Modulo 5- A Cultura do Palacio
1. Cultura
1.1. Da 1ª metade do século XV a 1618
O tempo histórico conheceu duas conjeturas diferentes:
- A primeira, de crescimento e expansão, correspondeu ao Renascimento, que se estabeleceu na primeira metade do
século XV e duro até finais do primeiro quartel do século XVI;
- A segunda, de crise e de depressão, começou a fixar-se a partir de 1520/30 e duraria até inícios do século XVII.
O Renascimento surgiu na Península Itálica, no século XV. Para tal contribuíram diversas condições favoráveis, tais
como:
- Existência de diversos vestígios da cultura clássica, que proporcionam o estudo e a recuperação dos ideias clássicos;
- O desenvolvimento económico desta região- comércio, enriquecia famílias burguesas (Médicis) e permitiram a
generalização da prática do mecenato;
- A rivalidade entre as várias cidades italianas- desenvolvimento económico, cultura e social;
- Universidades, bibliotecas e centros impressores;
- Mentalidade mais humanista, racionalista e crítica.
A partir da segunda metade do século XVI, surgiu uma conjetura de crise, ao nível dos valores e da consciência que
influenciou o período seguinte, conhecido como Maneirismo. Provocado por:
- Reforma protestante;
- Lutas religiosas;
- Clima de insegurança- maus anos agrícolas e pestes;
- Crises comerciais e financeiras.
1.2. A Europa das rotas comerciais, do Mediterrâneo ao Báltico; o Oriente e o Atlântico
Devido ao incremento do comércio, viu-se um maior dinamismo económico vivido na Europa. O crescimento do
comércio deu-se pelo alargamento das rotas e redes comerciais tradicionais- Mediterrâneo, litoral atlântico e Mar
Báltico- e sobretudo pela procura de novos mercados. O século XV assistiu à construção de novas rotas e redes
comerciais marítimas, que, pela primeira vez, ligaram a Europa a África, ao Oriente às Américas, iniciando as trocas
mundiais de produtos, pessoas e culturas.
O comércio à escala mundial, iniciando neste período, acelerando as permutas culturais entre a Europa e o resto do
mundo.
1.3. O mecenas Lourenço de Médicis (1449-1492)
Burguês italiano que viveu na cidade de Florença, na segunda metade do século XV. Pertencia à família dos Médicis,
mercadores e banqueiros poderosos, cuja riqueza e influência lhes havia possibilitado ascender ao domínio político na
sua cidade, Florença, que se organizava à época como uma república oligárquica. Este foi o símbolo do “homem do
seu tempo” (individualista, antropocêntrico, racional) que marcou a época do Renascimento. Também foi conhecido
como mecenato, pela atenção que deu aos assuntos culturais, incentivando as letras e as artes, com numerosas
encomendas e patrocínios, atraindo artistas intelectuais à sua corte. Florença tornou-se o primeiro centro cultural
renascentista.
1.4. O palácio, habitação das elites
Os palácios pretendiam representar o poder económico e político-social
das famílias burguesas nas cidades. Nestes palácios desenvolveram um
modo de vida requintado, animado por muitas festas e reuniões
culturais, para as quais convidavam filósofos, músicos, poetas e outros
intelectuais, a par de artistas reputados. As habitações das elites
transformaram-se em sedes de pequenas cortes privadas, frequentadas
por cortesãos que procuravam sobressair entre os demais-
individualismo- tanto pelos dotes físicos como pelos dotes intelectuais.
1.5. O De Revolutionibus Orbium Coelestium (1543), de Nicolau Copérnico
Obra científica escrita por Copérnico e publicada no mesmo ano da sua morte, por um discípulo. Copérnico apresenta
e comprova matematicamente a teoria heliocêntrica, isto é, a tese de que o Sol é uma estrela fixa em redor da qual
giram todos planetas, ao invés da conceção da época que dizia que a Terra é que ocupava essa posição. A tese de
Copérnico, embora verdadeira, contrariava esse conhecimento que a Igreja defendia como certo, o seu livro foi
imediato contestado e proibido, tendo constado do Índex até 1835.
1.6. O humanismo e a imprensa
O Humanismo foi um movimento cultural- filosófico, literário e científico e se caracterizou por uma postura mais
antropocêntrica, racional, crítica e pragmática perante o saber, bem como pela admiração e recriação da cultura
Antiguidade Clássica, o seu modelo ideal.
Os humanistas foram intelectuais ecléticos que puseram em causa os saberes teóricos e livrescos da Idade Média e
construíram novos conhecimentos, baseados na experiência pessoal e na observação direta da natureza e das
sociedades do seu tempo.
O Humanismo conheceu rápida divulgação por toda a Europa graças ao aparecimento, nesta época, da imprensa-
Johannes Gutenberg na Alemanha (1430-50).
Exemplos: Lorenço Valla, Erasmo Roterdão, Thomas More, Rabelais, Nicolau Copérnico, William Shakespeare e os
portugueses Luís de Camões e Damião de Góis.
1.7. Reformas e espiritualidade
A Igreja cristã do Ocidente, chefiada pelo Papa de Roma, vivia tempos conturbados, marcados por conflitos interiores
(comportamento vicioso do clero, cismas e heresias) que afastava da doutrina e das virtudes do cristianismo inicial.
Esta situação conduziu a um clima de crise de fé e de crítica à igreja, expressa pelos humanistas- Erasmo de Roterdão.
Outros cristãos alinhavam em movimentos reformadores, como o Devotio Moderna.
A primeira grande revolta contra a igreja romana foi liderada pelo monge alemão Martinho Lutero, em 1517, que
surgiu em torno da Questão das Indulgências. A revolta de Lutero deu origem a outras, iniciando um amplo
movimento de rutura denominado Reforma Protestante- dividiu os cristãos ocidentais e criou novas igrejas cristãs,
independentes do Papa que propunham orientações teológicas, doutrinais e litúrgicas.
