Regina Gouveia




Estórias com sabor a Nordeste
Estórias com sabor a Nordeste                                                                    Regina Gouveia




Prefácio


No Prefácio de “O Fogo e as Cinzas” Manuel da Fonseca diz: Ficção constrói-se com o
que fica do passado. Revive-o.
É um pouco esse reviver do passado, de uma vida de mais de meio século, que emerge
em Estórias com sabor a Nordeste. As personagens podem ter sido inspiradas por
personagens reais que conheci no Nordeste Transmontano, mas também em tantos
outros lugares por onde tenho passado e /ou viajado, por personagens reais ou
imaginárias de que ouvi falar à volta da lareira, nos serões ainda iluminados à luz do
petromax, ou simplesmente por personagens que entram em nossas casa através dos
jornais, do ecrã da televisão, dos livros que lemos.
Também os cenários, embora virtuais, são                      inspirados em locais reais. Não será difícil
reconhecer no Rio, o rio Sabor, que Stº Estêvão teve como inspiração o Stº Antão da
Barca, que a Terra nos transporta para a freguesia de Parada e que a Vila teve como
inspiração      Alfândega da Fé. Com cenários e personagens fui construindo estórias, ou
melhor, recriando histórias e estórias                que foram passando, algumas de geração em
geração, quem sabe, “assopradas” pelo vento cieiro….
Mas porquê esse reviver do passado?
Um dos meus passatempos favoritos é, desde criança, a leitura O gosto pela leitura foi-
me incutido principalmente pelo meu pai. Desde sempre me lembro de o ouvir ler-me
excertos de textos ou poesias (Camões, Guerra Junqueiro, Júlio Dinis, Camilo, Victor
Hugo…) . Não sei se lia bem ou mal, sei que ouvi-lo me fascinava e comovia ao mesmo
tempo.      Um dia decidi aventurar-me na escrita, que                     foi secreta até há cerca de três
anos. Em 2000 tinha sido editado, pela mão da Areal Editores, um livro da minha autoria
“ Se eu não fosse professora de Física. Algumas reflexões sobre prática lectivas” Um dia,
a Drª Maria do Carmo Cruz, em conversa, disse-me que já tinha oferecido o meu livro a
várias pessoas. Fiquei um pouco intrigada. Por que razão uma pessoa licenciada em
Germânicas, oferecia um livro que falava do percurso e da                                  experiência de uma
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professora de Física? A resposta vou buscá - la directamente a um texto seu:
E uma obra sua explicando como se tinha tornado professora, entretanto publicada,
mostrava como a sua prosa era igualmente poética. Não podia deixar de lhe perguntar
por que não escrevia Poesia…..:" E quem lhe disse que não escrevo? " Tinha que a ler e
em breve tive o prazer e a honra de ter em mãos os seus escritos. Li-os com um certo



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  (Extractos do texto de apresentação da autoria da Drª Maria do Carmo Cruz e que consta da colectânea Tempera(Mental),
na qual foram incluídos seis poemas meus)

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espanto: eram tão reais, falavam das coisas de todos os dias e, ao mesmo tempo,
mostravam-nas de uma forma que nos permitia vê-las como se pela primeira vez.
É, pois, em primeiro lugar, à Drª Maria do Carmo Cruz que devo o ter ganho coragem
para dar a conhecer a minha escrita. Comecei por participar em duas colectâneas de
poesia e por fim decidi-me a publicar sozinha. Foi assim que surgiu, em 2002, o meu
primeiro livro de poemas “Reflexões e Interferências”, em co-edição com a Editora
Palavra em Mutação.
Incentivada pela aceitação que os meus poemas tiveram, muito para além daquilo que
eu esperava, ganhei coragem para continuar a escrever/publicar poesia e dar a conhecer
a prosa. È assim que surgem Estórias com sabor a Nordeste. Poderá parecer estranho
que tendo começado a publicar tão tardiamente, surjam agora várias publicações
próximas no tempo A explicação, se é que existe, talvez possa ser encontrada      num
poema de Manuel Alegre.


…. E no entanto o tempo agora é de corrida
contra o tempo se corre contra o tempo
contra o tempo se corre e assim se morre
em frente ao mar olhando a desmedida
distância entre a tão curta vida e o amor dela…..
e todo o tempo agora é contra o tempo
e mesmo sem correr só há corrida.
(Canção do tempo que passa, in        Alegre, A.(2001), Livro do Português Errante, D.
Quixote)




Porto, 12 de Abril de 2004




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À memória:
   •   de meus pais, muito em particular à de minha mãe,
   •   dos meus tios Cândida, António e Júlio.


Ao Fernando, a minha segunda memória, ao Miguel, ao Nuno, à Teresa e à Rita.


Ainda aos meus irmãos e à memória duma nossa antepassada castelhana que inspirou
uma das personagens que atravessam estas estórias




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Debaixo dos sobreiros




                                Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve
                                e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é
                                preciso, para os ver, é que os olhos não percam a
                                virgindade original diante da realidade e o coração,
                                depois, não hesite.


                                Miguel Torga , em “ Um Reino Maravilhoso”




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Esta é a estória de uma família. Dela   existem vários testemunhos. Alguns são tão
simples como um lenço bordado, um hissope ou uma luva desgarrada, mas há dois que
se destacam: a CASA e o chão debaixo dos sobreiros. Chamo-lhe estória porque as
personagens são fruto da imaginação. Isso não impede, porém, que esta família tenha a
sua árvore genealógica.




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       Meu pai tinha fama de aventureiro. Quando novo, viajara por três continentes, em
situações por vezes rocambolescas. No entanto não foi esse aventureiro que eu conheci
mas sim um homem sem a mínima vontade de sair para qualquer lado. Era lá na TERRA
que ele se sentia bem. E acontecia o mesmo com os seus irmãos. Referiam-se sempre à
aldeia como a TERRA e quando falavam dela era de uma forma tão enlevada que me
confundia. Apercebia-me quando o meu pai tinha que se ausentar por uns dias; ficava
ansioso, tenso e no seu olhar, sempre expressivo, eu notava inquietude que por vezes
me parecia insegurança. Quando regressava a nossa casa, a tranquilidade regressava ao
seu olhar e dizia:
       Há lá dinheiro que pague esta paz. Lembra-me a CASA.
Sempre que o meu pai ou os meus tios se referiam à casa que tinha sido dos avós e
depois dos pais, chamavam-lhe a CASA. Por vezes o meu pai acrescentava:
       Daqui só para debaixo dos sobreiros.
Referia-se deste modo ao cemitério, que está rodeado de sobreiros.
       Também os meus tios tinham uma relação singular com o cemitério. O TIO, que
vivia em Lisboa, sempre que vinha à TERRA dizia:
       Não se esqueçam que eu depois quero vir para debaixo dos sobreiros.
Creio ter entendido esta relação com o cemitério muitos anos mais tarde. A sepultura da
família ficava mesmo em frente ao portão. Quando o cemitério se tornou demasiado
pequeno, foi preciso ampliá-lo. Nas obras de ampliação foi incluída a criação de uma
“alameda” central, pelo que o jazigo teve que ser mudado. Nessa altura já o meu pai e o
TIO estavam suficientemente esclerosados para poderem tomar qualquer decisão; coube
à   TIA escolher o local para onde a campa deveria ser mudada.            Achou que era
importante consultar-me bem como aos meus primos, filhos do TIO. Para nós era
indiferente a nova localização da campa,      mas a TIA queria a nossa opinião.     A seu
pedido, acabei por me deslocar à TERRA. Indicou-me os lugares por que poderíamos
optar e quando sugeri um deles a TIA disse:
       Não. Os vizinhos do lado direito não são lá muito boa gente.
A uma outra sugestão, ripostou:
       Aí ? Tão ensombrado ? Não, tem que ser um lugar mais soalheiro.
Percebi então que a TIA tinha uma concepção        muito própria sobre a vida depois da
morte e admiti que essa concepção seria comum aos irmãos. Para eles, “debaixo dos
sobreiros”, deveria representar em morte, o mesmo que a CASA representara em vida.
Debaixo dos sobreiros está toda a família: os meus avós Álvaro e Marta, os irmãos desta,
os meus tios Clara, Pedro e Adélia, os meus pais, o TIO, a TIA e o marido - o tio Justino.
A tia Laura, mulher do TIO, alfacinha de quatro costados, essa quis ser sepultada no


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jazigo da família, no Alto de S. João. Debaixo dos sobreiros estão também os meus
bisavós: Isabel Castelhana e Luís Engrácio. Foram eles os primeiros a ocupar o jazigo.




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Nunca conheci os meus bisavós mas a sua história sempre me fascinou. A minha bisavó
terá chegado a Portugal, juntamente com um irmão, por volta de 1865. Eram refugiados
políticos. Durante quase todo o século XIX a Espanha viveu uma terrível convulsão
política muitas vezes caracterizada pela brutalidade. Por volta de 1830 opõem-se duas
facções rivais- cristinistas e carlistas. Os primeiros apoiam a terceira esposa de D.
Fernando, Maria Cristina, regente do Reino em nome de sua filha Isabel II; os segundos
apoiam D. Carlos, irmão do rei. As guerrilhas carlistas prolongar-se-iam até quase finais
do século XIX. Não sei qual das facções a minha bisavó e o irmão apoiavam, apenas sei
que se chamavam Isabel e Diego e tinham como apelido, Rodriguez. Parece que terão
vindo de Castela, pelo que a minha bisavó foi sempre conhecida por Isabel Castelhana.
Os dois irmãos ter-se-ão disfarçado de sombreireiros. Como       da arte não percebiam
nada, sempre que em alguma terra por onde passavam alguém lhes pedia para consertar
um sombreiro eles alegavam ter pressa pois tinham de chegar ainda com dia ao lugar do
destino. Num dia frio de Dezembro, terão chegado famintos e cansados às margens do
Rio, precisamente quando Luís Engrácio varejava uma das quatro únicas oliveiras que
tinha herdado de seus pais, numa nesga de terra, junto ao Rio, num local designado por
Zimbro. Luís Engrácio era ainda jovem (23 anos), mas já marcado por uma vida de
trabalho. Ficara órfão de mãe aos 6 anos e de pai aos 10. Dos seus pais herdara apenas
a nesga de terra no Zimbro, o casebre onde vivia e a alcunha por que era conhecido. O
seu nome era Luís Pereira, mas como a mãe se chamava Engrácia, foi sempre conhecido
pelo Luís Engrácio.
Luís Engrácio tinha as mãos engaranhadas com o frio pelo que resolveu acender uns
guissos para as aquecer. Foi nesse momento que viu surgir Isabel e Diego.
       Boas tardes nos dê Deus. Queçam-se aí - terá dito.
Foram estas as primeiras palavras que aquele que seria o meu bisavô Luís Engrácio
dirigiu àqueles que viriam a ser a minha bisavó Isabel Castelhana e o meu tio bisavô
Diego Rodriguez. O frio, o cansaço e a fome eram tantos que Isabel e Diego devem ter
esquecido o pavor que sempre os assaltou pelo caminho - serem identificados,
denunciados e apanhados pelas hostes da facção rival. Em silêncio chegaram-se à beira
do simulacro de fogueira. Comeram ainda da parca merenda que Luís Engrácio levara
com ele- um cibo de pão com azeitonas e cebola.
Casebre que chega p´ra um, chega p´ra três. Passados        tantos dias, Isabel e Diego
tiveram algo parecido com um tecto para se acolherem, numa aldeia transmontana que
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nunca tinham sonhado conhecer e a que mais tarde os seus netos chamariam a TERRA. A
presença dos dois irmãos, falando arrevesado, levantou uma onda de curiosidade na
aldeia à mistura com alguma suspeita. Seguiu-se-lhes mais tarde um misto de admiração
e respeito, em boa parte graças à estima que todo o povo tinha por Luís Engrácio. Mas
ao povo, não parecia bem Isabel estar a viver no casebre de Luís. Isabel, decidida dizia:
       Hombre, que hay! Yo no estoy haciendo nada de malo.
Não sei se para calar as bocas do povo, se para arranjar quem lhe fizesse o caldo, se por
amor, ou se por ter descoberto que Isabel e Diego tinham conseguido trazer com eles
ouro e dinheiro, Luís Engrácio resolveu casar com Isabel. Na época, um homem para
casar deveria envergar um capote, mas Luís Engrácio não tinha dinheiro para comprá-lo.
Isabel pretendeu oferecer-lho mas Luís não aceitou.
       Enquanto não casarmos o dinheiro é só teu.
Foi assim que o Padre Pimentel casou Isabel Rodriguez com Luís Engrácio, este de capote
emprestado. Os padrinhos foram Diego Rodriguez e Maria Clemente que mais tarde viria
a casar com Diego.
Luís Engrácio era um homem habituado ao trabalho;          o ouro e o dinheiro de Isabel
deram uma ajuda. A nesga de terra no Zimbro começou a aumentar, por compra das
terras vizinhas. O número de oliveiras crescia. Juntavam-se-lhe agora amendoeiras,
sobreiros, laranjeiras, vinha, terras de pão, hortas e lameiros. Isabel cria bichos da seda
e Luís Engrácio abelhas. São agora um casal de lavradores abastados. Engrácio fala com
orgulho de Isabel.
       É uma mulher sabida- referia, querendo significar que a           mulher não era
       analfabeta.
Nunca passara pela cabeça de Luís Engrácio, analfabeto, ter um dia uma mulher que tão
bem soubesse ler, escrever, e fazer contas.
O casebre, esse já há muito que dera lugar à CASA.




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A transformação do casebre em casa foi gradual. Disso são bem evidentes as escadas
que sobem e descem para os mais variados compartimentos e            o passadiço sobre a
canelha. Também não restam dúvidas que a primeira parte da casa a ser construída foi
a cozinha. Trata-se de um compartimento muito amplo a que se tem acesso da rua, por
umas escadas de xisto, com corrimão de madeira. Ao cimo das escadas existe o balcão a
que se segue uma porta com um postigo. Num dos cantos da cozinha tínhamos o lar.
Ao lar tinha-se acesso por uma portinha de madeira que se prolongava por um conjunto
de escanos que rodeavam a lareira propriamente dita. Em dois dos escanos havia
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preguiças2. Um dos escanos estava encostado a uma parede e em frente a ele existia um
outro, de costas muito altas, por trás das quais funcionava, por baixo a cantareira onde
se colocavam os cântaros da água e por cima o louceiro.
Provavelmente terá sido esta a primeira versão da CASA. Posteriormente o meu bisavô
terá comprado alguns casebres contíguos e a casa foi crescendo. Num dos lados da
cozinha abriram-se duas portas que dão acesso a um quarto e a uma sala com varanda
para a rua; construíram-se ainda duas escadas: uma que dá lugar ao forro - designação
dada ao sótão- e outra que dá acesso a um quarto a um nível ligeiramente inferior e que
foi, durante muito tempo, o quarto dos bichos da seda.                   Mais tarde, do outro lado da
cozinha construíram-se umas escadas que davam acesso a três quartos, a um nível
ligeiramente superior. Um desses quartos constitui o passadiço sobre a canelha debaixo
do qual ficavam a lenha e os carros. Em baixo, a loja (dos bois, dos machos, do cavalo e
do burro), a adega, o pio do vinho, o cortelho dos porcos, o forno e o galinheiro.
Não sei ao certo quantos anos mediaram entre o casamento dos meus bisavós e o
nascimento da primeira filha- a minha avó Marta, mas quando a minha avó nasceu o
casebre já tinha dado lugar à CASA, provavelmente não na sua versão final, mas pelo
menos na sua primeira etapa de construção. A seguir à avó Marta nasceram mais três
filhos - o João que morreu ainda menino, e de quem o meu pai viria a herdar o nome, a
Matilde e o Afonso.
O meu pai foi o primeiro neto dos meus bisavós. Com eles viveu em criança. Com eles,
com a tia Matilde,         o tio Afonso e os criados Pepe, António e             Artúrio,    que substituiu
António quando este morreu. Pepe e António eram galegos e se alguém quisesse ver a
minha bisavó zangada era dizer-lhe que os criados eram da sua terra.
           Hombre, yo soy castellana, no gallega.
Pepe fumava muito e tinha com o tabaco uma relação quase sensual. O meu pai ficava
fascinado ao vê-lo enrolar a mortalha para fazer um cigarro. Uma vez deu um a fumar
a meu pai, tinha ele oito anos. Ficou tão mal disposto que tossiu e vomitou o dia inteiro.
Ficou vacinado para toda a vida. Nunca fumou. Por isso dizia que tinha ficado a dever
um favor a Pepe.          Artúrio era da TERRA e o seu nome era Artur. Foi a mãe, por não
saber dizer o nome, que lhe criou a alcunha. O Artúrio fazia os piões com que o meu pai
brincava. O Artúrio e também o tio Afonso com quem o meu pai sempre manteve uma
relação no mínimo, ambivalente. Penso que o meu pai via o tio Afonso mais como um
companheiro mais velho,            do que como tio. Lembro-me de discutirem muitas vezes, a
ponto de ficarem incompatibilizados temporariamente. O tema podia ser política, futebol,
religião, agricultura, ou qualquer outro, mas se era dia de dar para o torto, tínhamos
discussão pela certa. Por vezes o tio Afonso terminava aos berros.


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    tábuas que giram em torno de um eixo e podem funcionar como mesas de apoio
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         Lembra-te de que eu sou teu tio.
O fascínio do meu pai pela CASA e pela TERRA vinha desde aquela fase da sua vida,
quando menino.
Gostava de recordar os cheiros, as cores, os gostos: do pão acabado de fazer, do mel,
das compotas no Outono, das torradas (de unto e de azeite, no lagar), do fumeiro (as
alheiras, os salpicões, os bulhos, as chouriças, os chouriços doces com mel e amêndoa),
das sanchas, das rocas e dos roquelhos guisados, dos míscaros assados na brasa, dos
espargos fritos com ovos, das doçarias de Natal (as rabanadas, as filhoses, os milhos, o
arroz doce, a aletria, os fritos de jerimum), dos folares na Páscoa (os de carne e os
doces), das sopas de tomate da tia Matilde, das casulas com bulho, do leite das cabras
acabadas de ordenhar, do queijo, do soro, da coalhada e dos requeijões, das “tortillas”,
das “empanadas”, dos “gaspachos” e das “yemas bentas” da avó, das frutas ao longo de
todo o ano (no Outono as peras, as maçãs, as romãs, os diospiros, os medronhos; no
Inverno e na Primavera, as laranjas; em Junho as amoras de amoreira, as cerejas, as
ginjas, os figos lampos, os pêssegos de S. João, as malapas; no Verão as amoras de
silva, os melões, as melancias, os figos, as uvas).
Gostava de recordar os sons: do toque a rezar3, da escacha da amêndoa, do crepitar da
lenha na lareira, do chiar dos carros de bois e do passar dos machos na rua, dos homens
a pisar o vinho, do ferrador a ferrar os machos, do ferreiro a malhar o ferro, dos sinos da
Igreja na Páscoa e nos casamentos, das vozes na rua ao lusco- fusco, do azeite a estalar
nas sopas de xis, do chiar do porco na matança, do cantar do cuco na primavera.
Gostava de recordar os animais: os bois (o castanho e o manso), os machos (o carriço e
o amarelo que faziam brrrrrrrrrr na loja, por baixo do seu quarto), os porcos e os leitões
no cortelho, as galinhas, os perús e os galos    no galinheiro, o gato Simeão e     a gata
Baronesa, o cão preto e o cão grande, as andorinhas que faziam os ninhos debaixo da
varanda da sala.
Gostava de recordar as suas brincadeiras de menino: pendurado nas engarelas dos
carros, jogando ao pião, à rodinca e ao espiche, trepando às árvores para apanhar os
ninhos, apanhando formigas de asa para montar as costelas aos pássaros, trincando o
carambelo nos dias de muito frio, correndo atrás das canas dos foguetes na festa de Sto
Estevão.
Gostava de recordar os rituais, particularmente o da matança do porco.
Gostava de recordar a feitura do pão, do fumeiro, dos folares, do queijo, do azeite, do
vinho, da aguardente e do sabão com soda e borras de azeite.
O seu amor à TERRA foi-lhe incutido, antes de tudo, pelo avô que ele adorava. Nunca ia
ao Zimbro que não dissesse com os olhos rasos de lágrimas:


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    toque das Trindades
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       Quantas vezes vim aqui com ele. Aos doze anos eu já sabia podar, enxertar,
       crestar.
A sua relação com a avó era mais distante. Quando lhe perguntava por que razão tinha
vindo de Espanha ela, que nunca se acostumou         a dizer o seu nome em português,
respondia:
       Juan, no me gusta hablar de eso.
Dela   lembrava essencialmente que lhe ensinou as primeiras letras e que era quem o
castigava quando fazia tolices. Quando era castigado, o avô sofria mais que ele. Quantas
vezes, ao sair para o campo voltava atrás e dizia:
       Isabel, tu não ralhes com o menino.
Quando o meu pai tinha doze anos, morreu o meu bisavô e logo depois a minha bisavó.
Dizia o meu pai que morreram de desgosto com a morte da tia Matilde. A tia Matilde era,
no dizer de meu pai, a rapariga mais bonita das redondezas, mas era doente. Tinha um
problema de coração. Aos 19 anos começou a namorar com Luciano Almeida, um jovem
da aldeia. Consciente da sua doença, resolveu ir consultar um médico ao Porto, onde
minha avó Marta vivia com o meu avô Álvaro, ajudante de escrivão de Finanças. A
viagem era penosa. O meu bisavô levou a tia Matilde, a cavalo, até ao Pocinho para
apanhar o combóio. No Porto, era suposto estar o meu avô na estação, à espera da
cunhada. O meu avô não pôde ir pelo que pediu a um colega que lhe fizesse esse favor.
A tia Matilde ficou muito aflita quando não viu o cunhado e mais ainda quando se viu
acompanhada por um desconhecido numa terra, que só pelo tamanho já era de si
assustadora.
Fosse pelo cansaço da viagem, fosse pela angústia da chegada, no dia seguinte à
mesma, a tia Matilde faleceu com um ataque cardíaco. A avó Marta, que estava grávida
pela quinta vez, perdeu a criança e a tia Matilde, em vida, não chegou a regressar à
aldeia para casar com Luciano Almeida.




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A avó Marta casou com o avô Álvaro Matias em 1898. O avô Álvaro era de uma aldeia
vizinha. Filho de um sapateiro analfabeto, teria sido um continuador do pai se o Padre
Pimentel, pároco de várias aldeias,      entre elas as dos meus avós, não se tivesse
apercebido que o rapaz era muito inteligente e não tivesse convencido o meu bisavô a
deixá-lo ir à escola. A aldeia de Álvaro não tinha escola pelo que percorria a pé todos os
dias os 5 km que separavam a sua aldeia da TERRA. Fez com distinção o exame de
segundo      grau, que era assim que se chamava a quarta classe. A sua paixão era a
leitura. À falta de qualquer livro em casa, um dia em que acompanhou o pai à feira, na
Vila, com os poucos trocados que tinha amealhado, comprou um Borda d´ Água. De
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tanto ler e reler as antevisões do tempo, os conselhos aos lavradores, as anedotas, já
sabia de cor, quer os conteúdos, quer as páginas onde se encontravam.
Cedo o pai se apercebeu de que o filho não tinha grande queda nem para a lavoura nem
para a arte de sapateiro. Aos 15 anos mandou-o para o Porto. Aí tinha um primo que lhe
arranjou o emprego de marçano numa loja de fazendas. Mais tarde, um cliente da loja,
secretário de finanças,         apercebeu-se das capacidades do rapaz e arranjou-lhe o
emprego de ajudante de escrivão. Aos 28 anos o         ajudante de escrivão de Finanças,
regressou pela primeira vez a casa em gozo de férias. Resolveu ir à TERRA visitar o
Padre Pimentel, agora já muito surdo e trôpego. Foi o Padre Pimentel que lhe sugeriu
para esposa a minha avó Marta. Foi ainda o Padre Pimentel quem os casou, seis meses
depois. O casamento foi por procuração pois o meu avô tinha regressado ao Porto e não
era fácil deslocar-se à TERRA para casar. Passados dois meses a minha avó,
aproveitando a companhia do farmacêutico da Vila que tinha que deslocar-se ao Porto,
foi ter com o marido. No Porto nasceram os 4 primeiros filhos do casal - João, José, Clara
e Pedro. Teriam sido cinco não fosse o aborto na sequência da morte da tia Matilde. A
minha avó ficou grávida do tio José pouco tempo depois de meu pai nascer. Por isso,
desde pequenino, e até à morte dos meus bisavós, o meu pai viveu com eles na TERRA.
Após a morte dos meus bisavós, o meu tio avô Afonso continuou a morar na CASA,
acompanhado do Artúrio que entretanto casara e vivia lá com a mulher, Zefa, e os dois
filhos: o António Joaquim e a Germana. Quando o tio Afonso casou com a tia Teresa,
filha única, os pais impuseram-lhe ir viver com eles. Mas Artúrio continuou a viver na
CASA com a sua família, que entretanto cresceu com o nascimento da Balbina. Os meus
avós raramente ali iam, pois naquele tempo a viagem do Porto à TERRA era            difícil,
especialmente com filhos pequenos.
O meu avô sempre desejara aproximar-se da TERRA. Em 1915 conseguiu ser transferido
para a Vila (era assim que era conhecida a sede do Concelho), onde nasceram Adélia e
Matilde. A transferência do meu avô para a Vila permitia-lhe ir com frequência à TERRA.
Na época da caça       sempre que podia, lá estava caído. O meu avô era um grande
caçador. O que ele gostava era de ir à perdiz mas também ia ao coelho, à lebre, às rolas,
aos tordos. A minha avó, no Outono, por altura de fazer as compotas, no Inverno, por
altura de fazer o fumeiro e na Páscoa, época de folares, mudava-se de armas e bagagens
par a CASA e aí permanecia por um tempo cada vez mais dilatado. Por esse tempo já a
CASA pertencia aos meus avós.
Com a reforma do meu avô em 1932, a família regressa definitivamente à CASA que vai
continuar a partilhar com os filhos do Artúrio, o António Joaquim, a Germana e a Balbina
que se encarregam fundamentalmente das lides do campo. Nesta altura, apenas a TIA
vivia com os pais. O TIO, que entretanto tinha cumprido o serviço militar, ingressara na
força aérea e casara com uma jovem de Lisboa. O meu pai, dedicava-se a explorar o
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mundo. Isso até 1934. Em 1935 a TIA casa com o tio Justino, rapaz da aldeia que era
funcionário público em Viana do Castelo.
Todos os Natais, quase sempre na Páscoa, e na altura das vindimas, a TIA e             o tio
Justino regressavam à CASA. O TIO, nem sempre, e quando ia, ia só. A tia Laura foi
apenas três vezes à TERRA, duas delas para dar a conhecer aos avós os meus primos
Afonso e Gonçalo e a terceira no casamento da TIA.
Dos meus tios só conheci a tia Matilde e o tio José, a quem sempre chamei simplesmente
TIA e TIO, e os respectivos cônjuges. Os outros morreram cedo: o tio Pedro, em menino,
com a pneumónica, a tia Clara e a tia Adélia, na flor da idade, tuberculosas. Também não
conheci os meus avós. A minha avó faleceu em 1936 e o meu avô em 1938. Deixaram
aos filhos a CASA praticamente como a tinham recebido dos meus bisavós. Apenas lhe
tinham sido introduzidas três pequenas alterações:     uma delas consistia numa espécie
de quarto de banho, com uma sanita em madeira que dava directamente para a loja dos
machos; as outras duas consistiam em dois nichos (a que na CASA chamavam pilheiras),
um grande e um pequeno, numa das paredes da varanda e quatro cabides, um pouco
toscos, numa das paredes da cozinha. O nicho maior destinava-se a colocar o jornal e o
livro que o meu avô estivesse a ler, o outro destinava-se à caixinha do rapé. Soube da
função dos nichos pelo António Joaquim, que mantendo a tradição de família viveu
sempre na CASA. Foi também por ele que soube da função dos cabides.
       Cada cabide era para seu capote. O do seu avô, o do seu pai, o do seu tio e o do
       Sr. Padre Marcos que vinha todas as noites para conversar com o avô. O do seu
       pai, pouco usado por ele, foi depois destinado ao seu tio Justino.




5
O casamento da TIA com o Tio Justino não foi, de início, motivo de grande alegria para
os meus avós. Não que não gostassem do tio Justino. Antes pelo contrário.
       Se há homem bom está ali- dizia a minha avó.
Mas o casamento iria implicar longas separações e a CASA já estava muito vazia. Talvez
pressentindo isso, a TIA, após o casamento, foi adiando sucessivamente a sua ida para
Viana. O tio Justino vivia numa pensão e vinha à Terra sempre que lhe era possível. Com
a morte da minha avó, em 1936, a ida da TIA para Viana ficou ainda mais complicada.
Como deixar o pai, para mais tão combalido depois da morte da mãe? O tio Justino lá se
ia resignando a continuar a viver no quarto da pensão,        vindo à TERRA sempre que
podia. E foi assim até     à morte do meu avô em 1938. Só então a TIA se decidiu a
acompanhar o marido.


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Estórias com sabor a Nordeste                                             Regina Gouveia




O tio Justino era de facto um homem bom. Coxeava um pouco de uma perna na
sequência de uma tuberculose óssea, mal curada em menino. Por vezes tinha muitas
dores mas não se impacientava. Nunca o vi zangado. O meu pai comentava:
       Só mesmo a paciência do Justino para aturar a ranzinza da minha irmã.
A paciência do tio Justino manifestava-se nas mais pequenas coisas. Era sempre ele que
deitava a canela no arroz doce. Começava por fazer, num papel, um estudo do desenho
que queria fazer no prato. Depois colocava a canela na ponta do cabo de um garfo ou
colher que segurava com a mão esquerda, enquanto, com a mão direita dava pequeninos
toques nesse mesmo cabo. Era um trabalho de minúcia mas cujo efeito era
surpreendente. Nunca vi pratos de arroz doce mais bem decorados, e quem diz arroz
doce diz aletria ou milhos. Foi ainda o tio Justino quem me ensinou a nadar no Rio. E que
paciência ele teve que ter! Ainda hoje está dependurado de uma das traves da adega, o
colete de placas de cortiça, ligadas entre si por tiras de pano, que ele construiu para as
minhas lições. Eu adorava-o.
A TIA era uma boa pessoa, sempre pronta a ajudar, mas o que ela dissesse era lei e ai
de quem a contrariasse. Vivia sempre preocupada com a opinião dos outros.
       Cuidado que isso parece mal; o povo pode falar.
Muito religiosa, explicava todos os factos invocando a intervenção divina. Se uma pessoa
bondosa morria de repente, praticamente sem sofrimento, a TIA comentava:
       É que Deus não dorme e sabe muito bem quem merece a Sua protecção.
Mas se outra boa alma morria depois de um longo sofrimento a TIA justificava:
       O Senhor escolhe os bons para os pôr à prova.
A sua maior fé era em Sto Estevão para todos apenas o Santo- o padroeiro da Terra. A
festa do Santo ocorre no primeiro domingo de Setembro, pelo que genericamente o dia
é de Sol, geralmente intenso. Todos os anos a TIA comentava:
       Sto Estevão fez o milagre. Esteve um dia lindo.
Só me lembro de ter chovido uma vez, na festa do Santo. Também dessa vez a TIA
achou que tinha sido milagre.
       Foi um milagre e dos grandes. Aquela chuvinha serviu para assentar o pó.
Creio que a TIA, após sair da escola, nunca leu qualquer outra coisa que não fossem
missais, bíblias ou pagelas religiosas, que coleccionava, bem como terços. Já a colecção
do tio Justino era de outra natureza. Coleccionava objectos relacionados com as lides do
linho. Eram cardas, espadelas, maças, rocas, fusos, dobadoiras. Até o jipe teve que
compartilhar o seu lugar na garagem, por baixo do passadiço da CASA, agora fechado,
com um tear que comprou numa aldeia vizinha. Também coleccionava termos usados na
TERRA, pelo que andava sempre com um bloquinho no bolso e sempre que ouvia uma
palavra já em desuso ou mal pronunciada, lá ia ele anotá-la. Esta mania de procurar


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coisas, fossem elas objectos ou palavras,          levou a que o TIO lhe chamasse por
brincadeira, o procurador.
O TIO gostava de chamar as pessoas por alcunhas, algumas que só ele usava. A um filho
do António Joaquim, que em criança passava a vida dentro de uma espécie de gaiola
improvisada, idêntica ao que costumamos chamar de parques, chamou sempre Afonso
VI. À TIA chamava-a de agulhinha porque o seu passatempo preferido era fazer renda,
muito particularmente os panos de cinco agulhas. A mim, por ser um pouco irrequieta,
chamava-me piãozinho. Mas a par destas alcunhas carregadas de ternura, havia as que,
pela forma como eram ditas, faziam transparecer um sentimento bem diferente. Uma
delas era “O Botas”, quando se referia a Salazar.
Lembro-me das grandes discussões que havia entre o meu pai e o TIO, sempre por causa
da política. O meu pai era salazarista e para se justificar invocava sempre o mesmo
argumento.
           Eu saí daqui em 1919 e sei bem a bagunça que se vivia. Agora está tudo calmo.
O TIO respondia-lhe então:
           Especialmente em Peniche e em Caxias.
E a partir daqui a conversa subia habitualmente de tom e acabava quase sempre do
mesmo modo. O TIO dizia-lhe:
           Não há pior cego que aquele que não quer ver.
Ao que o meu pai respondia:
           Sim, sim tu falas, mas cagas no prato onde comes. Tenho vergonha de ser teu
           irmão.
Isto tudo era da boca para fora pois       se havia sentimento que o meu pai nutria pelo
irmão não era o de vergonha mas o de orgulho, particularmente         na sua bela carreira
militar.
As opções políticas do meu pai começaram a ficar um pouco abaladas após as eleições de
1958. O TIO conhecia Humberto Delgado com quem tinha trabalhado, e tinha por ele
uma grande consideração que se reflectia na imagem com que o descrevia. Talvez por
isso, o meu pai nutria alguma simpatia pelo General. Mas o seu voto foi, naturalmente,
para o Almirante. No dia 14 de Maio de 1958, dia em que o general passou pelo Porto em
campanha, o meu pai estava lá casualmente e viu. Por isso, quando foram anunciados os
resultados das eleições de 8 de Junho, terá comentado:
           Aqui houve marosca.
Isso, no entanto, não o impediu de continuar a elogiar o homem de S. Bento e a ter em
lugar de destaque, na sua estante, o livro “Salazar na Intimidade”. Em 1960 o TIO é
passado à reserva compulsivamente. Fui eu quem entregou ao meu pai a carta do TIO
que trazia a notícia. O meu pai começou a ler a carta e eu fiquei ali à espera daquele
trecho habitual: “Como vai o piãozinho ? Diz-lhe que já estou com saudades”.
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Mas não foi isso que ouvi. Vi o rosto do meu pai crispar-se e pela primeira vez ouvi-o
dizer um palavrão na minha frente.
       Grandes filhos da puta.
Não entendi a quem se referia, mas se usou o plural não se refere ao TIO, pensei, e saí
de imediato sem que o meu pai desse conta. Creio, no entanto, que o maior golpe nas
suas convicções políticas foi dado em 1965, quando o General foi assassinado. O TIO
passava agora mais tempo na TERRA. Um dia, na varanda da CASA, pegou num jornal
que se referia à morte do general, como tendo sido obra dos seus correligionários.
Comentou em voz alta:
       A quem eles pensam que enganam? Quem o matou foi a “Pevide”.
Como visse o meu olhar atónito o TIO achou que era tempo de eu abrir os olhos. Foi essa
a primeira sessão de esclarecimento político que tive na vida. À noite, talvez um pouco
para provocar o meu pai, comentei que fora a Pide a responsável pela morte do General.
Esperava uma reacção violenta mas fiquei surpreendida quando ouvi o meu pai comentar
com algum desalento :
       Já não digo nada.
Não posso localizar a data em que “Salazar na Intimidade” deixou de ocupar a estante do
meu pai, nem sei que sumiço o livro levou. O certo é que no espólio nunca apareceu.




6
Após a morte dos meus bisavós, o meu pai, com 12 anos, foi viver para o Porto com os
pais e os irmãos (à data José, Pedro e Clara). Tinha feito o exame do primeiro grau com
distinção, mas como o professor Bernardo tinha falecido, a TERRA ficara sem escola e os
seus estudos tinham terminado aí. Era uma criança um pouco selvagem pois os cuidados
disciplinadores da avó não tinham surtido o efeito desejado, face à complacência do avô
aliada à cumplicidade do Pepe, do António, do Artúrio e da Zefa. A casa dos pais era uma
casa cheia de regras. Horas para levantar, horas para deitar, horas para comer, horas
para rezar, horas para ler, regras para estar à mesa. Tudo isto era demais para uma
criança que nem sabia pegar nos talheres.         A sua vida, até aí despreocupada,
transformou-se num inferno. Por um lado os castigos do pai quando alguma regra era
infringida, por outro a chacota dos irmãos para quem era praticamente um estranho. Só
a mãe parecia apoiá-lo. Para agravar tudo isto o pai achou que ele devia completar a
instrução primária. O irmão José frequentava o segundo      grau e tinha um professor
conhecido pelo seu elevado grau de exigência mas também pela sua barbaridade. Foi aos
cuidados desse professor - Germano Vicente Dias - que o meu avô entregou o meu pai.
O meu pai era inteligente pelo que em breve se tornou o melhor aluno da classe. Isso
valeu-lhe a consideração do irmão, em quem passou a ter um aliado. Parecia assim mais
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fácil de suportar a disciplina do pai. As coisas ter-se-iam arranjado se o professor
Germano não tivesse dado um golpe de misericórdia em toda a situação.
O professor passou uma prova para os alunos fazerem e o meu pai foi o único que
resolveu tudo correctamente. Então Germano Vicente Dias passou-lhe a palmatória para
a mão e disse-lhe:
       Hoje és tu que vais castigar os colegas ; o primeiro será o teu irmão a quem terás
       que aplicar dez    palmatoadas, cinco em cada   mão - duas por cada erro, mais
       quatro por cada conta mal feita.
O irmão estendeu cada uma das mãos e o meu pai aplicou-lhe os 10 “bolos” com
bastante suavidade, não fosse ele o seu irmão. Então, o professor tirou-lhe a palmatória
das mãos.
       Eu vou mostrar-te como se usa a palmatória.
As mãos do meu pai jorraram sangue mas não chorou. À noite, enquanto a mãe com
lágrimas nos olhos lhe tratava as mãos, o pai comentava :
       Só assim te farás homem.
No dia seguinte de manhã o meu pai não estava na cama. Tinha saído, pé ante pé,
direito à estação, onde se meteu no combóio do Douro. Expulso do combóio sempre que
era descoberta a sua clandestinidade, fazia troços do percurso a pé, sempre junto à linha
férrea, comendo o que encontrava pelos campos onde passava e assim, ao fim de vários
dias, cheio de fome, sujo e exausto chegou à Vila. Procurou o boticário a       quem se
identificou e em casa de quem dormiu, depois de uma boa ceia. Nesse mesmo dia, um
mensageiro levou a notícia ao meu tio avô Afonso que, no dia seguinte, em pessoa, foi
buscar o sobrinho. Aproveitou para telegrafar para o Porto a sossegar a família
desesperada,    que já imaginava o filho afogado no mar    ou vítima de qualquer outra
fatalidade.
Passa então a viver na CASA com o tio Afonso, o Artúrio e a família deste. Ajuda nas
lides do campo e tem como principal divertimento acompanhar o tio nas peixadas que
faziam no Rio. Aprende a deitar as redes e as chumbeiras e a pôr o embude nas locas ,
para obrigar os peixes a sair. Os homens metiam-se      no Rio, todos nus, mesmo     em
pleno inverno. Ele ainda quase menino, um pouco envergonhado, lá ia também. Peixes
apanhados, era preparar a fogueira para os assar. Para ele sobrava ir buscar a lenha e
atiçar o lume. Os peixes, assados pelos homens, eram acompanhados com aquele pão
que ninguém fazia tão bem como a Zefa, e servidos com aquele molho que, só de
lembrar, fazia crescer água na boca. Guarda dessa altura recordações felizes.
Quando, após a transferência do meu avô, os meus avós foram viver para a Vila, o meu
pai foi viver com eles, mas não conseguiu adaptar-se, apesar de cada vez serem mais
fortes os laços com os irmãos, particularmente com José. Por isso passava a maior parte
do tempo na CASA, mesmo depois do casamento do tio Afonso. O Artúrio proporciona-lhe
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alguns encontros com raparigas e mulheres da TERRA e assim se faz a sua iniciação. Aos
18 anos apaixona-se por Luísa, com 16, de quem toda a vida guardará um lenço
bordado. Mas Luisa morre com a gripe pneumónica. Não houve uma só família na TERRA
que não tivesse ficado de luto devido à pneumónica. O meu tio Pedro, ainda menino,
morre também vítima da epidemia.
Estava-se no rescaldo da Grande Guerra e em Portugal vivia-se uma tremenda
instabilidade política. A pneumónica      tinha espalhado dor e luto à sua volta.
Provavelmente tudo isto, aliado às marcas deixadas pela morte dos avós e à dificuldade
de relacionamento com o pai, terá pesado na decisão que o meu pai tomou. Decidiu
partir, mas nem ele próprio sabia concretamente porque partia tal como não sabia muito
bem para onde ia. Tinha então 19 anos de idade.
A viagem era, de si, uma história fantástica; infelizmente não consegui guardar a maior
parte dos pormenores pois o meu pai não gostava muito de recordá-la. Saiu de casa
ainda noite escura. Num pequeno saco levava a pouca bagagem que tinha e, numa
taleiga, a merenda que Zefa lhe tinha arranjado, convencida que o meu pai ia para uma
festa, numa aldeia um pouco distante. Só levava uma intenção, atravessar a fronteira.
Subiu e desceu ladeiras até chegar ao Douro, que atravessou a nado. Ao fim de alguns
dias foi ter a Medina Del Campo onde foi acolhido por uma família de lavradores, muito
hospitaleira, para quem trabalhou durante cerca de um ano e meio. Mas o seu espírito
inquieto não o deixou parar por lá mais tempo. Conhece Denis, um jovem francês que se
tinha acolhido em Espanha durante a Grande Guerra e que vai regressar a casa em
Bedous, nos Pirinéus, relativamente perto de Lourdes. Parte com ele. Vai a Lourdes com
Denis. Reza pela primeira vez, depois de tanto tempo. Nas suas orações, num misto de
português e castelhano, pois fora assim que as aprendera, lembra os mortos, os vivos, a
TERRA e a CASA. No regresso a Bedous, passam por Pau onde Denis lhe apresenta a
sua prima Monique. Monique parece-se imenso com Luisa, o que perturba o meu pai.
Nasce assim a segunda      grande paixão da sua vida. Disposto a remover montanhas e
com a ajuda de Denis o meu pai aproxima-se da família de Monique. O pai, Mr. Dupont, é
marceneiro e tem uma oficina em Pau. O meu pai vai trabalhar com ele. Aprende o ofício
e trabalha empenhadamente, por um lado para impressionar o pai de          Monique, por
outro porque o trabalho lhe dá prazer. Gostava de usar as plainas, as garlopas, as enxós.
Gostava do cheiro da madeira e do serrim, da resina da madeira de pinho ainda verde.
Com Monique limita-se a trocar olhares que são correspondidos. Parecia que finalmente
iria reencontrar a paz há tanto perdida. Espera toda a semana pelo domingo. Ao entrar
na Igreja faz por entrar logo a seguir a Monique para receber das mãos dela o hissope de
água-benta. E assim passa       mais de um ano. Quando Mr. Dupont se apercebe das
intenções do meu pai chama-o e diz-lhe:


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           Meu rapaz, não tenhas ilusões. A Monique está prometida a um primo                 que
           presentemente vive na Argélia. Logo que regresse casar-se-ão.
Nessa mesma noite o meu pai arruma as trouxas e prepara-se para partir. Por baixo da
porta da marcenaria deixa um envelope dirigido a Mademoiselle Monique. Lá dentro uma
mensagem curta, aliás a única mensagem de amor que trocou com ela, para além dos
olhares e da passagem do hissope.
           Il faut que je parte mais je t´aimerai toujours.
Passa pela igreja. Entra e pede perdão a Deus pela falta que irá cometer. Passa junto da
pia de água-benta e rouba o hissope. Não sabe bem porquê, leva um destino- Marselha
- de que Denis lhe falara. Está-se em 1921, depois da guerra, e arranjar trabalho não é
fácil. Consegue uns biscates na estiva do porto. Conhece marinheiros e com a ajuda de
um deles consegue partir como clandestino para Dakar, no Senegal. Não faz a mínima
ideia de onde fica o Senegal, mas ao consultar o mapa, apercebe-se que é perto da
Guiné, a colónia portuguesa de que ouvira falar nos tempos de escola. Durante a viagem
decide que não ficará em Dakar. Decide que é para a Guiné que há-de ir. Pensava que
uma vez no Senegal seria fácil chegar à Guiné, pois dominava razoavelmente a língua
francesa. Só que ignorava que a maior parte da população falava nas suas línguas
nativas e o francês de pouco lhe serviria. Atravessou parte do Senegal com Infali, um
gila4 guineense. Foi assim que conseguiu chegar à Guiné. Durante a viagem com Infali
toma corpo a ideia de montar um pequeno comércio, com                       o pouco dinheiro que
conseguira juntar ao longo dos últimos três anos. Estabelece-se em                Bafatá. Pela sua
vida passam várias mulheres, uma delas a crioula Cesária. Pela primeira vez escreve
para casa, depois de quase três anos e meio sem dar notícias. A carta encontrou-a por
acaso a TIA, esquecida no meio de umas peças de linho que herdou da mãe. Achou que
eu devia ser a sua depositária e por isso veio parar às minhas mãos.


           Bafatá, 2 de Dezembro de 1922
           Querida Mãe:
           Escrevo-lhe da Guiné, em África. Não é tão longe como Angola ou Moçambique,
           mas mesmo assim demoram-se muitos                  dias a cá chegar, de barco. Imagino
           quantas aflições não terão passado por minha causa. Mas, como coisa ruim não
           tem perigo, encontro-me são e salvo. Quando saí de Portugal fui para Espanha, e
           daí para França. Não imagina as saudades que tive da CASA e de todos,              e o
           número de vezes que pensei em voltar. Eu sei que a mãe não consegue entender
           por que razão parti. Se calhar nem eu sei. Mas eu sou assim. Só estou bem onde
           não estou. Na CASA sinto-me bem, mas a mãe sabe que eu e o pai não nos


4
    contrabandista que faz o comércio transfronteiriço
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       conseguimos entender. Sei que a culpa é minha que sou rebelde. Acredite mãe,
       eu gostava de mudar, mas não consigo. Tanto só estou bem onde não estou, que
       da França vim para aqui, sem eu mesmo saber porquê. Acho que alguém guia os
       meus passos, mesmo sem       eu querer, mas também não sei quem. Mas não se
       preocupe. Estou bem. Aqui é tudo muito diferente. As pessoas são pretas, como a
       mãe deve saber, mas mesmo assim diferentes. Há assim como que uma espécie
       de raças dentro da raça. Há os manjacos, os balantas, os mandingas, os fulas, os
       futa-fulas, os saracolés, os papéis e muitos outros. Não falam português e cada
       uma dessa espécie de raças fala uma língua diferente das outras. Mas há uma
       língua que muitos falam -o crioulo. É nessa língua que eu lhes falo. É engraçado
       o crioulo, mãe. Bó quer dizer tu, cá, quer dizer não, jubi é ver, obi é ouvir. Vivem
       numa espécie de aldeias a que chamamos tabancas. Os homens geralmente
       vivem com mais que uma mulher, todos na mesma casa. As casas são redondas,
       com um só compartimento e cobertas de palha. Alguns, principalmente os fulas,
       criam gado, umas vacas muito magrinhas, mas grande parte vive da agricultura.
       O que mais cultivam é o arroz mas também um pouco de milho e mancarrra
       (amendoim). No amanho da terra não usam arados, nem charruas mas sim uma
       espécie de sachos de madeira. O arroz é cultivado nas bolanhas (uma espécie de
       charcos) e o trabalho é essencialmente feito por mulheres que, enquanto
       trabalham, carregam os filhos ás costas presos com um pano. Aqui faz sempre
       calor. De Novembro a Maio quase que não chove. Nos outros meses cai cada
       aguaceiro, que de repente a água nos dá pelos joelhos. Mas não molhamos as
       calças porque aqui andamos de calções - os brancos, porque os pretos andam
       com uns balandraus até aos pés. Isso os homens, porque as mulheres andam com
       o peito destapado e usam uns panos compridos coloridos, enrolados na cintura e
       que vão quase até ao chão. Andam todos descalços e as mulheres usam muitos
       penduricalhos, geralmente    ao pescoço e nos tornozelos. São muito boa gente
       mas têm costumes muito diferentes dos nossos a começar pela religião Não são
       da nossa religião e a maior parte são muçulmanos. Também acreditam em Deus,
       só que Lhe chamam Alá. Moisés é um profeta e Jesus Cristo também. Dizem que o
       último profeta foi Maomé, que deixou as leis sagradas que respeitam, e que estão
       no Alcorão, que é assim como a Bíblia para nós. Não comem carne de porco nem
       bebem vinho. O seu dia Santo não é o domingo, mas a sexta. Às igrejas, que são
       diferentes das nossas,    chamam mesquitas, mas em muitas tabancas não há
       mesquitas. Mas eles rezam sempre cinco vezes ao dia. Lavam-se antes de rezar e
       rezam de joelhos ,com a cabeça encostada ao chão, virados para Meca que é a
       terra onde nasceu Maomé, e que fica muito longe daqui. Todos os anos, durante
       um mês fazem jejum total do nascer ao pôr- do- sol. Chamam-lhe o mês do
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       Ramadão. A música deles também é muito diferente da nossa, e os instrumentos
       também. Usam muitos, feitos por eles com cabaças, peles de macaco, troncos de
       árvores - são tambores, uma espécie de bandolins, e muitos outros que não lhe
       sei explicar. Eu gosto muito de ver as danças que fazem ao som dessa música.
       Como nem todos são muçulmanos, há quem beba vinho, mas é vinho de palma.
       Não se faz com uvas mas com seiva de palmeiras que são umas árvores muito
       altas. Aqui há árvores muito esquisitas. Há umas muito grandes que parecem ter
       ratos pendurados, mas não são - são uns frutos que não comemos. E por falar em
       frutos há aqui alguns que eu nunca tinha visto. O que mais estranhei foram uns
       que sabem a resina. Agora já me estou a acostumar ao gosto, mas foi custoso.
       Também não comem batatas e couves como nós. Quase só comem arroz. A terra
       também não é como a nossa. É vermelha e não há serras. Há rios muito cheios de
       curvas e maiores que o nosso. Há peixes, mas também não sabem como os
       nossos. Um animal que às vezes aparece nos rios é o crocodilo. Já ouviu falar
       mãe? É como um lagarto muito grande e que come animais grandes, mesmo
       pessoas. Por falar em animais, há aqui muitos macacos que trepam pelas árvores,
       lagartos, pássaros, alguns muito bonitos, e muitos morcegos, tantos, que à noite
       urinam em cima da gente. Há muitas moscas, muito mais que aí. São tantas que
       a gente já as não enxota. Habitua-se e anda com elas pela cara, pelos braços,
       pelas pernas. Há também muito mosquito, osgas, e baratas- grandes que eu sei
       lá. Os cheiros aqui são muito diferentes, mas gosto deles. Não tanto como dos
       nossos, já se vê. Aqui há poucos portugueses mas os poucos que somos juntamo-
       nos de vez em quando, para jogar uma suecada e lembrar as nossas terras. Eu
       tenho um pequeno soto onde vendo de tudo. Quando preciso de comprar coisas,
       por vezes vou de barco a Bolama que é a terra mais importante, e que fica junto
       do mar. Mas também tenho um amigo, o Infali, que é uma espécie de
       contrabandista e que me abastece. Os nomes, como vê, também são diferentes -
       Infali, Mamadu, Bonco, Sajuma, Kumba, Braima, Binta. Pus-me para aqui a contar
       tudo e nem perguntei por todos. Como estão ? O Pai continua a caçar? O José já
       fez a tropa? A Clara já tem namorado ? E as meninas? Já devem estar grandes. E
       o tio Afonso ?     O Artúrio e a Zefa estão bem ? Diga-lhes    que, quando for
       Fevereiro, colham uns galhos de amendoeira em flor e os ponham na sepultura
       dos avós. Ou eles ou os filhos.
       Mãe, vou-me despedir. Como o Natal se aproxima desejo-lhes um Santo Natal.
       Aqui não tem grande graça. Para mim é triste porque me lembro muito dos Natais
       na CASA.
        Recomende-me a todos, que eu qualquer dia volto.
       A sua benção, mãe
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         João


Quando a minha avó recebeu esta carta, já a tia Clara não fazia parte do rol dos vivos;
tinha falecido vítima de tuberculose. A carta está um pouco esborratada. Dizia a TIA que
já tinha chegado assim e que a minha avó reconhecera nela duas lágrimas de meu pai.
Talvez essas duas se tenham misturado com outras, vertidas pela minha avó que durante
aqueles três anos e meio tinha sofrido calada. Ao marido não podia falar da sua dor pois
ele, indignado com a partida do filho, nem sequer no seu nome queria ouvir falar.
O meu pai manter-se-ia em Bafatá por mais uns anos e escreveria mais cartas para casa,
mas delas não ficou qualquer registo. Da sua passagem pela Guiné, para além desta
carta, resta apenas uma foto desbotada ao lado da Cesária, em frente a uma palhota,
possivelmente aquela onde viviam. Durante esse tempo morrerão a sua irmã Adélia, o
Artúrio e a Zefa,      José cumprirá o serviço militar, ingressará na força aérea, casará e
terá dois filhos, e Matilde ficará noiva do tio Justino. A sua estada na Guiné foi
bruscamente interrompida quando, em 1934, adoece gravemente com tifo. Regressa à
TERRA, segundo ele, para morrer. Mas não era esse o seu destino.




7
Quando o barco atraca no cais o TIO aguarda ansioso o irmão. Recebera a carta que lhe
escrevera, já com muita dificuldade, num dos momentos em que a febre abrandara um
pouco.    Em poucas linhas, com uma letra tremida dizia que estava muito doente e
embarcava para Portugal onde esperava chegar ainda com vida para depois ser
sepultado debaixo dos sobreiros. O TIO receava já não reconhecer o irmão pois tinham
passado 15 anos. Mas quando viu descer um homem envelhecido, com aspecto
cadavérico, amparado e muito trémulo, teve como que uma intuição. Quando chegou
perto dele perguntou:
         És o João ?
O meu pai já não respondeu. Caiu inanimado nos braços do irmão. Por isso, quando
naquele dia abriu os olhos, não conseguiu perceber onde estava. Não identificou o quarto
nem o rosto da mulher que o fitava.
         Sou a sua cunhada Laura , mulher do José.
Teve alguma dificuldade em apreender o significado daquelas palavras. Durante um mês
não dera conta do que se passava à sua volta. Nos seus delírios frequentes chamara pelo
avô, pela mãe, pela avó, por Luisa e por Monique. Um dia, alagado em suor grita aflito:
         José perdoa-me mas foi o Sr. Professor que me obrigou.
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Após o incidente no desembarque, o TIO levou o meu pai para sua casa e chamou o
Doutor Silveira, médico da família, que o examinou cuidadosamente.
       Então Doutor? Perguntou o TIO.
       Só por milagre se salvará- respondeu o Doutor Silveira.
O TIO comunicou então para a TERRA o estado em que estava o irmão. As notícias não
os apanharam de surpresa pois já anteriormente tinha escrito a dar conta do conteúdo
da carta do meu pai. Desde esse dia que a minha avó e a TIA passavam a maior parte
do tempo na igreja, onde as velas não se apagavam. Na CASA, todos faziam promessas
a todos os Santos, particularmente a Sto Estevão. Voltas de joelhos à capela, uma toalha
de linho bordada para cada altar, razões de trigo, dias de jejum. Até o meu avô fez uma
promessa, ele que não era muito para essas coisas. Como já de há muito se falava na
necessidade de construir um coreto par as festas em honra de Sto Estevão, o meu avô
prometeu que se o filho se salvasse mandaria construir não um, mas dois coretos junto
da capela do Santo.
Fosse pelas promessas e rezas, fosse pelos cuidados que o TIO e a tia Laura tiveram,
fosse por obra dos medicamentos receitados pelo Dr. Silveira, pouco a pouco o meu pai
foi-se libertando das garras da morte. No primeiro dia em que se levantou para se sentar
numa cadeira de braços no pequeno jardim da casa, foi amparado pela tia Laura e pelo
TIO. Só nesse dia é que reparou nos rostos daqueles seus companheiros dos últimos
tempos. O irmão era uma bela figura- alto e garboso, quando estava fardado ficava com
um aspecto imponente. A cunhada não era bonita mas tinha uma presença agradável.
Reparou então em duas crianças pequenas que brincavam num cavalinho de pau- os
sobrinhos Afonso e Gonçalo que não conhecia, mas de quem o irmão já lhe falara por
carta. Como era possível que durante todo este tempo não se tivesse apercebido das
crianças ? O TIO e a tia Laura tinham-nas posto em casa dos avós maternos durante a
doença do tio. Abraçou o irmão e chorou. Lembrou-se então que o pai dizia que um
homem não chora, mas essa lembrança fê-lo chorar ainda mais.
Passara-se    mais um mês e o meu pai ia poder, finalmente, regressar à CASA.
Interrogava-se várias vezes sobre como iria ser a sua relação com o pai e partiu com
uma certa apreensão. O TIO acompanhou-o pois o seu estado de saúde era            ainda
precário. A viagem entre a Vila e a TERRA foi feita num carro de machos, todo enfeitado
com ramos de árvores, e tocado pelo António Joaquim. Quando chegou ao fundo das
escadas da CASA foi penetrado pelos cheiros que jamais esquecera. Mas o que mais lhe
ficou na memória dos cheiros desse dia foi o dos milhos doces polvilhados com canela.
No balcão, e continuando pela cozinha, estavam todos- o pai, a mãe, o tio Afonso, a irmã
Matilde, o António Joaquim, a Germana e a Balbina. Estes últimos eram ainda muito
novos quando partira pelo que já não os conhecia, embora desde logo tivesse adivinhado


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quem eram. Estavam também muitos vizinhos, entre eles um jovem que também não
reconheceu.
Começou por abraçar a mãe; preparava-se para cumprimentar o pai na forma habitual,
uma vénia com o pedido da bênção. Mas o pai, com os olhos rasos de lágrimas
estreitou-o nos braços.     Seguiram-se os cumprimentos a todos os outros, uns mais
efusivos que outros. Para o fim ficou o jovem que não reconhecera. Era Justino. O
casamento da TIA com o tio Justino já tivera data marcada, mas logo que se soube do
estado de saúde do meu pai a TIA disse-lhe:
         Temos que desmarcar o casamento por agora. O meu irmão João está muito mal
         e as esperanças são poucas. Não vou casar nestas condições.
O meu pai recupera agora rapidamente. Passa a maior parte do tempo sentado na
varanda. No nicho maior da parede há sempre o jornal e um ou outro livro. Não lhe
apetece ler mas o pai vai-lhe dando conta dos principais acontecimentos. Por vezes, ao
fim da tarde, os dois vão até à Fraga. De lá avista-se o Santo, onde já se iniciaram as
obras dos coretos.    Pai e filho aprendem a gostar-se mutuamente,      tal qual são um e
outro. Vai, com os pais e a irmã, conhecer Fátima. Vai também a Viana a e ao Bom
Jesus em Braga. Os pais podem assim rever sítios que já não viam há muito, enquanto
que ele e a irmã os conhecem pela primeira vez.
Tudo parece ter voltado ao normal e a TIA casa finalmente com o tio Justino, no dia 5 de
Agosto de 1935. O casamento foi na capela de Sto Estevão, já rodeada de dois belos
coretos. A Capela de Sto Estevão não fica propriamente na TERRA. Fica à beira do Rio, no
fundo de uma ladeira. Chegar lá não é muito difícil. O pior é regressar, pois a ladeira é
muito íngreme. Vem-se de macho, é certo, mas para os animais a subida também não
é fácil. O casamento foi celebrado pelo Padre Marcos e os padrinhos foram o TIO e a tia
Laura. No fim da cerimónia religiosa e antes de se iniciar o almoço, a ti Idalina cantou as
loas. Possivelmente como ainda as cantava, quando eu a conheci muitos anos mais
tarde.
               “Biba o noibo mai-la noiba
               Bibam os pais que a criaram
               Bibam também os padrinhos
               que à igreja os lubaram”
Seguiu-se o almoço. Peixes do rio, vitela, borrego e peru assados, arroz de vitela,
presunto, folar de carne, bolo moreno, pão de ló, arroz doce, aletria, milhos doces,
súplicas, económicos, e vinho à descrição. Também não podiam faltar o “vinho fino” e os
tremoços, adoçados no Rio.
Após o casamento da TIA todos estranharam a avó, mas atribuíram o seu ar abatido à
apreensão que lhe causava a partida da filha, que supunha para breve. Infelizmente não
era só isso. A Avó estava doente. Já passara por muito. A morte da irmã, dos pais e dos
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três filhos foram-na minando por dentro. A juntar a tudo isso, as aflições que passara
por causa do meu pai. A doença que quase o levara, foi a gota de água. Morre em 1936,
vítima de ataque cardíaco.
A morte da avó abalou muito toda a família. Mas a vida não para. Na CASA vivem agora
o avô, a TIA, o meu pai e o António Joaquim com as irmãs. O tio Justino está a trabalhar
em Viana, mas sempre que pode aparece. Quando o meu pai partiu em 1919, a TIA tinha
apenas dois anos pelo que praticamente não se conheciam. É nesta altura que se vão
criar laços. Com a TIA e com o tio Justino, de quem o meu pai sempre dirá, tal como o
dissera a mãe:
       Se há homem bom, está ali.
Agora restabelecido, o meu pai assume-se pela primeira vez como lavrador. É ele que
trata de todos os problemas da CASA, ajudado pela TIA. Quando é preciso contratar os
ranchos para apanha da amêndoa e da azeitona, contratar os jeireiros para as diferentes
tarefas, vender a amêndoa, o azeite ou o vinho é ele quem vai, depois de ouvir a opinião
do pai, da TIA e do António Joaquim. Participa em todos os trabalhos sejam eles a lavra,
a limpa, ou qualquer outro. Mas os que lhe dão especial prazer são a poda e a enxertia,
que aprendeu em menino com o avô.
Sempre que parece estar a restabelecer-se o equilíbrio na vida emocional do meu pai,
surge algo desestabilizador.     Em 1938, o meu avô morre. Para o meu pai,
estranhamente, a morte do pai foi um golpe mais duro do que a morte da mãe. Talvez
por se terem encontrado tão tarde,   talvez porque mais um laço se rompia. A TIA vai
finalmente para Viana. O meu pai decide partir, desta vez para o Brasil, onde vive o tio
Filipe. O tio Filipe não era propriamente tio. Era um primo da minha avó, filho de Diego
Rodriguez e Maria Clemente. Tendo ficado órfão bastante cedo,         decidiu vender a
herança e partir para o Brasil. A vida correu-lhe bem e tinha em S. Paulo uma firma,
relativamente importante, de venda por grosso - a firma Rodriguez. Manteve sempre
algum contacto com a família pelo que o meu pai partiu ao seu encontro, mas sem disso
o prevenir. De tal modo se sentia que disse aos irmãos que desta vez partia para não
voltar. Antes de partir vendeu ao TIO a sua parte na CASA. Entre a parca bagagem que
levou iam um lenço bordado e um hissope.




8
Apesar da sua vida errante, uma das maiores cidades que o meu pai já tinha visto era
Lisboa, que conhecia mal. Estivera lá apenas duas vezes. A primeira quando regressara
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doente da Guiné, e dessa vez pouco ou nada tinha visto. A segunda             foi antes do
embarque para o Brasil. Durante uma semana,            com o irmão,   tinha    visitado os
Jerónimos, a torre de Belém, o castelo de S. Jorge, tinha passeado pela Baixa, tinha
entrado no Grandela e no Chiado. Quando chegou a S. Paulo, ficou um pouco assustado
com o tamanho da cidade e teve alguma dificuldade em dar com a morada do tio Filipe.
Quando chegou a casa do tio ficou estarrecido. Era uma bela casa, rodeada de um
jardim. Tocou a campainha e        apareceu uma empregada a quem se identificou. O tio
Filipe não estava, mas estava a mulher, a tia Carlota, uma senhora brasileira,
descendente de italianos,       ainda nova. A tia Carlota, recebeu-o numa sala ricamente
mobilada, cheia de cristais e pratas. Nunca o meu pai vira nada parecido. Na CASA não
havia cristais nem pratas, à excepção da caixinha de rapé do pai, no nicho pequeno da
varanda, e quanto aos móveis, eram muito simples- camas de ferro, várias arcas, dois
roupeiros em mogno onde se acomodava a roupa de toda a família e na sala uma mesa
com 12 cadeiras e um louceiro, também em mogno. As outras casas por onde tinha
passado, eram ainda mais simples, à excepção da casa do irmão José em Lisboa, que
em nada se comparava à casa do tio Filipe. Parecia assim confirmada a ideia de que o
tio Filipe estava muito bem de vida. O tio Filipe não estava, mas não devia demorar.
Esperou.
Quando o tio chegou, acompanhado do primo Júlio, 10 anos mais novo que meu pai, este
apresentou-se como o João, o filho mais velho da prima Marta. O tio Filipe nunca
conhecera o João, pois saíra rapaz da Terra, ainda a prima Marta era solteira, mas com
ela trocara sempre correspondência, pelo que estava um pouco a par da vida da família.
O meu pai já não saiu dali.        Ficou   a viver em casa do tio e a trabalhar na firma
Rodriguez, de início fazendo um pouco de tudo, mas logo depois como caixeiro viajante.
O tio Filipe lembrava-lhe um pouco o pai, pois também pautava a sua vida por muitas
regras. A sua e a dos que trabalhavam com ele. Uma das regras que lhe impôs foi:
       Aqui sou o tio Filipe, mas na firma sou o Sr. Rodriguez.
Não sei se ao escolher para o meu pai a vida de viajante, o tio Filipe teve em conta a
vida errante que ele até aí levara. Mas a escolha não poderia ter sido melhor. O meu pai
representava a firma do tio nas principais povoações ao longo da Estrada de Ferro da
Sorocabana: Avaré, Botucatu, Ourinhos, Presidente Prudente. Adorava a sua vida de
viajante. Era muito responsável no seu trabalho, mas totalmente irresponsável no que
dizia respeito à sua vida privada. Tinha uma mulher em cada uma das localidades por
onde passava e      gastava quanto ganhava, com carros, orgias e mulheres. Isto até
conhecer Nair.




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Foi no Brasil        que o meu pai teve uma vida social mais intensa. Torna-se sócio da
ARCESP5, relacionando-se com muitos outros comerciantes, alguns                     deles portugueses
(patrícios, como sempre lhes chamava). Juntamente com seu primo Júlio é sócio de
várias associações culturais e recreativas,                 entre elas o clube de regatas Tietê. É
precisamente nesse clube que ambos conhecem Nair. Desde logo Nair impressiona o meu
pai. Lembra-lhe Luisa e Monique. Não sabe bem porquê. Estas eram relativamente altas,
tinham lábios finos e cabelos castanhos. Nair é relativamente baixa, tem lábios grossos
e olhos e cabelos negros.
Nair não só impressionou o meu pai, como também o seu primo Júlio, mas foi este quem
conquistou o coração de Nair. Não houve disputa entre os dois. Quando o meu pai se
apercebeu de que Júlio gostava de Nair, retirou-se simplesmente de cena. Não seria
justo roubar a mulher ao primo, filho do tio que tão bem o tinha acolhido. Durante anos
viveu uma paixão em silêncio. Nair casou com Júlio em 1942. Meu pai foi, não só
padrinho de casamento, como também padrinho dos dois filhos do casal- uma menina
nascida em 1943 e um rapaz nascido em 1944. Júlio, partilhando uma mania comum a
muitos brasileiros, de darem a todos os filhos nomes começados pela mesma letra, deu
a ambos um nome começado por R: Renata e Ricardo. Renata e Ricardo irão sempre
representar papel importante na vida afectiva do meu pai. De Nair                   guardará sempre,
sem o primo e ela saberem, uma luva que um dia deixou esquecida no clube. Afinal,
omitir este facto ao primo não deveria ser tão grave como roubar um hissope numa
igreja de Pau.
A partir do dia em que conheceu Nair, passou a levar uma vida mais regrada. Para isso
também terá contribuído o fim da sua vida de viajante. Efectivamente o tio Filipe, cedo
se apercebeu que meu pai tinha muito mais jeito para o negócio do que Júlio. Pensou,
então, que a melhor maneira de garantir o futuro da firma após a sua morte, seria dar-
lhe      sociedade. O meu pai tornou-se então sócio minoritário da firma que passou a
chamar-se Rodriguez e Matias. O que o                   tio Filipe nunca imaginou   foi que, uns anos
mais tarde, o            meu pai venderia a sua quota ao primo Júlio, para regressar
definitivamente à TERRA. Mas isso foi depois de conhecer Mariana.




