Chagas Das Almas 
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Themístocles Silva Neto mqwertyuiopasdfghjklzxcvbn
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Dedicado a minha irmã Kitty, 
uma pessoa por quem sinto 
um orgullho especial nesta vida. 
QNC, Silva, Themístocles ISBN Reg. 348.398 Livro 462 Fl. 58 - 08/08/2014.
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Prefácio 
Num momento em que a obsessão pelo corpo perfeito, pela carreira de sucesso e pelo consumo do último lançamento – seja do smartphone ou do sapato – preenchem as redes sociais e nossos dias vazios, Themístocles Silva Neto rompe barreiras, revelando as feridas do tempo em que vivemos. Nessas crônicas, as chagas de nossas almas, tantas vezes disfarçadas ou ocultas, são denunciadas pelo escritor que, ora brincando com palavras, ora fazendo humor com sua própria dor, as expõe sem anestesia ou esperança de cura. 
Nascido em Petrópolis, cidade imperial que se esforça por manter o brilho do tempo em que era cidade veraneio da antiga capital federal, o autor passeia por seus bairros antigos, ladeiras e escadas sem espaço para o colorido fantasioso. As Chagas Crônicas das Almas nos
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mostram que estamos todos em um mesmo barco, rumo a reviver mágoas não curadas, enfrentar a solidão e questionar nossa existência, muitas vezes distanciada do ponto de partida, quando tínhamos certezas que se perderam nos imprevistos da jornada. 
Deixando qualquer hipocrisia de lado, partimos nesse voo de crônicas rápidas que nos ajudam a lembrar o que éramos e abrir os olhos para o que nos tornamos, enquanto percebemos na paisagem e no passageiro ao lado que, no que diz respeito a sonhos, frustrações e lembranças, o espaço-tempo faz pouca, ou talvez, nenhuma diferença. 
Apertem os cintos, hora de decolar. 
Adelia Di Buriasco. 
(Professora e amiga) 
Recomenda-se ler seguindo a sequencia.
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Sexo, Drogas e Rivotril 
Andei me cuidando, parei até com o Rivotril! Depois de fracassar com a dieta da lua, voltei à dieta da rua. Italiano de queijo e presunto é massa! Junto, Coca-Cola, além de churros, tipo assim: sobremesa. Tirei férias mês passado e fui com a família para Holambra-SP. Conheci uma moça, Inês, num acidente. Tropecei numa tulipa, foi inesperadamente. Torci o tornozelo. Ao menos comia croissant de salame fino e sobre à mesa nada de chulos, doces vulgares do Cebolinha. Dia seguinte tive alta do hospital local e voltei no primeiro voo, que o anterior estava lotado. Ponte aérea São Paulo-Rio de Janeiro. Que medo! Prefiro buzum Castelo-Cascadura sem barrinha de cereais! De volta também à
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Niterói, engessado, retornava das férias ao Clube de Remo, de volta ao rink. Me pediram uma programação de eventos para o inverno, desanimado, comecei propondo um swing... Muito sexo! Perca o emprego, mas não perca uma parca rima! Claro que isso é mentira. Voltei à rotina de casa- pastelaria-trabalho-casa. O Falabela me ajudou a abandonar a TV Globo, a começar por sua Falafeia de abertura num programa churros sobre sexo e afros. Só pode gente tipo ele e Mala fala, se você disser isso, vai para a cadeia, vai entender! Desconfio que estou com LER. Causa? O controle remoto no eterno nada de bom para ver. Ler! Tentei sim retomar aos livros, desisti. Faz mais de um ano que não pratico, atrapalha para escrever. Me sinto cover sei lá de que ou quem. O que sei é que sinto isso, porém.
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“Ai porém!”, resolvi ouvir mais música e neste relato chato estou com o magnífico Paulinho da Viola nos ouvidos. Isso é a coisa que faz jus aos dias, aliás, sempre fora, parece. É tarde e já se foi o sábado. Vou deitar e, ao acordar, devoraremos dois frangos assados com a pele bem tostada, hum! É a tradição brasileira semanal da celebração do dia de ação de desgraças: Domingão do Faustão e depois do Mengão, que já tem a quarta especial após a novela. Tudo com bastante colesterol da sambiquira, - adoro! – “esta parte é minha!” Sambiquira é o nome popular da cloaca ou se preferirem, o anus da galinha. Perdão a grosseria. Melhor ir de Wikipédia: “Sambiquira é a porção terminal do corpo das aves no formato de um apêndice
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triangular, ela abriga uma...” Basta de hipocrisia, né? Isso tudo é cú! 
Depois veio uma das canções chatas do Carlos Lira. Mas tudo bem que samba eu queria, menos indigesto que sambiquira. Arrotei a noz moscada por algumas horas. Entrava a segunda-feira e fui dormir. Puto, pois o meu Botafogo caiu para o Z4. No dia seguinte tinha labuta. De casa para o trabalho, recheando-o com massas assadas e fritas com queijo, carne e doce de leite. Tudo misturado, sabemos se vomitado. O colega Roney voltou de férias logo depois e pediu para assinar no meu gesso. Sobrava espaço, prova de que há alguma evolução na sociedade, ponta de esperança. É justo, só estava faltando ele, pensei. Deixei correr a Last.fm no computador e uma enorme coincidência! Terminando esta frase ouvi:
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“Naquela mesa está faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim”, isso na voz marcante de Léo Batista, digo, Nelson Rodrigues, perdão, Gonçalves. 
Acordei muito sensível no dia seguinte, sabe? Meu estomago também, repleto de ácidos, gazes e sons de bolhas desagradáveis como aqueles transcendentais que fazem fundo em sessões de Shiatsu. No almoço deste mais um dia, resolvi pegar leve com um pirezinho e salada de alfaces. Me senti indo para a lua novamente e quando terminei maldisse Armstrong e Collins. Esqueci o outro. Retornei à minha mesa de trabalho e botei para tocar “What a Wonderful World” e “Take a Look at Me Now” como que para me redimir deste atentado contra o orgulho de humilde nação norte-americana.
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Escureceu. Marquei o ponto e fui embora. A caminho doutro, uma barraca de churros, assombração! Hesitei, mas acabei comendo. Cheguei em casa e resolvi eu mesmo arrancar o gesso. Sobrou até para o forro! Dia seguinte chamei o pedreiro para remendar tudo. Ele que, aliás, faria melhor trabalho no meu pé. Descobri que enfaixaram e lambuzaram o lado errado e que tudo não passou de uma tola luxação. Liguei a TV. Na Band passava “O último tango em Paris”. Enjoado com a gordura poliinsaturada daquela iguaria fálica, quase regurgitei na cena da manteiga. Depois de um sal de fruta Eno, até lacrimejei. Fui dormir e sonhei que comia uma galinha com muita gula. Não era coincidência, pois acordei com uma baita dor nas costas e não fui trabalhar. Minha amada esposa me
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levou o prato do almoço na cama, dizendo: ”Querido, preparei um ensopadinho de sambiquira com batatas delicioso para você! ”Pela primeira vez comecei a repensar sobre meus conceitos céticos acerca da teoria da conspiração. Que tudo começou com FHC introduzindo o Frango à dieta da classe média brasileira de então. Me vi metido nas drogas, muitas drogas! 
Na terça tudo normal. De volta ao Clube, estava feliz, sentimento de superação, meio isso. Olhei várias pessoas velejando no frescor da Bahia, de remos em punho, lindo. Tive uma sensação de ginecologista... Trabalhando onde os outros se divertem. Liguei o computador, a rádio Atena 1 tocava “ouro de tolo” do Raul e a vida seguiu em frente entre trilhas sonoras, enredos e auroras baixo-astrais. Coca,
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massa, churros, TV e vez por outra, uma sensaçãozinha de medo. De morrer? Ora, não! De viver! Me deu vontade de mandar tudo para puta que pariu, mas graças a deus, voltei com o Rivotril!
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Eclipse do amor 
Infante, a impressão que tinha era de que alguém ou alguma coisa além da minha compreensão desligava um botão lá em cima e apagava o sol no cair da tarde. Como as chaves que me lembro de meu pai mexer na caixa de luz quando os fusíveis ainda eram de louça. Depois, mais atento, metido a filósofo grego, com atentas observações e interesse na matéria científica, desconfiava que a lua fosse o sol à meia luz, que ambos fossem o mesmo astro em estados diferentes, mas nada egoísta, só generosidade e exação, achava. De dia o sol fazia seu papel de trabalhador. No inverno era ameno para agasalhar os pobres descobertos de boas lãs e calorias de nozes a avelãs. No verão, severo aos operários,
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como o Seu Gumercindo que trabalhava lá em casa e suava em bicas, um amigão para sempre em trabalhos esforçados. Mas que isso era para o bem comum, como os diretores da escola se faziam enérgicos com a gente para educar e formar caráter, mais postulados... Este ainda discorria sobre o fato de que todas as noites, findo o expediente, o Astro Mor se transformava em Lua para usufruir do descanso e levar o lazer e o amor aos homens. Não pressupunha o gênero imposto pelos artigos definidos, posto que mal terminasse o abecedário. O conto de fadas celestiais fazia-me crer que ele se travestia de Pierrot, que me fascinavam nas matines de carnaval no Petrô, referindo-me ao clube da cidade neste depoimento galáctico retrô. Só que agora artista a levar a beleza e a leveza das
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existências românticas e sensíveis de alma como sentia o protótipo do meu ser, apesar de angústias esparsas de fragilidade no final das tardes, sujeitos a pancada de rua em meio aos moleques da irmandade até o alvorecer. Lua. Via suas manchas em forma de lágrimas no rosto redondo e reluzente na escuridão da abóboda circense. Ele. Fosse minguante ou nascente. Estas fases discretas pareciam a de uma meretriz que mostra apenas o decote ou as coxas, criando as melhores expectativas em seus ensaios lunáticos sensuais. Se cheias, luas nuas... Quanto às estrelas, colombinas, anãs, Anas e Marias, anos-luz, anos-lua de mim. Para mais de três. Convidadas para o magnífico espetáculo quando as nuvens negras, raios e trovões não tomavam a cena como vilões vindos de supersônicos aviões. Vruuum!
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Mas observando a chuva, seu poder de acalanto, com o tempo desconfiava que seus anunciadores não pudessem ser do mal, que eram como os cães da casa ao lado, lindos pastores que ladravam muito, mas não mordiam em seus mantos alemães malhados. 
Esta alegoria combinava com o abajur que minha mãe deixava aceso no quarto para melhor segurança das minhas madrugadas de passarinho em repouso de azas a voar. Descansando de muita alegria até o despertar, com o relógio analógico em nosso ninho, que não havia nesta época os digitais, é claro e isso sim lógico. Agora sem Anas dos Lenos ou qualquer outra constelação do zodíaco, vinham sonhos animados e coloridos da imaginação juvenil, onde os pesadelos invariavelmente
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são vencidos por algum super-herói abstrato e tudo mais, e tudo bem, pois que nunca faltava o mocinho das ilusões do menino tolo. Criança passageira do trem da infância, profunda e com a cabeça sempre a mil por hora num vagão, noutras instancias de um infinito que desconhece distancias... 
Um dia conheci um eclipse, entendi que dois astros formam um tipo de maré de sizígia, que é nada mais do que a soma da força gravitacional entre os astros envolvidos, quando as lágrimas oceânicas são as mais rasas, aprendera no ginásio com a saudosa tia Lígia e comovido. Embriagues nostálgica mental e orgânica de avejão em pus. Pus-me a rever... revival sim... e como vivo! E assim vou, coisa e tal... 
O fato é que a esta altura estava ciente de que ambos, Sol e Lua, eram sujeitos
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distintos nas orações, que nem estas como súplicas, fossem com as vestes das mais coloridas, continuaria dando pano para manga com o sabor doce de uma rosa ou caiana. Remete-me e remendo com alvitres de Ana, que caía na minha na escola! Bela menina, mas nem sabia o que é dar bola! Só nas peladas, digo, no futebol na quadra. Ah! Mas aí me deram uma porrada no joelho. Até hoje não posso mais jogar. Como não ter ar triste? Bem, nem tudo pode ser considerado ideal... Voltemos ao espaço sideral. 
Um dia, deitado na cama, antes da pestana emplacar, momento em que a cabeça se põe mais a pensar, quando não vi, já era candidato a rapaz, - tinha até buço - recomecei a viajar na velha cauda do cometa, na onda gulosa astronômica. De
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repente parei. Senti-me ridículo, pueril com a imagem deliciosa que interrompera lá atrás e, ainda que perdido em uma nebulosa deixei prosseguir o filme dando fim à órbita mental. 
Na relatividade do tempo, será que um eclipse não passa de um encontro casual entre o Sol e a Lua, tão emocionalmente envolvidos? Encontro para um abraço fraterno e quente. Breve, sem espera e de sempre. Coisa singela, inocente... Fraternidade de um Deus limpo e todos uníssonos com o mundo. Abençoado e a abençoar, dignos de olimpo. Celebrando com louvor os sentidos e instintos. Dos homens ao milagre da vida em esplendor. Da graça dos céus, da terra e do mar... O todo conjugando o verbo amar... Este
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fenômeno raro de louvor... Eclipse de um Grande Amor!
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Menino Jesus 
Aos 13 anos de sua era, num dia qualquer, Jesus fazia companhia a José em sua carpintaria: 
― Filho, me passe a estopa. 
― Sim, senhor. ― Respondeu o menino entregando-lhe a bucha. 
― Já disse Jesus, me chame de pai! Falou José enquanto fazia a limpeza final de uma cruz de cedro. 
― Desculpe pai, eu não sei o que acontece, mas vou me acostumar... Senhor, ou melhor, pai, quando é que o tio Batista vem nos visitar novamente? 
― Não sei. Teu primo... Está bem, tio... É um andarilho, ninguém nunca sabe o seu paradeiro. Mas por que você quer saber?
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― É que eu gosto de conversar com ele. 
― Este negócio de você ficar dando ouvidos as ideias desatinadas de João, não me agrada. Aquele vive nas nuvens! 
― Nada pai. Aliás, ele diz que eu serei uma pessoa muito importante, sabia? 
― É. Mas para isso, você tem que continuar frequentando a escola. 
― Eu detesto ir à escola e não gosto do mestre Esaú. 
― Já disse para não falar assim, você tem de respeitar seus professores. 
― Mas ele só fala coisas horríveis sobre Javé, eu fico com medo. E outro dia disse que os homens ainda voarão e ele me colocou de castigo.
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― Você ainda é novo para compreender o Livro. Ah...! Prodígio, prodígio. ― fala baixo para si. 
― Eu sou um garoto normal! 
― Não, óbvio...! Bem... ― José se cala e balança a cabeça para os lados com reprovação condescendente. 
― O que foi Sen... quer dizer, pai? 
― Ah sim. Aquela história do menino que caiu dentro do rio semana passada. 
― O meu amigo Judas? O que é que tem pai? 
― Todo mundo anda falando que você o curou. Ouça filho, só Deus opera milagres, entendeu? E realmente como aquele corte estancou e cicatrizou em minutos é mais uma de suas providências. 
― Eu sei. Eu sempre digo que aquilo foi obra do Pai, quer dizer, do Senhor...
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Deus. Eu apenas pulei na água para socorrê- lo e passei minha mão na ferida da sua testa para tirar a areia. 
Esquecendo o assunto, José levantando a cruz, fala com esforço cansado: 
― Ajude-me a levantar isto aqui. 
― Nossa! Pai, como é pesado. 
O silêncio toma conta da oficina e logo o menino o quebra com sua irresistível tagarelice: 
― Pai, o Senhor, quer dizer, o papai nunca me falou como é uma crucificação. 
― Esqueça isso filho! 
― É para punir os bandidos não é? 
― Sim, e também os hereges. 
― Como aquele Sócrates, o homem da velha Grécia que o tio falou? 
― Mais ou menos isso, aquele homem era perturbador da ordem estabelecida e foi
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condenado a tomar veneno, não havia crucificação naquela época. 
― Sei... Será mesmo que ele era do mal? Veneno... Não dá tudo na mesma?― E é verdade que os condenados têm que carregar isso até o calvário? 
― É. 
― E depois? 
― Hum meu filho... Está bem, então escute: 
Depois eles são pregados vivos na cruz, ela é suspensa, afixada na terra, no cume do calvário e em meio a uma sangria desatada, o réu permanece lá até morrer! 
O menino fica atônito, se arrepia e emenda: 
― Deus me livre!
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Os Ursos 
Casa nova é uma delícia! Para as crianças um universo a se explorar, enquanto os adultos posicionam móveis, desembalam caixas e arrumam as coisas. Mudança cansa, mas traz esperança. Parece que os velhos teréns são novos, os cheiros de mofo promovidos a jasmim e que das dificuldades de inquilino possam vir milagres, ilusões tolas sem fim, a cada casa par ou impar, que foram quase trinta! Porém, os baixinhos nem reconhecem isso, só um peso no ar vez por outra lhes alcança as preocupações das pessoas adultas fazendo sentir uma sensação ruim no peito, mas também que basta um peido que ladra ou uma coceirinha na cabeça de dois dias sem banho, que logo passa. Aí só alegria,
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nirvana... Eles só se preocupam em perscrutar os novos arredores onde os mistérios brincam de esconde-esconde. “Onde vai dar aquele buraco escuro da lareira? Será que sai direto em tele transporte para o país da Alice? Ou no porão escuro do Conde Drácula?” O vampiresco da Sessão Coruja que todo mundo evita que a gente veja tarde da noite. É, mas que sempre damos uma escapadinha masoquista para bisbilhotar tipo o “Moita”, de espreita e esguelha na lateral das portas entreabertas e rangedoras num imenso pé direito, - ao contrário do nosso despertar de um incerto dia. 
O nome da nova rua, Avenida Barão do Rio Branco, se fosse Conde, tanto faz, seria tudo igual, meio obscuro... Contudo, o Rio parecia sugestivo... De águas lácteas! No
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fim, nada tão lúdico, apenas nobre e justo quando aprendemos na escola se tratar de homenagem, ruas afora no imenso Brasil, a um grande homem servidor de nossa diplomacia no passado. E o seu título familiar simplesmente contemplou a capital do Acre, oxalá minhas sandálias, bolas de futebol e bodoques! 
A imensidão é subjetiva no espaço- tempo, tudo parece ser muito maior para as crianças, no caso eu e meu irmão no segundo andar daquela “mansão.” E foi assim que descobrimos um verdadeiro tesouro numa noite de lua cheia, apesar do clima mais propício a juntar os filmes adultos da TV em preto e branco com as lendas dos lobisomens! Mais um dia de estágio de rotina, um anoitecer antes de dormir, quando os carrinhos, o pegas-
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varetas e todas as ferramentas de trabalho, maravilhoso trabalho escravo de brincar, vão para seus respectivos compartimentos, graça a desgraça diária da mamãe certamente. Aténs de colocarmos a cabeça no travesseiro, debruçamo-nos na janela de nosso quarto cuja vista dava à esquerda para a moageira de trigo. Ela era escrava, pois que trabalhava dia e noite, sete dias por semana, denunciavam as luzes brancas internas e o som das máquinas. De repente, ao erguer a cabeça no ócio infantil, cutuco meu irmão e aceno com queixo. 
Bem a nossa frente, resplandecidos pela luz do céu noturno a meio breu, abóboda em miríade estrelada, - ou apenas minha memória agora enluarada...? - Nos deparamos com dois ursos gigantes! Medidas de infante? Lembro-me bem da
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trilha que vinha suave do quarto ao lado, Panis e Circenses dos Mutantes. Para que se tenha uma ideia, os animais vinham do chão do primeiro andar do nosso quintal, até uns dez metros ou mais acima de nossas cabeças, que já estavam a alguns pés do segundo andar. Eles eram verdes. Não! Eram pretos... pretos? Nada! Ora, eram marrons, como não?! Dependia da intensidade da luz celeste e da luminosidade das nossas fantasias. Às vezes uma coisa, às vezes outra, não importa. Nunca saíam do lugar, apenas mexiam parte de suas cabeças e troncos fartos de pelos grossos que se estendiam por seus corpos troncudos, revezando os lados com misteriosa maestria, cujo regente parecia ser o vento frio do outono da serra como a executar a Sinfonia ao Luar. Uma valsa em compasso
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terno, ternaríssimo, sempre a nos espiar com zelo. Neste balanço a nos ninar com esmero, até pesarem nossas pálpebras. Pode-se dizer que passaram a ser parte diária do ritual, páreos em nossa mútua simpática e risonha contemplação entre comentários sem pé nem cabeça, afetos aos ursos. Assim fora por várias noites que se seguiram nos primeiros meses do lar que ainda cheirava a cera nova. 
Adotamos em segredo os animalaços como nossos bichos de estimação, relegando a amada cadelinha Biriguda, que tinha as duas cores da imagem da TV. Tudo bem, ela era de todos da casa, e Kitty dava conta de muito amor como sempre. 
Como casa nova à noite dá aquele friozinho na barriga até que a gente se acostume com seus barulhos e fantasmas
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próprios; e o papai leva um tempinho a nos garantir a confiança de super-herói que logo há de imperar deliciosamente; resolvemos tomar nossos ursos como nossos protetores e passamos as chamá-los carinhosamente de ursões. Eram dois irmãos, como nós, bem chegados, sempre lado-a-lado. Tivemos que assumir posse cada um de um. Eu, claro, que era mais novo, fiquei com o ursão menor, o da esquerda. Até tentei o outro... porra... com o Omar era perda de tempo... Moca na cabeça, essas coisas... me inclui fora dessa! O que importa é que eu amava meu ursão caçula, afinal, à minha imagem e semelhança. Cada um feliz com o seu. Como não era pudim de leite, tamanho não era documento, digo, motivo para se sair na porrada.
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Um dia, depois da escola, armando cabana no quintal, chegaram uns homens no portão perguntando pelo responsável. Informamos que mamãe foi à feira e papai foi trabalhar. É, isto mesmo, o desfecho desta história é tão bizarro, quanto certas canções de ninar! 
― “Aí, nós somo da prefeitura” ― disse um “armário”, ladeado de uns caras não menos fortes, como o “Poderoso Thor”, que víamos com empolgação na TV caixotão. Ainda por trás, um baita caminhão. 
Na casa dos sete a nove anos a gente sabia mais ou menos o que era prefeitura, mas não tínhamos muita simpatia não, porque o papai sempre falava coisas como: “Este salário da prefeitura é uma merda!”; “Assim eles vão cortar nossa água!” Eu
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pensei se seria necessário todo aquele aparato para tirar água de nossas torneiras ou prender o papai por ele falar mal da coisa... Ou algo mais legal, generosidade, trazendo seu pagamento na porta!Sei lá... Afinal, todo mundo se referia à instituição como algo importante. “O Senhor Prefeito!” Hoje é de dar gargalhadas! 
O fato é que nosso irmão mais velho estava em casa. Ouviu o burburinho, foi até lá falar com os brutamontes e abriu o portão para eles. Queria eu ser mais prodígio e pedir um mandado, colocá-los para fora! Os brutamontes vieram para prender nossos bichos! Ele, nosso brother, saia da puberdade no auge de sua beleza e masculinidade. Preocupado com sua guitarra, sua esbelta cabeleira e a mulherada, não estava nem aí para mais
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nada, que dirá nossos ursões. Ordenou a execução com autoridade. Saca autoridade de adolescente, a galera fora e dois pentelhos? Lembro-me da gente fazendo juras de vingança com as narinas abertas: "Vamos arrebentar as cordas de sua maldita guitarra!" Como trama de alta conspiração infantil. Não me lembro se cumprimos a missão. Creio que o Omar sim, talvez até antes do evento, com motivo menos grave, faço pausa para rir... 
Mas hoje percebo que ele fez o que podia fazer um adolescente, vítima da própria condição, nada mais do que algo de pouca consciência, ebulição de hormônios incandescentes, não julgo meu amado irmão mais velho, não carece de perdão. 
Mas não dá para esquecer o que de suposta ordem de prisão, fora uma
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execução. Surpresa foi ver do outro lado do muro o vizinho entusiasmado. Se metendo, dava palpites técnicos de como fazer, o melhor ângulo para mover aqui e amarrar as cordas acolá. Baixinho narigudo filho da puta! Soubemos depois que foi ele quem denunciou nossos animais de estimação, entrando com papéis por escrito na repartição, acho que isso. Sob a alegação de que eles - imaginem se nossa ira não era justa por tal insulto – justo eles, nossos ursões, lhes roubavam o sol da manhã. Quando que nossos amigos protetores, heróis da noite, reis das florestas e jardins, crias da natureza, amigos das crianças, poderiam roubar alguma coisa de alguém? Principalmente o sol! E como o Astro Rei podia pertencer ao vizinho? Seria o Sol, sua luz, a exemplo da água, propriedade da
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prefeitura?Ah! Vinha cobrada junto na conta da tal Light?! Que porra é essa, Omar, meu irmão?! 
Assistíamos pávidos o assassínio. Começou pelos multibraços à foiçadas. Suas vestes nobres verdes sangue azuis, como que caindo ao chão de saibro de chamar atenção aos urubus. Depois os machados em suas canelas de pau inertes que sangravam seiva cheirosa das linhagens mais briosas. Ambas começaram a desfalecer seus corpos num dia quente. Começamos a perceber a impotência de nossas indagações repletas de ingênuas dúvidas, súplicas em meio às lágrimas que tentavam se esconder nos cantos dos olhos presentes. Uma mistura de dor pelo ato literal de defloração, com a vergonha do rótulo de que é maricas chorar à toa. Um
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choque de espanto e comoção, tipo Malásia Airlines, aquele avião... De boa? 
Percebo só agora o que só vi uma vez, cortar-se um bem pela raiz, nunca ouvira ou vira mais tal estupidez. Só agora... Que as pessoas investidas de uma autoridade estéril se fazem donas dos bens naturais que não passam de uma generosa concessão da mãe natureza. Seja nas praças e bosques públicos, seja nas propriedades particulares ou florestas virgens tropicais. E mais, arbustos de cativeiro, animais, ilhas, praias, campos, seus solos férteis e vistas deslumbrantes como que privatizando tudo ao seu bel poder. Mais filhos da puta! 
Em menos de uma hora, as duas árvores estavam abatidas e totalmente mortas, bem assentadas no caminhão. Amarradas com a mesma fealdade qual
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galinhas que se trás da feira para o domingo um molho pardo. Eu, meu irmão e a Biriguda – ela, xereta que sempre fora – nós três, esticamos nossos pescoços miúdos com forçosa limitação, quietos e engasgados. Assistimos à partida do veículo suntuoso, dando adeus com as pequenas patas da imaginação, já que as outras amparavam nossos corpos nas grades do portão. Até que o carro sumiu de vista do outro lado da via, depois de virar a curva da ponte da Avenida Barão do Rio Branco... Agora nome sem qualquer importância. 
A nossa cachorrinha fez fiu, fiu baixinho e depois correu pra dentro de casa se enroscando na cadeira verde onde o papai a chamava... 
Por longo tempo, a casa nova se encolheu e a novidade se perdeu entre
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mentes. A não lua nascia mais em nossa janela, fossem as noites mais belas. Ou talvez simplesmente, de almas denegridas, começamos a perder a mácula dos imberbes e o brilho nos olhos para os dotes de natureza tão bela, aprendendo a lamber feridas como a nossa cadela.
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Nem aí... 
Não estou nem aí, só lá... 
Mas quem está? Se é que é para ser e estar. 
Gastar sola não, sol há, vem a mim sem que eu vá. 
Entretido comigo mesmo percebo as luzes sombrias dos pixels vindas da TV. Em nível inconsciente vejo que passa o jornal da noite anunciando aos berros as tragédias do dia de ontem e amanhã. Tudo em alta definição, isso, os atos que se auto definem sem qualquer vergonha de si mesmos. Países que invadem e tentam tomar uns aos outros, plebe e gleba, roubando o que eles têm de melhor e impondo seus ritmos de horror. Egos infecundos se exteriorizando
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ao máximo, clamando audiência, atenção, qual Narciso em seu espelho alagado. Enquanto isso, sem dar a menor importância, nem às vitimas, tento o contrário, me interiorizar, sair do ar. Sendo absorvido pelo branco leitoso da tela que poupa árvores, trocando silício por celulose e, oxalá, com toda impessoalidade do hi- tec, nem tudo está perdido. Inspiro-me em Keith Jarrett em seu “My song”, onde sai de “si” e flutua sobre o piano fundindo- se a um estado de espírito elevado, produzindo acordes que se alternam entre o alto e baixo tom em melodia onde percebo não haver mais um “eu” nem um referencial. Ele parece ser o criador e a criação. Já vi minha irmã assim no palco, como se não fosse mais minha parente tão próxima, mas um ser de luz maior que isso.
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Capto nas entranhas também o suor profícuo do David Gilmour solando em sua guitarra em tons rosa-floyd. Tudo que me vem e não é pouco, coloca o panorama beligerante em estado ainda mais insignificante, já que na realidade deles, promovem tanta dor a terceiros inocentes, ou neste reality show talvez não haja simplórios, mas só culpados pela maldição de serem o que são. São? Só um artista em sua ilusão de cosmo pensado, passivo de luzes cintilantes que me recocheteiam em seus aspectos e me fazem senti-las em reflexo. Não há mais futuro ou passado. Ouço "umas e outras" do Chico de Holanda... Vem-me uma vaga cauda passageira como de um cometa raro, Halley de raciocínio, interferência daquele mundo externo, tamanha minha perplexidade
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diante de uma idealização e concepção genial. Ele é de um grupo onde o degrau do talento se sobe em paços mais largos. Por extensão vejo a música de minha terra de referencia no orbe da praticidade de sua dialética física e cronológica, como um berço esplendido e infinito de ideias e arranjos em acordes desbundantes. Eu treino, me esmero e chego a ter lampejos no meu escrever. Não me vejo perto do estado dos supracitados, nem do Matthew McConaughey, óbvio... Sou aprendiz de feiticeiro, que espera um dia se encantar com o repleto de tudo um pouco, bastando produzir um suspiro, já me contentaria um tanto. Esta poção de que se apoderam os ricos de verdade, independentes das cifras que sabem e fazem por merecer ou não, mero detalhe. Eles em seus gozos múltiplos
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espasmódicos levam conforto e apazíguo aos entes sensíveis entre pátrias. Tornam-se seletos seres humanos de ressalva que justificam a existência e permanência do nosso bicho cambiante neste mundo de até então. Portanto, sou fã e viciado da boa arte que nunca me é bastante. Para aquele resto, estou nem aí, me alieno como um ignorante... e daí? 
Onde estou? Não sei onde, viajando de carro, jatinho ou de bonde. Sei que ouço Shine on the crazy diamond...
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Aquele abraço 
Na volta da escola, tempo único em que reinava o auge da minha vitalidade criativa e emocional, era almoçar e depois ir pra rua. A rua é um cenário em preto e banco, tem uma dimensão de lembranças e fantasias de paisagens e personagens esparsas: a família, os amigos, aquele bêbado emblemático, os comerciantes e, em cor, apenas o bouganville no topo da praça, onde tudo girava em torno de seu encanto. Ainda tenho nos ouvidos a trilha sonora que vinha da minha casa, defronte: Genesis, Pink Floyd, Chico de Holanda e tanta coisa boa de um mundo progressivo que meus irmãos tocavam, fazendo sonoplastia da minha vida às alturas. A gente só dava alguns passos de volta da praça até em casa
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quando a mamãe gritava da janela: ― Criança, vem lanchar! ― Engolíamos uma xícara de café com leite e pão com manteiga, já com os pés apontados pra porta, prontos para retornar a praça e seus arredores. 
Foi numa dessas cercanias, a escadaria da fábrica velha, que eu fiz um novo amigo, uma amiga desta vez, uma menina. Começou de uma brincadeira qualquer, mas no passar dos dias passei a dividir o futebol e o trole por ficar ali com ela, muitas vezes rodeado de crianças menores, suas primas, batendo papo até começar a escurecer. Era interessante, a gente tinha uma empatia por certa maturidade maior do que o normal para a nossa idade. Conversávamos sobre problemas pessoais, sobre nossas famílias, tantas dificuldades financeiras. E outras
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preocupações entre as bobagens e brincadeiras que culminavam na despedida com o seu tradicional: ― “Tchauzinho viu.” ― Balançando para cima e para baixo os três dedinhos centrais da sua destra mãozinha fina, branquinha e delicada. Eu achava um barato. 
*** 
Lembrei-me de tudo isto e relato porque estou muito chateado, triste mesmo, pela perda do Filó, seu irmão que faleceu há quase um mês. Ele regulava com meus irmãos mais velhos que faziam programas mais adultos, mas que também habitavam o mesmo palco, a praça. Inteligente, sensato, boa pinta, me impressionava como espécie de ídolo. Me bateu pesado hoje. A vida foi perversa com ele dando-lhe de presente, na casa dos 40, uma esclerose múltipla que
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mutilou sua rotina, tirou-lhe trabalho, mulher, lazer e entrevou-o por mais de dez anos. Vida filha da mãe! 
*** 
De vez em quando ela me avisava que seu namorado vinha da Fazenda Inglesa, bairro perto, subindo em direção ao Moinho Preto. Na primeira vez, achei natural, na segunda me incomodei bastante, até que na terceira ela disse: ― Vou terminar com o Roberto. ― Eu conheci o garoto, achava ele bacana. Então, ainda que fosse a minha iniciação também na hipocrisia, aconselhei- a a repensar. Mas ela não me ouviu, assim estava claro que nossa empatia tinha transbordado em alguma coisa maior. 
Passados quase um mês, ainda como grandes amigos contidos, estávamos a dois
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dias do carnaval. O Petropolitano era o clube que a classe alta e os esmerados da média, como nós, frequentavam na época e que tinha os melhores bailes da cidade. Na sexta-feira combinamos nos encontrar na matinê do dia seguinte, sábado, baile de abertura. Só me lembro de que o tempo parecia não passar e àquelas alturas estava em tamanho estado de ansiedade que mal consegui dormir, como numa sexta-feira treze. 
Sempre fora na maioria dos anos, meu primo Fred e eu chegamos ao baile levados por minha amada tia Téia, que também se foi há pouco. Entramos na matinê, numa tarde de viúva ou espanhol, tanto faz, que cheirava a ozônio e lança perfume num delírio onde o aroma era de fazer lisonja à própria natureza. Ao primeiro pé portão
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adentro, minhas pupilas já giravam em todos os graus, como se tivesse maluco ou com um baita cisco nos olhos. Entramos no primeiro salão e ao som da “cabeleira do Zezé”, empinei o nariz e rodopiei nas pontas dos pés sobre as cabeças do Batman, do Homem Aranha, de odaliscas e fantasmas, mas nada de avistar minha fantasia preferida, como um Pierrot em busca de sua Colombina. A tia nos levou para comer um salsichão. A gente tinha que esperar um ano para comer aquilo que tinha um sabor estratosférico. Porém, confesso, de tanto girar a cabeça no bar de fora, nem apreciei a coisa direito. Depois fomos para o segundo salão, desta vez tocava daqueles sambas enredo que não se produzem mais. “E os jagunços lutaram até o final”, que não seria eu quem desistiria de vencer minha
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causa em pleno carnaval. Nem por isso o salão do meio me conteve em partir logo para o terceiro, o da piscina, que a essa altura, do tempo e do som, não me lembro de mais nada se não de uma sensação de profunda tristeza e frustração. Minha tia e meu primo, para evitar o tumulto da saída, me chamaram para ir embora e eu disse que iria de ônibus. Aí já eram quase seis e meia da tarde e até as sete eu fiquei rodando em circulo, revezando entre o pátio e os três salões, como um zumbi, até que ouvi o “ai, ai, ai, ai, tá chegando a hora” e tive que acompanhar a multidão junto à orquestra que tradicionalmente fechava o baile tocando e caminhando para a rua até esvaziar o clube e encerrar a matinê. Eles tinham que limpar toda aquela sujeira de confetes e serpentinas para o badalado baile
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noturno dos adultos, O Baile de Máscaras, que nos despertava a maior curiosidade. 
Já na rua, bem abatido, peguei à direita em direção ao ponto de ônibus, de repente senti baterem no meu ombro por trás. Olhei numa direção e não reconheci ninguém, virei sentido oposto com tranco de fazer jus a um baita torcicolo e, para minha surpresa, ali estava ela. Como eu, com os olhos espantados e a boca a falar de pronto: 
― Putzzz! Onde você estava? Passei o baile todo te procurando! ― Levava na voz um tom hesitante entre alegria e irritação. E eu com vibrato não menos prejudicado, rebati: ― Meu Deus, eu também! 
E quase que por instinto, demos um abraço... 
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Aquele abraço... Ah! O abraço do primeiro amor, de nada combinado, não contaminado, sem interferência das sujeiras adultas. Abraço amaciado, de súplica, de afago em pleuras impossíveis de qualquer ausculta. Abraço inquieto e rotundo, maior que o mundo. De quase santas volúpias, como os das núpcias. Nunca vou me esquecer daquele abraço, o melhor abraço, que apesar de nem tão forte, de bem tão simples, tão generoso aos nossos braços. Emanante de um calor humano que, se de ínfimos segundos, parecera de um ano. O que restara de foliões em nossa volta, pareciam inertes e sublimes feito estátua de carrara. Como se reinasse a tão ingênua e tola paz sonhada e todo o mundo fosse feito de homens felizes, tamanha alegria e
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harmonia sobejavam nossas almas aprendizes. 
*** 
Depois rachamos um táxi e seguimos de braços dados, entregues, eco do abraço, fomos para casa. Até então só isso, ou melhor, tudo isso. Depois de volta à vida, sua rotina, de volta à praça, a escadaria da fábrica velha, seus arredores. Que continuou sendo cenário, porém de paixão e amor agora selado, ensaiando e encenando o primeiro beijo, dos mal aos bem beijados. Das saladas mistas com marmelada, dos casamentos na igrejinha com a ajuda dos amigos e dos primos, por eles celebrados e abençoados, no meio do mato lá em cima do morro, que quase tocava o veludo azul das tardes de outono. No meio, tantas risadas e criancices num tempo sem
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perigos, drogas e maldades, onde podíamos ficar na rua com a anuência de nossos pais, amáveis donos, até tarde demais. Tudo era motivo dela largar bonecas e cabanas e eu a bola e o bodoque, numa fase em que os hormônios vêm a galope. Nos escondíamos em cantos proibidos para nos amassar e molhar em gemidos, nada daquilo, só beijos, mãos e todos os sentidos se descobrindo em cantos baldios, escadas escuras e degraus levando nossos corpos aos quarenta graus. Sim, teve o primeiro baile à noite. Ah, ela naquele vestido num tom de fazer lisonja ao que fiz de tecido, aquele de outono. E o cineminha na cidade? "E o vento levou", me lembro do filme. Do nome só, é claro. Ah, não trocaria nada disso por uma viagem para fora, como hoje sonham os entrevados na TV e
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computadores por um voo para ver o Mickey. Enfim, quase um ano assim de intenso, em estado de praça. Até que, por fim, veio uma banalidade, o amor se contaminou e para um lado foi-se a minha menina e para outro o menino meu. Ela dos meus olhos e eu dos seus. E como tudo na infância e tudo na vida, nosso sonho se arrefeceu. 
À Sônia Fecher
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Filhos das horas 
Quando eu tinha cinco anos, veio a tia rica do Rio e disse para mamãe com altivez: ― Está na hora desse menino largar a chupeta! ― Mamãe pressionada, retirou-me a chupeta, não me perguntou se eu queria ou me preparou, simplesmente, sufocada, repetia os argumentos da titia: ― Nesta idade não se usa mais chupeta! 
Quando eu tinha 15 anos, vozes ecoavam nos corredores: ― Está na hora deste menino cortar os cabelos e largar essa guitarra, está na hora de estudar mais. ― Levaram-me ao barbeiro na marra, fizeram chantagens e barganhas com a minha Gibson e me mudaram de colégio, que adorava. Nunca sentaram comigo e ponderaram, perguntaram se eu gostava
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disso ou daquilo, ou o porquê disso e daquilo. Nem insinuavam se havia algo que me incomodava ou sobre o que eu sonhava e pensava da vida, mesmo que fossem tolices. Para me corrigir e direcionar devagarzinho, ao ritmo da minha imaturidade. 
Aos 16 anos: ― Está na hora deste menino perder a virgindade! ― disse o tio Agnelo. Como eu via que meus colegas já contavam vantagens ou mesmo inventavam suas experiências sexuais, eu começava a me achar estranho, diferente, talvez doente. Meu tio, provavelmente combinado com meu pai, também pressionado, já que às vezes lhe pedia algum dinheiro emprestado, me levou num puteiro. Não me disse como e onde colocar isso naquilo, como começar, o mais difícil. Mas a senhora lá sabia,
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parece, e eu fiz o tal sexo, levando tempos à frente para descobrir que o ato era uma coisa boa. 
Aos 17, outro tio falou que abriu uma vaga de auxiliar administrativo na filial de sua imobiliária na cidade vizinha, perguntou ao papai se tinha algum interesse de encaixar um dos filhos. Não sei por que papai me escolheu, podia remanejar um irmão, mas não, fui eu. E não sentou comigo, perguntou se eu queria, só disse: ― Esta na hora de você começar a trabalhar! ― Logo eu, o mais novo, mais inexperiente, ir para um lugar diferente. Senti medo, mas também uma sensação boa de desafio, novidade, sobretudo, liberdade. Lá, trabalhei, me diverti, sofri e chorei, até que um dia conheci uma menina e pela primeira vez me apaixonei, era da minha
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idade e a engravidei, ou melhor, nos engravidamos. As famílias em alvoroço, uma merda daquelas. Mas ela abortou. Fodido - voltei e me diziam: ― Isso era hora de arrumar filho? Como você foi fazer uma coisa dessas? ― E eu calado, pensava confuso, encabulado: “Se soubesse não faria. Como devo aprender, onde?” E o mais irônico: ― Você não tem juízo?! ― Fiquei dias largado nos cantos de casa, sem minha chupeta, minha guitarra, meus cabelos longos, minha amada e, isolado, só escola, certamente. Me davam o necessário, o de sempre: casa, comida e roupa lavada, vez por outra, não sou ingrato, uma acariciada. Uns me ignoraram, decepcionaram. Papai e mamãe, às vezes, sentiam algum remorso e vinham complacentes com palavras vazias e um
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irmão, por sorte, me compreendia e me consolava com a maior, mais maldita e mais incoerente sensação que tinha: a culpa. Bagagem de chumbo que levamos nas costas até a maturidade. Epa! Maturidade? Tem como eu ter esse negócio?! Engraçado... Os tios sumiram. 
Parecia de castigo, como que na geladeira, até que descobrissem o que fazer com aquilo, ou melhor: o que está na hora de se fazer agora com isso? Quem sabe me colocar num avião para Bósnia e este exploda no ar? Segui estudando e caminhando para os 18 já tinha identidade, digo, a carteira. Arrumei um estágio. No segundo mês, preenchi uma nota fiscal errada, pequeno prejuízo. O chefe me chamou dizendo que precisava de alguém
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mais preparado e fui dispensado. Como começar preparado? 
― Está na hora de você sair das abas dos pais! Está na hora de cuidar sozinho da própria vida! ― preciso mencionar quem dizia? 
No entanto, passei no vestibular para o Rio e por sorte um amigo me conseguiu um trabalho numa livraria. Me mudei. Comecei a tocar a vida lá. Saía nas noites, boates, inferninhos. Fodi muito e bebi muito, me droguei a valer. De putas a uísque on the rocks, saudades dos undergrouds da vida vadia! Participei de passeatas, carreatas, micaretas e ia sempre pro Maraca, fazia o que bem queria. Fui a Londres desbravar os pubs! Ganhei e perdi de tudo: empregos, mulheres, dinheiro. Larguei a faculdade por
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negócios, decolei e aterrissei, arremeti e me esborrachei. 
Num fim de semana em casa, vinte e tal na cara, visitando a galera, um deles estava lá. Me disse: ― Esta na hora de você se casar. ― Puto, retruquei: ― Como você? Então está na hora de trair e fingir amar uma mulher oficial, que legal! ― Meu pai me chamou atenção, mandei todo mundo à merda, peguei minhas coisas, bati a porta e fui embora. Um amigo de trabalho, muito bacana, religioso, me disse: ― Acho que está na hora de você aceitar Cristo. ― Cansado daquela vida, pensei com carinho. Afinal ele emendou: ― Funcionou comigo. ― De repente o vi por inteiro: medíocre, conformado, robotizado. Não emplaquei naquilo. Quase um ano depois, me acalmei e,
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mais centrado, de novo me apaixonei e me casei. Tive filhos... Aí que aprendi de verdade a perdoar meus pais, amigos, até os tios. Pois acertei e errei muito, demais com eles, mas sempre tentei ser diligente numa coisa, em ver cada um como uma pessoa única, uma personalidade, respeitando seus tempos. Tento ser bússola em vez de relógio a lhes impor meus horários e os da sociedade com toda sua ansiedade. 
De bons contatos, entrei para a vida política. Vivi bons tempos de prestígio, queridos, amigos, status e orgulho dos melhores Rolex. Tipo assim: O lugar certo na hora certa, saca? Quando bem sucedido nisso, eu disse em alto e bom som: ― Então essa vai ser minha profissão ― Estava viciado, quando percebi, era como meu amigo, apenas que meu cristo era o meu
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líder partidário. Verdade quem diz que política é como religião, jogo e drogas, pois que é tudo a mesma merda. Entrei de cabeça, me filiei, balancei bandeiras, gritei nos “cultos” e um dia logo após uma vitória triunfal, eu, me achando parte importante daquilo, fui traído. Como nunca me ensinaram nada, só me informavam a hora das coisas, também não sabia sequer roubar e ser mau caráter para me adaptar a eles, o que tão simplesmente era necessário, desde que se soubesse a hora certa... Ah, ah, ah... Mentira, que isso é vocação. 
Na casa dos quarenta e tal me vi desempregado, claro. Podem rir do que vou dizer, porque é mesmo engraçado. Descobri que existe também a fase do “não é mais a hora”. - Você está velho para o mercado de trabalho. ― me disse na lata um empresário
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frio e calculista numa entrevista. Entediado, certo dia, tive vontade de comer uma moça mais jovem que me dava bola no caixa do mercado. Um colega me disse: ― Não está mais na idade disso, correr atrás de meninas. ― como se eu quisesse fazer disso um ofício. Agora a situação é mais delicada e por isso as pessoas também, as reprimendas vem como telefone sem fio, aquela brincadeira de criança, dos familiares, amigos... Ah! E agora dos primos. Isso, os filhos dos tios, isso mesmo! ― Já passou da hora de depender da esposa, dos filhos! Já passou da hora de pedir dinheiro emprestado! ― A cada acusação, sentença, penso nas putas e digo, puto: “Ah! Filhos d...! Das horas!”
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Enfadonha 
A minha mulher emplacou num emprego, carteira assinada, essas coisas. Isto fez com que eu, já trabalhando em casa, tomasse as rédeas de sua manutenção. Uma experiência natural nestes tempos feministas, onde se torna cada vez mais comum os homens dividirem as tarefas domésticas e o sustento da casa com as mulheres. Confesso que tem sido um ensaio excitante. 
Eu sempre pensei que a intuição feminina para perceber detalhe no nosso comportamento fosse um atributo especial só delas. Mas não, entendi que a rotina de um “ser” ou “estar sendo” “do lar” é pobre de expectativas a ponto de quaisquer banalidades não passarem despercebidas.
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Assim, não me contive e devolvi a ela uma daquelas brincadeirinhas insinuantes, que já ouvira coisa parecida algum dia, repletas de ironia e verdade: 
“Nossa, quanta produção, quem é o felizardo?” Ridículo... Bem... 
Dedico a parte da manhã para cuidar das coisas do lar. Começo lavando a louça. Essa tarefa dura mais ou menos uma hora, porque a minha louça é pré-aquecida com água fervendo. Não, eu não quero ser melhor do que ela não. Apenas tenho pavor de gordura e procuro ser muito caprichoso em todas minhas empreitadas. Depois limpo o fogão, varro o chão e passo o pano. Outro dia me peguei falando pras crianças: 
― Cuidado com a minha cozinha! 
Mas estas coisas enfadonhas eu resolvo às quintas-feiras com o meu analista.
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Descobri um prazer sem igual, aliás, mais do que isso. Posso dizer que uma experiência telúrica: catar feijões. Isto mesmo, depois da faxina na cozinha, eu dei uma geral na sala e nos quartos até retornar à cozinha para fazer o almoço. Catar feijão é uma terapia para a gente, sabe? Há um processo de transe que está quase me fazendo entrar em contato com o cosmo. Mas tem um efeito colateral: meu processo de seleção de pedras e caroços estragados é muito rígido. Chego ao ponto de, às vezes, chamar um dos meus filhos para uma segunda opinião. Mas a minha mulher outro dia brigou comigo porque um quilo de feijão só estava dando para uma refeição: 
― Você tem que economizar! ― Disse ela em tom grave como via o meu pai fazer com a minha mãe.
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O problema maior tem sido adequar às crianças. Todas na casa dos vinte. Tenho usado o método de argumentação comparada. É mais ou menos assim: 
― Se eu não obedecesse ao meu pai, levava uma surra! Certa vez, quando a sua avó ficou doente, nós tivemos que assumir todas as tarefas da casa! ― ou ainda ― Lá em casa as coisas não eram como hoje não, Coca-Cola todo dia? Nada, só de vez em quando! Papai trabalhava muito, eram muitos filhos. 
Até que um dia tive que ouvir um deles dizer: 
― Caraca...!Pai, sua infância deve ter sido uma merda, hem? 
Como eu sou da geração diálogo, ou seja, dos otários que achavam que os pais eram muito repressores e agora vemos que
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eles até pegavam leve demais, em vez de ficar puto, ri batata baroa. 
Outro dia saí para comprar vela nova para o filtro. Sinto pela confissão patética da minha condição de classe B com passaporte para C que ainda abastece a casa de água potável com aquele rudimentar objeto de barro. Resolvi entrar num bazar de 1,99. Não achei a peça, mas saí com algumas coisinhas interessantíssimas. Um descaroçador de azeitonas “três por vez”, uma colher de pau de um metro e, para finalizar, uns incensos de citronela, que estavam uma bagatela. 
Em seguida, fui ao mercado comprar alguns itens, apenas para manutenção da despensa. De repente, me vi sem os óculos e perguntando a um rapazinho o preço da lata de milho. Exato, estendi a lata aos seus
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olhos. Depois, sem nenhuma justificativa comentei com uma idosa dona de casa, então colega, sobre o absurdo do aumento do preço dos tomates. 
Mas essas coisas enfadonhas eu resolvo às quintas-feiras com meu analista. 
Passaram-se três meses e a coisa começou a virar rotina. O trabalho de casa já me tomava também o turno da tarde. Roupas na máquina e óleo nos móveis... Meu amigo Douglas, editor do jornal, me mandou um correio eletrônico: 
― E aí cara, você não tem mandado nada! 
A situação financeira continuava crítica e eu comecei a maldizer as tarefas do lar. Um mau humor se instalou em mim. No final do mês piorava e se misturava a um estado de muita sensibilidade, chorava
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copiosamente defronte à pilha de louças. Segundo meu analista eu estava com TPS, ou seja, tensão-pré-salarial, algo já consagrado e que consta inclusive na literatura médica. Além disso, ele achava que o excesso das demandas do lar veio a produzir uma crise de identidade masculina em mim e, assim, aumentando o estresse. Mas a coisa foi ficando mais grave, comecei a surtar. Um dia, sentado à mesa com os feijões derramados para catar, gritei e varejei tudo no chão. ― Ele está possuído pelo diabo. ― disse meu vizinho, o Pastor Besouro, vim saber depois. 
Neste dia, passando a crise fui fazer os pastéis do almoço e quando descaroçava as azeitonas, o aparelho quebrou no segundo grupo de um trio das melhores portuguesas. Varejei o objeto longe, acertei o basculante
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quebrando um de seus vidros. Em seguida peguei o gato em flagrante se aproveitando da minha distração, com a boca na carne moída sobre a pia e que ia preparar para fazer a porra do pastel. Peguei a colher de pau de um metro e quebrei na traseira do bicho, que largou o naco e saiu grunhindo. Em alto estado de ansiedade, sentei e respirei fundo, lembrei-me daqueles ensinamentos dos tempos inúteis de yoga, ou yôga...? Dane-se! Inspirar e expirar pelo abdomem, é isso. Ah! Acendi um incenso de citronela! 
Logo, já havia preparado a carne com o que foi possível e recheei os pastéis. Comecei a fritura. Num certo momento me deu remorso e fui me acertar com Fernando, o gato. Ele me esnobou por dois dias até vir massagear minha barriga agulhando-a à
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noite na cama. Fernando foi uma homenagem ao Gabeira cometida por minha filha na fase da esquerda festiva, o bicho já está com treze anos! Enfim, nesta, queimei a primeira leva. 
Na segunda, senti uma baita coceira no olho direito. Fui ao banheiro, um mosquito me picou, ardia a coisa. Passei álcool, ardeu dentro dele. Voltei para cozinha, queimou a segunda leva e óleo estava preto. Fui trocar e percebi que esqueci este item lá no mercado e no final das contas o prato principal foram ovos estrelados. À noite, eu e minha mulher conversamos sobre o dia e a possibilidade de se contratar uma empregada, ou ainda, sobre uma possível internação minha em regime de urgência. Porém, o orçamento ainda não permitia nenhuma das duas coisas e eu abominava a
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ideia de ter uma doméstica me inquirindo o dia inteiro como aprenderam com as serviçais das novelas das nove. 