Para combater esta situação, os papas de Roma iniciaram, na segunda metade do século XVI, um movimento de
renovação interna e de combate ao Protestantismo, chamado Contrarreforma. Iniciada e delineada no Concílio de
Tentro (1545-1563), a Contrarreforma reavaliou os dogmas de fé, intensificou a formação dos padres e impôs-lhe uma
nova disciplina, criou novas ordens religiosas destinadas à pregação e missionação assim como ao ensino e aumento a
vigilância sobre os crentes através da Inquisição e Índex.
1.8. Fala do Licenciada e diálogo de Todo-o-Mundo e Ninguém, da obre Lusitânia, de Gil Vicente
O Auto da Lusitânia é uma peça de teatro escrita por Gil Vicente, considerado o fundador do teatro português. A obra
foi encomendada por D. João III para ser representada durante as comemorações do nascimento do príncipe D.
Manuel, em 1532. Gil Vicente trabalhou para a corte portuguesa, tendo deixado 50 peças escritas em português, nas
quais, sob vários pretextos, criticou de modo vivo e mordaz a sociedade do seu tempo.
O Auto da Lusitânia tem como tema principal o casamento simbólico de Portugal com Lusitânia, numa alusão às raízes
históricas e culturais do país.
Entre as cenas mais importantes estão:
- a Fala do Licenciado, que é um monólogo em que este último, o Licenciado, explica o namoro dos noivos, com
muitas referências históricas e simbólicas.
- e o diálogo entre Todo-O-Mundo e Ninguém, é uma conversa entre quatro personagens, dois diabos (Dinato e
Belzebu) e duas pessoas comuns, o rico mercador “Todo-o-Mundo” e o humilde popular “Ninguém”. Neste diálogo,
de forma humorística, Gil Vicente aproveita para satirizar o comportamento vaidoso e petulante da maior parte dos
seres humanos.
2. Arquitetura
Arquitetos: Filipo Brunelleschi, Michelozzo, Leon Batista Alberti- século XV-, Donato Bramante, Miguel Ângelo e
António Sangallo- século XVI.
Os arquitetos do renascimento inspiraram-se na arquitetura da Antiguidade Clássica, nas suas ordens arquitetónicas e
edifícios, a que associaram novos conhecimentos de Matemática, Aritmética, Geometria, Física e outros,
transformando a arte de construir num exercício intelectual que se iniciava com rigorosos estudos projetuais pela
construção de maquetes, antes da execução no terreno.
O objetivo era substituir a monumentalidade e exuberância das construções góticas por edifícios projetados à escala
humana, em que os valores a salientar fossem os da regularidade, simetria e proporção, aliados à clareza formal e à
sobriedade decorativa.
2.1. Características Gerais
- Cálculo rigoroso das proporções de todas as partes da construção, utilizando uma medida padrão- o módulo-, a partir
do qual se estabeleciam, em múltiplos e submúltiplos, todas as dimensões.
- Plantas e volumes inspirados em formas geométricas regulares, como o quadrado (ou o cubo), o retângulo (ou o
paralelepípedo) e o círculo (ou o cilindro).
- Fachadas retilíneas;
- Coberturas planas de madeira, ou então de pedra, em forma de abóbadas (de berço ou de arestas) e cúpulas,
processos privilegiados neste período;
- Organização simétrica e perspética dos espaços interiores;
- Aberturas normalizadas e colocadas em simetria e regularidade no edifício (janelas do mesmo tamanho e
alinhadas, imprimindo o ritmo nas fachadas);
- Sobriedade decorativa conseguida pela prática de uma decoração mais estrutural que escultórica. Esta decoração
usou elementos retirados da gramática clássica, como colunas, entablamentos (arquitraves, frisos e cornijas),
frontões, arcadas de arcos redondos e grotescos de inspiração romana (decoração parietal feita a fresco ou em relevo,
que vive de pequenos motivos florais, intercalados por putti -meninos- e animais). Isto implicou o regresso ao uso das
ordens arquitetónicas clássicas, que os artistas do Renascimento interpretaram livremente, dando-lhes um uso mais
decorativo do que estrutural, à semelhança da arquitetura romana de revestimento.
Em princípios gerais concretizaram-se sobretudo, em três tipos de edifício:
- As igrejas, que são de menores dimensões do que as góticas e seguem dois modelos: o de planta centrada (circular
poligonal ou em cruz grega), com cúpula sobre o cruzeiro, o modelo mais inovador; e o de planta tradicional, em cruz
latina, alterada pela simplificação da cabeceira e transformação das naves laterais em capelas abertas para a nave
central, único espaço destinado aos fiéis (igrejas salão). As fachadas eram decoradas com arcadas cegas de arco
redondo ou colunas e frontões, à maneira dos pórticos clássicos. Os espaços interiores possuíam pinturas nos tetos e
paredes, ou relevos e estuques decorativos, a par da estatuária de culto.
Plantas:
Planta Circular Planta Poligonal Planta em cruz grega
Exemplos:
- Palácios (civis e religiosos), que eram construções urbanas em pedra, de formas cúbicas ou parelepipédicas,
compactas e fechadas com planta quadrangular, erguidas à altura de três ou quatro pisos, ocupando quase sempre
todo um quarteirão. As fachadas exteriores possuíam poucas aberturas ao nível do rés do chão, e nelas os pisos
estavam separados por frisos salientes (pequenos entablamentos fingidos). As janelas, alinhadas na vertical e na
horizontal, estavam por vezes separadas por colunas ou pilastras que obedeciam às ordens clássicas da seguinte
maneira: no rés do chão estavam as de ordem dórica ou toscana; no 1º andar as de ordem jónica ou coríntia, e no 3º
andar as de ordem coríntia ou compósita (regra das ordens sobrepostas). O ar robusto era dado pelo aparelho de
pedra, que era mais grosseiro e saliente nos rés de chão e progressivamente mais alisado nos outros andares. A
rematar superiormente a fachada havia uma poderosa cornija saliente que escondia o telhado.
