CONHECIMENTO
O conhecimento é uma relação que se verifica entre um sujeito (que conhece) e
um objeto ( que é conhecido). Num ato de conhecer, um sujeito apreende um
objeto, mas pode acontecer que o sujeito e o objeto coincidam.
- Tipos de conhecimento -
conhecimento prático: é o conhecimento de atividades ou ações, relativas à
capacidade, aptidão ou competência para fazer algo ou realizar uma tarefa.
EX: Saber cozinhar, saber conduzir e saber dançar
conhecimento proposicional: é o conhecimento que tem por objeto proposições
ou pensamentos verdadeiros
EX: Saber que 3+3 = 6, saber que os ovos têm proteínas
conhecimento por contacto: é o conhecimento direto de alguma realidade de
pessoas, animais, coisas…
EX: conhecer Paris, conhecer a dor de uma derrota
DEFINIÇÃO TRADICIONAL DE CONHECIMENTO E OBJEÇÕES
No âmbito do conhecimento proposicional existe uma crença, opinião ou
convicção do sujeito relativamente ao objeto. Neste caso, o objeto é uma
proposição (pode ser verdadeira ou falsa)
A crença é a adesão a uma determinada ideia ou proposição, tomando-a como
verdadeira (embora ela possa ser falsa), trata-se de uma atitude proposicional
uma vez que o sujeito adota uma atitude em relação a uma proposição.
CRENÇA
Saber implica acreditar naquilo que se sabe. A crença é uma condição
necessária mas não suficiente para o conhecimento. para haver conhecimento é
necessário não só que uma pessoa acredite em algo, como também que isso seja
verdade.
VERDADE
A verdade é uma condição necessária mas não suficiente para o conhecimento.
Considera-se que uma crença se encontra justificada se tivermos razões para
pensar que ela é verdadeira (se tivermos boas razões que apoiem ou sustentem o
seu conteúdo). Ter crenças verdadeiras por mera sorte não é o mesmo que ter
conhecimento.
JUSTIFICAÇÃO
Para haver conhecimento, torna-se necessário dispor de provas, razões ou
evidências para justificar a nossa crença, por isso, a justificação é uma condição
necessária mas não suficiente para o conhecimento.
- crença justificada verdadeira - acreditar, com base em evidências
científicas, que a Terra gira em redor do seu eixo
- crença justificada falsa - acreditar que amanhã vai nevar, com base em
previsões meteorológicas fiáveis e isso não se verificar
- crença injustificada verdadeira - acreditar que se vai ganhar o primeiro
prémio do Totoloto, apenas porque se deseja que isso aconteça, e isso
efetivamente acontecer
- crença injustificada falsa - acreditar, apenas por medo, que se tem um
tumor, mesmo após os exames clínicos terem desmentido tal hipótese
De acordo com a definição tripartida de conhecimento, o conhecimento é uma
crença justificada , ou seja, se alguém tiver uma crença e essa crença for
verdadeira e se houver boas razões então, dispõem das condições necessárias e
suficientes para ter conhecimento, esta definição foi sujeita a objeções. Edmund
Gettier diz que crenças verdadeiras justificadas podem não ter conhecimento ,
por outras palavras, é possível alguém não possuir conhecimento, ainda que
sejam realizadas as 3 condições necessárias e conjuntamente suficientes para tal:
crença, verdade e justificação.
Se podermos ter crenças verdadeiras justificadas acidentalmente, então essas
crenças não equivalem a conhecimento, por isso, a definição tradicional não
apresenta condições suficientes para o conhecimento.
DESAFIO CÉTICO
O ceticismo radical, absoluto ou global é uma corrente filosófica que nega a
capacidade do conhecimento. Isto significa, mesmo que as nossas crenças sejam
verdadeiras, não temos justificações suficientes para mostrar essa verdade, logo,
não há maneira de provar se é verdadeira ou falsa.
- As justificações são sempre falíveis e insuficientes, ou seja, não sabemos
aquilo que pensamos saber.
- o argumento principal dos céticos radicais pode ser expresso mediante o
seguinte modus tollens:
Se há conhecimento, então há crenças justificadas
Não há crenças justificadas
Logo, não há conhecimento
- O ceticismo radical é autocontraditório/autorrefutante. O cético radical
afirma que não temos crenças verdadeiras justificadas, mas, ao afirmar
isso, já exprime a crença verdadeira justificada de que não há crenças
verdadeiras justificadas.
O ceticismo moderado diz que o conhecimento é possível, no entanto, existem
limites no conhecimento e/ou que o saber é apenas provável - probabilismo
O filósofo Sexto Empírico apresentou argumentos que conduzem à dúvida e que
levavam os céticos à suspensão do juízo, ou seja, em nada afirmar nem negar,
este estado conduz o sábio à ataraxia ou ausência de perturbação
(imperturbabilidade).
- erros e ilusões dos sentidos - relativamente ao mesmo objeto há
sensações e percepções distintas e até incompatíveis para diferentes
pessoas ou para a mesma pessoa em situações diferentes, não havendo, a
possibilidade de distinguir o que é verdadeiro do que é falso. Por outro
lado, os objetos desencadeiam ilusões, não existindo a possibilidade de
decidir qual é a verdadeira realidade dos objetos. Nenhuma crença relativa
aos objetos dos sentidos se encontra justificada.
