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Introdução à História da Naturopatia
Índice
• Os Povos Tradicionais
• Civilização Romana
• Grécia
• Vitalismo
• Rases e Avicena
• Organicismo e Opoterapia
• Revolução Médica
• Lezaeta
• Doutrina Térmica da Saúde
• O Índice que teria um Possível Curso
Os Povos Tradicionais
Os Mais Tradicionais...
Melhor do que nós, os povos primitivos – tradicionais, como agora os designamos –
sabiam o que era necessário para os cuidados com a sua saúde.
É certo que o conceito de enfermidade se revestia de aspectos mágicos, encerrando
mistérios que se interligavam às suas convicções e à sua percepção do mundo, onde
quase tudo era mais espiritual do que físico. Por isso, as funções de médico só deviam
ser desempenhadas por alguém com conhecimentos do mundo espiritual: o Xamã. Como
facilmente podemos compreender, não se adoecia por excessos alimentares, nem por
consumo de substâncias refinadas, transformadas, aditivadas, cozinhadas em micro–
ondas, ou em recipientes de teflon... Por isso, procuravam as causas da enfermidade em
coisas mais “simples”, como o desrespeito a uma regra da sociedade, um “bruxedo” ou
“mau olhado”, a “possessão” por uma entidade espiritual, a “perda da alma” por um
susto, etc.
No mecanismo da cura, desencadeado pelo Xamã através de rituais apropriados,
entrava em funcionamento a capacidade sugestiva ou força psíquica do enfermo, pela
mobilização de poderosas idéias que faziam parte do inconsciente coletivo da
comunidade.
As substâncias medicamentosas coadjuvantes da cura atuavam não apenas pela sua
composição, mas, e principalmente, pelo “prestígio espiritual” do administrante, a quem
se acreditava dominar forças e poderes ocultos. E mesmo assim, a utilização destas
substâncias era precedida e acompanhada de rituais apropriados, assim como também
a sua colheita e preparação.
O fato de o enfermo acreditar que poderia estar doente por ter transgredido uma regra
social, dota o Xamã de meios eficazes de cura, ainda que extremamente simples.
Passam estes meios pela Confissão, que liberta o doente de toda a angústia, inerente ao
mortificante sentimento de culpa (e também deste próprio sentimento), e pela Purificação
(água, jejum, dieta rigorosa, vômitos e purgas), que não são outra coisa do que a
utilização de alguns dos meios naturais de cura.
Os incas, por exemplo, dedicavam um dia, todos os anos, para se purificarem nos rios.
Este ritual incluía a confissão, à qual não faltava o próprio imperador. Os atuais povos
tradicionais ameríndios purificam-se pelo vapor da água, tanto em rituais de
iniciação, como em rituais de cura, e os hindus ainda efetuam ritos de
purificação nas águas do Ganges. Longe do primitivismo e superstição com que as
“mentes rápidas” classificam as práticas antigas, são exatamente os conhecimentos
antigos que provam o estado de atraso da ciência moderna. Limitando-nos apenas aos
aspectos médicos, e sem nos alargarmos muito, foram os hindus que descobriram, cerca
de 2000 anos antes dos europeus:
- a presença de açúcar na urina dos diabéticos;
- a relação entre o paludismo e os mosquitos;
- os sinais clínicos externos das fraturas.
Guaiaquis, Guaranis, Polinésios, Iberos...
No alto do Paraná (Brasil), a sudoeste do Paraguai, os Guaiaquis são provavelmente
um dos povos que conserva costumes mais primitivos: em vez de edificarem casas,
resguardam-se em simples abrigos constituídos por humo prensado e seco, o qual untam
com cera, para deter a água; não cobrem o corpo; as suas armas de caça são arcos e
flechas de madeira, cujas pontas são constituídas por lascas de pedra. No entanto, com
exceção da morte natural (por velhice), a única causa de morte que se lhes conhece
resulta da mordedura de víboras.
Na obra “Medicina Geral”, da autoria do Dr. Moisés Santiago Bertoli, existem importantes
referências acerca do modo de vida de um outro povo, os Guaranis, que, pelas suas
palavras:
“... possuem conhecimentos higiênicos e médicos praticamente tão adiantados como os
nossos e comem apenas quando sentem fome, lentamente e em silêncio. A sua
alimentação, em grande parte crua, compõe-se de fruta, mel, mandioca e milho,
raramente comendo carne. Praticam o jejum com uma certa freqüência, como meio de
fortalecer o caráter e adquirir domínio sobre o seu corpo. Com o mesmo objetivo e para
se conservarem fortes e ágeis, praticam constantemente jogos e lutas, sempre com o
corpo nu, molhando-se de vez em quando...”.
Antes das últimas guerras mundiais, os polinésios mantinham as suas tradições e
viviam em condições parecidas às dos povos referidos. Era gente sã; equilibrada e
pacífica; antes do contacto com a nossa civilização; a influência do contacto com o nosso
modo de vida, e as conseqüentes transformações que neles operou, tornou necessários
os hospícios que agora lá existem.
É verdade que prevalecem ainda tribos, em diferentes locais do mundo, onde as
condições de higiene e de alimentação não são exemplo para ninguém, incluindo-se nela
a carne humana. Mas esta crueldade e estupidez não nos parecem representativas de
formas tradicionais de vida, sendo o mais certo que constituam as últimas heranças, cada
vez mais degeneradas, de antigas e decadentes civilizações sanguinárias.
Pesquisadores mais antigos, como Cervantes, revelam-nos que os antigos iberos viviam
de um modo semelhante aos polinésios.
Quando, em nome da Ciência, são tecidas críticas aos processos tradicionais de curar,
como os utilizados pelos “homens da medicina” índios, que a medicina moderna
considera supersticiosos, seria bom que os tão pretensiosos “sábios civilizados” se
dessem conta de que entre nós o que não falta são superstições, tendo em atenção a
pouca racionalidade – a avaliar pelos efeitos – de muitos processos científicos modernos,
que são evidentemente muito mais perigosos.
Quando se fala de progressos da ciência, tem-se quase sempre em conta um período
relativamente curto e parcial. O mais antigo que se conhece, pelos escritos de Heródoto
[1] e de Plínio, refere-se quase exclusivamente à história do Egito e da Grécia.
Possuem-se algumas informações da ciência hindu, chinesa e caldeia, mas os pontos
de comparação estabelecem-se geralmente com relação à história européia, desde a
invasão dos bárbaros.
Na realidade, todas as civilizações passam por processos parecidos de vida simples,
primitiva, natural e sã. Mais tarde, “prosperam” e aglomera-se em povoados e cidades, o
que equivale a viver em espaços mais fechados e limitados, e logo, promiscuidade,
sedentarismo, ódios, vícios, exploração, miséria, degeneração, revoluções e guerras.
Como natural reação a estes males, quando a civilização não perece, produz-se um
renascimento ou uma decadência inevitável e mais ou menos definitiva.
Civilização Romana
O caso da civilização romana é típico: os primeiros romanos eram agricultores pobres,
levando uma vida rude, mas sã; a sua alimentação, à base de cereais e hortaliças, e a
sua vida simples, garantiu-lhes um triunfo fácil, fazendo-os donos de quase todo o mundo
então conhecido. Mas isto os levou a deixar aos escravos os trabalhos sãos;
transformaram-se em soldados de ocupação, em funcionários e em comerciantes dos
países ocupados.
A vida mais regalada da comunidade e a abundância debilitou pouco a pouco a virilidade
da raça; iniciou-se a decadência e veio a destruição da sua civilização.
Os romanos chegaram a extremos inconcebíveis: as orgias sucediam-se sem parar;
instalaram nas casas um compartimento especial – o vomitório – onde os convidados dos
banquetes podiam ir despejar os seus estômagos repletos das iguarias mais raras e
complicadas, para poder enchê-lo outra vez.
Como conseqüência, a grosseria e a crueldade das diversões, culminou nos espetáculos
sangrentos e repugnantes do circo e nos estúpidos e bárbaros excessos dos tiranos:
Calígula, Nero, Vitélio, etc.
Quanto mais decadente a Sociedade, mais prospera a Medicina:
A medicina floresceu sempre nas civilizações decadentes. Isto é lógico, porquanto, mais
do que da saúde, o médico vive da enfermidade. Assim, a decadente civilização grega
providenciou médicos à Roma.
Catão – o “Censor”
Durante muito tempo foi este o mais desprezado dos ofícios e Catão – o Censor – numa
reação contra o princípio da decadência romana, expulsou os advogados e os médicos.
São originais as razões que deu:
“... enquanto não houve advogados, as pessoas esforçavam-se por remediar
amigavelmente os seus pleitos, e estes nunca chegaram a ser tão graves e numerosos
como desde que entregaram aos advogados os cuidados dos seus assuntos”.
“Assim, também enquanto não houve médicos; as pessoas cuidavam mais da sua saúde;
quando as pessoas crêem que o médico pode salvá-las de sofrer a natural conseqüência
dos seus excessos, esquecem-se da prática da virtude e multiplicam-se as enfermidades
e os médicos, os quais, além disso, se tornam ricos e poderosos...”.
Expulsou os primeiros por os considerar “inimigos dos bons costumes e da harmonia
entre vizinhos”; no caso dos segundos, por os considerar “inimigos da saúde”.
Cláudio Musa e as “Operações Sangrentas”
Durante quatro séculos Roma esteve sem médicos; a medicina era exercida por escravos.
O mais célebre foi Cláudio Musa, a quem erigiram uma estátua por ter salvado a vida a
César Augusto, curando-o por meio de uns banhos, de uma enfermidade que padecia.
Mais tarde, foi linchado pelo próprio povo romano quando lhe ocorreu realizar operações
sangrentas.
Grécia
Hipócrates
O médico mais célebre da antiguidade foi Hipócrates, a quem se atribui à honra de ser “O
Pai da Medicina”. Hipócrates (460 - 375 a.C.) nasceu na ilha de Cós. Era de uma antiga
família de médicos – os Asclepíades, – e pretendia descender de Esculápio – o Deus
grego da medicina.
