Entrevista HUMBERTO PESSOA                                                        EFRAIM   CAETANO       E   JOAZ   NU NES




“Patrocínio não existe”
O cartunista que no início da carreira fazia charges a troco de cerveja diz que
desenhar no Brasil é uma batalha constante contra a falta de apoio




O
     paulista Humberto Pessoa, 40,
     é um dos muitos cartunistas brasi-
     leiros que encara uma tarefa nada
     fácil - sobreviver de desenho no
Brasil. Agora, numa manobra comum no
mundo dos desenhos, ele deixa a charge
e o cartoon de lado e recorre a outros
                                                                                    “O cartunista é um
meios, onde em eventos e exposições                                                     pensador, ele
produz caricatura ao vivo e sob enco-
menda. A mudança de estilo parece agra-                                                analisa, expõe
dá-lo, pois segundo ele desenhar
pessoas desconhecidas e vê-las sorri-                                                 sua opinião, e só
rem de si mesmas é algo que o diverte.
Mas nem tudo é alegria. Para Humberto,
muitos eventos e exposições não ban-
                                                                                      depois desenha                ”
cam sequer o material gasto e, para eles,
cartunistas vivem apenas de divulgação.
“Não é só disso que um cartunista ou
caricaturista vive, pois se o nosso tra-
balho chegou até eles é porque
pagamos para anunciar”.

Como é sobreviver de desenho no
Brasil?
Complicado. Faço eventos de carica-
tura e charges e, sempre procuro levar
humor gráfico à população. Porém
isso demanda gastos com material e
requer tempo. No final, ninguém quer
bancar, pois patrocínio não existe.
Muita das vezes eu tenho de arcar
com todos os gastos, desde a moldura
até o transporte. Recentemente houve
um evento de caricatura só com Rock
In Roll. Conversei com o organizador e
ele queria deixar a exposição o mês
inteiro à vontade. Porém gostaria de
fazer ao menos um dia patrocinado ou
vender caricatura para que pudesse
bancar o custo, mas não foi possível,
pois eles queriam que fosse tudo de
graça. Aí eu pergunto: tem divulgação
do meu trabalho? tem. Mas não é só
disso que um caricaturista ou cartu-
nista vive. pois se o nosso trabalho
                                            EFRAIM CAETANO




chegou até eles é porque pagamos
para anúnciar, e muitos pensam que
vivemos exclusivamente de
divulgação.
                                                             veja/universidade cruzeiro do sul I     03 DE JUNHO, 2011   I   17
Entrevista HUMBERTO PESSOA


E como você obtém ganho com o
                                                      “Conseguir um                        justo, e com isso, sempre procuro
desenho? Felizmente consigo obter um
apoio de um ou de outro, mas não é
                                                 trabalho, por exemplo,                    trazer um nome cada vez mais forte no
                                                                                           mercado.
uma tarefa fácil. Conseguir um traba-
lho, por exemplo, em jornais e revistas
                                                 em jornais e revistas é                   Como é a formação de um cartunista no
                                                                                           Brasil? Os próprios cartunistas que
é difícil, pois os que trabalham nestes
veículos de comunicação não querem                  difícil, pois os que                   possuem estúdios administram aulas.
sair e, furar este bloqueio é extrema-                                                     Conheço dois ou três que são ótimos
mente complicado.                                   trabalham nestes                       professores, mas cartoon e charge é
                                                                                           um negócio para quem gosta de pen-
Em 2005 um desenhista publicou                          veículos de                        sar. Henfil, por exemplo, desenhava
caricaturas ironizando Maomé e passou                                                      uns tracinhos e umas bolinhas, mas
a ser perseguido pelo Islã. Qual o limite           comunicação não                        era algo inteligentíssimo, em que não
que cartunistas devem ter em relação ao                                                    se via o traço e sim a idéia. Em com-
humor em seus desenhos? O cartoon                  querem sair e, furar                    pensação há uns desenhistas que
deste artista não foi ofensivo. Ele fez                                                    fazem um baita de um desenho, mas
uma charge e em momento algum teve                   este bloqueio é                       você olha para o desenho e não en-
a intenção de ofender. Eu, por exem-                                                       tende nada. Então, curso para charge
plo, faço desenhos de gordinhos,                      extremamente                         e cartoon é o dia-a-dia, é você parar,
negros e, brinco com isso tudo, inclu-
sive comigo. Então se formos levar
isso tudo a sério, vamos todos virar
                                                       complicado           ”              pensar e trabalhar uma idéia.

