
Luís        Homem        Bissexual   50      Ator              divorciado      Não, mas      Casado com travesti por 10
            trans                                                              faz acomp.    anos, prisão, ator
                                                                               mensal
Carlos      Homem        Homo        33      Massoterapeut     Solteiro        Não, já fez   Psicólogo, casamento de 7
                                             a                                               anos, atualmente mora com
                                                                                             a mãe
Juliano     Homem        Hetero      28      Atual             Namoro 6        Não, já fez   Campinas, obesidade,
            trans                            desempregado      meses                         adotado p/ 4 irmãs
Cássio      Homem        Hetero      38      Professor         Casado a 3      Não, já fez   Viveu na Bahia, veio pela
            trans                            Universitário e   anos                          esposa, começo da transição
                                                                                                        141
                                             contador
Eduardo   Homem   Homo     21   Disponível no   Namora a 2   Não           Entrevista com o namorado,
                                mercado         anos                       mora sozinho, ele é sua
                                                                           própria família
Márcio    Homem   Homo     28   Dep. Pessoal    Namora a 2   Não           Entrevista com o namorado,
                                                anos                       mora com os pais, já contou
                                                                           3X para os pais que é
                                                                           homoafetivo e eles não
                                                                           aceitam
Jaques    Homem   Homo     37   Ativista        É casado.    Não           Se interessa em Sado
                                Político                                   Masoquismo, não quer nem
                                                                           pensar em filhos e fez Letras
                                                                           faz pós em ciências sociais
Caio      Homem   Hetero   29   Disponível no   Casado a 9   Sim, já fez   É judeu, estudou história
          trans                 mercado         anos                       judaica, nasceu em Brasília,
                                                                           mudou-se para o Rio e
                                                                           depois veio para São Paulo




                                                                                      142

Masculinidades - Mariana Ghetler

  • 1.
    Introdução No Brasil, é importante perceber que são poucos os estudos sobre a masculinidade, como ela é construída individualmente, suas características primordiais, e onde elas se manifestam no dia a dia. Pensando numa frase de Maciel Jr. (2006), “Muito além do sexo, os homens não nascem homens, tornam-se homens” (p. 9) é importante relembrar que a mesma coisa que Simone de Beauvoir afirma para as mulheres, vale também para os homens: a masculinidade mantém-se em constante movimento e isso não apenas diferencia uma mulher de um homem, mas um homem de outro. Além disso, não é a característica física que miraculosamente dá ao homem biológico, ou ao homem transexual (por mais que as bases biológicas da transexualidade estejam sendo ainda confirmadas) sua masculinidade: ela é construída, muito além do que o biológico apresenta ou potencializa. É relevante também ressaltar que a masculinidade hegemônica perpassa as masculinidades subordinadas: cada indivíduo constrói-se a partir de uma história de vida durante o desenrolar de seu ciclo vital, dos acontecimentos sócio-econômicos e históricos e da cultura inserida em determinado espaço geográfico. Segundo Connelll (apud Maciel Jr.,2006) “masculinidade hegemônica pode ser definida como a configuração de uma prática de gênero que incorpora a resposta aceita ao problema de legitimidade do patriarcado, que garante (ou que se ocupa em garantir) a posição dominante dos homens e a subordinação das mulheres” (p. 55) Portanto, a masculinidade hegemônica refere-se a uma dinâmica cultural pela qual um grupo exige e sustenta uma posição de poder na vida social. Ela constrói-se na relação com outras masculinidades e feminilidades, submetendo-as e dissimulando-as. Há masculinidades dominantes, ou seja, consideradas hierarquicamente superiores, e outras cúmplices, subordinadas ou marginalizadas, que são transformadas em duvidosas e desprezíveis. A masculinidade hegemônica refere-se ao homem “normal, verdadeiro”, viril na aparência e nas atitudes, não efeminado, ativo e dominante. Segundo Connell (1995) as outras masculinidades todas, como a gay e a transexual, por exemplo, são masculinidades subordinadas. 1
  • 2.
    De acordo comMaciel Jr. (2006) a “masculinidade hegemônica é um modelo dificilmente alcançado por todos os homens, embora tenha ascendência sobre os demais modelos” (p.60). Oliveira (2004) afirma que a masculinidade “(...) destacou-se como valor básico sobre o qual a sociedade burguesa construiu sua auto-imagem. Os “desviantes” forneciam o modelo às avessas, “contratipo” que figurava a antinorma, o antiparadigma do homem burguês.”(p.78) Esta pesquisa se propõe a investigar como a masculinidade é construída por homens transexuais, homo e heterossexuais, para que se possa refletir sobre como a masculinidade hegemônica permeia os ideais e o imaginário social. A compreensão das articulações e negociações entre a masculinidade hegemônica e as subordinadas ao longo da história dos participantes permitirão uma reflexão sobre as comunalidades e diferenças entre eles. Podemos evidenciar que a relação entre masculinidade e homoafetividade muitas vezes é deixada em detrimento da não-relação entre sexualidade e gênero, que muitas vezes é abordada na literatura queer, como é o caso de Sullivan (2003) ou Jagose(1996). Porém é algo que devemos nos deter de modo a comprovar ou modificar tais afirmações, de modo a entender melhor como esta relação (se é que ela existe) ocorre. A partir de pesquisas anteriores (Carvalho, Lopes e Ghetler, 2008; Bento, 2006) verificou-se também que o tema da transexualidade é muito pouco abordado pela Psicologia. Faltam principalmente conhecimentos acerca dos homens transexuais (pessoas com o sexo feminino e gênero masculino), que são menos evidenciáveis devido à dificuldade da cirurgia de transgenitalização (pelo risco que ela traz de um processo de necrose do neo-falo, e pelo preço). De acordo com Saadeh (2004) eles também são minoria se comparados às mulheres transexuais (pessoas com o sexo biológico masculino e gênero feminino), numa proporção que varia mundialmente de 1:1 a 1:4. Para entendermos do que se trata o trabalho, é preciso explicar alguns conceitos chave que irão nortear a pesquisa. A transexualidade de acordo com Bento (2008) é a “Dimensão identitária localizada no gênero, e se caracteriza pelos conflitos potenciais com as normas de gênero à medida que as pessoas que a vivem reivindicam o 2
  • 3.
    reconhecimento social elegal do gênero diferente ao informado pelo sexo, independentemente da cirurgia de transegenitalização” (p. 144). Ou seja, é um fenômeno que se origina da dissonância entre o sexo biológico e a identidade de gênero de um indivíduo situado em determinada sociedade em um dado momento histórico e situação geográfica. Por esta razão diferencia-se do travesti, que de acordo com Kulick (2008), as travestis “consideram sinal de psicose o caso de homens que pretendem ser mulheres” (p.102), ou seja, por mais que mudem sua aparência para uma que denuncia traços das normas de gênero oposto ao sexo, não sentem-se em discrepância com seu sexo biológico. Também se diferenciam dos homossexuais, pois, como Rubin (1989) afirma, sexualidade e gênero são âmbitos completamente diferentes e se a escolha de um indivíduo é homoerótica não significa necessariamente que suas características de gênero irão se alterar. Essas confusões entre travestis, gays e transexuais sempre foram muito comuns, pois como cita Bento (2006) apenas nas décadas de 60 e 70 eles foram diferenciados pela Ciência e muitas dúvidas e preconceito ainda se mantêm. O fenômeno da transexualidade é bastante incomum na sociedade ocidental, e considerado pela medicina como expressão de gênero não pertencente à normalidade. Por isso pode ser encontrado inclusive no DSM-IV pelo termo de transtorno de identidade de gênero e transexualismo, no CID-10. É importante perceber que há intersecções entre a Psicologia e a Medicina na busca de compreensão do fenômeno transexual. Grande parte dos psicólogos referem-se ainda ao fenômeno com o termo transexualismo, e chamam os indivíduos com esta característica de transexuais masculinos, quando o sexo biológico é masculino e vice-versa, dando maior ênfase ao corpo biológico e não ao gênero. No entanto, se formos observar o fenômeno transexual com as/os próprias/os transexuais e alguns psicólogos com quem se entrou em contato, percebe-se que não necessariamente os próprios transexuais vão se auto-denominar desta forma. Aliás, preferem ser chamados pelo gênero que assumem, minimizando a importância do próprio corpo. Foi por este motivo que neste trabalho foi utilizada a denominação homem transexual, para respeitar os colaboradores da pesquisa e percebê-los como realmente são ou como querem se tornar. 3
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    É também importantesalientar que, como Bento (2008) afirma, não necessariamente estes indivíduos vão ter desconforto com seu próprio corpo; existem transexuais que preferem não fazer a cirurgia de re-designação sexual como podemos perceber de P. (Carvalho, Lopes e Ghetler, 2008), uma mulher transexual com a qual entrou-se em contato para pesquisas anteriores, que afirma que, por não ser mais tão jovem, e pelo fato de que é algo muito íntimo com que não deixa ninguém ter contato, não mudaria em seu corpo. Porém o nome é algo extremamente importante para ela, pois só dessa forma ela pode exercer sua profissão. Sendo que obteve muitos feitos com a identidade masculina, dos quais é muito orgulhosa, na arquitetura, só pode recobrá-los após sua alteração de nome. Outro caso é de E., que logo ao falar com seu psicólogo, no começo da transição, avisou-o de que não faria a cirurgia, pois não sentia isso como necessidade e não percebia sua genitália como parte integrante de um gênero específico ou não. Oito anos depois, é uma mulher em aparência que vive com seu marido e filhos (filhos seus com outra esposa) e continua sem ter feito a cirurgia. Considera-se mulher como qualquer outra. Preferiu-se, portanto, utilizar a denominação de Bento (2008) de transexualidade por ser mais generalista e, assim, não descartarmos sujeitos que fogem às regras diagnósticas, mesmo que a característica fundamental da transexualidade, a incongruência de sexo e gênero e o possível sofrimento a respeito das normas sociais associadas ao sexo biológico também se encontre nos manuais diagnósticos. É crucial pensar na homoafetividade aqui como sendo apenas o fato de alguém de um gênero específico sentir-se atraído emocionalmente por alguém do mesmo gênero que o seu, visto que existem variações sobre o que a homoafetividade significa enquanto sexualidade, gênero, e o efetuar deste desejo ou não. Desta forma, nas entrevistas, foi respeitado o critério dos entrevistados, de modo a perceber da forma mais concreta o que isto significa para eles. É importante também diferenciar sexo e gênero, pois em grande parte da história, acreditou-se que os dois necessariamente andavam de mãos dadas e isso não é completamente verdadeiro. O sexo de um indivíduo é atribuído pelas bases biológicas cientificamente formuladas. Isso implica atualmente nos caracteres sexuais presentes, sendo eles primários (gônadas, órgãos sexuais tais como pênis, útero e caracteres genéticos) e secundários (protusão de mamas, 4
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    localização de depósitosde gordura, localização de pêlos, densidade óssea, diferença de quantidade de hormônios sexuais tais como progesterona, testosterona, estrógeno, entre outros). Já gênero é uma denominação criada nos entremeios dos movimentos feministas para designar, de acordo com de Barbieri (1990) “el sexo socialmente construído” e “En otras palabras: los sistemas de género/sexo son los conjuntos de prácticas, símbolos, representaciones, normas y valores sociales que las sociedades elaboran a partir de la diferencia sexual anátomo-fisiológica y que dan sentido a la satisfacción de los impulsos sexuales, a la reproducción de las especie humana y en general al relacionamiento entre las 1 personas”. (p.100) Com essa frase, entende-se que gênero é o sexo socialmente construído: refere-se a relações de poder (homem-homem; mulher-mulher; homem-mulher) que se inscrevem num determinado momento histórico e espaço geográfico. Articula-se com outras desigualdades como as raciais, étnicas, geracionais, de nível sócio-econômico, etc, como se refere Connelll (2000) ao dizer que essa bimodalidade é construída socialmente, mantendo-se apenas pelas relações de poder, que são veiculadas por práticas e discursos nem sempre coincidentes. Beauvoir (apud Bento, 2006) completa: “em verdade, basta passear de olhos abertos para comprovar que a humanidade se reparte em duas categorias de indivíduos, cujas roupas, rostos, corpos, sorrisos, atitudes, interesses, ocupações são manifestadamente diferentes”(p. 71) De acordo com Scott (1986), o gênero é uma forma primária de dar significado às relações de poder. Só se dá na relação, ou seja, não há a feminilidade sem a masculinidade, além de que não há subordinado sem o subordinador, e vice-versa. É de forma dinâmica que se dão as relações de gênero e subseqüentemente os papéis de gênero. Rubin (1989), afirma que sexualidade e gênero são âmbitos separados, ou seja, a sexualidade é um âmbito completamente diferente e deve ser analisada independente da categoria de gênero. Isso contribui muito para entendermos, por exemplo, o caso de um 1 “Em outras palavras: os sistemas de gênero/sexo são os conjuntos de práticas, símbolos, representações, normas e valores sociais que as sociedades elaboram a partir da diferença sexual anatomo-fisiológica e que dão sentido à satisfação dos impulsos sexuais, à reprodução da espécie humana e em geral para o relacionamento entres as pessoas” 5
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    transexual que possuiuma escolha homo-afetiva ( ou seja, deseja pessoas com o mesmo gênero identitário que o seu). Mais recentemente surge Judith Butler (1993) que afirma veementemente que a construção de gênero na ótica feminista acompanhou o sexo biológico para fazer uma leitura crítica da situação da opressão feminina, e isso na verdade foi inclusive moldado numa construção já autorizada socialmente, e tão imperceptível quanto a própria linguagem. Como comenta em seu livro “Bodies that Matter: on the discursive limits of ‘sex’ “: “It seemed to many, I think, that in order for feminism to proceed as a critical practice, it must ground itself in the sexed specificity of the female body. Even as the category of sex is always reinscribed as gender, that sex must still be presumed as the irreducible point of departure for the various cultural constructions it has come to bear. And this presumption of the material irreducibility of sex has seemed to ground and to authorize feminist epistemologies and ethics, as well as gendered analyses of various kinds. In an effort to displace the terms of this debate how and why “materiality” has become a sign of irreducibility, that is, how is it that materiality of sex is understood as that which only bears cultural constructions and, therefore, cannot be a construction?” (1993, p. 28)2 E assim, pode-se perceber que gênero, assim como todos os constructos subjetivos, é formulado socialmente. Na transexualidade isso é importantíssimo, pois o gênero não acompanha o corpo e a vivência transexual é então possível e não patológica, pois não se funda no corpo e sim na experiência descrita por Bento (2008) como “experiência identitária caracterizada pelo conflito com as normas de gênero”(p. 15). Mas então o que seriam estas normas de gênero, que delimitam possibilidades de ser e estar não apenas de transexuais, mas de qualquer ser humano? À feminilidade foram atribuídas tradicionalmente características como a sensibilidade e a emoção aflorada, a fragilidade (“em uma mulher não se bate nem com uma rosa”), a falta ou déficit de uma razão lógica, uma beleza construída através de valores que mudam com a “moda” (hoje, é ter cabelos compridos, repicados, soltos e lisos; na Idade Média era tê-los sempre presos 2“ Parece para muitos, eu acho, que para o feminismo continuar sendo uma prática crítica, ele precisou se firmar na especificidade sexuada do corpo feminino. Mesmo a categoria de sexo sempre ter sido inscrita como gênero, aquele sexo ainda precisa ser o ponto irredutível de partida de várias construções culturais com as quais teve de lidar. E essa presunção da irredutibilidade material do sexo parece ter dado chão e autorizado as epistemologias e éticas feministas, assim como análises de gênero de vários tipos. Em um esforço para retirar os termos deste debate de como e por que a “materialidade” chegou a ser um sinal de irredutibilidade, isso é, como a materialidade do sexo é entendida como aquela que só se dá com construções culturais e, portanto não pode ser uma construção?” 6
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    em coque oudebaixo de panos e chapéus, e de preferência, com cachos; hoje é importante o valor da magreza e da proeminência de seios e glúteos; nas sociedades feudais era importante a opulência, para significar riqueza). Segundo Bandeira (1999) “ser mulher, ter um corpo de mulher em nossa sociedade significa responder a uma série de apelos que o ideário da cultura estabeleceu – ter um corpo dócil, desejante, harmonioso, uma sexualidade sadia, e, ao mesmo tempo, estar inserida num sistema pautado pela subordinação, submetido às práticas sexuais normativas (procriação)” (p. 191). A Psicanálise, como outras abordagens em Psicologia, pode ser considerada como exemplo de difusor deste valor, como indicam a resolução bem sucedida do complexo de Édipo e da fase genital da mulher. Freud deu à mulher permissão ao orgasmo, embora apenas ao vaginal. Segundo Hime(2004), “As diferenças de gênero têm raízes históricas em formas e estruturas de relacionamento segundo as quais os homens têm maior status que as mulheres. No passado elas dependiam dos homens para definir suas identidades e organizar sua vida e era esperado que fossem subservientes e atentas a eles. Os homens eram considerados a autoridade legítima na casa e era esperado que mantivessem sua posição, que dessem proteção a seus dependentes e evitassem a vulnerabilidade emocional. Embora os ideais de relacionamento tenham mudado, muitos estereótipos de gênero persistem. Influenciam nosso comportamento, principalmente quando ficam invisíveis”(p. 11). Assim como maior status, eles devem também ter maior controle emocional, já que a expressividade seria característica das mulheres: tornar-se homem implica, ainda nos dias de hoje, em diferenciar-se das mulheres e dos gays. “Homem não chora” é um ditado popular que revela a imagem de homem presente no imaginário social: o dono da razão, da frieza e da dureza, capaz de controle e domínio. Além disso, seu corpo também é regulamentado. Devem ser brutos, resistentes e esculpidos para qualquer combate que tiverem, seja nas grandes empresas, com ternos, 7
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    gravata e ombroslargos, ou com músculos para a batalha física de uma guerra, contra oponentes que não lhes darão trégua. A masculinidade então é percebida como oposta e complementar à feminilidade: o masculino é viril, contém a força, dá grande valor à penetração, é demonstrativo (no sentido que só existe ao demonstrar-se em relações), se utiliza sempre da razão, acredita num poder centralizado (falo), situa-se no mundo público, preza a individualidade, a produção, a atividade e a agressividade. São estes valores que, de acordo com Maciel Jr (2006) vão servir como modelos do que os homens devem ser e como devem se relacionar, sejam eles homens transexuais ou homens biológicos: o gênero revela-se nas práticas e nos discursos, e manifesta-se por exemplo na relação do indivíduo consigo, com pessoas do mesmo ou do outro sexo, com os filhos, com a família, com a sociedade e suas normas, regras e valores, na vivência da sexualidade, etc. A partir desta rápida contextualização que buscou oferecer uma compreensão ainda que sintética do âmbito no qual está inserido o problema de pesquisa, apresenta-se a seguir o objetivo e a justificativa. Objetivo: O objetivo deste estudo é compreender como são construídas e expressas as masculinidades de homens homo, hetero e transexuais, utilizando-se o conceito de gênero. Este permite uma forma plural de pensar, o que será valioso para que se possa refletir sobre as articulações entre a masculinidade hegemônica e as subordinadas. Será dada atenção às intersecções entre o aspecto biológico, o pessoal e o social na construção da subjetividade, priorizando-se um olhar atento à complexidade do tema abordado. Justificativa Pretende-se com esse trabalho não apenas contribuir para ampliar o conhecimento relativo às relações de gênero e à sexualidade, mas também gerar informações que possam embasar intervenções psicológicas que visem a promoção de saúde, a prevenção de dificuldades pessoais e relacionais e a psicoterapia. Os homens transexuais muitas vezes não têm acesso a informações acerca de sua condição e das complexidades que a envolvem, vivenciando dor e sofrimento numa 8
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    sociedade a quenão sentem pertencer e que não os aceita nem como homens, nem como mulheres. Grande parte das pesquisas realizadas com homens diz respeito à área médica e muitas vezes não revelam sensibilidade às suas questões psíquicas. Esta pesquisa pretende dar voz aos participantes homo, hetero e transexuais, possibilitando maior compreensão sobre as intersecções entre sexo e gênero nas diferentes formas de expressão da masculinidade. Sendo o psicólogo um agente ideológico, esta é uma oportunidade para que a aluna-pesquisadora reflita sobre a atuação psicológica nos vários âmbitos (clínica, pesquisa, institucional, hospitalar, educação, etc) a fim de desenvolver a atenção e um olhar crítico à interferência dos valores e ideologias no “fazer Ciência”. Dessa maneira poderá contribuir para dar visibilidade às desigualdades de gênero, concorrendo para transformações no âmbito da subjetividade, assim como no social mais amplo. Desta forma, nos deteremos no primeiro capítulo no histórico sobre a masculinidade, de modo a entender como ela se moldou ao longo dos anos para se tornar hoje o que vemos em nosso cotidiano. Neste capítulo foi feito uma revisão bibliográfica sobre a masculinidade em vários contextos históricos e alguns culturais, como a Idade Média na cultura japonesa e árabe, também formadoras da visão atual da masculinidade brasileira. No segundo capítulo, iremos trabalhar com as relações em que a masculinidade se mostra, de modo a destrinchá-la enquanto característica relacional. São relações como o homem e sua sexualidade ou seu trabalho os refúgios da masculinidade individual e coletiva ao mesmo tempo, e pretende-se neste capítulo explorar esta característica masculina de modo sintético na bibliografia disponível. O terceiro capítulo trará à luz o método com o qual esta pesquisa foi produzida, explicitando como foram as entrevistas, a forma de análise escolhida e o quanto esta pesquisa se preocupa com a ética e a não-maleficência às pessoas envolvidas na pesquisa. O quarto capítulo traça uma análise individual de oito dos vinte e três entrevistados da pesquisa, delineando os resultados desta em relação à bibliografia. No capítulo da discussão, juntamos dados de todas as entrevistas para então tentarmos perceber como tem se desenvolvido a masculinidade atual, observando tanto a literatura quanto a realidade apresentada pelos entrevistados. 9
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    Finalmente, no sextocapítulo, trazemos as conclusões percebidas durante a pesquisa, e desta forma a encerramos, tentando então perceber de que forma esta pesquisa pode auxiliar na captação de uma masculinidade atual e brasileira. 10
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    Capítulo I -Histórico Se pensarmos em uma perspectiva histórica e dialética, os homens tiveram várias maneiras de expressar sua masculinidade durante a história da humanidade, e isso retroage nos ideais formados para este grupo populacional hoje em dia. De acordo com Oliveira (2004) é importante pensarmos dessa forma, pois cada época possuiu um ideal para a masculinidade que permanece em resquícios no ideal seguinte, como uma marca d’água em um novo desenho. Este autor explica que este valor social, que é chamado de masculinidade, só pode ocorrer devido a complexas elaborações culturais, e também não pode ser visto apenas como um recorte, pois isso simplificaria todo um processo extenso que é o destrinchar de um valor social. Iremos, para tanto, desvendar os valores sociais de momentos históricos específicos, desde a Idade Antiga, passando pela Grécia e Roma, até chegarmos a características das masculinidades contemporâneas, de forma a contextualizar cada ideal de masculinidade vigente e perceber no que as masculinidades atuais se pautam. É importante afirmar que a história, até há muito pouco tempo atrás, era escrita por homens e para homens, pois como afirma Beauvoir (1949), eles estiveram “no poder” por muito tempo, no controle do conhecimento e do mundo público, assim como das vias escritas e faladas das eras passadas. Como afirma Guggenbühl (1997) “Se nos voltarmos para a história, descobriremos dúzias de exemplos da grandiosidade masculina, de homens que trouxeram lágrimas e sofrimento a milhares ou pior, mataram milhares. Napoleão Bonaparte mandou incontáveis soldados aos portões de Moscou, onde congelaram até a morte pelas suas fantasias imperialistas. Foi este mesmo Napoleão que disse de si mesmo ‘Meu nome viverá tanto quanto o nome de Deus’. Hernán Cortez (1485-1547), comandando quatro mil soldados, destruiu o totêmico império Asteca de uma vez por todas para a glória do rei espanhol Charles. Com seus sonhos de banhos de ouro, ele entregou à morte esta cultura antiga. (...) A grandiosidade masculina nos faz lembrar de homens que impuseram suas vontades ao mundo, que colocaram a todos suas ambições por poder, e que perseveraram na imutabilidade de suas próprias idéias.(...) A grandiosidade masculina é onerosa”(p. 104). E realmente é difícil ao ler nos livros de História conhecer o outro lado; e os outros seres humanos que estavam na terra também naqueles períodos sublinhados 11
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    como importantes àhistória da humanidade? Até chamar a humanidade de “os homens” nos faz esquecer que somos extremamente preconceituosos quanto às outras formas de humanidade, como as mulheres, travestis, transexuais, etc. A partir disso, Welzer-Lang (2004) comenta que o androcentrismo, ou seja, centrar o homem como o mais importante em detrimento de outras formas de gênero, é algo mal notado na sociedade, mas deve ser considerado quando pesquisamos gênero de forma a sermos menos parciais. Para que possamos desconstruir e analisar o masculino é imprescindível que não excluamos as mulheres dos estudos, dando atenção especial às relações em que estas também se situam. Scott (1990) afirma que ao pensarmos em uma história permeada pelos excluídos além dos hegemônicos, até o modo como a escrevemos deve ser diferente, pois o valor dado a certas características que antes eram deixadas de lado como a subjetividade e o mundo privado, a sexualidade e os relacionamentos amorosos, os diferentes modos de vida e as pluralidades de vínculos deverão vir à tona, além do poder e do mundo público, além das guerras feitas por homens sedentos de riquezas. Deve haver a preocupação de se estudar não apenas as mulheres (no início do feminismo, estudava-se apenas as mulheres, e os excluídos em geral), mas toda a gama de seres humanos, como a autora reforça abaixo: “Só podemos escrever a história desse processo se reconhecermos que “homem” e “mulher” são ao mesmo tempo categorias vazias e transbordantes; vazias porque elas não têm nenhum significado definitivo e transcendente; transbordantes porque, mesmo quando parecem fixadas, elas contêm ainda dentro delas definições alternativas negadas ou reprimidas”(p. 9) Em grande parte da história não se fala além da heteronormatividade. Um homossexual no poder, imagine... Só em conto de fadas queer (aludindo aos estudos queer, que comentaremos mais adiante), ou polêmicas da papa/papisa Giliberta (mito ou não, é preciso comentar). Tentaremos aqui então sermos os mais imparciais possíveis, de forma a relembrar como a masculinidade foi se moldando através das épocas e como a história ocorreu para todos os envolvidos. I.1. Grécia Na Grécia Antiga, durante seu apogeu entre os séculos VII e III a.C., situa-se o momento pioneiro da valorização da razão e da força física. Algumas cidades gregas 12
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    foram cruciais paraentendermos a masculinidade neste momento histórico. Atenas, por exemplo, com a política, teatros e comunas tinha a fervilhar o pensar, o ser culto, o conhecimento. É importante salientar que estes homens não tinham como valor primordial a heteronormatividade, de forma que quem não fosse homossexual3 ou no mínimo tivesse relações com homens, era mal visto pela sociedade. Era inclusive o único modo de Paidéia (educação) o relacionamento entre um homem mais velho, erestes (o amante) com um jovem de 12 a 18 anos, o eromano (o amado), já que a mulher não ensinava, e o pai, o qual devia estar incumbido desta tarefa, não o fazia por estar envolvido com a vida social. O eromano deveria ser sempre passivo, aquele que receberia o conhecimento e presentes do erestes, além deste papel em relações sexuais, segundo Corino (2006). Além disso, o autor afirma que estes eromanos, logo que chegassem a uma certa idade, deveriam se desligar de seus erestes, apenas mantendo uma relação de amizade com os mesmos, para então desposar uma mulher e ter filhos. Outros valores incorporados nessa época eram a busca pela liberdade (afinal os escravos mal humanos eram) a valorização do corpo (a deficiência física era vista como defeito, problema, incapacidade). É importante ressaltar que nessa época é bem forte a diferenciação entre homens e mulheres, com características excludentes umas das outras. Ora, quem era homem não haveria de ser mulher nunca, certo? Isso por que a mulher na época era vista como ser inferior ao homem, incapaz do amor e da amizade, e deficiente por não ter o órgão genital masculino, além de incapaz mental e fisicamente, servindo apenas para a procriação e o cuidado dos filhos até os 6 anos de idade. O cuidado dos filhos pelas mães até esta idade também era realizado em Esparta, grande valorizadora da força física, da guerra, competitividade e da imposição de poder. Esparta era controlada por mulheres, pois os homens se mantinham guerreando durante grande parte dos seus 35 anos de vida. A homossexualidade também era comum durante a guerra (era a homossexualidade viril, como citada também bem mais tarde no Hagakure, manual japonês dos samurais, do qual falaremos posteriormente), mas a família como a percebemos hoje (mãe, pai, filhos) era também comum, de modo a revelar uma relação entre homens e mulheres menos restrita à reprodução; entretanto, 3 Quando se fala em homossexualidade em outras épocas que não a moderna, se quer dizer ter preferência por relacionamentos amorosos ou sexuais de pessoas do mesmo gênero, mas a conotação e os significados de nossa época não podem ser generalizados àquela época de que se fala. 13
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    não deixava deser excludente, pois elas não tinham a possibilidade de ir para a guerra, e também carregavam aproximadamente o mesmo estereótipo das atenienses. I.2. Roma Roma teve como característica primordial suas conquistas bélicas, veiculando marcadamente um ideal de masculinidade parecido com o dos espartanos. Com a diferença que, pelo fato de que a política em Roma se baseava no Panis et Circensis4, os gladiadores e os ideais em relação à sociedade e o entretenimento muito puderam influenciar o atual ideal de masculinidade hegemônica. Para isso, é preciso entender o Gládio. Os gladiadores eram ex-escravos que eram colocados para lutar entre si, com animais, em bigas, etc, onde o mais forte, aquele que matava todos os outros, permaneceria lutando. A desistência era então algo desonroso, pior que a morte, pois seria como desistir da própria vida, acima da luta. Estes casos eram julgados pela platéia, que a tudo assistia nas arenas, e o César, que tinha o poder de definir se aquele que estava lá iria morrer ou viver. Já o gladiador que se encontrava em posição superior, podendo matar seu oponente, se quisesse por misericórdia não fazê-lo sair-se-ia bem, pois de qualquer forma, a honra era sua, e não tomar a vida significaria ter alguém grato para sempre. Também são da Roma antiga os primeiros relatos de pessoas que se travestiam e/ou ocupavam funções sociais de pessoas do sexo oposto. Segundo Saadeh(2004) Filo, um filósofo judeu, é o primeiro a relatar a existência destes no século I d.C., comentando que alguns homens passavam a se vestir como mulheres, eliminavam suas características secundárias masculinas e podiam extirpar os testículos e até mesmo o pênis, de modo a viver como mulheres. Saadeh também comenta sobre Manilus e Juvenal a respeito dos poemas que estes autores faziam a respeito do ódio que tinham quando um destes que trocavam as funções sociais de um gênero para outro eram colocados no sexo de nascença. Segundo este autor, vários imperadores romanos travestiam-se e isso era algo considerado comum na época. No final do império romano, impérios bárbaros invadiram as cidades, e isso foi muito importante, pois grande parte destes era composto por povos nórdicos, que 4 Um sistema no qual a população das grandes cidades era inativa devido à grande quantidade de pessoas que era absorvida pelo império romano através das guerras e era preciso entretê-los (Circensis) assim como fornecer comida (Panis) para que não houvesse revoltas. 14
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    valorizavam as mulheresmuito mais que o império romano. Estas mulheres guerreavam junto com os homens, tinham papéis sociais significativos e eram muito mais bem quistas que as mulheres romanas. As culturas nórdicas em grande parte valorizavam a mulher pelo fato de que esta poderia gerar vida e portanto, estava muito mais ligada à terra e às divindades que os homens, e isso influenciou em parte a idade média, como no significado da caça às bruxas, e na dicotomia Eva-Maria da qual se falará mais tarde. I.3. Idade Média O medievalismo, ou idade média, foi marcada veementemente pela formação de hierarquias entre as masculinidades, assim como um aumento na imposição de poder. Várias características consideradas fundamentais para a masculinidade moderna foram cunhadas nessa época, e portanto nos prolongaremos mais neste momento histórico. Os feudos funcionavam de acordo com a fé cristã, o que significava que a mulher teria a função reprodutora, deveria ser dócil e recatada, uma esposa fiel, e de acordo com sua casta, deveria mais ou menos favores (inclusive sexuais) ao dono do feudo. Ao homem, então, era atribuída a função política, como guerreiro ou nobre da corte (obviamente dependendo de sua classe social), a de chefe da casa em uma hierarquia que privilegia mais os homens do que qualquer mulher( mesmo a esposa), pregavam ou lutavam pelo clero, portanto sendo ousados para conquistar o que lhes era devido. Quanto às relações amorosas, é também dentro do medievalismo que surge o amor cortês, diferente daquele referenciado à Deus (o amor cristão); o amor torna-se singularizado, e a Dama substitui Deus. O homem entoava hinos de amor à sua amada, intocável e incrivelmente bela, enquanto estava em combate, o que traz o caráter de servidão para com o outro, desde que este fosse puro, sem sexo, idealizado. É importante perceber nesse momento a transformação da mulher, também dicotômica: há “aquela que é pura” e também “aquela é devassa”, como é comentado através da dicotomia Eva-Maria em Carvalho, Lopes e Ghetler (2008): esse padrão vai se manifestar no modo como o homem irá se relacionar com as mesmas. “Se ela é pura, será uma boa esposa e terá filhos saudáveis”, “se ela for uma devassa, me divertirei bastante com ela, mas não passará disso”. 15
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    Diferente do queocorria na Grécia Antiga, a homossexualidade era vista como qualquer desvio da heteronormatividade, como bruxaria, o mal personificado e atuado, e portanto, não era um ideal a se seguir. Porém, nas guerras, o companheirismo e a amizade tornaram-se valores estimados pois, não podendo voltar para casa, os amigos guerreiros eram os únicos confidentes. Aliás, o cavaleiro medieval cristão, segundo Zamboni(2005), era um exemplo de conduta masculina a ser observado, pois a retidão e fé inabalável eram imprescindíveis para os valores morais da época. Então, ao detentor da força e da ousadia, nada mais sensato do que incumbir-lhe tal fardo, o de desempenhar o papel de exemplo. Mesmo as dores da batalha eram vistas como positivas, pois se agüentasse (sem reclamar) a dor e o sofrimento, teria um lugar ao céu. Um curioso detalhe histórico descrito por Saadeh(2004) é que no século IX, um papa (há controvérsias, pois a Igreja nega), João VIII, teria sido na realidade do sexo feminino, e teria morrido dando à luz, coisa que até hoje não se tem certeza pela omissão destas informações. Seu nome de batismo era Giliberta, e teria sido papa por dois anos, sete meses e quatro dias. Uma característica também muito útil para nossa reflexão aqui são os duelos. Neste aspecto do medievalismo que acaba inclusive invadindo o renascimento e até a emergência da futura classe burguesa da Revolução Industrial, a honra era prezada de tal forma, que algo que a sujasse seria tão vil que teria de resultar em morte; do desonrado ou daquele que desonrou. A coragem, o “sangue frio”, o poder nele implicado, a dignidade eram postos à prova em um duelo. O próprio “por à prova” se tornou instituído, assim como o precisar provar às pessoas ao seu redor que sua honra não está manchada. Além disso, marcas deixadas no corpo por um duelo como cicatrizes, amputações, etc. eram vistas quase como troféus, simbolizando Figura 1 – Armadura Infantil no Musée de l’Armée, Paris, França dignidade e eram como um atestado de que este homem era destemido, não tinha fugido 16
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    ao combate. Como também pode se perceber nas armaduras (foto) utilizadas na época, o corpo devia ter certas características específicas, como os ombros largos, nariz comprido, peitoral definido e uma postura altiva, inspirando literalmente ares de nobreza; também podemos evidenciar que o exemplo a ser seguido é o homem que tudo agüenta, que não deixa transparecer nada, nem deixa que nada o atinja. Parece começar daí o hino de todos os pais aos filhos: “homem não chora!”. I.4. O Hagakure: Livro de prescrições para os Samurais; um olhar sobre o Oriente Este livreto escrito por Yamamoto Tsunemoto em 1710 representa desde o século XI até o XIX, a época dos samurais no Japão. Escolheu-se este país para contribuir à nossa revisão pois ele traz à tona o homem da Idade Média oriental, visto que o Japão disseminou sua cultura ao oriente, desde a Rainha Himiko, quando no Século III D.C. fazia contatos com a China, até hoje em dia em períodos globalizados, o quanto a cultura revela e nos afeta com os Mangás, a comida típica, até o modo de ser e estar no mundo. Por estarmos interessados neste estudo sobre o modo como os homens expressaram sua masculinidade, e como os guerreiros samurais são o expoente dessa sociedade na era feudal, é importante comentar alguns trechos de suas prescrições para entendermos qual era este ideal (afinal, o Hagakure foi escrito por um homem, para homens). O Hagakure explicita em vários momentos como os homens devem se portar, andar, falar, expressar sua sexualidade, como sua honra era mantida, como era destituída, os rituais de sepukku e harakiri (suicídios rituais diferentes no caso de uma honra irrestituível), etc. Alguns destes dados são: “Todos nós desejamos viver. E na maioria das vezes, construímos nossa lógica de acordo com o que gostamos. Mas não atingir nosso objetivo e continuar a viver é covardia” (p. 28) Podemos perceber que aqui, a vida de nada vale se o homem não se doa a sua tarefa, é prático e objetivo. A subjetividade portanto não é importante. 17
  • 18.