EX: Parece-nos que o sol se move, quando, é a Terra que se move
- discordância e divergência de opiniões - existem opiniões divergentes e
inclináveis, isso torna impossível que nos decidamos por uma ou outra,
sendo preciso suspender o juízo sobre o qual é verdadeira e qual é falsa. Se
existem opiniões e crenças divergentes e inconciliáveis, então nenhuma
delas se encontra adequada e suficientemente justificada.
EX: Em relação à existência de Deus, uns dizem que existem, outros não.
- regressão infinita da justificação - os céticos radicais defendem que as
nossas crenças são justificadas com base noutras crenças, não havendo
nenhuma crença que se possa justificar a si mesma. Assim ao tentar
justificar a crença A recorremos à crença B e assim por diante (uma cadeia
de justificação que se estende até ao infinito) - regressão infinita da
justificação. Se há uma regressão infinita da justificação, nenhuma crença
está justificada, se não está justificada, não há conhecimento. Tentar evitar
esta regressão com base numa crença injustificada ou então caindo num
círculo vicioso.
NOTA: os céticos radicais não afirmam nem negam a existência de Deus.
RESPOSTA DO FUNDACIONALISMO
O fundacionalismo é uma perspectiva segundo a qual o conhecimento deve
ser considerado como uma estrutura que se ergue a partir de fundamentos
certos, seguros e indubitáveis.
Suponhamos agora que a crença E é a crença que João tem de que está a ter a
experiência de ver algo semelhante a uma torre. Um fundacionalista poderá dizer
que essa é uma crença básica, um cético radical irá considerar que é necessário
justificar essa crença com a crença F.
- crenças -
Não - básicas ( não são autoevidentes e são justificadas por outras)
Básicas ( crenças fundacionais suportam o sistema do saber, não precisam de
justificação, porque justificam-se a si mesmas, sendo autoevidentes, estas
crenças permitem evitar a regressão infinita da justificação)
NOTA: No caso das crenças básicas, uma vez que as proposições em que
acreditamos não são inferidas das outras, a justificação envolvida é não
inferencial.
FONTES DE CONHECIMENTO
Se admitirmos, como sustentam os fundacionalismo, que o conhecimento é
possível, importa averiguar quais são as fontes de conhecimento das nossas
crenças.
O facto de haver formas diferentes de justificar as crenças que temos por
verdadeiras remete-nos para o problema das fontes de conhecimento. Verifica-se
amplo consenso entre os filósofos no que se refere à consideração das principais
fontes de conhecimento. São duas: razão/pensamentos e experiência/sentidos
Ao considerarmos a multiplicidade de proposições ou juízos que formulamos,
podemos constatar que nem todos são conhecidos do mesmo modo:
- proposição a priori - sem recorrer à experiência/sentidos
EX: 3+3 = 6
- proposição à posteriori - recorre à experiência/sentidos
EX: a neve é branca
NOTA: o termo experiência significa , apreensão da realidade através dos sentidos
- sabemos que o todo é maior do que a parte, que 3+3 = 6, a fonte destes
conhecimentos é a razão ou o pensamento
- só podemos saber que a neve é branca e que as andorinhas voam se
olharmos para as andorinhas e para a neve (ou se alguém o fizer por nós e
no-lo contar). Para justificar tais crenças, necessitamos recorrer à
experiência sensível, já que o pensamento e o raciocínio não são
suficientes.
Assim podemos dizer que existem dois tipos de conhecimento:
- priori - pode ser obtido através da razão/pensamento, assim como a sua
justificação
- posteriori - é necessário recorrer aos sentidos para o obter (conhecimento
empírico, a sua justificação tem por base a experiência sensível)
RACIONALISMO
O racionalismo (a razão/entendimento é a fonte do conhecimento, só através da
razão se pode encontrar um conhecimento seguro, apoiados em princípios
acidentes e a priori. Trata-se de um conhecimento de verdades necessárias,
como, 3x8 = 24. O modelo de conhecimento encontra-se na matemática, este
conhecimento é obtido por intuição e pelo raciocínio, existe conhecimento a
priori acerca do mundo: conhecimento de que tudo tem uma causa, de que Deus
existe.
- uma perspectiva defendida pelo racionalismo é o inatismo (perspectiva
segundo a qual algum do nosso conhecimento é inato, ou seja, possuímos-
lo á nascença)
NOTA: verdade necessária - sempre verdadeira qualquer seja as circunstâncias ou
em todos os mundos possíveis
verdade contingente - é verdadeira mas poderia ser falsa, caso as coisas
do mundo tivessem sido diferentes
intuição é a compreensão direta e imediata de uma verdade
EMPIRISMO
A fonte principal do conhecimento é a experiência, não existem ideias,
conhecimentos e princípios inatos. Todo o conhecimento do mundo tem de ser
adquirido através da experiência e é na experiência que o conhecimento tem o
seu fundamento e os seus limites.
Os empiristas aceitam que há certas verdades que podem ser conhecidas a
priori. No entanto, consideram que essas verdades são desinteressantes, trivais,
não-instrutivas, tautológicas e nada nos dizem acerca do mundo.
Elas podem ser adquiridas através da mera compreensão dos conceitos
relevantes. Qualquer conhecimento substancial, ou acerca do mundo, é
adquirido através da experiência, como também , as ideias presentes no
conhecimento à priori.