                                                                                           Hoje há mais quantidade ou qualidade?
robozinho.                                                                                 Em caricatura há mais quantidade,
                                                de de expressão. Mas hoje você pode        pois existe muito aventureiro na cate-
De que maneira um desenhista pode lidar         até ofender, pois o governo pouco se       goria. A internet hoje ela é uma vitrine
com temas políticos e sociais sem se            importa. Então é preciso conseguir um      para o mundo, então o cara faz um
tornar parcial? É difícil, pois você tem        jeito de cutucar um pouco mais.            desenhinho ali, coloca na internet e,
de tomar partido. O cartunista é um                                                        fala que é caricaturista e saí venden-
pensador, ele analisa, expõe sua opi-           Como? A molecada nova precisa estar        do o peixe, mas quando alguém o con-
nião e só depois desenha. Pelo menos            mais ligada e para isso é preciso ler      trata para um evento ele não cumpre
os que eu conheço tomam sempre o                mais, acompanhar os noticiários e          prazo, atrasa e queima o filme de quem
partido da população. Se ele vê uma             serem mais críticos. Já que não temos      está a 15, 20 anos na profissão. Char-
falha de um político, ele põe o dedo na         acessos para chegar ao governo e co-       ge e cartoon a turma é mais seleta,
ferida. As críticas da geração do Paulo         brar algo, vamos realizar este trabalho    pois quando publicam um livro ou
Caruzo e do Glauco é maravilhosa,               através do desenho.                        participam de um salão, é pessoas
mas muitos cartunistas, principalmen-                                                      como o Ziraldo que julga seu trabalho.
te a nova geração, não estão sabendo            O espaço concedido pela imprensa é         Assim é muito melhor, pois se você faz
usar essa ferramenta, pois de algum             algo que valoriza o trabalho de quem       um bom serviço as oportunidades
modo estão com medo.                            desenha ou é um passa tempo para quem      aparecem.
                                                vê? Depende. No jornal, por exemplo,
O cartoon muitas das vezes serve como           você tem vários cadernos, mas há           A classe dos cartunistas é organizada?
crítica. Qual a importância dessa crítica       pessoas que curtem somente uma de-         Sim. É uma das poucas categorias que
para a sociedade? O cartoon é uma               terminda editoria e lê apenas aquela.      conheço que é organizada. Tanto é
linguagem universal e a charge é algo           Do mesmo modo é com o cartoon e a          que em feiras ou eventos de grandes
mais localizado e os envolvidos en-             charge no jornal, revista ou internet,     corporações, comunicamos uns com
tendem, às vezes sem uma palavra                pois quem gosta e tem interesse vai        os outros e nivelamos o preço, pois o
sequer ,o que a imagem significa e,             ver, discutir e analisar o que o dese-     que vai se destacar é a qualidade do
isso proporciona ao leitor um argu-             nho quer transmitir.                       traço.