    “É de maugosto bocejar na frente dos outros. Esfregar a mão na testa pode impedir um bocejo repentino. (...) O mesmo ocorre com o espirro, que ridiculariza a pessoa...” (p. 34) Aqui vemos a valorização que se dá às boas maneiras, da educação e discrição. “Existe uma maneira de um samurai criar seu filho. Desde sua infância ele deve ser encorajado à bravura, e deve-se evitar assustá-lo ou provocá-lo com trivialidades. Se uma criança for afetada pela covardia, isso permanecerá como uma cicatriz para toda a vida. (...) Uma mãe ama sua criança incondicionalmente, e será parcial a ela quando o pai repreendê-la. Se a mãe se tornar uma aliada para a criança, existirá a discórdia entre a criança e o pai. Devido à superficialidade de sua mente, uma mulher vê a criança como seu ponto de apoio na velhice” ( p. 56) Aqui vê-se o valor da bravura e da imparcialidade masculina, em detrimento da mente feminina, considerada superficial. Em outras passagens fala-se a respeito da homossexualidade, que deve ser discreta, porém é permitida desde que os dois estejam dentro do relacionamento afetivo, e estejam dispostos a passar a vida juntos. A morte é um valor cultuado, desde que seja honrosa. Dessa forma, ela é ainda melhor que a vida, pois a vida sem a honra é algo do que se envergonhar, e pelo qual é insuportável passar. As pessoas cometem erros, mas eles não devem ser desvios de sua própria índole, muito menos se deve abandonar ensinamentos de um mestre. O mestre é tão importante quanto a própria vida destes indivíduos, pelo qual se deve viver e morrer. O valor da hierarquia então é salientado em vários momentos do livro, demonstrando alto grau de importância desta característica na expressão da masculinidade. É importante ressaltarmos que este é apenas um recorte da expressão da masculinidade do Japão observada em um livro importante até hoje na cultura japonesa, e não um estudo detalhado a respeito do tema, no qual não nos deteremos mais por ser apenas mais uma das facetas observadas neste trabalho. I.5. O Jardim Perfumado do Xeque Nefzaui: manual erótico; A masculinidade sob a ótica Árabe 18
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    Como é sabido,a cultura árabe muito influenciou e influencia a cultura nacional, devido à ocupação árabe de Portugal durante a Idade Média, o que incluiu nos valores sociais da mesma várias informações, saberes e modos de ser e estar representados e repetidos até a presente data não apenas neste país, mas também em outras ex-colônias. O manual estudado, assim como o Hagakure, é um manual escrito de homens para homens de modo a ensinar a estes como se comportar e não ser daqueles que “merecem censura”. O Jardim perfumado foi escrito pelo Xeque Omar Ibn Muhammad Nefzaui no século XVI e tem como intuito auxiliar homens a se portar em sua sexualidade, e como lidar com as mulheres. É importante mais uma vez ressaltar que este é apenas um recorte da cultura árabe, e portanto, não uma análise detalhada sobre a mesma, pois é de nosso interesse perceber tal cultura, e não nos aprofundarmos nela por ser apenas mais uma das facetas do trabalho. Logo no primeiro capítulo, o Xeque faz uma análise dos homens dignos de louvor: seu pênis deve ser “avantajado e de comprimento amplo”(p. 29), pois a mulher só se apaixonaria pelo homem através do coito. Seu corpo deve conter as seguintes características: “tórax largo e a parte posterior do corpo bem fornida, bem como saber controlar sua emissão e ter ereções prontamente.”(p. 29) ; deve usar odores perfumados para atrair e inebriar a mulher. Deve ser belo aos olhos delas e ter proporções coerentes em seu corpo. Sinceridade e verdade são valores presentes também neste homem ideal, além de generosidade, coragem e modéstia. Ele deve, sempre que puder, seduzir mulheres belas e “dignas de louvor”, ou seja, aquelas que tem curvas arredondadas, cabelos e íris bem negros, rosto oval, lábios e língua bem vermelhos, entre outras características. Mulheres valorizadas só falam ou riem em poucos momentos, não deixam a casa, não têm amigas, não são falsas, não têm segredos, e só são devotas a um marido, ao passo de que o homem pode ter quantas mulheres conseguir, mesmo que elas sejam comprometidas com outro homem. O homem digno de desprezo é aquele “deformado, que tenha aspecto grosseiro, e cujo membro seja curto, fino e flácido, é desprezível aos olhos das mulheres.” (p. 83) “Desprezível também é o homem que é falso no que diz, não cumpre o que promete, que mente sempre que 19
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    fala, e queesconde da mulher tudo o que faz, exceto os adultérios que comete.” (p.84) Percebe-se também ao longo do texto um enorme desprezo por mulheres que sejam independentes ou que possuam sentimentos externalizados. Em compensação, o homem tem maior liberdade para ser quem é, e deve procurar mulheres que estejam em conformidade com seus traços de personalidade. As mulheres são em essência más e traiçoeiras, características tais que devem ser percebidas e domadas pelos homens. Este livro traz uma visão, aos nossos olhos contemporâneos, machista e preconceituosa a respeito das mulheres, porém muito nos faz pensar a respeito do ideal de masculinidade atual: o homem hoje também deve ser viril, conquistador e não deve confiar nas mulheres. As mulheres devem ser bonitas, porém não muito mais do que isso; também são vistas como perigosas (dicotomia Eva-Maria presente em nossa cultura), e devem ser tratadas com cautela. Devem sempre ser conquistadas, enquanto que o homem deve ter atributos físicos e morais para atrair as mulheres. I.6. Idade Moderna No Iluminismo, fim da “era das trevas”, temos como valor primordial o conhecimento. À ciência ficam a cargo as prescrições, os corpos, os pensamentos, etc. A burguesia vitoriana também modifica muito os pensamentos a respeito da sexualidade, colocando-a em grilhões muito mais rígidos do que antes do século XVII. Segundo Foucault(1988), antes deste período “ainda vigorava uma certa franqueza. As práticas não procuravam o segredo; as palavras eram ditas sem reticência excessiva e, as coisas, sem demasiado disfarce; tinha-se como o ilícito, uma tolerante familiaridade. Eram frouxos os códigos da grosseria, da obscenidade, da decência, se comparados os do século XIX. Gestos diretos, discursos sem vergonha, transgressões visíveis, anatomias mostradas e facilmente misturadas (...); os corpos “pavoneavam.””(p. 9) O mesmo autor comenta que existem várias razões para tal mudança; uma possibilidade seria a incompatibilidade do uso da energia para os prazeres e para o trabalho, agora muito necessária devido à Revolução Industrial. Outra possibilidade, agora muito mais relevante, seria o uso deste artifício de repressão para um enorme poder sobre o que o ser humano pode ou não fazer. 20
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    “Se o sexoé reprimido, isto é, fadado à proibição, à inexistência e ao mutismo, o simples fato de falar dele e de sua repressão possui como que um ar de transgressão deliberada. Quem emprega essa linguagem coloca-se, até certo ponto, fora do alcance do poder; desordena a lei; antecipa, por menos que seja, a liberdade futura. Daí esta solenidade com que se fala, hoje em dia, do sexo” (p. 12) Bento(2006) também afirma que é nesta época que é criado o bissexismo, ou seja, ao invés da mulher ser vista como um homem defeituoso, como em muitas culturas se acreditava, ela então é vista como diferente, outro sexo. Como Beauvoir(1949) afirmou, um segundo sexo, necessariamente inferior (primeiramente afirmado pela Igreja, depois então pela Ciência). Beauvoir comenta que como haveria um sentimento de “medo” do que a mulher pode significar, é mais fácil classificá-la de fêmea, coisa que seria um insulto ao homem, pois isto o encerraria ao seu sexo. A ciência, de acordo com a autora seria um instrumento de controle, mais um artifício para a dominação das mulheres, o homem “projetando na mulher todas as fêmeas de uma vez. Ele a faz uma única fêmea.” (p. 35). Isso seria uma redução da mulher ao animal, não dando a ela chance de demonstrar suas próprias características enquanto mulher humana, senhora de seus próprios rumos, como deveria ser, segundo a autora. Beauvoir, como outras feministas que a seguiriam, modificaram o modo da humanidade pensar a respeito da mulher e do homem; porém, e quanto ao meio do caminho, a/o transexual, o/a travesti, o/a homossexual e todos os outros meios de caminho? É no século XIX que os primeiros textos médicos a respeito de sexualidade e gênero (na época, essa diferenciação não existia) começam a surgir com maior ênfase em um conhecimento que se afastasse da moral vitoriana de acordo com Saadeh(2004). Este autor também afirma que o livro Psychopathia Sexualis, publicado em 1886 por Richard Von Krafft-Ebing é o primeiro livro a classificar a sexualidade do modo como conhecemos hoje. Foucault(1988) vai afirmar que a nosologia, a classificação da sexualidade vai ajudar no controle da mesma, reduzindo as pessoas que tinham estas características a apenas estas mesmas, de modo a catalogar, porém não analisar ou perceber suas vivências. De qualquer modo, o conhecimento produzido por Krafft-Ebing e por muitos outros que o seguiram ajudou de forma crucial a pensarmos a respeito destas várias 21
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    características, antes levadasao esquecimento ou à fogueira devido à Idade Média, e que agora são vistas com maior naturalidade e percebidas como potencialidades humanas, não como desvios segundo vários autores que estudam gênero. Alguns autores que pensam desta forma são Bento(2006), Bruns(2004), Dorais(1988), Connell(2005), entre outros. A burguesia traz valores como firmeza, repressão de sentimentos, e na literatura isso se expressa no período do realismo e do naturalismo. Um exemplo disto é o personagem Albino do livro “O Cortiço” de Aloísio de Azevedo. Esta obra marca na literatura a entrada do cientificismo e do Darwinismo Social, trazendo à tona uma visão de homem marcada pela imutabilidade de caráter associada à classe social a que este pertencia. Ora, se sou de uma classe social menos privilegiada, necessariamente meu caráter também terá menos virtudes. Este personagem, assim como outros, na sociedade da época, era visto como fora da normalidade. O trecho que se segue deste livro faz a primeira apresentação de Albino, um homem afeminado que gostava de travestir-se de mulher no carnaval. “Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado e fraco, cor de espargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa só linha, até ao pescocinho mole e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem já estava tão familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa do mesmo sexo; em presença dele falavam de coisas que não exporiam na presença de outro homem; faziam-no até confidente dos seus amores e de suas infidelidades, com uma franqueza que não o revoltava, nem comovia. (...) não arredava os pezinhos do cortiço, a não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dançarina, passear à tarde pelas ruas e à noite dançar nos bailes dos teatros. Tinha verdadeira paixão por este divertimento; ajuntava dinheiro durante o ano para gastar todo com a mascarada. E ninguém o encontrava, domingo ou de dia de semana, lavando ou descansando, que não estivesse com a sua calça branca engomada, a sua camisa limpa, um lenço ao pescoço, e, amarrado à cinta, um avental que lhe caía sobre as pernas como uma saia.” (p. 40) 22
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    Obviamente, de acordocom José de Alencar, ele haveria de viver no cortiço devido às suas características. O mundo só haveria de vê-lo no carnaval, onde tudo é permitido, desde que motivo de chacota. Albino era um homem afeminado, e com pretexto de que isto era biológico, imutável, haveria de ter também características morais condizentes. Isso acompanhou o homem atual no sentido em que qualquer que seja sua “falha” quanto à masculinidade ideal, ele necessariamente será subordinado, visto como imoral, doente, (até o DSM-IV em parte, onde a homossexualidade é retirada dos manuais diagnósticos, porém não as vivencias da travestilidade ou a transexualidade, consideradas como os indivíduos mais comprometidos sexualmente do espectro citado desde o livro de Ebbing em 1886) ou marginal. O exemplo de José de Alencar em “O Cortiço” traz também imagens sobre a masculinidade ideal a ser seguida pela burguesia letrada da época: o homem deve ser culto, buscar ser algo melhor na vida, obter posses sempre que possível, ter um corpo e comportamento másculo, ocupar profissões ditas masculinas, ser branco e heterossexual. E isso é apenas um espelhamento brasileiro da cultura vigente da época, que trazia a ciência em primeiro plano, como nos dias de hoje, dando suporte e justificativas às representações de feminilidade e masculinidade. Quem deve construir este conhecimento científico? O homem. Quem deve passá-lo adiante através da cultura? A mulher. A fêmea humana tem grandes obrigações desde o começo do século XX até a presente data: reproduzir o conhecimento. É a ela que é dado o papel de educadora das crianças, cuidadora, portadora das emoções e do 6o sentido... Uma sensibilidade que só ela pode ter. E ao homem, seu oposto: produzir conhecimento. Ser forte, cheio de razão, nunca chorar (ao menos não ser visto chorando). Até os anos 50 do século XX, o homem era alocado no espaço público, a mulher, no privado. O homem, o self-made- man. A mulher, a rainha do lar. Cada um com seu papel. E quem não tem papel, na sociedade não está. Minorias homossexuais, transexuais e travestis eram resumidos aos livros de patologias e às ruas sujas e estreitas do esquecimento. O binarismo do gênero invalida completamente outras possibilidades de ser e estar no mundo que não sejam essas duas, homem e mulher. Ser homem, identificar-me com o masculino e gostar de mulheres. Ser mulher, identificar-me com o feminino e gostar de um homem. E os entremeios? 23
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    Além dos estudospsicopatológicos, surgiram nos anos 80 e 90 os estudos Queer5. Estes foram empreendidos por autores como Judith Butler, Lauren Berlant, Michael Warner, e tinham como objetivo primordial desatar as categorias gênero, sexo e sexualidade, com o interesse de observá-las de forma separada, desfazendo o ideal da heteronormatividade6 que guiava os estudos psicopatológicos. Inicialmente, a teoria Queer se ocupou de comportamentos homoafetivos, porém logo se fez presente no campo das transgeneridades, do cross-dressing, dos trânsitos de gênero, de sexo e de sexualidade, pondo à prova até os termos “homem”e “mulher”. Os estudos queer revolucionaram o modo de olhar para como se forma a identidade de alguém nos âmbitos citados acima, e influenciaram áreas do conhecimento diversas, como as ciências psi, as ciências sociais, a história, o direito, e várias outras, mudando o foco das desigualdades entre os gêneros, como fazia o feminismo, para as vivências de pessoas. I.7. Atualmente: A Masculinidade em Questão Na época atual vigora a Pós Modernidade7. Não chegamos aos carros voadores, mas alcançamos uma sociedade em que os veículos motorizados são utilizados até para ir à esquina. O consumo desenfreado é característica marcante nas relações e aqueles que não possuem meios de comprar o que querem quando querem, são jogados à margem. Tudo pode ser consumido, desde máquinas de lavar até os “Identikits” como cita Oliveira(2004): “Se há problemas, ótimo, nós temos a solução! O mercado não tarda a oferecer seus préstimos. Quereis identidade? Oferecemos várias possibilidades em cores, diferentes tamanhos e para todos os bolsos. Identikits são oferecidos “sob medida”, atendendo a todas as diferentes individualidades, isto é, “personalizados”. Você pode ser uma mulher moderna, liberada, desembaraçada, ou então 5 Queer pode ter vários sentidos na língua inglesa, entre eles, alegria e homossexualidade. Muitas vezes, esta palavra é empregada no sentido pejorativo, mas o intuito dos Queer Studies é exatamente utilizar o termo e tornar seu sentido como algo positivo, a ser admirado. 6 Heteronormatividade significa segundo Maciel Jr.(2006), Heteronormatividade se refere a uma ideologia que promove uma perspectiva convencional das relações de gênero e da heterossexualidade, e uma visão tradicionalista da família, como a maneira correta das pessoas viverem. 7 A pós modernidade, ou “modernidade líquida” segundo Bauman(1991), é o período logo após a queda do Muro de Berlim em 1991 que tem como principais características a ambivalência de valores sociais, a sociedade individualista, capitalista, onde não há tempo suficiente para o estabelecimento de novos valores pois estes “se dissolvem”, como afirma o autor, tão rápido quanto foram criados. Segundo Rossi (s/d), “na cultura pós-moderna, tudo é muita coisa, sempre é muito tempo; nada deve durar demais e cada indivíduo é, por si só, autosuficiente, um conjunto já bem saturado de dilemas e insatisfações”(p. 5) 24
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    uma dona-de-casa responsável,ponderada, amável, ou ainda uma jovem romântica, antenada, sensível, e isso só para começar. Para os homens, temos o identikit magnata impiedoso, autoconfiante, empreendedor; ou o jovem intelectual, estudioso, doutorando, talentoso; ou ainda o pai responsável, educado, charmoso, mas ao invés de ser o pai responsável, temos o solteiro bom partido, atlético, sexy, macho de físico exuberante. Se não gostar de nenhum desses, pode-se fazer uma bricolage self-service, onde o cliente escolhe duas características de cada um e ele próprio compõe seu identikit.”(p. 133) A cultura tornou-se tão representada pelos meios de consumo que ela não só ajuda a vender mais, mas modifica em alguns anos a bagagem cultural de cada um. Não apenas as culturas são múltiplas, mas também fluidas, mutantes, o que traz ao homem contemporâneo angústia e falta de identidade fixa, que lhe dê segurança. O mercado de trabalho é composto por homens e mulheres, ambos grandes usuários da tecnologia e julgados por sua performance e competência, mas as mulheres ainda ganham menos que os homens, são tratadas como potenciais mães (como afirma Beauvoir(1949), encerradas em seu sexo biológico), e passíveis de “mudanças hormonais”, a TPM, sempre que reivindicam algo melhor, ou brigam por algum motivo, seja sobre o controle remoto da TV, seja por melhores condições de vida. E claro, quem não cabe na definição homem ou mulher de forma bem dicotômica, não é nem considerado como parte da sociedade (isso afinal não mudou, transgêneros em geral continuam marginalizados e encerrados à escória da humanidade e aos livros de degenerações mentais e físicas). Outra característica crucial de nossa sociedade é o individualismo: é difícil o envolvimento amoroso ou afetuoso com algo ou alguém. E por não nos apegarmos, participamos de uma sociedade onde os valores são supérfluos, as relações superficiais, e o amor, algo que desperta medo, por mais que este seja ainda celebrado como ideal. O feminismo trouxe vários efeitos importantes para revermos as questões relativas à desigualdade de gênero, a sexualidade, comportamentos masculinos e femininos. Mas a mudança é individual e ainda não reverteu para uma sociedade mais igualitária ou justa para todos. Os direitos são usufruídos individualmente e os deveres são cobrados dessa forma também, então, nossa sociedade continua favorecendo uns e desfavorecendo outros de acordo com os critérios que poucos dela decidem. 25
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    Bauman(2007) comenta quenossa sociedade passou de estado “sólido” ao “líquido”, ou seja, “uma condição em que as organizações sociais (estruturas que limitam as escolhas individuais, instituições que asseguram a repetição de rotinas, padrões de comportamento aceitável) não podem mais manter sua forma por muito tempo (nem se espera que o façam), pois se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que leva para moldá-las e, uma vez reorganizadas, para que se estabeleçam.” (p. 7) Em alguns anos na história do ser humano houve tantas mudanças que mal conseguimos nos adaptar psicologicamente a todas estas novas demandas, as quais continuam muitas vezes permeadas pelos padrões antigos de modo imperceptível, presentes em como nos comportamos, e como refletimos sobre o mundo. A masculinidade então é percebida também nos dias de hoje como oposta e complementar à feminilidade: o masculino é viril, contém a força, dá grande valor à penetração e à intrusão, é demonstrativo (no sentido que só existe ao demonstrar-se em relações), se utiliza sempre da razão, acredita num poder centralizado (falo), situa-se no mundo público, possui iniciativa, preza a individualidade, a produção, a atividade e a agressividade. São estes valores que, de acordo com Maciel Jr. (2006) vão servir como modelos do que os homens devem ser e como devem se relacionar, sejam eles homens transexuais ou homens biológicos: o Gênero revela-se nas práticas e nos discursos, e manifesta-se por exemplo na relação do indivíduo consigo, com pessoas do mesmo ou do outro sexo, com os filhos, com a família, com a sociedade e suas normas, regras e valores, na vivência da sexualidade, etc. O homem deve mostrar ao espelho e ao mundo que é homem. Mas de que isso vale atualmente? Pode-se dizer por meio de Dorais(1988) que o homem cavou para si mesmo sua cova; isso porque espera de si e dos outros o ideal de masculinidade, enquanto só encontra masculinidades subordinadas, inclusive a sua própria: o homem não deve chorar, mas sente e tem vontade quando passa por uma situação impactante em sua vida; o homem tem que ser viril, mas não consegue ser potente o tempo inteiro em qualquer fase de sua vida. Ele deve ser o provedor, mas como se não consegue emprego, e sua mulher sim, ou se ganha menos que sua mulher? E nas relações amorosas, o 26
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    homem não podese envolver? Tantos questionamentos devem deixar os homens confusos... (nota da pesquisadora) A mulher não é mais o sexo complicado, frágil; e agora, quem poderá salvar o “homem desamparado”? Como afirma o mesmo autor: “Esta confusão e esta insegurança decorrem das transformações sociais e culturais que, em menos de trinta anos, produziram uma reviravolta nas principais fontes da identidade masculina. O trabalho, o poder, a família, e mesmo a aparência física e a sexualidade do homem se modificaram. Essas mudanças não apenas exigiram adaptações por parte dos homens, mas mudaram a própria noção de masculinidade” (p. 18) Outros pesquisadores como Maciel Jr.(2006) também percebem estas mudanças. Estudos diversos citados em sua tese de doutorado remontam um panorama completamente novo sobre os homens, principalmente por que antes de pesquisarem sobre a feminilidade e o gênero, nada haviam falado sobre a “nova masculinidade”, e como os homens se relacionam com ela. Quais as diferenças agora entre homens e mulheres? Um pedestal tão avidamente construído pelos homens agora bate de encontro com o das mulheres, se choca e se mistura em pedras ambíguas, não se sabe mais de quem é o pedestal, ou se ele ainda existe apesar dos escombros. Oliveira(2004) também ressalta a masculinidade atual como muito influenciada por uma tentativa de desconstrução de valores antigos, inclusive a própria masculinidade, o que resulta em um declínio nas classes médias e altas quanto ao domínio exercido. Isso por que existe uma luta às hierarquias no período da pós- modernidade (aliás, o termo pós-modernidade vem das artes, um período de desconstrução do ideal do período perfeito na arte, para colocar as tendências lado a lado, apenas diferentes), uma busca pelo consumo (reprodução) ao invés da criação(produção), uma descentralização de poderes. Nesse estudo, espera-se compreender como se processam estas transições no âmbito pessoal e relacional tão cheias de expoentes e influências. Será a masculinidade atual a mesma do passado, com uma roupagem mais “bonitinha” (mandando e desmandando com um terno Armani® e as unhas pintadas com base)? Ou as angústias e conflitos tomaram este papel e transformaram os homens para sempre? Buscamos compreender como se revelam as possibilidades de construção e expressão das masculinidades por meio de categorias de análise relacionais, ou seja, como discutimos 27
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    que a masculinidadeé demonstrativa e é sempre negociada por meio da relação do homem com outros objetos, inclusive ele mesmo, é importante observarmos como ela se expressa em cada campo relacional (como ele se relaciona consigo mesmo, com homens, mulheres, filhos, no trabalho, entre outros). 28
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    Capítulo II -Em que campos a Masculinidade se expressa? Estamos nos referindo nessa pesquisa a gênero, ao gênero masculino. Pedrosa(2009), ao discutir gênero, trabalha com a vertente comportamental quando diz que são comportamentos reforçados através do convívio social que geram a identidade de gênero. Então gênero referir-se-ia a vários comportamentos que, reforçados pela sociedade, dão origem aos papéis de gênero, feminino e masculino, que se modificam através do tempo de acordo com os comportamentos reforçados ou eliminados. Hime(2004) também nos ajuda a entender o gênero quando afirma que “o gênero revela como as diferenças sociais se estruturam a partir das diferenças entre os sexos e como se atribui significado às relações de poder”(p. 7) observando assim como Maciel(2006), Welzer-Lang(2004), Connell(2005) entre outros, que as relações sociais são primordiais para a identidade de gênero, e que elas ditam muitas vezes como devemos interagir com homens, com mulheres e com ambos. Barbieri (1990) afirma que o sexo socialmente construído, ou gênero é “En otras palabras: los sistemas de género/sexo son los conjuntos de prácticas, símbolos, representaciones, normas y valores sociales que las sociedades elaboran a partir de la diferencia sexual anátomo-fisiológica y que dan sentido a la satisfacción de los impulsos sexuales, a la reproducción de las especie humana y en general al relacionamiento entre las 8 personas” (p.100) Esta autora é importante, pois localiza a origem do gênero no corpo, como Beauvoir(1949), e faz do gênero algo que se vincula às características corporais. As mulheres, por causa da possibilidade de gravidez, do corpo propenso a armazenar gordura em locais específicos, das mamas, etc, deve ter características femininas como o cuidado, a passividade, e portando serão oprimidas pelos homens, que tem os músculos mais desenvolvidos, possuem um pênis de modo a penetrar, e portanto oprimirão, serão ativos e se utilizarão da força e do poder que seu corpo lhes gera. É 1 “Em outras palavras: os sistemas de gênero/sexo são os conjuntos de práticas, símbolos, representações, normas e valores sociais que as sociedades elaboram a partir da diferença sexual anatomo-fisiológica e que dão sentido à satisfação dos impulsos sexuais, à reprodução da espécie humana e em geral ao relacionamento entre as pessoas” 29
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    desse olhar unidoàs descobertas científicas que abstraímos que o conceito de sexo é construído através das características corporais sexuais primárias (pênis, testículos e útero, ovários) assim como secundárias (pêlos corporais, localização de gordura, aumento ou não de mamas, desenvolvimento muscular, etc). Essa visão é reproduzida em vários textos feministas e em textos científicos também; até hoje, e essa é uma das teorias mais aceitas quanto ao início do conceito de gênero: o corpo. Segundo a definição de Barbieri (1991), todas as sociedades, para sobreviver, precisam de mulheres em idade fértil. Como só elas são capazes de gerar vida em seus corpos, as sociedades lhes atribuem um poder. Este fato leva à necessidade de controlá-las sem, no entanto, destruí-las. Este controle se dá por meio da capacidade reprodutiva, da capacidade erótica e de sua força de trabalho. Assim, há uma transformação do pênis em falo, exato símbolo de poder, e um valor é colocado na virgindade, na infidelidade feminina, valorada de maneira muito diferente da masculina, considerada algo sem importância. Embora o corpo feminino e masculino possam dar e ter prazer, apenas o feminino é considerado objeto sexual. E finalmente, a capacidade de trabalho feminina poderia dar às mulheres a autonomia necessária ao questionamento das relações de dominação-submissão. Para esta autora, a partir das diferenças biológicas constroem-se as desigualdades entre homens e mulheres. Para outros autores, como Kimmel, Connell, Maciel Jr. e Butler, o ponto de partida é o social, arena onde se articulam as relações de gênero que veiculam o poder, sustentado pela criação de heranças biológicas, usadas para justificar as desigualdades. Mas como pessoas então podem ter gêneros e sexos diferentes? É a partir desta questão que Bento(2006) expõe um outro universo, seguindo autoras como Butler(1999) que questiona os entremeios do gênero: existem pessoas que não são homens nem mulheres? Onde elas se localizam no espectro binário de gênero construído pela nossa sociedade? Como podemos compreendê-los/as? Esta autora então desconstrói o gênero para então entender o que se passa para que sejamos masculinos ou femininos. Ela afirma por fim que, diferentemente de Barbieri(1991) e grande parte das feministas, o corpo não é a matriz do gênero e sim, valores sociais e constructos da fala e da cultura que são a matriz de como vemos o corpo, e dessa forma, construímos nossa visão do gênero e do corpo. Isso significa que o corpo que conhecemos é permeado de valores, e são eles que nos fazem afirmar que um corpo é masculino ou feminino e que também se deve agir de modo feminino ou masculino. Por ser um constructo idealizado 30
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    pelo ser humano,o corpo e suas normas hegemônicas se modificam ao longo do tempo e do espaço e desta forma podem se modificar em relação ao momento histórico-social e o lócus geográfico. Essas normas, ou leis, como afirma a autora, se materializam no decorrer de um processo, nunca de uma vez só, apenas no nascimento ou através de um ritual. Mas também não é possível enxergarmos o corpo pelo corpo, sem as normas de gênero, pois elas se constituem como um ideal hegemônico, e é muito difícil nos desviarmos deste valor que nos é ensinado e que atuamos desde bebês. Bento(2006) afirma que “Quando o médico diz ‘é um menino/uma menina’ produz-se uma invocação performativa e, nesse momento, instala-se um conjunto de expectativas e suposições em torno deste corpo. É em torno dessas suposições e expectativas que se estruturam as performances de gênero. As suposições tentam antecipar o que seria o mais natural, o mais apropriado para o corpo que se tem”(p. 88) Também não é possível pensar que o corpo não influi no gênero, que ele é completamente passivo em relação às normas sociais, e que estas não têm uma base no mundo físico. Mas a cultura se constrói como o corpo se constrói, e existe uma dialética entre as construções sociais sobre o corpo e o gênero, de forma que a materialidade do corpo também é capaz de produzir, além de reproduzir, como foi pensado por Beauvoir. Butler(1993) nos traz estas indagações e dessa forma é possível pensar no/a transexual, n@9 travesti, nos drag kings e drag queens como o faremos neste trabalho. Os estudos de gênero são deste século e muito se referiram às mulheres, aos homossexuais, aos desviantes em geral e suas angústias, suas disfunções dentro de uma sociedade que se baseia em uma heteronormatividade, onde o macho é divinizado pelas suas características inatingíveis. Por que então, agora, falar deste macho? Será que ele também não tem funcionado dentro da lógica criada por ele e para ele? É importante também contextualizar os estudos sobre a masculinidade para que entendamos em que ponto estamos na pesquisa. O feminismo foi precursor nos estudos sobre gênero e até se escrevia sobre as “hombridades” de forma escassa antes das 9 O arroba, quando substitui a vogal de uma palavra que contenha como característica o gênero, tem como significado um gênero não conhecido, ou diferente do masculino ou feminino. Entre @s travestis, isso é muito comum, pois é falta de respeito na maioria do tempo chama-l@s de homens, e nem tod@s se reconhecem como mulheres, ou se percebem dessa forma. Por essa razão, a linguagem utilizada pel@s mesm@s é essa, e aqui será reproduzido em respeito ao como el@s querem ser denominad@s, segundo conversas informais com estas pessoas durante os anos de 2008 a 2010. 31
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    feministas de acordocom Maciel Jr.(2006), mas até Nicole-Claude Mathieu, em 1971, o estudo das mesmas se resumia às mulheres; os desviantes eram o problema a ser “dissecado” como afirma Welzer-Lang(2004). Mathieu foi a primeira pesquisadora de que se tem notícia a propor que estudemos os homens tanto quanto as mulheres, pois sendo ambos formadores de um sistema relacional, o estudo de uma categoria de gênero fica incompleto se deixarmos de estudar a outra. Como Cecchetto(2004) comenta, não é possível falarmos que o tema da masculinidade foi completamente esquecido antes deste século, mas é importante frisar que apenas um tipo de masculinidade não deixou de aparecer: o modelo hegemônico de cada época. Porém a masculinidade como um todo ficou às escuras por tempo demasiado após Mathieu. Isso não quer dizer que não houve sociólogos, psicólogos, historiadores e médicos olhando para questões do masculino, porém este foram raros em comparação com o florescimento dos estudos de gênero. Podemos citar algumas revistas como Types- Paroles d’hommes e Contraception Masculine- Paternité, e autores renomados na década de 70 como Lefaucheur e Falconnet(1975), e no começo da década de 80, Emmanuel Reynaud e Guido de Ridder, além de Michel Foucault, Philippe Ariès, Jean Genet e Michaël Pollack entre alguns outros. Como foi dito por Maciel Jr.(2006), “Na segunda metade da década de 80, iniciaram-se estudos e pesquisas centradas no tema-questão dos homens e da masculinidade, tendo como característica principal a rejeição ao modelo tradicional vigente que interpretava a experiência masculina como a norma”(p. 10) Então, o homem não mais é um ser já prescrito, moldado como sendo agressivo, competitivo, caçador, dominador, entre tantas outras características que ele pode apresentar. Ele pode ser isso, mas pode também não ser. E foram estes estudos na década de 80 que começaram a perceber o homem e a masculinidade como possibilidades diferentes e até excludentes em alguns casos, como podemos ver nos ideais das mulheres e homens transexuais. São poucos os estudos sobre a masculinidade se comparados aos outros estudos de gênero, mas eles formam um panorama geral a respeito de quem são estas pessoas, mostrando as várias possibilidades do “ser” e do “tornar-se” homem. 32
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    Quando estudamos gênero,é imprescindível notar como as relações de poder se inscrevem entre as possibilidades de gênero, seja dos homens para com as mulheres, seja entre homens e entre mulheres, ou qualquer outra possibilidade. Como os estudos de gênero e mais tarde os men’s studies foram baseados com razão nessa desigualdade, porque ela existia, era perceptível e continua sendo através dos olhos de Maciel Jr.(2006), Welzer-Lang(2001, 2004), Hime(2004), Monteiro(1997) entre vários outros autores, observar apenas as diferenças seria deixar de olhar uma das mais importantes: quem construiu a história até há pouco foram homens, e eles detém todo este know-how, em detrimento das outras formas de gênero, que andaram à margem dos livros e da História humana, deixando suas marcas em leves pinceladas através de olhares masculinos. Uma característica da expressão da masculinidade é que diferentemente das mulheres, os homens precisam provar o tempo inteiro que são masculinos, que cultivam estes ideais e valores, seja para si, seja para outras pessoas. Se o homem fraqueja em demonstrar que é masculino, é como se esta característica se esvanecesse para fora de si. Ele reforça isso para seus colegas de sexo e também para as mulheres, dizendo o que devem ou não fazer. Suas prescrições também são para si, para lembrar em toda e qualquer situação de que é um homem, de que é forte, detém o poder, é racional, etc. Weininger, no começo do século XX, foi um dos primeiros a afirmar que estas constantes demonstrações de masculinidade se deviam ao fato de um hermafroditismo original que faz com que o homem, diferentemente da mulher, tenha que diferenciar-se da mesma, se não seu “outro lado” transpareceria. Apesar de como via as mulheres, Weininger, segundo Cecarelli(1998), influenciou toda uma geração sobre a indefinição de gênero inata dos seres humanos, e sobre o fato da masculinidade não ser algo detido pelos homens, mas sim algo desejado e necessariamente inatingível enquanto ideal. Connelll(2005) então formula a possibilidade de várias masculinidades, todas passíveis de transformação ao longo do ciclo da vida, da sociedade em questão, da cultura, e , principalmente, de como este homem se relaciona. Por essa razão, é impossível perceber a masculinidade e como ela se expressa se não está em relação, se não se expressa a algo ou alguém. Algumas categorias de análise relacionais a seguir podem ser exemplificadas como portadoras das relações em que se inscreve a masculinidade, as quais estudaremos com mais afinco por meio das entrevistas. 33
  • 34.
    II.1. O homemconsigo mesmo O homem demonstra a si que é homem. Quando olha no espelho, vê características que o fazem sentir-se masculino, de forma diferente das mulheres, como afirma Beauvoir(1949) quando explana que a mulher foi presa em seu corpo de forma a ser subordinada à razão masculina, em detrimento das sensações e sentimentos considerados ponto forte feminino. Connell (1995) comenta que ao olharem para seus corpos, os homens esperam transpirar, inerentemente, sua masculinidade, que é algo de que não têm controle e que os liga ou desliga de certos comportamentos (liga-os à violência, e desliga-os do cuidado com crianças, como exemplos). O corpo masculino pode ser observado de duas formas: por meio da ciência biologicista, onde o sexo produz as diferenças de gênero (o homem tem um pênis e deve ser ativo, como possibilidade desse pensamento) ou o simbolismo impresso no corpo por sua sociedade vigente (o homem é visto como o provedor, por exemplo, ativo, produtivo). Butler(1993) com sua teoria de gênero nos aprofunda na compreensão do homem de modo a percebê-lo como atravessado pelas regras sociais, pelos valores de uma sociedade. Quando veste uma roupa, quando senta, quando fala, revela a si mesmo características consideradas masculinas, e se mune consciente e inconscientemente destas em seus pensamentos e de como foi-se percebendo enquanto homem ao longo de seu ciclo vital; É dessa forma que um homem transexual sabe que é do gênero masculino, por exemplo, pois sua identidade de gênero demonstra a si estas características, relaciona-se com a maneira que ele se percebe, e não ao seu sexo biológico. Vamos entender então como se forma essa identidade de gênero, no geral. Helen Bee (2000), grande psicóloga desenvolvimental, afirma que para que um ser humano tenha em sua identidade o gênero e o papel sexual, é preciso que ele possua a constância de objetos, que ele perceba que ele é diferente do mundo e que permaneça no espaço e no tempo. Através desse processo, o bebê começa a ter um senso de eu. Mas não apenas isso; ele precisa dar qualidades a si mesmo, compreender-se como objeto no mundo, dar-se um gênero, um tamanho, um nome, além de outras qualidades. Essa segunda fase do desenvolvimento do Self começa com o bebê de aproximadamente 21 meses e vai se moldando daí em diante, através da interação com o mundo do indivíduo. 34
  • 35.