Ao cair das tardes devia ir para o computador escrever meu artigo, mas estava tão cansado que acabava indo para frente da TV. Foi assim por vários dias até que percebi que não conseguia ficar um deles sem assistir a tal novela. E, em seguida a morbidez: Desastres aéreos na Discovery Chanel. De manhã me prendi ao programa da Ana Maria Braga, que receitas! Em contrapartida rezava pelo passamento do louro... E do pastor que ainda repetia os salmos 23 todas as noites! 
Mas essas coisas enfadonhas eu resolvo às quintas-feiras com meu analista. 
Passados mais dois meses, a situação começou a melhorar e conseguimos
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contratar uma empregada, consenti sem resignação. Enfim, pude me dedicar só ao trabalho e me livrei definitivamente das tarefas domésticas. Dona Maria não era o ideal, mas além de ser tímida e falar muito pouco, era muito prestimosa e limpava meus livros. Cozinhava direitinho, embora suas almôndegas não chegassem aos pés das minhas. Um dia, meu amigo Douglas me ligou e eu o convidei para almoçar. Era uma segunda-feira, me lembro pelo tédio dos domingos de Fausto Silva e Luís Penido na rádio Tupi, transmitindo mais um desastre do meu Botafogo contra o Quinze de Piracicaba no brasileirão, serie B. Pedi que a Dona Maria fizesse berinjelas recheadas, que sabia que ele gostava, pois elogiava as da minha mãe nos velhos tempos. Em resumo: foram as piores que já
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comemos na vida. Elegantíssimo com sempre fora, meu amigo disse sobre meus eufemismos: “Você é exigente demais.” Depois da vergonha, Douglas foi embora e eu fui falar com ela. À moda de uma perua enlouquecida, com vaidade desmedida, típica das classes opressoras, perdi as estribeiras e proferi alto e grosseiramente para ela: 
― Caramba Dona Maria, mas que merda! Onde diabos a senhora arranjou esta merda de receita? Malditas berinjelas empapadas! 
Percebi que passei de “dono de casa” ao correspondente masculino de uma Madame do núcleo do mal das novelas que via. Passada meia hora fui pedir desculpas, mas em vão. Ela pediu as contas, peremptoriamente! Isso pesou à minha
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consciência, como se perdesse uma turbina precisando arremeter com urgência. Daí passei a contar cada dia como um presidiário, fazendo um xis no meu postite de tela, torcendo que chegasse logo quinta- feira!
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Sombra da Carne 
“A sombra do teu corpo é o corpo da tua alma.” (Oscar Wilde) 
Minha fiel companheira, onde se encontra quando preciso de ti em estado de maior escuridão como agora? Onde andas sombra da carne? 
Momento em que a luz arde em meus olhos na saída do cárcere. O sol nasce redondo de novo e ao contrário dos canalhas injustiçados não vejo bondoso seu esplendor de aurora. 
Ah...! Quanta ilusão! Não saímos por bom comportamento, foi apenas uma transferência para outra ilha suja, apenas isso. O amor não passa de um grilhão maldito.
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Por que não te sinto então comigo? Éramos cúmplices nos deleites e delitos, e na hora do trabalho forçado, tu foges da plantação dos cogumelos contaminados. 
Tentei te segurar quando caindo ajoelhado. Escorregadia de lama imoral. Driblou-me habilmente no piso árido diagonal. 
Vejo-me aqui andando nas horas de pátio a te caçar para agasalhar-me como sempre, jogado como um regurgitado acido- lácteo ainda quente. Tentando decolar com uma turbina incandescente. 
Espera! Vi-te branca...! Como assim? Vi nuanças de faces e gestos, e listas brancas de tuas vetes! Quem fala sou eu?! Deus! Vejo-me agora, uma mancha escura no poço da ala dos dementes!
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Não sou eu alma em sombra quem partiu, a mente... Ei corpo da carne! Fastuosa, com todo este aparato cultural de segurança máxima, como fugiu passando as grades eletrificadas de fios de seda da alta tensão e falsidade? Nem eu conseguiria, entrementes! 
Como me deixou aqui sozinha, pedaço de mancha rota e escura sem uma réstia de claridade ao bem de minha tênue e sutil identidade? Sem poder sequer me distinguir... A escuridão geral me engoliu, às vezes, acho que a gente nunca se entendeu, se sentiu. 
Está bem, foragido de mim, isto refletirá opaco em ti muito e, porém, corpo de carne... Perdidos, somos dois lados covardes, presas da mesma caça, continuamos alvos fáceis. Nosso coração
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que apanha e dói parará logo. A ti espera uma gaveta qualquer onde descansará inerte sua carcaça e poderá sempre dormir um pouquinho até mais tarde... Quanto a mim, caberá dar continuidade à agonia da vigília com o buraco-negro a querer me sugar como tu, na maldição da eternidade...
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Janeiro 
Saímos do mês da confraternização e da virada com requintes pirotécnicos decretados pelos homens e entramos no primeiro dia do ano com muita preguiça. Espíritos placebos se curando em vão. Dormimos, levantamos, beliscamos das sobras do réveillon, caímos no sofá, soltamos gases nobres e arrotamos muito, tudo cheirando a quebra nozes, assistimos qualquer besteira na TV, cochilamos de novo e quando vimos já estamos no dia 02, nos arrumando com pressa para trabalhar, entrando na rotina. Pegamo-nos xingando o motoboy no trânsito a caminho do escritório. Pode até ser a mesma toupeira que desejamos feliz natal e um próspero ano novo quando foi entregar o pedido da
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farmácia, o “kit ressaca” num dos porres da véspera da véspera. 
Nossos filhos descansam da escola, da faculdade e se entregam mais aos jogos e redes sociais na gosma da vida sedentária. Algumas pessoas tiram férias da labuta, do chefe que rima e, se guardaram a féria para isso, fazem viagens aos paraísos. Edens fiscais ou tropicais. Na primeira ou segunda classe de um avião inseguro, tanto faz. Dos simples anseios menores aos grandes sonhos, os maiores, quando não, as viagens na maionese... Por vezes estragada, acamados num hospital com uma intoxicação anunciada por uma puta cólica estomacal. Há de tudo, para todos os ponderáveis e imponderáveis desígnios da existência mundana.
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Começamos a construir e transferir os planos do ano velho para o que virá. As promessas feitas à beira mar, degustando um manjar ou adorando Iemanjá. Quiçá! É um mês morno. Faz sol escaldante aqui e chove a rodo acolá. É o terror dos bombeiros e ambulâncias. Mês de transtorno e de esmero é também este tal de janeiro! 
Ao mesmo tempo são 31 dias de superação, temos que pagar o pato, a ceia e os excessos que as vitrines de ontem nos aliciaram. Também há uma trégua pacificadora. Os jornais não trazem muitas novidades, os algozes hibernam para conspirar sobre os golpes do ano bom. Nos corruptos é como se visse estampado na testa um "fechado para balanço" sobre o exercício anterior da putaria. Parece que até
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os assaltantes descansam neste tempo de ironia. E os artistas? Nada há de novo, melhor nos contentarmos com nossos dinossauros atemporais, prediletos em nosso mp3 ou descansar os sentidos, melhor, ou talvez. 
Janeiro pode ser definido como um mês acanhado, pois que vive no liame de seu ascendente e descendente, de farturas e faltas, dependendo da classe a que se está inserido e da cotação do dólar para os bem cotados e nascidos. O que nada acrescenta aos que vivem no black, na marginalidade periférica, os assalariados e suas senhoras, cuja moeda é do lar, louça e roupa para lavar. 
O subsequente é de alegrias e pândegas que se anuncia a todo vapor na euforia do carnaval. Este mais democrático na divisão
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do estado de espírito festivo e alto astral, algum consolo, menos mal. Enfim, janeiro é como um irmão do meio, que vive à sobra do dezembro e do fevereiro. Mas o réveillon deveria ser comemorado mesmo é no último dia das águas de março, em meio a seu mormaço. Aí, passadas as vinte e quatro horas da mentira, que jocosamente nos lembram de que tudo fora pura ilusão, realmente começa o ano, a vida à vera. E o princípio das frustrações, repletas de ansiedade e solidão, nascentes junto à plenitude e beleza da prima dela.
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À beira mar 
Sou otimista. Com boa, muito boa vontade mesmo, ainda me restam dez ou quinze anos de vida. Uma adolescência... Mas que voa. Bate as azas no destino. Que bom, ele arruma tudo e ainda me promete a eternidade. Não importa que ela exista de fato, apenas que eu acredite agora. 
Agora é o que assusta. Exato, o agora. O que passa, tenho que jogar para trás, jogar fora. 
Fora bom quase tudo, mas não vivi intensamente, fugi, ponho na conta do fado e da sina e pago num além, onde pegarei um voo cego para onde nem sei, e o culpado sempre será o piloto, claro, o mordomo da pinguela aérea... neste caso, eu... Quanta falsidade.
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Falsa idade não posso mais esconder, algumas rugas me entregam, mas se há algum viço ainda, rogo que não me digam. Mendigam amor, os muitos mal quitados, não eu, contento-me em fingir que tudo deu certo, como planejado. 
Planos errados talvez, mas vivo das sobras de felicidade dos meus. Até os ajudo, porque dá menos trabalho e não afronta minha coragem. 
Coro a minha imagem se o novo e um projeto de felicidade me invadem, hesito, pois assim me foi ensinado, por isso nunca amei plenamente, tampouco sei, de fato, quem me amou de verdade. 
Verdes imagens de imaturidade doem em mim, porque realmente quase tudo é assim de fato... Vacilo muito. Palavras são
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perigosas, podem ter farpas, principalmente as ditas com ternura e amabilidade. 
Habilidades de amar, que me orgulho muito, mas não suporto elogios, se não me puno pelos meus pensamentos que só me fazem alimentar culpa. Eu nasci para ter donos e o meu coração em tudo está repleto, doo o amor e doo a dor. 
Doador universal, mas também de renúncias e solidão, sinto falta de mim, contudo, insisto. Se eleito, renuncio a tudo que me lembra de quem sou e em que idade. A opinião alheia e a opressão dos meus profetas são como administrar sem verve uma monumental cidadela. 
Cidade bela do interior, de praia, onde me delicio e sou feliz com a brisa do mar e o sol ameno que reflete em minha face, mesmo sem saber qual delas. Até que venha
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a grande onda negra para me levar, me pegando distraído e à beira mar.
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Vastidão 
Maior. Tudo cada vez maior. Tamanho em metros quadrados e polegadas dá sensação de poder. Principalmente porque se necessita de mais empregados para mandarmos e humilharmos na manutenção de nossos caprichos e sujeiras, isso é gratificante. Se bem que é legal ser do tipo que diz que lhes tratamos como se fossem iguais. Melhor: “como se fossem da família”. Dever de casa sobre hipocrisia dos mais bem nascidos. 
Eficientes intentos para distanciarmo- nos dos desafetos e, sem que nos demos conta, também dos afetos, pensem comigo: Cada um dentro de casa com seu computador, seu telefone e sua TV com seu combo no tão sonhado “quarto só para
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mim”, ali onde levamos a xícara ou prato e comemos de olhos vidrados nas atividades virtuais e os sabores ficam todos iguais. É pratico e acaba com aquelas brigas que até me lembro de como deliciosas antigamente. Pelo canal da TV, futebol e novela com os irmãos! Por fim, nos colocamos vizinhos uns dos outros dentro do próprio lar. 
Tem aquele vaivém agonizante de desejo por bens tecnológicos a ocupar os espaços vazios da casa (da casa?). Sofremos com a expectativa de comprar o aparelho último tipo, o High Tech, e entramos em histeria interior até adquirirmos. Aí sentimos o prazer de estar construindo um bem imóvel de primeiro mundo, quanto conforto. Mas logo o novo modelo já foi lançado no mercado, ele é mais atraente, tem um recurso que nos dará menos
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trabalho e empenho, da mais tempo para muitos idiotas, incluindo se aqueles que querem aumentar o pênis. 
A TV insiste em nos perseguir, exibindo seu status e na rua há cartazes e pôsteres com fotos nas lojas descrevendo seus benefícios sensacionais. Quando chegamos ao trabalho, um colega fala sobre ela com entusiasmo, pois já comprou um protótipo antes de você. Irrita isso, instiga mais para devolver o esnobismo. Enfim, ele, um produto, ou ela, uma coisa, sussurra em seus ouvidos e brilha nos seus olhos a toda hora, dentro e fora de casa. Aquelas parafernálias que adquirimos antes de ontem, nas semanas passadas, já não dão o mesmo prazer, o novo sempre vem e os queremos porque somos pra frente, tipo os dos lá de fora. Contudo, esta girândola arde
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em qualquer língua, todos os idiomas. Café quente, sem aroma. 
Obras na casa, casa na praia... Também é necessário manter isso sempre em andamento, bastante poeira o ano inteiro. É mais prático do que uma empreitada na cachola. Ah! Investir em filiais e franquias! Aumenta o lucro, embora as despesas também, mas é mais trabalho, mais horas para o fim e menos para o meio, ou seja, os filhos ou o companheiro que engorda a olhos vistos! Não passamos de criadores de porcos. 
Ainda assim sobra tempo para o lazer, não há dúvida. Disney uma vez por ano com as crianças e por elas. Não, por todos nós, aquelas comprinhas... Convenhamos... A família de classe media desabando como um aeroplano da TAM.
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Mas somos diligentes, nunca nos esquecemos da vovó com saudades e sempre dizemos: ― Um dia desses vou visitá-la, aquele bolo de cenoura...! Embora, é fato, algumas vezes reclamamos alto: ― “Porque vovó Leda cisma em continuar morando no interior...? Teimosa!” ― Mesmo sendo bem mais perto que Miami, 120 km de carro. Yes, nossa charanga é importada, comprada em prestações que sabemos quando acaba, ao contrário de nós, nossa existência que pode ir antes delas. 
Quando sentimos que estamos naquela fase boa, a casa com a churrasqueira e sauna com as obras encerradas, os negócios indo de vento em popa e aquela TV citoplasmática de 180 polegadas, o “enfim, comprei”! Juntamos a família e os amigos para a inauguração. Um terço não vai
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porque tem tudo que temos; outro terço vai porque não tem e temos. Outros não aparecem se somos do tipo que ficamos babando em nossas conquistas, fotos de Miami, além de morarmos longe pra cacete. 
Enquanto isso, a galera jovem fica trancada em seus quartos jogando Playstation. Alguém vai levar picanha e coração lá para eles, que, ironicamente, conhecem até as vísceras, embora nunca tenham visto uma galinha na vida se não que à moda Touch Screem. 
Naquela cerveja saideira, uma série que se insere numa quantidade que já perdemos a conta e o sabor, quando sobraram, se muito, umas oito pessoas ouvindo às alturas nosso novo CD dos sambas de enredo que as escolas já compuseram para fevereiro, o
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telefone toca. É a vizinha da vovó anunciando que ela morreu.
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Como dizer não 
Ah! Santo Deus! Como dizer não?! Eles são um casal de amigos tão amáveis. Mas chega. Não suporto mais as pessoas que vivem das minhas gentilezas, sugando da minha alma para desfilarem as suas tediosas e cacetes. Não, nesta nós não vamos. Não precisa de muito, uma resposta como uma puta dor de cabeça está bem ao nível do convite deles para irmos tomar um vinhozinho e ver suas fotografias da última viagem à Paris. Junto ao convite ainda vem àquela recomendação: ― Olha, não precisa trazer nada, não. ― Protocolo que faz parecer querer se afirmar: "somos melhor de vida que vocês". Há de chegar o dia em que responderei: ― Nem travesseiros? ― A porra da hesitação, do adiamento. Respondi
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com uma mentira dizendo que ia consultar a Barbara, pois achava que ela tinha comentado alguma coisa sobre outro compromisso amanhã; quer dizer, abri mais o leque para inventarmos uma desculpa e disse que ela tinha ido ao mercado, com a palma da mão em sua boca, pois ela estava ao meu lado, e que então ligaríamos mais tarde. Sim, o “ligaríamos” era já uma informação subjetiva de que estava jogando a roubada para a mulher, óbvio. Ela sempre mais complacente que eu: ―Vamos sim, é tão raramente e passa rápido. ― argumentou. Não, discordei, sou pela teoria da relatividade, citei Einstein: ― “Três segundos sentados numa boca acesa do fogão parece durar muito mais que um delicioso beijo de meia hora numa rapariga.” Não, não passará rápido, parecerá
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uma eternidade. Entrarei com o resto que sobrou de minha jovialidade e sairei com incontinência urinária, dores reumáticas e demonstrando sinais de esclerose. Fecharei com um mico ao sair: ― Onde diabos colocaram minha bengala? ― Bem, acabei percebendo que antes da árdua incumbência de ligarmos para eles para dar uma desculpa, teria que convencer a mulher. 
Usando minha humilde habilidade de cronista e junto pegando emprestada uma veia perdida como ator, como que a hipnotizando, disse: ― Imagine querida? Nós vamos chegar lá, primeiro aquele poodle asqueroso. Amanhã promete chuva, a primeira coisa que vamos fazer é ir ao banheiro limpar o barro das calças feito pelas patas imundas daquele animal mimado. Eles já têm até as toalhinhas
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prontas, bordadas com o nome dele: Michel. Só para isso. Viado! Depois o Naldão abre o vinho, pois aquelas pastinhas malditas já estarão expostas. Claro, bem previsível: salaminho, tremoços, ovos de codorna, azeitonas e molho rosê. Ah!... E sacanagem, é claro! Não, quem dera! É aquela porra daqueles palitinhos com mozzarella, salsicha e azeitona. No final, quando o trigésimo álbum vier a ser mostrado, chega o gorgonzola e já estamos empapuçados, estratégia mesquinha. O Naldão desagradável, não segura os bocejos escancarados como se quisesse mandar a gente embora. Ou esse é o melhor lado dele? Verdade, quem adora essa porra mesmo é a Márcia. É sempre assim. Tem todo um ritual. Primeiro a gente fala de futebol, eu e Naldão. Ele é Flamengo
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doente, sem redundância. É, dizem que tem coisas que só acontecem com o botafogo, e com botafoguenses também. Depois ele vem elogiar o Lula, que nos tempos da escola chamava de analfabeto e vagabundo. E vocês na cozinha. Enquanto ela disserta a rotina de seus filhos com orgulho e elogios, você tenta falar algo sobre os nossos e ela interrompe. Porra, cá entre nós querida: Eles são bonzinhos à beça, mas são chatos pra caralho! O máximo que você vai conseguir dizer é “tem certeza que não quer uma ajuda com a louça?” E sabe que ela vai responder? “Que nada, amanhã a empregada vem e lava tudo boba!” Numa mistura de gentileza e ostentação. 
Começa as fotos, primeiro álbum. A descrição é minuciosa, pois em Paris é a primeira vez que eles foram. Ah! Um caso
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que um começa a contar sobre um motorista de táxi mal educado, o outro interrompe e corrige: 
― Não “benhê”, isso foi indo para Sainte-Chapelle. 
― Tenho certeza que não foi "moreca". Foi indo para Notre-Dame. 
A gente ali, esperando eles chegarem a conclusão sobre um fato que não nos interessa bosta nenhuma. Dá vontade de dizer nas entrelinhas: ― Tudo bem gente, quanto tempo para chegar daí à Torre Eiffel? ― Sim querida, só você entenderia o duplo sentido. No álbum, não, em Paris. Pois que claro, sabemos que a Torre e o Louvre terão um álbum exclusivo cada um. Mas antes vem o Palácio de Versalhes, óbvio, e sei lá por que, a narrativa deles sobre as fotos segue o estilo barroco do
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monumento. Narrarão em rococó! Disse depois a Barbara que ainda não estávamos juntos quando fui, faz uns sete anos, numa chatice desta, era a primeira viagem para Disney. Mais fácil, pois podia jocosamente pedir para pular o Pateta e o Mickey, já que são personalidades consagradas. Essa merda é a mesma coisa que, se por obra do acaso, assim como sortudos acertam a mega-sena, seis fatores me levassem a comer a Shakira. Porra! Imagine eu chamando a turma do pôquer para contar: ― Gente! Pegar naquelas ancas... Ah...! E a vagina dela... é perfeitinha, só falta falar! ― Cacete, eles podem se orgulhar, achar interessante, mas nunca vão saber exatamente o que é comer a Shakira, caralho! Barbara pede calma. Ok. Vejo-a desanimada, mas ainda há um resto de
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humanidade nela que me diz: ― Tem certeza que não devemos ir? 
Dou meu último suspiro, penso e tento meu argumento fatal. 
― Sabe como termina? Ao fim do último álbum, sempre sobram algumas páginas que ficam em branco, certo? Eles completam com fotos de família. É uma mistura das sobras dos eventos dos álbuns completos, então misturam dez do aniversário de um ano do Marquinhos, quinze do natal e aqueles infames dos encontros de casais. Dá saudades de Paris! Você vai ter que ver pessoas feias, que nunca viu na vida e ainda sendo informada: ― Essa aqui ó, é a Carmem, enteada do meu sobrinho por parte do Naldinho. Olha a tia Roseli! Lembra dela, não? Tadinha ela agora está com diabetes e perdeu o pé. ―
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Foda-se a tia Roseli! Moooorram todos ali. Podiam estar todos no avião para Paris e a nave cair. 
Deu certo! Mas acho que exagerei. Barbara lacrimejando pediu: ― Pare! Eu não posso mais, por favor, pare! ― Revelando também certo talento na dramaturgia. Depois confabulamos, fizemos uma espécie de brainstorming, esfregávamos as mãos, ríamos, nos arrepiávamos. Parecia haver um prazer mórbido e malicioso em criar uma desculpa, até que... Vamos ligar! 
― Oi Márcia...?! Pooooxa, chaaaato, chato mesmo, mas desculpe, se vocês tivessem ligado antes. Pois é, combinamos em levar as crianças ao cinema e depois comermos algo. Sabe como são os filhos né... Que? Imagina se eles aceitam ir junto!
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“Programa careta”... Ah! Os seus meninos também...? É tudo igual, né? E a gente ainda tem que assistir ao filme que eles escolherem... “Duro de matar 5”, é mole? Duro de assistir 5, isso mesmo... Ah! Ah! Ah...! '' Claro, McDonald’s, aquelas porcarias. Nem fala... um vinhozinho neste frio... Só de pensar me dá água na boca! Então, e as fotos! Não, nunca, nem Paris nem nada, só região dos lagos... (grgr)... Mas vamos marcar depois tá... Olha, a vó vem passar um mês aqui em casa sabe, a dona Graziela, vó do Thêmis. O clima da serra neste inverno castiga ela, tadinha... Mas no mês que vem... pô, já está certo Márcia. Manda um abraço pro Naldão. Olha, o Thêmis também tá aqui mandando um abração (não é verdade, mas é de praxe,
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não só nossa, dos leitores também, vem não!). ― Tchau! 
Sim, a Barbara ligou né. O plano foi perfeito. O exercício da mentira e da hipocrisia fora executado com primazia. E ainda ganhamos um mês com a vovó, sim, a velha e boa vovó que tanto matei no tempo da escola e do trabalho. Sempre a nos servir. Até já falecida. Ressuscitamos e matamos. Que bom que eles não sabiam de tal finitude ocorrida há quase um ano. Que Deus a tenha. 
A sensação de alívio só veio mesmo no dia seguinte. Levantei radiante naquele sábado. Fui à cozinha e Barbara estava lavando a louça (grrr) e os meninos tomando café papeando. De repente, me deu na telha: ― Galera, que tal sairmos hoje para assistir o novo Duro de Matar 5 e
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depois comer no Mac?! Eles se entreolharam. E depois para mim, como se eu tivesse dito alguma barbaridade, (sem trocadilhos com a mulher), tipo: ― Onde diabos colocaram minha bengala?
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Psico bélica 
Meu testamento será covardia e fracasso, só farei jus a uma parede fria e sem epitáfio. Mas não quero como pena a eternidade. Quem tanto deseja e sente-se dono de tudo merece serenidade, pois que cumpriu apenas o que lhes deram de identidade, angústia. Que eles deem então a não finitude aos hipócritas. Quão agonizante isso! Será a morte mais perigosa que a existência mórbida que não possamos ter paz em vez de viver buscando luz na obscuridade? Não quero existir bastante, pois que isso é o que basta. Prefiro ser aí um bastardo... Portanto, não julgo um suicida, o mais passional dos criminosos, que faz à vista o que eu e muitos fazemos a prazo com a vida. Todos sentindo que se
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expirou o prazo de validade das boas aventuranças. Que não vale a idade, se vai idade, moça idade para fazer o certo e consagrado, ou seja, reeducação alimentar, deixar de fumar, se embriagar e ser comedido, além do tedioso exercício físico, não, nada compensa. Só o crime. Todo mundo no fim está fodido. Se não vale a pena (dos outros) é porque não se é tão feliz assim quanto se ostenta. Vai chegar o dia em que a expectativa de vida do homem será a meia era! Aos 50 e pouco, já era! Oxalá! Imaginemos quão perfeito se ajustaria o mundo se a morte se desse aos por aí. Como a média de hoje, os cidadãos de 70 passasse a longevos, morrendo lúcidos e com maior dignidade. Um Nieymeier menino. Poderia enumerar as vantagens que são muitas, mas deixo a seu
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cargo esta criatividade... Chega disso! Quem viveu covardemente, há de morrer covardemente. Imprudência? Não. Os obituários estão cheios de pessoas prudentes que se intoxicavam de saúde ou preferiam os automóveis, ultraleves estraçalhados no chão. Eu no máximo, sou meio “deprê” com a vida. Mas rio e me divirto muito. Somadas as partes e divididas pelo mesmo valor, meu produto é zero, apenas torpor, mas este repleto de amor. Envelhecer é uma sina, apenas serve para aprender um pouco a morrer. Eu não passo de um ego, mais impotente que um cego, já que esse consegue até ver a fisionomia de seus filhos crescendo. Com o tato, magnífico intento! Eu não. Encho minha cabeça com palavras e desperdiço olhares, todos os sentidos... Tidos... Como sãos,
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são? Muitos, sem sequer acompanhar o crescimento dos filhos com todos os sentidos. A labuta é vossa escravidão e se dizem “olho vivo” por ganharem bastante dinheiro que no fim é para dar o melhor ao rebento e morrer empilhado de renúncias. Quem dá mais? O cego de poucas posses ou eles, ditos em boas condições de saúde, “homens de visão” e suas donas com casacos de visom? Todos remelentos pelas manhãs, pois não. Embora os meus pensamentos com minha voz e a voz dos outros que me lembro, em qualquer língua, sejam mudos, telepáticos, porque tanto barulho? Da vontade de auto induzir-me ao coma, esse processo mágico do corpo para se entrar em off-line. Isto me parece um déjà vu, que pra mim está mais para “à être vu”. Já vi também, sem prévio aviso, a luz
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de Einstein curvar-se a Deus com elegância e reverência, há poesia na ciência, sua magnificência. Talvez esse seja seu único propósito e ele se esqueceu da arte universal, só isso. Como as cordas no átomo que vibram em harmonia como a lira entoando belas melodias em milagres de vida quântica, a física romântica. Todo dia 24 de novembro, faço meu ritual beato, presto um minuto de silencio às Sete Quedas, brutalmente extintas por assassinato. No fim, em dez mil e tal, estaremos esquecidos, o foco será a caça dos rastros do Homo digital. Portanto quero viver minha boemia, liberdade pessoal, como quem vive uma anarquia, um cio espiritual, repleto de romance sensual, como os vampiros, nos undergrounds das noites num pub ou hospital. Melhor do que
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a sobriedade da melancolia, onde fico tentando escrever explicações com pena de lágrimas em livros sem páginas e capa dura de edições ordinárias. Cansam-me o melindre alheio, pessoas feitas de cristal que se comportam como bibelôs e temos que falar outra língua, dialeto, repleto de eufemismos e cuidados, por fim mudando quase o sentido da prosódia, linguagem de criança, como um contador de histórias. Dispenso o glamour, a futilidade no auge da mais fiel sedução. Outra dependência, como a devoção. Não crio mais expectativas. A expectativa é uma boa atriz que rouba a cena do fato. Eu queria ser competente em motivar a ação, contemplar a ação e saber criar atividades. Mas nasci sem dom. Estou cansado de euforia, como quem vive de estabilizantes aromatizados artificialmente.
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Minha mente mente, somente. Mas tenho sempre à mão um caqui verde para dar àqueles que me acusam de não ter sido maduro na jovialidade. Sou um grão de areia vigente... E assim vejo e sempre vi gente, muita gente. Nesta magna e soberba terra, filha órfã de pais celestiais, menina dos olhos das razões universais. Ouso atirar a pedra que ninguém quis atirar... Se já tiver morrido, que seja um meteoro na vastidão do infinito. Minha sina é se ferrar?
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Alívio ou humilhação? 
Fomos às compras naquele sábado. Qualquer sábado ora. O que diriam nossos primatas ancestrais ao ver tão triste ritual para busca de alimento. Um lugar superlotado de seres da mesma espécie se esbarrando uns nos outros em meio à poluição sonora dos caras que anunciam ou denunciam aquilo que você pode comprar com aquela voz sensacional, sensual, em tom pra lá de original. E carrinhos congestionando o tráfego dos amplos corredores... da morte! Ainda tem sempre aquele fedelho que faz “vrum”, rápido como um maldito Concorde, até acertar o ferro inferior dianteiro do seu veículo “de brinquedo” no seu calcanhar. Se voasse
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deceparia cabeças em acidentes aéreos surreais. Como eu queria beliscar um deles. 
Começamos sempre pela seção de hortifrutis. É a tática de começar pela pior parte, se é que, a exemplo de programação de TV local, há alguma melhor parte. 
Resolvi ensacar uma dúzia de laranjas Bahia, que apesar do preço pareciam suculentas. Uma senhora ao lado, como parte do rito completo dos humildes, me pede para ler o preço da banana na tabuleta. Ela ouve, me agradece e não leva. Provavelmente sente-se saudosa como eu, dos bons tempos em que banana era sinônimo de coisa barata. 
Depois das frutas e legumes, fomos ao setor de carnes. Aquele, cuja fila não nos distingue muito daquelas que os seus
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“fornecedores” entram para ser degolado nos matadouros, com lágrimas que antecipam o golpe fatal, no nosso caso, o preço. Tomamos uma decisão sofrida, daquelas que podem render várias consultas no analista, tamanha culpa que produzem: pedimos uma peça de filé mignon. 
Enquanto isto, ao meu lado, uma mocinha pedia dois bifes de chã, um coração de boi para o cachorro – provavelmente o seu marido – e perguntou o preço do bucho ao atendente simpático do açougue. Virou-se com a bolsa como quem esconde a humilhação nela, depois voltou para o atendente e disse: ― Não vou levar o bucho não, é só isto mesmo. ― Fiquei chocado ao confrontar minha visão da situação do país promovida em propagandas institucionais no horário nobre
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da TV: Escolas bem acabadas com crianças de boa dentição, incluindo negros, além de índices de crescimento animadores que encerram com slogans de entusiasmar o cidadão. Parece que a gente está na Suíça. Então, vai ver aquela mulher não passa de uma incompetente ou irresponsável, não é mesmo? 
Não podíamos sair sem levar algumas coisas para as crianças. Assim, terminamos na seção de laticínios. Enquanto pegava duas bandejas de iogurte, um senhor bem ao meu lado, paletó surrado e chapéu não menos, tipicamente aspecto de aposentado do INSS, que carrega documentos em saco plástico, pegava e devolvia, analisando preços, vários produtos na seção. Bem, hoje os supermercados têm uma política Apartheid nas arrumações das prateleiras:
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De um lado as seções dos produtos nobres, estes que a mesma publicidade da noite na TV vende com famílias cheirosas, e do outro, os produtos baratos, com corante vermelho sangue, cheiro de cachorro molhado e uma série de substâncias que nunca aparecerão em nossas autópsias. 
Mas o mais desagradável foi ver um menininho na seção de chocolates enquanto eu pegava três caixas de bombons. Ele demonstrava as dores de suas renúncias com um biquinho de choro preso na garganta e a cabeça baixa, puxando com a pontinha dos dedos a manga da blusa da mãe discretamente, enquanto na outra segurava uma réplica de brinquedo ordinária de aviãozinho comercial. Certamente aprendera que só assim podia se manifestar, ao contrário dos berros e
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escândalos dos riquinhos, apesar de saber que, no máximo, ganharia um Batom Garoto nas conveniências de última hora dos caixas, feitas para... Para os donos dos supermercados ganharem mais em cima da gente, povo que adora quinquilharias, é claro. 
Demos sorte naquela hora que talvez seja a pior das compras, ou seja, a fila para pagar, ela nos dá tempo para lembrar o que faltou. Devolver o que culpou, se arrepender e refletir que aquele carrinho só durará pouco mais de uma semana frente a minha voracidade e a das crianças. E ainda pagamos taxa de esgoto, ca-ce-te! 
Já terminando a vítima da frente, vejo atrás de mim, e aos lados: A mulher cegueta, a mocinha envergonhada, o senhor aposentado e o menininho relegado. De
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repente começou a dar uma sensação desconfortável ao perceber meu carrinho cheio de guloseimas, supérfluos. Sentia como se eles me olhassem a pensar: “Você é o culpado por tudo.” Suava, rezava para a caixa contabilizar o mais rápido possível nossos itens. Para piorar, ainda tive que ouvir a mocinha do caixa falando para outra colega ao lado em alto e bom tom: ― Olha só fulana, isto aqui é que é champignon ó, que te falei outro dia, nunca provei, tenho a maior vontade, mas olha o preço. 
Até que, enfim, a minha mulher entrega para ela o cartão para pagar aquela quantia que achava que todos em volta esticavam o pescoço para ver, com mórbida curiosidade como faz o povão quando, por exemplo, cai um carro dentro do rio.
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De repente, eu e meus fantasmas fomos pegos de surpresa com a minha mulher me puxando abruptamente, mandando a gente sair rápido dali. Largamos tudo e, lá fora com ela me empurrando táxi adentro, perguntei atônito: 
― O que é que aconteceu, mulher? ― No que ela arrematou: ― Nosso cartão foi recusado...
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Hello Horooy 
Se verter-me às lembranças dos fatos bem assinalados, sobra réstia de sucesso na obscuridade do mundo das sombras. O real não é palpável, posto que história escrita por escribas endinheirados só discuta a parte que nos cabe de liberdade, que para alma está para vida como o mundo está para o estreito de Gibraltar. Sentados nas confortáveis poltronas de suas esquizofrenias não diagnosticadas, bebem muito uísque doze anos e fumam charutos cubanos, quanta ironia, discutem em gargalhadas as cifras e saldos de extratos milionários e o que pensam em ilusão apenas de sobras mais gigantes sobre os legados de seus nomes. Depois vão vomitar o que nós também vamos limpar. Por isso
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eu ouço agora Alice Cooper, sem entender a língua deles, pouco importa, mas destilando da melodia a rebeldia que brota nas entranhas de seus olhos pintados em maquiagem preta, junto aos solos metálicos rebeldes com causa. Outro tipo de sombra, contra os males do mundo, as vistas das cavernas, denunciando que todos nós estamos presos nas correntes dela, os contempladores, apenas com a promessa da vida eterna, tolos é o que somos. Acendo o cigarro e ouço mais músicas de roque pauleira e progressivas. Junto, vêm da janela, sons de bombas e torpedos tipo de guerra, ecoadas do morro perto e de destino incerto. O amor é isso em sua versão cinzenta, paixão por matar. Não choro mais por estas coisas e digo sem cerimônia que me lixo para cada ser humano anônimo. Eu
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quero nomes! Se não há, não há crime, a exemplo dos corpos para a justiça. Esta impessoalidade é insuportável, logo, não desperdiçarei mais lágrimas para números de “cepeéfes”. Isso não é frieza, é cansaço. Sei que o mal não se abate só ao lado, mas o egoísmo está se impregnando em mim, é a “alma do negócio”, não estou isento por ler muito, sou o mesmo nefasto, eu também construo o mundo. Tramas familiares entoam a dor dele também. Não, nada é tão ruim só da porta para fora, o mesmo ocorre na casa de hoje e de outrora, quando os pais me acordavam com canções em francês. Cada um é sobra de barro ou argila facilmente moldado para servir. Servil. Não! Ser vil, cada qual é em verdade, da velhice à mocidade. Ingênuos, um dia achamos que nos juntamos e entre canções
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de Chico e Caetano mudaremos o mundo. Depois passa o tempo e somos também parte “deste mundo”, eles são. Esperando por um céu, onde sempre julgamos merecer, mesmo sendo mais um reles e abjeto estar em estado de vir a ser. Não importa à física, que aqui devemos pegar um avião para viajar de um lado para o outro totalmente oposto do globo, espaço e tempo percorrido por um corpo bípede saudável ou extenuado. Para lá se vai e pronto, tele transporte arbitrário, sem qualquer explicação. Ida e volta, rodando em círculos em vão. 
Alguns guardam e insistem com o que chamam de ideologia, mas são sempre rotulados e amputados pela massa pensante. Aqueles que pensam a vida sem a arte. Corrige-se: Gente que processa ideias com
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lógica. Como eu aqui e sequer respeitando o tempo dos verbos, para mim desprezíveis, já que em maioria a serviço do asco e do cobiço. Não fumo maconha e não bebo, mas me sinto meio doidão. Defeco sacos de bosta para a sensibilidade do futuro e me abstraio olhando o quadro do Magritte à minha frente, fixado na parede amarelada pela tinta e a nicotina que lhes conferem cor peculiar de cream-cracker, tom pastel, destes fritos com óleo saturado, em seguida vem a tosse, muita tosse. Mas isso já me acontece também no campo, com o ar puro no pomar na casa da minha irmã. Overdose de oxigênio! Na verdade, o quadro não me diz nada e é delicioso como uma romã, nem sei por que, talvez apenas pelo fato de me fazer esquecer em ínfimo e precioso hiato de pensar em bela manhã ou antes de ir me
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deitar, me abstraindo com os olhos fixos na distração. Pelos homens de charuto, nos perdemos de nossos focos e das velhas prioridades, vamos para cama para despertar bem cedinho para viver, dormir, acordar, viver, dormir... Isto já é morrer, apenas chega uma hora em que não nos levantamos mais. Simples assim.
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Ah, se não fossem cortar a minha luz! 
A fila do banco estava de lascar, minha senha era 264 e o torturador eletrônico marcava 167. 
Ah! Se não fossem cortar a minha luz! 
Não tinha jeito, era esperar ou esperar. A vantagem é que numa agonizante fila de banco sobra tempo para muitas reminiscências. Comecei a me lembrar da época em que os bancos tinham uma fila separada para cada caixa. Eu era jovem, mas já me irritava em ficar em pé muito tempo. No final do mês, em dias de pagamento, ficava furioso e me contentava em brincar comigo mesmo vendo um careca da fila ao lado ir ficando para trás. Mas às vezes, quando faltavam dois antes de mim,
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tinha aquele office boy pentelho, com um malote cheio de pagamentos e cheques para depositar e o careca acabava, quando não se ladeando a minha poliposition, saindo antes de mim da agência. Eu ainda via um sorrisinho sarcástico no canto de sua boca, provavelmente produto da minha mente, e pensava: “filho da mãe!” 
De repente perdi a distração com o sujeito da frente a me falar cochichando: ― É um absurdo não é mesmo? Trezentas pessoas na fila e apenas dois caixas para atender! 
― Verdade mesmo. ― Respondi. Nesse momento passa um gerente e o sujeito acena para ele: ― E aí, tudo bem amigo? 
Passados mais quarenta minutos, outro sujeito, agora o que estava atrás de mim,
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resolveu perder as estribeiras: ― Caramba, este banco é uma bosta! 
No que num ato impensado, da mais absoluta infelicidade, aticei com um magnífico clichê: ― É, se fosse na Argentina, todo mundo já estava protestando na gerência. 
Pra quê? O cara se empolgou: 
― É isto mesmo, vamos lá! 
Saímos da fila: ele, eu (o idealizador, como não ir?) e mais dois ou três adeptos da causa em direção à elite opressora do sistema capitalista. Até que surge um cara de meia-idade, terno, gravata e bigode, o gerente, quem mais? Que logo vai de encontro ao sujeito em que nos amparávamos, não perdendo tempo convidou-o logo para um café: 
― Em que posso ajudá-lo?!
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Como é extraordinário este feeling dos gestores experientes para identificar e eliminar líderes de uma iminente rebelião. Isto mesmo. Perdemos nosso mártir para o sistema, ou melhor, para um café fresquinho num box com cadeiras confortáveis. 
O pior de tudo é que eu e os três dissidentes do levante tivemos que voltar de cabeça baixa para o final da fila. 
Ah, se não fossem cortar a minha luz! 
Eu continuava puto porque já era correntista do banco, mas não passava de duas estrelas há quase dois anos. Verdade, uma agência bancária é o protótipo perfeito do capitalismo. Olho à minha direita e vejo uma fila para clientes Plus – dizia a placa. Uma perua e um senhor muito bem vestidos encabeçavam um caixa exclusivo, enquanto
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os outros estavam lotados. Depois, olho à minha esquerda e vejo uma fila destinada a gestantes, crianças de colo, deficientes e idosos. Nela havia uma linda moça que supus estar no primeiro mês de gravidez, com o resultado do teste de urina da farmácia na bolsa para qualquer eventualidade. Depois outra de meia-idade suando em bicas ao segurar uma criança de nove ou dez anos no colo. Na terceira posição, um cara com uma bengala que devia ter se contundido na pelada do fim de semana. Por fim, um idoso com tudo em cima, que se disputássemos um confronto de check-ups, certamente me daria uma surra. 
Este banco não era daqueles que punham cadeiras para a gente esperar, talvez porque se tratasse de mais humilde
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instituição financeira multinacional. Crise na bolsa, estas coisas... Então não obtivesse recursos suficientes para tal investimento, havemos de compreender. Mas não se pode dizer o mesmo para o marketing, cacete! Em cada parede um pôster anunciando o título de capitalização ou seguro de vida do banco, com aqueles seres humanos perfeitinhos, família modelo, Acima de tudo, bocas com sorrisos fartos de dentes de porcelana, brincando de roda num gramado tapete, coisa de fazer inveja mesmo. Na verdade, aquele monte de cartazes que anunciam as vantagens do banco “que foi feito para você”, faz-me quase pensar que eu estou dentro de uma entidade filantrópica. 
Este dia no banco estava trepidante mesmo. Mais meia hora e ouvi um cliente
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espinafrar uma daquelas gostosinhas do atendimento preferencial, porque haviam feito um débito errado em sua conta corrente: 
― A gente faz um estorno Dr. Roberto Alhadas! 
Reconheci a senhorita Meireles. 
― Não adianta, agora já voltou um cheque meu, quero fechar minha conta. 
Continuava bravo o janota, até que sem saber mais o que dizer, ela apaziguou os ânimos dele com uma baita oferta: 
― Olha só, para lhe recompensar dessa situação constrangedora vamos suspender suas tarifas para os próximos meses. E podemos lhe financiar uma viagem de férias para Aruba. Seu saldo médio permite. 
O cara não deu o braço a torcer, mas saiu feliz e triunfante. E eu, bem... Eu fiquei
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muito puto! Não me contive, larguei de novo a fila e avancei sobre a mesa da Márcia, primeiro nome daquela ordinária da senhorita Meireles, que na verdade nem era gostosa. 
― Pô garota, eu tive semana passada aqui com você pedindo quase de joelhos uma redução de tarifas, explicando minhas dificuldades e você disse que não era possível, que dependia da regional e blá, blá, blá... E agora esse cara vem aqui, arma um barraco e consegue isenção total, cacete?! Só porque ele é um empresário bem sucedido na fabricação de Oboés?! ― Um cara na fila me informou por acaso... 
Ela ficou meio em apuros e diante daquela multidão de pessoas olhando de soslaio sacou a resposta:
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― Desculpe senhor, mas este benefício só pode ser concedido aos clientes Plus. 
“Ah, se não...” 
Não, nada disso. Saí furioso porta fora – porta adentro – porta fora, enfim, daquela espelunca! Quando dei por conta estava no interior de um supermercado passando no caixa onze caixas de velas.
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Para onde vai a odontologia?! 
Sabe aquela puta dor de dente? Pois é, foi ela que subitamente me pegou em pleno centro da cidade do Rio de Janeiro num daqueles dias escaldantes na casa dos 40 graus. Acabava de chegar de Petrópolis via terminal Meneses Cortes para mais uma aula de Oboé na escola de música Villa Lobos. Eram aqueles tempos em que eu era de esquerda radical. Resolvi que o melhor para minha vida era ser um profissional anônimo. E como queria ser artista, nada melhor do que entrar para uma orquestra, e tocando oboé, óbvio! Até que percebi o quanto uma orquestra é burguesa. Vários integrantes se esforçando, dando o máximo de seu fôlego ou punhos para atender a vaidade e a fama de um cara empertigado,
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que só sabe fazer pantomima e muita fita, se gabando de, com uma varinha na mão, comandar o espetáculo, como uma fada madrinha! É... Pensamento de esquerdista babaca mesmo. Mas isso não tem nada a ver com a história. 
A dor de dente, fruto daquele canal tipo "do Panamá" que negligenciamos o tratamento é pior do que dor de parto, de barriga e de cabeça, quando se está com dor de dente, sim. 
Entrei numa farmácia na Carioca e pedi um destes engodos “Passa já”, “Um minuto” ou qualquer anestésico local. Só tinha xilocaína e foi aquilo mesmo. Pedi para usar o banheiro e coloquei meio tubo no lado inferior esquerdo da boca. Houve um alívio imediato, mas ao agradecer o balconista da farmácia e colocar o pé na
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porta, veio uma fisgada. Eram aqueles malditos nervos novamente. E pensar que vinha utilizando regularmente um creme dental daquela tripla-ação, anti-placa bacteriana que o reclame da TV anunciava como a panaceia bucal. 
Corri desesperado e me deparei com um prédio comercial na Nilo Peçanha, entrei no elevador e respondi ao ascensorista: 
― Para onde tiver um dentista! 
Sensibilizado, ele respondeu; 
― Dr. Silas Ubirajara, sala 406. 
Adentrei o consultório, sem recepcionista bati na porta, ele abriu e apesar de perceber meu desespero disse que tinha dois na frente. Olhei para os respectivos, um tirou os olhos rápido de mim e voltou-se para a revista cuja capa,
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me lembro, estampava a vitória de FHC nas eleições. Bem, estou contando essa história sofrível e o Lula está terminado o segundo. O outro, um moleque, estava mais confortável, com fones no ouvido nem tomava conhecimento da situação. Foram 50 minutos cronometrados em que eu me postava como uma cadeira de balanço em movimento. Até que entrei e me sentei. O Doutor me perguntou qual era o dente e após eu responder ele olhou e disse que não tratava de canais. Indicou-me um colega perto dali, Rua Debret, sobreloja, ― Segunda à direita saindo do prédio. ― disse o especialista em cáries. 
Lá fui eu, sem me dar conta, em oito minutos estava no consultório que para minha sorte encontrava a porta aberta com o Doutor “não me lembro o nome” sentado
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na cadeira do cliente tirando uma boa soneca. Para chamar sua atenção, não tossi, disse: ― Aaaaaiii...! Ele despertou. Fez o mesmo procedimento do dentista anterior, mas não olhou. Quando eu disse que era em baixo, ele foi decisivo: 
― Desculpe-me, mas canal, só trato da arcada superior. Mas tenho um colega aqui perto que pode te ajudar, Rua da Quitanda 40, esquina com a Sete de Setembro. 
Percebia que fazia um tour no centro do Rio ao bel prazer das ciências odontológicas e nunca estas ruazinhas conhecidas me deram tanta raiva. Fui até lá em absoluto sacrifício. A essa altura com meu lenço no rosto provocando piedade aos transeuntes mais sensíveis, se é que há. 
Entrei no consultório do cara, Dr. Rulfino Salatial, li em letras garrafais na
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plaqueta da porta. Dei mais sorte ainda, mas será que eu posso dizer isto? Bem, quero dizer, peguei o Dr. sem pacientes, chegando do “volto já” que anunciava um pedaço de papel colado com durex. Entramos, expliquei toda a história quando tive que ouvir: 
― O Senhor me desculpe, mas já estou de saída, entro de férias e vou viajar com a família, meu voo sai em três horas, além do mais, dos superiores eu só trato de canais nos dentes molares. 
Eu não me contive e gritei: 
― Filho da puta! 
Começamos a discutir: 
Eu blasfemava: 
― Cada um de vocês deve ter feito um ano de faculdade e um mês de pós- graduação, seus lobistas! E ainda querem
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ser chamados de Doutor! E aposto que vai para Orlando seu cretino medíocre! E peguei pesado: ― Não, seu dentista! 
O cara então resolveu só ouvir, impassível. ― Quer dizer que se eu for a um oftalmologista vou ter que escolher entre um profissional de cegueira, catarata ou miopia?! E deve ter ainda especialista em olho esquerdo ou direito, castanhos e azuis? Gargalhei irônico. ― A boca já não é uma especialidade no corpo humano, cacete?! 
Acalmei-me, pedi desculpas, depois implorei que ele abrisse uma exceção, ele não acatou, e como a dor continuava insuportável, perguntei gentilmente se ele tinha alguém para me indicar. Reticente, ele disse que era difícil: 
― Pré-molares? Só na Barra da Tijuca.
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Saí lacrimejando, era uma mistura de raiva, autocomiseração e, lógico, a puta dor de dente. Olhei para o relógio, eram dezesseis horas, perdi minha aula de Oboé. Que chato, estava quase pegando a embocadura! 
Resolvi então chutar o pau da barraca e fui para o Bar Luís, pedi chope e vodca. Saí cambaleando e parti para pegar o das dezenove horas no Castelo. Anestesiado pelo álcool, apaguei no ônibus e cheguei a Petrópolis. 
No dia seguinte, com ressaca e dor de dente, tratei de ligar logo, bem cedo para o meu velho dentista, marquei na primeira hora da manhã. Sentei, colocamos o papo em dia. Ele abriu o dente que ainda doía. Ele anulou a dor e tirou uma radiografia e evasivo me receitou Amoxicilina, cujo
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preço me faz maldizer Fleming! Mas tirando a máscara falou: 
― Não é canal. 
Quando eu me sentia aliviado e envaidecido, ele disse: 
― A coisa é mais séria, vou ter que te encaminhar para um especialista em disfunção Buco-Têmporo-Maxilo-Facial. 
Atônito e abatido, eu falei: 
― Cacete! Está bem... Mas será que eu posso ir agora mesmo?! 
― Creio que não ― disse ele ― Esta especialidade só no Rio.
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Lá no futuro 
Certo dia num futuro mórbido, quase a 2100 D.C., dois donos de casa Classe Dawn se encontram na seção de águas do Teramercado da cidade. Analisando minuciosamente os produtos, seus preços de prazo e composições subliminares, um deles deixou escapar um comentário, coisa típica e eterna dos humildes que precisam da atenção de estranhos para aliviar o abandono que a sociedade lhes impõe. 
– Pois é – diz João – a sobrevida está pela hora da morte! 
– Verdade – diz Antônio, com a sua distração de autômato: – veja só, a garrafa de água natural está mais cara que um litro de leite!
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– E essas turbinadas? Só rico pode comprar! 
– Você tem algum problema sério de saúde? 
– Por quê?! 
– Desculpe... É que eu estou vendo no seu carrinho alguns produtos ultra-light e extra-diet. 
– É... Lá em casa todo mundo está com glico-colestero-metastático alto. 
– Pois é, e pensar que antigamente, na idade moderna, quando ainda não tinham inventado a geladeira e descoberto os óleos vegetais, as carnes eram conservadas em banha de porco. Só se cozinhava com aquilo e não morria tanta gente como hoje de problemas no coração. 
– Porcooo... Ah é verdade! E o que eu gasto com os remédios fito transgênicos!
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– Claro, os laboratórios, como tudo atualmente, estão todos nas mãos dos chineses! Por que você não tenta os alopáticos? São mais em conta e os efeitos colaterais bem mais brandos! 
– Pode ser... Você viu ontem no telepático jornal da noite a prisão do Deputado que foi acusado de devastar áreas de concreto para extração de terra? 
– Vi! E o desgraçado vendeu quase cinco toneladas para o exterior! Mas na VEJA que eu ganhei de brinde pela compra de um dropes outro dia, tem uma matéria muito boa falando sobre a impunidade de nossos políticos corruptos e dos movimentos dos “sem roda!” 
– É, esta corja! E a nave presidencial que levou o presidente e toda aquela comitiva para a Groelandia?! É, podia ter
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caído! Ah, Ah...! Por isso que agora eu só voto na esquerda-volver. Eles propõem uma contra-reforma agrária que promete assentar mais de três mil famílias por ano em escaninhos! 
– Balelas! Esse José Sarney...! Não é imortal só na ABL não! ...Bem, eu ainda prefiro continuar votando na meta-direita, pelo menos eles não mexem na minha vidinha. Imagina tirarem minhas bolsas Família Plus, “Minha casa minha vida”, “minha privada entupida, kkk...!” Pensando para si, João se recobra da sua condição patética e renitente, olha para o carrinho de Antônio e muda prontamente de assunto: – Puxa, que irado... Sua família deve ser grande! 
– Como? Ah sim... Todos estes produtos de farinha de carne? É... Lá em
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casa somos eu, minha esposa, três adolescentes e dois cachorros! É... Eu sou professor entende? Bem, eu tenho que ir. Minha mulher vai chegar em casa e...sabe como é... 
– Ah, como não?! A minha também e ai de mim se o jantar atrasar...! Meu nome é João, prazer em conhecê-lo! Qual o seu? 
– Antônio, o prazer foi meu. Aliás, qual é o final do seu CPF? 
– O Meu é 34 e o seu? 
– O meu também é par! Quem sabe, com este novo sistema de revezamento de pedestres a gente não se esbarra por aqui numa próxima vez...? 
