Na travessia, guardar tenência
simples e constância miúda...




                                 Odes de Riobaldo
                                 Mosaico de GCiro
Na travessia, guardar tenência simples e
constância miúda

Para cair em si, ser você mesmo, divergir,
ser maior do que você mesmo.

Para experimentar que um ainda não é um:
quando ainda faz parte com todos.

Para não querer mesmo nada,
de tanto querer ser só tudo.

Uma coisa, a coisa, esta coisa:
somente querer é ficar sendo!

Para ser que nem o rio
que não quer ir a nenhuma parte,
Ele quer é chegar a ser mais grosso, mais fundo.

Para garrar constante em uma coisa: que vai ser!
Na travessia, guardar tenência simples e
constância miúda

Para remar vida solta, saber patavim e
desconfiar de muita coisa.

Para versar viagem a cavalo sem ter
estradas, se entreter na travessia.

Para entreter as idéias.

Para ter menos juízo e versar no safado
comum.

Para provar uma safra razoável de bizarrices.

Para sonhar a esmo; se sonha, já se fez!
Na travessia, guardar tenência
simples
 e constância miúda
Para aceitar que tudo sobrevém do influimento
comum e do tempo de todos.
Espírito da gente é cavalo que escolhe estrada:
Quando ruma para tristeza e morte
vai não vendo o que é bonito e bom.

Para aceitar que caminho certo
é nem pra frente nem pra traz:
Só pra cima ou para curto quieto.

Para aceitar que as coisas acontecem,
é porque já estavam ficando prontas, noutro ar.
Tudo é grátis quando sucede, no reles do momento.

Para aceitar que tudo o que já está escrito
tem constante reforma –
mas a gente não sabe em que rumo está –
em bem ou mal, todo o tempo reformando.
Na travessia, guardar tenência
simples e constância miúda
 Para gozar a alegria,
feito nuvem de abelhas em flor de araçá.

Para gozar vida assoprada, vivida por cima.

Para gozar banho no redondo azul da lagoa,
rir e gozar seu exato.

Para gozar coração que cresce de todo lado.
Coração que vige feito riacho colominhando
Por entre serras e varjas, matas e campinas.
Coração que mistura amores.
Que tudo cabe.
Na travessia, guardar tenência simples e
constância miúda

Para aceitar que Deus existindo tudo dá
esperança:

Sempre um milagre é possível,
O mundo se resolve.
Deus não existindo é o aberto perigo das
grandes e pequenas horas,
Não se podendo facilitar – é todos contra os
acasos.

Tendo Deus, é menos grave se descuidar um
pouquinho,

Pois no fim dá certo.
Na travessia, guardar tenência
simples e constância miúda
Para não viver o repetido, o repetido, e,
escorregável, num mim minuto,
Em que já está empurrado noutro galho.

Para aumentar a cabeça, para o total,
Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da
gente – que produz os ventos.

Para aceitar que cair não prejudica demais:
A gente levanta, a gente sobe, a gente volta!

Para lavar o corpo na cachoeira branca dum riacho,
Vestir terno novo,
Sair de tudo o que era,
Para entrar num destino melhor: sair do grande
orvalho!
Na travessia, guardar tenência
simples e constância miúda,

Para viver amizade acontecida
simples,
No comum, sem encalço.

Amizade dada é amor.

Para achar um valor viável em
tudo que é cordato e correntio.
Na travessia, guardar tenência
simples e constância miúda,

Para aceitar que quando se curte
raiva de alguém,
É a mesma coisa que se autorizar
que essa própria pessoa passe
durante o tempo governando a
idéia e o sentir da gente:

Falta de soberania e farta
bobice!
Na travessia, guardar tenência
simples e constância miúda,
Para se viver outros movimentos,
Sem os erros e volteios da vida
em sua lerdeza de sarrafaçar.

Para reparar que o real não está
na saída nem na chegada:

Ele se dispõe para gente é no
meio da travessia.
Na travessia, guardar tenência
simples e constância miúda

Para aceitar que no real da vida as
coisas acabam com menos formato,
nem acabam.

Pelejar por exato,
dá erro contra a gente.

Contar seguido, alinhavado, só mesmo
sendo as coisas de rasa importância.
Na travessia, guardar tenência
simples e constância miúda
Para aceitar que sempre que se começa
a ter amor a alguém,
No ramerrão, o amor pega e cresce é porque,
de certo jeito, a gente quer que isso seja,
e vai, na idéia, querendo e ajudando;

Mas quando é destino dado,
maior que o miúdo,
A gente ama é inteiriço fatal,
carecendo de querer,
E é um só facear com as surpresas.

Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.
Na travessia, guardar tenência
simples e constância miúda
Para aceitar que julgamento é sempre
defeituoso,
Porque o que a gente julga é o
passado.

Para aceitar que passado é passado:
não voga

Despedir da febre.

Para traz não há paz.
Na travessia, guardar tenência
simples e constância miúda
Para aceitar que o correr da vida embrulha
tudo, a vida é assim:

Esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
Sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.

O que Deus quer é ver a gente aprendendo
a ser capaz de ficar alegre a mais,
no meio da alegria,
e ainda mais alegre ainda no meio da tristeza!
Na travessia, guardar tenência
simples e constância miúda,
Para aceitar que só nos olhos das
pessoas é que se procura o macio
interno delas.

Para aceitar que conselho de amigo só
merece por ser livre,
feito aragem de tardinha palmeando
em lume d’ água.