9
Durante todo este tempo o meu pai raramente escreve aos irmãos que se queixam dos
seus silêncios prolongados. Esses escrevem com mais frequência. Nas cartas, dão-lhe
conta do que se vai passando. Numa delas o TIO fala-lhe entusiasticamente da festa de
Sto Estevão em que ele, e                 mais alguns camaradas, acompanharam a procissão


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    Associação dos Representantes Comerciais do Estado de S. Paulo
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sobrevoando-a em aviões. Fala-lhe também de Majores e Coronéis que leva à TERRA e
de uma homenagem que lhe prestaram na Vila. Conta-lhe vários episódios divertidos
como aquele que aconteceu com a Germana, uma das vezes em que foi à TERRA com
dois oficiais seus colegas, e a viúva de um outro, uma senhora suíça, a quem chamavam
Madame Junqueira, por ser este o nome de família do falecido marido, e que        já por
várias vezes manifestara o desejo de conhecer a TERRA. Segundo ela, as descrições do
TIO traziam-lhe à mente recordações da sua Suíça distante. Madame Junqueira não
conseguiu conquistar a simpatia da Germana:
       “A Senhora D. Madama debe ser uma desabergonhada. Bem de Lisboa, só, com
       os homes, e fuma como eis”.
Mas o meu pai tenta esquecer a TERRA, a CASA e tudo o que com elas se relaciona.
Também durante todo este tempo só entrou três vezes numa igreja, aliás sempre a
mesma, a Igreja de N. Sr.ª da Consolação, em S. Paulo. Foi no casamento de Júlio e nos
baptizados de Renata e Ricardo. O coro da igreja acompanhou a cerimónia religiosa do
baptizado de Ricardo. O meu pai reparou particularmente na solista, com uma linda voz
de soprano. Estava decidido a conhecê-la. Seguiu-a várias vezes sem que ela desse por
isso. Soube onde morava. Na rua havia uma estabelecimento de um patrício, “Seu”
Antero, com o qual foi metendo conversa até saber pormenores da sua vida. Era uma
jovem, descendente de italianos, de uma família simples, que vivia ali perto com os pais
e os irmãos. O pai era contabilista na farmo-química Baldacci. A jovem, que se chamava
Mariana, vivera até há pouco tempo com uns tios, numa fazenda do interior do estado.
Foi “Seu” Antero quem apresentou Mariana ao meu pai. Quando o meu pai começou a
fazer a corte a Mariana, ela comentou com a irmã mais velha.
       Aquele “Seu” João é bobo. Podia ser meu pai.
Mas o meu pai, apesar de 20 anos mais velho que Mariana,          era ainda um homem
cativante. Muito vivo, bom contador de histórias, com uma vida social relativamente
intensa e, na altura, com uma boa situação económica. Tudo isto terá contribuído para
que a resistência de Mariana fosse progressivamente diminuindo. Casaram em 1945,
mas só civilmente. Não sei se a iniciativa foi de ambos, ou de algum deles em particular,
mas creio que os dois tinham a consciência que naquela relação havia grande
probabilidade de insucesso.
Mariana revelou-se uma caixinha de surpresas. Não só era uma mulher muito bonita
como tinha uma série de predicados, para além daquele que tinha chamado a atenção do
meu pai, no dia em que a conheceu - a sua bela voz de soprano. Bordava com mãos de
fada e cozinhava     divinamente. Nos primeiros anos de casamento tudo correu bem.
Tinham uma vida despreocupada. Em casa havia de tudo e podiam divertir-se. Iam à
ópera, ao cinema, ao clube, à praia;      viajavam no Chevrolet que o meu pai tinha
comprado, conviviam muito com amigos. Quando Mariana manifestou a vontade de ter
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um filho, aí as coisas complicaram-se. O meu pai disse frontalmente que não queria
filhos. Já não tinha idade para ser pai e além disso era um homem que não gostava de
amarras.      Para crianças     já tinha os afilhados a quem queria como filhos. Perante a
insistência de minha mãe começam as desavenças no casal seguidas de curtas ausências
de meu pai, cada vez mais frequentes. Quando em 1949 a minha mãe lhe anuncia que
está grávida o meu pai propôs-lhe desfazer-se da criança, o que a minha mãe não aceita.
O meu pai terá feito um ultimato à minha mãe:
       Ou ela, ou eu.
Ao que a minha mãe terá respondido:
       Ela.
       As ausências do meu pai tornam-se agora prolongadas, para além de frequentes.
A minha mãe sabe que voltou à vida desregrada que tinha quando era viajante. Mas está
decidida. A criança irá nascer. Quando eu nasci em 10 de Janeiro de 1950, num dia de
calor sufocante, o meu pai estava ausente já há uns dias. Regressou, por acaso, no dia
15 depois de ter passado por casa do primo Júlio onde lhe deram a notícia do meu
nascimento. Quando soube que era uma menina terá apenas comentado:
       Um azar nunca vem só.
Quando entrou em casa eu dormia no berço. Parece que nem para mim olhou. Sentou-se
na sala onde eu e minha mãe nos encontrávamos.              Foi a minha mãe quem falou
primeiro.
       Vens para ficar?
       Ainda não sei- respondeu o meu pai.
A minha mãe saiu por instantes e o meu pai aproximou-se do berço, creio que mais por
curiosidade do que por qualquer outro sentimento. Olhou para mim e voltou a sentar-se.
Quando a minha mãe regressou e após alguns minutos de silêncio, o meu pai perguntou-
lhe:
       Já tem nome?
       Estava a pensar em Gabriela- respondeu a minha mãe
Então o meu pai disse:
       Eu preferia que fosse Marta.
Foi assim que nasceu o meu nome.
Embora o meu pai não tivesse decidido ficar, agora são os períodos de presença que
passam a ser cada vez mais frequentes e prolongados. Um dia, tinha eu já cinco meses,
decidiu-se a ficar definitivamente. Nesse mesmo dia levou lá a casa os afilhados, Ricardo
e Renata. Ter-nos-á apresentado assim:
       Esta menina chama-se Marta e é como se fosse vossa irmã.
E para mim, que do mundo tinha começado a descobrir as minhas mãos, terá dito:
       Estes são a Renata e o Ricardo que são como teus irmãos.
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O meu pai tinha decidido          aprender a gostar de mim, como em tempos tivera que
aprender a gostar do pai.
Até essa altura o meu pai praticamente nunca falara da TERRA nem da CASA com a
minha mãe. Será a partir daqui que ele começará a fazê-lo criando na minha mãe uma
imagem que só para ele era real. A CASA era o lugar mais acolhedor que alguma vez
tivera conhecido. A TERRA era um lugar paradisíaco, com cheiros, cores, sons e sabores
como não existiam em qualquer outra parte do mundo. Falava-lhe de estevas, urzes,
arçãs, papoilas, alecrim;       de andorinhas, melros, calhandras, cotovias, poupas, cucos,
gaios. Descrevia as encostas do Rio, no fim do Inverno, com as amendoeiras em flor,
como parecendo véus de noiva, em Junho com os seus tons de castanho, amarelo, verde
e roxo, e em Outubro com os tons dados pelas folhas secas das árvores e das vinhas,
lembrando telas dos melhores pintores. Falava-lhe        das oliveiras no inverno, geladas,
como lembrando árvores de prata, dos pingarelhos de gelo caindo dos beirais como
lembrando peças de cristal. Falava-lhe também da capelinha de Sto Estevão, lá junto ao
Rio, que corria preguiçoso nos dias cálidos de Verão e tumultuoso nos dias de invernia,
como que ciumento da beleza das encostas que o ladeavam. Descrevia os vários tons do
céu, cinza quase branco anunciando neve, cinza quase negro anunciando trovoada, azul
sem igual, nos dias límpidos ou, em outros dias, azul manchado de branco pelos castelos
de nuvens cuja sombra, nas encostas, se misturava com todos os seus tons tornando a
paisagem ainda mais deslumbrante. O meu pai falava de tudo isto, mas omitia           quão
duras são a apanha da amêndoa sob um sol abrasador e a da azeitona, sob um frio de
rachar, tal como omitia a inexistência de estrada entre a vila e a TERRA, a falta de luz
eléctrica, de água canalizada, o pouco conforto da CASA. Creio que nestas omissões não
havia intenção deliberada de enganar a minha mãe. Não, o meu pai via de facto a TERRA
como o paraíso e a CASA como um palácio.
A    firma não vai lá muito bem desde a morte do tio Filipe em 1951. O primo Júlio,
decididamente não tem jeito para o negócio. Também a situação política no Brasil vai
de mal a pior. Todos estes factores aliados à saudade da TERRA e da CASA devem ter
levado o meu pai a fixar o regresso como objectivo. Consegue convencer a minha mãe,
inicialmente muito renitente. Nessa altura vende a sua quota ao primo. Felizmente o tio
Filipe já cá não estava para ver. Regressa. Desta vez será definitivamente. Estávamos
em 1954, o ano em que o presidente Getúlio Vargas se suicida. Parte para Portugal,
apenas com uma mágoa- não poder levar consigo Renata e Ricardo.




10




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A viagem é feita de barco. Viemos em primeira classe. Eu sou a principal companhia do
meu pai pois a minha mãe vem enjoada quase todo o tempo. O meu pai, sempre que
contava a viagem, comentava com orgulho:
        Algumas vezes, a única “senhora” presente na sala de refeições era a Marta.
Sei que fizemos escala nas Canárias. Não que me lembre, mas ainda guardo uma boneca
que o meu pai lá me comprou. Ao chegar a Lisboa lá estava o TIO, no cais, para receber
o irmão. Desta vez o irmão não vinha para morrer. Há muito que não amava tanto a
vida.
Logo que conheceu a minha mãe, o TIO apercebeu-se que a adaptação à TERRA e à
CASA seria no mínimo difícil, senão impossível. Tenta convencer o meu pai a adiar a ida,
e a procurar um modo de vida em Lisboa. Mas o meu pai estava decidido. Queria ir ver a
TERRA e a CASA e o mais rapidamente possível.          É certo que a CASA já não lhe
pertencia. Vendera a sua parte ao irmão antes de partir, mas ele desde logo lhe dissera:
        É como se continuasse a ser tua.
Fomos no Austin A40 que o TIO tinha recentemente comprado. Mas só até à Vila pois
para a TERRA ainda não havia estrada. Na Vila aguardava-nos o António Joaquim com
um carro de machos ricamente engalanado com galhos de amendoeira em flor.
Estávamos em Março. Os bancos para nos sentarmos estavam cobertos com colchas de
linho impecavelmente lavadas. Todos estes cuidados tinham estado a cargo da TIA e do
tio Justino que tirou uns dias de licença par nos poder receber. A TIA, já uma semana
antes da chegada fora com a Germana e a Balbina para o Rio, tratar da lavagem das
colchas. Em sua opinião, só no Rio uma roupa podia ficar bem lavada. No dia           da
chegada o António Joaquim foi colher os ramos de amendoeira e depois, foi o trabalho
de engalanar o carro. A imagem do carro impressionou a minha mãe mas não conseguiu
tornar a viagem confortável.    Quando entrou na TERRA a minha mãe estava maçada.
Para além disso, sentia frio como nunca tinha sentido, mesmo quando,        em menina,
vivia na fazenda dos tios, onde por vezes as temperaturas chegavam aos 80C.
Fosse por ter chegado ao lusco- fusco, fosse pelas vestes das pessoas, todas muito
escuras, fosse porque, para além da CASA poucas casas eram caiadas, a minha mãe não
conseguiu ver as tais cores fascinantes de que o meu pai lhe falara. Via tudo cinzento e
triste. E quanto aos cheiros os que ela identificava não os achava agradáveis- o do
estrume e o dos excrementos dos animais, nas ruas.         Quando chegou à CASA, as
desilusões continuaram. Ao entrar na cozinha o cheiro que mais identificou foi o de fumo,
fumo esse que lhe fazia arder os olhos. A iluminação da CASA era feita através das mais
variadas formas- candeias, lampiões, candeeiros de petróleo, gasómetros            e um
petromax. Por azar, nessa noite ninguém conseguiu pôr o petromax a funcionar e o
cheiro do carboneto no gasómetro, incomodava a minha mãe. Tiveram que comer à luz
de um candeeiro de petróleo.
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O jantar   estava divino, mas Mariana já está demasiado confusa para percepcionar os
gostos e os cheiros. À sobremesa come uma compota de ginja na qual parece detectar
qualquer coisa estranha. Dizem-lhe que é assim mesmo. Mas no dia seguinte, à luz do
dia, Mariana descobre que a ginjada está coberta de moscas que morreram coladas ao
doce, vítimas da sua gula. A CASA tem andado de facto um pouco desleixada. Se a TIA
ainda estivesse para controlar tudo, tal nunca teria acontecido. Mas a Germana e a
Balbina, duas boas criaturas, dão pouca importância a certos aspectos de higiene. O meu
pai, esse está deliciado com tudo. Parece ter regressado aos seus dias de menino. Nessa
noite Mariana chora copiosamente e no dia seguinte decide não sair da cama. Nem no
seguinte, nem nos vários que se lhe seguiram. Ignora-me, mas eu tenho muito quem
cuide de mim- a TIA, a Germana, a Balbina e todas as vizinhas, particularmente a Sr.ª
Felismina e a sua filha,    Mininha. De   tal modo eu ando de mão em mão que a Sr.ª
Felismina me chamará sempre a pombinha da Catrina. A TIA e o tio Justino têm que
regressar. A TIA ainda pensa ficar mas o tio Justino acha que o meu pai e a minha mãe
têm um problema que tem que ser resolvido por eles e que qualquer interferência
estranha pode ser negativa.
O estado depressivo da minha mãe agrava-se de dia para dia e o TIO acha que a minha
mãe tem que ser vista por um médico. Regressamos a Lisboa, mas já durante a viagem
o meu pai vai arquitectando uma solução para o problema. Construir uma casa, com
mais conforto, no palheiro que existe no cimo da aldeia. Fala nesta ideia ao irmão que o
apoia. Com esta ideia em mente o meu pai quer voltar à TERRA o mais cedo que lhe for
possível. O médico acha que a minha mãe está como que em estado de choque pelo que
nem pensar em regressar. O meu pai pensa então em regressar só comigo, enquanto a
minha mãe fica internada numa clínica. O TIO acha que é um disparate pois, embora a
Balbina e a Germana sejam muito extremosas, não saberão cuidar duma criança com
hábitos muito diferentes dos delas. Mas o meu pai é inflexível.
       Eu levo a Marta comigo.
Não sei se ao tomar esta decisão, o meu pai já estava a contar com a colaboração da
Sr.ª Felismina e da Mininha. A Sr.ª Felismina morava paredes meias com a CASA. Ela, o
Sr. Pedro e a Mininha. O casal era já idoso e a Mininha, teria na altura os seus 35 anos.
Foi com esta família que eu passei a maior parte daquele tempo. De início estranhei
muito a falta    de minha mãe (a mamãe, como eu dizia) mas pouco a pouco a sua
imagem foi-se diluindo. Desses tempos guardo muito boas recordações. Nunca tinha
brincado com um gato, nunca tinha feito festas a um cordeiro, nunca tinha pegado num
pintainho ao colo e agora tinha um só para mim, que a Mininha me tinha dado e de que
eu cuidava, com a sua ajuda. Também nunca tinha cozinhado. Mas a Srª Felismina
arranjou-me uma panelinha de ferro de três pés, idêntica ás que ela punha ao lume, e
eu fingia que cozinhava. Para não estragar a roupa que eu trazia, toda ela muito cuidada,
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alguma bordada pela minha mãe, fazem-me umas peças de roupa simples para eu usar
lá em casa.
O meu pai anda preocupado com os projectos para a casa de cima, que é assim que ele
lhe começa a chamar. Não me pode dar grande atenção, mas todos os dias me conta
histórias e de vez em quando leva-me ao palheiro para me explicar como será a nova
casa. Claro que eu não consigo imaginar nada. Fico apenas com a ideia de que irá ser
bonita. Uma das vezes leva-me até ao ribeiro para onde estavam a ser conduzidas as
canalizações para os esgotos. Não sei bem quanto tempo decorreu entre essa ida e a
minha crise de paludismo. Na TERRA, e em tempos mais remotos,        era relativamente
frequente as pessoas adoecerem com paludismo- sezões, como lhe chamavam. Por vezes
bastava uma ida ao rio ou a um dos vários ribeiros, onde deveriam existir mosquitos do
género “anopheles”. Quando comecei com muitas tremuras e períodos de muita febre, o
meu pai mandou o António Joaquim à Vila falar com o Dr. Sebastião, um homem
extremamente generoso, um autêntico João Semana. Em face das explicações do
António Joaquim, o Dr. Sebastião imaginou logo do que se tratava. Apareceu munido
com quinino e preparado para fazer uma recolha de sangue para análise. Comecei logo a
tomar o quinino. Posteriormente a análise confirmou que eu estava com paludismo. Não
sei quanto tempo estive doente. Passei todo o tempo na casa da Sr.ª Felismina. Lembro-
me de que sempre que abria os olhos via à cabeceira da cama, o meu pai, a Mininha e a
Sr.ª Felismina. A Germana e a Balbina passavam os dias a chorar.
       Ai que se “bai” o nosso anjinho.
Pediram licença ao meu pai para fazer uma promessa a Sto Estevão. Se eu curasse, iria
vestida de anjo na procissão da festa de Maio. É que Sto Estevão tem duas festas - a de
Setembro e a de Maio, apenas com a parte religiosa. O meu pai anuiu. Faria tudo para
me ver boa. As vestes foram alugadas em Viana. Foi assim que eu “fui de anjo”. A
minha mãe só soube de tudo isto, tempos mais tarde. A TIA e o tio Justino souberam
mais cedo porque apareciam com frequência. Aliás foram eles que trataram de alugar as
vestimentas. O TIO também vinha à TERRA de vez em quando tal como eu e o meu pai
íamos por vezes a Lisboa. A minha mãe é que não viria à TERRA durante mais de um
ano, precisamente o tempo de construir a casa de cima.




11
A minha mãe regressou à TERRA em Agosto de 1955. O tio Justino estava de férias pelo
que se pôde contar com o apoio da TIA na difícil tarefa de criar condições para a
adaptação da minha mãe. Desta vez, ao chegar, o choque não foi tão grande. Para isso
contribuíram vários factores. Um deles foi a viagem.     O meu pai tinha comprado um
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automóvel, um Sinca em segunda mão         e,    à sua custa, mandado    dar um jeito ao
caminho entre a Vila e a TERRA. Foi de automóvel, e não de carro de machos, que a
viagem foi feita desta vez. Por outro lado, a minha mãe já sabia com o que contava.
Sabia ainda que existia a casa de cima com outro conforto.
Para a casa de cima, que confina com duas ruas, entra-se por uns grandes portões em
ferro que dão acesso a um pátio descoberto- o pátio de cima- mais tarde coberto por
uma ramada. Esse pátio dá acesso a um outro,           fechado- o pátio de baixo-     que
comunica com a outra rua. Este pátio, por cima do qual está um terraço,         dá para a
adega que tem uma outra porta, para a rua. O pátio de cima dá ainda acesso ao quarto
da costura, ao pio do vinho, também este com um outro acesso a partir da rua, e às
escadas para o piso superior. Neste há uma cozinha grande (se bem que muito menor
que a da Casa) com uma lareira, uma sala, dois quartos, o escritório do meu pai e uma
casa de banho. Por cima da cozinha há um depósito para onde era elevada a água. Esta
era transportada,    desde a fonte,   em cântaros dentro das cangalhas      no dorso dos
machos. No pátio de baixo foi colocado um pequeno gerador de energia eléctrica. Não
havia nem forno, nem galinheiro, nem cortelho de porcos, nem loja para os animais. O
meu pai sabia que, nessa áreas, jamais iria poder contar com a minha mãe. Quando a
minha mãe chegou não havia móveis, à excepção de duas camas de ferro. O meu pai
iria deixar   a tarefa da decoração para a minha mãe, na esperança de que isso lhe
criasse um envolvimento com a casa. As ordens médicas eram no sentido de a ocupar
em tarefas, nas quais se sentisse envolvida.
Como a casa de cima não tinha móveis, apenas lá dormíamos. O dia passávamo-lo na
CASA. Eu adorava. A CASA com todas aquelas escadas, com o Lar e o forro, com os
escanos e as preguiças exercia sobre mim grande fascínio. As refeições eram
confeccionadas sob a supervisão da TIA. A minha mãe ia assistindo e aprendendo. Ainda
hoje acho estranho como é que sendo a TIA tão intolerante com certas práticas, tão
conservadora, aceitou tão bem a minha mãe, apesar de casada apenas civilmente. Nunca
se referia a isso, embora a situação a desgostasse. Quando alguma pessoa levantava o
problema ela limitava-se a dizer:
       São outras terras com outros usos. Que lhe havemos de fazer?
Já no que respeita aos problemas decorrentes da dificuldade de adaptação da minha
mãe, aí era totalmente sincera quando dizia:
       Não me admiro nada. Para quem vem duma terra onde há de tudo, deve ser
       muito difícil gostar disto. Isso é para nós que temos aqui as nossas raízes.
Quando a minha mãe manifestou a intenção de começar a bordar,            a TIA pôs-lhe à
disposição peças de linho, que ainda estavam intactas nos baús, linhas, agulhas, dedais
e bastidores.


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À tarde, a Mininha vinha fazer companhia à minha mãe enquanto eu ia fazer companhia
à Sr.ª Felismina, o que     me dava sempre imenso prazer.    Já ensaiava uns pontos de
meia, que ela me tinha ensinado. Eu tinha como objectivo fazer uns meiotes para o Sr.
Pedro, obra que nunca concluí, não sei se devido à minha inabilidade se à morte do Sr.
Pedro dois anos depois. A Mininha, tal como a TIA, ficava admirada porque a minha mãe
bordava sem “risco”. Imaginava o que ia bordar e a partir daí as mãos trabalhavam com
as agulhas e as linhas. Também os motivos bordados nada tinham a ver com aquilo a
que a TIA e a Mininha estavam habituadas- eram araras,          tucanos, colibris, sabiás,
papagaios, catatuas, tatus; eram goiabas, jaboticabas, caquis, mangas, mamões. E tudo
isto envolvido num colorido que me encantava.
Os encontros da minha mãe com a Mininha, em que participava a TIA sempre que estava
na TERRA, ficariam sempre marcados na minha memória, especialmente a partir do
momento em que a minha mãe recomeçou a cantar. Também aí houve aprendizagem
dos dois lados: enquanto a minha mãe aprendia        as modinhas da Terra,     a TIA e a
Mininha aprendiam      modinhas brasileiras, que a   minha mãe cantaria sempre com
sotaque, mesmo depois de praticamente o perder. Eu gostava muito das que falavam
daquele outro mundo de além-mar, que eu já quase esquecera. Uma delas era uma
canção com que a minha mãe me embalara .


              Bicho Tatu
              saia do telhado
              deixe o “minino “
              dormir sossegado
              Dorme neném
              que a cuca vem “pegá”
              mamãe foi na roça
              papai no “cafezá”.
Eu crescia assim entre dois mundos. Mas a adaptação da minha mãe não estava a ser
fácil. De vez em quando ficava muito triste e com o olhar muito distante como daquela
vez em que ensinava à Mininha uma canção da sua terra que dizia:
              Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá
              As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.
Não conseguiu a acabar o último verso. Começou a chorar. Acho que a canção traduzia o
que lhe ia na alma. Mas fazia sempre por reagir, ocupando-se. Empenhou-se na
decoração da casa. Os móveis, escolhidos por ela, eram simples mas com a marca do
seu bom gosto. Foi ela quem depois confeccionou as cortinas com o linho da CASA que
bordou, muitas vezes com a ajuda da Mininha. Agora passávamos a maior parte do
tempo na casa de cima e outra das suas ocupações foi ensinar-me a ler, mesmo antes
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de ir para a escola. Tentou também ensinar a ler a Germana e a Balbina que não
passaram da escrita do nome. Comigo teve mais sucesso. Quando cheguei à escola, em
Outubro de 1956, já sabia ler, escrever e fazer contas de somar e subtrair. Entrei
directamente para a segunda classe. A aritmética foi-me ensinada pelo meu pai. Não sei
se por isso, quando mais tarde chegou a hora de decidir qual o curso a seguir, a minha
mãe sugeria- me as Letras e o meu pai, as Ciências.




12
Guardo algumas recordações da escola mas nenhuma do meu primeiro dia de aulas.
Também guardo muito poucas recordações da professora que tive nesse ano- a D.
Cremilde. Curiosamente lembro-me mais dos seus três filhos, duas meninas e um
menino, com idades entre os dois e os cinco anos, e do marido que recordo sempre
montado num fogoso cavalo branco. A D. Cremilde vivia na casa da escola, se é que casa
se lhe podia chamar. Na verdade a escola era um edifício muito velho, um pouco em
ruínas, onde já tinha estudado o meu avô Álvaro. Consistia em duas salas- uma era a
sala de aulas que albergava simultaneamente as quatro classes e a outra era a casa da
professora, onde a D. Cremilde criou dois compartimentos, improvisando uma separação
com uns cortinados de chita. Eu, tal como os outros alunos, conhecia a casa porque a D.
Cremilde, como tinha as crianças pequenas, ia muitas vezes a essa        zona.   Por isso
deslocávamo-nos lá, com frequência, para mostrar a conta, a cópia ou qualquer outro
trabalho. Toda a gente sabia que a D. Cremilde detestava estar na TERRA; há muito que
almejava ser colocada na sua aldeia que distava    mais    de 20 km. Era lá que vivia o
marido que, de vez em quando, a vinha visitar. No meu segundo ano de escola, ou seja,
na terceira classe, a escola passou a posto escolar, segundo se dizia à boca cheia, por
influência da D. Cremilde, que assim conseguiu ser colocada mais próximo da sua aldeia.
Passámos então a ter como professora uma regente escolar- a menina Celeste- de quem
também me lembro pouco. Lembro-me no entanto de que a menina Celeste trocava os
bês pelos vês. Assim dizia-nos:
       Meninos vamos ao “travalho”.
Creio que estas gafes da menina Celeste resultavam da sua extrema preocupação em
não trocar os vês pelos bês como acontece ainda hoje na TERRA. Quando um dia o meu
pai comentava este episódio com o TIO este aproveitou logo para dizer:
       Mais uma bela obra do “Botas”. Fecha as Escolas Normais, cria os postos
       escolares. Quanto mais ignorantes formos, melhor.


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Claro que o meu pai foi logo em defesa do homem de S. Bento e mais uma discussão se
gerou.
Uma das vezes, na escola, aprendemos o hino nacional. A minha mãe disse-me:
         Esse não é o teu hino.
Ensinou-me o hino brasileiro e eu, confesso, achava-o bem mais bonito pois falava de
flores e estrelas enquanto o que me haviam ensinado na escola falava de armas. Soube
que falava de estrelas porque, à medida que me ia ensinando a letra, a minha mãe ia-
me explicando o significado. Assim, a propósito do verso que diz em teu formoso céu
risonho e límpido a imagem do cruzeiro resplandece, eu aprendi o que era o Cruzeiro do
Sul. O meu pai já me ensinara a reconhecer no Céu a Ursa Maior, a Ursa Menor, a Estrela
Polar e a estrela da tarde, que não era estrela, mas planeta. E eu tinha pena de não
poder ver também o Cruzeiro do Sul.
Mas o que eu mais recordo do meu tempo de escola são alguns colegas, a Conceição, o
Zé, a Beatriz, a Pureza, a Lucinda, o Manuel, a Rosa, nem todos da minha classe, e os
jogos e brincadeiras que fazíamos. Havia brincadeiras consideradas masculinas e
brincadeiras consideradas femininas. Eu gostava de brincar a qualquer delas. Assim
jogava ao pião, ao espiche, à rodinca, à macaca, ao esconde-esconde, ao dá-me lume,
ao minha mãe dá licença, à corda, aos ganhotes, ao caça, aos jogos de roda, ás
casinhas. Tinha pena de não brincar descalça como a maior parte das crianças, mas para
além de saber que        a minha mãe me castigaria se o fizesse, tinha tido uma má
experiência- uma das vezes que tinha experimentado, tinha espetado uma brocha num
pé. O ferimento infectou e como não queria que a minha mãe soubesse, ia todos os dias,
às escondidas, fazer o tratamento a casa da Sr.ª Felismina.
A minha aprendizagem na escola, que penso ter sido pequena, era complementada em
casa pelos meus pais, mantendo-se na generalidade a distinção- o pai para a aritmética,
a mãe para     a leitura, as cópias e os ditados. Por essa altura fazia eu também outra
aprendizagem- a da “doutrina”. A catequista, uma senhora já de idade a quem
chamávamos a menina Amelinha, lá nos ia ensinando um conjunto de coisas tais como “
Deus é um Ser Omnipotente, Omnisciente e Misericordioso Criador e Senhor do Céu e da
Terra” às quais não sei que significado eu atribuía na altura. Sempre que mostrávamos
saber bem a lição, a        menina Amelinha dava-nos um “santinho”. Eu gostava de
coleccionar santinhos e tinha vários. No meu segundo ano de catequese a menina
Amelinha achou que eu já podia ir catequizando os mais novos, cinco     crianças muito
pequenas a quem eu também deveria ensinar que Deus era um ser omnipotente e
omnisciente. O problema é que eu não tinha santinhos para distribuir. Aí tive uma ideia
luminosa. Recortava, no Comércio do Porto que o meu pai assinava, os quadradinhos da
banda desenhada Ferdinand. Eram esses os santinhos que eu distribuía. Quando a


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menina Amelinha descobriu ficou muito escandalizada. Segundo contaram mais tarde à
minha mãe, a menina Amelinha contava o episódio a toda a gente comentando:
        Filha de uns hereges, o que é que se havia de esperar?
Neste comentário estava implicitamente contida a referência ao casamento civil de meus
pais.
No fim da catequese ou da escola eu ia sempre a casa da Sr.ª Felismina, tivesse ou não
tivesse motivo. Aí e à CASA, que tinha ganho um novo encanto. O António Joaquim, que
entretanto casara, tinha agora um filho bébé. A casa de cima, essa crescia, não em
tamanho mas em cores, sons, cheiros e sabores.




13
A casa de cima parecia ligada à CASA por um cordão umbilical. Muitos dos cheiros,
sabores cores e sons começavam agora a penetrá-la. Não todos, claro está. Não havia a
capoeira das galinhas, nem o cortelho dos porcos, nem a loja dos machos. Também na
casa de cima não se faria fumeiro, nem folares.     Tudo isso se continuaria a fazer na
CASA.    Seria ainda a   CASA que nos abasteceria de queijo, galinhas, perus, carne de
porco- fresca logo após a matança, da salgadeira, depois. Mas na casa de cima far-se-
iam as compotas, o vinho, a aguardente, as doçarias de Natal, as sopas de tomate         e
tantos outros cozinhados que a minha mãe aprendera a fazer. Aos cheiros e sabores
importados da CASA juntavam-se agora os das coxinhas de galinha, do pirão, da
macarronada à italiana, do nhoqui, da couve à mineira, da pamonha de milho, do bolo
de fubá, do bom bocado, dos quindins, do “pé de moleque”, dos canudinhos recheados
com creme, dos gelados (a que a minha mãe sempre chamaria sorvetes).
À    exuberância das cortinas bordadas pela minha mãe, associava-se a cor das dálias,
das malvas, dos amores perfeitos, dos lírios, das açucenas, dos goivos, que na CASA
ornamentavam as escadas e a varanda e que agora, num canteiro criado no pátio de
cima, conferiam o mesmo colorido à nova casa. Os sons, esses tinham vindo quase
todos, inclusive o do chilrear das andorinhas que começaram a fazer o ninho num dos
beirais da casa. De todos os sons, o que mais recordo é o da escacha da amêndoa. Foi
sempre a tarefa que mais me seduziu. Talvez porque eu tomava parte activa nela. Ainda
hoje guardo o meu escachador. Era pequenino, cilíndrico e mais perfeito que qualquer
outro. A escacha da amêndoa era feita no pátio de baixo. Previamente a amêndoa era
escabulhada no mesmo pátio e ensacada. Era dos sacos que as escachadeiras (neste
trabalho havia essencialmente mulheres) tiravam punhados de             amêndoas que
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mantinham na mão esquerda. Essas amêndoas eram colocadas, uma de cada vez, sobre
uma cova numa pedra, e fixadas entre o polegar e o indicador da referida mão. Com o
escachador, usado com a mão direita, partia-se a casca da amêndoa deixando o grão,
umas vezes intacto, outras      vezes   com pequenas mazelas. O grão ia sendo deitado,
primeiro para o avental e, posteriormente, para sacos. Era bonito ouvir o som dos vários
escachadores, umas vezes em uníssono, outras vezes não. Mas o que eu mais gostava
de ouvir, eram as conversas, as histórias, as adivinhas, os provérbios, as cantigas com
que se iam preenchendo os serões da escacha. Lembro-me de uma noite em que, ao
desafio, se iam dizendo provérbios encadeados.
       No poupar é que vai o ganho .......Grão a grão enche a galinha o papo....... Há
       quem poupe no farelo e esbanje na farinha.....Vale mais quem Deus ajuda        do
       quem cedo madruga, .....Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer....A
       conversa é como as cerejas...... Que se comem em Maio ao borralho.
Lembro-me também das adivinhas:
       Alto está,     alto mora, todos o vêem, ninguém o adora....Verde foi meu
       nascimento, mas de luto me vesti, para dar a luz ao mundo mil tormentos
       padeci.... Destas e de muitas outras.
Lembro-me ainda de certas conversas e histórias de uma ingenuidade comovedora mas a
que na altura achava imensa graça, como uma contada pelo         ti Geraldo. O ti Geraldo
era um homem que trabalhava muitas vezes lá para casa. Quando, por qualquer razão
aparecia, a minha mãe perguntava, como é habitual na TERRA:
       Quer uma pinguinha?
Ao que ti Geraldo respondia, de imediato, sempre da mesma maneira:
       Já que tanto insiste, minha senhora.
Ora a história que o ti Geraldo contou numa sessão da escacha, e que por certo era fruto
da sua imaginação, tinha a ver com a festa da Vila. O ti Geraldo contava que para a festa
tinham convidado o Bispo. No momento        em que o Bispo entrava na Vila, o presidente
da comissão das festas disse para o mestre da Banda de Música:
       Toque qualquer coisa homem, não vê que o Sr. Bispo está a chegar.
       E o que é que quer que toque ?
       Qualquer coisa.
Então ouve-se a banda a tocar uma modinha da altura, que começava assim: “A mim
não me enganas tu, a mim não me enganas tu”. Comentava o ti Geraldo:
       Coitado do “home”. “Pori” na altura “num” se l´ atinou outra.
Os termos usados eram estes e muitos outros. Por isso o tio Justino gostava de
acompanhar a escacha. De vez em quando pegava no seu bloquinho e fazia as suas
anotações, como daquela vez em que a tia Maria apareceu com uma ligadura na mão.
       Então que lhe aconteceu tia Maria?
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       Andei a “esgodar” as escaleiras. “Esbarei”, caí e “esmochilei-me” toda.
Também gostava de ouvir as modinhas que se cantavam na escacha, especialmente se
minha mãe acompanhava.
A minha mãe adorava cantar, especialmente árias de ópera. E assim, um novo som se
juntava aos importados da CASA. O meu pai cantava razoavelmente, embora nada que
se comparasse com a ex-soprano do coro da igreja de N. Sra. da Consolação. Cantavam
muitas vezes em conjunto e      eu adorava ouvi-los. As suas árias preferidas eram da
Traviata (Brindisi), do Rigoletto (como eu gostava de ouvir     La donnna é mobile), do
Nabucco (Va pensiero), das Bodas de Fígaro (Non piú andrai), da Carmen (Habanera e a
marcha do toreador), da Madame Butterfly (Un bel di vedremo, que eu achava muito
triste), do Barbeiro de Sevilha (Largo al factotum). Nessas alturas a minha mãe parecia
feliz. Acontecia o mesmo quando, com o meu pai, recordava filmes que ambos tinham
visto. Lembro-me essencialmente de dois títulos: “Casablanca” e “E tudo o vento levou“.
Lembro-me também de falarem de actores, cujos nomes só muito mais tarde eu
aprenderia a dizer: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Clark Gable, Vivien Leigh, Fred
Astaire, Ginger Rogers.
Um outro som podia também ser ouvido agora na casa de cima- o da máquina de costura
da minha mãe, comprada numa das últimas idas a Lisboa. A minha mãe costurava bem
e sabia bordar à máquina. Por isso, agora alternava os bordados à mão, mais finos mas
mais lentos, com os feitos à máquina, um pouco mais grosseiros mas indubitavelmente
mais rápidos.    Ensinou a Mininha a bordar à máquina. E não só a Mininha. Muitas
raparigas da terra por ali passaram, entre elas a Rosa, a Lurdes, a Etelvina. O seu
esforço de adaptação continuava. Ás vezes parecia integrada, outras vezes ficava com
um ar muito triste e dizia:
       Onde havia eu de vir parar, neste fim de mundo.
Ás vezes sugeria ao meu pai.
       E se fôssemos ao Brasil? Aproveitavas para ver os teus afilhados.
       Talvez um dia- era sempre a resposta do meu pai.
Eu percebia que a minha mãe tinha muitas saudades da sua terra. Talvez por isso e
também porque gostava muito de a ouvir, pedia-lhe muitas vezes para contar histórias
da sua vida além-mar. Então falava-me da fazenda onde vivera em criança, das boiadas
e dos boiadeiros, das plantações de cana do açúcar, dos cafezais, das bananeiras, das
goiabeiras, dos pássaros, das modinhas que se cantavam ao serão ao som dos violões.
Falava-me também de S. Paulo, que eu já mal recordava, e da sua vida ainda solteira,
indo às praias de Santos com os irmãos, andando de bicicleta, comendo pé de moleque e
sorvete e bebendo garapa e água de coco. Falava-me da vida depois de casada, dos
cinemas, das óperas, das festas. Falava-me dos amigos- da Olga Stein, descendente de
alemães, da Paola Pistilli, descendente de italianos tal como a minha mãe,        da Hilda
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Sanharib, de origem síria, do Takahashi,       descendente de japoneses, e da sua maior
amiga, a negra Benedita. Eu achava que devia ser muito bonita uma terra onde
conviviam gentes de todo o mundo. Essa terra era, para mim, a terra da minha mãe. Eu
sabia que também era a minha mas, talvez por já me lembrar pouco dela, eu achava que
a minha terra era a TERRA. Isso não impedia que em alguns casos eu gostasse mais das
coisas do lado de lá. Era o caso do hino. Já com o Natal era diferente.




14
O Natal brasileiro de que a minha mãe me falava, com as indispensáveis idas à praia,
nunca   me entusiasmou. Ao falar desse         natal, a minha mãe não falava das idas ao
musgo, da fogueira da praça nem do cantar dos Reis. E disso eu gostava muito.
Começava a pensar nele muito tempo antes, não sei bem quanto, mas só quando
chegavam a TIA e o tio Justino é que o Natal começava realmente para mim. No dia
seguinte à sua chegada, eu, o meu pai e o tio Justino íamos ao musgo. Às vezes tinha
pena de arrancá-lo, tão         verde e tão fofo ele estava, agarrado às paredes. Parecia
veludo. Arrancado o musgo começava           a construção do presépio,    essencialmente a
cargo do tio Justino e    da minha mãe. Eu colaborava activamente. Também os meus
colegas de escola vinham muitas vezes ajudar. Fazia-se no pátio de baixo. O tio Justino
começava por empilhar várias cortiças de modo a criar uma estrutura em relevo. Depois
cobríamo-las com o musgo. Em seguida, com areia fazíamos uns carreirinhos ao longo
dos quais iríamos colocar várias figuras. Estas eram de barro pintado e tinham sido
trazidas de Viana pelo tio Justino. Também foi ele quem fez a cabana do Menino Jesus,
com uma cortiça virgem. Para além das figuras, da cabana e dos carreirinhos, havia no
presépio um lago, feito com um espelho envolvido de musgo, ao qual dava acesso um
regato que serpenteava ao longo da cascata e era feito com papel prateado. Havia ainda
uma fogueira feita com papel celofane vermelho, coberto com galhinhos de lenha, e por
baixo do qual se colocava uma lanterna acesa. Era à volta desta fogueira que se
colocavam os pastores. Presa do tecto havia uma estrela que iluminava os reis magos.
Era de cartão coberta com papel dourado.
Para além do presépio havia lá em casa uma árvore de Natal, e creio que seria a casa de
cima a única casa da TERRA onde tal acontecia. A ideia da árvore de Natal tinha vindo
com a minha mãe. Era feita com um zimbrinho que era colhido no mesmo dia em que
íamos ao musgo. Os enfeites eram pompons de lã, coloridos, que eu fazia com a ajuda
da Mininha, e pequenos biscoitos que a minha mãe fazia com vários formatos-             de
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estrela, de meia lua, de sino, de árvore. Na parte superior da árvore havia um grande
laço de seda arranjado pela minha mãe.
Mas o Natal era muito mais que o presépio e a árvore. Era a ceia, sempre na CASA, até à
morte da TIA. Comíamos todos à mesa- os meus pais, a TIA e o tio Justino, a Germana,
a Balbina, o António Joaquim e a família. A ceia constava de bacalhau, polvo e pescada
cozidos com batatas e couves da TERRA que têm um sabor diferente de todas as outras
que eu conheço. E tudo isto era regado com o azeite dourado das oliveiras, também da
TERRA. Eu, na altura, não apreciava muito essa comida mas sabia que depois vinham as
sobremesas. E dessas eu gostava. Eram as rabanadas, as filhós, os milhos doces, o arroz
doce, a aletria, os fritos de jerimum, os rochedos de amêndoa. No dia de Natal o almoço
era na casa de cima. Invariavelmente era peru recheado com farofa acompanhado de
arroz com amêndoas, passas e nozes. À sobremesa eram doçarias brasileiras- quindins,
bom bocado, docinhos de amêndoa, pudim de laranja. Eu gostava de ajudar a fazer estas
doçarias, particularmente os docinhos de amêndoa. Eram feitos de véspera com uma
pasta de açúcar, gemas e amêndoa, que            era introduzida dentro de cascas de nozes
para ali secar. No dia de Natal saíam das cascas docinhos de amêndoa com o formato de
noz.
Depois do almoço eu ia sempre com o meu pai e o tio Justino ver a fogueira na praça.
Ainda hoje se faz a fogueira. Antes do Natal os rapazes da TERRA vão pelas casas mais
abastadas pedir lenha. As pessoas indicam-lhe onde a podem ir buscar. Na véspera de
Natal lá vão eles. Após a ceia de Natal, lá pelas 10 h da noite, a lenha, grandes toros e
raízes,    começa ser empilhada na praça, em frente à igreja. Em seguida acende-se a
fogueira.    Levam-se umas chouriças para assar e assim, entre conversas,        comendo
chouriça assada, os homens vão passando a noite. Se há Missa do Galo, vai-se à Missa.
Caso contrário por ali se fica até passar da meia-noite. A fogueira manter-se-á acesa por
vários dias, enquanto a lenha durar. As mulheres não participam deste evento. Podem ir
ver, passar algum tempo, mas é uma prática essencialmente masculina.
Outra boa recordação que tenho da época natalícia é o cantar dos Reis6. Aí participam
crianças e jovens que vão de porta em porta cantando. Lembro-me particularmente de
alguns excertos de duas canções de Reis. Uma delas era:
                Dai-nos leitão e cabrito,
                arroz doce e marmelada,
                dai-nos vinho de há cem anos
                já não vos queremos mais nada.
                Trigo e nozes e marmelada,
                lombo de porco, vitela assada,


6
    assim são designadas as Janeiras
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              pão com manteiga, chá ou café
               e o Deus Menino nascido é.


A outra, era a última a ser cantada:


              Ao carrasco de Lisboa já lhe caiu a bolota
              Se nos querem dar os Reis venham-nos abrir a porta


E as portas abriam-se e lá vinham as nozes, a marmelada, os figos, as chouriças. Eu
gostava muito de cantar os Reis em todas as casas mas, muito em especial, na casa de
cima. A minha mãe preparava uma cesta com uns embrulhos feitos em papel de seda
com uns grandes laços. Cada um de retirava da cesta um embrulho. Era bonito, pela
surpresa. Lá dentro podia haver caramelos de leite (que ela fazia tão bem), biscoitos
iguais aos da árvores,     docinhos recheados com amêndoa, pé de moleque. Eu ficava
muito feliz até porque me parecia que a minha mãe também estava feliz.
Mas por vezes aquela sua tristeza voltava, como daquela vez em que uma           irmã se
lembrou de lhe mandar a primeira “Manchete”.        Lembro-me bem da capa. Trazia uma
mulher bonita, vestida de azul e tinha como título: O beijo que o protocolo proibiu. Mais
tarde soube que a mulher bonita era a princesa Grace Kelly. Eu não sabia o que queria
dizer protocolo, por isso também não entendia que relação poderia haver entre
protocolos e beijos mas, acima de tudo, eu não percebia porque razão uma revista com
uma mulher tão bonita na capa, poderia ter deixado a minha mãe tão triste.
Os períodos de tristeza da minha mãe, punham o meu pai muito desorientado. Por vezes
reagia trabalhando até à exaustão (cavando, lavrando, podando, levantando muros nas
propriedades). Outras vezes voltava à vida    desregrada que em outros tempos levara,
gastando muito para além das suas possibilidades.
Os gastos com a construção da casa, os tratamentos da minha mãe, os desvarios
episódicos do meu pai, aliados à crise que se inicia na agricultura, fundamentalmente
devida à emigração para a Europa, levam a que a nossa situação económica não seja
invejável. E isto, precisamente na altura em que vão começar os gastos com a minha
educação.




15
Vou para a cidade, estudar para o Liceu. Fico instalada em casa de um casal conhecido
dos meus pais. Os primeiros tempos foram muito difíceis. Tinha muitas saudades da
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família, da   TERRA, da CASA e da casa de cima. Só de tempos a tempos os meus pais
apareciam pois não havia estrada para a TERRA; apenas o caminho que o meu pai tinha
mandado arranjar e que no Inverno era geralmente intransitável. Como nessa altura não
havia telefone na TERRA, o correio era a única forma de comunicação. Todos os dias
esperava o carteiro com imensa ansiedade e não conseguia conter as lágrimas, quando
não tinha correspondência. Encontrei na leitura uma forma de compensar as saudades
que eu sentia. Na biblioteca do Liceu requisitava tudo quanto encontrava desde Luisa
Alcott, Condessa de Ségur, Selma Lagerlof, Hans Christian Andersen, Trindade Coelho,
a Júlio Verne e Emílio Salgari.
No dia que cheguei à cidade comecei a contar os meses que faltavam para as férias de
Natal. Depois passei a contar os dias, os minutos e até os segundos. Não consigo sequer
descrever a alegria que tive ao chegar. Lá estavam todos os da CASA e os da casa de
cima. Estavam ainda a Sr.ª Felismina e a Mininha. Difícil foi o regresso à cidade, depois
das férias. Mas a partir do segundo período lectivo comecei a adaptar-me melhor. Em
meados de 1962, foi inaugurada a estrada entre TERRA e a Vila e a partir daí as visitas
dos meus pais      passaram a ser mais frequentes, o que também facilitou a minha
adaptação. Uma das vezes em que os meus pais me              foram visitar, a minha mãe
ofereceu à senhora da casa onde eu vivia, um pano bordado. A senhora tê-lo-á mostrado
às amigas e uma delas encomendou uma colcha bordada à minha mãe. Com a ajuda da
Mininha a minha mãe iria satisfazer essa encomenda bem como                 outras que se
seguiriam. Além de a ocupar, esta nova actividade constituía uma ajuda económica que
não se podia    rejeitar. Para a Mininha também era bom, pois estava agora muito só.
Tinha morrido a Sr.ª Felismina. Também morrera a Germana que já há muito se
queixava de dores no peito. Estas duas mortes foram as primeiras que eu senti
realmente. Nunca mais a Germana me faria meiinhas rendadas, nem voltaria a ouvir a
Sr.ª Felismina dizer, logo que me sentia puxar a aldraba da porta:
       Aí vem a pombinha da Catrina.
É também por esta altura que a TIA vende ao TIO a sua parte na Casa. A TIA nunca
teve filhos pelo que o TIO quis assegurar que a CASA continuasse na família. Pertence
agora apenas ao TIO mas todos continuaremos a considerá-la como nossa. Tudo se
passa como se agora tivéssemos duas casas, uma filha da outra.          Em 1963 chega à
TERRA a luz eléctrica e consequentemente a televisão. Em 1964 chega o telefone.
Durante todo este período ocorreram factos que recordo, uns mais que outros. Uns foram
de carácter mundial ou nacional; outros, ainda, foram estritamente pessoais. Assim em
1961 a nave Vostok 1 efectua o primeiro voo orbital em volta da terra, levando a bordo
Yuri Gagarine. Nesse mesmo ano,       Jânio Quadros sucede a Kubitschek de Oliveira na
Presidência da República do Brasil, dá-se o assalto ao S.ta Maria, Portugal perde os
territórios da Índia e inicia-se a guerra colonial. A perda dos territórios da Índia lembra-
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me um episódio, que hoje, volvidos tantos anos, acho perfeitamente bizarro. No entanto,
não sei que significado lhe atribuí na altura. Creio que foi nas férias da Páscoa. Na missa
dominical, os habituais cânticos     foram substituídos por um que tinha a ver com a
situação vivida no território. Se bem me lembro, a letra era assim:
                      Ah,Ah,Ah, heróis de Dadrá
                      Eh,Eh,Eh, lutai pela fé
                      Ih,Ih,Ih, Nagar-Avely
                      Oh,Oh,Oh, Goa não está só
                      Uh,Uh,Uh, convertei Nehru
Em 1962 teme-se a eclosão de uma nova guerra mundial na sequência da instalação dos
mísseis soviéticos em Cuba. Em 1963 Paulo VI sucede a João XXIII, e Kennedy é
assassinado. Em 1964 recebo a primeira carta de amor, que ainda hoje guardo. Reza
assim:
         Minha gentil menina
         Quando a vejo passar na praça da Sé, ao ir para o Liceu, o meu coração bate com
         tanta força que penso que vai sair do peito. O seu sorriso, que lembra o de Helena
         de Tróia, é para mim um bálsamo. Serei eu correspondido?
         Diga-me que sim, senão eu morro de desgosto.
         António


Como não trazia qualquer outra identificação ainda hoje não sei quem era esse António,
mas por certo não morreu de desgosto. A cidade era grande comparada com a TERRA,
mas não tão grande que uma tal tragédia não desse que falar por muito tempo. Também
nunca vi qualquer outra referência ao sorriso da Helena de Tróia, pelo que não sei se
seria muito galanteador ou não.
É também em 1964 que recebo como prendas de anos dois livros que me irão
acompanhar sempre: O Pequeno Príncipe de Saint- Exupéry e Platero e Eu de Juan
Ramón de Jiménez. O meu gosto pela leitura é cada vez maior. Quando estou na TERRA,
grande parte do tempo passo-o no escritório, a ler.




16
O meu pai também se refugiava agora muito no escritório. Era a parte da casa com mais
cor,   que    provinha   essencialmente    das   cortinas   bordadas   pela     minha   mãe,
complementadas agora por uma colcha, também bordada, que tapava um divã. Este não
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existia inicialmente, mas após a morte da Sr.ª Felismina, a Mininha passava muito tempo
com a minha mãe e, no Inverno, por vezes ficava a dormir lá em casa. No escritório,
para além do divã, havia a secretária e a cadeira do meu pai, ambas em castanho, uma
estante, também em castanho, ao longo de uma das paredes, e um pequeno sofá de
couro. Era um compartimento cheio de fotografias. Nas paredes, as dos meus bisavós
Isabel e Luís Engrácio, com os filhos Matilde, Afonso e Marta, as dos meus avós Marta e
Álvaro, uma do tio Filipe e da tia Carlota com o filho Júlio ainda pequeno, uma outra da
TIA e do tio Justino. Havia também duas fotografias aéreas tiradas pelo TIO- uma da
TERRA e outra do Santo. Em cima da secretária estava apenas a foto da minha mãe. Na
estante encontravam-se vários romances, peças de teatro       e alguns livros de poesia.
Eram essencialmente de autores portugueses- Camilo, Eça, Júlio Dinis, Guerra Junqueiro,
Almeida Garret, Abel Botelho, António Nobre, Trindade Coelho. Havia também alguns
autores brasileiros- Juracy Camargo, Machado de Assis, José de Alencar- e um autor
francês, Victor Hugo. Havia ainda na estante uma monografia do concelho,          alguns
volumes das memórias Arqueológico- Históricas do Distrito, e os Estatutos da Confraria
de Sto Estevão. Podiam ver-se também uma meia dúzia de livros antigos, alguns que
meu pai herdara do meu avô,        outros que comprou em alfarrabistas- Os Lusíadas,
publicação de 1879     da Typographia e Lithografia E. Guyot, em Bruxelas, uma Bíblia
Sagrada, de 1842, edição aprovada pela Rainha D. Maria II, o Dicionário Encyclopedico
da Lingua Portugueza, de Simões da Fonseca, sem data de edição,                o Manual
Encyclopedico para uso das Escolas de Instrução Primária de Achilles Monteverde, datado
de 1879, um Formulário e Guia medico do autor Pedro Chernoviz, datado de 1892, 15 ª
edição e que contém a descripção dos medicamentos, as doses, as molestias em que
são empregados, as plantas medicinaes indigenas do Brazil, o Compendio alphabetico
das aguas mineraes, a escolha das melhores formulas, um memorial therapeutico e
muitas informações úteis. Durante muito tempo, ocupou lugar de destaque na estante, o
livro “Salazar na intimidade”, mas um dia desapareceu sem deixar rasto. Para além dos
livros havia arquivos com correspondência, todos eles identificados na capa:
       Correspondência com meus irmãos (1938- 1954); (1954-         )
       Correspondência com primo Júlio e afilhados (1954-      )
       Correspondência diversa
Havia também        várias revistas- alguns números do Seringador,       da    Ilustração
Portuguesa, da Vida Mundial Ilustrada, da revista Je sais tout ( datados de 1921), um
Borda- d´Água que tinha sido comprado há muitos anos pelo avô Álvaro,          e algumas
Manchete. Após a crise da minha mãe, quando a irmã lhe mandou a primeira, o meu pai
pediu-lhe que não voltasse a mandar nenhuma. Mas mais tarde, foi a minha mãe quem
quis recebê-las. Assim existiam várias. Havia ainda vários álbuns de fotografias, alguns
de pessoas que já ninguém identificava, outros mais recentes. Todos eles eram um
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pouco   desorganizados,    excepto   um   que     ia   sendo   construído   pela   minha   mãe
exclusivamente com as fotos que a família lhe enviava do Brasil. Todas as fotos estavam
dispostas por ordem cronológica e em baixo tinham vários dados de identificação. Assim,
sempre que um dos irmãos lhe mandava a fotografia de um novo filho a minha mãe
escrevia por baixo o nome, a data de nascimento, a filiação. Mais tarde a minha mãe
esclareceu-me quanto à intenção destas anotações.
        Assim poderás conhecer melhor a tua família do Brasil, que infelizmente ou nunca
        viste, ou já esqueceste.
Disputando o lugar com os livros podiam ver-se, na estante, várias fotos. Uma era do
TIO, ainda novo, fardado; as restantes eram minhas e dos afilhados de meu pai- Renata
e Ricardo. Os afilhados do meu pai sempre fizeram parte do meu imaginário. Escreviam
com alguma frequência ao padrinho e nas cartas vinham sempre umas letras que me
eram particularmente dedicadas. Em compensação, sempre que o meu pai lhes escrevia,
eu também escrevia algumas letras. Às vezes as cartas eram acompanhadas de
desenhos, mas isso quando éramos crianças. Em 1965, escreveram ao meu pai uma
carta que o deixou particularmente feliz. Vinham visitá-lo. Chegaram em fins de Março.
Fomos esperá-los ao Aeroporto da Portela. Nós, o TIO             e a tia Laura.    O meu pai
reapresentou-nos tal como o fizera há quinze anos:
        Esta é a Marta; é como vossa irmã.
        Estes são a Renata e o Ricardo; são como teus irmãos.
Só que desta vez eu entendi a mensagem. Eles e o meu pai ficaram dois dias em Lisboa
para o TIO lhes mostrar a cidade, e só depois foram para a TERRA. Eu e a minha mãe
regressámos primeiro, pois o meu pai fez questão que tivessem uma recepção à altura. A
TIA e o tio Justino (este de licença por uns dias) ajudaram-nos a criar o ambiente que o
meu pai queria. A nossa casa estava toda ela enfeitada com alecrim e galhos de urze e
giesta floridas. Para o dia da chegada, a minha mãe, com a ajuda da TIA, preparou uma
série de iguarias (quitutes, como ela dizia) fazendo uma miscelânea entra a cozinha
brasileira e a portuguesa, o que encheu a casa dos melhores cheiros e sabores. Foram
dias óptimos. Nunca me lembro de ver o meu pai tão feliz. Eu também me sentia muito
bem com os afilhados do meu pai; na verdade eram para mim os irmãos que eu nunca
tivera. A minha mãe também parecia feliz. Tinha oportunidade de falar da sua terra. Com
Renata e Ricardo retomara o sotaque, que já pouco mantinha. Lembro-me que falavam
muito de Santos, dos seus canais, dos seus morros, o do José Menino, o de S.ta
Teresinha, o da Penha, o Monte Serrat com o seu bondinho, da ilha Porchat, das praias,
a do Gonzaga e a do Itararé. A minha mãe já me falara muitas vezes de todos estes
sítios e havia uma fotografia dela, em fato de banho (em maillot, como ela dizia), com o
meu pai, na praia do Gonzaga.


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O meu pai fez questão de mostrar o Zimbro aos afilhados. Mas ao Zimbro só chega quem
estiver habituado a andar pelas ladeiras. Por isso, fomos só até à Fraga, de onde se
avista o rio, a capela de Sto Estevão e o Zimbro. O meu pai disse então :
       Foi ali que tudo começou.
Quando Renata e Ricardo partiram de regresso, o meu pai não conseguiu evitar que as
lágrimas lhe corressem pelo rosto enquanto dizia:
       A felicidade é um mito que o homem persegue incessantemente, mas que nunca
       atinge.
A década de 60 aproximava-se agora do fim. Em 65 Humberto Delgado fora assassinado
e em 67 é assassinado Che Guevara. Em 68 Salazar cai da cadeira e sucede-lhe Marcelo
Caetano; começa a evolução na continuidade. Ainda em 68 é assassinado M. Luther King
e surge a fugaz Primavera de Praga. Em 69 Neil Amstrong e Edwin Aldrin pisam o solo
lunar e em Portugal vive-se a crise académica, no rescaldo do Maio de 68. Toda esta
década, é indissociável da guerra no Ultramar, da guerra no Vietname, dos “hippies” e
dos Beatles. Por esta altura eu ouvia-os, necessariamente, mas também Chico Buarque,
Manuel Freire, Zé Afonso, Yves Montand, Aznavour, Jacques Brel, Bob Dylan, Joan Baez.
Lia Vinicius, Manuel Bandeira,     Fernando Pessoa, Gedeão, Manuel da Fonseca, Torga,
Eça, Namora, Abelaira, Sebastião da Gama, Jorge Amado, Erico Veríssimo, Hemingway,
Steinbeck, Camus, Françoise Sagan. Também por esta altura,        eu começava a pôr em
causa muita coisa.
Após a saída da TERRA e com o decorrer do tempo fui começando a ficar deslumbrada
por um mundo que até aí não conhecia- um mundo em que havia verbenas, montras,
cafés, cinemas, bailes, tertúlias, televisão. Comecei a entender a dificuldade de
adaptação da minha mãe. Como tinha sido cruel afastá-la da família, dos amigos e
daquele mundo que sobre ela exercia tanto fascínio? Mas só em 1969, viria a tomar
verdadeira consciência do drama que foi a sua vinda para Portugal.




17
Em 1969 vêm a Portugal as duas irmãs da minha mãe, acompanhadas dos respectivos
maridos. Quando chegaram à TERRA a comoção da minha mãe foi enorme. Chorou
copiosamente abraçada a cada um deles. Depois quis saber tudo sobre os pais, os outros
irmãos, os sobrinhos, a restante família, os amigos, sobre S. Paulo, sobre Santos, sobre
a fazenda do tio e sobre o Brasil em geral. Desde logo notei que os meus tios olhavam o
meu pai com alguma frieza mas na altura não dei grande importância ao facto. Os meus
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tios passaram quase um mês na TERRA. Eu estive presente nos primeiros dias mas tive
que regressar ao Porto, onde me encontrava a estudar. Passado cerca de um mês os
meus tios passaram pelo Porto, já       a caminho do Brasil. Foi só nessa altura que me
apercebi realmente de quão dolorosa tinha sido a vida da minha mãe desde que viera do
Brasil.
Desde a sua chegada em 1954 e durante cerca de um ano, a minha mãe nunca escreveu
à família; encontrava-se em tratamento debaixo da grande depressão que se seguiu à
sua chegada. Durante esse tempo foi o meu pai quem escreveu dizendo que estava tudo
bem, apenas a minha mãe um pouco adoentada por ter tido dificuldades de adaptação
ao clima. Em Julho de 1955 a minha mãe escreve pela primeira vez. Uma das cartas é
dirigida aos pais, e nela fala essencialmente de mim, mas também de banalidades. De
modo algum dá a entender o seu verdadeiro estado de espírito. Esse só será dado a
conhecer aos irmãos, com o pedido que nada seja transmitido aos pais. Os meus tios
fizeram questão que eu lesse algumas dessas cartas. Nelas existem trechos altamente
perturbadores. Assim, na primeira carta que escreveu pode ler-se:
          Tentei regressar com a Marta, mas a lei deste país não permite que eu parta sem
          autorização do João; sei que ele nunca ma dará. Adora a filha e jamais irá
          consentir que eu parta com ela. Eu, sem ela, também não consigo partir, embora
          sinta cada dia o coração mais dilacerado. Não consigo viver nesta terra. Sinto que
          morro aos poucos, aos 35 anos de idade. Sinto falta de tudo: de todos vocês, do
          Sol, do calor, do mar, dos amigos, das pessoas, do sotaque, do bulício da cidade,
          de ir ao cinema, à ópera. Se não fosse a Marta nem sei o que eu já teria feito.
          Sinto-me como que prisioneira da minha própria vida e sem ter com quem
          desabafar. A família do João tem sido muito carinhosa comigo mas não poderia
          confidenciar-lhe nada disto. É por isso que desabafo convosco embora saiba que
          vos vou fazer sofrer. Mas eu não aguento mais tempo sozinha todo este fardo.
E numa outra, escrita em 1961:
          A Marta está a estudar na cidade a 80 km daqui e não é fácil a deslocação entre a
          TERRA e a cidade. Agora    que eu começava a habituar-me a viver neste lugar,
          surge esta separação. Para mim tudo isto é muito doloroso. Tentei convencer o
          João a irmos viver para a cidade, mas ele só se sente bem aqui. Para ele isto é o
          paraíso e foi nessa ilusão que eu vim aqui parar. Mas o que encontrei, se não foi
          o inferno, foi pelo menos um lugar a meio caminho entre o inferno e o purgatório.
Ainda numa terceira pode ler-se:
          Nunca neguei que a situação económica, muito confortável, do João, contribuiu,
          em parte, para a minha decisão de casar com ele. Hoje até isso desapareceu. A
          nossa situação económica é muito precária. Houve gastos com a construção da
          casa e com a minha doença; há despesas constantes com o arranjo do caminho
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       que ele usa como estrada, com os frequentes consertos do carro que não está
       preparado para tais pisos, com os estudos da Marta. Para agravar tudo isto, a
       agricultura está em crise. Trabalho bastante para ajudar a aguentar o barco. De
       tanto bordar, para satisfazer as encomendas que me fazem, sinto que estou a
       perder a vista a um ritmo assustador.
Quando acabei de ler as cartas, cuja leitura tive que interromper várias vezes com a
comoção, uma das minhas tias disse:
       Minha querida, seu pai não foi legal com sua mãe; nós estamos muito magoados.
Percebi então a frieza com que os meus tios o olhavam.
Entretanto, havia já algum tempo que eu me questionava:
       Como podia eu gostar de um lugar que tanto tinha feito sofrer a minha mãe?
Agora sentia-me muito confusa. Em certos momentos era envolvida por um sentimento
que não conseguia controlar e que me arrepiava - detestava o meu pai. Comparava-o a
um mercador de escravos. Falava-lhe muitas vezes com agressividade e sentia que o
fazia sofrer. Ele   envelhecia e começava a ser perseguido por uma angústia que não
conseguia disfarçar. Um dia, disse-me:
       Quando eu for para baixo dos sobreiros esta casa será vendida. Eu sinto-o.
A minha primeira tentação foi responder-lhe: Não tenha dúvidas.
Mas com uma hipocrisia que ele por certo entendeu, disse-lhe que nem pensasse nisso.
No íntimo eu achava que ele estava certo. A minha mãe, não ia querer continuar a viver
na TERRA e eu também acreditava que tinha acabado a sedução que em tempos a
TERRA tinha exercido sobre mim. Como que numa tentativa de vingar a vida da minha
mãe, lutava por me desapegar da TERRA e das casas, quer da CASA, quer da casa de
cima. Tudo isto acontecia ao mesmo tempo que se iniciavam novas relações, enquanto
outras se começavam a degradar.




18
Quando da estada do TIO na TERRA, no Verão de 1969, todos nos apercebemos de que
ele não estava bem. Muito calado, ele que gostava imenso de falar, parecia um pouco
ausente e desinteressado de tudo. A tia Laura dizia que tinha começado a notar algumas
alterações no seu comportamento, logo após a passagem à reserva, de forma
compulsiva, mas nós ainda não nos tínhamos apercebido. Em 1970, vem pela última
vez à TERRA, em vida. Fez questão de ir ao Santo- à capela de Sto Estevão, lá junto ao


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rio. Fomos todos. Eu, os meus pais, o TIO, a TIA e o tio Justino. O TIO estava muito
acabrunhado. Sentou-se nas escadas de um dos coretos e perguntou ao meu pai:
       Lembras- te?
Como não se havia de lembrar? Aqueles coretos estavam ali para lhe recordar aquele ano
em que estivera às portas da morte.
Levámos uma merenda, daquelas que a Tia fazia e que davam para um regimento. Dela
constavam    peixes fritos, folar, milhos, pão, presunto, salpicão, fruta. A minha mãe
colaborara com coxinhas de galinha e quindins.    O meu pai e o tio Justino    fizeram
questão de deitar a rede e pescar uns peixes que assaram ali mesmo, na hora, e
temperaram como só eles sabiam fazer. Comemos à beira do rio, à sombra de um
salgueiro. Estávamos precisamente a começar a merenda quando chegou um grupo de
jovens de mochila às costas. Vinham acampar. O meu pai e o tio Justino meteram
conversa com os jovens. Quem eram? Donde vinham? Um deles falou:
       Vimos do Porto e resolvemos acampar aqui porque tínhamos        curiosidade em
       conhecer esta zona. Eu chamo-me Carlos Almeida e o meu avô nasceu numa
       aldeia aqui perto. Chamava-se Luciano Almeida.
A TIA ficou um pouco excitada com esta apresentação de Carlos. Falou com o seu
sotaque sibilante:
       Ai sim! Olhe que esse senhor esteve para casar com uma tia minha de quem
       herdei o nome- a minha tia Matilde.
E teve que contar com todos os pormenores a história da tia Matilde, não sem que antes
tivesse convencido os jovens a sentarem-se e a comerem da nossa merenda. Adoraram
os peixes, principalmente os que tinham acabado de ser assados ali. Carlos quis saber
pormenores da pesca e do amanho dos peixes. O meu pai e o tio Justino disputaram
entre si as explicações. O tio Justino descreveu pormenores da pesca- como se lançavam
as redes e as chumbeiras, o que era o embude- e do amanho dos peixes, nomeadamente
a receita do molho. O meu pai contou a Carlos que no Rio havia bogas e barbos. Havia
também rasquetas- uns bivalves que poucas pessoas apreciavam, e nos últimos tempos
tinham começado a aparecer uns lagostins, esses sim, bastante apreciados, embora
raros. Em outros tempos, tinha havido enguias e lampreias. Mas isso tinha sido no tempo
em que ele, ainda menino, acompanhava nas peixadas seu tio Afonso bem como outros
homens, entre eles o avô de Carlos, Luciano Almeida. O meu pai e o tio Justino falaram
ainda do Rio, das suas cheias, da barca que ali houvera para passar para o outro lado,
das gentes “dalém do Rio” e da TERRA. Mostraram como a sua história era indissociável
da do Rio, não só pelas peixadas que sempre ali se fizeram mas também porque ali se
adoçavam os tremoços para qualquer acto festivo, e se lavava não só a roupa, como as
tripas para os enchidos, na altura das matanças. Falaram também da festa de Sto
Estevão, da fé das gentes daquém e dalém do Rio, dos milagres que constavam, e de
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alguns episódios divertidos. Um deles tinha ocorrido na festa do ano anterior quando o
pregador, vindo de fora, começou assim o sermão :
       Caros cristãos e mulheres!
Lembraram também aquela vez em que um filho do António Joaquim, o Chico, ia na
procissão vestido de Menino Jesus. A procissão seguia com os seus cânticos, quando se
ouve uma voz de criança:
       “Ulha” os “mous” machos.
Era o Chico que tinha identificado, entre os vários animais na encosta, os seus machos
presos a uma oliveira.
Finda a merenda, o meu pai e o tio Justino fizeram questão de mostrar aos jovens, a
fonte de mergulho, cuja água se diz ser milagrosa, a capela de Sto Estevão com os seus
belos altares em talha dourada e a casa dos milagres que contem testemunhos dos
mesmos, nomeadamente ex-votos- pequenos quadros pintados por gente simples onde
se relata o milagre feito. Num deles, datado de 1780, pode ver-se um homem deitado
num catre e uma luz vinda do Céu. Por baixo pode ler-se: M. ~q fez em hum ~q estive
cuaze muorto i milhoro.
Os jovens ficaram ainda uns dias ali acampados e depois passaram pela TERRA que meu
pai fez questão de lhes mostrar. Foi assim que eu conheci Carlos com quem viria a casar
dois anos depois. Para a TIA era desígnio de Deus e tinha havido ali a intercessão do Sto
Estevão   e a mediação da minha tia avó Matilde. Como explicar, doutro modo,       que o
nosso encontro tivesse sido ali junto à Capela do Santo?