    Quanto ao desenvolvimentode gênero, este possui três fases primordiais: a identidade de gênero, ou seja, o reconhecimento de homens e mulheres, inclusive a si mesmo (que acontece entre 9 meses e 1 ano), a estabilidade de gênero que constitui uma certa constância do sexo durante a vida (ocorrendo por volta dos 4 anos) e enfim, a constância de gênero, onde a criança geralmente reconhece que alguém não muda de gênero ao usar roupas diferentes, que ocorre durante o 5º e 6º ano de vida. Quanto ao papel sexual, ou às performances de gênero, começam a ocorrer dos 18 aos 24 meses de idade, quando os bebês começam a preferir brinquedos “femininos” ou “masculinos”. Ela ainda ressalta que meninos normalmente têm estereótipos de papel sexual mais rígidos e tradicionais que as mulheres, levando à hipótese de que as características masculinas de gênero são mais valorizadas e reforçadas em nossa sociedade, e por isso, as características consideradas femininas em nossa sociedade não são alvo de desejo destes meninos, mas sim para as meninas, que flexibilizam mais seus estereótipos de gênero para que estas características também caibam em sua definição dos gêneros (existirão homens que gostam de se vestir de meninas também, usar o nome feminino, ou até se tornarem mulheres, o que nos faz pensar que nem todos querem ser pessoas com características masculinas, mas esta incógnita será resolvida em trabalhos futuros.). Essa autora também comenta sobre crianças de sexo cruzado, citando John Money ao falar que o gênero de criação da criança nutrirá sua identidade de gênero. Mas também afirma que caso haja um desequilíbrio hormonal na mãe durante a gestação, isto pode gerar meninas com características mais masculinas ou meninos com características mais femininas. Até hoje, não firmou-se nenhum diagnóstico conclusivo a respeito do aparecimento de pessoas transexuais e, até este segundo momento, sabemos muito pouco como isso acontece. Mas nem pistas biológicas, nem pistas sociais podem nos dar algo conclusivo sobre o tema. Mesmo assim, existem várias teorias que poderão embasar nossa reflexão com as quais analisaremos os homens, e a principal neste trabalho será citada a seguir. Quando falamos de identidade de gênero, precisa-se fazer uma ressalva: não podemos considerar sexo como sinônimo de gênero; nem gênero como sexualidade. Quando alguém considera-se homem fisicamente, não necessariamente se considerará masculino, nem muito menos terá uma sexualidade pré-determinada. Temos homossexuais, travestis, transexuais, crossdressers, drag-kings e drag-queens (entre as 35
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    variedades de trânsitosde gênero, sexualidade e sexo) para provar que nestes três campos, nada é a priori, e as combinações originam um leque sem fim de possibilidades de ser e estar no mundo. Os autores principais desta vertente teórica são Butler(1993), Scott(1990), Derrida(apud Bento,2006). É importante que se considere como aquele ser humano se constrói enquanto ser social que trará sua auto-imagem, como ele se vê e como se sente sobre isso, ou seja, como sua auto-estima se constrói e reconstrói ao longo do seu ciclo vital. Este ponto é fundamental para compreendermos a masculinidade, pois apesar de nos situarmos em uma sociedade com concepções rígidas acerca do masculino, homens transexuais e homens homossexuais são tão homens quanto homens biológicos e homens heterossexuais e talvez esse seja o ponto de convergência mais gritante: “Eu sou homem, ué...” Ademais, assim como Beauvoir afirma que mulheres não nascem mulheres, tornam-se mulheres, os homens negociam suas masculinidades a vida inteira, e se tornam homens a cada momento em que vivem desta forma. Quando crianças, quando idosos, quando adultos, os homens atuam diferentemente suas masculinidades e exercem seus papéis de forma diferente durante suas vidas, com o que concordam Welzer-Lang (2001; 2004) e Maciel Jr. (2006). O primeiro comenta sobre as relações entre homens que chama de “a casa dos homens”: “Nessa casa dos homens, a cada idade da vida, a cada etapa de construção do masculino, em suma está relacionada uma peça, um quarto, um café ou um estádio. Ou seja, um lugar onde a homossociabilidade pode ser vivida e experimentada em grupos de pares. Nesses grupos, os mais velhos, aqueles que já foram iniciados por outros, mostram, corrigem e modelizam os que buscam o acesso à virilidade. Uma vez que se abandona a primeira peça, cada homem se torna ao mesmo tempo iniciado e iniciador.” (p. 3) E a cada etapa do masculino, assim como qualquer pessoa, ele ressignifica as épocas passadas e vê de modo diferente que tipo de homem quer ser no futuro. Pensando que existem vários tipos de homens em etapas diferentes e modos diferentes de exercer sua masculinidade, como estes reagem quando estão com outros homens? 36
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    II.2. O homemcom outros homens A pergunta feita no subtítulo acima traz ainda mais dúvidas: como o indivíduo percebe outros do seu próprio gênero, objetivamente e subjetivamente? Onde e o que eles conversam em cada ambiente que freqüentam? Como estas relações se transformam ao longo do tempo? Como é uma amizade entre homens? Como um homem deve agir quando deve dar um exemplo a um outro homem mais novo? E quando a relação se inverte? Do que eles tanto contam vantagem? E as competições intermináveis entre colegas de trabalho, nos esportes, etc.? Como é a relação amorosa homossexual? Podemos ver que este tópico “dá pano para a manga” e muitas destas questões vão ser respondidas de forma simples demais para as reflexões que elas oferecem. Mas vamos tentar aqui passar por todas estas e quem sabe, ainda outras que surjam pelo caminho... Os homens têm algumas relações com outros homens autorizadas pela sociedade vigente e outras que não, mas nem por isso deixam de fazê-lo. Os homens podem ser pais, filhos, colegas de trabalho, amigos, competidores, inimigos, conhecidos, namorados, amantes. E como afirma Connell (2005), essas Figura 2 – Homer Simpson, um personagem da televisão relações podem se dividir em quatro com seu filho, Bart Simpson; a relação entre masculinidades é bem presente nesta série de televisão, grandes blocos: hegemonia, principalmente quanto à relação pai e filho, mas também a subordinação, cumplicidade e respeito do homem e como ele atua com outros homens. marginalização, cada qual com suas características principais: • A hegemonia ocorre quando uma forma de masculinidade é exaltada em detrimento de outras formas de masculinidades e formas de gênero, e é o tipo de relação mais comum e bem aceita na história da humanidade; depende da correspondência desta com ideais culturais e poder institucional. Tem como ponto chave a autoridade e às vezes a violência pode lhe dar suporte. A hegemonia 37
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    masculina pode muitobem ser erodida por outras formas de gênero e, portanto, se altera. Um exemplo de masculinidade hegemônica através dos tempos é o homem branco heterossexual machista. • A subordinação existe em razão da hegemonia, e tem vários efeitos sociais, como a baixa auto-estima destas pessoas, a violência e humilhação verbal e física para manter os subordinados em seu lugar, a discriminação de forma negativa de suas características, apesar de haver outras que se encaixariam no perfil hegemônico (como a discriminação econômica). Podemos citar como exemplo histórico de masculinidade considerada subordinada os homossexuais, os homens negros, os homens transexuais, homens com deficiências físicas e mentais, entre muitos e muitos outros (veja bem, se um tipo de masculinidade é hegemônica, neste momento, todas as outras são subordinadas). • A cumplicidade é a relação em que não se exerce poder sobre outras pessoas, existe um mútuo acordo entre as partes e não se pensa muito sobre o modelo hegemônico de masculinidade, mesmo que ele exista e influa nessa relação também. É onde o respeito e a amizade podem estar, como na relação entre pai e filho, e exige profundidade. • A marginalização é a relação em que mesmo que os grupos subordinados possam trazer características boas, eles não serão inclusos na masculinidade hegemônica. Exige a autorização do grupo a ser marginalizado. Então, através dessas relações, cada um dos tipos de vínculo que estes homens formam pode ser diferente. Um homem pode namorar outro homem e mantê-lo subordinado a ele, ou pode ser cúmplice e viver um relacionamento entre iguais. Outro autores como Williams(1985), falando sobre a amizade entre homens, comenta que as relações de poder permeiam muito estas amizades, e que têm muito mais a ver com possuir um grupo que o apóie caso se sinta ameaçado do que dividir confidências ou se sentir bem quando seus amigos estão lá. Demonstrar intimidade seria então algo a se fazer a uma mulher e de preferência na cama, nunca com um colega homem. Williams também comenta que dependendo do quão feminino ou masculino um homem for, isto varia, pois os nos padrões femininos de amizade incluem-se a intimidade e a liberdade de expressar sentimentos. Já Migliaccio(2009) e Kimmel(2000) percebem que os modos como vemos a intimidade estão extremamente ligados à intimidade feminina, sendo esta a única forma 38
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    de afeto consideradana maioria das pesquisas de gênero. Estes autores consideram que o modo masculino de demonstrar afeto existe e é diferente do feminino e, portanto menos observável (não estão olhando para onde deveriam olhar, em outras palavras). Isto significa que homens têm amizades plenas, dividem intimidades, fazem coisas juntos, mas têm maneiras de fazê-los diferente das mulheres. Cecchetto(2004), no Brasil, ao observar as “galeras” do funk no Rio de Janeiro, nota que existe grande companheirismo entre membros de comunidades amigas, servindo a lógica “quem é inimigo do meu inimigo, é meu amigo”. Os “sangue-bom” são aqueles em quem se pode confiar para entrar em conflito conta inimigos, chamados de “alemães”. A luta em facções organizadas do crime os une e a lealdade os mantém amigos. Mas a competição de força física existe entre membros da mesma facção, mesmo que por motivos de afirmação. Aliás, como foi dito anteriormente, um dos valores de demonstração da masculinidade, não apenas a outros homens, mas também a outras formas de gênero é exatamente esta auto-afirmação de características ditas masculinas por uma masculinidade que escapa ao ser homem em qualquer momento, como diz Welzer- Lang(2001). Isso nos ajuda a responder a primeira questão: como eles se vêem mutuamente? Objetivamente, homens parecem ter richas com outros homens, brigam por status social de forma a atingir a masculinidade hegemônica, aquela da racionalidade, da não- demonstração de sentimentos, da busca por grandiosidade. Porém se observarmos mais a fundo, homens tem relacionamentos duradouros de amizade, dividem seus sentimentos, e não vêem qualquer homem como um competidor por presas fáceis (outros homens, mulheres, etc). Mas isso não quer dizer que baixem a guarda quando estão com estes colegas de gênero, ou muito menos quando falam deles. Acredita-se que esta seja uma dificuldade metodológica de uma entrevistadora mulher, visto que é difícil infiltrar-se nas relações masculinas quando a abertura é escassa, mas falaremos mais a respeito da metodologia no próximo capítulo. Quanto aos temas sobre os quais conversam em cada ambiente em que estão, estes dizem muito a respeito de como são os vínculos estabelecidos. Importa também considerar os locais que os homens freqüentam e se outras pessoas de gêneros outros também se encontram ali. Quando se pergunta a respeito do que se conversa, a resposta irá depender muito dos gostos pessoais do grupo e do momento histórico e social, e 39
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    normalmente se discutepoucos temas, mas todos eles a fundo, em extensão. Em conversa a respeito das relações entre homens, um homem conta que “80% do que se conversa entre homens é bobagem: é futebol, vídeo-game, mulher; o resto você tem que prestar atenção, se não cai no conceito do cara.” Outro comenta que futebol e negócios são temas recorrentes. Ainda outro, comenta que assuntos recorrentes são o trabalho e negócios, carros, notícias, política e mulher (principalmente os atributos físicos) e que com cada homem se conversa a respeito de um assunto; existem assuntos a se conversar com cada amigo, e o vocabulário é tão próprio que ao verem uma mulher ou alguém de hierarquia diferente, as palavras a serem empregadas em certas situações são outras. Como estas relações se transformam ao longo do tempo? Welzer-Lang(2001) vai comentar que a cada época da vida de um homem, o interesse nas relações homem- homem vai se alterando, modificando-se de acordo com as necessidades que as permeiam. No caso de um adolescente que tem um grupo de amigos homens, a relação que mantém será de um companheirismo e competitividade, de forma a dar mais leveza aos vários rituais da idade. Já os relacionamentos entre homens em idade produtiva será menos vinculativa, visto que estes homens muitas vezes já têm um par (sexualmente falando, seja de qualquer gênero), e já não comentam tanto a respeito de sentimentos, família ou assuntos mais íntimos com estes colegas ou amigos. Quanto aos idosos, podemos pensar que como suas ansiedades em relação à morte e à solidão são emergentes e muitas vezes transbordantes, os amigos são grandes alicerces para uma vida plena. Já quando pensamos nas relações sexuais entre homens, podemos pensar que a idade e o contexto proximal e distal em que se passam estes relacionamentos também influi nas características dessas relações. Relacionamentos entre homens mais jovens normalmente envolvem o sexo como característica primordial; já relacionamentos de homens mais velhos, ou entre casais, tem mais a característica de companheirismo, cuidado de um pelo outro, amizade, e sentimentos relatados de afeição e amor, além da honestidade de poder demonstrar quem se é para outrem. Leon10, um homem transexual de 35 anos que freqüenta o CRD (Centro de Referência da Diversidade de São Paulo o qual também é freqüentado pela autora desde 2008), relata em conversa que suas experiências de relacionamentos amorosos foram tão diversas que ele namorou travestis, homens e mulheres e comenta que com um@ travesti que namorou, a relação baseava-se em uma troca muito grande, pois “El@ tinha 10 Os nomes foram trocados em respeito ao sigilo de identidade. 40
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    o que euqueria para mim, e el@ queria o que eu tinha. Foi um relacionamento muito intenso.”. Kulick(2008) afirma que @ travesti não tem apenas atributos femininos, mas também masculinos, houve uma relação entre masculinidades, assim como entre feminilidades, e isso trouxe uma troca muito grande. Márcio, outro homem transexual de 40 anos palestrante em um simpósio a respeito de homens transexuais, comenta que como os outros como ele fazem questão de mostrar-se sempre como homens, másculos, heterossexuais, hegemônicos, muitos preferem esconder seu gosto por homens, principalmente no Brasil. Já no exterior, conta que é bem diferente: homens transexuais “saem do armário” também, e tem relacionamentos duradouros com outros homens. Como um homem deve agir quando deve dar um exemplo a um outro homem mais novo? E quando a relação se inverte? Vimos no capítulo passado que dos séculos VII a III a.C., mais precisamente em território grego, a educação era passada de um homem mais velho para um mais novo e isso parece se repetir nos dias de hoje. Quando um homem entra para comunidades com grande concentração de pessoas homoafetivas como bares, clubes, restaurantes, etc., habitualmente um homem mais velho iniciará um mais novo, irá seduzi-lo e mostrará como ele deve fazer, se portar naquela comunidade. Aos seus filhos, o homem comumente procura ensinar os valores da masculinidade hegemônica, de forma que eles reproduzam os valores que lhe foram ensinados mas, como afirma Dorais(1988), estes ensinamentos em momento algum tem o afeto demonstrado ou misturado a eles. Mesmo que o homem sinta grande amor por seu filho homem, terá dificuldade de falar sobre tal sentimento com o rebento, ou demonstrá-lo com abraços, beijos e carinhos, como já consegue com suas filhas mulheres. Isso de certa forma pode gerar rebeldia, profunda tristeza, carência de afeto ou mesmo retaliação relativa à função paterna por parte destes filhos, e gerar escaras para o resto da vida destes homens. Além disso, os conflitos são constantes entre pai e filho pois existe também grande necessidade dos pais e dos filhos de se auto-afirmarem enquanto homens, o que significa que pode existir uma relação mais turbulenta do que com uma filha mulher, por exemplo. Existe grande identificação entre um e outro, o que gera desconforto, por exemplo, quando seu filho faz algo de não-masculino (hegemonicamente falando), como tornar-se amigo de várias mulheres, não é o “macho-alfa”, e a mesma coisa ocorre de filho para pai. 41
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    Como afirma Dorais(1988) “A ausência, a frieza, às vezes a brutalidade, eis como é, frequentemente, a atitude dos pais em relação aos filhos. As reações destes últimos não se fazem esperar” (p. 68) E essas reações muitas vezes são retroativas ao pai; se o pai é ausente, o filho, por exemplo, poderá fazer de tudo para chamar sua atenção, seja fazendo algo que ele detesta, seja se auto-destruindo com drogas, seja se tornando igual a ele. E essa relação poderá se repetir quando os filhos forem pais, porque não houve um modelo positivo para estes filhos. Loureiro(2009) explica que até há pouco tempo atrás, a função parental era incipiente, e começou a ter importância para a educação dos filhos na sociedade burguesa. Anteriormente, o valor que cabia ao homem era basicamente continuar sua linhagem de sangue e de nome (coisa que até hoje é um constructo social importante para várias culturas). Essa função exige cuidado e dedicação por parte deste homem e por isso, muitos pais abdicam dessa tarefa quando são inseguros demais para exercê-la, por falta de maturidade ou por não conseguir lidar com o relacionamento amoroso com a mãe da criança, o que pode gerar dificuldades ainda maiores. Lembremos também que só por que uma pessoa contribuiu para o espermatozóide que gera um ser humano não significa que será pai deste indivíduo, que atualmente existem várias formas de ser pai, biológico, padrasto, avô, entre outros, e que aqui, tentaremos falar de pais que tem relações sociais com seus filhos, que os encontram com freqüência razoável. Outro aspecto importantíssimo a ser focado são as competições: estas ocorrem freqüentemente entre homens, pois é preciso provar e demonstrar, existe uma necessidade de se auto-afirmar crucial às relações entre homens, sejam elas quais forem. Alguns indivíduos falam que isso é divertido, que é uma forma de interação, dá “emoção” às relações. Outros sofrem muito com isso, é uma pressão constante por parte de pais, amigos, colegas e de pessoas que nem se conhece. É inegável o fator de união que as competições propiciam. Homens jogam futebol, brigam por uma hora e meia a fio, se batem, xingam um ao outro, e depois saem todos juntos para beber cerveja e comentar o jogo. Competem acerca de notas na escola, com quantas mulheres eles transaram naquele mês, quantos homossexuais eles agrediram. Quantas regras quebraram em suas casas, quantas vezes eles traíram suas esposas. 42
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    Quantas doses beberamnaquela festa, como são muito melhores no xadrez e no gamão e como ganham muito mais que o outro. Qualquer assunto é fonte de competição, e isso é visto como atributo masculino hegemônico por quase todos os homens. Aqueles que não gostam de competir, ou de demonstrar sua superioridade em algo costumam sair perdendo prestígio, serem colocados no “saco” dos “maricas”, “bichinhas”, “frangotes”, etc. Estes, como se sentem? Este grupo de homens, ao não compartilhar de certos interesses que são discutidos entre homens, são discriminados, considerados medrosos e representantes de masculinidades subordinadas. Um homem que não entende nada de futebol, ou não gosta de enganar mulheres, ou que não abomina os homossexuais pode ser excluído dos grupos sociais se não fingir nem um pouquinho que concorda com seus interlocutores homens. Existe grande parcela de sofrimento nisso, pois lutar contra seus preceitos para ser aceito socialmente é uma faca de dois gumes. Como um homem se sente quando deve fazer isso para ser considerado um bom pai, um camarada, “sangue-bom” em sua comunidade? Connelll (2005) comenta que na ótica capitalista em que vivemos, derivada de outras épocas apontadas no capítulo anterior, é impossível que não haja competidores por todos os lados, desde o trabalho, até como se vive na família. O filho algum dia substituirá o pai, como ele um dia o fez com seu pai. Se você não for competente o bastante, seu trabalho será ocupado por alguém que faz a mesma função e ainda pede menos dinheiro. A competição se reflete em todos os cantos, e as relações entre homens não haveriam de ser diferentes. Pensando em pesquisas sobre masculinidade, é impossível esquecer que o homem, em sua grande maioria, escolhe o palavreado com o qual falará com o seu interlocutor, os assuntos e como ele irá falar. Como disseram à autora em conversas informais, a maioria dos homens fala com outros homens sobre futebol, negócios, mulheres e carros, quando muito. Não há grande expressão de sentimentos na maioria do tempo. Se perguntarmos a uma mulher, ela não falará com uma amiga sobre seus sentimentos se ela não for confiável, nem se estes forem intensos demais para que sejam partilhados numa conversa comum. Será que quando um homem não fala sobre seus sentimentos, isso significa a mesma coisa, que ele não confia na maior parte de seus colegas de sexo, e que a intensidade de seus sentimentos é demais para ser compartilhada em um bate- papo simples? Será que a intenção masculina de não expressar seus sentimentos tem 43
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    algo a vercom o poder e a racionalidade que tanto são culpados por tornar como valores hegemônicos? Isso nos dá a oportunidade de discutirmos sobre suas relações com as mulheres, como eles percebem suas diferenças (se é que elas existem) e como estes sentimentos vem à tona com elas. II.3. O homem com as mulheres Sou mais macho que muito homem! (Rita Lee, PAGU) Os homens da sociedade ocidental, depois do apogeu grego, se diferenciaram de um espécime humano que só servia para parir filhos, cuidar de crianças pequenas, não era capaz de amizades e não tinha o intelecto desenvolvido pois era como se fosse um homem defeituoso. Hoje a masculinidade sofre grande mudança em relação a este ser diferente, diabólico porém angelical, amoroso porém traiçoeiro, competente tanto quanto ele em basicamente tudo. O homem por muito tempo foi hegemônico, teve poder total sobre o mundo público, sobre a produção da história da humanidade. Hoje, ele tem uma companheira para isso. As mulheres são atualmente a maior força de trabalho, lutaram contra os estereótipos de gênero e abalaram o mundo com o feminismo. Ruíram as antigas crenças sobre a procriação, sobre a maternidade, sobre a feminilidade, a sensibilidade e os modos de ser no mundo. E de meio século para cá, nada as detém em sua determinação pela igualdade, além do Tchan11 e as novelas de alguns canais que tem interesse na mulher do passado cheia de bloqueios, romântica sem noção de realidade, que pertence aos homens (primeiro ao pai, depois ao marido), é passiva e se mantém calada às atrocidades que as vezes sofriam e sofrem impostas por homens. Aliás, de acordo com a Fundação Perseu Abramo em 2003, 43% das mulheres brasileiras afirmam já ter sofrido alguma violência por parte de um homem, mas apenas 19% 11 Grupo musical dos anos 1990, onde a mulher é tratada basicamente como um objeto de desejo, veste roupas curtas de modo a mostrar a maior parte possível do seu corpo sem chocar as mães de família e seus filhos, que na época dançavam “hits” como “Na Boquinha da Garrafa” e “A Nova Loira do Tchan”. Este grupo musical influenciou muitos outros e influencia até hoje grupos do tipo musical Axé e do Funk Carioca com a visão da mulher como objeto útil apenas para o prazer sexual. 44
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    afirmam sem algumaestimulação a respeito do tema, o que significa que muitas ainda continuam quietas a respeito deste assunto. Estas novas mulheres alteraram completamente o ideal de masculinidade hegemônico até então, tornando alguns outros ideais importantes: a sutileza, a sensibilidade, a flexibilidade. Hime(2004) afirma que as diferenças entre homens e mulheres vem se estreitando em seus relacionamentos amorosos, e outros campos também agora possuem maior gama de mulheres, como o trabalho, a pesquisa científica, o mundo público em geral. Em compensação, cada vez mais homens entram em profissões ditas “femininas” (enfermagem, psicologia, pedagogia, entre outras), cuidam dos filhos, tem relacionamentos plenos com mulheres, sejam elas suas mães, amigas, filhas ou esposas, contam de seus sentimentos a elas, sentem-se à vontade em ambientes ditos anteriormente como femininos. Vale afirmar que, apesar disso, a desigualdade ainda existe e é perceptível, que as mulheres ainda são segregadas em grupos de profissões consideradas femininas, ainda ganham bem menos que os homens, são desconsideradas ou rechaçadas em várias situações do mundo público como a política e o setor industrial de trabalho, ainda sofrem preconceito se inovam em suas áreas, ainda são ligadas primordialmente ao seu corpo através da maternidade e da beleza física, mas isso tudo é bem mais sutil do que era há 50 anos. Alguns homens se sentem à vontade na frente de mulheres, pois elas não irão julgá-lo tanto se ele não agir da forma masculina hegemônica como outros homens o fariam. Ele pode deixar a máscara de lado e falar de suas conquistas homossexuais, de como é apaixonado por uma pessoa, de como sua mãe lhe dá nos nervos, de como MPB é inteligente e sagaz (com palavras que ele leu, mas dificilmente usa com outros homens) ao invés do Heavy Metal que ouve com os colegas, de como um livro o fez chorar às pencas pela morte do pai das crianças da história... Ele pode demonstrar outro lado de si, um lado desconhecido de outros homens. Mas também pode gritar, bater, estuprar, demonstrar que é superior, que doma e tem o poder sobre aquela vida. Pode ser ciumento com elas até depois da morte das mesmas, ou até depois de sua morte, com juramentos para evitar que a mulher se casasse novamente. Pode prendê-las, impedi-las de trabalhar, fazer monólogos sem fim sobre assuntos que não as interessam, ter preconceitos, ser machista também. Isso nos faz perceber a ambivalência das relações entre homem e mulher que é até hoje 45
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    escancarada: um homemtem o direito ainda de fazer o que quiser com sua esposa? As leis dizem que não, mas ele o faz. Ele pode ser amigo de uma? Sua cultura pode dizer que não, mas mesmo assim ele também o faz. O que tornam as relações entre homem e mulher tão especiais que elas quebram regras sociais, que fogem dos estereótipos de gênero (para o bem ou para o mal, do feminino e do masculino)? De que forma as mulheres influenciam no comportamento masculino? Mulheres também podem ser masculinas, e homens, femininos? Como são estas relações ao longo da vida de alguém, como elas ocorrem no tempo e no espaço? Como os homens pensam das mulheres quando estão com elas e quando estão com outros homens? A diferença de gênero nos é instalada antes mesmo de nascermos, quando existem previsões sobre qual será nosso sexo. Se o médico diz que será uma menina, pronto: o quarto, as roupinhas, até boinas de bebê serão róseas, roxas, e se nossos pais forem um pouco modernos, quem sabe um branco ou amarelinho. E vice-versa com os meninos. O ultra-som, como afirma Bento(2006) é prescritivo, não apenas descritivo, como haveria de ser, e transforma a vida do pobre ser antes mesmo que ele respire fora de um útero. Estas normas, que nos são impostas desde o momento que somos um feto até o dia de nossa morte, moldam também nossas relações com nosso sexo e com o sexo oposto. Desde quando colocamos crianças para brincar, seus modos de comunicação se diferenciam, as brincadeiras são diferentes e somos colocados para não gostar do sexo oposto; ainda. Meninas e meninos têm rixas sobre como fazer as coisas, os penteados, as roupas, o modo de agir e se portar perante o outro. Meninas pulam amarelinha, ficam conversando, jogam elástico, cantam cantigas femininas ao pular corda, têm suas bonecas que cuidam como suas filhas. Meninos jogam futebol, têm bonecos de heróis e brincam de lutinha, de bandido e ladrão, de animais ferozes que têm de ser domados, de carrinho. Relacionamo-nos muito bem com pessoas do mesmo sexo, temos vários amigos, mas do outro... Até nossos 8 ou 9 anos, as relações entre meninos e meninas é turbulenta, cheias de brigas e derivam em muitos puxões de cabelo, pontapés e arranhões, com algumas raras exceções. Mais tarde, os puxões de cabelo e os arranhões serão por outros motivos (e não necessariamente entre meninos e meninas). Alguns anos são suficientes para que as relações entre homens e mulheres se alterem. Mais uma vez as normas de gênero irão ditar como devemos agir: como dois pólos que se atraem, como yin e yang, como chave e fechadura; encaixando-se. Muitos irão concordar com este esquema: o diferente me trará mais que o igual, o que 46
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    significam amizades mistas,namorados e namoradas. Outros perceberão que as normas de gênero são restritas demais para sua existência, e irão ficar com pessoas do mesmo sexo, como no subtítulo anterior foi comentado. Outras, ainda, ficarão com pessoas, não se preocupando com o gênero que apresentam. Cada um, nesse aspecto irá se relacionar de uma forma. Mas falemos um pouco sobre o relacionamento amoroso heterossexual e seus desdobramentos como o casamento. O amor romântico é um valor que reverbera até hoje em nossa sociedade, e é buscado por grande parte das mulheres e alguns homens, nem que seja de forma inconsciente. Somos influenciados desde os contos de fadas até os filmes dramáticos, dos livros de amor até as novelas dos horários nobres da televisão. E é um desejo de realizar-se por completo em uma única relação amorosa, onde os dois são feitos um para o outro, que serão felizes para sempre. É um valor que constitui-se, segundo Hime(2004) de crença em uma universalidade (ou seja, o mesmo amor ocorreu antes e agora, não é possível fugir do “verdadeiro amor”), de um sentimento involuntário e incontrolável, impossível se desvencilhar, e indispensável para a felicidade, uma vida sem amor nada seria. Porém, estes valores são todos constructos sociais, mutáveis através do momento histórico e social, e portanto, a época atual influi e muito em como vivenciamos o amor. Depois da década de 50 do século passado, com adventos como a pílula anticoncepcional, o casamento e o amor não são mais focados na reprodução, e mulheres, assim como homens, podem vivenciar o prazer da sexualidade e do amor sem ter que se preocupar com terceiros resultantes da relação. Além disso, como anteriormente havia grande preocupação em manter as hierarquias de gênero, a relação entre homens e mulheres era vivenciada com certa violência e desprezo por parte dos homens em relação às mulheres, o que atualmente se atenuou devido à busca pelo fim destas hierarquias, através do feminismo, pelas iguais oportunidades entre os gêneros e pela oferta e procura do mercado de trabalho por características humanas diversas, sendo elas consideradas femininas ou masculinas. Para uniões entre os diferentes sexos esta preocupação também alterou muito as características dos interesses entre as partes que as integram. Isto decorre de o homem ter perdido seu valor como único provedor, e a mulher não necessariamente irá querer filhos, ou se envolver emocionalmente, como quase sempre era a regra. 47
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    Até o finaldo século XVIII, o casamento entre pessoas de sexo diferentes dissociava amor da sexualidade. Hoje, isso é praticamente algo impensável. Até os anos 60, o casamento era indissolúvel, hoje ele é tão fluido que não dura nem até os dois dizerem “eu aceito”. As relações eram hierárquicas e pendiam positivamente sempre ao marido. Hoje, se uma mulher não está feliz com seu casamento, ela divorcia-se sem grandes delongas. Mas algumas coisas mantiveram-se: o casamento significa a constituição de uma família e a transmissão de valores sociais. Existindo grandes influências cristãs em nossa cultura, o casamento ainda é visto como uma união que tem sempre como resultado filhos. Casais que não conseguem ter filhos e preferem não adotar ainda são recriminados, mesmo que de modo mais velado que meio século atrás. Quanto às amizades entre homens e mulheres, é possível também observar grandes mudanças. Como Kimmel (2000) relata, até há um século atrás, acreditava-se que apenas homens eram capazes de ter amizades plenas, sendo valores primordiais na amizade a bravura, a lealdade, o heroísmo e o dever. A intimidade não era um valor importante, pois era considerado que esta forma de se relacionar era restrita à sexualidade e ao amor entre homem e mulher; nem à amizade com elas este valor era atribuído como positivo. Porém, com o advento do feminismo e pelas lutas por igualdades de gênero, a intimidade se tornou algo positivo, e até foi discutido que o homem não conseguiria ter amizades plenas porque não possuiria intimidade com seus amigos, esta sendo uma característica considerada puramente feminina. Porém, como este mesmo autor afirma, como houve uma feminização do conceito de intimidade, e da amizade conseqüentemente; esqueceu-se de observar a amizade de um homem com outra forma de gênero que não fosse irreal pela falta de uma intimidade que ele não pôde aprender por não ser do sexo feminino. Isso significa que não necessariamente um homem não será intimo com seus amigos, apenas o demonstrará de forma diferente, como foi discutido no subtítulo anterior. Em conversa, um homem comenta que quando está “batendo papo” com outros homens e uma mulher entra na roda, o assunto, o palavreado, as entonações e as visões de mundo mudam abruptamente. Mais uma vez percebe-se que dependendo de seu público, um homem modificará o jeito e o assunto que comunica para adequar-se à situação. Com mulheres, não haveria de ser diferente. A masculinidade hegemônica, ao preservar a racionalidade como valor primordial, irá fazer com que aquele homem meça 48
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    as palavras queirá usar com a mulher com a qual conversa, e isso influi não apenas quando se fala de amizade, mas também quanto à colegas de trabalho, conhecidos, pessoas na rua, etc. O modo como elas influenciam o comportamento deles dependerá muito da relação estabelecida, mas não há dúvidas que mulheres mudam o comportamento masculino, estejam elas presentes ou não no momento em que ele interage com o mundo, pelo menos nos dias de hoje em nossa sociedade. O homem com sua mãe, no começo de sua vida, a terá como ponto de apoio e estrutura emocional para suas outras relações com o mundo. Ela é importantíssima para ele neste momento da vida e o será também até a sua morte, tanto que o pior xingamento a se fazer a um homem é falar de sua mãezinha querida. Ela é vista em grande parte das vezes como assexuada, angelical e partidária em seu favor, uma grande ajudante nas questões emocionais pelo menos até o casamento heterossexual. Em casos de homens homossexuais, esta mulher será de grande importância na decisão ou não de contar ao mundo sobre a sexualidade, e ela será de grande influencia sobre a auto- estima destes homens, e principal fonte de apoio ou desprezo em caso de homens e mulheres transexuais, sendo elas as que normalmente respeitam (em detrimento dos pais) e ajudam no apoio emocional necessário à transição das performances de gênero, como afirmam Carvalho, Lopes e Ghetler(2008), onde as entrevistadas dizem que suas mães são em grande parte colaboradoras emocionais e modelos de conduta moral cruciais à uma transição menos turbulenta, como é o caso de C.M., P.M. e A.S., pessoas que compartilharam suas histórias nessa pesquisa destes autores. Se pensarmos a respeito de como os homens se relacionam com mulheres, também é de suma importância pensamos como é a relação destes homens com a sexualidade, seja ela com homens e mulheres, quais as diferenças entre os relacionamentos hetero e homossexuais, por que esta diferença é tão marcada e influi tanto no comportamento relacional entre os sexos, sendo de forma tímida como no trabalho, seja pronunciadamente como no relacionamento amoroso. II.4. O homem com sua sexualidade Pensando em como o homem se relaciona com sua sexualidade, várias questões vêm à tona, como bombas de um campo minado, prestes a explodir à menor pressão, ou como ilhas desconhecidas, esperando serem descobertas. Por que este campo relacional 49
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    atrai tanto osolhares dos pesquisadores e quanto mais trabalhos são feitos a respeito do sexo, mais parece que nada sabemos sobre ele? E de que forma ele pode ser tão perigoso que desperta hordas de fúria ao ser levemente tocado? Nesse subtítulo, exploraremos como a construção e a expressão da sexualidade por homens se dá, quais são os momentos mais importantes para a sexualidade de um homem, sejam de escolha da sexualidade, conflitos como a impotência, crises como amor e sexo, e de que modo são enfrentados (ou não) pelos homens. Também tentaremos trabalhar como a sexualidade deixa suas marcas na masculinidade, e como as relações de poder se envolvem aí. Além de tudo isso, o que é relevante neste âmbito para um homem, e o que ele preza em uma relação sexual, seja com homens ou mulheres, e o que lhe dá prazer nesta área. Mas antes de nos envolvermos com a sexualidade masculina, é importante contextualizarmos a sexualidade em si, em que momento histórico-social ela se encontra em nossa sociedade e no que isso altera o imaginário social não apenas a respeito deste tema, mas como estabelecemos relações com o mundo a partir disso. Nossa sociedade valoriza muito o sexo, a consumação carnal do desejo sexual, e esta valoração não é novidade em comparação com épocas anteriores. A grande diferença é o propósito da união sexual e a visão desse ato impossível de ser esquecido quando falamos de humanidade. De acordo com Eisler(1996), a sexualidade na idade da pedra era algo crucial para a organização das sociedades, pois a união entre os sexos aproximava os seres humanos da natureza, e portanto, das divindades criadoras. Aliás, a mulher era extremamente valorizada, sendo a vulva, a vagina e o útero muitas vezes representados em templos antigos para demonstrar a possibilidade de criação e de gerar a vida da qual a mulher era capaz. Estas representações se repetem em todos os continentes datando desde oito mil anos a.C. até pouco depois do nascimento de Cristo, em várias culturas, da Índia à Romênia, da França à América Latina. Era comum a alusão destes templos à sexualidade, ao prazer sexual, aos comportamentos que levassem aos relacionamentos entre corpos e almas de homens e mulheres, ambos necessários para a ordem social. Aos poucos, em prol de uma cultura de dominação, o prazer e a igualdade presentes em culturas não tão destoantes da nossa, como afirma a autora, se tornaram uma forma de chegar ao inferno. O prazer sexual foi eliminado em favor de uma sexualidade com fins apenas reprodutivos, reprodutores de uma sociedade onde o 50
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    gênero feminino foiretirado de uma posição igualitária para se tornar escravo por muitos anos dos desejos masculinos. A mulher de três gerações anteriores à nossa não poderia ter prazer algum nas práticas sexuais, o sexo necessariamente deveria ser normatizado pela religião e mais tarde, pela lei e favorecia, necessariamente, o homem na relação. Essa dominação permanece até os dias de hoje, e a sexualidade é um dos campos onde a dominação entre os gêneros mais explicitamente aparece, desde revistas pornográficas até o próprio ato. Como afirma o já mencionado Kimmel (2000), em nenhum outro campo se observa mais as diferenças entre os gêneros que na sexualidade, principalmente em sua análise sobre o século passado. Apesar de todas as barreiras às mulheres para sua sexualidade (não para o seu corpo, como afirma Beauvoir (1949)), os homens eram encorajados a entrar em contato com esta possibilidade relacional o mais rápido que pudessem depois do período da infância. Pais levavam seus filhos em bordéis para que se iniciassem sexualmente com 11, 12 anos, enquanto torciam e controlavam o quanto podiam para que suas filhas não deixassem sua virgindade antes do casamento, onde outro homem tomaria conta da sexualidade de suas filhas. E mesmo que nossa sociedade tenha mudado bastante em suas atitudes perante o sexo, os pensamentos em muitos casos continuam os mesmos. O homem que tem vários relacionamentos sexuais é um garanhão, um verdadeiro macho, enquanto uma mulher que faz o mesmo é considerada uma “vadia”, uma “cadela”, não é mais uma dama. Elas devem esperar por um príncipe encantado, enquanto eles devem nunca sê-lo. Acredita- se em metáforas como “os homens são de Marte, as mulheres de Vênus”, e até há pouco tempo atrás acreditava-se que mulheres unanimemente eram anorgásmicas. É evidente que elas eram, apenas 30% das mulheres conseguem ter um orgasmo através da penetração, e 59% das pessoas não acredita que o sexo possa ser mais que isso: chave e fechadura. O sexo oral? Bobagem. Anal e masturbação? Pecado! E as preliminares? Bah, coisa de maricas... Por causa destes pensamentos que a mulher teve que masculinizar-se para conseguir obter prazer sexual. Ela teve que se tornar a caçadora, transar com quantos homens quisesse, ser competitiva no mercado de trabalho, dominar ao invés de ser dominada. Um exemplo muito interessante desta mudança feminina é o filme “Down with Love”, do diretor Peyton Reed; o enredo trata de um livro escrito pela protagonista vivida pela atriz Renée Zellweger que incentiva as mulheres a tomarem conta de suas próprias vidas, 51