Alguns dos famosos Aforismos de Hipócrates:
“... Certos médicos antigos não ignoravam as diversas categorias de enfermidades e a
multiplicidade das suas divisões, mas observamos que se perderam quando pretenderam
fazer uma classificação muito detalhada. Com efeito, o que é importante não é tanto lhes
dar um nome e separar cada enfermidade, por pouco que difira das demais, mas
representá-las como continuando sendo essencialmente as mesmas, ainda que levem
um nome diferente...”;
“... A natureza das enfermidades é a mesma; apresentam-se com tanta diversidade é
apenas pela causa da diversidade das partes em que o mal se manifesta. Com efeito, a
sua essência é uma e a causa que as produz é igualmente uma...”;
“... Mas em que consiste esta causa única? - Quando se produz uma alteração nos
nossos humores, aumenta o calor do corpo, ocorrem em certas partes depósitos destes
humores, excita-se à sensibilidade às dores e produzem-se grandes calores. O «fogo»,
aceso em todo o corpo, produz a febre...”;
“... Quando os humores viciados são abundantes, e arrastam e põem em estado
enfermiço tudo o que estava são, toda a substância do corpo se encontra atacada e
desorganizada; quando um humor se corrompe, e se estende a outra parte, leva até lá a
enfermidade, a menos que seja purgado dela...”;
”... As enfermidades são crises de purificação humoral, de limpeza orgânica e de
eliminação tóxica. Todas as enfermidades se curam por alguma evacuação, quer pela
boca, pelo ânus, pela bexiga ou por um outro emunctório. O órgão do suor (a pele) é um
dos principais e comum a todos os males...”.
“... Os sintomas são defesas naturais. Quantas vezes
aparecem sintomas que parecem enfermidades e não
são mais que remédios das mesmas...”;
“... Há duas classes de febres: uma ataca a maior parte dos homens ao mesmo tempo –
são as epidemias. Quando o ar se encontra infestado de miasmas, que são inimigos da
natureza humana, uns homens caem enfermos, enquanto outros atacam os que cometem
erros no regime e na maneira de viver...”;
“... O mau regime consiste em que se dê ao corpo mais alimento do que pode suportar,
seja sólido ou líquido, sem fazer um exercício que opere a combustão proporcionada pela
excessiva abundância de comida, ou bem porque se usam manjares muito variados e
diferentes na mesma refeição, que produzem a guerra no corpo por estar um digerido
enquanto outro não o é ainda...”;
“... Que o teu alimento seja a tua única medicina; que a tua única medicina seja o teu
alimento!...”;
“... Há na economia um só fim, um só esforço, no qual participa todo o corpo. É uma
simpatia universal: tudo é subordinado a todo o corpo; tudo o é também a cada parte. É a
Natura Medicatrix, que protege, imuniza e cura...”;
“... No interior do corpo existe um agente desconhecido que trabalha pelo todo e pelas
partes. É ao mesmo tempo uno e múltiplo. É a natureza a que cura as enfermidades e
encontra as vias necessárias sem necessidade de ser guiada pela nossa inteligência: não
se ensina a abrir e a fechar os olhos, a mover a língua e a maioria dos atos essenciais da
vida. Sem o socorro de nenhum mestre, a natureza é suficiente em tudo, e para tudo...”.
Não devemos endeusar Hipócrates, é um fato, mas também é verdade que descendia dos
Asclepíades e que estudou na escola de Cós, considerada a melhor do seu tempo, cujos
conhecimentos resumiu.
Na prática, Hipócrates empregou um ecletismo terapêutico, por vezes em contradição
com os seus aforismos, especialmente com o famoso:
“... Que o teu alimento seja a tua única medicina; que a tua única medicina seja o teu
alimento...”.
Pitágoras
Pitágoras (582-500 a.C.) nasceu em Samos. Terá sido ele, com toda a certeza, um dos
maiores inspiradores de Hipócrates. Fundou uma escola de iniciação da juventude,
baseada em rígidos princípios morais. Entre outras grandes descobertas atribuídas a este
grande matemático, encontra-se a tábua de multiplicar. Ainda que nenhum escrito dele se
tenha conservado, um discípulo – Lícis – sintetizou os seus ensinamentos nos famosos
“Versos Áureos”.
Pitágoras não foi propriamente um «médico», mas sim um verdadeiro instrutor naturista,
dentro do significado integral que damos a esta palavra. Ele considerava a sabedoria o
objeto integral da cultura – o único susceptível de promover a saúde perfeita e a plena
expansão da personalidade humana – sobre a qual assentará sempre o verdadeiro
progresso das sociedades humanas.
Os Versos Áureos de Pitágoras:
1. Honra em primeiro lugar os deuses imortais, como manda a lei.
2. A seguir, reverencia o juramento que fizeste.
3. Depois os heróis ilustres, cheios de bondade e luz.
4. Homenageia, então, os espíritos terrestres e manifesta por eles o devido respeito.
5. Honra em seguida a teus pais, e a todos os membros da tua família.
6. Entre os outros, escolhe como amigo o mais sábio e virtuoso.
7. Aproveita os seus discursos suaves, e aprende com os atos dele que são úteis e
virtuosos.
8. Mas não afastes teu amigo por um pequeno erro.
9. Porque o poder é limitado pela necessidade.
10. Leva bem a sério o seguinte: Deves enfrentar e vencer as paixões.
11. Primeiro a gula, depois a preguiça, a luxúria, e a raiva.
12. Não faças junto com outros, nem sozinho, o que te dá vergonha.
13. E, sobretudo, respeita-te a ti mesmo.
14. Pratica a justiça com os teus atos e com as tuas palavras.
15. E estabelece o hábito de nunca agir impensadamente.
16. Mas lembra-te sempre de um fato, o de que a morte virá a todos.
17. E que as coisas boas do mundo são incertas, e assim como podem ser
conquistadas, podem ser perdidas.
18. Suporta com paciência e sem murmúrio a tua parte, seja qual for.
19. Dos sofrimentos que o destino, determinado pelos deuses, lança sobre os seres
humanos.
20. Mas esforça-te por aliviar a tua dor no que for possível.
21. E lembra-te que o destino não manda muitas desgraças aos bons.
22. O que as pessoas pensam e dizem varia muito; agora é algo bom, em seguida é algo
mau.
23. Portanto, não aceites cegamente o que ouves, nem o rejeites de modo precipitado.
24. Mas se forem ditas falsidades, retrocede suavemente e arma-te de paciência.
25. Cumpre fielmente, em todas as ocasiões, o que te digo agora.
26. Não deixes que ninguém, com palavras ou atos,
27. Te leve a fazer ou a dizer o que não é melhor para ti.
28. Pensa e delibera antes de agir, para que não cometas ações tolas.
29. Porque é próprio de um homem miserável agir e falar impensadamente.
30. Mas faz aquilo que não te traga aflições mais tarde, e que não te cause
arrependimento.
31. Não faças nada que sejas incapaz de entender.
32. Porém, aprende o que for necessário saber; deste modo, a tua vida será feliz.
33. Não esqueças de modo algum a saúde do corpo.
34. Mas dá a ele alimentos com moderação, exercício necessário e também repouso à
tua mente.
35. O que quero dizer com a palavra moderação é que os extremos devem ser evitados.
36. Acostuma-te a uma vida decente e pura, sem luxúria.
37. Evita todas as coisas que possam causar inveja.
38. E não cometas exageros. Viva como alguém que sabe o que é honrado e decente.
39. Não ajas movido pela cobiça ou avareza. É excelente usar a justa medida em todas
estas coisas.
40. Faz apenas as coisas que não te possam ferir, e decide antes de as fazer.
41. Ao te deitares, nunca deixe que o sono se aproxime dos teus olhos cansados,
42. Enquanto não revisares com a tua consciência mais elevada todas as tuas ações do
dia.
43. Pergunta: "Em que errei? Em que agi corretamente? Que dever deixei de
cumprir?".
44. Recrimina-te pelos teus erros; alegra-te pelos acertos.
45. Pratica integralmente todas estas recomendações. Medita bem nelas. Deves amá-las
de todo o coração.
46. São elas que te colocarão no caminho da Virtude Divina.
47. Eu o juro por aquele que transmitiu às nossas almas o Quaternário Sagrado.
48. Aquela fonte da natureza cuja evolução é eterna.
49. Nunca começa uma tarefa antes de pedir a bênção e a ajuda dos Deuses.
50. Quando fizeres de tudo isso um hábito,
51. Conhecerás a natureza dos deuses imortais e dos homens,
52. Verás até que ponto vai a diversidade entre os seres, e aquilo que os contém, e os
mantém em unidade.
53. Verás então, de acordo com a Justiça, que a substância do Universo é a mesma em
todas as coisas.
54. Deste modo não desejarás o que não deves desejar; e nada neste mundo será
desconhecido de ti.
55. Perceberás também que os homens lançam sobre si mesmos as suas próprias
desgraças, voluntariamente e por sua livre escolha.
56. Como são infelizes! Não vêem, nem compreendem que o bem deles está ao seu
lado.
57. Poucos sabem como se libertar dos seus sofrimentos.
58. Este é o peso do destino que cega à humanidade.
59. Os seres humanos andam em círculos, para lá e para cá, com sofrimentos
intermináveis.
60. Porque são acompanhados por uma companheira sombria, a desunião fatal entre
eles, que os lança para cima e para baixo sem que percebam.
61. Trata, discretamente, de nunca despertar desarmonia, mas foge dela!
62. Oh! Deus nosso Pai, livra a todos eles de sofrimentos tão grandes.
63. Mostrando a cada um o Espírito que é seu guia.
64. Porém, não deves ter medo, porque os homens pertencem a uma raça divina.
65. E a natureza sagrada tudo revelará e mostrará a eles.
66. Se ela te comunicar os teus segredos, colocarás em prática com facilidade todas as
coisas que te recomendo.