19
Quando no Verão de 1970,        o TIO manifestou vontade de ir ao Santo, a TIA ficou
entusiasmadíssima com a ideia.
       Pode ser que Sto Estevão faça o milagre e cure o meu irmão.
Mas o Santo não fez o milagre. A partir daí, o TIO irá começar a perder a razão num
processo de degradação progressiva que o levará à morte em 1976. Nessa altura já o tio
Justino e a TIA viviam permanentemente na TERRA e na CASA, apesar de já não lhes
pertencer. O TIO    não vê o 25 de Abril. Ver vê, mas com outros olhos. Quando ouviu
todo aquele barulho pelas ruas, saiu em pijama. Quando o encontraram dizia que era a
festa do Santo e ele ia apanhar as canas dos foguetes.
Também, em 1973, o meu pai iria entrar num processo de demência senil. Durante a
doença passou a maior parte do tempo em minha casa no Porto. De vez em quando
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ficava muito perturbado e dizia que tinha que ir ter com o avô ao Zimbro. Doutras vezes
tinha que ir ver os filhos que deixara no Brasil. Uma das vezes urinou na estante da sala.
Quando a minha mãe lhe chamou a atenção disse:
       E que mal há em urinar ao toro de uma oliveira?
Eu ficava revoltada com tudo isto. Não bastara o que já fizera sofrer a minha mãe?
Pensava que só ficaria bem com a minha consciência no dia em que me libertasse
totalmente de TERRA. Talvez fosse isso que o meu pai intuía e que o levava, em
momentos de lucidez, a repetir com frequência:
       Quando eu for para baixo dos sobreiros a casa de cima será vendida. Eu sinto-o.
No início da doença tinha vários momentos de lucidez. Às vezes dizia-me constrangido:
       Eu não devia ter levado a tua mãe para a TERRA. Ela nunca se habituou. Sabes?
       Este apego à TERRA é como que uma gripe. Nem todos a apanham. E esta, quem
       a apanha não se livra mais dela.
Com o avançar da doença deixou de me conhecer, a mim e a todos os que o rodeavam, à
excepção da minha mãe. Mas poucos meses antes de morrer, teve um momento de
lucidez quando estávamos de férias na TERRA. Era Setembro. Andorinhas esvoaçavam
entrando e saindo dos seus ninhos. Sentado no terraço, olhando a ladeira, declamou,
quase na íntegra, uma poesia de Júlio Dinis dedicada às andorinhas. Terminou assim:
       Eu morro! Na chama do sol que declina
       Bem sinto o presságio de um próximo fim
       Se um dia voltardes à vossa colina
       Oh doces amigas, lembrai-vos de mim.
Passou o último mês internado num hospital. Eu e a minha mãe íamos todos os dias
visitá-lo, à excepção do dia anterior à sua morte. Nesse dia fui apenas eu. O meu pai
esteve inquieto todo o tempo da visita, chamando:
       Mariana, Mariana.
Talvez a ausência da minha mãe, naquele dia, tenha apressado a sua morte.
Quando organizávamos as coisas que tinham sido dele em vida, numa das gavetas da
sua secretária fomos encontrar uma caixa com uma fita de seda à volta e que continha
dentro um lenço bordado, um hissope         e uma luva. Na mesma caixa colocámos os
arquivos da correspondência e voltámos a         fechá-la. Talvez um dia, as gerações
vindouras, que já o não conheceram, venham a ler aquela correspondência. Para nós,
lê-la seria como que violar a sua privacidade.
Após a morte do meu pai fui invadida por um imenso sentimento de culpa.
Responsabilizei-o pelo sofrimento da minha mãe sem nunca tentar ouvir o seu lado, sem
lhe dar qualquer oportunidade de defesa. Talvez por tudo isso, senti bastante a sua
morte. No entanto não pus luto, tal como o não pusera pelo TIO nem o viria a pôr pelos
que faleceram depois. Isso preocupava a TIA:
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          O que vai dizer o povo ?
Em compensação a TIA nunca mais tiraria o luto após a morte do TIO. Passa os seus dias
entre orações e rendas enquanto o tio Justino continua com as suas colecções. Em 1984,
depois de travar uma luta terrível com a morte, o tio Justino deixa-nos. O Senhor quis
pô-lo à prova, no entender da TIA. Dele herdei o bloquinho onde coleccionava termos.
Com a sua letra miudinha tem seis folhas escritas onde podemos ler:


  À confita                 Sem contar
  Abondar                   Chegar qualquer coisa
  Acarrar                   Transportar
  Adrede                    De propósito
  Alaeiro                   Preguiçoso
  Amanhar                   Cuidar
  Amarrar                   Agachar
  Amerigada                 Romã
  Ameroso                   Macio
  Angoreta                  Recipiente para transporte de líquidos
  Arramar                   Verter
  Arrecadar                 Guardar
  Arrimar                   Encostar, Apoiar-se
  Assomar                   Espreitar, aparecer à janela
  Atreita                   Exposta a ….
  Axe                       Dor
  Belouro                   Hematoma
  Bem me eu finto           Não acredito
  Benairo                   Trapo, vestido mal amanhado
  Bilhó                     Castanha cozida ou assada,depois de descascada
  Botelha                   Abóbora
  Botar                     Deitar algo em…
  Bruncho/sorricho          Pequena quantidade de líquido(um copo com um
                            pouquinho de vinho tem só um sorrichinho)
  Bulir                     Mexer
  Bô                        Sinal de exclamação, de incredibilidade,…
  Cacha                     Metade de um fruto (maçã, pêra, etc)
  Caçoar                    Troçar
  Cadoixa                   Mal-estar

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  Canalha                  Criançada
  Canhona                  Ovelha
  Canoco                   Grande pedaço de pão cortado á mão
  Carambelo                Gelo sob a forma de estalactites
  Casulas                  Vagens
  Carraspudo               Áspero
  Catatau                  Mulher sensual
  Chanatos                 Sapatos velhos
  Chavasqueira             Propriedade rural que não presta
  Cibo/cibinho             Pedaço/pedacinho
  Comer à sobreposse       Ser alarve
  Corucho                  Cabelo apanhado e enrolado na nuca (penteado
                           usado antigamente pelas mulheres)
  Couracho                 Nu
  Crocada                  Pancada na cabeça
  Dar o panagueiro a Morrer
  alguém
  Delambida                Com a resposta na ponta da língua
  Delido                   Puído
  Delingar                 Pendurar
  Deslarada                Esfomeada
  Deu-me a risa            Deu-me vontade de rir
  Dondinho                 Macio
  Em mentes                Enquanto
  Embarrar                 Dependurar; chocar com...
  Endoujar                 Agitar um líquido
  Engaliados               Engalfinhados
  Engaranhado              Enregelado
  Esbarar                  Escorregar
  Escachar                 Partir
  Esgodar                  Esfregar
  Esmouchar                Esmoucar, danificar
  Fachoqueiro              Ramo mal amanhado
  Fingir                   Amassar o pão depois de levedado
  Foleca                   Flocos de neve
  Galelo                   Pequeno cacho de uvas

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  Ganhotes                 Pedrinhas para jogar jogo infantil
  Gricha                   Pequena nascente de água
  Grime                    Medo
  Guissos                  Gravetos
  Impontar                 Expulsar
  Lambada                  Bofetada
  Lambisqueiro             Petisqueiro
  Langueira                Preguiça
  Limboses                 Beiços sujos
  Manchinha                Pequena quantidade
  Marrafa                  Franja de cabelo
  Medrar                   Crescer
  Mofa                     Faúlha
  Moucho                   Triste
  Muquir/Murquir/Munq      Mastigar
  uir
  Nacho                    Nariz
  Patassola                Joaninha
  Pichorra                 Cantarinha de barro
  Pigarço                  Ruço
  Pilheira                 Nicho na parede para guardar coisas
  Pori                     Talvez
  Proenta                  Vaidosa
  Prosmeira                Pantomineira
  Pultriqueiro             Saltimbanco
  Relamposo                Brilhante
  Relouquear               Enlouquecer
  Remeia                   Recipiente de lata com a capacidade de 6 litros
  Remocar                  Rezingar
  Resura                   Quentura
  Retaços                  Restos de comida para alimentar os porcos
  Rodilho                  Trapo
  Só                       Fundo (da panela, da agulha...)
  Soteiro                  Dono de um soto
  Soto                     Loja onde se vende de tudo
  Taleiga/saquita          Saco pequeno e largo

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  Talho                    Banco pequeno e tosco, em geral de cortiça
  Talhote                  Talha pequena
  Zangalho                 Coisa velha, sem préstimo




Em 1986 morre a TIA, mas foi uma “morte santa”. Fomos dar com ela, morta, sentada
na varanda da CASA, com um terço nas mãos.
Quando a TIA e o tio Justino morreram eu já tinha dois filhos. O terceiro nasceria dois
anos depois. Após a morte da TIA, os meus primos Gonçalo e Afonso vêm à TERRA para
vender o que era do pai. A CASA foi comprada pelo António Joaquim que sempre lá
vivera. Foi assim um pouco como se continuasse na família. A partir desse dia foi
definitivamente cortado o cordão umbilical que unia a casa de cima à CASA.




20
Após a morte do meu pai, a minha mãe foi viver connosco para o Porto, mas ia
frequentemente à TERRA. De início justificava as idas com a necessidade de resolver
problemas pendentes, depois dizia que ia fazer um pouco de companhia à TIA, ao tio
Justino e à Mininha. Volvido um ano, foi visitar a família ao Brasil, onde ficou por um
período de seis meses. Quando regressou vinha com um ar muito tranquilo. No seu olhar
eu notava um brilho diferente e o seu sorriso que eu sempre achara muito bonito, era-o
ainda mais pois tinha perdido aquele leve traço de amargura. Esperava eu que a minha
mãe me falasse em vender a casa de cima. Pensei até que uma ideia seria comprar um
andar no Porto,     perto de nós. Só que a minha mãe nunca me falaria no assunto.
Continuava a passar longos períodos na TERRA, mesmo depois da morte dos meus tios.
De vez em quando levava com ela um dos netos, que adoravam estas idas. Os meus
filhos adoravam a avó e as suas histórias fantásticas. Agora não contava só as histórias
do mundo de além-mar. Essas alternavam, muitas vezes fundiam-se, com as do lado de
cá. O mesmo acontecia com as canções. A minha mãe embalava os netos tanto ao som
do “Bicho Tatu” como do “Dorme, dorme, meu menino”.



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Nas férias de Verão íamos todos à TERRA: a minha mãe, Carlos, os filhos e eu, nem
sempre de boa vontade,          porque   continuava sem resolver o meu conflito.    Quando
estávamos lá todos, a minha mãe parecia muito feliz. Eu não conseguia entender. Em
1988 a minha mãe adoece com doença incurável e morre em 1990. Um dia, já próximo
do fim disse-me:
       Vou fazer-te dois pedidos que vais achar estranhos. Se não quiseres não os
       satisfaças. Gostaria de ser enterrada debaixo dos sobreiros e gostaria que não
       vendesses a casa de cima.
Eu estava estupefacta. Não podia acreditar no que ouvia. Então ela disse:
       É verdade. Também apanhei a doença. Sabes, foi muito bom ter ido ao Brasil.
       Matei saudades, mas acima de tudo pude reflectir à distância, no espaço, e até no
       tempo. Durante os primeiros tempos nunca me lembrei da TERRA. Lembrava-me
       da família, particularmente de ti, do Carlos e dos meninos,          mas sabia que
       estavam bem, pelo que eu, apesar das saudades, também estava bem. Mas tal
       como aqui tinha muitas saudades de lá, quando estava lá comecei a ter muitas
       saudades daqui. Com o passar do tempo, comecei a sentir saudades da TERRA, da
       CASA, da casa de cima. Lembrava-me das cores das folhas no Outono, das flores
       das amendoeiras e das estevas, das encostas em Junho com os seus vários tons
       de castanho, amarelo, verde, roxo, lembrando trabalhos em patchwork, dos
       cheiros, dos sons, muito em particular dos da escacha, dos sabores (que
       saudades eu tive das alheiras da TIA!). Imagina que até senti saudades do frio no
       Inverno! Sentia também muitas saudades das pessoas, algumas já falecidas.
       Lembrava-me do carinho com que o António Joaquim, a Germana e a Balbina
       sempre me trataram, tal como se eu fosse uma rainha. Lembrava-me da Sr.ª
       Felismina e da Mininha, mas também de tanta outra gente quase anónima que
       sempre que tinha um “mimo” de horta ou qualquer outro, fazia questão de o levar
       “à Sr D. Mariana”. E claro está, lembrava-me muito dos           teus tios que me
       trataram sempre como se eu fosse uma irmã. Reflecti muito sobre a vinda para
       Portugal e perdoei ao teu pai. O trazer-me para Portugal foi uma prova de amor,
       egoísta, é certo, mas nem por isso deixou de ser amor. Queria que eu partilhasse
       com ele tudo aquilo de que ele tanto gostava. Muitas das suas loucuras deviam
       advir do desgosto que sentia por eu não conseguir entrar no seu mundo.
A morte da minha mãe abalou-me muito. Recordava todo o drama que fora a sua
adaptação e sentia um misto de indignação para com o meu pai, de revolta contra ela
por se ter acomodado, de desprezo por mim por          só muito tarde ter compreendido a
situação,   e de saudade. Acima de tudo,        muita saudade.   Fiquei dois anos sem ir à
TERRA. Foi Carlos quem me convenceu a ir pela primeira vez. Ele gosta muito da TERRA
e da nossa casa.      Ele e os meus filhos,     especialmente o mais novo que é       ainda
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pequeno. Fomos no Verão de 1992. Ao entrar na casa de cima só senti desolação,
parecia-me que estava a entrar num túmulo. Mas pouco a pouco comecei a sentir que
voltavam os cheiros, os sabores, as cores, os sons. Um dia, sentada na secretária do
meu pai, vi nitidamente a minha mãe sair da fotografia, sorrindo e perguntando:
       Satisfizeste um dos meus pedidos. E o outro?
Hesitei algum tempo e disse em voz alta:
       Não vou deixar esta casa. Prometo.
Nesse momento entrou no escritório o meu filho mais novo.
       Prometes o quê?
       Que vou voltar muitas vezes.
       Com quem estavas a falar, mãe?
Mas já não esperou pela resposta. Foi a correr contar aos irmãos.
Dias depois, vou com Carlos e os meus filhos visitar a CASA que é agora habitada por um
filho do António Joaquim. Quando entro na cozinha, sinto uma angústia terrível. O Lar
tinha dado lugar a uma moderna cozinha forrada a azulejos. Já não consigo ver mais
nada. Ao sair vejo, junto da lenha, um dos escanos. Pergunto pelos outros.
       Já foram queimados e esse está à espera.
Peço-lhe que mo venda.
       Leve-o que eu só o quero p´ra lenha.
Está agora na cozinha da casa de cima, ou simplesmente da CASA. Sim, porque agora já
não tem sentido falar da outra. A CASA é definitivamente esta. O cordão umbilical já
tinha sido cortado. Agora recebera a herança da casa mãe.




21
Em Fevereiro de 1993 volto à TERRA. Após ter feito a promessa à minha mãe sentia-me
tranquila. Faltava-me ainda ir ao cemitério selá-la com todos. Está sol e sento-me à
sombra de um sobreiro. Começo a revê-los: uns que imagino, outros que conheci e ainda
outros que não conheci e que me aparecem saídos das molduras das fotos que herdei.
Debaixo dos sobreiros, nalguns casos sabe-se lá onde,     estão Diego Rodriguez, Maria
Clemente, o tio Afonso, a tia Teresa, o Pepe, o António, o Artúrio, a Zefa, a Germana, a
Balbina, o António Joaquim, o Sr. Pedro, a Sra. Felismina, a Luísa. No jazigo       estão
Isabel Castelhana, Luís Engrácio, João, Matilde, Marta,   Álvaro, Pedro, Clara, Adélia, o
TIO, a TIA, o tio Justino, o meu pai, a minha mãe. Coloco lá um ramo de amendoeira em
flor. Ouço nitidamente uma criança a correr e uma voz ríspida de mulher ralhando.
       Juan!
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E logo uma outra voz, meiga, arrastada:
       Isabel, não ralhes com o menino.
Talvez um dia seja eu a pedir aos meus filhos o mesmo que a minha mãe me pediu.
Talvez eles satisfaçam os meus pedidos, ou talvez não. Mas sei que mais geração menos
geração, a CASA deixará de o ser. Quantos estarão então debaixo dos sobreiros? Que
relações manterão com os vizinhos? Que farão nos dias soalheiros ?




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O diário de Sara




                                Dei-te a solidão do dia inteiro.
                                Na praia deserta, brincando com a areia
                                No silêncio que apenas quebra a maré cheia
                                A gritar o seu eterno insulto
                                Longamente esperei que o teu vulto
                                Rompesse o nevoeiro


                                Sophia de Mello Breyner, “Espera”




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Amanhã é o grande dia- o lançamento do meu primeiro (e provavelmente último) livro.
O telefone não para de tocar. Estou particularmente angustiado, tenso. Sinto que a
qualquer momento qualquer coisa em mim pode quebrar. Não é propriamente pelo
lançamento do livro embora não negue que isso me causa alguma ansiedade e
apreensão. Mas a minha angústia advém, quase exclusivamente, de não saber se Rute
aprovaria ou não o destino que dei ao seu diário. A culpa foi dela. Várias vezes tentei
ouvir a sua opinião a esse respeito. Mas ela resolveu divertir-se á minha custa. Ora me
aparecia criança, com o seu ar     muito gaiato e como resposta dava uma das suas
gargalhadas cristalinas, desaparecendo em seguida sem deixar rasto, ora me aparecia,
adolescente,    com um ar um pouco petulante para me dizer: Não achas que já és
suficientemente crescido para decidires o que deves fazer sem teres que me consultar? E
dando uma piscadela de olho, desaparecia de novo, rindo do meu ar perplexo. Várias
vezes a interpelei directamente, mas nunca apareceu com o ar sério com que enfrentava
os grandes problemas, para me ajudar a decidir. É provável que ela me dissesse:           É
óbvio que não concordo; a maior parte do que está aí dentro só a mim e a           ti diz
respeito; não tens nada que andar a apregoá - lo aos quatro ventos. Se tivesse sido essa
a sua resposta, obviamente não teria sido este o destino do diário. Em contrapartida, se
a sua resposta tivesse sido: Claro que concordo. Foi para isso que eu te deixei o diário,
para tu dares a conhecer aos outros um amor tão grande que não coube na vida, eu
estaria agora tranquilo, com a sensação de “missão cumprida”. Mas não. Creio que Rute
decidiu vingar-se, possivelmente da minha ausência de tantos anos ou da minha
intromissão na sua vida. Mas também neste ponto a culpa foi sua. Entrei apenas pela sua
mão, pois nunca tive coragem de entrar por minha livre iniciativa. Se foi um acto de
retaliação, Rute exagerou na sua vingança. Primeiro, partiu sem pensar nos danos que
me causava, depois, abandonou-me       num momento em que tanto precisava da sua
ajuda. Será que eu mereço, Rute?




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1
Conheci Sara em Outubro de 1955. Eu tinha dez anos e ela ia fazê-los em Dezembro. Os
pais tinham-se mudado para a cidade por causa da continuação dos seus estudos. Um
casal, amigo comum dos nossos pais, pediu aos meus que tentassem arranjar uma casa
na cidade, para os pais de Sara. Foi assim que ela veio viver no n.º 26 da minha rua.
Alguns dias após a sua chegada, os seus pais foram a minha casa, agradecer aos meus.
Foi precisamente nesse dia que a conheci. Ruiva, com sardas, usava um grande laço no
cabelo. Os meus pais fizeram questão de oferecer um chá. À mesa olhámo-nos de soslaio
com alguma rivalidade. Não trocámos praticamente uma palavra para além do Olá,
quando fomos apresentados. Quando foram embora, a minha mãe perguntou-me:
        Então, gostaste da Sara?
        Uma parva, como todas as raparigas, e ainda para mais sardenta.
Soube, mais tarde, que também não causei melhor impressão. Aos pais terá comentado:
        Armado em parvo, como todos os rapazes.
Cruzávamo-nos todos os dias nos trajectos casa - liceu, liceu - casa. Fingíamos que não
nos conhecíamos. Voltei a ter que a defrontar, logo após o Natal.       Os pais de Sara
convidaram-nos para almoçar. Protestei, não queria ir, mas não consegui fazer ouvir os
meus protestos. Para cúmulo, a minha mãe obrigou-me a ir de laço- um laço azul às
bolinhas brancas. Pensava na figura ridícula que ia fazer perante a minha rival. Mas ao
entrar senti-me vingado. Ela, para além do laço no cabelo, vestia um vestido com uns
coelhinhos bordados. O almoço nunca mais acabava. Enquanto os nossos pais
conversavam nós permanecíamos em silêncio, cortado apenas quando tínhamos que
responder a perguntas dos adultos:
        Então estás a gostar do Liceu? Quais são as disciplinas de que mais gostas?
E outras perguntas do género...
Após a sobremesa e enquanto os adultos aguardavam o café, a mãe de Sara sugeriu que
fôssemos até à saleta, jogar qualquer jogo. Quase em uníssono dissemos que não, que
estávamos bem ali. Mas perante a insistência da mãe de Sara, agora acompanhada pela
minha mãe, acabámos por ir. Sentámo-nos numa mesa camila, com uma braseira por
baixo   e eu fiquei mesmo em frente     a uma    estante com livros. Permanecíamos em
silêncio, quando de repente eu pergunto:
        Gostas de Júlio Verne?
Arrependi-me de imediato da pergunta mas ela surgiu inconscientemente quando vi na
estante o livro “20000 léguas submarinas”. Foi através de Júlio Verne que começou a
nossa amizade. A partir daí era frequente estarmos juntos. Passávamos por vezes longas
horas a montar construções que vinham desenhadas em folhas de cartolina. Eram casas
das várias regiões do país, castelos, torres, palácios. Lembro-me, como se fosse hoje, de
termos levado toda uma tarde a montar o Mosteiro dos Jerónimos. Vendia-se também
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Estórias com sabor a Nordeste                                            Regina Gouveia




um outro tipo de folhas de cartolina, que em vez de construções para montar traziam,
desenhados,    bonecos e várias peças de roupa para recortar. Sara gostava muito de
fazer esses recortes. Geralmente recortava só os bonecos e desenhava, ela mesma, as
respectivas roupas que depois adaptava aos bonecos. E, reflectindo a sociedade em que
vivia, Sara tinha bonecos que eram os meninas e as meninas e outros que eram as
respectivas criadas, assim chamadas na época as empregadas domésticas. Para estas,
fazia toucas brancas e aventais da mesma cor, para colocar sobre os vestidos aos
quadradinhos, geralmente azuis. Eu gostava de ver Sara desenhar, recortar, e montar
estas peças e gostaria até de imaginar peças de roupa para os bonecos, mas recusava-
me a colaborar pois sabia que não era tarefa para rapaz. Também eu tinha brincadeiras
que não eram consideradas próprias para Sara como, por exemplo, o meu carro de
rolamentos, que eu mesmo construíra com uma tábua larga para me sentar e duas
tábuas mais estreitas. A primeira   formava como que o chassis do carro e as outras
formavam os eixos das rodas, o de trás fixo, e o da frente móvel em torno de um eixo
fixado ao chassis. As rodas, feitas com engrenagens de rolamentos retiradas de peças
velhas de automóveis, eram fixadas nos extremos dos eixos. Colocando os pés no eixo
da frente, dirigia o meu carro e descia a rua, que era relativamente íngreme. Para ajudar
usava um cordel, preso aos extremos do eixo da frente, e que eu manobrava com as
mãos. Uma vez Sara andou no meu carro de rolamentos o que foi comentado em toda a
rua- uma menina não devia ter tais brincadeiras. Por isso não a repetiu. Mas jogávamos
badmington na rua, porque na altura quase não passavam carros e tal jogo não era
considerado impróprio para qualquer um de nós. Também jogávamos dominó, damas,
cartas (só me lembro de jogar ao burro,     deitado e em pé)    e o rapa. Sara amuava
sempre que perdia, fosse qual fosse a natureza do prémio (pinhões, amêndoas,        figos
secos, feijões). Noutras alturas falávamos de livros e dos poucos filmes que víamos. Por
vezes estudávamos juntos. Ela ensinava-me matemática e eu dava-lhe sugestões para os
seus desenhos. Do meu quintal via-se o quintal de casa dela e ás vezes comunicávamos
de um quintal para o outro. Nessa altura ainda o ruído não se apoderara da cidade e as
palavras eram inteligíveis, mesmo àquela    distância. Com o tempo fomos descobrindo
que tínhamos muito em comum, nomeadamente a origem dos nossos nomes. Ambos o
tínhamos herdado de avós de origem judaica. Também tínhamos ambos fascínio pelo
mar que tínhamos conhecido na mesma altura - em Agosto de 1955, antes de entrarmos
para o Liceu. Ambos fôramos passar férias com uns tios: eu à Ericeira e ela à Foz do
Arelho. Eu ficara fascinado, tal como ainda hoje fico, com todo aquele fervilhar de seres
que me surgiam quando perscrutava as poças de água nos rochedos. Eram anémonas,
estrelas, ouriços, paguros, caranguejos. Sara tinha ficado encantada com toda aquela
imensidão, com as gaivotas voando, com o som das vagas, com o cheiro a maresia.
Como eu trouxera um búzio, ofereci-lho. Pude testemunhar que tinha apreciado muito a
                                         66
Estórias com sabor a Nordeste                                           Regina Gouveia




oferta pois, do meu quintal, via-a com frequência    com o búzio encostado ao ouvido,
sentada debaixo da figueira que existia no seu quintal e que diziam ser secular.
Possivelmente estaria a olhar para longe, muito longe, como fazia tantas vezes. Os olhos
de Sara tinham uma cor indefinida que eu confundia sempre com os locais para onde ela
olhava, nessas alturas em que parecia olhar para muito longe, mesmo quando olhava
para o que estava perto. Foi assim que um dia os seus olhos me pareceram
extremamente verdes, quando olhava fixamente a figueira enquanto dizia:
       Já viste esta figueira? Quantas pessoas se terão sentado à sua sombra? Como
       terão sido as suas vidas ?
Sara era uma sonhadora, mas a par disso era alegre e irrequieta.     Com ela aprendi a
fazer sapatos de folha de figueira. Assentávamos o pé em cima da folha, de modo a que
os   recortes ficassem livres para posteriormente serem dobrados sobre o peito do pé.
Com uns pequenos pauzinhos uníamos os 3 recortes. Estavam feitos os sapatos         que
para mim eram mais chinelos que sapatos. Foi também com ela que aprendi a fazer
gaitas com a palha verde da cevada e que soube o que eram pepinos de S. Gregório que
ambos adorávamos fazer explodir. Mais tarde, quando soubemos que o nosso acto
contribuía para a disseminação das sementes, Sara sentia-se feliz por de algum modo
contribuir para a pujança da natureza, ao mesmo tempo que comovida porque a mesma
natureza encontrava formas geniais de perpetuar a vida. A nossa amizade era feita de
todas estas pequenas coisas que hoje, à distância de quase quarenta anos, recordo, por
vezes, nos mais ínfimos pormenores. No dia 10 de Junho de 1956, estávamos os dois no
quintal de sua casa quando ela me perguntou:
       Não tens pena de não ter irmãos? Eu tenho muita.
Quando era mais pequeno também sonhava ter um irmão, mas na altura já me tinha
passado a ideia. Quando vi o ar triste com que ela me falou na mágoa de ser filha única,
propus-lhe :
       E se combinássemos ser irmãos? Era um segredo que ficava só entre nós.
Ela mostrou-se muito contente com a ideia e disse:
       Vamos assinar um papel com esse compromisso.
Eu então sugeri que o assinássemos com sangue. Ela foi buscar duas folhas de um
pequeno bloco, uma caneta, uma agulha de costura e uma canetinha de aparo, usada na
disciplina de desenho. Em cada uma das folhas ficou escrito:
       Hoje, no dia 10 de Junho de 1956, nós, Sara Ramos e David Oliveira, juramos
       que toda a vida, iremos ser como irmãos.
Achei que deveria ser o primeiro a evidenciar coragem. Por isso, de seguida, eu que sou
esquerdino, piquei o indicador direito com a agulha. Quando a primeira gota de sangue
aflorou molhei nela o aparo da canetinha e, em cada uma das folhas, escrevi o meu
nome com sangue. Sara fez o mesmo, mas picando o seu indicador esquerdo. Ficou
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assim selada a nossa amizade que iria perdurar para sempre, embora, com muitos
percalços de permeio.
Creio que foi nesse ano que lhe dei um diário, no dia dos seus anos. Não sei como tive
aquela ideia, mas creio que foi de ter lido ou ouvido falar no diário de Anne Frank.
Quando abriu a prenda, sorriu e agradeceu, mas não me pareceu muito entusiasmada.
Fiquei um pouco triste e sem saber que destino lhe ia dar. Não imaginava na altura que
esse diário iria, muito mais tarde, colocar-me perante um terrível dilema. Durante os
sete anos de Liceu Sara foi a minha confidente.                Foi-se tornando uma rapariga
interessante, apesar, segundo ela,       do cabelo ruivo e das sardas que a desgostavam
muito. De vez em quando falava-me das suas paixonetas de adolescente, tal como eu lhe
falava das minhas. Até ao 5º ano7, dentro do Liceu quase não nos encontrávamos. O
Liceu era misto mas as turmas eram genericamente masculinas ou femininas e havia
também entradas e recreios separados. No 5º ano, criaram uma turma mista; eu e Sara
fomos parar à mesma turma. Os colegas metiam-se connosco pensando que éramos
namorados, mas nós mantínhamos o nosso compromisso. No 6º ano Sara foi para a
alínea f e eu para a alínea g8. A disciplina de matemática era comum às duas alíneas, e
tínhamos essas aulas em conjunto. Não sei que razão me levou a pensar em semelhante
alínea. Nunca gostara de matemática e fui escolher economia. Se não fosse a ajuda e a
paciência de Sara que me explicava a álgebra, a geometria, a trigonometria, a aritmética
racional, eu nunca teria concluído o 7º ano. Durante o 6º e o 7º ano, ambos participámos
activamente em actividades da Escola, nomeadamente nas festividades do primeiro de
Dezembro. Entrávamos nas peças de teatro, participávamos no grupo de danças
regionais onde Sara era sempre o meu par,            fazíamos parte da Comissão de Festas.
Concluído o ensino secundário os pais da Sara regressaram à aldeia e ela foi estudar para
o Porto. Eu fui para Lisboa, onde o meu pai tinha um irmão. Víamo-nos pouco.
Geralmente    apenas nos dias em que eu passava no Porto, a caminho de Lisboa ou a
caminho de casa. No entanto, escrevíamo-nos com frequência. No fim do meu primeiro
ano de faculdade, em que reprovei a todas as disciplinas, Sara tentou convencer-me a
tirar o curso de que realmente gostava- pintura- mas os meus pais nem queriam ouvir
falar no assunto. Estive mais um ano em economia, sem qualquer sucesso. No fim desse
segundo ano, com o incentivo de Sara e sem             os meus pais saberem, fiz exame de
                    9
admissão à ESBAL . Foi assim que entrei no curso de pintura. Nessa altura comecei a
deslocar-me ao Porto mais frequentemente, pois um colega mais adiantado, cujos pais aí
viviam, tinha-me recomendado uma casa, perto da Biblioteca Municipal, onde se podiam


7 Equivalente ao actual 9º ano
8 Até 1975 a partir do 5º ano do Liceu os alunos que desejassem prosseguir estudos com vista a
ingressar na Universidade matriculavam-se no 6 ºano onde existiam várias alíneas entre elas a f que
dava acesso aos cursos de Ciências e a g que dava acesso ao curso de Economia
9 Escola Superior de Belas Artes de Lisboa

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Estórias com sabor a Nordeste                                                     Regina Gouveia




adquirir artigos de boa qualidade para pintura- telas, óleos, acrílicos, aguarelas, pincéis.
Sempre que ia ao Porto encontrava-me com Sara. Muitas vezes, particularmente quando
estava bom tempo, aproveitava e ficava no fim de semana. Geralmente íamos até à
Boa Nova, junto ao mar. Ali, sentados na areia, eu desenhava,                    conversávamos,
ouvíamos música, um pouco roufenha, no meu rádio de pilhas, líamos, ou simplesmente
olhávamos e ouvíamos o mar. Como ela adorava chegar muito cedo à praia, quando a
areia, ainda virgem, estava apenas marcada pelas patitas das gaivotas! A praia da Boa
Nova era um lugar de eleição para Sara. Não só a praia mas a capela e o rochedo onde
esta se situa. Dizia que se um dia viesse a casar, seria ali, na capela da Boa Nova.
Na   sequência da mudança de curso, dois anos depois fui chamado a cumprir o serviço
militar e, passado cerca de ano e meio, fui mobilizado para a Guiné. Estávamos em
1968. Várias vezes tinha conversado com Sara sobre a estupidez e a inutilidade daquela
guerra,   pelo   que    parti   com   uma   terrível   revolta.    De   início   escrevi,    troquei
correspondência com Sara, cartas, aerogramas, postais. Nessas cartas falava-lhe do
fascínio de África, das suas cores e dos seus cheiros. Falava-lhe também das pessoas,
da forma como se vestiam, da sua música, dos seus costumes, e dos animais, dos
mamíferos aos insectos, passando pelas aves multicolores. Mas, por vezes também lhe
falava dos horrores de uma guerra estúpida sem qualquer significado. No dia em que
tive que matar, fiquei de tal modo perturbado, que lhe escrevi uma carta em que deixava
transparecer toda essa perturbação. A partir daí, e durante muitos anos, não lhe voltaria
a escrever. Consegui evadir-me da Guiné para o Senegal e daí para França donde só
regressaria em 1976. Por que razão deixei eu de me corresponder com Sara? Bem, essa
é uma longa história.
No dia em que tive que matar fiquei de tal modo perturbado, que as ideias atropelavam-
se na minha mente e eu não conseguia coordená-las nem um pouco. Misturava imagens
de infância, com outras da adolescência, com outras já da idade adulta, umas reais,
outras imaginárias, tudo num turbilhão que tocava os limites da loucura. Nesse turbilhão
de ideias e imagens, apenas uma era nítida: a imagem de Sara. Sara surgia-me ora em
criança, com o seu laçarote na cabeça, ora adolescente com as formas do corpo a
despontar, ora mulher feita com um pouco de sensualidade e ingenuidade à mistura.
Esta imagem ora me apaziguava um pouco, ora me atormentava porque me imaginava
apertando-a nos meus braços num gesto que nada                    tinha a ver com a         amizade
desinteressada    que até aí nos unira.     Estaria eu apaixonado por Sara?         Seria apenas
uma terrível confusão de sentimentos decorrentes do meu estado perturbado? Quando
em França comecei a pintar, todas as figuras femininas eram, inconscientemente,
inspiradas por Sara. Por vezes, rasgava os trabalhos como que numa tentativa de tirar
Sara da minha cabeça. Outras vezes guardava-os só para mim, não permitindo que
outros olhos os profanassem. Com esta confusão de ideias na cabeça, não conseguia
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Estórias com sabor a Nordeste                                           Regina Gouveia




escrever-lhe. Que dizer-lhe? Falar-lhe da dúvida que me atormentava? Como iria ela
reagir? Esperava no entanto que ela mandasse notícias. Muito provavelmente, quando as
notícias tardassem ela escreveria aos meus pais e ficaria a saber a minha direcção em
França. Por que razão não escrevia ela? Numa tentativa de passar uma esponja em tudo
isto comecei por entrar no álcool. Depois foi a vez das drogas. Depois foram as
desintoxicações. Isto tudo misturado com uma constante variação de companheira. Não
sei quantas mulheres passaram então pela minha vida. Em 1974, um pouco antes da
Revolução dos Cravos, conheci Ana, uma exilada que também se encontrava em França.
Ana trouxe alguma paz à minha vida. Com Ana deixei de beber e abandonei a droga.
Mas pela minha parte, a minha relação com Ana não era honesta. Eu continuava a
pensar em Sara e Ana não merecia isso. Esta ideia atormentava-me, embora tentasse a
todo o custo esquecer. Em 1976 eu e Ana regressámos a Portugal. Fomos viver para
Porto Covo, no Alentejo, onde ainda hoje vivo. Não sei se escolhi viver ao pé do mar, só
porque este me seduz, ou se inconscientemente o fiz para assim me sentir, em espírito,
mais próximo de Sara. Recordava as vezes que junto ao mar, lá na Boa Nova, em Leça,
conversávamos, trocávamos impressões sobre filmes e músicas, líamos e reflectíamos
sobre o que estávamos a ler (lembro-me de conversarmos sobre livros como            “ O
Estrangeiro”, “Mar Morto”, “O Velho e o mar”, “O Inverno do nosso descontentamento”,
“A 25ª hora”). Talvez por isso ainda hoje eu passe horas, lendo, junto ao mar. Embora
vivendo no Sul,    deslocava-me     por vezes ao Porto para, mantendo um velho hábito,
comprar material de pintura. Ana perguntava-me:
       Mas porque hás-de ir tu ao Porto, tão longe, comprar material?
Eu respondia-lhe que tinha sido um hábito que me tinha ficado mas, no fundo, eu achava
que estava a mentir a Ana, o que me perturbava. Eu sabia que Sara vivia no Porto e
penso que me deslocava lá, na esperança       subconsciente de a encontrar. Um dia, em
1985, passava eu na R. de S.ta Catarina, quando ouço:
       Desculpa, não és o David ?
Era Sara mas, estranhamente, de imediato não a reconheci apesar dos seus cabelos
ruivos e das sardas. Ainda hoje não percebo se efectivamente a não reconheci ou se não
tive coragem de a reconhecer tal como nunca tivera coragem de lhe escrever, após a
minha fuga da Guiné. É verdade que todas as colegas do tempo de estudante, que tinha
encontrado,    não lembravam em nada a imagem que delas tinha: tinham engordado
bastante, vestiam tailleur, usavam sapatos altos, peles e apresentavam um ar muito
burguês, enquanto que a pessoa que me interpelara era magra, usava os cabelos soltos,
uma saia longa rodada, uns botins e um casacão de malha, por sinal muito bonito. Mas,
embora mais velha, os traços característicos, bem como o seu ar gaiato, mantinham-se.
       Com que então já não reconheces a tua irmã de jura ?


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Estórias com sabor a Nordeste                                             Regina Gouveia




Não queria acreditar que na minha frente estava Sara. Fomos até ao Majestic e aí ambos
fomos dando conta de algumas coisas que se tinham passado durante aquele longo
interregno. Falei-lhe da minha fuga para França, da minha estada naquele país, de Ana,
do regresso a Portugal, de Porto Covo, de como tinha concluído o curso depois de
regressar, da minha vida de professor e da minha pintura. Também lhe falei dos
percursos obscuros da minha vida, do álcool, da droga, mas justifiquei-os com o meu
stress de guerra. Não menti, apenas omiti que essa não fora a única causa. Sara, por
sua vez, falou-me da sua vida profissional como engenheira química, dos pais que agora
viviam no Porto, da sua aldeia em Trás - os – Montes, que eu tempos visitara e onde
Sara ia religiosamente várias vezes por ano, de viagens que tinha feito, de Júlia, uma
colega nossa de Liceu com quem Sara mantinha uma grande amizade e de cujo filho,
David (David II como ela lhe chamava para o distinguir de mim, que passei a ser David
I) era madrinha. Parecia que ambos tentávamos reatar a nossa amizade, no ponto onde
havia sido deixada. Mas agora eu não tinha dúvidas. Tentei dissimular a minha
perturbação mas o      sentimento que eu nutria por Sara era muito mais que a pura
amizade de outros tempos. Não ousava demonstrar-lho, com receio da sua reacção. Ela
parecia não o pressentir. O mesmo não aconteceria com Ana.
Desde sempre Ana pressentiu algo. Com a nossa vinda para Portugal as suas suspeitas
cresceram. Um dia em que estávamos junto ao mar e eu lia um livro ela disse-me:
       Já por várias vezes notei que quando estás aí sentado a ler, ficas com um ar feliz,
       mas simultaneamente muito distante.
Respondi-lhe que recordava o tempo em que era mais jovem. Assim não mentia a Ana,
apenas omitia que nessas minhas recordações, Sara estava sempre presente.
De outra vez disse-me:
       Estás com ar de quem está a ouvir música.
Respondi-lhe que efectivamente ouvia Brahms em pensamento
       Porquê Brahms? Perguntou Ana
       Porque gosto muito.
Também desta vez não menti, apenas omiti que fora Sara quem me ensinara a gostar
de música clássica em geral e de Brahms em particular.
De uma vez em que eu acariciava o tronco de um sobreiro Ana perguntou-me porque o
fazia. Disse-lhe que achava muito bonitos os troncos dos sobreiros, o que era verdade,
mas não lhe disse que também Sara os achava soberbos e que era a lembrança de Sara
que eu procurava naquela carícia.
Quando reencontrei Sara, Ana pressentiu-o. A outra, que até aí era imaginária, surgia
agora bem real. O nosso casamento também já estava por um fio há muito tempo. Cerca
de dois anos depois do meu reencontro com Sara, eu e Ana separámo-nos. Felizmente
não tivemos filhos pelo que foi tudo mais fácil. Sara continuava solteira e não ousei saber
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mais da sua vida afectiva. Escrevíamo-nos com alguma frequência, mas as cartas eram
um pouco ocas. Eu, por receio de me expor, ela, pensava eu, porque não podia
responder com profundidade a algo tão superficial. E assim foi passando o tempo. Por
vezes encontrávamo-nos no Porto, quando eu aí me deslocava, ou em Lisboa, quando
era ela que tinha que se deslocar lá. Eram encontros breves e tão ocos como as cartas
que trocávamos. Uma vez, foi com os pais passear pelo Alentejo e visitou-me. Foi
também um encontro breve. Em 1988 o pai de Sara adoeceu                  gravemente. Foram
tempos muito difíceis para Sara. Eu fui o ombro amigo onde Sara podia chorar. Passámos
a visitar-nos e a escrever-nos com frequência mas a nossa relação, agora cada vez mais
profunda, girava à volta do problema de Sara. Foi ainda assim, quando o pai morreu em
1990.      A partir daí, a nossa relação tornou-se mais rica; tal como noutros tempos,
falávamos muito de filmes, de discos e de livros que ambos tivéssemos visto, ouvido ou
lido. Falávamos também dos acontecimentos que de momento mais afectavam o país,
ou qualquer outra região do mundo. Talvez devido á sua formação Sara preocupava-se
particularmente com os problemas do ambiente- a destruição dos recursos naturais, as
chuvas ácidas, a destruição da camada de ozono, o efeito de estufa, a poluição sonora,
os resíduos nucleares. Procurava estar o mais informada possível, participava em
iniciativas com vista à defesa do ambiente e tentava actuar em consonância. Para
percorrer os 2 km que separavam a sua casa do local de trabalho deslocava-se a pé, de
bicicleta, de autocarro, raramente de carro. Seleccionava genericamente o que
comprava, fossem detergentes, lacas, electrodomésticos, tendo como principal critério os
aspectos ambientais. Preocupava-se também muito com as guerras, com a fome, com a
droga, com o subdesenvolvimento mas tinha fé nos jovens e acreditava que o mundo de
amanhã iria ser melhor. Talvez por isso, participava em inúmeras acções de
sensibilização, particularmente junto dos jovens. Sara acreditava que as iniciativas de
ordem governamental e não governamental de pouco serviriam se não se investisse
seriamente numa educação para            a cidadania.   De tudo Sara me falava com paixão e
entusiasmo. Era ainda com o mesmo entusiasmo que Sara me falava das viagens que
fizera, em particular ao Egipto, a Marrocos e ao Brasil. No Egipto, mais que os marcos
das eras faraónicas, foi a cidade de Assuão que a fascinou. Falava-me da cidade, junto
ao Nilo, com inúmeras feloukas10 cortando as suas águas serenas, que confinavam logo
ali com deserto, com palmares, com colinas; falava-me do seu mercado onde burros
caminhavam         no meio de uma mole de         pessoas - egípcios de pele escura que se
confundiam com sudaneses de pele negra, com mulheres vestidas de negro de rosto
tapado a par de outras, de vestes e lenços coloridos, com os pés e as mãos
minuciosamente pintados, com homens              transportando cordeiros mortos nas costas,


10
     embarcações tradicionais egípcias
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cobertas com vestes manchadas de sangue, com crianças lindíssimas de olhos negros
como azeviche. Falava-me ainda dos cheiros e dos sons- as frases ininteligíveis por
europeus que se misturavam com os sons das cabras, das galinhas, da música árabe
cujas cassetes se vendiam por todo o lado. Em Marrocos foram Marrakech e a região do
Tafraoute com as suas montanhas rosadas, que mais a fascinaram -          a primeira pelos
seus palácios, mas fundamentalmente        pela sua praça Jemaa el Fna, no coração da
medina. Ao fim da tarde, aí se misturam vendedores (de especiarias, de frutos, de ervas
raras, de amuletos), arrancadores de dentes, escribas, encantadores de serpentes,
acrobatas, dançarinos, músicos. É um espectáculo inesquecível. A região do Trafaoute
encantara     Sara, fundamentalmente pela paisagem. É uma região pré-saariana, onde
emergem povoações diversas- umas com casas de tom róseo, dispersas entre palmeiras
e oliveiras, outras no tom da terra, confundindo-se com as próprias encostas onde estão
encravadas.
No Brasil, o maior fascínio encontrou-o Sara em Parati. No litoral, entre Santos e o Rio de
Janeiro é uma cidade colonial, preservada, com as suas casas com motivos pintados,
geralmente em azul e amarelo, e as ruas empedradas. Mas também aqui, o maior
fascínio não o encontrou na cidade mas no mar que a rodeia. Alugou um barco, onde um
velho marinheiro, Eli, a levou mar fora e onde ela se sentiu transportada ao paraíso. Aí,
Sara que sempre teve medo do mar, saiu do barco e nadou, lá longe da costa; via os
peixes nadar á sua volta, naquele mar tão sereno e tão belo como         nunca imaginara
poder ver. Pararam numa praia deserta, rodeada de palmeiras, com um mar azul e verde
indescritível. Ao regressarem a Parati, a cidade apareceu recortada num céu negro,
anunciando tempestade, mas a beleza dessa visão, era no dizer de Sara, uma visão
fantástica.
Sobre tudo isto nós conversávamos, mas eu mantinha o meu escudo. Durante a doença
do pai e após a sua morte, quando Sara chorava no meu ombro, muitas vezes tive a
tentação de lhe declarar o meu amor. Mas receava que ela interpretasse o meu gesto
como uma atitude de comiseração, ou pior ainda, como um oportunismo face á
fragilidade do momento. Por isso fui adiando “sine die”. Em 1992             Sara adoeceu
gravemente. Um dia, em que foi a Lisboa em serviço, telefonou-me e eu fui ter com ela.
Almoçámos juntos. No fim do almoço, tirou da sua bolsa um embrulho e disse-me:
       Aí dentro está um diário que tu me ofereceste há muito tempo. Estou bastante
       doente mas ainda espero lutar o suficiente para vencer esta guerra. No entanto,
       pelo sim, pelo não, quero dar-te o diário. Faz dele o que quiseres.
A revelação da doença de Sara foi um golpe muito duro. Travei uma luta terrível entre o
desejo imenso da sua cura       e a falta de fé na mesma. E no entanto sabia como era
importante eu acreditar,    para dar a Sara a força de que ela tanto necessitava. Mas Sara
foi sempre uma mulher surpreendente. Em vez de ser eu a encorajá-la era ela que me
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encorajava. Lutou, com toda a coragem do mundo, sofreu estoicamente. Conseguiu
vencer algumas batalhas, mas acabou por não vencer a guerra. Tal como havia pedido,
foi cremada e as suas cinzas lançadas ao mar, no local que para ela era quase sagrado,
junto à capela da Boa Nova em Leça, onde fôramos tantas vezes juntos. Acompanhei a
mãe de Sara. Ajudei-a a descer até junto da rocha onde está gravado um poema de
António Nobre. Daí lançámos as suas cinzas. A mãe manteve a extrema dignidade que
lhe era habitual. Mas não resistiu à morte de Sara; morreu 6 meses depois. Antes de
morrer chamou-me e deu-me os livros e discos que tinham sido de Sara, bem como um
álbum,     apenas com fotos suas desde criança. Percebi, então, que a mãe de Sara
compreendera tudo o que eu sentia pela filha.
Após a morte de Sara e durante quase dois anos, não consegui abrir o diário. Mas se
ela mo deu, devia querer que o lesse. Resolvi-me então a abri-lo. Colada na contracapa,
tem uma folhinha de papel- a nossa jura de fraternidade. Nas duas últimas páginas tem
colados dois envelopes com cartas dentro: umas que eu lhe escrevi da Guiné e outras
que ela nunca terminou nem me enviou. O resto é o diário.




2


10/12/56
         Hoje fiz anos e o David deu-me como presente este diário. Que ideia a do David!
Para que quero eu um diário? Nunca tive muita paciência para escrever. O mais certo é
ser esta a única página a ser escrita. Gostei bem mais do búzio que me deu no Verão.
Esse sim. Gosto de encostá-lo ao ouvido e ficar a ouvir o mar. Porque será que o mar se
ouve num búzio? Será que só o ouvem pessoas que gostam muito do mar? Devia haver
um búzio para todos os sons de que gostamos. Assim, devia haver um búzio que,
encostado ao ouvido reproduzisse os sons da casa da madrinha, outro que reproduzisse
o chiar dos carros de machos bem de manhãzinha, outro que reproduzisse o som do
vento quando bate mansinho nas folhas das árvores. Se houvesse esses búzios, sempre
que nos apetecesse ouvir um som de que gostamos, bastava escolher o búzio certo e
encostá-lo ao ouvido.




4/1/57


                                            74
Estórias com sabor a Nordeste                                            Regina Gouveia




         Chegámos ontem da aldeia. A Maria Cândida está muito doente. Foi criada dos
meus avós e foi sempre muito dedicada à nossa família. Quando estamos na aldeia, se
coze pão, faz sempre uma bolinha de azeite e ovos para mim. Também me faz meias
rendadas e súplicas, de que eu gosto muito. Já com a irmã, a Augusta, era a mesma
coisa, embora eu já me lembre pouco. Foram elas que me ensinaram a fazer sapatinhos
de folha de figueira, lá no quintal da casa da avó, onde hoje vive a madrinha. Quando me
fui despedir da Maria Cândida agarrou-me muito a mão e disse:
         Deixe-me olhá-la bem pois sei que a não volto a ver. Nunca se esqueça de mim.
Fiquei muito triste. Quando a Augusta morreu eu tinha sete anos; não me lembro de ter
ficado assim triste, apesar de gostar muito dela. Crescer dói. Não estou a falar daquelas
dores nas pernas que o médico diz serem dores de crescimento. Estou a falar de uma dor
por dentro. Amanhã tenho que desabafar com o David.


2/2/57
         Morreu a Maria Cândida. Fiquei muito triste. O David deu-me uma receita para
quando temos um grande desgosto. Devemos pensar em alguém que tenha uma vida
muito pior que a nossa. Lembrou-me aquela menina que mora na nossa rua que anda
numa cadeira de rodas, toda deformada, que fala, mas é difícil de entender. Quando dei
por mim estava a pensar na menina da cadeira de rodas Será que ela já viu e ouviu o
mar? Será que gostaria de encostar o meu búzio ao ouvido? Alguém teria que a ajudar
pois ela tem muita dificuldade em movimentar os braços. De momento esqueci a morte
da Maria Cândida. O David diz que se pensarmos em situações muito piores que a nossa
vemos que, apesar de tudo, não temos o direito de achar que somos infelizes. Não sei
onde o David foi buscar estas ideias, mas não deixa de ter razão.


15/5/57
         Hoje estou com raiva de mim mesma. A professora de português ralhou muito
com a Júlia porque não estuda, não faz os deveres, tem o caderno sujo. Para cúmulo
disse-lhe :
         Olha para a Sara que é dois anos mais nova que tu e é a melhor aluna.
Todos sabemos que a Júlia antes de ir para o Liceu ajuda a mãe a distribuir o leite e
depois das aulas ajuda mãe a lavar e a passar a roupa das freguesas, a fazer o jantar, a
cuidar dos irmãos. Eu queria ver se eu também seria boa aluna se tivesse que fazer tudo
o que a faz a Júlia. Mas porque razão não disse eu isto à professora? Fiquei corada e
indignada, é certo, mas mantive-me calada. No fim da aula fui ter com a Júlia e a única
coisa que me saiu foi:
         Se quiseres posso ajudar-te todos os dias a fazer os deveres.
Ela, um pouco seca, respondeu-me:
                                             75
Estórias com sabor a Nordeste                                              Regina Gouveia




         E eu tenho lá tempo para pensar em deveres?
         Quando contei isto ao David ele disse-me que quando não concordamos com as
coisas devemos dizê-lo. Se o não fazemos somos cobardes. Fiquei furiosa, porque acho
que o David não tem o direito de me chamar cobarde. Mas no fundo eu acho que ele tem
razão.


1/6/57
         Hoje fizemos um desenho livre. Eu desenhei uma paisagem. Havia umas casas
com fumo a sair das chaminés, umas árvores de rama verde numa encosta com searas
amarelas, um céu azul com nuvens brancas onde se recortavam montes roxos, que é
assim que eu vejo a ladeira da minha casa na aldeia, em Junho, Os montes são roxos
no cimo e ao longo das encostas há manchas de vários tons: castanho da terra, verde
das árvores e amarelo das searas. Pois o professor, que é também o professor de
matemática, resolveu mostrar o desenho a toda a turma e gozar com ele.
         Já alguém viu montes roxos?
Eu insisti que os montes que eu vejo da minha janela são roxos e ele comentou:
         Estás a precisar de óculos.
         Fiquei furiosa. Não mudei a cor dos montes e tive sofrível, no desenho. Não sei se
conte esta história ao David.




10/12/57
         Hoje fazes um ano, diário, sabias? Apesar de conversar pouco contigo, há um ano
não pensava vir a escrever tanto. Mas descobri que por vezes me faz bem descarregar a
minha raiva, nem sei se é contra ti se é contra      mim mesma. Eu também faço anos,
como sabes. Uma dúzia. Hoje o dia amanheceu lindo. Tudo coberto de neve. Convidei
para passar a tarde comigo quatro colegas de turma e o David. Fomos jogar á pelotada
no quintal. Gosto de jogar á pelotada, mas faz-me pena destruir aquele tapete branco
tão fofo. À hora do lanche abri os presentes. Os meus pais deram-me uma caneta de
tinta permanente. É uma Pelikan bonita, verde e preta. Deram-me ainda o livro “ Os
meus amores “ de Trindade Coelho. O David deu-me também um livro- “O raio verde”,
de Júlio Verne. As minhas colegas, em conjunto, ofereceram-me uma caixinha em
madeira com umas decorações em prata, na tampa. A minha madrinha mandou-me uma
camisola de malha, feita por ela, trabalhada em várias cores. Depois do lanche as minhas
colegas foram embora pois já estava a começar a ficar escuro. O que mais me entristece
no Inverno é anoitecer tão cedo. O David ficou mais um pouco pois mora aqui ao lado.
Ainda jogámos uma partida de damas. Eu ganhei, mas tenho a certeza que o David me
deixou ganhar por ser o meu dia de anos. Ele joga muito melhor que eu.
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Estórias com sabor a Nordeste                                              Regina Gouveia




5/2/58
         Hoje andei à bulha na escola. Há tempos a Delfina, uma menina da turma, um
pouco parva, chamou zorra à Júlia. A Júlia chorou pelo que percebi que deveria ter sido
um nome feio. Ao chegar a casa perguntei o significado à minha mãe e contei-lhe             a
história. A minha mãe explicou-me que zorra quer dizer bastarda e tudo isto quer dizer
que a Júlia não tem pai, ou melhor, tem, mas não assume as suas responsabilidades. A
minha mãe disse-me que o que a Delfina fez foi muito feio pois a Júlia não tem qualquer
culpa da irresponsabilidade dos pais. Então eu jurei para mim mesma que, se alguma vez
alguém tornasse a chamar zorra à Júlia, eu agiria. E foi isso o que aconteceu hoje. No
recreio a Delfina voltou a insultar a Júlia e eu dei-lhe um murro. Pegámo-nos à pancada
e por isso fomos ambas chamadas à Directora da Secção Feminina. Depois de contar o
sucedido mandou-me sair e aguardar fora da sala, enquanto conversava com a Delfina.
Passado algum tempo saiu a Delfina e voltei a entrar. A Directora disse-me que eu tinha
razão em ficar chocada com a atitude da Delfina, mas não era assim que se agia. Se
voltasse a andar à pancada com alguma menina o caso seria mais sério.
Não sei se conte este episódio ao David. Talvez já não me ache cobarde.


20/5/58
         Hoje, a propósito de uma conversa com a professora de matemática, lembrei-me
muito de um livro que me deram no Natal e de que gostei muito- O Principezinho. Logo
na primeira página tem um desenho, que             os adultos interpretam como sendo um
chapéu, mas é uma jibóia que engoliu um elefante. O autor não tinha grande opinião
sobre os adultos em geral; diz que quando queria testar um adulto          mostrava-lhe o
desenho. Se a pessoa via nele um chapéu, o que geralmente acontecia, então não valia
a pena falar-lhe de estrelas, de florestas nem de jibóias. Falava-se de política, de
gravatas e de coisas do género.
A professora de matemática disse-me que no fim da aula queria falar comigo. Esperei e
qual não foi o meu espanto quando ela me vem com este discurso:
         Já me apercebi que namoras com um colega do 3º D. Não te parece que és ainda
         muito novinha para namorar? És uma belíssima aluna e isso pode prejudicar-te.
O colega do 3º D é o David. Ainda pensei em falar-lhe da nossa jura, mas lembrei-me
por um lado de que era segredo       e por outro lembrei-me do livro.     Pensei que seria
totalmente inútil tentar explicar a minha relação com David. Ela deve ter continuado
convencida de que namoramos.       Eu, pela    minha parte,   reforço a opinião que Saint-
Exupéry tem dos adultos em geral.


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Estórias com sabor a Nordeste                                             Regina Gouveia




11/12/ 58
         Ontem fizemos anos. Eu 13 e tu dois. Se fosses pessoa, com essa idade, eras
quase bébé, mas como és diário, converso contigo como com um amigo que tivesse
precisamente a minha idade, como por exemplo o David. É bom ter amigos.          Mas ser
amigo de alguém não é fácil.    Eu tenho várias colegas no Liceu e tive também vários
colegas na escola. Alguns destes colegas, embora goste deles, não os considero
propriamente amigos. Para mim ser amigo implica, acima de tudo, ser sincero. Por isso é
que eu considero que o David é o meu maior amigo. É tão sincero, que às vezes não
gosto de algumas coisas que me diz mas,      geralmente, acabo por reconhecer que tem
razão.
Mas estava a contar-te o meu dia de anos. Os amigos do costume           vieram passar a
tarde comigo. Jogámos ao ringue na rua e depois lanchámos. Recebi várias prendas,
entre elas vários livros, uma pasta nova e uma caixa de bombons. A madrinha mandou-
me mais uma camisola muito bonita.


31/3/59
         Estou de férias. O campo está muito bonito. As encostas, com os arbustos
coloridos, as searas verdes e os lameiros cheios de flores roxas, azuis, brancas,
amarelas. Gosto muito do tom arroxeado das urzes e das arçãs, misturado com o branco
das estevas e o amarelo das giestas. As flores das estevas são lindas, particularmente
aquelas cujo centro é escuro. É pena que as folhas sejam tão pegajosas. Há também
muitas árvores em flor. Como são bonitas as flores das macieiras, dos pessegueiros, dos
marmeleiros! Cheira a Primavera e ouve-se o cuco cantar. As raparigas perguntam ao
cuco: Cuco da Ribeira, quantos anos me dás de solteira? E contam os cu-cu do cuco. A
mim deu-me um ano. Devia ser engraçado eu casar com           14 anos... No domingo de
Ramos, foi bonita a missa com a benção dos ramos de oliveira e alecrim, que toda a
gente levava. Depois da missa, fui dar o ramo à minha madrinha que me deu o folar. Dá-
me sempre algo que tenha pertencido á minha avó- um lenço das mãos bordado, uma
medalhinha, uma chávena. Este ano deu-me uma toalha de rosto, em linho, bordada. É
pena as férias estarem quase a acabar. Mas também já estou com saudades do Liceu, da
cidade, do David, da Júlia. Hoje lembrei-me muito dela. O meu pai foi à feira na Vila. Foi
a cavalo. Eu fui esperá-lo ao caminho, ao fim da tarde. Quando nos encontrámos,
sentou-me à sua frente, no cavalo e envolveu-me no seu capote. Senti que nada de mau
me poderia acontecer naquele momento. Lembrei-me da Júlia. Como deve ser triste
saber que o pai não faz caso dela. E novamente dei comigo a pensar que não deixa de
ser estranho o que nos ensinam desde a catequese. Deus vê tudo o que se passa aqui na
Terra, Deus é justo e bom. Então por que razão      permite situações como a     da Júlia?
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Estórias com sabor a Nordeste                                            Regina Gouveia




Lembrei-me daquela poesia de Augusto Gil: Mas as crianças Senhor, porque lhes dais
tanta dor, porque padecem assim? É certo que a Júlia já não é uma criança mas sofre,
por certo desde criança, com esta atitude do pai.


4/5/59
         Ontem foi a feira das cantarinhas. É bonita. As ruas principais cheias de tendas
com cantarinhas de barro castanho, umas simples outras com flores pintadas. Há-as de
todos os tamanhos mas das que eu mais gosto são aquelas pequeninas, que cabem
dentro da mão. Passeei pelas ruas apinhadas de gente e parei em quase todas as tendas.
Também comi cerejas; é nesta data que aparecem pela primeira vez, enfiadas num
galhinho. Ainda estão pouco doces, mas são tão bonitas. O David ofereceu- me um
galhinho de cerejas que comemos juntos. Também me ofereceu uma cantarinha
pequenina, das que cabem dentro da mão, e lá no fundo, não sei como conseguiu,
escreveu: Do teu irmão David.


14/10/59
         Este ano mudaram-me de turma, sem eu saber porquê. Sempre fui da turma A e
este ano mudaram-me para a B que é uma turma mista. As raparigas são mais velhas;
já quase todas repetiram um ano por isso mal as conheço. Dos rapazes só conheço o
David. Nos intervalos os rapazes vão para o recreio masculino e as raparigas vão para o
feminino. Nessa altura encontro-me com as colegas da turma A e é com elas que brinco
e converso. Os colegas da turma B são todos simpáticos comigo, mas eu preferia a turma
A. Já fui falar com o professor de Física, que é o vice-reitor. Disse-me que vai ver se é
possível a mudança




7/1/60
         Nas férias recebi um cartão de Boas-Festas do Vasco, que foi meu colega na
turma B, antes de eu mudar de turma. É bonito. Tem uma paisagem coberta de neve e
por   trás, a meio, em letras douradas diz: Boas Festas e Feliz Ano- Novo. O Vasco
acrescentou. Depois de teres deixado a turma B , esta, para mim, ficou mais triste que a
paisagem deste postal de Boas-Festas. Achei estranho porque enquanto estive na turma,
poucas vezes falei com o Vasco. Mas gostei de sentir que era importante para ele.
Hoje preocupei-me mais com a roupa que ia levar para o Liceu; eu sei que sou vaidosa,
mas quando dei por mim, estava a pensar no Vasco. Será que estou apaixonada?
Não vou falar disto com o David senão ele goza-me.




                                            79
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15/3/60
           Hoje o Vasco pediu-me um livro de exercícios de Inglês O pior é que eu não o
tenho. Vou pedi-lo ao David, que sei que o tem, mas não lhe vou dizer que é para
emprestar ao Vasco. Faço de conta que é para mim. Acho que não estou a proceder bem
com o David, mas não vou pensar muito nisso.


17/5/60
           Já por várias vezes encontrei o Vasco            quando saio das lições de piano. Hoje
encontrei-o mais uma vez e resolveu acompanhar-me a casa.                   Acho que tacitamente
começámos a namorar. Tenho que contar ao David.


10/6/60
           Hoje foram as comemorações do 10 de Junho no Liceu. Como sempre, participei
nos festivais de ginástica, nas danças regionais e por fim num recital de piano.
Também acabei o meu namoro com o Vasco. Encontrámo-nos depois do festival. Falámos
sobre os cursos que pensamos tirar. Quando eu lhe falei em engenharia química, disse-
me que não era curso para uma mulher. Discutimos e ao longo da discussão disse-me
ainda que não achava graça nenhuma a que uma rapariga participasse em festivais de
ginástica e coisas idênticas. Para ele, a função das raparigas é casar, ter filhos e cuidar
deles, do marido e da casa. Eu acho que vou gostar muito de ter filhos, mas não acho
que a mulher sirva só para isso. Discutimos muito e acabámos com tudo. Se o David
pensasse como o Vasco, acho que a nossa amizade já tinha acabado há muito.


14/10/60
           Estou no 6º ano. O David também, mas estamos em alíneas diferentes. Não sei
porquê       tenho a sensação que sou muito mais velha do que no ano passado. A única
turma da alínea f é mista. Aliás nem sequer posso dizer que seja a turma da alínea f pois
em certa disciplinas têm aula connosco alunos de outras alíneas. O David e um colega
que também está na alínea g têm matemática em comum connosco. Um colega que está
na alínea h11 tem connosco Física, Matemática e Desenho. Em Filosofia e Organização
Política há duas turmas: uma feminina com as alunas de todas as alíneas e uma
masculina formada de modo idêntico, com rapazes. É engraçado porque acabo por ter
mais de cinquenta colegas de turma. Alguns dos rapazes já os conhecia da minha curta
passagem pelo 5º B, no ano passado. Outros nunca os tinha visto. As raparigas vieram
praticamente todas da minha turma. Claro que pelo caminho já ficaram várias. Umas
foram para a escola do magistério, outras foram para enfermagem ou arranjaram um


11
     a alínea h dava acesso ao curso de arquitectura
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emprego. A Júlia nem chegou a acabar o 5º ano; trabalha arduamente para ajudar a
mãe.


28/12/60
         Já passou o Natal. Antes ando muito contente com os preparativos; depois fico
triste. Não sei bem porquê mas penso que é por me lembrar das pessoas que já faltam á
mesa. Para além das ausências da Maria Cândida e da Augusta, também já é raro
aparecerem os tios de Beja e os meus primos. Eles são muito mais velhos que eu e já
casaram. Agora passam o Natal no Sul com as novas famílias e os meus tios ficam
também por lá. Era tão bonito quando estávamos todos. À noite, quando ainda não havia
luz eléctrica, à luz do petromax contavam-se histórias, muitas delas, dizia-se, tinham
sido vividas por antepassados, alguns dos quais já ninguém entre os presentes
conhecera. Um deles tinha estado na Rússia e trouxera o samovar de prata que hoje
está em nossa casa. Depois, nas invasões francesas, escondera-o numa parede da
cozinha. Quando os meus avós fizeram obras, lá apareceu o samovar. Também se falava
daquele antepassado que morreu na mais completa miséria porque tinha o vício do jogo.
Um dia, sem mais dinheiro para jogar, jogou todos os bens que tinha e perdeu. Homem
de palavra, no dia seguinte escreveu um documento entregando todos os bens ao seu
credor. Também se contava a de um outro que nunca tinha saído da aldeia e emigrou
para o Brasil. Ao chegar a S. Paulo, ficou perfeitamente perdido. A única referência que
levava era dum primo que se chamava João Silva e ele acreditava que mal saísse do
barco, em Santos, à primeira pessoa que encontrasse, perguntava onde morava o primo
João Silva e qualquer um o saberia informar. Parece que lá se conseguiu governar pelo
Brasil, mesmo sem ter chegado a encontrar o primo. Uma vez contei estas histórias ao
David que achou muita graça      a esta última. Mas, em boa verdade, não é só pelas
ausências que fico triste depois do Natal. Até lá ando ocupada mas depois sinto falta dos
amigos e do bulício da cidade.


6/5/61
         Já há bastante tempo que não converso contigo, amigo diário. Amigo tens sido,
pois tens-me aturado, diário é que nunca foste. Nem mensário, quanto mais diário.
Estive a rever as vezes que resolvi conversar contigo e concluí que, até à data, foram
muito poucas. Neste ano, pelo caminho que as coisas levam, não será melhor. Mas
sabem-me bem, de vez em quando, estas conversas. Hoje não tenho nada de especial
para te contar, a não ser que estou ansiosa pelas férias. Está previsto que este ano, em
Agosto, irei novamente passar 15 dias à Foz do Arelho, na colónia de férias da FNAT,
com os meus tios. Nunca mais voltei a ver o mar desde 1955, em que o vi pela primeira
vez, também lá na Foz do Arelho. Já estou com muitas saudades do mar. É pena ter
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medo de me aventurar nele. O David também gosta muito do mar, mas parece que é
mais afoito que eu.




15/11/61
         A senhora que lavava a nossa roupa faleceu há um ano. Nessa altura sugeri à
minha mãe que contratasse a mãe da Júlia e, hoje, é ela a nossa lavadeira. A princípio
sentia-me um pouco mal quando era a Júlia que vinha buscar a roupa, mas agora
sempre que ela vem aproveito para conversar e acho que nos estamos a tornar amigas.
Hoje falou-me dos irmãos, do padrasto que a maltrata e disse-me que logo que possa,
vai tentar ir para Angola onde tem um tio, ou então casar para sair de casa. Fiquei um
pouco chocada com esta última ideia. Até agora quando pensava em casamento,
associava-o a amor, a felicidade, a tudo aquilo que nos é apresentado nos contos de
fadas. A Júlia vê- o como uma saída. Ela tem apenas 18 anos e já vê a vida duma forma
tão azeda. Gostava de a poder ajudar. Mas que sei eu da vida? Criada numa redoma,
sem problemas, mais nova dois anos que ela que          poderei eu fazer? Tentei dar-lhe a
receita do David:
         Quando pensares que tens razão par estar triste pensa em quem tenha mais
         razões que tu.
Mas ela respondeu-me:
         E em quem queres tu que eu pense? Em ti, em qualquer das colegas do Liceu, em
         quem?
Vou comprar o Diário de Anne Frank e vou oferecer-lho, mas não sei como ela reagirá.


5/2/62
         No Natal ofereci o diário de Anne Frank à Júlia. Não lhe falei mais no assunto. Mas
hoje fiquei muito satisfeita. Quando veio trazer a roupa disse-me que o tinha lido e que
tinha percebido por que razão lho oferecera. Disse-me também que ia tentar arranjar um
emprego, embora continuasse a ajudar a mãe. Falou-me da dificuldade de alguns dos
irmãos na escola e eu vou ajudar a Maria e a Lurdes que estão ambas no 4º ano e têm
muitas dificuldades a matemática e a física. Vou pedir ao David que também colabore.
Ele pode ajudá- las em Desenho; ambas tiveram negativa.


21/6/62
         Hoje estava particularmente feliz. As irmãs da Júlia passaram para o 5º ano. Fui
contar ao David que também ficou satisfeito. Mas comentou de imediato:


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         Aí está   o nosso modesto contributo para melhorar o mundo. Será que não
         conseguimos fazer melhor?
Às vezes o David enerva-me. Eu estava contente e ele acabou por me fazer sentir um
pouco mesquinha.


30/6/62
         Hoje a Júlia apareceu cá em casa. Trazia um pequeno embrulho e disse-me:
         Quero agradecer-te o teres ajudado as minhas irmãs. Não te posso dar grande
         coisa mas no pouco tempo que tenho livre fiz estes paninhos de renda. São para
         ti. Também tenho uma lembrança para o David. Comprei um lenço e bordei nele
         um D.
Conversámos muito e lanchámos juntas. Pedi-lhe que ficasse para jantar, mas ela tinha
que ir trabalhar. Quase à saída disse-me:
         Sabes, eu acho que entre ti e o David há mais que uma simples amizade, mas
         parece-me que nenhum de vocês quer reconhecer isso.
Até a Júlia! Por que razão as pessoas têm       dificuldade em acreditar numa simples
amizade, embora profunda, entre um rapaz e uma rapariga?
         À despedida abraçámo-nos. Um abraço apertado. Ela chorou e disse.
         Estás a acabar o 7º ano, para o ano vais embora e nunca mais te vais lembrar de
         mim.
Prometi que não, que vou escrever-lhe e que gostarei sempre de saber notícias dela.




7/2/84
         Pois é. Há vinte e dois anos que não converso contigo. Quando acabei o 7 ºano,
os meus pais regressaram à aldeia e eu fui para a faculdade. Na mudança das tralhas
para a aldeia, perdi-te, meu caro diário. A princípio fiquei muito aborrecida, não porque
me fizesses muita falta- sabes bem que não era uma confidente              assídua- mas
preocupava-me pensar que alguém te pudesse encontrar e ler um conjunto de coisas que
não interessam a ninguém mais, senão a mim, se é que a mim interessam. O que te
valeu foi   a neve buraqueira. Caiu um nevão enorme lá na aldeia e a neve, tocada a
vento,    entrou pelas casas. O ti Custódio, que morava num casebre, foi encontrado
morto, enregelado, coberto de neve. Pobre homem! Porque é que coisas destas
acontecem? O ti Custódio era um velho de barbas grisalhas e olhos da mesma cor, que
vivia sozinho. Durante muitos anos, pensei que era mudo. Nunca o ouvi falar. Se passava
por ele e lhe dava as ”boas-horas” ele apenas acenava com a cabeça. Um dia o meu pai
contou-me que em jovem era um rapaz bonito, alegre e muito ágil. Montava um cavalo
em pelo como ninguém. Era criado numa das casas ricas da aldeia e apaixonou-se pela
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Estórias com sabor a Nordeste                                             Regina Gouveia




filha do patrão. Quando este se apercebeu, despediu- o. A partir daí o Custódio começou
a ficar cada dia mais triste, mais metido consigo e por fim deixou de falar. Foi assim que
se transformou no ti Custódio que eu conhecera. Em nossa casa a neve também entrou,
mas ficou pelo vão do telhado e pelo sótão. Foi preciso ir lá removê-la. Foi a forma de
arejar uma série de coisas de que já ninguém se lembrava. No meio de toda aquela
tralha, muito cheio de pó estavas tu, com um ar tão abandonado que me fizeste pena.
Comecei por reler-te. Foi como se o meu final de infância e a adolescência tivessem
regressado de um momento para o outro. Revi-me no meu crescer por dentro, um tanto
desajeitado, preocupada com o meu pequeno mundo, com os meus pequenos dramas
que eu julgava imensos e ignorando os verdadeiros problemas da humanidade. Revi
também aqueles tempos mesquinhos de preconceitos balofos e de convenções estéreis.
Mas foi bonito rever como,      a par de tudo isso,   foram ganhando raízes e crescendo
amizades, de início frágeis, mas que foram ganhando vigor adubadas com afecto, com
verdade, com ternura.
          Pois é, caro diário, temos muito que conversar para pôr a conversa em dia. Não
sei por onde começar. Quando te deixei fui para a Faculdade, como já te disse.
Aconteceram várias coisas, muitas com o seu lado bom e o seu lado mau. A primeira foi
a minha separação dos meus pais. De início custou-me muito, mas sinto que me ajudou
a crescer. Tornei-me muito mais autónoma pois tinha que resolver sozinha os meus
problemas. Também me tornei mais consciente de muita coisa e nisso o David ajudou-
me muito. Ele foi estudar para Lisboa, mas correspondíamo-nos e víamo-nos de vez em
quando, pelo menos sempre que passava pelo Porto a caminho de Lisboa ou de casa. Na
época, em Lisboa o movimento estudantil era mais activo que no Porto, ou se o não era,
eu no Porto não me apercebi muito dele;          por isso o David foi, mais cedo que eu,
tomando consciência de muita coisa que até ali ignorávamos. Logo nesse ano, no meu
aniversário, ofereceu-me um livro que na altura me fez reflectir muito. Chama-se “O
Lodo e as Estrelas” e o autor12, simultaneamente editor, diz na dedicatória: “A todos os
que trabalharam em túneis de minas ou barragens e hoje têm silicose... O produto deste
livro é para eles”    O autor conviveu muito com trabalhadores de barragens onde foi
capelão e descreve, de uma forma extremamente bela e triste o drama daquelas gentes,
em trechos como este: “No dorso das albufeiras, uma barquinha negra, carregada de
pulmões esfarrapados, segue a sua rota”. Eu ia tomando consciência de como os meus
pequenos problemas eram insignificantes; comecei a perceber que as injustiças que eu
conhecia eram pequeníssimas quando comparadas com outras muitos maiores: o
desrespeito pelos mais elementares direitos humanos, particularmente no nosso país- a
exploração do homem pelo homem, a escravatura que continuava e continua a existir


12
     Telmo Ferraz
                                            84
Estórias com sabor a Nordeste                                            Regina Gouveia




muitas vezes sob uma capa sofisticada, a guerra, a fome, a ganância que tudo justifica,
enfim. De tudo isso conversava também com alguns novos colegas, embora à cautela,
que os tempos não eram para estas reflexões. Naquele tempo reinava a desconfiança
entre as pessoas. A PIDE tinha informadores infiltrados por todo o lado pelo que nunca se
tinha a certeza se um dos que pensávamos “nossos” não era afinal um “deles”. Por isso e
também por causa da nossa longa amizade, era com o David que eu gostava mesmo de
conversar. Gostávamos muito de passear junto ao mar, lá na praia da Boa Nova,
enquanto conversávamos. A nossa amizade que já era grande, cresceu um pouco mais, à
medida que nós crescíamos interiormente. Depois, ele foi para a Guiné, por causa
daquela maldita guerra, ele que tanto a odiava. Também odiava a morte e matou. E foi
essa a última vez em que me escreveu, muito perturbado       pelo que tinha feito. Foi em
1969. Pobre David! Guardo todas as cartas, postais e aerogramas que me escreveu e por
vezes releio-os embora isso me faça sofrer. Nunca mais o vi. Soube que conseguiu fugir
da Guiné e foi para França. Escrevi-lhe várias cartas que nunca terminei e que te vou
confiar. Estão comigo, porque nunca tive coragem de as enviar. Porque as escrevi então?
A resposta está nelas mesmas.