Em seguida às palavras de João, se ouve o barulho de uma sirene assustadora que vem avisar o próximo apagão do dia, medida proveniente do PRÉ-BRASIL 2100,
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Programa de Racionamento Progressivo e Estratégico de Energia Solar do Governo Inácio Rousseff Neto... Quando se ouve a voz apressada de Antônio sumindo no fundo... 
– Quem sabe?! Até algum dia...!
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Bula do Tempo 
(genérico) 
Lembro-me de quando senti pela primeira vez a tristeza de ter levado um fora de uma garota que estava apaixonado. Quando eu me abria às pessoas íntimas, o que mais ouvia como consolo era: ― O tempo é o melhor remédio. Lembrando-me desta metáfora banal tão comum em nossa cultura, pensei como seria uma bula para “este remédio” e deu nisto. 
– Informações ao impaciente: A sucessão de anos, dias e horas que envolvem a noção de passado, presente e futuro, que compõem o tempo exercem uma ação benéfica ao sistema nervoso quando associado ao espaço. A relação espaço-
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tempo se desenvolve por meio de quatro dimensões aonde o tempo é a quarta, necessária à determinação de um fenômeno na assimilação pelas ideias do contexto da realidade pelo sistema cognitivo humano. A ação em humanos é meia vida a mais, não ultrapassando a média de 70 anos, variando-se os cuidados clínicos e nutricionais. 
– Indicações: Suster o corpo e alma em estado vital, sendo também eficaz no tratamento coadjuvante das dores de cotovelos, estado de viuvez; pacientes que sofrem do mal de abandono ou perdas e traições da mesma origem. (experiências in vivo).
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– Cuidados de armazenamento: Deve ser armazenado na alma, sob o abrigo de cobranças e pressões e administrado segundo o bem estar do paciente em suas manias de passado e futuro. 
– Uso na Gravidez: Sugere-se o controle da ansiedade nos últimos dois meses e cuidados em prematuridades, principalmente nas parturientes que sentem a gravidez como sintomas de doença. 
– Interrupção do tratamento: A suspensão abrupta do uso do tempo se relaciona aos casos de suicídios, o que significa em óbito. Neste caso, deve se consultar um psicólogo ou neurologista.
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– Reações adversas: Em 90% dos pacientes, foram registrada impontualidade, desorganização, uso exagerado em trabalho, devoções, leitura de livros sagrados, contagens de cédulas e valores em extratos e más relações com o desejo entre outros. 
– Contra-indicações: O medicamento é contra indicado em pacientes que fazem uso da ociosidade, preguiça e vagabundagem patogênica. Também àqueles cujos destinos já estão marcados para morrerem subitamente em eventos de causas estúpidas como em acidentes aéreos. Foram registrados casos de tormentos em presidiários, filas de órgãos públicos e transito de automóveis e outras neurastenias.
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– Superdosagem: O aparecimento de manifestações causadas pela superdose de tempo inclui com mais frequência: solidão, saudosismo, nostalgia, dores reumáticas e correlatas, esclerose, abandono, depressão do SNC, incluindo alucinações. Experimentos com placebo demonstraram que o uso concomitante da fé com os desígnios do tempo obteve respostas 50/50, só causando mais alivio das dores nos que não utilizaram placebos. *Farmacocinética: excretado pela vagina materna e eliminado em submersão de terra ou cinzas. 
– Pacientes idosos: Relacionado a superdoses, vale advertir que dependendo das condições físicas e psicologias, a continuação do medicamento é contra indicada, podendo ser remendada dose alta
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de ar intravenoso em processos de eutanásia. 
– Posologia: 24 horas por dia, durante 12 meses, por anos. Como o uso da insulina, reguladores de pressão e outras drogas para doenças crônicas, até desaparecerem os sintomas ou a critério do acaso. 
– Prazo de validade: Vide lápide. 
• Não desaparecendo os sintomas, consulte seu médium.
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Um cigarro à meia luz 
Fecho cada dia num ritual de madrugadas. Deito na cama e acendo um último cigarro à meia luz. Repenso o dia, quão igual foi ao de ontem e começa logo uma regressão involuntária. Vejo o ano com a mesma ótica. Vou até quase uma década. Daí, passo para uma espécie de outra vida, mas é a mesma carnação. Tenho um “psychotiming” estreito. As lembranças dos últimos trinta anos parecem as de poucos meses. Não que as imagens sejam todas nítidas, mas as certezas e sensações. Passei a entender que os meus amores por Sônia, Marisa e Adriana, sempre foram possíveis. Não havia razão para a insegurança e covardia que me fez perdê- las. Vejo seus rostos, toda beleza e
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grandiosidade de suas personalidades, que nunca fora idealização, mas boa intuição perdida por covardia. Percebo ainda que os meus primeiros meses com a Barbara podiam ser anos daquela extra ordinária alegria! Contudo, o tempo cronológico mostra que não há mais nenhum de nós igual, somos agora o produto de mais trinta anos. Outra pele, outras vidas e circunstâncias. Apesar do estado atual de felicidade ser um medidor de saudosismo, é isso que faz com que as pessoas variem suas emoções em reencontrar velhos ex- amigos. Quanto mais psychotiming (que não é o tempo psicológico tradicional), menos apego, quanto menos, mais impressão de que o outro responderá como antigamente. Assim, não há ninguém censurável ou louvável.
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Às vezes no silêncio e na solidão da noite, com aparelhos e bocas desligados me vem estreitamentos comparativos de fatos que geram certa angústia. Meu filho fez vinte e três, a idade que me casei. Eu era dez anos mais novo que meu cunhado, agora sou quatro anos mais velho. Meu pai com minha idade, cinquenta anos, assistiu comigo a derrota triste da seleção brasileira em 1982, eu tinha dezoito anos. 
É difícil querer dormir, tenho medo dos sonhos bons. Pior, junto há o despertar tentando juntar seus pedaços em lembranças furtivas. Têm aqueles com meus irmãos em festas e bares, os de flertes com moças lindas sem rosto definido, as perdidas ou desconhecidas. Há ainda os recorrentes com os anos dos últimos trabalhos, de bem com tudo e todos. Não há
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culpas e recalques, que bom, fugi desta máxima de Freud, ficando apenas com a de que "os sonhos são manifestações de desejos." As pessoas não são amigas, não mais, arbitro, que amigos não são sazonais, bem como valor algum há em amores platônicos eventuais. É necessário um mínimo de convívio, notícias. Assim, o que temos nas redes sociais são contatos, entre eles amigos a se contar nos dedos de uma mão, além de pessoas bacanas e parte de boas lembranças de um tempo, apenas... Não há necessidade de sincronia temporal para isso. Voltando a mim, todos os enredos deleitáveis no sono profundo consagram-se em verdadeiros pesadelos no amanhecer, porque desafiam a vigília, desta feita no café e no primeiro faiscar do isqueiro ainda na cama, daí o temer.
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Uma noite destas, no terceiro trago, olhei para o cabideiro e vi minhas vestes dispostas como a minha imagem vista por ébrios na rua soturna: Camisa acima, calça abaixo e por coincidência meu par de sapatenis no chão próximo as suas bocas puídas por aqueles aquiles. No cume, o velho boné de feltro preto à moda dos homens do cais europeu que fica ali de enfeite, pois que como os óculos nem uso mais. Com as pontas dos cabides verticais à vista, a imagem parecia de um espantalho de mim mesmo ou abantesma mal vestida, sempre a mesma. Talvez um hibrido, o boneco desengonçado a espantar o espectro alado, como um símbolo mitológico da dicotomia sonhar versus não viver. A fantasia na TV Memória contra o dia seguinte com realidade do ser ao vivo.
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Tomadas toscas sem ensaios, que o personagem mudo sabe a sua participação modesta de cor, sei lá... 
Parei de colocar meu corpo seminu a assistir isso em conforto e tento não mais relutar ao torpor. Entreguei-me ao nefário confronto. Agora, apresso o ritual da noite assistindo o dissipar da fumaça do último trago do cigarro que dizem matar aos poucos, mas que só vejo demorado demais. Em seguida, com calma, o apago a meia guimba, depois o abajur à meia luz, e por fim, sem perceber... a mim mesmo à meia alma.
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Nosso lar 
O nosso templo é a nossa casa. Nosso deus, as almas nela habitada. Juntos, formamos um lar. A casa, lar. Somos ou criamos o rebento. A família se abriga e inteira colabora, não importa a beleza de dentro, nem a de fora. Passando da porta, juntos ou sozinhos, estamos protegidos contra os males do mundo, abrigo de nossos teréns, itens pessoais. E bichos de estimação, se é que há. Acalanta até a nossa solidão. Isto nos define como ser, a casa isso faz. Sem nenhuma enganação, do jovem ao ancião. Abrimos as portas para os bem chegados e para os que nem querem ser. Por isso, às vezes, somos nela mesma violados, já que a porta principal não é de mogno nem esquadria, pois sim bem mais
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aberta, é cardíaca. Se sair um, sair outro, mesmo tristes, o consolo vem dela, a casa, mude o endereço, a pintura. Tudo se auto retoca, do chão ao teto, posto que é uma edificação de abstrato e concreto, feita por nós e os provectos, todos os arquitetos. 
Quando voltamos de maior ausência, vindos de aeroportos incertos, dor nas costas por conta dos acentos duros da terceira classe, vimos se matar em nós uma saudade sem igual. No largar-se no sofá da sala, no passar de um café fresco, na cabeça sob o travesseiro velho. Ah sim! Sobretudo a “nossa cama”! Seja de colcha remendada ou bacana. Bem vindos até os vizinhos, dos cacetes aos bonzinhos. Melhor que desfazer as malas, isso sim é mais chatinho... Não! Não há nada igual! Tantas sandices de nós, seres humanos do cativeiro lá fora:
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confrontos, competições e violência, assaz! Nesta guerra que enfrentamos dia-a-dia, felizes os ricos, os pobres e todos mais, contanto que possam dizer: ― Eis minha Casa, onde vivo a plenitude da paz sonhada, sem olhos que me julgam ou simplesmente insinuem qualquer coisa, de mau ou de bom, nada a declarar... Onde eu posso me espreguiçar, bocejar ou peidar ao luar. Qualquer gesto de forma nobre ou feiosa. abrir completa e incondicionalmente minhas asas para ao ar.
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Reencontro 
Deodoro Schmidt disse: 
Ao Thêmis, saudade e referência... 
“Por entre acordes de uma guitarra, duas crianças inauguram pontes em seus carrinhos de mão. Guia-os a tristeza e a solidão da distância da casa. Abandonados a eles mesmos, cúmplices nas acrobacias da alma, transformam o recreio numa revolução em que só eles sobrevivem. A vida será mais dura à frente. Beberam todos os excessos separados sem saber que a vida escreve os roteiros com os mesmos personagens. 
Agora não mais prefeitos de mentirinha, servem aos alcaides modernos como velhos camaradas que a cidade
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pequena e a derrota da vida os reconciliaram na cilada do conhecimento. Viveram em quartos com pôsteres de Alice Cooper, ouviram Lennon e McCartney em seus beliches, pelos corredores da casa. As pernas tortas denunciaram que só um foi capaz do futebol. Mas a dor estava sempre como disfarce da memória. Um herói do outro. Cabeleireiras e merendeiras negras. 
O teatro e a leitura. O armazém improvisado no quarto de empregada. Foram tudo sem o mal! Este surpreendeu vindo das ausências e perdas. Da solidão. Separados, agora torcem para que cada um tenha se mantido fiel ao que foram. Sem isso estarão esquecidos. Leais terão validado todo um Ateneu!”
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Do referenciado, não menos... 
É a sobra do herói, ou apenas seu alter- ego que responde agora, já que as crianças revolucionárias dos recreios, de capa e espada, foram mortas pelos alcaides, como Guevara que também mereceu pôster nas paredes dos arredores das casas, amontoados, igualmente atraiçoados pelas costas. Entre toda solidão e tristeza das distâncias, ao menos tínhamos o nosso casarão da Rua Koeller, só que perdemos a posse na primeira infância, no apogeu, no Ateneu. Lá, nós é que éramos os Reis. Depois, ainda acreditando em nossos ideais, não passamos de súditos, já que se referiu aos alcaides. Sim, verdade, os excessos que bebemos separados ajudaram a manter a realeza, a não edificar belos castelos, ou melhor, fê-los de areia. Digo por mim,
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claro, com inúmeras viagens levadas pelo mesmo carrinho de mão que nos inaugurou e depois dissolvidas lentamente na maturidade pelas brumas e espumas pretas, como as cabeleiras e merendeiras. Será? Não fosse seu universo particular trancado a sete chaves, tão submerso, era para sermos o melhor amigo um do outro. Mas respeito e de certa forma é parte sua que admiro, e então o quê? 
Os livros e o teatro, junto aos Beatles e Alice Cooper, continuam acalantando em melodia a solidão de cada dia, do vácuo do tempo desperdiçado, já que de fato, a vida é sempre dura à frente. Tem as perdas e ausências sem escolha e as com escolha. Mas com a meia idade batendo à porta, percebemos que essas são tão incontroláveis quanto à morte. Perdemos
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voos e viagens, amigos, oportunidades, amores (tudo artigos de ocasião) para a própria vida, isto é que parece fora da ordem natural, mas apenas parece, pois não. Aparentemente menos otimista, parece que a fidelidade do que somos, formatadas em boas virtudes e valores, pode não passar de consolo, e todos, uns mais rápidos, outros menos, inevitavelmente serão esquecidos. 
Mas enquanto houver amanhã, os nossos heróis não morrerão nunca, fazem parte da paisagem, a boa parte, que sempre estará lá. Distantes, mas uníssonos em nossas lembranças. Basta um suspiro, uma surpresa boa, uma epifania em papel e letras, ainda que eletrônicos, promovido por alguém tão querido, tão saudosamente lembrado, como hoje ocorrido ao ler o que li do amigo, por isso agora me regozijo e
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até mais animado, digo: ― Claro que tudo valeu a pena ser vivido!
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Pêsames 
Era seu aniversário. O casal não levou nada. Disse Rubens para a nova namorada de 25 anos: ― Melhor, eles não têm nada mesmo, pode ocupar espaço, constranger ou ofender. Amigo? Isso é assunto filosófico. Talvez só saiba quando sofrer um acidente e estiver segurando a maçaneta. Chegaram à casa dele, o de sempre: Acordando. A família toda fora, trabalhando, estudando e inventando moda para sustentar a lar e seu esqueleto, chegar bem tarde e não vê-lo diante da TV, de chinelo, controle remoto fazendo tour e os olhos cheios de remela, acúmulo do Clonazepan. ― 50 anos amigo! Ele ouve do sujeito incógnito que lhe bateu à porta com a moça. Vendo tudo embaçado, se limitava a monossílabos e contava que,
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com isso e um agradecimento falso e bem comovido pelo desplante de ter sido parabenizado, aquilo poderia acabar logo. E acabou. O amigo com muita tranquilidade, em 40 minutos disse que tinha que pegar a avó na fisioterapia. Desculpa do cardápio de fim de tarde, do happy hour. Se fosse pela manhã seria a filha na escola ou à noite na faculdade... “Porque Niterói está violento demais.” 
Inválido, imprestável e com a cabeça no mundo da lua velha e minguante, por um passado que quis cassar o mandato e perdera, Adrian Simeth era a representação viva da barata de Franz Kafka em pleno século vinte e um. Mais dez anos de casamento, os filhos casados e ele viveria comodamente junto às aranhas do teto. Até os seus gatos lhe poupariam. A esposa nem
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teria que se preocupar com sua alimentação e se ele vivesse e sobrevivesse a tudo, tal como as periplanetas, a relação de dependência já teria se esvanecido no dia oficial de sua passagem. É a viuvez branca. Se não há dependência mútua, um não leva o outro em seguida. Uma réstia de lucidez fazia-o pensar: “Ela é maravilhosa e se a amo, tenho que libertá-la. “Ela foi até o fim, não se curou de mim.”Simeth sempre gostou das mulheres frágeis, mas quando elas se davam alta, ele adoecia e foi assim que se aposentou por invalidez, por dores crônicas de amor. Nada lhe produzia prazer na vida que não amar incondicionalmente, ininterruptamente e acumuladamente. Como uma fonte de água cristalina, quanto mais dá beber, mais brota, valores ignorados. E isso o deformou como pai,
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amigo e profissional. Fez-se modelo desde cedo por certa covardia, insegurança que contaminou tudo. Ele já quase nem profere palavras, inaudíveis a esta altura das sancas. Estava para terminar o dia que se marca por convenção, calendário e outras invenções humanas, informando que cada um de seus exemplares tem um número tal de anos a ser comemorado e um padrão de ser e estar. ― Não, chorar não, que isso é coisa de criança! Após ouvir sons e palavras de exaltação esparsas em meio a beijos babados e ver todos degustando com avidez sanduíches de pão ordinário que lembra Plus Vita, mais uma massa branca redonda engordurado de glacê, que se come fatiada, além do que era muito claro: Coca-Cola, como não? Arrastou-se até a cama com a descoordenação natural que os hormônios
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artificialmente produzidos provocam nas convulsões da alma a somatizar os músculos, overdoses de psicotrópicos. Sua vitalidade não existia mais, sequer lembrava a que um dia lhe conferiu um tato em temperatura amena oferecendo viço e tesão em alta candura que salvou a auto-estima de algumas almas sofridas, perdidas de amor por ele. Engoliu os comprimidos maquinalmente, rotina do piloto automático, sem ligar para turbulências. 
Algo aconteceu no vizinho. Deu para ouvir. As paredes casca-de-ovo da COHAB denunciavam que o seu Manoel do ap. 301 teve um enfarte fulminante. Houve alvoroço, sua esposa e filhos saíram porta afora. Logo havia uma ambulância. Familiares chegaram e o clima funesto foi fazendo o de costume, as pessoas falando
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como que cochichando. Como se para não incomodar o descanso do cadáver. Ele estranhou o silêncio, olhou o relógio de plástico na parede e faltando um minuto para meia noite colocou o ouvido colado na parede esticando-se na cama. Foi justo na entrada do padre no quarto do vizinho que vinha dar a extrema-unção ao velho. O homem da batina marrom é salvo de ser menos barata por uma segunda denúncia, a do odor empesteado de naftalina. Disse ele à viúva: ― Meus pêsames. 
Simeth conseguiu ouvir isso e filou o pedido condolente do beato, resgatando um sentimento de gratidão e solidariedade inéditos. Junto, uma sensação "térnica" que há muito não sentia. Tomou-o como o melhor presente para o fim do seu dia. Balbuciou babando, baixinho, a única coisa
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sincera até então no seu aniversário de 50 anos... “Obrigado Senhor! Em seguida foi pensando em masoquismo, parte daquela rotina, com os rostos jovens das suas paixões idas... Em dores perdidas, até as drogas fazerem efeito e adormecer...
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Alma e Espelho 
O espelho é um delator de almas, cristalinas ou manchas d’auras. Relógio implacável do tempo de um corpo que reflete a dor de um rosto, a alegria dos moços. Único presente à solidão é raio-xis de um abatido coração. Mudo nada diz, mas não há melhor espectro da verdade inefável de um momento infeliz. Vidro cravado na carne... 
A mente sempre mente, frente a ele nunca novamente. Às vezes ele te diz: és bela ou bonito, noutras, todos malditos! Te inquire, indaga e só faz lembrar. Do que vai sobrando de nós é refração de alguém jamais, talvez ou também. Exposição do ser em cada novo alvorecer... Suspiro de sim e
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não amar, mistura de ser e não ser ou estar. Sensação de bola de fogo que se viu explodir no ar. A gente olhando para ele e ele a nos olhar, dia-a-dia, a cada alvorecer, até o inevitável instante sublime-cortante, em prata-escarlate, de tudo se estilhaçar e falecer.
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Abstinência por ilusão 
De repente eu acendo um dos cigarros que já perdi a conta, malditos apenas por matar aos poucos, ineficazes em produzir euforia. É a única fonte do cérebro que produz hormônios, já que há dias ele está sem o antidepressivo que custa os olhos da alma. Tudo conspira contra o ego agora, sedento de falsas explicações, de coisas incutidas para enganar e lhe dar falsas esperanças, fonte de seus desejos, fantasias e mentiras próprias que se transformam em veneno contra si e respingam inevitavelmente nos outros. Hipocrisia é a soma das partes que forma o todo, o que chamamos sociedade. Como é fato sazonal, esperamos a depressão se instalar. Pois, em quem é frágil, medroso e covarde e leva em
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si a descrença nos mitos e na fé, não resta mais qualquer recurso para se obter ilusões, como o consumo de coisas lícitas e ilícitas, entre outros vícios e atos compulsivos ingeridos goela abaixo ou fantasma adentro. O dinheiro é mandante nisso, se é minguado então, a realidade se torna insuportável. Pegar um avião para conhecer o mundo é libertador, mesmo com risco da queda, sem ela, igual à dor. A paixão, melhor e mais eficaz, a idade e a cultura de castrações amputam as oportunidades. Nesse estado de espírito até o que se tem à mão se torna pouco, como as mesmas músicas e pessoas. É lidar só com “o que é”, sem recursos enganadores com o “finge que é”. Aí vem uma puta síndrome de abstinência pela ilusão. Uma depressão branca.
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Mas tem a hora de um grande barato, tipo delírium tremens neste estar em plena sintonia com a realidade. Prazer? Não. É, na verdade, um estado masoquista de despertar. Noutro repente, de forma inédita há uma epifania sôfrega. Vejo as fotos da praia de Ipanema infestada de pessoas, disputando um centímetro quadrado na areia e sinto o asco pela humanidade e complacência com as baratas. Quando poderia imaginar isso? Kafka me invejaria. Vejo a consubstancia inverossímil das relações humanas. Prossigo nas notícias e me deparo logo depois com a continuidade da barbárie no Maranhão. O avô enfartou ao saber que a neta faleceu com 80% do corpo queimado pela retaliação dos presidiários que não a deixou sair do ônibus deliberada - à - mente. Uma criança...! Em seguida, sigo
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os olhos e vejo a reportagem anunciando a celebração especial pelo dia da Folia de Reis: “O Papa Francisco convidou hoje a humanidade a seguir a Luz de Deus e apresentou os Magos do Oriente como um exemplo de sabedoria.” Conclusão: não deu tempo para as pessoas que foram obrigadas a ficar no ônibus incandescente de “seguir a luz”, que pena... Penso sobre tudo, um tanto alheio e apático. E caio noutra real, que a recente morte de Nelson Mandela significa muito mais a perda de um ídolo, mártir, cujas ideias já foram esquecidas. E assim, que a expressão “direitos humanos” é algo totalmente incoerente por definição, não cabendo mais qualquer discussão pontual. O momento é propício para transcender a porra do ego, mas isso é para poucos, (e patrocinados que não tenham contas a
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vencer no fim do mês). Logo, a luta é por não sucumbir totalmente a ele até se tornar um idiota completo. Tenho que procurar um grupo de ajuda aos solitários anônimos.
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Terra 
Tive o imenso prazer de pegar emprestado de um amigo o livro “Terra” do fotógrafo mineiro Sebastião Salgado. Esse magnífico artista, de renome internacional, orgulho do nosso país, é adepto do que se chama “fotografia engajada”, que pretende algo além da estética, da recompensa ou como diz o próprio mestre: “repensar a forma como coexistimos no mundo”. 
O livro trata do problema dos sem terra, daqueles que lutam por uma gleba numa distribuição desigual, vivendo na miséria por falta de trabalho no campo, único ofício da maioria. As fotos são tão chocantes que merecem com louvor os textos fortes dos não menos brilhantes
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escritores Chico Buarque e José Saramago a permearem à obra. 
O álbum começa com a foto de duas crianças sentadas no chão do que não se pode chamar de sala, como parte de uma construção que também não se pode chamar de casa, que dirá de “um lar”. Junto delas, dezenas de migalhas de ossos de animais mortos pela seca, servindo de brinquedinho de montar coisas. No meio, três cavalinhos de plástico, talvez um precioso presente de gente do bem, algum forasteiro de outrora que viajara no tempo até aquelas bandas, que por força de um parco destino, ainda anda um a dois séculos atrás do nosso. 
De repente, comecei a pensar nas crianças. Em todo o universo de imaginações que movimentam suas múltiplas manifestações de criatividade e
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aptidões. Dos emblemáticos heróis que lhes dão o senso da justiça, além da TV, dos computadores que seguem a ordem natural na formação dos mais bem nascidos, candidatos a um futuro, uma prosperidade e uma maturidade de infinitas possibilidades neste modelo de cartas marcadas da sociedade humana. Afinal, o que será lúdico naquela infância nordestina sertaneja e de todos os cantos marginalizados do mundo? Que histórias conhecem para inventar o "faz de contas", coisa tão importante à formação juvenil? Aquelas coisas saudosas como as árvores frondosas, os livros coloridos e o super-homem ou a boneca que ri. Imagine uma viajem a Disneylândia, num avião que nem sabem o que é? Quanta futilidade.
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Percebo aflito que aqueles ossos retratam um cemitério de indigentes, quando ali não se distinguem os vivos dos mortos, e que aqueles cavalos de plástico simbolizam os cavaleiros do apocalipse. 
Folheando o livro, passamos ainda por adultos com a velhice precoce, corpos e folhas de rosto rugados, tecidos epiteliais não irrigados. Seca e tudo junto, com a colaboração da fome. Mais cruel ainda: semblantes alheios ao mundo, olhares perdidos. Crianças, jovens e nem sei se idosos, todos iguais, não perante Deus, mas ao tempo que parece apenas reservar-lhes a morte, única certeza de futuro. Íris sem brilho, desesperança, representação viva e realista do mais profundo vazio: o nada.
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Tem esta foto de uma menina na mesa de uma escola improvisada, segurando o lápis e olhando para a câmera. Sinto a ínfima dor que nosso fotógrafo deve ter sentido latente pelo máximo de sorriso que conseguira arrancar dela, um cantinho de lábios para cima, mas com olhos tristes de profissão. É de emocionar. 
Por fim, para me consolar, só mesmo as palavras de Saramago no desfecho da obra: “Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeiramente no mundo que
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julgava ser seu, o lugar de majestade. Humilhado, retirou-se para a eternidade”.
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Madre misericórdia 
(monólogo para performance teatral) 
Tenho saudades do tempo em que o paraíso repousava em mim. Vivíamos a era do sublime, lá, lugar em que a minha exuberância vinha virgem e selvagem; aborígene da eternidade. Foi quando me personifiquei. Minha origem remonta àqueles anos velhos e sombrios quando injustamente paguei o preço do pecado. Justo eu, que nasci de uma vértebra: geração imoral, incestuosa, aberração universal. Ah!... Como é triste ser órfã de pai, de mãe e de infância... Carinho, proteção e afago de colos temperados... É que de fêmea eu sempre soube ser menina. 
Depois veio a época das barbaridades. Lá, travei grandes batalhas. Bons dias
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aqueles das sociedades matriarcais! Mas toda minha delicadeza, doçura, e fragilidade, sempre me fizeram tão vulnerável. Foi aí que começou a temporada da caça, isto mesmo, eu era escrava, mercadoria mais valiosa do escambo negro. 
Abomino quando se questiona minha condição ordinária, esta porção Jezebel que jaz em mim. Pois saibam: da classe das pessoas que se vende, eu sou a mais digna do perdão alheio. É que os “procuradores” do Senhor, do Criador, do Grande Macho Universal, me relegaram ao segundo plano. Benditos são: o Pai, o Filho e certo espírito celestial. Está feito, excluíram-me da magnificente santíssima trindade! Talvez seja verdade que Ele escreve certo por linhas tortas, e que o santo seja, quem sabe,
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uma entidade assexuada, equilibrando de tal modo a dicotomia dos opostos. Assim como o bem e o mal, a vida e a morte e o ser ou não ser, que atormentam a alma dos homens que têm que conviver, sofrer ou gozar, com a minha parte em seu ser e vísceras. 
Até nos céus, quem impera é o Astro, o Rei! Tudo gira em torno de si, seus interesses lácticos e interestelares. Pois em torno de mim, geoestacionários pairam as parafernálias humanas. E o firmamento não seria o mesmo sem o charme que emano como Terra, Lua e alma das estrelas findas; distas que trasladam longos caminhos para nutrir os corações e os olhos dos amantes, viajantes e poetas. 
Sou um artigo fausto bem definido de luz, bondade e tudo mais que qualifique as mais sublimes virtudes morais; também
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sopro palavras de substância: a lei, a liberdade, a felicidade e... sinto muito, também aquilo que mais temeis... 
Sem desfaçatez! Sou eu quem gera, quem aborta, quem sangra e sente a dor pungitiva do ventre! É de meus seios fartos que se provê a cria. Oh! Truculento parece meu ser agora, não é mesmo?! Sim, por isto doadora universal de sangue, suor e lágrimas. 
Ai!... Como tudo dói tão doce e brutalmente em mim. Mesmo com sofreguidão, sou calmo desejo, amor latente, libido ardente. Por favor, chega, chega disso, amor, espancamento. Eu não resisto, não resisto, acabo sempre à entrega. Ofertas cândidas ou vulgares de afeto e sedução, vícios de amor e paixão.
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Devagar, por favor... Deixo-me levar tão fácil por qualquer mão morna e terna a afagar meu cangote... Devagar... para, ai... Não, continua... Não... chega disso, depois vem o abandono e eu ficando pra trás com choro engasgado na glote. 
Nos áureos dias de poder e nobreza, no esplendor das ilhas gregas, fui trocada por meninos de pele lisa, não valia para pensar nem gozar, só para perpetuar a espécie, condição abjeta inferior. Ah, Ah! Que berço esplêndido este que move o mundo das ideias varonis. 
Mas eu já fui rainha do Egito. Lasciva, dominava os homens com meu viço e minha chispa; hipnotizava-os com astúcia felina, mais ardilosa que minhas víboras fiéis. Fui Hera, Deméter e Afrodite! Aliás, tive meus momentos de crueldade,
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requintes de morbidez, minha especialidade, como quando pedi a cabeça do santo profeta. Eu sou a célula-mãe que vicejou. O fértil e o fecundo, filha do mais cálido e primitivo sussurrar latino. Assim me fiz Félix: ditosa e propícia a tudo... O Fémino! Que acaba enlanguescendo é verdade. Por isso fui queimada em fogueira, minha cruz incandescente, sina de feiticeira. 
Ah! Quantas saudades de Joana, de Anne, Olga e Jana. E tantas operárias incandescentes, tantos espíritos desprendidos e abnegados, vítimas da ferocidade humana contra suas causas nobres imbuídas de boa-venturança por justiças de liberdade. É isso que sustenta nosso juízo: sentido casto a perceber com retidão aquilo que a intuição nos privilegia: a benevolência da vontade divina, que nada
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tem a ver com as invenções promovidas pelas aflições mundanas, fundamentalistas na salvação por mitos de perversidade, não, nada disso. 
Hoje, ainda que garimpe e me assente em terras firmes por aqui e por ali, ainda devo cobrir meu rosto com trajos de falso pudor em alguns cantos do mundo de mentes estéreis. Às vezes, nasço e morro sem que qualquer cavalheiro experimente a beleza do meu semblante. Como alguém pode julgar com antecedência algo que não vê sorrir ou chorar e nem sequer pode revelar a sua face? É assim que eu vou perdendo o respeito que sustenta toda minha graça... Santo Deus, quanto impasse. Quanto rancor, quanto ódio a desferir por tantas injúrias, não?! Mas não vos inquietem aqueles que vestem a carapuça
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das minhas acusações de moral assassínio, brutalidade, desdém e omissão, nem meus reflexos que se omitem perante a força atávica dos machos. Não, não pecarei por revanchismo contra ninguém. Afinal, todos somos vítimas da própria estupidez. 
Como Mãe da terra e dos filhos da terra, cansada, só necessito de trégua. Deste jeito alço meus punhos aos céus com uma bandeira branca. Humildemente eu peço, suplico paz. Paz para suspirar alívio e apreciar meu cio. Paz para gestação em ócio de toda minha cria e atividade. Paz para viver a quietude do bem-estar e existir, ou apenas, enquanto haja uma réstia de chama que faça pulsar o que se anima em mim, simplesmente. Paz para seguir em frente. 
Eu os abençôo, pois!
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Fixação 
Eis um espaço-tempo de poesia, embora eu não seja poeta, me isento. Isto é apenas um hiato, um momento. O encantador não existe nas letras apenas, pois que na vida em tudo é repleta. Eu sou só um colecionador, esmerado estafeta da alegria e da dor. Se muito, um esteta... Ah! Dos olhos femininos, faço predileção, graduado em maldosos e leais, uma meta se não. De toda magia de seus fitos, os sorrateiros me instigam mais. Tem os malabares aflitos de desejos que arrebatam até os peritos em suas cruzadas sensuais. Faço meu pupilo as mais frágeis íris hesitantes, das que me valho dos atributos, devolvendo-os fulminantes. Que não passam de soslaio, frente os delas, que nos
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arrebatam de improviso, sem ensaio. Derretem-se com viço, como serpentes dando o bote a qualquer instante, de repente, a seu bel prazer e serviço. Brilho, contraste e matiz nas faces da santa ou da meretriz, tanto faz, quando fastuosa volúpia lhes conferem o fixar, quase venais. Sublimes olhares que caçam suas presas aos pares, como os caças aeroespaciais em guerras não menos imorais. Ora tristes, caudalosos de tanto amar, escondem o que clamam por dentro aos gritos. Corações partidos, de juras e promessas, iludidos, dos maldosos que corneiam com outras córneas numa cama limpa, num antro ou na esbórnia. Não há ainda profissional ou artista que cure a dor fadada aos amantes que se perdem do encontro à primeira vista. É a função do amor fazer-se ver e ser visto,
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toda entrega mesmo no imprevisto. Então, vê se te enxerga! Não viver de pálpebras cerradas, revezando as pupilas pros lados, como quem não liga pra nada. Com desculpas de remelas e ciscos, cegos são aqueles que não correm o risco. Os cílios são alados como borboletas afeitas ao pomar, feitas para fazer pouso em outro olhar. Assim, sem piscar, pestanejar, insisto: do fundo dos refolhos, amemos muito, lábios nos lábios, olhos nos olhos. Já!
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“Eternura” 
O melhor da vida em qualquer tempo é aquele louco amor que arrebata à primeira ou última vista, quando acontece uma espécie de simbiose que parece coisa do destino, “coisa do diabo”; magnetismo no olhar, grito interno de socorro parte a parte que vem anunciar uma mudança de estação nas almas desabitadas a fugirem da serração que outrora furtivamente ocultavam. Nova visão da vida com seus segredos revelados. Quanto maravilhoso desatino! É um momento raro de sintonia, sincronia e graça e algumas vezes, ao mesmo tempo, é verdade, quanta desgraça! Existe sim uma química sensual, uma empatia extra- sensorial, um fenômeno de pele, tempero da derme, um cio espiritual. Não à toa então
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que os dias mudam e tudo o que antes parecia tédio, penumbra em tom cinza- concreto, volta a ter cores vivas novamente, como um belo prisma do mais nítido arco- íris que fazemos brilhar sobre nosso baú de ouro: a pessoa apaixonada, espécie de espelho de nossa alma maculada. Isto mesmo, único instante em que amamos outrem mais que a nós mesmos, o próximo e Cristo há de abençoar! O coração bate em harmonia todos os dias enquanto dura uma paixão. É o prazer da sutil percepção de que se está sendo admirado, percebido, o que rejuvenesce o espírito e dá forças para novas aventuras. Coragens, além do enfrentamento sem esforço dos pequenos problemas pessoais e cacetes do cotidiano, da rotina, da desmotivação ou desvalorização profissional e tantas
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pendências, porém tudo isso passa a ser trivial. Tem aquele do bilhete ou do flerte, do colegial ou da euforia e festim do carnaval, com cheiro da química do perfume da lança misturado ao ozônio de viúva ou espanhol, sem dor, odor sem igual... Só clima enamorado. E o antigo, o atual, protocolado ou informal. É um sentimento único e pleno de pacifismo, desejo de proteção e afago, algo que se resume num abraço gostoso, um olhar cúmplice de emotiva docilidade que traz sempre um beijo além do esperado para incendiar todo corpo que sua em meio às chamas sexuais. As noites são de suspiros aliviados, voltamos a dormir como crianças quando viramos para o lado. 
É o que chamamos de conquista, com jogos perigosos de estupenda adrenalina,
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orgulho quando pensamos: “Como este, jamais!” Que se pode ter tido outro ou mais de intensos, mas nenhum deles é igual, pois que guardam as particularidades em cada estilo de perfil do amor selado. Damos adeus (e é deus quem nos dá) à amarga solidão que acossa as almas de bem. Fim da carência de libido, de reconhecimento, de atenção, quando nascem os elogios e valorização das coisas mais acanhadas, negligências e abstinências daquele acolhimento de ombro, de colo, uma palavra amiga. Ou simples distração que um longo tempo impõe aos casais, suprimindo-os de pequenas atenções de seus detalhes, necessidades um do outro num convívio de tão grande cumplicidade em problemas estruturais, embora valha a advertência, legítimas sejam as
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particularidades individuais. Enfim, algo vital a substituir todo carinho que um dia inevitavelmente vamos perdendo dos nossos vovôs, tios e ternos pais. Como aquela viagem dos sonhos à Paris que deixamos para trás pelo simples medo de voar. Amados e amigos que se perdem no tempo exclusivista da morte e não revemos jamais, ao menos na mesma forma e âmago. 
Se isto não é amor em sua matriz original, isento da vulgaridade de conceitos sociais. Se não tem algo a ver com o divino, digam-me o que é mais?! 
“O AMOR ETERNO É O AMOR IMPOSSÍVEL.”... Essa é de Queiroz, apenas elucido a contradição, ok? 
A paixão, a verdadeira paixão, só é real e tem este caráter ímpar por sua condição inata de impermanência. Se não existe
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aquele “algo impossível de se viver”, não é mais “este amor”. O que sobra é o que vemos nos relacionamentos duradouros, outro tipo em valor, não menos legal, sequer questionável em sua magnificente sublimação. Contudo, não é propriedade do supremo sentimento fugir, abster-se de sua generosidade que, como água de farta fonte, dar de beber a quem sinta sua sede, sem arbitrário monopólio como se tratasse de artigo fausto de consumo e vitrines. Por isso, não só os preconceitos e todas as dificuldades sociais impedem a permanência de um amor arrebatador, porque ele transcende rótulos e eras, de tão nata no homem é sua condição de quimera. Assim sendo, ele por si mesmo é efêmero e seu penoso processo de renúncia, sua sina. Não fosse isso o que seria dos poetas? Mas
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ele não é só vossa licença, é de todos. Desvivido, só resta a despedida, de coração apertado e olhos caudalosos para viverem futuros saudosos, mal desfechados, numa existência curta demais, mesmo se em ecos espirituais. Mas triste e infeliz de quem não rouba ao menos uma confissão, um beijo e um abraço, onde o sexo é secundário, vício ordinário. Apenas algo que a ternura calmamente espera. 
Quando, por fim, cada um se perde de vista, fica apenas uma ou outra fotografia desbotada, uma carta de amor amarelada naqueles teréns insondáveis, analógicos ou digitais no baú da memória, agora de mais reles metal, fantasias repletas de fugas, beijos molhados e juras. Tudo pro fundo inconsútil do não saciado, que só ajuda a somatizar mais enfermidades. Ah! Quantas
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promessas, lembranças de um tempo de hormônios exaltados, do novo ao idoso, bem exalados. Que reste ao menos o consolo de um coração desapaixonado poder confessar em segredo, ainda que em tom de falsa sensação de ser por si mesmo enganado: “Um dia eu amei e fui amado!”
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Perdidos de vista 
Olá! Como você está?! Tantos anos que perdemos a conta! Penso em você com muita saudade, aqueles tempos que éramos praticamente grudados. Foi uma oportunidade profissional ou um amor que nos fez ir embora? Você foi para os EUA, é isso. Estava naquele avião que caiu?! Não? Papai e mamãe, morreram faz quase quinze anos e, no entanto, eu não lhe vejo, sequer tenho notícias suas há bem mais tempo. Esquisito, não? Como está de saúde? Engordou? É que, como meus pais, a última imagem que tenho de você foi de quando lhe vi pela última vez. Bem melhor, óbvio. Quanta jovialidade! Casou e teve filhos? Não mora mais lá é? Tem notícias do Beltrano? Também nunca mais vi. E
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Cicrana?! Morreu de enfarto aos quarenta, sabia? Faz dois anos, justo ela, descontraída, sacana. Lembra-se daquele dia? Você... eu nunca ri tanto! Quanta lealdade, cumplicidade. Qual era o nome da sua mãe mesmo? Ela fazia uma comida. Hum! Inesquecível. Caramba! Aquela nossa molecagem. Estou tentando lembrar a casa também. E qual das duas escolas? Que memória a minha! Você não ficou com mágoas por causa daquela nossa briguinha, ficou? Aliás, depois eu percebi que também estava errado. Não guardei ressentimentos e... cheguei a lhe pedir desculpas? Pois é, vai ver a gente um dia se encontra novamente... Não. Parece tão difícil quanto a loteria, mas seria magnífico. Espere aí. Talvez sim, mas... Também poderia ser constrangedor, não poderia? Se é que nos
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reconheceríamos. Vai que um de nós mudou muito, por fora ou por dentro, isso pode dar vergonha, de si mesmo ou do outro, já lhe aconteceu? Verdade, que diferença faria? Afinal, ainda que fosse uma agradável surpresa, nada nunca é como antes, apenas euforia, lembranças como cópia em preto e branco de uma gravura de Gougan. Como o enfarte da Cicrana que feneceu... Fulminante! Antes ela do que eu! Ah, ah, ah... Desculpe-me. É que com o tempo parece que essas coisas vão ficando um pouco banais. Você é mesmo quem eu estou pensando, não? Vai que é um dos falsos! Se bem que, se não há convívio, somos amigos mesmo? Podemos empregar o verbo ser no presente? Platônicos?! Porra, mas isso é ridículo até no amor. Voltemos ao protocolo. Éééé... Então é isso... Meu
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Deus! Será que você pode estar entre aquela lista de desaparecidos que um dia saiu de casa para trabalhar ou ir ao bar comprar cigarros e nunca mais voltou? Assassinado, foragido de si mesmo, sua vida ordinária. Ou... Será que você já nem existe, morreu? Ou terá sido eu? Bem, se assim for, igualmente, que diferença faz, não é mesmo? Se não me conhece, diga: ― Não é daqui não. ― E eu serei cortês: ― Desculpe, foi engano. ― Depois que nos ramificamos raramente “nos lembramos”. Eu aqui e você aí e guardamos na mente inconsútil um tempo que congelamos agradavelmente simples e fútil e nos iludimos com um aparato inconsciente de que a pessoa querida “sempre estará lá”, não importa quem e o lugar, desde que querido um dia. Mas dá uma sensação
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estranha quando tão raramente como agora, paramos para pensar, me lembro de você e percebo que nunca mais vamos nos ver, não dá? Afinal, como o passado, em geral, das pessoas só percebemos as saudades, quando sabemos que se foram. Vários nomes nos vêm. Amigos, parentes, amores. Porém, pensemos juntos e otimistas sobre esta vida e sua logística que faz com que tantas pessoas se percam de vista: Sem aquelas derradeiras más notícias. Imagens, lágrimas e rituais de despedida e passagem, nossa jornada terminou da forma devida. Não sofrer como eu sofri tanto perdendo uma velha amiga de escola e só sabendo um ano depois, nosso último encontro na rua, despedida como que uma falcatrua atrevida. Cá entre nós, seja eu quem pensa que sou, você quem penso que é, se é que somos e
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estamos, peguemos alguém de exemplo, pronto. 
Pessoas entre si tão queridas um dia. Não é muito melhor em vez de se perder para a morte, perder para a vida?
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A uma diva no divã 
Pois é... Faz alguns dias me sentia esquisito e pedi meu velho amigo Antônio da farmácia para tirar minha pressão. Ele disse que não tinha esse poder e que se tivesse, não o faria em consideração a mim, e que então, iria medi-la. E batata! Lá estava ela em ritmo dos embalos de sábado à noite: dezesseis por doze! Essa coisa só havia ocorrido uma vez, há três anos quando estava num momento delicado da minha vida, justificável: pressão de fora que contamina a de dentro. Mas agora isso me espanta porque estou vivendo um momento de absoluta tranquilidade emocional. Desde então, venho tentando entender esse disparate e, de repente, me veio à luz: estou sim vivendo uma circunstância se não
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inusitada, pouco difundida, ou seja, uma fossa sexual ou depressão se for mais adequado. Tanto viço sem nenhuma correspondência, não que não perceba minha atração, mas porque aprendi não me permitir a isto pelos conceitos infalíveis de moralidade social. É triste constatar que desperdiçamos o nosso melhor ciclo, mais maduro e perito, que quer dar tanto de si para quem quiser ardentemente. Não vou sair por aí mendigando, passei desta fase de vulgaridade e desrespeito com os outros e, acima de tudo, comigo mesmo. 
Descobri o fato por um sonho, masturbação mental, porque físico não levanta mais o astral. Uma excursão longe de onírica. Aquele fantasma que persegue a gente dia e noite nas horas menos entretidas e algumas cheias também que têm como
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personagem uma beldade qualquer, subjetiva paixão, subjetiva mulher. Uns aviões Boeing 747 da Vasp como diziam outrora, um monumento que, às vezes, desfila nas passarelas, as calçadas da cidade. Ânsias lascivas não dão muita poesia, só a vivacidade lhe constrói melhor imagem. Antes de descrevê-lo no analista, vou tentar desabafar no papel, divã dos não poetas como eu. 
Nosso cenário não pode ser uma cama, nem quadrada, nem redonda, isto é lugar- comum, inóspito aos amantes. Deve ser qualquer canto de um escritório ou beco escuro, e neste caso, a plataforma não importa, corpos ardentes dispensam conforto, futilidade e simetria. 
Que comece simples, como encostar meus lábios aos seus, carnudos e carmim,
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até apertar o ritmo das pleuras fazendo acordo nossas línguas encharcadas. Depois, ainda cavalheiro, hei de descer devagarzinho e apreciar aquilo que muitos não se dão conta da delícia, o ombro que ampara o colo em banho-maria. Até vir a parte de maior prodigalidade em harmonia, onde a natureza foi por demais generosa contigo. O que vêm aos pares e deve ser lambuzado com primazia, como sopa quente de palmitos frescos no inverno infernal, comido pelas bordas até chegar ao cerne de cada um; e fazer sua dona tremer sem medo de qualquer consequência, nem da vermelhidão que minha barba de lixa fará vestígios dois ou três dias seguidos. Pouco importa se virão. Depois, minhas mãos mornas que nunca soube aclarar por que, descansarão em
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tuas ancas, aquela parte que tu exibes com graça entre a blusa modinha e a calça da onda, sensuais todos os dias e que parecem ter sido inspiradas em ti pelos grandes estilistas, embora jamais comparáveis ao Criador, que preparou os moldes do teu corpo em formas de cristal. Como não iria despertar tanta fantasia e criatividade nos machos sedentos de amor como eu? 
Tu és roliça, de pequeno porte como uma potra puro-sangue em puberdade; difícil é saber se resistiria passar dali aos lábios às ínferas, explorando tuas diversidades ainda bem mais untadas e com aquele odor de cio a me produzir demência. Isto tem que passar antes, é verdade, pela veste íntima provada quando já bem embebida do que te fiz produzir em delírios, como que febris, misturada aos pelos não
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menos, frutos da tua agitação. Aí sim, faremos rolar a cerimônia do banquete final onde se refestelam os corpos, o animal que tira a veste mais íntima da presa, de bruços, com a avidez e a pressa dos brutos. Eu, agora cavaleiro, não perderei o maior espetáculo varonil que é ver de cima a garupa se estendendo, os mais belos flancos de carne lisa e macia a se arreganhar e pedir clemente por traspasse do que de mim então estará esperando, ansioso só para ti. Isto mesmo, após esta excursão meticulosa no teu corpo, chega à hora do homem se fazer homem e da mulher se fazer mulher com máxima intensidade dos seus instintos. Que Deus nos abençoe! 
A impetuosidade se misturará em dor e prazer, e eu pegarei as rédeas do teu
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cabelo para manter o controle da tua entrega, e não largarei enquanto não te ver gritar meu nome em súplica pedindo o quanto mais possível. Mais ainda, quando ver sair dos teus olhos de louca, algumas lágrimas. Ah! Esse momento único em que não se quer saber de mais nada, nem dos filhos, quando drogados nos sentimos os mais amados e magnificentes pervertidos. Vou me regozijar quando te vir quase desfalecida e recobrar-se com o brado longo e sofrido no masoquismo que dá o clímax, fim em êxtase do sublime espetáculo marginal, o melhor diálogo da terra, de gozos e sussurros, linguagem universal. 
Depois vem a bonança, pausa de apaziguo, beijinhos no cangote, troca silenciosa de delicadezas no fantástico
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contra-senso, agora como crianças das mais ingênuas. Conversa fiada; tu com a cabeça no meu peito e eu com a minha aos ventos. Até que a tua deslizará aos pouquinhos, sem nem saber como ou por que, querendo começar de novo o enredo, quando agora quem cerrará os lábios serás tu, sem que sequer eu sugira. Você explorará meu corpo, meio que por vontade do arbítrio, meio que por simples curiosidade de sentir o meu sabor e a sensação da minha ilha de amor sem fronteiras, mais uma vez exclusiva ao turismo de teu deleite. Chega a minha vez de ser devassado e torturado. Usado indiscriminadamente; na inteireza da minha devolução a ti, para me fazer o que bem entender, seja no corpo, seja na alma, ambos ardentes de prazer.
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Amanhã espero chegar à farmácia do Antônio e ver de volta meus “doze por oito”, se não, que meu sangue faça pacto com a diabetes e minhas veias se danem; se isquemiem, se derramem. Melhor morrer de excessos de pressão por amor e libido do que de preocupações, abandonos e desencantos. 
Acordo!
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Meu amigo de Portugal 
No mês de julho do ano passado tive a grata surpresa de receber um correio eletrônico do meu velho e querido “amigo de Portugal”. Ele veio de férias ao Brasil e claro, para nossa cidade natal. Escreveu o número do seu “telemóvel” para eu ligar. Em Portugal, onde vive faz mais de 20 anos, telefone móvel, se fala assim. Não, não pense nada, não se disperse da leitura, ora, pois! 
Então eu liguei. Só ouvir a voz dele depois deste tempão já foi uma emoção especial. A gente brincou como sempre: ― E aí você ainda tem cabelos? Aquelas tolices que, nestes casos, parecem que param o relógio, tempo em que convivemos jovens com todas as boas coisas relativas:
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Os trotes por telefone, a primeira namorada... Mas ele disse que ficaria apenas mais três ou quatro dias por aqui, por motivo de trabalho e depois pediu o meu “telemóvel” que iria me ligar para marcar de tomar um café lá em casa. Eu dei o número e emendei: ― É “celular” cacete, já esqueceu o português do Brasil cara?! Demos mais umas boas risadas e nos despedimos. 
Era fim de semana, confesso que me tomei de um entusiasmo sem igual. Tínhamos trocado dois ou três e-mails nestes quase vinte anos sem nos ver e comecei a transformar-me de ansiedade: arrumar a casa, pensar em “algo mais” para o café, além de criar as fantasias repletas de dúvidas: será que ele se casou? Ou de tão mulherengo que era, acabou homossexual?
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Isso às vezes acontece, o cara enjoa, sei lá. Bem, o que eu sei é que chegou o domingo e nada do telefone tocar. Não tive o cuidado de salvar seu correio eletrônico. E eu a pensar, bem... Afinal ele tem sua família a cá, muitos amigos, poucos dias... Na segunda, já estava igual a uma donzela apaixonada, meio esperançosa, meio desiludida... Será que morreu alguém da sua família, ora, pois?! Já na terça-feira uma empreitada de trabalho me distraiu e ele certamente partiu de avião para Portugal, graças a Deus, porque se fosse dessa para melhor ou coisa “menos pior”, contrariaria o ditado de que “notícia ruim chega rápido”. 
Para ser sincero, eu nunca me sinto a vontade em procurar velhos amigos, mesmo antes desse episódio. Parece que as
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impressões dos tempos idos são as que ficam. Aí, criamos expectativas a nos esquecer que a vida de todos nós passa por transformações e que não só a gente, mas todos eles amadureceram e blá, blá, blá. Daí que me valho agora da tecnologia, um correio eletrônico é bem menos passível de constrangimento do que uma voz ou um semblante. Ou talvez seja melhor mesmo ser esquecido no adeus para sempre, que não deixa vestígios, frustrações, falta de assunto ou decepções peremptórias, como uma valise velha no fundo do armário. 
Não estou a falar isto com qualquer intenção de julgar meu amigo, transferir remorso ou outras coisas do gênero, de jeito algum desferiria tamanha feiúra a uma pessoa que tem vaga cativa no meu coração. Tenho certeza que o dito cujo deve ter tido
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algum imprevisto como acontece com qualquer um. 
Mesmo assim, quem sabe depois de efetuar o check in, lá no Tom Jobim, ao passar pelo portão de embarque, em meio às despedidas, com duas palpadelas nos bolsos da frente e de trás, entre parentes a amigos, ele não pensou em meio tom um pouco para si um pouco para eles: “Está tudo aqui? Estou com a sensação de esqueci alguma coisa.”