67. E ao curar a tua alma libertá-la-ás de todos estes males e sofrimentos.
68. Mas evita as comidas pouco recomendáveis para a purificação e a libertação da
alma.
69. Avalia bem todas as coisas,
70. Buscando sempre te guiar pela compreensão divina que tudo deveria orientar.
71. Assim, quando abandonares o teu corpo físico e te elevares no éter.
72. Serás imortal e divino, terás a plenitude e não mais morrerás.
Empédocles
Por autores acreditados foi já posta em questão a autoria da “Teoria das quatro
faculdades”, correspondentes aos quatro elementos da matéria, a qual, em vez de ser de
Hipócrates, como em geral se supõe, poderá ser de Empédocles.
Mas, voltando ao nosso tema chave, nada se prestou tanto ao ridículo como a medicina.
Heráclito
Heráclito era também médico, e afirmava que “ninguém é mais louco que os gramáticos,
a não ser os médicos”.
Demócrito
Demócrito foi um grande químico, a quem se deve a autoria de teorias sobre
transmutação de metais, e sobre a composição atômica da matéria. Ele criticou – em
sintonia com os empíricos – as teorias médicas oficiais daquele tempo, declarando que
“não se devia aceitar como regra de conduta mais do que o resultado dos fatos
observados”.
Heródicus
Heródicus foi o inventor da ginástica médica, como meio de conservar e devolver a saúde.
Hicus
Hicus era médico e atleta. Permaneceu solteiro, para conservarem as suas forças e
ganhar os prêmios nos torneios. A sua sobriedade era tão proverbial que se
recomendavam aos barrigudos daquele tempo os Menus de Hicus.
Eracístrates
Eracístrates dizia: “para curar os órgãos é necessário conhecê-los” e fundou a anatomia
patológica.
Hierófiles
Hierófiles criou muitos termos de anatomia, os quais, como bem disse Raspail, “poucos
frutos deram à medicina, já que a necroscopia de então, como hoje, só conseguiu
surpreender pelos efeitos, ficando sempre fora do seu alcance a causa real da
enfermidade, a qual continuaram considerando emanadas da fleuma, da bílis, do frio, do
quente, do seco e do úmido”.
Eracístrates e Hierófiles separaram a cirurgia da medicina (isto, dois séculos antes de
Cristo!) e introduziram a farmácia como novo ramo de comércio na arte de curar. A
medicina propriamente dita, de fato, chamava-se dietética; – o que mostra o valor que se
dava, todavia ao regime.
Pródicus
Pródicus afastou-se destas teorias, pela convicção de que “a saúde depende do atletismo
e do estímulo da pele, por meio de fricções e bálsamos”.
Catão...
...A que também já nos referimos, escrevia ao seu filho, em viagem à Grécia:
“... Dir-te-ei o que deves trazer de Atenas: a sua literatura é digna de ser conhecida, mas
com cautela, pois quando nos tenha inspirado os seus gostos, terá conseguido
corromper-nos; porque razão a Grécia nos manda os seus médicos? Estes hão jurado
matar todos os bárbaros com as suas receitas – e para isso existe um salário, a fim de
que o enfermo perca mais depressa a fé nos tratamentos! Proíbo-te, pois, os médicos.
Estes entraram em Roma, apesar dos romanos os desprezarem, por ser a medicina uma
arte de escravos...”.
Plínio
Plínio, o grande historiador, dizia:
“... o médico é o único em quem cremos mais nas suas palavras que em seus atos; assim
se crê porque se lhe chama «médico». Sem dúvida, não há arte onde a impostura tenha
mais perigosas conseqüências. Não temos nenhuma lei eficaz para castigar a sua
ignorância, que mata, que se instrui à conta da nossa saúde, que experimenta matando.
Só há no mundo um nome que pode matar impunemente – é o médico!...”.
E acrescentava:
“... nenhuma profissão há envenenado mais pessoas, caçado mais heranças, levado o
adultério até ao palácio dos Césares. Refiro-me às suas avaras exigências, às condições
que impõe até à agonia, às suas prendas, que pedem contra a morte, aos seus remédios
secretos, que tão caro vendem ao enfermo, a essa dessa teriaca (teriaca ou triaca -
famoso medicamento antigo, que chegou a incorporar setenta componentes, e se
prescrevia como antídoto de envenenamentos), composta para o luxo – esse antídoto de
Mitrídates, composto de cinqüenta e quatro drogas, onde cada uma entra em proporção
diferente. É para vender mais caro que fazem tanta ostentação de uma ciência
prodigiosa, da qual ignoram, com freqüência, os rudimentos mais básicos. Foi por isso
que Catão repudiou essa ciência insidiosa, na qual o médico honrado encobre os
charlatões, tratando, pela sua determinação, combater as alucinações dos espíritos dos
enfermos, que pensam que uma droga é tão mais saudável quanto mais cara custa...”.
Na sua “História Natural” - volume 24 – escreveu:
“... a natureza não criou mais do que remédios vulgares, baratos e fáceis de obter,
geralmente entre os nossos próprios alimentos; foram as fraudes e o charlatanismo quem
inventou essas «oficinas» onde se promete ao enfermo devolver-lhe a vida a preço de
ouro; é aí que se recomendam misturas misteriosas vindas da Arábia e da Índia, como se
só o mar vermelho pudesse produzir remédios para o mais insignificante abscessos,
enquanto os pobres encontram o seu remédio na sua própria alimentação...”.
E mais:
“... a medicina tornar-se-ia a mais vil das artes se fosse tomada, no próprio jardim, a erva
ou alimento que servisse de específico; a verdade é que a grandeza romana perdeu a
sua severidade; os vencedores foram domados pelos vencidos; o romano obedece aos
bárbaros, e há uma arte que exerce o seu império sobre os próprios imperadores...”.
É evidente que, entre os próprios médicos, houve os que reagiram contra os vícios da
medicina.
Asclepíades, o romano, cem anos antes de Cristo, reclamava contra os purgantes e os
vomitivos, recomendando apenas remédios simples, suaves e naturais. Preconizava
passeios a pé ou em carroça, fricções e vinho de uva, banhos frios contra a enterite, água
salgada contra a icterícia, etc.
Metódicos
A seita dos metódicos afirmava:
“... Os remédios simples são melhores do que os remédios em voga. Se a medicina fosse
exercida por homens rústicos e menos eruditos que nós, formados na escola da natureza,
mais do que na filosofia, as nossas enfermidades seriam menos graves, os nossos
remédios mais simples e fáceis, mas nós saímos desta via natural, pondo todo o nosso
orgulho numa certa eloqüência e uma grande facilidade para dissertar e escrever...”.
(Teodóricus Pristiamos)
Ressurge o Naturismo
Como conseqüência dos fracassos da medicina, e da desconfiança do povo, o naturismo
começou a entrar em voga.
Surgiu a seita dos Ecléticos, que pretendiam retirar o bom do dogmatismo como do
empirismo, sendo o Ecletismo a tendência filosófica formada de princípios ou teses
colhidos em diversos sistemas, com o fim de sintetizar o que de melhor cada um pode
oferecer.
Isto permite formar métodos, pela conciliação de partes originárias de diversas escolas,
desprezando-se tudo o que não for conciliável com o novo “sistema” assim criado, e
acrescentando-se infinitamente a ele tudo o que satisfaça os princípios da coerência
estabelecidos.
A história repete-se, e nem sequer faltaram então os espiritualistas que, com Gricípe,
tentavam unir o positivismo de Hipócrates ao espiritualismo de Platão.
Celso
Aulo Cornélio Celso (século I) viveu no tempo de Augusto e foi autor do célebre livro De
Arte Médica ou De Re Médica, possivelmente tradução de textos gregos. Foi seguidor das
teorias de Hipócrates e foi cognominado o Cícero da Medicina, devido à qualidade e
pureza do seu estilo. Classificou as doenças que podem ser tratadas por dietas e regimes
e aquelas que requerem tratamento cirúrgico ou farmacológico. Ele foi sem dúvida o mais
sério dos médicos escritores de Roma. Entre as suas célebres afirmações, dizia:
“... o bom médico não deve abandonar o seu enfermo, mas isso não o podem fazer os
que exercem sem outra razão do que a de ganhar dinheiro...”.
Em sintonia com Hipócrates, afirmava:
“... a melhor medicina é a alimentação dada oportunamente...”.
Apesar do desprezo dos romanos e das acusações que lhes faziam – de matar, mais do
que curar – os médicos multiplicaram-se e fizeram-se ricos e poderosos. Isto foi então,
como o é hoje, uma lógica conseqüência da ignorância geral da arte de bem viver – a
única que evitaria a enfermidade e faria inútil o médico.
Recordamos a este respeito o diálogo de um príncipe do oriente com um célebre médico
árabe que se instalou no seu país, e que ficou muito surpreendido por os médicos serem
raros. Perguntando-lhe o sábio como vivia o seu povo, o príncipe respondeu:
“... levam uma vida muito modesta, dedicando-se quase todos às tarefas mais simples e
rudes do cultivo da terra; comem o que eles próprios produzem, e só quando têm fome...”.
“... Não têm, por outro lado, vícios...” - completou o príncipe.
“Neste caso” – disse o médico: – “não me necessitam, e
nada tenho a fazer aqui”.
Galeno
No ano 170, Galeno de Pérgamo pretendeu reabilitar Hipócrates, mas à luz das suas
próprias convicções. Mais instruído que este em anatomia e fisiologia, retirou ao
hipocratismo o seu significado naturista. Galeno foi o verdadeiro «pai» da medicina
alopática farmacológica.
O famoso lema contrarie, contrarie curantur, se fosse apreciado de acordo com o critério
naturista hipocrático, poderia traduzir-se no seguinte conselho:
“Se queres curar-te, faz o contrário do que existe para adoeceres”.