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    satisfazerem seus desejossexuais com quem quiserem, e comerem chocolate caso se sentissem sós. Por trás de seu livro, vive uma mulher frustrada por um desafeto amoroso, que decidiu se vingar de todo e qualquer homem. Para isso, decidiu masculinizar suas atitudes no âmbito comercial e sexual, mas que no fundo, quer se apaixonar e ter um final feliz. Como grande parte dos filmes holywodianos, o final dela é feliz, mas muito nos faz pensar sobre como queremos o comportamento sexual dos seres humanos: ele deve ser dominador e hierarquizante, seja do lado dos homens, seja do lado das mulheres? Ou deve ser algo que acrescente, trazendo prazer e satisfação à todas as partes envolvidas? Logo feita nossa rápida contextualização de como andam os rumos da sexualidade atual, vamos entender como a sexualidade masculina vem se expressando, assim como sua construção ao longo do ciclo vital. Assim como dito anteriormente, a sexualidade por parte dos homens é algo realmente importante para sua auto-afirmação como masculinos durante a maior parte de suas vidas. Na infância, como afirma Bee(2000), criamos nossas performances de gênero, e assim como Pereira(2005) completa, descobrimos nossa sexualidade na adolescência. De acordo com o segundo autor, a orientação sexual é definida multifatorialmente, por características hormonais pré-natais, pela genética e por fatores ambientais inclusive. Na adolescência, aprendemos muito sobre o comportamento sexual com nossas experiências e através da instrução escolar e familiar (quando ela existe), nos interessamos mais neste novo mundo que se abre a nós, e dessa forma muitas formas de perceber o mundo nesta época se modificam drasticamente. Como afirma Kimmel(2000), o modo como aprendemos sobre a sexualidade é diferente para cada gênero, e isso se expressa nas fantasias sexuais, nos objetivos da relação sexual, no modo como conceituamos o sexo e como cada um lida com este tópico tão importante. Para os homens, as fantasias sexuais são baseadas normalmente em situações com pessoas desconhecidas ou atrizes/atores, são bem descritivas e, como um filme, a cena tem um começo, um meio e um fim. A forma de escolher o outro com o qual ir-se-á fantasiar tem como critério primordial as características físicas, e pouco se sabe sobre o ambiente onde a cena acontece ou os sentimentos envolvidos, além da excitação sexual. Como continua o autor de “The Gendered Society”, os homens consideram ter feito sexo com alguém principalmente o ato da penetração e do orgasmo, enquanto todos as outros comportamentos envolvidos com a sexualidade, como sexo oral, 52
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    carícias, tomar banhojuntos, entre outros, como “preliminares” e não contam pontos aos seus colegas de gênero, aos quais irá contar como foi de modo a ser aprovado por estes colegas, e não pela parceira, necessariamente. O objetivo principal da relação sexual para o homem consiste então no orgasmo, e não no prazer que a situação lhe causa enquanto está no ato. Antes de aproveitar ter beijado a moça, ele já planeja em como tirar a blusa dela, e ela, ao invés de também aproveitar o momento de intimidade com ele, pensa se irá deixá-lo seguir adiante. Outra característica comentada pelo autor diz respeito à linguagem de trabalho utilizada no ato sexual, como “dei conta do recado” ou “cuidei do serviço”, assim como a nomeação do pênis como “Long Tom”ou no diminutivo de seu nome, como se este órgão tivesse uma própria personalidade. Kimmel(2000) comenta que esta é uma forma de se distanciar emocionalmente da sexualidade, ao nomeá-la como um objeto. Além disso, a sexualidade masculina normalmente é considerada falocêntrica, ou seja, centrada no pênis, o que explica muito bem o motivo do foco dos mesmos na penetração e o cuidado com esta parte do corpo com nomes específicos, asseio, fixação em tamanho e forma do mesmo ao invés de outras partes do corpo que tem a potência de serem erógenas também, como o são para a maioria das mulheres. A sexualidade é para a masculinidade como a farinha é para o bolo, é extremamente importante em sua estrutura e isso pode ser evidenciado quando algo dá errado, existem problemas de disfunção erétil, ejaculação precoce, por exemplo. O mesmo autor relata que quando estes casos acontecem, não apenas a sexualidade é envolvida nesse momento, mas também de modo às vezes mais gritante, a identidade de gênero, pois estes homens relatam não se sentirem mais “tão homens”, não conseguirem dar prazer a uma mulher, e se sentirem inferiores a outros homens. Quando se fala em sexualidade, é impossível deixar de falar na sua influência na masculinidade em homens homoafetivos. Se pensarmos de acordo com o senso comum, homens homossexuais possuem laços estreitos com a feminilidade, e mulheres homossexuais, com a masculinidade. Ora, se isso fosse a realidade, o gênero estaria intimamente ligado à sexualidade assim como suas performances na sociedade. Homens homoafetivos, de acordo com Michael Kimmel, possuem as mais altas taxas de parceiros sexuais enquanto mulheres homoafetivas, as menores taxas. Como também afirma, homens heterossexuais tem mais parceiras sexuais que mulheres, o que nos faz pensar no comportamento sexual masculino a respeito da poligamia. Homens homo ou 53
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    heteroafetivos possuem asmaiores taxas de parceiros sexuais, então não há muita diferença em questão de quantidade. Quanto à igualdade entre os parceiros, os casais homoafetivos conseguem atingir escores bem maiores que os casais hetero. Se falarmos também de experiências sexuais que não penetração, os casais homoafetivos também ganham na disputa, pois conseguem construir uma maior intimidade com seus parceiros. Quando pensamos no homem idoso, se ele chega a essa idade(pois de fato a taxa de mulheres que sobrevivem para chegar na velhice em nosso país é consideravelmente maior(para cada 100 idosas, existem 81,6 idosos de acordo com o censo do IBGE de 2000, sendo que as mulheres vivem em média 8 anos a mais que os homens de acordo com o mesmo censo), a sexualidade não é um tema de discussão em muitos casos, pois o imaginário social nos traz a imagem do idoso como assexuado em muitas situações. Se associarmos com o fato de que a sexualidade masculina se resume muitas vezes à penetração, será comum fazer a ponte disfunção erétil = não-sexualidade. Além disso, como esta geração é mais marcada com valores a respeito do sexo apenas dentro do casamento, é complicado, depois de viúvo, um homem querer outro/a parceiro/a, mesmo que isso aconteça em maior proporção que as mulheres viúvas. Ademais, nossa sociedade preza em excesso a beleza do jovem, e o idoso fica na desvantagem neste aspecto. Financeiramente, ele também não é nenhum Don Juan, pois a aposentadoria paga muito pouco no Brasil. Porém muito destes pré-supostos vem mudando ao longo dos anos. Com algumas “pílulas azuis” e o controle pela medicina moderna da hipertensão e diabetes, muitos homens podem ser sexualmente ativos até muito depois da andropausa12. Não apenas isso, mas é importante lembrar que nem todos os homens passam pela andropausa, e muitos mantêm o apetite sexual até seus 80 ou 90 anos. Mesmo sendo esta uma geração marcada pelo forte apelo religioso e portanto menos propensa a casar-se novamente, muitos homens já tinham relações com outras mulheres ou homens que não sua esposa antes de que esta morresse, então, eles são muito mais propensos a encontrarem novos/as parceiros/as depois da morte do cônjuge do que mulheres da mesma idade. Isso acontece inclusive pois o status, o charme, a 12 Acredita-se que em torno dos 50 anos, grande parte dos homens perde o apetite sexual que costumavam ter anteriormente por mudanças hormonais decorrentes do envelhecimento, como a diminuição de andrógenos como a testosterona. Além disso, devido à problemas circulatórios, muito comuns nesta idade e nas próximas, homens tem maior dificuldade de produzir ou manter uma ereção completa e existem vários outros sintomas relacionados à andropausa, como irritabilidade, aumento da gordura abdominal e diminuição da quantidade de cabelos no corpo. 54
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    experiência e opoder são atributos valorizados em um homem mais que sua beleza física, o que para a mulher é o contrário, e estes tem um maior espectro de pretendentes nesta idade do que estas por serem mais valorizados, segundo Costa (2008). É essencial quando exploramos sexualidade masculina citar o poder que é envolvido não apenas na relação sexual, mas também no vínculo criado por estas relações. De acordo com grande parte dos estudos a respeito dos homens,(Maciel Jr. (2006), Welzer-Lang (2001,2004), Oliveira (2004), Dorais (1988), entre outros) a sexualidade é uma forma de auto-afirmação e poder muito importante na constituição da masculinidade. Isso porque a mesma se forma a partir de valores como a atividade em detrimento da passividade, a imposição de poder e a hierarquia. A atividade em detrimento da passividade se expressa na sexualidade, pois aquela/e que é penetrada/o é percebido como passivo, enquanto aquele/a que penetra é percebido como ativo na relação sexual, de forma a permitir a atividade àquele que impõe e barrar com a passividade aquele que permite uma intrusão. É inclusive de acordo com essa concepção que Kimmel (2000) comenta que algumas feministas discordam da possibilidade heterossexual pois seria “aceitar a imposição masculina em detrimento da liberdade de performance de gênero feminina”. Quando se pensa dessa forma, a sexualidade da forma como o homem a impõe é sexista e reproduz a desigualdade de gênero, principalmente porque a sexualidade não apenas se resume às quatro paredes (ou não) da relação sexual. A conquista, por exemplo, é uma forma de exercer a sexualidade; o homem precisa conquistar, e a mulher, ser conquistada, e se um dos dois não cumpre bem seu papel nessa “disputa”, são desconsiderados pelos seus colegas de gênero. A pornografia também é um bom exemplo de como a sexualidade exercita a imposição de poder. Segundo Eisler (1996), as produções pornográficas mantém a imagem da mulher objeto, a “gostosa” que serve quase como um prato de comida que acabou de sair do forno. Além disso, os homens devem estar sempre prontos a manter a ereção por horas e massacrar a tudo e a todos, homens ou mulheres, inclusive mutilando os órgãos, humilhando física e psicologicamente, mostrando uma brutalidade típica de um animal. Mas ele é humano. Assim como todos os personagens e produtores destes filmes, revistas, animes, essas criações são humanas, e representam o imaginário social sobre o sexo. Não apenas isso, mas de acordo com Kimmel (2000), a primeira figura do sexo oposto nua vista por homens normalmente é pornográfica e é dessa forma que eles 55
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    conhecem a sexualidade:através de exemplos violentos, que depreciam as outras formas de gênero. Quando falamos de hierarquia, vemos um sistema vigente em nossa sociedade: alguns mandam, o resto obedece. Isso seria interessante se o papel feito por ambas as partes fosse considerado como importante para o crescimento daquela sociedade, mas não o é. O chefe é aquele que possui o poder, e os empregados, aqueles que para possuir algum poder também, se submetem ao poder do chefe. E o vínculo entre masculinidades hegemônicas e outras formas de gênero não é diferente, segundo Welzer-Lang (2004), mantendo como às desiguais classes sociais, as desigualdades de gênero. Como pudemos ver, a sexualidade é crucial para entender como a masculinidade se expressa. Mas pensando na sexualidade, e então casamento, e relacionamentos de afeto, grande parte das pessoas pensará em... filhos! Vejamos no próximo subtítulo como essa relação se expressa. II.5. Do homem com seus filhos O homem atual não tem mais a função singular de trazer dinheiro para casa. De algumas décadas para cá, mais homens se preocupam em cuidar afetivamente de seus rebentos, observar seu crescimento, dar conselhos e sugestões aos mesmos a respeito da vida e do mundo, coisa que quando foram filhos, muitos destes pais não puderam ter. Segundo Kimmel(2000), de 1650 até antes da revolução industrial, o homem assim como a mulher tinha obrigações com o lar, como cuidar e educar filhos homens, limpeza, etc. Seu horário de trabalho respeitava mais o horário da família e este era mais dividido entre o homem e a mulher. As decisões a respeito da escolha marital eram normalmente feitas através do afeto e não mais pela linhagem familiar, e isso colaborava para um relacionamento mais igualitário entre o casal e entre pais e filhos. Este marco levou o homem a sair de casa para trabalhar muito mais do que era o esperado, e a mulher se resumiu ao mundo privado do lar. Os homens não mais educavam as crianças ou ajudavam em casa, esta era uma função agora feminina, enquanto o papel de pai cuidador se tornou cada vez mais apagado da vida familiar. Na década de 50, o homem era apenas encarregado de suprir a família com bens materiais, enquanto a mulher ficava em casa preocupada com a educação dos filhos. Ele era obrigado a produzir riquezas, e não tinha tempo para ajudar na reprodução de valores e na percepção de como era a vida dos seres humanos que tinha posto no 56
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    mundo. Muitos paisse arrependem de não ter podido ajudar seus filhos em várias situações, e muitos filhos, que atualmente são pais, sentem falta de um direcionamento paterno. Ruitenbeek(1967), um autor que retrata a masculinidade já na década de 60, afirma que a dominação das mulheres do mercado de trabalho muda drasticamente a função do homem na sociedade, e faz observações de que esta mudou para pior, gerando confusão e discórdia. Se o homem não será o provedor, não é mais quem decide as coisas, não controla a família e não mais pode reproduzir valores de imposição da força física, como ele deve reagir à estas forças destruidoras de sua masculinidade, como a rejeição de valores masculinos e a retomada de dignidade feminina? O autor comenta a respeito do homem norte-americano: “Uma nova masculinidade para o homem não demanda a potência sexual em si mesma ou a exibição de qualidades masculinas, mas requer, nas décadas vindouras, um senso de decisão, escolha, tranqüilidade, calma e paz consigo próprio. Não nos devemos iludir com a idéia de que os problemas do homem americano contemporâneo se podem resolver recorrendo-se aos preceitos; em última instância, só se pode resolver pela renovação do homem e pelo redescobrimento do seu senso de dignidade”(p. 196) Este teórico dirá que não adianta retomar os princípios básicos da masculinidade de forma a reaver seu poder, é preciso refazer a masculinidade, mudá-la de modo a usar a potência sim, mas não do jeito com o qual ela era utilizada. Mas não é errado pensar na dominação masculina e na sua dignidade vinda desta dominação. Não seria a auto- afirmação o caminho (mesmo que no final, acabou sendo o ocorrido, visto que os homens continuam demonstrativos a respeito de sua masculinidade, e atos são muito mais que pensamentos quando se fala no comportamento masculino, de acordo com Maciel Jr.(2006), mas sim a tomada de rédeas de seu próprio destino(e dos outros também). Mas outras coisas aconteceram desta época para cá. Com a demanda do mercado de trabalho por mulheres em vários cargos, e a revolução sexual dos anos 60, mais homens começaram a exercer a função paterna do cuidado dos filhos, da preocupação com a educação destes. Isso ocorreu por conta de vários fatores: segundo Dorais(1988), os homens não mais são considerados os provedores, pois cada vez mais, os dois cônjuges trabalham, e não mais o homem, como acontecia anteriormente. Isso significa maior renda em menos tempo de trabalho do 57
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    casal. A primeiracoisa que é verificada a partir disso é um maior contato destes homens com a vida privada, antes monopolizada pelas mulheres. Eles são obrigados a trocar fraldas, arrumar a casa e se envolver emocionalmente com sua família, não apenas monetariamente. Além dos casais, que são atualmente uma parcela muito menor da população economicamente ativa do que se era anteriormente, os solteiros têm que aprender a cozinhar, arrumar suas casas, limpar banheiros, passar roupas e cuidar de seus filhos de relações diversas. Segundo o senso do IBGE de 2000, 24% das famílias são monoparentais no Brasil, ou seja, 24% das famílias brasileiras são formadas ou pela mãe, ou pelo pai. Estes homens, separados de suas ex-esposas, solteirões, homoafetivos, assexuados, tem que cuidar de crianças de seus casamentos antigos muitas vezes, pois nem sempre a guarda destes será materna atualmente, podendo ser compartilhada ou não. E ainda existem aqueles que adotam, pois querem realmente fazer parte da educação de uma criança e amá-la, mesmo se não podem gerá-la, não convivem com uma mulher que queira gestar ou são homoafetivos. Segundo Costa(2005), as brigas atuais por adoções para casais homoafetivos estão se tornando cada vez mais comuns no Brasil e no mundo, sendo este um assunto que vem revolucionando a instituição familiar nos vários campos que ela abrange. A definição adotada nessa pesquisa a respeito de parentalidade vem de Loureiro(2009), quando fala que “Existem importantes trocas entre o cuidador e quem recebe o cuidado e é no cuidar que se estabelece o vínculo, a forma primeira de se envolver com a criança, numa relação em que as emoções não ficam de fora e que propicia os subsídios necessários para a criança desenvolver as competências de explorar o mundo.(...) O cuidado envolve o atendimento das necessidades básicas promotoras do desenvolvimento, sociabilidade, além da sobrevivência da espécie, respeitando aspectos da inidividualidade. O cuidador é, pois, a figura que supre, dá limites e socializa, e a relação pais-filhos é construída no dia-a-dia, nas pequenas coisas, no vivenciar de atividades rotineiras, com tempo para o filho e com a atenção voltada para ele.”(p. 26,27) Feita esta rápida contextualização, algumas questões vêm à baila: como é o cuidado feito por homens de filhos e filhas e como fica a função materna com este 58
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    homem com umpapel diferente no sistema familiar? Vamos tentar abordar estas duas questões neste subtítulo e entender um pouco mais da função paterna. Kimmel(2000) irá comentar que mesmo hoje em dia, os pais passam pouquíssimo tempo com seus filhos, e o cuidado é crescente de acordo com a idade da criança. Poucos pais acompanham seus filhos durante a pré-escola, porém muito entendem o quanto ser pai é mais importante atualmente do que era no passado e que muitos são mais atuantes do que seus próprios pais, o que significa um avanço no ideal da função paterna. Complementar a isso, Costa(2002) afirma que o papel da paternidade é muito importante para a reafirmação do homem enquanto masculino. Isso porque a masculinidade hegemônica é constituída através da virilidade, que tem como uma de suas faces conseguir produzir filhos, e a moralidade, que vai exigir deste pai que ele eduque e sustente este filho. A honra também está envolvida nesta questão, de modo que se enreda na relação de cuidado com seus filhos. De acordo com uma aula dada por Elizabeth Brandão em 201013, o pai tem função primordial em desfazer a relação simbiótica entre mãe e filho/a e introduzir a criança no mundo da cultura. Isso significa que o pai não deveria ter a função passiva de educar seus filhos, mas deveria se envolver ativamente na tarefa, de modo a: a) Deixar que a mãe possa voltar ao papel de mulher, de alguém que tem necessidades além de suprir as do bebê; b) Trazer à criança novas experiências, incluindo-a na realidade e “cortando o cordão umbilical” da criança com a mãe, assim como introduzindo esta criança no mundo desejante; Isso significa que assim como a mãe, o pai tem funções muito importantes para o desenvolvimento do bebê, e elas são necessárias para a boa adaptação deste na sociedade. Mas quando os filhos crescem sua função não deixa de ser importante. Além de prover, junto com a mãe atualmente, o sustento, a escolaridade, todos os custos de uma criança, e até adolescente, ele tem a função de prepará-lo/a para o mundo exterior. Deve ensinar coisas a respeito da vida do trabalho (não que a mulher não possa fazê-lo, mas o homem tem como valor construtor de sua identidade o trabalho, coisa mais complementar à mulher, em alguns casos.), da vida sexual, especialmente para seu filho 13 Elizabeth Brandão é professora no Núcleo de Psicodiagnóstico na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 59
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    homem, como suafilha deve agir se um homem tentar qualquer coisa sexual com ela (desde a piscada do outro canto da sala até como dizer não em uma situação de coação). “Quando minha filha de 15 anos me pergunta se pode sair com um garoto, pergunto quem ele é, o que faz da vida, sua idade, onde eles vão, e fico torcendo que seja um cara boa pinta, que não a machuque. Sabe como é, né, a gente sabe como os outros homens são... Já com meu filho, se ele vai sair, só falo para ele se divertir, e não voltar muito tarde... Sei lá, a gente tem medo de que aconteça algo com a menina, já com o menino, não tanto” , falou um homem de 49 anos, em conversa informal com a pesquisadora. E realmente, o tratamento de filhos e filhas é diferente, segundo Flood(2007). Este autor afirma que com seus filhos, o homem tende a exigir os valores hegemônicos da masculinidade, de modo a prepará-lo para o mundo fora do micro- cosmos familiar, então exige dele uma postura de decisão, força, astúcia, e heterossexual principalmente, mas o modo como o homem irá criar seu filho depende muito de sua própria masculinidade, esta ligada à masculinidade hegemônica, como discutimos anteriormente. As brincadeiras com meninos, segundo Kimmel(2000) são mais cheias de regras e utilizam mais a força física, como lutas de brincadeira, o próprio futebol, entre outros. Já com sua filha, (esta relação é menos estudada como afirma Flood(2007) devido ao pouco valor dado à filha na sociedade patriarcal), o pai tende a dar mais limites e controlar para que a menina siga mais um comportamento respeitável a uma mulher, de acordo com o que ele acredita que seja este comportamento. Pais acreditam que mulheres são mais delicadas e gentis, e a doçura e comportamento cooperativo são mais reforçados por estes. A importância do pai atualmente é vista como crucial à família como um todo, pois diminui a carga das mulheres no cuidado da casa e do trabalho (Double Shift), aumenta o contato dos filhos com a realidade masculina e une mais os laços de afeto e companheirismo desta organização sistêmica. Vamos no próximo subtítulo falar um pouco mais sobre esta complexa gama de relações que nos ensina sobre nosso papel na sociedade, do qual o homem não deve estar alienado: a família. II.6. Do homem com sua família A família, como descrevem Souza & Norgren (2002) contribui para a organização social e cultural por meio dos cuidados com os filhos e da transmissão de valores. Ela 60
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    envolve pessoas emum mesmo ideal, ela é uma rede de relações costuradas pela genealogia, a conjugalidade, convivência com outras pessoas e sua ajuda mútua, seja ela afetuosa, seja por laços de sangue. Como explicita Macedo (1994) apud Souza & Norgren (2002), “a família é vista como o primeiro espaço psicossocial, protótipo das relações a serem estabelecidas com o mundo. É a matriz de identidade pessoal e social, uma vez que nela se desenvolve o sentimento de pertinência que vem com o nome e fundamenta a identidade social, bem como o sentimento de independência e autonomia, baseado no processo de diferenciação, que permite a consciência de si mesmo como alguém diferente e separado do outro” (p. 12) A família sofreu várias mudanças desde a década de 50, pois o modelo de família da época despendia muito esforço de todas as partes envolvidas: a esposa deveria arrumar a casa, cuidar dos filhos, manter-se no mundo privado do lar, ou seja, não poderia trabalhar. O homem, contrário à esposa, deveria servir de provedor da casa, e vez ou outra levar o filho homem para fazerem atividades juntos. Também era ele quem impunha as regras da casa, mesmo que a mulher as fizesse cumprir. As crianças deveriam apenas estudar, obedecer e aprender muito bem aquela dinâmica familiar, para que um dia pudessem reproduzi-la. Este modelo de família logo se dissolveu por exigir uma postura muito rígida dos seus participantes, e pouco tempo depois, com a revolução sexual, a onda de divórcios, a gigante quantidade de famílias sem os pais, a delinqüência juvenil (inclusive retratada muito bem pela história da música na época, que até os anos 50 tinha como hits cantores como Frank Sinatra, dançarinos como Bing Crosby, e que já na década de 60 tinha o “rei” Elvis Presley, os Beatles e o começo do rock’n roll, música altamente contestadora dos valores sociais até hoje, e que na época lutava contra esta maré de racionalidade aos sentimentos e sensações, inclusive sexuais, dos jovens.), pais alienados da vida com seus filhos, mulheres infelizes com sua posição doméstica, o “american way of life” se transformou em apenas mais uma das formas do sistema familiar. Kimmel(2000), ao fazer um histórico da família, comenta que esta nos anos 70 e 80, era muito mais resiliente por formarem-se não pela conformação “perfeita” da esposa – marido - casal de filhos – cachorro, mas por respeitar a diversidade de pessoas envolvidas no contexto familiar, que tinha mais o intuito de apoio psicológico além da 61
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    transmissão de valores.Os papéis de gênero eram mais flexíveis, pais conseguiam passar mais tempo com seus filhos e as mães poderiam se empenhar mais em suas vidas profissionais. Além disso, com conhecimento sobre a sexualidade e sobre controles de natalidade, o casal poderia se enredar mais no relacionamento e ter um nível maior de intimidade. Foi um pouco antes desse período, em 1969, que a população de lésbicas e gays “pôs sua cara a bater” para a sociedade, de acordo com Jagose(1996), e trouxe suas lutas para as esferas públicas e políticas. Como ela cita, não era apenas o movimento gay que tinha objetivos diferentes para a sociedade mais conservadora da época, mas sim toda uma contra-cultura baseada em novas formas de viver na sociedade, como o movimento hippie, o movimento dos negros e sua reivindicação por melhores condições de vida e outros ativistas que muito influenciaram a organização familiar no mundo e no Brasil inclusive, moldando nossos ideais a respeito desta instituição até hoje. O Brasil é um país onde a família é uma instituição fundamental para explicarmos sua estrutura e isso ocorre devido à fundação de nossos valores no patriarcado14, exercido e reverberado na mente brasileira em vários âmbitos da vida pública e privada. Na família, isto é percebido na autoridade paterna altamente evidenciada, presente às vezes na autorização dada pelas mulheres. Segundo a pesquisa a respeito da mulher brasileira da Fundação Perseu Abramo lançada em 2003, ainda 30% das mulheres acreditam que nas decisões importantes, é justo que o homem tenha a última palavra, 24% pensam que a mulher deve satisfazer o marido sexualmente mesmo se não tem vontade e 11% concordam que se a mulher trair o marido, é justo que o mesmo bata na esposa, o que representa que ainda estes valores permeiam muito nossa sociedade, de forma direta ou indireta. Além disso, uma discussão iniciada no subtítulo anterior aqui se torna muito importante: a instituição familiar vem passando por alterações extremamente bruscas, como o aumento do divórcio, os recasamentos, a homoparentalidade, e muito da dinâmica familiar vem se transformação desde a ida das mulheres em massa para o mercado de trabalho. Mais homens tem se embrenhado nos afazeres domésticos, assim 14 O patriarcado, ou patriarcalismo, segundo Oliveira(2004) caracteriza-se por ser um sistema onde a autoridade masculina se sobrepõe à mulher e aos filhos no âmbito familiar, de forma violenta muitas vezes. Para que isto continue ocorrendo, o patriarcalismo deve fazer parte de outras instituições também, como os meios de trabalho, do consumo, da política e da cultura. É importante citar que por mais que as constituições familiares tenham se alterado muito nos últimos anos, o patriarcalismo ainda é retomado no ideário social nacional. 62
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    como muito maismulheres passam seus dias trabalhando, e isso inclusive altera também o cuidado e a transmissão de valores para as crianças na família. Inclusive, com o êxodo rural que ocorreu no Brasil nos anos 60, estas dinâmicas se transformaram drasticamente. Segundo Kimmel(2000), muito mudou no papel do homem na família, mas pouco a respeito das tarefas domésticas. As mulheres continuam tendo que arcar com estas responsabilidades, ainda que trabalhem, e poucos homens realmente ajudam nas tarefas do lar. Isso no Brasil também é verdadeiro, pois de acordo com a pesquisa de 2003 da Fundação Perseu Abramo, 96% das mulheres (avós, mães e filhas) fazem os afazeres domésticos, enquanto apenas 3% das mulheres entrevistadas não têm nenhum trabalho remunerado. A masculinidade tem se mostrado bem resistente a adentrar e viver também no mundo privado. Como vimos nos relacionamentos explicitados anteriormente, a relação com os filhos, com um/a esposo/a, com a sexualidade, e com a sociedade, como falaremos mais adiante, estarão presentes na relação que o homem estabelece com sua família. É com ela que ele percebe seu lugar na sociedade, e é com ela que ele fundamenta sua identidade social, onde ele ensaia seu contato com o mundo onde vive. A família, como instituição reprodutora de valores, reproduz as dinâmicas de gênero, e é isso que temos como base para esta relação presente na masculinidade. Muitos pontos serão abordados neste subtítulo: como o homem define sua família, como ele percebe sua função neste enredamento, quais os papéis que deve exercer sendo este homem avô, pai ou filho, como acha que as outras pessoas da constituição familiar devem agir perante ele. Quais as principais transições familiares que o homem vivencia, e como isso ocorre? Como ele lida com as crises envolvidas neste sistema? Como o homem se relaciona com sua família gera muito mais questões, mas tentaremos nos ater a estas neste momento. Para grande parte dos homens, a família é onde ele se situa enquanto ser relacional, desde criança, quando relaciona-se com seus pais e irmãos até quando avô ou bisavô. Sua função enquanto homem é demonstrar aspectos da masculinidade hegemônica em todas as fases da vida, que serão reforçadas quando o indivíduo é criança, copiadas quando o indivíduo faz a função parental, e estáticas e imutáveis enquanto idoso. Mas dentro da família atual, grande parte das mulheres detém o controle sobre regras e educação dos filhos. Ora, elas assim o foram até meados da 63
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    década de 60,como as coisas mudariam tão rápido? Vale apenas ressaltar o que Hime(2004) comenta em sua tese de Doutorado: a subjetividade das pessoas não avança na velocidade da realidade, e os indivíduos demoram a se acostumar psicologicamente com novos pressupostos, tecnologias, verdades e situações de seu mundo cotidiano. Por exemplo, ainda acredita-se que o homem deve ser o provedor principal de recursos financeiros da casa, e que “homem não tem jeito para cuidar de bebê”. É evidente que o homem não tem um modo de criar seus filhos igual ao de uma mulher, pois ele não é uma e não foi criado para sê-lo, como pudemos ver no subtítulo anterior. Além disso, generalizar que todos eles devem ser os principais provedores também não condiz com a realidade, visto que cada vez mais existem mulheres de sucesso no mercado de trabalho. Não é fácil modificar a estrutura psíquica de uma pessoa, que dirá de uma sociedade inteira. Ademais, como a sociedade atual espera do homem atitudes que condigam com a masculinidade hegemônica, ele espera uma sociedade de pessoas que se curvem ao seu poder, toda e qualquer forma de gênero dentro da família deve obedecer ao patriarca legítimo (ou não), as mulheres não devem trabalhar e sim cuidar de seus herdeiros, o que muito tem a ver com o capital, segundo aula ministrada pela pós-doutora em ciências sociais Carla Cristina Garcia na PUC-SP15. Ela afirma que a visão que o homem tem sobre a mulher é de superioridade, de que ela é romântica (segundo o Romantismo no século XIX) e é sua, desde o momento em que não é mais do pai dela. Portanto, lhe deve favores como os trabalhos domésticos. Pensando nas transições que homem vive na família, a que mais o vem chamando para o convívio familiar é o nascimento de um filho, seja de qual sexo ele for independente do número de filhos que ele tiver. Kimmel(2000) descreve que nos tempos de pós-modernidade, 90% dos homens vão à maternidade quando seus filhos nascem, enquanto esta proporção era quase nula há 30 anos. Segundo Freitas, Coelho & Silva(2007), mesmo antes do nascimento esta é uma experiência marcante aos homens, em seu estudo com pais que freqüentam uma clínica de reprodução humana: “No que tange ao sentimento de paternidade tendo como referência a notícia da gravidez e o processo vivido a partir dela, posicionamentos de sujeitos do estudo revelaram que, a paternidade 15 Professora nos cursos de Ciências Sociais e Psicologia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, nas disciplinas relacionadas à introdução da Sociologia e Questões de Gênero 64
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    foi uma experiênciasocial significativa desde o momento em que tomaram conhecimento da gravidez” (p.140) O casamento também é uma transição importante na vida familiar de um homem, visto que é nesse momento que ele fará sua escolha afetiva a respeito de quem gostaria de ter ao seu lado (ou aos seus pés). Enquanto seus filhos não nasceram, ou quando seus filhos saem de casa, a união estável com outra pessoa é algo muito importante. Tão importante é que, se o outro/a cônjuge falece, ou existe a separação, o luto é algo tão dolorido que aquela masculinidade perde um de seus pilares principais. Aliás, a morte do/a cônjuge também é uma das possíveis transições familiares mais importantes para um homem, podendo levá-lo até a problemas físicos mais sérios, pois normalmente a qualidade de vida do idoso cai com esta situação como afirma Haddad(2008), e ele fica mais propenso a doenças físicas e mentais. Existem várias crises que a masculinidade pode enfrentar na família. Estas incluem revelar uma homossexualidade, uma gravidez indesejada da parceira, um aborto espontâneo, uma doença que afete o sistema familiar, um divórcio (ou mais), a morte de alguém importante na família, como seu próprio pai ou sua mãe, ou até mesmo de um filho, entre muitas e muitas outras possíveis crises dentro da dinâmica familiar. Como esmiuçar cada uma das possíveis crises não é nosso intuito nesta pesquisa, falaremos mais a respeito de uma crise em particular: “sair do armário”. Assumir a homossexualidade para si mesmo, muitas vezes já é uma tarefa árdua. Isso porque assumir o desejo homoafetivo é claramente dizer a si mesmo dentro dos valores da masculinidade hegemônica contemporânea: “possuo uma masculinidade subordinada, serei humilhado perante a sociedade, pois não cumpro meu papel de homem, aquele que domina outras formas de gênero. Sou um dos dominados. Não gosto do que me completa, mas do que me complementa, e quero um relacionamento igualitário, diferente do meu pai, ou do que os meus amigos dizem.”. E em grande parte, estes pensamentos vão estar ligados àquilo que outros irão pensar, e não com o relacionar-se sexualmente com homens. Então quando uma informação deste tipo é revelada aos demais integrantes da família, todos ficam mobilizados. O pobre moço, sedento por aprovação, nervoso das liberdades e privações que terá a partir desta informação dada aos pais. A mãe, sentindo-se fracassada enquanto educadora das normas de gênero, pois ela acredita que se seu filhinho deixar de dominar mulheres, e até espancá-las ocasionalmente, e 65
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    começar a beijara e transar com homens é um tremendo mal negócio para ele. Ele vai, a seus olhos, se tornar mais feminino invariavelmente (E aqui nem falamos da transexualidade. Muitos/as transexuais são obrigados a sair de casa por assumirem suas verdadeiras identidades e isto é péssimo se pensarmos o quanto estas pessoas precisam do apoio emocional para a transição). Isso se não for seu próprio marido que assumiu que a vida inteira preferiu homens a mulheres. É algo enlouquecedor de se pensar a algumas delas, ser trocada por um homem... Mas se não for este o caso, o pai também não se sentirá nem um pouco bem com um filho homossexual. Em culturas menos urbanas, é comum ouvir relatos de pais que tentaram matar seus filhos ao descobrirem a homoafetividade dos mesmos, ou afastaram-nos dos outros irmãos, como se esta característica fosse uma doença contagiosa, como é o caso de X, nas pesquisas de Connell (2005), onde os pais privaram o irmão homossexual do contato com seus outros irmãos. Além disso, o papel de gênero do pai também se abala se seu filho é homossexual, pois isso pode demonstrar que ele não está cumprindo sua função de educá-lo enquanto homem viril, heterossexual, dominador, e não dominado. A família, como o sistema solar, vai se ajustando com as órbitas gravitacionais dos outros astros, e enfim, chega ao equilíbrio. Mas os custos com isso são tempestades, furacões e explosões em cada um dos envolvidos. É um esforço que todos estão dispostos a passar? Outra crise pela qual um homem pode passar em relação à sua família é a perda de seu emprego. Como veremos no subtítulo seguinte, o trabalho é um aspecto central da identidade masculina. II.7. Do homem com seu trabalho Ao comunicar-se com outro homem, muitas vezes o primeiro comenta “sou Fulano, do banco Tal. E você?”. Isso nos traz alguns questionamentos a respeito da função do trabalho na masculinidade. De que forma ele a constitui? “O trabalho engrandece o homem”? Como os homens se comunicam a respeito de seus trabalhos a outros homens? E a mulheres? Quais as relações estabelecidas por homens no trabalho, e como elas afetam a masculinidade do sujeito? Quais são as relações de produtividade? Como o poder aparece nessas relações? Existem profissões ditas femininas ou masculinas? Analisaremos esta relação neste subtítulo tão edificador da masculinidade. 66
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    Como vimos anteriormentena pesquisa, alguns dos valores mais importantes na masculinidade hegemônica veiculada no ocidente são a racionalidade, a busca pela excelência, a manutenção da honra e da imagem da força, assim como a hierarquização de características e por conseqüência, pessoas que as detém de acordo com sexo, sexualidade e função na sociedade. Um homem é constituído das várias funções na comunidade onde vive, segundo Kimmel (2000). A maior delas, com certeza, foi por anos e anos a de provedor da família e portanto, a força de trabalho de uma sociedade. Para que o homem traga o sustento de sua família e possa contribuir para o crescimento de sua comunidade, ele deve exercer uma função relevante à mesma, de forma a, por meio de troca do seu serviço por dinheiro (depois do Mercantilismo) ou mesmo comida, roupas e outros objetos que ele não produzia, manter sua esposa e filhos de forma material. Mas seu ofício, antes da revolução industrial, não se resumia a isso. Ele tinha funções no lar também, auxiliando, como descrito no subtítulo a respeito de família, na educação dos filhos e nos trabalhos domésticos. Após esta revolução, muito mudou em seu ofício: agora, deveriam trabalhar de 14 a 16 horas por dia, em locais insalubres muitas vezes, e não mais de acordo com o horário da família como era entes deste momento histórico. Esta alteração no modo de ver e de exercer o trabalho em muito modificou a visão do trabalho pelo homem, assim como sua função na família. Durante os anos dourados, os homens trabalhavam menos devido às leis trabalhistas, porém pouco mudou no ideal de masculinidade, permeado pelo homem provedor, importante parte para o sustento dos filhos. E o trabalho constituía sua masculinidade pois era nele que ele se tornava independente, era lá que com outros competia e se sentia vivo dentro do sistema social, segundo Gusmán(2009). Essa autora discute que o desemprego relacionado à entrada das mulheres no mercado de trabalho nas últimas décadas resultou em um balanço muito forte dos valores de significação da masculinidade. Como afirma a autora “Los desempleados sufren la pérdida de su estructura temporal habitual, “los días se alargan cuando no hay algo que hacer..., el aburrimiento y La perdida del tiempo se convierte en algo cotidiano... Los desempleados experimentan un sentimiento de carencia de objetivos (para sí y para los otros), acompañado por uma sensación de exclusión y aislamiento. Durante el desempleo se produce una reducción de los contactos sociales y un incremento de 67