Interiormente, os palácios organizavam-se em quatro alas que abriam em loggia (em arcada) ou dupla loggia para um
pátio central (o cortile), descoberto. As fachadas do pátio eram mais decoradas, possuindo relevos decorativos e/ou
medalhões de cerâmica esmaltada. A organização interna obedecia a regras de simetria e a uma distribuição
funcional por andares: o rés do chão para as áreas de serviço, o 1º andar (piano nobile) para as dependências
pessoais e sociais do dono da casa; o 2º andar para a restante família.
O Palácio Rucellai foi esquematizado pelo arquiteto Leon Battista Alberti.
Exemplo:
- E as villae, palácios de férias erguidos nas propriedades rurais. Obedecem aos mesmos princípios, mas abrem-se
para os jardins envolventes por fachadas com pórticos e escadarias, uma vez que não se localizam em ambientes
urbanos.
2. Escultura
2.1. Características Gerais
- Gosto pela representação do corpo humano;
- Procura do naturalismo nas posições e nos gestos;
- Individualização dos rostos (uso de modelos vivos para a criação de personagens, mesmo sagradas ou mitológicas);
- Preocupação com o domínio técnico;
- Prática do desenho projetual para estudos da forma e composição, envolvendo estudos de anatomia, proporção e
perspetiva.
O interesse pela anatomia e a influência clássica conduziram, inclusive, ao regresso do nu, em figuras bíblicas ou
mitológicas e alegóricas (exemplo: estátua de David, de Donatello).
A maior novidade consistiu, no entanto, na emancipação da escultura em relação à arquitetura, que começou a
dispensá-la, visando uma decoração mais estrutural. Consequência disso foi o reconhecimento do objeto esculpido
como arte em si mesmo, o que valorizou a estatuária em relação aos relevos. Com efeito, a estatuária (individual ou
de grupo) assumiu-se a partir daqui, como monumento artístico por si só, podendo ser livremente colocado numa
praça, num jardim, no átrio de um edifício ou noutro local qualquer.
As temáticas são religiosas, mitológicas, profanas e retrato. O retrato esculpido foi praticado em corpo inteiro e
tamanho natural, em cabeças e bustos em efígie (em medalhões e moedas) e também em estátua equestre, uma
prática recuperada da Antiguidade.
Os iniciadores da escultura renascentista foram Ghiberti, nos relevos (Porta Leste do Batistério de Florença) e
Donatello, na estatuária (santos e profetas do Campanário de Santa Maria das Flores). O expoente máximo da
escultura renascentista foi, na passagem para o século XVI, Miguel Ângelo Buonarroti, considerado o maior génio
escultórico de todos os tempos, autor de obras como a Pietá, do Vaticano e David.
2.2. Pietá de Miguel Ângelo
Representa os ideias estéticos da escultura do Alto Renascimento. A Pietá está inserida num sistema triangular, é um
grupo escultórico em mármore, com figuras em tamanho real, que foram esculpidas por Miguel Ângelo a partir de um
único bloco de pedra, recorrendo à técnica substrativa. As formas das figuras têm um enorme rigor anatómico,
grande realismo/naturalismo nas texturas, nas posições, nos gestos, nos traços faciais, mas idealizados/serenidade,
Jesus e a Virgem parecem muito jovens.
2.3. David de Miguel Ângelo
Em mármore, realizada em 1501 e 1504, com 409 cm de altura, esta obra representa a imagem da figura bíblica de
David, um pastor que está prestes a matar o Gigante Golias. Esta foi encomendada pela cidade de Florença e tornou-
se um dos símbolos mais importantes da cidade e da escultura renascentista, que revelou a mestria, o virtuosismo e o
génio de Miguel Ângelo.
David é representado como um jovem, nu, com corpo atlético e vigoroso; enverga apenas uma funda, arma com a
qual se prepara para lutar contra um gigante para defender o seu povo. Apresenta, por isso, uma postura estática,
expectante e com uma expressão de grande concentração que emana coragem pessoal e espírito humanista.
A perfeição anatómica, o domínio das formas e a demonstração contida dos sentimentos (olhar oblíquo, sobrolho
carregado) transformam esta obra num símbolo de “força e de ira”, tidas como virtudes cívicas daquele tempo.
Pietá, de Miguel Ângelo David, de Miguel Ângelo
Caracterização de Estátuas:
David- Donatello
- Representação de David após a vitória sobre
Golias;
- Representação triunfante na atitude, na pose e
no gesto;
- Representação realista de um rapaz nu, em
escala natural;
- Representação do corpo em contraposto
sinuoso;
David- Miguel Ângelo
- Representação do momento imediatamente
anterior ao confronto com Golias (Alto
Renascimento);
- Representação de David em atitude vigilante
ou desafiante em relação a Golias, evidenciando
uma pose serena;
- Nu idealizado de um jovem adulto, em escala
heroica e monumental;
- Representação do corpo em contraposto com
sugestão suavizada do movimento;
?????
- Expressão facial caracterizada pela serenidade e
formalidade;
- Movimento marcado por contraposto, com
peso sobre a pena direita e rotação ligeira do
torso e da cabeça;
- Escultura que apresenta David em pose
triunfante e repousada;
- Representação idealizada de David, visível nos
trajes cerimoniosos e na pose formal;
Andrea Del Verrochio, Estátua equestre de
Bartolomeo Colleoni
- Escultura marcada pelo antropocentrismo,
pelo humanismo e pelo individualismo;
- Tratamento geometrizado das composições;
- Autonomia da escultura em relação à
arquitetura;
- Monumentalidade das estátuas;
- Influência da cultura clássica, tomando como
modelo as estátuas equestres dos antigos
imperadores romanos;
- Representação realista do homem e do cavalo,
nos aspetos físicos e anatómicos, nas
proporções, na modelação das formas e na
expressão;
- Intensidade na representação do movimento
do cavalo e do cavaleiro;
- Representação idealizada do chefe militar,
envergando capacete e armadura;
3. Pintura
A arte do Renascimento tornou-se mais antropocêntrica e humanista, isto é, mais interessada no homem, quer a nível
físico, quer a nível espiritual, o que se nota nos temas e motivos tratados e nas funções a que se destinava- glorificar
Deus e a sua obra, mas também os homens e a sua individualidade.
