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Jornalismo e política:
a construção do poder
Emanoel Barreto

Resumo                                                   Abstract
Analisar a relação entre políticos e jornalistas, e os   The objective of this project is to analyze the relation
interesses em jogo ante o imperativo de veiculação       between politicians and journalists and their interest
de um noticiário ético e credível, é o objetivo deste    of transmitting an ethical and credible news. The
trabalho. Tais atores participam de um processo          participants of a business/relationary process links the
negocial/relacional que medeia os componentes fato       fact and report components, finding there the tension
e relato, encontrando-se aí o campo de tensão onde       field where both exercise the attribution pertaining their
ambos exercem as atribuições concernentes aos seus       respective activities.                                       11
respectivos papéis.




Palavras-chave                                            Key words:
Jornalismo, política, comunicação de massa, notícia.      Journalism, politics, mass communication, news.
O desenvolvimento dos meios de comu-             coexistem com o ato político que neles
     nicação de massa supriu e minimizou a im-            encontra espaços apropriados para exercer
     portância da co-presença de público no tes-          comportamentos de interferência, inserção e
     temunho de acontecimentos, especialmente             visibilidade junto aos leitores. Interferência
     no plano político. Com isso, o jornalismo            diz respeito ao conjunto de ações ou esforços
     passou a compensar essa ausência, mediante           dos atores políticos voltados para colocá-los
     o relato do fato, ocupando assim papel de            no relato noticioso; inserção refere a relativa
     relevo na política, chegando conjuntural-            inclusão dos políticos na notícia, já que nem
     mente a integrá-la, numa convergência de             sempre logram divulgar tudo aquilo que de-
     processos1.                                          sejam; visibilidade é a conseqüência final, a
         Em função de ser a política um aconte-           exposição em maior ou menor grau da atua-
     cimento de interesse do público, o que conse-        ção dos atores políticos e ocorre quando o
     qüentemente interessa ao jornal, este, em sua        jornal circula e efetivamente é lido.
     condição de artefato noticioso, legitimou-se             A notícia, assim, resulta das interferên-
     enquanto tal, assumindo situação de locus ao         cias e inserções negociadas entre os atores
     transpor para as suas páginas a praça social         políticos e o jornal/jornalista a partir do que
     onde se deu o fato, seja aquela um gabinete          foi apurado, declarado, constatado e afinal
     inacessível ao homem comum ou o trombe-              transposto à publicação. Todas essas instân-
     tear dos comícios. Num processo de flexão            cias de apuração, declaração, constatação
     o jornal empalma o fato relatado, de alguma          e publicação são momentos negociais, en-
12   maneira passa a integrá-lo e passa a ser, para o     volvem relações de convergências ou con-
     leitor, a virtual praça social onde este se deu. É   frontações de interesses. A respeito desse
     a notícia como equivalente da realidade.             processo podemos dizer:
         Dentre os diversos segmentos midiáticos              1) Apuração refere a atividade de verifi-
     o jornalismo impresso tem especial im-               cação, pelo jornalista, de algum fato a partir
     portância e repercussão na área política, com        de conhecimento geralmente prévio e muitas
     laços historicamente firmados e legitimados.         vezes superficial de que algo está aconte-
     Acertou-se, ao longo do processo histórico           cendo, aconteceu ou está prestes a acontecer
     entre jornalismo e política, um elo intera-          e que tal acontecimento se dá, se deu ou se
     tivo, num complexo e intricado sistema de            dará de uma determinada maneira, ou seja: o
     ação e reação que acaba expresso no que              repórter é enviado pelo jornal para verificar
     chamaremos de atitude noticiosa, ou seja:            uma ocorrência e assim sai em sua busca, es-
     um relato que objetiva obter repercussão.            timando que esta é de interesse da sua ativi-
     Aqui, entenda-se que o jornal se apresenta           dade. Apuração é gênero e abrange as fases
     como veículo e o jornalismo como a insti-            pré-redacionais a seguir mencionadas.                     1 Este artigo é um excerto - com

     tuição legitimada. Para tanto, a instituição             2) Declaração refere o ato do dizer por       revisões, para adequar-se a este espaço
     manifesta-se no jornal enquanto veículo,             parte de uma fonte procurada pelo jornalista,       editorial - da dissertação de mestrado
     base material dinâmica da notícia, o locus a         podendo ser a confirmação daquilo que se             do autor, intitulada “Eleições para o
     que há pouco nos referíamos.                         estava à procura, ou, inversamente, consti-       governo do RN – 2002 – A cobertura do
         Esses dois aspectos, jornal e jorna-             tuir-se em atitude oriunda da fonte, passando        Diário de Natal/O Poti: os discursos,
     lismo como dados de uma mesma instância,             ao jornalista informação por este ainda                                     as manchetes”.


     Estudos em Jornalismo e Mídia
     Vol. III No 1 - 1o semestre de 2006
desconhecida e motivadora da apuração.                                       atualidade, que atende ao seu interesse
Neste caso, a informação é indicial, elemento                                imediatista. Assim convergem, expectativa
indicativo de onde um determinado fato será                                  e oferta, a esse anúncio de novidades que
apurado, ou ser, sob outra face, a própria                                   de alguma forma preexistem difusamente
declaração um conteúdo fático, a matéria-                                    no imaginário do leitor e no trabalho dos
prima da notícia.                                                            jornalistas. Quando ao fato, a notícia lhe é
    3) Constatação, como fase final do                                       homóloga, ou seja, deve ter-lhe fidedignidade
processo de busca, é a confirmação da                                        em sua condição de relato.
ocorrência, é ato próprio do jornalista, é de sua
exclusiva competência cognoscente, embora                                    Um jogo de equilibristas
protagonizando a cena com a fonte, que pode                                       Todo o processo noticioso está envolto
ser a personalidade jornalisticamente notável                                em implicações sócio-político-profissional-
ou o chamado homem comum, numa relação                                       econômicas diversas e complexas. Toda essa
de interesses e valores, convergentes ou não,                                teia que se estabelece entre jornal/jornalismo
no todo ou em parte.                                                         e poder agrega interesses de parte a parte,
    4) Quanto à publicação, é o enfeixamento                                 além de preocupações mercadológicas, já
instrumental de todo o processo, com o jornal                                que a notícia é um produto. O processo
na rua. É o fato transporto ao texto e o texto                               acima descrito envolve uma realidade sempre
por sua vez transposto à condição de fato, já                                presente no trajeto relacional entre jornalista e
que a notícia uma vez posta passa a compor                                   fonte e diz respeito à ideologia que o perpassa
um dado no mundo. Ou seja: a notícia, como                                   como um todo, desde a coleta de informações,        13
um todo textual de resumo, ligado ao fato que                                até a notícia como sua conseqüência.
a precedeu, é também um ato intencional,                                          É nesse território que se insere a relação
transforma-se em fato ao ser publicada e como                                jornalismo e política, quando se encontram
tal repercute no mundo. Por este é apropriada                                os atores em cena: jornalistas e/ou governos,
e passa a integrar as decorrências do fato que                               bem como representantes de partidos, sejam
relata.                                                                      detentores ou não de mandato. A convergência
    A notícia é analógica à expectativa do                                   entre jornalista e político ocorre em função de
leitor, atende a uma prefiguração difusa,                                    que tanto um lado quanto o outro acredita que a
vindo a ser consolidada pelo jornal. Entre o                                 publicização de um acontecimento é a melhor
leitor e o jornal se estabelece uma relação de                               maneira para que se demonstre que cada um
expectativa e atendimento. O jornal preenche          Toda a teia que se     cumpriu com o seu papel: o político em sua
essa expectativa modificando/atualizando,              estabelece entre      função de personagem da notícia, o jornalista
dia após dia, os seus conteúdos, mesmo                                       como agente que relata o que se passou no
mantendo o formato gráfico e suas páginas             jornalismo e poder     cenário do poder.
especializadas em determinados assuntos.                agrega não só             Apesar disso, no relacionamento jorna-
O repertório de cada página é temático, seu            interesses como       lístico-político muitas vezes o vértice que
conteúdo, porém, é diário, portanto, mutável.            preocupações        os liga se transforma em vórtice, quando
A analogia está no fato de que o leitor tem a       mercadológicas, já que   ocorre distanciamento entre fato e relato. Ao
certeza de que, no jornal, encontrará, naquela                               partilhar crenças e valores comuns com os
página, um determinado tipo de relato de            a notícia é um produto   atores políticos, o jornalista pode privilegiar
certas aptidões e/ou pronunciamentos de                 O relacionamento      permanentemente envolto em circunstâncias de
     alguns deles em detrimento dos demais.                jornalismo e política   pressões e contrapressões de bastidores, bem
     Isso é um efeito prático da ideologia, que se                                 como nos interesses econômicos das empresas
     faz imperceptível aos esquemas mentais e              é historicamente po-    jornalísticas, ao mesmo tempo em que o
     cognoscitivos do jornalista, quando busca             lêmico e paradoxal-     imperativo de informar bem é socialmente
     exatamente “cumprir com o seu papel”.                  mente intercomple-     cobrado. O público quer afirmações, rejeita
                                                                  mentar           infirmações ou meios termos.