DESCARTES
René Descartes (1596-1650) era um filósofo racionalista (a razão é a fonte
principal do conhecimento e é na razão que se encontra o fundamento do
conhecimento). Descartes pretendeu mostrar que o conhecimento é possível,
então, os céticos radicais não têm razão e os seus argumentos devem ser
abandonados.
- MÉTODO -
regras: evidência (nunca aceitar coisa alguma por verdadeira, sem que a
conhecesse evidentemente como tal)
análise (dividir cada uma das dificuldades que examinava em tantas
parcelas quantas fosse possível e necessária)
síntese (conduzir por ordem os meus pensamentos começando pelos
mais simples para os mais complexos)
enumeração e revisão
Este método deve guiar o espírito no exercício das duas operações fundamentais
do entendimento: intuição (ato puramente intelectual ou racional de apreensão
direta e imediata de noções ou ideias simples, evidentes e indubitáveis)
dedução (ato de concluir, a partir de determinadas verdades
tomadas como princípios, outras que lhes estão necessariamente ligadas)
SABEDORIA HUMANA
Permanece una e idêntica, por muitos diferentes que sejam os objetos a que se
aplique. A filosofia é comparada a uma árvore onde as raízes são a metafísica, o
tronco é a física e os ramos são todas as outras ciências, sendo as três principais a
medicina, mecânica e moral.
DÚVIDA
Constitui uma exigência quando a razão inicia a aplicação do método.
- dúvida metódica - Recusar (ou tomar como falsas) todas as crenças em
relação às quais se levante a mínima suspeita de dúvida ou de incerteza.
A dúvida é posta ao serviço da verdade e da procura de uma justificação para as
nossas crenças.
O filósofo considera ser necessário encontrar verdades indubitáveis a partir das
quais se possam deduzir, de forma metódica, outras verdades igualmente
indubitáveis. Só desse modo é possível estabelecer um fundamento sólido para
as ciências.
- perspectiva infalibilista - O conhecimento é incompatível com a
possibilidade do erro: as justificações para as nossas crenças terão de
garantir a verdade de tais crenças.Se alguma crença resistir à dúvida,
poderá ser a base ou o fundamento para outras crenças. Uma crença
fundacional permitirá evitar a regressão infinita da justificação.
RAZÕES PARA DUVIDAR
Ilusões e enganos dos sentidos: Os sentidos por vezes enganam-nos iludem-
nos, e é prudente nunca confiar totalmente naqueles que nos enganaram,
mesmo que só uma vez.
Falta de critério para distinguir o sonho da vigília: Dado que não sabemos
se estamos a sonhar, não temos justificação para acreditar que estamos
despertos. Assim, também não sabemos se as nossas percepções sensíveis
são ou não ilusórias.
Enganos e erros de raciocínio: Alguns seres humanos enganaram-se e
cometeram erros ao raciocinar, inclusive nas questões mais simples da geometria
e da matemática em geral.
Hipótese da existência de um deus enganador ou génio maligno: Pode existir
um ser poderoso que faz com que estejamos sempre enganados: no tocante
às verdades e às demonstrações das matemáticas, às crenças sobre os objetos
físicos, e à própria existência do mundo exterior.
CARACTERÍSTICAS DA DÚVIDA
Metódica e provisória: É um meio para atingir, de modo organizado, um
conhecimento seguro, a certeza e a verdade, não constituindo um fim em
si mesma. Mantém-se apenas até se descobrir algo indubitável.
Hiperbólica: É uma dúvida exagerada ou levada ao extremo. Considera como
falso tudo aquilo que for meramente duvidoso ou em que se note a mínima
suspeita de incerteza.
Universal e radical: Incide sobre todas as nossas crenças (a priori e a posteriori) e
põe em questão a possibilidade de construir o conhecimento (as faculdades do
conhecimento são postas em causa).
Voluntária: Não é uma dúvida sofrida em termos psicológicos, mas sim artificial
e estabelecida livremente.
NOTA: A dúvida sendo um exercício voluntário possui uma função catártica
(Liberta o espírito dos erros que o podem perturbar ao longo
do processo de indagação da verdade), a dúvida torna-se benéfica e útil na
medida em que permite que nos libertemos dos juízos precipitados que
formulamos na infância, dos preconceitos adquiridos, das opiniões errôneas, da
confiança cega nas informações dos sentidos, assim como da tradição e da
autoridade.
DA DÚVIDA AO COGITO
Sendo um ato livre da vontade, a dúvida acabará por conduzir a uma verdade
incontestável: a afirmação da minha existência, enquanto sou um ser que pensa e
duvida. Ainda que o gênio maligno me engane, ele jamais conseguirá que eu seja
nada enquanto eu pensar que sou alguma coisa. Não podemos duvidar sem
pensar, e não podemos pensar sem existir, daí ser absolutamente verdadeira a
crença “Penso, logo existo”.
o cogito é assim uma afirmação evidente e indubitável, uma certeza inabalável,
obtida por intuição, de modo inteiramente racional e a priori, e que, sendo a
primeira verdade que se apresenta a quem conduz os seus pensamentos por
ordem, servirá de paradigma ou modelo para as várias crenças verdadeiras.