Este conselho referir-se-ia então à conduta, onde reside indiscutivelmente a causa
principal do mal. Mas o galenismo, pelo contrário, traduz o célebre aforismo, com o lema:
“Para curar, apliquemos o remédio que produz efeitos contrários à enfermidade”.
Vitalismo
O vitalismo é a teoria que atribui uma propriedade específica aos fenômenos da vida,
distinguindo-os radicalmente dos fenômenos físicos e químicos.
O vitalismo postula igualmente a existência de uma força vital imanente aos seres vivos, e
irredutível às propriedades da matéria inorgânica.
Sob o ponto de vista epistemológico, o vitalismo recusa-se a explicar os processos
biológicos e psicológicos pelos conceitos e leis da física ou da química; a
autodeterminação dos organismos não seria de natureza causal, devendo antes ser
atribuída a um princípio teleológico supramaterial.
A origem filosófica do vitalismo reside no hilozoísmo e no finalismo da Antiguidade. Em
seguida, a tese vitalista liga-se com a medicina do Renascimento que, sob a influência
dos alquimistas e dos astrólogos, tendia a associar os princípios da harmonia biológica
aos princípios de uma harmonia cosmológica, sendo a síntese entre a matéria e o
pensamento assegurado por um princípio vital de natureza metafísica.
Leibniz atribuía uma atividade “... dinâmica, agente e contínua...” à matéria; Novalis e
Schelling (Séc. XIX) sustinham que “... a natureza é governada por um princípio vital
acessível apenas à intuição, estética ou mística...”. A evolução destas teses conduz à
concepção dinamista, em resoluta oposição ao mecanicismo de Descartes.
A ideologia materialista encostou-se ao mecanicismo e fez esquecer o vitalismo. Mas os
atuais conceitos de “consciência celular”, não são mecanicistas, e sim vitalistas.
O vitalismo, como princípio, foi conservado por muito tempo, até à antiga escola de
medicina de Montpellier, mas como conseqüência lógica do lema alopático acabou
também por ser desvalorizado.
A maior desgraça do homem é o seu espírito gregário. O homem corrente teme todas as
coisas, até mesmo o uso do seu cérebro, para pensar livremente, e prefere seguir os que
pensam por ele. É este o perigo da Ciência! Quem não pensa não pode compreender e
só está capacitado para crer, mas não para criar. Só o pensamento cria e como a vida é
uma contínua recriação, só realmente vivem e se auto–realizam os pensadores e os
empreendedores. Nesta condição explica-se o deslumbramento e a admiração dos povos
pelos seus heróis, admiração que predispõe às multidões a aceitar, sem as discutir,
teorias, leis e costumes que as escravizam, as embrutecem e as anulam. A fama e a
moda são conseqüência desta falta de individualidade na maioria das pessoas. Por isso é
que as teorias, aceites como dogmas num momento, decaem para voltar mais tarde, tal
como as modas. Isto não quer dizer que os homens famosos não tenham muitas coisas
boas, mas sim que o espírito humano deve estar sempre alerta e livre, para poder
discernir, aceitando ou rechaçando, de forma a não ser nunca um seguidor cego de
teorias nem de homens.
Rases e Avicena
A fama de Galeno passou de Roma à Arábia, onde se traduziram as suas obras. Rases e
Avicena, os mais célebres médicos árabes, inspiraram-se nas teorias hipocráticas, de
acordo com a interpretação galénica, e os professores das faculdades do ocidente
adotaram durante séculos a medicina árabe.
Rases (ou Rhazes)
Al-Razi (Abu Bakr Muhammed ibn Zakariya al-Razi; 864-930) nasceu em Rages, Pérsia, e
notabilizou-se como médico, alquimista e filósofo, sendo um dos melhores da sua época.
Utilizava uma grande quantidade de aparelhos e equipamentos alquímicos, e ensaiou a
aplicação da arte hermética na medicina. O seu trabalho mais importante é o Sirr al-Asrar
ou Kitab al-Asrar. AL Razi ficou conhecido na Europa como Rhazes, o que resultou da
latinização do seu nome.
Avicena
Avicena (Abu Ali al-Husayn ibn Abd Allah ibn Sina. (980-1037) foi médico, filósofo,
alquimista, astrólogo, mestre e cortesão. Viveu muito tempo na Pérsia, onde praticou a
alquimia e a astrologia, devendo-se a ele os primeiros e melhores tratados sobre alquimia
conhecidos na Europa em traduções latinas.
Obras: Qanum fit-Tibb (Cânone da Medicina); An-Najat (A Salvação); Kitab al’isarat wat-
tanbihat (Livro dos Teoremas e dos Avisos); Mantiq almasriquyin (Lógica) e os Risalas,
opúsculos sobre o Corão, a magia, os sonhos e os talismãs. As traduções latinas de
suas obras alquímicas compreendem Anima in Arte Alchimia; Tractatus Alchimiae e
Avicennae de Congelatione et Conglutionatione Lapidum (esta editada em inglês com
notas e crítica de E. J. Holmyard e D. C. Mandeville (P. Gauthner, Paris, 1927). M. Cruz
Hernandez seleccionou, comentou e transpôs para o espanhol textos deste filósofo em
Sobre Metafísica (1950).
Avicena foi um dos sábios mais notáveis do Oriente; deve-se a ele a classificação das
ciências, usada posteriormente nas escolas medievais européias e seu Qanum fit-Tibb
adquiriu celebridade sendo diversas vezes traduzido para o latim. Como continuador da
tradição aristotélica de seu mestre Alfarabi, na sua doutrina filosófica encontram-se muitos
elementos neo-platónicos.
Organicismo e Opoterapia
Durante toda a Idade Média a medicina alastrou-se por toda a Europa em condições
inconcebíveis. Ainda que, pelo menos em teoria, sempre tenha havido um certo ecletismo,
o que na prática triunfava era o organicismo.
Messier
Messier – o antigo –, chamado o evangelista dos médicos, na sua obra Colecta Arti
Medici recomendava, entre outros medicamentos, os tão delicados como testículos de
raposa ou de carneiro de padreação, secos e misturados com mel e gema de ovo, como
afrodisíacos; aos anêmicos recomendava sangue e pó de carne; miolos e medula contra e
epilepsia.
Avicena recomendava mamilos de ovelha e de cabra como galactógenos (o m. q.
galactogogo – agente que aumenta a secreção de leite).
Alberto Magno
Alberto Magno – célebre monge dominicano que pertenceu à escola de medicina de Paris,
em 1250 – recomendava testículos de porco aos homens “humilhados”, e para que a
mulher pudesse conceber, dava-lhe útero de lebre. Esses sábios tornaram-se precursores
de Brown-Séquard.
Brown-Séquard
Charles Édouard Brown-Séquard (1817-94) foi o médico e fisiologista francês que
investigou acerca do prolongamento da vida recorrendo a extratos glandulares.
As obras de grandes médicos e farmacêuticos da Idade Média são uma sucessão de
relatos imundos e extravagantes – todos os bichos conhecidos, seus tecidos, secreções e
dejeções dissecadas, reduzidas a pó ou em pílulas e bebidos encheram as boticas
durante esses tenebrosos séculos.
Juan de Rénue
Juan de Rénue, médico de Henrique IV, na sua obra “Animais e suas Partes, que o
farmacêutico deve ter na sua Botica”, dá-nos uma «saborosa» descrição a este respeito.
Depois de descrever as virtudes de toda a classe de insetos, cantáridas, cochinilhas,
vermículos, lagartos, formigas, víboras, escorpiões, rãs, caranguejos e sanguessugas,
atribui também aos órgãos genitais, ao coração, pulmões, rins e bexiga, dos animais e do
homem, grandes poderes curativos. A gordura do homem e dos mamíferos, o sangue de
cada animal, cada classe de leite, os chifres, as unhas, as conchas das ostras e até as
pérolas do seu interior, reduzidas a pó, tinham cada um as suas virtudes para
determinados males. Diz Rénue: “... apresentam virtudes especiais, e não será demais
que o farmacêutico os tenha na sua botica, particularmente os de cabra, de cão,
cegonha, pavão real, pombo, gato de angorá e os pelos de vários animais...”.
A grande maioria dos grandes farmacêuticos e médicos do século XVIII; fizeram
receituários da mesma natureza. Entre outras drogas famosas, recordamos o álbum
graecum (designado popularmente por “alva de cão”), que não era mais que excremento
de cão (seco), ao qual atribuía a virtude de secar as verrugas, fazer desaparecer os
tumores, acalmar a desinteria, resolver os edemas e dar excelentes resultados na
tuberculose, pelo oxalato de cal que contém.
Ambroise Paré
Ambroise Paré era francês e foi um dos mais famosos cirurgiões da Europa da sua época.
O seu sucesso como cirurgião militar granjeou-lhe o posto de cirurgião real de Henrique II,
e dos seus sucessores: Francisco II, Carlos IX, e Henrique III.
O próprio Ambroise Paré (1510-90) tinha fé nessa classe de remédios, como o demonstra
a sua descrição de um bálsamo chamado Óleo de cachorrinhos, composto com óleo de
lírios e cãozinhos recém nascidos, que se faziam ferver juntos, juntando-se-lhe lombrigas
preparadas com terebintina de Veneza. Este bálsamo era excelente – dizia – contra
feridas de arma de fogo. Não pretendemos entrar em detalhes, até porque são demasiado
repugnantes, mas remetemos os interessados nesta pesquisa para o tema “opoterapia”.
Opoterapia
Trata-se de um método terapêutico com alguns pontos em comum a organoterapia. Utiliza
os sucos e extratos de diferentes órgãos, assim como das suas mais diversas
substâncias, incluindo a própria estrutura do órgão – mais recentemente glândulas
endócrinas liofilizadas.
Na atualidade, o que já era mau passou a pior: utilizam-se hormonas sintéticas, que têm a
agravante de uma maior toxicidade, pela presença dos princípios degenerativos inerentes
aos produtos que pretendem “enganar a natureza”, isto é, tudo o que é sintético.