A arte e os artistas ganharam nesta época uma nova importância na sociedade. A arte começou a ser considerada
como uma atividade intelectual que exigia estudos, conhecimentos vários e um génio criativo, para além do domínio
técnico.
3.1. Características da pintura renascentista
Perseguindo os ideias estéticos da Antiguidade, a pintura do Renascimento teve como objetivo a imitação da
Natureza, tal como o olho humano captava (mimésis).
- Composição do espaço pictórico segundo os princípios da perspetiva linear;
- Utilização da perspetiva assente nas leis da ótica, na proporção geométrica e da exatidão matemática;
- Definição da perspetiva a partir de linhas dirigidas para um ponto de fuga central;
- Representação anatómica segundo os cânones da Antiguidade Clássica;
- Utilização do enquadramento arquitetónico com referências clássicas e inserção das figuras humanas numa
paisagem natural enigmática e intemporal;
- Preferência pelos temas bíblicos e mitológicos ou pelos retratos dos doadores;
- Adoção progressiva da pintura a óleo;
- Composição geométrica, sob a forma piramidal, de modo a distribuir equilibradamente as figuras na superfície do
quadro;
- Aplicação da técnica sfumatto, que, através da gradação da cor, da luz e da sombra permite a modelação das formas
e o efeito de tridimensionalidade, contorno do horizonte e a modelação do volume da figura;
- Tratamento do claro-escuro nos traços faciais e nos olhos das personagens, assim como nas vestes e nos efeitos
atmosféricos do plano de fundo;
- Aplicação de conhecimentos de anatomia, óptica, botânica, geologia, etc, na realização da obra pictórica;
- Captação dos traços psicológicos da personalidade retratada, destacando o seu carácter introspetivo e misterioso;
3.2. A Anunciação, de Leonardo Da Vinci
- Divisão da imagem em três planos: primeiro plano, onde estão representadas as figuras; plano intermédio, com a
representação do enquadramento arquitetónico; plano de fundo, com a representação da paisagem;
- Construção do espaço pictórico, segundo as regras da perspetiva linear (geométrica), o que permite a simulação
rigorosa da profundidade (ou tridimensionalidade);
- Tratamento cuidado e pormenorizado da paisagem de fundo;
- Composição em que a forma piramidal das figuras do anjo e de Maria, bem como a distância entre elas, conduz o
olhar do observador para o ponto de fuga;
- Aplicação da técnica do sfumato e da
perspetiva área na representação dos
elementos da natureza, com a gradação da
luz e da cor e esbatimento dos contornos na
representação da paisagem de fundo;
- Reprodução pormenorizada das asas do
Anjo, baseada em estudos anatómicos de
aves;
- Abordagem de um tema mariano do Novo
Testamento, comum na época, que retrata o
anúncio da gravidez divina de Maria;
Caracterização de pinturas renascentistas:
Madona Colonna, Rafael
- Abordagem do tema: interação entre a
Virgem e o Menino- a Virgem é interrompida
na leitura pelo gesto do Menino;
- Composição: geométrica, sob a forma
piramidal;
- Luz e cor: uniforme que confere à obra uma
claridade ideal e harmoniosa;
- Volume (modelado, perspetiva) - perspetiva
rigorosa, linear e atmosférica;
- Representação da figura humana: serenidade
e beleza ideal, evidenciando o carácter
humano das figuras;
Criação de Adão, Miguel Ângelo
- Valorização do nu com base em estudos da
estatuária greco-romana;
- Elaboração de uma pintura com base em
estudos anatómicos, visível na importância que
a musculatura tem no desenho das figuras
(braços e tronco de adão);
- Modelação tridimensional dos corpos através
do jogo entre a luz e sombra, o que lhes confere
volume;
- Integração de simulações de estruturas
arquitetónicas para enquadrar as cenas e dar
continuidade espacial;
- Representação de poses invulgares e
monumentais caracterizada pelo movimento,
turbulência e energia contida nas figuras;
- Temática centrada na valorização do Homem
(humanismo)- a criação Homem à imagem de
Deus.
São Pedro, Grão Vasco
- Complexidade dos elementos representados, o
santo como Papa, em majestade, traje
exuberante, com múltiplos elementos
iconográficos;
- Fundo é constituído pela representação de
narrativas;
- São Pedro está sentado de um modo estático;
- Representação realista e expressão severa do
retratado;
- Composição dividida em dois planos, interior e
exterior, separados por uma estrutura
arquitetónica, acentuado a perspetiva;
- Recurso a uma paleta cromática variada;
4. Renascimento em Portugal
A arte do renascimento só entrou verdadeiramente em Portugal no reinado de D. João III (1527-1557), incluindo
principalmente no centro e sul do país.
4.1. Arquitetura renascentista em Portugal
Misturou influências italianas com as do Manuelino e plateresco, e outras provenientes das colónias ultramarinas
reflexo da conjetura de expansão geográfica que então se vivia. Foi de modestas dimensões e sóbria, e simples na
decoração, devido ao período de contenção económica e à austeridade imposta pela Contrarreforma. Dela registamos
igrejas-salão (em cruz latina reinterpretada e de planta centrada) e palácios e solares, com forte horizontalidade.
Entre os arquitetos salientaram-se: Afonso Álvares (Sé de Portalegre), João de Castilho (Capela de Conceição e Claustro
de D. João II, no Convento de Cristo em Tomar) e Diogo de Torralva (Palácio da Bacalhoa, em Azeitão).
4.2. Pintura renascentista em Portugal
- Temáticas quase exclusivamente religiosas;
- Maior importância dada ao desenho na conceção e execução das obras;
- Espaços construídos pela perspetiva científica;
- Composições equilibradas, de grande clareza narrativa;
- Corpos e vestes trabalhados em volume pelo claro-escuro;
- Cenários com motivos arquitetónicos clássicos;
- Pormenorização realista dos vários elementos;
- Maior riqueza cromática;
4.3. Escultura renascentista em Portugal
Abandonou o modo gótico a partir da viragem para o século XVI, com a chegada de mestres estrangeiros- italianos,
flamengos e franceses e biscainhos- que vieram para Portugal atraídos pelo mecenato do rei e de alguns bispos, assim
como pelo cosmopolitismo de Lisboa. Os mais importantes foram Nicolau de Chanterene (Porta Especiosa da Sé Velha,
em Coimbra), João de Ruão (Deposição de Cristo no túmulo, no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra) e Filipe Hodarte
(Apóstolos do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra).