3


Não consegui ler de seguida todo o diário de Sara. Até 62 gostei de o ler e li sem parar.
Fiquei contente ao ver que consto de todas as suas conversas. Ao ler o que escreveu em
7/2/84 parei. Decidi que antes de continuar a leitura do diário iria começar por ler as
cartas, mas demorei cerca de dois meses a retomar a leitura. Ganhava coragem para as
ler. Comecei por ler as que lhe enviei. São cartas geralmente pequenas pois lembro-me
que me era penoso escrever, tal como era penoso receber correspondência, embora a
desejasse tanto como o ar que respirava. E era penoso porque eu tentava, a todo o
custo, não pensar em nada.


1/6/68
Sara
Escrevo-te a caminho da Guiné, a bordo do navio Ana Mafalda. Não disse a ninguém a
data da partida, pois acho que não iria suportar ver, ou melhor, pressentir aqueles de
quem gosto, entre aquela multidão que se apinhava na varandas da gare marítima,
acenando com lenços e chorando. Fugi disso tudo, refugiando-me no camarote. Só de lá
saí, já em mar alto. Da coberta, onde passo a maior parte do tempo deitado, por causa
do enjoo, só vejo mar. Sabes bem como eu gosto do mar, por isso, esta imensidão
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repousa-me. Por vezes vêem-se peixes voadores. São fantásticos. Vão a planar, talvez
uns 50 m. Também já vi tubarões, alguns com cerca de 2m. Por vezes, vêem-se ao longe
alguns navios- cargueiros e petroleiros. Perto das Canárias vimos uma grande barco à
vela. Somos cerca de 400 militares e tentamos disfarçar as nossas tristezas e
apreensões, jogando ás cartas, conversando, ouvindo música. Mas o olhar de alguns não
engana. Há um alferes que deixou aí mulher e três filhos. Já por várias vezes vi os seus
olhos rasos de lágrimas, mesmo quando parece rir. Eu tento ficar vazio e não pensar,
pois se penso em tudo o que deixei sinto uma tristeza tão profunda que não a consigo
descrever. Se, por outro lado, penso no que vou encontrar, então sinto aquela revolta
que me provoca náuseas. Não sei se irei aguentar.
Escreve sempre que possas.
Um abraço
David


10/8/68
Sara
Escrevo-te de Nova Lamego (a que os naturais daqui chamam Gabu) e que fica num
planalto com o mesmo nome. O terreno da Guiné, cortado por alguns rios muito
sinuosos, (Geba, Corubal, Cacheu, Mansoa, Buba e Cacine) alguns dos quais são mais
braços de mar que rios, não apresenta grandes elevações- apenas dois planaltos, o do
Gabu e o de Bafatá e as colinas do Boé. A vegetação no litoral e nas margens dos rios é
mata densa, como na zona do Morés, uma das zonas onde se escondem os guerrilheiros
(turras como são chamados pela tropa), cercada por pântanos- as bolanhas onde se
cultiva o arroz; no interior, como aqui, é savana. Agora estamos na época das chuvas; o
calor é sufocante. De vez em quando caem enormes bátegas de água, que transformam
as ruas em autênticos rios. Na época seca, de Novembro a Maio, o clima é um pouco
mais ameno, dizem. A terra aqui é avermelhada, cortada pela vegetação, por vezes
exuberante, por    palhotas, geralmente   de planta circular e por morros de baga-baga.
Trata-se de morros feitos por uma espécie de formiga, a formiga baga-baga , com barro
e material segregado por elas. São bonitos- uns altos, muito maiores que uma pessoa,
de terra vermelha e com a forma de morro, outros, mais pequenos, negros, com a forma
de cogumelos. Tenho feito vários desenhos destas paisagens, que espero mostrar-te um
dia. Tenho também algumas fotografias e slides. Quanto à fauna, pensei que fosse mais
rica. Para além dos animais domésticos há macacos, manguços, e uma ou outra gazela.
Dizem que há também crocodilos e hipopótamos no rio Corubal, mas por aqui não se
vêem. Há é muitos morcegos e pássaros muito bonitos, multicoloridos. O que há também
é muita bicharada- baratas enormes, mosquitos, grilos com uns 6 cm de comprimento,
sapos, uma espécie de vermes, com 2 cm de comprimento- os cáusticos- que ao passar
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no corpo de uma pessoa deixam uma chaga como se ali se tivesse deitado ácido sulfúrico
concentrado. Ao fim do dia sento-me na varanda do quartel e fico a olhar o pôr do Sol.
Tenho visto alguns fantásticos que tenho fotografado. Nunca tinha visto nada igual.
Também os cheiros assumem aqui uma força que não te sei descrever. São ao mesmo
tempo quentes e       exóticos, como se resultassem de uma mistura de terra quente e
molhada com frutos, incenso e outras especiarias. Quanto à guerra, para já só a sinto
ao longe através do obus de Piche, uma zona muito flagelada a que, por isso mesmo, se
chama Dien Bien Piche, comparando-a assim a Dien Bien Phu, no Vietname. Mas não
consigo esquecer que ela existe e quão bárbara é.
Escreve. O meu endereço é o que vai no aerograma.
Um abraço
David


8/10/68
Sara
Já recebi três cartas tuas e só agora arranjo coragem para te responder. Hoje sinto-me
razoavelmente bem. Acabei de ver        um espectáculo bonito, mas assustador- uma
trovoada acompanhada de tornado. Estamos a chegar ao fim da época das chuvas. Nesta
época, penso que já te disse, caem terríveis trombas de água, geralmente precedidas de
vento.                                       Grande parte dessas trombas de água estão
associadas a fortes    trovoadas Às vezes olhamos para o céu e está sem nuvens, mas
passada meia hora pode surgir uma trovoada terrível. Os naturais daqui pressentem-nas
um pouco antes e é curioso ver como eles começam a andar muito mais depressa, ainda
nós não nos apercebemos da aproximação da borrasca. Hoje, aí uns 15 minutos antes
de começar a chover com trovoada, surgiu uma ventania que se prolongou durante a
trovoada e que parecia levar tudo pelos ares. O céu estava belo, cortado pelo zig-zag de
inúmeros relâmpagos. No fim, cerca de meia hora depois, o céu ficou outra vez sem
nuvens mas o     calor continua abrasador e a humidade insuportável. Sinto saudades do
frio. Do frio e de tudo o resto, mas tento não pensar. É por isso que me limito a falar
daqui. Mas pode ser que aí agora as coisas mudem e mudando aí, mudarão por certo
aqui. Gostava de ser suficientemente optimista para acreditar nisso. Comecei a falar daí
e já estou a entrar na fossa. É melhor terminar.
Um abraço
David


11/10 /68
Sara


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Já contactei muito de perto com os estragos da guerra. Uma coluna que seguia para
Piche foi atacada. Morreram alguns camaradas e outros ficaram muito estropiados.
Alguns foram evacuados para aí. Porque nos matamos uns aos outros?. Esta gente é boa,
tem um olhar doce. Porquê tanto ódio, de parte a parte? Soube há dias que foi torturado
um guerrilheiro que foi apanhado. O militar que o torturou descrevia tudo com uma tal
frieza que eu senti arrepios como quando se está com febre. Dizem-me que ao fim de
algum tempo, todos ficamos assim. Dizem-me ainda que até há alguns que passam a
sentir prazer em matar. Será que me vou transformar num monstro, Sara? Será que
algum dia eu vou aprovar esta guerra?
Hoje não consigo escrever mais. A minha cabeça parece estourar.
Escreve sempre
Um abraço
David


20/12/68
Sara
Esqueci-me do teu aniversário. Desculpa. Dias antes andei com a preocupação de te
escrever e de te arranjar uma prenda de que gostasses. Comprei uma bilha de barro da
região de Teixeira Pinto, ao norte de Bissau. Acho que vais gostar. Talvez ta não envie,
pois tenho medo que se parta. Levo-ta quando for de férias( irei eu alguma vez de férias
? sairei eu deste inferno ? e depois conseguirei regressar?). Depois de a comprar, andei
ali uns dias muito em baixo e esqueci-me completamente da data dos teus anos. Vês
agora como eu estou ? Às vezes ando que nem sonâmbulo, perdido, sem pensar, com a
cabeça vazia. E, no fundo, é nessas alturas que me sinto melhor, porque não me sinto.
Escreve
David


28/12/68
Sara
Começo por te agradecer o que mandaste, nomeadamente o           contributo para a nossa
ceia de natal. Foi no quartel. Estive de serviço, o que foi muito bom, pois assim não tive
tento tempo para pensar. Juntámos tudo aquilo que nos mandaram daí (polvo, bacalhau,
enchidos, bolo-rei, frutos secos, vinho do Porto). Todos estávamos tristes mas tentámos
esconder. A nossa vida aqui é muito “finge que está tudo bem”. No dia de Natal, ao fim
da tarde, passeei pelas ruas de Nova Lamego. Lembrei-me que ainda te não tinha falado
das árvores daqui (ou será que já falei?). Há aqui árvores fabulosas- os poilões que eu
creio serem os baobás do “Pequeno Príncipe”, os bissilãos (ou bissilões, não sei) que dão
uma espécie de flor (que creio ser um fruto aberto) muito bonita. Já arranjei algumas
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Estórias com sabor a Nordeste                                           Regina Gouveia




para te levar quando for de férias que, em princípio deve ser em Março. Também não sei
se já te falei das pessoas. Há aqui mulheres lindíssimas Algumas são velhas, muito
enrugadas, mas as suas expressões são fantásticas. Já fotografei algumas. Vestem de
forma muito colorida, com muitos colares e pulseiras. Gosto muito de as ver passar; a
cor vermelha da terra mistura-se com o colorido das suas vestes, com o escuro da sua
pele, com o verde da vegetação e com o azul do céu, num festival de cor que embriaga.
Um dia, hei-de pintar estas mulheres. Nas festas (roncos) vestem trajes de festa, à base
de rendas e tecidos muito leves que lembram, por vezes, cortinados. Imagina como seria
fantástico viver aqui em paz! Mas todos os dias, o obus de Piche nos lembra a realidade.
E pior que isso são os mortos e estropiados de ambas as partes. Se um dia esta guerra
acabar ainda havemos de vir aqui para eu te mostrar como esta terra e esta gente são
maravilhosos. Que sonhador que eu estou....
Um abraço
David




25/1/69
Querida irmã de jura
Hoje lembrei-me muito de ti e das nossas brincadeiras de criança. Isso reflecte-se na
forma como começo a carta. Talvez seja porque hoje recebi vários aerogramas teus. Que
bom! Também hoje aprendi a jogar uri com uns soldados africanos. É um jogo tradicional
e que se joga numa espécie de tabuleiro de madeira (aquele em que eu joguei tinha a
forma de barco) onde são feitas várias divisões nas quais se colocam várias peças que
neste caso eram     pequenas sementes de coconote. Pedi para me arranjarem um, que
espero levar para aí a fim de poder jogar contigo tal como outrora jogávamos às damas,
ao dominó, às cartas, ao rapa. Já estou a imaginar-te amuada quando perderes. Mas vou
deixar-te ganhar algumas vezes... Também já encomendei uma guitarra tradicional (
“Corá”) para levar. Talvez depois tu me acompanhes ao piano....Hoje foi de facto um
bom dia. Quase não pensei na guerra. Quando jogava iuri, vi passar uma série de burros,
todos carregados de mancarra (amendoim), tocados por homens com as suas túnicas
geralmente brancas, com a cabeça coberta com gorros, uns brancos rendados, outros em
lã (é estranho, como usam gorros de lã neste clima). Já comprei um destes gorros de lã.
É bonito, em tons de castanho. Há-os também em tons de azul, de cinza e de magenta.
Por vezes, em vez de gorros os homens usam turbantes, alguns muito bonitos. Como
devia ser bom viver aqui sem guerra (já devo ter feito este comentário várias vezes)! Há
dias assisti a um batuque de casamento. Fantástico. O som da música, misturado com a
dança, com o colorido dos trajes. Na dança, as mulheres fazem uma espécie de gingado
e os homens fazem verdadeiras acrobacias, saltando, dando mortais, enfim, um
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espectáculo arrebatador. Fora da palhota foram expostas os presentes de casamento.
Panos em azul (um espécie de batik), meias cabaças de vários tamanhos e que fazem a
função de tachos, alguidares, etc. Outro espectáculo bonito é o que ocorre à hora das
orações. Curiosamente nunca vi mulheres nestas orações; talvez         rezem dentro das
palhotas. Vejo apenas homens, que se descalçam para rezar; ajoelham-se virados para
Meca e encostam a cabeça no chão. É bonito ver aquele conjunto de corpos deitados,
onde o branco das vestes predomina e se mistura com o vermelho da terra. Que belas
telas se poderiam pintar aqui. Um dia, sem guerra, hei-de voltar. Talvez venha para aqui
viver. Mas chegarão alguma vez, os tais dias sem guerra? Aqui ouve-se a Rádio Portugal
Livre de Argel. É a única maneira de sabermos o que realmente se passa no país e de
termos alguma esperança que um dia isto há-de acabar. Gosto de a ouvir, não só por
isso, mas também porque passa música de Zeca Afonso, em todas as emissões. Já não
sei quantas vezes ouvi as canções “Vampiros” e “Menino do bairro negro”. Um dia destes
mando-te as letras. Será que alguma vez vamos poder ouvir aí, livremente, estas e
tantas outras músicas? Chegarão alguma vez os dias da Liberdade? É melhor             não
pensar, por isso termino aqui.
Um abraço
David


10/2/69
Sara
Hoje nem devia escrever-te. A minha resistência psicológica está a chegar ao fim. Aí já
deve ter chegado a notícia, porque esta será difícil de esconder. Morreram 47 militares
na travessia do Corubal quando a barcaça em que seguiam se virou. Dizem que depois
do acidente, os crocodilos que só existiam muito mais a jusante, subiram o rio atraídos
pelo cheiro o que impossibilitou, em parte, a recuperação dos corpos. Foi horrível e tanto
mais horrível   se pensarmos que aqueles desgraçados estavam há meses numa das
piores zonas, em que praticamente se vive todo o tempo dentro dos abrigos, e agora que
iam sair dali, a saída foi a saída para a morte. Eu tenho que sair daqui pois tudo isto é
enlouquecedor. Para quê esta guerra?
Escreve
David


20/2/69
Sara
Tenho as mãos manchadas de sangue. Matei, Sara, e o pior, é que na altura não me
custou. Foi uma emboscada que nos fizeram. A dada altura, surpreendi um guerrilheiro
em cima duma árvore com a arma apontada para mim. Peguei na bazuca do soldado que
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Estórias com sabor a Nordeste                                               Regina Gouveia




estava a meu lado virei-a para ele e à “queima roupa” disparei-a.        Ficou desfeito. Eu
nunca mais vou esquecer esta imagem. Eu sou um monstro. E não me venhas dizer que
há camaradas meus que tiveram que matar muito mais gente. Com a vida humana não
se pode pensar assim. Matar uma pessoa ou várias é hediondo do mesmo modo. Matei
para não morrer, mas estou morto por dentro. Preferia ter morrido, mas agora já é
tarde. Por que razão não foi ele mais rápido e não me matou ? Assim não estaria              a
passar pelo que estou a passar e que não desejo a ninguém. Mas na altura não me
custou nada. E isso é o que mais me repugna. Eu estou mesmo a transformar-me num
monstro. O que esta guerra ignóbil pode fazer dum homem! Tenho náuseas. Tenho nojo
de mim. Não podes imaginar como me sinto. Ajuda-me Sara ou melhor, esquece que eu
existo pois agora, o teu amigo, irmão de jura é um ASSASSINO.
David




A leitura das cartas, particularmente da última, fez sangrar velhas feridas. Todo aquele
drama que estava guardado no subconsciente, veio à tona. Voltaram as insónias, as
alucinações. Mas desta vez custou menos. Talvez         porque o tempo tudo apaga mas
também porque havia uma outra dor, que se sobrepunha - a da perda de Sara. Lembro-
me quando Sara, que sofria muito de enxaquecas, apertava vigorosamente com a mão
direita a mão esquerda, entre o polegar e o indicador. Dizia que a dor que ela própria
provocava em si mesma, a ajudava a minorar a outra. Mas apesar de tudo gostei de ler
as cartas e de recordar todas aquelas imagens de África, que na altura tanto me
fascinaram. Se Sara fosse viva, havíamos de lá ir.
Nunca pude mostrar a Sara as fotos, os slides e os desenhos que prometi, tal como não
lhe pude trazer a bilha de Teixeira Pinto, o uri,     o corá, o gorro de lã, as flores de
bissilão. Antes de partir queimei desenhos, cartas, fotos. O resto deixei ficar.




4


Após a leitura das cartas que enviara a Sara, não passei de imediato à leitura das que ela
não me enviou nem terminou. Tinha um pressentimento que o que viria a seguir me
poderia perturbar muito. Estive uns tempos a ganhar coragem e só depois iniciei a sua
leitura.


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1ª carta
4/8/69
David:
Há já cerca de meio ano que não recebo notícias tuas. Escrevi cartas, aerogramas,
telefonei. Foi então que soube que tinhas desertado, mas ninguém sabia de ti. Liguei
para os teus pais. Foi por eles que soube que estavas em França e que continuavas a
lutar para   esquecer os horrores da guerra. Só não consigo perceber porque razão
deixaste de escrever. Quando acabei de ler a tua última carta, datada de Fevereiro de
69 fiquei muito perturbada. Dizias que eu não podia imaginar como te sentias. A tua
dor, não sei se pude     percebê-la em toda a sua extensão, mas sei que deve ter sido
muito, muito grande. Tu que foste sempre pela defesa da vida, contra a guerra, contra a
morte, tu que ficavas indignado quando eu dizia que para certos crimes só a pena de
morte. Por isso dizias na carta- matei para não morrer, mas estou morto por dentro.
Preferia ter morrido, mas agora já é tarde. Não morreste mas tentaste fugir de tudo.
Como pode alguém ajudar-te se tu foges? Tu mataste um homem que tentava matar-te.
Outros têm sido obrigados a matar homens, mulheres e crianças que nada têm a ver
com a guerra, são mortos apenas como forma de pressão. Lembra-te da receita que em
tempos me deste. Pensa nesses que estão pior que tu.
Aí, em França, acompanhas por certo o que se passa aqui no país pelo que deves ter
tomado conhecimento das lutas estudantis que se iniciaram em 17 de Abril passado.
Também em Maio se realizou, em Aveiro, o II Congresso da Oposição.            O regime
respondeu com a repressão que o caracteriza. Onde está a primavera marcelista? Mas
isto tem que mudar. E quando mudar, a guerra colonial acaba, por certo. Nessa altura tu
poderás voltar e aqui, no meio das pessoas que te são queridas, todas as feridas hão-de
sarar mais depressa. Se não tivesses fugido, talvez eu tivesse coragem para te falar de
algo que me tem perturbado muito. Acho que estou apaixonada por ti. De início pensei
que era apenas confusão de sentimentos resultante da impressão que me causou a tua
última carta, mas depois comecei a sentir a tua falta de uma forma diferente. Sonhava
em ter-te perto, gostava de imaginar que me estreitavas nos braços. Como pode isto
estar a acontecer? Será que eu teria coragem de te falar disto se estivesse contigo ?
Talvez não, tal como não vou ter coragem de te enviar esta carta. Receio a tua reacção.
Nós jurámos ser irmãos, por isso este sentimento perturba-me porque me parece
incestuoso. Luto contra ele, mas não consigo vencê-lo. Ai, David, como estou confusa. Se
ao menos tu escrevesses.


2ª carta
4/1/70
David:
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Continuo ansiosamente á espera que tu escrevas. O que se passa contigo? Por aqui, o
descontentamento das pessoas paira pelo ar. Sente-se. Mas para já tudo continua na
mesma. A única mudança foi que a PIDE mudou de nome, e só de nome. Agora chama-
se DGS. Mas também acontecem coisas bonitas. A Júlia escreveu-me hoje. Comunica-
me que vai ser mãe e que gostava que eu e tu fôssemos os padrinhos da criança, tu por
procuração, é claro. No entanto receia que isso não seja possível. Escreveu-te para a
morada que tinhas em França, mas a carta foi devolvida. E nem que queira saber a nova
morada os teus pais foram viver para Lisboa e ninguém       sabe a sua direcção. A Júlia
parece ter finalmente adquirido o direito à felicidade. Casou há um ano, com um rapaz
da aldeia dos avós. Parece-me um óptimo rapaz. Trabalha no campo, numas terras que
tem e em outras que arrenda. Parece sempre bem disposto, é alegre, sempre disponível,
apoia a Júlia na ajuda que ela continua a dar à mãe e aos irmãos. Esta carta, com o
convite para ser madrinha da criança, deixou-me muito feliz. Mas como não há bela sem
senão, o facto de recear ter perdido definitivamente o teu rasto, deixa-me muito triste.


3ªcarta
10/1/71
David:
         No dia 1 de Janeiro foi o baptizado do David. A Júlia quis dar-lhe o nome do
homem que queria para seu padrinho.        Se visses como está feliz. Quando me vinha
embora disse-me:
         Tive pena que o padrinho não fosse o David, mas acho que foi melhor assim. A
         minha mãe sempre me disse que se um rapaz e uma rapariga são padrinhos de
         uma criança,   uma relação entre eles fica comprometida; ou nunca casam, ou
         então não são felizes. Ora apesar de tu dizeres que não, eu continuo a achar que
         tu e o David   nasceram um para o outro e embora não acredite muito nestas
         coisas, podia dar azar serem ambos padrinhos do meu filho.
Não tive coragem para falar à Júlia no amor que sinto por ti. Acho que se um dia alguém
souber, serás tu, em primeiro lugar.
Aproveitei para passar na nossa antiga rua. Vi algumas crianças a brincar e lembrei-me
do tempo em que as crianças éramos nós. Revi as fachadas da tua e da minha casa.
Estão cinzentas e tristes como este país, que tarda em mudar. Já sabes por certo que
Salazar morreu em Julho passado. Mas isso não trouxe qualquer alteração significativa à
política seguida. As esperanças que se chegaram a depositar        em   Marcelo Caetano
caíram todas por terra.


4ª carta
6/2/72
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Estórias com sabor a Nordeste                                          Regina Gouveia




David:
Sinto-me terrivelmente em baixo. Porque razão não escreves?          Eu sei que podes
perguntar o mesmo, mas foste tu que decidiste cortar. Porquê?     Eu sei que por vezes
quando algo nos magoa muito tentamos cortar com tudo, à espera que o tempo faça o
resto. Lembras-te que no no filme “ O Cardeal” este dizia para a irmã:    “O amor faz
passar o tempo e o tempo faz passar o amor”. Talvez o tempo faça passar a dor,
embora a dor não faça passar o tempo.
Hoje lembrei-me particularmente de ti porque fui para a Boa Nova e sentei-me junto ao
mar. Levei um livro que me deste- “Primeiros Versos” de António Nobre. Lembras-te
como eu gostei particularmente daquele poema que diz:
         Senhora da Boa Nova!
         Capelinha à beira-mar!
         Ando a abrir a minha cova
         para nela vir morar ?
Tem um sabor popular       que traduz, de uma forma cândida,   a sua paixão por aquele
lugar. Eu não ando a abrir a minha cova, mas gostaria de um dia me casar lá, contigo.
Como seria bom se hoje tivesses estado lá comigo! Lembras-te das vezes que lá nos
sentámos e ficámos horas esquecidas a falar de tanta coisa. Uma das vezes, recordo-me
perfeitamente, a nossa conversa foi centrada no Estrangeiro, de Camus. Hoje para além
dos Primeiros Versos, também levei um livro que, como sabes, já me acompanha há
muito tempo- Platero e eu. Apeteceu-me relê-lo. E ali, junto ao mar lembrei-me quando
Jimenez, a propósito do poço diz: Ouve, Platero; se um dia eu me deitar a este poço,
não será para me matar, acredita, mas para agarrar mais depressa as estrelas.
PS- Ao reler a carta, pareceu-me um pouco mórbida, com a presença da morte a pairar.
Mas amo demasiado a vida para querer morrer. Simplesmente hoje, não sei porquê,
estou particularmente triste.




5ª carta
25/4/73
David:
Encontro-me na aldeia onde vim passar uns dias. Sabes como eu gosto da aldeia nesta
altura. Ou melhor, eu gosto sempre da aldeia. No Inverno, com os seus tons cinzentos
que se confundem com o fumo das chaminés, e aquele frio cortante que torna delicioso
estar à lareira;   em Fevereiro/ Março com as amendoeiras em flor,    em Junho com o
amarelo das searas, em Agosto com as noites quentes de luar, no Outono, com toda a
exuberância dos tons das folhas secas. Mas agora, predominam as árvores e os arbustos
floridos. Como são bonitas as flores das silvas, umas brancas, outras cor de rosa! Como
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Estórias com sabor a Nordeste                                                  Regina Gouveia




é que uma planta tão cheia de espinhos pode dar flores tão bonitas? Lembrei-me da flor
do pequeno príncipe, lá no seu planeta, possivelmente o asteróide B 612... Mas não são
só as flores das silvas. São as do marmeleiro, das estevas, das arçãs! Tudo reflecte a
pujança da vida. Que pena eu tenho que não estejas aqui comigo.... Ao longo destes
anos, em que continuo sem ter notícias tuas, tenho lutado com todas as minhas forças
para destruir este sentimento que sinto por ti. Já comecei várias relações mas têm sido
todas um fracasso.      Quando dou por mim estou a fazer comparações: O que faria o
David nestas circunstâncias?      E quando isto me sucede, pura e simplesmente acabo a
relação. Não quero construir a minha vida sobre uma mentira.
Tenho a certeza que a minha mãe já se apercebeu. Há dias, falando da guerra, disse-me:
          Esta guerra há-de acabar. Tanta dor, tantos sonhos por realizar...
Afagou-me a cabeça e nesse afago eu acho que ela me queria dizer: Quando a guerra
acabar, ele volta.




6ª carta
30/10/73
David
Cada vez acredito mais que isto tem que mudar. Todos os dias ouço a BBC. A opinião
internacional é tão desfavorável a tudo o que se passa que eu creio que o regime não se
pode aguentar muito mais. Há uns meses Marcelo Caetano foi a Londres e nessa altura a
imprensa britânica denunciou um massacre terrível que foi feito em Moçambique contra
populações civis. Aqui, obviamente, tinha sido abafado. Também, em primeira mão pela
BBC,     soube que o PAIGC proclamou unilateralmente a independência da Guiné. Pena
que Amílcar Cabral não tenha assistido. Como deves saber, foi assassinado em Janeiro
último.
No passado fim de semana fui a Trás-os- Montes. Os campos estão                tão lindos, com
todos aqueles        tons de Outono! A cor das folhas- umas avermelhadas, outras
acastanhadas, outras amareladas, mistura- se com o verde cinza da copa das árvores e
com o castanho multicor dos seus troncos (os troncos dos sobreiros, são soberbos!). Os
ouriços, nos castanheiros, deixam antever as castanhas brilhantes.             Lembras-te dos
magustos que fazíamos quando éramos crianças ?




7ª carta
5/3/74
David


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Estórias com sabor a Nordeste                                          Regina Gouveia




O país está ao rubro. O General Spínola, com o aval do seu superior hierárquico,
publicou um livro em que defende uma solução política para o problema das colónias (ia-
me esquecendo que já há muito deixaram de ser colónias para passarem a ser
“províncias ultramarinas”...). A censura, não se sabe como, deixou passar. Agora que o
regime se apercebeu, os dois militares foram demitidos, mas tarde demais. O livro tem
tido um sucesso enorme. Talvez porque gostava de viver estes momentos contigo, hoje
precisava de ti. Tenho imensas saudades tuas. Lembras-te como eu gosto do Sol? Pois
sinto a tua falta como sinto a falta do Sol nos dias cinzentos. Às vezes penso que vou
tentar por todos os meios saber o teu endereço e ganhar coragem para te enviar as
cartas que escrevo. Mas logo de seguida acho que      isso seria uma traição ao nosso
juramento, uma fraqueza minha, e acima de tudo receio perder-te como amigo. Assim
pelo menos, senão tenho o teu amor, tenho ainda a tua amizade, penso eu.


8ª carta
2/5/74
David:
Sabes por certo o que aconteceu. O regime caiu. E sem derramamento de sangue á
excepção de quatro vítimas da Pide, que até ao fim teve que fazer estragos. Já há
tempos, no dia 16 de Março, tinha havido uma tentativa de derrube, mas falhou e vários
militares foram presos. Agora foi tudo melhor programado. Por volta das 23 h do dia 24
do mês passado,     pelos Emissores Associados de Lisboa foi dada a primeira senha- a
canção que ganhou o festival. Depois, houve uma outra, com a transmissão da canção
“Grândola Vila Morena” de José Afonso,    que eu não sei se conheces. É uma canção
muito bonita. A partir daí, e durante quase todo o dia 25 foram sendo ocupados vários
lugares chave: RTP, Emissora Nacional, Rádio Clube, Aeroporto de Lisboa, Quartel
General de Lisboa e Porto, Banco de Portugal, etc. O Marcelo Caetano que se tinha
refugiado no quartel do Carmo, rendeu-se ás 19,30. Agora é uma Junta Militar, presidida
pelo Spínola quem governa. Eu soube na manhã do dia 25 quando cheguei ao serviço,
mas na altura ainda não se sabia que forças estavam por detrás do golpe. Chegou a
admitir-se que fossem os ultras. Mas quando se teve a certeza que não, foi uma explosão
de alegria tão grande que é indescritível. Que bonitos têm sido estes dias! Os presos
políticos foram libertados. Vive-se um ambiente de euforia. As pessoas ostentam cravos
vermelhos, inclusivamente os soldados, nos canos das espingardas. Por isso a revolução
é conhecida pela Revolução dos Cravos. Os exilados políticos regressaram. Ontem foi o
1º de Maio. Uma multidão saiu às ruas. Em Lisboa parece que nas manifestações do dia
do trabalhador, estiveram 500000 pessoas. Eu tenho-me misturado com todo este povo
eufórico, nesta alegria contagiante (claro que no meio desta gente há os democratas de
última hora que ainda ontem estavam com o regime mas que agora dizem tê-lo sempre
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Estórias com sabor a Nordeste                                             Regina Gouveia




repudiado...). Por todo o lado se ouve o slogan “O povo unido jamais será vencido” e
“Grândola Vila Morena”. Pode ser que já cá estejas mas se não estiveres, por certo tens
visto tudo pela Televisão. A guerra que tanto odiávamos, vai acabar. Uma das palavras
de ordem é “ Nem mais um soldado para o Ultramar”. Que pena não poder viver isto
tudo contigo.


9ª carta
8/6/1974
David :
        Estamos a saber de coisas que embora imaginássemos, talvez não imaginássemos
tão horríveis. Tanto sofrimento, tantas pessoas que sacrificaram as suas vidas a lutar
contra um regime opressor e despótico. Mas que contributos dei para alterar a situação?
Nenhuns. Como estava em baixo, resolvi ir até à Boa Nova e levei a 25ª Hora. Lembras-
te da ingenuidade comovente de Iohann Moritz? Li um pouco mas senti-me ainda pior
porque não fiz nada para merecer o 25 de Abril. Limitava-me a indignar-me. Agora,
enquanto escrevo, ouço José Afonso. Que bom poder ouvi-lo em liberdade....


10ª carta
15/10/74
David
O Governo reconheceu a Guiné- Bissau como país independente. Para o caso das outras
colónias tentam estabelecer-se acordos entre os vários movimentos de libertação. Tanta
vida perdida para nada! Por que razão não se enveredou desde o início         pela via do
diálogo? O que pode levar os homens a um tal estado de cegueira? Tudo isto me deixa
triste. Talvez por isso, ontem à noite resolvi olhar o céu (tu sabes que eu gosto muito de
olhar o céu). Talvez procurasse o asteróide do principezinho. Mas este céu da cidade não
é céu. Guardo a memória do céu da aldeia negro como breu onde as estrelas brilham
como não brilham aqui. Aqui parece tudo desbotado; o céu e as estrelas. Até Marte, que
eu lá distingo pelo seu tom mais avermelhado, aqui parece-me igual às estrelas.


11ª carta
6/10/75
David
Ouço Chico Buarque e lembro-me de ti. Uma das canções do disco chama-se “Tanto
mar”. É uma canção que ele dedica à Revolução dos Cravos. Conheces?
        Sei que estás em festa, pá
        Fico contente
        Enquanto estou ausente
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Estórias com sabor a Nordeste                                           Regina Gouveia




         Guarda um cravo para mim
Eu continuo a guardar um cravo para ti, enquanto estás ausente. Sim, porque espero
que agora regresses. Ou será que já regressaste? Também guardo jornais, revistas, tudo
o que se relaciona com o acontecimento. Será bom lê-los novamente, contigo. Onde
andas tu David?


12ª carta
25/12/76
David:
         Hoje é dia de Natal. Lembro-me dos Natais em criança. Lembro-me dos cheiros,
do frio, do fumo da lareira e acima de tudo dos afectos. Leio o poema “Dia de Natal” do
poeta António Gedeão de que não resisto a dizer-te excertos:
         Hoje é dia de ser bom.
         É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
         de falar e de ouvir com mavioso tom, de abraçar toda a gente e de oferecer
         lembranças.
         .......
         Comove tanta fraternidade universal.
         É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
         como se de anjos fosse, numa toada doce, de violas e banjos,
         entoa gravemente um hino ao Criador.
         E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor
         anuncia o melhor dos detergentes.
                       ..............
Acho que a revolução          não operou algumas mudanças que eram essenciais e em
contrapartida operou outras que         me desgostam. Uma delas é um consumismo
desenfreado. Talvez porque o poema de Gedeão põe o dedo nesta ferida, eu goste tanto
dele.




13ª carta
7/9/ 79
David:
Que é feito de ti David? Por certo já regressaste há muito mas não disseste nada. Não
consigo entender. Hoje, particularmente, precisava de estar contigo.    Aconteceu uma
coisa muito triste: a morte da minha madrinha. Recordei tudo: os afectos, os     ralhos
(que apesar de ralhos eram também carregados de afecto), o que ela me foi dando pela
Páscoa, ao longo dos tempos. Dava-me sempre uma lembrança da minha avó. Nesta
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Estórias com sabor a Nordeste                                             Regina Gouveia




última Páscoa, deu-me o cordão de ouro, que era a peça da avó que ela mais estimava.
Parece que adivinhava que o fim estava próximo. Tinha adoecido em 1975, pouco depois
da revolução dos cravos. Estes também já murcharam. Tantas esperanças num mundo
melhor, mas mudou tudo tão pouco... Chico Buarque tem agora uma nova letra para o
“Tanto mar”:
         Já murcharam tua festa, pá
         mas, certamente,
         esqueceram uma semente
         n´algum canto de jardim...




14ªCarta
6/9/82
David
Tenho comigo o meu afilhado, David II. É assim que eu lhe chamo para o distinguir de ti-
David I. Veio passar 15 dias ao Porto antes de começarem as aulas. Comecei por levá- lo
à Serra do Pilar, de onde avistou o Porto.     Achou- o   muito grande. Depois levei-o     à
Torre dos Clérigos, que ele achou muito alta, á Avenida dos Aliados que achou muito
bonita, à Ribeira que achou que não tinha ar de grande cidade, à Sé, que achou muito
escura, ao centro comercial Brasília que achou divertido, essencialmente por causa das
escadas rolantes que o deixaram extasiado. Não sei quantas vezes as desceu e subiu.
Mas o que lhe causou mesmo maior sensação foi o mar. Levei-o à Boa Nova. Ficou com
os olhos, muito abertos, e calado durante bastante tempo. Depois disse:
         Nunca pensei que fosse tão bonito, madrinha.
Depois foi para os rochedos e não queria mais sair dali. Quis saber o nome de todos
aqueles seres que ali via. Quis meter alguns numa garrafa com água e quis levá-los para
casa para depois mostrar aos pais. Expliquei-lhe que não aguentariam até lá, mas rendi-
me quando vi duas lágrimas aflorar ao canto dos seus olhos que entre o azul e o verde
se confundem com o mar. Comprometi-me a arranjar um aquário no dia seguinte. Depois
iríamos novamente ao mar        buscar   as anémonas, as estrelas, os ouriços, os peixes.
Agora tenho em casa um aquário de água salgada, lindíssimo, com anémonas azuis,
brancas, verdes, cor de rosa, com peixinhos e camarões cinzentos, com estrelas rosadas
que se deslocam encostadas ao vidro, com mexilhões que são comidos pelas estrelas,
com ouriços acastanhados, com paguros que mudam de concha, com caranguejos.
Tenho a certeza que tu irias gostar do aquário tanto como David II. Bastar-me-ia isso
para o ter entretido todo o tempo. Fica com o narizito esmagado contra o vidro, os olhos
muito abertos,     ás vezes parecendo suster a respiração, como que receando perder
alguma parte de todo aquele espectáculo de vida. É uma criança extraordinariamente
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sensível. Há dias eu ouvia Brahms, quando dei por ele sentado na sala a ouvir também.
Depois disse-me:
       Essa música é muito bonita. Eu nunca tinha ouvido nenhuma parecida.
É também uma criança muito intuitiva. Há dias perguntou-me:
       Esse David I é o teu namorado?
Respondi-lhe que era apenas um grande amigo que eu já não via há muito tempo. Aí, ele
comentou:
       Mas eu acho que gostavas que ele fosse teu namorado. Quando falas dele ficas
       diferente. Umas vezes ficas contente mas outras vezes ficas triste.
Afaguei-o na cabeça e falei-lhe de Fernando Pessoa e dos versos do seu poema
Liberdade:
       Grande é a poesia, a bondade e as danças...
       Mas o melhor do mundo são as crianças,
       Flores, música, o luar, e o sol, que peca
       Só quando, em vez de criar, seca.
E acabámos a falar de livros. De repente senti-me transportada no tempo quando, há
mais de 25 anos, conversava sobre livros com David I, então da idade que hoje tem
David II.
Reli a carta e perguntei a mim mesma porque te escrevo, não te escrevendo. Só
encontrei uma explicação: escrevo para ver se escrevendo esgoto este sentimento.




15ª carta
10/12/83
David :
Hoje faço anos e talvez por isso me tenha lembrado mais de ti. Já há muito que não
escrevo. Começo a acreditar que já nem te lembras que existo. Por que escrevo então?
Porque me custa muito a aceitar que isso seja verdade. Tento enganar-me              a mim
própria e pensar que um dia vais aparecer e explicar esta tão longa ausência. Soube há
tempos que tinhas regressado, mas ninguém me soube dizer onde estás. Tenho andado
a ler um livro de     que ias gostar com certeza. Possivelmente já o leste. Chama-se
Levantado do Chão e o nome do autor é José Saramago. Como gostava de conversar
contigo sobre este livro. Mas já não tenho esperanças.




Li a primeira a carta, num dia chuvoso e frio de Inverno. Após a leitura senti-me em
estado de choque. Teria eu lido aquela carta? Seriam as alucinações que voltavam? Sara
ter-me-ia amado? Teria eu amado Sara? Não passaria tudo de um pesadelo que iria
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Estórias com sabor a Nordeste                                             Regina Gouveia




terminar logo que eu acordasse ? Fui até ao mar e sentei-me na areia molhada. Não sei
quanto tempo ali estive, com a chuva caindo em todo o meu corpo, num estado de
prostração terrível. Foi um pescador que me tirou daquele estado de torpor.
       Então amigo, o que lhe passa pela cabeça?
Mas naquele momento não me passava absolutamente nada. O pescador levou-me até
sua casa e foi ao calor da sua lareira que eu me sequei. Creio que ele falou todo o tempo,
mas não me lembro de uma só palavra que ele tenha dito. Era já noite cerrada quando
me deixou em casa. Lembro-me apenas das palavras que me disse à despedida:
       Coragem, homem.
Também não me lembro do que se passou nos dias que se seguiram, mas sei que a dada
altura retomei a leitura das cartas. Cada carta que lia era como se uma farpa pontiaguda
penetrasse todo o meu ser. No entanto não resisti a lê-las. Era muito cruel saber que
também Sara me amara, mas era ao mesmo tempo maravilhoso.             Quando li a última
carta atirei com o diário para um canto; decidi que não leria mais nada. Nesse momento
odiei- o e odiei Sara e tudo que ela representava para mim.


6


Contrariando a decisão que tomara uns dias antes,        resolvi acabar de ler o diário,
mesmo sabendo que isso me iria fazer        sofrer mais. Não foi por masoquismo, mas
porque o ódio que então me cegara, dava novamente lugar ao amor. Ler o diário iria
trazer-me Sara um pouco de volta.


6/5/1985
       Meu caro diário:
Já há mais de um ano que tens estado esquecido aí para um canto. Para te ser franca,
não pensava voltar a usar-te. Mas hoje aconteceu-me uma coisa fantástica. Passeava na
R. de S.ta Catarina quando vi um homem que me pareceu ser o David. E era. É certo
que eu já não via o David desde 1968, já lá vão quase 20 anos, mas as feições e a
expressão mantinham-se. Ele não me reconheceu apesar das sardas e do cabelo ruivo.
Fomos até ao Majestic e ali nos perdemos a conversar, tentando partir do ponto onde
tínhamos    ficado. Eu sentia-me um pouco constrangida      porque não quero    de modo
algum que ele perceba o que eu sinto por ele. Até por que ele é casado. Falou-me da
Ana, a mulher que o ajudou muito a superar todas as marcas que a guerra deixou. Os
pais dele já morreram e ele vive no Alentejo. A pintura continua a ser a sua paixão mas
não lhe permite sobreviver Por isso   dá aulas.   Falou-me com paixão do seu trabalho,
quer como professor, quer como pintor. Foi também com paixão que me falou do
Alentejo. De Ana falou com muito respeito, mas não me pareceu que falasse com paixão.
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Estórias com sabor a Nordeste                                           Regina Gouveia




12/ 6/87
         O David, que de vez em quando telefona ou aparece, mas sempre de fugida,
escreveu-me ontem uma carta muito breve, bem diferente daquelas que escrevíamos em
tempos. Tão breve que achei que não valia a pena guardá-la como fiz com as outras. Ele
e Ana separaram-se. Não explica porquê       mas eu sempre achara que ali não havia
paixão, pelo menos da parte dele. Mas isso não vai significar que eu lhe fale dos meus
sentimentos. Pelo menos para já. Por um lado, poderia interpretá-lo como comiseração,
ou ainda pior, como oportunismo. Será importante que ele volte a sentir muito a falta da
minha amizade. O resto virá depois. Se me precipito, arrisco-me a perdê-lo como amigo.
Isto, admitindo que alguma vez vou ter coragem de lhe contar o que sinto.


4/1/88
         O meu pai está muito doente. Foi-lhe diagnosticado um linfoma. Já há muito que
andava um pouco alquebrado, ele que foi sempre um homem muito dinâmico. Dizem que
eu me pareço com ele, essencialmente porque sou muito emotiva. Logo a seguir ao 25
de Abril tivemos discussões terríveis, porque ambos nos deixávamos arrastar pelas
emoções. A mãe diz que nós temos o coração ao pé da boca. Mas a mãe é uma pessoa
muito serena e ponderada e mede cada palavra antes de a dizer. Por isso, é incapaz de
magoar alguém. O pai, por vezes não mede o que           diz, mas é um homem muito
generoso. Não suporto a ideia de perdê-lo.


6/3/91
         Hoje estou desolada. O meu pai faleceu. A minha mãe está inconsolável. Foram
tempos horríveis para todos. Tanta quimioterapia, tantas idas a Villejuif, tanto
sofrimento. Todo o tempo o meu pai insistiu que não valia a pena tanto sacrifício, que o
deixássemos morrer. No entanto, já quase no fim,     quando nos mandaram de Villejuif
sem qualquer esperança, foi ele que sugeriu: E se tentassem a radioterapia? Pobre pai!
O David ajudou-me muito. Veio        visitar-nos quase   semanalmente. Emprestou-me
imensos livros e discos     que me ajudaram a pensar em outra coisa, pelo menos por
instantes. Todo este período teve apenas uma vantagem. Não pensava nos meus
sentimentos em relação ao David, pelo que não me angustiava por causa disso.


10/11/ 92
Caro diário:
Da última vez que desabafei contigo, jurei para mim mesma que só voltaria a fazê-lo
quando tivesse ganho coragem para dizer a David o quanto o amo. Só que o tempo foi
passando e a coragem nunca chegou. Agora é tarde. Não sei que partida        a vida me
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Estórias com sabor a Nordeste                                             Regina Gouveia




quer pregar desta vez mas estou muito doente. Hoje é a minha despedida. Obrigada
pela tua paciência de me aturares ao longo de todos estes anos. Não deve ser fácil ser
diário. Vou fazer-te a última confidência: Vou pregar uma partida ao David. Vou oferecer-
te a ele. Assim, será através de ti que ele ficará a saber do meu amor. Como vês, caro
diário, fui muito injusta para contigo: Achei que não me ias servir para nada e afinal irás
fazer -me um grande favor- serás tu a dizer ao David aquilo que eu nunca tive coragem
de lhe dizer. Obrigada, amigo, mais uma vez.




7


Acabei de ler o diário. Já há muito, desde que li as cartas que Sara não me enviou, que
me sinto estranho       como pertencendo a outra galáxia. Por que razão tudo isto
aconteceu? Por causa de uma estúpida jura de criança? Sara, ao menos, não soube o
quanto eu a amei. A não ser que tenha entendido o que lhe disse na véspera da sua
morte. Segundo o médico já não estaria consciente. Sussurrei-lhe ao ouvido o quanto a
amava. Estive a seu lado até ao último momento, como que à espera de um milagre, eu
que já há muito não acredito neles. Lembrei-me então da “Oração a Nossa Senhora da
Boa Morte”, de Manuel Bandeira:
       Fiz versos a Teresinha...
       versos tão tristes nunca se viu!
       Pedi-lhe coisas. O que eu pedia
       era tão pouco! Não era glória...
       Nem era amores....Nem foi dinheiro...
       Pedia apenas mais alegria:
       Santa Teresa nunca me ouviu.
Mesmo assim rezei, eu que me tinha por agnóstico.
Na capela onde esteve em câmara ardente, apareceu muita gente, incluindo Júlia e o
filho David.   Júlia abraçou-se a mim e        chorou sentidamente. Também David não
conseguia conter as lágrimas.
       Foi uma segunda mãe para mim, disse-me.


Quando da morte de Sara, e posteriormente com as revelações das suas cartas entrei
numa fase de grande perturbação, senão pior, pelo menos igual à que se seguiu à minha
participação na morte de um homem. Mas agora tentei esquecer de outro modo. Pintava
exaustivamente, muitas vezes durante dias seguidos, dormitando de vez em quando e
mastigando qualquer coisa de forma quase inconsciente. De início descurei as aulas.
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Faltava imenso. Depois recomecei lentamente a minha tarefa de professor, de que gosto
muito. A dor foi-se tornando mais doce, mas não menos aguda. Nunca mais voltei à Boa
Nova. Mas agora, que acabei de ler o seu diário, uma força me impele para lá ir. Lembro-
me que as suas flores preferidas eram tulipas brancas Vou providenciar um ramo e vou
deitá - lo ao mar, lá onde foram lançadas as suas cinzas. A florista disse-me que nesta
época vai ser muito        difícil arranjar tulipas brancas, e ainda para mais cem, mas eu
insisto na cor e no número. Peço-lhe que não olhe a custos e mas arranje. De tal modo
eu lhe faço o pedido que ela atreve-se a dizer:
           Devem ser para uma mulher muito amada.
Mas eu não consigo comentar. Faço um esforço enorme para que as lágrimas não
comecem a brotar dos meus olhos. Deixo-lhe o meu número de telefone e saio.
Passados cinco dias da minha ida á florista, ela telefonou. Conseguiu as tulipas. Fui levá-
las a Sara. Porquê cem? Lembro-me que em tempos conversámos sobre um livro de que
ambos tínhamos gostado bastante- “Cem anos de solidão”. Falámos dos vários Buendia,
de Melquíades, bem como de muitas outras personagens do livro. Mas a dada altura a
conversa derivou para o número cem. Disse-me Sara:
           Sabes que quando eu era muito pequena o número 100 era uma espécie de
           número mágico para mim? Creio que o achava quase inatingível. Lembro-me de
           atribuir o número cem à altura do monte mais alto que via, e do cimo do qual eu
           imaginava que conseguiria tocar o céu,       à luz   da estrela mais brilhante, à
           felicidade que sentia quando os meus pais me estreitavam      contra o seu peito.
           Senti alguma desilusão quando, mais tarde, pensei que era um número pequeno;
           voltei a reabilitá-lo quando percebi que só por si o número poderia dizer pouco
           porque o ser grande ou pequeno dependeria da unidade que o acompanhasse.
           Cem nanómetros pode ser o comprimento de uma pequena bactéria, enquanto
           que 100 anos luz é a distância a uma estrela que está 6,5 milhões de vezes mais
           longe que o Sol.
Os enigmas do Universo eram muitas vezes temas de conversa. Extasiavam Sara.
Quantas vezes fitando o céu me dizia:
           Já pensaste que aquela estrela que vês, pode já não existir há muitos milhões de
           anos? A luz que nos enviou está agora a chegar e isso é tanto mais fantástico
           quanto sabemos que a luz se propaga a uma velocidade enorme, que se supõe
           inultrapassável. Daí que o meu maior fascínio não seja nem pelo número cem
           nem pela velocidade da luz, mas pelo infinito.
Eu gostava de falar de todas estas coisas com Sara, e especialmente daquelas que
constituíam temas comuns na nossa formação. Era o caso da cor. Enquanto que eu como
artista,     falava de cores quentes e frias, Sara falava–me de     absorções, refracções     e
reflexões da luz, da interacção da luz com a matéria, da estrutura das moléculas. Uma
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Estórias com sabor a Nordeste                                             Regina Gouveia




vez mantivemos uma discussão acalorada a propósito das cores primárias. Deveríamos
considerar como primárias a amarela, a vermelha e a azul, dado que combinando
adequadamente pigmentos dessas cores podíamos obter as outras? Ou devíamos
considerar primárias a azul, a vermelha e a verde, dado que uma combinação adequada
de feixes de luz dessas cores, permite obter todo o espectro visível? E      acabámos a
discussão, recordando o “Raio Verde” de Júlio Verne. Era assim, conversando, que nos
perdíamos tantas vezes no tempo.
Ontem, também conversei com Sara enquanto lançava ao mar as tulipas. Mentalmente
dizia-lhe:
       Sara, não posso trazer-te um número infinito de tulipas brancas; acredita que
       trazia se isso fosse possível, mas para infinito tens o meu amor. Trago-te cem, o
       teu primeiro número mágico e espero que lá onde estiveres, na estrela mais
       longínqua, a não sei quantos anos luz de distância, este meu gesto chegue a uma
       velocidade maior que a da luz .
Fiquei a olhar a água na esperança de ver surgir Sara. Mas não. Vou voltar ali muitas
vezes. Quem sabe um dia, ela não aguenta as saudades e aparece?




8


Os fantasmas que tanto me perseguiram quando fugi da Guiné, voltaram de novo. Tal
como acontecia nessa altura, a minha mente é povoada por Sara: Sara criança, Sara
adolescente, Sara mulher. Sonho inúmeras vezes com ela. Num desses sonhos
estreitava-a nos meus braços, quando de repente vi um guerrilheiro em cima de uma
árvore; no sonho atirei-me para cima dela para a proteger com o meu corpo. Acordei
aflito. Doutra vez, quando passeávamos de mãos dadas junto ao mar, apareceu um
arauto lendo a nossa jura de fraternidade. Mas, apesar de tudo isto, agora não tento tirar
Sara da minha cabeça.       Pelo contrário, tento recordá-la nos mais ínfimos pormenores.
Tento saber tudo sobre ela. Já me desloquei à sua aldeia nas várias épocas do ano – em
Março, para ver as amendoeiras em flor, no Inverno, em Junho, em Agosto, no Outono.
Já sei distinguir Marte das estrelas, naquele céu escuro. Já sei o que são arçãs, giestas,
estevas, tal como já conheço as flores do marmeleiro, da amendoeira, do pessegueiro.
Em criança tinha estado por duas vezes na aldeia de Sara. Uma das vezes na Primavera,
quando aprendi a fazer gaitas com caules de cevada, outra no Verão em que fiquei a
conhecer os pepinos de S. Gregório. Mas foram estas as principais memórias que eu
retive dessa altura. Agora, vi tudo com outros olhos; os meus, agora já cansados,
ajudados pelos de Sara que me tinha descrito tudo em pormenor. Não sei quantas vezes
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Estórias com sabor a Nordeste                                           Regina Gouveia




já folheei o álbum com as suas fotos. De cada foto ela parece surgir tal como a conheci
na época. Parece-me ouvir as suas gargalhadas cristalinas de menina, a sua voz
apaixonada de adolescente, a sua voz apressada e ao mesmo tempo serena de mulher.
Parece-me ver o seu rosto amuado depois de perder às damas, afogueado depois de uma
partida de badmington,       sonhador caminhando pela praia. Gosto de recordá-la, mas
recuso-me a ouvir a sua voz cansada de doente, tal como me recuso a recordar a sua
palidez no leito da morte.
Já contactei com pessoas que se lembram dela em criança, antes de eu a conhecer, e
tentei saber como era. Era muito viva, mas ao mesmo tempo muito sensível- é a imagem
que me é transmitida. E ao ouvir isto parece-me que a sinto ao pé de mim, quando em
criança fazia sapatos de folha de figueira sob cuja sombra se interrogava sobre as vidas
das pessoas que antes dela ali se tinham protegido do Sol.
Também já visitei aqueles lugares que mais a fascinaram. Quando passeava no mercado
de Assuão, parecia-me que Sara me acompanhava dizendo: repara naquele sudanês ali,
naquela criança acolá. Quando passeei de felouka no Nilo, era ainda a voz dela que eu
ouvia mostrando-me o deserto, os palmares, ou as colinas ali ao lado. O mesmo me
aconteceu em Marrakech ou no Trafaoute. Em Parati, consegui encontrar o velho
marinheiro Eli e foi com ele que fiz a minha volta pelo mar, no seu barquito- Avenida
Paulista. Falei-lhe de Sara. Lembrava-se dela e dos pais que a acompanhavam. Falou-me
dos seus cabelos ruivos, da sua vivacidade contagiante e da emoção que teve ao nadar
longe da praia. Contou-me que ao regressar ao barco dizia, emocionada: “Eu nunca tinha
nadado num sítio sem pé. Como foi possível? Isto é lugar de encantamento.”
Em todos estes lugares tirei inúmeras fotografias que enchem as paredes de minha casa.
Revejo- as várias vezes e parece-me ouvir Sara tecendo comentários naquela sua fala
apressada. Que depressa falava Sara! Depressa mas de uma forma suave e ao mesmo
tempo frágil. A lembrança de Sara dói muito, mas é agora uma dor ao mesmo tempo
aguda e serena. A pintura tem sido a minha tábua de salvação. Nunca pintei tanto em
toda a minha vida, como desde a sua morte. E a pintura traz-me serenidade. Uns colegas
convenceram-me a fazer uma exposição. Teve bastante sucesso, em particular a tela
“Evocação do amor” . Mas essa não a vendo. É uma tela de fundo essencialmente azul
em vários tons- o azul/verde      do mar interpenetrando o azul/cinza do céu. Na parte
central há uma silhueta difusa em que sobressai, também de forma difusa, uma vasta
cabeleira acobreada. Do lado esquerdo, sensivelmente a meio, uma mancha cinza- a ilha
do Pessegueiro. Não diz a lenda que foi em Porto Covo que um rei por amor se matou
novo? Também a leitura e a música me confortam. Estou a reler todos os livros que
lemos e sobre os quais conversámos. Às vezes tenho a nítida sensação que a ouço,
comentando-os, tal como tenho a sensação que ela está por perto, quando ouço música,
particularmente Brhams.
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De vez em quando encontro-me com Júlia e David II. Peço-lhe que me falem dela,
naquele tempo em que eu estive ausente. Quero que toda a sua vida faça parte da
minha. David II disse-me há dias.
         Nunca vi amor tão bonito como o teu por Sara e o dela por ti. Era demasiado
         bonito para poder ser vivido realmente.
Apercebo-me que todos os que nos eram próximos percepcionaram o nosso sentimento
mútuo, todos menos eu e Sara que nos obstinámos em não querer ver.




9
         Ontem fez cinco anos que Sara morreu. Desloquei-me a Leça com um ramo de
cem tulipas brancas que lancei ao mar, na Boa- Nova. Um pescador aproximou-se de
mim e disse-me:
         Curioso, hoje já é a segunda vez que vejo um homem chegar aqui e lançar flores
         ao mar. O outro era bastante mais novo que o senhor e vinha acompanhado de
         uma senhora mais velha. Devia ter os seus vinte e tal anos.
Sorrio. Só podem ter sido David e Júlia. David vive no Porto, onde exerce Medicina. Sei
o quanto sentiu a perda da madrinha. Só pode ter sido ele. A mãe acompanhou-o, por
certo.


Olho todos os dias para o diário de Sara. Por vezes releio-o. Não sei o que fazer com ele.
Pensei em queimá-lo, mas acho que nunca vou ter coragem. Mas se o não queimar, o
que lhe acontecerá um dia, depois da minha morte? Talvez o deixe como legado ao meu
homónimo- afilhado de Sara. Não sei ainda. Lá está, em cima da minha secretária, a
aguardar a minha decisão.




Epílogo


Foi ontem o lançamento do livro. Não gosto muito da palavra lançamento. Gosto mais de
apresentação. Lançamento lembra-me o disco, o dardo, o martelo ou o peso. Um livro
não se atira,   apresenta-se, expõe-se. E a partir desse momento já não é ele, mas a
imagem que dele fazem os outros. A leitura de qualquer um interfere com o livro, daí que
cada leitura do livro que até agora era meu, irá ser uma nova leitura. Por isso senti-me
só e indefeso, apesar dos abraços calorosos dos amigos e dos sorrisos circunstanciais de
conhecidos e desconhecidos. Apercebi-me várias vezes da presença fugidia de Rute, tão
fugidia que não consegui apreender qualquer mensagem no seu olhar. Teria ela algo para
me dizer? Não consegui falar-lhe. Havia sempre um livro a autografar, a chegada ou a
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despedida de um amigo. Quando acabou a cerimónia (onde fui eu buscar esta palavra
tão pomposa para um acontecimento tão falho de importância?) vim para casa e deixei-
me cair em cima do sofá. Exausto, fechei os olhos. Senti Rute que chegava, mas não
consegui dizer-lhe nada, nem sequer abrir os olhos. Ouço a sua voz suave e frágil, mas
curiosamente, desta vez Rute fala devagar. Talvez queira enfatizar bem o que diz:
       Gostei do que fizeste com o meu diário. Eu não teria encontrado melhor solução
       para ele. Escreveste o nosso livro (reparo que destaca a palavra nosso, dizendo-a
       ainda mais pausadamente, marcando bem as sílabas). Gostei inclusivamente do
       nome que lhe deste,      bem como do nome que encontraste para nós- as principais
       personagens. É certo que num ponto ou noutro eu talvez tivesse contado a
       história de um outro modo. Mas gostei. Foi o fruto que saiu de nós. Que melhor
       epílogo para o nosso amor?
Abro os olhos, e procuro Rute, mas já se foi. Que saudades eu tenho de ti, Rute!




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Flor de laranjeira




                                …….
                                Não há Inverno rigoroso que te impeça
                                de rematar esse trabalho que começa
                                na primeira folha que nos braços te desponta
                                …..


                                Ruy Belo, “ Árvore rumorosa”




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5/1/85
         Agora sinto que posso partir tranquilo. Parto em paz.
Francisco fechou o seu diário      e caminhou lentamente em direcção        à janela. Olhou,
embevecido, para o seu pomar de laranjeiras.
Quando começou ele a escrever o diário? Não sabia ao certo o dia, nem o ano; sabia
apenas a razão que o levara, naquele dia, era ele ainda muito criança, a escrever:
         Eu vi-os mas ninguém acreditou. Foi lá, no sítio onde se afogaram. Olhei para a
         água e vi a minha imagem ; por detrás dela vi as deles; ela, bonita como a
         senhora professora, ele parecido com o avô Francisco, mas muito mais bonito .
Na altura não sabia o que era um diário, mas naquele dia, a mágoa e a raiva eram tantas
que tinha que as descarregar de qualquer forma. Ao ver o caderno e o lápis ali por perto
escreveu com tanto vigor que quase rasgou o papel.
Por que razão ninguém acreditou? Nem o avô Francisco, de quem ele herdou o nome.
Mas não era o avô Francisco que lhe dizia que eles estavam no Céu. Ora se estavam no
Céu por que razão não poderiam ser vistos na água como ele se via a si próprio, tal como
se estivesse em frente a um espelho? Menos nítido, é certo, mas via-se bem...Ora se
eles espreitassem lá numa nesguinha do céu, por cima do rio, deveriam poder ver-se
menos nítidos ainda, pois estavam muito longe. Mas foi precisamente isso o que ele viu.
É certo que ele tinha dúvidas se estariam no Céu ou lá no fundo do Rio. Mas se fosse
esse o caso, poderiam ter nadado um pouco para mais perto da superfície de modo a
serem vistos. Estariam eles no fundo do rio? Era por causa dessa incerteza que ele tanto
queria aprender a mergulhar. Se conseguisse ir lá bem ao fundo, talvez conseguisse
encontrá-los.
Doutra vez, lá no mesmo sítio, dissera o responso a Stº António, como tantas vezes vira
fazer à avó quando queria encontrar algo que supunha perdido. Afinal de contas, nunca
ninguém encontrou os corpos. Poderia ser que o rio os tivesse levado para longe e lá
andassem perdidos...
         Se milagres desejais recorrei a Stº António, vereis fugir o demónio e as tentações
         infernais. Foge o erro, a peste, a morte, o fraco torna-se forte, torna-se o enfermo
         são, recupera-se o perdido, rompe-se a dura prisão e no auge do furacão cede o
         mar embravecido. Todos os males humanos se moderam, se retiram, digam-no
         aqueles que o viram e digam-no os paduanos.
Mas dessa vez não viu a imagem deles no Rio. Possivelmente não rezou bem o responso
ou talvez fosse por ter falado nos paduanos. Lembrava-se que uma vez o Sr. Padre se
tinha referido a isso na homilia. Parece que os tais paduanos diziam que Stº António era
de Pádua e isso era falso; tinha lá vivido, é certo, mas Stº António era o nobre Fernando
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de Bulhões, natural de Lisboa. Naquela altura Francisco não fazia a mínima ideia onde
ficava Pádua e não via por que razão Stº António haveria de dar tanta importância a esse
pormenor. Além disso, era assim que a avó rezava o responso e resultava. Ele já muitas
vezes tinha sido testemunha. Por exemplo daquela vez em que a avó perdera o cordão
de ouro. Tanta aflição passada... Já pensava, inclusivamente, que alguém lho roubara.
Mas quem? Foi quando lhe pediu para a acompanhar na reza do responso. E não é que o
cordão apareceu, caído atrás do baú, onde a avó já o tinha procurado?
Francisco emergiu destas recordações tão longínquas e fixou de novo o olhar nas suas
laranjeiras. Se o avô Francisco as pudesse ver... O avô Francisco e a avó Laura... A avó
com o lenço puxado sobre o rosto, rosto marcado por sulcos muito fundos, parecendo
rios a correr para o mar. E os leitos dos rios não se foram cavando devido à erosão, pela
água a correr? Ora pelos sulcos do rosto da avó Laura também correu muita, muita água,
pela morte do seu filho, filho único, engolido por outras águas, as daquele rio que é ao
mesmo tempo pai e padrasto. E os sulcos no rosto do avô Francisco? Esses não deviam
ter sido feitos por lágrimas porque o avô Francisco não chorava. Um homem nunca
chora, dizia ele. Mas Francisco lembra-se perfeitamente de uma vez, lá junto ao Rio, no
sítio onde eles desaparecerem,         ter visto duas lágrimas a rolar pelo rosto do avô
Francisco.
       Está a chorar avô?
       Não, meu rapaz, um homem não chora. Acontece que me entrou um argueiro
       para o olho.
Era assim o avô Francisco. Manso como um cordeiro, terno como um menino, mas
revestido de uma forte carapaça como um cágado.
O avô Francisco e a avó Laura foram mais que os seus avós, foram também os seus pais.
Sim, porque os verdadeiros, esses não os conheceu. Morreram afogados no rio, num dia
em que se dispunham a atravessá-lo para ir cuidar de terras lá na outra margem. O céu
negro anunciava uma trovoada a montante. De repente o rio engrossou e engoliu tudo, a
eles e à montada em que seguiam. Nunca foram encontrados. Não é que Francisco se
lembre de nada disto. Era criança de berço quando tudo aconteceu. Desde que guarda
memória das coisas, só se lembra de viver com o avô Francisco e a avó Laura. Dos pais,
nem uma foto. Se fosse hoje, havia a fotografia do baptizado, do casamento, e tantas,
tantas outras. Mas naquela altura só a gente rica tinha por hábito tirar fotografias. Por
isso, nem uma. Se ao menos houvesse uma imagem a que se agarrar. Do pai, diziam-lhe
que era parecido com o avô Francisco, mas o avô Francisco já era velho, tinha o rosto
sulcado de rugas e ele não conseguia imaginar o avô Francisco, com a idade que teria o
pai se o rio não o tivesse engolido.
Da mãe diziam-lhe que era muito bonita. Ora bonita, bonita, era a Srª Professora. Será
que a mãe era assim bonita? O avô Francisco dizia que era muito mais bonita, mas
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Francisco tinha dificuldade em imaginar uma mãe mais bonita que a senhora professora,
para ele a mulher mais bonita que conhecia.
A Srª professora... Ainda se ao menos ela os tivesse conhecido. Ela explicava tudo tão
bem, que por certo os descreveria de tal forma que era como se Francisco os pudesse
ver. Mas não. Chegara à aldeia cinco anos depois do acidente.
Uma vez falara-lhe da sua vontade de aprender a mergulhar para ir lá ao fundo ver se
eles lá estavam. Ainda hoje recorda as palavras da senhora professora.
       E se fores e não os encontrares? Deixas de poder sonhar com isso. A vida é um
       pouco cheia de sonhos e ilusões. Tu assim podes imaginar os teus pais, muito
       bonitos tal como me dizes . Podes imaginá-los lá no fundo do rio, ou em qualquer
       outro lado. Mas se fores procurá-los e não os encontrares essa parte do sonho
       esfuma-se e desaparece. A vida é tanto mais bela, quanto mais povoada de
       sonhos estiver.
Por isso, mesmo depois de aprender a mergulhar, Francisco não tentou ir lá ao fundo
ver se os via, de início, porque temia perder o seu sonho, mais tarde porque talvez
tivesse deixado de sonhar.
Em boa verdade Francisco nunca deixou de sonhar. Tinha sempre um sonho a que se
agarrar.
Porque razão resolvera recordar tudo aquilo? Por um lado era bom recordar mas, por
outro, ficava com aquele nó na garganta. Ao menos tinha as fotografias do avô Francisco
e da avó Laura que podia rever sempre que a sua memória o quisesse trair num ou
noutro ponto.
Foi num dia de feira. Teria ele os seus 12 anos. Tinha ido com os avós à feira vender um
cevado. Viu o fotógrafo com a máquina e tanto pediu aos avós que tirassem o retrato
que eles acabaram por lhe fazer a vontade. Lá estão os dois e ele no meio. Os avós com
o traje domingueiro; a avó com o xaile de merino e as arrecadas nas orelhas; o avô com
o seu capote. E ele ? Com o seu boné de abas sobre as orelhas, por causa das frieiras.
Foi também nessa feira que conheceu Luísa.
Nesse dia escreveu no seu diário:
       Hoje o avô e a avó tiraram o retrato na vila. Quando eu for grande, se eles já
       tiverem morrido, mostro o retrato aos meus filhos. Lá na feira, vi uma menina
       muito bonita; sei que se chama Luísa porque ouvi os pais chamarem por ela. Se
       calhar a minha mãe, quando era pequenina era assim bonita como ela. Quando
       for grande hei-de casar com a Luísa..
E assim começou mais um sonho de Francisco.
Depois do dia daquele primeiro encontro,       de que ficou o retrato para a história,
Francisco encontrou outras vezes Luísa na feira. Mas foi só alguns anos mais tarde que
lá, junto ao Rio, com a Lua por cúmplice, viveram a sua primeira noite de amor que ele
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jamais esqueceria. Nessa altura, do avô Francisco e da avó Laura só já restavam a foto,
as lembranças e a herança que lhe deixaram-       meia dúzia de terras e a casa com a
cortinha.
Como o avô adorava aquela cortinha! Pequenina, mas nela havia de tudo, até o pomar
de laranjeiras de que o avô tanto gostava.
       Nunca te desfaças da casa e da cortinha, pedira o avô pouco antes de morrer .
Mas a vida por vezes é tirana e obriga-nos a trair a nossa vontade.
Depois daquela noite de amor junto ao Rio, Francisco foi falar com o Sr. Padre que
aceitou casá-los. Mas não consentiu que Luísa fosse vestida de noiva, nem tão pouco
com flor de laranjeira. Casou-os bem cedo, num altar lateral da Igreja; não no altar-mor
como casava as raparigas supostas ainda virgens. E essa mágoa, Luísa guardou-a até ao
fim da vida.
Não tiveram viagem de núpcias nem tão pouco sabiam na altura o que isso era, mas
Luísa teve aliança e, naquele tempo, nem todas as mulheres se poderiam orgulhar de ter
uma.
Depois vieram os filhos e as dificuldades. Francisco sabia que ficando na terra só poderia
proporcionar aos filhos uma vida de trabalho e pobreza. Um dia, encheu-se de coragem,
vendeu tudo, incluindo a casa e a cortinha e foi para a cidade para assim poder educar
os filhos. Trabalharam arduamente e conseguiram alcançar o objectivo       mas Francisco
não conseguia eliminar do peito aquela dor imensa de não ter satisfeito a última e única
vontade do avô. E as suas palavras ressoavam continuamente na cabeça de Francisco.
       Nunca te desfaças da casa e da cortinha.
Por isso, mesmo após o filho mais novo ter acabado o curso, Francisco e Luísa
continuaram a trabalhar, por vezes para além do limite das próprias forças. Os filhos não
conseguiam entender toda esta labuta, mas Francisco perseguia mais um sonho -
conseguir reaver a casa e a cortinha, fosse por que preço fosse. E agora ali está ele, à
janela da casa, deliciando o olhar no seu pomar de laranjeiras. Os filhos aparecem por
vezes mas é no neto mais novo, que herdou o nome do avô, que Francisco deposita
todas as suas esperanças. Desde bem pequenino,         que para ele    não existe melhor
prémio que uns dias passados com os avós. Agora só com o avô, porque a avó, partiu
há um ano, vencida por tantos anos de luta e sem que Francisco pudesse ter
concretizado mais um dos seus sonhos- partir com Luísa numa viagem inesquecível que
seria como que uma viagem de núpcias adiada 50 anos...
Que falta eu sinto de ti    Luísa, murmura Francisco. A tua morte abalou-me muito. Já
antes as dos meus avós, mas essas já lá vai muito tempo, embora ainda hoje me façam
doer a alma. E houve aquelas que não senti como perdas, porque não se pode perder
aquilo que não nos lembramos de ter tido.      Senti-as doutro modo, precisamente pela
falta de algo que nunca soube verdadeiramente o que era. Não que os meus avós não
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me tivessem dado todo o afecto do mundo, mas tive sempre muita pena de não ter
conhecido os meus pais.
Francisco emerge destes pensamentos e olha de novo as laranjeiras carregadas de
frutos.    Decide ir até à cortinha. Senta-se no banco de pedra, onde tantas vezes se
sentara ao lado do avô. É Inverno, mas faz Sol; aquele Sol que não aquece o corpo, mas
aquece a alma. Francisco sabe que é Sol traiçoeiro. A Avó bem lhe dizia:
          Acautela-te com o Sol de Inverno que traz o diabo na alma .
Mas Francisco esquece as recomendações da avó e deixa-se enredar nas teias do demo.
Quando dá por si, lá estão eles, a seu lado no banco. O avô, a avó e Luísa, vestida de
noiva. Francisco vê que lhe falta a flor de laranjeira e vai cortar um ramo ali mesmo, no
pomar. Mas o Sr. Padre aparece e diz que assim não os pode casar. Luísa fica muito
triste. E é o Sol, que afinal não é o demo mas Nosso Senhor em pessoa, quem aparece e
diz: Caso-vos eu que tenho mais poder que todos na Terra, e há-de ser no altar-mor. E
Luísa fica muito feliz, com o seu ramo de laranjeira. Então Francisco dá-se conta da
presença da Srª Professora. Curioso, não se lembra de a ter convidado, mas fica muito
satisfeito com a sua presença. E aparece o fotógrafo. Monta a máquina mas Francisco
diz para ele esperar pois eles ainda não chegaram. E pede à avó Laura que reze com ele
o responso a Stº António
          Se milagres desejais recorrei a Stº António, vereis fugir o demónio e as tentações
          infernais. Foge o erro, a peste, a morte, o fraco torna-se forte, torna-se o enfermo
          são, recupera-se o perdido, rompe-se a dura prisão e no auge do furacão cede o
          mar embravecido. Todos os males humanos se moderam, se retiram, digam-no
          aqueles que o viram e digam-no os …….
Nesse momento o          Sr. Padre lembra-lhe que     não pode falar nos paduanos, não vá
Santo António não gostar. Sto António não é de Pádua, é de Lisboa. Francisco tem que
acabar o responso mas não tem sentido dizer lisboanos, e por um momento fica aflito.
Se não acaba o responso,        StºAntónio   não pode fazer o     milagre. Mas de repente a
solução surge e o responso termina.
          E digam-no os que aqui estamos.
E nesse mesmo instante ouve-se o marulhar das águas no rio, que estava ali mesmo ao
lado e em que ninguém tinha ainda reparado. Então Francisco mergulha e vai lá bem ao
fundo e ao emergir todos vêem que atrás de Francisco vêm dois vultos que se
aproximam a nadar. E Francisco no seu diário escreve simplesmente.
          Tal como eu suspeitava , eles estavam lá no fundo, bastava mergulhar para os
          encontrar. E são ainda mais bonitos do que eu imaginava.
E agora todos se apertam um pouco mais no banco, para dar lugar aos que chegam de
novo. E o banco parece que cresce. Dá para todos. E então o fotógrafo já pode tirar a
fotografia. E nesse     momento passa um veleiro no rio. Que estranho, Francisco nunca
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tinha visto um veleiro no rio, e vai cheio de gente que canta e Francisco fixa os olhos,
que pena a vista já falhar tanto, mas agora não tem dúvidas são eles, os filhos, os netos
os genros, as noras e lá vão eles ao sabor da vida que não pára tal como as águas do rio
não param de correr. Ao longe e apesar da falta de ouvido, ainda consegue distinguir a
voz do neto Francisco.
       Podes ir viajar com a avó Luísa, fazer a viagem de núpcias que sempre desejaste
       fazer. Vai tranquilo que eu cá fico a cuidar da casa e da cortinha.