Sem dúvida, houve também médicos que conservaram fielmente os grandes princípios
hipocráticos, mais ou menos como uma tradição, e deles nos ocuparemos mais tarde.
Revolução Médica
Paracelso
Theophrastus Bombast Von Hohenheim (1493-1541). Philippus, Aureolus e Paracelso.
Fonte: http://pwp.netcabo.pt/naturosofia/

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  • 1. Introdução à História da Naturopatia Índice • Os Povos Tradicionais • Civilização Romana • Grécia • Vitalismo • Rases e Avicena • Organicismo e Opoterapia • Revolução Médica • Lezaeta • Doutrina Térmica da Saúde • O Índice que teria um Possível Curso Os Povos Tradicionais Os Mais Tradicionais... Melhor do que nós, os povos primitivos – tradicionais, como agora os designamos – sabiam o que era necessário para os cuidados com a sua saúde. É certo que o conceito de enfermidade se revestia de aspectos mágicos, encerrando mistérios que se interligavam às suas convicções e à sua percepção do mundo, onde quase tudo era mais espiritual do que físico. Por isso, as funções de médico só deviam ser desempenhadas por alguém com conhecimentos do mundo espiritual: o Xamã. Como facilmente podemos compreender, não se adoecia por excessos alimentares, nem por consumo de substâncias refinadas, transformadas, aditivadas, cozinhadas em micro– ondas, ou em recipientes de teflon... Por isso, procuravam as causas da enfermidade em coisas mais “simples”, como o desrespeito a uma regra da sociedade, um “bruxedo” ou “mau olhado”, a “possessão” por uma entidade espiritual, a “perda da alma” por um susto, etc. No mecanismo da cura, desencadeado pelo Xamã através de rituais apropriados, entrava em funcionamento a capacidade sugestiva ou força psíquica do enfermo, pela mobilização de poderosas idéias que faziam parte do inconsciente coletivo da comunidade.
  • 2. As substâncias medicamentosas coadjuvantes da cura atuavam não apenas pela sua composição, mas, e principalmente, pelo “prestígio espiritual” do administrante, a quem se acreditava dominar forças e poderes ocultos. E mesmo assim, a utilização destas substâncias era precedida e acompanhada de rituais apropriados, assim como também a sua colheita e preparação. O fato de o enfermo acreditar que poderia estar doente por ter transgredido uma regra social, dota o Xamã de meios eficazes de cura, ainda que extremamente simples. Passam estes meios pela Confissão, que liberta o doente de toda a angústia, inerente ao mortificante sentimento de culpa (e também deste próprio sentimento), e pela Purificação (água, jejum, dieta rigorosa, vômitos e purgas), que não são outra coisa do que a utilização de alguns dos meios naturais de cura. Os incas, por exemplo, dedicavam um dia, todos os anos, para se purificarem nos rios. Este ritual incluía a confissão, à qual não faltava o próprio imperador. Os atuais povos tradicionais ameríndios purificam-se pelo vapor da água, tanto em rituais de iniciação, como em rituais de cura, e os hindus ainda efetuam ritos de purificação nas águas do Ganges. Longe do primitivismo e superstição com que as “mentes rápidas” classificam as práticas antigas, são exatamente os conhecimentos antigos que provam o estado de atraso da ciência moderna. Limitando-nos apenas aos aspectos médicos, e sem nos alargarmos muito, foram os hindus que descobriram, cerca de 2000 anos antes dos europeus: - a presença de açúcar na urina dos diabéticos; - a relação entre o paludismo e os mosquitos; - os sinais clínicos externos das fraturas. Guaiaquis, Guaranis, Polinésios, Iberos... No alto do Paraná (Brasil), a sudoeste do Paraguai, os Guaiaquis são provavelmente um dos povos que conserva costumes mais primitivos: em vez de edificarem casas, resguardam-se em simples abrigos constituídos por humo prensado e seco, o qual untam com cera, para deter a água; não cobrem o corpo; as suas armas de caça são arcos e flechas de madeira, cujas pontas são constituídas por lascas de pedra. No entanto, com exceção da morte natural (por velhice), a única causa de morte que se lhes conhece resulta da mordedura de víboras.
  • 3. Na obra “Medicina Geral”, da autoria do Dr. Moisés Santiago Bertoli, existem importantes referências acerca do modo de vida de um outro povo, os Guaranis, que, pelas suas palavras: “... possuem conhecimentos higiênicos e médicos praticamente tão adiantados como os nossos e comem apenas quando sentem fome, lentamente e em silêncio. A sua alimentação, em grande parte crua, compõe-se de fruta, mel, mandioca e milho, raramente comendo carne. Praticam o jejum com uma certa freqüência, como meio de fortalecer o caráter e adquirir domínio sobre o seu corpo. Com o mesmo objetivo e para se conservarem fortes e ágeis, praticam constantemente jogos e lutas, sempre com o corpo nu, molhando-se de vez em quando...”. Antes das últimas guerras mundiais, os polinésios mantinham as suas tradições e viviam em condições parecidas às dos povos referidos. Era gente sã; equilibrada e pacífica; antes do contacto com a nossa civilização; a influência do contacto com o nosso modo de vida, e as conseqüentes transformações que neles operou, tornou necessários os hospícios que agora lá existem. É verdade que prevalecem ainda tribos, em diferentes locais do mundo, onde as condições de higiene e de alimentação não são exemplo para ninguém, incluindo-se nela a carne humana. Mas esta crueldade e estupidez não nos parecem representativas de formas tradicionais de vida, sendo o mais certo que constituam as últimas heranças, cada vez mais degeneradas, de antigas e decadentes civilizações sanguinárias. Pesquisadores mais antigos, como Cervantes, revelam-nos que os antigos iberos viviam de um modo semelhante aos polinésios. Quando, em nome da Ciência, são tecidas críticas aos processos tradicionais de curar, como os utilizados pelos “homens da medicina” índios, que a medicina moderna considera supersticiosos, seria bom que os tão pretensiosos “sábios civilizados” se dessem conta de que entre nós o que não falta são superstições, tendo em atenção a pouca racionalidade – a avaliar pelos efeitos – de muitos processos científicos modernos, que são evidentemente muito mais perigosos. Quando se fala de progressos da ciência, tem-se quase sempre em conta um período relativamente curto e parcial. O mais antigo que se conhece, pelos escritos de Heródoto
  • 4. [1] e de Plínio, refere-se quase exclusivamente à história do Egito e da Grécia. Possuem-se algumas informações da ciência hindu, chinesa e caldeia, mas os pontos de comparação estabelecem-se geralmente com relação à história européia, desde a invasão dos bárbaros. Na realidade, todas as civilizações passam por processos parecidos de vida simples, primitiva, natural e sã. Mais tarde, “prosperam” e aglomera-se em povoados e cidades, o que equivale a viver em espaços mais fechados e limitados, e logo, promiscuidade, sedentarismo, ódios, vícios, exploração, miséria, degeneração, revoluções e guerras. Como natural reação a estes males, quando a civilização não perece, produz-se um renascimento ou uma decadência inevitável e mais ou menos definitiva. Civilização Romana O caso da civilização romana é típico: os primeiros romanos eram agricultores pobres, levando uma vida rude, mas sã; a sua alimentação, à base de cereais e hortaliças, e a sua vida simples, garantiu-lhes um triunfo fácil, fazendo-os donos de quase todo o mundo então conhecido. Mas isto os levou a deixar aos escravos os trabalhos sãos; transformaram-se em soldados de ocupação, em funcionários e em comerciantes dos países ocupados. A vida mais regalada da comunidade e a abundância debilitou pouco a pouco a virilidade da raça; iniciou-se a decadência e veio a destruição da sua civilização. Os romanos chegaram a extremos inconcebíveis: as orgias sucediam-se sem parar; instalaram nas casas um compartimento especial – o vomitório – onde os convidados dos banquetes podiam ir despejar os seus estômagos repletos das iguarias mais raras e complicadas, para poder enchê-lo outra vez. Como conseqüência, a grosseria e a crueldade das diversões, culminou nos espetáculos sangrentos e repugnantes do circo e nos estúpidos e bárbaros excessos dos tiranos: Calígula, Nero, Vitélio, etc. Quanto mais decadente a Sociedade, mais prospera a Medicina:
  • 5. A medicina floresceu sempre nas civilizações decadentes. Isto é lógico, porquanto, mais do que da saúde, o médico vive da enfermidade. Assim, a decadente civilização grega providenciou médicos à Roma. Catão – o “Censor” Durante muito tempo foi este o mais desprezado dos ofícios e Catão – o Censor – numa reação contra o princípio da decadência romana, expulsou os advogados e os médicos. São originais as razões que deu: “... enquanto não houve advogados, as pessoas esforçavam-se por remediar amigavelmente os seus pleitos, e estes nunca chegaram a ser tão graves e numerosos como desde que entregaram aos advogados os cuidados dos seus assuntos”. “Assim, também enquanto não houve médicos; as pessoas cuidavam mais da sua saúde; quando as pessoas crêem que o médico pode salvá-las de sofrer a natural conseqüência dos seus excessos, esquecem-se da prática da virtude e multiplicam-se as enfermidades e os médicos, os quais, além disso, se tornam ricos e poderosos...”. Expulsou os primeiros por os considerar “inimigos dos bons costumes e da harmonia entre vizinhos”; no caso dos segundos, por os considerar “inimigos da saúde”. Cláudio Musa e as “Operações Sangrentas” Durante quatro séculos Roma esteve sem médicos; a medicina era exercida por escravos. O mais célebre foi Cláudio Musa, a quem erigiram uma estátua por ter salvado a vida a César Augusto, curando-o por meio de uns banhos, de uma enfermidade que padecia. Mais tarde, foi linchado pelo próprio povo romano quando lhe ocorreu realizar operações sangrentas. Grécia Hipócrates O médico mais célebre da antiguidade foi Hipócrates, a quem se atribui à honra de ser “O Pai da Medicina”. Hipócrates (460 - 375 a.C.) nasceu na ilha de Cós. Era de uma antiga