           É importante lembrar ainda que “mídia”
           e “política” são, a rigor, abstrações. A                                      O exame da micro-relação entre o
           relação entre elas toma a forma concreta de                                   jornalista e sua fonte permite observar
           relações interpessoais entre agentes dos dois                                 o entrelaçamento de práticas distintas,
           campos. Desejo orientar o foco [...] para                                     de agentes que pertencem a diferentes
           os contatos entre jornalistas, de um lado,                                    campos e, portanto, se orientam na direção
           e líderes políticos, de outro. De maneira                                     de objetivos diversos. Contudo, devido
           esquemática, é possível distribuí-lo em três                                  à dinâmica própria de sua integração,
           categorias. Em primeiro lugar, os jornalistas                                 precisam incorporar em alguma medida
           “testemunham” eventos políticos que, ainda                                    a lógica um do outro. Sob pena de perder
           que possam ser pensados para divulgação                                       a fonte, o jornalista deve ponderar aquilo
           na mídia, em princípio ocorreriam mesmo                                       que publica, calculando seus efeitos sobre
           na ausência dela: debates e votações                                          o campo político; e fazer concessões aos
14         parlamentares, assinaturas de decretos                                        interesses do outro, divulgando o destaque
           e nomeações, atas de posse, reuniões                                          de certas notícias (mas nunca ao ponto de
           partidárias. Depois, existem interações                                       comprometer a própria credibilidade). Já a
           relativamente formalizadas entre repórteres                                   fonte, para manter seu acesso privilegiado
           e políticos, na forma de entrevistas                                          à imprensa, deve reconhecer o material que
           (coletivas e individuais). Por fim, há a                                      é útil ao jornalista e, sobretudo, manter a
           relação cotidiana entre os profissionais de                                   própria confiabilidade diante dele, não
           imprensa e aqueles que, no jargão do meio,                                    transmitindo informações equivocadas
           são chamados de suas “fontes”. Qualquer                                       em busca de benefícios de curto prazo
           indivíduo que proporcione dados para a                                        (MIGUEL, 2002:14).
           elaboração de uma reportagem é uma fonte.
           Quem interessa aqui, porém, é aquela fonte                                  Frente a tal realidade, que resulta de um
           mais ou menos permanente, que fornece                                   relacionamento humano e, portanto, passível
           informações continuadas e, em algum grau,                               de falhas, o profissional toma precauções,
           exclusivas ao mesmo repórter, muitas vezes                              resguarda-se quando busca elaborar com exa-
           com a garantia do anonimato na publicação                               tidão a matéria que fará sentido no mundo.
           da notícia (MIGUEL, 2002:13).                                           Havendo isso, confia, haverá ética.E mais:
                                                                                   havendo racionalidade, equilíbrio, entende-
         O relacionamento jornalismo e política é                                  se nos meios jornalísticos que haverá fideli-
     historicamente polêmico e paradoxalmente                                      dade narrativa, para a qual, entretanto, um
     intercomplementar. Esse intercâmbio está                                      ingrediente é também essencial: é preciso

     Estudos em Jornalismo e Mídia
     Vol. III No 1 - 1o semestre de 2006
que aquilo que o político declarou coincida           fatizada convergência entre a busca de notícia
                                           com a realidade.                                      e a busca de ser notícia, há o interesse entre
                                               Os políticos buscam afinar-se pelo dia-           mídia e política para o destaque de assuntos
                                           pasão deste comportamento vigente nas re-             episódicos, aqueles que chamem atenção pelo
                                           dações, a fim de ganhar espaço no pódio da            caráter de coisa social inusitada, um cometa
                                           notícia. O jornalista, ao buscar informações,         noticioso que de repente aparece.
                                           precata-se quanto à credibilidade destas, tra-            Ao legitimar-se enquanto estrutura indus-
                                           balhando em meio às determinações da linha            trial e técnica para a distribuição do produto
                                           editorial do jornal e de suas próprias convic-        notícia, o jornalismo formalizou com os leito-
                                           ções. É uma relação de equilibristas. Em meio         res o compromisso de manter sempre em suas
                                           ao que foi declarado, pode haver algo que não         páginas informações de atualidade. Isso, den-
                                           deveria ser escrito por ser incompatível com          tro do exíguo período de 24 horas.
                                           a realidade.                                              O aprazamento implicou a formulação de
                                                                                                 toda uma organização funcional cujos desdo-
                                                  A ética tem a ver com o dever: o dever         bramentos resultaram, ao longo do tempo, na
                                                  para consigo e/ou para com os demais.          exclusão de modelos noticiosos mais aprofun-
                                                  É individual ou pessoal ainda quando se        dados, em favor do relato episódico. Não há
                                                  relacione com obrigações e direitos para       tempo, nem é objetivo do jornalismo, a elabo-
                                                  com os outros. A qualidade da vida humana      ração de um tratado a cada novo acontecimen-
                                                  tem a ver com ambas as coisas, solidão         to, a cada nova edição. Antes, é preciso, ape-
                                                  e sociabilidade. [...] Esta dualidade da       nas, tratá-lo, dar-lhe forma redacional típica    15
                                                  moral individual e social está implicada no    do jornalismo, para fazer sentido no mundo.
                                                  próprio conceito da ética. O jornalista, por
                                                  exemplo, não está simplesmente escrevendo      “Não vim para explicar: vim para
                                                  para o consumo de outros; está escrevendo      confundir”3
                                                  como uma expressão de si mesmo e se põe            Quando da cobertura de assuntos
                                                  a si e seu próprio eu em seu jornalismo.       políticos, o jornalismo diário, ao optar
    2 MERRIL, J.C. El Imperativo de la            Ele comunica a si mesmo de uma maneira         pela prevalência de matérias incidentais,
Libertad. Filosofia da autonomia perio-           muito real. Agrada-se ou desagrada-se a si     relativas a acontecimentos editorialmente
 dística. México: EDAMEX, 1982:196-               mesmo, não só à audiência. O que realiza       descontextualizados, consolida atitude que
                                  197.            para atingir certo patamar dentro de si        descura uma visão ampla e aprofundada
                                                  não só afeta as atividades e crenças de        da realidade. O jornal fica preso aos
        3 Ad tempora, a citação alude a           outros, mas também, de forma muito viva,       fatos políticos acontecidos, ao dito, ao
   discurso recorrente do apresentador            a essência de sua própria vida (MERRIL2,       declarado, quando poderia buscar, pela ação
      de TV Chacrinha, figura polêmica            citado por GOMES, 1997:70).                    investigativa, um aprofundamento crítico
    e polissêmica que, nos anos 60 e 70
                                                                                                 e desvelador de quadro, uma vez que em
    do século passado, carnavalizava a
     realidade brasileira em auditórios
                                               O trabalho de simbolizar o mundo se ins-          política é larga a teia de interacontecimentos.
   lotados. Era um crítico inconsciente    creve, entretanto, numa circularidade: a per-         Nada acontece sem causa remota ou próxima
 do absurdo da cena brasileira, de cujo    manente busca pela notícia, que faz o jornalista      a essa ocorrência. E essa, por si só, implicará
repasto midiático/comercial, entretanto,   voltar sempre ao convívio das fontes políticas,       outro fato, previsto ou inesperado.
                     também se nutria.     e a continuada busca destas pela mídia. Na en-
No jornalismo episódico a política é         No jornalismo episódico   político-comunicacional, apresentando o
     mostrada sem o seu mais essencial elemento         a política é mostrada   espetáculo da informação como deleite de
     de constituição: o debate, o confronto de                                  consumo, que é exatamente a intenção dos
     idéias, para ser apenas relatada de forma             sem o seu mais       atores políticos, quando protagonizam atos
     circunstancial, mesmo que exibida pela              essencial elemento     que serão jornalisticamente aproveitados. A
     ação gráfico-declaratória de uma manchete.           de constituição: o    chacrinização dos acontecimentos políticos,
     Sem um enunciado interpretativo, sem             debate, o confronto de    sua condição de produto, portanto, inscreve-
     contextualização, podem prevalecer interes-      idéias, para ser apenas   se tranqüilamente nessa relação de causa e
     ses ocultos, o jogo de luz-e-sombra da                                     efeito programados para repercutir no grande
     luta política, cuja formulação o jornalismo          relatada de forma     auditório social. É exatamente nesse cenário
     acompanha ao elaborar relatos meramente           circunstancial, mesmo    translúcido onde a lucidez perde espaço. Não
     indiciais, que se referem ao jogo do poder,       que exibida pela ação    se vêem os figurantes por completo, suas reais
     mas sem força elucidativa. Quanto à citação de   gráfico-declaratória de   intenções, somente as suas silhuetas, que saem
     Abelardo Barbosa, o Chacrinha, esta nos leva           uma manchete        da linha de montagem da indústria cultural da
     a uma reflexão a respeito do relacionamento                                qual são atores e autores.
     entre imprensa e poder. Ao dizer “não vim
     para explicar; vim para confundir”, o discurso                                    En todos sus campos se confeccionam, más o
     chacriniano assume, por inversão, uma atitude                                     menos de acuerdo a um plan, los productos que
     cínico-explicativa ao inserir sua presença                                        se estudian para el consumo de las masas y que
     histriônica ao universo comunicacional.                                           determinam em gran medida ese consumo. Los
16       Ao dizer que não viera para explicar,                                         diversos campos se parecen por su estructura
     deixa implícito que há dúvidas pré-exis-                                          o al menos se interrrelacionam. Se completan
     tentes, incertezas formalizadas, jogos de es-                                     casi sin carencias, para constituir um sistema.