Prefácio ......................................................................................... 2

Debaixo dos sobreiros ................................................................... 5

O diário de Sara........................................................................... 63

Flor de laranjeira ....................................................................... 109




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Estórias com sabor a nordeste

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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Prefácio No Prefácio de “O Fogo e as Cinzas” Manuel da Fonseca diz: Ficção constrói-se com o que fica do passado. Revive-o. É um pouco esse reviver do passado, de uma vida de mais de meio século, que emerge em Estórias com sabor a Nordeste. As personagens podem ter sido inspiradas por personagens reais que conheci no Nordeste Transmontano, mas também em tantos outros lugares por onde tenho passado e /ou viajado, por personagens reais ou imaginárias de que ouvi falar à volta da lareira, nos serões ainda iluminados à luz do petromax, ou simplesmente por personagens que entram em nossas casa através dos jornais, do ecrã da televisão, dos livros que lemos. Também os cenários, embora virtuais, são inspirados em locais reais. Não será difícil reconhecer no Rio, o rio Sabor, que Stº Estêvão teve como inspiração o Stº Antão da Barca, que a Terra nos transporta para a freguesia de Parada e que a Vila teve como inspiração Alfândega da Fé. Com cenários e personagens fui construindo estórias, ou melhor, recriando histórias e estórias que foram passando, algumas de geração em geração, quem sabe, “assopradas” pelo vento cieiro…. Mas porquê esse reviver do passado? Um dos meus passatempos favoritos é, desde criança, a leitura O gosto pela leitura foi- me incutido principalmente pelo meu pai. Desde sempre me lembro de o ouvir ler-me excertos de textos ou poesias (Camões, Guerra Junqueiro, Júlio Dinis, Camilo, Victor Hugo…) . Não sei se lia bem ou mal, sei que ouvi-lo me fascinava e comovia ao mesmo tempo. Um dia decidi aventurar-me na escrita, que foi secreta até há cerca de três anos. Em 2000 tinha sido editado, pela mão da Areal Editores, um livro da minha autoria “ Se eu não fosse professora de Física. Algumas reflexões sobre prática lectivas” Um dia, a Drª Maria do Carmo Cruz, em conversa, disse-me que já tinha oferecido o meu livro a várias pessoas. Fiquei um pouco intrigada. Por que razão uma pessoa licenciada em Germânicas, oferecia um livro que falava do percurso e da experiência de uma 1 professora de Física? A resposta vou buscá - la directamente a um texto seu: E uma obra sua explicando como se tinha tornado professora, entretanto publicada, mostrava como a sua prosa era igualmente poética. Não podia deixar de lhe perguntar por que não escrevia Poesia…..:" E quem lhe disse que não escrevo? " Tinha que a ler e em breve tive o prazer e a honra de ter em mãos os seus escritos. Li-os com um certo 1 (Extractos do texto de apresentação da autoria da Drª Maria do Carmo Cruz e que consta da colectânea Tempera(Mental), na qual foram incluídos seis poemas meus) 2
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia espanto: eram tão reais, falavam das coisas de todos os dias e, ao mesmo tempo, mostravam-nas de uma forma que nos permitia vê-las como se pela primeira vez. É, pois, em primeiro lugar, à Drª Maria do Carmo Cruz que devo o ter ganho coragem para dar a conhecer a minha escrita. Comecei por participar em duas colectâneas de poesia e por fim decidi-me a publicar sozinha. Foi assim que surgiu, em 2002, o meu primeiro livro de poemas “Reflexões e Interferências”, em co-edição com a Editora Palavra em Mutação. Incentivada pela aceitação que os meus poemas tiveram, muito para além daquilo que eu esperava, ganhei coragem para continuar a escrever/publicar poesia e dar a conhecer a prosa. È assim que surgem Estórias com sabor a Nordeste. Poderá parecer estranho que tendo começado a publicar tão tardiamente, surjam agora várias publicações próximas no tempo A explicação, se é que existe, talvez possa ser encontrada num poema de Manuel Alegre. …. E no entanto o tempo agora é de corrida contra o tempo se corre contra o tempo contra o tempo se corre e assim se morre em frente ao mar olhando a desmedida distância entre a tão curta vida e o amor dela….. e todo o tempo agora é contra o tempo e mesmo sem correr só há corrida. (Canção do tempo que passa, in Alegre, A.(2001), Livro do Português Errante, D. Quixote) Porto, 12 de Abril de 2004 3
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia À memória: • de meus pais, muito em particular à de minha mãe, • dos meus tios Cândida, António e Júlio. Ao Fernando, a minha segunda memória, ao Miguel, ao Nuno, à Teresa e à Rita. Ainda aos meus irmãos e à memória duma nossa antepassada castelhana que inspirou uma das personagens que atravessam estas estórias 4
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Debaixo dos sobreiros Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. Miguel Torga , em “ Um Reino Maravilhoso” 5
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Esta é a estória de uma família. Dela existem vários testemunhos. Alguns são tão simples como um lenço bordado, um hissope ou uma luva desgarrada, mas há dois que se destacam: a CASA e o chão debaixo dos sobreiros. Chamo-lhe estória porque as personagens são fruto da imaginação. Isso não impede, porém, que esta família tenha a sua árvore genealógica. 6
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia 1 Meu pai tinha fama de aventureiro. Quando novo, viajara por três continentes, em situações por vezes rocambolescas. No entanto não foi esse aventureiro que eu conheci mas sim um homem sem a mínima vontade de sair para qualquer lado. Era lá na TERRA que ele se sentia bem. E acontecia o mesmo com os seus irmãos. Referiam-se sempre à aldeia como a TERRA e quando falavam dela era de uma forma tão enlevada que me confundia. Apercebia-me quando o meu pai tinha que se ausentar por uns dias; ficava ansioso, tenso e no seu olhar, sempre expressivo, eu notava inquietude que por vezes me parecia insegurança. Quando regressava a nossa casa, a tranquilidade regressava ao seu olhar e dizia: Há lá dinheiro que pague esta paz. Lembra-me a CASA. Sempre que o meu pai ou os meus tios se referiam à casa que tinha sido dos avós e depois dos pais, chamavam-lhe a CASA. Por vezes o meu pai acrescentava: Daqui só para debaixo dos sobreiros. Referia-se deste modo ao cemitério, que está rodeado de sobreiros. Também os meus tios tinham uma relação singular com o cemitério. O TIO, que vivia em Lisboa, sempre que vinha à TERRA dizia: Não se esqueçam que eu depois quero vir para debaixo dos sobreiros. Creio ter entendido esta relação com o cemitério muitos anos mais tarde. A sepultura da família ficava mesmo em frente ao portão. Quando o cemitério se tornou demasiado pequeno, foi preciso ampliá-lo. Nas obras de ampliação foi incluída a criação de uma “alameda” central, pelo que o jazigo teve que ser mudado. Nessa altura já o meu pai e o TIO estavam suficientemente esclerosados para poderem tomar qualquer decisão; coube à TIA escolher o local para onde a campa deveria ser mudada. Achou que era importante consultar-me bem como aos meus primos, filhos do TIO. Para nós era indiferente a nova localização da campa, mas a TIA queria a nossa opinião. A seu pedido, acabei por me deslocar à TERRA. Indicou-me os lugares por que poderíamos optar e quando sugeri um deles a TIA disse: Não. Os vizinhos do lado direito não são lá muito boa gente. A uma outra sugestão, ripostou: Aí ? Tão ensombrado ? Não, tem que ser um lugar mais soalheiro. Percebi então que a TIA tinha uma concepção muito própria sobre a vida depois da morte e admiti que essa concepção seria comum aos irmãos. Para eles, “debaixo dos sobreiros”, deveria representar em morte, o mesmo que a CASA representara em vida. Debaixo dos sobreiros está toda a família: os meus avós Álvaro e Marta, os irmãos desta, os meus tios Clara, Pedro e Adélia, os meus pais, o TIO, a TIA e o marido - o tio Justino. A tia Laura, mulher do TIO, alfacinha de quatro costados, essa quis ser sepultada no 8
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia jazigo da família, no Alto de S. João. Debaixo dos sobreiros estão também os meus bisavós: Isabel Castelhana e Luís Engrácio. Foram eles os primeiros a ocupar o jazigo. 2 Nunca conheci os meus bisavós mas a sua história sempre me fascinou. A minha bisavó terá chegado a Portugal, juntamente com um irmão, por volta de 1865. Eram refugiados políticos. Durante quase todo o século XIX a Espanha viveu uma terrível convulsão política muitas vezes caracterizada pela brutalidade. Por volta de 1830 opõem-se duas facções rivais- cristinistas e carlistas. Os primeiros apoiam a terceira esposa de D. Fernando, Maria Cristina, regente do Reino em nome de sua filha Isabel II; os segundos apoiam D. Carlos, irmão do rei. As guerrilhas carlistas prolongar-se-iam até quase finais do século XIX. Não sei qual das facções a minha bisavó e o irmão apoiavam, apenas sei que se chamavam Isabel e Diego e tinham como apelido, Rodriguez. Parece que terão vindo de Castela, pelo que a minha bisavó foi sempre conhecida por Isabel Castelhana. Os dois irmãos ter-se-ão disfarçado de sombreireiros. Como da arte não percebiam nada, sempre que em alguma terra por onde passavam alguém lhes pedia para consertar um sombreiro eles alegavam ter pressa pois tinham de chegar ainda com dia ao lugar do destino. Num dia frio de Dezembro, terão chegado famintos e cansados às margens do Rio, precisamente quando Luís Engrácio varejava uma das quatro únicas oliveiras que tinha herdado de seus pais, numa nesga de terra, junto ao Rio, num local designado por Zimbro. Luís Engrácio era ainda jovem (23 anos), mas já marcado por uma vida de trabalho. Ficara órfão de mãe aos 6 anos e de pai aos 10. Dos seus pais herdara apenas a nesga de terra no Zimbro, o casebre onde vivia e a alcunha por que era conhecido. O seu nome era Luís Pereira, mas como a mãe se chamava Engrácia, foi sempre conhecido pelo Luís Engrácio. Luís Engrácio tinha as mãos engaranhadas com o frio pelo que resolveu acender uns guissos para as aquecer. Foi nesse momento que viu surgir Isabel e Diego. Boas tardes nos dê Deus. Queçam-se aí - terá dito. Foram estas as primeiras palavras que aquele que seria o meu bisavô Luís Engrácio dirigiu àqueles que viriam a ser a minha bisavó Isabel Castelhana e o meu tio bisavô Diego Rodriguez. O frio, o cansaço e a fome eram tantos que Isabel e Diego devem ter esquecido o pavor que sempre os assaltou pelo caminho - serem identificados, denunciados e apanhados pelas hostes da facção rival. Em silêncio chegaram-se à beira do simulacro de fogueira. Comeram ainda da parca merenda que Luís Engrácio levara com ele- um cibo de pão com azeitonas e cebola. Casebre que chega p´ra um, chega p´ra três. Passados tantos dias, Isabel e Diego tiveram algo parecido com um tecto para se acolherem, numa aldeia transmontana que 9
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia nunca tinham sonhado conhecer e a que mais tarde os seus netos chamariam a TERRA. A presença dos dois irmãos, falando arrevesado, levantou uma onda de curiosidade na aldeia à mistura com alguma suspeita. Seguiu-se-lhes mais tarde um misto de admiração e respeito, em boa parte graças à estima que todo o povo tinha por Luís Engrácio. Mas ao povo, não parecia bem Isabel estar a viver no casebre de Luís. Isabel, decidida dizia: Hombre, que hay! Yo no estoy haciendo nada de malo. Não sei se para calar as bocas do povo, se para arranjar quem lhe fizesse o caldo, se por amor, ou se por ter descoberto que Isabel e Diego tinham conseguido trazer com eles ouro e dinheiro, Luís Engrácio resolveu casar com Isabel. Na época, um homem para casar deveria envergar um capote, mas Luís Engrácio não tinha dinheiro para comprá-lo. Isabel pretendeu oferecer-lho mas Luís não aceitou. Enquanto não casarmos o dinheiro é só teu. Foi assim que o Padre Pimentel casou Isabel Rodriguez com Luís Engrácio, este de capote emprestado. Os padrinhos foram Diego Rodriguez e Maria Clemente que mais tarde viria a casar com Diego. Luís Engrácio era um homem habituado ao trabalho; o ouro e o dinheiro de Isabel deram uma ajuda. A nesga de terra no Zimbro começou a aumentar, por compra das terras vizinhas. O número de oliveiras crescia. Juntavam-se-lhe agora amendoeiras, sobreiros, laranjeiras, vinha, terras de pão, hortas e lameiros. Isabel cria bichos da seda e Luís Engrácio abelhas. São agora um casal de lavradores abastados. Engrácio fala com orgulho de Isabel. É uma mulher sabida- referia, querendo significar que a mulher não era analfabeta. Nunca passara pela cabeça de Luís Engrácio, analfabeto, ter um dia uma mulher que tão bem soubesse ler, escrever, e fazer contas. O casebre, esse já há muito que dera lugar à CASA. 3 A transformação do casebre em casa foi gradual. Disso são bem evidentes as escadas que sobem e descem para os mais variados compartimentos e o passadiço sobre a canelha. Também não restam dúvidas que a primeira parte da casa a ser construída foi a cozinha. Trata-se de um compartimento muito amplo a que se tem acesso da rua, por umas escadas de xisto, com corrimão de madeira. Ao cimo das escadas existe o balcão a que se segue uma porta com um postigo. Num dos cantos da cozinha tínhamos o lar. Ao lar tinha-se acesso por uma portinha de madeira que se prolongava por um conjunto de escanos que rodeavam a lareira propriamente dita. Em dois dos escanos havia 10
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia preguiças2. Um dos escanos estava encostado a uma parede e em frente a ele existia um outro, de costas muito altas, por trás das quais funcionava, por baixo a cantareira onde se colocavam os cântaros da água e por cima o louceiro. Provavelmente terá sido esta a primeira versão da CASA. Posteriormente o meu bisavô terá comprado alguns casebres contíguos e a casa foi crescendo. Num dos lados da cozinha abriram-se duas portas que dão acesso a um quarto e a uma sala com varanda para a rua; construíram-se ainda duas escadas: uma que dá lugar ao forro - designação dada ao sótão- e outra que dá acesso a um quarto a um nível ligeiramente inferior e que foi, durante muito tempo, o quarto dos bichos da seda. Mais tarde, do outro lado da cozinha construíram-se umas escadas que davam acesso a três quartos, a um nível ligeiramente superior. Um desses quartos constitui o passadiço sobre a canelha debaixo do qual ficavam a lenha e os carros. Em baixo, a loja (dos bois, dos machos, do cavalo e do burro), a adega, o pio do vinho, o cortelho dos porcos, o forno e o galinheiro. Não sei ao certo quantos anos mediaram entre o casamento dos meus bisavós e o nascimento da primeira filha- a minha avó Marta, mas quando a minha avó nasceu o casebre já tinha dado lugar à CASA, provavelmente não na sua versão final, mas pelo menos na sua primeira etapa de construção. A seguir à avó Marta nasceram mais três filhos - o João que morreu ainda menino, e de quem o meu pai viria a herdar o nome, a Matilde e o Afonso. O meu pai foi o primeiro neto dos meus bisavós. Com eles viveu em criança. Com eles, com a tia Matilde, o tio Afonso e os criados Pepe, António e Artúrio, que substituiu António quando este morreu. Pepe e António eram galegos e se alguém quisesse ver a minha bisavó zangada era dizer-lhe que os criados eram da sua terra. Hombre, yo soy castellana, no gallega. Pepe fumava muito e tinha com o tabaco uma relação quase sensual. O meu pai ficava fascinado ao vê-lo enrolar a mortalha para fazer um cigarro. Uma vez deu um a fumar a meu pai, tinha ele oito anos. Ficou tão mal disposto que tossiu e vomitou o dia inteiro. Ficou vacinado para toda a vida. Nunca fumou. Por isso dizia que tinha ficado a dever um favor a Pepe. Artúrio era da TERRA e o seu nome era Artur. Foi a mãe, por não saber dizer o nome, que lhe criou a alcunha. O Artúrio fazia os piões com que o meu pai brincava. O Artúrio e também o tio Afonso com quem o meu pai sempre manteve uma relação no mínimo, ambivalente. Penso que o meu pai via o tio Afonso mais como um companheiro mais velho, do que como tio. Lembro-me de discutirem muitas vezes, a ponto de ficarem incompatibilizados temporariamente. O tema podia ser política, futebol, religião, agricultura, ou qualquer outro, mas se era dia de dar para o torto, tínhamos discussão pela certa. Por vezes o tio Afonso terminava aos berros. 2 tábuas que giram em torno de um eixo e podem funcionar como mesas de apoio 11
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Lembra-te de que eu sou teu tio. O fascínio do meu pai pela CASA e pela TERRA vinha desde aquela fase da sua vida, quando menino. Gostava de recordar os cheiros, as cores, os gostos: do pão acabado de fazer, do mel, das compotas no Outono, das torradas (de unto e de azeite, no lagar), do fumeiro (as alheiras, os salpicões, os bulhos, as chouriças, os chouriços doces com mel e amêndoa), das sanchas, das rocas e dos roquelhos guisados, dos míscaros assados na brasa, dos espargos fritos com ovos, das doçarias de Natal (as rabanadas, as filhoses, os milhos, o arroz doce, a aletria, os fritos de jerimum), dos folares na Páscoa (os de carne e os doces), das sopas de tomate da tia Matilde, das casulas com bulho, do leite das cabras acabadas de ordenhar, do queijo, do soro, da coalhada e dos requeijões, das “tortillas”, das “empanadas”, dos “gaspachos” e das “yemas bentas” da avó, das frutas ao longo de todo o ano (no Outono as peras, as maçãs, as romãs, os diospiros, os medronhos; no Inverno e na Primavera, as laranjas; em Junho as amoras de amoreira, as cerejas, as ginjas, os figos lampos, os pêssegos de S. João, as malapas; no Verão as amoras de silva, os melões, as melancias, os figos, as uvas). Gostava de recordar os sons: do toque a rezar3, da escacha da amêndoa, do crepitar da lenha na lareira, do chiar dos carros de bois e do passar dos machos na rua, dos homens a pisar o vinho, do ferrador a ferrar os machos, do ferreiro a malhar o ferro, dos sinos da Igreja na Páscoa e nos casamentos, das vozes na rua ao lusco- fusco, do azeite a estalar nas sopas de xis, do chiar do porco na matança, do cantar do cuco na primavera. Gostava de recordar os animais: os bois (o castanho e o manso), os machos (o carriço e o amarelo que faziam brrrrrrrrrr na loja, por baixo do seu quarto), os porcos e os leitões no cortelho, as galinhas, os perús e os galos no galinheiro, o gato Simeão e a gata Baronesa, o cão preto e o cão grande, as andorinhas que faziam os ninhos debaixo da varanda da sala. Gostava de recordar as suas brincadeiras de menino: pendurado nas engarelas dos carros, jogando ao pião, à rodinca e ao espiche, trepando às árvores para apanhar os ninhos, apanhando formigas de asa para montar as costelas aos pássaros, trincando o carambelo nos dias de muito frio, correndo atrás das canas dos foguetes na festa de Sto Estevão. Gostava de recordar os rituais, particularmente o da matança do porco. Gostava de recordar a feitura do pão, do fumeiro, dos folares, do queijo, do azeite, do vinho, da aguardente e do sabão com soda e borras de azeite. O seu amor à TERRA foi-lhe incutido, antes de tudo, pelo avô que ele adorava. Nunca ia ao Zimbro que não dissesse com os olhos rasos de lágrimas: 3 toque das Trindades 12
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Quantas vezes vim aqui com ele. Aos doze anos eu já sabia podar, enxertar, crestar. A sua relação com a avó era mais distante. Quando lhe perguntava por que razão tinha vindo de Espanha ela, que nunca se acostumou a dizer o seu nome em português, respondia: Juan, no me gusta hablar de eso. Dela lembrava essencialmente que lhe ensinou as primeiras letras e que era quem o castigava quando fazia tolices. Quando era castigado, o avô sofria mais que ele. Quantas vezes, ao sair para o campo voltava atrás e dizia: Isabel, tu não ralhes com o menino. Quando o meu pai tinha doze anos, morreu o meu bisavô e logo depois a minha bisavó. Dizia o meu pai que morreram de desgosto com a morte da tia Matilde. A tia Matilde era, no dizer de meu pai, a rapariga mais bonita das redondezas, mas era doente. Tinha um problema de coração. Aos 19 anos começou a namorar com Luciano Almeida, um jovem da aldeia. Consciente da sua doença, resolveu ir consultar um médico ao Porto, onde minha avó Marta vivia com o meu avô Álvaro, ajudante de escrivão de Finanças. A viagem era penosa. O meu bisavô levou a tia Matilde, a cavalo, até ao Pocinho para apanhar o combóio. No Porto, era suposto estar o meu avô na estação, à espera da cunhada. O meu avô não pôde ir pelo que pediu a um colega que lhe fizesse esse favor. A tia Matilde ficou muito aflita quando não viu o cunhado e mais ainda quando se viu acompanhada por um desconhecido numa terra, que só pelo tamanho já era de si assustadora. Fosse pelo cansaço da viagem, fosse pela angústia da chegada, no dia seguinte à mesma, a tia Matilde faleceu com um ataque cardíaco. A avó Marta, que estava grávida pela quinta vez, perdeu a criança e a tia Matilde, em vida, não chegou a regressar à aldeia para casar com Luciano Almeida. 4 A avó Marta casou com o avô Álvaro Matias em 1898. O avô Álvaro era de uma aldeia vizinha. Filho de um sapateiro analfabeto, teria sido um continuador do pai se o Padre Pimentel, pároco de várias aldeias, entre elas as dos meus avós, não se tivesse apercebido que o rapaz era muito inteligente e não tivesse convencido o meu bisavô a deixá-lo ir à escola. A aldeia de Álvaro não tinha escola pelo que percorria a pé todos os dias os 5 km que separavam a sua aldeia da TERRA. Fez com distinção o exame de segundo grau, que era assim que se chamava a quarta classe. A sua paixão era a leitura. À falta de qualquer livro em casa, um dia em que acompanhou o pai à feira, na Vila, com os poucos trocados que tinha amealhado, comprou um Borda d´ Água. De 13
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia tanto ler e reler as antevisões do tempo, os conselhos aos lavradores, as anedotas, já sabia de cor, quer os conteúdos, quer as páginas onde se encontravam. Cedo o pai se apercebeu de que o filho não tinha grande queda nem para a lavoura nem para a arte de sapateiro. Aos 15 anos mandou-o para o Porto. Aí tinha um primo que lhe arranjou o emprego de marçano numa loja de fazendas. Mais tarde, um cliente da loja, secretário de finanças, apercebeu-se das capacidades do rapaz e arranjou-lhe o emprego de ajudante de escrivão. Aos 28 anos o ajudante de escrivão de Finanças, regressou pela primeira vez a casa em gozo de férias. Resolveu ir à TERRA visitar o Padre Pimentel, agora já muito surdo e trôpego. Foi o Padre Pimentel que lhe sugeriu para esposa a minha avó Marta. Foi ainda o Padre Pimentel quem os casou, seis meses depois. O casamento foi por procuração pois o meu avô tinha regressado ao Porto e não era fácil deslocar-se à TERRA para casar. Passados dois meses a minha avó, aproveitando a companhia do farmacêutico da Vila que tinha que deslocar-se ao Porto, foi ter com o marido. No Porto nasceram os 4 primeiros filhos do casal - João, José, Clara e Pedro. Teriam sido cinco não fosse o aborto na sequência da morte da tia Matilde. A minha avó ficou grávida do tio José pouco tempo depois de meu pai nascer. Por isso, desde pequenino, e até à morte dos meus bisavós, o meu pai viveu com eles na TERRA. Após a morte dos meus bisavós, o meu tio avô Afonso continuou a morar na CASA, acompanhado do Artúrio que entretanto casara e vivia lá com a mulher, Zefa, e os dois filhos: o António Joaquim e a Germana. Quando o tio Afonso casou com a tia Teresa, filha única, os pais impuseram-lhe ir viver com eles. Mas Artúrio continuou a viver na CASA com a sua família, que entretanto cresceu com o nascimento da Balbina. Os meus avós raramente ali iam, pois naquele tempo a viagem do Porto à TERRA era difícil, especialmente com filhos pequenos. O meu avô sempre desejara aproximar-se da TERRA. Em 1915 conseguiu ser transferido para a Vila (era assim que era conhecida a sede do Concelho), onde nasceram Adélia e Matilde. A transferência do meu avô para a Vila permitia-lhe ir com frequência à TERRA. Na época da caça sempre que podia, lá estava caído. O meu avô era um grande caçador. O que ele gostava era de ir à perdiz mas também ia ao coelho, à lebre, às rolas, aos tordos. A minha avó, no Outono, por altura de fazer as compotas, no Inverno, por altura de fazer o fumeiro e na Páscoa, época de folares, mudava-se de armas e bagagens par a CASA e aí permanecia por um tempo cada vez mais dilatado. Por esse tempo já a CASA pertencia aos meus avós. Com a reforma do meu avô em 1932, a família regressa definitivamente à CASA que vai continuar a partilhar com os filhos do Artúrio, o António Joaquim, a Germana e a Balbina que se encarregam fundamentalmente das lides do campo. Nesta altura, apenas a TIA vivia com os pais. O TIO, que entretanto tinha cumprido o serviço militar, ingressara na força aérea e casara com uma jovem de Lisboa. O meu pai, dedicava-se a explorar o 14
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia mundo. Isso até 1934. Em 1935 a TIA casa com o tio Justino, rapaz da aldeia que era funcionário público em Viana do Castelo. Todos os Natais, quase sempre na Páscoa, e na altura das vindimas, a TIA e o tio Justino regressavam à CASA. O TIO, nem sempre, e quando ia, ia só. A tia Laura foi apenas três vezes à TERRA, duas delas para dar a conhecer aos avós os meus primos Afonso e Gonçalo e a terceira no casamento da TIA. Dos meus tios só conheci a tia Matilde e o tio José, a quem sempre chamei simplesmente TIA e TIO, e os respectivos cônjuges. Os outros morreram cedo: o tio Pedro, em menino, com a pneumónica, a tia Clara e a tia Adélia, na flor da idade, tuberculosas. Também não conheci os meus avós. A minha avó faleceu em 1936 e o meu avô em 1938. Deixaram aos filhos a CASA praticamente como a tinham recebido dos meus bisavós. Apenas lhe tinham sido introduzidas três pequenas alterações: uma delas consistia numa espécie de quarto de banho, com uma sanita em madeira que dava directamente para a loja dos machos; as outras duas consistiam em dois nichos (a que na CASA chamavam pilheiras), um grande e um pequeno, numa das paredes da varanda e quatro cabides, um pouco toscos, numa das paredes da cozinha. O nicho maior destinava-se a colocar o jornal e o livro que o meu avô estivesse a ler, o outro destinava-se à caixinha do rapé. Soube da função dos nichos pelo António Joaquim, que mantendo a tradição de família viveu sempre na CASA. Foi também por ele que soube da função dos cabides. Cada cabide era para seu capote. O do seu avô, o do seu pai, o do seu tio e o do Sr. Padre Marcos que vinha todas as noites para conversar com o avô. O do seu pai, pouco usado por ele, foi depois destinado ao seu tio Justino. 5 O casamento da TIA com o Tio Justino não foi, de início, motivo de grande alegria para os meus avós. Não que não gostassem do tio Justino. Antes pelo contrário. Se há homem bom está ali- dizia a minha avó. Mas o casamento iria implicar longas separações e a CASA já estava muito vazia. Talvez pressentindo isso, a TIA, após o casamento, foi adiando sucessivamente a sua ida para Viana. O tio Justino vivia numa pensão e vinha à Terra sempre que lhe era possível. Com a morte da minha avó, em 1936, a ida da TIA para Viana ficou ainda mais complicada. Como deixar o pai, para mais tão combalido depois da morte da mãe? O tio Justino lá se ia resignando a continuar a viver no quarto da pensão, vindo à TERRA sempre que podia. E foi assim até à morte do meu avô em 1938. Só então a TIA se decidiu a acompanhar o marido. 15
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia O tio Justino era de facto um homem bom. Coxeava um pouco de uma perna na sequência de uma tuberculose óssea, mal curada em menino. Por vezes tinha muitas dores mas não se impacientava. Nunca o vi zangado. O meu pai comentava: Só mesmo a paciência do Justino para aturar a ranzinza da minha irmã. A paciência do tio Justino manifestava-se nas mais pequenas coisas. Era sempre ele que deitava a canela no arroz doce. Começava por fazer, num papel, um estudo do desenho que queria fazer no prato. Depois colocava a canela na ponta do cabo de um garfo ou colher que segurava com a mão esquerda, enquanto, com a mão direita dava pequeninos toques nesse mesmo cabo. Era um trabalho de minúcia mas cujo efeito era surpreendente. Nunca vi pratos de arroz doce mais bem decorados, e quem diz arroz doce diz aletria ou milhos. Foi ainda o tio Justino quem me ensinou a nadar no Rio. E que paciência ele teve que ter! Ainda hoje está dependurado de uma das traves da adega, o colete de placas de cortiça, ligadas entre si por tiras de pano, que ele construiu para as minhas lições. Eu adorava-o. A TIA era uma boa pessoa, sempre pronta a ajudar, mas o que ela dissesse era lei e ai de quem a contrariasse. Vivia sempre preocupada com a opinião dos outros. Cuidado que isso parece mal; o povo pode falar. Muito religiosa, explicava todos os factos invocando a intervenção divina. Se uma pessoa bondosa morria de repente, praticamente sem sofrimento, a TIA comentava: É que Deus não dorme e sabe muito bem quem merece a Sua protecção. Mas se outra boa alma morria depois de um longo sofrimento a TIA justificava: O Senhor escolhe os bons para os pôr à prova. A sua maior fé era em Sto Estevão para todos apenas o Santo- o padroeiro da Terra. A festa do Santo ocorre no primeiro domingo de Setembro, pelo que genericamente o dia é de Sol, geralmente intenso. Todos os anos a TIA comentava: Sto Estevão fez o milagre. Esteve um dia lindo. Só me lembro de ter chovido uma vez, na festa do Santo. Também dessa vez a TIA achou que tinha sido milagre. Foi um milagre e dos grandes. Aquela chuvinha serviu para assentar o pó. Creio que a TIA, após sair da escola, nunca leu qualquer outra coisa que não fossem missais, bíblias ou pagelas religiosas, que coleccionava, bem como terços. Já a colecção do tio Justino era de outra natureza. Coleccionava objectos relacionados com as lides do linho. Eram cardas, espadelas, maças, rocas, fusos, dobadoiras. Até o jipe teve que compartilhar o seu lugar na garagem, por baixo do passadiço da CASA, agora fechado, com um tear que comprou numa aldeia vizinha. Também coleccionava termos usados na TERRA, pelo que andava sempre com um bloquinho no bolso e sempre que ouvia uma palavra já em desuso ou mal pronunciada, lá ia ele anotá-la. Esta mania de procurar 16
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia coisas, fossem elas objectos ou palavras, levou a que o TIO lhe chamasse por brincadeira, o procurador. O TIO gostava de chamar as pessoas por alcunhas, algumas que só ele usava. A um filho do António Joaquim, que em criança passava a vida dentro de uma espécie de gaiola improvisada, idêntica ao que costumamos chamar de parques, chamou sempre Afonso VI. À TIA chamava-a de agulhinha porque o seu passatempo preferido era fazer renda, muito particularmente os panos de cinco agulhas. A mim, por ser um pouco irrequieta, chamava-me piãozinho. Mas a par destas alcunhas carregadas de ternura, havia as que, pela forma como eram ditas, faziam transparecer um sentimento bem diferente. Uma delas era “O Botas”, quando se referia a Salazar. Lembro-me das grandes discussões que havia entre o meu pai e o TIO, sempre por causa da política. O meu pai era salazarista e para se justificar invocava sempre o mesmo argumento. Eu saí daqui em 1919 e sei bem a bagunça que se vivia. Agora está tudo calmo. O TIO respondia-lhe então: Especialmente em Peniche e em Caxias. E a partir daqui a conversa subia habitualmente de tom e acabava quase sempre do mesmo modo. O TIO dizia-lhe: Não há pior cego que aquele que não quer ver. Ao que o meu pai respondia: Sim, sim tu falas, mas cagas no prato onde comes. Tenho vergonha de ser teu irmão. Isto tudo era da boca para fora pois se havia sentimento que o meu pai nutria pelo irmão não era o de vergonha mas o de orgulho, particularmente na sua bela carreira militar. As opções políticas do meu pai começaram a ficar um pouco abaladas após as eleições de 1958. O TIO conhecia Humberto Delgado com quem tinha trabalhado, e tinha por ele uma grande consideração que se reflectia na imagem com que o descrevia. Talvez por isso, o meu pai nutria alguma simpatia pelo General. Mas o seu voto foi, naturalmente, para o Almirante. No dia 14 de Maio de 1958, dia em que o general passou pelo Porto em campanha, o meu pai estava lá casualmente e viu. Por isso, quando foram anunciados os resultados das eleições de 8 de Junho, terá comentado: Aqui houve marosca. Isso, no entanto, não o impediu de continuar a elogiar o homem de S. Bento e a ter em lugar de destaque, na sua estante, o livro “Salazar na Intimidade”. Em 1960 o TIO é passado à reserva compulsivamente. Fui eu quem entregou ao meu pai a carta do TIO que trazia a notícia. O meu pai começou a ler a carta e eu fiquei ali à espera daquele trecho habitual: “Como vai o piãozinho ? Diz-lhe que já estou com saudades”. 17
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Mas não foi isso que ouvi. Vi o rosto do meu pai crispar-se e pela primeira vez ouvi-o dizer um palavrão na minha frente. Grandes filhos da puta. Não entendi a quem se referia, mas se usou o plural não se refere ao TIO, pensei, e saí de imediato sem que o meu pai desse conta. Creio, no entanto, que o maior golpe nas suas convicções políticas foi dado em 1965, quando o General foi assassinado. O TIO passava agora mais tempo na TERRA. Um dia, na varanda da CASA, pegou num jornal que se referia à morte do general, como tendo sido obra dos seus correligionários. Comentou em voz alta: A quem eles pensam que enganam? Quem o matou foi a “Pevide”. Como visse o meu olhar atónito o TIO achou que era tempo de eu abrir os olhos. Foi essa a primeira sessão de esclarecimento político que tive na vida. À noite, talvez um pouco para provocar o meu pai, comentei que fora a Pide a responsável pela morte do General. Esperava uma reacção violenta mas fiquei surpreendida quando ouvi o meu pai comentar com algum desalento : Já não digo nada. Não posso localizar a data em que “Salazar na Intimidade” deixou de ocupar a estante do meu pai, nem sei que sumiço o livro levou. O certo é que no espólio nunca apareceu. 6 Após a morte dos meus bisavós, o meu pai, com 12 anos, foi viver para o Porto com os pais e os irmãos (à data José, Pedro e Clara). Tinha feito o exame do primeiro grau com distinção, mas como o professor Bernardo tinha falecido, a TERRA ficara sem escola e os seus estudos tinham terminado aí. Era uma criança um pouco selvagem pois os cuidados disciplinadores da avó não tinham surtido o efeito desejado, face à complacência do avô aliada à cumplicidade do Pepe, do António, do Artúrio e da Zefa. A casa dos pais era uma casa cheia de regras. Horas para levantar, horas para deitar, horas para comer, horas para rezar, horas para ler, regras para estar à mesa. Tudo isto era demais para uma criança que nem sabia pegar nos talheres. A sua vida, até aí despreocupada, transformou-se num inferno. Por um lado os castigos do pai quando alguma regra era infringida, por outro a chacota dos irmãos para quem era praticamente um estranho. Só a mãe parecia apoiá-lo. Para agravar tudo isto o pai achou que ele devia completar a instrução primária. O irmão José frequentava o segundo grau e tinha um professor conhecido pelo seu elevado grau de exigência mas também pela sua barbaridade. Foi aos cuidados desse professor - Germano Vicente Dias - que o meu avô entregou o meu pai. O meu pai era inteligente pelo que em breve se tornou o melhor aluno da classe. Isso valeu-lhe a consideração do irmão, em quem passou a ter um aliado. Parecia assim mais 18
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia fácil de suportar a disciplina do pai. As coisas ter-se-iam arranjado se o professor Germano não tivesse dado um golpe de misericórdia em toda a situação. O professor passou uma prova para os alunos fazerem e o meu pai foi o único que resolveu tudo correctamente. Então Germano Vicente Dias passou-lhe a palmatória para a mão e disse-lhe: Hoje és tu que vais castigar os colegas ; o primeiro será o teu irmão a quem terás que aplicar dez palmatoadas, cinco em cada mão - duas por cada erro, mais quatro por cada conta mal feita. O irmão estendeu cada uma das mãos e o meu pai aplicou-lhe os 10 “bolos” com bastante suavidade, não fosse ele o seu irmão. Então, o professor tirou-lhe a palmatória das mãos. Eu vou mostrar-te como se usa a palmatória. As mãos do meu pai jorraram sangue mas não chorou. À noite, enquanto a mãe com lágrimas nos olhos lhe tratava as mãos, o pai comentava : Só assim te farás homem. No dia seguinte de manhã o meu pai não estava na cama. Tinha saído, pé ante pé, direito à estação, onde se meteu no combóio do Douro. Expulso do combóio sempre que era descoberta a sua clandestinidade, fazia troços do percurso a pé, sempre junto à linha férrea, comendo o que encontrava pelos campos onde passava e assim, ao fim de vários dias, cheio de fome, sujo e exausto chegou à Vila. Procurou o boticário a quem se identificou e em casa de quem dormiu, depois de uma boa ceia. Nesse mesmo dia, um mensageiro levou a notícia ao meu tio avô Afonso que, no dia seguinte, em pessoa, foi buscar o sobrinho. Aproveitou para telegrafar para o Porto a sossegar a família desesperada, que já imaginava o filho afogado no mar ou vítima de qualquer outra fatalidade. Passa então a viver na CASA com o tio Afonso, o Artúrio e a família deste. Ajuda nas lides do campo e tem como principal divertimento acompanhar o tio nas peixadas que faziam no Rio. Aprende a deitar as redes e as chumbeiras e a pôr o embude nas locas , para obrigar os peixes a sair. Os homens metiam-se no Rio, todos nus, mesmo em pleno inverno. Ele ainda quase menino, um pouco envergonhado, lá ia também. Peixes apanhados, era preparar a fogueira para os assar. Para ele sobrava ir buscar a lenha e atiçar o lume. Os peixes, assados pelos homens, eram acompanhados com aquele pão que ninguém fazia tão bem como a Zefa, e servidos com aquele molho que, só de lembrar, fazia crescer água na boca. Guarda dessa altura recordações felizes. Quando, após a transferência do meu avô, os meus avós foram viver para a Vila, o meu pai foi viver com eles, mas não conseguiu adaptar-se, apesar de cada vez serem mais fortes os laços com os irmãos, particularmente com José. Por isso passava a maior parte do tempo na CASA, mesmo depois do casamento do tio Afonso. O Artúrio proporciona-lhe 19
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia alguns encontros com raparigas e mulheres da TERRA e assim se faz a sua iniciação. Aos 18 anos apaixona-se por Luísa, com 16, de quem toda a vida guardará um lenço bordado. Mas Luisa morre com a gripe pneumónica. Não houve uma só família na TERRA que não tivesse ficado de luto devido à pneumónica. O meu tio Pedro, ainda menino, morre também vítima da epidemia. Estava-se no rescaldo da Grande Guerra e em Portugal vivia-se uma tremenda instabilidade política. A pneumónica tinha espalhado dor e luto à sua volta. Provavelmente tudo isto, aliado às marcas deixadas pela morte dos avós e à dificuldade de relacionamento com o pai, terá pesado na decisão que o meu pai tomou. Decidiu partir, mas nem ele próprio sabia concretamente porque partia tal como não sabia muito bem para onde ia. Tinha então 19 anos de idade. A viagem era, de si, uma história fantástica; infelizmente não consegui guardar a maior parte dos pormenores pois o meu pai não gostava muito de recordá-la. Saiu de casa ainda noite escura. Num pequeno saco levava a pouca bagagem que tinha e, numa taleiga, a merenda que Zefa lhe tinha arranjado, convencida que o meu pai ia para uma festa, numa aldeia um pouco distante. Só levava uma intenção, atravessar a fronteira. Subiu e desceu ladeiras até chegar ao Douro, que atravessou a nado. Ao fim de alguns dias foi ter a Medina Del Campo onde foi acolhido por uma família de lavradores, muito hospitaleira, para quem trabalhou durante cerca de um ano e meio. Mas o seu espírito inquieto não o deixou parar por lá mais tempo. Conhece Denis, um jovem francês que se tinha acolhido em Espanha durante a Grande Guerra e que vai regressar a casa em Bedous, nos Pirinéus, relativamente perto de Lourdes. Parte com ele. Vai a Lourdes com Denis. Reza pela primeira vez, depois de tanto tempo. Nas suas orações, num misto de português e castelhano, pois fora assim que as aprendera, lembra os mortos, os vivos, a TERRA e a CASA. No regresso a Bedous, passam por Pau onde Denis lhe apresenta a sua prima Monique. Monique parece-se imenso com Luisa, o que perturba o meu pai. Nasce assim a segunda grande paixão da sua vida. Disposto a remover montanhas e com a ajuda de Denis o meu pai aproxima-se da família de Monique. O pai, Mr. Dupont, é marceneiro e tem uma oficina em Pau. O meu pai vai trabalhar com ele. Aprende o ofício e trabalha empenhadamente, por um lado para impressionar o pai de Monique, por outro porque o trabalho lhe dá prazer. Gostava de usar as plainas, as garlopas, as enxós. Gostava do cheiro da madeira e do serrim, da resina da madeira de pinho ainda verde. Com Monique limita-se a trocar olhares que são correspondidos. Parecia que finalmente iria reencontrar a paz há tanto perdida. Espera toda a semana pelo domingo. Ao entrar na Igreja faz por entrar logo a seguir a Monique para receber das mãos dela o hissope de água-benta. E assim passa mais de um ano. Quando Mr. Dupont se apercebe das intenções do meu pai chama-o e diz-lhe: 20
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Meu rapaz, não tenhas ilusões. A Monique está prometida a um primo que presentemente vive na Argélia. Logo que regresse casar-se-ão. Nessa mesma noite o meu pai arruma as trouxas e prepara-se para partir. Por baixo da porta da marcenaria deixa um envelope dirigido a Mademoiselle Monique. Lá dentro uma mensagem curta, aliás a única mensagem de amor que trocou com ela, para além dos olhares e da passagem do hissope. Il faut que je parte mais je t´aimerai toujours. Passa pela igreja. Entra e pede perdão a Deus pela falta que irá cometer. Passa junto da pia de água-benta e rouba o hissope. Não sabe bem porquê, leva um destino- Marselha - de que Denis lhe falara. Está-se em 1921, depois da guerra, e arranjar trabalho não é fácil. Consegue uns biscates na estiva do porto. Conhece marinheiros e com a ajuda de um deles consegue partir como clandestino para Dakar, no Senegal. Não faz a mínima ideia de onde fica o Senegal, mas ao consultar o mapa, apercebe-se que é perto da Guiné, a colónia portuguesa de que ouvira falar nos tempos de escola. Durante a viagem decide que não ficará em Dakar. Decide que é para a Guiné que há-de ir. Pensava que uma vez no Senegal seria fácil chegar à Guiné, pois dominava razoavelmente a língua francesa. Só que ignorava que a maior parte da população falava nas suas línguas nativas e o francês de pouco lhe serviria. Atravessou parte do Senegal com Infali, um gila4 guineense. Foi assim que conseguiu chegar à Guiné. Durante a viagem com Infali toma corpo a ideia de montar um pequeno comércio, com o pouco dinheiro que conseguira juntar ao longo dos últimos três anos. Estabelece-se em Bafatá. Pela sua vida passam várias mulheres, uma delas a crioula Cesária. Pela primeira vez escreve para casa, depois de quase três anos e meio sem dar notícias. A carta encontrou-a por acaso a TIA, esquecida no meio de umas peças de linho que herdou da mãe. Achou que eu devia ser a sua depositária e por isso veio parar às minhas mãos. Bafatá, 2 de Dezembro de 1922 Querida Mãe: Escrevo-lhe da Guiné, em África. Não é tão longe como Angola ou Moçambique, mas mesmo assim demoram-se muitos dias a cá chegar, de barco. Imagino quantas aflições não terão passado por minha causa. Mas, como coisa ruim não tem perigo, encontro-me são e salvo. Quando saí de Portugal fui para Espanha, e daí para França. Não imagina as saudades que tive da CASA e de todos, e o número de vezes que pensei em voltar. Eu sei que a mãe não consegue entender por que razão parti. Se calhar nem eu sei. Mas eu sou assim. Só estou bem onde não estou. Na CASA sinto-me bem, mas a mãe sabe que eu e o pai não nos 4 contrabandista que faz o comércio transfronteiriço 21
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia conseguimos entender. Sei que a culpa é minha que sou rebelde. Acredite mãe, eu gostava de mudar, mas não consigo. Tanto só estou bem onde não estou, que da França vim para aqui, sem eu mesmo saber porquê. Acho que alguém guia os meus passos, mesmo sem eu querer, mas também não sei quem. Mas não se preocupe. Estou bem. Aqui é tudo muito diferente. As pessoas são pretas, como a mãe deve saber, mas mesmo assim diferentes. Há assim como que uma espécie de raças dentro da raça. Há os manjacos, os balantas, os mandingas, os fulas, os futa-fulas, os saracolés, os papéis e muitos outros. Não falam português e cada uma dessa espécie de raças fala uma língua diferente das outras. Mas há uma língua que muitos falam -o crioulo. É nessa língua que eu lhes falo. É engraçado o crioulo, mãe. Bó quer dizer tu, cá, quer dizer não, jubi é ver, obi é ouvir. Vivem numa espécie de aldeias a que chamamos tabancas. Os homens geralmente vivem com mais que uma mulher, todos na mesma casa. As casas são redondas, com um só compartimento e cobertas de palha. Alguns, principalmente os fulas, criam gado, umas vacas muito magrinhas, mas grande parte vive da agricultura. O que mais cultivam é o arroz mas também um pouco de milho e mancarrra (amendoim). No amanho da terra não usam arados, nem charruas mas sim uma espécie de sachos de madeira. O arroz é cultivado nas bolanhas (uma espécie de charcos) e o trabalho é essencialmente feito por mulheres que, enquanto trabalham, carregam os filhos ás costas presos com um pano. Aqui faz sempre calor. De Novembro a Maio quase que não chove. Nos outros meses cai cada aguaceiro, que de repente a água nos dá pelos joelhos. Mas não molhamos as calças porque aqui andamos de calções - os brancos, porque os pretos andam com uns balandraus até aos pés. Isso os homens, porque as mulheres andam com o peito destapado e usam uns panos compridos coloridos, enrolados na cintura e que vão quase até ao chão. Andam todos descalços e as mulheres usam muitos penduricalhos, geralmente ao pescoço e nos tornozelos. São muito boa gente mas têm costumes muito diferentes dos nossos a começar pela religião Não são da nossa religião e a maior parte são muçulmanos. Também acreditam em Deus, só que Lhe chamam Alá. Moisés é um profeta e Jesus Cristo também. Dizem que o último profeta foi Maomé, que deixou as leis sagradas que respeitam, e que estão no Alcorão, que é assim como a Bíblia para nós. Não comem carne de porco nem bebem vinho. O seu dia Santo não é o domingo, mas a sexta. Às igrejas, que são diferentes das nossas, chamam mesquitas, mas em muitas tabancas não há mesquitas. Mas eles rezam sempre cinco vezes ao dia. Lavam-se antes de rezar e rezam de joelhos ,com a cabeça encostada ao chão, virados para Meca que é a terra onde nasceu Maomé, e que fica muito longe daqui. Todos os anos, durante um mês fazem jejum total do nascer ao pôr- do- sol. Chamam-lhe o mês do 22
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Ramadão. A música deles também é muito diferente da nossa, e os instrumentos também. Usam muitos, feitos por eles com cabaças, peles de macaco, troncos de árvores - são tambores, uma espécie de bandolins, e muitos outros que não lhe sei explicar. Eu gosto muito de ver as danças que fazem ao som dessa música. Como nem todos são muçulmanos, há quem beba vinho, mas é vinho de palma. Não se faz com uvas mas com seiva de palmeiras que são umas árvores muito altas. Aqui há árvores muito esquisitas. Há umas muito grandes que parecem ter ratos pendurados, mas não são - são uns frutos que não comemos. E por falar em frutos há aqui alguns que eu nunca tinha visto. O que mais estranhei foram uns que sabem a resina. Agora já me estou a acostumar ao gosto, mas foi custoso. Também não comem batatas e couves como nós. Quase só comem arroz. A terra também não é como a nossa. É vermelha e não há serras. Há rios muito cheios de curvas e maiores que o nosso. Há peixes, mas também não sabem como os nossos. Um animal que às vezes aparece nos rios é o crocodilo. Já ouviu falar mãe? É como um lagarto muito grande e que come animais grandes, mesmo pessoas. Por falar em animais, há aqui muitos macacos que trepam pelas árvores, lagartos, pássaros, alguns muito bonitos, e muitos morcegos, tantos, que à noite urinam em cima da gente. Há muitas moscas, muito mais que aí. São tantas que a gente já as não enxota. Habitua-se e anda com elas pela cara, pelos braços, pelas pernas. Há também muito mosquito, osgas, e baratas- grandes que eu sei lá. Os cheiros aqui são muito diferentes, mas gosto deles. Não tanto como dos nossos, já se vê. Aqui há poucos portugueses mas os poucos que somos juntamo- nos de vez em quando, para jogar uma suecada e lembrar as nossas terras. Eu tenho um pequeno soto onde vendo de tudo. Quando preciso de comprar coisas, por vezes vou de barco a Bolama que é a terra mais importante, e que fica junto do mar. Mas também tenho um amigo, o Infali, que é uma espécie de contrabandista e que me abastece. Os nomes, como vê, também são diferentes - Infali, Mamadu, Bonco, Sajuma, Kumba, Braima, Binta. Pus-me para aqui a contar tudo e nem perguntei por todos. Como estão ? O Pai continua a caçar? O José já fez a tropa? A Clara já tem namorado ? E as meninas? Já devem estar grandes. E o tio Afonso ? O Artúrio e a Zefa estão bem ? Diga-lhes que, quando for Fevereiro, colham uns galhos de amendoeira em flor e os ponham na sepultura dos avós. Ou eles ou os filhos. Mãe, vou-me despedir. Como o Natal se aproxima desejo-lhes um Santo Natal. Aqui não tem grande graça. Para mim é triste porque me lembro muito dos Natais na CASA. Recomende-me a todos, que eu qualquer dia volto. A sua benção, mãe 23
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia João Quando a minha avó recebeu esta carta, já a tia Clara não fazia parte do rol dos vivos; tinha falecido vítima de tuberculose. A carta está um pouco esborratada. Dizia a TIA que já tinha chegado assim e que a minha avó reconhecera nela duas lágrimas de meu pai. Talvez essas duas se tenham misturado com outras, vertidas pela minha avó que durante aqueles três anos e meio tinha sofrido calada. Ao marido não podia falar da sua dor pois ele, indignado com a partida do filho, nem sequer no seu nome queria ouvir falar. O meu pai manter-se-ia em Bafatá por mais uns anos e escreveria mais cartas para casa, mas delas não ficou qualquer registo. Da sua passagem pela Guiné, para além desta carta, resta apenas uma foto desbotada ao lado da Cesária, em frente a uma palhota, possivelmente aquela onde viviam. Durante esse tempo morrerão a sua irmã Adélia, o Artúrio e a Zefa, José cumprirá o serviço militar, ingressará na força aérea, casará e terá dois filhos, e Matilde ficará noiva do tio Justino. A sua estada na Guiné foi bruscamente interrompida quando, em 1934, adoece gravemente com tifo. Regressa à TERRA, segundo ele, para morrer. Mas não era esse o seu destino. 7 Quando o barco atraca no cais o TIO aguarda ansioso o irmão. Recebera a carta que lhe escrevera, já com muita dificuldade, num dos momentos em que a febre abrandara um pouco. Em poucas linhas, com uma letra tremida dizia que estava muito doente e embarcava para Portugal onde esperava chegar ainda com vida para depois ser sepultado debaixo dos sobreiros. O TIO receava já não reconhecer o irmão pois tinham passado 15 anos. Mas quando viu descer um homem envelhecido, com aspecto cadavérico, amparado e muito trémulo, teve como que uma intuição. Quando chegou perto dele perguntou: És o João ? O meu pai já não respondeu. Caiu inanimado nos braços do irmão. Por isso, quando naquele dia abriu os olhos, não conseguiu perceber onde estava. Não identificou o quarto nem o rosto da mulher que o fitava. Sou a sua cunhada Laura , mulher do José. Teve alguma dificuldade em apreender o significado daquelas palavras. Durante um mês não dera conta do que se passava à sua volta. Nos seus delírios frequentes chamara pelo avô, pela mãe, pela avó, por Luisa e por Monique. Um dia, alagado em suor grita aflito: José perdoa-me mas foi o Sr. Professor que me obrigou. 24
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Após o incidente no desembarque, o TIO levou o meu pai para sua casa e chamou o Doutor Silveira, médico da família, que o examinou cuidadosamente. Então Doutor? Perguntou o TIO. Só por milagre se salvará- respondeu o Doutor Silveira. O TIO comunicou então para a TERRA o estado em que estava o irmão. As notícias não os apanharam de surpresa pois já anteriormente tinha escrito a dar conta do conteúdo da carta do meu pai. Desde esse dia que a minha avó e a TIA passavam a maior parte do tempo na igreja, onde as velas não se apagavam. Na CASA, todos faziam promessas a todos os Santos, particularmente a Sto Estevão. Voltas de joelhos à capela, uma toalha de linho bordada para cada altar, razões de trigo, dias de jejum. Até o meu avô fez uma promessa, ele que não era muito para essas coisas. Como já de há muito se falava na necessidade de construir um coreto par as festas em honra de Sto Estevão, o meu avô prometeu que se o filho se salvasse mandaria construir não um, mas dois coretos junto da capela do Santo. Fosse pelas promessas e rezas, fosse pelos cuidados que o TIO e a tia Laura tiveram, fosse por obra dos medicamentos receitados pelo Dr. Silveira, pouco a pouco o meu pai foi-se libertando das garras da morte. No primeiro dia em que se levantou para se sentar numa cadeira de braços no pequeno jardim da casa, foi amparado pela tia Laura e pelo TIO. Só nesse dia é que reparou nos rostos daqueles seus companheiros dos últimos tempos. O irmão era uma bela figura- alto e garboso, quando estava fardado ficava com um aspecto imponente. A cunhada não era bonita mas tinha uma presença agradável. Reparou então em duas crianças pequenas que brincavam num cavalinho de pau- os sobrinhos Afonso e Gonçalo que não conhecia, mas de quem o irmão já lhe falara por carta. Como era possível que durante todo este tempo não se tivesse apercebido das crianças ? O TIO e a tia Laura tinham-nas posto em casa dos avós maternos durante a doença do tio. Abraçou o irmão e chorou. Lembrou-se então que o pai dizia que um homem não chora, mas essa lembrança fê-lo chorar ainda mais. Passara-se mais um mês e o meu pai ia poder, finalmente, regressar à CASA. Interrogava-se várias vezes sobre como iria ser a sua relação com o pai e partiu com uma certa apreensão. O TIO acompanhou-o pois o seu estado de saúde era ainda precário. A viagem entre a Vila e a TERRA foi feita num carro de machos, todo enfeitado com ramos de árvores, e tocado pelo António Joaquim. Quando chegou ao fundo das escadas da CASA foi penetrado pelos cheiros que jamais esquecera. Mas o que mais lhe ficou na memória dos cheiros desse dia foi o dos milhos doces polvilhados com canela. No balcão, e continuando pela cozinha, estavam todos- o pai, a mãe, o tio Afonso, a irmã Matilde, o António Joaquim, a Germana e a Balbina. Estes últimos eram ainda muito novos quando partira pelo que já não os conhecia, embora desde logo tivesse adivinhado 25
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia quem eram. Estavam também muitos vizinhos, entre eles um jovem que também não reconheceu. Começou por abraçar a mãe; preparava-se para cumprimentar o pai na forma habitual, uma vénia com o pedido da bênção. Mas o pai, com os olhos rasos de lágrimas estreitou-o nos braços. Seguiram-se os cumprimentos a todos os outros, uns mais efusivos que outros. Para o fim ficou o jovem que não reconhecera. Era Justino. O casamento da TIA com o tio Justino já tivera data marcada, mas logo que se soube do estado de saúde do meu pai a TIA disse-lhe: Temos que desmarcar o casamento por agora. O meu irmão João está muito mal e as esperanças são poucas. Não vou casar nestas condições. O meu pai recupera agora rapidamente. Passa a maior parte do tempo sentado na varanda. No nicho maior da parede há sempre o jornal e um ou outro livro. Não lhe apetece ler mas o pai vai-lhe dando conta dos principais acontecimentos. Por vezes, ao fim da tarde, os dois vão até à Fraga. De lá avista-se o Santo, onde já se iniciaram as obras dos coretos. Pai e filho aprendem a gostar-se mutuamente, tal qual são um e outro. Vai, com os pais e a irmã, conhecer Fátima. Vai também a Viana a e ao Bom Jesus em Braga. Os pais podem assim rever sítios que já não viam há muito, enquanto que ele e a irmã os conhecem pela primeira vez. Tudo parece ter voltado ao normal e a TIA casa finalmente com o tio Justino, no dia 5 de Agosto de 1935. O casamento foi na capela de Sto Estevão, já rodeada de dois belos coretos. A Capela de Sto Estevão não fica propriamente na TERRA. Fica à beira do Rio, no fundo de uma ladeira. Chegar lá não é muito difícil. O pior é regressar, pois a ladeira é muito íngreme. Vem-se de macho, é certo, mas para os animais a subida também não é fácil. O casamento foi celebrado pelo Padre Marcos e os padrinhos foram o TIO e a tia Laura. No fim da cerimónia religiosa e antes de se iniciar o almoço, a ti Idalina cantou as loas. Possivelmente como ainda as cantava, quando eu a conheci muitos anos mais tarde. “Biba o noibo mai-la noiba Bibam os pais que a criaram Bibam também os padrinhos que à igreja os lubaram” Seguiu-se o almoço. Peixes do rio, vitela, borrego e peru assados, arroz de vitela, presunto, folar de carne, bolo moreno, pão de ló, arroz doce, aletria, milhos doces, súplicas, económicos, e vinho à descrição. Também não podiam faltar o “vinho fino” e os tremoços, adoçados no Rio. Após o casamento da TIA todos estranharam a avó, mas atribuíram o seu ar abatido à apreensão que lhe causava a partida da filha, que supunha para breve. Infelizmente não era só isso. A Avó estava doente. Já passara por muito. A morte da irmã, dos pais e dos 26
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia três filhos foram-na minando por dentro. A juntar a tudo isso, as aflições que passara por causa do meu pai. A doença que quase o levara, foi a gota de água. Morre em 1936, vítima de ataque cardíaco. A morte da avó abalou muito toda a família. Mas a vida não para. Na CASA vivem agora o avô, a TIA, o meu pai e o António Joaquim com as irmãs. O tio Justino está a trabalhar em Viana, mas sempre que pode aparece. Quando o meu pai partiu em 1919, a TIA tinha apenas dois anos pelo que praticamente não se conheciam. É nesta altura que se vão criar laços. Com a TIA e com o tio Justino, de quem o meu pai sempre dirá, tal como o dissera a mãe: Se há homem bom, está ali. Agora restabelecido, o meu pai assume-se pela primeira vez como lavrador. É ele que trata de todos os problemas da CASA, ajudado pela TIA. Quando é preciso contratar os ranchos para apanha da amêndoa e da azeitona, contratar os jeireiros para as diferentes tarefas, vender a amêndoa, o azeite ou o vinho é ele quem vai, depois de ouvir a opinião do pai, da TIA e do António Joaquim. Participa em todos os trabalhos sejam eles a lavra, a limpa, ou qualquer outro. Mas os que lhe dão especial prazer são a poda e a enxertia, que aprendeu em menino com o avô. Sempre que parece estar a restabelecer-se o equilíbrio na vida emocional do meu pai, surge algo desestabilizador. Em 1938, o meu avô morre. Para o meu pai, estranhamente, a morte do pai foi um golpe mais duro do que a morte da mãe. Talvez por se terem encontrado tão tarde, talvez porque mais um laço se rompia. A TIA vai finalmente para Viana. O meu pai decide partir, desta vez para o Brasil, onde vive o tio Filipe. O tio Filipe não era propriamente tio. Era um primo da minha avó, filho de Diego Rodriguez e Maria Clemente. Tendo ficado órfão bastante cedo, decidiu vender a herança e partir para o Brasil. A vida correu-lhe bem e tinha em S. Paulo uma firma, relativamente importante, de venda por grosso - a firma Rodriguez. Manteve sempre algum contacto com a família pelo que o meu pai partiu ao seu encontro, mas sem disso o prevenir. De tal modo se sentia que disse aos irmãos que desta vez partia para não voltar. Antes de partir vendeu ao TIO a sua parte na CASA. Entre a parca bagagem que levou iam um lenço bordado e um hissope. 8 Apesar da sua vida errante, uma das maiores cidades que o meu pai já tinha visto era Lisboa, que conhecia mal. Estivera lá apenas duas vezes. A primeira quando regressara 27
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia doente da Guiné, e dessa vez pouco ou nada tinha visto. A segunda foi antes do embarque para o Brasil. Durante uma semana, com o irmão, tinha visitado os Jerónimos, a torre de Belém, o castelo de S. Jorge, tinha passeado pela Baixa, tinha entrado no Grandela e no Chiado. Quando chegou a S. Paulo, ficou um pouco assustado com o tamanho da cidade e teve alguma dificuldade em dar com a morada do tio Filipe. Quando chegou a casa do tio ficou estarrecido. Era uma bela casa, rodeada de um jardim. Tocou a campainha e apareceu uma empregada a quem se identificou. O tio Filipe não estava, mas estava a mulher, a tia Carlota, uma senhora brasileira, descendente de italianos, ainda nova. A tia Carlota, recebeu-o numa sala ricamente mobilada, cheia de cristais e pratas. Nunca o meu pai vira nada parecido. Na CASA não havia cristais nem pratas, à excepção da caixinha de rapé do pai, no nicho pequeno da varanda, e quanto aos móveis, eram muito simples- camas de ferro, várias arcas, dois roupeiros em mogno onde se acomodava a roupa de toda a família e na sala uma mesa com 12 cadeiras e um louceiro, também em mogno. As outras casas por onde tinha passado, eram ainda mais simples, à excepção da casa do irmão José em Lisboa, que em nada se comparava à casa do tio Filipe. Parecia assim confirmada a ideia de que o tio Filipe estava muito bem de vida. O tio Filipe não estava, mas não devia demorar. Esperou. Quando o tio chegou, acompanhado do primo Júlio, 10 anos mais novo que meu pai, este apresentou-se como o João, o filho mais velho da prima Marta. O tio Filipe nunca conhecera o João, pois saíra rapaz da Terra, ainda a prima Marta era solteira, mas com ela trocara sempre correspondência, pelo que estava um pouco a par da vida da família. O meu pai já não saiu dali. Ficou a viver em casa do tio e a trabalhar na firma Rodriguez, de início fazendo um pouco de tudo, mas logo depois como caixeiro viajante. O tio Filipe lembrava-lhe um pouco o pai, pois também pautava a sua vida por muitas regras. A sua e a dos que trabalhavam com ele. Uma das regras que lhe impôs foi: Aqui sou o tio Filipe, mas na firma sou o Sr. Rodriguez. Não sei se ao escolher para o meu pai a vida de viajante, o tio Filipe teve em conta a vida errante que ele até aí levara. Mas a escolha não poderia ter sido melhor. O meu pai representava a firma do tio nas principais povoações ao longo da Estrada de Ferro da Sorocabana: Avaré, Botucatu, Ourinhos, Presidente Prudente. Adorava a sua vida de viajante. Era muito responsável no seu trabalho, mas totalmente irresponsável no que dizia respeito à sua vida privada. Tinha uma mulher em cada uma das localidades por onde passava e gastava quanto ganhava, com carros, orgias e mulheres. Isto até conhecer Nair. 28
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Foi no Brasil que o meu pai teve uma vida social mais intensa. Torna-se sócio da ARCESP5, relacionando-se com muitos outros comerciantes, alguns deles portugueses (patrícios, como sempre lhes chamava). Juntamente com seu primo Júlio é sócio de várias associações culturais e recreativas, entre elas o clube de regatas Tietê. É precisamente nesse clube que ambos conhecem Nair. Desde logo Nair impressiona o meu pai. Lembra-lhe Luisa e Monique. Não sabe bem porquê. Estas eram relativamente altas, tinham lábios finos e cabelos castanhos. Nair é relativamente baixa, tem lábios grossos e olhos e cabelos negros. Nair não só impressionou o meu pai, como também o seu primo Júlio, mas foi este quem conquistou o coração de Nair. Não houve disputa entre os dois. Quando o meu pai se apercebeu de que Júlio gostava de Nair, retirou-se simplesmente de cena. Não seria justo roubar a mulher ao primo, filho do tio que tão bem o tinha acolhido. Durante anos viveu uma paixão em silêncio. Nair casou com Júlio em 1942. Meu pai foi, não só padrinho de casamento, como também padrinho dos dois filhos do casal- uma menina nascida em 1943 e um rapaz nascido em 1944. Júlio, partilhando uma mania comum a muitos brasileiros, de darem a todos os filhos nomes começados pela mesma letra, deu a ambos um nome começado por R: Renata e Ricardo. Renata e Ricardo irão sempre representar papel importante na vida afectiva do meu pai. De Nair guardará sempre, sem o primo e ela saberem, uma luva que um dia deixou esquecida no clube. Afinal, omitir este facto ao primo não deveria ser tão grave como roubar um hissope numa igreja de Pau. A partir do dia em que conheceu Nair, passou a levar uma vida mais regrada. Para isso também terá contribuído o fim da sua vida de viajante. Efectivamente o tio Filipe, cedo se apercebeu que meu pai tinha muito mais jeito para o negócio do que Júlio. Pensou, então, que a melhor maneira de garantir o futuro da firma após a sua morte, seria dar- lhe sociedade. O meu pai tornou-se então sócio minoritário da firma que passou a chamar-se Rodriguez e Matias. O que o tio Filipe nunca imaginou foi que, uns anos mais tarde, o meu pai venderia a sua quota ao primo Júlio, para regressar definitivamente à TERRA. Mas isso foi depois de conhecer Mariana. 9 Durante todo este tempo o meu pai raramente escreve aos irmãos que se queixam dos seus silêncios prolongados. Esses escrevem com mais frequência. Nas cartas, dão-lhe conta do que se vai passando. Numa delas o TIO fala-lhe entusiasticamente da festa de Sto Estevão em que ele, e mais alguns camaradas, acompanharam a procissão 5 Associação dos Representantes Comerciais do Estado de S. Paulo 29
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia sobrevoando-a em aviões. Fala-lhe também de Majores e Coronéis que leva à TERRA e de uma homenagem que lhe prestaram na Vila. Conta-lhe vários episódios divertidos como aquele que aconteceu com a Germana, uma das vezes em que foi à TERRA com dois oficiais seus colegas, e a viúva de um outro, uma senhora suíça, a quem chamavam Madame Junqueira, por ser este o nome de família do falecido marido, e que já por várias vezes manifestara o desejo de conhecer a TERRA. Segundo ela, as descrições do TIO traziam-lhe à mente recordações da sua Suíça distante. Madame Junqueira não conseguiu conquistar a simpatia da Germana: “A Senhora D. Madama debe ser uma desabergonhada. Bem de Lisboa, só, com os homes, e fuma como eis”. Mas o meu pai tenta esquecer a TERRA, a CASA e tudo o que com elas se relaciona. Também durante todo este tempo só entrou três vezes numa igreja, aliás sempre a mesma, a Igreja de N. Sr.ª da Consolação, em S. Paulo. Foi no casamento de Júlio e nos baptizados de Renata e Ricardo. O coro da igreja acompanhou a cerimónia religiosa do baptizado de Ricardo. O meu pai reparou particularmente na solista, com uma linda voz de soprano. Estava decidido a conhecê-la. Seguiu-a várias vezes sem que ela desse por isso. Soube onde morava. Na rua havia uma estabelecimento de um patrício, “Seu” Antero, com o qual foi metendo conversa até saber pormenores da sua vida. Era uma jovem, descendente de italianos, de uma família simples, que vivia ali perto com os pais e os irmãos. O pai era contabilista na farmo-química Baldacci. A jovem, que se chamava Mariana, vivera até há pouco tempo com uns tios, numa fazenda do interior do estado. Foi “Seu” Antero quem apresentou Mariana ao meu pai. Quando o meu pai começou a fazer a corte a Mariana, ela comentou com a irmã mais velha. Aquele “Seu” João é bobo. Podia ser meu pai. Mas o meu pai, apesar de 20 anos mais velho que Mariana, era ainda um homem cativante. Muito vivo, bom contador de histórias, com uma vida social relativamente intensa e, na altura, com uma boa situação económica. Tudo isto terá contribuído para que a resistência de Mariana fosse progressivamente diminuindo. Casaram em 1945, mas só civilmente. Não sei se a iniciativa foi de ambos, ou de algum deles em particular, mas creio que os dois tinham a consciência que naquela relação havia grande probabilidade de insucesso. Mariana revelou-se uma caixinha de surpresas. Não só era uma mulher muito bonita como tinha uma série de predicados, para além daquele que tinha chamado a atenção do meu pai, no dia em que a conheceu - a sua bela voz de soprano. Bordava com mãos de fada e cozinhava divinamente. Nos primeiros anos de casamento tudo correu bem. Tinham uma vida despreocupada. Em casa havia de tudo e podiam divertir-se. Iam à ópera, ao cinema, ao clube, à praia; viajavam no Chevrolet que o meu pai tinha comprado, conviviam muito com amigos. Quando Mariana manifestou a vontade de ter 30