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A morte de Maria Alice 
Morreu Maria Alice, aos 49 anos. Suicidou-se. O amor que sentia por Ricardo, seu segundo marido, que a abandonou definitivamente pedindo separação por conta de se envolver com uma mulher mais jovem, dilacerou seu coração por dois anos. Ela era inteligente, sensível e muito passional. Mas o ato de atentar contra a própria vida, como ocorre com todos que testemunham coisa igual, não deixariam seus amigos e sua filha Marina menos chocados, claro. Apenas mais intrigados, levando-se em conta que o "mais" é sempre o de cada um. Marina era filha de seu primeiro casamento. Ela não convive só com a dor da perda da mãe de forma tão trágica e surpreendente, mas a
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angústia de entender essa escolha, o que também não parece, a princípio, nada do que uma legião de pessoas passa, daqui ao extremo oriente. Mas há um elemento maior. Marina tem em mente, do amor de sua mãe pelo seu pai, um intrigante precedente. Ela sequer conheceu seu progenitor, daí não ser possível adjetivá-lo melhor do que isto. Ele morreu de câncer, poucos meses antes de seu nascimento. Soubera que sua mãe teve um luto desesperado, quase a perdeu na gravidez, seu parto foi prematuro e, depois, quarentena e lactação dificultosa. Teve até que fazer a ligadura das tubas. Eram lembranças latentes e mais claras, agora para ela, as crises de sua mãe. Histerias e depressôes assolaram sua vida por anos, onde três podem sugerir dez quando se
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combina idade, lembranças e dores de infância. Ela se lembra, na casa dos seis a sete anos, de sua mãe na cama, encolhida, tremendo. Mas também se recorda de que a partir de uma época, já pré-adolescente, antes mesmo de conhecer Ricardo, que a mãe já havia melhorado muito, era quase outra pessoa, ou a mesma de origem, no caso. Até largou os medicamentos. Quando Ricardo se casou com ela então, foi como se nada de tão ruim tivesse acontecido em sua vida. Marina não via Ricardo como um padrasto, mas como um tio, um grande amigo, uma referência. Por isso, também sofreu muito com a separação deles, embora fosse outro tipo de dor. Na mente de Marina, ficam agora muitas perguntas que seu analista trabalha com ela sem parar. ― Eu, que já estou formada, casada, não fui
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razão suficiente para mamãe sentir o dever de viver? Quando pequena eu era um propósito, mas agora não mais? Será que era, mesmo quando bebê? Será que eu deveria estar mais com ela no momento da separação de Ricardo? Será? Será? 
Nesse caso, é a culpa que entra em primeiro lugar, em todas as pessoas, pois culpar-se parece a solução inconsciente mais cômoda para explicar tudo que transcende à capacidade humana de compreensão sobre os malogros da vida que carcomem a alma. Culpar-se é explicar, ainda que falsamente. Mas isso passa e passou para ela também. Dado momento da terapia, meses à frente, parece que as coisas começaram a se elucidar, o que, paradoxalmente faz criar o ponto culminante da dor. É que tudo que se dá à
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luz é parto, cuja dor é inerente. Ou a dor do ficar, condição não menos comparável, se lembrar da sensação de desamparo pela falta que a mãe faz em qualquer idade. Todos nossos momentos crianças para sempre os faz inevitavelmente órfãos algum dia. Elas não poderiam morrer nunca, ao menos antes de nós. Mas isto é egoísmo, o que de pior poderíamos dar-lhes em troca. Assim, na última sessão, ficou no ar uma elucubração tentadora, ainda que sôfrega. É a morte em si, a do outro ou a nossa para o outro, carne sem vida, cérebro inerte, o que mais atemoriza o ser humano? Ou alguns deles, ou a perda? Qualquer perda, sustentada pela posse e seus desejos. A perda de uma pessoa que amamos dói mais pelo sentimento de compaixão por ela ter deixado a vida, ou por ter nos deixado, pelo
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sofrimento, abandono, a falta e saudades que nós vamos sentir? ― Então, mamãe suportou perder um homem que amava para a morte, mas não perder o outro para vida?Foi a perda, a humilhação por ela derivada, a derrota numa competição desigual que a motivou de desistir peremptoriamente? 
Afinal, corroboremos com ela, o seu pai no câncer fora mais humilhado, terminou seus dias dependendo de quem lhe trocasse as fraldas. Ou seria a meia idade que por si só condena as mulheres ao abandono pelos conceitos machistas sociais? Na verdade que seus corpos desabrocham lindos mais cedo, em compensação deformam-se não menos precocemente. O medo da solidão? Não, Maria Alice era professora universitária,
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amava a profissão, tinha muitos amigos. Assim, Marina punha em jogo até o amor que sente por seu marido e o que ele diz sentir por ela. “Existe amor de verdade no coração dos homens? Será este amor pelo outro, sensual, fraternal, de compaixão, que seja, maior do que o amor próprio? E tudo no fim não se resume em dependência?” O lote inclina-se para a afirmação hesitante de que até a auto piedade, quando alguém grita internamente, demonstrando que sua auto- estima está abaixo de zero, é pura supervalorização de si mesmo e o amor incondicional que sente pela própria personalidade. Tais ideias vão brotando em Marina com sentimento de dó, mas com certa pitada de ressentimento por sua mãe, processo comum, outra reação trivial em perdas de tal dano e modalidade. A sua
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religião e crença em Deus, que está dentro de um padrão normal, quer dizer, pessoal não praticante, nunca satisfez as perdas menores em sua vida, não seria esta, a maior até agora, de sua mãe, ainda recente, que a confortaria. E da forma que foi, principalmente, não haveria desígnios divinos que lhe promoveriam a cura da alma, fissura em sangria. Por fim, até quando permanecerá este luto confuso em seu coração, no todo de seu ser em tamanha aflição? Para piorar, ela não deixou carta, nem sequer um bilhete e ingeriu barbitúricos em sua própria casa sozinha e ainda tendo o cuidado de tentar arrumar as coisas, quer dizer, se desfazer de tudo. Os teréns que fazem um episódio à parte de sofrimento para quem assume a árdua incumbência. Mais ainda, deixou todas as
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providências de seu crematório, tomadas e pagas. Houve frieza, parece, consciência. Embora este ato solitário, ninguém jamais pode saber o que de fato passa nos neurônios incandescentes dos moribundos de alma. 
Elas são uma ficção, mas estão encarnadas na realidade, onde há vítimas ou candidatos em potencial na curva estéril da existência infestada. Uns que levam a vida sedentária, fumam, bebem, devoram fast- food poliinsaturados, gosmam o corpo, matam-se aos poucos e sequer enchem as cabeças dos familiares como as de Marina. Apenas porque sua mãe fê-lo à vista, o que eles, os compulsivos, fazem a prazo e que ao menos a mim, o autor desta história, não enganam. Que engolem e mascaram tristezas de perdas de amores e danos
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gerais, de morte, de insatisfações pessoais nada muito diferentes de Alice. Pois que apenas há um liame tênue do imponderável onde só um cretino, ainda que se diga douto e se ampare em teorias, livros e postulados acadêmicos, ousaria cometer a infâmia de julgar. Não posso explicar onde os fios se embaraçam em infinitos e insondáveis mistérios da vida. Não fosse nada o empecilho a encerrar este enredo de forma agonizante, ao revelar como dói o irrevogável, o não consubstancial em Deus e o lado cruel de se sentir amor ou acreditar que ele exista tal como o vemos, tão vulgarmente, incluído na dualidade mundana do pensamento: o bem e o mal que assombram o mundo, como fantasmas que em nada se diferem de toda nossa estúpida forma de viver na abstração. Que a
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mamãe descanse em paz, sem evolução, hierarquia, princípios éticos, convívios, incluindo também tudo de mais formoso e belo que é a vida em seu potencial. Apenas paz que pressupõe vácuo, que por si só é ausência de dor. Logo, alguma coisa, o substrato da vida, o côncavo, que cria espaço para o trago do destilado que acalanta goela abaixo ou o chá de manufatura indiana, seu sabor e aroma na mais legítima porcelana chinesa. Nada, contudo, que atenue o dó que sinto de Maria Alice e Marina, que são a representação do meu eu e o da maioria das pessoas do mundo, hediondo coliseu.
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O Balanço 
Mãe é quem pari ou quem cria rebentos, seus ou alheios. Filhos da engendra do próprio ventre ou de quem gera aos quaro ventos, como ratos, sem perceber, em esgotos e lixões, encaixotados em qualquer alvorecer. Filhos de berços esplendidos, de grutas obscuras ou filhos da puta. 
Por atos de prazeres inconsúteis pela excitação no sexo que se é escravo e um desejo inconsciente de também perpetuar a espécie... O ser humano faz uso do imaginário de consumo para incutir que há beleza no que não passa de mais um sacrifício animal, engravidar, mero fato social, como urinar ou respirar.
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Vale lembrar que um embrião é tido pelo organismo como uma coisa abjeta e dá vômitos às mulheres pedindo a expulsão daquilo. Depois desta fase acostumada, pesa uma barriga que por nove meses faz estragos, das vértebras aos dentes, além de tirar a graça das moças que as têm como dádiva, magnífico presente. Os seios caem, posto que cai um ser nos braços da Eva como se de uma nave, de pára-quedas. 
Até que vem o ato de dar à luz, com dor pungitiva do ventre, algo que parece o Javé bíblico gritado de prazer a seu bel estado de ser em alma vingativa do alto da babel: “Eis sua desgraça por colocar mais um no meu inferno, ó Mulher Jezebel!” 
O leite a natureza dá, às vezes em pedra, mas dá. A generosidade desta Mãe maior é a pitada doce e bela nisso tudo. Mas
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as mamas racham, sangram e suas condições de brotos em flor murcham em favor do quanto sugam sua seiva, do filho, sua fome e fervor, além das leis de Newton, mais horror. 
Com a voracidade de um feto mais farto e abençoado, sorte dos que têm tudo no lugar, vem como previsto e todo mundo há de dizer: “que lindo!” sobre algo que se supervaloriza como se distinguíssemos cada pedra cinza e disforme das muralhas da China, antes que um escultor supostamente lhe dê beleza real, forma e cor. 
Junto ao sacrifício lácteo, tem muitas fezes para limpar, farta perfumaria em noites de um mal dormido sem luar e berros formidáveis aos ouvidos. Quanto mal estar. Em suas mãos ou berços, bebês ninados em balanço, no embalo, tentativa de
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merecimento deles de um pouco de descanso. 
Por isso o puerpério é um período em que muitas mães desejam abrir mão desta majestade. Artimanha do inconsciente feminino descontente em seus hormônios discrepantes e incandescentes que sentem medo, em tão tenra idade, de tomar posse e ser a rainha deste império. Conflito esquisito que surge se assim se é mulher... Por inteiro ou pela metade? Confronto cruel entre a maternidade e coisas individuais de sua vaidade. Dilema de solidão, como se a mente fechasse para balanço. Como se cria isto? Não vem com manuais! Queremos ser mais que animais! 
Diz-se que ser mãe é padecer no paraíso. Somando-se a preocupação para o resto da vida, onde um quarentão será
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sempre o "meu menino", com tudo isso, difícil é imaginar o que seria padecer fora dele... é de se merecer a ISO do inferno! Mas ser mãe é também ser inevitavelmente cruel sem intenção, da racionalidade nos bípedes humanos, quase que uma imposição. 
Passado isto, falando do lado da cunha que, aliás, elas também são ou foram um dia. O rumo das almas do porvir, a que desígnios servirão? Dignas de elogio ou alcunha? Bem, felizes daqueles que tem um regaço materno imanente de calor, aconchegantes mãos mornas a lhes embalar nos braços, com requinte do mais puro e incondicional amor. É a mulher em seu maior ato de heroísmo! 
Porém, elas morrem como qualquer existência de ávidos sentidos, manifesto que
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pulsa. É aquele momento em que cada filho desejaria até que a ordem natural das coisas entrasse junto a todo o enredo enfadonho de parir e ser parido, existir e ter existido. Do moço ou senhor, homens e mulheres, maduros e imberbes o momento maldito, para sempre um vácuo profundo a falta dela deixa na gente... Que nem o papai dá jeito... Que as coisas dele têm o seu universo próprio a ser descrito, não menos imperfeito. 
Falta de um alivio no cansaço do corpo e alma em exaustão, da atitude não tomada que fez se perder o bem almejado, alvo de algo oportuno ou amado, melhores intenções imbuídas, mas abafadas em tomadas mal decididas... Ah! Que bom nestas horas é poder repousar a cabeça naquele ombro e chorar em alto e bom som,
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sem receio de ser o que se está sendo, mau ou bom. A porta fechada, no cantinho da cama. Na sua cabeceira sentindo no máximo as pontas de seus cabelos casquinando no rosto ombro adentro. Apenas naquele sereno e implícito “eu te entendo”... Sem complicação e sentenças, - que acalanto de mãe é silêncio e presença. 
Pois que sempre há dias e instantes em que nada nem ninguém, melhores parentes, amigos ou amantes substitui a falta do colo e do calor materno que não mais se tem como antes... Burro-velhos, cheios de bons orgulhos e maus ranços, tantas vezes nos sentimos cada qual um órfão infante, tal como uma criança numa praça vazia, fria e sem encanto, solitária, brincando em seu balanço.
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Três destinos 
Antônio e Marta, há 20 anos passados, num lugar que só pode ser segredo: 
― Oi amor! ― diz Marta. 
― Estava ansioso por te ver querida! ― Emenda Antônio. 
― Vamos sair daqui querido, alguém pode nos ver! 
― Espere... Saiba Marta. Eu estou muito esperançoso no concurso da Petrobras. Beijam-se por longo tempo e ele continua: 
― Eu te amo muito, não quero te perder. 
― Eu também, mas não dá... Você está noivo e... 
― Então, espere as coisas se acertarem e quando eu receber o meu primeiro salário,
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largo ela e ficamos juntos. Podemos fugir, compro passagens para bem longe. Toca o celular dele, é a sua noiva ligando para falar do enxoval. Ele diz que está tomando um chope com seu amigo Fred. Desliga e emenda: ― Eu tenho que ir, te ligo amanhã querida. 
― Está vendo? Eu não suporto mais isto Toni. Vamos terminar aqui, é melhor eu seguir o conselho da Elaine. ― Fala Marta com lágrimas nos olhos. 
― Mas querida?! 
― Saiba, eu te amo e te amarei para sempre, mas... Não sei... Não dá mais. 
E ela sai às pressas. 
Antônio e Fred, hoje na esquina da Casa D’Ângelo:
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― E aí amigo, há quantos anos! ― Diz Antônio. 
― Meu Deus! Toni... Como vai você cara?! 
― Tudo indo. 
― Que beleza! 
― Então Toni, não me vai dizer que casou com a Martinha, que aquele grande amor da faculdade vingou?! 
― Não, não... Que isto... Diga-me, e você se casou? 
― Ainda não, continuo aquele mulherengo. O que é que você está fazendo da vida? 
― Trabalho no ramo de cartões de crédito, não está dando para reclamar não... 
― Entendi. ― Esta resposta de Fred foi adequada à própria sentença de Toni, que mostrou que está no osso certamente.
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― Eu ainda estou na Vale, você sabe... Estabilidade... 
― Claro. Pô, eu tenho que ir Fred... A gente tem que se encontrar com mais calma para se lembrar dos velhos tempos e colocar o papo em dia, né? 
― Sem dúvida! Anote meus telefones... 
Pediram guardanapos ao garçom, trocaram números e endereços eletrônicos. Aqueles fantasmas que quase sempre pegamos borrados e ilegíveis quando a roupa do encontro chega da lavanderia, numa sensação ao mesmo tempo de culpa e de alívio. 
Marta e Elaine, um mês depois do encontro de Fred e Antônio, por ironia do
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destino, na mesma esquina em frente à Casa D’Ângelo. 
― Amiiiga! ― Diz Marta, efusiva. 
― Maaartinha Querida! ― Se abraçam balançando os corpos como gangorra: 
― Como vai você? 
― Tudo indo... 
― Pois é Martinha, eu perdi a mamãe faz uma semana... 
― Ah! A dona Sílvia! Ela fazia o melhor pudim de leite que eu já comi. 
― É... É a vida... E você? 
― Eu estou me separando Elaine. 
― Nooossa! Mas você ainda é nova, aliás, não mudou nada! ― O tom desta exclamação tem dois sentidos: serve tanto para o caso dela ter deliberadamente largado o marido, quanto para o caso de ter
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levado um pé no traseiro. Continua a Elaine: 
― Então Marta, eu agora estou de licença prêmio na prefeitura, quero pensar um pouco em mim. E o Fred, o Toni, tem notícias deles? 
― Não, nunca mais os vi. 
― Também não. Andei procurando vocês no Face, mas não acho ninguém... Aliás, você era louca pelo Fred lembra? 
― Hein? Ah! Isto é coisa do passado, besteirinhas da juventude, você sabe. E o Carlos Alberto, não é este o nome do seu filho? 
― É, ele se formou, está casado e trabalhando em Rorâima, acredita?! 
― Veja você! Elaine... Estou com pressa, vou levar o papai ao médico! Me dá seu e-mail?
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― Claro Marta! 
Por fim cada uma passou seu e-mail para outra que certamente só renderá uma mensagem e uma resposta, se muito, porque na casa dos quarenta não se tem mais novidades: novos filhos que nascem, novas oportunidades de emprego, novos amores. Assim, cada uma vai para uma direção da avenida, pensando saudosamente nos tempos idos e cada defeito que viram uma na outra como obra da perversidade do tempo e da competição feminina. Elaine logo se distrai ao ver um belo vestido na vitrine de uma loja. E Marta dispersa pensando intrigada: 
“Afinal, o certo é Rorâima ou Roráima?”
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Um dia um Ipê 
Despertei em plena aurora num amanhecer de mais um dia qualquer. Vi a sala avermelhada. Curioso, fui à janela. Minha janela é uma exposição de quadros, tipo estas porcarias modernistas. Natureza morta, exceto um ângulo à direita que com certa dificuldade me acomodo para ver, entre dois blocos de concreto, um hiato de natureza com montanhas lá no fundo, bem longe. É de lá que o sol nasce para mim. Foi então de onde a sua luz ofuscou meus olhos com aquela chegada especial e vigorosa em seus tons ultravioletas irradiantes. Corri para achar um filme velho de máquina fotográfica. Percebendo que isso não existe mais, peguei meu último raio-X de pulmão, delator de um fumante, que ficava guardado
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perto do sofá numa estante. Voltei ao canto incômodo para refazer uma brincadeira de criança. Ver o sol no seu formato original em relação à distancia da Terra. Coloquei a chapa sobre meus olhos, ergui a cabeça e lá estava o astro rei, meu deus que sustém minha vida e posso arcar com o ônus da prova. 
See see the sun. Reproduzi a capa deste disco progressivo do Kayak. Acompanhe comigo, pois não resisti e liguei o computador para ouvir a canção tema do LP e trilha desta manhã. Fiquei a lembrar sobre como as coisas são efêmeras e me veio à mente a casa velha anterior onde tinha só para mim um ipê amarelo no jardim. Pensei na frase que escrevi sobre o quanto de aparato há para o prazer de um mero instante. Parece que o orgasmo rege esta
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orquestra, mas é assim no saborear um prato predileto, em quinze minutos acabamos com algo que alguém na cozinha levou duas a três horas para preparar com muito amor. 
Descobri sozinho que um ipê vive o ano todo seco, esquecido, a ponto de eu nem saber do que se tratava, se mais um limoeiro ou pé de jabuticaba, tamanha ignorância em relação à história da minha ancestralidade. Até que outro dia, em mais um despertar de meu corpo, cujo relógio biológico já ficou biruta faz tempo, me deparei com algo que me fez pensar estar ainda na cama, sonhando. A tal árvore se revelara inteiramente florida em amarelo na minha janela, como um quadro de Maxfield Parrish. Me emocionei com tamanha beleza daquele ipê. Uma das coisas mais lindas
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que contemplava na vida e entendi o porquê. Me sentia um príncipe na sacada da varanda do segundo andar da casa. Foram dois dias que acompanhei aquilo, porque no final do segundo, já percebia que as flores secavam e caiam. Ele era como as borboletas, pensei com ar de botânico. Dois dias de esplendor por ano, contra o resto de reclusão, suplicio ante as secas e todas as intempéries das estações. Jesus aprendeu o sacrifício com a natureza. E a teoria da evolução mostra quão árdua é a sobrevivência. Enquanto os pinguins e as águias entregam suas almas e entranhas, nós humanos, lastimamos por tudo. Eu sou um belo exemplar da espécie, admito. 
Compreendi um pouco a ordem natural das coisas simples esquecidas. O que importa é a qualidade e não a quantidade.
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Que o que é belo e poético deve ser breve, passageiro, do rosto bonito à melodia principal, a cena especial, para não ser vulgar e fazer assim os objetos fins, os seres animados que desfrutam, se distraírem. Porém, por seus ávidos sentidos, os homens logo enjoam e desvalorizam suas graças recebidas e por isso se fartam e usurpam tudo de bom da vida. Resumindo este barato: são aqueles momentos raros em que sentimos um arrepio das ínferas aos pelos dos braços. Eu senti isso no deslumbramento do ipê e como sempre acontece com esta canção e elepê. 
Portanto, o sol nasce todo o dia, aqui meio que quadrado em meu amanhecer. Mas atento, agora com uma atenção astronômica, verifico que sua órbita leva poucos minutos por trás das montanhas a
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sair e produzir seu brilho maior, o resto é trabalho e suor a semear e nortear a Terra, sua causa maior. Não seria eu a pleitear a longevidade, a eternidade... Se no que consideramos breve existência, - e não faz sentido sê-la? - em curtos instantes, puder raiar um pouquinho aos olhos dos que esperam algo de mim, terei feito minha parte e me tornado uníssono a todas as coisas tais como são, membro integrante com a inteireza das minhas células e membranas, contribuindo com a imensidão. Ao contrário da sociedade e suas artimanhas de ilusão, entendo neste momento que sou parte disso e a mim não cabe ser o centro pelo qual algo deva girar em torno. Coadjuvante, não sou a estrela deste magnífico espetáculo, sobra me
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orgulhar muito de ser parte integrante do estafe. 
Terminou a canção, certo? Fui à cozinha passar um café. Com o resto desse espírito, o coar lento e irritante se fez tolerante, da demora valia a xícara apreciada em curtos goles daquilo frasquinho junto ao aroma, cara das manhãs. Definitivamente de pé, o sol já não entra mais. A janela parece se reduzir a uma quadrada, vedada e blindada de avião. Vejo-me diante da tal exposição, aqueles quadros cinza do concretismo. Estou no que é mais certo chamar de recinto, a mesmice dos dias condenados, falando do apê, por fim me fazendo de pedreiro. Quem sabe me enforcar com meu cinto?! Ah, ah! Melhor, tomar absinto...! Neste vernissage sofrível, desta feita me ressinto, pois parte de seus
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curadores é o como me sinto. Não, isso não é possível, minto! Não sou capaz de curar dores... E isso dá uma sensação dos horrores...
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Resumo da Ópera humana 
“Sempre aqueles que dizem de antemão que lutam em nome de Deus são as pessoas menos pacíficas do mundo: como crêem que recebem mensagens celestiais, têm os ouvidos surdos para qualquer palavra de humanidade”. (Stefan Zweig) 
E sempre o fora, antes e depois da vinda de seu Mártir... Então, enquanto não retorne o Messias; os discos voadores não desabrocham aos olhos dos seus céticos; os espíritos não cumprem sua eterna e agonizante missão carmática; qualquer operação de um “cavalo de Tróia” não leve os homens de volta ao passado para corrigirem seus erros ou viverem seus mundos lunáticos; e os filósofos prossigam
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sua peregrinação sem fim, que tal substituirmos tantos dilemas e todo este investimento de espírito em questões duvidosas, pela cura das doenças malditas, na recuperação das matas virgens ou das baías submersas no asco das latrinas humanas e nos óleos derramados por navios mercantes? E a camada de ozônio que derrete nossas calotas polares, o eixo da terra que retira gradativamente segundos dos nossos dias já tão fugazes? Para que se refugiar na ingenuidade perigosa sobre a curiosidade por tudo que se diz sobrenatural ou relativo a um passado inútil de consciências mórbidas? Que afinal não mata e nem esfola, mas afeta o caráter e atrasa a evolução da alma. Enche o bolso de líderes e oportunistas, mercenários inescrupulosos de seitas, de pérolas, de
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indústrias cinematográficas, do lazer e editoriais, além de cartéis farmacêuticos e petrolíferos que fazem escravos e cobaias, parte da miséria alheia. 
A lua um dia já foi sobrenatural, o “Calígula de Camus” ansiou por ela no auge da angústia dos seus limites de poder. Hoje a conhecemos de cor e sabemos bem que ela não tem nada que supere a realidade além de uma beleza ímpar, ao contrário do que pensavam em grunhidos aqueles pré- históricos patéticos. Este “Uno” de Platão, Espinosa ou Einstein é privilégio do conhecimento deles que são minoria no mundo. O gênio de cabeleira e língua esbugalhada virara um clichê que ofuscaram muitos outros de sua estirpe. Que a filosofia se atenha as questões racionais porque afinal, o próprio Sócrates, espécie de pai, descobriu
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que “nada sabia” como todo cidadão ordinário. E a maioria dos seus sucessores que se verteram para o romantismo inútil, experimentou frustrações inimagináveis, alguns inclusive entregando suas vidas na alta mocidade com tola pureza d’alma. A fome e a miséria no mundo nos levam a dispensar urgentemente o supérfluo! Aliás, a natureza em si não produz supérfluos e muito menos é redundante em quaisquer de suas manifestações. Só devemos aceitar como verdade o que um número expressivo de espectadores experimentarem, com os devidos ônus das provas. Devemos aprender com a lenda de Tomé que nos deu antes de tudo, uma grande lição de humildade. Deste modo o que a gente vê pode provar, é a miséria e a fome ao contrário dos discos voadores e vídeo tape do passado, sonho
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maior do homem de uma engenhoca matadora de saudades. As favas com os prosélitos e sectários, Papas Pios, Dalais e Aiatolás! Vida depois da morte só interessa para os mortos que vivem nela, ainda que tudo se resuma a nada, anestesia eterna e geral! Aqui no Inferno humano, no dantesco, o que pesa mesmo é morte prematura: de homens, mulheres, crianças, animais em extinção e toda e qualquer forma estupenda de vida animada, danem-se por quem! Por isso chega de cultos, mitologias, orações, meditações e rituais! O que importa é “mãos a obra” com amor a tiracolo e compaixão de dar a esmo... o resto pouco importa, deve esperar até que o ser humano recupere sua maturidade, senso de integridade. Fácil sim é temer a Deus como o povo alemão temia o Reich. Melhor é acreditar no juízo final e
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aguardar a salvação que se compra em prestações mensais como planos de saúde e funerais. Afinal, se o mundo está para acabar, que importa os novos degelos glaciais? Que importa a miséria africana? Alerto, pois, os individualistas e artificiosos... Talvez, ao soar das trombetas vocês tenham uma surpresa aterrorizante, pesadelos com camelos adentrando em sangria, buracos farpados de agulhas celestiais. Somos todos Deus herdados, e só! 
Por enquanto, todo este embuste como entretenimento, tudo bem, vai...! Como a vasta literatura de ficção, contos de fadas e carochinhas ou até mesmo estas minhas vaidosas e dispensáveis quimeras no caos.
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Contornos baldios 
Na flor da idade, casas dos vinte, depois de viverem alucinante paixão, Marcos e Andréa deram cabo do casamento em menos de um ano. Ao nono mês Andréa pediu o divórcio. Ela era filha única, muito regulada pelos pais. Então, estava confusa. Sentiu na vida conjugal uma liberdade que nunca havia experimentado, isenta da tutela deles. Por mais que amasse Marcos, passou a ver o compromisso matrimonial como empecilho para fazer uma porção de coisas que faltaram na sua fase de solteira como sair para festas, relações com amigos e, embora esta ideia a culpasse terrivelmente, até mesmo ter mais experiências com homens diferentes. Também pensava que uma
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gravidez interferiria nos planos profissionais, com o sonho de cursar a faculdade de artes plásticas. A sociedade chama isto de casar para abrir caminho, mas julga como sendo ato premeditado, o que pode ser injusto e arriscado em muitos dos casos, como o de Andréa, por exemplo. 
Marcos custou a se recuperar do baque, deu graças a Deus de não terem filhos, que seria um golpe ainda mais difícil de suportar, passar por todas aquelas intransigências e burocracias do processo, quando o filho é tido como um objeto de posse disputado em litígio. Contudo, mais experiente, passados alguns meses ele já estava se casando novamente. Era do tipo que não conseguia ficar sozinho muito tempo.
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Andréa passou a curtir a vida. Fez uma viagem aos EUA, matando o sonho de andar de avião, frequentou as noitadas, teve relações sexuais e tudo mais que permeia a alma de uma juventude liberta. No entanto, seu coração era frágil, depois de dois anos nessa rotina de solteira, emplacou em mais dois relacionamentos sérios que juntos não passaram de cinco anos. Em ambos os casos a causa da ruptura foi a traição de seus amantes. Até que por insistência dos pais, dos quais nunca deixou definitivamente de sofrer beata autoridade, acabou por casar com um homem bem mais velho, sem amor. Era o filho de um grande amigo de família. Em pretexto de melhor reflexão, esta coação foi gerada pela necessidade cultural que as mulheres têm de ter filhos com todos seus rituais. Como não se
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recomenda fazê-lo depois dos trinta, seria um peso doloroso para Andréa não dar netos a seus pais. 
Antes de toda essa engendra, ela apelou para o Marcos meio que por ato do inconsciente. Descobriu o endereço do seu escritório e certo dia, quando ele saia, abordou-o como se fosse um encontro casual. A diferença é que ela alongou a conversa deixando claros a sua disponibilidade e o telefone “para qualquer coisa”. 
O tempo perverso em sua relação de “fases insignificantes da vida” não sustentou suas precárias intenções. Marcos ainda estava naquele momento do casamento que, se não está mais numa lua de mel, ainda há entusiasmo... Nem que a custa de alguns tragos rotineiros com os
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amigos para afastar o tédio ou, quem sabe, umas puladas da cerca para simples afirmação de sua virilidade, condição patética do sexo masculino. 
Embora a cidade em que viviam não fosse das maiores, os compromissos de Marcos com sua empresa de informática e a rotina de Andréa no cuidado de um lar, já com três filhos, não possibilitavam a eles se cruzarem muito pelas ruas e pontos sociais. Isso acontecia uma vez por ano, se muito. Mesmo assim, nesse caso, como prova de uma postura muito elegante e tão rara entre casais separados, se cumprimentavam e se falavam com interesse e dignidade, o suficiente para provocar ciúmes tolos em seus novos parceiros. É provável que para eles, um divórcio deva ser uma declaração de combate, preferencialmente com
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bastante reivindicações de direito mesquinhos, e por parte das mulheres, rejeição doentia aos enteados. 
Passou-se mais de vinte e cinco anos dessa vidinha. Até que Marcos, então na casa dos cinquenta, se apaixonou por uma de suas estagiárias, de vinte. Miriam era o nome dela, que proporcionava a Marcos uma recíproca paixão entusiástica, típica deste estágio onde a euforia confere efêmero caráter às previsões mais otimistas. Em um ano sua vida estava do avesso. Separado da esposa e morando num flat com a Miriam, se sentia revigorado, como se rejuvenescesse dez anos, apesar dos negócios terem caído bastante em função dos caprichos da nova parelha.
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Dez anos mais tarde, Andréa não havia mudado de vida a ponto de fazer jus gastar pena de qualquer escritor, se não no sentido de dó, principalmente sobre seus sonhos em direção às artes que a fizeram largar a universidade e não passar de uma exímia bordadeira. E Marcos foi mordido pela cobra que generosamente anunciara o bote, mas que ele estava surdo para ouvir. Levou um fora da Miriam no segundo ano de relacionamento e voltou para a ex-mulher, aquela cujo nome nunca importa, tamanha vítima que é da sociedade machista. A mesma mulher que, depois de dez a vinte anos de matrimônio, desaprende a ser indivíduo para virar contrapeso social. Vive de pensão, das alegrias alheias, sucesso dos filhos, lembrança do corpinho do passado e esperando, como última esperança, ter seu
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marido de volta para viverem a reincidência do “faz de contas que somos felizes”. Mas incrível, foi isso mesmo que aconteceu. 
Marcos não se abateu tanto com o fora da Miriam, nem pelo fato dela tê-lo trocado por um rapaz com a metade da sua idade. Certa vez ele confessou para um amigo: ― Isto era de se esperar, as pessoas são muito previsíveis. Além disso, foi melhor para mim também, afinal de contas, mais alguns anos, tudo cairia em rotina. Veria seu corpo como vejo meu carro na garagem, não é mais novidade; começaria a peidar a vontade na frente dela e ela usaria a privada de porta aberta... Ah! Às vezes, eu tenho uma puta saudade da minha primeira mulher! ― completou melancólico. 
Os dois chagavam à casa dos sessenta e tantos. Primeiro Marcos, dois anos
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depois Andréa. Pareciam estar em paridade no que se refere aos ideais humanos de vida. Financeiramente bem resolvidos, cada um com seus filhos bem encaminhados e, claro, cada qual com casamento estável. 
Naquelas poucas vezes em que se encontravam, mantinham aquela cordialidade. Agora com mais frequência, pois têm em comum frequentar clínicas, consultórios médicos e locais de terapia ou temor no que se chama ironicamente de melhor idade. A amizade ganhou mais colorido em suaves tons pastel, findo os quentes. Como um voo para as Bahamas, calmo e tranquilo, sem nenhuma adrenalina. Havia a liberdade de poderem estar sem seus respectivos cônjuges, já que a saúde de ambos ainda não necessitava de amparo físico ou psicológico a virar estorvo dos
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parentes. Com a sabedoria e a segurança que só a vetustez imprime maior honestidade, se é que há, suas migalhas de encontros começaram a ficar mais desprendidas, a ponto de poderem conversar sobre amenidades, incluindo histórias em preto e branco sem nenhum constrangimento. 
Certo dia, num breve café após o horário de RPG, cada um confessou para o outro sobre a comodidade de seus casamentos, enaltecendo o enorme apreço que tinham por seus esposos, embora as entrelinhas delatassem claro, que não eram plenamente realizados no amor. 
― Pois é. ― disse Andréa ― Depois de nossa separação eu... ― Proferiu um rápido resumo desta história de brilho fosco. Em seguida Marcos emendou: ―
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É... E eu... ― Fez ele a resenha da sua não menos turva. 
De repente, ao fim do diálogo renitente, fez-se um silêncio longo e cáustico. Houve um fito mútuo e lacônico. A cognição de ambos projetou uma imagem similar, clara e conformada, mas também de grande consternação. Tantas aventuras, tantas buscas... Contornos baldios. Cada um tinha, diante de si, a única pessoa que um dia verdadeiramente amou. “Para que levar tudo tão a sério? Correr tanto, buscar tanto?” Cada cabeça pensou não necessariamente nesta ordem ou desordem das coisas, repletos de inúteis talvez, se e ou.
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Recordar 
Recordar não é viver, é recriar, logo, do ditado “quem conta um conto aumenta um ponto", faz-se valer um bocado! 
Recordar é recrear, felicidade sem sofrer, pelas dores entender, valendo sim, por que não e sem culpa até um leve lacrimejar ao anoitecer? Sem chatear os outros com nossa exegese (!), viajar mesmo na maionese. 
Recordar é pousar em terras copiosas, porto seguro, quintal ou pátio de outrora, tocando o sino da memória e colocando “nossas crianças e jovens” pra fora, em mentes acesas ou ociosas, a toda e qualquer hora.
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Recordar é tudo isso ao nosso bel prazer e, do súdito ao xeique, a sós ou em companhia dos mais chegados, poder tecer na vida nosso remake, de "curtas ou longas metragens”, dos melhores momentos vividos, todos seus babados. 
Recordar é também esquecer e ser esquecido, de todo rosto ou apelido, coisas de neurônios, liga não, isso não nos faz mais ou menos queridos. O importante é o amor do todo e não do nosso ego indivíduo. 
Não recordar é maldade com o "mim" ou "consigo", que saudade não se mata, se faz alvorecer!
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Daquilo que aprendemos e afinal é o que tentamos passar aos nossos filhos e netos. Arduamente fazê-los compreender o que para nós já fora um conflito... 
Que apesar dos pesares, ainda que nunca plena... 
Ah! A vida sempre valeu a pena!
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...Roney, Ana, Sônia, Douglas, Vera, Leda, Ronaldo, Márcia, Senhorita Meireles, Silas, Antônio, Deodoro, Jorge, Deméter, Beltrano, Antônio, Edson, Marina, Jezebel, Fred, Tony, Maxifild, Themístocles, Andréa... Um funcionário da Prefeitura de Petrópolis e uma mulher cegueta ainda não identificados...
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... Aos poucos vão sendo divulgados os primeiros nomes repletos de sobrenomes que não importam mais se fazerem distinguir, das vitimas do que estão chamando de tragédia do voo cego. Mal identificados, entre áridos escombros, saiu a primeira lista parcial de mortos no acidente com a aeronave desaparecida há seis meses. Ela foi descoberta na semana passada inteiramente destroçada no meio da floresta amazônica. Autoridades, ainda que seus títulos e cargos não passem de chamamentos insignificantes, ainda não sabem afirmar a origem e destino do voo, cercado de muitos mistérios, uma vez que se insere em um vácuo no espaço-tempo. Tudo é incerto, imponderável. Provavelmente logo serão confirmadas outras vítimas. Parentes aguardam notícias
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nos aeroportos das capitais, mas são entes não necessariamente deste acidente. Podem fazer parte das estatísticas de pessoas desaparecidas que um dia saíram de casa e nunca mais voltaram. Ou acidentadas em automóveis e balas perdidas a esmo. Até a véspera da descoberta das ferragens, eles não haviam dado falta de ninguém. Todos estavam lá, como parece ainda estarem agora. Tempo que para no liame entre o côncavo e o convexo espaço relativo das coisas que são. Maiores detalhes só acompanhar na TV, caixa preta que revela as tragédias humanas. 
Supõe-se que haja fãs que iriam assistir ao Show de Alice Cooper. Dois casais apaixonados, recém-casados informais e no papel. Também foi confirmada toda a tripulação, enfim, que o
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menino Jesus proteja a todos neste momento de luto opaco. 
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Não, Deus não é onipresente para o supérfluo. As necessidades universais, sem falar das africanas, os ocupam bastante. Por isso não há justiça divina. Vários corruptos, perversos e empedernidos morrem idosos, gozando de boa saúde no conforto de seus lares suntuosos pagos com o sacrifício dos miseráveis. Este ditado "aqui se faz, aqui se paga" não encontra estatísticas relevantes. Tudo isso são abstrações religiosas, de um povo cuja maioria é de pobres, ignorantes e medianos, precisando mesmo de mecanismos de consolo e ilusão para seguirem em frente os patéticos ardis de suas vidas. Devemos sim nos esforçar para
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sermos melhores, bem sucedidos, mas tem o fator misterioso que rege as leis do mundo. Em segundos os milagres ou malogros podem bater na porta de um ou de outro. Não temos o controle. Somos responsáveis por nossas escolhas sim, mas com muitas pressões. 
Por anos convivemos com varias pessoas, sejam familiares, amigos ou colegas, absolutamente frágeis, dos bons caráteres aos maus. Lembro-me de alguns chefes que, em seus pequenos mundinhos representados por suas empresas, administram as pessoas com arrogância, se valendo da prerrogativa do alto nível de desemprego ou outras dificuldades, para demonstrarem o que consideram superioridade. Executivos: altos empresários que acumulam salários
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exorbitantes e caem na armadilha do prazer e dos excessos que suas fortunas podem comprar; os nomeados em cargos públicos que maquinam com os fartos recursos do poder e manipulam destinos, além de verbas do erário em benéfico de suas ambições. Gente que vive trancada em casa acumulando extratos para se manter nas estatísticas dos mais isso ou aquilo na capa da Times. Homens religiosos que fazem da fé, má fé, martírio, paixão e fanatismo de sofredores anônimos. Todos carregando à tira colo seus egos narcisistas, tamanha vaidade desmedida. 
No coro das pessoas de bem, tem aquela legião de entes que lutam obstinadamente por seus sonhos, outros que travam batalhas para largar vícios,
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conquistar melhor posto, diploma, fama, pós-graduação ou simplesmente qualquer lugar ao sol a custos altos e sacrifícios inimagináveis. Destes bons e portadores de valores nobres, também há os que se arrependem, se culpam, os responsáveis que perdem noites de sono por suas dívidas, pela prova do concurso ou vestibular. E ainda os que rogam serem queridos, admirados, que se preocupam em ser orgulho de pais ou filhos. Todo mundo desejando superar-se, corresponder às exigências selvagens da sociedade, onde subsistir no sistema de capital é cada vez mais penoso. Crises, índices, leis de oferta, slogans, toda esta parafernália. Junto a isto, violência e tecnologia trabalham juntas sem saber, na contramão. O consumismo e o entretenimento levam todos a quererem
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experimentar os próprios limites, tão tentador tudo parece. Como efeito colateral vem à ansiedade e com ela novas doenças depressivas e obsessivas. Acontece é que o mundo se reveza entre os que buscam ajuda médica e espiritual e os que se ocupam de novos deleites e aventuras com os recursos cada vez mais pretensamente eficientes da modernidade em meio às fórmulas químicas, super-naves pesadas ou ultra- leves. Maquinários digitais que dão prazer, agilidade, ganho de tempo, porém que matam ou mutilam corpos e mentes. Depois, profissionais especializados catam desculpas como agulhas em palheiro, enquanto clarividentes se calam frente ao dilema de assombrações perdidas nos óbitos espetaculosos. É a moral mediúnica com as beatices do espiritualmente correto.
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Dinheiro, grande mantenedor da contemplação comovente da aldeia humana! Por ele se vendem almas e se movem montanhas com suor ou sacanagem. Valerá mesmo à pena tudo isto? 
Ainda que angustiante, só há uma triste constatação, a de que todos nós estamos equivocados, adoentados em nosso hardware de carnes e nervos. Que a vida por tão rara não merece tanta circunspeção e obstinação. Não vale tudo o que exaltamos com tanto apego, apenas ser vivida um dia atrás do outro, sem grandeza de concentração com as armadilhas humanas que se deslembram da beleza de uma simples rosa amarela, do amor ou do bate papo à toa com os bons amigos num dia comum do bem-viver. Não, definitivamente este ritmo retilíneo torpe
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uniformemente acelerado não faz bem aos homens. Afinal, de inteligentes, vaidosos, arrependidos, ambiciosos e sonhadores, o trágico e espetacular acidente de um domingo comum com o Air France AF 447, levou sem aviso, consulta e anuidade de Deus, à sua revelia, 228 almas deste mundo cão. 
(04 de junho de 2009) 
*** 
Voltando a ficção. Bem... 
Neste obituário torturante que sai aos poucos, à medida que os corpos carbonizados são reconhecidos pela arcada dentária, pedaços de documentos
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plastificados e vestes, percebo distinguir quase todos além de mim. Mas há os que não. Velhos, adultos e jovens, entre homens, mulheres e crianças. Apesar disso, ninguém me parece estranho. Todos tinham uma variedade de sonhos perdidos e realidades projetadas, sãs e vis, como já fora anunciado antes. 
Quem eu realmente conhecia, são os que eu mesmo criei. Muito pertinente para quem fez o mesmo com o espetaculoso acidente. No entanto, réplica de uma verdade recente como o voo Frances. 
Também a qualquer momento pode ser a próxima realidade, tragédia anunciada e badalada. 
Festa para os patrocinadores que sustêm mídias, que nutrem espectadores. Por seu turno, estes se alimentam de
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perguntas, dados de sangue e morbidez. Clientes finais fechando a corrente do consumismo imoral. Pois que depois, quando entra no âmbito protocolar: justiça, investigações e perícias, viram um enredo chato demais e todo mundo esquece, de olho num novo lançamento mais atraente nas bancas, redes e telejornais. Anos pesados para os parentes, estes sim, sempre plugados ao fato, até saberem as causas, espera de um mínimo de justiça. Eu luto para não esquecer os fatos e assim ser menos inútil e solidário a eles que em nada são piores e menos merecedores ou mesmo afortunados do que tu-ele-nós-voz-eles. 
***
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Há compaixão no mundo. Há de todo tipo. Têm os que se compadecem com a miséria africana, da indonésia. Mas a dor e o sofrimento estão espalhados em diversos lares: de um pop star, dos empresários do tradicional ocidente capitalista e machista de cristãos brancos ocidentais, que se consideram principais. Mas não. Todos sofrem aos poucos, em distâncias relativas, sem manchetes, em cantos de páginas como qualquer alma anônima esquecida. O soldado na guerra, o terminal de câncer, o que feneceu de estômago colado, Ebola, os pais do filho da bala perdida e o assassino executado na cadeira elétrica. Os famosos, o peso de será, mais lembrados por isso... 
Somos todos irmãos. Marfim e ébano que viemos do mesmo cerne e iremos para
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as mesmas cinzas, mesma verve, denuncia esta variedade de traspasses desvairados. 
É difícil entender a morte, ela transcende nossas faculdades intelectuais. Sentimos a dor dos entes e queridos idos, consagramos nossas dificuldades mentais, pois sim. É propriedade do ego levar o apego consigo. Há sofreguidão demais. Não é de nossa cognição afetiva tolerar dor por milhares de CPF que morrem no varejo, se não forem de nossos círculos. Apenas os que se vão de uma vez só, num dia e instante fulminante como na tragédia de um voo cego. Só ficamos abismados com os espetaculares, espetáculos nos ares. O que está na negligencia ou no incógnito, eventos sensacionais com a TV e suas trilhas emocionais. Choramos se o mesmo for bem
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representado no cinema. Realidade e ilusão nos confundem. 
Assim, esta crônica derradeira cumpre sua sina de misturar isso, a dor real com a da ficção existencialista, o que ainda não sei bem a diferença. Sina dos cronistas? Nestas horas, como fora nos últimos acidentes tanto do Air-France, como o da Gol e da TAM, assim como o Tsunami asiáticos ou boite do sul ... Não menos intrigado, me pergunto e não acho qualquer resposta mais adequada à maior questão que me aflige: 
“Vida: vales muito ou não vales nada?!” 
Não há caminho do meio Mr. Buda. 
Assim como pouco importa se haja mais dela depois, uma vez que jamais seria como esta, da forma que nossas almas são
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apegadas e vicejam a beleza da terra e da água. 
Tantas destas crônicas eu escrevi então, misturando minhas verdades com divagações e enredos falseados, não? Juntei a primeira pessoa com terceiros, criaturas recheadas de sabores ácidos, doces e alegres. Dançarinos da corda bamba. Mesmo assim, não me contento com nada. Estou sempre frustrado e preso nesta alfândega esperando o sinal verde para liberdade. Não há felicidade plena se há o sofrimento alheio. 
Sabendo que a vida é repleta destes impulsos falíveis que nos fogem totalmente às escolhas, será que vale mesmo a pena tantos planos, sonhos e anseios? Preocupações excessivas? O que os penados diriam se pudessem prever ou
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voltar para expressar o ato milésimo de segundo antes do coração parar de bater? 
Ou se houver este tal de “um outro lado?” Afinal, tanto desprendimento de energia do espírito, para que fim? 
Por que meio buscamos a felicidade? Chorando a miséria própria ou colecionando status em perfis indômitos nas tramas reais ou virtuais? 
Durmo ansioso pelo beijo na minha amada no encontro de amanhã e no caminho “bum”! Desapareço em segundos, deixando-a esperando em Bagdá ou Amsterdã. Ainda têm culpas, promessas, dívidas e renúncias. Nada que também possa ser mais sanado. “Problema” passa a ser uma palavra vazia, estéril. 
As parafernálias do mundo, a mixórdia dos sistemas de civilização... Tudo trazendo
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muita tentação e junto, à ingratidão em uma mó de vidas perdidas em tempos esparsos. No dicotômico e tragicômico viver do dia- a-dia que não passam mesmo de meras crônicas banais. Sofrimento sem fim dos seres humanos e desumanos ao bel prazer de um destino esquisito. Muitas tão bem imbuídas, deixando entes chegados absolutamente desamparados. Lagrimas e rinites crônicas, renitentes narizes rubros úmidos de tanto chorar para sempre. Sina de existir sem sentidos e propósitos... 
Bendita seja a vida ingênua ao contrário da sociedade moderna em cada era temporal presente. Cada uma, amorfa anã, ansiosa e clemente de calma, se enganando em fé maometana ou cristã. Malditas desonras e dores humanas, chagas crônicas das almas.
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Niterói, 15/10/2014. 
Denuncie possíveis erros de distração, ortográficos ou gramaticais e me de uma força. 
Leia mais crônicas, ensaios e pensamentos em 
http://www.claquelife.com.br 
Contato: 
silva.themistocles@gmail.com 
Obrigado, 
Abraço. 
Themístocles Silva Neto.

CHAGAS CRÔNICAS DAS ALMAS

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    Chagas Das Almas 0 zxcvbnmqwertyuiopasdfghjklzxcvbnmqwertyuiopasdfghjkl Themístocles Silva Neto mqwertyuiopasdfghjklzxcvbn
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    Chagas das Almas 1 Dedicado a minha irmã Kitty, uma pessoa por quem sinto um orgullho especial nesta vida. QNC, Silva, Themístocles ISBN Reg. 348.398 Livro 462 Fl. 58 - 08/08/2014.
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    Chagas das Almas 2 Prefácio Num momento em que a obsessão pelo corpo perfeito, pela carreira de sucesso e pelo consumo do último lançamento – seja do smartphone ou do sapato – preenchem as redes sociais e nossos dias vazios, Themístocles Silva Neto rompe barreiras, revelando as feridas do tempo em que vivemos. Nessas crônicas, as chagas de nossas almas, tantas vezes disfarçadas ou ocultas, são denunciadas pelo escritor que, ora brincando com palavras, ora fazendo humor com sua própria dor, as expõe sem anestesia ou esperança de cura. Nascido em Petrópolis, cidade imperial que se esforça por manter o brilho do tempo em que era cidade veraneio da antiga capital federal, o autor passeia por seus bairros antigos, ladeiras e escadas sem espaço para o colorido fantasioso. As Chagas Crônicas das Almas nos
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    Chagas das Almas 3 mostram que estamos todos em um mesmo barco, rumo a reviver mágoas não curadas, enfrentar a solidão e questionar nossa existência, muitas vezes distanciada do ponto de partida, quando tínhamos certezas que se perderam nos imprevistos da jornada. Deixando qualquer hipocrisia de lado, partimos nesse voo de crônicas rápidas que nos ajudam a lembrar o que éramos e abrir os olhos para o que nos tornamos, enquanto percebemos na paisagem e no passageiro ao lado que, no que diz respeito a sonhos, frustrações e lembranças, o espaço-tempo faz pouca, ou talvez, nenhuma diferença. Apertem os cintos, hora de decolar. Adelia Di Buriasco. (Professora e amiga) Recomenda-se ler seguindo a sequencia.
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    Chagas das Almas 4 Sexo, Drogas e Rivotril Andei me cuidando, parei até com o Rivotril! Depois de fracassar com a dieta da lua, voltei à dieta da rua. Italiano de queijo e presunto é massa! Junto, Coca-Cola, além de churros, tipo assim: sobremesa. Tirei férias mês passado e fui com a família para Holambra-SP. Conheci uma moça, Inês, num acidente. Tropecei numa tulipa, foi inesperadamente. Torci o tornozelo. Ao menos comia croissant de salame fino e sobre à mesa nada de chulos, doces vulgares do Cebolinha. Dia seguinte tive alta do hospital local e voltei no primeiro voo, que o anterior estava lotado. Ponte aérea São Paulo-Rio de Janeiro. Que medo! Prefiro buzum Castelo-Cascadura sem barrinha de cereais! De volta também à
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    Chagas das Almas 5 Niterói, engessado, retornava das férias ao Clube de Remo, de volta ao rink. Me pediram uma programação de eventos para o inverno, desanimado, comecei propondo um swing... Muito sexo! Perca o emprego, mas não perca uma parca rima! Claro que isso é mentira. Voltei à rotina de casa- pastelaria-trabalho-casa. O Falabela me ajudou a abandonar a TV Globo, a começar por sua Falafeia de abertura num programa churros sobre sexo e afros. Só pode gente tipo ele e Mala fala, se você disser isso, vai para a cadeia, vai entender! Desconfio que estou com LER. Causa? O controle remoto no eterno nada de bom para ver. Ler! Tentei sim retomar aos livros, desisti. Faz mais de um ano que não pratico, atrapalha para escrever. Me sinto cover sei lá de que ou quem. O que sei é que sinto isso, porém.
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    Chagas das Almas 6 “Ai porém!”, resolvi ouvir mais música e neste relato chato estou com o magnífico Paulinho da Viola nos ouvidos. Isso é a coisa que faz jus aos dias, aliás, sempre fora, parece. É tarde e já se foi o sábado. Vou deitar e, ao acordar, devoraremos dois frangos assados com a pele bem tostada, hum! É a tradição brasileira semanal da celebração do dia de ação de desgraças: Domingão do Faustão e depois do Mengão, que já tem a quarta especial após a novela. Tudo com bastante colesterol da sambiquira, - adoro! – “esta parte é minha!” Sambiquira é o nome popular da cloaca ou se preferirem, o anus da galinha. Perdão a grosseria. Melhor ir de Wikipédia: “Sambiquira é a porção terminal do corpo das aves no formato de um apêndice
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    Chagas das Almas 7 triangular, ela abriga uma...” Basta de hipocrisia, né? Isso tudo é cú! Depois veio uma das canções chatas do Carlos Lira. Mas tudo bem que samba eu queria, menos indigesto que sambiquira. Arrotei a noz moscada por algumas horas. Entrava a segunda-feira e fui dormir. Puto, pois o meu Botafogo caiu para o Z4. No dia seguinte tinha labuta. De casa para o trabalho, recheando-o com massas assadas e fritas com queijo, carne e doce de leite. Tudo misturado, sabemos se vomitado. O colega Roney voltou de férias logo depois e pediu para assinar no meu gesso. Sobrava espaço, prova de que há alguma evolução na sociedade, ponta de esperança. É justo, só estava faltando ele, pensei. Deixei correr a Last.fm no computador e uma enorme coincidência! Terminando esta frase ouvi:
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    Chagas das Almas 8 “Naquela mesa está faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim”, isso na voz marcante de Léo Batista, digo, Nelson Rodrigues, perdão, Gonçalves. Acordei muito sensível no dia seguinte, sabe? Meu estomago também, repleto de ácidos, gazes e sons de bolhas desagradáveis como aqueles transcendentais que fazem fundo em sessões de Shiatsu. No almoço deste mais um dia, resolvi pegar leve com um pirezinho e salada de alfaces. Me senti indo para a lua novamente e quando terminei maldisse Armstrong e Collins. Esqueci o outro. Retornei à minha mesa de trabalho e botei para tocar “What a Wonderful World” e “Take a Look at Me Now” como que para me redimir deste atentado contra o orgulho de humilde nação norte-americana.