  • 6. família de médicos – os Asclepíades, – e pretendia descender de Esculápio – o Deus grego da medicina. Alguns dos famosos Aforismos de Hipócrates: “... Certos médicos antigos não ignoravam as diversas categorias de enfermidades e a multiplicidade das suas divisões, mas observamos que se perderam quando pretenderam fazer uma classificação muito detalhada. Com efeito, o que é importante não é tanto lhes dar um nome e separar cada enfermidade, por pouco que difira das demais, mas representá-las como continuando sendo essencialmente as mesmas, ainda que levem um nome diferente...”; “... A natureza das enfermidades é a mesma; apresentam-se com tanta diversidade é apenas pela causa da diversidade das partes em que o mal se manifesta. Com efeito, a sua essência é uma e a causa que as produz é igualmente uma...”; “... Mas em que consiste esta causa única? - Quando se produz uma alteração nos nossos humores, aumenta o calor do corpo, ocorrem em certas partes depósitos destes humores, excita-se à sensibilidade às dores e produzem-se grandes calores. O «fogo», aceso em todo o corpo, produz a febre...”; “... Quando os humores viciados são abundantes, e arrastam e põem em estado enfermiço tudo o que estava são, toda a substância do corpo se encontra atacada e desorganizada; quando um humor se corrompe, e se estende a outra parte, leva até lá a enfermidade, a menos que seja purgado dela...”; ”... As enfermidades são crises de purificação humoral, de limpeza orgânica e de eliminação tóxica. Todas as enfermidades se curam por alguma evacuação, quer pela boca, pelo ânus, pela bexiga ou por um outro emunctório. O órgão do suor (a pele) é um dos principais e comum a todos os males...”. “... Os sintomas são defesas naturais. Quantas vezes aparecem sintomas que parecem enfermidades e não são mais que remédios das mesmas...”;
  • 7. “... Há duas classes de febres: uma ataca a maior parte dos homens ao mesmo tempo – são as epidemias. Quando o ar se encontra infestado de miasmas, que são inimigos da natureza humana, uns homens caem enfermos, enquanto outros atacam os que cometem erros no regime e na maneira de viver...”; “... O mau regime consiste em que se dê ao corpo mais alimento do que pode suportar, seja sólido ou líquido, sem fazer um exercício que opere a combustão proporcionada pela excessiva abundância de comida, ou bem porque se usam manjares muito variados e diferentes na mesma refeição, que produzem a guerra no corpo por estar um digerido enquanto outro não o é ainda...”; “... Que o teu alimento seja a tua única medicina; que a tua única medicina seja o teu alimento!...”; “... Há na economia um só fim, um só esforço, no qual participa todo o corpo. É uma simpatia universal: tudo é subordinado a todo o corpo; tudo o é também a cada parte. É a Natura Medicatrix, que protege, imuniza e cura...”; “... No interior do corpo existe um agente desconhecido que trabalha pelo todo e pelas partes. É ao mesmo tempo uno e múltiplo. É a natureza a que cura as enfermidades e encontra as vias necessárias sem necessidade de ser guiada pela nossa inteligência: não se ensina a abrir e a fechar os olhos, a mover a língua e a maioria dos atos essenciais da vida. Sem o socorro de nenhum mestre, a natureza é suficiente em tudo, e para tudo...”. Não devemos endeusar Hipócrates, é um fato, mas também é verdade que descendia dos Asclepíades e que estudou na escola de Cós, considerada a melhor do seu tempo, cujos conhecimentos resumiu. Na prática, Hipócrates empregou um ecletismo terapêutico, por vezes em contradição com os seus aforismos, especialmente com o famoso: “... Que o teu alimento seja a tua única medicina; que a tua única medicina seja o teu alimento...”. Pitágoras
  • 8. Pitágoras (582-500 a.C.) nasceu em Samos. Terá sido ele, com toda a certeza, um dos maiores inspiradores de Hipócrates. Fundou uma escola de iniciação da juventude, baseada em rígidos princípios morais. Entre outras grandes descobertas atribuídas a este grande matemático, encontra-se a tábua de multiplicar. Ainda que nenhum escrito dele se tenha conservado, um discípulo – Lícis – sintetizou os seus ensinamentos nos famosos “Versos Áureos”. Pitágoras não foi propriamente um «médico», mas sim um verdadeiro instrutor naturista, dentro do significado integral que damos a esta palavra. Ele considerava a sabedoria o objeto integral da cultura – o único susceptível de promover a saúde perfeita e a plena expansão da personalidade humana – sobre a qual assentará sempre o verdadeiro progresso das sociedades humanas. Os Versos Áureos de Pitágoras: 1. Honra em primeiro lugar os deuses imortais, como manda a lei. 2. A seguir, reverencia o juramento que fizeste. 3. Depois os heróis ilustres, cheios de bondade e luz. 4. Homenageia, então, os espíritos terrestres e manifesta por eles o devido respeito. 5. Honra em seguida a teus pais, e a todos os membros da tua família. 6. Entre os outros, escolhe como amigo o mais sábio e virtuoso. 7. Aproveita os seus discursos suaves, e aprende com os atos dele que são úteis e virtuosos. 8. Mas não afastes teu amigo por um pequeno erro. 9. Porque o poder é limitado pela necessidade. 10. Leva bem a sério o seguinte: Deves enfrentar e vencer as paixões. 11. Primeiro a gula, depois a preguiça, a luxúria, e a raiva.
  • 9. 12. Não faças junto com outros, nem sozinho, o que te dá vergonha. 13. E, sobretudo, respeita-te a ti mesmo. 14. Pratica a justiça com os teus atos e com as tuas palavras. 15. E estabelece o hábito de nunca agir impensadamente. 16. Mas lembra-te sempre de um fato, o de que a morte virá a todos. 17. E que as coisas boas do mundo são incertas, e assim como podem ser conquistadas, podem ser perdidas. 18. Suporta com paciência e sem murmúrio a tua parte, seja qual for. 19. Dos sofrimentos que o destino, determinado pelos deuses, lança sobre os seres humanos. 20. Mas esforça-te por aliviar a tua dor no que for possível. 21. E lembra-te que o destino não manda muitas desgraças aos bons. 22. O que as pessoas pensam e dizem varia muito; agora é algo bom, em seguida é algo mau. 23. Portanto, não aceites cegamente o que ouves, nem o rejeites de modo precipitado. 24. Mas se forem ditas falsidades, retrocede suavemente e arma-te de paciência. 25. Cumpre fielmente, em todas as ocasiões, o que te digo agora. 26. Não deixes que ninguém, com palavras ou atos, 27. Te leve a fazer ou a dizer o que não é melhor para ti. 28. Pensa e delibera antes de agir, para que não cometas ações tolas. 29. Porque é próprio de um homem miserável agir e falar impensadamente.
  • 10. 30. Mas faz aquilo que não te traga aflições mais tarde, e que não te cause arrependimento. 31. Não faças nada que sejas incapaz de entender. 32. Porém, aprende o que for necessário saber; deste modo, a tua vida será feliz. 33. Não esqueças de modo algum a saúde do corpo. 34. Mas dá a ele alimentos com moderação, exercício necessário e também repouso à tua mente. 35. O que quero dizer com a palavra moderação é que os extremos devem ser evitados. 36. Acostuma-te a uma vida decente e pura, sem luxúria. 37. Evita todas as coisas que possam causar inveja. 38. E não cometas exageros. Viva como alguém que sabe o que é honrado e decente. 39. Não ajas movido pela cobiça ou avareza. É excelente usar a justa medida em todas estas coisas. 40. Faz apenas as coisas que não te possam ferir, e decide antes de as fazer. 41. Ao te deitares, nunca deixe que o sono se aproxime dos teus olhos cansados, 42. Enquanto não revisares com a tua consciência mais elevada todas as tuas ações do dia. 43. Pergunta: "Em que errei? Em que agi corretamente? Que dever deixei de cumprir?". 44. Recrimina-te pelos teus erros; alegra-te pelos acertos. 45. Pratica integralmente todas estas recomendações. Medita bem nelas. Deves amá-las de todo o coração. 46. São elas que te colocarão no caminho da Virtude Divina.
  • 11. 47. Eu o juro por aquele que transmitiu às nossas almas o Quaternário Sagrado. 48. Aquela fonte da natureza cuja evolução é eterna. 49. Nunca começa uma tarefa antes de pedir a bênção e a ajuda dos Deuses. 50. Quando fizeres de tudo isso um hábito, 51. Conhecerás a natureza dos deuses imortais e dos homens, 52. Verás até que ponto vai a diversidade entre os seres, e aquilo que os contém, e os mantém em unidade. 53. Verás então, de acordo com a Justiça, que a substância do Universo é a mesma em todas as coisas. 54. Deste modo não desejarás o que não deves desejar; e nada neste mundo será desconhecido de ti. 55. Perceberás também que os homens lançam sobre si mesmos as suas próprias desgraças, voluntariamente e por sua livre escolha. 56. Como são infelizes! Não vêem, nem compreendem que o bem deles está ao seu lado. 57. Poucos sabem como se libertar dos seus sofrimentos. 58. Este é o peso do destino que cega à humanidade. 59. Os seres humanos andam em círculos, para lá e para cá, com sofrimentos intermináveis. 60. Porque são acompanhados por uma companheira sombria, a desunião fatal entre eles, que os lança para cima e para baixo sem que percebam. 61. Trata, discretamente, de nunca despertar desarmonia, mas foge dela! 62. Oh! Deus nosso Pai, livra a todos eles de sofrimentos tão grandes.