mento crítico, onde ele expõe sua
opinião, concorda ou não com o                  Como você avalia a relação do cartunista   De onde surgem as idéias do seus
assunto abordado.                               com a imprensa? Digo pela minha his-       desenhos? Para mim cartoon e charge
                                                tória. Quando comecei a fazer charges      são Rock In Roll. Se você for ver, o
Como é a vistoria do governo em relação         para jornais de bairro, fazia a troco de   Rock é uma forma de protesto com
ao cartoon? O governo está nem aí               cerveja e, era um negócio mixaria. Hoje    música. Se você pegar um MPB, por
para o cartoon. A constituição garan-           já consigo em uma publicação cobrar        exemplo, é um negócio mais trabalha-
te, desde que não ofensiva, a liberda-          pelo meu trabalho, não o que seria jus-    do e isso é como se fosse um desenho
18   I   03 DE JUNHO, 2011   I veja/universidade cruzeiro do sul
mais arrumadinho. Charge e cartoon é
                                                   “Comprei um                         uma exposição no Shopping D. Eles
o bate pronto, a porrada na cara. Isso         equipamento para                        queriam 50 trabalhos para expor
é o Rock In Roll. Entã, o a meu ver,                                                   durante o mês da copa em 2006, mas
desenho é Rock. Você vive isso, parti-         fazer desenho no                        não havia todo esse material e não
cipa, expõe sua opinião no papel.                                                      tinha tempo hábil para produzir.
                                              computador, mas o                        Felizmente, junto com a agência,
Que tipo de desenho você mais gosta de                                                 conseguimos mais quatro caricaturis-
produzir; Charge, cartoon ou caricatura?    traço sumiu, pois não                      tas e produzimos, mesmo de última
Charge. Pois além de desenhar eu                                                       hora, todo o material. Dos 50 dese-
coloco o que estou pensando e man-           era a pressão que eu                      nhos, 26 eram meus. A entrada princi-
do meu recado. Mas curto muito fazer                                                   pal da exposição ficava o desenho do
caricatura em eventos, pois faço ga-
nhando dinheiro e se divertindo em
                                            coloco no lápis ou na                      Ronaldo, fora de forma, gordinho
                                                                                       mesmo. A mídia foi cobrir e estavam lá
ver pessoas que olham para a sua ca-
ricatura e caem na gargalhada.
                                           caneta e sim, a pressão                     ESPN, RedeTV, Rede Mulher, Tv
                                                                                       Gazeta e outros jornais impressos

Existem hoje vários programas gráficos
                                                do computador.                         como a Folha de São Paulo e o
                                                                                       Estadão. O desenho chegou inclusive
que permitem desenhar direto no
computador. Você faz uso do cumputador
                                                 Não gostei             ”              a Alemanha. Esse foi o grande Boom
                                                                                       da minha carreira.
para desenhar ou prefere o lápis e a
prancheta? O meu computador é só                                                       E como você recebeu o reconhecimento
para ter contato com o mundo, ler, ver                                                 do seu trabalho? Às vezes não cai a
fotos e verificar o e-mail. Eu até com-                                                ficha. As pessoas chegam e falam: vi
prei um equipamento para fazer dese-       cia hoje não mudou, pois o negócio é        seu trabalho, vi você na televisão.
nho no computador, mas o meu traço         fazer as pessoas se divertirem. Casa-       Isso é bacana. É sinal de que estou
sumiu, pois não era a pressão que eu       mento, por exemplo, a mecânica é            trabalhando, não para me aparecer,
coloco no lápis ou na caneta e sim, a      assim: os noivos têm suas respectivas       mas para o meu trabalho aparecer.
pressão do computador. Não gostei.         famílias e amigos e são duas paneli-        Então se viram o meu trabalho, que
Inclusive ele está guardado ali no         nhas no mesmo ambiente. Geralmente          bom, que ótimo, acho muito legal e
canto e se alguém quiser comprar           são turmas que não se conhecem,             quero cada vez mais. Se esse é o
estou vendendo.                            então é aquela confusão, em que os          caminho e está dando certo, vamos em
                                           noivos têm de cumprimentar a todos.         frente.