  • 10.
    Chagas das Almas 9 Escureceu. Marquei o ponto e fui embora. A caminho doutro, uma barraca de churros, assombração! Hesitei, mas acabei comendo. Cheguei em casa e resolvi eu mesmo arrancar o gesso. Sobrou até para o forro! Dia seguinte chamei o pedreiro para remendar tudo. Ele que, aliás, faria melhor trabalho no meu pé. Descobri que enfaixaram e lambuzaram o lado errado e que tudo não passou de uma tola luxação. Liguei a TV. Na Band passava “O último tango em Paris”. Enjoado com a gordura poliinsaturada daquela iguaria fálica, quase regurgitei na cena da manteiga. Depois de um sal de fruta Eno, até lacrimejei. Fui dormir e sonhei que comia uma galinha com muita gula. Não era coincidência, pois acordei com uma baita dor nas costas e não fui trabalhar. Minha amada esposa me
  • 11.
    Chagas das Almas 10 levou o prato do almoço na cama, dizendo: ”Querido, preparei um ensopadinho de sambiquira com batatas delicioso para você! ”Pela primeira vez comecei a repensar sobre meus conceitos céticos acerca da teoria da conspiração. Que tudo começou com FHC introduzindo o Frango à dieta da classe média brasileira de então. Me vi metido nas drogas, muitas drogas! Na terça tudo normal. De volta ao Clube, estava feliz, sentimento de superação, meio isso. Olhei várias pessoas velejando no frescor da Bahia, de remos em punho, lindo. Tive uma sensação de ginecologista... Trabalhando onde os outros se divertem. Liguei o computador, a rádio Atena 1 tocava “ouro de tolo” do Raul e a vida seguiu em frente entre trilhas sonoras, enredos e auroras baixo-astrais. Coca,
  • 12.
    Chagas das Almas 11 massa, churros, TV e vez por outra, uma sensaçãozinha de medo. De morrer? Ora, não! De viver! Me deu vontade de mandar tudo para puta que pariu, mas graças a deus, voltei com o Rivotril!
  • 13.
    Chagas das Almas 12 Eclipse do amor Infante, a impressão que tinha era de que alguém ou alguma coisa além da minha compreensão desligava um botão lá em cima e apagava o sol no cair da tarde. Como as chaves que me lembro de meu pai mexer na caixa de luz quando os fusíveis ainda eram de louça. Depois, mais atento, metido a filósofo grego, com atentas observações e interesse na matéria científica, desconfiava que a lua fosse o sol à meia luz, que ambos fossem o mesmo astro em estados diferentes, mas nada egoísta, só generosidade e exação, achava. De dia o sol fazia seu papel de trabalhador. No inverno era ameno para agasalhar os pobres descobertos de boas lãs e calorias de nozes a avelãs. No verão, severo aos operários,
  • 14.
    Chagas das Almas 13 como o Seu Gumercindo que trabalhava lá em casa e suava em bicas, um amigão para sempre em trabalhos esforçados. Mas que isso era para o bem comum, como os diretores da escola se faziam enérgicos com a gente para educar e formar caráter, mais postulados... Este ainda discorria sobre o fato de que todas as noites, findo o expediente, o Astro Mor se transformava em Lua para usufruir do descanso e levar o lazer e o amor aos homens. Não pressupunha o gênero imposto pelos artigos definidos, posto que mal terminasse o abecedário. O conto de fadas celestiais fazia-me crer que ele se travestia de Pierrot, que me fascinavam nas matines de carnaval no Petrô, referindo-me ao clube da cidade neste depoimento galáctico retrô. Só que agora artista a levar a beleza e a leveza das
  • 15.
    Chagas das Almas 14 existências românticas e sensíveis de alma como sentia o protótipo do meu ser, apesar de angústias esparsas de fragilidade no final das tardes, sujeitos a pancada de rua em meio aos moleques da irmandade até o alvorecer. Lua. Via suas manchas em forma de lágrimas no rosto redondo e reluzente na escuridão da abóboda circense. Ele. Fosse minguante ou nascente. Estas fases discretas pareciam a de uma meretriz que mostra apenas o decote ou as coxas, criando as melhores expectativas em seus ensaios lunáticos sensuais. Se cheias, luas nuas... Quanto às estrelas, colombinas, anãs, Anas e Marias, anos-luz, anos-lua de mim. Para mais de três. Convidadas para o magnífico espetáculo quando as nuvens negras, raios e trovões não tomavam a cena como vilões vindos de supersônicos aviões. Vruuum!
  • 16.
    Chagas das Almas 15 Mas observando a chuva, seu poder de acalanto, com o tempo desconfiava que seus anunciadores não pudessem ser do mal, que eram como os cães da casa ao lado, lindos pastores que ladravam muito, mas não mordiam em seus mantos alemães malhados. Esta alegoria combinava com o abajur que minha mãe deixava aceso no quarto para melhor segurança das minhas madrugadas de passarinho em repouso de azas a voar. Descansando de muita alegria até o despertar, com o relógio analógico em nosso ninho, que não havia nesta época os digitais, é claro e isso sim lógico. Agora sem Anas dos Lenos ou qualquer outra constelação do zodíaco, vinham sonhos animados e coloridos da imaginação juvenil, onde os pesadelos invariavelmente
  • 17.
    Chagas das Almas 16 são vencidos por algum super-herói abstrato e tudo mais, e tudo bem, pois que nunca faltava o mocinho das ilusões do menino tolo. Criança passageira do trem da infância, profunda e com a cabeça sempre a mil por hora num vagão, noutras instancias de um infinito que desconhece distancias... Um dia conheci um eclipse, entendi que dois astros formam um tipo de maré de sizígia, que é nada mais do que a soma da força gravitacional entre os astros envolvidos, quando as lágrimas oceânicas são as mais rasas, aprendera no ginásio com a saudosa tia Lígia e comovido. Embriagues nostálgica mental e orgânica de avejão em pus. Pus-me a rever... revival sim... e como vivo! E assim vou, coisa e tal... O fato é que a esta altura estava ciente de que ambos, Sol e Lua, eram sujeitos
  • 18.
    Chagas das Almas 17 distintos nas orações, que nem estas como súplicas, fossem com as vestes das mais coloridas, continuaria dando pano para manga com o sabor doce de uma rosa ou caiana. Remete-me e remendo com alvitres de Ana, que caía na minha na escola! Bela menina, mas nem sabia o que é dar bola! Só nas peladas, digo, no futebol na quadra. Ah! Mas aí me deram uma porrada no joelho. Até hoje não posso mais jogar. Como não ter ar triste? Bem, nem tudo pode ser considerado ideal... Voltemos ao espaço sideral. Um dia, deitado na cama, antes da pestana emplacar, momento em que a cabeça se põe mais a pensar, quando não vi, já era candidato a rapaz, - tinha até buço - recomecei a viajar na velha cauda do cometa, na onda gulosa astronômica. De
  • 19.
    Chagas das Almas 18 repente parei. Senti-me ridículo, pueril com a imagem deliciosa que interrompera lá atrás e, ainda que perdido em uma nebulosa deixei prosseguir o filme dando fim à órbita mental. Na relatividade do tempo, será que um eclipse não passa de um encontro casual entre o Sol e a Lua, tão emocionalmente envolvidos? Encontro para um abraço fraterno e quente. Breve, sem espera e de sempre. Coisa singela, inocente... Fraternidade de um Deus limpo e todos uníssonos com o mundo. Abençoado e a abençoar, dignos de olimpo. Celebrando com louvor os sentidos e instintos. Dos homens ao milagre da vida em esplendor. Da graça dos céus, da terra e do mar... O todo conjugando o verbo amar... Este
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    Chagas das Almas 19 fenômeno raro de louvor... Eclipse de um Grande Amor!
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    Chagas das Almas 20 Menino Jesus Aos 13 anos de sua era, num dia qualquer, Jesus fazia companhia a José em sua carpintaria: ― Filho, me passe a estopa. ― Sim, senhor. ― Respondeu o menino entregando-lhe a bucha. ― Já disse Jesus, me chame de pai! Falou José enquanto fazia a limpeza final de uma cruz de cedro. ― Desculpe pai, eu não sei o que acontece, mas vou me acostumar... Senhor, ou melhor, pai, quando é que o tio Batista vem nos visitar novamente? ― Não sei. Teu primo... Está bem, tio... É um andarilho, ninguém nunca sabe o seu paradeiro. Mas por que você quer saber?
  • 22.
    Chagas das Almas 21 ― É que eu gosto de conversar com ele. ― Este negócio de você ficar dando ouvidos as ideias desatinadas de João, não me agrada. Aquele vive nas nuvens! ― Nada pai. Aliás, ele diz que eu serei uma pessoa muito importante, sabia? ― É. Mas para isso, você tem que continuar frequentando a escola. ― Eu detesto ir à escola e não gosto do mestre Esaú. ― Já disse para não falar assim, você tem de respeitar seus professores. ― Mas ele só fala coisas horríveis sobre Javé, eu fico com medo. E outro dia disse que os homens ainda voarão e ele me colocou de castigo.
  • 23.
    Chagas das Almas 22 ― Você ainda é novo para compreender o Livro. Ah...! Prodígio, prodígio. ― fala baixo para si. ― Eu sou um garoto normal! ― Não, óbvio...! Bem... ― José se cala e balança a cabeça para os lados com reprovação condescendente. ― O que foi Sen... quer dizer, pai? ― Ah sim. Aquela história do menino que caiu dentro do rio semana passada. ― O meu amigo Judas? O que é que tem pai? ― Todo mundo anda falando que você o curou. Ouça filho, só Deus opera milagres, entendeu? E realmente como aquele corte estancou e cicatrizou em minutos é mais uma de suas providências. ― Eu sei. Eu sempre digo que aquilo foi obra do Pai, quer dizer, do Senhor...
  • 24.
    Chagas das Almas 23 Deus. Eu apenas pulei na água para socorrê- lo e passei minha mão na ferida da sua testa para tirar a areia. Esquecendo o assunto, José levantando a cruz, fala com esforço cansado: ― Ajude-me a levantar isto aqui. ― Nossa! Pai, como é pesado. O silêncio toma conta da oficina e logo o menino o quebra com sua irresistível tagarelice: ― Pai, o Senhor, quer dizer, o papai nunca me falou como é uma crucificação. ― Esqueça isso filho! ― É para punir os bandidos não é? ― Sim, e também os hereges. ― Como aquele Sócrates, o homem da velha Grécia que o tio falou? ― Mais ou menos isso, aquele homem era perturbador da ordem estabelecida e foi
  • 25.
    Chagas das Almas 24 condenado a tomar veneno, não havia crucificação naquela época. ― Sei... Será mesmo que ele era do mal? Veneno... Não dá tudo na mesma?― E é verdade que os condenados têm que carregar isso até o calvário? ― É. ― E depois? ― Hum meu filho... Está bem, então escute: Depois eles são pregados vivos na cruz, ela é suspensa, afixada na terra, no cume do calvário e em meio a uma sangria desatada, o réu permanece lá até morrer! O menino fica atônito, se arrepia e emenda: ― Deus me livre!
  • 26.
    Chagas das Almas 25 Os Ursos Casa nova é uma delícia! Para as crianças um universo a se explorar, enquanto os adultos posicionam móveis, desembalam caixas e arrumam as coisas. Mudança cansa, mas traz esperança. Parece que os velhos teréns são novos, os cheiros de mofo promovidos a jasmim e que das dificuldades de inquilino possam vir milagres, ilusões tolas sem fim, a cada casa par ou impar, que foram quase trinta! Porém, os baixinhos nem reconhecem isso, só um peso no ar vez por outra lhes alcança as preocupações das pessoas adultas fazendo sentir uma sensação ruim no peito, mas também que basta um peido que ladra ou uma coceirinha na cabeça de dois dias sem banho, que logo passa. Aí só alegria,
  • 27.
    Chagas das Almas 26 nirvana... Eles só se preocupam em perscrutar os novos arredores onde os mistérios brincam de esconde-esconde. “Onde vai dar aquele buraco escuro da lareira? Será que sai direto em tele transporte para o país da Alice? Ou no porão escuro do Conde Drácula?” O vampiresco da Sessão Coruja que todo mundo evita que a gente veja tarde da noite. É, mas que sempre damos uma escapadinha masoquista para bisbilhotar tipo o “Moita”, de espreita e esguelha na lateral das portas entreabertas e rangedoras num imenso pé direito, - ao contrário do nosso despertar de um incerto dia. O nome da nova rua, Avenida Barão do Rio Branco, se fosse Conde, tanto faz, seria tudo igual, meio obscuro... Contudo, o Rio parecia sugestivo... De águas lácteas! No
  • 28.
    Chagas das Almas 27 fim, nada tão lúdico, apenas nobre e justo quando aprendemos na escola se tratar de homenagem, ruas afora no imenso Brasil, a um grande homem servidor de nossa diplomacia no passado. E o seu título familiar simplesmente contemplou a capital do Acre, oxalá minhas sandálias, bolas de futebol e bodoques! A imensidão é subjetiva no espaço- tempo, tudo parece ser muito maior para as crianças, no caso eu e meu irmão no segundo andar daquela “mansão.” E foi assim que descobrimos um verdadeiro tesouro numa noite de lua cheia, apesar do clima mais propício a juntar os filmes adultos da TV em preto e branco com as lendas dos lobisomens! Mais um dia de estágio de rotina, um anoitecer antes de dormir, quando os carrinhos, o pegas-
  • 29.
    Chagas das Almas 28 varetas e todas as ferramentas de trabalho, maravilhoso trabalho escravo de brincar, vão para seus respectivos compartimentos, graça a desgraça diária da mamãe certamente. Aténs de colocarmos a cabeça no travesseiro, debruçamo-nos na janela de nosso quarto cuja vista dava à esquerda para a moageira de trigo. Ela era escrava, pois que trabalhava dia e noite, sete dias por semana, denunciavam as luzes brancas internas e o som das máquinas. De repente, ao erguer a cabeça no ócio infantil, cutuco meu irmão e aceno com queixo. Bem a nossa frente, resplandecidos pela luz do céu noturno a meio breu, abóboda em miríade estrelada, - ou apenas minha memória agora enluarada...? - Nos deparamos com dois ursos gigantes! Medidas de infante? Lembro-me bem da
  • 30.
    Chagas das Almas 29 trilha que vinha suave do quarto ao lado, Panis e Circenses dos Mutantes. Para que se tenha uma ideia, os animais vinham do chão do primeiro andar do nosso quintal, até uns dez metros ou mais acima de nossas cabeças, que já estavam a alguns pés do segundo andar. Eles eram verdes. Não! Eram pretos... pretos? Nada! Ora, eram marrons, como não?! Dependia da intensidade da luz celeste e da luminosidade das nossas fantasias. Às vezes uma coisa, às vezes outra, não importa. Nunca saíam do lugar, apenas mexiam parte de suas cabeças e troncos fartos de pelos grossos que se estendiam por seus corpos troncudos, revezando os lados com misteriosa maestria, cujo regente parecia ser o vento frio do outono da serra como a executar a Sinfonia ao Luar. Uma valsa em compasso
  • 31.
    Chagas das Almas 30 terno, ternaríssimo, sempre a nos espiar com zelo. Neste balanço a nos ninar com esmero, até pesarem nossas pálpebras. Pode-se dizer que passaram a ser parte diária do ritual, páreos em nossa mútua simpática e risonha contemplação entre comentários sem pé nem cabeça, afetos aos ursos. Assim fora por várias noites que se seguiram nos primeiros meses do lar que ainda cheirava a cera nova. Adotamos em segredo os animalaços como nossos bichos de estimação, relegando a amada cadelinha Biriguda, que tinha as duas cores da imagem da TV. Tudo bem, ela era de todos da casa, e Kitty dava conta de muito amor como sempre. Como casa nova à noite dá aquele friozinho na barriga até que a gente se acostume com seus barulhos e fantasmas
  • 32.
    Chagas das Almas 31 próprios; e o papai leva um tempinho a nos garantir a confiança de super-herói que logo há de imperar deliciosamente; resolvemos tomar nossos ursos como nossos protetores e passamos as chamá-los carinhosamente de ursões. Eram dois irmãos, como nós, bem chegados, sempre lado-a-lado. Tivemos que assumir posse cada um de um. Eu, claro, que era mais novo, fiquei com o ursão menor, o da esquerda. Até tentei o outro... porra... com o Omar era perda de tempo... Moca na cabeça, essas coisas... me inclui fora dessa! O que importa é que eu amava meu ursão caçula, afinal, à minha imagem e semelhança. Cada um feliz com o seu. Como não era pudim de leite, tamanho não era documento, digo, motivo para se sair na porrada.
  • 33.
    Chagas das Almas 32 Um dia, depois da escola, armando cabana no quintal, chegaram uns homens no portão perguntando pelo responsável. Informamos que mamãe foi à feira e papai foi trabalhar. É, isto mesmo, o desfecho desta história é tão bizarro, quanto certas canções de ninar! ― “Aí, nós somo da prefeitura” ― disse um “armário”, ladeado de uns caras não menos fortes, como o “Poderoso Thor”, que víamos com empolgação na TV caixotão. Ainda por trás, um baita caminhão. Na casa dos sete a nove anos a gente sabia mais ou menos o que era prefeitura, mas não tínhamos muita simpatia não, porque o papai sempre falava coisas como: “Este salário da prefeitura é uma merda!”; “Assim eles vão cortar nossa água!” Eu
  • 34.
    Chagas das Almas 33 pensei se seria necessário todo aquele aparato para tirar água de nossas torneiras ou prender o papai por ele falar mal da coisa... Ou algo mais legal, generosidade, trazendo seu pagamento na porta!Sei lá... Afinal, todo mundo se referia à instituição como algo importante. “O Senhor Prefeito!” Hoje é de dar gargalhadas! O fato é que nosso irmão mais velho estava em casa. Ouviu o burburinho, foi até lá falar com os brutamontes e abriu o portão para eles. Queria eu ser mais prodígio e pedir um mandado, colocá-los para fora! Os brutamontes vieram para prender nossos bichos! Ele, nosso brother, saia da puberdade no auge de sua beleza e masculinidade. Preocupado com sua guitarra, sua esbelta cabeleira e a mulherada, não estava nem aí para mais
  • 35.
    Chagas das Almas 34 nada, que dirá nossos ursões. Ordenou a execução com autoridade. Saca autoridade de adolescente, a galera fora e dois pentelhos? Lembro-me da gente fazendo juras de vingança com as narinas abertas: "Vamos arrebentar as cordas de sua maldita guitarra!" Como trama de alta conspiração infantil. Não me lembro se cumprimos a missão. Creio que o Omar sim, talvez até antes do evento, com motivo menos grave, faço pausa para rir... Mas hoje percebo que ele fez o que podia fazer um adolescente, vítima da própria condição, nada mais do que algo de pouca consciência, ebulição de hormônios incandescentes, não julgo meu amado irmão mais velho, não carece de perdão. Mas não dá para esquecer o que de suposta ordem de prisão, fora uma
  • 36.
    Chagas das Almas 35 execução. Surpresa foi ver do outro lado do muro o vizinho entusiasmado. Se metendo, dava palpites técnicos de como fazer, o melhor ângulo para mover aqui e amarrar as cordas acolá. Baixinho narigudo filho da puta! Soubemos depois que foi ele quem denunciou nossos animais de estimação, entrando com papéis por escrito na repartição, acho que isso. Sob a alegação de que eles - imaginem se nossa ira não era justa por tal insulto – justo eles, nossos ursões, lhes roubavam o sol da manhã. Quando que nossos amigos protetores, heróis da noite, reis das florestas e jardins, crias da natureza, amigos das crianças, poderiam roubar alguma coisa de alguém? Principalmente o sol! E como o Astro Rei podia pertencer ao vizinho? Seria o Sol, sua luz, a exemplo da água, propriedade da
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    Chagas das Almas 36 prefeitura?Ah! Vinha cobrada junto na conta da tal Light?! Que porra é essa, Omar, meu irmão?! Assistíamos pávidos o assassínio. Começou pelos multibraços à foiçadas. Suas vestes nobres verdes sangue azuis, como que caindo ao chão de saibro de chamar atenção aos urubus. Depois os machados em suas canelas de pau inertes que sangravam seiva cheirosa das linhagens mais briosas. Ambas começaram a desfalecer seus corpos num dia quente. Começamos a perceber a impotência de nossas indagações repletas de ingênuas dúvidas, súplicas em meio às lágrimas que tentavam se esconder nos cantos dos olhos presentes. Uma mistura de dor pelo ato literal de defloração, com a vergonha do rótulo de que é maricas chorar à toa. Um
  • 38.
    Chagas das Almas 37 choque de espanto e comoção, tipo Malásia Airlines, aquele avião... De boa? Percebo só agora o que só vi uma vez, cortar-se um bem pela raiz, nunca ouvira ou vira mais tal estupidez. Só agora... Que as pessoas investidas de uma autoridade estéril se fazem donas dos bens naturais que não passam de uma generosa concessão da mãe natureza. Seja nas praças e bosques públicos, seja nas propriedades particulares ou florestas virgens tropicais. E mais, arbustos de cativeiro, animais, ilhas, praias, campos, seus solos férteis e vistas deslumbrantes como que privatizando tudo ao seu bel poder. Mais filhos da puta! Em menos de uma hora, as duas árvores estavam abatidas e totalmente mortas, bem assentadas no caminhão. Amarradas com a mesma fealdade qual
  • 39.
    Chagas das Almas 38 galinhas que se trás da feira para o domingo um molho pardo. Eu, meu irmão e a Biriguda – ela, xereta que sempre fora – nós três, esticamos nossos pescoços miúdos com forçosa limitação, quietos e engasgados. Assistimos à partida do veículo suntuoso, dando adeus com as pequenas patas da imaginação, já que as outras amparavam nossos corpos nas grades do portão. Até que o carro sumiu de vista do outro lado da via, depois de virar a curva da ponte da Avenida Barão do Rio Branco... Agora nome sem qualquer importância. A nossa cachorrinha fez fiu, fiu baixinho e depois correu pra dentro de casa se enroscando na cadeira verde onde o papai a chamava... Por longo tempo, a casa nova se encolheu e a novidade se perdeu entre
  • 40.
    Chagas das Almas 39 mentes. A não lua nascia mais em nossa janela, fossem as noites mais belas. Ou talvez simplesmente, de almas denegridas, começamos a perder a mácula dos imberbes e o brilho nos olhos para os dotes de natureza tão bela, aprendendo a lamber feridas como a nossa cadela.
  • 41.
    Chagas das Almas 40 Nem aí... Não estou nem aí, só lá... Mas quem está? Se é que é para ser e estar. Gastar sola não, sol há, vem a mim sem que eu vá. Entretido comigo mesmo percebo as luzes sombrias dos pixels vindas da TV. Em nível inconsciente vejo que passa o jornal da noite anunciando aos berros as tragédias do dia de ontem e amanhã. Tudo em alta definição, isso, os atos que se auto definem sem qualquer vergonha de si mesmos. Países que invadem e tentam tomar uns aos outros, plebe e gleba, roubando o que eles têm de melhor e impondo seus ritmos de horror. Egos infecundos se exteriorizando
  • 42.
    Chagas das Almas 41 ao máximo, clamando audiência, atenção, qual Narciso em seu espelho alagado. Enquanto isso, sem dar a menor importância, nem às vitimas, tento o contrário, me interiorizar, sair do ar. Sendo absorvido pelo branco leitoso da tela que poupa árvores, trocando silício por celulose e, oxalá, com toda impessoalidade do hi- tec, nem tudo está perdido. Inspiro-me em Keith Jarrett em seu “My song”, onde sai de “si” e flutua sobre o piano fundindo- se a um estado de espírito elevado, produzindo acordes que se alternam entre o alto e baixo tom em melodia onde percebo não haver mais um “eu” nem um referencial. Ele parece ser o criador e a criação. Já vi minha irmã assim no palco, como se não fosse mais minha parente tão próxima, mas um ser de luz maior que isso.
  • 43.
    Chagas das Almas 42 Capto nas entranhas também o suor profícuo do David Gilmour solando em sua guitarra em tons rosa-floyd. Tudo que me vem e não é pouco, coloca o panorama beligerante em estado ainda mais insignificante, já que na realidade deles, promovem tanta dor a terceiros inocentes, ou neste reality show talvez não haja simplórios, mas só culpados pela maldição de serem o que são. São? Só um artista em sua ilusão de cosmo pensado, passivo de luzes cintilantes que me recocheteiam em seus aspectos e me fazem senti-las em reflexo. Não há mais futuro ou passado. Ouço "umas e outras" do Chico de Holanda... Vem-me uma vaga cauda passageira como de um cometa raro, Halley de raciocínio, interferência daquele mundo externo, tamanha minha perplexidade
  • 44.
    Chagas das Almas 43 diante de uma idealização e concepção genial. Ele é de um grupo onde o degrau do talento se sobe em paços mais largos. Por extensão vejo a música de minha terra de referencia no orbe da praticidade de sua dialética física e cronológica, como um berço esplendido e infinito de ideias e arranjos em acordes desbundantes. Eu treino, me esmero e chego a ter lampejos no meu escrever. Não me vejo perto do estado dos supracitados, nem do Matthew McConaughey, óbvio... Sou aprendiz de feiticeiro, que espera um dia se encantar com o repleto de tudo um pouco, bastando produzir um suspiro, já me contentaria um tanto. Esta poção de que se apoderam os ricos de verdade, independentes das cifras que sabem e fazem por merecer ou não, mero detalhe. Eles em seus gozos múltiplos
  • 45.
    Chagas das Almas 44 espasmódicos levam conforto e apazíguo aos entes sensíveis entre pátrias. Tornam-se seletos seres humanos de ressalva que justificam a existência e permanência do nosso bicho cambiante neste mundo de até então. Portanto, sou fã e viciado da boa arte que nunca me é bastante. Para aquele resto, estou nem aí, me alieno como um ignorante... e daí? Onde estou? Não sei onde, viajando de carro, jatinho ou de bonde. Sei que ouço Shine on the crazy diamond...
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    Chagas das Almas 45 Aquele abraço Na volta da escola, tempo único em que reinava o auge da minha vitalidade criativa e emocional, era almoçar e depois ir pra rua. A rua é um cenário em preto e banco, tem uma dimensão de lembranças e fantasias de paisagens e personagens esparsas: a família, os amigos, aquele bêbado emblemático, os comerciantes e, em cor, apenas o bouganville no topo da praça, onde tudo girava em torno de seu encanto. Ainda tenho nos ouvidos a trilha sonora que vinha da minha casa, defronte: Genesis, Pink Floyd, Chico de Holanda e tanta coisa boa de um mundo progressivo que meus irmãos tocavam, fazendo sonoplastia da minha vida às alturas. A gente só dava alguns passos de volta da praça até em casa
  • 47.
    Chagas das Almas 46 quando a mamãe gritava da janela: ― Criança, vem lanchar! ― Engolíamos uma xícara de café com leite e pão com manteiga, já com os pés apontados pra porta, prontos para retornar a praça e seus arredores. Foi numa dessas cercanias, a escadaria da fábrica velha, que eu fiz um novo amigo, uma amiga desta vez, uma menina. Começou de uma brincadeira qualquer, mas no passar dos dias passei a dividir o futebol e o trole por ficar ali com ela, muitas vezes rodeado de crianças menores, suas primas, batendo papo até começar a escurecer. Era interessante, a gente tinha uma empatia por certa maturidade maior do que o normal para a nossa idade. Conversávamos sobre problemas pessoais, sobre nossas famílias, tantas dificuldades financeiras. E outras
  • 48.
    Chagas das Almas 47 preocupações entre as bobagens e brincadeiras que culminavam na despedida com o seu tradicional: ― “Tchauzinho viu.” ― Balançando para cima e para baixo os três dedinhos centrais da sua destra mãozinha fina, branquinha e delicada. Eu achava um barato. *** Lembrei-me de tudo isto e relato porque estou muito chateado, triste mesmo, pela perda do Filó, seu irmão que faleceu há quase um mês. Ele regulava com meus irmãos mais velhos que faziam programas mais adultos, mas que também habitavam o mesmo palco, a praça. Inteligente, sensato, boa pinta, me impressionava como espécie de ídolo. Me bateu pesado hoje. A vida foi perversa com ele dando-lhe de presente, na casa dos 40, uma esclerose múltipla que
  • 49.
    Chagas das Almas 48 mutilou sua rotina, tirou-lhe trabalho, mulher, lazer e entrevou-o por mais de dez anos. Vida filha da mãe! *** De vez em quando ela me avisava que seu namorado vinha da Fazenda Inglesa, bairro perto, subindo em direção ao Moinho Preto. Na primeira vez, achei natural, na segunda me incomodei bastante, até que na terceira ela disse: ― Vou terminar com o Roberto. ― Eu conheci o garoto, achava ele bacana. Então, ainda que fosse a minha iniciação também na hipocrisia, aconselhei- a a repensar. Mas ela não me ouviu, assim estava claro que nossa empatia tinha transbordado em alguma coisa maior. Passados quase um mês, ainda como grandes amigos contidos, estávamos a dois
  • 50.
    Chagas das Almas 49 dias do carnaval. O Petropolitano era o clube que a classe alta e os esmerados da média, como nós, frequentavam na época e que tinha os melhores bailes da cidade. Na sexta-feira combinamos nos encontrar na matinê do dia seguinte, sábado, baile de abertura. Só me lembro de que o tempo parecia não passar e àquelas alturas estava em tamanho estado de ansiedade que mal consegui dormir, como numa sexta-feira treze. Sempre fora na maioria dos anos, meu primo Fred e eu chegamos ao baile levados por minha amada tia Téia, que também se foi há pouco. Entramos na matinê, numa tarde de viúva ou espanhol, tanto faz, que cheirava a ozônio e lança perfume num delírio onde o aroma era de fazer lisonja à própria natureza. Ao primeiro pé portão
  • 51.
    Chagas das Almas 50 adentro, minhas pupilas já giravam em todos os graus, como se tivesse maluco ou com um baita cisco nos olhos. Entramos no primeiro salão e ao som da “cabeleira do Zezé”, empinei o nariz e rodopiei nas pontas dos pés sobre as cabeças do Batman, do Homem Aranha, de odaliscas e fantasmas, mas nada de avistar minha fantasia preferida, como um Pierrot em busca de sua Colombina. A tia nos levou para comer um salsichão. A gente tinha que esperar um ano para comer aquilo que tinha um sabor estratosférico. Porém, confesso, de tanto girar a cabeça no bar de fora, nem apreciei a coisa direito. Depois fomos para o segundo salão, desta vez tocava daqueles sambas enredo que não se produzem mais. “E os jagunços lutaram até o final”, que não seria eu quem desistiria de vencer minha
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    Chagas das Almas 51 causa em pleno carnaval. Nem por isso o salão do meio me conteve em partir logo para o terceiro, o da piscina, que a essa altura, do tempo e do som, não me lembro de mais nada se não de uma sensação de profunda tristeza e frustração. Minha tia e meu primo, para evitar o tumulto da saída, me chamaram para ir embora e eu disse que iria de ônibus. Aí já eram quase seis e meia da tarde e até as sete eu fiquei rodando em circulo, revezando entre o pátio e os três salões, como um zumbi, até que ouvi o “ai, ai, ai, ai, tá chegando a hora” e tive que acompanhar a multidão junto à orquestra que tradicionalmente fechava o baile tocando e caminhando para a rua até esvaziar o clube e encerrar a matinê. Eles tinham que limpar toda aquela sujeira de confetes e serpentinas para o badalado baile
  • 53.
    Chagas das Almas 52 noturno dos adultos, O Baile de Máscaras, que nos despertava a maior curiosidade. Já na rua, bem abatido, peguei à direita em direção ao ponto de ônibus, de repente senti baterem no meu ombro por trás. Olhei numa direção e não reconheci ninguém, virei sentido oposto com tranco de fazer jus a um baita torcicolo e, para minha surpresa, ali estava ela. Como eu, com os olhos espantados e a boca a falar de pronto: ― Putzzz! Onde você estava? Passei o baile todo te procurando! ― Levava na voz um tom hesitante entre alegria e irritação. E eu com vibrato não menos prejudicado, rebati: ― Meu Deus, eu também! E quase que por instinto, demos um abraço... ***
  • 54.
    Chagas das Almas 53 Aquele abraço... Ah! O abraço do primeiro amor, de nada combinado, não contaminado, sem interferência das sujeiras adultas. Abraço amaciado, de súplica, de afago em pleuras impossíveis de qualquer ausculta. Abraço inquieto e rotundo, maior que o mundo. De quase santas volúpias, como os das núpcias. Nunca vou me esquecer daquele abraço, o melhor abraço, que apesar de nem tão forte, de bem tão simples, tão generoso aos nossos braços. Emanante de um calor humano que, se de ínfimos segundos, parecera de um ano. O que restara de foliões em nossa volta, pareciam inertes e sublimes feito estátua de carrara. Como se reinasse a tão ingênua e tola paz sonhada e todo o mundo fosse feito de homens felizes, tamanha alegria e
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    Chagas das Almas 54 harmonia sobejavam nossas almas aprendizes. *** Depois rachamos um táxi e seguimos de braços dados, entregues, eco do abraço, fomos para casa. Até então só isso, ou melhor, tudo isso. Depois de volta à vida, sua rotina, de volta à praça, a escadaria da fábrica velha, seus arredores. Que continuou sendo cenário, porém de paixão e amor agora selado, ensaiando e encenando o primeiro beijo, dos mal aos bem beijados. Das saladas mistas com marmelada, dos casamentos na igrejinha com a ajuda dos amigos e dos primos, por eles celebrados e abençoados, no meio do mato lá em cima do morro, que quase tocava o veludo azul das tardes de outono. No meio, tantas risadas e criancices num tempo sem
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    Chagas das Almas 55 perigos, drogas e maldades, onde podíamos ficar na rua com a anuência de nossos pais, amáveis donos, até tarde demais. Tudo era motivo dela largar bonecas e cabanas e eu a bola e o bodoque, numa fase em que os hormônios vêm a galope. Nos escondíamos em cantos proibidos para nos amassar e molhar em gemidos, nada daquilo, só beijos, mãos e todos os sentidos se descobrindo em cantos baldios, escadas escuras e degraus levando nossos corpos aos quarenta graus. Sim, teve o primeiro baile à noite. Ah, ela naquele vestido num tom de fazer lisonja ao que fiz de tecido, aquele de outono. E o cineminha na cidade? "E o vento levou", me lembro do filme. Do nome só, é claro. Ah, não trocaria nada disso por uma viagem para fora, como hoje sonham os entrevados na TV e
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    Chagas das Almas 56 computadores por um voo para ver o Mickey. Enfim, quase um ano assim de intenso, em estado de praça. Até que, por fim, veio uma banalidade, o amor se contaminou e para um lado foi-se a minha menina e para outro o menino meu. Ela dos meus olhos e eu dos seus. E como tudo na infância e tudo na vida, nosso sonho se arrefeceu. À Sônia Fecher
  • 58.
    Chagas das Almas 57 Filhos das horas Quando eu tinha cinco anos, veio a tia rica do Rio e disse para mamãe com altivez: ― Está na hora desse menino largar a chupeta! ― Mamãe pressionada, retirou-me a chupeta, não me perguntou se eu queria ou me preparou, simplesmente, sufocada, repetia os argumentos da titia: ― Nesta idade não se usa mais chupeta! Quando eu tinha 15 anos, vozes ecoavam nos corredores: ― Está na hora deste menino cortar os cabelos e largar essa guitarra, está na hora de estudar mais. ― Levaram-me ao barbeiro na marra, fizeram chantagens e barganhas com a minha Gibson e me mudaram de colégio, que adorava. Nunca sentaram comigo e ponderaram, perguntaram se eu gostava
  • 59.
    Chagas das Almas 58 disso ou daquilo, ou o porquê disso e daquilo. Nem insinuavam se havia algo que me incomodava ou sobre o que eu sonhava e pensava da vida, mesmo que fossem tolices. Para me corrigir e direcionar devagarzinho, ao ritmo da minha imaturidade. Aos 16 anos: ― Está na hora deste menino perder a virgindade! ― disse o tio Agnelo. Como eu via que meus colegas já contavam vantagens ou mesmo inventavam suas experiências sexuais, eu começava a me achar estranho, diferente, talvez doente. Meu tio, provavelmente combinado com meu pai, também pressionado, já que às vezes lhe pedia algum dinheiro emprestado, me levou num puteiro. Não me disse como e onde colocar isso naquilo, como começar, o mais difícil. Mas a senhora lá sabia,
  • 60.
    Chagas das Almas 59 parece, e eu fiz o tal sexo, levando tempos à frente para descobrir que o ato era uma coisa boa. Aos 17, outro tio falou que abriu uma vaga de auxiliar administrativo na filial de sua imobiliária na cidade vizinha, perguntou ao papai se tinha algum interesse de encaixar um dos filhos. Não sei por que papai me escolheu, podia remanejar um irmão, mas não, fui eu. E não sentou comigo, perguntou se eu queria, só disse: ― Esta na hora de você começar a trabalhar! ― Logo eu, o mais novo, mais inexperiente, ir para um lugar diferente. Senti medo, mas também uma sensação boa de desafio, novidade, sobretudo, liberdade. Lá, trabalhei, me diverti, sofri e chorei, até que um dia conheci uma menina e pela primeira vez me apaixonei, era da minha
  • 61.
    Chagas das Almas 60 idade e a engravidei, ou melhor, nos engravidamos. As famílias em alvoroço, uma merda daquelas. Mas ela abortou. Fodido - voltei e me diziam: ― Isso era hora de arrumar filho? Como você foi fazer uma coisa dessas? ― E eu calado, pensava confuso, encabulado: “Se soubesse não faria. Como devo aprender, onde?” E o mais irônico: ― Você não tem juízo?! ― Fiquei dias largado nos cantos de casa, sem minha chupeta, minha guitarra, meus cabelos longos, minha amada e, isolado, só escola, certamente. Me davam o necessário, o de sempre: casa, comida e roupa lavada, vez por outra, não sou ingrato, uma acariciada. Uns me ignoraram, decepcionaram. Papai e mamãe, às vezes, sentiam algum remorso e vinham complacentes com palavras vazias e um
  • 62.
    Chagas das Almas 61 irmão, por sorte, me compreendia e me consolava com a maior, mais maldita e mais incoerente sensação que tinha: a culpa. Bagagem de chumbo que levamos nas costas até a maturidade. Epa! Maturidade? Tem como eu ter esse negócio?! Engraçado... Os tios sumiram. Parecia de castigo, como que na geladeira, até que descobrissem o que fazer com aquilo, ou melhor: o que está na hora de se fazer agora com isso? Quem sabe me colocar num avião para Bósnia e este exploda no ar? Segui estudando e caminhando para os 18 já tinha identidade, digo, a carteira. Arrumei um estágio. No segundo mês, preenchi uma nota fiscal errada, pequeno prejuízo. O chefe me chamou dizendo que precisava de alguém
  • 63.
    Chagas das Almas 62 mais preparado e fui dispensado. Como começar preparado? ― Está na hora de você sair das abas dos pais! Está na hora de cuidar sozinho da própria vida! ― preciso mencionar quem dizia? No entanto, passei no vestibular para o Rio e por sorte um amigo me conseguiu um trabalho numa livraria. Me mudei. Comecei a tocar a vida lá. Saía nas noites, boates, inferninhos. Fodi muito e bebi muito, me droguei a valer. De putas a uísque on the rocks, saudades dos undergrouds da vida vadia! Participei de passeatas, carreatas, micaretas e ia sempre pro Maraca, fazia o que bem queria. Fui a Londres desbravar os pubs! Ganhei e perdi de tudo: empregos, mulheres, dinheiro. Larguei a faculdade por
  • 64.
    Chagas das Almas 63 negócios, decolei e aterrissei, arremeti e me esborrachei. Num fim de semana em casa, vinte e tal na cara, visitando a galera, um deles estava lá. Me disse: ― Esta na hora de você se casar. ― Puto, retruquei: ― Como você? Então está na hora de trair e fingir amar uma mulher oficial, que legal! ― Meu pai me chamou atenção, mandei todo mundo à merda, peguei minhas coisas, bati a porta e fui embora. Um amigo de trabalho, muito bacana, religioso, me disse: ― Acho que está na hora de você aceitar Cristo. ― Cansado daquela vida, pensei com carinho. Afinal ele emendou: ― Funcionou comigo. ― De repente o vi por inteiro: medíocre, conformado, robotizado. Não emplaquei naquilo. Quase um ano depois, me acalmei e,
  • 65.
    Chagas das Almas 64 mais centrado, de novo me apaixonei e me casei. Tive filhos... Aí que aprendi de verdade a perdoar meus pais, amigos, até os tios. Pois acertei e errei muito, demais com eles, mas sempre tentei ser diligente numa coisa, em ver cada um como uma pessoa única, uma personalidade, respeitando seus tempos. Tento ser bússola em vez de relógio a lhes impor meus horários e os da sociedade com toda sua ansiedade. De bons contatos, entrei para a vida política. Vivi bons tempos de prestígio, queridos, amigos, status e orgulho dos melhores Rolex. Tipo assim: O lugar certo na hora certa, saca? Quando bem sucedido nisso, eu disse em alto e bom som: ― Então essa vai ser minha profissão ― Estava viciado, quando percebi, era como meu amigo, apenas que meu cristo era o meu
  • 66.
    Chagas das Almas 65 líder partidário. Verdade quem diz que política é como religião, jogo e drogas, pois que é tudo a mesma merda. Entrei de cabeça, me filiei, balancei bandeiras, gritei nos “cultos” e um dia logo após uma vitória triunfal, eu, me achando parte importante daquilo, fui traído. Como nunca me ensinaram nada, só me informavam a hora das coisas, também não sabia sequer roubar e ser mau caráter para me adaptar a eles, o que tão simplesmente era necessário, desde que se soubesse a hora certa... Ah, ah, ah... Mentira, que isso é vocação. Na casa dos quarenta e tal me vi desempregado, claro. Podem rir do que vou dizer, porque é mesmo engraçado. Descobri que existe também a fase do “não é mais a hora”. - Você está velho para o mercado de trabalho. ― me disse na lata um empresário
  • 67.
    Chagas das Almas 66 frio e calculista numa entrevista. Entediado, certo dia, tive vontade de comer uma moça mais jovem que me dava bola no caixa do mercado. Um colega me disse: ― Não está mais na idade disso, correr atrás de meninas. ― como se eu quisesse fazer disso um ofício. Agora a situação é mais delicada e por isso as pessoas também, as reprimendas vem como telefone sem fio, aquela brincadeira de criança, dos familiares, amigos... Ah! E agora dos primos. Isso, os filhos dos tios, isso mesmo! ― Já passou da hora de depender da esposa, dos filhos! Já passou da hora de pedir dinheiro emprestado! ― A cada acusação, sentença, penso nas putas e digo, puto: “Ah! Filhos d...! Das horas!”
  • 68.
    Chagas das Almas 67 Enfadonha A minha mulher emplacou num emprego, carteira assinada, essas coisas. Isto fez com que eu, já trabalhando em casa, tomasse as rédeas de sua manutenção. Uma experiência natural nestes tempos feministas, onde se torna cada vez mais comum os homens dividirem as tarefas domésticas e o sustento da casa com as mulheres. Confesso que tem sido um ensaio excitante. Eu sempre pensei que a intuição feminina para perceber detalhe no nosso comportamento fosse um atributo especial só delas. Mas não, entendi que a rotina de um “ser” ou “estar sendo” “do lar” é pobre de expectativas a ponto de quaisquer banalidades não passarem despercebidas.
  • 69.
    Chagas das Almas 68 Assim, não me contive e devolvi a ela uma daquelas brincadeirinhas insinuantes, que já ouvira coisa parecida algum dia, repletas de ironia e verdade: “Nossa, quanta produção, quem é o felizardo?” Ridículo... Bem... Dedico a parte da manhã para cuidar das coisas do lar. Começo lavando a louça. Essa tarefa dura mais ou menos uma hora, porque a minha louça é pré-aquecida com água fervendo. Não, eu não quero ser melhor do que ela não. Apenas tenho pavor de gordura e procuro ser muito caprichoso em todas minhas empreitadas. Depois limpo o fogão, varro o chão e passo o pano. Outro dia me peguei falando pras crianças: ― Cuidado com a minha cozinha! Mas estas coisas enfadonhas eu resolvo às quintas-feiras com o meu analista.
  • 70.
    Chagas das Almas 69 Descobri um prazer sem igual, aliás, mais do que isso. Posso dizer que uma experiência telúrica: catar feijões. Isto mesmo, depois da faxina na cozinha, eu dei uma geral na sala e nos quartos até retornar à cozinha para fazer o almoço. Catar feijão é uma terapia para a gente, sabe? Há um processo de transe que está quase me fazendo entrar em contato com o cosmo. Mas tem um efeito colateral: meu processo de seleção de pedras e caroços estragados é muito rígido. Chego ao ponto de, às vezes, chamar um dos meus filhos para uma segunda opinião. Mas a minha mulher outro dia brigou comigo porque um quilo de feijão só estava dando para uma refeição: ― Você tem que economizar! ― Disse ela em tom grave como via o meu pai fazer com a minha mãe.
  • 71.
    Chagas das Almas 70 O problema maior tem sido adequar às crianças. Todas na casa dos vinte. Tenho usado o método de argumentação comparada. É mais ou menos assim: ― Se eu não obedecesse ao meu pai, levava uma surra! Certa vez, quando a sua avó ficou doente, nós tivemos que assumir todas as tarefas da casa! ― ou ainda ― Lá em casa as coisas não eram como hoje não, Coca-Cola todo dia? Nada, só de vez em quando! Papai trabalhava muito, eram muitos filhos. Até que um dia tive que ouvir um deles dizer: ― Caraca...!Pai, sua infância deve ter sido uma merda, hem? Como eu sou da geração diálogo, ou seja, dos otários que achavam que os pais eram muito repressores e agora vemos que
  • 72.
    Chagas das Almas 71 eles até pegavam leve demais, em vez de ficar puto, ri batata baroa. Outro dia saí para comprar vela nova para o filtro. Sinto pela confissão patética da minha condição de classe B com passaporte para C que ainda abastece a casa de água potável com aquele rudimentar objeto de barro. Resolvi entrar num bazar de 1,99. Não achei a peça, mas saí com algumas coisinhas interessantíssimas. Um descaroçador de azeitonas “três por vez”, uma colher de pau de um metro e, para finalizar, uns incensos de citronela, que estavam uma bagatela. Em seguida, fui ao mercado comprar alguns itens, apenas para manutenção da despensa. De repente, me vi sem os óculos e perguntando a um rapazinho o preço da lata de milho. Exato, estendi a lata aos seus
  • 73.
    Chagas das Almas 72 olhos. Depois, sem nenhuma justificativa comentei com uma idosa dona de casa, então colega, sobre o absurdo do aumento do preço dos tomates. Mas essas coisas enfadonhas eu resolvo às quintas-feiras com meu analista. Passaram-se três meses e a coisa começou a virar rotina. O trabalho de casa já me tomava também o turno da tarde. Roupas na máquina e óleo nos móveis... Meu amigo Douglas, editor do jornal, me mandou um correio eletrônico: ― E aí cara, você não tem mandado nada! A situação financeira continuava crítica e eu comecei a maldizer as tarefas do lar. Um mau humor se instalou em mim. No final do mês piorava e se misturava a um estado de muita sensibilidade, chorava
  • 74.
    Chagas das Almas 73 copiosamente defronte à pilha de louças. Segundo meu analista eu estava com TPS, ou seja, tensão-pré-salarial, algo já consagrado e que consta inclusive na literatura médica. Além disso, ele achava que o excesso das demandas do lar veio a produzir uma crise de identidade masculina em mim e, assim, aumentando o estresse. Mas a coisa foi ficando mais grave, comecei a surtar. Um dia, sentado à mesa com os feijões derramados para catar, gritei e varejei tudo no chão. ― Ele está possuído pelo diabo. ― disse meu vizinho, o Pastor Besouro, vim saber depois. Neste dia, passando a crise fui fazer os pastéis do almoço e quando descaroçava as azeitonas, o aparelho quebrou no segundo grupo de um trio das melhores portuguesas. Varejei o objeto longe, acertei o basculante
  • 75.
    Chagas das Almas 74 quebrando um de seus vidros. Em seguida peguei o gato em flagrante se aproveitando da minha distração, com a boca na carne moída sobre a pia e que ia preparar para fazer a porra do pastel. Peguei a colher de pau de um metro e quebrei na traseira do bicho, que largou o naco e saiu grunhindo. Em alto estado de ansiedade, sentei e respirei fundo, lembrei-me daqueles ensinamentos dos tempos inúteis de yoga, ou yôga...? Dane-se! Inspirar e expirar pelo abdomem, é isso. Ah! Acendi um incenso de citronela! Logo, já havia preparado a carne com o que foi possível e recheei os pastéis. Comecei a fritura. Num certo momento me deu remorso e fui me acertar com Fernando, o gato. Ele me esnobou por dois dias até vir massagear minha barriga agulhando-a à
  • 76.
    Chagas das Almas 75 noite na cama. Fernando foi uma homenagem ao Gabeira cometida por minha filha na fase da esquerda festiva, o bicho já está com treze anos! Enfim, nesta, queimei a primeira leva. Na segunda, senti uma baita coceira no olho direito. Fui ao banheiro, um mosquito me picou, ardia a coisa. Passei álcool, ardeu dentro dele. Voltei para cozinha, queimou a segunda leva e óleo estava preto. Fui trocar e percebi que esqueci este item lá no mercado e no final das contas o prato principal foram ovos estrelados. À noite, eu e minha mulher conversamos sobre o dia e a possibilidade de se contratar uma empregada, ou ainda, sobre uma possível internação minha em regime de urgência. Porém, o orçamento ainda não permitia nenhuma das duas coisas e eu abominava a
  • 77.
    Chagas das Almas 76 ideia de ter uma doméstica me inquirindo o dia inteiro como aprenderam com as serviçais das novelas das nove. Ao cair das tardes devia ir para o computador escrever meu artigo, mas estava tão cansado que acabava indo para frente da TV. Foi assim por vários dias até que percebi que não conseguia ficar um deles sem assistir a tal novela. E, em seguida a morbidez: Desastres aéreos na Discovery Chanel. De manhã me prendi ao programa da Ana Maria Braga, que receitas! Em contrapartida rezava pelo passamento do louro... E do pastor que ainda repetia os salmos 23 todas as noites! Mas essas coisas enfadonhas eu resolvo às quintas-feiras com meu analista. Passados mais dois meses, a situação começou a melhorar e conseguimos
  • 78.
    Chagas das Almas 77 contratar uma empregada, consenti sem resignação. Enfim, pude me dedicar só ao trabalho e me livrei definitivamente das tarefas domésticas. Dona Maria não era o ideal, mas além de ser tímida e falar muito pouco, era muito prestimosa e limpava meus livros. Cozinhava direitinho, embora suas almôndegas não chegassem aos pés das minhas. Um dia, meu amigo Douglas me ligou e eu o convidei para almoçar. Era uma segunda-feira, me lembro pelo tédio dos domingos de Fausto Silva e Luís Penido na rádio Tupi, transmitindo mais um desastre do meu Botafogo contra o Quinze de Piracicaba no brasileirão, serie B. Pedi que a Dona Maria fizesse berinjelas recheadas, que sabia que ele gostava, pois elogiava as da minha mãe nos velhos tempos. Em resumo: foram as piores que já
  • 79.
    Chagas das Almas 78 comemos na vida. Elegantíssimo com sempre fora, meu amigo disse sobre meus eufemismos: “Você é exigente demais.” Depois da vergonha, Douglas foi embora e eu fui falar com ela. À moda de uma perua enlouquecida, com vaidade desmedida, típica das classes opressoras, perdi as estribeiras e proferi alto e grosseiramente para ela: ― Caramba Dona Maria, mas que merda! Onde diabos a senhora arranjou esta merda de receita? Malditas berinjelas empapadas! Percebi que passei de “dono de casa” ao correspondente masculino de uma Madame do núcleo do mal das novelas que via. Passada meia hora fui pedir desculpas, mas em vão. Ela pediu as contas, peremptoriamente! Isso pesou à minha
  • 80.
    Chagas das Almas 79 consciência, como se perdesse uma turbina precisando arremeter com urgência. Daí passei a contar cada dia como um presidiário, fazendo um xis no meu postite de tela, torcendo que chegasse logo quinta- feira!
  • 81.