     pelho, duplicidade e vaguidão direcionada,                                        Eso, debido tanto a los medios actuales de la
     ou seja, um processo prévio e organizado                                          técnica como a la concentración económica
     para a desorganização. Há uma irrealidade                                         y administrativa. La industria cultural es la
     construída, visível, porém disfarçada e não                                       integración deliberada de sus consumidores,
     reconhecível pelo público. Infere então que,                                      em su más alto nivel. [...]. La industria
     como ele, sempre em destaque na mídia,                                            cultural tiene em cuenta sin duda el estado de
     há orquestradores e organizadores de tal                                          conciencia e inconciencia de los millones de
     confusão. Mas ele estava exposto e, mesmo                                         personas a quienes se dirige, pero las masas
     falando em confundir, flagrava a confusão.                                        no son el factor primordial, sino um elemento
     Quanto aos detentores de força política,                                          secundario, um elemento de cálculo; um
     não: ocultavam-se, como ainda se ocultam,                                         accesorio de la maquinaria. Ele consumidor
     nos vieses de discursos de convencimento,                                         no es rey, como queria na industria cultural;
     garantindo que podem descobrir o caminho                                          no es sujeto, sino el objeto. [...]. Sin embargo,
     certo na política e, como tal, na vida em                                         no se trata em primer lugar de las masas, ni de
     sociedade.                                                                        las técnicas de comunicación como tales, sino
         A irrealidade construída, resultante de                                       del espíritu que les es insuflado a través de la
     uma realização roteirizada, com sua produção                                      voz de su conductor (ADORNO e MORIN,
     massiva de significados, é parte da ação                                          1967:9-10).


     Estudos em Jornalismo e Mídia
     Vol. III No 1 - 1o semestre de 2006
A indústria cultural, ao assimilar me-                                        quando a ira ou a desaprovação públicas
taforicamente o modo de produção industrial,                                      se tornam suficientemente veementes, os
com seus passos de produção, organização e                                        media noticiosos fariam bem em se regu-
resultado final, o produto simbólico, assegura                                    larem efectivamente, ou um dia os políti-
a este uma “qualidade ideológica”, da mesma                                       cos “famintos do seu legítimo alimento
forma que uma fábrica põe no mercado                                              espiritual, iniciem uma caça selvagem e
produtos “de qualidade” para uso. A qualidade                                     febril ao homem e não se detenham no
ideológica de um produto simbólico, o produto                                     canibalismo.” Era verdade nos anos 20 e
política, encontra-se no fato de que garante                                      é verdade hoje que a caça ao homem já
aos seus atores/autores que um determinado                                        começou, tal como foi evidenciado não
estado de coisas permanecerá segundo aquilo                                       apenas pelo crescente ultraje público con-
que objetivam. A aqui enunciada qualidade                                         tra a escandalosa invasão da privacidade
ideológica somente atende aos interesses                                          por membros vorazes dos media noticio-
de quem a produz. Quanto ao consumidor                                            sos - tão eloquentemente exemplificado
da indústria cultural, este não frui nem                                          pela morte da princesa Diana e a condena-
usufrui daquilo que lhe é enviado, no caso                                        ção unânime dos paparazzi - mas também
a política. Antes, a esta torna-se vinculado                                      pela litania de críticas por muitos diver-
pela ideologia. A qualidade ideológica                                            sificados segmentos da sociedade, inclu-
resulta exatamente nessa vinculação, nessa                                        indo membros da comunidade acadêmica
fidelização do consumidor ao produto política.                                    (TRAQUINA, 2001:189).
A sistematização “industrializada” de material                                                                                 17
simbólico e ideologizado alude à política como                                 A persistência de hábitos de convivência
uma pretendida forma de participação popular;                              com o político, e facilidades ou facilitações
elide esta mesma participação ao contribuir                                de acesso de grupos de interesse a jornalistas
para assegurar uma situação de assimetria entre                            ou editores, com fim de beneficiar àqueles,
elites e povo; e ilude, no final do processo,                              pode criar um clima de permissividade, cuja
àqueles que confiam estar efetivamente deste                               cognição pelo social pode ser alvo de críticas e
participando, uma vez mantidas as situações de                             repúdios, uma vez que, mesmo ante a presença
assimetria política e social.                                              da ideologia que se emaranha aos processos
    Assim, quando o jornal se alinha aos                                   de representação, existem filtros sociais que
acordes dissonantes da confusão, também                                    permitem, no caso ao leitor, a percepção de
chega para confundir, não para explicar. Uma                               desvios.
questão, todavia, se impõe: a resistência dos                                  Os grupos políticos trabalham, todos, na
profissionais às críticas, como se as críticas                             busca de visibilidade e, a depender da maior
pregassem o fim da imprensa.                        Quando o jornal se     ou menor abertura que lhes apresente o jornal,
                                                    alinha aos acordes     tendem à busca enfática de maiores espaços
       Tanto os proprietários como os traba-lha-                           nas páginas diárias, tentando colocar-se em
       dores profissionais precisam tomar em
                                                       dissonantes da      situação privilegiada.
       atenção as sábias palavras do jornalista      confusão, também          Assim, os acontecimentos podem ser per-
       norte-americano Walter Lippmann, que        chega para confundir,   feitamente programados, ciosamente pelos
       exactamente há 78 anos observou que            não para explicar    atores políticos, de forma a se inserir num
certo perfil, o perfil noticioso, causando rumor         Todos intentam             Ou seja, num ambiente de acerbo conflito de
     social e atraindo a atenção do noticiário.                se inserir nos            interesses, é inimaginável que os meios de
                                                                                         comunicação sejam os porta-vozes impar-
            O rumor social confere a um acontecimento
                                                             procedimentos de            ciais do debate político, como a imprensa
            que parecia bem marcado um rastro no            seleção daquilo que          européia teria sido em seus primórdios [...].
            tempo que Claude Labrosse designa como         será notícia, uma vez         Isto não significa que se deva descair para o
            seu “horizonte”, um horizonte desprovido      que elevam suas vozes,         conformismo, já que a mídia “sempre” de-
            de sintaxe que não pode jamais ser en-         buscando visibilidade         fenderá certos segmentos sociais, mas sim
            volvido. O acontecimento torna-se então                                      que é necessário perceber que a mudança
            um conjunto de limites pouco precisos. A
                                                               no jornalismo             passa pela pressão da sociedade, isto é, dos
            partir do momento em que o rumor social é                                    grupos prejudicados pela forma dominante
            incluído no acontecimento, a mídia torna-se                                  de gestão da comunicação. [...] O elitismo
            partidária do mesmo. É, ao mesmo tempo,                                      que subjaz à ausência da mídia na análise
            externa e interna a um acontecimento                                         da realidade política também pode ser apre-
            ao qual atribui limites por seu próprio                                      ciado por outro ângulo. Nas sociedades for-
            discurso. Não se lida mais com uma mol-                                      malmente democráticas em que vivemos,
            dura posta sobre a realidade, mas com um                                     é corrente a divisão da política em “basti-
            enquadramento cuja expansão constitui a                                      dores”, as salas secretas em que se fazem
            própria realidade (o que chamamos cena do                                    os acordos e se tomam as grandes decisões,
            acontecimento). O acontecimento e a mídia                                    e “palco”, o jogo de cena representado
18          confundem-se em um ponto em que a fala                                       para os não-iniciados, isto é, para o povo
            da mídia torna-se performativa, e não mais,                                  em geral. O que ocorre no palco serviria
            apenas, descritiva. [...] o acontecimento                                    apenas para distrair a platéia e manter a es-
            e seu comentário formam um único ente.                                       tabilidade do sistema, perpetuando o mito
            Em última análise, a definição de acon-                                      da democracia como “governo do povo”.
            tecimento torna-se uma definição vazia: É                                    Por motivos óbvios, a mídia pertence a este
            acontecimento aquilo que é definido como                                     segundo espaço, mas os fatos políticos rel-
            acontecimento. O acontecimento não é                                         evantes ocorreriam no primeiro, nos “basti-
            mais descritivo e, sim, reflexivo (MOUIL-                                    dores” (MIGUEL, 2002:5).
            LAUD, 2002:66).
                                                                                       A compreensão ou intuição do rumor
         É exatamente esse rumor social que os                                     social das notícias abrange tanto as elites
     grupos de interesse tentam provocar, no                                       quanto os segmentos populares, que tam-
     instante em que buscam inscrever no jornal                                    bém buscam se expor na mídia, quando fa-
     os seus próprios conteúdos. Nesse ponto                                       zem protestos, passeatas ou atos públicos,
     dá-se o entrecruzamento de interesses                                         buscando impor/expor seus interesses. To-
     entre o jornal e os políticos. As redações                                    dos intentam se inserir nos procedimentos
     também têm consciência do rumor social                                        de seleção daquilo que será notícia, uma vez
     que podem amplificar com suas notícias                                        que elevam suas vozes, buscando visibili-
     e efetivamente dão o seu contributo a esse                                    dade no jornalismo.
     estado de coisas.