O público percebe quando é na mão ou       É a hora que eu entro, pois enquanto
no computador? Com o tempo ele per-        os noivos estão lá tirando fotos eu         Pichar é o melhor jeito de se expressar
cebe. O Maurício de Souza, por exem-       estou interagindo com os convidados.        com o desenho? Não. Pichação é
plo, ele faz anos que não desenha. É       Vou em pé, escolho uma turminha e           bandidagem e a pessoa tem de ser
uma equipe que desenha. Aquelas            começo a fazer caricatura. Os que es-       punida. Esse é de longe o melhor
charges que passava no Jornal              tão ao lado querem saber o que está         modo de se expressar.
Nacional do Chico Caruzo, ele jogava       acontecendo, vêm e vê, sabe que é de
apenas a idéia, fazia o primeiro bone-     graça, um desenho e começa a mos-           Seus trabalhos têm sempre algum tipo de
co na mão e, depois sua equipe digita-     trar a caricatura um para o outro. Aí       humor, mas se você tivesse de projetar
lizava e fazia-se a animação. Quem         começa a interação. Esse é o meu            algo para que as pessoas fiquem tristes,
assina é o Chico Caruzo, sua empresa.      principal objetivo em eventos. É em         como seria? Recentemente elaborei um
Então é estranho. É a mesma coisa que      cinco minutinhos fazer a pessoa dar         desenho sobre o fato daquele maluco
você pegar e fazer um Rock no compu-       risada dela mesma com sua caricatura.       que atirou nas crianças no Rio de
tador. Onde está a bateria, a guitarra e                                               Janeiro. Desenhei um quadro negro da
a corda que estava estourando. Prefiro     A arte do cartoon é se divertir? Sim. É o   escola e, no cantinho onde se coloca
o papel e a caneta.                        humor através do papel e da caneta.         o apagador, pintei uma gotinhas de
                                                                                       sangue pingando no chão e formando
Atualmente uma das suas atividades é a     De todos os seus trabalhos existe um        o mapa do Brasil. É um traço cômico,
caricatura ao vivo. Como é este            que mais te marcou? Sim. O do               mas a mensagem é triste. Então
trabalho? A caricatura ao vivo vêm         Ronaldo. Fiz para mostrar aos amigos.       também trabalho com isso. Trabalho
desde a Idade Média. Lá tinha o bobo       Não tinha pretensão nenhuma. Os             com o sentimento e, este é um modo
da corte que fazia caricatura do rei e     amigos gostaram e com a internet o          de se expressar em forma de arte.
de empregados e, o negócio dele era        desenho chegou até uma agência em           Estou triste, mas sou cartunista e esse
fazer a monarquia dar risada. A essên-     São Paulo onde me convidaram para           é o meu recado.
                                                                veja/universidade cruzeiro do sul I        03 DE JUNHO, 2011   I   19

Humberto pessoa

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    Entrevista HUMBERTO PESSOA EFRAIM CAETANO E JOAZ NU NES “Patrocínio não existe” O cartunista que no início da carreira fazia charges a troco de cerveja diz que desenhar no Brasil é uma batalha constante contra a falta de apoio O paulista Humberto Pessoa, 40, é um dos muitos cartunistas brasi- leiros que encara uma tarefa nada fácil - sobreviver de desenho no Brasil. Agora, numa manobra comum no mundo dos desenhos, ele deixa a charge e o cartoon de lado e recorre a outros “O cartunista é um meios, onde em eventos e exposições pensador, ele produz caricatura ao vivo e sob enco- menda. A mudança de estilo parece agra- analisa, expõe dá-lo, pois segundo ele desenhar pessoas desconhecidas e vê-las sorri- sua opinião, e só rem de si mesmas é algo que o