    Chagas das Almas 80 Sombra da Carne “A sombra do teu corpo é o corpo da tua alma.” (Oscar Wilde) Minha fiel companheira, onde se encontra quando preciso de ti em estado de maior escuridão como agora? Onde andas sombra da carne? Momento em que a luz arde em meus olhos na saída do cárcere. O sol nasce redondo de novo e ao contrário dos canalhas injustiçados não vejo bondoso seu esplendor de aurora. Ah...! Quanta ilusão! Não saímos por bom comportamento, foi apenas uma transferência para outra ilha suja, apenas isso. O amor não passa de um grilhão maldito.
  • 82.
    Chagas das Almas 81 Por que não te sinto então comigo? Éramos cúmplices nos deleites e delitos, e na hora do trabalho forçado, tu foges da plantação dos cogumelos contaminados. Tentei te segurar quando caindo ajoelhado. Escorregadia de lama imoral. Driblou-me habilmente no piso árido diagonal. Vejo-me aqui andando nas horas de pátio a te caçar para agasalhar-me como sempre, jogado como um regurgitado acido- lácteo ainda quente. Tentando decolar com uma turbina incandescente. Espera! Vi-te branca...! Como assim? Vi nuanças de faces e gestos, e listas brancas de tuas vetes! Quem fala sou eu?! Deus! Vejo-me agora, uma mancha escura no poço da ala dos dementes!
  • 83.
    Chagas das Almas 82 Não sou eu alma em sombra quem partiu, a mente... Ei corpo da carne! Fastuosa, com todo este aparato cultural de segurança máxima, como fugiu passando as grades eletrificadas de fios de seda da alta tensão e falsidade? Nem eu conseguiria, entrementes! Como me deixou aqui sozinha, pedaço de mancha rota e escura sem uma réstia de claridade ao bem de minha tênue e sutil identidade? Sem poder sequer me distinguir... A escuridão geral me engoliu, às vezes, acho que a gente nunca se entendeu, se sentiu. Está bem, foragido de mim, isto refletirá opaco em ti muito e, porém, corpo de carne... Perdidos, somos dois lados covardes, presas da mesma caça, continuamos alvos fáceis. Nosso coração
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    Chagas das Almas 83 que apanha e dói parará logo. A ti espera uma gaveta qualquer onde descansará inerte sua carcaça e poderá sempre dormir um pouquinho até mais tarde... Quanto a mim, caberá dar continuidade à agonia da vigília com o buraco-negro a querer me sugar como tu, na maldição da eternidade...
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    Chagas das Almas 84 Janeiro Saímos do mês da confraternização e da virada com requintes pirotécnicos decretados pelos homens e entramos no primeiro dia do ano com muita preguiça. Espíritos placebos se curando em vão. Dormimos, levantamos, beliscamos das sobras do réveillon, caímos no sofá, soltamos gases nobres e arrotamos muito, tudo cheirando a quebra nozes, assistimos qualquer besteira na TV, cochilamos de novo e quando vimos já estamos no dia 02, nos arrumando com pressa para trabalhar, entrando na rotina. Pegamo-nos xingando o motoboy no trânsito a caminho do escritório. Pode até ser a mesma toupeira que desejamos feliz natal e um próspero ano novo quando foi entregar o pedido da
  • 86.
    Chagas das Almas 85 farmácia, o “kit ressaca” num dos porres da véspera da véspera. Nossos filhos descansam da escola, da faculdade e se entregam mais aos jogos e redes sociais na gosma da vida sedentária. Algumas pessoas tiram férias da labuta, do chefe que rima e, se guardaram a féria para isso, fazem viagens aos paraísos. Edens fiscais ou tropicais. Na primeira ou segunda classe de um avião inseguro, tanto faz. Dos simples anseios menores aos grandes sonhos, os maiores, quando não, as viagens na maionese... Por vezes estragada, acamados num hospital com uma intoxicação anunciada por uma puta cólica estomacal. Há de tudo, para todos os ponderáveis e imponderáveis desígnios da existência mundana.
  • 87.
    Chagas das Almas 86 Começamos a construir e transferir os planos do ano velho para o que virá. As promessas feitas à beira mar, degustando um manjar ou adorando Iemanjá. Quiçá! É um mês morno. Faz sol escaldante aqui e chove a rodo acolá. É o terror dos bombeiros e ambulâncias. Mês de transtorno e de esmero é também este tal de janeiro! Ao mesmo tempo são 31 dias de superação, temos que pagar o pato, a ceia e os excessos que as vitrines de ontem nos aliciaram. Também há uma trégua pacificadora. Os jornais não trazem muitas novidades, os algozes hibernam para conspirar sobre os golpes do ano bom. Nos corruptos é como se visse estampado na testa um "fechado para balanço" sobre o exercício anterior da putaria. Parece que até
  • 88.
    Chagas das Almas 87 os assaltantes descansam neste tempo de ironia. E os artistas? Nada há de novo, melhor nos contentarmos com nossos dinossauros atemporais, prediletos em nosso mp3 ou descansar os sentidos, melhor, ou talvez. Janeiro pode ser definido como um mês acanhado, pois que vive no liame de seu ascendente e descendente, de farturas e faltas, dependendo da classe a que se está inserido e da cotação do dólar para os bem cotados e nascidos. O que nada acrescenta aos que vivem no black, na marginalidade periférica, os assalariados e suas senhoras, cuja moeda é do lar, louça e roupa para lavar. O subsequente é de alegrias e pândegas que se anuncia a todo vapor na euforia do carnaval. Este mais democrático na divisão
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    Chagas das Almas 88 do estado de espírito festivo e alto astral, algum consolo, menos mal. Enfim, janeiro é como um irmão do meio, que vive à sobra do dezembro e do fevereiro. Mas o réveillon deveria ser comemorado mesmo é no último dia das águas de março, em meio a seu mormaço. Aí, passadas as vinte e quatro horas da mentira, que jocosamente nos lembram de que tudo fora pura ilusão, realmente começa o ano, a vida à vera. E o princípio das frustrações, repletas de ansiedade e solidão, nascentes junto à plenitude e beleza da prima dela.
  • 90.
    Chagas das Almas 89 À beira mar Sou otimista. Com boa, muito boa vontade mesmo, ainda me restam dez ou quinze anos de vida. Uma adolescência... Mas que voa. Bate as azas no destino. Que bom, ele arruma tudo e ainda me promete a eternidade. Não importa que ela exista de fato, apenas que eu acredite agora. Agora é o que assusta. Exato, o agora. O que passa, tenho que jogar para trás, jogar fora. Fora bom quase tudo, mas não vivi intensamente, fugi, ponho na conta do fado e da sina e pago num além, onde pegarei um voo cego para onde nem sei, e o culpado sempre será o piloto, claro, o mordomo da pinguela aérea... neste caso, eu... Quanta falsidade.
  • 91.
    Chagas das Almas 90 Falsa idade não posso mais esconder, algumas rugas me entregam, mas se há algum viço ainda, rogo que não me digam. Mendigam amor, os muitos mal quitados, não eu, contento-me em fingir que tudo deu certo, como planejado. Planos errados talvez, mas vivo das sobras de felicidade dos meus. Até os ajudo, porque dá menos trabalho e não afronta minha coragem. Coro a minha imagem se o novo e um projeto de felicidade me invadem, hesito, pois assim me foi ensinado, por isso nunca amei plenamente, tampouco sei, de fato, quem me amou de verdade. Verdes imagens de imaturidade doem em mim, porque realmente quase tudo é assim de fato... Vacilo muito. Palavras são
  • 92.
    Chagas das Almas 91 perigosas, podem ter farpas, principalmente as ditas com ternura e amabilidade. Habilidades de amar, que me orgulho muito, mas não suporto elogios, se não me puno pelos meus pensamentos que só me fazem alimentar culpa. Eu nasci para ter donos e o meu coração em tudo está repleto, doo o amor e doo a dor. Doador universal, mas também de renúncias e solidão, sinto falta de mim, contudo, insisto. Se eleito, renuncio a tudo que me lembra de quem sou e em que idade. A opinião alheia e a opressão dos meus profetas são como administrar sem verve uma monumental cidadela. Cidade bela do interior, de praia, onde me delicio e sou feliz com a brisa do mar e o sol ameno que reflete em minha face, mesmo sem saber qual delas. Até que venha
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    Chagas das Almas 92 a grande onda negra para me levar, me pegando distraído e à beira mar.
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    Chagas das Almas 93 Vastidão Maior. Tudo cada vez maior. Tamanho em metros quadrados e polegadas dá sensação de poder. Principalmente porque se necessita de mais empregados para mandarmos e humilharmos na manutenção de nossos caprichos e sujeiras, isso é gratificante. Se bem que é legal ser do tipo que diz que lhes tratamos como se fossem iguais. Melhor: “como se fossem da família”. Dever de casa sobre hipocrisia dos mais bem nascidos. Eficientes intentos para distanciarmo- nos dos desafetos e, sem que nos demos conta, também dos afetos, pensem comigo: Cada um dentro de casa com seu computador, seu telefone e sua TV com seu combo no tão sonhado “quarto só para
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    Chagas das Almas 94 mim”, ali onde levamos a xícara ou prato e comemos de olhos vidrados nas atividades virtuais e os sabores ficam todos iguais. É pratico e acaba com aquelas brigas que até me lembro de como deliciosas antigamente. Pelo canal da TV, futebol e novela com os irmãos! Por fim, nos colocamos vizinhos uns dos outros dentro do próprio lar. Tem aquele vaivém agonizante de desejo por bens tecnológicos a ocupar os espaços vazios da casa (da casa?). Sofremos com a expectativa de comprar o aparelho último tipo, o High Tech, e entramos em histeria interior até adquirirmos. Aí sentimos o prazer de estar construindo um bem imóvel de primeiro mundo, quanto conforto. Mas logo o novo modelo já foi lançado no mercado, ele é mais atraente, tem um recurso que nos dará menos
  • 96.
    Chagas das Almas 95 trabalho e empenho, da mais tempo para muitos idiotas, incluindo se aqueles que querem aumentar o pênis. A TV insiste em nos perseguir, exibindo seu status e na rua há cartazes e pôsteres com fotos nas lojas descrevendo seus benefícios sensacionais. Quando chegamos ao trabalho, um colega fala sobre ela com entusiasmo, pois já comprou um protótipo antes de você. Irrita isso, instiga mais para devolver o esnobismo. Enfim, ele, um produto, ou ela, uma coisa, sussurra em seus ouvidos e brilha nos seus olhos a toda hora, dentro e fora de casa. Aquelas parafernálias que adquirimos antes de ontem, nas semanas passadas, já não dão o mesmo prazer, o novo sempre vem e os queremos porque somos pra frente, tipo os dos lá de fora. Contudo, esta girândola arde
  • 97.
    Chagas das Almas 96 em qualquer língua, todos os idiomas. Café quente, sem aroma. Obras na casa, casa na praia... Também é necessário manter isso sempre em andamento, bastante poeira o ano inteiro. É mais prático do que uma empreitada na cachola. Ah! Investir em filiais e franquias! Aumenta o lucro, embora as despesas também, mas é mais trabalho, mais horas para o fim e menos para o meio, ou seja, os filhos ou o companheiro que engorda a olhos vistos! Não passamos de criadores de porcos. Ainda assim sobra tempo para o lazer, não há dúvida. Disney uma vez por ano com as crianças e por elas. Não, por todos nós, aquelas comprinhas... Convenhamos... A família de classe media desabando como um aeroplano da TAM.
  • 98.
    Chagas das Almas 97 Mas somos diligentes, nunca nos esquecemos da vovó com saudades e sempre dizemos: ― Um dia desses vou visitá-la, aquele bolo de cenoura...! Embora, é fato, algumas vezes reclamamos alto: ― “Porque vovó Leda cisma em continuar morando no interior...? Teimosa!” ― Mesmo sendo bem mais perto que Miami, 120 km de carro. Yes, nossa charanga é importada, comprada em prestações que sabemos quando acaba, ao contrário de nós, nossa existência que pode ir antes delas. Quando sentimos que estamos naquela fase boa, a casa com a churrasqueira e sauna com as obras encerradas, os negócios indo de vento em popa e aquela TV citoplasmática de 180 polegadas, o “enfim, comprei”! Juntamos a família e os amigos para a inauguração. Um terço não vai
  • 99.
    Chagas das Almas 98 porque tem tudo que temos; outro terço vai porque não tem e temos. Outros não aparecem se somos do tipo que ficamos babando em nossas conquistas, fotos de Miami, além de morarmos longe pra cacete. Enquanto isso, a galera jovem fica trancada em seus quartos jogando Playstation. Alguém vai levar picanha e coração lá para eles, que, ironicamente, conhecem até as vísceras, embora nunca tenham visto uma galinha na vida se não que à moda Touch Screem. Naquela cerveja saideira, uma série que se insere numa quantidade que já perdemos a conta e o sabor, quando sobraram, se muito, umas oito pessoas ouvindo às alturas nosso novo CD dos sambas de enredo que as escolas já compuseram para fevereiro, o
  • 100.
    Chagas das Almas 99 telefone toca. É a vizinha da vovó anunciando que ela morreu.
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    Chagas das Almas 100 Como dizer não Ah! Santo Deus! Como dizer não?! Eles são um casal de amigos tão amáveis. Mas chega. Não suporto mais as pessoas que vivem das minhas gentilezas, sugando da minha alma para desfilarem as suas tediosas e cacetes. Não, nesta nós não vamos. Não precisa de muito, uma resposta como uma puta dor de cabeça está bem ao nível do convite deles para irmos tomar um vinhozinho e ver suas fotografias da última viagem à Paris. Junto ao convite ainda vem àquela recomendação: ― Olha, não precisa trazer nada, não. ― Protocolo que faz parecer querer se afirmar: "somos melhor de vida que vocês". Há de chegar o dia em que responderei: ― Nem travesseiros? ― A porra da hesitação, do adiamento. Respondi
  • 102.
    Chagas das Almas 101 com uma mentira dizendo que ia consultar a Barbara, pois achava que ela tinha comentado alguma coisa sobre outro compromisso amanhã; quer dizer, abri mais o leque para inventarmos uma desculpa e disse que ela tinha ido ao mercado, com a palma da mão em sua boca, pois ela estava ao meu lado, e que então ligaríamos mais tarde. Sim, o “ligaríamos” era já uma informação subjetiva de que estava jogando a roubada para a mulher, óbvio. Ela sempre mais complacente que eu: ―Vamos sim, é tão raramente e passa rápido. ― argumentou. Não, discordei, sou pela teoria da relatividade, citei Einstein: ― “Três segundos sentados numa boca acesa do fogão parece durar muito mais que um delicioso beijo de meia hora numa rapariga.” Não, não passará rápido, parecerá
  • 103.
    Chagas das Almas 102 uma eternidade. Entrarei com o resto que sobrou de minha jovialidade e sairei com incontinência urinária, dores reumáticas e demonstrando sinais de esclerose. Fecharei com um mico ao sair: ― Onde diabos colocaram minha bengala? ― Bem, acabei percebendo que antes da árdua incumbência de ligarmos para eles para dar uma desculpa, teria que convencer a mulher. Usando minha humilde habilidade de cronista e junto pegando emprestada uma veia perdida como ator, como que a hipnotizando, disse: ― Imagine querida? Nós vamos chegar lá, primeiro aquele poodle asqueroso. Amanhã promete chuva, a primeira coisa que vamos fazer é ir ao banheiro limpar o barro das calças feito pelas patas imundas daquele animal mimado. Eles já têm até as toalhinhas
  • 104.
    Chagas das Almas 103 prontas, bordadas com o nome dele: Michel. Só para isso. Viado! Depois o Naldão abre o vinho, pois aquelas pastinhas malditas já estarão expostas. Claro, bem previsível: salaminho, tremoços, ovos de codorna, azeitonas e molho rosê. Ah!... E sacanagem, é claro! Não, quem dera! É aquela porra daqueles palitinhos com mozzarella, salsicha e azeitona. No final, quando o trigésimo álbum vier a ser mostrado, chega o gorgonzola e já estamos empapuçados, estratégia mesquinha. O Naldão desagradável, não segura os bocejos escancarados como se quisesse mandar a gente embora. Ou esse é o melhor lado dele? Verdade, quem adora essa porra mesmo é a Márcia. É sempre assim. Tem todo um ritual. Primeiro a gente fala de futebol, eu e Naldão. Ele é Flamengo
  • 105.
    Chagas das Almas 104 doente, sem redundância. É, dizem que tem coisas que só acontecem com o botafogo, e com botafoguenses também. Depois ele vem elogiar o Lula, que nos tempos da escola chamava de analfabeto e vagabundo. E vocês na cozinha. Enquanto ela disserta a rotina de seus filhos com orgulho e elogios, você tenta falar algo sobre os nossos e ela interrompe. Porra, cá entre nós querida: Eles são bonzinhos à beça, mas são chatos pra caralho! O máximo que você vai conseguir dizer é “tem certeza que não quer uma ajuda com a louça?” E sabe que ela vai responder? “Que nada, amanhã a empregada vem e lava tudo boba!” Numa mistura de gentileza e ostentação. Começa as fotos, primeiro álbum. A descrição é minuciosa, pois em Paris é a primeira vez que eles foram. Ah! Um caso
  • 106.
    Chagas das Almas 105 que um começa a contar sobre um motorista de táxi mal educado, o outro interrompe e corrige: ― Não “benhê”, isso foi indo para Sainte-Chapelle. ― Tenho certeza que não foi "moreca". Foi indo para Notre-Dame. A gente ali, esperando eles chegarem a conclusão sobre um fato que não nos interessa bosta nenhuma. Dá vontade de dizer nas entrelinhas: ― Tudo bem gente, quanto tempo para chegar daí à Torre Eiffel? ― Sim querida, só você entenderia o duplo sentido. No álbum, não, em Paris. Pois que claro, sabemos que a Torre e o Louvre terão um álbum exclusivo cada um. Mas antes vem o Palácio de Versalhes, óbvio, e sei lá por que, a narrativa deles sobre as fotos segue o estilo barroco do
  • 107.
    Chagas das Almas 106 monumento. Narrarão em rococó! Disse depois a Barbara que ainda não estávamos juntos quando fui, faz uns sete anos, numa chatice desta, era a primeira viagem para Disney. Mais fácil, pois podia jocosamente pedir para pular o Pateta e o Mickey, já que são personalidades consagradas. Essa merda é a mesma coisa que, se por obra do acaso, assim como sortudos acertam a mega-sena, seis fatores me levassem a comer a Shakira. Porra! Imagine eu chamando a turma do pôquer para contar: ― Gente! Pegar naquelas ancas... Ah...! E a vagina dela... é perfeitinha, só falta falar! ― Cacete, eles podem se orgulhar, achar interessante, mas nunca vão saber exatamente o que é comer a Shakira, caralho! Barbara pede calma. Ok. Vejo-a desanimada, mas ainda há um resto de
  • 108.
    Chagas das Almas 107 humanidade nela que me diz: ― Tem certeza que não devemos ir? Dou meu último suspiro, penso e tento meu argumento fatal. ― Sabe como termina? Ao fim do último álbum, sempre sobram algumas páginas que ficam em branco, certo? Eles completam com fotos de família. É uma mistura das sobras dos eventos dos álbuns completos, então misturam dez do aniversário de um ano do Marquinhos, quinze do natal e aqueles infames dos encontros de casais. Dá saudades de Paris! Você vai ter que ver pessoas feias, que nunca viu na vida e ainda sendo informada: ― Essa aqui ó, é a Carmem, enteada do meu sobrinho por parte do Naldinho. Olha a tia Roseli! Lembra dela, não? Tadinha ela agora está com diabetes e perdeu o pé. ―
  • 109.
    Chagas das Almas 108 Foda-se a tia Roseli! Moooorram todos ali. Podiam estar todos no avião para Paris e a nave cair. Deu certo! Mas acho que exagerei. Barbara lacrimejando pediu: ― Pare! Eu não posso mais, por favor, pare! ― Revelando também certo talento na dramaturgia. Depois confabulamos, fizemos uma espécie de brainstorming, esfregávamos as mãos, ríamos, nos arrepiávamos. Parecia haver um prazer mórbido e malicioso em criar uma desculpa, até que... Vamos ligar! ― Oi Márcia...?! Pooooxa, chaaaato, chato mesmo, mas desculpe, se vocês tivessem ligado antes. Pois é, combinamos em levar as crianças ao cinema e depois comermos algo. Sabe como são os filhos né... Que? Imagina se eles aceitam ir junto!
  • 110.
    Chagas das Almas 109 “Programa careta”... Ah! Os seus meninos também...? É tudo igual, né? E a gente ainda tem que assistir ao filme que eles escolherem... “Duro de matar 5”, é mole? Duro de assistir 5, isso mesmo... Ah! Ah! Ah...! '' Claro, McDonald’s, aquelas porcarias. Nem fala... um vinhozinho neste frio... Só de pensar me dá água na boca! Então, e as fotos! Não, nunca, nem Paris nem nada, só região dos lagos... (grgr)... Mas vamos marcar depois tá... Olha, a vó vem passar um mês aqui em casa sabe, a dona Graziela, vó do Thêmis. O clima da serra neste inverno castiga ela, tadinha... Mas no mês que vem... pô, já está certo Márcia. Manda um abraço pro Naldão. Olha, o Thêmis também tá aqui mandando um abração (não é verdade, mas é de praxe,
  • 111.
    Chagas das Almas 110 não só nossa, dos leitores também, vem não!). ― Tchau! Sim, a Barbara ligou né. O plano foi perfeito. O exercício da mentira e da hipocrisia fora executado com primazia. E ainda ganhamos um mês com a vovó, sim, a velha e boa vovó que tanto matei no tempo da escola e do trabalho. Sempre a nos servir. Até já falecida. Ressuscitamos e matamos. Que bom que eles não sabiam de tal finitude ocorrida há quase um ano. Que Deus a tenha. A sensação de alívio só veio mesmo no dia seguinte. Levantei radiante naquele sábado. Fui à cozinha e Barbara estava lavando a louça (grrr) e os meninos tomando café papeando. De repente, me deu na telha: ― Galera, que tal sairmos hoje para assistir o novo Duro de Matar 5 e
  • 112.
    Chagas das Almas 111 depois comer no Mac?! Eles se entreolharam. E depois para mim, como se eu tivesse dito alguma barbaridade, (sem trocadilhos com a mulher), tipo: ― Onde diabos colocaram minha bengala?
  • 113.
    Chagas das Almas 112 Psico bélica Meu testamento será covardia e fracasso, só farei jus a uma parede fria e sem epitáfio. Mas não quero como pena a eternidade. Quem tanto deseja e sente-se dono de tudo merece serenidade, pois que cumpriu apenas o que lhes deram de identidade, angústia. Que eles deem então a não finitude aos hipócritas. Quão agonizante isso! Será a morte mais perigosa que a existência mórbida que não possamos ter paz em vez de viver buscando luz na obscuridade? Não quero existir bastante, pois que isso é o que basta. Prefiro ser aí um bastardo... Portanto, não julgo um suicida, o mais passional dos criminosos, que faz à vista o que eu e muitos fazemos a prazo com a vida. Todos sentindo que se
  • 114.
    Chagas das Almas 113 expirou o prazo de validade das boas aventuranças. Que não vale a idade, se vai idade, moça idade para fazer o certo e consagrado, ou seja, reeducação alimentar, deixar de fumar, se embriagar e ser comedido, além do tedioso exercício físico, não, nada compensa. Só o crime. Todo mundo no fim está fodido. Se não vale a pena (dos outros) é porque não se é tão feliz assim quanto se ostenta. Vai chegar o dia em que a expectativa de vida do homem será a meia era! Aos 50 e pouco, já era! Oxalá! Imaginemos quão perfeito se ajustaria o mundo se a morte se desse aos por aí. Como a média de hoje, os cidadãos de 70 passasse a longevos, morrendo lúcidos e com maior dignidade. Um Nieymeier menino. Poderia enumerar as vantagens que são muitas, mas deixo a seu
  • 115.
    Chagas das Almas 114 cargo esta criatividade... Chega disso! Quem viveu covardemente, há de morrer covardemente. Imprudência? Não. Os obituários estão cheios de pessoas prudentes que se intoxicavam de saúde ou preferiam os automóveis, ultraleves estraçalhados no chão. Eu no máximo, sou meio “deprê” com a vida. Mas rio e me divirto muito. Somadas as partes e divididas pelo mesmo valor, meu produto é zero, apenas torpor, mas este repleto de amor. Envelhecer é uma sina, apenas serve para aprender um pouco a morrer. Eu não passo de um ego, mais impotente que um cego, já que esse consegue até ver a fisionomia de seus filhos crescendo. Com o tato, magnífico intento! Eu não. Encho minha cabeça com palavras e desperdiço olhares, todos os sentidos... Tidos... Como sãos,
  • 116.
    Chagas das Almas 115 são? Muitos, sem sequer acompanhar o crescimento dos filhos com todos os sentidos. A labuta é vossa escravidão e se dizem “olho vivo” por ganharem bastante dinheiro que no fim é para dar o melhor ao rebento e morrer empilhado de renúncias. Quem dá mais? O cego de poucas posses ou eles, ditos em boas condições de saúde, “homens de visão” e suas donas com casacos de visom? Todos remelentos pelas manhãs, pois não. Embora os meus pensamentos com minha voz e a voz dos outros que me lembro, em qualquer língua, sejam mudos, telepáticos, porque tanto barulho? Da vontade de auto induzir-me ao coma, esse processo mágico do corpo para se entrar em off-line. Isto me parece um déjà vu, que pra mim está mais para “à être vu”. Já vi também, sem prévio aviso, a luz
  • 117.
    Chagas das Almas 116 de Einstein curvar-se a Deus com elegância e reverência, há poesia na ciência, sua magnificência. Talvez esse seja seu único propósito e ele se esqueceu da arte universal, só isso. Como as cordas no átomo que vibram em harmonia como a lira entoando belas melodias em milagres de vida quântica, a física romântica. Todo dia 24 de novembro, faço meu ritual beato, presto um minuto de silencio às Sete Quedas, brutalmente extintas por assassinato. No fim, em dez mil e tal, estaremos esquecidos, o foco será a caça dos rastros do Homo digital. Portanto quero viver minha boemia, liberdade pessoal, como quem vive uma anarquia, um cio espiritual, repleto de romance sensual, como os vampiros, nos undergrounds das noites num pub ou hospital. Melhor do que
  • 118.
    Chagas das Almas 117 a sobriedade da melancolia, onde fico tentando escrever explicações com pena de lágrimas em livros sem páginas e capa dura de edições ordinárias. Cansam-me o melindre alheio, pessoas feitas de cristal que se comportam como bibelôs e temos que falar outra língua, dialeto, repleto de eufemismos e cuidados, por fim mudando quase o sentido da prosódia, linguagem de criança, como um contador de histórias. Dispenso o glamour, a futilidade no auge da mais fiel sedução. Outra dependência, como a devoção. Não crio mais expectativas. A expectativa é uma boa atriz que rouba a cena do fato. Eu queria ser competente em motivar a ação, contemplar a ação e saber criar atividades. Mas nasci sem dom. Estou cansado de euforia, como quem vive de estabilizantes aromatizados artificialmente.
  • 119.
    Chagas das Almas 118 Minha mente mente, somente. Mas tenho sempre à mão um caqui verde para dar àqueles que me acusam de não ter sido maduro na jovialidade. Sou um grão de areia vigente... E assim vejo e sempre vi gente, muita gente. Nesta magna e soberba terra, filha órfã de pais celestiais, menina dos olhos das razões universais. Ouso atirar a pedra que ninguém quis atirar... Se já tiver morrido, que seja um meteoro na vastidão do infinito. Minha sina é se ferrar?
  • 120.
    Chagas das Almas 119 Alívio ou humilhação? Fomos às compras naquele sábado. Qualquer sábado ora. O que diriam nossos primatas ancestrais ao ver tão triste ritual para busca de alimento. Um lugar superlotado de seres da mesma espécie se esbarrando uns nos outros em meio à poluição sonora dos caras que anunciam ou denunciam aquilo que você pode comprar com aquela voz sensacional, sensual, em tom pra lá de original. E carrinhos congestionando o tráfego dos amplos corredores... da morte! Ainda tem sempre aquele fedelho que faz “vrum”, rápido como um maldito Concorde, até acertar o ferro inferior dianteiro do seu veículo “de brinquedo” no seu calcanhar. Se voasse
  • 121.
    Chagas das Almas 120 deceparia cabeças em acidentes aéreos surreais. Como eu queria beliscar um deles. Começamos sempre pela seção de hortifrutis. É a tática de começar pela pior parte, se é que, a exemplo de programação de TV local, há alguma melhor parte. Resolvi ensacar uma dúzia de laranjas Bahia, que apesar do preço pareciam suculentas. Uma senhora ao lado, como parte do rito completo dos humildes, me pede para ler o preço da banana na tabuleta. Ela ouve, me agradece e não leva. Provavelmente sente-se saudosa como eu, dos bons tempos em que banana era sinônimo de coisa barata. Depois das frutas e legumes, fomos ao setor de carnes. Aquele, cuja fila não nos distingue muito daquelas que os seus
  • 122.
    Chagas das Almas 121 “fornecedores” entram para ser degolado nos matadouros, com lágrimas que antecipam o golpe fatal, no nosso caso, o preço. Tomamos uma decisão sofrida, daquelas que podem render várias consultas no analista, tamanha culpa que produzem: pedimos uma peça de filé mignon. Enquanto isto, ao meu lado, uma mocinha pedia dois bifes de chã, um coração de boi para o cachorro – provavelmente o seu marido – e perguntou o preço do bucho ao atendente simpático do açougue. Virou-se com a bolsa como quem esconde a humilhação nela, depois voltou para o atendente e disse: ― Não vou levar o bucho não, é só isto mesmo. ― Fiquei chocado ao confrontar minha visão da situação do país promovida em propagandas institucionais no horário nobre
  • 123.
    Chagas das Almas 122 da TV: Escolas bem acabadas com crianças de boa dentição, incluindo negros, além de índices de crescimento animadores que encerram com slogans de entusiasmar o cidadão. Parece que a gente está na Suíça. Então, vai ver aquela mulher não passa de uma incompetente ou irresponsável, não é mesmo? Não podíamos sair sem levar algumas coisas para as crianças. Assim, terminamos na seção de laticínios. Enquanto pegava duas bandejas de iogurte, um senhor bem ao meu lado, paletó surrado e chapéu não menos, tipicamente aspecto de aposentado do INSS, que carrega documentos em saco plástico, pegava e devolvia, analisando preços, vários produtos na seção. Bem, hoje os supermercados têm uma política Apartheid nas arrumações das prateleiras:
  • 124.
    Chagas das Almas 123 De um lado as seções dos produtos nobres, estes que a mesma publicidade da noite na TV vende com famílias cheirosas, e do outro, os produtos baratos, com corante vermelho sangue, cheiro de cachorro molhado e uma série de substâncias que nunca aparecerão em nossas autópsias. Mas o mais desagradável foi ver um menininho na seção de chocolates enquanto eu pegava três caixas de bombons. Ele demonstrava as dores de suas renúncias com um biquinho de choro preso na garganta e a cabeça baixa, puxando com a pontinha dos dedos a manga da blusa da mãe discretamente, enquanto na outra segurava uma réplica de brinquedo ordinária de aviãozinho comercial. Certamente aprendera que só assim podia se manifestar, ao contrário dos berros e
  • 125.
    Chagas das Almas 124 escândalos dos riquinhos, apesar de saber que, no máximo, ganharia um Batom Garoto nas conveniências de última hora dos caixas, feitas para... Para os donos dos supermercados ganharem mais em cima da gente, povo que adora quinquilharias, é claro. Demos sorte naquela hora que talvez seja a pior das compras, ou seja, a fila para pagar, ela nos dá tempo para lembrar o que faltou. Devolver o que culpou, se arrepender e refletir que aquele carrinho só durará pouco mais de uma semana frente a minha voracidade e a das crianças. E ainda pagamos taxa de esgoto, ca-ce-te! Já terminando a vítima da frente, vejo atrás de mim, e aos lados: A mulher cegueta, a mocinha envergonhada, o senhor aposentado e o menininho relegado. De
  • 126.
    Chagas das Almas 125 repente começou a dar uma sensação desconfortável ao perceber meu carrinho cheio de guloseimas, supérfluos. Sentia como se eles me olhassem a pensar: “Você é o culpado por tudo.” Suava, rezava para a caixa contabilizar o mais rápido possível nossos itens. Para piorar, ainda tive que ouvir a mocinha do caixa falando para outra colega ao lado em alto e bom tom: ― Olha só fulana, isto aqui é que é champignon ó, que te falei outro dia, nunca provei, tenho a maior vontade, mas olha o preço. Até que, enfim, a minha mulher entrega para ela o cartão para pagar aquela quantia que achava que todos em volta esticavam o pescoço para ver, com mórbida curiosidade como faz o povão quando, por exemplo, cai um carro dentro do rio.
  • 127.
    Chagas das Almas 126 De repente, eu e meus fantasmas fomos pegos de surpresa com a minha mulher me puxando abruptamente, mandando a gente sair rápido dali. Largamos tudo e, lá fora com ela me empurrando táxi adentro, perguntei atônito: ― O que é que aconteceu, mulher? ― No que ela arrematou: ― Nosso cartão foi recusado...
  • 128.
    Chagas das Almas 127 Hello Horooy Se verter-me às lembranças dos fatos bem assinalados, sobra réstia de sucesso na obscuridade do mundo das sombras. O real não é palpável, posto que história escrita por escribas endinheirados só discuta a parte que nos cabe de liberdade, que para alma está para vida como o mundo está para o estreito de Gibraltar. Sentados nas confortáveis poltronas de suas esquizofrenias não diagnosticadas, bebem muito uísque doze anos e fumam charutos cubanos, quanta ironia, discutem em gargalhadas as cifras e saldos de extratos milionários e o que pensam em ilusão apenas de sobras mais gigantes sobre os legados de seus nomes. Depois vão vomitar o que nós também vamos limpar. Por isso
  • 129.
    Chagas das Almas 128 eu ouço agora Alice Cooper, sem entender a língua deles, pouco importa, mas destilando da melodia a rebeldia que brota nas entranhas de seus olhos pintados em maquiagem preta, junto aos solos metálicos rebeldes com causa. Outro tipo de sombra, contra os males do mundo, as vistas das cavernas, denunciando que todos nós estamos presos nas correntes dela, os contempladores, apenas com a promessa da vida eterna, tolos é o que somos. Acendo o cigarro e ouço mais músicas de roque pauleira e progressivas. Junto, vêm da janela, sons de bombas e torpedos tipo de guerra, ecoadas do morro perto e de destino incerto. O amor é isso em sua versão cinzenta, paixão por matar. Não choro mais por estas coisas e digo sem cerimônia que me lixo para cada ser humano anônimo. Eu
  • 130.
    Chagas das Almas 129 quero nomes! Se não há, não há crime, a exemplo dos corpos para a justiça. Esta impessoalidade é insuportável, logo, não desperdiçarei mais lágrimas para números de “cepeéfes”. Isso não é frieza, é cansaço. Sei que o mal não se abate só ao lado, mas o egoísmo está se impregnando em mim, é a “alma do negócio”, não estou isento por ler muito, sou o mesmo nefasto, eu também construo o mundo. Tramas familiares entoam a dor dele também. Não, nada é tão ruim só da porta para fora, o mesmo ocorre na casa de hoje e de outrora, quando os pais me acordavam com canções em francês. Cada um é sobra de barro ou argila facilmente moldado para servir. Servil. Não! Ser vil, cada qual é em verdade, da velhice à mocidade. Ingênuos, um dia achamos que nos juntamos e entre canções
  • 131.
    Chagas das Almas 130 de Chico e Caetano mudaremos o mundo. Depois passa o tempo e somos também parte “deste mundo”, eles são. Esperando por um céu, onde sempre julgamos merecer, mesmo sendo mais um reles e abjeto estar em estado de vir a ser. Não importa à física, que aqui devemos pegar um avião para viajar de um lado para o outro totalmente oposto do globo, espaço e tempo percorrido por um corpo bípede saudável ou extenuado. Para lá se vai e pronto, tele transporte arbitrário, sem qualquer explicação. Ida e volta, rodando em círculos em vão. Alguns guardam e insistem com o que chamam de ideologia, mas são sempre rotulados e amputados pela massa pensante. Aqueles que pensam a vida sem a arte. Corrige-se: Gente que processa ideias com
  • 132.
    Chagas das Almas 131 lógica. Como eu aqui e sequer respeitando o tempo dos verbos, para mim desprezíveis, já que em maioria a serviço do asco e do cobiço. Não fumo maconha e não bebo, mas me sinto meio doidão. Defeco sacos de bosta para a sensibilidade do futuro e me abstraio olhando o quadro do Magritte à minha frente, fixado na parede amarelada pela tinta e a nicotina que lhes conferem cor peculiar de cream-cracker, tom pastel, destes fritos com óleo saturado, em seguida vem a tosse, muita tosse. Mas isso já me acontece também no campo, com o ar puro no pomar na casa da minha irmã. Overdose de oxigênio! Na verdade, o quadro não me diz nada e é delicioso como uma romã, nem sei por que, talvez apenas pelo fato de me fazer esquecer em ínfimo e precioso hiato de pensar em bela manhã ou antes de ir me
  • 133.
    Chagas das Almas 132 deitar, me abstraindo com os olhos fixos na distração. Pelos homens de charuto, nos perdemos de nossos focos e das velhas prioridades, vamos para cama para despertar bem cedinho para viver, dormir, acordar, viver, dormir... Isto já é morrer, apenas chega uma hora em que não nos levantamos mais. Simples assim.
  • 134.
    Chagas das Almas 133 Ah, se não fossem cortar a minha luz! A fila do banco estava de lascar, minha senha era 264 e o torturador eletrônico marcava 167. Ah! Se não fossem cortar a minha luz! Não tinha jeito, era esperar ou esperar. A vantagem é que numa agonizante fila de banco sobra tempo para muitas reminiscências. Comecei a me lembrar da época em que os bancos tinham uma fila separada para cada caixa. Eu era jovem, mas já me irritava em ficar em pé muito tempo. No final do mês, em dias de pagamento, ficava furioso e me contentava em brincar comigo mesmo vendo um careca da fila ao lado ir ficando para trás. Mas às vezes, quando faltavam dois antes de mim,
  • 135.
    Chagas das Almas 134 tinha aquele office boy pentelho, com um malote cheio de pagamentos e cheques para depositar e o careca acabava, quando não se ladeando a minha poliposition, saindo antes de mim da agência. Eu ainda via um sorrisinho sarcástico no canto de sua boca, provavelmente produto da minha mente, e pensava: “filho da mãe!” De repente perdi a distração com o sujeito da frente a me falar cochichando: ― É um absurdo não é mesmo? Trezentas pessoas na fila e apenas dois caixas para atender! ― Verdade mesmo. ― Respondi. Nesse momento passa um gerente e o sujeito acena para ele: ― E aí, tudo bem amigo? Passados mais quarenta minutos, outro sujeito, agora o que estava atrás de mim,
  • 136.
    Chagas das Almas 135 resolveu perder as estribeiras: ― Caramba, este banco é uma bosta! No que num ato impensado, da mais absoluta infelicidade, aticei com um magnífico clichê: ― É, se fosse na Argentina, todo mundo já estava protestando na gerência. Pra quê? O cara se empolgou: ― É isto mesmo, vamos lá! Saímos da fila: ele, eu (o idealizador, como não ir?) e mais dois ou três adeptos da causa em direção à elite opressora do sistema capitalista. Até que surge um cara de meia-idade, terno, gravata e bigode, o gerente, quem mais? Que logo vai de encontro ao sujeito em que nos amparávamos, não perdendo tempo convidou-o logo para um café: ― Em que posso ajudá-lo?!
  • 137.
    Chagas das Almas 136 Como é extraordinário este feeling dos gestores experientes para identificar e eliminar líderes de uma iminente rebelião. Isto mesmo. Perdemos nosso mártir para o sistema, ou melhor, para um café fresquinho num box com cadeiras confortáveis. O pior de tudo é que eu e os três dissidentes do levante tivemos que voltar de cabeça baixa para o final da fila. Ah, se não fossem cortar a minha luz! Eu continuava puto porque já era correntista do banco, mas não passava de duas estrelas há quase dois anos. Verdade, uma agência bancária é o protótipo perfeito do capitalismo. Olho à minha direita e vejo uma fila para clientes Plus – dizia a placa. Uma perua e um senhor muito bem vestidos encabeçavam um caixa exclusivo, enquanto
  • 138.
    Chagas das Almas 137 os outros estavam lotados. Depois, olho à minha esquerda e vejo uma fila destinada a gestantes, crianças de colo, deficientes e idosos. Nela havia uma linda moça que supus estar no primeiro mês de gravidez, com o resultado do teste de urina da farmácia na bolsa para qualquer eventualidade. Depois outra de meia-idade suando em bicas ao segurar uma criança de nove ou dez anos no colo. Na terceira posição, um cara com uma bengala que devia ter se contundido na pelada do fim de semana. Por fim, um idoso com tudo em cima, que se disputássemos um confronto de check-ups, certamente me daria uma surra. Este banco não era daqueles que punham cadeiras para a gente esperar, talvez porque se tratasse de mais humilde
  • 139.
    Chagas das Almas 138 instituição financeira multinacional. Crise na bolsa, estas coisas... Então não obtivesse recursos suficientes para tal investimento, havemos de compreender. Mas não se pode dizer o mesmo para o marketing, cacete! Em cada parede um pôster anunciando o título de capitalização ou seguro de vida do banco, com aqueles seres humanos perfeitinhos, família modelo, Acima de tudo, bocas com sorrisos fartos de dentes de porcelana, brincando de roda num gramado tapete, coisa de fazer inveja mesmo. Na verdade, aquele monte de cartazes que anunciam as vantagens do banco “que foi feito para você”, faz-me quase pensar que eu estou dentro de uma entidade filantrópica. Este dia no banco estava trepidante mesmo. Mais meia hora e ouvi um cliente
  • 140.
    Chagas das Almas 139 espinafrar uma daquelas gostosinhas do atendimento preferencial, porque haviam feito um débito errado em sua conta corrente: ― A gente faz um estorno Dr. Roberto Alhadas! Reconheci a senhorita Meireles. ― Não adianta, agora já voltou um cheque meu, quero fechar minha conta. Continuava bravo o janota, até que sem saber mais o que dizer, ela apaziguou os ânimos dele com uma baita oferta: ― Olha só, para lhe recompensar dessa situação constrangedora vamos suspender suas tarifas para os próximos meses. E podemos lhe financiar uma viagem de férias para Aruba. Seu saldo médio permite. O cara não deu o braço a torcer, mas saiu feliz e triunfante. E eu, bem... Eu fiquei
  • 141.
    Chagas das Almas 140 muito puto! Não me contive, larguei de novo a fila e avancei sobre a mesa da Márcia, primeiro nome daquela ordinária da senhorita Meireles, que na verdade nem era gostosa. ― Pô garota, eu tive semana passada aqui com você pedindo quase de joelhos uma redução de tarifas, explicando minhas dificuldades e você disse que não era possível, que dependia da regional e blá, blá, blá... E agora esse cara vem aqui, arma um barraco e consegue isenção total, cacete?! Só porque ele é um empresário bem sucedido na fabricação de Oboés?! ― Um cara na fila me informou por acaso... Ela ficou meio em apuros e diante daquela multidão de pessoas olhando de soslaio sacou a resposta:
  • 142.
    Chagas das Almas 141 ― Desculpe senhor, mas este benefício só pode ser concedido aos clientes Plus. “Ah, se não...” Não, nada disso. Saí furioso porta fora – porta adentro – porta fora, enfim, daquela espelunca! Quando dei por conta estava no interior de um supermercado passando no caixa onze caixas de velas.
  • 143.
    Chagas das Almas 142 Para onde vai a odontologia?! Sabe aquela puta dor de dente? Pois é, foi ela que subitamente me pegou em pleno centro da cidade do Rio de Janeiro num daqueles dias escaldantes na casa dos 40 graus. Acabava de chegar de Petrópolis via terminal Meneses Cortes para mais uma aula de Oboé na escola de música Villa Lobos. Eram aqueles tempos em que eu era de esquerda radical. Resolvi que o melhor para minha vida era ser um profissional anônimo. E como queria ser artista, nada melhor do que entrar para uma orquestra, e tocando oboé, óbvio! Até que percebi o quanto uma orquestra é burguesa. Vários integrantes se esforçando, dando o máximo de seu fôlego ou punhos para atender a vaidade e a fama de um cara empertigado,
  • 144.
    Chagas das Almas 143 que só sabe fazer pantomima e muita fita, se gabando de, com uma varinha na mão, comandar o espetáculo, como uma fada madrinha! É... Pensamento de esquerdista babaca mesmo. Mas isso não tem nada a ver com a história. A dor de dente, fruto daquele canal tipo "do Panamá" que negligenciamos o tratamento é pior do que dor de parto, de barriga e de cabeça, quando se está com dor de dente, sim. Entrei numa farmácia na Carioca e pedi um destes engodos “Passa já”, “Um minuto” ou qualquer anestésico local. Só tinha xilocaína e foi aquilo mesmo. Pedi para usar o banheiro e coloquei meio tubo no lado inferior esquerdo da boca. Houve um alívio imediato, mas ao agradecer o balconista da farmácia e colocar o pé na
  • 145.
    Chagas das Almas 144 porta, veio uma fisgada. Eram aqueles malditos nervos novamente. E pensar que vinha utilizando regularmente um creme dental daquela tripla-ação, anti-placa bacteriana que o reclame da TV anunciava como a panaceia bucal. Corri desesperado e me deparei com um prédio comercial na Nilo Peçanha, entrei no elevador e respondi ao ascensorista: ― Para onde tiver um dentista! Sensibilizado, ele respondeu; ― Dr. Silas Ubirajara, sala 406. Adentrei o consultório, sem recepcionista bati na porta, ele abriu e apesar de perceber meu desespero disse que tinha dois na frente. Olhei para os respectivos, um tirou os olhos rápido de mim e voltou-se para a revista cuja capa,
  • 146.
    Chagas das Almas 145 me lembro, estampava a vitória de FHC nas eleições. Bem, estou contando essa história sofrível e o Lula está terminado o segundo. O outro, um moleque, estava mais confortável, com fones no ouvido nem tomava conhecimento da situação. Foram 50 minutos cronometrados em que eu me postava como uma cadeira de balanço em movimento. Até que entrei e me sentei. O Doutor me perguntou qual era o dente e após eu responder ele olhou e disse que não tratava de canais. Indicou-me um colega perto dali, Rua Debret, sobreloja, ― Segunda à direita saindo do prédio. ― disse o especialista em cáries. Lá fui eu, sem me dar conta, em oito minutos estava no consultório que para minha sorte encontrava a porta aberta com o Doutor “não me lembro o nome” sentado
  • 147.
    Chagas das Almas 146 na cadeira do cliente tirando uma boa soneca. Para chamar sua atenção, não tossi, disse: ― Aaaaaiii...! Ele despertou. Fez o mesmo procedimento do dentista anterior, mas não olhou. Quando eu disse que era em baixo, ele foi decisivo: ― Desculpe-me, mas canal, só trato da arcada superior. Mas tenho um colega aqui perto que pode te ajudar, Rua da Quitanda 40, esquina com a Sete de Setembro. Percebia que fazia um tour no centro do Rio ao bel prazer das ciências odontológicas e nunca estas ruazinhas conhecidas me deram tanta raiva. Fui até lá em absoluto sacrifício. A essa altura com meu lenço no rosto provocando piedade aos transeuntes mais sensíveis, se é que há. Entrei no consultório do cara, Dr. Rulfino Salatial, li em letras garrafais na
  • 148.
    Chagas das Almas 147 plaqueta da porta. Dei mais sorte ainda, mas será que eu posso dizer isto? Bem, quero dizer, peguei o Dr. sem pacientes, chegando do “volto já” que anunciava um pedaço de papel colado com durex. Entramos, expliquei toda a história quando tive que ouvir: ― O Senhor me desculpe, mas já estou de saída, entro de férias e vou viajar com a família, meu voo sai em três horas, além do mais, dos superiores eu só trato de canais nos dentes molares. Eu não me contive e gritei: ― Filho da puta! Começamos a discutir: Eu blasfemava: ― Cada um de vocês deve ter feito um ano de faculdade e um mês de pós- graduação, seus lobistas! E ainda querem
  • 149.
    Chagas das Almas 148 ser chamados de Doutor! E aposto que vai para Orlando seu cretino medíocre! E peguei pesado: ― Não, seu dentista! O cara então resolveu só ouvir, impassível. ― Quer dizer que se eu for a um oftalmologista vou ter que escolher entre um profissional de cegueira, catarata ou miopia?! E deve ter ainda especialista em olho esquerdo ou direito, castanhos e azuis? Gargalhei irônico. ― A boca já não é uma especialidade no corpo humano, cacete?! Acalmei-me, pedi desculpas, depois implorei que ele abrisse uma exceção, ele não acatou, e como a dor continuava insuportável, perguntei gentilmente se ele tinha alguém para me indicar. Reticente, ele disse que era difícil: ― Pré-molares? Só na Barra da Tijuca.
  • 150.
    Chagas das Almas 149 Saí lacrimejando, era uma mistura de raiva, autocomiseração e, lógico, a puta dor de dente. Olhei para o relógio, eram dezesseis horas, perdi minha aula de Oboé. Que chato, estava quase pegando a embocadura! Resolvi então chutar o pau da barraca e fui para o Bar Luís, pedi chope e vodca. Saí cambaleando e parti para pegar o das dezenove horas no Castelo. Anestesiado pelo álcool, apaguei no ônibus e cheguei a Petrópolis. No dia seguinte, com ressaca e dor de dente, tratei de ligar logo, bem cedo para o meu velho dentista, marquei na primeira hora da manhã. Sentei, colocamos o papo em dia. Ele abriu o dente que ainda doía. Ele anulou a dor e tirou uma radiografia e evasivo me receitou Amoxicilina, cujo
  • 151.
    Chagas das Almas 150 preço me faz maldizer Fleming! Mas tirando a máscara falou: ― Não é canal. Quando eu me sentia aliviado e envaidecido, ele disse: ― A coisa é mais séria, vou ter que te encaminhar para um especialista em disfunção Buco-Têmporo-Maxilo-Facial. Atônito e abatido, eu falei: ― Cacete! Está bem... Mas será que eu posso ir agora mesmo?! ― Creio que não ― disse ele ― Esta especialidade só no Rio.
  • 152.
    Chagas das Almas 151 Lá no futuro Certo dia num futuro mórbido, quase a 2100 D.C., dois donos de casa Classe Dawn se encontram na seção de águas do Teramercado da cidade. Analisando minuciosamente os produtos, seus preços de prazo e composições subliminares, um deles deixou escapar um comentário, coisa típica e eterna dos humildes que precisam da atenção de estranhos para aliviar o abandono que a sociedade lhes impõe. – Pois é – diz João – a sobrevida está pela hora da morte! – Verdade – diz Antônio, com a sua distração de autômato: – veja só, a garrafa de água natural está mais cara que um litro de leite!
  • 153.
    Chagas das Almas 152 – E essas turbinadas? Só rico pode comprar! – Você tem algum problema sério de saúde? – Por quê?! – Desculpe... É que eu estou vendo no seu carrinho alguns produtos ultra-light e extra-diet. – É... Lá em casa todo mundo está com glico-colestero-metastático alto. – Pois é, e pensar que antigamente, na idade moderna, quando ainda não tinham inventado a geladeira e descoberto os óleos vegetais, as carnes eram conservadas em banha de porco. Só se cozinhava com aquilo e não morria tanta gente como hoje de problemas no coração. – Porcooo... Ah é verdade! E o que eu gasto com os remédios fito transgênicos!
  • 154.
    Chagas das Almas 153 – Claro, os laboratórios, como tudo atualmente, estão todos nas mãos dos chineses! Por que você não tenta os alopáticos? São mais em conta e os efeitos colaterais bem mais brandos! – Pode ser... Você viu ontem no telepático jornal da noite a prisão do Deputado que foi acusado de devastar áreas de concreto para extração de terra? – Vi! E o desgraçado vendeu quase cinco toneladas para o exterior! Mas na VEJA que eu ganhei de brinde pela compra de um dropes outro dia, tem uma matéria muito boa falando sobre a impunidade de nossos políticos corruptos e dos movimentos dos “sem roda!” – É, esta corja! E a nave presidencial que levou o presidente e toda aquela comitiva para a Groelandia?! É, podia ter
  • 155.
    Chagas das Almas 154 caído! Ah, Ah...! Por isso que agora eu só voto na esquerda-volver. Eles propõem uma contra-reforma agrária que promete assentar mais de três mil famílias por ano em escaninhos! – Balelas! Esse José Sarney...! Não é imortal só na ABL não! ...Bem, eu ainda prefiro continuar votando na meta-direita, pelo menos eles não mexem na minha vidinha. Imagina tirarem minhas bolsas Família Plus, “Minha casa minha vida”, “minha privada entupida, kkk...!” Pensando para si, João se recobra da sua condição patética e renitente, olha para o carrinho de Antônio e muda prontamente de assunto: – Puxa, que irado... Sua família deve ser grande! – Como? Ah sim... Todos estes produtos de farinha de carne? É... Lá em
  • 156.
    Chagas das Almas 155 casa somos eu, minha esposa, três adolescentes e dois cachorros! É... Eu sou professor entende? Bem, eu tenho que ir. Minha mulher vai chegar em casa e...sabe como é... – Ah, como não?! A minha também e ai de mim se o jantar atrasar...! Meu nome é João, prazer em conhecê-lo! Qual o seu? – Antônio, o prazer foi meu. Aliás, qual é o final do seu CPF? – O Meu é 34 e o seu? – O meu também é par! Quem sabe, com este novo sistema de revezamento de pedestres a gente não se esbarra por aqui numa próxima vez...? Em seguida às palavras de João, se ouve o barulho de uma sirene assustadora que vem avisar o próximo apagão do dia, medida proveniente do PRÉ-BRASIL 2100,
  • 157.