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  • 1.
    Modulo 5- ACultura do Palacio 1. Cultura 1.1. Da 1ª metade do século XV a 1618 O tempo histórico conheceu duas conjeturas diferentes: - A primeira, de crescimento e expansão, correspondeu ao Renascimento, que se estabeleceu na primeira metade do século XV e duro até finais do primeiro quartel do século XVI; - A segunda, de crise e de depressão, começou a fixar-se a partir de 1520/30 e duraria até inícios do século XVII. O Renascimento surgiu na Península Itálica, no século XV. Para tal contribuíram diversas condições favoráveis, tais como: - Existência de diversos vestígios da cultura clássica, que proporcionam o estudo e a recuperação dos ideias clássicos; - O desenvolvimento económico desta região- comércio, enriquecia famílias burguesas (Médicis) e permitiram a generalização da prática do mecenato; - A rivalidade entre as várias cidades italianas- desenvolvimento económico, cultura e social; - Universidades, bibliotecas e centros impressores; - Mentalidade mais humanista, racionalista e crítica. A partir da segunda metade do século XVI, surgiu uma conjetura de crise, ao nível dos valores e da consciência que influenciou o período seguinte, conhecido como Maneirismo. Provocado por: - Reforma protestante; - Lutas religiosas; - Clima de insegurança- maus anos agrícolas e pestes; - Crises comerciais e financeiras. 1.2. A Europa das rotas comerciais, do Mediterrâneo ao Báltico; o Oriente e o Atlântico Devido ao incremento do comércio, viu-se um maior dinamismo económico vivido na Europa. O crescimento do comércio deu-se pelo alargamento das rotas e redes comerciais tradicionais- Mediterrâneo, litoral atlântico e Mar Báltico- e sobretudo pela procura de novos mercados. O século XV assistiu à construção de novas rotas e redes comerciais marítimas, que, pela primeira vez, ligaram a Europa a África, ao Oriente às Américas, iniciando as trocas mundiais de produtos, pessoas e culturas. O comércio à escala mundial, iniciando neste período, acelerando as permutas culturais entre a Europa e o resto do mundo. 1.3. O mecenas Lourenço de Médicis (1449-1492) Burguês italiano que viveu na cidade de Florença, na segunda metade do século XV. Pertencia à família dos Médicis, mercadores e banqueiros poderosos, cuja riqueza e influência lhes havia possibilitado ascender ao domínio político na sua cidade, Florença, que se organizava à época como uma república oligárquica. Este foi o símbolo do “homem do seu tempo” (individualista, antropocêntrico, racional) que marcou a época do Renascimento. Também foi conhecido como mecenato, pela atenção que deu aos assuntos culturais, incentivando as letras e as artes, com numerosas encomendas e patrocínios, atraindo artistas intelectuais à sua corte. Florença tornou-se o primeiro centro cultural renascentista. 1.4. O palácio, habitação das elites Os palácios pretendiam representar o poder económico e político-social das famílias burguesas nas cidades. Nestes palácios desenvolveram um modo de vida requintado, animado por muitas festas e reuniões culturais, para as quais convidavam filósofos, músicos, poetas e outros intelectuais, a par de artistas reputados. As habitações das elites transformaram-se em sedes de pequenas cortes privadas, frequentadas por cortesãos que procuravam sobressair entre os demais- individualismo- tanto pelos dotes físicos como pelos dotes intelectuais. 1.5. O De Revolutionibus Orbium Coelestium (1543), de Nicolau Copérnico Obra científica escrita por Copérnico e publicada no mesmo ano da sua morte, por um discípulo. Copérnico apresenta e comprova matematicamente a teoria heliocêntrica, isto é, a tese de que o Sol é uma estrela fixa em redor da qual giram todos planetas, ao invés da conceção da época que dizia que a Terra é que ocupava essa posição. A tese de Copérnico, embora verdadeira, contrariava esse conhecimento que a Igreja defendia como certo, o seu livro foi imediato contestado e proibido, tendo constado do Índex até 1835. 1.6. O humanismo e a imprensa O Humanismo foi um movimento cultural- filosófico, literário e científico e se caracterizou por uma postura mais antropocêntrica, racional, crítica e pragmática perante o saber, bem como pela admiração e recriação da cultura Antiguidade Clássica, o seu modelo ideal. Os humanistas foram intelectuais ecléticos que puseram em causa os saberes teóricos e livrescos da Idade Média e construíram novos conhecimentos, baseados na experiência pessoal e na observação direta da natureza e das sociedades do seu tempo.
  • 2.