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia um filho, aí as coisas complicaram-se. O meu pai disse frontalmente que não queria filhos. Já não tinha idade para ser pai e além disso era um homem que não gostava de amarras. Para crianças já tinha os afilhados a quem queria como filhos. Perante a insistência de minha mãe começam as desavenças no casal seguidas de curtas ausências de meu pai, cada vez mais frequentes. Quando em 1949 a minha mãe lhe anuncia que está grávida o meu pai propôs-lhe desfazer-se da criança, o que a minha mãe não aceita. O meu pai terá feito um ultimato à minha mãe: Ou ela, ou eu. Ao que a minha mãe terá respondido: Ela. As ausências do meu pai tornam-se agora prolongadas, para além de frequentes. A minha mãe sabe que voltou à vida desregrada que tinha quando era viajante. Mas está decidida. A criança irá nascer. Quando eu nasci em 10 de Janeiro de 1950, num dia de calor sufocante, o meu pai estava ausente já há uns dias. Regressou, por acaso, no dia 15 depois de ter passado por casa do primo Júlio onde lhe deram a notícia do meu nascimento. Quando soube que era uma menina terá apenas comentado: Um azar nunca vem só. Quando entrou em casa eu dormia no berço. Parece que nem para mim olhou. Sentou-se na sala onde eu e minha mãe nos encontrávamos. Foi a minha mãe quem falou primeiro. Vens para ficar? Ainda não sei- respondeu o meu pai. A minha mãe saiu por instantes e o meu pai aproximou-se do berço, creio que mais por curiosidade do que por qualquer outro sentimento. Olhou para mim e voltou a sentar-se. Quando a minha mãe regressou e após alguns minutos de silêncio, o meu pai perguntou- lhe: Já tem nome? Estava a pensar em Gabriela- respondeu a minha mãe Então o meu pai disse: Eu preferia que fosse Marta. Foi assim que nasceu o meu nome. Embora o meu pai não tivesse decidido ficar, agora são os períodos de presença que passam a ser cada vez mais frequentes e prolongados. Um dia, tinha eu já cinco meses, decidiu-se a ficar definitivamente. Nesse mesmo dia levou lá a casa os afilhados, Ricardo e Renata. Ter-nos-á apresentado assim: Esta menina chama-se Marta e é como se fosse vossa irmã. E para mim, que do mundo tinha começado a descobrir as minhas mãos, terá dito: Estes são a Renata e o Ricardo que são como teus irmãos. 31
  • 32.
    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia O meu pai tinha decidido aprender a gostar de mim, como em tempos tivera que aprender a gostar do pai. Até essa altura o meu pai praticamente nunca falara da TERRA nem da CASA com a minha mãe. Será a partir daqui que ele começará a fazê-lo criando na minha mãe uma imagem que só para ele era real. A CASA era o lugar mais acolhedor que alguma vez tivera conhecido. A TERRA era um lugar paradisíaco, com cheiros, cores, sons e sabores como não existiam em qualquer outra parte do mundo. Falava-lhe de estevas, urzes, arçãs, papoilas, alecrim; de andorinhas, melros, calhandras, cotovias, poupas, cucos, gaios. Descrevia as encostas do Rio, no fim do Inverno, com as amendoeiras em flor, como parecendo véus de noiva, em Junho com os seus tons de castanho, amarelo, verde e roxo, e em Outubro com os tons dados pelas folhas secas das árvores e das vinhas, lembrando telas dos melhores pintores. Falava-lhe das oliveiras no inverno, geladas, como lembrando árvores de prata, dos pingarelhos de gelo caindo dos beirais como lembrando peças de cristal. Falava-lhe também da capelinha de Sto Estevão, lá junto ao Rio, que corria preguiçoso nos dias cálidos de Verão e tumultuoso nos dias de invernia, como que ciumento da beleza das encostas que o ladeavam. Descrevia os vários tons do céu, cinza quase branco anunciando neve, cinza quase negro anunciando trovoada, azul sem igual, nos dias límpidos ou, em outros dias, azul manchado de branco pelos castelos de nuvens cuja sombra, nas encostas, se misturava com todos os seus tons tornando a paisagem ainda mais deslumbrante. O meu pai falava de tudo isto, mas omitia quão duras são a apanha da amêndoa sob um sol abrasador e a da azeitona, sob um frio de rachar, tal como omitia a inexistência de estrada entre a vila e a TERRA, a falta de luz eléctrica, de água canalizada, o pouco conforto da CASA. Creio que nestas omissões não havia intenção deliberada de enganar a minha mãe. Não, o meu pai via de facto a TERRA como o paraíso e a CASA como um palácio. A firma não vai lá muito bem desde a morte do tio Filipe em 1951. O primo Júlio, decididamente não tem jeito para o negócio. Também a situação política no Brasil vai de mal a pior. Todos estes factores aliados à saudade da TERRA e da CASA devem ter levado o meu pai a fixar o regresso como objectivo. Consegue convencer a minha mãe, inicialmente muito renitente. Nessa altura vende a sua quota ao primo. Felizmente o tio Filipe já cá não estava para ver. Regressa. Desta vez será definitivamente. Estávamos em 1954, o ano em que o presidente Getúlio Vargas se suicida. Parte para Portugal, apenas com uma mágoa- não poder levar consigo Renata e Ricardo. 10 32
  • 33.
    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia A viagem é feita de barco. Viemos em primeira classe. Eu sou a principal companhia do meu pai pois a minha mãe vem enjoada quase todo o tempo. O meu pai, sempre que contava a viagem, comentava com orgulho: Algumas vezes, a única “senhora” presente na sala de refeições era a Marta. Sei que fizemos escala nas Canárias. Não que me lembre, mas ainda guardo uma boneca que o meu pai lá me comprou. Ao chegar a Lisboa lá estava o TIO, no cais, para receber o irmão. Desta vez o irmão não vinha para morrer. Há muito que não amava tanto a vida. Logo que conheceu a minha mãe, o TIO apercebeu-se que a adaptação à TERRA e à CASA seria no mínimo difícil, senão impossível. Tenta convencer o meu pai a adiar a ida, e a procurar um modo de vida em Lisboa. Mas o meu pai estava decidido. Queria ir ver a TERRA e a CASA e o mais rapidamente possível. É certo que a CASA já não lhe pertencia. Vendera a sua parte ao irmão antes de partir, mas ele desde logo lhe dissera: É como se continuasse a ser tua. Fomos no Austin A40 que o TIO tinha recentemente comprado. Mas só até à Vila pois para a TERRA ainda não havia estrada. Na Vila aguardava-nos o António Joaquim com um carro de machos ricamente engalanado com galhos de amendoeira em flor. Estávamos em Março. Os bancos para nos sentarmos estavam cobertos com colchas de linho impecavelmente lavadas. Todos estes cuidados tinham estado a cargo da TIA e do tio Justino que tirou uns dias de licença par nos poder receber. A TIA, já uma semana antes da chegada fora com a Germana e a Balbina para o Rio, tratar da lavagem das colchas. Em sua opinião, só no Rio uma roupa podia ficar bem lavada. No dia da chegada o António Joaquim foi colher os ramos de amendoeira e depois, foi o trabalho de engalanar o carro. A imagem do carro impressionou a minha mãe mas não conseguiu tornar a viagem confortável. Quando entrou na TERRA a minha mãe estava maçada. Para além disso, sentia frio como nunca tinha sentido, mesmo quando, em menina, vivia na fazenda dos tios, onde por vezes as temperaturas chegavam aos 80C. Fosse por ter chegado ao lusco- fusco, fosse pelas vestes das pessoas, todas muito escuras, fosse porque, para além da CASA poucas casas eram caiadas, a minha mãe não conseguiu ver as tais cores fascinantes de que o meu pai lhe falara. Via tudo cinzento e triste. E quanto aos cheiros os que ela identificava não os achava agradáveis- o do estrume e o dos excrementos dos animais, nas ruas. Quando chegou à CASA, as desilusões continuaram. Ao entrar na cozinha o cheiro que mais identificou foi o de fumo, fumo esse que lhe fazia arder os olhos. A iluminação da CASA era feita através das mais variadas formas- candeias, lampiões, candeeiros de petróleo, gasómetros e um petromax. Por azar, nessa noite ninguém conseguiu pôr o petromax a funcionar e o cheiro do carboneto no gasómetro, incomodava a minha mãe. Tiveram que comer à luz de um candeeiro de petróleo. 33
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia O jantar estava divino, mas Mariana já está demasiado confusa para percepcionar os gostos e os cheiros. À sobremesa come uma compota de ginja na qual parece detectar qualquer coisa estranha. Dizem-lhe que é assim mesmo. Mas no dia seguinte, à luz do dia, Mariana descobre que a ginjada está coberta de moscas que morreram coladas ao doce, vítimas da sua gula. A CASA tem andado de facto um pouco desleixada. Se a TIA ainda estivesse para controlar tudo, tal nunca teria acontecido. Mas a Germana e a Balbina, duas boas criaturas, dão pouca importância a certos aspectos de higiene. O meu pai, esse está deliciado com tudo. Parece ter regressado aos seus dias de menino. Nessa noite Mariana chora copiosamente e no dia seguinte decide não sair da cama. Nem no seguinte, nem nos vários que se lhe seguiram. Ignora-me, mas eu tenho muito quem cuide de mim- a TIA, a Germana, a Balbina e todas as vizinhas, particularmente a Sr.ª Felismina e a sua filha, Mininha. De tal modo eu ando de mão em mão que a Sr.ª Felismina me chamará sempre a pombinha da Catrina. A TIA e o tio Justino têm que regressar. A TIA ainda pensa ficar mas o tio Justino acha que o meu pai e a minha mãe têm um problema que tem que ser resolvido por eles e que qualquer interferência estranha pode ser negativa. O estado depressivo da minha mãe agrava-se de dia para dia e o TIO acha que a minha mãe tem que ser vista por um médico. Regressamos a Lisboa, mas já durante a viagem o meu pai vai arquitectando uma solução para o problema. Construir uma casa, com mais conforto, no palheiro que existe no cimo da aldeia. Fala nesta ideia ao irmão que o apoia. Com esta ideia em mente o meu pai quer voltar à TERRA o mais cedo que lhe for possível. O médico acha que a minha mãe está como que em estado de choque pelo que nem pensar em regressar. O meu pai pensa então em regressar só comigo, enquanto a minha mãe fica internada numa clínica. O TIO acha que é um disparate pois, embora a Balbina e a Germana sejam muito extremosas, não saberão cuidar duma criança com hábitos muito diferentes dos delas. Mas o meu pai é inflexível. Eu levo a Marta comigo. Não sei se ao tomar esta decisão, o meu pai já estava a contar com a colaboração da Sr.ª Felismina e da Mininha. A Sr.ª Felismina morava paredes meias com a CASA. Ela, o Sr. Pedro e a Mininha. O casal era já idoso e a Mininha, teria na altura os seus 35 anos. Foi com esta família que eu passei a maior parte daquele tempo. De início estranhei muito a falta de minha mãe (a mamãe, como eu dizia) mas pouco a pouco a sua imagem foi-se diluindo. Desses tempos guardo muito boas recordações. Nunca tinha brincado com um gato, nunca tinha feito festas a um cordeiro, nunca tinha pegado num pintainho ao colo e agora tinha um só para mim, que a Mininha me tinha dado e de que eu cuidava, com a sua ajuda. Também nunca tinha cozinhado. Mas a Srª Felismina arranjou-me uma panelinha de ferro de três pés, idêntica ás que ela punha ao lume, e eu fingia que cozinhava. Para não estragar a roupa que eu trazia, toda ela muito cuidada, 34
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia alguma bordada pela minha mãe, fazem-me umas peças de roupa simples para eu usar lá em casa. O meu pai anda preocupado com os projectos para a casa de cima, que é assim que ele lhe começa a chamar. Não me pode dar grande atenção, mas todos os dias me conta histórias e de vez em quando leva-me ao palheiro para me explicar como será a nova casa. Claro que eu não consigo imaginar nada. Fico apenas com a ideia de que irá ser bonita. Uma das vezes leva-me até ao ribeiro para onde estavam a ser conduzidas as canalizações para os esgotos. Não sei bem quanto tempo decorreu entre essa ida e a minha crise de paludismo. Na TERRA, e em tempos mais remotos, era relativamente frequente as pessoas adoecerem com paludismo- sezões, como lhe chamavam. Por vezes bastava uma ida ao rio ou a um dos vários ribeiros, onde deveriam existir mosquitos do género “anopheles”. Quando comecei com muitas tremuras e períodos de muita febre, o meu pai mandou o António Joaquim à Vila falar com o Dr. Sebastião, um homem extremamente generoso, um autêntico João Semana. Em face das explicações do António Joaquim, o Dr. Sebastião imaginou logo do que se tratava. Apareceu munido com quinino e preparado para fazer uma recolha de sangue para análise. Comecei logo a tomar o quinino. Posteriormente a análise confirmou que eu estava com paludismo. Não sei quanto tempo estive doente. Passei todo o tempo na casa da Sr.ª Felismina. Lembro- me de que sempre que abria os olhos via à cabeceira da cama, o meu pai, a Mininha e a Sr.ª Felismina. A Germana e a Balbina passavam os dias a chorar. Ai que se “bai” o nosso anjinho. Pediram licença ao meu pai para fazer uma promessa a Sto Estevão. Se eu curasse, iria vestida de anjo na procissão da festa de Maio. É que Sto Estevão tem duas festas - a de Setembro e a de Maio, apenas com a parte religiosa. O meu pai anuiu. Faria tudo para me ver boa. As vestes foram alugadas em Viana. Foi assim que eu “fui de anjo”. A minha mãe só soube de tudo isto, tempos mais tarde. A TIA e o tio Justino souberam mais cedo porque apareciam com frequência. Aliás foram eles que trataram de alugar as vestimentas. O TIO também vinha à TERRA de vez em quando tal como eu e o meu pai íamos por vezes a Lisboa. A minha mãe é que não viria à TERRA durante mais de um ano, precisamente o tempo de construir a casa de cima. 11 A minha mãe regressou à TERRA em Agosto de 1955. O tio Justino estava de férias pelo que se pôde contar com o apoio da TIA na difícil tarefa de criar condições para a adaptação da minha mãe. Desta vez, ao chegar, o choque não foi tão grande. Para isso contribuíram vários factores. Um deles foi a viagem. O meu pai tinha comprado um 35
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia automóvel, um Sinca em segunda mão e, à sua custa, mandado dar um jeito ao caminho entre a Vila e a TERRA. Foi de automóvel, e não de carro de machos, que a viagem foi feita desta vez. Por outro lado, a minha mãe já sabia com o que contava. Sabia ainda que existia a casa de cima com outro conforto. Para a casa de cima, que confina com duas ruas, entra-se por uns grandes portões em ferro que dão acesso a um pátio descoberto- o pátio de cima- mais tarde coberto por uma ramada. Esse pátio dá acesso a um outro, fechado- o pátio de baixo- que comunica com a outra rua. Este pátio, por cima do qual está um terraço, dá para a adega que tem uma outra porta, para a rua. O pátio de cima dá ainda acesso ao quarto da costura, ao pio do vinho, também este com um outro acesso a partir da rua, e às escadas para o piso superior. Neste há uma cozinha grande (se bem que muito menor que a da Casa) com uma lareira, uma sala, dois quartos, o escritório do meu pai e uma casa de banho. Por cima da cozinha há um depósito para onde era elevada a água. Esta era transportada, desde a fonte, em cântaros dentro das cangalhas no dorso dos machos. No pátio de baixo foi colocado um pequeno gerador de energia eléctrica. Não havia nem forno, nem galinheiro, nem cortelho de porcos, nem loja para os animais. O meu pai sabia que, nessa áreas, jamais iria poder contar com a minha mãe. Quando a minha mãe chegou não havia móveis, à excepção de duas camas de ferro. O meu pai iria deixar a tarefa da decoração para a minha mãe, na esperança de que isso lhe criasse um envolvimento com a casa. As ordens médicas eram no sentido de a ocupar em tarefas, nas quais se sentisse envolvida. Como a casa de cima não tinha móveis, apenas lá dormíamos. O dia passávamo-lo na CASA. Eu adorava. A CASA com todas aquelas escadas, com o Lar e o forro, com os escanos e as preguiças exercia sobre mim grande fascínio. As refeições eram confeccionadas sob a supervisão da TIA. A minha mãe ia assistindo e aprendendo. Ainda hoje acho estranho como é que sendo a TIA tão intolerante com certas práticas, tão conservadora, aceitou tão bem a minha mãe, apesar de casada apenas civilmente. Nunca se referia a isso, embora a situação a desgostasse. Quando alguma pessoa levantava o problema ela limitava-se a dizer: São outras terras com outros usos. Que lhe havemos de fazer? Já no que respeita aos problemas decorrentes da dificuldade de adaptação da minha mãe, aí era totalmente sincera quando dizia: Não me admiro nada. Para quem vem duma terra onde há de tudo, deve ser muito difícil gostar disto. Isso é para nós que temos aqui as nossas raízes. Quando a minha mãe manifestou a intenção de começar a bordar, a TIA pôs-lhe à disposição peças de linho, que ainda estavam intactas nos baús, linhas, agulhas, dedais e bastidores. 36
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia À tarde, a Mininha vinha fazer companhia à minha mãe enquanto eu ia fazer companhia à Sr.ª Felismina, o que me dava sempre imenso prazer. Já ensaiava uns pontos de meia, que ela me tinha ensinado. Eu tinha como objectivo fazer uns meiotes para o Sr. Pedro, obra que nunca concluí, não sei se devido à minha inabilidade se à morte do Sr. Pedro dois anos depois. A Mininha, tal como a TIA, ficava admirada porque a minha mãe bordava sem “risco”. Imaginava o que ia bordar e a partir daí as mãos trabalhavam com as agulhas e as linhas. Também os motivos bordados nada tinham a ver com aquilo a que a TIA e a Mininha estavam habituadas- eram araras, tucanos, colibris, sabiás, papagaios, catatuas, tatus; eram goiabas, jaboticabas, caquis, mangas, mamões. E tudo isto envolvido num colorido que me encantava. Os encontros da minha mãe com a Mininha, em que participava a TIA sempre que estava na TERRA, ficariam sempre marcados na minha memória, especialmente a partir do momento em que a minha mãe recomeçou a cantar. Também aí houve aprendizagem dos dois lados: enquanto a minha mãe aprendia as modinhas da Terra, a TIA e a Mininha aprendiam modinhas brasileiras, que a minha mãe cantaria sempre com sotaque, mesmo depois de praticamente o perder. Eu gostava muito das que falavam daquele outro mundo de além-mar, que eu já quase esquecera. Uma delas era uma canção com que a minha mãe me embalara . Bicho Tatu saia do telhado deixe o “minino “ dormir sossegado Dorme neném que a cuca vem “pegá” mamãe foi na roça papai no “cafezá”. Eu crescia assim entre dois mundos. Mas a adaptação da minha mãe não estava a ser fácil. De vez em quando ficava muito triste e com o olhar muito distante como daquela vez em que ensinava à Mininha uma canção da sua terra que dizia: Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá. Não conseguiu a acabar o último verso. Começou a chorar. Acho que a canção traduzia o que lhe ia na alma. Mas fazia sempre por reagir, ocupando-se. Empenhou-se na decoração da casa. Os móveis, escolhidos por ela, eram simples mas com a marca do seu bom gosto. Foi ela quem depois confeccionou as cortinas com o linho da CASA que bordou, muitas vezes com a ajuda da Mininha. Agora passávamos a maior parte do tempo na casa de cima e outra das suas ocupações foi ensinar-me a ler, mesmo antes 37
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia de ir para a escola. Tentou também ensinar a ler a Germana e a Balbina que não passaram da escrita do nome. Comigo teve mais sucesso. Quando cheguei à escola, em Outubro de 1956, já sabia ler, escrever e fazer contas de somar e subtrair. Entrei directamente para a segunda classe. A aritmética foi-me ensinada pelo meu pai. Não sei se por isso, quando mais tarde chegou a hora de decidir qual o curso a seguir, a minha mãe sugeria- me as Letras e o meu pai, as Ciências. 12 Guardo algumas recordações da escola mas nenhuma do meu primeiro dia de aulas. Também guardo muito poucas recordações da professora que tive nesse ano- a D. Cremilde. Curiosamente lembro-me mais dos seus três filhos, duas meninas e um menino, com idades entre os dois e os cinco anos, e do marido que recordo sempre montado num fogoso cavalo branco. A D. Cremilde vivia na casa da escola, se é que casa se lhe podia chamar. Na verdade a escola era um edifício muito velho, um pouco em ruínas, onde já tinha estudado o meu avô Álvaro. Consistia em duas salas- uma era a sala de aulas que albergava simultaneamente as quatro classes e a outra era a casa da professora, onde a D. Cremilde criou dois compartimentos, improvisando uma separação com uns cortinados de chita. Eu, tal como os outros alunos, conhecia a casa porque a D. Cremilde, como tinha as crianças pequenas, ia muitas vezes a essa zona. Por isso deslocávamo-nos lá, com frequência, para mostrar a conta, a cópia ou qualquer outro trabalho. Toda a gente sabia que a D. Cremilde detestava estar na TERRA; há muito que almejava ser colocada na sua aldeia que distava mais de 20 km. Era lá que vivia o marido que, de vez em quando, a vinha visitar. No meu segundo ano de escola, ou seja, na terceira classe, a escola passou a posto escolar, segundo se dizia à boca cheia, por influência da D. Cremilde, que assim conseguiu ser colocada mais próximo da sua aldeia. Passámos então a ter como professora uma regente escolar- a menina Celeste- de quem também me lembro pouco. Lembro-me no entanto de que a menina Celeste trocava os bês pelos vês. Assim dizia-nos: Meninos vamos ao “travalho”. Creio que estas gafes da menina Celeste resultavam da sua extrema preocupação em não trocar os vês pelos bês como acontece ainda hoje na TERRA. Quando um dia o meu pai comentava este episódio com o TIO este aproveitou logo para dizer: Mais uma bela obra do “Botas”. Fecha as Escolas Normais, cria os postos escolares. Quanto mais ignorantes formos, melhor. 38
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Claro que o meu pai foi logo em defesa do homem de S. Bento e mais uma discussão se gerou. Uma das vezes, na escola, aprendemos o hino nacional. A minha mãe disse-me: Esse não é o teu hino. Ensinou-me o hino brasileiro e eu, confesso, achava-o bem mais bonito pois falava de flores e estrelas enquanto o que me haviam ensinado na escola falava de armas. Soube que falava de estrelas porque, à medida que me ia ensinando a letra, a minha mãe ia- me explicando o significado. Assim, a propósito do verso que diz em teu formoso céu risonho e límpido a imagem do cruzeiro resplandece, eu aprendi o que era o Cruzeiro do Sul. O meu pai já me ensinara a reconhecer no Céu a Ursa Maior, a Ursa Menor, a Estrela Polar e a estrela da tarde, que não era estrela, mas planeta. E eu tinha pena de não poder ver também o Cruzeiro do Sul. Mas o que eu mais recordo do meu tempo de escola são alguns colegas, a Conceição, o Zé, a Beatriz, a Pureza, a Lucinda, o Manuel, a Rosa, nem todos da minha classe, e os jogos e brincadeiras que fazíamos. Havia brincadeiras consideradas masculinas e brincadeiras consideradas femininas. Eu gostava de brincar a qualquer delas. Assim jogava ao pião, ao espiche, à rodinca, à macaca, ao esconde-esconde, ao dá-me lume, ao minha mãe dá licença, à corda, aos ganhotes, ao caça, aos jogos de roda, ás casinhas. Tinha pena de não brincar descalça como a maior parte das crianças, mas para além de saber que a minha mãe me castigaria se o fizesse, tinha tido uma má experiência- uma das vezes que tinha experimentado, tinha espetado uma brocha num pé. O ferimento infectou e como não queria que a minha mãe soubesse, ia todos os dias, às escondidas, fazer o tratamento a casa da Sr.ª Felismina. A minha aprendizagem na escola, que penso ter sido pequena, era complementada em casa pelos meus pais, mantendo-se na generalidade a distinção- o pai para a aritmética, a mãe para a leitura, as cópias e os ditados. Por essa altura fazia eu também outra aprendizagem- a da “doutrina”. A catequista, uma senhora já de idade a quem chamávamos a menina Amelinha, lá nos ia ensinando um conjunto de coisas tais como “ Deus é um Ser Omnipotente, Omnisciente e Misericordioso Criador e Senhor do Céu e da Terra” às quais não sei que significado eu atribuía na altura. Sempre que mostrávamos saber bem a lição, a menina Amelinha dava-nos um “santinho”. Eu gostava de coleccionar santinhos e tinha vários. No meu segundo ano de catequese a menina Amelinha achou que eu já podia ir catequizando os mais novos, cinco crianças muito pequenas a quem eu também deveria ensinar que Deus era um ser omnipotente e omnisciente. O problema é que eu não tinha santinhos para distribuir. Aí tive uma ideia luminosa. Recortava, no Comércio do Porto que o meu pai assinava, os quadradinhos da banda desenhada Ferdinand. Eram esses os santinhos que eu distribuía. Quando a 39
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia menina Amelinha descobriu ficou muito escandalizada. Segundo contaram mais tarde à minha mãe, a menina Amelinha contava o episódio a toda a gente comentando: Filha de uns hereges, o que é que se havia de esperar? Neste comentário estava implicitamente contida a referência ao casamento civil de meus pais. No fim da catequese ou da escola eu ia sempre a casa da Sr.ª Felismina, tivesse ou não tivesse motivo. Aí e à CASA, que tinha ganho um novo encanto. O António Joaquim, que entretanto casara, tinha agora um filho bébé. A casa de cima, essa crescia, não em tamanho mas em cores, sons, cheiros e sabores. 13 A casa de cima parecia ligada à CASA por um cordão umbilical. Muitos dos cheiros, sabores cores e sons começavam agora a penetrá-la. Não todos, claro está. Não havia a capoeira das galinhas, nem o cortelho dos porcos, nem a loja dos machos. Também na casa de cima não se faria fumeiro, nem folares. Tudo isso se continuaria a fazer na CASA. Seria ainda a CASA que nos abasteceria de queijo, galinhas, perus, carne de porco- fresca logo após a matança, da salgadeira, depois. Mas na casa de cima far-se- iam as compotas, o vinho, a aguardente, as doçarias de Natal, as sopas de tomate e tantos outros cozinhados que a minha mãe aprendera a fazer. Aos cheiros e sabores importados da CASA juntavam-se agora os das coxinhas de galinha, do pirão, da macarronada à italiana, do nhoqui, da couve à mineira, da pamonha de milho, do bolo de fubá, do bom bocado, dos quindins, do “pé de moleque”, dos canudinhos recheados com creme, dos gelados (a que a minha mãe sempre chamaria sorvetes). À exuberância das cortinas bordadas pela minha mãe, associava-se a cor das dálias, das malvas, dos amores perfeitos, dos lírios, das açucenas, dos goivos, que na CASA ornamentavam as escadas e a varanda e que agora, num canteiro criado no pátio de cima, conferiam o mesmo colorido à nova casa. Os sons, esses tinham vindo quase todos, inclusive o do chilrear das andorinhas que começaram a fazer o ninho num dos beirais da casa. De todos os sons, o que mais recordo é o da escacha da amêndoa. Foi sempre a tarefa que mais me seduziu. Talvez porque eu tomava parte activa nela. Ainda hoje guardo o meu escachador. Era pequenino, cilíndrico e mais perfeito que qualquer outro. A escacha da amêndoa era feita no pátio de baixo. Previamente a amêndoa era escabulhada no mesmo pátio e ensacada. Era dos sacos que as escachadeiras (neste trabalho havia essencialmente mulheres) tiravam punhados de amêndoas que 40
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia mantinham na mão esquerda. Essas amêndoas eram colocadas, uma de cada vez, sobre uma cova numa pedra, e fixadas entre o polegar e o indicador da referida mão. Com o escachador, usado com a mão direita, partia-se a casca da amêndoa deixando o grão, umas vezes intacto, outras vezes com pequenas mazelas. O grão ia sendo deitado, primeiro para o avental e, posteriormente, para sacos. Era bonito ouvir o som dos vários escachadores, umas vezes em uníssono, outras vezes não. Mas o que eu mais gostava de ouvir, eram as conversas, as histórias, as adivinhas, os provérbios, as cantigas com que se iam preenchendo os serões da escacha. Lembro-me de uma noite em que, ao desafio, se iam dizendo provérbios encadeados. No poupar é que vai o ganho .......Grão a grão enche a galinha o papo....... Há quem poupe no farelo e esbanje na farinha.....Vale mais quem Deus ajuda do quem cedo madruga, .....Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer....A conversa é como as cerejas...... Que se comem em Maio ao borralho. Lembro-me também das adivinhas: Alto está, alto mora, todos o vêem, ninguém o adora....Verde foi meu nascimento, mas de luto me vesti, para dar a luz ao mundo mil tormentos padeci.... Destas e de muitas outras. Lembro-me ainda de certas conversas e histórias de uma ingenuidade comovedora mas a que na altura achava imensa graça, como uma contada pelo ti Geraldo. O ti Geraldo era um homem que trabalhava muitas vezes lá para casa. Quando, por qualquer razão aparecia, a minha mãe perguntava, como é habitual na TERRA: Quer uma pinguinha? Ao que ti Geraldo respondia, de imediato, sempre da mesma maneira: Já que tanto insiste, minha senhora. Ora a história que o ti Geraldo contou numa sessão da escacha, e que por certo era fruto da sua imaginação, tinha a ver com a festa da Vila. O ti Geraldo contava que para a festa tinham convidado o Bispo. No momento em que o Bispo entrava na Vila, o presidente da comissão das festas disse para o mestre da Banda de Música: Toque qualquer coisa homem, não vê que o Sr. Bispo está a chegar. E o que é que quer que toque ? Qualquer coisa. Então ouve-se a banda a tocar uma modinha da altura, que começava assim: “A mim não me enganas tu, a mim não me enganas tu”. Comentava o ti Geraldo: Coitado do “home”. “Pori” na altura “num” se l´ atinou outra. Os termos usados eram estes e muitos outros. Por isso o tio Justino gostava de acompanhar a escacha. De vez em quando pegava no seu bloquinho e fazia as suas anotações, como daquela vez em que a tia Maria apareceu com uma ligadura na mão. Então que lhe aconteceu tia Maria? 41
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Andei a “esgodar” as escaleiras. “Esbarei”, caí e “esmochilei-me” toda. Também gostava de ouvir as modinhas que se cantavam na escacha, especialmente se minha mãe acompanhava. A minha mãe adorava cantar, especialmente árias de ópera. E assim, um novo som se juntava aos importados da CASA. O meu pai cantava razoavelmente, embora nada que se comparasse com a ex-soprano do coro da igreja de N. Sra. da Consolação. Cantavam muitas vezes em conjunto e eu adorava ouvi-los. As suas árias preferidas eram da Traviata (Brindisi), do Rigoletto (como eu gostava de ouvir La donnna é mobile), do Nabucco (Va pensiero), das Bodas de Fígaro (Non piú andrai), da Carmen (Habanera e a marcha do toreador), da Madame Butterfly (Un bel di vedremo, que eu achava muito triste), do Barbeiro de Sevilha (Largo al factotum). Nessas alturas a minha mãe parecia feliz. Acontecia o mesmo quando, com o meu pai, recordava filmes que ambos tinham visto. Lembro-me essencialmente de dois títulos: “Casablanca” e “E tudo o vento levou“. Lembro-me também de falarem de actores, cujos nomes só muito mais tarde eu aprenderia a dizer: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Clark Gable, Vivien Leigh, Fred Astaire, Ginger Rogers. Um outro som podia também ser ouvido agora na casa de cima- o da máquina de costura da minha mãe, comprada numa das últimas idas a Lisboa. A minha mãe costurava bem e sabia bordar à máquina. Por isso, agora alternava os bordados à mão, mais finos mas mais lentos, com os feitos à máquina, um pouco mais grosseiros mas indubitavelmente mais rápidos. Ensinou a Mininha a bordar à máquina. E não só a Mininha. Muitas raparigas da terra por ali passaram, entre elas a Rosa, a Lurdes, a Etelvina. O seu esforço de adaptação continuava. Ás vezes parecia integrada, outras vezes ficava com um ar muito triste e dizia: Onde havia eu de vir parar, neste fim de mundo. Ás vezes sugeria ao meu pai. E se fôssemos ao Brasil? Aproveitavas para ver os teus afilhados. Talvez um dia- era sempre a resposta do meu pai. Eu percebia que a minha mãe tinha muitas saudades da sua terra. Talvez por isso e também porque gostava muito de a ouvir, pedia-lhe muitas vezes para contar histórias da sua vida além-mar. Então falava-me da fazenda onde vivera em criança, das boiadas e dos boiadeiros, das plantações de cana do açúcar, dos cafezais, das bananeiras, das goiabeiras, dos pássaros, das modinhas que se cantavam ao serão ao som dos violões. Falava-me também de S. Paulo, que eu já mal recordava, e da sua vida ainda solteira, indo às praias de Santos com os irmãos, andando de bicicleta, comendo pé de moleque e sorvete e bebendo garapa e água de coco. Falava-me da vida depois de casada, dos cinemas, das óperas, das festas. Falava-me dos amigos- da Olga Stein, descendente de alemães, da Paola Pistilli, descendente de italianos tal como a minha mãe, da Hilda 42
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Sanharib, de origem síria, do Takahashi, descendente de japoneses, e da sua maior amiga, a negra Benedita. Eu achava que devia ser muito bonita uma terra onde conviviam gentes de todo o mundo. Essa terra era, para mim, a terra da minha mãe. Eu sabia que também era a minha mas, talvez por já me lembrar pouco dela, eu achava que a minha terra era a TERRA. Isso não impedia que em alguns casos eu gostasse mais das coisas do lado de lá. Era o caso do hino. Já com o Natal era diferente. 14 O Natal brasileiro de que a minha mãe me falava, com as indispensáveis idas à praia, nunca me entusiasmou. Ao falar desse natal, a minha mãe não falava das idas ao musgo, da fogueira da praça nem do cantar dos Reis. E disso eu gostava muito. Começava a pensar nele muito tempo antes, não sei bem quanto, mas só quando chegavam a TIA e o tio Justino é que o Natal começava realmente para mim. No dia seguinte à sua chegada, eu, o meu pai e o tio Justino íamos ao musgo. Às vezes tinha pena de arrancá-lo, tão verde e tão fofo ele estava, agarrado às paredes. Parecia veludo. Arrancado o musgo começava a construção do presépio, essencialmente a cargo do tio Justino e da minha mãe. Eu colaborava activamente. Também os meus colegas de escola vinham muitas vezes ajudar. Fazia-se no pátio de baixo. O tio Justino começava por empilhar várias cortiças de modo a criar uma estrutura em relevo. Depois cobríamo-las com o musgo. Em seguida, com areia fazíamos uns carreirinhos ao longo dos quais iríamos colocar várias figuras. Estas eram de barro pintado e tinham sido trazidas de Viana pelo tio Justino. Também foi ele quem fez a cabana do Menino Jesus, com uma cortiça virgem. Para além das figuras, da cabana e dos carreirinhos, havia no presépio um lago, feito com um espelho envolvido de musgo, ao qual dava acesso um regato que serpenteava ao longo da cascata e era feito com papel prateado. Havia ainda uma fogueira feita com papel celofane vermelho, coberto com galhinhos de lenha, e por baixo do qual se colocava uma lanterna acesa. Era à volta desta fogueira que se colocavam os pastores. Presa do tecto havia uma estrela que iluminava os reis magos. Era de cartão coberta com papel dourado. Para além do presépio havia lá em casa uma árvore de Natal, e creio que seria a casa de cima a única casa da TERRA onde tal acontecia. A ideia da árvore de Natal tinha vindo com a minha mãe. Era feita com um zimbrinho que era colhido no mesmo dia em que íamos ao musgo. Os enfeites eram pompons de lã, coloridos, que eu fazia com a ajuda da Mininha, e pequenos biscoitos que a minha mãe fazia com vários formatos- de 43
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia estrela, de meia lua, de sino, de árvore. Na parte superior da árvore havia um grande laço de seda arranjado pela minha mãe. Mas o Natal era muito mais que o presépio e a árvore. Era a ceia, sempre na CASA, até à morte da TIA. Comíamos todos à mesa- os meus pais, a TIA e o tio Justino, a Germana, a Balbina, o António Joaquim e a família. A ceia constava de bacalhau, polvo e pescada cozidos com batatas e couves da TERRA que têm um sabor diferente de todas as outras que eu conheço. E tudo isto era regado com o azeite dourado das oliveiras, também da TERRA. Eu, na altura, não apreciava muito essa comida mas sabia que depois vinham as sobremesas. E dessas eu gostava. Eram as rabanadas, as filhós, os milhos doces, o arroz doce, a aletria, os fritos de jerimum, os rochedos de amêndoa. No dia de Natal o almoço era na casa de cima. Invariavelmente era peru recheado com farofa acompanhado de arroz com amêndoas, passas e nozes. À sobremesa eram doçarias brasileiras- quindins, bom bocado, docinhos de amêndoa, pudim de laranja. Eu gostava de ajudar a fazer estas doçarias, particularmente os docinhos de amêndoa. Eram feitos de véspera com uma pasta de açúcar, gemas e amêndoa, que era introduzida dentro de cascas de nozes para ali secar. No dia de Natal saíam das cascas docinhos de amêndoa com o formato de noz. Depois do almoço eu ia sempre com o meu pai e o tio Justino ver a fogueira na praça. Ainda hoje se faz a fogueira. Antes do Natal os rapazes da TERRA vão pelas casas mais abastadas pedir lenha. As pessoas indicam-lhe onde a podem ir buscar. Na véspera de Natal lá vão eles. Após a ceia de Natal, lá pelas 10 h da noite, a lenha, grandes toros e raízes, começa ser empilhada na praça, em frente à igreja. Em seguida acende-se a fogueira. Levam-se umas chouriças para assar e assim, entre conversas, comendo chouriça assada, os homens vão passando a noite. Se há Missa do Galo, vai-se à Missa. Caso contrário por ali se fica até passar da meia-noite. A fogueira manter-se-á acesa por vários dias, enquanto a lenha durar. As mulheres não participam deste evento. Podem ir ver, passar algum tempo, mas é uma prática essencialmente masculina. Outra boa recordação que tenho da época natalícia é o cantar dos Reis6. Aí participam crianças e jovens que vão de porta em porta cantando. Lembro-me particularmente de alguns excertos de duas canções de Reis. Uma delas era: Dai-nos leitão e cabrito, arroz doce e marmelada, dai-nos vinho de há cem anos já não vos queremos mais nada. Trigo e nozes e marmelada, lombo de porco, vitela assada, 6 assim são designadas as Janeiras 44
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia pão com manteiga, chá ou café e o Deus Menino nascido é. A outra, era a última a ser cantada: Ao carrasco de Lisboa já lhe caiu a bolota Se nos querem dar os Reis venham-nos abrir a porta E as portas abriam-se e lá vinham as nozes, a marmelada, os figos, as chouriças. Eu gostava muito de cantar os Reis em todas as casas mas, muito em especial, na casa de cima. A minha mãe preparava uma cesta com uns embrulhos feitos em papel de seda com uns grandes laços. Cada um de retirava da cesta um embrulho. Era bonito, pela surpresa. Lá dentro podia haver caramelos de leite (que ela fazia tão bem), biscoitos iguais aos da árvores, docinhos recheados com amêndoa, pé de moleque. Eu ficava muito feliz até porque me parecia que a minha mãe também estava feliz. Mas por vezes aquela sua tristeza voltava, como daquela vez em que uma irmã se lembrou de lhe mandar a primeira “Manchete”. Lembro-me bem da capa. Trazia uma mulher bonita, vestida de azul e tinha como título: O beijo que o protocolo proibiu. Mais tarde soube que a mulher bonita era a princesa Grace Kelly. Eu não sabia o que queria dizer protocolo, por isso também não entendia que relação poderia haver entre protocolos e beijos mas, acima de tudo, eu não percebia porque razão uma revista com uma mulher tão bonita na capa, poderia ter deixado a minha mãe tão triste. Os períodos de tristeza da minha mãe, punham o meu pai muito desorientado. Por vezes reagia trabalhando até à exaustão (cavando, lavrando, podando, levantando muros nas propriedades). Outras vezes voltava à vida desregrada que em outros tempos levara, gastando muito para além das suas possibilidades. Os gastos com a construção da casa, os tratamentos da minha mãe, os desvarios episódicos do meu pai, aliados à crise que se inicia na agricultura, fundamentalmente devida à emigração para a Europa, levam a que a nossa situação económica não seja invejável. E isto, precisamente na altura em que vão começar os gastos com a minha educação. 15 Vou para a cidade, estudar para o Liceu. Fico instalada em casa de um casal conhecido dos meus pais. Os primeiros tempos foram muito difíceis. Tinha muitas saudades da 45
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia família, da TERRA, da CASA e da casa de cima. Só de tempos a tempos os meus pais apareciam pois não havia estrada para a TERRA; apenas o caminho que o meu pai tinha mandado arranjar e que no Inverno era geralmente intransitável. Como nessa altura não havia telefone na TERRA, o correio era a única forma de comunicação. Todos os dias esperava o carteiro com imensa ansiedade e não conseguia conter as lágrimas, quando não tinha correspondência. Encontrei na leitura uma forma de compensar as saudades que eu sentia. Na biblioteca do Liceu requisitava tudo quanto encontrava desde Luisa Alcott, Condessa de Ségur, Selma Lagerlof, Hans Christian Andersen, Trindade Coelho, a Júlio Verne e Emílio Salgari. No dia que cheguei à cidade comecei a contar os meses que faltavam para as férias de Natal. Depois passei a contar os dias, os minutos e até os segundos. Não consigo sequer descrever a alegria que tive ao chegar. Lá estavam todos os da CASA e os da casa de cima. Estavam ainda a Sr.ª Felismina e a Mininha. Difícil foi o regresso à cidade, depois das férias. Mas a partir do segundo período lectivo comecei a adaptar-me melhor. Em meados de 1962, foi inaugurada a estrada entre TERRA e a Vila e a partir daí as visitas dos meus pais passaram a ser mais frequentes, o que também facilitou a minha adaptação. Uma das vezes em que os meus pais me foram visitar, a minha mãe ofereceu à senhora da casa onde eu vivia, um pano bordado. A senhora tê-lo-á mostrado às amigas e uma delas encomendou uma colcha bordada à minha mãe. Com a ajuda da Mininha a minha mãe iria satisfazer essa encomenda bem como outras que se seguiriam. Além de a ocupar, esta nova actividade constituía uma ajuda económica que não se podia rejeitar. Para a Mininha também era bom, pois estava agora muito só. Tinha morrido a Sr.ª Felismina. Também morrera a Germana que já há muito se queixava de dores no peito. Estas duas mortes foram as primeiras que eu senti realmente. Nunca mais a Germana me faria meiinhas rendadas, nem voltaria a ouvir a Sr.ª Felismina dizer, logo que me sentia puxar a aldraba da porta: Aí vem a pombinha da Catrina. É também por esta altura que a TIA vende ao TIO a sua parte na Casa. A TIA nunca teve filhos pelo que o TIO quis assegurar que a CASA continuasse na família. Pertence agora apenas ao TIO mas todos continuaremos a considerá-la como nossa. Tudo se passa como se agora tivéssemos duas casas, uma filha da outra. Em 1963 chega à TERRA a luz eléctrica e consequentemente a televisão. Em 1964 chega o telefone. Durante todo este período ocorreram factos que recordo, uns mais que outros. Uns foram de carácter mundial ou nacional; outros, ainda, foram estritamente pessoais. Assim em 1961 a nave Vostok 1 efectua o primeiro voo orbital em volta da terra, levando a bordo Yuri Gagarine. Nesse mesmo ano, Jânio Quadros sucede a Kubitschek de Oliveira na Presidência da República do Brasil, dá-se o assalto ao S.ta Maria, Portugal perde os territórios da Índia e inicia-se a guerra colonial. A perda dos territórios da Índia lembra- 46
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia me um episódio, que hoje, volvidos tantos anos, acho perfeitamente bizarro. No entanto, não sei que significado lhe atribuí na altura. Creio que foi nas férias da Páscoa. Na missa dominical, os habituais cânticos foram substituídos por um que tinha a ver com a situação vivida no território. Se bem me lembro, a letra era assim: Ah,Ah,Ah, heróis de Dadrá Eh,Eh,Eh, lutai pela fé Ih,Ih,Ih, Nagar-Avely Oh,Oh,Oh, Goa não está só Uh,Uh,Uh, convertei Nehru Em 1962 teme-se a eclosão de uma nova guerra mundial na sequência da instalação dos mísseis soviéticos em Cuba. Em 1963 Paulo VI sucede a João XXIII, e Kennedy é assassinado. Em 1964 recebo a primeira carta de amor, que ainda hoje guardo. Reza assim: Minha gentil menina Quando a vejo passar na praça da Sé, ao ir para o Liceu, o meu coração bate com tanta força que penso que vai sair do peito. O seu sorriso, que lembra o de Helena de Tróia, é para mim um bálsamo. Serei eu correspondido? Diga-me que sim, senão eu morro de desgosto. António Como não trazia qualquer outra identificação ainda hoje não sei quem era esse António, mas por certo não morreu de desgosto. A cidade era grande comparada com a TERRA, mas não tão grande que uma tal tragédia não desse que falar por muito tempo. Também nunca vi qualquer outra referência ao sorriso da Helena de Tróia, pelo que não sei se seria muito galanteador ou não. É também em 1964 que recebo como prendas de anos dois livros que me irão acompanhar sempre: O Pequeno Príncipe de Saint- Exupéry e Platero e Eu de Juan Ramón de Jiménez. O meu gosto pela leitura é cada vez maior. Quando estou na TERRA, grande parte do tempo passo-o no escritório, a ler. 16 O meu pai também se refugiava agora muito no escritório. Era a parte da casa com mais cor, que provinha essencialmente das cortinas bordadas pela minha mãe, complementadas agora por uma colcha, também bordada, que tapava um divã. Este não 47
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia existia inicialmente, mas após a morte da Sr.ª Felismina, a Mininha passava muito tempo com a minha mãe e, no Inverno, por vezes ficava a dormir lá em casa. No escritório, para além do divã, havia a secretária e a cadeira do meu pai, ambas em castanho, uma estante, também em castanho, ao longo de uma das paredes, e um pequeno sofá de couro. Era um compartimento cheio de fotografias. Nas paredes, as dos meus bisavós Isabel e Luís Engrácio, com os filhos Matilde, Afonso e Marta, as dos meus avós Marta e Álvaro, uma do tio Filipe e da tia Carlota com o filho Júlio ainda pequeno, uma outra da TIA e do tio Justino. Havia também duas fotografias aéreas tiradas pelo TIO- uma da TERRA e outra do Santo. Em cima da secretária estava apenas a foto da minha mãe. Na estante encontravam-se vários romances, peças de teatro e alguns livros de poesia. Eram essencialmente de autores portugueses- Camilo, Eça, Júlio Dinis, Guerra Junqueiro, Almeida Garret, Abel Botelho, António Nobre, Trindade Coelho. Havia também alguns autores brasileiros- Juracy Camargo, Machado de Assis, José de Alencar- e um autor francês, Victor Hugo. Havia ainda na estante uma monografia do concelho, alguns volumes das memórias Arqueológico- Históricas do Distrito, e os Estatutos da Confraria de Sto Estevão. Podiam ver-se também uma meia dúzia de livros antigos, alguns que meu pai herdara do meu avô, outros que comprou em alfarrabistas- Os Lusíadas, publicação de 1879 da Typographia e Lithografia E. Guyot, em Bruxelas, uma Bíblia Sagrada, de 1842, edição aprovada pela Rainha D. Maria II, o Dicionário Encyclopedico da Lingua Portugueza, de Simões da Fonseca, sem data de edição, o Manual Encyclopedico para uso das Escolas de Instrução Primária de Achilles Monteverde, datado de 1879, um Formulário e Guia medico do autor Pedro Chernoviz, datado de 1892, 15 ª edição e que contém a descripção dos medicamentos, as doses, as molestias em que são empregados, as plantas medicinaes indigenas do Brazil, o Compendio alphabetico das aguas mineraes, a escolha das melhores formulas, um memorial therapeutico e muitas informações úteis. Durante muito tempo, ocupou lugar de destaque na estante, o livro “Salazar na intimidade”, mas um dia desapareceu sem deixar rasto. Para além dos livros havia arquivos com correspondência, todos eles identificados na capa: Correspondência com meus irmãos (1938- 1954); (1954- ) Correspondência com primo Júlio e afilhados (1954- ) Correspondência diversa Havia também várias revistas- alguns números do Seringador, da Ilustração Portuguesa, da Vida Mundial Ilustrada, da revista Je sais tout ( datados de 1921), um Borda- d´Água que tinha sido comprado há muitos anos pelo avô Álvaro, e algumas Manchete. Após a crise da minha mãe, quando a irmã lhe mandou a primeira, o meu pai pediu-lhe que não voltasse a mandar nenhuma. Mas mais tarde, foi a minha mãe quem quis recebê-las. Assim existiam várias. Havia ainda vários álbuns de fotografias, alguns de pessoas que já ninguém identificava, outros mais recentes. Todos eles eram um 48
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia pouco desorganizados, excepto um que ia sendo construído pela minha mãe exclusivamente com as fotos que a família lhe enviava do Brasil. Todas as fotos estavam dispostas por ordem cronológica e em baixo tinham vários dados de identificação. Assim, sempre que um dos irmãos lhe mandava a fotografia de um novo filho a minha mãe escrevia por baixo o nome, a data de nascimento, a filiação. Mais tarde a minha mãe esclareceu-me quanto à intenção destas anotações. Assim poderás conhecer melhor a tua família do Brasil, que infelizmente ou nunca viste, ou já esqueceste. Disputando o lugar com os livros podiam ver-se, na estante, várias fotos. Uma era do TIO, ainda novo, fardado; as restantes eram minhas e dos afilhados de meu pai- Renata e Ricardo. Os afilhados do meu pai sempre fizeram parte do meu imaginário. Escreviam com alguma frequência ao padrinho e nas cartas vinham sempre umas letras que me eram particularmente dedicadas. Em compensação, sempre que o meu pai lhes escrevia, eu também escrevia algumas letras. Às vezes as cartas eram acompanhadas de desenhos, mas isso quando éramos crianças. Em 1965, escreveram ao meu pai uma carta que o deixou particularmente feliz. Vinham visitá-lo. Chegaram em fins de Março. Fomos esperá-los ao Aeroporto da Portela. Nós, o TIO e a tia Laura. O meu pai reapresentou-nos tal como o fizera há quinze anos: Esta é a Marta; é como vossa irmã. Estes são a Renata e o Ricardo; são como teus irmãos. Só que desta vez eu entendi a mensagem. Eles e o meu pai ficaram dois dias em Lisboa para o TIO lhes mostrar a cidade, e só depois foram para a TERRA. Eu e a minha mãe regressámos primeiro, pois o meu pai fez questão que tivessem uma recepção à altura. A TIA e o tio Justino (este de licença por uns dias) ajudaram-nos a criar o ambiente que o meu pai queria. A nossa casa estava toda ela enfeitada com alecrim e galhos de urze e giesta floridas. Para o dia da chegada, a minha mãe, com a ajuda da TIA, preparou uma série de iguarias (quitutes, como ela dizia) fazendo uma miscelânea entra a cozinha brasileira e a portuguesa, o que encheu a casa dos melhores cheiros e sabores. Foram dias óptimos. Nunca me lembro de ver o meu pai tão feliz. Eu também me sentia muito bem com os afilhados do meu pai; na verdade eram para mim os irmãos que eu nunca tivera. A minha mãe também parecia feliz. Tinha oportunidade de falar da sua terra. Com Renata e Ricardo retomara o sotaque, que já pouco mantinha. Lembro-me que falavam muito de Santos, dos seus canais, dos seus morros, o do José Menino, o de S.ta Teresinha, o da Penha, o Monte Serrat com o seu bondinho, da ilha Porchat, das praias, a do Gonzaga e a do Itararé. A minha mãe já me falara muitas vezes de todos estes sítios e havia uma fotografia dela, em fato de banho (em maillot, como ela dizia), com o meu pai, na praia do Gonzaga. 49
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia O meu pai fez questão de mostrar o Zimbro aos afilhados. Mas ao Zimbro só chega quem estiver habituado a andar pelas ladeiras. Por isso, fomos só até à Fraga, de onde se avista o rio, a capela de Sto Estevão e o Zimbro. O meu pai disse então : Foi ali que tudo começou. Quando Renata e Ricardo partiram de regresso, o meu pai não conseguiu evitar que as lágrimas lhe corressem pelo rosto enquanto dizia: A felicidade é um mito que o homem persegue incessantemente, mas que nunca atinge. A década de 60 aproximava-se agora do fim. Em 65 Humberto Delgado fora assassinado e em 67 é assassinado Che Guevara. Em 68 Salazar cai da cadeira e sucede-lhe Marcelo Caetano; começa a evolução na continuidade. Ainda em 68 é assassinado M. Luther King e surge a fugaz Primavera de Praga. Em 69 Neil Amstrong e Edwin Aldrin pisam o solo lunar e em Portugal vive-se a crise académica, no rescaldo do Maio de 68. Toda esta década, é indissociável da guerra no Ultramar, da guerra no Vietname, dos “hippies” e dos Beatles. Por esta altura eu ouvia-os, necessariamente, mas também Chico Buarque, Manuel Freire, Zé Afonso, Yves Montand, Aznavour, Jacques Brel, Bob Dylan, Joan Baez. Lia Vinicius, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Gedeão, Manuel da Fonseca, Torga, Eça, Namora, Abelaira, Sebastião da Gama, Jorge Amado, Erico Veríssimo, Hemingway, Steinbeck, Camus, Françoise Sagan. Também por esta altura, eu começava a pôr em causa muita coisa. Após a saída da TERRA e com o decorrer do tempo fui começando a ficar deslumbrada por um mundo que até aí não conhecia- um mundo em que havia verbenas, montras, cafés, cinemas, bailes, tertúlias, televisão. Comecei a entender a dificuldade de adaptação da minha mãe. Como tinha sido cruel afastá-la da família, dos amigos e daquele mundo que sobre ela exercia tanto fascínio? Mas só em 1969, viria a tomar verdadeira consciência do drama que foi a sua vinda para Portugal. 17 Em 1969 vêm a Portugal as duas irmãs da minha mãe, acompanhadas dos respectivos maridos. Quando chegaram à TERRA a comoção da minha mãe foi enorme. Chorou copiosamente abraçada a cada um deles. Depois quis saber tudo sobre os pais, os outros irmãos, os sobrinhos, a restante família, os amigos, sobre S. Paulo, sobre Santos, sobre a fazenda do tio e sobre o Brasil em geral. Desde logo notei que os meus tios olhavam o meu pai com alguma frieza mas na altura não dei grande importância ao facto. Os meus 50
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia tios passaram quase um mês na TERRA. Eu estive presente nos primeiros dias mas tive que regressar ao Porto, onde me encontrava a estudar. Passado cerca de um mês os meus tios passaram pelo Porto, já a caminho do Brasil. Foi só nessa altura que me apercebi realmente de quão dolorosa tinha sido a vida da minha mãe desde que viera do Brasil. Desde a sua chegada em 1954 e durante cerca de um ano, a minha mãe nunca escreveu à família; encontrava-se em tratamento debaixo da grande depressão que se seguiu à sua chegada. Durante esse tempo foi o meu pai quem escreveu dizendo que estava tudo bem, apenas a minha mãe um pouco adoentada por ter tido dificuldades de adaptação ao clima. Em Julho de 1955 a minha mãe escreve pela primeira vez. Uma das cartas é dirigida aos pais, e nela fala essencialmente de mim, mas também de banalidades. De modo algum dá a entender o seu verdadeiro estado de espírito. Esse só será dado a conhecer aos irmãos, com o pedido que nada seja transmitido aos pais. Os meus tios fizeram questão que eu lesse algumas dessas cartas. Nelas existem trechos altamente perturbadores. Assim, na primeira carta que escreveu pode ler-se: Tentei regressar com a Marta, mas a lei deste país não permite que eu parta sem autorização do João; sei que ele nunca ma dará. Adora a filha e jamais irá consentir que eu parta com ela. Eu, sem ela, também não consigo partir, embora sinta cada dia o coração mais dilacerado. Não consigo viver nesta terra. Sinto que morro aos poucos, aos 35 anos de idade. Sinto falta de tudo: de todos vocês, do Sol, do calor, do mar, dos amigos, das pessoas, do sotaque, do bulício da cidade, de ir ao cinema, à ópera. Se não fosse a Marta nem sei o que eu já teria feito. Sinto-me como que prisioneira da minha própria vida e sem ter com quem desabafar. A família do João tem sido muito carinhosa comigo mas não poderia confidenciar-lhe nada disto. É por isso que desabafo convosco embora saiba que vos vou fazer sofrer. Mas eu não aguento mais tempo sozinha todo este fardo. E numa outra, escrita em 1961: A Marta está a estudar na cidade a 80 km daqui e não é fácil a deslocação entre a TERRA e a cidade. Agora que eu começava a habituar-me a viver neste lugar, surge esta separação. Para mim tudo isto é muito doloroso. Tentei convencer o João a irmos viver para a cidade, mas ele só se sente bem aqui. Para ele isto é o paraíso e foi nessa ilusão que eu vim aqui parar. Mas o que encontrei, se não foi o inferno, foi pelo menos um lugar a meio caminho entre o inferno e o purgatório. Ainda numa terceira pode ler-se: Nunca neguei que a situação económica, muito confortável, do João, contribuiu, em parte, para a minha decisão de casar com ele. Hoje até isso desapareceu. A nossa situação económica é muito precária. Houve gastos com a construção da casa e com a minha doença; há despesas constantes com o arranjo do caminho 51
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia que ele usa como estrada, com os frequentes consertos do carro que não está preparado para tais pisos, com os estudos da Marta. Para agravar tudo isto, a agricultura está em crise. Trabalho bastante para ajudar a aguentar o barco. De tanto bordar, para satisfazer as encomendas que me fazem, sinto que estou a perder a vista a um ritmo assustador. Quando acabei de ler as cartas, cuja leitura tive que interromper várias vezes com a comoção, uma das minhas tias disse: Minha querida, seu pai não foi legal com sua mãe; nós estamos muito magoados. Percebi então a frieza com que os meus tios o olhavam. Entretanto, havia já algum tempo que eu me questionava: Como podia eu gostar de um lugar que tanto tinha feito sofrer a minha mãe? Agora sentia-me muito confusa. Em certos momentos era envolvida por um sentimento que não conseguia controlar e que me arrepiava - detestava o meu pai. Comparava-o a um mercador de escravos. Falava-lhe muitas vezes com agressividade e sentia que o fazia sofrer. Ele envelhecia e começava a ser perseguido por uma angústia que não conseguia disfarçar. Um dia, disse-me: Quando eu for para baixo dos sobreiros esta casa será vendida. Eu sinto-o. A minha primeira tentação foi responder-lhe: Não tenha dúvidas. Mas com uma hipocrisia que ele por certo entendeu, disse-lhe que nem pensasse nisso. No íntimo eu achava que ele estava certo. A minha mãe, não ia querer continuar a viver na TERRA e eu também acreditava que tinha acabado a sedução que em tempos a TERRA tinha exercido sobre mim. Como que numa tentativa de vingar a vida da minha mãe, lutava por me desapegar da TERRA e das casas, quer da CASA, quer da casa de cima. Tudo isto acontecia ao mesmo tempo que se iniciavam novas relações, enquanto outras se começavam a degradar. 18 Quando da estada do TIO na TERRA, no Verão de 1969, todos nos apercebemos de que ele não estava bem. Muito calado, ele que gostava imenso de falar, parecia um pouco ausente e desinteressado de tudo. A tia Laura dizia que tinha começado a notar algumas alterações no seu comportamento, logo após a passagem à reserva, de forma compulsiva, mas nós ainda não nos tínhamos apercebido. Em 1970, vem pela última vez à TERRA, em vida. Fez questão de ir ao Santo- à capela de Sto Estevão, lá junto ao 52
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia rio. Fomos todos. Eu, os meus pais, o TIO, a TIA e o tio Justino. O TIO estava muito acabrunhado. Sentou-se nas escadas de um dos coretos e perguntou ao meu pai: Lembras- te? Como não se havia de lembrar? Aqueles coretos estavam ali para lhe recordar aquele ano em que estivera às portas da morte. Levámos uma merenda, daquelas que a Tia fazia e que davam para um regimento. Dela constavam peixes fritos, folar, milhos, pão, presunto, salpicão, fruta. A minha mãe colaborara com coxinhas de galinha e quindins. O meu pai e o tio Justino fizeram questão de deitar a rede e pescar uns peixes que assaram ali mesmo, na hora, e temperaram como só eles sabiam fazer. Comemos à beira do rio, à sombra de um salgueiro. Estávamos precisamente a começar a merenda quando chegou um grupo de jovens de mochila às costas. Vinham acampar. O meu pai e o tio Justino meteram conversa com os jovens. Quem eram? Donde vinham? Um deles falou: Vimos do Porto e resolvemos acampar aqui porque tínhamos curiosidade em conhecer esta zona. Eu chamo-me Carlos Almeida e o meu avô nasceu numa aldeia aqui perto. Chamava-se Luciano Almeida. A TIA ficou um pouco excitada com esta apresentação de Carlos. Falou com o seu sotaque sibilante: Ai sim! Olhe que esse senhor esteve para casar com uma tia minha de quem herdei o nome- a minha tia Matilde. E teve que contar com todos os pormenores a história da tia Matilde, não sem que antes tivesse convencido os jovens a sentarem-se e a comerem da nossa merenda. Adoraram os peixes, principalmente os que tinham acabado de ser assados ali. Carlos quis saber pormenores da pesca e do amanho dos peixes. O meu pai e o tio Justino disputaram entre si as explicações. O tio Justino descreveu pormenores da pesca- como se lançavam as redes e as chumbeiras, o que era o embude- e do amanho dos peixes, nomeadamente a receita do molho. O meu pai contou a Carlos que no Rio havia bogas e barbos. Havia também rasquetas- uns bivalves que poucas pessoas apreciavam, e nos últimos tempos tinham começado a aparecer uns lagostins, esses sim, bastante apreciados, embora raros. Em outros tempos, tinha havido enguias e lampreias. Mas isso tinha sido no tempo em que ele, ainda menino, acompanhava nas peixadas seu tio Afonso bem como outros homens, entre eles o avô de Carlos, Luciano Almeida. O meu pai e o tio Justino falaram ainda do Rio, das suas cheias, da barca que ali houvera para passar para o outro lado, das gentes “dalém do Rio” e da TERRA. Mostraram como a sua história era indissociável da do Rio, não só pelas peixadas que sempre ali se fizeram mas também porque ali se adoçavam os tremoços para qualquer acto festivo, e se lavava não só a roupa, como as tripas para os enchidos, na altura das matanças. Falaram também da festa de Sto Estevão, da fé das gentes daquém e dalém do Rio, dos milagres que constavam, e de 53
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia alguns episódios divertidos. Um deles tinha ocorrido na festa do ano anterior quando o pregador, vindo de fora, começou assim o sermão : Caros cristãos e mulheres! Lembraram também aquela vez em que um filho do António Joaquim, o Chico, ia na procissão vestido de Menino Jesus. A procissão seguia com os seus cânticos, quando se ouve uma voz de criança: “Ulha” os “mous” machos. Era o Chico que tinha identificado, entre os vários animais na encosta, os seus machos presos a uma oliveira. Finda a merenda, o meu pai e o tio Justino fizeram questão de mostrar aos jovens, a fonte de mergulho, cuja água se diz ser milagrosa, a capela de Sto Estevão com os seus belos altares em talha dourada e a casa dos milagres que contem testemunhos dos mesmos, nomeadamente ex-votos- pequenos quadros pintados por gente simples onde se relata o milagre feito. Num deles, datado de 1780, pode ver-se um homem deitado num catre e uma luz vinda do Céu. Por baixo pode ler-se: M. ~q fez em hum ~q estive cuaze muorto i milhoro. Os jovens ficaram ainda uns dias ali acampados e depois passaram pela TERRA que meu pai fez questão de lhes mostrar. Foi assim que eu conheci Carlos com quem viria a casar dois anos depois. Para a TIA era desígnio de Deus e tinha havido ali a intercessão do Sto Estevão e a mediação da minha tia avó Matilde. Como explicar, doutro modo, que o nosso encontro tivesse sido ali junto à Capela do Santo? 19 Quando no Verão de 1970, o TIO manifestou vontade de ir ao Santo, a TIA ficou entusiasmadíssima com a ideia. Pode ser que Sto Estevão faça o milagre e cure o meu irmão. Mas o Santo não fez o milagre. A partir daí, o TIO irá começar a perder a razão num processo de degradação progressiva que o levará à morte em 1976. Nessa altura já o tio Justino e a TIA viviam permanentemente na TERRA e na CASA, apesar de já não lhes pertencer. O TIO não vê o 25 de Abril. Ver vê, mas com outros olhos. Quando ouviu todo aquele barulho pelas ruas, saiu em pijama. Quando o encontraram dizia que era a festa do Santo e ele ia apanhar as canas dos foguetes. Também, em 1973, o meu pai iria entrar num processo de demência senil. Durante a doença passou a maior parte do tempo em minha casa no Porto. De vez em quando 54
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia ficava muito perturbado e dizia que tinha que ir ter com o avô ao Zimbro. Doutras vezes tinha que ir ver os filhos que deixara no Brasil. Uma das vezes urinou na estante da sala. Quando a minha mãe lhe chamou a atenção disse: E que mal há em urinar ao toro de uma oliveira? Eu ficava revoltada com tudo isto. Não bastara o que já fizera sofrer a minha mãe? Pensava que só ficaria bem com a minha consciência no dia em que me libertasse totalmente de TERRA. Talvez fosse isso que o meu pai intuía e que o levava, em momentos de lucidez, a repetir com frequência: Quando eu for para baixo dos sobreiros a casa de cima será vendida. Eu sinto-o. No início da doença tinha vários momentos de lucidez. Às vezes dizia-me constrangido: Eu não devia ter levado a tua mãe para a TERRA. Ela nunca se habituou. Sabes? Este apego à TERRA é como que uma gripe. Nem todos a apanham. E esta, quem a apanha não se livra mais dela. Com o avançar da doença deixou de me conhecer, a mim e a todos os que o rodeavam, à excepção da minha mãe. Mas poucos meses antes de morrer, teve um momento de lucidez quando estávamos de férias na TERRA. Era Setembro. Andorinhas esvoaçavam entrando e saindo dos seus ninhos. Sentado no terraço, olhando a ladeira, declamou, quase na íntegra, uma poesia de Júlio Dinis dedicada às andorinhas. Terminou assim: Eu morro! Na chama do sol que declina Bem sinto o presságio de um próximo fim Se um dia voltardes à vossa colina Oh doces amigas, lembrai-vos de mim. Passou o último mês internado num hospital. Eu e a minha mãe íamos todos os dias visitá-lo, à excepção do dia anterior à sua morte. Nesse dia fui apenas eu. O meu pai esteve inquieto todo o tempo da visita, chamando: Mariana, Mariana. Talvez a ausência da minha mãe, naquele dia, tenha apressado a sua morte. Quando organizávamos as coisas que tinham sido dele em vida, numa das gavetas da sua secretária fomos encontrar uma caixa com uma fita de seda à volta e que continha dentro um lenço bordado, um hissope e uma luva. Na mesma caixa colocámos os arquivos da correspondência e voltámos a fechá-la. Talvez um dia, as gerações vindouras, que já o não conheceram, venham a ler aquela correspondência. Para nós, lê-la seria como que violar a sua privacidade. Após a morte do meu pai fui invadida por um imenso sentimento de culpa. Responsabilizei-o pelo sofrimento da minha mãe sem nunca tentar ouvir o seu lado, sem lhe dar qualquer oportunidade de defesa. Talvez por tudo isso, senti bastante a sua morte. No entanto não pus luto, tal como o não pusera pelo TIO nem o viria a pôr pelos que faleceram depois. Isso preocupava a TIA: 55
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia O que vai dizer o povo ? Em compensação a TIA nunca mais tiraria o luto após a morte do TIO. Passa os seus dias entre orações e rendas enquanto o tio Justino continua com as suas colecções. Em 1984, depois de travar uma luta terrível com a morte, o tio Justino deixa-nos. O Senhor quis pô-lo à prova, no entender da TIA. Dele herdei o bloquinho onde coleccionava termos. Com a sua letra miudinha tem seis folhas escritas onde podemos ler: À confita Sem contar Abondar Chegar qualquer coisa Acarrar Transportar Adrede De propósito Alaeiro Preguiçoso Amanhar Cuidar Amarrar Agachar Amerigada Romã Ameroso Macio Angoreta Recipiente para transporte de líquidos Arramar Verter Arrecadar Guardar Arrimar Encostar, Apoiar-se Assomar Espreitar, aparecer à janela Atreita Exposta a …. Axe Dor Belouro Hematoma Bem me eu finto Não acredito Benairo Trapo, vestido mal amanhado Bilhó Castanha cozida ou assada,depois de descascada Botelha Abóbora Botar Deitar algo em… Bruncho/sorricho Pequena quantidade de líquido(um copo com um pouquinho de vinho tem só um sorrichinho) Bulir Mexer Bô Sinal de exclamação, de incredibilidade,… Cacha Metade de um fruto (maçã, pêra, etc) Caçoar Troçar Cadoixa Mal-estar 56
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Canalha Criançada Canhona Ovelha Canoco Grande pedaço de pão cortado á mão Carambelo Gelo sob a forma de estalactites Casulas Vagens Carraspudo Áspero Catatau Mulher sensual Chanatos Sapatos velhos Chavasqueira Propriedade rural que não presta Cibo/cibinho Pedaço/pedacinho Comer à sobreposse Ser alarve Corucho Cabelo apanhado e enrolado na nuca (penteado usado antigamente pelas mulheres) Couracho Nu Crocada Pancada na cabeça Dar o panagueiro a Morrer alguém Delambida Com a resposta na ponta da língua Delido Puído Delingar Pendurar Deslarada Esfomeada Deu-me a risa Deu-me vontade de rir Dondinho Macio Em mentes Enquanto Embarrar Dependurar; chocar com... Endoujar Agitar um líquido Engaliados Engalfinhados Engaranhado Enregelado Esbarar Escorregar Escachar Partir Esgodar Esfregar Esmouchar Esmoucar, danificar Fachoqueiro Ramo mal amanhado Fingir Amassar o pão depois de levedado Foleca Flocos de neve Galelo Pequeno cacho de uvas 57