- Deste modo, descartes adotou como regra geral, de que é verdadeiro tudo
aquilo o que concebemos muito claramente e muito distintamente. O
cogito fornece assim o critério de verdade, que consiste na clareza e
distinção das ideias, todas as crenças que sejam claras e distintas são
verdadeiras, ideias claras e distintas são ideias evidentes para a razão
- Enquanto primeira verdade, o cogito surge-nos como crença fundacional
ou básica, pois a partir dela Descartes procura reconstruir ou construir o
edifício do conhecimento, o sistema do saber. Trata-se assim de uma
crença autoevidente e autojustificada que permite evitar a regressão
infinita da justificação.
- Simultaneamente, o cogito impõe uma exceção à universalidade da dúvida
(há pelo menos uma realidade da qual não posso duvidar, a minha própria
existência)
- A apreensão intuitiva da existência mostra-nos como esta é indissociável
do próprio pensamento, deste modo, a natureza do sujeito consiste no
pensamento. O pensamento refere-se a toda a atividade consciente. O eu é
uma coisa pensante.
- O pensamento é o atributo essencial da alma (substância pensante) a qual
é distinta do corpo e é conhecida antes dele e de tudo o resto.
COGITO
Não é suficiente para garantir que a existência do corpo ou de um mundo
exterior e independente do pensamento.
Embora tendo um critério de verdade, o sujeito pensante, limitado e imperfeito,
é incapaz, por si só,
de garantir a verdade objetiva daquilo que pensou com clareza e distinção.
Também ainda não afastamos a hipótese da existência do gênio maligno ou
deus enganador.
É necessário demonstrar a existência de um Deus que não nos engane,
ultrapassando o solipsismo (teoria filosófica que reduz toda a realidade ao sujeito
pensante) e quaisquer ameaças do ceticismo radical.
- ideias - são atos mentais (ou modos de pensamentos) e representações,
quadros ou imagens das coisas. As ideias possuem um conteúdo que
representa alguma coisa.
TIPOS DE IDEIAS
- adventícias - Têm origem na experiência sensível, nas impressões que os
objetos físicos causam nos sentidos. EX: ideias de cavalo e de rio
- factícias - São fabricadas pela imaginação, a partir de outras ideias
EX: ideias de sereia, unicórnio
- inatas - São ideias constitutivas da própria razão e já as possuímos à
nascença. EX: ideias de pensamento, ser perfeito
As ideias inatas são aquelas a partir das quais se irá construir o edifício do
conhecimento.
NOTA: Entre as ideias inatas que possuímos encontra-se a ideia de ser perfeita -
um ser omnisciente, sumamente inteligente, infinito, eterno, independente,
omnipotente, sumamente bom e criador de toda a realidade. Esta ideia serve de
ponto de partida para a investigação relativa à existência de Deus.
PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS
- A causa da ideia de ser perfeito terá de ser Deus.(causalidade)
- O sujeito pensante e imperfeito não pode existir se Deus não existir.
(causalidade)
- A existência faz parte da essência de Deus. (ser perfeito)
Deus é bom e não é enganador, Deus é a garantia da verdade das ideias claras e
distintas. Podemos assim, confiar nas nossas ideias claras e distintas, nos nossos
argumentos e demonstrações que as tomam como premissas e nas nossas
faculdades racionais, que recebemos de Deus, estas não nos induzem em erro
desde que as apliquemos corretamente. Sendo criador das verdades eternas, a
origem do ser e o fundamento da certeza, só Deus pode conferir valor à ciência e
objetividade ao conhecimento. Deus é o princípio do ser e da verdade.
Uma vez provada a existência de Deus, Descartes irá deduzir muitas verdades,
provando igualmente a existência do corpo e de um mundo exterior, poderá
assim, construir o edifício do conhecimento e superar todos os argumentos dos
céticos radicais.
NOTA: apesar de Deus não estamos libertos da possibilidade do erro.
OS TRÊS TIPOS DE SUBSTÂNCIAS E O FUNDACIONALISMO DE DESCARTES
- substância pensante (pensamento) - é a alma ou o espírito humano
- substância extensa (extensão) - é a matéria
As qualidades primárias que são: grandeza, duração, figura, quantidade e
movimento. As qualidades secundárias são: sabor, odor e cor.
- substância divina ( vários atributos, decorrentes da perfeição infinita) - é
Deus
Por sua vez, o ser humano constitui uma união de duas substâncias: a união da
alma (mente, espírito ou substância pensante) e do corpo (substância extensa)- o
dualismo alma-corpo ou dualismo cartesiano. Trata-se de um dualismo
substancial.
Se as ideias fundamentais são inatas, a razão, desde que devidamente orientada,
é capaz de alcançar um conhecimento claro e distinto.
As principais verdades das quais se deduzem outras são:
- a existência do eu pensante (alma) traduzida no cogito
- a existência de Deus, ser perfeito, com os atributos respetivos
- a existência de corpos extensos em comprimento, largura e altura
FUNDACIONALISMO RACIONALISTA DE DESCARTES
O fundamento do conhecimento encontra-se no cogito, enquanto crença
básica ou fundacional e primeira verdade, e noutras ideias claras e distintas da
razão, obtidas de modo intuitivo. Trata-se de um fundacionalismo racionalista.