     Estudos em Jornalismo e Mídia
     Vol. III No 1 - 1o semestre de 2006
Políticos: visíveis nas páginas, longe                                         egoísta. Assim, busca visibilidade para obter
das multidões                                                                  destaque (WEBER, 1968). O desenrolar dos
                                                                               fatos políticos veiculados pelo jornal fortaleceu
    A afirmação do jornal como espaço                                          a convicção de que a atividade política
legitimado para a divulgação de fatos tidos                                    exige desenvoltura para que os seus agentes
como relevantes colocou-o como um referente                                    consigam transitar junto às páginas impressas.
de mundo, assumindo alguma centralidade                                        Assim, o corolário de suas ações passou a
frente aos processos sociais junto aos quais                                   incluir a administração da visibilidade como
busca influir. O jornal não determina ou limita                                algo prioritário, se não suficiente pelo menos
conseqüências, mas integra o processo político                                 necessário a que este leve adiante empresas
do princípio ao fim e a este se mantém ligado                                  de porte como candidaturas a altos cargos ou
em seus desdobramentos.                                                        realização de obras faraônicas, bem como
                                                                               adoção de medidas impopulares que possam
       A constituição e “autonomização” do                                     ser, de alguma maneira, explicadas via jornal:
       campo das mídias (ou da comunicação                                          O político espera, deseja e busca sempre
       midiática), em verdade, configuram                                      a aparição midiática movido pela necessidade
       o ponto de inflexão a partir do qual                                    de manter-se apto a chegar ou a permanecer
       as conexões entre comunicação e                                         em situação de poder, quaisquer que sejam
       política abandonam suas modalidades                                     os seus motivos e convicções, destacando-se,
       “tradicionais”, inclusive aquelas adstritas                             dentre estes,
       a uma dimensão instrumental, e redefinem-                                                                                        19
       se em termos de interlocução de campos                                         A vaidade ou, em outras palavras, a necessidade
       sociais particularmente conformados.                                           de se colocar pessoalmente, da maneira
       Comunicação e política interagem agora em                                      mais clara possível, em primeiro plano. [...].
       outro patamar, o que não exclui a realização                                   O demagogo é obrigado a contar com o “o
       pontual de modos “tradicionais” de                                             efeito que faz” – razão por que sempre corre o
       interlocução, agora totalmente redefinidos                                     perigo de desempenhar o papel de um histrião
       em outro contexto de produção de sentidos.                                     ou de assumir, com demasiada leviandade, a
       Política e comunicação não aparecem                                            responsabilidade pelas conseqüências de seus
       mais como momentos e empreendimentos                                           atos, pois está preocupado continuamente com
       singulares, mas como campos sociais                                            a impressão que pode causar aos outros. De
       articulados em combinatórias determinantes          O jornal não               uma parte, a recusa de se colocar a serviço de
       conjunturalmente (RUBIM, 1998:83).                                             uma causa o conduz a buscar a aparência e o
                                                       determina ou limita
                                                                                      brilho do poder, em vez do poder real; de outra
                                                       conseqüências, mas             parte, a ausência do senso de responsabilidade
    Todo homem, quando envereda pelo
universo da política, tem por objetivo o poder,         integra o processo            o leva a só gozar do poder pelo poder, sem
seja pela convicção de prestar um serviço              político do princípio          deixar-se animar por qualquer propósito. Com
socialmente relevante, seja pelo fato de, com            ao fim e a este se           efeito, uma vez que, ou melhor, porque o poder
isso, agregar mais poder ao que anteriormente                                         é o instrumento inevitável da política, sendo o
                                                      mantém ligado em seus
já detinha em razão de condição econômica ou                                          desejo do poder, conseqüentemente, uma de
                                                         desdobramentos               suas forças motrizes (WEBER, 1968:107).
outra forma de capacidade decisória pessoal e
A expressão ao pensamento weberiano                   Para o político,      (simulação), seja em seu disfarce (dis-simu-
     nos alude, de alguma forma, à chacrinização              os contatos com        lação), pode lograr êxito, mas também pode
     política promovida e autoralizada pela ação                                     obter resultado contrário. Como se trata de
     dos políticos, que buscam na foto, no texto,            os jornalistas são      atitudes programadas, não são fatos, mas
     na manchete ou na simples notinha de uma               arriscados por dizer     atos, o ator político pode ser flagrado em
     coluna assinada, imprimir o seu sinete. Uma          respeito a um terceiro     sua encenação, uma vez que o jornalismo
     visibilidade positivada é algo do qual o ator        interveniente, o leitor,   tem o poder tanto de plasmar não apenas a
     político não pode prescindir, de tal forma que         que se encontra na       realidade, como a irrealidade que se queira
                                                                                     impor, pelo seu desmascaramento.
            Hoje, a cuidadosa apresentação pessoal
                                                           qualidade de julgador
            diante dos outros cuja fidelidade deve ser    social de sua atuação,     Considerações finais
            constantemente sustentada, e cujo apoio é      mediante a leitura do         Uma das características mais marcantes
            vitalmente requerido de tempo em tempo,               noticiário         dos processos sociais, desde a segunda
            mais que uma opção, é um imperativo para                                 metade século XX, é a crescente importân-
            os líderes políticos e os aspirantes à vida                              cia da mídia. Os meios de comunicação de
            pública. [...] Renunciar à administração                                 massa, o jornal impresso, no caso, funcio-
            da visibilidade através da mídia seria um                                nam como elo entre a sociedade e os fatos
            ato de suicídio político ou uma expressão                                noticiados. Esta visão, indicando que o jor-
            de má-fé de quem foi tão acostumado à                                    nalismo seria uma espécie de hífen midiáti-
            arte da auto-apresentação, ou foi tão bem                                co entre o fato e o público, um espelho da
20          colocado numa organização que praticou a                                 realidade, em essência é inconsistente em
            arte do bom resultado, que pode dispensá-la                              função de uma segunda vertente, ou seja:
            (THOMPSON, 1998:24).                                                     entre o fato e o relato há um longo caminho
                                                                                     a ser percorrido. O fato é re-tratado, ins-
         A preocupação com a visibilidade tem ocu-                                   crito e circunscrito a técnicas de produção
     pado o tempo dos políticos e preocupado seu                                     e redação, interesses internos e externos à
     planejamento de mídia pelo fato de que o jor-                                   redação, de forma a adequar-se à ética e a
     nal, da mesma forma como pode trazer notí-                                      normas e padrões técnicos que o tornem
     cias favoráveis, permite-se exibir noticiário                                   passível de ser noticiado.
     onde estes sejam flagrados em atitudes pes-                                         Este proposto hífen midiático, en-
     soais ou administrativas inconciliáveis com                                     tretanto, conceitualmente, existe. Enquanto
     o que se espera de alguém no desempenho de                                      e meta-fórica e instrumentalmente um
     função pública. Esse processo é complicado,                                     admitido traço-de-união comunicacional.
     do ponto-de-vista de relações com os jornalis-                                  Existe, considerando-se o jornal como ve-
     tas. Os contatos com os jornalistas são arrisca-                                tor, artefato de divulgação/tratamento de
     dos para o político por dizer respeito a um                                     material noticioso, constituindo-se assim,
     terceiro interveniente, o leitor, que se encontra                               inegavelmente, em elo entre o fato ali rep-
     na qualidade de julgador social de sua atuação,                                 resentado e o público. E esse re-tratamento
     mediante a leitura do noticiário.                                               é intencional, direcionado, intervencionis-
         A ação do político ao trabalhar acon-                                       ta, a partir da consciência do jornalista
     tecimentos, seja em sua suposta prática                                         de que seu texto fará sentido no mundo,

     Estudos em Jornalismo e Mídia
     Vol. III No 1 - 1o semestre de 2006
tendo o jornal como base veicular.                 cotidianamente. Como objeto de estudo,
Da mesma forma que o hífen, como                   é preciso que se estabeleça uma relação
circunstância lingüística reúne, e move            dialogal entre os modelos explicativos
para um terceiro sentido, duas palavras            que se debruçam sobre si. A notícia é
que, em sua nuclearidade, encontravam-             interface entre o real e o leitor. E, mesmo
se distanciadas e a estas se inclui como           não sendo referente exato da realidade,
elemento ressignificador, o jornal coloca-se       recombina efetiva e discursivamente o
como dispositivo entre o fato e o receptor         mundo, fazendo sentido junto aos leitores,
da mensagem, fazendo sua interligação.             cujos filtros cognitivos, sejam culturais,
Desta forma, redinamiza uma visão de               ideológicos ou oriundos de crenças dos
mundo socialmente experienciado, tanto por         mais variados matizes, a acatam ou
parte dos atores do fato relatado, no caso os      refratam.
políticos, quanto pelo lado do público.