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    la tensión familiar;se percibe una perdida de estatus y de identidad” 16 (p. 41) Como Kimmel(2000) comenta, a entrada das mulheres no mundo do trabalho foi efetuada em menos de um século, enquanto os homens sempre fizeram seus ofícios. Este espaço era deles, e nós, mulheres, nos incluímos na força de trabalho. É evidente que por mais que a quantidade de pessoas necessárias para trabalhar tenha aumentado muito nestas últimas décadas, o mercado não consegue absorver a todos. Como as mulheres se submeteram à qualquer tipo de trabalho, muitos homens ficaram desempregados, e são estes os homens que Gusmán (2009) entrevista no México e na Argentina. Ao falar sobre as subjetividades contemporâneas, Eccel (2009) comenta que um dos maiores medos das subjetividades contemporâneas é não ter espaço na sociedade, razão de existir ou tornar-se um refugo e vai além do desemprego, pois este ainda é temporário. No âmbito do trabalho, essa característica do homem contemporâneo se torna ainda mais evidenciável. O trabalho transforma a masculinidade no sentido em que é um facilitador para a vida pública de um indivíduo, e em seu enquadre na sociedade, como afirma Guzmán(2009) e Kimmel(2000). É no trabalho que ele fará sua rede social, é lá que ele terá chance de demonstrar sua masculinidade, é neste âmbito que ganhará status e exercerá o poder. Isso significa que para conseguir estes benefícios à sua identidade, ele também deve adequar-se à regras sociais como a produtividade e a hierarquia antes que exercite seu ofício, deve usar roupas específicas (como o terno e a gravata, o macacão do operário como exemplos) e portar-se como o empregado de tal empresa, emblemando os valores da mesma em seus atos. Deve performaticamente agir de forma racional e direcionada, sendo sempre bem sucedido e ambicioso por mais desafios, dinheiro e status. Inclusive mulheres devem agir dessa forma caso queiram ser bem sucedidas em seus trabalhos. Isso significa que o trabalho constitui as identidades masculinas do mesmo jeito que estas constroem a estrutura da instituição do trabalho, suas formas de exercer o poder e de normatizar o gênero. Sem o trabalho, seu local de iniciação na sociedade, o 16 Os desempregados sofrem a perda de sua estrutura temporal habitual, “os dias se alargam quando não se tem o que fazer..., o tédio e a perda do tempo se torna algo cotidiano... Os desempregados experimentam um sentimento de carência de objetivos (para si e para os outros), acompanhado de uma sensação de exclusão e isolamento. Durante o desemprego há a produção de uma redução dos contatos sociais e um aumento na tensão familiar; se percebe uma peeda de status e de identidade. 68
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    homem se percebesem rumo, sem essência e vazio de significados. Kimmel(2000) afirma que mesmo que estejam infelizes com seus trabalhos e que muitas vezes queiram passar mais tempo com suas famílias, a grande maioria dos homens não abdica deste espaço pois não tem tempo para pensar sobre suas necessidades dentro do ambiente de trabalho, além do status que consegue ao avançar em sua carreira. Quanto à comunicação a respeito de seus trabalhos, grande parte dos homens se baseia no quanto àquela firma em que ele trabalha é valorizada no mercado de trabalho. Então, é mais fácil ouvir de um homem “Sou Fulano, do Banco Tal” do que “Sou Fulano, lixeiro da prefeitura” ou “Sou Fulano, sou michê da Rua Tal”. Profissões como lixeiro, profissional do sexo, jornaleiro, cozinheiro, pedagogo, traficante de drogas (a não ser onde estas profissões sejam valorizadas como positivas, como afirma Cecchetto (2004)) não funcionam muito bem como “sobrenomes” se pensarmos na população brasileira. Raramente são posições de prestígio para a maior parte da população masculina ou até feminina. Como foi dito em um documentário na Rádio CBN sobre a vida dos recolhedores de lixo em São Paulo no ano de 2010, muitos mentiam sobre suas posições de trabalho quando conheciam homens ou mulheres, e principalmente na frente destas, escondiam até detalhes da rotina, que poderiam ser diurnos ou até noturnos. Essa profissão, como afirmavam as pessoas que dela participavam, é “invisível” às outras esferas de trabalho, mesmo que seja extremamente importante para a sociedade como um todo. Outras profissões como esta, no ambiente de trabalho, se sentem consideradas na base da pirâmide hierárquica entre as masculinidades. Isso realmente é uma impressão condizente com a realidade, pois aquele que tem um cargo superior, normalmente trata aqueles que estão abaixo dele com menos atenção e apreciação que seus superiores diretos, e estes, por sua vez, autorizam esta desvalorização, se relembrarmos o que fala Connell (2005) a respeito da complementaridade dos marginalizados e dos hegemônicos, enquanto um autoriza o outro a ter seu lugar dentro da sociedade de acordo com o que estes grupos aceitam. O poder, no campo do trabalho, é onde mais claramente aparecem as relações de poder entre homens e mulheres evidenciados não apenas com a hierarquia, mas também com outros expoentes, como a segregação de gênero, o assédio moral ou sexual no trabalho, o valor monetário e atribuído à cada uma das profissões. 69
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    Quanto aos possíveisofícios, nos dias atuais, não existem funções na sociedade exercidas apenas por homens ou apenas por mulheres. Existem sim algumas melhor avaliadas pela sociedade como aquelas que são quase considerados “inúteis” (que só não o são porque se a sociedade os criou, eles hão de ter uma utilidade, certo?). Normalmente, os trabalhos que possuem características consideradas “masculinas” são mais valorizados com a moeda corrente e o prestígio social. Isso inclui profissões de pensamento racional, onde o poder pode ser plenamente exercido, a força física pode ser necessária, além de outras características que foram várias vezes ressaltadas neste trabalho sobre a masculinidade hegemônica. Isso inclui ofícios associados à construção civil, aos cargos políticos e militares, a posições de comando, entre outros. Já profissões com características típicas do comportamento feminino como cuidar, agüentar situações de stress, obedecer a ordens e cuidar da estética, são vistas na sociedade como supérfluas, desnecessárias, ou úteis até certo ponto, onde podem reproduzir valores da segregação de gênero. Profissões ligadas ao ensino, ao cuidado das tarefas domésticas e de crianças, à saúde, à arte e outras correlacionadas são menos valorizadas, no pagamento e no prestígio atingido pela sociedade. E como afirma Kimmel(2000), uma mulher que faz uma profissão masculina perde sua feminilidade e vice versa, sendo ainda mais discriminada. Isso acontece pois ela fica muito visada pelo resto da organização, mas invisível enquanto pessoa ou como trabalhadora, e normalmente é contratada porque é estigmatizada. Este autor chama estes indivíduos de Tokens, que muito têm que se esforçar para que seu trabalho seja notado, mas pouco precisam fazer para chamarem atenção dentro daquele espaço. Porém até sendo um token, ser mulher ou homem causa impressões vividas opostas. Homens, quando tokens, são considerados mais capazes e sobem mais rápido na hierarquia de suas profissões que as próprias mulheres que dividem sua profissão. Quando na organização, ganham mais dinheiro e ocupam cargos de mais prestígio que suas companheiras. Porém, quando fora destas organizações, estes podem sofrer estigmatizações a respeito de sua sexualidade e forma de exercer sua masculinidade. Mas em si, levam a hegemonia masculina para onde vão, como afirma o autor. Muito da ótica de gênero é reproduzida no trabalho e isso mantém a desigualdade não apenas nas organizações, mas também em como a vida em sociedade é experienciada pelas masculinidades. Como esta lida com as masculinidades diversas? 70
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    Esta é umaquestão que discutiremos no subtítulo final: a relação do homem com a sociedade. II.8. Do homem com a sociedade como um todo É importante ao falarmos neste subtítulo que os homens estabelecem relações com o todo (a sociedade e os ideais e estereótipos que ela prega) e com as partes (com homens, com mulheres, com seus filhos, etc.) e que ambos os campos estão intimamente ligados. Quando explicitamos que o homem exerce e recebe violência desde tenra idade, estaremos aqui colocando como a sociedade reage a ele e como ele reage a ela, mas ele vai interagir com pessoas, não com a sociedade inteira. Mas ao interagir mesmo que com uma caneta ao assinar o nome em um cheque até quando ele vota em uma eleição federal (aliás, o que logo acontecerá), ele imerge em valores sociais, históricos e geográficos, e ele não consegue deixar de ser influenciado por estes. Então, percebermos como o homem se sente ao viver na sociedade em que vive, no que contribui para a cristalização e mudança de valores desta sociedade e como ele se vê como cidadão desta, principalmente aos cidadãos brasileiros, nosso foco de estudo, é fundamental. Como ele acredita que é seu papel enquanto homem? Quais os padrões, normas e valores sociais que forjam a masculinidade hegemônica e o que cria as subordinadas? Quais as mudanças perceptíveis acerca da masculinidade hegemônica que têm surgido depois da revolução sexual, e no que isso influiu na vida do homem atual? Iremos então neste subtítulo final do segundo capítulo fazer uma tentativa de explicitar as respostas para estas questões e fechar o mesmo com as informações demonstradas nos subtítulos anteriores para então movermo-nos para a pesquisa prática, e o método com o qual a realizaremos. Percebeu-se durante todo o capítulo que o homem tem de mostrar sempre para si e para o mundo sua masculinidade. Ela é demonstrativa e relacional, pois se mostra enquanto o indivíduo se apresenta, no modo de falar, de pensar sobre algo ou alguém, etc. Este subtítulo é extremamente complexo, pois ao mesmo tempo em que ele engloba os outros, ele determina os outros. Quando falamos a respeito da relação com o si-mesmo, com o corpo e mente do indivíduo, suas teorias sobre si são formuladas a partir do que a sociedade prega como masculinidade hegemônica. O homem compara-se com o mundo, e percebe-se como igual, ou diferente, melhor ou pior que a média ou outro indivíduo. 71
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    Na relação comoutros homens e mulheres, os ideais sociais também aparecem, trazendo modos de agir, falar, pensar sobre o outro. Mais uma vez ele irá comparar-se a si mesmo com outras formas de gênero e poderá inclusive estabelecer valores em uma hierarquia a cada uma delas, dependendo de várias características do outro sujeito com o qual se relaciona. Uma delas é o parentesco e a família, que por mais que tenha surgido com normas bem rígidas, atualmente é incerta e diferente, no sentido que mudou. Ser pai não é como ser o filho, mas um controla o papel do outro e a os valores sociais como o próprio patriarcado são veiculados na família brasileira, gerando forças instituintes à repressão e mais confusões para os participantes desta complexa instituição. Pensando em instituições, o trabalho é edificador da masculinidade e local de negociações entre as masculinidades e as feminilidades sendo a masculinidade o âmbito caracterizado por intensa competitividade e segregação, como se vê nas as organizações contemporâneas. Homens e mulheres são forças de trabalho e isso também alterou as famílias de um modo geral, e algumas gerações de uma sociedade que logo começarão a gritar por seus pais. As expressões e significados associados à sexualidade, por sua vez, também vem mudando drasticamente, e com ela a sexualidade de todos os homens. Não existe mais um padrão rígido a seguir, mas muito homens ainda acreditam na força, no orgasmo como única fonte de prazer e desvalorizam as lutas feministas pelo não-uso de poder “nos países baixos”, nos relacionamentos sexuais e amorosos. 72
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    Capítulo III -Método Pudemos neste trabalho estabelecer dados teóricos que suportem as informações da realidade que buscamos quando nos propusemos a fazer uma pesquisa prática. Para então termos um método para compreender as masculinidades que estudamos, foi crucial que o instrumento se adequasse à realidade destes homens, e não à algo longínquo e distanciado como a pesquisa quantitativa. Segundo Flick (2009) “Diferente de um estudo quantitativo, o pesquisador não usa a literatura existente sobre seu tema com o objetivo de formular hipóteses a partir dessas leituras, para, então, basicamente testá-las. Na pesquisa qualitativa, o pesquisador utiliza os insights e as informações provenientes da literatura enquanto conhecimento sobre o contexto, utilizando-se dele para verificar afirmações e observações a respeito de seu tema de pesquisa naqueles contextos.” (p. 62). Ademais, como não existe apenas uma masculinidade, (e isso foi proposto e explicado nos capítulos anteriores) foi importante ouvirmos as vivências individuais do ser masculino, e como isso se expressa nas relações que este estabelece com seu mundo, que se modifica ao longo do tempo e do espaço. De modo a atingir os objetivos proposto no projeto, que são de compreender como são construídas e expressas as masculinidades de homens homo, heterossexuais e transexuais, utilizando-se o conceito de gênero, dando atenção às relações que ele estabelece com seu corpo, com sua própria masculinidade e com o mundo que o rodeia, foi preciso que nosso modelo de pesquisa fosse qualitativo, no sentido que Flick (2009) comenta: “A pesquisa qualitativa é de particular relevância ao estudo das relações sociais devido à pluralização das esferas de vida. As expressões chave para esta pluralização são a ‘nova obscuridade’ (Habermas,1996), a crescente ‘individualização das formas de vida e dos padrões biográficos’(Beck, 1992) e a dissolução das ‘velhas’ desigualdades sociais dentro da nova diversidade de ambientes, subculturas estilos e formas de vida. Essa pluralização exige uma nova sensibilidade para o estudo empírico das questões” (p. 20). E este autor também nos lembrou que devemos estar atentos ao ambiente em que a pesquisa se dará, e como este ambiente altera a pesquisa. Para entendermos suas 73
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    individualidades, tão únicase diversas, e percebermos as vivencias destes homens não como queremos, mas como elas são realmente, foi importante que estes construíssem significados sobre suas vidas, como ressaltam Ludke e André (1986), objetivo nem sempre alcançado com a pesquisa quantitativa, devido ao limite de respostas que o sujeito poderia dar. Mas ao mesmo tempo, os homens que foram entrevistados nesta pesquisa, por fazerem parte deste contexto, têm que dar algumas informações factuais de modo a poderem se adequar aos critérios de inclusão propostos pela, como veremos ao falar dos participantes. De acordo com Luna (2000), informações factuais são aquelas que não dependem de interpretação nem de quem a fornece, nem de quem a registra, como idade, nome, estado civil, escolaridade, etc. Esta pesquisa tem como objetivo trabalhar com o sujeito questões factuais sim, mas sua ênfase e foco serão localizados nas questões não factuais. As situações, ações e interações complexas foram analisadas em seus contextos, a partir do ponto de vista do sujeito, para se obter uma compreensão do fenômeno e dos processos envolvidos como afirma Moon (1990), assim como do significado a eles atribuído. Para este trabalho foi organizado um roteiro de entrevista semi-aberto, com a intenção de obter uma amostra de dados que respeita a individualidade do indivíduo (assim assumindo que cada participante da pesquisa possui seu próprio pensamento, opções, sentimentos e ações). Ademais, deu-se maior liberdade ao colaborador para fornecer os dados que ele queria dar, focando-se apenas em certas questões norteadoras. Por ser uma entrevista semi aberta, há uma flexibilização da mesma dando uma sensação de liberdade ao indivíduo, ele se sente mais à vontade. Isso por que, segundo Maciel Jr.(2006), a entrevista pode representar ao homem uma ameaça à sua masculinidade, e deixá-lo no controle da situação é uma alternativa para conseguir dados consistentes sem maiores resistências como a minimização, descrita pelo autor como uma forma de desqualificar o entrevistador e a entrevista dando respostas evasivas ou curtas. Isso foi percebido no primeiro pré-teste da entrevista, quando o entrevistado Rodrigo17, no começo da entrevista, se mantém com uma postura corporal defensiva, usa óculos escuros mesmo em ambiente fechado, e dá respostas evasivas e gerais a 17 Os nomes foram trocados em respeito ao sigilo dos entrevistados. 74
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    respeito das questõescolocadas, e no final se solta mais, sorri, dá respostas mais pessoais e se evade menos das questões, evidenciando que é necessário sim um “jogo de cintura” quando entrevistam-se homens, e que é necessário conversar um pouco com o entrevistado antes da entrevista propriamente dita para quebrar estas possíveis resistências. Este é um dado observado pelo autor citado acima, que os homens demonstram sua masculinidade também ao responder a entrevistas, assim como em qualquer situação social. É preciso então segundo Smith & Drummond (2003) apud Maciel Jr.(2006), “jogar conversa fora”, “quebrar o gelo” para que o entrevistado perceba que não irá ser julgado, e trazer um sentimento de confiança e estreiteza de laços para o mesmo, garantindo assim o sucesso da entrevista. Já no segundo pré-teste, com Marcos, esta técnica funcionou substancialmente, deixando o entrevistado muito mais confortável para falar de suas experiências. Este entrevistado também colaborou a respeito do formato da entrevista, que considerou muito longo e cansativo, e sua sugestão foi diminuir a quantidade de questões e deixá-las mais ricas de informação, assim dando a possibilidade de não perder dados verbais dos entrevistados que virão. Pensando a respeito da entrevista em si, se ela é mais flexível, Shwabe & Wolkomir (2003) comentam: “This is the kind of interview that is most likely to evoke the masculinity displays that block communication and call for interviewing skill in drawing out unarticulated meanings”(p. 55).18 Isso significa que a entrevista, quando semi-estruturada, dá maior liberdade para que o homem demonstre características masculinas que bloqueariam a comunicação, e isso pede do entrevistador uma observação mais criteriosa dos significados não articulados pelo entrevistado. É de suma relevância, portanto, perceber para esta pesquisa quais são os pontos onde o silêncio se deu com mais freqüência, para então saber que características masculinas aí também estão presentes. Os obstáculos para se realizar uma entrevista com homens também deram o formato da pesquisa com o gênero masculino, assim se tornando grande fonte de informação apesar de muitas vezes serem vistas como barreiras. De forma discreta estas barreiras constituem os conhecimentos a serem obtidos na pesquisa. Como continuam Schwalbe e Wolkomir (2003), 18 “Este é o tipo de entrevista que mais provavelmente vai evocar as demonstrações de masculinidade que bloqueiam a comunicação e pedem por técnicas de entrevista para delinear significados não articulados” 75
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    “For men, thedramaturgical task is to signify possession of an essentially masculine self, a self with desires and that warrant membership in the dominant group. Precisely, what must be signifyied, and how it must be done, will vary by age, ethnicity, social class, sexual orientation, local culture, and immediate circumstance. A masculine self is thus always the product of a performance tailored to the situation at hand” (p. 56).19 Portanto, como cada sujeito que foi entrevistado nessa pesquisa possui uma masculinidade individual, é importante delimitarmos quem foram nossos participantes. III.1. Participantes Tendo o gênero como foco de pesquisa, a idade delimitou-se dos 20 aos 55 anos de idade, sendo esta a faixa etária onde o indivíduo já em grande maioria construiu sua identidade de gênero, possui um julgamento moral já elaborado, inclusive sobre o que quer como ser masculino e desejante (sexualidade), e de acordo com a teoria psicossocial de Erik Erikson (1968), “(...) domina ativamente seu ambiente, mostra uma certa unidade de personalidade e é capaz de perceber corretamente o mundo e a si mesma.”(p. 68). Dessa forma, ele tem mais condições de refletir e compartilhar com a aluna pesquisadora suas vivências, sentimentos e atitudes acerca da masculinidade. Além disso, é uma faixa etária em que o indivíduo está preocupado com suas funções sociais mais importantes, de acordo com uma normatividade cultural brasileira: procura uma atividade profissional para tornar-se independente, tenta encontrar um par conjugal (seja ele homem ou mulher) e também é quando busca deixar seus descendentes, e assim poder agora ser responsável pelo papel social que lhe cabe: profissional, marido e pai, veiculando as normas de gênero na família e na sociedade. É evidente que nem todos querem ter filhos, ou mesmo casar, ou ainda até ter uma profissão fixa. Por essa razão acredita-se que o homem não pode demonstrar sua masculinidade sem estar em relação, seja com outros homens (em ritos de passagem, brincadeiras de limite e dor física/psicológica), com outras mulheres, (na diferenciação destes delas e/ou nas relações com as mesmas) entre outros, tendo como premissa de 19 “Para homens, a tarefa dramatúrgica é significar que ele possui um self essencialmente masculino, um self com desejos e que garanta ser membro do grupo dominante. Precisamente, o que precisa ser significado e como isso deve ser feito, vai variar na idade, classe social, orientação sexual, cultura local e a circunstância imediata. Um self masculino é sempre então o produto de uma performance talhada pela situação que se apresenta.” 76
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    que a masculinidadeé um valor social e que não apenas deriva-se da relação com outras pessoas, mas reproduz-se nelas como comenta Welzer-Lang (2001). A etnia nesta pesquisa não é ponto norteador para encontrar os colaboradores pois acredita-se que o ideal de masculinidade permeia a todos, não importando idade, etnia, sexo, gênero, escolaridade, entre outros, embora estas categorias se articulem de formas complexas. Porém se era possível coletar mais dados a respeito de onde aquela masculinidade surgiu isso foi feito e explorado como dado daquela individualidade. O grau de escolaridade do pesquisado é no mínimo o segundo grau completo. Esta escolaridade foi escolhida supondo-se que haveria uma reflexão, devido ao grau de conhecimento, sobre sua própria existência, de modo a conseguirmos entender melhor a linguagem, o passado e o presente dos entrevistados na questão sobre sua masculinidade e a dos outros, conceitos (supostamente) ensinados pelas escolas até o 3º colegial. Os participantes foram 23 homens pertencentes à região da grande São Paulo, sendo 8 homossexuais, 8 heterossexuais e 7 transexuais. III.2. Instrumento Foram usadas entrevistas semi-dirigidas como instrumento de coleta de dados. É importante considerar o pesquisador como parte do processo de coleta e análise dos dados: deve estar envolvido e ao mesmo tempo manter certo distanciamento, que lhe permita posteriormente pensar sobre o que ouviu. É co-participante da realidade observada, tendo responsabilidade pelo material produzido. É importante comentar também que assim como tentamos perceber a vivência e a experiência do entrevistado, as impressões da entrevistadora também foram levadas em conta visto que, como afirma Flick (2009) “Na pesquisa qualitativa, o pesquisador e seu entrevistado têm uma importância peculiar. Pesquisadores e entrevistados, bem como suas competências comunicativas, constituem o principal “instrumento” da coleta de dados e de reconhecimento. Por este motivo, os pesquisadores não podem adotar um papel neutro no campo em seus contatos com as pessoas a serem entrevistadas ou observadas. Em vez disso, devem assumir certos papéis e posições – ou serão designados para tanto (...)” (p. 110) Criou-se um primeiro roteiro de entrevista com itens que foram reformulados no decorrer da revisão da literatura e do preparo para a pesquisa de campo, assim 77
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    como em campo,principalmente através das entrevistas pré-teste, que de acordo com Rubano et al (2008) são muito úteis para avaliar a adequação da técnica e do instrumento de coleta de informações aos objetivos da pesquisa, à situação e aos sujeitos, a adequação de cada item do instrumento, a adequação da linguagem utilizada, do registro das informações e da apresentação da pesquisadora ao abordar os participantes. Por meio da literatura, pudemos perceber que a masculinidade é relacional e demonstrativa não apenas em palavras, mas em atos. Para coletar as informações referentes às relações levemente abordadas no Capítulo 2, foi importante trazer ao roteiro de entrevista estas mesmas relações em questões claras, abrangentes mas ao mesmo tempo direcionadas, que estão presentes no Anexo I. Como as questões são abrangentes de modo a atingir todos os dados que estamos pesquisando, existem temas em cada questão que foi abordada na entrevista em que o entrevistado poderia ou não tocar espontaneamente. Se algum destes temas não fosse tocado, a entrevistadora poderia perguntar a respeito destes, mas sem desconsiderar que um tema não-dito pode possuir significados, como afirma Maciel Jr.(2006) ao comentar a respeito de entrevistas com homens, que as manifestações (ou não) de informações verbais e gestuais vão trazer dados relevantes à demonstração da masculinidade daquele entrevistado. III.3. Procedimento Os participantes foram contatados através de indicações de conhecidos e também através de pesquisa em meios de comunicação tais como a internet; as entrevistas duraram desde 21 minutos, a 2 horas e 23 minutos, dependendo do relato do entrevistado. Foram realizadas onde era mais cômodo para os entrevistados, portanto, o local foi indicado por eles, assim respeitando o “território” seguro para os mesmos, onde poderiam se abrir sem medos ou preocupações. O único pré-requisito era que fosse em local onde a privacidade, o sigilo e a tranqüilidade seriam garantidos. No início do encontro com cada participante foram explicados novamente os objetivos do estudo. As questões éticas foram reafirmadas, com garantia de sigilo relativo à identificação do participante e das pessoas por ele citadas na entrevista. 78
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    Após o términodo relato, foi oferecido ao participante a possibilidade de fazer perguntas, esclarecer dúvidas, explicitar sentimentos ou pensamentos relativos à sua entrevista, de modo a garantir a beneficência do sujeito. Dados não verbais também foram observados, como postura, roupa, olhares, entre outros, de modo a captar mais informações que o participante deseja passar à entrevistadora e ao mundo que o cerca. III.4. Procedimento de análise dos resultados As entrevistas foram gravadas com a permissão dos participantes e transcritas na íntegra. Consideramos também os comportamentos não verbais e as reflexões e sensações da aluna-entrevistadora como dados relevantes acerca da expressão da masculinidade. Fizemos inúmeras leituras e sínteses das narrativas, a fim de obtermos um relato condensado que ao mesmo tempo contivesse as informações mais significativas. Esses dados foram analisados à luz do material que consta nos capítulos teóricos desenvolvidos. Além das análises e reflexões acerca da construção e expressão das masculinidades dos participantes, foram feitas e discutidas as comparações entre eles, a fim de se destacar as comunalidades e diferenças existentes. III.5. Considerações Éticas Nesta pesquisa destacam-se também as questões éticas, pois as informações obtidas envolvem um elevado grau de intimidade. Consideramos as normas previstas pelo Conselho Nacional de Saúde (Resolução 196/96): garantimos sigilo profissional pelo comprometimento de não revelar a identidade dos participantes, bem como a utilização dos registros obtidos apenas no âmbito acadêmico. O termo de consentimento informado e esclarecido consta do Anexo II e foi lido e explicado a cada um dos participantes para obter sua concordância. Além disso, como afirma Flick (2009) a respeito de pessoas que possam ocupar o mesmo ambiente, como é o caso de nossa pesquisa pois ela se guia por indicações de conhecidos, “A questão da confidencialidade ou do anonimato pode se tornar uma problemática quando a realização da pesquisa envolver membros que compartilhem o mesmo ambiente. Quando o pesquisador entrevista diversas pessoas na mesma empresa ou vários 79
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    membros de umafamília, a necessidade de confidencialidade não ocorre apenas em relação ao público externo àquele ambiente. (...). Com esse propósito, o pesquisador deverá alterar detalhes específicos para a proteção das identidades e tentar garantir que colegas não possam identificar os participantes a partir das informações que forneceram. (...)” (p. 55) Houve atenção e cuidado com a carga emocional que poderá ser mobilizada nos encontros. Colocamos-nos à disposição para outros contatos que foram necessários para a elaboração das vivências relatadas, de forma a garantir a não maleficência, a beneficiência, a autonomia do participante e a justiça. Este projeto foi encaminhado ao Comitê de Ética da PUC/SP, e aprovado em 1º de Julho de 2010, conforme o Anexo III. 80
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    Capítulo IV -Análise dos dados Foi possível perceber durante as várias entrevistas, diversos dados que demonstram como a masculinidade hegemônica que discutimos nos primeiros capítulos deste trabalho está presente nas masculinidades dos entrevistados. Também foi possível perceber, no entanto, que a masculinidade hegemônica apenas permeia as masculinidades individuais e não se mostra concretamente, e é um fator que influencia em diferentes graus cada masculinidade. Isto nos traz uma sensação de universalidade das diferenças: cada masculinidade é diferente, e portanto todas são masculinidades. Desta forma, faz-se necessário que analisemos de forma mais profunda pelo menos 8 dos entrevistados, das 23 entrevistas efetuadas (visto que houve uma saturação de dados) de modo a trazer informações mais intrínsecas de cada um destes. O critério de escolha dentre os vinte e quatro entrevistados buscou trazer à tona diferentes masculinidades de modo aleatório, de modo a ilustrar esta diversidade tão presente nos homens paulistas. Eles foram escolhidos em ordem também aleatória, de modo a respeitar o fato de que é impossível também fazer uma análise de todas as masculinidades percebidas nessa pesquisa devido ao tempo restrito da mesma. São eles Rodrigo, Fábio, Ramón, Maurício, Gustavo, Artur, Glauber, e Mauro. Quatro deles são heteroafetivos, dois homoafetivos e dois homens trans heterossexuais. É importante afirmar que todos os entrevistados tiveram seus nomes e dados pessoais trocados ou omitidos de modo a respeitar o sigilo presente na pesquisa através da ética que esta preza. Todos eles leram e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido autorizado pelo Comitê de Ética da PUC-SP e caso qualquer um deles decida que seus dados sejam retirados da pesquisa, até a entrega da mesma para avaliação do departamento de Desenvolvimento. Isto será feito e outra entrevista será utilizada para a análise, discussão e conclusão da pesquisa. Os locais onde foram feitas as entrevistas foram escolhidos pelos participantes, que foram desde as casas destes até academias, cafés, local de trabalho ou de estudo, cabelereiro, entre vários outros. Os contatos foram feitos através de e-mails, blogs, sites de relacionamentos, telefones de conhecidos e contatos fornecidos pelos próprios entrevistados, caracterizando o método bola-de-neve de busca de participantes. As entrevistas tiveram durações extremamente variadas, podendo durar desde 21 minutos até 2 horas e 23 minutos, dentre um e dois encontros, e estiveram de acordo 81
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    com as disponibilidadesde cada um dos entrevistados e portanto é difícil afirmar que a média faça jus a todos os participantes. Foi feita uma ficha de todos os colaboradores no anexo IV contendo todos os entrevistados, sua identidade de gênero, seu objeto de desejo sexual, sua idade, profissão, dados sobre relacionamentos amorosos, se fez ou faz psicoterapia e alguns comentários a respeito de suas vidas, além de dados referidos por estes que são importantes para a análise de cada masculinidade. Comecemos então as análises. Rodrigo Rodrigo foi entrevistado no bar onde trabalha, e recebeu a entrevistadora de modo cordial porém frio, com postura altiva e óculos escuros, que permaneceram durante toda a entrevista, mesmo que o local da mesma fosse feito em local fechado. Rodrigo fez parte do curso de filosofia em uma faculdade particular paulista, porém trancou e então decidiu por buscar sua independência financeira e só então terminar a faculdade. Ele teve um relacionamento estável com uma mulher mais velha que ele durante aproximadamente dois anos, porém este terminou e hoje em dia se relaciona sexualmente com várias mulheres ao mesmo tempo, chegando a namorar algumas enquanto tem outros relacionamentos. Este homem de 28 anos foi um dos únicos que não deu dados pessoais a respeito de sua família durante a entrevista, porém através de contatos posteriores, afirmou ter sido criado por sua mãe, que engravidou do mesmo na França, onde mora seu pai. Ano passado, foi vê-lo pela primeira vez, e muito se identificou com ele. É importante afirmar que ele estava nervoso e sempre com os braços ou então com as pernas cruzadas. A primeira questão, respondeu basicamente por dados físicos a respeito do que é ser um homem: ter um pênis, não ter mamas, possuir uma postura altiva. Depois, afirmou que existem diferenças entre mulher e homem psicologicamente, como a delicadeza feminina, diferente da força masculina. Além disso afirmou que a mulher, a não ser que seja masculina, no mínimo tem profissões as quais homens não são capazes de fazer, e vice-versa. As características que fazem com que ele seja masculino na sociedade são: ter um corpo masculino, funções masculinas na sociedade, assim como demonstrar o mínimo de afeto, não chorar na frente de ninguém. Também comentou que uma mulher ser 82
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    masculina diz respeitoà sua postura, se ela anda diferente, fala diferente, ou tem atitudes consideradas masculinas, como falar grosso, brigar, entre outros. Rodrigo falou que quando conversa com outros homens, fala muito de assuntos que tenham a ver com o que seu interlocutor comente. Isso pode significar falar sobre futebol, mulher, carros ou qualquer outro assunto extremamente superficial. Rodrigo não foi criado pelo pai e por isso não tem uma vivência com o mesmo, nem tem irmãos com os quais conviveu, o que significa que ele não teve uma vivência com homens em sua família. Comenta também que o volume e o tom de voz se alteram quando por exemplo uma mulher adentra o recinto. Então ele falou suas diferenças de uma mulher: ele comenta mais uma vez do corpo, e também frente as situações de conflito, como elas reagem de forma menos objetiva. Afirmou também que nada o faz parecido com uma mulher, apenas o fato de serem humanos. Afirma se comportar completamente diferente quando uma mulher entra no recinto, sendo ela mãe e irmã filha ou qualquer outro tipo de vínculo. Comenta que mãe ou irmã são mulheres sagradas, intocáveis ou não possuidoras de sexo ou sexualidade. Ele ri, porém afirma que existem mulheres e existe família, o que significa que é importante evitar falar a respeito sobre o comportamento e sexual destas, " mãe é santa, qualquer outra mulher tem a capacidade de ser vadia. Por isso não se pode confiar nas mulheres." é importante lembrar que a ascendência de Rodrigo é árabe, o que muito pode ter a ver com sua visão da mulher. Com relação à sexualidade masculina, Rodrigo respondeu e que o homem deve conquistar, assim como a preferência masculina e heterossexual, pela mulher. Comenta na necessidade de virilidade masculina, e que existe uma diferença bem grande entre sexo e amor, porém os dois podem estar juntos, mesmo que raro. Rodrigo comenta que sua sexualidade muito tem a ver com a expressão da masculinidade, pois é nesse momento que ele a demonstra. A respeito do que uma parceira quer de um homem, diz que o que a mulher quer é carinho e compreensão, assim como respeito, mas não são todas as mulheres que pensam da mesma forma. Afirmou que o homem deve tratar seus filhos principalmente com regras, assim como o sustento necessário à vida. Explica que existem várias diferenças entre filhos e filhas, como o controle que deve ser feito quando existe a filha mulher, tomando cuidado para que ela não perca a virgindade com alguém que "não presta", e considera-a 83
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    como uma santatambém. Quanto a um filho, Rodrigo comenta que é necessário educá- lo para tentar respeitar as mulheres, do jeito que elas são. Ele diz também que existem brincadeiras com as quais brincar com cada um dos tipos de filho, sendo que seria o sensato jogar futebol com um menino, assim como deixar a educação da menina e para a mãe. Comenta que a família é um núcleo de pessoas que se relacionam através do vínculo sangüíneo ou não, que costumam morar em um mesmo local, e que tem a função de passar certos conhecimentos para pessoas mais jovens. Um homem tem como papel na família suprir as necessidades financeiras da mesma, deve também impor regras que auxiliem na educação dos filhos, e afirma que uma família é muito difícil de formar, pois são necessárias muitas responsabilidades. Acredita que na frente de sua família, um homem deve dar exemplo enquanto pessoa responsável e deve mentir se necessário para manter este lócus. Rodrigo acredita que o trabalho é extremamente importante e para a formação da masculinidade do indivíduo, pois edifica-o assim como traz independência. Afirma que uma mulher no trabalho pode ter um pensamento diferente de um homem, pois faz fofocas, possui modificações de humor e isso altera o ritmo do trabalho. Isso não quer dizer que não existam mulheres que trabalhem com funções ditas masculinas, mas isso ainda é muito novo. Finalmente, comenta que mulheres têm maior facilidade para lidar com situações de cuidado, o que as torna muito mais sensíveis aos problemas que ocorrem no dia a dia em detrimento dos homens, que são mais focados e o portanto, têm dificuldade em de ver a figura total. Quanto à relação entre homem sociedade, o participante comentou que a função do homem diz respeito a fazer a história, a manter o que a sociedade já construiu, assim como coordenar as pessoas para novas mudanças. Acredita também a que a masculinidade é construída pela sociedade, assim como a sociedade é construída pelos homens, o que significa que eles têm um papel de retroação um no outro. Afirma que cada homem é diferente do outro da forma como lida com as situações e isso o torna único. Rodrigo é um homem que possui muitos traços machistas em sua fala, e tenta ao máximo pertencer ao patamar talhado pela masculinidade hegemônica. Sua visão não é igualitária, por mais que diga isto, e que busque de uma certa forma, atingir tal feito. 84
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    Fábio Fábio é um jovem de 28 anos que convidou a entrevistadora a fazer a entrevista em sua casa. Foi extremamente gentil, oferecendo água, deixando-a ao máximo confortável. Ele possui duas gatas pequenas, que no dia da entrevista não pareciam ter mais que três meses. Ele é loiro de olhos azuis, usa camiseta e bermuda de sarja. Fumou durante a entrevista inteira. Ele é professor de inglês e inclusive perguntou se a entrevista poderia ser feita nesta língua, e realmente em alguns momentos ela foi feita dessa maneira, especificamente ao se tratar de sexualidade e relação entre mulheres, muito provavelmente pois para ele, este era um assunto mais delicado e complexo. Afirma que ser homem é algo bem amplo e que a única diferença entre homens e mulheres é o órgão sexual, apenas é uma questão corporal, e não psicológica. Também comenta que homens e mulheres tem características masculinas, como usar a força bruta em um primeiro momento. Coloca que gosta de tratar homens e mulheres de forma igual, e não se prende em esteriótipos. Fala que masculinidade é uma postura, e também não chega a ser dominação (visto que sua mãe é uma mulher muito feminista, ficou claro de onde ele chegou neste link após a entrevista, quando ele mesmo falou sobre esta relação de sua mãe com o feminismo). Para ele, uma mulher seria masculina se tentasse atingir o estereótipo masculino, seria mais firme, mais “moleca” ou mesmo lésbica. Comenta que não se percebe um homem que atua devido à pertinência a um gênero específico, mas sim devido ao seu jeito. Quanto à sua relação com outros homens, Fábio tenta sempre ser justo e respeitoso, para ser tratado de forma igual, independentemente do interesse de cada um com a relação. Comenta que para ele, as amizades são importantes em sua vida, e conversa sobre tudo com eles, desde como a menina que passa é “gostosa” até fofocas (nesse momento ele se recrimina, e se defende falando que todo mundo faz fofocas), futebol, depende muito do momento. Fábio coloca que não teve uma relação próxima com seu pai, pois ele foi ausente até a fase adulta do entrevistado. Mesmo assim, agora que eles tem saído mais, as conversas são mais superficiais. Termina o assunto falando que apóia muito a relação de sua mãe com o novo namorado e passa a outra questão. Ao falar sobre diferenças entre ele e uma mulher, diz que depende de que mulher estamos falando. Isso pois se for o estereótipo feminino “Barbie”, ele se considera completamente diferente. Mas da maioria, existem apenas diferenças nos caracteres 85