    O Humanismo conheceurápida divulgação por toda a Europa graças ao aparecimento, nesta época, da imprensa- Johannes Gutenberg na Alemanha (1430-50). Exemplos: Lorenço Valla, Erasmo Roterdão, Thomas More, Rabelais, Nicolau Copérnico, William Shakespeare e os portugueses Luís de Camões e Damião de Góis. 1.7. Reformas e espiritualidade A Igreja cristã do Ocidente, chefiada pelo Papa de Roma, vivia tempos conturbados, marcados por conflitos interiores (comportamento vicioso do clero, cismas e heresias) que afastava da doutrina e das virtudes do cristianismo inicial. Esta situação conduziu a um clima de crise de fé e de crítica à igreja, expressa pelos humanistas- Erasmo de Roterdão. Outros cristãos alinhavam em movimentos reformadores, como o Devotio Moderna. A primeira grande revolta contra a igreja romana foi liderada pelo monge alemão Martinho Lutero, em 1517, que surgiu em torno da Questão das Indulgências. A revolta de Lutero deu origem a outras, iniciando um amplo movimento de rutura denominado Reforma Protestante- dividiu os cristãos ocidentais e criou novas igrejas cristãs, independentes do Papa que propunham orientações teológicas, doutrinais e litúrgicas. Para combater esta situação, os papas de Roma iniciaram, na segunda metade do século XVI, um movimento de renovação interna e de combate ao Protestantismo, chamado Contrarreforma. Iniciada e delineada no Concílio de Tentro (1545-1563), a Contrarreforma reavaliou os dogmas de fé, intensificou a formação dos padres e impôs-lhe uma nova disciplina, criou novas ordens religiosas destinadas à pregação e missionação assim como ao ensino e aumento a vigilância sobre os crentes através da Inquisição e Índex. 1.8. Fala do Licenciada e diálogo de Todo-o-Mundo e Ninguém, da obre Lusitânia, de Gil Vicente O Auto da Lusitânia é uma peça de teatro escrita por Gil Vicente, considerado o fundador do teatro português. A obra foi encomendada por D. João III para ser representada durante as comemorações do nascimento do príncipe D. Manuel, em 1532. Gil Vicente trabalhou para a corte portuguesa, tendo deixado 50 peças escritas em português, nas quais, sob vários pretextos, criticou de modo vivo e mordaz a sociedade do seu tempo. O Auto da Lusitânia tem como tema principal o casamento simbólico de Portugal com Lusitânia, numa alusão às raízes históricas e culturais do país. Entre as cenas mais importantes estão: - a Fala do Licenciado, que é um monólogo em que este último, o Licenciado, explica o namoro dos noivos, com muitas referências históricas e simbólicas. - e o diálogo entre Todo-O-Mundo e Ninguém, é uma conversa entre quatro personagens, dois diabos (Dinato e Belzebu) e duas pessoas comuns, o rico mercador “Todo-o-Mundo” e o humilde popular “Ninguém”. Neste diálogo, de forma humorística, Gil Vicente aproveita para satirizar o comportamento vaidoso e petulante da maior parte dos seres humanos. 2. Arquitetura Arquitetos: Filipo Brunelleschi, Michelozzo, Leon Batista Alberti- século XV-, Donato Bramante, Miguel Ângelo e António Sangallo- século XVI. Os arquitetos do renascimento inspiraram-se na arquitetura da Antiguidade Clássica, nas suas ordens arquitetónicas e edifícios, a que associaram novos conhecimentos de Matemática, Aritmética, Geometria, Física e outros, transformando a arte de construir num exercício intelectual que se iniciava com rigorosos estudos projetuais pela construção de maquetes, antes da execução no terreno. O objetivo era substituir a monumentalidade e exuberância das construções góticas por edifícios projetados à escala humana, em que os valores a salientar fossem os da regularidade, simetria e proporção, aliados à clareza formal e à sobriedade decorativa. 2.1. Características Gerais - Cálculo rigoroso das proporções de todas as partes da construção, utilizando uma medida padrão- o módulo-, a partir do qual se estabeleciam, em múltiplos e submúltiplos, todas as dimensões. - Plantas e volumes inspirados em formas geométricas regulares, como o quadrado (ou o cubo), o retângulo (ou o paralelepípedo) e o círculo (ou o cilindro). - Fachadas retilíneas; - Coberturas planas de madeira, ou então de pedra, em forma de abóbadas (de berço ou de arestas) e cúpulas, processos privilegiados neste período; - Organização simétrica e perspética dos espaços interiores; - Aberturas normalizadas e colocadas em simetria e regularidade no edifício (janelas do mesmo tamanho e alinhadas, imprimindo o ritmo nas fachadas); - Sobriedade decorativa conseguida pela prática de uma decoração mais estrutural que escultórica. Esta decoração usou elementos retirados da gramática clássica, como colunas, entablamentos (arquitraves, frisos e cornijas), frontões, arcadas de arcos redondos e grotescos de inspiração romana (decoração parietal feita a fresco ou em relevo, que vive de pequenos motivos florais, intercalados por putti -meninos- e animais). Isto implicou o regresso ao uso das ordens arquitetónicas clássicas, que os artistas do Renascimento interpretaram livremente, dando-lhes um uso mais decorativo do que estrutural, à semelhança da arquitetura romana de revestimento.
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    Em princípios geraisconcretizaram-se sobretudo, em três tipos de edifício: - As igrejas, que são de menores dimensões do que as góticas e seguem dois modelos: o de planta centrada (circular poligonal ou em cruz grega), com cúpula sobre o cruzeiro, o modelo mais inovador; e o de planta tradicional, em cruz latina, alterada pela simplificação da cabeceira e transformação das naves laterais em capelas abertas para a nave central, único espaço destinado aos fiéis (igrejas salão). As fachadas eram decoradas com arcadas cegas de arco redondo ou colunas e frontões, à maneira dos pórticos clássicos. Os espaços interiores possuíam pinturas nos tetos e paredes, ou relevos e estuques decorativos, a par da estatuária de culto. Plantas: Planta Circular Planta Poligonal Planta em cruz grega Exemplos: - Palácios (civis e religiosos), que eram construções urbanas em pedra, de formas cúbicas ou parelepipédicas, compactas e fechadas com planta quadrangular, erguidas à altura de três ou quatro pisos, ocupando quase sempre todo um quarteirão. As fachadas exteriores possuíam poucas aberturas ao nível do rés do chão, e nelas os pisos estavam separados por frisos salientes (pequenos entablamentos fingidos). As janelas, alinhadas na vertical e na horizontal, estavam por vezes separadas por colunas ou pilastras que obedeciam às ordens clássicas da seguinte maneira: no rés do chão estavam