    Tais circunstâncias exigem uma atitude         Sobre o autor
analítica a respeito da produção da notícia,
especialmente no âmbito da política. Os            Emanoel Barreto é jornalista pela Univer-
grupos políticos vêem na notícia literalmente      sidade Federal do Rio Grande do Norte
um bem, valorizam-na como parte do seu             - UFRN. Mestre em Ciências Sociais pela
patrimônio ideológico-eleitoral e entendem         UFRN. Doutorando em Ciências Sociais pela
como coisa disponível e instrumentalizável         UFRN. Professor do Curso de Comunicação
aquele fato lingüisticamente simbolizado e         Social da UFRN. Autor do Livro: “Crônicas             21
afinal impresso. E disputam esse bem com           para Natal, as crônicas do Jornal do Dia”.
todos os artifícios disponíveis, buscando          Jornalista há 32 anos com experiência em
notoriedade positivada, visibilidade e             jornal e TV. Dedicou-se eminentemente ao
sucesso.                                           jornalismo político. Exerceu cargos em edi-
    O jornal, ao que se observou, não apenas       torias setoriais e de editor-chefe. Atualmen-
tem condições invasivas, possibilidade de          te, mantém o blog “Coisas de Jornal”.
partir em busca do fato e transportá-lo para a
situação de realidade noticiada, mas é palco       Bibliografia
de ações vindas de fora, por parte dos que         ADORNO, Theodor W.; MORIN, Edgar. La in-
buscam marcar sua presença junto ao público.       dustrial cultural. Buenos Aires: Editorial Galer-
O jornalismo político trabalha com sistemas        na, 1967.
de forças que buscam, de forma injuntiva,          BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de
expor-se e/ou impor-se à conjuntura do             Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
noticiário. O jornalista é obrigado a articular-   GOMES, Pedro Gilberto. Comunicação Social:
se com a sociedade e seus processos, a             filosofia- ética- política. São Leopoldo: Unisinos,
conviver tanto com situações prévias quanto        1997.
a administrar imprevistos e a interagir com        MIGUEL, Luis Felipe. Os meios de comunica-
outros atores, às vezes em contrafação.            ção e a prática política. Lua Nova, 2002, n. 55-
    Fenômeno social, a notícia nos chega           56.
MOUILLAUD, Maurice. O jornal: da forma ao           THOMPSON, John B. A Mídia e a Moderni-
     sentido. 2. ed. Brasília: UnB, 2002.                dade - uma teoria social da mídia. 5. ed. Petrópo-
     RUBIM, Antônio Albino Canelas. A Política na        lis: Vozes, 1998.
     Idade Mídia. In: ALMEIDA, Jorge; CANCELLI,          TRAQUINA, Nelson. O estudo do jornalismo
     Vitória (org.). Estratégia - A luta política além   no século XX. São Leopoldo: Unisinos, 2001.
     do horizonte visível. São Paulo; Fundação Per-      WEBER, Max. Ciência e Política: duas voca-
     seu Abramo, 1998.                                   ções. São Paulo: Cultrix, 1968.




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     Estudos em Jornalismo e Mídia
     Vol. III No 1 - 1o semestre de 2006

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  • 1. Jornalismo e política: a construção do poder Emanoel Barreto Resumo Abstract Analisar a relação entre políticos e jornalistas, e os The objective of this project is to analyze the relation interesses em jogo ante o imperativo de veiculação between politicians and journalists and their interest de um noticiário ético e credível, é o objetivo deste of transmitting an ethical and credible news. The trabalho. Tais atores participam de um processo participants of a business/relationary process links the negocial/relacional que medeia os componentes fato fact and report components, finding there the tension e relato, encontrando-se aí o campo de tensão onde field where both exercise the attribution pertaining their ambos exercem as atribuições concernentes aos seus respective activities. 11 respectivos papéis. Palavras-chave Key words: Jornalismo, política, comunicação de massa, notícia. Journalism, politics, mass communication, news.
  • 2. O desenvolvimento dos meios de comu- coexistem com o ato político que neles nicação de massa supriu e minimizou a im- encontra espaços apropriados para exercer portância da co-presença de público no tes- comportamentos de interferência, inserção e temunho de acontecimentos, especialmente visibilidade junto aos leitores. Interferência no plano político. Com isso, o jornalismo diz respeito ao conjunto de ações ou esforços passou a compensar essa ausência, mediante dos atores políticos voltados para colocá-los o relato do fato, ocupando assim papel de no relato noticioso; inserção refere a relativa relevo na política, chegando conjuntural- inclusão dos políticos na notícia, já que nem mente a integrá-la, numa convergência de sempre logram divulgar tudo aquilo que de- processos1. sejam; visibilidade é a conseqüência final, a Em função de ser a política um aconte- exposição em maior ou menor grau da atua- cimento de interesse do público, o que conse- ção dos atores políticos e ocorre quando o qüentemente interessa ao jornal, este, em sua jornal circula e efetivamente é lido. condição de artefato noticioso, legitimou-se A notícia, assim, resulta das interferên- enquanto tal, assumindo situação de locus ao cias e inserções negociadas entre os atores transpor para as suas páginas a praça social políticos e o jornal/jornalista a partir do que onde se deu o fato, seja aquela um gabinete foi apurado, declarado, constatado e afinal inacessível ao homem comum ou o trombe- transposto à publicação. Todas essas instân- tear dos comícios. Num processo de flexão cias de apuração, declaração, constatação o jornal empalma o fato relatado, de alguma e publicação são momentos negociais, en- 12 maneira passa a integrá-lo e passa a ser, para o volvem relações de convergências ou con- leitor, a virtual praça social onde este se deu. É frontações de interesses. A respeito desse a notícia como equivalente da realidade. processo podemos dizer: Dentre os diversos segmentos midiáticos 1) Apuração refere a atividade de verifi- o jornalismo impresso tem especial im- cação, pelo jornalista, de algum fato a partir portância e repercussão na área política, com de conhecimento geralmente prévio e muitas laços historicamente firmados e legitimados. vezes superficial de que algo está aconte- Acertou-se, ao longo do processo histórico cendo, aconteceu ou está prestes a acontecer entre jornalismo e política, um elo intera- e que tal acontecimento se dá, se deu ou se tivo, num complexo e intricado sistema de dará de uma determinada maneira, ou seja: o ação e reação que acaba expresso no que repórter é enviado pelo jornal para verificar chamaremos de atitude noticiosa, ou seja: uma ocorrência e assim sai em sua busca, es- um relato que objetiva obter repercussão. timando que esta é de interesse da sua ativi- Aqui, entenda-se que o jornal se apresenta dade. Apuração é gênero e abrange as fases como veículo e o jornalismo como a insti- pré-redacionais a seguir mencionadas. 1 Este artigo é um excerto - com tuição legitimada. Para tanto, a instituição 2) Declaração refere o ato do dizer por revisões, para adequar-se a este espaço manifesta-se no jornal enquanto veículo, parte de uma fonte procurada pelo jornalista, editorial - da dissertação de mestrado base material dinâmica da notícia, o locus a podendo ser a confirmação daquilo que se do autor, intitulada “Eleições para o que há pouco nos referíamos. estava à procura, ou, inversamente, consti- governo do RN – 2002 – A cobertura do Esses dois aspectos, jornal e jorna- tuir-se em atitude oriunda da fonte, passando Diário de Natal/O Poti: os discursos, lismo como dados de uma mesma instância, ao jornalista informação por este ainda as manchetes”. Estudos em Jornalismo e Mídia Vol. III No 1 - 1o semestre de 2006
  • 3. desconhecida e motivadora da apuração. atualidade, que atende ao seu interesse Neste caso, a informação é indicial, elemento imediatista. Assim convergem, expectativa indicativo de onde um determinado fato será e oferta, a esse anúncio de novidades que apurado, ou ser, sob outra face, a própria de alguma forma preexistem difusamente declaração um conteúdo fático, a matéria- no imaginário do leitor e no trabalho dos prima da notícia. jornalistas. Quando ao fato, a notícia lhe é 3) Constatação, como fase final do homóloga, ou seja, deve ter-lhe fidedignidade processo de busca, é a confirmação da em sua condição de relato. ocorrência, é ato próprio do jornalista, é de sua exclusiva competência cognoscente, embora Um jogo de equilibristas protagonizando a cena com a fonte, que pode Todo o processo noticioso está envolto ser a personalidade jornalisticamente notável em implicações sócio-político-profissional- ou o chamado homem comum, numa relação econômicas diversas e complexas. Toda essa de interesses e valores, convergentes ou não, teia que se estabelece entre jornal/jornalismo no todo ou em parte. e poder agrega interesses de parte a parte, 4) Quanto à publicação, é o enfeixamento além de preocupações mercadológicas, já instrumental de todo o processo, com o jornal que a notícia é um produto. O processo na rua. É o fato transporto ao texto e o texto acima descrito envolve uma realidade sempre por sua vez transposto à condição de fato, já presente no trajeto relacional entre jornalista e que a notícia uma vez posta passa a compor fonte e diz respeito à ideologia que o perpassa um dado no mundo. Ou seja: a notícia, como como um todo, desde a coleta de informações, 13 um todo textual de resumo, ligado ao fato que até a notícia como sua conseqüência. a precedeu, é também um ato intencional, É nesse território que se insere a relação transforma-se em fato ao ser publicada e como jornalismo e política, quando se encontram tal repercute no mundo. Por este é apropriada os atores