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    sexuais e quantoao temperamento. Afirma que as mulheres possuem muitas alterações de humor devido aos ciclos hormonais. Mas em todos os outros aspectos, como em direitos e deveres, ele percebe-se muito parecido com uma. Ao falar com uma mulher de sua família, Fábio considera que não age tão diferente, porém com amigas sim, mede palavras e toma cuidado para saber “onde está pisando”. Já com namoradas ele chega a ser mais íntimo, mas demora um pouco para que ele possua completa liberdade em falar o que pensa. Diz também que dependendo da situação é necessário ser mais duro com mulheres, “agir como homem”, colocando limites, mas isto depende da situação (nota da pesquisadora: não fica claro neste momento se o pesquisado tem a intenção de intimidar a pesquisadora, se os limites de que ele comenta chegam a subordinar a mulher ou apenas significa que como qualquer ser humano, existem limites de direitos e deveres nas relações.) Quando fala de sua sexualidade, Fábio comenta que é heterossexual e que tem como tabu a conquista. Não consegue conquistar, para ele é “antinatural” e que não consegue “chavecar”. Fala que o relacionamento deve ser construído, e não forçado, na opinião dele. Além disso, diz que sente por parte das mulheres uma pressão para que ele efetue a conquista, mas ele gostaria que fosse mais igual. Afirma que ele é um “ímã para mulheres loucas”, é muito difícil ele namorar com alguém que não queira cortar os pulsos, ou roubar a senha do cartão de crédito da mãe dele. Sua primeira namorada era bem mais velha que ele, e sua primeira relação não foi nem um pouco romântica e portanto “zoada”. Ao mesmo tempo, não desiste de achar alguém legal, mas não sonha casar-se. Quanto à relação entre sexo e amor, Fábio diz que existe o sexo com amor e o sexo por esporte, assim como outras formas de amor sem sexo. “sexo com amor é bem melhor, não, é diferente” ao comparar os dois. E quanto à sexualidade e masculinidade, fala que a masculinidade demonstra-se em maior grau na sexualidade, o homem é mais incisivo. Ao dizer sobre come ele deve se portar na relação sexual, faz seu marketing pessoal falando que “atende a todos os gostos”, que gosta de variedade e que sente que deve ter um jeito especial com as mulheres, o que é chamado em termos comuns de “a pegada”. Fábio tenta prezar o gozo da parceira sempre antes do seu, e até se sente mais confortável para chegar ao orgasmo quando ela vai primeiro. Quanto à questão da virilidade, ele faz o seguinte comentário: “algum dia vai acontecer, eu vou broxar, ou 86
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    também nem todomundo tem tesão o tempo inteiro, e acredito que com as meninas também acontece a mesma coisa, só porque elas não tem um pau não quer dizer que elas não broxem. O ser humano cria a máquina e quer que todo mundo seja igual a ela, pronto 24 horas.” O que faz muito sentido se pensarmos no que Oliveira (2004) comenta sobre a relação entre o homem e a modernidade, citado anteriormente. Comenta que tem várias fantasias sexuais, mas algumas que ele se interessa mais são lingeries, gozar na cara da parceira, passar chantily na parceira, sexo oral, algemas, em locais públicos como elevadores, entre outros. Para ele, é importante que haja variedade, e que o casal esteja de acordo. Pensando no que uma mulher realmente quer de um homem, “a mulher no geral quer apoio, carinho, amor, companheirismo, cumplicidade, tamanho do pênis, depende da pessoa, a respeito de dominação ou não, atenção, preocupação com o que a pessoa está sentindo ou pensando.” Quando falamos na relação entre homens e filhos, Fábio veementemente afirma que não pretende ter filhos, mas que um pai deveria brincar com seus filhos, além de ajudar na educação e na imposição de regras. Um pai para ele não pode super-proteger nem deixar os filhos de lado, deve dar atenção e se relacionar de igual para igual. Um pai deve ainda, na concepção deste entrevistado, brincar com seus filhos do modo como a criança quiser, sendo menino ou menina. Afirma também que o controle exercido deve ser igual para filhos e filhas, mas as brincadeiras devem respeitar o porte de cada criança, menino ou menina. Para ele, a família é introjetada em cada um, uma raiz, a base da ética, das regras, é “a semente que você vai ser”. Fala que é um apoio muito importante, principalmente quando se é idoso, para ele seria um vazio grande não deixar uma continuidade ( e é nesse momento que comenta que sua decisão de não ter filhos o afetaria neste instante da vida). Fábio acredita que uma família se estabelece por vários motivos: um ajuda o outro, duas pessoas se conhecerem, e são pessoas que estão lá uma para a outra. Para ele, não é preciso ter filhos para criar família, podem ser pessoas sem laços de sangue, desde que se conheçam e estejam juntas. Ele percebe a função da família como dar continuidade à sociedade, aprimorá-la, propagar novos valores e verdades. Para ele, é um “sistema retroativo da humanidade de se auto melhorar”. Sua função enquanto homem em sua família atualmente é de ajudar monetariamente, fazer algumas das tarefas de casa e principalmente cuidados com seu 87
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    avô, que possuimais idade e precisa em alguns momentos ser levantado ou levado a algum lugar, coisa que sua mãe não consegue fazer pela força física. Quanto à relação entre homem e trabalho, afirma que se estivesse desempregado, seria menos feliz, mas não se perceberia menos homem por causa disso. Também não se sente mal por ocupar uma profissão percebida como hegemonicamente feminina, é o que gosta de fazer, e é o que lhe traz dinheiro. Percebe também que existem várias vantagens de um homem para com uma mulher dentro de sua área de trabalho, porém isso não deveria ocorrer, afinal eles possuem capacidades iguais. Fábio já não vê mais marcadamente papéis ditos femininos e masculinos, e coloca que homens deriam possuir mais características femininas como a sensibilidade para cuidarem do mundo, e preocuparem-se mais com a vida e menos com futilidades. Quanto ao que o diferencia, diz sentir-se mais confortável em andar na rua sozinho à noite, pois é menos visado em assaltos. Mas além disso, faz o possível para fugir de estereótipos e é isto que o torna diferente. Ele quis fazer um café para a entrevistadora, e insistiu tanto que ela aceitou um suco que também foi oferecido. Ele mostrou suas gatas, com as quais tem grande carinho e afeição, e a entrevistadora delicadamente se despediu. Fábio é um homem que ao mesmo tempo em que possuiu uma formação feminista, tem conflitos com sua masculinidade individual e mesmo que inconscientemente, pode perceber a mulher como objeto em alguns momentos. Apesar disso, policia-se para manter suas relações igualitárias. É um homem que acredita inclusive que faz parte da mudança da masculinidade hegemônica. Ramón Ramón escolheu seu prédio como local da entrevista. Ele, com seus 1,55m de altura, cabelos curtos e corpo levemente “gordinho”, me chamou para conversarmos onde ele pudesse fumar, já que mora com seu sobrinho aqui em São Paulo e este é alérgico. Ramón é um dos 112 (aproximadamente) homens transexuais paulistas que procuram modificações cirúrgicas pelo diagnóstico de transexual FtM (Female to Male). Já realizou a cirurgia de mastectomia (retirada dos seios), toma hormônios como testosterona e realizará este ano o processo de mudança de nome e de sexo na justiça. Ele tem um relacionamento estável a doze anos com uma mulher mais velha que ele, e atualmente é servidor público, e faz também transcrições de áudio. 88
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    Foi extremamente acessívelpara que a entrevista fosse realizada, ligou inclusive para confirmar a mesma e para antecipá-la para um hora antes, pois conseguiu adiantar seu trabalho. Foi gentil, oferecendo após a entrevista que ficasse para um café. A respeito da relação consigo mesmo, afirma que é difícil responder mas traz, como atributos de um homem, basicamente características físicas como a barba, as mamas não desenvolvidas, e comportamentais, como o cavalheirismo, a impossibilidade de realizar mais de uma tarefa ao mesmo tempo, assim como as mulheres que conhece, e a questão da postura, várias vezes citada pelos outros homens, que é sutil porém entendida pelas pessoas em nossa sociedade. Acredita também que ser o provedor de sua esposa é uma característica que o faz masculino, e comenta que quando não pôde fazê-lo, sentiu-se mal a ponto de nunca mais querer que isto ocorresse novamente. Afirma também que outra característica que o faz masculino é a facilidade com mapas, em comparação com sua esposa “que pode virar o mapa do avesso que ela não acha o caminho”. Ramón também coloca que ser masculino também é uma expressão de maturidade e respeito perante outras pessoas e vai de encontro com o que Kimmel(2008) escreve a respeito da mudança do menino para o homem, que é preciso agir de forma diferente ao se tornar um homem, ser mais forte, se impor, respeitar as mulheres (do jeito que o homem entender o que é o respeito por uma mulher, pois isso difere para cada homem na pesquisa), por mais que estas características tem demorado a vir cada vez mais em nossa época. No caso de Ramón, respeitar uma mulher significa entendê-la enquanto complementar ao homem, e bem diferente dele. Ramón comenta a respeito da relação entre homens que o que se faz é sair para beber, jogar bilhar, falar a respeito de mulheres e de preferência, falar “muita besteira”. É o “clube do bolinha”20, que ele afirma ter sido seu recinto desde jovem, e que é onde se sentiu confortável para bater papo, falar de suas conquistas amorosas (das quais falaremos mais adiante). Ramón também explicita que ele mede muito a pessoa para cada assunto, e tem assuntos específicos com cada homem que existe em sua vida. Seu pai, por exemplo, é uma pessoa que gosta muito de conversar, mas não é com ele que conta para falar a respeito de emoções ou família. Já o pai de sua esposa é mais aberto a isso, e ele conversa bastante com o sogro a respeito deste assunto. Com seus amigos, cerveja é um dos papos possíveis. E com desconhecidos, como taxistas, ele deixa que a 20 Clube do Bolinha significa um espaço de construção e afirmação da masculinidade, partilhado apenas por homens. É um sinônimo da “Casa dos Homens” citada por Welzer-Lang (2001). 89
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    pessoa dê umassunto para que conversem, e atribui esta característica de tentar perceber melhor o outro ao fato de ser profissional da saúde. A respeito da relação homem – mulher, ele diz que nunca achou que fosse mulher, mesmo antes da passabilidade21 (ver Ghetler, Pinto & Lopes (2008)). A mesma coisa afirma sobre ser lésbica, e que esta nomenclatura foi utilizada basicamente para fazer com que outros entendessem que ele gostava de mulheres. Conta que “mesmo quando eu socialmente me portava como mulher, eu me sentia um traveco”, e que era extremamente anti-natural para ele. Diz também que sempre sentiu-se parte do “grupo do bolinha”, e que quando este não era presente, sentia muita falta. Mas completa que são poucas as diferenças entre homens e mulheres porque, na verdade, estas são características atribuídas pela sociedade, e assim como sua esposa é ótima em consertar telhados ou pintar prédios, ele é ótimo em lavar louças e cozinhar. Vai muito das características de cada indivíduo do casal, e não do que a sociedade estipula. Também muitas características físicas são sociais, como sua mãe, que tinha músculos extremamente bem definidos devido a uma doença congênita e que era o corpo que “todo trans homem gostaria de ter”; rebate ao colocar sua altura como feminina (1,53m). Quando conversa com mulheres, Ramón mede muito bem o que irá falar, assim como o modo de expressão, não brinca tanto nem fala palavrões, e muito menos espera isto delas. Coisas de sua intimidade sexual são assuntos apenas mencionados com sua esposa, e só fala de outras mulheres com seus amigos. Quanto à sexualidade, Ramón conta que sempre teve sua libido aflorada, mesmo antes de tomar os hormônios para a transição. Teve sua primeira relação sexual com 14 anos e este foi um evento bem marcante, visto que na época (na década de 70) e no local (interior de São Paulo), ele se considerou jovem ao fazê-lo. Diz que acabou “pintando e bordando muito”, não gostando de ter relacionamentos duradouros, tanto com homens quanto com mulheres. Mas afirma que a grande maioria dos homens com quem esteve se assumiram homoafetivos ou se tornavam mais amigos que namorados, o que não acontecia com as meninas com quem tinha relacionamentos, que queriam manter os mesmos, e isto não acontecia; “um, dois, três encontros e tchau. Ninguém podia dizer que eu não avisava antes que eu não ia ligar”. Ramón passou sua adolescência sempre 21 Termo que indica quando uma pessoa que possui a vivência da transexualidade consegue passar despercebida pela sociedade em geral enquanto realiza a transição das características físicas e comportamentais comuns a esta vivência. 90
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    com pessoas maisvelhas que ele, e atualmente percebe o quanto faziam como “troca – troca” (quando pessoas, principalmente meninos, têm relações sexuais com outros jovens do mesmo gênero para experimentar a sexualidade; normalmente a idade é bem tenra, desde os 8, 9 anos até 13, 14 anos, quando ainda se sabe muito pouco sobre o assunto). Diz também que seus pais foram muito esclarecedores neste aspecto, e sempre “se cuidou”. Ao falar sobre o assunto, comenta que foi por tentativa e erro que descobriu sua sexualidade, e que atualmente tem muita liberdade com a esposa, principalmente quando começou a fazer as transições como a mastectomia e o uso de hormônios. Antes disso, tudo neste âmbito tinha mais travas, e sua esposa não o desejava tanto quanto atualmente; “quando uma pessoa vivencia o próprio corpo, se sente, ele tem um relação entre sexualidade e ser”, completa. Também comenta que não existe jeito certo de se portar na cama, porém sustenta a importância do homem ser viril assim como responsável pelo prazer da(o) parceira(o). Comenta que seu clitóris é grande e é com ele que ele penetra sua esposa, e que admira a forma como as mulheres podem ter vários orgasmos em comparação com ele enquanto homem, não tantos. Termina este assunto falando que uma parceira realmente quer de um homem atenção, apoio, lazer, e de sentir que existe apoio. Além disso, quer ter alguém para dividir as coisas, ter com quem construir uma vida, e que ele resolva coisas que ele é bom. Ele fala que é pelo menos o que sempre esperaram dele, e isso influi em uma responsabilidade que afeta de certa forma sua masculinidade. Quanto às questões a respeito da relação homem – filhos, para Ramón, filhos devem ser orientados tanto quanto supridos, devem brincar com os pais, assim como receber apoio. Afirma também que existem jeitos diferentes de criar um menino e uma menina, mas as informações passadas devem ser as mesmas. Uma coisa que ele sente é medo, por exemplo de cuidar de uma menina e acabar machucando-a de alguma forma, como em uma brincadeira. Afirma que o controle deve ser igual entre filhos e filhas e que caso um de seus filhos tenha filhos, não importando o sexo, ele ou ela haverá de assumir. Ramón respondeu que só conheceu o que era família ao ter mais contato com a família da esposa, que se apóia mutuamente, é rigidamente hierárquica (avô, pai, mãe, filhos), e deveria ser um porto-seguro para qualquer indivíduo. Afirma fazer pouco contato com seu pai, já que sua mãe é falecida e que não se sente tanto dentro de uma 91
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    família com sesente na família da esposa. Completa falando que famílias se formam através da convivência. Inserido na família, o homem deve ser sempre o provedor, deve dar exemplos tanto aos homens mais novos quanto às mulheres, deve ser prático e resolver o que lhe cabe (como ser o “motorista” para sua esposa, ou lavar o carro). As vezes, o homem também pode dar medo, tornado tratos combinados mais sérios, como é o caso do irmão da esposa de Ramón, que deve dinheiro e sua esposa colocou o nome de Ramón caso o irmão não devolvesse o dinheiro ao casal. Nosso participante sente que deve “segurar a onda” quando está em família, não chorar, por exemplo, mas tenta agir o mais natural possível, de modo a tornar este espaço seu. Em outro momento, coloca que a família de sua esposa tem papéis muito específicos para cada um e isto configura uma estrutura familiar. O trabalho para a vida de Ramón é central para o sustento, além de que ele não consegue ficar parado, sente-se incapaz, menos homem, improdutivo. Ele tem que fazer no mínino as tarefas de casa, desde que a esposa deixe que ele as faça (pois ela afirma que ele é muito ruim em fazer certas tarefas, como dobrar camisas por exemplo.). Coloca que em seu ramo de trabalho, homens são mais objetivos, por mais que isto não seja uma regra de acordo com ele. Comenta também que existem tarefas mais adequadas a pessoas diferentes independente do sexo que elas possuam. Afirma também que é cultural que a mulher cuide dos filhos, por exemplo, e falte mais por isso, pois ambos os pais podem fazer o trabalho de cuidar de uma criança. Quanto a o que o diferencia na sociedade enquanto homem, ele comenta que muito tem a ver com postura, tipo de roupa e corte de cabelo. Que ao ser percebido como homem na sociedade, se tornou mais cobrado em não sentir dor, em observar e manter preconceitos e ele percebe menos igualdade entre os gêneros. Ele comenta que a sociedade ainda impõe à mulher a jornada dupla, o cuidado com os filhos, assim como responsabilidades diversas e afirma que cada um deveria fazer o que sabe fazer bem e não o que a sociedade determina. Ramón foi muito cordial ao final da entrevista, levou a entrevistadora para que conhecesse seu apartamento, o qual divide com seu sobrinho, enquanto a esposa mora em Sorocaba, onde realmente considera sua casa, mas que seu trabalho é aqui. Quis fazer um café, mas este foi recusado cordialmente também e ele a levou até embaixo e 92
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    se ofereceu alevá-la ao estacionamento, embora este se localize a meia quadra do prédio. Este entrevistado possui uma visão concreta da masculinidade, já razoavelmente formada. Entende inclusive onde pode ser considerado machista, e de onde vêm estes pensamentos, principalmente na questão do trabalho. Em contraste, sua sexualidade muito colabora para uma visão mais igualitária, assim como a visão do masculino. Ramón não precisou procurar a masculinidade. Ele já a possuía antes mesmo de alterar caracteres físicos e isto demonstra o quanto estes dados não necessariamente possuem laços tão rígidos. Maurício Maurício é um homem alto e razoavelmente gordinho. Combinou de encontrar a pesquisadora em um café dentro de um centro comercial reconhecidamente freqüentado por homossexuais. Este participante demorou cinqüenta minutos a me encontrar e me explicou quando chegou que tinha acabado de participar de uma seleção para trabalhar em uma sauna específica para o público homoafetivo. Maurício é educado e se senta inclinado para a frente, curioso pela pesquisa. O contato foi feito através de um blog escrito por ele, e o encontro foi “às escuras”, ou seja, a pesquisadora conheceu-o presencialmente (tanto sua voz quanto fisionomia) no momento da entrevista, como aconteceu com a maioria dos entrevistados. A respeito da primeira questão, o participante afirma que ser homem é ser definido pelo gênero masculino, e não tem a ver com responsabilidades ou sobre o que é preciso fazer. Afirma também que não existem características físicas que diferenciem o homem da mulher. “No meu ponto de vista, ser homem é apenas um gênero”. Porém, quando afirma as características que o fazem masculino, responde a respeito da força dos traços de seu rosto, da barba (que gosta de deixar por fazer), dos pêlos, dos “traços fortes que os homens tem”, principalmente por traços físicos. Quanto ao que o faz masculino perante a sociedade, ele afirma que o jeito de se vestir, o corte de cabelo, a barba o fazem assim ser percebido, e que traços comportamentais variam de pessoa para pessoa, mas a primeira característica que faz por exemplo uma mulher ser masculina são comportamentais, como postura, pró-atividade principalmente, e percebeu-se como machista ao afirmar tal frase, quase desculpando-se ao falar isso para a entrevistadora. Ela repetiu o discurso a respeito da individualidade do sujeito e do não julgamento que 93
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    teria ao entrevistá-lo,e ele então re-afirmou que mulheres pró-ativas demais são masculinizadas. Fomos adiante. A respeito da relação com outros homens, comenta que lida de forma linear, que conversa da mesma forma que conversaria com uma mulher, a não ser quando a relação é amorosa com outro homem. Comenta que a única diferença é que ele se abre mais com mulheres do que com homens, e coloca que a razão deste fenômeno se deve à sua sexualidade. Afirma que existe inclusive uma dificuldade em conversar e em se abrir com outros homens, e que isto facilita que haja assuntos em comum com mulheres. Um exemplo de assunto em comum é a moda. Outra razão pela qual ele tem mais amigas mulheres é que “elas abrem mais a guarda”, e não o julgam, não existe a preocupação do homem desejando ou não. Diz que fala a respeito de outros homens de conquistas, música e ainda coloca que a maioria de seus amigos são homoafetivos como ele. Em outros casos, como na faculdade que está fazendo, (Sociologia), diz conversar muito sobre a sociedade. A respeito da relação com mulheres, Maurício coloca o gênero como diferença e por conseqüência o comportamento (ou seja, devido aos gêneros diferentes, cada um age e se comporta de modo binário), e que isso o torna diferente “apesar” de se sentir atraído sexualmente por homens (como a maioria das mulheres, segundo ele); é desta forma que se torna diferente de uma mulher. Em compensação, ao falar das semelhanças coloca a característica de ser sensível tanto como algo feminino que compartilha quanto algo pejorativo: generaliza isto ao mundo gay. Coloca ainda que esta sensibilidade lhe traz uma percepção de mundo diferente. Finalmente diz que ao estar na frente de uma mulher não percebe nenhuma mudança em seu comportamento, “me comporto como ser humano”. Sua sexualidade para ele é motivo para não ter travas e portanto para que possa se comportar de qualquer forma com uma mulher, inclusive dar-lhe um beijo se este for seu desejo “da mesma forma como eu faço com meus amigos gays”. A respeito de sua sexualidade, Maurício diz que os homens, diferentemente das mulheres, conseguem chegar muitas vezes à plenitude sexual, e atribui ao falso moralismo da sociedade o fato de que elas tenham que ter menos prazer e menos possibilidades que os homens. Afirma que houve eventos marcantes relativos à sexualidade principalmente na infância: o primeiro momento em que descobriu que gostava de homens foi na oficina de costura de sua mãe, que confeccionava lingeries; 94
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    gostava de verrevistas de homens e não de mulheres seminuas, porem não atribui a este evento a única causa de sua homossexualidade, e inclui em seu discurso fatores genéticos assim como ambientais. Afirma também que não existe relação alguma entre sexo e amor e ainda dá mais valor ao sexo que ao amor. Justifica tal visão explicando que acabou de sair de um relacionamento longo, e por mais que ame muito seu ex, jamais faria sexo com ele de novo, “sexo com amor é muito mais gostoso, mas são coisas que andam muito bem sozinhas”. Para ele, o homem é criado para ser forte no sexo, e isso o influencia sobremaneira, assim como o machismo, e percebe que nessa sociedade isso acontece, não em todas. Ele se porta de forma “dada”, porém prefere ser ativo; então faz a analogia entre ser um ativo – passivo, ou seja, alguém que penetra porém gosta de ser guiado no sexo. Sente que será alguém participativo também em outros ramos da vida, comentando que se algum dia se casasse, seria tão útil quanto seu companheiro, ajudando-o nas tarefas de casa. Comenta que isso é raro, que existe sempre a “menininha e o menininho da relação no casal gay”, reproduzindo padrão heteroafetivos de relacionamento. “Não sei porque o casamento é tão importante”, complementando este discurso a respeito do casal gay. Nesse momento a entrevista precisou ser interrompida e só dois dias depois, retomada. Continuando a entrevista, Maurício diz que o que um parceiro realmente quer de um homem é satisfação, seja ela sexual ou sensual. Quanto a filhos, ele comenta ter vontade de tê-los, e que na relação anterior conversava muito com o parceiro sobre ter filhos biológicos. Porém “achar uma amiga lésbica que queira ter um filho é muito fácil, agora, eu quero ter um filho pra criar, (...), será que ela vai deixar isso?” e deixou a história esfriar. Tem um sobrinho e gosta muito de cuidar dele, e sonha com filhos biológicos, e nem pensa sobre filhos adotivos. Para Maurício, não existe como ser pai ou mãe, isso é inventado, e afirma que um pai deve tanto cuidar quanto nutrir um filho no momento em que o tem. Os pais, sendo hetero ou homoafetivos, devem dividir as tarefas que se sentem mas confortáveis em fazer. Tem um discurso extremamente inflamado a respeito disso, e levanta a voz ao dizer que todos são iguais em responsabilidade e que a sociedade traz estes papéis que necessariamente não serão benéficos às pessoas que deles se utilizam. Comenta que crianças são extremamente intuitivas e portanto os pais devem perceber 95
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    estas demandas paracada um dos sexos das crianças, porém existem sim jeitos diferentes de tratar filhos e filhas, principalmente na questão de sexualidade (o homem é o ‘pegador’ e a menina a ‘santa’) e coloca que sim, a mulher é mais frágil que o homem. Afirma que apesar de pensar desta maneira, não foi fácil que seus pais o aceitassem, e que inclusive levou surras do seu pai “por ser gay”, e que eles por serem protestantes, encararam-no como alguém possuído pelo demônio. Porém “o amor da família supera tudo” e hoje em dia sua mãe o entende, torce por ele, e o respeita. Seu pai já não toca no assunto, porém deixa que ele tome suas próprias escolhas. Outra coisa característica de sua família é que eles não o deixam sair de casa, em oposição a vários amigos seus também gays, que os pais forçaram a “deixar o ninho”. Para ele, família é um aglomerado de pessoas que tem um objetivo em comum, que se ajuda, mas não necessariamente tem laços de sangue. “O que gays mais se aproximam de famílias são os seus amigos”, afirma. Acrescenta que em sua família, existe uma hierarquia a ser seguida assim como regras ditadas pelos pais, e que estas convenções são comuns a todas as famílias que conhece. Maurício acredita que uma família heteronormativa (termo utilizado por ele) se forma através da busca por filhos, enquanto a família não-heteronormativa se consolida através de escolhas feitas pelos seus integrantes. A família para ele é feita também de conquistas e afinidades. As funções da família para ele são manter um equilíbrio, ou como “norma de controle”, devido à facilidade de controle deste tipo de estrutura pelo estado. Quanto a trabalho, diz que sua única função é o sustento, não importando o gênero nem o tipo de trabalho. Além disso, não existem funções masculinas ou femininas especificamente, isto é cultural e pode ser alterado. Finalmente, sobre a função do homem na sociedade, Maurício é hesitante em afirmar se realmente existe um papel específico ao homem, e que mesmo que alguns papéis lhe sejam atribuídos, estes só serão reais ou não de acordo com cada indivíduo. Afirma também que antigamente estes papéis eram mais definidos, porém atualmente eles se mantém de forma velada. Coloca que a mulher é o “sexo forte” e que ela controla um homem como ninguém o poderia fazer. Mesmo assim, o poder hoje em dia é exercido por homens, ainda que isso seja socialmente construído. “Se elas não estão no poder, é falta de oportunidade, machismo.” Maurício diz que enquanto homem gay, ele é infeliz com a sociedade em que vive, pois tem vários direitos negados, como o casamento, herança, direitos 96
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    previdenciários. Comenta queem nossa carta magna, os direitos são iguais, porém na prática isto não ocorre, devido ao preconceito. Terminando a entrevista, Maurício cordialmente acompanhou a entrevistadora até o caixa do café onde estavam, pagaram cada um suas bebidas e se despediram. Pode-se ver que este entrevistado está entre as convenções sociais e o que gostaria de acreditar, e seu pensamento é um reflexo disso, cheio de contradições, às vezes em um mesmo tipo de relação. Isso nos traz o aspecto da masculinidade hegemônica como modelo ideal em conflito com a masculinidade individual, como se elas não pudessem coexistir. Maurício está formando suas acepções sobre nossa sociedade, e assim como a própria masculinidade, está em transição, demonstrando racionalidade, mas fazendo escolhas com o coração. Gustavo Gustavo é um homem baixo, de barba expessa e olhar fixo, que parece querer analisar o mundo que o cerca. Tem 33 anos e nasceu no estado do Rio de Janeiro, no interior. Mudou-se para São Paulo devido à sua esposa, que já morava por aqui. Trabalha como tradutor e está fazendo a faculdade de psicologia. Encontrei-o no Blog que escreve, onde faz questão com todas as letras de afirmar que apóia a causa trans, principalmente por se sentir assim desde pequeno. “Mesmo quando eu era criança, eu já não gostava de usar vestido, aquela não era eu”. Faz terapia há um ano e seis meses, e hoje em dia participa como auxiliar em um grupo para homens trans, tendo como objetivo causar identificação e entender também um pouco de sua própria vivência. Para Gustavo, ser homem é ser si mesmo, é olhar para si e se reconhecer, é entender que existe tanto a feminilidade como a masculinidade em si, estando confortável com sua própria situação. Mas afirma também que nunca abre mão do símbolo “barba”, e isso o faz se sentir mais masculino, mas não certos estereótipos como a questão de ser o provedor de sua família, não ser frágil ou ser agressivo. Coloca que anteriormente isso era muito difícil, principalmente no começo de sua transição de papéis de gênero22, pois havia uma questão do excesso da masculinidade para rebater 22 Se pensarmos na vida de um indivíduo que possui a vivência da transexualidade, é sempre importante frisar que a transição efetuada nos corpos, nas roupas e nas atitudes não são mudanças de gênero necessariamente, mas sim de comportamentos mais ou menos aceitos na sociedade de acordo com o que a sociedade identifica como gênero. Portanto, um/a transexual não muda seu gênero, ele muda o modo 97
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    uma feminilidade externa.Porém ao se deparar com o homem que era, isto foi mudando. Comenta que ao se relacionar com outros homens hoje em dia, já confortável consigo, ele é capaz até de ter um relacionamento afetivo com um homem, abraçá-lo ou mesmo beijá-lo sem que isto cause dúvidas. “Depende da pessoa, depende do momento”, afirma então, e coloca que dependendo do homem, ele reage de modo diverso. E isso abrange tanto vocabulário, quanto tom de voz, quanto assunto. Quanto às diferenças que percebe comparando-se a mulheres, Gustavo aponta para a mastectomia23. Nesse momento ele diz que ainda não fez a cirurgia de neofaloplastia24, e nem pretende, pois considera sinal de saúde psíquica alguém não querer fazer uma alteração corporal tão invasiva quanto essa. Inclusive, coloca que fazer esta escolha o coloca como uma pessoa diferente, criando algo “a mais”, uma individualidade própria sua, “por que eu não podia me apoiar em termos de falo, pra dizer, ‘sou homem’.”. Além disso, componentes que o diferenciam das mulheres são a barba, a histerectomia25, a ooferectomia26: foca nestas duas últimas pelo aspecto de não mais menstruar assim como não ter mais as mudanças hormonais cíclicas femininas. Quanto à personalidade, não percebe nenhuma diferença física que possa mudar o modo de pensar feminino e masculino, e diz que não sabe até que pontos estas diferenças são construídas socialmente. Comenta que existem mais homens sensíveis, e mulheres mais pragmáticas. Quando falou nas características que o faziam parecido com uma mulher, afirma que uma das características com as quais ele se percebeu foi a sensibilidade, e que uma das coisas que ele teve que reaprender em terapia, o sentir. Coloca que quando se é transexual, é necessário reaprender a sentir, a se relacionar, como uma criança. “Eu vou me relacionar como eu me sinto, ou eu vou me relacionar como esperam que eu faça?” coloca. E afirma que esta experiência para ele acaba sendo fantástica, pois consegue ver a sociedade de mais ângulos, “você está inserido mas você consegue olhar de fora”, e como a sociedade o/a enxerga, mas a priori, ele/a já possuía aquele gênero, que era invisível à percepção empírica humana e foi demonstrado a partir de atos, roupas e mudanças corporais efetuadas pela pessoa em questão. 23 Cirurgia onde são retiradas as mamas e o excesso de pele do seio feminino, assim como a diminuição das auréolas. 24 Cirurgia onde é criado um pênis com pele do indivíduo, sendo que existem algumas variações de cirurgias, como com órtese(de silicone) assim como o alongamento do clitóris. 25 Retirada do útero. 26 Retirada dos ovários. 98
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    afirma que aspessoas o olham de forma diferente quando ele andava como mulher e atualmente. Na frente de mulheres, ele tenta sempre ser gentil, ser cavalheiresco, e considera isso bom dependendo da pessoa, e como ela reage a isso (lembrando que ele não me deixou pagar meu próprio café, e inclusive o trouxe para mim.). Faz o paralelo a respeito de como se porta na frente de homens, depende muito de quem é que está diante dele. Quanto às mudanças hormonais, comenta que quando sua esposa as têm, ele prefere ficar mais quieto e dar presentes como chocolates para que ela fique mais tranqüila, além de tentar ser paciente (coloca que não é por que ele já teve estes períodos que compreende completamente sua esposa quando ela os têm), e tenta fazer com que o diálogo seja o pilar da relação que têm com sua esposa. Quanto à sexualidade masculina, afirma que é mais rápida, as respostas corporais são mais rápidas, e que não necessariamente são cruciais certos estímulos para que a excitação ocorra. Gustavo afirma também que a excitação não obrigatoriamente vem da pessoa de que você gosta, não é algo tão constituído com afeto. Quando começou a tomar hormônios masculinos, o desejo mudou muito, e as sensações em zonas erógenas aumentaram assim como o tamanho do clitóris. A vontade de fazer sexo também aumentou muito, e isso alterou a vida de casal que possuía, e possui até hoje. Comenta que levou um tempo razoável até se acostumar com sua nova libido, e que essa é uma característica muito diferente entre o desejo masculino e o feminino. Diz que chegava em momentos a pensar em sexo o dia inteiro e até sua esposa reclamou da freqüência que ele pedia que ela tivesse relações sexuais com ele. “É a puberdade, literalmente. Mas depois as coisas vão amansando.” Neste momento ele também coloca que isto aconteceu com ele, mas que não necessariamente o desejo diminui para outros homens trans, principalmente pois esta característica de ser viril o tempo inteiro é estereotipicamente hegemônica, e portanto buscada pela maioria deles. Isso implica inclusive em problemas relacionais com as cônjuges muitas vezes, pois elas tem a impressão de que este aumento da libido vai diretamente de encontro à traições, independentemente do amor sentido pelos dois. “Muitas vezes tenho que explicar para namoradas de amigos trans que não é porque ele está tomando hormônios que ele vai querer transar com qualquer árvore que aparece na frente dele.”. Comenta que isso depende do respeito mútuo e a confiança entre os dois. Fala que com sua esposa existem várias diferenças pois ela gosta muito de sair com 99
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    amigos de antesdo namoro, e ele não gosta deles, mas existe respeito, e se por um acaso a situação se inverte, o apoio também existe. Eles estão juntos há bastante tempo, e ela passou pela transição com Gustavo, respeitando-o em seu momentos mais difíceis. Conta que nem sempre foi a pessoa segura que é hoje, e que quando era adolescente, teve vários problemas psicopatológicos começando por uma compulsão alimentar, depois então invertendo para anorexia, e então surtando. Também era percebido que ele tinha uma postura masculina desde pequeno. Assumiu-se homossexual para sua família na adolescência mais para dar nome à sua preferência sexual do que realmente descrever o que sentia sobre si, e seus pais logo aceitaram. Porém em relacionamentos amorosos, suas parceiras percebiam que não estavam namorando bem uma “menina”, e eles logo terminavam. Com as dietas na adolescência para emagrecer e as rejeições, a saúde de Gustavo foi minada de tal forma que ele entrou em uma síndrome anoréxica, desmaiou e teve um trauma crânio- encefálico grave. Ficou em coma e ao sair do hospital, passou de quatro a seis anos em depressão e com episódios de automutilação. Passou por uma psicóloga por um ano e meio e ela ajudou-o a entender-se um pouco e questionar-se mais ainda. “Teve uma sessão em que ela falou para mim ‘você não tem gênero’ isso me indignou; é claro que eu tinha, eu só não sabia qual era!”. Passou por psiquiatras e tomou variados psicotrópicos, como Prozac, anti-psicóticos, lítio. Para ele, foi um momento de deixar de ser “Maria27” e se tornar alguém, alguém sem um nome procurando um modo de ser no mundo condizente a si. Então, ao assistir o filme “Meninos não Choram” que conta a história de Brandon Teena, um homem trans, que Gustavo começou a perceber seu rumo. Afirma que este período foi um divisor de águas importantíssimo para chegar a ser quem é atualmente. Quanto à masculinidade e sexualidade, ele diz que a expressão da masculinidade não precisa estar condicionada a uma sexualidade específica, não dá para colocá-los em relação do modo como a maioria das pessoas coloca. Falando sobre como um homem deve se portar na cama, coloca que não conseguiria ser passivo. Em relação ao gozo, comenta que é impossível que os dois cheguem no mesmo momento ao orgasmo, afirma que isto é uma ilusão e que é uma delicadeza deixar que a mulher chegue primeiro. E fala que uma fantasia sexual masculina sua é a da enfermeira, pois o cuidar é muito significativo para ele. 27 O nome foi trocado para respeitar a identidade do sujeito. 100
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    Para Gustavo, oque uma parceira realmente quer de um homem é companheirismo, amizade, afeto, ainda mais depois de uma relação de longa duração, é estar com o outro, tomar café juntos, ao invés do sexo ou da paixão inicial. É baseada no diálogo, na conversa, é chegar em consensos. Quanto à relação com filhos, ele acredita que é preciso cuidar deles com afeto. Em sua vida pessoal, Gustavo teve uma relação muito confusa com seus pais (os dois eram ausentes, nunca moraram juntos e uma série de outros fatores fazem com que Gustavo classifique sua relação com seus pais desta forma), e não gostaria de reproduzi-la com seus filhos. Não acha que seja possível não errar em algum grau no cuidado com os filhos, porém, é preciso tomar cuidado, “ainda mais nos dias atuais”. E como seus pais não demonstravam afeto nunca, ele afirma que não gostaria de repetir isso em sua própria família. Porém outras pessoas em sua família foram importantes em sua vida, e isso o auxiliou a ser quem é hoje. Quanto a limites, ele acredita que é algo necessário, porém que não chegue em abuso ( como por exemplo ajoelhar no milho). “O filho tem que aprender o não, tem que aprender a lidar com as próprias frustrações.”. Tem como princípio que é importante colocar limites sem podar possibilidades de ser para assim ensinar a criança. Quanto a diferenças entre filhos e filhas, ele comenta que como ele considera a adoção um meio possível e desejado de ter filhos, a pessoa que escolher sua família será sua prole, não importando o sexo biológico. A respeito de família, Gustavo afirma que é algo muito importante para se sentir acolhido, que são pessoas com quem compartilhar, cuidar, se preocupar e exige um tempo razoável de sua vida. Pontua também que uma família não precisa ter laços de sangue para existir e é a base que dá forças para que as pessoas cresçam. Não apenas isso, para Gustavo não existem funções fixas sobre o que ele deveria fazer enquanto homem dentro de uma família, pois isto depende da capacidade e dos limites de cada um. Comenta que na frente de sua família, mantém sua postura, as vezes muda apenas de assunto. Quanto à função do trabalho em sua vida, já se cobrou bastante, mas hoje é mais tranqüilo. Teve uma época em que não conseguia trabalho pela cidade onde morava por causa da questão transexual, mas hoje em dia gosta de seu trabalho e foca em mudar de carreira, estudando psicologia. Outro ponto que coloca é que ganha muito mal como tradutor, e se priorizasse ser o provedor em sua casa, estaria perdido. Afirma também 101