diverte. Mas nem tudo é alegria. Para Humberto, muitos eventos e exposições não ban- depois desenha ” cam sequer o material gasto e, para eles, cartunistas vivem apenas de divulgação. “Não é só disso que um cartunista ou caricaturista vive, pois se o nosso tra- balho chegou até eles é porque pagamos para anunciar”. Como é sobreviver de desenho no Brasil? Complicado. Faço eventos de carica- tura e charges e, sempre procuro levar humor gráfico à população. Porém isso demanda gastos com material e requer tempo. No final, ninguém quer bancar, pois patrocínio não existe. Muita das vezes eu tenho de arcar com todos os gastos, desde a moldura até o transporte. Recentemente houve um evento de caricatura só com Rock In Roll. Conversei com o organizador e ele queria deixar a exposição o mês inteiro à vontade. Porém gostaria de fazer ao menos um dia patrocinado ou vender caricatura para que pudesse bancar o custo, mas não foi possível, pois eles queriam que fosse tudo de graça. Aí eu pergunto: tem divulgação do meu trabalho? tem. Mas não é só disso que um caricaturista ou cartu- nista vive. pois se o nosso trabalho EFRAIM CAETANO chegou até eles é porque pagamos para anúnciar, e muitos pensam que vivemos exclusivamente de divulgação. veja/universidade cruzeiro do sul I 03 DE JUNHO, 2011 I 17
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    Entrevista HUMBERTO PESSOA Ecomo você obtém ganho com o “Conseguir um justo, e com isso, sempre procuro desenho? Felizmente consigo obter um apoio de um ou de outro, mas não é trabalho, por exemplo, trazer um nome cada vez mais forte no mercado. uma tarefa fácil. Conseguir um traba- lho, por exemplo, em jornais e revistas em jornais e revistas é Como é a formação de um cartunista no Brasil? Os próprios cartunistas que é difícil, pois os que trabalham nestes veículos de comunicação não querem difícil, pois os que possuem estúdios administram aulas. sair e, furar este bloqueio é extrema- Conheço dois ou três que são ótimos mente complicado. trabalham nestes professores, mas cartoon e charge é um negócio para quem gosta de pen- Em 2005 um desenhista publicou veículos de sar. Henfil, por exemplo, desenhava caricaturas ironizando Maomé e passou uns tracinhos e umas bolinhas, mas a ser perseguido pelo Islã. Qual o limite comunicação não era algo inteligentíssimo, em que não que cartunistas devem ter em relação ao se via o traço e sim a idéia. Em com- humor em seus desenhos? O cartoon querem sair e, furar pensação há uns desenhistas que deste artista não foi ofensivo. Ele fez fazem um baita de um desenho, mas uma charge e em momento algum teve este bloqueio é você olha para o desenho e não en- a intenção de ofender. Eu, por exem- tende nada. Então, curso para charge plo, faço desenhos de gordinhos, extremamente e cartoon é o dia-a-dia, é você parar, negros e, brinco com isso tudo, inclu- sive comigo. Então se formos levar isso tudo a sério, vamos todos virar complicado ” pensar e trabalhar uma idéia. Hoje há mais quantidade ou qualidade? robozinho. Em caricatura há mais quantidade, de de expressão. Mas hoje você pode pois existe muito aventureiro na cate- De que maneira um desenhista pode lidar até ofender, pois o governo pouco se goria. A internet hoje ela é uma vitrine com temas políticos e sociais sem se importa. Então é preciso conseguir um para o mundo, então o cara faz um tornar parcial? É difícil, pois você tem jeito de cutucar um pouco mais. desenhinho ali, coloca na internet e, de tomar partido. O cartunista é um fala que é caricaturista e saí venden- pensador, ele analisa, expõe sua opi- Como? A molecada nova precisa estar do o peixe, mas quando alguém o con- nião e só depois desenha. Pelo menos mais ligada e para isso é preciso ler trata para um evento ele não cumpre os que eu conheço tomam sempre o