em cena: jornalistas e/ou governos, e passa a integrar as decorrências do fato que bem como representantes de partidos, sejam relata. detentores ou não de mandato. A convergência A notícia é analógica à expectativa do entre jornalista e político ocorre em função de leitor, atende a uma prefiguração difusa, que tanto um lado quanto o outro acredita que a vindo a ser consolidada pelo jornal. Entre o publicização de um acontecimento é a melhor leitor e o jornal se estabelece uma relação de maneira para que se demonstre que cada um expectativa e atendimento. O jornal preenche Toda a teia que se cumpriu com o seu papel: o político em sua essa expectativa modificando/atualizando, estabelece entre função de personagem da notícia, o jornalista dia após dia, os seus conteúdos, mesmo como agente que relata o que se passou no mantendo o formato gráfico e suas páginas jornalismo e poder cenário do poder. especializadas em determinados assuntos. agrega não só Apesar disso, no relacionamento jorna- O repertório de cada página é temático, seu interesses como lístico-político muitas vezes o vértice que conteúdo, porém, é diário, portanto, mutável. preocupações os liga se transforma em vórtice, quando A analogia está no fato de que o leitor tem a mercadológicas, já que ocorre distanciamento entre fato e relato. Ao certeza de que, no jornal, encontrará, naquela partilhar crenças e valores comuns com os página, um determinado tipo de relato de a notícia é um produto atores políticos, o jornalista pode privilegiar
  • 4. certas aptidões e/ou pronunciamentos de O relacionamento permanentemente envolto em circunstâncias de alguns deles em detrimento dos demais. jornalismo e política pressões e contrapressões de bastidores, bem Isso é um efeito prático da ideologia, que se como nos interesses econômicos das empresas faz imperceptível aos esquemas mentais e é historicamente po- jornalísticas, ao mesmo tempo em que o cognoscitivos do jornalista, quando busca lêmico e paradoxal- imperativo de informar bem é socialmente exatamente “cumprir com o seu papel”. mente intercomple- cobrado. O público quer afirmações, rejeita mentar infirmações ou meios termos. É importante lembrar ainda que “mídia” e “política” são, a rigor, abstrações. A O exame da micro-relação entre o relação entre elas toma a forma concreta de jornalista e sua fonte permite observar relações interpessoais entre agentes dos dois o entrelaçamento de práticas distintas, campos. Desejo orientar o foco [...] para de agentes que pertencem a diferentes os contatos entre jornalistas, de um lado, campos e, portanto, se orientam na direção e líderes políticos, de outro. De maneira de objetivos diversos. Contudo, devido esquemática, é possível distribuí-lo em três à dinâmica própria de sua integração, categorias. Em primeiro lugar, os jornalistas precisam incorporar em alguma medida “testemunham” eventos políticos que, ainda a lógica um do outro. Sob pena de perder que possam ser pensados para divulgação a fonte, o jornalista deve ponderar aquilo na mídia, em princípio ocorreriam mesmo que publica, calculando seus efeitos sobre na ausência dela: debates e votações o campo político; e fazer concessões aos 14 parlamentares, assinaturas de decretos interesses do outro, divulgando o destaque e nomeações, atas de posse, reuniões de certas notícias (mas nunca ao ponto de partidárias. Depois, existem interações comprometer a própria credibilidade). Já a relativamente formalizadas entre repórteres fonte, para manter seu acesso privilegiado e políticos, na forma de entrevistas à imprensa, deve reconhecer o material que (coletivas e individuais). Por fim, há a é útil ao jornalista e, sobretudo, manter a relação cotidiana entre os profissionais de própria confiabilidade diante dele, não imprensa e aqueles que, no jargão do meio, transmitindo informações equivocadas são chamados de suas “fontes”. Qualquer em busca de benefícios de curto prazo indivíduo que proporcione dados para a (MIGUEL, 2002:14). elaboração de uma reportagem é uma fonte. Quem interessa aqui, porém, é aquela fonte Frente a tal realidade, que resulta de um mais ou menos permanente, que fornece relacionamento humano e, portanto, passível informações continuadas e, em algum grau, de falhas, o profissional toma precauções, exclusivas ao mesmo repórter, muitas vezes resguarda-se quando busca elaborar com exa- com a garantia do anonimato na publicação tidão a matéria que fará sentido no mundo. da notícia (MIGUEL, 2002:13). Havendo isso, confia, haverá ética.E mais: havendo racionalidade, equilíbrio, entende- O relacionamento jornalismo e política é se nos meios jornalísticos que haverá fideli- historicamente polêmico e paradoxalmente dade narrativa, para a qual, entretanto, um intercomplementar. Esse intercâmbio está ingrediente é também essencial: é preciso Estudos em Jornalismo e Mídia Vol. III No 1 - 1o semestre de 2006
  • 5. que aquilo que o político declarou coincida fatizada convergência entre a busca de notícia com a realidade. e a busca de ser notícia, há o interesse entre Os políticos buscam afinar-se pelo dia- mídia e política para o destaque de assuntos pasão deste comportamento vigente nas re- episódicos, aqueles que chamem atenção pelo dações, a fim de ganhar espaço no pódio da caráter de coisa social inusitada, um cometa notícia. O jornalista, ao buscar informações, noticioso que de repente aparece. precata-se quanto à credibilidade destas, tra- Ao legitimar-se enquanto estrutura indus- balhando em meio às determinações da linha trial e técnica para a distribuição do produto editorial do jornal e de suas próprias convic- notícia, o jornalismo formalizou com os leito- ções. É uma relação de equilibristas. Em meio res o compromisso de manter sempre em suas ao que foi declarado, pode haver algo que não páginas informações de atualidade. Isso, den- deveria ser escrito por ser incompatível com tro do exíguo período de 24 horas. a realidade. O aprazamento implicou a formulação de toda uma organização funcional cujos desdo- A ética tem a ver com o dever: o dever bramentos resultaram, ao longo do tempo, na para consigo e/ou para com os demais. exclusão de modelos noticiosos mais aprofun- É individual ou pessoal ainda quando se dados, em favor do relato episódico. Não há relacione com obrigações e direitos para tempo, nem é objetivo do jornalismo, a elabo- com os outros. A qualidade da vida humana ração de um tratado a cada novo acontecimen- tem a ver com ambas as coisas, solidão to, a cada nova edição. Antes, é preciso, ape- e sociabilidade. [...] Esta dualidade da nas, tratá-lo, dar-lhe forma redacional típica 15 moral individual e social está implicada no do jornalismo, para fazer sentido no mundo. próprio conceito da ética. O jornalista, por exemplo, não está simplesmente escrevendo “Não vim para explicar: vim para para o consumo de outros; está escrevendo confundir”3 como uma expressão de si mesmo e se põe Quando da cobertura de assuntos a si e seu próprio eu em seu jornalismo. políticos, o jornalismo diário, ao optar 2 MERRIL, J.C. El Imperativo de la Ele comunica a si mesmo de uma maneira pela prevalência de matérias incidentais, Libertad. Filosofia da autonomia perio- muito real. Agrada-se ou desagrada-se a si relativas a acontecimentos editorialmente dística. México: EDAMEX, 1982:196- mesmo, não só à audiência. O que realiza descontextualizados, consolida atitude que 197. para atingir certo patamar dentro de si descura uma visão ampla e aprofundada não só afeta as atividades e crenças de da realidade. O jornal fica preso aos 3 Ad tempora, a citação alude a outros, mas também, de forma muito viva, fatos políticos acontecidos, ao dito, ao discurso recorrente do apresentador a essência de sua própria vida (MERRIL2, declarado, quando poderia buscar, pela ação de TV Chacrinha, figura polêmica citado por GOMES, 1997:70). investigativa, um aprofundamento crítico e polissêmica que, nos anos 60 e 70 e desvelador de quadro, uma vez que em do século passado, carnavalizava a realidade brasileira em auditórios O trabalho de simbolizar o mundo se ins- política é larga a teia de interacontecimentos. lotados. Era um crítico inconsciente creve, entretanto, numa circularidade: a per- Nada acontece sem causa remota ou próxima do absurdo da cena brasileira, de cujo manente busca pela notícia, que faz o jornalista a essa ocorrência. E essa, por si só, implicará repasto midiático/comercial, entretanto, voltar sempre ao convívio das fontes políticas, outro fato, previsto ou inesperado. também se nutria. e a continuada busca destas pela mídia. Na en-