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    que não existemdiferenças entre homens e mulheres em seu campo de trabalho, porém esta característica organizacional pode não se repetir talvez em trabalhos braçais. Quanto ao papel que o homem exerce na sociedade atual, Gustavo tem como premissa que as pessoas continuam tendo pensamentos bem arcaicos e machistas quanto à relação entre gêneros; que o homem tem que ser “o provedor, aquele que não chora, etc.”; coloca que o preconceito e a diferenciação das funções masculinas e femininas ainda existe, e está enraizado no modo de ambos pensarem. Finaliza esta questão ao dizer que as diferenças entre pessoas de gêneros distintos na realidade são individuais e não do gênero em si. Ao diferenciar-se de outros homens, a característica de ter conseguido assimilar a parte feminina sem que fosse gerada angústia ou mais preconceitos o coloca em destaque para si. Afirma que é preciso exigir direitos, porém eles virão no momento em que exista uma igualdade entre as individualidades e não o ressaltar das diferenças. Gustavo fez questão de pagar o café da entrevistadora, e gentilmente se despediu. Este entrevistado passou por várias complicações em seu caminho e estas foram cruciais para o descobrimento de sua masculinidade. Hoje, tem dentro de si segurança e força para auxiliar seus colegas de vivência, pois muito provavelmente gostaria que quando ele estava no momento de transição, que alguém o tivesse ajudado desta forma. Acredita-se que sua masculinidade individual é atualmente concreta, porém, sem fixar- se completamente. É na fluidez de sua existência que ele vai montando e desmontando dados que formam sua masculinidade, e isto a torna completamente diferente das outras, pois é apenas sua. Artur Este entrevistado foi encontrado no clube que ele costuma freqüentar, assistindo seu filho de 12 anos jogar badminton. Ele atualmente é casado pela segunda vez, está no auge de sua vida profissional e redescobrindo várias características de si ao aprender a se abrir mais (No começo do ano passado, fez pela primeira vez 6 meses de terapia e isto lhe abriu horizontes). Artur possui uma paralisia hemiplégica, ou seja, não consegue mexer as pernas e não possui sensação táctil até o peito, que pelo que o entrevistado comenta, é algo que possui desde a infância. As possuir 54 anos, ele teoricamente estaria fora do continuum pesquisado, porém se observarmos seu momento de vida, ele se encaixa com o de outros pesquisados em se tratando de momento profissional, 102
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    pessoal, amoroso eexistencial. Então foi decidido mantê-lo no espectro de masculinidades que observamos durante a pesquisa. Artur possui uma postura bem rígida e no começo da entrevista manteve-se de braços cruzados e olhos cerrados. No peito sem camisa, via-se um crucifixo dourado e pelos brancos contrastando com sua pele bronzeada. Sentado em sua cadeira de rodas, ele começou falando pouco. Mais tarde, foi se soltando ao perceber acolhimento. Inclusive, foi um dos únicos a mandar e-mails para a entrevistadora pós-entrevista explicitando mais questões que o faziam ser como era. Para ele, ser homem significa cumprir as funções que tem como designadas, como pai, marido e dono de casa. Também significa trazer tranqüilidade e proximidade àqueles ao seu redor. Percebe-se como masculino através de várias características. Fisicamente, do seu jeito, da barba que usa, seu tamanho e altura. Já psicologicamente, coloca que características como ser mais fechado, teimoso, emburrado, duro são o que o faz masculino, assim como a potência de querer mudar estas características também. Acredita também que ao ser honesto com os outros e consigo, ter metas, ser bom, estar em paz, tratar bem as outras pessoas, tentar fazer o que gosta, e mostrar aos filhos a ter o mesmo tipo de atitude também são atitudes que transformam-no em alguém mais masculino. Quanto à relação com outros homens, Artur afirma que possui “dois modos de funcionamento: inseguro, no qual eu fico disputando com os outros homens, e seguro, no qual, eu aprendo, convivo e troco idéias e sentimentos”. Esta divisão nos faz lembrar muito as relações entre homens romanos, que ia da profunda amizade entre colegas de batalha, que os entendiam e percebiam sua dor além de seus ganhos, e os próprios inimigos de batalhas, na qual a disputa era a própria relação. Os assuntos que conversa com outros homens são geralmente valores, notícias, filhos, esporte, carro, temas da vida diária, esposa, vida sentimental e amorosa, mal- estares, assim como estágios da vida. Aqui o que comentamos a respeito de relações entre homens no capítulo sobre as relações é válido, visto que cada assunto que Artur conversa, ele o faz dependendo de que homem está na sua frente. Quanto a sua relação com mulheres, afirma que fisicamente, ele é completamente diferente de uma (reafirmando a questão dos opostos), porém existem aspectos em comum com algumas delas, como filhos e gastronomia, visto que esta é uma de suas paixões. Também põe como ponto comum direitos e deveres e reafirma diferenças 103
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    comportamentais e deatitudes como entregar-se em uma relação amorosa; afirma que mulheres não se entregam se acreditam que um relacionamento terá fim, enquanto ele enquanto homem não age desta forma. Afirma que em função de sua infância, adolescência e casamento, possui uma carência afetiva vinda do sexo feminino grande, e percebe-se como um homem com baixa auto-estima. Por isso, ao relacionar-se com uma, já pensa se poderia conquistá-la ou se ela poderia ser dele. (neste ponto da entrevista a pesquisadora se sentiu desconfortável; estaria ela na frente de um caçador? O que percebe-se é que a intenção desta fala não foi apenas explicitar pensamentos, mas intimidar alguém que o intima, se defender de algo que o faz sentir-se desconfortável: abrir-se.) Coloca que altera o tom de voz dependendo da aproximação que tem com alguma mulher. Quanto aos assuntos que ele só fala com mulheres, são relacionados a sexualidade e sentimentos. Quanto a algo que só fala com homens, é a frase “como aquela mulher é gostosa”. Diz que já tentou falar isto com mulheres, porém elas não gostavam, mesmo este sendo para Artur um elogio, e não algo pejorativo. “Elas vêm a gente como o lobo mau” afirma. Quanto à sua relação com sua sexualidade, ele a considera terrível, pois depende muito de seus estado mental. “Se a cabeça está prejudicada,toda a atividade também segue o mesmo rumo da cabeça, inclusive a sexualidade”. Afirma que possui uma baixa auto-estima devido ao relacionamento que teve com seu irmão e pai. Apenas namorou com uma mulher, e foi com ela que se casou, querendo muito que este casamento desse certo. Não foi o que aconteceu. Com a esposa atual existem divergências a respeito de sexo, visto que ela gosta menos que ele das relações sexuais. Uma vez ele disse algo a ela, e ela se blindou completamente neste aspecto; ele então tem estado entre a espera e a luta por ela (Porém é possível deduzir que tem perdido várias batalhas, e este é um dos motivos que o incentivaram buscar terapia no começo do ano passado.). Sobre a conquista, Artur afirma que é mútua, pois a conquista em si está dentro de todo e qualquer ser humano, independentemente do objeto a ser conquistado. Para ele, a conquista nunca é suprida, e é por esta razão que os homens trocam objeto de desejo rapidamente; isto inclui mulheres cada vez mais novas e mais bonitas aos olhos da sociedade, carros cada vez mais atuais, a tecnologia mais avançada. Quanto a eventos marcantes em seu ciclo vital que o tornaram deste jeito, ele relembra de seu pai, que era muito envergonhado por ser homem e passou isto aos filhos. “Para o meu pai, demonstrar masculinidade na frente de uma mulher era muito feio. E isso ele passou 104
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    para a gente.”Além disso, afirma que não era muito fã de sair até tarde da noite, ou beber com seus irmãos e amigos. Gostava dos esportes, e era muito tímido com as mulheres. Namorou apenas uma vez, e casou-se com esta mesma mulher. Diz que apenas teve relações sexuais com sua primeira esposa 4 dias depois da cerimônia, “depois de muita falta de jeito” como coloca. Esta esposa não gostava de dormir junto com ele, o que dificultava muito na intimidade dos dois. A relação que faz entre sexo e amor remete muito à idade para este entrevistado. Ele comenta que se a idade é tenra, o sexo é algo mais importante, e apenas mais tarde que o amor é descoberto. Quanto à relação entre masculinidade e sexualidade nos fala algo completamente novo: ele se sente extremamente masculino, mesmo que sua sexualidade não acompanhe seu desejo. Mas ele percebe que na maior parte dos homens, isto é diferente, que sexualidade muito tem a ver com masculinidade. Comenta que possui sensações até os ombros, e que quando faz sexo com sua mulher, ela lhe dá beijos no pescoço, nas bochechas e na parte superior do peitoral e ele sente prazer, e manipula-a com as mãos e a língua. Comenta que não existe jeito certo de se portar na relação sexual, que é preciso espontaneidade, sentir as sensações que vem com o prazer. Ele preza como Fábio o prazer da parceira em primeiro lugar. Uma fantasia sexual que cita é a de ver as pessoas que nadam na piscina tirarem a roupa, o proibido (na questão estética), que chama de “teasing”. Outra que cita é ver uma situação onde cai um biquíni ou um sutiã de uma moça, ou mesmo quando uma mulher se abaixa poder ver seus seios ou em posições de ginástica, algo visto de acordo com a circunstância. Afirma que o que uma parceira realmente quer de um homem é segurança financeira e de bens materiais, visto que as pessoas atualmente são muito ligadas ao mundo material. “talvez o que as mulheres queiram e não saibam necessariamente, é amor, mas ela percebe que pouquíssimos homens estão dispostos para dar isso pra ela, então elas guardam isso no inconsciente, e vão atrás de outra coisa.” Comenta. Artur comenta que ao cuidar de seus filhos, não possui uma função enquanto homem, mas sim como pessoa. Afirma que o relacionamento deveria ser de igual para igual, um ensinando o outro a viver. Comenta também sobre as expectativas que alguns pais põe em seus filhos: “você não pode matar seu filho, ele tem a vida dele; se ele tem a vida dele, ele não poder ter a tua própria vida. Se você impuser a sua vida, o seu jeito, 105
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    as tuas coisas,é como se você tivesse matando ele”. Comenta que age de forma mais natural com sua família, e tenta agradar seus filhos fazendo companhia para eles, ensinando-os sobre as causas e efeitos no mundo. Comenta também que existem diferenças cruciais entre filhos e filhas, e que os dois nunca poderiam ser tratados de modo igual, a não ser quanto a controle, que deve ser exercido em ambos os sexos. Para o entrevistado, família é um grupo de pessoas que se amam e que possuem um compromisso uma com a outra, nem que de forma inconsciente, segundo ele, para formar um grupo que dê sustentação. Artur destaca que não existe um roteiro específico de como um homem deveria se portar perto de sua família, e que depende muito da demanda que é apresentada a ele. Para o entrevistado, as coisas boas de estabelecer uma família são a convivência, e ter contato com as pessoas que se gosta. As coisas ruins, no entanto, remetem a alguém específico dentro da dinâmica familiar que possa atrapalhar o relacionamento com os demais. Para Artur, o trabalho não possui função edificadora, como para Ramón. Em contraste, é apenas fonte de renda, e afirma que não gosta de sua função. Quanto às diferenças entre homens e mulheres em seu ramo de trabalho, estas são várias: para ele, homens evitam perder tempo, tentam resolver conflitos, fazem menos bagunça e muito menos fofoca, têm menos medo de chefes ou de perder o emprego. Além disso, acredita que as mulheres não acham ruim errar, e que estas possuem uma auto-estima baixa de acordo com a família que tem e, portanto, têm menos medo de perder o emprego. Outra característica feminina no campo de trabalho é que elas alterariam seu estado de humor dependendo de elogios ou reclamações, coisa que não acontece com homens segundo Artur. O papel do homem para este entrevistado depende de como ele é se porta no mundo onde vive. Para ele, um homem que quer ser uma pessoa boa deveria conversar, debater, explicar e discutir suas idéias. Além disso, coloca que quem constrói os papéis na sociedade são o transistor, a psicologia e a linha de produção. Isto porque o transistor aumentou a rapidez das informações, tudo se torna descartável na medida em que o tempo passa. Além disso, a psicologia ensinou ao marketing como criar e incutir desejos nas pessoas, então nos tornamos consumistas. Enfim, a linha de produção dita padrões que deveríamos seguir, lembrando os identikits colocados por Oliveira (2004). Desta forma, hoje em dia existem várias personagens estereotipadas, e não há mais troca de papéis, se não as pessoas não se sobressaem em sua área de interesse. Finalmente, o que 106
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    o faz diferentede outros homens é a coragem de ser do seu jeito, e a vontade de influenciar as pessoas a seguirem um bom caminho. Artur é um homem esclarecido que sente possuir uma missão em vida: ensinar. Suas características formaram um homem sensível a mudanças em sua sociedade assim como suas próprias alterações na masculinidade. Ele se percebe responsável pelo seu filho assim como por sua sociedade, e quer que ela seja mais igualitária. Glauber Este entrevistado é uma pessoa muito simples, que se veste de acordo com seu trabalho no dia da entrevista. Ele é zelador de um prédio no centro da cidade, e dessa forma, acaba morando no centro também. Sua família de origem veio de Taboão da Serra e seus dois filhos assim como cachorro moram com ele. Ele tem 42 anos, cabelos bem pretos, e sempre um sorriso estampado no rosto. Já fez terapia familiar quando era pequeno, mas atualmente não se encontra em terapia. Suas pernas estiveram cruzadas em grande parte do tempo da entrevista, e suas mãos dadas em cima da mesa. A entrevista foi no prédio em que trabalha, sendo este local escolhido pelo colaborador. Para ele, ser homem significa ter caráter, responsabilidade, ser positivo, firme nas decisões, assumir uma família de modo que a mesma consiga perceber o que o homem pode trazer, ser fiel tanto à esposa quanto à família, ser responsável, assim como manter sua postura na educação dos filhos. É também importante para ele que um homem trabalhe, se sustente e sustente a todos que são de sua família, e mantenha sua postura masculina, como ele acredita que Deus lhe deu. (É necessário perceber uma visão criacionista ao olhar para este entrevistado, sendo que em vários momentos ele coloca palavras religiosas no meio de seu discurso.) Uma característica que o faz sentir-se masculino remete à sua sexualidade; por gostar do sexo oposto ao seu, e por perceber que uma mulher masculina necessariamente irá gostar do mesmo sexo, há uma mistura de conceitos neste momento. Além disso, ele acredita que uma mulher masculina possui ou uma deficiência ou sofreu uma desilusão amorosa para que se sentisse desta forma, e ainda exerce funções masculinas na sociedade. Outras características que o fazem masculino são ter respeito pelo próximo, pelas pessoas que ama e ser honesto com elas. Sua postura muito remete ao que Sullivan(2003) afirma ser uma característica comum sobre 107
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    o pensamento dasociedade a respeito da relação entre gênero e sexualidade, em como ele percebe que alguém masculino necessariamente gosta de mulheres e vice versa. Quanto à relação entre masculinidades, ele comenta que na frente de um homem, age naturalmente, sempre respeitando o outro e o espaço do outro. Com seu filho, em compensação, ele procura principalmente orientá-lo nas questões amorosas e sexuais. Conversa com seus amigos a respeito de mulheres e faz a seguinte afirmação: “O homem faz a mulher”, tentando explicar que ao falarem de uma, eles a colocam como objeto, seja qual for o teor que este objeto terá. Quanto ao que o faz diferente de uma mulher, comenta que sua postura e características físicas o colocam como diferente. Coloca também a seguinte frase: “mulher tem que ser submissa, frágil, ela é delicada, ela é uma coisa que Deus deixou para ser companheira do homem, jamais a gente deve se igualar a uma mulher, ela é algo a ser almejada.”. Para ele, um homem é mais rígido, bruto. Já o que faz parecido com uma, comenta que é bem sentimental com crianças, animais, e diz que é carinhoso enquanto pai, e admite ser frágil nesta parte. Quanto ao como ele se porta na frente de uma mulher, comenta que “no convívio, uma mulher querida, quero dialogar e dar atenção, mas fazer sempre valer a última palavra minha, dentro de um contexto que não venha a ofender, a magoar, uma coisa que venha a ser p/ ambas as partes. Trato ela como ela deve ser tratada, pela fragilidade, pela sensibilidade, procuro dar carinho, deixando prevalecer minha postura masculina.”. Comenta também que dependendo da situação, ele só consegue se abrir com outros homens ou outras mulheres. Um exemplo dado foi traição com o qual só conversa com homens, e nunca conversaria sobre isso com sua mulher. Quanto à sua relação com sua sexualidade, percebe como sendo algo natural, que depende do momento e é algo que necessita de “clima”. Glauber se considera heteroafetivo e para ele, o sexo não pode pesar na consciência. Em relação à conquista, este entrevistado relata que na época em que namorava, a conquista era feita por homens, porém hoje em dia, ele acredita que elas também estão tomando parte desta função. Comenta “que hoje em dia, tanto faz, a mulherada se igualou muito nos relacionamentos; atualmente, não conquisto nem sou conquistado, porque estou divorciado, perdi um pouco desta sensibilidade, me tornei frio a respeito disso, convivo com a pessoa com quem me casei e ainda falta alguma coisa, o perdão e o “ir para frente”. Segundo ele, houveram momentos de auge com esta esposa, assim 108
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    como momentos dedecisão, quando ele fez a vasectomia aos 28 anos. Comenta que tinha muita certeza do que queria, e que atualmente não se arrepende, mesmo que seus médicos na época o alertavam da possibilidade da não-continuação do relacionamento com a esposa, visto que esta era uma possibilidade a ser alertada. Ele, como a maioria dos entrevistados separa criteriosamente amor e sexo: amor é fidelidade, companheirismo, dedicação, dividir sentimentos e opiniões, respeito, enquanto o sexo remete apenas ao ato sexual, uma aventura. Quanto à relação entre sexualidade e masculinidade, revela que a preocupação de ser viril e de gostar do sexo oposto exprimem a masculinidade, e que estas duas características só trazem a masculinidade ao sujeito se conjugadas. De acordo com ele, uma parceira espera de um homem segurança, carinho, companheirismo, fidelidade, garantia de um amor verdadeiro (principalmente para que haja uma vida sexual abundante), uma vida sexual saudável. Para Glauber, o homem é quem cria os filhos, já que não os gera, e portanto lhes deve sustento, educação e deve sempre arcar com a conseqüência, visto que no momento em que põe um indivíduo no mundo, deve sempre pensar nisso. Afirma também que o pai dificilmente tem tempo para conversar ou dar carinho aos filhos, e que ele tenta fazer isso com seu filho homem. Já sua filha mulher, deixa à cargo de sua ex-esposa. Porém percebe que nem todas as famílias funcionam desta forma, e que depende muito da relação entre o casal para a forma em que vão criar os filhos. Comenta sobre as diferenças entre filhos e filhas que seu menino lhe pergunta sobre sexo, vida amorosa, como lidar com uma mulher. Já sua filha, pede auxílio monetário assim como uma “opinião masculina” a respeito de roupas, acessórios. Comenta que esta é mais frágil, carente e consumista que o menino, e que possui mais afinidades quanto a brincadeiras. Para este entrevistado, uma família é um grupo de pessoas que se formou na união de um homem e uma mulher que residem dentro de um mesmo teto, participam das mesmas atividades, e ficam juntos, do mesmo sangue da mesma índole, mesma fé, mesmo caráter, e pode permanecer assim como mudar. Uma função que dá à família é que ao ser colocada em um currículo, as chances de pegar uma vaga são maiores, que a família deve formar religiosamente seus filhos, assim como educar e trazer saúde aos mesmos. Existe uma dinâmica, visto que ela possui movimento e mudanças fazem parte dela. É como um organismo vivo, se uma parte está ruim, o organismo inteiro sofre. 109
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    Comenta que seupapel dentro de uma família é orientar, cuidar e sustentar. Visto que é o pilar da casa, se ele “quebra”, todos “quebram”. Sente-se com necessidade de ser o exemplo positivo, sendo que ele acaba por ser pai sendo um exemplo. Diz que deve cuidar, orientar, deve estar atento a tudo e a todos na família e a esposa deve auxiliá-lo. Glauber afirma que inclusive é responsável por cuidar de sua mãe que tem Mal de Alzheimer e de seu pai, que tem câncer de próstata, e que não poderia abandonar seus pais de forma alguma. Quanto à relação com o trabalho, comenta que “é uma grande responsabilidade em primeiro lugar, mas também é algo que me dá caráter, me dá dignidade de sustentar minha família. Me dedico bastante durante o dia inteiro, existem até críticas quanto ao quanto eu trabalho, são muitas atividades e tem também os bicos, vivo em função do meu trabalho. Moro e trabalho no mesmo local, e não abro mão do trabalho em dia algum. Em 12 anos de trabalho, faltei dois dias por um torcicolo.”. Além disso, comenta que a atividade profissional estimula sua masculinidade, o faz se sentir honrado, e ser um pai melhor. Afirma que mulheres não são tão responsáveis nem tão dedicadas quanto os homens em sua profissão, visto que elas trabalham por dignidade, mas se forem demitidas não há tanto problema, pois ela será sustentada pelo marido, demonstrando uma visão bem machista sobre as razões de entrada das mulheres no mercado de trabalho. Diz também que um homem desempregado fica em pânico, diferentemente da mulher. Quanto aos ramos de trabalho mais ou menos adequados a cada um dos sexos, Glauber coloca que hoje em dia existe uma igualdade maior em relação a isso, mas não percebe, por exemplo, “uma mulher sendo policial militar”, que Deus não a colocaria lá, mas ela escolhe de acordo com as possibilidades de emprego que possui. Na relação entre homem e sociedade, este entrevistado comenta que o homem nasceu com papel que possui para mandar, ser superior, buscar estar sempre acima da mulher, e deve garantir que sua palavra seja sempre a última. Mas (com um sorriso na boca, e rindo levemente) isto tem mudado um pouco, devido à presidente Dilma Roussef eleita. Para ele, quem constrói o papel masculino na sociedade é a necessidade, no decorrer do dia do homem. É ele quem constrói tanto o papel feminino quanto o masculino. Finalmente, o que o diferencia de outros homens é sua postura, sua vontade de vencer, sua perseverança e honestidade, segundo ele. Se compara a outros homens 110
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    comentando que “tempouco homem, tem muito veste calça” e que são poucos os que fazem jus às calças que vestem, visto que para este entrevistado, este papel exige várias responsabilidades. O entrevistado agradeceu a entrevista, comentando que tinha sido muito interessante e logo se despediu. Glauber é um homem que é tranqüilo com sua masculinidade, mesmo com as situações adversas que poderiam perturbá-la. Ele, como Rodrigo, faz questão de permanecer na masculinidade hegemônica, mas possui esta clareza de forma muito mais extereriorizada que o outro. Ao mesmo tempo, percebe-se que ele cristalizou seu papel, ou seja, não percebe outras formas de se relacionar com o mundo a não ser esta, visto que sua dominância é clara na frente da entrevistadora, e ele poderia ter “floreado”. Isto só traz mais dados sobre o machismo de nossa sociedade, o quanto ele impregna pensamentos, trazendo viseiras para outras possibilidades de vivências. Mauro Mauro é um homem simpático, e sempre está sorrindo. A entrevistadora o conheceu em um grupo para travestis e transexuais, onde ele foi visitar uma amiga. Foi muito receptivo para fazer a entrevista, e chegou adiantado ao local onde combinamos. Ele fez jornalismo, porém trabalha em área administrativa. Mora com sua mãe e irmã, e atualmente namora a 6 meses um homem. Diz não ser nada acanhado, e que gosta muito de falar. Ao comentar o que seria um homem para ele, respondeu que ser um homem é a questão de possuir uma atitude íntegra, séria, cumprir um papel no qual se tem responsabilidades. Para ele, não têm a ver com o corpo (estatura, cor, etnia, ou outras características) ou com a orientação sexual, apenas difere de um “moleque”, alguém que não tem responsabilidades. A postura masculina, de acordo com Mauro, tem muito a ver com a atitude. Se percebe masculino através de o que as pessoas vêem nele, como elas “projetam o que elas vêem de mim, pra mim”, características como virilidade presentes na voz, pêlos, postura, e como ele se coloca diante das situações tendo como característica relacional sua maturidade, sua visão de mundo, entre outros lados do fenômeno. Ao ser homem, ele evita demonstrar fragilidade, sentimentos, sensibilidade, “fazer coisas caracterizadas como coisas de menina”. Afirma que para a masculinidade, é mais importante prestar atenção no que você não pode fazer, que atitudes permitidas. 111
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    Uma mulher émasculina para Mauro no momento em que ela evita ser frágil, vaidosa, e tenta se guiar através de diretrizes determinadas à homens, como usar roupas mais sóbrias, cortar seu cabelo curto, falar palavrões, fumar na rua, isso a deixa masculinizada, mais perto dos homens. De alguma forma, e ele relaciona uma mulher masculina a uma falta de aceitação da feminilidade em contraposição de uma super- valorização masculina. Ao se relacionar com outros homens, comenta que sua sexualidade de certa forma direciona suas amizades a um mundo LGBT e amigas mulheres ou homens gays. Aqueles com quem ele se relaciona obrigatoriamente e são héteros são normalmente colegas de trabalho, na faculdade e em sua casa, e afirma que é difícil a convivência com estes. Todos os outros amigos são gays. Com os héteros, as conversas são superficiais e muitas vezes remetem a cultura, enquanto com seus amigos gays, ele os percebe com naturalidade, e se identifica com eles. Comenta que assuntos abordados com estes amigos são baseados em sentimentos, impressões mais abstratas, relacionamentos, ele afirma que é mais fácil possuir intimidade com eles. Com sua família, relaciona-se superficialmente e de forma distante com seus irmãos, e não conhece as intimidades da vida deles, e nem eles a de Mauro. Seu pai é falecido. Em uma situação onde ele não conhece o outro homem, comenta que fala bastante, é simpático e não deixa transparecer de forma alguma sua orientação sexual. Relacionado a mulheres comenta que as diferenças são extremamente subjetivas, a não ser a maternidade, a qual ele coloca como um poder, um papel fundamental e maior que o masculino. Percebe as mulheres como completas, abençoadas, características que ele não possui. Ao mesmo tempo, percebe as mulheres como “erráticas”, pois o comportamento é turbulento devido ao foco fragmentado que elas possuem segundo ele. Possui inclusive um grau de condescendência quando o humor feminino se altera, e atribui estas características ao biológico. Percebe-se como mais estável psicologicamente que uma mulher, e mais previsível conseqüentemente. Comenta que no trabalho é muito diferente uma mulher em cargo de comando em relação a um homem, visto que as mulheres para ele são mais suscetíveis ao meio em que estão. Quanto a características físicas, comenta que a pele é diferente quanto à textura, a fragilidade na pele, as feições femininas das masculinas. O que o faz parecido remete à questão de falar sobre sentimentos, de estabelecer intimidade ou mesmo ser mais afetuoso, carinhoso, tentar entender outras pessoas, o cuidado intrínseco às mulheres 112
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    segundo ele. Eletambém se considera muito vaidoso, usa cremes todos os dias, pensa em dietas, entre outras características. Ao se portar na frente de uma mulher, este entrevistado comenta que com cada pessoa, representa um papel diferente. Isso significa que quando sua mãe esta na sua frente, por exemplo, ele evita “dar pinta”, se mostra como homem hétero, responsável, que está sempre pronto para resolver os problemas e é o provedor da casa (visto que não saiu de casa até este momento) e portanto deve se portar como “o homem da casa”. Já com amigas de longa data, ele é o “homem legal”, que vai entendê-las, vai perceber nuances de cor em uma camiseta, por exemplo, não vai “atacá-las” e sim respeitá-las. Ele se sente responsável em mostrar às mulheres que existem homens que discutem, conversam sobre relacionamentos, que são cultos, tentam entendê-las, ao invés de demonstrar o estereótipo do “homem das cavernas, com o tacape e que bate na mulher e puxa pelos cabelos”. Afirma, porém, que um de seus maiores problemas exatamente por isso é receber muitas cantadas de amigas, pois elas se interessam por ele. Diz que já “ficou” com duas mulheres, mas as duas tinham características muito masculinizadas, segundo o entrevistado. Ele flerta com mulheres desconhecidas, não deixando transparecer seu desejo por homens, talvez de modo a demonstrar o quanto ele é passível de ser encaixado em um mundo heteronormativo. Em compensação, não consegue flertar com homens, é mais retraído nestas situações e normalmente espera conquista vinda de outrem, nunca de si. Finalmente, comenta que não há nada que só falaria com mulheres, visto que possui tanto amigos como amigas para os quais ele contaria tudo. O inverso é verdadeiro, visto que também não possui um assunto que só dividiria com homens. Quanto à sexualidade, ele considera este aspecto como sendo crucial à sua vivência, e que qualquer âmbito de sua vida se relaciona a como ele se porta sexualmente. Gosta de vivenciá-la sempre que pode, em situações diversas, desde livros, filmes, observações no dia-a-dia, etc. Comenta que se sentiria muito desesperado se perdesse seu pênis, e tivesse que viver sem ele. Quanto à conquista, com mulheres ele é sedutor, aquele que flerta e conquista. “Olha, tá vendo? Eu consigo conquistar até uma mulher!” afirma que é uma forma de se auto-afirmar, de aumentar sua auto-estima. Em contraste, com homens, percebendo que o flerte pode ter conseqüências concretas, ele fica sério e é o conquistado da relação. 113
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    Acredita que comoo homem é muito agressivo na conquista e competitivo, prefere “não entrar no jogo”, não competir, de modo que acaba deixando-se entrar na relação através do flerte de outrem. Comenta que existe uma externalização dos papéis de dominador e dominado, e que às vezes muitas mentiras são contadas em razão de uma conquista. Os eventos marcantes na sua vida a respeito de sua sexualidade foram alguns. Segundo ele, a perda de sua virgindade foi premeditada, ou seja, 20 de dezembro 1998, com vinte anos. Ele tinha marcado que iria a um prostíbulo com um amigo, e este evento seria à noite. Ele tinha dúvidas sobre o que queria quanto à sua sexualidade. À tarde do mesmo dia, no entanto, tinha sido marcada com um cara para que ele perdesse a virgindade com ele. Ele perdeu então a virgindade tanto hétero quanto homoafetiva no mesmo dia. O segundo evento marcante foi quando descobriu que poderia proporcionar prazer a outro homem, pois tinha problemas com auto-estima devido ao fato de que costumava ser gordinho, e ficou vislumbrado com esta sua nova possibilidade de ser, alguém que dá prazer. Comenta que queria fazer isto a toda hora. Todas as suas relações por um ano a um ano e meio consistiam neste objetivo para Mauro. Este objetivo modificou-se e então ele teve seu terceiro evento marcante. Ele chegou a ter um relacionamento amoroso de seis meses com outra pessoa, o relacionamento acabou e ele descobriu que seu ex-namorado havia falecido “de HIV”. “Foi a experiência mais devastadora que poderia me ser incutido, que me bloqueou, até. Depois que eu fiz isso, eu fiquei desesperado, porque tínhamos feito várias vezes sexo sem proteção e eu não sabia se ele tinha contraído o vírus antes ou depois que nós tivéssemos separados.”, desabafa. Fez o teste para saber se tinha pego, mas tinha certeza que tinha contraído a doença durante meses antes do teste, e descobriu que não estava com a doença. Não acreditava no resultado do teste, e o fez várias vezes. Passou um ano inclusive sem nem beijar novas pessoas devido à esta angústia. Depois deste evento, não consegue mais fazer sexo sem proteção, e mesmo com seu namorado, ele nunca o faz. Outro evento marcante foi quando percebeu novamente que poderia fazer sexo com amor. Afirma que normalmente são assuntos desvinculados um do outro, que ele não precisaria ser monogâmico para ser fiel. Atualmente isto mudou um pouco, visto que com este novo namorado, está mantendo um relacionamento monogâmico, devido ao amor que sente por este (e também é possível supor que pelos problemas de auto- 114
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    estima do entrevistado,ele pode querer que seu cônjuge tenha a mesma atitude que ele, ser fiel.). Ele relaciona sua masculinidade e sua sexualidade de forma extremamente conjugada, ou seja, todos os atributos masculinos de seu corpo são aquilo que ele percebe como atrativo sexual para si, além de que é o que tem a oferecer ao outro, não conseguiria pensar nestes âmbitos em separados. Além disso, percebe que não existem regras na hora de exercer a sexualidade, nada é proibido e as possibilidades são ilimitadas, os limites de atividade/passividade, virilidade. Sua fantasia sexual (que ainda não realizou, visto que não costuma deixar de realizá-las) relaciona-se a fazer sexo com vários homens e ter vários espectadores ao mesmo tempo, de forma a se exibir. Afirma que seu namorado não cogitaria jamais fazer esta fantasia, mas isto não o intimida para realizar outras fantasias. Quanto à relação com filhos, Mauro pensa em não tê-los (nem biológicos nem adotivos) e percebe que é uma responsabilidade muito grande colocar um filho no mundo do jeito que ele está. Além disso, não se percebe estruturado suficiente para trazer uma estrutura a um filho seu. Mesmo assim, um pai deveria tratar seus filhos com amizade, companheirismo, intimidade e abertura, como um relacionamento ideal, mas percebe que muitas vezes não é assim na vida real. Acredita que deveria haver uma igualdade entre os modos de tratar filhos e filhas, quanto a controle, regras e comportamentos. Mas mais uma vez, afirma que existem muitas vezes diferenças entre os sexos na sociedade, e tenta fazer com que sua irmã tenha a liberdade que ele mesmo teve quando pequeno. Para este entrevistado, família pode ser separada em duas: a família que se vive e a família que se fala. A família que se vive é aquela composta pela própria dinâmica familiar do indivíduo, enquanto a que se fala é aquela representada aos amigos, colegas, pessoas que trabalham no mesmo ambiente. E ele comenta que se sente dividido entre estas duas famílias. Sente-se acolhido e ama seus familiares e ao mesmo tempo, sente-se controlado por eles. Prioriza a família em momentos de festividades, como Natal e ano novo, porém em outros momentos, prefere passar com seus amigos e namorado. Seu papel enquanto homem dentro de sua família depende de que lugar ele fala. Como chefe, ele é o norte, o provedor, que toma conta das tarefas práticas, e é o para-raio, ou seja, a pessoa que tem como função auxiliar em tudo que está errado. Sente-se que tem a responsabilidade de ser o exemplo para seus irmãos, de ter caráter, ser pontual, e ter 115
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    responsabilidade. Além deser o norte, ele deveria se esforçar em ser cuidadoso, mas é difícil para a maioria das pessoas, um dos papéis para ele se sublima. O apoio da família é o ponto forte desta assim como a continuação da mesma, presente nos filhos. Em compensação, a família demanda dedicação quase que integral das pessoas envolvidas, o que pode ser um peso e um contraponto. As funções do trabalho em sua vida, em relação de masculinidade, são as de inserção na sociedade através de uma capacidade dele, a integração entre pessoas, mas isto pouco tem a ver com sua masculinidade em si, visto que o intelecto neste caso é mais importante que seu gênero ou sexualidade. Sente que sua masculinidade nunca foi afetada com seus trabalhos, mesmo nos trabalhos anteriores. Porém para Mauro existem vários pontos onde uma mulher se diferencia de um homem em seu ramo de trabalho: a mulher tem um foco alterado segundo ele que modifica o jeito de executar tarefas, como a falta de pragmatismo delas. A gestão feita por homens e mulheres são diferente para ele, e isto reflete no ambiente profissional. Afirma que as mulheres aceitam mais, enquanto os homens são mais objetivos e resistentes. Percebe que existe muito machismo em seu local de trabalho, visto que pessoas como ele ou mulheres têm dificuldade de ascender, mesmo sendo ótimos profissionais. O papel do homem na sociedade para este entrevistado é o mesmo da mulher, ser honesto, íntegro, consciente dos papéis que exerce enquanto pai, filho, profissional entre outros, ser igual a uma mulher. Afirma que todas as influências que se sofre ao longo da vida constituem e guiam os papéis masculinos. O que o diferencia enquanto homem perante a sociedade diz respeito às suas verdades, e capacidades, e que estas estão abertas a quem quiser ver. Mauro é um homem que procura ser o mais liberto possível de amarras que possam surgir dentro de sua masculinidade, porém algumas coisas o engessam, como a falta que seu pai fez quando faleceu, criando um Mauro preocupado em participar dos padrões sociais familiares, profissionais, etc. Percebe a mulher não como sendo complementar, melhor ou pior, mas sim completamente diferente do homem, e isto baseia sua relação com elas. Sua auto-estima muito influi em seu papel masculino no exercer da sexualidade assim como na vida profissional, e a relação que faz dos papéis só completa o que pensamos a respeito das várias masculinidades. 116
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    Capítulo V –Discussão Neste capítulo, iremos unir as informações da análise nas entrevistas e a teoria que se encontra no capítulo I e II, de modo a perceber como as duas se relacionam. As categorias relacionais que utilizamos para as entrevistas aqui são extremamente úteis, visto que elas dividem ao mesmo tempo em que compreendem as várias possibilidades de liaison masculina. É importante ressaltar que as inúmeras leituras das conversas com os homens demonstraram a abrangência do instrumento, visto que nenhum dos entrevistados sentiu que “faltava” algo; melo contrário, em algumas situações eles inclusive relatavam o quão minuciosa era a entrevista. Desta forma nos utilizaremos dos temas para abordar tais reflexões. V.1 –Relação entre homem e sociedade. Como pudemos observar e compreender, realmente a frase de Maciel Jr. (2006) que comentamos no começo também se baseia na realidade; as masculinidades se mantêm em constante movimento e isto se evidencia não apenas na teoria, como na vida de nossos entrevistados. E é realmente impossível perceber a masculinidade sem que ela esteja em relação, ela expressa-se apenas desta forma, e da maneira como as pessoas sentem estas relações. Estando no período histórico da pós modernidade, é crucial evidenciar dados como o consumismo (tanto de “mulheres objetos” quanto de sexos masculinos para uma maioria dos homens homoafetivos), uma sociedade hierárquica e que além de ter direitos e deveres iguais entre iguais (isso obviamente não exclui o fato de que nossa sociedade agrupa alguns pelos graus de igualdade), possui o sofrimento como característica coletiva, assim como uma busca por identificação às vezes mesmo para atenuar este sofrimento. E apesar de nosso mundo ter mudado bastante, nossa mente mantém padrões anteriores, como percebemos em Patrício, Carlos, Cássio, Frederico ou Marcel. E isto nos dá dados que confirmam o que Dorais(1988) diz a respeito da masculinidade. Ela, como está atualmente, é atuada de modo completamente diferente de como as pessoas a pensam e um exemplo claro disso é o depoimento de Maurício, cheio de contradições entre pensamentos e ações. 117
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    O que sepercebe ao falar com Joe e Mateus, assim como o conjunto de entrevistados é que a masculinidade é tão fluida quanto a pós-modernidade de Bauman: suas inúmeras possibilidades se mesclam em pessoas, e é impossível pensar em um representante modelar para estes indivíduos. Existe o ideal do homem verdadeiro, daquele que é ativo, dominante, viril. Mas o ideal não existe enquanto pessoa. Todos os nossos entrevistados são desviantes de alguma forma, o que nos faz pensar que o desvio é exatamente a masculinidade hegemônica, a que foge da norma no sentido estatístico de maior freqüência de eventos continua. Mas ao ser algo buscado ainda por muitos homens (por que outros não mais a procuram conscientemente), a masculinidade hegemônica encontra suporte nas instituições que regem nossa sociedade. Para Artur, por exemplo, quem rege o papel masculino na sociedade é “o transistor, a psicologia e a linha de produção”, explicando que o transistor faz com que as informações sejam mais rápidas, a psicologia é utilizada para criar o desejo das propagandas e do marketing e a linha de produção fez com que a sociedade se padronizasse, e para ele são estas características que simbolizam a masculinidade atual. Já Gustavo acredita que este papel é construído e reproduzido pelas pessoas, tanto homens quanto mulheres, e é mantido por ambos também independentemente do gênero com o qual se identifiquem. Cada um dos entrevistados vê facetas deste papel, mas sua origem para eles é desconhecida. Apontam que, inclusive, alterações no meio ambiente podem causar mudanças no modo de pensar dos indivíduos. O fato de Dilma Roussef ter ganhado as eleições foi de extrema relevância para vários de nossos entrevistados quanto ao papel do homem na sociedade, visto que ela representa mais um passo para a igualdade de gênero para muitos deles (apesar da frase sarcástica de Glauber ao afirmar que ela será uma boa governanta para o país ao exemplo de Lula). Mas é evidente que ela será marcante na história brasileira quanto às relações de poder exercido. Algo que também remete ao homem público é a dificuldade do mesmo em falar de suas diferenças em relação ao papel hegemônico de masculinidade. Não foi nada fácil a Artur e Fernando falarem de suas deficiências físicas, ou mesmo para Márcio demonstrar seu desejo por homens, mesmo na frente de seu namorado. Assim como existem estas dificuldades, existe uma exigência social que homens devam demonstrar status e capacidade de acordo com o que aquela sociedade específica 118