    Chagas das Almas 156 Programa de Racionamento Progressivo e Estratégico de Energia Solar do Governo Inácio Rousseff Neto... Quando se ouve a voz apressada de Antônio sumindo no fundo... – Quem sabe?! Até algum dia...!
  • 158.
    Chagas das Almas 157 Bula do Tempo (genérico) Lembro-me de quando senti pela primeira vez a tristeza de ter levado um fora de uma garota que estava apaixonado. Quando eu me abria às pessoas íntimas, o que mais ouvia como consolo era: ― O tempo é o melhor remédio. Lembrando-me desta metáfora banal tão comum em nossa cultura, pensei como seria uma bula para “este remédio” e deu nisto. – Informações ao impaciente: A sucessão de anos, dias e horas que envolvem a noção de passado, presente e futuro, que compõem o tempo exercem uma ação benéfica ao sistema nervoso quando associado ao espaço. A relação espaço-
  • 159.
    Chagas das Almas 158 tempo se desenvolve por meio de quatro dimensões aonde o tempo é a quarta, necessária à determinação de um fenômeno na assimilação pelas ideias do contexto da realidade pelo sistema cognitivo humano. A ação em humanos é meia vida a mais, não ultrapassando a média de 70 anos, variando-se os cuidados clínicos e nutricionais. – Indicações: Suster o corpo e alma em estado vital, sendo também eficaz no tratamento coadjuvante das dores de cotovelos, estado de viuvez; pacientes que sofrem do mal de abandono ou perdas e traições da mesma origem. (experiências in vivo).
  • 160.
    Chagas das Almas 159 – Cuidados de armazenamento: Deve ser armazenado na alma, sob o abrigo de cobranças e pressões e administrado segundo o bem estar do paciente em suas manias de passado e futuro. – Uso na Gravidez: Sugere-se o controle da ansiedade nos últimos dois meses e cuidados em prematuridades, principalmente nas parturientes que sentem a gravidez como sintomas de doença. – Interrupção do tratamento: A suspensão abrupta do uso do tempo se relaciona aos casos de suicídios, o que significa em óbito. Neste caso, deve se consultar um psicólogo ou neurologista.
  • 161.
    Chagas das Almas 160 – Reações adversas: Em 90% dos pacientes, foram registrada impontualidade, desorganização, uso exagerado em trabalho, devoções, leitura de livros sagrados, contagens de cédulas e valores em extratos e más relações com o desejo entre outros. – Contra-indicações: O medicamento é contra indicado em pacientes que fazem uso da ociosidade, preguiça e vagabundagem patogênica. Também àqueles cujos destinos já estão marcados para morrerem subitamente em eventos de causas estúpidas como em acidentes aéreos. Foram registrados casos de tormentos em presidiários, filas de órgãos públicos e transito de automóveis e outras neurastenias.
  • 162.
    Chagas das Almas 161 – Superdosagem: O aparecimento de manifestações causadas pela superdose de tempo inclui com mais frequência: solidão, saudosismo, nostalgia, dores reumáticas e correlatas, esclerose, abandono, depressão do SNC, incluindo alucinações. Experimentos com placebo demonstraram que o uso concomitante da fé com os desígnios do tempo obteve respostas 50/50, só causando mais alivio das dores nos que não utilizaram placebos. *Farmacocinética: excretado pela vagina materna e eliminado em submersão de terra ou cinzas. – Pacientes idosos: Relacionado a superdoses, vale advertir que dependendo das condições físicas e psicologias, a continuação do medicamento é contra indicada, podendo ser remendada dose alta
  • 163.
    Chagas das Almas 162 de ar intravenoso em processos de eutanásia. – Posologia: 24 horas por dia, durante 12 meses, por anos. Como o uso da insulina, reguladores de pressão e outras drogas para doenças crônicas, até desaparecerem os sintomas ou a critério do acaso. – Prazo de validade: Vide lápide. • Não desaparecendo os sintomas, consulte seu médium.
  • 164.
    Chagas das Almas 163 Um cigarro à meia luz Fecho cada dia num ritual de madrugadas. Deito na cama e acendo um último cigarro à meia luz. Repenso o dia, quão igual foi ao de ontem e começa logo uma regressão involuntária. Vejo o ano com a mesma ótica. Vou até quase uma década. Daí, passo para uma espécie de outra vida, mas é a mesma carnação. Tenho um “psychotiming” estreito. As lembranças dos últimos trinta anos parecem as de poucos meses. Não que as imagens sejam todas nítidas, mas as certezas e sensações. Passei a entender que os meus amores por Sônia, Marisa e Adriana, sempre foram possíveis. Não havia razão para a insegurança e covardia que me fez perdê- las. Vejo seus rostos, toda beleza e
  • 165.
    Chagas das Almas 164 grandiosidade de suas personalidades, que nunca fora idealização, mas boa intuição perdida por covardia. Percebo ainda que os meus primeiros meses com a Barbara podiam ser anos daquela extra ordinária alegria! Contudo, o tempo cronológico mostra que não há mais nenhum de nós igual, somos agora o produto de mais trinta anos. Outra pele, outras vidas e circunstâncias. Apesar do estado atual de felicidade ser um medidor de saudosismo, é isso que faz com que as pessoas variem suas emoções em reencontrar velhos ex- amigos. Quanto mais psychotiming (que não é o tempo psicológico tradicional), menos apego, quanto menos, mais impressão de que o outro responderá como antigamente. Assim, não há ninguém censurável ou louvável.
  • 166.
    Chagas das Almas 165 Às vezes no silêncio e na solidão da noite, com aparelhos e bocas desligados me vem estreitamentos comparativos de fatos que geram certa angústia. Meu filho fez vinte e três, a idade que me casei. Eu era dez anos mais novo que meu cunhado, agora sou quatro anos mais velho. Meu pai com minha idade, cinquenta anos, assistiu comigo a derrota triste da seleção brasileira em 1982, eu tinha dezoito anos. É difícil querer dormir, tenho medo dos sonhos bons. Pior, junto há o despertar tentando juntar seus pedaços em lembranças furtivas. Têm aqueles com meus irmãos em festas e bares, os de flertes com moças lindas sem rosto definido, as perdidas ou desconhecidas. Há ainda os recorrentes com os anos dos últimos trabalhos, de bem com tudo e todos. Não há
  • 167.
    Chagas das Almas 166 culpas e recalques, que bom, fugi desta máxima de Freud, ficando apenas com a de que "os sonhos são manifestações de desejos." As pessoas não são amigas, não mais, arbitro, que amigos não são sazonais, bem como valor algum há em amores platônicos eventuais. É necessário um mínimo de convívio, notícias. Assim, o que temos nas redes sociais são contatos, entre eles amigos a se contar nos dedos de uma mão, além de pessoas bacanas e parte de boas lembranças de um tempo, apenas... Não há necessidade de sincronia temporal para isso. Voltando a mim, todos os enredos deleitáveis no sono profundo consagram-se em verdadeiros pesadelos no amanhecer, porque desafiam a vigília, desta feita no café e no primeiro faiscar do isqueiro ainda na cama, daí o temer.
  • 168.
    Chagas das Almas 167 Uma noite destas, no terceiro trago, olhei para o cabideiro e vi minhas vestes dispostas como a minha imagem vista por ébrios na rua soturna: Camisa acima, calça abaixo e por coincidência meu par de sapatenis no chão próximo as suas bocas puídas por aqueles aquiles. No cume, o velho boné de feltro preto à moda dos homens do cais europeu que fica ali de enfeite, pois que como os óculos nem uso mais. Com as pontas dos cabides verticais à vista, a imagem parecia de um espantalho de mim mesmo ou abantesma mal vestida, sempre a mesma. Talvez um hibrido, o boneco desengonçado a espantar o espectro alado, como um símbolo mitológico da dicotomia sonhar versus não viver. A fantasia na TV Memória contra o dia seguinte com realidade do ser ao vivo.
  • 169.
    Chagas das Almas 168 Tomadas toscas sem ensaios, que o personagem mudo sabe a sua participação modesta de cor, sei lá... Parei de colocar meu corpo seminu a assistir isso em conforto e tento não mais relutar ao torpor. Entreguei-me ao nefário confronto. Agora, apresso o ritual da noite assistindo o dissipar da fumaça do último trago do cigarro que dizem matar aos poucos, mas que só vejo demorado demais. Em seguida, com calma, o apago a meia guimba, depois o abajur à meia luz, e por fim, sem perceber... a mim mesmo à meia alma.
  • 170.
    Chagas das Almas 169 Nosso lar O nosso templo é a nossa casa. Nosso deus, as almas nela habitada. Juntos, formamos um lar. A casa, lar. Somos ou criamos o rebento. A família se abriga e inteira colabora, não importa a beleza de dentro, nem a de fora. Passando da porta, juntos ou sozinhos, estamos protegidos contra os males do mundo, abrigo de nossos teréns, itens pessoais. E bichos de estimação, se é que há. Acalanta até a nossa solidão. Isto nos define como ser, a casa isso faz. Sem nenhuma enganação, do jovem ao ancião. Abrimos as portas para os bem chegados e para os que nem querem ser. Por isso, às vezes, somos nela mesma violados, já que a porta principal não é de mogno nem esquadria, pois sim bem mais
  • 171.
    Chagas das Almas 170 aberta, é cardíaca. Se sair um, sair outro, mesmo tristes, o consolo vem dela, a casa, mude o endereço, a pintura. Tudo se auto retoca, do chão ao teto, posto que é uma edificação de abstrato e concreto, feita por nós e os provectos, todos os arquitetos. Quando voltamos de maior ausência, vindos de aeroportos incertos, dor nas costas por conta dos acentos duros da terceira classe, vimos se matar em nós uma saudade sem igual. No largar-se no sofá da sala, no passar de um café fresco, na cabeça sob o travesseiro velho. Ah sim! Sobretudo a “nossa cama”! Seja de colcha remendada ou bacana. Bem vindos até os vizinhos, dos cacetes aos bonzinhos. Melhor que desfazer as malas, isso sim é mais chatinho... Não! Não há nada igual! Tantas sandices de nós, seres humanos do cativeiro lá fora:
  • 172.
    Chagas das Almas 171 confrontos, competições e violência, assaz! Nesta guerra que enfrentamos dia-a-dia, felizes os ricos, os pobres e todos mais, contanto que possam dizer: ― Eis minha Casa, onde vivo a plenitude da paz sonhada, sem olhos que me julgam ou simplesmente insinuem qualquer coisa, de mau ou de bom, nada a declarar... Onde eu posso me espreguiçar, bocejar ou peidar ao luar. Qualquer gesto de forma nobre ou feiosa. abrir completa e incondicionalmente minhas asas para ao ar.
  • 173.
    Chagas das Almas 172 Reencontro Deodoro Schmidt disse: Ao Thêmis, saudade e referência... “Por entre acordes de uma guitarra, duas crianças inauguram pontes em seus carrinhos de mão. Guia-os a tristeza e a solidão da distância da casa. Abandonados a eles mesmos, cúmplices nas acrobacias da alma, transformam o recreio numa revolução em que só eles sobrevivem. A vida será mais dura à frente. Beberam todos os excessos separados sem saber que a vida escreve os roteiros com os mesmos personagens. Agora não mais prefeitos de mentirinha, servem aos alcaides modernos como velhos camaradas que a cidade
  • 174.
    Chagas das Almas 173 pequena e a derrota da vida os reconciliaram na cilada do conhecimento. Viveram em quartos com pôsteres de Alice Cooper, ouviram Lennon e McCartney em seus beliches, pelos corredores da casa. As pernas tortas denunciaram que só um foi capaz do futebol. Mas a dor estava sempre como disfarce da memória. Um herói do outro. Cabeleireiras e merendeiras negras. O teatro e a leitura. O armazém improvisado no quarto de empregada. Foram tudo sem o mal! Este surpreendeu vindo das ausências e perdas. Da solidão. Separados, agora torcem para que cada um tenha se mantido fiel ao que foram. Sem isso estarão esquecidos. Leais terão validado todo um Ateneu!”
  • 175.
    Chagas das Almas 174 Do referenciado, não menos... É a sobra do herói, ou apenas seu alter- ego que responde agora, já que as crianças revolucionárias dos recreios, de capa e espada, foram mortas pelos alcaides, como Guevara que também mereceu pôster nas paredes dos arredores das casas, amontoados, igualmente atraiçoados pelas costas. Entre toda solidão e tristeza das distâncias, ao menos tínhamos o nosso casarão da Rua Koeller, só que perdemos a posse na primeira infância, no apogeu, no Ateneu. Lá, nós é que éramos os Reis. Depois, ainda acreditando em nossos ideais, não passamos de súditos, já que se referiu aos alcaides. Sim, verdade, os excessos que bebemos separados ajudaram a manter a realeza, a não edificar belos castelos, ou melhor, fê-los de areia. Digo por mim,
  • 176.
    Chagas das Almas 175 claro, com inúmeras viagens levadas pelo mesmo carrinho de mão que nos inaugurou e depois dissolvidas lentamente na maturidade pelas brumas e espumas pretas, como as cabeleiras e merendeiras. Será? Não fosse seu universo particular trancado a sete chaves, tão submerso, era para sermos o melhor amigo um do outro. Mas respeito e de certa forma é parte sua que admiro, e então o quê? Os livros e o teatro, junto aos Beatles e Alice Cooper, continuam acalantando em melodia a solidão de cada dia, do vácuo do tempo desperdiçado, já que de fato, a vida é sempre dura à frente. Tem as perdas e ausências sem escolha e as com escolha. Mas com a meia idade batendo à porta, percebemos que essas são tão incontroláveis quanto à morte. Perdemos
  • 177.
    Chagas das Almas 176 voos e viagens, amigos, oportunidades, amores (tudo artigos de ocasião) para a própria vida, isto é que parece fora da ordem natural, mas apenas parece, pois não. Aparentemente menos otimista, parece que a fidelidade do que somos, formatadas em boas virtudes e valores, pode não passar de consolo, e todos, uns mais rápidos, outros menos, inevitavelmente serão esquecidos. Mas enquanto houver amanhã, os nossos heróis não morrerão nunca, fazem parte da paisagem, a boa parte, que sempre estará lá. Distantes, mas uníssonos em nossas lembranças. Basta um suspiro, uma surpresa boa, uma epifania em papel e letras, ainda que eletrônicos, promovido por alguém tão querido, tão saudosamente lembrado, como hoje ocorrido ao ler o que li do amigo, por isso agora me regozijo e
  • 178.
    Chagas das Almas 177 até mais animado, digo: ― Claro que tudo valeu a pena ser vivido!
  • 179.
    Chagas das Almas 178 Pêsames Era seu aniversário. O casal não levou nada. Disse Rubens para a nova namorada de 25 anos: ― Melhor, eles não têm nada mesmo, pode ocupar espaço, constranger ou ofender. Amigo? Isso é assunto filosófico. Talvez só saiba quando sofrer um acidente e estiver segurando a maçaneta. Chegaram à casa dele, o de sempre: Acordando. A família toda fora, trabalhando, estudando e inventando moda para sustentar a lar e seu esqueleto, chegar bem tarde e não vê-lo diante da TV, de chinelo, controle remoto fazendo tour e os olhos cheios de remela, acúmulo do Clonazepan. ― 50 anos amigo! Ele ouve do sujeito incógnito que lhe bateu à porta com a moça. Vendo tudo embaçado, se limitava a monossílabos e contava que,
  • 180.
    Chagas das Almas 179 com isso e um agradecimento falso e bem comovido pelo desplante de ter sido parabenizado, aquilo poderia acabar logo. E acabou. O amigo com muita tranquilidade, em 40 minutos disse que tinha que pegar a avó na fisioterapia. Desculpa do cardápio de fim de tarde, do happy hour. Se fosse pela manhã seria a filha na escola ou à noite na faculdade... “Porque Niterói está violento demais.” Inválido, imprestável e com a cabeça no mundo da lua velha e minguante, por um passado que quis cassar o mandato e perdera, Adrian Simeth era a representação viva da barata de Franz Kafka em pleno século vinte e um. Mais dez anos de casamento, os filhos casados e ele viveria comodamente junto às aranhas do teto. Até os seus gatos lhe poupariam. A esposa nem
  • 181.
    Chagas das Almas 180 teria que se preocupar com sua alimentação e se ele vivesse e sobrevivesse a tudo, tal como as periplanetas, a relação de dependência já teria se esvanecido no dia oficial de sua passagem. É a viuvez branca. Se não há dependência mútua, um não leva o outro em seguida. Uma réstia de lucidez fazia-o pensar: “Ela é maravilhosa e se a amo, tenho que libertá-la. “Ela foi até o fim, não se curou de mim.”Simeth sempre gostou das mulheres frágeis, mas quando elas se davam alta, ele adoecia e foi assim que se aposentou por invalidez, por dores crônicas de amor. Nada lhe produzia prazer na vida que não amar incondicionalmente, ininterruptamente e acumuladamente. Como uma fonte de água cristalina, quanto mais dá beber, mais brota, valores ignorados. E isso o deformou como pai,
  • 182.
    Chagas das Almas 181 amigo e profissional. Fez-se modelo desde cedo por certa covardia, insegurança que contaminou tudo. Ele já quase nem profere palavras, inaudíveis a esta altura das sancas. Estava para terminar o dia que se marca por convenção, calendário e outras invenções humanas, informando que cada um de seus exemplares tem um número tal de anos a ser comemorado e um padrão de ser e estar. ― Não, chorar não, que isso é coisa de criança! Após ouvir sons e palavras de exaltação esparsas em meio a beijos babados e ver todos degustando com avidez sanduíches de pão ordinário que lembra Plus Vita, mais uma massa branca redonda engordurado de glacê, que se come fatiada, além do que era muito claro: Coca-Cola, como não? Arrastou-se até a cama com a descoordenação natural que os hormônios
  • 183.
    Chagas das Almas 182 artificialmente produzidos provocam nas convulsões da alma a somatizar os músculos, overdoses de psicotrópicos. Sua vitalidade não existia mais, sequer lembrava a que um dia lhe conferiu um tato em temperatura amena oferecendo viço e tesão em alta candura que salvou a auto-estima de algumas almas sofridas, perdidas de amor por ele. Engoliu os comprimidos maquinalmente, rotina do piloto automático, sem ligar para turbulências. Algo aconteceu no vizinho. Deu para ouvir. As paredes casca-de-ovo da COHAB denunciavam que o seu Manoel do ap. 301 teve um enfarte fulminante. Houve alvoroço, sua esposa e filhos saíram porta afora. Logo havia uma ambulância. Familiares chegaram e o clima funesto foi fazendo o de costume, as pessoas falando
  • 184.
    Chagas das Almas 183 como que cochichando. Como se para não incomodar o descanso do cadáver. Ele estranhou o silêncio, olhou o relógio de plástico na parede e faltando um minuto para meia noite colocou o ouvido colado na parede esticando-se na cama. Foi justo na entrada do padre no quarto do vizinho que vinha dar a extrema-unção ao velho. O homem da batina marrom é salvo de ser menos barata por uma segunda denúncia, a do odor empesteado de naftalina. Disse ele à viúva: ― Meus pêsames. Simeth conseguiu ouvir isso e filou o pedido condolente do beato, resgatando um sentimento de gratidão e solidariedade inéditos. Junto, uma sensação "térnica" que há muito não sentia. Tomou-o como o melhor presente para o fim do seu dia. Balbuciou babando, baixinho, a única coisa
  • 185.
    Chagas das Almas 184 sincera até então no seu aniversário de 50 anos... “Obrigado Senhor! Em seguida foi pensando em masoquismo, parte daquela rotina, com os rostos jovens das suas paixões idas... Em dores perdidas, até as drogas fazerem efeito e adormecer...
  • 186.
    Chagas das Almas 185 Alma e Espelho O espelho é um delator de almas, cristalinas ou manchas d’auras. Relógio implacável do tempo de um corpo que reflete a dor de um rosto, a alegria dos moços. Único presente à solidão é raio-xis de um abatido coração. Mudo nada diz, mas não há melhor espectro da verdade inefável de um momento infeliz. Vidro cravado na carne... A mente sempre mente, frente a ele nunca novamente. Às vezes ele te diz: és bela ou bonito, noutras, todos malditos! Te inquire, indaga e só faz lembrar. Do que vai sobrando de nós é refração de alguém jamais, talvez ou também. Exposição do ser em cada novo alvorecer... Suspiro de sim e
  • 187.
    Chagas das Almas 186 não amar, mistura de ser e não ser ou estar. Sensação de bola de fogo que se viu explodir no ar. A gente olhando para ele e ele a nos olhar, dia-a-dia, a cada alvorecer, até o inevitável instante sublime-cortante, em prata-escarlate, de tudo se estilhaçar e falecer.
  • 188.
    Chagas das Almas 187 Abstinência por ilusão De repente eu acendo um dos cigarros que já perdi a conta, malditos apenas por matar aos poucos, ineficazes em produzir euforia. É a única fonte do cérebro que produz hormônios, já que há dias ele está sem o antidepressivo que custa os olhos da alma. Tudo conspira contra o ego agora, sedento de falsas explicações, de coisas incutidas para enganar e lhe dar falsas esperanças, fonte de seus desejos, fantasias e mentiras próprias que se transformam em veneno contra si e respingam inevitavelmente nos outros. Hipocrisia é a soma das partes que forma o todo, o que chamamos sociedade. Como é fato sazonal, esperamos a depressão se instalar. Pois, em quem é frágil, medroso e covarde e leva em
  • 189.
    Chagas das Almas 188 si a descrença nos mitos e na fé, não resta mais qualquer recurso para se obter ilusões, como o consumo de coisas lícitas e ilícitas, entre outros vícios e atos compulsivos ingeridos goela abaixo ou fantasma adentro. O dinheiro é mandante nisso, se é minguado então, a realidade se torna insuportável. Pegar um avião para conhecer o mundo é libertador, mesmo com risco da queda, sem ela, igual à dor. A paixão, melhor e mais eficaz, a idade e a cultura de castrações amputam as oportunidades. Nesse estado de espírito até o que se tem à mão se torna pouco, como as mesmas músicas e pessoas. É lidar só com “o que é”, sem recursos enganadores com o “finge que é”. Aí vem uma puta síndrome de abstinência pela ilusão. Uma depressão branca.
  • 190.
    Chagas das Almas 189 Mas tem a hora de um grande barato, tipo delírium tremens neste estar em plena sintonia com a realidade. Prazer? Não. É, na verdade, um estado masoquista de despertar. Noutro repente, de forma inédita há uma epifania sôfrega. Vejo as fotos da praia de Ipanema infestada de pessoas, disputando um centímetro quadrado na areia e sinto o asco pela humanidade e complacência com as baratas. Quando poderia imaginar isso? Kafka me invejaria. Vejo a consubstancia inverossímil das relações humanas. Prossigo nas notícias e me deparo logo depois com a continuidade da barbárie no Maranhão. O avô enfartou ao saber que a neta faleceu com 80% do corpo queimado pela retaliação dos presidiários que não a deixou sair do ônibus deliberada - à - mente. Uma criança...! Em seguida, sigo
  • 191.
    Chagas das Almas 190 os olhos e vejo a reportagem anunciando a celebração especial pelo dia da Folia de Reis: “O Papa Francisco convidou hoje a humanidade a seguir a Luz de Deus e apresentou os Magos do Oriente como um exemplo de sabedoria.” Conclusão: não deu tempo para as pessoas que foram obrigadas a ficar no ônibus incandescente de “seguir a luz”, que pena... Penso sobre tudo, um tanto alheio e apático. E caio noutra real, que a recente morte de Nelson Mandela significa muito mais a perda de um ídolo, mártir, cujas ideias já foram esquecidas. E assim, que a expressão “direitos humanos” é algo totalmente incoerente por definição, não cabendo mais qualquer discussão pontual. O momento é propício para transcender a porra do ego, mas isso é para poucos, (e patrocinados que não tenham contas a
  • 192.
    Chagas das Almas 191 vencer no fim do mês). Logo, a luta é por não sucumbir totalmente a ele até se tornar um idiota completo. Tenho que procurar um grupo de ajuda aos solitários anônimos.
  • 193.
    Chagas das Almas 192 Terra Tive o imenso prazer de pegar emprestado de um amigo o livro “Terra” do fotógrafo mineiro Sebastião Salgado. Esse magnífico artista, de renome internacional, orgulho do nosso país, é adepto do que se chama “fotografia engajada”, que pretende algo além da estética, da recompensa ou como diz o próprio mestre: “repensar a forma como coexistimos no mundo”. O livro trata do problema dos sem terra, daqueles que lutam por uma gleba numa distribuição desigual, vivendo na miséria por falta de trabalho no campo, único ofício da maioria. As fotos são tão chocantes que merecem com louvor os textos fortes dos não menos brilhantes
  • 194.
    Chagas das Almas 193 escritores Chico Buarque e José Saramago a permearem à obra. O álbum começa com a foto de duas crianças sentadas no chão do que não se pode chamar de sala, como parte de uma construção que também não se pode chamar de casa, que dirá de “um lar”. Junto delas, dezenas de migalhas de ossos de animais mortos pela seca, servindo de brinquedinho de montar coisas. No meio, três cavalinhos de plástico, talvez um precioso presente de gente do bem, algum forasteiro de outrora que viajara no tempo até aquelas bandas, que por força de um parco destino, ainda anda um a dois séculos atrás do nosso. De repente, comecei a pensar nas crianças. Em todo o universo de imaginações que movimentam suas múltiplas manifestações de criatividade e
  • 195.
    Chagas das Almas 194 aptidões. Dos emblemáticos heróis que lhes dão o senso da justiça, além da TV, dos computadores que seguem a ordem natural na formação dos mais bem nascidos, candidatos a um futuro, uma prosperidade e uma maturidade de infinitas possibilidades neste modelo de cartas marcadas da sociedade humana. Afinal, o que será lúdico naquela infância nordestina sertaneja e de todos os cantos marginalizados do mundo? Que histórias conhecem para inventar o "faz de contas", coisa tão importante à formação juvenil? Aquelas coisas saudosas como as árvores frondosas, os livros coloridos e o super-homem ou a boneca que ri. Imagine uma viajem a Disneylândia, num avião que nem sabem o que é? Quanta futilidade.
  • 196.
    Chagas das Almas 195 Percebo aflito que aqueles ossos retratam um cemitério de indigentes, quando ali não se distinguem os vivos dos mortos, e que aqueles cavalos de plástico simbolizam os cavaleiros do apocalipse. Folheando o livro, passamos ainda por adultos com a velhice precoce, corpos e folhas de rosto rugados, tecidos epiteliais não irrigados. Seca e tudo junto, com a colaboração da fome. Mais cruel ainda: semblantes alheios ao mundo, olhares perdidos. Crianças, jovens e nem sei se idosos, todos iguais, não perante Deus, mas ao tempo que parece apenas reservar-lhes a morte, única certeza de futuro. Íris sem brilho, desesperança, representação viva e realista do mais profundo vazio: o nada.
  • 197.
    Chagas das Almas 196 Tem esta foto de uma menina na mesa de uma escola improvisada, segurando o lápis e olhando para a câmera. Sinto a ínfima dor que nosso fotógrafo deve ter sentido latente pelo máximo de sorriso que conseguira arrancar dela, um cantinho de lábios para cima, mas com olhos tristes de profissão. É de emocionar. Por fim, para me consolar, só mesmo as palavras de Saramago no desfecho da obra: “Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeiramente no mundo que
  • 198.
    Chagas das Almas 197 julgava ser seu, o lugar de majestade. Humilhado, retirou-se para a eternidade”.
  • 199.
    Chagas das Almas 198 Madre misericórdia (monólogo para performance teatral) Tenho saudades do tempo em que o paraíso repousava em mim. Vivíamos a era do sublime, lá, lugar em que a minha exuberância vinha virgem e selvagem; aborígene da eternidade. Foi quando me personifiquei. Minha origem remonta àqueles anos velhos e sombrios quando injustamente paguei o preço do pecado. Justo eu, que nasci de uma vértebra: geração imoral, incestuosa, aberração universal. Ah!... Como é triste ser órfã de pai, de mãe e de infância... Carinho, proteção e afago de colos temperados... É que de fêmea eu sempre soube ser menina. Depois veio a época das barbaridades. Lá, travei grandes batalhas. Bons dias
  • 200.
    Chagas das Almas 199 aqueles das sociedades matriarcais! Mas toda minha delicadeza, doçura, e fragilidade, sempre me fizeram tão vulnerável. Foi aí que começou a temporada da caça, isto mesmo, eu era escrava, mercadoria mais valiosa do escambo negro. Abomino quando se questiona minha condição ordinária, esta porção Jezebel que jaz em mim. Pois saibam: da classe das pessoas que se vende, eu sou a mais digna do perdão alheio. É que os “procuradores” do Senhor, do Criador, do Grande Macho Universal, me relegaram ao segundo plano. Benditos são: o Pai, o Filho e certo espírito celestial. Está feito, excluíram-me da magnificente santíssima trindade! Talvez seja verdade que Ele escreve certo por linhas tortas, e que o santo seja, quem sabe,
  • 201.
    Chagas das Almas 200 uma entidade assexuada, equilibrando de tal modo a dicotomia dos opostos. Assim como o bem e o mal, a vida e a morte e o ser ou não ser, que atormentam a alma dos homens que têm que conviver, sofrer ou gozar, com a minha parte em seu ser e vísceras. Até nos céus, quem impera é o Astro, o Rei! Tudo gira em torno de si, seus interesses lácticos e interestelares. Pois em torno de mim, geoestacionários pairam as parafernálias humanas. E o firmamento não seria o mesmo sem o charme que emano como Terra, Lua e alma das estrelas findas; distas que trasladam longos caminhos para nutrir os corações e os olhos dos amantes, viajantes e poetas. Sou um artigo fausto bem definido de luz, bondade e tudo mais que qualifique as mais sublimes virtudes morais; também
  • 202.
    Chagas das Almas 201 sopro palavras de substância: a lei, a liberdade, a felicidade e... sinto muito, também aquilo que mais temeis... Sem desfaçatez! Sou eu quem gera, quem aborta, quem sangra e sente a dor pungitiva do ventre! É de meus seios fartos que se provê a cria. Oh! Truculento parece meu ser agora, não é mesmo?! Sim, por isto doadora universal de sangue, suor e lágrimas. Ai!... Como tudo dói tão doce e brutalmente em mim. Mesmo com sofreguidão, sou calmo desejo, amor latente, libido ardente. Por favor, chega, chega disso, amor, espancamento. Eu não resisto, não resisto, acabo sempre à entrega. Ofertas cândidas ou vulgares de afeto e sedução, vícios de amor e paixão.
  • 203.
    Chagas das Almas 202 Devagar, por favor... Deixo-me levar tão fácil por qualquer mão morna e terna a afagar meu cangote... Devagar... para, ai... Não, continua... Não... chega disso, depois vem o abandono e eu ficando pra trás com choro engasgado na glote. Nos áureos dias de poder e nobreza, no esplendor das ilhas gregas, fui trocada por meninos de pele lisa, não valia para pensar nem gozar, só para perpetuar a espécie, condição abjeta inferior. Ah, Ah! Que berço esplêndido este que move o mundo das ideias varonis. Mas eu já fui rainha do Egito. Lasciva, dominava os homens com meu viço e minha chispa; hipnotizava-os com astúcia felina, mais ardilosa que minhas víboras fiéis. Fui Hera, Deméter e Afrodite! Aliás, tive meus momentos de crueldade,
  • 204.
    Chagas das Almas 203 requintes de morbidez, minha especialidade, como quando pedi a cabeça do santo profeta. Eu sou a célula-mãe que vicejou. O fértil e o fecundo, filha do mais cálido e primitivo sussurrar latino. Assim me fiz Félix: ditosa e propícia a tudo... O Fémino! Que acaba enlanguescendo é verdade. Por isso fui queimada em fogueira, minha cruz incandescente, sina de feiticeira. Ah! Quantas saudades de Joana, de Anne, Olga e Jana. E tantas operárias incandescentes, tantos espíritos desprendidos e abnegados, vítimas da ferocidade humana contra suas causas nobres imbuídas de boa-venturança por justiças de liberdade. É isso que sustenta nosso juízo: sentido casto a perceber com retidão aquilo que a intuição nos privilegia: a benevolência da vontade divina, que nada
  • 205.
    Chagas das Almas 204 tem a ver com as invenções promovidas pelas aflições mundanas, fundamentalistas na salvação por mitos de perversidade, não, nada disso. Hoje, ainda que garimpe e me assente em terras firmes por aqui e por ali, ainda devo cobrir meu rosto com trajos de falso pudor em alguns cantos do mundo de mentes estéreis. Às vezes, nasço e morro sem que qualquer cavalheiro experimente a beleza do meu semblante. Como alguém pode julgar com antecedência algo que não vê sorrir ou chorar e nem sequer pode revelar a sua face? É assim que eu vou perdendo o respeito que sustenta toda minha graça... Santo Deus, quanto impasse. Quanto rancor, quanto ódio a desferir por tantas injúrias, não?! Mas não vos inquietem aqueles que vestem a carapuça
  • 206.
    Chagas das Almas 205 das minhas acusações de moral assassínio, brutalidade, desdém e omissão, nem meus reflexos que se omitem perante a força atávica dos machos. Não, não pecarei por revanchismo contra ninguém. Afinal, todos somos vítimas da própria estupidez. Como Mãe da terra e dos filhos da terra, cansada, só necessito de trégua. Deste jeito alço meus punhos aos céus com uma bandeira branca. Humildemente eu peço, suplico paz. Paz para suspirar alívio e apreciar meu cio. Paz para gestação em ócio de toda minha cria e atividade. Paz para viver a quietude do bem-estar e existir, ou apenas, enquanto haja uma réstia de chama que faça pulsar o que se anima em mim, simplesmente. Paz para seguir em frente. Eu os abençôo, pois!
  • 207.
    Chagas das Almas 206 Fixação Eis um espaço-tempo de poesia, embora eu não seja poeta, me isento. Isto é apenas um hiato, um momento. O encantador não existe nas letras apenas, pois que na vida em tudo é repleta. Eu sou só um colecionador, esmerado estafeta da alegria e da dor. Se muito, um esteta... Ah! Dos olhos femininos, faço predileção, graduado em maldosos e leais, uma meta se não. De toda magia de seus fitos, os sorrateiros me instigam mais. Tem os malabares aflitos de desejos que arrebatam até os peritos em suas cruzadas sensuais. Faço meu pupilo as mais frágeis íris hesitantes, das que me valho dos atributos, devolvendo-os fulminantes. Que não passam de soslaio, frente os delas, que nos
  • 208.
    Chagas das Almas 207 arrebatam de improviso, sem ensaio. Derretem-se com viço, como serpentes dando o bote a qualquer instante, de repente, a seu bel prazer e serviço. Brilho, contraste e matiz nas faces da santa ou da meretriz, tanto faz, quando fastuosa volúpia lhes conferem o fixar, quase venais. Sublimes olhares que caçam suas presas aos pares, como os caças aeroespaciais em guerras não menos imorais. Ora tristes, caudalosos de tanto amar, escondem o que clamam por dentro aos gritos. Corações partidos, de juras e promessas, iludidos, dos maldosos que corneiam com outras córneas numa cama limpa, num antro ou na esbórnia. Não há ainda profissional ou artista que cure a dor fadada aos amantes que se perdem do encontro à primeira vista. É a função do amor fazer-se ver e ser visto,
  • 209.
    Chagas das Almas 208 toda entrega mesmo no imprevisto. Então, vê se te enxerga! Não viver de pálpebras cerradas, revezando as pupilas pros lados, como quem não liga pra nada. Com desculpas de remelas e ciscos, cegos são aqueles que não correm o risco. Os cílios são alados como borboletas afeitas ao pomar, feitas para fazer pouso em outro olhar. Assim, sem piscar, pestanejar, insisto: do fundo dos refolhos, amemos muito, lábios nos lábios, olhos nos olhos. Já!
  • 210.
    Chagas das Almas 209 “Eternura” O melhor da vida em qualquer tempo é aquele louco amor que arrebata à primeira ou última vista, quando acontece uma espécie de simbiose que parece coisa do destino, “coisa do diabo”; magnetismo no olhar, grito interno de socorro parte a parte que vem anunciar uma mudança de estação nas almas desabitadas a fugirem da serração que outrora furtivamente ocultavam. Nova visão da vida com seus segredos revelados. Quanto maravilhoso desatino! É um momento raro de sintonia, sincronia e graça e algumas vezes, ao mesmo tempo, é verdade, quanta desgraça! Existe sim uma química sensual, uma empatia extra- sensorial, um fenômeno de pele, tempero da derme, um cio espiritual. Não à toa então
  • 211.
    Chagas das Almas 210 que os dias mudam e tudo o que antes parecia tédio, penumbra em tom cinza- concreto, volta a ter cores vivas novamente, como um belo prisma do mais nítido arco- íris que fazemos brilhar sobre nosso baú de ouro: a pessoa apaixonada, espécie de espelho de nossa alma maculada. Isto mesmo, único instante em que amamos outrem mais que a nós mesmos, o próximo e Cristo há de abençoar! O coração bate em harmonia todos os dias enquanto dura uma paixão. É o prazer da sutil percepção de que se está sendo admirado, percebido, o que rejuvenesce o espírito e dá forças para novas aventuras. Coragens, além do enfrentamento sem esforço dos pequenos problemas pessoais e cacetes do cotidiano, da rotina, da desmotivação ou desvalorização profissional e tantas
  • 212.
    Chagas das Almas 211 pendências, porém tudo isso passa a ser trivial. Tem aquele do bilhete ou do flerte, do colegial ou da euforia e festim do carnaval, com cheiro da química do perfume da lança misturado ao ozônio de viúva ou espanhol, sem dor, odor sem igual... Só clima enamorado. E o antigo, o atual, protocolado ou informal. É um sentimento único e pleno de pacifismo, desejo de proteção e afago, algo que se resume num abraço gostoso, um olhar cúmplice de emotiva docilidade que traz sempre um beijo além do esperado para incendiar todo corpo que sua em meio às chamas sexuais. As noites são de suspiros aliviados, voltamos a dormir como crianças quando viramos para o lado. É o que chamamos de conquista, com jogos perigosos de estupenda adrenalina,
  • 213.
    Chagas das Almas 212 orgulho quando pensamos: “Como este, jamais!” Que se pode ter tido outro ou mais de intensos, mas nenhum deles é igual, pois que guardam as particularidades em cada estilo de perfil do amor selado. Damos adeus (e é deus quem nos dá) à amarga solidão que acossa as almas de bem. Fim da carência de libido, de reconhecimento, de atenção, quando nascem os elogios e valorização das coisas mais acanhadas, negligências e abstinências daquele acolhimento de ombro, de colo, uma palavra amiga. Ou simples distração que um longo tempo impõe aos casais, suprimindo-os de pequenas atenções de seus detalhes, necessidades um do outro num convívio de tão grande cumplicidade em problemas estruturais, embora valha a advertência, legítimas sejam as
  • 214.
    Chagas das Almas 213 particularidades individuais. Enfim, algo vital a substituir todo carinho que um dia inevitavelmente vamos perdendo dos nossos vovôs, tios e ternos pais. Como aquela viagem dos sonhos à Paris que deixamos para trás pelo simples medo de voar. Amados e amigos que se perdem no tempo exclusivista da morte e não revemos jamais, ao menos na mesma forma e âmago. Se isto não é amor em sua matriz original, isento da vulgaridade de conceitos sociais. Se não tem algo a ver com o divino, digam-me o que é mais?! “O AMOR ETERNO É O AMOR IMPOSSÍVEL.”... Essa é de Queiroz, apenas elucido a contradição, ok? A paixão, a verdadeira paixão, só é real e tem este caráter ímpar por sua condição inata de impermanência. Se não existe
  • 215.
    Chagas das Almas 214 aquele “algo impossível de se viver”, não é mais “este amor”. O que sobra é o que vemos nos relacionamentos duradouros, outro tipo em valor, não menos legal, sequer questionável em sua magnificente sublimação. Contudo, não é propriedade do supremo sentimento fugir, abster-se de sua generosidade que, como água de farta fonte, dar de beber a quem sinta sua sede, sem arbitrário monopólio como se tratasse de artigo fausto de consumo e vitrines. Por isso, não só os preconceitos e todas as dificuldades sociais impedem a permanência de um amor arrebatador, porque ele transcende rótulos e eras, de tão nata no homem é sua condição de quimera. Assim sendo, ele por si mesmo é efêmero e seu penoso processo de renúncia, sua sina. Não fosse isso o que seria dos poetas? Mas
  • 216.
    Chagas das Almas 215 ele não é só vossa licença, é de todos. Desvivido, só resta a despedida, de coração apertado e olhos caudalosos para viverem futuros saudosos, mal desfechados, numa existência curta demais, mesmo se em ecos espirituais. Mas triste e infeliz de quem não rouba ao menos uma confissão, um beijo e um abraço, onde o sexo é secundário, vício ordinário. Apenas algo que a ternura calmamente espera. Quando, por fim, cada um se perde de vista, fica apenas uma ou outra fotografia desbotada, uma carta de amor amarelada naqueles teréns insondáveis, analógicos ou digitais no baú da memória, agora de mais reles metal, fantasias repletas de fugas, beijos molhados e juras. Tudo pro fundo inconsútil do não saciado, que só ajuda a somatizar mais enfermidades. Ah! Quantas
  • 217.
    Chagas das Almas 216 promessas, lembranças de um tempo de hormônios exaltados, do novo ao idoso, bem exalados. Que reste ao menos o consolo de um coração desapaixonado poder confessar em segredo, ainda que em tom de falsa sensação de ser por si mesmo enganado: “Um dia eu amei e fui amado!”
  • 218.
    Chagas das Almas 217 Perdidos de vista Olá! Como você está?! Tantos anos que perdemos a conta! Penso em você com muita saudade, aqueles tempos que éramos praticamente grudados. Foi uma oportunidade profissional ou um amor que nos fez ir embora? Você foi para os EUA, é isso. Estava naquele avião que caiu?! Não? Papai e mamãe, morreram faz quase quinze anos e, no entanto, eu não lhe vejo, sequer tenho notícias suas há bem mais tempo. Esquisito, não? Como está de saúde? Engordou? É que, como meus pais, a última imagem que tenho de você foi de quando lhe vi pela última vez. Bem melhor, óbvio. Quanta jovialidade! Casou e teve filhos? Não mora mais lá é? Tem notícias do Beltrano? Também nunca mais vi. E
  • 219.
    Chagas das Almas 218 Cicrana?! Morreu de enfarto aos quarenta, sabia? Faz dois anos, justo ela, descontraída, sacana. Lembra-se daquele dia? Você... eu nunca ri tanto! Quanta lealdade, cumplicidade. Qual era o nome da sua mãe mesmo? Ela fazia uma comida. Hum! Inesquecível. Caramba! Aquela nossa molecagem. Estou tentando lembrar a casa também. E qual das duas escolas? Que memória a minha! Você não ficou com mágoas por causa daquela nossa briguinha, ficou? Aliás, depois eu percebi que também estava errado. Não guardei ressentimentos e... cheguei a lhe pedir desculpas? Pois é, vai ver a gente um dia se encontra novamente... Não. Parece tão difícil quanto a loteria, mas seria magnífico. Espere aí. Talvez sim, mas... Também poderia ser constrangedor, não poderia? Se é que nos
  • 220.
    Chagas das Almas 219 reconheceríamos. Vai que um de nós mudou muito, por fora ou por dentro, isso pode dar vergonha, de si mesmo ou do outro, já lhe aconteceu? Verdade, que diferença faria? Afinal, ainda que fosse uma agradável surpresa, nada nunca é como antes, apenas euforia, lembranças como cópia em preto e branco de uma gravura de Gougan. Como o enfarte da Cicrana que feneceu... Fulminante! Antes ela do que eu! Ah, ah, ah... Desculpe-me. É que com o tempo parece que essas coisas vão ficando um pouco banais. Você é mesmo quem eu estou pensando, não? Vai que é um dos falsos! Se bem que, se não há convívio, somos amigos mesmo? Podemos empregar o verbo ser no presente? Platônicos?! Porra, mas isso é ridículo até no amor. Voltemos ao protocolo. Éééé... Então é isso... Meu
  • 221.
    Chagas das Almas 220 Deus! Será que você pode estar entre aquela lista de desaparecidos que um dia saiu de casa para trabalhar ou ir ao bar comprar cigarros e nunca mais voltou? Assassinado, foragido de si mesmo, sua vida ordinária. Ou... Será que você já nem existe, morreu? Ou terá sido eu? Bem, se assim for, igualmente, que diferença faz, não é mesmo? Se não me conhece, diga: ― Não é daqui não. ― E eu serei cortês: ― Desculpe, foi engano. ― Depois que nos ramificamos raramente “nos lembramos”. Eu aqui e você aí e guardamos na mente inconsútil um tempo que congelamos agradavelmente simples e fútil e nos iludimos com um aparato inconsciente de que a pessoa querida “sempre estará lá”, não importa quem e o lugar, desde que querido um dia. Mas dá uma sensação
  • 222.
    Chagas das Almas 221 estranha quando tão raramente como agora, paramos para pensar, me lembro de você e percebo que nunca mais vamos nos ver, não dá? Afinal, como o passado, em geral, das pessoas só percebemos as saudades, quando sabemos que se foram. Vários nomes nos vêm. Amigos, parentes, amores. Porém, pensemos juntos e otimistas sobre esta vida e sua logística que faz com que tantas pessoas se percam de vista: Sem aquelas derradeiras más notícias. Imagens, lágrimas e rituais de despedida e passagem, nossa jornada terminou da forma devida. Não sofrer como eu sofri tanto perdendo uma velha amiga de escola e só sabendo um ano depois, nosso último encontro na rua, despedida como que uma falcatrua atrevida. Cá entre nós, seja eu quem pensa que sou, você quem penso que é, se é que somos e
  • 223.
    Chagas das Almas 222 estamos, peguemos alguém de exemplo, pronto. Pessoas entre si tão queridas um dia. Não é muito melhor em vez de se perder para a morte, perder para a vida?
  • 224.
    Chagas das Almas 223 A uma diva no divã Pois é... Faz alguns dias me sentia esquisito e pedi meu velho amigo Antônio da farmácia para tirar minha pressão. Ele disse que não tinha esse poder e que se tivesse, não o faria em consideração a mim, e que então, iria medi-la. E batata! Lá estava ela em ritmo dos embalos de sábado à noite: dezesseis por doze! Essa coisa só havia ocorrido uma vez, há três anos quando estava num momento delicado da minha vida, justificável: pressão de fora que contamina a de dentro. Mas agora isso me espanta porque estou vivendo um momento de absoluta tranquilidade emocional. Desde então, venho tentando entender esse disparate e, de repente, me veio à luz: estou sim vivendo uma circunstância se não
  • 225.
    Chagas das Almas 224 inusitada, pouco difundida, ou seja, uma fossa sexual ou depressão se for mais adequado. Tanto viço sem nenhuma correspondência, não que não perceba minha atração, mas porque aprendi não me permitir a isto pelos conceitos infalíveis de moralidade social. É triste constatar que desperdiçamos o nosso melhor ciclo, mais maduro e perito, que quer dar tanto de si para quem quiser ardentemente. Não vou sair por aí mendigando, passei desta fase de vulgaridade e desrespeito com os outros e, acima de tudo, comigo mesmo. Descobri o fato por um sonho, masturbação mental, porque físico não levanta mais o astral. Uma excursão longe de onírica. Aquele fantasma que persegue a gente dia e noite nas horas menos entretidas e algumas cheias também que têm como
  • 226.
    Chagas das Almas 225 personagem uma beldade qualquer, subjetiva paixão, subjetiva mulher. Uns aviões Boeing 747 da Vasp como diziam outrora, um monumento que, às vezes, desfila nas passarelas, as calçadas da cidade. Ânsias lascivas não dão muita poesia, só a vivacidade lhe constrói melhor imagem. Antes de descrevê-lo no analista, vou tentar desabafar no papel, divã dos não poetas como eu. Nosso cenário não pode ser uma cama, nem quadrada, nem redonda, isto é lugar- comum, inóspito aos amantes. Deve ser qualquer canto de um escritório ou beco escuro, e neste caso, a plataforma não importa, corpos ardentes dispensam conforto, futilidade e simetria. Que comece simples, como encostar meus lábios aos seus, carnudos e carmim,
  • 227.
    Chagas das Almas 226 até apertar o ritmo das pleuras fazendo acordo nossas línguas encharcadas. Depois, ainda cavalheiro, hei de descer devagarzinho e apreciar aquilo que muitos não se dão conta da delícia, o ombro que ampara o colo em banho-maria. Até vir a parte de maior prodigalidade em harmonia, onde a natureza foi por demais generosa contigo. O que vêm aos pares e deve ser lambuzado com primazia, como sopa quente de palmitos frescos no inverno infernal, comido pelas bordas até chegar ao cerne de cada um; e fazer sua dona tremer sem medo de qualquer consequência, nem da vermelhidão que minha barba de lixa fará vestígios dois ou três dias seguidos. Pouco importa se virão. Depois, minhas mãos mornas que nunca soube aclarar por que, descansarão em
  • 228.
    Chagas das Almas 227 tuas ancas, aquela parte que tu exibes com graça entre a blusa modinha e a calça da onda, sensuais todos os dias e que parecem ter sido inspiradas em ti pelos grandes estilistas, embora jamais comparáveis ao Criador, que preparou os moldes do teu corpo em formas de cristal. Como não iria despertar tanta fantasia e criatividade nos machos sedentos de amor como eu? Tu és roliça, de pequeno porte como uma potra puro-sangue em puberdade; difícil é saber se resistiria passar dali aos lábios às ínferas, explorando tuas diversidades ainda bem mais untadas e com aquele odor de cio a me produzir demência. Isto tem que passar antes, é verdade, pela veste íntima provada quando já bem embebida do que te fiz produzir em delírios, como que febris, misturada aos pelos não
  • 229.
    Chagas das Almas 228 menos, frutos da tua agitação. Aí sim, faremos rolar a cerimônia do banquete final onde se refestelam os corpos, o animal que tira a veste mais íntima da presa, de bruços, com a avidez e a pressa dos brutos. Eu, agora cavaleiro, não perderei o maior espetáculo varonil que é ver de cima a garupa se estendendo, os mais belos flancos de carne lisa e macia a se arreganhar e pedir clemente por traspasse do que de mim então estará esperando, ansioso só para ti. Isto mesmo, após esta excursão meticulosa no teu corpo, chega à hora do homem se fazer homem e da mulher se fazer mulher com máxima intensidade dos seus instintos. Que Deus nos abençoe! A impetuosidade se misturará em dor e prazer, e eu pegarei as rédeas do teu
  • 230.
    Chagas das Almas 229 cabelo para manter o controle da tua entrega, e não largarei enquanto não te ver gritar meu nome em súplica pedindo o quanto mais possível. Mais ainda, quando ver sair dos teus olhos de louca, algumas lágrimas. Ah! Esse momento único em que não se quer saber de mais nada, nem dos filhos, quando drogados nos sentimos os mais amados e magnificentes pervertidos. Vou me regozijar quando te vir quase desfalecida e recobrar-se com o brado longo e sofrido no masoquismo que dá o clímax, fim em êxtase do sublime espetáculo marginal, o melhor diálogo da terra, de gozos e sussurros, linguagem universal. Depois vem a bonança, pausa de apaziguo, beijinhos no cangote, troca silenciosa de delicadezas no fantástico
  • 231.
    Chagas das Almas 230 contra-senso, agora como crianças das mais ingênuas. Conversa fiada; tu com a cabeça no meu peito e eu com a minha aos ventos. Até que a tua deslizará aos pouquinhos, sem nem saber como ou por que, querendo começar de novo o enredo, quando agora quem cerrará os lábios serás tu, sem que sequer eu sugira. Você explorará meu corpo, meio que por vontade do arbítrio, meio que por simples curiosidade de sentir o meu sabor e a sensação da minha ilha de amor sem fronteiras, mais uma vez exclusiva ao turismo de teu deleite. Chega a minha vez de ser devassado e torturado. Usado indiscriminadamente; na inteireza da minha devolução a ti, para me fazer o que bem entender, seja no corpo, seja na alma, ambos ardentes de prazer.
  • 232.
    Chagas das Almas 231 Amanhã espero chegar à farmácia do Antônio e ver de volta meus “doze por oito”, se não, que meu sangue faça pacto com a diabetes e minhas veias se danem; se isquemiem, se derramem. Melhor morrer de excessos de pressão por amor e libido do que de preocupações, abandonos e desencantos. Acordo!
  • 233.
    Chagas das Almas 232 Meu amigo de Portugal No mês de julho do ano passado tive a grata surpresa de receber um correio eletrônico do meu velho e querido “amigo de Portugal”. Ele veio de férias ao Brasil e claro, para nossa cidade natal. Escreveu o número do seu “telemóvel” para eu ligar. Em Portugal, onde vive faz mais de 20 anos, telefone móvel, se fala assim. Não, não pense nada, não se disperse da leitura, ora, pois! Então eu liguei. Só ouvir a voz dele depois deste tempão já foi uma emoção especial. A gente brincou como sempre: ― E aí você ainda tem cabelos? Aquelas tolices que, nestes casos, parecem que param o relógio, tempo em que convivemos jovens com todas as boas coisas relativas:
  • 234.