  • 6. No jornalismo episódico a política é No jornalismo episódico político-comunicacional, apresentando o mostrada sem o seu mais essencial elemento a política é mostrada espetáculo da informação como deleite de de constituição: o debate, o confronto de consumo, que é exatamente a intenção dos idéias, para ser apenas relatada de forma sem o seu mais atores políticos, quando protagonizam atos circunstancial, mesmo que exibida pela essencial elemento que serão jornalisticamente aproveitados. A ação gráfico-declaratória de uma manchete. de constituição: o chacrinização dos acontecimentos políticos, Sem um enunciado interpretativo, sem debate, o confronto de sua condição de produto, portanto, inscreve- contextualização, podem prevalecer interes- idéias, para ser apenas se tranqüilamente nessa relação de causa e ses ocultos, o jogo de luz-e-sombra da efeito programados para repercutir no grande luta política, cuja formulação o jornalismo relatada de forma auditório social. É exatamente nesse cenário acompanha ao elaborar relatos meramente circunstancial, mesmo translúcido onde a lucidez perde espaço. Não indiciais, que se referem ao jogo do poder, que exibida pela ação se vêem os figurantes por completo, suas reais mas sem força elucidativa. Quanto à citação de gráfico-declaratória de intenções, somente as suas silhuetas, que saem Abelardo Barbosa, o Chacrinha, esta nos leva uma manchete da linha de montagem da indústria cultural da a uma reflexão a respeito do relacionamento qual são atores e autores. entre imprensa e poder. Ao dizer “não vim para explicar; vim para confundir”, o discurso En todos sus campos se confeccionam, más o chacriniano assume, por inversão, uma atitude menos de acuerdo a um plan, los productos que cínico-explicativa ao inserir sua presença se estudian para el consumo de las masas y que histriônica ao universo comunicacional. determinam em gran medida ese consumo. Los 16 Ao dizer que não viera para explicar, diversos campos se parecen por su estructura deixa implícito que há dúvidas pré-exis- o al menos se interrrelacionam. Se completan tentes, incertezas formalizadas, jogos de es- casi sin carencias, para constituir um sistema. pelho, duplicidade e vaguidão direcionada, Eso, debido tanto a los medios actuales de la ou seja, um processo prévio e organizado técnica como a la concentración económica para a desorganização. Há uma irrealidade y administrativa. La industria cultural es la construída, visível, porém disfarçada e não integración deliberada de sus consumidores, reconhecível pelo público. Infere então que, em su más alto nivel. [...]. La industria como ele, sempre em destaque na mídia, cultural tiene em cuenta sin duda el estado de há orquestradores e organizadores de tal conciencia e inconciencia de los millones de confusão. Mas ele estava exposto e, mesmo personas a quienes se dirige, pero las masas falando em confundir, flagrava a confusão. no son el factor primordial, sino um elemento Quanto aos detentores de força política, secundario, um elemento de cálculo; um não: ocultavam-se, como ainda se ocultam, accesorio de la maquinaria. Ele consumidor nos vieses de discursos de convencimento, no es rey, como queria na industria cultural; garantindo que podem descobrir o caminho no es sujeto, sino el objeto. [...]. Sin embargo, certo na política e, como tal, na vida em no se trata em primer lugar de las masas, ni de sociedade. las técnicas de comunicación como tales, sino A irrealidade construída, resultante de del espíritu que les es insuflado a través de la uma realização roteirizada, com sua produção voz de su conductor (ADORNO e MORIN, massiva de significados, é parte da ação 1967:9-10). Estudos em Jornalismo e Mídia Vol. III No 1 - 1o semestre de 2006
  • 7. A indústria cultural, ao assimilar me- quando a ira ou a desaprovação públicas taforicamente o modo de produção industrial, se tornam suficientemente veementes, os com seus passos de produção, organização e media noticiosos fariam bem em se regu- resultado final, o produto simbólico, assegura larem efectivamente, ou um dia os políti- a este uma “qualidade ideológica”, da mesma cos “famintos do seu legítimo alimento forma que uma fábrica põe no mercado espiritual, iniciem uma caça selvagem e produtos “de qualidade” para uso. A qualidade febril ao homem e não se detenham no ideológica de um produto simbólico, o produto canibalismo.” Era verdade nos anos 20 e política, encontra-se no fato de que garante é verdade hoje que a caça ao homem já aos seus atores/autores que um determinado começou, tal como foi evidenciado não estado de coisas permanecerá segundo aquilo apenas pelo crescente ultraje público con- que objetivam. A aqui enunciada qualidade tra a escandalosa invasão da privacidade ideológica somente atende aos interesses por membros vorazes dos media noticio- de quem a produz. Quanto ao consumidor sos - tão eloquentemente exemplificado da indústria cultural, este não frui nem pela morte da princesa Diana e a condena- usufrui daquilo que lhe é enviado, no caso ção unânime dos paparazzi - mas também a política. Antes, a esta torna-se vinculado pela litania de críticas por muitos diver- pela ideologia. A qualidade ideológica sificados segmentos da sociedade, inclu- resulta exatamente nessa vinculação, nessa indo membros da comunidade acadêmica fidelização do consumidor ao produto política. (TRAQUINA, 2001:189). A sistematização “industrializada” de material 17 simbólico e ideologizado alude à política como A persistência de hábitos de convivência uma pretendida forma de participação popular; com o político, e facilidades ou facilitações elide esta mesma participação ao contribuir de acesso de grupos de interesse a jornalistas para assegurar uma situação de assimetria entre ou editores, com fim de beneficiar àqueles, elites e povo; e ilude, no final do processo, pode criar um clima de permissividade, cuja àqueles que confiam estar efetivamente deste cognição pelo social pode ser alvo de críticas e participando, uma vez mantidas as situações de repúdios, uma vez que, mesmo ante a presença assimetria política e social. da ideologia que se emaranha aos processos Assim, quando o jornal se alinha aos de representação, existem filtros sociais que acordes dissonantes da confusão, também permitem, no caso ao leitor, a percepção de chega para confundir, não para explicar. Uma desvios. questão, todavia, se impõe: a resistência dos Os grupos políticos trabalham, todos, na profissionais às críticas, como se as críticas busca de visibilidade e, a depender da maior pregassem o fim da imprensa. Quando o jornal se ou menor abertura que lhes apresente o jornal, alinha aos acordes tendem à busca enfática de maiores espaços Tanto os proprietários como os traba-lha- nas páginas diárias, tentando colocar-se em dores profissionais precisam tomar em dissonantes da situação privilegiada. atenção as sábias palavras do jornalista confusão, também Assim, os acontecimentos podem ser per- norte-americano Walter Lippmann, que chega para confundir, feitamente programados, ciosamente pelos exactamente há 78 anos observou que não para explicar atores políticos, de forma a se inserir num
  • 8. certo perfil, o perfil noticioso, causando rumor Todos intentam Ou seja, num ambiente de acerbo conflito de social e atraindo a atenção do noticiário. se inserir nos interesses, é inimaginável que os meios de comunicação sejam os porta-vozes impar- O rumor social confere a um acontecimento procedimentos de ciais do debate político, como a imprensa que parecia bem marcado um rastro no seleção daquilo que européia teria sido em seus primórdios [...]. tempo que Claude Labrosse designa como será notícia, uma vez Isto não significa que se deva descair para o seu “horizonte”, um horizonte desprovido que elevam suas vozes, conformismo, já que a mídia “sempre” de- de sintaxe que não pode jamais ser en- buscando visibilidade fenderá certos segmentos sociais, mas sim volvido. O acontecimento torna-se então que é necessário perceber que a mudança um conjunto de limites pouco precisos. A no jornalismo passa pela pressão da sociedade, isto é, dos partir do momento em que o rumor social é grupos prejudicados pela forma dominante incluído no acontecimento, a mídia torna-se de gestão da comunicação. [...] O elitismo partidária do mesmo. É, ao mesmo tempo, que subjaz à ausência da mídia na análise externa e interna a um acontecimento da realidade política também pode ser apre- ao qual atribui limites por seu próprio ciado por outro ângulo. Nas sociedades for- discurso. Não se lida mais com uma mol- malmente democráticas em que vivemos, dura posta sobre a realidade, mas com um é corrente a divisão da política em “basti- enquadramento cuja expansão constitui a dores”, as salas secretas em que se fazem própria realidade (o que chamamos cena do os acordos e se tomam as grandes decisões, acontecimento). O acontecimento e a mídia e “palco”, o jogo de cena representado 18 confundem-se em um ponto em que a fala para os não-iniciados, isto é, para o povo da mídia torna-se performativa, e não mais, em geral. O que ocorre no palco serviria apenas, descritiva. [...] o acontecimento apenas para distrair a platéia e manter a es- e seu comentário formam um único ente. tabilidade do sistema, perpetuando o mito Em última análise, a definição de acon- da democracia como “governo do povo”. tecimento torna-se uma definição vazia: É Por motivos óbvios, a mídia pertence a este acontecimento aquilo que é definido como segundo espaço, mas os fatos políticos rel- acontecimento. O acontecimento não é evantes ocorreriam no primeiro, nos “basti- mais descritivo e, sim, reflexivo (MOUIL- dores” (MIGUEL, 2002:5). LAUD, 2002:66). A compreensão ou intuição do rumor É exatamente esse rumor social que os social das notícias abrange tanto as elites grupos de interesse tentam provocar, no quanto os segmentos populares, que tam- instante em que buscam inscrever no jornal bém buscam se expor na mídia, quando fa- os seus próprios conteúdos. Nesse ponto zem protestos, passeatas ou atos públicos, dá-se o entrecruzamento de interesses buscando impor/expor seus interesses. To- entre o jornal e os políticos. As redações dos intentam se inserir nos procedimentos também têm consciência do rumor social de seleção daquilo que será notícia, uma vez que podem amplificar com suas notícias que elevam suas vozes, buscando visibili- e efetivamente dão o seu contributo a esse dade no jornalismo. estado de coisas. Estudos em Jornalismo e Mídia Vol. III No 1 - 1o semestre de 2006