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Ganhotes Pedrinhas para jogar jogo infantil Gricha Pequena nascente de água Grime Medo Guissos Gravetos Impontar Expulsar Lambada Bofetada Lambisqueiro Petisqueiro Langueira Preguiça Limboses Beiços sujos Manchinha Pequena quantidade Marrafa Franja de cabelo Medrar Crescer Mofa Faúlha Moucho Triste Muquir/Murquir/Munq Mastigar uir Nacho Nariz Patassola Joaninha Pichorra Cantarinha de barro Pigarço Ruço Pilheira Nicho na parede para guardar coisas Pori Talvez Proenta Vaidosa Prosmeira Pantomineira Pultriqueiro Saltimbanco Relamposo Brilhante Relouquear Enlouquecer Remeia Recipiente de lata com a capacidade de 6 litros Remocar Rezingar Resura Quentura Retaços Restos de comida para alimentar os porcos Rodilho Trapo Só Fundo (da panela, da agulha...) Soteiro Dono de um soto Soto Loja onde se vende de tudo Taleiga/saquita Saco pequeno e largo 58
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Talho Banco pequeno e tosco, em geral de cortiça Talhote Talha pequena Zangalho Coisa velha, sem préstimo Em 1986 morre a TIA, mas foi uma “morte santa”. Fomos dar com ela, morta, sentada na varanda da CASA, com um terço nas mãos. Quando a TIA e o tio Justino morreram eu já tinha dois filhos. O terceiro nasceria dois anos depois. Após a morte da TIA, os meus primos Gonçalo e Afonso vêm à TERRA para vender o que era do pai. A CASA foi comprada pelo António Joaquim que sempre lá vivera. Foi assim um pouco como se continuasse na família. A partir desse dia foi definitivamente cortado o cordão umbilical que unia a casa de cima à CASA. 20 Após a morte do meu pai, a minha mãe foi viver connosco para o Porto, mas ia frequentemente à TERRA. De início justificava as idas com a necessidade de resolver problemas pendentes, depois dizia que ia fazer um pouco de companhia à TIA, ao tio Justino e à Mininha. Volvido um ano, foi visitar a família ao Brasil, onde ficou por um período de seis meses. Quando regressou vinha com um ar muito tranquilo. No seu olhar eu notava um brilho diferente e o seu sorriso que eu sempre achara muito bonito, era-o ainda mais pois tinha perdido aquele leve traço de amargura. Esperava eu que a minha mãe me falasse em vender a casa de cima. Pensei até que uma ideia seria comprar um andar no Porto, perto de nós. Só que a minha mãe nunca me falaria no assunto. Continuava a passar longos períodos na TERRA, mesmo depois da morte dos meus tios. De vez em quando levava com ela um dos netos, que adoravam estas idas. Os meus filhos adoravam a avó e as suas histórias fantásticas. Agora não contava só as histórias do mundo de além-mar. Essas alternavam, muitas vezes fundiam-se, com as do lado de cá. O mesmo acontecia com as canções. A minha mãe embalava os netos tanto ao som do “Bicho Tatu” como do “Dorme, dorme, meu menino”. 59
  • 60.
    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Nas férias de Verão íamos todos à TERRA: a minha mãe, Carlos, os filhos e eu, nem sempre de boa vontade, porque continuava sem resolver o meu conflito. Quando estávamos lá todos, a minha mãe parecia muito feliz. Eu não conseguia entender. Em 1988 a minha mãe adoece com doença incurável e morre em 1990. Um dia, já próximo do fim disse-me: Vou fazer-te dois pedidos que vais achar estranhos. Se não quiseres não os satisfaças. Gostaria de ser enterrada debaixo dos sobreiros e gostaria que não vendesses a casa de cima. Eu estava estupefacta. Não podia acreditar no que ouvia. Então ela disse: É verdade. Também apanhei a doença. Sabes, foi muito bom ter ido ao Brasil. Matei saudades, mas acima de tudo pude reflectir à distância, no espaço, e até no tempo. Durante os primeiros tempos nunca me lembrei da TERRA. Lembrava-me da família, particularmente de ti, do Carlos e dos meninos, mas sabia que estavam bem, pelo que eu, apesar das saudades, também estava bem. Mas tal como aqui tinha muitas saudades de lá, quando estava lá comecei a ter muitas saudades daqui. Com o passar do tempo, comecei a sentir saudades da TERRA, da CASA, da casa de cima. Lembrava-me das cores das folhas no Outono, das flores das amendoeiras e das estevas, das encostas em Junho com os seus vários tons de castanho, amarelo, verde, roxo, lembrando trabalhos em patchwork, dos cheiros, dos sons, muito em particular dos da escacha, dos sabores (que saudades eu tive das alheiras da TIA!). Imagina que até senti saudades do frio no Inverno! Sentia também muitas saudades das pessoas, algumas já falecidas. Lembrava-me do carinho com que o António Joaquim, a Germana e a Balbina sempre me trataram, tal como se eu fosse uma rainha. Lembrava-me da Sr.ª Felismina e da Mininha, mas também de tanta outra gente quase anónima que sempre que tinha um “mimo” de horta ou qualquer outro, fazia questão de o levar “à Sr D. Mariana”. E claro está, lembrava-me muito dos teus tios que me trataram sempre como se eu fosse uma irmã. Reflecti muito sobre a vinda para Portugal e perdoei ao teu pai. O trazer-me para Portugal foi uma prova de amor, egoísta, é certo, mas nem por isso deixou de ser amor. Queria que eu partilhasse com ele tudo aquilo de que ele tanto gostava. Muitas das suas loucuras deviam advir do desgosto que sentia por eu não conseguir entrar no seu mundo. A morte da minha mãe abalou-me muito. Recordava todo o drama que fora a sua adaptação e sentia um misto de indignação para com o meu pai, de revolta contra ela por se ter acomodado, de desprezo por mim por só muito tarde ter compreendido a situação, e de saudade. Acima de tudo, muita saudade. Fiquei dois anos sem ir à TERRA. Foi Carlos quem me convenceu a ir pela primeira vez. Ele gosta muito da TERRA e da nossa casa. Ele e os meus filhos, especialmente o mais novo que é ainda 60
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia pequeno. Fomos no Verão de 1992. Ao entrar na casa de cima só senti desolação, parecia-me que estava a entrar num túmulo. Mas pouco a pouco comecei a sentir que voltavam os cheiros, os sabores, as cores, os sons. Um dia, sentada na secretária do meu pai, vi nitidamente a minha mãe sair da fotografia, sorrindo e perguntando: Satisfizeste um dos meus pedidos. E o outro? Hesitei algum tempo e disse em voz alta: Não vou deixar esta casa. Prometo. Nesse momento entrou no escritório o meu filho mais novo. Prometes o quê? Que vou voltar muitas vezes. Com quem estavas a falar, mãe? Mas já não esperou pela resposta. Foi a correr contar aos irmãos. Dias depois, vou com Carlos e os meus filhos visitar a CASA que é agora habitada por um filho do António Joaquim. Quando entro na cozinha, sinto uma angústia terrível. O Lar tinha dado lugar a uma moderna cozinha forrada a azulejos. Já não consigo ver mais nada. Ao sair vejo, junto da lenha, um dos escanos. Pergunto pelos outros. Já foram queimados e esse está à espera. Peço-lhe que mo venda. Leve-o que eu só o quero p´ra lenha. Está agora na cozinha da casa de cima, ou simplesmente da CASA. Sim, porque agora já não tem sentido falar da outra. A CASA é definitivamente esta. O cordão umbilical já tinha sido cortado. Agora recebera a herança da casa mãe. 21 Em Fevereiro de 1993 volto à TERRA. Após ter feito a promessa à minha mãe sentia-me tranquila. Faltava-me ainda ir ao cemitério selá-la com todos. Está sol e sento-me à sombra de um sobreiro. Começo a revê-los: uns que imagino, outros que conheci e ainda outros que não conheci e que me aparecem saídos das molduras das fotos que herdei. Debaixo dos sobreiros, nalguns casos sabe-se lá onde, estão Diego Rodriguez, Maria Clemente, o tio Afonso, a tia Teresa, o Pepe, o António, o Artúrio, a Zefa, a Germana, a Balbina, o António Joaquim, o Sr. Pedro, a Sra. Felismina, a Luísa. No jazigo estão Isabel Castelhana, Luís Engrácio, João, Matilde, Marta, Álvaro, Pedro, Clara, Adélia, o TIO, a TIA, o tio Justino, o meu pai, a minha mãe. Coloco lá um ramo de amendoeira em flor. Ouço nitidamente uma criança a correr e uma voz ríspida de mulher ralhando. Juan! 61
  • 62.
    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia E logo uma outra voz, meiga, arrastada: Isabel, não ralhes com o menino. Talvez um dia seja eu a pedir aos meus filhos o mesmo que a minha mãe me pediu. Talvez eles satisfaçam os meus pedidos, ou talvez não. Mas sei que mais geração menos geração, a CASA deixará de o ser. Quantos estarão então debaixo dos sobreiros? Que relações manterão com os vizinhos? Que farão nos dias soalheiros ? 62
  • 63.
    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia O diário de Sara Dei-te a solidão do dia inteiro. Na praia deserta, brincando com a areia No silêncio que apenas quebra a maré cheia A gritar o seu eterno insulto Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro Sophia de Mello Breyner, “Espera” 63
  • 64.
    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Amanhã é o grande dia- o lançamento do meu primeiro (e provavelmente último) livro. O telefone não para de tocar. Estou particularmente angustiado, tenso. Sinto que a qualquer momento qualquer coisa em mim pode quebrar. Não é propriamente pelo lançamento do livro embora não negue que isso me causa alguma ansiedade e apreensão. Mas a minha angústia advém, quase exclusivamente, de não saber se Rute aprovaria ou não o destino que dei ao seu diário. A culpa foi dela. Várias vezes tentei ouvir a sua opinião a esse respeito. Mas ela resolveu divertir-se á minha custa. Ora me aparecia criança, com o seu ar muito gaiato e como resposta dava uma das suas gargalhadas cristalinas, desaparecendo em seguida sem deixar rasto, ora me aparecia, adolescente, com um ar um pouco petulante para me dizer: Não achas que já és suficientemente crescido para decidires o que deves fazer sem teres que me consultar? E dando uma piscadela de olho, desaparecia de novo, rindo do meu ar perplexo. Várias vezes a interpelei directamente, mas nunca apareceu com o ar sério com que enfrentava os grandes problemas, para me ajudar a decidir. É provável que ela me dissesse: É óbvio que não concordo; a maior parte do que está aí dentro só a mim e a ti diz respeito; não tens nada que andar a apregoá - lo aos quatro ventos. Se tivesse sido essa a sua resposta, obviamente não teria sido este o destino do diário. Em contrapartida, se a sua resposta tivesse sido: Claro que concordo. Foi para isso que eu te deixei o diário, para tu dares a conhecer aos outros um amor tão grande que não coube na vida, eu estaria agora tranquilo, com a sensação de “missão cumprida”. Mas não. Creio que Rute decidiu vingar-se, possivelmente da minha ausência de tantos anos ou da minha intromissão na sua vida. Mas também neste ponto a culpa foi sua. Entrei apenas pela sua mão, pois nunca tive coragem de entrar por minha livre iniciativa. Se foi um acto de retaliação, Rute exagerou na sua vingança. Primeiro, partiu sem pensar nos danos que me causava, depois, abandonou-me num momento em que tanto precisava da sua ajuda. Será que eu mereço, Rute? 64
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia 1 Conheci Sara em Outubro de 1955. Eu tinha dez anos e ela ia fazê-los em Dezembro. Os pais tinham-se mudado para a cidade por causa da continuação dos seus estudos. Um casal, amigo comum dos nossos pais, pediu aos meus que tentassem arranjar uma casa na cidade, para os pais de Sara. Foi assim que ela veio viver no n.º 26 da minha rua. Alguns dias após a sua chegada, os seus pais foram a minha casa, agradecer aos meus. Foi precisamente nesse dia que a conheci. Ruiva, com sardas, usava um grande laço no cabelo. Os meus pais fizeram questão de oferecer um chá. À mesa olhámo-nos de soslaio com alguma rivalidade. Não trocámos praticamente uma palavra para além do Olá, quando fomos apresentados. Quando foram embora, a minha mãe perguntou-me: Então, gostaste da Sara? Uma parva, como todas as raparigas, e ainda para mais sardenta. Soube, mais tarde, que também não causei melhor impressão. Aos pais terá comentado: Armado em parvo, como todos os rapazes. Cruzávamo-nos todos os dias nos trajectos casa - liceu, liceu - casa. Fingíamos que não nos conhecíamos. Voltei a ter que a defrontar, logo após o Natal. Os pais de Sara convidaram-nos para almoçar. Protestei, não queria ir, mas não consegui fazer ouvir os meus protestos. Para cúmulo, a minha mãe obrigou-me a ir de laço- um laço azul às bolinhas brancas. Pensava na figura ridícula que ia fazer perante a minha rival. Mas ao entrar senti-me vingado. Ela, para além do laço no cabelo, vestia um vestido com uns coelhinhos bordados. O almoço nunca mais acabava. Enquanto os nossos pais conversavam nós permanecíamos em silêncio, cortado apenas quando tínhamos que responder a perguntas dos adultos: Então estás a gostar do Liceu? Quais são as disciplinas de que mais gostas? E outras perguntas do género... Após a sobremesa e enquanto os adultos aguardavam o café, a mãe de Sara sugeriu que fôssemos até à saleta, jogar qualquer jogo. Quase em uníssono dissemos que não, que estávamos bem ali. Mas perante a insistência da mãe de Sara, agora acompanhada pela minha mãe, acabámos por ir. Sentámo-nos numa mesa camila, com uma braseira por baixo e eu fiquei mesmo em frente a uma estante com livros. Permanecíamos em silêncio, quando de repente eu pergunto: Gostas de Júlio Verne? Arrependi-me de imediato da pergunta mas ela surgiu inconscientemente quando vi na estante o livro “20000 léguas submarinas”. Foi através de Júlio Verne que começou a nossa amizade. A partir daí era frequente estarmos juntos. Passávamos por vezes longas horas a montar construções que vinham desenhadas em folhas de cartolina. Eram casas das várias regiões do país, castelos, torres, palácios. Lembro-me, como se fosse hoje, de termos levado toda uma tarde a montar o Mosteiro dos Jerónimos. Vendia-se também 65
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia um outro tipo de folhas de cartolina, que em vez de construções para montar traziam, desenhados, bonecos e várias peças de roupa para recortar. Sara gostava muito de fazer esses recortes. Geralmente recortava só os bonecos e desenhava, ela mesma, as respectivas roupas que depois adaptava aos bonecos. E, reflectindo a sociedade em que vivia, Sara tinha bonecos que eram os meninas e as meninas e outros que eram as respectivas criadas, assim chamadas na época as empregadas domésticas. Para estas, fazia toucas brancas e aventais da mesma cor, para colocar sobre os vestidos aos quadradinhos, geralmente azuis. Eu gostava de ver Sara desenhar, recortar, e montar estas peças e gostaria até de imaginar peças de roupa para os bonecos, mas recusava- me a colaborar pois sabia que não era tarefa para rapaz. Também eu tinha brincadeiras que não eram consideradas próprias para Sara como, por exemplo, o meu carro de rolamentos, que eu mesmo construíra com uma tábua larga para me sentar e duas tábuas mais estreitas. A primeira formava como que o chassis do carro e as outras formavam os eixos das rodas, o de trás fixo, e o da frente móvel em torno de um eixo fixado ao chassis. As rodas, feitas com engrenagens de rolamentos retiradas de peças velhas de automóveis, eram fixadas nos extremos dos eixos. Colocando os pés no eixo da frente, dirigia o meu carro e descia a rua, que era relativamente íngreme. Para ajudar usava um cordel, preso aos extremos do eixo da frente, e que eu manobrava com as mãos. Uma vez Sara andou no meu carro de rolamentos o que foi comentado em toda a rua- uma menina não devia ter tais brincadeiras. Por isso não a repetiu. Mas jogávamos badmington na rua, porque na altura quase não passavam carros e tal jogo não era considerado impróprio para qualquer um de nós. Também jogávamos dominó, damas, cartas (só me lembro de jogar ao burro, deitado e em pé) e o rapa. Sara amuava sempre que perdia, fosse qual fosse a natureza do prémio (pinhões, amêndoas, figos secos, feijões). Noutras alturas falávamos de livros e dos poucos filmes que víamos. Por vezes estudávamos juntos. Ela ensinava-me matemática e eu dava-lhe sugestões para os seus desenhos. Do meu quintal via-se o quintal de casa dela e ás vezes comunicávamos de um quintal para o outro. Nessa altura ainda o ruído não se apoderara da cidade e as palavras eram inteligíveis, mesmo àquela distância. Com o tempo fomos descobrindo que tínhamos muito em comum, nomeadamente a origem dos nossos nomes. Ambos o tínhamos herdado de avós de origem judaica. Também tínhamos ambos fascínio pelo mar que tínhamos conhecido na mesma altura - em Agosto de 1955, antes de entrarmos para o Liceu. Ambos fôramos passar férias com uns tios: eu à Ericeira e ela à Foz do Arelho. Eu ficara fascinado, tal como ainda hoje fico, com todo aquele fervilhar de seres que me surgiam quando perscrutava as poças de água nos rochedos. Eram anémonas, estrelas, ouriços, paguros, caranguejos. Sara tinha ficado encantada com toda aquela imensidão, com as gaivotas voando, com o som das vagas, com o cheiro a maresia. Como eu trouxera um búzio, ofereci-lho. Pude testemunhar que tinha apreciado muito a 66
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia oferta pois, do meu quintal, via-a com frequência com o búzio encostado ao ouvido, sentada debaixo da figueira que existia no seu quintal e que diziam ser secular. Possivelmente estaria a olhar para longe, muito longe, como fazia tantas vezes. Os olhos de Sara tinham uma cor indefinida que eu confundia sempre com os locais para onde ela olhava, nessas alturas em que parecia olhar para muito longe, mesmo quando olhava para o que estava perto. Foi assim que um dia os seus olhos me pareceram extremamente verdes, quando olhava fixamente a figueira enquanto dizia: Já viste esta figueira? Quantas pessoas se terão sentado à sua sombra? Como terão sido as suas vidas ? Sara era uma sonhadora, mas a par disso era alegre e irrequieta. Com ela aprendi a fazer sapatos de folha de figueira. Assentávamos o pé em cima da folha, de modo a que os recortes ficassem livres para posteriormente serem dobrados sobre o peito do pé. Com uns pequenos pauzinhos uníamos os 3 recortes. Estavam feitos os sapatos que para mim eram mais chinelos que sapatos. Foi também com ela que aprendi a fazer gaitas com a palha verde da cevada e que soube o que eram pepinos de S. Gregório que ambos adorávamos fazer explodir. Mais tarde, quando soubemos que o nosso acto contribuía para a disseminação das sementes, Sara sentia-se feliz por de algum modo contribuir para a pujança da natureza, ao mesmo tempo que comovida porque a mesma natureza encontrava formas geniais de perpetuar a vida. A nossa amizade era feita de todas estas pequenas coisas que hoje, à distância de quase quarenta anos, recordo, por vezes, nos mais ínfimos pormenores. No dia 10 de Junho de 1956, estávamos os dois no quintal de sua casa quando ela me perguntou: Não tens pena de não ter irmãos? Eu tenho muita. Quando era mais pequeno também sonhava ter um irmão, mas na altura já me tinha passado a ideia. Quando vi o ar triste com que ela me falou na mágoa de ser filha única, propus-lhe : E se combinássemos ser irmãos? Era um segredo que ficava só entre nós. Ela mostrou-se muito contente com a ideia e disse: Vamos assinar um papel com esse compromisso. Eu então sugeri que o assinássemos com sangue. Ela foi buscar duas folhas de um pequeno bloco, uma caneta, uma agulha de costura e uma canetinha de aparo, usada na disciplina de desenho. Em cada uma das folhas ficou escrito: Hoje, no dia 10 de Junho de 1956, nós, Sara Ramos e David Oliveira, juramos que toda a vida, iremos ser como irmãos. Achei que deveria ser o primeiro a evidenciar coragem. Por isso, de seguida, eu que sou esquerdino, piquei o indicador direito com a agulha. Quando a primeira gota de sangue aflorou molhei nela o aparo da canetinha e, em cada uma das folhas, escrevi o meu nome com sangue. Sara fez o mesmo, mas picando o seu indicador esquerdo. Ficou 67
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia assim selada a nossa amizade que iria perdurar para sempre, embora, com muitos percalços de permeio. Creio que foi nesse ano que lhe dei um diário, no dia dos seus anos. Não sei como tive aquela ideia, mas creio que foi de ter lido ou ouvido falar no diário de Anne Frank. Quando abriu a prenda, sorriu e agradeceu, mas não me pareceu muito entusiasmada. Fiquei um pouco triste e sem saber que destino lhe ia dar. Não imaginava na altura que esse diário iria, muito mais tarde, colocar-me perante um terrível dilema. Durante os sete anos de Liceu Sara foi a minha confidente. Foi-se tornando uma rapariga interessante, apesar, segundo ela, do cabelo ruivo e das sardas que a desgostavam muito. De vez em quando falava-me das suas paixonetas de adolescente, tal como eu lhe falava das minhas. Até ao 5º ano7, dentro do Liceu quase não nos encontrávamos. O Liceu era misto mas as turmas eram genericamente masculinas ou femininas e havia também entradas e recreios separados. No 5º ano, criaram uma turma mista; eu e Sara fomos parar à mesma turma. Os colegas metiam-se connosco pensando que éramos namorados, mas nós mantínhamos o nosso compromisso. No 6º ano Sara foi para a alínea f e eu para a alínea g8. A disciplina de matemática era comum às duas alíneas, e tínhamos essas aulas em conjunto. Não sei que razão me levou a pensar em semelhante alínea. Nunca gostara de matemática e fui escolher economia. Se não fosse a ajuda e a paciência de Sara que me explicava a álgebra, a geometria, a trigonometria, a aritmética racional, eu nunca teria concluído o 7º ano. Durante o 6º e o 7º ano, ambos participámos activamente em actividades da Escola, nomeadamente nas festividades do primeiro de Dezembro. Entrávamos nas peças de teatro, participávamos no grupo de danças regionais onde Sara era sempre o meu par, fazíamos parte da Comissão de Festas. Concluído o ensino secundário os pais da Sara regressaram à aldeia e ela foi estudar para o Porto. Eu fui para Lisboa, onde o meu pai tinha um irmão. Víamo-nos pouco. Geralmente apenas nos dias em que eu passava no Porto, a caminho de Lisboa ou a caminho de casa. No entanto, escrevíamo-nos com frequência. No fim do meu primeiro ano de faculdade, em que reprovei a todas as disciplinas, Sara tentou convencer-me a tirar o curso de que realmente gostava- pintura- mas os meus pais nem queriam ouvir falar no assunto. Estive mais um ano em economia, sem qualquer sucesso. No fim desse segundo ano, com o incentivo de Sara e sem os meus pais saberem, fiz exame de 9 admissão à ESBAL . Foi assim que entrei no curso de pintura. Nessa altura comecei a deslocar-me ao Porto mais frequentemente, pois um colega mais adiantado, cujos pais aí viviam, tinha-me recomendado uma casa, perto da Biblioteca Municipal, onde se podiam 7 Equivalente ao actual 9º ano 8 Até 1975 a partir do 5º ano do Liceu os alunos que desejassem prosseguir estudos com vista a ingressar na Universidade matriculavam-se no 6 ºano onde existiam várias alíneas entre elas a f que dava acesso aos cursos de Ciências e a g que dava acesso ao curso de Economia 9 Escola Superior de Belas Artes de Lisboa 68
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia adquirir artigos de boa qualidade para pintura- telas, óleos, acrílicos, aguarelas, pincéis. Sempre que ia ao Porto encontrava-me com Sara. Muitas vezes, particularmente quando estava bom tempo, aproveitava e ficava no fim de semana. Geralmente íamos até à Boa Nova, junto ao mar. Ali, sentados na areia, eu desenhava, conversávamos, ouvíamos música, um pouco roufenha, no meu rádio de pilhas, líamos, ou simplesmente olhávamos e ouvíamos o mar. Como ela adorava chegar muito cedo à praia, quando a areia, ainda virgem, estava apenas marcada pelas patitas das gaivotas! A praia da Boa Nova era um lugar de eleição para Sara. Não só a praia mas a capela e o rochedo onde esta se situa. Dizia que se um dia viesse a casar, seria ali, na capela da Boa Nova. Na sequência da mudança de curso, dois anos depois fui chamado a cumprir o serviço militar e, passado cerca de ano e meio, fui mobilizado para a Guiné. Estávamos em 1968. Várias vezes tinha conversado com Sara sobre a estupidez e a inutilidade daquela guerra, pelo que parti com uma terrível revolta. De início escrevi, troquei correspondência com Sara, cartas, aerogramas, postais. Nessas cartas falava-lhe do fascínio de África, das suas cores e dos seus cheiros. Falava-lhe também das pessoas, da forma como se vestiam, da sua música, dos seus costumes, e dos animais, dos mamíferos aos insectos, passando pelas aves multicolores. Mas, por vezes também lhe falava dos horrores de uma guerra estúpida sem qualquer significado. No dia em que tive que matar, fiquei de tal modo perturbado, que lhe escrevi uma carta em que deixava transparecer toda essa perturbação. A partir daí, e durante muitos anos, não lhe voltaria a escrever. Consegui evadir-me da Guiné para o Senegal e daí para França donde só regressaria em 1976. Por que razão deixei eu de me corresponder com Sara? Bem, essa é uma longa história. No dia em que tive que matar fiquei de tal modo perturbado, que as ideias atropelavam- se na minha mente e eu não conseguia coordená-las nem um pouco. Misturava imagens de infância, com outras da adolescência, com outras já da idade adulta, umas reais, outras imaginárias, tudo num turbilhão que tocava os limites da loucura. Nesse turbilhão de ideias e imagens, apenas uma era nítida: a imagem de Sara. Sara surgia-me ora em criança, com o seu laçarote na cabeça, ora adolescente com as formas do corpo a despontar, ora mulher feita com um pouco de sensualidade e ingenuidade à mistura. Esta imagem ora me apaziguava um pouco, ora me atormentava porque me imaginava apertando-a nos meus braços num gesto que nada tinha a ver com a amizade desinteressada que até aí nos unira. Estaria eu apaixonado por Sara? Seria apenas uma terrível confusão de sentimentos decorrentes do meu estado perturbado? Quando em França comecei a pintar, todas as figuras femininas eram, inconscientemente, inspiradas por Sara. Por vezes, rasgava os trabalhos como que numa tentativa de tirar Sara da minha cabeça. Outras vezes guardava-os só para mim, não permitindo que outros olhos os profanassem. Com esta confusão de ideias na cabeça, não conseguia 69
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia escrever-lhe. Que dizer-lhe? Falar-lhe da dúvida que me atormentava? Como iria ela reagir? Esperava no entanto que ela mandasse notícias. Muito provavelmente, quando as notícias tardassem ela escreveria aos meus pais e ficaria a saber a minha direcção em França. Por que razão não escrevia ela? Numa tentativa de passar uma esponja em tudo isto comecei por entrar no álcool. Depois foi a vez das drogas. Depois foram as desintoxicações. Isto tudo misturado com uma constante variação de companheira. Não sei quantas mulheres passaram então pela minha vida. Em 1974, um pouco antes da Revolução dos Cravos, conheci Ana, uma exilada que também se encontrava em França. Ana trouxe alguma paz à minha vida. Com Ana deixei de beber e abandonei a droga. Mas pela minha parte, a minha relação com Ana não era honesta. Eu continuava a pensar em Sara e Ana não merecia isso. Esta ideia atormentava-me, embora tentasse a todo o custo esquecer. Em 1976 eu e Ana regressámos a Portugal. Fomos viver para Porto Covo, no Alentejo, onde ainda hoje vivo. Não sei se escolhi viver ao pé do mar, só porque este me seduz, ou se inconscientemente o fiz para assim me sentir, em espírito, mais próximo de Sara. Recordava as vezes que junto ao mar, lá na Boa Nova, em Leça, conversávamos, trocávamos impressões sobre filmes e músicas, líamos e reflectíamos sobre o que estávamos a ler (lembro-me de conversarmos sobre livros como “ O Estrangeiro”, “Mar Morto”, “O Velho e o mar”, “O Inverno do nosso descontentamento”, “A 25ª hora”). Talvez por isso ainda hoje eu passe horas, lendo, junto ao mar. Embora vivendo no Sul, deslocava-me por vezes ao Porto para, mantendo um velho hábito, comprar material de pintura. Ana perguntava-me: Mas porque hás-de ir tu ao Porto, tão longe, comprar material? Eu respondia-lhe que tinha sido um hábito que me tinha ficado mas, no fundo, eu achava que estava a mentir a Ana, o que me perturbava. Eu sabia que Sara vivia no Porto e penso que me deslocava lá, na esperança subconsciente de a encontrar. Um dia, em 1985, passava eu na R. de S.ta Catarina, quando ouço: Desculpa, não és o David ? Era Sara mas, estranhamente, de imediato não a reconheci apesar dos seus cabelos ruivos e das sardas. Ainda hoje não percebo se efectivamente a não reconheci ou se não tive coragem de a reconhecer tal como nunca tivera coragem de lhe escrever, após a minha fuga da Guiné. É verdade que todas as colegas do tempo de estudante, que tinha encontrado, não lembravam em nada a imagem que delas tinha: tinham engordado bastante, vestiam tailleur, usavam sapatos altos, peles e apresentavam um ar muito burguês, enquanto que a pessoa que me interpelara era magra, usava os cabelos soltos, uma saia longa rodada, uns botins e um casacão de malha, por sinal muito bonito. Mas, embora mais velha, os traços característicos, bem como o seu ar gaiato, mantinham-se. Com que então já não reconheces a tua irmã de jura ? 70
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Não queria acreditar que na minha frente estava Sara. Fomos até ao Majestic e aí ambos fomos dando conta de algumas coisas que se tinham passado durante aquele longo interregno. Falei-lhe da minha fuga para França, da minha estada naquele país, de Ana, do regresso a Portugal, de Porto Covo, de como tinha concluído o curso depois de regressar, da minha vida de professor e da minha pintura. Também lhe falei dos percursos obscuros da minha vida, do álcool, da droga, mas justifiquei-os com o meu stress de guerra. Não menti, apenas omiti que essa não fora a única causa. Sara, por sua vez, falou-me da sua vida profissional como engenheira química, dos pais que agora viviam no Porto, da sua aldeia em Trás - os – Montes, que eu tempos visitara e onde Sara ia religiosamente várias vezes por ano, de viagens que tinha feito, de Júlia, uma colega nossa de Liceu com quem Sara mantinha uma grande amizade e de cujo filho, David (David II como ela lhe chamava para o distinguir de mim, que passei a ser David I) era madrinha. Parecia que ambos tentávamos reatar a nossa amizade, no ponto onde havia sido deixada. Mas agora eu não tinha dúvidas. Tentei dissimular a minha perturbação mas o sentimento que eu nutria por Sara era muito mais que a pura amizade de outros tempos. Não ousava demonstrar-lho, com receio da sua reacção. Ela parecia não o pressentir. O mesmo não aconteceria com Ana. Desde sempre Ana pressentiu algo. Com a nossa vinda para Portugal as suas suspeitas cresceram. Um dia em que estávamos junto ao mar e eu lia um livro ela disse-me: Já por várias vezes notei que quando estás aí sentado a ler, ficas com um ar feliz, mas simultaneamente muito distante. Respondi-lhe que recordava o tempo em que era mais jovem. Assim não mentia a Ana, apenas omitia que nessas minhas recordações, Sara estava sempre presente. De outra vez disse-me: Estás com ar de quem está a ouvir música. Respondi-lhe que efectivamente ouvia Brahms em pensamento Porquê Brahms? Perguntou Ana Porque gosto muito. Também desta vez não menti, apenas omiti que fora Sara quem me ensinara a gostar de música clássica em geral e de Brahms em particular. De uma vez em que eu acariciava o tronco de um sobreiro Ana perguntou-me porque o fazia. Disse-lhe que achava muito bonitos os troncos dos sobreiros, o que era verdade, mas não lhe disse que também Sara os achava soberbos e que era a lembrança de Sara que eu procurava naquela carícia. Quando reencontrei Sara, Ana pressentiu-o. A outra, que até aí era imaginária, surgia agora bem real. O nosso casamento também já estava por um fio há muito tempo. Cerca de dois anos depois do meu reencontro com Sara, eu e Ana separámo-nos. Felizmente não tivemos filhos pelo que foi tudo mais fácil. Sara continuava solteira e não ousei saber 71
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia mais da sua vida afectiva. Escrevíamo-nos com alguma frequência, mas as cartas eram um pouco ocas. Eu, por receio de me expor, ela, pensava eu, porque não podia responder com profundidade a algo tão superficial. E assim foi passando o tempo. Por vezes encontrávamo-nos no Porto, quando eu aí me deslocava, ou em Lisboa, quando era ela que tinha que se deslocar lá. Eram encontros breves e tão ocos como as cartas que trocávamos. Uma vez, foi com os pais passear pelo Alentejo e visitou-me. Foi também um encontro breve. Em 1988 o pai de Sara adoeceu gravemente. Foram tempos muito difíceis para Sara. Eu fui o ombro amigo onde Sara podia chorar. Passámos a visitar-nos e a escrever-nos com frequência mas a nossa relação, agora cada vez mais profunda, girava à volta do problema de Sara. Foi ainda assim, quando o pai morreu em 1990. A partir daí, a nossa relação tornou-se mais rica; tal como noutros tempos, falávamos muito de filmes, de discos e de livros que ambos tivéssemos visto, ouvido ou lido. Falávamos também dos acontecimentos que de momento mais afectavam o país, ou qualquer outra região do mundo. Talvez devido á sua formação Sara preocupava-se particularmente com os problemas do ambiente- a destruição dos recursos naturais, as chuvas ácidas, a destruição da camada de ozono, o efeito de estufa, a poluição sonora, os resíduos nucleares. Procurava estar o mais informada possível, participava em iniciativas com vista à defesa do ambiente e tentava actuar em consonância. Para percorrer os 2 km que separavam a sua casa do local de trabalho deslocava-se a pé, de bicicleta, de autocarro, raramente de carro. Seleccionava genericamente o que comprava, fossem detergentes, lacas, electrodomésticos, tendo como principal critério os aspectos ambientais. Preocupava-se também muito com as guerras, com a fome, com a droga, com o subdesenvolvimento mas tinha fé nos jovens e acreditava que o mundo de amanhã iria ser melhor. Talvez por isso, participava em inúmeras acções de sensibilização, particularmente junto dos jovens. Sara acreditava que as iniciativas de ordem governamental e não governamental de pouco serviriam se não se investisse seriamente numa educação para a cidadania. De tudo Sara me falava com paixão e entusiasmo. Era ainda com o mesmo entusiasmo que Sara me falava das viagens que fizera, em particular ao Egipto, a Marrocos e ao Brasil. No Egipto, mais que os marcos das eras faraónicas, foi a cidade de Assuão que a fascinou. Falava-me da cidade, junto ao Nilo, com inúmeras feloukas10 cortando as suas águas serenas, que confinavam logo ali com deserto, com palmares, com colinas; falava-me do seu mercado onde burros caminhavam no meio de uma mole de pessoas - egípcios de pele escura que se confundiam com sudaneses de pele negra, com mulheres vestidas de negro de rosto tapado a par de outras, de vestes e lenços coloridos, com os pés e as mãos minuciosamente pintados, com homens transportando cordeiros mortos nas costas, 10 embarcações tradicionais egípcias 72
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia cobertas com vestes manchadas de sangue, com crianças lindíssimas de olhos negros como azeviche. Falava-me ainda dos cheiros e dos sons- as frases ininteligíveis por europeus que se misturavam com os sons das cabras, das galinhas, da música árabe cujas cassetes se vendiam por todo o lado. Em Marrocos foram Marrakech e a região do Tafraoute com as suas montanhas rosadas, que mais a fascinaram - a primeira pelos seus palácios, mas fundamentalmente pela sua praça Jemaa el Fna, no coração da medina. Ao fim da tarde, aí se misturam vendedores (de especiarias, de frutos, de ervas raras, de amuletos), arrancadores de dentes, escribas, encantadores de serpentes, acrobatas, dançarinos, músicos. É um espectáculo inesquecível. A região do Trafaoute encantara Sara, fundamentalmente pela paisagem. É uma região pré-saariana, onde emergem povoações diversas- umas com casas de tom róseo, dispersas entre palmeiras e oliveiras, outras no tom da terra, confundindo-se com as próprias encostas onde estão encravadas. No Brasil, o maior fascínio encontrou-o Sara em Parati. No litoral, entre Santos e o Rio de Janeiro é uma cidade colonial, preservada, com as suas casas com motivos pintados, geralmente em azul e amarelo, e as ruas empedradas. Mas também aqui, o maior fascínio não o encontrou na cidade mas no mar que a rodeia. Alugou um barco, onde um velho marinheiro, Eli, a levou mar fora e onde ela se sentiu transportada ao paraíso. Aí, Sara que sempre teve medo do mar, saiu do barco e nadou, lá longe da costa; via os peixes nadar á sua volta, naquele mar tão sereno e tão belo como nunca imaginara poder ver. Pararam numa praia deserta, rodeada de palmeiras, com um mar azul e verde indescritível. Ao regressarem a Parati, a cidade apareceu recortada num céu negro, anunciando tempestade, mas a beleza dessa visão, era no dizer de Sara, uma visão fantástica. Sobre tudo isto nós conversávamos, mas eu mantinha o meu escudo. Durante a doença do pai e após a sua morte, quando Sara chorava no meu ombro, muitas vezes tive a tentação de lhe declarar o meu amor. Mas receava que ela interpretasse o meu gesto como uma atitude de comiseração, ou pior ainda, como um oportunismo face á fragilidade do momento. Por isso fui adiando “sine die”. Em 1992 Sara adoeceu gravemente. Um dia, em que foi a Lisboa em serviço, telefonou-me e eu fui ter com ela. Almoçámos juntos. No fim do almoço, tirou da sua bolsa um embrulho e disse-me: Aí dentro está um diário que tu me ofereceste há muito tempo. Estou bastante doente mas ainda espero lutar o suficiente para vencer esta guerra. No entanto, pelo sim, pelo não, quero dar-te o diário. Faz dele o que quiseres. A revelação da doença de Sara foi um golpe muito duro. Travei uma luta terrível entre o desejo imenso da sua cura e a falta de fé na mesma. E no entanto sabia como era importante eu acreditar, para dar a Sara a força de que ela tanto necessitava. Mas Sara foi sempre uma mulher surpreendente. Em vez de ser eu a encorajá-la era ela que me 73
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia encorajava. Lutou, com toda a coragem do mundo, sofreu estoicamente. Conseguiu vencer algumas batalhas, mas acabou por não vencer a guerra. Tal como havia pedido, foi cremada e as suas cinzas lançadas ao mar, no local que para ela era quase sagrado, junto à capela da Boa Nova em Leça, onde fôramos tantas vezes juntos. Acompanhei a mãe de Sara. Ajudei-a a descer até junto da rocha onde está gravado um poema de António Nobre. Daí lançámos as suas cinzas. A mãe manteve a extrema dignidade que lhe era habitual. Mas não resistiu à morte de Sara; morreu 6 meses depois. Antes de morrer chamou-me e deu-me os livros e discos que tinham sido de Sara, bem como um álbum, apenas com fotos suas desde criança. Percebi, então, que a mãe de Sara compreendera tudo o que eu sentia pela filha. Após a morte de Sara e durante quase dois anos, não consegui abrir o diário. Mas se ela mo deu, devia querer que o lesse. Resolvi-me então a abri-lo. Colada na contracapa, tem uma folhinha de papel- a nossa jura de fraternidade. Nas duas últimas páginas tem colados dois envelopes com cartas dentro: umas que eu lhe escrevi da Guiné e outras que ela nunca terminou nem me enviou. O resto é o diário. 2 10/12/56 Hoje fiz anos e o David deu-me como presente este diário. Que ideia a do David! Para que quero eu um diário? Nunca tive muita paciência para escrever. O mais certo é ser esta a única página a ser escrita. Gostei bem mais do búzio que me deu no Verão. Esse sim. Gosto de encostá-lo ao ouvido e ficar a ouvir o mar. Porque será que o mar se ouve num búzio? Será que só o ouvem pessoas que gostam muito do mar? Devia haver um búzio para todos os sons de que gostamos. Assim, devia haver um búzio que, encostado ao ouvido reproduzisse os sons da casa da madrinha, outro que reproduzisse o chiar dos carros de machos bem de manhãzinha, outro que reproduzisse o som do vento quando bate mansinho nas folhas das árvores. Se houvesse esses búzios, sempre que nos apetecesse ouvir um som de que gostamos, bastava escolher o búzio certo e encostá-lo ao ouvido. 4/1/57 74
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Chegámos ontem da aldeia. A Maria Cândida está muito doente. Foi criada dos meus avós e foi sempre muito dedicada à nossa família. Quando estamos na aldeia, se coze pão, faz sempre uma bolinha de azeite e ovos para mim. Também me faz meias rendadas e súplicas, de que eu gosto muito. Já com a irmã, a Augusta, era a mesma coisa, embora eu já me lembre pouco. Foram elas que me ensinaram a fazer sapatinhos de folha de figueira, lá no quintal da casa da avó, onde hoje vive a madrinha. Quando me fui despedir da Maria Cândida agarrou-me muito a mão e disse: Deixe-me olhá-la bem pois sei que a não volto a ver. Nunca se esqueça de mim. Fiquei muito triste. Quando a Augusta morreu eu tinha sete anos; não me lembro de ter ficado assim triste, apesar de gostar muito dela. Crescer dói. Não estou a falar daquelas dores nas pernas que o médico diz serem dores de crescimento. Estou a falar de uma dor por dentro. Amanhã tenho que desabafar com o David. 2/2/57 Morreu a Maria Cândida. Fiquei muito triste. O David deu-me uma receita para quando temos um grande desgosto. Devemos pensar em alguém que tenha uma vida muito pior que a nossa. Lembrou-me aquela menina que mora na nossa rua que anda numa cadeira de rodas, toda deformada, que fala, mas é difícil de entender. Quando dei por mim estava a pensar na menina da cadeira de rodas Será que ela já viu e ouviu o mar? Será que gostaria de encostar o meu búzio ao ouvido? Alguém teria que a ajudar pois ela tem muita dificuldade em movimentar os braços. De momento esqueci a morte da Maria Cândida. O David diz que se pensarmos em situações muito piores que a nossa vemos que, apesar de tudo, não temos o direito de achar que somos infelizes. Não sei onde o David foi buscar estas ideias, mas não deixa de ter razão. 15/5/57 Hoje estou com raiva de mim mesma. A professora de português ralhou muito com a Júlia porque não estuda, não faz os deveres, tem o caderno sujo. Para cúmulo disse-lhe : Olha para a Sara que é dois anos mais nova que tu e é a melhor aluna. Todos sabemos que a Júlia antes de ir para o Liceu ajuda a mãe a distribuir o leite e depois das aulas ajuda mãe a lavar e a passar a roupa das freguesas, a fazer o jantar, a cuidar dos irmãos. Eu queria ver se eu também seria boa aluna se tivesse que fazer tudo o que a faz a Júlia. Mas porque razão não disse eu isto à professora? Fiquei corada e indignada, é certo, mas mantive-me calada. No fim da aula fui ter com a Júlia e a única coisa que me saiu foi: Se quiseres posso ajudar-te todos os dias a fazer os deveres. Ela, um pouco seca, respondeu-me: 75
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia E eu tenho lá tempo para pensar em deveres? Quando contei isto ao David ele disse-me que quando não concordamos com as coisas devemos dizê-lo. Se o não fazemos somos cobardes. Fiquei furiosa, porque acho que o David não tem o direito de me chamar cobarde. Mas no fundo eu acho que ele tem razão. 1/6/57 Hoje fizemos um desenho livre. Eu desenhei uma paisagem. Havia umas casas com fumo a sair das chaminés, umas árvores de rama verde numa encosta com searas amarelas, um céu azul com nuvens brancas onde se recortavam montes roxos, que é assim que eu vejo a ladeira da minha casa na aldeia, em Junho, Os montes são roxos no cimo e ao longo das encostas há manchas de vários tons: castanho da terra, verde das árvores e amarelo das searas. Pois o professor, que é também o professor de matemática, resolveu mostrar o desenho a toda a turma e gozar com ele. Já alguém viu montes roxos? Eu insisti que os montes que eu vejo da minha janela são roxos e ele comentou: Estás a precisar de óculos. Fiquei furiosa. Não mudei a cor dos montes e tive sofrível, no desenho. Não sei se conte esta história ao David. 10/12/57 Hoje fazes um ano, diário, sabias? Apesar de conversar pouco contigo, há um ano não pensava vir a escrever tanto. Mas descobri que por vezes me faz bem descarregar a minha raiva, nem sei se é contra ti se é contra mim mesma. Eu também faço anos, como sabes. Uma dúzia. Hoje o dia amanheceu lindo. Tudo coberto de neve. Convidei para passar a tarde comigo quatro colegas de turma e o David. Fomos jogar á pelotada no quintal. Gosto de jogar á pelotada, mas faz-me pena destruir aquele tapete branco tão fofo. À hora do lanche abri os presentes. Os meus pais deram-me uma caneta de tinta permanente. É uma Pelikan bonita, verde e preta. Deram-me ainda o livro “ Os meus amores “ de Trindade Coelho. O David deu-me também um livro- “O raio verde”, de Júlio Verne. As minhas colegas, em conjunto, ofereceram-me uma caixinha em madeira com umas decorações em prata, na tampa. A minha madrinha mandou-me uma camisola de malha, feita por ela, trabalhada em várias cores. Depois do lanche as minhas colegas foram embora pois já estava a começar a ficar escuro. O que mais me entristece no Inverno é anoitecer tão cedo. O David ficou mais um pouco pois mora aqui ao lado. Ainda jogámos uma partida de damas. Eu ganhei, mas tenho a certeza que o David me deixou ganhar por ser o meu dia de anos. Ele joga muito melhor que eu. 76
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia 5/2/58 Hoje andei à bulha na escola. Há tempos a Delfina, uma menina da turma, um pouco parva, chamou zorra à Júlia. A Júlia chorou pelo que percebi que deveria ter sido um nome feio. Ao chegar a casa perguntei o significado à minha mãe e contei-lhe a história. A minha mãe explicou-me que zorra quer dizer bastarda e tudo isto quer dizer que a Júlia não tem pai, ou melhor, tem, mas não assume as suas responsabilidades. A minha mãe disse-me que o que a Delfina fez foi muito feio pois a Júlia não tem qualquer culpa da irresponsabilidade dos pais. Então eu jurei para mim mesma que, se alguma vez alguém tornasse a chamar zorra à Júlia, eu agiria. E foi isso o que aconteceu hoje. No recreio a Delfina voltou a insultar a Júlia e eu dei-lhe um murro. Pegámo-nos à pancada e por isso fomos ambas chamadas à Directora da Secção Feminina. Depois de contar o sucedido mandou-me sair e aguardar fora da sala, enquanto conversava com a Delfina. Passado algum tempo saiu a Delfina e voltei a entrar. A Directora disse-me que eu tinha razão em ficar chocada com a atitude da Delfina, mas não era assim que se agia. Se voltasse a andar à pancada com alguma menina o caso seria mais sério. Não sei se conte este episódio ao David. Talvez já não me ache cobarde. 20/5/58 Hoje, a propósito de uma conversa com a professora de matemática, lembrei-me muito de um livro que me deram no Natal e de que gostei muito- O Principezinho. Logo na primeira página tem um desenho, que os adultos interpretam como sendo um chapéu, mas é uma jibóia que engoliu um elefante. O autor não tinha grande opinião sobre os adultos em geral; diz que quando queria testar um adulto mostrava-lhe o desenho. Se a pessoa via nele um chapéu, o que geralmente acontecia, então não valia a pena falar-lhe de estrelas, de florestas nem de jibóias. Falava-se de política, de gravatas e de coisas do género. A professora de matemática disse-me que no fim da aula queria falar comigo. Esperei e qual não foi o meu espanto quando ela me vem com este discurso: Já me apercebi que namoras com um colega do 3º D. Não te parece que és ainda muito novinha para namorar? És uma belíssima aluna e isso pode prejudicar-te. O colega do 3º D é o David. Ainda pensei em falar-lhe da nossa jura, mas lembrei-me por um lado de que era segredo e por outro lembrei-me do livro. Pensei que seria totalmente inútil tentar explicar a minha relação com David. Ela deve ter continuado convencida de que namoramos. Eu, pela minha parte, reforço a opinião que Saint- Exupéry tem dos adultos em geral. 77
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia 11/12/ 58 Ontem fizemos anos. Eu 13 e tu dois. Se fosses pessoa, com essa idade, eras quase bébé, mas como és diário, converso contigo como com um amigo que tivesse precisamente a minha idade, como por exemplo o David. É bom ter amigos. Mas ser amigo de alguém não é fácil. Eu tenho várias colegas no Liceu e tive também vários colegas na escola. Alguns destes colegas, embora goste deles, não os considero propriamente amigos. Para mim ser amigo implica, acima de tudo, ser sincero. Por isso é que eu considero que o David é o meu maior amigo. É tão sincero, que às vezes não gosto de algumas coisas que me diz mas, geralmente, acabo por reconhecer que tem razão. Mas estava a contar-te o meu dia de anos. Os amigos do costume vieram passar a tarde comigo. Jogámos ao ringue na rua e depois lanchámos. Recebi várias prendas, entre elas vários livros, uma pasta nova e uma caixa de bombons. A madrinha mandou- me mais uma camisola muito bonita. 31/3/59 Estou de férias. O campo está muito bonito. As encostas, com os arbustos coloridos, as searas verdes e os lameiros cheios de flores roxas, azuis, brancas, amarelas. Gosto muito do tom arroxeado das urzes e das arçãs, misturado com o branco das estevas e o amarelo das giestas. As flores das estevas são lindas, particularmente aquelas cujo centro é escuro. É pena que as folhas sejam tão pegajosas. Há também muitas árvores em flor. Como são bonitas as flores das macieiras, dos pessegueiros, dos marmeleiros! Cheira a Primavera e ouve-se o cuco cantar. As raparigas perguntam ao cuco: Cuco da Ribeira, quantos anos me dás de solteira? E contam os cu-cu do cuco. A mim deu-me um ano. Devia ser engraçado eu casar com 14 anos... No domingo de Ramos, foi bonita a missa com a benção dos ramos de oliveira e alecrim, que toda a gente levava. Depois da missa, fui dar o ramo à minha madrinha que me deu o folar. Dá- me sempre algo que tenha pertencido á minha avó- um lenço das mãos bordado, uma medalhinha, uma chávena. Este ano deu-me uma toalha de rosto, em linho, bordada. É pena as férias estarem quase a acabar. Mas também já estou com saudades do Liceu, da cidade, do David, da Júlia. Hoje lembrei-me muito dela. O meu pai foi à feira na Vila. Foi a cavalo. Eu fui esperá-lo ao caminho, ao fim da tarde. Quando nos encontrámos, sentou-me à sua frente, no cavalo e envolveu-me no seu capote. Senti que nada de mau me poderia acontecer naquele momento. Lembrei-me da Júlia. Como deve ser triste saber que o pai não faz caso dela. E novamente dei comigo a pensar que não deixa de ser estranho o que nos ensinam desde a catequese. Deus vê tudo o que se passa aqui na Terra, Deus é justo e bom. Então por que razão permite situações como a da Júlia? 78
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Lembrei-me daquela poesia de Augusto Gil: Mas as crianças Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim? É certo que a Júlia já não é uma criança mas sofre, por certo desde criança, com esta atitude do pai. 4/5/59 Ontem foi a feira das cantarinhas. É bonita. As ruas principais cheias de tendas com cantarinhas de barro castanho, umas simples outras com flores pintadas. Há-as de todos os tamanhos mas das que eu mais gosto são aquelas pequeninas, que cabem dentro da mão. Passeei pelas ruas apinhadas de gente e parei em quase todas as tendas. Também comi cerejas; é nesta data que aparecem pela primeira vez, enfiadas num galhinho. Ainda estão pouco doces, mas são tão bonitas. O David ofereceu- me um galhinho de cerejas que comemos juntos. Também me ofereceu uma cantarinha pequenina, das que cabem dentro da mão, e lá no fundo, não sei como conseguiu, escreveu: Do teu irmão David. 14/10/59 Este ano mudaram-me de turma, sem eu saber porquê. Sempre fui da turma A e este ano mudaram-me para a B que é uma turma mista. As raparigas são mais velhas; já quase todas repetiram um ano por isso mal as conheço. Dos rapazes só conheço o David. Nos intervalos os rapazes vão para o recreio masculino e as raparigas vão para o feminino. Nessa altura encontro-me com as colegas da turma A e é com elas que brinco e converso. Os colegas da turma B são todos simpáticos comigo, mas eu preferia a turma A. Já fui falar com o professor de Física, que é o vice-reitor. Disse-me que vai ver se é possível a mudança 7/1/60 Nas férias recebi um cartão de Boas-Festas do Vasco, que foi meu colega na turma B, antes de eu mudar de turma. É bonito. Tem uma paisagem coberta de neve e por trás, a meio, em letras douradas diz: Boas Festas e Feliz Ano- Novo. O Vasco acrescentou. Depois de teres deixado a turma B , esta, para mim, ficou mais triste que a paisagem deste postal de Boas-Festas. Achei estranho porque enquanto estive na turma, poucas vezes falei com o Vasco. Mas gostei de sentir que era importante para ele. Hoje preocupei-me mais com a roupa que ia levar para o Liceu; eu sei que sou vaidosa, mas quando dei por mim, estava a pensar no Vasco. Será que estou apaixonada? Não vou falar disto com o David senão ele goza-me. 79
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia 15/3/60 Hoje o Vasco pediu-me um livro de exercícios de Inglês O pior é que eu não o tenho. Vou pedi-lo ao David, que sei que o tem, mas não lhe vou dizer que é para emprestar ao Vasco. Faço de conta que é para mim. Acho que não estou a proceder bem com o David, mas não vou pensar muito nisso. 17/5/60 Já por várias vezes encontrei o Vasco quando saio das lições de piano. Hoje encontrei-o mais uma vez e resolveu acompanhar-me a casa. Acho que tacitamente começámos a namorar. Tenho que contar ao David. 10/6/60 Hoje foram as comemorações do 10 de Junho no Liceu. Como sempre, participei nos festivais de ginástica, nas danças regionais e por fim num recital de piano. Também acabei o meu namoro com o Vasco. Encontrámo-nos depois do festival. Falámos sobre os cursos que pensamos tirar. Quando eu lhe falei em engenharia química, disse- me que não era curso para uma mulher. Discutimos e ao longo da discussão disse-me ainda que não achava graça nenhuma a que uma rapariga participasse em festivais de ginástica e coisas idênticas. Para ele, a função das raparigas é casar, ter filhos e cuidar deles, do marido e da casa. Eu acho que vou gostar muito de ter filhos, mas não acho que a mulher sirva só para isso. Discutimos muito e acabámos com tudo. Se o David pensasse como o Vasco, acho que a nossa amizade já tinha acabado há muito. 14/10/60 Estou no 6º ano. O David também, mas estamos em alíneas diferentes. Não sei porquê tenho a sensação que sou muito mais velha do que no ano passado. A única turma da alínea f é mista. Aliás nem sequer posso dizer que seja a turma da alínea f pois em certa disciplinas têm aula connosco alunos de outras alíneas. O David e um colega que também está na alínea g têm matemática em comum connosco. Um colega que está na alínea h11 tem connosco Física, Matemática e Desenho. Em Filosofia e Organização Política há duas turmas: uma feminina com as alunas de todas as alíneas e uma masculina formada de modo idêntico, com rapazes. É engraçado porque acabo por ter mais de cinquenta colegas de turma. Alguns dos rapazes já os conhecia da minha curta passagem pelo 5º B, no ano passado. Outros nunca os tinha visto. As raparigas vieram praticamente todas da minha turma. Claro que pelo caminho já ficaram várias. Umas foram para a escola do magistério, outras foram para enfermagem ou arranjaram um 11 a alínea h dava acesso ao curso de arquitectura 80
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia emprego. A Júlia nem chegou a acabar o 5º ano; trabalha arduamente para ajudar a mãe. 28/12/60 Já passou o Natal. Antes ando muito contente com os preparativos; depois fico triste. Não sei bem porquê mas penso que é por me lembrar das pessoas que já faltam á mesa. Para além das ausências da Maria Cândida e da Augusta, também já é raro aparecerem os tios de Beja e os meus primos. Eles são muito mais velhos que eu e já casaram. Agora passam o Natal no Sul com as novas famílias e os meus tios ficam também por lá. Era tão bonito quando estávamos todos. À noite, quando ainda não havia luz eléctrica, à luz do petromax contavam-se histórias, muitas delas, dizia-se, tinham sido vividas por antepassados, alguns dos quais já ninguém entre os presentes conhecera. Um deles tinha estado na Rússia e trouxera o samovar de prata que hoje está em nossa casa. Depois, nas invasões francesas, escondera-o numa parede da cozinha. Quando os meus avós fizeram obras, lá apareceu o samovar. Também se falava daquele antepassado que morreu na mais completa miséria porque tinha o vício do jogo. Um dia, sem mais dinheiro para jogar, jogou todos os bens que tinha e perdeu. Homem de palavra, no dia seguinte escreveu um documento entregando todos os bens ao seu credor. Também se contava a de um outro que nunca tinha saído da aldeia e emigrou para o Brasil. Ao chegar a S. Paulo, ficou perfeitamente perdido. A única referência que levava era dum primo que se chamava João Silva e ele acreditava que mal saísse do barco, em Santos, à primeira pessoa que encontrasse, perguntava onde morava o primo João Silva e qualquer um o saberia informar. Parece que lá se conseguiu governar pelo Brasil, mesmo sem ter chegado a encontrar o primo. Uma vez contei estas histórias ao David que achou muita graça a esta última. Mas, em boa verdade, não é só pelas ausências que fico triste depois do Natal. Até lá ando ocupada mas depois sinto falta dos amigos e do bulício da cidade. 6/5/61 Já há bastante tempo que não converso contigo, amigo diário. Amigo tens sido, pois tens-me aturado, diário é que nunca foste. Nem mensário, quanto mais diário. Estive a rever as vezes que resolvi conversar contigo e concluí que, até à data, foram muito poucas. Neste ano, pelo caminho que as coisas levam, não será melhor. Mas sabem-me bem, de vez em quando, estas conversas. Hoje não tenho nada de especial para te contar, a não ser que estou ansiosa pelas férias. Está previsto que este ano, em Agosto, irei novamente passar 15 dias à Foz do Arelho, na colónia de férias da FNAT, com os meus tios. Nunca mais voltei a ver o mar desde 1955, em que o vi pela primeira vez, também lá na Foz do Arelho. Já estou com muitas saudades do mar. É pena ter 81
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia medo de me aventurar nele. O David também gosta muito do mar, mas parece que é mais afoito que eu. 15/11/61 A senhora que lavava a nossa roupa faleceu há um ano. Nessa altura sugeri à minha mãe que contratasse a mãe da Júlia e, hoje, é ela a nossa lavadeira. A princípio sentia-me um pouco mal quando era a Júlia que vinha buscar a roupa, mas agora sempre que ela vem aproveito para conversar e acho que nos estamos a tornar amigas. Hoje falou-me dos irmãos, do padrasto que a maltrata e disse-me que logo que possa, vai tentar ir para Angola onde tem um tio, ou então casar para sair de casa. Fiquei um pouco chocada com esta última ideia. Até agora quando pensava em casamento, associava-o a amor, a felicidade, a tudo aquilo que nos é apresentado nos contos de fadas. A Júlia vê- o como uma saída. Ela tem apenas 18 anos e já vê a vida duma forma tão azeda. Gostava de a poder ajudar. Mas que sei eu da vida? Criada numa redoma, sem problemas, mais nova dois anos que ela que poderei eu fazer? Tentei dar-lhe a receita do David: Quando pensares que tens razão par estar triste pensa em quem tenha mais razões que tu. Mas ela respondeu-me: E em quem queres tu que eu pense? Em ti, em qualquer das colegas do Liceu, em quem? Vou comprar o Diário de Anne Frank e vou oferecer-lho, mas não sei como ela reagirá. 5/2/62 No Natal ofereci o diário de Anne Frank à Júlia. Não lhe falei mais no assunto. Mas hoje fiquei muito satisfeita. Quando veio trazer a roupa disse-me que o tinha lido e que tinha percebido por que razão lho oferecera. Disse-me também que ia tentar arranjar um emprego, embora continuasse a ajudar a mãe. Falou-me da dificuldade de alguns dos irmãos na escola e eu vou ajudar a Maria e a Lurdes que estão ambas no 4º ano e têm muitas dificuldades a matemática e a física. Vou pedir ao David que também colabore. Ele pode ajudá- las em Desenho; ambas tiveram negativa. 21/6/62 Hoje estava particularmente feliz. As irmãs da Júlia passaram para o 5º ano. Fui contar ao David que também ficou satisfeito. Mas comentou de imediato: 82
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Aí está o nosso modesto contributo para melhorar o mundo. Será que não conseguimos fazer melhor? Às vezes o David enerva-me. Eu estava contente e ele acabou por me fazer sentir um pouco mesquinha. 30/6/62 Hoje a Júlia apareceu cá em casa. Trazia um pequeno embrulho e disse-me: Quero agradecer-te o teres ajudado as minhas irmãs. Não te posso dar grande coisa mas no pouco tempo que tenho livre fiz estes paninhos de renda. São para ti. Também tenho uma lembrança para o David. Comprei um lenço e bordei nele um D. Conversámos muito e lanchámos juntas. Pedi-lhe que ficasse para jantar, mas ela tinha que ir trabalhar. Quase à saída disse-me: Sabes, eu acho que entre ti e o David há mais que uma simples amizade, mas parece-me que nenhum de vocês quer reconhecer isso. Até a Júlia! Por que razão as pessoas têm dificuldade em acreditar numa simples amizade, embora profunda, entre um rapaz e uma rapariga? À despedida abraçámo-nos. Um abraço apertado. Ela chorou e disse. Estás a acabar o 7º ano, para o ano vais embora e nunca mais te vais lembrar de mim. Prometi que não, que vou escrever-lhe e que gostarei sempre de saber notícias dela. 7/2/84 Pois é. Há vinte e dois anos que não converso contigo. Quando acabei o 7 ºano, os meus pais regressaram à aldeia e eu fui para a faculdade. Na mudança das tralhas para a aldeia, perdi-te, meu caro diário. A princípio fiquei muito aborrecida, não porque me fizesses muita falta- sabes bem que não era uma confidente assídua- mas preocupava-me pensar que alguém te pudesse encontrar e ler um conjunto de coisas que não interessam a ninguém mais, senão a mim, se é que a mim interessam. O que te valeu foi a neve buraqueira. Caiu um nevão enorme lá na aldeia e a neve, tocada a vento, entrou pelas casas. O ti Custódio, que morava num casebre, foi encontrado morto, enregelado, coberto de neve. Pobre homem! Porque é que coisas destas acontecem? O ti Custódio era um velho de barbas grisalhas e olhos da mesma cor, que vivia sozinho. Durante muitos anos, pensei que era mudo. Nunca o ouvi falar. Se passava por ele e lhe dava as ”boas-horas” ele apenas acenava com a cabeça. Um dia o meu pai contou-me que em jovem era um rapaz bonito, alegre e muito ágil. Montava um cavalo em pelo como ninguém. Era criado numa das casas ricas da aldeia e apaixonou-se pela 83
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia filha do patrão. Quando este se apercebeu, despediu- o. A partir daí o Custódio começou a ficar cada dia mais triste, mais metido consigo e por fim deixou de falar. Foi assim que se transformou no ti Custódio que eu conhecera. Em nossa casa a neve também entrou, mas ficou pelo vão do telhado e pelo sótão. Foi preciso ir lá removê-la. Foi a forma de arejar uma série de coisas de que já ninguém se lembrava. No meio de toda aquela tralha, muito cheio de pó estavas tu, com um ar tão abandonado que me fizeste pena. Comecei por reler-te. Foi como se o meu final de infância e a adolescência tivessem regressado de um momento para o outro. Revi-me no meu crescer por dentro, um tanto desajeitado, preocupada com o meu pequeno mundo, com os meus pequenos dramas que eu julgava imensos e ignorando os verdadeiros problemas da humanidade. Revi também aqueles tempos mesquinhos de preconceitos balofos e de convenções estéreis. Mas foi bonito rever como, a par de tudo isso, foram ganhando raízes e crescendo amizades, de início frágeis, mas que foram ganhando vigor adubadas com afecto, com verdade, com ternura. Pois é, caro diário, temos muito que conversar para pôr a conversa em dia. Não sei por onde começar. Quando te deixei fui para a Faculdade, como já te disse. Aconteceram várias coisas, muitas com o seu lado bom e o seu lado mau. A primeira foi a minha separação dos meus pais. De início custou-me muito, mas sinto que me ajudou a crescer. Tornei-me muito mais autónoma pois tinha que resolver sozinha os meus problemas. Também me tornei mais consciente de muita coisa e nisso o David ajudou- me muito. Ele foi estudar para Lisboa, mas correspondíamo-nos e víamo-nos de vez em quando, pelo menos sempre que passava pelo Porto a caminho de Lisboa ou de casa. Na época, em Lisboa o movimento estudantil era mais activo que no Porto, ou se o não era, eu no Porto não me apercebi muito dele; por isso o David foi, mais cedo que eu, tomando consciência de muita coisa que até ali ignorávamos. Logo nesse ano, no meu aniversário, ofereceu-me um livro que na altura me fez reflectir muito. Chama-se “O Lodo e as Estrelas” e o autor12, simultaneamente editor, diz na dedicatória: “A todos os que trabalharam em túneis de minas ou barragens e hoje têm silicose... O produto deste livro é para eles” O autor conviveu muito com trabalhadores de barragens onde foi capelão e descreve, de uma forma extremamente bela e triste o drama daquelas gentes, em trechos como este: “No dorso das albufeiras, uma barquinha negra, carregada de pulmões esfarrapados, segue a sua rota”. Eu ia tomando consciência de como os meus pequenos problemas eram insignificantes; comecei a perceber que as injustiças que eu conhecia eram pequeníssimas quando comparadas com outras muitos maiores: o desrespeito pelos mais elementares direitos humanos, particularmente no nosso país- a exploração do homem pelo homem, a escravatura que continuava e continua a existir 12 Telmo Ferraz 84
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia muitas vezes sob uma capa sofisticada, a guerra, a fome, a ganância que tudo justifica, enfim. De tudo isso conversava também com alguns novos colegas, embora à cautela, que os tempos não eram para estas reflexões. Naquele tempo reinava a desconfiança entre as pessoas. A PIDE tinha informadores infiltrados por todo o lado pelo que nunca se tinha a certeza se um dos que pensávamos “nossos” não era afinal um “deles”. Por isso e também por causa da nossa longa amizade, era com o David que eu gostava mesmo de conversar. Gostávamos muito de passear junto ao mar, lá na praia da Boa Nova, enquanto conversávamos. A nossa amizade que já era grande, cresceu um pouco mais, à medida que nós crescíamos interiormente. Depois, ele foi para a Guiné, por causa daquela maldita guerra, ele que tanto a odiava. Também odiava a morte e matou. E foi essa a última vez em que me escreveu, muito perturbado pelo que tinha feito. Foi em 1969. Pobre David! Guardo todas as cartas, postais e aerogramas que me escreveu e por vezes releio-os embora isso me faça sofrer. Nunca mais o vi. Soube que conseguiu fugir da Guiné e foi para França. Escrevi-lhe várias cartas que nunca terminei e que te vou confiar. Estão comigo, porque nunca tive coragem de as enviar. Porque as escrevi então? A resposta está nelas mesmas. 3 Não consegui ler de seguida todo o diário de Sara. Até 62 gostei de o ler e li sem parar. Fiquei contente ao ver que consto de todas as suas conversas. Ao ler o que escreveu em 7/2/84 parei. Decidi que antes de continuar a leitura do diário iria começar por ler as cartas, mas demorei cerca de dois meses a retomar a leitura. Ganhava coragem para as ler. Comecei por ler as que lhe enviei. São cartas geralmente pequenas pois lembro-me que me era penoso escrever, tal como era penoso receber correspondência, embora a desejasse tanto como o ar que respirava. E era penoso porque eu tentava, a todo o custo, não pensar em nada. 1/6/68 Sara Escrevo-te a caminho da Guiné, a bordo do navio Ana Mafalda. Não disse a ninguém a data da partida, pois acho que não iria suportar ver, ou melhor, pressentir aqueles de quem gosto, entre aquela multidão que se apinhava na varandas da gare marítima, acenando com lenços e chorando. Fugi disso tudo, refugiando-me no camarote. Só de lá saí, já em mar alto. Da coberta, onde passo a maior parte do tempo deitado, por causa do enjoo, só vejo mar. Sabes bem como eu gosto do mar, por isso, esta imensidão 85