  • 12. 63. Mostrando a cada um o Espírito que é seu guia. 64. Porém, não deves ter medo, porque os homens pertencem a uma raça divina. 65. E a natureza sagrada tudo revelará e mostrará a eles. 66. Se ela te comunicar os teus segredos, colocarás em prática com facilidade todas as coisas que te recomendo. 67. E ao curar a tua alma libertá-la-ás de todos estes males e sofrimentos. 68. Mas evita as comidas pouco recomendáveis para a purificação e a libertação da alma. 69. Avalia bem todas as coisas, 70. Buscando sempre te guiar pela compreensão divina que tudo deveria orientar. 71. Assim, quando abandonares o teu corpo físico e te elevares no éter. 72. Serás imortal e divino, terás a plenitude e não mais morrerás. Empédocles Por autores acreditados foi já posta em questão a autoria da “Teoria das quatro faculdades”, correspondentes aos quatro elementos da matéria, a qual, em vez de ser de Hipócrates, como em geral se supõe, poderá ser de Empédocles. Mas, voltando ao nosso tema chave, nada se prestou tanto ao ridículo como a medicina. Heráclito Heráclito era também médico, e afirmava que “ninguém é mais louco que os gramáticos, a não ser os médicos”. Demócrito Demócrito foi um grande químico, a quem se deve a autoria de teorias sobre transmutação de metais, e sobre a composição atômica da matéria. Ele criticou – em
  • 13. sintonia com os empíricos – as teorias médicas oficiais daquele tempo, declarando que “não se devia aceitar como regra de conduta mais do que o resultado dos fatos observados”. Heródicus Heródicus foi o inventor da ginástica médica, como meio de conservar e devolver a saúde. Hicus Hicus era médico e atleta. Permaneceu solteiro, para conservarem as suas forças e ganhar os prêmios nos torneios. A sua sobriedade era tão proverbial que se recomendavam aos barrigudos daquele tempo os Menus de Hicus. Eracístrates Eracístrates dizia: “para curar os órgãos é necessário conhecê-los” e fundou a anatomia patológica. Hierófiles Hierófiles criou muitos termos de anatomia, os quais, como bem disse Raspail, “poucos frutos deram à medicina, já que a necroscopia de então, como hoje, só conseguiu surpreender pelos efeitos, ficando sempre fora do seu alcance a causa real da enfermidade, a qual continuaram considerando emanadas da fleuma, da bílis, do frio, do quente, do seco e do úmido”. Eracístrates e Hierófiles separaram a cirurgia da medicina (isto, dois séculos antes de Cristo!) e introduziram a farmácia como novo ramo de comércio na arte de curar. A medicina propriamente dita, de fato, chamava-se dietética; – o que mostra o valor que se dava, todavia ao regime. Pródicus Pródicus afastou-se destas teorias, pela convicção de que “a saúde depende do atletismo e do estímulo da pele, por meio de fricções e bálsamos”.
  • 14. Catão... ...A que também já nos referimos, escrevia ao seu filho, em viagem à Grécia: “... Dir-te-ei o que deves trazer de Atenas: a sua literatura é digna de ser conhecida, mas com cautela, pois quando nos tenha inspirado os seus gostos, terá conseguido corromper-nos; porque razão a Grécia nos manda os seus médicos? Estes hão jurado matar todos os bárbaros com as suas receitas – e para isso existe um salário, a fim de que o enfermo perca mais depressa a fé nos tratamentos! Proíbo-te, pois, os médicos. Estes entraram em Roma, apesar dos romanos os desprezarem, por ser a medicina uma arte de escravos...”. Plínio Plínio, o grande historiador, dizia: “... o médico é o único em quem cremos mais nas suas palavras que em seus atos; assim se crê porque se lhe chama «médico». Sem dúvida, não há arte onde a impostura tenha mais perigosas conseqüências. Não temos nenhuma lei eficaz para castigar a sua ignorância, que mata, que se instrui à conta da nossa saúde, que experimenta matando. Só há no mundo um nome que pode matar impunemente – é o médico!...”. E acrescentava: “... nenhuma profissão há envenenado mais pessoas, caçado mais heranças, levado o adultério até ao palácio dos Césares. Refiro-me às suas avaras exigências, às condições que impõe até à agonia, às suas prendas, que pedem contra a morte, aos seus remédios secretos, que tão caro vendem ao enfermo, a essa dessa teriaca (teriaca ou triaca - famoso medicamento antigo, que chegou a incorporar setenta componentes, e se prescrevia como antídoto de envenenamentos), composta para o luxo – esse antídoto de Mitrídates, composto de cinqüenta e quatro drogas, onde cada uma entra em proporção diferente. É para vender mais caro que fazem tanta ostentação de uma ciência prodigiosa, da qual ignoram, com freqüência, os rudimentos mais básicos. Foi por isso que Catão repudiou essa ciência insidiosa, na qual o médico honrado encobre os charlatões, tratando, pela sua determinação, combater as alucinações dos espíritos dos enfermos, que pensam que uma droga é tão mais saudável quanto mais cara custa...”.
  • 15. Na sua “História Natural” - volume 24 – escreveu: “... a natureza não criou mais do que remédios vulgares, baratos e fáceis de obter, geralmente entre os nossos próprios alimentos; foram as fraudes e o charlatanismo quem inventou essas «oficinas» onde se promete ao enfermo devolver-lhe a vida a preço de ouro; é aí que se recomendam misturas misteriosas vindas da Arábia e da Índia, como se só o mar vermelho pudesse produzir remédios para o mais insignificante abscessos, enquanto os pobres encontram o seu remédio na sua própria alimentação...”. E mais: “... a medicina tornar-se-ia a mais vil das artes se fosse tomada, no próprio jardim, a erva ou alimento que servisse de específico; a verdade é que a grandeza romana perdeu a sua severidade; os vencedores foram domados pelos vencidos; o romano obedece aos bárbaros, e há uma arte que exerce o seu império sobre os próprios imperadores...”. É evidente que, entre os próprios médicos, houve os que reagiram contra os vícios da medicina. Asclepíades, o romano, cem anos antes de Cristo, reclamava contra os purgantes e os vomitivos, recomendando apenas remédios simples, suaves e naturais. Preconizava passeios a pé ou em carroça, fricções e vinho de uva, banhos frios contra a enterite, água salgada contra a icterícia, etc. Metódicos A seita dos metódicos afirmava: “... Os remédios simples são melhores do que os remédios em voga. Se a medicina fosse exercida por homens rústicos e menos eruditos que nós, formados na escola da natureza, mais do que na filosofia, as nossas enfermidades seriam menos graves, os nossos remédios mais simples e fáceis, mas nós saímos desta via natural, pondo todo o nosso orgulho numa certa eloqüência e uma grande facilidade para dissertar e escrever...”. (Teodóricus Pristiamos) Ressurge o Naturismo
  • 16. Como conseqüência dos fracassos da medicina, e da desconfiança do povo, o naturismo começou a entrar em voga. Surgiu a seita dos Ecléticos, que pretendiam retirar o bom do dogmatismo como do empirismo, sendo o Ecletismo a tendência filosófica formada de princípios ou teses colhidos em diversos sistemas, com o fim de sintetizar o que de melhor cada um pode oferecer. Isto permite formar métodos, pela conciliação de partes originárias de diversas escolas, desprezando-se tudo o que não for conciliável com o novo “sistema” assim criado, e acrescentando-se infinitamente a ele tudo o que satisfaça os princípios da coerência estabelecidos. A história repete-se, e nem sequer faltaram então os espiritualistas que, com Gricípe, tentavam unir o positivismo de Hipócrates ao espiritualismo de Platão. Celso Aulo Cornélio Celso (século I) viveu no tempo de Augusto e foi autor do célebre livro De Arte Médica ou De Re Médica, possivelmente tradução de textos gregos. Foi seguidor das teorias de Hipócrates e foi cognominado o Cícero da Medicina, devido à qualidade e pureza do seu estilo. Classificou as doenças que podem ser tratadas por dietas e regimes e aquelas que requerem tratamento cirúrgico ou farmacológico. Ele foi sem dúvida o mais sério dos médicos escritores de Roma. Entre as suas célebres afirmações, dizia: “... o bom médico não deve abandonar o seu enfermo, mas isso não o podem fazer os que exercem sem outra razão do que a de ganhar dinheiro...”. Em sintonia com Hipócrates, afirmava: “... a melhor medicina é a alimentação dada oportunamente...”. Apesar do desprezo dos romanos e das acusações que lhes faziam – de matar, mais do que curar – os médicos multiplicaram-se e fizeram-se ricos e poderosos. Isto foi então, como o é hoje, uma lógica conseqüência da ignorância geral da arte de bem viver – a única que evitaria a enfermidade e faria inútil o médico.
  • 17. Recordamos a este respeito o diálogo de um príncipe do oriente com um célebre médico árabe que se instalou no seu país, e que ficou muito surpreendido por os médicos serem raros. Perguntando-lhe o sábio como vivia o seu povo, o príncipe respondeu: “... levam uma vida muito modesta, dedicando-se quase todos às tarefas mais simples e rudes do cultivo da terra; comem o que eles próprios produzem, e só quando têm fome...”. “... Não têm, por outro lado, vícios...” - completou o príncipe. “Neste caso” – disse o médico: – “não me necessitam, e nada tenho a fazer aqui”. Galeno No ano 170, Galeno de Pérgamo pretendeu reabilitar Hipócrates, mas à luz das suas próprias convicções. Mais instruído que este em anatomia e fisiologia, retirou ao hipocratismo o seu significado naturista. Galeno foi o verdadeiro «pai» da medicina alopática farmacológica. O famoso lema contrarie, contrarie curantur, se fosse apreciado de acordo com o critério naturista hipocrático, poderia traduzir-se no seguinte conselho: “Se queres curar-te, faz o contrário do que existe para adoeceres”. Este conselho referir-se-ia então à conduta, onde reside indiscutivelmente a causa principal do mal. Mas o galenismo, pelo contrário, traduz o célebre aforismo, com o lema: “Para curar, apliquemos o remédio que produz efeitos contrários à enfermidade”. Vitalismo O vitalismo é a teoria que atribui uma propriedade específica aos fenômenos da vida, distinguindo-os radicalmente dos fenômenos físicos e químicos. O vitalismo postula igualmente a existência de uma força vital imanente aos seres vivos, e irredutível às propriedades da matéria inorgânica.