Apesar de para Descartes o fundamento do conhecimento se encontrar nas
crenças básicas da razão, só Deus é que permite construir o edifício do
conhecimento, visto que só ele, sendo o princípio de toda a realidade e a origem
da razão, pode ser garantida de verdade, ao mesmo tempo que é o criador das
ideias inatas, claras e distintas.

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  • 1.
    CONHECIMENTO O conhecimento éuma relação que se verifica entre um sujeito (que conhece) e um objeto ( que é conhecido). Num ato de conhecer, um sujeito apreende um objeto, mas pode acontecer que o sujeito e o objeto coincidam. - Tipos de conhecimento - conhecimento prático: é o conhecimento de atividades ou ações, relativas à capacidade, aptidão ou competência para fazer algo ou realizar uma tarefa. EX: Saber cozinhar, saber conduzir e saber dançar conhecimento proposicional: é o conhecimento que tem por objeto proposições ou pensamentos verdadeiros EX: Saber que 3+3 = 6, saber que os ovos têm proteínas conhecimento por contacto: é o conhecimento direto de alguma realidade de pessoas, animais, coisas… EX: conhecer Paris, conhecer a dor de uma derrota DEFINIÇÃO TRADICIONAL DE CONHECIMENTO E OBJEÇÕES No âmbito do conhecimento proposicional existe uma crença, opinião ou convicção do sujeito relativamente ao objeto. Neste caso, o objeto é uma proposição (pode ser verdadeira ou falsa) A crença é a adesão a uma determinada ideia ou proposição, tomando-a como verdadeira (embora ela possa ser falsa), trata-se de uma atitude proposicional uma vez que o sujeito adota uma atitude em relação a uma proposição. CRENÇA Saber implica acreditar naquilo que se sabe. A crença é uma condição necessária mas não suficiente para o conhecimento. para haver conhecimento é necessário não só que uma pessoa acredite em algo, como também que isso seja verdade. VERDADE A verdade é uma condição necessária mas não suficiente para o conhecimento. Considera-se que uma crença se encontra justificada se tivermos razões para pensar que ela é verdadeira (se tivermos boas razões que apoiem ou sustentem o seu conteúdo). Ter crenças verdadeiras por mera sorte não é o mesmo que ter conhecimento. JUSTIFICAÇÃO Para haver conhecimento, torna-se necessário dispor de provas, razões ou evidências para justificar a nossa crença, por isso, a justificação é uma condição necessária mas não suficiente para o conhecimento. - crença justificada verdadeira - acreditar, com base em evidências científicas, que a Terra gira em redor do seu eixo - crença justificada falsa - acreditar que amanhã vai nevar, com base em previsões meteorológicas fiáveis e isso não se verificar
  • 2.
    - crença injustificadaverdadeira - acreditar que se vai ganhar o primeiro prémio do Totoloto, apenas porque se deseja que isso aconteça, e isso efetivamente acontecer - crença injustificada falsa - acreditar, apenas por medo, que se tem um tumor, mesmo após os exames clínicos terem desmentido tal hipótese De acordo com a definição tripartida de conhecimento, o conhecimento é uma crença justificada , ou seja, se alguém tiver uma crença e essa crença for verdadeira e se houver boas razões então, dispõem das condições necessárias e suficientes para ter conhecimento, esta definição foi sujeita a objeções. Edmund Gettier diz que crenças verdadeiras justificadas podem não ter conhecimento , por outras palavras, é possível alguém não possuir conhecimento, ainda que sejam realizadas as 3 condições necessárias e conjuntamente suficientes para tal: crença, verdade e justificação. Se podermos ter crenças verdadeiras justificadas acidentalmente, então essas crenças não equivalem a conhecimento, por isso, a definição tradicional não apresenta condições suficientes para o conhecimento. DESAFIO CÉTICO O ceticismo radical, absoluto ou global é uma corrente filosófica que nega a capacidade do conhecimento. Isto significa, mesmo que as nossas crenças sejam verdadeiras, não temos justificações suficientes para mostrar essa verdade, logo, não há maneira de provar se é verdadeira ou falsa. - As justificações são sempre falíveis e insuficientes, ou seja, não sabemos aquilo que pensamos saber. - o argumento principal dos céticos radicais pode ser expresso mediante o seguinte modus tollens: Se há conhecimento, então há crenças justificadas Não há crenças justificadas Logo, não há conhecimento - O ceticismo radical é autocontraditório/autorrefutante. O cético radical afirma que não temos crenças verdadeiras justificadas, mas, ao afirmar isso, já exprime a crença verdadeira justificada de que não há crenças verdadeiras justificadas. O ceticismo moderado diz que o conhecimento é possível, no entanto, existem limites no conhecimento e/ou que o saber é apenas provável - probabilismo O filósofo Sexto Empírico apresentou argumentos que conduzem à dúvida e que levavam os céticos à suspensão do juízo, ou seja, em nada afirmar nem negar, este estado conduz o sábio à ataraxia ou ausência de perturbação (imperturbabilidade). - erros e ilusões dos sentidos - relativamente ao mesmo objeto há sensações e percepções distintas e até incompatíveis para diferentes pessoas ou para a mesma pessoa em situações diferentes, não havendo, a possibilidade de distinguir o que é verdadeiro do que é falso. Por outro lado, os objetos desencadeiam ilusões, não existindo a possibilidade de
  • 3.