    Chagas das Almas 233 Os trotes por telefone, a primeira namorada... Mas ele disse que ficaria apenas mais três ou quatro dias por aqui, por motivo de trabalho e depois pediu o meu “telemóvel” que iria me ligar para marcar de tomar um café lá em casa. Eu dei o número e emendei: ― É “celular” cacete, já esqueceu o português do Brasil cara?! Demos mais umas boas risadas e nos despedimos. Era fim de semana, confesso que me tomei de um entusiasmo sem igual. Tínhamos trocado dois ou três e-mails nestes quase vinte anos sem nos ver e comecei a transformar-me de ansiedade: arrumar a casa, pensar em “algo mais” para o café, além de criar as fantasias repletas de dúvidas: será que ele se casou? Ou de tão mulherengo que era, acabou homossexual?
  • 235.
    Chagas das Almas 234 Isso às vezes acontece, o cara enjoa, sei lá. Bem, o que eu sei é que chegou o domingo e nada do telefone tocar. Não tive o cuidado de salvar seu correio eletrônico. E eu a pensar, bem... Afinal ele tem sua família a cá, muitos amigos, poucos dias... Na segunda, já estava igual a uma donzela apaixonada, meio esperançosa, meio desiludida... Será que morreu alguém da sua família, ora, pois?! Já na terça-feira uma empreitada de trabalho me distraiu e ele certamente partiu de avião para Portugal, graças a Deus, porque se fosse dessa para melhor ou coisa “menos pior”, contrariaria o ditado de que “notícia ruim chega rápido”. Para ser sincero, eu nunca me sinto a vontade em procurar velhos amigos, mesmo antes desse episódio. Parece que as
  • 236.
    Chagas das Almas 235 impressões dos tempos idos são as que ficam. Aí, criamos expectativas a nos esquecer que a vida de todos nós passa por transformações e que não só a gente, mas todos eles amadureceram e blá, blá, blá. Daí que me valho agora da tecnologia, um correio eletrônico é bem menos passível de constrangimento do que uma voz ou um semblante. Ou talvez seja melhor mesmo ser esquecido no adeus para sempre, que não deixa vestígios, frustrações, falta de assunto ou decepções peremptórias, como uma valise velha no fundo do armário. Não estou a falar isto com qualquer intenção de julgar meu amigo, transferir remorso ou outras coisas do gênero, de jeito algum desferiria tamanha feiúra a uma pessoa que tem vaga cativa no meu coração. Tenho certeza que o dito cujo deve ter tido
  • 237.
    Chagas das Almas 236 algum imprevisto como acontece com qualquer um. Mesmo assim, quem sabe depois de efetuar o check in, lá no Tom Jobim, ao passar pelo portão de embarque, em meio às despedidas, com duas palpadelas nos bolsos da frente e de trás, entre parentes a amigos, ele não pensou em meio tom um pouco para si um pouco para eles: “Está tudo aqui? Estou com a sensação de esqueci alguma coisa.”
  • 238.
    Chagas das Almas 237 A morte de Maria Alice Morreu Maria Alice, aos 49 anos. Suicidou-se. O amor que sentia por Ricardo, seu segundo marido, que a abandonou definitivamente pedindo separação por conta de se envolver com uma mulher mais jovem, dilacerou seu coração por dois anos. Ela era inteligente, sensível e muito passional. Mas o ato de atentar contra a própria vida, como ocorre com todos que testemunham coisa igual, não deixariam seus amigos e sua filha Marina menos chocados, claro. Apenas mais intrigados, levando-se em conta que o "mais" é sempre o de cada um. Marina era filha de seu primeiro casamento. Ela não convive só com a dor da perda da mãe de forma tão trágica e surpreendente, mas a
  • 239.
    Chagas das Almas 238 angústia de entender essa escolha, o que também não parece, a princípio, nada do que uma legião de pessoas passa, daqui ao extremo oriente. Mas há um elemento maior. Marina tem em mente, do amor de sua mãe pelo seu pai, um intrigante precedente. Ela sequer conheceu seu progenitor, daí não ser possível adjetivá-lo melhor do que isto. Ele morreu de câncer, poucos meses antes de seu nascimento. Soubera que sua mãe teve um luto desesperado, quase a perdeu na gravidez, seu parto foi prematuro e, depois, quarentena e lactação dificultosa. Teve até que fazer a ligadura das tubas. Eram lembranças latentes e mais claras, agora para ela, as crises de sua mãe. Histerias e depressôes assolaram sua vida por anos, onde três podem sugerir dez quando se
  • 240.
    Chagas das Almas 239 combina idade, lembranças e dores de infância. Ela se lembra, na casa dos seis a sete anos, de sua mãe na cama, encolhida, tremendo. Mas também se recorda de que a partir de uma época, já pré-adolescente, antes mesmo de conhecer Ricardo, que a mãe já havia melhorado muito, era quase outra pessoa, ou a mesma de origem, no caso. Até largou os medicamentos. Quando Ricardo se casou com ela então, foi como se nada de tão ruim tivesse acontecido em sua vida. Marina não via Ricardo como um padrasto, mas como um tio, um grande amigo, uma referência. Por isso, também sofreu muito com a separação deles, embora fosse outro tipo de dor. Na mente de Marina, ficam agora muitas perguntas que seu analista trabalha com ela sem parar. ― Eu, que já estou formada, casada, não fui
  • 241.
    Chagas das Almas 240 razão suficiente para mamãe sentir o dever de viver? Quando pequena eu era um propósito, mas agora não mais? Será que era, mesmo quando bebê? Será que eu deveria estar mais com ela no momento da separação de Ricardo? Será? Será? Nesse caso, é a culpa que entra em primeiro lugar, em todas as pessoas, pois culpar-se parece a solução inconsciente mais cômoda para explicar tudo que transcende à capacidade humana de compreensão sobre os malogros da vida que carcomem a alma. Culpar-se é explicar, ainda que falsamente. Mas isso passa e passou para ela também. Dado momento da terapia, meses à frente, parece que as coisas começaram a se elucidar, o que, paradoxalmente faz criar o ponto culminante da dor. É que tudo que se dá à
  • 242.
    Chagas das Almas 241 luz é parto, cuja dor é inerente. Ou a dor do ficar, condição não menos comparável, se lembrar da sensação de desamparo pela falta que a mãe faz em qualquer idade. Todos nossos momentos crianças para sempre os faz inevitavelmente órfãos algum dia. Elas não poderiam morrer nunca, ao menos antes de nós. Mas isto é egoísmo, o que de pior poderíamos dar-lhes em troca. Assim, na última sessão, ficou no ar uma elucubração tentadora, ainda que sôfrega. É a morte em si, a do outro ou a nossa para o outro, carne sem vida, cérebro inerte, o que mais atemoriza o ser humano? Ou alguns deles, ou a perda? Qualquer perda, sustentada pela posse e seus desejos. A perda de uma pessoa que amamos dói mais pelo sentimento de compaixão por ela ter deixado a vida, ou por ter nos deixado, pelo
  • 243.
    Chagas das Almas 242 sofrimento, abandono, a falta e saudades que nós vamos sentir? ― Então, mamãe suportou perder um homem que amava para a morte, mas não perder o outro para vida?Foi a perda, a humilhação por ela derivada, a derrota numa competição desigual que a motivou de desistir peremptoriamente? Afinal, corroboremos com ela, o seu pai no câncer fora mais humilhado, terminou seus dias dependendo de quem lhe trocasse as fraldas. Ou seria a meia idade que por si só condena as mulheres ao abandono pelos conceitos machistas sociais? Na verdade que seus corpos desabrocham lindos mais cedo, em compensação deformam-se não menos precocemente. O medo da solidão? Não, Maria Alice era professora universitária,
  • 244.
    Chagas das Almas 243 amava a profissão, tinha muitos amigos. Assim, Marina punha em jogo até o amor que sente por seu marido e o que ele diz sentir por ela. “Existe amor de verdade no coração dos homens? Será este amor pelo outro, sensual, fraternal, de compaixão, que seja, maior do que o amor próprio? E tudo no fim não se resume em dependência?” O lote inclina-se para a afirmação hesitante de que até a auto piedade, quando alguém grita internamente, demonstrando que sua auto- estima está abaixo de zero, é pura supervalorização de si mesmo e o amor incondicional que sente pela própria personalidade. Tais ideias vão brotando em Marina com sentimento de dó, mas com certa pitada de ressentimento por sua mãe, processo comum, outra reação trivial em perdas de tal dano e modalidade. A sua
  • 245.
    Chagas das Almas 244 religião e crença em Deus, que está dentro de um padrão normal, quer dizer, pessoal não praticante, nunca satisfez as perdas menores em sua vida, não seria esta, a maior até agora, de sua mãe, ainda recente, que a confortaria. E da forma que foi, principalmente, não haveria desígnios divinos que lhe promoveriam a cura da alma, fissura em sangria. Por fim, até quando permanecerá este luto confuso em seu coração, no todo de seu ser em tamanha aflição? Para piorar, ela não deixou carta, nem sequer um bilhete e ingeriu barbitúricos em sua própria casa sozinha e ainda tendo o cuidado de tentar arrumar as coisas, quer dizer, se desfazer de tudo. Os teréns que fazem um episódio à parte de sofrimento para quem assume a árdua incumbência. Mais ainda, deixou todas as
  • 246.
    Chagas das Almas 245 providências de seu crematório, tomadas e pagas. Houve frieza, parece, consciência. Embora este ato solitário, ninguém jamais pode saber o que de fato passa nos neurônios incandescentes dos moribundos de alma. Elas são uma ficção, mas estão encarnadas na realidade, onde há vítimas ou candidatos em potencial na curva estéril da existência infestada. Uns que levam a vida sedentária, fumam, bebem, devoram fast- food poliinsaturados, gosmam o corpo, matam-se aos poucos e sequer enchem as cabeças dos familiares como as de Marina. Apenas porque sua mãe fê-lo à vista, o que eles, os compulsivos, fazem a prazo e que ao menos a mim, o autor desta história, não enganam. Que engolem e mascaram tristezas de perdas de amores e danos
  • 247.
    Chagas das Almas 246 gerais, de morte, de insatisfações pessoais nada muito diferentes de Alice. Pois que apenas há um liame tênue do imponderável onde só um cretino, ainda que se diga douto e se ampare em teorias, livros e postulados acadêmicos, ousaria cometer a infâmia de julgar. Não posso explicar onde os fios se embaraçam em infinitos e insondáveis mistérios da vida. Não fosse nada o empecilho a encerrar este enredo de forma agonizante, ao revelar como dói o irrevogável, o não consubstancial em Deus e o lado cruel de se sentir amor ou acreditar que ele exista tal como o vemos, tão vulgarmente, incluído na dualidade mundana do pensamento: o bem e o mal que assombram o mundo, como fantasmas que em nada se diferem de toda nossa estúpida forma de viver na abstração. Que a
  • 248.
    Chagas das Almas 247 mamãe descanse em paz, sem evolução, hierarquia, princípios éticos, convívios, incluindo também tudo de mais formoso e belo que é a vida em seu potencial. Apenas paz que pressupõe vácuo, que por si só é ausência de dor. Logo, alguma coisa, o substrato da vida, o côncavo, que cria espaço para o trago do destilado que acalanta goela abaixo ou o chá de manufatura indiana, seu sabor e aroma na mais legítima porcelana chinesa. Nada, contudo, que atenue o dó que sinto de Maria Alice e Marina, que são a representação do meu eu e o da maioria das pessoas do mundo, hediondo coliseu.
  • 249.
    Chagas das Almas 248 O Balanço Mãe é quem pari ou quem cria rebentos, seus ou alheios. Filhos da engendra do próprio ventre ou de quem gera aos quaro ventos, como ratos, sem perceber, em esgotos e lixões, encaixotados em qualquer alvorecer. Filhos de berços esplendidos, de grutas obscuras ou filhos da puta. Por atos de prazeres inconsúteis pela excitação no sexo que se é escravo e um desejo inconsciente de também perpetuar a espécie... O ser humano faz uso do imaginário de consumo para incutir que há beleza no que não passa de mais um sacrifício animal, engravidar, mero fato social, como urinar ou respirar.
  • 250.
    Chagas das Almas 249 Vale lembrar que um embrião é tido pelo organismo como uma coisa abjeta e dá vômitos às mulheres pedindo a expulsão daquilo. Depois desta fase acostumada, pesa uma barriga que por nove meses faz estragos, das vértebras aos dentes, além de tirar a graça das moças que as têm como dádiva, magnífico presente. Os seios caem, posto que cai um ser nos braços da Eva como se de uma nave, de pára-quedas. Até que vem o ato de dar à luz, com dor pungitiva do ventre, algo que parece o Javé bíblico gritado de prazer a seu bel estado de ser em alma vingativa do alto da babel: “Eis sua desgraça por colocar mais um no meu inferno, ó Mulher Jezebel!” O leite a natureza dá, às vezes em pedra, mas dá. A generosidade desta Mãe maior é a pitada doce e bela nisso tudo. Mas
  • 251.
    Chagas das Almas 250 as mamas racham, sangram e suas condições de brotos em flor murcham em favor do quanto sugam sua seiva, do filho, sua fome e fervor, além das leis de Newton, mais horror. Com a voracidade de um feto mais farto e abençoado, sorte dos que têm tudo no lugar, vem como previsto e todo mundo há de dizer: “que lindo!” sobre algo que se supervaloriza como se distinguíssemos cada pedra cinza e disforme das muralhas da China, antes que um escultor supostamente lhe dê beleza real, forma e cor. Junto ao sacrifício lácteo, tem muitas fezes para limpar, farta perfumaria em noites de um mal dormido sem luar e berros formidáveis aos ouvidos. Quanto mal estar. Em suas mãos ou berços, bebês ninados em balanço, no embalo, tentativa de
  • 252.
    Chagas das Almas 251 merecimento deles de um pouco de descanso. Por isso o puerpério é um período em que muitas mães desejam abrir mão desta majestade. Artimanha do inconsciente feminino descontente em seus hormônios discrepantes e incandescentes que sentem medo, em tão tenra idade, de tomar posse e ser a rainha deste império. Conflito esquisito que surge se assim se é mulher... Por inteiro ou pela metade? Confronto cruel entre a maternidade e coisas individuais de sua vaidade. Dilema de solidão, como se a mente fechasse para balanço. Como se cria isto? Não vem com manuais! Queremos ser mais que animais! Diz-se que ser mãe é padecer no paraíso. Somando-se a preocupação para o resto da vida, onde um quarentão será
  • 253.
    Chagas das Almas 252 sempre o "meu menino", com tudo isso, difícil é imaginar o que seria padecer fora dele... é de se merecer a ISO do inferno! Mas ser mãe é também ser inevitavelmente cruel sem intenção, da racionalidade nos bípedes humanos, quase que uma imposição. Passado isto, falando do lado da cunha que, aliás, elas também são ou foram um dia. O rumo das almas do porvir, a que desígnios servirão? Dignas de elogio ou alcunha? Bem, felizes daqueles que tem um regaço materno imanente de calor, aconchegantes mãos mornas a lhes embalar nos braços, com requinte do mais puro e incondicional amor. É a mulher em seu maior ato de heroísmo! Porém, elas morrem como qualquer existência de ávidos sentidos, manifesto que
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    Chagas das Almas 253 pulsa. É aquele momento em que cada filho desejaria até que a ordem natural das coisas entrasse junto a todo o enredo enfadonho de parir e ser parido, existir e ter existido. Do moço ou senhor, homens e mulheres, maduros e imberbes o momento maldito, para sempre um vácuo profundo a falta dela deixa na gente... Que nem o papai dá jeito... Que as coisas dele têm o seu universo próprio a ser descrito, não menos imperfeito. Falta de um alivio no cansaço do corpo e alma em exaustão, da atitude não tomada que fez se perder o bem almejado, alvo de algo oportuno ou amado, melhores intenções imbuídas, mas abafadas em tomadas mal decididas... Ah! Que bom nestas horas é poder repousar a cabeça naquele ombro e chorar em alto e bom som,
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    Chagas das Almas 254 sem receio de ser o que se está sendo, mau ou bom. A porta fechada, no cantinho da cama. Na sua cabeceira sentindo no máximo as pontas de seus cabelos casquinando no rosto ombro adentro. Apenas naquele sereno e implícito “eu te entendo”... Sem complicação e sentenças, - que acalanto de mãe é silêncio e presença. Pois que sempre há dias e instantes em que nada nem ninguém, melhores parentes, amigos ou amantes substitui a falta do colo e do calor materno que não mais se tem como antes... Burro-velhos, cheios de bons orgulhos e maus ranços, tantas vezes nos sentimos cada qual um órfão infante, tal como uma criança numa praça vazia, fria e sem encanto, solitária, brincando em seu balanço.
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    Chagas das Almas 255 Três destinos Antônio e Marta, há 20 anos passados, num lugar que só pode ser segredo: ― Oi amor! ― diz Marta. ― Estava ansioso por te ver querida! ― Emenda Antônio. ― Vamos sair daqui querido, alguém pode nos ver! ― Espere... Saiba Marta. Eu estou muito esperançoso no concurso da Petrobras. Beijam-se por longo tempo e ele continua: ― Eu te amo muito, não quero te perder. ― Eu também, mas não dá... Você está noivo e... ― Então, espere as coisas se acertarem e quando eu receber o meu primeiro salário,
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    Chagas das Almas 256 largo ela e ficamos juntos. Podemos fugir, compro passagens para bem longe. Toca o celular dele, é a sua noiva ligando para falar do enxoval. Ele diz que está tomando um chope com seu amigo Fred. Desliga e emenda: ― Eu tenho que ir, te ligo amanhã querida. ― Está vendo? Eu não suporto mais isto Toni. Vamos terminar aqui, é melhor eu seguir o conselho da Elaine. ― Fala Marta com lágrimas nos olhos. ― Mas querida?! ― Saiba, eu te amo e te amarei para sempre, mas... Não sei... Não dá mais. E ela sai às pressas. Antônio e Fred, hoje na esquina da Casa D’Ângelo:
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    Chagas das Almas 257 ― E aí amigo, há quantos anos! ― Diz Antônio. ― Meu Deus! Toni... Como vai você cara?! ― Tudo indo. ― Que beleza! ― Então Toni, não me vai dizer que casou com a Martinha, que aquele grande amor da faculdade vingou?! ― Não, não... Que isto... Diga-me, e você se casou? ― Ainda não, continuo aquele mulherengo. O que é que você está fazendo da vida? ― Trabalho no ramo de cartões de crédito, não está dando para reclamar não... ― Entendi. ― Esta resposta de Fred foi adequada à própria sentença de Toni, que mostrou que está no osso certamente.
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    Chagas das Almas 258 ― Eu ainda estou na Vale, você sabe... Estabilidade... ― Claro. Pô, eu tenho que ir Fred... A gente tem que se encontrar com mais calma para se lembrar dos velhos tempos e colocar o papo em dia, né? ― Sem dúvida! Anote meus telefones... Pediram guardanapos ao garçom, trocaram números e endereços eletrônicos. Aqueles fantasmas que quase sempre pegamos borrados e ilegíveis quando a roupa do encontro chega da lavanderia, numa sensação ao mesmo tempo de culpa e de alívio. Marta e Elaine, um mês depois do encontro de Fred e Antônio, por ironia do
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    Chagas das Almas 259 destino, na mesma esquina em frente à Casa D’Ângelo. ― Amiiiga! ― Diz Marta, efusiva. ― Maaartinha Querida! ― Se abraçam balançando os corpos como gangorra: ― Como vai você? ― Tudo indo... ― Pois é Martinha, eu perdi a mamãe faz uma semana... ― Ah! A dona Sílvia! Ela fazia o melhor pudim de leite que eu já comi. ― É... É a vida... E você? ― Eu estou me separando Elaine. ― Nooossa! Mas você ainda é nova, aliás, não mudou nada! ― O tom desta exclamação tem dois sentidos: serve tanto para o caso dela ter deliberadamente largado o marido, quanto para o caso de ter
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    Chagas das Almas 260 levado um pé no traseiro. Continua a Elaine: ― Então Marta, eu agora estou de licença prêmio na prefeitura, quero pensar um pouco em mim. E o Fred, o Toni, tem notícias deles? ― Não, nunca mais os vi. ― Também não. Andei procurando vocês no Face, mas não acho ninguém... Aliás, você era louca pelo Fred lembra? ― Hein? Ah! Isto é coisa do passado, besteirinhas da juventude, você sabe. E o Carlos Alberto, não é este o nome do seu filho? ― É, ele se formou, está casado e trabalhando em Rorâima, acredita?! ― Veja você! Elaine... Estou com pressa, vou levar o papai ao médico! Me dá seu e-mail?
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    Chagas das Almas 261 ― Claro Marta! Por fim cada uma passou seu e-mail para outra que certamente só renderá uma mensagem e uma resposta, se muito, porque na casa dos quarenta não se tem mais novidades: novos filhos que nascem, novas oportunidades de emprego, novos amores. Assim, cada uma vai para uma direção da avenida, pensando saudosamente nos tempos idos e cada defeito que viram uma na outra como obra da perversidade do tempo e da competição feminina. Elaine logo se distrai ao ver um belo vestido na vitrine de uma loja. E Marta dispersa pensando intrigada: “Afinal, o certo é Rorâima ou Roráima?”
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    Chagas das Almas 262 Um dia um Ipê Despertei em plena aurora num amanhecer de mais um dia qualquer. Vi a sala avermelhada. Curioso, fui à janela. Minha janela é uma exposição de quadros, tipo estas porcarias modernistas. Natureza morta, exceto um ângulo à direita que com certa dificuldade me acomodo para ver, entre dois blocos de concreto, um hiato de natureza com montanhas lá no fundo, bem longe. É de lá que o sol nasce para mim. Foi então de onde a sua luz ofuscou meus olhos com aquela chegada especial e vigorosa em seus tons ultravioletas irradiantes. Corri para achar um filme velho de máquina fotográfica. Percebendo que isso não existe mais, peguei meu último raio-X de pulmão, delator de um fumante, que ficava guardado
  • 264.
    Chagas das Almas 263 perto do sofá numa estante. Voltei ao canto incômodo para refazer uma brincadeira de criança. Ver o sol no seu formato original em relação à distancia da Terra. Coloquei a chapa sobre meus olhos, ergui a cabeça e lá estava o astro rei, meu deus que sustém minha vida e posso arcar com o ônus da prova. See see the sun. Reproduzi a capa deste disco progressivo do Kayak. Acompanhe comigo, pois não resisti e liguei o computador para ouvir a canção tema do LP e trilha desta manhã. Fiquei a lembrar sobre como as coisas são efêmeras e me veio à mente a casa velha anterior onde tinha só para mim um ipê amarelo no jardim. Pensei na frase que escrevi sobre o quanto de aparato há para o prazer de um mero instante. Parece que o orgasmo rege esta
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    Chagas das Almas 264 orquestra, mas é assim no saborear um prato predileto, em quinze minutos acabamos com algo que alguém na cozinha levou duas a três horas para preparar com muito amor. Descobri sozinho que um ipê vive o ano todo seco, esquecido, a ponto de eu nem saber do que se tratava, se mais um limoeiro ou pé de jabuticaba, tamanha ignorância em relação à história da minha ancestralidade. Até que outro dia, em mais um despertar de meu corpo, cujo relógio biológico já ficou biruta faz tempo, me deparei com algo que me fez pensar estar ainda na cama, sonhando. A tal árvore se revelara inteiramente florida em amarelo na minha janela, como um quadro de Maxfield Parrish. Me emocionei com tamanha beleza daquele ipê. Uma das coisas mais lindas
  • 266.
    Chagas das Almas 265 que contemplava na vida e entendi o porquê. Me sentia um príncipe na sacada da varanda do segundo andar da casa. Foram dois dias que acompanhei aquilo, porque no final do segundo, já percebia que as flores secavam e caiam. Ele era como as borboletas, pensei com ar de botânico. Dois dias de esplendor por ano, contra o resto de reclusão, suplicio ante as secas e todas as intempéries das estações. Jesus aprendeu o sacrifício com a natureza. E a teoria da evolução mostra quão árdua é a sobrevivência. Enquanto os pinguins e as águias entregam suas almas e entranhas, nós humanos, lastimamos por tudo. Eu sou um belo exemplar da espécie, admito. Compreendi um pouco a ordem natural das coisas simples esquecidas. O que importa é a qualidade e não a quantidade.
  • 267.
    Chagas das Almas 266 Que o que é belo e poético deve ser breve, passageiro, do rosto bonito à melodia principal, a cena especial, para não ser vulgar e fazer assim os objetos fins, os seres animados que desfrutam, se distraírem. Porém, por seus ávidos sentidos, os homens logo enjoam e desvalorizam suas graças recebidas e por isso se fartam e usurpam tudo de bom da vida. Resumindo este barato: são aqueles momentos raros em que sentimos um arrepio das ínferas aos pelos dos braços. Eu senti isso no deslumbramento do ipê e como sempre acontece com esta canção e elepê. Portanto, o sol nasce todo o dia, aqui meio que quadrado em meu amanhecer. Mas atento, agora com uma atenção astronômica, verifico que sua órbita leva poucos minutos por trás das montanhas a
  • 268.
    Chagas das Almas 267 sair e produzir seu brilho maior, o resto é trabalho e suor a semear e nortear a Terra, sua causa maior. Não seria eu a pleitear a longevidade, a eternidade... Se no que consideramos breve existência, - e não faz sentido sê-la? - em curtos instantes, puder raiar um pouquinho aos olhos dos que esperam algo de mim, terei feito minha parte e me tornado uníssono a todas as coisas tais como são, membro integrante com a inteireza das minhas células e membranas, contribuindo com a imensidão. Ao contrário da sociedade e suas artimanhas de ilusão, entendo neste momento que sou parte disso e a mim não cabe ser o centro pelo qual algo deva girar em torno. Coadjuvante, não sou a estrela deste magnífico espetáculo, sobra me
  • 269.
    Chagas das Almas 268 orgulhar muito de ser parte integrante do estafe. Terminou a canção, certo? Fui à cozinha passar um café. Com o resto desse espírito, o coar lento e irritante se fez tolerante, da demora valia a xícara apreciada em curtos goles daquilo frasquinho junto ao aroma, cara das manhãs. Definitivamente de pé, o sol já não entra mais. A janela parece se reduzir a uma quadrada, vedada e blindada de avião. Vejo-me diante da tal exposição, aqueles quadros cinza do concretismo. Estou no que é mais certo chamar de recinto, a mesmice dos dias condenados, falando do apê, por fim me fazendo de pedreiro. Quem sabe me enforcar com meu cinto?! Ah, ah! Melhor, tomar absinto...! Neste vernissage sofrível, desta feita me ressinto, pois parte de seus
  • 270.
    Chagas das Almas 269 curadores é o como me sinto. Não, isso não é possível, minto! Não sou capaz de curar dores... E isso dá uma sensação dos horrores...
  • 271.
    Chagas das Almas 270 Resumo da Ópera humana “Sempre aqueles que dizem de antemão que lutam em nome de Deus são as pessoas menos pacíficas do mundo: como crêem que recebem mensagens celestiais, têm os ouvidos surdos para qualquer palavra de humanidade”. (Stefan Zweig) E sempre o fora, antes e depois da vinda de seu Mártir... Então, enquanto não retorne o Messias; os discos voadores não desabrocham aos olhos dos seus céticos; os espíritos não cumprem sua eterna e agonizante missão carmática; qualquer operação de um “cavalo de Tróia” não leve os homens de volta ao passado para corrigirem seus erros ou viverem seus mundos lunáticos; e os filósofos prossigam
  • 272.
    Chagas das Almas 271 sua peregrinação sem fim, que tal substituirmos tantos dilemas e todo este investimento de espírito em questões duvidosas, pela cura das doenças malditas, na recuperação das matas virgens ou das baías submersas no asco das latrinas humanas e nos óleos derramados por navios mercantes? E a camada de ozônio que derrete nossas calotas polares, o eixo da terra que retira gradativamente segundos dos nossos dias já tão fugazes? Para que se refugiar na ingenuidade perigosa sobre a curiosidade por tudo que se diz sobrenatural ou relativo a um passado inútil de consciências mórbidas? Que afinal não mata e nem esfola, mas afeta o caráter e atrasa a evolução da alma. Enche o bolso de líderes e oportunistas, mercenários inescrupulosos de seitas, de pérolas, de
  • 273.
    Chagas das Almas 272 indústrias cinematográficas, do lazer e editoriais, além de cartéis farmacêuticos e petrolíferos que fazem escravos e cobaias, parte da miséria alheia. A lua um dia já foi sobrenatural, o “Calígula de Camus” ansiou por ela no auge da angústia dos seus limites de poder. Hoje a conhecemos de cor e sabemos bem que ela não tem nada que supere a realidade além de uma beleza ímpar, ao contrário do que pensavam em grunhidos aqueles pré- históricos patéticos. Este “Uno” de Platão, Espinosa ou Einstein é privilégio do conhecimento deles que são minoria no mundo. O gênio de cabeleira e língua esbugalhada virara um clichê que ofuscaram muitos outros de sua estirpe. Que a filosofia se atenha as questões racionais porque afinal, o próprio Sócrates, espécie de pai, descobriu
  • 274.
    Chagas das Almas 273 que “nada sabia” como todo cidadão ordinário. E a maioria dos seus sucessores que se verteram para o romantismo inútil, experimentou frustrações inimagináveis, alguns inclusive entregando suas vidas na alta mocidade com tola pureza d’alma. A fome e a miséria no mundo nos levam a dispensar urgentemente o supérfluo! Aliás, a natureza em si não produz supérfluos e muito menos é redundante em quaisquer de suas manifestações. Só devemos aceitar como verdade o que um número expressivo de espectadores experimentarem, com os devidos ônus das provas. Devemos aprender com a lenda de Tomé que nos deu antes de tudo, uma grande lição de humildade. Deste modo o que a gente vê pode provar, é a miséria e a fome ao contrário dos discos voadores e vídeo tape do passado, sonho
  • 275.
    Chagas das Almas 274 maior do homem de uma engenhoca matadora de saudades. As favas com os prosélitos e sectários, Papas Pios, Dalais e Aiatolás! Vida depois da morte só interessa para os mortos que vivem nela, ainda que tudo se resuma a nada, anestesia eterna e geral! Aqui no Inferno humano, no dantesco, o que pesa mesmo é morte prematura: de homens, mulheres, crianças, animais em extinção e toda e qualquer forma estupenda de vida animada, danem-se por quem! Por isso chega de cultos, mitologias, orações, meditações e rituais! O que importa é “mãos a obra” com amor a tiracolo e compaixão de dar a esmo... o resto pouco importa, deve esperar até que o ser humano recupere sua maturidade, senso de integridade. Fácil sim é temer a Deus como o povo alemão temia o Reich. Melhor é acreditar no juízo final e
  • 276.
    Chagas das Almas 275 aguardar a salvação que se compra em prestações mensais como planos de saúde e funerais. Afinal, se o mundo está para acabar, que importa os novos degelos glaciais? Que importa a miséria africana? Alerto, pois, os individualistas e artificiosos... Talvez, ao soar das trombetas vocês tenham uma surpresa aterrorizante, pesadelos com camelos adentrando em sangria, buracos farpados de agulhas celestiais. Somos todos Deus herdados, e só! Por enquanto, todo este embuste como entretenimento, tudo bem, vai...! Como a vasta literatura de ficção, contos de fadas e carochinhas ou até mesmo estas minhas vaidosas e dispensáveis quimeras no caos.
  • 277.
    Chagas das Almas 276 Contornos baldios Na flor da idade, casas dos vinte, depois de viverem alucinante paixão, Marcos e Andréa deram cabo do casamento em menos de um ano. Ao nono mês Andréa pediu o divórcio. Ela era filha única, muito regulada pelos pais. Então, estava confusa. Sentiu na vida conjugal uma liberdade que nunca havia experimentado, isenta da tutela deles. Por mais que amasse Marcos, passou a ver o compromisso matrimonial como empecilho para fazer uma porção de coisas que faltaram na sua fase de solteira como sair para festas, relações com amigos e, embora esta ideia a culpasse terrivelmente, até mesmo ter mais experiências com homens diferentes. Também pensava que uma
  • 278.
    Chagas das Almas 277 gravidez interferiria nos planos profissionais, com o sonho de cursar a faculdade de artes plásticas. A sociedade chama isto de casar para abrir caminho, mas julga como sendo ato premeditado, o que pode ser injusto e arriscado em muitos dos casos, como o de Andréa, por exemplo. Marcos custou a se recuperar do baque, deu graças a Deus de não terem filhos, que seria um golpe ainda mais difícil de suportar, passar por todas aquelas intransigências e burocracias do processo, quando o filho é tido como um objeto de posse disputado em litígio. Contudo, mais experiente, passados alguns meses ele já estava se casando novamente. Era do tipo que não conseguia ficar sozinho muito tempo.
  • 279.
    Chagas das Almas 278 Andréa passou a curtir a vida. Fez uma viagem aos EUA, matando o sonho de andar de avião, frequentou as noitadas, teve relações sexuais e tudo mais que permeia a alma de uma juventude liberta. No entanto, seu coração era frágil, depois de dois anos nessa rotina de solteira, emplacou em mais dois relacionamentos sérios que juntos não passaram de cinco anos. Em ambos os casos a causa da ruptura foi a traição de seus amantes. Até que por insistência dos pais, dos quais nunca deixou definitivamente de sofrer beata autoridade, acabou por casar com um homem bem mais velho, sem amor. Era o filho de um grande amigo de família. Em pretexto de melhor reflexão, esta coação foi gerada pela necessidade cultural que as mulheres têm de ter filhos com todos seus rituais. Como não se
  • 280.
    Chagas das Almas 279 recomenda fazê-lo depois dos trinta, seria um peso doloroso para Andréa não dar netos a seus pais. Antes de toda essa engendra, ela apelou para o Marcos meio que por ato do inconsciente. Descobriu o endereço do seu escritório e certo dia, quando ele saia, abordou-o como se fosse um encontro casual. A diferença é que ela alongou a conversa deixando claros a sua disponibilidade e o telefone “para qualquer coisa”. O tempo perverso em sua relação de “fases insignificantes da vida” não sustentou suas precárias intenções. Marcos ainda estava naquele momento do casamento que, se não está mais numa lua de mel, ainda há entusiasmo... Nem que a custa de alguns tragos rotineiros com os
  • 281.
    Chagas das Almas 280 amigos para afastar o tédio ou, quem sabe, umas puladas da cerca para simples afirmação de sua virilidade, condição patética do sexo masculino. Embora a cidade em que viviam não fosse das maiores, os compromissos de Marcos com sua empresa de informática e a rotina de Andréa no cuidado de um lar, já com três filhos, não possibilitavam a eles se cruzarem muito pelas ruas e pontos sociais. Isso acontecia uma vez por ano, se muito. Mesmo assim, nesse caso, como prova de uma postura muito elegante e tão rara entre casais separados, se cumprimentavam e se falavam com interesse e dignidade, o suficiente para provocar ciúmes tolos em seus novos parceiros. É provável que para eles, um divórcio deva ser uma declaração de combate, preferencialmente com
  • 282.
    Chagas das Almas 281 bastante reivindicações de direito mesquinhos, e por parte das mulheres, rejeição doentia aos enteados. Passou-se mais de vinte e cinco anos dessa vidinha. Até que Marcos, então na casa dos cinquenta, se apaixonou por uma de suas estagiárias, de vinte. Miriam era o nome dela, que proporcionava a Marcos uma recíproca paixão entusiástica, típica deste estágio onde a euforia confere efêmero caráter às previsões mais otimistas. Em um ano sua vida estava do avesso. Separado da esposa e morando num flat com a Miriam, se sentia revigorado, como se rejuvenescesse dez anos, apesar dos negócios terem caído bastante em função dos caprichos da nova parelha.
  • 283.
    Chagas das Almas 282 Dez anos mais tarde, Andréa não havia mudado de vida a ponto de fazer jus gastar pena de qualquer escritor, se não no sentido de dó, principalmente sobre seus sonhos em direção às artes que a fizeram largar a universidade e não passar de uma exímia bordadeira. E Marcos foi mordido pela cobra que generosamente anunciara o bote, mas que ele estava surdo para ouvir. Levou um fora da Miriam no segundo ano de relacionamento e voltou para a ex-mulher, aquela cujo nome nunca importa, tamanha vítima que é da sociedade machista. A mesma mulher que, depois de dez a vinte anos de matrimônio, desaprende a ser indivíduo para virar contrapeso social. Vive de pensão, das alegrias alheias, sucesso dos filhos, lembrança do corpinho do passado e esperando, como última esperança, ter seu
  • 284.
    Chagas das Almas 283 marido de volta para viverem a reincidência do “faz de contas que somos felizes”. Mas incrível, foi isso mesmo que aconteceu. Marcos não se abateu tanto com o fora da Miriam, nem pelo fato dela tê-lo trocado por um rapaz com a metade da sua idade. Certa vez ele confessou para um amigo: ― Isto era de se esperar, as pessoas são muito previsíveis. Além disso, foi melhor para mim também, afinal de contas, mais alguns anos, tudo cairia em rotina. Veria seu corpo como vejo meu carro na garagem, não é mais novidade; começaria a peidar a vontade na frente dela e ela usaria a privada de porta aberta... Ah! Às vezes, eu tenho uma puta saudade da minha primeira mulher! ― completou melancólico. Os dois chagavam à casa dos sessenta e tantos. Primeiro Marcos, dois anos
  • 285.
    Chagas das Almas 284 depois Andréa. Pareciam estar em paridade no que se refere aos ideais humanos de vida. Financeiramente bem resolvidos, cada um com seus filhos bem encaminhados e, claro, cada qual com casamento estável. Naquelas poucas vezes em que se encontravam, mantinham aquela cordialidade. Agora com mais frequência, pois têm em comum frequentar clínicas, consultórios médicos e locais de terapia ou temor no que se chama ironicamente de melhor idade. A amizade ganhou mais colorido em suaves tons pastel, findo os quentes. Como um voo para as Bahamas, calmo e tranquilo, sem nenhuma adrenalina. Havia a liberdade de poderem estar sem seus respectivos cônjuges, já que a saúde de ambos ainda não necessitava de amparo físico ou psicológico a virar estorvo dos
  • 286.
    Chagas das Almas 285 parentes. Com a sabedoria e a segurança que só a vetustez imprime maior honestidade, se é que há, suas migalhas de encontros começaram a ficar mais desprendidas, a ponto de poderem conversar sobre amenidades, incluindo histórias em preto e branco sem nenhum constrangimento. Certo dia, num breve café após o horário de RPG, cada um confessou para o outro sobre a comodidade de seus casamentos, enaltecendo o enorme apreço que tinham por seus esposos, embora as entrelinhas delatassem claro, que não eram plenamente realizados no amor. ― Pois é. ― disse Andréa ― Depois de nossa separação eu... ― Proferiu um rápido resumo desta história de brilho fosco. Em seguida Marcos emendou: ―
  • 287.
    Chagas das Almas 286 É... E eu... ― Fez ele a resenha da sua não menos turva. De repente, ao fim do diálogo renitente, fez-se um silêncio longo e cáustico. Houve um fito mútuo e lacônico. A cognição de ambos projetou uma imagem similar, clara e conformada, mas também de grande consternação. Tantas aventuras, tantas buscas... Contornos baldios. Cada um tinha, diante de si, a única pessoa que um dia verdadeiramente amou. “Para que levar tudo tão a sério? Correr tanto, buscar tanto?” Cada cabeça pensou não necessariamente nesta ordem ou desordem das coisas, repletos de inúteis talvez, se e ou.
  • 288.
    Chagas das Almas 287 Recordar Recordar não é viver, é recriar, logo, do ditado “quem conta um conto aumenta um ponto", faz-se valer um bocado! Recordar é recrear, felicidade sem sofrer, pelas dores entender, valendo sim, por que não e sem culpa até um leve lacrimejar ao anoitecer? Sem chatear os outros com nossa exegese (!), viajar mesmo na maionese. Recordar é pousar em terras copiosas, porto seguro, quintal ou pátio de outrora, tocando o sino da memória e colocando “nossas crianças e jovens” pra fora, em mentes acesas ou ociosas, a toda e qualquer hora.
  • 289.
    Chagas das Almas 288 Recordar é tudo isso ao nosso bel prazer e, do súdito ao xeique, a sós ou em companhia dos mais chegados, poder tecer na vida nosso remake, de "curtas ou longas metragens”, dos melhores momentos vividos, todos seus babados. Recordar é também esquecer e ser esquecido, de todo rosto ou apelido, coisas de neurônios, liga não, isso não nos faz mais ou menos queridos. O importante é o amor do todo e não do nosso ego indivíduo. Não recordar é maldade com o "mim" ou "consigo", que saudade não se mata, se faz alvorecer!
  • 290.
    Chagas das Almas 289 Daquilo que aprendemos e afinal é o que tentamos passar aos nossos filhos e netos. Arduamente fazê-los compreender o que para nós já fora um conflito... Que apesar dos pesares, ainda que nunca plena... Ah! A vida sempre valeu a pena!
  • 291.
    Chagas das Almas 290 Chagas das almas ...Roney, Ana, Sônia, Douglas, Vera, Leda, Ronaldo, Márcia, Senhorita Meireles, Silas, Antônio, Deodoro, Jorge, Deméter, Beltrano, Antônio, Edson, Marina, Jezebel, Fred, Tony, Maxifild, Themístocles, Andréa... Um funcionário da Prefeitura de Petrópolis e uma mulher cegueta ainda não identificados...
  • 292.
    Chagas das Almas 291 ... Aos poucos vão sendo divulgados os primeiros nomes repletos de sobrenomes que não importam mais se fazerem distinguir, das vitimas do que estão chamando de tragédia do voo cego. Mal identificados, entre áridos escombros, saiu a primeira lista parcial de mortos no acidente com a aeronave desaparecida há seis meses. Ela foi descoberta na semana passada inteiramente destroçada no meio da floresta amazônica. Autoridades, ainda que seus títulos e cargos não passem de chamamentos insignificantes, ainda não sabem afirmar a origem e destino do voo, cercado de muitos mistérios, uma vez que se insere em um vácuo no espaço-tempo. Tudo é incerto, imponderável. Provavelmente logo serão confirmadas outras vítimas. Parentes aguardam notícias
  • 293.
    Chagas das Almas 292 nos aeroportos das capitais, mas são entes não necessariamente deste acidente. Podem fazer parte das estatísticas de pessoas desaparecidas que um dia saíram de casa e nunca mais voltaram. Ou acidentadas em automóveis e balas perdidas a esmo. Até a véspera da descoberta das ferragens, eles não haviam dado falta de ninguém. Todos estavam lá, como parece ainda estarem agora. Tempo que para no liame entre o côncavo e o convexo espaço relativo das coisas que são. Maiores detalhes só acompanhar na TV, caixa preta que revela as tragédias humanas. Supõe-se que haja fãs que iriam assistir ao Show de Alice Cooper. Dois casais apaixonados, recém-casados informais e no papel. Também foi confirmada toda a tripulação, enfim, que o
  • 294.
    Chagas das Almas 293 menino Jesus proteja a todos neste momento de luto opaco. *** Não, Deus não é onipresente para o supérfluo. As necessidades universais, sem falar das africanas, os ocupam bastante. Por isso não há justiça divina. Vários corruptos, perversos e empedernidos morrem idosos, gozando de boa saúde no conforto de seus lares suntuosos pagos com o sacrifício dos miseráveis. Este ditado "aqui se faz, aqui se paga" não encontra estatísticas relevantes. Tudo isso são abstrações religiosas, de um povo cuja maioria é de pobres, ignorantes e medianos, precisando mesmo de mecanismos de consolo e ilusão para seguirem em frente os patéticos ardis de suas vidas. Devemos sim nos esforçar para
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    Chagas das Almas 294 sermos melhores, bem sucedidos, mas tem o fator misterioso que rege as leis do mundo. Em segundos os milagres ou malogros podem bater na porta de um ou de outro. Não temos o controle. Somos responsáveis por nossas escolhas sim, mas com muitas pressões. Por anos convivemos com varias pessoas, sejam familiares, amigos ou colegas, absolutamente frágeis, dos bons caráteres aos maus. Lembro-me de alguns chefes que, em seus pequenos mundinhos representados por suas empresas, administram as pessoas com arrogância, se valendo da prerrogativa do alto nível de desemprego ou outras dificuldades, para demonstrarem o que consideram superioridade. Executivos: altos empresários que acumulam salários
  • 296.
    Chagas das Almas 295 exorbitantes e caem na armadilha do prazer e dos excessos que suas fortunas podem comprar; os nomeados em cargos públicos que maquinam com os fartos recursos do poder e manipulam destinos, além de verbas do erário em benéfico de suas ambições. Gente que vive trancada em casa acumulando extratos para se manter nas estatísticas dos mais isso ou aquilo na capa da Times. Homens religiosos que fazem da fé, má fé, martírio, paixão e fanatismo de sofredores anônimos. Todos carregando à tira colo seus egos narcisistas, tamanha vaidade desmedida. No coro das pessoas de bem, tem aquela legião de entes que lutam obstinadamente por seus sonhos, outros que travam batalhas para largar vícios,
  • 297.
    Chagas das Almas 296 conquistar melhor posto, diploma, fama, pós-graduação ou simplesmente qualquer lugar ao sol a custos altos e sacrifícios inimagináveis. Destes bons e portadores de valores nobres, também há os que se arrependem, se culpam, os responsáveis que perdem noites de sono por suas dívidas, pela prova do concurso ou vestibular. E ainda os que rogam serem queridos, admirados, que se preocupam em ser orgulho de pais ou filhos. Todo mundo desejando superar-se, corresponder às exigências selvagens da sociedade, onde subsistir no sistema de capital é cada vez mais penoso. Crises, índices, leis de oferta, slogans, toda esta parafernália. Junto a isto, violência e tecnologia trabalham juntas sem saber, na contramão. O consumismo e o entretenimento levam todos a quererem
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    Chagas das Almas 297 experimentar os próprios limites, tão tentador tudo parece. Como efeito colateral vem à ansiedade e com ela novas doenças depressivas e obsessivas. Acontece é que o mundo se reveza entre os que buscam ajuda médica e espiritual e os que se ocupam de novos deleites e aventuras com os recursos cada vez mais pretensamente eficientes da modernidade em meio às fórmulas químicas, super-naves pesadas ou ultra- leves. Maquinários digitais que dão prazer, agilidade, ganho de tempo, porém que matam ou mutilam corpos e mentes. Depois, profissionais especializados catam desculpas como agulhas em palheiro, enquanto clarividentes se calam frente ao dilema de assombrações perdidas nos óbitos espetaculosos. É a moral mediúnica com as beatices do espiritualmente correto.
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    Chagas das Almas 298 Dinheiro, grande mantenedor da contemplação comovente da aldeia humana! Por ele se vendem almas e se movem montanhas com suor ou sacanagem. Valerá mesmo à pena tudo isto? Ainda que angustiante, só há uma triste constatação, a de que todos nós estamos equivocados, adoentados em nosso hardware de carnes e nervos. Que a vida por tão rara não merece tanta circunspeção e obstinação. Não vale tudo o que exaltamos com tanto apego, apenas ser vivida um dia atrás do outro, sem grandeza de concentração com as armadilhas humanas que se deslembram da beleza de uma simples rosa amarela, do amor ou do bate papo à toa com os bons amigos num dia comum do bem-viver. Não, definitivamente este ritmo retilíneo torpe
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    Chagas das Almas 299 uniformemente acelerado não faz bem aos homens. Afinal, de inteligentes, vaidosos, arrependidos, ambiciosos e sonhadores, o trágico e espetacular acidente de um domingo comum com o Air France AF 447, levou sem aviso, consulta e anuidade de Deus, à sua revelia, 228 almas deste mundo cão. (04 de junho de 2009) *** Voltando a ficção. Bem... Neste obituário torturante que sai aos poucos, à medida que os corpos carbonizados são reconhecidos pela arcada dentária, pedaços de documentos
  • 301.
    Chagas das Almas 300 plastificados e vestes, percebo distinguir quase todos além de mim. Mas há os que não. Velhos, adultos e jovens, entre homens, mulheres e crianças. Apesar disso, ninguém me parece estranho. Todos tinham uma variedade de sonhos perdidos e realidades projetadas, sãs e vis, como já fora anunciado antes. Quem eu realmente conhecia, são os que eu mesmo criei. Muito pertinente para quem fez o mesmo com o espetaculoso acidente. No entanto, réplica de uma verdade recente como o voo Frances. Também a qualquer momento pode ser a próxima realidade, tragédia anunciada e badalada. Festa para os patrocinadores que sustêm mídias, que nutrem espectadores. Por seu turno, estes se alimentam de
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    Chagas das Almas 301 perguntas, dados de sangue e morbidez. Clientes finais fechando a corrente do consumismo imoral. Pois que depois, quando entra no âmbito protocolar: justiça, investigações e perícias, viram um enredo chato demais e todo mundo esquece, de olho num novo lançamento mais atraente nas bancas, redes e telejornais. Anos pesados para os parentes, estes sim, sempre plugados ao fato, até saberem as causas, espera de um mínimo de justiça. Eu luto para não esquecer os fatos e assim ser menos inútil e solidário a eles que em nada são piores e menos merecedores ou mesmo afortunados do que tu-ele-nós-voz-eles. ***
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    Chagas das Almas 302 Há compaixão no mundo. Há de todo tipo. Têm os que se compadecem com a miséria africana, da indonésia. Mas a dor e o sofrimento estão espalhados em diversos lares: de um pop star, dos empresários do tradicional ocidente capitalista e machista de cristãos brancos ocidentais, que se consideram principais. Mas não. Todos sofrem aos poucos, em distâncias relativas, sem manchetes, em cantos de páginas como qualquer alma anônima esquecida. O soldado na guerra, o terminal de câncer, o que feneceu de estômago colado, Ebola, os pais do filho da bala perdida e o assassino executado na cadeira elétrica. Os famosos, o peso de será, mais lembrados por isso... Somos todos irmãos. Marfim e ébano que viemos do mesmo cerne e iremos para
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    Chagas das Almas 303 as mesmas cinzas, mesma verve, denuncia esta variedade de traspasses desvairados. É difícil entender a morte, ela transcende nossas faculdades intelectuais. Sentimos a dor dos entes e queridos idos, consagramos nossas dificuldades mentais, pois sim. É propriedade do ego levar o apego consigo. Há sofreguidão demais. Não é de nossa cognição afetiva tolerar dor por milhares de CPF que morrem no varejo, se não forem de nossos círculos. Apenas os que se vão de uma vez só, num dia e instante fulminante como na tragédia de um voo cego. Só ficamos abismados com os espetaculares, espetáculos nos ares. O que está na negligencia ou no incógnito, eventos sensacionais com a TV e suas trilhas emocionais. Choramos se o mesmo for bem
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    Chagas das Almas 304 representado no cinema. Realidade e ilusão nos confundem. Assim, esta crônica derradeira cumpre sua sina de misturar isso, a dor real com a da ficção existencialista, o que ainda não sei bem a diferença. Sina dos cronistas? Nestas horas, como fora nos últimos acidentes tanto do Air-France, como o da Gol e da TAM, assim como o Tsunami asiáticos ou boite do sul ... Não menos intrigado, me pergunto e não acho qualquer resposta mais adequada à maior questão que me aflige: “Vida: vales muito ou não vales nada?!” Não há caminho do meio Mr. Buda. Assim como pouco importa se haja mais dela depois, uma vez que jamais seria como esta, da forma que nossas almas são
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    Chagas das Almas 305 apegadas e vicejam a beleza da terra e da água. Tantas destas crônicas eu escrevi então, misturando minhas verdades com divagações e enredos falseados, não? Juntei a primeira pessoa com terceiros, criaturas recheadas de sabores ácidos, doces e alegres. Dançarinos da corda bamba. Mesmo assim, não me contento com nada. Estou sempre frustrado e preso nesta alfândega esperando o sinal verde para liberdade. Não há felicidade plena se há o sofrimento alheio. Sabendo que a vida é repleta destes impulsos falíveis que nos fogem totalmente às escolhas, será que vale mesmo a pena tantos planos, sonhos e anseios? Preocupações excessivas? O que os penados diriam se pudessem prever ou
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    Chagas das Almas 306 voltar para expressar o ato milésimo de segundo antes do coração parar de bater? Ou se houver este tal de “um outro lado?” Afinal, tanto desprendimento de energia do espírito, para que fim? Por que meio buscamos a felicidade? Chorando a miséria própria ou colecionando status em perfis indômitos nas tramas reais ou virtuais? Durmo ansioso pelo beijo na minha amada no encontro de amanhã e no caminho “bum”! Desapareço em segundos, deixando-a esperando em Bagdá ou Amsterdã. Ainda têm culpas, promessas, dívidas e renúncias. Nada que também possa ser mais sanado. “Problema” passa a ser uma palavra vazia, estéril. As parafernálias do mundo, a mixórdia dos sistemas de civilização... Tudo trazendo
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    Chagas das Almas 307 muita tentação e junto, à ingratidão em uma mó de vidas perdidas em tempos esparsos. No dicotômico e tragicômico viver do dia- a-dia que não passam mesmo de meras crônicas banais. Sofrimento sem fim dos seres humanos e desumanos ao bel prazer de um destino esquisito. Muitas tão bem imbuídas, deixando entes chegados absolutamente desamparados. Lagrimas e rinites crônicas, renitentes narizes rubros úmidos de tanto chorar para sempre. Sina de existir sem sentidos e propósitos... Bendita seja a vida ingênua ao contrário da sociedade moderna em cada era temporal presente. Cada uma, amorfa anã, ansiosa e clemente de calma, se enganando em fé maometana ou cristã. Malditas desonras e dores humanas, chagas crônicas das almas.
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    Chagas das Almas 308 Niterói, 15/10/2014. Denuncie possíveis erros de distração, ortográficos ou gramaticais e me de uma força. Leia mais crônicas, ensaios e pensamentos em http://www.claquelife.com.br Contato: silva.themistocles@gmail.com Obrigado, Abraço. Themístocles Silva Neto.