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia repousa-me. Por vezes vêem-se peixes voadores. São fantásticos. Vão a planar, talvez uns 50 m. Também já vi tubarões, alguns com cerca de 2m. Por vezes, vêem-se ao longe alguns navios- cargueiros e petroleiros. Perto das Canárias vimos uma grande barco à vela. Somos cerca de 400 militares e tentamos disfarçar as nossas tristezas e apreensões, jogando ás cartas, conversando, ouvindo música. Mas o olhar de alguns não engana. Há um alferes que deixou aí mulher e três filhos. Já por várias vezes vi os seus olhos rasos de lágrimas, mesmo quando parece rir. Eu tento ficar vazio e não pensar, pois se penso em tudo o que deixei sinto uma tristeza tão profunda que não a consigo descrever. Se, por outro lado, penso no que vou encontrar, então sinto aquela revolta que me provoca náuseas. Não sei se irei aguentar. Escreve sempre que possas. Um abraço David 10/8/68 Sara Escrevo-te de Nova Lamego (a que os naturais daqui chamam Gabu) e que fica num planalto com o mesmo nome. O terreno da Guiné, cortado por alguns rios muito sinuosos, (Geba, Corubal, Cacheu, Mansoa, Buba e Cacine) alguns dos quais são mais braços de mar que rios, não apresenta grandes elevações- apenas dois planaltos, o do Gabu e o de Bafatá e as colinas do Boé. A vegetação no litoral e nas margens dos rios é mata densa, como na zona do Morés, uma das zonas onde se escondem os guerrilheiros (turras como são chamados pela tropa), cercada por pântanos- as bolanhas onde se cultiva o arroz; no interior, como aqui, é savana. Agora estamos na época das chuvas; o calor é sufocante. De vez em quando caem enormes bátegas de água, que transformam as ruas em autênticos rios. Na época seca, de Novembro a Maio, o clima é um pouco mais ameno, dizem. A terra aqui é avermelhada, cortada pela vegetação, por vezes exuberante, por palhotas, geralmente de planta circular e por morros de baga-baga. Trata-se de morros feitos por uma espécie de formiga, a formiga baga-baga , com barro e material segregado por elas. São bonitos- uns altos, muito maiores que uma pessoa, de terra vermelha e com a forma de morro, outros, mais pequenos, negros, com a forma de cogumelos. Tenho feito vários desenhos destas paisagens, que espero mostrar-te um dia. Tenho também algumas fotografias e slides. Quanto à fauna, pensei que fosse mais rica. Para além dos animais domésticos há macacos, manguços, e uma ou outra gazela. Dizem que há também crocodilos e hipopótamos no rio Corubal, mas por aqui não se vêem. Há é muitos morcegos e pássaros muito bonitos, multicoloridos. O que há também é muita bicharada- baratas enormes, mosquitos, grilos com uns 6 cm de comprimento, sapos, uma espécie de vermes, com 2 cm de comprimento- os cáusticos- que ao passar 86
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia no corpo de uma pessoa deixam uma chaga como se ali se tivesse deitado ácido sulfúrico concentrado. Ao fim do dia sento-me na varanda do quartel e fico a olhar o pôr do Sol. Tenho visto alguns fantásticos que tenho fotografado. Nunca tinha visto nada igual. Também os cheiros assumem aqui uma força que não te sei descrever. São ao mesmo tempo quentes e exóticos, como se resultassem de uma mistura de terra quente e molhada com frutos, incenso e outras especiarias. Quanto à guerra, para já só a sinto ao longe através do obus de Piche, uma zona muito flagelada a que, por isso mesmo, se chama Dien Bien Piche, comparando-a assim a Dien Bien Phu, no Vietname. Mas não consigo esquecer que ela existe e quão bárbara é. Escreve. O meu endereço é o que vai no aerograma. Um abraço David 8/10/68 Sara Já recebi três cartas tuas e só agora arranjo coragem para te responder. Hoje sinto-me razoavelmente bem. Acabei de ver um espectáculo bonito, mas assustador- uma trovoada acompanhada de tornado. Estamos a chegar ao fim da época das chuvas. Nesta época, penso que já te disse, caem terríveis trombas de água, geralmente precedidas de vento. Grande parte dessas trombas de água estão associadas a fortes trovoadas Às vezes olhamos para o céu e está sem nuvens, mas passada meia hora pode surgir uma trovoada terrível. Os naturais daqui pressentem-nas um pouco antes e é curioso ver como eles começam a andar muito mais depressa, ainda nós não nos apercebemos da aproximação da borrasca. Hoje, aí uns 15 minutos antes de começar a chover com trovoada, surgiu uma ventania que se prolongou durante a trovoada e que parecia levar tudo pelos ares. O céu estava belo, cortado pelo zig-zag de inúmeros relâmpagos. No fim, cerca de meia hora depois, o céu ficou outra vez sem nuvens mas o calor continua abrasador e a humidade insuportável. Sinto saudades do frio. Do frio e de tudo o resto, mas tento não pensar. É por isso que me limito a falar daqui. Mas pode ser que aí agora as coisas mudem e mudando aí, mudarão por certo aqui. Gostava de ser suficientemente optimista para acreditar nisso. Comecei a falar daí e já estou a entrar na fossa. É melhor terminar. Um abraço David 11/10 /68 Sara 87
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Já contactei muito de perto com os estragos da guerra. Uma coluna que seguia para Piche foi atacada. Morreram alguns camaradas e outros ficaram muito estropiados. Alguns foram evacuados para aí. Porque nos matamos uns aos outros?. Esta gente é boa, tem um olhar doce. Porquê tanto ódio, de parte a parte? Soube há dias que foi torturado um guerrilheiro que foi apanhado. O militar que o torturou descrevia tudo com uma tal frieza que eu senti arrepios como quando se está com febre. Dizem-me que ao fim de algum tempo, todos ficamos assim. Dizem-me ainda que até há alguns que passam a sentir prazer em matar. Será que me vou transformar num monstro, Sara? Será que algum dia eu vou aprovar esta guerra? Hoje não consigo escrever mais. A minha cabeça parece estourar. Escreve sempre Um abraço David 20/12/68 Sara Esqueci-me do teu aniversário. Desculpa. Dias antes andei com a preocupação de te escrever e de te arranjar uma prenda de que gostasses. Comprei uma bilha de barro da região de Teixeira Pinto, ao norte de Bissau. Acho que vais gostar. Talvez ta não envie, pois tenho medo que se parta. Levo-ta quando for de férias( irei eu alguma vez de férias ? sairei eu deste inferno ? e depois conseguirei regressar?). Depois de a comprar, andei ali uns dias muito em baixo e esqueci-me completamente da data dos teus anos. Vês agora como eu estou ? Às vezes ando que nem sonâmbulo, perdido, sem pensar, com a cabeça vazia. E, no fundo, é nessas alturas que me sinto melhor, porque não me sinto. Escreve David 28/12/68 Sara Começo por te agradecer o que mandaste, nomeadamente o contributo para a nossa ceia de natal. Foi no quartel. Estive de serviço, o que foi muito bom, pois assim não tive tento tempo para pensar. Juntámos tudo aquilo que nos mandaram daí (polvo, bacalhau, enchidos, bolo-rei, frutos secos, vinho do Porto). Todos estávamos tristes mas tentámos esconder. A nossa vida aqui é muito “finge que está tudo bem”. No dia de Natal, ao fim da tarde, passeei pelas ruas de Nova Lamego. Lembrei-me que ainda te não tinha falado das árvores daqui (ou será que já falei?). Há aqui árvores fabulosas- os poilões que eu creio serem os baobás do “Pequeno Príncipe”, os bissilãos (ou bissilões, não sei) que dão uma espécie de flor (que creio ser um fruto aberto) muito bonita. Já arranjei algumas 88
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia para te levar quando for de férias que, em princípio deve ser em Março. Também não sei se já te falei das pessoas. Há aqui mulheres lindíssimas Algumas são velhas, muito enrugadas, mas as suas expressões são fantásticas. Já fotografei algumas. Vestem de forma muito colorida, com muitos colares e pulseiras. Gosto muito de as ver passar; a cor vermelha da terra mistura-se com o colorido das suas vestes, com o escuro da sua pele, com o verde da vegetação e com o azul do céu, num festival de cor que embriaga. Um dia, hei-de pintar estas mulheres. Nas festas (roncos) vestem trajes de festa, à base de rendas e tecidos muito leves que lembram, por vezes, cortinados. Imagina como seria fantástico viver aqui em paz! Mas todos os dias, o obus de Piche nos lembra a realidade. E pior que isso são os mortos e estropiados de ambas as partes. Se um dia esta guerra acabar ainda havemos de vir aqui para eu te mostrar como esta terra e esta gente são maravilhosos. Que sonhador que eu estou.... Um abraço David 25/1/69 Querida irmã de jura Hoje lembrei-me muito de ti e das nossas brincadeiras de criança. Isso reflecte-se na forma como começo a carta. Talvez seja porque hoje recebi vários aerogramas teus. Que bom! Também hoje aprendi a jogar uri com uns soldados africanos. É um jogo tradicional e que se joga numa espécie de tabuleiro de madeira (aquele em que eu joguei tinha a forma de barco) onde são feitas várias divisões nas quais se colocam várias peças que neste caso eram pequenas sementes de coconote. Pedi para me arranjarem um, que espero levar para aí a fim de poder jogar contigo tal como outrora jogávamos às damas, ao dominó, às cartas, ao rapa. Já estou a imaginar-te amuada quando perderes. Mas vou deixar-te ganhar algumas vezes... Também já encomendei uma guitarra tradicional ( “Corá”) para levar. Talvez depois tu me acompanhes ao piano....Hoje foi de facto um bom dia. Quase não pensei na guerra. Quando jogava iuri, vi passar uma série de burros, todos carregados de mancarra (amendoim), tocados por homens com as suas túnicas geralmente brancas, com a cabeça coberta com gorros, uns brancos rendados, outros em lã (é estranho, como usam gorros de lã neste clima). Já comprei um destes gorros de lã. É bonito, em tons de castanho. Há-os também em tons de azul, de cinza e de magenta. Por vezes, em vez de gorros os homens usam turbantes, alguns muito bonitos. Como devia ser bom viver aqui sem guerra (já devo ter feito este comentário várias vezes)! Há dias assisti a um batuque de casamento. Fantástico. O som da música, misturado com a dança, com o colorido dos trajes. Na dança, as mulheres fazem uma espécie de gingado e os homens fazem verdadeiras acrobacias, saltando, dando mortais, enfim, um 89
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia espectáculo arrebatador. Fora da palhota foram expostas os presentes de casamento. Panos em azul (um espécie de batik), meias cabaças de vários tamanhos e que fazem a função de tachos, alguidares, etc. Outro espectáculo bonito é o que ocorre à hora das orações. Curiosamente nunca vi mulheres nestas orações; talvez rezem dentro das palhotas. Vejo apenas homens, que se descalçam para rezar; ajoelham-se virados para Meca e encostam a cabeça no chão. É bonito ver aquele conjunto de corpos deitados, onde o branco das vestes predomina e se mistura com o vermelho da terra. Que belas telas se poderiam pintar aqui. Um dia, sem guerra, hei-de voltar. Talvez venha para aqui viver. Mas chegarão alguma vez, os tais dias sem guerra? Aqui ouve-se a Rádio Portugal Livre de Argel. É a única maneira de sabermos o que realmente se passa no país e de termos alguma esperança que um dia isto há-de acabar. Gosto de a ouvir, não só por isso, mas também porque passa música de Zeca Afonso, em todas as emissões. Já não sei quantas vezes ouvi as canções “Vampiros” e “Menino do bairro negro”. Um dia destes mando-te as letras. Será que alguma vez vamos poder ouvir aí, livremente, estas e tantas outras músicas? Chegarão alguma vez os dias da Liberdade? É melhor não pensar, por isso termino aqui. Um abraço David 10/2/69 Sara Hoje nem devia escrever-te. A minha resistência psicológica está a chegar ao fim. Aí já deve ter chegado a notícia, porque esta será difícil de esconder. Morreram 47 militares na travessia do Corubal quando a barcaça em que seguiam se virou. Dizem que depois do acidente, os crocodilos que só existiam muito mais a jusante, subiram o rio atraídos pelo cheiro o que impossibilitou, em parte, a recuperação dos corpos. Foi horrível e tanto mais horrível se pensarmos que aqueles desgraçados estavam há meses numa das piores zonas, em que praticamente se vive todo o tempo dentro dos abrigos, e agora que iam sair dali, a saída foi a saída para a morte. Eu tenho que sair daqui pois tudo isto é enlouquecedor. Para quê esta guerra? Escreve David 20/2/69 Sara Tenho as mãos manchadas de sangue. Matei, Sara, e o pior, é que na altura não me custou. Foi uma emboscada que nos fizeram. A dada altura, surpreendi um guerrilheiro em cima duma árvore com a arma apontada para mim. Peguei na bazuca do soldado que 90
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia estava a meu lado virei-a para ele e à “queima roupa” disparei-a. Ficou desfeito. Eu nunca mais vou esquecer esta imagem. Eu sou um monstro. E não me venhas dizer que há camaradas meus que tiveram que matar muito mais gente. Com a vida humana não se pode pensar assim. Matar uma pessoa ou várias é hediondo do mesmo modo. Matei para não morrer, mas estou morto por dentro. Preferia ter morrido, mas agora já é tarde. Por que razão não foi ele mais rápido e não me matou ? Assim não estaria a passar pelo que estou a passar e que não desejo a ninguém. Mas na altura não me custou nada. E isso é o que mais me repugna. Eu estou mesmo a transformar-me num monstro. O que esta guerra ignóbil pode fazer dum homem! Tenho náuseas. Tenho nojo de mim. Não podes imaginar como me sinto. Ajuda-me Sara ou melhor, esquece que eu existo pois agora, o teu amigo, irmão de jura é um ASSASSINO. David A leitura das cartas, particularmente da última, fez sangrar velhas feridas. Todo aquele drama que estava guardado no subconsciente, veio à tona. Voltaram as insónias, as alucinações. Mas desta vez custou menos. Talvez porque o tempo tudo apaga mas também porque havia uma outra dor, que se sobrepunha - a da perda de Sara. Lembro- me quando Sara, que sofria muito de enxaquecas, apertava vigorosamente com a mão direita a mão esquerda, entre o polegar e o indicador. Dizia que a dor que ela própria provocava em si mesma, a ajudava a minorar a outra. Mas apesar de tudo gostei de ler as cartas e de recordar todas aquelas imagens de África, que na altura tanto me fascinaram. Se Sara fosse viva, havíamos de lá ir. Nunca pude mostrar a Sara as fotos, os slides e os desenhos que prometi, tal como não lhe pude trazer a bilha de Teixeira Pinto, o uri, o corá, o gorro de lã, as flores de bissilão. Antes de partir queimei desenhos, cartas, fotos. O resto deixei ficar. 4 Após a leitura das cartas que enviara a Sara, não passei de imediato à leitura das que ela não me enviou nem terminou. Tinha um pressentimento que o que viria a seguir me poderia perturbar muito. Estive uns tempos a ganhar coragem e só depois iniciei a sua leitura. 91
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia 1ª carta 4/8/69 David: Há já cerca de meio ano que não recebo notícias tuas. Escrevi cartas, aerogramas, telefonei. Foi então que soube que tinhas desertado, mas ninguém sabia de ti. Liguei para os teus pais. Foi por eles que soube que estavas em França e que continuavas a lutar para esquecer os horrores da guerra. Só não consigo perceber porque razão deixaste de escrever. Quando acabei de ler a tua última carta, datada de Fevereiro de 69 fiquei muito perturbada. Dizias que eu não podia imaginar como te sentias. A tua dor, não sei se pude percebê-la em toda a sua extensão, mas sei que deve ter sido muito, muito grande. Tu que foste sempre pela defesa da vida, contra a guerra, contra a morte, tu que ficavas indignado quando eu dizia que para certos crimes só a pena de morte. Por isso dizias na carta- matei para não morrer, mas estou morto por dentro. Preferia ter morrido, mas agora já é tarde. Não morreste mas tentaste fugir de tudo. Como pode alguém ajudar-te se tu foges? Tu mataste um homem que tentava matar-te. Outros têm sido obrigados a matar homens, mulheres e crianças que nada têm a ver com a guerra, são mortos apenas como forma de pressão. Lembra-te da receita que em tempos me deste. Pensa nesses que estão pior que tu. Aí, em França, acompanhas por certo o que se passa aqui no país pelo que deves ter tomado conhecimento das lutas estudantis que se iniciaram em 17 de Abril passado. Também em Maio se realizou, em Aveiro, o II Congresso da Oposição. O regime respondeu com a repressão que o caracteriza. Onde está a primavera marcelista? Mas isto tem que mudar. E quando mudar, a guerra colonial acaba, por certo. Nessa altura tu poderás voltar e aqui, no meio das pessoas que te são queridas, todas as feridas hão-de sarar mais depressa. Se não tivesses fugido, talvez eu tivesse coragem para te falar de algo que me tem perturbado muito. Acho que estou apaixonada por ti. De início pensei que era apenas confusão de sentimentos resultante da impressão que me causou a tua última carta, mas depois comecei a sentir a tua falta de uma forma diferente. Sonhava em ter-te perto, gostava de imaginar que me estreitavas nos braços. Como pode isto estar a acontecer? Será que eu teria coragem de te falar disto se estivesse contigo ? Talvez não, tal como não vou ter coragem de te enviar esta carta. Receio a tua reacção. Nós jurámos ser irmãos, por isso este sentimento perturba-me porque me parece incestuoso. Luto contra ele, mas não consigo vencê-lo. Ai, David, como estou confusa. Se ao menos tu escrevesses. 2ª carta 4/1/70 David: 92
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Continuo ansiosamente á espera que tu escrevas. O que se passa contigo? Por aqui, o descontentamento das pessoas paira pelo ar. Sente-se. Mas para já tudo continua na mesma. A única mudança foi que a PIDE mudou de nome, e só de nome. Agora chama- se DGS. Mas também acontecem coisas bonitas. A Júlia escreveu-me hoje. Comunica- me que vai ser mãe e que gostava que eu e tu fôssemos os padrinhos da criança, tu por procuração, é claro. No entanto receia que isso não seja possível. Escreveu-te para a morada que tinhas em França, mas a carta foi devolvida. E nem que queira saber a nova morada os teus pais foram viver para Lisboa e ninguém sabe a sua direcção. A Júlia parece ter finalmente adquirido o direito à felicidade. Casou há um ano, com um rapaz da aldeia dos avós. Parece-me um óptimo rapaz. Trabalha no campo, numas terras que tem e em outras que arrenda. Parece sempre bem disposto, é alegre, sempre disponível, apoia a Júlia na ajuda que ela continua a dar à mãe e aos irmãos. Esta carta, com o convite para ser madrinha da criança, deixou-me muito feliz. Mas como não há bela sem senão, o facto de recear ter perdido definitivamente o teu rasto, deixa-me muito triste. 3ªcarta 10/1/71 David: No dia 1 de Janeiro foi o baptizado do David. A Júlia quis dar-lhe o nome do homem que queria para seu padrinho. Se visses como está feliz. Quando me vinha embora disse-me: Tive pena que o padrinho não fosse o David, mas acho que foi melhor assim. A minha mãe sempre me disse que se um rapaz e uma rapariga são padrinhos de uma criança, uma relação entre eles fica comprometida; ou nunca casam, ou então não são felizes. Ora apesar de tu dizeres que não, eu continuo a achar que tu e o David nasceram um para o outro e embora não acredite muito nestas coisas, podia dar azar serem ambos padrinhos do meu filho. Não tive coragem para falar à Júlia no amor que sinto por ti. Acho que se um dia alguém souber, serás tu, em primeiro lugar. Aproveitei para passar na nossa antiga rua. Vi algumas crianças a brincar e lembrei-me do tempo em que as crianças éramos nós. Revi as fachadas da tua e da minha casa. Estão cinzentas e tristes como este país, que tarda em mudar. Já sabes por certo que Salazar morreu em Julho passado. Mas isso não trouxe qualquer alteração significativa à política seguida. As esperanças que se chegaram a depositar em Marcelo Caetano caíram todas por terra. 4ª carta 6/2/72 93
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia David: Sinto-me terrivelmente em baixo. Porque razão não escreves? Eu sei que podes perguntar o mesmo, mas foste tu que decidiste cortar. Porquê? Eu sei que por vezes quando algo nos magoa muito tentamos cortar com tudo, à espera que o tempo faça o resto. Lembras-te que no no filme “ O Cardeal” este dizia para a irmã: “O amor faz passar o tempo e o tempo faz passar o amor”. Talvez o tempo faça passar a dor, embora a dor não faça passar o tempo. Hoje lembrei-me particularmente de ti porque fui para a Boa Nova e sentei-me junto ao mar. Levei um livro que me deste- “Primeiros Versos” de António Nobre. Lembras-te como eu gostei particularmente daquele poema que diz: Senhora da Boa Nova! Capelinha à beira-mar! Ando a abrir a minha cova para nela vir morar ? Tem um sabor popular que traduz, de uma forma cândida, a sua paixão por aquele lugar. Eu não ando a abrir a minha cova, mas gostaria de um dia me casar lá, contigo. Como seria bom se hoje tivesses estado lá comigo! Lembras-te das vezes que lá nos sentámos e ficámos horas esquecidas a falar de tanta coisa. Uma das vezes, recordo-me perfeitamente, a nossa conversa foi centrada no Estrangeiro, de Camus. Hoje para além dos Primeiros Versos, também levei um livro que, como sabes, já me acompanha há muito tempo- Platero e eu. Apeteceu-me relê-lo. E ali, junto ao mar lembrei-me quando Jimenez, a propósito do poço diz: Ouve, Platero; se um dia eu me deitar a este poço, não será para me matar, acredita, mas para agarrar mais depressa as estrelas. PS- Ao reler a carta, pareceu-me um pouco mórbida, com a presença da morte a pairar. Mas amo demasiado a vida para querer morrer. Simplesmente hoje, não sei porquê, estou particularmente triste. 5ª carta 25/4/73 David: Encontro-me na aldeia onde vim passar uns dias. Sabes como eu gosto da aldeia nesta altura. Ou melhor, eu gosto sempre da aldeia. No Inverno, com os seus tons cinzentos que se confundem com o fumo das chaminés, e aquele frio cortante que torna delicioso estar à lareira; em Fevereiro/ Março com as amendoeiras em flor, em Junho com o amarelo das searas, em Agosto com as noites quentes de luar, no Outono, com toda a exuberância dos tons das folhas secas. Mas agora, predominam as árvores e os arbustos floridos. Como são bonitas as flores das silvas, umas brancas, outras cor de rosa! Como 94
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia é que uma planta tão cheia de espinhos pode dar flores tão bonitas? Lembrei-me da flor do pequeno príncipe, lá no seu planeta, possivelmente o asteróide B 612... Mas não são só as flores das silvas. São as do marmeleiro, das estevas, das arçãs! Tudo reflecte a pujança da vida. Que pena eu tenho que não estejas aqui comigo.... Ao longo destes anos, em que continuo sem ter notícias tuas, tenho lutado com todas as minhas forças para destruir este sentimento que sinto por ti. Já comecei várias relações mas têm sido todas um fracasso. Quando dou por mim estou a fazer comparações: O que faria o David nestas circunstâncias? E quando isto me sucede, pura e simplesmente acabo a relação. Não quero construir a minha vida sobre uma mentira. Tenho a certeza que a minha mãe já se apercebeu. Há dias, falando da guerra, disse-me: Esta guerra há-de acabar. Tanta dor, tantos sonhos por realizar... Afagou-me a cabeça e nesse afago eu acho que ela me queria dizer: Quando a guerra acabar, ele volta. 6ª carta 30/10/73 David Cada vez acredito mais que isto tem que mudar. Todos os dias ouço a BBC. A opinião internacional é tão desfavorável a tudo o que se passa que eu creio que o regime não se pode aguentar muito mais. Há uns meses Marcelo Caetano foi a Londres e nessa altura a imprensa britânica denunciou um massacre terrível que foi feito em Moçambique contra populações civis. Aqui, obviamente, tinha sido abafado. Também, em primeira mão pela BBC, soube que o PAIGC proclamou unilateralmente a independência da Guiné. Pena que Amílcar Cabral não tenha assistido. Como deves saber, foi assassinado em Janeiro último. No passado fim de semana fui a Trás-os- Montes. Os campos estão tão lindos, com todos aqueles tons de Outono! A cor das folhas- umas avermelhadas, outras acastanhadas, outras amareladas, mistura- se com o verde cinza da copa das árvores e com o castanho multicor dos seus troncos (os troncos dos sobreiros, são soberbos!). Os ouriços, nos castanheiros, deixam antever as castanhas brilhantes. Lembras-te dos magustos que fazíamos quando éramos crianças ? 7ª carta 5/3/74 David 95
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia O país está ao rubro. O General Spínola, com o aval do seu superior hierárquico, publicou um livro em que defende uma solução política para o problema das colónias (ia- me esquecendo que já há muito deixaram de ser colónias para passarem a ser “províncias ultramarinas”...). A censura, não se sabe como, deixou passar. Agora que o regime se apercebeu, os dois militares foram demitidos, mas tarde demais. O livro tem tido um sucesso enorme. Talvez porque gostava de viver estes momentos contigo, hoje precisava de ti. Tenho imensas saudades tuas. Lembras-te como eu gosto do Sol? Pois sinto a tua falta como sinto a falta do Sol nos dias cinzentos. Às vezes penso que vou tentar por todos os meios saber o teu endereço e ganhar coragem para te enviar as cartas que escrevo. Mas logo de seguida acho que isso seria uma traição ao nosso juramento, uma fraqueza minha, e acima de tudo receio perder-te como amigo. Assim pelo menos, senão tenho o teu amor, tenho ainda a tua amizade, penso eu. 8ª carta 2/5/74 David: Sabes por certo o que aconteceu. O regime caiu. E sem derramamento de sangue á excepção de quatro vítimas da Pide, que até ao fim teve que fazer estragos. Já há tempos, no dia 16 de Março, tinha havido uma tentativa de derrube, mas falhou e vários militares foram presos. Agora foi tudo melhor programado. Por volta das 23 h do dia 24 do mês passado, pelos Emissores Associados de Lisboa foi dada a primeira senha- a canção que ganhou o festival. Depois, houve uma outra, com a transmissão da canção “Grândola Vila Morena” de José Afonso, que eu não sei se conheces. É uma canção muito bonita. A partir daí, e durante quase todo o dia 25 foram sendo ocupados vários lugares chave: RTP, Emissora Nacional, Rádio Clube, Aeroporto de Lisboa, Quartel General de Lisboa e Porto, Banco de Portugal, etc. O Marcelo Caetano que se tinha refugiado no quartel do Carmo, rendeu-se ás 19,30. Agora é uma Junta Militar, presidida pelo Spínola quem governa. Eu soube na manhã do dia 25 quando cheguei ao serviço, mas na altura ainda não se sabia que forças estavam por detrás do golpe. Chegou a admitir-se que fossem os ultras. Mas quando se teve a certeza que não, foi uma explosão de alegria tão grande que é indescritível. Que bonitos têm sido estes dias! Os presos políticos foram libertados. Vive-se um ambiente de euforia. As pessoas ostentam cravos vermelhos, inclusivamente os soldados, nos canos das espingardas. Por isso a revolução é conhecida pela Revolução dos Cravos. Os exilados políticos regressaram. Ontem foi o 1º de Maio. Uma multidão saiu às ruas. Em Lisboa parece que nas manifestações do dia do trabalhador, estiveram 500000 pessoas. Eu tenho-me misturado com todo este povo eufórico, nesta alegria contagiante (claro que no meio desta gente há os democratas de última hora que ainda ontem estavam com o regime mas que agora dizem tê-lo sempre 96
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia repudiado...). Por todo o lado se ouve o slogan “O povo unido jamais será vencido” e “Grândola Vila Morena”. Pode ser que já cá estejas mas se não estiveres, por certo tens visto tudo pela Televisão. A guerra que tanto odiávamos, vai acabar. Uma das palavras de ordem é “ Nem mais um soldado para o Ultramar”. Que pena não poder viver isto tudo contigo. 9ª carta 8/6/1974 David : Estamos a saber de coisas que embora imaginássemos, talvez não imaginássemos tão horríveis. Tanto sofrimento, tantas pessoas que sacrificaram as suas vidas a lutar contra um regime opressor e despótico. Mas que contributos dei para alterar a situação? Nenhuns. Como estava em baixo, resolvi ir até à Boa Nova e levei a 25ª Hora. Lembras- te da ingenuidade comovente de Iohann Moritz? Li um pouco mas senti-me ainda pior porque não fiz nada para merecer o 25 de Abril. Limitava-me a indignar-me. Agora, enquanto escrevo, ouço José Afonso. Que bom poder ouvi-lo em liberdade.... 10ª carta 15/10/74 David O Governo reconheceu a Guiné- Bissau como país independente. Para o caso das outras colónias tentam estabelecer-se acordos entre os vários movimentos de libertação. Tanta vida perdida para nada! Por que razão não se enveredou desde o início pela via do diálogo? O que pode levar os homens a um tal estado de cegueira? Tudo isto me deixa triste. Talvez por isso, ontem à noite resolvi olhar o céu (tu sabes que eu gosto muito de olhar o céu). Talvez procurasse o asteróide do principezinho. Mas este céu da cidade não é céu. Guardo a memória do céu da aldeia negro como breu onde as estrelas brilham como não brilham aqui. Aqui parece tudo desbotado; o céu e as estrelas. Até Marte, que eu lá distingo pelo seu tom mais avermelhado, aqui parece-me igual às estrelas. 11ª carta 6/10/75 David Ouço Chico Buarque e lembro-me de ti. Uma das canções do disco chama-se “Tanto mar”. É uma canção que ele dedica à Revolução dos Cravos. Conheces? Sei que estás em festa, pá Fico contente Enquanto estou ausente 97
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Guarda um cravo para mim Eu continuo a guardar um cravo para ti, enquanto estás ausente. Sim, porque espero que agora regresses. Ou será que já regressaste? Também guardo jornais, revistas, tudo o que se relaciona com o acontecimento. Será bom lê-los novamente, contigo. Onde andas tu David? 12ª carta 25/12/76 David: Hoje é dia de Natal. Lembro-me dos Natais em criança. Lembro-me dos cheiros, do frio, do fumo da lareira e acima de tudo dos afectos. Leio o poema “Dia de Natal” do poeta António Gedeão de que não resisto a dizer-te excertos: Hoje é dia de ser bom. É dia de passar a mão pelo rosto das crianças, de falar e de ouvir com mavioso tom, de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças. ....... Comove tanta fraternidade universal. É só abrir o rádio e logo um coro de anjos, como se de anjos fosse, numa toada doce, de violas e banjos, entoa gravemente um hino ao Criador. E mal se extinguem os clamores plangentes, a voz do locutor anuncia o melhor dos detergentes. .............. Acho que a revolução não operou algumas mudanças que eram essenciais e em contrapartida operou outras que me desgostam. Uma delas é um consumismo desenfreado. Talvez porque o poema de Gedeão põe o dedo nesta ferida, eu goste tanto dele. 13ª carta 7/9/ 79 David: Que é feito de ti David? Por certo já regressaste há muito mas não disseste nada. Não consigo entender. Hoje, particularmente, precisava de estar contigo. Aconteceu uma coisa muito triste: a morte da minha madrinha. Recordei tudo: os afectos, os ralhos (que apesar de ralhos eram também carregados de afecto), o que ela me foi dando pela Páscoa, ao longo dos tempos. Dava-me sempre uma lembrança da minha avó. Nesta 98
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia última Páscoa, deu-me o cordão de ouro, que era a peça da avó que ela mais estimava. Parece que adivinhava que o fim estava próximo. Tinha adoecido em 1975, pouco depois da revolução dos cravos. Estes também já murcharam. Tantas esperanças num mundo melhor, mas mudou tudo tão pouco... Chico Buarque tem agora uma nova letra para o “Tanto mar”: Já murcharam tua festa, pá mas, certamente, esqueceram uma semente n´algum canto de jardim... 14ªCarta 6/9/82 David Tenho comigo o meu afilhado, David II. É assim que eu lhe chamo para o distinguir de ti- David I. Veio passar 15 dias ao Porto antes de começarem as aulas. Comecei por levá- lo à Serra do Pilar, de onde avistou o Porto. Achou- o muito grande. Depois levei-o à Torre dos Clérigos, que ele achou muito alta, á Avenida dos Aliados que achou muito bonita, à Ribeira que achou que não tinha ar de grande cidade, à Sé, que achou muito escura, ao centro comercial Brasília que achou divertido, essencialmente por causa das escadas rolantes que o deixaram extasiado. Não sei quantas vezes as desceu e subiu. Mas o que lhe causou mesmo maior sensação foi o mar. Levei-o à Boa Nova. Ficou com os olhos, muito abertos, e calado durante bastante tempo. Depois disse: Nunca pensei que fosse tão bonito, madrinha. Depois foi para os rochedos e não queria mais sair dali. Quis saber o nome de todos aqueles seres que ali via. Quis meter alguns numa garrafa com água e quis levá-los para casa para depois mostrar aos pais. Expliquei-lhe que não aguentariam até lá, mas rendi- me quando vi duas lágrimas aflorar ao canto dos seus olhos que entre o azul e o verde se confundem com o mar. Comprometi-me a arranjar um aquário no dia seguinte. Depois iríamos novamente ao mar buscar as anémonas, as estrelas, os ouriços, os peixes. Agora tenho em casa um aquário de água salgada, lindíssimo, com anémonas azuis, brancas, verdes, cor de rosa, com peixinhos e camarões cinzentos, com estrelas rosadas que se deslocam encostadas ao vidro, com mexilhões que são comidos pelas estrelas, com ouriços acastanhados, com paguros que mudam de concha, com caranguejos. Tenho a certeza que tu irias gostar do aquário tanto como David II. Bastar-me-ia isso para o ter entretido todo o tempo. Fica com o narizito esmagado contra o vidro, os olhos muito abertos, ás vezes parecendo suster a respiração, como que receando perder alguma parte de todo aquele espectáculo de vida. É uma criança extraordinariamente 99
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia sensível. Há dias eu ouvia Brahms, quando dei por ele sentado na sala a ouvir também. Depois disse-me: Essa música é muito bonita. Eu nunca tinha ouvido nenhuma parecida. É também uma criança muito intuitiva. Há dias perguntou-me: Esse David I é o teu namorado? Respondi-lhe que era apenas um grande amigo que eu já não via há muito tempo. Aí, ele comentou: Mas eu acho que gostavas que ele fosse teu namorado. Quando falas dele ficas diferente. Umas vezes ficas contente mas outras vezes ficas triste. Afaguei-o na cabeça e falei-lhe de Fernando Pessoa e dos versos do seu poema Liberdade: Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca. E acabámos a falar de livros. De repente senti-me transportada no tempo quando, há mais de 25 anos, conversava sobre livros com David I, então da idade que hoje tem David II. Reli a carta e perguntei a mim mesma porque te escrevo, não te escrevendo. Só encontrei uma explicação: escrevo para ver se escrevendo esgoto este sentimento. 15ª carta 10/12/83 David : Hoje faço anos e talvez por isso me tenha lembrado mais de ti. Já há muito que não escrevo. Começo a acreditar que já nem te lembras que existo. Por que escrevo então? Porque me custa muito a aceitar que isso seja verdade. Tento enganar-me a mim própria e pensar que um dia vais aparecer e explicar esta tão longa ausência. Soube há tempos que tinhas regressado, mas ninguém me soube dizer onde estás. Tenho andado a ler um livro de que ias gostar com certeza. Possivelmente já o leste. Chama-se Levantado do Chão e o nome do autor é José Saramago. Como gostava de conversar contigo sobre este livro. Mas já não tenho esperanças. Li a primeira a carta, num dia chuvoso e frio de Inverno. Após a leitura senti-me em estado de choque. Teria eu lido aquela carta? Seriam as alucinações que voltavam? Sara ter-me-ia amado? Teria eu amado Sara? Não passaria tudo de um pesadelo que iria 100
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia terminar logo que eu acordasse ? Fui até ao mar e sentei-me na areia molhada. Não sei quanto tempo ali estive, com a chuva caindo em todo o meu corpo, num estado de prostração terrível. Foi um pescador que me tirou daquele estado de torpor. Então amigo, o que lhe passa pela cabeça? Mas naquele momento não me passava absolutamente nada. O pescador levou-me até sua casa e foi ao calor da sua lareira que eu me sequei. Creio que ele falou todo o tempo, mas não me lembro de uma só palavra que ele tenha dito. Era já noite cerrada quando me deixou em casa. Lembro-me apenas das palavras que me disse à despedida: Coragem, homem. Também não me lembro do que se passou nos dias que se seguiram, mas sei que a dada altura retomei a leitura das cartas. Cada carta que lia era como se uma farpa pontiaguda penetrasse todo o meu ser. No entanto não resisti a lê-las. Era muito cruel saber que também Sara me amara, mas era ao mesmo tempo maravilhoso. Quando li a última carta atirei com o diário para um canto; decidi que não leria mais nada. Nesse momento odiei- o e odiei Sara e tudo que ela representava para mim. 6 Contrariando a decisão que tomara uns dias antes, resolvi acabar de ler o diário, mesmo sabendo que isso me iria fazer sofrer mais. Não foi por masoquismo, mas porque o ódio que então me cegara, dava novamente lugar ao amor. Ler o diário iria trazer-me Sara um pouco de volta. 6/5/1985 Meu caro diário: Já há mais de um ano que tens estado esquecido aí para um canto. Para te ser franca, não pensava voltar a usar-te. Mas hoje aconteceu-me uma coisa fantástica. Passeava na R. de S.ta Catarina quando vi um homem que me pareceu ser o David. E era. É certo que eu já não via o David desde 1968, já lá vão quase 20 anos, mas as feições e a expressão mantinham-se. Ele não me reconheceu apesar das sardas e do cabelo ruivo. Fomos até ao Majestic e ali nos perdemos a conversar, tentando partir do ponto onde tínhamos ficado. Eu sentia-me um pouco constrangida porque não quero de modo algum que ele perceba o que eu sinto por ele. Até por que ele é casado. Falou-me da Ana, a mulher que o ajudou muito a superar todas as marcas que a guerra deixou. Os pais dele já morreram e ele vive no Alentejo. A pintura continua a ser a sua paixão mas não lhe permite sobreviver Por isso dá aulas. Falou-me com paixão do seu trabalho, quer como professor, quer como pintor. Foi também com paixão que me falou do Alentejo. De Ana falou com muito respeito, mas não me pareceu que falasse com paixão. 101
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia 12/ 6/87 O David, que de vez em quando telefona ou aparece, mas sempre de fugida, escreveu-me ontem uma carta muito breve, bem diferente daquelas que escrevíamos em tempos. Tão breve que achei que não valia a pena guardá-la como fiz com as outras. Ele e Ana separaram-se. Não explica porquê mas eu sempre achara que ali não havia paixão, pelo menos da parte dele. Mas isso não vai significar que eu lhe fale dos meus sentimentos. Pelo menos para já. Por um lado, poderia interpretá-lo como comiseração, ou ainda pior, como oportunismo. Será importante que ele volte a sentir muito a falta da minha amizade. O resto virá depois. Se me precipito, arrisco-me a perdê-lo como amigo. Isto, admitindo que alguma vez vou ter coragem de lhe contar o que sinto. 4/1/88 O meu pai está muito doente. Foi-lhe diagnosticado um linfoma. Já há muito que andava um pouco alquebrado, ele que foi sempre um homem muito dinâmico. Dizem que eu me pareço com ele, essencialmente porque sou muito emotiva. Logo a seguir ao 25 de Abril tivemos discussões terríveis, porque ambos nos deixávamos arrastar pelas emoções. A mãe diz que nós temos o coração ao pé da boca. Mas a mãe é uma pessoa muito serena e ponderada e mede cada palavra antes de a dizer. Por isso, é incapaz de magoar alguém. O pai, por vezes não mede o que diz, mas é um homem muito generoso. Não suporto a ideia de perdê-lo. 6/3/91 Hoje estou desolada. O meu pai faleceu. A minha mãe está inconsolável. Foram tempos horríveis para todos. Tanta quimioterapia, tantas idas a Villejuif, tanto sofrimento. Todo o tempo o meu pai insistiu que não valia a pena tanto sacrifício, que o deixássemos morrer. No entanto, já quase no fim, quando nos mandaram de Villejuif sem qualquer esperança, foi ele que sugeriu: E se tentassem a radioterapia? Pobre pai! O David ajudou-me muito. Veio visitar-nos quase semanalmente. Emprestou-me imensos livros e discos que me ajudaram a pensar em outra coisa, pelo menos por instantes. Todo este período teve apenas uma vantagem. Não pensava nos meus sentimentos em relação ao David, pelo que não me angustiava por causa disso. 10/11/ 92 Caro diário: Da última vez que desabafei contigo, jurei para mim mesma que só voltaria a fazê-lo quando tivesse ganho coragem para dizer a David o quanto o amo. Só que o tempo foi passando e a coragem nunca chegou. Agora é tarde. Não sei que partida a vida me 102
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia quer pregar desta vez mas estou muito doente. Hoje é a minha despedida. Obrigada pela tua paciência de me aturares ao longo de todos estes anos. Não deve ser fácil ser diário. Vou fazer-te a última confidência: Vou pregar uma partida ao David. Vou oferecer- te a ele. Assim, será através de ti que ele ficará a saber do meu amor. Como vês, caro diário, fui muito injusta para contigo: Achei que não me ias servir para nada e afinal irás fazer -me um grande favor- serás tu a dizer ao David aquilo que eu nunca tive coragem de lhe dizer. Obrigada, amigo, mais uma vez. 7 Acabei de ler o diário. Já há muito, desde que li as cartas que Sara não me enviou, que me sinto estranho como pertencendo a outra galáxia. Por que razão tudo isto aconteceu? Por causa de uma estúpida jura de criança? Sara, ao menos, não soube o quanto eu a amei. A não ser que tenha entendido o que lhe disse na véspera da sua morte. Segundo o médico já não estaria consciente. Sussurrei-lhe ao ouvido o quanto a amava. Estive a seu lado até ao último momento, como que à espera de um milagre, eu que já há muito não acredito neles. Lembrei-me então da “Oração a Nossa Senhora da Boa Morte”, de Manuel Bandeira: Fiz versos a Teresinha... versos tão tristes nunca se viu! Pedi-lhe coisas. O que eu pedia era tão pouco! Não era glória... Nem era amores....Nem foi dinheiro... Pedia apenas mais alegria: Santa Teresa nunca me ouviu. Mesmo assim rezei, eu que me tinha por agnóstico. Na capela onde esteve em câmara ardente, apareceu muita gente, incluindo Júlia e o filho David. Júlia abraçou-se a mim e chorou sentidamente. Também David não conseguia conter as lágrimas. Foi uma segunda mãe para mim, disse-me. Quando da morte de Sara, e posteriormente com as revelações das suas cartas entrei numa fase de grande perturbação, senão pior, pelo menos igual à que se seguiu à minha participação na morte de um homem. Mas agora tentei esquecer de outro modo. Pintava exaustivamente, muitas vezes durante dias seguidos, dormitando de vez em quando e mastigando qualquer coisa de forma quase inconsciente. De início descurei as aulas. 103
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Faltava imenso. Depois recomecei lentamente a minha tarefa de professor, de que gosto muito. A dor foi-se tornando mais doce, mas não menos aguda. Nunca mais voltei à Boa Nova. Mas agora, que acabei de ler o seu diário, uma força me impele para lá ir. Lembro- me que as suas flores preferidas eram tulipas brancas Vou providenciar um ramo e vou deitá - lo ao mar, lá onde foram lançadas as suas cinzas. A florista disse-me que nesta época vai ser muito difícil arranjar tulipas brancas, e ainda para mais cem, mas eu insisto na cor e no número. Peço-lhe que não olhe a custos e mas arranje. De tal modo eu lhe faço o pedido que ela atreve-se a dizer: Devem ser para uma mulher muito amada. Mas eu não consigo comentar. Faço um esforço enorme para que as lágrimas não comecem a brotar dos meus olhos. Deixo-lhe o meu número de telefone e saio. Passados cinco dias da minha ida á florista, ela telefonou. Conseguiu as tulipas. Fui levá- las a Sara. Porquê cem? Lembro-me que em tempos conversámos sobre um livro de que ambos tínhamos gostado bastante- “Cem anos de solidão”. Falámos dos vários Buendia, de Melquíades, bem como de muitas outras personagens do livro. Mas a dada altura a conversa derivou para o número cem. Disse-me Sara: Sabes que quando eu era muito pequena o número 100 era uma espécie de número mágico para mim? Creio que o achava quase inatingível. Lembro-me de atribuir o número cem à altura do monte mais alto que via, e do cimo do qual eu imaginava que conseguiria tocar o céu, à luz da estrela mais brilhante, à felicidade que sentia quando os meus pais me estreitavam contra o seu peito. Senti alguma desilusão quando, mais tarde, pensei que era um número pequeno; voltei a reabilitá-lo quando percebi que só por si o número poderia dizer pouco porque o ser grande ou pequeno dependeria da unidade que o acompanhasse. Cem nanómetros pode ser o comprimento de uma pequena bactéria, enquanto que 100 anos luz é a distância a uma estrela que está 6,5 milhões de vezes mais longe que o Sol. Os enigmas do Universo eram muitas vezes temas de conversa. Extasiavam Sara. Quantas vezes fitando o céu me dizia: Já pensaste que aquela estrela que vês, pode já não existir há muitos milhões de anos? A luz que nos enviou está agora a chegar e isso é tanto mais fantástico quanto sabemos que a luz se propaga a uma velocidade enorme, que se supõe inultrapassável. Daí que o meu maior fascínio não seja nem pelo número cem nem pela velocidade da luz, mas pelo infinito. Eu gostava de falar de todas estas coisas com Sara, e especialmente daquelas que constituíam temas comuns na nossa formação. Era o caso da cor. Enquanto que eu como artista, falava de cores quentes e frias, Sara falava–me de absorções, refracções e reflexões da luz, da interacção da luz com a matéria, da estrutura das moléculas. Uma 104
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia vez mantivemos uma discussão acalorada a propósito das cores primárias. Deveríamos considerar como primárias a amarela, a vermelha e a azul, dado que combinando adequadamente pigmentos dessas cores podíamos obter as outras? Ou devíamos considerar primárias a azul, a vermelha e a verde, dado que uma combinação adequada de feixes de luz dessas cores, permite obter todo o espectro visível? E acabámos a discussão, recordando o “Raio Verde” de Júlio Verne. Era assim, conversando, que nos perdíamos tantas vezes no tempo. Ontem, também conversei com Sara enquanto lançava ao mar as tulipas. Mentalmente dizia-lhe: Sara, não posso trazer-te um número infinito de tulipas brancas; acredita que trazia se isso fosse possível, mas para infinito tens o meu amor. Trago-te cem, o teu primeiro número mágico e espero que lá onde estiveres, na estrela mais longínqua, a não sei quantos anos luz de distância, este meu gesto chegue a uma velocidade maior que a da luz . Fiquei a olhar a água na esperança de ver surgir Sara. Mas não. Vou voltar ali muitas vezes. Quem sabe um dia, ela não aguenta as saudades e aparece? 8 Os fantasmas que tanto me perseguiram quando fugi da Guiné, voltaram de novo. Tal como acontecia nessa altura, a minha mente é povoada por Sara: Sara criança, Sara adolescente, Sara mulher. Sonho inúmeras vezes com ela. Num desses sonhos estreitava-a nos meus braços, quando de repente vi um guerrilheiro em cima de uma árvore; no sonho atirei-me para cima dela para a proteger com o meu corpo. Acordei aflito. Doutra vez, quando passeávamos de mãos dadas junto ao mar, apareceu um arauto lendo a nossa jura de fraternidade. Mas, apesar de tudo isto, agora não tento tirar Sara da minha cabeça. Pelo contrário, tento recordá-la nos mais ínfimos pormenores. Tento saber tudo sobre ela. Já me desloquei à sua aldeia nas várias épocas do ano – em Março, para ver as amendoeiras em flor, no Inverno, em Junho, em Agosto, no Outono. Já sei distinguir Marte das estrelas, naquele céu escuro. Já sei o que são arçãs, giestas, estevas, tal como já conheço as flores do marmeleiro, da amendoeira, do pessegueiro. Em criança tinha estado por duas vezes na aldeia de Sara. Uma das vezes na Primavera, quando aprendi a fazer gaitas com caules de cevada, outra no Verão em que fiquei a conhecer os pepinos de S. Gregório. Mas foram estas as principais memórias que eu retive dessa altura. Agora, vi tudo com outros olhos; os meus, agora já cansados, ajudados pelos de Sara que me tinha descrito tudo em pormenor. Não sei quantas vezes 105
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia já folheei o álbum com as suas fotos. De cada foto ela parece surgir tal como a conheci na época. Parece-me ouvir as suas gargalhadas cristalinas de menina, a sua voz apaixonada de adolescente, a sua voz apressada e ao mesmo tempo serena de mulher. Parece-me ver o seu rosto amuado depois de perder às damas, afogueado depois de uma partida de badmington, sonhador caminhando pela praia. Gosto de recordá-la, mas recuso-me a ouvir a sua voz cansada de doente, tal como me recuso a recordar a sua palidez no leito da morte. Já contactei com pessoas que se lembram dela em criança, antes de eu a conhecer, e tentei saber como era. Era muito viva, mas ao mesmo tempo muito sensível- é a imagem que me é transmitida. E ao ouvir isto parece-me que a sinto ao pé de mim, quando em criança fazia sapatos de folha de figueira sob cuja sombra se interrogava sobre as vidas das pessoas que antes dela ali se tinham protegido do Sol. Também já visitei aqueles lugares que mais a fascinaram. Quando passeava no mercado de Assuão, parecia-me que Sara me acompanhava dizendo: repara naquele sudanês ali, naquela criança acolá. Quando passeei de felouka no Nilo, era ainda a voz dela que eu ouvia mostrando-me o deserto, os palmares, ou as colinas ali ao lado. O mesmo me aconteceu em Marrakech ou no Trafaoute. Em Parati, consegui encontrar o velho marinheiro Eli e foi com ele que fiz a minha volta pelo mar, no seu barquito- Avenida Paulista. Falei-lhe de Sara. Lembrava-se dela e dos pais que a acompanhavam. Falou-me dos seus cabelos ruivos, da sua vivacidade contagiante e da emoção que teve ao nadar longe da praia. Contou-me que ao regressar ao barco dizia, emocionada: “Eu nunca tinha nadado num sítio sem pé. Como foi possível? Isto é lugar de encantamento.” Em todos estes lugares tirei inúmeras fotografias que enchem as paredes de minha casa. Revejo- as várias vezes e parece-me ouvir Sara tecendo comentários naquela sua fala apressada. Que depressa falava Sara! Depressa mas de uma forma suave e ao mesmo tempo frágil. A lembrança de Sara dói muito, mas é agora uma dor ao mesmo tempo aguda e serena. A pintura tem sido a minha tábua de salvação. Nunca pintei tanto em toda a minha vida, como desde a sua morte. E a pintura traz-me serenidade. Uns colegas convenceram-me a fazer uma exposição. Teve bastante sucesso, em particular a tela “Evocação do amor” . Mas essa não a vendo. É uma tela de fundo essencialmente azul em vários tons- o azul/verde do mar interpenetrando o azul/cinza do céu. Na parte central há uma silhueta difusa em que sobressai, também de forma difusa, uma vasta cabeleira acobreada. Do lado esquerdo, sensivelmente a meio, uma mancha cinza- a ilha do Pessegueiro. Não diz a lenda que foi em Porto Covo que um rei por amor se matou novo? Também a leitura e a música me confortam. Estou a reler todos os livros que lemos e sobre os quais conversámos. Às vezes tenho a nítida sensação que a ouço, comentando-os, tal como tenho a sensação que ela está por perto, quando ouço música, particularmente Brhams. 106
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia De vez em quando encontro-me com Júlia e David II. Peço-lhe que me falem dela, naquele tempo em que eu estive ausente. Quero que toda a sua vida faça parte da minha. David II disse-me há dias. Nunca vi amor tão bonito como o teu por Sara e o dela por ti. Era demasiado bonito para poder ser vivido realmente. Apercebo-me que todos os que nos eram próximos percepcionaram o nosso sentimento mútuo, todos menos eu e Sara que nos obstinámos em não querer ver. 9 Ontem fez cinco anos que Sara morreu. Desloquei-me a Leça com um ramo de cem tulipas brancas que lancei ao mar, na Boa- Nova. Um pescador aproximou-se de mim e disse-me: Curioso, hoje já é a segunda vez que vejo um homem chegar aqui e lançar flores ao mar. O outro era bastante mais novo que o senhor e vinha acompanhado de uma senhora mais velha. Devia ter os seus vinte e tal anos. Sorrio. Só podem ter sido David e Júlia. David vive no Porto, onde exerce Medicina. Sei o quanto sentiu a perda da madrinha. Só pode ter sido ele. A mãe acompanhou-o, por certo. Olho todos os dias para o diário de Sara. Por vezes releio-o. Não sei o que fazer com ele. Pensei em queimá-lo, mas acho que nunca vou ter coragem. Mas se o não queimar, o que lhe acontecerá um dia, depois da minha morte? Talvez o deixe como legado ao meu homónimo- afilhado de Sara. Não sei ainda. Lá está, em cima da minha secretária, a aguardar a minha decisão. Epílogo Foi ontem o lançamento do livro. Não gosto muito da palavra lançamento. Gosto mais de apresentação. Lançamento lembra-me o disco, o dardo, o martelo ou o peso. Um livro não se atira, apresenta-se, expõe-se. E a partir desse momento já não é ele, mas a imagem que dele fazem os outros. A leitura de qualquer um interfere com o livro, daí que cada leitura do livro que até agora era meu, irá ser uma nova leitura. Por isso senti-me só e indefeso, apesar dos abraços calorosos dos amigos e dos sorrisos circunstanciais de conhecidos e desconhecidos. Apercebi-me várias vezes da presença fugidia de Rute, tão fugidia que não consegui apreender qualquer mensagem no seu olhar. Teria ela algo para me dizer? Não consegui falar-lhe. Havia sempre um livro a autografar, a chegada ou a 107
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia despedida de um amigo. Quando acabou a cerimónia (onde fui eu buscar esta palavra tão pomposa para um acontecimento tão falho de importância?) vim para casa e deixei- me cair em cima do sofá. Exausto, fechei os olhos. Senti Rute que chegava, mas não consegui dizer-lhe nada, nem sequer abrir os olhos. Ouço a sua voz suave e frágil, mas curiosamente, desta vez Rute fala devagar. Talvez queira enfatizar bem o que diz: Gostei do que fizeste com o meu diário. Eu não teria encontrado melhor solução para ele. Escreveste o nosso livro (reparo que destaca a palavra nosso, dizendo-a ainda mais pausadamente, marcando bem as sílabas). Gostei inclusivamente do nome que lhe deste, bem como do nome que encontraste para nós- as principais personagens. É certo que num ponto ou noutro eu talvez tivesse contado a história de um outro modo. Mas gostei. Foi o fruto que saiu de nós. Que melhor epílogo para o nosso amor? Abro os olhos, e procuro Rute, mas já se foi. Que saudades eu tenho de ti, Rute! 108
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Flor de laranjeira ……. Não há Inverno rigoroso que te impeça de rematar esse trabalho que começa na primeira folha que nos braços te desponta ….. Ruy Belo, “ Árvore rumorosa” 109
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia 5/1/85 Agora sinto que posso partir tranquilo. Parto em paz. Francisco fechou o seu diário e caminhou lentamente em direcção à janela. Olhou, embevecido, para o seu pomar de laranjeiras. Quando começou ele a escrever o diário? Não sabia ao certo o dia, nem o ano; sabia apenas a razão que o levara, naquele dia, era ele ainda muito criança, a escrever: Eu vi-os mas ninguém acreditou. Foi lá, no sítio onde se afogaram. Olhei para a água e vi a minha imagem ; por detrás dela vi as deles; ela, bonita como a senhora professora, ele parecido com o avô Francisco, mas muito mais bonito . Na altura não sabia o que era um diário, mas naquele dia, a mágoa e a raiva eram tantas que tinha que as descarregar de qualquer forma. Ao ver o caderno e o lápis ali por perto escreveu com tanto vigor que quase rasgou o papel. Por que razão ninguém acreditou? Nem o avô Francisco, de quem ele herdou o nome. Mas não era o avô Francisco que lhe dizia que eles estavam no Céu. Ora se estavam no Céu por que razão não poderiam ser vistos na água como ele se via a si próprio, tal como se estivesse em frente a um espelho? Menos nítido, é certo, mas via-se bem...Ora se eles espreitassem lá numa nesguinha do céu, por cima do rio, deveriam poder ver-se menos nítidos ainda, pois estavam muito longe. Mas foi precisamente isso o que ele viu. É certo que ele tinha dúvidas se estariam no Céu ou lá no fundo do Rio. Mas se fosse esse o caso, poderiam ter nadado um pouco para mais perto da superfície de modo a serem vistos. Estariam eles no fundo do rio? Era por causa dessa incerteza que ele tanto queria aprender a mergulhar. Se conseguisse ir lá bem ao fundo, talvez conseguisse encontrá-los. Doutra vez, lá no mesmo sítio, dissera o responso a Stº António, como tantas vezes vira fazer à avó quando queria encontrar algo que supunha perdido. Afinal de contas, nunca ninguém encontrou os corpos. Poderia ser que o rio os tivesse levado para longe e lá andassem perdidos... Se milagres desejais recorrei a Stº António, vereis fugir o demónio e as tentações infernais. Foge o erro, a peste, a morte, o fraco torna-se forte, torna-se o enfermo são, recupera-se o perdido, rompe-se a dura prisão e no auge do furacão cede o mar embravecido. Todos os males humanos se moderam, se retiram, digam-no aqueles que o viram e digam-no os paduanos. Mas dessa vez não viu a imagem deles no Rio. Possivelmente não rezou bem o responso ou talvez fosse por ter falado nos paduanos. Lembrava-se que uma vez o Sr. Padre se tinha referido a isso na homilia. Parece que os tais paduanos diziam que Stº António era de Pádua e isso era falso; tinha lá vivido, é certo, mas Stº António era o nobre Fernando 110
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia de Bulhões, natural de Lisboa. Naquela altura Francisco não fazia a mínima ideia onde ficava Pádua e não via por que razão Stº António haveria de dar tanta importância a esse pormenor. Além disso, era assim que a avó rezava o responso e resultava. Ele já muitas vezes tinha sido testemunha. Por exemplo daquela vez em que a avó perdera o cordão de ouro. Tanta aflição passada... Já pensava, inclusivamente, que alguém lho roubara. Mas quem? Foi quando lhe pediu para a acompanhar na reza do responso. E não é que o cordão apareceu, caído atrás do baú, onde a avó já o tinha procurado? Francisco emergiu destas recordações tão longínquas e fixou de novo o olhar nas suas laranjeiras. Se o avô Francisco as pudesse ver... O avô Francisco e a avó Laura... A avó com o lenço puxado sobre o rosto, rosto marcado por sulcos muito fundos, parecendo rios a correr para o mar. E os leitos dos rios não se foram cavando devido à erosão, pela água a correr? Ora pelos sulcos do rosto da avó Laura também correu muita, muita água, pela morte do seu filho, filho único, engolido por outras águas, as daquele rio que é ao mesmo tempo pai e padrasto. E os sulcos no rosto do avô Francisco? Esses não deviam ter sido feitos por lágrimas porque o avô Francisco não chorava. Um homem nunca chora, dizia ele. Mas Francisco lembra-se perfeitamente de uma vez, lá junto ao Rio, no sítio onde eles desaparecerem, ter visto duas lágrimas a rolar pelo rosto do avô Francisco. Está a chorar avô? Não, meu rapaz, um homem não chora. Acontece que me entrou um argueiro para o olho. Era assim o avô Francisco. Manso como um cordeiro, terno como um menino, mas revestido de uma forte carapaça como um cágado. O avô Francisco e a avó Laura foram mais que os seus avós, foram também os seus pais. Sim, porque os verdadeiros, esses não os conheceu. Morreram afogados no rio, num dia em que se dispunham a atravessá-lo para ir cuidar de terras lá na outra margem. O céu negro anunciava uma trovoada a montante. De repente o rio engrossou e engoliu tudo, a eles e à montada em que seguiam. Nunca foram encontrados. Não é que Francisco se lembre de nada disto. Era criança de berço quando tudo aconteceu. Desde que guarda memória das coisas, só se lembra de viver com o avô Francisco e a avó Laura. Dos pais, nem uma foto. Se fosse hoje, havia a fotografia do baptizado, do casamento, e tantas, tantas outras. Mas naquela altura só a gente rica tinha por hábito tirar fotografias. Por isso, nem uma. Se ao menos houvesse uma imagem a que se agarrar. Do pai, diziam-lhe que era parecido com o avô Francisco, mas o avô Francisco já era velho, tinha o rosto sulcado de rugas e ele não conseguia imaginar o avô Francisco, com a idade que teria o pai se o rio não o tivesse engolido. Da mãe diziam-lhe que era muito bonita. Ora bonita, bonita, era a Srª Professora. Será que a mãe era assim bonita? O avô Francisco dizia que era muito mais bonita, mas 111
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia Francisco tinha dificuldade em imaginar uma mãe mais bonita que a senhora professora, para ele a mulher mais bonita que conhecia. A Srª professora... Ainda se ao menos ela os tivesse conhecido. Ela explicava tudo tão bem, que por certo os descreveria de tal forma que era como se Francisco os pudesse ver. Mas não. Chegara à aldeia cinco anos depois do acidente. Uma vez falara-lhe da sua vontade de aprender a mergulhar para ir lá ao fundo ver se eles lá estavam. Ainda hoje recorda as palavras da senhora professora. E se fores e não os encontrares? Deixas de poder sonhar com isso. A vida é um pouco cheia de sonhos e ilusões. Tu assim podes imaginar os teus pais, muito bonitos tal como me dizes . Podes imaginá-los lá no fundo do rio, ou em qualquer outro lado. Mas se fores procurá-los e não os encontrares essa parte do sonho esfuma-se e desaparece. A vida é tanto mais bela, quanto mais povoada de sonhos estiver. Por isso, mesmo depois de aprender a mergulhar, Francisco não tentou ir lá ao fundo ver se os via, de início, porque temia perder o seu sonho, mais tarde porque talvez tivesse deixado de sonhar. Em boa verdade Francisco nunca deixou de sonhar. Tinha sempre um sonho a que se agarrar. Porque razão resolvera recordar tudo aquilo? Por um lado era bom recordar mas, por outro, ficava com aquele nó na garganta. Ao menos tinha as fotografias do avô Francisco e da avó Laura que podia rever sempre que a sua memória o quisesse trair num ou noutro ponto. Foi num dia de feira. Teria ele os seus 12 anos. Tinha ido com os avós à feira vender um cevado. Viu o fotógrafo com a máquina e tanto pediu aos avós que tirassem o retrato que eles acabaram por lhe fazer a vontade. Lá estão os dois e ele no meio. Os avós com o traje domingueiro; a avó com o xaile de merino e as arrecadas nas orelhas; o avô com o seu capote. E ele ? Com o seu boné de abas sobre as orelhas, por causa das frieiras. Foi também nessa feira que conheceu Luísa. Nesse dia escreveu no seu diário: Hoje o avô e a avó tiraram o retrato na vila. Quando eu for grande, se eles já tiverem morrido, mostro o retrato aos meus filhos. Lá na feira, vi uma menina muito bonita; sei que se chama Luísa porque ouvi os pais chamarem por ela. Se calhar a minha mãe, quando era pequenina era assim bonita como ela. Quando for grande hei-de casar com a Luísa.. E assim começou mais um sonho de Francisco. Depois do dia daquele primeiro encontro, de que ficou o retrato para a história, Francisco encontrou outras vezes Luísa na feira. Mas foi só alguns anos mais tarde que lá, junto ao Rio, com a Lua por cúmplice, viveram a sua primeira noite de amor que ele 112
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia jamais esqueceria. Nessa altura, do avô Francisco e da avó Laura só já restavam a foto, as lembranças e a herança que lhe deixaram- meia dúzia de terras e a casa com a cortinha. Como o avô adorava aquela cortinha! Pequenina, mas nela havia de tudo, até o pomar de laranjeiras de que o avô tanto gostava. Nunca te desfaças da casa e da cortinha, pedira o avô pouco antes de morrer . Mas a vida por vezes é tirana e obriga-nos a trair a nossa vontade. Depois daquela noite de amor junto ao Rio, Francisco foi falar com o Sr. Padre que aceitou casá-los. Mas não consentiu que Luísa fosse vestida de noiva, nem tão pouco com flor de laranjeira. Casou-os bem cedo, num altar lateral da Igreja; não no altar-mor como casava as raparigas supostas ainda virgens. E essa mágoa, Luísa guardou-a até ao fim da vida. Não tiveram viagem de núpcias nem tão pouco sabiam na altura o que isso era, mas Luísa teve aliança e, naquele tempo, nem todas as mulheres se poderiam orgulhar de ter uma. Depois vieram os filhos e as dificuldades. Francisco sabia que ficando na terra só poderia proporcionar aos filhos uma vida de trabalho e pobreza. Um dia, encheu-se de coragem, vendeu tudo, incluindo a casa e a cortinha e foi para a cidade para assim poder educar os filhos. Trabalharam arduamente e conseguiram alcançar o objectivo mas Francisco não conseguia eliminar do peito aquela dor imensa de não ter satisfeito a última e única vontade do avô. E as suas palavras ressoavam continuamente na cabeça de Francisco. Nunca te desfaças da casa e da cortinha. Por isso, mesmo após o filho mais novo ter acabado o curso, Francisco e Luísa continuaram a trabalhar, por vezes para além do limite das próprias forças. Os filhos não conseguiam entender toda esta labuta, mas Francisco perseguia mais um sonho - conseguir reaver a casa e a cortinha, fosse por que preço fosse. E agora ali está ele, à janela da casa, deliciando o olhar no seu pomar de laranjeiras. Os filhos aparecem por vezes mas é no neto mais novo, que herdou o nome do avô, que Francisco deposita todas as suas esperanças. Desde bem pequenino, que para ele não existe melhor prémio que uns dias passados com os avós. Agora só com o avô, porque a avó, partiu há um ano, vencida por tantos anos de luta e sem que Francisco pudesse ter concretizado mais um dos seus sonhos- partir com Luísa numa viagem inesquecível que seria como que uma viagem de núpcias adiada 50 anos... Que falta eu sinto de ti Luísa, murmura Francisco. A tua morte abalou-me muito. Já antes as dos meus avós, mas essas já lá vai muito tempo, embora ainda hoje me façam doer a alma. E houve aquelas que não senti como perdas, porque não se pode perder aquilo que não nos lembramos de ter tido. Senti-as doutro modo, precisamente pela falta de algo que nunca soube verdadeiramente o que era. Não que os meus avós não 113
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia me tivessem dado todo o afecto do mundo, mas tive sempre muita pena de não ter conhecido os meus pais. Francisco emerge destes pensamentos e olha de novo as laranjeiras carregadas de frutos. Decide ir até à cortinha. Senta-se no banco de pedra, onde tantas vezes se sentara ao lado do avô. É Inverno, mas faz Sol; aquele Sol que não aquece o corpo, mas aquece a alma. Francisco sabe que é Sol traiçoeiro. A Avó bem lhe dizia: Acautela-te com o Sol de Inverno que traz o diabo na alma . Mas Francisco esquece as recomendações da avó e deixa-se enredar nas teias do demo. Quando dá por si, lá estão eles, a seu lado no banco. O avô, a avó e Luísa, vestida de noiva. Francisco vê que lhe falta a flor de laranjeira e vai cortar um ramo ali mesmo, no pomar. Mas o Sr. Padre aparece e diz que assim não os pode casar. Luísa fica muito triste. E é o Sol, que afinal não é o demo mas Nosso Senhor em pessoa, quem aparece e diz: Caso-vos eu que tenho mais poder que todos na Terra, e há-de ser no altar-mor. E Luísa fica muito feliz, com o seu ramo de laranjeira. Então Francisco dá-se conta da presença da Srª Professora. Curioso, não se lembra de a ter convidado, mas fica muito satisfeito com a sua presença. E aparece o fotógrafo. Monta a máquina mas Francisco diz para ele esperar pois eles ainda não chegaram. E pede à avó Laura que reze com ele o responso a Stº António Se milagres desejais recorrei a Stº António, vereis fugir o demónio e as tentações infernais. Foge o erro, a peste, a morte, o fraco torna-se forte, torna-se o enfermo são, recupera-se o perdido, rompe-se a dura prisão e no auge do furacão cede o mar embravecido. Todos os males humanos se moderam, se retiram, digam-no aqueles que o viram e digam-no os ……. Nesse momento o Sr. Padre lembra-lhe que não pode falar nos paduanos, não vá Santo António não gostar. Sto António não é de Pádua, é de Lisboa. Francisco tem que acabar o responso mas não tem sentido dizer lisboanos, e por um momento fica aflito. Se não acaba o responso, StºAntónio não pode fazer o milagre. Mas de repente a solução surge e o responso termina. E digam-no os que aqui estamos. E nesse mesmo instante ouve-se o marulhar das águas no rio, que estava ali mesmo ao lado e em que ninguém tinha ainda reparado. Então Francisco mergulha e vai lá bem ao fundo e ao emergir todos vêem que atrás de Francisco vêm dois vultos que se aproximam a nadar. E Francisco no seu diário escreve simplesmente. Tal como eu suspeitava , eles estavam lá no fundo, bastava mergulhar para os encontrar. E são ainda mais bonitos do que eu imaginava. E agora todos se apertam um pouco mais no banco, para dar lugar aos que chegam de novo. E o banco parece que cresce. Dá para todos. E então o fotógrafo já pode tirar a fotografia. E nesse momento passa um veleiro no rio. Que estranho, Francisco nunca 114
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    Estórias com sabora Nordeste Regina Gouveia tinha visto um veleiro no rio, e vai cheio de gente que canta e Francisco fixa os olhos, que pena a vista já falhar tanto, mas agora não tem dúvidas são eles, os filhos, os netos os genros, as noras e lá vão eles ao sabor da vida que não pára tal como as águas do rio não param de correr. Ao longe e apesar da falta de ouvido, ainda consegue distinguir a voz do neto Francisco. Podes ir viajar com a avó Luísa, fazer a viagem de núpcias que sempre desejaste fazer. Vai tranquilo que eu cá fico a cuidar da casa e da cortinha. Prefácio ......................................................................................... 2 Debaixo dos sobreiros ................................................................... 5 O diário de Sara........................................................................... 63 Flor de laranjeira ....................................................................... 109 115