    decidir qual éa verdadeira realidade dos objetos. Nenhuma crença relativa aos objetos dos sentidos se encontra justificada. EX: Parece-nos que o sol se move, quando, é a Terra que se move - discordância e divergência de opiniões - existem opiniões divergentes e inclináveis, isso torna impossível que nos decidamos por uma ou outra, sendo preciso suspender o juízo sobre o qual é verdadeira e qual é falsa. Se existem opiniões e crenças divergentes e inconciliáveis, então nenhuma delas se encontra adequada e suficientemente justificada. EX: Em relação à existência de Deus, uns dizem que existem, outros não. - regressão infinita da justificação - os céticos radicais defendem que as nossas crenças são justificadas com base noutras crenças, não havendo nenhuma crença que se possa justificar a si mesma. Assim ao tentar justificar a crença A recorremos à crença B e assim por diante (uma cadeia de justificação que se estende até ao infinito) - regressão infinita da justificação. Se há uma regressão infinita da justificação, nenhuma crença está justificada, se não está justificada, não há conhecimento. Tentar evitar esta regressão com base numa crença injustificada ou então caindo num círculo vicioso. NOTA: os céticos radicais não afirmam nem negam a existência de Deus. RESPOSTA DO FUNDACIONALISMO O fundacionalismo é uma perspectiva segundo a qual o conhecimento deve ser considerado como uma estrutura que se ergue a partir de fundamentos certos, seguros e indubitáveis. Suponhamos agora que a crença E é a crença que João tem de que está a ter a experiência de ver algo semelhante a uma torre. Um fundacionalista poderá dizer que essa é uma crença básica, um cético radical irá considerar que é necessário justificar essa crença com a crença F. - crenças - Não - básicas ( não são autoevidentes e são justificadas por outras) Básicas ( crenças fundacionais suportam o sistema do saber, não precisam de justificação, porque justificam-se a si mesmas, sendo autoevidentes, estas crenças permitem evitar a regressão infinita da justificação) NOTA: No caso das crenças básicas, uma vez que as proposições em que acreditamos não são inferidas das outras, a justificação envolvida é não inferencial. FONTES DE CONHECIMENTO Se admitirmos, como sustentam os fundacionalismo, que o conhecimento é possível, importa averiguar quais são as fontes de conhecimento das nossas crenças. O facto de haver formas diferentes de justificar as crenças que temos por verdadeiras remete-nos para o problema das fontes de conhecimento. Verifica-se amplo consenso entre os filósofos no que se refere à consideração das principais fontes de conhecimento. São duas: razão/pensamentos e experiência/sentidos
  • 4.
    Ao considerarmos amultiplicidade de proposições ou juízos que formulamos, podemos constatar que nem todos são conhecidos do mesmo modo: - proposição a priori - sem recorrer à experiência/sentidos EX: 3+3 = 6 - proposição à posteriori - recorre à experiência/sentidos EX: a neve é branca NOTA: o termo experiência significa , apreensão da realidade através dos sentidos - sabemos que o todo é maior do que a parte, que 3+3 = 6, a fonte destes conhecimentos é a razão ou o pensamento - só podemos saber que a neve é branca e que as andorinhas voam se olharmos para as andorinhas e para a neve (ou se alguém o fizer por nós e no-lo contar). Para justificar tais crenças, necessitamos recorrer à experiência sensível, já que o pensamento e o raciocínio não são suficientes. Assim podemos dizer que existem dois tipos de conhecimento: - priori - pode ser obtido através da razão/pensamento, assim como a sua justificação - posteriori - é necessário recorrer aos sentidos para o obter (conhecimento empírico, a sua justificação tem por base a experiência sensível) RACIONALISMO O racionalismo (a razão/entendimento é a fonte do conhecimento, só através da razão se pode encontrar um conhecimento seguro, apoiados em princípios acidentes e a priori. Trata-se de um conhecimento de verdades necessárias, como, 3x8 = 24. O modelo de conhecimento encontra-se na matemática, este conhecimento é obtido por intuição e pelo raciocínio, existe conhecimento a priori acerca do mundo: conhecimento de que tudo tem uma causa, de que Deus existe. - uma perspectiva defendida pelo racionalismo é o inatismo (perspectiva segundo a qual algum do nosso conhecimento é inato, ou seja, possuímos- lo á nascença) NOTA: verdade necessária - sempre verdadeira qualquer seja as circunstâncias ou em todos os mundos possíveis verdade contingente - é verdadeira mas poderia ser falsa, caso as coisas do mundo tivessem sido diferentes intuição é a compreensão direta e imediata de uma verdade EMPIRISMO A fonte principal do conhecimento é a experiência, não existem ideias, conhecimentos e princípios inatos. Todo o conhecimento do mundo tem de ser adquirido através da experiência e é na experiência que o conhecimento tem o seu fundamento e os seus limites. Os empiristas aceitam que há certas verdades que podem ser conhecidas a priori. No entanto, consideram que essas verdades são desinteressantes, trivais, não-instrutivas, tautológicas e nada nos dizem acerca do mundo.
  • 5.