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    preza. Não éà toa que pelo menos metade dos entrevistados não deixou que a entrevistadora pagasse o café, ou que Artur e Fausto pratiquem esportes competitivamente. É preciso, de modo que eles se sintam confortáveis em sua situação enquanto homens, que eles demonstrem atributos valorizados, como força física ou poder aquisitivo. Já características que não são vistas como positivas para nossa sociedade são escondidas, como ocorre com Mauro, que inclusive seduz suas amigas e não “dá pinta”28, além disso a heteronormatividade foi reforçada em sua vida em vários momentos, embora sinta desejo por homens. Sua história é muito interessante neste aspecto, pois no mesmo dia em que perdeu a virgindade com um homem, também o fez em outro momento com uma prostituta contratada por amigos seus, incentivando-o a seguir padrões heterossexuais. Como comentamos anteriormente, nossa sociedade se fecha para pessoas que são diferentes da maioria, que são excluídas, arcando com o peso dos preconceitos. Luís sentiu muito isto ao ir para a prisão ou mesmo ao ter sido rechaçado em baladas GLS quando andava com sua ex-esposa, uma travesti e experiências como estas em sua vida o marcaram muito enquanto pessoa. Maurício também sofreu preconceito ao falar para seus pais que era homossexual, sofrendo até agressões físicas de seu pai, e agressões verbais que deixaram escaras em seu modo de ser. Mas em algum momento, eles foram em frente e viveram suas vidas, plenamente, como desejavam. V.2. A relação do homem com sua família. A aceitação familiar, para muitos deles é fator decisivo para saúde emocional. Mauro se baseia completamente na felicidade de sua família para escolher seu caminho, e Luís ao sair da prisão, sentiu-se muito só percebendo que sua família não queria mais nada com ele. A aceitação das mães de Juliano fora tão crucial para sua mudança de fenótipo que ele sente -se grato todos os dias quando pensa no apoio que elas lhe dão, evidenciando o fator de apoio psicológico que a família pode lhe proporcionar. A família também tem papéis muito importantes na auto-aceitação de certas características por parte de cada um de nós. Em caso positivo, quando Gustavo obteve a 28 “dar pinta” é uma expressão comum entre a comunidade LGBT brasileira, que significa demonstrar comportamentos marcadamente femininos em nossa sociedade, ou mesmo demonstrar em peças de roupa, acessórios ou atos sua homossexualidade. 119
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    aceitação de seuspais a respeito de seu gosto por mulheres (lembrando que este é um homem trans, e que seus pais na época o viam como mulher), isto o tornou mais confiante. Em compensação, existem as exceções como Eduardo, que se sente muito melhor depois que deixou sua casa e não mais dá satisfações aos pais. Ele se vê como sua própria família, com quem ele pode contar e refletir sobre si mesmo. Também outra possibilidade de pensar a família é a de pais homoafetivos, que é o que Maurício gostaria de ter, ou mesmo o que Álvaro possui, ao falar de sua afilhada. As questões aqui são as mais diversas, desde a fala de Maurício a respeito de arranjar uma amiga lésbica para ter filhos biológicos, ou mesmo a adoção que o namorado de Eduardo gostaria de ter. São questões extremamente relevantes se pensarmos nas novas constituições familiares que percebemos cada vez mais em nossa sociedade. Ao pensar nas crises familiares... Realmente nos detemos aqui, pois todos os nossos entrevistados possuem ao menos um problema sério de relacionamento com os pais, que não se tratam de crises normativas, de algum modo previsíveis. Para a sua superação, é necessário mobilizar os recursos existentes ou criar novos recursos, pessoais ou advindos do meio. Alguns são gerados por ocasião de maior vulnerabilidade e portanto de risco a disfunções psicológicas ou mesmo físicas. Uns devido à revelação da homossexualidade, como Maurício e Márcio, possuem conflitos com sua família. Outros devido à crises com a parceira como a traição de Glauber, doenças que afetam a dinâmica familiar como a esclerose múltipla de Fernando, divórcios como Artur, a morte do pai de Mauro, entre várias outras, que mudam o equilíbrio desta galáxia com planetas em órbita. Cada um teve seu jeito de lidar com estes fenômenos comuns à vida moderna ou não. Alguns voltaram-se à religião, outros se tornaram chefes de casa, e ainda outros remoem todos os dias este acontecimento em suas vidas. Mas estes marcam a todos eles pois nenhum deles se resolve em um passe de mágica. V.3. A relação entre sexualidade e masculinidade. Quando pensamos a respeito da relação entre gênero e sexualidade, também vemos vários conflitos que afloram. O caso de Artur nos ajuda muito a entender o quanto estes âmbitos estão separados, mesmo se interceptando. O fato dele se achar muito masculino não possuindo uma sexualidade convencional nos ajuda a explorar este 120
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    tema, que éo X da discussão sobre o que percebemos como senso comum na sociedade. O fato de Mauro ser homoafetivo e de ser extremamente másculo, assim como Maurício, também demonstra que masculinidade não se liga necessariamente à uma sexualidade heteronormativa, viril, falocêntrica. Além disso, existe grande dificuldade de alguns homens em abrir informações sobre suas sexualidades, como se este aspecto vital fosse profundo suficiente para significar obscuro. É importante salientar que ao falarmos de uma sociedade que se baseia em uma masculinidade falocêntrica, poderíamos imaginar que todos os homens trans deveriam almejar a neo-faloplastia. No entanto não é o que ocorre na prática. Tanto Gustavo quanto Juliano, por exemplo, expressaram com todas as palavras que esta não é uma ambição para eles. Não apenas isso, mas eles ainda colocam que tal tipo de cirurgia não deveria ser feita, tamanha é a invasão e as possibilidades de erros que a mesma pode acarretar. Em compensação, Patrício afirma que só terá relações sexuais depois desta cirurgia: percebe-se grande diversidade de olhares para a mesma questão entre eles. Outra característica que percebemos é que o homoafetivo viril é mais valorizado perante outros homens, inclusive pelos de mesma opção sexual, colocando inclusive apelidos naqueles que não são desta forma. A quantidade não tem a ver com a virilidade necessariamente neste aspecto, mas o quanto este homem possui características marcadamente masculinas em seu porte físico, modo de falar ou andar, entre outros atributos. Além disso, depois de períodos de ascensão e queda, a homoafetividade hoje é razoavelmente aceita em nossa cidade, claro que dentro da “redoma” LGBT (Ainda se percebe que o “gueto” existe, a exemplo das falas de Maurício, mas que ele causa uma sensação de tranqüilidade e bem estar, e portanto, não exige que as pessoas que freqüentam este grupo procurem outras vivências.). É importante salientar que fora deste grupo, é impossível não perceber o preconceito e os vários obstáculos que jovens homoafetivos ou transexuais ainda tem de suportar. Mas muito mudou, visto que nossos entrevistados foram tranquilamente exercer seus desejos bem jovens, (com raras exceções, como Eduardo e Álvaro) e a maioria das famílias aceita bem este fato, caso não seja muito religiosa. Existe também uma característica muito peculiar a respeito da atividade e passividade no sexo homoafetivo: não existe para eles apenas uma forma de ser gay; alguém pode ser passivo (gosta de ser penetrado) e dominado (gosta que lhe dêem 121
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    ordens), passivo edominante (gosta de dar ordens, definir o trajeto da relação sexual), ativo (gosta de penetrar) dominante ou dominado, como nos explicou Maurício. E segundo ele, muitos desta comunidade se baseiam nisso inclusive para escolher seus parceiros com maior tempo de relação como é o caso de Álvaro que continua depois de 20 anos com o mesmo homem. Aí percebe-se muito que os padrões heteronormativos de imposição de poder se mantém mesmo em casais homoafetivos, existe, como afirma este mesmo entrevistado, “a mulherzinha e o homenzinho da relação”, onde o penetrado ou passivo é visto como inferior, o subordinado, e aquele que penetra, e é dominador, o chefe da relação. Além disso, percebe-se que casais homoafetivos possuem maior intimidade que casais heterossexuais, vide os casos de Jaques, André, Maurício (com seu ex), Mauro e Carlos, o que concorda com o que Kimmel (2000) comenta a respeito deste grupo. Acredita-se que isto se deve ao fato de que há uma busca por uma relação mais igualitária, não existem papéis rígidos a serem seguidos na relação e isto vai de encontro com um respeito maior dos parceiros uns com os outros. Quanto à relação homossexual em várias idades, podemos perceber com Eduardo (que tem 21 anos) um foco na sexualidade enquanto relação sexual. Já Álvaro (com 50) comenta que não há mais tanto fervor quanto havia antigamente com seu parceiro, mas outros sentimentos afloram com maior intensidade, como companheirismo, intimidade, respeito, entre outros. A iniciação de jovens gays não se dá necessariamente por homens mais velhos também como se pensava anteriormente. Com o advento da internet e das boates GLS extremamente acessíveis a todos os públicos, homens como Carlos, Maurício ou André tiveram toda a liberdade de logo resolver seus desejos, sem a necessidade de que alguém lhes mostrasse algo. A relação entre amor e sexo é algo unânime: são dois sentimentos que existem em separado, e de vez em quando, andam juntos. Mesmo que o que um/a parceiro/a queira de um homem amor e carinho, não necessariamente será o que vai acontecer na relação. O que observamos a respeito da cultura árabe também é demonstrado em nossa sociedade a respeito da relação entre sexo e amor: não existe amor se o sexo inexiste, com exceção do que dizem Artur e Patrício, que não exercem sua sexualidade de forma convencional, e amam suas esposas. Algo que Artur comenta e é extremamente importante quando pensamos na sexualidade masculina remete à conquista. Se pensarmos nesta questão à luz de 122
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    Kimmel(2000), nossa sociedadecoloca que as mulheres devem ceder aos encantos masculinos, enquanto os homens devem conquistar. Esta, característica normalmente atribuída por nossa sociedade aos homens, de acordo com vários entrevistados com Artur é vista como sendo algo muito próprio da humanidade, e não de um gênero específico. Para este colaborador da pesquisa, ser humano é desejar, e portanto conquistar quando lhe é possível. Não especificamente algo de um dos parceiros. Aliás, as fantasias masculinas colocadas pelos nossos entrevistados foram das mais diversas possíveis, desde fazer sexo dentro de um frigorífico a sado-masoquismo, passando por fantasias de enfermeira até em praias desertas ou mesmo orgias. Apenas um falou de uma personalidade famosa, não foram nem um pouco descritivos e citaram cenas, mas não colocaram situação que levasse ao ato. Kimmel(2000) neste ponto não concorda com o que nossos colaboradores dividiram conosco, o que nos faz pensar que nossa amostra difere da pesquisada por ele. Isso só prova o quanto a masculinidade e sua relação com a sexualidade é diversificada. É essencial comentar que na masculinidade heteroafetiva existe uma preocupação com virilidade, mesmo que as mulheres não exijam diretamente este aspecto. Eles mesmos se cobram muito serem sempre “prontos ao ataque”, e em casos como o de Artur, é algo que ele não se sente bem em comentar. Mas a grande maioria lida bem com este valor hegemônico. É verdade que muitos casos persistem em manter com unhas e dentes o ideal hegemônico de masculinidade, como Glauber, Patrício ou Fausto. Eles querem possuir controle emocional, controle sobre suas esposas, controle sobre a sociedade que lhes deve respeito. Mas Fábio já afirma o quanto é pesado ter que se manter “durão” o tempo inteiro, o fato de que homens precisam manter uma pose a maior parte do tempo. Este, por exemplo, afirma o quanto a sensibilidade, antes do campo feminino, deve entrar no mundo globalizado tanto em razão ao meio ambiente, quanto na questão da sustentabilidade humana. Gustavo concorda com este participante, afirmando que ao esquecer que todos temos características femininas e masculinas, estamos nos fechando para o mundo em que estamos, diminuindo a gama de seres humanos que podemos ser. Quanto a homens transexuais homoafetivos, não conversamos com nenhum durante a pesquisa, porém em redes de relacionamento na internet isto é até bem comum, não apenas fora do Brasil, mas também por aqui. Inclusive é algo que alguns homens trans comentaram na pesquisa; que homens trans homoafetivos existem, porém 123
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    muitos não querem“sair do armário”, visto que já são masculinidades que se consideram subordinadas e não gostariam de serem percebidos com mais um fator que possivelmente poderia subordiná-los ainda mais. Um dado muito interessante que renderá muito provavelmente pesquisas posteriores é que todos os homens trans com quem se teve contato já tinham uma taxa de testosterona mais alta que de uma mulher mesmo antes de começar a transição. Hipóteses são incontáveis para este resultado, como o funcionamento cerebral da pessoa gerenciado a maior produção deste hormônio, ou a superprodução deste hormônio devido a uma alteração congênita, mas é algo que vale ser explorado em pesquisas posteriores. A grande maioria dos homens trans comenta o quanto o corpo feminino é ligado à maternidade. Isso pois fenômenos como a menstruação e as alterações hormonais antes da transição são extenuadamente agressivos à estas masculinidades, então muitas vezes comentam que não desejam este fim a ninguém, muito menos a eles próprios, como afirmam Caio e Luís ao darem o exemplo de um homem trans que engravidou.29 Algo também curioso sobre os homens trans é que em alguns casos, assumir-se trans depois de assumir-se homoafetivo é um alívio para os pais, pois existe um motivo para que aquela pessoa goste do mesmo sexo biológico com o qual ela nasceu. Mas isto não é regra, como no caso de Caio, que mudou de Brasília para o Rio de Janeiro, e depois para São Paulo para começar o tratamento. Seus pais não o entendiam, e os conflitos eram constantes. Neste caso, a ocupação profissional foi um ganho de independência, tal como foi para Renato. Também foi espaço de convivência com outras pessoas, muito importante inclusive como suporte para a construção da identidade masculina. V.4. A relação de homens com homens. Se pensarmos nas relações entre homens, percebe-se a estratificação dos gêneros muito marcada. Homens héteros não conversam com gays e vice-versa. Homens que possuem certo estigma possuem menos possibilidades de amizades com outros homens, 29 Thomas Beatie, um homem transexual estadosunidense, engravidou em durante os anos de 2009 e 2010, dando à luz a 3 filhos. Ele é considerado um dos primeiros homens a engravidar. 124
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    como é ocaso de Artur, e acabam tendo mais amizades com mulheres, como Gustavo, Mauro ou Fernando, talvez devido ao fato do que Connell (2005) comenta sobre os tipos de relações entre homens, onde há espaço para a amizade e respeito, ainda que de acordo com as normas ditadas pela sociedade sobre submissão e dominação. Também é perceptível o valor que os homens dão à seus amigos, como podemos perceber em Fábio e Juliano ao falarem de seus “ companheiros de batalha”. São pessoas que estão presentes em qualquer caso, faça chuva ou sol, e muito remetem ao ideal de companheirismo medieval. Mesmo em relacionamentos homoafetivos, podemos ver uma relação que se baseia em direitos iguais às partes, como no caso de Jaques. Em relações que não a de amizade, muitos não percebem relações de hegemonia entre suas masculinidades e outras, como Juliano ou Cássio, e muitos se subordinam à norma vigente de modo a manterem-se hegemônicos, como Álvaro ou Marcos, ou mesmo Artur, que tenta “apesar” de possuir uma deficiência física, ser um engenheiro fantástico, de modo que haja uma compensação e negociação das relações através do status social. A profissão, neste aspecto, é campo fértil das relações de subordinação e dominação presentes nos campos relacionais masculinos, e no caso de Artur, que possui uma profissão que é vista como hegemonicamente masculina, este dado pronuncia ainda mais sua busca por aceitação. Além disso, os assuntos abordados entre eles dizem respeito aos temas mencionados pela teoria, (mulheres, negócios, futebol, carros, entre outros) e dependem muito do público que irá ouvi-los. Também é importante citar que eles comentam sim sobre seus sentimentos com amigos, caso os tenham desde tempos anteriores a vida adulta, como são os casos de Juliano, Artur, Maurício e Glauber. Aliás, nenhum de nossos entrevistados gosta de jogar futebol ou mesmo assistir aos jogos constantemente, nenhum era “fã de carteirinha” de time nenhum, o que nos faz perguntar então por que eles falam disso com outros homens, ou mesmo assistem os jogos com seus amigos ao invés de ir tomar um café, ou fazer outro esporte. De acordo com Artur, existem dois modos de um homem agir na frente de outro homem: ele pode agir de modo seguro, quando ele percebe-se acolhido pelo outro homem e não há por que esconder sentimentos e conflitos, ou ele pode agir do modo inseguro, precisando provar-se melhor na frente de qualquer pessoa, tanto homens quanto mulheres, e para isso não medirá esforços. É nesta definição que 125
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    compreendemos os timesde futebol, existe um desejo por parte dos homens de serem melhores, e nada mais simbólico que o esporte nacional para demonstrar tal hegemonia sobre outrem. V.5. A relação do homem com seus filhos. Ao falar sobre as relações de pai e filho, é importante citar que existem raras exceções como Joe e Artur enquanto pais, e a relação entre Cássio, André e Ramón com seus pais, onde há demonstrações de carinho. Homens como Fábio ou Juliano nem foram criados pelos pais, outros sempre se deram mal com eles, como Maurício ou Márcio. Pode-se dizer que as relações entre pais e filhos estão um pouco diferentes do olhar de Dorais (1988), mas ainda percebe-se que muito precisa ser mudado, e isso é presente na fala destes homens quanto ao papel de pai. A maioria dos entrevistados afirma com veemência (a não ser Fernando) que o papel de pai vai além do suprimento material das necessidades de um filho, mas que muito tem a ver com a educação e carinho, respeito e brincadeiras. Além disso, eles também colocam que existem jeitos diferentes de tratar filhos e filhas, mas a educação deve ser a mesma para os dois (salvo Fernando e Márcio). Um fato interessante neste âmbito é que muitos de nossos entrevistados não querem ter filhos, vide Rodrigo, Fábio, André, Fernando, Luís, Carlos, Eduardo, e Jaques. E inclusive, alguns os teriam por suas esposas, como Gustavo e Cristiano, mas não teriam filhos se estivessem sós. Uma relação possível a este fato é que não existe a vontade de muitos deles de passarem seus valores (inclusive sobre ser pai) a futuras gerações. Isso não significa que não possuem um ideal de pai, afinal eles mesmos tiveram um, presente ou não. Um olhar diferente dos demais foi o de Eduardo que comenta que não precisa ter filhos para possuir uma família, coisa que outros entrevistados não verbalizaram e que muito vai de encontro à visão de família atual, fluida e diversa, onde o intuito primordial já não é mais possuir uma prole. Outra questão abordada remete ao fato de que nossa sociedade coloca que o filho deve obedecer ao pai sempre que possível, ao patriarca legítimo. No caso de André, que possui três pais, quem é o patriarca de sua família? Seu pai biológico que bebia? Ou o atual, que faz tudo o que sua mãe quer? De qualquer forma, ele se dá bem à sua maneira 126
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    com os três,mas é muito complicado pensar em um modelo de família tão antigo que não mais corresponde à atualidade ainda orientando as escolhas de “quem deve mandar na casa”. Mais uma vez é sumário relembrar o que Hime (2004) comenta sobre a sobreposição de pensamentos e ações que necessariamente irão destoar: os preceitos anteriores demoram mais tempo para se alteraram em comparação com as atitudes e os comportamentos. V.6. A relação entre homens e mulheres. Quanto à relação de homens e mulheres, muito mudou da relação de amor cortês. Aos dias de hoje elas até podem ser vistas como objetos, tanto de desejo quanto de endeusamento, mas também pode ser uma grande amiga ou companheira, aquela para quem se mostra todas as facetas. Mesmo na relação sexual heterossexual, muito mudou, como é o que aparece no depoimento de Fábio, que fala que a mulher pode ser ativa (e as vezes deve) tanto quanto qualquer pessoa na relação. O amor ainda é buscado, mas de modo romântico, como é o caso de Gustavo, Ramón, Patrício e Fernando ao buscarem alguém que os complete, que some suas características às deles. Ainda se atribui à feminilidade a fragilidade e a sensibilidade em muitos momentos, e é pejorativo se um homem as tiver aflorado. Em compensação, quanto à característica de flexibilidade uma vez atribuída às mulheres, hoje em dia é muito bem vista pelos homens, tanto em relação a regras sociais, ao trabalho e nas relações. Inclusive, a flexibilidade nos modos de se portar no mundo é algo relacionado à inteligência. Segundo os colaboradores, uma mulher masculina possui uma característica básica, que muitos não souberam exemplificar com palavras, apenas com gestos e expressões: postura. Segundo eles, a postura masculina pode deixar uma mulher masculinizada, como usar roupas masculinas, falar palavrões, andar como um homem, ou mesmo “coçar o saco”, mesmo que este inexista. Houve exceções como Maurício, que comentou que mulheres que se atiram demais no mercado de trabalho, ou que não querem ter filhos são masculinas (o que traz à tona dados sobre quanto uma mulher para Maurício deveria estar no mundo privado, e não no público), ou mesmo Glauber que relaciona masculinidade em uma mulher com o fato de ela gostar de outras mulheres (que exemplifica a confusão feita em nossa sociedade a respeito da relação entre gênero 127
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    e sexualidade). Amaioria percebe que existe algo de diferenciado entre homens e mulheres, no jeito em que a masculinidade e a feminilidade são atuados, mas não coloca estes como pejorativos necessariamente, com exceção de Glauber e Cássio. Os homens entrevistados possuem amigas, em exceção de Fernando e Glauber, daquelas de se contar absolutamente tudo. Inclusive, a maioria dos homens homoafetivos preferia ter amigas mulheres, assim como os homens trans. Comentam que com elas, normalmente ficam mais tranqüilos para expressar seu interior, coisa que não acontece, por exemplo, com uma mãe. Neste caso, muitos mudam tom de voz, e evitam falar palavrões. Esta segundo Rodrigo, é assexuada, santa e deve ser protegida a todo custo de outros homens. Já não foi o que aconteceu na família de André, onde ele reconhece três pais, maridos de sua mãe em momentos diferentes. Mas em si, um dos possíveis motivos para que os homens mudem sua postura na frente de suas mães é medo de não ser aceito (se cruzarmos com a relação entre mãe e criança, os filhos tendem a querer ser aceitos pelos familiares, em especial a mãe), ou mesmo a falta de confiança na mãe para entenderem quem são, como é o caso de Eduardo, que evita falar sobre sua vida à mãe pois “ela não entenderia”, segundo ele. A relação entre homens e mulheres é extremamente complexa, e é muito dificultoso explorar todos os dados que nos fora passado neste ramo de relações, principalmente porque as próprias entrevistas se deram em relação entre homem e mulher, e muitos dados são de difícil acesso neste caso. V.7. A relação entre homem e trabalho. Um aspecto que tínhamos a impressão de achar mais dados do que realmente foram encontrados foi a com o trabalho. Eles logo mudavam o assunto, falavam pouco, com exceção de Ramón, Jaques, Caio Glauber e Álvaro. A maioria falou que é apenas um meio de subsistência, algo que traz “dinheiro” para casa, e pouco tem a ver com a masculinidade. Porém, visto que a menos de meio século atrás o papel predominantemente masculino era atuado no mundo público, se faz necessário que levantemos esta questão, mesmo que para contextualizar-mo-nos em relação à masculinidade atual. Pudemos perceber poucos de nossos entrevistados em profissões em que eles se sentem realizados, como Jaques, Álvaro ou Fernando. E a não ser Fernando, nenhuma 128
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    destas profissões éde destaque como profissões idealmente masculinas, como podemos ver na tabela de entrevistados do anexo IV. Outra questão que talvez nos auxilie a observar a relação entre homens e trabalho é que vários entrevistados comentaram que suas esposas (ou mães) ganham mais que eles, e isso não é vivido de forma negativa, vide Fábio, Gustavo ou Caio, o que talvez a algum tempo atrás seria motivo de fracasso profissional. Outra possibilidade atual é a do trabalho dentro de casa, vide Gustavo ou Artur, que fazem seu serviço estando dentro de casa, e isso altera em muito a dinâmica familiar. O trabalho exerce funções importantes na vida destes homens como afirma Ramón, mas qualquer mulher poderia realizar-se tanto quanto ele em seu trabalho, tornando-o parte de sua identidade, fazendo-o fonte de rede social ou mesmo de auto- afirmação. É importante evidenciar que os homens ainda fazem muito pouco esforço para se auto-conhecerem, mesmo sofrendo, e não são ávidos em procurar as psicoterapias como principal objeto que aplaque angústias. De nossos entrevistados, 5 estão fazendo terapia atualmente de forma obrigatória, (a não ser André, que é psicólogo e faz terapia desde os 15 anos de idade) devido à transição comum ao tratamento efetuado pelos homens transexuais. Porém a mesma é efetiva, como visto no caso de Artur e Luís, que conseguiram se perceber melhor no mundo mesmo depois de pouco tempo em processo terapêutico (Artur, por exemplo, esteve apenas 6 meses em terapia, e ele afirma que esta muito mudou sua vida.). A associação de terapia com demonstração de fraqueza é uma resposta possível para este resultado, assim como a crença social de que existe uma imutabildade de caráter, como explicitamos na revisão bibliográfica, porém, esta questão não se esgota e deve ser aprofundada em trabalhos posteriores, devido à riqueza de detalhes que este dado pode trazer ao trabalho psicoterápico com homens. 129
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    Capítulo 6 –Considerações Finais Pode-se dizer que este trabalho foi extremamente difícil. Acredito que a pior parte foi terminá-lo, do jeito em que está para ser entregue. Prazos são prazos, porém se pudesse, haveria muito a modificá-lo. Sempre falta algo, ou por que está incompleto, ou porque percebemos novas facetas de nosso trabalho. Reconheço-me em pessoas que dizem que é impossível chegar na inteireza de um fenômeno, mesmo se você o vivencia. Minha angústia é de não captar mais em menos tempo. Um tema tão apaixonante como este me tocou de tal forma que é impossível olhar para os homens da mesma forma. Em primeira instância, pensou-se que sendo a entrevistadora uma mulher, os homens não se abririam. O engano foi tal que vários entrevistados se comunicaram com a entrevistadora inclusive depois da entrevista sobre assuntos complicados para eles, assim como para convidá-la para um café com outros que passam pela mesma situação. Como afirma Maciel Jr. (2006), é preciso “quebrar o gelo” antes da conversa e é dessa forma que muitos demonstraram posturas de conforto com a pesquisadora. Então, é bem provável que a característica de diferenças de gênero não tenha sido marcante quanto à vinculação dos colaboradores com a entrevistadora, e sim a forma como a relação se constrói. Muito foi aprendido com cada um dos entrevistados, tanto neste aspecto como em outros. O que foi possível apreender principalmente é da universalidade das diferenças, mesmo que em massa nós os percebamos como estáveis e parecidos entre si. Eles são apenas humanos. Eles dominam ou não, pensam em sexo ou não, sentem-se úteis no trabalho ou não. Como qualquer possibilidade humana. Assim como o gênero não constitui sexualidade ou sexo, também não vai definir comportamento ou modo ser e sentir. Nossas complexas vidas nos tornam o que somos, não apenas o que a sociedade nos impôs necessariamente. É bem verdade que a masculinidade hegemônica existe, e ela permeia homens em todos os âmbitos de alguma forma. Inclusive, em algumas entrevistas, a pesquisadora, ao ter uma postura que vai contra estes princípios, se sentiu agredida pelos entrevistados, porém, respeitando a individualidade dos sujeitos, ela ficou quieta e as entrevistas seguiram, de modo a respeitar a opinião do entrevistado, e para que ele se sentisse confortável para expressar esta opinião. Mas este machismo também permeia mulheres, e hermafroditas, e qualquer outra forma de expressão sexual. A masculinidade hegemônica permeia a sociedade inteira, assim como a instituição da 130
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    família e dareligião. Cabe ao ser humano perceber o que fará com estas instituições, deveres e direitos que constituem o equilíbrio do mundo moderno. Percebem-se alterações gritantes entre as masculinidades dos homens que são nossos participantes e a masculinidade hegemônica, e isso deve ser evidenciado, pois isto clareia o quanto desta forma assumida idealmente pela masculinidade está sendo alterada. E assim como foi citado anteriormente, como Oliveira (2004) muito bem evidencia, a masculinidade hegemônica é plástica em razão do tempo e da sociedade em que se encontra e parece que uma transição está surgindo. Ainda temos homens como Glauber e Fausto, resistentes em suas masculinidades, que ainda mantêm relações hierárquicas, colocando o masculino acima de qualquer outra forma de gênero. Mas também temos homens como Joe, Mateus, André, Luís e tantos outros, que demonstram que cada masculinidade é o que cada vivência faz com ela. Estamos em momento de alteração da masculinidade. Aliás, masculinidades! 131
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    ANEXO I -ROTEIRO DE ENTREVISTA Nome:___________________________________ Idade:___________________________________ Profissão:________________________________ Natural de:_______________________________Mora em:___________________________________ Faz terapia?_______________ Se sim, há quanto tempo?____________________________________ Homem consigo mesmo 1. O que é ser um homem para você? - fisicamente - socialmente - psicologicamente 2. Quais as características que fazem você ser masculino? - fisicamente - na sociedade - no que se é preciso fazer (responsabilidades) e nos direitos - no que faz um homem masculino - no que faz uma mulher ser masculina Homem – Homem 3. Como você, enquanto homem, lida com outros homens? - o que conversam - no trabalho - na família - com amigos - com outros homens desconhecidos (ex: cara do taxi, cara da fila no banco) Homem – Mulher 4. O que te faz diferente de uma mulher? - aspectos físicos - responsabilidades - direitos - aspectos psicológicos e comportamentais 5. O que te faz parecido com uma? - aspectos físicos - responsabilidades - direitos - aspectos psicológicos e comportamentais 135
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    6. Como você, enquanto homem, se comporta com uma mulher? - mãe; - irmã; - filha; - esposa/ amante; - qualquer mulher. - Como estas relações se alteram durante o tempo - Como se fala de uma mulher com outros homens, e o que se conversa com mulheres que não com homens Homem- Sexualidade 7. Como é a sexualidade masculina, pensando em sua vivência da sexualidade? - qual a preferência sexual - como deve ser a conquista/ quem deve conquistar - se houveram eventos marcantes no ciclo vital - sexo X amor - relação entre sexualidade e masculinidade 8. Como você, enquanto homem, deve se portar na cama? - força - atividade/passividade - em questão ao gozo, ele deve prezar primeiro a(o) parceira(o) ou a si mesmo - virilidade - fantasias masculinas 9. O que um(a) parceiro(a) realmente quer de um homem, e o que isso muda no exercer da sexualidade masculina? Homem – Filhos 10. Como você enquanto homem deve tratar seus filhos? - em relação à regras - cuidado X sustento - brincadeiras 11. Existem diferenças em tratar de filhos e filhas? - em relação à regras/ controle - cuidado (dos mais simples, como trocar uma fralda até os mais específicos como escolher uma tiara para a filha) - sustento - brincadeiras Homem – Família 136
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    12. O que é família? - aspectos de dinâmica - como ela se forma - o que ela abarca - quais suas funções na sociedade 13. Qual o seu papel enquanto homem em uma família? - em relação a receber e impor regras - cuidado com os filhos e esposa - cuidado de pessoas idosas, (avós, etc) - coisas boas e ruins de estabelecer uma família 14. Como você se porta perante sua família? - em questão a respeito - exemplos que deve dar ou não - verdades/mentiras Homem – Trabalho 15. Quais as funções do trabalho na sua vida, em relação à sua masculinidade? 16. Quais são as diferenças de um homem e de uma mulher em uma empresa? - causas de absenteísmo - relações com pares e trabalhos em grupo - subordinados e superiores - uso do tempo - tarefas mais ou menos adequadas Homem – Sociedade 17. Qual o papel do homem na sociedade? - em relação ao poder exercido - em relação à visão global/focal em problemas - hierarquia - competitividade - o que guia e quem constrói o papel masculino na nossa sociedade 18. O que diferencia você, enquanto homem, perante a sociedade? - direitos - deveres - o que cada homem tem de diferente de outros homens Comentários: 137
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    ANEXO II –TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Eu, ________________________________, RG__________________, declaro, por meio deste termo, que concordei em ser colaborador voluntário na pesquisa de campo referente ao projeto intitulado “Características do papel de gênero masculino em homens transexuais com homens biológicos”, desenvolvido pela Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Fui informado, ainda, que a pesquisa é orientada pelo Prof. Dr. Plínio de Almeida Maciel Jr., a quem poderei contatar a qualquer momento que julgar necessário através do telefone 36708320. Fui informado dos objetivos estritamente acadêmicos do estudo, que, em linhas gerais é, observar como a masculinidade hegemônica permeia a sociedade, como ela faz parte das masculinidades individuais, perceber como isso se dá em homens biológicos e homens transexuais em São Paulo e quais são as semelhanças e diferenças entre as masculinidades individuais dos dois grupos numa análise qualitativa de entrevistas semi-dirigidas. Fui também esclarecido de que os usos das informações por mim oferecidas estão submetidas às normas éticas destinadas à pesquisa envolvendo seres humanos, da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa do Conselho Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde. Minha colaboração se fará de forma anônima, por meio de entrevista a ser gravada. Estou ciente de que, caso eu tenha dúvida ou me sinta prejudicado(a), poderei contatar o pesquisador responsável ou seu orientador, ou ainda o Comitê de Ética em Pesquisa da PUCSP. A pesquisadora principal do estudo me ofereceu uma cópia assinada deste Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme recomendações da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Fui ainda informado(a) de que posso me retirar deste estudo a qualquer momento, sem qualquer prejuízo . Dados para contato: Mariana Ghetler (11) 8380-0240 maghetler@hotmail.com São Paulo, ____ de __________________ de 2009. _______________________________________________ 138
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    (nome em letrade forma) _______________________________________________ (assinatura) 139
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    ANEXO III -PARECER DO COMITÊ DE ÉTICA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA DA PUC-SP SEDE CAMPUS MONTE ALEGRE Protocolo de Pesquisa nº 147/2010 Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde Psicologia Orientador(a): Prof.(a). Dr.(a). Plínio de Almeida Maciel Junior Autor(a): Mariana Ghetler PARECER sobre o Protocolo de Pesquisa, em nível de Iniciação científica, intitulado Construção e expressão da masculinidade em homens homo, hetero e transexuais: um olhar a partir do gênero CONSIDERAÇÕES APROVADAS EM COLEGIADO Em conformidade com os dispositivos da Resolução nº 196 de 10 de outubro de 1996 e demais resoluções do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde (MS), em que os critérios da relevância social, da relação custo/benefício e da autonomia dos sujeitos da pesquisa pesquisados foram preenchidos. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido permite ao sujeito compreender o significado, o alcance e os limites de sua participação nesta pesquisa. A exposição do Projeto é clara e objetiva, feita de maneira concisa e fundamentada, permitindo concluir que o trabalho tem uma linha metodológica bem definida, na base do qual será possível retirar conclusões consistentes e, portanto, válidas. No entendimento do CEP da PUC-SP, o Projeto em questão não apresenta qualquer risco ou dano ao ser humano do ponto de vista ético. CONCLUSÃO Face ao parecer consubstanciado apensado ao Protocolo de Pesquisa, o Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP – Sede Campus Monte Alegre, em Reunião Ordinária de 07/06/2010, APROVOU o Protocolo de Pesquisa nº 147/2010. Cabe ao(s) pesquisador(es) elaborar e apresentar ao CEP da PUC-SP – Sede Campus Monte Alegre, os relatórios parcial e final sobre a pesquisa, conforme disposto na Resolução nº 196 de 10 de outubro de 1996, inciso IX.2, alínea “c”, do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde (MS), bem como cumprir integralmente os comandos do referido texto legal e demais resoluções do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde (MS). São Paulo, 07 de junho de 2010. _____________________________________________ Prof. Dr. Edgard de Assis Carvalho Coordenador do Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP 140
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    ANEXO IV –FICHA DE ENTREVISTADOS Nome Identidade Sexualida Idade Profissão Relac. Terapia? Comentários fictício de gênero de Amoroso Rodrigo Homem Hetero 28 barman Relac. aberto Não, já fez Fam. Árabe, ele nasceu na França, mora sozinho. Marcos Homem Hetero 27 economista solteiro não Fam. Japonesa, veio para São Paulo estudar Joe Homem Hetero 40 Pesquisador e Divorciado não Afro-descendente, tem um filósofo filho, estuda desigualdades. Ramón Homem Hetero 42 Func. Público Casado 12 sim Fam. Testemunha de Jeová, trans e faz transcr. anos funcionário publico com formação em fisioterapia Fábio Homem Hetero 26 Professor de solteiro Não, já fez Fam. Feminista, mora com a inglês mãe, percebe mulheres como melhores em alguns aspectos. Maurício Homem Homo 32 Trab. Sauna ficando Não Mora com os pais, esta gay fazendo sociologia, acabou de terminar um relacionamento de 6 anos. Gustavo Homem Hetero 33 tradutor Casado 10 Sim Hospital das Clínicas, veio trans anos do Rio pela esposa, está fazendo psicologia Fausto Homem Hetero 32 advogado Noivo por 3 não Atleta, pretende casar-se anos logo e ter filhos. Artur Homem Hetero 54 engenheiro Casado 12 Não, já fez Def. físico, filho de 12 anos, anos timidez na adolescência André Homem Homo 31 Psicólogo, Relac. Sim, desde 3 pais, uma mãe, ativista p/ Aberto por 3 os 15 anos relacionamento aberto. causa anos homoafetiva Glauber Homem Hetero 42 zelador Divorciado, Não, já fez 2 filhos, hist. de traição, mas mora novo filho vindo. com ex Fernando Homem Hetero 31 advogado Divorciado Não, já fez Esclerose múltipla que não se sabe se está curada, trabalhou em NY com entretenimento Mauro homem Homo 32 Auxiliar adm. Nomoro 6 Não 1º namorado com AIDS, meses mora com a mãe Patrício Homem hetero 42 Comerciante Casado 2 Sim, 2 Nasceu em recife, trans de informática anos anos farmacêutico, HC Álvaro Homem Homo 52 Publicitário Casado 20 Não Empresário, possui um blog, anos escreve respostas a perguntas para uma revista de público feminino Luís Homem Bissexual 50 Ator divorciado Não, mas Casado com travesti por 10 trans faz acomp. anos, prisão, ator mensal Carlos Homem Homo 33 Massoterapeut Solteiro Não, já fez Psicólogo, casamento de 7 a anos, atualmente mora com a mãe Juliano Homem Hetero 28 Atual Namoro 6 Não, já fez Campinas, obesidade, trans desempregado meses adotado p/ 4 irmãs Cássio Homem Hetero 38 Professor Casado a 3 Não, já fez Viveu na Bahia, veio pela trans Universitário e anos esposa, começo da transição 141 contador
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    Eduardo Homem Homo 21 Disponível no Namora a 2 Não Entrevista com o namorado, mercado anos mora sozinho, ele é sua própria família Márcio Homem Homo 28 Dep. Pessoal Namora a 2 Não Entrevista com o namorado, anos mora com os pais, já contou 3X para os pais que é homoafetivo e eles não aceitam Jaques Homem Homo 37 Ativista É casado. Não Se interessa em Sado Político Masoquismo, não quer nem pensar em filhos e fez Letras faz pós em ciências sociais Caio Homem Hetero 29 Disponível no Casado a 9 Sim, já fez É judeu, estudou história trans mercado anos judaica, nasceu em Brasília, mudou-se para o Rio e depois veio para São Paulo 142