  • 18. Sob o ponto de vista epistemológico, o vitalismo recusa-se a explicar os processos biológicos e psicológicos pelos conceitos e leis da física ou da química; a autodeterminação dos organismos não seria de natureza causal, devendo antes ser atribuída a um princípio teleológico supramaterial. A origem filosófica do vitalismo reside no hilozoísmo e no finalismo da Antiguidade. Em seguida, a tese vitalista liga-se com a medicina do Renascimento que, sob a influência dos alquimistas e dos astrólogos, tendia a associar os princípios da harmonia biológica aos princípios de uma harmonia cosmológica, sendo a síntese entre a matéria e o pensamento assegurado por um princípio vital de natureza metafísica. Leibniz atribuía uma atividade “... dinâmica, agente e contínua...” à matéria; Novalis e Schelling (Séc. XIX) sustinham que “... a natureza é governada por um princípio vital acessível apenas à intuição, estética ou mística...”. A evolução destas teses conduz à concepção dinamista, em resoluta oposição ao mecanicismo de Descartes. A ideologia materialista encostou-se ao mecanicismo e fez esquecer o vitalismo. Mas os atuais conceitos de “consciência celular”, não são mecanicistas, e sim vitalistas. O vitalismo, como princípio, foi conservado por muito tempo, até à antiga escola de medicina de Montpellier, mas como conseqüência lógica do lema alopático acabou também por ser desvalorizado. A maior desgraça do homem é o seu espírito gregário. O homem corrente teme todas as coisas, até mesmo o uso do seu cérebro, para pensar livremente, e prefere seguir os que pensam por ele. É este o perigo da Ciência! Quem não pensa não pode compreender e só está capacitado para crer, mas não para criar. Só o pensamento cria e como a vida é uma contínua recriação, só realmente vivem e se auto–realizam os pensadores e os empreendedores. Nesta condição explica-se o deslumbramento e a admiração dos povos pelos seus heróis, admiração que predispõe às multidões a aceitar, sem as discutir, teorias, leis e costumes que as escravizam, as embrutecem e as anulam. A fama e a moda são conseqüência desta falta de individualidade na maioria das pessoas. Por isso é que as teorias, aceites como dogmas num momento, decaem para voltar mais tarde, tal como as modas. Isto não quer dizer que os homens famosos não tenham muitas coisas boas, mas sim que o espírito humano deve estar sempre alerta e livre, para poder
  • 19. discernir, aceitando ou rechaçando, de forma a não ser nunca um seguidor cego de teorias nem de homens. Rases e Avicena A fama de Galeno passou de Roma à Arábia, onde se traduziram as suas obras. Rases e Avicena, os mais célebres médicos árabes, inspiraram-se nas teorias hipocráticas, de acordo com a interpretação galénica, e os professores das faculdades do ocidente adotaram durante séculos a medicina árabe. Rases (ou Rhazes) Al-Razi (Abu Bakr Muhammed ibn Zakariya al-Razi; 864-930) nasceu em Rages, Pérsia, e notabilizou-se como médico, alquimista e filósofo, sendo um dos melhores da sua época. Utilizava uma grande quantidade de aparelhos e equipamentos alquímicos, e ensaiou a aplicação da arte hermética na medicina. O seu trabalho mais importante é o Sirr al-Asrar ou Kitab al-Asrar. AL Razi ficou conhecido na Europa como Rhazes, o que resultou da latinização do seu nome. Avicena Avicena (Abu Ali al-Husayn ibn Abd Allah ibn Sina. (980-1037) foi médico, filósofo, alquimista, astrólogo, mestre e cortesão. Viveu muito tempo na Pérsia, onde praticou a alquimia e a astrologia, devendo-se a ele os primeiros e melhores tratados sobre alquimia conhecidos na Europa em traduções latinas. Obras: Qanum fit-Tibb (Cânone da Medicina); An-Najat (A Salvação); Kitab al’isarat wat- tanbihat (Livro dos Teoremas e dos Avisos); Mantiq almasriquyin (Lógica) e os Risalas, opúsculos sobre o Corão, a magia, os sonhos e os talismãs. As traduções latinas de suas obras alquímicas compreendem Anima in Arte Alchimia; Tractatus Alchimiae e Avicennae de Congelatione et Conglutionatione Lapidum (esta editada em inglês com notas e crítica de E. J. Holmyard e D. C. Mandeville (P. Gauthner, Paris, 1927). M. Cruz Hernandez seleccionou, comentou e transpôs para o espanhol textos deste filósofo em Sobre Metafísica (1950).
  • 20. Avicena foi um dos sábios mais notáveis do Oriente; deve-se a ele a classificação das ciências, usada posteriormente nas escolas medievais européias e seu Qanum fit-Tibb adquiriu celebridade sendo diversas vezes traduzido para o latim. Como continuador da tradição aristotélica de seu mestre Alfarabi, na sua doutrina filosófica encontram-se muitos elementos neo-platónicos. Organicismo e Opoterapia Durante toda a Idade Média a medicina alastrou-se por toda a Europa em condições inconcebíveis. Ainda que, pelo menos em teoria, sempre tenha havido um certo ecletismo, o que na prática triunfava era o organicismo. Messier Messier – o antigo –, chamado o evangelista dos médicos, na sua obra Colecta Arti Medici recomendava, entre outros medicamentos, os tão delicados como testículos de raposa ou de carneiro de padreação, secos e misturados com mel e gema de ovo, como afrodisíacos; aos anêmicos recomendava sangue e pó de carne; miolos e medula contra e epilepsia. Avicena recomendava mamilos de ovelha e de cabra como galactógenos (o m. q. galactogogo – agente que aumenta a secreção de leite). Alberto Magno Alberto Magno – célebre monge dominicano que pertenceu à escola de medicina de Paris, em 1250 – recomendava testículos de porco aos homens “humilhados”, e para que a mulher pudesse conceber, dava-lhe útero de lebre. Esses sábios tornaram-se precursores de Brown-Séquard. Brown-Séquard Charles Édouard Brown-Séquard (1817-94) foi o médico e fisiologista francês que investigou acerca do prolongamento da vida recorrendo a extratos glandulares.
  • 21. As obras de grandes médicos e farmacêuticos da Idade Média são uma sucessão de relatos imundos e extravagantes – todos os bichos conhecidos, seus tecidos, secreções e dejeções dissecadas, reduzidas a pó ou em pílulas e bebidos encheram as boticas durante esses tenebrosos séculos. Juan de Rénue Juan de Rénue, médico de Henrique IV, na sua obra “Animais e suas Partes, que o farmacêutico deve ter na sua Botica”, dá-nos uma «saborosa» descrição a este respeito. Depois de descrever as virtudes de toda a classe de insetos, cantáridas, cochinilhas, vermículos, lagartos, formigas, víboras, escorpiões, rãs, caranguejos e sanguessugas, atribui também aos órgãos genitais, ao coração, pulmões, rins e bexiga, dos animais e do homem, grandes poderes curativos. A gordura do homem e dos mamíferos, o sangue de cada animal, cada classe de leite, os chifres, as unhas, as conchas das ostras e até as pérolas do seu interior, reduzidas a pó, tinham cada um as suas virtudes para determinados males. Diz Rénue: “... apresentam virtudes especiais, e não será demais que o farmacêutico os tenha na sua botica, particularmente os de cabra, de cão, cegonha, pavão real, pombo, gato de angorá e os pelos de vários animais...”. A grande maioria dos grandes farmacêuticos e médicos do século XVIII; fizeram receituários da mesma natureza. Entre outras drogas famosas, recordamos o álbum graecum (designado popularmente por “alva de cão”), que não era mais que excremento de cão (seco), ao qual atribuía a virtude de secar as verrugas, fazer desaparecer os tumores, acalmar a desinteria, resolver os edemas e dar excelentes resultados na tuberculose, pelo oxalato de cal que contém. Ambroise Paré Ambroise Paré era francês e foi um dos mais famosos cirurgiões da Europa da sua época. O seu sucesso como cirurgião militar granjeou-lhe o posto de cirurgião real de Henrique II, e dos seus sucessores: Francisco II, Carlos IX, e Henrique III. O próprio Ambroise Paré (1510-90) tinha fé nessa classe de remédios, como o demonstra a sua descrição de um bálsamo chamado Óleo de cachorrinhos, composto com óleo de lírios e cãozinhos recém nascidos, que se faziam ferver juntos, juntando-se-lhe lombrigas
  • 22. preparadas com terebintina de Veneza. Este bálsamo era excelente – dizia – contra feridas de arma de fogo. Não pretendemos entrar em detalhes, até porque são demasiado repugnantes, mas remetemos os interessados nesta pesquisa para o tema “opoterapia”. Opoterapia Trata-se de um método terapêutico com alguns pontos em comum a organoterapia. Utiliza os sucos e extratos de diferentes órgãos, assim como das suas mais diversas substâncias, incluindo a própria estrutura do órgão – mais recentemente glândulas endócrinas liofilizadas. Na atualidade, o que já era mau passou a pior: utilizam-se hormonas sintéticas, que têm a agravante de uma maior toxicidade, pela presença dos princípios degenerativos inerentes aos produtos que pretendem “enganar a natureza”, isto é, tudo o que é sintético. Sem dúvida, houve também médicos que conservaram fielmente os grandes princípios hipocráticos, mais ou menos como uma tradição, e deles nos ocuparemos mais tarde. Revolução Médica Paracelso Theophrastus Bombast Von Hohenheim (1493-1541). Philippus, Aureolus e Paracelso. Fonte: http://pwp.netcabo.pt/naturosofia/