    Elas podem seradquiridas através da mera compreensão dos conceitos relevantes. Qualquer conhecimento substancial, ou acerca do mundo, é adquirido através da experiência, como também , as ideias presentes no conhecimento à priori. DESCARTES René Descartes (1596-1650) era um filósofo racionalista (a razão é a fonte principal do conhecimento e é na razão que se encontra o fundamento do conhecimento). Descartes pretendeu mostrar que o conhecimento é possível, então, os céticos radicais não têm razão e os seus argumentos devem ser abandonados. - MÉTODO - regras: evidência (nunca aceitar coisa alguma por verdadeira, sem que a conhecesse evidentemente como tal) análise (dividir cada uma das dificuldades que examinava em tantas parcelas quantas fosse possível e necessária) síntese (conduzir por ordem os meus pensamentos começando pelos mais simples para os mais complexos) enumeração e revisão Este método deve guiar o espírito no exercício das duas operações fundamentais do entendimento: intuição (ato puramente intelectual ou racional de apreensão direta e imediata de noções ou ideias simples, evidentes e indubitáveis) dedução (ato de concluir, a partir de determinadas verdades tomadas como princípios, outras que lhes estão necessariamente ligadas) SABEDORIA HUMANA Permanece una e idêntica, por muitos diferentes que sejam os objetos a que se aplique. A filosofia é comparada a uma árvore onde as raízes são a metafísica, o tronco é a física e os ramos são todas as outras ciências, sendo as três principais a medicina, mecânica e moral. DÚVIDA Constitui uma exigência quando a razão inicia a aplicação do método. - dúvida metódica - Recusar (ou tomar como falsas) todas as crenças em relação às quais se levante a mínima suspeita de dúvida ou de incerteza. A dúvida é posta ao serviço da verdade e da procura de uma justificação para as nossas crenças. O filósofo considera ser necessário encontrar verdades indubitáveis a partir das quais se possam deduzir, de forma metódica, outras verdades igualmente indubitáveis. Só desse modo é possível estabelecer um fundamento sólido para as ciências.
  • 6.
    - perspectiva infalibilista- O conhecimento é incompatível com a possibilidade do erro: as justificações para as nossas crenças terão de garantir a verdade de tais crenças.Se alguma crença resistir à dúvida, poderá ser a base ou o fundamento para outras crenças. Uma crença fundacional permitirá evitar a regressão infinita da justificação. RAZÕES PARA DUVIDAR Ilusões e enganos dos sentidos: Os sentidos por vezes enganam-nos iludem- nos, e é prudente nunca confiar totalmente naqueles que nos enganaram, mesmo que só uma vez. Falta de critério para distinguir o sonho da vigília: Dado que não sabemos se estamos a sonhar, não temos justificação para acreditar que estamos despertos. Assim, também não sabemos se as nossas percepções sensíveis são ou não ilusórias. Enganos e erros de raciocínio: Alguns seres humanos enganaram-se e cometeram erros ao raciocinar, inclusive nas questões mais simples da geometria e da matemática em geral. Hipótese da existência de um deus enganador ou génio maligno: Pode existir um ser poderoso que faz com que estejamos sempre enganados: no tocante às verdades e às demonstrações das matemáticas, às crenças sobre os objetos físicos, e à própria existência do mundo exterior. CARACTERÍSTICAS DA DÚVIDA Metódica e provisória: É um meio para atingir, de modo organizado, um conhecimento seguro, a certeza e a verdade, não constituindo um fim em si mesma. Mantém-se apenas até se descobrir algo indubitável. Hiperbólica: É uma dúvida exagerada ou levada ao extremo. Considera como falso tudo aquilo que for meramente duvidoso ou em que se note a mínima suspeita de incerteza. Universal e radical: Incide sobre todas as nossas crenças (a priori e a posteriori) e põe em questão a possibilidade de construir o conhecimento (as faculdades do conhecimento são postas em causa). Voluntária: Não é uma dúvida sofrida em termos psicológicos, mas sim artificial e estabelecida livremente. NOTA: A dúvida sendo um exercício voluntário possui uma função catártica (Liberta o espírito dos erros que o podem perturbar ao longo do processo de indagação da verdade), a dúvida torna-se benéfica e útil na medida em que permite que nos libertemos dos juízos precipitados que formulamos na infância, dos preconceitos adquiridos, das opiniões errôneas, da confiança cega nas informações dos sentidos, assim como da tradição e da autoridade.
  • 7.