mais, acompanhar os noticiários e prazo, atrasa e queima o filme de quem partido da população. Se ele vê uma serem mais críticos. Já que não temos está a 15, 20 anos na profissão. Char- falha de um político, ele põe o dedo na acessos para chegar ao governo e co- ge e cartoon a turma é mais seleta, ferida. As críticas da geração do Paulo brar algo, vamos realizar este trabalho pois quando publicam um livro ou Caruzo e do Glauco é maravilhosa, através do desenho. participam de um salão, é pessoas mas muitos cartunistas, principalmen- como o Ziraldo que julga seu trabalho. te a nova geração, não estão sabendo O espaço concedido pela imprensa é Assim é muito melhor, pois se você faz usar essa ferramenta, pois de algum algo que valoriza o trabalho de quem um bom serviço as oportunidades modo estão com medo. desenha ou é um passa tempo para quem aparecem. vê? Depende. No jornal, por exemplo, O cartoon muitas das vezes serve como você tem vários cadernos, mas há A classe dos cartunistas é organizada? crítica. Qual a importância dessa crítica pessoas que curtem somente uma de- Sim. É uma das poucas categorias que para a sociedade? O cartoon é uma terminda editoria e lê apenas aquela. conheço que é organizada. Tanto é linguagem universal e a charge é algo Do mesmo modo é com o cartoon e a que em feiras ou eventos de grandes mais localizado e os envolvidos en- charge no jornal, revista ou internet, corporações, comunicamos uns com tendem, às vezes sem uma palavra pois quem gosta e tem interesse vai os outros e nivelamos o preço, pois o sequer ,o que a imagem significa e, ver, discutir e analisar o que o dese- que vai se destacar é a qualidade do isso proporciona ao leitor um argu- nho quer transmitir. traço. mento crítico, onde ele expõe sua opinião, concorda ou não com o Como você avalia a relação do cartunista De onde surgem as idéias do seus assunto abordado. com a imprensa? Digo pela minha his- desenhos? Para mim cartoon e charge tória. Quando comecei a fazer charges são Rock In Roll. Se você for ver, o Como é a vistoria do governo em relação para jornais de bairro, fazia a troco de Rock é uma forma de protesto com ao cartoon? O governo está nem aí cerveja e, era um negócio mixaria. Hoje música. Se você pegar um MPB, por para o cartoon. A constituição garan- já consigo em uma publicação cobrar exemplo, é um negócio mais trabalha- te, desde que não ofensiva, a liberda- pelo meu trabalho, não o que seria jus- do e isso é como se fosse um desenho 18 I 03 DE JUNHO, 2011 I veja/universidade cruzeiro do sul
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    mais arrumadinho. Chargee cartoon é “Comprei um uma exposição no Shopping D. Eles o bate pronto, a porrada na cara. Isso equipamento para queriam 50 trabalhos para expor é o Rock In Roll. Entã, o a meu ver, durante o mês da copa em 2006, mas desenho é Rock. Você vive isso, parti- fazer desenho no não havia todo esse material e não cipa, expõe sua opinião no papel. tinha tempo hábil para produzir. computador, mas o Felizmente, junto com a agência, Que tipo de desenho você mais gosta de conseguimos mais quatro caricaturis- produzir; Charge, cartoon ou caricatura? traço sumiu, pois não tas e produzimos, mesmo de última Charge. Pois além de desenhar eu hora, todo o material. Dos 50 dese- coloco o que estou pensando e man- era a pressão que eu nhos, 26 eram meus. A entrada princi- do meu recado. Mas curto muito fazer pal da exposição ficava o desenho do caricatura em eventos, pois faço ga- nhando dinheiro e se divertindo em coloco no lápis ou na Ronaldo, fora de forma, gordinho mesmo. A mídia foi cobrir e estavam lá ver pessoas que olham para a sua ca- ricatura e caem na gargalhada. caneta e sim, a pressão ESPN, RedeTV, Rede Mulher, Tv Gazeta e outros jornais impressos Existem hoje vários