O amor dá as costas a toda
reprovação.
Na travessia, guardar tenência
simples e constância miúda

Para aceitar que as coisas influentes
da vida chegam assim sorrateiras,
ladroalmente.

Para aceitar que a vida inventa!
A gente principia as coisas,
mas não sabe por que,
E desde aí a vida é mutirão de todos,
por todos remexida e temperada.
Na travessia, guardar tenência
simples e constância miúda
Para aceitar que as coisas não tem hoje e ant ‘ontem
amanhã; é sempre.

Que o real roda e põe diante.
Essas são as horas da gente.
As outras, de todo tempo, são as horas de todos.

Para aceitar que os fatos passados obedecem a gente;
Os em vir, também.
Só o poder do presente é que é furiável?
Não. Esse obedece igual – e é o que é.

Para aceitar o tempo que o mediu.
Se as pessoas esbarrassem, para pensar: tem uma coisa!:
ver o puro tempo vindo de baixo,
Quieto mole, como a enchente duma água...

Tempo é a vida da morte: imperfeição!

Guardar Tenencia Simples

  • 1.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda... Odes de Riobaldo Mosaico de GCiro
  • 2.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda Para cair em si, ser você mesmo, divergir, ser maior do que você mesmo. Para experimentar que um ainda não é um: quando ainda faz parte com todos. Para não querer mesmo nada, de tanto querer ser só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: somente querer é ficar sendo! Para ser que nem o rio que não quer ir a nenhuma parte, Ele quer é chegar a ser mais grosso, mais fundo. Para garrar constante em uma coisa: que vai ser!
  • 3.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda Para remar vida solta, saber patavim e desconfiar de muita coisa. Para versar viagem a cavalo sem ter estradas, se entreter na travessia. Para entreter as idéias. Para ter menos juízo e versar no safado comum. Para provar uma safra razoável de bizarrices. Para sonhar a esmo; se sonha, já se fez!
  • 4.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda Para aceitar que tudo sobrevém do influimento comum e do tempo de todos. Espírito da gente é cavalo que escolhe estrada: Quando ruma para tristeza e morte vai não vendo o que é bonito e bom. Para aceitar que caminho certo é nem pra frente nem pra traz: Só pra cima ou para curto quieto. Para aceitar que as coisas acontecem, é porque já estavam ficando prontas, noutro ar. Tudo é grátis quando sucede, no reles do momento. Para aceitar que tudo o que já está escrito tem constante reforma – mas a gente não sabe em que rumo está – em bem ou mal, todo o tempo reformando.
  • 5.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda Para gozar a alegria, feito nuvem de abelhas em flor de araçá. Para gozar vida assoprada, vivida por cima. Para gozar banho no redondo azul da lagoa, rir e gozar seu exato. Para gozar coração que cresce de todo lado. Coração que vige feito riacho colominhando Por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração que mistura amores. Que tudo cabe.
  • 6.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda Para aceitar que Deus existindo tudo dá esperança: Sempre um milagre é possível, O mundo se resolve. Deus não existindo é o aberto perigo das grandes e pequenas horas, Não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, Pois no fim dá certo.
  • 7.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda Para não viver o repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, Em que já está empurrado noutro galho. Para aumentar a cabeça, para o total, Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – que produz os ventos. Para aceitar que cair não prejudica demais: A gente levanta, a gente sobe, a gente volta! Para lavar o corpo na cachoeira branca dum riacho, Vestir terno novo, Sair de tudo o que era, Para entrar num destino melhor: sair do grande orvalho!
  • 8.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda, Para viver amizade acontecida simples, No comum, sem encalço. Amizade dada é amor. Para achar um valor viável em tudo que é cordato e correntio.
  • 9.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda, Para aceitar que quando se curte raiva de alguém, É a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente: Falta de soberania e farta bobice!
  • 10.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda, Para se viver outros movimentos, Sem os erros e volteios da vida em sua lerdeza de sarrafaçar. Para reparar que o real não está na saída nem na chegada: Ele se dispõe para gente é no meio da travessia.
  • 11.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda Para aceitar que no real da vida as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância.
  • 12.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda Para aceitar que sempre que se começa a ter amor a alguém, No ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; Mas quando é destino dado, maior que o miúdo, A gente ama é inteiriço fatal, carecendo de querer, E é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.
  • 13.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda Para aceitar que julgamento é sempre defeituoso, Porque o que a gente julga é o passado. Para aceitar que passado é passado: não voga Despedir da febre. Para traz não há paz.
  • 14.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda Para aceitar que o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, Sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e ainda mais alegre ainda no meio da tristeza!
  • 15.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda, Para aceitar que só nos olhos das pessoas é que se procura o macio interno delas. Para aceitar que conselho de amigo só merece por ser livre, feito aragem de tardinha palmeando em lume d’ água. O amor dá as costas a toda reprovação.
  • 16.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda Para aceitar que as coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras, ladroalmente. Para aceitar que a vida inventa! A gente principia as coisas, mas não sabe por que, E desde aí a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.
  • 17.
    Na travessia, guardartenência simples e constância miúda Para aceitar que as coisas não tem hoje e ant ‘ontem amanhã; é sempre. Que o real roda e põe diante. Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos. Para aceitar que os fatos passados obedecem a gente; Os em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável? Não. Esse obedece igual – e é o que é. Para aceitar o tempo que o mediu. Se as pessoas esbarrassem, para pensar: tem uma coisa!: ver o puro tempo vindo de baixo, Quieto mole, como a enchente duma água... Tempo é a vida da morte: imperfeição!