    DA DÚVIDA AOCOGITO Sendo um ato livre da vontade, a dúvida acabará por conduzir a uma verdade incontestável: a afirmação da minha existência, enquanto sou um ser que pensa e duvida. Ainda que o gênio maligno me engane, ele jamais conseguirá que eu seja nada enquanto eu pensar que sou alguma coisa. Não podemos duvidar sem pensar, e não podemos pensar sem existir, daí ser absolutamente verdadeira a crença “Penso, logo existo”. o cogito é assim uma afirmação evidente e indubitável, uma certeza inabalável, obtida por intuição, de modo inteiramente racional e a priori, e que, sendo a primeira verdade que se apresenta a quem conduz os seus pensamentos por ordem, servirá de paradigma ou modelo para as várias crenças verdadeiras. - Deste modo, descartes adotou como regra geral, de que é verdadeiro tudo aquilo o que concebemos muito claramente e muito distintamente. O cogito fornece assim o critério de verdade, que consiste na clareza e distinção das ideias, todas as crenças que sejam claras e distintas são verdadeiras, ideias claras e distintas são ideias evidentes para a razão - Enquanto primeira verdade, o cogito surge-nos como crença fundacional ou básica, pois a partir dela Descartes procura reconstruir ou construir o edifício do conhecimento, o sistema do saber. Trata-se assim de uma crença autoevidente e autojustificada que permite evitar a regressão infinita da justificação. - Simultaneamente, o cogito impõe uma exceção à universalidade da dúvida (há pelo menos uma realidade da qual não posso duvidar, a minha própria existência) - A apreensão intuitiva da existência mostra-nos como esta é indissociável do próprio pensamento, deste modo, a natureza do sujeito consiste no pensamento. O pensamento refere-se a toda a atividade consciente. O eu é uma coisa pensante. - O pensamento é o atributo essencial da alma (substância pensante) a qual é distinta do corpo e é conhecida antes dele e de tudo o resto. COGITO Não é suficiente para garantir que a existência do corpo ou de um mundo exterior e independente do pensamento. Embora tendo um critério de verdade, o sujeito pensante, limitado e imperfeito, é incapaz, por si só, de garantir a verdade objetiva daquilo que pensou com clareza e distinção. Também ainda não afastamos a hipótese da existência do gênio maligno ou deus enganador. É necessário demonstrar a existência de um Deus que não nos engane, ultrapassando o solipsismo (teoria filosófica que reduz toda a realidade ao sujeito pensante) e quaisquer ameaças do ceticismo radical. - ideias - são atos mentais (ou modos de pensamentos) e representações, quadros ou imagens das coisas. As ideias possuem um conteúdo que representa alguma coisa.
  • 8.
    TIPOS DE IDEIAS -adventícias - Têm origem na experiência sensível, nas impressões que os objetos físicos causam nos sentidos. EX: ideias de cavalo e de rio - factícias - São fabricadas pela imaginação, a partir de outras ideias EX: ideias de sereia, unicórnio - inatas - São ideias constitutivas da própria razão e já as possuímos à nascença. EX: ideias de pensamento, ser perfeito As ideias inatas são aquelas a partir das quais se irá construir o edifício do conhecimento. NOTA: Entre as ideias inatas que possuímos encontra-se a ideia de ser perfeita - um ser omnisciente, sumamente inteligente, infinito, eterno, independente, omnipotente, sumamente bom e criador de toda a realidade. Esta ideia serve de ponto de partida para a investigação relativa à existência de Deus. PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS - A causa da ideia de ser perfeito terá de ser Deus.(causalidade) - O sujeito pensante e imperfeito não pode existir se Deus não existir. (causalidade) - A existência faz parte da essência de Deus. (ser perfeito) Deus é bom e não é enganador, Deus é a garantia da verdade das ideias claras e distintas. Podemos assim, confiar nas nossas ideias claras e distintas, nos nossos argumentos e demonstrações que as tomam como premissas e nas nossas faculdades racionais, que recebemos de Deus, estas não nos induzem em erro desde que as apliquemos corretamente. Sendo criador das verdades eternas, a origem do ser e o fundamento da certeza, só Deus pode conferir valor à ciência e objetividade ao conhecimento. Deus é o princípio do ser e da verdade. Uma vez provada a existência de Deus, Descartes irá deduzir muitas verdades, provando igualmente a existência do corpo e de um mundo exterior, poderá assim, construir o edifício do conhecimento e superar todos os argumentos dos céticos radicais. NOTA: apesar de Deus não estamos libertos da possibilidade do erro. OS TRÊS TIPOS DE SUBSTÂNCIAS E O FUNDACIONALISMO DE DESCARTES - substância pensante (pensamento) - é a alma ou o espírito humano - substância extensa (extensão) - é a matéria As qualidades primárias que são: grandeza, duração, figura, quantidade e movimento. As qualidades secundárias são: sabor, odor e cor. - substância divina ( vários atributos, decorrentes da perfeição infinita) - é Deus Por sua vez, o ser humano constitui uma união de duas substâncias: a união da alma (mente, espírito ou substância pensante) e do corpo (substância extensa)- o dualismo alma-corpo ou dualismo cartesiano. Trata-se de um dualismo substancial.
  • 9.
    Se as ideiasfundamentais são inatas, a razão, desde que devidamente orientada, é capaz de alcançar um conhecimento claro e distinto. As principais verdades das quais se deduzem outras são: - a existência do eu pensante (alma) traduzida no cogito - a existência de Deus, ser perfeito, com os atributos respetivos - a existência de corpos extensos em comprimento, largura e altura FUNDACIONALISMO RACIONALISTA DE DESCARTES O fundamento do conhecimento encontra-se no cogito, enquanto crença básica ou fundacional e primeira verdade, e noutras ideias claras e distintas da razão, obtidas de modo intuitivo. Trata-se de um fundacionalismo racionalista. Apesar de para Descartes o fundamento do conhecimento se encontrar nas crenças básicas da razão, só Deus é que permite construir o edifício do conhecimento, visto que só ele, sendo o princípio de toda a realidade e a origem da razão, pode ser garantida de verdade, ao mesmo tempo que é o criador das ideias inatas, claras e distintas.