programas gráficos do computador. como a Folha de São Paulo e o Estadão. O desenho chegou inclusive que permitem desenhar direto no computador. Você faz uso do cumputador Não gostei ” a Alemanha. Esse foi o grande Boom da minha carreira. para desenhar ou prefere o lápis e a prancheta? O meu computador é só E como você recebeu o reconhecimento para ter contato com o mundo, ler, ver do seu trabalho? Às vezes não cai a fotos e verificar o e-mail. Eu até com- ficha. As pessoas chegam e falam: vi prei um equipamento para fazer dese- cia hoje não mudou, pois o negócio é seu trabalho, vi você na televisão. nho no computador, mas o meu traço fazer as pessoas se divertirem. Casa- Isso é bacana. É sinal de que estou sumiu, pois não era a pressão que eu mento, por exemplo, a mecânica é trabalhando, não para me aparecer, coloco no lápis ou na caneta e sim, a assim: os noivos têm suas respectivas mas para o meu trabalho aparecer. pressão do computador. Não gostei. famílias e amigos e são duas paneli- Então se viram o meu trabalho, que Inclusive ele está guardado ali no nhas no mesmo ambiente. Geralmente bom, que ótimo, acho muito legal e canto e se alguém quiser comprar são turmas que não se conhecem, quero cada vez mais. Se esse é o estou vendendo. então é aquela confusão, em que os caminho e está dando certo, vamos em noivos têm de cumprimentar a todos. frente. O público percebe quando é na mão ou É a hora que eu entro, pois enquanto no computador? Com o tempo ele per- os noivos estão lá tirando fotos eu Pichar é o melhor jeito de se expressar cebe. O Maurício de Souza, por exem- estou interagindo com os convidados. com o desenho? Não. Pichação é plo, ele faz anos que não desenha. É Vou em pé, escolho uma turminha e bandidagem e a pessoa tem de ser uma equipe que desenha. Aquelas começo a fazer caricatura. Os que es- punida. Esse é de longe o melhor charges que passava no Jornal tão ao lado querem saber o que está modo de se expressar. Nacional do Chico Caruzo, ele jogava acontecendo, vêm e vê, sabe que é de apenas a idéia, fazia o primeiro bone- graça, um desenho e começa a mos- Seus trabalhos têm sempre algum tipo de co na mão e, depois sua equipe digita- trar a caricatura um para o outro. Aí humor, mas se você tivesse de projetar lizava e fazia-se a animação. Quem começa a interação. Esse é o meu algo para que as pessoas fiquem tristes, assina é o Chico Caruzo, sua empresa. principal objetivo em eventos. É em como seria? Recentemente elaborei um Então é estranho. É a mesma coisa que cinco minutinhos fazer a pessoa dar desenho sobre o fato daquele maluco você pegar e fazer um Rock no compu- risada dela mesma com sua caricatura. que atirou nas crianças no Rio de tador. Onde está a bateria, a guitarra e Janeiro. Desenhei um quadro negro da a corda que estava estourando. Prefiro A arte do cartoon é se divertir? Sim. É o escola e, no cantinho onde se coloca o papel e a caneta. humor através do papel e da caneta. o apagador, pintei uma gotinhas de sangue pingando no chão e formando Atualmente uma das suas atividades é a De todos os seus trabalhos existe um o mapa do Brasil. É um traço cômico, caricatura ao vivo. Como é este que mais te marcou? Sim. O do mas a mensagem é triste. Então trabalho? A caricatura ao vivo vêm Ronaldo. Fiz para mostrar aos amigos. também trabalho com isso. Trabalho desde a Idade Média. Lá tinha o bobo Não tinha pretensão nenhuma. Os com o sentimento e, este é um modo da corte que fazia caricatura do rei e amigos gostaram e com a internet o de se expressar em forma de arte. de empregados e, o negócio dele era desenho chegou até uma agência em Estou triste, mas sou cartunista e esse fazer a monarquia dar risada. A essên- São Paulo onde me convidaram para é o meu recado. veja/universidade cruzeiro do sul I 03 DE JUNHO, 2011 I 19