as de ordem dórica ou toscana; no 1º andar as de ordem jónica ou coríntia, e no 3º andar as de ordem coríntia ou compósita (regra das ordens sobrepostas). O ar robusto era dado pelo aparelho de pedra, que era mais grosseiro e saliente nos rés de chão e progressivamente mais alisado nos outros andares. A rematar superiormente a fachada havia uma poderosa cornija saliente que escondia o telhado. Interiormente, os palácios organizavam-se em quatro alas que abriam em loggia (em arcada) ou dupla loggia para um pátio central (o cortile), descoberto. As fachadas do pátio eram mais decoradas, possuindo relevos decorativos e/ou medalhões de cerâmica esmaltada. A organização interna obedecia a regras de simetria e a uma distribuição funcional por andares: o rés do chão para as áreas de serviço, o 1º andar (piano nobile) para as dependências pessoais e sociais do dono da casa; o 2º andar para a restante família. O Palácio Rucellai foi esquematizado pelo arquiteto Leon Battista Alberti. Exemplo:
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    - E asvillae, palácios de férias erguidos nas propriedades rurais. Obedecem aos mesmos princípios, mas abrem-se para os jardins envolventes por fachadas com pórticos e escadarias, uma vez que não se localizam em ambientes urbanos. 2. Escultura 2.1. Características Gerais - Gosto pela representação do corpo humano; - Procura do naturalismo nas posições e nos gestos; - Individualização dos rostos (uso de modelos vivos para a criação de personagens, mesmo sagradas ou mitológicas); - Preocupação com o domínio técnico; - Prática do desenho projetual para estudos da forma e composição, envolvendo estudos de anatomia, proporção e perspetiva. O interesse pela anatomia e a influência clássica conduziram, inclusive, ao regresso do nu, em figuras bíblicas ou mitológicas e alegóricas (exemplo: estátua de David, de Donatello). A maior novidade consistiu, no entanto, na emancipação da escultura em relação à arquitetura, que começou a dispensá-la, visando uma decoração mais estrutural. Consequência disso foi o reconhecimento do objeto esculpido como arte em si mesmo, o que valorizou a estatuária em relação aos relevos. Com efeito, a estatuária (individual ou de grupo) assumiu-se a partir daqui, como monumento artístico por si só, podendo ser livremente colocado numa praça, num jardim, no átrio de um edifício ou noutro local qualquer. As temáticas são religiosas, mitológicas, profanas e retrato. O retrato esculpido foi praticado em corpo inteiro e tamanho natural, em cabeças e bustos em efígie (em medalhões e moedas) e também em estátua equestre, uma prática recuperada da Antiguidade. Os iniciadores da escultura renascentista foram Ghiberti, nos relevos (Porta Leste do Batistério de Florença) e Donatello, na estatuária (santos e profetas do Campanário de Santa Maria das Flores). O expoente máximo da escultura renascentista foi, na passagem para o século XVI, Miguel Ângelo Buonarroti, considerado o maior génio escultórico de todos os tempos, autor de obras como a Pietá, do Vaticano e David. 2.2. Pietá de Miguel Ângelo Representa os ideias estéticos da escultura do Alto Renascimento. A Pietá está inserida num sistema triangular, é um grupo escultórico em mármore, com figuras em tamanho real, que foram esculpidas por Miguel Ângelo a partir de um único bloco de pedra, recorrendo à técnica substrativa. As formas das figuras têm um enorme rigor anatómico, grande realismo/naturalismo nas texturas, nas posições, nos gestos, nos traços faciais, mas idealizados/serenidade, Jesus e a Virgem parecem muito jovens. 2.3. David de Miguel Ângelo Em mármore, realizada em 1501 e 1504, com 409 cm de altura, esta obra representa a imagem da figura bíblica de David, um pastor que está prestes a matar o Gigante Golias. Esta foi encomendada pela cidade de Florença e tornou- se um dos símbolos mais importantes da cidade e da escultura renascentista, que revelou a mestria, o virtuosismo e o génio de Miguel Ângelo. David é representado como um jovem, nu, com corpo atlético e vigoroso; enverga apenas uma funda, arma com a qual se prepara para lutar contra um gigante para defender o seu povo. Apresenta, por isso, uma postura estática, expectante e com uma expressão de grande concentração que emana coragem pessoal e espírito humanista. A perfeição anatómica, o domínio das formas e a demonstração contida dos sentimentos (olhar oblíquo, sobrolho carregado) transformam esta obra num símbolo de “força e de ira”, tidas como virtudes cívicas daquele tempo.
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    Pietá, de MiguelÂngelo David, de Miguel Ângelo Caracterização de Estátuas: David- Donatello - Representação de David após a vitória sobre Golias; - Representação triunfante na atitude, na pose e no gesto; - Representação realista de um rapaz nu, em escala natural; - Representação do corpo em contraposto sinuoso; David- Miguel Ângelo - Representação do momento imediatamente anterior ao confronto com Golias (Alto Renascimento); - Representação de David em atitude vigilante ou desafiante em relação a Golias, evidenciando uma pose serena; - Nu idealizado de um jovem adulto, em escala heroica e monumental; - Representação do corpo em contraposto com sugestão suavizada do movimento; ????? - Expressão facial caracterizada pela serenidade e formalidade; - Movimento marcado por contraposto, com peso sobre a pena direita e rotação ligeira do torso e da cabeça; - Escultura que apresenta David em pose triunfante e repousada; - Representação idealizada de David, visível nos trajes cerimoniosos e na pose formal; Andrea Del Verrochio, Estátua equestre de Bartolomeo Colleoni - Escultura marcada pelo antropocentrismo, pelo humanismo e pelo individualismo; - Tratamento geometrizado das composições; - Autonomia da escultura em relação à arquitetura; - Monumentalidade das estátuas; - Influência da cultura clássica, tomando como modelo as estátuas equestres dos antigos