  • 9. Políticos: visíveis nas páginas, longe egoísta. Assim, busca visibilidade para obter das multidões destaque (WEBER, 1968). O desenrolar dos fatos políticos veiculados pelo jornal fortaleceu A afirmação do jornal como espaço a convicção de que a atividade política legitimado para a divulgação de fatos tidos exige desenvoltura para que os seus agentes como relevantes colocou-o como um referente consigam transitar junto às páginas impressas. de mundo, assumindo alguma centralidade Assim, o corolário de suas ações passou a frente aos processos sociais junto aos quais incluir a administração da visibilidade como busca influir. O jornal não determina ou limita algo prioritário, se não suficiente pelo menos conseqüências, mas integra o processo político necessário a que este leve adiante empresas do princípio ao fim e a este se mantém ligado de porte como candidaturas a altos cargos ou em seus desdobramentos. realização de obras faraônicas, bem como adoção de medidas impopulares que possam A constituição e “autonomização” do ser, de alguma maneira, explicadas via jornal: campo das mídias (ou da comunicação O político espera, deseja e busca sempre midiática), em verdade, configuram a aparição midiática movido pela necessidade o ponto de inflexão a partir do qual de manter-se apto a chegar ou a permanecer as conexões entre comunicação e em situação de poder, quaisquer que sejam política abandonam suas modalidades os seus motivos e convicções, destacando-se, “tradicionais”, inclusive aquelas adstritas dentre estes, a uma dimensão instrumental, e redefinem- 19 se em termos de interlocução de campos A vaidade ou, em outras palavras, a necessidade sociais particularmente conformados. de se colocar pessoalmente, da maneira Comunicação e política interagem agora em mais clara possível, em primeiro plano. [...]. outro patamar, o que não exclui a realização O demagogo é obrigado a contar com o “o pontual de modos “tradicionais” de efeito que faz” – razão por que sempre corre o interlocução, agora totalmente redefinidos perigo de desempenhar o papel de um histrião em outro contexto de produção de sentidos. ou de assumir, com demasiada leviandade, a Política e comunicação não aparecem responsabilidade pelas conseqüências de seus mais como momentos e empreendimentos atos, pois está preocupado continuamente com singulares, mas como campos sociais a impressão que pode causar aos outros. De articulados em combinatórias determinantes O jornal não uma parte, a recusa de se colocar a serviço de conjunturalmente (RUBIM, 1998:83). uma causa o conduz a buscar a aparência e o determina ou limita brilho do poder, em vez do poder real; de outra conseqüências, mas parte, a ausência do senso de responsabilidade Todo homem, quando envereda pelo universo da política, tem por objetivo o poder, integra o processo o leva a só gozar do poder pelo poder, sem seja pela convicção de prestar um serviço político do princípio deixar-se animar por qualquer propósito. Com socialmente relevante, seja pelo fato de, com ao fim e a este se efeito, uma vez que, ou melhor, porque o poder isso, agregar mais poder ao que anteriormente é o instrumento inevitável da política, sendo o mantém ligado em seus já detinha em razão de condição econômica ou desejo do poder, conseqüentemente, uma de desdobramentos suas forças motrizes (WEBER, 1968:107). outra forma de capacidade decisória pessoal e
  • 10. A expressão ao pensamento weberiano Para o político, (simulação), seja em seu disfarce (dis-simu- nos alude, de alguma forma, à chacrinização os contatos com lação), pode lograr êxito, mas também pode política promovida e autoralizada pela ação obter resultado contrário. Como se trata de dos políticos, que buscam na foto, no texto, os jornalistas são atitudes programadas, não são fatos, mas na manchete ou na simples notinha de uma arriscados por dizer atos, o ator político pode ser flagrado em coluna assinada, imprimir o seu sinete. Uma respeito a um terceiro sua encenação, uma vez que o jornalismo visibilidade positivada é algo do qual o ator interveniente, o leitor, tem o poder tanto de plasmar não apenas a político não pode prescindir, de tal forma que que se encontra na realidade, como a irrealidade que se queira impor, pelo seu desmascaramento. Hoje, a cuidadosa apresentação pessoal qualidade de julgador diante dos outros cuja fidelidade deve ser social de sua atuação, Considerações finais constantemente sustentada, e cujo apoio é mediante a leitura do Uma das características mais marcantes vitalmente requerido de tempo em tempo, noticiário dos processos sociais, desde a segunda mais que uma opção, é um imperativo para metade século XX, é a crescente importân- os líderes políticos e os aspirantes à vida cia da mídia. Os meios de comunicação de pública. [...] Renunciar à administração massa, o jornal impresso, no caso, funcio- da visibilidade através da mídia seria um nam como elo entre a sociedade e os fatos ato de suicídio político ou uma expressão noticiados. Esta visão, indicando que o jor- de má-fé de quem foi tão acostumado à nalismo seria uma espécie de hífen midiáti- arte da auto-apresentação, ou foi tão bem co entre o fato e o público, um espelho da 20 colocado numa organização que praticou a realidade, em essência é inconsistente em arte do bom resultado, que pode dispensá-la função de uma segunda vertente, ou seja: (THOMPSON, 1998:24). entre o fato e o relato há um longo caminho a ser percorrido. O fato é re-tratado, ins- A preocupação com a visibilidade tem ocu- crito e circunscrito a técnicas de produção pado o tempo dos políticos e preocupado seu e redação, interesses internos e externos à planejamento de mídia pelo fato de que o jor- redação, de forma a adequar-se à ética e a nal, da mesma forma como pode trazer notí- normas e padrões técnicos que o tornem cias favoráveis, permite-se exibir noticiário passível de ser noticiado. onde estes sejam flagrados em atitudes pes- Este proposto hífen midiático, en- soais ou administrativas inconciliáveis com tretanto, conceitualmente, existe. Enquanto o que se espera de alguém no desempenho de e meta-fórica e instrumentalmente um função pública. Esse processo é complicado, admitido traço-de-união comunicacional. do ponto-de-vista de relações com os jornalis- Existe, considerando-se o jornal como ve- tas. Os contatos com os jornalistas são arrisca- tor, artefato de divulgação/tratamento de dos para o político por dizer respeito a um material noticioso, constituindo-se assim, terceiro interveniente, o leitor, que se encontra inegavelmente, em elo entre o fato ali rep- na qualidade de julgador social de sua atuação, resentado e o público. E esse re-tratamento mediante a leitura do noticiário. é intencional, direcionado, intervencionis- A ação do político ao trabalhar acon- ta, a partir da consciência do jornalista tecimentos, seja em sua suposta prática de que seu texto fará sentido no mundo, Estudos em Jornalismo e Mídia Vol. III No 1 - 1o semestre de 2006
  • 11. tendo o jornal como base veicular. cotidianamente. Como objeto de estudo, Da mesma forma que o hífen, como é preciso que se estabeleça uma relação circunstância lingüística reúne, e move dialogal entre os modelos explicativos para um terceiro sentido, duas palavras que se debruçam sobre si. A notícia é que, em sua nuclearidade, encontravam- interface entre o real e o leitor. E, mesmo se distanciadas e a estas se inclui como não sendo referente exato da realidade, elemento ressignificador, o jornal coloca-se recombina efetiva e discursivamente o como dispositivo entre o fato e o receptor mundo, fazendo sentido junto aos leitores, da mensagem, fazendo sua interligação. cujos filtros cognitivos, sejam culturais, Desta forma, redinamiza uma visão de ideológicos ou oriundos de crenças dos mundo socialmente experienciado, tanto por mais variados matizes, a acatam ou parte dos atores do fato relatado, no caso os refratam. políticos, quanto pelo lado do público. Tais circunstâncias exigem uma atitude Sobre o autor analítica a respeito da produção da notícia, especialmente no âmbito da política. Os Emanoel Barreto é jornalista pela Univer- grupos políticos vêem na notícia literalmente sidade Federal do Rio Grande do Norte um bem, valorizam-na como parte do seu - UFRN. Mestre em Ciências Sociais pela patrimônio ideológico-eleitoral e entendem UFRN. Doutorando em Ciências Sociais pela como coisa disponível e instrumentalizável UFRN. Professor do Curso de Comunicação aquele fato lingüisticamente simbolizado e Social da UFRN. Autor do Livro: “Crônicas 21 afinal impresso. E disputam esse bem com para Natal, as crônicas do Jornal do Dia”. todos os artifícios disponíveis, buscando Jornalista há 32 anos com experiência em notoriedade positivada, visibilidade e jornal e TV. Dedicou-se eminentemente ao sucesso. jornalismo político. Exerceu cargos em edi- O jornal, ao que se observou, não apenas torias setoriais e de editor-chefe. Atualmen- tem condições invasivas, possibilidade de te, mantém o blog “Coisas de Jornal”. partir em busca do fato e transportá-lo para a situação de realidade noticiada, mas é palco Bibliografia de ações vindas de fora, por parte dos que ADORNO, Theodor W.; MORIN, Edgar. La in- buscam marcar sua presença junto ao público. dustrial cultural. Buenos Aires: Editorial Galer- O jornalismo político trabalha com sistemas na, 1967. de forças que buscam, de forma injuntiva, BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de expor-se e/ou impor-se à conjuntura do Janeiro: Jorge Zahar, 1997. noticiário. O jornalista é obrigado a articular- GOMES, Pedro Gilberto. Comunicação Social: se com a sociedade e seus processos, a filosofia- ética- política. São Leopoldo: Unisinos, conviver tanto com situações prévias quanto 1997. a administrar imprevistos e a interagir com MIGUEL, Luis Felipe. Os meios de comunica- outros atores, às vezes em contrafação. ção e a prática política. Lua Nova, 2002, n. 55- Fenômeno social, a notícia nos chega 56.
  • 12. MOUILLAUD, Maurice. O jornal: da forma ao THOMPSON, John B. A Mídia e a Moderni- sentido. 2. ed. Brasília: UnB, 2002. dade - uma teoria social da mídia. 5. ed. Petrópo- RUBIM, Antônio Albino Canelas. A Política na lis: Vozes, 1998. Idade Mídia. In: ALMEIDA, Jorge; CANCELLI, TRAQUINA, Nelson. O estudo do jornalismo Vitória (org.). Estratégia - A luta política além no século XX. São Leopoldo: Unisinos, 2001. do horizonte visível. São Paulo; Fundação Per- WEBER, Max. Ciência e Política: duas voca- seu Abramo, 1998. ções. São Paulo: Cultrix, 1968. 22 Estudos em Jornalismo e Mídia Vol. III No 1 - 1o semestre de 2006