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    imperadores romanos; - Representaçãorealista do homem e do cavalo, nos aspetos físicos e anatómicos, nas proporções, na modelação das formas e na expressão; - Intensidade na representação do movimento do cavalo e do cavaleiro; - Representação idealizada do chefe militar, envergando capacete e armadura; 3. Pintura A arte do Renascimento tornou-se mais antropocêntrica e humanista, isto é, mais interessada no homem, quer a nível físico, quer a nível espiritual, o que se nota nos temas e motivos tratados e nas funções a que se destinava- glorificar Deus e a sua obra, mas também os homens e a sua individualidade. A arte e os artistas ganharam nesta época uma nova importância na sociedade. A arte começou a ser considerada como uma atividade intelectual que exigia estudos, conhecimentos vários e um génio criativo, para além do domínio técnico. 3.1. Características da pintura renascentista Perseguindo os ideias estéticos da Antiguidade, a pintura do Renascimento teve como objetivo a imitação da Natureza, tal como o olho humano captava (mimésis). - Composição do espaço pictórico segundo os princípios da perspetiva linear; - Utilização da perspetiva assente nas leis da ótica, na proporção geométrica e da exatidão matemática; - Definição da perspetiva a partir de linhas dirigidas para um ponto de fuga central; - Representação anatómica segundo os cânones da Antiguidade Clássica; - Utilização do enquadramento arquitetónico com referências clássicas e inserção das figuras humanas numa paisagem natural enigmática e intemporal; - Preferência pelos temas bíblicos e mitológicos ou pelos retratos dos doadores; - Adoção progressiva da pintura a óleo; - Composição geométrica, sob a forma piramidal, de modo a distribuir equilibradamente as figuras na superfície do quadro; - Aplicação da técnica sfumatto, que, através da gradação da cor, da luz e da sombra permite a modelação das formas e o efeito de tridimensionalidade, contorno do horizonte e a modelação do volume da figura; - Tratamento do claro-escuro nos traços faciais e nos olhos das personagens, assim como nas vestes e nos efeitos atmosféricos do plano de fundo; - Aplicação de conhecimentos de anatomia, óptica, botânica, geologia, etc, na realização da obra pictórica; - Captação dos traços psicológicos da personalidade retratada, destacando o seu carácter introspetivo e misterioso; 3.2. A Anunciação, de Leonardo Da Vinci - Divisão da imagem em três planos: primeiro plano, onde estão representadas as figuras; plano intermédio, com a representação do enquadramento arquitetónico; plano de fundo, com a representação da paisagem; - Construção do espaço pictórico, segundo as regras da perspetiva linear (geométrica), o que permite a simulação rigorosa da profundidade (ou tridimensionalidade); - Tratamento cuidado e pormenorizado da paisagem de fundo; - Composição em que a forma piramidal das figuras do anjo e de Maria, bem como a distância entre elas, conduz o olhar do observador para o ponto de fuga; - Aplicação da técnica do sfumato e da perspetiva área na representação dos elementos da natureza, com a gradação da luz e da cor e esbatimento dos contornos na representação da paisagem de fundo; - Reprodução pormenorizada das asas do Anjo, baseada em estudos anatómicos de aves; - Abordagem de um tema mariano do Novo Testamento, comum na época, que retrata o anúncio da gravidez divina de Maria;
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    Caracterização de pinturasrenascentistas: Madona Colonna, Rafael - Abordagem do tema: interação entre a Virgem e o Menino- a Virgem é interrompida na leitura pelo gesto do Menino; - Composição: geométrica, sob a forma piramidal; - Luz e cor: uniforme que confere à obra uma claridade ideal e harmoniosa; - Volume (modelado, perspetiva) - perspetiva rigorosa, linear e atmosférica; - Representação da figura humana: serenidade e beleza ideal, evidenciando o carácter humano das figuras; Criação de Adão, Miguel Ângelo - Valorização do nu com base em estudos da estatuária greco-romana; - Elaboração de uma pintura com base em estudos anatómicos, visível na importância que a musculatura tem no desenho das figuras (braços e tronco de adão); - Modelação tridimensional dos corpos através do jogo entre a luz e sombra, o que lhes confere volume; - Integração de simulações de estruturas arquitetónicas para enquadrar as cenas e dar continuidade espacial; - Representação de poses invulgares e monumentais caracterizada pelo movimento, turbulência e energia contida nas figuras; - Temática centrada na valorização do Homem (humanismo)- a criação Homem à imagem de Deus. São Pedro, Grão Vasco - Complexidade dos elementos representados, o santo como Papa, em majestade, traje exuberante, com múltiplos elementos iconográficos; - Fundo é constituído pela representação de narrativas; - São Pedro está sentado de um modo estático; - Representação realista e expressão severa do retratado; - Composição dividida em dois planos, interior e exterior, separados por uma estrutura arquitetónica, acentuado a perspetiva; - Recurso a uma paleta cromática variada; 4. Renascimento em Portugal A arte do renascimento só entrou verdadeiramente em Portugal no reinado de D. João III (1527-1557), incluindo principalmente no centro e sul do país. 4.1. Arquitetura renascentista em Portugal
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    Misturou influências italianascom as do Manuelino e plateresco, e outras provenientes das colónias ultramarinas reflexo da conjetura de expansão geográfica que então se vivia. Foi de modestas dimensões e sóbria, e simples na decoração, devido ao período de contenção económica e à austeridade imposta pela Contrarreforma. Dela registamos igrejas-salão (em cruz latina reinterpretada e de planta centrada) e palácios e solares, com forte horizontalidade. Entre os arquitetos salientaram-se: Afonso Álvares (Sé de Portalegre), João de Castilho (Capela de Conceição e Claustro de D. João II, no Convento de Cristo em Tomar) e Diogo de Torralva (Palácio da Bacalhoa, em Azeitão). 4.2. Pintura renascentista em Portugal - Temáticas quase exclusivamente religiosas; - Maior importância dada ao desenho na conceção e execução das obras; - Espaços construídos pela perspetiva científica; - Composições equilibradas, de grande clareza narrativa; - Corpos e vestes trabalhados em volume pelo claro-escuro; - Cenários com motivos arquitetónicos clássicos; - Pormenorização realista dos vários elementos; - Maior riqueza cromática; 4.3. Escultura renascentista em Portugal Abandonou o modo gótico a partir da viragem para o século XVI, com a chegada de mestres estrangeiros- italianos, flamengos e franceses e biscainhos- que vieram para Portugal atraídos pelo mecenato do rei e de alguns bispos, assim como pelo cosmopolitismo de Lisboa. Os mais importantes foram Nicolau de Chanterene (Porta Especiosa da Sé Velha, em Coimbra), João de Ruão (Deposição de Cristo no túmulo, no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra) e Filipe Hodarte (Apóstolos do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra).