Notas do Curso de SMA-343 - Espa¸cos M´etricos
Prof. Wagner Vieira Leite Nunes
S˜ao Carlos 2.o semestre de 2008
2
Sum´ario
1 Introdu¸c˜ao 5
2 Espa¸cos M´etricos 7
2.1 Defini¸c˜oes b´asicas e exemplos de espa¸cos m´etricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
2.2 Bolas abertas, bolas fechadas e esferas em espa¸cos m´etricos . . . . . . . . . . . . 21
2.3 Subconjuntos limitados de um espa¸cos m´etricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
2.4 Distˆancia de um ponto a um subconjunto em um espa¸co m´etrico . . . . . . . . . 41
2.5 Distˆancia entre dois subconjuntos de um espa¸co m´etrico . . . . . . . . . . . . . . 46
2.6 Imers˜oes isom´etricas e isometrias entre espa¸cos m´etricos . . . . . . . . . . . . . . 47
3 Fun¸c˜oes Cont´ınuas Definidas em Espa¸cos M´etricos 53
3.1 Defini¸c˜ao de fun¸c˜ao cont´ınua em espa¸cos m´etricos e exemplos . . . . . . . . . . . 53
3.2 Propriedades elementares de fun¸c˜oes cont´ınuas entre espa¸cos m´etricos . . . . . . 64
3.3 Homeomorfismos entre espa¸cos m´etricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
3.4 M´etricas equivalentes em um espa¸co m´etrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87
3.5 Transforma¸c˜oes lineares e multilineares definidas em espa¸cos vetoriais normados . 100
4 Conjuntos Abertos, Fechados - Espa¸cos Topol´ogicos 115
4.1 Conjuntos abertos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115
4.2 Rela¸c˜oes entre conjuntos abertos e continuidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
4.3 Espa¸cos topol´ogicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 142
4.4 Conjuntos fechado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 146
5 Conjuntos Conexos 165
5.1 Defini¸c˜oes e exemplos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165
5.2 Propriedades gerais de conjuntos conexos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 169
5.3 Conex˜ao por caminhos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 192
5.4 Componentes conexas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 209
6 Limites 213
6.1 Limites de sequˆencias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213
6.2 Sequˆencias de n´umeros reais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 221
6.3 S´eries . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 224
6.4 Convergˆencia e topologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 228
6.5 Sequˆencias de fun¸c˜oes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 233
6.6 Produtos cartesianos infinitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 241
6.7 Limites de fun¸c˜oes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248
3
4 SUM ´ARIO
7 Continuidade Uniforme de Fun¸c˜oes em Espa¸cos M´etricos 253
8 Espa¸cos M´etricos Completos 263
8.1 Sequˆencias de Cauchy . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 263
8.2 Espa¸cos m´etricos completos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 268
8.3 Espa¸cos de Banach e espa¸cos de Hilbert . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 274
8.4 Extens˜ao de fun¸c˜oes cont´ınuas ou uniformemente cont´ınuas . . . . . . . . . . . . 281
8.5 Completamente de um espa¸co m´etrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 285
8.6 Espa¸co m´etricos topologicamente completos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 294
8.7 O teorema de Baire . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 296
8.8 M´etodo das aproxima¸c˜oes sucessivas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 306
9 Bibliografia 315
Cap´ıtulo 1
Introdu¸c˜ao
Este trabalho poder´a servir como notas de aula para cursos cujas ementas tratam de espa¸cos
m´etricos.
Ser˜ao exibidos todos os conceitos relacionados com o conte´udo acima, bem como propriedades
e aplica¸c˜oes dos mesmos.
As referˆencias ao final das notas poder˜ao servir como material importante para o conte´udo
aqui desenvolvido.
5
6 CAP´ITULO 1. INTRODUC¸ ˜AO
Cap´ıtulo 2
Espa¸cos M´etricos
5.08.2008 - 1.a
7.08.2008 - 2.a
2.1 Defini¸c˜oes b´asicas e exemplos de espa¸cos m´etricos
Come¸caremos com a:
Defini¸c˜ao 2.1.1 Seja M um conjunto n˜ao vazio.
Diremos que uma aplica¸c˜ao
d : M × M → R
´e uma m´etrica (ou distˆancia) em M se as seguintes condi¸c˜oes est˜ao satisfeitas:
(d1) d(x, x) = 0;
(d2) se x, y ∈ M e x = y ent˜ao d(x, y) > 0;
(d3) d(x, y) = d(y, x) para todo x, y ∈ M;
(d4) d(x, z) ≤ d(x, y) + d(y, z), para todo x, y, z ∈ M.
Observa¸c˜ao 2.1.1
1. (d1) e (d2) implicam que d(x, y) ≥ 0 para todo x, y ∈ M e que d(x, y) = 0 se, e somente
se, x = y.
2. (d3) nos diz que d(x, y) ´e um fun¸c˜ao sim´etrica nas vari´aveis x e y.
3. (d4) ´e conhecida como desigualdade triangular.
Este nome se deve ao fato que, na geometria euclideana, o comprimento de um lado de um
triˆangulo ´e sempre menor que a soma dos comprimentos dos outros dois lados do triˆangulo.
7
8 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
x
y
z
d(x, z) < d(x, y) + d(y, z)
Com isto temos a:
Defini¸c˜ao 2.1.2 Se d ´e uma m´etrica em M ent˜ao o par (M, d) ser´a denominado espa¸co
m´etrico.
Observa¸c˜ao 2.1.2 Quando n˜ao houver possibilidade de confus˜ao nos referiremos ao espa¸co
m´etrico M (ao inv´es de (M, d)) deixando subentendido a m´etrica d a ser considerada.
Nota¸c˜ao 2.1.1 Se (M, d) ´e um espa¸co m´etrico, os elementos de M ser˜ao ditos pontos de M.
A seguir daremos alguns exemplos de espa¸cos m´etricos.
Exemplo 2.1.1 Seja M um conjunto n˜ao vazio.
Consideremos a aplica¸c˜ao d : M × M → R dada por
d(x, y) =
0, se x = y
1, se x = y
.
Afirmamos que d ´e uma m´etrica em M.
De fato, as condi¸c˜oes (d1), (d2) e (d3) s˜ao verificadas facilmente e ser˜ao deixadas como
exerc´ıcio para o leitor.
Mostremos que (d4) ocorre.
Se x = z ent˜ao temos que
d(x, z) = 0 ≤ d(x, y) + d(y, z)
independente de y ∈ M (pois d(x, y), d(y, z) ≥ 0).
Se x = z ent˜ao temos que
d(x, z) = 1 ≤ d(x, y) + d(y, z) (∗)
independente de y ∈ M (pois se y = z teremos d(x, y) = 0 mas como y = x = z segue que
d(y, z) = 1 assim (*) ocorrer´a; de modo semelhante se y = z).
Portanto vale (d4), ou seja, d ´e uma m´etrica em M.
2.1. DEFINIC¸ ˜OES B ´ASICAS E EXEMPLOS DE ESPAC¸OS M´ETRICOS 9
Observa¸c˜ao 2.1.3 A m´etrica acima ´e denominada m´etrica zero-um.
Exemplo 2.1.2 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e S ⊆ M n˜ao vazio.
Ent˜ao tomando-se a restri¸c˜ao de d sobre S, isto ´e, d|S : S × S → R dada por d|S(x, y)
.
=
d(x, y) para x, y ∈ S ent˜ao segue que d|S ´e uma m´etrica em S.
A veririfica¸c˜ao que (d1)-(d4) valem para d|S ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
Observa¸c˜ao 2.1.4 No caso acima S ser´a dito subespa¸co (m´etrico) de M e a m´etrica d|S
ser´a dita m´etrica induzida pela m´etrica d de M.
Exemplo 2.1.3 Seja M = R e
d : R × R → R
dada por
d(x, y)
.
= |x − y|
para x, y ∈ R.
Ent˜ao d ´e uma m´etrica em R pois (d1)-(d4) s˜ao conseq¨uˆencias das propriedades elementares
da fun¸c˜ao valor absoluto (a verifica¸c˜ao disto ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor).
Observa¸c˜ao 2.1.5 No caso acima diremos que a m´etrica d ´e a m´etrica usual de R.
Podemos generalizar o exemplo acima, a saber:
Exemplo 2.1.4 Seja M = Rn.
Podemos considerar as seguintes aplica¸c˜oes
d, d , d : Rn
× Rn
→ R, j = 1, 2, 3 :
1. d(x, y)
.
= (x1 − y1)2 + · · · (xn − yn)2 =
n
i=1
(xi − yi)2
1
2
.
2. d (x, y)
.
= |x1 − y1| + · · · |xn − yn| =
n
i=1
|xi − yi|.
3. d (x, y)
.
= max{|x1 − y1|, · · · , |xn − yn|} = max
1≤i≤n
|xi − yi|.
As aplica¸c˜oes d, d , d s˜ao m´etricas em Rn.
De fato, elas cumprem as condi¸c˜oes (d1),(d2) e (d3) (isto ser´a deixado como exerc´ıcio para
o leitor).
A condi¸c˜ao (d4) ´e facilmente verificada para d e d (isto ser´a deixado como exerc´ıcio para
o leitor).
A condi¸c˜ao (d4) para d ser´a verificada num exemplo a seguir.
Observa¸c˜ao 2.1.6
1. A m´etrica d acima definida ser´a denominada m´etrica euclideana.
Ela prov´em da f´ormula da distˆancia entre dois pontos (em coordenadas cartesianas) que ´e
uma conseq¨uˆencia do Teorema de Pit´agoras (a verifica¸c˜ao disto ser´a deixado como exerc´ıcio
para o leitor).
Devido a este fato a m´etrica d ser´a dita m´etrica usual de Rn.
10 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
2. Se n = 2 a m´etrica d ´e a que d´a a distˆancia entre os pontos p e q do plano (ou seja, o
comprimento do segmento de reta que une os pontos p e q, vide figura abaixo).
p
q
d(p, q)
A m´etrica d nos d´a a distˆancia entre dois pontos do plano utilizando-se dos catetos de um
triˆangulo retˆangulo determinado pelos pontos p e q (vide figura abaixo).
p
q
r
' E
T
c
‰
w
d (p, q)
A m´etrica d nos d´a a distˆancia entre dois pontos do plano utilizando-se o comprimento
do maior cateto de um triˆangulo retˆangulo determinado pelos pontos p e q (vide figura
abaixo).
p
q
r
' E
‰
d (p, q)
Geometricamente, temos a seguinte configura¸c˜ao para as trˆes distˆancias acima:
2.1. DEFINIC¸ ˜OES B ´ASICAS E EXEMPLOS DE ESPAC¸OS M´ETRICOS 11
p
q
d(p, q)
d (p, q)
E'
E'
T
c
W
w
d (p, q)
3. Se n = 2 temos o plano R2 cujos elementos ser˜ao representados por (x, y) ou (u, v), onde
x, y, u, v ∈ R.
4. Em algumas situa¸c˜oes identificamos R2 com C, o conjunto dos n´umeros complexos por
meio da correspondˆencia (x, y) → x + iy, onde i2 .
= −1.
5. Se n = 3 temos o espa¸co R2 cujos elementos ser˜ao representados por (x, y, z) ou (u, v, w),
onde x, y, z, u, v, w ∈ R.
Com isto temos a
Proposi¸c˜ao 2.1.1 Consideremos d, d , d as m´etricas definidas no exemplo (2.1.4).
Ent˜ao, para todo x, y, ∈ Rn temos
d (x, y) ≤ d(x, y) ≤ d (x, y) ≤ n d (x, y).
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que para todo a, b ≥ 0 temos que:
√
a + b ≤
√
a +
√
b (∗).
De fato, pois
[
√
a +
√
b]2
= [
√
a]2
+ 2
√
a
√
b + [
√
b]2
= a + 2
√
a
√
b + b ≥ a + b.
Portanto
√
a + b ≤
√
a +
√
b como afirmamos.
Observemos que para todo x, y, ∈ Rn temos
d (x, y) = max
1≤i≤n
|xi − yi|
[|a|=
√
a2]
= max
1≤i≤n
(xi − yi)2 ≤


n
j=1
(xj − yj)2


1
2
= d(x, y),
d(x, y) =


n
j=1
(xj − yj)2


1
2
(∗)
≤
n
j=1
(xj − yj)2
[
√
a2=|a|]
=
n
j=1
|xj − yj| = d (x, y) e
d (x, y) =
n
j=1
|xj − yj| ≤
n
j=1
max
1≤j≤n
{|xj − yj|} = max
1≤j≤n
{|xj − yj|}
n
j=1
1
= max
1≤j≤n
{|xj − yj|}.n = n.d (x, y)
12 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
completando a demonstra¸c˜ao.
Para o pr´oximo exemplo introduziremos a seguinte defini¸c˜ao:
Defini¸c˜ao 2.1.3 Seja X um conjunto n˜ao vazio.
Diremos que uma fun¸c˜ao f : X → R ´e limitada se existir k = kf > 0 tal que
|f(x)| ≤ k, para todo x ∈ X.
Denotaremos por B(X; R) o conjunto formado por todas as fun¸c˜oes, f : X → R que s˜ao
limitadas, isto ´e,
B(X; R)
.
= {f : X → R : f ´e limitada}.
Com isto temos o:
Exemplo 2.1.5 Na situa¸c˜ao acima temos que B(X; R) tornar-se-´a um espa¸co vetorial sobre R
com as opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao de fun¸c˜oes e multiplica¸c˜ao de n´umero real por fun¸c˜ao (isto
ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor).
Definimos
d : B(X; R) × B(X; R) → R
por
d(f, g)
.
= sup
x∈X
|f(x) − g(x)|,
onde f, g ∈ B(X; R).
Afirmamos que d ´e uma m´etrica em B(X; R).
De fato:
1. Se f ∈ B(X; R) ent˜ao
d(f, f) = sup
x∈X
|f(x) − f(x)| = 0,
mostrando que vale (d1);
2. Se f, g ∈ B(X; R) e f = g ent˜ao existe x0 ∈ X tal que f(x0) = g(x0).
Assim
d(f, g) = sup
x∈X
|f(x) − g(x)| ≥ |f(x0) − g(x0)| > 0,
mostrando que vale (d2);
3. Se f, g ∈ B(X; R) ent˜ao
d(f, g) = sup
x∈X
|f(x) − g(x)| = sup
x∈X
| − [g(x) − f(x)]| = sup
x∈X
|g(x) − f(x)| = d(g, f),
mostrando que vale (d3);
4. Se f, g, h ∈ B(X; R) ent˜ao para cada x ∈ X temos que
|f(x) − g(x)| = |[f(x) − h(x)] + [h(x) − g(x)]|
[|a+b|≤|a|+|b|]
≤ |f(x) − h(x)| + |h(x) − g(x)|.
Logo
2.1. DEFINIC¸ ˜OES B ´ASICAS E EXEMPLOS DE ESPAC¸OS M´ETRICOS 13
d(f, g) = sup
x∈X
{|f(x) − g(x)|} ≤ sup
x∈X
{|f(x) − h(x)| + |h(x) − g(x)|}. (∗)
Sabemos que se A e B s˜ao limitados superiormente em R ent˜ao A + B ´e limitado superi-
ormente em R e
sup[A + B] ≤ sup A + sup B.
Aplicando isto ao lado direito de (*) obteremos
d(f, g) ≤ sup
x∈X
{|f(x) − h(x)| + |h(x) − g(x)|} ≤ sup
x∈X
{|f(x) − h(x)|} + sup
x∈X
{|h(x) − g(x)|}
= d(f, h) + d(h, g),
mostrande que (d4) ´e verdadeira.
Deste completamos a prova que d ´e uma m´etrica em B(X; R).
Observa¸c˜ao 2.1.7
1. A m´etrica definida no exemplo acima ´e denominada m´etrica da convergˆencia uniforme
ou m´etrica do sup.
2. Para ilustrar, se X
.
= [0, 1], f, g : [0, 1] → R s˜ao dadas por f(x) = x e g(x) = x2, x ∈ [0, 1]
ent˜ao, geometricamente, d(f, g) ser´a o comprimento da maior corda vertical unindo os
pontos dos gr´aficos das fun¸c˜oes f e g (vide figura abaixo).
T
E
1
1
f
g
c
d(f, g) = |f( 1
2
) − g( 1
2
)| = 1
2
− 1
2
2
= 1
4
x
y
TC
1
2
3. Vale observar que se X = {1, 2, · · · , n} ent˜ao toda fun¸c˜ao f : X → R ser´a limitada (pois
|f(x)| ≤ kf
.
= max
1≤i≤n
|f(i)|, x ∈ X), ou seja, f ∈ B(X; R).
Logo podenos identificar f com a n-upla (x1, x2, · · · , xn) onde xi
.
= f(i), 1 ≤ i ≤ n.
Portanto B(X; R) pode ser identificado com Rn.
Neste caso a m´etrica d em B(X; R) definida no exemplo acima, induzir´a a m´etrica d em
Rn, pois
d(f, g) = sup
x∈X
|f(x) − g(x)| = max
1≤i≤n
|f(i) − g(i)| = max
1≤i≤n
|xi − yi| = d (x, y),
onde xi = f(i), yi = g(i), i = 1, · · · , n.
Conclus˜ao, temos a seguinte identifica¸c˜ao: (B(X; R), d) = (Rn, d ).
14 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
12.08.2008 - 3.a
Para o pr´oximo exemplo precisaremos da:
Defini¸c˜ao 2.1.4 Seja E um espa¸co vetorial sobre R.
Diremos que uma fun¸c˜ao . :→ R ´e uma norma em E se as seguintes condi¸c˜oes s˜ao
verificadas:
(n1) Se x ∈ E ´e tal que x = 0 ent˜ao x = 0;
(n2) Se λ ∈ R e x ∈ E ent˜ao λ x = |λ| x ;
(n3) Se x, y ∈ E ent˜ao x + y ≤ x + y .
Observa¸c˜ao 2.1.8 Suponhamos que . seja uma norma em E, espa¸co vetorial sobre R.
1. Observemos para todo x ∈ E temos que
0 = 0.x
(n2)
= |0| x = 0 e − x = (−1).x
(n2)
= | − 1| x = x (∗).
2. Se x ∈ E temos
0 = x + (−x)
(n3)
≤ x + − x
(∗)
= x + x = 2 x .
Logo x ≥ 0, para todo x ∈ E.
3. Segue de (n1) e do item 2. acima segue que se x ∈ E, x = 0 ent˜ao x > 0.
Com isto temos a
Defini¸c˜ao 2.1.5 Um espa¸co vetorial normal ´e um par (E, . ) onde E ´e um espa¸co vetorial
sobre R e . ´e uma norma definida em E.
A seguir exibiremos alguns exemplos de espa¸cos vetoriais normados.
Exemplo 2.1.6 Consideremos em Rn as seguintes fun¸c˜oes . , . , . : Rn → R dadas por
x
.
=
n
i=1
x2
i , x
.
=
n
i=1
|xi|, x
.
= max
1≤i≤n
|xi|,
onde x = (x1, x2, · · · , xn) ∈ Rn.
Deixaremos como exerc´ıcio para o leitor mostrar que as fun¸c˜oes . , . acima s˜ao normas
em Rn.
Al´em disso ser´a deixado para o leitor a verifica¸c˜ao que . satisfaz as condi¸c˜oes (n1), (n2).
Logo adiante mostraremos que . tamb´em satisfaz a condi¸c˜ao (n3) e portanto tamb´em ser´a
uma norma em Rn.
Outro exemplo importante ´e
2.1. DEFINIC¸ ˜OES B ´ASICAS E EXEMPLOS DE ESPAC¸OS M´ETRICOS 15
Exemplo 2.1.7 No exemplo (2.1.5) acima podemos considerar a fun¸c˜ao
. : B(X; R) → R
dada por
f
.
= sup
x∈X
|f(x)|, f ∈ B(X; R).
Deixaremos como exerc´ıcio para o leitor mostrar que . ´e uma norma em B(X; R), ou seja,
(B(X; R), . ) ´e um espa¸co vetorial normado.
Tal norma ser´a denomiada de norma da convergˆencia uniforme (ou do sup) em
B(X; R).
Podemos agora obter uma cole¸c˜ao de exemplos de espa¸cos m´etricos, a saber:
Exemplo 2.1.8 Seja (E, . ) um espa¸co vetorial normado.
Consideremos a fun¸c˜oes d : E × E → R dada por
d(x, y)
.
= x − y , x, y, ∈ E.
Afirmamos que d ´e um m´etrica em E.
De fato:
1.
d(x, x) = x − x = 0
[Observa¸c˜ao (2.1.8) item 1.]
= 0,
ou seja, vale (d1);
2. Se x = y temos que x − y = 0, logo
d(x, y) = x − y
[observa¸c˜ao (2.1.8) item 3.]
> 0,
ou seja, vale (d2);
3. Se x, y ∈ E temos que
d(x, y) = x − y
[observa¸c˜ao (2.1.8) item 1.]
= − (x − y) = y − x = d(y, x),
ou seja, vale (d3);
4. Se x, y, z ∈ E temos que
d(x, z) = x − z = (x − y) + (y − z)|
(n4)
≤ x − y + y − z = d(x, y) + d(y, z),
ou seja, vale (d4).
Portanto d ´e um m´etrica em E e assim (E, d) ´e um espa¸co m´etrico.
Observa¸c˜ao 2.1.9
16 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
1. O exemplo acima nos mostra que todo espa¸co vetorial normado ´e um espa¸co m´etrico (onde
a m´etrica ser´a a m´etrica do exemplo acima).
Neste caso diremos que a m´etrica d prov´em da norma . .
Por exemplo, as m´etricas d, d , d de Rn prov´em das normas . , . , . , respectiva-
mente (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao destes fatos).
De modo semelhante temos que a m´etrica
d(f, g) = f − g
definida em B(X; R) (onde a norma . ´e a do exemplo (2.1.7)) ´e proveniente da norma
da convergˆencia uniforme.
2. Pergunta-se:
Seja E ´e um espa¸co vetorial sobre R e d ´e um m´etrica em E.
Existir´a uma norma em E de modo que a m´etrica dada d prov´em dessa norma? ou seja,
uma m´etrica qualquer definida E prov´em de alguma norma definida em E?
Infelizmente isto ´e falso, ou seja, existem espa¸cos vetoriais que possuem m´etricas que n˜ao
prov´em de normas definidas no espa¸co vetorial em quest˜ao.
O exerc´ıcio 3 da 1.a lista de exerc´ıcios nos d´a uma condi¸c˜ao necessaria e suficiente para
que um m´etrica em um espa¸co vetorial seja proveniente de uma norma do espa¸co vetorial
em quest˜ao.
Mais precisamente temos que:
Seja E um espa¸co vetorial sobre R.
Uma m´etrica, d, em E prov´em de uma norma em E se, e somente se,
d(x + a, y + a) = d(x, y) e d(λx, λy) = |λ|d(x, y),
para todo x, y, a ∈ E e λ ∈ R.
No exerc´ıcio 4 da 1.a lista de exerc´ıcios o leitor ´e convidado a produzir um exemplo de
espa¸co vetorial que possua uma m´etrica que n˜ao prov´em de nenhuma norma definida no
espa¸co vetorial em quest˜ao.
3. Observemos tamb´em que se (E, . ) ´e um espa¸co vetorial normado ent˜ao para todo x ∈ E
temos
d(x, 0) = x − 0 = x ,
isto ´e, a norma do vetor x ∈ E ´e a distˆancia do ponto x ∈ E `a origem 0 ∈ E.
Para considerar uma outra classe de exemplos precisaremos da
Defini¸c˜ao 2.1.6 Seja E um espa¸co vetorial sobre R.
Diremos que a fun¸c˜ao
< ., . >: E × E → R
´e um produto interno (ou escalar) em E se satisfas as seguintes condi¸c˜oes:
(p1) Para x, x , y ∈ E temos
< x + x , y >=< x, y > + < x , y >;
2.1. DEFINIC¸ ˜OES B ´ASICAS E EXEMPLOS DE ESPAC¸OS M´ETRICOS 17
(p2) Para x, y ∈ E e λ ∈ R temos
< λx, y >= λ < x, y >;
(p3) Para x, y ∈ E temos
< x, y >=< y, x >;
(p4) Para x ∈ E, x = 0 temos
< x, x >> 0.
Neste caso diremos que (E, < ., . >) ´e um espa¸co com produto interno (ou escalar).
Observa¸c˜ao 2.1.10
1. Se (E, < ., . >) ´e um espa¸co com produto interno ent˜ao para x, y, y ∈ E e λ ∈ R temos
que
< x, y + y >
(p3)
= < y + y , x >
(p1)
= < y, x > + < y , x >
(p3)
= < x, y > + < x, y >
e
< x, λy >
(p3)
= < λy, x >
(p2)
= λ < y, x >
(p3)
= λ < x, y >, (∗)
ou seja, < ., . > ´e linear em cada uma das suas entradas (denominada bilinear).
2. De (p4) temos que se x ∈ E e < x, x >= 0 ent˜ao x = 0.
Logo temos que
< x, x >≥ 0
para todo x ∈ E e < x, x >= 0 se, e somente se, x = 0.
No curso de ´Algebra Linear dir´ıamos que a fun¸c˜ao < ., . > ´e bilinear, sim´etrica e positiva
definida.
A seguir exibiremos alguns exemplos de espa¸cos com produto interno:
Exemplo 2.1.9 Seja E = Rn e definamos
< ., . >: Rn
× Rn
→ R
por
< x, y >
.
= x1y1 + · · · + xnyn =
n
i=1
xi yi,
onde x = (x1, x2, · · · , xn), y = (y1, y2, · · · , yn) ∈ Rn.
Ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor mostrar que a fun¸c˜ao < ., . > definida acima
satisfaz as condi¸c˜oes (p1),(p2),(p3) e (p4), ou seja, < ., . > ´e um porduto interno em Rn.
Outro exemplo importante ´e:
18 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
Exemplo 2.1.10 Seja C([a, b]; R) = {f : [a, b] → R; f cont´ınua em [a, b]}.
Pode-se mostrar que C([a, b]; R) munido das opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao de fun¸c˜oes e multi-
plica¸c˜ao de n´umero real por fun¸c˜ao ´e um espa¸co vetorial.
Para isto basta mostrar que C([a, b]; R) ´e um subsepa¸co vetorial de B([a, b]; R) (a verifica¸c˜ao
deste fato ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor; lembremos que se f ´e cont´ınua em [a, b]
ent˜ao f ser´a limitada).
Considere a seguinte fun¸c˜ao
< ., . >: C([a, b]; R) × C([a, b]; R) → R
dada por:
< f, g >
.
=
b
a
f(x)g(x) dx,
se f, g ∈ C([a, b]; R).
Ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor mostrar que < ., . > definida acima satisfaz as
condi¸c˜oes (p1),(p2),(p3) e (p4), ou seja, ´e um produto interno em C([a, b]; R) .
Com isto temos uma cole¸c˜ao de espa¸cos vetoriais normados (e portanto, de espa¸cos m´etricos),
a saber:
Exemplo 2.1.11 Seja (E, < ., . >) um espa¸co vetorial com produto interno.
Considere a fun¸c˜ao
. : E → R
dada por
x
.
= < x, x >, (∗)
para x ∈ E.
Afirmamos que . ´e uma norma em E.
De fato:
1. Se x ∈ E e x = 0 ent˜ao
x = < x, x >
(p4), <x,x>0
= 0,
isto ´e, vale (n1);
2. Se x ∈ E e λ ∈ R ent˜ao
λx = < λx, λx >
[ (p1) e a observa¸c˜ao (2.1.10) (*)]
= λ2 < x, x > =
√
λ2 < x, x > = |λ| x ,
isto ´e, vale (n2);
3. Nesta situa¸c˜ao temos a Desigualdade de Cauchy-Schwarz, a saber: se (E, < ., . >) espa¸co
vetorial com produto interno ent˜ao para todo x, y ∈ E temos que
| < x, y > | ≤ x y .
De fato:
Se x = 0 valer´a a igualdade, logo ser´a verdadeira.
2.1. DEFINIC¸ ˜OES B ´ASICAS E EXEMPLOS DE ESPAC¸OS M´ETRICOS 19
Se x = 0 podemos definir
λ
.
=
< x, y >
x 2
e z
.
= y − λx.
Observemos que
< z, x > =< y − λx, x >=< y, x > −λ < x, x >=< y, x > −
< x, y >
< x, x >
< x, x >
=< x, y > − < x, y >= 0,
(isto ´e, os vetores em quest˜ao s˜ao ortogonais).
Logo
y 2
=< y, y >=< z + λx, z + λx >=< z, z > +λ < z, x > +λ < x, z > +λ2
< x, x >
[<x,z>=<z,x>=0]
= z 2
+ λ2
x 2
.
Logo
λ2
x 2
≤ y 2
,
ou seja,
< x, y >
x 2
2
x 2
≤ y 2
,
isto ´e,
< x, y >2
≤ x 2
y 2
implicando a desigualdade acima, como quer´ıamos demonstrar.
4. Utilizando a Desigualdade de Cauchy-Schwarz temos que
x + y 2
< x + y, x + y >=< x, x > + < x, y > + < y, x > + < y, y >
= x 2
+ 2 < x, y > + y 2
≤ x 2
+ 2 x y + y 2
= ( x + y )2
,
inplicando que
x + y ≤ x + y ,
ou seja , vale (n3).
Com isto temos que . ´e uma norma em E.
5. Segue do item acima que a aplica¸c˜ao d do exemplo (2.1.4) satisfaz a condi¸c˜ao (d4), ou
seja, ser´a uma m´etrica em Rn, como hav´ıamos afirmado.
Observa¸c˜ao 2.1.11
1. No caso acima diremos que a norma (*) definida acima ´e uma norma que prov´em do
produto interno de E.
2. O exemplo acima nos mostra que todo espa¸co vetorial com produto interno pode tornar-se
um espa¸co vetorial normado (com a norma que prov´em do produto interno dado).
20 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
3. Pergunta-se:
Seja E um espa¸co vetorial normado.
Toda norma de E prov´em de um produto interno?
A resposta ´e negativa, isto ´e, existem espa¸cos vetoriais que possuem normas que n˜ao
prov´em de nenhum produto interno no espa¸co vetorial em quest˜ao.
No exerc´ıcio 5 da 1.a lista de exerc´ıcios o leitor ´e convidado a mostrar que em B(X; R) a
norma da convergˆencia uniforme n˜ao prov´em de um produto interno.
Um outro exemplo pode ser obtido utilizando-se o item abaixo.
4. Deixaremos como exerc´ıcio para o leitor mostrar que: [Ex1.1 - +0.5]
Seja (E, . ) um espa¸co vetorial normado.
A norma . de E prov´em de um produto interno se, e somente se, temos que
x + y 2
+ x − y 2
= 2[ x 2
+ y 2
],
para tod x, y ∈ E, que ´e conhecida como lei do paralelogramo.
5. Logo a norma . em R2 n˜ao prov´em de um produto interno pois tomando-se x = (1, 0)
e y = (0, 1) temos que estes vetores n˜ao satisfazem a lei do paralelogramo (verifique!).
6. Como conseq¨uˆencia do que vimos acima todo espa¸co vetorial com produto interno ´e um
espa¸co m´etrico (basta tomar a m´etrica que prov´em da norma que ´e proveniente do produto
interno).
Para concluir a se¸c˜ao temos o:
Exemplo 2.1.12 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) dois espa¸cos m´etricos.
Em M × N podemos considerar as seguinte fun¸c˜oes
d, d , d : [M × N] × [M × N] → R
dadas por:
d(z, z )
.
= [dM (x, x )]2 + [dN (y, y )]2;
d (z, z )
.
= dM (x, x ) + dN (y, y );
d (z, z )
.
= max{dM (x, x ), dN (y, y )},
onde z = (x, y), z = (x , y ) ∈ M × N.
Ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor mostrar que d, d , d s˜ao metricas em M × N.
Observa¸c˜ao 2.1.12
1. Podemos generalizar o exemplo acima para um produto finito de espa¸cos m´etricos.
Mais precisamente, se (M1, d1), (M2, d2), · · · , (Mn, dn) s˜ao n-espa¸cos m´etricos ent˜ao pode-
mos definir as seguintes m´etricas no produto cartesiano M1 × M2 × · · · × Mn:
2.2. BOLAS ABERTAS, BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 21
d(x, y)
.
= [d1(x1, y1)]2 + · · · + [dn(xn, yn)]2 =
n
j=1
[dj(xi, yi)]2;
d (x, y)
.
= d1(x1, y1) + · · · + dn(xn, yn) =
n
j=1
dj(xi, yi);
d (x, y)
.
= max{d1(x1, y1), · · · , dn(xn, yn)} = max
1≤j≤n
{dj(xi, yi)},
onde x = (x1, x2, · · · , xn), y = (y1, y2, · · · , yn) ∈ M1 × M2 × · · · × Mn.
A verifica¸c˜ao ser´a deixcada como exerc´ıcio para o leitor.
2. A m´etrica d definida acima ser´a dita m´etrica produto em M
.
= M1 × M2 × · · · × Mn.
A m´etrica d definida acima ser´a dita m´etrica da soma em M
.
= M1 × M2 × · · · × Mn.
A m´etrica d definida acima ser´a dita m´etrica do m´aximo em M
.
= M1 ×M2 ×· · ·×Mn.
3. De modo an´alogo ao feito na proposi¸c˜ao (2.1.1) pode-se mostrar (ser´a deixado como exer-
c´ıcio para o leitor) que para todo x, y, ∈ M1 × M2 × · · · × Mn temos
d (x, y) ≤ d(x, y) ≤ d (x, y) ≤ n d (x, y).
4. Quando M1 = M2 = · · · = Mn = R reobteremos o espa¸co euclideano Rn como produto
cartesiano de n c´opias do esp¸cao m´etrico R.
14.08.2008 - 4.a
2.2 Bolas abertas, bolas fechadas e esferas em espa¸cos m´etricos
Come¸caremos introduzindo a:
Defini¸c˜ao 2.2.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico, a ∈ M e r > 0.
Definimos a bola aberta de centro em a e raio r, denotada por B(a; r) como sendo o
seguinte subconjunto de M:
B(a; r)
.
= {x ∈ M : d(x, a) < r}.
a
Qr
Definimos a bola fechada de centro em a e raio r, denotada por B[a; r] como sendo o
seguinte subconjunto de M:
B[a; r]
.
= {x ∈ M : d(x, a) ≤ r}.
22 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
a
r
u
Definimos a esfera de centro em a e raio r, denotada por S(a; r) como sendo o seguinte
subconjunto de M:
S(a; r)
.
= {x ∈ M : d(x, a) = r}.
a
r
T
Observa¸c˜ao 2.2.1
1. A bola aberta de centro em a e raio r ´e o conjunto dos pontos de M cuja a distˆancia ao
ponto a ´e menor do que r.
A bola fechada de centro em a e raio r ´e o conjunto dos pontos de M cuja a distˆancia ao
ponto a ´e menor ou igual do que r.
A esfera aberta de centro em a e raio r ´e o conjunto dos pontos de M cuja a distˆancia ao
ponto a ´e igual r.
2. ´E f´acil ver que (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor)
B[a; r] = B(a; r) ∪ S(a; r),
onde a reuni˜ao ´e disjunta, isto ´e, B(a; r) ∩ S(a; r) = ∅.
3. Se M = E ´e um espa¸co vetorial e a m´etrica d prov´em de uma norma . em E, ent˜ao
segue que
B(a; r)
.
= {x ∈ E : x − a < r},
B[a; r]
.
= {x ∈ E : x − a ≤ r},
S(a; r)
.
= {x ∈ E : x − a = r}.
Temos o seguinte resultado:
2.2. BOLAS ABERTAS, BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 23
Proposi¸c˜ao 2.2.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico, X ⊆ M um subsepa¸co (m´etrico) de M,
a ∈ X e r > 0.
Denotemos por BX(a; r) a bola aberta de centro em a e raio r em X.
Ent˜ao
BX(a; r) = B(a; r) ∩ X,
onde B(a; r) ´e a bola aberta de centro em a e raio r em M.
Reciprocamente, dada a bola aberta de centro em a e raio r em M ent˜ao B(a; r)∩X ´e a bola
aberta de centro em a e raio r em X, ou seja,
B(a; r) ∩ X = BX(a; r).
M
X
a
…r
©
BX (a; r)
B
B(a; r)
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que
BX(a; r) = {x ∈ X : dX(x, a) < r} = {y ∈ M : d(y, a) < r} ∩ X = B(a : r) ∩ X,
completando deste modo a demonstra¸c˜ao do resultado.
De modo semelhante podemos provar a:
Proposi¸c˜ao 2.2.2 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico, X ⊆ M um subsepa¸co (m´etrico) de M,
a ∈ X e r > 0.
Denotemos por BX[a; r] e SX(a; r) a bola fechada e esfera de centro em a e raio r em X,
respectivamente.
Ent˜ao
BX[a; r] = B[a; r] ∩ X, SX[a; r] = S(a; r) ∩ X
onde B[a; r], S(a; r) s˜ao a bola fechada e a esfera de centro em a e raio r em M, respectivamente.
Reciprocamente, dada a bola fechada, ou a esfera, de centro em a e raio r em M ent˜ao
B[a; r] ∩ X, ou S(a; r) ∩ X ´e a bola fechada, ou a esfera, de centro em a e raio r em X,
respectivamente ou seja,
B[a; r] ∩ X = BX[a; r], S(a; r) ∩ X = SX[a; r].
Demonstra¸c˜ao:
A demonstra¸c˜ao ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
Para ilustrar temos os seguintes exemplos:
24 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
Exemplo 2.2.1 Consideremos R2 com a m´etrica usual e X = S1 = {(x, y) ∈ R2 : x2 +y2 = 1}.
Seja a ∈ S1 e r > 0.
Da proposi¸c˜ao (2.2.1) segue que BS1 (a; r) ser´a um arco (sem os extremos) da circunferˆencia
S1 cujo ponto m´edio (no arco) ser´a o ponto a (vide figura abaixo).
E
T
x
y
ES1
a
T
r
W
BR2 (a : r)c
BS1 (a; r)
De modo semelhante, da proposi¸c˜ao (2.2.2) segue que BS1 [a; r], SS1 (a; r) s˜ao o arco (com os
extremos) da circunferˆencia S1 cujo ponto m´edio ser´a o ponto a e os pontos extremos do mesmo
arco, respectivamente (vide figura abaixo).
E
T
x
y
ES1
a
T
r
W
BR2 [a : r]c
BS1 [a; r]
B
z
SS1 (a; r)
Exemplo 2.2.2 Sejam M = ∅ munido da m´etrica zero-um, a ∈ M e r > 0.
2.2. BOLAS ABERTAS, BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 25
Ent˜ao
Se r > 1 temos que: B(a; r) = {x ∈ M : d(x, a) < r}
[d(x,a)≤1<r]
= M,
B[a; r] = {x ∈ M : d(x, a) ≤ r}
[d(x,a)≤1<r]
= M;
Se r < 1 temos que: B(a; r) = {x ∈ M : d(x, a) < r}
[r<1]
= {x ∈ M : d(x, a) = 0} = {a},
B[a; r] = {x ∈ M : d(x, a) ≤ r}
[r<1]
= {x ∈ M : d(x, a) = 0} = {a};
Se r = 1 temos que: B(a; r) = {x ∈ M : d(x, a) < r}
[r<1]
= {a},
B[a; r] = {x ∈ M : d(x, a) ≤ r}
[r=1]
= M,
Como conseq¨uˆencia temos que
S(a, r) = B[a; r]  B(a; r) = ∅, se r = 1, S(a; 1) = B[a; 1]  B(a; 1) = M − {a}.
Exemplo 2.2.3 Sejam R com a m´etrica usual, a ∈ R e r > 0.
Ent˜ao:
B(a; r) = {x ∈ M : d(x, a) < r} = {x ∈ M : |x − a| < r} = (a − r, a + r), ou seja, um intervalo aberto,
B[a; r] = {x ∈ M : d(x, a) ≤ r} = {x ∈ M : |x − a| ≤ r} = [a − r, a + r], ou seja, um intervalo fechado;
S(a, r) = B[a; r]  B(a; r) = {a − r, a + r}, ou seja, os extremos do intervalo.
Geometricamente temos:
E
a
a + ra − r
Bola aberta de centro em a e raio r
E
a + ra − r a
Bola fechada de centro em a e raio r
E
a + r
a
a − r
Esfera de centro em a e raio r
Exemplo 2.2.4 Consideremos em R2 as m´etricas d, d , d definidas no exemplo (2.1.4).
Sejam a = (a1, a2) ∈ R2 e r > 0. Ent˜ao:
B(a; r) = {(x, y) ∈ R2
: d[(x, y), (a1, a2)] < r} = {(x, y) ∈ R2
: (x − a1)2 + (y − a2)2 < r}
= {(x, y) ∈ R2
: (x − a1)2
+ (y − a2)2
< r2
},
isto ´e, a regi˜ao interior de um c´ırculo de centro no ponto a e raio r (veja figura abaixo).
26 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
a = (a1, a2)
Q
r
B (a; r) = {(x, y) ∈ R2
: d [(x, y), (a1, a2)] < r} = {(x, y) ∈ R2
: |x − a1| + |y − a2| < r}
isto ´e, a regi˜ao interior do quadrado de centro em a e cujas diagonais
s˜ao paralelas aos eixos coordenados (veja figura abaixo).
Observemos que
|x − a1| + |y − a2| = r se, e somente se,



x − a1 + y − a2 = r
−(x − a1) + y − a2 = r
−(x − a1) − (y − a2) = r
x − a1 − (y − a2) = r
que s˜ao as quatro retas que determinam o losango abaixo.
E
T
a = (a1, a2)
' x − a1 − y + a2 = r
' x − a1 + y − a2 = rE−x + a1 + y − a2 = r
E−x + a1 − y + a2 = r
(a1, a2 − r)
(a1 + r, a2)(a1 − r, a2)
(a1, a2 + r)
B (a; r) = {(x, y) ∈ R2
: d [(x, y), (a1, a2)] < r} = {(x, y) ∈ R2
: max{|x − a1|, |y − a2|} < r}
= {(x, y) ∈ R2
: |x − a1| < r e |y − a2| < r} = (a1 − r, a1 + r) × (a2 − r, a2 + r)
isto ´e, a regi˜ao interior do quadrado [a1 − r, a1 + r] × [a2 − r, a2 + r]) (veja figura abaixo).
2.2. BOLAS ABERTAS, BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 27
a = (a1, a2)
E
T
a1 − r a1 + ra1
a2 − r
a2 + r
a2
Observa¸c˜ao 2.2.2 Geometricamente, o exemplo (2.2.4) ilustra que uma bola (aberta ou fechada)
pode n˜ao corresponder ao que pensamos (por exemplo, uma bola ser um quadrado!).
Exemplo 2.2.5 Seja (B([a, b]; R)), d) onde d ´e a m´etrica do sup (veja exemplo (2.1.5)).
Sejam f ∈ B([a, b]; R)) e r > 0.
Observemos que g ∈ B(f; r) se, e somente se,
r > d(f, g) = sup
x∈[a,b]
|f(x) − g(x)|
que implicar´a
|f(x) − g(x)| < r, para todo x ∈ [a, b],
ou ainda,
f(x) − r < g(x) < f(x) + r, para todo x ∈ [a, b].
Geometricamente podemos interpretar isso da seguinte forma: encontremos a representa¸c˜ao
gr´afica do gr´afico de f, isto ´e,
G(f)
.
= {(x, f(x)) : x ∈ [a, b]}.
Encontremos a faixa de amplitude 2r em torno do gr´afico de f, isto ´e, o conjunto
F2r(f)
.
= {(x, y) : a ≤ x ≤ b, f(x) − r < y < f(x) + r}.
Geometricamente temos:
28 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
T
E
G(f)
f(x)
x
c
T
T
c
r
r
F2r(f)

Deste modo, se g ∈ B(f; r) ent˜ao o gr´afico de g estar´a contido na faixa de amplitude 2r em
torno do gr´afico de f, isto ´e, G(g) ⊆ F2r(f).
Geometricamente temos
T
E
G(f)
f(x)
x
c
T
T
c
r
r
G(g)
Observa¸c˜ao 2.2.3 No exemplo acima, pode ocorrer de G(g) ⊆ F2r(f) e d(f, g) = r.
Para ver isto basta considerar f(x) = 0 para todo x ∈ [0, 1] e g(x) =
x, 0 ≤ x  1
0, x = 1
.
Neste caso
d(f, g) = sup
0≤x≤1
|f(x) − g(x)| = 1,
logo g ∈ B(f; 1) mas G(g) est´a contido em F2(f) (veja figura abaixo).
2.2. BOLAS ABERTAS, BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 29
E
T
G(f)
G(g)
F2r(f)
A
Exemplo 2.2.6 Seja M
.
= {z = (x, y) ∈ R2 : z ≤ 1} subespa¸co (m´etrico) de R2 munido da
m´etrica usual.
Logo se r  1 temos que BM (0; r) = BM [0; r] = M e assim SM (0; r) = ∅.
Exemplo 2.2.7 Sejam (M1, d1), · · · (Mn, dn) espa¸cos m´etricos e M
.
= M1 × · · · Mn munido da
m´etrica do m´aximo (isto ´e, d da observa¸c˜ao (2.1.12) itens 1. e 2.).
Sejam a = (a1, · · · , an) ∈ M e r  0.
Ent˜ao
B(a; r) = {x ∈ M : d (x, a)  r} = {(x1, · · · , xn) ∈ M1 × · · · × Mn : max
1≤i≤n
di(xi, ai)  r}
= {(x1, · · · , xn) ∈ M1 × · · · × Mn : di(xi, ai)  r, para todo i = i, · · · , n}
= {x1 ∈ M1 : d1(x1, a1)  r} × · · · × {xn ∈ Mn : dn(xn, an)  r}
= BM1 (a1; r) × · · · × BMn (an; r)
De modo semelhante (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) temos
B[a; r] = BM1 [a1; r] × · · · × BMn [an; r]
Logo acabamos de mostrar que a bola aberta (ou fechada) no produto cartesiano com a m´etrica
do m´aximo ´e o produto cartesiano das bolas abertas (ou fechadas) em cada um dos fatores do
produto cartesiano.
Observa¸c˜ao 2.2.4
1. Se no exemplo acima mudarmos a m´etrica do m´aximo pela m´etrica produto ou pela m´etrica
da soma a afirma¸c˜ao ser´a falsa, isto ´e, uma bola aberta (ou fechada) no produto cartesiano
pode n˜ao ser o produto cartesiano das bolas abertas (ou fechadas) em cada um dos fatores
do produto cartesiano.
Como exerc´ıcio para o leitor deixaremos que o mesmo encontre um contra-exemplo em R2.
30 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
2. Se considerarmos R3 como sendo o produto cartesiano de R2 × R onde R2 e R est˜ao
munidos das correspondentes m´etricas euclieanas e tormarmos em R3 = R2 × R a m´etrica
d[(x, t), (x , t )]
.
= max{dR2 (x, x ), dR(t, t )},
onde (x, t), (x , t ) ∈ R2 × R ent˜ao uma bola aberta, B(a; r) (ou fechadas) em R3 munido
da m´etrica d acima ser˜ao cilindros retos com base circular (contida no plano z = a), com
centro em a e raio r)e altura 2r.
De fato, pois se (A, a) ∈ R2 × R e r  0 ent˜ao, do exemplo (2.2.7), segue que
BR2×R((A, a); r) = BR2 (A; r) × BR(a; r) = {(x, y) : x2
+ y2
 r2
} × {t ∈ R : |t − a|  r},
ou seja, o produto cartesiano do interior de um c´ırculo por um intervalo aberto que nos
d´a, geometricamente, um cilindro reto com base circular.
T
B(0; r)
T
c
T
c
I
r
r
r
E
a
A verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
Temos a
Defini¸c˜ao 2.2.2 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico.
Diremos que um ponto a ∈ M ´e um ponto isolado de M se existir uma bola aberta de M
que contenha somente o ponto a, isto ´e, existe r  0 tal que B(a; r) = {a}.
Observa¸c˜ao 2.2.5
1. Um ponto a ∈ M ´e isolado em M se existe r  0 tal que n˜ao existem pontos diferentes do
ponto a a uma distˆancia menor que r do pr´oprio ponto.
2. Um ponto a ∈ M n˜ao ´e ponto isolado de M se toda bola aberta centrada em a cont´em,
pelo menos, um ponto de M diferente do ponto a, isto ´e, para todo r  0 temos
[B(a; r) ∩ M]  {a} = ∅.
Consideremos os
2.2. BOLAS ABERTAS, BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 31
Exemplo 2.2.8 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico onde d ´e a m´etrica zero-um.
Ent˜ao todo ponto de M ´e ponto isolado de M.
De fato, se a ∈ M e 0  r ≤ 1 ent˜ao vimos no exemplo (2.2.2) que B(a; r) = {a}, mostrando
que a ´e ponto isolado de M.
Exemplo 2.2.9 Seja Z o conjunto formado por todos os n´umeros reais inteiros munido da
m´etrica usual induzida de R.
Afirmamos que todo ponto de Z ´e ponto isolado de Z.
De fato, se n ∈ Z e 0  r ≤ 1 ent˜ao B(n; r) ∩ Z = {n} (pois B(n; r) = {x ∈ Z : |x − n| 
r ≤ 1} = {n}), mostrando que n ∈ Z ´e ponto isolado de Z.
Exemplo 2.2.10 Seja P
.
= {0, 1,
1
2
,
1
3
, · · · ,
1
n
, · · · } munido da m´etrica usual induzida de R.
Observemos que o ponto 0 ∈ P n˜ao ´e um ponto isolado de P.
De fato, dado r  0 existe n0 ∈ N tal que n0 
1
r
.
Logo
d(
1
n0
, 0) = |
1
n0
− 0| =
1
n0
 r,
isto ´e,
1
n0
∈ [B(0; r) ∩ P]  {0},
ou seja, 0 n˜ao ´e ponto isolado de P.
Por outro lado, qualquer outro ponto de P ´e ponto isolado de P.
De fato, se
1
n
∈ P ent˜ao o ponto mais pr´oximo dele em P ´e o ponto
1
n + 1
, cuja distˆancia
a
1
n
´e
1
n(n + 1)
(pois d(
1
n
,
1
n + 1
= |
1
n
−
1
n + 1
| =
(n + 1) − n
n(n + 1)
=
1
n(n + 1)
).
Logo se tomarmos
0  r 
1
n(n + 1)
temos que se x ∈ P e
d(x,
1
n
)  r 
1
n(n + 1)
temos que x =
1
n
, ou seja,
[B(
1
n
; r) ∩ P]  {
1
n
} = ∅,
mostrando que
1
n
´e ponto isolado de P.
1
n
1
n−1
1
n+1
E'
1
n(n+1)
E' 1
(n−1)n
Observa¸c˜ao 2.2.6 Se P
.
= {1,
1
2
,
1
3
, · · · ,
1
n
, · · · } munido da m´etrica usual induzida de R ent˜ao,
segue do exemplo acima, que todo ponto de P ´e um ponto isolado de P.
32 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
Exemplo 2.2.11 Seja E um espa¸co vetorial normado com E = {0}.
Afirmamos que nenhum ponto de E ´e ponto isolado de E.
De fato, dado a ∈ E, para todo r  0 mostremos que
[B(a; r) ∩ E]  {a} = ∅.
Para mostrar isso, consideremos y ∈ E, y = 0.
Logo o vetor
z
.
=
r
2 y
y
´e diferente do vetor 0 e
z =
r
2 y
y =
r
2 y
y =
r
2
,
logo
0  z  r.
Seja x
.
= a + z.
Ent˜ao x = a (pois z = 0) e
x − a = z  r,
ou seja,
x ∈ B(a; r) ∩ E e x = a,
mostrando que x ∈ [B(a; r) ∩ E]  {a}, isto ´e,
[B(a; r) ∩ E]  {a} = ∅.
Portanto todo ponto de E n˜ao ´e ponto isoldado de E.
Geometricamente temos:
~
a
r
By
b
x
.
= a + r
2 y
y
19.08.2008 - 5.a
Temos a
Defini¸c˜ao 2.2.3 Diremos que um espa¸co m´etrico (M, d) ´e discreto se todo ponto de M ´e um
ponto isolado de M.
Exemplo 2.2.12 O exemplo (2.2.9) mostra que Z com a m´etrica usual induzida de R ´e um
espa¸co m´etrico discreto.
2.2. BOLAS ABERTAS, BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 33
Exemplo 2.2.13 A observa¸c˜ao (2.2.6) mostra que P = {1,
1
2
,
1
3
, · · · ,
1
n
, · · · } com a m´etrica
usual induzida de R ´e um espa¸co m´etrico discreto.
Exemplo 2.2.14 Seja M um conjunto n˜ao vazio e d a m´etrica zero-um em M.
Ent˜ao (M, d) ´e um espa¸co m´etrico discreto, pois se a ∈ M ent˜ao para 0  r ≤ 1 temos, do
Exemplo (2.2.2), que B(a; r) = {a}, ou seja todo ponto de M ´e ponto isolado de M, portanto
M ´e um espa¸co m´etrico discreto.
Defini¸c˜ao 2.2.4 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico.
Diremos que um subconjunto X ⊆ M ´e discreto se X como subsepa¸co (m´etrico) de M for
um espa¸co m´etrico discreto.
Observa¸c˜ao 2.2.7 Na situa¸c˜ao acima, X ´e um espa¸co m´etrico discreto se, e somente se, para
cada x ∈ X existe r  0 tal que B(x; r) ∩ X = {x} (pois, da proposi¸c˜ao (2.2.1) temos que
B(x; r) ∩ X = BX(x; r)).
Exerc´ıcio 2.2.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico e X um subconjunto finito de M.
Deixaremos como exerc´ıcio para o leitor mostrar que X ´e um subconjunto discreto de M.
Para finalizar a se¸c˜ao temos a:
Proposi¸c˜ao 2.2.3 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico, a, b ∈ M com a = b.
Consideremos r, s  0 tais que
r + s ≤ d(a, b).
Ent˜ao as bolas abertas B(a; r) e B(b; s) s˜ao disjuntas (veja figura abaixo), isto ´e,
B(a; r) ∩ B(b; s) = ∅.
a
b
E '
r
s
E'
d(a, b)  r + s
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos, por absurdo, que existe x ∈ B(a; r) ∩ B(b; s).
Logo
d(a, x)  r e d(b, x)  s.
Portanto
d(a, b) ≤ d(a, x) + d(x, b)  r + s ≤ d(a, b),
ou seja, d(a, b)  d(a, b), o que ´e um absurdo.
Logo
B(a; r) ∩ B(b; s) = ∅
34 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
como quer´ıamos mostrar.
De modo semelhante temos a:
Proposi¸c˜ao 2.2.4 Na situa¸c˜ao da proposi¸c˜ao acima, se
r + s  d(a, b)
ent˜ao as bolas fechadas B[a; r] e B[b; s] s˜ao disjuntas , isto ´e,
B[a; r] ∩ B[b; s] = ∅.
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos, por absurdo, que existe x ∈ B[a; r] ∩ B[b; s].
Logo
d(a, x) ≤ r e d(b, x) ≤ s.
Portanto
d(a, b) ≤ d(a, x) + d(x, b) ≤ r + s  d(a, b),
ou seja, d(a, b)  d(a, b), o que ´e um absurdo.
Logo
B[a; r] ∩ B[b; s] = ∅
como quer´ıamos mostrar.
2.3 Subconjuntos limitados de um espa¸cos m´etricos
Iniciaremos com a
Defini¸c˜ao 2.3.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico.
Diremos que um subconjunto X ⊆ M, n˜ao vazio, ´e limitado em M se existir c  0 tal que
d(x, y) ≤ c para todo x, y ∈ X.
Observa¸c˜ao 2.3.1 Se X ⊆ M ´e limitado em M ent˜ao podemos considerar o conjunto
D
.
= {a ∈ R : d(x, y) ≤ a, para todo x, y ∈ X} ⊆ R.
Como X ´e limitado em M segue que D ´e n˜ao vazio e limitado superiormente (ou seja, existe
c ∈ R tal que c ∈ D).
Como todo subconjunto limitado superiormente em R admite supremo, segue que existe
0 ≤ sup D  ∞.
Logo podemos introduzir a
Defini¸c˜ao 2.3.2 Na situa¸c˜ao acima, sup D ser´a denominado diˆametro de X e indicado por
diam(X), ou seja,
diam(X) = sup{a ∈ R : d(x, y) ≤ a, para x, y ∈ X}.
2.3. SUBCONJUNTOS LIMITADOS DE UM ESPAC¸OS M´ETRICOS 35
Observa¸c˜ao 2.3.2
1. Se X ⊆ M n˜ao for limitado em M escreveremos
diam(X)
.
= ∞.
Isto significa que para todo c  0 existem xc, yc ∈ X tal que d(xc, yc)  c.
2. Se X ⊆ M for limitado ent˜ao
d(x, y) ≤ diam(X), para todo x, y, ∈ X.
3. ´E f´acil mostrar que (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que se X ⊆ M for limitado
em M e Y ⊆ X ent˜ao Y ⊆ M ´e limitado em M e
diam(Y ) ≤ diam(X).
Consideremos alguns exemplos
Exemplo 2.3.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico.
Ent˜ao toda bola aberta (ou fechada; ou esfera) ´e subconjunto limitado de M e seu diˆametro
´e menor ou igual ao dobro do seu raio.
De fato, seja a ∈ M e r  0.
Se x, y ∈ B(a; r) ent˜ao
d(x, y) ≤ d(x, a) + d(a, y)  r + r = 2r
mostrando que B(a; r) ´e um subconjunto limitado de M.
Al´em disso segue que 2r ´e um limitante superior do conjunto
{a ∈ R : d(x, y) ≤ a, para todo x, y ∈ B(a; r)}.
Portanto
diam[B(a; r)] ≤ 2r,
como afirmamos acima.
Vale o an´alogo para a bola fechada B[a; r] e para a esfera S(a; r) (ser´a deixado como exerc´ıcio
para o leitor).
Observa¸c˜ao 2.3.3 Em geral, n˜ao podemos garantir que o diˆametro da bola aberta (ou fechada,
ou esfera) seja igual ao dobro do seu raio, como mostra o seguinte exemplo:
Consideremos Z com a m´etrica usual induzida de R, r = 1 e n ∈ Z.
Como vimos no Exemplo (2.2.9) temos que B(n; 1) = {n} cujo diˆametro ´e zero (que ´e menor
que 2).
Quando vale a igualdade?
O exemplo a seguir responde esta quest˜ao:
Exemplo 2.3.2 Seja E um espa¸co vetorial normado tal que E = {0}.
Afirmamos que toda bola aberta (ou fechada, ou esfera) tem diˆametro igual ao dobro do raio
da mesma, isto ´e,
diam(B(a; r)) = 2r (ou diam(B[a; r]) = 2r, diam(S(a; r)) = 2r).
36 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
De fato, sejam a ∈ E e r  0.
Sabemos que B(a; r) ´e um subconjunto limitado de E e que diam[B(a; r)] ≤ 2r.
Mostremos que se 0  s  2r ent˜ao s n˜ao poder´a ser pode ser diˆametro de B(a; r), ou seja,
existem x1, y1 ∈ B(a; r) tal que d(x1, y1)  s.
Consideremos y ∈ E tal que y = 0 e seja t ∈ R tal que
s  2t  2r, ou seja, 0 
s
2
 t  r.
Observemos que o vetor
x
.
=
t
y
y ∈ E
tem a seguinte propriedade:
x =
t
y
y = t
y
y
= t,
ou seja, x = t  r.
Afirmamos que os vetores
x1
.
= a + x, x2
.
= a − x ∈ B(a; r).
De fato,
d(a + x, a) = (a + x) − a = x = t  r
e, de modo semelhante, temos
d(a − x, a) = (a − x) − a = − x = x = t  r.
Al´em disso
d(a + x, a − x) = (a + x) − (a − x) = 2x = 2 x = 2t  s,
ou seja, d(x1, y1)  s.
Logo todo s ∈ (0, 2r) n˜ao poder´a ser o diˆametro da bola aberta B(a; r).
Geometricamente temos
a
u
r

y

©
x1 = a + t y
y
y1 = a − t y
y
Ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor o
Exerc´ıcio 2.3.1 Mostrar que, na situa¸c˜ao acima, temos
diam[B[a; r]] = 2r e diam[S(a; r)] = 2r.
2.3. SUBCONJUNTOS LIMITADOS DE UM ESPAC¸OS M´ETRICOS 37
Observa¸c˜ao 2.3.4
1. Dado um espa¸co m´etrico qualquer (mesmo sendo n˜ao limitado) podemos considerar subes-
pa¸cos (m´etricos) do mesmo que sejam limitados.
Basta considerarmos os subconjunto limitados do mesmo e colocar a m´etrica induzida do
espa¸co m´etrico dado neste subconjunto.
2. Seja E um espa¸co vetorial normado tal que E = {0}.
Ent˜ao E n˜ao ´e limitado.
De fato, consideremos x ∈ E, x = 0 e definamos, para cada n ∈ N,
xn
.
=
2n
x
x.
Observemos que
xn =
2n
x
x = 2n
x
x
= 2n  n,
logo
d(xn, 0) = xn − 0 = xn  n,
mostrando que E n˜ao ´e limitado.
3. Seja (M, d) um espa¸co m´etrico.
Vale observar que um subconjunto X ⊆ M ´e limitado em M se, e somente se, X est´a
contido em alguma bola aberta de M, isto ´e, existe a ∈ M e r  0 tal que X ⊆ B(a; r).
De fato, se existe a ∈ M e r  0 tal que X ⊆ B(a; r) ent˜ao para todo x, y ∈ X temos que
d(x, y) ≤ d(x, a) + d(a, y)  r + r = 2r,
ou seja, X ´e limitado (e seu diˆamentro ´e menor ou igual a 2r).
Reciprocamente, se X ´e limitado em M ent˜ao existe c  0 tal que
d(x, y) ≤ c para todo x, y ∈ X.
Consideremos x0 ∈ X.
Temos que
d(x, x0) ≤ c para todo x ∈ X,
assim se X ⊆ B(x0; c), ou seja X est´a contido em uma bola aberta de M, como quer´ıamos
mostrar.
Temos a
Proposi¸c˜ao 2.3.1 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X, Y ⊆ M limitados em M.
Ent˜ao X ∪ Y e X ∩ Y s˜ao limitados em M.
38 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que X ∩ Y ⊆ X e como X ´e limitado em M segue, da Observa¸c˜ao (2.3.2) item
3., que X ∩ Y tamb´em ser´a limitado em M.
Se X = ∅ ou Y = ∅ segue que X ∪ Y = Y ou X ∪ Y = X, respectivamente, implicando que
X ∪ Y ´e limitado.
Logo podemos supor, sem perda de generalidade, que X, Y = ∅.
Como X, Y s˜ao limitados em M existem c, d  0 e a, b ∈ M tais que
d(x, a) ≤ c e d(y, b) ≤ d
para todo x ∈ X e y ∈ Y .
Considere
k
.
= c + d + d(a, b)  0.
Logo se x ∈ X e y ∈ Y temos que
d(x, y) ≤ d(x, a) + d(a, b) + d(b, y) ≤ c + d(a, b) + d = k.
Portanto se x, y ∈ X ∪ Y temos que:
Se x, y ∈ X temos que d(x, y) ≤ c  k
Se x, y ∈ Y temos que d(x, y) ≤ c  k
Se x ∈ X e y ∈ Y temos que d(x, y) ≤ k,
ou seja, d(x, y) ≤ k para todo x, y ∈ X ∪ Y , mostrando que X ∪ Y ´e limitado em M.
Como conseq¨uˆencia temos o:
Corol´ario 2.3.1 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X1, X2, · · · , Xn ⊆ M limitados em M.
Ent˜ao X1 ∪ X2 ∪ · · · ∪ Xn e X1 ∩ X2 ∩ · · · ∩ Xn s˜ao limitados em M.
Demonstra¸c˜ao:
Utiliza-se indu¸c˜ao matem´atica e a proposi¸c˜ao acima (ser´a deixado como exerc´ıcio para o
leitor).
Como outra conseq¨uˆencia imediata temos que
Corol´ario 2.3.2 Seja (M, d) espa¸co m´etrico. Todo subconjunto finito de M ´e limitado.
Demonstra¸c˜ao:
Basta observar que se X ´e um subconjunto finito de M ele ser´a uma reuni˜ao finita dos
conjuntos formados por cada um dos seus pontos e como o conjunto formado por um ponto ´e
limitado segue, do corol´ario acima, que X ser´a limitado em M.
Nota¸c˜ao 2.3.1 Dada uma fun¸c˜ao f : X → Y denotaremos seu conjunto imagem por f(X),
isto ´e,
f(X)
.
= {f(x) : x ∈ X} ⊆ Y.
Podemos agora introduzir a
2.3. SUBCONJUNTOS LIMITADOS DE UM ESPAC¸OS M´ETRICOS 39
Defini¸c˜ao 2.3.3 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X um subconjunto n˜ao vazio.
Diremos que uma fun¸c˜ao f : X → M ´e limitada em X se seu conjunto imagem, f(X), for
um subconjunto limitado de M.
Vejamos alguns exemplos
Exemplo 2.3.3 Seja R com a m´etrica usual e f : R → R dada por
f(x)
.
=
1
1 + x2
, x ∈ R.
Observemos que |f(x)| ≤ 1, para todo x ∈ R, logo f ´e uma fun¸c˜ao limitada (neste caso temos
f(R) = (0, 1]).
A figura abaixo nos d´a o gr´afico de f.
E
T
G(f)
1
Exemplo 2.3.4 Na situa¸c˜ao acima se considerarmos g : R → R dada por g(x)
.
= x2 para x ∈ R
temos que g(R) = [0, ∞) logo n˜ao ser´a um subconjunto limitado de R, mostrando que a fun¸c˜ao
g n˜ao ser´a uma fun¸c˜ao limitada.
A figura abaixo nos d´a o gr´afico de g.
E
T
G(g)
Exemplo 2.3.5 Se a m´etrica d em Rn prov´em de uma norma de Rn ent˜ao d n˜ao ´e uma fun¸c˜ao
limitada.
De fato, da Observa¸c˜ao (2.3.4) item 2. temos que Rn n˜ao ´e limitado, logo
d(Rn
, Rn
) = [0, ∞) ⊆ R
n˜ao poder´a ser um subconjunto limitado de R, logo a fun¸c˜ao d n˜ao ser´a uma fun¸c˜ao limitada.
40 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
Podemos agora generalizar o exemplo (2.1.5) por meio do
Exemplo 2.3.6 Sejam X um conjunto n˜ao vazio e (M, dM ) um espa¸co m´etrico.
Indiquemos por B(X; M) o conjunto de todas as fun¸c˜oes limitadas definidas em X e tomando
valores em M, isto ´e,
B(X; M)
.
= {f : X → M : f ´e limitada em X}.
Dadas f, g ∈ B(X; M) temos que o conjunto
{dM (f(x), g(x)) : x ∈ X}
´e limitado em R.
De fato, como f e g s˜ao limitadas segue que f(X) e g(X) s˜ao subconjuntos limitados em M.
Logo da Proposi¸c˜ao (2.3.1) segue que f(X) ∪ g(X) ´e um subconjunto limitado em M, ou
seja, {dM (f(x), g(x)) : x ∈ X} ´e limitado em R, portanto admite supremo.
Logo, dadas f, g ∈ B(X; M), podemos definir
d(f, g)
.
= sup
x∈X
{dM (f(x), g(x))}.
Pode-se mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que d ´e uma m´etrica em B(X; M)
que ´e denominada m´etrica da convergˆencia uniforme ou m´etrica do sup.
Observa¸c˜ao 2.3.5
1. Na situa¸c˜ao acima podemos considerar o conjunto F(X; M) formado por todas as fun¸c˜oes
definidas em X com valores em M.
Neste caso a m´etrica do sup n˜ao tem sentido em F(X; M) pois existem fun¸c˜oes f, g : X →
M tais que o conjunto {dM (f(x), g(x)) : x ∈ X} n˜ao ´e limitado em R (logo n˜ao poderemos
considerar o supremo desse conjunto).
Nesta situa¸c˜ao podemos decompor F(X; M) como uma reuni˜ao de espa¸cos m´etricos nos
quais podemos introduzir a m´etrica do sup.
Para mais detalhes ver [1] pag. 15.
2. Seja (E, . ) um espa¸co vetorial normado.
Pode-se mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que se f, g ∈ B(X; E) e λ ∈ R
ent˜ao (f +g) ∈ B(X; E) e λf ∈ B(X; E), ou seja, B(X; E) tornar-se-´a um espa¸co vetorial
sobre R.
Neste caso a m´etrica da convergˆencia uniforme em B(X; E) prov´em da seguinte norma de
B(X; E):
f
.
= sup
x∈X
f(x) E, f ∈ B(X; E),
que ´e denominada norma da convergˆencia uniforme ou do sup.
De fato, pois
d(f, g) = sup{dE(f(x), g(x)) : x ∈ X} = sup
x∈X
f(x) − g(x)) .
2.4. DIST ˆANCIA DE UM PONTO A UM SUBCONJUNTO EM UM ESPAC¸O M´ETRICO41
2.4 Distˆancia de um ponto a um subconjunto em um espa¸co
m´etrico
Observa¸c˜ao 2.4.1 Como motiva¸c˜ao consideremos o seguinte caso:
Em um plano consideremos X uma reta e a um ponto que n˜ao pertence `a reta X.
Consideremos x0 ∈ X o p´e da perpendicular `a reta X que cont´em o ponto a (vide figura
abaixo).
x0
a
X
Seja x ∈ X tal que x = x0.
Ent˜ao aplicando o Teorema de Pit´agoras ao triˆangulo retˆangulo ∆ax0x (veja figura abaixo)
obtemos
[d(a, x)]2
= [d(a, x0)]2
+ [d(x0, x)]2
.
x0
a
X
x
Em particular temos que d(a, x) ≥ d(a, x0) para todo x ∈ X, ou seja, x0 ´e o ponto mais
pr´oximo do ponto a que pertence `a reta X.
Deste modo podemos escrever
d(a, x0) = inf
x∈X
{d(a, x)}.
Podemos generalizar este fato, para isto observemos que se (M, dM ) um espa¸co m´etrico, X ⊆ M
n˜ao vazio e a ∈ M ent˜ao o conjunto {dM (x, a) : x ∈ X} ⊆ R ´e limitado inferiormente por 0
(pois dM (a, x) ≥ 0).
Logo admite ´ınfimo, assim temos a:
Defini¸c˜ao 2.4.1 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico, X ⊆ M, n˜ao vazio e a ∈ M.
Definimos a distˆancia do ponto a ao conjunto X, indicada por d(a, X), como sendo
d(a, X) = inf{dM (a, x) : x ∈ X}.
42 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
21.08.2008 - 6.a
Observa¸c˜ao 2.4.2
1. Das propriedades de ´ınfimo temos:
(a) Para todo x ∈ X temos que
d(a, X) ≤ d(a, x)
(isto ´e, d(a, X) ´e um limitante inferior do conjunto {d(x, a) : x ∈ X} ⊆ R);
(b) Se d(a, X)  c ent˜ao existe x ∈ X tal que d(a, x)  c (isto ´e, d(a, X) ´e o maior dos
limitantes inferiores).
2. Para todo x ∈ X temos que d(a, x) ≥ 0 logo
d(a, X) ≥ 0.
3. Observemos que se a ∈ X ent˜ao
d(a, X) = 0.
De fato, se a ∈ X ent˜ao 0 = d(a, a) ∈ {d(a, x) : x ∈ X}.
4. Al´em disso, se X ⊆ Y ent˜ao
d(a, Y ) ≤ d(a, X).
Lembremos que se A ⊆ B ent˜ao inf B ≤ inf A (*) (ser´a deixado como exerc´ıcio para o
leitor).
Logo, se X ⊆ Y ent˜ao {d(x, a) : x ∈ X} ⊆ {d(y, a) : y ∈ Y }, assim de (*) temos que
d(a, Y ) = inf{d(y, a) : y ∈ Y } ≤ inf{d(x, a) : x ∈ X} = d(a, X),
como quer´ıamos mostrar.
5. Se d(a, X) = 0 isto n˜ao implica, necessariamente, que a ∈ X como vereremos em exemplos
a seguir.
O que podemos afirmar ´e que:
d(a, X) = 0 se, e somente se, dado ε  0 existe x ∈ X tal que d(a, x)  ε.
6. Vale observar que, em geral, n˜ao podemos substituir o ´ınfimo na defini¸c˜ao acima pelo
m´ınimo, isto ´e, pode n˜ao existir um ponto em x0 ∈ X de tal modo que
d(a, X) = d(a, x0),
como veremos em exemplos a seguir.
A seguir consideraremos alguns exemplos.
Exemplo 2.4.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico, a ∈ M e X = {x1, x2, · · · , xn} um subconjunto
finito de M.
Ent˜ao
d(a, X) = inf{d(a, x) : x ∈ X}
[conjunto finito]
= inf
1≤i≤n
{d(a, xi)}
[conjunto finito]
= min
1≤i≤n
{d(a, xi)}.
2.4. DIST ˆANCIA DE UM PONTO A UM SUBCONJUNTO EM UM ESPAC¸O M´ETRICO43
Exemplo 2.4.2 Seja R2 como a m´etrica usual e S1 = {(x, y) ∈ R2 : x2 + y2 = 1} a circun-
ferˆencia unit´aria de centro na origem e raio 1.
Ent˜ao se z = (x, y) ∈ S1 e 0 = (0, 0) temos que
d(0, z) = (x − 0)2 + (y − 0)2 = x2 + y2 = 1,
ou seja, d(0, S1) = 1 (veja figura abaixo).
E
T
x
y
z = (x, y)
0 = (0, 0)
d(0, z) = 1
S1
‚
Exemplo 2.4.3 Seja R munido da m´etrica usual e X = (a, b) (= B(a + b−a
2 ; b−a
2 )).
Ent˜ao temos que
d(a, X) = d(b, X) = 0.
Podemos provar isto diretamente ou utilizar o seguinte resultado geral:
Proposi¸c˜ao 2.4.1 Sejam E um espa¸co vetorial normado, a ∈ E e r  0.
Ent˜ao dado b ∈ E,
d(b, B(a; r)) = 0 se, e somente se, b ∈ B[a; r].
Demonstra¸c˜ao:
(⇐=)
Suponhamos que b ∈ B[a; r], ou seja, b − a ≤ r.
Se tivermos b − a  r seguir´a que b ∈ B(a; r), logo d(b, B(a; r)) = 0.
Afirma¸c˜ao: se b − a = r  0 ent˜ao dado ε  0 afirmamos que existe x ∈ B(a; r) tal que
d(b, x)  ε.
De fato, definamos
u
.
=
1
r
(b − a) ∈ E.
Segue que
u =
1
r
(b − a) =
1
r
b − a =
1
r
r = 1.
Escolhamos t ∈ (r − ε, r), assim 0  r − t  ε.
Consideremos
x
.
= a + t.u ∈ E.
44 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
Temos que
d(x, a) = x − a = (a + t.u) − a = |t| u
[ u =1]
= t  r,
ou seja, x ∈ B(a; r).
Al´em disso, temos
d(x, b) = b − x = b − (a + t.u) = (b − a) − t.u
[b−a=r.u]
= r.u − t.u = |r − t| u
[ u =1]
= r − t  ε,
logo concluimos a prova da afirma¸c˜ao acima. (veja figura abaixo).
b
a
b
!ε
“
r
x = a + tu
o
Logo dado ε  0 existe x ∈ B(a; r) tal que 0 ≤ d(b, x)  ε, ou seja,
0 ≤ d(b, B(a; r)) ≤ d(b, x)  ε,
isto ´e,
d(b, B(a; r)) = inf{d(b, x) : x ∈ B(a; r)} = 0.
(=⇒)
Reciprocamente, suponhamos que d(b, B(a; r)) = 0.
Seja p ∈ E tal que p ∈ B[a; r].
Afirmamos que d(p, B(a; r))  0.
De fato, como p ∈ B[a; r] temos que
p − a  r, logo p − a = r + c
para algum c  0.
Se x ∈ B(a; r) temos que x − a  r e como
p − a ≤ p − x + x − a
segue que
d(p, x) = p − x ≥ p − a − x − a = (r + c) − x − a  (r + c) − r = c,
ou seja, c ´e um limitante inferior do subconjunto
{d(p, x) : x ∈ B(a; r)} ⊆ R.
Como d(p, B(a; r)) ´e o ´ınfimo do conjunto acima segue que
d(p, B(a; r)) ≥ c  0,
concluindo a prova da afirma¸c˜ao (veja figura abaixo).
2.4. DIST ˆANCIA DE UM PONTO A UM SUBCONJUNTO EM UM ESPAC¸O M´ETRICO45
T
a
p
T
r
c
Como d(b, B(a; r)) = 0, da afirma¸c˜ao, segue que b ∈ B[a; r], como quer´ıamos demonstrar.
Observa¸c˜ao 2.4.3 Em particular a afirma¸c˜ao acima nos diz que podemos ter b ∈ E com
d(b, X) = 0 e b ∈ X (onde X = B(a; r)), como afirmamos anteriormente.
Temos a:
Proposi¸c˜ao 2.4.2 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico, a, b ∈ M e X ⊆ M n˜ao vazio. Ent˜ao
|d(a, X) − d(b, X)| ≤ d(a, b).
A figura abaixo ilustra o resultado
X
d(a, X)
d(b, X)
d(a, b)
a
b
Demonstra¸c˜ao:
A desigualdade acima ´e equivalente a
−d(a, b) ≤ d(a, X) − d(b, X) ≤ d(a, b).
Observemos que para todo x ∈ X temos que
d(a, X) ≤ d(a, x) ≤ d(a, b) + d(b, x),
46 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
ou seja,
d(a, X) − d(a, b) ≤ d(b, x),
ou ainda, o n´umero real
d(a, X) − d(a, b)
´e um limitante inferior do subconjunto {d(b, x) : x ∈ X} ⊆ R.
Da defini¸c˜ao de ´ınfimo segue
d(a, X) − d(a, b) ≤ d(b, X), isto ´e, d(a, X) − d(b, X) ≤ d(a, b). (∗)
Observemos que para todo x ∈ X temos que
d(b, X) ≤ d(b, x) ≤ d(b, a) + d(a, x),
ou seja,
d(b, X) − d(a, b) ≤ d(a, x)
ou ainda, o n´umero real
d(b, X) − d(a, b)
´e um limitante inferior do subconjunto {d(a, x) : x ∈ X} ⊆ R.
Da defini¸c˜ao de ´ınfimo segue
d(b, X) − d(a, b) ≤ d(a, X), isto ´e, d(a, X) − d(b, X) ≥ −d(a, b). (∗∗)
De (*) e (**) segue a desiguladade e a conclus˜ao da prova.
Como conseq¨uˆencia temos o
Corol´ario 2.4.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico e a, b, x ∈ M. Ent˜ao
|d(a, x) − d(a, y)| ≤ d(a, b).
Demonstra¸c˜ao:
Basta considerar X
.
= {x} na proposi¸c˜ao acima e verificar que d(a, {x}) = d(a, x).
2.5 Distˆancia entre dois subconjuntos de um espa¸co m´etrico
Temos a
Defini¸c˜ao 2.5.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e X, Y ⊆ M n˜ao vazios.
Definimos a distˆancia entre os conjuntos X e Y , indicada por d(X, Y ), como sendo
d(X, Y )
.
= inf{d(x, y) : x ∈ X, y ∈ Y }.
Consideremos o
Exemplo 2.5.1 Consideremos R com a m´etrica usua, X = (−∞, 0) e Y = (0, ∞).
Ent˜ao dada ε  0 existem x ∈ X e y ∈ Y tal que
d(x, y)  ε, ou seja, d(X, Y ) = 0.
Observemos que X ∩ Y = ∅ e mesmo assim d(X, Y ) = 0.
2.6. IMERS ˜OES ISOM´ETRICAS E ISOMETRIAS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 47
Observa¸c˜ao 2.5.1 Se (M, d) ´e um espa¸co m´etrico e X, Y ⊆ M n˜ao vazios ent˜ao:
1. Se X ∩ Y = ∅ ent˜ao d(X, Y ) = 0;
2. Observemos que
d(X, X) = 0 e d(X, Y ) = d(Y, X).
3. Pode ocorrer de d(X, Y ) = 0 e X ∩ Y = ∅.
Deixaremos para o leitor encontrar um exemplo onde isto ocorre.
2.6 Imers˜oes isom´etricas e isometrias entre espa¸cos m´etricos
Come¸caremos pela
Defini¸c˜ao 2.6.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos.
Diremos que uma fun¸c˜ao f : M → N ´e um imers˜ao isom´etrica de M em N se
dN (f(x), f(y)) = dM (x, y), x, y ∈ M.
No caso acima diremos que a fun¸c˜ao f preserva as distˆancias de M e N, respectivamente.
Observa¸c˜ao 2.6.1 Na situa¸c˜ao acima se f : M → N ´e uma imers˜ao isom´etrica temos que f ´e
injetora.
De fato, se f(x) = f(y) ent˜ao
dM (x, y) = dN (f(x), f(y)) = 0,
logo x = y, mostrando que f ´e injetora.
Com isto temos a:
Defini¸c˜ao 2.6.2 Um imers˜ao isom´etrica que ´e sobrejetora ser´a denomiada isometria de M
em N.
Observa¸c˜ao 2.6.2
1. Na situa¸c˜ao acima f : M → N ´e ums isometria se, e somente se, f preserva as distˆancias
de M e N e for sobrejetora.
2. Em particular se f : M → N ´e isometria ent˜ao f ´e bijetora.
Logo admite fun¸cao inversa f−1 : N → M e esta tamb´em ´e uma isometria.
De fato, pois se w, z ∈ N temos que existe x, y ∈ M tal que z = f(x) e w = f(y) (pois f
´e sobrejetora) assim
dM (f−1
(z), f−1
(w)) = dM (f−1
(f(x)), f−1
(f(y))) = dM (x, y)
[f ´e isometria]
= dN (f(x), f(y)) = dN (z, w),
mostrando que f−1 preserva as distˆancias de N e M.
48 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
3. Sejam (M, dM ), (N, dN ) e (P, dP ) espa¸cos m´etricos e f : M → N, g : N → P imers˜oes
isom´etricas de M em N e de N em P, respectivamente.
Ent˜ao (g ◦ f) : M → P ´e uma imers˜ao isom´etrica de M em P.
De fato, se x, y ∈ M temos que
dP ((g ◦ f)(x), (g ◦ f)(y)) = dP (g(f(x)), g(f(y)))
[g preserva distˆancias]
= dN (f(x), f(y))
[f preserva distˆancias]
= dM (x, y),
mostrando que g ◦ f preserva as distˆancias de M e P.
4. Como conseq¨uˆencia temos que composta de isometrias tamb´em ser´a uma isometria entre
os respectivos espa¸cos m´etricos.
5. Toda imers˜ao isom´etrica f : M → N define uma isometria de M sobre f(M) (pois neste
caso f : M → f(M) ser´a sobrejetora e continuar´a a preservar as distˆancias de M e N).
Com isto temos a:
Defini¸c˜ao 2.6.3 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos.
Diremos que M e N s˜ao isom´etricos se existir uma isometria de M em N e neste caso
escreveremos M ∼ N.
Observa¸c˜ao 2.6.3 1. Temos que M ∼ M (basta considerar a identidade de M em M);
2. Se M ∼ N ent˜ao N ∼ M (pois, como vimos na Observa¸c˜ao (2.6.2) item 2., a inversa de
uma isometria ´e uma isometria);
3. Se M ∼ N e N ∼ P ent˜ao M ∼ P (pois, como vimos na Observa¸c˜ao (2.6.2) item 3., a
composta de isometrias ´e uma isometria).
4. Os trˆes itens acima nos dizem que ∼ ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia no conjunto formado
por todos os espa¸cos m´etricos (isto ´e, ∼ satisfaz as propriedades: reflexiva, sim´etrica e
transitiva).
5. Se existir uma imer˜ao isom´etrica f : M → N ent˜ao temos que M ∼ f(M) (pois a fun¸c˜ao
f : M → f(M) ser´a sobrejetora e preservar´a as distˆancias de M e f(M)).
26.08.2008 - 7.a
6. Sejam X um subconjunto n˜ao vazio, (M, dM ) um espa¸co m´etrico e f : X → M uma fun¸c˜ao
injetora.
Nosso objetivo ´e introduzir uma m´etrica em X de tal modo que a fun¸c˜ao f torne-se uma
imers˜ao isom´etrica de X e M.
Para isto definamos
dX : X × X → R
por
dX(x, y)
.
= dM (f(x), f(y)), x, y ∈ X.
´E f´acil verificar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que dX ´e uma m´etrica em
X (precisamos usar do fato que f ´e injetora!) e deste modo a fun¸c˜ao f tornar-se-´a uma
imers˜ao isom´etrica de (X, dX) em (M, dM ).
2.6. IMERS ˜OES ISOM´ETRICAS E ISOMETRIAS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 49
Podemos mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que a m´etrica dX em X ´e a
´unica m´etrica que torna f uma imers˜ao isom´etrica de X em M.
Com isto temos a:
Defini¸c˜ao 2.6.4 Na situa¸c˜ao acima diremos que a m´etrica dX ´e a m´etrica induzida por f
em X.
Observa¸c˜ao 2.6.4 Um caso particular da situa¸c˜ao acima ´e quando X ⊆ M, n˜ao vazio onde
(M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico.
Neste caso se considerarmos a aplica¸c˜ao inclus˜ao
i : X → M dada por i(x)
.
= x, para x ∈ X,
temos que a fun¸c˜ao i ´e injetora.
Logo podemos considerar em X a m´etrica induzida pela fun¸c˜ao i que coincidir´a com a m´etrica
induzida de M em X (pois dX(x, y) = dM (i(x), i(y)) = dM (x, y), para todo x, y ∈ X).
A seguir consideraremos alguns exemplos.
Exemplo 2.6.1 Consideremos Rn com a metrica induzida por alguma norma de Rn.
Sejam a, u ∈ Rn tal que u = 1.
Consideremos a fun¸c˜ao f : R → Rn dada por
f(t)
.
= a + t u, t ∈ R.
Afirmamos que f ´e um imers˜ao is´om´etrica de R em Rn.
De fato, se t, s ∈ R temos que
dRn (f(t), f(s)) = f(t) − f(s) = (a + t u) − (a + s u) = (t − s) u
= |t − s| u
[ u =1]
= |t − s| = dR(t, s),
mostrando que a fun¸c˜ao f preserva as distˆancias de R e Rn.
Observa¸c˜ao 2.6.5
1. Observemos que o gr´afico de f ´e a reta que passa pelo ponto a = a ∈ Rn e tem a dire¸c˜ao
do vetor unit´ario u ∈ Rn.
Em particular, f n˜ao ´e uma isometria de R em Rn se n = 1 (pois, neste caso, n˜ao ´e
sobrejetora).
2. Se n = 1 ent˜ao f ser´a isometria de R em R (isto ser´a deixado como exerc´ıcio para o
leitor).
Exemplo 2.6.2 Consideremos Rn com a metrica induzida por alguma norma de Rn e a ∈ Rn.
Afirmamos que a fun¸c˜ao f : Rn → Rn dada por
f(x)
.
= x + a, x ∈ Rn
,
´e uma isometria de Rn em Rn.
50 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
De fato, se x, y ∈ Rn ent˜ao
d(f(x), f(y)) = f(x) − f(y) = (x + a) − (y + a) = x − y = d(x, y),
mostrando que f preserva a distˆancia em Rn (ou seja, ´e uma imers˜ao isom´etrica de Rn em Rn).
Al´em disso f(Rn) = Rn pois se y ∈ Rn se tomarmos
x
.
= y − a
segue que
f(x) = x + a = (y − a) + a = y,
ou seja, f ´e sobrejetora, ou seja, f ´e uma isometria de Rn em Rn.
Com isto temos a
Defini¸c˜ao 2.6.5 A fun¸c˜ao f acima definida ser´a denominada transla¸c˜ao pelo vetor a.
Exemplo 2.6.3 Consideremos Rn com a metrica induzida por alguma norma de Rn.
Afirmamos que a fun¸c˜ao f : Rn → Rn dada por
f(x)
.
= −x, x ∈ Rn
,
´e uma isometria em Rn.
De fato, se x, y ∈ Rn ent˜ao
d(f(x), f(y)) = f(x) − f(y) = (−x) − (−y) = − x + y = x − y = d(x, y),
mostrando que f preserva a distˆancia em Rn (ou seja, ´e uma imers˜ao isom´etrica de Rn em Rn).
Al´em disso f(Rn) = Rn pois se y ∈ Rn se tomarmos
x
.
= −y
segue que
f(x) = x = −(−y) = y,
ou seja, f ´e sobrejetora, isto ´e, f ´e uma isometria de Rn em Rn.
Com isto temos a
Defini¸c˜ao 2.6.6 A fun¸c˜ao f acima definida ser´a denominada reflex˜ao em torno da origem
de Rn.
Observa¸c˜ao 2.6.6
1. Observemos que na situa¸c˜ao acima, dados a, b ∈ Rn existe uma isometria f : Rn → Rn tal
que f(b) = a (basta considerar a transla¸c˜ao f(x)
.
= x + (a − b)).
2. Podemos substituir o Rn por um espa¸co vetorial normado qualquer que os exemplos acima
continuar˜ao v´alidos neste novo contexto.
A verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
2.6. IMERS ˜OES ISOM´ETRICAS E ISOMETRIAS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 51
Exemplo 2.6.4 Consideremos C o conjunto formado pelo n´umeros complexos munido da m´etrica
induzida pelo valor absoluto de um n´umero complexo (isto ´e, se z = a+bi ent˜ao z = x2 + y2
e assim a m´etrica ser´a d(z1, z2) = z1 − z2 , z1, z2 ∈ C).
Sejam u ∈ C tal que u = 1 e a fun¸c˜ao
f : C → C
dada por
f(z)
.
= u.z,
para z ∈ C (onde . ´e a multiplica¸c˜ao de n´umeros complexos).
Afirmamos que f ´e uma isometria.
De fato, f ´e imers˜ao isom´etrica em C, pois
d(f(z1), f(z2)) = f(z1) − f(z2) = u.z1 − u.z2 = u.(z1 − z2)
= u z1 − z2
[ u =1]
= z1 − z2 = d(z1, z2),
mostrando que f preserva a distˆancia em C.
Al´em disso, se w ∈ C consideremos
z
.
=
w
u
∈ C.
Logo
f(z) = u.z = u.
w
u
= w,
mostrando que f ´e sobrejetora, portanto uma isometria de C em C.
Observa¸c˜ao 2.6.7 A aplica¸c˜ao f do exemplo acima ´e uma rota¸c˜ao (no sentido hor´ario) de um
ˆangulo θ =
π
2
se u = i e θ = arctg(
b
a
) se u = a + bi, se a = 0 (veja figura abaixo).
E
T C
z
f(z) = u.z
θ
Finalizaremos esta se¸c˜ao com a
Proposi¸c˜ao 2.6.1 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico limitado.
Ent˜ao existe uma imers˜ao isom´etrica ϕ : M → B(M; R), onde em B(M; R) consideraremos
a m´etrica induzida pela norma da convergˆencia uniforme.
52 CAP´ITULO 2. ESPAC¸OS M´ETRICOS
Demonstra¸c˜ao:
Definamos ϕ : M → B(M; R) por
ϕ(x)
.
= dx,
onde dx : M → R ´e dada por
dx(y)
.
= dM (x, y)
(ou seja, a distˆancia ao ponto x).
Como M ´e limitado segue que dx ∈ B(M; R), ou seja ϕ est´a bem definida.
Mostremos que ϕ preserva as ditˆancias de M e B(M; R).
Observemos que se x, x , y ∈ M ent˜ao
|dx(y) − dx (y)| = |d(x, y) − d(x , y)|
[corol´ario (2.4.1)]
≤ dM (x, x ),
assim
dB(M;R)(ϕ(x), ϕ(x )) = ϕ(x) − ϕ(x ) = dx − dx = sup
y∈M
|dx(y) − dx (y)|≤dM (x, x ).
Por outro lado, se tomarmos y = x temos que
|dx(y) − dx (y)| = |dM (x, y) − dM (x , y)|
[y=x ]
= |dM (x, x ) − dM (x , x )| = dM (x, x ).
Logo
dx − dx = sup
y∈M
|dx(y) − dx (y)|≥dM (x, x ),
portanto
dB(M; R)(dx, dx ) = dx − dx = sup
y∈M
|dx(y) − dx (y)| = dM (x, x ),
ou seja, ϕ preserva as distˆancias de M e de B(M; R).
Observa¸c˜ao 2.6.8
1. Pode-se provar um resultado an´alogo ao exibido acima retirando-se a hip´otese de M ser
limitado.
Uma demonstra¸c˜ao para esse fato pode ser encontrada em [1] pag. 20.
2. O resultado acima garante que todo espa¸co m´etrico pode ser imerso, isometricamente, em
um espa¸co vetorial normado.
Cap´ıtulo 3
Fun¸c˜oes Cont´ınuas Definidas em
Espa¸cos M´etricos
3.1 Defini¸c˜ao de fun¸c˜ao cont´ınua em espa¸cos m´etricos e exem-
plos
Temos a:
Defini¸c˜ao 3.1.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e a ∈ M.
Diremos que uma fun¸c˜ao f : M → N ´e cont´ınua no ponto a se dado ε  0 existir
δ = δ(ε, a)  0 tal que
dM (x, a)  δ implicar dN (f(x), f(a))  ε.
Geometricamente temos:
f(a)
~
ε
E
f
a
a δ
f(B(a; δ))
%
M
N
Diremos que f : M → N ´e cont´ınua em M se ela for cont´ınua em cada um dos pontos de
M.
Observa¸c˜ao 3.1.1
1. Na situa¸c˜ao acima, f ´e cont´ınua no ponto a se, e somente se, se dado ε  0 existir
δ = δ(ε, a)  0 tal que
f(B(a; δ)) ⊆ B(f(a); ε),
ou seja, dada uma bola aberta de centro em f(a) e raio ε  0 em N, existe uma bola aberta
de centro em a e raio δ  0 em M, tal que a imagem pela fun¸c˜ao f desta segunda bola
est´a contida na primeira bola.
53
54 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
2. Se M ⊆ R e N = R munidos da m´etrica usual de R ent˜ao f : M → R ser´a cont´ınua em
a ∈ M se, e somente se, dado ε  0 existir δ = δ(ε, a)  0 tal que se x ∈ M e
a − δ  x  a + δ
implicar
f(a) − ε  f(x)  f(a) + ε,
ou seja,
f((a − δ, a + δ)) ⊆ (f(a) − ε, f(a) + ε),
pois as bolas abertas em R (com a m´etrica usual) da defini¸c˜ao de contiuidade ser˜ao os,
respectivos, intervalos abertos obtidos acima.
Geometricamente temos:
T T
Ef
f(a)
a
a + δ
a − δ
f(a) + ε
f(a) − ε
A seguir exibiremos alguns exemplos.
Antes por´em temos a:
Defini¸c˜ao 3.1.2 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e uma fun¸c˜ao f : M → N que tem
a seguinte propriedade: existe c  0 tal que
dN (f(x), f(y)) ≤ c dM ((x, y), x, y ∈ M.
Neste caso diremos que a fun¸c˜ao f ´e lipschitziana em M.
A constante c ser´a dita constante de Lipschitz da fun¸c˜ao f.
Exemplo 3.1.1 Se f : M → N ´e lipschitiziana em M ent˜ao f ´e cont´ınua em M.
De fato, como f ´e lipschitiziana em M existe c  0 tal que
dN (f(x), f(y)) ≤ c dM ((x, y), x, y ∈ M.
Logo, dado ε  0 seja δ
.
=
ε
c
 0.
Ent˜ao se a ∈ M e dM (x, a)  δ temos que
dN (f(x), f(a)) ≤ c dM (x, a)  cδ ≤ c
ε
c
= ε,
mostrando que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a ∈ M.
Como a ∈ M ´e arbitr´ario segue que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua em M.
3.1. DEFINIC¸ ˜AO DE FUNC¸ ˜AO CONT´INUA EM ESPAC¸OS M´ETRICOS E EXEMPLOS 55
Exemplo 3.1.2 Sejam (E, . E) um espa¸co vetorial normado e λ ∈ R.
Afirmamos que a aplica¸c˜ao
fλ : E → E
dada por
fλ(x)
.
= λ.x, x ∈ E,
´e lipschitiziana em E.
De fato,
dE(fλ(x),fλ(y)) = fλ(x), fλ(y) E = λ.x − λ.y E = λ(x − y) E
= |λ| x − y E = |λ|dE(x, y),
ou seja,
dE(fλ(x),fλ(y)) = |λ|dE(x, y), x, y ∈ E,
mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira.
Em particular, a aplica¸c˜ao fλ : E → E s´er´a cont´ınua em E para cada λ ∈ R fixado.
Observa¸c˜ao 3.1.2
1. Se f1, · · · , fn : E → E, onde E ´e um espa¸co vetorial normado, s˜ao lipschitzianas ent˜ao
dados a1, · · · , an ∈ R temos que
f
.
= a1f1 + · · · anfn
tamb´em ser´a uma aplica¸c˜ao lipschitziana em E.
A verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor.
Conclus˜ao: combina¸c˜ao linear de fun¸c˜oes lipschitzianas ´e uma fun¸c˜ao lipschitziana.
Em particular, a aplica¸c˜ao f : E → E ser´a cont´ınua em E.
2. Seja R munido da m´etrica usual.
Ent˜ao f : R → R ´e lipschitiziana em M se, e somente se, existe c  0 tal que
|f(x) − f(y)|
|x − y|
=
dR(f(x), f(y))
dR(x, y)
≤ c, x, y ∈ R, x = y.
3. Observemos se f : I → R ´e diferenci´avel em I, um intervalo de R e |f (x)| ≤ c para todo
x ∈ I ent˜ao a fun¸c˜ao f ´e lipschitziana em I.
De fato, dados x, y ∈ I do Teorema do Valor Intermedi´ario segue que existe ¯x ∈ [x, y] ( ou
[y, x]) tal que
f(x) − f(y)
x − y
= f (¯x).
Logo
|f(x) − f(y)|
|x − y|
= |f (¯x)| ≤ c,
ou seja, a fun¸c˜ao f ´e lipschitziana em I, como afirmamos acima.
Conclus˜ao: toda fun¸c˜ao real, de vari´avel real, diferenci´avel em um intervalo da reta e tal
que sua derivada ´e limitada neste intervalo ´e uma fun¸c˜ao lipschitiziana no intervalo em
quest˜ao.
56 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
2.09.2008 - 8.a
Uma situa¸c˜ao mais geral ´e dada pela
Defini¸c˜ao 3.1.3 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N.
Diremos que a fun¸c˜ao f ´e localmente lipschitziana em M se para cada a ∈ M existe
ra  0 tal que a restri¸c˜ao da fun¸c˜ao f a bola aberta B(a; ra) (isto ´e, f|B(a;ra)
) ´e uma fun¸c˜ao
lischitziana, ou seja, existe c = c(B(a; ra))  0 satisfazendo
dN (f(x), f(y)) ≤ c dM ((x, y), x, y ∈ B(a; ra).
Geometricamente temos:
E
a
o ra
fx
y
f(x)
f(y)
dN (f(x), f(y)) ≤ c dM (x, y)
Com isto temos o
Exemplo 3.1.3 Se f : M → N ´e localmente lipschitziana em M ent˜ao f ´e cont´ınua em M.
De fato, dado a ∈ M seja ra  0 tal que restri¸c˜ao da fun¸c˜ao f a bola aberta B(a; ra) seja
uma fun¸c˜ao lipschitziana, isto ´e, existe c = c(B(a; ra))  0 tal que
dN (f(x), f(y)) ≤ c dM ((x, y), x, y ∈ B(a; ra).
Dado ε  0 seja δ
.
= min{
ε
c
, ra}  0.
Logo se, dM (x, a)  δ temos que
dN (f(x), f(a))
[dM (x,a)δ≤ra]
≤ c dM (x, a)c δ
[dM (x,a)δ≤ε
c
]
≤ c
ε
c
= ε,
mostrando que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a ∈ M.
Como a ∈ M ´e arbitr´ario segue que a fun¸c˜ao f : M → N ser´a cont´ınua em M.
Observa¸c˜ao 3.1.3 Se f1, · · · , fn :→ E, onde E ´e um espa¸co vetorial normado, s˜ao localmente
lipschitzianas em E ent˜ao, dados a1, · · · , an ∈ R, temos que
f
.
= a1f1 + · · · anfn
tamb´em ser´a localmente lipschitziana em E.
A verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
Conclus˜ao: combina¸c˜ao linear de fun¸c˜oes localmente lipschitzianas num espa¸co vetorial nor-
mado ´e uma fun¸c˜ao localmente lipschitziana neste espa¸co.
Em particular, a aplica¸c˜ao f : E → E acima definida ser´a cont´ınua em E.
3.1. DEFINIC¸ ˜AO DE FUNC¸ ˜AO CONT´INUA EM ESPAC¸OS M´ETRICOS E EXEMPLOS 57
Exemplo 3.1.4 Seja f : R → R dada por f(x)
.
= xn, x ∈ R e n ∈ N.
Afirmamos que f ´e localmente lispchitziana em R.
De fato, sejam x, y ∈ B(0; a), isto ´e, |x|, |y| ≤ a.
Ent˜ao temos que
dR(f(x), f(y)) = |f(x) − f(y)| = |xn
− yn
| = |(x − y)(xn−1
+ xn−2
y + · · · xyn−2
+ yn−1
)|
≤ |x − y|[|x|n−1
+ |x|n−2
|y| + · · · |x||y|n−2
+ |y|n−1
]
≤ |x − y|[|a|n−1
+ |a|n−2
|a| + · · · |a||a|n−2
+ |a|n−1
n−parcelas
]
= nan−1
|x − y| = nan−1
dR(x, y),
ou seja, f ´e localmente lischitziana em R (a constante de Lipschitz ser´a c
.
= nan−1).
Em particular, a aplica¸c˜ao f : R → R ser´a cont´ınua em R.
Observa¸c˜ao 3.1.4 Do exemplo acima e da observa¸c˜ao (3.1.3) segue que toda fun¸c˜ao polinomial
p : R → R (isto ´e, se a1, · · · , an ∈ R temos que
p(x)
.
= a0 + a1x + · · · , anxn
, x ∈ R
´e uma fun¸c˜ao localmente lispchitziana em R e portanto ser´a uma aplica¸c˜ao cont´ınua em R.
Exemplo 3.1.5 Seja f : R∗ .
= R  {0} → R dada por
r(x)
.
=
1
x
, x ∈ R∗
.
Para cada a  0 temos que f ´e lipschitiziana em Ra, onde Ra
.
= {x ∈ R : |x| ≥ a}.
De fato, se x, y ∈ Ra ent˜ao |x|, |y| ≥ a logo,
dR(f(x), f(y)) = |f(x)−f(y)| = |
1
x
−
1
y
| = |
y − x
x.y
| =
1
|x|.|y|
|x−y|
[|x|,|y|≥a0]
≤
1
a2
|x−y| =
1
a2
dR(x, y),
mostrando que f ´e lipschitziana em Ra (basta tomar a constante de Lipschitz como sendo c
.
=
1
a2
)
para cada a  0.
Em particular, a aplica¸c˜ao f : R∗ → R ´e cont´ınua em Ra para todo a  0, isto ´e, f ´e
cont´ınua em R∗.
Exemplo 3.1.6 Sejam (E, . E) um espa¸co vetorial normado, R com a m´etrica usual e λ ∈ R.
Afirmamos que a aplica¸c˜ao
m : R × E → E
dada por
m(λ, x)
.
= λ.x, λ ∈ R, x ∈ E,
´e localmente lipschitiziana em R × E onde no produto cartesiano R × E considerarmos a norma
da soma (isto ´e,
(λ, x) R×E = |λ| + x E,
(λ, x) ∈ R × E) e assim podemos tomar a m´etrica
dR×E[(λ, x), (β, y)] = |λ − β| + x − y E,
58 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
se (λ, x), (β, y) ∈ R × E).
De fato, dado (λ0, x0) ∈ R × E, fixado r  0, se
(λ, x), (β, y) ∈ B((λ0, x0); r) ⊆ R × E
temos que
|λ − λ0|, |β − β0|  r e x − x0 E, y − x0 E  r.
Logo
dE(m(λ, x), m(β, y)) = m(λ, x) − m(β, y) E = λ.x − β.y E = λ.x − λ.y + λy − β.y E
= λ.(x − y) + (λ − β).y E ≤ λ(x − y) E + (λ − β)y E
= |λ| x − y E + |λ − β| y E
[|λ|≤|λ−λ0|+|λ0|≤r+|λ0|]
≤ [r + |λ0|] x − y E + |λ − β| y E
[ y E≤ y−x0 E+ x0 E≤r+ x0 E]
≤ [r + |λ0|] x − y E + [r + x0 E]|λ − β|
≤ max{r + |λ0|, r + x0 E}[ x − y E + |λ − β|]
[c
.=max{r+|λ0|,r+ x0 E}]
= c[|λ − β| + x − y E]
= c dR×E[(λ, x), (β, y)]
mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira.
Em particular, a aplica¸c˜ao m : R × E → E ser´a cont´ınua em R × E (munido da m´etrica
acima).
Exerc´ıcio 3.1.1 Em particular, vale o mesmo para multiplica¸c˜ao de n´umeros reais ou multi-
plica¸c˜ao de n´umeros reais por vetores de Rn.
Uma outra classe de fun¸c˜oes importantes ´e dada pela
Defini¸c˜ao 3.1.4 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N.
Diremos que a fun¸c˜ao f ´e uma contra¸c˜ao fraca se
dN (f(x), f(y)) ≤ dM ((x, y), x, y ∈ M.
e uma subclasse desta ´e dada pela
Defini¸c˜ao 3.1.5 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N.
Diremos que a fun¸c˜ao f ´e uma contra¸c˜ao (forte) se existir c ∈ [0, 1) tal que
dN (f(x), f(y)) ≤ c dM ((x, y), x, y ∈ M.
Observa¸c˜ao 3.1.5
1. ´E f´acil de ver que toda contra¸c˜ao forte ´e uma contra¸c˜ao fraca.
2. Tamb´em ´e evidente que toda contra¸c˜ao fraca ou forte ´e uma aplica¸c˜ao lipschitiziana e
portanto cont´ınua em todo o espa¸co m´etrico.
Seguir daremos alguns exemplos de contra¸c˜oes fracas.
3.1. DEFINIC¸ ˜AO DE FUNC¸ ˜AO CONT´INUA EM ESPAC¸OS M´ETRICOS E EXEMPLOS 59
Exemplo 3.1.7 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e k ∈ N fixo.
Se f : M → N ´e dada por
f(x)
.
= k, para todo x ∈ M
ent˜ao f ´e uma contra¸c˜ao forte, pois
dN (f(x), f(y)) = dN (k, k) = 0 ≤
1
2
dM (x, y), x, y ∈ M,
(no caso escolhemos c
.
=
1
2
 1).
Em particular, a aplica¸c˜ao f : M → N ´e cont´ınua em M.
Exemplo 3.1.8 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e X ⊆ M subespa¸co m´etrico de M.
A aplica¸c˜ao de inclus˜ao, i : X → M dada por i(x)
.
= x, x ∈ X ´e uma contra¸c˜ao fraca pois
dM (i(x), i(y)) = dX(x, y), x, y ∈ X.
Em particular, a aplica¸c˜ao i : X → M ´e cont´ınua em X.
Em geral temos o
Exemplo 3.1.9 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos.
Se f : M → N ´e uma imers˜ao isom´etrica ent˜ao f ´e uma contra¸c˜ao fraca pois
dN (f(x), f(y)) = dM (x, y), x, y ∈ M.
Em particular, a aplica¸c˜ao f : M → N ser´a cont´ınua em M.
Observa¸c˜ao 3.1.6 Como caso particular do exemplo acima temos que toda isometria ´e uma
contra¸c˜ao fraca, logo cont´ınua em todo o espa¸co m´etrico.
Exemplo 3.1.10 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos.
Independente de uma das trˆes m´etricas que escolhamos para M × N (ver exemplo (2.1.12) e
observa¸c˜ao (2.1.12) item 3.), para cada a ∈ M e b ∈ N se considerarmos as aplica¸c˜oes
ib : M → M × N e ja : N → M × N
dadas por
ib(x)
.
= (x, b) e ja(y)
.
= (a, y),
ent˜ao ib e ja s˜ao uma contra¸c˜oes fracas.
De fato, pois
dM×N (ib(x1), ib(x2)) = dM×N [(x1, b), (x2, b)]
(∗)
≤ dM (x1, x2), x1, x2 ∈ M,
dM×N (ja(y1), ib(y2)) = dM×N [(a, y1), (a, y2)]
(∗∗)
≤ dN (y1, y2), y1, y2 ∈ N
mostrando a afirma¸c˜ao acima.
Vale observar que as desigualdades (*) e (**) s˜ao v´alidas, independentementes, de qual das
trˆes m´etricas que considerarmos no produto cartesiano (verifique!).
Em particular, as aplica¸c˜oes ib : M → M × N e ja : N → M × N s˜ao cont´ınuas em M e N,
respectivamente.
60 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Exemplo 3.1.11 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e X ⊆ M n˜ao vazio.
Definamos dX : M → R por
dX(y)
.
= d(y, X), y ∈ M.
Afirmamos que dX ´e uma contra¸c˜ao fraca.
De fato, se y1, y2 ∈ M temos que
dR(dX(y1), dX(y2)) = |dX(y1) − dX(y2)| = |d(y1, X) − d(y2, X)|
[proposi¸c˜ao (2.4.2)]
≤ dM (y1, y2),
mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira.
Em particular, a aplica¸c˜ao dx : M → R ´e cont´ınua em M.
Observa¸c˜ao 3.1.7 Do exemplo acima segue que para cada x ∈ M temos que a aplica¸c˜ao
dx : M → R dada por dx(y)
.
= dM (x, y), y ∈ M,
´e uma contra¸c˜ao fraca.
Para ver isto basta considerar X
.
= {x} ⊆ M.
Em particular, a aplica¸c˜ao dx : M → R ser´a cont´ınua em M.
Exemplo 3.1.12 Seja (E, . ) um espa¸co vetorial normado.
A aplica¸c˜ao . : E → R ´e uma contra¸c˜ao fraca.
De fato, se x, y ∈ E temos que
dR( x , y ) = | x − y | = |dE(x, 0) − dE(y, 0)| ≤ |dE(x, y)| = x − y = dE(x, y),
mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira.
Em particular, a aplica¸c˜ao . : E → R ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em E.
Exemplo 3.1.13 Seja (M1, d1), · · · (Mn, dn) espa¸cos m´etricos.
Pra cada i = 1, · · · n a aplica¸c˜ao
pi : M1 × · · · × Mn → Mi, dada por pi(x)
.
= xi,
onde x = (x1, · · · , xn) ∈ M1 × · · · × Mn (conhecida como i-´esima proje¸c˜ao) ´e uma contra¸c˜ao
fraca onde podemos considerar no produto cartesiano M
.
= M1 ×· · ·×Mn qualquer uma das trˆes
m´etricas da observa¸c˜ao (2.1.12).
De fato, se xi, yi ∈ Mi temos que
dM1 (pi(x), pi(y)) = dMi (xi, yi) ≤ dM (x, y),
onde x = (x1, · · · , xi−1, xi, xi+1, · · · , xn), y = (y1, · · · , yi−1, yi, yi+1, · · · , yn) ∈ M, mostrando
que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira.
Em particular, a aplica¸c˜ao pi : M1 × · · · × Mn → Mi ´e cont´ınua em M1 × · · · × Mn para cada
i = 1, · · · , n.
Exemplo 3.1.14 Seja (M, dM ) espa¸co m´etrico.
Ent˜ao a aplica¸c˜ao
dM : M × M → R
3.1. DEFINIC¸ ˜AO DE FUNC¸ ˜AO CONT´INUA EM ESPAC¸OS M´ETRICOS E EXEMPLOS 61
´e uma contra¸c˜ao fraca se em M ×M considerarmos a m´etrica da soma ou do m´aximo em M ×M
(veja exemplo (2.1.12)).
De fato, se (x, y), (x , y ) ∈ M × M ent˜ao
dR(dM (x, y), dM (x , y )) = |dM (x, y) − dM (x , y )| = |dM (x, y) − dM (x , y) + dM (x , y) − dM (x , y )|
≤ |dM (x, y) − dM (x , y)| + |dM (x , y) − dM (x , y )| ≤ dM (x, x ) + dM (y, y )
≤ dM×M [(x, y), (x , y )],
mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira.
Em particular, a aplica¸c˜ao dM : M × M → R ser´a cont´ınua em M × M.
4.09.2008 - 9.a
Exemplo 3.1.15 Seja (E, . E) um espa¸co vetorial normado e λ ∈ R.
Afirmamos que a aplica¸c˜ao
s : E × E → E
dada por
s(x, y)
.
= x + y, x, y ∈ E,
´e uma contra¸c˜ao fraca onde em E×E estamos considerando a norma da soma (isto ´e, (x, y) E×E
.
=
x E + y E e sua respectiva m´etrica associada).
De fato,
dE(s(x, y), s(x , y )) = s(x, y) − s(x , y ) E = (x + y) − (x + y ) E = (x − x ) + (y − y ) E
≤ x − x + y − y E = (x, y) − (x , y ) E×E = dE×E((x, y), (x , y )).
mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira.
Em particular, a aplica¸c˜ao s : E × E → E ser´a cont´ınua em E × E.
Exerc´ıcio 3.1.2 Em particular, vale o mesmo para soma n´umeros reais ou soma de vetores em
Rn e B(X; M) munido da m´etrica do sup.
Exemplo 3.1.16 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico, a ∈ M, X um conjunto n˜ao vazio e
B(X; M) munido da m´etrica do sup.
Definamos a aplica¸c˜ao
va : B(X; M) → M por va(f)
.
= f(a), f ∈ B(X; M).
Ent˜ao va ´e uma contra¸c˜ao em B(X; M).
De fato, se f, g ∈ B(X; M) temos que
dM (va(f), va(g) = dM (f(a), g(a)) ≤ sup{dM (f(x), g(x)) : x ∈ M} = dB(X;M)(f, g),
mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira.
Em particular, a aplica¸c˜ao va : B(X; M) → M ser´a cont´ınua em B(X; M).
Observa¸c˜ao 3.1.8
62 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
1. Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e a ∈ M um ponto isolado de M.
Afirmamos que f : M → N ´e cont´ınua em a ∈ M.
De fato, como a ∈ M ´e um ponto isolado de M, existe δ0  0 tal que B(a; δ0) ∩ M = {a}.
Dado ε  0 seja 0  δ ≤ δ0.
Se dM (x, a)  δ ≤ δ0 temos que x = a logo
dN (f(x), f(a)) = dN (f(a), f(a)) = 0  ε,
mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira.
2. Como conseq¨uˆencia da observa¸c˜ao acima temos que se (M, dM ) for um espa¸co discreto
(isto ´e, todo ponto dele ´e ponto isolado) ent˜ao toda fun¸c˜ao f : M → N ´e cont´ınua em M.
Em particular, a m´etrica de M ´e a m´etrica zero-um ent˜ao vale o mesmo.
3. Por outro lado se (N, dN ) for um espa¸co discreto temos que: f : M → N cont´ınua em
M se, e somente se, para cada a ∈ M a fun¸c˜ao f ´e constante em alguma bola aberta de
centro em a.
De fato, se a ∈ M ent˜ao dado 0  ε ≤ 1 temos que B(f(a); ε) = {f(a)} assim para todo
δ  0 se x ∈ B(a; δ) para que f(x) ∈ B(f(a), ε) = {f(a)} deveremos ter f(x) = f(a) na
bola aberta B(a; δ), como afirmamos acima.
Em particular, a m´etrica de N ´e a m´etrica zero-um ent˜ao vale o mesmo.
Temos a
Defini¸c˜ao 3.1.6 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e a ∈ M.
Diremos que uma fun¸c˜ao f : M → N ´e descont´ınua no ponto a se ela n˜ao for cont´ınua
no ponto a.
Observa¸c˜ao 3.1.9
1. Na situa¸c˜ao acima f ´e descont´ınua no ponto a ∈ M se, e somente se, existe ε  0 tal que
para todo δ  0 existe xδ ∈ M tal que
dM (xδ, a)  δ mas dN (f(xδ), f(a)) ≥ ε.
2. Um formula¸c˜ao equivalente seria: f ´e descont´ınua no ponto a ∈ M se, e somente se, existe
ε  0 tal que para todo n ∈ N existe xn ∈ M tal que
dM (xn, a) 
1
n
mas dN (f(xn), f(a)) ≥ ε.
Isto poderia ser dito da seguinte forma: existe uma seq¨uˆencia (xn)n∈N em M que ´e con-
vergente para a em M tal que a seq¨uˆencia (f(xn))n∈N em N n˜ao ´e convergente em N.
Vale observar que ainda n˜ao introduzimos a no¸c˜ao de convergˆencia de seq¨uˆencias.
Na verdade isto ser´a tratado num c´ap´ıtulo mais adiante.
3.1. DEFINIC¸ ˜AO DE FUNC¸ ˜AO CONT´INUA EM ESPAC¸OS M´ETRICOS E EXEMPLOS 63
Exemplo 3.1.17 A fun¸c˜ao f : R → R dada por f(x) =
1, se x ∈ Q
0, se x ∈ I
n˜ao ´e cont´ınua em
nenhum ponto de R.
De fato, sejam a ∈ Q e ε =
1
2
 0.
Dado δ  0 consideremos x ∈ I tal que |x − a|  δ, isto ´e, d(x, a)  δ (veja figura abaixo).
E
a ∈ Q a + δa − δ
c
x ∈ I
Como f(x) = 0 e f(a) = 1 segue que
dR(f(x), f(a)) = |f(x) − f(a)| = |0 − 1| = 1 ≥
1
2
= ε,
mostrando que f n˜ao ´e cont´ınua em nenhum a ∈ Q.
Por outro lado, sejam a ∈ I e ε =
1
2
 0.
Dado δ  0 consideremos x ∈ Q tal que |x − a|  δ, isto ´e, d(x, a)  δ (veja figura abaixo).
E
a ∈ I a + δa − δ
c
x ∈ Q
Como f(x) = 1 e f(a) = 0 segue que
dR(f(x), f(a)) = |f(x) − f(a)| = |1 − 0| = 1 ≥
1
2
= ε,
mostrando que f n˜ao ´e cont´ınua em nenhum a ∈ I.
Portanto f n˜ao ´e cont´ınua em nenhum ponto de R.
Observa¸c˜ao 3.1.10 Observemos que no exemplo acima temos que f|Q
e f|I
s˜ao cont´ınuas (na
verdade a primeira ´e constante e igual a 0 e a segunda ´e constante e igual a 1).
Para f : M → N e X ⊆ M n˜ao vazio, o exemplo acima nos mostra a diferen¸ca entre:
1. f|X
: X → N cont´ınua em X;
2. f : M → N cont´ınua em todos os pontos de M.
Podemos sempre afirmar que na situa¸c˜ao acima (b) implicar´a sempre em (a).
Mas, em geral, (a) pode n˜ao implicar em (b), como mostra o exemplo acima.
Exemplo 3.1.18 Consideremos f : R → R dada por
f(x) =
sen(1
x), se x = 0
0, se x = 0
.
Afirmamos que f ´e descont´ınua em x = 0.
De fato, seja ε =
1
2
 0.
64 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Dado δ  0 seja N0 ∈ N tal que N0 ≥
1
δ
.
Consideremos x ∈ R dado por
x
.
=
2
(2N0 + 1)π
.
Como (2N0 + 1)π  2N0 temos que
dR(x, 0) = x =
2
(2N0 + 1)π

2
2N0
=
1
N0
 δ.
Mas
dR(f(x), f(0)) = |sen(
1
2
(2N0+1)π
) − 0| = |sen(
(2N0 + 1)π
2
)|
[sen(
(2N0+1)π
2
)=±1]
= 1 ≥
1
2
= ε,
mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira.
Observa¸c˜ao 3.1.11 Seja f : M → N e consideremos N1
.
= f(M) = {f(x) : x ∈ M} visto
como subsepa¸co m´etrico de N (ou seja, com a m´etrica induzida de N).
Definamos f1 : M → N1 por f1(x)
.
= f(x), x ∈ M.
Afirmamos que f ´e cont´ınua em M se, e somente se, f1 ´e cont´ınua em M.
A demonstra¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
3.2 Propriedades elementares de fun¸c˜oes cont´ınuas entre espa¸cos
m´etricos
Come¸caremos pela
Proposi¸c˜ao 3.2.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) e (P, dP ) espa¸cos m´etricos e a ∈ M.
Se f : M → N ´e cont´ınua em a e g : N → P ´e cont´ınua em f(a) ent˜ao g ◦ f : M → P ´e
cont´ınua em a.
Demonstra¸c˜ao:
Dado ε  0, como g ´e cont´ınua no ponto f(a), existe λ  0 tal que se y ∈ N e
dN (y, f(a))  λ ent˜ao dP (g(y), g(f(a)))  ε. (∗)
Mas f ´e cont´ınua em a, logo dado λ  0 (obtido acima), existe δ  0 tal que se x ∈ M e
dM (x, a)  δ ent˜ao dN (f(x), f(a))  λ.
Logo, se f(x) ∈ N, de (*) temos
dP (g(f(x)), g(f(a)))  λ,
mostrando que g ◦ f ´e cont´ınua em a, como quer´ıamos mostrar.
Observa¸c˜ao 3.2.1
1. O resultado acima nos diz que a composta de duas fun¸c˜oes cont´ınuas ´e uma fun¸c˜ao
cont´ınua.
3.2. PROPRIEDADES ELEMENTARES DE FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS65
2. Temos a seguinte caracteriza¸c˜ao geom´etrica para a demonstra¸c˜ao do resultado acima:
g(f(a))
”
ε
E
gf(a)
…
λ
g(B(f(a); λ))
‡
Ef
”
δ
f(B(a; δ))
c
a
Como conseq¨uˆencia temos
Corol´ario 3.2.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos.
Se f : M → N ´e cont´ınua em a ∈ X ⊆ M ent˜ao f|X
: X → N ´e cont´ınua em a.
Demonstra¸c˜ao:
Sabemos que a aplica¸c˜ao inclus˜ao, i : X → M ´e cont´ınua em X (ver exemplo (3.1.8)).
Observemos que f|X
= f ◦ i.
Como f ´e cont´ınua em a segue, da proposi¸c˜ao acima, que f|X
= f ◦ i ser´a cont´ınua no ponto
a, completando a demosntra¸c˜ao do corol´ario.
Observa¸c˜ao 3.2.2 O corol´ario acima nos diz que a restri¸c˜ao de uma fun¸c˜ao cont´ınua a um
subconjunto do seu dom´ınio ser´a uma fun¸c˜ao cont´ınua nesse subconjunto.
Antes de prosseguir temos a
Observa¸c˜ao 3.2.3 Sejam (M, dM ), (N, dN ), (P, dP ) espa¸cos m´etricos, f : M×N → P onde em
M × N consideramos uma das trˆes m´etricas usuais (da raiz quadrada, da soma ou do m´aximo).
Logo f ser´a cont´ınua em (a, b) ∈ M × N se dado ε  0 existe δ  0 tal que
dM×N ((x, y), (a, b))  δ implicar dP (f(x, y), f(a, b))  ε.
Neste caso ´e comum dizermos que f ´e cont´ınua (conjuntamente) no ponto (a, b).
Temos tamb´em a:
Defini¸c˜ao 3.2.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ), (P, dP ) espa¸cos m´etricos, f : M × N → P e (a, b) ∈
M × N.
Diremos que f ´e cont´ınua em rela¸c˜ao a 1.a vari´avel no ponto (a, b) se a aplica¸c˜ao
fb : M → P
dada por
fb(x)
.
= f(x, b), x ∈ M,
for cont´ınua no ponto a.
Diremos que f ´e cont´ınua em rela¸c˜ao a 2.a vari´avel no ponto (a, b) se a aplica¸c˜ao
fa
: N → P
66 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
dada por
fa
(y)
.
= f(a, y), y ∈ N,
for cont´ınua no ponto b.
Diremos que f ´e cont´ınua separadamente no ponto (a, b) se ela for cont´ınua em rela¸c˜ao
a cada uma das vari´aveis no ponto (a, b).
Observa¸c˜ao 3.2.4
1. Na situa¸c˜ao acima se f ´e cont´ınua (conjuntamente) no ponto (a, b) ent˜ao temos que
fa
= f ◦ ja fb = f ◦ ib,
onde ib : M → M × N e ja : N → M × N s˜ao as aplica¸c˜oes de M, e de N, em M × N
dadas pelo exemplo (3.1.10), respectivamente.
Assim, como ib e ja s˜ao cont´ınuas em M e N, respectivamente, segue que que fa e fb s˜ao
cont´ınuas nos pontos a e b, respectivamente.
Portanto f ser´a cont´ınua separadamente no ponto (a, b).
2. N˜ao vale, em geral, a rec´ıproca do resultado acima, isto ´e, existem fun¸c˜oes f : M ×N → P
que s˜ao cont´ınuas separadamente no ponto (a, b) mas n˜ao s˜ao cont´ınuas (conjuntamente)
no ponto (a, b).
Para ver isto, consideremos o seguinte exemplo:
Seja
f : R × R → R
dada por
f(x)
.
=



xy
x2 + y2
, se (x, y) = (0, 0)
0 , se (x, y) = (0, 0)
.
No ponto (0, 0) temos que f ´e cont´ınua separamente (pois f(x, 0) = 0 e f(0, y) = 0 para
todo x, y, ∈ R que s˜ao cont´ınuas em R).
Mas f n˜ao ´e cont´ınua (conjuntamente) no ponto (0, 0) pois se tomarmos a restri¸c˜ao da
fun¸c˜ao f `a reta y = ax, com a = 0 (que torna-se um espa¸co m´etrico com a m´etrica
induzida pela m´etrica de R2) ent˜ao teremos
f(x, ax) =
ax2
x2 + a2x2
=
a
1 + a2
= 0 se x = 0
e se x = 0 teremos que f(0, a.0) = (0, 0), mostrando que f ´e descont´ınua no ponto (0, 0).
Para o pr´oximo resultado precisaremos da
Defini¸c˜ao 3.2.2 Sejam (M, dM ), (N1, d1), (N2, d2) espa¸cos m´etricos,
f : M → N1 × N2
dada por
f(x)
.
= (f1(x), f2(x)), x ∈ M
onde fj : M → Nj, j = 1, 2 s˜ao ditas fun¸c˜oes coordenadas da fun¸c˜ao f.
Neste caso escreveremos f = (f1, f2).
3.2. PROPRIEDADES ELEMENTARES DE FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS67
Com isto temos a
Proposi¸c˜ao 3.2.2 Sejam (M, dM ), (N1, d1), (N2, d2), N1×N2 espa¸cos m´etricos, onde no ´ultimo
consideramos uma das trˆes m´etricas usuais, f : M → N1 × N2 dada por f(x)
.
= (f1(x), f2(x)),
x ∈ M onde fj : M → Nj, j = 1, 2 e a ∈ M.
Ent˜ao f ´e cont´ınua no ponto a se, e somente se, f1 e f2 s˜ao cont´ınuas no ponto a.
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos que f ´e cont´ınua no ponto a.
Temos que
f1 = p1 ◦ f e f2 = p2 ◦ f,
onde pj : N1 × N2 → Nj, j = 1, 2 s˜ao as proje¸c˜oes em N1 e N2 definidas no exemplo (3.1.13),
respectivamente.
Como p1, p2 s˜ao cont´ınuas em N1 e N2, respectivamente, segue que f1 e f2 s˜ao cont´ınuas em
a ∈ M.
Reciprocamente,
(i) Consideremos em N1 × N2 a m´etrica do m´aximo.
Se f1 e f2 s˜ao cont´ınuas em a ∈ M ent˜ao dado ε  0 segue que existem δ1, δ2  0 tal que
se
dM (x, a)  δi implicar´a dNi (fi(x), fi(a))  ε, i = 1, 2. (∗)
Seja δ
.
= min{δ1, δ2}  0.
Assim, se dM (x, a)  δ logo dM (x, a)  δ1 e dM (x, a)  δ2 e de (*) teremos
dN1×N2 (f(x), f(a)) = max{d1(f1(x), f1(a)), d2(f2(x), f2(a))}  ε,
mostrando que f ´e cont´ınua no ponto a.
(ii) Se considerarmos em N1 × N2 a m´etrica da raiz quadrada temos que dado ε  0 existem
δ1, δ2  0 tal que se
dM (x, a)  δi implicar´a dNi (fi(x), fi(a)) 
ε
√
2
, i = 1, 2. (∗)
tomando-se δ
.
= min{δ1, δ2}  0.
Assim, se dM (x, a)  δ logo dM (x, a)  δ1 e dM (x, a)  δ2 e de (*) teremos
dN1×N2 (f(x), f(a)) = [d1(f1(x), f1(a))]2 + [d2(f2(x), f2(a))]2  [
ε
√
2
]2 + [
ε
√
2
]2
=
ε2
2
+
ε2
2
=
√
ε2 = ε,
mostrando que f ´e cont´ınua no ponto a.
(iii) Se considerarmos em N1 × N2 a m´etrica da soma temos que dado ε  0 existem δ1, δ2  0
tal que se
dM (x, a)  δi implicar´a dNi (fi(x), fi(a)) 
ε
2
, i = 1, 2. (∗)
68 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
tomando-se δ
.
= min{δ1, δ2}  0.
Assim, se dM (x, a)  δ logo dM (x, a)  δ1 e dM (x, a)  δ2 e de (*) teremos
dN1×N2 (f(x), f(a)) = d1(f1(x), f1(a)) + d2(f2(x), f2(a)) 
ε
2
+
ε
2
= ε,
mostrando que f ´e cont´ınua no ponto a.
Completamos assim a demonstra¸c˜ao.
Como conseq¨uˆencia temos o
Corol´ario 3.2.2 Sejam (M1, d1), (M2, d2), (N1, d1), (N2, d2) espa¸cos m´etricos e f1 : M1 → N1,
f2 : M2 → N2 duas fun¸c˜oes.
Se f1 e f2 s˜ao cont´ınuas em M1 e M2, respectivamente ent˜ao a aplica¸c˜ao
f1 × f2 : M1 × M2 → N1 × N2
(f1 × f2)(x1, x2)
.
= (f1(x1), f2(x2)), (x1, x2) ∈ M1 × M2
ser´a cont´ınua em M1 × M2.
Demonstra¸c˜ao:
Temos que as coordenadas de f1 × f2 s˜ao
(f1 × f2)1 = f1 ◦ p1 e (f1 × f2)2 = f2 ◦ p2,
onde pi : M1 ×M2 → Mi, i = 1, 2, s˜ao as proje¸c˜oes de M1 ×M2 em Mi, i = 1, 2 que s˜ao cont´ınuas
em M1 × M2 ( ver exemplo (3.1.13) ).
Como f1 e f2 s˜ao cont´ınuas em M1 e M2, respectivamente, da proposi¸c˜ao (3.2.1) segue que
(f1 × f2)1 e (f1 × f2)2 s˜ao cont´ınuas M1 × M2 e assim a proposi¸c˜ao (3.2.2) implicar´a que f1 × f2
s˜ao cont´ınuas em M1 × M2 concluindo a demonstra¸c˜ao do resultado.
Como conseq¨uˆencia dos resultados acima temos a
Proposi¸c˜ao 3.2.3 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, (E, . E) espa¸co vetorial normado, R com
a m´etrica usual, f, g : M → E, α, β : M → R cont´ınuas, com β(x) = 0 para x ∈ M.
Ent˜ao as fun¸c˜oes f + g, α.f : M → E s˜ao cont´ınuas em M e
α
β
: M → R ´e cont´ınua em M,
onde
(f + g)(x)
.
= f(x) + g(x), (α.f)(x)
.
= α.f(x), (
α
β
)(x)
.
=
α(x)
β(x)
,
para x ∈ M.
Demonstra¸c˜ao:
Vimos anteriormente (exemplos (3.1.5), (3.1.15) e (3.1.6)) que as fun¸c˜oes r : R  {0} → R,
s : E × E → E e m : E → E dadas por
r(x)
.
=
1
x
, s(x, y)
.
= x + y, m(λ, x)
.
= λ.x,
onde x, y ∈ E e λ ∈ R, s˜ao cont´ınuas nos seus respectivos dom´ınios.
3.2. PROPRIEDADES ELEMENTARES DE FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS69
Com isto temos:
M
(f,g)
−→ E × E
s
−→ E
x −→ (f(x), g(x)) −→ f(x) + g(x)
,
logo f + g ´e cont´ınua em M;
M
(α,f)
−→ R × E
m
−→ E
x −→ (α(x), f(x)) −→ α(x).f(x)
,
logo α.f ´e cont´ınua em M e
M
(α,β)
−→ R × R  {0}
(id,r)
−→ R × R
m
−→ R
x −→ (α(x), β(x)) −→ (α(x), 1
β(x) ) −→ α(x). 1
β(x)
,
logo
α
β
´e cont´ınua em M (onde id : R → R ´e a aplica¸c˜ao identidade, isto ´e id(x) = x, x ∈ R),
completando a demonstra¸c˜ao do resultado.
Como conseq¨uˆencia imediata temos o
Corol´ario 3.2.3 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, R com a m´etrica usual, f, g : M → R cont´ınuas
em M.
Ent˜ao as fun¸c˜oes f +g, f.g : M → R s˜ao cont´ınuas em M e
f
g
: M {x ∈ M : g(x) = 0} → R
´e cont´ınua no seu dom´ınio.
Para finalizar a se¸c˜ao temos a
Observa¸c˜ao 3.2.5
1. Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos.
Denotaremos por C(M; N) o conjunto formado por todas as fun¸c˜oes cont´ınuas de M em
N, isto ´e,
C(M; N)
.
= {f : M → N : f ´e cont´ınua em M}.
Denotaremos por C0(M; N) o conjunto formado por todas as fun¸c˜oes cont´ınuas de M em
N que s˜ao limitadas, isto ´e,
C0(M; N)
.
= {f : M → N : f ´e cont´ınua e limitadas em M} ⊆ C(M; N).
Neste ´ultimo podemos introduzir uma m´etrica da seguinte forma:
Consideremos
d : C0(M; N) × C0(M; N) → R
definida da seguinte forma: se f, g ∈ C0(M; N)
d(f, g)
.
= sup{dN (f(x), g(x)) : x ∈ M}.
Ficar´a a como exerc´ıcio para o leitor mostrar que d ´e uma m´etrica em C0(M; N).
70 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
2. Em C0([a, b]; R) podemos considerar a norma
f
.
= sup
x∈[a,b]
|f(x)|, f ∈ C0([a, b]; R)
e assim temos a m´etrica associada a esta norma que ser´a denotada por dsup.
Por outro lado, sabemos que toda fun¸c˜ao cont´ınua f : [a, b] → R ´e (Riemann)-integr´avel
em [a, b].
Em particular, existe
b
a
|f(x)| dx.
Afirmamos que
f 1
.
=
b
1
|f(x)| dx, f ∈ C0([a, b]; R)
tamb´em ´e uma norma em C0([a, b]; R).
As propriedades (n2) e (n3) ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor.
Mostremos que (n1) ocorre.
Para isto seja f ∈ C0([a, b]; R) tal que f = 0, ou seja, existe x0 ∈ [a, b].
Do C´alculo 1 sabemos que se uma fun¸c˜ao ´e cont´ınua e n˜ao-negativa tem integral nula se,
e somente se, ela for identicamente nula.
Logo segue que, se f = 0 (*) temos que
b
a
|f(x)| dx = 0 pois se fosse zero dever´ıamos ter
|f(x)| = 0 para todo x ∈ [a, b] implicando que f(x) = 0 para todo x ∈ [a, b], contrariando
(*)), com isto obtemos (n1).
Logo podemos considerar a m´etrica associada a norma . 1 (que ser´a denominada m´etrica
da integral em f ∈ C0([a, b]; R)).
3. Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e (E, . E) espa¸co vetorial normado.
Ent˜ao ´e f´acil ver que C0(M; E) ´e um subespa¸co vetorial do espa¸co vetorial B(M; N).
16.09.2008 - 10.a
3.3 Homeomorfismos entre espa¸cos m´etricos
Observa¸c˜ao 3.3.1 O objetivo desta se¸c˜ao ´e estudar fun¸c˜oes bijetoras e cont´ınuas que admitam
fun¸c˜ao inversa cont´ınua.
Ao contr´ario do que ocorre em ´Algebra Linear (onde a inversa de uma transforma¸c˜ao linear ´e,
necessariamente, uma transforma¸c˜ao linear) e da ´Algebra (onde a inversa de um homomorfismo
´e, necessariamente, um homomorfismo) na Topologia existem fun¸c˜oes cont´ınuas e bijetoras cujas
fun¸c˜oes inversas n˜ao s˜ao cont´ınuas, como mostra o exemplo a seguir:
Exemplo 3.3.1 Consideremos (M, d) onde M = R e dM ´e a m´etrica zero-um e R com a m´etrica
usual.
Tomemos a aplica¸c˜ao identidade i : M → R, dada por i(x)
.
= x, x ∈ M.
Observemos que neste caso aplica¸c˜ao i ´e bijetora e cont´ınua (veja observa¸c˜ao (3.1.8 item
2.)
Afirmamos que a fun¸c˜ao inversa associada a i, que ´e a aplica¸c˜ao i−1 : R → M dada por
i−1(y)
.
= y, y ∈ R, n˜ao ´e cont´ınua em qualquer ponto de R pois a m´etrica em M ´e a m´etrica
zero-um (ver oberva¸c˜ao (3.1.8) item 3.).
3.3. HOMEOMORFISMOS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 71
A seguir exibiremos um outro exemplo menos artificial
Exemplo 3.3.2 Sejam M
.
= [−1, 0] ∪ (1, ∞) e N = [0, ∞) ambos com a m´etrica usual induzida
de R.
Consideremos f : M → N dada por
f(x) = x2
, x ∈ M.
Temos que f ´e uma aplica¸c˜ao bijetora e cont´ınua em M (ser´a deixado como exerc´ıcio para
o leitor a verifica¸c˜ao deste fatos - veja gr´afico de f na figua abaixo).
TN
E
M
−1
1
1 x
f(x)
A fun¸c˜ao inversa associada a f ser´a f−1 : N → M dada por
f−1
(y)
.
=
−
√
y, 0 ≤ y ≤ 1
√
y, y  1
cujo gr´afico ´e dado pela figura abaixo.
E
T
1
1
−1
M
Ny
f−1
(y)
Observemos que f−1 n˜ao ´e cont´ınua em y = 1.
De fato, dado ε =
1
2
 0, para todo δ  0 seja z ∈ (1, 1 + δ).
72 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Logo z ∈ B(1; δ) mas
dR(f−1
(z), f−1
(1)) = |f−1
(z) − f−1
(1)|
[f−1(1)=−1]
= |f−1
(z) + 1| = f−1
(z) + 1 
1
2
= ε,
mostrando que f−1(z) ∈ B(f−1(1); ε).
Portanto f−1 n˜ao ser´a cont´ınua no ponto y = −1.
E
T
1
1
−1
M
N
'
c
E
c
O pr´oximo exemplo ´e o mais interessante.
Exemplo 3.3.3 Sejam M = [0, 2π) com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R,
S1 .
= {(x, y) ∈ R2
: x2
+ y2
= 1}
com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R2 e
f : E → S1
dada por
f(t) = (cos(t), sen(t)), t ∈ E.
Observemos que f ´e cont´ınua em M (pois suas componentes s˜ao cont´ınuas em M) e bijetora
(ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato).
Logo existe a fun¸c˜ao inversa f−1 : S1 → E.
Afirmamos que f−1 n˜ao ´e cont´ınua em (1, 0) = f(0).
De fato, consideremos as seq¨uˆencias (Pn)n∈N e (Qn)n∈N sobre S1 de modo que Pn → (1, 0)
e est´a contida no semi-plano superior y  0 e Qn → (1, 0) e est´a contida no semi-plano inferior
y  0.
T
E
(1, 0)
T
c
Pn
Qn
T
E
f
2π
0
f−1
(Pn)
c
Tf−1
(Qn)
'
f−1
3.3. HOMEOMORFISMOS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 73
Assim f−1(Pn) → 0 e f−1(Qn) → 2π, mostrando que n˜ao existe lim
(x,y)→(1,0)
f−1
(x, y).
Em particular f−1 n˜ao ´e cont´ınua em (1, 0).
Quando a fun¸c˜ao inversa for cont´ınua temos a seguinte defini¸c˜ao
Defini¸c˜ao 3.3.1 Sejam (M, dM ) e N(, dN ) espa¸cos m´etricos.
Diremos que uma fun¸c˜ao f : M → N ´e um homemorfismo de M em N se a fun¸c˜ao f for
cont´ınua, for bijetora (logo admite fun¸c˜ao inversa) e a fun¸c˜ao inversa for cont´ınua em N.
Neste caso diremos que o espa¸co m´etrico M ´e homeomorfo ao espa¸co m´etrico N e es-
creveremos M ∼ N.
A seguir temos a
Proposi¸c˜ao 3.3.1 Sejam (M, dM ), N(, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N uma isometria.
Ent˜ao f ´e um homeomorfismo de M em N.
Demonstra¸c˜ao:
Se a fun¸c˜ao f ´e uma isometria ent˜ao, como vimos na observa¸c˜ao (2.6.2) item 2., sua fun¸c˜ao
inversa tamb´em ser´a uma isometria, ou seja, f e sua fun¸c˜ao inversa, f−1, ser˜ao cont´ınuas, logo
a fun¸c˜ao f ser´a um homeomorfismo.
Observa¸c˜ao 3.3.2
1. Temos que M ∼ M pois a aplica¸c˜ao identidade i : M → M ´e sempre um homeomorfismo
de M em M (isto ´e, ∼ ´e reflexiva);
2. Observemos que se f : M → N ´e um homeomorfismo (de M em N) ent˜ao f−1 : N → M
tamb´em ser´a um homeomorfismo (de N em M).
Logo se M ∼ N ent˜ao N ∼ M (isto ´e, ∼ ´e sim´etrica);
3. Se (M, dM ), N(, dN ) e (P, dP ) s˜ao espa¸cos m´etricos e f : M → N, g : N → P s˜ao
homeomorfismos ent˜ao, da proposi¸c˜ao (3.2.1) segue que (g ◦ f) : M → P tamb´em ser´a um
homeomorfismo (de M em P) (isto ´e, ∼ ´e transitiva).
Logo se M ∼ N e N ∼ P ent˜ao N ∼ P;
4. Dos iten 1., 2. e 3. segue que ∼ ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia no conjunto formado por
todos os espa¸cos m´etricos.
5. Diremos que uma certa propriedade P de um espa¸co m´etrico M ´e uma propriedade
topol´ogica se todo espa¸co m´etrico homeomorfo a M tem a propriedade P, ou seja pro-
priedades topol´ogicas s˜ao aquelas preservadas por homeomorfismos.
6. Diremos que uma certa propriedade Q de um espa¸co m´etrico M ´e uma propriedade
m´etrica se todo espa¸co m´etrico isom´etrico a M tem a propriedade Q, ou seja, propriedades
m´etricas s˜ao aquelas preservadas por isometrias.
74 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
7. A proposi¸c˜ao (3.3.1) garante que toda propriedade topol´ogica ´e uma propriedade m´etrica
(pois se uma propriedade P ´e preservada por homeomorfismo ent˜ao tamb´em ser´a preserva
por isometrias, pois toda isometria ´e um homeorofismo).
Mas, em geral, n˜ao vale a rec´ıproca, isto ´e, existem propriedades m´etricas que n˜ao s˜ao
propriedades topol´ogicas.
Ou seja, existem propriedades Q que s˜ao preservada por isometrias e n˜ao s˜ao preservas
por homeomorfismos.
Veremos isto na observa¸c˜ao (3.3.3) item 4.
Temos os seguinte resultados:
Proposi¸c˜ao 3.3.2 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e (N, dN ) um espa¸co m´etrico discreto e
f : M → N um homeomorfismo de M e N.
Ent˜ao M ´e um espa¸co m´etrico discreto.
Demonstra¸c˜ao:
Seja a ∈ M.
Mostremos que a ´e um ponto isolado de M, isto ´e, existe δ  0 tal que BM (a; δ) = {a}.
Para isto, como N ´e discreto e f(a) ∈ N, existe ε  0 tal que BN (f(a); ε) = {f(a)}.
Como f ´e cont´ınua, existe δ  0 tal que f(BM (a; δ)) ⊆ BN (f(a); ε) = {f(a)}.
Mas f ´e injetora, logo segue que BM (a; δ) s´o poder´a ter um ´unico ponto, caso contr´ario, se
existisse x = a tal que x ∈ B(a; δ) ent˜ao f(x) ∈ B(f(a); ε) = {f(a)}, ou seja, f(x) = f(a), o
que ´e um absurdo, pois f ´e injetora.
Assim BM (a; δ) = {a}, ou seja, a ´e um ponto isolado de M, mostrando que M ´e discreto,
como quer´ıamos demonstrar.
Observa¸c˜ao 3.3.3
1. Na verdade provamos um caso mais geral, a saber: se f : M → N ´e cont´ınua, injetora e
para algum a ∈ M temos f(a) um ponto isolado de N ent˜ao a ser´a um ponto isolado de
M.
2. Em particular, a proposi¸c˜ao acima garante que ser discreto (ou n˜ao ser discreto) ´e uma
propriedade topol´ogica (isto ´e, ´e preservada por homeomorfismos).
3. Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos discretos.
M e N s˜ao homeomorfos se, e somente se, M e N tem a mesma cardinalidade. De fato,
se M ∼ N ent˜ao, em particular, existe uma aplica¸c˜ao bijetora de M em N, logo M e N
tem a mesma cardinalidade
Por outro lado, lembremos que toda aplica¸c˜ao definida num espa¸co m´etrico discreto ´e
cont´ınua (ver observa¸c˜ao (3.1.8) item 2.).
Logo toda aplica¸c˜ao bijetora entre espa¸cos m´etricos discretos ser´a um homeomorfismo (pois
ela e sua inversa est˜ao definidas em espa¸cos m´etricos discretos, logo s˜ao cont´ınuas).
Em particular, se M e N s˜ao discretos e tˆem a mesma cardinalidade, segue que existe uma
aplica¸c˜ao bijetora de M em N que, pelo que observamos acima, ser´a um homemorofismo
de M em N e portanto M ∼ N.
3.3. HOMEOMORFISMOS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 75
4. Afirmamos que ser limitado ´e uma propriedade m´etrica mas n˜ao ´e uma propriedade
topol´ogica, como mostra o seguinte exemplo:
Sejam N e P
.
= {
1
n
: n ∈ N} ambos com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R.
Temos que N e P s˜ao homeomorfos, pois eles tˆem a mesma cardinalidade (observemos que
f : N → P dada por f(n)
.
=
1
n
, n ∈ N ´e uma aplica¸c˜ao bijetora de N em P).
Observemos que N n˜ao ´e limitado mas P ´e limitado.
Um outro resultado interessante ´e dado pela
Proposi¸c˜ao 3.3.3 Sejam (E, . E) um espa¸co vetorial sobre R normado, a ∈ E e λ ∈ R, λ = 0.
Ent˜ao a transla¸c˜ao
ta : E → E
e a homotetia
mλ : E → E
definidas por
ta(x)
.
= x + a, mλ(x)
.
= λ.x, x ∈ E,
s˜ao homeomorfismos de E.
Demonstra¸c˜ao:
De fato, da proposi¸c˜ao (3.2.3) segue que ta e mλ s˜ao cont´ınuas em E.
Al´em disso, elas admitem fun¸c˜oes inversas
t−1
a : E → E e m−1
λ : E → E
definidas por
t−1
a (y)
.
= y − a, m−1
λ (y)
.
=
1
λ
.x, y ∈ E.
A verifica¸c˜ao destes fatos ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor.
Observemos que t−1
a : E → E e m−1
λ : E → E s˜ao cont´ınuas em E, logo s˜ao homeomorfismos
de E.
Como conseq¨uˆecia temos o
Corol´ario 3.3.1 Sejam (E, . E) um espa¸co vetorial sobre R normado, a, b ∈ E e r, s  0.
Ent˜ao as bolas abertas B(a; r) e B(b; s) s˜ao homeomorfas (munidas da m´etrica induzida de
E).
Demonstra¸c˜ao:
Consideremos a aplica¸c˜ao
ϕ : B(a; r) → E
dada por
ϕ(x)
.
= (tb
◦ ms
r
◦ t−a)(x), x ∈ B(a; r).
Veja figura abaixo:
76 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
a
o
r
E
t−a
0
“
r
E
m s
r
0
“
s
c
tb
b
}
s
s
ϕ = tb
◦ m s
r
◦ t−a
Observemos que
ϕ(a) = (tb
◦ ms
r
◦ t−a)(a) = (tb
◦ ms
r
)(t−a(a)) = (tb
◦ ms
r
)(a − a) = (tb
◦ ms
r
)(0)
= tb
(ms
r
(0)) = tb
(
s
r
.0) = tb
(0) = 0 + b = b.
Se x ∈ B(a; r) e
dE(ϕ(x), ϕ(a)) = ϕ(x) − ϕ(a) E = (tb
◦ ms
r
◦ t−a)(x) − b E = (tb
◦ ms
r
)(t−a(x)) − b E
= (tb
◦ ms
r
)(x − a) − b E = tb
(ms
r
(x − a)) − b E
= tb
(
s
r
(x − a)) − b E = [
s
r
(x − a) + b] − b =
s
r
(x − a) =
s
r
x − a
[x∈B(a;r)]

s
r
.r = s,
ou seja, ϕ(x) ∈ B(ϕ(a); s)
[ϕ(a)=b]
= B(b; s), mostrando que
ϕ : B(a; r) → B(b; s).
Da proposi¸c˜ao (3.3.3) segue que ϕ ´e um homeomorfismo (pois ´e uma composta de homeo-
morfismos), mostrando que as bolas abertas B(a; r) e B(b; s) s˜ao homeomorfas.
3.3. HOMEOMORFISMOS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 77
De modo semelhante pode-se mostrar o
Corol´ario 3.3.2 Sejam (E, . E) um espa¸co vetorial sobre R normado, a, b ∈ E e r, s  0.
Ent˜ao as bolas fechadas B[a; r] e B[b; s] s˜ao homeomorfas (munidas da m´etrica induzida pela
norma de E).
Al´em disso, as esferas S(a; r), S(b; s) tamb´em s˜ao homeomorfas.
Demonstra¸c˜ao:
Ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
Observa¸c˜ao 3.3.4
1. Sabemos que o diˆametro de um conjunto ´e invariante m´etrico (isto ´e, ´e preservado por
isometrias) mas n˜ao ´e um invariante topol´ogico (isto ´e, n˜ao ´e preservado por homeomor-
fismo) como afirmam os corol´arios acima (no caso de espa¸cos vetoriais normados).
2. Observemos que em um espa¸co m´etrico arbitr´ario duas bolas abertas (ou fechadas) podem
n˜ao ser homeomorfas, como mostra o seguinte exemplo:
Consideremos (M, dM ) um espa¸co m´etrico que possua um ponto a que seja ponto isolado
de M e um ponto b que n˜ao seja ponto isolado de M.
Logo existe ε  0 tal que B(a; ε) = {a}, portanto essa bola aberta n˜ao ser´a homeomorfa
a uma bola aberta de centro em b, pois, para todo s  0 temos que B(b; s) ´e um conjunto
infinito (pois b n˜ao ´e ponto isolado de M; na verdade, n˜ao poder´a existir uma aplica¸c˜ao
bijetora de B(a; ε) = {a} no conjunto B(b; s))).
Portanto as bolas B(a; ε) e B(b; s) n˜ao s˜ao homeomorfas em M.
Temos a
Defini¸c˜ao 3.3.2 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos.
Diremos que uma fun¸c˜ao f : M → N ´e uma imers˜ao topol´ogica se f : M → f(M) for
um homeomorfismo.
Observa¸c˜ao 3.3.5
1. Toda imers˜ao isom´etrica f : M → N ser´a uma imers˜ao topol´ogica (pois se f ´e imers˜ao
isom´etrica ent˜ao dN (f(x), f(y)) = dM (x, y) para todo x, y ∈ M, mostrando que f : M →
f(M) ´e bijetora, cont´ınua em M com fun¸c˜ao inversa, f−1 : f(M) → M, cont´ınua em
f(M)).
2. N˜ao vale a rec´ıproca do item 1., ou seja, nem toda imers˜ao topol´ogica ´e uma imers˜ao
isom´etrica, como mostra o seguinte exemplo:
Consideremos R e R2 com as m´etricas usuais e f : R → R2 dada por
f(t)
.
= (t, t2
), t ∈ R.
Observemos que f ´e cont´ınua em R, bijetora sobre f(R) e sua inversa ser´a
f−1
: f(R) → R
78 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
dada por
f−1
(t, t2
)
.
= t, (t, t2
) ∈ f(R)
que corresponde a restri¸c˜ao da proje¸c˜ao p1 : R2 → R (que ´e cont´ınua) a f(R), logo
f : R → f(R) ´e um homeomorfismo, mostrando que f : R → R2 ´e uma imers˜ao topol´ogica.
Observemos que f : R → R2 n˜ao ´e uma imers˜ao isom´etrica, pois , se t, s ∈ R e t = s
temos que
df(M)(f(t), f(s))
´e o comprimento do arco de par´abola que une os pontos (s, s2) e (t, t2) enquanto dR(t, s) ´e
o comprimento do segmento de reta que une os pontos (s, 0) e (t, 0).
Logo
df(M)(f(t), f(s))  dM (s, t),
mostrando que f n˜ao ser´a uma imers˜ao isom´etrica (veja figura abaixo).
E
T
t
s
f(t) = (t, t2
)
f(s) = (s, s2
)
M = R
N = f(R)
A seguir daremos dois exemplos geom´etricos de fun¸c˜oes que n˜ao s˜ao imers˜oes topol´ogicas.
Exemplo 3.3.4 Consideremos M
.
= (0, 1) munido da m´etrica induzida pela m´etrica ususal de
R, R2 com a m´etrica usual e f, g : (0, 1) → R2 dadas pelos seguintes configura¸c˜oes geom´etricas:
T
Ef
0
1
t
f(t)
T
0
1
E
g
t g(t)
3.3. HOMEOMORFISMOS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 79
18.09.2008 - 11.a
Outro resultado importante ´e dado pela
Proposi¸c˜ao 3.3.4 Seja (E, . E) um espa¸co vetorial normado.
Ent˜ao toda bola aberta ´e homeomorfa a E, isto ´e, se a ∈ E e r  0 ent˜ao B(a; r) ∼ E.
Demonstra¸c˜ao:
Do corol´ario (3.3.1) basta mostrar que B(0; 1) ∼ E, isto ´e, construiremos um homeomorfismo
f : E → B(0; 1).
Consideremos
f : E → E
dada por
f(x)
.
=
1
1 + x E
x, x ∈ E.
Observemos que
f(x) E =
1
1 + x E
x E =
1
1 + x E
x E  1,
mostrando que f(E) ⊆ B(0; 1), ou seja f : E → B(0; 1).
Al´em disso f ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua (pois a aplica¸c˜ao x → x E ´e cont´ınua e como 1+ x E =
0, segue que a fun¸c˜ao f ser´a cont´ınua em E).
Definamos
g : B(0; 1) → E
por
g(y)
.
=
1
1 − y E
y, y ∈ B(0; 1).
Temos que a fun¸c˜ao g ´e cont´ınua em B(0; 1) (pois a aplica¸c˜ao y → y E ´e cont´ınua e como
1 − y E = 0 para y ∈ B(0; 1), segue que a fun¸c˜ao g ser´a cont´ınua em B(0; 1)).
Al´em disso se y ∈ B(0; 1) temos que
f(g(y)) = f(
1
1 − y E
y) =
1
1 + 1
1− y E
y E
1
1 − y E
y
=
1
1 + 1
1− y E
y E
1
1 − y E
y =
1 − y E
1 − y E + y E
1
1 − y E
y = y.
De modo semelhante mostra-se que (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor)
g(f(x)) = x, x ∈ E,
ou seja g = f−1, mostrando que f : E → B(0; 1) ´e um homeomorfismo de E em B(0; 1), ou seja
B(0; 1) ∼ E, como quer´ıamos demonstrar.
Portanto B(a; r) ∼ E.
Observa¸c˜ao 3.3.6
80 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
1. Do exemplo acima segue que o intervalo (a, b) ⊆ R ´e homeomorfo a R (munidos da m´etrica
induzida da m´etrica usual de R e da m´etrica usual de R, respectivamente), pois
(a, b) = B(
a + b
2
;
b − a
2
)
(veja figura abaixo).
a b
a+b
2
E'E'
b−a
2 b−a
2
2. Na situa¸c˜ao acima, temos que o intervalo (a, ∞) ´e homeomorfo a R.
Para mostrar isto basta considerar a fun¸c˜ao
f : R → (a, ∞)
dada por
f(x)
.
= a + ex
, x ∈ R.
E
T
x
f(x) = a + ex
y = a
Com isto pode-se mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que f ´e cont´ınua em
R e se definirmos
h : (a, ∞) → R
por
h(y)
.
= ln(y − a), y ∈ (a, ∞)
teremos que h ser´a cont´ınua em (a, ∞).
3.3. HOMEOMORFISMOS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 81
E
T
y
h(y) = ln(y − a)
Al´em disso, pode-se verificar, que
f(h(y)) = y, y ∈ (a, ∞) e g(f(x)) = x, x ∈ R,
mostrando que h = f−1, isto ´e, f ´e um homeormorfismo de (a, ∞) em R, mostrando que
(a, ∞) ∼ R.
3. De modo semelhante ao que fizemos no item 2. pode-se mostrar (ser´a deixado como exer-
c´ıcio para o leitor) que (−∞, b) ∼ R.
Um outro exemplo importante ´e
Exemplo 3.3.5 Sejam
Sn .
= {x ∈ Rn+1
: x = 1}
a esfera n-dimensional unit´ario de centro na origem munida da m´etrica induzida pela m´etrica
usual de Rn+1 e p
.
= (0, · · · , 0, 1) ∈ Rn+1 (o polo norte da esfera Sn).
Mostraremos que Sn  {p} ´e homeomorfa a Rn.
Para isto exibiremos uma aplica¸c˜ao
Π : Sn
 {p} → Rn
que ´e um homeomorfismo.
A aplica¸c˜ao Π ´e definida da seguinte forma:
Dado x ∈ Sn  {p} consideremos a semi-reta
→
px que liga os pontos p e x (que est´a bem
definida pois x = p).
Definimos π(x) como sendo o ponto de intersec¸c˜ao da semi-reta
→
px como o h´ıper-plano
xn+1 = 0
82 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
R
0
p = (0, 1)
x
π(x)
y
π(y)
semi-reta
→
px
semi-reta
→
py
T
'
S1
 {p}
w
A seguir obteremos uma express˜ao para π(x), x ∈ S1  {p}.
Observemos se x ∈ S1  {p}, que os pontos da semi-reta
→
px s˜ao da forma
p + t.(x − p), t  0,
logo
π(x) = p + t.(x − p), para algum t  0.
Mas π(x) dever´a pertencer ao h´ıper-plano xn+1 = 0.
Como a ´ultima coordenada ´e da forma
1 + t(xn+1 − 1),
(pois a ´ultima coordenada do ponto p ´e 1) deveremos ter
1 + t(xn+1 − 1) = 0
.
Logo para que π(x) perten¸ca ao h´ıper-plano xn+1 = 0 deveremos ter
t =
1
1 − xn+1
.
Escreveremos
x = (x1, · · · , xn, xn+1) = (x , xn+1),
onde x = (x1, · · · , xn) e xn+1 ∈ R.
Deste modo teremos que
p + t(x − p) = p +
1
1 − xn+1
(x − p) = (0, · · · , 0, 1) +
1
1 − xn+1
[(x1, x2, · · · , xn, xn+1) − (0, · · · , 0, 1)]
= (0, · · · , 0, 1) +
1
1 − xn+1
(x1, x2, · · · , xn, xn+1 − 1) = (0, · · · , 0, 1) + (
1
1 − xn+1
x , −1)
= (
1
1 − xn+1
x , 0),
Observemos que {(x1, · · · , xn, 0) : xi ∈ R, i = 1 · · · , n} ´e homeomorfo a Rn.
3.3. HOMEOMORFISMOS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 83
Para ver isto basta considerar
φ : {(x , 0) : x ∈ Rn
} ⊆ Rn+1
→ Rn
dada por
φ(x , 0)
.
= x ∈ Rn
e mostrar que esta ´e um homeomorfismo (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor).
Assim definimos Π : S1  {p} → Rn por
Π(x) = (φ ◦ π)(x), x ∈ S1
 {p},
ou seja,
Π(x) =
1
1 − xn+1
x , x ∈ S1
 {p},
onde x = (x , xn+1).
Como xn+1 = 1 segue que Π : S1  {p} → Rn ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em S1  {p}.
Consideremos a aplica¸c˜ao ϕ : Rn → Rn+1 dada por
ϕ(y)
.
= x, y ∈ Rn
,
onde x = (x , xn+1) com
x
.
=
2
y 2
Rn + 1
y e xn+1
.
=
y 2
Rn − 1
y 2
Rn + 1
,
isto ´e
ϕ(y)
.
= (
2
y 2
Rn + 1
y,
y 2
Rn − 1
y 2
Rn + 1
) ∈ Rn+1
, y ∈ Rn
.
Observemos que
ϕ(y) 2
Rn+1 =
2
y 2
Rn + 1
y 2
Rn + |
y 2
Rn − 1
y 2
Rn + 1
|2
=
4
( y 2
Rn + 1)2
y 2
Rn +
( y 2
Rn − 1)2
( y 2
Rn + 1)2
=
4 y 2
Rn + ( y 2
Rn − 1)2
( y 2
Rn + 1)2
=
4 y 2
Rn + ( y 4
Rn − 2 y 2
Rn + 1
( y 2
Rn + 1)2
=
y 4
Rn + 2 y 2
Rn + 1)
( y 2
Rn + 1)2
=
( y 2
Rn + 1)2
( y 2
Rn + 1)2
= 1,
ou seja, ϕ(y) ∈ Sn.
Al´em disso, se ϕ(y) = (0, · · · , 0, 1) = p ∈ Rn+1 dever´ıamos ter



2
y 2
Rn + 1
y = (0, · · · , 0) ∈ Rn
y 2 − 1
y 2
Rn + 1
= 1
e das n-primeiras equa¸c˜oes teremos y = (0, · · · , 0) ∈ Rn e este n˜ao satisfaz a ´ultima equa¸c˜ao (o
lado esquerda d´a −1), ou seja p ∈ ϕ(Rn).
Conslus˜ao: ϕ : Rn → Sn  {p}.
84 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Observemos que ϕ ´e cont´ınua em Rn e al´em disso se x ∈ Sn  {p} temos que
1 = x 2
Rn+1 = x 2
Rn + (xn+1)2
e xn+1 = 1.
Assim
x 2
Rn = 1 − (xn+1)2
,
logo
ϕ(Π(x)) = (
2
Π(x) 2
Rn + 1
Π(x),
Π(x) 2
Rn − 1
Π(x) 2
Rn + 1
) = (
2
1
1−xn+1
x 2
Rn + 1
[
1
1 − xn+1
x ],
1
1−xn+1
x 2
Rn − 1
1
1−xn+1
x 2
Rn + 1
)
= (
2
1
(1−xn+1)2 x 2
Rn + 1
[
1
1 − xn+1
x ],
1
(1−xn+1)2 x 2
Rn − 1
1
(1−xn+1)2 | x 2
Rn + 1
)
= (
2(1 − xn+1)2
[ x 2
Rn + (1 − xn+1)2].(1 − xn+1)
x ,
x 2
Rn − (1 − xn+1)2
x 2
Rn + (1 − xn+1)2
)
= (
2(1 − xn+1)2
[(1 − (xn+1)2) + (1 − xn+1)2].(1 − xn+1)
x ,
(1 − (xn+1)2) − (1 − xn+1)2
(1 − (xn+1)2) + (1 − xn+1)2
)
= (
2(1 − xn+1)
[ x 2
Rn + (1 − xn+1)2]
x ,
x 2
Rn − (1 − xn+1)2
x 2
Rn + (1 − xn+1)2
)
= (
2(1 − xn+1)
[(1 − (xn+1)2) + (1 − xn+1)2].
x ,
(1 − (xn+1)2) − (1 − xn+1)2
(1 − (xn+1)2) + (1 − xn+1)2
)
= (
2(1 − xn+1)
[1 − (xn+1)2 + 1 − 2xn+1 + (xn+1)2]
x ,
1 − (xn+1)2 − [1 − 2xn+1 + (xn+1)2]
1 − (xn+1)2 + [1 − 2xn+1 + (xn+1)2]
)
= (
2(1 − xn+1)
(2 − 2xn+1)
x ,
2xn+1 − 2(xn+1)2
2 − 2xn+1
) = (x ,
2(1 − xn+1)xn+1
2(1 − xn+1)
) = (x , xn+1) = x.
Por outro lado, se y ∈ Rn, denotando por
ϕ(y) = ([ϕ(y)] , [ϕ(y)]n+1) ∈ Rn
× R
temos
Π(ϕ(y)) =
1
1 − [ϕ(y)]n+1
[ϕ(y)] =
1
1 − [
y 2
Rn −1
y 2
Rn +1
]
(
2
y 2
Rn + 1
y,
y 2
Rn − 1
y 2
Rn + 1
)
=
1
1 − [
y 2
Rn −1
y 2
Rn +1
]
2
y 2
Rn + 1
y =
y 2
Rn + 1
( y 2
Rn + 1) − ( y 2
Rn − 1)
2
y 2
Rn + 1
y
=
2( y 2
Rn + 1)
2( y 2
Rn + 1)
y = y.
Portanto
Π(ϕ(x)) = x, x ∈ Sn
 {p} e ϕ(Π(y)) = y, y ∈ Rn
,
mostrando que ϕ ´e a fun¸c˜ao inversa de Π e como isto podemos concluir que
Π : Sn
 {p} → Rn
´e um homeormorfismo e assim Sn  {p} ∼ Rn, como quer´ıamos mostrar.
3.3. HOMEOMORFISMOS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 85
Para finalizar a se¸c˜ao temos a
Defini¸c˜ao 3.3.3 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N.
Definimos o gr´afico da fun¸c˜ao f, indicado por G(f), como sendo o seguinte subconjunto
de M × N:
G(f)
.
= {(x, f(x)) : x ∈ M}.
Com isto temos a
Proposi¸c˜ao 3.3.5 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N cont´ınua em M.
Ent˜ao G(f) (munido de uma das trˆes m´etrica do produto M × N) ´e homeomorfo a M.
Demonstra¸c˜ao:
Consideremos a seguinte aplica¸c˜ao
˜f : M → M × N
dada por
˜f(x)
.
= (x, f(x)), x ∈ M.
Observemos que ˜f ´e uma aplica¸c˜ao cont´ınua em M (pois suas fun¸c˜oes coordenadas s˜ao
cont´ınuas em M) e ´e injetora (pois se x1 = x2 ent˜ao (x1, f(x1)) = (x2, f(x2))) e portanto
bijetora sobre a sua imagem G(f).
Observemos que p1 : G(f) → M dada por
p1(x, f(x))
.
= x, (x, f(x)) ∈ G(f)
(a restri¸c˜ao a G(f) da proje¸c˜ao no primeiro fator) ´e cont´ınua em G(f) e
˜f(p1(x, f(x))) = ˜f(x) = (x, f(x)), (x, f(x)) ∈ G(f) e p1( ˜f(x)) = p1(x, f(x)) = x x ∈ M,
mostrando que p1 ´e a fun¸c˜ao inversa associada a ˜f.
Logo ˜f : M → f(M) ´e um homeomorfismo, mostrando que M ∼ G(f), como quer´ıamos
demonstrar.
Exemplo 3.3.6 Como exemplos da situa¸c˜ao acima temos os:
1. R  {0} ´e homeomorfo `a hip´erbole H
.
= {(x, y) ∈ R2 : x.y = 1}.
De fato, segue da proposi¸c˜ao acima que isto ´e verdade pois H ´e gr´afico da fun¸c˜ao
f : R  {0} → R
dada por
f(x)
.
=
1
x
, x ∈ R  {0}
que ´e cont´ınua em R  {0} (veja figura abaixo).
86 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
E
T
x
y
f(x) = 1
x
(x, 1
x
)
x
2. De modo an´alogo, o hemisf´erio norte da esfera unit´aria centrada na origem de Rn, que
ser´a indicada por
Sn
+
.
= {y = (y1, · · · , yn, yn+1) ∈ Sn
: yn+1  0}
´e homeomorfa `a bola aberta unit´aria centrada na origem em Rn, isto ´e,
Sn
+ ∼ B(0; 1) ⊆ Rn
.
De fato, pois Sn
+ = G(f) onde
f : B(0; 1) → R
´e dada por
f(x)
.
= 1 − x 2, x ∈ B(0; 1)
e f ´e cont´ınua em Sn
+ (pois ´e composta de fun¸c˜oes cont´ınuas; veja figura abaixo).
Observemos que y = (y1, · · · , yn, yn+1) ∈ Sn
+ se, e somente se,
1 = y 2
= y2
1 + · · · + y2
n + y2
n+1 e yn+1  0
que ´e equivalente a
yn+1 = 1 − y2
1 + · · · + y2
n.
Logo, se x
.
= (y1, · · · , yn) ∈ Rn a condi¸c˜ao acima ser´a equivalente a
x  1 e yn+1 = 1 − x 2,
ou, seja,
y = (y1, · · · , yn, yn+1) ∈ Sn
+ ⇐⇒ y = (x, 1 − x 2), x
.
= (y1, · · · , yn) ∈ Rn
.
3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTES EM UM ESPAC¸O M´ETRICO 87
Rn
%
Sn
+
W
1
O
x
f(x)
(x, f(x))
3.4 M´etricas equivalentes em um espa¸co m´etrico
Iniciaremos com a
Defini¸c˜ao 3.4.1 Sejam d1 e d2 duas m´etricas em M.
Diremos que a m´etrica d1 ´e mais fina que a m´etrica d2, escrevendo d1 d2 se a
aplica¸c˜ao
i12 : (M, d1) → (M, d2)
dada por
i12(x)
.
= x, x ∈ M
for cont´ınua em M.
Observa¸c˜ao 3.4.1 Da defini¸c˜ao acima segue que a m´etrica d1 ´e mais fina que a m´etrica d2 se,
e somente se, para cada a ∈ M, dado ε  0 existe δ  0 tal que
Bd1 (a; δ) = (i12)−1
(Bd1 (a; δ)) ⊆ Bd2 (a; ε),
ou seja, toda bola aberta segundo a m´etrica d2 cont´em uma bola aberta segunda a m´etrica d1.
a
0
ε
‰ δ
' Bd2
(a; ε)
Q
Bd1
(a; δ)
Com isto temos a
Proposi¸c˜ao 3.4.1 Seja (M, d1) um espa¸co m´etrico discreto (isto ´e, d1 ´e a m´etrica discreta) e
d2 uma outra m´etrica qualquer em M.
Ent˜ao d1 d2.
Al´em disso, se d ´e uma m´etrica em M tal que d d1 ent˜ao d ´e uma m´etrica discreta.
88 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Demonstra¸c˜ao:
Lembremos que na m´etrica discreta todo ponto de (M, d1) ´e isolado.
Logo se a ∈ M existe δ  0 tal que Bd1 (a; δ) = {a}.
Logo dado ε  0 temos que
Bd1 (a; δ) = {a} ⊆ Bd2 (a; ε),
mostrando que d1 d2.
Se d ´e uma m´etrica em M tal que d d1 ent˜ao para todo a ∈ M, como d1 ´e a m´etrica
discreta existe ε  0 tal que Bd1 (a; ε) = {a}.
Mas d d1, logo existe δ  0 tal que
Bd(a; δ) ⊆ Bd1 (a; ε) = {a},
ou seja, Bd(a; δ) = {a}, mostrando que a m´etrica d ´e discreta.
Outro resultado interessante ´e dado pela
Proposi¸c˜ao 3.4.2 Sejam d1 e d2 duas m´etricas em M satisfazendo a seguinte rela¸c˜ao: existe
c  0 tal que
d2(x, y) ≤ c d1(x, y), x, y ∈ M.
Ent˜ao d1 d2.
Demonstra¸c˜ao:
A desigualdade acima implica que a aplica¸c˜ao
i12 : (M, d1) → (M, d2)
´e lischitziana em M, em particular cont´ınua em M, mostrando assim que d1 d2.
Observa¸c˜ao 3.4.2 Podemos provar o resultado acima diretamente, ou seja, para cada a ∈ M,
dado ε  0 seja δ
.
=
ε
c
 0.
Logo se a ∈ M temos que se x ∈ Bd1 (a; δ) segue que
d2(x, a) ≤ c d1(x, a)  c δ = c
ε
c
= ε,
ou seja, x ∈ Bd2 (a; ε), mostrando que
Bd1 (a; δ) ⊆ Bd2 (a; ε),
isto ´e, d1 d2.
Como caso partitular temos o
Exemplo 3.4.1 Seja E
.
= C0([a, b]) o espa¸co vetorial sobre R formado pelas fun¸c˜oes reais
cont´ınuas e limitadas em [a, b] (veremos mais a frente que isto implicar´a que f dever´a ser
limitada).
Sabemos que se f ∈ C0([a, b]) ent˜ao
f
.
= sup{|f(x)|; x ∈ [a, b]}
3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTES EM UM ESPAC¸O M´ETRICO 89
´e uma norma em E = C0([a, b]) e portanto definir´a uma m´etrica, dsup, em E = C0([a, b]).
De modo semelhante temos que
f 1
.
=
b
a
|f(x)| dx, f ∈ C0([a, b])
tamb´em ´e uma norma em E = C0([a, b]) e portanto definir´a uma m´etrica, d1, em E = C0([a, b])
(veja observa¸c˜ao (3.2.5) item 2.).
Observemos que se f, g ∈ C0([a, b]) temos
d1(f, g) =
b
a
|f(x) − g(x)| dx ≤
b
a
sup
y∈[a,b]
|f(y) − g(y)| dx
= sup
y∈[a,b]
|f(y) − g(y)|
b
a
dx = f − g sup(b − a)
= (b − a)dsup(f, g).
Logo da proposi¸c˜ao acima segue que dsup ´e mais fina que d1 (ou seja, dsup d1).
Observa¸c˜ao 3.4.3
1. o exemplos acima nos diz que, em C0([a, b]), a m´etrica da convergˆencia uniforme ´e mais
fina que a m´etrica da integral.
2. N˜ao vale a rec´ıprova, isto ´e, a m´etrica da integral n˜ao ´e mais fina que a m´etrica da
convergˆencia uniforme (ou seja, d1 dsup), como mostra o exemplo abaixo.
Dado ε  0 seja δ  0 qualquer.
Escolhamos 0  c 
δ
2ε
e definamos g : [a, b] → R como na figura abaixo
E
T
a ba + c
C
Gr´afico de g
2ε
a + c
2
Observemos que
b
a
|g(x)| dx =
a+c
a
|g(x)| dx
[´area deum triˆangulo de base [a, a + c] e altura 2ε]
=
c.2ε
2
= c.ε 
δ
2
.
90 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Logo se f ∈ C0([a, b]) temos que
f + g ∈ Bd1 (f; δ),
pois d1(f + g, f) = (f + g) − f 1 =
b
a |g(x)| dx  δ
2  δ.
Mas, como
g(a +
c
2
) = 2ε
segue que
g sup ≥ 2ε  ε,
ou seja,
f + g ∈ Bdsup (f; ε),
pois dsup(f + g, f) = (f + g) − f sup = g sup = sup
a≤x≤b
|g(x)| ≥ 2ε  ε.
Logo nenhuma bola aberta Bdsup (f; ε) conter´a uma bola aberta Bd1 (f; δ) para todo δ  0, ou
seja d1 dsup, como afirmamos.
23.09.2008 - 12.a
Temos a
Proposi¸c˜ao 3.4.3 Sejam M1
.
= (M, d1) e M2
.
= (M, d2) espa¸cos m´etricos.
As afirma¸c˜oes s˜ao equivalentes;
1. d1 d2 (isto ´e, a aplica¸c˜ao i12 : M1 → M2 ´e cont´ınua em M1);
2. Para todo espa¸co m´etrico (N, dN ) se uma fun¸c˜ao f : M2 → N ´e cont´ınua em M2 ent˜ao
f : M1 → N ´e cont´ınua em M1 (ou seja, toda aplica¸c˜ao cont´ınua segundo a m´etrica d2
ser´a cont´ınua segundo a m´etrica d1);
3. Consideremos em R a m´etrica usual. Se uma fun¸c˜ao f : M2 → R ´e cont´ınua em M2 ent˜ao
f : M1 → R ´e cont´ınua em M1 (ou seja, toda aplica¸c˜ao real cont´ınua segundo a m´etrica
d2 ser´a cont´ınua segundo a m´etrica d1);
4. Para todo a ∈ M a fun¸c˜ao
d2a : M1 → R dada por d2a
.
= d2(a, x), x ∈ M,
´e cont´ınua em M1;
5. Toda bola aberta, segundo a m´etrica d2, cont´em uma bola aberta segundo d1, de mesmo
centro que a primeira;
6. A fun¸c˜ao d2 : M1 × M1 → R ´e cont´ınua em M1 × M1 onde neste consideramos uma das
trˆes m´etricas do produto cartesiano (a saber, da raiz quadrada, da soma ou do m´aximo).
Demonstra¸c˜ao:
Mostraremos a seguinte seq¨uˆencia de implica¸c˜oes:
3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTES EM UM ESPAC¸O M´ETRICO 91
E1. 2.
c
3.'4.
c
T
5.
6.
j
C
T
Mostremos que (1. ⇒ 2.):
Indicaremos por
f1 .
= f : M1 → N e f2 .
= f : M2 → N.
Como i12 : M1 → M2 ent˜ao temos que
f1
= f2
◦ i12. (∗)
O diagrama abaixo ilustra a situa¸c˜ao
E
‚ ©
M1
M2
N
i12
f1
f2
Se d1 d2 ent˜ao temos que a aplica¸c˜ao i12 : M1 → M2 ´e cont´ınua em M1.
Como f2 ´e cont´ınua em M2 segue que (*) que f1 ser´a cont´ınua em M1, mostrando que 2. ´e
verdadeira.
Mostremos que (2. ⇒ 3.):
Segue como caso particular de 2. (basta tomar N
.
= R), com isto obtemos que 3. ´e verdadeira.
Mostremos que (3. ⇒ 4.):
Sabemos que a aplica¸c˜ao
d2a : M2 → R dada por d2a(x)
.
= d2(a, x), x ∈ M
´e cont´ınua em M2.
Logo do item 3. segue a aplica¸c˜ao d2a : M1 → R tamb´em ser´a cont´ınua em M1, mostrando
que 4. ´e verdadeira.
Mostremos que (4. ⇒ 1.):
Por hip´otese, sabemos que a aplica¸c˜ao
d2a : M1 → R dada por d2a(x)
.
= d2(a, x), x ∈ M
´e cont´ınua em M1.
Mostremos que a aplica¸c˜ao i12 : M1 → M2 ´e cont´ınua em M1.
Para isto precisamos mostrar que i12 : M1 → M2 ´e cont´ınua em b ∈ M, b arbitr´ario.
92 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Como a aplica¸c˜ao d2a : M1 → R ´e cont´ınua em a ∈ M, dado ε  0 temos que existe δ  0
tal que se d1(x, a)  δ ent˜ao
|d2a(x) − d2a(a)|  ε, isto ´e, ε  |d2(x, a) − d2(a, a)| = d2(x, a).
Portanto
Bd1 (a; δ) ⊆ Bd2 (a; ε).
Logo se d1(x, a)  δ, isto ´e, se x ∈ Bd1 (a; δ), segue que x ∈ Bd2 (a; ε), ou seja,
ε  d2(x, a) = d2(i12(x), i12(a)),
ou ainda
d2(i12(x), i12(a))  ε.
Logo i12 : M1 → M2 ´e cont´ınua em a ∈ M.
Assim que d1 d2, mostrando que (4. ⇒ 1.).
Mostremos que (4. ⇔ 5.):
Sabemos que a aplica¸c˜ao
d2a : M1 → R dada por d2a(a, x), x ∈ M1
´e cont´ınua em M1.
Logo dada a bola aberta Bd2 (a; ε), da cont´ınuidade da aplica¸c˜ao acima no ponto a, segue
que existe δ  0 tal que se d1(x, a)  δ (ou seja, se x ∈ Bd1 (a; δ)) ent˜ao
ε  |d2a(x) − d2a(a)| = |d2(x, a) − d2(a, a)| = d2(x, a),
(ou seja, x ∈ Bd2 (a; ε)).
Portanto, se
x ∈ Bd1 (a; δ) ent˜ao x ∈ Bd2 (a; ε).
Logo
Bd1 (a; δ) ⊆ Bd2 (a; ε),
mostrando que (4. ⇒ 5.).
Por outro lado, se toda bola aberta segundo d2 cont´em uma bola aberta de mesmo centro
segundo d1 ent˜ao dados a ∈ M e ε  0 segue que existe δ  0 tal que
Bd1 (a; δ) ⊆ Bd2 (a; ε).
Logo se d1(x, a)  δ (ou seja, x ∈ Bd1 (a; δ)) teremos que x ∈ Bd2 (a; ε) (*), isto ´e,
|d2a(x) − d2a(a)| = |d2(x, a) − d2(a, a)| = d2(x, a)
(∗)
 ε,
mostrando que a aplica¸c˜ao d2a : M1 → R ´e cont´ınua em M1, ou seja, que (5. ⇒ 4.).
Mostremos que (6. ⇒ 4.):
Se a aplica¸c˜ao d2 : M1 × M1 → R ´e cont´ınua em M1 × M1 ent˜ao a sua restri¸c˜ao ao conjunto
{a} × M1 tamb´em ser´a, isto ´e,
d2|{a}×M1
: {a} × M1 → R
3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTES EM UM ESPAC¸O M´ETRICO 93
ser´a cont´ınua em {a} × M1.
Observemos que d2a = d2|{a}×M1
, portanto d2a ser´a cont´ınua em M1, mostrando que (6. ⇒
4.).
Mostremos que (1. ⇒ 6.):
Se d1 d2 ent˜ao a aplica¸c˜ao i12 : M1 → M2 ser´a cont´ınua em M1.
Logo do corol´ario (3.2.2) segue que a aplica¸c˜ao identidade
id : M1 × M1 → M2 × M2
tamb´em ser´a cont´ınua em M1 × M1 (pois id = (i12, i12) e i12 ´e cont´ınua em M1).
Portanto a m´etrica em M1 × M1 ´e mais fina que a m´etrica em M2 × M2.
Sabemos que d2 : M2 × M2 → R ´e cont´ınua em M2 × M2 logo, como (1. ⇒ 3.), segue que
d2 : M1 × M1 → R tamb´em ser´a cont´ınua em M1 × M1, mostrando que (1. ⇒ 6.).
Um outro resultado ´util ´e dado pela
Proposi¸c˜ao 3.4.4 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e uma aplica¸c˜ao f : M → N
injetiva. Ent˜ao
f ´e cont´ınua em M se, e somente se, a m´etrica dM d1, onde d1 ´e a m´etrica induzida em
M pela aplica¸c˜ao f.
Demonstra¸c˜ao:
Podemos supor, sem perda de generalidade que f ´e sobrejetora, isto ´e, N = f(M) (pois caso
contr´ario trocamos N por f(M) munido da m´etrica induzida por N).
Indicaremos por M1
.
= (M, d1), onde d1 : M × M → R ´e dada por
d1(x, y)
.
= dN (f(x), f(y)), x, y ∈ M
e
f1
: M1 → N dada por f1
(x)
.
= f(x), x ∈ M
(que ser´a uma isometria) e por
iM1 : (M, dM ) → (M, d1)
a aplica¸c˜ao identidade.
Com isto temos o seguinte diagrama
E
c
Q
(M, dM ) (N, dN )
(M, d1)
iM1
f
f1
´e isometria
Temos que f1 ´e uma isometria, pois a m´etrica d1 ´e a m´etrica induzida por f em M.
Como f1 ´e bijetora segue que ser´a um homeomorfismo de M1 em N.
Como
f = f1
◦ iM1
94 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
segue que f ´e cont´ınua em M se, e somente se, iM1 ´e cont´ınua em M, ou seja, dM d1,
completando a demostra¸c˜ao da proposi¸c˜ao.
Temos a seguinte defini¸c˜ao
Defini¸c˜ao 3.4.2 Sejam d1 e d2 m´etricas em M.
Diremos que as m´etricas d1 e d2 s˜ao equivalentes, denotando por d1 ∼ d2, se a aplica¸c˜ao
i12 : (M, d1) → (M, d2) for um homeomorfismo.
Observa¸c˜ao 3.4.4
1. As m´etricas d1 e d2 em M s˜ao equivalentes se, e somente se, d1 d2 e d2 d1.
2. A rela¸c˜ao ∼ no conjunto formado por todas as m´etricas definidas em M ´e uma rela¸c˜ao de
equivalˆencia, isto ´e, satisafaz as seguintes condi¸c˜oes:
(a) para toda m´etrica d1 em M temos d1 ∼ d1 (reflexiva);
(b) se d1 e d2 s˜ao m´etricas em M satisfazem d1 ∼ d2 ent˜ao d2 ∼ d1 (sim´etrica);
(c) se d1, d2 e d3 s˜ao m´etricas em M satisfazem d1 ∼ d2 e d2 ∼ d3 ent˜ao d1 ∼ d3
(transitiva).
A demonstra¸c˜ao deste fatos ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
3. Segue da proposi¸c˜ao (3.4.3) que duas m´etricas em M s˜ao equivalentes se, e somente se,
toda bola aberta segundo uma das m´etricas contenha uma bola aberta, de mesmo centro,
segundo a outra m´etrica.
4. Observemos que duas m´etricas discretas em M s˜ao sempre equivalentes, pois toda bola
aberta segundo uma ser´a uma bola aberta segunda a outra.
Al´em disso, vale observar que se d1 ∼ d2 e d1 ´e uma m´etrica discreta em M ent˜ao, da
proposi¸c˜ao (3.4.1) segue que d2 tamb´em ser´a uma m´etrica discreta em M.
5. A proposi¸c˜ao (3.4.3) nos garante que se d1 ∼ d2 em M ent˜ao uma aplica¸c˜ao
f : (M, d1) → (N, dN )
ser´a cont´ınua em (M, d1) se, e somente se,
f : (M, d2) → (N, dN )
ser´a cont´ınua em (M, d2).
Conclus˜ao: se trocarmos a m´etrica de uma espa¸co m´etrica por uma outra equivalente a
mesma, estudar a continuiade de uma fun¸c˜ao segundo a primeira m´etrica ´e equivalente a
estudar a continuidade da fun¸c˜ao segundo a outra m´etrica.
A seguir consideraremos alguns exemplos importantes.
Exemplo 3.4.2 Consideremos [0, 2π) e S1 = {(x, y) ∈ R2 : x2 +y2 = 1} munidos das m´etricas,
d[0,2π), dS1 , induzidas pelas m´etricas usuais de R e R2, respectivamente e
f : [0, 2π) → S1
3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTES EM UM ESPAC¸O M´ETRICO 95
dada por
f(t)
.
= (cos(t), sen(t)), t ∈ [0, 2π).
Vimos que a aplica¸c˜ao f ´e cont´ınua e bijetora em [0, 2π).
Logo, da proposi¸c˜ao acima, segue que a m´etrica d[0,2π) ´e mais fina que a m´etrica induzida
pela aplica¸c˜ao f, isto ´e, que a m´etrica
d1(x, y)
.
= dS1 (f(x), f(y)) = dS1 ((cos(x), sen(x)), (cos(y), sen(y)))
= [cos(x) − cos(y)]2 + [sen(x) − sen(y)]2, x, y ∈ [0, 2π).
Exemplo 3.4.3 As m´etricas d, d e d em Rn s˜ao equivalentes.
De fato, da proposi¸c˜ao (2.1.1) segue que para todo x, y, ∈ Rn temos
d (x, y) ≤ d(x, y) ≤ d (x, y) ≤ n d (x, y). (∗)
Logo a proposi¸c˜ao (3.4.2) implicar´a que as m´etricas d, d e d s˜ao equivalentes em Rn.
Observa¸c˜ao 3.4.5
No exemplo acima se n = 2 temos garantido que toda bola aberta, segundo a m´etrica d
(neste caso as bolas s˜ao os interiores dos discos), cont´em uma bola aberta, segundo a m´etrica
d (neste caso as bolas s˜ao os interiores dos quadrados cujas diagonais s˜ao paralelas aos eixos
coordenados) que, por sua vez, cont´em uma bola aberta, segundo a m´etrica d (neste caso as
bolas s˜ao os interiores dos quadrados cujos lados s˜ao paralelas aos eixos coordenados) que, por
fim, cont´em uma bola aberta, segundo a m´etrica d (neste caso as bolas s˜ao os interiores dos
discos).
Geometricamente temos a seguinte configura¸c˜ao:
Bd(a; r)
c
' Bd (a, r )
c
Bd (a; r )
i
Bd(a; s)
a
Em particular, para estudar a continuidade de uma fun¸c˜ao f : Rn → R onde em Rn temos,
por exemplo, a m´etrica d, podemos trocar a mesma pela m´etrica d ou d , e estudar a conti-
nuidade da fun¸c˜ao dada com rela¸c˜ao a esta nova m´etrica que o resultado obtido ser´a o mesmo
o obtido com a m´etrica d.
Como conseq¨uˆencia da proposi¸c˜ao (3.4.2) temos o
Corol´ario 3.4.1 Sejam d1 e d2 duas m´etricas em M tais que existem α, β  0 tais que
αd1(x, y) ≤ d2(x, y) ≤ βd1(x, y), x, y ∈ M. (∗)
Ent˜ao d1 ∼ d2.
96 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Demonstra¸c˜ao:
Denotemos por
αd1(x, y)
(I)
≤ d2(x, y)
(II)
≤ βd1(x, y), x, y ∈ M.
De (I) temos que
d1(x, y) ≤
1
α
d2(x, y), x, y ∈ M.
Logo, da proposi¸c˜ao (3.4.2), segue que d2 d1.
Como
d2(x, y) ≤ βd1(x, y), x, y ∈ M,
da proposi¸c˜ao (3.4.2), segue que d1 d2, portanto d1 ∼ d2, como quer´ıamos demonstrar.
Exemplo 3.4.4 Seja d uma m´etrica em M.
Definamos em M:
d1, d2 : M × M → R por d1(x, y)
.
=
d(x, y)
1 + d(x, y)
, d2(x, y)
.
= min{1, d(x, y)}, x, y ∈ M.
Pode-se mostrar (ser´a como exerc´ıcio para o leitor) que d1 e d2 s˜ao m´etricas em M.
Afirmamos que d1 ∼ d ∼ d2.
De fato, observemos que
d1(x, y) ≤ d(x, y), e d2(x, y) ≤ d(x, y), x, y ∈ M,
logo d d1 e d d2.
Por outro lado, dado ε  0 sejam
δ1
.
=
ε
1 + ε
 0 e δ2
.
= min{1, ε}  0.
Se x ∈ Bd1 (a; δ1) temos que
d1(x, a)  δ1
assim
d(x, a)
1 + d(x, a)

ε
1 + ε
⇐⇒ d(x, a)[1 + ε]  ε[1 + d(x, a)] ⇐⇒ d(x, a)  ε,
ou seja, dado ε  0 existe δ1  0 tal que
Bd1 (a; δ1) ⊆ Bd(a; ε),
mostrando que d1 d.
De modo semelhante, se x ∈ Bd2 (a; δ2) temos que
d2(x, a)  δ2 ≤ 1.
Logo d2(x, a)  1 e assim
d(x, a) = d2(x, a)  min{1, ε}  ε
que implicar´a que d(x, a)  ε, ou seja, dado ε  0 existe δ2  0 tal que
Bd2 (a; δ2) ⊆ Bd(a; ε),
mostrando que d2 d.
Com isto temos que d1 ∼ d ∼ d2, como quer´ıamos mostrar.
3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTES EM UM ESPAC¸O M´ETRICO 97
Observa¸c˜ao 3.4.6
1. Observemos que as m´etricas d1 e d2 s˜ao limitadas em M × M pois
d1(x, y) =
d(x, y)
1 + d(x, y)
[d(x,y)≤1+d(x,y)]
≤ 1, x, y ∈ M
e
d2(x, y) ≤ 1, x, y ∈ M.
Conclus˜ao: toda m´etrica em M ´e equivalente a uma m´etrica limitada em M.
2. Observemos que se a m´etrica d ´e n˜ao limitada em M ent˜ao n˜ao existe β  0 tal que
d(x, y) ≤ β dj(x, y), x, y ∈ M, j = 1, 2. (∗∗)
De fato, se existisse β  0 com a propriedade (**) dever´ıamos ter, no caso j = 1:
d(x, y) ≤ β
d(x, y)
1 + d(x, y)
=⇒ d(x, y)[1 + d(x, y)] ≤ β d(x, y)
[x=y]
=⇒ d(x, y) ≤ β − 1, x, y ∈ M,
ou seja, a m´etrica d deveria ser limitada, o que ´e um absurdo.
Para o caso j = 2, se existisse β  0 com a propriedade (**) dever´ıamos ter:
d(x, y) ≤ β min{1, d(x, y)}
≤1
=⇒ d(x, y) ≤ β, x, y ∈ M,
ou seja, a m´etrica d deveria ser limitada, o que ´e um absurdo.
Logo podemos concluir que a condi¸c˜ao (*) dada pelo corol´ario (3.4.1) ´e suficiente, mas
n˜ao ´e necess´aria, para que duas m´etricas sejam equivalentes em M.
3. A observa¸c˜ao (3.4.3) item 2. nos mostra que em C0([a, b]) as m´etricas
d(f, g) = sup
a≤x≤b
|f(x) − g(x)| e d1(f, g) =
b
a
|f(x) − g(x)| dx,
onde f, g ∈ C0([a, b]), n˜ao s˜ao m´etricas equivalentes.
Temos a
Proposi¸c˜ao 3.4.5 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N bije¸c˜ao. Ent˜ao:
f ´e um homeomorfismo de M em N se, e somente se, a m´etrica dM ´e equivalente `a m´etrica
dN em M, induzida pela aplica¸c˜ao f.
Demonstra¸c˜ao:
Definamos
f1 : (M, d1) → (N, dN ) dada por f1(x)
.
= f(x), x ∈ M.
Logo f1 ´e bijetora de M em N.
Al´em disso, temos que f1 ´e uma isometria de (M, d1) em (N, dN ), pois
d1(x, y)
.
= dN (f(x), f(y)), x, y ∈ M.
98 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Logo um homeomorfismo de M em N.
Assim sua fun¸c˜ao inversa
(f1)−1
: (N, dN ) → (M, d1)
ser´a cont´ınua em N.
Consideremos as aplica¸c˜oes identidades
i1M : (M, d1) → (M, dM ) e iM1 : (M, dM ) → (M, d1).
Ent˜ao teremos
iM1 = (f1)−1
◦ f i1M = f−1
◦ f1.
(veja diagrama abaixo)
E
T Q
(M, dM ) (N, dN )
(M, d1)
i1M
f
f1 ´e isometria
'
C
f−1
f−1
1
c
iM1
Logo d1 dM (ou seja, a aplica¸c˜ao i1M ´e cont´ınua) se, e somente se, f−1 for cont´ınua.
Por outro lado, dM d1 (ou seja, a aplica¸c˜ao iM1 ´e cont´ınua) se, e somente se, f for cont´ınua.
Conclus˜ao: d1 ∼ dM se, e somente se, f ´e um homeomorfismo.
Observa¸c˜ao 3.4.7 Da proposi¸c˜ao acima segue que no exemplo (3.4.2) a m´etrica induzida em
[0, 2π) pela m´etrica usual de R e a m´etrica induzida em [0, 2π) pela fun¸c˜ao cont´ınua e bije-
tora f : [0, 2π) → S1 n˜ao s˜ao equivalentes (pois, como vimos no exemplo (3.3.3), f n˜ao ´e
homeomorfismo).
A seguir temos os
Exerc´ıcio 3.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N. Ent˜ao:
f ´e cont´ınua em M se, e somente se, a m´etrica df : M × M → R dada por
df (x, y)
.
= d(x, y) + dN (f(x), f(y)), x, y ∈ M
´e equivalente a m´etrica dM .
De fato, se f ´e cont´ınua em M ent˜ao tomando-se a m´etrica
dM×N [(x, y), (x , y )]
.
= dM (x, x ) + dN (y, y ) (x, y), (x , y ) ∈ M × N,
da proposi¸c˜ao (3.3.5), temos que a aplica¸c˜ao
˜f : M → G(f) ⊆ M × N
dada por
˜f(x)
.
= (x, f(x)), x ∈ M
´e um homeomorfismo de M sobre o gr´afico de f, isto ´e, sobre G(f) ⊆ M × N.
3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTES EM UM ESPAC¸O M´ETRICO 99
Observemos que a m´etrica df ´e a m´etrica induzida em M pelo homeomorfismo ˜f, logo, pela
proposi¸c˜ao (3.4.5), ela ser´a equivalente a m´etrica dM .
Reciprocamente, como a aplica¸c˜ao
f : (M, df ) → (M, d1)
´e um contra¸c˜ao fraca segue que ser´a cont´ınua segundo df .
Como dM ∼ d1 segue que a aplica¸c˜ao f ser´a cont´ınua segundo dM , completando a demon-
stra¸c˜ao do resultado.
Como conseq¨uˆecia temos o
Exerc´ıcio 3.4.2 Consideremos R com a m´etrica usual. Se f : (M, dM ) → R ´e cont´ınua em M
ent˜ao a m´etrica
df (x, y)
.
= d(x, y) + dR(f(x), f(y)), x, y ∈ M
ser´a equivalente a m´etrica dM .
Para ver isto basta tomar N = R com a m´etrica usual.
Para finalizar a se¸c˜ao temos a
Proposi¸c˜ao 3.4.6 Sejam M1 = (M, d1), M2 = (M, d2), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e em R a
m´etrica usual .
S˜ao equivalentes:
1. d1 ∼ d2;
2. f : M1 → N ´e cont´ınua em M1 se, e somente se, f : M2 → N ´e cont´ınua em M2;
3. f : M1 → R ´e cont´ınua em M1 se, e somente se, f : M2 → R ´e cont´ınua em M2;
4. Para todo a ∈ M as fun¸c˜oes d1a : M2 → R e d2a : M1 → R dadas por
d1a(x)
.
= d1(a, x), d2a(x)
.
= d2(a, x), x ∈ M
s˜ao cont´ınuas no ponto a;
5. Toda bola aberta segundo a m´etrica d1 cont´em uma bola aberta, de mesmo centro, segundo
a m´etrica d2 e toda bola aberta segundo a m´etrica d2 cont´em uma bola aberta, de mesmo
centro, segundo a m´etrica d1;
6. As fun¸c˜oes d1 : M2 × M2 → R e d1 : M1 × M1 → R s˜ao cont´ınuas em M2 × M2 e
M1 × M1, respectivamente (onde nos correspondentes produtos cartesianos consideramos
uma das trˆes m´etricas canˆonicas).
Demonstra¸c˜ao:
Conseq¨uˆencia da proposi¸c˜ao (3.4.3).
25.09.2008 - 13.a
100 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
3.5 Transforma¸c˜oes lineares e multilineares definidas em espa¸cos
vetoriais normados
Come¸caremos pela
Defini¸c˜ao 3.5.1 Sejam E, F espa¸cos vetoriais sobre R.
Diremos que uma aplica¸c˜ao f : E → F ´e uma transforma¸c˜ao linear de E em F se ela
tem as seguintes propriedades:
f(x + y) = f(x) + f(y), (3.1)
f(λx) = λf(x), (3.2)
onde x, y ∈ E, λ ∈ R.
Se na situa¸c˜ao acima F = E (isto ´e, f : E → E) ent˜ao a aplica¸c˜ao f ser´a dita operador
linear em E.
Se na situa¸c˜ao acima F = R (isto ´e, f : E → R) ent˜ao a aplica¸c˜ao f ser´a dita funcional
linear em E.
Observa¸c˜ao 3.5.1
1. Vale observar que a adi¸c˜ao do lado esquerdo de (3.1) ´e adi¸c˜ao em E e a adi¸c˜ao do lado
direito de (3.1) ´e adi¸c˜ao em F.
Al´em disso, a multiplica¸c˜ao por n´umero real do lado esquerdo de (3.1) ´e a multiplica¸c˜ao
por n´umero real em E e a multiplica¸c˜ao por n´umero real do lado direito de (3.1) ´e a
multiplica¸c˜ao por n´umero real em F.
2. Como conseq¨uˆencia de (3.1) e (3.2) temos que
f(λ1x1 + λ2x2 + · · · + λnxn) = λ1f(x1) + λ2f(x2) + · · · + λnf(xn),
onde x1, x2, · · · , xn ∈ E e λ1, λ2, · · · , λn ∈ R.
A demonstra¸c˜ao deste fato ´e vista no curso de ´Algebra Linear.
3. Nosso objetivo nesta se¸c˜ao ´e estudar a continuidade de transforma¸c˜oes lineares entre
espa¸cos vetoriais normados.
Com isto temos o
Teorema 3.5.1 Sejam Rn com uma das trˆes normas usuais e (F, . F ) espa¸co vetorial nor-
mado.
Se f : Rn → F ´e uma transforma¸c˜ao linear ent˜ao f ´e cont´ınua em Rn.
Demonstra¸c˜ao:
Seja B
.
= {e1, e2, · · · , en} a base canˆonica do Rn (ou seja, ek
.
= (0, · · · , 0, 1
k−´esima posi¸c˜ao
, 0, · · · , 0)).
Logo se x ∈ Rn temos que
x = x1e1 + x2e2 + · · · + xnen,
para xi ∈ R, i = 1, 2, · · · , n.
3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OES LINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO
Como f ´e uma trasforma¸c˜ao linear temos que
f(x) = f(x1e1 + x2e2 + · · · + xnen) = x1f(e1) + x2f(e2) + · · · + xnf(en).
Portanto
f(x) F = x1f(e1) + x2f(e2) + · · · + xnf(en) F
≤ x1f(e1) + x2f(e2) + · · · + xnf(en) F
= |x1| f(e1) + |x2| f(e2) + · · · + |xn| f(en) F . (3.3)
Consideremos
c
.
= max{ f(e1) , f(e2) , · · · , f(en) F }.
Logo segue de (3.3) que
f(x) F ≤ c(|x1| + |x2| + · · · + |xn|).
Se considerarmos a norma em Rn da soma (isto ´e, x = |x1| + |x2| + · · · + |xn|, onde
x = (x1, x2, · · · , xn)) ent˜ao segue da desigualdade acima que
f(x) F ≤ c x Rn , x ∈ Rn
.
Logo se x, y ∈ Rn temos que
f(x) − f(y F = f(x − y) F ≤ c x − y Rn ,
mostrando que a aplica¸c˜ao f ´e lipschitiziana, em particular cont´ınua em Rn.
Como as m´etricas d, d e d (que prov´em das trˆes normas usuais) s˜ao equivalentes temos que
a transforma¸c˜ao linear f : Rn → F ser´a cont´ınua em Rn com qualquer uma das trˆes m´etricas
usuais.
Observa¸c˜ao 3.5.2 O resultado acima nos diz que uma transforma¸c˜ao linear definida em espa¸co
vetorial normado de dimens˜ao finita e tomando valores em outro espa¸co vetorial normado ´e
sempre cont´ınua.
Isto segue do fato que todo espa¸co vetorial de dimens˜ao finita ´e isomorfo a Rn para algum
n ∈ N.
O mesmo n˜ao ´e verdade se a dimens˜ao do espa¸co vetorial do dom´ınio n˜ao for finita, como
mostra o seguinte exemplo.
Exemplo 3.5.1 Seja E o conjunto formado por todos os polinˆomios reais de uma vari´avel real
munido dadas opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao de fun¸c˜oes e multiplica¸c˜ao de n´umero real por fun¸c˜oes.
No curso de ´Algebra Linear mostra-se que E munido das opera¸c˜oes acima ´e um espa¸co
vetorial sobre R (na verdade ´e um subespa¸co vetorial das fun¸c˜oes reais cont´ınuas de uma vari´avel
real).
Podemos definir em E a seguinte norma: se p ∈ E temos
p
.
= sup
0≤x≤1
|p(x)|.
A verifica¸c˜ao que de fato isto define uma norma em E ser´a deixada como exerc´ıcio para o
leitor.
102 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Consideremos f : E → R dada por
f(p)
.
= p(2), p ∈ E.
Ser´a deixado para o leitor verificar que f ´e um funcional linear definido em E.
Afirmamos que f n˜ao ´e cont´ınua em 0 ∈ E (o polinˆomio nulo).
De fato, se tomarmos ε =
1
2
 0, para cada n ∈ N consideramos o polinˆomio pn(x)
.
= (
x
2
)n
,
x ∈ R.
Obviamente que para todo n ∈ N temos que pn ∈ E e
pn − 0 = sup
0≤x≤1
|pn(x) − 0(x)| = sup
0≤x≤1
|pn(x)|
[pn ´e crescente]
= pn(1) = (
1
2
)n
=
1
2n
.
Logo pn → 0 em E, quando n → ∞ mas
|f(pn) − f(0)| = |f(pn)| = pn(2) = (
2
2
)n
= 1 
1
2
= ε,
mostrando que f ´e um funcional linear que n˜ao ´e cont´ınuo em E.
Em geral temos o seguinte resultado importante:
Teorema 3.5.2 Sejam (E, . E) e (F, . F ) espa¸cos vetoriais e f : E → F uma transforma¸c˜ao
linear.
S˜ao equivalentes:
1. f ´e cont´ınua em E;
2. f ´e cont´ınua em 0 ∈ E;
3. Existe c  0 tal que
f(x) F ≤ c x E, x ∈ E; (∗)
4. Existe c  0 tal que
f(x) − f(y) F ≤ c x − y E, x, y ∈ E. (∗∗)
Demonstra¸c˜ao:
Mostraremos que o diagram abaixo ocorre:
E
c
'
T
1. 2.
3.4.
A implica¸c˜ao (1. ⇒ 2.) ´e trivial;
Mostremos que (2. ⇒ 3.):
Como f ´e cont´ınua em 0 ∈ E e f(0) = 0 (pois f ´e uma transforma¸c˜ao linear) tomando-se
ε = 1  0 existir´a δ  0 tal que
x = x − 0 E  δ ent˜ao f(x) = f(x) − f(0)
=0
F  ε = 1. (∗ ∗ ∗)
3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OES LINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO
Seja c  0 tal que 0 
1
c
 δ.
Se x = 0 ent˜ao teremos
f(x) F = 0 = 0 ≤ c.0 = c 0 E = c x E,
mostrando que (*) ocorrer´a.
Se x = 0 ent˜ao
1
c x E
x ∈ E ´e um vetor que satisfaz
1
c x E
x E =
1
c x E
x E =
1
c
 δ.
Logo, de (***), segue que
f(
1
c x E
x) F ≤ 1. (∗ ∗ ∗∗)
Mas f ´e uma trasforma¸c˜ao linear, logo
f(
1
c x E
x) =
1
c x E
f(x),
assim (****) implicar´a em
1
c x E
f(x) F =
1
c x E
f(x) F ≤ 1,
ou ainda,
f(x) F ≤ c x E,
como quer´ıamos mostrar.
Mostremos que (3. ⇒ 4.):
Observemos que se x, y ∈ E temos que
f(x) − f(y) F
[f ´e linear]
= f(x − y) F
(∗)
≤ c x − y F ,
como quer´ıamos mostrar.
A implica¸c˜ao (4. ⇒ 1.) ´e imediata (pois (**) garante que f ´e lischitiziana em E logo cont´ınua
em E).
Como conseq¨uˆemcia temos o
Corol´ario 3.5.1 Sejam (E, . E) e (F, . F ) espa¸cos vetoriais e f : E → F uma transforma¸c˜ao
linear bijetora.
f ´e um homeomorfismo de E em F se, e somente se, existem c, C  0 tais que
c x E ≤ f(x) F ≤ C x E, x ∈ E.
Demonstra¸c˜ao:
Lembremos que se f : E → F ´e uma transforma¸c˜ao linear bijetora ent˜ao sua fun¸c˜ao inversa
f−1 : F → E tamb´em ser´a uma transforma¸c˜ao linear (bijetora).
104 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Da proposi¸c˜ao acima temos que a condi¸c˜ao:
f(x) F ≤ C x E, x ∈ E
´e equivalente a f ser cont´ınua em E.
Por outro lado se y ∈ F ent˜ao y = f(x) para algum x ∈ E, ent˜ao x = f−1(y), logo a
desigualdade
c x E ≤ f(x) F , x ∈ E.
nos diz que
c f−1
(y) E ≤ y F , y ∈ F,
ou seja,
f−1
(y) E ≤
1
c
y F , y ∈ F,
que, pela proposi¸c˜ao acima, ´e equivalente a dizer que f−1 ser cont´ınua em F, como quer´ıamos
mostrar.
A seguir exibiremos um exemplo de uma transforma¸c˜ao linear bijetora que n˜ao ´e um homeo-
morfismo (isto ´e, sua transforma¸c˜ao linear inversa n˜ao ser´a cont´ınua).
Exemplo 3.5.2 Consideremos R∞ o conjunto formado por todas as seq¨uˆencias de n´umeros
reais, x = (xn)n∈N, tal, no m´aximo, um n´umero finito de coordenadas xn ´e n˜ao nula, isto ´e,
x ∈ R∞
⇔ x = (xn)n∈N e xn = 0, somente para n ∈ {n1, n2, · · · , nm} ⊆ N.
Podemos mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que R∞ ´e um espa¸co veto-
rial sobre R munido das opera¸c˜oes de adi¸c˜ao de seq¨uˆencias e multiplica¸c˜ao de n´umero real por
seq¨uˆencias.
Consideremos em R∞ a seguinte norma (cuja verifica¸c˜ao ser´a deixada como exerc´ıcio do
leitor): se x ∈ R∞ temos que
x E
.
= x2
1 + x2
2 + · · · + x2
n + · · · =
∞
j=1
|xj|2
que prov´em do produto interno: se x, y ∈ R∞ temos que
 x, y E
.
= x1.y1 + x2.y2 + · · · + xn.yn + · · · =
∞
j=1
xj.yj.
Observemos que ambas as s´eries acima reduzem-se a somas finitas (pois as seq¨uˆencias s˜ao
nulas, exceto para um n´umero finito de termos).
Definamos
f : R∞
→ R∞
por
f(x) = f(x1, x2, · · · , xn, · · · )
.
= (
x1
1
,
x2
2
, · · · ,
xn
n
, · · · ), x = (x1, x2, · · · , xn, · · · ) ∈ R∞
.
3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OES LINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO
Observemos que f ´e um operador linear (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) e
f(x) 2
E =
∞
j=1
|f(xj)|2
=
∞
j=1
|
xj
j
|2
[|
xj
j
|≤|xj|]
≤
∞
j=1
|xj|2
= x 2
E,
se x ∈ R∞, ou seja,
f(x) E ≤ x E, x ∈ E.
Logo do teorema (3.5.2) segue que f ´e cont´ınua em R∞.
Observemos que a fun¸c˜ao f admite fun¸c˜ao inversa que ´e dada por
f−1
(y) = f−1
(y1, y2, · · · , yn, · · · )
.
= (y1, 2.y2, · · · , n.yn, · · · ), y = (y1, y2, · · · , yn, · · · ) ∈ R∞
cuja verifica¸c˜ao ser´a deixada como exerc´ıcio para o letor (isto ´e, f ◦ f−1 = f−1 ◦ f = idR∞ ).
Mostremos que f−1 n˜ao ´e cont´ınua.
Para isto, para cada n ∈ N temos que o vetor en
.
= (0, · · · , 0, 1
n−´esima posi¸c˜ao
, 0, · · · ) que
pertence R∞ (pois s´o o termo da n-´esima posi¸c˜ao ´e n˜ao nulo, e igual a 1).
Observemos que
en
2
=
∞
j=1
|xj|2 [xj=0, n=j, xn=1]
= 1 e f−1
(en) 2
=
∞
j=1
|j.xj|2 [xj=0, n=j, xn=1]
= n2
.
Em particular,
f−1
(en) ≥ n en .
Fazendo n → ∞ segue, do teorema (3.5.2) item 3., que f−1 n˜ao ser´a cont´ınua.
Observa¸c˜ao 3.5.3 Sejam (E, . E), (F, . F ) espa¸cos vetoriais sobre R normados.
Consideremos
L(E; F)
.
= {f : E → F; f transforma¸c˜ao linear cont´ınua de E em F}
que torna-se um espa¸co vetorial sobre R munido das opera¸c˜oes de adi¸c˜ao de fun¸c˜oes e multi-
plica¸c˜ao de n´umero real por fun¸c˜ao (a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixado como exerc´ıcio para o
leitor).
1. Vale observar que f ∈ L(E; F) se, e somente se, f ´e limitada na bola fechada unit´aria
centrada na origem.
De fato, se f ∈ L(E; F), isto ´e, f ´e uma transforma¸c˜ao linear cont´ınua em E ent˜ao, do
teorema (3.5.2) item 3., segue que existe c  0 tal que
f(x) F ≤ c. x E, x ∈ E.
Logo se x ∈ B[0; 1] temos que x E ≤ 1 logo segue que
f(x) F ≤ c x E ≤ c,
mostrando que f ´e limitada em B[0; 1].
106 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Reciprocamente, se f ´e limitada em B[0; 1], existe c  0 tal que
f(x) F ≤ c, x ∈ B[0; 1]. (∗)
Logo se x = 0 temos que f(0) = 0 assim
f(x) F = 0 ≤ c.0 = c. x E.
Se x = 0 temos que se y
.
=
x
x E
∈ E ent˜ao y ∈ B[0; 1].
Logo de (*) temos que
c ≥ f(y) F = f(
x
x E
) F
[f ´e transform¸c˜ao linear]
=
1
x E
f(x) F =
1
x E
f(x) F ,
ou seja,
f(x) F ≤ c x E, x ∈ E,
logo, do teorema (3.5.2) item 3., segue que f ser´a cont´ınua em E.
2. Vale observar que f ∈ L(E; F) se, e somente se, f ´e limitada na esfera unit´aria centrada
na origem.
De fato, se f ∈ L(E; F), isto ´e, f ´e uma trasnforma¸c˜ao linear cont´ınua em E ent˜ao, do
teorema (3.5.2) item 3., segue que existe c  0 tal que
f(x) F ≤ c. x E, x ∈ E.
Logo se y ∈ S[0; 1] = {y ∈ E : y E = 1} segue que
f(y) F ≤ c,
mostrando que f ´e limitada em S[0; 1].
Reciprocamente, se f ´e limitada em S[0; 1], existe c  0 tal que
f(y) F ≤ c, y ∈ S[0; 1]. (∗∗)
Logo se x = 0 temos que f(0) = 0 assim
f(x) F = 0 ≤ c.0 = c. 0 E = c. x E.
Para x = 0 temos que se y
.
=
x
x E
∈ E ent˜ao y ∈ S[0; 1].
Logo de (**) temos que
c ≥ f(y) F = f(
x
x E
) F
[f ´e transform¸c˜ao linear]
=
1
x E
f(x) F =
1
x E
f(x) F ,
ou seja,
f(x) F ≤ c x E, x ∈ E,
logo, do teorema (3.5.2) item 3., segue que f ser´a cont´ınua em E.
3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OES LINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO
3. Podemos introduzir a seguinte norma em L(E; F):
f
.
= sup
x E=1
f(x) F , f ∈ L(E; F).
Ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao que . definida acima ´e uma norma
em L(E; F).
Temos a
Defini¸c˜ao 3.5.2 Sejam . 1 e . 2 normas definidas em E, um espa¸co vetorial sobre R.
Diremos que a norma . 1 ´e mais fina que a norma . 2 se a aplica¸c˜ao identidade
i12 : E1
.
= (E, . 1) → E2
.
= (E, . 2)
´e cont´ınua em E1.
Diremos que a norma . 1 ´e equivalente a norma . 2 se a aplica¸c˜ao identidade
i12 : (E, . 1) → (E, . 2)
´e um homeomorfismo entre E1 e E2.
Observa¸c˜ao 3.5.4 Suponhamos que a m´etrica em E1, que indicaremos por d1, ´e a proveniente
da norma . 1 e m´etrica em E2, que indicaremos por d2, ´e a proveniente da norma . 2.
Ent˜ao temos que: a norma . 1 ´e mais fina que a norma . 2 se, e somente se, a m´etrica
d1 ´e mais fina que a m´etrica d2.
Com isto temos a:
Proposi¸c˜ao 3.5.1 Sejam . 1 e . 2 normas definidas em E, um espa¸co vetorial sobre R.
As normas . 1, . 2 s˜ao equivalentes se, e somente se, existem α, β  0 tal que
α x 1 ≤ x 2 ≤ β x 2, x ∈ E.
Demonstra¸c˜ao:
A demonstra¸c˜ao ´e uma conseq¨uˆencia do corol´ario (3.4.1).
Temos a
Defini¸c˜ao 3.5.3 Sejam E1, E2, · · · , En, F espa¸cos vetoriais sobre R.
Diremos que uma aplica¸c˜ao
f : E1 × E2 × · · · × En → F
´e n-linear se ela for linear em cada uma de suas n-vari´aveis, ou seja, para cada j = 1, 2, · · · , n
temos que
f(x1, · · · , xj−1, xj+yj, xj+1, · · · , xn) = f(x1, · · · , xj−1, xj, xj+1, · · · , xn)+f(x1, · · · , xj−1, yj, xj+1, · · · , xn)
e
f(x1, · · · , xj−1, λxj, xj+1, · · · , xn) = λ f(x1, · · · , xj−1, xj, xj+1, · · · , xn),
onde (x1, · · · , xj−1, xj, xj+1, · · · , xn), (x1, · · · , xj−1, yj, xj+1, · · · , xn) ∈ E1 × · · · × Ej × · · · × En
e λ ∈ R,
108 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Observa¸c˜ao 3.5.5
1. Sejam E1, E2, · · · , En, F espa¸cos vetoriais sobre R. e suponhamos que
f : E1 × E2 × · · · × En → F
´e n-linear.
Ent˜ao se xj = 0 ∈ Ej para algum j ∈ {1, 2, · · · , n} ent˜ao
f(x1, · · · , xj−1, xj, xj+1, · · · , xn) = 0,
isto ´e,
f(x1, · · · , xj−1, 0, xj+1, · · · , xn) = 0,
De fato, pois
f(x1, · · · , xj−1, xj, xj+1, · · · , xn) = f(x1, · · · , xj−1, 0, xj+1, · · · , xn)
= f(x1, · · · , xj−1, 0.0, xj+1, · · · , xn)
[f ´e n-linear]
= 0.f(x1, · · · , xj−1, 0, xj+1, · · · , xn)
= 0,
ou seja,
f(x1, · · · , xj−1, 0, xj+1, · · · , xn) = 0.
2. Na situa¸c˜ao acima se n = 2 ent˜ao
f : E1 × E2 → F
ser´a dita bilinear e ´e caracterizada pelas seguintes propriedades:
(a) f(x1 + y1, x2) = f(x1, x2) + f(y1, x2);
(b) f(x1, x2 + y2) = f(x1, x2) + f(x1, y2);
(c) f(λ x1, x2) = λ f(x1, x2) e
(d) f(x1, λ x2) = λ f(x1, x2),
para xj, yj ∈ Ej, j = 1, 2 e λ ∈ R.
Observemos que do item 1. acima segue que
f(0E1 , x2) = f(x1, 0E2 ) = 0F ,
para xj ∈ Ej, j = 1, 2 (onde 0Ej ∈ Ej ´e o elemento neutro da adi¸c˜ao de Ej, j = 1, 2 e
0F ∈ F ´e o elemento neutro da adi¸c˜ao de F).
Temos os seguintes exemplos importantes de aplica¸c˜oes bilineares:
Exemplo 3.5.3 Seja E um espa¸co vetorial sobre R.
A multiplica¸c˜ao de n´umero real por vetor de E,
m : R × E → E, m(λ, x)
.
= λ.x, λ ∈ R, x ∈ E,
´e uma aplica¸c˜ao bilinear.
A verifica¸c˜ao deste fato ´e simples e ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OES LINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO
Exemplo 3.5.4 Seja E um espa¸co vetorial sobre R com produto interno.
O produto escalar de E,
 ., . : E × E → R,
´e uma aplica¸c˜ao bilinear.
A verifica¸c˜ao deste fato ´e simples e ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
Observa¸c˜ao 3.5.6
1. Suponhamos que E, F e G s˜ao espa¸cos vetoriais sobre R.
(a) Consideremos a aplica¸c˜ao
α : L(E; F) × E → F
dada por
α(f, x)
.
= f(x), (f, x) ∈ L(E; F) × E.
´E f´acil mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que a aplica¸c˜ao α ´e bilin-
ear.
(b) Consideremos a aplica¸c˜ao
µ : L(F; G) × L(E; F) → L(E; G)
dada por
µ(g, f)
.
= g ◦ f, (g, f) ∈ L(F; G) × L(E; F).
´E f´acil mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que a aplica¸c˜ao µ ´e bilinear.
2. Seja Rm espa¸co vetorial sobre R com as opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao de m-uplas e multi-
plica¸c˜ao de n´umero real por m-upla.
A aplica¸c˜ao
det : Rm
× · · · × Rm
m−fatores
→ R, det(x1, · · · , xm)
.
= x1 · · · xm ,
para (x1, · · · , xm) ∈ Rm
× · · · × Rm
m−fatores
, onde det denota o determinante da matriz quadrada
obtida colocando-se na j-´esima coluna da matriz as coordenadas do vetor xj, j ∈ {1, · · · , m}
(matriz das coordendas do vetor xj ´e da forma (xij)1≤i≤m, j ∈ {1, · · · , m} ).
A fun¸c˜ao determinante tem a seguinte propriedade:
det(x1, · · · , xj−1, λxj + yj, xj+1 · · · xm) = λ det(x1, · · · , xj−1, xj, xj+1 · · · xm)
+ det(x1, · · · , xj−1, yj, xj+1 · · · xm),
para (x1, · · · , xj−1, xj, xj+1 · · · xm), (x1, · · · , xj−1, yj, xj+1 · · · xm) ∈ Rm
× · · · × Rm
m−fatores
e λ ∈
R.
A demonstra¸c˜ao deste fato ´e vista no curso de ´Algebra Linear.
Logo, da rela¸c˜ao acima, segue que a aplica¸c˜ao
det : Rm
× · · · × Rm
m−fatores
→ R
´e m-linear.
110 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
30.09.2008 - 14.a
Com isto temos a:
Proposi¸c˜ao 3.5.2 Sejam (E, . E), (F, . F ), (G, . G) espa¸cos vetoriais sobre R normados,
E × F com uma das trˆes normas usuais e f : E × F → G ´e bilinear.
S˜ao equivalentes:
1. f ´e cont´ınua em E × F ;
2. f ´e cont´ınua em (0E, 0F ) ∈ E × F;
3. Existe c  0 tal que
f(x, y) G ≤ c x E y F ,
para (x, y) ∈ E × F;
4. f ´e uma aplica¸c˜ao lischitziana em cada subconjunto limitado de E × F.
Demonstra¸c˜ao:
Mostraremos que o seguinte diagrama ocorre:
E
c
'
T
1. 2.
3.4.
Segue imediatamente que (1. ⇒ 2.) e que (4. ⇒ 1).
Mostremos que (2. ⇒ 3.):
Consideremos em E × F a norma da soma das normas, isto ´e,
(x, y) E×F = x E + y F
(para os outros dois casos utilizamos o fato que as trˆes normas usuais s˜ao equivalentes).
Se f ´e cont´ınua em (0E, 0F ) ∈ E×F ent˜ao, como f(0E, 0F ) = 0G segue, tomando-se ε = 1  0
existir´a δ  0 tal que
x E + y F = (x, y) E×F  δ ent˜ao f(x, y) G ≤ ε = 1. (∗)
Seja c
.
=
4
δ2
 0.
Se (x, y) ∈ E × F e x = 0E ou y = 0F ent˜ao temos que f(x, y) = 0G logo para
f(x, y) G = 0G = 0 ≤ c ( x E y F ) (= 0).
Se (x, y) ∈ E × F s˜ao tais que x = 0E e y = 0F ent˜ao os vetores
X
.
=
δ
2 x E
x ∈ E, Y
.
=
δ
2 y F
y ∈ F,
3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OES LINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO
satisfazem
X E =
δ
2 x E
x E =
δ
2 x E
x E =
δ
2
 δ,
Y F =
δ
2 y F
y F =
δ
2 y F
y F =
δ
2
 δ,
assim
X E + Y F  δ.
Logo (*) implicar´a que
1 ≥ f(X, Y ) G = f(
δ
2 x E
x,
δ
2 y E
y) G
[fbilinear]
=
δ
2 x E
δ
2 y E
f(x, y) G
=
δ
2 x E
δ
2 y E
f(x, y) G,
ou seja,
f(x, y) G ≤
4
δ2
=c
x E y F , (x, y) ∈ E × F,
mostrando que 3. ´e verdadeira.
Mostremos que (3. ⇒ 4.):
Seja U ⊆ E × F um subconjunto limitado de E × F.
Logo existe r  0 tal que U ⊆ B[(0E, 0F ); r].
Mostremos que f ´e lipschitiziana na bola B[(0E, 0F ); r].
Se z
.
= (x, y), z
.
= (x , y ) ∈ B[(0E, 0F ); r] ent˜ao
f(z) − f(z ) = f(x, y) − f(x , y ) G = f(x, y) − f(x, y ) + f(x, y ) − f(x , y ) G
[fbiliear]
= f(x, y − y ) + f(x − x , y ) G ≤ f(x, y − y ) G + f(x − x , y ) G
[3.]
≤ c x E y − y G + c x − x E y G
[ x e, y F ≤r]
≤ cr y − y G + cr x − x E
= cr[ y − y G + x − x E] = cr z − z E×F ,
mostrando que 4.a ´e verdadeira e assim completando a demonstra¸c˜ao da proposi¸c˜ao.
Por indu¸c˜ao pode-se demostrar o
Corol´ario 3.5.2 Sejam (E1, . 1), (E2, . 2), · · · , (En, . n), (F, . F ) espa¸cos vetoriais sobre R
normados, E1 × · · · × En munido de uma das trˆes normas usuais e f : E1 × · · · × En → F ´e
n-linear.
S˜ao equivalentes:
1. f ´e cont´ınua em E1 × · · · × En;
2. f ´e cont´ınua em (0E1 , · · · , 0En ) ∈ E1 × · · · × En;
3. Existe c  0 tal que
f(x1, · · · , xn) F ≤ c x1 E1 · · · xn En ,
para (x1, · · · , xn) ∈ E1 × · · · × En;
112 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
4. f ´e uma aplica¸c˜ao lischitziana em cada subconjunto limitado de E1 × · · · × En.
Demonstra¸c˜ao:
Ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
Como conseq¨uˆencia temos o:
Corol´ario 3.5.3 Seja (F, . F ) um espa¸co vetorial sobre R normado e Rj espa¸co vetorial sobre
R munido de uma das trˆes normas usuais, j = m, n.
Se f : Rm × Rn → F ´e uma aplica¸c˜ao bilinear ent˜ao f ´e cont´ınua em Rm × Rn.
Demonstra¸c˜ao:
Consideraremos a norma da soma das normas em Rm, Rn (para as outras duas podemos
utilizar o fato que as respectivas normas s˜ao equivalentes `as respectivas norma da soma).
De fato, sejam Bm
.
= {e1, · · · , em} e Bn
.
= {e1 , · · · , en } as bases canˆonicas de Rm e Rn,
respectivamente.
Dado (x, y) ∈ Rm × Rn temos que existem x1, · · · xm ∈ R e y1, · · · yn ∈ R tais que
x =
m
i=1
xiei, e y =
n
j=1
yjej .
Como f ´e bilinear segue que
f(x, y) = f(
m
i=1
xiei,
n
j=1
yjej ) =
m
i=1
n
j=1
xiyjf(ei, ej ).
Seja
c
.
= max{f(ei, ej ) : i = 1, · · · , m, j = 1, · · · , n} ≥ 0. (∗)
Observemos que
x Rm =
m
i=1
|xi| e y Rn =
n
j=1
|yj|,
assim
f(x, y) F =
m
i=1
n
j=1
xiyjf(ei, ej ) F ≤
m
i=1
n
j=1
|xi||yj| f(ei, ej ) F
[(∗)]
≤
m
i=1
n
j=1
|xi||yj|c = c x Rm y Rn ,
e assim, da proposi¸c˜ao (3.5.2) item 3., segue que f ´e lipschitziana em Rm × Rn e portanto
cont´ınua em Rm × Rn.
Observa¸c˜ao 3.5.7
1. Se (E, . E) ´e um espa¸co vetorial sobre R, normado ent˜ao a aplica¸c˜ao bilinear (ver ob-
serva¸c˜ao (3.5.6) item 1.)
m : R × E → E m(λ, x) = λ x, (λ, x) ∈ R × E,
3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OES LINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO
ser´a cont´ınua em R × E.
Isto segue do fato que se (λ, x) ∈ R × E temos que
m(λ, x) E = λx E = |λ| x E = λ R x E,
ou seja, vale 3. da proposi¸c˜ao (3.5.2) (com c = 1).
Logo m ser´a cont´ınua em R × E (munido de uma das trˆes normas usuais).
2. Se (E,  ., . E) ´e um espa¸co vetorial sobre R com produto interno ent˜ao a aplica¸c˜ao
 ., . E: E × E → R,
´e uma aplica¸c˜ao bilinear cont´ınua em E × E.
O fato de ser bilinear ´e evidente da defini¸c˜ao de produto interno.
Da desigualdade de Cauchy-Schwarz temos que
|  x, y E | ≤ x E y E), x, y ∈ E.
Logo o item 3. da proposi¸c˜ao (3.5.2) ocorre (com c = 1) assim a aplica¸c˜ao  ., .  ser´a
cont´ınua em E × E.
3. Do corol´ario acima segue que a fun¸c˜ao determinante (ver observa¸c˜ao (3.5.6) item 2.) ser´a
cont´ınua em Rm
× · · · × Rm
m−fatores
.
Para finalizar temos o
Exerc´ıcio 3.5.1 Sejam (E, . E), (F, . F ) e (G, . G) s˜ao espa¸cos vetoriais sobre R normados
ent˜ao a aplica¸c˜ao
µ : L(F; G) × L(E; F) → L(E; G), µ(g, f)
.
= g ◦ f, (g, f) ∈ L(F; G) × L(E; F).
que ´e bilinear (ver observa¸c˜ao (3.5.6) item 1.) ´e cont´ınua em L(F; G) × L(E; F) munido da
norma usual.
De fato, observemos que se (f, g) ∈ L(F; G) × L(E; F) ent˜ao
(g ◦ f)(x) G ≤ g(f(x) G ≤ g L(F;G) f(x) F ≤ g L(F;G) f L(E;F), x ∈ S[0; 1].
Logo, se x ∈ S[0; 1] temos que
µ(f, g)(x) G = (g ◦ f)(x) G ≤ g L(F;G) f L(E;F)
ou seja,
µ(f, g) L(E;G) ≤ g L(F;G) f L(E;F), (f, g) ∈ L(F; G) × L(E; F),
e da proposi¸c˜ao (3.5.2) item 3., segue que µ ´e cont´ınua em L(F; G) × L(E; F).
At´e aqui para a 1.a Prova
114 CAP´ITULO 3. FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Cap´ıtulo 4
Conjuntos Abertos, Fechados -
Espa¸cos Topol´ogicos
4.1 Conjuntos abertos
Come¸caremos introduzindo uma s´erie de defini¸c˜oes que ser˜ao importantes no que se seguir´a:
Defini¸c˜ao 4.1.1 Seja X um subconjunto de (M, dM ) espa¸co m´etrico.
Diremos que um ponto a ∈ X ´e ponto interior ao conjunto X se o ponto a for centro de
uma bola aberta inteiramente contida em X, isto ´e, existe r  0 tal que
B(a; r) ⊆ X.
A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao
z
a
r X
M
O interior de X, indicado por int(X) ou
◦
X, ´e o conjunto formado por todos os pontos
interiores de X.
Definimos a fronteira de X em M, indicada por ∂X, como sendo o conjunto formado
pelos pontos b ∈ M tais que toda bola aberta centrada em b cont´em um ponto de X e um ponto
do complementar de X em M (ou seja, de M  X), isto ´e, b ∈ ∂X se, e somente se, para cada
s  0
B(b; s) ∩ X = ∅ e B(b; s) ∩ (M  X) = ∅.
A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao:
115
116 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
X
M
b
b
sx ∈ X
m ∈ M  X
Observa¸c˜ao 4.1.1
1. Na situa¸c˜ao acima, se b ∈ X n˜ao ´e ponto interior de X significa que toda bola aberta
centrada em b cont´em algum ponto de M que n˜ao est´a em X, ou seja, para todo s  0
temos que
B(b; s) ∩ (M  X) = ∅.
Neste caso, b ∈ ∂X.
2. Como veremos a seguir, um ponto de ∂X pode n˜ao pertencer a X.
Consideremos alguns exemplos:
Exemplo 4.1.1 Consideremos R munido da m´etrica usual e X = [0, 1) ⊆ R.
Neste caso temos que
int([0, 1)) = (0, 1), ∂([0, 1)) = {0, 1}.
De fato, se 0  a  1 ent˜ao tomando-se
r
.
= min{a, 1 − a}  0
segue que
(a − r, a + r) ⊆ [0, 1) = X.
De fato, se x ∈ (a − r, a + r) ent˜ao
0 = a − a
[r≤a]
≤ a − r  x  a + r
[r≤1−a]
≤ a + (1 − a) = 1,
mostrando que a ∈ int([0, 1)).
Logo (0, 1) ∈ int([0, 1)).
0 1
a
(a − r, a + r) ⊆ [0, 1)
Por outro lado, se 0, 1 ∈ ∂X pois toda bola aberta centrada em 0 cont´em n´umeros reais
menores que 0 (que n˜ao pertencem a [0, 1)) e n´umeros reais maiores que zero e menores que 1
(logo pertencentes a [0, 1)) e toda bola aberta centrada em 1 cont´em n´umeros reais menores que 1
e maiores que zero (que pertencem a [0, 1)) e n´umeros reais maiores que 1 (logo n˜ao pertencentes
a [0, 1)).
4.1. CONJUNTOS ABERTOS 117
0 10 − s = −s 0 + s = s
T T T T
1 − r 1 + r
x ∈ [0, 1) a ∈ [0, 1) a ∈ [0, 1) x ∈ [0, 1)
Conclus˜ao: int([0, 1)) = (0, 1) e ∂([0, 1)) = {0, 1}.
Observa¸c˜ao 4.1.2 No exemplo acima 0 ∈ [0, 1) e 0 ∈ ∂X, por outro lado, 1 ∈ [0, 1) e 1 ∈ ∂X.
Exemplo 4.1.2 Consideremos R munido da m´etrica zero-um e X = [0, 1) ⊆ R.
Neste caso temos que
int([0, 1)) = [0, 1), ∂([0, 1)) = ∅.
De fato, se a ∈ X ent˜ao tomando-se r
.
= 1
2 segue que
B(a; r) = {a} ⊆ X.
Portanto int(X) = X.
Por outro lado, para todo b ∈ R temos que B(b; 1
2 ) = {b} que s´o cont´em o ponto b.
Portanto nenhum ponto de R ´e ponto de fronteira de X, ou seja, ∂X = ∅.
Exerc´ıcio 4.1.1 Consideremos R munido da m´etrica usual e X = Q ⊆ R.
Neste caso temos que
int(Q) = ∅, ∂Q = R.
De fato, se a ∈ Q ent˜ao toda bola centrada em a conter´a n´umeros irracionais, logo n˜ao
pertecentes a Q.
Portanto nenhum ponto de Q ser´a ponto interior de Q, ou seja, int(Q) = ∅.
Por outro lado, se b ∈ R ent˜ao toda bola aberta centrada em b conter´a n´umeros racionais e
irracionais, ou seja, pontos que est˜ao em Q e ponto que n˜ao est˜ao em Q.
Portanto b ∈ ∂Q, isto ´e, ∂Q = R.
c
T T
∈ Q ∈ I
c + rc − r
Observa¸c˜ao 4.1.3
1. Na situa¸c˜ao acima, se b ∈ X n˜ao ´e ponto interior de X significa que para toda bola aberta
centrada em b cont´em algum ponto de M que n˜ao est´a em X, ou seja, para todo s  0
temos que
B(b; s) ∩ (M  X) = ∅.
Neste caso, b ∈ ∂X.
2. Como veremos a seguir, um ponto de ∂X pode n˜ao pertencer a X.
Consideremos alguns exemplos:
118 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Exemplo 4.1.3 Consideremos R munido da m´etrica usual (da raiz quadrada) e X = [0, 1) ⊆ R.
Neste caso temos que
int([0, 1)) = (0, 1), ∂([0, 1)) = {0, 1}.
De fato, se 0  a  1 ent˜ao tomando-se r
.
= min{a, 1 − a}  0 segue que (a − r, a + r) ⊆
[0, 1) = X, pois se x ∈ (a−r, a+r) ent˜ao a−a ≤ a−r  x  a+r ≤ a+(1−a) = 1, mostrando
que a ∈ int([0, 1)).
0 1
a
(a − r, a + r) ⊆ [0, 1)
Por outro lado, se 0, 1 ∈ ∂X pois toda bola aberta centrada em 0 cont´em n´umeros reais
menores que 0 (que n˜ao pertencem a [0, 1)) e n´umeros reais maiores que zero e menores que 1
(logo pertencentes a [0, 1)) e toda bola aberta centrada em 1 cont´em n´umeros reais menores que 1
e maiores que zero (que pertencem a [0, 1)) e n´umeros reais maiores que 1 (logo n˜ao pertencentes
a [0, 1)).
0 10 − s = −s 0 + s = s
T T T T
1 − r 1 + r
x ∈ [0, 1) a ∈ [0, 1) a ∈ [0, 1) x ∈ [0, 1)
Observa¸c˜ao 4.1.4 No exemplo acima 0 ∈ [0, 1) e 0 ∈ ∂X, por outro lado, 1 ∈ [0, 1) e 1 ∈ ∂X.
Exemplo 4.1.4 Consideremos R munido da m´etrica usual (da raiz quadrada) e X = Q ⊆ R.
Neste caso temos que
int(Q) = ∅, ∂Q = R.
De fato, se a ∈ Q ent˜ao toda bola centrada em a conter´a n´umeros irracionais, logo n˜ao
pertecentes a Q.
Portanto nenhum ponto de Q ser´a ponto interior de Q, ou seja, int(Q) = ∅.
Por outro lado, se b ∈ R ent˜ao toda bola aberta centrada em b conter´a n´umeros racionais e
irracionais, ou seja, pontos que est˜ao em Q e ponto que n˜ao est˜ao em Q.
Portanto b ∈ ∂Q, isto ´e, ∂Q = R.
c
T T
∈ Q ∈ I
c + rc − r
Observa¸c˜ao 4.1.5
1. As no¸c˜oes de interior de fronteira de um conjunto X s˜ao relativas, isto ´e, dependem do
espa¸co m´etrico M que cont´em X.
Para ilustrar este fato observemos que no exemplo (4.1.3) vimos que
int([0, 1)) = (0, 1), ∂([0, 1)) = {0, 1}.
4.1. CONJUNTOS ABERTOS 119
Consideremos agora M = R2 com a m´etrica usual e X = [0, 1) ⊆ R2 (ou seja, X =
[0, 1) × {0} ⊆ R2) ent˜ao teremos
int(X) = ∅, ∂(X) = [0, 1] × {0}.
A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao:
T
E
0 1c
} r
s
s
x ∈ [0, 1)
a ∈ [0, 1)
Observemos que no exemplo acima as bolas abertas s˜ao consideradas em R2 e por isso
nenhum ponto de X ´e ponto interior do mesmo.
Por outro lado toda bola aberta centrada em um ponto de [0, 1] × {0} conter´a pontos que
est˜ao em X e pontos que n˜ao est˜ao em X, mostrando que estes est˜ao na fronteira do
mesmo.
Assim o interior ou fronteira de um conjunto s˜ao relativas ao espa¸co m´etrico que consi-
deramos.
2. Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e X ⊆ M.
Dado um ponto qualquer c ∈ M temos, exatamente, trˆes possibilidades que s˜ao excludentes:
(a) ou existe uma bola centrada em c inteiramente contida em X, ou seja, o ponto c ´e
ponto interior de X (c ∈ int(X); veja figura abaixo));
z
c
r X
M
120 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
(b) ou toda bola centrada em c cont´em pontos que est˜ao em X e pontos de M que n˜ao
est˜ao em X , ou seja, o ponto c ´e ponto de fronteira de X (c ∈ ∂(X); veja figura
abaixo));
X
M
b
c
sx
m
(c) ou existe uma bola centrada em c inteiramente contida em M  X, ou seja, o ponto
c ´e ponto interior de M  X (c ∈ int(M  X); veja figura abaixo).
X
M
c
r
3. Na situa¸c˜ao acima, podemos obter a seguinte decomposi¸c˜ao do espa¸co m´etrico M:
M = int(X) ∪ ∂(X) ∪ int(M  X), (∗)
onde a reuni˜ao acima ´e formada por conjuntos dois a dois disjuntos (isto ´e, int(X) ∩
∂(X) = ∅, int(X) ∩ int(M  X) = ∅ e int(M  X) ∩ ∂(X) = ∅).
4. Pode ocorrer de um dos trˆes subconjuntos acima ser vazio (como no exemplo do item 1.
desta observa¸c˜ao).
5. Esta decomposi¸c˜ao mostra que
∂(X) = ∂(M  X), (∗∗)
pois se considerarmos X
.
= M  X em (*) obteremos
M = int(M X)∪∂(M X)∪int(M (M X))
[M(MX)=X]
= int(M X)∪∂(M X)∪int(X),
e comparando esta com (*) deveremos ter (**).
6. No caso do exemplo (4.1.3) temos que
R = int([0, 1)) ∪ ∂([0, 1)) ∪ int(R  [0, 1)) = (0, 1) ∪ {0, 1} ∪ (−∞, 0) ∪ (1, ∞),
pois R  [0, 1) = (−∞, 0) ∪ [1, ∞) assim int(R  [0, 1)) = (−∞, 0) ∪ (1, ∞).
4.1. CONJUNTOS ABERTOS 121
Temos a
Defini¸c˜ao 4.1.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico e A ⊆ M.
Diremos que o conjunto A ´e aberto em M se todos os seus pontos s˜ao pontos interiores de
A, isto ´e, se
int(A) = A.
Observa¸c˜ao 4.1.6
1. Na situa¸c˜ao acima, um subconjunto A de M ´e aberto se, e somente se,
A ∩ ∂A = ∅.
De fato, se A de M ´e aberto ent˜ao todo ponto de A ´e ponto interior de A, ou seja, se
a ∈ A ent˜ao a ∈ ∂A.
Logo A ∩ ∂A = ∅.
Por outro lado, se A ∩ ∂A = ∅ ent˜ao se a ∈ A temos que a ∈ ∂A, isto ´e, existe uma
bola aberta centrada em a que n˜ao cont´em pontos de M  A, ou seja, existe r  0 tal que
B(a; r) ∩ [M  A] = ∅ que implicar´a que B(a; r) ⊆ A.
Portanto, todo ponto a ∈ A ´e ponto interior de A, mostrando que A ´e um subconjunto
aberto de M.
2. Para mostrar que um subconjunto A de M ´e aberto em M precisamos provar que para
cada a ∈ A existe ra  0 tal que
B(a; ra) ⊆ A.
A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao
z
a ra A
M
Um exemplo importante de subconjunto aberto de um espa¸co m´etrico ´e dado pela
Proposi¸c˜ao 4.1.1 Sejam (M.dM ) um espa¸co m´etrico, a ∈ M e r  0.
Ent˜ao B(a; r) ´e um subconjunto aberto de M.
Demonstra¸c˜ao:
Seja x ∈ B(a; r).
Mostremos que existe s  0 tal que B(x; s) ⊆ B(a; r).
Como x ∈ B(a; r) temos que dM (x, a)  r.
122 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Seja s
.
= r − d(x, a)  0.
Afirmamos que B(x; s) ⊆ B(a; r).
De fato, se y ∈ B(x; s) teremos que dM (y, x)  s.
Logo
dM (a, y) ≤ dM (a, x) + dM (x, y)  dM (a, x) + s = dM (a, x) + (r − dM (a, x)) = r,
mostrando que y ∈ B(a; r).
Portanto B(a; r) ´e um subconjunto aberto de M, como quer´ıamos mostrar.
A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao
a
Er
x
Ic
s
.
= r − d(x, a)
2.10.2008 - 15.a - 1.a Prova
7.10.2008 - 16.a
Como conseq¨uˆencia temos o
Corol´ario 4.1.1 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e X ⊆ M.
Ent˜ao int(X) ´e um subconjunto aberto de M.
Demonstra¸c˜ao:
Devemos mostrar que todo ponto de int(X) ´e ponto interior de int(X).
Para isto seja a ∈ int(X).
Devemos mostrar que existe um ra  0 tal que B(a; ra) todo ponto dessa bola aberta seja
ponto interior de X (isto ´e, B(a; ra) ⊆ int(X)).
Da defini¸c˜ao de int(X) segue que se a ∈ int(X), existe ra  0 tal que B(a; ra) ⊆ X.
Afirmamos que todo ponto de B(a; ra) ´e ponto interior de X.
De fato, da proposi¸c˜ao (4.1.1) segue que dado x ∈ B(a; ra), existe s  0 tal que B(x; s) ⊆
B(a; ra) ⊆ X, isto ´e, x ∈ int(X).
Portanto, se a ∈ int(X), todo ponto da bola aberta B(a; ra) ´e ponto interior de X, isto
´e, B(a; ra) ⊆ int(X), mostrando que int(X) ´e um subconjunto aberto de M, como quer´ıamos
mostrar.
Observa¸c˜ao 4.1.7
4.1. CONJUNTOS ABERTOS 123
1. Se (M, dM ) ´e um esap¸co m´etrico e A, B ⊆ M ent˜ao
int(A ∩ B) = int(A) ∩ int(B).
A demonstra¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
2. Na situa¸c˜ao acima temos que int(X) tem a seguinte propriedade: ele ´e o maior subconjunto aberto
de M que est´a contido em X.
Mais especificamente, afirmamos que se A ⊆ X e A ´e aberto em M ent˜ao A ⊆ int(X) (*).
Para verificar isto basta ver que se a ∈ A ´e ponto interior de A ent˜ao a ser´a ponto interior
de X (pois A ⊆ X), ou seja, se A ⊆ X ent˜ao int(A) ⊆ int(X).
Assim teremos que a ∈ int(X), mostrando que A ⊆ int(X), como afirmamos acima.
Al´em disso, int(X) ´e um subconjunto aberto de M que est´a contido em X.
Afirmamos que ele ´e o maior com essa propriedade pois, como vimos em (*) temos que se
um subconjunto aberto de M est´a contido em X ele tamb´em estar´a contido em int(X).
3. Baseado no item acima temos que
int(X) =
A∈A
A,
onde A
.
= {A ⊆ X : A ´e um subconjunto aberto de M}.
4. Seja a ∈ M, (M, dM ) espa¸co m´etrico.
{a} ´e um subconjunto aberto em M se, e somente se, a ´e um ponto isolado de M.
De fato, pois se {a} ´e um subconjunto aberto em M ent˜ao existe ra  0 tal que B(a; ra) ⊆
{a}, ou seja,
B(a; ra) = {a}
mostrando que o ponto a ´e um ponto isolado de M.
Reciprocamente, se a ´e um ponto isolado de M ent˜ao existe r  0 tal que B(a; ra) = {a},
em particular,
B(a; ra) ⊆ {a},
mostrando que o subconjunto {a} de M ´e um subconjunto aberto em M.
5. Do item 3. acima segue que um espa¸co m´etrico (M, dM ) ´e discreto se, e somente se, todo
os seus subconjuntos unit´arios s˜ao subconjuntos abertos em M.
6. Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico.
Ent˜ao M ´e um subconjunto aberto de M.
De fato, pois se a ∈ M ent˜ao para r  0 temos que B(a; r) ⊆ M, ou seja, todo ponto a de
M ´e ponto interior de M mostrando que M ´e um subconjunto aberto de M.
7. A propriedade ”X ser aberto em M” ´e relativa, ou seja, depende do espa¸co m´etrico M que
cont´em X.
Por exemplo, no exemplo (4.1.3) temos que X = [0, 1) ´e um subconjunto aberto em M =
[0, 1] onde neste ´ultimo consideramos a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R.
124 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Para ver isto observemos que se 0  ε  1 ent˜ao
BX(0; ε) = [0, ε) ⊆ X = [0, 1),
mostrando que 0 ´e ponto interior de X.
Se x ∈ (0, 1) ent˜ao x ∈ int(X) pois tomando-se r
.
= min{x, 1 − x}  0 segue que
BX(x; r) ⊆ X,
ou seja, x ´e ponto interior de X, mostrando que X = [0, 1) ´e aberto em M = [0, 1].
Mas X = [0, 1) n˜ao ´e aberto em R (munido da m´etrica usual) pois 0 n˜ao ´e ponto interior
de X = [0, 1) em R.
8. Um outro exemplo da situa¸c˜ao do item 5. seria considerar X = (0, 1), que ´e um subcon-
junto aberto em R (pois (0, 1) = BR(
1
2
;
1
2
)) e n˜ao ´e um subconjunto aberto se for visto
como subconjunto de R2.
9. Um exemplo de subconjunto de um espa¸co m´etrico que ´e um subconjunto aberto em
todo espa¸co m´etrico ´e o conjunto vazio, ∅.
Para mostrar isto basta observar que para um subconjunto de um espa¸co m´etrico n˜ao ser
aberto basta exibirmos um ponto do subconjunto que n˜ao seja ponto interior do mesmo.
Isto ´e imposs´ıvel de fazer se o subconjunto for vazio.
Portanto ∅ ´e um subconjunto aberto de qualquer espa¸co m´etrico.
Temos a
Proposi¸c˜ao 4.1.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico, a ∈ M e r  0.
Ent˜ao o complementar, em M, da bola fechada B[a; r] ´e um subconjunto aberto de M, isto
´e, A
.
= M  B[a; r] ´e subconjunto aberto de M.
Demonstra¸c˜ao:
De fato, mostremos que todo ponto de A ´e um ponto interior de A.
Para isto, seja b ∈ A = M  B[a; r], isto ´e, b ∈ B[a; r], logo d(a, b)  r.
Seja s  0 tal que
0  s  d(a, b) − r.
Da proposi¸c˜ao (2.2.4) segue que as bolas fechadas B[a; r] e B[b; s] s˜ao disjuntas (pois s+r 
d(a, b)).
Em particular
B[a; r] ∩ B(b; s) = ∅
que implicar´a
B(b; s) ⊆ M  B[a; r],
logo b ∈ A = M  B[a; r] ´e ponto interior de A = M  B[a; r], mostrando que A = M  B[a; r] ´e
um subconjunto aberto de M, completando a demonstra¸c˜ao.
A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao:
4.1. CONJUNTOS ABERTOS 125
a
Ir
Is
b
Temos a
Proposi¸c˜ao 4.1.3 Na situa¸c˜ao acima, o completamentar de um subconjunto unit´ario de M ´e
um subconjunto aberto de M, isto ´e, se a ∈ M ent˜ao A
.
= M  {a} ´e um subconjunto aberto de
M.
Demonstra¸c˜ao:
De fato, mostremos que todo ponto de A = M  {a} ´e ponto interior de A = M  {a}.
Se b ∈ A
.
= M  {a} ent˜ao b = a.
Seja r
.
= d(a, b)  0.
Ent˜ao B(b; r) ∩ {a} = ∅ que implicar´a em
B(b; r) ⊆ M  {a} = A,
ou seja, b ∈ A = M  {a} ´e um ponto interior do conjunto A = M  {a}, isto ´e, A = M  {a} ´e
um subconjunto aberto de M, completando a prova.
A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao acima.
a
b
©
r = d(a, b)
Mais geralmene temos a
Proposi¸c˜ao 4.1.4 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, a1, a2, · · · , an ∈ M.
Ent˜ao A
.
= M  {a1, a2, · · · , an} ´e um subconjunto aberto de M.
Demonstra¸c˜ao:
De fato, mostremos que todo ponto de A ´e ponto interior de A.
126 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Se b ∈ A ent˜ao b = aj, j = 1, 2, · · · , n.
Seja r
.
= min{d(b, aj) : j = 1, 2, · · · , n}  0.
Ent˜ao B(b; r) ∩ {aj : j = 1, 2, · · · , n} = ∅ que implicar´a em
B(b; r) ⊆ M  {aj : j = 1, 2, · · · , n} = A,
ou seja, b ∈ A ´e um ponto interior do conjunto A, isto ´e, A = M  {aj : j = 1, 2, · · · , n} ´e um
subconjunto aberto de M, completando a prova.
A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao acima.
a1
a2
a3
a4
b
s
r
r = min{d(b, aj ) : j − 1, · · · , n}
A seguir daremos alguns exemplos importantes de subconjuntos abertos de R.
Exemplo 4.1.5 Consideremos R com a m´etrica usual e a, b ∈ R.
Ent˜ao os intervalos (a, b), (−∞, b) e (a, ∞) s˜ao subconjunto abertos de R.
De fato,
Temos que
(a, b) = BR(
b − a
2
;
b − a
2
),
isto ´e, ´e uma bola aberta centrada em
b − a
2
, ou seja, um subconjunto aberto de R (veja figura
abaixo).
E
a b
b−a
2
E'E'
b−a
2
b−a
2
Se c ∈ (−∞, b), ent˜ao, para r
.
= d(c, b) = b − c  0, temos que
BR(c; r) = (c − r, c + r) ⊆ (−∞, b),
mostrando c ∈ (−∞, b) ´e um ponto interior de (−∞, b), isto ´e, (−∞, b) ´e um subconjunto aberto
em R (veja figura abaixo).
bc
E' E'
r = b − cr = b − c
E
4.1. CONJUNTOS ABERTOS 127
De modo an´alogo, se c ∈ (a, ∞), ent˜ao, para r
.
= d(a, c) = c − a  0, temos que
BR(c; r) = (c − r, c + r) ⊆ (a, ∞),
mostrando c ∈ (a, ∞) ´e um ponto interior de (a, ∞), isto ´e, (−∞, b) ´e um subconjunto aberto
em R (veja figura abaixo).
E
a c
E' E'
r = c − ar = c − a
Observa¸c˜ao 4.1.8
1. Observemos que uma bola fechada em um espa¸co m´etrico pode ser um subconjunto aberto
do mesmo.
Para ilustrar isso consideremos o seguinte exemplo: sejam M = R  {−1, 1} munido da
m´etrica induzida pela m´etrica usual de R, a = 0 ∈ M e r = 1  0.
Observemos que
BM [0; 1] = {x ∈ M : d(x, 0) ≤ 1} = (−1, 1) = {x ∈ M : d(x, 0)  1} = BM (0; 1),
logo BM [0; 1] ´e um subconjunto aberto de M (ver figura abaixo).
E
−1 10
2. Por outro lado, se (E, . E) ´e um espa¸co vetorial sobre R normado com E = {0} ent˜ao,
para a ∈ E e r  0 temos que a bola fechada BE[a; r] n˜ao ´e um subconjunto aberto de E.
De fato, seja x = E  {0} (isto ´e, um vetor de E diferente do vetor nulo).
Consideremos
u
.
=
x
x E
e b
.
= a + ru.
Ent˜ao temos que
dE(b, a) = b − a E = (a + ru) − a = ru E = |r| u E
[ u E=1]
= r,
ou seja, b ∈ B[a; r].
Por outro lado, para todo s  0 se considerarmos
c
.
= a + (r +
s
2
)u ∈ E.
Ent˜ao
dE(c, a) = c − a E = (a + (r +
s
2
)u) − a E = (r +
s
2
)u
= |r +
s
2
| u E
[ u E=1]
= r +
s
2
 r, (4.1)
dE(c, b) = c − b E = (a + (r +
s
2
)u) − (a + ru) E =
s
2
u
= |
s
2
| u E
[ u E=1]
=
s
2
 s. (4.2)
128 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Logo de (4.1) temos que c ∈ B[a; r] e (4.2) temos que c ∈ B(b; s), para todo s  0, isto ´e,
que b ∈ int(B[a; r]), mostrando que b n˜ao ´e ponto interior de B[a; r], ou seja, B[a; r] n˜ao
´e um subconjunto aberto de E.
a
Er
b = a + ru
c = a + (r + s
2
)u
' s
3. Observemos que se b ∈ S(a; r) ent˜ao mostramos no item 2. que toda bola B(b; s) cont´em
pontos que n˜ao est˜ao em B[b; r] (a saber c
.
= a + (r + s
2 )u ∈ E).
Por outro lado toda bola B(b; s) cont´em pontos que est˜ao em B[b; r] (o pr´oprio b).
Coom isto concluimos que b ∈ ∂B[a; r], ou seja, S(a; r) ⊆ ∂B[a; r].
4. Do corol´ario (4.1.1), da proposi¸c˜ao (4.1.1) e da observa¸c˜ao (4.1.7) item 2. segue que
int(B[a; r]) = B(a; r).
5. A demonstra¸c˜ao da proposi¸c˜ao (4.1.2) mostra que se b ∈ E ´e tal que
dE(b, a) = b − a  r
ent˜ao b ∈ ∂B[a; r].
Logo, dos itens acima, temos que
∂B[a; r] = S(a; r).
Temos a
Proposi¸c˜ao 4.1.5 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e U a cole¸c˜ao formada por todos os sub-
conjutos abertos de (M, dM ). Ent˜ao:
1. M ∈ U, ∅ ∈ U (ou seja, o espa¸co todo e o vazio s˜ao subconjuntos abertos de (M, dM ));
2. Se A1, · · · , An ∈ U ent˜ao A1 ∩ · · · ∩ An ∈ U (ou seja, a interesec¸c˜ao finita de subconjuntos
abertos de (M, dM ) ´e um subconjunto aberto de (M, dM ));
3. Se Aλ ∈ U para λ ∈ L ent˜ao
λ∈L
Aλ ∈ U (ou seja, a reuni˜ao qualquer de subconjuntos
abertos de (M, dM ) ´e um subconjunto aberto de (M, dM )).
4.1. CONJUNTOS ABERTOS 129
Demonstra¸c˜ao:
De 1.:
Segue da observa¸c˜ao (4.1.7) itens 5. e 7. .
De 2.:
Mostremos que todo ponto a ∈ A1 ∩ · · · An ´e ponto interior de A1 ∩ · · · An.
Para isto observemos que se a ∈ A1 ∩ · · · An ent˜ao a ∈ Aj, j = 1, · · · , n.
Para cada j = 1, · · · , n temos que Aj ´e um subconjunto aberto de M assim a ∈ AJ dever´a
ser ponto interior do mesmo, isto ´e, existe rj  0 tal que
B(a; rj) ⊆ Aj, j = 1, · · · , n.
Seja r
.
= min{rj : j = 1, · · · , n}  0.
Para todo j = 1, · · · , n temos que 0  r ≤ rj assim
B(a; r) ⊆ B(a; rj) ⊆ Aj,
ou seja,
B(a; r) ⊆ A1 ∩ · · · An,
mostrando que o ponto a ∈ A1 ∩ · · · An ´e ponto interior de A1 ∩ · · · An, isto ´e, A1 ∩ · · · An ´e um
subconjunto aberto de M, como quer´ıamos mostrar.
De 3.:
Mostremos que todo ponto a ∈
λ∈L
Aλ ´e ponto interior de λ∈L Aλ.
Para isto observemos que se a ∈ λ∈L Aλ ent˜ao a ∈ Aλ0 para algum λ0 ∈ L.
Mas Aλ0 ´e um subconjunto aberto de (M, dM ) assim, como a ∈ Aλ0 , segue que existe r0  0
tal que
B(a; r0) ⊆ Aλ0 ⊆
λ∈L
Aλ,
ou seja, a ´e ponto interior de
λ∈L
Aλ mostrando que este ´e um subconjunto aberto de (M, dM ),
como quer´ıamos mostrar.
Como conseq¨uˆencia temos o
Corol´ario 4.1.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico e A ⊆ M, a = ∅.
A ´e subconjunto aberto de (M, dM ) se, e somente se, A ´e um reuni˜ao de bolas abertas de
(M, dM ).
Demonstra¸c˜ao:
Suficiˆencia (⇐):
Seja A =
λ∈L
Bλ onde para cada λ ∈ L temos que Bλ ´e uma bola aberta de (M, dM ).
Da proposi¸c˜ao (4.1.1) segue que Bλ ´e um subconjunto aberto de (M, dM ) para todo λ ∈ L.
Logo, da proposi¸c˜ao (4.1.5) item 3., segue que A = λ∈L Bλ ´e um subconjunto aberto de
(M, dM ), como quer´ıamos mostrar.
Necessidade (⇒):
Seja A ´e um subconjunto aberto, n˜ao vazio, de (M, dM ).
130 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Para cada a ∈ A, como A um subconjunto aberto de (M, dM ), segue que existe ra  0 tal
que
B(a; ra) ⊆ A.
Assim temos que {a} ⊆ B(a; ra) ⊆ A logo
a∈A
B(a; ra) ⊆ A =
a∈A
{a}
[{a}⊆B(a;ra)]
⊆
a∈A
B(a; ra),
ou seja,
A =
a∈A
B(a; ra),
como quer´ıamos demonstrar.
Observa¸c˜ao 4.1.9
1. O corol´ario acima nos diz que as bolas abertas formam uma ”base de abertos” para o espa¸co
m´etrico (M, dM ) (no sentido que todo subconjunto aberto n˜ao vazio de (M, dM ) pode ser
escrito como reuni˜ao de bolas abertas de (M, dN )).
2. Observemos que, em geral, a intersec¸c˜ao qualquer de subconjunto abertos de um espa¸co
m´etrico (M, dM ) pode n˜ao ser um subconjunto aberto do espa¸co m´etrico (M, dM ).
De fato, suponhamos que (M, dM ) e a ∈ M um ponto n˜ao isolado de M.
Ent˜ao {a} ´e um subsconjunto que n˜ao ´e aberto do espa¸co m´etrico (M, dM ) (veja observa¸c˜ao
(4.1.7) item 3.).
Observemos que se x = a ent˜ao d(x, a)  0 logo existe n ∈ N tal que d(x, a) 
1
n
, logo
x ∈ B(a;
1
n
), ou seja
{a} =
n∈N
B(a;
1
n
).
Logo o conjunto {a}, n˜ao aberto em (M, dM ), {a} pode ser obtido como intersec¸c˜ao (n˜ao
finita) de bolas abertas (que s˜ao conjuntos abertos de (M, dM )).
Temos a
Proposi¸c˜ao 4.1.6 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e X ⊆ M n˜ao vazio munido da m´etrica
induzida pela m´etrica dM .
B ⊆ X ´e um subconjunto aberto de (X, dM ) se, e somente se, existe A ⊆ M subconjunto
aberto de (M, dM ) tal que B = A ∩ X.
Demonstra¸c˜ao:
Do corol´ario (4.1.2) temos que B ⊆ X ´e um subconjunto aberto em (X, dM ) se, e somente
se,
B =
λ∈L
BX
λ ,
onde, para cada λ ∈ L, BX
λ ´e uma bola aberta em (X, dM ).
4.1. CONJUNTOS ABERTOS 131
Da proposi¸c˜ao (2.2.1) temos que toda bola aberta de X dever´a ser da forma
BX
λ = Bλ ∩ X,
onde Bλ denota uma bola aberta em M.
Logo B ⊆ X ´e um subconjunto aberto em (X, dM ) se, e somente se,
B =
λ∈L
[Bλ ∩ X].
Mas
B =
λ∈L
[Bλ ∩ X] = [
λ∈L
Bλ] ∩ X = A ∩ M,
onde
A
.
=
λ∈L
Bλ.
Do corol´ario (4.1.2) temos que A ⊆ M ´e um subconjunto aberto de (M, dM ) se, e somente
se, A ´e uma reuni˜ao de bolas abertas de (M, dM ).
Resumindo temos:
B ⊆ X ´e um subconjunto aberto em (X, dM ) ⇔ B =
λ∈L
BX
λ ⇔ B =
λ∈L
[Bλ ∩ X] ⇔
B = [
λ∈L
Bλ] ∩ X ⇔ B = A ∩ X, A ´e um subconjunto aberto em (M, dM ), completando a
demonstra¸c˜ao.
Observa¸c˜ao 4.1.10 O resultado acima nos diz que um conjunto ´e aberto num subespa¸co m´etrico
de um espa¸co m´etrico se, e somente se, ele pode ser escrito como intersec¸c˜ao de um aberto do
espa¸co m´etrico com o subespa¸co m´etrico.
Por exemplo: dados a  b consideremos X = [a, b] com a m´etrica induzida pela m´etrica
usual de M = R e 0  ε  b − a.
Ent˜ao B
.
= [a, a + ε) ´e um subsconjunto aberto de X = [a, b] pois
B = (a − ε, a + ε) ∩ [a, b] = BR(a, ε) ∩ X.
Observemos que B n˜ao ´e um subconjunto aberto de R.
Consideremos o
Exerc´ıcio 4.1.2 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos.
Afirmamos que o conjunto formado pelas aplica¸c˜oes f : M → N que s˜ao limitadas e des-
cont´ınuas em algum ponto de M ´e um subconjunto aberto de B(M; N).
Mostremos, primeiramente que, dado a ∈ M, o conjunto, que indicaremos por Da, formado
pelas aplica¸c˜oes f : M → N que s˜ao limitadas e descont´ınuas no ponto a ´e um subconjunto
aberto de B(M; N).
Precisamos mostrar que todo f ∈ Da ´e ponto interior de Da, ou seja, existe ε  0 tal que
BB(M;N)(f; ε) ⊆ Da.
Como f ∈ Da temos que f ´e descont´ınua no ponto a, ou seja, existe ε  0 tal que para todo
δ  0, existe xδ ∈ M tal que
dM (xδ, a)  δ e dN (f(xδ), f(a))  3.ε.
132 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Afirmamos que se g ∈ B(M; N) e dB(M;N)(g, f)  ε ent˜ao g ∈ Da.
De fato, pois
3.ε  dM (f(xδ), f(a)) ≤ dM (f(xδ), g(xδ)) + dM (g(xδ), g(a)) + dM (g(a), f(a)).
Como dB(M;N)(g, f)  ε temos que dM (f(xδ), g(xδ))  ε e dM (g(a), f(a))  ε, assim teremos
3.ε  ε + dM (g(xδ), g(a)) + ε,
implicando que
ε  dM (g(xδ), g(a)),
isto ´e, g n˜ao ´e cont´ınua no ponto a, logo g ∈ Da.
Portanto se g ∈ BB(M;N)(f; ε) segue que g ∈ Da, isto ´e, BB(M;N)(f; ε) ⊆ Da, mostrando que
Da ´e um subconjunto aberto de B(M; N).
Para finalizar observemos que se denotarmos por D, o conjunto de todas as aplica¸c˜oes f :
M → N limitadas e descont´ınuas em algum ponto de M ent˜ao teremos:
D =
a∈Da
Da
que ser´a um subconjunto aberto de BB(M;N) (pois ´e reuni˜ao de subconjuntos abertos de BB(M;N)),
como quer´ıamos mostrar.
9.10.2008 - 17.a
Para finalizar temos a:
Defini¸c˜ao 4.1.3 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e a ∈ M.
Diremos que V ⊆ M ´e uma vizinhan¸ca do ponto a em M se a ∈ int(V ).
Observa¸c˜ao 4.1.11 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸co m´etrico e a ∈ M.
1. V ´e uma vizinhan¸ca do ponto a em M se, e somente se, existe um aberto contido em V que
contenha o ponto a (a saber, qualquer subconjunto aberto de (M, dM ) que esteja contido
em int(V ) e que contenha o ponto a).
2. A intersec¸c˜ao de um n´umero finito de vizinhan¸cas do ponto a em M ´e ainda uma vizin-
han¸ca do ponto a em M pois se Vj ´e vizinhan¸ca do ponto a em M para j = 1, · · · , n ent˜ao
a ∈ int(Vj), j = 1, · · · , n.
Logo a ∈
n
j=1
int(Vj) = int[
n
j=1
Vj] que, pela proposi¸c˜ao (4.1.5) item 2., ´e um subconjunto
aberto de (M, dM ) e est´a contido em
n
j=1
Vj, ou seja, V
.
=
n
j=1
Vj ´e uma vizinhan¸ca do ponto
a em M.
3. Se V ´e uma vizinha¸ca do ponto a em M e V ⊆ W ent˜ao W tamb´em ser´a uma vizinha¸ca
do ponto a em M (pois como a ∈ int(V ) e int(V ) ⊆ int(W) segue que a ∈ int(W)).
4.2. RELAC¸ ˜OES ENTRE CONJUNTOS ABERTOS E CONTINUIDADE 133
4. Um subconjunto A ´e aberto em (M, dM ) se, e somente se, ele for uma vizinhan¸ca de cada
um de seus pontos.
De fato, se A ´e um subconjunto aberto e a ∈ A ent˜ao A ´e uma vizinhan¸ca do ponto a em
M (pois a ∈ int(A) = A, pois A ´e um subconjunto aberto de (M, dM )).
Por outro lado se A ´e uma vizinhan¸ca de qualquer um de seus pontos segue que se a ∈ A
ent˜ao a ∈ int(A), ou seja, a ´e ponto interior de A implicando que todo ponto de A ´e ponto
interior de A, isto ´e, o subconjunto A ´e aberto em (M, dM ), como quer´ıamos mostrar.
5. Uma aplica¸c˜ao f : M → N ´e cont´ınua no ponto a ∈ M se, e somente se, para toda
vizinhan¸ca, V , do ponto f(a) em N existir uma vizinhan¸ca, U, do ponto a, em M tal que
f(U) ⊆ V.
De fato, suponhamos que a fun¸c˜ao f seja cont´ınua no ponto A.
Ent˜ao dada uma vizinhan¸ca V do ponto f(a) em N temos que f(a) ∈ int(V ), logo existe
uma bola aberta em N centrada em f(a) e raio ε  0 tal que BN (f(a); ε) ⊆ int(V ).
Da observa¸c˜ao (3.1.1) item 1. segue que dever´a existir δ = δ(ε, a)  0 tal que
f(BM (a; δ)) ⊆ BN (f(a); ε) ⊆ int(V ) ⊆ V, (4.3)
Logo, existir´a uma vizinhan¸ca do ponto a em M, U
.
= BM (a; δ), que tem a seguinte
propriedade:
f(U) = f(BM (a; δ)) ⊆ BN (f(a); ε) ⊆ V,
isto ´e, f(U) ⊆ V , como quer´ıamos mostrar.
Por outro lado, se para toda vizinhan¸ca, V , do ponto f(a) em N existir uma vizinhan¸ca,
U, do ponto a em M tal que f(U) ⊆ V mostremos que a aplica¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto
a.
Para isto, dado ε  0 temos que V
.
= BN (f(a); ε ´e uma vizinhan¸ca do ponto f(a) em N.
Logo, por hip´otese, deve existir uma vizinhan¸ca U do ponto a em M tal que f(U) ⊆ V =
BN (f(a); ε).
Como U ´e vizinhan¸ca de a em M temos que a ∈ int(U), logo segue que exitir´a δ  0 tal
que BM (a; δ) ⊆ U.
Portanto
f(BM (a; δ)) ⊆ f(U) ⊆ BN (f(a); ε),
que pela observa¸c˜ao (3.1.1) item 1. implicar´a que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a,
completando a prova da afirma¸c˜ao.
4.2 Rela¸c˜oes entre conjuntos abertos e continuidade
Iniciaremos a se¸c˜ao com o principal resultado da mesma, a saber:
Teorema 4.2.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N.
Uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que a fun¸c˜ao f seja cont´ınua ´e que para todo V
subconjunto aberto em N, a imagem inversa deste, f−1(V ) ⊆ M, seja um subconjunto aberto
em M, onde
f−1
(V )
.
= {x ∈ M : f(x) ∈ V }.
134 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Demonstra¸c˜ao:
Necessidade (⇒):
Suponhamos que a fun¸c˜ao f seja cont´ınua em M e que V seja um subconjunto aberto de N.
Se f−1(V ) = ∅ nada temos a fazer pois ∅ ´e um subconjunto aberto de M (ver observa¸c˜ao
(4.1.7) item 7.).
Se f−1(V ) = ∅ consideremos a ∈ f−1(V ).
Precisamos mostrar que a ´e ponto interior de f−1(V ).
Observemos que f(a) ∈ V e V ´e um subconjunto aberto de N, logo existe ε  0 tal que
BN (f(a); ε) ⊆ V .
Como a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua em a, dever´a existir δ  0 tal que
f(BM (a; δ)) ⊆ BN (f(a); ε) ⊆ V,
ou seja, BM (a; δ) ⊆ f−1(V ) (pois se x ∈ BM (a; δ) ent˜ao f(x) ∈ V ).
Portanto todo ponto a ∈ f−1(V ) ´e um ponto interior de f−1(V ), ou seja f−1(V ) ´e aberto.
E
f−1
(V )
a
‚
δ f(a)
b
ε
V
M N
f
Suficiˆencia (⇐):
Suponhamos que para todo V , subconjunto aberto de N temos que f−1(V ) seja um subcon-
junto aberto de M.
Mostremos que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua em a ∈ M.
Para isto, dado ε  0, como V
.
= BN (f(a); ε) ´e um subconjunto aberto de N temos, por
hip´otese, que f−1(V ) ´e um subconjunto aberto de M.
Mas a ∈ f−1(V ) (pois f(a) ∈ V ) logo a dever´a ser ponto interior de f−1(V ), ou seja, existir´a
δ  0 tal que BM (a; δ) ⊆ f−1(V ), isto ´e
f(BM (a; δ) ⊆ V = BN (f(a); ε).
Logo, a observa¸c˜ao (3.1.1) item 1. implicar´a que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a, comple-
tando a demonstra¸c˜ao.
Como conseq¨uˆencias do resultado acima temos os:
Corol´ario 4.2.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N.
A fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a ∈ M se, e somente se, para cada subconjunto aberto, V ,
de N contendo o ponto f(a), deve existir um subconjunto aberto, U, de N contendo o ponto a,
tal que f(U) ⊆ V .
4.2. RELAC¸ ˜OES ENTRE CONJUNTOS ABERTOS E CONTINUIDADE 135
Demonstra¸c˜ao:
Basta olhar, com cuidado, a demonstra¸c˜ao do teorema acima.
Corol´ario 4.2.2 Sejam (Mj, dj) espa¸cos m´etricos e Aj ⊆ Mj subconjuntos abertos de (Mj, dj),
j = 1, · · · , n.
Ent˜ao A
.
= A1 × · · · × An ´e um subconjunto aberto de M
.
= M1 × · · · × Mn onde neste ´ultimo
consideramos um das trˆes m´etricas usuais.
Demonstra¸c˜ao:
Do exemplo (3.1.13) temos que, para cada j = 1, · · · , n, a j-´esima proje¸c˜ao,
pj : M → Mj dada por pj(x)
.
= xj,
onde x = (x1, · · · , xn) ∈ M = M1 × · · · × Mn, ´e uma aplica¸c˜ao cont´ınua em M.
Logo, do teorema (4.2.1) segue que, para cada j = 1, · · · , n, p−1
j (Aj) ´e um subconjunto
aberto de M.
Da proposi¸c˜ao (4.1.5) item 2. temos que p−1
1 (A1) ∩ · · · p−1
n (An) ´e um subconjunto aberto em
M.
Mas
pj(M1 × · · · × Mj−1 × Aj × Mj+1 × Mn) = Aj, j = 1, · · · , n
logo
M1 × · · · × Mj−1 × Aj × Mj+1 × Mn = p−1
j (Aj), j = 1, · · · , n.
Como (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato)
A1 × · · · × An = p−1
1 (A1) ∩ · · · p−1
n (An),
(veja figura abaixo o caso n = 2)
E
T
M1
M2
A1
A2
p−1
1 (A1)
p−1
2 (A2)A1 × A2
temos que A1 × · · · × An ´e um subconjunto aberto em M, como quer´ıamos demonstrar.
136 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Corol´ario 4.2.3 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, R com uma das trˆes m´etricas usuais e f1, · · · , fn :
M → R cont´ınuas em M.
Ent˜ao o conjunto
A
.
= {x ∈ M : f1(x)  0, · · · , fn(x)  0}
´e um subconjunto aberto de M.
Demonstra¸c˜ao:
Consideremos f : M → Rn dada por
f(x)
.
= (f1(x), · · · , fn(x)), x ∈ M.
Como f1, · · · , fn s˜ao cont´ınuas em M segue, da proposi¸c˜ao (3.2.2), que f ser´a cont´ınua em
M.
Consideremos
B
.
= {y = (y1, · · · , yn) ∈ Rn
: xj  0, j = 1, · · · , n}.
Pelo corol´ario anterior segue que B = (0, ∞) × · · · × (0, ∞)
n−fatores
´e um subconjunto aberto de Rn.
Observemos que
x ∈ A = {x ∈ M : f1(x)  0, · · · , fn(x)  0}
se, e somente se
f(x) ∈ B = {y = (y1, · · · , yn) ∈ Rn
: yj  0, j = 1, · · · , n},
isto ´e, A = f−1(B).
Como f ´e cont´ınua em M segue, do teorema (4.2.1), que
A = {x ∈ M : f1(x)  0, · · · , fn(x)  0}
ser´a um subconjunto aberto de M, como quer´ıamos demonstrar.
Observa¸c˜ao 4.2.1
1. Uma outra demonstra¸c˜ao do resultado acima ´e utilizando o fato que f−1
j ((0, ∞) ´e aberto
em M (pois fj ´e cont´ınua em M e (0, ∞) ´e um subconjunto aberto de R) para j = 1, · · · , n.
Logo
A =
n
j=1
f−1
j ((0, ∞))
isto ´e, uma intersec¸c˜ao finita de subconjuntos abertos de M, logo ser´a aberto em M.
2. Como conseq¨uˆencia imediata do corol´ario acima temos que se as fun¸c˜oes
f1, · · · , fn : M → R
s˜ao cont´ınuas e poisitivas no ponto a ∈ M ent˜ao existir´a uma bola aberta em M centrada
no ponto a, B(a; r), tal que
f1(x), · · · , fn(x)  0, x ∈ B(a; r).
4.2. RELAC¸ ˜OES ENTRE CONJUNTOS ABERTOS E CONTINUIDADE 137
De fato, se fj(a)  0 para todo j = 1, · · · , n ent˜ao
a ∈ A = {x ∈ M : f1(x)  0, · · · , fn(x)  0}
que ´e um subconjunto aberto em M.
Logo existir´a r  0 tal que
B(a; r) ⊆ A,
isto ´e, se x ∈ B(a; r) teremos f1(x), · · · , fn(x)  0, como quer´ıamos mostrar.
Corol´ario 4.2.4 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f, g : M → N fun¸c˜oes cont´ınuas
em M.
Ent˜ao o conjunto
A
.
= {x ∈ M : f(x) = g(x)}
´e um subconjunto aberto de M.
Em particular, o conjunto
A
.
= {x ∈ M : f(x) = 0}
´e um subconjunto aberto de M.
Demonstra¸c˜ao:
Consideremos ϕ : M → R dada por
ϕ(x)
.
= dN (f(x), g(x)), x ∈ M,
onde em R estaremos considerando a m´etrica usual.
Como f, g, dN s˜ao cont´ınuas nos seus respectivos espa¸cos m´etricos segue que ϕ ser´a cont´ınua
em M.
Observemos que
f(x) = g(x) se, e somente se, dN (f(x), g(x))  0.
Logo A = {x ∈ M : ϕ(x)  0} que, pelo corol´ario (4.2.3), ´e um subconjunto aberto de M,
como quer´ıamos demonstrar.
Para a ´ultima parte basta tomar g(x) = 0, x ∈ M e aplicar a 1.a parte do corol´ario.
Observa¸c˜ao 4.2.2
1. H´a um outro modo de mostrar que uma bola aberta, B(a; r), em um espa¸co m´etrico (M, dM )
´e um subconjunto aberto de M.
Para isto, consideremos f : M → R dada por
f(x)
.
= r − dM (a, x), x ∈ M.
A fun¸c˜ao f ´e cont´ınua em M.
Notemos que
x ∈ B(a; r) se, e somente se, d(x, a)  r
ou, equivalentemente, f(x)  0.
Logo
B(a; r) = {x ∈ M : f(x)  0}.
Logo, do corol´ario (4.2.3), segue que B(a; r) ´e um subconjunto aberto de M.
138 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
2. De modo an´alogo, podemos dar uma outra demosntra¸c˜ao para o fato que o conjunto
A
.
= M  B(a; r)
´e um subconjunto aberto de M.
Para tanto, consideremos g : M → R dada por
g(x)
.
= dN (a, x) − r, x ∈ M.
Temos que a fun¸c˜ao g ´e cont´ınua em M.
Notemos que
x ∈ M  B(a; r) se, e somente se, d(x, a)  r
ou, equivalentemente, g(x)  0.
Logo
M  B(a; r) = {x ∈ M : g(x)  0}.
Logo, do corol´ario (4.2.3), segue que M  B(a; r) ´e um subconjunto aberto de M.
3. Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos.
Observemos que se f : M → N ´e cont´ınua em M e A ⊆ M ´e um subconjunto aberto de
M isto n˜ao implica, necessariamente, que f(A) ⊆ N seja um subconjunto aberto de N.
Para ilustrar isso, consideremos o seguinte exemlo: seja
f : R → R dada por f(x) = x2
, x ∈ R
(onde em R estamos considerando a m´etrica usual).
Sabemos que f ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em R, que A
.
= (−1, 1) ´e um subconjunto aberto de
R mas f(A) = [0, 1) n˜ao ´e um subconjunto aberto de R.
E
T
−1 10
1
x
f(x)
y = x2
Devido a ´ultima observa¸c˜ao acima temos a
Defini¸c˜ao 4.2.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N uma fun¸c˜ao.
Diremos que a fun¸c˜ao f ´e aberta se para todo A ⊆ M subconjunto aberto de M temos que
f(A) ⊆ N ´e um subconjunto aberto de N.
4.2. RELAC¸ ˜OES ENTRE CONJUNTOS ABERTOS E CONTINUIDADE 139
Observa¸c˜ao 4.2.3
1. Logo uma aplica¸c˜ao entre dois espa¸cos m´etricos ´e aberta se, e somente se, ela leva subcon-
juntos abertos de M em subconjuntos abertos de N.
2. O exemplo dado na observa¸c˜ao (4.2.2) item 3. nos mostra que uma aplica¸c˜ao entre dois
espa¸cos m´etricos pode ser cont´ınua e n˜ao ser aberta.
3. De outro lado, nem toda aplica¸c˜ao entre dois espa¸cos m´etricos que ´e uma aplica¸c˜ao aberta
precisa, necessariamente, ser cont´ınua.
Para ilustrar este fato consideremos (M, dM ) espa¸co m´etrico e (N, dN ) o espa¸co m´etrico
discreto.
Ent˜ao toda aplica¸c˜ao f : M → N ser´a aberta em M mas n˜ao, necessariamente, cont´ınua
em M.
Por exemplo se considerarmos f : M → N uma aplica¸c˜ao injetora e p ´e um ponto n˜ao
isolado de M ent˜ao f ´e uma aplica¸c˜ao aberta (pois qualquer subconjunto de N ´e um
subconjunto aberto de N) mas n˜ao ser´a cont´ınua em p, pois se defirmos q = f(p) ent˜ao
como f ´e injetora segue que f−1({q}) = {p} que n˜ao ´e um subconjunto aberto de M apesar
de {q} ser um subconjunto aberto de N (pois q ´e ponto isolado de N e p n˜ao ´e um ponto
isolado).
4. Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N uma bije¸c˜ao.
Como conseq¨uˆencia do teorema (4.2.1), f ´e cont´ınua em M se, e somente se, f−1 : N → M
´e uma aplica¸c˜ao aberta em N.
E
'
f−1
CONT´INUA
ABERTA
M N
f (bijetora)
V
f−1
(V )
Baseado no ´ultimo item da observa¸c˜ao acima temos a
Proposi¸c˜ao 4.2.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N uma bije¸c˜ao.
f ´e um homeomorfismo de M em N se, e somente se, f induz uma bije¸c˜ao entre os abertos de
M e N, isto ´e, U ´e um subconjunto aberto de M se, e somente se, V
.
= f(U) ´e um subconjunto
aberto de N, isto ´e, f e f−1 s˜ao aplica¸c˜oes abertas em M e N, respectivamente.
140 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
E
'
f−1
CONT´INUA
CONT´INUA
E
'
f−1
ABERTA
f (bijetora)
ABERTA
M Nf (bijetora)
V = f(U)
U = f−1
(V )
Demonstra¸c˜ao:
Basta observar que f ´e um homeomorfismo de M em N se, e somente se, f e f−1 s˜ao
cont´ınuas em M e N, respectivamente e utilizar o teorema (4.2.1).
Observa¸c˜ao 4.2.4 Um outro modo de interpretar o resultado acima seria: suponhamos que
f : M → N bijetora.
f ´e um homeomorfismo de M em N se, e somente se, f e f−1 s˜ao aplica¸c˜oes abertas.
Corol´ario 4.2.5 Sejam (M, d1) e (M, d2) espa¸cos m´etricos.
d1 ∼ d2 se, e somente se, todo subconjunto aberto em (M, d1) ´e aberto em (M, d2) e recipro-
camente.
E
'
i21
CONT´INUA
CONT´INUA
E
'
i21
ABERTA
i12
ABERTA
(M, d1) (M, d2)i12
U = i−1
12 (V ) = i21(V ) V = i12(U) = i−1
21 (U)
U V
Demonstra¸c˜ao:
Lembremos que para as m´etricas d1 e d2 serem equivalentes ´e necess´ario e suficiente que a
aplica¸c˜ao identidada i12 : (M, d1) → (M, d2) seja um homeomorfismo.
Devido a proposi¸c˜ao acima ´e necess´ario e suficiente que as aplica¸c˜oes identidades
i12 : (M, d1) → (M, d2) e i21 : (M, d2) → (M, d1)
sejam abertas, ou seja, todo todo subconjunto aberto em (M, d1) ´e aberto em (M, d2) e re-
ciprocamente.
4.2. RELAC¸ ˜OES ENTRE CONJUNTOS ABERTOS E CONTINUIDADE 141
Observa¸c˜ao 4.2.5 Como conseq¨uˆencia do resultado acima os subconjuntos abertos do produto
cartesiano de espa¸cos m´etricos independem de uma das trˆes m´etricas usuais que utilizarmos no
espa¸co produto (pois, como vimos no cap´ıtulo anteior, elas s˜ao equivalentes).
Um outro resultado interessante sobre abertos no produto cartesiano ´e dado pela
Proposi¸c˜ao 4.2.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) e (M × N, dM×N ) espa¸cos m´etricos onde dM×N ´e
uma das trˆes m´etricas usuais do espa¸co produto.
Um subconjunto A ⊆ M × N ´e um subconjunto aberto em M × N se, e somente se, A ´e
reuni˜ao de ”retˆangulos abertos”, isto ´e,
A =
λ∈Λ
[Uλ × Vλ],
onde, para cada λ ∈ Λ temos que Uλ ⊆ M ´e um subconjunto aberto de M e Vλ ⊆ N ´e um
subconjunto aberto de N.
Demonstra¸c˜ao:
Suficiˆencia (⇐):
Suponhamos que A =
λ∈Λ
[Uλ × Vλ], onde, para cada λ ∈ Λ temos que Uλ ⊆ M ´e um
subconjunto aberto de M e Vλ ⊆ N ´e um subconjunto aberto de N.
Do corol´ario (4.2.1) segue que, para todo λ ∈ Λ, temos que Uλ × Vλ ⊆ M × N ´e um
subconjunto aberto de M × N.
Logo, da proposi¸c˜ao (4.1.5) item 3., segue que A ´e um subconjunto aberto de M × N.
Necessidade (⇒):
Suponhamos que A ⊆ M × N ´e um subconjunto aberto de M × N.
Pelo corol´ario (4.2.5), podemos supor, sem perdade de generalidade, que a m´etrica em M ×N
´e a m´etrica do m´aximo, isto ´e,
dmax((x, y), (x , y )) = max{dM (x, x ), dN (y, y )},
onde (x, x ), (y, y ) ∈ M ×N (pois as outras duas m´etricas usuais s˜ao equivalentes a esta e temos
o corol´ario (4.2.5)).
Mas em (M × N, dmax) uma bola aberta ´e o produto cartesiano de uma bola aberta de M
por uma bola aberta de N (*).
Como A ´e aberto em (M × N, dmax), dado z ∈ A temos que existe uma bola aberta, Bz, em
(M × N, dmax) tal que z ∈ Bz.
Mas pelo que vimos em (*)
Bz = UM
z × V N
z
onde UM
z e V N
z s˜ao bolas abertas em M e N, respectivamente.
Portanto
A =
z∈A
Bz =
z∈A
[UM
z × V N
z ],
mostrando que todo subconjunto aberto de M ×N pode ser escrito como reuni˜ao de ”retˆangulos
abertos” (isto ´e, produto cartesiano de bolas abertas de M e N, respectivamente).
Como conseq¨uˆencia temos o
142 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Corol´ario 4.2.6 Sejam (M, dM ), (N, dN ) e (M × N, dM×N ) espa¸cos m´etricos onde dM×N ´e
uma das trˆes m´etricas usuais do espa¸co produto.
As proje¸c˜oes p1 : M × N → M e p2 : M × N → N s˜ao aplica¸c˜oes abertas em M e N,
respectivamente.
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos que A ⊆ M × N seja um subconjunto aberto em M × N.
Da proposi¸c˜ao (4.2.2) segue que
A =
λ∈Λ
[Uλ × Vλ],
onde Uλ e Vλ s˜ao subconjuntos abertos em M e N, respectivamente.
Mas
p1(A) = p1(
λ∈Λ
[Uλ × Vλ])
[exerc´ıcio para o leitor]
=
λ∈Λ
p1(Uλ × Vλ)
[p1(Uλ×Vλ)=Uλ]
=
λ∈Λ
Uλ
e como Uλ ´e um subconjunto aberto de M segue, da proposi¸c˜ao (4.1.5) item 3., que p1(A) ser´a
um subconjunto aberto de M.
De modo semelhante mostram-se que
p2(A)
[exerc´ıcio para o leitor]
=
λ∈Λ
Vλ
ser´a um subconjutno aberto de N, completando a demonstra¸c˜ao do corol´ario.
Para finalizar esta se¸c˜ao temos a
Observa¸c˜ao 4.2.6 Podemos estender a proposi¸c˜ao (4.2.2) e o corol´ario (4.2.6) para o produto
cartesiano de um n´umero finito de espa¸cos m´etricos.
14.10.2008 - 19.a
4.3 Espa¸cos topol´ogicos
Como veremos a seguir no estudo da continuidade de fun¸c˜oes n˜ao precisamos, necessariamente,
ter m´etricas envolvidas no dom´ınio e contra dom´ınio da fun¸c˜ao em quest˜ao.
Na verdade, o que precisamos ´e saber como s˜ao os conjuntos ”abertos”do dom´ınio e do contra
dom´ınio da fun¸c˜ao.
O que faremos a seguir ´e definir e estudar o que s˜ao esses conjuntos ”abertos”.
Defini¸c˜ao 4.3.1 Seja X um conjunto.
Diremos que uma cole¸c˜ao τ de subconjuntos das partes de X (isto ´e, τ ⊆ P(X)) ´e uma
topologia em X se as seguintes condi¸c˜oes est˜ao satisfeitas:
(T1) ∅, X ∈ τ;
(T2) Se A1, A2, · · · , An ∈ τ ent˜ao
n
i=1
Ai ∈ τ;
4.3. ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS 143
(T3) Se (Aλ)λ∈L ´e uma fam´ılia tal que Aλ ∈ τ para λ ∈ L ent˜ao
λ∈L
Aλ ∈ τ.
Neste caso, os elementos de τ ser˜ao denominados abertos de X.
Ao par (X, τ) daremos o nome de espa¸co topol´ogico.
Observa¸c˜ao 4.3.1 Resumindo, uma topologia ´e uma cole¸c˜ao formada por subconjuntos de X
que cont´em ∅, X, que a intersec¸c˜ao finita de elementos da cole¸c˜ao esteja na cole¸c˜ao e que a
reuni˜ao qualquer de elementos da cole¸c˜ao tamb´em dever´a estar na cole¸c˜ao.
Exemplo 4.3.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico.
Consideremos τ a cole¸c˜ao de todos os subconjuntos abertos de M relativamente `a m´etrica d.
Afirmamos que τ ´e uma topologia em M.
De fato:
(T1) Da Proposi¸c˜ao (4.1.5) item 1. ∅ e M s˜ao abertos em rela¸c˜ao a m´etrica d, logo ∅, M ∈ τ;
(T2) Se A1, · · · , An ∈ τ ent˜ao A1, · · · , An s˜ao abertos relativamente a m´etrica d.
Da Proposi¸c˜ao (4.1.5) item 2. segue que
n
i=1
Ai ser´a um subconjunto aberto relativamente
a m´etrica d, isto ´e,
n
i=1
Ai ∈ τ;
(T3) Se Aλ ∈ τ para todo λ ∈ L ent˜ao Aλ s˜ao abertos relativamente a m´etrica d para todo
λ ∈ L.
Da Proposi¸c˜ao (4.1.5) item 3. segue que
λ∈L
Aλ ser´a um subconjunto aberto relativamente
a m´etrica d, isto ´e,
λ∈L
Aλ ∈ τ,
mostrando com isto que τ ´e uma topologia em M.
Nota¸c˜ao 4.3.1 A topologia τ acima ser´a dita topologia induzida pela m´etrica d de M.
Defini¸c˜ao 4.3.2 Diremos que uma topologia τ em X ´e metriz´avel se existir uma m´etrica d
em X tal que todo subconjunto aberto da topologia τ ´e subconjunto aberto segundo a m´etrica d e
reciprocamente, todo subconjunto aberto relativamente a m´etrica d ´e um subconjunto aberto da
topologia τ.
Observa¸c˜ao 4.3.2
1. O exemplo (4.3.1) nos mostrar que todo espa¸co m´etrico ´e um espa¸co topol´ogico (com a
topologia induzida pela m´etrica).
Pergunta-se:
Todo espa¸co topol´ogico ´e metriz´avel?
A resposta ´e negativa, em geral.
Na lista de exerc´ıcios h´a um exerc´ıcio que exibe um exemplo de um espa¸co topol´ogico que
n˜ao ´e metriz´avel (Exerc´ıcio 41 Cap´ıtulo 3).
144 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
2. Sejam d1 e d2 m´etricas em M.
Ent˜ao d1 e d2 s˜ao equivalentes se, e somente se, elas determinam a mesma topologia em
M.
De fato, do corol´ario (4.2.5) segue que todo aberto segundo uma das m´etricas ser´a aberto
segundo a outra m´etrica, ou seja, as topologias induzidas pelas m´etricas d1 e d2 coincidem.
Um tipo importante de espa¸co topol´ogico ´e o dado pela
Defini¸c˜ao 4.3.3 Diremos que um espa¸co topol´ogico (X, τ) ´e um espa¸co de Hausdorff se
dados x, y ∈ X, x = y existirem A, B ∈ τ tais que x ∈ A, y ∈ B e A ∩ B = ∅.
Observa¸c˜ao 4.3.3
1. Um espa¸co topol´ogico ´e de Hausdorff se, e somente se, dados dois pontos distintos, existem
abertos, disjuntos, cada um deles contendo um dos pontos dados.
Empiricamente, a topologia ”separa pontos”(vide figura abaixo).
x y
A ∈ τ
B ∈ τ
2. Afirmamos que todo espa¸co topol´ogico metriz´avel ´e um espa¸co de Hausdorff.
De fato, dados dois pontos distintos, a proposi¸c˜ao (2.2.3), garante que existem bolas aber-
tas, disjuntas, centradas nos pontos em quest˜ao e, da proposi¸c˜ao (4.1.1) temos que bolas
abertas s˜ao conjuntos abertos, completando a prova da afirma¸c˜ao.
A seguir exibiremos alguns exemplos de topologias que ser˜ao ´uteis em v´arias situa¸c˜oes que
ser˜ao abordadas mais adiante.
Exemplo 4.3.2 Seja X e consideremos τ = P(X), ou seja, τ ´e formado por todos os subcon-
juntos de X.
Segue que τ ´e uma toplogia em X pois:
(T1) ∅ e X s˜ao subconjuntos de X, logo ∅, X ∈ τ;
(T2) Se A1, · · · , An ∈ τ, isto ´e, se A1, · · · , An s˜ao subconjuntos de X ent˜ao .
n
i=1
Ai ser´a um
subconjunto X, ou seja,
n
i=1
Ai ∈ τ;
4.3. ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS 145
(T3) Se Aλ ∈ τ para todo λ ∈ L ent˜ao Aλ ser´a subconjunto de X para todo λ ∈ L.
Logo
λ∈L
Aλ ser´a um subconjunto de X, ou seja,
λ∈L
Aλ ∈ τ,
mostrando com isto que τ ´e uma topologia em X.
Observa¸c˜ao 4.3.4 Na topologia acima todo subconjunto de X ser´a um subconjunto aberto (se-
gundo a topologia acima).
Nenhuma outra topologia de X poder´a conter mais abertos do que a topologia acima.
Nota¸c˜ao 4.3.2 A topologia acima ser´a dita topologia discreta em X.
Um outro exemplo interessante (e importante) ´e
Exemplo 4.3.3 Seja X e consideremos τ = {∅, X}, ou seja, τ ´e formado somente por estes
dois subconjuntos de X.
Segue que τ ´e uma toplogia em X pois:
(T1) ∅, X ∈ τ ;
(T2) Se A1, · · · , An ∈ τ ent˜ao Ai =



∅
ou
X
, i = 1, · · · , n.
Logo
n
i=1
Ai =



∅
ou
X
, ou seja,
n
i=1
Ai ∈ τ;
(T3) Se Aλ ∈ τ para todo λ ∈ L ent˜ao Aλ =



∅
ou
X
para todo λ ∈ L.
Logo
λ∈L
Aλ =



∅
ou
X
, ou seja,
λ∈L
Aλ ∈ τ,
mostrando com isto que τ ´e uma topologia em X.
Nota¸c˜ao 4.3.3 A topologia do exemplo (4.3.3) ser´a dita topologia ca´otica em X.
Observa¸c˜ao 4.3.5
1. Na topologia acima os ´unicos subconjuntos abertos ser˜ao o conjunto ∅ e X.
Nenhuma outra topologia de X poder´a conter menos abertos do que a topologia acima.
2. Se o conjunto X possue pelo menos dois pontos distintos ent˜ao o espa¸co topol´ogico (X, τ),
onde τ ´e a topologia acima n˜ao ser´a um espa¸co de Hausdorff (pois o ´unico aberto diferente
do ∅ ´e X).
3. Quando estamos trabalhando com espa¸cos topol´ogicos, (X, τX), (Y, τY ) (n˜ao m´etricos) uma
fun¸c˜ao f : X → Y ser´a dita cont´ınua em X se, e somente se, para todo B ⊆ Y aberto em
Y tenhamos f−1(B) ⊆ X aberto em X.
146 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
4.4 Conjuntos fechado
Come¸caremos pela
Defini¸c˜ao 4.4.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e X ⊆ M.
Diremos que o ponto a ∈ M ´e aderente a X quando
d(a, X) = 0.
Observa¸c˜ao 4.4.1
1. Logo o ponto a ∈ M ser´a aderente a X se, e somente se,
0 = d(a, X) = inf{d(a, x) : x ∈ X}
que ´e equivalente a. dado ε  0 exitir xε ∈ X tal que
d(xε, a)  ε.
Geometricamente temos
a
s
ε
xε ∈ X
2. Outros modos, equivalentes, de dizer que um ponto a ∈ M ´e ponto aderente de X seriam:
(a) Para todo ε  0 temos que B(a; ε) ∩ X = ∅;
(b) Para todo subsconjunto A ⊆ M aberto em M contendo o ponto a temos que A∩X = ∅;
(c) Toda vizinhan¸ca do ponto a tem, pelo menos, um ponto de X.
A verifica¸c˜ao destas equivalˆencias ´e imediata e sua reda¸c˜ao ser´a deixada como exerc´ıcio
para o leitor.
Exemplo 4.4.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico e X ⊆ M n˜ao vazio.
Ent˜ao todo ponto a ∈ X ´e ponto aderente de X (pois toda vizinhan¸ca do ponto a cont´em o
ponto a que pertence a X).
Al´em disso, os pontos da fronteira de X (isto ´e, de ∂X) s˜ao pontos aderentes a X (pois, da
defini¸c˜ao de fronteira, se um ponto est´a na fronteira toda vizinha¸ca dele possui pontos que est˜ao
em X).
Em particular, o ponto 1 ∈ R ´e ponto aderente a X = [0, 1) onde neste consideramos a
m´etrica induzida pela m´etrica usual de R (mas n˜ao pertence a X).
Com isto temos a
Defini¸c˜ao 4.4.2 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M.
Definimos o fecho de X (em M), indicado por X, como sendo o conjunto formado por
todos os pontos de M que s˜ao aderentes a X.
4.4. CONJUNTOS FECHADO 147
Observa¸c˜ao 4.4.2
1. Assim, a ∈ X se, e somente se, o ponto a ∈ M ´e ponto aderente a X.
2. Pode-se ver que:
(a) ∅ = ∅;
(b) M = M;
(c) Se X ⊆ Y ⊆ M ent˜ao X ⊆ Y .
A verifica¸c˜ao destes fatos ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
3. Da defini¸c˜ao temos que: a ∈ X se, e somente se, d(a, X) = 0.
Em particular, se (E, . ) ´e um espa¸co vetorial noramdo, da Proposi¸c˜ao (2.4.1), segue que
b ∈ B(a; r) se, e somente se, b ∈ B[a; r], ou seja,
B(a; r) = B[a; r].
4. Em geral, num espa¸co m´etrico, isto n˜ao ser´a verdade.
Para ver isto, consideremos M
.
= [0, 1] ∪ {2} ⊆ R com a m´etrica induzida pela m´etrica
usual de R.
Notemos que B(0; 2) = [0, 1], logo B(0; 2) = [0, 1].
Mas B[0; 2] = M, ou seja,
B(0; 2) ⊆ B[0; 2].
Em geral temos:
Proposi¸c˜ao 4.4.1 Seja (M, d) ´e um espa¸co m´etrico, a ∈ M e r  0.
Ent˜ao
B(a; r) ⊆ B[a; r].
Demonstra¸c˜ao:
Seja b ∈ B(a; r), isto ´e, b ´e ponto aderente a bola aberta B(a; r).
Suponhamos, por absurdo, que b ∈ B[a; r], isto ´e,
d(b, a)  r.
Consideremos s
.
= d(b, a) − r  0.
Ent˜ao para todo x ∈ B(a; r) temos que
d(b, x) ≥ d(a, b) − d(a, x)
[d(a,x)r]
 d(a, b) − r = s,
ou seja,
d(b, B(a; r)) = inf{d(b, x) : x ∈ B(a; r)} ≥ s  0,
mostrando que b n˜ao ´e ponto aderente de B(a; r), o que ´e um absurdo, logo d(b, a) ≤ r, isto ´e,
b ∈ B[a; r], como quer´ıamos mostrar.
Observa¸c˜ao 4.4.3
148 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
1. Para que um ponto a ∈ M n˜ao seja aderente a um subconjunto X de M basta que exista
uma bola aberta centrada no ponto a que n˜ao contenha nunhum elemento de X, isto ´e,
existe r  0 tal que
B(a; r) ∩ X = ∅.
2. Observemos que B(a; r)∩X = ∅ se, e somente se, B(a; r) ⊆ M X, ou, equivalentemente,
o ponto a ´e ponto interior de M  X.
a
s
ε
X
Com isto temos que: a ∈ X se, e somente se, a ∈ int[M  X].
3. Com isto temos as seguintes identidades:
M  X = int[M  X],
isto ´e,
[X]c
= int[Xc
].
4. Sabemos que
M = int(X) ∪ ∂X ∪ int[M − X],
onde a reuni˜ao ´e disjunta.
Logo
X = int(X) ∪ ∂(X)
e a reuni˜ao ser´a disjunta.
Um conceito importante ´e dado pela
Defini¸c˜ao 4.4.3 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M.
Diremos que X ´e denso em M se X = M.
Observa¸c˜ao 4.4.4 Temos que X ⊆ M ´e denso em M, se e somente se, todo ponto de M for
ponto aderente de X, ou seja, toda bola aberta centra em um ponto a ∈ M contiver, pelo menos,
um ponto de X.
Equivalentemente, todo aberto, A, n˜ao vazio, de M contendo o ponto a satisfaz
A ∩ X = ∅.
4.4. CONJUNTOS FECHADO 149
a ∈ M
I
r
x ∈ X
Exemplo 4.4.2 O conjunto formado pelos n´umeros racionais, Q, ´e denso em R.
O conjunto formado pelos n´umros irracionais, I = R  Q, ´e denso em R.
De fato, pois todo bola aberta centrada em um n´umero real (sito ´e, intervalo aberto) cont´em
n´umeros raionais e irracionais, mostrando que todo n´umero real ´e ponto aderente de Q e de I.
Proposi¸c˜ao 4.4.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, X ⊆ M e Y ⊆ N.
Se X ´e denso em M e Y ´e denso em N ent˜ao X × Y ´e denso em M × N munido de uma
das trˆes m´etricas usuais.
Demonstra¸c˜ao:
Seja A ⊆ M × N aberto, n˜ao vazio, em M × N.
Da Proposi¸c˜ao (4.2.2) segue que existem abertos U ⊆ M e V ⊆ N tal que U × V ⊆ A.
Como X ´e denso em M, Y ´e denso em N, U ⊆ M e V ⊆ N s˜ao abertos em M e N,
respectivamente, segue que existem x ∈ U ∩ X e y ∈ V ∩ Y .
Logo o ponto
z
.
= (x, y) ∈ (U × V ) ∩ (X × Y )
ou ainda,
z
.
= (x, y) ∈ A ∩ (X × Y ),
mostrando que X × Y ´e denso em M × N.
Como conseq¨uˆencia temos o
Corol´ario 4.4.1 Sejam (M1, d1), · · · , (Mn, dn) espa¸cos m´etricos, Xj ⊆ Mj , j = 1, · · · , n.
Se Xj ´e denso em Mj para todo j = 1, · · · , n ent˜ao X1 ×· · ·×Xn ´e denso em M1 ×· · ·×Mn.
Demonstra¸c˜ao:
A demonstra¸c˜ao ´e feita por indu¸c˜ao e ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
Tamb´em como conseq¨uˆencia temos
Corol´ario 4.4.2 Qn e In s˜ao densos em Rn, onde Qn (ou In) s˜ao as n-uplas cujas entradas
s˜ao n´umeros racionais (ou irracionais).
Demonstra¸c˜ao:
Segue do fato que Q e I s˜ao densos em R e do corol´ario acima.
Temos a
150 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Proposi¸c˜ao 4.4.3 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico, a ∈ M e X ⊆ M n˜ao vazio. Ent˜ao
d(a, X) = d(a, X).
Demonstra¸c˜ao:
Como X ⊆ X segue que
d(a, X) = inf{d(x, a) : x ∈ X}
[X⊆X]
≤ inf{d(y, a) : y ∈ X} = d(a, X). (∗)
Afirmamos que se
d(a, X)  m ent˜ao d(a, X)  m. (∗∗)
De fato, se d(a, X)  m ent˜ao existe x0 ∈ X tal que d(a, x0)  m.
Como x0 ´e ponto aderente de X segue que, dado
ε
.
= m − d(a, x0)  0,
existe x1 ∈ X tal que
d(x1, x0)  ε = m − d(a, x0).
Logo
d(a, X) ≤ d(a, x1) ≤ d(a, x0) + d(x0, x1)  d(a, x0) + (m − d(a, x0)) = m,
ou seja, d(a, X)  m.
Assim
d(a, X) ≤ d(a, X), (∗ ∗ ∗)
pois, suponhamos, por absurdo que d(a, X)  d(a, X).
Logo existe m ∈ (d(a, X, d(a, X)), isto ´e, d(a, X  m  d(a, X) contrariando (**).
Portanto de (*) e (***) temos que d(a, X) = d(a, X), como quer´ıamos demonstrar.
Como conseq¨uˆencia temos o
Corol´ario 4.4.3 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M n˜ao vazio. Ent˜ao
X = X.
Demonstra¸c˜ao:
Sabemos que X ⊆ X.
Por outro lado, se a ∈ X ent˜ao a ´e ponto aderente a X, isto ´e, d(a, X) = 0.
Mas da proposi¸c˜ao acima temos que
0 = d(a, X) = d(a, X),
isto ´e, a ´e ponto aderente a X, ou ainda, a ∈ X, como quer´ıamos demonstrar.
16.10.2008 - 20.a
Temos a
Defini¸c˜ao 4.4.4 Seja (M, d) espa¸co m´etrico.
Diremos que F ⊆ M ´e um subconjunto fechado de M se seu complementar, M  F, for um
subconjunto aberto de M.
4.4. CONJUNTOS FECHADO 151
O resultado a seguir relaciona o conceito de um conjunto ser fechado com o de fecho do
conjunto, a saber
Proposi¸c˜ao 4.4.4 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e F ⊆ M. Ent˜ao
F = F se, e somente se, M  F ´e um subconjunto aberto de M (isto ´e, F ´e um subconjunto
fechado de M).
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que:
F = F, se, e somente se, os pontos que n˜ao pertecem a F n˜ao s˜ao pontos aderentes a F
ou, equivalentemente, para todo ponto a ∈ M  F existe uma bola aberta, B(a; r), tal que
B(a; r) ∩ F = ∅ ( isto ´e, B(a; r) ⊆ M  F).
Isto ´e equivalente a dizer que para todo ponto de a ∈ M F existe uma bola aberta, B(a; r),
tal que B(a; r) ⊆ M  F, ou seja, que M  F ´e um subconjunto aberto de M.
Observa¸c˜ao 4.4.5 A proposi¸c˜ao acima nos diz que um subconjunto de um espa¸co m´etrico ´e
fechado se, e somente se, ele cont´em todos seus pontos aderentes.
De modo an´alogo, a proposi¸c˜ao acima nos diz que um subconjunto de um espa¸co m´etrico ´e
fechado se, e somente se, ele ´e igual ao seu fecho.
Como conseq¨uˆencia imediata temos o
Corol´ario 4.4.4 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M.
Ent˜ao X ´e um subconjunto fechado de M.
Demonstra¸c˜ao:
Do corol´ario (4.4.3) sabemos que X = X, assim, da proposi¸c˜ao acima segue que X ´e um
subconjunto fechado de M.
Observa¸c˜ao 4.4.6
1. Na situa¸c˜ao acima temos que X ´e o menor subconjunto fechado de M que cont´em F, isto
´e, se F ⊆ M ´e um subconjunto fechado em M e X ⊆ F ent˜ao X ⊆ F.
De fato, se X ⊆ F ent˜ao, da observa¸c˜ao (4.4.2 ) item 2. (c), segue que
X ⊆ F
[proposi¸c˜ao (4.4.4)]
= F.
Deste modo podemos obter o fecho de um subconjunto X de M da seguinte forma:
X =
F ´e fechado em M e X⊆F
F.
2. Um subconjunto X de M n˜ao ´e fechado se, e somente se, existe a ∈ X que ´e ponto aderente
a X.
Equivalentemente, existe a ∈ X e para cada ε  0 temos B(a; r) ∩ X = ∅.
Conclus˜ao: tal ponto a dever´a pertencer a fronteira de X.
Em particular mostramos que: X ´e subconjunto fechado de M se, e somente se, ∂X ⊆ X.
152 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
3. Todo cuidado ´e pouco! ”ser fechado” n˜ao ´e o contr´ario de ”ser aberto”, isto ´e, existem
subconjuntos de um espa¸co m´etrico que podem n˜ao ser nem fechado e nem aberto.
Por exemplo o subconjunto Q em R n˜ao ´e aberto (pois todo intervalo aberto contendo um
n´umero racional conter´a um n´umero irracional).
Por outro lado ele tamb´em n˜ao ser´a fechado em R (pois todo n´umero irracional ´e aderente
a Q).
Conclus˜ao: Q n˜ao ´e nem um subconjunto aberto e nem um subconjunto fechado em R.
4. Pode acontecer de um subconjunto de um espa¸co m´etrico ser aberto e fechado neste espa¸co
m´etrico.
Um exemplo geral disto ´e ver que espa¸co todo e o conjunto vazio s˜ao subconjuntos abertos
e fechados nele mesmo.
Um outro exemplo ´e considerar
M
.
= R  {0} = (−∞, 0) ∪ (0, ∞)
com a m´etrica induzida pela m´etrica usuas de R.
Observemos que (−∞, 0) e (0, ∞) s˜ao subconjuntos abertos em M.
Alem disso temos que (−∞, 0)c = (0, ∞) e (0, ∞)c = (−∞, 0) (o complementar ´e tomado
em M(−∞, 0) ∪ (0, ∞)).
Logo os complementares (em M) de (−∞, 0) e de (0, ∞) s˜ao subconjunto abertos de M,
ou seja, (−∞, 0) e de (0, ∞) tamb´em s˜ao subconjunto fechados de M.
5. Seja (M, d) um espa¸co m´etrico discreto.
Como todo subconjunto de M ´e aberto segue todo subconjunto de M ´e fechado (pois seu
complementar ´e um subconjunto de M, logo aberto em M)
Exerc´ıcio 4.4.1 Consideremos Q munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R.
Temos que
(
√
2, ∞)Q = {x ∈ Q :
√
2  x  ∞}
´e um subconjunto aberto de Q (por que?).
Observemos que
(
√
2, ∞)c
Q = {x ∈ Q : −∞  x 
√
2}
(o complementar do conjunto em Q) que ´e um subconjunto aberto em Q.
Logo (
√
2, ∞)Q ´e um subconjunto fechado em Q.
Portanto (
√
2, ∞)Q ´e um subconjunto aberto e fechado em Q.
Exemplo 4.4.3 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico, a ∈ M e r  0.
Ent˜ao B[a; r] ´e um subconjunto fechado de M pois, da proposi¸c˜ao (4.1.2) segue que MB[a; r]
´e um subconjunto aberto de M.
Exemplo 4.4.4 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico e X ⊆ M subconjunto de M.
Ent˜ao ∂X ´e subconjunto fechado de M.
De fato, a observa¸c˜ao (4.4.3) item 4. implica que
[∂X]c
= M  ∂X = int(X) ∪ int(M  X).
4.4. CONJUNTOS FECHADO 153
Como int(X) e int(M  X) s˜ao subconjuntos abertos de M segue que int(X) ∪ int(M  X)
ser´a um subconjunto aberto de M, ou seja, [∂X]c ser´a um subconjunto aberto de M, mostrando
que ∂X ´e um subconjunto fechado de M.
int(X)
int(M  X) c
∂X
Exemplo 4.4.5 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico e F = {a1, · · · , an} (isto ´e, um subconjunto
finito de M).
Ent˜ao F ´e fechado em M.
De fato, se a ∈ F ent˜ao
d(a, F) = inf{d(a, aj) : j = 1, · · · , n} = d(a, aj0 ),
para j0 ∈ {1, · · · , n}.
Mas
d(a, aj0 )  0
pois a ∈ F.
Logo d(a, F)  0, isto ´e, a ∈ F n˜ao ser´a ponto aderente de F.
Conclus˜ao: os ´unicos pontos aderentes de F s˜ao os pontos de F, isto ´e, F cont´em todos os
seus pontos aderentes, ou seja, F ´e um subcojnuto fechado de M.
Observa¸c˜ao 4.4.7 Na situa¸c˜ao acima, se a ∈ M ent˜ao {a} ´e um subcojnuto fechado de M.
Em geral temos as seguintes propriedades para subconjuntos fechados de um esap¸co m´etrico
Proposi¸c˜ao 4.4.5 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico.
Ent˜ao
1. O conjunto vazio, ∅ e o espa¸co inteiro, M, s˜ao subconjuntos fechados de M;
2. A reuni˜ao finita de subconjuntos fechados de M ´e um subconjunto fechado de M, isto ´e, se
Fi ´e um subconjunto fechado de M, i = 1, 2, · · · , n ent˜ao
n
i=1
Fi ´e um subconjunto fechado
de M;
3. A intersec¸c˜ao qualquer de subconjuntos fechados de M ´e um subconjunto fechado de M,
isto ´e, se Fλ ´e um subconjunto fechado de M, para todo λ ∈ A, ent˜ao
λ∈A
Fλ ´e um
subconjunto fechado de M.
154 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Demonstra¸c˜ao:
Lembremos que todo espa¸co m´etrico ´e um esta¸co topol´ogico (munido da topologia gerada
pelos abertos definidos pela m´etrica).
De 1.:
Do exemplo (4.3.1), item (T1), segue que ∅ e M s˜ao subconjuntos abertos de M.
Mas
∅c
= M e Mc
= ∅,
ou seja, os complementares de ∅ e M s˜ao subconjuntos abertos de M, mostrando que ∅ e M s˜ao
subconjuntos fechados de M.
De 2.:
Sabemos que, para cada i ∈ {1, 2, · · · , n}, Fi ´e um subconjunto fechado de M, ou seja, que
Fc
i ´e um subconjunto aberto de M.
Logo do exemplo (4.3.1), item (T2), segue que
n
i=1
Fc
i ser´a um subconjunto aberto de M.
Mas
[
n
i=1
Fi]c
=
n
i=1
Fc
i ,
e [
n
i=1
Fi]c
´e um subconjunto aberto de M implicando que
n
i=1
Fi ser´a um subconjunto fechado
de M.
De 3.:
Sabemos que, para cada λ ∈ A, Fλ ´e um subconjunto fechado de M, ou seja, que Fc
λ ´e um
subconjunto aberto de M.
Logo do exemplo (4.3.1), item (T3), segue que
n
λ∈A
Fc
λ ser´a um subconjunto aberto de M.
Mas
[
λ∈A
Fλ]c
=
λ∈A
Fc
λ,
e [
λ∈A
Fλ]c
´e um subconjunto aberto de M implicando que
λ∈A
Fλ ser´a um subconjunto fechado
de M, completando a demonstra¸c˜ao da proposi¸c˜ao.
Um outro resultado importante ´e
Proposi¸c˜ao 4.4.6 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e uma aplica¸c˜ao f : M → N.
Ent˜ao
f ´e cont´ınua em M se, e somente se, para todo F, subconjunto fechado de N, tivermos que
f−1(F) ´e um subconjunto fechado de M.
Demonstra¸c˜ao:
Pode-se mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que, para todo G ⊆ N, temos
f−1
(Gc
) = [f−1
(G)]c
. (∗)
Logo, se f ´e cont´ınua em M e F ´e um subconjunto fechado de N ent˜ao Fc um subconjunto
aberto de N.
4.4. CONJUNTOS FECHADO 155
Como f ´e cont´ınua em M segue do teorema (4.2.1) que f−1(Fc) ser´a um subconjunto aberto
de M, logo, de (*), temos que [f−1(F)]c ser´a um subconjunto aberto de M mostrando que
f−1(F) ser´a um subconjunto fechado de M.
Reciprocamente, se para todo F, subconjunto fechado de N, tivermos que f−1(F) ´e um
subconjunto fechado de M ent˜ao dado A, um subconjunto aberto de N temos que Ac ser´a um
subconjunto fechado de N.
Logo, por hip´otese, temso que f−1(Ac) ser´a subconjunto fechado de M.
Assim, de (*), segue que [f−1(A)]c ser´a subconjunto fechado de M, ou seja, f−1(A) ser´a
subconjunto aberto de M.
Portanto, do teorema (4.2.1) segue que f ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em M, completando a prova
da proposi¸c˜ao.
Observa¸c˜ao 4.4.8 Conclus˜ao: uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que uma fun¸c˜ao entre
espa¸cos m´etricos seja cont´ınua ´e que imagem inversa de subconjuntos fechados sejam subcon-
juntos fechados.
Antes do pr´oximos resultados introduziremos a seguinte
Defini¸c˜ao 4.4.5 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e uma aplica¸c˜ao f : M → N.
Diremos que a fun¸c˜ao f ´e fechada se para todo A subconjunto fechado de M tivermos que
f(A) ´e um subconjunto fechado de N.
Com isto temos o
Corol´ario 4.4.5 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e uma aplica¸c˜ao f : M → N
bijetora. Ent˜ao
f ´e um homeomorfismo de M em N se, e somente se, f ´e cont´ınua e fechada em M.
Demonstra¸c˜ao:
Se f ´e um homeomorfismo de M em N ent˜ao f e f−1 ser˜ao cont´ınuas em N.
E
f
A
'
f−1
f(A) = [f−1
]−1
(A)
M N
Logo se A ´e subconjunto fechado de M, da proposi¸c˜ao acima deveremos ter que [f−1]−1(A)
´e um subconjunto fechado de N.
Como f ´e bijetora temos que
f(A) = [f−1
]−1
(A). (∗)
156 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Logo f(A) ´e um subconjunto fechado de N.
Reciprocamente, se f ´e fechada em M e A ´e um subconjunto aberto em M ent˜ao Ac ser´a
um subconjunto fechado em M.
Logo f(Ac) ser´a um subconjunto fechado em N.
Como [f(A)]c = f(Ac) temos que f(A) ser´a um subconjunto aberto em N.
Assim, de (*), segue que [f−1]−1(A) ser´a um subconjunto aberto de N.
Logo, do teorema (4.2.1) segue que a fun¸c˜ao f−1 ser´a cont´ınua em N, ou seja, f ´e um
homeomorfismo de M em N, completando a demonstra¸c˜ao.
Observa¸c˜ao 4.4.9 Conclus˜ao: uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que uma fun¸c˜ao bi-
jetora entre espa¸cos m´etricos seja um homeomorfismo ´e que imagem inversa de subconjuntos
fechados sejam subconjuntos fechados e que imagem de subconjuntos fechados sejam subconjun-
tos fechados.
Uma outra conseq¨uˆencia da proposi¸c˜ao acima ´e
Corol´ario 4.4.6 Sejam (M1, d1), · · · (Mn, dn) espa¸cos m´etricos e Fi ⊆ Mi subconjuntos fechados
de Mi, i = 2, · · · , n.
Ent˜ao F1 × · · · × Fn ´e um subconjunto fechado de M1 × · · · × Mn (este munido de uma das
trˆes m´etricas b´asicas).
Demonstra¸c˜ao:
Sabemos, do exemplo (3.1.13), que as proje¸c˜oes
pi : M1 × · · · × Mn → Mi,
dadas por
pi(x1, · · · , xi, · · · , xn) = xi, (x1, · · · , xn) ∈ M1 × · · · × Mn
s˜ao cont´ınuas para todo i = 1, 2, · · · , n.
Al´em disso vimos anteriormente que
F1 × · · · × Fn = p−1
1 (F1) ∩ · · · p−1
n (Fn). (∗)
Assim, como para cada i = 1, · · · , n temos que Fi ⊆ Mi ´e um subconjunto fechado de Mi,
i = 2, · · · , n, da proposi¸c˜ao acima segue que p−1
i (Fi) ⊆ M1 × · · · × Mn ser´a um subconjunto
fechado de M1 × · · · × Mn.
Portanto da proposi¸c˜ao (4.4.5) item 3. segue que
p−1
1 (F1) ∩ · · · p−1
n (Fn)
ser´a um subconjunto fechado de M1 × · · · × Mn e assim, de (*), segue que F1 × · · · × Fn ser´a um
subconjunto fechado de M1 × · · · × Mn, como quer´ıamos demonstrar.
A seguir daremos mais duas conseq¨uˆencias da proposi¸c˜ao acima:
Corol´ario 4.4.7 Sejam (M, dM ), (R, d) espa¸cos m´etricos (onde a m´etrica d em R ´e a usual) e
(fλ)λ∈L uma fam´ılia de fun¸c˜oes reais, fλ : M → R, cont´ınuas em M.
Ent˜ao o conjunto
{x ∈ M : fλ(x) ≥ 0, para todo λ ∈ L}
´e um subconjunto fechado de M.
4.4. CONJUNTOS FECHADO 157
Demonstra¸c˜ao:
Para cada λ ∈ L temos que fλ ´e cont´ınua em M.
Como [0, ∞) ´e um subconjunto fechado de R (pois seu complementar em R ser´a (−∞, 0) que ´e
um subconjunto aberto de R), da proposi¸c˜ao acima, segue que f−1
λ ([0, ∞)) ser´a um subconjunto
fechado de M.
Observemos que
f−1
λ ([0, ∞)) = {x ∈ M : fλ(x) ≥ 0}.
Assim, da proposi¸c˜ao (4.4.5) item 3., segue que
λ∈L
f−1
λ ([0, ∞)) ser´a um subconjunto fechado
de M.
Finalmente, observemos que
{x ∈ M : fλ(x) ≥ 0, para todo λ ∈ L} =
λ∈L
f−1
λ ([0, ∞)),
mostrando que
{x ∈ M : fλ(x) ≥ 0, para todo λ ∈ L}
´e um subconjunto fechado de M, como quer´ıamos mostrar.
Corol´ario 4.4.8 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N, cont´ınua em M.
Ent˜ao o gr´afico de f, G(f), ´e um subconjunto fechado de M × N (munido de uma das trˆes
m´etricas usuais), isto ´e, o conjunto
G(f) = {(x, f(x) ∈ M × N : x ∈ M}
´e um subconjunto fechado de M × N.
Em particular, a diagonal
∆
.
= {(x, y) : M × M : y = x}
´e um subconjunto fechado de M × M.
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que a fun¸c˜ao
ϕ : M × N → R
dada por
ϕ(x, y)
.
= dN (f(x), y), (x, y) ∈ M × N
´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em M × N (onde em R consideramos a m´etrica usual) pois ´e composta
de fun¸c˜oes cont´ınuas (veja diagrama abaixo).
158 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
E
T
M
N
E
(f, id)
T
E
N
N
c
dN
E
‚
ϕ = d ◦ (f, id)
(x, y)
(f(x), y)
ϕ(x, y) = dN (f(x), y)
Al´em disso, (x, y) ∈ G(F) se, e somente se, y = f(x) ou, equivalentemente, dN (f(x), y) = 0,
ou ainda, ϕ(x, y) = 0.
Conclus˜ao:
G(f) = {(x, y) ∈ M × N : y = f(x)} = {(x, f(x)) ∈ M × N : x ∈ M}
= {(x, y) ∈ M × N : ϕ(x, y) = 0} = ϕ−1
({0})
Do exemplo (4.4.5) temos que {0} ´e um subconjunto fechado de R.
Logo da proposi¸c˜ao acima segue que ϕ−1({0}) ´e um subconjunto fechado de M × N, ´ısto ´e,
G(f) ´e um subconjunto fechado de M × N, como quer´ıamos provar.
Para mostrar que a diagonal de M × M, ∆, ´e um subconjunto fechado de M × M basta
observar que ∆ ´e o gr´afico da aplica¸c˜ao identidade, isto ´e,
∆ = G(id)
e que a aplica¸c˜ao identidade ´e cont´ınua em M.
Portanto do corol´ario segue que seu gr´afico ser´a um subconjunto fechado de M ×M, ou seja,
a diagonal de M × M, ∆, ´e um subconjunto fechado de M × M.
Observa¸c˜ao 4.4.10
1. Sejam (M1, d1), · · · (Mn, dn) espa¸cos m´etricos e F ´e um subconjunto fechado de M1×· · · Mn
isto n˜ao implica, necessariamente, que a proje¸c˜ao de F em cada um dos fatores de M1 ×
· · · Mn seja um subconjunto fechado no correspondente fator.
Para ver isto, consideraremos o seguinte exemplo:
Sejam M1 = M2 = R munido da m´etrica usual, M1 × M2 = R2 munido da m´etrica usual
e F
.
= {(x, y) ∈ R2 : x.y = 1}.
Observemos que se
m : R2
→ R ´e dada por m(x, y)
.
= x.y, (x, y) ∈ R2
4.4. CONJUNTOS FECHADO 159
ent˜ao vimos anteriormente que m ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em R2.
Logo, da proposi¸c˜ao (4.4.6) segue que F = m−1({1}) ser´a um subconjunto fechado de R2
(pois {1} ´e um subconjunto fechado de R).
Mas p1(F) = R  {0} que n˜ao ´e um subconjunto fechado em M1 = R.
Geometricamente temos
T
E x
y
(0, 0)
(x, 1
x
)
2. A reuni˜ao qualquer de subconjuntos fechados de um espa¸co m´etrico pode n˜ao ser um
subcojunto fechado do mesmo.
Para ver isto basta considerar um espa¸co m´etrico (M, dM ) que tenha um subconjunto, A
que seja aberto e n˜ao seja fechado.
Observemos que se x ∈ M ent˜ao {x} ser´a um subconjunto fechado de M.
Mas A =
a∈A
{a}, ou seja, a reuni˜ao dos subsconjuntos fechados {a}, a ∈ A, ´e o conjunto
A, que ´e um subconjunto aberto de M que n˜ao ´e um subconjunto fechado de M.
Exemplo 4.4.6 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico, a ∈ M e r  0.
Ent˜ao S[a; r] ´e um subconjunto fechado de M.
De fato, se considerarmos
da : M → R dada por da(x)
.
= dM (a, x), x ∈ M
ent˜ao vimos anteriormente que a fun¸c˜ao da ser´a cont´ınua em M (onde em R tomamos a m´etrica
usual).
Podemos ver que
S[a; r] = {x ∈ M : d(x, a) = r} = d−1
a ({r}).
Mas {r} em um subconjunto fechado de R.
Logo da proposi¸c˜ao acima segue que S[a; r] ´e um subconjunto fechado de M.
Observa¸c˜ao 4.4.11
1. Se f : M → R ent˜ao dado c ∈ R o conjunto f−1({c}), ou seja, o conjunto formado pelos
pontos de M onde a fun¸c˜ao vale c (que pode ser vazio!) ser´a denominado superf´ıcie de
n´ıvel c da fun¸c˜ao f.
Se a fun¸c˜ao f for cont´ınua em M ((M, dM ) um espa¸co m´etrico e R munido da m´etrica
usual) ent˜ao, a proposi¸c˜ao acima garante que todas as superf´ıcies de n´ıvel de f s˜ao sub-
conjunto fechados de M.
160 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
2. As no¸c˜oes de fecho e conjunto fechado s˜ao relativas, isto ´e, dizem respeito ao espa¸co
m´etrico considerado.
Por exemplo, se M = [0, 1) com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R e A = (
1
2
, 1)
ent˜ao o fecho de A em M ser´a ˜A = [1
2 , 1) enquanto o fecho de A em R ser´a ¯A = [1
2 , 1].
A rela¸c˜ao entre fecho num subespa¸co m´etrico e o fecho no espa¸co todo ´e dado pela:
Proposi¸c˜ao 4.4.7 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e S ⊆ M com a m´etrica induzida de M.
Se X ⊆ S indicaremos por X
S
, o fecho de X em S e por X
M
, o fecho de X em M.
Ent˜ao
X
S
= X
M
∩ S.
Demonstra¸c˜ao:
Indicaremos por dM a m´etrica em M e por dS a m´etrica induzida em S pela m´etrica dM de
M.
Observemos que se a ∈ S ent˜ao
dM (a, X) = inf{dM (a, x) : x ∈ X}
que ´e a mesma se considerarmos X como subconjunto de S, ou seja,
dS(a, X) = inf{dS(a, x) : x ∈ X}.
Logo
X
S
= {a ∈ S : dS(a, X) = 0} = {a ∈ M : dM (a, X) = 0} ∩ S = X
M
∩ S,
como quer´ıamos mostrar.
Como conseq¨uˆencia temos o
Corol´ario 4.4.9 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e S ⊆ M com a m´etrica induzida de M.
Se S ´e um subconjunto fechado de M e X ⊆ S ent˜ao
X
S
= X
M
.
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que
X ⊆ S
[observa¸c˜ao (4.4.2 ) item 2.c.]
⇒ X
M
⊆ S
M [S ´e fechado em M]
= S
[corol´ario acima]
⇒ X
M
∩ S = X
S
.
completando a demonstra¸c˜ao.
Observa¸c˜ao 4.4.12 Segue do corol´ario acima que se S ´e um subconjunto fechado de M ent˜ao
X ⊆ S ´e um subconjunto fechado de S se, e somente se, X ´e um subconjunto fechado de M
(pois um conjunto ´e fechado se, e somente se, ele ´e igual ao seu fecho).
Temos tamb´em a
4.4. CONJUNTOS FECHADO 161
Proposi¸c˜ao 4.4.8 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, F1, F2 subconjuntos fechados de
M tal que M = F1 ∪ F2 e f : M → N.
Suponhamos que as restri¸c˜oes f|Fi
: Fi → N, i = 1, 2 s˜ao cont´ınuas em F1 e F2, respectiva-
mente.
Ent˜ao f ´e cont´ınua em M.
Demonstra¸c˜ao:
Se H ´e um subconjunto fechado de N, como M = F1 ∪ F2, pode-se provar que (ser´a deixado
como exerc´ıco para o leitor; vide figura aabixo)
f−1
(H) = f−1
|F1
(H) ∪ f−1
|F2
(H).
Ef
M
N
H
F1
F2
f−1
|F1
(H)
E
E
f|F1
f|F2
f−1
|F2
(H)
f−1(H)
E
E
Comof|F1
e f|F2
s˜ao cont´ınuas em F1 e F2, respectivamente, segue, da proposi¸c˜ao (4.4.6) que
f−1
|F1
(H) e f−1
|F2
(H) s˜ao fechados em F1 e F2, respectivamente.
Como F1 e F2 s˜ao fechados em M segue do corol´ario acima que f−1
|F1
(H) e f−1
|F2
(H) s˜ao fechados
em M.
Logo, da proposi¸c˜ao (4.4.5) item 2., segue que f−1(H) ´e fechado em M e aplicando a
proposi¸c˜ao (4.4.6) temos que f ser´a cont´ınua em M, completando a demonstra¸c˜ao do resul-
tado.
Um outra conseq¨uˆencia importante ´e
Exerc´ıcio 4.4.2 Sejam (N, dN ) um espa¸co m´etrico, [a, b], [c, d] munidos da m´etrica usual de
R e f : [a, b] → N e g : [c, d] → N cont´ınuas em [a, b] e [c, d], respectivamente e que satisfazem
f(b) = g(b).
Ent˜ao a fun¸c¸c˜ao h : [a, c] → N dada por
h(t) =
f(t), a ≤ t ≤ b
g(t), b ≤ t ≤ c
´e cont´ınua em [a, c].
De fato, observemos que F1
.
= [a, b] e F2
.
= [c, d] s˜ao subconjuntos fechados de M
.
= [a, c] =
F1 ∪ F2 (ser´a deixado como exerc´ıco para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato).
Al´em disso temos, por hip´otese, que h|[a,b]
= f e h|[b,c]
= g s˜ao cont´ınuas em F1 = [a, b] e
F2[c, d], respectivamente.
Logo da proposi¸c˜ao acima temos que h ser´a cont´ınua em [a, c], como quer´ıamos mostrar.
162 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
17.10.2008 - 21.a
Para finalizar temos a
Defini¸c˜ao 4.4.6 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e X ⊆ M.
Diremos que um ponto a ∈ M ´e ponto de acumula¸c˜ao de X se toda bola aberta de centro
em a cont´em, pelo menos, um ponto de X, diferente do ponto a, isto ´e, para todo r  0 temos
[B(a; r) ∩ X]  {a} = ∅.
Indicaremos por X o conjunto formado por todos os pontos de acumula¸c˜ao do conjunto X
e a este daremos o nome de derivado de X.
Observa¸c˜ao 4.4.13
1. Tenos que
X ⊆ ¯X,
isto ´e, todo ponto de acumula¸c˜ao de um conjunto ´e um ponto aderente ao conjunto.
A rec´ıproca ´e falsa, como mostra o seguinte exemplo:
Consideremos R com a m´etrica usual e X = [0, 1] ∪ {2}.
Temos que 2 ´e ponto aderente a X mas n˜ao ´e ponto de acumula¸c˜ao de X (isto ´e, 2 ∈
¯X  X ).
2. Na situa¸c˜ao acima temos que
a ∈ X ⇐⇒ a ∈ X  {a}.
De fato, se a ∈ X ent˜ao para todo r  0 temos
[B(a; r) ∩ X]  {a} = ∅.
Afirmamos que a ∈ X  {a}
c
.
De fato, suponhamos, por absurdo, que a ∈ [X  {a}] c.
Sabemos que X  {a} c ´e um subconjuto aberto de M, logo todo ponto de [X  {a}] ,c ser´a
ponto interior do mesmo.
Em particular, a ∈ X  {a} c logo dever´a existir r  0 tal que
B(a; r) ⊆ X  {a} c
,
ou seja,
B(a; r) ∩ X  {a} = ∅.
Como X  {a} ⊆ X  {a} segue que
B(a; r) ∩ X  {a} = ∅,
o que ´e uma absurdo, pois a ∈ X .
Logo a ∈ [X  {a}]c assim a ∈ X  {a}.
4.4. CONJUNTOS FECHADO 163
Reciprocamente, se a ∈ X  {a} ent˜ao temos que a ∈ [X  {a}] c, este ´e um subconjunto
aberto de M.
Logo a n˜ao ser´a ponto interior de [X  {a}] c, ou seja, para todo r  0 temos que B(a; r)
n˜ao estar´a contida em [X  {a}] c, ou ainda,
B(a; r) ∩ X  {a} = ∅.
Logo se b ∈ B(a; r) ∩ X  {a} segue que para todo s  0 temos
B(b; s) ∩ X  {a} = ∅. (∗)
Como B(a; r) ´e aberto e b ∈ B(a; r) existe 0  s0  r tal que
B(b; s0) ⊆ B(a; r),
implicando que
B(a; r) ∩ X  {a} = ∅. (∗∗)
De (*) e (**) temos que, a ∈ X .
3. Como conseq¨uˆencia temos: para todo subconjunto finito F de M temos que F = ∅.
4. Se X ´e um subconjunto de M ent˜ao temos
¯X = X ∪ X .
Com X, X ⊆ ¯X segue que X ∪ X ⊆ ¯X.
Por outro lado, se a ∈ ¯X ent˜ao ou a ∈ X ou a ∈ X.
Neste ´ultimo caso toda bola centrada em a dever´a conter, pelo menos, um ponto diferente do
ponto a (pois caso contr´ario o ponto a pertenceria ao aberto X c, o que seria um absurdo),
logo a ∈ X .
Para finalizar o cap´ıtulo consideremos o seguinte
Exemplo 4.4.7 Consideremos em R a m´etrica usual,
X = Q, Y = Z, U = [0, 1], V = {0, 1,
1
2
, · · · ,
1
n
, · · · }, W = {(1 +
1
n
)n
: n ∈ N}.
Ent˜ao pode-se mostrar que (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor):
X = R, Y = ∅, , U = U, V = {0}, W = {e}.
Ou seja, nestes casos teremos:
X
=
⊆ X , Y
=
⊆ Y, U = U, V
=
⊆ V, W ⊆ W.
164 CAP´ITULO 4. CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
Cap´ıtulo 5
Conjuntos Conexos
5.1 Defini¸c˜oes e exemplos
Come¸caremos pela
Defini¸c˜ao 5.1.1 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico.
Uma cis˜ao de M ´e uma decomposi¸c˜ao de M do tipo
M = A ∪ B
onde A, B s˜ao subconjuntos abertos e disjuntos de M.
Uma cis˜ao de M = A ∪ B ser´a dita cis˜ao trivial se A ou B for o conjunto vazio.
Observa¸c˜ao 5.1.1
1. Se M = A ∪ B ´e uma cis˜ao de M ent˜ao temos que
A = M  B e B = M  A.
Logo os conjuntos A, B tamb´em ser˜ao fechados em M (pois seus complementares s˜ao
abertos em M).
2. Se M = A ∪ B ´e uma cis˜ao trivial ent˜ao A = M ou B = M.
Consideremos os seguintes exemplos:
Exemplo 5.1.1 Seja M = R  {0} munido da m´etrica usual de R.
´E f´acil ver que M = (−∞, 0) ∪ (0, ∞) ´e uma cis˜ao de M (pois (−∞, 0), (0, ∞) s˜ao subcon-
juntos abertos de M).
Exemplo 5.1.2 Sejam M = Q munido da m´etrica usual de R e α ∈ I.
Se A
.
= {x ∈ Q : x  α} e B
.
= {x ∈ Q : x  α} ent˜ao ´e f´acil ver que M = A ∪ B ´e uma
cis˜ao de M (pois A, B s˜ao subconjuntos abertos de M).
Exemplo 5.1.3 Se (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico discreto ent˜ao para todo A ⊆ M temos que
M = A ∪ (M  A) ser´a um cis˜ao de M (pois neste caso todo subconjunto de M ser´a um
subconjunto aberto de M).
165
166 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
Observa¸c˜ao 5.1.2 Indicaremos por Mn(R) o espa¸co vetorial das matrizes reais quadradas de
ordem n.
Dada uma matriz real quadrada de ordem n podemos identific´a-la com uma lista de n2
n´umeros reais da seguinte forma:
(aij)1≤i,j≤n ∈ Mn(R) → (a11, · · · , a1n, a21, · · · , a2n, · · · , an1, · · · , ann) ∈ Rn2
e reciprocamente todo elemento de Rn2
pode ser identificado com uma matriz real quadrada de
ordem n.
Logo podemos munir Mn(R) com a m´etrica de Rn2
.
Com isto temos o
Exemplo 5.1.4 Vimos anteriormente que a fun¸c˜ao determinante det : Rn2
→ R ´e uma fun¸c˜ao
cont´ınua em Rn2
.
Consideremos Gn o conjunto formado pelas matrizes quadradas reais de ordem n que tˆem
determinante diferente de zero, munido da m´etrica de Rn2
.
Sabemos que Gn ´e o conjunto formado pelas matrizes quadradas reais de ordem n que s˜ao
invers´ıveis.
Do corol´ario (4.2.4) sabemos que Gn ´e um subconjunto aberto de Rn2
.
Definindo-se G+
n como sendo o conjunto formado pelas matrizes quadradas reais de ordem
n que tˆem determinante maior que zero e G−
n como sendo o conjunto formado pelas matrizes
quadradas reais de ordem n que tˆem determinante menor que zero segue, do corol´ario (4.2.3),
que G+
n e G−
n s˜ao subconjuntos abertos de Gn.
Al´em disso temos
Gn = G+
n ∪ G−
n ,
isto ´e, uma cis˜ao de Gn.
Observa¸c˜ao 5.1.3 Em todos os exemplos acima as cis˜oes obtidas n˜ao s˜ao cis˜oes triviais.
Defini¸c˜ao 5.1.2 Um espa¸co m´etrico (M, dM ) ser´a dito conexo se toda cis˜ao de M deve ser a
cis˜ao trivial.
Um subconjunto X de M ser´a dito conexo se (X, dM ) for um espa¸co m´etrico conexo.
Um espa¸co m´etrico ser´a dito desconexo se ele admite uma cis˜ao n˜ao trivial.
Observa¸c˜ao 5.1.4
1. Logo um espa¸co m´etrico (M, dM ) ser´a dito conexo se, e somente se, M = A ∪ B com
A, B subconjuntos abertos de M implicar que ou A = ∅ ou B = ∅ (ou, equivalentemente,
A = M ou B = M).
2. Em todos os exemplos acima os espa¸cos m´etricos envolvidos s˜ao espa¸cos m´etricos des-
conexos.
3. A propriedade de ser conexo ´e intr´ınseca do conjunto, ou seja, se X ´e subespa¸co m´etrico
de M e N (ou seja, as m´etricas dM e dN induzem a mesma m´etrica em X) ent˜ao X ´e
um subconjunto conexo de M se, e somente se, X ´e um subconjunto conexo de N.
Com isto temos a
5.1. DEFINIC¸ ˜OES E EXEMPLOS 167
Proposi¸c˜ao 5.1.1 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico.
S˜ao equivalentes:
1. M ´e um espa¸co m´etrico conexo;
2. M e ∅ s˜ao os ´unicos subconjuntos de M que s˜ao abertos e fechados em M;
3. se X ´e um subconjunto de M que tem a fronteria igual o conjunto vazio ent˜ao X = M ou
X = ∅.
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que se M = A ∪ B ent˜ao A, B s˜ao subconjuntos abertos de fechados de M pois
A ´e um subconjunto aberto de M e B = M  A = Ac, logo B ser´a um subconjunto fechado de
M.
De moto semelhante, A ´e subconjunto fechado de M pois B ´e um subconjunto aberto de M
e A = M  B = Bc, logo A ser´a um subconjunto fechado de M.
(1) ⇒ (2):
Se M ´e um espa¸co m´etrico conexo ent˜ao se A ⊆ M for um subconjunto aberto e fechado em
M ent˜ao Ac tamb´em ser´a um subconjunto aberto de M (pois A ´e um subconjunto fechado de
M).
Logo M = A ∪ Ac ser´a uma cis˜ao de M.
Como M ´e conexo ou A = M ou Ac = M, isto e, ou A = M ou A = ∅, como quer´ıamos
mostrar.
(2) ⇒ (1):
Se M = A ∪ B ´e uma cis˜ao de M, como vimos acima, A, B devem ser abertos e fechados em
M.
Portanto ou A = M e B = ∅ ou B = M e A = ∅, ou seja, toda cis˜ao de M deve ser a cis˜ao
trivial, mostrando que M ´e conexo.
(2) ⇒ (3):
Se X ⊆ M sabemos que:
(i) X ∩ ∂X = ∅ se, e somente se, X ´e um subconjunto aberto de M e
(ii) ∂X ⊆ X se, e somente se, X ser´a subconjunto fechado de M.
Logo se X ⊆ M tem fronteira vazia ent˜ao X ∩ ∂X = X ∩ ∅ = ∅ e ∂X = ∅ ⊆ X.
De (i) e (ii) acima segue que X ser´a um subconjunto aberto e fechado de M.
De (2) deveremos ter X = M ou X = M.
(3) ⇒ (2):
Seja X ⊆ M ´e um subconjunto aberto e fechado de M.
Como X ´e um subconjunto aberto M teremos, por (i), que
X ∩ ∂X = ∅. (∗)
Por outro lado, como X ´e um subconjunto fechado de M, por (ii), devermos ter
∂X ⊆ X. (∗∗)
De (*) e (**) segue que ∂X = ∅.
Lodo, de (3), deveremos ter X = M ou X = M, ou seja, os ´unicos subconjuntos de M que
s˜ao aberto e fechados em M s˜ao M e ∅.
168 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
Observa¸c˜ao 5.1.5 A proriedade 3. nos diz que num espa¸co m´etrico os ´unicos subconjuntos de
um espa¸co m´etrico que tˆem a fronteira igual o conjunto vazio s˜ao o espa¸co todo e o conjunto
vazio.
Consideremos alguns exemplos:
Exemplo 5.1.5 Seja M
.
= R  {0} munido da m´etrica usual de R.
Ent˜ao M n˜ao ´e conexo.
De fato, pois se A
.
= (0, ∞) ´e um subconjunto aberto de M e seu complementar (em M)
ser´a Ac = (−∞, 0) que tamb´em ´e um subconjunto aberto de M implicando que A tamb´em ser´a
um subconjunto fechado em M.
Logo o subconjunto A = (0, ∞) um subconjunto aberto e fechado em M e ´e diferente de M
e do conjunto ∅.
Logo da proposi¸c˜ao (5.1.1) segue que M n˜ao pode ser um conjunto conexo.
Exerc´ıcio 5.1.1 , M
.
= Q munido da a m´etrica usual de R.
Ent˜ao M n˜ao ´e conexo.
De fato, pois se A
.
= (
√
2, ∞)Q ´e um subconjunto aberto de M e seu complementar (em M)
ser´a Ac = (−∞,
√
2)Q que tamb´em ´e um subconjunto aberto de M implicando que A tamb´em
ser´a um subconjunto fechado em M.
Logo o subconjunto A = (
√
2, ∞) um subconjunto aberto e fechado em M e ´e diferente de M
e do conjunto ∅.
Logo da proposi¸c˜ao (5.1.1) segue que M n˜ao pode ser um conjunto conexo.
Exemplo 5.1.6 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico discreto contendo mais de um ponto.
Ent˜ao M n˜ao ´e conexo.
De fato, se x = y e x, y ∈ M ent˜ao temos que A
.
= {x} ´e um subconjunto aberto de M e seu
complementar (em M) ser´a Ac que tamb´em ´e um subconjunto aberto de M implicando que A
tamb´em ser´a um subconjunto fechado em M.
Logo o subconjunto A = {x} um subconjunto aberto e fechado em M e ´e diferente de M
(pois y = A) e do conjunto ∅.
Logo da proposi¸c˜ao (5.1.1) segue que M n˜ao pode ser um conjunto conexo.
Exemplo 5.1.7 (R, |.|) ´e um espa¸co m´etrico conexo.
De fato, suponhamos, por absurdo, que exista uma cis˜ao n˜ao trivial
R = A ∪ B,
ou seja, A, B s˜ao abertos, disjuntos e n˜ao vazios.
Consideremos a ∈ A e b ∈ B.
Podemos supor, sem perda de generalidade, que a  b.
Seja X
.
= {x ∈ A : x  b}.
Como a ∈ X segue X = ∅ e al´em disso ´e limitado superiormente (pois b ´e um limitante
superior de X).
Logo existe c
.
= sup X e temos que c ≤ b (pois b ´e ´e um limitante superior de X).
Da defini¸c˜ao de supremo, dado ε  0 existe x ∈ X ⊆ A tal que
c − ε  x ≤ c,
5.2. PROPRIEDADES GERAIS DE CONJUNTOS CONEXOS 169
ou ainda, para todo ε  0 temos que
B(c; ε) ∩ A = ∅,
implicando que c ∈ ¯A.
Como A ´e um subconjunto fechado de R (pois Ac = R  A = B que ´e um subconjunto aberto
de R) deveremos ter c ∈ A.
Como b ∈ B e A ∩ B = ∅ segue que c = b, logo c  b (pois c ≤ b).
Como A ´e um subconjunto aberto de R e c ∈ A segue que existe δ  0 tal que
c + δ  b e(c − δ, c + δ) = B(c; δ) ⊆ A.
Em particular, (c, c + δ) ⊆ A.
Logo todos os pontos de (c, c+δ) pertencer˜ao a X (pois c+δ  b e se x  c+δ ent˜ao x ∈ A).
Logo c n˜ao poder´a ser o supremo de X (pois c + δ
2 ∈ X), o que ´e uma absurdo.
Portanto a ´unica cis˜ao de (R, |.|) ´e cis˜ao trivial, ou seja, (R, |.|) ´e um espa¸co m´etrico conexo.
5.2 Propriedades gerais de conjuntos conexos
Come¸caremos pela
Proposi¸c˜ao 5.2.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N cont´ınua em M.
Se (M, dM ) ´e conexo ent˜ao (f(M), dN ) ser´a um espa¸co m´etrico conexo.
Demonstra¸c˜ao:
Consideremos primeiramente o caso em que f ´e sobrejetora (isto ´e, N = f(M)).
Consideremos N = A ∪ B uma cis˜ao de N. (*)
Como A, B ⊆ N s˜ao subconjuntos abertos em N e f ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em M segue
que f−1(A), f−1(B) ⊆ M s˜ao subconjuntos abertos em M.
Al´em disso, como N = A ∪ B teremos
M = f−1
(A) ∪ f−1
(B),
ou seja, uma cis˜ao de M.
Como M ´e conexo segue que esta cis˜ao deve ser a trivial, isto ´e,
(i) ou f−1(A) = ∅ e f−1(B) = M;
(ii) ou f−1(A) = M e f−1(B) = ∅.
Deste modo, se (i) ocorrer, como f ´e sobrejetora, concluimos que B = f(M) = N e assim
A = ∅.
De modo semelhante, se (ii) ocorrer, como f ´e sobrejetora, concluimos que A = f(M) = N
e assim B = ∅.
Em qualquer um dos casos temos que a cis˜ao (*) de N ser´a a trivial, ou seja, N = f(M)
ser´a conexo.
Se f ´e cont´ınua em M e n˜ao for sobrejetora, ent˜ao temos que f : M → f(M) ser´a cont´ınua
em M e sobrejetora.
Neste caso, pelo que acabamos de ver, teremos que (f(M), dN ) ser´a conexo.
170 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
Observa¸c˜ao 5.2.1 Resumindo: a imagem de um conexo por uma aplica¸c˜ao cont´ınua ser´a um
conjunto conexo.
Como conseq¨uˆencia temos o
Corol´ario 5.2.1 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico conexo e (N, dN ) homeomorfo a (M, dM ).
Ent˜ao (N, dN ) ser´a um espa¸co m´etrico conexo.
Demonstra¸c˜ao:
Se N ´e homeomorfo a M ent˜ao existe f : M → N um homeomorfismo de M em N.
Em particular, N = f(M) e como M ´e conexo e f ´e cont´ınua em M segue, da proposi¸c˜ao
(5.2.1) que N ser´a conexo.
Observa¸c˜ao 5.2.2 Conclus˜ao: todo espa¸co m´etrico homeomorfo a um espa¸co m´etrico conexo
tamb´em ser´a conexo.
Com isto temos os seguintes exemplos:
Exemplo 5.2.1 Todo intervalo aberto de (R, |.|) ´e conexo.
De fato, pois vimos na observa¸c˜ao (3.3.6) item 1., 2. e 3., todo intervalo aberto de R ´e
homeomorfo a R.
Mas (R, |.|) ´e conexo.
Logo, do corol´ario acima segue, que todo intervalo aberto de R ´e conexo.
Exemplo 5.2.2 Consideremos S1 .
= {(x, y) ∈ R2 : x2 + y2 = 1} munido da m´etrica usual de
R2 e R munido da m´etrica usual.
A aplica¸c˜ao
f : R → R2
dada por
f(t)
.
= (cos(t), sen(t)), t ∈ R
´e cont´ınua em R (pois suas componentes s˜ao cont´ınuas me R) e S1 = f(R).
Logo f : R → S1 ´e cont´ınua em R e sobrejetora.
T
E
f
T
E
f(t) = (cos(t), sen(t))
t
”
1
I
S1
Como R ´e conexo, segue da proposi¸c˜ao (5.2.1), que S1 ser´a conexo.
5.2. PROPRIEDADES GERAIS DE CONJUNTOS CONEXOS 171
Um outro resultado importante ´e dado pela
Proposi¸c˜ao 5.2.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico conexo.
Ent˜ao M ´e conexo.
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos, primeiramente, que X ⊆ M ´e um conjunto conexo ´e tal que X = M, ou seja,
X ´e denso em M.
Mostremos que, neste caso, M ser´a conexo.
Para isto, consideremos
M = A ∪ B (∗)
uma cis˜ao de M.
Com isto temos que
X = (A ∩ X) ∪ (B ∩ X)
ser´a um cis˜ao de X (pois se A, B s˜ao subconjuntos abertos disjuntos de M ent˜ao A ∩ X e A ∩ Y
tamb´em ser˜ao subconjuntos abertos disjuntos de X).
Mas, X ´e conexo, logo
ou A ∩ X = ∅ ou B ∩ X = ∅. (∗)
Afirmamos que, como X ´e denso em M deveremos ter
A = ∅ ou B = ∅.
De fato, suponhamos, por absurdo, que A = ∅ e B = ∅, ou seja, existem a ∈ A e b ∈ B.
Como A e B s˜ao abertos temos que existem ra, rb  0 tais que
B(a; ra) ⊆ A e B(b; rb) ⊆ B. (∗∗)
Mas X ´e denso em M, logo
B(a; ra) ∩ X = ∅ e B(b; rb) ∩ X = ∅. (∗ ∗ ∗)
Logo de (**) e (***) teremos que
A ∩ X = ∅ e B ∩ X = ∅
o que contraria (*), logo um absurdo.
Logo, da afirma¸c˜ao acima, segue que a cis˜ao (*) de M = X dever´a ser a cis˜ao trivial, ou
seja, M = X ´e conexo.
Se M ´e conexo, como M ´e denso em M, segue que, do caso anteior, que M ´e conexo, como
quer´ıamos mostrar.
Exemplo 5.2.3 Sejam R munido da m´etrica usual, a, b ∈ R, a  b.
Ent˜ao, do exemplo (5.2.1) e da proposi¸c˜ao acima segue que [a, b] = (a, b) ´e conexo em R.
21.10.2008 - 22.a
Como conseq¨uˆencia temos o
172 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
Corol´ario 5.2.2 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, X, Y ⊆ M tais que X ⊆ Y ⊆ ¯X (= X
M
).
Se X ´e conexo ent˜ao Y ser´a conexo.
Resolu¸c˜ao:
Observemos que, da proposi¸c˜ao (4.4.7), segue que o fecho do conjunto X no subespa¸co Y
ser´a
X
Y
= X
M
∩ Y
[Y ⊆X
M
]
= Y.
Logo X ´e denso em Y e portanto, pela proposi¸c˜ao acima, Y dever´a ser conexo.
Exemplo 5.2.4 Sejam R munido da m´etrica usual, a, b ∈ R, a  b.
Temos que
(a, b) ⊆ (a, b] ⊆ [a, b] = (a, b)
Ent˜ao, dos exemplos (5.2.1), (5.2.5) e do corl´ario acima temos que (a, b] ´e conexo em R.
De modo semelhante temos que [a, b) ´e conexo em R.
Exerc´ıcio 5.2.1 Podemos mostrar que S1 ⊆ R2 ´e conexo utilizando um argumento diferente do
exemplo (5.2.2).
Para isto, consideremos p
.
= (0, 1) e X
.
= S1  {p}.
Sabemos que X ´e homeomorfo `a reta R, munido da m´etrica usual (um homeomorfismo ´e
dado pela proje¸c˜ao estereogr´afica, ver exemplo (3.3.5)).
Como R ´e conexo segue do corol´ario (5.2.1) que S1  {p} ´e conexo.
Afirmamos que ¯X = S1.
De fato, pois como S1 ´e fechado em R2 e X ⊆ S1 segue que ¯X ⊆ ¯S1 = S1, isto ´e, ¯X ⊆ S1.
Para mostrar que S1 ⊆ ¯X basta mostrar que p ∈ ¯X, ou seja, que o ponto p = (0, 1) n˜ao ´e
ponto isolado de S1 (logo dever´a pertencer a ¯X).
Para mostrar isto consideremos a proje¸c˜ao
p1 : S1
+
.
= {(x, y) ∈ S1
: y  0} → (−1, 1)
dada por
p1(x, y)
.
= x, (x, y) ∈ S1
+
(p1 ´e a proje¸c˜ao da semi-circunferˆencia superior, S1
+, sobre o intervalo (−1, 1); veja figura
abaixo).
E
T
−1 1
(x, y) ∈ S1
+
x = p1(x, y)
p = (0, 1)
0
5.2. PROPRIEDADES GERAIS DE CONJUNTOS CONEXOS 173
Observemos que p1 ser´a um homeomorfismo (a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixado como
exerc´ıcio para o leitor) e p1(p) = 0.
Como 0 n˜ao ´e ponto isolado de (−1, 1) (munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de
R) segue (pelo homeomorfismo p1) que p n˜ao ser´a ponto isolado de S1
+, e portanto de S1, como
afirmamos.
Finalmente, o corol´ario (5.2.2) implica que S1 = X ser´a conexo.
Observa¸c˜ao 5.2.3
1. Seja u ∈ S1.
Podemos definir uma proje¸c˜ao estereogr´afoca,
Πu : S1
 {u} → R
(mesmo que u = p = (0, 1), isto ´e, u n˜ao sendo o polo norte de S1).
Para isto basta lembra que a rota¸c˜ao de um ˆangulo θ, rθ, (o ˆangulo entre os vetores Op e
Ou) ´e um homeomorfismo e assim
Πu = Π ◦ rθ,
onde Π ´e a proje¸c˜ao estereogr´afica do exemplo (3.3.5) (veja figura abaixo).
E
T
u
E
rθ
θ
(0, 1)
E
T
p = rθ(u)
c
Π proje¸c˜ao estereogr´afica
E R
~
Πu = Π ◦ rθ
Logo temos que S1  {u} ser´a conexo.
2. Sejam u, v ∈ S1, u = v.
Afirmamos que S1  {u, v} n˜ao ´e conexo.
De fato, seja
ax + by = c
a equa¸c˜ao da reta que passa pelos pontos (distintos) u e v.
Consideremos
X
.
= {(x, y) ∈ S1
: ax + by  c} e Y
.
= {(x, y) ∈ S1
: ax + by  c}.
Geometricamente temos
174 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
E
T
u ∈ S1
v∈
S1
c
ax + by = c
A
B
Consideremos em R2 e R as m´etricas usuais.
Ent˜ao a fun¸c˜ao f : R2 → R dada por
f(x, y)
.
= ax + by, (x, y) ∈ R2
´e cont´ınua em R2 (pois ´e uma fun¸c˜ao linear).
Como (c, ∞) e (−∞, c) s˜ao subconjuntos abertos de R segue que
X = f−1
((c, ∞)) e Y = f−1
((−∞, c))
s˜ao subconjutos abertos de R2 e s˜ao n˜ao vazios (pois u = v).
Logo
A
.
= X ∩ S1
e B
.
= Y ∩ S1
s˜ao subconjutos abertos de S1, s˜ao n˜ao vazios e
S1
 {u, v} = A ∪ B,
ou seja, uma cis˜ao n˜ao trivial de S1  {u, v}.
Portanto S1  {u, v} n˜ao ´e conexo.
3. Conclus˜ao: S1, S1  {u} s˜ao subconjuntos conexos de R2 e X ⊆ S1 cont´em mais de um
ponto ent˜ao S1  X n˜ao ´e um subconjunto conexo de R2.
Um outro exemplo importante ´e
Exemplo 5.2.5 Seja
X
.
= {(x, y) ∈ R2
: x  0, y = cos(
1
x
)}
(munido da m´etrica usual de R2) o gr´afico da fun¸c˜ao
f : (0, ∞) → R
dada por
f(x)
.
= cos(
1
x
), x ∈ (0, ∞).
5.2. PROPRIEDADES GERAIS DE CONJUNTOS CONEXOS 175
Como f ´e cont´ınua em (0, ∞) (munido da m´etrica usual de R), a proposi¸c˜ao (3.3.5) garante
X ´e homeomorfo a (0, ∞).
Como (0, ∞) ´e conexo segue, do corol´ario (5.2.1), que X ´e conexo (veja figura abaixo).
E
T
−1
1
(x, cos( 1
x
))
“
x = 2
(2K+1)π
Seja J
.
= {(0, y) : −1 ≤ y ≤ 1}.
Afirmamos que todo ponto de J ´e ponto aderente X, ou seja, J ⊆ ¯X (vide figura abaixo).
A demonstra¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
E
T
−1
1
s
J
sε
}
(x, cos( 1
x
))
Logo se T ⊆ J temos que X ⊆ X ∪ T ⊆ ¯X.
Como X e ¯X s˜ao conexos, segue do corol´ario (5.2.2), que se T ⊆ J ent˜ao X ∪T ser´a conexo.
Observa¸c˜ao 5.2.4 O exemplo acima nos diz que X ∪ J ´e conexo apesar de n˜ao ser formado
por um ´unico ”peda¸co”(a saber, X e J que s˜ao disjuntos) contrariando a nossa intui¸c˜ao.
Temos a
Proposi¸c˜ao 5.2.3 Seja (Xλ)λ∈L uma fam´ılia de subconjuntos conexos de um espa¸co m´etrico
(M, dM ).
176 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
Suponhamos que
λ∈L
Xλ = ∅.
Ent˜ao
X
.
=
λ∈L
Xλ (∗)
ser´a um conjunto conexo.
Demonstra¸c˜ao:
Sejam a ∈
λ∈L
Xλ e
λ∈L
Xλ = X = A ∪ B (∗∗)
uma cis˜ao de X.
Logo a ∈ A ou a ∈ B.
Podemos supor, sem perda de generalidade, que a ∈ A.
Observemos que para todo λ ∈ L temos que
A ∩ Xλ e B ∩ Xλ
s˜ao subconjuntos abertos em Xλ.
Para cada λ ∈ L, temos, por (*), que
Xλ = X ∩ Xλ = (A ∪ B) ∩ Xλ = (A ∩ Xλ) ∪ (B ∩ Xλ),
isto ´e,
Xλ = (A ∩ Xλ) ∪ (B ∩ Xλ)
´e uma cis˜ao de Xλ.
Como Xλ ´e conexo segue que
ou A ∩ Xλ = ∅ ou B ∩ Xλ = ∅.
Como para todo λ ∈ L temos que a ∈ (A ∩ Xλ) segue que B ∩ Xλ = ∅ para todo λ ∈ L.
Mas
B = X ∩ B
(∗)
= [
λ∈L
Xλ] ∩ B) =
λ∈L
(Xλ ∩ B) = ∅,
ou seja, B = ∅ implicando que a cis˜ao (**) de X ´e a cis˜ao trivial.
Portanto X ´e conexo.
Como conseq¨uˆencia temos o
Corol´ario 5.2.3 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico.
Um condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que M seja conexo ´e que dois pontos quaisquer
a, b ∈ M estejam contidos em um mesmo subconjunto conexo Mab ⊆ M.
Demonstra¸c˜ao:
Se M ´e conexo e a, b ∈ M ent˜ao tomamos Mab
.
= M.
Reciprocamente, se dois pontos quaisquer a, b ∈ M est˜ao contidos em um mesmo subconjunto
conexo Mab ⊆ M ent˜ao fixado a ∈ M temos que para todo b ∈ M existe Mab, conexo, tal que
a, b ∈ Mab.
5.2. PROPRIEDADES GERAIS DE CONJUNTOS CONEXOS 177
Logo
M =
b∈M
Mab
e
a ∈
b∈M
Mab,
ou seja,
b∈M
Mab = ∅.
Logo da proposi¸c˜ao acima segue que
M =
b∈M
Mab
ser´a um conjunto conexo completando a demonstra¸c˜ao.
Como conseq¨uˆencia deste temos o
Corol´ario 5.2.4 Seja (E, . E) um espa¸co vetorial normado.
Ent˜ao E ´e conexo.
Demonstra¸c˜ao:
Para a ∈ E fixado consideremos b ∈ E, b = a.
Deste modo temos que a reta em E
Xa b
.
= {a + t(b − a) : t ∈ R}
´e homeomrofa a R (basta considerar f : R → Xa b
dada por f(t)
.
= a + t(b − a), t ∈ R e
mostrar que esta ´e cont´ınua, bijetora e sua inversa tamb´em ser´a cont´ınua; isto ser´a deixado
como exerc´ıcio para o leitor).
Geometricamente temos
a
b
Xab
Como R ´e conexo segue, do corol´ario (5.2.1), que Xa b
´e conexo para cada b ∈ E, b = a.
Observemos que a ∈ Xa b
para todo b ∈ E, b = a.
Logo, do corol´ario (5.2.3) segue que
b∈E, b=a
Xa b
ser´a conexo.
178 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
Mas
E =
b∈E, b=a
Xa b
,
pois se c ∈ E e c = a ∈ Xab
para todo b ∈ E e se c = a ent˜ao c = a + 1[c − a], ou seja c ∈ Xa c.
Portanto E ´e conexo.
Tamb´em seguem os
Corol´ario 5.2.5 Seja (E, . E) um espa¸co vetorial normado, a ∈ E e r  0.
Ent˜ao B(a; r) ´e um conjunto conexo.
Demonstra¸c˜ao:
Lembremos que, da proposi¸c˜ao (3.3.4), B(a; r) ´e homeomorfa a E.
Do corol´ario acima temos que E ´e conexo.
Logo, do corol´ario (5.2.1), segue que B(a; r) tamb´em ser´a um conjunto conexo.
Corol´ario 5.2.6 Sejam (E, . E) um espa¸co vetorial normado, a ∈ E e r  0.
Ent˜ao B[a; r] ´e um conjunto conexo.
Demonstra¸c˜ao:
Do corol´ario acima temos que B(a; r) ´e um conjunto conexo.
Logo, da proposi¸c˜ao (5.2.2), segue que B(a; r) ´e um conjunto conexo.
Mas B[a; r] = B(a; r) e portanto ser´a um conjunto conexo.
Com isto temos o
Corol´ario 5.2.7 Seja Rn espa¸co vetorial munido do produto interno usual.
Ent˜ao Sn = {x ∈ Rn+1 : x, x = 1 ´e um conjunto conexo.
Demonstra¸c˜ao:
De fato, sabemos, do corol´ario acima, que a bola fechada B[0; 1] ´e um conjunto conexo.
Sabemos que
Sn
= Sn
+ ∪ Sn
−
onde
Sn
+
.
= {x ∈ Sn
: xn+1 ≥ 0} e Sn
−
.
= {x ∈ Sn
: xn+1 ≤ 0},
onde x = (x1, · · · , xn, xn+1), ou seja, os hemisf´erios norte e sul, respectivamente se Sn .
No caso n = 2, geometricamente temos
5.2. PROPRIEDADES GERAIS DE CONJUNTOS CONEXOS 179
%
‰
Sn
−
Sn
+
A proje¸c˜ao
p+ : Sn
+ → Rn
dada por
p+(x1, · · · , xn, xn+1)
.
= (x1, · · · , xn)
´e um homeomorfismo de Sn
+ em B[0; 1] (a fun¸c˜ao inversa ser´a dada por
y = (y1, · · · , yn) → (y1, · · · , yn, 1 − y 2)
e assim cont´ınua em B[0; 1]; a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor).
A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao no caso n = 2
Sn
+
a
E
T
©
Rn
R
X1
De modo semelhante temos que a a proje¸c˜ao
p− : Sn
− → Rn
dada por
p−(x1, · · · , xn, xn+1)
.
= (x1, · · · , xn)
´e um homeomorfismo de Sn
− em B[0; 1] (a fun¸c˜ao inversa ser´a dada por
y = (y1, · · · , yn) → (y1, · · · , yn, − 1 − y 2)
180 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
e assim cont´ınua em B[0; 1]; a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor).
Como B[0; 1] ´e conexa segue, do corol´ario (5.2.1), que Sn
+ e Sn
− s˜ao conexos.
Mas (1, 0, · · · ) ∈ Sn
+ ∩ Sn
−.
Logo, o corol´ario (5.2.3), implicar´a que Sn = Sn
+ ∪ Sn
− ser´a um conjunto conexo.
Temos o
Proposi¸c˜ao 5.2.4 Sejam (M1, d1), (M2, d2) espa¸co m´etricos e M1 × M2 com uma das trˆes
m´etricas usuais.
Ent˜ao M1 × M2 ´e conexo se, e somente se, Mi ´e conexo para todo i = 1, 2.
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos que M1 × M2 ´e conexo.
Sabemos que para cada i = 1, 2 a proje¸c˜ao
pi : M1 × · · · × Mn → Mi
dada por
pi(x1, x2)
.
= xi, (x1, x2) ∈ M1 × M2
´e uma aplica¸c˜ao cont´ınua em M1 × M2.
Assim, como M1 × M2 ´e conexo, segue da proposi¸c˜ao (5.2.1), que
Mi = pi(M1 × M2)
´e conexo para cada i = 1, 2.
Reciprocamente, suponhamos que M1 e M2 s˜ao conexos.
Seja a
.
= (a1, a2) ∈ M1 × M2.
Para cada x = (x1, x2) ∈ M1 × M2 temos que os conjuntos
M1 × {a2} e {x1} × M2
s˜ao conexos (pois s˜ao homeomorfos a M1 e M2, respectivamente; os homeomorfismos ser˜ao as
restri¸c˜oes a M1 × {a2} ou a {x1} × M2 das proje¸c˜oes de M1 × M2 sobre M1 ou sobre M2,
respectivamente).
Como
(x1, a2) ∈ [M1 × {a2}] ∩ [{x1} × M2],
segue, da proposi¸c˜ao (5.2.3), que
x ∈ Cx = (M1 × {a2}) ∪ ({x1} × M2)
´e conexo.
Observemos que
a = (a1, a2) ∈ Cx, para todo x ∈ M1 × M2
e que
M1 × M2 =
x∈M1×M2
Cx.
A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao:
5.2. PROPRIEDADES GERAIS DE CONJUNTOS CONEXOS 181
M1
M2
M1 × M2
x1
a2
M1 × {a2}
{x1} × M2
a
)
a = (a1, a2)
x = (x1, x2)
Assim, da proposi¸c˜ao (5.2.3), segue que M1 × M2 ser´a conexo, como quer´ıamos mostrar.
Com isto temos o
Corol´ario 5.2.8 Sejam (M1, d1), · · · , (Mn, dn) espa¸co m´etricos e M1 × · · · × Mn com uma das
trˆes m´etricas usuais.
Ent˜ao M1 × · · · × Mn ´e conexo se, e somente se, Mi ´e conexo para todo i = 1, · · · , n.
Demonstra¸c˜ao:
A demonstra¸c˜ao ´e feita por indu¸c˜ao e ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
Do corol´ario (5.2.4) temos que Rn ´e conexo.
Um outro modo de obter isto ´e utilizando o corol´ario acima.
Corol´ario 5.2.9 O Rn, munido de uma das trˆes m´etricas usuais, ´e conexo.
Demonstra¸c˜ao:
Sabemos que R ´e conexo logo, da proposi¸c˜ao acima, segue que Rn = R × · · · × R
n−fatores
ser´a conexo.
23.10.2008 - 23.a
Exemplo 5.2.6 Consideremos o cilindro em R3,
C
.
= {(x, y, z) ∈ R3
: x2 + y2
= 1}
munido da m´etrica induzida por uma das m´etricas usuais de R3.
Afirmamos que C ´e conexo.
De fato, C ´e homeomorfo ao produto cartesiano S1 × R.
Para ver isto, basta verificar que (veja figura abaixo)
h : C → S1
× R
dada por
h(x, y, z)
.
= ((x, y), z), (x, y, z) ∈ C
´e um homeomorfismo (ser´a deixado como exerc´ıcio a verifica¸c˜ao deste fato pelo leitor).
182 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
C
E ×
S1
R
h
T
E
o1
(x, y, z)
(x, y)
z
Como S1 e R s˜ao conexos segue, da proposi¸c˜ao (5.2.4), que S1 × R ser´a conexo e portanto,
do corol´ario (5.2.1), temos que C ´e conexo.
Exemplo 5.2.7 Sejam n ≥ 2, Rn, munido de uma das trˆes m´etricas usuais, e p ∈ Rn.
Ent˜ao Rn  {p} ´e conexo.
De fato, observemos que Rn  {p} ´e homeomorfo a Rn  {0} .
Para ver isto, basta considerar a transla¸c˜ao
Tp : Rn
→ Rn
dada por
Tp(x)
.
= x − p, x ∈ Rn
 {p}
que ´e uma isometria, logo um homeomorfismo e como Tp(p) = 0, segue que a restri¸c˜ao de Tp a
Rn  {p} ser´a um homeomorfismo de Rn  {p} em Rn  {0}, ou seja, Rn  {p} ´e homeomorfo a
Rn  {0} (ver figura abaixo).
E
T
E
T
E
p
0 = Tp(p)
Tp
Logo, pelo corol´ario (5.2.1) basta mostrar que Rn  {0} ´e conexo.
Para isto consideremos a aplica¸c˜ao (veja figura abaixo o caso n = 2)
h : Sn
× (0, ∞) → Rn
 {0}
dada por
h(x, t)
.
= t.x, (x, t) ∈ Sn
× (0, ∞)
5.2. PROPRIEDADES GERAIS DE CONJUNTOS CONEXOS 183
que ´e um homeomorfismo de Sn × R em Rn  {0}.
Sua fun¸c˜ao inversa ´e dada por
k : Rn
 {0} → Sn
× (0, ∞)
dada por
k(z)
.
= (
z
z
, z ), z ∈ Rn
 {0}.
A verifica¸c˜ao destes fatos ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor.
T
×
x
t
E
h
T
E
t.x
R2
 {0}
Um outro resultado importante ´e dado pela
Proposi¸c˜ao 5.2.5 Consideremos R com a m´etrica usual.
Um subconjunto A da reta ´e conexo se, e somente se, A ´e um intervalo da reta R.
Demonstra¸c˜ao:
O exemplo (5.2.1) mostra que um intervalo aberto ´e conexo.
Assim, da proposi¸c˜ao (5.2.2), segue que um intervalo fechado tamb´em ser´a conexo.
Com isto o corol´ario (5.2.2) implicar´a que todo intervalo semi-fechado `a direita ou `a esquerda
tamb´em ser´a conexo.
Reciprocamente, se A ⊆ R ´e conexo.
Mostremos que ele dever´a ser um intervalo, isto ´e, se a, b ∈ A e c ∈ R ´e tal que a  c  b
ent˜ao deveremos ter c ∈ A.
Suponhamos, por absurdo, que isto n˜ao ocorra, isto ´e, existe c ∈ R tal que
a  c  b e c ∈ A.
Ent˜ao temos que
A = [A ∩ (−∞, c)] ∪ [A ∩ (c, ∞)],
ou seja, uma cis˜ao de A (observemos que A ∩ (−∞, c) e A ∩ (c, ∞) s˜ao abertos em A).
Mas esta cis˜ao n˜ao ´e trivial pois a ∈ A ∩ (−∞, c) (pois a ∈ A e a  c) e b ∈ A ∩ (c, ∞) (pois
b ∈ A e c  b) o que ´e um absurdo, pois A ´e conexo.
Assim A dever´a ser um intervalo de R.
Como conseq¨uˆencia temos o
184 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
Corol´ario 5.2.10 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico conexo, R munido da m´etrica usual e
f : M → R cont´ınua em M.
Ent˜ao f(M) ⊆ R ´e um intervalo de R.
Demonstra¸c˜ao:
Da proposi¸c˜ao (5.2.1) temos que f(M) ´e um subconjunto conexo de R.
Portanto, da proposi¸c˜ao acima, segue que f(M) ´e um intervalo de R.
Outra conseq¨uˆencia importante ´e
Corol´ario 5.2.11 Sejam [a, b] munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R e R com a
m´etrica usual.
Suponhamos que f : [a, b] → R ´e cont´ınua em [a, b] com f(a)  f(b) e d ∈ (f(a), f(b)).
Ent˜ao existe c ∈ (a, b) tal ue f(c) = d.
Vale o mesmo se f(b)  f(a).
Demonstra¸c˜ao:
Como [a, b] ´e conexo em R, do corol´ario acima, que f([a, b]) ´e um intervalo de R.
Em particular,
(f(a), f(b)) ⊆ f([a, b]).
Como
d ∈ (f(a), f(b)) ⊆ f([a, b])
segue que existe c ∈ [a, b] tal que f(c) = d.
Observemos que
c = a, pois f(a)  d = f(c), e c = b, pois f(c) = d  f(b).
Logo existe c ∈ (a, b) tal que f(c) = d, como quer´ıamos mostrar.
Observa¸c˜ao 5.2.5
1. O resultado acima ´e conhecido como Teorema do Valor Intermedi´ario.
Ele nos d´a condi¸c˜oes suficientes para que um ponto esteja no conjunto imagem de uma
fun¸c˜ao real, cont´ınua, definida em um intervalo fechado e limitado (a saber, que o ponto
perten¸ca ao intervalo (f(a), f(b)) ou (f(b), f(a))).
2. De outro modo o Teorema do Valor Intermedi´ario nos condi¸c˜oes suficientes para que a
equa¸c˜ao
f(x) = d
tenha, pelo menos, uma solu¸c˜ao x ∈ (a, b) se fun¸c˜ao real f for cont´ınua e definida em um
intervalo fechado e limitado de R.
Como conseq¨uˆencia do Teorema do Valor Intermedi´ario temos o
Corol´ario 5.2.12 Seja p : R → R um polinˆomio de grau ´ımpar n, isto ´e,
p(t) = a0 + a1x + · · · + anxn
, x ∈ R
com an = 0 e n ∈ N um n´umero natural ´ımpar.
Ent˜ao existe c ∈ R tal que p(c) = 0.
5.2. PROPRIEDADES GERAIS DE CONJUNTOS CONEXOS 185
Demonstra¸c˜ao:
Podemos supor, sem perda de generalidade, que an = 1 (caso contr´ario consideramos q(t)
.
=
1
an
p(t), t ∈ R e com isto q ser´a um polinˆomio de mesmo grau que o polinˆomio p; al´em disso,
q(c) = 0 se, e somente se, p(c) = 0, c ∈ R).
Mostremos que existem x1, x2 ∈ R tais que x1  x2 e
p(x1)  0  p(x2). (∗)
De fato, para todo x = 0 temos que
p(x) = xn
[
a0
xn
+
a1
xn−1
+ · · · +
an−1
x
+ 1]. (∗∗)
Seja
r
.
= |a0| + |a1| + · · · + |an−1| + 1.
Se |x|  r ≥ 1 teremos |x|k ≥ |x| para todo k = 1, · · · , n, logo
a0
xn
+
a1
xn−1
+ · · · +
an−1
x
≤
|a0|
|x|n
+
|a1|
|x|n−1
+ · · · +
|an−1|
|x|
[|x|k≥|x|,k=1,··· ,n]
≤
|a0|
|x|
+
|a1|
|x|
+ · · · +
|an−1|
|x|
=
r
|x|
 1.
Assim quando |x|  r ≥ 1 temos que
|
a0
xn
+
a1
xn−1
+ · · · +
an−1
x
|  1
ou seja,
−1 
a0
xn
+
a1
xn−1
+ · · · +
an−1
x
 1, |x|  r ≥ 1.
Portanto
0 
a0
xn
+
a1
xn−1
+ · · · +
an−1
x
+ 1, |x|  r ≥ 1.
Portanto, para |x|  r ≥ 1, de (*), segue que p(x) tem o mesmo sinal de xn.
Como n ´ımpar segue que xn assume valores positivos em (0, ∞) (em particular, se x  r ≥ 1)
e negativos em (−∞, 0) (em particular, se x  −r ≤ −1).
Logo p(x) assume valores positivos para x  r ≥ 1 e negativos em x  −r ≤ −1, em
particular, p(r + 1)  0 e p(−1 − r)  0 (pois r + 1  r e −1 − r  −r) , ou seja,
p(−1 − r)  0  p(r + 1).
Portanto, do Teorema do Valor Intermedi´ario, segue que existe c ∈ (−1 − r, r + 1) tal que
p(c) = 0, como quer´ıamos mostrar.
Observa¸c˜ao 5.2.6 O resultado acima nos diz que todo polinˆomio com coeficientes reais de grau
´ımpar possui, pelo menos, uma raiz real.
A seguir faremos uma aplica¸c˜ao to Teorema do Valor Intermedi´ario para caracterizar home-
morfismos entre intervalos da reta R.
Antes temos a
186 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
Defini¸c˜ao 5.2.1 Seja X ⊆ R, X = ∅ e f : X → R.
Diremos que a fun¸c˜ao f ´e crescente em X se para x, y ∈ X satisfazendo x  y temos
f(x)  f(x).
Diremos que a fun¸c˜ao f ´e n˜ao decrescente em X se para x, y ∈ X satisfazendo x  y
temos f(x) ≤ f(x).
Diremos que a fun¸c˜ao f ´e decrescente em X se para x, y ∈ X satisfazendo x  y temos
f(x)  f(x).
Diremos que a fun¸c˜ao f ´e n˜ao crescente em X se para x, y ∈ X satisfazendo x  y temos
f(x) ≥ f(x).
Diremos que a fun¸c˜ao f ´e mon´otona em X se ela for de um dos tipos acima.
Com isto temos a
Proposi¸c˜ao 5.2.6 Sejam R, munido da m´etrica usual, X ⊆ R, X = ∅, munido da m´etrica
induzida pela m´etrica usual de R e f : X → R mon´otona.
Se f(X) ⊆ R ´e densa em um intervalo J ⊆ R ent˜ao a fun¸c˜ao f ser´a cont´ınua em X.
Demonstra¸c˜ao:
Faremos a demonstra¸c˜ao para o caso em que f ´e n˜ao decrescente.
Os outros casos ser´a deixados como exerc´ıcio para o leitor.
Sabemos que f(X) = J, onde J ´e um intervalo de R, em particular, f(X) ⊆ J.
Seja a ∈ X.
Mostremos que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a.
Para isto, suponhamos, primeiramente, que f(a) ∈ int(J).
Como f(a) ∈ int(J) segue existe δ  0 tal que
(f(a) − δ, f(a) + δ) ⊆ J.
Tomando-se b ∈ (f(a) − δ, f(a)) ⊆ J, como f(X) = J dado ε  0, existe y1 ∈ f(X) tal que
(ver figura abaixo)
f(a) − ε  y1  f(a).
f(a) − δ f(a)b y1
De modo semelhante se tomarmos c ∈ (f(a), f(a) + δ) ⊆ J, como f(X) = J dado ε  0,
existe y2 ∈ f(X) tal que
f(a)  y2  f(a) + ε,
logo dado ε  0, existem y1, y2 ∈ f(X) tais que
f(a) − ε  y1  f(a)  y2  f(a) + ε. (∗)
Para ilustrar veja figura abaixo
f(a) f(a) + εf(a) − ε
y1
y2
5.2. PROPRIEDADES GERAIS DE CONJUNTOS CONEXOS 187
Sejam x1, x2 ∈ X tais que f(x1) = y1 e f(x2) = y2.
Como f ´e n˜ao decrescente deveremos ter
x1  a  x2,
pois f(x1) = y1  f(a)  y2 = f(x2).
Seja δ
.
= min{a − x1, x2 − a}  0.
Ent˜ao se x ∈ X e |x − a|  δ teremos que
−δ  x − a  δ,
ou seja,
−(a − x1)  x − a  x2 − a
implicando que
x1  x  x2.
Como f ´e n˜ao decrescente segue que
y1 = f(x1)  f(x)  f(x2) = y2.
Mas de (*) segue que
f(a) − ε  y1  f(x)  y2  f(a) + ε,
ou seja,
|f(x) − f(a)|  ε,
implicando que f ´e cont´ınua no ponto a.
Suponhamos que f(a) ´e o extremos superior do intervalo J.
Como f ´e n˜ao decrescente e f(X) ⊆ J temos que se x ∈ X e a  x deveremos ter
f(a) ≤ f(x) ≤ f(a),
ou seja,
f(x) = f(a) (∗∗).
Como f(X) = J e f(a) ´e extremos superior do intervalo J, dado ε  0, segue que existe
y1 ∈ f(X) tal que
f(a) − ε  y1  f(a). (∗ ∗ ∗)
Seja x1 ∈ X tal que f(x1) = y1.
Como
f(x1) = y1  f(a)
e f ´e n˜ao decrescente segue que
x1  a,
caso contr´ario dever´ıamos ter
y1 = f(x1) ≥ f(a)
o que seria um absurdo.
Seja δ
.
= a − x1  0.
Logo se x ∈ X e |x − a|  δ teremos que
−δ  x − a  δ,
188 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
ou seja,
−(a − x1)  x − a  a − x1,
isto ´e, x1  x e assim f(x1) ≤ f(x) e, de (**), temos que f(x) ≤ f(a).
Assim y1 = f(x1) ≤ f(x) ≤ f(a).
Portanto de (***) teremos
f(a) − ε  y1 ≤ f(x) ≤ f(a)
ou ainda
|f(x) − f(a)|  ε
mostrando que f ´e cont´ınua no ponto a.
O caso em que f(a) ´e o extremo inferior do intervalo J ´e tratado de modo semelhante e ser´a
deixado como exerc´ıcio para o leitor.
Observa¸c˜ao 5.2.7 Reafirmando, o resultado acima nos diz que se f ´e mon´otona e f(X) = J,
J um intervalo de R ent˜ao f ser´a cont´ınua em X ⊆ R.
Como consequˆencia imediata temos o
Corol´ario 5.2.13 Sejam R, munido da m´etrica usual, X ⊆ R, X = ∅, munido da m´etrica
induzida de R, e f : X → R mon´otona.
Se f(X) ⊆ R for um intervalo ent˜ao f ´e cont´ınua em X
Vale uma certo tipo de rec´ıproca do resultado anterior, a saber:
Proposi¸c˜ao 5.2.7 Sejam R, munido da m´etrica usual, I ⊆ R um intervalo de R munido da
m´etrica induzida de R, e f : I → R cont´ınua e injetiva em I.
Ent˜ao
1. f mon´otona;
2. f ´e um homeomorfismo de I sobre o intervalo J = f(I).
Demonstra¸c˜ao:
De 1.:
Suponhamos que I = [a, b], a  b.
Como f ´e injetiva temos que f(a) = f(b).
Consideremos o caso em que f(a)  f(b) (o caso f(a)  f(b) ´e semelhante e ser´a deixado
como exerc´ıcio para o leitor).
Afirmamos que f ´e crescente (e portanto mon´otona).
De fato, suponhamos, por absurdo, que f n˜ao ´e crescente, isto existem x, y ∈ [a, b] tais que
x  y e f(y) ≤ f(x).
Como f ´e injetora segue que f(y)  f(x).
Como f(y) = f(a) (pois a ≤ x  y) temos duas possibilidades:
(i): f(a)  f(y);
(ii): f(a)  f(y).
5.2. PROPRIEDADES GERAIS DE CONJUNTOS CONEXOS 189
No caso (i) temos que f(a)  f(y)  f(x).
Logo pelo Teorema do Valor Intermedi´ario dever´a existir c ∈ (a, x) tal que f(c) = f(y), ou
seja,
c  x  y e f(c) = f(y),
contrariando a injetividade de f.
No caso (ii) temos que f(y)  f(a)  f(b).
Logo pelo Teorema do Valor Intermedi´ario dever´a existir c ∈ (y, b) tal que f(c) = f(a), ou
seja,
a ≤ y  c e f(c) = f(a),
contrariando a injetividade de f.
Observemos que se I ´e um intervalo da reta arbitr´ario temos que f : I → R ´e mon´otona se,
e somente se, a restri¸c˜ao de f a cada intervalo [a, b] ⊆ I for mon´otona, ou seja, vale 1. .
Na verdade, se I ´e um intervalo da reta arbitr´ario temos que f : I → R ´e mon´otona
crescente se, e somente se, a restri¸c˜ao de f a cada intervalo [a, b] ⊆ I for mon´otona crescente.
Vale o an´alogo trocando-se ”crescente” por ”decrescente”.
De 2.:
Pelo item 1. e do corol´ario (5.2.10) temos que f ser´a uma bije¸c˜ao mon´otona do intervalo I
no intervalo J = f(I) (pois ela ´e injetora em I, logo bijetora sobre J = f(I) que ´e um intervalo
pois f ´e cont´ınua no intervalo I que ´e conexo em R).
Observemos que a fun¸c˜ao inversa f−1 : J → I ser´a mon´otona (pois f ´e mon´otona).
Logo o corol´ario (5.2.13) implicar´a que f−1 ser´a cont´ınua em J (pois f−1(J) = I um intervalo
de R) mostrando que f ´e um homeomorfismo do intervalo I sobre o intervalo J = f(I), como
quer´ıamos mostrar.
Observa¸c˜ao 5.2.8
1. Existem fun¸c˜oes mon´otonas injetivas e descont´ınuas em algum ponto.
Para ver isto, consideremos o seguinte exemplo:
Seja R com a m´etrica usual e
f : R → R dada por f(x)
.
=
x + x
|x|, x = 0,
0, x = 0
.
O gr´afico de f ´e dado pela figura abaixo:
E
T
0
y = x − 1
y = x + 1
190 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
Observemos que f ´e mon´otona (´e uma fun¸c˜ao crescente, portanto injetiva) e f(R) =
(−∞, −1) ∪ {0} ∪ (1, ∞)) logo n˜ao ´e um intervalo de R, logo n˜ao poder´a ser cont´ınua em
R (pois se fosse cont´ınua sua imagem sria um conexo e f(R) = (−∞, −1) ∪ {0} ∪ (1, ∞)
n˜ao ´e um conexo da reta).
2. Existem fun¸c˜oes bijetoras entre intervalos que s˜ao descont´ınuas.
Como um exemplo temos:
Sejam [0, 3] ⊆ R munido da m´etrica unduzida pela m´etrica usual de R e
g : [0, 3] → [0, 3] dada por g(x)
.
=



1 − x, 0 ≤ x  1
x, 1 ≤ x ≤ 2
5 − x, 2  x ≤ 3
.
O gr´afico de g ´e dado pela figura abaixo:
E
T
1
1
2 3
2
3
y = 1 − x
y = x
y = 5 − x
Observemos que g ´e bijetora n˜ao ´e mon´otona e portanto n˜ao poder´a ser cont´ınua (pois se
fosse cont´ınua pela proposi¸c˜ao acima deveria ser mon´otona o que n˜ao ´e o caso).
A seguir temos
Exerc´ıcio 5.2.2 Sejam, n ∈ N, [0, ∞) ⊆ R mundio da m´etrica induzida pela m´etrica usual de
R e
f : [0, ∞) → [0, ∞) dada por f(x)
.
= xn
, x ∈ [0, ∞).
Observemos que f ´e cont´ınua e crecente em [0, ∞).
Da proposi¸c˜ao (5.2.7) item 2., segue que f ´e um homeomorfismo sobre sua imagem f([0, ∞)
que sabemos, pelo corol´ario (5.2.10), ser um intervalo de R.
Utilisando-se o Binˆomio de Newton podemos mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o
leitor) que
(1 + y)n
≥ 1 + ny, y ≥ 0.
5.2. PROPRIEDADES GERAIS DE CONJUNTOS CONEXOS 191
Logo temos que se x ≥ 1 segue que
f(x) = xn
= [1 + (x − 1)]x
≥ 1 + n(x − 1)
mostranto que f n˜ao ser´a limitada (pois g(x) = x − 1 n˜ao ´e limitada em [1, ∞)).
Como f(0) = 0 podemos concluir que f([0, ∞) = [0, ∞), ou seja, f : [0, ∞) → [0, ∞) ´e um
homeomorfismo de [0, ∞) em [0, ∞).
Se y ∈ [0, ∞), o valor f−1(y) ser´a denominado, raiz n-´esima de y e indicado por n
√
y.
E como vimos acima f−1 : [0, ∞) → [0, ∞) ser´a cont´ınua em [0, ∞).
30.10.2008 - 24.a
Um outro resultado importante ´e
Teorema 5.2.1 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, C, X ⊆ M munidos da m´etrica induzida de
M.
Se C ´e um subconjunto conexo e tem pontos de X e de M  X ent˜ao algum ponto de C
pertence a fronteira de X, isto ´e, C ∩ ∂X = ∅ (veja figura abaixo).
M
X
C
C ∩ X
y0
C ∩ (M  X)
”
C ∩ ∂X
Demonstra¸c˜ao:
Como C ∩ X = ∅ e C ∩ (M  X) = ∅ segue que o subconjunto C ∩ X n˜ao ´e vazio nem ´e igual
a todo C assim a fronteira de C ∩ X em C ´e n˜ao vazia
De fato, se fosse vazia ent˜ao da proposi¸c˜ao (5.1.1) dever´ıamos ter C ∩ X = ∅ ou C ∩ X = C
(pois C ´e conexo e C ∩ X ´e um subconjunto de C que tem fronteira vazia).
A 1.a possibilidade n˜ao pode ocorrer e se a 2.a possibilidade ocorrer ter´ıamos C ⊆ X e assim
C ∩ (M  X) = ∅ o que ´e um absurdo.
Logo existe c ∈ ∂C(C ∩ X), ou seja, existe c na fronteria de C ∩ X em C, em particular
c ∈ C.
Mostremos que c ∈ ∂X(= ∂M X) (isto ´e, est´a na fronteira de X em M).
De fato, como c ∈ ∂C(C ∩ X), dado ε  0 existem s ∈ C ∩ X ⊆ X tal que
d(s, c)  ε
e t ∈ C  (C ∩ X)
[exerc´ıcio]
= C  X
[C⊆M]
⊆ M  X tal que
d(c, t)  ε.
Logo, dado ε  0 existe s ∈ X e t ∈ M  X tal que s, t ∈ BM (c; ε) (veja figura abaixo).
192 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
M
C
X
c ∈ ∂(C ∩ X)
u
c
s ∈ C ∩ X
' t ∈ C  (C ∩ X) = M  X
Portanto c ∈ ∂X, isto ´e C ∩ ∂X = ∅, como quer´ıamos demonstrar.
Observa¸c˜ao 5.2.9
1. O resultado acima ´e conhecido como Teorema da Alfˆandega.
2. Podemos reobter o Teorema do Valor Intermedi´ario como uma consequˆencia do Teorema
da Alfˆandega.
De fato, sejam M = C
.
= f([a, b]) com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R e
f; [a, b] → R ´e cont´ınua em [a, b] e f(a)  d  f(b) ent˜ao tomando-se C
.
= f([a, b]).
Ent˜ao sabemos que C ´e conexo e assim aplicando o Teorema da Alfˆandega a
X
.
= {x ∈ [a, b] : f(x)  d} ⊆ [a, b]
obteremos que C ∩ ∂X.
Mas
∂X = {x ∈ [a, b] : f(x) = d}.
Logo existe c ∈ [a, b] tal que f(c) = d.
Observemos que na verdade c ∈ (a, b) pois d ∈ (f(a), f(b).
5.3 Conex˜ao por caminhos
Defini¸c˜ao 5.3.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e [0, 1] munido da m´etrica induzida pela
m´etrica usual de R.
Uma aplica¸c˜ao cont´ınua f; [0, 1] → M ser´a denominada caminho unindo os pontos a
.
=
f(0) ao ponto b
.
= f(1).
O gr´afico de f, isto ´e,
G(f) = {(t, f(t)) : t ∈ [0, 1]} ⊆ [0, 1] × M
5.3. CONEX ˜AO POR CAMINHOS 193
ser´a dito tra¸co do caminho f.
Os pontos a, b ∈ M ser˜a denominados extremos do caminho, a ser´a dito ponto inicial
(ou origem) do caminho e b ponto final (ou fim) do caminho.
Neste caso diremos que o caminho f liga o ponto a ao ponto b em M (vide figuras
abaixo).
0
1
E
f
M
a = f(0)
b = f(1)
0
1
E
f
M
a = f(0)
b = f(1)
0
1
E
f
M
a = f(0)
b = f(1)
Diremos que um caminho f : [0, 1] → M ´e um caminho fechado em M se a = b (isto ´e,
f(0) = f(1)) (vide figura abaixo).
0
1
E
f
M
a = f(0) = f(1) = b
194 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
0
1
E
f
M
a = f(0) = f(1) = b
Observa¸c˜ao 5.3.1
1. Na situa¸c˜ao acima, um exemplo de caminho trivial ´e o caminho constante, isto ´e, se a ∈ M
temos que
f : [0, 1] → M, para todo f(t) = a, 0 ≤ t ≤ 1.
2. Se f : [0, 1] → M ´e um caminho que une o ponto a = f(0) ao ponto b = f(1) ent˜ao
f∗
: [0, 1] → M
dada por
f∗
(t)
.
= f(1 − t), t ∈ [0, 1]
tamb´em ser´a um caminho em M (pois ´e composta de fun¸c˜oes cont´ınuas) e une o ponto
f∗(0) = b ao ponto f∗(1) = a e tem o mesmo tra¸co de f (veja figura abaixo).
0
1
E
f
M
f(0) = a = f∗
(1)
f(1) = b = f∗
(0)
f∗
Logo, o caminho f∗ percorre o mesmo tra¸co que o caminho f mas percorrendo-o em sentido
contr´ario.
3. Suponhamos que f, g : [0, 1] → M sejam dois caminhos em M tal que f(1) = g(0) (veja
figura abaixo).
0
1
E
f, g
M
f(0)
f(1) = g(0)
g(1)
5.3. CONEX ˜AO POR CAMINHOS 195
Com estes caminhos podemos construir um caminho, denominado caminho justaposto,
indicado por f ∨ g, dada por
f ∨ g : [0, 1] → M
(f ∨ g)(t)
.
=
f(2t), 0 ≤ t ≤ 1
2
g(2t − 1), 1
2 ≤ t ≤ 1
.
Observemos que f ∨ g ser´a de fato um caminho (ou seja, uma fun¸c˜ao cont´ınua em [0, 1]
com valores em M; vide figura abaixo).
0
1
E
f ∨ g
M
f(0) = (f ∨ g)(0) f(1) = g(0) = (f ∨ g)( 1
2
)
g(1) = (f ∨ g)(1)
1
2
t
f(2t)
s
g(2s − 1)
Ou seja, o caminho f ∨ g tem o mesmo tra¸co que a reuni˜ao dos tra¸cos dos caminhos f e
g.
4. Se existir uma caminho em M unindo o ponto a ao ponto b escreveremos
a ∼ b.
Neste caso, pelo que vimos nos itens 1., 2. e 3. acima, temos que ∼ tem as propriedades
reflexiva, sim´etrica e transitiva.
Defini¸c˜ao 5.3.2 Sejam E um espa¸co vetorial e a, b ∈ E.
Definimos o segmento de reta [a, b] como sendo o seguinte subconjunto de E
[a, b]
.
= {(1 − t)a + tb : 0 ≤ t ≤ 1}.
Geometricamente temos
a
b
(1 − t)a + tb
E
196 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
Observa¸c˜ao 5.3.2
1. Observemos que
[a, b] = {(1 − t)a + tb : 0 ≤ t ≤ 1} = {a + t(b − a) : 0 ≤ t ≤ 1}
logo est´a contido na reta que cont´em o ponto a e tem a dire¸c˜ao do vetor b − a.
2. Se (E, . ) ´e um espa¸co vetorial normado e a, b ∈ E ent˜ao o segmento de reta ´e o tra¸co
do caminho
f : [0, 1] → E, dada por f(t)
.
= (1 − t)a + tb, 0 ≤ t ≤ t ≤ 1,
e ser´a denominado caminho retil´ıneo em E de extremos a e b (isto ´e, [a, b] = f([0, 1]);
ver figura abaixo).
a
b
f(t) = (1 − t)a + tb
E
E
0
1
f
Com isto temos a
Defini¸c˜ao 5.3.3 Sejam (E, . ) ´e um espa¸co vetorial normado e X ⊆ E.
Diremos X ´e um subconjunto convexo de E se dados a, b ∈ X temos que
[a, b] ⊆ X.
Observa¸c˜ao 5.3.3 Na situa¸c˜ao acima, X ⊆ E ´e convexo se, e somente se, o segmento de reta
que une dois pontos de X est´a contido em X (ver figura abaixo).
X
a
b
Convexo
X
a b
T
∈ X
N˜ao Convexo
5.3. CONEX ˜AO POR CAMINHOS 197
Temos a
Proposi¸c˜ao 5.3.1 Sejam (E, . E), (F, . F ) espa¸cos vetoriais normados e X ⊆ E e Y ⊆ F
subconjuntos convexos.
Ent˜ao X ×Y ´e um subconjunto convexo de E ×F (munido de uma das trˆes normas usuais).
Demonstra¸c˜ao:
De fato, se z = (x, y), z = (x , y ) ∈ X × Y ent˜ao x, x ∈ X e y, y ∈ Y .
Como X e Y s˜ao convexos em E e F, respectivamente, e temos que
(1 − t)x + tx ∈ X, (1 − t)y + ty ∈ Y, 0 ≤ t ≤ 1.
Logo
(1 − t)z + tz = (1 − t)(x, y) + t(x , y ) = ((1 − t)x + tx , (1 − t)y + ty ) ∈ X × Y
para todo t ∈ [0, 1], mostrando que X × Y ser´a convexo em E × F.
Temos tamb´em
Proposi¸c˜ao 5.3.2 Sejam (E, . E) espa¸co vetorial normado e X, Y ⊆ E subconjuntos convexos
de E.
Ent˜ao X ∩ Y ´e um subconjunto convexo de E.
Demonstra¸c˜ao:
De fato, se x, y ∈ X ∩ Y ent˜ao x, y ∈ X e x, y ∈ Y .
Como X e Y s˜ao convexos em E temos que
(1 − t)x + ty ∈ X, (1 − t)x + ty ∈ Y, 0 ≤ t ≤ 1,
ou seja,
(1 − t)x + ty ∈ X ∩ Y,
mostrando que X ∩ Y ser´a convexo em E.
Observa¸c˜ao 5.3.4
1. A reuni˜ao de dois subconjuntos convexos em um espa¸co vetorial normado (E, . E) pode
n˜ao ser um subconjunto convexo de E, como mostra o seguinte exemplo:
Consideremos R2 munido da m´etrica usual, X
.
= [0, 1] × {(0, 0)} e Y
.
= {(0, 0)} × [0, 1]
que s˜ao subconjuntos convexos de R2 (a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio
para o leitor).]
Mas X ∪ Y = [0, 1] × {(0, 0)} ∪ {(0, 0)} × [0, 1] n˜ao ´e convexo (pois, a
.
= (1
2 , 0) ∈ X,
b
.
= (0, 1
2 , 0) ∈ Y mas para todo t ∈ (0, 1) temos que (1 − t)a + tb ∈ X ∪ Y (veja figura
abaixo).
198 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
(0, 0)
{(0, 0)} × [0, 1]
[0, 1] × {(0, 0)}
(0, 1
2
)
( 1
2
, 0)
(1 − t)a + tb ∈ X ∪ Y
2. Sob que condi¸c˜oes necess´arias e suficientes a reuni˜ao de dois conjuntos convexos ser´a um
conjunto convexo?
A seguir temos o seguinte exemplo importante de subconjuntos convexos em um espa¸co
vetorial normado.
Exemplo 5.3.1 Sejam (E, . E) espa¸co vetorial normado, a ∈ E e r  0.
Ent˜ao B(a; r) ´e um subconjunto convexo de E.
De fato, se x, y ∈ B(a; r) ent˜ao
x − a  r e y − a  r. (∗)
Se t ∈ [0, 1] mostremos que
(1 − t)x + ty ∈ B(a; r).
Para ver isto, observemos que
[(1 − t)x + ty] − a
[a=(1−t)a+ta]
= [(1 − t)x + ty] − [(1 − t)a + ta]
= (1 − t)[x − a] + t[y − a] ≤ (1 − t)[x − a] + t[y − a]
= |(1 − t)| x − a + |t| [y − a]
[(∗)]
 (1 − t)r + tr = r,
ou seja, (1 − t)x + ty ∈ B(a; r) para todo t ∈ [0, 1], mostrando que B(a; r) ´e um subconjunto
convexo de E.
Observa¸c˜ao 5.3.5 De modo semelhante mostra-se que B[a; r] tamb´em ´e um subconjunto con-
vexo de E.
Isto ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor.
Defini¸c˜ao 5.3.4 Um espa¸co m´etrico (M, dM ) ser´a dito conexo por caminhos se dois pontos
quaisquer de M podem ser unidos por um caminho contido em M.
Diremos que X ⊆ M conexo por caminhos se o subespa¸co m´etrico (X, dM ) tem essa
propriedade.
Observa¸c˜ao 5.3.6 Se (E, . ) ´e um espa¸co vetorial normado ent˜ao todo subconjunto convexo,
X, de E ´e conexo por caminhos (pois dados dois pontos de X o segmento de reta que os une ´e
um caminho unindo os dois pontos e est´a contido em X).
Em particular, toda bola aberta (ou fechada) em um espa¸co vetorial normado ´e um subcon-
junto conexo por caminhos.
5.3. CONEX ˜AO POR CAMINHOS 199
Temos o seguinte resultado
Proposi¸c˜ao 5.3.3 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico.
Se M ´e conexo por caminhos ent˜ao M ser´a conexo.
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que se a, b ∈ M ent˜ao existe um caminho, em M, unindo o ponto a ao ponto b,
ou seja, existe f : [0, 1] → M tal que f(0) = a e f(1) = b.
Como [0, 1] ´e conexo em R e f ´e cont´ınua em [0, 1] segue que f([0, 1]) ⊆ M ser´a conexo em
M.
Conclus˜ao, dados dois pontos de M existe um conexo em M (Xab
.
= f([0, 1])) que cont´em os
dois pontos.
Logo do corol´ario (5.2.3) segue que M ser´a conexo.
Observa¸c˜ao 5.3.7 Uma demonstra¸c˜ao alternativa a exibida acima ´e:
Suponhamos, por absurdo, que M n˜ao ´e conexo, isto ´e M = A ∪ B ´e uma cis˜ao, n˜ao trivial,
de M.
Como A, B = ∅, sejam a ∈ A e b ∈ B.
Como M ´e conexo por caminhos existe f : [0, 1] → M cont´ınua tal que f(0) = 1 e f(1) = b.
Logo
[0, 1] = f−1
(M) = f−1
(A ∪ B) = f−1
(A) ∪ f−1
(B)
seria uma cis˜ao n˜ao trivial de [0, 1] (pois 0 ∈ f−1(A), 1 ∈ f−1(B), s˜ao subconjuntos abertos de
[0, 1], pois f ´e cont´ınua em [0, 1], e n˜ao vazios em [0, 1]) e assim [0, 1] n˜ao seria conexo, o que
´e um absurdo.
Logo M deve ser conexo.
Exemplo 5.3.2 Sejam (E, . E) espa¸co vetorial normado tal que dim(E)  1 e a ∈ E.
Ent˜ao E  {a} ´e conexo por caminhos (em particular, conexo).
De fato,
Se x, y ∈ E  {a} se [x, y] ⊆ E  {a} teremos que o segmento te reta que une x a y ser´a um
caminho contido em E  {a} (veja figura abaixo).
a
x
y
E
Se a ∈ [x, y], como dim(E)  1, existe z fora do segmento [x, y] (veja figura abaixo).
200 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
a
x
y
E
z
Assim o caminho [x, z] ∨ [z, y] ser´a um caminho unindo os pontos x e y e estar´a contido em
E  {a}.
Deste modo concluimos que E  {a} ´e conexo por caminhos.
Podemos generalizar o exemplo acima
Exerc´ıcio 5.3.1 Seja X ⊆ R2 um subconjunto enumer´avel.
Afirmamos que R2  X ´e conexo por caminhos (e portato conexo).
De fato, sejam x, y ∈ R2  X.
Consideremos S uma reta em R2 que corte o segmento [x, y] num ponto interior do mesmo
(veja figura abaixo).
x
y
S
Para cada z ∈ Z consideremos os caminhos justapostos
fz
.
= [x, z] ∪ [z, y].
Se z = z em S ent˜ao os caminhos fz e fz tˆem, apenas as extremidades x, y em comum
(veja figura abaixo).
5.3. CONEX ˜AO POR CAMINHOS 201
x
y
S
z
z
Suponhamos, por absurdo, que nenhum dos caminhos fz estivesse contido em R2  X.
Ent˜ao, para cada z ∈ S, existir´a λ(z) que pertence a imagem de fz e ao conjunto X.
Logo a aplica¸c˜ao λ : S → X ser´a injetora, implicando que S ´e, no m´aximo enumer´avel, o
que ´e um absrudo pois S ´e uma reta em R2 (logo n˜ao enumer´avel).
Portanto, existe, pelo menos um, z ∈ S tal que fz ´e um caminho unindo x e y e contido em
R2  X.
Portanto R2  X ´e conexo por caminhos.
Observa¸c˜ao 5.3.8
1. Em particular se
Y
.
= {(x, y) ∈ R2
: x ∈ I ou y ∈ I}
´e conexo por caminhos.
De fato, sabemos que
Y = R2
 Q2
e pelo exemplo anterior, como Q2 ´e enumer˜avel (pois ´e um produto cartesiano de conjuntos
enumer´aveis) segue que Y ser´a conexo por caminhos (em particular ser´a conexo).
2. Em geral, se (E, . ) ´e um espa¸co vetorial normado, dim(E)  1 e X ⊆ E ´e enumer´avel
ent˜ao E  X ser´a conexo por caminhos (e portanto conexo).
De fato, se x, y ∈ E  X existe um plano, P, de E (ou seja, um subsepa¸co de dimens˜ao 2
de E) que cont´em x e y.
Logo do exemplo acima segue que x pode ser unido a y por um caminho contido em P  X
e portanto contido em E  X, mostrando que E  X ´e conexo por caminhos.
Temos os seguinte resultados:
Proposi¸c˜ao 5.3.4 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e ϕ : M → N cont´ınua em M.
Se M ´e conexo por caminhos ent˜ao ϕ(M) ⊆ N tamb´em ser´a conexo por caminhos.
202 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
Demonstra¸c˜ao:
Dados a, b ∈ ϕ(M) segue que existem x, y ∈ M tais que
ϕ(x) = a e ϕ(y) = b.
Como M ´e conexo por caminhos e x, y ∈ M existe f : [0, 1] → M cont´ınua em M tal que
f(0) = x e f(1) = y.
Consideremos g : [0, 1] → N dada por
g(t)
.
= ϕ(f(t)), t ∈ [0, 1].
Como f(t) ∈ M para todo t ∈ [0, 1] segue que g(t) ∈ ϕ(M) para todo t ∈ [0, 1], ou seja
g : [0, 1] → ϕ(M).
Al´em disso, como ϕ e f s˜ao cont´ınuas em M e em [0, 1], respectivamente, segue que g ´e
cont´ınua em [0, 1].
Temos tamb´em que, g(0) = ϕ(f(0)) = ϕ(x) = a e g(1) = ϕ(f(1)) = ϕ(y) = b.
Logo g ´e um caminho em ϕ(M) que une os pontos a e b, mostrando que ϕ(M) ´e conexo por
caminhos (veja figura abaixo).
EE
f
0
1
ϕ
a = ϕ(x) = g(0)
b = ϕ(y) = g(1)
x = f(0)
y = f(1)
g = ϕ ◦ f
Observa¸c˜ao 5.3.9 O resultado acima nos diz que a imagem de um conjunto conexo por cami-
nhos por uma aplica¸c˜ao cont´ınua ´e um conjunto conexo por caminhos (em particular ser´a
conexo).
Observa¸c˜ao 5.3.10 O resultado acima nos diz que a reuni˜ao qualquer de conjuntos conexos por
caminho que contenham, pelo menos, um ponto em comum ´e um conjunto conexo por caminhos
(em particular ser´a conexo).
Proposi¸c˜ao 5.3.5 Sejam (M1, d1), · · · (Mn, dn) espa¸cos m´etricos
M
.
= M1 × · · · × Mn (munido de uma das trˆes m´etrica usuais) ´e conexo por caminhos se, e
somente se, Mi ´e conexo por caminhos para todo i = 1, · · · , n.
Demonstra¸c˜ao:
5.3. CONEX ˜AO POR CAMINHOS 203
Se M
.
= M1 × · · · × Mn ´e conexo por caminhos ent˜ao como, para cada i = 1, · · · , n, a
proje¸c˜ao pi : M1 × · · · × Mn → Mi ´e cont´ınua em M1 × · · · × Mn segue, da proposi¸c˜ao (5.3.4),
que Mi = pi(M1 × · · · × Mn) ´e conexo por caminhos.
Reciprocamente, suponhamos que para cada i = 1, · · · , n temos que Mi ´e conexo por cam-
inhos.
Sejam x = (x1, · · · , xn), y = (y1, · · · , yn) ∈ M = M1×· · ·×Mn onde xi, yi ∈ Mi, i = 1, · · · , n.
Como xi, yi ∈ Mi e este ´e conexo por caminhos, existe um caminho fi : [0, 1] → Mi contido
em Mi unindo o ponto xi ao ponto yi, i = 1, · · · , n.
Consideremos f : [0, 1] → M dada por
f(t)
.
= (f1(t), · · · , fn(t)), t ∈ [0, 1].
Logo f ser´a cont´ınua em [0, 1] (pois para cada i = 1, · · · , n temos que fi ´e cont´ınua em Mi),
f(0) = (x1, · · · , xn) = x, f(1) = (y1, · · · , yn) = x e f([0, 1]) ⊆ M = M1 × · · · × Mn, isto ´e, ´e um
caminho, contido em M, unindo o ponto x ao ponto y, mostrando que M = M1 × · · · × Mn ´e
conexo por caminhos.
Observa¸c˜ao 5.3.11 O resultado acima nos diz que o produto cartesiano de conjuntos conexos
por caminhos ser´a conexo por caminhos.
Em particular ser´a conexo.
6.11.2008 - 25.a
Proposi¸c˜ao 5.3.6 Sejam (Mλ, dλ) espa¸cos m´etricos conexos por caminhos para cada λ ∈ A,
tais que Mλ ∩ Mβ = ∅ se λ, β ∈ A.
Ent˜ao M
.
=
λ∈A
Mλ tamb´em ser´a conexo por caminhos.
Demonstra¸c˜ao:
Seja x, y ∈ M = M
.
=
λ∈A
Mλ.
Logo existem λ, β ∈ A tal que x ∈ Mλ e y ∈ Mβ.
Seja p ∈ Xλ ∩ Xβ.
Como Mλ e Mβ s˜ao conexos por caminho e x, p ∈ Mλ e y, p ∈ Mβ segue que existem caminhos
f : [0, 1] → Mλ e g : [0, 1] → Mβ tais que f(0) = x, f(1) = p = g(0) e g(1) = y.
Logo considerando o caminho justaposto f ∨ g : [0, 1] → Mλ ∪ Mβ temos que este unir´a o
ponto x ao ponto y e estar´a contido em Mλ ∪ Mβ ⊆ M, mostrando que M =
λ∈A
Mλ ´e conexo
por caminhos (veja figura abaixo).
204 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
Mλ
Mβ
x = f(0)
f(1) = p = g(0)
y = g(1)
u
#
f
g
0 1
A seguir exibiremos um conjunto conexo que n˜ao ´e conexo por caminhos.
Exemplo 5.3.3 Consideremos R2 com a m´etrica usual.
Seja X ⊆ R2 o gr´afico da fun¸c˜ao
f : [0, ∞) → R dada por f(x)
.
=
cos(1
x), x = 0
0, x = 0
.
O exemplo (5.2.5) mostra que G(f) = {(x, f(x)) : x ∈ [0, ∞)} ´e conexo, com a m´etrica
induzida pela m´etrica de R2 (pois X ⊆ G(F) ⊆ X onde X e X s˜ao conexos pelo exemplo
citado).
Mostremos que G(f) n˜ao ´e conexo por caminhos.
Na verdade mostraremos que se g : [0, 1] → G(f) ´e um caminho como g(0) = (0, 0) ∈ G(f)
ent˜ao g dever´a ser constante (e igual a (0, 0)) em [0, 1].
Se isto for verdade, n˜ao existir´a nenhum caminho unindo (0, 0) a um ponto (x, f(x)) para
x = 0, ou seja, G(f) n˜ao ser´a conexo por caminhos.
Mostremos que g deve ser constante em [0, 1].
Seja α : [0, 1] → [0, ∞) tal que
g(t) = (α(t), f(α(t))), t ∈ [0, 1]
ou seja, α
.
= p1 ◦ g, p1 a proje¸c˜ao na primeira componente (logo cont´ınua em [0, 1] pois g ´e
cont´ınua em [0, 1] e a proje¸c˜ao na primeira componente tamb´em ´e cont´ınua).
Logo α ´e cont´ınua em [0, 1].
Seja
A
.
= {t ∈ [0, 1] : α(t) = 0}.
Mostraremos que A = [0, 1] (e assim α(t) = 0 para t ∈ [0, 1], ou seja g ser´a constante em
[0, 1]).
Observemos que A ´e fechado em [0, 1] (pois A = α−1({0} e {0} ´e fechado em R); A ´e n˜ao
vazio (pois α(0) = 0, isto ´e 0 ∈ A).
Afirmamos que A ´e aberto em [0, 1].
De fato, se a ∈ A temos que α(a) = 0 e assim g(a) = (α(a), f(α(a)) = (0, 0).
5.3. CONEX ˜AO POR CAMINHOS 205
Como g ´e cont´ınua em a, dado ε = 1  0, existe uma bola aberta, J = B(a; δ) ⊆ [0, 1], de
centro em a em [0, 1], tal que se t ∈ J temos que
g(t)
[g(a)=0]
= g(t) − g(a)  1. (∗)
Como J ´e um intervalo (pois ´e uma bola aberta em R) e α ´e cont´ınua em [0, 1] segue que
α(J) ´e um intervalo em R contendo 0 (pois a ∈ J e α(a) = 0).
Afirmamos que α(J) = {0}.
Caso, contr´ario, existir´a n ∈ N tal que 1
2πn ∈ α(J), ou seja, exitir´a tn ∈ J tal que
α(tn) =
1
2πn
.
Mas,
g(t) = g(
1
2πn
, f(
1
2πn
)) = (
1
2πn
, 1)
e assim
g(tn) = (
1
2πn
)2 + 12 ≥ 1
com tn ∈ J, contrariando (*).
Assim J, que ´e uma bola aberta em [0, 1], de centro em a, est´a contida em A, ou seja, A ´e
aberto em [0, 1].
Como [0, 1] ´e conexo segue, da proposi¸c˜ao (5.1.1) item 2., que A = [0, 1].
Com isto segue que G(f) n˜ao poder´a ser conexo por caminhos.
E
T
−1
1
(x, cos( 1
x
))
f(0)
Observa¸c˜ao 5.3.12 O exemplo acima nos mostra que o fecho de um conjunto conexo por cam-
inhos por n˜ao ser conexo por caminhos (diferentemente do que acontece com a conex˜ao).
Para ver isto basta considerar a restri¸c˜ao f|(0,∞)
.
Exemplo 5.3.4 Seja n ∈ N.
A esfera
Sn .
= {x ∈ Rn+1
: x = 1}
´e conexa por caminhos .
206 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
De fato, a aplica¸c˜ao
f : Rn+1
 {0} → Sn
dada por
f(x)
.
=
x
x
para x ∈ Rn+1
 {0}
´e cont´ınua e sobrejetora.
Sabemos que Rn+1 {0} ´e conexo por caminhos (pois n ≥ 1) logo da proposi¸c˜ao (5.3.4) segue
que f(Rn+1  {0}) = Sn tamb´em ser´a.
Exerc´ıcio 5.3.2 Podemos obter uma prova alternativa para o fato acima da seguinte forma:
Sejam a, b ∈ Sn, com b = −a (isto ´e, o ponto b n˜ao ´e o ant´ıpoda do ponto a em Sn).
Ent˜ao definamos f[0, 1] → Sn por
f(t)
.
=
(1 − t)a + tb
(1 − t)a + tb
, t ∈ [0, 1].
Ent˜ao f ´e um caminho em Sn que une o ponto a = f(0) ao ponto b = f(1).
Este caminho ´e denominado arco de uma grande circunferˆencia de Sn (ver figura
abaixo).
a
b
Se b = −a ent˜ao existir˜ao infinitos arcos de grandes circunferˆencias ligando os pontos a e b
em Sn.
Escolhendo-se um deles do seguinte modo: fixemos c ∈ Sn, c = a e c = b e consideramos o
caminho f que ´e o justaposto dos caminhos obtidos dos arcos unindo o ponto a ao ponto c e o
ponto c ao ponto b.
5.3. CONEX ˜AO POR CAMINHOS 207
b = −a
a
c
A seguir daremos uma condi¸c˜ao suficiente para que um espa¸co m´etrico conexo seja conexo
por caminhos.
Defini¸c˜ao 5.3.5 Diremos que um espa¸co m´etrico (M, d) ´e localmente conexo por caminhos
se para todo x ∈ M e toda vizinhan¸ca de x, V = V (x) existir uma vizinhan¸ca de x, U = U(x),
conexa por caminhos, tal que x ∈ U ⊆ V .
M
x
V
U
Observa¸c˜ao 5.3.13 Observemos que a vizinha¸ca de x dada, V , n˜ao necessita ser conexa por
caminhos.
Geometricamente temos
208 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
M
x
V
U
V
Como exemplo temos
Exemplo 5.3.5 Todo espa¸co vetorial normado (E, . ) ´e localmente conexo por caminhos.
De fato, dado x ∈ E e uma vizinhan¸ca de x, V = V (x) em E, da defini¸c˜ao de vizinhan¸ca,
segue que x ∈ int(V ).
Logo existe U
.
= B(x; r) tal que B(x; r) ⊆ V .
Mas U
.
= B(x; r) ´e convexa, logo conexa por caminhos, mostrando que x ∈ U ⊆ V , onde U
´e uma vizinhan¸ca conexa por caminho, ou seja E ´e localmente conexo por caminhos.
Exemplo 5.3.6 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico localmente conexo por caminhos.
Ent˜ao todo subconjunto aberto, A, de M ser´a localmente conexo por caminhos.
De fato, dados x ∈ A e uma vizinhan¸ca de x, V , contida em A, ou seja, x ∈ intA(V ) ⊆ A.
Mas A ´e um subconjunto aberto de M, assim intA(V ) = intM (V ), isto ´e, intA(V ) ´e um
subconjunto aberto de M.
Logo x ∈ V que ´e uma vizinhan¸ca de x em M.
Como M ´e localmente conexo por caminhos existe uma vizinhan¸ca de x em M, U conexa
por caminhos tal que x ∈ U ⊆ V ⊆ A, ou seja, A ´e localmente conexa por caminhos.
Observa¸c˜ao 5.3.14 Como consequˆencia do exemplo acima temos que todo subconjunto aberto
de um espa¸co vetorial normado ser´a localmente conexo por caminhos.
Para finalizar temos a
Proposi¸c˜ao 5.3.7 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico localmente conexo por caminhos.
Ent˜ao M ´e conexo se, e somente se, M ´e conexo por caminhos.
Demonstra¸c˜ao:
Sabemos que se M ´e conexo por caminhos ent˜ao M ´e conexo.
Suponhamos que M ´e conexo.
Mostremos que M ´e conexo por caminhos.
Dado a ∈ M consideremos
A
.
= {x ∈ M : existe um caminho f : [0, 1] → M que une o ponto x ao ponto a contido em M.
Afirmamos que A ´e aberto em M.
5.4. COMPONENTES CONEXAS 209
De fato, se x ∈ A, como M ´e localmente conexo por caminhos, existe uma vizinhan¸ca de x,
U, em M que ´e conexa por caminho e x ∈ U.
Assim temos que se u ∈ U existe um caminho g : [0, 1] → M contido em U que une o ponto
u ao ponto x.
Como x ∈ A temos que existe um caminho f : [0, 1] → M que une o ponto x ao ponto a
contido em M, ou seja, o caminho justaposto g ∨ f ´e um caminho contido em M que une o
ponto u ao ponto a.
Assim podemos concluir que u ∈ A.
Logo x ∈ U ⊆ A, U vizinhan¸ca de x em M.
Assim existe B(x; ε) ⊆ U ⊆ A , isto ´e, A ´e um subconjunto aberto de M.
Afirmamos que A ´e um um subconjunto fechado em M.
Mostremos que M  A ´e aberto em M.
De fato, se y ∈ M  A. (*)
Observemos que como y ∈ A n˜ao existe um caminho h : [0, 1] → M que une o ponto y ao
ponto a.
Como M ´e localmente conexo por caminhos e V
.
= M  A ´e uma vizinhan¸ca de y em M
dever´a existir uma vizinhan¸ca de y, W, em M conexa por caminhos tal que y ∈ W.
Mas se w ∈ W temos que temos que existe um caminho h : [0, 1] → M que une o ponto w
ao ponto y contido em W.
Como isto segue que w ∈ A pois, caso contr´ario, se w ∈ A existiria um caminho f[0, 1] → M
que une o ponto w ao ponto a em M e assim o caminho justaposto h ∨ f uniria o ponto y ao
ponto a em M, ou seja, y ∈ A, o que contraria (*).
Logo y ∈ W ⊆ M  A, W vizinhan¸ca de y.
Logo existe B(y; δ) ⊆ W ⊆ M  A, mostrando que M  A ´e aberto.
Portanto A ´e aberto e fechado em M, que ´e conexo, assim A = M ou A = ∅.
Como M ´e localmente conexo por caminhos segue que A = ∅ assim concuimos que A = M
e portanto M ´e conexo por caminhos (pois dados dois pontos x, y ∈ M segue que existem
caminhos f : [0, 1] → M e g : [0, 1] → M tais que f(0) = x, f(1) = a e g(0) = a, g(1) = y e
assim o caminho justaposto g ∨ f ser´a um caminho em M que une os pontos x e y).
5.4 Componentes conexas
Observa¸c˜ao 5.4.1 Se um espa¸co m´etrico (M, d) n˜ao ´e conexo ele est´a ”divido” em quantos
”peda¸cos”?
A seguir colocaremos esta quest˜ao em termos mais claros.
Defini¸c˜ao 5.4.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e x ∈ M.
Definimos a componente conexa de x em M, que indicaremos por Cx, como sendo a
reuni˜ao de todos os subconjuntos conexos de M que cont´em o ponto x, isto ´e,
Cx =
x∈A(x) ´e conexo em M
A(x)
Observa¸c˜ao 5.4.2
1. Se x ∈ M sempre existe uma conexo de M que cont´em x, a saber, o conjunto {x}.
Portanto Cx = ∅.
210 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
2. Como A(x) ´e conexo em M e cont´em x segue que Cx ser´a conexo (pois ´e reuni˜ao de
conexos que tem um ponto em comum, no caso, x).
3. Cx ´e o maior subconjunto conexo de M que cont´em x, isto ´e, se X ⊆ M ´e conexo em M
e cont´em x ent˜ao X ⊆ Cx.
De fato, pois se X ⊆ M ´e conexo em M e cont´em x ent˜ao X = A(x) para algum A(x),
logo X ⊆ Cx.
4. Dados x, y ∈ M temos uma, e somente uma, das duas possibilidades:
(a) ou Cx = Cy;
(b) ou Cx ∩ Cy = ∅.
De fato, suponhamos que z ∈ Cx ∩ Cy.
Como z ∈ Cx temos que z ∈ A(x) para algum conexo A(x) contendo x.
Assim A(x) ´e um conexo que cont´em z ∈ Cy, logo A(x) ⊆ Cy, ou seja, Cx ⊆ Cy.
De modo semelhante, mostra-se que Cy ⊆ Cx e portanto Cx = Cy mostrando que temos
somente uma das duas possibilidades acima.
5. Deste modo podemos escrever
M =
x∈M
Cx, (∗)
ou ainda, a fam´ılia de conexos (Cx)x∈M ´e uma parti¸c˜ao de M em partes disjuntas,
isto ´e, vale (*) e temos uma, e somente uma, das possibilidades
(a) ou Cx = Cy;
(b) ou Cx ∩ Cy = ∅.
6. Cada componente conexa C de M ´e a componente conexa de cada um de seus pontos, isto
´e, se x ∈ C ent˜ao Cx = C.
Al´em disso, C ´e um subconjunto conexo m´aximo, no sentido que, se X ´e conexo em M e
C ⊆ X ent˜ao X = C.
7. Todo subconjunto conexo n˜ao vazio de M est´a contido em uma, ´unica, componente conexa
de M.
De fato, se X ´e subconjunto conexo n˜ao vazio de M ent˜ao existe x ∈ X.
Do que vimos acima segue que X ⊆ Cx e Cx ´e a ´unica com a propriedade de ser componente
conexa e conter o conjunto X.
8. Toda componente conexa de M ´e um subconjunto fechado de M.
De fato, se Cx ´e componente conexa ent˜ao ser´a conexo.
Assim Cx tamb´em ser´a conexo e conter´a Cx.
Logo Cx = Cx, mostrando que Cx ´e um subconjunto fechado de M.
Proposi¸c˜ao 5.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e h : M → N um homeomorfismo.
Ent˜ao C ´e uma componente conexa de M se, e somente se, h(C) ´e uma componente conexa
de N.
5.4. COMPONENTES CONEXAS 211
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que C = Cx para algum x ∈ M.
Seja y
.
= h(x) (que ´e ´unico pois h ´e biejtora).
Sabemos que se C = Cx ´e uma componente conexa de M ent˜ao, em particular, Cx ´e um
conjunto conexo de M.
Como h ´e cont´ınua segue que h(Cx) ser´a um subconjunto conexo de N.
Como y ∈ h(Cx) temos que
h(Cx) ⊆ Cy. (∗)
De modo semelhante, temos que h−1(Cy) ser´a um conexo em M que cont´em x = h−1(y).
Logo
h−1
(Cy) ⊆ Cx
implicando que
Cy ⊆ h(Cx). (∗∗)
Portanto, por (*) e (**), segue que Cy = h(Cx), como quer´ıamos mostrar.
Exemplo 5.4.1 Consideremos M
.
= R  {0} com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R.
As componentes conexas de M s˜ao (−∞, 0) e (0, ∞).
Observa¸c˜ao 5.4.3 Veremos no exemplo a seguir que nem sempre as componentes conexas de
um espa¸co m´etrico precisam ser subconjuntos abertos do espa¸co m´etrico.
Exemplo 5.4.2 Consideremos Q com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R.
Cada componente conexa de Q reduz-se a um ´unico ponto.
Em particular, nenhuma componente conexa de Q ´e um subconjunto aberto.
Exerc´ıcio 5.4.1 Podemos generalizar o exemplo anterior, a saber:
Se (M, d) ´e um espa¸co m´etrico enumer´avel ent˜ao toda componente conexa de M se reduz a
um ´unico ponto.
Isto equivale a mostrar que se (M, d) ´e um espa¸co m´etrico conexo e tem mais de um ponto
ent˜ao M ´e n˜ao enumer´avel (pois se fosse enumer´avel e tem mais de um ponto, o conjunto
formado por cada um de seus pontos seriam componentes conexas distintas e assim M n˜ao seria
conexo).
Para mostrar esta ´ultima afirma¸c˜ao fixemos a ∈ M e consideremos a fun¸c˜ao
da : M → R dada por da(x)
.
= d(x, a), x ∈ M.
Sabemos que da ´e uma aplica¸c˜ao cont´ınua em M.
Como M ´e conexo segue que da(M) ser´a um conexo em R, ou seja, um intervalo J = da(M).
Temos que existe b ∈ M tal que b = a.
Portanto J cont´em, pelo menos, os pontos distintos 0 = d(a, a) = da(a) e d(a, b) = da(b).
Dai conlcui-se que J ´e n˜ao enumer´avel (pois conter´a todos os n´umeros reais entre (0, d(a, b))).
Como da ´e injetora temos que
#(M) ≥ #(da(M)) = #(J),
mostrando que M ´e n˜ao enumer´avel (#(X) denota a cadinalidade do conjunto X).
212 CAP´ITULO 5. CONJUNTOS CONEXOS
Cap´ıtulo 6
Limites
Neste cap´ıtulo estudaremos o comportamento das sequˆencias em espa¸cos m´etricos.
6.1 Limites de sequˆencias
Defini¸c˜ao 6.1.1 Uma aplica¸c˜ao x : N → M ser´a denominada sequˆencia em M e indicada
por (xn)n∈N, onde xn
.
= x(n), n ∈ N ser´a dito n-´esimo termo da sequˆencia.
Exemplo 6.1.1 Fixemos a ∈ R e consideremos a sequˆencia (xn)n∈N em R2 dada por
xn
.
= (cos(na), sen(na)), n ∈ N.
Observemos que xn ∈ S1, para n ∈ N.
Al´em disso, se a ´e m´ultiplo racional de 2π, isto ´e, a = 2πp
q onde p, q ∈ N, q = 0 ent˜ao temos
que xn = xm se, e somente se, existe k ∈ N tal que (m − n)a = 2kπ.
Defini¸c˜ao 6.1.2 Dada uma sequˆencia (xn)n∈N e A = {n1, n2, · · · } ⊆ N ´e um subconjunto
infinito de N, como n1  n2  n3  · · · ent˜ao podemos considerar a sequˆencia (xnk
)k∈N que
ser´a denominada subsequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N.
Exerc´ıcio 6.1.1 A sequˆencia (xm)m∈N onde
xm
.
= 22m
, m ∈ N
´e uma uma subsequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N dada por
xn
.
= 2n
, n ∈ N.
Para ver isto basta tomar
nk = 2k, k ∈ N.
Defini¸c˜ao 6.1.3 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico.
Diremos que a sequˆencia (xn)n∈N ´e limitada em M se existir c  0 tal que
d(xn, xm) ≤ c, para todo n, m ∈ N.
213
214 CAP´ITULO 6. LIMITES
Exerc´ıcio 6.1.2 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico.
Uma sequˆencia (xn)n∈N que ´e constante, isto ´e, xn = a para todo n ∈ N ´e limitada.
De fato, escolha c  0 qualquer.
Ent˜ao para todo n, m ∈ N temos que
d(xn, xm) = d(a, a) = 0  c.
Mais geralmente, se a sequˆencia (xn)n∈N assume um n´umero finito de valores ent˜ao ele ser´a
limitada.
De fato, sejam a1, · · · , ak ∈ M tais que para todo n ∈ N temos xn = a1 ou , · · · , ou xn = ak.
Consideremos c = max{d(ai, aj) : i, j = 1, · · · , k}.
Segue que
d(xn, xm) ≤ max{d(ai, aj) : i, j = 1, · · · , k} = c.
Observa¸c˜ao 6.1.1 Se uma sequˆencia ´e limitada ent˜ao toda subsequˆencia da mesma tamb´em
ser´a limitada.
Defini¸c˜ao 6.1.4 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia em M.
Diremos que a ∈ M ´e ponto limite da sequˆencia (xn)n∈N em M se dado ε  0 existir
n0 ∈ N tal que se
n  n0 implicar d(xn, a)  ε.
Neste caso escreveremos
a = lim
n→∞
xn = lim
n
xn = lim xn.
Diremos tamb´em que xn tende a a quando n tende a ∞ e escreveremos
xn → a.
Ainda nester caso, diremos que a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia convergente em
M e que converge para a, em M.
Se n˜ao existe lim
n→∞
xn em M diremos que a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia divergente
em M.
Observa¸c˜ao 6.1.2
1. Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia em M.
Temos que xn → a se, e somente se, para toda bola aberta centrada em a a sequˆencia
inteira est´a contida na bola, exceto um n´umero finito de termos da mesma (isto ´e, existe
n0 ∈ N tal que se n  n0 temos que xn pertence a bola dada).
a
Bεxn
6.1. LIMITES DE SEQUˆENCIAS 215
2. De modo semelhante, xn → a se, e somente se, para todo subconjunto aberto de M con-
tendo a a sequˆencia inteira est´a contida nesse aberto, exceto um n´umero finito de termos
da mesma (isto ´e, existe n0 ∈ N tal que se n  n0 temos que xn pertence ao aberto dado).
a
xn
A
3. Ou ainda, xn → a se, e somente se, para toda vizinhan¸ca de a em M, a sequˆencia inteira
est´a contida nessa vizinhan¸ca, exceto um n´umero finito de termos da mesma (isto ´e, existe
n0 ∈ N tal que se n  n0 temos que xn pertence `a vizinhan¸ca dada).
Exerc´ıcio 6.1.3 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico que contenha, pelo menos, dois pontos distin-
tos.
Ent˜ao existe uma sequˆencia em M que ´e divergente.
De fato, suponhamso que a, b ∈ M e a = b.
Consideremos a sequˆencia (xn)n∈N dada por
xn
.
=
a, n par
b, n ´ımpar
.
Afirmamos que nenhum ponto c ∈ M poder´a ser limite da sequˆencia (xn)n∈N.
De fato, se tomarmos
ε
.
=
d(a, b)
2
 0
ent˜ao B(c; ε) n˜ao conter´a ambos os pontos a e b e portanto n˜ao existir´a n0 ∈ N tal que xn ∈
B(c; ε), ou seja, x → c para todo c ∈ M (veja figura abaixo).
q
a b
c
ε =
d(a,b)
2
216 CAP´ITULO 6. LIMITES
Exerc´ıcio 6.1.4 A sequˆencia (xn)n∈N em R dada por
xn
.
=
1
n
, n ∈ N
´e convergente para 0 em R, onde R est´a munido da m´etrica usual.
De fato, dado ε  0 seja n0 ∈ N tal que n0  1
ε . (*)
Logo se n  n0 temos que
d(xn, 0) = |xn − 0| =
1
n
[nn0]

1
n0
(∗)
 ε.
11.11.2008 - 26.a
Em geral temos os seguintes resultados para convergˆencia de sequˆencias
Proposi¸c˜ao 6.1.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia convergente em M.
Ent˜ao a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia limitada em M.
Demonstra¸c˜ao:
De fato, seja
a = lim
n→∞
xn.
Logo, dado ε = 1, existe n0 ∈ N tal que se n  n0 temos
d(xn, a)  ε = 1.
Assim se n  n0 temos que xn ∈ B(a; 1).
Portanto
xn ∈ B(a; 1) ∪ {x1, · · · , xn0 }
que ´e a reuni˜ao de dois conjuntos limitados de M, logo limitado em M.
Proposi¸c˜ao 6.1.2 (Unicidade do limite) Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia
convergente em M.
Ent˜ao lim
n→∞
xn ´e ´unico em M.
Demonstra¸c˜ao:
De fato, suponhamos que
a = lim
n→∞
xn e b = lim
n→∞
xn.
Logo, dado ε  0, existe n0, n1 ∈ N tal que
se n  n0 teremos d(xn, a) 
ε
2
, (∗)
se n  n1 teremos d(xn, b) 
ε
2
. (∗∗)
Seja n  max{n0, n1}.
Ent˜ao
d(a, b) ≤ d(a, xn) + d(xn, b)
[(∗) e (∗∗)]

ε
2
+
ε
2
= ε.
Portanto d(a, b) = 0 logo a = b, mostrando que o limite deve ser ´unico.
Como consequˆencia temos o
6.1. LIMITES DE SEQUˆENCIAS 217
Corol´ario 6.1.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia convergente para
a em M.
Se xn = a para todo n ∈ N temos que a sequˆencia (xn)n∈N n˜ao ser´a convergente em M {a}.
Demonstra¸c˜ao:
Se existisse b ∈ M  {a} tal que xn → b ent˜ao ter´ıamos b = a e assim a sequˆencia (xn)n∈N
teria dos limites diferentes contrariando a proposi¸c˜ao acima.
Proposi¸c˜ao 6.1.3 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia convergente para
a em M.
Ent˜ao toda subsequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N ser´a convergente para a em M.
Demonstra¸c˜ao:
Seja (xnk
)k∈N ´e uma subsequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N.
Como a sequˆencia (xn)n∈N ´e convergente para a em M, dado ε  0 existe n0 ∈ N tal que
n  n0 temos d(xn, a)  ε.
Logo existe k0 ∈ N tal que nk0  n0 e assim se
k  k0 temos d(xnk
, a)  ε,
mostrando que a subsequˆencia (xnk
)k∈N ´e convergente para a em M, como quer´ıamos mostrar.
Como consequˆencia temos os
Corol´ario 6.1.2 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia convergente para
a em M.
Ent˜ao, para todo p ∈ N, lim
n→∞
xn+p = a.
Demonstra¸c˜ao:
Basta obervar que (xn+p)n∈N ´e uma subsequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N e assim, da proposi¸c˜ao
acima, segue que ser´a convergente para a em M.
Corol´ario 6.1.3 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico, (xn)n∈N uma sequˆencia convergente para a
em M e b = a.
Ent˜ao existe n0 ∈ N tal que xn = b para n  n0.
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos, por absurdo, que n˜ao exitisse n0 ∈ N com a propriedade acima, isto ´e, existem
infinitos nk ∈ N tais que xnk
= b.
Logo a subsequˆencia (xnk
)k∈N da sequˆencia (xn)n∈N ser´a convergente para b = a, contra-
riando a proposi¸c˜ao acima.
Logo existe n0 ∈ N tal que xn = b para n  n0.
Corol´ario 6.1.4 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia em M.
Suponhamos que existam duas subsequˆencias da sequˆancia (xn)n∈N que convergem para a e
b, respectivamente, em M e a = b.
Ent˜ao a sequˆancia (xn)n∈N n˜ao ser´a convergente em M.
218 CAP´ITULO 6. LIMITES
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos, por absurdo, que a sequˆencia (xn)n∈N seja convergente em M.
Ent˜ao da proposi¸c˜ao acima segue toda subsequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N dever´a ser con-
vergente para um mesmo valor em M, o que ´e um absurdo pois existem duas subsequˆencias da
sequˆencia que convergem para valores diferentes.
Logo a sequˆencia (xn)n∈N n˜ao poder´a ser convergente em M.
Um outra carateriza¸c˜ao equivalente para convergˆencia de sequˆencias ´e dada pela
Proposi¸c˜ao 6.1.4 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia em M.
A sequˆencia (xn)n∈N converge para a se, e somente se, dado ε  0, no m´aximo, um n´umero
finito de termos da sequˆencia (xn)n∈N n˜ao pertencer´a a bola aberta B(a; ε).
Demonstra¸c˜ao:
A sequˆencia (xn)n∈N converge para a se, e somente se, dado ε  0 existe n0 ∈ N tal que
n  n0 temos d(xn, a)  ε,
que ´e equivalente a dizer que se
n  n0 temos xn ∈ B(a; ε),
ou seja, tirando os n0 primeiros termos da sequˆencia (ou seja, um n´umero finito de termos) os
outros pertencem a bola B(a; ε).
Observa¸c˜ao 6.1.3
1. Conclus˜ao: a sequˆencia (xn)n∈N converge para a se, e somente se, para cada bola aberta
centrada em a, no m´aximo, um n´umero finito de termos da sequˆencia (xn)n∈N n˜ao per-
tencer´a a mesma.
2. Vale o mesmo resultado se substituirmos ”bola aberta centrada em a” por ”aberto de M
contendo a”.
3. Vale o mesmo resultado se substituirmos ”bola aberta centrada em a” por ”vizinhan¸ca de
a em M”.
As reda¸c˜oes das demonstra¸c˜oes deste dois itens acima ser˜ao deixadas como exerc´ıcios para
o leitor.
O resultado a seguir ser´a ´util nas demonstra¸c˜oes de alguma propriedades que veremos mais
a frente.
Lema 6.1.1 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico, (xn)n∈N uma sequˆencia em M e
¯P
.
= {0, 1,
1
2
, · · · ,
1
n
, · · · } ⊆ R
munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R.
Ent˜ao xn → a se, e somente se, a aplica¸c˜ao
f : ¯P → M dada por f(
1
n
)
.
= xn, f(0)
.
= a,
for cont´ınua em ¯P.
6.1. LIMITES DE SEQUˆENCIAS 219
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que para todo n ∈ N temos que
1
n
∈ ¯P ´e ponto isolado de ¯P logo f ser´a cont´ınua
em
1
n
para todo n ∈ N.
Conclus˜ao f ser´a cont´ınua em ¯P se, e somente se, f for cont´ınua em 0.
Suponhamos que xn → a.
Mostremos que f ser´a cont´ınua em 0.
Para isto, dado ε  0, como xn → a, existe n0 ∈ N tal que
n  n0 temos dM (xn, a)  ε.
Seja δ
.
=
1
n0
 0.
Logo se
1
n
= |
1
n
− 0| = dR(
1
n
, 0)  δ
temos que n 
1
δ
= n0 e assim
dM (f(
1
n
), f(0)) = dM (xn, a)  ε,
mostrando que f ´e cont´ınua em 0.
Reciprocamente, suponhamos que f ´e cont´ınua em 0.
Mostremos que xn → a.
Para isto, dado ε  0 seja δ  0 tal que
1
n
= |
1
n
− 0| = dR(
1
n
, 0)  δ temos dM (f(
1
n
), f(0))  ε.
Seja n0 ∈ N tal que n0 
1
δ
.
Logo se
n  n0 temos dM (xn, a) = dM (f(
1
n
), f(0))
[ 1
n
 1
n0
δ]
 ε,
mostrando que xn → a em M.
Com isto temos a
Proposi¸c˜ao 6.1.5 Sejam (M, dM ), (N, dN ), (M × N, d) espa¸cos m´etricos, onde no ´ultimo con-
sideramos uma das trˆes m´etricas usuais, (zn)n∈N uma sequˆencia em M ×N, isto ´e, zn = (xn, yn)
onde (xn)n∈N, (yn)n∈N s˜ao sequˆencias em M e em N, respectivamente e c = (a, b) ∈ M × N.
Ent˜ao zn → c em M × N se, e somente se, xn → a em M e yn → b em N.
Demonstra¸c˜ao:
Do lema acima temos que zn → c se, e somente se, a aplica¸c˜ao f : ¯P → M × N definida por
f(
1
n
) = zn, f(0) = c
for cont´ınua em ¯P.
220 CAP´ITULO 6. LIMITES
Da proposi¸c˜ao (3.2.2) segue a ´ultima afirma¸c˜ao acima ´e equivalente a mostrar que as fun¸c˜oes
f1 : ¯P → M e f2 : ¯P → N
definidas por
f1(
1
n
) = xn, f1(0) = a e f2(
1
n
) = yn, f2(0) = b
forem cont´ınuas em ¯P.
Do lema acima, esta afirma¸c˜ao ´e equivalente, xn → a em M e yn → b em N, completando a
demonstra¸c˜ao.
Observa¸c˜ao 6.1.4 Conclus˜ao: uma sequˆencia no produto cartesiano converge para c se, e so-
mente se, cada uma das sequˆencias coordenadas foram convergentes para as correspondentes
coordenadas de c.
Como consequˆencia temos o
Corol´ario 6.1.5 Sejam (Mi, di) espa¸cos m´etricos, i = 1, · · · , m e M
.
= M1 × · · · × Mm, onde
no ´ultimo consideramos uma das trˆes m´etricas usuais, (xn)n∈N uma sequˆencia em M, isto ´e,
xn = (xn1, · · · , xnm) onde (xni)n∈N ´e uma sequˆencia em Mi, i = 1, · · · , m e c = (a1, · · · , am) ∈
M.
Ent˜ao xn → a em M se, e somente se, xni → a1 em Mi para i = 1, · · · , m.
Demonstra¸c˜ao:
Basta utilizar indu¸c˜ao e a proposi¸c˜ao acima.
Para finalizar temos a
Proposi¸c˜ao 6.1.6 Sejam (E, . ) espa¸co vetorial normado, (xn)n∈N e (yn)n∈N sequˆencias em
E convergentes para a e b em E, respectivamente e (λn)n∈N uma sequˆencia em R convergente
para λ em R.
Ent˜ao as sequˆencias (xn + yn)n∈N e (λn.xn)n∈N s˜ao sequˆencias convergentes para a + b e λ.a
em E, respectivamente, isto ´e,
lim
n→∞
(xn + yn) = a + b e lim
n→∞
(λn.xn) = λ.a,
ou ainda,
lim
n→∞
(xn + yn) = lim
n→∞
xn + lim
n→∞
yn e lim
n→∞
(λn.xn) = lim
n→∞
xn. lim
n→∞
λn.
Demonstra¸c˜ao:
Se xn → a, yn → b e λn → λ ent˜ao, do lema acima, segue as fun¸c˜oes
f, g, h : ¯P → E
dadas por
f(
1
n
) = xn, f(0) = a, g(
1
n
) = yn, g(0) = b, h(
1
n
) = λn, h(0) = λ
s˜ao cont´ınuas em E e R, respetivamente.
Logo a proposi¸c˜ao (3.2.3) garante que f + g, h.f s˜ao cont´ınuas em ¯P.
Logo, do lema acima, segue que lim
n→∞
(xn + yn) = a + b e lim
n→∞
(λn.xn) = λ.a, como quer´ıamos
mostrar.
6.2. SEQUˆENCIAS DE N ´UMEROS REAIS 221
6.2 Sequˆencias de n´umeros reais
A seguir trataremos de algumas propriedades de sequˆencias de n´umeros reais.
Defini¸c˜ao 6.2.1 Uma sequˆencia de n´umeros reais (xn)n∈N ser´a dita crescente se
n  m implicar xn  xm.
Ser´a dita n˜ao decrescente se
n  m implicar xn ≤ xm.
Ser´a dita decrescente se
n  m implicar xn  xm.
Ser´a dita n˜ao crescente se
n  m implicar xn ≥ xm.
Ser´a dita mon´otona se for de um dos tipos acima.
Com isto temos a
Proposi¸c˜ao 6.2.1 Consideremos R com a m´etrica usual e (xn)n∈N uma sequˆencia em R que
seja mon´otona e limitada em R.
Ent˜ao a sequˆencia (xn)n∈N ser´a convergente em R.
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos que a sequˆencia (xn)n∈N ´e n˜ao decrescente (os outros casos ser˜ao deixados como
exerc´ıcio para o leitor).
Como {xn : n ∈ N} ´e um subconjunto limitado de R segue que existe
a
.
= sup
n∈N
xn.
Afirmamos que
xn → a.
De fato, dado ε  0, como
a = sup
n∈N
xn
segue que existe n0 ∈ N tal que
a − ε  xn0 ≤ a.
Como a sequˆencia (xn)n∈N ´e n˜ao decrescente segue que para n ≥ n0 teremos
a − ε  xn0 ≤ xn ≤ a,
ou seja,
n ≥ n0 temos a − ε  xn ≤ a  a + ε,
isto ´e,
n ≥ n0 temos |xn − a|  ε,
mostrando que xn → a, como quer´ıamos mostrar.
Como consequˆencia temos o
222 CAP´ITULO 6. LIMITES
Corol´ario 6.2.1 Consideremos R com a m´etrica usual e (xn)n∈N uma sequˆencia em R mon´otona
R.
Ent˜ao (xn)n∈N ´e uma sequˆencia ser´a convergente em R se, e somente se, (xn)n∈N ´e uma
sequˆencia limitada em R.
Demonstra¸c˜ao:
Se a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma for convergente em R ent˜ao, da proposi¸c˜ao (6.1.1), ela ser´a
limitada em R.
Por outro lado, se a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia limitada em R ent˜ao, pela proposi¸c˜ao
(6.2.1), ela ser´a convergente em R
Proposi¸c˜ao 6.2.2 Consideremos R com a m´etrica usual e (xn)n∈N uma sequˆencia em R.
Ent˜ao xn → 0 se, e somente se, |xn| → 0.
Demonstra¸c˜ao:
Se xn → 0, dado ε  0 existe n0 ∈ N tal que
n  n0 temos |xn| = |xn − 0|  ε. (∗)
Logo
n  n0 temos ||xn| − 0| = |xn|
(∗)
 ε,
mostrando que |xn| → 0.
Reciporcamente se |xn| → 0 , dado ε  0 existe n0 ∈ N tal que
n  n0 temos |xn| = ||xn| − 0|  ε. (∗∗)
Logo
n  n0 temos |xn − 0| = |xn|
(∗∗)
 ε,
mostrando que xn → 0, completando a demonstra¸c˜ao.
Exemplo 6.2.1 Seja a ∈ R tal que |a|  1.
Ent˜ao an → 0.
De fato, da proposi¸c˜ao (6.2.2) basta mostrar que
|a|n
→ 0,
ou seja, podemos supor, sem perda de generalidade, que
0 ≤ a  1.
Neste caso temos que
a ≥ a1
≥ · · · ≥ an
≥ · · · ,
ou seja, a sequˆencia (an)n∈N ´e uma sequˆencia n˜ao crescente e limitada em R.
Logo, da proposi¸c˜ao (6.2.1) segue que existe
l
.
= lim
n→∞
an
.
Mas
l = lim
n→∞
an
= lim
n→∞
[a.an−1
]
[proposi¸c˜ao (6.1.6)]
= a. lim
n→∞
an−1
= a.l.
Logo l = a.l, isto ´e, (1 − a)l = 0.
Como 1 − a = 0 segue que l = 0, mostrando que an → 0, como afirmado.
6.2. SEQUˆENCIAS DE N ´UMEROS REAIS 223
Proposi¸c˜ao 6.2.3 Consideremos R com a m´etrica usual e (xn)n∈N uma sequˆencia em R con-
vergente para a em R tal que a  b.
Ent˜ao existe n0 ∈ N tal que para
n  n0 temos xn  b.
Demonstra¸c˜ao:
Como xn → a, dado
ε
.
= a − b  0
segue que existe n0 ∈ N tal que se
n  n0 temos |xn − a|  ε = a − b,
ou seja, se
n  n0 temos b − a  xn − a  a − b,
ou ainda, se
n  n0 temos b  xn  2a − b,
em particular, se
n  n0 temos b  xn,
como quer´ıamos mostrar.
Como consequˆencia temos o
Corol´ario 6.2.2 Consideremos R com a m´etrica usual e (xn)n∈N uma sequˆencia em R conver-
gente para a em R e suponhamos que existe n0 ∈ N tal que para
n  n0 temos xn ≤ b. (∗)
Ent˜ao a ≤ b, isto ´e, lim
n→∞
xn ≤ b.
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos, por absurdo, que a  b.
Logo, da proposi¸c˜ao (6.2.3), segue que existir´a n0 ∈ N tal que xn  b, contrariando (*).
Logo a ≤ b, como quer´ıamos mostrar.
Observa¸c˜ao 6.2.1 Valem os resultados an´alogos `a proposi¸c˜ao (6.2.2) se trocarmos ”” por
”” e no corol´ario (6.2.2) trocarmos ”≤” por ”≥”.
A verifica¸c˜ao destes fatos ser˜ao deixadas a cargo do leitor.
Para finalizar temos o
Exemplo 6.2.2 Se a  0 temos que lim
n→∞
a
1
n = 1.
De fato, vamos supor que a  1.
Caso 0  a  1 ´e an´alogo e sua demonstra¸c˜ao ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor.
Temos que
a  a
1
2  a
1
3  · · ·  a
1
n  · · · ,
isto ´e, a sequˆencia (a
1
n )n∈N ´e um sequˆencia decrescente e limitada.
224 CAP´ITULO 6. LIMITES
Logo, da proposi¸c˜ao (6.2.1), segue que existe
l = lim
n→∞
a
1
n .
Como a  1 segue, do corol´ario (6.2.2) temos que l ≥ 1 (ou melhor, pela observa¸c˜ao (6.2.1)).
Mas
l = lim
n→∞
a
1
n = lim
n→∞
a
1
n(n+1) = lim
n→∞
a
1
n
− 1
n+1 =
lim
n→∞
a
1
n
lim
n→∞
a
1
n+1
=
l
l
= 1,
mostrando que
lim
n→∞
a
1
n = 1,
como afirmamos.
6.3 S´eries
Defini¸c˜ao 6.3.1 Seja (E, . ) um espa¸co vetorial normado e (xn)n∈N uma sequˆencia em E.
Para cada n ∈ N definamos
Sn
.
= x1 + x2 + · · · + xn,
que ser´a dita soma parcial de ordem n.
A sequˆencia (Sn)n∈N ser´a denominada s´erie associada a sequˆencia (xn)n∈N e indicada
por
∞
n=1
an ou
n
an ou ainda an.
Se existir
a = lim
n→∞
Sn
ent˜ao diremos que a s´erie
∞
n=1
an ´e convergente em E.
Neste caso escreveremos
∞
n=1
an = a.
Se a sequˆencia (Sn)n∈N n˜ao for convergente em E diremos que a s´erie
∞
n=1
an ´e divergente
em E.
Observa¸c˜ao 6.3.1 Observemos que
∞
n=1
an pode denotar duas coisas diferentes, a saber, a
sequˆencia formada pelas somas parciais (Sn)n∈N e o seu limite (caso seja convergente).
Temos a
Proposi¸c˜ao 6.3.1 (Crit´erio da divergˆencia) Seja (E, . ) um espa¸co vetorial normado e (xn)n∈N.
Se a s´erie
∞
n=1
xn ´e convergente em E ent˜ao lim
n→∞
xn = 0 em E.
6.3. S´ERIES 225
Demonstra¸c˜ao:
Sabemos que existe
a = lim
n→∞
Sn = lim
n→∞
Sn−1.
Assim
lim
n→∞
xn
[xn=Sn−Sn−1]
= lim
n→∞
[Sn − Sn−1] = a − a = 0,
como quer´ıamos mostrar.
Observa¸c˜ao 6.3.2 O resultado acima nos diz que a condi¸c˜ao ” lim
n→∞
xn = 0” ´e necess´aria para
que a s´erie
∞
n=1
xn seja convergente em E.
Por´em ela n˜ao ´e suficiente como mostra o seguinte exemplo:
Consideremos a s´erie harmˆonica,
∞
n=1
1
n
em E = R munido da norma dada pelo modulo em
R.
Temos que
lim
n→∞
xn = lim
n→∞
1
n
= 0,
mas a sequˆencia (Sn)n∈N que ´e crescente (logo mon´otona) cont´em uma subsequˆencia que n˜ao ´e
limitada (logo ela pr´opria n˜ao ser´a limitada e portanto, pelo corol´ario (6.2.1), n˜ao poder´a ser
convergente em R.
Uma subsequˆencia da sequˆencia (Sn)n∈N que n˜ao ´e limitada ´e a (S2n )n∈N, pois
S2n = 1 +
1
2
+
1
3
+
1
4
+
1
5
+
1
6
+
1
7
+
1
8
+ · · · +
1
2n−1
+
1
2n
= 1 +
1
2
+
1
3
+
1
4
+
1
5
+
1
6
+
1
7
+
1
8
+ · · · +
1
2n−1 + 1
+ · · · +
1
2n−1 + 2n−1
 1 +
1
2
+
1
4
+
1
4
+
1
8
+
1
8
+
1
8
+
1
8
+ · · · +




1
2n−1 + 2n−1
+ · · · +
1
2n−1 + 2n−1
2n−parcelas




= 1 +
1
2
+
2
4
+
4
8
+ · · · +
2n−1
2n
n−parcelas iguais a 1
2
= 1 + n
1
2
,
mostrando que a (S2n )n∈N n˜ao ´e limitada.
Portanto a s´erie
∞
n=1
1
n
n˜ao ´e convergente em R.
Exerc´ıcio 6.3.1 Um outro exemplo importante em C ´e a s´erie geom´etrica
∞
n=0
an
= 1 + a + a2
+ · · · + an
+ · · · ,
onde a ∈ C.
Afirmamos que se |a|  1 ent˜ao a s´erie geom´etrica converge em C.
226 CAP´ITULO 6. LIMITES
De fato, pois
Sn − a.Sn = (1 + a + a2
+ · · · + an
) − a(1 + a + a2
+ · · · + an
) = 1 − an+1
, n ∈ N.
Logo
Sn =
1 − an+1
1 − a
, n ∈ N.
Assim
lim
n→∞
Sn = lim
n→∞
1 − an+1
1 − a
[exemplos (6.2.1)]
=
1
1 − a
.
Com isto temos que a s´erie geom´etrica
∞
n=0
an
= ser´a convergente em C para
1
1 − a
.
Por outro lado, se |a| ≥ 1 temos que lim
n→∞
an
= 0 e o crit´erio da divergˆencia garante que a
s´erie geom´etrica
∞
n=0
an
n˜ao ser´a convergente em C.
Observa¸c˜ao 6.3.3 Quando a s´erie
∞
n=0
an
tem como termos n´umeros reais n˜ao negativos (isto
´e, an ≥ 0, n ∈ N) ent˜ao temos que a sequˆencia (Sn)n∈N ser´a n˜ao decrescente, logo mon´otona
em R.
Assim, o corol´ario (6.2.1), nos garante que a s´erie
∞
n=0
an
ser´a convergente em R se, e
somente se, a sequˆencia (Sn)n∈N for limitada em R.
Para finalizar a se¸c˜ao consideremos o seguinte
Exerc´ıcio 6.3.2 Seja E
.
= L(Rn; Rn) o conjunto formado pelos operadores lineares
T : Rn
→ Rn
´e um espa¸co vetorial com as opera¸c˜oes usuais de soma de fun¸c˜oes e multiplica¸c˜ao de n´umero
real por fun¸c˜ao.
Sabemos, do teorema (3.5.1), que se T ∈ L(Rn; Rn) ent˜ao T ´e cont´ınua em Rn.
Al´em disso, da observa¸c˜ao (3.5.3) item 3., segue que
T
.
= sup{ T(x) Rn : x ∈ Rn
, x Rn = 1},
´e uma norma em L(Rn; Rn).
Observemos que se T, S ∈ L(Rn; Rn) ent˜ao S ◦ T ∈ L(Rn; Rn) e temos
S ◦ T ≤ S . T .
A demonstra¸c˜ao demostra¸c˜ao dessa desigualdade ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
Suponhamos que T ∈ L(Rn; Rn) ´e tal que
T  1.
Isto implicar´a que
T(x) Rn  x Rn , x ∈ Rn
.
6.3. S´ERIES 227
Assim
x − T(x) = 0, para todo x ∈ Rn
, x = 0, (∗)
pois
T(x) − x ≥ x − T(x)  0.
Indiquemos por I : Rn → Rn a aplica¸c˜ao identidade.
Ent˜ao (*) nos diz que um operador linear I − T em Rn que ´e injetor em Rn .
Como a dimens˜ao do dom´ınio ´e igual a dimens˜ao da imagem segue que I − T ´e sobrejetora,
ou seja, ´e bijetora, portanto existe (I − T)−1 e ´e um operador linear em Rn.
Conclus˜ao: se T  1 ent˜ao (I − T)−1 existe em L(Rn; Rn).
Para cada n ∈ N consideremos
Sn
.
= I + T + T ◦ T + T ◦ T ◦ T + · · · + T ◦ · · · ◦ T
n−fatores
= I + T + T2
+ · · · + Tn
Mostraremos que se T  1 ent˜ao a sequˆencia (Sn)n∈N ser´a convergente para (I − T)−1 em
L(Rn; Rn), isto ´e, a s´erie
∞
n=0
Tn
´e convergente para para (I − T)−1 em L(Rn; Rn).
De fato, observemos que (assim como no caso da s´erie geom´etrica do exemplo (6.3.1)
Sn = (I − T)−1
(I − Tn+1
). (∗)
Como T  1 temos que
Tn+1
≤ T n+1
e lim
n→∞
T n+1 [ T 1, e o exemplo (6.2.1)]
= 0,
assim
lim
n→∞
Tn+1
= 0.
Logo passando o limite em (*) obteremos
∞
n=0
Tn
= lim
n→∞
Sn = lim
n→∞
[(I − T)−1
(I − Tn+1
)] = (I − T)−1
(I − lim
n→∞
Tn+1
) = (I − T)−1
,
como hav´ıamos afirmado.
Observa¸c˜ao 6.3.4 Se considerarmos o mesmo exemplo acima trocando-se Rn por um espa¸co
vetorial normado de dimens˜ao infinita n˜ao podemos concluir do mesmo modo que a hip´otese
T  1 implicar´a que o operador (I − T) admitir´a inversa.
Uma condi¸c˜ao extra ser´a necess´aria impor sobre o espa¸co vetorial normado de dimens˜ao
infinta em quest˜ao.
13.11.2008 - 27.a
228 CAP´ITULO 6. LIMITES
6.4 Convergˆencia e topologia
Veremos nesta se¸c˜ao que muitos conceitos introduzidos nos cap´ıtulos anteiores podem ser ex-
pressos em termos de sequˆencias.
Proposi¸c˜ao 6.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N uma fun¸c˜ao.
f ser´a cont´ınua no ponto a ∈ M se, e somente se, para toda xn → a em M tenhamos
f(xn) → f(a) em N.
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos que f seja cont´ınua em a ∈ M e que xn → a em M.
Dado ε  0, como f ´e cont´ınua em a ∈ M, existe δ  0 tal que
dM (x, a)  δ implica dN (f(x), f(a))  ε. (∗)
Como xn → a, existe n0 ∈ N tal que
n  n0 temos dM (xn, a)  δ.
Logo, de (*), teremos que
dN (f(xn), f(a))  ε,
ou seja, f(xn) → f(a).
Reciprocamente, suponhamos, por absurdo, que f n˜ao seja cont´ınua no ponto a ∈ M.
Logo existe ε  0 tal que para todo δ  0, existe xδ ∈ M tal que
dM (xδ, a)  δ tal que dN (f(xδ), f(a)) ≥ ε. (∗∗)
Em particular, para cada n ∈ N, se considerarmos δn =
1
n
de (**) temos que existe xn ∈ M
tal que
dM (xn, a)  δn =
1
n
tal que dN (f(xn), f(a)) ≥ ε.
Com isto temos que xn → a mas f(xn) → f(a), contrariando a hip´otese que f leva sequˆencia
convergente de M em sequˆencia convergente de N.
Logo f dever´a ser cont´ınua em a ∈ M, completando a demonstra¸c˜ao.
Observa¸c˜ao 6.4.1
1. O resultado acima nos diz que uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que uma fun¸c˜ao
entre dois espa¸cos m´etricos seja cont´ınua ´e que ela leve uma sequˆencia convergente no
dom´ınio em uma sequˆencia convergente no contra-dom´ıcio.
Em particular se (xn)N∈N ´e convergente em M temos que
f( lim
n→∞
xn) = lim
n→∞
f(xn).
2. Na verdade foi provado o seguinte resultado:
”Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : X → N uma fun¸c˜ao e a ∈ X.
Existe lim
x→a, x∈X
f = b em M se, e somente se, para toda sequˆencia (xn)n∈N em X tal que
xn → a em M tenhamos f(xn) → b em N.”
Olhe a demonstra¸c˜ao com cuidado e verfique que isto ´e, de fato, verdade.
6.4. CONVERGˆENCIA E TOPOLOGIA 229
Como consequˆencia temos o
Corol´ario 6.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, f : M → N uma fun¸c˜ao e a ∈ M.
Se xn → a em M implicar que a sequˆencia (f(xn))n∈N ´e convergente em N ent˜ao f ´e
cont´ınua em a ∈ M.
Demonstra¸c˜ao:
Pela proposi¸c˜ao (6.4.1), basta mostrar que se yn → a em M ent˜ao f(yn) → f(a) em M.
Observemos que se yn → a em M consideremos a sequˆencia (xn)n∈N dada por
xn
.
=
yk, n = 2k − 1
a, n par
,
(isto ´e, (xn)n∈N = (y1, a, y2, a, x3, a, · · · )).
Logo xn → a e assim, por hip´otese, deveremos ter f(xn) → b.
Como a subsequˆencia (f(x2n))n∈N ´e constante e igual a (f(a))n∈N segue que b = f(a), isto
´e, f(xn) → f(a) em M, mostrando que f ´e cont´ınua em a ∈ M.
Corol´ario 6.4.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, f : M → N uma fun¸c˜ao e a ∈ M.
Se xn → a em M implicar que a sequˆencia (f(xn))n∈N tem uma subsequˆencia ´e convergente
para f(a) em N ent˜ao f ´e cont´ınua em a ∈ M.
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos, por absurdo, que f n˜ao seja con´ınua no ponto a ∈ M.
Logo existe ε  0 tal que para todo δ  0, existe xδ ∈ M tal que
dM (xδ, a)  δ tal que dN (f(xδ), f(a)) ≥ ε. (∗∗)
Em particular, para cada n ∈ N, se considerarmos δn =
1
n
temos por (**) que existe xn ∈ M
tal que
dM (xn, a)  δn =
1
n
tal que dN (f(xn), f(a)) ≥ ε.
Com isto temos que xn → a mas (f(xn))n∈N n˜ao tem uma subsequˆencia convergente para
f(a) em N, contrariando a hip´otese.
Logo f dever´a ser cont´ınua em a ∈ M, completando a demonstra¸c˜ao.
Corol´ario 6.4.3 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, f : M → N uma fun¸c˜ao.
f ´e cont´ınua em M se, e somente se, a sequˆencia (xn)N∈N ´e convergente em M implicar
que a sequˆencia (f(xn))N∈N ´e convergente em N.
Neste caso temos
f( lim
n→∞
xn) = lim
n→∞
f(xn).
Demonstra¸c˜ao:
Basta aplicar a proposi¸c˜ao (6.4.1) em cada ponto de M.
230 CAP´ITULO 6. LIMITES
Proposi¸c˜ao 6.4.2 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico, X ⊆ M e a ∈ M.
Ent˜ao a ∈ ¯X se, e somente se, existe uma sequˆencia (xn)n∈N em X que converge para a em
M.
Demonstra¸c˜ao:
Se a ∈ ¯X ent˜ao para todo δ  0 temos que B(a; δ) ∩ X = ∅.
Em particular, para cada n ∈ N temos que
B(a;
1
n
) ∩ X = ∅,
isto ´e, existe xn ∈ B(a;
1
n
) ∩ X, em particular
d(xn, a) 
1
n
. (∗)
Com isto temos uma sequˆencia (xn)n∈N em X.
Al´em disso, xn → a pois dado ε  0 seja n0 ∈ N tal que n0 
1
ε
. (**)
Assim se
n  n0 temos que d(xn, a)
(∗)

1
n
[nn0]

1
n0
(∗∗)
 ε.
Portanto existe uma sequˆencia (xn)n∈N em X tal que xn → a.
Reciprocamente, se existe uma sequˆencia (xn)n∈N em X tal que xn → a ent˜ao toda bola
aberta centrada em a ∈ M cont´em pontos da sequˆencia (xn)n∈N que pertence a X, isto ´e, para
todo ε  0 temos que
B(a; ε) ∩ X = ∅,
mostrando que a ∈ ¯X.
Como consequˆencia temos os
Corol´ario 6.4.4 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M.
Ent˜ao a ∈ ∂X se, e somente se, existem sequˆencias (xn)n∈N em X e (yn)n∈N em M  X tais
que xn → a e yn → a.
Demonstra¸c˜ao:
Sabemos que
∂X = ¯X ∩ M  X.
Logo da proposi¸c˜ao (6.4.2) aplicada a ¯X e a M  X segue o resultado.
Observa¸c˜ao 6.4.2 Conclus˜ao: uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que um ponto de um
espa¸co m´etrico pertencer´a a fronteira de um conjunto ´e que existam duas sequˆencias, uma no
conjunto e a outra no seu complementar que convegem para o ponto.
a ∈ ∂A
yn ∈ M  A
xn ∈ A
6.4. CONVERGˆENCIA E TOPOLOGIA 231
Corol´ario 6.4.5 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M.
Ent˜ao X ´e denso em M se, e somente se, dado a ∈ M existe uma sequˆencia (xn)n∈N em X
tal que xn → a.
Demonstra¸c˜ao:
Da proposi¸c˜ao (6.4.2) segue que a ∈ M = ¯X se, e somente se, existe uma sequˆencia (xn)n∈N
em X tal que xn → a.
Corol´ario 6.4.6 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e F ⊆ M.
Ent˜ao F ´e fechado em M se, e somente se, dada uma sequˆencia (xn)n∈N em F tal que
xn → a em M implicar que a ∈ F.
Demonstra¸c˜ao:
Da proposi¸c˜ao (4.4.4) segue que F ´e fechado em M se, e somente se, ¯F = F.
Logo da proposi¸c˜ao (6.4.2) segue que a ∈ ¯F se, e somente se, (xn)n∈N em F tal que xn → a
em M implicar que a ∈ F.
Proposi¸c˜ao 6.4.3 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e A ⊆ M.
Ent˜ao A ´e um subconjunto aberto de M se, e somente se, dada uma a sequˆencia (xn)n∈N em
M tal que xn → a em M e a ∈ A implicar que existe n0 ∈ N tal que se
n  n0 temos xn ∈ A.
Demonstra¸c˜ao:
Se A ´e um subconjunto aberto de M, a ∈ A e xn → a, ent˜ao da observa¸c˜ao (6.1.2) item 2.
segue que, existe n0 ∈ N tal que se
n  n0 temos xn ∈ A.
Para a rec´ıproca, mostremos que M  A ´e um subconjunto fechado.
Para isto suponhamos que a sequˆencia (yn)n∈N em M  A tal que yn → b em M. (*)
Afirmamos que b ∈ M  A.
Suponhamos, por absurdo, b ∈ A.
Ent˜ao como yn → b, por hip´otese, existir´a n0 ∈ N tal que se
n  n0 temos yn ∈ A,
o que contraria (*).
Logo, do corol´ario (6.4.6), segue que M  A ´e um subconjunto fechado de M e assim A ´e
subconjunto aberto de M, com o quer´ıamos mostrar.
Proposi¸c˜ao 6.4.4 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M.
Ent˜ao a ∈ M ´e ponto de acumula¸c˜ao do conjunto X se, e somente se, existe uma sequˆencia
(xn)n∈N em M tal que xn → a em M e para alugm n0 ∈ N temos que {xn : n  n0} ⊆ X e o
conjunto {xn : n  n0} tem infinitos elementos distintos.
232 CAP´ITULO 6. LIMITES
Demonstra¸c˜ao:
Se existe uma sequˆencia (xn)n∈N em M tal que xn → a em M tal que para algum n0 ∈ N
temos que {xn : n  n0} ⊆ X e o conjunto {xn : n  n0} tem infinitos elementos distintos ent˜ao
dado ε  0 temos que existe N ∈ N tal que
xN ∈ [B(a; ε) ∩ A]  {a} = ∅
mostrando que
[B(a; ε) ∩ A]  {a} = ∅,
e assim o ponto a ´e ponto de acumula¸c˜ao de X.
Reciprocamente, se o ponto a ´e ponto de acumula¸c˜ao de X ent˜ao para cada n ∈ N se ε =
1
n
temos que
[B(a;
1
n
) ∩ A]  {a} = ∅.
Logo se
n = 1 existe x1 ∈ [B(a; 1) ∩ A]  {a} = ∅.
Seja ε2
.
= min{1
2 , d(x1, a)}.
Logo existe
x2 ∈ [B(a; ε2) ∩ A]  {a} = ∅.
Assim x2 = x1 (pois d(x2, a)  ε2 ≤ d(x1, a)).
Seja ε3
.
= min{1
3 , d(x2, a)}.
Logo existe
x3 ∈ [B(a; ε3) ∩ A]  {a} = ∅.
Assim x3 = x2 e x3 = x1 (pois d(x3, a)  ε3 ≤ d(x2, a)) (veja figura abaixo).
a
ε1 = 1
x1
ε2
x2
ε3
x3
Prosseguindo o processo, construimos uma sequˆencia (xn)n∈N em M tal que xn → a em M e
para alugm n0 ∈ N temos {xn : n  n0} ⊆ X e o conjunto {xn : n  n0} tem infinitos elementos
distintos, como quer´ıamos mostrar.
Observa¸c˜ao 6.4.3 O resultado acima nos diz que para um ponto ser ponto de acumula¸c˜ao
de um conjunto dever´a existir uma sequˆencia formada por elementos distintos do conjunto que
converge para o ponto.
6.5. SEQUˆENCIAS DE FUNC¸ ˜OES 233
Como consequˆencia temos
Exemplo 6.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos f, g : M → N cont´ınuas em M.
Ent˜ao F
.
= {z ∈ M : f(z) = g(z)} ´e um subconjunto fechado de M.
De fato, dada uma sequˆencia {xn : n  n0} em F tal que xn → a em M ent˜ao temos que
f(xn) = g(xn), n ∈ N.
Como f e g s˜ao cont´ınuas em a segue que
f(a) = f( lim
n→∞
xn) = lim
n→∞
f(xn) = lim
n→∞
g(xn) = g( lim
n→∞
xn) = g(a),
ou seja, f(a) = g(a), mostrando que a ∈ F.
Logo, do corol´ario (6.4.6), seguir´a que F ´e um subconjunto fechado em M.
Exerc´ıcio 6.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos f, g : M → N cont´ınuas em M e
X ⊆ M.
Se f(x) = g(x) para x ∈ X ent˜ao f(y) = g(y) para y ∈ ¯X.
De fato, do exemplo anterior, segue que F
.
= {z ∈ M : f(z) = g(z)} ´e um subconjunto
fechado de M.
Logo X
.
= {x ∈ M : f(x) = g(x)} ⊆ F e assim ¯X ⊆ ¯F = F, ou seja, f(y) = g(y) para
y ∈ ¯X.
6.5 Sequˆencias de fun¸c˜oes
Observa¸c˜ao 6.5.1 Sejam X um subconjunto n˜ao vazio, (M, d) espa¸co m´etrico e denotemos por
F(X; M) o conjunto formado por todas as fun¸c˜oes f : X → M.
Logo podemos considerar uma sequˆencia (fn)n∈N em F(X; M) que ser´a denominada sequˆencia
de fun¸c˜oes em F(X; M).
Como veremos a seguir, podemos considerar v´arios tipos de convergˆencia para sequˆencia de
fun¸c˜oes em F(X; M).
Come¸caremos pela
Defini¸c˜ao 6.5.1 Na situa¸c˜ao acima, diremos que a sequˆencia de fun¸c˜oes (fn)n∈N converge
simplesmente (ou pontualmente) em X para a fun¸c˜ao f : X → M se para cada x ∈ X
a sequˆencia (f(x))n∈N seja convergente para f(x) em M, isto ´e, se
para cada x ∈ X temos lim
n→∞
fn(x) = f(x).
Neste caso escreveremos:
fn
p
→ f em X.
Observa¸c˜ao 6.5.2 Logo
fn
p
→ f em X
se, e somente se, para cada x ∈ X, dado ε  0, existe n0 = n0(ε, x) ∈ N tal que se
n  n0 temos dM (fn(x), f(x))  ε.
234 CAP´ITULO 6. LIMITES
Exemplo 6.5.1 Consideremos R com a m´etrica usual e a sequˆencia (fn)n∈N onde, para cada
n ∈ N,
fn : R → R ´e dada por fn(x)
.
=
x
n
, x ∈ R.
Ent˜ao
fn
p
→ 0 em R.
De fato, se x ∈ R, dado ε  0 seja n0 ∈ N tal que
n0 
|x|
ε
.
Ent˜ao se
n  n0 temos dR(fn(x), f(x)) = |fn(x) − f(x)|
[f(x)=0]
= |
|x|
n
[nn0]
=
|x|
n0
 ε,
mostrando a afirma¸c˜ao.
Geometricamente temos
f(x) = 0
f1(x) = x
E
T
f2(x) = x
2
f3(x) = x
3
f4(x) = x
4
x
y
x0
Exemplo 6.5.2 Consideremos [0, 1] munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R, R
munido da m´etrica usual e a sequˆencia (fn)n∈N uma sequˆencia em F([0, 1]; R) onde, para cada
n ∈ N,
fn : [0, 1] → R ´e dada por fn(x)
.
= xn
, x ∈ [0, 1].
Seja f : [0, 1] → R dada por
f(x)
.
=
1, x = 0
0, 0 ≤ x  1
.
Ent˜ao
fn
p
→ f em [0, 1].
De fato, se x = 1 temos que fn(x) = fx(1) = 1n = 1 para todo n ∈ N logo fn(1) → f(1).
Se x ∈ [0, 1), pelo exemplo (6.2.1), temos que fn(x) = xn → 0 = f(x).
Logo fn(x) → f(x), mostrando a afirma¸c˜ao.
Geometricamente temos
6.5. SEQUˆENCIAS DE FUNC¸ ˜OES 235
x0
f1(x) = x
f2(x) = x2
f3(x) = x3
y
x1
1
E
T
Um outro modo de convergˆencia para sequˆencias de fun¸c˜oes ´e dado pela
Defini¸c˜ao 6.5.2 Diremos que a sequˆencia de fun¸c˜oes (fn)n∈N converge uniformemente em
X para a fun¸c˜ao f : X → M se dado ε  0, existe n0 = n0(ε) ∈ N tal que se
n  n0 temos dM (fn(x), f(x))  ε, para todo x ∈ X.
Neste caso escreveremos:
fn
u
→ f em X.
Observa¸c˜ao 6.5.3
1. Se M, N ⊆ R podemos dar a seguinte interpreta¸c˜ao geom´etrica para a convergˆencia uni-
forme de sequˆencia de fun¸c˜oes.
Sejam fn, f : M → N, n ∈ N.
Notemos que escrever
|fn(x) − f(x)|  ε
´e equivalente a escrever
−ε  fn(x) − f(x)  ε
ou ainda,
f(x) − ε  fn(x)  f(x) + ε.
Assim, a seq¨uˆencia de fun¸c˜oes (fn)n∈N satisfaz a condi¸c˜ao acima se, e somente se, seu
gr´afico est´a contido no “ tubinho “ de raio ε em torno do gr´afico da fun¸c˜ao f (vide figura
abaixo).
236 CAP´ITULO 6. LIMITES
fn
f
y
x
T
c
T
c
E
T
Logo, do ponto de vista acima, fn → f uniformemente em M se dado ε  0 existir
um n0 = n0(ε) ∈ N tal que para todo n ≥ n0 o gr´afico das fun¸c˜oes fn est˜ao dentro do
”tubinho”de raio ε em torno do gr´afico da fun¸c˜ao f.
2. Mais adiante, (ver proposi¸c˜ao (6.5.1) veremos que a convergˆencia uniforme pode ser obtida
por meio da convergˆencia em um espa¸co m´etrico conveniente.
3. Sabemos que se
fn
u
→ f em X
ent˜ao
fn
p
→ f em X,
ou seja, para sequˆencias de fun¸c˜oes temos que convergˆencia uniforme implica em con-
vergˆencia pontual.
A reciproca ´e falsa, em geral, ou seja, existem sequˆencias de fun¸c˜oes que convergem pon-
tualmente mas que n˜ao convergem uniformemente, como veremos mais adiante.
Exemplo 6.5.3 Consideremos, [a, b] com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R, R com a
m´etrica usual e a sequˆencia (fn)n∈N onde, para cada n ∈ N,
fn : [a, b] → R ´e dada por fn(x)
.
=
x
n
, x ∈ [a, b].
Ent˜ao
fn
u
→ 0 em [a, b].
De fato, seja c  0 tal que [a, b] ⊆ [−c, c].
Se x ∈ [a, b], dado ε  0 seja n0 ∈ N tal que
n0 
c
ε
.
Ent˜ao se
n  n0 temos dR(fn(x), f(x)) = |fn(x) − f(x)|
[f(x)=0]
= |
|x|
n
[nn0]
=
|x|
n0
[x∈[a,b]⊆[−c,c]]
≤
c
n0
 ε,
mostrando a afirma¸c˜ao.
Geometricamente temos (se [a, b] = [0, 10])
6.5. SEQUˆENCIAS DE FUNC¸ ˜OES 237
x
ε
ε
10
T
c
c
T
fn(x) = x
n3
f3(x) = x
3
f2(x) = x
2
f1(x) = x
y
E
T
Observa¸c˜ao 6.5.4
1. Observemos que no exemplo (6.5.1) a sequˆencia de fun¸c˜oes (fn)n∈N n˜ao converge uni-
formemente para a fun¸c˜ao f = 0 em R.
De fato, dado ε = 1 para todo n0 ∈ N se n  n0 existe x ∈ R tal que x  n.
Assim
fn(x) =
x
n
 1 = ε,
mostrando que
fn
p
→ 0 em R
mas a convergˆencia n˜ao ´e uniforme em R.
2. Por outro lado o exemplo (6.5.3) temos que nos restringindo a um intervalo [a, b] a con-
vergˆencia ser´a uniforme em [a, b].
3. No exemplo (6.5.2) a convergˆencia n˜ao ser´a uniforme em [0, 1].
De fato, dado 0  ε  1 seja (veja figura abaixo)
x ∈ [0, 1) tal que n
√
ε ≤ x  1.

fn(x) = xn
x0
1/n
c
T
c
T
E
T
1
1 x
y
238 CAP´ITULO 6. LIMITES
Neste caso temos que
fn(x) − f(x)
[f(x)=0]
= xn
≥ ε,
mostrando que a convergˆencia n˜ao ser´a uniforme [0, 1].
18.11.2008 - 28.a
4. Dados (M, dM ) espa¸co m´etrico, X = ∅ e f : X → M, indiquemos por
Bf (X; M)
.
= {g : X → M : dsup(f, g)  ∞},
onde
dsup(f, g)
.
= sup
x∈X
dM (f(x), g(x)).
Deste modo temos que (Bf (X; M), dsup) ´e um espa¸co m´etrico (ser´a deixado como exerc´ıo
para o leitor).
Proposi¸c˜ao 6.5.1 Na situa¸c˜ao acima temos que fn
u
→ f em X se, e somente se, fn ∈
Bf (X; M) e lim
n→∞
fn = f em Bf (X; M).
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que
fn
u
→ f em X, se e somente se, dado ε  0 exitis n0 ∈ N tal que
n  n0 temos que dM (fn(x), f(x))  ε, para todo x ∈ X,
ou equivalentemente,
n  n0 temos que dsup(fn, f) = sup
x∈X
dM (fn(x), f(x))  ε,
que por sua vez ´e equivalente a fn, f ∈ Bf (X; M) para todo n ∈ N e lim
n→∞
fn = f em Bf (X; M).
Proposi¸c˜ao 6.5.2 Sejam (E, . ) espa¸co vetorial normado, X = ∅ e (fn)n∈N, (gn)n∈N sequˆencias
de fun¸c˜oes tais fn, gn : X → E, f, g : X → E, (λn)n∈N sequˆencia de fun¸c˜oes reais definidas em
X (isto ´e λn : X → R) e λ : X → R.
1. Suponhamos que fn
u
→ f em X e gn
u
→ g em X.
Ent˜ao fn + gn
u
→ f + g em X.
2. Suponhamos que fn
u
→ f em X e λn
u
→ λ em X onde λ e f s˜ao fun¸c˜oes limitadas em X.
Ent˜ao λn.fn
u
→ λ.f em X.
Demonstra¸c˜ao:
De 1.:
Se fn
u
→ f em X e gn
u
→ g em X, dado ε  0 existem nf , ng ∈ N tal que
n  nf temos que dM (fn(x), f(x)) 
ε
2
, para todo x ∈ X, (∗)
n  ng temos que dM (gn(x), g(x)) 
ε
2
, para todo x ∈ X. (∗∗)
6.5. SEQUˆENCIAS DE FUNC¸ ˜OES 239
Seja n0
.
= max{nf , ng} ∈ N.
Logo se n  n0 temos que
dM ((fn + gn)(x), (f + g)(x)) = (fn + gn)(x) − (f + g)(x) E
= [fn(x) − f(x) + [gn(x) − g(x)] E
≤ [fn(x) − f(x) + gn(x) − g(x) E
= dM (fn(x), f(x)) + dM (gn(x), g(x))
[(∗) e (∗∗)]

ε
2
+
ε
2
= ε,
para todo x ∈ X, mostrando que fn + gn
u
→ f + g em X.
De 2.:
Como λ ´e uma fun¸c˜ao limitada existe a  0 tais que
|λ(x)| ≤ a x ∈ X. (∗)
Como fn
u
→ f em X e f ´e um fun¸c˜ao limitada em X segue que existe c  0 tal que
fn(x) ≤ c, para todo x ∈ X. (∗∗)
Se fn
u
→ f em X e λn
u
→ λ em X, dado ε  0 existem nf , nλ ∈ N tal que
n  nf temos que fn(x) − f(x) E = dM (fn(x), f(x)) 
ε
2a
, para todo x ∈ X, (∗ ∗ ∗)
n  nλ temos que |λn(x) − λ(x)| = dR(λn(x), λ(x)) 
ε
2c
, para todo x ∈ X. (∗ ∗ ∗∗)
Seja n0
.
= max{nf , ng} ∈ N.
Logo se n  n0 temos que
dM ((λn.fn)(x), (λ.f)(x)) = (λn.fn)(x) − (λ.f)(x) E
= λn(x).fn(x) − λ(x).f(x) E
= λn(x)fn(x) − λ(x)fn(x) + λ(x)fn(x) − λ(x).f(x)
= [λn(x) − λ(x)]fn(x) + λ(x)[fn(x) − f(x)]
≤ |λn(x) − λ(x)| fn(x) + |λ(x)| fn(x) − f(x) E
[(∗),(∗∗),(∗∗∗) e (∗∗∗∗)]

ε
2c
c + a
ε
2a
= ε,
para todo x ∈ X, mostrando que λn.fn
u
→ λ.f em X.
Observa¸c˜ao 6.5.5 No item 2. acima, as hip´oteses de que f e λ s˜ao fun¸c˜oes limitadas ´e essen-
cial para a conclus˜ao.
De fato, se considerarmos as sequˆencias de fun¸c˜oes reais a valores reais, (λn)n∈N e (fn)n∈N,
dadas por
λn(x)
.
=
1
n
, fn(x)
.
= x, x ∈ R,
ent˜ao tomando-se λ, f : R → R dadas por
λ(x)
.
= 0, f(x) = x, x ∈ R,
240 CAP´ITULO 6. LIMITES
temos que
λn
u
→ λ, fn
u
→ f
em X
.
= R.
Al´em disso, a fun¸c˜ao λ ´e limitada em R mas a fun¸c˜ao f n˜ao ´e limitada em R.
Observemos que
(λn.fn)(x) =
x
n
, x ∈ R
que n˜ao converge uniformemente em R (veja observa¸c˜ao (6.5.4) item 1.).
Para finalizar a se¸c˜ao temos a
Proposi¸c˜ao 6.5.3 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e (fn)n∈N uma sequˆencia de fun¸c˜oes
tais que para cada n ∈ N tenhamos fn : M → N cont´ınua em a ∈ M.
Se fn
u
→ f em M ent˜ao f : M → N ser´a cont´ınua em a ∈ M.
Demonstra¸c˜ao:
Dado ε  0, como fn
u
→ f em M, existe n0 ∈ N tal que
n  n0 temos que dM (fn(x), f(x)) 
ε
3
, para todo x ∈ M. (∗)
Como fn0+1 ´e cont´ınua em a ∈ M, segue que existe δ  0 tal que
dM (x, a)  δ temos que dN (fn0+1(x), fN0+1(a)) 
ε
3
. (∗∗)
Logo se
dM (x, a)  δ
temos que
dN (f(x), f(a)) ≤ dN (f(x), fn0+1(x)) + dN (fn0+1(x), fn0+1(a)) + dN (fn0+1(a), f(a)). (∗ ∗ ∗)
Mas
dN (f(x), fn0+1(x))
(∗)
≤
ε
3
dN (fn0+1(x), fn0+1(a))
(∗∗)
≤
ε
3
dN (f(a), fn0+1(a))
(∗)
≤
ε
3
.
Se dM (x, a)  δ temos, de (***) e das desigualdades acima, que
dN (f(x), f(a)) 
ε
3
+
ε
3
+
ε
3
= ε,
mostrando que f ´e cont´ınua no ponto a ∈ M.
Como consequˆencia temos
Corol´ario 6.5.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e (fn)n∈N um sequˆencia de fun¸c˜oes
tais que para cada n ∈ N tenhamos fn : M → N cont´ınua em M.
Se fn
u
→ f em M ent˜ao f : M → N ser´a cont´ınua em M.
6.6. PRODUTOS CARTESIANOS INFINITOS 241
Demonstra¸c˜ao:
Basta aplicar a proposi¸c˜ao acima em cada ponto de M.
Observa¸c˜ao 6.5.6 Conclus˜ao: convergˆencia uniforme preserva continuidade, isto ´e, se uma
sequˆencia de fun¸c˜oes cont´ınuas converge uniformemente para uma fun¸c˜ao, esta dever´a ser cont´ınua.
6.6 Produtos cartesianos infinitos
Defini¸c˜ao 6.6.1 Dada uma fam´ılia enumer´avel {(Mi, di) : i ∈ N} de espa¸cos m´etricos definimos
o produto cartesiano M
.
=
∞
i=1
Mi como sendo o conjunto formado pelas sequˆencias do tipo
x = (x1, · · · , xk, · · · ) onde xi ∈ Mi, i ∈ N.
Os pontos xi ∈ Mi, i ∈ N ser˜ao denominados coordenadas do ponto x = (xi)i∈N.
Para cada i ∈ N definimos a i-´esima proje¸c˜ao, denotada por pi : M → Mi, como sendo
pi(x)
.
= xi, x = (xi)i∈N ∈ M.
Observa¸c˜ao 6.6.1 A seguir vamos introduzir uma m´etrica no produto cartesiano enumer´avel
de espa¸cos m´etricos M
.
=
∞
i=1
Mi.
Para isto precisaremos da seguinte hip´otese sobre a fam´ılia de espa¸cos m´etricos {(Mi, di) :
i ∈ N}:
Suponhamos que para cada i ∈ N existe ci ≥ 0 tal que para todo xi, yi ∈ Mi temos
di(xi, yi) ≤ ci, (∗)
e
∞
i=1
ci  ∞. (∗∗)
Vale observar que isto ´e equivalente a dizer que
∞
i=1
diam(Mi)  ∞.
Veremos mais adiante, que isto n˜ao ´e necess´ario para munirmos M de uma m´etrica com-
pat´ıvel com as propriedades que vir˜ao a seguir (ver observa¸c˜ao (6.6.3) item 5.).
Com isto, definimos a seguinte m´etrica em M
.
=
∞
i=1
Mi:
Consideremos d : M × M → R dada por
d(x, y) = d((xi)i∈N, (yi)i∈N)
.
=
∞
i=1
di(xi, yi), x = (xi)i∈N, y = (yi)i∈N ∈ M.
Observemos que d est´a bem definida pois, por (*) e (**), temos que a s´erie em quest˜ao ser´a
convergente em R.
Ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor mostrar que d ´e uma m´etrica em M =
∞
i=1
Mi.
242 CAP´ITULO 6. LIMITES
Defini¸c˜ao 6.6.2 Na situa¸c˜ao acima o par (M, d) ser´a dito espa¸co m´etrico produto dos
espa¸cos m´etricos Mi, i ∈ N.
Observa¸c˜ao 6.6.2 Na situa¸c˜ao acima, para cada i ∈ N, temos que a proje¸c˜ao
pi : M → Mi dada por pi((xk)k∈N) = xi, (xk)k∈N ∈ M
s˜ao contra¸c˜oes fracas em M, logo cont´ınua em M, pois para cada i ∈ N temos que
di(pi(x), pi(y)) = di(xi, yi) ≤
∞
k=1
dk(xk, yk) = d(x, y),
para x = (xi)i∈N, y = (yi)i∈N ∈ M.
Como consequˆencia disto temos que se, para cada i ∈ N, Ai ⊆ Mi ´e um subconjunto aberto
de Mi ent˜ao p−1
i (Ai) ⊆ M ´e um subconjunto aberto de M.
Sabemos que
p−1
i (Ai) = {(xk)k∈N ∈ M : xi ∈ Mi} = M1 × · · · Mi−1 × Ai × Mi+1 × · · ·
que ser´a denominado por fatia aberta de largura Ai.
Como A1 ⊆ M1, A2 ⊆ M2, · · · , An ⊆ Mn s˜ao subconjuntos abertos nos respectivos espa¸cos
m´etricos ent˜ao
A
.
= A1 × · · · × An ×
∞
i=n+1
Mi (∗)
ser´a um subconjunto aberto de M =
∞
i=1
Mi, pois
A1 × · · · × An ×
∞
i=n+1
Mi = p−1
1 (A1) ∩ · · · ∩ p−1
n (An)
que ´e uma interse¸c˜ao finita de subconjuntos abertos de M.
O conjunto A, dado por (*), ser´a denominado aberto b´asico produto cartesiano M =
∞
i=n+1
Mi.
Com isto temos
Proposi¸c˜ao 6.6.1 Nas condi¸c˜oes acima temos que U ⊆
∞
i=n+1
Mi ´e aberto em
∞
i=n+1
Mi se, e
somente se,
U =
λ∈A
Aλ,
onde Aλ ´e um aberto b´asico de
∞
i=n+1
Mi.
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que se
U =
λ∈A
Aλ,
6.6. PRODUTOS CARTESIANOS INFINITOS 243
onde Aλ ´e um aberto b´asico de
∞
i=1
Mi ent˜ao U ser´a um subconjunto aberto de
∞
i=1
Mi.
Reciprocamente, se U ⊆
∞
i=1
Mi ´e aberto em
∞
i=1
Mi ent˜ao para todo x = (xi)i∈N ∈ U, existe
r  0 tal que
B(x; r) ⊆ U.
Como a s´erie
∞
i=1
ci ´e convergente em R, existe N ∈ N tal que
∞
i=N+1
ci 
r
2
. (∗)
Para cada i ∈ {1, · · · , N} consideremos
Ai
.
= Bi(xi;
r
2N
) ⊆ Mi.
Afirmamos que o aberto b´asico
Ax
.
= A1 × · · · × AN ×
∞
i=N+1
Mi
est´a contido na bola aberta B(x; r) e portanto em U.
De fato, se
z = (zi)i∈N ∈ Ax ⇒ d1(x1, z1) 
r
2N
, · · · , dN (xN , zN ) 
r
2N
, (∗∗)
⇒ d(x, z) =
∞
i=1
di(xi, zi) =
N
i=1
di(xi, zi) +
∞
i=N+1
di(xi, zi)
⇒ d(x, z)
[di(xi,zi)≤ci,∀i∈N]
≤
N
i=1
di(xi, zi) +
∞
i=N+1
ci
[(∗∗) e (∗)]

N
i=1
r
2N
+
r
2
=
r
2
+
r
2
= r,
mostrando que z ∈ B(x; r) ⊆ U, ou seja, Ax ⊆ U.
Assim U =
x∈U
Ax, como quer´ıamos mostrar.
Como consequˆencia temos
Corol´ario 6.6.1 Na situa¸c˜ao acima, para cada i ∈ N, as proje¸c˜oes pi :
∞
k=1
Mk → Mi s˜ao
aplica¸c˜oes abertas em M =
∞
k=1
Mk.
244 CAP´ITULO 6. LIMITES
Demonstra¸c˜ao:
Se A = A1 × · · · × An ×
∞
k=n+1
Mk ´e um aberto b´asico ent˜ao temos que
pi(A1 × · · · × An ×
∞
k=n+1
Mk) =
Ai, se i = 1, · · · , n
Mi, se i = n + 1, · · ·
,
mostrando que pi(A) ´e um subconjunto aberto de Mi, para cada i ∈ N.
Dado um aberto U ⊆ M temos, da proposi¸c˜ao (6.6.1), que
U =
λ∈A
Aλ,
onde Aλ ´e um aberto b´asico de M.
Mas
pi(U) = pi(
λ∈A
Aλ) =
λ∈A
pi(Aλ),
ou seja, pi(U) ´e uma reuni˜ao de abertos de M, logo ser´a um aberto de M, mostrando que pi ´e
uma aplica¸c˜ao aberta em M, para cada i ∈ N.
Um outro resultado importante ´e
Proposi¸c˜ao 6.6.2 Na situa¸c˜ao acima, consideremos (N, dN ) um espa¸co m´etrico e f : N →
∞
i=1
Mi.
Ent˜ao f ´e cont´ınua em N se, e somente se, suas fun¸c˜oes coordenadas fi
.
= pi ◦ f : N → Mi
for cont´ınua em N para cada i ∈ N.
Demonstra¸c˜ao:
Se f ´e cont´ınua em N, como pi ´e cont´ınua em
∞
k=1
Mk ´e para cada i ∈ N temos que fi = pi ◦f
ser´a cont´ınua em N.
Reciprocamente, se para cada i ∈ N as fun¸c˜oes fi s˜ao cont´ınuas em N ent˜ao dado A =
A1 × · · · × An ×
∞
k=n+1
Mk aberto b´asico ent˜ao temos que
A = p−1
1 (A) ∩ · · · p−1
n (A)
e assim
f−1
(A) = f−1
[p−1
1 (A) ∩ · · · p−1
n (A)] = f−1
[p−1
1 (A)] ∩ · · · f−1
[p−1
n (A)]
= (p1 ◦ f)−1
(A1) ∩ · · · ∩ (pn ◦ f)−1
(An)
= f−1
1 (A1) ∩ · · · ∩ f−1
n (An)
Como, para cada i ∈ N os conjuntos f−1
i (Ai) s˜ao abertos em N, pois fi ´e cont´ınua em N,
segue que f−1(A) ´e um subconjunto aberto de N, ou seja, imagem inversa pela fun¸c˜ao f de
subconjunto aberto b´asico de M ser´a um aberto de N.
6.6. PRODUTOS CARTESIANOS INFINITOS 245
Se U ⊆
∞
i=1
Mi ´e aberto em
∞
i=1
Mi , da proposi¸c˜ao (6.6.1), segue que
U =
λ∈A
Aλ,
onde Aλ ´e um aberto b´asico de M.
Mas
f−1
(U) = f−1
λ∈A
Aλ =
λ∈A
f−1
(Aλ)
e como f−1(Aλ) ´e um subconjunto aberto de N (pois Aλ ´e um aberto b´asico de
∞
i=1
Mi) segue
que f−1(A) ser´a um subconjunto aberto de N, mostrando que f ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em N.
20.11.2008 - 29.a
Como consequˆencia temos
Corol´ario 6.6.2 Na situa¸c˜ao acima, a sequˆencia (xm)m∈N em
∞
i=1
Mi ´e convergente em
∞
i=1
Mi
se, e somente se, a sequˆencia (xmi)m∈N em Mi ´e convergente em Mi, para cada i ∈ N.
Mais geralmente xm → x em
∞
i=1
Mi, onde x = (ai)i∈N ∈
∞
i=1
Mi se, e somente se, xmi → ai
em Mi, para cada i ∈ N.
Demonstra¸c˜ao:
A demonstra¸c˜ao ´e semelhante a demostra¸c˜ao da proposi¸c˜ao (6.1.5).
A reda¸c˜ao ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
Proposi¸c˜ao 6.6.3 Sejam (Mi, di) espa¸co m´etricos e Xi ⊆ Mi, i ∈ N.
Ent˜ao
i∈N
Xi =
i∈N
Xi.
Demonstra¸c˜ao:
Da proposi¸c˜ao (6.4.2) temos que um ponto a ∈ M =
i∈N
Mi ´e ponto aderente de
i∈N
Xi se, e
somente se, existe uma sequˆencia (xn)n∈N em M tal que xn → a em M.
Do corol´ario (6.6.2), isto ´e equivalente a dizer que xni → ai em Mi, para todo i ∈ N, onde
a = (ai)i∈N, que por sua vez, pela proposi¸c˜ao (6.4.2), ´e equivalente a dizer que ai ∈ Xi para
todo i ∈ N, ou ainda, a ∈
i∈N
Xi, como quer´ıamos mostrar.
Como consequˆencia temos o
Corol´ario 6.6.3 Na situa¸c˜ao acima,se para cada i ∈ N temos que Fi ⊆ Mi ´e fechado em Mi
ent˜ao
i∈N
Fi ser´a fechado em
i∈N
Mi.
246 CAP´ITULO 6. LIMITES
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que se i ∈ N temos que Fi ⊆ Mi ´e fechado em Mi ent˜ao Fi = Fi para todo i ∈ N.
Mas, do corol´ario acima temos que
i∈N
Fi =
i∈N
Fi =
i∈N
Fi,
e assim segue que
i∈N
Fi ser´a fechado em
i∈N
Mi.
Como consequˆencia deste temos o
Corol´ario 6.6.4 Na situa¸c˜ao acima,se para cada i ∈ N temos que Xi ⊆ Mi ´e denso em Mi
ent˜ao
i∈N
Xi ser´a denso em
i∈N
Mi.
Demonstra¸c˜ao:
Do corol´ario acima temos que
i∈N
Xi =
i∈N
Xi =
i∈N
Mi = M,
e assim segue que
i∈N
Xi ser´a denso em M =
i∈N
Mi.
Exerc´ıcio 6.6.1 Como para cada i ∈ N temos que a proje¸c˜ao
pi :
i∈N
Mi → Mi
´e uma aplica¸c˜ao sobrejetora e cont´ınua em
i∈N
Mi segue que se A ⊆
i∈N
Mi ´e denso em
i∈N
Mi
temos que pi(A) ⊆ Mi ser´a denso em Mi, para i ∈ N.
Suponhamos, por absurdo, que existe A ⊆
i∈N
Mi denso em
i∈N
Mi tal que pi0 (A) = Mi0 , para
algum i0 ∈ N, ou seja, existe ai0 ∈ Mi0  pi0 (A).
Como pi0 (A) ´e fechado em Mi0 segue que Mi0  pi0 (A) ser´a aberto em Mi0 .
Logo existe r  0 tal que
Bi0 (ai0 ; r) ⊆ Mi0  pi0 (A).
Como pi0 ´e sobrejetora existe a ∈
i∈N
Mi tal que pi0 (a) = ai0 .
Al´em disso como pi0 ´e cont´ınua em a existe s  0 tal que
pi0 (B(a; s)) ⊆ Bi0 (ai0 ; r). (∗)
Mas Bi0 (a; r) ⊆ Mi0  pi0 (A) logo
B(a; s) ∩ A = ∅
(caso contr´ario ter´ıamos pi0 (B(a; s)) ∩ pi0 (A) = ∅ o que ´e um absurdo pois, Bi0 (a; r) ⊆ Mi0 
pi0 (A)).
Mas (*) contraria o fato que A ´e denso em
i∈N
Mi, logo temos um absurdo e assim pi(A) ⊆ Mi
dever´a ser denso em Mi, para todo i ∈ N.
6.6. PRODUTOS CARTESIANOS INFINITOS 247
Para finalizar esta se¸c˜ao faremos algumas considera¸c˜oes importantes
Observa¸c˜ao 6.6.3
1. Na situa¸c˜ao acima temos que se
i∈N
Xi ´e fechado em M =
i∈N
Mi ent˜ao para cada i ∈ N
temos que Xi ser´a um subconjunto fechado de Mi pois dos resultados acima temos que
i∈N
Xi =
i∈N
Xi =
i∈N
Xi
que implicar´a que Xi = Xi para cada i ∈ N, mostrando que Xi ´e fechado em Mi para cada
i ∈ N.
2. Por´em vale observar que a proje¸c˜ao de um subconjunto fechado de F ⊆ M =
i∈N
Mi em
um dos fatores Mi, para algum i ∈ N poder´a n˜ao ser um subcojunto fechado de Mi.
Veja a observa¸c˜ao (4.4.10) item 1. .
3. Se Ai ⊆ Mi ´e um subconjunto aberto em Mi para cada i ∈ N isto n˜ao implica que
A
.
=
i∈N
Ai
seja um subconjunto aberto de M =
i∈N
Mi.
Para que isto ocorra ´e suficiente que exista n ∈ N tal que para todo i  n tenhamos
Ai = Mi.
De fato, pois neste caso, A ser´a um aberto b´asico de M =
i∈N
Mi.
Mas esta condi¸c˜ao tamb´em ser´a necess´aria (se A for n˜ao vazio) pois se A
.
=
i∈N
Ai ´e um
subcojunto aberto, n˜ao vazio, de M =
i∈N
Mi e x ∈ A, pela proposi¸c˜ao (6.6.1), segue que
existe uma aberto b´asico, A
.
= A1 × · · · × An ×
in
Mi tal que
x ∈ A ⊆ A,
ou seja, Ai = Mi para todo i  n.
Conclus˜ao: se tomarmos, para cada i ∈ N, Ai subconjunto aberto em Mi tal que uma
infinidade deste n˜ao seja igual aos correspondentes espa¸cos todo ent˜ao teremos que A
.
=
i∈N
Ai n˜ao ser´a aberto em M =
i∈N
Mi (por exemplo:
i∈N
(ai, bi) n˜ao ´e aberto em M
.
=
i∈N
R = R × R × · · · onde −∞  ai  bi  ∞).
248 CAP´ITULO 6. LIMITES
4. A seguir vamos introduzir uma m´erica no produto cartesiano M
.
=
i∈N
Mi sem precisar
impor a condi¸c˜ao
i∈N
diam(Mi)  ∞.
Para isto consideremos
d : M × M → R
dada por
d(x, y)
.
=
∞
i=1
1
2i
di(xi, yi)
1 + di(xi, yi)
,
onde x = (xi)i∈N, x = (yi)i∈N ∈ M.
Observemos que
1
2i
di(xi, yi)
1 + di(xi, yi)
[
di(xi,yi)
1+di(xi,yi)
≤1]
≤
1
2i
, i ∈ N
e a s´erie
∞
i=1
1
2i
´e convergente em R (pois ´e uma s´erie geom´etrica de raz˜ao 0  r = 1
2  1).
Logo d est´a bem definida e satisfaz as condi¸c˜oes da defini¸c˜ao de m´etrica (a verifica¸c˜ao
deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor).
Com isto temos que (
i∈N
Mi, d) ser´a um espa¸co m´etrico que tem as mesmas propriedades
anteriores.
6.7 Limites de fun¸c˜oes
Para finalizar o cap´ıtulo estudaremos o limite de uma fun¸c˜ao quando a vari´avel aproxima-se de
algum valor.
Para isto
Defini¸c˜ao 6.7.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etrico, X ⊆ M n˜ao vazio, a ∈ X e f : X →
N.
Diremos que um ponto b ∈ N ´e o limite de f(x) quando x tende ao ponto a que
denotaremos por
lim
x→a
f(x) = b,
se dado ε  0 existe δ  0 tal que se
x ∈ X e dM (x, a)  δ ent˜ao dN (f(x), b)  ε.
Observa¸c˜ao 6.7.1
1. Como a ∈ X faz sentido considerar ” x ∈ X e dM (x, a)  δ”.
2. Se a fun¸c˜ao f est´a definida no ponto a ent˜ao a defini¸c˜ao acima ´e, equivalente, a dizer que
a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a.
6.7. LIMITES DE FUNC¸ ˜OES 249
De fato, se ´e cont´ınua no ponto a segue que
lim
x→a
f(x) = f(a)(= b).
Reciprocamente se
lim
x→a
f(x) = b
ent˜ao dado ε  0 existe δ  0 tal que se
x ∈ X e dM (x, a)  δ ent˜ao dN (f(x), b)  ε,
em particular, tomando-se x = a teremos que
dM (a, a) = 0  δ ent˜ao dN (f(a), b)  ε,
o que implicar´a que b = f(a), ou seja, f ´e cont´ınua no ponto a.
3. Devido a observa¸c˜ao acima o nosso interesse maior ser´a nos casos em que a ∈ X X (isto
´e, a ´e ponto aderente do conjunto X mas n˜ao pertende ao conjunto X).
Com isto temos a
Proposi¸c˜ao 6.7.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etrico, X ⊆ M n˜ao vazio, a ∈ X e f :
X → N.
lim
x→a
f(x) = b
se, e somente se, para toda sequˆencia (xn)n∈N em X convergente para a em M temos que a
sequˆencia (f(xn))n∈N em N ´e convergente para b em N, isto ´e, se xn ∈ X, n ∈ N e xn → a em
M ent˜ao f(xn) → b em N.
Demonstra¸c˜ao:
´E semelhante a demonstra¸c˜ao da proposi¸c˜ao (6.4.1) e ser´a deixada como exerc´ıcio para o
leitor.
Como consequˆencia temos
Corol´ario 6.7.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etrico, X ⊆ M n˜ao vazio, a ∈ X e f :
X → N.
Se toda sequˆencia (xn)n∈N em X que converge para a em M implicar que a sequˆencia
((f(xn))n∈N ´e convergente em N ent˜ao
lim
x→a
f(x) = b
para algum b ∈ N.
Demonstra¸c˜ao:
Observemos, primeiramente, que se as sequˆencias (xn)n∈N e (yn)n∈N em X convergem para a
em M ent˜ao as sequˆencias ((f(xn))n∈N e ((f(yn))n∈N ser˜ao convergentes em N para um mesmo
valor, isto ´e,
lim
n→∞
f(xn) = lim
n→∞
f(yn).
250 CAP´ITULO 6. LIMITES
De fato, suponhamos, por absurdo, que
lim
n→∞
f(xn)
.
= b = c
.
= lim
n→∞
f(yn).
A sequˆencia (zn)n∈N dada por
zn
.
=
xn, se n ´e ´ımpar
yn, se n ´e par
´e tal que zn → a em M (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato) e as
subsequˆencias
((f(z2n))n∈N = ((f(x2n))n∈N, ((f(z2n+1))n∈N = ((f(y2n+1))n∈N
ser˜ao convergentes para b e c em N, respectivamente, com b = c, mostrando que a sequˆencia
((f(zn))n∈N n˜ao ser´a convergente em N, contrariando a hip´otese.
Seja b o valor comum do limite em N de todas as sequˆencias ((f(xn))n∈N tais que a sequˆencia
(xn)n∈N em X converge para a em M.
Segue da proposi¸c˜ao acima que
lim
x→a
f(x) = b,
como quer´ıamos mostrar.
Proposi¸c˜ao 6.7.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etrico, X ⊆ M n˜ao vazio e f : X → N
cont´ınua em X.
Se para todo a ∈ X existe lim
x→a
f(x) ent˜ao a aplica¸c˜ao
F : X → N
dada por
F(y)
.
=



f(y) se y ∈ X
lim
x→y
f(x) se y ∈ X  X
ser´a cont´ınua em X.
Demonstra¸c˜ao:
Como f ´e cont´ınua em X segue que F ser´a cont´ınua em X.
Se a ∈ X sabemos que
lim
x→a
f(x) = F(a),
assim dado ε  0 existe δ  0 tal que se
x ∈ X e dM (x, a)  δ ent˜ao dN (F(x), F(a)) = dN (f(x), F(a)) 
ε
2
. (∗)
Mostraremos que para todo
¯x ∈ X tal que dM (¯x, a) 
δ
2
teremos dN (F(¯x), F(a))  ε,
o que implicar´a que F ser´a cont´ınua em X.
6.7. LIMITES DE FUNC¸ ˜OES 251
Para isto observemos que como ¯x ∈ X existe uma sequˆencia (xn)n∈N em X tal que
lim
n→∞
xn = ¯x.
Logo existe m0 ∈ N tal que se n ≥ m0 teremos
dM (xn, ¯x) 
δ
2
,
assim, se n ≥ m0 teremos
dM (xn, a) ≤ dM (xn, ¯x) + dM (¯x, a) 
δ
2
+
δ
2
,
e, de (*), segue que
dN (F(xn), F(a)) = dN (f(xn), F(a)) 
ε
2
. (∗∗)
Logo se dM (¯x, a) 
δ
2
teremos (observemos que F(¯x) = lim
n→∞
f(xn))
dN (F(¯x), F(a)) = dN (( lim
n→∞
f(xn), F(a))
[d ´e cont´ınua]]
= ≤ lim
n→∞
d(f(xn), F(a)) ≤
ε
2
 ε,
completando a demonstra¸c˜ao.
Observa¸c˜ao 6.7.2 Observemos que dada uma fun¸c˜ao f : X → N com X ⊆ M, (M, dM ) e
(N, dN ) espa¸cos m´etricos nem sempre existe lim
x→a
f(x) para a ∈ X.
Para ver isto consideremos f : R  {0} → R (ou seja, N = M = R e X = R  {0}) dada por
f(x)
.
= sen(
1
x
), x ∈ R  {0}.
Sabemos que n˜ao existe lim
x→0
f(x).
Para finalizar temos o
Exerc´ıcio 6.7.1 Seja I = (a, b) ⊆ R munido m´etrica induzida pela m´etrica usual de R.
Suponhamos que f : I → R seja mon´otona e limitada.
Ent˜ao existem lim
x→a
f(x) e lim
x→b
f(x).
De fato, consideraremos o caso em que f ´e n˜ao-decrescente (o caso n˜ao crescente ser´a deixado
como exerc´ıcio para o leitor) e mostraremos que lim
x→b
f(x) existe (o caso lim
x→a
f(x) ser´a deixado
como exerc´ıcio para o leitor).
Como f ´e limitada segue que f(I) ⊆ R ´e um subconjunto limitado de R.
Logo existe
L
.
= sup{f(x) : a  x  b}.
Mostremos que
lim
x→b
f(x) = L.
Para isto, dado ε  0, da defini¸c˜ao de supremo, existe
x0 ∈ (a, b) tal que f(x0) ∈ (L − ε, L].
252 CAP´ITULO 6. LIMITES
Seja δ
.
= b − x0  0.
Afirmamos que se
x ∈ (b − δ, b) temos que f(x) ∈ (L − ε, L].
De fato, se b − δ  x  b segue x0 = b − δ  x  b e como f ´e n˜ao decrescente teremos
L − ε  f(x0) ≤ f(x) ≤ L,
isto ´e, se x ∈ I = (a, b) e |x − b|  δ (ou seja, b − δ  x  b) segue que
L − ε  f(x) ≤ L  L + ε,
ou, equivalentemente,
|f(x) − L|  ε
mostrando que lim
x→a
f(x) = L.
Cap´ıtulo 7
Continuidade Uniforme de Fun¸c˜oes
em Espa¸cos M´etricos
Iniciaremos pela
Defini¸c˜ao 7.0.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N.
Diremos que a fun¸c˜ao f ´e uniformemente cont´ınua em M se dado ε  0 existir δ =
δ(ε)  0 tal que se x, y ∈ M e
dM (x, y)  δ ent˜ao dM (f(x), f(y))  ε.
Observa¸c˜ao 7.0.3
1. Se f : M → N ´e uniformemente cont´ınua em M ent˜ao ´e imediato que f ser´a uma fun¸c˜ao
cont´ınua em M (ou seja, ser´a cont´ınua em cada ponto de M).
2. Ao contr´ario da continuidade em cada ponto (que ´e um fenˆomeno local) a continuidade
uniforme ´e um fenˆomeno global.
Como veremos em exemplos a seguir, podemos ter uma fun¸c˜ao que ´e cont´ınua em cada
ponto de um espa¸co m´etrico mas n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em M.
Mas ainda, podemos ter uma fun¸c˜ao f : M → N tal que para cada a ∈ M exista B
.
=
BM (a; r) tal que f|B
seja uniformemente cont´ınua mas f : M → N n˜ao seja uma fun¸c˜ao
uniformemente cont´ınua em M.
3. Vale observar que continuidade uniforme n˜ao ´e uma propriedade topol´ogica, isto ´e, uma
aplica¸c˜ao f : (M, dM ) → (N, dN ) pode ser uniformemente cont´ınua em (M, dM ) mas
podem existir m´etricas dM e dN equivalentes a dM e dN , respectivamente, de tal modo que
a aplica¸c˜ao f : (M, dM ) → (N, dN ) n˜ao seja uniformemente cont´ınua em (M, dM ).
4. Ou de outro modo: a defini¸c˜ao de continuidade (em termos de ε e δ) pode ser obtida
utilizando-se abertos (ou fechados) dos espa¸cos m´etricos M e N envolvidos.
No caso da continuidade uniforme isto n˜ao ´e poss´ıvel, ou seja, n˜ao temos como estabelecer
uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente em termos de abertos (ou fechados) de M e N,
respectivamente, para caraterizar uma fun¸c˜ao uniformemente cont´ınua.
Defini¸c˜ao 7.0.3 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N.
Diremos que a fun¸c˜ao f ´e homeomorfismo uniforme de M em N se f e sua fun¸c˜ao
inversa f−1 : N → M forem uniformemente cont´ınuas em M e N, respectivamente.
253
254CAP´ITULO 7. CONTINUIDADE UNIFORME DE FUNC¸ ˜OES EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
E
'
f
f−1
M
N
uniformemente cont´ınua
uniformemente cont´ınua
25.11.2008 - 30.a
Temos a
Proposi¸c˜ao 7.0.3 Sejam (M, dM ), (N, dN ) e (P, dP ) espa¸cos m´etricos, f : M → N e g : N →
P uniformemente cont´ınuas em M e N respectivamente.
Ent˜ao g ◦ f : M → P ser´a uniformemente cont´ınua em M.
Demonstra¸c˜ao:
De fato, dado ε  0, como g : N → P ser´a uniformemente cont´ınua em N existe λ  0 tal
que se z, w ∈ N e
dN (z, w)  λ ent˜ao dP (g(z), g(w))  ε. (∗)
Como f : M → N ser´a uniformemente cont´ınua em M existe δ  0 tal que se x, y ∈ M e
dM (x, y)  δ ent˜ao dN (f(x), f(y))  λ. (∗∗)
Logo se x, y ∈ M e
dM (x, y)  δ ent˜ao, de (**), temos dN (f(x), f(y))  λ e, de (*), segue dP (g(f(x)), g(f(y)))  λ
mostrando que g ◦ f ´e uniformemente cont´ınua em M.
Como consequˆencia temos
Corol´ario 7.0.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, X ⊆ M e f : M → N uniforme-
mente cont´ınua em M.
Ent˜ao f|X
´e uniformemente cont´ınua em X.
Demonstra¸c˜ao:
Seja i : X → M dada por i(x)
.
= x, x ∈ X (a aplica¸c˜ao inclus˜ao de X em M).
Temos que i ´e uniformemente cont´ınua em X (basta tomas δ = ε) e temos que f|X
= f ◦ i e
assim, pela proposi¸c˜ao acima, segue que f|X
ser´a uniformemente cont´ınua em X.
Temos a
Proposi¸c˜ao 7.0.4 Sejam (M, dM ), espa¸co m´etrico, (E, . E) espa¸co vetorial normado, f, g :
M → E uniformemente cont´ınuas em M e λ ∈ R  {0}.
Ent˜ao f + g e λ.f s˜ao uniformemente cont´ınuas em M.
255
Demonstra¸c˜ao:
Dado ε  0, como f : M → E ´e uniformemente cont´ınua em M existe δ1  0 tal que se
x, y ∈ M e
dM (x, y)  δ1 ent˜ao f(x) − f(y)) E = dE(f(x), f(y)) 
ε
2
. (∗)
De modo semelhante, como g : M → E ´e uniformemente cont´ınua em M existe δ2  0 tal
que se x, y ∈ M e
dM (x, y)  δ2 ent˜ao g(x) − g(y)) E = dE(g(x), g(y)) 
ε
2
. (∗∗)
Logo tomando-se δ
.
= min{δ1, δ2}  0 temos que se se x, y ∈ M e
dM (x, y)  δ
teremos
dE((f + g)(x), (f + g)(y)) = (f + g)(x) − (f + g)(y)) E = [f(x) − f(y)] + [g(x) − g(y)] E
≤ f(x) − f(y) E + g(x) − g(y) E
(∗) e (∗∗)]

ε
2
+
ε
2
= ε,
mostrando que f + g ´e uniformemente cont´ınua em M.
Dado ε  0, como f : M → E ´e uniformemente cont´ınua em M existe δ  0 tal que se
x, y ∈ M e
dM (x, y)  δ ent˜ao f(x) − f(y)) E = dE(f(x), f(y)) 
ε
|λ|
. (∗ ∗ ∗)
Logo se x, y ∈ M e dM (x, y)  δ ent˜ao
dE((λ.f)(x), (λ.f)(y)) = (λ.f)(x) − (λ.f)(y)) E = |λ| f(x) − f(x) E
[(∗∗∗)]
 |λ|
ε
|λ|
= ε
mostrando que λ.f ´e uniformemente cont´ınua em M.
Observa¸c˜ao 7.0.4
1. A proposi¸c˜ao acima nos diz que o conjunto formado por todas as aplica¸c˜oes uniformemente
cont´ınuas de (M, dM ) em (E, . E) ser´a um espa¸co vetorial sobre R quando munido das
opera¸c˜oes de adi¸c˜ao de fun¸c˜oes e multiplica¸c˜ao de n´umero real por fun¸c˜ao.
2. Podemos ter f, g : M → R uniformemente cont´ınuas em M e a aplica¸c˜ao f.g n˜ao ser
uniformemente cont´ınua em M.
Mais adiante exibiremos um contra-exemplo para esta situa¸c˜ao.
Em geral temos a
Proposi¸c˜ao 7.0.5 Sejam (M, dM ), espa¸co m´etrico, R com a m´etrica usual, f, g : M → R
uniformemente cont´ınuas e limitadas em M.
Ent˜ao f.g ´e uniformemente cont´ınua em M.
256CAP´ITULO 7. CONTINUIDADE UNIFORME DE FUNC¸ ˜OES EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Demonstra¸c˜ao:
Como f, g ´e limitada em M existe C1, C2  0 tal que
|g(x)| ≤ C1, para todo x ∈ M. (∗)
e
|f(x)| ≤ C2, para todo x ∈ M. (∗∗)
Dado ε  0, como f : M → R ´e uniformemente cont´ınua em M existe δ1  0 tal que se
x, y ∈ M e
dM (x, y)  δ1 ent˜ao |f(x) − f(y))| = dR(f(x), f(y)) 
ε
2C1
. (∗ ∗ ∗)
como g : M → R ´e uniformemente cont´ınua em M existe δ2  0 tal que se x, y ∈ M e
dM (x, y)  δ2 ent˜ao |g(x) − g(y))| = dR(g(x), g(y)) 
ε
2C2
. (∗ ∗ ∗∗)
Seja δ
.
= min{δ1, δ2}  0.
Logo se x, y ∈ M e dM (x, y)  δ ent˜ao
dR((f.g)(x), (f.g)(y)) = |(f.g)(x) − (f.g)(y))| = |f(x).g(x) − f(y)g(x) + f(y)g(x) − f(y).g(y)|
≤ |g(x)||f(x) − f(y)| + |f(y)|g(x) − g(y)|
[(∗),(∗∗),(∗∗∗) e (∗∗∗∗)]
 C1
ε
2C1
+ C2
ε
2C2
= ε (7.1)
mostrando que f.g ´e uniformemente cont´ınua em M.
Proposi¸c˜ao 7.0.6 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N lischitziana em M.
Ent˜ao f ´e uniformemente cont´ınua em M.
Demonstra¸c˜ao:
Como f : M → N lischitziana em M, existe C  0 tal que se x, y ∈ M temos
dN (f(x), f(y)) ≤ CdM (x, y).
Logo, dado ε  0 se δ
.
=
ε
C
 0 temos que se x, y ∈ M e dM (x, y)  δ teremos
dN (f(x), f(y)) ≤ CdM (x, y)  C
ε
C
= ε
mostrando que f ´e uniformemente cont´ınua em M.
Observa¸c˜ao 7.0.5 Como consequˆencia temos:
1. Na situa¸c˜ao acima se M = I ´e um intervalo de R e N = R ent˜ao f : I → R diferenci´avel
em I tal que sua derivada ´e limitada em I ´e uniformemente cont´ınua em I.
De fato, pois vimos anteriormente que neste caso f ser´a lipschitziana em I.
2. Toda imers˜ao isom´etrica ´e uniformemente cont´ınua.
De fato, pois toda imers˜ao isom´etrica ´e lipschitziana.
257
3. As proje¸c˜oes pi :
n
i=1
Mi → Mi para i = 1, · · · , n s˜ao uniformemente cont´ınuas em
n
i=1
Mi.
De fato, pois as proje¸c˜oes pi s˜ao contra¸c˜oes fracas (logo ser´a lipschitziana).
4. Se (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico ent˜ao a aplica¸c˜ao dM : M × M → R ´e uniformemente
cont´ınua em M ×M (munido de uma das trˆes m´etricas usuais) pois ´e uma contra¸c˜ao fraca
(logo ser´a lipschitziana).
5. Seja (E, . E) um espa¸co vetorial normado.
Ent˜ao:
(a) A aplica¸c˜ao . E : E × E → R ´e uniformemente cont´ınua em E × E;
(b) A aplica¸c˜ao s : E × E → E dada por s(x, y)
.
= x + y, x, y ∈ E ´e uniformemente
cont´ınua em E × E;
As demonstra¸c˜oes destes fatos ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor.
6. Sejam (E, . E), (F, . F ) espa¸cos vetoriais normados.
Ent˜ao:
(a) Se f : E → F ´e uma transforma¸c˜ao linear cont´ınua ent˜ao f uniformemente cont´ınua
em E;
(b) Em particular, se f : Rm → F ´e uma transforma¸c˜ao linear ent˜ao f uniformemente
cont´ınua em E;
(c) A aplica¸c˜ao m : R × E → E dada por m(λ, x)
.
= λx, (λ, x) ∈ R × E ´e uniformemente
cont´ınua em cada subconjunto limitado de R × E;
As demonstra¸c˜oes destes fatos ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor.
7. Sejam (Ei, . i), espa¸cos vetoriais normados para i = 1, · · · , m.
Ent˜ao se f : E1 ×· · ·×Em → F ´e uma transforma¸c˜ao m-linear cont´ınua em E1 ×· · ·×Em
(com uma das trˆes m´etricas usuais) ent˜ao f uniformemente cont´ınua em cada subconjunto
limitado de E1 × · · · × Em.
A demonstra¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
A seguir consideraremos alguns exemplos importantes.
Exemplo 7.0.1 A fun¸c˜ao f : R → R dada por f(x)
.
= x2, x ∈ R ´e uniformemente cont´ınua
em cada A ⊆ R limitado (pois sua derivada ser´a limitada em A) mas n˜ao ´e uniformemente
cont´ınua em R.
De fato, como
(x +
1
x
)2
− x2
= x2
+ 2.x
1
x
+
1
x2
− x2
= 2 +
1
x2
 2
tomando-se ε = 1 podemos ver que para todo δ  0 existe x ∈ R com |x| 
1
δ
.
258CAP´ITULO 7. CONTINUIDADE UNIFORME DE FUNC¸ ˜OES EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Assim y
.
= x +
1
x
satisfaz a condi¸c˜ao
dR(x, y) = |x − y| = |x − [x +
1
x
]| =
1
|x|
 δ
mas
dR(f(x), f(y) = |f(y) − f(x)| = |y2
− x2
| = |(x +
1
x
)2
− x2
|  2  1 = ε
mostrando que f n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em R.
Observa¸c˜ao 7.0.6 Na verdade o mesmo argumento acima mostra que a fun¸c˜ao f n˜ao ser´a
uniformemente cont´ınua em qualquer subconjunto n˜ao limitado de R.
Exerc´ıcio 7.0.2 A fun¸c˜ao f : (0, ∞) → R dada por f(x)
.
= cos(
1
x
), x ∈ (0, ∞) ´e cont´ınua e
limitada em (0, ∞) mas n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em (0, ∞).
De fato, dado ε = 1 para todo δ  0 podemos escolher n ∈ N tal que
x
.
=
1
2nπ
e y
.
=
1
2(n + 1)π
perten¸cem ao intervalo (−
δ
2
,
δ
2
), ou seja,
|x − y| = |
1
2nπ
−
1
2(n + 1)π
|  δ
mas para estes valores temos
|f(x) − f(y)| = | cos(2nπ) − cos(2(n + 1)π)| = |1 − (−1)| = 2  1 = ε,
mostrando que a fun¸c˜ao f n˜ao ser´a uniformemente cont´ınua em (0, ∞).
Observa¸c˜ao 7.0.7 Vale o mesmo se trocarmos o intervalo (0, ∞) por (0, a) para qualquer a  0.
Exerc´ıcio 7.0.3 Considermos f : R  {0} → R dada por
f(x)
.
=
1, x  0
−1, x  0
.
A fun¸c˜ao f ´e cont´ınua em R{0} (por que?) mas n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em R{0}.
De fato, pois dado ε = 1, para todo δ  0 temos se 0  x  δ
2 ent˜ao temos que
|x − (−x)|  δ
mas
|f(x) − f(−x)| = 2  1 = ε,
mostrando que f n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em R  {0}.
Podemos estender o exemplo acima, da seguinte forma:
259
Exerc´ıcio 7.0.4 Suponhamos que (M, dM ) e (N, dN ) s˜ao espa¸cos m´etricos, f : M → N ´e
cont´ınua em M e existem a, b ∈ N, a = b tais que os conjuntos F
.
= f−1({a}) e G
.
= f−1({b})
(que s˜ao fechados e disjuntos em M) satisfazem
dM (F, G) = 0.
Ent˜ao f n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em M.
De fato, seja ε =
dN (a, b)
2
 0.
Como dM (F, G) = 0 para todo δ  0 existem x ∈ F e y ∈ G tais que
dM (x, y)  δ.
Mas observemos que
dN (f(x), f(y)) = dN (a, b) = 2ε  ε,
mostrando que f n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em M.
Exemplo 7.0.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico e F, G ⊆ M fechados em M, n˜ao vazios e
disjuntos.
Afirmamos que existe uma fun¸c˜ao f : M → [0, 1] cont´ınua em M tal que (veja figura abaixo)
f(x) =
0 para x ∈ F
1 para x ∈ G
.
M
G
F
E
T
0
1
f
Um modo de definir a fun¸c˜ao f seria
f(x)
.
=
dM (x, F)
d(x, F) + dM (x, G)
, x ∈ M.
Como F e G s˜ao fechados e F ∩ G = ∅ temos que f est´a bem definida (pois n˜ao h´a como
zerar o denominador) e portanto ser´a cont´ınua em M (pois x → d(x, F) e x → d(x, G) s˜ao
cont´ınuas em M).
Al´em disso, se x ∈ F temos que
d(x, F) =
dM (x, F)
d(x, F) + dM (x, G)
=
0
0 + dM (x, G)
= 0,
260CAP´ITULO 7. CONTINUIDADE UNIFORME DE FUNC¸ ˜OES EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
logo f(x) = 0 e se x ∈ G temos que
d(x, G) =
dM (x, F)
d(x, F) + dM (x, G)
=
dM (x, F)
d(x, F) + 0
= 1,
logo f(x) = 1, como afirmamos acima.
Observa¸c˜ao 7.0.8 A fun¸c˜ao acima ´e denominada Fun¸c˜ao de Urysohn associada ao para
F, G.
Proposi¸c˜ao 7.0.7 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e f : I → M uniformemente cont´ınua em I,
onde I ⊆ R ´e um intervalo limitado de R.
Ent˜ao f ´e limitada em I.
Demonstra¸c˜ao:
Vamos supor que I = [a, b].
Os outros casos ser˜ao deixados como exerc´ıcio para o leitor.
Dado ε = 1  0 como f ´e uniformemente cont´ınua em I existe δ  0 tal que se x, y ∈ I e
|x − y| = dR(x, y)  δ temos dM (f(x), f(y))  ε = 1. (∗)
Como I ´e um intervalo limitado de R podemos decompo-lo em um n´umero finito de sub-
intervalos justapostos, Ij = [aj−1, aj], j = 1, · · · , N0, todos de comprimento menor que δ, assim
d(aj−1, aj)  δ, j = 1, · · · , N0
(∗)
⇒ d(f(aj−1), f(aj))  1, j = 1, · · · , N0. (∗∗)
Se x, y ∈ I, podemos supor, sem perda de generalidade que x ≤ y e assim existem j0, j1 ∈
{1, · · · , N0} tais que
aj0−1 ≤ x ≤ aj0 ≤ aj1−1 ≤ y ≤ aj1 ,
assim
d(x, aj0 )  δ e d(y, aj1 )  δ. (∗ ∗ ∗)
Logo
dN (f(x), f(y)) ≤ dN (f(x), f(aj0 )) + dN (f(aj0 ), f(aj0+1))
+ · · · + dN (f(aj1−1), f(aj1 )) + dN (f(aj1 ), f(y))
(∗∗),(∗∗∗),(∗)
≤ 1 + · · · + 1
N0parcelas
= N0
mostrando que f ´e limitada em I.
Proposi¸c˜ao 7.0.8 Sejam (M, dM ), (Ni, di), i = 1, · · · , n espa¸cos m´etricos, N1 ×· · · Nn munido
da m´etrica da soma e f : M → N1 × · · · Nn.
Ent˜ao f ´e uniformemente cont´ınua em M se, e somente se, cada uma de suas coordenadas
fi : M → Ni, i = 1, · · · , n, for uniformemente cont´ınua em M.
261
Demonstra¸c˜ao:
Se f ´e uniformemente cont´ınua em M, como as proje¸c˜oes pi : N1×· · ·×Nn → Ni, i = 1, · · · , n,
s˜ao uniformemente cont´ınuas em M e fi = pi ◦ f segue que cada uma de suas coordenadas
fi : M → Ni, i = 1, · · · , n, for uniformemente cont´ınua em M.
Reciprocamente, se cada uma de suas coordenadas fi : M → Ni, i = 1, · · · , n , for uniforme-
mente cont´ınua em M, dado ε  0, para cada i = 1, · · · , n, existe δi  0 tal que se x, y ∈ M
e
dM (x, y)  δi temos di(fi(x), fi(y)) 
ε
n
. (∗)
Seja δ = min{δi : i = 1, · · · , n}  0.
Logo se x, y ∈ M e dM (x, y)  δ temos que
dN1×···×Nn (f(x), f(y)) =
n
i=1
di(fi(x), fi(y))
[(∗)]

n
i=1
ε
n
= ε,
mostrando que f ´e uniformemente cont´ınua em M.
Proposi¸c˜ao 7.0.9 Sejam (Ei, . i), i = 1, · · · , n e (F, . F ) espa¸cos vetoriais normados com
n ≥ 2.
Ent˜ao f : E1 × · · · × En → F n-linear ´e uniformemente cont´ınua em E1 × · · · × En se, e
somente se, f = 0.
Demonstra¸c˜ao:
Se f = 0 ent˜ao f ser´a uniformemente cont´ınua em E1 × · · · × En.
Reciprocamente, suponhamos, por absurdo, que f : E1 × · · · × En → F n-linear ´e uniforme-
mente cont´ınua em E1 × · · · × En e f = 0.
Logo existe u
.
= (u1, · · · , un) ∈ E1 × · · · × En tal que f(u) = v = 0.
Podemos, supor, sem perda de generalidade que
f(u1, · · · , un) = 1,
caso contr´ario, substituimos u1 por
u1
v F
e com isto teremos
f(
u1
v F
, u2, · · · , un)
[f ´e n-linear]
=
1
v F
f(u1, u2, · · · , un) F
[f(u)=v]
=
v F
v F
= 1.
Seja g : R → E1 × · · · × En dada por
g(t)
.
= (t.u1, t.u2, u3, · · · , un), t ∈ R
´E f´acil ver que h : R → E1 × · · · × En dada por
h(t)
.
= g(t) − (01, 02, u3, · · · , un) = (t.u1, t.u2, 03, · · · , 0n), t ∈ R
´e linear em R, assim g ser´a uma aplica¸c˜ao ´e linear afim em R.
Em particular, g uniformemente cont´ınua em R.
Al´em disso, a aplica¸c˜ao y → y F tamb´em ´e uniformemente cont´ınua em F.
262CAP´ITULO 7. CONTINUIDADE UNIFORME DE FUNC¸ ˜OES EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
Como f ´e uniformemente cont´ınua em E1 × · · · × En segue que a aplica¸c˜ao ϕ : R → R dada
por
ϕ(t) = (f ◦ g)(t) F = f(t.u1, t.u2, u3 · · · , un) F
[f ´e n-linear]
= t2
.f(u1, u2, u3 · · · , un) F = t2
f(u1, u2, u3 · · · , un) F
= t2
v F
[ v F =1]
= t2
, t ∈ R
ser´a uniformemente cont´ınua em R contrariando o exemplo (7.0.1).
Logo f = 0.
Para finalizar temos a
Proposi¸c˜ao 7.0.10 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos, onde dM ´e a m´etrica zero-um.
Ent˜ao f : M → N ´e uniformemente cont´ınua em M.
Demonstra¸c˜ao:
Dado ε  0 seja δ = 1.
Ent˜ao se x, y ∈ M e dM (x, y)  δ = 1 segue que x = y, logo
dN (f(x), f(y)) = dN (f(x), f(x)) = 0  ε,
mostrando que f ´e uniformemente cont´ınua em M.
Cap´ıtulo 8
Espa¸cos M´etricos Completos
8.1 Sequˆencias de Cauchy
Come¸caremos pela
Defini¸c˜ao 8.1.1 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico.
Diremos que uma sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy se dado ε  0 existe
n0 ∈ N tal que se
n, m  n0 teremos dM (xn, xm)  ε.
Observa¸c˜ao 8.1.1
1. ´E f´acil ver que toda subsequˆencia de uma sequˆencia de Cauchy tamb´em ´e uma sequˆencia
de Cauchy.
2. Uma sequˆencia (xn)n∈N ´e sequˆencia de Cauchy se, e somente se, dado ε  0 existe n0 ∈ N
tal que
n  n0 teremos dM (xn, xn+p)  ε.
Para ver isto basta tomar m = n + p na defini¸c˜ao acima.
3. A propriedade ”ser de Cauhcy” ´e uma propriedade da sequˆencia no seguinte sentido: se
M ⊆ N uma sequˆencia (xn)n∈N em M ´e uma sequˆencia de Cauchy se, e somente se, ela
for uma sequˆencia de Cauchy em N.
Temos a
Proposi¸c˜ao 8.1.1 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N ´e uma sequˆencia convergente
em M.
Ent˜ao (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy.
Demonstra¸c˜ao:
Seja a
.
= lim
n→∞
xn em M.
Dado ε  0 exite n0 ∈ N tal que se
n  n0 teremos dM (xn, a) 
ε
2
. (∗)
263
264 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Logo se
n, m  n0 teremos dM (xn, xm) ≤ dM (xn, a) + dM (a, xm)
(∗)

ε
2
+
ε
2
= ε,
mostrando que a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy.
Observa¸c˜ao 8.1.2 Em geral, n˜ao vale a rec´ıproca do resultado acima, isto ´e, existem sequˆencias
de Cauchy que n˜ao s˜ao convergentes no espa¸co m´etrico dado.
O exemplo a seguir mostra isso.
Exemplo 8.1.1 Sejam Q com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R e (xn)n∈N uma
sequˆencia em Q convergente em R para um n´umero irracional a.
Como (xn)n∈N uma sequˆencia convergente em R, pela proposi¸c˜ao acima, ela ser´a uma
sequˆencia de Cauchy em R e pela observa¸c˜ao acima item 3. segue que ela ser´a uma sequˆencia
de Cauchy em Q, logo n˜ao ´e uma sequˆencia de Cauchy em Q que n˜ao ´e convergente em Q.
Exemplo 8.1.2 Seja (M, dM ) espa¸co m´etrico onde dM ´e a m´etrica zero-um.
Se (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em M ent˜ao existe n0 ∈ N tal que se
n  n0 teremos xn = xn0+1,
ou seja, a sequˆencia ser´a constante a partir de um determinado termo.
De fato, como (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em M, dado ε = 1, existe n0 ∈ N tal que
se
n, m  n0 teremos dM (xn, xm)  ε = 1.
Como a m´etrica ´e a m´etrica zero-um segue que dM (xn, xm) = 0, ou seja, se
n, m  n0 teremos xn = xm,
ou seja,
n  n0 teremos xn = xn0+1,
como afirmamos.
Temos a
Proposi¸c˜ao 8.1.2 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy.
Ent˜ao (xn)n∈N ´e uma sequˆencia limitada em M.
Demonstra¸c˜ao:
Como (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy dado ε = 1, existe n0 ∈ N tal que se
n  n0 teremos dM (xn, xm)  ε = 1. (∗)
Logo o conjunto
{xn0+1, xn0+2, · · · }
ser´a um conjunto limitado de M e ter´a diˆametro menor ou igual a 1.
Seja c
.
= max{1, dM (xn, xm) : n, m = 1, · · · , n0} ≥ 0.
Com isto teremos que
diam({x1, · · · , xn0 , xn0+1, · · · } = diam({x1, · · · , xn0 } ∪ {xn0+1, · · · }) ≤ c,
mostrando que a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia limitada em M.
8.1. SEQUˆENCIAS DE CAUCHY 265
Observa¸c˜ao 8.1.3 Em geral, n˜ao vale a rec´ıproca do resultado acima, isto ´e, existem sequˆencias
limitadas em um espa¸co m´etrico que n˜ao s˜ao sequˆencias de Cauchy, como mostra o exemplo a
seguir.
Exemplo 8.1.3 Seja R com a m´etrica usual e (xn)n∈N a sequˆencia em R dada por
xn
.
= (−1)n
. n ∈ N.
Temos que a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia limitada em R mas n˜ao ´e uma sequˆencia
de Cauchy (pois dR(xn, xn+1) = |xn − xn+1| = 2 para todo n ∈ N).
Exemplo 8.1.4 A sequˆencia (xn)n∈N dada por
xn
.
= 1 +
1
2
+ · · · +
1
n
n˜ao ´e uma sequˆencia de Cauchy em R pois ela n˜ao ´e limitada em R (veja observa¸c˜ao (6.3.2)).
Temos a
Proposi¸c˜ao 8.1.3 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy.
Se a sequˆencia (xn)n∈N possui uma subsequˆencia convergente em M ent˜ao a sequˆencia
(xn)n∈N ser´a convergente em M e ter´a o mesmo limite da subsequˆencia convergente.
Demonstra¸c˜ao:
Se (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy e (xnk
)k∈N ´e uma subsequˆencia convergente para
a ∈ M.
Dado ε  0, como xnk
→ a, existe n1 ∈ N tal que se
n  n1 teremos dM (xnk
, a) 
ε
2
. (∗)
Mas (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy logo existe n2 ∈ N tal que se
n, m  n2 teremos dM (xn, xm) 
ε
2
. (∗∗)
Seja n0
.
= max{n1, n2} ∈ N.
Escolhamos nk  n0.
Com isto se
n  n0 teremos dM (xn, a) ≤ dM (xn, xnk
) + dM (xnk
, a)
[(∗∗) e (∗)]

ε
2
=
ε
2
= ε
mostrando que xn → a em M, como quer´ıamos mostrar.
Como consequˆencia temos o
Corol´ario 8.1.1 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N ´e uma sequˆencia em M que
possui duas subsequˆencias convergentes para pontos diferentes em M.
Ent˜ao a sequˆencia (xn)n∈N n˜ao ´e uma sequˆencia de Cauchy.
266 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Demonstra¸c˜ao:
Segue imediatamente da proposi¸c˜ao acima pois, por hip´otese, f e f−1 s˜ao aplica¸c˜oes uni-
formemente cont´ınuas.
27.11.2008 31.a
Proposi¸c˜ao 8.1.4 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N uniformemente
cont´ınua em M.
Ent˜ao se a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em M ent˜ao a sequˆencia (f(xn))n∈N
ser´a uma sequˆencia de Cauchy em N.
Demonstra¸c˜ao:
Dado ε  0, como f ´e uniformemente cont´ınua em M, existe δ  0 tal que se
dM (x, y)  δ teremos dN (f(x), f(y))  ε. (∗)
Por outro lado, como a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em M, existe n0 ∈ N
tal que se
n  n0 teremos dM (xn, xm)  δ. (∗∗)
Logo se
n, m  n0, de (**) segue, dM (xn, xm)  δ, e de (*) teremos, dM (f(xn), f(xm))  ε
mostrando que sequˆencia (f(xn))n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em N.
Como consequˆencia temos o
Corol´ario 8.1.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N homeomorfismo
uniforme de M em N.
Ent˜ao a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em M se, e somente se, a sequˆencia
(f(xn))n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em N.
Demonstra¸c˜ao:
Segue da proposi¸c˜ao acima que como f ´e um homeomorfismo uniforme ele e sua fun¸c˜ao
inversa levam sequˆencias de Cauchy em sequˆencias de Cauchy e assim (M, dM ) ser´a um espa¸co
m´etrico completo se, e somente se, (N, dN ) for um espa¸co m´etrico completo.
Observa¸c˜ao 8.1.4 Uma aplica¸c˜ao f : M → N que ´e somente cont´ınua em M pode n˜ao levar
sequˆencias de Cauchy de M em sequˆencias de Cauchy em N como mostra a exemplo a seguir.
Em particular, a propriedade ”sequˆencia ser de Cauchy” n˜ao ´e uma propriedade topol´ogica
(ou seja, n˜ao ´e, necessariamente, preservada por homeomorfismo).
Exemplo 8.1.5 Consideremos f : (0, 1] → R dada por
f(x)
.
=
1
x
, x ∈ (0, 1].
Temos que f ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em (0, 1] e considerermos a sequˆencia (xn)n∈N dada por
xn
.
=
1
n
, n ∈ N que ´e uma sequˆencia de Cauchy em (0, 1] (pois ela ´e uma sequˆencia convergente
8.1. SEQUˆENCIAS DE CAUCHY 267
em R, logo ser´a uma sequˆencia de Cauchy em R e assim tamb´em ser´a uma sequˆencia de Cauchy
em (0, 1]).
Como f(xn) =
1
xn
= n, n ∈ N ent˜ao (f(xn))n∈N n˜ao ser´a uma sequˆencia de Cauchy (pois
n˜ao ´e limitada).
Logo, da proposi¸c˜ao acima, podemos concluir que a aplica¸c˜ao f n˜ao poder´a ser uniforme-
mente cont´ınua em (0, 1].
Observa¸c˜ao 8.1.5 Em geral, n˜ao vale a rec´ıproca da proposi¸c˜ao acima, isto ´e, exitem aplica¸c˜oes
f : M → N que levam sequˆencias de Cauchy de M em sequˆencias de Cauchy de N que n˜ao s˜ao
uniformemente cont´ınuas em M, como mostra o exemplo a seguir.
Exemplo 8.1.6 Seja f : R → R dada por f(x) = x2, x ∈ R.
Vimos no exemplo (7.0.1) que f n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em R.
Mostremos que f leva sequˆencias de Cauchy de R em sequˆencia de Cauchy de R.
Seja (xn)n∈N uma sequˆencia de Cauchy em R.
Logo a sequˆencia (xn)n∈N ser´a limitada em R, isto ´e, existe c ≥ 0 tal que
|xn| ≤ c, n ∈ N.
Mas f|[−c,c]
´e lipschitziana em [−c, c] (pois sua derivada ser´a limitada em [−c, c]), em par-
ticular, uniformemente cont´ınua em [−c, c].
Logo da proposi¸c˜ao (8.1.4), segue que a sequˆencia (f(xn))n∈N ser´a uma sequˆencia de Cauchy
em R.
Para finalizar a se¸c˜ao temos a
Proposi¸c˜ao 8.1.5 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, M×N com uma das trˆes m´etricas
usuais, (xn)n∈N e (yn)n∈N sequˆencias em M e N, respectivamente.
Ent˜ao (xn)n∈N e (yn)n∈N s˜ao sequˆencias de Cauchy em M e N, respectivamente se, e somente
se, (zn)n∈N ´e sequˆencia de Cauchy em M × N, onde zn
.
= (xn, yn), n ∈ N.
Demonstra¸c˜ao:
Vamos considerar em M × N a m´etrica do m´aximo.
Se (zn)n∈N ´e sequˆencia de Cauchy em M × N, onde zn
.
= (xn, yn), n ∈ N, como as proje¸c˜oes
pM : M × N → M e pN : M × N → N s˜ao uniformemente cont´ınuas em M × N (ver observa¸c˜ao
(7.0.5) item 3) segue da proposi¸c˜ao (8.1.4) que (xn)n∈N e (yn)n∈N ser˜ao sequˆencias de Cauchy
em M e N, respectivamente.
Por outro lado, se (xn)n∈N e (yn)n∈N ser˜ao sequˆencias de Cauchy em M e N, respectivamente,
dado ε  0 existem n1, n2 ∈ N tal que se
n, m  n1 teremos dM (xn, xm)  ε
n, m  n2 teremos dN (yn, ym)  ε.
Logo tomando-se n0
.
= max{n1, n2} ∈ N se
n, m  n0 teremos dM×N (zn, zm) = max{dM (xn, xm), dN (yn, ym)}
[n0≥n1,n2]
 ε,
mostrando que a sequˆencia (zn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em M × N.
268 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Como existem C, C  0 tais que
dM×N (z, z ) ≤ dM×N (z, z ) ≤ CdM×N (z, z ) ≤ C dM×N (z, z ), z, z ∈ M × N
segue que o mesmo valer´a para as outras m´etricas em M × N.
Como consequˆencia temos o
Corol´ario 8.1.3 Sejam (Mi, di), espa¸cos m´etricos, i = 1, · · · , m, M1 × · · · × Mm com uma das
trˆes m´etricas usuais e (xni)n∈N sequˆencias em Mi , i = 1, · · · , m.
Ent˜ao (xni)n∈N s˜ao sequˆencias de Cauchy em Mi para todo , i = 1, · · · , m se, e somente se,
(zn)n∈N ´e sequˆencia de Cauchy em M1 × · · · × Mm, onde zn
.
= (xn1, · · · , xnm), n ∈ N.
8.2 Espa¸cos m´etricos completos
Defini¸c˜ao 8.2.1 Diremos que um espa¸co m´etrico (M, d) ´e um espa¸co m´etrico completo se
toda sequˆencia de Cauchy em M for convergente em M.
Exemplo 8.2.1 Q munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R n˜ao ´e um espa¸co m´etrico
completo (ver exemplo (8.1.1)).
Exemplo 8.2.2 Seja (M, d) espa¸co m´etrico onde d ´e a m´etrica zero-um.
Ent˜ao (M, d) ´e um espa¸co m´etrico completo pois, como vimos no exemplo (8.1.2), toda
sequˆencia de Cauchy em (M, d) ser´a constante a partir de um determinado termo e portanto
convergente.
Observa¸c˜ao 8.2.1 Nem todo espa¸co m´etrico discreto ´e completo, como mostra o seguinte exem-
plo
Exemplo 8.2.3 Seja P
.
= {1, 1
2 , · · · , 1
n, · · · } munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de
R.
Temos que (P, |.|) ´e um espa¸co m´etrico discreto e a sequˆencia ( 1
n)n∈N ´e uma sequˆencia de
Cauchy em P (pois ela ´e convergente para 0 em R) que n˜ao ´e convergente em P (pois o ∈ P).
Logo (P, |.|) ´e um espa¸co m´etrico discreto que n˜ao ´e completo.
Tmos a
Proposi¸c˜ao 8.2.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N homeomorfismo
uniformemente de M em N.
O espa¸co m´etrico (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo se, e somente se, o espa¸co m´etrico
(N, dN ) ´e um espa¸co m´etrico completo.
Demonstra¸c˜ao:
Segu como consequˆencia do corol´ario (8.1.2).
Proposi¸c˜ao 8.2.2 A reta R munido da m´etrica usual ´e um espa¸co m´etrico completo.
8.2. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS 269
Demonstra¸c˜ao:
Seja (xn)n∈N uma sequˆencia de Cauchy em R.
Logo, da proposi¸c˜ao (8.1.2) segue que (xn)n∈N ´e uma sequˆencia limitada em R.
Definamos para cada n ∈ N
Xn
.
= {xn, xn+1, · · · }. (∗)
´E f´acil ver que se n ≥ m temos
Xn ⊆ Xm ⊆ X1,
logo para todo n ∈ N, Xn ´e limitado em R assim existe
an
.
= inf Xn, n ∈ N.
De (*) segue que a sequˆencia (an)n∈N ´e crescente em R (pois se n ≥ m ent˜ao Xn ⊆ Xm assim
inf Xn ≥ inf Xm) e limitada por b
.
= sup X1 (pois se n ≥ 1 ent˜ao Xn ⊆ X1 assim inf Xn ≤ sup X1
), isto ´e, a sequˆencia (an)n∈N ´e mon´otona e limitada em R, logo ser´a convergente em R, isto ´e,
existe a ∈ R tal que
a = lim
n→∞
an = (sup
n∈N
an).
Afirmamos que
a = lim
n→∞
xn,
isto ´e, a sequˆencia (xn)n∈N ser´a convergente em R, mostrando que R ´e um espa¸co m´etricos
completo.
Para provarmos a afirma¸c˜ao basta, pela proposi¸c˜ao (8.1.3), mostrar que existe uma sub-
sequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N que seja convergente para a em R.
Para isto, dado ε  0, como a = lim
n→∞
xn, existe n1 ∈ N tal que se
m  n1 teremos a − ε
(I)
 am  a + ε.
Para cada m  n1, como am = inf Xm
(II)
≤ a, com o ε  0 acima, existir´a nm  m tal que
a − ε
[por (I)]
 am  xnm  am + ε
[por (II)]
≤ a + ε,
em particular,
xnm ∈ (a − ε, a + ε).
Logo dado, ε  0 existe n1 ∈ N tal que se
nm  n1 teremos |xnm − a|  ε,
mostrando que a subsequˆencia (xnm )m∈N ´e convergene para a em R, ou sjea
a = lim
m→∞
xnm ,
e completando a demonstra¸c˜ao.
Temos a
Proposi¸c˜ao 8.2.3
270 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
1. Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo e F ⊆ M fechado em M.
Ent˜ao (F, dM ) ´e um subespa¸co m´etrico completo de (M, dM );
2. Se (F, dM ) ´e um subespa¸co m´etrico completo do espa¸co m´etrico (M, dM ) ent˜ao F ´e um
subconjunto fechado de (M, dM ).
Demonstra¸c˜ao:
De 1.:
Dada uma sequˆencia de Cauchy (xn)n∈N em F ent˜ao ela ser´a uma sequˆencia de Cauchy em
M.
Como M ´e um espa¸co m´etrico completo temos que existe a ∈ M tal que xn → a em M.
Do corol´ario (6.4.6) segue que a ∈ F = F (pois F ´e um subconjunto fechado de M),
mostrando que F a sequˆencia de Cauchy (xn)n∈N em F ´e convergente em (F, dM ) e assim
(F, dM ) ser´a um espa¸co m´etrico completo.
De 2.:
Se F ⊆ M ´e tal que (F, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo e a ∈ F, ent˜ao da proposi¸c˜ao
(6.4.2), existe uma sequˆencia (xn)n∈N em (F, dM ) que converge para a em M.
Logo (xn)n∈N ser´a uma sequˆencia de Cauchy em (M, dM ), e portanto tamb´em ser´a em uma
sequˆencia de Cauchy em (F, dM ).
Mas (F, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo, logo a sequˆencia (xn)n∈N dever´a convergir b ∈ F.
Da unicidade segue b = a, ou seja, a ∈ F, mostrando que F = F, ou seja, F ´e um subconjuto
fechado de (M, dM ).
Proposi¸c˜ao 8.2.4 Sejam (M, dM ), (N, dN ) um espa¸cos m´etricos e M × N munido de uma das
trˆes m´etricas usuais.
Ent˜ao M × N ´e um espa¸co m´etrico completo se, e somente se, M e N s˜ao espa¸cos m´etricos
completos.
Demonstra¸c˜ao:
Se M e N s˜ao espa¸cos m´etricos completos e (zn)n∈N ´e um sequˆencia de Cauchy em M × N
como zn = (xn, yn), xn ∈ M e yn ∈ N, n ∈ N ent˜ao, da proposi¸c˜ao (8.1.5), segue que as
sequˆencias (xn)n∈N e (yn)n∈N s˜ao sequˆencias de Cauchy em M e N, respectivamente.
Como M e N s˜ao espa¸cos m´etricos completos segue que existem x ∈ M e y ∈ N tal que
xn → x em M e yn → y em N.
Logo da proposi¸c˜ao (6.1.5), temos que zn → z em M × N onde z
.
= (x, y), mostrando que
M × N ´e um espa¸co m´etrico completo.
Reciprocamente, se M × N ´e um espa¸co m´etrico completo dado (a, b) ∈ M × N, temos que
as aplica¸c˜oes fb : M → M × N e ga : N → M × N dadas por
fb(x)
.
= (x, b), x ∈ M ga(y)
.
= (a, y), y ∈ N,
s˜ao isometrias de M sobre o subespa¸co M ×{b} que ´e fechado de M ×N e de N sobre o subespa¸co
{a} × N que ´e fechado de M × N, respectivamente.
Logo, da proposi¸c˜ao (8.2.3) item 1., segue que M × {b} e {a} × N s˜ao subespa¸cos m´etricos
completos de M × N.
Assim se (xn)n∈N e (yn)n∈N s˜ao sequˆencias de Cauchy em M e N, respectivamente, ent˜ao,
como fb e ga s˜ao isometrias, segue que (fb(xn))n∈N e (ga(yn))n∈N s˜ao sequˆencias de Cauchy em
M × {b} e {a} × N, respectivamente.
8.2. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS 271
Como estes s˜ao espa¸cos m´etricos completos segue que existem (x, b) ∈ M × {b} e (a, y) ∈
{a} × N tais que
(xn, b) = fb(xn) → (x, b) em M × {b} e (a, yn) = ga(yn) → (a, y) em {a} × N.
Logo, da proposi¸c˜ao (6.1.5), segue que xn → x em M e yn → y em N, mostrando que M e
N s˜ao espa¸cos m´etricos completos.
Como consequˆencias temos o
Corol´ario 8.2.1 Sejam (Mi, di), um espa¸cos m´etricos i = 1, 2, · · · , n e M1 × · · · × Mn munido
de uma das trˆes m´etricas usuais.
Ent˜ao M1×· · ·×Mn ´e um espa¸co m´etrico completo se, e somente se, Mi s˜ao espa¸cos m´etricos
completos para i = 1, 2, · · · , n.
Demonstra¸c˜ao:
Segue da proposi¸c˜ao acima e de indu¸c˜ao sobre n ∈ N.
Com isto temos o
Corol´ario 8.2.2 Rn ´e um espa¸co m´etrico completo munido de uma das trˆes m´etricas usuais.
Demonstra¸c˜ao:
Sabemos que Mi
.
= R, i = 1, · · · , n, ´e um espa¸co m´etrico completo.
Logo do corol´ario acima segue que Rn ´e um espa¸co m´etrico completo.
Observa¸c˜ao 8.2.2
1. Uma bola fechada B[a; r] e sua fronteira, S[a; r] em Rn s˜ao espa¸cos m´etricos completos
(pois s˜ao subsconjuntos fechado de Rn que ´e um espa¸co m´etrico completo).
Mais geralmente, se (M, dM ) ´e ´e um espa¸co m´etrico completo ent˜ao as bolas fechadas e as
esferas de M s˜ao espa¸cos m´etricos completos.
2. Por outro lado, nenhuma bola aberta de um espa¸co vetorial normado ser´a um espa¸co
m´etrico completo, pois n˜ao ´e um subconjunto fechado do mesmo.
3. Logo podemos concluir que ”ser completo” n˜ao ´e uma propriedade topol´ogica (ou seja, n˜ao
´e preservada por homeomorfismos) pois uma bola aberta ´e homeomorfa a Rn mas a 1.a
n˜ao ´e um espa¸co m´etrico completo e o 2.o ´e.
Vale o mesmo para produto cartesiano infinito, a saber
Proposi¸c˜ao 8.2.5 Sejam (Mi, di), um espa¸cos m´etricos i ∈ N
Ent˜ao
∞
i=1
Mi ´e um espa¸co m´etrico completo se, e somente se, Mi s˜ao espa¸cos m´etricos
completos para i ∈ N.
272 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Demonstra¸c˜ao:
A demostra¸c˜ao ´e semelhante a da proposi¸c˜ao (8.2.4).
Sabemos que as proje¸c˜oes pj :
∞
i=1
Mi → Mj s˜ao uniformemente cont´ınuas em
∞
i=1
Mi (pois
s˜ao lipischtzianas) e assim, pela proposi¸c˜ao (8.1.5), levam sequˆencias de Cauchy de
∞
i=1
Mi em
sequˆencias de Cauchy de Mj para todo j ∈ N.
Logo dada uma sequˆencia de Cauhcy (zn)n∈N em
∞
i=1
Mi, onde zn = (xnj)j∈N, temos que,
para cada j ∈ N, (xnj)n∈N ser´a uma sequˆencia de Cauchy em Mj.
Como Mj ´e um espa¸co m´etrico completo segue que, para cada j ∈ N, existe xj ∈ Mj tal que
xnj → xj em Mj.
Se z
.
= (xj)j∈N temos que z ∈
∞
i=1
Mi e zn → z em
∞
i=1
Mi, mostrando que
∞
i=1
Mi ´e um esap¸co
m´etrico completo.
Reciprocamente, se
∞
i=1
Mi ´e um espa¸co m´etrico completo, a = (an) ∈
∞
i=1
Mi e, para cada
j ∈ N, temos que (xnj)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em Mj ent˜ao como
faj : Mj → {a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · ·
dada por
faj (xj)
.
= (a1, · · · , aj−1, xj, αj+1, · · · )
´e uma isometria de Mj em {a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · · .
Mas {a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · · ´e um subespa¸co m´etrico fechado de
∞
i=1
Mi, logo,
pela proposi¸c˜ao (8.2.3) item 1, um espa¸co m´etrico completo.
Logo, para cada j ∈ N, temos que a sequˆencia (faj (xnj))n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em
{a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · · , que ´e um espa¸co m´etrico completo, ou seja, existe
Xj
.
= (a1, · · · , aj−1, xj, aj+1, · · · ) ∈ {a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · ·
tal que xnj → Xj em {a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · · .
Como faj ´e isometria de Mj em {a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · · segue que xnj → xj
em Mj para cada j ∈ N, mostrando que Mj ´e um espa¸co m´etrico completo para todo j ∈ N.
Observa¸c˜ao 8.2.3 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico, X = ∅ e para α : X → M fixada,
consideremos
Bα(X; M)
.
= {f : X → M : sup
x∈X
dM (f(x), α(x))  ∞},
que torna-se um espa¸co m´etrico quando munido da m´etrica d : Bα(X; M)×Bα(X; M) → R dada
por
d(f, g)
.
= sup
x∈X
dM (f(x), g(x)), f, g ∈ Bα(X; M).
Proposi¸c˜ao 8.2.6 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo.
Ent˜ao Bα(X; M)
.
= {f : X → M : sup
x∈X
dM (f(x), α(x))  ∞}, ´e um espa¸co m´etrico completo.
8.2. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS 273
Demonstra¸c˜ao:
Consideremos (fn)n∈N uma sequˆencia de Cauchy em Bα(X; M).
Logo esta sequˆencia ser´a limitada, isto ´e, existe C  0 tal que
d(fn, α) ≤ C,
ou seja,
sup
x∈X
dM (f(x), α(x)) = dM (fn(x), α(x)) ≤ C, para todo n ∈ N e x ∈ X. (∗)
Fixando-se x0 ∈ X temos que
dM (fn(x0), fm(x0)) ≤ sup
x∈X
dM (fn(x), fm(x)),
logo, como (fn)n∈N uma sequˆencia de Cauchy em Bα(X; M) segue que a seguˆencia (fn(x0))n∈N
ser´a um sequˆencia de Cauchy em M.
Mas M ´e um espa¸co m´etrico completo, logo existe f(x0) ∈ M tal que
fn(x0) → f(x0)
para cada x0 ∈ X.
Com isto temos definida uma fun¸c˜ao f : X → M.
Observemos que para cada x ∈ X, da continuidade da fun¸c˜ao dM (., α(x)) e de (*), segue que
dM (f(x), α(x)) = dM ( lim
n→∞
fn(x), α(x)) = lim
n→∞
dM (fn(x), α(x)) ≤ C,
mostrando que f ∈ Bα(X; M).
Mostremos que fn
u
→ f em M.
Dado ε  0 temos que existe n0 ∈ N tal que se
n, m  n0 temos d(fn, fm)  ε,
ou seja,
n, m  n0 temos dM (fn(x), fm(x))  ε, para todo x ∈ X. (∗∗)
Fazendo m → ∞ em (**) obteremos
n  n0 temos dM (fn(x), f(x))  ε, para todo x ∈ X,
mostrando que fn
u
→ f, e assim (Bα(X; M), d) ´e um espa¸co m´etrico completo.
Como consequˆencia temos o
Corol´ario 8.2.3 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo, X = ∅ e (fn)n∈N uma sequˆencia
de fun¸c˜oes fn : X → M, n ∈ N.
A sequˆencia (fn)n∈N converge uniformemente em X se, e somente se, dado ε  0 existir
n0 ∈ N tal que se
n, m  n0 temos dM (fn(x), fm(x))  ε, para todo x ∈ X. (∗)
274 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Demonstra¸c˜ao:
Se fn
u
→ f ent˜ao dado ε = 1 existe n0 ∈ N tal que se
n  n0 temos dM (fn(x), f(x))  1, para todo x ∈ X,
ou seja, fn ∈ Bf (X; M) se n  n0 e fn → f em Bf (X; M).
Logo sequˆencia (fn)n∈N dever´a ser uma sequˆencia de Cauchy em Bf (X; M), isto ´e, ε  0
existir n0 ∈ N tal que se
n, m  n0 temos dM (fn(x), fm(x))  ε, para todo x ∈ X.
Reciprocamente, tomandos-e ε = 1 em (*) temos que existe n0 ∈ N tal que se
n  n0 temos dM (fn0+1(x), fn(x))  1, para todo x ∈ X,
ou seja, fn ∈ Bfn0+1 (X; M) se n  n0.
Al´em disso, a condi¸c˜ao (*) nos diz que a sequˆencia (fn)nn0 ´e uma sequˆencia de Cauchy em
Bfn0+1 (X; M) que, pela proposi¸c˜ao anterior, ´e um espa¸co m´etrico completo.
Logo existe f ∈ Bfn0+1 (X; M) tal que fn→f em f ∈ Bfn0+1 (X; M), ou seja, fn
u
→ f,
completando a demonstra¸c˜ao.
Observa¸c˜ao 8.2.4 O resultado acima ´e conhecido como crit´erio de Cauchy para con-
vergˆencia uniforme de sequˆencias de fun¸c˜oes.
At´e aqui para a 2.a Prova
2.12.2008 - 32.a
8.3 Espa¸cos de Banach e espa¸cos de Hilbert
Defini¸c˜ao 8.3.1 Um espa¸co vetorial normado completo ser´a dito espa¸co de Bancah.
A segui daremos alguns exemplos de espa¸co de Banach.
Exemplo 8.3.1 Vimos que Rn munido de uma das trˆes normas usuais ´e um espa¸co de Banach.
Exerc´ıcio 8.3.1 Sejam (E, . E), (F, . F ) espa¸cos vetoriais normados e L(E; F) o espa¸co ve-
torial normado formado pelas transforma¸c˜oes lineares f : E → F que s˜ao cont´ınuas em E,
munido da norma do supremo na esfera unit´aria, isto ´e,
f L(E;F)
.
= sup{ f(x) F : x ∈ E, x E = 1}.
Lembremos que se f ∈ L(E; F) ent˜ao, para todo x ∈ E temos que
f(x) F ≤ f L(E;F) x E.
Lembremos tamb´em que f : E → F transforma¸c˜ao linear ser´a cont´ınua em E se, e somente
se, f|S
: S → F for limitada em S, onde S
.
= {x ∈ E : x E = 1} (no teorema (3.5.2) temos
que 1. se, e somente se, 3.).
Al´em disso, temos que
fn → f em L(E; F) se, e somente se fn − f L(E;F )
→ 0 em R,
8.3. ESPAC¸OS DE BANACH E ESPAC¸OS DE HILBERT 275
ou, equivalentemente,
fn
u
→ f em S. (∗)
Afirmamos que se (F, . F ) ´e um espa¸co de Banach ent˜ao (L(E; F), . sup) tamb´em ser´a um
espa¸co de Banach.
De fato, mostremos que (L(E; F), . L(E;F )
) um espa¸co m´etrico completo.
Para isto seja (fn)n∈N uma sequˆencia de Cauchy em (L(E; F), . L(E;F )
).
Logo (fn|S
)n∈N uma sequˆencia de Cauchy em (B(S; F), . L(E;F )
).
Como (F, . F ) ´e um espa¸co m´etrico completo segue, da proposi¸c˜ao (8.2.6), que (B(S; F), . L(E;F )
)
´e um espa¸co m´etrico completo.
Logo existe f0 ∈ (B(S; F), . L(E;F )
) tal que fn
u
→ f0 em S.
Seja f : E → F a extens˜ao de f0 : S → F definida por
f(λu)
.
= λf(u), λ ∈ R, u ∈ S. (∗∗)
Temos que
lim
n→∞
fn(0) = 0 = f(0),
x = 0 temos
lim
n→∞
fn(x) = lim
n→∞
fn( x E
x
x E
)
[fn ´e linear]
= x E lim
n→∞
fn(
x
x E
)
[ x
x E
∈S e (∗)]
= x Ef0(
x
x E
)
[(∗∗) com λ= x E]
= f( x E
x
x E
) = f(x),
mostrando que fn
p
→ f em E, isto ´e,
lim
n→∞
fn(x) = f(x), x ∈ E.
Como fn : E → F ´e uma transforma¸c˜ao linear de E em F segue, da identidade acima, que
f : E → F tamb´em ser´a uma transforma¸c˜ao linear de E em F (a verifica¸c˜ao disto ´e imediata e
ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor).
Como f|S
= f0 ∈ B(S; F), segue que f ∈ L(S; F).
Al´em disso, fn|S
u
→ f|S
, logo fn
u
→ f em (L(S; F), . L(E;F )
) (pois a na norma . L(E; F) s´o
´e levado em conta os pontos de S), completando demonstra¸c˜ao da nossa afirma¸c˜ao.
Exemplo 8.3.2 Sejam X = ∅, (M, dM ) espa¸co m´etrico, (E, . E) um espa¸co vetorial normado
e (F, . F ) um espa¸co de Banach.
Ent˜ao segue das proposi¸c˜oes (8.2.6), (6.5.3) que os espa¸cos vetoriais normados
(B(X; F), . sup), (C0(X; F), . sup),
s˜ao espa¸cos de Banach.
A verifica¸c˜ao destes fatos ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor.
Observa¸c˜ao 8.3.1 Ser´a provado no pr´oximo cap´ıtulo que todo espa¸co vetorial normado de di-
mens˜ao finita ´e um espa¸co de Banach.
A dimens˜ao ser finita ser´a essencial no resultado acima, como mostra o seguinte exemplo.
276 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Exemplo 8.3.3 Consideremos P([0, 1]) o espa¸co vetorial formado por todas as fun¸c˜oes polino-
miais reais p : [0, 1] → R definidas no intervalo [0, 1] (a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixada como
exerc´ıcio para o leitor).
Consideremos em P([0, 1]) a seguinte norma: se p ∈ P([0, 1]) definamos
p
.
= sup
0≤t≤1
|p(t)|.
Deixaremos para o leitor a verifica¸c˜ao de fato isto define uma norma em P([0, 1]).
Afirmamos que (P([0, 1]), . ) n˜ao ´e um espa¸co de Banach, isto ´e, n˜ao ´e um espa¸co m´etrico
completo.
De fato, a sequˆencia (pn)n∈N de (P([0, 1]) dada por
pn(x)
.
= 1 + x + · · · ,
xn
n!
, 0 ≤ x ≤ 1
converge uniformemente para a fun¸c˜ao f(x)
.
= ex, x ∈ [0, 1] (na verdade vale em toda R).
Ser´a deixado para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato.
Observemos que f n˜ao ´e uma fun¸c˜ao polinˆomial (por que?).
Logo a sequˆencia (pn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em (P([0, 1]) que n˜ao ´e convergente
em (P([0, 1]), . ), mostrando assim que (P([0, 1]), . ) n˜ao ´e um espa¸co m´etrico completo.
Defini¸c˜ao 8.3.2 Diremos que um espa¸co vetorial com produto interno (E,  ., . ) ´e um espa¸co
de Hilbert se ele for um espa¸co m´etrico completo.
Exemplo 8.3.4 O espa¸co Rn com o produto interno usual ´e um espa¸co de Hilbert (pois Rn
munido da norma usual ´e um espa¸co de Banach, logo ´e um espa¸co m´etrico completo).
Exemplo 8.3.5 Consideremos
l2(R)
.
= {x = (xn)n∈N :
∞
n=1
x2
n  ∞}, (∗)
isto ´e, o conjunto formado pelas sequˆencias de n´umeros reais cujo s´erie dos elementos ao
quadrado ´e convergente em R.
Observemos que R∞ ⊆ l2(R). (onde R∞ que ´e o espa¸co vetorial das sequˆencias quase nulas,
foi definido e estudado no exemplo (3.5.2)).
Afirmamos que l2(R) ´e um espa¸co vetorial sobre R quando munido das opera¸c˜oes de adi¸c˜ao
de sequˆencias e multipica¸c˜ao de n´umero real por sequˆencias.
De fato, se x = (xn)n∈N e lambda ∈ R, para cada k ∈ N temos
k
n=1
(λxn)2
= λ2
k
n=1
x2
n ≤ λ2
∞
n=1
x2
n
(∗)
 ∞.
Logo fazendo k → ∞ teremos que
∞
n=1
(λxn)2
≤ λ2
∞
n=1
x2
n  ∞,
mostrando que λx ∈ l2(R).
8.3. ESPAC¸OS DE BANACH E ESPAC¸OS DE HILBERT 277
Se x = (xn)n∈N, y = (yn)n∈N ∈ l2(R) ent˜ao, da deisigualdade de Cauhcy-Schwarz temos,
para cada k ∈ N, que
|
k
n=1
xn.yn| ≤
k
n=1
x2
n.
k
n=1
y2
n ≤
∞
n=1
x2
n.
∞
n=1
y2
n  ∞. (∗∗)
Assim
∞
n=1
xn.yn ser´a convergente em R.
Logo para cada k ∈ N temos
k
n=1
(xn + yn)2
=
k
n=1
x2
n +
k
n=1
y2
n + 2
k
n=1
xn.yn ≤
∞
n=1
x2
n +
∞
n=1
y2
n + 2
∞
n=1
xn.yn
[(∗) e (∗∗)]
 ∞.
Logo fazendo k → ∞ teremos que
∞
n=1
(xn + yn)2
≤
∞
n=1
x2
n +
∞
n=1
y2
n + 2
∞
n=1
xn.yn  ∞,
mostrando que (x + y) ∈ l2(R).
Com isto pode-se mostrar que l2(R) ´e um espa¸co vetorial sobre R (ser´a deixado com exerc´ıcio
para o leitor).
Definamos
 ., . 2: l2(R) × l2(R) → R
por
 x, y 2
.
=
∞
n=1
xn.yn, x = (xn)n∈N, y = (yn)n∈N ∈ l2(R).
Segue de (**) que  ., . 2 est´a bem definida.
Al´em disso, pode-se mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que  ., . 2 ´e um
produto interno em l2(R).
Com isto (l2(R),  ., . 2) ´e um espa¸co vetorial sobre R com produto interno.
Afirmamos que (l2(R),  ., . 2) ´e um espa¸co de Hilbert.
De fato, consideremos . 2 : l2(R) → R a norma associada ao produto interno  ., . 2, isto
´e,
x 2
.
=  x, x 2, x ∈ l2(R).
Seja (xk)k∈N uma sequˆencia de Cauchy em l2(R), isto ´e, dado ε  0 existe n0 ∈ N tal que se
n, m  n0 teremos xn − xm 2  ε. (∗ ∗ ∗)
Como (xk)k∈N ∈ l2(R) segue que pacada k ∈ N temos que xk = (xki)i∈N e
∞
i=1
x2
ki  ∞.
Logo (***) ´e equivalente a
n, m  n0 teremos
∞
i=1
(xni − xmi)2  ε, (∗ ∗ ∗∗)
278 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
em particular, para todo j ∈ N se
n, m  n0 teremos |xnj − xmj| ≤
∞
i=1
(xni − xmi)2  ε,
mostrando que, para cada j ∈ N, a sequˆencia (xnj)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em R.
Mas R ´e um espa¸co m´etrico completo, logo, para cada j ∈ N, existe aj ∈ R tal que
lim
n→∞
xnj = aj.
Seja a
.
= (aj)j ∈ N.
Mostremos que a ∈ l2(R) e que xk → a em l2(R).
Para tanto, observemos que de (****) segue que para todo p ∈ N temos que se
n, m  n0 teremos
p
i=1
(xni − xmi)2
≤
∞
i=1
(xni − xmi)2
 ε2
.
Fazendo m → ∞ obtemos
n  n0 teremos
p
i=1
(xni − ai)2
 ε2
para todo n, i ∈ N.
Fazendo p → ∞ obtemos
n  n0 teremos
∞
i=1
(xni − ai)2
 ε2
, (∗ ∗ ∗ ∗ ∗)
mostrando que
xn − a ∈ l2(R).
Mas
a = xn + (a − xn) ∈ l2(R),
e com sito temos que a ∈ l2(R).
Logo (*****) pode ser reescrita como
n  n0 teremos xn − ai 2  ε2
,
ou seja, xn → a em l2(R), completando o exemplo.
Exemplo 8.3.6 Consideremos o conjunto formado por todas as sequˆencias de n´umeros reais ,
x = (xi)i∈N ∈
∞
i=1
Ri onde Ri = R para todo i ∈ N, que ser´a indicado por RN.
Vamos introduzir em RN a seguinte m´etrica: dN : RN × RN → R dada por
dN(x, y)
.
=
∞
i=1
1
2i
|xi − yi|
1 + |xi − yi|
,
onde x = (xi)i∈N, y = (yi)i∈N ∈ RN.
8.3. ESPAC¸OS DE BANACH E ESPAC¸OS DE HILBERT 279
Como
1
2i
|xi − yi|
1 + |xi − yi|
≤
1
2i
, i ∈ N
e a s´erie num´erica
∞
i=1
1
2i
´e convergente em R (pois ´e uma s´erie geom´etrica de raz˜ao
1
2
que ´e
menor que 1), segue que dN est´a bem definida e pode-se mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio
para o leitor) que ´e uma m´etrica em RN.
A m´etrica dN ser´a dita m´etrica produto.
Observemos que uma sequˆencia (xn)n∈N em RN ´e convergente para x ∈ RN se, e somente se,
dN(xn, x)
.
=
∞
i=1
1
2i
|xni − xi|
1 + |xni − xi|
→ 0 quando n → ∞,
ou equivalentemente, para todo i ∈ N temos
1
2i
|xni − xi|
1 + |xni − xi|
→ 0 quando n → ∞,
ou ainda, para todo i ∈ N
|xni − xi|
1 + |xni − xi|
→ 0 quando n → ∞,
que ´e equivalente a, para todo i ∈ N
|xni − xi| → 0 quando n → ∞,
ou seja, para todo i ∈ N
xni → xi quando n → ∞.
Conclus˜ao:
xn → {x em RN
se, e somente se, para todo i ∈ N temos xni → xi em R.
Logo (RN, dN) ´e um espa¸co vetorial m´etrico completo.
Observa¸c˜ao 8.3.2
1. Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e RN como acima.
Lembremos que uma fun¸c˜ao f : M → RN ´e cont´ınua em M se, e somente se, para todo
i ∈ N a i-´esima fun¸c˜ao coordenada de f, fi : M → Ri for cont´ınua em R (vale observar
que fi = pi ◦f onde pi : M → Ri ´e a i-´esima proje¸c˜ao de RN sobre Ri dada por pi(x)
.
= xi,
onde x = (xn)n∈N ∈ RN, i ∈ N).
Isto coincide com o que hav´ıamos feito para o caso Rn, n ∈ N.
2. Observememos que B(N; R), o conjunto das sequˆencias limitadas em R pode ser visto como
um subespa¸co vetorial de RN.
No 1.o consideramos a m´etica da convergˆencia uniforme, isto ´e,
d (x, y) = sup
i∈N
|xi − yi|
onde x = (xi)i∈N, y = (yi)i∈N ∈ B(N; R).
280 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
3. Vale observar que a m´etrica da convergˆencia uniforme ´e mais fina que a m´etrica induzida
em B(N; R) pela m´etrica de RN.
De fato, se x = (xi)i∈N, y = (yi)i∈N ∈ B(N; R) temos que
|xi − yi| ≤ d (x, y), para todo i ∈ N. (∗)
Logo se xn → a em (B(N; R), d ), onde a = (ai)i∈N ∈ B(N; R), segue, de (*), que
xni → ai para todo i ∈ N.
Logo, do exemplo acima temos que
xn → a em RN
.
4. N˜ao vale a rec´ıproca, isto ´e, existem sequˆencia em B(N; R) que convegem em RN mas n˜ao
s˜ao convergentes em (B(N; R), d ), como por exemplo:
Consideremos en
.
= (0, · · · , 0, 1
n−´esima posi¸c˜ao
, 0, · · · ), n ∈ N.
Ent˜ao en → 0 em RN (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato)
mas en → 0 em (B(N; R), d ) (pois en d = 1 = 0).
Conclus˜ao: d ´e mais fina que dN mas dN n˜ao ´e mais fina que d em (B(N; R).
5. Para finalizar observemos que
l2(R) ⊆ B(N; R) ⊆ RN
.
Se xn → a em (l2(R), d2), onde xn = (xni)i∈N e an = (ani)i∈N, ent˜ao dado ε  0 existe
n0 ∈ N tal que se
n  n0 teremos
∞
i=1
(xni − ai)2  ε,
logo, para todo i ∈ N, se
n  n0 teremos |xni − ai|  ε,
ou ainda,
n  n0 teremos d (x, a) = sup
i∈N
|xni − ai|  ε,
ou seja, xn → a em (B(N; R), d ).
Conclus˜ao: se xn → a em (l2(R), d2) ent˜ao xn → a em (B(N; R), d ).
Logo d2 ´e mais fina que d que ´e estritamente mais fina que dN.
Observemos que d n˜ao ´e mais fina que d2, como mostra o seguinte exemplo: considereos
(xn)n∈N a sequˆencia em l2(R) onde
xn = (
1
√
n
,
1
√
n
, · · · ,
1
√
n
n−primeiras posi¸c˜oes
, 0, · · · )
8.4. EXTENS ˜AO DE FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS OU UNIFORMEMENTE CONT´INUAS 281
Temos que xn → 0 (pois d (xn, 0) = sup
i∈N
|xni − 0| =
1
√
n
→ 0 quando n → ∞) mas
d2(xn, 0) =
∞
i=1
(xni − 0)2 =
n
i=1
(
1
√
n
)2 = n
1
n
= 1
mostrando que xn → 0 em l2(R).
Portanto podemos concluir que d2 ´e estritamente mais fina que d que ´e estritamente mais
fina que dN.
6. Nas situa¸c˜oes acima temos que:
(a) (l2(R),  ., . 2) ´e um espa¸co de Hilbert;
(b) (B(N; R), . ) ´e um espa¸co de Banach (mas n˜ao ´e um espa¸co de Hilbert, ou seja, sua
norma n˜ao prov´em de um produto interno; verifique se a identidade do paralelogramo
est´a satisfeita);
(c) (RN, dN) ´e um espa¸co vetorial m´etrico completo (mas n˜ao ´e um espa¸co de Banach;
verifique que n˜ao temos dN(λx, λy) = λdN(x, y) para todo λ ∈ R e x, y ∈ RN).
(d) As fun¸c˜oes s : RN × RN → RN, m : R × RN → RN dadas por
s(x, y)
.
= x + y, m(λ, x)
.
= λ.x, x, y ∈ RN
, λ ∈ R
s˜ao cont´ınuas em RN × RN e R × RN, respectivamente.
A verifica¸c˜ao deste fatos ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor.
Neste caso diremos que (RN, dN) ´e um espa¸co vetorial topol´ogico.
Por ser completo e suas bolas serem convexas ele ser´a denominado espa¸co de Fr´echet.
8.4 Extens˜ao de fun¸c˜oes cont´ınuas ou uniformemente cont´ınuas
Defini¸c˜ao 8.4.1 Sejam X ⊆ Y , e f : X → Z uma fun¸c˜ao.
Diremos que F : Y → Z ´e uma extens˜ao da fun¸c˜ao f a Y se para todo x ∈ X temos
F(x) = f(x),
ou seja, F|X
= f.
Neste caso diremos que a fun¸c˜ao f se estende a Y .
De modo semelhante temos a
Defini¸c˜ao 8.4.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, X ⊆ M e f : X → N uma
aplica¸c˜ao cont´ınua em X.
Diremos que F : M → N ´e uma extens˜ao cont´ınua de f a Y se F for uma fun¸c˜ao cont´ınua
em M e se ´e uma extens˜ao da fun¸c˜ao f a M (isto ´e, para todo x ∈ M temos F(x) = f(x), ou
ainda, F|M
= f).
Observa¸c˜ao 8.4.1
282 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
1. Observemos que nem toda fun¸c˜ao f : X → N cont´ınua em X tem uma extens˜ao F : M →
N cont´ınua em M.
Para ver isto, consideremos o seguinte exemplo: f : (0, 1) → R dada por f(x)
.
=
1
x(x − 1)
,
x ∈ (0, 1) n˜ao possui uma extens˜ao cont´ınua ao intervalo [0, 1] (pois n˜ao existem os limites
laterais lim
x→0+
f(x) e lim
x→1−
f(x)).
2. Come¸caremos obtendo uma extens˜ao da fun¸c˜ao f : X → N cont´ınua em X a todo M
quando X for denso em M, isto ´e, X = M.
Com isto temos a
Proposi¸c˜ao 8.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, X ⊆ M e f : X → N uma
aplica¸c˜ao cont´ınua em X.
Existe uma extens˜ao cont´ınua de f a X se, e somente se, para todo a ∈ X existe lim
x→a, x∈X
f(x).
Demonstra¸c˜ao:
Se existe F : X → N extens˜ao cont´ınua de f a X ent˜ao dado a ∈ X temos que
lim
x→a, x∈X
f(x)
[F(x)=f(x),x∈X]
= lim
x→a
F(x)
[F ´e cont´ınua em a]
= F(a),
ou seja, existe
lim
x→a, x∈X
f(x).
Reciprocamente, se existe lim
x→a, x∈X
f(x), definindo F : X → N por
F(x)
.
=



f(x), x ∈ X
lim
y→x, y∈X
f(y), x ∈ X  X
,
segue da proposi¸c˜ao (6.7.2) que F ´e cont´ınua em X, logo ser´a um extens˜ao cont´ınua da fun¸c˜ao
f a X.
Observa¸c˜ao 8.4.2 Se existir a extens˜ao cont´ınua de f : X → N a X ent˜ao ela ser´a ´unica.
De fato, para todo a ∈ X temos que o valor lim
x→a,x∈X
f(x) (que ´e F(a)) ´e unicamente deter-
minado pelos valores de f em X.
Proposi¸c˜ao 8.4.2 (Crit´erio de Cauchy) Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, (N, dN ) espa¸co m´etrico
completo, X ⊆ M, f : X → N uma fun¸c˜ao e a ∈ X.
Existe lim
x→a, x∈X
f(x) em N se, e somente se, dado ε  0 existe δ  0 tal que se
dM (x, a), dM (y, a)  δ, x, y ∈ X implicar dN (f(x), f(y))  ε. (∗)
Demonstra¸c˜ao:
Se lim
x→a, x∈X
f(x) = b ∈ N, dado ε  0 existe δ  0 tal que se
x ∈ X, dM (x, a)  δ ent˜ao dN (f(x), b) 
ε
2
. (∗)
8.4. EXTENS ˜AO DE FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS OU UNIFORMEMENTE CONT´INUAS 283
Logo se
x, y ∈ X, dM (x, a), dM (y, a)  δ ent˜ao dN (f(x), f(y)) ≤ dN (f(x), b)+dN (b, f(y))
(∗)

ε
2
+
ε
2
= ε.
Reciprocamente, seja (xn)n∈N ´e uma sequˆencia em X tal que xn → a em M ent˜ao, de (*),
segue que dado ε  0 existe δ  0 e, como xn → a, existir´a n0 ∈ N tal que se
n, m  n0 teremos dM (xn, a), dM (xm, a)  δ, e (*) implicar´a dN (f(xm), f(xn))  ε,
ou seja, (f(xn))n∈N ser´a uma sequˆencia de Cauchy em N, que ´e um espa¸co m´etrico completo.
Logo existe lim
n→∞
f(xn) = b ∈ N.
Segue da observa¸c˜ao (6.4.1) item 2. temos que existe lim
x→a, x∈X
f(xn) em N, como quer´ıamos
mostrar.
Como consequˆencia temos
Proposi¸c˜ao 8.4.3 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, (N, dN ) espa¸co m´etrico completo, X ⊆ M
e f : X → N uma aplica¸c˜ao uniformemente cont´ınua em X.
Existe uma, ´unica, F : X → N extens˜ao cont´ınua de f a X.
Al´em disso, F ser´a uniformemente cont´ınua em X.
Demonstra¸c˜ao:
Como f ´e uniformemente cont´ınua em X, dado ε  0 existe δ  0 tal que se
dM (x, y)  δ, x, y ∈ X implicar dN (f(x), f(y))  ε. (∗)
Logo, se a ∈ X, existe x, y ∈ X tal que
dM (x, a) 
δ
2
, dM (y, a) 
δ
2
,
logo
dM (x, y) ≤ dM (x, a) + dM ((a, y) 
δ
2
+
δ
2
= δ.
Portando, de (*), segue que
dN (f(x), f(y))  ε.
Portanto, pelo crit´erio de Cauchy (proposi¸c˜ao (8.4.2)) segue que existe lim
x→a, x∈X
f(x) em N.
Assim, da proposi¸c˜ao (6.7.2), segue que F : X → N dada por
F(y)
.
=



f(y) se y ∈ X
lim
x→y
f(x) se y ∈ X  X
ser´a cont´ınua em X.
Mostremos que F ´e uniformemente cont´ınua em X.
Dado ε  0, como f ´e uniformemente cont´ınua em X, existe δ  0 tal que se
dM (x, y)  δ, x, y ∈ X implicar dN (f(x), f(y)) 
ε
2
. (∗∗)
284 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Se u, v ∈ X s˜ao tais que
dM (x, y)  δ,
ent˜ao existem sequˆencias (xn)n∈N, (yn)n∈N em X tais que xn → u e yn → v em X.
Como a fun¸c˜ao dM ´e cont´ınua em M (logo em X), existe n0 ∈ N, tal que se
n  n0 teremos dM (xn, yn)  δ.
Logo, de (**), segue que, se
n  n0 teremos dM (f(xn), f(yn)) 
ε
2
.
Assim, para u, v ∈ X se dM (u, v)  δ teremos
dN (F(u), F(v)) = dN ( lim
n→∞
f(xn), lim
n→∞
f(yn))
[dM ´e cont´ınua]
= lim
n→∞
dN (f(xn), f(yn)) ≤
ε
2
 ε,
mostrando que F ´e uniformemente cont´ınua em X.
Como consequˆencia temos o
Corol´ario 8.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos completos, X ⊆ M, Y ⊆ N e
f : X → Y um homeomorfismo uniforme de X em Y .
Existe uma, ´unica, F : X → Y extens˜ao de f a X homeomorfismo uniforme de X sobre Y .
Demonstra¸c˜ao:
Observemos que X e Y s˜ao subespa¸cos m´etricos completos de M e N, respectivamente (pois
s˜ao subconjuntos fechados dos espa¸cos m´etricos completos M e N, respectivamente).
Seja g = f−1 : Y → X o homeomorfismo inverso associado a f.
Sabemos, do corol´ario (8.4.3), segue que existem, ´unicas, extens˜oes, F : X → Y , G : Y → X
que s˜ao uniformemente cont´ınuas em X e Y , respectivamente.
Observemos que, para x ∈ X, y ∈ Y temos que
(G ◦ F)(x) = (g ◦ f)(x) = x = idX(x), e (F ◦ G)(y) = (f ◦ g)(y) = y = idY (y).
Como X ´e denso X e Y ´e denso Y temos que G ◦ F = idX e F ◦ G = idY , logo G = F−1 e
assim F, a ´unica extens˜ao de f a X, ser´a um homeomorfismo uniforme de X sobre Y .
Observa¸c˜ao 8.4.3 A hip´otese do espa¸co m´etrico N ser completo ´e necess´aria para que proposi¸c˜ao
(8.4.3) seja v´alida.
O seguinte exemplo mostra este fato:
A aplica¸c˜ao identidade id : Q → Q, que ´e uniformemente cont´ınua em Q, n˜ao possui uma
extens˜ao F : R → Q cont´ınua em R, exceto se F for constante.
De fato, se F ´e cont´ınua em R segue que F(R) ser´a conexo em Q, assim dever´a ser igual a
um ponto, logo F ser´a constante e portanto n˜ao poder´a ser uma extens˜ao da fun¸c˜ao id.
Para finalizar temos o
Corol´ario 8.4.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos completos, X ⊆ M, Y ⊆ N e
f : X → Y uma isometria de X em Y .
Existe uma, ´unica, F : X → Y extens˜ao de f a X que ´e uma isometria de X em Y .
8.5. COMPLETAMENTE DE UM ESPAC¸O M´ETRICO 285
Demonstra¸c˜ao:
Como f ´e isometria de X em Y segue que f ´e um homeomorfismo uniforme de X em Y .
Logo do corol´ario (8.4.1) segue que existe uma ´unica extens˜ao de f , F : X → Y , que ´e um
homeomorfismo uniforme de X sobre Y .
Mostremos que F ´e isometria de X sobre Y .
Para isto sejam, x, y ∈ X e sejam (xn)n∈N) e (yn)n∈N) sequˆencias en X e Y , respectivamente,
tais que
xn → x, em X yn → y em Y.
Mas
dN (F(x), F(y)) = dN ( lim
n→∞
f(xn), lim
n→∞
f(yn))
[dN ´e cont´ınua em Y ]
= lim
n→∞
dN (f(xn), f(yn))
[f ´e isometria de X sobre Y ]
= lim
n→∞
dM (xn, yn)
[dM ´e cont´ınua em X]
= dM ( lim
n→∞
xn, lim
n→∞
yn)
= dM (x, y),
ou seja, F ´e uma isometria de X em Y .
8.5 Completamente de um espa¸co m´etrico
Observa¸c˜ao 8.5.1
1. Dado um espa¸co m´etrico (M, dM ) mostraremos nesta se¸c˜ao que sempre existir´a um espa¸co
m´etrico completo (M, dM
) que contenha M como subespa¸co m´etrico.
2. Lembremos que um subconjunto fechado de um espa¸co m´etrico completo ´e um subsepa¸co
m´etrico completo, logo o fecho de M em M ser´a um subsepa¸co m´etrico completo e conter´a
M, logo ser´a o suficiente para o que queremos.
Logo basta impor a condi¸c˜ao que M seja denso no seu ”completamento”.
3. Para encontrar o ”completamento” de M basta que encontremos uma imers˜ao isom´etrica
ϕ : M → N
onde (N, dN ) seja um espa¸co m´etrico completo.
De fato, pois neste caso temos que M = ϕ(M) ser´a um subconjunto fechado de um espa¸co
m´etrico completo, N, logo dever´a ser um subespa¸co m´etrico completo.
Portanto ϕ(M) ´e espa¸co m´etrico completo e assim este ser´a tomado como o ”completa-
mente” de M, j´a que ϕ(M) ´e isom´etrico a M.
Com isto temos a
Defini¸c˜ao 8.5.1 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico.
Um completamente de M ´e um par (M, ϕ) onde (M, dM
) ´e um espa¸co m´etrico completo
e ϕ : M → M ´e uma imers˜ao isom´etrica cuja imagem ´e densa em M.
Observa¸c˜ao 8.5.2 Frequentemente escreveremos M ⊆ M, identificando M com sua imagem
pela aplica¸c˜ao ϕ, ϕ(M) (observemos que ϕ ´e injetora).
286 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Exemplo 8.5.1 Consideremos Q com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R.
Ent˜ao o completamente de Q ser´a (R, iQ) onde iQ : Q → R ´e a aplica¸c˜ao inclus˜ao (que ´e
uma imers˜ao isom´etrica).
De fato, pois neste caso temos i(Q) = Q = R que ´e um espa¸co m´etrico completo.
Mais geralmente temos
Exemplo 8.5.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo e X ⊆ M, X = ∅.
Ent˜ao X em M ´e um completamento de X.
Basta observar que (X, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo, iX : X → X (a inclus˜ao) ´e uma
imers˜ao isom´etrica e iX(X) = X, logo (X, iX) ´e um completamento de X.
Em particular, se [0, 1] est´a a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R ent˜ao o completa-
mento de (0, 1) ser´a [0, 1] (ou, mais precisamente, ([0, 1], i[0,1]), onde i[0,1] ´e a aplica¸c˜ao inclus˜ao).
Temos a
Proposi¸c˜ao 8.5.1 (Existˆencia do completamento) Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico.
Ent˜ao existe um completamento de M.
Demonstra¸c˜ao:
Da proposi¸c˜ao (2.6.1) segue que existe uma imers˜ao isom´etrica ϕ : M → B(M; R), onde
B(M; R) est´a munido da m´etrica da convergˆencia uniforme (isto ´e, do supremo).
O exemplo (8.3.2) nos garante que B(M; R), dsup) ´e um espa¸co m´etrico completo (na verdade
´e um espa¸co de Banach).
Logo basta considerar
M
.
= ϕ(M)
munido da m´etrica induzida pela m´etrica dsup.
Temos tamb´em a
Proposi¸c˜ao 8.5.2 (Unicidade do completamento) Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e (M, ϕ)
e (N, ψ) completamentos de M.
Ent˜ao existe uma isometria f : M → N tal que
f ◦ ϕ = ψ.
O diagram abaixo ilustra a situa¸c˜ao.
) …
E
M
M N
f
ϕ ψ
8.5. COMPLETAMENTE DE UM ESPAC¸O M´ETRICO 287
Demonstra¸c˜ao:
Se y ∈ ϕ(M) ent˜ao existe um, ´unico (pois ϕ ´e injetora) x ∈ M tal que ϕ(x) = y.
Assim podemos definir f0 : ϕ(M) → N por
f0(y)
.
= ψ(x),
onde y = ϕ(x) ∈ ϕ(M).
Em particular temos para x ∈ M que
(f0 ◦ ϕ)(x) = ψ(x)
mostrando que f0 ´e uma isometria de ϕ(M) sobre ψ(M) (pois ϕ e ψ s˜ao uma isometrias entre
as suas respectivas imagens).
Pelo corol´ario (8.4.2) segue que existe uma ´unica isometria f : ϕ(M) = M → ϕ(N) = N que
estende a aplica¸c˜ao f0, ou seja, f ◦ ϕ = ψ, como quer´ıamos mostrar.
Observa¸c˜ao 8.5.3 Observemos que dois espa¸cos m´etricos podem ser homeomorfos e seus com-
pletamentos n˜ao serem homeomorfos.
Para ver isto consideremos o seguinte exemplo:
O completamento de M
.
= (0, 2π) (com a m´etrica induzida de R) ´e [0, 2π].
O completamento de N
.
= S1  {(1, 0)} (com a m´etrica induzida de R2) ´e S1.
Temos que M = (0, 2π) ´e homeomorfoa S1  {(1, 0)} mas M = [0, 2π] n˜ao ´e homeomorfo a
N = S1.
Em geral temos a
Proposi¸c˜ao 8.5.3 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos uniformemente homeomorfos.
Ent˜ao M e N s˜ao uniformemente homeomorfos.
Demonstra¸c˜ao:
Se f : M → N ´e um homeomorfismo uniforme ent˜ao temos o seguinte diagrama
M E N
f
c c
ϕ(M) ψ(N)
E
F
ϕ ψ
T
ϕ−1
ou seja, se F : ϕ(M) → ψ(N) ´e dada por
F(x)
.
= (ψ ◦ f ◦ ϕ−1
)(y), y ∈ ϕ(M)
ent˜ao esta ser´a um homeomorfismo uniforme.
Logo do corol´ario (8.4.1) segue que F tem uma ´unica extens˜ao
F : M = ϕ(M) → N = ψ(M)
que ´e um homeomorfismo uniforme, completando a demostra¸c˜ao.
288 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Proposi¸c˜ao 8.5.4 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos.
Ent˜ao M × N = M × N.
Demonstra¸c˜ao:
De fato, se (M, ϕ) e (N, ψ) s˜ao completamentos de M e N, respectivamente ent˜ao temos que
ϕ(M) = M, ψ(N) = N.
Mas
ϕ(M) × ψ(N) = ϕ(M) × ψ(N) = M × N. (∗)
Logo (ϕ, ψ) : M × N → M × N dada por
(ϕ, ψ)(x, y)
.
= (ϕ(x), ψ(y))
ser´a uma imers˜ao isom´etrica e de (*) segue que (M × N, (ϕ, ψ)) ´e o completamento de M × N.
Exerc´ıcio 8.5.1 Seja (E, . E) um espa¸co vetorial normado e (E, ϕ) seu completamento.
Podemos munir E, de modo ´unico, com uma estrutura de espa¸co vetorial normado que
estende a estrutura correspondente de E.
Para ver isto, observemos que a aplica¸c˜ao
s : E × E → E, s(x, y)
.
= x + y, x, y ∈ E,
´e uma aplica¸c˜ao uniformemente cont´ınua em E × E.
Com isto temos definida a aplica¸c˜ao
S : ϕ(E) × ϕ(E) → ϕ(E), S(X, Y )
.
= [ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1
, ϕ−1
)](X, Y ), X, Y ∈ ϕ(E),
que ´e uma aplica¸c˜ao uniformemente cont´ınua em ϕ(E) × ϕ(E) (pois ϕ : E → ϕ(E) ´e isometria
em E e s ´e uniformemente cont´ınua em E × E) (veja diagrama abaixo).
E × E E E
s
c c
ϕ(E) × ϕ(E) ϕ(E)
E
S
(ϕ, ϕ) ϕ
T
(ϕ−1
, ϕ−1
)
Logo, pela proposi¸c˜ao (8.4.3), segue que se estende, de modo ´unico, a uma aplica¸c˜ao
S : E × E → E
que ser´a uniformemente cont´ınua em E × E.
Temos que S satisfaz as propriedades (A1)-(A4) da defini¸c˜ao de espa¸co m´etrico.
De fato, verificaremos a propriedade comutativa para S em E:
Sejam X, Y ∈ E.
8.5. COMPLETAMENTE DE UM ESPAC¸O M´ETRICO 289
Temos que
X = lim
n→∞
Xn, e Y = lim
n→∞
Yn,
onde (Xn)n∈N e (Yn)n∈N s˜ao sequˆencias em ϕ(E), ou seja, para cada n ∈ N existem, ´unicos,
xn, yn ∈ E (pois ϕ : E → ϕ(E) ´e isometria) tais que
Xn = ϕ(xn) e Yn = ϕ(yn).
Logo
S(X, Y ) = S( lim
n→∞
Xn, lim
n→∞
Yn)
[S ´e cont´ınua em E×E]
= lim
n→∞
S(Xn, Yn)
= lim
n→∞
[ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1
, ϕ−1
)](Xn, Yn) = lim
n→∞
[ϕ ◦ s](ϕ−1
(Xn), ϕ−1
(Yn))
[ϕ−1(Xn)=xn, ϕ−1(Yn)=yn]
= lim
n→∞
[ϕ ◦ s](xn, yn) = lim
n→∞
[ϕ(s(xn, yn))]
[s ´e comutativa em E]
= lim
n→∞
[ϕ(yn + xn)] = lim
n→∞
[(ϕ ◦ s)(yn, xn)]
[ϕ−1(Xn)=xn, ϕ−1(Yn)=yn]
= lim
n→∞
[ϕ ◦ s](ϕ−1
(Yn), ϕ−1
(Xn))
= [ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1
, ϕ−1
)](Yn, Xn) = lim
n→∞
S(Yn, Xn)
[S ´e cont´ınua em E×E]
= S( lim
n→∞
Yn, lim
n→∞
sXn) = S(Y , X),
mostrando que S satisfaz a propriedade comutativa.
Observemos que 0 = ϕ(0) (verifique!).
Al´em disso, como a aplica¸c˜ao
f : E → E
dada por
f(x)
.
= −x, x ∈ E
´e uma isometria ent˜ao a aplica¸c˜ao
F : ϕ(E) → ϕ(E)
dada por
F(X)
.
= [ϕ ◦ f ◦ ϕ−1
](X), X ∈ ϕ(E)
se estende a uma isometria (veja figura abaixo)
F : E → E
E E E
f
c c
ϕ(E) ϕ(E)
E
F
ϕ ϕ
T
ϕ−1
290 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Definamos
−X
.
= F(X),
X ∈ E.
Se X ∈ E temos que
X = lim
n→∞
Xn,
onde (Xn)n∈N ´e uma sequˆencia em ϕ(E), ou seja, para cada n ∈ N existe, ´unico, xn ∈ E tais
que
Xn = ϕ(xn).
S(X, −X) = S(X, F(X)) = S( lim
n→∞
Xn, F( lim
n→∞
Xn))
[F e S s˜ao cont´ınuas]
= lim
n→∞
S(Xn, F(Xn))
= lim
n→∞
[ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1
, ϕ−1
)](Xn, [ϕ ◦ f ◦ ϕ−1
](Xn))]
= lim
n→∞
[(ϕ ◦ s)(ϕ−1
(Xn), f(ϕ−1
(Xn)))] =
[ϕ−1(Xn)=xn]
= lim
n→∞
[(ϕ ◦ s)(xn, f(xn))]
= lim
n→∞
[ϕ(s(xn, −xn))] = lim
n→∞
[ϕ(xn − xn))] = lim
n→∞
[ϕ(0)] = 0,
mostrando que −X ∈ E ´e o vetor oposto do vetor X ∈ E.
A verifica¸c˜ao das outras propriedades ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor.
Sabemos que a aplica¸c˜ao
m : R × E → E
dada por
m(λ, x)
.
= λ.x, (λ, x) ∈ R × E
´e localmente uniformemente cont´ınua em R × E.
Logo podemos considerar a aplica¸c˜ao (veja figura abaixo)
M : R × ϕ(E) → ϕ(E)
dada por
M(λ, X)
.
= (ϕ ◦ m ◦ (id, ϕ−1
))(λ, X), (λ, X) ∈ R × ϕ(E).
R × E E E
m
c c
R × ϕ(E) ϕ(E)
E
M
(id, ϕ) ϕ
T
(id, ϕ−1
)
8.5. COMPLETAMENTE DE UM ESPAC¸O M´ETRICO 291
Observemos que M ´e localmente uniformemente cont´ınua em R × ϕ(E) logo se estende a
uma fun¸c˜ao cont´ınua
M : R × E → E.
Observemos que se X, Y ∈ E e λ ∈ R ent˜ao
X = lim
n→∞
Xn, e Y = lim
n→∞
Yn,
onde (Xn)n∈N e (Yn)n∈N s˜ao sequˆencias em ϕ(E), ou seja, para cada n ∈ N existem, ´unicos,
xn, yn ∈ E (pois ϕ : E → ϕ(E) ´e isometria) tais que
Xn = ϕ(xn) e Yn = ϕ(yn).
Logo
λ.(X + Y ) = M(λ, S(X, Y )) = M(λ, S( lim
n→∞
Xn, lim
n→∞
Yn))
[M,S s˜ao cont´ınuas ]
= lim
n→∞
M(λ, S(Xn, Yn))
= lim
n→∞
M(λ, (ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1
, ϕ−1
))(Xn, Yn)) = lim
n→∞
M(λ, (ϕ ◦ s)(ϕ−1
(Xn), ϕ−1
(Yn)))
[ϕ−1(Xn)=xn, ϕ−1(Yn)=yn]
= lim
n→∞
M(λ, [ϕ ◦ s](xn, yn)) = lim
n→∞
M(λ, ϕ(s(xn, yn)))
= lim
n→∞
[(ϕ ◦ m ◦ (id, ϕ−1
))(λ, ϕ(s(xn, yn)))] = lim
n→∞
[(ϕ ◦ m)(λ, xn + yn)]
= lim
n→∞
[ϕ(λ.(xn + yn))]
[distribuitiva de . em rela¸c˜ao a + em E]
= lim
n→∞
[ϕ(λ.xn + λ.yn)]
= lim
n→∞
[(ϕ ◦ s)(λxn, λyn)] = lim
n→∞
[(ϕ ◦ s)(m(λ, xn), m(λ, yn))]
[xn=ϕ−1(Xn), yn=ϕ−1(Yn)]
= lim
n→∞
[(ϕ ◦ s)(m(λ, ϕ−1
(Xn)), m(λ, ϕ−1
(Yn)))]
= lim
n→∞
[(ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1
, ϕ−1
))((ϕ ◦ m)(λ, ϕ−1
(Xn)), (ϕ ◦ m)(λ, ϕ−1
(Yn)))]
= lim
n→∞
[(ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1
, ϕ−1
))((ϕ ◦ m ◦ (id, ϕ−1
))(λ, Xn), (ϕ ◦ m ◦ (id, ϕ−1
))(λ, Yn))]
= lim
n→∞
S(M(λ, Xn), M(λ, Yn))
[M,S s˜ao cont´ınuas ]
= S(M(λ, lim
n→∞
Xn), M(λ, lim
n→∞
Yn))
= S(M(λ, X), M(λ, Y )) = S(λ.X, λ.Y ) = λX + λY
mostrando que S satisfaz a propriedade distributiva da multiplica¸c˜ao de escalar por elementos
de E.
Deixaremos como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao das propriedades (M2)-(M4) da defin¸c˜ao
de espa¸co vetoriais.
Com isto (E, S, M) torna-se um espa¸co vetorial sobre R, onde as opera¸c˜oes S e , M s˜ao as
extens˜oes das opera¸c˜oes de E, s e m, a E.
A m´etrica dE
em E pode ser reobtida da seguinte forma:
Seja
D : ϕ(E) × ϕ(E) → R
dada por (veja figura abaixo)
D(X, Y )
.
= dM (ϕ−1
(X), ϕ−1
(Y )), X, Y ∈ ϕ(E).
292 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
E × E E E
d
c
ϕ(E) × ϕ(E)

D
(ϕ, ϕ)
T
(ϕ−1
, ϕ−1
)
Como dM ´e imers˜ao isom´etrica e ϕ ´e isometria segue que D ´e uniformemente cont´ınua em
ϕ(E).
Logo admite uma, ´unica, extens˜ao, que ser´a indicada por
d : E × E → R
que ser´a uma m´etrica em E (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato),
cont´ınua em E × E e que coincidir´a com dE
.
Tamb´em ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor, mostrar que as opera¸c˜oes S, M s˜ao
cont´ınuas em rela¸c˜ao a m´etrica d em E.
Observemos que a m´etrica d = dE
prov´em de uma norma.
De fato, se X, Y , A ∈ E ent˜ao
X = lim
n→∞
Xn, e Y = lim
n→∞
Yn, A = lim
n→∞
An
onde (Xn)n∈N, (Yn)n∈N e (An)n∈N s˜ao sequˆencias em ϕ(E), ou seja, para cada n ∈ N existem,
´unicos, xn, yn, an ∈ E (pois ϕ : E → ϕ(E) ´e isometria) tais que
Xn = ϕ(xn), Yn = ϕ(yn) e An = ϕ(an). (∗)
Observemos que se X = ϕ(x), Y = ϕ(y) ∈ ϕ(E), onde x, y ∈ E ent˜ao
ϕ−1
(S(X, Y )) = (ϕ−1
◦ S)(X, Y ) = ϕ−1
[(ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1
, ϕ−1
))(X, Y )] = (s ◦ (ϕ−1
, ϕ−1
))(X, Y )
= s(ϕ−1
(X), ϕ−1
(Y )). (∗∗)
Logo
8.5. COMPLETAMENTE DE UM ESPAC¸O M´ETRICO 293
dE
(X + A, Y + A) =d(X + A, Y + A) = d(S(X, A), S(Y , A))
= d(S( lim
n→∞
Xn, lim
n→∞
An), S( lim
n→∞
Yn, lim
n→∞
An))
[d,S s˜ao cont´ınuas]
= lim
n→∞
d(S(Xn, An), S(Yn, An)) = lim
n→∞
d(S(Xn, An), S(Yn, An))
= lim
n→∞
D(S(Xn, An), S(Yn, An))
= lim
n→∞
dM (ϕ−1
(S(Xn, An)), ϕ−1
(S(Yn, An)))
(∗∗)
= lim
n→∞
dM (s(ϕ−1
(Xn), ϕ−1
(An)), (s(ϕ−1
(Yn), ϕ−1
(An)))
= lim
n→∞
dM (ϕ−1
(Xn) + ϕ−1
(An), ϕ−1
(Yn) + ϕ−1
(An))
[dM prov´em de uma norma]
= lim
n→∞
dM (ϕ−1
(Xn), ϕ−1
(Yn)) = lim
n→∞
D(Xn, Yn)
= lim
n→∞
d(Xn, Yn)
[d ´e cont´ınua]
= = d( lim
n→∞
Xn, lim
n→∞
Yn) = d(X, Y )
= dE
(X, Y ),
mostrando que dE
´e invariante por transla¸c˜oes.
Se X, Y ∈ E e λ ∈ R temos que
X = lim
n→∞
Xn, e Y = lim
n→∞
Yn
onde (Xn)n∈N, (Yn)n∈N s˜ao sequˆencias em ϕ(E), ou seja, para cada n ∈ N existem, ´unicos,
xn, yn ∈ E (pois ϕ : E → ϕ(E) ´e isometria) tal que
Xn = ϕ(xn) e Yn = ϕ(yn). (∗ ∗ ∗)
Observemos que se X = ϕ(x), onde x ∈ E ent˜ao
ϕ−1
(M(λ, X)) = (ϕ−1
◦ M)(λ, X) = ϕ−1
[(ϕ ◦ m ◦ (id, ϕ−1
))(λ, X)] = (m ◦ (id, ϕ−1
))(λ, X)
= m(λ, ϕ−1
(X)). (∗ ∗ ∗)
Logo
294 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
dE
(λX, λY ) =d(λX, λY ) = d(M(λ, X), M(λ, Y ))
= d(M(λ, lim
n→∞
Xn), M(λ, lim
n→∞
Yn))
[d,M s˜ao cont´ınuas]
= lim
n→∞
d(M(λ, Xn), M(λ, Yn)) = lim
n→∞
d(M(λ, Xn), M(λ, Yn))
= lim
n→∞
D(M(λ, Xn), M(λ, Yn))
= lim
n→∞
dM (ϕ−1
(M(λ, Xn)), ϕ−1
(M(λ, Yn)))
(∗∗∗)
= lim
n→∞
dM (m(λ, ϕ−1
(Xn)), m(λ, ϕ−1
(Yn)))
= lim
n→∞
dM (λ.ϕ−1
(Xn), λ.ϕ−1
(Yn))
[dM prov´em de uma norma]
= lim
n→∞
[|λ|dM (ϕ−1
(Xn), ϕ−1
(Yn)) = |λ| lim
n→∞
D(Xn, Yn)
= |λ| lim
n→∞
d(Xn, Yn)
[d ´e cont´ınua]
= = |λ|d( lim
n→∞
Xn, lim
n→∞
Yn) = |λ|d(X, Y )
= |λ|dE
(X, Y ),
mostrando que dE
prov´em de uma norma . E
, assim E, . E
´e um espa¸co de normado.
Observa¸c˜ao 8.5.4 Lembremos que
X E
= dE
(X, 0), X ∈ E,
´e a extens˜ao da norma . E.
8.6 Espa¸co m´etricos topologicamente completos
Observa¸c˜ao 8.6.1
1. Suponhamos que (M, d1) ´e um espa¸co m´etrico.
Pergunta-se: ser´a que existe uma m´etrica d, equivalente `a m´etrica d1, de tal modo que
(M, d) seja um espa¸co m´etrico completo?
2. Esta pergunta ´e equivalente a pergunta se (M, d1) ´e homeomorfo a um espa¸co m´etrico
completo.
De fato, se d1 ´e uma m´etrica em M, equivalente `a m´etrica d, de tal modo que (M, d) seja
um espa¸co m´etrico completo ent˜ao a aplica¸c˜ao identidade
id : (M, d1) → (M, d)
ser´a um homeomorfismo.
Por outro lado, se (M, d1) ´e homeomorfo a (N, dN ), espa¸co m´etrico completo ent˜ao existe
ϕ : (M, d1) → (N, dN ) homeomorfismo.
Logo definido-se
d : M × M → R por d(x, y)
.
= dN (ϕ(x), ϕ(y)), x, y ∈ M,
8.6. ESPAC¸O M´ETRICOS TOPOLOGICAMENTE COMPLETOS 295
segue que d ´e uma m´etrica em M que ´e equivalente a m´etrica d.
Como (N, dN ) ´e um espa¸co m´etrico completo e ϕ : (M, d) → (N, dN ) ´e uma isometria
segue que (M, d) tamb´em ser´a um espa¸co m´etrico completo.
Exemplo 8.6.1 O intervalo aberto (−1, 1), munido da m´etrica d(−1,1) induzida pela m´etrica
usual de R, n˜ao ´e um espa¸co m´etrico completo.
Mas sabemos que a aplica¸c˜ao
h : (−1, 1) → R dada por h(x)
.
=
x
1 − |x|
, x ∈ (−1, 1),
´e um homeomorfismo de (−1, 1) em R.
Assim a m´etrica d : (−1, 1) × (−1, 1) → R dada por
d1(x, y)
.
= |h(x) − h(y), x, y ∈ (−1, 1)
´e equivalente `a m´etrica d(−1,1) e ((−1, 1), d) ´e um espa¸co m´etrico completo.
Em geral temos a
Proposi¸c˜ao 8.6.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico completo e A um subcojunto aberto de M.
Ent˜ao (A, d) ´e homeomorfo a um espa¸co m´etrico completo.
Demonstra¸c˜ao:
Como A um subcojunto aberto de M temos que M  A ´e um subconjunto fechado de M.
Logo a fun¸c˜ao
ϕ : M → R dada por ϕ(x)
.
= d(x, M  A), x ∈ M,
ser´a uma fun¸c˜ao cont´ınua em M.
Observemos que ϕ(x)  0 se, e somente se, x ∈ M  A ou, equivalentemente, x ∈ A.
Logo a fun¸c˜ao
f : A → R dada por f(x)
.
=
1
ϕ(x)
, x ∈ A,
est´a bem definida e ser´a cont´ınua em A.
Temos que
G(f) = {(x, f(x)) : x ∈ A} = {(x, t) : x ∈ A, t =
1
ϕ(x)
} = {(x, t) : x ∈ A, t.ϕ(x) = 1}
[t.ϕ(x)=1⇒ϕ(x)0]
= {(x, t) ∈ M × R : t.ϕ(x) = 1}
A ´ultima identidade garante que G(f) ´e um subconjunto fechado do espa¸co m´etrico completo
M × R.
Logo G(f), pelas proposi¸c˜oes (8.2.3) e (8.2.4), segue ser´a um espa¸co m´etrico completo munido
da m´etrica
D : G(f) × G(f) → R
dada por
D((x, f(x)), (y, f(y))
.
= d(x, y) + |f(x) − f(y)|, x, y ∈ A.
Como a aplica¸c˜ao
F : (A, d) → (G(f), D) dada por F(x)
.
= (x, f(x)), x ∈ A
´e um homeomorfismo segue que A ´e homeomormfo a F que por sua vez ´e homeomorfo a M,
completando a demonstra¸c˜ao.
296 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
8.7 O teorema de Baire
Come¸caremos pela
Defini¸c˜ao 8.7.1 Seja (M, d) espa¸co m´etrico.
Diremos que X ⊆ M ´e um subconjunto magro em M onde
X =
∞
n=1
Xn, e int(Xn) = ∅, para todo n ∈ N.
Observa¸c˜ao 8.7.1
1. ´E f´acil mostrar que (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) todo subconjunto de um
conjunto magro de M tamb´em ser´a um conjunto magro de M.
2. Tamb´em pode-se mostrar que (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) a reuni˜ao enu-
mer´avel de subconjuntos magros de M ser´a um subconjunto magro de M.
3. Nem todo subconjunto magro X de M tem interior vazio (isto ´e, int(X) = ∅).
Para ver isto observemos X ⊆ Q ´e um subconjunto magro de Q, pois ele ser´a reuni˜ao
enumer´avel de seus pontos, cada um dos quais tem interior vazio em Q mas n˜ao tem,
necesssariamente, interior vazio em Q.
Isto ocorre pois Q n˜ao ´e um espa¸co m´etrico completo (como veremos a seguir, se fosse,
dever´ıamos ter int(X) = ∅ em Q).
4. Se (M, d) ´e um espa¸co m´etrico e a ∈ M ent˜ao X = {a} tem interior vazio se, e somente
se, a n˜ao ´e ponto isolado de M.
De fato, X = {a} tem interior vazio se, e somente se, toda bola aberta BM (a; ε) cont´em
pontos de M  {a} ou, equivalentemente, o ponto a n˜ao ´e ponto isolado de M.
5. Como consequˆencia temos que X ´e um subconjunto enumer´avel de M ´e um subconjunto
magro de M se, e somente se, nenhum dos pontos de X ´e ponto isolado de M.
6. Em particular, se X = {reta em R2} ⊆ R2´e um subconjunto magro de R2.
Mais geralmente, toda reuni˜ao enumer´avel de retas de R2 ser´a um subconjunto magro de
R2.
7. Sejam (M, d) ´e um espa¸co m´etrico e X ⊆ M.
Lembremos que int(X) = ∅ em M se, e somente se, M  X ´e denso em M.
Logo, um subconjunto F fechado em M ´e tal que int(F) = ∅ em M se, e somente se,
M  F ´e um subcojunto aberto de denso em M.
Portanto podemos conlcuir que int(X) = ∅ em M se, e somente se, X est´a contido num
subconjunto fechado que tem interior vazio em M ou, equivalentemente, M  X cont´em
um subconjunto aberto e denso em M, ou seja, int(M  X) ´e denso em M.
8. Um subconjunto X de um espa¸co m´etrico (M, d) que ´e um subconjunto magro de M tamb´em
´e dito subconjunto de primeira categoria em M.
Os subconjunto que n˜ao s˜ao subconjunto magros de M tamb´em s˜ao denominados subcon-
juntos de segunda categoria em M.
8.7. O TEOREMA DE BAIRE 297
Exemplo 8.7.1 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico, A ⊆ M um subconjunto aberto em M.
Ent˜ao ∂A ´e um subconjunto fechado de M que tem interior vazio em M.
De fato, se x ∈ ∂A ent˜ao toda bola aberta BM (x, ε) cont´em pontos de A (e de M  A).
Como A ´e um subconjunto aberto de M temos que A ∩ ∂A = ∅ assim nehuma bola aberta
BM (x; ε) poder´a estar contida em ∂A, ou seja x ∈ int(∂A), mostrando que int(∂A) = ∅.
Exemplo 8.7.2 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico, F ⊆ M um subconjunto fechado em M.
Como ∂F = ∂(M  F) e M  F ´e um subconjunto aberto de M segue, do exemplo acima, que
∂F = ∂(M  F) ter´a interior vazio em M.
Observa¸c˜ao 8.7.2 Se X ´e um subconjunto de um espa¸co m´etrico (M, d) ´e tal que X n˜ao ´e um
subconjunto nem aberto, nem fechado de X ent˜ao podemos ter int(∂X) = ∅ em M.
Para ver isto consideremos X
.
= Q subconjunto do espa¸co m´etrico (R, d), onde d ´e a m´etrica
usual de R.
Ent˜ao ∂(Q) = R, que n˜ao tem interior vazio em R (na verdade int(R) = R em R).
Exemplo 8.7.3 O conjunto de Cantor.
Consideremos M
.
= [0, 1] munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R.
Seja E0
.
= [0, 1] ⊆ R.
0 1
E0
Definamos A1
.
= (
1
3
,
2
3
), denominado ter¸co m´edio do intervalo [0, 1], e consideremos E1
.
=
M  A1, isto ´e,
E1 = [0,
1
3
] ∪ [
2
3
, 1] = I11 ∪ I12.
0 1
E1
1
3
2
3
Definamos A2 = (
1
9
,
2
9
) ∪ ∪(
7
9
,
8
9
), ou seja, os ter¸cos m´edios dos intervalos [0, 1
3 ] e [2
3 , 1] e
consideremos E2
.
= M  A2, isto ´e,
E2 = [0,
1
9
] ∪ [
2
9
,
3
9
] ∪ [
6
9
,
7
9
] ∪ [
8
9
, 1] = I21 ∪ I22 ∪ I23 ∪ I24.
0 1
E2
1
9
2
9
3
9
6
9
7
9
8
9
Continuando o processo acima obtemos uma sequˆencia de subconjuntos (En)n∈N formada por
subconjuntos fechados e limitados de [0, 1] tais que
1. E1 ⊆ E2 ⊆ E3 ⊆ · · · , isto ´e, a sequˆencia (En)n∈N ´e decrescente;
2. Para cada n ∈ N temos que En ´e a reuni˜ao de 2n intervalos fechados, cada um dos quais
tem comprimento 3−n.
298 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
A verifica¸c˜ao destas propriedades ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
Observemos que os intervalos retirados de [0, 1] para obtermos En s˜ao da forma:
3k + 1
3n
,
3k + 2
3n
, k = 0, 1, 2, · · · , n. (8.1)
Definamos
K
.
=
∞
n=1
En = [0, 1] 
∞
n=1
An
que ser´a denominado conjunto de Cantor.
Observemos que os extremos dos intervalos ter¸cos m´edios retirados pertencer˜ao a K, isto ´e,
0,
1
3
,
2
3
,
2
9
, · · · ∈ K, mostrando que K = ∅.
Mostremos que K n˜ao cont´em nenhum intervalo aberto e assim int(K) = ∅ em [0, 1] e como
ele ´e intersec¸c˜ao de subconjuntos fechados de [0, 1] ele ser´a um subconjunto fechado de [0, 1].
Para isto, do item 2. acima, temos que cada um dos 2n intervalos de En tem comprimento
3−n.
Se J ⊆ [0, 1] ´e um intervalo aberto de [0, 1] de comprimento 0  l seja n ∈ N tal 3−n  l.
Logo o intervalo J conter´a pontos que n˜ao pertencer˜ao a En e assim n˜ao pertencer´a a K,
mostrando que int(K) = ∅.
Com isto temos que K ´e um subconjunto fechado de [0, 1], n˜ao vazio, tal que int(K) = ∅, ou
seja, K ´e um subconjunto magro de [0, 1].
Mostraremos, mais adiante, o conjunto de Cantor ´e n˜ao enumer´avel.
Temos a
Proposi¸c˜ao 8.7.1 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, (Fn)n∈N sequˆencia decrescente de subscon-
juntos fechados de M, n˜ao vazios, com lim
n→∞
diam(Fn) = 0.
Ent˜ao (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo se, e somente se, existe aiM tal que
∞
n=1
Fn = {a}.
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos que (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo e (Fn)n∈N ´e uma sequˆencia como
acima.
Para cada n ∈ N seja xn ∈ Fn.
Como (Fn)n∈N ´e uma sequˆencia decrescente temos que a sequˆencia (xn)n∈N em M tem a
segunte propriedade:
se n, m ≥ n0 segue que xm, xn ∈ Fn0 .
Como lim
n→∞
diam(Fn) = 0, dado ε  0 existe N0 ∈ N tal que
se n ≥ N0 segue que diam(Fn)  ε.
Logo se
se n, m ≥ N0 segue que d(xm, xn) ≤ diam(FN0 )  ε,
mostrando que a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em (M, dM ).
8.7. O TEOREMA DE BAIRE 299
Como (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo segue que existe a ∈ M tal que
lim
n→∞
xn = a.
Dado p ∈ N temos que
se n ≥ p segue que xn ∈ Fp.
Logo a = lim
n→∞
xn ∈ Fp para todo p ∈ N, ou seja,
a ∈
∞
n=1
Fn.
Suponhamos, por absurdo, que existe b ∈
∞
n=1
Fn, b = a.
Logo temos que a, b ∈ Fn para todo n ∈ N.
Assim,
se n ≥ N0 temos que 0  dM (a, b) ≤ diam(Fn)  ε,
o que ´e um absurdo.
Portanto
∞
n=1
Fn = {a}.
Reciprocamente, mostremos que (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo.
Para isto consideremos (xn)n∈N uma sequˆencia de Cauchy em (M, dM ).
Para cada n ∈ N definamos
Xn
.
= {xn, xn+1, · · · }.
Logo temos que a sequˆencia (Xn)n∈N ´e uma sequˆencia decrescente (pois Xn+1 = {xn+1, xn+2, · · · } ⊆
{xn, xn+1, · · · } = Xn) e portanto a sequˆencia (Xn)n∈N ser´a uma sequˆencia decrescente formada
por subconjuntos fechados de (M, dM ) e n˜ao vazios.
Como (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em (M, dM ), dado ε  0 existe N0 ∈ N tal que
se n, m ≥ N0 temos que d(xn, xm)  ε.
Logo se
se n ≥ N0 temos que diam(Fn)
[m≥n]
≤ d(xn, xm)  ε,
mostrando que
lim
n→∞
diam(Xn) = lim
n→∞
diam(Xn) = 0.
Logo temos que
∞
n=1
Xn = {a}.
Assim a ∈ Xn para todo n ∈ N, ou seja, toda bola aberta B(a; ε) cont´em ponto de Xn, ou
seja, para cada n ∈ N existe xnj ∈ Xn ∩ B(a; ε), mostando que a sequˆencia (xn)n∈N possui uma
subsequˆencia (xnj )j ∈ N que ´e convergente para a em M.
Logo, da proposi¸c˜ao (8.1.3), segue que, xn → a em M, mostrando que (M, dM ) ´e um espa¸co
m´etrico completo.
300 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Observa¸c˜ao 8.7.3
1. Na proposi¸c˜ao acima a hip´oete de ” lim
n→∞
diam(Fn) = 0” ´e essencial, como mostra o
seguinte exemplo:
Para cada n ∈ N temos que Fn
.
= [n, ∞) s˜ao subconjuntos fechados de R, n˜ao vazios, a
sequˆencia (Fn)n∈N ´e decrescente mas
∞
n=1
Fn = ∅.
Observemos que diam(Fn) = ∞ para todo n ∈ N logo lim
n→∞
diam(Fn) = ∞ = 0.
2. No exemplo acima temos que lim
n→∞
diam(Fn) = ∞.
Podemos obter uma situa¸c˜ao em que lim
n→∞
diam(Fn) ∈ (0, ∞), como mostra o seguinte
exemplo:
Consideremos o espa¸co de Hilbert (l2(R), . 2) e para cada n ∈ N consideremos
en
.
= (0, · · · , 0, 1
posi¸c˜ao n
, 0 · · · ).
Seja Fn
.
= {en, en+1, · · · }.
Para cada n ∈ N temos Fn ´e um subconjunto fechado de l2(R) (ser´a deixado como exerc´ıcio
para o leitor), n˜ao vazio e a sequˆencia (Fn)n∈N ´e decrescente mas
∞
n=1
Fn = ∅.
Observemos que neste caso, para cada n ∈ N, temos
diam(Fn) =
√
2 ∈ (0, ∞),
ou seja,
lim
n→∞
diam(Fn) =
√
2 ∈ (0, ∞).
Temos a
Proposi¸c˜ao 8.7.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo.
Ent˜ao s˜ao equivalentes:
1. Se X ´e um subconjunto magro de (M, dM ) ent˜ao int(X) = ∅.
2. Se F
.
=
∞
n=1
Fn onde, para cada n ∈ N, Fn ´e um subconjunto fechado de M que tem interior
vazio ent˜ao int(F) = ∅.
3. Toda interse¸c˜ao enumer´avel de subconjuntos abertos densos em M ´e denso em (M, dM ).
Demonstra¸c˜ao:
De 1. ⇒ 2.:
Suponhamos que F
.
=
∞
n=1
Fn onde, para cada n ∈ N, Fn ´e um subconjunto fechado de
(M, dM ) que tem interior vazio.
8.7. O TEOREMA DE BAIRE 301
Temos que F ⊆
∞
n=1
Fn.
Logo, da observa¸c˜ao (8.7.1) item 1., segue que F ´e magro em (M, dM ).
Logo, de 1., segue que int(F) = ∅.
De 2. ⇒ 3.:
Sejam An subconjuntos abertos e densos em (M, dM ), para cada n ∈ N.
Ent˜ao, para cada n ∈ N, Fn
.
= M  An = Ac
n ser´a fechado e int(Fn) = ∅ (pois se x ∈
Fn = M  An, como An ´e denso em M, segue que toda bola aberta B(x, ε) dever´a interceptar o
conjunto An e assim n˜ao poder´a estar contida em M  An = Fn).
Assim se F
.
=
∞
n=1
Fn, onde para cada n ∈ N temos Fn ´e um subconjunto fechado que tem
interior vazio, segue de 2., que int(F) = ∅.
Mas
∞
n=1
An =
∞
n=1
Fc
n = [
∞
n=1
Fn]c = Fc
[∂(F)=∂(MF)]
= M  (int(F))
[int(F)=∅]
= M,
mostrando que
∞
n=1
An ´e denso em M.
De 3. ⇒ 1.:
Suponhamos que X ´e um subconjunto magro em (M, dM ), isto ´e, X =
∞
n=1
Xn onde, para
cada n ∈ N temos que int(Xn) = ∅.
Para cada n ∈ N consideremos An
.
= M  Xn = Xn
c.
Com isto temos que, para cada n ∈ N, An ser´a um subconjunto fechado de M e
An = M  Xn
[∂(Xn)=∂(MXn)]
= M  (int(Xn)
[int(Xn)=∅]
= M,
mostrando que An ´e denso em (M, dM ).
Logo, de 3., segue que A
.
=
∞
n=1
An tamb´em ser´a denso em (M, dM ).
Mas
int(X) = int(
∞
n+1
Xn) = M  [
∞
n+1
Xn]c = M 
∞
n+1
Xc
n = M  A = M  M = ∅,
logo int(X) = ∅, como quer´ıamos mostrar.
Com isto temos o
Teorema 8.7.1 (Teorema de Baire) Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo.
Toda interse¸c˜ao enumer´avel de subconjuntos abertos densos em (M, dM ) ´e denso em (M, dM ).
Em particular, valem os itens 1. e 2. da proposi¸c˜ao acima.
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos que para cada n ∈ N, An ´e um subconjunto aberto e denso em (M, dM ).
302 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Seja A
.
=
∞
n=1
An.
Consideremos a ∈ A e B1
.
= B(a; ε) bola aberta de (M, dM ) centrada no ponto a.
Se mostrarmos que A ∩ B1 = ∅ ent˜ao temos que A ´e denso em M.
Observemos que A1 ´e denso em (M, dM ), logo existe a1 ∈ B1 ∩ A1.
Mas B1 ∩ A1 ´e um subconjunto aberto de M, logo existe
B2
.
= B(a1, ε1) ⊆ A1 ∩ B1.
Podemos supor, sem perda de generalidade, que 0  ε1 
1
2
e que
B2 ⊆ B1 ∩ A1.
Caso contr´ario, temos que
B(a1;
ε1
2
) ⊆ B(a1; ε1) ⊆ B1 ∩ A1
e tomamos B2
.
= B(a1; δ}), onde 0  δ  min{
1
2
,
ε1
2
}.
Como A2 ´e um subconjunto denso de (M, dM ) segue que existe a2 ∈ B2 ∩A2 e como A2 ∩B2
´e um subconjunto aberto de M segue que existe B3
.
= B(a2; ε2) tal que
B3 ⊆ A2 ∩ B2.
Como anteriormente, podemos supor, sem perda de generalidade, que 0  ε2  1
3 e que
B3 ⊆ B2 ∩ A2.
Prosseguindo, construimos uma sequˆencia (Bn)n∈N de subconjuntos fechados de M tal que,
para todo n ∈ N, temos
Bn+1 ⊆ Bn,
Bn+1 ⊆ Bn ∩ An
e
0  diam(Bn) ≤
2
n
,
em particular temos que
lim
n→∞
diam(Bn) = 0.
Logo da proposi¸c˜ao (8.7.1) segue que
∞
n=1
Bn = ∅,
ou seja, existe a ∈
∞
n=1
Bn e como Bn+1 ⊆ Bn ∩ An para todo n ∈ N segue que a ∈ An ∩ B1 para
todo n ∈ N, mostrando que a ∈
∞
n=1
An ∩B1 = A∩B1, mostrando que A∩B1 = ∅ e completando
a demonstra¸c˜ao.
Como consequencia temos o
8.7. O TEOREMA DE BAIRE 303
Corol´ario 8.7.1 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo.
Se M =
∞
n=1
Fn, onde para cada n ∈ N temos que Fn ´e um subconjunto fechado de (M, dM )
ent˜ao existe, pelo menos, um n0 ∈ N tal que int(Fn0 ) = ∅.
Demonstra¸c˜ao:
Suponhamos, por absurdo que, int(Fn) = ∅ para todo n ∈ N.
Ent˜ao, do teorema de Baire, segue int(M) = int(
∞
n=1
Fn) = ∅, o que ´e um absurdo (pois todo
ponto de M ´e ponto interior de (M, dM )).
Observa¸c˜ao 8.7.4
1. O teorema de Baire refere-se a abertos, fechados, fechos e interiores logo cont´ınua v´alido se
substituirmos a m´etrica d do espa¸co m´etrico (M, d) por uma outra m´etrica, d , equivalente
`a d, mesmo que (M, d ) n˜ao seja um espa¸co m´etrico completo.
Mais geralmente, o teorema de Baire cont´ınua v´alido se subsituirmos a hip´otese do espa¸co
m´etrico ser completo pela condi¸c˜ao dele ser homeomorfo a um espa¸co m´etrico completo.
De fato, se (M1, d1) ´e um espa¸co m´etrico que ´e homeomorfo ao espa¸co m´etrico completo
(M, dM ) ent˜ao existe ϕ : M1 → M homeomorfismo de (M1, d1) em (M, dM ).
Logo se X =
∞
n=1
Xn ´e um subconjunto magro de (M1, d1) ent˜ao temos que int(Xn) = ∅
para todo n ∈ N.
Afirmamos que ϕ(X) ´e um subconjunto magro de (M2, dM ) = (ϕ(M1), dM ), pois
ϕ(X) = ϕ(
∞
n=1
Xn) =
∞
n=1
ϕ(Xn)
e para cada n ∈ N temos
int(ϕ(Xn))
[ϕ ´e homeomorfismo]
= ϕ(int(Xn)) = ϕ(∅) = ∅.
Logo, do teorema de Baire aplicado a (M, dM ) (que ´e completo), segue que
int(ϕ(X)) = ∅,
mostrando que ϕ(X) ´e um subconjunto magro de (M, dM ).
Como ϕ ´e homeomorfismo de (M1, d1 em (M, dM ) segue que
ϕ(int(X)) = int(ϕ(X)) = ∅,
ou seja, X = ∅, como quer´ıamos mostrar.
2. Como uma exemplo da situa¸c˜ao aicma temos que M1 = (0, 1), com a m´etrica induzida
pela m´etrica usual de R, n˜ao pode ser escrito como reuni˜ao enumer´avel de subconjuntos
fechados de (0, 1) que tenham interior vazio (em (0, 1)).
Isto segue do fato que ((0, 1), dR) ´e homeomorfo a (R, dR) que ´e um espa¸co m´etrico com-
pleto.
304 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
3. Como consequˆencia temos que se M1 ´e um subconjunto aberto de um espa¸co m´etrico com-
pleto (M, dM ) ent˜ao se M1 =
∞
n=1
Fn onde, para cada n ∈ N, Fn ´e um subcojunto fechado
em (M1, dM ) ent˜ao existe, pelo menos, um n0 ∈ N tal que intM1 (Fn0 ) = ∅.
Pois, da proposi¸c˜ao (8.6.1), segue que (M1, dM ) ´e homeomorfo a (M, dM ).
Com isto temos a
Proposi¸c˜ao 8.7.3 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo.
Se M =
∞
n=1
Fn onde, para cada n ∈ N, Fn ´e um subconjunto fechado de (M, dM ) ent˜ao
A
.
=
∞
n=1
int(Fn)
´e um subconjunto aberto e denso em (M, dM ).
Demonstra¸c˜ao:
Seja U um subconjunto aberto, n˜ao vazio, de (M, dM ).
Mostremos que A ∩ U = ∅, isto ´e, existe n0 ∈ N tal que U ∩ int(Fn0 ) = ∅.
Observemos que
U = U ∩ M = U ∩ [
∞
n=1
Fn] =
∞
n=1
(U ∩ Fn)
e, para cada n ∈ N, temos que U ∩ Fn ´e um subconjunto fechado de (U, dM ).
Da observa¸c˜ao (8.7.4) item 3. temos que existe n0 ∈ N tal que
intU (U ∩ Fn0 ) = ∅.
Como U ´e aberto em (M, dM ) temos que
intM (U ∩ Fn0 ) = intU (U ∩ Fn0 ) = ∅.
Mas intM (U ∩ Fn0 ) = intU (U ∩ Fn0 ) ´e um subconjunto aberto de (M, dM ) que est´a contido
em U e de Fn0 , ou seja,
intM (U ∩ Fn0 ) ⊆ intM (U) e intM (U ∩ Fn0 ) ⊆ intM (Fn0 ),
isto ´e,
intM (U ∩ Fn0 ) ⊆ intM (U) ∩ int(Fn0 )
[U ´e aberto em M]
= U ∩ int(Fn0 ),
mostrando que U ∩ int(Fn0 ) = ∅, completando assim a demonstra¸c˜ao.
Exemplo 8.7.4 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo e enumer´avel.
Como M ´e enumer´avel segue que M =
n∈N
{xn} e para cada n ∈ N temos que Fn
.
= {xn} ´e
um subconjunto fechado de (M, dM ).
Consideremos
A
.
= {x ∈ M : x ´e ponto isolado de (M, dM )}.
8.7. O TEOREMA DE BAIRE 305
Como A ⊆ M temos que A ´e enumer´avel, isto ´e, A = {xnk
: k ∈ N}.
Observemos que A =
∞
n=1
int(Fn).
De fato, se a ∈ A ent˜ao a ´e ponto isolado de (M, dM ) logo int({a}) = {a} = {xn0 } para
algum n0 ∈ N , ou seja, a ∈ int(Fn0 ) .
Por outro lado, se para cada n ∈ N temos a ∈ inte(Fn) = int({xn}) ent˜ao a ´e ponto isolado
de (M, dM )
Logo da proposi¸c˜ao (8.7.3), segue que A ´e um subconjunto (aberto) e denso em (M, dM ).
Observa¸c˜ao 8.7.5
1. Em particular, isto mostra que Rn ´e um conjunto n˜ao enumer´avel.
De fato, do exemplo acima temos que todo subconjunto fechado, infinito e enumer´avel de
Rn cont´em uma infinidade de pontos isolados, pois caso contr´ario, se tivesse somente um
n´umero finito de pontos isolados, este seria denso em Rn o que ´e um absurdo.
2. Observemos que Q munido da m´etrica, dQ, induzida pela m´etrica usual de R n˜ao ´e topo-
logicamente completo.
De fato, como Q ´e enumer´avel e n˜ao tem pontos isolados, segue do exemplo acima que
n˜ao existe uma m´etrica equivalente `a m´etrica dQ, que o torne completo, caso contr´ario, o
conjunto formado pelos seus pontos isolados (que ´e o vazio) seria denso em Q, o que ´e um
absurdo.
3. Seja (M, dM ) espa¸co m´etrico completo n˜ao enumer´avel e A um subconjunto, n˜ao vazio,
fechado de (M, dM ).
Se nenhum ponto de A ´e ponto isolado de (M, dM ) ent˜ao A ´e n˜ao enumer´avel.
Observemos que como A ´e subconjunto, n˜ao vazio, fechado de (M, dM ) ent˜ao (A, dM ) ´e
um espa¸co m´etrico completo.
De fato, A fosse enumer´avel, pelo exemplo acima, teremos que o conjunto formado por
todos pontos isolados de A (que ´e vazio) seria (aberto) denso em A, o que ´e uma absurdo.
Logo A ´e um conjunto n˜ao enumer´avel.
Exemplo 8.7.5 O objetivo deste exemplo ´e mostrar que o conjunto de Cantor, K ´e n˜ao enu-
mer´avel.
Consideremos o espa¸co m´etrico (R, dR), onde dR ´e a m´etrica usual de R.
Pela observa¸c˜ao (8.7.5) item 3., basta mostrarmos que nenhum ponto de K ´e ponto isolado
de R.
Sejam x ∈ K e B(x; ε) uma bola aberta, de R, centrada em x (isto ´e, um intervalo aberto
de R).
Considere In0 um intervalo de En0 que contenha x (que existe pois x ∈ K).
Escolha n ∈ N suficientemente grande tal que In0 ⊆ B(x, ε), que existe pois os intervalos In
tem comprimento tendendo a zero quando n tende a infinito e x ∈ In0 .
Seja xn0 um extremo de In0 tal que xn0 = x (no m´aximo x pode ser um dos extremos).
Da constru¸c˜ao do conjunto K, temos que
xn0 ∈ [K ∩ B(x; ε)]  {x},
mostrando que x n˜ao ´e ponto isolado de K e completando o exemplo.
306 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Observa¸c˜ao 8.7.6 Em um curso de Teoria da Medida mostra-se que K tem medida zero.
Com isto temos que o conjunto de Cantor tem as seguintes propriedades:
1. ´e fechado em (R, dR);
2. n˜ao enumer´avel;
3. tem medida zero.
8.8 M´etodo das aproxima¸c˜oes sucessivas
Come¸caremos pela
Defini¸c˜ao 8.8.1 Seja f : M → M.
Diremos que x ∈ M ´e um ponto fixo da fun¸c˜ao f em M se
f(x) = x.
Exemplo 8.8.1 Se f : Rn → Rn ´e dada por
f(x)
.
= −x, x ∈ Rn
,
ent˜ao ´e f´acil mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que 0 ∈ Rn ser´a o ´unico ponto
fixo da aplica¸c˜ao f em Rn.
Exemplo 8.8.2 Se a = 0 e f : Rn → Rn ´e dada por
f(x)
.
= x + a, x ∈ Rn
,
ent˜ao ´e f´acil ver (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que n˜ao existe um ponto fixo da
aplica¸c˜ao f em Rn.
Exemplo 8.8.3 Se f : R → R ´e dada por
f(x)
.
= x2
, x ∈ R,
ent˜ao ´e f´acil mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que 0, 1 ∈ R ser˜ao os ´unicos
pontos fixos da aplica¸c˜ao f em R.
Observa¸c˜ao 8.8.1
1. Se f : A ⊆ R → R os pontos fixos da aplica¸c˜ao f em A ser˜ao as abscissas dos pontos onde
a diagonal em R2, y = x, corta o gr´afico da fun¸c˜ao f (veja figura abaixo).
E
T
f(a)
a
y = x
y = f(x)
x
y
8.8. M´ETODO DAS APROXIMAC¸ ˜OES SUCESSIVAS 307
2. Um resultado importante neste contexto ´e o Teorema do Ponto Fixo de Browder que
diz:
Seja Rn com a m´etrica usual e f : B[0; 1] → B[0; 1] cont´ınua em B[0; 1] (munida da
m´etrica induzida pela m´etrica de Rn).
Ent˜ao a aplica¸c˜ao f tem, pelo menos, um ponto em B[0; 1].
A seguir faremos a demonstra¸c˜ao para o caso em que n = 1.
A demostra¸c˜ao do caso geral ser´a omitida.
Temos que f : [−1, 1] → [−1, 1] ´e cont´ınua em [−1, 1].
Consideremos g : [−1, 1] → R dada por
g(x)
.
= f(x) − x, x ∈ [−1, 1],
que ´e cont´ınua em [−1, 1].
Mas
g(−1) = f(−1) − (−1) ≥ −1 + 1 = 0 e g(1) = f(1) − 1 ≤ 1 − 1 ≤ 0,
ou seja,
g(−1) ≥ 0 e g(1) ≤ 0.
Logo, do teorema do valor intermedi´ario, segue que existe x ∈ [−1, 1] tal que g(x) = 0, ou
seja, existe x ∈ [−1, 1] tal que f(x) = x, mostrando que a aplica¸c˜ao f tem um ponto fixo
em [−1, 1].
Temos a
Proposi¸c˜ao 8.8.1 (Teorema do Ponto Fixo de Banach) Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico com-
pleto e f : M → M uma contra¸c˜ao (forte) em (M, dM ).
Ent˜ao existe um, ´unico, ponto fixo de f em M.
Mais precisamente, se escolhermos x0 ∈ M e considerarmos a sequˆencia (xn)n∈N onde, para
cada n ∈ N, definimos xn
.
= f(xn−1), ent˜ao xn → a em (M, dM ) e f(a) = a, (ou seja, o ponto
fixo de f em M).
Demonstra¸c˜ao:
Come¸caremos provando a unicidade do ponto fixo.
Para isto, suponhamos que a, b ∈ M s˜ao pontos fixos de f em M, isto ´e, f(a) = a e f(b) = b.
Como f ´e uma contra¸c˜ao (forte) em (M, dM ), existe 0  c  1 tal que
dM (f(x), f(y) ≤ c dM (x, y), x, y ∈ M.
Em particular,
dM (a, b) = dM (f(a), f(b) ≤ c dM (a, b)
[c1]
 dM (a, b),
mostrando que dM (a, b) = 0, ou seja, b = a, logo, o ponto fixo, se existir, ser´a ´unico em M.
Mostremos que existe o ponto fixo em M.
Dado x0 ∈ M, consideremos a sequˆencia (xn)n∈N onde, para cada n ∈ N definimos
xn
.
= f(xn−1), n ∈ N.
Se x1 = x0 ent˜ao f(x0) = x1 = x0 e assim x0 ser´a o ponto fixo procurado.
308 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Logo podemos supor que x1 = x0, ou seja, dM (x0, x1)  0.
Afirmamos que (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em (M, dM ).
Observemos que
dM (x1, x2) = dM (f(x0), f(x1)) ≤ c dM (x0, x1) (1)
dM (x2, x3) = dM (f(x1), f(x2)) ≤ c dM (x1, x2)
(1)
≤ c2
dM (x0, x1) (2)
dM (x3, x4) = dM (f(x2), f(x3)) ≤ c dM (x2, x3)
(2)
≤ c3
dM (x0, x1),
e, por indu¸c˜ao (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor), teremos
dM (xn, xn+1) ≤ cn
dM (x0, x1), n ∈ N.
Logo para n, p ∈ N temos que
dM (xn, xn+p) = dM (xn, xn+1) + dM (xn+1, xn+2) + · · · + dM (xn+p−1, xn+p)
≤ cn
dM (x1, x0) + cn+1
dM (x1, x0) + · · · + cn+p−1
dM (x1, x0)
≤ [cn
+ cn+1
+ · · · + cn+p−1
]dM (x1, x0)
≤ cn
[1 + c + · · · + cp−1
]dM (x1, x0)
[
n
k=0
ck
≤
∞
k=0
ck
=
1
1 − c
]
≤
cn
1 − c
dM (x1, x0). (∗)
Como, 0  c  1 temos que lim
n→∞
cn
= 0, assim, dado ε  0 existe N0 ∈ N tal que se n ≥ N0
teremos
cn

(1 − c)
εdM (x1, x0)
. (∗∗)
Portanto se n ≥ N0 e p ∈ N teremos
dM (xn, xn+p) 
cn
1 − c
dM (x1, x0)
(∗∗)
 ε,
mostrando (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em (M, dM ).
Como (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo segue que existe a ∈ M tal que xn → a em
(M, dM ).
Mas f ´e cont´ınua em a, logo
f(a) = f( lim
n→∞
xn) = lim
n→∞
f(xn) = lim
n→∞
xn+1 = a,
mostrando que a = lim
n→∞
xn ´e o ponto fixo de f em M.
Observa¸c˜ao 8.8.2 Como dM ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em M × M, fazendo p → ∞ em (*),
teremos
dM (xn, a) = dM (xn, lim
p→∞
xn+p) = lim
p→∞
dM (xn, xn+p) ≤
cn
1 − c
dM (x1, x0),
que nos d´a uma estimativa para o erro que cometemos ao tomar o n-´esimo iterado, xn, como
uma valor aproximado do ponto fixo de a.
8.8. M´ETODO DAS APROXIMAC¸ ˜OES SUCESSIVAS 309
Temos a
Proposi¸c˜ao 8.8.2 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e f : M → M uma contra¸c˜ao (forte) em M.
Dado b ∈ M se existir r  0 tal que
dM (b, f(b)) ≤ r(1 − c)
ent˜ao a bola fechada B[b; r] em (M, dM ) ´e invariante pela aplica¸c˜ao f (isto ´e, f(B[b; r]) ⊆
B[b; r]).
Em particular, se (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo, o ponto fixo de f em M pertencer´a
a bola fechada B[b; r].
Demonstra¸c˜ao:
Se x ∈ B[b; r] temos que dM (x, b) ≤ r assim
dM (f(x), b) ≤ dM (f(x), f(b)) + dM (f(b), b) ≤ c dM (x, b) + r(1 − c) ≤ cr + r(1 − c) = r,
mostrando que f(x) ∈ B[b; r], logo f(B[b; r]) ⊆ B[b; r].
Se (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo, como B[b; r] ´e um subconjunto fechado em
(M, dM ) segue que (B[b; r], dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo.
Pelo teorema do ponto fixo de Banach, aplicado a B[b; r] temos que f tem um, ´unico, ponto
fixo em B[b; r].
Temos tamb´em a
Proposi¸c˜ao 8.8.3 (Perturba¸c˜ao da Identidade) Sejam (E, . E) espa¸co de Banach, U subcon-
junto aberto de E e ϕ : U → E uma contra¸c˜ao (forte) em U.
Ent˜ao a aplica¸c˜ao f : U → E dada por
f(x)
.
= x − ϕ(x), x ∈ U,
´e um homeomorfismo de U sobre um subconjunto aberto de E (que ´e f(U)).
Demonstra¸c˜ao:
Como ϕ ´e uma contra¸c˜ao (forte) em U segue que existe 0 ≤ c  1 tal que
ϕ(x) − ϕ(x) E ≤ c x − x E, x, y ∈ U.
Com isto temos que, para x, y ∈ U,
f(x) − f(y) E = [x − ϕ(x)] − [y − ϕ(y)] E ≤ x − y E − ϕ(x) − ϕ(y) E
≤ x − y E − c x − y E ≤ (1 − c) x − y E. (∗)
Logo f ´e injetora e assim existe sua fun¸c˜ao inversa, f−1 : f(U) → U (na verdade f ´e uma
contra¸c˜ao forte pois 0  1 − c  1).
Al´em disso, se w, z ∈ f(U) temos que existem x, y ∈ U tal que w = f(x), z = f(y) logo
f−1
(w) − f−1
(z) E = x − y E
(∗)
≤
1
(1 − c)
f(x) − f(y) E =
1
(1 − c)
w − z E,
mostrando que f−1 ´e uma aplica¸c˜ao lipschitziana em f(U), em particular f−1 : f(U) → U ´e
cont´ınua em f(U).
310 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Logo f : U → f(U) ´e um homeomorfismo de U sobre f(U).
Mostremos que f(U) ´e um subconjunto aberto de E.
Seja b ∈ f(U), logo existe a ∈ U tal que f(a) = b.
Como a ∈ U e U ´e um subconjunto aberto de E segue que existe r  0 tal que B[a; r] ⊆ U.
Mostremos que B(b;
1 − c
r
) est´a contida em f(U), ou seja, f(U) ´e um subconjunto aberto de
E.
Para tanto, precisamos mostrar que se
y ∈ B(b; (1 − c)r),
existe x ∈ U tal que y = f(x).
Na verdade, mostraremos que a aplica¸c˜ao
ξy : B[a; r] → E dada por ξy(x)
.
= y − f(x)
tem um (´unico) ponto fixo na bola fechada B[a; r].
Se isto ocorrer, existir´a x ∈ B[a; r] tal que
x = ξy(x) = y − ϕ(x), (∗∗)
ou seja,
f(x) = x − ϕ(x)
(∗∗)
= y, isto ´e y ∈ f(B[a; r]) ⊆ f(U).
Como (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo e B[a; r] ´e um subconjunto fechado de (M, dM ),
segue que (B[a; r], dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo.
Temos que ξy : B[a; r] → E ´e uma contra¸c˜ao em (B[a; r], dM ).
De fato, z, w ∈ B[a; r] ⊆ U temos que
ξy(z) − ξy(w) E = [y − ϕ(z)] − [y − ϕ(z)] E = ϕ(z) − ϕ(w) E
[ϕ ´e contra¸c˜ao em U]
≤ c z − w E. (∗ ∗ ∗)
Al´em disso, se
z ∈ B[a; r]
temos que
ξy(z) − a E = [ξy(z) − ξy(a)] + [ξy(a) − a] E ≤ ξy(z) − ξy(a) E + ξy(a) − a E
(∗∗∗)
≤ c z − a E + ξy(a) − a E = c z − a E + [y − ϕ(a)] − a E
= c z − a E + y − f(a) E
[b=f(a)]
= c z − a E + y − b E
≤ c z − a E + y − b E ≤ cr + (1 − c)r = r,
mostrando que ξy(z) ∈ B[a; r], ou seja, ξy : B[a; r] → B[a; r] ´e uma contra¸c˜ao, logo existe um
(´unico) ponto fixo de ξy na bola fechada B[a; r], ou seja, f(U) ´e um subconjunto aberto de E,
concluindo a demonstra¸c˜ao.
8.8. M´ETODO DAS APROXIMAC¸ ˜OES SUCESSIVAS 311
Exemplo 8.8.4 Sejam (E, . E) espa¸co de Banach, U um subconjunto aberto de R×E, (t0, x0) ∈
U e f : U → E uma aplica¸c˜ao cont´ınua em U e satisfazendo
f(t, x) − f(t, y) E ≤ c x − y E,
para todo (t, x), (t, y) ∈ U, onde c ≥ 0 n˜ao depende dos pontos (t, x), (t, y) ∈ U (ou seja, f ´e
uniformemente lipschitziana na vari´avel x, para todo (t, x) ∈ U).
Mostraremos que existe um intervalo I
.
= (t0, t0 + α) e uma ´unica x : I → E continuamente
diferenci´avel em I tal que



x (t) = f(t, x(t)), t ∈ I (∗)
x(t0) = x0 (∗∗)
x ∈ C1(¯I; R) (∗ ∗ ∗)
(t, x(t)) ∈ U, t ∈ I
uma ´unica solu¸c˜ao do P.V.I.
Observemos que, do teorema fundamental do C´alculo, as condi¸c˜oes (*), (**) e (***) s˜ao
equivalentes a
x(t) = x0 +
t
t0
f(s, x(s)) ds, t ∈ I. (∗ ∗ ∗∗)
De fato, pois x satisafaz a EDO se, e somente se,
t
t0
x (s) ds =
t
t0
f(s, x(s)) ds,
do teorema fundamental do C´alculo ser´a equivalente a
x(t) − x(t0) =
t
t0
f(s, x(s)) ds,
e como x(t0) = x0 teremos (****).
Escolhamos α, β  0 tais que
1. I × B[x0; β] ⊆ U, que ´e poss´ıvel pois U ´e um subconjunto aberto de R × E e (t0, x0) ∈ U;
2. exista M  0 tal que
|f(t, x)| ≤ M
para todo (t, x) ∈ I × B[x0; β], que ´e poss´ıvel pois f ´e cont´ınua em U, logo ser´a limitada
numa vizinhan¸ca limitada de (t0, x0) em R × U;
3. tenhamos
α.M ≤ β e α.c  1,
que ´e poss´ıvel se tomarmos α  0 suficientemente pequeno.
Como isto podemos considerar o espa¸co m´etrico C(I; B[x0; β]) formado pelas fun¸c˜oes cont´ınuas
x : I → B[x0; β], munido da m´etrica da convergˆencia uniforme, que ´e um espa¸co m´etrico com-
pleto.
De fato, pois como (E, . E) ´e um espa¸co de Banach e B[x0; β] ´e um subconjunto fechado
de (E, . E), segue que (B[x0; β], . E) ´e um espa¸co m´etrico completo.
312 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Consideremos a aplica¸c˜ao
T : C(I; B[x0; β]) → F(I; E)
dada por
[T(x)](t)
.
= x0 +
t
t0
f(s, x(s)) ds, t ∈ I,
para x ∈ C(I; B[x0; β]).
Observemos que
1. T(x) ∈ C(I; E), pois ´e uma integral definida no intervalo [t0, t] da fun¸c˜ao cont´ınua em
s → f(s, x(s));
2. [T(x)](t) ∈ B[x0; β] para todo t ∈ I, pois para todo t ∈ I temos
[T(x)](t) − x0 E = [x0 +
t
t0
f(s, x(s)) ds] − x0 E
≤
t
t0
f(s, x(s)) E ds
[(s,x(s))∈I×B[x0;β]]
≤
t
t0
M ds
≤ M(t − t0) ≤ M.α ≤ β
3. [T(x)] : I → B[x0; β] ´e lischitziana em I, pois se t, t ∈ I temos que
[T(x)](t) − [T(x)](t ) E = [x0 +
t
t0
f(s, x(s)) ds] − [x0 +
t
t0
f(s, x(s)) ds] E
=
t
t
f(s, x(s)) ds E ≤ |
t
t
f(s, x(s)) E ds|
[ f(s,x(s)) E≤M]
≤ |
t
t
M ds| ≤ M|t − t |.
Em particular, T(x) : I → B[x0; β] ´e cont´ınua em I, ou seja, T(x) ∈ C(I; B[x0; β]).
4. Dos itens acima segue que T ´e uma aplica¸c˜ao do espa¸co m´etrico completo C(I; B[x0; β])
em si mesmo.
5. Se x, y ∈ C(I; B[x0; β]) temos
[T(x)] − [T(y)] sup = sup
t∈I
[x0 +
t
t0
f(s, x(s)) ds] − [x0 +
t
t0
f(s, y(s)) ds] E
= sup
t∈I
t
t0
[f(s, x(s)) − f(s, y(s))] ds E
≤ sup
t∈I
|
t
t0
f(s, x(s)) − f(s, y(s)) E ds|
≤ sup
s∈I
f(s, x(s)) − f(s, y(s)) Eα ≤ α.c. sup
s∈I
x(s) − y(s) E
≤ α.c. x − y sup,
ou seja, T ´e uma contra¸c˜ao (pois α.c  1) do espa¸co m´etrico completo C(I; B[x0; β]) em
si mesmo.
8.8. M´ETODO DAS APROXIMAC¸ ˜OES SUCESSIVAS 313
Logo, do teorema de ponto fixo de Banach, segue que existe uma ´unica x ∈ C(I; B[x0; β])
tal que
x = T(x),
isto ´e, para todo t ∈ I temos
x(t) = x0 +
t
t0
f(s, x(s)) ds,
que, siginifica uma ´unica solu¸c˜ao do P.V.I. dado inicialmente.
314 CAP´ITULO 8. ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
Cap´ıtulo 9
Bibliografia
[ 1 ] E.L. Lima - Espa¸cos M´etricos - Projeto Euclides, IMPA, 1977.
[ 2 ] G.F. Simmons - Introduction to Topology and Modern Analysis, McGraw-Hill, 1963
[ 3 ]S. Lipschutz - Topologia Geral, McGraw-Hill do Brasil, 1973.
315

Espaços metricos

  • 1.
    Notas do Cursode SMA-343 - Espa¸cos M´etricos Prof. Wagner Vieira Leite Nunes S˜ao Carlos 2.o semestre de 2008
  • 2.
  • 3.
    Sum´ario 1 Introdu¸c˜ao 5 2Espa¸cos M´etricos 7 2.1 Defini¸c˜oes b´asicas e exemplos de espa¸cos m´etricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 2.2 Bolas abertas, bolas fechadas e esferas em espa¸cos m´etricos . . . . . . . . . . . . 21 2.3 Subconjuntos limitados de um espa¸cos m´etricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 2.4 Distˆancia de um ponto a um subconjunto em um espa¸co m´etrico . . . . . . . . . 41 2.5 Distˆancia entre dois subconjuntos de um espa¸co m´etrico . . . . . . . . . . . . . . 46 2.6 Imers˜oes isom´etricas e isometrias entre espa¸cos m´etricos . . . . . . . . . . . . . . 47 3 Fun¸c˜oes Cont´ınuas Definidas em Espa¸cos M´etricos 53 3.1 Defini¸c˜ao de fun¸c˜ao cont´ınua em espa¸cos m´etricos e exemplos . . . . . . . . . . . 53 3.2 Propriedades elementares de fun¸c˜oes cont´ınuas entre espa¸cos m´etricos . . . . . . 64 3.3 Homeomorfismos entre espa¸cos m´etricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70 3.4 M´etricas equivalentes em um espa¸co m´etrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87 3.5 Transforma¸c˜oes lineares e multilineares definidas em espa¸cos vetoriais normados . 100 4 Conjuntos Abertos, Fechados - Espa¸cos Topol´ogicos 115 4.1 Conjuntos abertos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115 4.2 Rela¸c˜oes entre conjuntos abertos e continuidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133 4.3 Espa¸cos topol´ogicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 142 4.4 Conjuntos fechado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 146 5 Conjuntos Conexos 165 5.1 Defini¸c˜oes e exemplos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165 5.2 Propriedades gerais de conjuntos conexos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 169 5.3 Conex˜ao por caminhos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 192 5.4 Componentes conexas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 209 6 Limites 213 6.1 Limites de sequˆencias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213 6.2 Sequˆencias de n´umeros reais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 221 6.3 S´eries . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 224 6.4 Convergˆencia e topologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 228 6.5 Sequˆencias de fun¸c˜oes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 233 6.6 Produtos cartesianos infinitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 241 6.7 Limites de fun¸c˜oes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248 3
  • 4.
    4 SUM ´ARIO 7Continuidade Uniforme de Fun¸c˜oes em Espa¸cos M´etricos 253 8 Espa¸cos M´etricos Completos 263 8.1 Sequˆencias de Cauchy . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 263 8.2 Espa¸cos m´etricos completos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 268 8.3 Espa¸cos de Banach e espa¸cos de Hilbert . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 274 8.4 Extens˜ao de fun¸c˜oes cont´ınuas ou uniformemente cont´ınuas . . . . . . . . . . . . 281 8.5 Completamente de um espa¸co m´etrico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 285 8.6 Espa¸co m´etricos topologicamente completos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 294 8.7 O teorema de Baire . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 296 8.8 M´etodo das aproxima¸c˜oes sucessivas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 306 9 Bibliografia 315
  • 5.
    Cap´ıtulo 1 Introdu¸c˜ao Este trabalhopoder´a servir como notas de aula para cursos cujas ementas tratam de espa¸cos m´etricos. Ser˜ao exibidos todos os conceitos relacionados com o conte´udo acima, bem como propriedades e aplica¸c˜oes dos mesmos. As referˆencias ao final das notas poder˜ao servir como material importante para o conte´udo aqui desenvolvido. 5
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    6 CAP´ITULO 1.INTRODUC¸ ˜AO
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    Cap´ıtulo 2 Espa¸cos M´etricos 5.08.2008- 1.a 7.08.2008 - 2.a 2.1 Defini¸c˜oes b´asicas e exemplos de espa¸cos m´etricos Come¸caremos com a: Defini¸c˜ao 2.1.1 Seja M um conjunto n˜ao vazio. Diremos que uma aplica¸c˜ao d : M × M → R ´e uma m´etrica (ou distˆancia) em M se as seguintes condi¸c˜oes est˜ao satisfeitas: (d1) d(x, x) = 0; (d2) se x, y ∈ M e x = y ent˜ao d(x, y) > 0; (d3) d(x, y) = d(y, x) para todo x, y ∈ M; (d4) d(x, z) ≤ d(x, y) + d(y, z), para todo x, y, z ∈ M. Observa¸c˜ao 2.1.1 1. (d1) e (d2) implicam que d(x, y) ≥ 0 para todo x, y ∈ M e que d(x, y) = 0 se, e somente se, x = y. 2. (d3) nos diz que d(x, y) ´e um fun¸c˜ao sim´etrica nas vari´aveis x e y. 3. (d4) ´e conhecida como desigualdade triangular. Este nome se deve ao fato que, na geometria euclideana, o comprimento de um lado de um triˆangulo ´e sempre menor que a soma dos comprimentos dos outros dois lados do triˆangulo. 7
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    8 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS x y z d(x, z) < d(x, y) + d(y, z) Com isto temos a: Defini¸c˜ao 2.1.2 Se d ´e uma m´etrica em M ent˜ao o par (M, d) ser´a denominado espa¸co m´etrico. Observa¸c˜ao 2.1.2 Quando n˜ao houver possibilidade de confus˜ao nos referiremos ao espa¸co m´etrico M (ao inv´es de (M, d)) deixando subentendido a m´etrica d a ser considerada. Nota¸c˜ao 2.1.1 Se (M, d) ´e um espa¸co m´etrico, os elementos de M ser˜ao ditos pontos de M. A seguir daremos alguns exemplos de espa¸cos m´etricos. Exemplo 2.1.1 Seja M um conjunto n˜ao vazio. Consideremos a aplica¸c˜ao d : M × M → R dada por d(x, y) = 0, se x = y 1, se x = y . Afirmamos que d ´e uma m´etrica em M. De fato, as condi¸c˜oes (d1), (d2) e (d3) s˜ao verificadas facilmente e ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor. Mostremos que (d4) ocorre. Se x = z ent˜ao temos que d(x, z) = 0 ≤ d(x, y) + d(y, z) independente de y ∈ M (pois d(x, y), d(y, z) ≥ 0). Se x = z ent˜ao temos que d(x, z) = 1 ≤ d(x, y) + d(y, z) (∗) independente de y ∈ M (pois se y = z teremos d(x, y) = 0 mas como y = x = z segue que d(y, z) = 1 assim (*) ocorrer´a; de modo semelhante se y = z). Portanto vale (d4), ou seja, d ´e uma m´etrica em M.
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    2.1. DEFINIC¸ ˜OESB ´ASICAS E EXEMPLOS DE ESPAC¸OS M´ETRICOS 9 Observa¸c˜ao 2.1.3 A m´etrica acima ´e denominada m´etrica zero-um. Exemplo 2.1.2 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e S ⊆ M n˜ao vazio. Ent˜ao tomando-se a restri¸c˜ao de d sobre S, isto ´e, d|S : S × S → R dada por d|S(x, y) . = d(x, y) para x, y ∈ S ent˜ao segue que d|S ´e uma m´etrica em S. A veririfica¸c˜ao que (d1)-(d4) valem para d|S ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Observa¸c˜ao 2.1.4 No caso acima S ser´a dito subespa¸co (m´etrico) de M e a m´etrica d|S ser´a dita m´etrica induzida pela m´etrica d de M. Exemplo 2.1.3 Seja M = R e d : R × R → R dada por d(x, y) . = |x − y| para x, y ∈ R. Ent˜ao d ´e uma m´etrica em R pois (d1)-(d4) s˜ao conseq¨uˆencias das propriedades elementares da fun¸c˜ao valor absoluto (a verifica¸c˜ao disto ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). Observa¸c˜ao 2.1.5 No caso acima diremos que a m´etrica d ´e a m´etrica usual de R. Podemos generalizar o exemplo acima, a saber: Exemplo 2.1.4 Seja M = Rn. Podemos considerar as seguintes aplica¸c˜oes d, d , d : Rn × Rn → R, j = 1, 2, 3 : 1. d(x, y) . = (x1 − y1)2 + · · · (xn − yn)2 = n i=1 (xi − yi)2 1 2 . 2. d (x, y) . = |x1 − y1| + · · · |xn − yn| = n i=1 |xi − yi|. 3. d (x, y) . = max{|x1 − y1|, · · · , |xn − yn|} = max 1≤i≤n |xi − yi|. As aplica¸c˜oes d, d , d s˜ao m´etricas em Rn. De fato, elas cumprem as condi¸c˜oes (d1),(d2) e (d3) (isto ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). A condi¸c˜ao (d4) ´e facilmente verificada para d e d (isto ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). A condi¸c˜ao (d4) para d ser´a verificada num exemplo a seguir. Observa¸c˜ao 2.1.6 1. A m´etrica d acima definida ser´a denominada m´etrica euclideana. Ela prov´em da f´ormula da distˆancia entre dois pontos (em coordenadas cartesianas) que ´e uma conseq¨uˆencia do Teorema de Pit´agoras (a verifica¸c˜ao disto ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). Devido a este fato a m´etrica d ser´a dita m´etrica usual de Rn.
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    10 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS 2. Se n = 2 a m´etrica d ´e a que d´a a distˆancia entre os pontos p e q do plano (ou seja, o comprimento do segmento de reta que une os pontos p e q, vide figura abaixo). p q d(p, q) A m´etrica d nos d´a a distˆancia entre dois pontos do plano utilizando-se dos catetos de um triˆangulo retˆangulo determinado pelos pontos p e q (vide figura abaixo). p q r ' E T c ‰ w d (p, q) A m´etrica d nos d´a a distˆancia entre dois pontos do plano utilizando-se o comprimento do maior cateto de um triˆangulo retˆangulo determinado pelos pontos p e q (vide figura abaixo). p q r ' E ‰ d (p, q) Geometricamente, temos a seguinte configura¸c˜ao para as trˆes distˆancias acima:
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    2.1. DEFINIC¸ ˜OESB ´ASICAS E EXEMPLOS DE ESPAC¸OS M´ETRICOS 11 p q d(p, q) d (p, q) E' E' T c W w d (p, q) 3. Se n = 2 temos o plano R2 cujos elementos ser˜ao representados por (x, y) ou (u, v), onde x, y, u, v ∈ R. 4. Em algumas situa¸c˜oes identificamos R2 com C, o conjunto dos n´umeros complexos por meio da correspondˆencia (x, y) → x + iy, onde i2 . = −1. 5. Se n = 3 temos o espa¸co R2 cujos elementos ser˜ao representados por (x, y, z) ou (u, v, w), onde x, y, z, u, v, w ∈ R. Com isto temos a Proposi¸c˜ao 2.1.1 Consideremos d, d , d as m´etricas definidas no exemplo (2.1.4). Ent˜ao, para todo x, y, ∈ Rn temos d (x, y) ≤ d(x, y) ≤ d (x, y) ≤ n d (x, y). Demonstra¸c˜ao: Observemos que para todo a, b ≥ 0 temos que: √ a + b ≤ √ a + √ b (∗). De fato, pois [ √ a + √ b]2 = [ √ a]2 + 2 √ a √ b + [ √ b]2 = a + 2 √ a √ b + b ≥ a + b. Portanto √ a + b ≤ √ a + √ b como afirmamos. Observemos que para todo x, y, ∈ Rn temos d (x, y) = max 1≤i≤n |xi − yi| [|a|= √ a2] = max 1≤i≤n (xi − yi)2 ≤   n j=1 (xj − yj)2   1 2 = d(x, y), d(x, y) =   n j=1 (xj − yj)2   1 2 (∗) ≤ n j=1 (xj − yj)2 [ √ a2=|a|] = n j=1 |xj − yj| = d (x, y) e d (x, y) = n j=1 |xj − yj| ≤ n j=1 max 1≤j≤n {|xj − yj|} = max 1≤j≤n {|xj − yj|} n j=1 1 = max 1≤j≤n {|xj − yj|}.n = n.d (x, y)
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    12 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS completando a demonstra¸c˜ao. Para o pr´oximo exemplo introduziremos a seguinte defini¸c˜ao: Defini¸c˜ao 2.1.3 Seja X um conjunto n˜ao vazio. Diremos que uma fun¸c˜ao f : X → R ´e limitada se existir k = kf > 0 tal que |f(x)| ≤ k, para todo x ∈ X. Denotaremos por B(X; R) o conjunto formado por todas as fun¸c˜oes, f : X → R que s˜ao limitadas, isto ´e, B(X; R) . = {f : X → R : f ´e limitada}. Com isto temos o: Exemplo 2.1.5 Na situa¸c˜ao acima temos que B(X; R) tornar-se-´a um espa¸co vetorial sobre R com as opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao de fun¸c˜oes e multiplica¸c˜ao de n´umero real por fun¸c˜ao (isto ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). Definimos d : B(X; R) × B(X; R) → R por d(f, g) . = sup x∈X |f(x) − g(x)|, onde f, g ∈ B(X; R). Afirmamos que d ´e uma m´etrica em B(X; R). De fato: 1. Se f ∈ B(X; R) ent˜ao d(f, f) = sup x∈X |f(x) − f(x)| = 0, mostrando que vale (d1); 2. Se f, g ∈ B(X; R) e f = g ent˜ao existe x0 ∈ X tal que f(x0) = g(x0). Assim d(f, g) = sup x∈X |f(x) − g(x)| ≥ |f(x0) − g(x0)| > 0, mostrando que vale (d2); 3. Se f, g ∈ B(X; R) ent˜ao d(f, g) = sup x∈X |f(x) − g(x)| = sup x∈X | − [g(x) − f(x)]| = sup x∈X |g(x) − f(x)| = d(g, f), mostrando que vale (d3); 4. Se f, g, h ∈ B(X; R) ent˜ao para cada x ∈ X temos que |f(x) − g(x)| = |[f(x) − h(x)] + [h(x) − g(x)]| [|a+b|≤|a|+|b|] ≤ |f(x) − h(x)| + |h(x) − g(x)|. Logo
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    2.1. DEFINIC¸ ˜OESB ´ASICAS E EXEMPLOS DE ESPAC¸OS M´ETRICOS 13 d(f, g) = sup x∈X {|f(x) − g(x)|} ≤ sup x∈X {|f(x) − h(x)| + |h(x) − g(x)|}. (∗) Sabemos que se A e B s˜ao limitados superiormente em R ent˜ao A + B ´e limitado superi- ormente em R e sup[A + B] ≤ sup A + sup B. Aplicando isto ao lado direito de (*) obteremos d(f, g) ≤ sup x∈X {|f(x) − h(x)| + |h(x) − g(x)|} ≤ sup x∈X {|f(x) − h(x)|} + sup x∈X {|h(x) − g(x)|} = d(f, h) + d(h, g), mostrande que (d4) ´e verdadeira. Deste completamos a prova que d ´e uma m´etrica em B(X; R). Observa¸c˜ao 2.1.7 1. A m´etrica definida no exemplo acima ´e denominada m´etrica da convergˆencia uniforme ou m´etrica do sup. 2. Para ilustrar, se X . = [0, 1], f, g : [0, 1] → R s˜ao dadas por f(x) = x e g(x) = x2, x ∈ [0, 1] ent˜ao, geometricamente, d(f, g) ser´a o comprimento da maior corda vertical unindo os pontos dos gr´aficos das fun¸c˜oes f e g (vide figura abaixo). T E 1 1 f g c d(f, g) = |f( 1 2 ) − g( 1 2 )| = 1 2 − 1 2 2 = 1 4 x y TC 1 2 3. Vale observar que se X = {1, 2, · · · , n} ent˜ao toda fun¸c˜ao f : X → R ser´a limitada (pois |f(x)| ≤ kf . = max 1≤i≤n |f(i)|, x ∈ X), ou seja, f ∈ B(X; R). Logo podenos identificar f com a n-upla (x1, x2, · · · , xn) onde xi . = f(i), 1 ≤ i ≤ n. Portanto B(X; R) pode ser identificado com Rn. Neste caso a m´etrica d em B(X; R) definida no exemplo acima, induzir´a a m´etrica d em Rn, pois d(f, g) = sup x∈X |f(x) − g(x)| = max 1≤i≤n |f(i) − g(i)| = max 1≤i≤n |xi − yi| = d (x, y), onde xi = f(i), yi = g(i), i = 1, · · · , n. Conclus˜ao, temos a seguinte identifica¸c˜ao: (B(X; R), d) = (Rn, d ).
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    14 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS 12.08.2008 - 3.a Para o pr´oximo exemplo precisaremos da: Defini¸c˜ao 2.1.4 Seja E um espa¸co vetorial sobre R. Diremos que uma fun¸c˜ao . :→ R ´e uma norma em E se as seguintes condi¸c˜oes s˜ao verificadas: (n1) Se x ∈ E ´e tal que x = 0 ent˜ao x = 0; (n2) Se λ ∈ R e x ∈ E ent˜ao λ x = |λ| x ; (n3) Se x, y ∈ E ent˜ao x + y ≤ x + y . Observa¸c˜ao 2.1.8 Suponhamos que . seja uma norma em E, espa¸co vetorial sobre R. 1. Observemos para todo x ∈ E temos que 0 = 0.x (n2) = |0| x = 0 e − x = (−1).x (n2) = | − 1| x = x (∗). 2. Se x ∈ E temos 0 = x + (−x) (n3) ≤ x + − x (∗) = x + x = 2 x . Logo x ≥ 0, para todo x ∈ E. 3. Segue de (n1) e do item 2. acima segue que se x ∈ E, x = 0 ent˜ao x > 0. Com isto temos a Defini¸c˜ao 2.1.5 Um espa¸co vetorial normal ´e um par (E, . ) onde E ´e um espa¸co vetorial sobre R e . ´e uma norma definida em E. A seguir exibiremos alguns exemplos de espa¸cos vetoriais normados. Exemplo 2.1.6 Consideremos em Rn as seguintes fun¸c˜oes . , . , . : Rn → R dadas por x . = n i=1 x2 i , x . = n i=1 |xi|, x . = max 1≤i≤n |xi|, onde x = (x1, x2, · · · , xn) ∈ Rn. Deixaremos como exerc´ıcio para o leitor mostrar que as fun¸c˜oes . , . acima s˜ao normas em Rn. Al´em disso ser´a deixado para o leitor a verifica¸c˜ao que . satisfaz as condi¸c˜oes (n1), (n2). Logo adiante mostraremos que . tamb´em satisfaz a condi¸c˜ao (n3) e portanto tamb´em ser´a uma norma em Rn. Outro exemplo importante ´e
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    2.1. DEFINIC¸ ˜OESB ´ASICAS E EXEMPLOS DE ESPAC¸OS M´ETRICOS 15 Exemplo 2.1.7 No exemplo (2.1.5) acima podemos considerar a fun¸c˜ao . : B(X; R) → R dada por f . = sup x∈X |f(x)|, f ∈ B(X; R). Deixaremos como exerc´ıcio para o leitor mostrar que . ´e uma norma em B(X; R), ou seja, (B(X; R), . ) ´e um espa¸co vetorial normado. Tal norma ser´a denomiada de norma da convergˆencia uniforme (ou do sup) em B(X; R). Podemos agora obter uma cole¸c˜ao de exemplos de espa¸cos m´etricos, a saber: Exemplo 2.1.8 Seja (E, . ) um espa¸co vetorial normado. Consideremos a fun¸c˜oes d : E × E → R dada por d(x, y) . = x − y , x, y, ∈ E. Afirmamos que d ´e um m´etrica em E. De fato: 1. d(x, x) = x − x = 0 [Observa¸c˜ao (2.1.8) item 1.] = 0, ou seja, vale (d1); 2. Se x = y temos que x − y = 0, logo d(x, y) = x − y [observa¸c˜ao (2.1.8) item 3.] > 0, ou seja, vale (d2); 3. Se x, y ∈ E temos que d(x, y) = x − y [observa¸c˜ao (2.1.8) item 1.] = − (x − y) = y − x = d(y, x), ou seja, vale (d3); 4. Se x, y, z ∈ E temos que d(x, z) = x − z = (x − y) + (y − z)| (n4) ≤ x − y + y − z = d(x, y) + d(y, z), ou seja, vale (d4). Portanto d ´e um m´etrica em E e assim (E, d) ´e um espa¸co m´etrico. Observa¸c˜ao 2.1.9
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    16 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS 1. O exemplo acima nos mostra que todo espa¸co vetorial normado ´e um espa¸co m´etrico (onde a m´etrica ser´a a m´etrica do exemplo acima). Neste caso diremos que a m´etrica d prov´em da norma . . Por exemplo, as m´etricas d, d , d de Rn prov´em das normas . , . , . , respectiva- mente (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao destes fatos). De modo semelhante temos que a m´etrica d(f, g) = f − g definida em B(X; R) (onde a norma . ´e a do exemplo (2.1.7)) ´e proveniente da norma da convergˆencia uniforme. 2. Pergunta-se: Seja E ´e um espa¸co vetorial sobre R e d ´e um m´etrica em E. Existir´a uma norma em E de modo que a m´etrica dada d prov´em dessa norma? ou seja, uma m´etrica qualquer definida E prov´em de alguma norma definida em E? Infelizmente isto ´e falso, ou seja, existem espa¸cos vetoriais que possuem m´etricas que n˜ao prov´em de normas definidas no espa¸co vetorial em quest˜ao. O exerc´ıcio 3 da 1.a lista de exerc´ıcios nos d´a uma condi¸c˜ao necessaria e suficiente para que um m´etrica em um espa¸co vetorial seja proveniente de uma norma do espa¸co vetorial em quest˜ao. Mais precisamente temos que: Seja E um espa¸co vetorial sobre R. Uma m´etrica, d, em E prov´em de uma norma em E se, e somente se, d(x + a, y + a) = d(x, y) e d(λx, λy) = |λ|d(x, y), para todo x, y, a ∈ E e λ ∈ R. No exerc´ıcio 4 da 1.a lista de exerc´ıcios o leitor ´e convidado a produzir um exemplo de espa¸co vetorial que possua uma m´etrica que n˜ao prov´em de nenhuma norma definida no espa¸co vetorial em quest˜ao. 3. Observemos tamb´em que se (E, . ) ´e um espa¸co vetorial normado ent˜ao para todo x ∈ E temos d(x, 0) = x − 0 = x , isto ´e, a norma do vetor x ∈ E ´e a distˆancia do ponto x ∈ E `a origem 0 ∈ E. Para considerar uma outra classe de exemplos precisaremos da Defini¸c˜ao 2.1.6 Seja E um espa¸co vetorial sobre R. Diremos que a fun¸c˜ao < ., . >: E × E → R ´e um produto interno (ou escalar) em E se satisfas as seguintes condi¸c˜oes: (p1) Para x, x , y ∈ E temos < x + x , y >=< x, y > + < x , y >;
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    2.1. DEFINIC¸ ˜OESB ´ASICAS E EXEMPLOS DE ESPAC¸OS M´ETRICOS 17 (p2) Para x, y ∈ E e λ ∈ R temos < λx, y >= λ < x, y >; (p3) Para x, y ∈ E temos < x, y >=< y, x >; (p4) Para x ∈ E, x = 0 temos < x, x >> 0. Neste caso diremos que (E, < ., . >) ´e um espa¸co com produto interno (ou escalar). Observa¸c˜ao 2.1.10 1. Se (E, < ., . >) ´e um espa¸co com produto interno ent˜ao para x, y, y ∈ E e λ ∈ R temos que < x, y + y > (p3) = < y + y , x > (p1) = < y, x > + < y , x > (p3) = < x, y > + < x, y > e < x, λy > (p3) = < λy, x > (p2) = λ < y, x > (p3) = λ < x, y >, (∗) ou seja, < ., . > ´e linear em cada uma das suas entradas (denominada bilinear). 2. De (p4) temos que se x ∈ E e < x, x >= 0 ent˜ao x = 0. Logo temos que < x, x >≥ 0 para todo x ∈ E e < x, x >= 0 se, e somente se, x = 0. No curso de ´Algebra Linear dir´ıamos que a fun¸c˜ao < ., . > ´e bilinear, sim´etrica e positiva definida. A seguir exibiremos alguns exemplos de espa¸cos com produto interno: Exemplo 2.1.9 Seja E = Rn e definamos < ., . >: Rn × Rn → R por < x, y > . = x1y1 + · · · + xnyn = n i=1 xi yi, onde x = (x1, x2, · · · , xn), y = (y1, y2, · · · , yn) ∈ Rn. Ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor mostrar que a fun¸c˜ao < ., . > definida acima satisfaz as condi¸c˜oes (p1),(p2),(p3) e (p4), ou seja, < ., . > ´e um porduto interno em Rn. Outro exemplo importante ´e:
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    18 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS Exemplo 2.1.10 Seja C([a, b]; R) = {f : [a, b] → R; f cont´ınua em [a, b]}. Pode-se mostrar que C([a, b]; R) munido das opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao de fun¸c˜oes e multi- plica¸c˜ao de n´umero real por fun¸c˜ao ´e um espa¸co vetorial. Para isto basta mostrar que C([a, b]; R) ´e um subsepa¸co vetorial de B([a, b]; R) (a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor; lembremos que se f ´e cont´ınua em [a, b] ent˜ao f ser´a limitada). Considere a seguinte fun¸c˜ao < ., . >: C([a, b]; R) × C([a, b]; R) → R dada por: < f, g > . = b a f(x)g(x) dx, se f, g ∈ C([a, b]; R). Ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor mostrar que < ., . > definida acima satisfaz as condi¸c˜oes (p1),(p2),(p3) e (p4), ou seja, ´e um produto interno em C([a, b]; R) . Com isto temos uma cole¸c˜ao de espa¸cos vetoriais normados (e portanto, de espa¸cos m´etricos), a saber: Exemplo 2.1.11 Seja (E, < ., . >) um espa¸co vetorial com produto interno. Considere a fun¸c˜ao . : E → R dada por x . = < x, x >, (∗) para x ∈ E. Afirmamos que . ´e uma norma em E. De fato: 1. Se x ∈ E e x = 0 ent˜ao x = < x, x > (p4), <x,x>0 = 0, isto ´e, vale (n1); 2. Se x ∈ E e λ ∈ R ent˜ao λx = < λx, λx > [ (p1) e a observa¸c˜ao (2.1.10) (*)] = λ2 < x, x > = √ λ2 < x, x > = |λ| x , isto ´e, vale (n2); 3. Nesta situa¸c˜ao temos a Desigualdade de Cauchy-Schwarz, a saber: se (E, < ., . >) espa¸co vetorial com produto interno ent˜ao para todo x, y ∈ E temos que | < x, y > | ≤ x y . De fato: Se x = 0 valer´a a igualdade, logo ser´a verdadeira.
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    2.1. DEFINIC¸ ˜OESB ´ASICAS E EXEMPLOS DE ESPAC¸OS M´ETRICOS 19 Se x = 0 podemos definir λ . = < x, y > x 2 e z . = y − λx. Observemos que < z, x > =< y − λx, x >=< y, x > −λ < x, x >=< y, x > − < x, y > < x, x > < x, x > =< x, y > − < x, y >= 0, (isto ´e, os vetores em quest˜ao s˜ao ortogonais). Logo y 2 =< y, y >=< z + λx, z + λx >=< z, z > +λ < z, x > +λ < x, z > +λ2 < x, x > [<x,z>=<z,x>=0] = z 2 + λ2 x 2 . Logo λ2 x 2 ≤ y 2 , ou seja, < x, y > x 2 2 x 2 ≤ y 2 , isto ´e, < x, y >2 ≤ x 2 y 2 implicando a desigualdade acima, como quer´ıamos demonstrar. 4. Utilizando a Desigualdade de Cauchy-Schwarz temos que x + y 2 < x + y, x + y >=< x, x > + < x, y > + < y, x > + < y, y > = x 2 + 2 < x, y > + y 2 ≤ x 2 + 2 x y + y 2 = ( x + y )2 , inplicando que x + y ≤ x + y , ou seja , vale (n3). Com isto temos que . ´e uma norma em E. 5. Segue do item acima que a aplica¸c˜ao d do exemplo (2.1.4) satisfaz a condi¸c˜ao (d4), ou seja, ser´a uma m´etrica em Rn, como hav´ıamos afirmado. Observa¸c˜ao 2.1.11 1. No caso acima diremos que a norma (*) definida acima ´e uma norma que prov´em do produto interno de E. 2. O exemplo acima nos mostra que todo espa¸co vetorial com produto interno pode tornar-se um espa¸co vetorial normado (com a norma que prov´em do produto interno dado).
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    20 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS 3. Pergunta-se: Seja E um espa¸co vetorial normado. Toda norma de E prov´em de um produto interno? A resposta ´e negativa, isto ´e, existem espa¸cos vetoriais que possuem normas que n˜ao prov´em de nenhum produto interno no espa¸co vetorial em quest˜ao. No exerc´ıcio 5 da 1.a lista de exerc´ıcios o leitor ´e convidado a mostrar que em B(X; R) a norma da convergˆencia uniforme n˜ao prov´em de um produto interno. Um outro exemplo pode ser obtido utilizando-se o item abaixo. 4. Deixaremos como exerc´ıcio para o leitor mostrar que: [Ex1.1 - +0.5] Seja (E, . ) um espa¸co vetorial normado. A norma . de E prov´em de um produto interno se, e somente se, temos que x + y 2 + x − y 2 = 2[ x 2 + y 2 ], para tod x, y ∈ E, que ´e conhecida como lei do paralelogramo. 5. Logo a norma . em R2 n˜ao prov´em de um produto interno pois tomando-se x = (1, 0) e y = (0, 1) temos que estes vetores n˜ao satisfazem a lei do paralelogramo (verifique!). 6. Como conseq¨uˆencia do que vimos acima todo espa¸co vetorial com produto interno ´e um espa¸co m´etrico (basta tomar a m´etrica que prov´em da norma que ´e proveniente do produto interno). Para concluir a se¸c˜ao temos o: Exemplo 2.1.12 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) dois espa¸cos m´etricos. Em M × N podemos considerar as seguinte fun¸c˜oes d, d , d : [M × N] × [M × N] → R dadas por: d(z, z ) . = [dM (x, x )]2 + [dN (y, y )]2; d (z, z ) . = dM (x, x ) + dN (y, y ); d (z, z ) . = max{dM (x, x ), dN (y, y )}, onde z = (x, y), z = (x , y ) ∈ M × N. Ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor mostrar que d, d , d s˜ao metricas em M × N. Observa¸c˜ao 2.1.12 1. Podemos generalizar o exemplo acima para um produto finito de espa¸cos m´etricos. Mais precisamente, se (M1, d1), (M2, d2), · · · , (Mn, dn) s˜ao n-espa¸cos m´etricos ent˜ao pode- mos definir as seguintes m´etricas no produto cartesiano M1 × M2 × · · · × Mn:
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    2.2. BOLAS ABERTAS,BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 21 d(x, y) . = [d1(x1, y1)]2 + · · · + [dn(xn, yn)]2 = n j=1 [dj(xi, yi)]2; d (x, y) . = d1(x1, y1) + · · · + dn(xn, yn) = n j=1 dj(xi, yi); d (x, y) . = max{d1(x1, y1), · · · , dn(xn, yn)} = max 1≤j≤n {dj(xi, yi)}, onde x = (x1, x2, · · · , xn), y = (y1, y2, · · · , yn) ∈ M1 × M2 × · · · × Mn. A verifica¸c˜ao ser´a deixcada como exerc´ıcio para o leitor. 2. A m´etrica d definida acima ser´a dita m´etrica produto em M . = M1 × M2 × · · · × Mn. A m´etrica d definida acima ser´a dita m´etrica da soma em M . = M1 × M2 × · · · × Mn. A m´etrica d definida acima ser´a dita m´etrica do m´aximo em M . = M1 ×M2 ×· · ·×Mn. 3. De modo an´alogo ao feito na proposi¸c˜ao (2.1.1) pode-se mostrar (ser´a deixado como exer- c´ıcio para o leitor) que para todo x, y, ∈ M1 × M2 × · · · × Mn temos d (x, y) ≤ d(x, y) ≤ d (x, y) ≤ n d (x, y). 4. Quando M1 = M2 = · · · = Mn = R reobteremos o espa¸co euclideano Rn como produto cartesiano de n c´opias do esp¸cao m´etrico R. 14.08.2008 - 4.a 2.2 Bolas abertas, bolas fechadas e esferas em espa¸cos m´etricos Come¸caremos introduzindo a: Defini¸c˜ao 2.2.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico, a ∈ M e r > 0. Definimos a bola aberta de centro em a e raio r, denotada por B(a; r) como sendo o seguinte subconjunto de M: B(a; r) . = {x ∈ M : d(x, a) < r}. a Qr Definimos a bola fechada de centro em a e raio r, denotada por B[a; r] como sendo o seguinte subconjunto de M: B[a; r] . = {x ∈ M : d(x, a) ≤ r}.
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    22 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS a r u Definimos a esfera de centro em a e raio r, denotada por S(a; r) como sendo o seguinte subconjunto de M: S(a; r) . = {x ∈ M : d(x, a) = r}. a r T Observa¸c˜ao 2.2.1 1. A bola aberta de centro em a e raio r ´e o conjunto dos pontos de M cuja a distˆancia ao ponto a ´e menor do que r. A bola fechada de centro em a e raio r ´e o conjunto dos pontos de M cuja a distˆancia ao ponto a ´e menor ou igual do que r. A esfera aberta de centro em a e raio r ´e o conjunto dos pontos de M cuja a distˆancia ao ponto a ´e igual r. 2. ´E f´acil ver que (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) B[a; r] = B(a; r) ∪ S(a; r), onde a reuni˜ao ´e disjunta, isto ´e, B(a; r) ∩ S(a; r) = ∅. 3. Se M = E ´e um espa¸co vetorial e a m´etrica d prov´em de uma norma . em E, ent˜ao segue que B(a; r) . = {x ∈ E : x − a < r}, B[a; r] . = {x ∈ E : x − a ≤ r}, S(a; r) . = {x ∈ E : x − a = r}. Temos o seguinte resultado:
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    2.2. BOLAS ABERTAS,BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 23 Proposi¸c˜ao 2.2.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico, X ⊆ M um subsepa¸co (m´etrico) de M, a ∈ X e r > 0. Denotemos por BX(a; r) a bola aberta de centro em a e raio r em X. Ent˜ao BX(a; r) = B(a; r) ∩ X, onde B(a; r) ´e a bola aberta de centro em a e raio r em M. Reciprocamente, dada a bola aberta de centro em a e raio r em M ent˜ao B(a; r)∩X ´e a bola aberta de centro em a e raio r em X, ou seja, B(a; r) ∩ X = BX(a; r). M X a …r © BX (a; r) B B(a; r) Demonstra¸c˜ao: Observemos que BX(a; r) = {x ∈ X : dX(x, a) < r} = {y ∈ M : d(y, a) < r} ∩ X = B(a : r) ∩ X, completando deste modo a demonstra¸c˜ao do resultado. De modo semelhante podemos provar a: Proposi¸c˜ao 2.2.2 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico, X ⊆ M um subsepa¸co (m´etrico) de M, a ∈ X e r > 0. Denotemos por BX[a; r] e SX(a; r) a bola fechada e esfera de centro em a e raio r em X, respectivamente. Ent˜ao BX[a; r] = B[a; r] ∩ X, SX[a; r] = S(a; r) ∩ X onde B[a; r], S(a; r) s˜ao a bola fechada e a esfera de centro em a e raio r em M, respectivamente. Reciprocamente, dada a bola fechada, ou a esfera, de centro em a e raio r em M ent˜ao B[a; r] ∩ X, ou S(a; r) ∩ X ´e a bola fechada, ou a esfera, de centro em a e raio r em X, respectivamente ou seja, B[a; r] ∩ X = BX[a; r], S(a; r) ∩ X = SX[a; r]. Demonstra¸c˜ao: A demonstra¸c˜ao ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Para ilustrar temos os seguintes exemplos:
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    24 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS Exemplo 2.2.1 Consideremos R2 com a m´etrica usual e X = S1 = {(x, y) ∈ R2 : x2 +y2 = 1}. Seja a ∈ S1 e r > 0. Da proposi¸c˜ao (2.2.1) segue que BS1 (a; r) ser´a um arco (sem os extremos) da circunferˆencia S1 cujo ponto m´edio (no arco) ser´a o ponto a (vide figura abaixo). E T x y ES1 a T r W BR2 (a : r)c BS1 (a; r) De modo semelhante, da proposi¸c˜ao (2.2.2) segue que BS1 [a; r], SS1 (a; r) s˜ao o arco (com os extremos) da circunferˆencia S1 cujo ponto m´edio ser´a o ponto a e os pontos extremos do mesmo arco, respectivamente (vide figura abaixo). E T x y ES1 a T r W BR2 [a : r]c BS1 [a; r] B z SS1 (a; r) Exemplo 2.2.2 Sejam M = ∅ munido da m´etrica zero-um, a ∈ M e r > 0.
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    2.2. BOLAS ABERTAS,BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 25 Ent˜ao Se r > 1 temos que: B(a; r) = {x ∈ M : d(x, a) < r} [d(x,a)≤1<r] = M, B[a; r] = {x ∈ M : d(x, a) ≤ r} [d(x,a)≤1<r] = M; Se r < 1 temos que: B(a; r) = {x ∈ M : d(x, a) < r} [r<1] = {x ∈ M : d(x, a) = 0} = {a}, B[a; r] = {x ∈ M : d(x, a) ≤ r} [r<1] = {x ∈ M : d(x, a) = 0} = {a}; Se r = 1 temos que: B(a; r) = {x ∈ M : d(x, a) < r} [r<1] = {a}, B[a; r] = {x ∈ M : d(x, a) ≤ r} [r=1] = M, Como conseq¨uˆencia temos que S(a, r) = B[a; r] B(a; r) = ∅, se r = 1, S(a; 1) = B[a; 1] B(a; 1) = M − {a}. Exemplo 2.2.3 Sejam R com a m´etrica usual, a ∈ R e r > 0. Ent˜ao: B(a; r) = {x ∈ M : d(x, a) < r} = {x ∈ M : |x − a| < r} = (a − r, a + r), ou seja, um intervalo aberto, B[a; r] = {x ∈ M : d(x, a) ≤ r} = {x ∈ M : |x − a| ≤ r} = [a − r, a + r], ou seja, um intervalo fechado; S(a, r) = B[a; r] B(a; r) = {a − r, a + r}, ou seja, os extremos do intervalo. Geometricamente temos: E a a + ra − r Bola aberta de centro em a e raio r E a + ra − r a Bola fechada de centro em a e raio r E a + r a a − r Esfera de centro em a e raio r Exemplo 2.2.4 Consideremos em R2 as m´etricas d, d , d definidas no exemplo (2.1.4). Sejam a = (a1, a2) ∈ R2 e r > 0. Ent˜ao: B(a; r) = {(x, y) ∈ R2 : d[(x, y), (a1, a2)] < r} = {(x, y) ∈ R2 : (x − a1)2 + (y − a2)2 < r} = {(x, y) ∈ R2 : (x − a1)2 + (y − a2)2 < r2 }, isto ´e, a regi˜ao interior de um c´ırculo de centro no ponto a e raio r (veja figura abaixo).
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    26 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS a = (a1, a2) Q r B (a; r) = {(x, y) ∈ R2 : d [(x, y), (a1, a2)] < r} = {(x, y) ∈ R2 : |x − a1| + |y − a2| < r} isto ´e, a regi˜ao interior do quadrado de centro em a e cujas diagonais s˜ao paralelas aos eixos coordenados (veja figura abaixo). Observemos que |x − a1| + |y − a2| = r se, e somente se,    x − a1 + y − a2 = r −(x − a1) + y − a2 = r −(x − a1) − (y − a2) = r x − a1 − (y − a2) = r que s˜ao as quatro retas que determinam o losango abaixo. E T a = (a1, a2) ' x − a1 − y + a2 = r ' x − a1 + y − a2 = rE−x + a1 + y − a2 = r E−x + a1 − y + a2 = r (a1, a2 − r) (a1 + r, a2)(a1 − r, a2) (a1, a2 + r) B (a; r) = {(x, y) ∈ R2 : d [(x, y), (a1, a2)] < r} = {(x, y) ∈ R2 : max{|x − a1|, |y − a2|} < r} = {(x, y) ∈ R2 : |x − a1| < r e |y − a2| < r} = (a1 − r, a1 + r) × (a2 − r, a2 + r) isto ´e, a regi˜ao interior do quadrado [a1 − r, a1 + r] × [a2 − r, a2 + r]) (veja figura abaixo).
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    2.2. BOLAS ABERTAS,BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 27 a = (a1, a2) E T a1 − r a1 + ra1 a2 − r a2 + r a2 Observa¸c˜ao 2.2.2 Geometricamente, o exemplo (2.2.4) ilustra que uma bola (aberta ou fechada) pode n˜ao corresponder ao que pensamos (por exemplo, uma bola ser um quadrado!). Exemplo 2.2.5 Seja (B([a, b]; R)), d) onde d ´e a m´etrica do sup (veja exemplo (2.1.5)). Sejam f ∈ B([a, b]; R)) e r > 0. Observemos que g ∈ B(f; r) se, e somente se, r > d(f, g) = sup x∈[a,b] |f(x) − g(x)| que implicar´a |f(x) − g(x)| < r, para todo x ∈ [a, b], ou ainda, f(x) − r < g(x) < f(x) + r, para todo x ∈ [a, b]. Geometricamente podemos interpretar isso da seguinte forma: encontremos a representa¸c˜ao gr´afica do gr´afico de f, isto ´e, G(f) . = {(x, f(x)) : x ∈ [a, b]}. Encontremos a faixa de amplitude 2r em torno do gr´afico de f, isto ´e, o conjunto F2r(f) . = {(x, y) : a ≤ x ≤ b, f(x) − r < y < f(x) + r}. Geometricamente temos:
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    28 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS T E G(f) f(x) x c T T c r r F2r(f) Deste modo, se g ∈ B(f; r) ent˜ao o gr´afico de g estar´a contido na faixa de amplitude 2r em torno do gr´afico de f, isto ´e, G(g) ⊆ F2r(f). Geometricamente temos T E G(f) f(x) x c T T c r r G(g) Observa¸c˜ao 2.2.3 No exemplo acima, pode ocorrer de G(g) ⊆ F2r(f) e d(f, g) = r. Para ver isto basta considerar f(x) = 0 para todo x ∈ [0, 1] e g(x) = x, 0 ≤ x 1 0, x = 1 . Neste caso d(f, g) = sup 0≤x≤1 |f(x) − g(x)| = 1, logo g ∈ B(f; 1) mas G(g) est´a contido em F2(f) (veja figura abaixo).
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    2.2. BOLAS ABERTAS,BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 29 E T G(f) G(g) F2r(f) A Exemplo 2.2.6 Seja M . = {z = (x, y) ∈ R2 : z ≤ 1} subespa¸co (m´etrico) de R2 munido da m´etrica usual. Logo se r 1 temos que BM (0; r) = BM [0; r] = M e assim SM (0; r) = ∅. Exemplo 2.2.7 Sejam (M1, d1), · · · (Mn, dn) espa¸cos m´etricos e M . = M1 × · · · Mn munido da m´etrica do m´aximo (isto ´e, d da observa¸c˜ao (2.1.12) itens 1. e 2.). Sejam a = (a1, · · · , an) ∈ M e r 0. Ent˜ao B(a; r) = {x ∈ M : d (x, a) r} = {(x1, · · · , xn) ∈ M1 × · · · × Mn : max 1≤i≤n di(xi, ai) r} = {(x1, · · · , xn) ∈ M1 × · · · × Mn : di(xi, ai) r, para todo i = i, · · · , n} = {x1 ∈ M1 : d1(x1, a1) r} × · · · × {xn ∈ Mn : dn(xn, an) r} = BM1 (a1; r) × · · · × BMn (an; r) De modo semelhante (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) temos B[a; r] = BM1 [a1; r] × · · · × BMn [an; r] Logo acabamos de mostrar que a bola aberta (ou fechada) no produto cartesiano com a m´etrica do m´aximo ´e o produto cartesiano das bolas abertas (ou fechadas) em cada um dos fatores do produto cartesiano. Observa¸c˜ao 2.2.4 1. Se no exemplo acima mudarmos a m´etrica do m´aximo pela m´etrica produto ou pela m´etrica da soma a afirma¸c˜ao ser´a falsa, isto ´e, uma bola aberta (ou fechada) no produto cartesiano pode n˜ao ser o produto cartesiano das bolas abertas (ou fechadas) em cada um dos fatores do produto cartesiano. Como exerc´ıcio para o leitor deixaremos que o mesmo encontre um contra-exemplo em R2.
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    30 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS 2. Se considerarmos R3 como sendo o produto cartesiano de R2 × R onde R2 e R est˜ao munidos das correspondentes m´etricas euclieanas e tormarmos em R3 = R2 × R a m´etrica d[(x, t), (x , t )] . = max{dR2 (x, x ), dR(t, t )}, onde (x, t), (x , t ) ∈ R2 × R ent˜ao uma bola aberta, B(a; r) (ou fechadas) em R3 munido da m´etrica d acima ser˜ao cilindros retos com base circular (contida no plano z = a), com centro em a e raio r)e altura 2r. De fato, pois se (A, a) ∈ R2 × R e r 0 ent˜ao, do exemplo (2.2.7), segue que BR2×R((A, a); r) = BR2 (A; r) × BR(a; r) = {(x, y) : x2 + y2 r2 } × {t ∈ R : |t − a| r}, ou seja, o produto cartesiano do interior de um c´ırculo por um intervalo aberto que nos d´a, geometricamente, um cilindro reto com base circular. T B(0; r) T c T c I r r r E a A verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Temos a Defini¸c˜ao 2.2.2 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico. Diremos que um ponto a ∈ M ´e um ponto isolado de M se existir uma bola aberta de M que contenha somente o ponto a, isto ´e, existe r 0 tal que B(a; r) = {a}. Observa¸c˜ao 2.2.5 1. Um ponto a ∈ M ´e isolado em M se existe r 0 tal que n˜ao existem pontos diferentes do ponto a a uma distˆancia menor que r do pr´oprio ponto. 2. Um ponto a ∈ M n˜ao ´e ponto isolado de M se toda bola aberta centrada em a cont´em, pelo menos, um ponto de M diferente do ponto a, isto ´e, para todo r 0 temos [B(a; r) ∩ M] {a} = ∅. Consideremos os
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    2.2. BOLAS ABERTAS,BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 31 Exemplo 2.2.8 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico onde d ´e a m´etrica zero-um. Ent˜ao todo ponto de M ´e ponto isolado de M. De fato, se a ∈ M e 0 r ≤ 1 ent˜ao vimos no exemplo (2.2.2) que B(a; r) = {a}, mostrando que a ´e ponto isolado de M. Exemplo 2.2.9 Seja Z o conjunto formado por todos os n´umeros reais inteiros munido da m´etrica usual induzida de R. Afirmamos que todo ponto de Z ´e ponto isolado de Z. De fato, se n ∈ Z e 0 r ≤ 1 ent˜ao B(n; r) ∩ Z = {n} (pois B(n; r) = {x ∈ Z : |x − n| r ≤ 1} = {n}), mostrando que n ∈ Z ´e ponto isolado de Z. Exemplo 2.2.10 Seja P . = {0, 1, 1 2 , 1 3 , · · · , 1 n , · · · } munido da m´etrica usual induzida de R. Observemos que o ponto 0 ∈ P n˜ao ´e um ponto isolado de P. De fato, dado r 0 existe n0 ∈ N tal que n0 1 r . Logo d( 1 n0 , 0) = | 1 n0 − 0| = 1 n0 r, isto ´e, 1 n0 ∈ [B(0; r) ∩ P] {0}, ou seja, 0 n˜ao ´e ponto isolado de P. Por outro lado, qualquer outro ponto de P ´e ponto isolado de P. De fato, se 1 n ∈ P ent˜ao o ponto mais pr´oximo dele em P ´e o ponto 1 n + 1 , cuja distˆancia a 1 n ´e 1 n(n + 1) (pois d( 1 n , 1 n + 1 = | 1 n − 1 n + 1 | = (n + 1) − n n(n + 1) = 1 n(n + 1) ). Logo se tomarmos 0 r 1 n(n + 1) temos que se x ∈ P e d(x, 1 n ) r 1 n(n + 1) temos que x = 1 n , ou seja, [B( 1 n ; r) ∩ P] { 1 n } = ∅, mostrando que 1 n ´e ponto isolado de P. 1 n 1 n−1 1 n+1 E' 1 n(n+1) E' 1 (n−1)n Observa¸c˜ao 2.2.6 Se P . = {1, 1 2 , 1 3 , · · · , 1 n , · · · } munido da m´etrica usual induzida de R ent˜ao, segue do exemplo acima, que todo ponto de P ´e um ponto isolado de P.
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    32 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS Exemplo 2.2.11 Seja E um espa¸co vetorial normado com E = {0}. Afirmamos que nenhum ponto de E ´e ponto isolado de E. De fato, dado a ∈ E, para todo r 0 mostremos que [B(a; r) ∩ E] {a} = ∅. Para mostrar isso, consideremos y ∈ E, y = 0. Logo o vetor z . = r 2 y y ´e diferente do vetor 0 e z = r 2 y y = r 2 y y = r 2 , logo 0 z r. Seja x . = a + z. Ent˜ao x = a (pois z = 0) e x − a = z r, ou seja, x ∈ B(a; r) ∩ E e x = a, mostrando que x ∈ [B(a; r) ∩ E] {a}, isto ´e, [B(a; r) ∩ E] {a} = ∅. Portanto todo ponto de E n˜ao ´e ponto isoldado de E. Geometricamente temos: ~ a r By b x . = a + r 2 y y 19.08.2008 - 5.a Temos a Defini¸c˜ao 2.2.3 Diremos que um espa¸co m´etrico (M, d) ´e discreto se todo ponto de M ´e um ponto isolado de M. Exemplo 2.2.12 O exemplo (2.2.9) mostra que Z com a m´etrica usual induzida de R ´e um espa¸co m´etrico discreto.
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    2.2. BOLAS ABERTAS,BOLAS FECHADAS E ESFERAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 33 Exemplo 2.2.13 A observa¸c˜ao (2.2.6) mostra que P = {1, 1 2 , 1 3 , · · · , 1 n , · · · } com a m´etrica usual induzida de R ´e um espa¸co m´etrico discreto. Exemplo 2.2.14 Seja M um conjunto n˜ao vazio e d a m´etrica zero-um em M. Ent˜ao (M, d) ´e um espa¸co m´etrico discreto, pois se a ∈ M ent˜ao para 0 r ≤ 1 temos, do Exemplo (2.2.2), que B(a; r) = {a}, ou seja todo ponto de M ´e ponto isolado de M, portanto M ´e um espa¸co m´etrico discreto. Defini¸c˜ao 2.2.4 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico. Diremos que um subconjunto X ⊆ M ´e discreto se X como subsepa¸co (m´etrico) de M for um espa¸co m´etrico discreto. Observa¸c˜ao 2.2.7 Na situa¸c˜ao acima, X ´e um espa¸co m´etrico discreto se, e somente se, para cada x ∈ X existe r 0 tal que B(x; r) ∩ X = {x} (pois, da proposi¸c˜ao (2.2.1) temos que B(x; r) ∩ X = BX(x; r)). Exerc´ıcio 2.2.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico e X um subconjunto finito de M. Deixaremos como exerc´ıcio para o leitor mostrar que X ´e um subconjunto discreto de M. Para finalizar a se¸c˜ao temos a: Proposi¸c˜ao 2.2.3 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico, a, b ∈ M com a = b. Consideremos r, s 0 tais que r + s ≤ d(a, b). Ent˜ao as bolas abertas B(a; r) e B(b; s) s˜ao disjuntas (veja figura abaixo), isto ´e, B(a; r) ∩ B(b; s) = ∅. a b E ' r s E' d(a, b) r + s Demonstra¸c˜ao: Suponhamos, por absurdo, que existe x ∈ B(a; r) ∩ B(b; s). Logo d(a, x) r e d(b, x) s. Portanto d(a, b) ≤ d(a, x) + d(x, b) r + s ≤ d(a, b), ou seja, d(a, b) d(a, b), o que ´e um absurdo. Logo B(a; r) ∩ B(b; s) = ∅
  • 34.
    34 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS como quer´ıamos mostrar. De modo semelhante temos a: Proposi¸c˜ao 2.2.4 Na situa¸c˜ao da proposi¸c˜ao acima, se r + s d(a, b) ent˜ao as bolas fechadas B[a; r] e B[b; s] s˜ao disjuntas , isto ´e, B[a; r] ∩ B[b; s] = ∅. Demonstra¸c˜ao: Suponhamos, por absurdo, que existe x ∈ B[a; r] ∩ B[b; s]. Logo d(a, x) ≤ r e d(b, x) ≤ s. Portanto d(a, b) ≤ d(a, x) + d(x, b) ≤ r + s d(a, b), ou seja, d(a, b) d(a, b), o que ´e um absurdo. Logo B[a; r] ∩ B[b; s] = ∅ como quer´ıamos mostrar. 2.3 Subconjuntos limitados de um espa¸cos m´etricos Iniciaremos com a Defini¸c˜ao 2.3.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico. Diremos que um subconjunto X ⊆ M, n˜ao vazio, ´e limitado em M se existir c 0 tal que d(x, y) ≤ c para todo x, y ∈ X. Observa¸c˜ao 2.3.1 Se X ⊆ M ´e limitado em M ent˜ao podemos considerar o conjunto D . = {a ∈ R : d(x, y) ≤ a, para todo x, y ∈ X} ⊆ R. Como X ´e limitado em M segue que D ´e n˜ao vazio e limitado superiormente (ou seja, existe c ∈ R tal que c ∈ D). Como todo subconjunto limitado superiormente em R admite supremo, segue que existe 0 ≤ sup D ∞. Logo podemos introduzir a Defini¸c˜ao 2.3.2 Na situa¸c˜ao acima, sup D ser´a denominado diˆametro de X e indicado por diam(X), ou seja, diam(X) = sup{a ∈ R : d(x, y) ≤ a, para x, y ∈ X}.
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    2.3. SUBCONJUNTOS LIMITADOSDE UM ESPAC¸OS M´ETRICOS 35 Observa¸c˜ao 2.3.2 1. Se X ⊆ M n˜ao for limitado em M escreveremos diam(X) . = ∞. Isto significa que para todo c 0 existem xc, yc ∈ X tal que d(xc, yc) c. 2. Se X ⊆ M for limitado ent˜ao d(x, y) ≤ diam(X), para todo x, y, ∈ X. 3. ´E f´acil mostrar que (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que se X ⊆ M for limitado em M e Y ⊆ X ent˜ao Y ⊆ M ´e limitado em M e diam(Y ) ≤ diam(X). Consideremos alguns exemplos Exemplo 2.3.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico. Ent˜ao toda bola aberta (ou fechada; ou esfera) ´e subconjunto limitado de M e seu diˆametro ´e menor ou igual ao dobro do seu raio. De fato, seja a ∈ M e r 0. Se x, y ∈ B(a; r) ent˜ao d(x, y) ≤ d(x, a) + d(a, y) r + r = 2r mostrando que B(a; r) ´e um subconjunto limitado de M. Al´em disso segue que 2r ´e um limitante superior do conjunto {a ∈ R : d(x, y) ≤ a, para todo x, y ∈ B(a; r)}. Portanto diam[B(a; r)] ≤ 2r, como afirmamos acima. Vale o an´alogo para a bola fechada B[a; r] e para a esfera S(a; r) (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). Observa¸c˜ao 2.3.3 Em geral, n˜ao podemos garantir que o diˆametro da bola aberta (ou fechada, ou esfera) seja igual ao dobro do seu raio, como mostra o seguinte exemplo: Consideremos Z com a m´etrica usual induzida de R, r = 1 e n ∈ Z. Como vimos no Exemplo (2.2.9) temos que B(n; 1) = {n} cujo diˆametro ´e zero (que ´e menor que 2). Quando vale a igualdade? O exemplo a seguir responde esta quest˜ao: Exemplo 2.3.2 Seja E um espa¸co vetorial normado tal que E = {0}. Afirmamos que toda bola aberta (ou fechada, ou esfera) tem diˆametro igual ao dobro do raio da mesma, isto ´e, diam(B(a; r)) = 2r (ou diam(B[a; r]) = 2r, diam(S(a; r)) = 2r).
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    36 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS De fato, sejam a ∈ E e r 0. Sabemos que B(a; r) ´e um subconjunto limitado de E e que diam[B(a; r)] ≤ 2r. Mostremos que se 0 s 2r ent˜ao s n˜ao poder´a ser pode ser diˆametro de B(a; r), ou seja, existem x1, y1 ∈ B(a; r) tal que d(x1, y1) s. Consideremos y ∈ E tal que y = 0 e seja t ∈ R tal que s 2t 2r, ou seja, 0 s 2 t r. Observemos que o vetor x . = t y y ∈ E tem a seguinte propriedade: x = t y y = t y y = t, ou seja, x = t r. Afirmamos que os vetores x1 . = a + x, x2 . = a − x ∈ B(a; r). De fato, d(a + x, a) = (a + x) − a = x = t r e, de modo semelhante, temos d(a − x, a) = (a − x) − a = − x = x = t r. Al´em disso d(a + x, a − x) = (a + x) − (a − x) = 2x = 2 x = 2t s, ou seja, d(x1, y1) s. Logo todo s ∈ (0, 2r) n˜ao poder´a ser o diˆametro da bola aberta B(a; r). Geometricamente temos a u r y © x1 = a + t y y y1 = a − t y y Ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor o Exerc´ıcio 2.3.1 Mostrar que, na situa¸c˜ao acima, temos diam[B[a; r]] = 2r e diam[S(a; r)] = 2r.
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    2.3. SUBCONJUNTOS LIMITADOSDE UM ESPAC¸OS M´ETRICOS 37 Observa¸c˜ao 2.3.4 1. Dado um espa¸co m´etrico qualquer (mesmo sendo n˜ao limitado) podemos considerar subes- pa¸cos (m´etricos) do mesmo que sejam limitados. Basta considerarmos os subconjunto limitados do mesmo e colocar a m´etrica induzida do espa¸co m´etrico dado neste subconjunto. 2. Seja E um espa¸co vetorial normado tal que E = {0}. Ent˜ao E n˜ao ´e limitado. De fato, consideremos x ∈ E, x = 0 e definamos, para cada n ∈ N, xn . = 2n x x. Observemos que xn = 2n x x = 2n x x = 2n n, logo d(xn, 0) = xn − 0 = xn n, mostrando que E n˜ao ´e limitado. 3. Seja (M, d) um espa¸co m´etrico. Vale observar que um subconjunto X ⊆ M ´e limitado em M se, e somente se, X est´a contido em alguma bola aberta de M, isto ´e, existe a ∈ M e r 0 tal que X ⊆ B(a; r). De fato, se existe a ∈ M e r 0 tal que X ⊆ B(a; r) ent˜ao para todo x, y ∈ X temos que d(x, y) ≤ d(x, a) + d(a, y) r + r = 2r, ou seja, X ´e limitado (e seu diˆamentro ´e menor ou igual a 2r). Reciprocamente, se X ´e limitado em M ent˜ao existe c 0 tal que d(x, y) ≤ c para todo x, y ∈ X. Consideremos x0 ∈ X. Temos que d(x, x0) ≤ c para todo x ∈ X, assim se X ⊆ B(x0; c), ou seja X est´a contido em uma bola aberta de M, como quer´ıamos mostrar. Temos a Proposi¸c˜ao 2.3.1 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X, Y ⊆ M limitados em M. Ent˜ao X ∪ Y e X ∩ Y s˜ao limitados em M.
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    38 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS Demonstra¸c˜ao: Observemos que X ∩ Y ⊆ X e como X ´e limitado em M segue, da Observa¸c˜ao (2.3.2) item 3., que X ∩ Y tamb´em ser´a limitado em M. Se X = ∅ ou Y = ∅ segue que X ∪ Y = Y ou X ∪ Y = X, respectivamente, implicando que X ∪ Y ´e limitado. Logo podemos supor, sem perda de generalidade, que X, Y = ∅. Como X, Y s˜ao limitados em M existem c, d 0 e a, b ∈ M tais que d(x, a) ≤ c e d(y, b) ≤ d para todo x ∈ X e y ∈ Y . Considere k . = c + d + d(a, b) 0. Logo se x ∈ X e y ∈ Y temos que d(x, y) ≤ d(x, a) + d(a, b) + d(b, y) ≤ c + d(a, b) + d = k. Portanto se x, y ∈ X ∪ Y temos que: Se x, y ∈ X temos que d(x, y) ≤ c k Se x, y ∈ Y temos que d(x, y) ≤ c k Se x ∈ X e y ∈ Y temos que d(x, y) ≤ k, ou seja, d(x, y) ≤ k para todo x, y ∈ X ∪ Y , mostrando que X ∪ Y ´e limitado em M. Como conseq¨uˆencia temos o: Corol´ario 2.3.1 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X1, X2, · · · , Xn ⊆ M limitados em M. Ent˜ao X1 ∪ X2 ∪ · · · ∪ Xn e X1 ∩ X2 ∩ · · · ∩ Xn s˜ao limitados em M. Demonstra¸c˜ao: Utiliza-se indu¸c˜ao matem´atica e a proposi¸c˜ao acima (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). Como outra conseq¨uˆencia imediata temos que Corol´ario 2.3.2 Seja (M, d) espa¸co m´etrico. Todo subconjunto finito de M ´e limitado. Demonstra¸c˜ao: Basta observar que se X ´e um subconjunto finito de M ele ser´a uma reuni˜ao finita dos conjuntos formados por cada um dos seus pontos e como o conjunto formado por um ponto ´e limitado segue, do corol´ario acima, que X ser´a limitado em M. Nota¸c˜ao 2.3.1 Dada uma fun¸c˜ao f : X → Y denotaremos seu conjunto imagem por f(X), isto ´e, f(X) . = {f(x) : x ∈ X} ⊆ Y. Podemos agora introduzir a
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    2.3. SUBCONJUNTOS LIMITADOSDE UM ESPAC¸OS M´ETRICOS 39 Defini¸c˜ao 2.3.3 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X um subconjunto n˜ao vazio. Diremos que uma fun¸c˜ao f : X → M ´e limitada em X se seu conjunto imagem, f(X), for um subconjunto limitado de M. Vejamos alguns exemplos Exemplo 2.3.3 Seja R com a m´etrica usual e f : R → R dada por f(x) . = 1 1 + x2 , x ∈ R. Observemos que |f(x)| ≤ 1, para todo x ∈ R, logo f ´e uma fun¸c˜ao limitada (neste caso temos f(R) = (0, 1]). A figura abaixo nos d´a o gr´afico de f. E T G(f) 1 Exemplo 2.3.4 Na situa¸c˜ao acima se considerarmos g : R → R dada por g(x) . = x2 para x ∈ R temos que g(R) = [0, ∞) logo n˜ao ser´a um subconjunto limitado de R, mostrando que a fun¸c˜ao g n˜ao ser´a uma fun¸c˜ao limitada. A figura abaixo nos d´a o gr´afico de g. E T G(g) Exemplo 2.3.5 Se a m´etrica d em Rn prov´em de uma norma de Rn ent˜ao d n˜ao ´e uma fun¸c˜ao limitada. De fato, da Observa¸c˜ao (2.3.4) item 2. temos que Rn n˜ao ´e limitado, logo d(Rn , Rn ) = [0, ∞) ⊆ R n˜ao poder´a ser um subconjunto limitado de R, logo a fun¸c˜ao d n˜ao ser´a uma fun¸c˜ao limitada.
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    40 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS Podemos agora generalizar o exemplo (2.1.5) por meio do Exemplo 2.3.6 Sejam X um conjunto n˜ao vazio e (M, dM ) um espa¸co m´etrico. Indiquemos por B(X; M) o conjunto de todas as fun¸c˜oes limitadas definidas em X e tomando valores em M, isto ´e, B(X; M) . = {f : X → M : f ´e limitada em X}. Dadas f, g ∈ B(X; M) temos que o conjunto {dM (f(x), g(x)) : x ∈ X} ´e limitado em R. De fato, como f e g s˜ao limitadas segue que f(X) e g(X) s˜ao subconjuntos limitados em M. Logo da Proposi¸c˜ao (2.3.1) segue que f(X) ∪ g(X) ´e um subconjunto limitado em M, ou seja, {dM (f(x), g(x)) : x ∈ X} ´e limitado em R, portanto admite supremo. Logo, dadas f, g ∈ B(X; M), podemos definir d(f, g) . = sup x∈X {dM (f(x), g(x))}. Pode-se mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que d ´e uma m´etrica em B(X; M) que ´e denominada m´etrica da convergˆencia uniforme ou m´etrica do sup. Observa¸c˜ao 2.3.5 1. Na situa¸c˜ao acima podemos considerar o conjunto F(X; M) formado por todas as fun¸c˜oes definidas em X com valores em M. Neste caso a m´etrica do sup n˜ao tem sentido em F(X; M) pois existem fun¸c˜oes f, g : X → M tais que o conjunto {dM (f(x), g(x)) : x ∈ X} n˜ao ´e limitado em R (logo n˜ao poderemos considerar o supremo desse conjunto). Nesta situa¸c˜ao podemos decompor F(X; M) como uma reuni˜ao de espa¸cos m´etricos nos quais podemos introduzir a m´etrica do sup. Para mais detalhes ver [1] pag. 15. 2. Seja (E, . ) um espa¸co vetorial normado. Pode-se mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que se f, g ∈ B(X; E) e λ ∈ R ent˜ao (f +g) ∈ B(X; E) e λf ∈ B(X; E), ou seja, B(X; E) tornar-se-´a um espa¸co vetorial sobre R. Neste caso a m´etrica da convergˆencia uniforme em B(X; E) prov´em da seguinte norma de B(X; E): f . = sup x∈X f(x) E, f ∈ B(X; E), que ´e denominada norma da convergˆencia uniforme ou do sup. De fato, pois d(f, g) = sup{dE(f(x), g(x)) : x ∈ X} = sup x∈X f(x) − g(x)) .
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    2.4. DIST ˆANCIADE UM PONTO A UM SUBCONJUNTO EM UM ESPAC¸O M´ETRICO41 2.4 Distˆancia de um ponto a um subconjunto em um espa¸co m´etrico Observa¸c˜ao 2.4.1 Como motiva¸c˜ao consideremos o seguinte caso: Em um plano consideremos X uma reta e a um ponto que n˜ao pertence `a reta X. Consideremos x0 ∈ X o p´e da perpendicular `a reta X que cont´em o ponto a (vide figura abaixo). x0 a X Seja x ∈ X tal que x = x0. Ent˜ao aplicando o Teorema de Pit´agoras ao triˆangulo retˆangulo ∆ax0x (veja figura abaixo) obtemos [d(a, x)]2 = [d(a, x0)]2 + [d(x0, x)]2 . x0 a X x Em particular temos que d(a, x) ≥ d(a, x0) para todo x ∈ X, ou seja, x0 ´e o ponto mais pr´oximo do ponto a que pertence `a reta X. Deste modo podemos escrever d(a, x0) = inf x∈X {d(a, x)}. Podemos generalizar este fato, para isto observemos que se (M, dM ) um espa¸co m´etrico, X ⊆ M n˜ao vazio e a ∈ M ent˜ao o conjunto {dM (x, a) : x ∈ X} ⊆ R ´e limitado inferiormente por 0 (pois dM (a, x) ≥ 0). Logo admite ´ınfimo, assim temos a: Defini¸c˜ao 2.4.1 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico, X ⊆ M, n˜ao vazio e a ∈ M. Definimos a distˆancia do ponto a ao conjunto X, indicada por d(a, X), como sendo d(a, X) = inf{dM (a, x) : x ∈ X}.
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    42 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS 21.08.2008 - 6.a Observa¸c˜ao 2.4.2 1. Das propriedades de ´ınfimo temos: (a) Para todo x ∈ X temos que d(a, X) ≤ d(a, x) (isto ´e, d(a, X) ´e um limitante inferior do conjunto {d(x, a) : x ∈ X} ⊆ R); (b) Se d(a, X) c ent˜ao existe x ∈ X tal que d(a, x) c (isto ´e, d(a, X) ´e o maior dos limitantes inferiores). 2. Para todo x ∈ X temos que d(a, x) ≥ 0 logo d(a, X) ≥ 0. 3. Observemos que se a ∈ X ent˜ao d(a, X) = 0. De fato, se a ∈ X ent˜ao 0 = d(a, a) ∈ {d(a, x) : x ∈ X}. 4. Al´em disso, se X ⊆ Y ent˜ao d(a, Y ) ≤ d(a, X). Lembremos que se A ⊆ B ent˜ao inf B ≤ inf A (*) (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). Logo, se X ⊆ Y ent˜ao {d(x, a) : x ∈ X} ⊆ {d(y, a) : y ∈ Y }, assim de (*) temos que d(a, Y ) = inf{d(y, a) : y ∈ Y } ≤ inf{d(x, a) : x ∈ X} = d(a, X), como quer´ıamos mostrar. 5. Se d(a, X) = 0 isto n˜ao implica, necessariamente, que a ∈ X como vereremos em exemplos a seguir. O que podemos afirmar ´e que: d(a, X) = 0 se, e somente se, dado ε 0 existe x ∈ X tal que d(a, x) ε. 6. Vale observar que, em geral, n˜ao podemos substituir o ´ınfimo na defini¸c˜ao acima pelo m´ınimo, isto ´e, pode n˜ao existir um ponto em x0 ∈ X de tal modo que d(a, X) = d(a, x0), como veremos em exemplos a seguir. A seguir consideraremos alguns exemplos. Exemplo 2.4.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico, a ∈ M e X = {x1, x2, · · · , xn} um subconjunto finito de M. Ent˜ao d(a, X) = inf{d(a, x) : x ∈ X} [conjunto finito] = inf 1≤i≤n {d(a, xi)} [conjunto finito] = min 1≤i≤n {d(a, xi)}.
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    2.4. DIST ˆANCIADE UM PONTO A UM SUBCONJUNTO EM UM ESPAC¸O M´ETRICO43 Exemplo 2.4.2 Seja R2 como a m´etrica usual e S1 = {(x, y) ∈ R2 : x2 + y2 = 1} a circun- ferˆencia unit´aria de centro na origem e raio 1. Ent˜ao se z = (x, y) ∈ S1 e 0 = (0, 0) temos que d(0, z) = (x − 0)2 + (y − 0)2 = x2 + y2 = 1, ou seja, d(0, S1) = 1 (veja figura abaixo). E T x y z = (x, y) 0 = (0, 0) d(0, z) = 1 S1 ‚ Exemplo 2.4.3 Seja R munido da m´etrica usual e X = (a, b) (= B(a + b−a 2 ; b−a 2 )). Ent˜ao temos que d(a, X) = d(b, X) = 0. Podemos provar isto diretamente ou utilizar o seguinte resultado geral: Proposi¸c˜ao 2.4.1 Sejam E um espa¸co vetorial normado, a ∈ E e r 0. Ent˜ao dado b ∈ E, d(b, B(a; r)) = 0 se, e somente se, b ∈ B[a; r]. Demonstra¸c˜ao: (⇐=) Suponhamos que b ∈ B[a; r], ou seja, b − a ≤ r. Se tivermos b − a r seguir´a que b ∈ B(a; r), logo d(b, B(a; r)) = 0. Afirma¸c˜ao: se b − a = r 0 ent˜ao dado ε 0 afirmamos que existe x ∈ B(a; r) tal que d(b, x) ε. De fato, definamos u . = 1 r (b − a) ∈ E. Segue que u = 1 r (b − a) = 1 r b − a = 1 r r = 1. Escolhamos t ∈ (r − ε, r), assim 0 r − t ε. Consideremos x . = a + t.u ∈ E.
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    44 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS Temos que d(x, a) = x − a = (a + t.u) − a = |t| u [ u =1] = t r, ou seja, x ∈ B(a; r). Al´em disso, temos d(x, b) = b − x = b − (a + t.u) = (b − a) − t.u [b−a=r.u] = r.u − t.u = |r − t| u [ u =1] = r − t ε, logo concluimos a prova da afirma¸c˜ao acima. (veja figura abaixo). b a b !ε “ r x = a + tu o Logo dado ε 0 existe x ∈ B(a; r) tal que 0 ≤ d(b, x) ε, ou seja, 0 ≤ d(b, B(a; r)) ≤ d(b, x) ε, isto ´e, d(b, B(a; r)) = inf{d(b, x) : x ∈ B(a; r)} = 0. (=⇒) Reciprocamente, suponhamos que d(b, B(a; r)) = 0. Seja p ∈ E tal que p ∈ B[a; r]. Afirmamos que d(p, B(a; r)) 0. De fato, como p ∈ B[a; r] temos que p − a r, logo p − a = r + c para algum c 0. Se x ∈ B(a; r) temos que x − a r e como p − a ≤ p − x + x − a segue que d(p, x) = p − x ≥ p − a − x − a = (r + c) − x − a (r + c) − r = c, ou seja, c ´e um limitante inferior do subconjunto {d(p, x) : x ∈ B(a; r)} ⊆ R. Como d(p, B(a; r)) ´e o ´ınfimo do conjunto acima segue que d(p, B(a; r)) ≥ c 0, concluindo a prova da afirma¸c˜ao (veja figura abaixo).
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    2.4. DIST ˆANCIADE UM PONTO A UM SUBCONJUNTO EM UM ESPAC¸O M´ETRICO45 T a p T r c Como d(b, B(a; r)) = 0, da afirma¸c˜ao, segue que b ∈ B[a; r], como quer´ıamos demonstrar. Observa¸c˜ao 2.4.3 Em particular a afirma¸c˜ao acima nos diz que podemos ter b ∈ E com d(b, X) = 0 e b ∈ X (onde X = B(a; r)), como afirmamos anteriormente. Temos a: Proposi¸c˜ao 2.4.2 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico, a, b ∈ M e X ⊆ M n˜ao vazio. Ent˜ao |d(a, X) − d(b, X)| ≤ d(a, b). A figura abaixo ilustra o resultado X d(a, X) d(b, X) d(a, b) a b Demonstra¸c˜ao: A desigualdade acima ´e equivalente a −d(a, b) ≤ d(a, X) − d(b, X) ≤ d(a, b). Observemos que para todo x ∈ X temos que d(a, X) ≤ d(a, x) ≤ d(a, b) + d(b, x),
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    46 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS ou seja, d(a, X) − d(a, b) ≤ d(b, x), ou ainda, o n´umero real d(a, X) − d(a, b) ´e um limitante inferior do subconjunto {d(b, x) : x ∈ X} ⊆ R. Da defini¸c˜ao de ´ınfimo segue d(a, X) − d(a, b) ≤ d(b, X), isto ´e, d(a, X) − d(b, X) ≤ d(a, b). (∗) Observemos que para todo x ∈ X temos que d(b, X) ≤ d(b, x) ≤ d(b, a) + d(a, x), ou seja, d(b, X) − d(a, b) ≤ d(a, x) ou ainda, o n´umero real d(b, X) − d(a, b) ´e um limitante inferior do subconjunto {d(a, x) : x ∈ X} ⊆ R. Da defini¸c˜ao de ´ınfimo segue d(b, X) − d(a, b) ≤ d(a, X), isto ´e, d(a, X) − d(b, X) ≥ −d(a, b). (∗∗) De (*) e (**) segue a desiguladade e a conclus˜ao da prova. Como conseq¨uˆencia temos o Corol´ario 2.4.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico e a, b, x ∈ M. Ent˜ao |d(a, x) − d(a, y)| ≤ d(a, b). Demonstra¸c˜ao: Basta considerar X . = {x} na proposi¸c˜ao acima e verificar que d(a, {x}) = d(a, x). 2.5 Distˆancia entre dois subconjuntos de um espa¸co m´etrico Temos a Defini¸c˜ao 2.5.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e X, Y ⊆ M n˜ao vazios. Definimos a distˆancia entre os conjuntos X e Y , indicada por d(X, Y ), como sendo d(X, Y ) . = inf{d(x, y) : x ∈ X, y ∈ Y }. Consideremos o Exemplo 2.5.1 Consideremos R com a m´etrica usua, X = (−∞, 0) e Y = (0, ∞). Ent˜ao dada ε 0 existem x ∈ X e y ∈ Y tal que d(x, y) ε, ou seja, d(X, Y ) = 0. Observemos que X ∩ Y = ∅ e mesmo assim d(X, Y ) = 0.
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    2.6. IMERS ˜OESISOM´ETRICAS E ISOMETRIAS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 47 Observa¸c˜ao 2.5.1 Se (M, d) ´e um espa¸co m´etrico e X, Y ⊆ M n˜ao vazios ent˜ao: 1. Se X ∩ Y = ∅ ent˜ao d(X, Y ) = 0; 2. Observemos que d(X, X) = 0 e d(X, Y ) = d(Y, X). 3. Pode ocorrer de d(X, Y ) = 0 e X ∩ Y = ∅. Deixaremos para o leitor encontrar um exemplo onde isto ocorre. 2.6 Imers˜oes isom´etricas e isometrias entre espa¸cos m´etricos Come¸caremos pela Defini¸c˜ao 2.6.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos. Diremos que uma fun¸c˜ao f : M → N ´e um imers˜ao isom´etrica de M em N se dN (f(x), f(y)) = dM (x, y), x, y ∈ M. No caso acima diremos que a fun¸c˜ao f preserva as distˆancias de M e N, respectivamente. Observa¸c˜ao 2.6.1 Na situa¸c˜ao acima se f : M → N ´e uma imers˜ao isom´etrica temos que f ´e injetora. De fato, se f(x) = f(y) ent˜ao dM (x, y) = dN (f(x), f(y)) = 0, logo x = y, mostrando que f ´e injetora. Com isto temos a: Defini¸c˜ao 2.6.2 Um imers˜ao isom´etrica que ´e sobrejetora ser´a denomiada isometria de M em N. Observa¸c˜ao 2.6.2 1. Na situa¸c˜ao acima f : M → N ´e ums isometria se, e somente se, f preserva as distˆancias de M e N e for sobrejetora. 2. Em particular se f : M → N ´e isometria ent˜ao f ´e bijetora. Logo admite fun¸cao inversa f−1 : N → M e esta tamb´em ´e uma isometria. De fato, pois se w, z ∈ N temos que existe x, y ∈ M tal que z = f(x) e w = f(y) (pois f ´e sobrejetora) assim dM (f−1 (z), f−1 (w)) = dM (f−1 (f(x)), f−1 (f(y))) = dM (x, y) [f ´e isometria] = dN (f(x), f(y)) = dN (z, w), mostrando que f−1 preserva as distˆancias de N e M.
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    48 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS 3. Sejam (M, dM ), (N, dN ) e (P, dP ) espa¸cos m´etricos e f : M → N, g : N → P imers˜oes isom´etricas de M em N e de N em P, respectivamente. Ent˜ao (g ◦ f) : M → P ´e uma imers˜ao isom´etrica de M em P. De fato, se x, y ∈ M temos que dP ((g ◦ f)(x), (g ◦ f)(y)) = dP (g(f(x)), g(f(y))) [g preserva distˆancias] = dN (f(x), f(y)) [f preserva distˆancias] = dM (x, y), mostrando que g ◦ f preserva as distˆancias de M e P. 4. Como conseq¨uˆencia temos que composta de isometrias tamb´em ser´a uma isometria entre os respectivos espa¸cos m´etricos. 5. Toda imers˜ao isom´etrica f : M → N define uma isometria de M sobre f(M) (pois neste caso f : M → f(M) ser´a sobrejetora e continuar´a a preservar as distˆancias de M e N). Com isto temos a: Defini¸c˜ao 2.6.3 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos. Diremos que M e N s˜ao isom´etricos se existir uma isometria de M em N e neste caso escreveremos M ∼ N. Observa¸c˜ao 2.6.3 1. Temos que M ∼ M (basta considerar a identidade de M em M); 2. Se M ∼ N ent˜ao N ∼ M (pois, como vimos na Observa¸c˜ao (2.6.2) item 2., a inversa de uma isometria ´e uma isometria); 3. Se M ∼ N e N ∼ P ent˜ao M ∼ P (pois, como vimos na Observa¸c˜ao (2.6.2) item 3., a composta de isometrias ´e uma isometria). 4. Os trˆes itens acima nos dizem que ∼ ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia no conjunto formado por todos os espa¸cos m´etricos (isto ´e, ∼ satisfaz as propriedades: reflexiva, sim´etrica e transitiva). 5. Se existir uma imer˜ao isom´etrica f : M → N ent˜ao temos que M ∼ f(M) (pois a fun¸c˜ao f : M → f(M) ser´a sobrejetora e preservar´a as distˆancias de M e f(M)). 26.08.2008 - 7.a 6. Sejam X um subconjunto n˜ao vazio, (M, dM ) um espa¸co m´etrico e f : X → M uma fun¸c˜ao injetora. Nosso objetivo ´e introduzir uma m´etrica em X de tal modo que a fun¸c˜ao f torne-se uma imers˜ao isom´etrica de X e M. Para isto definamos dX : X × X → R por dX(x, y) . = dM (f(x), f(y)), x, y ∈ X. ´E f´acil verificar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que dX ´e uma m´etrica em X (precisamos usar do fato que f ´e injetora!) e deste modo a fun¸c˜ao f tornar-se-´a uma imers˜ao isom´etrica de (X, dX) em (M, dM ).
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    2.6. IMERS ˜OESISOM´ETRICAS E ISOMETRIAS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 49 Podemos mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que a m´etrica dX em X ´e a ´unica m´etrica que torna f uma imers˜ao isom´etrica de X em M. Com isto temos a: Defini¸c˜ao 2.6.4 Na situa¸c˜ao acima diremos que a m´etrica dX ´e a m´etrica induzida por f em X. Observa¸c˜ao 2.6.4 Um caso particular da situa¸c˜ao acima ´e quando X ⊆ M, n˜ao vazio onde (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico. Neste caso se considerarmos a aplica¸c˜ao inclus˜ao i : X → M dada por i(x) . = x, para x ∈ X, temos que a fun¸c˜ao i ´e injetora. Logo podemos considerar em X a m´etrica induzida pela fun¸c˜ao i que coincidir´a com a m´etrica induzida de M em X (pois dX(x, y) = dM (i(x), i(y)) = dM (x, y), para todo x, y ∈ X). A seguir consideraremos alguns exemplos. Exemplo 2.6.1 Consideremos Rn com a metrica induzida por alguma norma de Rn. Sejam a, u ∈ Rn tal que u = 1. Consideremos a fun¸c˜ao f : R → Rn dada por f(t) . = a + t u, t ∈ R. Afirmamos que f ´e um imers˜ao is´om´etrica de R em Rn. De fato, se t, s ∈ R temos que dRn (f(t), f(s)) = f(t) − f(s) = (a + t u) − (a + s u) = (t − s) u = |t − s| u [ u =1] = |t − s| = dR(t, s), mostrando que a fun¸c˜ao f preserva as distˆancias de R e Rn. Observa¸c˜ao 2.6.5 1. Observemos que o gr´afico de f ´e a reta que passa pelo ponto a = a ∈ Rn e tem a dire¸c˜ao do vetor unit´ario u ∈ Rn. Em particular, f n˜ao ´e uma isometria de R em Rn se n = 1 (pois, neste caso, n˜ao ´e sobrejetora). 2. Se n = 1 ent˜ao f ser´a isometria de R em R (isto ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). Exemplo 2.6.2 Consideremos Rn com a metrica induzida por alguma norma de Rn e a ∈ Rn. Afirmamos que a fun¸c˜ao f : Rn → Rn dada por f(x) . = x + a, x ∈ Rn , ´e uma isometria de Rn em Rn.
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    50 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS De fato, se x, y ∈ Rn ent˜ao d(f(x), f(y)) = f(x) − f(y) = (x + a) − (y + a) = x − y = d(x, y), mostrando que f preserva a distˆancia em Rn (ou seja, ´e uma imers˜ao isom´etrica de Rn em Rn). Al´em disso f(Rn) = Rn pois se y ∈ Rn se tomarmos x . = y − a segue que f(x) = x + a = (y − a) + a = y, ou seja, f ´e sobrejetora, ou seja, f ´e uma isometria de Rn em Rn. Com isto temos a Defini¸c˜ao 2.6.5 A fun¸c˜ao f acima definida ser´a denominada transla¸c˜ao pelo vetor a. Exemplo 2.6.3 Consideremos Rn com a metrica induzida por alguma norma de Rn. Afirmamos que a fun¸c˜ao f : Rn → Rn dada por f(x) . = −x, x ∈ Rn , ´e uma isometria em Rn. De fato, se x, y ∈ Rn ent˜ao d(f(x), f(y)) = f(x) − f(y) = (−x) − (−y) = − x + y = x − y = d(x, y), mostrando que f preserva a distˆancia em Rn (ou seja, ´e uma imers˜ao isom´etrica de Rn em Rn). Al´em disso f(Rn) = Rn pois se y ∈ Rn se tomarmos x . = −y segue que f(x) = x = −(−y) = y, ou seja, f ´e sobrejetora, isto ´e, f ´e uma isometria de Rn em Rn. Com isto temos a Defini¸c˜ao 2.6.6 A fun¸c˜ao f acima definida ser´a denominada reflex˜ao em torno da origem de Rn. Observa¸c˜ao 2.6.6 1. Observemos que na situa¸c˜ao acima, dados a, b ∈ Rn existe uma isometria f : Rn → Rn tal que f(b) = a (basta considerar a transla¸c˜ao f(x) . = x + (a − b)). 2. Podemos substituir o Rn por um espa¸co vetorial normado qualquer que os exemplos acima continuar˜ao v´alidos neste novo contexto. A verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
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    2.6. IMERS ˜OESISOM´ETRICAS E ISOMETRIAS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS 51 Exemplo 2.6.4 Consideremos C o conjunto formado pelo n´umeros complexos munido da m´etrica induzida pelo valor absoluto de um n´umero complexo (isto ´e, se z = a+bi ent˜ao z = x2 + y2 e assim a m´etrica ser´a d(z1, z2) = z1 − z2 , z1, z2 ∈ C). Sejam u ∈ C tal que u = 1 e a fun¸c˜ao f : C → C dada por f(z) . = u.z, para z ∈ C (onde . ´e a multiplica¸c˜ao de n´umeros complexos). Afirmamos que f ´e uma isometria. De fato, f ´e imers˜ao isom´etrica em C, pois d(f(z1), f(z2)) = f(z1) − f(z2) = u.z1 − u.z2 = u.(z1 − z2) = u z1 − z2 [ u =1] = z1 − z2 = d(z1, z2), mostrando que f preserva a distˆancia em C. Al´em disso, se w ∈ C consideremos z . = w u ∈ C. Logo f(z) = u.z = u. w u = w, mostrando que f ´e sobrejetora, portanto uma isometria de C em C. Observa¸c˜ao 2.6.7 A aplica¸c˜ao f do exemplo acima ´e uma rota¸c˜ao (no sentido hor´ario) de um ˆangulo θ = π 2 se u = i e θ = arctg( b a ) se u = a + bi, se a = 0 (veja figura abaixo). E T C z f(z) = u.z θ Finalizaremos esta se¸c˜ao com a Proposi¸c˜ao 2.6.1 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico limitado. Ent˜ao existe uma imers˜ao isom´etrica ϕ : M → B(M; R), onde em B(M; R) consideraremos a m´etrica induzida pela norma da convergˆencia uniforme.
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    52 CAP´ITULO 2.ESPAC¸OS M´ETRICOS Demonstra¸c˜ao: Definamos ϕ : M → B(M; R) por ϕ(x) . = dx, onde dx : M → R ´e dada por dx(y) . = dM (x, y) (ou seja, a distˆancia ao ponto x). Como M ´e limitado segue que dx ∈ B(M; R), ou seja ϕ est´a bem definida. Mostremos que ϕ preserva as ditˆancias de M e B(M; R). Observemos que se x, x , y ∈ M ent˜ao |dx(y) − dx (y)| = |d(x, y) − d(x , y)| [corol´ario (2.4.1)] ≤ dM (x, x ), assim dB(M;R)(ϕ(x), ϕ(x )) = ϕ(x) − ϕ(x ) = dx − dx = sup y∈M |dx(y) − dx (y)|≤dM (x, x ). Por outro lado, se tomarmos y = x temos que |dx(y) − dx (y)| = |dM (x, y) − dM (x , y)| [y=x ] = |dM (x, x ) − dM (x , x )| = dM (x, x ). Logo dx − dx = sup y∈M |dx(y) − dx (y)|≥dM (x, x ), portanto dB(M; R)(dx, dx ) = dx − dx = sup y∈M |dx(y) − dx (y)| = dM (x, x ), ou seja, ϕ preserva as distˆancias de M e de B(M; R). Observa¸c˜ao 2.6.8 1. Pode-se provar um resultado an´alogo ao exibido acima retirando-se a hip´otese de M ser limitado. Uma demonstra¸c˜ao para esse fato pode ser encontrada em [1] pag. 20. 2. O resultado acima garante que todo espa¸co m´etrico pode ser imerso, isometricamente, em um espa¸co vetorial normado.
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    Cap´ıtulo 3 Fun¸c˜oes Cont´ınuasDefinidas em Espa¸cos M´etricos 3.1 Defini¸c˜ao de fun¸c˜ao cont´ınua em espa¸cos m´etricos e exem- plos Temos a: Defini¸c˜ao 3.1.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e a ∈ M. Diremos que uma fun¸c˜ao f : M → N ´e cont´ınua no ponto a se dado ε 0 existir δ = δ(ε, a) 0 tal que dM (x, a) δ implicar dN (f(x), f(a)) ε. Geometricamente temos: f(a) ~ ε E f a a δ f(B(a; δ)) % M N Diremos que f : M → N ´e cont´ınua em M se ela for cont´ınua em cada um dos pontos de M. Observa¸c˜ao 3.1.1 1. Na situa¸c˜ao acima, f ´e cont´ınua no ponto a se, e somente se, se dado ε 0 existir δ = δ(ε, a) 0 tal que f(B(a; δ)) ⊆ B(f(a); ε), ou seja, dada uma bola aberta de centro em f(a) e raio ε 0 em N, existe uma bola aberta de centro em a e raio δ 0 em M, tal que a imagem pela fun¸c˜ao f desta segunda bola est´a contida na primeira bola. 53
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    54 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 2. Se M ⊆ R e N = R munidos da m´etrica usual de R ent˜ao f : M → R ser´a cont´ınua em a ∈ M se, e somente se, dado ε 0 existir δ = δ(ε, a) 0 tal que se x ∈ M e a − δ x a + δ implicar f(a) − ε f(x) f(a) + ε, ou seja, f((a − δ, a + δ)) ⊆ (f(a) − ε, f(a) + ε), pois as bolas abertas em R (com a m´etrica usual) da defini¸c˜ao de contiuidade ser˜ao os, respectivos, intervalos abertos obtidos acima. Geometricamente temos: T T Ef f(a) a a + δ a − δ f(a) + ε f(a) − ε A seguir exibiremos alguns exemplos. Antes por´em temos a: Defini¸c˜ao 3.1.2 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e uma fun¸c˜ao f : M → N que tem a seguinte propriedade: existe c 0 tal que dN (f(x), f(y)) ≤ c dM ((x, y), x, y ∈ M. Neste caso diremos que a fun¸c˜ao f ´e lipschitziana em M. A constante c ser´a dita constante de Lipschitz da fun¸c˜ao f. Exemplo 3.1.1 Se f : M → N ´e lipschitiziana em M ent˜ao f ´e cont´ınua em M. De fato, como f ´e lipschitiziana em M existe c 0 tal que dN (f(x), f(y)) ≤ c dM ((x, y), x, y ∈ M. Logo, dado ε 0 seja δ . = ε c 0. Ent˜ao se a ∈ M e dM (x, a) δ temos que dN (f(x), f(a)) ≤ c dM (x, a) cδ ≤ c ε c = ε, mostrando que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a ∈ M. Como a ∈ M ´e arbitr´ario segue que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua em M.
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    3.1. DEFINIC¸ ˜AODE FUNC¸ ˜AO CONT´INUA EM ESPAC¸OS M´ETRICOS E EXEMPLOS 55 Exemplo 3.1.2 Sejam (E, . E) um espa¸co vetorial normado e λ ∈ R. Afirmamos que a aplica¸c˜ao fλ : E → E dada por fλ(x) . = λ.x, x ∈ E, ´e lipschitiziana em E. De fato, dE(fλ(x),fλ(y)) = fλ(x), fλ(y) E = λ.x − λ.y E = λ(x − y) E = |λ| x − y E = |λ|dE(x, y), ou seja, dE(fλ(x),fλ(y)) = |λ|dE(x, y), x, y ∈ E, mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira. Em particular, a aplica¸c˜ao fλ : E → E s´er´a cont´ınua em E para cada λ ∈ R fixado. Observa¸c˜ao 3.1.2 1. Se f1, · · · , fn : E → E, onde E ´e um espa¸co vetorial normado, s˜ao lipschitzianas ent˜ao dados a1, · · · , an ∈ R temos que f . = a1f1 + · · · anfn tamb´em ser´a uma aplica¸c˜ao lipschitziana em E. A verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor. Conclus˜ao: combina¸c˜ao linear de fun¸c˜oes lipschitzianas ´e uma fun¸c˜ao lipschitziana. Em particular, a aplica¸c˜ao f : E → E ser´a cont´ınua em E. 2. Seja R munido da m´etrica usual. Ent˜ao f : R → R ´e lipschitiziana em M se, e somente se, existe c 0 tal que |f(x) − f(y)| |x − y| = dR(f(x), f(y)) dR(x, y) ≤ c, x, y ∈ R, x = y. 3. Observemos se f : I → R ´e diferenci´avel em I, um intervalo de R e |f (x)| ≤ c para todo x ∈ I ent˜ao a fun¸c˜ao f ´e lipschitziana em I. De fato, dados x, y ∈ I do Teorema do Valor Intermedi´ario segue que existe ¯x ∈ [x, y] ( ou [y, x]) tal que f(x) − f(y) x − y = f (¯x). Logo |f(x) − f(y)| |x − y| = |f (¯x)| ≤ c, ou seja, a fun¸c˜ao f ´e lipschitziana em I, como afirmamos acima. Conclus˜ao: toda fun¸c˜ao real, de vari´avel real, diferenci´avel em um intervalo da reta e tal que sua derivada ´e limitada neste intervalo ´e uma fun¸c˜ao lipschitiziana no intervalo em quest˜ao.
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    56 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 2.09.2008 - 8.a Uma situa¸c˜ao mais geral ´e dada pela Defini¸c˜ao 3.1.3 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N. Diremos que a fun¸c˜ao f ´e localmente lipschitziana em M se para cada a ∈ M existe ra 0 tal que a restri¸c˜ao da fun¸c˜ao f a bola aberta B(a; ra) (isto ´e, f|B(a;ra) ) ´e uma fun¸c˜ao lischitziana, ou seja, existe c = c(B(a; ra)) 0 satisfazendo dN (f(x), f(y)) ≤ c dM ((x, y), x, y ∈ B(a; ra). Geometricamente temos: E a o ra fx y f(x) f(y) dN (f(x), f(y)) ≤ c dM (x, y) Com isto temos o Exemplo 3.1.3 Se f : M → N ´e localmente lipschitziana em M ent˜ao f ´e cont´ınua em M. De fato, dado a ∈ M seja ra 0 tal que restri¸c˜ao da fun¸c˜ao f a bola aberta B(a; ra) seja uma fun¸c˜ao lipschitziana, isto ´e, existe c = c(B(a; ra)) 0 tal que dN (f(x), f(y)) ≤ c dM ((x, y), x, y ∈ B(a; ra). Dado ε 0 seja δ . = min{ ε c , ra} 0. Logo se, dM (x, a) δ temos que dN (f(x), f(a)) [dM (x,a)δ≤ra] ≤ c dM (x, a)c δ [dM (x,a)δ≤ε c ] ≤ c ε c = ε, mostrando que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a ∈ M. Como a ∈ M ´e arbitr´ario segue que a fun¸c˜ao f : M → N ser´a cont´ınua em M. Observa¸c˜ao 3.1.3 Se f1, · · · , fn :→ E, onde E ´e um espa¸co vetorial normado, s˜ao localmente lipschitzianas em E ent˜ao, dados a1, · · · , an ∈ R, temos que f . = a1f1 + · · · anfn tamb´em ser´a localmente lipschitziana em E. A verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Conclus˜ao: combina¸c˜ao linear de fun¸c˜oes localmente lipschitzianas num espa¸co vetorial nor- mado ´e uma fun¸c˜ao localmente lipschitziana neste espa¸co. Em particular, a aplica¸c˜ao f : E → E acima definida ser´a cont´ınua em E.
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    3.1. DEFINIC¸ ˜AODE FUNC¸ ˜AO CONT´INUA EM ESPAC¸OS M´ETRICOS E EXEMPLOS 57 Exemplo 3.1.4 Seja f : R → R dada por f(x) . = xn, x ∈ R e n ∈ N. Afirmamos que f ´e localmente lispchitziana em R. De fato, sejam x, y ∈ B(0; a), isto ´e, |x|, |y| ≤ a. Ent˜ao temos que dR(f(x), f(y)) = |f(x) − f(y)| = |xn − yn | = |(x − y)(xn−1 + xn−2 y + · · · xyn−2 + yn−1 )| ≤ |x − y|[|x|n−1 + |x|n−2 |y| + · · · |x||y|n−2 + |y|n−1 ] ≤ |x − y|[|a|n−1 + |a|n−2 |a| + · · · |a||a|n−2 + |a|n−1 n−parcelas ] = nan−1 |x − y| = nan−1 dR(x, y), ou seja, f ´e localmente lischitziana em R (a constante de Lipschitz ser´a c . = nan−1). Em particular, a aplica¸c˜ao f : R → R ser´a cont´ınua em R. Observa¸c˜ao 3.1.4 Do exemplo acima e da observa¸c˜ao (3.1.3) segue que toda fun¸c˜ao polinomial p : R → R (isto ´e, se a1, · · · , an ∈ R temos que p(x) . = a0 + a1x + · · · , anxn , x ∈ R ´e uma fun¸c˜ao localmente lispchitziana em R e portanto ser´a uma aplica¸c˜ao cont´ınua em R. Exemplo 3.1.5 Seja f : R∗ . = R {0} → R dada por r(x) . = 1 x , x ∈ R∗ . Para cada a 0 temos que f ´e lipschitiziana em Ra, onde Ra . = {x ∈ R : |x| ≥ a}. De fato, se x, y ∈ Ra ent˜ao |x|, |y| ≥ a logo, dR(f(x), f(y)) = |f(x)−f(y)| = | 1 x − 1 y | = | y − x x.y | = 1 |x|.|y| |x−y| [|x|,|y|≥a0] ≤ 1 a2 |x−y| = 1 a2 dR(x, y), mostrando que f ´e lipschitziana em Ra (basta tomar a constante de Lipschitz como sendo c . = 1 a2 ) para cada a 0. Em particular, a aplica¸c˜ao f : R∗ → R ´e cont´ınua em Ra para todo a 0, isto ´e, f ´e cont´ınua em R∗. Exemplo 3.1.6 Sejam (E, . E) um espa¸co vetorial normado, R com a m´etrica usual e λ ∈ R. Afirmamos que a aplica¸c˜ao m : R × E → E dada por m(λ, x) . = λ.x, λ ∈ R, x ∈ E, ´e localmente lipschitiziana em R × E onde no produto cartesiano R × E considerarmos a norma da soma (isto ´e, (λ, x) R×E = |λ| + x E, (λ, x) ∈ R × E) e assim podemos tomar a m´etrica dR×E[(λ, x), (β, y)] = |λ − β| + x − y E,
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    58 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS se (λ, x), (β, y) ∈ R × E). De fato, dado (λ0, x0) ∈ R × E, fixado r 0, se (λ, x), (β, y) ∈ B((λ0, x0); r) ⊆ R × E temos que |λ − λ0|, |β − β0| r e x − x0 E, y − x0 E r. Logo dE(m(λ, x), m(β, y)) = m(λ, x) − m(β, y) E = λ.x − β.y E = λ.x − λ.y + λy − β.y E = λ.(x − y) + (λ − β).y E ≤ λ(x − y) E + (λ − β)y E = |λ| x − y E + |λ − β| y E [|λ|≤|λ−λ0|+|λ0|≤r+|λ0|] ≤ [r + |λ0|] x − y E + |λ − β| y E [ y E≤ y−x0 E+ x0 E≤r+ x0 E] ≤ [r + |λ0|] x − y E + [r + x0 E]|λ − β| ≤ max{r + |λ0|, r + x0 E}[ x − y E + |λ − β|] [c .=max{r+|λ0|,r+ x0 E}] = c[|λ − β| + x − y E] = c dR×E[(λ, x), (β, y)] mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira. Em particular, a aplica¸c˜ao m : R × E → E ser´a cont´ınua em R × E (munido da m´etrica acima). Exerc´ıcio 3.1.1 Em particular, vale o mesmo para multiplica¸c˜ao de n´umeros reais ou multi- plica¸c˜ao de n´umeros reais por vetores de Rn. Uma outra classe de fun¸c˜oes importantes ´e dada pela Defini¸c˜ao 3.1.4 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N. Diremos que a fun¸c˜ao f ´e uma contra¸c˜ao fraca se dN (f(x), f(y)) ≤ dM ((x, y), x, y ∈ M. e uma subclasse desta ´e dada pela Defini¸c˜ao 3.1.5 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N. Diremos que a fun¸c˜ao f ´e uma contra¸c˜ao (forte) se existir c ∈ [0, 1) tal que dN (f(x), f(y)) ≤ c dM ((x, y), x, y ∈ M. Observa¸c˜ao 3.1.5 1. ´E f´acil de ver que toda contra¸c˜ao forte ´e uma contra¸c˜ao fraca. 2. Tamb´em ´e evidente que toda contra¸c˜ao fraca ou forte ´e uma aplica¸c˜ao lipschitiziana e portanto cont´ınua em todo o espa¸co m´etrico. Seguir daremos alguns exemplos de contra¸c˜oes fracas.
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    3.1. DEFINIC¸ ˜AODE FUNC¸ ˜AO CONT´INUA EM ESPAC¸OS M´ETRICOS E EXEMPLOS 59 Exemplo 3.1.7 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e k ∈ N fixo. Se f : M → N ´e dada por f(x) . = k, para todo x ∈ M ent˜ao f ´e uma contra¸c˜ao forte, pois dN (f(x), f(y)) = dN (k, k) = 0 ≤ 1 2 dM (x, y), x, y ∈ M, (no caso escolhemos c . = 1 2 1). Em particular, a aplica¸c˜ao f : M → N ´e cont´ınua em M. Exemplo 3.1.8 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e X ⊆ M subespa¸co m´etrico de M. A aplica¸c˜ao de inclus˜ao, i : X → M dada por i(x) . = x, x ∈ X ´e uma contra¸c˜ao fraca pois dM (i(x), i(y)) = dX(x, y), x, y ∈ X. Em particular, a aplica¸c˜ao i : X → M ´e cont´ınua em X. Em geral temos o Exemplo 3.1.9 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos. Se f : M → N ´e uma imers˜ao isom´etrica ent˜ao f ´e uma contra¸c˜ao fraca pois dN (f(x), f(y)) = dM (x, y), x, y ∈ M. Em particular, a aplica¸c˜ao f : M → N ser´a cont´ınua em M. Observa¸c˜ao 3.1.6 Como caso particular do exemplo acima temos que toda isometria ´e uma contra¸c˜ao fraca, logo cont´ınua em todo o espa¸co m´etrico. Exemplo 3.1.10 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos. Independente de uma das trˆes m´etricas que escolhamos para M × N (ver exemplo (2.1.12) e observa¸c˜ao (2.1.12) item 3.), para cada a ∈ M e b ∈ N se considerarmos as aplica¸c˜oes ib : M → M × N e ja : N → M × N dadas por ib(x) . = (x, b) e ja(y) . = (a, y), ent˜ao ib e ja s˜ao uma contra¸c˜oes fracas. De fato, pois dM×N (ib(x1), ib(x2)) = dM×N [(x1, b), (x2, b)] (∗) ≤ dM (x1, x2), x1, x2 ∈ M, dM×N (ja(y1), ib(y2)) = dM×N [(a, y1), (a, y2)] (∗∗) ≤ dN (y1, y2), y1, y2 ∈ N mostrando a afirma¸c˜ao acima. Vale observar que as desigualdades (*) e (**) s˜ao v´alidas, independentementes, de qual das trˆes m´etricas que considerarmos no produto cartesiano (verifique!). Em particular, as aplica¸c˜oes ib : M → M × N e ja : N → M × N s˜ao cont´ınuas em M e N, respectivamente.
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    60 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Exemplo 3.1.11 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e X ⊆ M n˜ao vazio. Definamos dX : M → R por dX(y) . = d(y, X), y ∈ M. Afirmamos que dX ´e uma contra¸c˜ao fraca. De fato, se y1, y2 ∈ M temos que dR(dX(y1), dX(y2)) = |dX(y1) − dX(y2)| = |d(y1, X) − d(y2, X)| [proposi¸c˜ao (2.4.2)] ≤ dM (y1, y2), mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira. Em particular, a aplica¸c˜ao dx : M → R ´e cont´ınua em M. Observa¸c˜ao 3.1.7 Do exemplo acima segue que para cada x ∈ M temos que a aplica¸c˜ao dx : M → R dada por dx(y) . = dM (x, y), y ∈ M, ´e uma contra¸c˜ao fraca. Para ver isto basta considerar X . = {x} ⊆ M. Em particular, a aplica¸c˜ao dx : M → R ser´a cont´ınua em M. Exemplo 3.1.12 Seja (E, . ) um espa¸co vetorial normado. A aplica¸c˜ao . : E → R ´e uma contra¸c˜ao fraca. De fato, se x, y ∈ E temos que dR( x , y ) = | x − y | = |dE(x, 0) − dE(y, 0)| ≤ |dE(x, y)| = x − y = dE(x, y), mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira. Em particular, a aplica¸c˜ao . : E → R ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em E. Exemplo 3.1.13 Seja (M1, d1), · · · (Mn, dn) espa¸cos m´etricos. Pra cada i = 1, · · · n a aplica¸c˜ao pi : M1 × · · · × Mn → Mi, dada por pi(x) . = xi, onde x = (x1, · · · , xn) ∈ M1 × · · · × Mn (conhecida como i-´esima proje¸c˜ao) ´e uma contra¸c˜ao fraca onde podemos considerar no produto cartesiano M . = M1 ×· · ·×Mn qualquer uma das trˆes m´etricas da observa¸c˜ao (2.1.12). De fato, se xi, yi ∈ Mi temos que dM1 (pi(x), pi(y)) = dMi (xi, yi) ≤ dM (x, y), onde x = (x1, · · · , xi−1, xi, xi+1, · · · , xn), y = (y1, · · · , yi−1, yi, yi+1, · · · , yn) ∈ M, mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira. Em particular, a aplica¸c˜ao pi : M1 × · · · × Mn → Mi ´e cont´ınua em M1 × · · · × Mn para cada i = 1, · · · , n. Exemplo 3.1.14 Seja (M, dM ) espa¸co m´etrico. Ent˜ao a aplica¸c˜ao dM : M × M → R
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    3.1. DEFINIC¸ ˜AODE FUNC¸ ˜AO CONT´INUA EM ESPAC¸OS M´ETRICOS E EXEMPLOS 61 ´e uma contra¸c˜ao fraca se em M ×M considerarmos a m´etrica da soma ou do m´aximo em M ×M (veja exemplo (2.1.12)). De fato, se (x, y), (x , y ) ∈ M × M ent˜ao dR(dM (x, y), dM (x , y )) = |dM (x, y) − dM (x , y )| = |dM (x, y) − dM (x , y) + dM (x , y) − dM (x , y )| ≤ |dM (x, y) − dM (x , y)| + |dM (x , y) − dM (x , y )| ≤ dM (x, x ) + dM (y, y ) ≤ dM×M [(x, y), (x , y )], mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira. Em particular, a aplica¸c˜ao dM : M × M → R ser´a cont´ınua em M × M. 4.09.2008 - 9.a Exemplo 3.1.15 Seja (E, . E) um espa¸co vetorial normado e λ ∈ R. Afirmamos que a aplica¸c˜ao s : E × E → E dada por s(x, y) . = x + y, x, y ∈ E, ´e uma contra¸c˜ao fraca onde em E×E estamos considerando a norma da soma (isto ´e, (x, y) E×E . = x E + y E e sua respectiva m´etrica associada). De fato, dE(s(x, y), s(x , y )) = s(x, y) − s(x , y ) E = (x + y) − (x + y ) E = (x − x ) + (y − y ) E ≤ x − x + y − y E = (x, y) − (x , y ) E×E = dE×E((x, y), (x , y )). mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira. Em particular, a aplica¸c˜ao s : E × E → E ser´a cont´ınua em E × E. Exerc´ıcio 3.1.2 Em particular, vale o mesmo para soma n´umeros reais ou soma de vetores em Rn e B(X; M) munido da m´etrica do sup. Exemplo 3.1.16 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico, a ∈ M, X um conjunto n˜ao vazio e B(X; M) munido da m´etrica do sup. Definamos a aplica¸c˜ao va : B(X; M) → M por va(f) . = f(a), f ∈ B(X; M). Ent˜ao va ´e uma contra¸c˜ao em B(X; M). De fato, se f, g ∈ B(X; M) temos que dM (va(f), va(g) = dM (f(a), g(a)) ≤ sup{dM (f(x), g(x)) : x ∈ M} = dB(X;M)(f, g), mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira. Em particular, a aplica¸c˜ao va : B(X; M) → M ser´a cont´ınua em B(X; M). Observa¸c˜ao 3.1.8
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    62 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 1. Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e a ∈ M um ponto isolado de M. Afirmamos que f : M → N ´e cont´ınua em a ∈ M. De fato, como a ∈ M ´e um ponto isolado de M, existe δ0 0 tal que B(a; δ0) ∩ M = {a}. Dado ε 0 seja 0 δ ≤ δ0. Se dM (x, a) δ ≤ δ0 temos que x = a logo dN (f(x), f(a)) = dN (f(a), f(a)) = 0 ε, mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira. 2. Como conseq¨uˆencia da observa¸c˜ao acima temos que se (M, dM ) for um espa¸co discreto (isto ´e, todo ponto dele ´e ponto isolado) ent˜ao toda fun¸c˜ao f : M → N ´e cont´ınua em M. Em particular, a m´etrica de M ´e a m´etrica zero-um ent˜ao vale o mesmo. 3. Por outro lado se (N, dN ) for um espa¸co discreto temos que: f : M → N cont´ınua em M se, e somente se, para cada a ∈ M a fun¸c˜ao f ´e constante em alguma bola aberta de centro em a. De fato, se a ∈ M ent˜ao dado 0 ε ≤ 1 temos que B(f(a); ε) = {f(a)} assim para todo δ 0 se x ∈ B(a; δ) para que f(x) ∈ B(f(a), ε) = {f(a)} deveremos ter f(x) = f(a) na bola aberta B(a; δ), como afirmamos acima. Em particular, a m´etrica de N ´e a m´etrica zero-um ent˜ao vale o mesmo. Temos a Defini¸c˜ao 3.1.6 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e a ∈ M. Diremos que uma fun¸c˜ao f : M → N ´e descont´ınua no ponto a se ela n˜ao for cont´ınua no ponto a. Observa¸c˜ao 3.1.9 1. Na situa¸c˜ao acima f ´e descont´ınua no ponto a ∈ M se, e somente se, existe ε 0 tal que para todo δ 0 existe xδ ∈ M tal que dM (xδ, a) δ mas dN (f(xδ), f(a)) ≥ ε. 2. Um formula¸c˜ao equivalente seria: f ´e descont´ınua no ponto a ∈ M se, e somente se, existe ε 0 tal que para todo n ∈ N existe xn ∈ M tal que dM (xn, a) 1 n mas dN (f(xn), f(a)) ≥ ε. Isto poderia ser dito da seguinte forma: existe uma seq¨uˆencia (xn)n∈N em M que ´e con- vergente para a em M tal que a seq¨uˆencia (f(xn))n∈N em N n˜ao ´e convergente em N. Vale observar que ainda n˜ao introduzimos a no¸c˜ao de convergˆencia de seq¨uˆencias. Na verdade isto ser´a tratado num c´ap´ıtulo mais adiante.
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    3.1. DEFINIC¸ ˜AODE FUNC¸ ˜AO CONT´INUA EM ESPAC¸OS M´ETRICOS E EXEMPLOS 63 Exemplo 3.1.17 A fun¸c˜ao f : R → R dada por f(x) = 1, se x ∈ Q 0, se x ∈ I n˜ao ´e cont´ınua em nenhum ponto de R. De fato, sejam a ∈ Q e ε = 1 2 0. Dado δ 0 consideremos x ∈ I tal que |x − a| δ, isto ´e, d(x, a) δ (veja figura abaixo). E a ∈ Q a + δa − δ c x ∈ I Como f(x) = 0 e f(a) = 1 segue que dR(f(x), f(a)) = |f(x) − f(a)| = |0 − 1| = 1 ≥ 1 2 = ε, mostrando que f n˜ao ´e cont´ınua em nenhum a ∈ Q. Por outro lado, sejam a ∈ I e ε = 1 2 0. Dado δ 0 consideremos x ∈ Q tal que |x − a| δ, isto ´e, d(x, a) δ (veja figura abaixo). E a ∈ I a + δa − δ c x ∈ Q Como f(x) = 1 e f(a) = 0 segue que dR(f(x), f(a)) = |f(x) − f(a)| = |1 − 0| = 1 ≥ 1 2 = ε, mostrando que f n˜ao ´e cont´ınua em nenhum a ∈ I. Portanto f n˜ao ´e cont´ınua em nenhum ponto de R. Observa¸c˜ao 3.1.10 Observemos que no exemplo acima temos que f|Q e f|I s˜ao cont´ınuas (na verdade a primeira ´e constante e igual a 0 e a segunda ´e constante e igual a 1). Para f : M → N e X ⊆ M n˜ao vazio, o exemplo acima nos mostra a diferen¸ca entre: 1. f|X : X → N cont´ınua em X; 2. f : M → N cont´ınua em todos os pontos de M. Podemos sempre afirmar que na situa¸c˜ao acima (b) implicar´a sempre em (a). Mas, em geral, (a) pode n˜ao implicar em (b), como mostra o exemplo acima. Exemplo 3.1.18 Consideremos f : R → R dada por f(x) = sen(1 x), se x = 0 0, se x = 0 . Afirmamos que f ´e descont´ınua em x = 0. De fato, seja ε = 1 2 0.
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    64 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Dado δ 0 seja N0 ∈ N tal que N0 ≥ 1 δ . Consideremos x ∈ R dado por x . = 2 (2N0 + 1)π . Como (2N0 + 1)π 2N0 temos que dR(x, 0) = x = 2 (2N0 + 1)π 2 2N0 = 1 N0 δ. Mas dR(f(x), f(0)) = |sen( 1 2 (2N0+1)π ) − 0| = |sen( (2N0 + 1)π 2 )| [sen( (2N0+1)π 2 )=±1] = 1 ≥ 1 2 = ε, mostrando que a afirma¸c˜ao ´e verdadeira. Observa¸c˜ao 3.1.11 Seja f : M → N e consideremos N1 . = f(M) = {f(x) : x ∈ M} visto como subsepa¸co m´etrico de N (ou seja, com a m´etrica induzida de N). Definamos f1 : M → N1 por f1(x) . = f(x), x ∈ M. Afirmamos que f ´e cont´ınua em M se, e somente se, f1 ´e cont´ınua em M. A demonstra¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. 3.2 Propriedades elementares de fun¸c˜oes cont´ınuas entre espa¸cos m´etricos Come¸caremos pela Proposi¸c˜ao 3.2.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) e (P, dP ) espa¸cos m´etricos e a ∈ M. Se f : M → N ´e cont´ınua em a e g : N → P ´e cont´ınua em f(a) ent˜ao g ◦ f : M → P ´e cont´ınua em a. Demonstra¸c˜ao: Dado ε 0, como g ´e cont´ınua no ponto f(a), existe λ 0 tal que se y ∈ N e dN (y, f(a)) λ ent˜ao dP (g(y), g(f(a))) ε. (∗) Mas f ´e cont´ınua em a, logo dado λ 0 (obtido acima), existe δ 0 tal que se x ∈ M e dM (x, a) δ ent˜ao dN (f(x), f(a)) λ. Logo, se f(x) ∈ N, de (*) temos dP (g(f(x)), g(f(a))) λ, mostrando que g ◦ f ´e cont´ınua em a, como quer´ıamos mostrar. Observa¸c˜ao 3.2.1 1. O resultado acima nos diz que a composta de duas fun¸c˜oes cont´ınuas ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua.
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    3.2. PROPRIEDADES ELEMENTARESDE FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS65 2. Temos a seguinte caracteriza¸c˜ao geom´etrica para a demonstra¸c˜ao do resultado acima: g(f(a)) ” ε E gf(a) … λ g(B(f(a); λ)) ‡ Ef ” δ f(B(a; δ)) c a Como conseq¨uˆencia temos Corol´ario 3.2.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos. Se f : M → N ´e cont´ınua em a ∈ X ⊆ M ent˜ao f|X : X → N ´e cont´ınua em a. Demonstra¸c˜ao: Sabemos que a aplica¸c˜ao inclus˜ao, i : X → M ´e cont´ınua em X (ver exemplo (3.1.8)). Observemos que f|X = f ◦ i. Como f ´e cont´ınua em a segue, da proposi¸c˜ao acima, que f|X = f ◦ i ser´a cont´ınua no ponto a, completando a demosntra¸c˜ao do corol´ario. Observa¸c˜ao 3.2.2 O corol´ario acima nos diz que a restri¸c˜ao de uma fun¸c˜ao cont´ınua a um subconjunto do seu dom´ınio ser´a uma fun¸c˜ao cont´ınua nesse subconjunto. Antes de prosseguir temos a Observa¸c˜ao 3.2.3 Sejam (M, dM ), (N, dN ), (P, dP ) espa¸cos m´etricos, f : M×N → P onde em M × N consideramos uma das trˆes m´etricas usuais (da raiz quadrada, da soma ou do m´aximo). Logo f ser´a cont´ınua em (a, b) ∈ M × N se dado ε 0 existe δ 0 tal que dM×N ((x, y), (a, b)) δ implicar dP (f(x, y), f(a, b)) ε. Neste caso ´e comum dizermos que f ´e cont´ınua (conjuntamente) no ponto (a, b). Temos tamb´em a: Defini¸c˜ao 3.2.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ), (P, dP ) espa¸cos m´etricos, f : M × N → P e (a, b) ∈ M × N. Diremos que f ´e cont´ınua em rela¸c˜ao a 1.a vari´avel no ponto (a, b) se a aplica¸c˜ao fb : M → P dada por fb(x) . = f(x, b), x ∈ M, for cont´ınua no ponto a. Diremos que f ´e cont´ınua em rela¸c˜ao a 2.a vari´avel no ponto (a, b) se a aplica¸c˜ao fa : N → P
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    66 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS dada por fa (y) . = f(a, y), y ∈ N, for cont´ınua no ponto b. Diremos que f ´e cont´ınua separadamente no ponto (a, b) se ela for cont´ınua em rela¸c˜ao a cada uma das vari´aveis no ponto (a, b). Observa¸c˜ao 3.2.4 1. Na situa¸c˜ao acima se f ´e cont´ınua (conjuntamente) no ponto (a, b) ent˜ao temos que fa = f ◦ ja fb = f ◦ ib, onde ib : M → M × N e ja : N → M × N s˜ao as aplica¸c˜oes de M, e de N, em M × N dadas pelo exemplo (3.1.10), respectivamente. Assim, como ib e ja s˜ao cont´ınuas em M e N, respectivamente, segue que que fa e fb s˜ao cont´ınuas nos pontos a e b, respectivamente. Portanto f ser´a cont´ınua separadamente no ponto (a, b). 2. N˜ao vale, em geral, a rec´ıproca do resultado acima, isto ´e, existem fun¸c˜oes f : M ×N → P que s˜ao cont´ınuas separadamente no ponto (a, b) mas n˜ao s˜ao cont´ınuas (conjuntamente) no ponto (a, b). Para ver isto, consideremos o seguinte exemplo: Seja f : R × R → R dada por f(x) . =    xy x2 + y2 , se (x, y) = (0, 0) 0 , se (x, y) = (0, 0) . No ponto (0, 0) temos que f ´e cont´ınua separamente (pois f(x, 0) = 0 e f(0, y) = 0 para todo x, y, ∈ R que s˜ao cont´ınuas em R). Mas f n˜ao ´e cont´ınua (conjuntamente) no ponto (0, 0) pois se tomarmos a restri¸c˜ao da fun¸c˜ao f `a reta y = ax, com a = 0 (que torna-se um espa¸co m´etrico com a m´etrica induzida pela m´etrica de R2) ent˜ao teremos f(x, ax) = ax2 x2 + a2x2 = a 1 + a2 = 0 se x = 0 e se x = 0 teremos que f(0, a.0) = (0, 0), mostrando que f ´e descont´ınua no ponto (0, 0). Para o pr´oximo resultado precisaremos da Defini¸c˜ao 3.2.2 Sejam (M, dM ), (N1, d1), (N2, d2) espa¸cos m´etricos, f : M → N1 × N2 dada por f(x) . = (f1(x), f2(x)), x ∈ M onde fj : M → Nj, j = 1, 2 s˜ao ditas fun¸c˜oes coordenadas da fun¸c˜ao f. Neste caso escreveremos f = (f1, f2).
  • 67.
    3.2. PROPRIEDADES ELEMENTARESDE FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS67 Com isto temos a Proposi¸c˜ao 3.2.2 Sejam (M, dM ), (N1, d1), (N2, d2), N1×N2 espa¸cos m´etricos, onde no ´ultimo consideramos uma das trˆes m´etricas usuais, f : M → N1 × N2 dada por f(x) . = (f1(x), f2(x)), x ∈ M onde fj : M → Nj, j = 1, 2 e a ∈ M. Ent˜ao f ´e cont´ınua no ponto a se, e somente se, f1 e f2 s˜ao cont´ınuas no ponto a. Demonstra¸c˜ao: Suponhamos que f ´e cont´ınua no ponto a. Temos que f1 = p1 ◦ f e f2 = p2 ◦ f, onde pj : N1 × N2 → Nj, j = 1, 2 s˜ao as proje¸c˜oes em N1 e N2 definidas no exemplo (3.1.13), respectivamente. Como p1, p2 s˜ao cont´ınuas em N1 e N2, respectivamente, segue que f1 e f2 s˜ao cont´ınuas em a ∈ M. Reciprocamente, (i) Consideremos em N1 × N2 a m´etrica do m´aximo. Se f1 e f2 s˜ao cont´ınuas em a ∈ M ent˜ao dado ε 0 segue que existem δ1, δ2 0 tal que se dM (x, a) δi implicar´a dNi (fi(x), fi(a)) ε, i = 1, 2. (∗) Seja δ . = min{δ1, δ2} 0. Assim, se dM (x, a) δ logo dM (x, a) δ1 e dM (x, a) δ2 e de (*) teremos dN1×N2 (f(x), f(a)) = max{d1(f1(x), f1(a)), d2(f2(x), f2(a))} ε, mostrando que f ´e cont´ınua no ponto a. (ii) Se considerarmos em N1 × N2 a m´etrica da raiz quadrada temos que dado ε 0 existem δ1, δ2 0 tal que se dM (x, a) δi implicar´a dNi (fi(x), fi(a)) ε √ 2 , i = 1, 2. (∗) tomando-se δ . = min{δ1, δ2} 0. Assim, se dM (x, a) δ logo dM (x, a) δ1 e dM (x, a) δ2 e de (*) teremos dN1×N2 (f(x), f(a)) = [d1(f1(x), f1(a))]2 + [d2(f2(x), f2(a))]2 [ ε √ 2 ]2 + [ ε √ 2 ]2 = ε2 2 + ε2 2 = √ ε2 = ε, mostrando que f ´e cont´ınua no ponto a. (iii) Se considerarmos em N1 × N2 a m´etrica da soma temos que dado ε 0 existem δ1, δ2 0 tal que se dM (x, a) δi implicar´a dNi (fi(x), fi(a)) ε 2 , i = 1, 2. (∗)
  • 68.
    68 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS tomando-se δ . = min{δ1, δ2} 0. Assim, se dM (x, a) δ logo dM (x, a) δ1 e dM (x, a) δ2 e de (*) teremos dN1×N2 (f(x), f(a)) = d1(f1(x), f1(a)) + d2(f2(x), f2(a)) ε 2 + ε 2 = ε, mostrando que f ´e cont´ınua no ponto a. Completamos assim a demonstra¸c˜ao. Como conseq¨uˆencia temos o Corol´ario 3.2.2 Sejam (M1, d1), (M2, d2), (N1, d1), (N2, d2) espa¸cos m´etricos e f1 : M1 → N1, f2 : M2 → N2 duas fun¸c˜oes. Se f1 e f2 s˜ao cont´ınuas em M1 e M2, respectivamente ent˜ao a aplica¸c˜ao f1 × f2 : M1 × M2 → N1 × N2 (f1 × f2)(x1, x2) . = (f1(x1), f2(x2)), (x1, x2) ∈ M1 × M2 ser´a cont´ınua em M1 × M2. Demonstra¸c˜ao: Temos que as coordenadas de f1 × f2 s˜ao (f1 × f2)1 = f1 ◦ p1 e (f1 × f2)2 = f2 ◦ p2, onde pi : M1 ×M2 → Mi, i = 1, 2, s˜ao as proje¸c˜oes de M1 ×M2 em Mi, i = 1, 2 que s˜ao cont´ınuas em M1 × M2 ( ver exemplo (3.1.13) ). Como f1 e f2 s˜ao cont´ınuas em M1 e M2, respectivamente, da proposi¸c˜ao (3.2.1) segue que (f1 × f2)1 e (f1 × f2)2 s˜ao cont´ınuas M1 × M2 e assim a proposi¸c˜ao (3.2.2) implicar´a que f1 × f2 s˜ao cont´ınuas em M1 × M2 concluindo a demonstra¸c˜ao do resultado. Como conseq¨uˆencia dos resultados acima temos a Proposi¸c˜ao 3.2.3 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, (E, . E) espa¸co vetorial normado, R com a m´etrica usual, f, g : M → E, α, β : M → R cont´ınuas, com β(x) = 0 para x ∈ M. Ent˜ao as fun¸c˜oes f + g, α.f : M → E s˜ao cont´ınuas em M e α β : M → R ´e cont´ınua em M, onde (f + g)(x) . = f(x) + g(x), (α.f)(x) . = α.f(x), ( α β )(x) . = α(x) β(x) , para x ∈ M. Demonstra¸c˜ao: Vimos anteriormente (exemplos (3.1.5), (3.1.15) e (3.1.6)) que as fun¸c˜oes r : R {0} → R, s : E × E → E e m : E → E dadas por r(x) . = 1 x , s(x, y) . = x + y, m(λ, x) . = λ.x, onde x, y ∈ E e λ ∈ R, s˜ao cont´ınuas nos seus respectivos dom´ınios.
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    3.2. PROPRIEDADES ELEMENTARESDE FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS ENTRE ESPAC¸OS M´ETRICOS69 Com isto temos: M (f,g) −→ E × E s −→ E x −→ (f(x), g(x)) −→ f(x) + g(x) , logo f + g ´e cont´ınua em M; M (α,f) −→ R × E m −→ E x −→ (α(x), f(x)) −→ α(x).f(x) , logo α.f ´e cont´ınua em M e M (α,β) −→ R × R {0} (id,r) −→ R × R m −→ R x −→ (α(x), β(x)) −→ (α(x), 1 β(x) ) −→ α(x). 1 β(x) , logo α β ´e cont´ınua em M (onde id : R → R ´e a aplica¸c˜ao identidade, isto ´e id(x) = x, x ∈ R), completando a demonstra¸c˜ao do resultado. Como conseq¨uˆencia imediata temos o Corol´ario 3.2.3 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, R com a m´etrica usual, f, g : M → R cont´ınuas em M. Ent˜ao as fun¸c˜oes f +g, f.g : M → R s˜ao cont´ınuas em M e f g : M {x ∈ M : g(x) = 0} → R ´e cont´ınua no seu dom´ınio. Para finalizar a se¸c˜ao temos a Observa¸c˜ao 3.2.5 1. Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos. Denotaremos por C(M; N) o conjunto formado por todas as fun¸c˜oes cont´ınuas de M em N, isto ´e, C(M; N) . = {f : M → N : f ´e cont´ınua em M}. Denotaremos por C0(M; N) o conjunto formado por todas as fun¸c˜oes cont´ınuas de M em N que s˜ao limitadas, isto ´e, C0(M; N) . = {f : M → N : f ´e cont´ınua e limitadas em M} ⊆ C(M; N). Neste ´ultimo podemos introduzir uma m´etrica da seguinte forma: Consideremos d : C0(M; N) × C0(M; N) → R definida da seguinte forma: se f, g ∈ C0(M; N) d(f, g) . = sup{dN (f(x), g(x)) : x ∈ M}. Ficar´a a como exerc´ıcio para o leitor mostrar que d ´e uma m´etrica em C0(M; N).
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    70 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 2. Em C0([a, b]; R) podemos considerar a norma f . = sup x∈[a,b] |f(x)|, f ∈ C0([a, b]; R) e assim temos a m´etrica associada a esta norma que ser´a denotada por dsup. Por outro lado, sabemos que toda fun¸c˜ao cont´ınua f : [a, b] → R ´e (Riemann)-integr´avel em [a, b]. Em particular, existe b a |f(x)| dx. Afirmamos que f 1 . = b 1 |f(x)| dx, f ∈ C0([a, b]; R) tamb´em ´e uma norma em C0([a, b]; R). As propriedades (n2) e (n3) ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor. Mostremos que (n1) ocorre. Para isto seja f ∈ C0([a, b]; R) tal que f = 0, ou seja, existe x0 ∈ [a, b]. Do C´alculo 1 sabemos que se uma fun¸c˜ao ´e cont´ınua e n˜ao-negativa tem integral nula se, e somente se, ela for identicamente nula. Logo segue que, se f = 0 (*) temos que b a |f(x)| dx = 0 pois se fosse zero dever´ıamos ter |f(x)| = 0 para todo x ∈ [a, b] implicando que f(x) = 0 para todo x ∈ [a, b], contrariando (*)), com isto obtemos (n1). Logo podemos considerar a m´etrica associada a norma . 1 (que ser´a denominada m´etrica da integral em f ∈ C0([a, b]; R)). 3. Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e (E, . E) espa¸co vetorial normado. Ent˜ao ´e f´acil ver que C0(M; E) ´e um subespa¸co vetorial do espa¸co vetorial B(M; N). 16.09.2008 - 10.a 3.3 Homeomorfismos entre espa¸cos m´etricos Observa¸c˜ao 3.3.1 O objetivo desta se¸c˜ao ´e estudar fun¸c˜oes bijetoras e cont´ınuas que admitam fun¸c˜ao inversa cont´ınua. Ao contr´ario do que ocorre em ´Algebra Linear (onde a inversa de uma transforma¸c˜ao linear ´e, necessariamente, uma transforma¸c˜ao linear) e da ´Algebra (onde a inversa de um homomorfismo ´e, necessariamente, um homomorfismo) na Topologia existem fun¸c˜oes cont´ınuas e bijetoras cujas fun¸c˜oes inversas n˜ao s˜ao cont´ınuas, como mostra o exemplo a seguir: Exemplo 3.3.1 Consideremos (M, d) onde M = R e dM ´e a m´etrica zero-um e R com a m´etrica usual. Tomemos a aplica¸c˜ao identidade i : M → R, dada por i(x) . = x, x ∈ M. Observemos que neste caso aplica¸c˜ao i ´e bijetora e cont´ınua (veja observa¸c˜ao (3.1.8 item 2.) Afirmamos que a fun¸c˜ao inversa associada a i, que ´e a aplica¸c˜ao i−1 : R → M dada por i−1(y) . = y, y ∈ R, n˜ao ´e cont´ınua em qualquer ponto de R pois a m´etrica em M ´e a m´etrica zero-um (ver oberva¸c˜ao (3.1.8) item 3.).
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    3.3. HOMEOMORFISMOS ENTREESPAC¸OS M´ETRICOS 71 A seguir exibiremos um outro exemplo menos artificial Exemplo 3.3.2 Sejam M . = [−1, 0] ∪ (1, ∞) e N = [0, ∞) ambos com a m´etrica usual induzida de R. Consideremos f : M → N dada por f(x) = x2 , x ∈ M. Temos que f ´e uma aplica¸c˜ao bijetora e cont´ınua em M (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao deste fatos - veja gr´afico de f na figua abaixo). TN E M −1 1 1 x f(x) A fun¸c˜ao inversa associada a f ser´a f−1 : N → M dada por f−1 (y) . = − √ y, 0 ≤ y ≤ 1 √ y, y 1 cujo gr´afico ´e dado pela figura abaixo. E T 1 1 −1 M Ny f−1 (y) Observemos que f−1 n˜ao ´e cont´ınua em y = 1. De fato, dado ε = 1 2 0, para todo δ 0 seja z ∈ (1, 1 + δ).
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    72 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Logo z ∈ B(1; δ) mas dR(f−1 (z), f−1 (1)) = |f−1 (z) − f−1 (1)| [f−1(1)=−1] = |f−1 (z) + 1| = f−1 (z) + 1 1 2 = ε, mostrando que f−1(z) ∈ B(f−1(1); ε). Portanto f−1 n˜ao ser´a cont´ınua no ponto y = −1. E T 1 1 −1 M N ' c E c O pr´oximo exemplo ´e o mais interessante. Exemplo 3.3.3 Sejam M = [0, 2π) com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R, S1 . = {(x, y) ∈ R2 : x2 + y2 = 1} com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R2 e f : E → S1 dada por f(t) = (cos(t), sen(t)), t ∈ E. Observemos que f ´e cont´ınua em M (pois suas componentes s˜ao cont´ınuas em M) e bijetora (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato). Logo existe a fun¸c˜ao inversa f−1 : S1 → E. Afirmamos que f−1 n˜ao ´e cont´ınua em (1, 0) = f(0). De fato, consideremos as seq¨uˆencias (Pn)n∈N e (Qn)n∈N sobre S1 de modo que Pn → (1, 0) e est´a contida no semi-plano superior y 0 e Qn → (1, 0) e est´a contida no semi-plano inferior y 0. T E (1, 0) T c Pn Qn T E f 2π 0 f−1 (Pn) c Tf−1 (Qn) ' f−1
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    3.3. HOMEOMORFISMOS ENTREESPAC¸OS M´ETRICOS 73 Assim f−1(Pn) → 0 e f−1(Qn) → 2π, mostrando que n˜ao existe lim (x,y)→(1,0) f−1 (x, y). Em particular f−1 n˜ao ´e cont´ınua em (1, 0). Quando a fun¸c˜ao inversa for cont´ınua temos a seguinte defini¸c˜ao Defini¸c˜ao 3.3.1 Sejam (M, dM ) e N(, dN ) espa¸cos m´etricos. Diremos que uma fun¸c˜ao f : M → N ´e um homemorfismo de M em N se a fun¸c˜ao f for cont´ınua, for bijetora (logo admite fun¸c˜ao inversa) e a fun¸c˜ao inversa for cont´ınua em N. Neste caso diremos que o espa¸co m´etrico M ´e homeomorfo ao espa¸co m´etrico N e es- creveremos M ∼ N. A seguir temos a Proposi¸c˜ao 3.3.1 Sejam (M, dM ), N(, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N uma isometria. Ent˜ao f ´e um homeomorfismo de M em N. Demonstra¸c˜ao: Se a fun¸c˜ao f ´e uma isometria ent˜ao, como vimos na observa¸c˜ao (2.6.2) item 2., sua fun¸c˜ao inversa tamb´em ser´a uma isometria, ou seja, f e sua fun¸c˜ao inversa, f−1, ser˜ao cont´ınuas, logo a fun¸c˜ao f ser´a um homeomorfismo. Observa¸c˜ao 3.3.2 1. Temos que M ∼ M pois a aplica¸c˜ao identidade i : M → M ´e sempre um homeomorfismo de M em M (isto ´e, ∼ ´e reflexiva); 2. Observemos que se f : M → N ´e um homeomorfismo (de M em N) ent˜ao f−1 : N → M tamb´em ser´a um homeomorfismo (de N em M). Logo se M ∼ N ent˜ao N ∼ M (isto ´e, ∼ ´e sim´etrica); 3. Se (M, dM ), N(, dN ) e (P, dP ) s˜ao espa¸cos m´etricos e f : M → N, g : N → P s˜ao homeomorfismos ent˜ao, da proposi¸c˜ao (3.2.1) segue que (g ◦ f) : M → P tamb´em ser´a um homeomorfismo (de M em P) (isto ´e, ∼ ´e transitiva). Logo se M ∼ N e N ∼ P ent˜ao N ∼ P; 4. Dos iten 1., 2. e 3. segue que ∼ ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia no conjunto formado por todos os espa¸cos m´etricos. 5. Diremos que uma certa propriedade P de um espa¸co m´etrico M ´e uma propriedade topol´ogica se todo espa¸co m´etrico homeomorfo a M tem a propriedade P, ou seja pro- priedades topol´ogicas s˜ao aquelas preservadas por homeomorfismos. 6. Diremos que uma certa propriedade Q de um espa¸co m´etrico M ´e uma propriedade m´etrica se todo espa¸co m´etrico isom´etrico a M tem a propriedade Q, ou seja, propriedades m´etricas s˜ao aquelas preservadas por isometrias.
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    74 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 7. A proposi¸c˜ao (3.3.1) garante que toda propriedade topol´ogica ´e uma propriedade m´etrica (pois se uma propriedade P ´e preservada por homeomorfismo ent˜ao tamb´em ser´a preserva por isometrias, pois toda isometria ´e um homeorofismo). Mas, em geral, n˜ao vale a rec´ıproca, isto ´e, existem propriedades m´etricas que n˜ao s˜ao propriedades topol´ogicas. Ou seja, existem propriedades Q que s˜ao preservada por isometrias e n˜ao s˜ao preservas por homeomorfismos. Veremos isto na observa¸c˜ao (3.3.3) item 4. Temos os seguinte resultados: Proposi¸c˜ao 3.3.2 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e (N, dN ) um espa¸co m´etrico discreto e f : M → N um homeomorfismo de M e N. Ent˜ao M ´e um espa¸co m´etrico discreto. Demonstra¸c˜ao: Seja a ∈ M. Mostremos que a ´e um ponto isolado de M, isto ´e, existe δ 0 tal que BM (a; δ) = {a}. Para isto, como N ´e discreto e f(a) ∈ N, existe ε 0 tal que BN (f(a); ε) = {f(a)}. Como f ´e cont´ınua, existe δ 0 tal que f(BM (a; δ)) ⊆ BN (f(a); ε) = {f(a)}. Mas f ´e injetora, logo segue que BM (a; δ) s´o poder´a ter um ´unico ponto, caso contr´ario, se existisse x = a tal que x ∈ B(a; δ) ent˜ao f(x) ∈ B(f(a); ε) = {f(a)}, ou seja, f(x) = f(a), o que ´e um absurdo, pois f ´e injetora. Assim BM (a; δ) = {a}, ou seja, a ´e um ponto isolado de M, mostrando que M ´e discreto, como quer´ıamos demonstrar. Observa¸c˜ao 3.3.3 1. Na verdade provamos um caso mais geral, a saber: se f : M → N ´e cont´ınua, injetora e para algum a ∈ M temos f(a) um ponto isolado de N ent˜ao a ser´a um ponto isolado de M. 2. Em particular, a proposi¸c˜ao acima garante que ser discreto (ou n˜ao ser discreto) ´e uma propriedade topol´ogica (isto ´e, ´e preservada por homeomorfismos). 3. Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos discretos. M e N s˜ao homeomorfos se, e somente se, M e N tem a mesma cardinalidade. De fato, se M ∼ N ent˜ao, em particular, existe uma aplica¸c˜ao bijetora de M em N, logo M e N tem a mesma cardinalidade Por outro lado, lembremos que toda aplica¸c˜ao definida num espa¸co m´etrico discreto ´e cont´ınua (ver observa¸c˜ao (3.1.8) item 2.). Logo toda aplica¸c˜ao bijetora entre espa¸cos m´etricos discretos ser´a um homeomorfismo (pois ela e sua inversa est˜ao definidas em espa¸cos m´etricos discretos, logo s˜ao cont´ınuas). Em particular, se M e N s˜ao discretos e tˆem a mesma cardinalidade, segue que existe uma aplica¸c˜ao bijetora de M em N que, pelo que observamos acima, ser´a um homemorofismo de M em N e portanto M ∼ N.
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    3.3. HOMEOMORFISMOS ENTREESPAC¸OS M´ETRICOS 75 4. Afirmamos que ser limitado ´e uma propriedade m´etrica mas n˜ao ´e uma propriedade topol´ogica, como mostra o seguinte exemplo: Sejam N e P . = { 1 n : n ∈ N} ambos com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R. Temos que N e P s˜ao homeomorfos, pois eles tˆem a mesma cardinalidade (observemos que f : N → P dada por f(n) . = 1 n , n ∈ N ´e uma aplica¸c˜ao bijetora de N em P). Observemos que N n˜ao ´e limitado mas P ´e limitado. Um outro resultado interessante ´e dado pela Proposi¸c˜ao 3.3.3 Sejam (E, . E) um espa¸co vetorial sobre R normado, a ∈ E e λ ∈ R, λ = 0. Ent˜ao a transla¸c˜ao ta : E → E e a homotetia mλ : E → E definidas por ta(x) . = x + a, mλ(x) . = λ.x, x ∈ E, s˜ao homeomorfismos de E. Demonstra¸c˜ao: De fato, da proposi¸c˜ao (3.2.3) segue que ta e mλ s˜ao cont´ınuas em E. Al´em disso, elas admitem fun¸c˜oes inversas t−1 a : E → E e m−1 λ : E → E definidas por t−1 a (y) . = y − a, m−1 λ (y) . = 1 λ .x, y ∈ E. A verifica¸c˜ao destes fatos ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor. Observemos que t−1 a : E → E e m−1 λ : E → E s˜ao cont´ınuas em E, logo s˜ao homeomorfismos de E. Como conseq¨uˆecia temos o Corol´ario 3.3.1 Sejam (E, . E) um espa¸co vetorial sobre R normado, a, b ∈ E e r, s 0. Ent˜ao as bolas abertas B(a; r) e B(b; s) s˜ao homeomorfas (munidas da m´etrica induzida de E). Demonstra¸c˜ao: Consideremos a aplica¸c˜ao ϕ : B(a; r) → E dada por ϕ(x) . = (tb ◦ ms r ◦ t−a)(x), x ∈ B(a; r). Veja figura abaixo:
  • 76.
    76 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS a o r E t−a 0 “ r E m s r 0 “ s c tb b } s s ϕ = tb ◦ m s r ◦ t−a Observemos que ϕ(a) = (tb ◦ ms r ◦ t−a)(a) = (tb ◦ ms r )(t−a(a)) = (tb ◦ ms r )(a − a) = (tb ◦ ms r )(0) = tb (ms r (0)) = tb ( s r .0) = tb (0) = 0 + b = b. Se x ∈ B(a; r) e dE(ϕ(x), ϕ(a)) = ϕ(x) − ϕ(a) E = (tb ◦ ms r ◦ t−a)(x) − b E = (tb ◦ ms r )(t−a(x)) − b E = (tb ◦ ms r )(x − a) − b E = tb (ms r (x − a)) − b E = tb ( s r (x − a)) − b E = [ s r (x − a) + b] − b = s r (x − a) = s r x − a [x∈B(a;r)] s r .r = s, ou seja, ϕ(x) ∈ B(ϕ(a); s) [ϕ(a)=b] = B(b; s), mostrando que ϕ : B(a; r) → B(b; s). Da proposi¸c˜ao (3.3.3) segue que ϕ ´e um homeomorfismo (pois ´e uma composta de homeo- morfismos), mostrando que as bolas abertas B(a; r) e B(b; s) s˜ao homeomorfas.
  • 77.
    3.3. HOMEOMORFISMOS ENTREESPAC¸OS M´ETRICOS 77 De modo semelhante pode-se mostrar o Corol´ario 3.3.2 Sejam (E, . E) um espa¸co vetorial sobre R normado, a, b ∈ E e r, s 0. Ent˜ao as bolas fechadas B[a; r] e B[b; s] s˜ao homeomorfas (munidas da m´etrica induzida pela norma de E). Al´em disso, as esferas S(a; r), S(b; s) tamb´em s˜ao homeomorfas. Demonstra¸c˜ao: Ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Observa¸c˜ao 3.3.4 1. Sabemos que o diˆametro de um conjunto ´e invariante m´etrico (isto ´e, ´e preservado por isometrias) mas n˜ao ´e um invariante topol´ogico (isto ´e, n˜ao ´e preservado por homeomor- fismo) como afirmam os corol´arios acima (no caso de espa¸cos vetoriais normados). 2. Observemos que em um espa¸co m´etrico arbitr´ario duas bolas abertas (ou fechadas) podem n˜ao ser homeomorfas, como mostra o seguinte exemplo: Consideremos (M, dM ) um espa¸co m´etrico que possua um ponto a que seja ponto isolado de M e um ponto b que n˜ao seja ponto isolado de M. Logo existe ε 0 tal que B(a; ε) = {a}, portanto essa bola aberta n˜ao ser´a homeomorfa a uma bola aberta de centro em b, pois, para todo s 0 temos que B(b; s) ´e um conjunto infinito (pois b n˜ao ´e ponto isolado de M; na verdade, n˜ao poder´a existir uma aplica¸c˜ao bijetora de B(a; ε) = {a} no conjunto B(b; s))). Portanto as bolas B(a; ε) e B(b; s) n˜ao s˜ao homeomorfas em M. Temos a Defini¸c˜ao 3.3.2 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos. Diremos que uma fun¸c˜ao f : M → N ´e uma imers˜ao topol´ogica se f : M → f(M) for um homeomorfismo. Observa¸c˜ao 3.3.5 1. Toda imers˜ao isom´etrica f : M → N ser´a uma imers˜ao topol´ogica (pois se f ´e imers˜ao isom´etrica ent˜ao dN (f(x), f(y)) = dM (x, y) para todo x, y ∈ M, mostrando que f : M → f(M) ´e bijetora, cont´ınua em M com fun¸c˜ao inversa, f−1 : f(M) → M, cont´ınua em f(M)). 2. N˜ao vale a rec´ıproca do item 1., ou seja, nem toda imers˜ao topol´ogica ´e uma imers˜ao isom´etrica, como mostra o seguinte exemplo: Consideremos R e R2 com as m´etricas usuais e f : R → R2 dada por f(t) . = (t, t2 ), t ∈ R. Observemos que f ´e cont´ınua em R, bijetora sobre f(R) e sua inversa ser´a f−1 : f(R) → R
  • 78.
    78 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS dada por f−1 (t, t2 ) . = t, (t, t2 ) ∈ f(R) que corresponde a restri¸c˜ao da proje¸c˜ao p1 : R2 → R (que ´e cont´ınua) a f(R), logo f : R → f(R) ´e um homeomorfismo, mostrando que f : R → R2 ´e uma imers˜ao topol´ogica. Observemos que f : R → R2 n˜ao ´e uma imers˜ao isom´etrica, pois , se t, s ∈ R e t = s temos que df(M)(f(t), f(s)) ´e o comprimento do arco de par´abola que une os pontos (s, s2) e (t, t2) enquanto dR(t, s) ´e o comprimento do segmento de reta que une os pontos (s, 0) e (t, 0). Logo df(M)(f(t), f(s)) dM (s, t), mostrando que f n˜ao ser´a uma imers˜ao isom´etrica (veja figura abaixo). E T t s f(t) = (t, t2 ) f(s) = (s, s2 ) M = R N = f(R) A seguir daremos dois exemplos geom´etricos de fun¸c˜oes que n˜ao s˜ao imers˜oes topol´ogicas. Exemplo 3.3.4 Consideremos M . = (0, 1) munido da m´etrica induzida pela m´etrica ususal de R, R2 com a m´etrica usual e f, g : (0, 1) → R2 dadas pelos seguintes configura¸c˜oes geom´etricas: T Ef 0 1 t f(t) T 0 1 E g t g(t)
  • 79.
    3.3. HOMEOMORFISMOS ENTREESPAC¸OS M´ETRICOS 79 18.09.2008 - 11.a Outro resultado importante ´e dado pela Proposi¸c˜ao 3.3.4 Seja (E, . E) um espa¸co vetorial normado. Ent˜ao toda bola aberta ´e homeomorfa a E, isto ´e, se a ∈ E e r 0 ent˜ao B(a; r) ∼ E. Demonstra¸c˜ao: Do corol´ario (3.3.1) basta mostrar que B(0; 1) ∼ E, isto ´e, construiremos um homeomorfismo f : E → B(0; 1). Consideremos f : E → E dada por f(x) . = 1 1 + x E x, x ∈ E. Observemos que f(x) E = 1 1 + x E x E = 1 1 + x E x E 1, mostrando que f(E) ⊆ B(0; 1), ou seja f : E → B(0; 1). Al´em disso f ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua (pois a aplica¸c˜ao x → x E ´e cont´ınua e como 1+ x E = 0, segue que a fun¸c˜ao f ser´a cont´ınua em E). Definamos g : B(0; 1) → E por g(y) . = 1 1 − y E y, y ∈ B(0; 1). Temos que a fun¸c˜ao g ´e cont´ınua em B(0; 1) (pois a aplica¸c˜ao y → y E ´e cont´ınua e como 1 − y E = 0 para y ∈ B(0; 1), segue que a fun¸c˜ao g ser´a cont´ınua em B(0; 1)). Al´em disso se y ∈ B(0; 1) temos que f(g(y)) = f( 1 1 − y E y) = 1 1 + 1 1− y E y E 1 1 − y E y = 1 1 + 1 1− y E y E 1 1 − y E y = 1 − y E 1 − y E + y E 1 1 − y E y = y. De modo semelhante mostra-se que (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) g(f(x)) = x, x ∈ E, ou seja g = f−1, mostrando que f : E → B(0; 1) ´e um homeomorfismo de E em B(0; 1), ou seja B(0; 1) ∼ E, como quer´ıamos demonstrar. Portanto B(a; r) ∼ E. Observa¸c˜ao 3.3.6
  • 80.
    80 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 1. Do exemplo acima segue que o intervalo (a, b) ⊆ R ´e homeomorfo a R (munidos da m´etrica induzida da m´etrica usual de R e da m´etrica usual de R, respectivamente), pois (a, b) = B( a + b 2 ; b − a 2 ) (veja figura abaixo). a b a+b 2 E'E' b−a 2 b−a 2 2. Na situa¸c˜ao acima, temos que o intervalo (a, ∞) ´e homeomorfo a R. Para mostrar isto basta considerar a fun¸c˜ao f : R → (a, ∞) dada por f(x) . = a + ex , x ∈ R. E T x f(x) = a + ex y = a Com isto pode-se mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que f ´e cont´ınua em R e se definirmos h : (a, ∞) → R por h(y) . = ln(y − a), y ∈ (a, ∞) teremos que h ser´a cont´ınua em (a, ∞).
  • 81.
    3.3. HOMEOMORFISMOS ENTREESPAC¸OS M´ETRICOS 81 E T y h(y) = ln(y − a) Al´em disso, pode-se verificar, que f(h(y)) = y, y ∈ (a, ∞) e g(f(x)) = x, x ∈ R, mostrando que h = f−1, isto ´e, f ´e um homeormorfismo de (a, ∞) em R, mostrando que (a, ∞) ∼ R. 3. De modo semelhante ao que fizemos no item 2. pode-se mostrar (ser´a deixado como exer- c´ıcio para o leitor) que (−∞, b) ∼ R. Um outro exemplo importante ´e Exemplo 3.3.5 Sejam Sn . = {x ∈ Rn+1 : x = 1} a esfera n-dimensional unit´ario de centro na origem munida da m´etrica induzida pela m´etrica usual de Rn+1 e p . = (0, · · · , 0, 1) ∈ Rn+1 (o polo norte da esfera Sn). Mostraremos que Sn {p} ´e homeomorfa a Rn. Para isto exibiremos uma aplica¸c˜ao Π : Sn {p} → Rn que ´e um homeomorfismo. A aplica¸c˜ao Π ´e definida da seguinte forma: Dado x ∈ Sn {p} consideremos a semi-reta → px que liga os pontos p e x (que est´a bem definida pois x = p). Definimos π(x) como sendo o ponto de intersec¸c˜ao da semi-reta → px como o h´ıper-plano xn+1 = 0
  • 82.
    82 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS R 0 p = (0, 1) x π(x) y π(y) semi-reta → px semi-reta → py T ' S1 {p} w A seguir obteremos uma express˜ao para π(x), x ∈ S1 {p}. Observemos se x ∈ S1 {p}, que os pontos da semi-reta → px s˜ao da forma p + t.(x − p), t 0, logo π(x) = p + t.(x − p), para algum t 0. Mas π(x) dever´a pertencer ao h´ıper-plano xn+1 = 0. Como a ´ultima coordenada ´e da forma 1 + t(xn+1 − 1), (pois a ´ultima coordenada do ponto p ´e 1) deveremos ter 1 + t(xn+1 − 1) = 0 . Logo para que π(x) perten¸ca ao h´ıper-plano xn+1 = 0 deveremos ter t = 1 1 − xn+1 . Escreveremos x = (x1, · · · , xn, xn+1) = (x , xn+1), onde x = (x1, · · · , xn) e xn+1 ∈ R. Deste modo teremos que p + t(x − p) = p + 1 1 − xn+1 (x − p) = (0, · · · , 0, 1) + 1 1 − xn+1 [(x1, x2, · · · , xn, xn+1) − (0, · · · , 0, 1)] = (0, · · · , 0, 1) + 1 1 − xn+1 (x1, x2, · · · , xn, xn+1 − 1) = (0, · · · , 0, 1) + ( 1 1 − xn+1 x , −1) = ( 1 1 − xn+1 x , 0), Observemos que {(x1, · · · , xn, 0) : xi ∈ R, i = 1 · · · , n} ´e homeomorfo a Rn.
  • 83.
    3.3. HOMEOMORFISMOS ENTREESPAC¸OS M´ETRICOS 83 Para ver isto basta considerar φ : {(x , 0) : x ∈ Rn } ⊆ Rn+1 → Rn dada por φ(x , 0) . = x ∈ Rn e mostrar que esta ´e um homeomorfismo (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). Assim definimos Π : S1 {p} → Rn por Π(x) = (φ ◦ π)(x), x ∈ S1 {p}, ou seja, Π(x) = 1 1 − xn+1 x , x ∈ S1 {p}, onde x = (x , xn+1). Como xn+1 = 1 segue que Π : S1 {p} → Rn ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em S1 {p}. Consideremos a aplica¸c˜ao ϕ : Rn → Rn+1 dada por ϕ(y) . = x, y ∈ Rn , onde x = (x , xn+1) com x . = 2 y 2 Rn + 1 y e xn+1 . = y 2 Rn − 1 y 2 Rn + 1 , isto ´e ϕ(y) . = ( 2 y 2 Rn + 1 y, y 2 Rn − 1 y 2 Rn + 1 ) ∈ Rn+1 , y ∈ Rn . Observemos que ϕ(y) 2 Rn+1 = 2 y 2 Rn + 1 y 2 Rn + | y 2 Rn − 1 y 2 Rn + 1 |2 = 4 ( y 2 Rn + 1)2 y 2 Rn + ( y 2 Rn − 1)2 ( y 2 Rn + 1)2 = 4 y 2 Rn + ( y 2 Rn − 1)2 ( y 2 Rn + 1)2 = 4 y 2 Rn + ( y 4 Rn − 2 y 2 Rn + 1 ( y 2 Rn + 1)2 = y 4 Rn + 2 y 2 Rn + 1) ( y 2 Rn + 1)2 = ( y 2 Rn + 1)2 ( y 2 Rn + 1)2 = 1, ou seja, ϕ(y) ∈ Sn. Al´em disso, se ϕ(y) = (0, · · · , 0, 1) = p ∈ Rn+1 dever´ıamos ter    2 y 2 Rn + 1 y = (0, · · · , 0) ∈ Rn y 2 − 1 y 2 Rn + 1 = 1 e das n-primeiras equa¸c˜oes teremos y = (0, · · · , 0) ∈ Rn e este n˜ao satisfaz a ´ultima equa¸c˜ao (o lado esquerda d´a −1), ou seja p ∈ ϕ(Rn). Conslus˜ao: ϕ : Rn → Sn {p}.
  • 84.
    84 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Observemos que ϕ ´e cont´ınua em Rn e al´em disso se x ∈ Sn {p} temos que 1 = x 2 Rn+1 = x 2 Rn + (xn+1)2 e xn+1 = 1. Assim x 2 Rn = 1 − (xn+1)2 , logo ϕ(Π(x)) = ( 2 Π(x) 2 Rn + 1 Π(x), Π(x) 2 Rn − 1 Π(x) 2 Rn + 1 ) = ( 2 1 1−xn+1 x 2 Rn + 1 [ 1 1 − xn+1 x ], 1 1−xn+1 x 2 Rn − 1 1 1−xn+1 x 2 Rn + 1 ) = ( 2 1 (1−xn+1)2 x 2 Rn + 1 [ 1 1 − xn+1 x ], 1 (1−xn+1)2 x 2 Rn − 1 1 (1−xn+1)2 | x 2 Rn + 1 ) = ( 2(1 − xn+1)2 [ x 2 Rn + (1 − xn+1)2].(1 − xn+1) x , x 2 Rn − (1 − xn+1)2 x 2 Rn + (1 − xn+1)2 ) = ( 2(1 − xn+1)2 [(1 − (xn+1)2) + (1 − xn+1)2].(1 − xn+1) x , (1 − (xn+1)2) − (1 − xn+1)2 (1 − (xn+1)2) + (1 − xn+1)2 ) = ( 2(1 − xn+1) [ x 2 Rn + (1 − xn+1)2] x , x 2 Rn − (1 − xn+1)2 x 2 Rn + (1 − xn+1)2 ) = ( 2(1 − xn+1) [(1 − (xn+1)2) + (1 − xn+1)2]. x , (1 − (xn+1)2) − (1 − xn+1)2 (1 − (xn+1)2) + (1 − xn+1)2 ) = ( 2(1 − xn+1) [1 − (xn+1)2 + 1 − 2xn+1 + (xn+1)2] x , 1 − (xn+1)2 − [1 − 2xn+1 + (xn+1)2] 1 − (xn+1)2 + [1 − 2xn+1 + (xn+1)2] ) = ( 2(1 − xn+1) (2 − 2xn+1) x , 2xn+1 − 2(xn+1)2 2 − 2xn+1 ) = (x , 2(1 − xn+1)xn+1 2(1 − xn+1) ) = (x , xn+1) = x. Por outro lado, se y ∈ Rn, denotando por ϕ(y) = ([ϕ(y)] , [ϕ(y)]n+1) ∈ Rn × R temos Π(ϕ(y)) = 1 1 − [ϕ(y)]n+1 [ϕ(y)] = 1 1 − [ y 2 Rn −1 y 2 Rn +1 ] ( 2 y 2 Rn + 1 y, y 2 Rn − 1 y 2 Rn + 1 ) = 1 1 − [ y 2 Rn −1 y 2 Rn +1 ] 2 y 2 Rn + 1 y = y 2 Rn + 1 ( y 2 Rn + 1) − ( y 2 Rn − 1) 2 y 2 Rn + 1 y = 2( y 2 Rn + 1) 2( y 2 Rn + 1) y = y. Portanto Π(ϕ(x)) = x, x ∈ Sn {p} e ϕ(Π(y)) = y, y ∈ Rn , mostrando que ϕ ´e a fun¸c˜ao inversa de Π e como isto podemos concluir que Π : Sn {p} → Rn ´e um homeormorfismo e assim Sn {p} ∼ Rn, como quer´ıamos mostrar.
  • 85.
    3.3. HOMEOMORFISMOS ENTREESPAC¸OS M´ETRICOS 85 Para finalizar a se¸c˜ao temos a Defini¸c˜ao 3.3.3 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N. Definimos o gr´afico da fun¸c˜ao f, indicado por G(f), como sendo o seguinte subconjunto de M × N: G(f) . = {(x, f(x)) : x ∈ M}. Com isto temos a Proposi¸c˜ao 3.3.5 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N cont´ınua em M. Ent˜ao G(f) (munido de uma das trˆes m´etrica do produto M × N) ´e homeomorfo a M. Demonstra¸c˜ao: Consideremos a seguinte aplica¸c˜ao ˜f : M → M × N dada por ˜f(x) . = (x, f(x)), x ∈ M. Observemos que ˜f ´e uma aplica¸c˜ao cont´ınua em M (pois suas fun¸c˜oes coordenadas s˜ao cont´ınuas em M) e ´e injetora (pois se x1 = x2 ent˜ao (x1, f(x1)) = (x2, f(x2))) e portanto bijetora sobre a sua imagem G(f). Observemos que p1 : G(f) → M dada por p1(x, f(x)) . = x, (x, f(x)) ∈ G(f) (a restri¸c˜ao a G(f) da proje¸c˜ao no primeiro fator) ´e cont´ınua em G(f) e ˜f(p1(x, f(x))) = ˜f(x) = (x, f(x)), (x, f(x)) ∈ G(f) e p1( ˜f(x)) = p1(x, f(x)) = x x ∈ M, mostrando que p1 ´e a fun¸c˜ao inversa associada a ˜f. Logo ˜f : M → f(M) ´e um homeomorfismo, mostrando que M ∼ G(f), como quer´ıamos demonstrar. Exemplo 3.3.6 Como exemplos da situa¸c˜ao acima temos os: 1. R {0} ´e homeomorfo `a hip´erbole H . = {(x, y) ∈ R2 : x.y = 1}. De fato, segue da proposi¸c˜ao acima que isto ´e verdade pois H ´e gr´afico da fun¸c˜ao f : R {0} → R dada por f(x) . = 1 x , x ∈ R {0} que ´e cont´ınua em R {0} (veja figura abaixo).
  • 86.
    86 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS E T x y f(x) = 1 x (x, 1 x ) x 2. De modo an´alogo, o hemisf´erio norte da esfera unit´aria centrada na origem de Rn, que ser´a indicada por Sn + . = {y = (y1, · · · , yn, yn+1) ∈ Sn : yn+1 0} ´e homeomorfa `a bola aberta unit´aria centrada na origem em Rn, isto ´e, Sn + ∼ B(0; 1) ⊆ Rn . De fato, pois Sn + = G(f) onde f : B(0; 1) → R ´e dada por f(x) . = 1 − x 2, x ∈ B(0; 1) e f ´e cont´ınua em Sn + (pois ´e composta de fun¸c˜oes cont´ınuas; veja figura abaixo). Observemos que y = (y1, · · · , yn, yn+1) ∈ Sn + se, e somente se, 1 = y 2 = y2 1 + · · · + y2 n + y2 n+1 e yn+1 0 que ´e equivalente a yn+1 = 1 − y2 1 + · · · + y2 n. Logo, se x . = (y1, · · · , yn) ∈ Rn a condi¸c˜ao acima ser´a equivalente a x 1 e yn+1 = 1 − x 2, ou, seja, y = (y1, · · · , yn, yn+1) ∈ Sn + ⇐⇒ y = (x, 1 − x 2), x . = (y1, · · · , yn) ∈ Rn .
  • 87.
    3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTESEM UM ESPAC¸O M´ETRICO 87 Rn % Sn + W 1 O x f(x) (x, f(x)) 3.4 M´etricas equivalentes em um espa¸co m´etrico Iniciaremos com a Defini¸c˜ao 3.4.1 Sejam d1 e d2 duas m´etricas em M. Diremos que a m´etrica d1 ´e mais fina que a m´etrica d2, escrevendo d1 d2 se a aplica¸c˜ao i12 : (M, d1) → (M, d2) dada por i12(x) . = x, x ∈ M for cont´ınua em M. Observa¸c˜ao 3.4.1 Da defini¸c˜ao acima segue que a m´etrica d1 ´e mais fina que a m´etrica d2 se, e somente se, para cada a ∈ M, dado ε 0 existe δ 0 tal que Bd1 (a; δ) = (i12)−1 (Bd1 (a; δ)) ⊆ Bd2 (a; ε), ou seja, toda bola aberta segundo a m´etrica d2 cont´em uma bola aberta segunda a m´etrica d1. a 0 ε ‰ δ ' Bd2 (a; ε) Q Bd1 (a; δ) Com isto temos a Proposi¸c˜ao 3.4.1 Seja (M, d1) um espa¸co m´etrico discreto (isto ´e, d1 ´e a m´etrica discreta) e d2 uma outra m´etrica qualquer em M. Ent˜ao d1 d2. Al´em disso, se d ´e uma m´etrica em M tal que d d1 ent˜ao d ´e uma m´etrica discreta.
  • 88.
    88 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Demonstra¸c˜ao: Lembremos que na m´etrica discreta todo ponto de (M, d1) ´e isolado. Logo se a ∈ M existe δ 0 tal que Bd1 (a; δ) = {a}. Logo dado ε 0 temos que Bd1 (a; δ) = {a} ⊆ Bd2 (a; ε), mostrando que d1 d2. Se d ´e uma m´etrica em M tal que d d1 ent˜ao para todo a ∈ M, como d1 ´e a m´etrica discreta existe ε 0 tal que Bd1 (a; ε) = {a}. Mas d d1, logo existe δ 0 tal que Bd(a; δ) ⊆ Bd1 (a; ε) = {a}, ou seja, Bd(a; δ) = {a}, mostrando que a m´etrica d ´e discreta. Outro resultado interessante ´e dado pela Proposi¸c˜ao 3.4.2 Sejam d1 e d2 duas m´etricas em M satisfazendo a seguinte rela¸c˜ao: existe c 0 tal que d2(x, y) ≤ c d1(x, y), x, y ∈ M. Ent˜ao d1 d2. Demonstra¸c˜ao: A desigualdade acima implica que a aplica¸c˜ao i12 : (M, d1) → (M, d2) ´e lischitziana em M, em particular cont´ınua em M, mostrando assim que d1 d2. Observa¸c˜ao 3.4.2 Podemos provar o resultado acima diretamente, ou seja, para cada a ∈ M, dado ε 0 seja δ . = ε c 0. Logo se a ∈ M temos que se x ∈ Bd1 (a; δ) segue que d2(x, a) ≤ c d1(x, a) c δ = c ε c = ε, ou seja, x ∈ Bd2 (a; ε), mostrando que Bd1 (a; δ) ⊆ Bd2 (a; ε), isto ´e, d1 d2. Como caso partitular temos o Exemplo 3.4.1 Seja E . = C0([a, b]) o espa¸co vetorial sobre R formado pelas fun¸c˜oes reais cont´ınuas e limitadas em [a, b] (veremos mais a frente que isto implicar´a que f dever´a ser limitada). Sabemos que se f ∈ C0([a, b]) ent˜ao f . = sup{|f(x)|; x ∈ [a, b]}
  • 89.
    3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTESEM UM ESPAC¸O M´ETRICO 89 ´e uma norma em E = C0([a, b]) e portanto definir´a uma m´etrica, dsup, em E = C0([a, b]). De modo semelhante temos que f 1 . = b a |f(x)| dx, f ∈ C0([a, b]) tamb´em ´e uma norma em E = C0([a, b]) e portanto definir´a uma m´etrica, d1, em E = C0([a, b]) (veja observa¸c˜ao (3.2.5) item 2.). Observemos que se f, g ∈ C0([a, b]) temos d1(f, g) = b a |f(x) − g(x)| dx ≤ b a sup y∈[a,b] |f(y) − g(y)| dx = sup y∈[a,b] |f(y) − g(y)| b a dx = f − g sup(b − a) = (b − a)dsup(f, g). Logo da proposi¸c˜ao acima segue que dsup ´e mais fina que d1 (ou seja, dsup d1). Observa¸c˜ao 3.4.3 1. o exemplos acima nos diz que, em C0([a, b]), a m´etrica da convergˆencia uniforme ´e mais fina que a m´etrica da integral. 2. N˜ao vale a rec´ıprova, isto ´e, a m´etrica da integral n˜ao ´e mais fina que a m´etrica da convergˆencia uniforme (ou seja, d1 dsup), como mostra o exemplo abaixo. Dado ε 0 seja δ 0 qualquer. Escolhamos 0 c δ 2ε e definamos g : [a, b] → R como na figura abaixo E T a ba + c C Gr´afico de g 2ε a + c 2 Observemos que b a |g(x)| dx = a+c a |g(x)| dx [´area deum triˆangulo de base [a, a + c] e altura 2ε] = c.2ε 2 = c.ε δ 2 .
  • 90.
    90 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Logo se f ∈ C0([a, b]) temos que f + g ∈ Bd1 (f; δ), pois d1(f + g, f) = (f + g) − f 1 = b a |g(x)| dx δ 2 δ. Mas, como g(a + c 2 ) = 2ε segue que g sup ≥ 2ε ε, ou seja, f + g ∈ Bdsup (f; ε), pois dsup(f + g, f) = (f + g) − f sup = g sup = sup a≤x≤b |g(x)| ≥ 2ε ε. Logo nenhuma bola aberta Bdsup (f; ε) conter´a uma bola aberta Bd1 (f; δ) para todo δ 0, ou seja d1 dsup, como afirmamos. 23.09.2008 - 12.a Temos a Proposi¸c˜ao 3.4.3 Sejam M1 . = (M, d1) e M2 . = (M, d2) espa¸cos m´etricos. As afirma¸c˜oes s˜ao equivalentes; 1. d1 d2 (isto ´e, a aplica¸c˜ao i12 : M1 → M2 ´e cont´ınua em M1); 2. Para todo espa¸co m´etrico (N, dN ) se uma fun¸c˜ao f : M2 → N ´e cont´ınua em M2 ent˜ao f : M1 → N ´e cont´ınua em M1 (ou seja, toda aplica¸c˜ao cont´ınua segundo a m´etrica d2 ser´a cont´ınua segundo a m´etrica d1); 3. Consideremos em R a m´etrica usual. Se uma fun¸c˜ao f : M2 → R ´e cont´ınua em M2 ent˜ao f : M1 → R ´e cont´ınua em M1 (ou seja, toda aplica¸c˜ao real cont´ınua segundo a m´etrica d2 ser´a cont´ınua segundo a m´etrica d1); 4. Para todo a ∈ M a fun¸c˜ao d2a : M1 → R dada por d2a . = d2(a, x), x ∈ M, ´e cont´ınua em M1; 5. Toda bola aberta, segundo a m´etrica d2, cont´em uma bola aberta segundo d1, de mesmo centro que a primeira; 6. A fun¸c˜ao d2 : M1 × M1 → R ´e cont´ınua em M1 × M1 onde neste consideramos uma das trˆes m´etricas do produto cartesiano (a saber, da raiz quadrada, da soma ou do m´aximo). Demonstra¸c˜ao: Mostraremos a seguinte seq¨uˆencia de implica¸c˜oes:
  • 91.
    3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTESEM UM ESPAC¸O M´ETRICO 91 E1. 2. c 3.'4. c T 5. 6. j C T Mostremos que (1. ⇒ 2.): Indicaremos por f1 . = f : M1 → N e f2 . = f : M2 → N. Como i12 : M1 → M2 ent˜ao temos que f1 = f2 ◦ i12. (∗) O diagrama abaixo ilustra a situa¸c˜ao E ‚ © M1 M2 N i12 f1 f2 Se d1 d2 ent˜ao temos que a aplica¸c˜ao i12 : M1 → M2 ´e cont´ınua em M1. Como f2 ´e cont´ınua em M2 segue que (*) que f1 ser´a cont´ınua em M1, mostrando que 2. ´e verdadeira. Mostremos que (2. ⇒ 3.): Segue como caso particular de 2. (basta tomar N . = R), com isto obtemos que 3. ´e verdadeira. Mostremos que (3. ⇒ 4.): Sabemos que a aplica¸c˜ao d2a : M2 → R dada por d2a(x) . = d2(a, x), x ∈ M ´e cont´ınua em M2. Logo do item 3. segue a aplica¸c˜ao d2a : M1 → R tamb´em ser´a cont´ınua em M1, mostrando que 4. ´e verdadeira. Mostremos que (4. ⇒ 1.): Por hip´otese, sabemos que a aplica¸c˜ao d2a : M1 → R dada por d2a(x) . = d2(a, x), x ∈ M ´e cont´ınua em M1. Mostremos que a aplica¸c˜ao i12 : M1 → M2 ´e cont´ınua em M1. Para isto precisamos mostrar que i12 : M1 → M2 ´e cont´ınua em b ∈ M, b arbitr´ario.
  • 92.
    92 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Como a aplica¸c˜ao d2a : M1 → R ´e cont´ınua em a ∈ M, dado ε 0 temos que existe δ 0 tal que se d1(x, a) δ ent˜ao |d2a(x) − d2a(a)| ε, isto ´e, ε |d2(x, a) − d2(a, a)| = d2(x, a). Portanto Bd1 (a; δ) ⊆ Bd2 (a; ε). Logo se d1(x, a) δ, isto ´e, se x ∈ Bd1 (a; δ), segue que x ∈ Bd2 (a; ε), ou seja, ε d2(x, a) = d2(i12(x), i12(a)), ou ainda d2(i12(x), i12(a)) ε. Logo i12 : M1 → M2 ´e cont´ınua em a ∈ M. Assim que d1 d2, mostrando que (4. ⇒ 1.). Mostremos que (4. ⇔ 5.): Sabemos que a aplica¸c˜ao d2a : M1 → R dada por d2a(a, x), x ∈ M1 ´e cont´ınua em M1. Logo dada a bola aberta Bd2 (a; ε), da cont´ınuidade da aplica¸c˜ao acima no ponto a, segue que existe δ 0 tal que se d1(x, a) δ (ou seja, se x ∈ Bd1 (a; δ)) ent˜ao ε |d2a(x) − d2a(a)| = |d2(x, a) − d2(a, a)| = d2(x, a), (ou seja, x ∈ Bd2 (a; ε)). Portanto, se x ∈ Bd1 (a; δ) ent˜ao x ∈ Bd2 (a; ε). Logo Bd1 (a; δ) ⊆ Bd2 (a; ε), mostrando que (4. ⇒ 5.). Por outro lado, se toda bola aberta segundo d2 cont´em uma bola aberta de mesmo centro segundo d1 ent˜ao dados a ∈ M e ε 0 segue que existe δ 0 tal que Bd1 (a; δ) ⊆ Bd2 (a; ε). Logo se d1(x, a) δ (ou seja, x ∈ Bd1 (a; δ)) teremos que x ∈ Bd2 (a; ε) (*), isto ´e, |d2a(x) − d2a(a)| = |d2(x, a) − d2(a, a)| = d2(x, a) (∗) ε, mostrando que a aplica¸c˜ao d2a : M1 → R ´e cont´ınua em M1, ou seja, que (5. ⇒ 4.). Mostremos que (6. ⇒ 4.): Se a aplica¸c˜ao d2 : M1 × M1 → R ´e cont´ınua em M1 × M1 ent˜ao a sua restri¸c˜ao ao conjunto {a} × M1 tamb´em ser´a, isto ´e, d2|{a}×M1 : {a} × M1 → R
  • 93.
    3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTESEM UM ESPAC¸O M´ETRICO 93 ser´a cont´ınua em {a} × M1. Observemos que d2a = d2|{a}×M1 , portanto d2a ser´a cont´ınua em M1, mostrando que (6. ⇒ 4.). Mostremos que (1. ⇒ 6.): Se d1 d2 ent˜ao a aplica¸c˜ao i12 : M1 → M2 ser´a cont´ınua em M1. Logo do corol´ario (3.2.2) segue que a aplica¸c˜ao identidade id : M1 × M1 → M2 × M2 tamb´em ser´a cont´ınua em M1 × M1 (pois id = (i12, i12) e i12 ´e cont´ınua em M1). Portanto a m´etrica em M1 × M1 ´e mais fina que a m´etrica em M2 × M2. Sabemos que d2 : M2 × M2 → R ´e cont´ınua em M2 × M2 logo, como (1. ⇒ 3.), segue que d2 : M1 × M1 → R tamb´em ser´a cont´ınua em M1 × M1, mostrando que (1. ⇒ 6.). Um outro resultado ´util ´e dado pela Proposi¸c˜ao 3.4.4 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e uma aplica¸c˜ao f : M → N injetiva. Ent˜ao f ´e cont´ınua em M se, e somente se, a m´etrica dM d1, onde d1 ´e a m´etrica induzida em M pela aplica¸c˜ao f. Demonstra¸c˜ao: Podemos supor, sem perda de generalidade que f ´e sobrejetora, isto ´e, N = f(M) (pois caso contr´ario trocamos N por f(M) munido da m´etrica induzida por N). Indicaremos por M1 . = (M, d1), onde d1 : M × M → R ´e dada por d1(x, y) . = dN (f(x), f(y)), x, y ∈ M e f1 : M1 → N dada por f1 (x) . = f(x), x ∈ M (que ser´a uma isometria) e por iM1 : (M, dM ) → (M, d1) a aplica¸c˜ao identidade. Com isto temos o seguinte diagrama E c Q (M, dM ) (N, dN ) (M, d1) iM1 f f1 ´e isometria Temos que f1 ´e uma isometria, pois a m´etrica d1 ´e a m´etrica induzida por f em M. Como f1 ´e bijetora segue que ser´a um homeomorfismo de M1 em N. Como f = f1 ◦ iM1
  • 94.
    94 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS segue que f ´e cont´ınua em M se, e somente se, iM1 ´e cont´ınua em M, ou seja, dM d1, completando a demostra¸c˜ao da proposi¸c˜ao. Temos a seguinte defini¸c˜ao Defini¸c˜ao 3.4.2 Sejam d1 e d2 m´etricas em M. Diremos que as m´etricas d1 e d2 s˜ao equivalentes, denotando por d1 ∼ d2, se a aplica¸c˜ao i12 : (M, d1) → (M, d2) for um homeomorfismo. Observa¸c˜ao 3.4.4 1. As m´etricas d1 e d2 em M s˜ao equivalentes se, e somente se, d1 d2 e d2 d1. 2. A rela¸c˜ao ∼ no conjunto formado por todas as m´etricas definidas em M ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia, isto ´e, satisafaz as seguintes condi¸c˜oes: (a) para toda m´etrica d1 em M temos d1 ∼ d1 (reflexiva); (b) se d1 e d2 s˜ao m´etricas em M satisfazem d1 ∼ d2 ent˜ao d2 ∼ d1 (sim´etrica); (c) se d1, d2 e d3 s˜ao m´etricas em M satisfazem d1 ∼ d2 e d2 ∼ d3 ent˜ao d1 ∼ d3 (transitiva). A demonstra¸c˜ao deste fatos ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. 3. Segue da proposi¸c˜ao (3.4.3) que duas m´etricas em M s˜ao equivalentes se, e somente se, toda bola aberta segundo uma das m´etricas contenha uma bola aberta, de mesmo centro, segundo a outra m´etrica. 4. Observemos que duas m´etricas discretas em M s˜ao sempre equivalentes, pois toda bola aberta segundo uma ser´a uma bola aberta segunda a outra. Al´em disso, vale observar que se d1 ∼ d2 e d1 ´e uma m´etrica discreta em M ent˜ao, da proposi¸c˜ao (3.4.1) segue que d2 tamb´em ser´a uma m´etrica discreta em M. 5. A proposi¸c˜ao (3.4.3) nos garante que se d1 ∼ d2 em M ent˜ao uma aplica¸c˜ao f : (M, d1) → (N, dN ) ser´a cont´ınua em (M, d1) se, e somente se, f : (M, d2) → (N, dN ) ser´a cont´ınua em (M, d2). Conclus˜ao: se trocarmos a m´etrica de uma espa¸co m´etrica por uma outra equivalente a mesma, estudar a continuiade de uma fun¸c˜ao segundo a primeira m´etrica ´e equivalente a estudar a continuidade da fun¸c˜ao segundo a outra m´etrica. A seguir consideraremos alguns exemplos importantes. Exemplo 3.4.2 Consideremos [0, 2π) e S1 = {(x, y) ∈ R2 : x2 +y2 = 1} munidos das m´etricas, d[0,2π), dS1 , induzidas pelas m´etricas usuais de R e R2, respectivamente e f : [0, 2π) → S1
  • 95.
    3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTESEM UM ESPAC¸O M´ETRICO 95 dada por f(t) . = (cos(t), sen(t)), t ∈ [0, 2π). Vimos que a aplica¸c˜ao f ´e cont´ınua e bijetora em [0, 2π). Logo, da proposi¸c˜ao acima, segue que a m´etrica d[0,2π) ´e mais fina que a m´etrica induzida pela aplica¸c˜ao f, isto ´e, que a m´etrica d1(x, y) . = dS1 (f(x), f(y)) = dS1 ((cos(x), sen(x)), (cos(y), sen(y))) = [cos(x) − cos(y)]2 + [sen(x) − sen(y)]2, x, y ∈ [0, 2π). Exemplo 3.4.3 As m´etricas d, d e d em Rn s˜ao equivalentes. De fato, da proposi¸c˜ao (2.1.1) segue que para todo x, y, ∈ Rn temos d (x, y) ≤ d(x, y) ≤ d (x, y) ≤ n d (x, y). (∗) Logo a proposi¸c˜ao (3.4.2) implicar´a que as m´etricas d, d e d s˜ao equivalentes em Rn. Observa¸c˜ao 3.4.5 No exemplo acima se n = 2 temos garantido que toda bola aberta, segundo a m´etrica d (neste caso as bolas s˜ao os interiores dos discos), cont´em uma bola aberta, segundo a m´etrica d (neste caso as bolas s˜ao os interiores dos quadrados cujas diagonais s˜ao paralelas aos eixos coordenados) que, por sua vez, cont´em uma bola aberta, segundo a m´etrica d (neste caso as bolas s˜ao os interiores dos quadrados cujos lados s˜ao paralelas aos eixos coordenados) que, por fim, cont´em uma bola aberta, segundo a m´etrica d (neste caso as bolas s˜ao os interiores dos discos). Geometricamente temos a seguinte configura¸c˜ao: Bd(a; r) c ' Bd (a, r ) c Bd (a; r ) i Bd(a; s) a Em particular, para estudar a continuidade de uma fun¸c˜ao f : Rn → R onde em Rn temos, por exemplo, a m´etrica d, podemos trocar a mesma pela m´etrica d ou d , e estudar a conti- nuidade da fun¸c˜ao dada com rela¸c˜ao a esta nova m´etrica que o resultado obtido ser´a o mesmo o obtido com a m´etrica d. Como conseq¨uˆencia da proposi¸c˜ao (3.4.2) temos o Corol´ario 3.4.1 Sejam d1 e d2 duas m´etricas em M tais que existem α, β 0 tais que αd1(x, y) ≤ d2(x, y) ≤ βd1(x, y), x, y ∈ M. (∗) Ent˜ao d1 ∼ d2.
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    96 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Demonstra¸c˜ao: Denotemos por αd1(x, y) (I) ≤ d2(x, y) (II) ≤ βd1(x, y), x, y ∈ M. De (I) temos que d1(x, y) ≤ 1 α d2(x, y), x, y ∈ M. Logo, da proposi¸c˜ao (3.4.2), segue que d2 d1. Como d2(x, y) ≤ βd1(x, y), x, y ∈ M, da proposi¸c˜ao (3.4.2), segue que d1 d2, portanto d1 ∼ d2, como quer´ıamos demonstrar. Exemplo 3.4.4 Seja d uma m´etrica em M. Definamos em M: d1, d2 : M × M → R por d1(x, y) . = d(x, y) 1 + d(x, y) , d2(x, y) . = min{1, d(x, y)}, x, y ∈ M. Pode-se mostrar (ser´a como exerc´ıcio para o leitor) que d1 e d2 s˜ao m´etricas em M. Afirmamos que d1 ∼ d ∼ d2. De fato, observemos que d1(x, y) ≤ d(x, y), e d2(x, y) ≤ d(x, y), x, y ∈ M, logo d d1 e d d2. Por outro lado, dado ε 0 sejam δ1 . = ε 1 + ε 0 e δ2 . = min{1, ε} 0. Se x ∈ Bd1 (a; δ1) temos que d1(x, a) δ1 assim d(x, a) 1 + d(x, a) ε 1 + ε ⇐⇒ d(x, a)[1 + ε] ε[1 + d(x, a)] ⇐⇒ d(x, a) ε, ou seja, dado ε 0 existe δ1 0 tal que Bd1 (a; δ1) ⊆ Bd(a; ε), mostrando que d1 d. De modo semelhante, se x ∈ Bd2 (a; δ2) temos que d2(x, a) δ2 ≤ 1. Logo d2(x, a) 1 e assim d(x, a) = d2(x, a) min{1, ε} ε que implicar´a que d(x, a) ε, ou seja, dado ε 0 existe δ2 0 tal que Bd2 (a; δ2) ⊆ Bd(a; ε), mostrando que d2 d. Com isto temos que d1 ∼ d ∼ d2, como quer´ıamos mostrar.
  • 97.
    3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTESEM UM ESPAC¸O M´ETRICO 97 Observa¸c˜ao 3.4.6 1. Observemos que as m´etricas d1 e d2 s˜ao limitadas em M × M pois d1(x, y) = d(x, y) 1 + d(x, y) [d(x,y)≤1+d(x,y)] ≤ 1, x, y ∈ M e d2(x, y) ≤ 1, x, y ∈ M. Conclus˜ao: toda m´etrica em M ´e equivalente a uma m´etrica limitada em M. 2. Observemos que se a m´etrica d ´e n˜ao limitada em M ent˜ao n˜ao existe β 0 tal que d(x, y) ≤ β dj(x, y), x, y ∈ M, j = 1, 2. (∗∗) De fato, se existisse β 0 com a propriedade (**) dever´ıamos ter, no caso j = 1: d(x, y) ≤ β d(x, y) 1 + d(x, y) =⇒ d(x, y)[1 + d(x, y)] ≤ β d(x, y) [x=y] =⇒ d(x, y) ≤ β − 1, x, y ∈ M, ou seja, a m´etrica d deveria ser limitada, o que ´e um absurdo. Para o caso j = 2, se existisse β 0 com a propriedade (**) dever´ıamos ter: d(x, y) ≤ β min{1, d(x, y)} ≤1 =⇒ d(x, y) ≤ β, x, y ∈ M, ou seja, a m´etrica d deveria ser limitada, o que ´e um absurdo. Logo podemos concluir que a condi¸c˜ao (*) dada pelo corol´ario (3.4.1) ´e suficiente, mas n˜ao ´e necess´aria, para que duas m´etricas sejam equivalentes em M. 3. A observa¸c˜ao (3.4.3) item 2. nos mostra que em C0([a, b]) as m´etricas d(f, g) = sup a≤x≤b |f(x) − g(x)| e d1(f, g) = b a |f(x) − g(x)| dx, onde f, g ∈ C0([a, b]), n˜ao s˜ao m´etricas equivalentes. Temos a Proposi¸c˜ao 3.4.5 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N bije¸c˜ao. Ent˜ao: f ´e um homeomorfismo de M em N se, e somente se, a m´etrica dM ´e equivalente `a m´etrica dN em M, induzida pela aplica¸c˜ao f. Demonstra¸c˜ao: Definamos f1 : (M, d1) → (N, dN ) dada por f1(x) . = f(x), x ∈ M. Logo f1 ´e bijetora de M em N. Al´em disso, temos que f1 ´e uma isometria de (M, d1) em (N, dN ), pois d1(x, y) . = dN (f(x), f(y)), x, y ∈ M.
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    98 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Logo um homeomorfismo de M em N. Assim sua fun¸c˜ao inversa (f1)−1 : (N, dN ) → (M, d1) ser´a cont´ınua em N. Consideremos as aplica¸c˜oes identidades i1M : (M, d1) → (M, dM ) e iM1 : (M, dM ) → (M, d1). Ent˜ao teremos iM1 = (f1)−1 ◦ f i1M = f−1 ◦ f1. (veja diagrama abaixo) E T Q (M, dM ) (N, dN ) (M, d1) i1M f f1 ´e isometria ' C f−1 f−1 1 c iM1 Logo d1 dM (ou seja, a aplica¸c˜ao i1M ´e cont´ınua) se, e somente se, f−1 for cont´ınua. Por outro lado, dM d1 (ou seja, a aplica¸c˜ao iM1 ´e cont´ınua) se, e somente se, f for cont´ınua. Conclus˜ao: d1 ∼ dM se, e somente se, f ´e um homeomorfismo. Observa¸c˜ao 3.4.7 Da proposi¸c˜ao acima segue que no exemplo (3.4.2) a m´etrica induzida em [0, 2π) pela m´etrica usual de R e a m´etrica induzida em [0, 2π) pela fun¸c˜ao cont´ınua e bije- tora f : [0, 2π) → S1 n˜ao s˜ao equivalentes (pois, como vimos no exemplo (3.3.3), f n˜ao ´e homeomorfismo). A seguir temos os Exerc´ıcio 3.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N. Ent˜ao: f ´e cont´ınua em M se, e somente se, a m´etrica df : M × M → R dada por df (x, y) . = d(x, y) + dN (f(x), f(y)), x, y ∈ M ´e equivalente a m´etrica dM . De fato, se f ´e cont´ınua em M ent˜ao tomando-se a m´etrica dM×N [(x, y), (x , y )] . = dM (x, x ) + dN (y, y ) (x, y), (x , y ) ∈ M × N, da proposi¸c˜ao (3.3.5), temos que a aplica¸c˜ao ˜f : M → G(f) ⊆ M × N dada por ˜f(x) . = (x, f(x)), x ∈ M ´e um homeomorfismo de M sobre o gr´afico de f, isto ´e, sobre G(f) ⊆ M × N.
  • 99.
    3.4. M´ETRICAS EQUIVALENTESEM UM ESPAC¸O M´ETRICO 99 Observemos que a m´etrica df ´e a m´etrica induzida em M pelo homeomorfismo ˜f, logo, pela proposi¸c˜ao (3.4.5), ela ser´a equivalente a m´etrica dM . Reciprocamente, como a aplica¸c˜ao f : (M, df ) → (M, d1) ´e um contra¸c˜ao fraca segue que ser´a cont´ınua segundo df . Como dM ∼ d1 segue que a aplica¸c˜ao f ser´a cont´ınua segundo dM , completando a demon- stra¸c˜ao do resultado. Como conseq¨uˆecia temos o Exerc´ıcio 3.4.2 Consideremos R com a m´etrica usual. Se f : (M, dM ) → R ´e cont´ınua em M ent˜ao a m´etrica df (x, y) . = d(x, y) + dR(f(x), f(y)), x, y ∈ M ser´a equivalente a m´etrica dM . Para ver isto basta tomar N = R com a m´etrica usual. Para finalizar a se¸c˜ao temos a Proposi¸c˜ao 3.4.6 Sejam M1 = (M, d1), M2 = (M, d2), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e em R a m´etrica usual . S˜ao equivalentes: 1. d1 ∼ d2; 2. f : M1 → N ´e cont´ınua em M1 se, e somente se, f : M2 → N ´e cont´ınua em M2; 3. f : M1 → R ´e cont´ınua em M1 se, e somente se, f : M2 → R ´e cont´ınua em M2; 4. Para todo a ∈ M as fun¸c˜oes d1a : M2 → R e d2a : M1 → R dadas por d1a(x) . = d1(a, x), d2a(x) . = d2(a, x), x ∈ M s˜ao cont´ınuas no ponto a; 5. Toda bola aberta segundo a m´etrica d1 cont´em uma bola aberta, de mesmo centro, segundo a m´etrica d2 e toda bola aberta segundo a m´etrica d2 cont´em uma bola aberta, de mesmo centro, segundo a m´etrica d1; 6. As fun¸c˜oes d1 : M2 × M2 → R e d1 : M1 × M1 → R s˜ao cont´ınuas em M2 × M2 e M1 × M1, respectivamente (onde nos correspondentes produtos cartesianos consideramos uma das trˆes m´etricas canˆonicas). Demonstra¸c˜ao: Conseq¨uˆencia da proposi¸c˜ao (3.4.3). 25.09.2008 - 13.a
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    100 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 3.5 Transforma¸c˜oes lineares e multilineares definidas em espa¸cos vetoriais normados Come¸caremos pela Defini¸c˜ao 3.5.1 Sejam E, F espa¸cos vetoriais sobre R. Diremos que uma aplica¸c˜ao f : E → F ´e uma transforma¸c˜ao linear de E em F se ela tem as seguintes propriedades: f(x + y) = f(x) + f(y), (3.1) f(λx) = λf(x), (3.2) onde x, y ∈ E, λ ∈ R. Se na situa¸c˜ao acima F = E (isto ´e, f : E → E) ent˜ao a aplica¸c˜ao f ser´a dita operador linear em E. Se na situa¸c˜ao acima F = R (isto ´e, f : E → R) ent˜ao a aplica¸c˜ao f ser´a dita funcional linear em E. Observa¸c˜ao 3.5.1 1. Vale observar que a adi¸c˜ao do lado esquerdo de (3.1) ´e adi¸c˜ao em E e a adi¸c˜ao do lado direito de (3.1) ´e adi¸c˜ao em F. Al´em disso, a multiplica¸c˜ao por n´umero real do lado esquerdo de (3.1) ´e a multiplica¸c˜ao por n´umero real em E e a multiplica¸c˜ao por n´umero real do lado direito de (3.1) ´e a multiplica¸c˜ao por n´umero real em F. 2. Como conseq¨uˆencia de (3.1) e (3.2) temos que f(λ1x1 + λ2x2 + · · · + λnxn) = λ1f(x1) + λ2f(x2) + · · · + λnf(xn), onde x1, x2, · · · , xn ∈ E e λ1, λ2, · · · , λn ∈ R. A demonstra¸c˜ao deste fato ´e vista no curso de ´Algebra Linear. 3. Nosso objetivo nesta se¸c˜ao ´e estudar a continuidade de transforma¸c˜oes lineares entre espa¸cos vetoriais normados. Com isto temos o Teorema 3.5.1 Sejam Rn com uma das trˆes normas usuais e (F, . F ) espa¸co vetorial nor- mado. Se f : Rn → F ´e uma transforma¸c˜ao linear ent˜ao f ´e cont´ınua em Rn. Demonstra¸c˜ao: Seja B . = {e1, e2, · · · , en} a base canˆonica do Rn (ou seja, ek . = (0, · · · , 0, 1 k−´esima posi¸c˜ao , 0, · · · , 0)). Logo se x ∈ Rn temos que x = x1e1 + x2e2 + · · · + xnen, para xi ∈ R, i = 1, 2, · · · , n.
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    3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OESLINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO Como f ´e uma trasforma¸c˜ao linear temos que f(x) = f(x1e1 + x2e2 + · · · + xnen) = x1f(e1) + x2f(e2) + · · · + xnf(en). Portanto f(x) F = x1f(e1) + x2f(e2) + · · · + xnf(en) F ≤ x1f(e1) + x2f(e2) + · · · + xnf(en) F = |x1| f(e1) + |x2| f(e2) + · · · + |xn| f(en) F . (3.3) Consideremos c . = max{ f(e1) , f(e2) , · · · , f(en) F }. Logo segue de (3.3) que f(x) F ≤ c(|x1| + |x2| + · · · + |xn|). Se considerarmos a norma em Rn da soma (isto ´e, x = |x1| + |x2| + · · · + |xn|, onde x = (x1, x2, · · · , xn)) ent˜ao segue da desigualdade acima que f(x) F ≤ c x Rn , x ∈ Rn . Logo se x, y ∈ Rn temos que f(x) − f(y F = f(x − y) F ≤ c x − y Rn , mostrando que a aplica¸c˜ao f ´e lipschitiziana, em particular cont´ınua em Rn. Como as m´etricas d, d e d (que prov´em das trˆes normas usuais) s˜ao equivalentes temos que a transforma¸c˜ao linear f : Rn → F ser´a cont´ınua em Rn com qualquer uma das trˆes m´etricas usuais. Observa¸c˜ao 3.5.2 O resultado acima nos diz que uma transforma¸c˜ao linear definida em espa¸co vetorial normado de dimens˜ao finita e tomando valores em outro espa¸co vetorial normado ´e sempre cont´ınua. Isto segue do fato que todo espa¸co vetorial de dimens˜ao finita ´e isomorfo a Rn para algum n ∈ N. O mesmo n˜ao ´e verdade se a dimens˜ao do espa¸co vetorial do dom´ınio n˜ao for finita, como mostra o seguinte exemplo. Exemplo 3.5.1 Seja E o conjunto formado por todos os polinˆomios reais de uma vari´avel real munido dadas opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao de fun¸c˜oes e multiplica¸c˜ao de n´umero real por fun¸c˜oes. No curso de ´Algebra Linear mostra-se que E munido das opera¸c˜oes acima ´e um espa¸co vetorial sobre R (na verdade ´e um subespa¸co vetorial das fun¸c˜oes reais cont´ınuas de uma vari´avel real). Podemos definir em E a seguinte norma: se p ∈ E temos p . = sup 0≤x≤1 |p(x)|. A verifica¸c˜ao que de fato isto define uma norma em E ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
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    102 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Consideremos f : E → R dada por f(p) . = p(2), p ∈ E. Ser´a deixado para o leitor verificar que f ´e um funcional linear definido em E. Afirmamos que f n˜ao ´e cont´ınua em 0 ∈ E (o polinˆomio nulo). De fato, se tomarmos ε = 1 2 0, para cada n ∈ N consideramos o polinˆomio pn(x) . = ( x 2 )n , x ∈ R. Obviamente que para todo n ∈ N temos que pn ∈ E e pn − 0 = sup 0≤x≤1 |pn(x) − 0(x)| = sup 0≤x≤1 |pn(x)| [pn ´e crescente] = pn(1) = ( 1 2 )n = 1 2n . Logo pn → 0 em E, quando n → ∞ mas |f(pn) − f(0)| = |f(pn)| = pn(2) = ( 2 2 )n = 1 1 2 = ε, mostrando que f ´e um funcional linear que n˜ao ´e cont´ınuo em E. Em geral temos o seguinte resultado importante: Teorema 3.5.2 Sejam (E, . E) e (F, . F ) espa¸cos vetoriais e f : E → F uma transforma¸c˜ao linear. S˜ao equivalentes: 1. f ´e cont´ınua em E; 2. f ´e cont´ınua em 0 ∈ E; 3. Existe c 0 tal que f(x) F ≤ c x E, x ∈ E; (∗) 4. Existe c 0 tal que f(x) − f(y) F ≤ c x − y E, x, y ∈ E. (∗∗) Demonstra¸c˜ao: Mostraremos que o diagram abaixo ocorre: E c ' T 1. 2. 3.4. A implica¸c˜ao (1. ⇒ 2.) ´e trivial; Mostremos que (2. ⇒ 3.): Como f ´e cont´ınua em 0 ∈ E e f(0) = 0 (pois f ´e uma transforma¸c˜ao linear) tomando-se ε = 1 0 existir´a δ 0 tal que x = x − 0 E δ ent˜ao f(x) = f(x) − f(0) =0 F ε = 1. (∗ ∗ ∗)
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    3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OESLINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO Seja c 0 tal que 0 1 c δ. Se x = 0 ent˜ao teremos f(x) F = 0 = 0 ≤ c.0 = c 0 E = c x E, mostrando que (*) ocorrer´a. Se x = 0 ent˜ao 1 c x E x ∈ E ´e um vetor que satisfaz 1 c x E x E = 1 c x E x E = 1 c δ. Logo, de (***), segue que f( 1 c x E x) F ≤ 1. (∗ ∗ ∗∗) Mas f ´e uma trasforma¸c˜ao linear, logo f( 1 c x E x) = 1 c x E f(x), assim (****) implicar´a em 1 c x E f(x) F = 1 c x E f(x) F ≤ 1, ou ainda, f(x) F ≤ c x E, como quer´ıamos mostrar. Mostremos que (3. ⇒ 4.): Observemos que se x, y ∈ E temos que f(x) − f(y) F [f ´e linear] = f(x − y) F (∗) ≤ c x − y F , como quer´ıamos mostrar. A implica¸c˜ao (4. ⇒ 1.) ´e imediata (pois (**) garante que f ´e lischitiziana em E logo cont´ınua em E). Como conseq¨uˆemcia temos o Corol´ario 3.5.1 Sejam (E, . E) e (F, . F ) espa¸cos vetoriais e f : E → F uma transforma¸c˜ao linear bijetora. f ´e um homeomorfismo de E em F se, e somente se, existem c, C 0 tais que c x E ≤ f(x) F ≤ C x E, x ∈ E. Demonstra¸c˜ao: Lembremos que se f : E → F ´e uma transforma¸c˜ao linear bijetora ent˜ao sua fun¸c˜ao inversa f−1 : F → E tamb´em ser´a uma transforma¸c˜ao linear (bijetora).
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    104 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Da proposi¸c˜ao acima temos que a condi¸c˜ao: f(x) F ≤ C x E, x ∈ E ´e equivalente a f ser cont´ınua em E. Por outro lado se y ∈ F ent˜ao y = f(x) para algum x ∈ E, ent˜ao x = f−1(y), logo a desigualdade c x E ≤ f(x) F , x ∈ E. nos diz que c f−1 (y) E ≤ y F , y ∈ F, ou seja, f−1 (y) E ≤ 1 c y F , y ∈ F, que, pela proposi¸c˜ao acima, ´e equivalente a dizer que f−1 ser cont´ınua em F, como quer´ıamos mostrar. A seguir exibiremos um exemplo de uma transforma¸c˜ao linear bijetora que n˜ao ´e um homeo- morfismo (isto ´e, sua transforma¸c˜ao linear inversa n˜ao ser´a cont´ınua). Exemplo 3.5.2 Consideremos R∞ o conjunto formado por todas as seq¨uˆencias de n´umeros reais, x = (xn)n∈N, tal, no m´aximo, um n´umero finito de coordenadas xn ´e n˜ao nula, isto ´e, x ∈ R∞ ⇔ x = (xn)n∈N e xn = 0, somente para n ∈ {n1, n2, · · · , nm} ⊆ N. Podemos mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que R∞ ´e um espa¸co veto- rial sobre R munido das opera¸c˜oes de adi¸c˜ao de seq¨uˆencias e multiplica¸c˜ao de n´umero real por seq¨uˆencias. Consideremos em R∞ a seguinte norma (cuja verifica¸c˜ao ser´a deixada como exerc´ıcio do leitor): se x ∈ R∞ temos que x E . = x2 1 + x2 2 + · · · + x2 n + · · · = ∞ j=1 |xj|2 que prov´em do produto interno: se x, y ∈ R∞ temos que x, y E . = x1.y1 + x2.y2 + · · · + xn.yn + · · · = ∞ j=1 xj.yj. Observemos que ambas as s´eries acima reduzem-se a somas finitas (pois as seq¨uˆencias s˜ao nulas, exceto para um n´umero finito de termos). Definamos f : R∞ → R∞ por f(x) = f(x1, x2, · · · , xn, · · · ) . = ( x1 1 , x2 2 , · · · , xn n , · · · ), x = (x1, x2, · · · , xn, · · · ) ∈ R∞ .
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    3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OESLINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO Observemos que f ´e um operador linear (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) e f(x) 2 E = ∞ j=1 |f(xj)|2 = ∞ j=1 | xj j |2 [| xj j |≤|xj|] ≤ ∞ j=1 |xj|2 = x 2 E, se x ∈ R∞, ou seja, f(x) E ≤ x E, x ∈ E. Logo do teorema (3.5.2) segue que f ´e cont´ınua em R∞. Observemos que a fun¸c˜ao f admite fun¸c˜ao inversa que ´e dada por f−1 (y) = f−1 (y1, y2, · · · , yn, · · · ) . = (y1, 2.y2, · · · , n.yn, · · · ), y = (y1, y2, · · · , yn, · · · ) ∈ R∞ cuja verifica¸c˜ao ser´a deixada como exerc´ıcio para o letor (isto ´e, f ◦ f−1 = f−1 ◦ f = idR∞ ). Mostremos que f−1 n˜ao ´e cont´ınua. Para isto, para cada n ∈ N temos que o vetor en . = (0, · · · , 0, 1 n−´esima posi¸c˜ao , 0, · · · ) que pertence R∞ (pois s´o o termo da n-´esima posi¸c˜ao ´e n˜ao nulo, e igual a 1). Observemos que en 2 = ∞ j=1 |xj|2 [xj=0, n=j, xn=1] = 1 e f−1 (en) 2 = ∞ j=1 |j.xj|2 [xj=0, n=j, xn=1] = n2 . Em particular, f−1 (en) ≥ n en . Fazendo n → ∞ segue, do teorema (3.5.2) item 3., que f−1 n˜ao ser´a cont´ınua. Observa¸c˜ao 3.5.3 Sejam (E, . E), (F, . F ) espa¸cos vetoriais sobre R normados. Consideremos L(E; F) . = {f : E → F; f transforma¸c˜ao linear cont´ınua de E em F} que torna-se um espa¸co vetorial sobre R munido das opera¸c˜oes de adi¸c˜ao de fun¸c˜oes e multi- plica¸c˜ao de n´umero real por fun¸c˜ao (a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). 1. Vale observar que f ∈ L(E; F) se, e somente se, f ´e limitada na bola fechada unit´aria centrada na origem. De fato, se f ∈ L(E; F), isto ´e, f ´e uma transforma¸c˜ao linear cont´ınua em E ent˜ao, do teorema (3.5.2) item 3., segue que existe c 0 tal que f(x) F ≤ c. x E, x ∈ E. Logo se x ∈ B[0; 1] temos que x E ≤ 1 logo segue que f(x) F ≤ c x E ≤ c, mostrando que f ´e limitada em B[0; 1].
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    106 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Reciprocamente, se f ´e limitada em B[0; 1], existe c 0 tal que f(x) F ≤ c, x ∈ B[0; 1]. (∗) Logo se x = 0 temos que f(0) = 0 assim f(x) F = 0 ≤ c.0 = c. x E. Se x = 0 temos que se y . = x x E ∈ E ent˜ao y ∈ B[0; 1]. Logo de (*) temos que c ≥ f(y) F = f( x x E ) F [f ´e transform¸c˜ao linear] = 1 x E f(x) F = 1 x E f(x) F , ou seja, f(x) F ≤ c x E, x ∈ E, logo, do teorema (3.5.2) item 3., segue que f ser´a cont´ınua em E. 2. Vale observar que f ∈ L(E; F) se, e somente se, f ´e limitada na esfera unit´aria centrada na origem. De fato, se f ∈ L(E; F), isto ´e, f ´e uma trasnforma¸c˜ao linear cont´ınua em E ent˜ao, do teorema (3.5.2) item 3., segue que existe c 0 tal que f(x) F ≤ c. x E, x ∈ E. Logo se y ∈ S[0; 1] = {y ∈ E : y E = 1} segue que f(y) F ≤ c, mostrando que f ´e limitada em S[0; 1]. Reciprocamente, se f ´e limitada em S[0; 1], existe c 0 tal que f(y) F ≤ c, y ∈ S[0; 1]. (∗∗) Logo se x = 0 temos que f(0) = 0 assim f(x) F = 0 ≤ c.0 = c. 0 E = c. x E. Para x = 0 temos que se y . = x x E ∈ E ent˜ao y ∈ S[0; 1]. Logo de (**) temos que c ≥ f(y) F = f( x x E ) F [f ´e transform¸c˜ao linear] = 1 x E f(x) F = 1 x E f(x) F , ou seja, f(x) F ≤ c x E, x ∈ E, logo, do teorema (3.5.2) item 3., segue que f ser´a cont´ınua em E.
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    3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OESLINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO 3. Podemos introduzir a seguinte norma em L(E; F): f . = sup x E=1 f(x) F , f ∈ L(E; F). Ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao que . definida acima ´e uma norma em L(E; F). Temos a Defini¸c˜ao 3.5.2 Sejam . 1 e . 2 normas definidas em E, um espa¸co vetorial sobre R. Diremos que a norma . 1 ´e mais fina que a norma . 2 se a aplica¸c˜ao identidade i12 : E1 . = (E, . 1) → E2 . = (E, . 2) ´e cont´ınua em E1. Diremos que a norma . 1 ´e equivalente a norma . 2 se a aplica¸c˜ao identidade i12 : (E, . 1) → (E, . 2) ´e um homeomorfismo entre E1 e E2. Observa¸c˜ao 3.5.4 Suponhamos que a m´etrica em E1, que indicaremos por d1, ´e a proveniente da norma . 1 e m´etrica em E2, que indicaremos por d2, ´e a proveniente da norma . 2. Ent˜ao temos que: a norma . 1 ´e mais fina que a norma . 2 se, e somente se, a m´etrica d1 ´e mais fina que a m´etrica d2. Com isto temos a: Proposi¸c˜ao 3.5.1 Sejam . 1 e . 2 normas definidas em E, um espa¸co vetorial sobre R. As normas . 1, . 2 s˜ao equivalentes se, e somente se, existem α, β 0 tal que α x 1 ≤ x 2 ≤ β x 2, x ∈ E. Demonstra¸c˜ao: A demonstra¸c˜ao ´e uma conseq¨uˆencia do corol´ario (3.4.1). Temos a Defini¸c˜ao 3.5.3 Sejam E1, E2, · · · , En, F espa¸cos vetoriais sobre R. Diremos que uma aplica¸c˜ao f : E1 × E2 × · · · × En → F ´e n-linear se ela for linear em cada uma de suas n-vari´aveis, ou seja, para cada j = 1, 2, · · · , n temos que f(x1, · · · , xj−1, xj+yj, xj+1, · · · , xn) = f(x1, · · · , xj−1, xj, xj+1, · · · , xn)+f(x1, · · · , xj−1, yj, xj+1, · · · , xn) e f(x1, · · · , xj−1, λxj, xj+1, · · · , xn) = λ f(x1, · · · , xj−1, xj, xj+1, · · · , xn), onde (x1, · · · , xj−1, xj, xj+1, · · · , xn), (x1, · · · , xj−1, yj, xj+1, · · · , xn) ∈ E1 × · · · × Ej × · · · × En e λ ∈ R,
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    108 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Observa¸c˜ao 3.5.5 1. Sejam E1, E2, · · · , En, F espa¸cos vetoriais sobre R. e suponhamos que f : E1 × E2 × · · · × En → F ´e n-linear. Ent˜ao se xj = 0 ∈ Ej para algum j ∈ {1, 2, · · · , n} ent˜ao f(x1, · · · , xj−1, xj, xj+1, · · · , xn) = 0, isto ´e, f(x1, · · · , xj−1, 0, xj+1, · · · , xn) = 0, De fato, pois f(x1, · · · , xj−1, xj, xj+1, · · · , xn) = f(x1, · · · , xj−1, 0, xj+1, · · · , xn) = f(x1, · · · , xj−1, 0.0, xj+1, · · · , xn) [f ´e n-linear] = 0.f(x1, · · · , xj−1, 0, xj+1, · · · , xn) = 0, ou seja, f(x1, · · · , xj−1, 0, xj+1, · · · , xn) = 0. 2. Na situa¸c˜ao acima se n = 2 ent˜ao f : E1 × E2 → F ser´a dita bilinear e ´e caracterizada pelas seguintes propriedades: (a) f(x1 + y1, x2) = f(x1, x2) + f(y1, x2); (b) f(x1, x2 + y2) = f(x1, x2) + f(x1, y2); (c) f(λ x1, x2) = λ f(x1, x2) e (d) f(x1, λ x2) = λ f(x1, x2), para xj, yj ∈ Ej, j = 1, 2 e λ ∈ R. Observemos que do item 1. acima segue que f(0E1 , x2) = f(x1, 0E2 ) = 0F , para xj ∈ Ej, j = 1, 2 (onde 0Ej ∈ Ej ´e o elemento neutro da adi¸c˜ao de Ej, j = 1, 2 e 0F ∈ F ´e o elemento neutro da adi¸c˜ao de F). Temos os seguintes exemplos importantes de aplica¸c˜oes bilineares: Exemplo 3.5.3 Seja E um espa¸co vetorial sobre R. A multiplica¸c˜ao de n´umero real por vetor de E, m : R × E → E, m(λ, x) . = λ.x, λ ∈ R, x ∈ E, ´e uma aplica¸c˜ao bilinear. A verifica¸c˜ao deste fato ´e simples e ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor.
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    3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OESLINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO Exemplo 3.5.4 Seja E um espa¸co vetorial sobre R com produto interno. O produto escalar de E, ., . : E × E → R, ´e uma aplica¸c˜ao bilinear. A verifica¸c˜ao deste fato ´e simples e ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Observa¸c˜ao 3.5.6 1. Suponhamos que E, F e G s˜ao espa¸cos vetoriais sobre R. (a) Consideremos a aplica¸c˜ao α : L(E; F) × E → F dada por α(f, x) . = f(x), (f, x) ∈ L(E; F) × E. ´E f´acil mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que a aplica¸c˜ao α ´e bilin- ear. (b) Consideremos a aplica¸c˜ao µ : L(F; G) × L(E; F) → L(E; G) dada por µ(g, f) . = g ◦ f, (g, f) ∈ L(F; G) × L(E; F). ´E f´acil mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que a aplica¸c˜ao µ ´e bilinear. 2. Seja Rm espa¸co vetorial sobre R com as opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao de m-uplas e multi- plica¸c˜ao de n´umero real por m-upla. A aplica¸c˜ao det : Rm × · · · × Rm m−fatores → R, det(x1, · · · , xm) . = x1 · · · xm , para (x1, · · · , xm) ∈ Rm × · · · × Rm m−fatores , onde det denota o determinante da matriz quadrada obtida colocando-se na j-´esima coluna da matriz as coordenadas do vetor xj, j ∈ {1, · · · , m} (matriz das coordendas do vetor xj ´e da forma (xij)1≤i≤m, j ∈ {1, · · · , m} ). A fun¸c˜ao determinante tem a seguinte propriedade: det(x1, · · · , xj−1, λxj + yj, xj+1 · · · xm) = λ det(x1, · · · , xj−1, xj, xj+1 · · · xm) + det(x1, · · · , xj−1, yj, xj+1 · · · xm), para (x1, · · · , xj−1, xj, xj+1 · · · xm), (x1, · · · , xj−1, yj, xj+1 · · · xm) ∈ Rm × · · · × Rm m−fatores e λ ∈ R. A demonstra¸c˜ao deste fato ´e vista no curso de ´Algebra Linear. Logo, da rela¸c˜ao acima, segue que a aplica¸c˜ao det : Rm × · · · × Rm m−fatores → R ´e m-linear.
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    110 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 30.09.2008 - 14.a Com isto temos a: Proposi¸c˜ao 3.5.2 Sejam (E, . E), (F, . F ), (G, . G) espa¸cos vetoriais sobre R normados, E × F com uma das trˆes normas usuais e f : E × F → G ´e bilinear. S˜ao equivalentes: 1. f ´e cont´ınua em E × F ; 2. f ´e cont´ınua em (0E, 0F ) ∈ E × F; 3. Existe c 0 tal que f(x, y) G ≤ c x E y F , para (x, y) ∈ E × F; 4. f ´e uma aplica¸c˜ao lischitziana em cada subconjunto limitado de E × F. Demonstra¸c˜ao: Mostraremos que o seguinte diagrama ocorre: E c ' T 1. 2. 3.4. Segue imediatamente que (1. ⇒ 2.) e que (4. ⇒ 1). Mostremos que (2. ⇒ 3.): Consideremos em E × F a norma da soma das normas, isto ´e, (x, y) E×F = x E + y F (para os outros dois casos utilizamos o fato que as trˆes normas usuais s˜ao equivalentes). Se f ´e cont´ınua em (0E, 0F ) ∈ E×F ent˜ao, como f(0E, 0F ) = 0G segue, tomando-se ε = 1 0 existir´a δ 0 tal que x E + y F = (x, y) E×F δ ent˜ao f(x, y) G ≤ ε = 1. (∗) Seja c . = 4 δ2 0. Se (x, y) ∈ E × F e x = 0E ou y = 0F ent˜ao temos que f(x, y) = 0G logo para f(x, y) G = 0G = 0 ≤ c ( x E y F ) (= 0). Se (x, y) ∈ E × F s˜ao tais que x = 0E e y = 0F ent˜ao os vetores X . = δ 2 x E x ∈ E, Y . = δ 2 y F y ∈ F,
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    3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OESLINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO satisfazem X E = δ 2 x E x E = δ 2 x E x E = δ 2 δ, Y F = δ 2 y F y F = δ 2 y F y F = δ 2 δ, assim X E + Y F δ. Logo (*) implicar´a que 1 ≥ f(X, Y ) G = f( δ 2 x E x, δ 2 y E y) G [fbilinear] = δ 2 x E δ 2 y E f(x, y) G = δ 2 x E δ 2 y E f(x, y) G, ou seja, f(x, y) G ≤ 4 δ2 =c x E y F , (x, y) ∈ E × F, mostrando que 3. ´e verdadeira. Mostremos que (3. ⇒ 4.): Seja U ⊆ E × F um subconjunto limitado de E × F. Logo existe r 0 tal que U ⊆ B[(0E, 0F ); r]. Mostremos que f ´e lipschitiziana na bola B[(0E, 0F ); r]. Se z . = (x, y), z . = (x , y ) ∈ B[(0E, 0F ); r] ent˜ao f(z) − f(z ) = f(x, y) − f(x , y ) G = f(x, y) − f(x, y ) + f(x, y ) − f(x , y ) G [fbiliear] = f(x, y − y ) + f(x − x , y ) G ≤ f(x, y − y ) G + f(x − x , y ) G [3.] ≤ c x E y − y G + c x − x E y G [ x e, y F ≤r] ≤ cr y − y G + cr x − x E = cr[ y − y G + x − x E] = cr z − z E×F , mostrando que 4.a ´e verdadeira e assim completando a demonstra¸c˜ao da proposi¸c˜ao. Por indu¸c˜ao pode-se demostrar o Corol´ario 3.5.2 Sejam (E1, . 1), (E2, . 2), · · · , (En, . n), (F, . F ) espa¸cos vetoriais sobre R normados, E1 × · · · × En munido de uma das trˆes normas usuais e f : E1 × · · · × En → F ´e n-linear. S˜ao equivalentes: 1. f ´e cont´ınua em E1 × · · · × En; 2. f ´e cont´ınua em (0E1 , · · · , 0En ) ∈ E1 × · · · × En; 3. Existe c 0 tal que f(x1, · · · , xn) F ≤ c x1 E1 · · · xn En , para (x1, · · · , xn) ∈ E1 × · · · × En;
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    112 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS 4. f ´e uma aplica¸c˜ao lischitziana em cada subconjunto limitado de E1 × · · · × En. Demonstra¸c˜ao: Ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Como conseq¨uˆencia temos o: Corol´ario 3.5.3 Seja (F, . F ) um espa¸co vetorial sobre R normado e Rj espa¸co vetorial sobre R munido de uma das trˆes normas usuais, j = m, n. Se f : Rm × Rn → F ´e uma aplica¸c˜ao bilinear ent˜ao f ´e cont´ınua em Rm × Rn. Demonstra¸c˜ao: Consideraremos a norma da soma das normas em Rm, Rn (para as outras duas podemos utilizar o fato que as respectivas normas s˜ao equivalentes `as respectivas norma da soma). De fato, sejam Bm . = {e1, · · · , em} e Bn . = {e1 , · · · , en } as bases canˆonicas de Rm e Rn, respectivamente. Dado (x, y) ∈ Rm × Rn temos que existem x1, · · · xm ∈ R e y1, · · · yn ∈ R tais que x = m i=1 xiei, e y = n j=1 yjej . Como f ´e bilinear segue que f(x, y) = f( m i=1 xiei, n j=1 yjej ) = m i=1 n j=1 xiyjf(ei, ej ). Seja c . = max{f(ei, ej ) : i = 1, · · · , m, j = 1, · · · , n} ≥ 0. (∗) Observemos que x Rm = m i=1 |xi| e y Rn = n j=1 |yj|, assim f(x, y) F = m i=1 n j=1 xiyjf(ei, ej ) F ≤ m i=1 n j=1 |xi||yj| f(ei, ej ) F [(∗)] ≤ m i=1 n j=1 |xi||yj|c = c x Rm y Rn , e assim, da proposi¸c˜ao (3.5.2) item 3., segue que f ´e lipschitziana em Rm × Rn e portanto cont´ınua em Rm × Rn. Observa¸c˜ao 3.5.7 1. Se (E, . E) ´e um espa¸co vetorial sobre R, normado ent˜ao a aplica¸c˜ao bilinear (ver ob- serva¸c˜ao (3.5.6) item 1.) m : R × E → E m(λ, x) = λ x, (λ, x) ∈ R × E,
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    3.5. TRANSFORMAC¸ ˜OESLINEARES E MULTILINEARES DEFINIDAS EM ESPAC¸OS VETORIAIS NORMADO ser´a cont´ınua em R × E. Isto segue do fato que se (λ, x) ∈ R × E temos que m(λ, x) E = λx E = |λ| x E = λ R x E, ou seja, vale 3. da proposi¸c˜ao (3.5.2) (com c = 1). Logo m ser´a cont´ınua em R × E (munido de uma das trˆes normas usuais). 2. Se (E, ., . E) ´e um espa¸co vetorial sobre R com produto interno ent˜ao a aplica¸c˜ao ., . E: E × E → R, ´e uma aplica¸c˜ao bilinear cont´ınua em E × E. O fato de ser bilinear ´e evidente da defini¸c˜ao de produto interno. Da desigualdade de Cauchy-Schwarz temos que | x, y E | ≤ x E y E), x, y ∈ E. Logo o item 3. da proposi¸c˜ao (3.5.2) ocorre (com c = 1) assim a aplica¸c˜ao ., . ser´a cont´ınua em E × E. 3. Do corol´ario acima segue que a fun¸c˜ao determinante (ver observa¸c˜ao (3.5.6) item 2.) ser´a cont´ınua em Rm × · · · × Rm m−fatores . Para finalizar temos o Exerc´ıcio 3.5.1 Sejam (E, . E), (F, . F ) e (G, . G) s˜ao espa¸cos vetoriais sobre R normados ent˜ao a aplica¸c˜ao µ : L(F; G) × L(E; F) → L(E; G), µ(g, f) . = g ◦ f, (g, f) ∈ L(F; G) × L(E; F). que ´e bilinear (ver observa¸c˜ao (3.5.6) item 1.) ´e cont´ınua em L(F; G) × L(E; F) munido da norma usual. De fato, observemos que se (f, g) ∈ L(F; G) × L(E; F) ent˜ao (g ◦ f)(x) G ≤ g(f(x) G ≤ g L(F;G) f(x) F ≤ g L(F;G) f L(E;F), x ∈ S[0; 1]. Logo, se x ∈ S[0; 1] temos que µ(f, g)(x) G = (g ◦ f)(x) G ≤ g L(F;G) f L(E;F) ou seja, µ(f, g) L(E;G) ≤ g L(F;G) f L(E;F), (f, g) ∈ L(F; G) × L(E; F), e da proposi¸c˜ao (3.5.2) item 3., segue que µ ´e cont´ınua em L(F; G) × L(E; F). At´e aqui para a 1.a Prova
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    114 CAP´ITULO 3.FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS DEFINIDAS EM ESPAC¸OS M´ETRICOS
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    Cap´ıtulo 4 Conjuntos Abertos,Fechados - Espa¸cos Topol´ogicos 4.1 Conjuntos abertos Come¸caremos introduzindo uma s´erie de defini¸c˜oes que ser˜ao importantes no que se seguir´a: Defini¸c˜ao 4.1.1 Seja X um subconjunto de (M, dM ) espa¸co m´etrico. Diremos que um ponto a ∈ X ´e ponto interior ao conjunto X se o ponto a for centro de uma bola aberta inteiramente contida em X, isto ´e, existe r 0 tal que B(a; r) ⊆ X. A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao z a r X M O interior de X, indicado por int(X) ou ◦ X, ´e o conjunto formado por todos os pontos interiores de X. Definimos a fronteira de X em M, indicada por ∂X, como sendo o conjunto formado pelos pontos b ∈ M tais que toda bola aberta centrada em b cont´em um ponto de X e um ponto do complementar de X em M (ou seja, de M X), isto ´e, b ∈ ∂X se, e somente se, para cada s 0 B(b; s) ∩ X = ∅ e B(b; s) ∩ (M X) = ∅. A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao: 115
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    116 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS X M b b sx ∈ X m ∈ M X Observa¸c˜ao 4.1.1 1. Na situa¸c˜ao acima, se b ∈ X n˜ao ´e ponto interior de X significa que toda bola aberta centrada em b cont´em algum ponto de M que n˜ao est´a em X, ou seja, para todo s 0 temos que B(b; s) ∩ (M X) = ∅. Neste caso, b ∈ ∂X. 2. Como veremos a seguir, um ponto de ∂X pode n˜ao pertencer a X. Consideremos alguns exemplos: Exemplo 4.1.1 Consideremos R munido da m´etrica usual e X = [0, 1) ⊆ R. Neste caso temos que int([0, 1)) = (0, 1), ∂([0, 1)) = {0, 1}. De fato, se 0 a 1 ent˜ao tomando-se r . = min{a, 1 − a} 0 segue que (a − r, a + r) ⊆ [0, 1) = X. De fato, se x ∈ (a − r, a + r) ent˜ao 0 = a − a [r≤a] ≤ a − r x a + r [r≤1−a] ≤ a + (1 − a) = 1, mostrando que a ∈ int([0, 1)). Logo (0, 1) ∈ int([0, 1)). 0 1 a (a − r, a + r) ⊆ [0, 1) Por outro lado, se 0, 1 ∈ ∂X pois toda bola aberta centrada em 0 cont´em n´umeros reais menores que 0 (que n˜ao pertencem a [0, 1)) e n´umeros reais maiores que zero e menores que 1 (logo pertencentes a [0, 1)) e toda bola aberta centrada em 1 cont´em n´umeros reais menores que 1 e maiores que zero (que pertencem a [0, 1)) e n´umeros reais maiores que 1 (logo n˜ao pertencentes a [0, 1)).
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    4.1. CONJUNTOS ABERTOS117 0 10 − s = −s 0 + s = s T T T T 1 − r 1 + r x ∈ [0, 1) a ∈ [0, 1) a ∈ [0, 1) x ∈ [0, 1) Conclus˜ao: int([0, 1)) = (0, 1) e ∂([0, 1)) = {0, 1}. Observa¸c˜ao 4.1.2 No exemplo acima 0 ∈ [0, 1) e 0 ∈ ∂X, por outro lado, 1 ∈ [0, 1) e 1 ∈ ∂X. Exemplo 4.1.2 Consideremos R munido da m´etrica zero-um e X = [0, 1) ⊆ R. Neste caso temos que int([0, 1)) = [0, 1), ∂([0, 1)) = ∅. De fato, se a ∈ X ent˜ao tomando-se r . = 1 2 segue que B(a; r) = {a} ⊆ X. Portanto int(X) = X. Por outro lado, para todo b ∈ R temos que B(b; 1 2 ) = {b} que s´o cont´em o ponto b. Portanto nenhum ponto de R ´e ponto de fronteira de X, ou seja, ∂X = ∅. Exerc´ıcio 4.1.1 Consideremos R munido da m´etrica usual e X = Q ⊆ R. Neste caso temos que int(Q) = ∅, ∂Q = R. De fato, se a ∈ Q ent˜ao toda bola centrada em a conter´a n´umeros irracionais, logo n˜ao pertecentes a Q. Portanto nenhum ponto de Q ser´a ponto interior de Q, ou seja, int(Q) = ∅. Por outro lado, se b ∈ R ent˜ao toda bola aberta centrada em b conter´a n´umeros racionais e irracionais, ou seja, pontos que est˜ao em Q e ponto que n˜ao est˜ao em Q. Portanto b ∈ ∂Q, isto ´e, ∂Q = R. c T T ∈ Q ∈ I c + rc − r Observa¸c˜ao 4.1.3 1. Na situa¸c˜ao acima, se b ∈ X n˜ao ´e ponto interior de X significa que para toda bola aberta centrada em b cont´em algum ponto de M que n˜ao est´a em X, ou seja, para todo s 0 temos que B(b; s) ∩ (M X) = ∅. Neste caso, b ∈ ∂X. 2. Como veremos a seguir, um ponto de ∂X pode n˜ao pertencer a X. Consideremos alguns exemplos:
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    118 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS Exemplo 4.1.3 Consideremos R munido da m´etrica usual (da raiz quadrada) e X = [0, 1) ⊆ R. Neste caso temos que int([0, 1)) = (0, 1), ∂([0, 1)) = {0, 1}. De fato, se 0 a 1 ent˜ao tomando-se r . = min{a, 1 − a} 0 segue que (a − r, a + r) ⊆ [0, 1) = X, pois se x ∈ (a−r, a+r) ent˜ao a−a ≤ a−r x a+r ≤ a+(1−a) = 1, mostrando que a ∈ int([0, 1)). 0 1 a (a − r, a + r) ⊆ [0, 1) Por outro lado, se 0, 1 ∈ ∂X pois toda bola aberta centrada em 0 cont´em n´umeros reais menores que 0 (que n˜ao pertencem a [0, 1)) e n´umeros reais maiores que zero e menores que 1 (logo pertencentes a [0, 1)) e toda bola aberta centrada em 1 cont´em n´umeros reais menores que 1 e maiores que zero (que pertencem a [0, 1)) e n´umeros reais maiores que 1 (logo n˜ao pertencentes a [0, 1)). 0 10 − s = −s 0 + s = s T T T T 1 − r 1 + r x ∈ [0, 1) a ∈ [0, 1) a ∈ [0, 1) x ∈ [0, 1) Observa¸c˜ao 4.1.4 No exemplo acima 0 ∈ [0, 1) e 0 ∈ ∂X, por outro lado, 1 ∈ [0, 1) e 1 ∈ ∂X. Exemplo 4.1.4 Consideremos R munido da m´etrica usual (da raiz quadrada) e X = Q ⊆ R. Neste caso temos que int(Q) = ∅, ∂Q = R. De fato, se a ∈ Q ent˜ao toda bola centrada em a conter´a n´umeros irracionais, logo n˜ao pertecentes a Q. Portanto nenhum ponto de Q ser´a ponto interior de Q, ou seja, int(Q) = ∅. Por outro lado, se b ∈ R ent˜ao toda bola aberta centrada em b conter´a n´umeros racionais e irracionais, ou seja, pontos que est˜ao em Q e ponto que n˜ao est˜ao em Q. Portanto b ∈ ∂Q, isto ´e, ∂Q = R. c T T ∈ Q ∈ I c + rc − r Observa¸c˜ao 4.1.5 1. As no¸c˜oes de interior de fronteira de um conjunto X s˜ao relativas, isto ´e, dependem do espa¸co m´etrico M que cont´em X. Para ilustrar este fato observemos que no exemplo (4.1.3) vimos que int([0, 1)) = (0, 1), ∂([0, 1)) = {0, 1}.
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    4.1. CONJUNTOS ABERTOS119 Consideremos agora M = R2 com a m´etrica usual e X = [0, 1) ⊆ R2 (ou seja, X = [0, 1) × {0} ⊆ R2) ent˜ao teremos int(X) = ∅, ∂(X) = [0, 1] × {0}. A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao: T E 0 1c } r s s x ∈ [0, 1) a ∈ [0, 1) Observemos que no exemplo acima as bolas abertas s˜ao consideradas em R2 e por isso nenhum ponto de X ´e ponto interior do mesmo. Por outro lado toda bola aberta centrada em um ponto de [0, 1] × {0} conter´a pontos que est˜ao em X e pontos que n˜ao est˜ao em X, mostrando que estes est˜ao na fronteira do mesmo. Assim o interior ou fronteira de um conjunto s˜ao relativas ao espa¸co m´etrico que consi- deramos. 2. Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e X ⊆ M. Dado um ponto qualquer c ∈ M temos, exatamente, trˆes possibilidades que s˜ao excludentes: (a) ou existe uma bola centrada em c inteiramente contida em X, ou seja, o ponto c ´e ponto interior de X (c ∈ int(X); veja figura abaixo)); z c r X M
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    120 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS (b) ou toda bola centrada em c cont´em pontos que est˜ao em X e pontos de M que n˜ao est˜ao em X , ou seja, o ponto c ´e ponto de fronteira de X (c ∈ ∂(X); veja figura abaixo)); X M b c sx m (c) ou existe uma bola centrada em c inteiramente contida em M X, ou seja, o ponto c ´e ponto interior de M X (c ∈ int(M X); veja figura abaixo). X M c r 3. Na situa¸c˜ao acima, podemos obter a seguinte decomposi¸c˜ao do espa¸co m´etrico M: M = int(X) ∪ ∂(X) ∪ int(M X), (∗) onde a reuni˜ao acima ´e formada por conjuntos dois a dois disjuntos (isto ´e, int(X) ∩ ∂(X) = ∅, int(X) ∩ int(M X) = ∅ e int(M X) ∩ ∂(X) = ∅). 4. Pode ocorrer de um dos trˆes subconjuntos acima ser vazio (como no exemplo do item 1. desta observa¸c˜ao). 5. Esta decomposi¸c˜ao mostra que ∂(X) = ∂(M X), (∗∗) pois se considerarmos X . = M X em (*) obteremos M = int(M X)∪∂(M X)∪int(M (M X)) [M(MX)=X] = int(M X)∪∂(M X)∪int(X), e comparando esta com (*) deveremos ter (**). 6. No caso do exemplo (4.1.3) temos que R = int([0, 1)) ∪ ∂([0, 1)) ∪ int(R [0, 1)) = (0, 1) ∪ {0, 1} ∪ (−∞, 0) ∪ (1, ∞), pois R [0, 1) = (−∞, 0) ∪ [1, ∞) assim int(R [0, 1)) = (−∞, 0) ∪ (1, ∞).
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    4.1. CONJUNTOS ABERTOS121 Temos a Defini¸c˜ao 4.1.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico e A ⊆ M. Diremos que o conjunto A ´e aberto em M se todos os seus pontos s˜ao pontos interiores de A, isto ´e, se int(A) = A. Observa¸c˜ao 4.1.6 1. Na situa¸c˜ao acima, um subconjunto A de M ´e aberto se, e somente se, A ∩ ∂A = ∅. De fato, se A de M ´e aberto ent˜ao todo ponto de A ´e ponto interior de A, ou seja, se a ∈ A ent˜ao a ∈ ∂A. Logo A ∩ ∂A = ∅. Por outro lado, se A ∩ ∂A = ∅ ent˜ao se a ∈ A temos que a ∈ ∂A, isto ´e, existe uma bola aberta centrada em a que n˜ao cont´em pontos de M A, ou seja, existe r 0 tal que B(a; r) ∩ [M A] = ∅ que implicar´a que B(a; r) ⊆ A. Portanto, todo ponto a ∈ A ´e ponto interior de A, mostrando que A ´e um subconjunto aberto de M. 2. Para mostrar que um subconjunto A de M ´e aberto em M precisamos provar que para cada a ∈ A existe ra 0 tal que B(a; ra) ⊆ A. A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao z a ra A M Um exemplo importante de subconjunto aberto de um espa¸co m´etrico ´e dado pela Proposi¸c˜ao 4.1.1 Sejam (M.dM ) um espa¸co m´etrico, a ∈ M e r 0. Ent˜ao B(a; r) ´e um subconjunto aberto de M. Demonstra¸c˜ao: Seja x ∈ B(a; r). Mostremos que existe s 0 tal que B(x; s) ⊆ B(a; r). Como x ∈ B(a; r) temos que dM (x, a) r.
  • 122.
    122 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS Seja s . = r − d(x, a) 0. Afirmamos que B(x; s) ⊆ B(a; r). De fato, se y ∈ B(x; s) teremos que dM (y, x) s. Logo dM (a, y) ≤ dM (a, x) + dM (x, y) dM (a, x) + s = dM (a, x) + (r − dM (a, x)) = r, mostrando que y ∈ B(a; r). Portanto B(a; r) ´e um subconjunto aberto de M, como quer´ıamos mostrar. A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao a Er x Ic s . = r − d(x, a) 2.10.2008 - 15.a - 1.a Prova 7.10.2008 - 16.a Como conseq¨uˆencia temos o Corol´ario 4.1.1 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e X ⊆ M. Ent˜ao int(X) ´e um subconjunto aberto de M. Demonstra¸c˜ao: Devemos mostrar que todo ponto de int(X) ´e ponto interior de int(X). Para isto seja a ∈ int(X). Devemos mostrar que existe um ra 0 tal que B(a; ra) todo ponto dessa bola aberta seja ponto interior de X (isto ´e, B(a; ra) ⊆ int(X)). Da defini¸c˜ao de int(X) segue que se a ∈ int(X), existe ra 0 tal que B(a; ra) ⊆ X. Afirmamos que todo ponto de B(a; ra) ´e ponto interior de X. De fato, da proposi¸c˜ao (4.1.1) segue que dado x ∈ B(a; ra), existe s 0 tal que B(x; s) ⊆ B(a; ra) ⊆ X, isto ´e, x ∈ int(X). Portanto, se a ∈ int(X), todo ponto da bola aberta B(a; ra) ´e ponto interior de X, isto ´e, B(a; ra) ⊆ int(X), mostrando que int(X) ´e um subconjunto aberto de M, como quer´ıamos mostrar. Observa¸c˜ao 4.1.7
  • 123.
    4.1. CONJUNTOS ABERTOS123 1. Se (M, dM ) ´e um esap¸co m´etrico e A, B ⊆ M ent˜ao int(A ∩ B) = int(A) ∩ int(B). A demonstra¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. 2. Na situa¸c˜ao acima temos que int(X) tem a seguinte propriedade: ele ´e o maior subconjunto aberto de M que est´a contido em X. Mais especificamente, afirmamos que se A ⊆ X e A ´e aberto em M ent˜ao A ⊆ int(X) (*). Para verificar isto basta ver que se a ∈ A ´e ponto interior de A ent˜ao a ser´a ponto interior de X (pois A ⊆ X), ou seja, se A ⊆ X ent˜ao int(A) ⊆ int(X). Assim teremos que a ∈ int(X), mostrando que A ⊆ int(X), como afirmamos acima. Al´em disso, int(X) ´e um subconjunto aberto de M que est´a contido em X. Afirmamos que ele ´e o maior com essa propriedade pois, como vimos em (*) temos que se um subconjunto aberto de M est´a contido em X ele tamb´em estar´a contido em int(X). 3. Baseado no item acima temos que int(X) = A∈A A, onde A . = {A ⊆ X : A ´e um subconjunto aberto de M}. 4. Seja a ∈ M, (M, dM ) espa¸co m´etrico. {a} ´e um subconjunto aberto em M se, e somente se, a ´e um ponto isolado de M. De fato, pois se {a} ´e um subconjunto aberto em M ent˜ao existe ra 0 tal que B(a; ra) ⊆ {a}, ou seja, B(a; ra) = {a} mostrando que o ponto a ´e um ponto isolado de M. Reciprocamente, se a ´e um ponto isolado de M ent˜ao existe r 0 tal que B(a; ra) = {a}, em particular, B(a; ra) ⊆ {a}, mostrando que o subconjunto {a} de M ´e um subconjunto aberto em M. 5. Do item 3. acima segue que um espa¸co m´etrico (M, dM ) ´e discreto se, e somente se, todo os seus subconjuntos unit´arios s˜ao subconjuntos abertos em M. 6. Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico. Ent˜ao M ´e um subconjunto aberto de M. De fato, pois se a ∈ M ent˜ao para r 0 temos que B(a; r) ⊆ M, ou seja, todo ponto a de M ´e ponto interior de M mostrando que M ´e um subconjunto aberto de M. 7. A propriedade ”X ser aberto em M” ´e relativa, ou seja, depende do espa¸co m´etrico M que cont´em X. Por exemplo, no exemplo (4.1.3) temos que X = [0, 1) ´e um subconjunto aberto em M = [0, 1] onde neste ´ultimo consideramos a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R.
  • 124.
    124 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS Para ver isto observemos que se 0 ε 1 ent˜ao BX(0; ε) = [0, ε) ⊆ X = [0, 1), mostrando que 0 ´e ponto interior de X. Se x ∈ (0, 1) ent˜ao x ∈ int(X) pois tomando-se r . = min{x, 1 − x} 0 segue que BX(x; r) ⊆ X, ou seja, x ´e ponto interior de X, mostrando que X = [0, 1) ´e aberto em M = [0, 1]. Mas X = [0, 1) n˜ao ´e aberto em R (munido da m´etrica usual) pois 0 n˜ao ´e ponto interior de X = [0, 1) em R. 8. Um outro exemplo da situa¸c˜ao do item 5. seria considerar X = (0, 1), que ´e um subcon- junto aberto em R (pois (0, 1) = BR( 1 2 ; 1 2 )) e n˜ao ´e um subconjunto aberto se for visto como subconjunto de R2. 9. Um exemplo de subconjunto de um espa¸co m´etrico que ´e um subconjunto aberto em todo espa¸co m´etrico ´e o conjunto vazio, ∅. Para mostrar isto basta observar que para um subconjunto de um espa¸co m´etrico n˜ao ser aberto basta exibirmos um ponto do subconjunto que n˜ao seja ponto interior do mesmo. Isto ´e imposs´ıvel de fazer se o subconjunto for vazio. Portanto ∅ ´e um subconjunto aberto de qualquer espa¸co m´etrico. Temos a Proposi¸c˜ao 4.1.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico, a ∈ M e r 0. Ent˜ao o complementar, em M, da bola fechada B[a; r] ´e um subconjunto aberto de M, isto ´e, A . = M B[a; r] ´e subconjunto aberto de M. Demonstra¸c˜ao: De fato, mostremos que todo ponto de A ´e um ponto interior de A. Para isto, seja b ∈ A = M B[a; r], isto ´e, b ∈ B[a; r], logo d(a, b) r. Seja s 0 tal que 0 s d(a, b) − r. Da proposi¸c˜ao (2.2.4) segue que as bolas fechadas B[a; r] e B[b; s] s˜ao disjuntas (pois s+r d(a, b)). Em particular B[a; r] ∩ B(b; s) = ∅ que implicar´a B(b; s) ⊆ M B[a; r], logo b ∈ A = M B[a; r] ´e ponto interior de A = M B[a; r], mostrando que A = M B[a; r] ´e um subconjunto aberto de M, completando a demonstra¸c˜ao. A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao:
  • 125.
    4.1. CONJUNTOS ABERTOS125 a Ir Is b Temos a Proposi¸c˜ao 4.1.3 Na situa¸c˜ao acima, o completamentar de um subconjunto unit´ario de M ´e um subconjunto aberto de M, isto ´e, se a ∈ M ent˜ao A . = M {a} ´e um subconjunto aberto de M. Demonstra¸c˜ao: De fato, mostremos que todo ponto de A = M {a} ´e ponto interior de A = M {a}. Se b ∈ A . = M {a} ent˜ao b = a. Seja r . = d(a, b) 0. Ent˜ao B(b; r) ∩ {a} = ∅ que implicar´a em B(b; r) ⊆ M {a} = A, ou seja, b ∈ A = M {a} ´e um ponto interior do conjunto A = M {a}, isto ´e, A = M {a} ´e um subconjunto aberto de M, completando a prova. A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao acima. a b © r = d(a, b) Mais geralmene temos a Proposi¸c˜ao 4.1.4 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, a1, a2, · · · , an ∈ M. Ent˜ao A . = M {a1, a2, · · · , an} ´e um subconjunto aberto de M. Demonstra¸c˜ao: De fato, mostremos que todo ponto de A ´e ponto interior de A.
  • 126.
    126 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS Se b ∈ A ent˜ao b = aj, j = 1, 2, · · · , n. Seja r . = min{d(b, aj) : j = 1, 2, · · · , n} 0. Ent˜ao B(b; r) ∩ {aj : j = 1, 2, · · · , n} = ∅ que implicar´a em B(b; r) ⊆ M {aj : j = 1, 2, · · · , n} = A, ou seja, b ∈ A ´e um ponto interior do conjunto A, isto ´e, A = M {aj : j = 1, 2, · · · , n} ´e um subconjunto aberto de M, completando a prova. A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao acima. a1 a2 a3 a4 b s r r = min{d(b, aj ) : j − 1, · · · , n} A seguir daremos alguns exemplos importantes de subconjuntos abertos de R. Exemplo 4.1.5 Consideremos R com a m´etrica usual e a, b ∈ R. Ent˜ao os intervalos (a, b), (−∞, b) e (a, ∞) s˜ao subconjunto abertos de R. De fato, Temos que (a, b) = BR( b − a 2 ; b − a 2 ), isto ´e, ´e uma bola aberta centrada em b − a 2 , ou seja, um subconjunto aberto de R (veja figura abaixo). E a b b−a 2 E'E' b−a 2 b−a 2 Se c ∈ (−∞, b), ent˜ao, para r . = d(c, b) = b − c 0, temos que BR(c; r) = (c − r, c + r) ⊆ (−∞, b), mostrando c ∈ (−∞, b) ´e um ponto interior de (−∞, b), isto ´e, (−∞, b) ´e um subconjunto aberto em R (veja figura abaixo). bc E' E' r = b − cr = b − c E
  • 127.
    4.1. CONJUNTOS ABERTOS127 De modo an´alogo, se c ∈ (a, ∞), ent˜ao, para r . = d(a, c) = c − a 0, temos que BR(c; r) = (c − r, c + r) ⊆ (a, ∞), mostrando c ∈ (a, ∞) ´e um ponto interior de (a, ∞), isto ´e, (−∞, b) ´e um subconjunto aberto em R (veja figura abaixo). E a c E' E' r = c − ar = c − a Observa¸c˜ao 4.1.8 1. Observemos que uma bola fechada em um espa¸co m´etrico pode ser um subconjunto aberto do mesmo. Para ilustrar isso consideremos o seguinte exemplo: sejam M = R {−1, 1} munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R, a = 0 ∈ M e r = 1 0. Observemos que BM [0; 1] = {x ∈ M : d(x, 0) ≤ 1} = (−1, 1) = {x ∈ M : d(x, 0) 1} = BM (0; 1), logo BM [0; 1] ´e um subconjunto aberto de M (ver figura abaixo). E −1 10 2. Por outro lado, se (E, . E) ´e um espa¸co vetorial sobre R normado com E = {0} ent˜ao, para a ∈ E e r 0 temos que a bola fechada BE[a; r] n˜ao ´e um subconjunto aberto de E. De fato, seja x = E {0} (isto ´e, um vetor de E diferente do vetor nulo). Consideremos u . = x x E e b . = a + ru. Ent˜ao temos que dE(b, a) = b − a E = (a + ru) − a = ru E = |r| u E [ u E=1] = r, ou seja, b ∈ B[a; r]. Por outro lado, para todo s 0 se considerarmos c . = a + (r + s 2 )u ∈ E. Ent˜ao dE(c, a) = c − a E = (a + (r + s 2 )u) − a E = (r + s 2 )u = |r + s 2 | u E [ u E=1] = r + s 2 r, (4.1) dE(c, b) = c − b E = (a + (r + s 2 )u) − (a + ru) E = s 2 u = | s 2 | u E [ u E=1] = s 2 s. (4.2)
  • 128.
    128 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS Logo de (4.1) temos que c ∈ B[a; r] e (4.2) temos que c ∈ B(b; s), para todo s 0, isto ´e, que b ∈ int(B[a; r]), mostrando que b n˜ao ´e ponto interior de B[a; r], ou seja, B[a; r] n˜ao ´e um subconjunto aberto de E. a Er b = a + ru c = a + (r + s 2 )u ' s 3. Observemos que se b ∈ S(a; r) ent˜ao mostramos no item 2. que toda bola B(b; s) cont´em pontos que n˜ao est˜ao em B[b; r] (a saber c . = a + (r + s 2 )u ∈ E). Por outro lado toda bola B(b; s) cont´em pontos que est˜ao em B[b; r] (o pr´oprio b). Coom isto concluimos que b ∈ ∂B[a; r], ou seja, S(a; r) ⊆ ∂B[a; r]. 4. Do corol´ario (4.1.1), da proposi¸c˜ao (4.1.1) e da observa¸c˜ao (4.1.7) item 2. segue que int(B[a; r]) = B(a; r). 5. A demonstra¸c˜ao da proposi¸c˜ao (4.1.2) mostra que se b ∈ E ´e tal que dE(b, a) = b − a r ent˜ao b ∈ ∂B[a; r]. Logo, dos itens acima, temos que ∂B[a; r] = S(a; r). Temos a Proposi¸c˜ao 4.1.5 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e U a cole¸c˜ao formada por todos os sub- conjutos abertos de (M, dM ). Ent˜ao: 1. M ∈ U, ∅ ∈ U (ou seja, o espa¸co todo e o vazio s˜ao subconjuntos abertos de (M, dM )); 2. Se A1, · · · , An ∈ U ent˜ao A1 ∩ · · · ∩ An ∈ U (ou seja, a interesec¸c˜ao finita de subconjuntos abertos de (M, dM ) ´e um subconjunto aberto de (M, dM )); 3. Se Aλ ∈ U para λ ∈ L ent˜ao λ∈L Aλ ∈ U (ou seja, a reuni˜ao qualquer de subconjuntos abertos de (M, dM ) ´e um subconjunto aberto de (M, dM )).
  • 129.
    4.1. CONJUNTOS ABERTOS129 Demonstra¸c˜ao: De 1.: Segue da observa¸c˜ao (4.1.7) itens 5. e 7. . De 2.: Mostremos que todo ponto a ∈ A1 ∩ · · · An ´e ponto interior de A1 ∩ · · · An. Para isto observemos que se a ∈ A1 ∩ · · · An ent˜ao a ∈ Aj, j = 1, · · · , n. Para cada j = 1, · · · , n temos que Aj ´e um subconjunto aberto de M assim a ∈ AJ dever´a ser ponto interior do mesmo, isto ´e, existe rj 0 tal que B(a; rj) ⊆ Aj, j = 1, · · · , n. Seja r . = min{rj : j = 1, · · · , n} 0. Para todo j = 1, · · · , n temos que 0 r ≤ rj assim B(a; r) ⊆ B(a; rj) ⊆ Aj, ou seja, B(a; r) ⊆ A1 ∩ · · · An, mostrando que o ponto a ∈ A1 ∩ · · · An ´e ponto interior de A1 ∩ · · · An, isto ´e, A1 ∩ · · · An ´e um subconjunto aberto de M, como quer´ıamos mostrar. De 3.: Mostremos que todo ponto a ∈ λ∈L Aλ ´e ponto interior de λ∈L Aλ. Para isto observemos que se a ∈ λ∈L Aλ ent˜ao a ∈ Aλ0 para algum λ0 ∈ L. Mas Aλ0 ´e um subconjunto aberto de (M, dM ) assim, como a ∈ Aλ0 , segue que existe r0 0 tal que B(a; r0) ⊆ Aλ0 ⊆ λ∈L Aλ, ou seja, a ´e ponto interior de λ∈L Aλ mostrando que este ´e um subconjunto aberto de (M, dM ), como quer´ıamos mostrar. Como conseq¨uˆencia temos o Corol´ario 4.1.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico e A ⊆ M, a = ∅. A ´e subconjunto aberto de (M, dM ) se, e somente se, A ´e um reuni˜ao de bolas abertas de (M, dM ). Demonstra¸c˜ao: Suficiˆencia (⇐): Seja A = λ∈L Bλ onde para cada λ ∈ L temos que Bλ ´e uma bola aberta de (M, dM ). Da proposi¸c˜ao (4.1.1) segue que Bλ ´e um subconjunto aberto de (M, dM ) para todo λ ∈ L. Logo, da proposi¸c˜ao (4.1.5) item 3., segue que A = λ∈L Bλ ´e um subconjunto aberto de (M, dM ), como quer´ıamos mostrar. Necessidade (⇒): Seja A ´e um subconjunto aberto, n˜ao vazio, de (M, dM ).
  • 130.
    130 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS Para cada a ∈ A, como A um subconjunto aberto de (M, dM ), segue que existe ra 0 tal que B(a; ra) ⊆ A. Assim temos que {a} ⊆ B(a; ra) ⊆ A logo a∈A B(a; ra) ⊆ A = a∈A {a} [{a}⊆B(a;ra)] ⊆ a∈A B(a; ra), ou seja, A = a∈A B(a; ra), como quer´ıamos demonstrar. Observa¸c˜ao 4.1.9 1. O corol´ario acima nos diz que as bolas abertas formam uma ”base de abertos” para o espa¸co m´etrico (M, dM ) (no sentido que todo subconjunto aberto n˜ao vazio de (M, dM ) pode ser escrito como reuni˜ao de bolas abertas de (M, dN )). 2. Observemos que, em geral, a intersec¸c˜ao qualquer de subconjunto abertos de um espa¸co m´etrico (M, dM ) pode n˜ao ser um subconjunto aberto do espa¸co m´etrico (M, dM ). De fato, suponhamos que (M, dM ) e a ∈ M um ponto n˜ao isolado de M. Ent˜ao {a} ´e um subsconjunto que n˜ao ´e aberto do espa¸co m´etrico (M, dM ) (veja observa¸c˜ao (4.1.7) item 3.). Observemos que se x = a ent˜ao d(x, a) 0 logo existe n ∈ N tal que d(x, a) 1 n , logo x ∈ B(a; 1 n ), ou seja {a} = n∈N B(a; 1 n ). Logo o conjunto {a}, n˜ao aberto em (M, dM ), {a} pode ser obtido como intersec¸c˜ao (n˜ao finita) de bolas abertas (que s˜ao conjuntos abertos de (M, dM )). Temos a Proposi¸c˜ao 4.1.6 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e X ⊆ M n˜ao vazio munido da m´etrica induzida pela m´etrica dM . B ⊆ X ´e um subconjunto aberto de (X, dM ) se, e somente se, existe A ⊆ M subconjunto aberto de (M, dM ) tal que B = A ∩ X. Demonstra¸c˜ao: Do corol´ario (4.1.2) temos que B ⊆ X ´e um subconjunto aberto em (X, dM ) se, e somente se, B = λ∈L BX λ , onde, para cada λ ∈ L, BX λ ´e uma bola aberta em (X, dM ).
  • 131.
    4.1. CONJUNTOS ABERTOS131 Da proposi¸c˜ao (2.2.1) temos que toda bola aberta de X dever´a ser da forma BX λ = Bλ ∩ X, onde Bλ denota uma bola aberta em M. Logo B ⊆ X ´e um subconjunto aberto em (X, dM ) se, e somente se, B = λ∈L [Bλ ∩ X]. Mas B = λ∈L [Bλ ∩ X] = [ λ∈L Bλ] ∩ X = A ∩ M, onde A . = λ∈L Bλ. Do corol´ario (4.1.2) temos que A ⊆ M ´e um subconjunto aberto de (M, dM ) se, e somente se, A ´e uma reuni˜ao de bolas abertas de (M, dM ). Resumindo temos: B ⊆ X ´e um subconjunto aberto em (X, dM ) ⇔ B = λ∈L BX λ ⇔ B = λ∈L [Bλ ∩ X] ⇔ B = [ λ∈L Bλ] ∩ X ⇔ B = A ∩ X, A ´e um subconjunto aberto em (M, dM ), completando a demonstra¸c˜ao. Observa¸c˜ao 4.1.10 O resultado acima nos diz que um conjunto ´e aberto num subespa¸co m´etrico de um espa¸co m´etrico se, e somente se, ele pode ser escrito como intersec¸c˜ao de um aberto do espa¸co m´etrico com o subespa¸co m´etrico. Por exemplo: dados a b consideremos X = [a, b] com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de M = R e 0 ε b − a. Ent˜ao B . = [a, a + ε) ´e um subsconjunto aberto de X = [a, b] pois B = (a − ε, a + ε) ∩ [a, b] = BR(a, ε) ∩ X. Observemos que B n˜ao ´e um subconjunto aberto de R. Consideremos o Exerc´ıcio 4.1.2 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos. Afirmamos que o conjunto formado pelas aplica¸c˜oes f : M → N que s˜ao limitadas e des- cont´ınuas em algum ponto de M ´e um subconjunto aberto de B(M; N). Mostremos, primeiramente que, dado a ∈ M, o conjunto, que indicaremos por Da, formado pelas aplica¸c˜oes f : M → N que s˜ao limitadas e descont´ınuas no ponto a ´e um subconjunto aberto de B(M; N). Precisamos mostrar que todo f ∈ Da ´e ponto interior de Da, ou seja, existe ε 0 tal que BB(M;N)(f; ε) ⊆ Da. Como f ∈ Da temos que f ´e descont´ınua no ponto a, ou seja, existe ε 0 tal que para todo δ 0, existe xδ ∈ M tal que dM (xδ, a) δ e dN (f(xδ), f(a)) 3.ε.
  • 132.
    132 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS Afirmamos que se g ∈ B(M; N) e dB(M;N)(g, f) ε ent˜ao g ∈ Da. De fato, pois 3.ε dM (f(xδ), f(a)) ≤ dM (f(xδ), g(xδ)) + dM (g(xδ), g(a)) + dM (g(a), f(a)). Como dB(M;N)(g, f) ε temos que dM (f(xδ), g(xδ)) ε e dM (g(a), f(a)) ε, assim teremos 3.ε ε + dM (g(xδ), g(a)) + ε, implicando que ε dM (g(xδ), g(a)), isto ´e, g n˜ao ´e cont´ınua no ponto a, logo g ∈ Da. Portanto se g ∈ BB(M;N)(f; ε) segue que g ∈ Da, isto ´e, BB(M;N)(f; ε) ⊆ Da, mostrando que Da ´e um subconjunto aberto de B(M; N). Para finalizar observemos que se denotarmos por D, o conjunto de todas as aplica¸c˜oes f : M → N limitadas e descont´ınuas em algum ponto de M ent˜ao teremos: D = a∈Da Da que ser´a um subconjunto aberto de BB(M;N) (pois ´e reuni˜ao de subconjuntos abertos de BB(M;N)), como quer´ıamos mostrar. 9.10.2008 - 17.a Para finalizar temos a: Defini¸c˜ao 4.1.3 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e a ∈ M. Diremos que V ⊆ M ´e uma vizinhan¸ca do ponto a em M se a ∈ int(V ). Observa¸c˜ao 4.1.11 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸co m´etrico e a ∈ M. 1. V ´e uma vizinhan¸ca do ponto a em M se, e somente se, existe um aberto contido em V que contenha o ponto a (a saber, qualquer subconjunto aberto de (M, dM ) que esteja contido em int(V ) e que contenha o ponto a). 2. A intersec¸c˜ao de um n´umero finito de vizinhan¸cas do ponto a em M ´e ainda uma vizin- han¸ca do ponto a em M pois se Vj ´e vizinhan¸ca do ponto a em M para j = 1, · · · , n ent˜ao a ∈ int(Vj), j = 1, · · · , n. Logo a ∈ n j=1 int(Vj) = int[ n j=1 Vj] que, pela proposi¸c˜ao (4.1.5) item 2., ´e um subconjunto aberto de (M, dM ) e est´a contido em n j=1 Vj, ou seja, V . = n j=1 Vj ´e uma vizinhan¸ca do ponto a em M. 3. Se V ´e uma vizinha¸ca do ponto a em M e V ⊆ W ent˜ao W tamb´em ser´a uma vizinha¸ca do ponto a em M (pois como a ∈ int(V ) e int(V ) ⊆ int(W) segue que a ∈ int(W)).
  • 133.
    4.2. RELAC¸ ˜OESENTRE CONJUNTOS ABERTOS E CONTINUIDADE 133 4. Um subconjunto A ´e aberto em (M, dM ) se, e somente se, ele for uma vizinhan¸ca de cada um de seus pontos. De fato, se A ´e um subconjunto aberto e a ∈ A ent˜ao A ´e uma vizinhan¸ca do ponto a em M (pois a ∈ int(A) = A, pois A ´e um subconjunto aberto de (M, dM )). Por outro lado se A ´e uma vizinhan¸ca de qualquer um de seus pontos segue que se a ∈ A ent˜ao a ∈ int(A), ou seja, a ´e ponto interior de A implicando que todo ponto de A ´e ponto interior de A, isto ´e, o subconjunto A ´e aberto em (M, dM ), como quer´ıamos mostrar. 5. Uma aplica¸c˜ao f : M → N ´e cont´ınua no ponto a ∈ M se, e somente se, para toda vizinhan¸ca, V , do ponto f(a) em N existir uma vizinhan¸ca, U, do ponto a, em M tal que f(U) ⊆ V. De fato, suponhamos que a fun¸c˜ao f seja cont´ınua no ponto A. Ent˜ao dada uma vizinhan¸ca V do ponto f(a) em N temos que f(a) ∈ int(V ), logo existe uma bola aberta em N centrada em f(a) e raio ε 0 tal que BN (f(a); ε) ⊆ int(V ). Da observa¸c˜ao (3.1.1) item 1. segue que dever´a existir δ = δ(ε, a) 0 tal que f(BM (a; δ)) ⊆ BN (f(a); ε) ⊆ int(V ) ⊆ V, (4.3) Logo, existir´a uma vizinhan¸ca do ponto a em M, U . = BM (a; δ), que tem a seguinte propriedade: f(U) = f(BM (a; δ)) ⊆ BN (f(a); ε) ⊆ V, isto ´e, f(U) ⊆ V , como quer´ıamos mostrar. Por outro lado, se para toda vizinhan¸ca, V , do ponto f(a) em N existir uma vizinhan¸ca, U, do ponto a em M tal que f(U) ⊆ V mostremos que a aplica¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a. Para isto, dado ε 0 temos que V . = BN (f(a); ε ´e uma vizinhan¸ca do ponto f(a) em N. Logo, por hip´otese, deve existir uma vizinhan¸ca U do ponto a em M tal que f(U) ⊆ V = BN (f(a); ε). Como U ´e vizinhan¸ca de a em M temos que a ∈ int(U), logo segue que exitir´a δ 0 tal que BM (a; δ) ⊆ U. Portanto f(BM (a; δ)) ⊆ f(U) ⊆ BN (f(a); ε), que pela observa¸c˜ao (3.1.1) item 1. implicar´a que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a, completando a prova da afirma¸c˜ao. 4.2 Rela¸c˜oes entre conjuntos abertos e continuidade Iniciaremos a se¸c˜ao com o principal resultado da mesma, a saber: Teorema 4.2.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N. Uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que a fun¸c˜ao f seja cont´ınua ´e que para todo V subconjunto aberto em N, a imagem inversa deste, f−1(V ) ⊆ M, seja um subconjunto aberto em M, onde f−1 (V ) . = {x ∈ M : f(x) ∈ V }.
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    134 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS Demonstra¸c˜ao: Necessidade (⇒): Suponhamos que a fun¸c˜ao f seja cont´ınua em M e que V seja um subconjunto aberto de N. Se f−1(V ) = ∅ nada temos a fazer pois ∅ ´e um subconjunto aberto de M (ver observa¸c˜ao (4.1.7) item 7.). Se f−1(V ) = ∅ consideremos a ∈ f−1(V ). Precisamos mostrar que a ´e ponto interior de f−1(V ). Observemos que f(a) ∈ V e V ´e um subconjunto aberto de N, logo existe ε 0 tal que BN (f(a); ε) ⊆ V . Como a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua em a, dever´a existir δ 0 tal que f(BM (a; δ)) ⊆ BN (f(a); ε) ⊆ V, ou seja, BM (a; δ) ⊆ f−1(V ) (pois se x ∈ BM (a; δ) ent˜ao f(x) ∈ V ). Portanto todo ponto a ∈ f−1(V ) ´e um ponto interior de f−1(V ), ou seja f−1(V ) ´e aberto. E f−1 (V ) a ‚ δ f(a) b ε V M N f Suficiˆencia (⇐): Suponhamos que para todo V , subconjunto aberto de N temos que f−1(V ) seja um subcon- junto aberto de M. Mostremos que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua em a ∈ M. Para isto, dado ε 0, como V . = BN (f(a); ε) ´e um subconjunto aberto de N temos, por hip´otese, que f−1(V ) ´e um subconjunto aberto de M. Mas a ∈ f−1(V ) (pois f(a) ∈ V ) logo a dever´a ser ponto interior de f−1(V ), ou seja, existir´a δ 0 tal que BM (a; δ) ⊆ f−1(V ), isto ´e f(BM (a; δ) ⊆ V = BN (f(a); ε). Logo, a observa¸c˜ao (3.1.1) item 1. implicar´a que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a, comple- tando a demonstra¸c˜ao. Como conseq¨uˆencias do resultado acima temos os: Corol´ario 4.2.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N. A fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a ∈ M se, e somente se, para cada subconjunto aberto, V , de N contendo o ponto f(a), deve existir um subconjunto aberto, U, de N contendo o ponto a, tal que f(U) ⊆ V .
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    4.2. RELAC¸ ˜OESENTRE CONJUNTOS ABERTOS E CONTINUIDADE 135 Demonstra¸c˜ao: Basta olhar, com cuidado, a demonstra¸c˜ao do teorema acima. Corol´ario 4.2.2 Sejam (Mj, dj) espa¸cos m´etricos e Aj ⊆ Mj subconjuntos abertos de (Mj, dj), j = 1, · · · , n. Ent˜ao A . = A1 × · · · × An ´e um subconjunto aberto de M . = M1 × · · · × Mn onde neste ´ultimo consideramos um das trˆes m´etricas usuais. Demonstra¸c˜ao: Do exemplo (3.1.13) temos que, para cada j = 1, · · · , n, a j-´esima proje¸c˜ao, pj : M → Mj dada por pj(x) . = xj, onde x = (x1, · · · , xn) ∈ M = M1 × · · · × Mn, ´e uma aplica¸c˜ao cont´ınua em M. Logo, do teorema (4.2.1) segue que, para cada j = 1, · · · , n, p−1 j (Aj) ´e um subconjunto aberto de M. Da proposi¸c˜ao (4.1.5) item 2. temos que p−1 1 (A1) ∩ · · · p−1 n (An) ´e um subconjunto aberto em M. Mas pj(M1 × · · · × Mj−1 × Aj × Mj+1 × Mn) = Aj, j = 1, · · · , n logo M1 × · · · × Mj−1 × Aj × Mj+1 × Mn = p−1 j (Aj), j = 1, · · · , n. Como (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato) A1 × · · · × An = p−1 1 (A1) ∩ · · · p−1 n (An), (veja figura abaixo o caso n = 2) E T M1 M2 A1 A2 p−1 1 (A1) p−1 2 (A2)A1 × A2 temos que A1 × · · · × An ´e um subconjunto aberto em M, como quer´ıamos demonstrar.
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    136 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS Corol´ario 4.2.3 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, R com uma das trˆes m´etricas usuais e f1, · · · , fn : M → R cont´ınuas em M. Ent˜ao o conjunto A . = {x ∈ M : f1(x) 0, · · · , fn(x) 0} ´e um subconjunto aberto de M. Demonstra¸c˜ao: Consideremos f : M → Rn dada por f(x) . = (f1(x), · · · , fn(x)), x ∈ M. Como f1, · · · , fn s˜ao cont´ınuas em M segue, da proposi¸c˜ao (3.2.2), que f ser´a cont´ınua em M. Consideremos B . = {y = (y1, · · · , yn) ∈ Rn : xj 0, j = 1, · · · , n}. Pelo corol´ario anterior segue que B = (0, ∞) × · · · × (0, ∞) n−fatores ´e um subconjunto aberto de Rn. Observemos que x ∈ A = {x ∈ M : f1(x) 0, · · · , fn(x) 0} se, e somente se f(x) ∈ B = {y = (y1, · · · , yn) ∈ Rn : yj 0, j = 1, · · · , n}, isto ´e, A = f−1(B). Como f ´e cont´ınua em M segue, do teorema (4.2.1), que A = {x ∈ M : f1(x) 0, · · · , fn(x) 0} ser´a um subconjunto aberto de M, como quer´ıamos demonstrar. Observa¸c˜ao 4.2.1 1. Uma outra demonstra¸c˜ao do resultado acima ´e utilizando o fato que f−1 j ((0, ∞) ´e aberto em M (pois fj ´e cont´ınua em M e (0, ∞) ´e um subconjunto aberto de R) para j = 1, · · · , n. Logo A = n j=1 f−1 j ((0, ∞)) isto ´e, uma intersec¸c˜ao finita de subconjuntos abertos de M, logo ser´a aberto em M. 2. Como conseq¨uˆencia imediata do corol´ario acima temos que se as fun¸c˜oes f1, · · · , fn : M → R s˜ao cont´ınuas e poisitivas no ponto a ∈ M ent˜ao existir´a uma bola aberta em M centrada no ponto a, B(a; r), tal que f1(x), · · · , fn(x) 0, x ∈ B(a; r).
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    4.2. RELAC¸ ˜OESENTRE CONJUNTOS ABERTOS E CONTINUIDADE 137 De fato, se fj(a) 0 para todo j = 1, · · · , n ent˜ao a ∈ A = {x ∈ M : f1(x) 0, · · · , fn(x) 0} que ´e um subconjunto aberto em M. Logo existir´a r 0 tal que B(a; r) ⊆ A, isto ´e, se x ∈ B(a; r) teremos f1(x), · · · , fn(x) 0, como quer´ıamos mostrar. Corol´ario 4.2.4 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f, g : M → N fun¸c˜oes cont´ınuas em M. Ent˜ao o conjunto A . = {x ∈ M : f(x) = g(x)} ´e um subconjunto aberto de M. Em particular, o conjunto A . = {x ∈ M : f(x) = 0} ´e um subconjunto aberto de M. Demonstra¸c˜ao: Consideremos ϕ : M → R dada por ϕ(x) . = dN (f(x), g(x)), x ∈ M, onde em R estaremos considerando a m´etrica usual. Como f, g, dN s˜ao cont´ınuas nos seus respectivos espa¸cos m´etricos segue que ϕ ser´a cont´ınua em M. Observemos que f(x) = g(x) se, e somente se, dN (f(x), g(x)) 0. Logo A = {x ∈ M : ϕ(x) 0} que, pelo corol´ario (4.2.3), ´e um subconjunto aberto de M, como quer´ıamos demonstrar. Para a ´ultima parte basta tomar g(x) = 0, x ∈ M e aplicar a 1.a parte do corol´ario. Observa¸c˜ao 4.2.2 1. H´a um outro modo de mostrar que uma bola aberta, B(a; r), em um espa¸co m´etrico (M, dM ) ´e um subconjunto aberto de M. Para isto, consideremos f : M → R dada por f(x) . = r − dM (a, x), x ∈ M. A fun¸c˜ao f ´e cont´ınua em M. Notemos que x ∈ B(a; r) se, e somente se, d(x, a) r ou, equivalentemente, f(x) 0. Logo B(a; r) = {x ∈ M : f(x) 0}. Logo, do corol´ario (4.2.3), segue que B(a; r) ´e um subconjunto aberto de M.
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    138 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS 2. De modo an´alogo, podemos dar uma outra demosntra¸c˜ao para o fato que o conjunto A . = M B(a; r) ´e um subconjunto aberto de M. Para tanto, consideremos g : M → R dada por g(x) . = dN (a, x) − r, x ∈ M. Temos que a fun¸c˜ao g ´e cont´ınua em M. Notemos que x ∈ M B(a; r) se, e somente se, d(x, a) r ou, equivalentemente, g(x) 0. Logo M B(a; r) = {x ∈ M : g(x) 0}. Logo, do corol´ario (4.2.3), segue que M B(a; r) ´e um subconjunto aberto de M. 3. Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos. Observemos que se f : M → N ´e cont´ınua em M e A ⊆ M ´e um subconjunto aberto de M isto n˜ao implica, necessariamente, que f(A) ⊆ N seja um subconjunto aberto de N. Para ilustrar isso, consideremos o seguinte exemlo: seja f : R → R dada por f(x) = x2 , x ∈ R (onde em R estamos considerando a m´etrica usual). Sabemos que f ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em R, que A . = (−1, 1) ´e um subconjunto aberto de R mas f(A) = [0, 1) n˜ao ´e um subconjunto aberto de R. E T −1 10 1 x f(x) y = x2 Devido a ´ultima observa¸c˜ao acima temos a Defini¸c˜ao 4.2.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N uma fun¸c˜ao. Diremos que a fun¸c˜ao f ´e aberta se para todo A ⊆ M subconjunto aberto de M temos que f(A) ⊆ N ´e um subconjunto aberto de N.
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    4.2. RELAC¸ ˜OESENTRE CONJUNTOS ABERTOS E CONTINUIDADE 139 Observa¸c˜ao 4.2.3 1. Logo uma aplica¸c˜ao entre dois espa¸cos m´etricos ´e aberta se, e somente se, ela leva subcon- juntos abertos de M em subconjuntos abertos de N. 2. O exemplo dado na observa¸c˜ao (4.2.2) item 3. nos mostra que uma aplica¸c˜ao entre dois espa¸cos m´etricos pode ser cont´ınua e n˜ao ser aberta. 3. De outro lado, nem toda aplica¸c˜ao entre dois espa¸cos m´etricos que ´e uma aplica¸c˜ao aberta precisa, necessariamente, ser cont´ınua. Para ilustrar este fato consideremos (M, dM ) espa¸co m´etrico e (N, dN ) o espa¸co m´etrico discreto. Ent˜ao toda aplica¸c˜ao f : M → N ser´a aberta em M mas n˜ao, necessariamente, cont´ınua em M. Por exemplo se considerarmos f : M → N uma aplica¸c˜ao injetora e p ´e um ponto n˜ao isolado de M ent˜ao f ´e uma aplica¸c˜ao aberta (pois qualquer subconjunto de N ´e um subconjunto aberto de N) mas n˜ao ser´a cont´ınua em p, pois se defirmos q = f(p) ent˜ao como f ´e injetora segue que f−1({q}) = {p} que n˜ao ´e um subconjunto aberto de M apesar de {q} ser um subconjunto aberto de N (pois q ´e ponto isolado de N e p n˜ao ´e um ponto isolado). 4. Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N uma bije¸c˜ao. Como conseq¨uˆencia do teorema (4.2.1), f ´e cont´ınua em M se, e somente se, f−1 : N → M ´e uma aplica¸c˜ao aberta em N. E ' f−1 CONT´INUA ABERTA M N f (bijetora) V f−1 (V ) Baseado no ´ultimo item da observa¸c˜ao acima temos a Proposi¸c˜ao 4.2.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N uma bije¸c˜ao. f ´e um homeomorfismo de M em N se, e somente se, f induz uma bije¸c˜ao entre os abertos de M e N, isto ´e, U ´e um subconjunto aberto de M se, e somente se, V . = f(U) ´e um subconjunto aberto de N, isto ´e, f e f−1 s˜ao aplica¸c˜oes abertas em M e N, respectivamente.
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    140 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS E ' f−1 CONT´INUA CONT´INUA E ' f−1 ABERTA f (bijetora) ABERTA M Nf (bijetora) V = f(U) U = f−1 (V ) Demonstra¸c˜ao: Basta observar que f ´e um homeomorfismo de M em N se, e somente se, f e f−1 s˜ao cont´ınuas em M e N, respectivamente e utilizar o teorema (4.2.1). Observa¸c˜ao 4.2.4 Um outro modo de interpretar o resultado acima seria: suponhamos que f : M → N bijetora. f ´e um homeomorfismo de M em N se, e somente se, f e f−1 s˜ao aplica¸c˜oes abertas. Corol´ario 4.2.5 Sejam (M, d1) e (M, d2) espa¸cos m´etricos. d1 ∼ d2 se, e somente se, todo subconjunto aberto em (M, d1) ´e aberto em (M, d2) e recipro- camente. E ' i21 CONT´INUA CONT´INUA E ' i21 ABERTA i12 ABERTA (M, d1) (M, d2)i12 U = i−1 12 (V ) = i21(V ) V = i12(U) = i−1 21 (U) U V Demonstra¸c˜ao: Lembremos que para as m´etricas d1 e d2 serem equivalentes ´e necess´ario e suficiente que a aplica¸c˜ao identidada i12 : (M, d1) → (M, d2) seja um homeomorfismo. Devido a proposi¸c˜ao acima ´e necess´ario e suficiente que as aplica¸c˜oes identidades i12 : (M, d1) → (M, d2) e i21 : (M, d2) → (M, d1) sejam abertas, ou seja, todo todo subconjunto aberto em (M, d1) ´e aberto em (M, d2) e re- ciprocamente.
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    4.2. RELAC¸ ˜OESENTRE CONJUNTOS ABERTOS E CONTINUIDADE 141 Observa¸c˜ao 4.2.5 Como conseq¨uˆencia do resultado acima os subconjuntos abertos do produto cartesiano de espa¸cos m´etricos independem de uma das trˆes m´etricas usuais que utilizarmos no espa¸co produto (pois, como vimos no cap´ıtulo anteior, elas s˜ao equivalentes). Um outro resultado interessante sobre abertos no produto cartesiano ´e dado pela Proposi¸c˜ao 4.2.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) e (M × N, dM×N ) espa¸cos m´etricos onde dM×N ´e uma das trˆes m´etricas usuais do espa¸co produto. Um subconjunto A ⊆ M × N ´e um subconjunto aberto em M × N se, e somente se, A ´e reuni˜ao de ”retˆangulos abertos”, isto ´e, A = λ∈Λ [Uλ × Vλ], onde, para cada λ ∈ Λ temos que Uλ ⊆ M ´e um subconjunto aberto de M e Vλ ⊆ N ´e um subconjunto aberto de N. Demonstra¸c˜ao: Suficiˆencia (⇐): Suponhamos que A = λ∈Λ [Uλ × Vλ], onde, para cada λ ∈ Λ temos que Uλ ⊆ M ´e um subconjunto aberto de M e Vλ ⊆ N ´e um subconjunto aberto de N. Do corol´ario (4.2.1) segue que, para todo λ ∈ Λ, temos que Uλ × Vλ ⊆ M × N ´e um subconjunto aberto de M × N. Logo, da proposi¸c˜ao (4.1.5) item 3., segue que A ´e um subconjunto aberto de M × N. Necessidade (⇒): Suponhamos que A ⊆ M × N ´e um subconjunto aberto de M × N. Pelo corol´ario (4.2.5), podemos supor, sem perdade de generalidade, que a m´etrica em M ×N ´e a m´etrica do m´aximo, isto ´e, dmax((x, y), (x , y )) = max{dM (x, x ), dN (y, y )}, onde (x, x ), (y, y ) ∈ M ×N (pois as outras duas m´etricas usuais s˜ao equivalentes a esta e temos o corol´ario (4.2.5)). Mas em (M × N, dmax) uma bola aberta ´e o produto cartesiano de uma bola aberta de M por uma bola aberta de N (*). Como A ´e aberto em (M × N, dmax), dado z ∈ A temos que existe uma bola aberta, Bz, em (M × N, dmax) tal que z ∈ Bz. Mas pelo que vimos em (*) Bz = UM z × V N z onde UM z e V N z s˜ao bolas abertas em M e N, respectivamente. Portanto A = z∈A Bz = z∈A [UM z × V N z ], mostrando que todo subconjunto aberto de M ×N pode ser escrito como reuni˜ao de ”retˆangulos abertos” (isto ´e, produto cartesiano de bolas abertas de M e N, respectivamente). Como conseq¨uˆencia temos o
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    142 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS Corol´ario 4.2.6 Sejam (M, dM ), (N, dN ) e (M × N, dM×N ) espa¸cos m´etricos onde dM×N ´e uma das trˆes m´etricas usuais do espa¸co produto. As proje¸c˜oes p1 : M × N → M e p2 : M × N → N s˜ao aplica¸c˜oes abertas em M e N, respectivamente. Demonstra¸c˜ao: Suponhamos que A ⊆ M × N seja um subconjunto aberto em M × N. Da proposi¸c˜ao (4.2.2) segue que A = λ∈Λ [Uλ × Vλ], onde Uλ e Vλ s˜ao subconjuntos abertos em M e N, respectivamente. Mas p1(A) = p1( λ∈Λ [Uλ × Vλ]) [exerc´ıcio para o leitor] = λ∈Λ p1(Uλ × Vλ) [p1(Uλ×Vλ)=Uλ] = λ∈Λ Uλ e como Uλ ´e um subconjunto aberto de M segue, da proposi¸c˜ao (4.1.5) item 3., que p1(A) ser´a um subconjunto aberto de M. De modo semelhante mostram-se que p2(A) [exerc´ıcio para o leitor] = λ∈Λ Vλ ser´a um subconjutno aberto de N, completando a demonstra¸c˜ao do corol´ario. Para finalizar esta se¸c˜ao temos a Observa¸c˜ao 4.2.6 Podemos estender a proposi¸c˜ao (4.2.2) e o corol´ario (4.2.6) para o produto cartesiano de um n´umero finito de espa¸cos m´etricos. 14.10.2008 - 19.a 4.3 Espa¸cos topol´ogicos Como veremos a seguir no estudo da continuidade de fun¸c˜oes n˜ao precisamos, necessariamente, ter m´etricas envolvidas no dom´ınio e contra dom´ınio da fun¸c˜ao em quest˜ao. Na verdade, o que precisamos ´e saber como s˜ao os conjuntos ”abertos”do dom´ınio e do contra dom´ınio da fun¸c˜ao. O que faremos a seguir ´e definir e estudar o que s˜ao esses conjuntos ”abertos”. Defini¸c˜ao 4.3.1 Seja X um conjunto. Diremos que uma cole¸c˜ao τ de subconjuntos das partes de X (isto ´e, τ ⊆ P(X)) ´e uma topologia em X se as seguintes condi¸c˜oes est˜ao satisfeitas: (T1) ∅, X ∈ τ; (T2) Se A1, A2, · · · , An ∈ τ ent˜ao n i=1 Ai ∈ τ;
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    4.3. ESPAC¸OS TOPOL´OGICOS 143 (T3) Se (Aλ)λ∈L ´e uma fam´ılia tal que Aλ ∈ τ para λ ∈ L ent˜ao λ∈L Aλ ∈ τ. Neste caso, os elementos de τ ser˜ao denominados abertos de X. Ao par (X, τ) daremos o nome de espa¸co topol´ogico. Observa¸c˜ao 4.3.1 Resumindo, uma topologia ´e uma cole¸c˜ao formada por subconjuntos de X que cont´em ∅, X, que a intersec¸c˜ao finita de elementos da cole¸c˜ao esteja na cole¸c˜ao e que a reuni˜ao qualquer de elementos da cole¸c˜ao tamb´em dever´a estar na cole¸c˜ao. Exemplo 4.3.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico. Consideremos τ a cole¸c˜ao de todos os subconjuntos abertos de M relativamente `a m´etrica d. Afirmamos que τ ´e uma topologia em M. De fato: (T1) Da Proposi¸c˜ao (4.1.5) item 1. ∅ e M s˜ao abertos em rela¸c˜ao a m´etrica d, logo ∅, M ∈ τ; (T2) Se A1, · · · , An ∈ τ ent˜ao A1, · · · , An s˜ao abertos relativamente a m´etrica d. Da Proposi¸c˜ao (4.1.5) item 2. segue que n i=1 Ai ser´a um subconjunto aberto relativamente a m´etrica d, isto ´e, n i=1 Ai ∈ τ; (T3) Se Aλ ∈ τ para todo λ ∈ L ent˜ao Aλ s˜ao abertos relativamente a m´etrica d para todo λ ∈ L. Da Proposi¸c˜ao (4.1.5) item 3. segue que λ∈L Aλ ser´a um subconjunto aberto relativamente a m´etrica d, isto ´e, λ∈L Aλ ∈ τ, mostrando com isto que τ ´e uma topologia em M. Nota¸c˜ao 4.3.1 A topologia τ acima ser´a dita topologia induzida pela m´etrica d de M. Defini¸c˜ao 4.3.2 Diremos que uma topologia τ em X ´e metriz´avel se existir uma m´etrica d em X tal que todo subconjunto aberto da topologia τ ´e subconjunto aberto segundo a m´etrica d e reciprocamente, todo subconjunto aberto relativamente a m´etrica d ´e um subconjunto aberto da topologia τ. Observa¸c˜ao 4.3.2 1. O exemplo (4.3.1) nos mostrar que todo espa¸co m´etrico ´e um espa¸co topol´ogico (com a topologia induzida pela m´etrica). Pergunta-se: Todo espa¸co topol´ogico ´e metriz´avel? A resposta ´e negativa, em geral. Na lista de exerc´ıcios h´a um exerc´ıcio que exibe um exemplo de um espa¸co topol´ogico que n˜ao ´e metriz´avel (Exerc´ıcio 41 Cap´ıtulo 3).
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    144 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS 2. Sejam d1 e d2 m´etricas em M. Ent˜ao d1 e d2 s˜ao equivalentes se, e somente se, elas determinam a mesma topologia em M. De fato, do corol´ario (4.2.5) segue que todo aberto segundo uma das m´etricas ser´a aberto segundo a outra m´etrica, ou seja, as topologias induzidas pelas m´etricas d1 e d2 coincidem. Um tipo importante de espa¸co topol´ogico ´e o dado pela Defini¸c˜ao 4.3.3 Diremos que um espa¸co topol´ogico (X, τ) ´e um espa¸co de Hausdorff se dados x, y ∈ X, x = y existirem A, B ∈ τ tais que x ∈ A, y ∈ B e A ∩ B = ∅. Observa¸c˜ao 4.3.3 1. Um espa¸co topol´ogico ´e de Hausdorff se, e somente se, dados dois pontos distintos, existem abertos, disjuntos, cada um deles contendo um dos pontos dados. Empiricamente, a topologia ”separa pontos”(vide figura abaixo). x y A ∈ τ B ∈ τ 2. Afirmamos que todo espa¸co topol´ogico metriz´avel ´e um espa¸co de Hausdorff. De fato, dados dois pontos distintos, a proposi¸c˜ao (2.2.3), garante que existem bolas aber- tas, disjuntas, centradas nos pontos em quest˜ao e, da proposi¸c˜ao (4.1.1) temos que bolas abertas s˜ao conjuntos abertos, completando a prova da afirma¸c˜ao. A seguir exibiremos alguns exemplos de topologias que ser˜ao ´uteis em v´arias situa¸c˜oes que ser˜ao abordadas mais adiante. Exemplo 4.3.2 Seja X e consideremos τ = P(X), ou seja, τ ´e formado por todos os subcon- juntos de X. Segue que τ ´e uma toplogia em X pois: (T1) ∅ e X s˜ao subconjuntos de X, logo ∅, X ∈ τ; (T2) Se A1, · · · , An ∈ τ, isto ´e, se A1, · · · , An s˜ao subconjuntos de X ent˜ao . n i=1 Ai ser´a um subconjunto X, ou seja, n i=1 Ai ∈ τ;
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    4.3. ESPAC¸OS TOPOL´OGICOS 145 (T3) Se Aλ ∈ τ para todo λ ∈ L ent˜ao Aλ ser´a subconjunto de X para todo λ ∈ L. Logo λ∈L Aλ ser´a um subconjunto de X, ou seja, λ∈L Aλ ∈ τ, mostrando com isto que τ ´e uma topologia em X. Observa¸c˜ao 4.3.4 Na topologia acima todo subconjunto de X ser´a um subconjunto aberto (se- gundo a topologia acima). Nenhuma outra topologia de X poder´a conter mais abertos do que a topologia acima. Nota¸c˜ao 4.3.2 A topologia acima ser´a dita topologia discreta em X. Um outro exemplo interessante (e importante) ´e Exemplo 4.3.3 Seja X e consideremos τ = {∅, X}, ou seja, τ ´e formado somente por estes dois subconjuntos de X. Segue que τ ´e uma toplogia em X pois: (T1) ∅, X ∈ τ ; (T2) Se A1, · · · , An ∈ τ ent˜ao Ai =    ∅ ou X , i = 1, · · · , n. Logo n i=1 Ai =    ∅ ou X , ou seja, n i=1 Ai ∈ τ; (T3) Se Aλ ∈ τ para todo λ ∈ L ent˜ao Aλ =    ∅ ou X para todo λ ∈ L. Logo λ∈L Aλ =    ∅ ou X , ou seja, λ∈L Aλ ∈ τ, mostrando com isto que τ ´e uma topologia em X. Nota¸c˜ao 4.3.3 A topologia do exemplo (4.3.3) ser´a dita topologia ca´otica em X. Observa¸c˜ao 4.3.5 1. Na topologia acima os ´unicos subconjuntos abertos ser˜ao o conjunto ∅ e X. Nenhuma outra topologia de X poder´a conter menos abertos do que a topologia acima. 2. Se o conjunto X possue pelo menos dois pontos distintos ent˜ao o espa¸co topol´ogico (X, τ), onde τ ´e a topologia acima n˜ao ser´a um espa¸co de Hausdorff (pois o ´unico aberto diferente do ∅ ´e X). 3. Quando estamos trabalhando com espa¸cos topol´ogicos, (X, τX), (Y, τY ) (n˜ao m´etricos) uma fun¸c˜ao f : X → Y ser´a dita cont´ınua em X se, e somente se, para todo B ⊆ Y aberto em Y tenhamos f−1(B) ⊆ X aberto em X.
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    146 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS 4.4 Conjuntos fechado Come¸caremos pela Defini¸c˜ao 4.4.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e X ⊆ M. Diremos que o ponto a ∈ M ´e aderente a X quando d(a, X) = 0. Observa¸c˜ao 4.4.1 1. Logo o ponto a ∈ M ser´a aderente a X se, e somente se, 0 = d(a, X) = inf{d(a, x) : x ∈ X} que ´e equivalente a. dado ε 0 exitir xε ∈ X tal que d(xε, a) ε. Geometricamente temos a s ε xε ∈ X 2. Outros modos, equivalentes, de dizer que um ponto a ∈ M ´e ponto aderente de X seriam: (a) Para todo ε 0 temos que B(a; ε) ∩ X = ∅; (b) Para todo subsconjunto A ⊆ M aberto em M contendo o ponto a temos que A∩X = ∅; (c) Toda vizinhan¸ca do ponto a tem, pelo menos, um ponto de X. A verifica¸c˜ao destas equivalˆencias ´e imediata e sua reda¸c˜ao ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Exemplo 4.4.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico e X ⊆ M n˜ao vazio. Ent˜ao todo ponto a ∈ X ´e ponto aderente de X (pois toda vizinhan¸ca do ponto a cont´em o ponto a que pertence a X). Al´em disso, os pontos da fronteira de X (isto ´e, de ∂X) s˜ao pontos aderentes a X (pois, da defini¸c˜ao de fronteira, se um ponto est´a na fronteira toda vizinha¸ca dele possui pontos que est˜ao em X). Em particular, o ponto 1 ∈ R ´e ponto aderente a X = [0, 1) onde neste consideramos a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R (mas n˜ao pertence a X). Com isto temos a Defini¸c˜ao 4.4.2 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M. Definimos o fecho de X (em M), indicado por X, como sendo o conjunto formado por todos os pontos de M que s˜ao aderentes a X.
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    4.4. CONJUNTOS FECHADO147 Observa¸c˜ao 4.4.2 1. Assim, a ∈ X se, e somente se, o ponto a ∈ M ´e ponto aderente a X. 2. Pode-se ver que: (a) ∅ = ∅; (b) M = M; (c) Se X ⊆ Y ⊆ M ent˜ao X ⊆ Y . A verifica¸c˜ao destes fatos ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. 3. Da defini¸c˜ao temos que: a ∈ X se, e somente se, d(a, X) = 0. Em particular, se (E, . ) ´e um espa¸co vetorial noramdo, da Proposi¸c˜ao (2.4.1), segue que b ∈ B(a; r) se, e somente se, b ∈ B[a; r], ou seja, B(a; r) = B[a; r]. 4. Em geral, num espa¸co m´etrico, isto n˜ao ser´a verdade. Para ver isto, consideremos M . = [0, 1] ∪ {2} ⊆ R com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R. Notemos que B(0; 2) = [0, 1], logo B(0; 2) = [0, 1]. Mas B[0; 2] = M, ou seja, B(0; 2) ⊆ B[0; 2]. Em geral temos: Proposi¸c˜ao 4.4.1 Seja (M, d) ´e um espa¸co m´etrico, a ∈ M e r 0. Ent˜ao B(a; r) ⊆ B[a; r]. Demonstra¸c˜ao: Seja b ∈ B(a; r), isto ´e, b ´e ponto aderente a bola aberta B(a; r). Suponhamos, por absurdo, que b ∈ B[a; r], isto ´e, d(b, a) r. Consideremos s . = d(b, a) − r 0. Ent˜ao para todo x ∈ B(a; r) temos que d(b, x) ≥ d(a, b) − d(a, x) [d(a,x)r] d(a, b) − r = s, ou seja, d(b, B(a; r)) = inf{d(b, x) : x ∈ B(a; r)} ≥ s 0, mostrando que b n˜ao ´e ponto aderente de B(a; r), o que ´e um absurdo, logo d(b, a) ≤ r, isto ´e, b ∈ B[a; r], como quer´ıamos mostrar. Observa¸c˜ao 4.4.3
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    148 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS 1. Para que um ponto a ∈ M n˜ao seja aderente a um subconjunto X de M basta que exista uma bola aberta centrada no ponto a que n˜ao contenha nunhum elemento de X, isto ´e, existe r 0 tal que B(a; r) ∩ X = ∅. 2. Observemos que B(a; r)∩X = ∅ se, e somente se, B(a; r) ⊆ M X, ou, equivalentemente, o ponto a ´e ponto interior de M X. a s ε X Com isto temos que: a ∈ X se, e somente se, a ∈ int[M X]. 3. Com isto temos as seguintes identidades: M X = int[M X], isto ´e, [X]c = int[Xc ]. 4. Sabemos que M = int(X) ∪ ∂X ∪ int[M − X], onde a reuni˜ao ´e disjunta. Logo X = int(X) ∪ ∂(X) e a reuni˜ao ser´a disjunta. Um conceito importante ´e dado pela Defini¸c˜ao 4.4.3 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M. Diremos que X ´e denso em M se X = M. Observa¸c˜ao 4.4.4 Temos que X ⊆ M ´e denso em M, se e somente se, todo ponto de M for ponto aderente de X, ou seja, toda bola aberta centra em um ponto a ∈ M contiver, pelo menos, um ponto de X. Equivalentemente, todo aberto, A, n˜ao vazio, de M contendo o ponto a satisfaz A ∩ X = ∅.
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    4.4. CONJUNTOS FECHADO149 a ∈ M I r x ∈ X Exemplo 4.4.2 O conjunto formado pelos n´umeros racionais, Q, ´e denso em R. O conjunto formado pelos n´umros irracionais, I = R Q, ´e denso em R. De fato, pois todo bola aberta centrada em um n´umero real (sito ´e, intervalo aberto) cont´em n´umeros raionais e irracionais, mostrando que todo n´umero real ´e ponto aderente de Q e de I. Proposi¸c˜ao 4.4.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, X ⊆ M e Y ⊆ N. Se X ´e denso em M e Y ´e denso em N ent˜ao X × Y ´e denso em M × N munido de uma das trˆes m´etricas usuais. Demonstra¸c˜ao: Seja A ⊆ M × N aberto, n˜ao vazio, em M × N. Da Proposi¸c˜ao (4.2.2) segue que existem abertos U ⊆ M e V ⊆ N tal que U × V ⊆ A. Como X ´e denso em M, Y ´e denso em N, U ⊆ M e V ⊆ N s˜ao abertos em M e N, respectivamente, segue que existem x ∈ U ∩ X e y ∈ V ∩ Y . Logo o ponto z . = (x, y) ∈ (U × V ) ∩ (X × Y ) ou ainda, z . = (x, y) ∈ A ∩ (X × Y ), mostrando que X × Y ´e denso em M × N. Como conseq¨uˆencia temos o Corol´ario 4.4.1 Sejam (M1, d1), · · · , (Mn, dn) espa¸cos m´etricos, Xj ⊆ Mj , j = 1, · · · , n. Se Xj ´e denso em Mj para todo j = 1, · · · , n ent˜ao X1 ×· · ·×Xn ´e denso em M1 ×· · ·×Mn. Demonstra¸c˜ao: A demonstra¸c˜ao ´e feita por indu¸c˜ao e ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Tamb´em como conseq¨uˆencia temos Corol´ario 4.4.2 Qn e In s˜ao densos em Rn, onde Qn (ou In) s˜ao as n-uplas cujas entradas s˜ao n´umeros racionais (ou irracionais). Demonstra¸c˜ao: Segue do fato que Q e I s˜ao densos em R e do corol´ario acima. Temos a
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    150 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS Proposi¸c˜ao 4.4.3 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico, a ∈ M e X ⊆ M n˜ao vazio. Ent˜ao d(a, X) = d(a, X). Demonstra¸c˜ao: Como X ⊆ X segue que d(a, X) = inf{d(x, a) : x ∈ X} [X⊆X] ≤ inf{d(y, a) : y ∈ X} = d(a, X). (∗) Afirmamos que se d(a, X) m ent˜ao d(a, X) m. (∗∗) De fato, se d(a, X) m ent˜ao existe x0 ∈ X tal que d(a, x0) m. Como x0 ´e ponto aderente de X segue que, dado ε . = m − d(a, x0) 0, existe x1 ∈ X tal que d(x1, x0) ε = m − d(a, x0). Logo d(a, X) ≤ d(a, x1) ≤ d(a, x0) + d(x0, x1) d(a, x0) + (m − d(a, x0)) = m, ou seja, d(a, X) m. Assim d(a, X) ≤ d(a, X), (∗ ∗ ∗) pois, suponhamos, por absurdo que d(a, X) d(a, X). Logo existe m ∈ (d(a, X, d(a, X)), isto ´e, d(a, X m d(a, X) contrariando (**). Portanto de (*) e (***) temos que d(a, X) = d(a, X), como quer´ıamos demonstrar. Como conseq¨uˆencia temos o Corol´ario 4.4.3 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M n˜ao vazio. Ent˜ao X = X. Demonstra¸c˜ao: Sabemos que X ⊆ X. Por outro lado, se a ∈ X ent˜ao a ´e ponto aderente a X, isto ´e, d(a, X) = 0. Mas da proposi¸c˜ao acima temos que 0 = d(a, X) = d(a, X), isto ´e, a ´e ponto aderente a X, ou ainda, a ∈ X, como quer´ıamos demonstrar. 16.10.2008 - 20.a Temos a Defini¸c˜ao 4.4.4 Seja (M, d) espa¸co m´etrico. Diremos que F ⊆ M ´e um subconjunto fechado de M se seu complementar, M F, for um subconjunto aberto de M.
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    4.4. CONJUNTOS FECHADO151 O resultado a seguir relaciona o conceito de um conjunto ser fechado com o de fecho do conjunto, a saber Proposi¸c˜ao 4.4.4 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e F ⊆ M. Ent˜ao F = F se, e somente se, M F ´e um subconjunto aberto de M (isto ´e, F ´e um subconjunto fechado de M). Demonstra¸c˜ao: Observemos que: F = F, se, e somente se, os pontos que n˜ao pertecem a F n˜ao s˜ao pontos aderentes a F ou, equivalentemente, para todo ponto a ∈ M F existe uma bola aberta, B(a; r), tal que B(a; r) ∩ F = ∅ ( isto ´e, B(a; r) ⊆ M F). Isto ´e equivalente a dizer que para todo ponto de a ∈ M F existe uma bola aberta, B(a; r), tal que B(a; r) ⊆ M F, ou seja, que M F ´e um subconjunto aberto de M. Observa¸c˜ao 4.4.5 A proposi¸c˜ao acima nos diz que um subconjunto de um espa¸co m´etrico ´e fechado se, e somente se, ele cont´em todos seus pontos aderentes. De modo an´alogo, a proposi¸c˜ao acima nos diz que um subconjunto de um espa¸co m´etrico ´e fechado se, e somente se, ele ´e igual ao seu fecho. Como conseq¨uˆencia imediata temos o Corol´ario 4.4.4 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M. Ent˜ao X ´e um subconjunto fechado de M. Demonstra¸c˜ao: Do corol´ario (4.4.3) sabemos que X = X, assim, da proposi¸c˜ao acima segue que X ´e um subconjunto fechado de M. Observa¸c˜ao 4.4.6 1. Na situa¸c˜ao acima temos que X ´e o menor subconjunto fechado de M que cont´em F, isto ´e, se F ⊆ M ´e um subconjunto fechado em M e X ⊆ F ent˜ao X ⊆ F. De fato, se X ⊆ F ent˜ao, da observa¸c˜ao (4.4.2 ) item 2. (c), segue que X ⊆ F [proposi¸c˜ao (4.4.4)] = F. Deste modo podemos obter o fecho de um subconjunto X de M da seguinte forma: X = F ´e fechado em M e X⊆F F. 2. Um subconjunto X de M n˜ao ´e fechado se, e somente se, existe a ∈ X que ´e ponto aderente a X. Equivalentemente, existe a ∈ X e para cada ε 0 temos B(a; r) ∩ X = ∅. Conclus˜ao: tal ponto a dever´a pertencer a fronteira de X. Em particular mostramos que: X ´e subconjunto fechado de M se, e somente se, ∂X ⊆ X.
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    152 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS 3. Todo cuidado ´e pouco! ”ser fechado” n˜ao ´e o contr´ario de ”ser aberto”, isto ´e, existem subconjuntos de um espa¸co m´etrico que podem n˜ao ser nem fechado e nem aberto. Por exemplo o subconjunto Q em R n˜ao ´e aberto (pois todo intervalo aberto contendo um n´umero racional conter´a um n´umero irracional). Por outro lado ele tamb´em n˜ao ser´a fechado em R (pois todo n´umero irracional ´e aderente a Q). Conclus˜ao: Q n˜ao ´e nem um subconjunto aberto e nem um subconjunto fechado em R. 4. Pode acontecer de um subconjunto de um espa¸co m´etrico ser aberto e fechado neste espa¸co m´etrico. Um exemplo geral disto ´e ver que espa¸co todo e o conjunto vazio s˜ao subconjuntos abertos e fechados nele mesmo. Um outro exemplo ´e considerar M . = R {0} = (−∞, 0) ∪ (0, ∞) com a m´etrica induzida pela m´etrica usuas de R. Observemos que (−∞, 0) e (0, ∞) s˜ao subconjuntos abertos em M. Alem disso temos que (−∞, 0)c = (0, ∞) e (0, ∞)c = (−∞, 0) (o complementar ´e tomado em M(−∞, 0) ∪ (0, ∞)). Logo os complementares (em M) de (−∞, 0) e de (0, ∞) s˜ao subconjunto abertos de M, ou seja, (−∞, 0) e de (0, ∞) tamb´em s˜ao subconjunto fechados de M. 5. Seja (M, d) um espa¸co m´etrico discreto. Como todo subconjunto de M ´e aberto segue todo subconjunto de M ´e fechado (pois seu complementar ´e um subconjunto de M, logo aberto em M) Exerc´ıcio 4.4.1 Consideremos Q munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R. Temos que ( √ 2, ∞)Q = {x ∈ Q : √ 2 x ∞} ´e um subconjunto aberto de Q (por que?). Observemos que ( √ 2, ∞)c Q = {x ∈ Q : −∞ x √ 2} (o complementar do conjunto em Q) que ´e um subconjunto aberto em Q. Logo ( √ 2, ∞)Q ´e um subconjunto fechado em Q. Portanto ( √ 2, ∞)Q ´e um subconjunto aberto e fechado em Q. Exemplo 4.4.3 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico, a ∈ M e r 0. Ent˜ao B[a; r] ´e um subconjunto fechado de M pois, da proposi¸c˜ao (4.1.2) segue que MB[a; r] ´e um subconjunto aberto de M. Exemplo 4.4.4 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico e X ⊆ M subconjunto de M. Ent˜ao ∂X ´e subconjunto fechado de M. De fato, a observa¸c˜ao (4.4.3) item 4. implica que [∂X]c = M ∂X = int(X) ∪ int(M X).
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    4.4. CONJUNTOS FECHADO153 Como int(X) e int(M X) s˜ao subconjuntos abertos de M segue que int(X) ∪ int(M X) ser´a um subconjunto aberto de M, ou seja, [∂X]c ser´a um subconjunto aberto de M, mostrando que ∂X ´e um subconjunto fechado de M. int(X) int(M X) c ∂X Exemplo 4.4.5 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico e F = {a1, · · · , an} (isto ´e, um subconjunto finito de M). Ent˜ao F ´e fechado em M. De fato, se a ∈ F ent˜ao d(a, F) = inf{d(a, aj) : j = 1, · · · , n} = d(a, aj0 ), para j0 ∈ {1, · · · , n}. Mas d(a, aj0 ) 0 pois a ∈ F. Logo d(a, F) 0, isto ´e, a ∈ F n˜ao ser´a ponto aderente de F. Conclus˜ao: os ´unicos pontos aderentes de F s˜ao os pontos de F, isto ´e, F cont´em todos os seus pontos aderentes, ou seja, F ´e um subcojnuto fechado de M. Observa¸c˜ao 4.4.7 Na situa¸c˜ao acima, se a ∈ M ent˜ao {a} ´e um subcojnuto fechado de M. Em geral temos as seguintes propriedades para subconjuntos fechados de um esap¸co m´etrico Proposi¸c˜ao 4.4.5 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico. Ent˜ao 1. O conjunto vazio, ∅ e o espa¸co inteiro, M, s˜ao subconjuntos fechados de M; 2. A reuni˜ao finita de subconjuntos fechados de M ´e um subconjunto fechado de M, isto ´e, se Fi ´e um subconjunto fechado de M, i = 1, 2, · · · , n ent˜ao n i=1 Fi ´e um subconjunto fechado de M; 3. A intersec¸c˜ao qualquer de subconjuntos fechados de M ´e um subconjunto fechado de M, isto ´e, se Fλ ´e um subconjunto fechado de M, para todo λ ∈ A, ent˜ao λ∈A Fλ ´e um subconjunto fechado de M.
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    154 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS Demonstra¸c˜ao: Lembremos que todo espa¸co m´etrico ´e um esta¸co topol´ogico (munido da topologia gerada pelos abertos definidos pela m´etrica). De 1.: Do exemplo (4.3.1), item (T1), segue que ∅ e M s˜ao subconjuntos abertos de M. Mas ∅c = M e Mc = ∅, ou seja, os complementares de ∅ e M s˜ao subconjuntos abertos de M, mostrando que ∅ e M s˜ao subconjuntos fechados de M. De 2.: Sabemos que, para cada i ∈ {1, 2, · · · , n}, Fi ´e um subconjunto fechado de M, ou seja, que Fc i ´e um subconjunto aberto de M. Logo do exemplo (4.3.1), item (T2), segue que n i=1 Fc i ser´a um subconjunto aberto de M. Mas [ n i=1 Fi]c = n i=1 Fc i , e [ n i=1 Fi]c ´e um subconjunto aberto de M implicando que n i=1 Fi ser´a um subconjunto fechado de M. De 3.: Sabemos que, para cada λ ∈ A, Fλ ´e um subconjunto fechado de M, ou seja, que Fc λ ´e um subconjunto aberto de M. Logo do exemplo (4.3.1), item (T3), segue que n λ∈A Fc λ ser´a um subconjunto aberto de M. Mas [ λ∈A Fλ]c = λ∈A Fc λ, e [ λ∈A Fλ]c ´e um subconjunto aberto de M implicando que λ∈A Fλ ser´a um subconjunto fechado de M, completando a demonstra¸c˜ao da proposi¸c˜ao. Um outro resultado importante ´e Proposi¸c˜ao 4.4.6 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e uma aplica¸c˜ao f : M → N. Ent˜ao f ´e cont´ınua em M se, e somente se, para todo F, subconjunto fechado de N, tivermos que f−1(F) ´e um subconjunto fechado de M. Demonstra¸c˜ao: Pode-se mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que, para todo G ⊆ N, temos f−1 (Gc ) = [f−1 (G)]c . (∗) Logo, se f ´e cont´ınua em M e F ´e um subconjunto fechado de N ent˜ao Fc um subconjunto aberto de N.
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    4.4. CONJUNTOS FECHADO155 Como f ´e cont´ınua em M segue do teorema (4.2.1) que f−1(Fc) ser´a um subconjunto aberto de M, logo, de (*), temos que [f−1(F)]c ser´a um subconjunto aberto de M mostrando que f−1(F) ser´a um subconjunto fechado de M. Reciprocamente, se para todo F, subconjunto fechado de N, tivermos que f−1(F) ´e um subconjunto fechado de M ent˜ao dado A, um subconjunto aberto de N temos que Ac ser´a um subconjunto fechado de N. Logo, por hip´otese, temso que f−1(Ac) ser´a subconjunto fechado de M. Assim, de (*), segue que [f−1(A)]c ser´a subconjunto fechado de M, ou seja, f−1(A) ser´a subconjunto aberto de M. Portanto, do teorema (4.2.1) segue que f ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em M, completando a prova da proposi¸c˜ao. Observa¸c˜ao 4.4.8 Conclus˜ao: uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que uma fun¸c˜ao entre espa¸cos m´etricos seja cont´ınua ´e que imagem inversa de subconjuntos fechados sejam subcon- juntos fechados. Antes do pr´oximos resultados introduziremos a seguinte Defini¸c˜ao 4.4.5 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e uma aplica¸c˜ao f : M → N. Diremos que a fun¸c˜ao f ´e fechada se para todo A subconjunto fechado de M tivermos que f(A) ´e um subconjunto fechado de N. Com isto temos o Corol´ario 4.4.5 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e uma aplica¸c˜ao f : M → N bijetora. Ent˜ao f ´e um homeomorfismo de M em N se, e somente se, f ´e cont´ınua e fechada em M. Demonstra¸c˜ao: Se f ´e um homeomorfismo de M em N ent˜ao f e f−1 ser˜ao cont´ınuas em N. E f A ' f−1 f(A) = [f−1 ]−1 (A) M N Logo se A ´e subconjunto fechado de M, da proposi¸c˜ao acima deveremos ter que [f−1]−1(A) ´e um subconjunto fechado de N. Como f ´e bijetora temos que f(A) = [f−1 ]−1 (A). (∗)
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    156 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS Logo f(A) ´e um subconjunto fechado de N. Reciprocamente, se f ´e fechada em M e A ´e um subconjunto aberto em M ent˜ao Ac ser´a um subconjunto fechado em M. Logo f(Ac) ser´a um subconjunto fechado em N. Como [f(A)]c = f(Ac) temos que f(A) ser´a um subconjunto aberto em N. Assim, de (*), segue que [f−1]−1(A) ser´a um subconjunto aberto de N. Logo, do teorema (4.2.1) segue que a fun¸c˜ao f−1 ser´a cont´ınua em N, ou seja, f ´e um homeomorfismo de M em N, completando a demonstra¸c˜ao. Observa¸c˜ao 4.4.9 Conclus˜ao: uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que uma fun¸c˜ao bi- jetora entre espa¸cos m´etricos seja um homeomorfismo ´e que imagem inversa de subconjuntos fechados sejam subconjuntos fechados e que imagem de subconjuntos fechados sejam subconjun- tos fechados. Uma outra conseq¨uˆencia da proposi¸c˜ao acima ´e Corol´ario 4.4.6 Sejam (M1, d1), · · · (Mn, dn) espa¸cos m´etricos e Fi ⊆ Mi subconjuntos fechados de Mi, i = 2, · · · , n. Ent˜ao F1 × · · · × Fn ´e um subconjunto fechado de M1 × · · · × Mn (este munido de uma das trˆes m´etricas b´asicas). Demonstra¸c˜ao: Sabemos, do exemplo (3.1.13), que as proje¸c˜oes pi : M1 × · · · × Mn → Mi, dadas por pi(x1, · · · , xi, · · · , xn) = xi, (x1, · · · , xn) ∈ M1 × · · · × Mn s˜ao cont´ınuas para todo i = 1, 2, · · · , n. Al´em disso vimos anteriormente que F1 × · · · × Fn = p−1 1 (F1) ∩ · · · p−1 n (Fn). (∗) Assim, como para cada i = 1, · · · , n temos que Fi ⊆ Mi ´e um subconjunto fechado de Mi, i = 2, · · · , n, da proposi¸c˜ao acima segue que p−1 i (Fi) ⊆ M1 × · · · × Mn ser´a um subconjunto fechado de M1 × · · · × Mn. Portanto da proposi¸c˜ao (4.4.5) item 3. segue que p−1 1 (F1) ∩ · · · p−1 n (Fn) ser´a um subconjunto fechado de M1 × · · · × Mn e assim, de (*), segue que F1 × · · · × Fn ser´a um subconjunto fechado de M1 × · · · × Mn, como quer´ıamos demonstrar. A seguir daremos mais duas conseq¨uˆencias da proposi¸c˜ao acima: Corol´ario 4.4.7 Sejam (M, dM ), (R, d) espa¸cos m´etricos (onde a m´etrica d em R ´e a usual) e (fλ)λ∈L uma fam´ılia de fun¸c˜oes reais, fλ : M → R, cont´ınuas em M. Ent˜ao o conjunto {x ∈ M : fλ(x) ≥ 0, para todo λ ∈ L} ´e um subconjunto fechado de M.
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    4.4. CONJUNTOS FECHADO157 Demonstra¸c˜ao: Para cada λ ∈ L temos que fλ ´e cont´ınua em M. Como [0, ∞) ´e um subconjunto fechado de R (pois seu complementar em R ser´a (−∞, 0) que ´e um subconjunto aberto de R), da proposi¸c˜ao acima, segue que f−1 λ ([0, ∞)) ser´a um subconjunto fechado de M. Observemos que f−1 λ ([0, ∞)) = {x ∈ M : fλ(x) ≥ 0}. Assim, da proposi¸c˜ao (4.4.5) item 3., segue que λ∈L f−1 λ ([0, ∞)) ser´a um subconjunto fechado de M. Finalmente, observemos que {x ∈ M : fλ(x) ≥ 0, para todo λ ∈ L} = λ∈L f−1 λ ([0, ∞)), mostrando que {x ∈ M : fλ(x) ≥ 0, para todo λ ∈ L} ´e um subconjunto fechado de M, como quer´ıamos mostrar. Corol´ario 4.4.8 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N, cont´ınua em M. Ent˜ao o gr´afico de f, G(f), ´e um subconjunto fechado de M × N (munido de uma das trˆes m´etricas usuais), isto ´e, o conjunto G(f) = {(x, f(x) ∈ M × N : x ∈ M} ´e um subconjunto fechado de M × N. Em particular, a diagonal ∆ . = {(x, y) : M × M : y = x} ´e um subconjunto fechado de M × M. Demonstra¸c˜ao: Observemos que a fun¸c˜ao ϕ : M × N → R dada por ϕ(x, y) . = dN (f(x), y), (x, y) ∈ M × N ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em M × N (onde em R consideramos a m´etrica usual) pois ´e composta de fun¸c˜oes cont´ınuas (veja diagrama abaixo).
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    158 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS E T M N E (f, id) T E N N c dN E ‚ ϕ = d ◦ (f, id) (x, y) (f(x), y) ϕ(x, y) = dN (f(x), y) Al´em disso, (x, y) ∈ G(F) se, e somente se, y = f(x) ou, equivalentemente, dN (f(x), y) = 0, ou ainda, ϕ(x, y) = 0. Conclus˜ao: G(f) = {(x, y) ∈ M × N : y = f(x)} = {(x, f(x)) ∈ M × N : x ∈ M} = {(x, y) ∈ M × N : ϕ(x, y) = 0} = ϕ−1 ({0}) Do exemplo (4.4.5) temos que {0} ´e um subconjunto fechado de R. Logo da proposi¸c˜ao acima segue que ϕ−1({0}) ´e um subconjunto fechado de M × N, ´ısto ´e, G(f) ´e um subconjunto fechado de M × N, como quer´ıamos provar. Para mostrar que a diagonal de M × M, ∆, ´e um subconjunto fechado de M × M basta observar que ∆ ´e o gr´afico da aplica¸c˜ao identidade, isto ´e, ∆ = G(id) e que a aplica¸c˜ao identidade ´e cont´ınua em M. Portanto do corol´ario segue que seu gr´afico ser´a um subconjunto fechado de M ×M, ou seja, a diagonal de M × M, ∆, ´e um subconjunto fechado de M × M. Observa¸c˜ao 4.4.10 1. Sejam (M1, d1), · · · (Mn, dn) espa¸cos m´etricos e F ´e um subconjunto fechado de M1×· · · Mn isto n˜ao implica, necessariamente, que a proje¸c˜ao de F em cada um dos fatores de M1 × · · · Mn seja um subconjunto fechado no correspondente fator. Para ver isto, consideraremos o seguinte exemplo: Sejam M1 = M2 = R munido da m´etrica usual, M1 × M2 = R2 munido da m´etrica usual e F . = {(x, y) ∈ R2 : x.y = 1}. Observemos que se m : R2 → R ´e dada por m(x, y) . = x.y, (x, y) ∈ R2
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    4.4. CONJUNTOS FECHADO159 ent˜ao vimos anteriormente que m ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em R2. Logo, da proposi¸c˜ao (4.4.6) segue que F = m−1({1}) ser´a um subconjunto fechado de R2 (pois {1} ´e um subconjunto fechado de R). Mas p1(F) = R {0} que n˜ao ´e um subconjunto fechado em M1 = R. Geometricamente temos T E x y (0, 0) (x, 1 x ) 2. A reuni˜ao qualquer de subconjuntos fechados de um espa¸co m´etrico pode n˜ao ser um subcojunto fechado do mesmo. Para ver isto basta considerar um espa¸co m´etrico (M, dM ) que tenha um subconjunto, A que seja aberto e n˜ao seja fechado. Observemos que se x ∈ M ent˜ao {x} ser´a um subconjunto fechado de M. Mas A = a∈A {a}, ou seja, a reuni˜ao dos subsconjuntos fechados {a}, a ∈ A, ´e o conjunto A, que ´e um subconjunto aberto de M que n˜ao ´e um subconjunto fechado de M. Exemplo 4.4.6 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico, a ∈ M e r 0. Ent˜ao S[a; r] ´e um subconjunto fechado de M. De fato, se considerarmos da : M → R dada por da(x) . = dM (a, x), x ∈ M ent˜ao vimos anteriormente que a fun¸c˜ao da ser´a cont´ınua em M (onde em R tomamos a m´etrica usual). Podemos ver que S[a; r] = {x ∈ M : d(x, a) = r} = d−1 a ({r}). Mas {r} em um subconjunto fechado de R. Logo da proposi¸c˜ao acima segue que S[a; r] ´e um subconjunto fechado de M. Observa¸c˜ao 4.4.11 1. Se f : M → R ent˜ao dado c ∈ R o conjunto f−1({c}), ou seja, o conjunto formado pelos pontos de M onde a fun¸c˜ao vale c (que pode ser vazio!) ser´a denominado superf´ıcie de n´ıvel c da fun¸c˜ao f. Se a fun¸c˜ao f for cont´ınua em M ((M, dM ) um espa¸co m´etrico e R munido da m´etrica usual) ent˜ao, a proposi¸c˜ao acima garante que todas as superf´ıcies de n´ıvel de f s˜ao sub- conjunto fechados de M.
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    160 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS 2. As no¸c˜oes de fecho e conjunto fechado s˜ao relativas, isto ´e, dizem respeito ao espa¸co m´etrico considerado. Por exemplo, se M = [0, 1) com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R e A = ( 1 2 , 1) ent˜ao o fecho de A em M ser´a ˜A = [1 2 , 1) enquanto o fecho de A em R ser´a ¯A = [1 2 , 1]. A rela¸c˜ao entre fecho num subespa¸co m´etrico e o fecho no espa¸co todo ´e dado pela: Proposi¸c˜ao 4.4.7 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e S ⊆ M com a m´etrica induzida de M. Se X ⊆ S indicaremos por X S , o fecho de X em S e por X M , o fecho de X em M. Ent˜ao X S = X M ∩ S. Demonstra¸c˜ao: Indicaremos por dM a m´etrica em M e por dS a m´etrica induzida em S pela m´etrica dM de M. Observemos que se a ∈ S ent˜ao dM (a, X) = inf{dM (a, x) : x ∈ X} que ´e a mesma se considerarmos X como subconjunto de S, ou seja, dS(a, X) = inf{dS(a, x) : x ∈ X}. Logo X S = {a ∈ S : dS(a, X) = 0} = {a ∈ M : dM (a, X) = 0} ∩ S = X M ∩ S, como quer´ıamos mostrar. Como conseq¨uˆencia temos o Corol´ario 4.4.9 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e S ⊆ M com a m´etrica induzida de M. Se S ´e um subconjunto fechado de M e X ⊆ S ent˜ao X S = X M . Demonstra¸c˜ao: Observemos que X ⊆ S [observa¸c˜ao (4.4.2 ) item 2.c.] ⇒ X M ⊆ S M [S ´e fechado em M] = S [corol´ario acima] ⇒ X M ∩ S = X S . completando a demonstra¸c˜ao. Observa¸c˜ao 4.4.12 Segue do corol´ario acima que se S ´e um subconjunto fechado de M ent˜ao X ⊆ S ´e um subconjunto fechado de S se, e somente se, X ´e um subconjunto fechado de M (pois um conjunto ´e fechado se, e somente se, ele ´e igual ao seu fecho). Temos tamb´em a
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    4.4. CONJUNTOS FECHADO161 Proposi¸c˜ao 4.4.8 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, F1, F2 subconjuntos fechados de M tal que M = F1 ∪ F2 e f : M → N. Suponhamos que as restri¸c˜oes f|Fi : Fi → N, i = 1, 2 s˜ao cont´ınuas em F1 e F2, respectiva- mente. Ent˜ao f ´e cont´ınua em M. Demonstra¸c˜ao: Se H ´e um subconjunto fechado de N, como M = F1 ∪ F2, pode-se provar que (ser´a deixado como exerc´ıco para o leitor; vide figura aabixo) f−1 (H) = f−1 |F1 (H) ∪ f−1 |F2 (H). Ef M N H F1 F2 f−1 |F1 (H) E E f|F1 f|F2 f−1 |F2 (H) f−1(H) E E Comof|F1 e f|F2 s˜ao cont´ınuas em F1 e F2, respectivamente, segue, da proposi¸c˜ao (4.4.6) que f−1 |F1 (H) e f−1 |F2 (H) s˜ao fechados em F1 e F2, respectivamente. Como F1 e F2 s˜ao fechados em M segue do corol´ario acima que f−1 |F1 (H) e f−1 |F2 (H) s˜ao fechados em M. Logo, da proposi¸c˜ao (4.4.5) item 2., segue que f−1(H) ´e fechado em M e aplicando a proposi¸c˜ao (4.4.6) temos que f ser´a cont´ınua em M, completando a demonstra¸c˜ao do resul- tado. Um outra conseq¨uˆencia importante ´e Exerc´ıcio 4.4.2 Sejam (N, dN ) um espa¸co m´etrico, [a, b], [c, d] munidos da m´etrica usual de R e f : [a, b] → N e g : [c, d] → N cont´ınuas em [a, b] e [c, d], respectivamente e que satisfazem f(b) = g(b). Ent˜ao a fun¸c¸c˜ao h : [a, c] → N dada por h(t) = f(t), a ≤ t ≤ b g(t), b ≤ t ≤ c ´e cont´ınua em [a, c]. De fato, observemos que F1 . = [a, b] e F2 . = [c, d] s˜ao subconjuntos fechados de M . = [a, c] = F1 ∪ F2 (ser´a deixado como exerc´ıco para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato). Al´em disso temos, por hip´otese, que h|[a,b] = f e h|[b,c] = g s˜ao cont´ınuas em F1 = [a, b] e F2[c, d], respectivamente. Logo da proposi¸c˜ao acima temos que h ser´a cont´ınua em [a, c], como quer´ıamos mostrar.
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    162 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS 17.10.2008 - 21.a Para finalizar temos a Defini¸c˜ao 4.4.6 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e X ⊆ M. Diremos que um ponto a ∈ M ´e ponto de acumula¸c˜ao de X se toda bola aberta de centro em a cont´em, pelo menos, um ponto de X, diferente do ponto a, isto ´e, para todo r 0 temos [B(a; r) ∩ X] {a} = ∅. Indicaremos por X o conjunto formado por todos os pontos de acumula¸c˜ao do conjunto X e a este daremos o nome de derivado de X. Observa¸c˜ao 4.4.13 1. Tenos que X ⊆ ¯X, isto ´e, todo ponto de acumula¸c˜ao de um conjunto ´e um ponto aderente ao conjunto. A rec´ıproca ´e falsa, como mostra o seguinte exemplo: Consideremos R com a m´etrica usual e X = [0, 1] ∪ {2}. Temos que 2 ´e ponto aderente a X mas n˜ao ´e ponto de acumula¸c˜ao de X (isto ´e, 2 ∈ ¯X X ). 2. Na situa¸c˜ao acima temos que a ∈ X ⇐⇒ a ∈ X {a}. De fato, se a ∈ X ent˜ao para todo r 0 temos [B(a; r) ∩ X] {a} = ∅. Afirmamos que a ∈ X {a} c . De fato, suponhamos, por absurdo, que a ∈ [X {a}] c. Sabemos que X {a} c ´e um subconjuto aberto de M, logo todo ponto de [X {a}] ,c ser´a ponto interior do mesmo. Em particular, a ∈ X {a} c logo dever´a existir r 0 tal que B(a; r) ⊆ X {a} c , ou seja, B(a; r) ∩ X {a} = ∅. Como X {a} ⊆ X {a} segue que B(a; r) ∩ X {a} = ∅, o que ´e uma absurdo, pois a ∈ X . Logo a ∈ [X {a}]c assim a ∈ X {a}.
  • 163.
    4.4. CONJUNTOS FECHADO163 Reciprocamente, se a ∈ X {a} ent˜ao temos que a ∈ [X {a}] c, este ´e um subconjunto aberto de M. Logo a n˜ao ser´a ponto interior de [X {a}] c, ou seja, para todo r 0 temos que B(a; r) n˜ao estar´a contida em [X {a}] c, ou ainda, B(a; r) ∩ X {a} = ∅. Logo se b ∈ B(a; r) ∩ X {a} segue que para todo s 0 temos B(b; s) ∩ X {a} = ∅. (∗) Como B(a; r) ´e aberto e b ∈ B(a; r) existe 0 s0 r tal que B(b; s0) ⊆ B(a; r), implicando que B(a; r) ∩ X {a} = ∅. (∗∗) De (*) e (**) temos que, a ∈ X . 3. Como conseq¨uˆencia temos: para todo subconjunto finito F de M temos que F = ∅. 4. Se X ´e um subconjunto de M ent˜ao temos ¯X = X ∪ X . Com X, X ⊆ ¯X segue que X ∪ X ⊆ ¯X. Por outro lado, se a ∈ ¯X ent˜ao ou a ∈ X ou a ∈ X. Neste ´ultimo caso toda bola centrada em a dever´a conter, pelo menos, um ponto diferente do ponto a (pois caso contr´ario o ponto a pertenceria ao aberto X c, o que seria um absurdo), logo a ∈ X . Para finalizar o cap´ıtulo consideremos o seguinte Exemplo 4.4.7 Consideremos em R a m´etrica usual, X = Q, Y = Z, U = [0, 1], V = {0, 1, 1 2 , · · · , 1 n , · · · }, W = {(1 + 1 n )n : n ∈ N}. Ent˜ao pode-se mostrar que (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor): X = R, Y = ∅, , U = U, V = {0}, W = {e}. Ou seja, nestes casos teremos: X = ⊆ X , Y = ⊆ Y, U = U, V = ⊆ V, W ⊆ W.
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    164 CAP´ITULO 4.CONJUNTOS ABERTOS, FECHADOS - ESPAC¸OS TOPOL ´OGICOS
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    Cap´ıtulo 5 Conjuntos Conexos 5.1Defini¸c˜oes e exemplos Come¸caremos pela Defini¸c˜ao 5.1.1 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico. Uma cis˜ao de M ´e uma decomposi¸c˜ao de M do tipo M = A ∪ B onde A, B s˜ao subconjuntos abertos e disjuntos de M. Uma cis˜ao de M = A ∪ B ser´a dita cis˜ao trivial se A ou B for o conjunto vazio. Observa¸c˜ao 5.1.1 1. Se M = A ∪ B ´e uma cis˜ao de M ent˜ao temos que A = M B e B = M A. Logo os conjuntos A, B tamb´em ser˜ao fechados em M (pois seus complementares s˜ao abertos em M). 2. Se M = A ∪ B ´e uma cis˜ao trivial ent˜ao A = M ou B = M. Consideremos os seguintes exemplos: Exemplo 5.1.1 Seja M = R {0} munido da m´etrica usual de R. ´E f´acil ver que M = (−∞, 0) ∪ (0, ∞) ´e uma cis˜ao de M (pois (−∞, 0), (0, ∞) s˜ao subcon- juntos abertos de M). Exemplo 5.1.2 Sejam M = Q munido da m´etrica usual de R e α ∈ I. Se A . = {x ∈ Q : x α} e B . = {x ∈ Q : x α} ent˜ao ´e f´acil ver que M = A ∪ B ´e uma cis˜ao de M (pois A, B s˜ao subconjuntos abertos de M). Exemplo 5.1.3 Se (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico discreto ent˜ao para todo A ⊆ M temos que M = A ∪ (M A) ser´a um cis˜ao de M (pois neste caso todo subconjunto de M ser´a um subconjunto aberto de M). 165
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    166 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS Observa¸c˜ao 5.1.2 Indicaremos por Mn(R) o espa¸co vetorial das matrizes reais quadradas de ordem n. Dada uma matriz real quadrada de ordem n podemos identific´a-la com uma lista de n2 n´umeros reais da seguinte forma: (aij)1≤i,j≤n ∈ Mn(R) → (a11, · · · , a1n, a21, · · · , a2n, · · · , an1, · · · , ann) ∈ Rn2 e reciprocamente todo elemento de Rn2 pode ser identificado com uma matriz real quadrada de ordem n. Logo podemos munir Mn(R) com a m´etrica de Rn2 . Com isto temos o Exemplo 5.1.4 Vimos anteriormente que a fun¸c˜ao determinante det : Rn2 → R ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em Rn2 . Consideremos Gn o conjunto formado pelas matrizes quadradas reais de ordem n que tˆem determinante diferente de zero, munido da m´etrica de Rn2 . Sabemos que Gn ´e o conjunto formado pelas matrizes quadradas reais de ordem n que s˜ao invers´ıveis. Do corol´ario (4.2.4) sabemos que Gn ´e um subconjunto aberto de Rn2 . Definindo-se G+ n como sendo o conjunto formado pelas matrizes quadradas reais de ordem n que tˆem determinante maior que zero e G− n como sendo o conjunto formado pelas matrizes quadradas reais de ordem n que tˆem determinante menor que zero segue, do corol´ario (4.2.3), que G+ n e G− n s˜ao subconjuntos abertos de Gn. Al´em disso temos Gn = G+ n ∪ G− n , isto ´e, uma cis˜ao de Gn. Observa¸c˜ao 5.1.3 Em todos os exemplos acima as cis˜oes obtidas n˜ao s˜ao cis˜oes triviais. Defini¸c˜ao 5.1.2 Um espa¸co m´etrico (M, dM ) ser´a dito conexo se toda cis˜ao de M deve ser a cis˜ao trivial. Um subconjunto X de M ser´a dito conexo se (X, dM ) for um espa¸co m´etrico conexo. Um espa¸co m´etrico ser´a dito desconexo se ele admite uma cis˜ao n˜ao trivial. Observa¸c˜ao 5.1.4 1. Logo um espa¸co m´etrico (M, dM ) ser´a dito conexo se, e somente se, M = A ∪ B com A, B subconjuntos abertos de M implicar que ou A = ∅ ou B = ∅ (ou, equivalentemente, A = M ou B = M). 2. Em todos os exemplos acima os espa¸cos m´etricos envolvidos s˜ao espa¸cos m´etricos des- conexos. 3. A propriedade de ser conexo ´e intr´ınseca do conjunto, ou seja, se X ´e subespa¸co m´etrico de M e N (ou seja, as m´etricas dM e dN induzem a mesma m´etrica em X) ent˜ao X ´e um subconjunto conexo de M se, e somente se, X ´e um subconjunto conexo de N. Com isto temos a
  • 167.
    5.1. DEFINIC¸ ˜OESE EXEMPLOS 167 Proposi¸c˜ao 5.1.1 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico. S˜ao equivalentes: 1. M ´e um espa¸co m´etrico conexo; 2. M e ∅ s˜ao os ´unicos subconjuntos de M que s˜ao abertos e fechados em M; 3. se X ´e um subconjunto de M que tem a fronteria igual o conjunto vazio ent˜ao X = M ou X = ∅. Demonstra¸c˜ao: Observemos que se M = A ∪ B ent˜ao A, B s˜ao subconjuntos abertos de fechados de M pois A ´e um subconjunto aberto de M e B = M A = Ac, logo B ser´a um subconjunto fechado de M. De moto semelhante, A ´e subconjunto fechado de M pois B ´e um subconjunto aberto de M e A = M B = Bc, logo A ser´a um subconjunto fechado de M. (1) ⇒ (2): Se M ´e um espa¸co m´etrico conexo ent˜ao se A ⊆ M for um subconjunto aberto e fechado em M ent˜ao Ac tamb´em ser´a um subconjunto aberto de M (pois A ´e um subconjunto fechado de M). Logo M = A ∪ Ac ser´a uma cis˜ao de M. Como M ´e conexo ou A = M ou Ac = M, isto e, ou A = M ou A = ∅, como quer´ıamos mostrar. (2) ⇒ (1): Se M = A ∪ B ´e uma cis˜ao de M, como vimos acima, A, B devem ser abertos e fechados em M. Portanto ou A = M e B = ∅ ou B = M e A = ∅, ou seja, toda cis˜ao de M deve ser a cis˜ao trivial, mostrando que M ´e conexo. (2) ⇒ (3): Se X ⊆ M sabemos que: (i) X ∩ ∂X = ∅ se, e somente se, X ´e um subconjunto aberto de M e (ii) ∂X ⊆ X se, e somente se, X ser´a subconjunto fechado de M. Logo se X ⊆ M tem fronteira vazia ent˜ao X ∩ ∂X = X ∩ ∅ = ∅ e ∂X = ∅ ⊆ X. De (i) e (ii) acima segue que X ser´a um subconjunto aberto e fechado de M. De (2) deveremos ter X = M ou X = M. (3) ⇒ (2): Seja X ⊆ M ´e um subconjunto aberto e fechado de M. Como X ´e um subconjunto aberto M teremos, por (i), que X ∩ ∂X = ∅. (∗) Por outro lado, como X ´e um subconjunto fechado de M, por (ii), devermos ter ∂X ⊆ X. (∗∗) De (*) e (**) segue que ∂X = ∅. Lodo, de (3), deveremos ter X = M ou X = M, ou seja, os ´unicos subconjuntos de M que s˜ao aberto e fechados em M s˜ao M e ∅.
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    168 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS Observa¸c˜ao 5.1.5 A proriedade 3. nos diz que num espa¸co m´etrico os ´unicos subconjuntos de um espa¸co m´etrico que tˆem a fronteira igual o conjunto vazio s˜ao o espa¸co todo e o conjunto vazio. Consideremos alguns exemplos: Exemplo 5.1.5 Seja M . = R {0} munido da m´etrica usual de R. Ent˜ao M n˜ao ´e conexo. De fato, pois se A . = (0, ∞) ´e um subconjunto aberto de M e seu complementar (em M) ser´a Ac = (−∞, 0) que tamb´em ´e um subconjunto aberto de M implicando que A tamb´em ser´a um subconjunto fechado em M. Logo o subconjunto A = (0, ∞) um subconjunto aberto e fechado em M e ´e diferente de M e do conjunto ∅. Logo da proposi¸c˜ao (5.1.1) segue que M n˜ao pode ser um conjunto conexo. Exerc´ıcio 5.1.1 , M . = Q munido da a m´etrica usual de R. Ent˜ao M n˜ao ´e conexo. De fato, pois se A . = ( √ 2, ∞)Q ´e um subconjunto aberto de M e seu complementar (em M) ser´a Ac = (−∞, √ 2)Q que tamb´em ´e um subconjunto aberto de M implicando que A tamb´em ser´a um subconjunto fechado em M. Logo o subconjunto A = ( √ 2, ∞) um subconjunto aberto e fechado em M e ´e diferente de M e do conjunto ∅. Logo da proposi¸c˜ao (5.1.1) segue que M n˜ao pode ser um conjunto conexo. Exemplo 5.1.6 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico discreto contendo mais de um ponto. Ent˜ao M n˜ao ´e conexo. De fato, se x = y e x, y ∈ M ent˜ao temos que A . = {x} ´e um subconjunto aberto de M e seu complementar (em M) ser´a Ac que tamb´em ´e um subconjunto aberto de M implicando que A tamb´em ser´a um subconjunto fechado em M. Logo o subconjunto A = {x} um subconjunto aberto e fechado em M e ´e diferente de M (pois y = A) e do conjunto ∅. Logo da proposi¸c˜ao (5.1.1) segue que M n˜ao pode ser um conjunto conexo. Exemplo 5.1.7 (R, |.|) ´e um espa¸co m´etrico conexo. De fato, suponhamos, por absurdo, que exista uma cis˜ao n˜ao trivial R = A ∪ B, ou seja, A, B s˜ao abertos, disjuntos e n˜ao vazios. Consideremos a ∈ A e b ∈ B. Podemos supor, sem perda de generalidade, que a b. Seja X . = {x ∈ A : x b}. Como a ∈ X segue X = ∅ e al´em disso ´e limitado superiormente (pois b ´e um limitante superior de X). Logo existe c . = sup X e temos que c ≤ b (pois b ´e ´e um limitante superior de X). Da defini¸c˜ao de supremo, dado ε 0 existe x ∈ X ⊆ A tal que c − ε x ≤ c,
  • 169.
    5.2. PROPRIEDADES GERAISDE CONJUNTOS CONEXOS 169 ou ainda, para todo ε 0 temos que B(c; ε) ∩ A = ∅, implicando que c ∈ ¯A. Como A ´e um subconjunto fechado de R (pois Ac = R A = B que ´e um subconjunto aberto de R) deveremos ter c ∈ A. Como b ∈ B e A ∩ B = ∅ segue que c = b, logo c b (pois c ≤ b). Como A ´e um subconjunto aberto de R e c ∈ A segue que existe δ 0 tal que c + δ b e(c − δ, c + δ) = B(c; δ) ⊆ A. Em particular, (c, c + δ) ⊆ A. Logo todos os pontos de (c, c+δ) pertencer˜ao a X (pois c+δ b e se x c+δ ent˜ao x ∈ A). Logo c n˜ao poder´a ser o supremo de X (pois c + δ 2 ∈ X), o que ´e uma absurdo. Portanto a ´unica cis˜ao de (R, |.|) ´e cis˜ao trivial, ou seja, (R, |.|) ´e um espa¸co m´etrico conexo. 5.2 Propriedades gerais de conjuntos conexos Come¸caremos pela Proposi¸c˜ao 5.2.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N cont´ınua em M. Se (M, dM ) ´e conexo ent˜ao (f(M), dN ) ser´a um espa¸co m´etrico conexo. Demonstra¸c˜ao: Consideremos primeiramente o caso em que f ´e sobrejetora (isto ´e, N = f(M)). Consideremos N = A ∪ B uma cis˜ao de N. (*) Como A, B ⊆ N s˜ao subconjuntos abertos em N e f ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em M segue que f−1(A), f−1(B) ⊆ M s˜ao subconjuntos abertos em M. Al´em disso, como N = A ∪ B teremos M = f−1 (A) ∪ f−1 (B), ou seja, uma cis˜ao de M. Como M ´e conexo segue que esta cis˜ao deve ser a trivial, isto ´e, (i) ou f−1(A) = ∅ e f−1(B) = M; (ii) ou f−1(A) = M e f−1(B) = ∅. Deste modo, se (i) ocorrer, como f ´e sobrejetora, concluimos que B = f(M) = N e assim A = ∅. De modo semelhante, se (ii) ocorrer, como f ´e sobrejetora, concluimos que A = f(M) = N e assim B = ∅. Em qualquer um dos casos temos que a cis˜ao (*) de N ser´a a trivial, ou seja, N = f(M) ser´a conexo. Se f ´e cont´ınua em M e n˜ao for sobrejetora, ent˜ao temos que f : M → f(M) ser´a cont´ınua em M e sobrejetora. Neste caso, pelo que acabamos de ver, teremos que (f(M), dN ) ser´a conexo.
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    170 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS Observa¸c˜ao 5.2.1 Resumindo: a imagem de um conexo por uma aplica¸c˜ao cont´ınua ser´a um conjunto conexo. Como conseq¨uˆencia temos o Corol´ario 5.2.1 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico conexo e (N, dN ) homeomorfo a (M, dM ). Ent˜ao (N, dN ) ser´a um espa¸co m´etrico conexo. Demonstra¸c˜ao: Se N ´e homeomorfo a M ent˜ao existe f : M → N um homeomorfismo de M em N. Em particular, N = f(M) e como M ´e conexo e f ´e cont´ınua em M segue, da proposi¸c˜ao (5.2.1) que N ser´a conexo. Observa¸c˜ao 5.2.2 Conclus˜ao: todo espa¸co m´etrico homeomorfo a um espa¸co m´etrico conexo tamb´em ser´a conexo. Com isto temos os seguintes exemplos: Exemplo 5.2.1 Todo intervalo aberto de (R, |.|) ´e conexo. De fato, pois vimos na observa¸c˜ao (3.3.6) item 1., 2. e 3., todo intervalo aberto de R ´e homeomorfo a R. Mas (R, |.|) ´e conexo. Logo, do corol´ario acima segue, que todo intervalo aberto de R ´e conexo. Exemplo 5.2.2 Consideremos S1 . = {(x, y) ∈ R2 : x2 + y2 = 1} munido da m´etrica usual de R2 e R munido da m´etrica usual. A aplica¸c˜ao f : R → R2 dada por f(t) . = (cos(t), sen(t)), t ∈ R ´e cont´ınua em R (pois suas componentes s˜ao cont´ınuas me R) e S1 = f(R). Logo f : R → S1 ´e cont´ınua em R e sobrejetora. T E f T E f(t) = (cos(t), sen(t)) t ” 1 I S1 Como R ´e conexo, segue da proposi¸c˜ao (5.2.1), que S1 ser´a conexo.
  • 171.
    5.2. PROPRIEDADES GERAISDE CONJUNTOS CONEXOS 171 Um outro resultado importante ´e dado pela Proposi¸c˜ao 5.2.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico conexo. Ent˜ao M ´e conexo. Demonstra¸c˜ao: Suponhamos, primeiramente, que X ⊆ M ´e um conjunto conexo ´e tal que X = M, ou seja, X ´e denso em M. Mostremos que, neste caso, M ser´a conexo. Para isto, consideremos M = A ∪ B (∗) uma cis˜ao de M. Com isto temos que X = (A ∩ X) ∪ (B ∩ X) ser´a um cis˜ao de X (pois se A, B s˜ao subconjuntos abertos disjuntos de M ent˜ao A ∩ X e A ∩ Y tamb´em ser˜ao subconjuntos abertos disjuntos de X). Mas, X ´e conexo, logo ou A ∩ X = ∅ ou B ∩ X = ∅. (∗) Afirmamos que, como X ´e denso em M deveremos ter A = ∅ ou B = ∅. De fato, suponhamos, por absurdo, que A = ∅ e B = ∅, ou seja, existem a ∈ A e b ∈ B. Como A e B s˜ao abertos temos que existem ra, rb 0 tais que B(a; ra) ⊆ A e B(b; rb) ⊆ B. (∗∗) Mas X ´e denso em M, logo B(a; ra) ∩ X = ∅ e B(b; rb) ∩ X = ∅. (∗ ∗ ∗) Logo de (**) e (***) teremos que A ∩ X = ∅ e B ∩ X = ∅ o que contraria (*), logo um absurdo. Logo, da afirma¸c˜ao acima, segue que a cis˜ao (*) de M = X dever´a ser a cis˜ao trivial, ou seja, M = X ´e conexo. Se M ´e conexo, como M ´e denso em M, segue que, do caso anteior, que M ´e conexo, como quer´ıamos mostrar. Exemplo 5.2.3 Sejam R munido da m´etrica usual, a, b ∈ R, a b. Ent˜ao, do exemplo (5.2.1) e da proposi¸c˜ao acima segue que [a, b] = (a, b) ´e conexo em R. 21.10.2008 - 22.a Como conseq¨uˆencia temos o
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    172 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS Corol´ario 5.2.2 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, X, Y ⊆ M tais que X ⊆ Y ⊆ ¯X (= X M ). Se X ´e conexo ent˜ao Y ser´a conexo. Resolu¸c˜ao: Observemos que, da proposi¸c˜ao (4.4.7), segue que o fecho do conjunto X no subespa¸co Y ser´a X Y = X M ∩ Y [Y ⊆X M ] = Y. Logo X ´e denso em Y e portanto, pela proposi¸c˜ao acima, Y dever´a ser conexo. Exemplo 5.2.4 Sejam R munido da m´etrica usual, a, b ∈ R, a b. Temos que (a, b) ⊆ (a, b] ⊆ [a, b] = (a, b) Ent˜ao, dos exemplos (5.2.1), (5.2.5) e do corl´ario acima temos que (a, b] ´e conexo em R. De modo semelhante temos que [a, b) ´e conexo em R. Exerc´ıcio 5.2.1 Podemos mostrar que S1 ⊆ R2 ´e conexo utilizando um argumento diferente do exemplo (5.2.2). Para isto, consideremos p . = (0, 1) e X . = S1 {p}. Sabemos que X ´e homeomorfo `a reta R, munido da m´etrica usual (um homeomorfismo ´e dado pela proje¸c˜ao estereogr´afica, ver exemplo (3.3.5)). Como R ´e conexo segue do corol´ario (5.2.1) que S1 {p} ´e conexo. Afirmamos que ¯X = S1. De fato, pois como S1 ´e fechado em R2 e X ⊆ S1 segue que ¯X ⊆ ¯S1 = S1, isto ´e, ¯X ⊆ S1. Para mostrar que S1 ⊆ ¯X basta mostrar que p ∈ ¯X, ou seja, que o ponto p = (0, 1) n˜ao ´e ponto isolado de S1 (logo dever´a pertencer a ¯X). Para mostrar isto consideremos a proje¸c˜ao p1 : S1 + . = {(x, y) ∈ S1 : y 0} → (−1, 1) dada por p1(x, y) . = x, (x, y) ∈ S1 + (p1 ´e a proje¸c˜ao da semi-circunferˆencia superior, S1 +, sobre o intervalo (−1, 1); veja figura abaixo). E T −1 1 (x, y) ∈ S1 + x = p1(x, y) p = (0, 1) 0
  • 173.
    5.2. PROPRIEDADES GERAISDE CONJUNTOS CONEXOS 173 Observemos que p1 ser´a um homeomorfismo (a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) e p1(p) = 0. Como 0 n˜ao ´e ponto isolado de (−1, 1) (munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R) segue (pelo homeomorfismo p1) que p n˜ao ser´a ponto isolado de S1 +, e portanto de S1, como afirmamos. Finalmente, o corol´ario (5.2.2) implica que S1 = X ser´a conexo. Observa¸c˜ao 5.2.3 1. Seja u ∈ S1. Podemos definir uma proje¸c˜ao estereogr´afoca, Πu : S1 {u} → R (mesmo que u = p = (0, 1), isto ´e, u n˜ao sendo o polo norte de S1). Para isto basta lembra que a rota¸c˜ao de um ˆangulo θ, rθ, (o ˆangulo entre os vetores Op e Ou) ´e um homeomorfismo e assim Πu = Π ◦ rθ, onde Π ´e a proje¸c˜ao estereogr´afica do exemplo (3.3.5) (veja figura abaixo). E T u E rθ θ (0, 1) E T p = rθ(u) c Π proje¸c˜ao estereogr´afica E R ~ Πu = Π ◦ rθ Logo temos que S1 {u} ser´a conexo. 2. Sejam u, v ∈ S1, u = v. Afirmamos que S1 {u, v} n˜ao ´e conexo. De fato, seja ax + by = c a equa¸c˜ao da reta que passa pelos pontos (distintos) u e v. Consideremos X . = {(x, y) ∈ S1 : ax + by c} e Y . = {(x, y) ∈ S1 : ax + by c}. Geometricamente temos
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    174 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS E T u ∈ S1 v∈ S1 c ax + by = c A B Consideremos em R2 e R as m´etricas usuais. Ent˜ao a fun¸c˜ao f : R2 → R dada por f(x, y) . = ax + by, (x, y) ∈ R2 ´e cont´ınua em R2 (pois ´e uma fun¸c˜ao linear). Como (c, ∞) e (−∞, c) s˜ao subconjuntos abertos de R segue que X = f−1 ((c, ∞)) e Y = f−1 ((−∞, c)) s˜ao subconjutos abertos de R2 e s˜ao n˜ao vazios (pois u = v). Logo A . = X ∩ S1 e B . = Y ∩ S1 s˜ao subconjutos abertos de S1, s˜ao n˜ao vazios e S1 {u, v} = A ∪ B, ou seja, uma cis˜ao n˜ao trivial de S1 {u, v}. Portanto S1 {u, v} n˜ao ´e conexo. 3. Conclus˜ao: S1, S1 {u} s˜ao subconjuntos conexos de R2 e X ⊆ S1 cont´em mais de um ponto ent˜ao S1 X n˜ao ´e um subconjunto conexo de R2. Um outro exemplo importante ´e Exemplo 5.2.5 Seja X . = {(x, y) ∈ R2 : x 0, y = cos( 1 x )} (munido da m´etrica usual de R2) o gr´afico da fun¸c˜ao f : (0, ∞) → R dada por f(x) . = cos( 1 x ), x ∈ (0, ∞).
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    5.2. PROPRIEDADES GERAISDE CONJUNTOS CONEXOS 175 Como f ´e cont´ınua em (0, ∞) (munido da m´etrica usual de R), a proposi¸c˜ao (3.3.5) garante X ´e homeomorfo a (0, ∞). Como (0, ∞) ´e conexo segue, do corol´ario (5.2.1), que X ´e conexo (veja figura abaixo). E T −1 1 (x, cos( 1 x )) “ x = 2 (2K+1)π Seja J . = {(0, y) : −1 ≤ y ≤ 1}. Afirmamos que todo ponto de J ´e ponto aderente X, ou seja, J ⊆ ¯X (vide figura abaixo). A demonstra¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. E T −1 1 s J sε } (x, cos( 1 x )) Logo se T ⊆ J temos que X ⊆ X ∪ T ⊆ ¯X. Como X e ¯X s˜ao conexos, segue do corol´ario (5.2.2), que se T ⊆ J ent˜ao X ∪T ser´a conexo. Observa¸c˜ao 5.2.4 O exemplo acima nos diz que X ∪ J ´e conexo apesar de n˜ao ser formado por um ´unico ”peda¸co”(a saber, X e J que s˜ao disjuntos) contrariando a nossa intui¸c˜ao. Temos a Proposi¸c˜ao 5.2.3 Seja (Xλ)λ∈L uma fam´ılia de subconjuntos conexos de um espa¸co m´etrico (M, dM ).
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    176 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS Suponhamos que λ∈L Xλ = ∅. Ent˜ao X . = λ∈L Xλ (∗) ser´a um conjunto conexo. Demonstra¸c˜ao: Sejam a ∈ λ∈L Xλ e λ∈L Xλ = X = A ∪ B (∗∗) uma cis˜ao de X. Logo a ∈ A ou a ∈ B. Podemos supor, sem perda de generalidade, que a ∈ A. Observemos que para todo λ ∈ L temos que A ∩ Xλ e B ∩ Xλ s˜ao subconjuntos abertos em Xλ. Para cada λ ∈ L, temos, por (*), que Xλ = X ∩ Xλ = (A ∪ B) ∩ Xλ = (A ∩ Xλ) ∪ (B ∩ Xλ), isto ´e, Xλ = (A ∩ Xλ) ∪ (B ∩ Xλ) ´e uma cis˜ao de Xλ. Como Xλ ´e conexo segue que ou A ∩ Xλ = ∅ ou B ∩ Xλ = ∅. Como para todo λ ∈ L temos que a ∈ (A ∩ Xλ) segue que B ∩ Xλ = ∅ para todo λ ∈ L. Mas B = X ∩ B (∗) = [ λ∈L Xλ] ∩ B) = λ∈L (Xλ ∩ B) = ∅, ou seja, B = ∅ implicando que a cis˜ao (**) de X ´e a cis˜ao trivial. Portanto X ´e conexo. Como conseq¨uˆencia temos o Corol´ario 5.2.3 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico. Um condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que M seja conexo ´e que dois pontos quaisquer a, b ∈ M estejam contidos em um mesmo subconjunto conexo Mab ⊆ M. Demonstra¸c˜ao: Se M ´e conexo e a, b ∈ M ent˜ao tomamos Mab . = M. Reciprocamente, se dois pontos quaisquer a, b ∈ M est˜ao contidos em um mesmo subconjunto conexo Mab ⊆ M ent˜ao fixado a ∈ M temos que para todo b ∈ M existe Mab, conexo, tal que a, b ∈ Mab.
  • 177.
    5.2. PROPRIEDADES GERAISDE CONJUNTOS CONEXOS 177 Logo M = b∈M Mab e a ∈ b∈M Mab, ou seja, b∈M Mab = ∅. Logo da proposi¸c˜ao acima segue que M = b∈M Mab ser´a um conjunto conexo completando a demonstra¸c˜ao. Como conseq¨uˆencia deste temos o Corol´ario 5.2.4 Seja (E, . E) um espa¸co vetorial normado. Ent˜ao E ´e conexo. Demonstra¸c˜ao: Para a ∈ E fixado consideremos b ∈ E, b = a. Deste modo temos que a reta em E Xa b . = {a + t(b − a) : t ∈ R} ´e homeomrofa a R (basta considerar f : R → Xa b dada por f(t) . = a + t(b − a), t ∈ R e mostrar que esta ´e cont´ınua, bijetora e sua inversa tamb´em ser´a cont´ınua; isto ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). Geometricamente temos a b Xab Como R ´e conexo segue, do corol´ario (5.2.1), que Xa b ´e conexo para cada b ∈ E, b = a. Observemos que a ∈ Xa b para todo b ∈ E, b = a. Logo, do corol´ario (5.2.3) segue que b∈E, b=a Xa b ser´a conexo.
  • 178.
    178 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS Mas E = b∈E, b=a Xa b , pois se c ∈ E e c = a ∈ Xab para todo b ∈ E e se c = a ent˜ao c = a + 1[c − a], ou seja c ∈ Xa c. Portanto E ´e conexo. Tamb´em seguem os Corol´ario 5.2.5 Seja (E, . E) um espa¸co vetorial normado, a ∈ E e r 0. Ent˜ao B(a; r) ´e um conjunto conexo. Demonstra¸c˜ao: Lembremos que, da proposi¸c˜ao (3.3.4), B(a; r) ´e homeomorfa a E. Do corol´ario acima temos que E ´e conexo. Logo, do corol´ario (5.2.1), segue que B(a; r) tamb´em ser´a um conjunto conexo. Corol´ario 5.2.6 Sejam (E, . E) um espa¸co vetorial normado, a ∈ E e r 0. Ent˜ao B[a; r] ´e um conjunto conexo. Demonstra¸c˜ao: Do corol´ario acima temos que B(a; r) ´e um conjunto conexo. Logo, da proposi¸c˜ao (5.2.2), segue que B(a; r) ´e um conjunto conexo. Mas B[a; r] = B(a; r) e portanto ser´a um conjunto conexo. Com isto temos o Corol´ario 5.2.7 Seja Rn espa¸co vetorial munido do produto interno usual. Ent˜ao Sn = {x ∈ Rn+1 : x, x = 1 ´e um conjunto conexo. Demonstra¸c˜ao: De fato, sabemos, do corol´ario acima, que a bola fechada B[0; 1] ´e um conjunto conexo. Sabemos que Sn = Sn + ∪ Sn − onde Sn + . = {x ∈ Sn : xn+1 ≥ 0} e Sn − . = {x ∈ Sn : xn+1 ≤ 0}, onde x = (x1, · · · , xn, xn+1), ou seja, os hemisf´erios norte e sul, respectivamente se Sn . No caso n = 2, geometricamente temos
  • 179.
    5.2. PROPRIEDADES GERAISDE CONJUNTOS CONEXOS 179 % ‰ Sn − Sn + A proje¸c˜ao p+ : Sn + → Rn dada por p+(x1, · · · , xn, xn+1) . = (x1, · · · , xn) ´e um homeomorfismo de Sn + em B[0; 1] (a fun¸c˜ao inversa ser´a dada por y = (y1, · · · , yn) → (y1, · · · , yn, 1 − y 2) e assim cont´ınua em B[0; 1]; a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao no caso n = 2 Sn + a E T © Rn R X1 De modo semelhante temos que a a proje¸c˜ao p− : Sn − → Rn dada por p−(x1, · · · , xn, xn+1) . = (x1, · · · , xn) ´e um homeomorfismo de Sn − em B[0; 1] (a fun¸c˜ao inversa ser´a dada por y = (y1, · · · , yn) → (y1, · · · , yn, − 1 − y 2)
  • 180.
    180 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS e assim cont´ınua em B[0; 1]; a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). Como B[0; 1] ´e conexa segue, do corol´ario (5.2.1), que Sn + e Sn − s˜ao conexos. Mas (1, 0, · · · ) ∈ Sn + ∩ Sn −. Logo, o corol´ario (5.2.3), implicar´a que Sn = Sn + ∪ Sn − ser´a um conjunto conexo. Temos o Proposi¸c˜ao 5.2.4 Sejam (M1, d1), (M2, d2) espa¸co m´etricos e M1 × M2 com uma das trˆes m´etricas usuais. Ent˜ao M1 × M2 ´e conexo se, e somente se, Mi ´e conexo para todo i = 1, 2. Demonstra¸c˜ao: Suponhamos que M1 × M2 ´e conexo. Sabemos que para cada i = 1, 2 a proje¸c˜ao pi : M1 × · · · × Mn → Mi dada por pi(x1, x2) . = xi, (x1, x2) ∈ M1 × M2 ´e uma aplica¸c˜ao cont´ınua em M1 × M2. Assim, como M1 × M2 ´e conexo, segue da proposi¸c˜ao (5.2.1), que Mi = pi(M1 × M2) ´e conexo para cada i = 1, 2. Reciprocamente, suponhamos que M1 e M2 s˜ao conexos. Seja a . = (a1, a2) ∈ M1 × M2. Para cada x = (x1, x2) ∈ M1 × M2 temos que os conjuntos M1 × {a2} e {x1} × M2 s˜ao conexos (pois s˜ao homeomorfos a M1 e M2, respectivamente; os homeomorfismos ser˜ao as restri¸c˜oes a M1 × {a2} ou a {x1} × M2 das proje¸c˜oes de M1 × M2 sobre M1 ou sobre M2, respectivamente). Como (x1, a2) ∈ [M1 × {a2}] ∩ [{x1} × M2], segue, da proposi¸c˜ao (5.2.3), que x ∈ Cx = (M1 × {a2}) ∪ ({x1} × M2) ´e conexo. Observemos que a = (a1, a2) ∈ Cx, para todo x ∈ M1 × M2 e que M1 × M2 = x∈M1×M2 Cx. A figura abaixo ilustra a situa¸c˜ao:
  • 181.
    5.2. PROPRIEDADES GERAISDE CONJUNTOS CONEXOS 181 M1 M2 M1 × M2 x1 a2 M1 × {a2} {x1} × M2 a ) a = (a1, a2) x = (x1, x2) Assim, da proposi¸c˜ao (5.2.3), segue que M1 × M2 ser´a conexo, como quer´ıamos mostrar. Com isto temos o Corol´ario 5.2.8 Sejam (M1, d1), · · · , (Mn, dn) espa¸co m´etricos e M1 × · · · × Mn com uma das trˆes m´etricas usuais. Ent˜ao M1 × · · · × Mn ´e conexo se, e somente se, Mi ´e conexo para todo i = 1, · · · , n. Demonstra¸c˜ao: A demonstra¸c˜ao ´e feita por indu¸c˜ao e ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Do corol´ario (5.2.4) temos que Rn ´e conexo. Um outro modo de obter isto ´e utilizando o corol´ario acima. Corol´ario 5.2.9 O Rn, munido de uma das trˆes m´etricas usuais, ´e conexo. Demonstra¸c˜ao: Sabemos que R ´e conexo logo, da proposi¸c˜ao acima, segue que Rn = R × · · · × R n−fatores ser´a conexo. 23.10.2008 - 23.a Exemplo 5.2.6 Consideremos o cilindro em R3, C . = {(x, y, z) ∈ R3 : x2 + y2 = 1} munido da m´etrica induzida por uma das m´etricas usuais de R3. Afirmamos que C ´e conexo. De fato, C ´e homeomorfo ao produto cartesiano S1 × R. Para ver isto, basta verificar que (veja figura abaixo) h : C → S1 × R dada por h(x, y, z) . = ((x, y), z), (x, y, z) ∈ C ´e um homeomorfismo (ser´a deixado como exerc´ıcio a verifica¸c˜ao deste fato pelo leitor).
  • 182.
    182 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS C E × S1 R h T E o1 (x, y, z) (x, y) z Como S1 e R s˜ao conexos segue, da proposi¸c˜ao (5.2.4), que S1 × R ser´a conexo e portanto, do corol´ario (5.2.1), temos que C ´e conexo. Exemplo 5.2.7 Sejam n ≥ 2, Rn, munido de uma das trˆes m´etricas usuais, e p ∈ Rn. Ent˜ao Rn {p} ´e conexo. De fato, observemos que Rn {p} ´e homeomorfo a Rn {0} . Para ver isto, basta considerar a transla¸c˜ao Tp : Rn → Rn dada por Tp(x) . = x − p, x ∈ Rn {p} que ´e uma isometria, logo um homeomorfismo e como Tp(p) = 0, segue que a restri¸c˜ao de Tp a Rn {p} ser´a um homeomorfismo de Rn {p} em Rn {0}, ou seja, Rn {p} ´e homeomorfo a Rn {0} (ver figura abaixo). E T E T E p 0 = Tp(p) Tp Logo, pelo corol´ario (5.2.1) basta mostrar que Rn {0} ´e conexo. Para isto consideremos a aplica¸c˜ao (veja figura abaixo o caso n = 2) h : Sn × (0, ∞) → Rn {0} dada por h(x, t) . = t.x, (x, t) ∈ Sn × (0, ∞)
  • 183.
    5.2. PROPRIEDADES GERAISDE CONJUNTOS CONEXOS 183 que ´e um homeomorfismo de Sn × R em Rn {0}. Sua fun¸c˜ao inversa ´e dada por k : Rn {0} → Sn × (0, ∞) dada por k(z) . = ( z z , z ), z ∈ Rn {0}. A verifica¸c˜ao destes fatos ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor. T × x t E h T E t.x R2 {0} Um outro resultado importante ´e dado pela Proposi¸c˜ao 5.2.5 Consideremos R com a m´etrica usual. Um subconjunto A da reta ´e conexo se, e somente se, A ´e um intervalo da reta R. Demonstra¸c˜ao: O exemplo (5.2.1) mostra que um intervalo aberto ´e conexo. Assim, da proposi¸c˜ao (5.2.2), segue que um intervalo fechado tamb´em ser´a conexo. Com isto o corol´ario (5.2.2) implicar´a que todo intervalo semi-fechado `a direita ou `a esquerda tamb´em ser´a conexo. Reciprocamente, se A ⊆ R ´e conexo. Mostremos que ele dever´a ser um intervalo, isto ´e, se a, b ∈ A e c ∈ R ´e tal que a c b ent˜ao deveremos ter c ∈ A. Suponhamos, por absurdo, que isto n˜ao ocorra, isto ´e, existe c ∈ R tal que a c b e c ∈ A. Ent˜ao temos que A = [A ∩ (−∞, c)] ∪ [A ∩ (c, ∞)], ou seja, uma cis˜ao de A (observemos que A ∩ (−∞, c) e A ∩ (c, ∞) s˜ao abertos em A). Mas esta cis˜ao n˜ao ´e trivial pois a ∈ A ∩ (−∞, c) (pois a ∈ A e a c) e b ∈ A ∩ (c, ∞) (pois b ∈ A e c b) o que ´e um absurdo, pois A ´e conexo. Assim A dever´a ser um intervalo de R. Como conseq¨uˆencia temos o
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    184 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS Corol´ario 5.2.10 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico conexo, R munido da m´etrica usual e f : M → R cont´ınua em M. Ent˜ao f(M) ⊆ R ´e um intervalo de R. Demonstra¸c˜ao: Da proposi¸c˜ao (5.2.1) temos que f(M) ´e um subconjunto conexo de R. Portanto, da proposi¸c˜ao acima, segue que f(M) ´e um intervalo de R. Outra conseq¨uˆencia importante ´e Corol´ario 5.2.11 Sejam [a, b] munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R e R com a m´etrica usual. Suponhamos que f : [a, b] → R ´e cont´ınua em [a, b] com f(a) f(b) e d ∈ (f(a), f(b)). Ent˜ao existe c ∈ (a, b) tal ue f(c) = d. Vale o mesmo se f(b) f(a). Demonstra¸c˜ao: Como [a, b] ´e conexo em R, do corol´ario acima, que f([a, b]) ´e um intervalo de R. Em particular, (f(a), f(b)) ⊆ f([a, b]). Como d ∈ (f(a), f(b)) ⊆ f([a, b]) segue que existe c ∈ [a, b] tal que f(c) = d. Observemos que c = a, pois f(a) d = f(c), e c = b, pois f(c) = d f(b). Logo existe c ∈ (a, b) tal que f(c) = d, como quer´ıamos mostrar. Observa¸c˜ao 5.2.5 1. O resultado acima ´e conhecido como Teorema do Valor Intermedi´ario. Ele nos d´a condi¸c˜oes suficientes para que um ponto esteja no conjunto imagem de uma fun¸c˜ao real, cont´ınua, definida em um intervalo fechado e limitado (a saber, que o ponto perten¸ca ao intervalo (f(a), f(b)) ou (f(b), f(a))). 2. De outro modo o Teorema do Valor Intermedi´ario nos condi¸c˜oes suficientes para que a equa¸c˜ao f(x) = d tenha, pelo menos, uma solu¸c˜ao x ∈ (a, b) se fun¸c˜ao real f for cont´ınua e definida em um intervalo fechado e limitado de R. Como conseq¨uˆencia do Teorema do Valor Intermedi´ario temos o Corol´ario 5.2.12 Seja p : R → R um polinˆomio de grau ´ımpar n, isto ´e, p(t) = a0 + a1x + · · · + anxn , x ∈ R com an = 0 e n ∈ N um n´umero natural ´ımpar. Ent˜ao existe c ∈ R tal que p(c) = 0.
  • 185.
    5.2. PROPRIEDADES GERAISDE CONJUNTOS CONEXOS 185 Demonstra¸c˜ao: Podemos supor, sem perda de generalidade, que an = 1 (caso contr´ario consideramos q(t) . = 1 an p(t), t ∈ R e com isto q ser´a um polinˆomio de mesmo grau que o polinˆomio p; al´em disso, q(c) = 0 se, e somente se, p(c) = 0, c ∈ R). Mostremos que existem x1, x2 ∈ R tais que x1 x2 e p(x1) 0 p(x2). (∗) De fato, para todo x = 0 temos que p(x) = xn [ a0 xn + a1 xn−1 + · · · + an−1 x + 1]. (∗∗) Seja r . = |a0| + |a1| + · · · + |an−1| + 1. Se |x| r ≥ 1 teremos |x|k ≥ |x| para todo k = 1, · · · , n, logo a0 xn + a1 xn−1 + · · · + an−1 x ≤ |a0| |x|n + |a1| |x|n−1 + · · · + |an−1| |x| [|x|k≥|x|,k=1,··· ,n] ≤ |a0| |x| + |a1| |x| + · · · + |an−1| |x| = r |x| 1. Assim quando |x| r ≥ 1 temos que | a0 xn + a1 xn−1 + · · · + an−1 x | 1 ou seja, −1 a0 xn + a1 xn−1 + · · · + an−1 x 1, |x| r ≥ 1. Portanto 0 a0 xn + a1 xn−1 + · · · + an−1 x + 1, |x| r ≥ 1. Portanto, para |x| r ≥ 1, de (*), segue que p(x) tem o mesmo sinal de xn. Como n ´ımpar segue que xn assume valores positivos em (0, ∞) (em particular, se x r ≥ 1) e negativos em (−∞, 0) (em particular, se x −r ≤ −1). Logo p(x) assume valores positivos para x r ≥ 1 e negativos em x −r ≤ −1, em particular, p(r + 1) 0 e p(−1 − r) 0 (pois r + 1 r e −1 − r −r) , ou seja, p(−1 − r) 0 p(r + 1). Portanto, do Teorema do Valor Intermedi´ario, segue que existe c ∈ (−1 − r, r + 1) tal que p(c) = 0, como quer´ıamos mostrar. Observa¸c˜ao 5.2.6 O resultado acima nos diz que todo polinˆomio com coeficientes reais de grau ´ımpar possui, pelo menos, uma raiz real. A seguir faremos uma aplica¸c˜ao to Teorema do Valor Intermedi´ario para caracterizar home- morfismos entre intervalos da reta R. Antes temos a
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    186 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS Defini¸c˜ao 5.2.1 Seja X ⊆ R, X = ∅ e f : X → R. Diremos que a fun¸c˜ao f ´e crescente em X se para x, y ∈ X satisfazendo x y temos f(x) f(x). Diremos que a fun¸c˜ao f ´e n˜ao decrescente em X se para x, y ∈ X satisfazendo x y temos f(x) ≤ f(x). Diremos que a fun¸c˜ao f ´e decrescente em X se para x, y ∈ X satisfazendo x y temos f(x) f(x). Diremos que a fun¸c˜ao f ´e n˜ao crescente em X se para x, y ∈ X satisfazendo x y temos f(x) ≥ f(x). Diremos que a fun¸c˜ao f ´e mon´otona em X se ela for de um dos tipos acima. Com isto temos a Proposi¸c˜ao 5.2.6 Sejam R, munido da m´etrica usual, X ⊆ R, X = ∅, munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R e f : X → R mon´otona. Se f(X) ⊆ R ´e densa em um intervalo J ⊆ R ent˜ao a fun¸c˜ao f ser´a cont´ınua em X. Demonstra¸c˜ao: Faremos a demonstra¸c˜ao para o caso em que f ´e n˜ao decrescente. Os outros casos ser´a deixados como exerc´ıcio para o leitor. Sabemos que f(X) = J, onde J ´e um intervalo de R, em particular, f(X) ⊆ J. Seja a ∈ X. Mostremos que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a. Para isto, suponhamos, primeiramente, que f(a) ∈ int(J). Como f(a) ∈ int(J) segue existe δ 0 tal que (f(a) − δ, f(a) + δ) ⊆ J. Tomando-se b ∈ (f(a) − δ, f(a)) ⊆ J, como f(X) = J dado ε 0, existe y1 ∈ f(X) tal que (ver figura abaixo) f(a) − ε y1 f(a). f(a) − δ f(a)b y1 De modo semelhante se tomarmos c ∈ (f(a), f(a) + δ) ⊆ J, como f(X) = J dado ε 0, existe y2 ∈ f(X) tal que f(a) y2 f(a) + ε, logo dado ε 0, existem y1, y2 ∈ f(X) tais que f(a) − ε y1 f(a) y2 f(a) + ε. (∗) Para ilustrar veja figura abaixo f(a) f(a) + εf(a) − ε y1 y2
  • 187.
    5.2. PROPRIEDADES GERAISDE CONJUNTOS CONEXOS 187 Sejam x1, x2 ∈ X tais que f(x1) = y1 e f(x2) = y2. Como f ´e n˜ao decrescente deveremos ter x1 a x2, pois f(x1) = y1 f(a) y2 = f(x2). Seja δ . = min{a − x1, x2 − a} 0. Ent˜ao se x ∈ X e |x − a| δ teremos que −δ x − a δ, ou seja, −(a − x1) x − a x2 − a implicando que x1 x x2. Como f ´e n˜ao decrescente segue que y1 = f(x1) f(x) f(x2) = y2. Mas de (*) segue que f(a) − ε y1 f(x) y2 f(a) + ε, ou seja, |f(x) − f(a)| ε, implicando que f ´e cont´ınua no ponto a. Suponhamos que f(a) ´e o extremos superior do intervalo J. Como f ´e n˜ao decrescente e f(X) ⊆ J temos que se x ∈ X e a x deveremos ter f(a) ≤ f(x) ≤ f(a), ou seja, f(x) = f(a) (∗∗). Como f(X) = J e f(a) ´e extremos superior do intervalo J, dado ε 0, segue que existe y1 ∈ f(X) tal que f(a) − ε y1 f(a). (∗ ∗ ∗) Seja x1 ∈ X tal que f(x1) = y1. Como f(x1) = y1 f(a) e f ´e n˜ao decrescente segue que x1 a, caso contr´ario dever´ıamos ter y1 = f(x1) ≥ f(a) o que seria um absurdo. Seja δ . = a − x1 0. Logo se x ∈ X e |x − a| δ teremos que −δ x − a δ,
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    188 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS ou seja, −(a − x1) x − a a − x1, isto ´e, x1 x e assim f(x1) ≤ f(x) e, de (**), temos que f(x) ≤ f(a). Assim y1 = f(x1) ≤ f(x) ≤ f(a). Portanto de (***) teremos f(a) − ε y1 ≤ f(x) ≤ f(a) ou ainda |f(x) − f(a)| ε mostrando que f ´e cont´ınua no ponto a. O caso em que f(a) ´e o extremo inferior do intervalo J ´e tratado de modo semelhante e ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor. Observa¸c˜ao 5.2.7 Reafirmando, o resultado acima nos diz que se f ´e mon´otona e f(X) = J, J um intervalo de R ent˜ao f ser´a cont´ınua em X ⊆ R. Como consequˆencia imediata temos o Corol´ario 5.2.13 Sejam R, munido da m´etrica usual, X ⊆ R, X = ∅, munido da m´etrica induzida de R, e f : X → R mon´otona. Se f(X) ⊆ R for um intervalo ent˜ao f ´e cont´ınua em X Vale uma certo tipo de rec´ıproca do resultado anterior, a saber: Proposi¸c˜ao 5.2.7 Sejam R, munido da m´etrica usual, I ⊆ R um intervalo de R munido da m´etrica induzida de R, e f : I → R cont´ınua e injetiva em I. Ent˜ao 1. f mon´otona; 2. f ´e um homeomorfismo de I sobre o intervalo J = f(I). Demonstra¸c˜ao: De 1.: Suponhamos que I = [a, b], a b. Como f ´e injetiva temos que f(a) = f(b). Consideremos o caso em que f(a) f(b) (o caso f(a) f(b) ´e semelhante e ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). Afirmamos que f ´e crescente (e portanto mon´otona). De fato, suponhamos, por absurdo, que f n˜ao ´e crescente, isto existem x, y ∈ [a, b] tais que x y e f(y) ≤ f(x). Como f ´e injetora segue que f(y) f(x). Como f(y) = f(a) (pois a ≤ x y) temos duas possibilidades: (i): f(a) f(y); (ii): f(a) f(y).
  • 189.
    5.2. PROPRIEDADES GERAISDE CONJUNTOS CONEXOS 189 No caso (i) temos que f(a) f(y) f(x). Logo pelo Teorema do Valor Intermedi´ario dever´a existir c ∈ (a, x) tal que f(c) = f(y), ou seja, c x y e f(c) = f(y), contrariando a injetividade de f. No caso (ii) temos que f(y) f(a) f(b). Logo pelo Teorema do Valor Intermedi´ario dever´a existir c ∈ (y, b) tal que f(c) = f(a), ou seja, a ≤ y c e f(c) = f(a), contrariando a injetividade de f. Observemos que se I ´e um intervalo da reta arbitr´ario temos que f : I → R ´e mon´otona se, e somente se, a restri¸c˜ao de f a cada intervalo [a, b] ⊆ I for mon´otona, ou seja, vale 1. . Na verdade, se I ´e um intervalo da reta arbitr´ario temos que f : I → R ´e mon´otona crescente se, e somente se, a restri¸c˜ao de f a cada intervalo [a, b] ⊆ I for mon´otona crescente. Vale o an´alogo trocando-se ”crescente” por ”decrescente”. De 2.: Pelo item 1. e do corol´ario (5.2.10) temos que f ser´a uma bije¸c˜ao mon´otona do intervalo I no intervalo J = f(I) (pois ela ´e injetora em I, logo bijetora sobre J = f(I) que ´e um intervalo pois f ´e cont´ınua no intervalo I que ´e conexo em R). Observemos que a fun¸c˜ao inversa f−1 : J → I ser´a mon´otona (pois f ´e mon´otona). Logo o corol´ario (5.2.13) implicar´a que f−1 ser´a cont´ınua em J (pois f−1(J) = I um intervalo de R) mostrando que f ´e um homeomorfismo do intervalo I sobre o intervalo J = f(I), como quer´ıamos mostrar. Observa¸c˜ao 5.2.8 1. Existem fun¸c˜oes mon´otonas injetivas e descont´ınuas em algum ponto. Para ver isto, consideremos o seguinte exemplo: Seja R com a m´etrica usual e f : R → R dada por f(x) . = x + x |x|, x = 0, 0, x = 0 . O gr´afico de f ´e dado pela figura abaixo: E T 0 y = x − 1 y = x + 1
  • 190.
    190 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS Observemos que f ´e mon´otona (´e uma fun¸c˜ao crescente, portanto injetiva) e f(R) = (−∞, −1) ∪ {0} ∪ (1, ∞)) logo n˜ao ´e um intervalo de R, logo n˜ao poder´a ser cont´ınua em R (pois se fosse cont´ınua sua imagem sria um conexo e f(R) = (−∞, −1) ∪ {0} ∪ (1, ∞) n˜ao ´e um conexo da reta). 2. Existem fun¸c˜oes bijetoras entre intervalos que s˜ao descont´ınuas. Como um exemplo temos: Sejam [0, 3] ⊆ R munido da m´etrica unduzida pela m´etrica usual de R e g : [0, 3] → [0, 3] dada por g(x) . =    1 − x, 0 ≤ x 1 x, 1 ≤ x ≤ 2 5 − x, 2 x ≤ 3 . O gr´afico de g ´e dado pela figura abaixo: E T 1 1 2 3 2 3 y = 1 − x y = x y = 5 − x Observemos que g ´e bijetora n˜ao ´e mon´otona e portanto n˜ao poder´a ser cont´ınua (pois se fosse cont´ınua pela proposi¸c˜ao acima deveria ser mon´otona o que n˜ao ´e o caso). A seguir temos Exerc´ıcio 5.2.2 Sejam, n ∈ N, [0, ∞) ⊆ R mundio da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R e f : [0, ∞) → [0, ∞) dada por f(x) . = xn , x ∈ [0, ∞). Observemos que f ´e cont´ınua e crecente em [0, ∞). Da proposi¸c˜ao (5.2.7) item 2., segue que f ´e um homeomorfismo sobre sua imagem f([0, ∞) que sabemos, pelo corol´ario (5.2.10), ser um intervalo de R. Utilisando-se o Binˆomio de Newton podemos mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que (1 + y)n ≥ 1 + ny, y ≥ 0.
  • 191.
    5.2. PROPRIEDADES GERAISDE CONJUNTOS CONEXOS 191 Logo temos que se x ≥ 1 segue que f(x) = xn = [1 + (x − 1)]x ≥ 1 + n(x − 1) mostranto que f n˜ao ser´a limitada (pois g(x) = x − 1 n˜ao ´e limitada em [1, ∞)). Como f(0) = 0 podemos concluir que f([0, ∞) = [0, ∞), ou seja, f : [0, ∞) → [0, ∞) ´e um homeomorfismo de [0, ∞) em [0, ∞). Se y ∈ [0, ∞), o valor f−1(y) ser´a denominado, raiz n-´esima de y e indicado por n √ y. E como vimos acima f−1 : [0, ∞) → [0, ∞) ser´a cont´ınua em [0, ∞). 30.10.2008 - 24.a Um outro resultado importante ´e Teorema 5.2.1 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, C, X ⊆ M munidos da m´etrica induzida de M. Se C ´e um subconjunto conexo e tem pontos de X e de M X ent˜ao algum ponto de C pertence a fronteira de X, isto ´e, C ∩ ∂X = ∅ (veja figura abaixo). M X C C ∩ X y0 C ∩ (M X) ” C ∩ ∂X Demonstra¸c˜ao: Como C ∩ X = ∅ e C ∩ (M X) = ∅ segue que o subconjunto C ∩ X n˜ao ´e vazio nem ´e igual a todo C assim a fronteira de C ∩ X em C ´e n˜ao vazia De fato, se fosse vazia ent˜ao da proposi¸c˜ao (5.1.1) dever´ıamos ter C ∩ X = ∅ ou C ∩ X = C (pois C ´e conexo e C ∩ X ´e um subconjunto de C que tem fronteira vazia). A 1.a possibilidade n˜ao pode ocorrer e se a 2.a possibilidade ocorrer ter´ıamos C ⊆ X e assim C ∩ (M X) = ∅ o que ´e um absurdo. Logo existe c ∈ ∂C(C ∩ X), ou seja, existe c na fronteria de C ∩ X em C, em particular c ∈ C. Mostremos que c ∈ ∂X(= ∂M X) (isto ´e, est´a na fronteira de X em M). De fato, como c ∈ ∂C(C ∩ X), dado ε 0 existem s ∈ C ∩ X ⊆ X tal que d(s, c) ε e t ∈ C (C ∩ X) [exerc´ıcio] = C X [C⊆M] ⊆ M X tal que d(c, t) ε. Logo, dado ε 0 existe s ∈ X e t ∈ M X tal que s, t ∈ BM (c; ε) (veja figura abaixo).
  • 192.
    192 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS M C X c ∈ ∂(C ∩ X) u c s ∈ C ∩ X ' t ∈ C (C ∩ X) = M X Portanto c ∈ ∂X, isto ´e C ∩ ∂X = ∅, como quer´ıamos demonstrar. Observa¸c˜ao 5.2.9 1. O resultado acima ´e conhecido como Teorema da Alfˆandega. 2. Podemos reobter o Teorema do Valor Intermedi´ario como uma consequˆencia do Teorema da Alfˆandega. De fato, sejam M = C . = f([a, b]) com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R e f; [a, b] → R ´e cont´ınua em [a, b] e f(a) d f(b) ent˜ao tomando-se C . = f([a, b]). Ent˜ao sabemos que C ´e conexo e assim aplicando o Teorema da Alfˆandega a X . = {x ∈ [a, b] : f(x) d} ⊆ [a, b] obteremos que C ∩ ∂X. Mas ∂X = {x ∈ [a, b] : f(x) = d}. Logo existe c ∈ [a, b] tal que f(c) = d. Observemos que na verdade c ∈ (a, b) pois d ∈ (f(a), f(b). 5.3 Conex˜ao por caminhos Defini¸c˜ao 5.3.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e [0, 1] munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R. Uma aplica¸c˜ao cont´ınua f; [0, 1] → M ser´a denominada caminho unindo os pontos a . = f(0) ao ponto b . = f(1). O gr´afico de f, isto ´e, G(f) = {(t, f(t)) : t ∈ [0, 1]} ⊆ [0, 1] × M
  • 193.
    5.3. CONEX ˜AOPOR CAMINHOS 193 ser´a dito tra¸co do caminho f. Os pontos a, b ∈ M ser˜a denominados extremos do caminho, a ser´a dito ponto inicial (ou origem) do caminho e b ponto final (ou fim) do caminho. Neste caso diremos que o caminho f liga o ponto a ao ponto b em M (vide figuras abaixo). 0 1 E f M a = f(0) b = f(1) 0 1 E f M a = f(0) b = f(1) 0 1 E f M a = f(0) b = f(1) Diremos que um caminho f : [0, 1] → M ´e um caminho fechado em M se a = b (isto ´e, f(0) = f(1)) (vide figura abaixo). 0 1 E f M a = f(0) = f(1) = b
  • 194.
    194 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS 0 1 E f M a = f(0) = f(1) = b Observa¸c˜ao 5.3.1 1. Na situa¸c˜ao acima, um exemplo de caminho trivial ´e o caminho constante, isto ´e, se a ∈ M temos que f : [0, 1] → M, para todo f(t) = a, 0 ≤ t ≤ 1. 2. Se f : [0, 1] → M ´e um caminho que une o ponto a = f(0) ao ponto b = f(1) ent˜ao f∗ : [0, 1] → M dada por f∗ (t) . = f(1 − t), t ∈ [0, 1] tamb´em ser´a um caminho em M (pois ´e composta de fun¸c˜oes cont´ınuas) e une o ponto f∗(0) = b ao ponto f∗(1) = a e tem o mesmo tra¸co de f (veja figura abaixo). 0 1 E f M f(0) = a = f∗ (1) f(1) = b = f∗ (0) f∗ Logo, o caminho f∗ percorre o mesmo tra¸co que o caminho f mas percorrendo-o em sentido contr´ario. 3. Suponhamos que f, g : [0, 1] → M sejam dois caminhos em M tal que f(1) = g(0) (veja figura abaixo). 0 1 E f, g M f(0) f(1) = g(0) g(1)
  • 195.
    5.3. CONEX ˜AOPOR CAMINHOS 195 Com estes caminhos podemos construir um caminho, denominado caminho justaposto, indicado por f ∨ g, dada por f ∨ g : [0, 1] → M (f ∨ g)(t) . = f(2t), 0 ≤ t ≤ 1 2 g(2t − 1), 1 2 ≤ t ≤ 1 . Observemos que f ∨ g ser´a de fato um caminho (ou seja, uma fun¸c˜ao cont´ınua em [0, 1] com valores em M; vide figura abaixo). 0 1 E f ∨ g M f(0) = (f ∨ g)(0) f(1) = g(0) = (f ∨ g)( 1 2 ) g(1) = (f ∨ g)(1) 1 2 t f(2t) s g(2s − 1) Ou seja, o caminho f ∨ g tem o mesmo tra¸co que a reuni˜ao dos tra¸cos dos caminhos f e g. 4. Se existir uma caminho em M unindo o ponto a ao ponto b escreveremos a ∼ b. Neste caso, pelo que vimos nos itens 1., 2. e 3. acima, temos que ∼ tem as propriedades reflexiva, sim´etrica e transitiva. Defini¸c˜ao 5.3.2 Sejam E um espa¸co vetorial e a, b ∈ E. Definimos o segmento de reta [a, b] como sendo o seguinte subconjunto de E [a, b] . = {(1 − t)a + tb : 0 ≤ t ≤ 1}. Geometricamente temos a b (1 − t)a + tb E
  • 196.
    196 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS Observa¸c˜ao 5.3.2 1. Observemos que [a, b] = {(1 − t)a + tb : 0 ≤ t ≤ 1} = {a + t(b − a) : 0 ≤ t ≤ 1} logo est´a contido na reta que cont´em o ponto a e tem a dire¸c˜ao do vetor b − a. 2. Se (E, . ) ´e um espa¸co vetorial normado e a, b ∈ E ent˜ao o segmento de reta ´e o tra¸co do caminho f : [0, 1] → E, dada por f(t) . = (1 − t)a + tb, 0 ≤ t ≤ t ≤ 1, e ser´a denominado caminho retil´ıneo em E de extremos a e b (isto ´e, [a, b] = f([0, 1]); ver figura abaixo). a b f(t) = (1 − t)a + tb E E 0 1 f Com isto temos a Defini¸c˜ao 5.3.3 Sejam (E, . ) ´e um espa¸co vetorial normado e X ⊆ E. Diremos X ´e um subconjunto convexo de E se dados a, b ∈ X temos que [a, b] ⊆ X. Observa¸c˜ao 5.3.3 Na situa¸c˜ao acima, X ⊆ E ´e convexo se, e somente se, o segmento de reta que une dois pontos de X est´a contido em X (ver figura abaixo). X a b Convexo X a b T ∈ X N˜ao Convexo
  • 197.
    5.3. CONEX ˜AOPOR CAMINHOS 197 Temos a Proposi¸c˜ao 5.3.1 Sejam (E, . E), (F, . F ) espa¸cos vetoriais normados e X ⊆ E e Y ⊆ F subconjuntos convexos. Ent˜ao X ×Y ´e um subconjunto convexo de E ×F (munido de uma das trˆes normas usuais). Demonstra¸c˜ao: De fato, se z = (x, y), z = (x , y ) ∈ X × Y ent˜ao x, x ∈ X e y, y ∈ Y . Como X e Y s˜ao convexos em E e F, respectivamente, e temos que (1 − t)x + tx ∈ X, (1 − t)y + ty ∈ Y, 0 ≤ t ≤ 1. Logo (1 − t)z + tz = (1 − t)(x, y) + t(x , y ) = ((1 − t)x + tx , (1 − t)y + ty ) ∈ X × Y para todo t ∈ [0, 1], mostrando que X × Y ser´a convexo em E × F. Temos tamb´em Proposi¸c˜ao 5.3.2 Sejam (E, . E) espa¸co vetorial normado e X, Y ⊆ E subconjuntos convexos de E. Ent˜ao X ∩ Y ´e um subconjunto convexo de E. Demonstra¸c˜ao: De fato, se x, y ∈ X ∩ Y ent˜ao x, y ∈ X e x, y ∈ Y . Como X e Y s˜ao convexos em E temos que (1 − t)x + ty ∈ X, (1 − t)x + ty ∈ Y, 0 ≤ t ≤ 1, ou seja, (1 − t)x + ty ∈ X ∩ Y, mostrando que X ∩ Y ser´a convexo em E. Observa¸c˜ao 5.3.4 1. A reuni˜ao de dois subconjuntos convexos em um espa¸co vetorial normado (E, . E) pode n˜ao ser um subconjunto convexo de E, como mostra o seguinte exemplo: Consideremos R2 munido da m´etrica usual, X . = [0, 1] × {(0, 0)} e Y . = {(0, 0)} × [0, 1] que s˜ao subconjuntos convexos de R2 (a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor).] Mas X ∪ Y = [0, 1] × {(0, 0)} ∪ {(0, 0)} × [0, 1] n˜ao ´e convexo (pois, a . = (1 2 , 0) ∈ X, b . = (0, 1 2 , 0) ∈ Y mas para todo t ∈ (0, 1) temos que (1 − t)a + tb ∈ X ∪ Y (veja figura abaixo).
  • 198.
    198 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS (0, 0) {(0, 0)} × [0, 1] [0, 1] × {(0, 0)} (0, 1 2 ) ( 1 2 , 0) (1 − t)a + tb ∈ X ∪ Y 2. Sob que condi¸c˜oes necess´arias e suficientes a reuni˜ao de dois conjuntos convexos ser´a um conjunto convexo? A seguir temos o seguinte exemplo importante de subconjuntos convexos em um espa¸co vetorial normado. Exemplo 5.3.1 Sejam (E, . E) espa¸co vetorial normado, a ∈ E e r 0. Ent˜ao B(a; r) ´e um subconjunto convexo de E. De fato, se x, y ∈ B(a; r) ent˜ao x − a r e y − a r. (∗) Se t ∈ [0, 1] mostremos que (1 − t)x + ty ∈ B(a; r). Para ver isto, observemos que [(1 − t)x + ty] − a [a=(1−t)a+ta] = [(1 − t)x + ty] − [(1 − t)a + ta] = (1 − t)[x − a] + t[y − a] ≤ (1 − t)[x − a] + t[y − a] = |(1 − t)| x − a + |t| [y − a] [(∗)] (1 − t)r + tr = r, ou seja, (1 − t)x + ty ∈ B(a; r) para todo t ∈ [0, 1], mostrando que B(a; r) ´e um subconjunto convexo de E. Observa¸c˜ao 5.3.5 De modo semelhante mostra-se que B[a; r] tamb´em ´e um subconjunto con- vexo de E. Isto ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor. Defini¸c˜ao 5.3.4 Um espa¸co m´etrico (M, dM ) ser´a dito conexo por caminhos se dois pontos quaisquer de M podem ser unidos por um caminho contido em M. Diremos que X ⊆ M conexo por caminhos se o subespa¸co m´etrico (X, dM ) tem essa propriedade. Observa¸c˜ao 5.3.6 Se (E, . ) ´e um espa¸co vetorial normado ent˜ao todo subconjunto convexo, X, de E ´e conexo por caminhos (pois dados dois pontos de X o segmento de reta que os une ´e um caminho unindo os dois pontos e est´a contido em X). Em particular, toda bola aberta (ou fechada) em um espa¸co vetorial normado ´e um subcon- junto conexo por caminhos.
  • 199.
    5.3. CONEX ˜AOPOR CAMINHOS 199 Temos o seguinte resultado Proposi¸c˜ao 5.3.3 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico. Se M ´e conexo por caminhos ent˜ao M ser´a conexo. Demonstra¸c˜ao: Observemos que se a, b ∈ M ent˜ao existe um caminho, em M, unindo o ponto a ao ponto b, ou seja, existe f : [0, 1] → M tal que f(0) = a e f(1) = b. Como [0, 1] ´e conexo em R e f ´e cont´ınua em [0, 1] segue que f([0, 1]) ⊆ M ser´a conexo em M. Conclus˜ao, dados dois pontos de M existe um conexo em M (Xab . = f([0, 1])) que cont´em os dois pontos. Logo do corol´ario (5.2.3) segue que M ser´a conexo. Observa¸c˜ao 5.3.7 Uma demonstra¸c˜ao alternativa a exibida acima ´e: Suponhamos, por absurdo, que M n˜ao ´e conexo, isto ´e M = A ∪ B ´e uma cis˜ao, n˜ao trivial, de M. Como A, B = ∅, sejam a ∈ A e b ∈ B. Como M ´e conexo por caminhos existe f : [0, 1] → M cont´ınua tal que f(0) = 1 e f(1) = b. Logo [0, 1] = f−1 (M) = f−1 (A ∪ B) = f−1 (A) ∪ f−1 (B) seria uma cis˜ao n˜ao trivial de [0, 1] (pois 0 ∈ f−1(A), 1 ∈ f−1(B), s˜ao subconjuntos abertos de [0, 1], pois f ´e cont´ınua em [0, 1], e n˜ao vazios em [0, 1]) e assim [0, 1] n˜ao seria conexo, o que ´e um absurdo. Logo M deve ser conexo. Exemplo 5.3.2 Sejam (E, . E) espa¸co vetorial normado tal que dim(E) 1 e a ∈ E. Ent˜ao E {a} ´e conexo por caminhos (em particular, conexo). De fato, Se x, y ∈ E {a} se [x, y] ⊆ E {a} teremos que o segmento te reta que une x a y ser´a um caminho contido em E {a} (veja figura abaixo). a x y E Se a ∈ [x, y], como dim(E) 1, existe z fora do segmento [x, y] (veja figura abaixo).
  • 200.
    200 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS a x y E z Assim o caminho [x, z] ∨ [z, y] ser´a um caminho unindo os pontos x e y e estar´a contido em E {a}. Deste modo concluimos que E {a} ´e conexo por caminhos. Podemos generalizar o exemplo acima Exerc´ıcio 5.3.1 Seja X ⊆ R2 um subconjunto enumer´avel. Afirmamos que R2 X ´e conexo por caminhos (e portato conexo). De fato, sejam x, y ∈ R2 X. Consideremos S uma reta em R2 que corte o segmento [x, y] num ponto interior do mesmo (veja figura abaixo). x y S Para cada z ∈ Z consideremos os caminhos justapostos fz . = [x, z] ∪ [z, y]. Se z = z em S ent˜ao os caminhos fz e fz tˆem, apenas as extremidades x, y em comum (veja figura abaixo).
  • 201.
    5.3. CONEX ˜AOPOR CAMINHOS 201 x y S z z Suponhamos, por absurdo, que nenhum dos caminhos fz estivesse contido em R2 X. Ent˜ao, para cada z ∈ S, existir´a λ(z) que pertence a imagem de fz e ao conjunto X. Logo a aplica¸c˜ao λ : S → X ser´a injetora, implicando que S ´e, no m´aximo enumer´avel, o que ´e um absrudo pois S ´e uma reta em R2 (logo n˜ao enumer´avel). Portanto, existe, pelo menos um, z ∈ S tal que fz ´e um caminho unindo x e y e contido em R2 X. Portanto R2 X ´e conexo por caminhos. Observa¸c˜ao 5.3.8 1. Em particular se Y . = {(x, y) ∈ R2 : x ∈ I ou y ∈ I} ´e conexo por caminhos. De fato, sabemos que Y = R2 Q2 e pelo exemplo anterior, como Q2 ´e enumer˜avel (pois ´e um produto cartesiano de conjuntos enumer´aveis) segue que Y ser´a conexo por caminhos (em particular ser´a conexo). 2. Em geral, se (E, . ) ´e um espa¸co vetorial normado, dim(E) 1 e X ⊆ E ´e enumer´avel ent˜ao E X ser´a conexo por caminhos (e portanto conexo). De fato, se x, y ∈ E X existe um plano, P, de E (ou seja, um subsepa¸co de dimens˜ao 2 de E) que cont´em x e y. Logo do exemplo acima segue que x pode ser unido a y por um caminho contido em P X e portanto contido em E X, mostrando que E X ´e conexo por caminhos. Temos os seguinte resultados: Proposi¸c˜ao 5.3.4 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e ϕ : M → N cont´ınua em M. Se M ´e conexo por caminhos ent˜ao ϕ(M) ⊆ N tamb´em ser´a conexo por caminhos.
  • 202.
    202 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS Demonstra¸c˜ao: Dados a, b ∈ ϕ(M) segue que existem x, y ∈ M tais que ϕ(x) = a e ϕ(y) = b. Como M ´e conexo por caminhos e x, y ∈ M existe f : [0, 1] → M cont´ınua em M tal que f(0) = x e f(1) = y. Consideremos g : [0, 1] → N dada por g(t) . = ϕ(f(t)), t ∈ [0, 1]. Como f(t) ∈ M para todo t ∈ [0, 1] segue que g(t) ∈ ϕ(M) para todo t ∈ [0, 1], ou seja g : [0, 1] → ϕ(M). Al´em disso, como ϕ e f s˜ao cont´ınuas em M e em [0, 1], respectivamente, segue que g ´e cont´ınua em [0, 1]. Temos tamb´em que, g(0) = ϕ(f(0)) = ϕ(x) = a e g(1) = ϕ(f(1)) = ϕ(y) = b. Logo g ´e um caminho em ϕ(M) que une os pontos a e b, mostrando que ϕ(M) ´e conexo por caminhos (veja figura abaixo). EE f 0 1 ϕ a = ϕ(x) = g(0) b = ϕ(y) = g(1) x = f(0) y = f(1) g = ϕ ◦ f Observa¸c˜ao 5.3.9 O resultado acima nos diz que a imagem de um conjunto conexo por cami- nhos por uma aplica¸c˜ao cont´ınua ´e um conjunto conexo por caminhos (em particular ser´a conexo). Observa¸c˜ao 5.3.10 O resultado acima nos diz que a reuni˜ao qualquer de conjuntos conexos por caminho que contenham, pelo menos, um ponto em comum ´e um conjunto conexo por caminhos (em particular ser´a conexo). Proposi¸c˜ao 5.3.5 Sejam (M1, d1), · · · (Mn, dn) espa¸cos m´etricos M . = M1 × · · · × Mn (munido de uma das trˆes m´etrica usuais) ´e conexo por caminhos se, e somente se, Mi ´e conexo por caminhos para todo i = 1, · · · , n. Demonstra¸c˜ao:
  • 203.
    5.3. CONEX ˜AOPOR CAMINHOS 203 Se M . = M1 × · · · × Mn ´e conexo por caminhos ent˜ao como, para cada i = 1, · · · , n, a proje¸c˜ao pi : M1 × · · · × Mn → Mi ´e cont´ınua em M1 × · · · × Mn segue, da proposi¸c˜ao (5.3.4), que Mi = pi(M1 × · · · × Mn) ´e conexo por caminhos. Reciprocamente, suponhamos que para cada i = 1, · · · , n temos que Mi ´e conexo por cam- inhos. Sejam x = (x1, · · · , xn), y = (y1, · · · , yn) ∈ M = M1×· · ·×Mn onde xi, yi ∈ Mi, i = 1, · · · , n. Como xi, yi ∈ Mi e este ´e conexo por caminhos, existe um caminho fi : [0, 1] → Mi contido em Mi unindo o ponto xi ao ponto yi, i = 1, · · · , n. Consideremos f : [0, 1] → M dada por f(t) . = (f1(t), · · · , fn(t)), t ∈ [0, 1]. Logo f ser´a cont´ınua em [0, 1] (pois para cada i = 1, · · · , n temos que fi ´e cont´ınua em Mi), f(0) = (x1, · · · , xn) = x, f(1) = (y1, · · · , yn) = x e f([0, 1]) ⊆ M = M1 × · · · × Mn, isto ´e, ´e um caminho, contido em M, unindo o ponto x ao ponto y, mostrando que M = M1 × · · · × Mn ´e conexo por caminhos. Observa¸c˜ao 5.3.11 O resultado acima nos diz que o produto cartesiano de conjuntos conexos por caminhos ser´a conexo por caminhos. Em particular ser´a conexo. 6.11.2008 - 25.a Proposi¸c˜ao 5.3.6 Sejam (Mλ, dλ) espa¸cos m´etricos conexos por caminhos para cada λ ∈ A, tais que Mλ ∩ Mβ = ∅ se λ, β ∈ A. Ent˜ao M . = λ∈A Mλ tamb´em ser´a conexo por caminhos. Demonstra¸c˜ao: Seja x, y ∈ M = M . = λ∈A Mλ. Logo existem λ, β ∈ A tal que x ∈ Mλ e y ∈ Mβ. Seja p ∈ Xλ ∩ Xβ. Como Mλ e Mβ s˜ao conexos por caminho e x, p ∈ Mλ e y, p ∈ Mβ segue que existem caminhos f : [0, 1] → Mλ e g : [0, 1] → Mβ tais que f(0) = x, f(1) = p = g(0) e g(1) = y. Logo considerando o caminho justaposto f ∨ g : [0, 1] → Mλ ∪ Mβ temos que este unir´a o ponto x ao ponto y e estar´a contido em Mλ ∪ Mβ ⊆ M, mostrando que M = λ∈A Mλ ´e conexo por caminhos (veja figura abaixo).
  • 204.
    204 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS Mλ Mβ x = f(0) f(1) = p = g(0) y = g(1) u # f g 0 1 A seguir exibiremos um conjunto conexo que n˜ao ´e conexo por caminhos. Exemplo 5.3.3 Consideremos R2 com a m´etrica usual. Seja X ⊆ R2 o gr´afico da fun¸c˜ao f : [0, ∞) → R dada por f(x) . = cos(1 x), x = 0 0, x = 0 . O exemplo (5.2.5) mostra que G(f) = {(x, f(x)) : x ∈ [0, ∞)} ´e conexo, com a m´etrica induzida pela m´etrica de R2 (pois X ⊆ G(F) ⊆ X onde X e X s˜ao conexos pelo exemplo citado). Mostremos que G(f) n˜ao ´e conexo por caminhos. Na verdade mostraremos que se g : [0, 1] → G(f) ´e um caminho como g(0) = (0, 0) ∈ G(f) ent˜ao g dever´a ser constante (e igual a (0, 0)) em [0, 1]. Se isto for verdade, n˜ao existir´a nenhum caminho unindo (0, 0) a um ponto (x, f(x)) para x = 0, ou seja, G(f) n˜ao ser´a conexo por caminhos. Mostremos que g deve ser constante em [0, 1]. Seja α : [0, 1] → [0, ∞) tal que g(t) = (α(t), f(α(t))), t ∈ [0, 1] ou seja, α . = p1 ◦ g, p1 a proje¸c˜ao na primeira componente (logo cont´ınua em [0, 1] pois g ´e cont´ınua em [0, 1] e a proje¸c˜ao na primeira componente tamb´em ´e cont´ınua). Logo α ´e cont´ınua em [0, 1]. Seja A . = {t ∈ [0, 1] : α(t) = 0}. Mostraremos que A = [0, 1] (e assim α(t) = 0 para t ∈ [0, 1], ou seja g ser´a constante em [0, 1]). Observemos que A ´e fechado em [0, 1] (pois A = α−1({0} e {0} ´e fechado em R); A ´e n˜ao vazio (pois α(0) = 0, isto ´e 0 ∈ A). Afirmamos que A ´e aberto em [0, 1]. De fato, se a ∈ A temos que α(a) = 0 e assim g(a) = (α(a), f(α(a)) = (0, 0).
  • 205.
    5.3. CONEX ˜AOPOR CAMINHOS 205 Como g ´e cont´ınua em a, dado ε = 1 0, existe uma bola aberta, J = B(a; δ) ⊆ [0, 1], de centro em a em [0, 1], tal que se t ∈ J temos que g(t) [g(a)=0] = g(t) − g(a) 1. (∗) Como J ´e um intervalo (pois ´e uma bola aberta em R) e α ´e cont´ınua em [0, 1] segue que α(J) ´e um intervalo em R contendo 0 (pois a ∈ J e α(a) = 0). Afirmamos que α(J) = {0}. Caso, contr´ario, existir´a n ∈ N tal que 1 2πn ∈ α(J), ou seja, exitir´a tn ∈ J tal que α(tn) = 1 2πn . Mas, g(t) = g( 1 2πn , f( 1 2πn )) = ( 1 2πn , 1) e assim g(tn) = ( 1 2πn )2 + 12 ≥ 1 com tn ∈ J, contrariando (*). Assim J, que ´e uma bola aberta em [0, 1], de centro em a, est´a contida em A, ou seja, A ´e aberto em [0, 1]. Como [0, 1] ´e conexo segue, da proposi¸c˜ao (5.1.1) item 2., que A = [0, 1]. Com isto segue que G(f) n˜ao poder´a ser conexo por caminhos. E T −1 1 (x, cos( 1 x )) f(0) Observa¸c˜ao 5.3.12 O exemplo acima nos mostra que o fecho de um conjunto conexo por cam- inhos por n˜ao ser conexo por caminhos (diferentemente do que acontece com a conex˜ao). Para ver isto basta considerar a restri¸c˜ao f|(0,∞) . Exemplo 5.3.4 Seja n ∈ N. A esfera Sn . = {x ∈ Rn+1 : x = 1} ´e conexa por caminhos .
  • 206.
    206 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS De fato, a aplica¸c˜ao f : Rn+1 {0} → Sn dada por f(x) . = x x para x ∈ Rn+1 {0} ´e cont´ınua e sobrejetora. Sabemos que Rn+1 {0} ´e conexo por caminhos (pois n ≥ 1) logo da proposi¸c˜ao (5.3.4) segue que f(Rn+1 {0}) = Sn tamb´em ser´a. Exerc´ıcio 5.3.2 Podemos obter uma prova alternativa para o fato acima da seguinte forma: Sejam a, b ∈ Sn, com b = −a (isto ´e, o ponto b n˜ao ´e o ant´ıpoda do ponto a em Sn). Ent˜ao definamos f[0, 1] → Sn por f(t) . = (1 − t)a + tb (1 − t)a + tb , t ∈ [0, 1]. Ent˜ao f ´e um caminho em Sn que une o ponto a = f(0) ao ponto b = f(1). Este caminho ´e denominado arco de uma grande circunferˆencia de Sn (ver figura abaixo). a b Se b = −a ent˜ao existir˜ao infinitos arcos de grandes circunferˆencias ligando os pontos a e b em Sn. Escolhendo-se um deles do seguinte modo: fixemos c ∈ Sn, c = a e c = b e consideramos o caminho f que ´e o justaposto dos caminhos obtidos dos arcos unindo o ponto a ao ponto c e o ponto c ao ponto b.
  • 207.
    5.3. CONEX ˜AOPOR CAMINHOS 207 b = −a a c A seguir daremos uma condi¸c˜ao suficiente para que um espa¸co m´etrico conexo seja conexo por caminhos. Defini¸c˜ao 5.3.5 Diremos que um espa¸co m´etrico (M, d) ´e localmente conexo por caminhos se para todo x ∈ M e toda vizinhan¸ca de x, V = V (x) existir uma vizinhan¸ca de x, U = U(x), conexa por caminhos, tal que x ∈ U ⊆ V . M x V U Observa¸c˜ao 5.3.13 Observemos que a vizinha¸ca de x dada, V , n˜ao necessita ser conexa por caminhos. Geometricamente temos
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    208 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS M x V U V Como exemplo temos Exemplo 5.3.5 Todo espa¸co vetorial normado (E, . ) ´e localmente conexo por caminhos. De fato, dado x ∈ E e uma vizinhan¸ca de x, V = V (x) em E, da defini¸c˜ao de vizinhan¸ca, segue que x ∈ int(V ). Logo existe U . = B(x; r) tal que B(x; r) ⊆ V . Mas U . = B(x; r) ´e convexa, logo conexa por caminhos, mostrando que x ∈ U ⊆ V , onde U ´e uma vizinhan¸ca conexa por caminho, ou seja E ´e localmente conexo por caminhos. Exemplo 5.3.6 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico localmente conexo por caminhos. Ent˜ao todo subconjunto aberto, A, de M ser´a localmente conexo por caminhos. De fato, dados x ∈ A e uma vizinhan¸ca de x, V , contida em A, ou seja, x ∈ intA(V ) ⊆ A. Mas A ´e um subconjunto aberto de M, assim intA(V ) = intM (V ), isto ´e, intA(V ) ´e um subconjunto aberto de M. Logo x ∈ V que ´e uma vizinhan¸ca de x em M. Como M ´e localmente conexo por caminhos existe uma vizinhan¸ca de x em M, U conexa por caminhos tal que x ∈ U ⊆ V ⊆ A, ou seja, A ´e localmente conexa por caminhos. Observa¸c˜ao 5.3.14 Como consequˆencia do exemplo acima temos que todo subconjunto aberto de um espa¸co vetorial normado ser´a localmente conexo por caminhos. Para finalizar temos a Proposi¸c˜ao 5.3.7 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico localmente conexo por caminhos. Ent˜ao M ´e conexo se, e somente se, M ´e conexo por caminhos. Demonstra¸c˜ao: Sabemos que se M ´e conexo por caminhos ent˜ao M ´e conexo. Suponhamos que M ´e conexo. Mostremos que M ´e conexo por caminhos. Dado a ∈ M consideremos A . = {x ∈ M : existe um caminho f : [0, 1] → M que une o ponto x ao ponto a contido em M. Afirmamos que A ´e aberto em M.
  • 209.
    5.4. COMPONENTES CONEXAS209 De fato, se x ∈ A, como M ´e localmente conexo por caminhos, existe uma vizinhan¸ca de x, U, em M que ´e conexa por caminho e x ∈ U. Assim temos que se u ∈ U existe um caminho g : [0, 1] → M contido em U que une o ponto u ao ponto x. Como x ∈ A temos que existe um caminho f : [0, 1] → M que une o ponto x ao ponto a contido em M, ou seja, o caminho justaposto g ∨ f ´e um caminho contido em M que une o ponto u ao ponto a. Assim podemos concluir que u ∈ A. Logo x ∈ U ⊆ A, U vizinhan¸ca de x em M. Assim existe B(x; ε) ⊆ U ⊆ A , isto ´e, A ´e um subconjunto aberto de M. Afirmamos que A ´e um um subconjunto fechado em M. Mostremos que M A ´e aberto em M. De fato, se y ∈ M A. (*) Observemos que como y ∈ A n˜ao existe um caminho h : [0, 1] → M que une o ponto y ao ponto a. Como M ´e localmente conexo por caminhos e V . = M A ´e uma vizinhan¸ca de y em M dever´a existir uma vizinhan¸ca de y, W, em M conexa por caminhos tal que y ∈ W. Mas se w ∈ W temos que temos que existe um caminho h : [0, 1] → M que une o ponto w ao ponto y contido em W. Como isto segue que w ∈ A pois, caso contr´ario, se w ∈ A existiria um caminho f[0, 1] → M que une o ponto w ao ponto a em M e assim o caminho justaposto h ∨ f uniria o ponto y ao ponto a em M, ou seja, y ∈ A, o que contraria (*). Logo y ∈ W ⊆ M A, W vizinhan¸ca de y. Logo existe B(y; δ) ⊆ W ⊆ M A, mostrando que M A ´e aberto. Portanto A ´e aberto e fechado em M, que ´e conexo, assim A = M ou A = ∅. Como M ´e localmente conexo por caminhos segue que A = ∅ assim concuimos que A = M e portanto M ´e conexo por caminhos (pois dados dois pontos x, y ∈ M segue que existem caminhos f : [0, 1] → M e g : [0, 1] → M tais que f(0) = x, f(1) = a e g(0) = a, g(1) = y e assim o caminho justaposto g ∨ f ser´a um caminho em M que une os pontos x e y). 5.4 Componentes conexas Observa¸c˜ao 5.4.1 Se um espa¸co m´etrico (M, d) n˜ao ´e conexo ele est´a ”divido” em quantos ”peda¸cos”? A seguir colocaremos esta quest˜ao em termos mais claros. Defini¸c˜ao 5.4.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e x ∈ M. Definimos a componente conexa de x em M, que indicaremos por Cx, como sendo a reuni˜ao de todos os subconjuntos conexos de M que cont´em o ponto x, isto ´e, Cx = x∈A(x) ´e conexo em M A(x) Observa¸c˜ao 5.4.2 1. Se x ∈ M sempre existe uma conexo de M que cont´em x, a saber, o conjunto {x}. Portanto Cx = ∅.
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    210 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS 2. Como A(x) ´e conexo em M e cont´em x segue que Cx ser´a conexo (pois ´e reuni˜ao de conexos que tem um ponto em comum, no caso, x). 3. Cx ´e o maior subconjunto conexo de M que cont´em x, isto ´e, se X ⊆ M ´e conexo em M e cont´em x ent˜ao X ⊆ Cx. De fato, pois se X ⊆ M ´e conexo em M e cont´em x ent˜ao X = A(x) para algum A(x), logo X ⊆ Cx. 4. Dados x, y ∈ M temos uma, e somente uma, das duas possibilidades: (a) ou Cx = Cy; (b) ou Cx ∩ Cy = ∅. De fato, suponhamos que z ∈ Cx ∩ Cy. Como z ∈ Cx temos que z ∈ A(x) para algum conexo A(x) contendo x. Assim A(x) ´e um conexo que cont´em z ∈ Cy, logo A(x) ⊆ Cy, ou seja, Cx ⊆ Cy. De modo semelhante, mostra-se que Cy ⊆ Cx e portanto Cx = Cy mostrando que temos somente uma das duas possibilidades acima. 5. Deste modo podemos escrever M = x∈M Cx, (∗) ou ainda, a fam´ılia de conexos (Cx)x∈M ´e uma parti¸c˜ao de M em partes disjuntas, isto ´e, vale (*) e temos uma, e somente uma, das possibilidades (a) ou Cx = Cy; (b) ou Cx ∩ Cy = ∅. 6. Cada componente conexa C de M ´e a componente conexa de cada um de seus pontos, isto ´e, se x ∈ C ent˜ao Cx = C. Al´em disso, C ´e um subconjunto conexo m´aximo, no sentido que, se X ´e conexo em M e C ⊆ X ent˜ao X = C. 7. Todo subconjunto conexo n˜ao vazio de M est´a contido em uma, ´unica, componente conexa de M. De fato, se X ´e subconjunto conexo n˜ao vazio de M ent˜ao existe x ∈ X. Do que vimos acima segue que X ⊆ Cx e Cx ´e a ´unica com a propriedade de ser componente conexa e conter o conjunto X. 8. Toda componente conexa de M ´e um subconjunto fechado de M. De fato, se Cx ´e componente conexa ent˜ao ser´a conexo. Assim Cx tamb´em ser´a conexo e conter´a Cx. Logo Cx = Cx, mostrando que Cx ´e um subconjunto fechado de M. Proposi¸c˜ao 5.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e h : M → N um homeomorfismo. Ent˜ao C ´e uma componente conexa de M se, e somente se, h(C) ´e uma componente conexa de N.
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    5.4. COMPONENTES CONEXAS211 Demonstra¸c˜ao: Observemos que C = Cx para algum x ∈ M. Seja y . = h(x) (que ´e ´unico pois h ´e biejtora). Sabemos que se C = Cx ´e uma componente conexa de M ent˜ao, em particular, Cx ´e um conjunto conexo de M. Como h ´e cont´ınua segue que h(Cx) ser´a um subconjunto conexo de N. Como y ∈ h(Cx) temos que h(Cx) ⊆ Cy. (∗) De modo semelhante, temos que h−1(Cy) ser´a um conexo em M que cont´em x = h−1(y). Logo h−1 (Cy) ⊆ Cx implicando que Cy ⊆ h(Cx). (∗∗) Portanto, por (*) e (**), segue que Cy = h(Cx), como quer´ıamos mostrar. Exemplo 5.4.1 Consideremos M . = R {0} com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R. As componentes conexas de M s˜ao (−∞, 0) e (0, ∞). Observa¸c˜ao 5.4.3 Veremos no exemplo a seguir que nem sempre as componentes conexas de um espa¸co m´etrico precisam ser subconjuntos abertos do espa¸co m´etrico. Exemplo 5.4.2 Consideremos Q com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R. Cada componente conexa de Q reduz-se a um ´unico ponto. Em particular, nenhuma componente conexa de Q ´e um subconjunto aberto. Exerc´ıcio 5.4.1 Podemos generalizar o exemplo anterior, a saber: Se (M, d) ´e um espa¸co m´etrico enumer´avel ent˜ao toda componente conexa de M se reduz a um ´unico ponto. Isto equivale a mostrar que se (M, d) ´e um espa¸co m´etrico conexo e tem mais de um ponto ent˜ao M ´e n˜ao enumer´avel (pois se fosse enumer´avel e tem mais de um ponto, o conjunto formado por cada um de seus pontos seriam componentes conexas distintas e assim M n˜ao seria conexo). Para mostrar esta ´ultima afirma¸c˜ao fixemos a ∈ M e consideremos a fun¸c˜ao da : M → R dada por da(x) . = d(x, a), x ∈ M. Sabemos que da ´e uma aplica¸c˜ao cont´ınua em M. Como M ´e conexo segue que da(M) ser´a um conexo em R, ou seja, um intervalo J = da(M). Temos que existe b ∈ M tal que b = a. Portanto J cont´em, pelo menos, os pontos distintos 0 = d(a, a) = da(a) e d(a, b) = da(b). Dai conlcui-se que J ´e n˜ao enumer´avel (pois conter´a todos os n´umeros reais entre (0, d(a, b))). Como da ´e injetora temos que #(M) ≥ #(da(M)) = #(J), mostrando que M ´e n˜ao enumer´avel (#(X) denota a cadinalidade do conjunto X).
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    212 CAP´ITULO 5.CONJUNTOS CONEXOS
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    Cap´ıtulo 6 Limites Neste cap´ıtuloestudaremos o comportamento das sequˆencias em espa¸cos m´etricos. 6.1 Limites de sequˆencias Defini¸c˜ao 6.1.1 Uma aplica¸c˜ao x : N → M ser´a denominada sequˆencia em M e indicada por (xn)n∈N, onde xn . = x(n), n ∈ N ser´a dito n-´esimo termo da sequˆencia. Exemplo 6.1.1 Fixemos a ∈ R e consideremos a sequˆencia (xn)n∈N em R2 dada por xn . = (cos(na), sen(na)), n ∈ N. Observemos que xn ∈ S1, para n ∈ N. Al´em disso, se a ´e m´ultiplo racional de 2π, isto ´e, a = 2πp q onde p, q ∈ N, q = 0 ent˜ao temos que xn = xm se, e somente se, existe k ∈ N tal que (m − n)a = 2kπ. Defini¸c˜ao 6.1.2 Dada uma sequˆencia (xn)n∈N e A = {n1, n2, · · · } ⊆ N ´e um subconjunto infinito de N, como n1 n2 n3 · · · ent˜ao podemos considerar a sequˆencia (xnk )k∈N que ser´a denominada subsequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N. Exerc´ıcio 6.1.1 A sequˆencia (xm)m∈N onde xm . = 22m , m ∈ N ´e uma uma subsequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N dada por xn . = 2n , n ∈ N. Para ver isto basta tomar nk = 2k, k ∈ N. Defini¸c˜ao 6.1.3 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico. Diremos que a sequˆencia (xn)n∈N ´e limitada em M se existir c 0 tal que d(xn, xm) ≤ c, para todo n, m ∈ N. 213
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    214 CAP´ITULO 6.LIMITES Exerc´ıcio 6.1.2 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico. Uma sequˆencia (xn)n∈N que ´e constante, isto ´e, xn = a para todo n ∈ N ´e limitada. De fato, escolha c 0 qualquer. Ent˜ao para todo n, m ∈ N temos que d(xn, xm) = d(a, a) = 0 c. Mais geralmente, se a sequˆencia (xn)n∈N assume um n´umero finito de valores ent˜ao ele ser´a limitada. De fato, sejam a1, · · · , ak ∈ M tais que para todo n ∈ N temos xn = a1 ou , · · · , ou xn = ak. Consideremos c = max{d(ai, aj) : i, j = 1, · · · , k}. Segue que d(xn, xm) ≤ max{d(ai, aj) : i, j = 1, · · · , k} = c. Observa¸c˜ao 6.1.1 Se uma sequˆencia ´e limitada ent˜ao toda subsequˆencia da mesma tamb´em ser´a limitada. Defini¸c˜ao 6.1.4 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia em M. Diremos que a ∈ M ´e ponto limite da sequˆencia (xn)n∈N em M se dado ε 0 existir n0 ∈ N tal que se n n0 implicar d(xn, a) ε. Neste caso escreveremos a = lim n→∞ xn = lim n xn = lim xn. Diremos tamb´em que xn tende a a quando n tende a ∞ e escreveremos xn → a. Ainda nester caso, diremos que a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia convergente em M e que converge para a, em M. Se n˜ao existe lim n→∞ xn em M diremos que a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia divergente em M. Observa¸c˜ao 6.1.2 1. Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia em M. Temos que xn → a se, e somente se, para toda bola aberta centrada em a a sequˆencia inteira est´a contida na bola, exceto um n´umero finito de termos da mesma (isto ´e, existe n0 ∈ N tal que se n n0 temos que xn pertence a bola dada). a Bεxn
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    6.1. LIMITES DESEQUˆENCIAS 215 2. De modo semelhante, xn → a se, e somente se, para todo subconjunto aberto de M con- tendo a a sequˆencia inteira est´a contida nesse aberto, exceto um n´umero finito de termos da mesma (isto ´e, existe n0 ∈ N tal que se n n0 temos que xn pertence ao aberto dado). a xn A 3. Ou ainda, xn → a se, e somente se, para toda vizinhan¸ca de a em M, a sequˆencia inteira est´a contida nessa vizinhan¸ca, exceto um n´umero finito de termos da mesma (isto ´e, existe n0 ∈ N tal que se n n0 temos que xn pertence `a vizinhan¸ca dada). Exerc´ıcio 6.1.3 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico que contenha, pelo menos, dois pontos distin- tos. Ent˜ao existe uma sequˆencia em M que ´e divergente. De fato, suponhamso que a, b ∈ M e a = b. Consideremos a sequˆencia (xn)n∈N dada por xn . = a, n par b, n ´ımpar . Afirmamos que nenhum ponto c ∈ M poder´a ser limite da sequˆencia (xn)n∈N. De fato, se tomarmos ε . = d(a, b) 2 0 ent˜ao B(c; ε) n˜ao conter´a ambos os pontos a e b e portanto n˜ao existir´a n0 ∈ N tal que xn ∈ B(c; ε), ou seja, x → c para todo c ∈ M (veja figura abaixo). q a b c ε = d(a,b) 2
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    216 CAP´ITULO 6.LIMITES Exerc´ıcio 6.1.4 A sequˆencia (xn)n∈N em R dada por xn . = 1 n , n ∈ N ´e convergente para 0 em R, onde R est´a munido da m´etrica usual. De fato, dado ε 0 seja n0 ∈ N tal que n0 1 ε . (*) Logo se n n0 temos que d(xn, 0) = |xn − 0| = 1 n [nn0] 1 n0 (∗) ε. 11.11.2008 - 26.a Em geral temos os seguintes resultados para convergˆencia de sequˆencias Proposi¸c˜ao 6.1.1 Seja (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia convergente em M. Ent˜ao a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia limitada em M. Demonstra¸c˜ao: De fato, seja a = lim n→∞ xn. Logo, dado ε = 1, existe n0 ∈ N tal que se n n0 temos d(xn, a) ε = 1. Assim se n n0 temos que xn ∈ B(a; 1). Portanto xn ∈ B(a; 1) ∪ {x1, · · · , xn0 } que ´e a reuni˜ao de dois conjuntos limitados de M, logo limitado em M. Proposi¸c˜ao 6.1.2 (Unicidade do limite) Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia convergente em M. Ent˜ao lim n→∞ xn ´e ´unico em M. Demonstra¸c˜ao: De fato, suponhamos que a = lim n→∞ xn e b = lim n→∞ xn. Logo, dado ε 0, existe n0, n1 ∈ N tal que se n n0 teremos d(xn, a) ε 2 , (∗) se n n1 teremos d(xn, b) ε 2 . (∗∗) Seja n max{n0, n1}. Ent˜ao d(a, b) ≤ d(a, xn) + d(xn, b) [(∗) e (∗∗)] ε 2 + ε 2 = ε. Portanto d(a, b) = 0 logo a = b, mostrando que o limite deve ser ´unico. Como consequˆencia temos o
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    6.1. LIMITES DESEQUˆENCIAS 217 Corol´ario 6.1.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia convergente para a em M. Se xn = a para todo n ∈ N temos que a sequˆencia (xn)n∈N n˜ao ser´a convergente em M {a}. Demonstra¸c˜ao: Se existisse b ∈ M {a} tal que xn → b ent˜ao ter´ıamos b = a e assim a sequˆencia (xn)n∈N teria dos limites diferentes contrariando a proposi¸c˜ao acima. Proposi¸c˜ao 6.1.3 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia convergente para a em M. Ent˜ao toda subsequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N ser´a convergente para a em M. Demonstra¸c˜ao: Seja (xnk )k∈N ´e uma subsequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N. Como a sequˆencia (xn)n∈N ´e convergente para a em M, dado ε 0 existe n0 ∈ N tal que n n0 temos d(xn, a) ε. Logo existe k0 ∈ N tal que nk0 n0 e assim se k k0 temos d(xnk , a) ε, mostrando que a subsequˆencia (xnk )k∈N ´e convergente para a em M, como quer´ıamos mostrar. Como consequˆencia temos os Corol´ario 6.1.2 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia convergente para a em M. Ent˜ao, para todo p ∈ N, lim n→∞ xn+p = a. Demonstra¸c˜ao: Basta obervar que (xn+p)n∈N ´e uma subsequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N e assim, da proposi¸c˜ao acima, segue que ser´a convergente para a em M. Corol´ario 6.1.3 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico, (xn)n∈N uma sequˆencia convergente para a em M e b = a. Ent˜ao existe n0 ∈ N tal que xn = b para n n0. Demonstra¸c˜ao: Suponhamos, por absurdo, que n˜ao exitisse n0 ∈ N com a propriedade acima, isto ´e, existem infinitos nk ∈ N tais que xnk = b. Logo a subsequˆencia (xnk )k∈N da sequˆencia (xn)n∈N ser´a convergente para b = a, contra- riando a proposi¸c˜ao acima. Logo existe n0 ∈ N tal que xn = b para n n0. Corol´ario 6.1.4 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia em M. Suponhamos que existam duas subsequˆencias da sequˆancia (xn)n∈N que convergem para a e b, respectivamente, em M e a = b. Ent˜ao a sequˆancia (xn)n∈N n˜ao ser´a convergente em M.
  • 218.
    218 CAP´ITULO 6.LIMITES Demonstra¸c˜ao: Suponhamos, por absurdo, que a sequˆencia (xn)n∈N seja convergente em M. Ent˜ao da proposi¸c˜ao acima segue toda subsequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N dever´a ser con- vergente para um mesmo valor em M, o que ´e um absurdo pois existem duas subsequˆencias da sequˆencia que convergem para valores diferentes. Logo a sequˆencia (xn)n∈N n˜ao poder´a ser convergente em M. Um outra carateriza¸c˜ao equivalente para convergˆencia de sequˆencias ´e dada pela Proposi¸c˜ao 6.1.4 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N uma sequˆencia em M. A sequˆencia (xn)n∈N converge para a se, e somente se, dado ε 0, no m´aximo, um n´umero finito de termos da sequˆencia (xn)n∈N n˜ao pertencer´a a bola aberta B(a; ε). Demonstra¸c˜ao: A sequˆencia (xn)n∈N converge para a se, e somente se, dado ε 0 existe n0 ∈ N tal que n n0 temos d(xn, a) ε, que ´e equivalente a dizer que se n n0 temos xn ∈ B(a; ε), ou seja, tirando os n0 primeiros termos da sequˆencia (ou seja, um n´umero finito de termos) os outros pertencem a bola B(a; ε). Observa¸c˜ao 6.1.3 1. Conclus˜ao: a sequˆencia (xn)n∈N converge para a se, e somente se, para cada bola aberta centrada em a, no m´aximo, um n´umero finito de termos da sequˆencia (xn)n∈N n˜ao per- tencer´a a mesma. 2. Vale o mesmo resultado se substituirmos ”bola aberta centrada em a” por ”aberto de M contendo a”. 3. Vale o mesmo resultado se substituirmos ”bola aberta centrada em a” por ”vizinhan¸ca de a em M”. As reda¸c˜oes das demonstra¸c˜oes deste dois itens acima ser˜ao deixadas como exerc´ıcios para o leitor. O resultado a seguir ser´a ´util nas demonstra¸c˜oes de alguma propriedades que veremos mais a frente. Lema 6.1.1 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico, (xn)n∈N uma sequˆencia em M e ¯P . = {0, 1, 1 2 , · · · , 1 n , · · · } ⊆ R munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R. Ent˜ao xn → a se, e somente se, a aplica¸c˜ao f : ¯P → M dada por f( 1 n ) . = xn, f(0) . = a, for cont´ınua em ¯P.
  • 219.
    6.1. LIMITES DESEQUˆENCIAS 219 Demonstra¸c˜ao: Observemos que para todo n ∈ N temos que 1 n ∈ ¯P ´e ponto isolado de ¯P logo f ser´a cont´ınua em 1 n para todo n ∈ N. Conclus˜ao f ser´a cont´ınua em ¯P se, e somente se, f for cont´ınua em 0. Suponhamos que xn → a. Mostremos que f ser´a cont´ınua em 0. Para isto, dado ε 0, como xn → a, existe n0 ∈ N tal que n n0 temos dM (xn, a) ε. Seja δ . = 1 n0 0. Logo se 1 n = | 1 n − 0| = dR( 1 n , 0) δ temos que n 1 δ = n0 e assim dM (f( 1 n ), f(0)) = dM (xn, a) ε, mostrando que f ´e cont´ınua em 0. Reciprocamente, suponhamos que f ´e cont´ınua em 0. Mostremos que xn → a. Para isto, dado ε 0 seja δ 0 tal que 1 n = | 1 n − 0| = dR( 1 n , 0) δ temos dM (f( 1 n ), f(0)) ε. Seja n0 ∈ N tal que n0 1 δ . Logo se n n0 temos dM (xn, a) = dM (f( 1 n ), f(0)) [ 1 n 1 n0 δ] ε, mostrando que xn → a em M. Com isto temos a Proposi¸c˜ao 6.1.5 Sejam (M, dM ), (N, dN ), (M × N, d) espa¸cos m´etricos, onde no ´ultimo con- sideramos uma das trˆes m´etricas usuais, (zn)n∈N uma sequˆencia em M ×N, isto ´e, zn = (xn, yn) onde (xn)n∈N, (yn)n∈N s˜ao sequˆencias em M e em N, respectivamente e c = (a, b) ∈ M × N. Ent˜ao zn → c em M × N se, e somente se, xn → a em M e yn → b em N. Demonstra¸c˜ao: Do lema acima temos que zn → c se, e somente se, a aplica¸c˜ao f : ¯P → M × N definida por f( 1 n ) = zn, f(0) = c for cont´ınua em ¯P.
  • 220.
    220 CAP´ITULO 6.LIMITES Da proposi¸c˜ao (3.2.2) segue a ´ultima afirma¸c˜ao acima ´e equivalente a mostrar que as fun¸c˜oes f1 : ¯P → M e f2 : ¯P → N definidas por f1( 1 n ) = xn, f1(0) = a e f2( 1 n ) = yn, f2(0) = b forem cont´ınuas em ¯P. Do lema acima, esta afirma¸c˜ao ´e equivalente, xn → a em M e yn → b em N, completando a demonstra¸c˜ao. Observa¸c˜ao 6.1.4 Conclus˜ao: uma sequˆencia no produto cartesiano converge para c se, e so- mente se, cada uma das sequˆencias coordenadas foram convergentes para as correspondentes coordenadas de c. Como consequˆencia temos o Corol´ario 6.1.5 Sejam (Mi, di) espa¸cos m´etricos, i = 1, · · · , m e M . = M1 × · · · × Mm, onde no ´ultimo consideramos uma das trˆes m´etricas usuais, (xn)n∈N uma sequˆencia em M, isto ´e, xn = (xn1, · · · , xnm) onde (xni)n∈N ´e uma sequˆencia em Mi, i = 1, · · · , m e c = (a1, · · · , am) ∈ M. Ent˜ao xn → a em M se, e somente se, xni → a1 em Mi para i = 1, · · · , m. Demonstra¸c˜ao: Basta utilizar indu¸c˜ao e a proposi¸c˜ao acima. Para finalizar temos a Proposi¸c˜ao 6.1.6 Sejam (E, . ) espa¸co vetorial normado, (xn)n∈N e (yn)n∈N sequˆencias em E convergentes para a e b em E, respectivamente e (λn)n∈N uma sequˆencia em R convergente para λ em R. Ent˜ao as sequˆencias (xn + yn)n∈N e (λn.xn)n∈N s˜ao sequˆencias convergentes para a + b e λ.a em E, respectivamente, isto ´e, lim n→∞ (xn + yn) = a + b e lim n→∞ (λn.xn) = λ.a, ou ainda, lim n→∞ (xn + yn) = lim n→∞ xn + lim n→∞ yn e lim n→∞ (λn.xn) = lim n→∞ xn. lim n→∞ λn. Demonstra¸c˜ao: Se xn → a, yn → b e λn → λ ent˜ao, do lema acima, segue as fun¸c˜oes f, g, h : ¯P → E dadas por f( 1 n ) = xn, f(0) = a, g( 1 n ) = yn, g(0) = b, h( 1 n ) = λn, h(0) = λ s˜ao cont´ınuas em E e R, respetivamente. Logo a proposi¸c˜ao (3.2.3) garante que f + g, h.f s˜ao cont´ınuas em ¯P. Logo, do lema acima, segue que lim n→∞ (xn + yn) = a + b e lim n→∞ (λn.xn) = λ.a, como quer´ıamos mostrar.
  • 221.
    6.2. SEQUˆENCIAS DEN ´UMEROS REAIS 221 6.2 Sequˆencias de n´umeros reais A seguir trataremos de algumas propriedades de sequˆencias de n´umeros reais. Defini¸c˜ao 6.2.1 Uma sequˆencia de n´umeros reais (xn)n∈N ser´a dita crescente se n m implicar xn xm. Ser´a dita n˜ao decrescente se n m implicar xn ≤ xm. Ser´a dita decrescente se n m implicar xn xm. Ser´a dita n˜ao crescente se n m implicar xn ≥ xm. Ser´a dita mon´otona se for de um dos tipos acima. Com isto temos a Proposi¸c˜ao 6.2.1 Consideremos R com a m´etrica usual e (xn)n∈N uma sequˆencia em R que seja mon´otona e limitada em R. Ent˜ao a sequˆencia (xn)n∈N ser´a convergente em R. Demonstra¸c˜ao: Suponhamos que a sequˆencia (xn)n∈N ´e n˜ao decrescente (os outros casos ser˜ao deixados como exerc´ıcio para o leitor). Como {xn : n ∈ N} ´e um subconjunto limitado de R segue que existe a . = sup n∈N xn. Afirmamos que xn → a. De fato, dado ε 0, como a = sup n∈N xn segue que existe n0 ∈ N tal que a − ε xn0 ≤ a. Como a sequˆencia (xn)n∈N ´e n˜ao decrescente segue que para n ≥ n0 teremos a − ε xn0 ≤ xn ≤ a, ou seja, n ≥ n0 temos a − ε xn ≤ a a + ε, isto ´e, n ≥ n0 temos |xn − a| ε, mostrando que xn → a, como quer´ıamos mostrar. Como consequˆencia temos o
  • 222.
    222 CAP´ITULO 6.LIMITES Corol´ario 6.2.1 Consideremos R com a m´etrica usual e (xn)n∈N uma sequˆencia em R mon´otona R. Ent˜ao (xn)n∈N ´e uma sequˆencia ser´a convergente em R se, e somente se, (xn)n∈N ´e uma sequˆencia limitada em R. Demonstra¸c˜ao: Se a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma for convergente em R ent˜ao, da proposi¸c˜ao (6.1.1), ela ser´a limitada em R. Por outro lado, se a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia limitada em R ent˜ao, pela proposi¸c˜ao (6.2.1), ela ser´a convergente em R Proposi¸c˜ao 6.2.2 Consideremos R com a m´etrica usual e (xn)n∈N uma sequˆencia em R. Ent˜ao xn → 0 se, e somente se, |xn| → 0. Demonstra¸c˜ao: Se xn → 0, dado ε 0 existe n0 ∈ N tal que n n0 temos |xn| = |xn − 0| ε. (∗) Logo n n0 temos ||xn| − 0| = |xn| (∗) ε, mostrando que |xn| → 0. Reciporcamente se |xn| → 0 , dado ε 0 existe n0 ∈ N tal que n n0 temos |xn| = ||xn| − 0| ε. (∗∗) Logo n n0 temos |xn − 0| = |xn| (∗∗) ε, mostrando que xn → 0, completando a demonstra¸c˜ao. Exemplo 6.2.1 Seja a ∈ R tal que |a| 1. Ent˜ao an → 0. De fato, da proposi¸c˜ao (6.2.2) basta mostrar que |a|n → 0, ou seja, podemos supor, sem perda de generalidade, que 0 ≤ a 1. Neste caso temos que a ≥ a1 ≥ · · · ≥ an ≥ · · · , ou seja, a sequˆencia (an)n∈N ´e uma sequˆencia n˜ao crescente e limitada em R. Logo, da proposi¸c˜ao (6.2.1) segue que existe l . = lim n→∞ an . Mas l = lim n→∞ an = lim n→∞ [a.an−1 ] [proposi¸c˜ao (6.1.6)] = a. lim n→∞ an−1 = a.l. Logo l = a.l, isto ´e, (1 − a)l = 0. Como 1 − a = 0 segue que l = 0, mostrando que an → 0, como afirmado.
  • 223.
    6.2. SEQUˆENCIAS DEN ´UMEROS REAIS 223 Proposi¸c˜ao 6.2.3 Consideremos R com a m´etrica usual e (xn)n∈N uma sequˆencia em R con- vergente para a em R tal que a b. Ent˜ao existe n0 ∈ N tal que para n n0 temos xn b. Demonstra¸c˜ao: Como xn → a, dado ε . = a − b 0 segue que existe n0 ∈ N tal que se n n0 temos |xn − a| ε = a − b, ou seja, se n n0 temos b − a xn − a a − b, ou ainda, se n n0 temos b xn 2a − b, em particular, se n n0 temos b xn, como quer´ıamos mostrar. Como consequˆencia temos o Corol´ario 6.2.2 Consideremos R com a m´etrica usual e (xn)n∈N uma sequˆencia em R conver- gente para a em R e suponhamos que existe n0 ∈ N tal que para n n0 temos xn ≤ b. (∗) Ent˜ao a ≤ b, isto ´e, lim n→∞ xn ≤ b. Demonstra¸c˜ao: Suponhamos, por absurdo, que a b. Logo, da proposi¸c˜ao (6.2.3), segue que existir´a n0 ∈ N tal que xn b, contrariando (*). Logo a ≤ b, como quer´ıamos mostrar. Observa¸c˜ao 6.2.1 Valem os resultados an´alogos `a proposi¸c˜ao (6.2.2) se trocarmos ”” por ”” e no corol´ario (6.2.2) trocarmos ”≤” por ”≥”. A verifica¸c˜ao destes fatos ser˜ao deixadas a cargo do leitor. Para finalizar temos o Exemplo 6.2.2 Se a 0 temos que lim n→∞ a 1 n = 1. De fato, vamos supor que a 1. Caso 0 a 1 ´e an´alogo e sua demonstra¸c˜ao ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor. Temos que a a 1 2 a 1 3 · · · a 1 n · · · , isto ´e, a sequˆencia (a 1 n )n∈N ´e um sequˆencia decrescente e limitada.
  • 224.
    224 CAP´ITULO 6.LIMITES Logo, da proposi¸c˜ao (6.2.1), segue que existe l = lim n→∞ a 1 n . Como a 1 segue, do corol´ario (6.2.2) temos que l ≥ 1 (ou melhor, pela observa¸c˜ao (6.2.1)). Mas l = lim n→∞ a 1 n = lim n→∞ a 1 n(n+1) = lim n→∞ a 1 n − 1 n+1 = lim n→∞ a 1 n lim n→∞ a 1 n+1 = l l = 1, mostrando que lim n→∞ a 1 n = 1, como afirmamos. 6.3 S´eries Defini¸c˜ao 6.3.1 Seja (E, . ) um espa¸co vetorial normado e (xn)n∈N uma sequˆencia em E. Para cada n ∈ N definamos Sn . = x1 + x2 + · · · + xn, que ser´a dita soma parcial de ordem n. A sequˆencia (Sn)n∈N ser´a denominada s´erie associada a sequˆencia (xn)n∈N e indicada por ∞ n=1 an ou n an ou ainda an. Se existir a = lim n→∞ Sn ent˜ao diremos que a s´erie ∞ n=1 an ´e convergente em E. Neste caso escreveremos ∞ n=1 an = a. Se a sequˆencia (Sn)n∈N n˜ao for convergente em E diremos que a s´erie ∞ n=1 an ´e divergente em E. Observa¸c˜ao 6.3.1 Observemos que ∞ n=1 an pode denotar duas coisas diferentes, a saber, a sequˆencia formada pelas somas parciais (Sn)n∈N e o seu limite (caso seja convergente). Temos a Proposi¸c˜ao 6.3.1 (Crit´erio da divergˆencia) Seja (E, . ) um espa¸co vetorial normado e (xn)n∈N. Se a s´erie ∞ n=1 xn ´e convergente em E ent˜ao lim n→∞ xn = 0 em E.
  • 225.
    6.3. S´ERIES 225 Demonstra¸c˜ao: Sabemosque existe a = lim n→∞ Sn = lim n→∞ Sn−1. Assim lim n→∞ xn [xn=Sn−Sn−1] = lim n→∞ [Sn − Sn−1] = a − a = 0, como quer´ıamos mostrar. Observa¸c˜ao 6.3.2 O resultado acima nos diz que a condi¸c˜ao ” lim n→∞ xn = 0” ´e necess´aria para que a s´erie ∞ n=1 xn seja convergente em E. Por´em ela n˜ao ´e suficiente como mostra o seguinte exemplo: Consideremos a s´erie harmˆonica, ∞ n=1 1 n em E = R munido da norma dada pelo modulo em R. Temos que lim n→∞ xn = lim n→∞ 1 n = 0, mas a sequˆencia (Sn)n∈N que ´e crescente (logo mon´otona) cont´em uma subsequˆencia que n˜ao ´e limitada (logo ela pr´opria n˜ao ser´a limitada e portanto, pelo corol´ario (6.2.1), n˜ao poder´a ser convergente em R. Uma subsequˆencia da sequˆencia (Sn)n∈N que n˜ao ´e limitada ´e a (S2n )n∈N, pois S2n = 1 + 1 2 + 1 3 + 1 4 + 1 5 + 1 6 + 1 7 + 1 8 + · · · + 1 2n−1 + 1 2n = 1 + 1 2 + 1 3 + 1 4 + 1 5 + 1 6 + 1 7 + 1 8 + · · · + 1 2n−1 + 1 + · · · + 1 2n−1 + 2n−1 1 + 1 2 + 1 4 + 1 4 + 1 8 + 1 8 + 1 8 + 1 8 + · · · +     1 2n−1 + 2n−1 + · · · + 1 2n−1 + 2n−1 2n−parcelas     = 1 + 1 2 + 2 4 + 4 8 + · · · + 2n−1 2n n−parcelas iguais a 1 2 = 1 + n 1 2 , mostrando que a (S2n )n∈N n˜ao ´e limitada. Portanto a s´erie ∞ n=1 1 n n˜ao ´e convergente em R. Exerc´ıcio 6.3.1 Um outro exemplo importante em C ´e a s´erie geom´etrica ∞ n=0 an = 1 + a + a2 + · · · + an + · · · , onde a ∈ C. Afirmamos que se |a| 1 ent˜ao a s´erie geom´etrica converge em C.
  • 226.
    226 CAP´ITULO 6.LIMITES De fato, pois Sn − a.Sn = (1 + a + a2 + · · · + an ) − a(1 + a + a2 + · · · + an ) = 1 − an+1 , n ∈ N. Logo Sn = 1 − an+1 1 − a , n ∈ N. Assim lim n→∞ Sn = lim n→∞ 1 − an+1 1 − a [exemplos (6.2.1)] = 1 1 − a . Com isto temos que a s´erie geom´etrica ∞ n=0 an = ser´a convergente em C para 1 1 − a . Por outro lado, se |a| ≥ 1 temos que lim n→∞ an = 0 e o crit´erio da divergˆencia garante que a s´erie geom´etrica ∞ n=0 an n˜ao ser´a convergente em C. Observa¸c˜ao 6.3.3 Quando a s´erie ∞ n=0 an tem como termos n´umeros reais n˜ao negativos (isto ´e, an ≥ 0, n ∈ N) ent˜ao temos que a sequˆencia (Sn)n∈N ser´a n˜ao decrescente, logo mon´otona em R. Assim, o corol´ario (6.2.1), nos garante que a s´erie ∞ n=0 an ser´a convergente em R se, e somente se, a sequˆencia (Sn)n∈N for limitada em R. Para finalizar a se¸c˜ao consideremos o seguinte Exerc´ıcio 6.3.2 Seja E . = L(Rn; Rn) o conjunto formado pelos operadores lineares T : Rn → Rn ´e um espa¸co vetorial com as opera¸c˜oes usuais de soma de fun¸c˜oes e multiplica¸c˜ao de n´umero real por fun¸c˜ao. Sabemos, do teorema (3.5.1), que se T ∈ L(Rn; Rn) ent˜ao T ´e cont´ınua em Rn. Al´em disso, da observa¸c˜ao (3.5.3) item 3., segue que T . = sup{ T(x) Rn : x ∈ Rn , x Rn = 1}, ´e uma norma em L(Rn; Rn). Observemos que se T, S ∈ L(Rn; Rn) ent˜ao S ◦ T ∈ L(Rn; Rn) e temos S ◦ T ≤ S . T . A demonstra¸c˜ao demostra¸c˜ao dessa desigualdade ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Suponhamos que T ∈ L(Rn; Rn) ´e tal que T 1. Isto implicar´a que T(x) Rn x Rn , x ∈ Rn .
  • 227.
    6.3. S´ERIES 227 Assim x− T(x) = 0, para todo x ∈ Rn , x = 0, (∗) pois T(x) − x ≥ x − T(x) 0. Indiquemos por I : Rn → Rn a aplica¸c˜ao identidade. Ent˜ao (*) nos diz que um operador linear I − T em Rn que ´e injetor em Rn . Como a dimens˜ao do dom´ınio ´e igual a dimens˜ao da imagem segue que I − T ´e sobrejetora, ou seja, ´e bijetora, portanto existe (I − T)−1 e ´e um operador linear em Rn. Conclus˜ao: se T 1 ent˜ao (I − T)−1 existe em L(Rn; Rn). Para cada n ∈ N consideremos Sn . = I + T + T ◦ T + T ◦ T ◦ T + · · · + T ◦ · · · ◦ T n−fatores = I + T + T2 + · · · + Tn Mostraremos que se T 1 ent˜ao a sequˆencia (Sn)n∈N ser´a convergente para (I − T)−1 em L(Rn; Rn), isto ´e, a s´erie ∞ n=0 Tn ´e convergente para para (I − T)−1 em L(Rn; Rn). De fato, observemos que (assim como no caso da s´erie geom´etrica do exemplo (6.3.1) Sn = (I − T)−1 (I − Tn+1 ). (∗) Como T 1 temos que Tn+1 ≤ T n+1 e lim n→∞ T n+1 [ T 1, e o exemplo (6.2.1)] = 0, assim lim n→∞ Tn+1 = 0. Logo passando o limite em (*) obteremos ∞ n=0 Tn = lim n→∞ Sn = lim n→∞ [(I − T)−1 (I − Tn+1 )] = (I − T)−1 (I − lim n→∞ Tn+1 ) = (I − T)−1 , como hav´ıamos afirmado. Observa¸c˜ao 6.3.4 Se considerarmos o mesmo exemplo acima trocando-se Rn por um espa¸co vetorial normado de dimens˜ao infinita n˜ao podemos concluir do mesmo modo que a hip´otese T 1 implicar´a que o operador (I − T) admitir´a inversa. Uma condi¸c˜ao extra ser´a necess´aria impor sobre o espa¸co vetorial normado de dimens˜ao infinta em quest˜ao. 13.11.2008 - 27.a
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    228 CAP´ITULO 6.LIMITES 6.4 Convergˆencia e topologia Veremos nesta se¸c˜ao que muitos conceitos introduzidos nos cap´ıtulos anteiores podem ser ex- pressos em termos de sequˆencias. Proposi¸c˜ao 6.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N uma fun¸c˜ao. f ser´a cont´ınua no ponto a ∈ M se, e somente se, para toda xn → a em M tenhamos f(xn) → f(a) em N. Demonstra¸c˜ao: Suponhamos que f seja cont´ınua em a ∈ M e que xn → a em M. Dado ε 0, como f ´e cont´ınua em a ∈ M, existe δ 0 tal que dM (x, a) δ implica dN (f(x), f(a)) ε. (∗) Como xn → a, existe n0 ∈ N tal que n n0 temos dM (xn, a) δ. Logo, de (*), teremos que dN (f(xn), f(a)) ε, ou seja, f(xn) → f(a). Reciprocamente, suponhamos, por absurdo, que f n˜ao seja cont´ınua no ponto a ∈ M. Logo existe ε 0 tal que para todo δ 0, existe xδ ∈ M tal que dM (xδ, a) δ tal que dN (f(xδ), f(a)) ≥ ε. (∗∗) Em particular, para cada n ∈ N, se considerarmos δn = 1 n de (**) temos que existe xn ∈ M tal que dM (xn, a) δn = 1 n tal que dN (f(xn), f(a)) ≥ ε. Com isto temos que xn → a mas f(xn) → f(a), contrariando a hip´otese que f leva sequˆencia convergente de M em sequˆencia convergente de N. Logo f dever´a ser cont´ınua em a ∈ M, completando a demonstra¸c˜ao. Observa¸c˜ao 6.4.1 1. O resultado acima nos diz que uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que uma fun¸c˜ao entre dois espa¸cos m´etricos seja cont´ınua ´e que ela leve uma sequˆencia convergente no dom´ınio em uma sequˆencia convergente no contra-dom´ıcio. Em particular se (xn)N∈N ´e convergente em M temos que f( lim n→∞ xn) = lim n→∞ f(xn). 2. Na verdade foi provado o seguinte resultado: ”Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : X → N uma fun¸c˜ao e a ∈ X. Existe lim x→a, x∈X f = b em M se, e somente se, para toda sequˆencia (xn)n∈N em X tal que xn → a em M tenhamos f(xn) → b em N.” Olhe a demonstra¸c˜ao com cuidado e verfique que isto ´e, de fato, verdade.
  • 229.
    6.4. CONVERGˆENCIA ETOPOLOGIA 229 Como consequˆencia temos o Corol´ario 6.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, f : M → N uma fun¸c˜ao e a ∈ M. Se xn → a em M implicar que a sequˆencia (f(xn))n∈N ´e convergente em N ent˜ao f ´e cont´ınua em a ∈ M. Demonstra¸c˜ao: Pela proposi¸c˜ao (6.4.1), basta mostrar que se yn → a em M ent˜ao f(yn) → f(a) em M. Observemos que se yn → a em M consideremos a sequˆencia (xn)n∈N dada por xn . = yk, n = 2k − 1 a, n par , (isto ´e, (xn)n∈N = (y1, a, y2, a, x3, a, · · · )). Logo xn → a e assim, por hip´otese, deveremos ter f(xn) → b. Como a subsequˆencia (f(x2n))n∈N ´e constante e igual a (f(a))n∈N segue que b = f(a), isto ´e, f(xn) → f(a) em M, mostrando que f ´e cont´ınua em a ∈ M. Corol´ario 6.4.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, f : M → N uma fun¸c˜ao e a ∈ M. Se xn → a em M implicar que a sequˆencia (f(xn))n∈N tem uma subsequˆencia ´e convergente para f(a) em N ent˜ao f ´e cont´ınua em a ∈ M. Demonstra¸c˜ao: Suponhamos, por absurdo, que f n˜ao seja con´ınua no ponto a ∈ M. Logo existe ε 0 tal que para todo δ 0, existe xδ ∈ M tal que dM (xδ, a) δ tal que dN (f(xδ), f(a)) ≥ ε. (∗∗) Em particular, para cada n ∈ N, se considerarmos δn = 1 n temos por (**) que existe xn ∈ M tal que dM (xn, a) δn = 1 n tal que dN (f(xn), f(a)) ≥ ε. Com isto temos que xn → a mas (f(xn))n∈N n˜ao tem uma subsequˆencia convergente para f(a) em N, contrariando a hip´otese. Logo f dever´a ser cont´ınua em a ∈ M, completando a demonstra¸c˜ao. Corol´ario 6.4.3 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, f : M → N uma fun¸c˜ao. f ´e cont´ınua em M se, e somente se, a sequˆencia (xn)N∈N ´e convergente em M implicar que a sequˆencia (f(xn))N∈N ´e convergente em N. Neste caso temos f( lim n→∞ xn) = lim n→∞ f(xn). Demonstra¸c˜ao: Basta aplicar a proposi¸c˜ao (6.4.1) em cada ponto de M.
  • 230.
    230 CAP´ITULO 6.LIMITES Proposi¸c˜ao 6.4.2 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico, X ⊆ M e a ∈ M. Ent˜ao a ∈ ¯X se, e somente se, existe uma sequˆencia (xn)n∈N em X que converge para a em M. Demonstra¸c˜ao: Se a ∈ ¯X ent˜ao para todo δ 0 temos que B(a; δ) ∩ X = ∅. Em particular, para cada n ∈ N temos que B(a; 1 n ) ∩ X = ∅, isto ´e, existe xn ∈ B(a; 1 n ) ∩ X, em particular d(xn, a) 1 n . (∗) Com isto temos uma sequˆencia (xn)n∈N em X. Al´em disso, xn → a pois dado ε 0 seja n0 ∈ N tal que n0 1 ε . (**) Assim se n n0 temos que d(xn, a) (∗) 1 n [nn0] 1 n0 (∗∗) ε. Portanto existe uma sequˆencia (xn)n∈N em X tal que xn → a. Reciprocamente, se existe uma sequˆencia (xn)n∈N em X tal que xn → a ent˜ao toda bola aberta centrada em a ∈ M cont´em pontos da sequˆencia (xn)n∈N que pertence a X, isto ´e, para todo ε 0 temos que B(a; ε) ∩ X = ∅, mostrando que a ∈ ¯X. Como consequˆencia temos os Corol´ario 6.4.4 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M. Ent˜ao a ∈ ∂X se, e somente se, existem sequˆencias (xn)n∈N em X e (yn)n∈N em M X tais que xn → a e yn → a. Demonstra¸c˜ao: Sabemos que ∂X = ¯X ∩ M X. Logo da proposi¸c˜ao (6.4.2) aplicada a ¯X e a M X segue o resultado. Observa¸c˜ao 6.4.2 Conclus˜ao: uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que um ponto de um espa¸co m´etrico pertencer´a a fronteira de um conjunto ´e que existam duas sequˆencias, uma no conjunto e a outra no seu complementar que convegem para o ponto. a ∈ ∂A yn ∈ M A xn ∈ A
  • 231.
    6.4. CONVERGˆENCIA ETOPOLOGIA 231 Corol´ario 6.4.5 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M. Ent˜ao X ´e denso em M se, e somente se, dado a ∈ M existe uma sequˆencia (xn)n∈N em X tal que xn → a. Demonstra¸c˜ao: Da proposi¸c˜ao (6.4.2) segue que a ∈ M = ¯X se, e somente se, existe uma sequˆencia (xn)n∈N em X tal que xn → a. Corol´ario 6.4.6 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e F ⊆ M. Ent˜ao F ´e fechado em M se, e somente se, dada uma sequˆencia (xn)n∈N em F tal que xn → a em M implicar que a ∈ F. Demonstra¸c˜ao: Da proposi¸c˜ao (4.4.4) segue que F ´e fechado em M se, e somente se, ¯F = F. Logo da proposi¸c˜ao (6.4.2) segue que a ∈ ¯F se, e somente se, (xn)n∈N em F tal que xn → a em M implicar que a ∈ F. Proposi¸c˜ao 6.4.3 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e A ⊆ M. Ent˜ao A ´e um subconjunto aberto de M se, e somente se, dada uma a sequˆencia (xn)n∈N em M tal que xn → a em M e a ∈ A implicar que existe n0 ∈ N tal que se n n0 temos xn ∈ A. Demonstra¸c˜ao: Se A ´e um subconjunto aberto de M, a ∈ A e xn → a, ent˜ao da observa¸c˜ao (6.1.2) item 2. segue que, existe n0 ∈ N tal que se n n0 temos xn ∈ A. Para a rec´ıproca, mostremos que M A ´e um subconjunto fechado. Para isto suponhamos que a sequˆencia (yn)n∈N em M A tal que yn → b em M. (*) Afirmamos que b ∈ M A. Suponhamos, por absurdo, b ∈ A. Ent˜ao como yn → b, por hip´otese, existir´a n0 ∈ N tal que se n n0 temos yn ∈ A, o que contraria (*). Logo, do corol´ario (6.4.6), segue que M A ´e um subconjunto fechado de M e assim A ´e subconjunto aberto de M, com o quer´ıamos mostrar. Proposi¸c˜ao 6.4.4 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico e X ⊆ M. Ent˜ao a ∈ M ´e ponto de acumula¸c˜ao do conjunto X se, e somente se, existe uma sequˆencia (xn)n∈N em M tal que xn → a em M e para alugm n0 ∈ N temos que {xn : n n0} ⊆ X e o conjunto {xn : n n0} tem infinitos elementos distintos.
  • 232.
    232 CAP´ITULO 6.LIMITES Demonstra¸c˜ao: Se existe uma sequˆencia (xn)n∈N em M tal que xn → a em M tal que para algum n0 ∈ N temos que {xn : n n0} ⊆ X e o conjunto {xn : n n0} tem infinitos elementos distintos ent˜ao dado ε 0 temos que existe N ∈ N tal que xN ∈ [B(a; ε) ∩ A] {a} = ∅ mostrando que [B(a; ε) ∩ A] {a} = ∅, e assim o ponto a ´e ponto de acumula¸c˜ao de X. Reciprocamente, se o ponto a ´e ponto de acumula¸c˜ao de X ent˜ao para cada n ∈ N se ε = 1 n temos que [B(a; 1 n ) ∩ A] {a} = ∅. Logo se n = 1 existe x1 ∈ [B(a; 1) ∩ A] {a} = ∅. Seja ε2 . = min{1 2 , d(x1, a)}. Logo existe x2 ∈ [B(a; ε2) ∩ A] {a} = ∅. Assim x2 = x1 (pois d(x2, a) ε2 ≤ d(x1, a)). Seja ε3 . = min{1 3 , d(x2, a)}. Logo existe x3 ∈ [B(a; ε3) ∩ A] {a} = ∅. Assim x3 = x2 e x3 = x1 (pois d(x3, a) ε3 ≤ d(x2, a)) (veja figura abaixo). a ε1 = 1 x1 ε2 x2 ε3 x3 Prosseguindo o processo, construimos uma sequˆencia (xn)n∈N em M tal que xn → a em M e para alugm n0 ∈ N temos {xn : n n0} ⊆ X e o conjunto {xn : n n0} tem infinitos elementos distintos, como quer´ıamos mostrar. Observa¸c˜ao 6.4.3 O resultado acima nos diz que para um ponto ser ponto de acumula¸c˜ao de um conjunto dever´a existir uma sequˆencia formada por elementos distintos do conjunto que converge para o ponto.
  • 233.
    6.5. SEQUˆENCIAS DEFUNC¸ ˜OES 233 Como consequˆencia temos Exemplo 6.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos f, g : M → N cont´ınuas em M. Ent˜ao F . = {z ∈ M : f(z) = g(z)} ´e um subconjunto fechado de M. De fato, dada uma sequˆencia {xn : n n0} em F tal que xn → a em M ent˜ao temos que f(xn) = g(xn), n ∈ N. Como f e g s˜ao cont´ınuas em a segue que f(a) = f( lim n→∞ xn) = lim n→∞ f(xn) = lim n→∞ g(xn) = g( lim n→∞ xn) = g(a), ou seja, f(a) = g(a), mostrando que a ∈ F. Logo, do corol´ario (6.4.6), seguir´a que F ´e um subconjunto fechado em M. Exerc´ıcio 6.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos f, g : M → N cont´ınuas em M e X ⊆ M. Se f(x) = g(x) para x ∈ X ent˜ao f(y) = g(y) para y ∈ ¯X. De fato, do exemplo anterior, segue que F . = {z ∈ M : f(z) = g(z)} ´e um subconjunto fechado de M. Logo X . = {x ∈ M : f(x) = g(x)} ⊆ F e assim ¯X ⊆ ¯F = F, ou seja, f(y) = g(y) para y ∈ ¯X. 6.5 Sequˆencias de fun¸c˜oes Observa¸c˜ao 6.5.1 Sejam X um subconjunto n˜ao vazio, (M, d) espa¸co m´etrico e denotemos por F(X; M) o conjunto formado por todas as fun¸c˜oes f : X → M. Logo podemos considerar uma sequˆencia (fn)n∈N em F(X; M) que ser´a denominada sequˆencia de fun¸c˜oes em F(X; M). Como veremos a seguir, podemos considerar v´arios tipos de convergˆencia para sequˆencia de fun¸c˜oes em F(X; M). Come¸caremos pela Defini¸c˜ao 6.5.1 Na situa¸c˜ao acima, diremos que a sequˆencia de fun¸c˜oes (fn)n∈N converge simplesmente (ou pontualmente) em X para a fun¸c˜ao f : X → M se para cada x ∈ X a sequˆencia (f(x))n∈N seja convergente para f(x) em M, isto ´e, se para cada x ∈ X temos lim n→∞ fn(x) = f(x). Neste caso escreveremos: fn p → f em X. Observa¸c˜ao 6.5.2 Logo fn p → f em X se, e somente se, para cada x ∈ X, dado ε 0, existe n0 = n0(ε, x) ∈ N tal que se n n0 temos dM (fn(x), f(x)) ε.
  • 234.
    234 CAP´ITULO 6.LIMITES Exemplo 6.5.1 Consideremos R com a m´etrica usual e a sequˆencia (fn)n∈N onde, para cada n ∈ N, fn : R → R ´e dada por fn(x) . = x n , x ∈ R. Ent˜ao fn p → 0 em R. De fato, se x ∈ R, dado ε 0 seja n0 ∈ N tal que n0 |x| ε . Ent˜ao se n n0 temos dR(fn(x), f(x)) = |fn(x) − f(x)| [f(x)=0] = | |x| n [nn0] = |x| n0 ε, mostrando a afirma¸c˜ao. Geometricamente temos f(x) = 0 f1(x) = x E T f2(x) = x 2 f3(x) = x 3 f4(x) = x 4 x y x0 Exemplo 6.5.2 Consideremos [0, 1] munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R, R munido da m´etrica usual e a sequˆencia (fn)n∈N uma sequˆencia em F([0, 1]; R) onde, para cada n ∈ N, fn : [0, 1] → R ´e dada por fn(x) . = xn , x ∈ [0, 1]. Seja f : [0, 1] → R dada por f(x) . = 1, x = 0 0, 0 ≤ x 1 . Ent˜ao fn p → f em [0, 1]. De fato, se x = 1 temos que fn(x) = fx(1) = 1n = 1 para todo n ∈ N logo fn(1) → f(1). Se x ∈ [0, 1), pelo exemplo (6.2.1), temos que fn(x) = xn → 0 = f(x). Logo fn(x) → f(x), mostrando a afirma¸c˜ao. Geometricamente temos
  • 235.
    6.5. SEQUˆENCIAS DEFUNC¸ ˜OES 235 x0 f1(x) = x f2(x) = x2 f3(x) = x3 y x1 1 E T Um outro modo de convergˆencia para sequˆencias de fun¸c˜oes ´e dado pela Defini¸c˜ao 6.5.2 Diremos que a sequˆencia de fun¸c˜oes (fn)n∈N converge uniformemente em X para a fun¸c˜ao f : X → M se dado ε 0, existe n0 = n0(ε) ∈ N tal que se n n0 temos dM (fn(x), f(x)) ε, para todo x ∈ X. Neste caso escreveremos: fn u → f em X. Observa¸c˜ao 6.5.3 1. Se M, N ⊆ R podemos dar a seguinte interpreta¸c˜ao geom´etrica para a convergˆencia uni- forme de sequˆencia de fun¸c˜oes. Sejam fn, f : M → N, n ∈ N. Notemos que escrever |fn(x) − f(x)| ε ´e equivalente a escrever −ε fn(x) − f(x) ε ou ainda, f(x) − ε fn(x) f(x) + ε. Assim, a seq¨uˆencia de fun¸c˜oes (fn)n∈N satisfaz a condi¸c˜ao acima se, e somente se, seu gr´afico est´a contido no “ tubinho “ de raio ε em torno do gr´afico da fun¸c˜ao f (vide figura abaixo).
  • 236.
    236 CAP´ITULO 6.LIMITES fn f y x T c T c E T Logo, do ponto de vista acima, fn → f uniformemente em M se dado ε 0 existir um n0 = n0(ε) ∈ N tal que para todo n ≥ n0 o gr´afico das fun¸c˜oes fn est˜ao dentro do ”tubinho”de raio ε em torno do gr´afico da fun¸c˜ao f. 2. Mais adiante, (ver proposi¸c˜ao (6.5.1) veremos que a convergˆencia uniforme pode ser obtida por meio da convergˆencia em um espa¸co m´etrico conveniente. 3. Sabemos que se fn u → f em X ent˜ao fn p → f em X, ou seja, para sequˆencias de fun¸c˜oes temos que convergˆencia uniforme implica em con- vergˆencia pontual. A reciproca ´e falsa, em geral, ou seja, existem sequˆencias de fun¸c˜oes que convergem pon- tualmente mas que n˜ao convergem uniformemente, como veremos mais adiante. Exemplo 6.5.3 Consideremos, [a, b] com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R, R com a m´etrica usual e a sequˆencia (fn)n∈N onde, para cada n ∈ N, fn : [a, b] → R ´e dada por fn(x) . = x n , x ∈ [a, b]. Ent˜ao fn u → 0 em [a, b]. De fato, seja c 0 tal que [a, b] ⊆ [−c, c]. Se x ∈ [a, b], dado ε 0 seja n0 ∈ N tal que n0 c ε . Ent˜ao se n n0 temos dR(fn(x), f(x)) = |fn(x) − f(x)| [f(x)=0] = | |x| n [nn0] = |x| n0 [x∈[a,b]⊆[−c,c]] ≤ c n0 ε, mostrando a afirma¸c˜ao. Geometricamente temos (se [a, b] = [0, 10])
  • 237.
    6.5. SEQUˆENCIAS DEFUNC¸ ˜OES 237 x ε ε 10 T c c T fn(x) = x n3 f3(x) = x 3 f2(x) = x 2 f1(x) = x y E T Observa¸c˜ao 6.5.4 1. Observemos que no exemplo (6.5.1) a sequˆencia de fun¸c˜oes (fn)n∈N n˜ao converge uni- formemente para a fun¸c˜ao f = 0 em R. De fato, dado ε = 1 para todo n0 ∈ N se n n0 existe x ∈ R tal que x n. Assim fn(x) = x n 1 = ε, mostrando que fn p → 0 em R mas a convergˆencia n˜ao ´e uniforme em R. 2. Por outro lado o exemplo (6.5.3) temos que nos restringindo a um intervalo [a, b] a con- vergˆencia ser´a uniforme em [a, b]. 3. No exemplo (6.5.2) a convergˆencia n˜ao ser´a uniforme em [0, 1]. De fato, dado 0 ε 1 seja (veja figura abaixo) x ∈ [0, 1) tal que n √ ε ≤ x 1. fn(x) = xn x0 1/n c T c T E T 1 1 x y
  • 238.
    238 CAP´ITULO 6.LIMITES Neste caso temos que fn(x) − f(x) [f(x)=0] = xn ≥ ε, mostrando que a convergˆencia n˜ao ser´a uniforme [0, 1]. 18.11.2008 - 28.a 4. Dados (M, dM ) espa¸co m´etrico, X = ∅ e f : X → M, indiquemos por Bf (X; M) . = {g : X → M : dsup(f, g) ∞}, onde dsup(f, g) . = sup x∈X dM (f(x), g(x)). Deste modo temos que (Bf (X; M), dsup) ´e um espa¸co m´etrico (ser´a deixado como exerc´ıo para o leitor). Proposi¸c˜ao 6.5.1 Na situa¸c˜ao acima temos que fn u → f em X se, e somente se, fn ∈ Bf (X; M) e lim n→∞ fn = f em Bf (X; M). Demonstra¸c˜ao: Observemos que fn u → f em X, se e somente se, dado ε 0 exitis n0 ∈ N tal que n n0 temos que dM (fn(x), f(x)) ε, para todo x ∈ X, ou equivalentemente, n n0 temos que dsup(fn, f) = sup x∈X dM (fn(x), f(x)) ε, que por sua vez ´e equivalente a fn, f ∈ Bf (X; M) para todo n ∈ N e lim n→∞ fn = f em Bf (X; M). Proposi¸c˜ao 6.5.2 Sejam (E, . ) espa¸co vetorial normado, X = ∅ e (fn)n∈N, (gn)n∈N sequˆencias de fun¸c˜oes tais fn, gn : X → E, f, g : X → E, (λn)n∈N sequˆencia de fun¸c˜oes reais definidas em X (isto ´e λn : X → R) e λ : X → R. 1. Suponhamos que fn u → f em X e gn u → g em X. Ent˜ao fn + gn u → f + g em X. 2. Suponhamos que fn u → f em X e λn u → λ em X onde λ e f s˜ao fun¸c˜oes limitadas em X. Ent˜ao λn.fn u → λ.f em X. Demonstra¸c˜ao: De 1.: Se fn u → f em X e gn u → g em X, dado ε 0 existem nf , ng ∈ N tal que n nf temos que dM (fn(x), f(x)) ε 2 , para todo x ∈ X, (∗) n ng temos que dM (gn(x), g(x)) ε 2 , para todo x ∈ X. (∗∗)
  • 239.
    6.5. SEQUˆENCIAS DEFUNC¸ ˜OES 239 Seja n0 . = max{nf , ng} ∈ N. Logo se n n0 temos que dM ((fn + gn)(x), (f + g)(x)) = (fn + gn)(x) − (f + g)(x) E = [fn(x) − f(x) + [gn(x) − g(x)] E ≤ [fn(x) − f(x) + gn(x) − g(x) E = dM (fn(x), f(x)) + dM (gn(x), g(x)) [(∗) e (∗∗)] ε 2 + ε 2 = ε, para todo x ∈ X, mostrando que fn + gn u → f + g em X. De 2.: Como λ ´e uma fun¸c˜ao limitada existe a 0 tais que |λ(x)| ≤ a x ∈ X. (∗) Como fn u → f em X e f ´e um fun¸c˜ao limitada em X segue que existe c 0 tal que fn(x) ≤ c, para todo x ∈ X. (∗∗) Se fn u → f em X e λn u → λ em X, dado ε 0 existem nf , nλ ∈ N tal que n nf temos que fn(x) − f(x) E = dM (fn(x), f(x)) ε 2a , para todo x ∈ X, (∗ ∗ ∗) n nλ temos que |λn(x) − λ(x)| = dR(λn(x), λ(x)) ε 2c , para todo x ∈ X. (∗ ∗ ∗∗) Seja n0 . = max{nf , ng} ∈ N. Logo se n n0 temos que dM ((λn.fn)(x), (λ.f)(x)) = (λn.fn)(x) − (λ.f)(x) E = λn(x).fn(x) − λ(x).f(x) E = λn(x)fn(x) − λ(x)fn(x) + λ(x)fn(x) − λ(x).f(x) = [λn(x) − λ(x)]fn(x) + λ(x)[fn(x) − f(x)] ≤ |λn(x) − λ(x)| fn(x) + |λ(x)| fn(x) − f(x) E [(∗),(∗∗),(∗∗∗) e (∗∗∗∗)] ε 2c c + a ε 2a = ε, para todo x ∈ X, mostrando que λn.fn u → λ.f em X. Observa¸c˜ao 6.5.5 No item 2. acima, as hip´oteses de que f e λ s˜ao fun¸c˜oes limitadas ´e essen- cial para a conclus˜ao. De fato, se considerarmos as sequˆencias de fun¸c˜oes reais a valores reais, (λn)n∈N e (fn)n∈N, dadas por λn(x) . = 1 n , fn(x) . = x, x ∈ R, ent˜ao tomando-se λ, f : R → R dadas por λ(x) . = 0, f(x) = x, x ∈ R,
  • 240.
    240 CAP´ITULO 6.LIMITES temos que λn u → λ, fn u → f em X . = R. Al´em disso, a fun¸c˜ao λ ´e limitada em R mas a fun¸c˜ao f n˜ao ´e limitada em R. Observemos que (λn.fn)(x) = x n , x ∈ R que n˜ao converge uniformemente em R (veja observa¸c˜ao (6.5.4) item 1.). Para finalizar a se¸c˜ao temos a Proposi¸c˜ao 6.5.3 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e (fn)n∈N uma sequˆencia de fun¸c˜oes tais que para cada n ∈ N tenhamos fn : M → N cont´ınua em a ∈ M. Se fn u → f em M ent˜ao f : M → N ser´a cont´ınua em a ∈ M. Demonstra¸c˜ao: Dado ε 0, como fn u → f em M, existe n0 ∈ N tal que n n0 temos que dM (fn(x), f(x)) ε 3 , para todo x ∈ M. (∗) Como fn0+1 ´e cont´ınua em a ∈ M, segue que existe δ 0 tal que dM (x, a) δ temos que dN (fn0+1(x), fN0+1(a)) ε 3 . (∗∗) Logo se dM (x, a) δ temos que dN (f(x), f(a)) ≤ dN (f(x), fn0+1(x)) + dN (fn0+1(x), fn0+1(a)) + dN (fn0+1(a), f(a)). (∗ ∗ ∗) Mas dN (f(x), fn0+1(x)) (∗) ≤ ε 3 dN (fn0+1(x), fn0+1(a)) (∗∗) ≤ ε 3 dN (f(a), fn0+1(a)) (∗) ≤ ε 3 . Se dM (x, a) δ temos, de (***) e das desigualdades acima, que dN (f(x), f(a)) ε 3 + ε 3 + ε 3 = ε, mostrando que f ´e cont´ınua no ponto a ∈ M. Como consequˆencia temos Corol´ario 6.5.1 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos e (fn)n∈N um sequˆencia de fun¸c˜oes tais que para cada n ∈ N tenhamos fn : M → N cont´ınua em M. Se fn u → f em M ent˜ao f : M → N ser´a cont´ınua em M.
  • 241.
    6.6. PRODUTOS CARTESIANOSINFINITOS 241 Demonstra¸c˜ao: Basta aplicar a proposi¸c˜ao acima em cada ponto de M. Observa¸c˜ao 6.5.6 Conclus˜ao: convergˆencia uniforme preserva continuidade, isto ´e, se uma sequˆencia de fun¸c˜oes cont´ınuas converge uniformemente para uma fun¸c˜ao, esta dever´a ser cont´ınua. 6.6 Produtos cartesianos infinitos Defini¸c˜ao 6.6.1 Dada uma fam´ılia enumer´avel {(Mi, di) : i ∈ N} de espa¸cos m´etricos definimos o produto cartesiano M . = ∞ i=1 Mi como sendo o conjunto formado pelas sequˆencias do tipo x = (x1, · · · , xk, · · · ) onde xi ∈ Mi, i ∈ N. Os pontos xi ∈ Mi, i ∈ N ser˜ao denominados coordenadas do ponto x = (xi)i∈N. Para cada i ∈ N definimos a i-´esima proje¸c˜ao, denotada por pi : M → Mi, como sendo pi(x) . = xi, x = (xi)i∈N ∈ M. Observa¸c˜ao 6.6.1 A seguir vamos introduzir uma m´etrica no produto cartesiano enumer´avel de espa¸cos m´etricos M . = ∞ i=1 Mi. Para isto precisaremos da seguinte hip´otese sobre a fam´ılia de espa¸cos m´etricos {(Mi, di) : i ∈ N}: Suponhamos que para cada i ∈ N existe ci ≥ 0 tal que para todo xi, yi ∈ Mi temos di(xi, yi) ≤ ci, (∗) e ∞ i=1 ci ∞. (∗∗) Vale observar que isto ´e equivalente a dizer que ∞ i=1 diam(Mi) ∞. Veremos mais adiante, que isto n˜ao ´e necess´ario para munirmos M de uma m´etrica com- pat´ıvel com as propriedades que vir˜ao a seguir (ver observa¸c˜ao (6.6.3) item 5.). Com isto, definimos a seguinte m´etrica em M . = ∞ i=1 Mi: Consideremos d : M × M → R dada por d(x, y) = d((xi)i∈N, (yi)i∈N) . = ∞ i=1 di(xi, yi), x = (xi)i∈N, y = (yi)i∈N ∈ M. Observemos que d est´a bem definida pois, por (*) e (**), temos que a s´erie em quest˜ao ser´a convergente em R. Ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor mostrar que d ´e uma m´etrica em M = ∞ i=1 Mi.
  • 242.
    242 CAP´ITULO 6.LIMITES Defini¸c˜ao 6.6.2 Na situa¸c˜ao acima o par (M, d) ser´a dito espa¸co m´etrico produto dos espa¸cos m´etricos Mi, i ∈ N. Observa¸c˜ao 6.6.2 Na situa¸c˜ao acima, para cada i ∈ N, temos que a proje¸c˜ao pi : M → Mi dada por pi((xk)k∈N) = xi, (xk)k∈N ∈ M s˜ao contra¸c˜oes fracas em M, logo cont´ınua em M, pois para cada i ∈ N temos que di(pi(x), pi(y)) = di(xi, yi) ≤ ∞ k=1 dk(xk, yk) = d(x, y), para x = (xi)i∈N, y = (yi)i∈N ∈ M. Como consequˆencia disto temos que se, para cada i ∈ N, Ai ⊆ Mi ´e um subconjunto aberto de Mi ent˜ao p−1 i (Ai) ⊆ M ´e um subconjunto aberto de M. Sabemos que p−1 i (Ai) = {(xk)k∈N ∈ M : xi ∈ Mi} = M1 × · · · Mi−1 × Ai × Mi+1 × · · · que ser´a denominado por fatia aberta de largura Ai. Como A1 ⊆ M1, A2 ⊆ M2, · · · , An ⊆ Mn s˜ao subconjuntos abertos nos respectivos espa¸cos m´etricos ent˜ao A . = A1 × · · · × An × ∞ i=n+1 Mi (∗) ser´a um subconjunto aberto de M = ∞ i=1 Mi, pois A1 × · · · × An × ∞ i=n+1 Mi = p−1 1 (A1) ∩ · · · ∩ p−1 n (An) que ´e uma interse¸c˜ao finita de subconjuntos abertos de M. O conjunto A, dado por (*), ser´a denominado aberto b´asico produto cartesiano M = ∞ i=n+1 Mi. Com isto temos Proposi¸c˜ao 6.6.1 Nas condi¸c˜oes acima temos que U ⊆ ∞ i=n+1 Mi ´e aberto em ∞ i=n+1 Mi se, e somente se, U = λ∈A Aλ, onde Aλ ´e um aberto b´asico de ∞ i=n+1 Mi. Demonstra¸c˜ao: Observemos que se U = λ∈A Aλ,
  • 243.
    6.6. PRODUTOS CARTESIANOSINFINITOS 243 onde Aλ ´e um aberto b´asico de ∞ i=1 Mi ent˜ao U ser´a um subconjunto aberto de ∞ i=1 Mi. Reciprocamente, se U ⊆ ∞ i=1 Mi ´e aberto em ∞ i=1 Mi ent˜ao para todo x = (xi)i∈N ∈ U, existe r 0 tal que B(x; r) ⊆ U. Como a s´erie ∞ i=1 ci ´e convergente em R, existe N ∈ N tal que ∞ i=N+1 ci r 2 . (∗) Para cada i ∈ {1, · · · , N} consideremos Ai . = Bi(xi; r 2N ) ⊆ Mi. Afirmamos que o aberto b´asico Ax . = A1 × · · · × AN × ∞ i=N+1 Mi est´a contido na bola aberta B(x; r) e portanto em U. De fato, se z = (zi)i∈N ∈ Ax ⇒ d1(x1, z1) r 2N , · · · , dN (xN , zN ) r 2N , (∗∗) ⇒ d(x, z) = ∞ i=1 di(xi, zi) = N i=1 di(xi, zi) + ∞ i=N+1 di(xi, zi) ⇒ d(x, z) [di(xi,zi)≤ci,∀i∈N] ≤ N i=1 di(xi, zi) + ∞ i=N+1 ci [(∗∗) e (∗)] N i=1 r 2N + r 2 = r 2 + r 2 = r, mostrando que z ∈ B(x; r) ⊆ U, ou seja, Ax ⊆ U. Assim U = x∈U Ax, como quer´ıamos mostrar. Como consequˆencia temos Corol´ario 6.6.1 Na situa¸c˜ao acima, para cada i ∈ N, as proje¸c˜oes pi : ∞ k=1 Mk → Mi s˜ao aplica¸c˜oes abertas em M = ∞ k=1 Mk.
  • 244.
    244 CAP´ITULO 6.LIMITES Demonstra¸c˜ao: Se A = A1 × · · · × An × ∞ k=n+1 Mk ´e um aberto b´asico ent˜ao temos que pi(A1 × · · · × An × ∞ k=n+1 Mk) = Ai, se i = 1, · · · , n Mi, se i = n + 1, · · · , mostrando que pi(A) ´e um subconjunto aberto de Mi, para cada i ∈ N. Dado um aberto U ⊆ M temos, da proposi¸c˜ao (6.6.1), que U = λ∈A Aλ, onde Aλ ´e um aberto b´asico de M. Mas pi(U) = pi( λ∈A Aλ) = λ∈A pi(Aλ), ou seja, pi(U) ´e uma reuni˜ao de abertos de M, logo ser´a um aberto de M, mostrando que pi ´e uma aplica¸c˜ao aberta em M, para cada i ∈ N. Um outro resultado importante ´e Proposi¸c˜ao 6.6.2 Na situa¸c˜ao acima, consideremos (N, dN ) um espa¸co m´etrico e f : N → ∞ i=1 Mi. Ent˜ao f ´e cont´ınua em N se, e somente se, suas fun¸c˜oes coordenadas fi . = pi ◦ f : N → Mi for cont´ınua em N para cada i ∈ N. Demonstra¸c˜ao: Se f ´e cont´ınua em N, como pi ´e cont´ınua em ∞ k=1 Mk ´e para cada i ∈ N temos que fi = pi ◦f ser´a cont´ınua em N. Reciprocamente, se para cada i ∈ N as fun¸c˜oes fi s˜ao cont´ınuas em N ent˜ao dado A = A1 × · · · × An × ∞ k=n+1 Mk aberto b´asico ent˜ao temos que A = p−1 1 (A) ∩ · · · p−1 n (A) e assim f−1 (A) = f−1 [p−1 1 (A) ∩ · · · p−1 n (A)] = f−1 [p−1 1 (A)] ∩ · · · f−1 [p−1 n (A)] = (p1 ◦ f)−1 (A1) ∩ · · · ∩ (pn ◦ f)−1 (An) = f−1 1 (A1) ∩ · · · ∩ f−1 n (An) Como, para cada i ∈ N os conjuntos f−1 i (Ai) s˜ao abertos em N, pois fi ´e cont´ınua em N, segue que f−1(A) ´e um subconjunto aberto de N, ou seja, imagem inversa pela fun¸c˜ao f de subconjunto aberto b´asico de M ser´a um aberto de N.
  • 245.
    6.6. PRODUTOS CARTESIANOSINFINITOS 245 Se U ⊆ ∞ i=1 Mi ´e aberto em ∞ i=1 Mi , da proposi¸c˜ao (6.6.1), segue que U = λ∈A Aλ, onde Aλ ´e um aberto b´asico de M. Mas f−1 (U) = f−1 λ∈A Aλ = λ∈A f−1 (Aλ) e como f−1(Aλ) ´e um subconjunto aberto de N (pois Aλ ´e um aberto b´asico de ∞ i=1 Mi) segue que f−1(A) ser´a um subconjunto aberto de N, mostrando que f ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em N. 20.11.2008 - 29.a Como consequˆencia temos Corol´ario 6.6.2 Na situa¸c˜ao acima, a sequˆencia (xm)m∈N em ∞ i=1 Mi ´e convergente em ∞ i=1 Mi se, e somente se, a sequˆencia (xmi)m∈N em Mi ´e convergente em Mi, para cada i ∈ N. Mais geralmente xm → x em ∞ i=1 Mi, onde x = (ai)i∈N ∈ ∞ i=1 Mi se, e somente se, xmi → ai em Mi, para cada i ∈ N. Demonstra¸c˜ao: A demonstra¸c˜ao ´e semelhante a demostra¸c˜ao da proposi¸c˜ao (6.1.5). A reda¸c˜ao ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Proposi¸c˜ao 6.6.3 Sejam (Mi, di) espa¸co m´etricos e Xi ⊆ Mi, i ∈ N. Ent˜ao i∈N Xi = i∈N Xi. Demonstra¸c˜ao: Da proposi¸c˜ao (6.4.2) temos que um ponto a ∈ M = i∈N Mi ´e ponto aderente de i∈N Xi se, e somente se, existe uma sequˆencia (xn)n∈N em M tal que xn → a em M. Do corol´ario (6.6.2), isto ´e equivalente a dizer que xni → ai em Mi, para todo i ∈ N, onde a = (ai)i∈N, que por sua vez, pela proposi¸c˜ao (6.4.2), ´e equivalente a dizer que ai ∈ Xi para todo i ∈ N, ou ainda, a ∈ i∈N Xi, como quer´ıamos mostrar. Como consequˆencia temos o Corol´ario 6.6.3 Na situa¸c˜ao acima,se para cada i ∈ N temos que Fi ⊆ Mi ´e fechado em Mi ent˜ao i∈N Fi ser´a fechado em i∈N Mi.
  • 246.
    246 CAP´ITULO 6.LIMITES Demonstra¸c˜ao: Observemos que se i ∈ N temos que Fi ⊆ Mi ´e fechado em Mi ent˜ao Fi = Fi para todo i ∈ N. Mas, do corol´ario acima temos que i∈N Fi = i∈N Fi = i∈N Fi, e assim segue que i∈N Fi ser´a fechado em i∈N Mi. Como consequˆencia deste temos o Corol´ario 6.6.4 Na situa¸c˜ao acima,se para cada i ∈ N temos que Xi ⊆ Mi ´e denso em Mi ent˜ao i∈N Xi ser´a denso em i∈N Mi. Demonstra¸c˜ao: Do corol´ario acima temos que i∈N Xi = i∈N Xi = i∈N Mi = M, e assim segue que i∈N Xi ser´a denso em M = i∈N Mi. Exerc´ıcio 6.6.1 Como para cada i ∈ N temos que a proje¸c˜ao pi : i∈N Mi → Mi ´e uma aplica¸c˜ao sobrejetora e cont´ınua em i∈N Mi segue que se A ⊆ i∈N Mi ´e denso em i∈N Mi temos que pi(A) ⊆ Mi ser´a denso em Mi, para i ∈ N. Suponhamos, por absurdo, que existe A ⊆ i∈N Mi denso em i∈N Mi tal que pi0 (A) = Mi0 , para algum i0 ∈ N, ou seja, existe ai0 ∈ Mi0 pi0 (A). Como pi0 (A) ´e fechado em Mi0 segue que Mi0 pi0 (A) ser´a aberto em Mi0 . Logo existe r 0 tal que Bi0 (ai0 ; r) ⊆ Mi0 pi0 (A). Como pi0 ´e sobrejetora existe a ∈ i∈N Mi tal que pi0 (a) = ai0 . Al´em disso como pi0 ´e cont´ınua em a existe s 0 tal que pi0 (B(a; s)) ⊆ Bi0 (ai0 ; r). (∗) Mas Bi0 (a; r) ⊆ Mi0 pi0 (A) logo B(a; s) ∩ A = ∅ (caso contr´ario ter´ıamos pi0 (B(a; s)) ∩ pi0 (A) = ∅ o que ´e um absurdo pois, Bi0 (a; r) ⊆ Mi0 pi0 (A)). Mas (*) contraria o fato que A ´e denso em i∈N Mi, logo temos um absurdo e assim pi(A) ⊆ Mi dever´a ser denso em Mi, para todo i ∈ N.
  • 247.
    6.6. PRODUTOS CARTESIANOSINFINITOS 247 Para finalizar esta se¸c˜ao faremos algumas considera¸c˜oes importantes Observa¸c˜ao 6.6.3 1. Na situa¸c˜ao acima temos que se i∈N Xi ´e fechado em M = i∈N Mi ent˜ao para cada i ∈ N temos que Xi ser´a um subconjunto fechado de Mi pois dos resultados acima temos que i∈N Xi = i∈N Xi = i∈N Xi que implicar´a que Xi = Xi para cada i ∈ N, mostrando que Xi ´e fechado em Mi para cada i ∈ N. 2. Por´em vale observar que a proje¸c˜ao de um subconjunto fechado de F ⊆ M = i∈N Mi em um dos fatores Mi, para algum i ∈ N poder´a n˜ao ser um subcojunto fechado de Mi. Veja a observa¸c˜ao (4.4.10) item 1. . 3. Se Ai ⊆ Mi ´e um subconjunto aberto em Mi para cada i ∈ N isto n˜ao implica que A . = i∈N Ai seja um subconjunto aberto de M = i∈N Mi. Para que isto ocorra ´e suficiente que exista n ∈ N tal que para todo i n tenhamos Ai = Mi. De fato, pois neste caso, A ser´a um aberto b´asico de M = i∈N Mi. Mas esta condi¸c˜ao tamb´em ser´a necess´aria (se A for n˜ao vazio) pois se A . = i∈N Ai ´e um subcojunto aberto, n˜ao vazio, de M = i∈N Mi e x ∈ A, pela proposi¸c˜ao (6.6.1), segue que existe uma aberto b´asico, A . = A1 × · · · × An × in Mi tal que x ∈ A ⊆ A, ou seja, Ai = Mi para todo i n. Conclus˜ao: se tomarmos, para cada i ∈ N, Ai subconjunto aberto em Mi tal que uma infinidade deste n˜ao seja igual aos correspondentes espa¸cos todo ent˜ao teremos que A . = i∈N Ai n˜ao ser´a aberto em M = i∈N Mi (por exemplo: i∈N (ai, bi) n˜ao ´e aberto em M . = i∈N R = R × R × · · · onde −∞ ai bi ∞).
  • 248.
    248 CAP´ITULO 6.LIMITES 4. A seguir vamos introduzir uma m´erica no produto cartesiano M . = i∈N Mi sem precisar impor a condi¸c˜ao i∈N diam(Mi) ∞. Para isto consideremos d : M × M → R dada por d(x, y) . = ∞ i=1 1 2i di(xi, yi) 1 + di(xi, yi) , onde x = (xi)i∈N, x = (yi)i∈N ∈ M. Observemos que 1 2i di(xi, yi) 1 + di(xi, yi) [ di(xi,yi) 1+di(xi,yi) ≤1] ≤ 1 2i , i ∈ N e a s´erie ∞ i=1 1 2i ´e convergente em R (pois ´e uma s´erie geom´etrica de raz˜ao 0 r = 1 2 1). Logo d est´a bem definida e satisfaz as condi¸c˜oes da defini¸c˜ao de m´etrica (a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor). Com isto temos que ( i∈N Mi, d) ser´a um espa¸co m´etrico que tem as mesmas propriedades anteriores. 6.7 Limites de fun¸c˜oes Para finalizar o cap´ıtulo estudaremos o limite de uma fun¸c˜ao quando a vari´avel aproxima-se de algum valor. Para isto Defini¸c˜ao 6.7.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etrico, X ⊆ M n˜ao vazio, a ∈ X e f : X → N. Diremos que um ponto b ∈ N ´e o limite de f(x) quando x tende ao ponto a que denotaremos por lim x→a f(x) = b, se dado ε 0 existe δ 0 tal que se x ∈ X e dM (x, a) δ ent˜ao dN (f(x), b) ε. Observa¸c˜ao 6.7.1 1. Como a ∈ X faz sentido considerar ” x ∈ X e dM (x, a) δ”. 2. Se a fun¸c˜ao f est´a definida no ponto a ent˜ao a defini¸c˜ao acima ´e, equivalente, a dizer que a fun¸c˜ao f ´e cont´ınua no ponto a.
  • 249.
    6.7. LIMITES DEFUNC¸ ˜OES 249 De fato, se ´e cont´ınua no ponto a segue que lim x→a f(x) = f(a)(= b). Reciprocamente se lim x→a f(x) = b ent˜ao dado ε 0 existe δ 0 tal que se x ∈ X e dM (x, a) δ ent˜ao dN (f(x), b) ε, em particular, tomando-se x = a teremos que dM (a, a) = 0 δ ent˜ao dN (f(a), b) ε, o que implicar´a que b = f(a), ou seja, f ´e cont´ınua no ponto a. 3. Devido a observa¸c˜ao acima o nosso interesse maior ser´a nos casos em que a ∈ X X (isto ´e, a ´e ponto aderente do conjunto X mas n˜ao pertende ao conjunto X). Com isto temos a Proposi¸c˜ao 6.7.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etrico, X ⊆ M n˜ao vazio, a ∈ X e f : X → N. lim x→a f(x) = b se, e somente se, para toda sequˆencia (xn)n∈N em X convergente para a em M temos que a sequˆencia (f(xn))n∈N em N ´e convergente para b em N, isto ´e, se xn ∈ X, n ∈ N e xn → a em M ent˜ao f(xn) → b em N. Demonstra¸c˜ao: ´E semelhante a demonstra¸c˜ao da proposi¸c˜ao (6.4.1) e ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Como consequˆencia temos Corol´ario 6.7.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etrico, X ⊆ M n˜ao vazio, a ∈ X e f : X → N. Se toda sequˆencia (xn)n∈N em X que converge para a em M implicar que a sequˆencia ((f(xn))n∈N ´e convergente em N ent˜ao lim x→a f(x) = b para algum b ∈ N. Demonstra¸c˜ao: Observemos, primeiramente, que se as sequˆencias (xn)n∈N e (yn)n∈N em X convergem para a em M ent˜ao as sequˆencias ((f(xn))n∈N e ((f(yn))n∈N ser˜ao convergentes em N para um mesmo valor, isto ´e, lim n→∞ f(xn) = lim n→∞ f(yn).
  • 250.
    250 CAP´ITULO 6.LIMITES De fato, suponhamos, por absurdo, que lim n→∞ f(xn) . = b = c . = lim n→∞ f(yn). A sequˆencia (zn)n∈N dada por zn . = xn, se n ´e ´ımpar yn, se n ´e par ´e tal que zn → a em M (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato) e as subsequˆencias ((f(z2n))n∈N = ((f(x2n))n∈N, ((f(z2n+1))n∈N = ((f(y2n+1))n∈N ser˜ao convergentes para b e c em N, respectivamente, com b = c, mostrando que a sequˆencia ((f(zn))n∈N n˜ao ser´a convergente em N, contrariando a hip´otese. Seja b o valor comum do limite em N de todas as sequˆencias ((f(xn))n∈N tais que a sequˆencia (xn)n∈N em X converge para a em M. Segue da proposi¸c˜ao acima que lim x→a f(x) = b, como quer´ıamos mostrar. Proposi¸c˜ao 6.7.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etrico, X ⊆ M n˜ao vazio e f : X → N cont´ınua em X. Se para todo a ∈ X existe lim x→a f(x) ent˜ao a aplica¸c˜ao F : X → N dada por F(y) . =    f(y) se y ∈ X lim x→y f(x) se y ∈ X X ser´a cont´ınua em X. Demonstra¸c˜ao: Como f ´e cont´ınua em X segue que F ser´a cont´ınua em X. Se a ∈ X sabemos que lim x→a f(x) = F(a), assim dado ε 0 existe δ 0 tal que se x ∈ X e dM (x, a) δ ent˜ao dN (F(x), F(a)) = dN (f(x), F(a)) ε 2 . (∗) Mostraremos que para todo ¯x ∈ X tal que dM (¯x, a) δ 2 teremos dN (F(¯x), F(a)) ε, o que implicar´a que F ser´a cont´ınua em X.
  • 251.
    6.7. LIMITES DEFUNC¸ ˜OES 251 Para isto observemos que como ¯x ∈ X existe uma sequˆencia (xn)n∈N em X tal que lim n→∞ xn = ¯x. Logo existe m0 ∈ N tal que se n ≥ m0 teremos dM (xn, ¯x) δ 2 , assim, se n ≥ m0 teremos dM (xn, a) ≤ dM (xn, ¯x) + dM (¯x, a) δ 2 + δ 2 , e, de (*), segue que dN (F(xn), F(a)) = dN (f(xn), F(a)) ε 2 . (∗∗) Logo se dM (¯x, a) δ 2 teremos (observemos que F(¯x) = lim n→∞ f(xn)) dN (F(¯x), F(a)) = dN (( lim n→∞ f(xn), F(a)) [d ´e cont´ınua]] = ≤ lim n→∞ d(f(xn), F(a)) ≤ ε 2 ε, completando a demonstra¸c˜ao. Observa¸c˜ao 6.7.2 Observemos que dada uma fun¸c˜ao f : X → N com X ⊆ M, (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos nem sempre existe lim x→a f(x) para a ∈ X. Para ver isto consideremos f : R {0} → R (ou seja, N = M = R e X = R {0}) dada por f(x) . = sen( 1 x ), x ∈ R {0}. Sabemos que n˜ao existe lim x→0 f(x). Para finalizar temos o Exerc´ıcio 6.7.1 Seja I = (a, b) ⊆ R munido m´etrica induzida pela m´etrica usual de R. Suponhamos que f : I → R seja mon´otona e limitada. Ent˜ao existem lim x→a f(x) e lim x→b f(x). De fato, consideraremos o caso em que f ´e n˜ao-decrescente (o caso n˜ao crescente ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) e mostraremos que lim x→b f(x) existe (o caso lim x→a f(x) ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor). Como f ´e limitada segue que f(I) ⊆ R ´e um subconjunto limitado de R. Logo existe L . = sup{f(x) : a x b}. Mostremos que lim x→b f(x) = L. Para isto, dado ε 0, da defini¸c˜ao de supremo, existe x0 ∈ (a, b) tal que f(x0) ∈ (L − ε, L].
  • 252.
    252 CAP´ITULO 6.LIMITES Seja δ . = b − x0 0. Afirmamos que se x ∈ (b − δ, b) temos que f(x) ∈ (L − ε, L]. De fato, se b − δ x b segue x0 = b − δ x b e como f ´e n˜ao decrescente teremos L − ε f(x0) ≤ f(x) ≤ L, isto ´e, se x ∈ I = (a, b) e |x − b| δ (ou seja, b − δ x b) segue que L − ε f(x) ≤ L L + ε, ou, equivalentemente, |f(x) − L| ε mostrando que lim x→a f(x) = L.
  • 253.
    Cap´ıtulo 7 Continuidade Uniformede Fun¸c˜oes em Espa¸cos M´etricos Iniciaremos pela Defini¸c˜ao 7.0.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N. Diremos que a fun¸c˜ao f ´e uniformemente cont´ınua em M se dado ε 0 existir δ = δ(ε) 0 tal que se x, y ∈ M e dM (x, y) δ ent˜ao dM (f(x), f(y)) ε. Observa¸c˜ao 7.0.3 1. Se f : M → N ´e uniformemente cont´ınua em M ent˜ao ´e imediato que f ser´a uma fun¸c˜ao cont´ınua em M (ou seja, ser´a cont´ınua em cada ponto de M). 2. Ao contr´ario da continuidade em cada ponto (que ´e um fenˆomeno local) a continuidade uniforme ´e um fenˆomeno global. Como veremos em exemplos a seguir, podemos ter uma fun¸c˜ao que ´e cont´ınua em cada ponto de um espa¸co m´etrico mas n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em M. Mas ainda, podemos ter uma fun¸c˜ao f : M → N tal que para cada a ∈ M exista B . = BM (a; r) tal que f|B seja uniformemente cont´ınua mas f : M → N n˜ao seja uma fun¸c˜ao uniformemente cont´ınua em M. 3. Vale observar que continuidade uniforme n˜ao ´e uma propriedade topol´ogica, isto ´e, uma aplica¸c˜ao f : (M, dM ) → (N, dN ) pode ser uniformemente cont´ınua em (M, dM ) mas podem existir m´etricas dM e dN equivalentes a dM e dN , respectivamente, de tal modo que a aplica¸c˜ao f : (M, dM ) → (N, dN ) n˜ao seja uniformemente cont´ınua em (M, dM ). 4. Ou de outro modo: a defini¸c˜ao de continuidade (em termos de ε e δ) pode ser obtida utilizando-se abertos (ou fechados) dos espa¸cos m´etricos M e N envolvidos. No caso da continuidade uniforme isto n˜ao ´e poss´ıvel, ou seja, n˜ao temos como estabelecer uma condi¸c˜ao necess´aria e suficiente em termos de abertos (ou fechados) de M e N, respectivamente, para caraterizar uma fun¸c˜ao uniformemente cont´ınua. Defini¸c˜ao 7.0.3 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N. Diremos que a fun¸c˜ao f ´e homeomorfismo uniforme de M em N se f e sua fun¸c˜ao inversa f−1 : N → M forem uniformemente cont´ınuas em M e N, respectivamente. 253
  • 254.
    254CAP´ITULO 7. CONTINUIDADEUNIFORME DE FUNC¸ ˜OES EM ESPAC¸OS M´ETRICOS E ' f f−1 M N uniformemente cont´ınua uniformemente cont´ınua 25.11.2008 - 30.a Temos a Proposi¸c˜ao 7.0.3 Sejam (M, dM ), (N, dN ) e (P, dP ) espa¸cos m´etricos, f : M → N e g : N → P uniformemente cont´ınuas em M e N respectivamente. Ent˜ao g ◦ f : M → P ser´a uniformemente cont´ınua em M. Demonstra¸c˜ao: De fato, dado ε 0, como g : N → P ser´a uniformemente cont´ınua em N existe λ 0 tal que se z, w ∈ N e dN (z, w) λ ent˜ao dP (g(z), g(w)) ε. (∗) Como f : M → N ser´a uniformemente cont´ınua em M existe δ 0 tal que se x, y ∈ M e dM (x, y) δ ent˜ao dN (f(x), f(y)) λ. (∗∗) Logo se x, y ∈ M e dM (x, y) δ ent˜ao, de (**), temos dN (f(x), f(y)) λ e, de (*), segue dP (g(f(x)), g(f(y))) λ mostrando que g ◦ f ´e uniformemente cont´ınua em M. Como consequˆencia temos Corol´ario 7.0.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, X ⊆ M e f : M → N uniforme- mente cont´ınua em M. Ent˜ao f|X ´e uniformemente cont´ınua em X. Demonstra¸c˜ao: Seja i : X → M dada por i(x) . = x, x ∈ X (a aplica¸c˜ao inclus˜ao de X em M). Temos que i ´e uniformemente cont´ınua em X (basta tomas δ = ε) e temos que f|X = f ◦ i e assim, pela proposi¸c˜ao acima, segue que f|X ser´a uniformemente cont´ınua em X. Temos a Proposi¸c˜ao 7.0.4 Sejam (M, dM ), espa¸co m´etrico, (E, . E) espa¸co vetorial normado, f, g : M → E uniformemente cont´ınuas em M e λ ∈ R {0}. Ent˜ao f + g e λ.f s˜ao uniformemente cont´ınuas em M.
  • 255.
    255 Demonstra¸c˜ao: Dado ε 0, como f : M → E ´e uniformemente cont´ınua em M existe δ1 0 tal que se x, y ∈ M e dM (x, y) δ1 ent˜ao f(x) − f(y)) E = dE(f(x), f(y)) ε 2 . (∗) De modo semelhante, como g : M → E ´e uniformemente cont´ınua em M existe δ2 0 tal que se x, y ∈ M e dM (x, y) δ2 ent˜ao g(x) − g(y)) E = dE(g(x), g(y)) ε 2 . (∗∗) Logo tomando-se δ . = min{δ1, δ2} 0 temos que se se x, y ∈ M e dM (x, y) δ teremos dE((f + g)(x), (f + g)(y)) = (f + g)(x) − (f + g)(y)) E = [f(x) − f(y)] + [g(x) − g(y)] E ≤ f(x) − f(y) E + g(x) − g(y) E (∗) e (∗∗)] ε 2 + ε 2 = ε, mostrando que f + g ´e uniformemente cont´ınua em M. Dado ε 0, como f : M → E ´e uniformemente cont´ınua em M existe δ 0 tal que se x, y ∈ M e dM (x, y) δ ent˜ao f(x) − f(y)) E = dE(f(x), f(y)) ε |λ| . (∗ ∗ ∗) Logo se x, y ∈ M e dM (x, y) δ ent˜ao dE((λ.f)(x), (λ.f)(y)) = (λ.f)(x) − (λ.f)(y)) E = |λ| f(x) − f(x) E [(∗∗∗)] |λ| ε |λ| = ε mostrando que λ.f ´e uniformemente cont´ınua em M. Observa¸c˜ao 7.0.4 1. A proposi¸c˜ao acima nos diz que o conjunto formado por todas as aplica¸c˜oes uniformemente cont´ınuas de (M, dM ) em (E, . E) ser´a um espa¸co vetorial sobre R quando munido das opera¸c˜oes de adi¸c˜ao de fun¸c˜oes e multiplica¸c˜ao de n´umero real por fun¸c˜ao. 2. Podemos ter f, g : M → R uniformemente cont´ınuas em M e a aplica¸c˜ao f.g n˜ao ser uniformemente cont´ınua em M. Mais adiante exibiremos um contra-exemplo para esta situa¸c˜ao. Em geral temos a Proposi¸c˜ao 7.0.5 Sejam (M, dM ), espa¸co m´etrico, R com a m´etrica usual, f, g : M → R uniformemente cont´ınuas e limitadas em M. Ent˜ao f.g ´e uniformemente cont´ınua em M.
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    256CAP´ITULO 7. CONTINUIDADEUNIFORME DE FUNC¸ ˜OES EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Demonstra¸c˜ao: Como f, g ´e limitada em M existe C1, C2 0 tal que |g(x)| ≤ C1, para todo x ∈ M. (∗) e |f(x)| ≤ C2, para todo x ∈ M. (∗∗) Dado ε 0, como f : M → R ´e uniformemente cont´ınua em M existe δ1 0 tal que se x, y ∈ M e dM (x, y) δ1 ent˜ao |f(x) − f(y))| = dR(f(x), f(y)) ε 2C1 . (∗ ∗ ∗) como g : M → R ´e uniformemente cont´ınua em M existe δ2 0 tal que se x, y ∈ M e dM (x, y) δ2 ent˜ao |g(x) − g(y))| = dR(g(x), g(y)) ε 2C2 . (∗ ∗ ∗∗) Seja δ . = min{δ1, δ2} 0. Logo se x, y ∈ M e dM (x, y) δ ent˜ao dR((f.g)(x), (f.g)(y)) = |(f.g)(x) − (f.g)(y))| = |f(x).g(x) − f(y)g(x) + f(y)g(x) − f(y).g(y)| ≤ |g(x)||f(x) − f(y)| + |f(y)|g(x) − g(y)| [(∗),(∗∗),(∗∗∗) e (∗∗∗∗)] C1 ε 2C1 + C2 ε 2C2 = ε (7.1) mostrando que f.g ´e uniformemente cont´ınua em M. Proposi¸c˜ao 7.0.6 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N lischitziana em M. Ent˜ao f ´e uniformemente cont´ınua em M. Demonstra¸c˜ao: Como f : M → N lischitziana em M, existe C 0 tal que se x, y ∈ M temos dN (f(x), f(y)) ≤ CdM (x, y). Logo, dado ε 0 se δ . = ε C 0 temos que se x, y ∈ M e dM (x, y) δ teremos dN (f(x), f(y)) ≤ CdM (x, y) C ε C = ε mostrando que f ´e uniformemente cont´ınua em M. Observa¸c˜ao 7.0.5 Como consequˆencia temos: 1. Na situa¸c˜ao acima se M = I ´e um intervalo de R e N = R ent˜ao f : I → R diferenci´avel em I tal que sua derivada ´e limitada em I ´e uniformemente cont´ınua em I. De fato, pois vimos anteriormente que neste caso f ser´a lipschitziana em I. 2. Toda imers˜ao isom´etrica ´e uniformemente cont´ınua. De fato, pois toda imers˜ao isom´etrica ´e lipschitziana.
  • 257.
    257 3. As proje¸c˜oespi : n i=1 Mi → Mi para i = 1, · · · , n s˜ao uniformemente cont´ınuas em n i=1 Mi. De fato, pois as proje¸c˜oes pi s˜ao contra¸c˜oes fracas (logo ser´a lipschitziana). 4. Se (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico ent˜ao a aplica¸c˜ao dM : M × M → R ´e uniformemente cont´ınua em M ×M (munido de uma das trˆes m´etricas usuais) pois ´e uma contra¸c˜ao fraca (logo ser´a lipschitziana). 5. Seja (E, . E) um espa¸co vetorial normado. Ent˜ao: (a) A aplica¸c˜ao . E : E × E → R ´e uniformemente cont´ınua em E × E; (b) A aplica¸c˜ao s : E × E → E dada por s(x, y) . = x + y, x, y ∈ E ´e uniformemente cont´ınua em E × E; As demonstra¸c˜oes destes fatos ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor. 6. Sejam (E, . E), (F, . F ) espa¸cos vetoriais normados. Ent˜ao: (a) Se f : E → F ´e uma transforma¸c˜ao linear cont´ınua ent˜ao f uniformemente cont´ınua em E; (b) Em particular, se f : Rm → F ´e uma transforma¸c˜ao linear ent˜ao f uniformemente cont´ınua em E; (c) A aplica¸c˜ao m : R × E → E dada por m(λ, x) . = λx, (λ, x) ∈ R × E ´e uniformemente cont´ınua em cada subconjunto limitado de R × E; As demonstra¸c˜oes destes fatos ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor. 7. Sejam (Ei, . i), espa¸cos vetoriais normados para i = 1, · · · , m. Ent˜ao se f : E1 ×· · ·×Em → F ´e uma transforma¸c˜ao m-linear cont´ınua em E1 ×· · ·×Em (com uma das trˆes m´etricas usuais) ent˜ao f uniformemente cont´ınua em cada subconjunto limitado de E1 × · · · × Em. A demonstra¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. A seguir consideraremos alguns exemplos importantes. Exemplo 7.0.1 A fun¸c˜ao f : R → R dada por f(x) . = x2, x ∈ R ´e uniformemente cont´ınua em cada A ⊆ R limitado (pois sua derivada ser´a limitada em A) mas n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em R. De fato, como (x + 1 x )2 − x2 = x2 + 2.x 1 x + 1 x2 − x2 = 2 + 1 x2 2 tomando-se ε = 1 podemos ver que para todo δ 0 existe x ∈ R com |x| 1 δ .
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    258CAP´ITULO 7. CONTINUIDADEUNIFORME DE FUNC¸ ˜OES EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Assim y . = x + 1 x satisfaz a condi¸c˜ao dR(x, y) = |x − y| = |x − [x + 1 x ]| = 1 |x| δ mas dR(f(x), f(y) = |f(y) − f(x)| = |y2 − x2 | = |(x + 1 x )2 − x2 | 2 1 = ε mostrando que f n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em R. Observa¸c˜ao 7.0.6 Na verdade o mesmo argumento acima mostra que a fun¸c˜ao f n˜ao ser´a uniformemente cont´ınua em qualquer subconjunto n˜ao limitado de R. Exerc´ıcio 7.0.2 A fun¸c˜ao f : (0, ∞) → R dada por f(x) . = cos( 1 x ), x ∈ (0, ∞) ´e cont´ınua e limitada em (0, ∞) mas n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em (0, ∞). De fato, dado ε = 1 para todo δ 0 podemos escolher n ∈ N tal que x . = 1 2nπ e y . = 1 2(n + 1)π perten¸cem ao intervalo (− δ 2 , δ 2 ), ou seja, |x − y| = | 1 2nπ − 1 2(n + 1)π | δ mas para estes valores temos |f(x) − f(y)| = | cos(2nπ) − cos(2(n + 1)π)| = |1 − (−1)| = 2 1 = ε, mostrando que a fun¸c˜ao f n˜ao ser´a uniformemente cont´ınua em (0, ∞). Observa¸c˜ao 7.0.7 Vale o mesmo se trocarmos o intervalo (0, ∞) por (0, a) para qualquer a 0. Exerc´ıcio 7.0.3 Considermos f : R {0} → R dada por f(x) . = 1, x 0 −1, x 0 . A fun¸c˜ao f ´e cont´ınua em R{0} (por que?) mas n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em R{0}. De fato, pois dado ε = 1, para todo δ 0 temos se 0 x δ 2 ent˜ao temos que |x − (−x)| δ mas |f(x) − f(−x)| = 2 1 = ε, mostrando que f n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em R {0}. Podemos estender o exemplo acima, da seguinte forma:
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    259 Exerc´ıcio 7.0.4 Suponhamosque (M, dM ) e (N, dN ) s˜ao espa¸cos m´etricos, f : M → N ´e cont´ınua em M e existem a, b ∈ N, a = b tais que os conjuntos F . = f−1({a}) e G . = f−1({b}) (que s˜ao fechados e disjuntos em M) satisfazem dM (F, G) = 0. Ent˜ao f n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em M. De fato, seja ε = dN (a, b) 2 0. Como dM (F, G) = 0 para todo δ 0 existem x ∈ F e y ∈ G tais que dM (x, y) δ. Mas observemos que dN (f(x), f(y)) = dN (a, b) = 2ε ε, mostrando que f n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em M. Exemplo 7.0.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico e F, G ⊆ M fechados em M, n˜ao vazios e disjuntos. Afirmamos que existe uma fun¸c˜ao f : M → [0, 1] cont´ınua em M tal que (veja figura abaixo) f(x) = 0 para x ∈ F 1 para x ∈ G . M G F E T 0 1 f Um modo de definir a fun¸c˜ao f seria f(x) . = dM (x, F) d(x, F) + dM (x, G) , x ∈ M. Como F e G s˜ao fechados e F ∩ G = ∅ temos que f est´a bem definida (pois n˜ao h´a como zerar o denominador) e portanto ser´a cont´ınua em M (pois x → d(x, F) e x → d(x, G) s˜ao cont´ınuas em M). Al´em disso, se x ∈ F temos que d(x, F) = dM (x, F) d(x, F) + dM (x, G) = 0 0 + dM (x, G) = 0,
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    260CAP´ITULO 7. CONTINUIDADEUNIFORME DE FUNC¸ ˜OES EM ESPAC¸OS M´ETRICOS logo f(x) = 0 e se x ∈ G temos que d(x, G) = dM (x, F) d(x, F) + dM (x, G) = dM (x, F) d(x, F) + 0 = 1, logo f(x) = 1, como afirmamos acima. Observa¸c˜ao 7.0.8 A fun¸c˜ao acima ´e denominada Fun¸c˜ao de Urysohn associada ao para F, G. Proposi¸c˜ao 7.0.7 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e f : I → M uniformemente cont´ınua em I, onde I ⊆ R ´e um intervalo limitado de R. Ent˜ao f ´e limitada em I. Demonstra¸c˜ao: Vamos supor que I = [a, b]. Os outros casos ser˜ao deixados como exerc´ıcio para o leitor. Dado ε = 1 0 como f ´e uniformemente cont´ınua em I existe δ 0 tal que se x, y ∈ I e |x − y| = dR(x, y) δ temos dM (f(x), f(y)) ε = 1. (∗) Como I ´e um intervalo limitado de R podemos decompo-lo em um n´umero finito de sub- intervalos justapostos, Ij = [aj−1, aj], j = 1, · · · , N0, todos de comprimento menor que δ, assim d(aj−1, aj) δ, j = 1, · · · , N0 (∗) ⇒ d(f(aj−1), f(aj)) 1, j = 1, · · · , N0. (∗∗) Se x, y ∈ I, podemos supor, sem perda de generalidade que x ≤ y e assim existem j0, j1 ∈ {1, · · · , N0} tais que aj0−1 ≤ x ≤ aj0 ≤ aj1−1 ≤ y ≤ aj1 , assim d(x, aj0 ) δ e d(y, aj1 ) δ. (∗ ∗ ∗) Logo dN (f(x), f(y)) ≤ dN (f(x), f(aj0 )) + dN (f(aj0 ), f(aj0+1)) + · · · + dN (f(aj1−1), f(aj1 )) + dN (f(aj1 ), f(y)) (∗∗),(∗∗∗),(∗) ≤ 1 + · · · + 1 N0parcelas = N0 mostrando que f ´e limitada em I. Proposi¸c˜ao 7.0.8 Sejam (M, dM ), (Ni, di), i = 1, · · · , n espa¸cos m´etricos, N1 ×· · · Nn munido da m´etrica da soma e f : M → N1 × · · · Nn. Ent˜ao f ´e uniformemente cont´ınua em M se, e somente se, cada uma de suas coordenadas fi : M → Ni, i = 1, · · · , n, for uniformemente cont´ınua em M.
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    261 Demonstra¸c˜ao: Se f ´euniformemente cont´ınua em M, como as proje¸c˜oes pi : N1×· · ·×Nn → Ni, i = 1, · · · , n, s˜ao uniformemente cont´ınuas em M e fi = pi ◦ f segue que cada uma de suas coordenadas fi : M → Ni, i = 1, · · · , n, for uniformemente cont´ınua em M. Reciprocamente, se cada uma de suas coordenadas fi : M → Ni, i = 1, · · · , n , for uniforme- mente cont´ınua em M, dado ε 0, para cada i = 1, · · · , n, existe δi 0 tal que se x, y ∈ M e dM (x, y) δi temos di(fi(x), fi(y)) ε n . (∗) Seja δ = min{δi : i = 1, · · · , n} 0. Logo se x, y ∈ M e dM (x, y) δ temos que dN1×···×Nn (f(x), f(y)) = n i=1 di(fi(x), fi(y)) [(∗)] n i=1 ε n = ε, mostrando que f ´e uniformemente cont´ınua em M. Proposi¸c˜ao 7.0.9 Sejam (Ei, . i), i = 1, · · · , n e (F, . F ) espa¸cos vetoriais normados com n ≥ 2. Ent˜ao f : E1 × · · · × En → F n-linear ´e uniformemente cont´ınua em E1 × · · · × En se, e somente se, f = 0. Demonstra¸c˜ao: Se f = 0 ent˜ao f ser´a uniformemente cont´ınua em E1 × · · · × En. Reciprocamente, suponhamos, por absurdo, que f : E1 × · · · × En → F n-linear ´e uniforme- mente cont´ınua em E1 × · · · × En e f = 0. Logo existe u . = (u1, · · · , un) ∈ E1 × · · · × En tal que f(u) = v = 0. Podemos, supor, sem perda de generalidade que f(u1, · · · , un) = 1, caso contr´ario, substituimos u1 por u1 v F e com isto teremos f( u1 v F , u2, · · · , un) [f ´e n-linear] = 1 v F f(u1, u2, · · · , un) F [f(u)=v] = v F v F = 1. Seja g : R → E1 × · · · × En dada por g(t) . = (t.u1, t.u2, u3, · · · , un), t ∈ R ´E f´acil ver que h : R → E1 × · · · × En dada por h(t) . = g(t) − (01, 02, u3, · · · , un) = (t.u1, t.u2, 03, · · · , 0n), t ∈ R ´e linear em R, assim g ser´a uma aplica¸c˜ao ´e linear afim em R. Em particular, g uniformemente cont´ınua em R. Al´em disso, a aplica¸c˜ao y → y F tamb´em ´e uniformemente cont´ınua em F.
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    262CAP´ITULO 7. CONTINUIDADEUNIFORME DE FUNC¸ ˜OES EM ESPAC¸OS M´ETRICOS Como f ´e uniformemente cont´ınua em E1 × · · · × En segue que a aplica¸c˜ao ϕ : R → R dada por ϕ(t) = (f ◦ g)(t) F = f(t.u1, t.u2, u3 · · · , un) F [f ´e n-linear] = t2 .f(u1, u2, u3 · · · , un) F = t2 f(u1, u2, u3 · · · , un) F = t2 v F [ v F =1] = t2 , t ∈ R ser´a uniformemente cont´ınua em R contrariando o exemplo (7.0.1). Logo f = 0. Para finalizar temos a Proposi¸c˜ao 7.0.10 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos, onde dM ´e a m´etrica zero-um. Ent˜ao f : M → N ´e uniformemente cont´ınua em M. Demonstra¸c˜ao: Dado ε 0 seja δ = 1. Ent˜ao se x, y ∈ M e dM (x, y) δ = 1 segue que x = y, logo dN (f(x), f(y)) = dN (f(x), f(x)) = 0 ε, mostrando que f ´e uniformemente cont´ınua em M.
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    Cap´ıtulo 8 Espa¸cos M´etricosCompletos 8.1 Sequˆencias de Cauchy Come¸caremos pela Defini¸c˜ao 8.1.1 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico. Diremos que uma sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy se dado ε 0 existe n0 ∈ N tal que se n, m n0 teremos dM (xn, xm) ε. Observa¸c˜ao 8.1.1 1. ´E f´acil ver que toda subsequˆencia de uma sequˆencia de Cauchy tamb´em ´e uma sequˆencia de Cauchy. 2. Uma sequˆencia (xn)n∈N ´e sequˆencia de Cauchy se, e somente se, dado ε 0 existe n0 ∈ N tal que n n0 teremos dM (xn, xn+p) ε. Para ver isto basta tomar m = n + p na defini¸c˜ao acima. 3. A propriedade ”ser de Cauhcy” ´e uma propriedade da sequˆencia no seguinte sentido: se M ⊆ N uma sequˆencia (xn)n∈N em M ´e uma sequˆencia de Cauchy se, e somente se, ela for uma sequˆencia de Cauchy em N. Temos a Proposi¸c˜ao 8.1.1 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N ´e uma sequˆencia convergente em M. Ent˜ao (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy. Demonstra¸c˜ao: Seja a . = lim n→∞ xn em M. Dado ε 0 exite n0 ∈ N tal que se n n0 teremos dM (xn, a) ε 2 . (∗) 263
  • 264.
    264 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Logo se n, m n0 teremos dM (xn, xm) ≤ dM (xn, a) + dM (a, xm) (∗) ε 2 + ε 2 = ε, mostrando que a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy. Observa¸c˜ao 8.1.2 Em geral, n˜ao vale a rec´ıproca do resultado acima, isto ´e, existem sequˆencias de Cauchy que n˜ao s˜ao convergentes no espa¸co m´etrico dado. O exemplo a seguir mostra isso. Exemplo 8.1.1 Sejam Q com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R e (xn)n∈N uma sequˆencia em Q convergente em R para um n´umero irracional a. Como (xn)n∈N uma sequˆencia convergente em R, pela proposi¸c˜ao acima, ela ser´a uma sequˆencia de Cauchy em R e pela observa¸c˜ao acima item 3. segue que ela ser´a uma sequˆencia de Cauchy em Q, logo n˜ao ´e uma sequˆencia de Cauchy em Q que n˜ao ´e convergente em Q. Exemplo 8.1.2 Seja (M, dM ) espa¸co m´etrico onde dM ´e a m´etrica zero-um. Se (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em M ent˜ao existe n0 ∈ N tal que se n n0 teremos xn = xn0+1, ou seja, a sequˆencia ser´a constante a partir de um determinado termo. De fato, como (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em M, dado ε = 1, existe n0 ∈ N tal que se n, m n0 teremos dM (xn, xm) ε = 1. Como a m´etrica ´e a m´etrica zero-um segue que dM (xn, xm) = 0, ou seja, se n, m n0 teremos xn = xm, ou seja, n n0 teremos xn = xn0+1, como afirmamos. Temos a Proposi¸c˜ao 8.1.2 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy. Ent˜ao (xn)n∈N ´e uma sequˆencia limitada em M. Demonstra¸c˜ao: Como (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy dado ε = 1, existe n0 ∈ N tal que se n n0 teremos dM (xn, xm) ε = 1. (∗) Logo o conjunto {xn0+1, xn0+2, · · · } ser´a um conjunto limitado de M e ter´a diˆametro menor ou igual a 1. Seja c . = max{1, dM (xn, xm) : n, m = 1, · · · , n0} ≥ 0. Com isto teremos que diam({x1, · · · , xn0 , xn0+1, · · · } = diam({x1, · · · , xn0 } ∪ {xn0+1, · · · }) ≤ c, mostrando que a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia limitada em M.
  • 265.
    8.1. SEQUˆENCIAS DECAUCHY 265 Observa¸c˜ao 8.1.3 Em geral, n˜ao vale a rec´ıproca do resultado acima, isto ´e, existem sequˆencias limitadas em um espa¸co m´etrico que n˜ao s˜ao sequˆencias de Cauchy, como mostra o exemplo a seguir. Exemplo 8.1.3 Seja R com a m´etrica usual e (xn)n∈N a sequˆencia em R dada por xn . = (−1)n . n ∈ N. Temos que a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia limitada em R mas n˜ao ´e uma sequˆencia de Cauchy (pois dR(xn, xn+1) = |xn − xn+1| = 2 para todo n ∈ N). Exemplo 8.1.4 A sequˆencia (xn)n∈N dada por xn . = 1 + 1 2 + · · · + 1 n n˜ao ´e uma sequˆencia de Cauchy em R pois ela n˜ao ´e limitada em R (veja observa¸c˜ao (6.3.2)). Temos a Proposi¸c˜ao 8.1.3 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy. Se a sequˆencia (xn)n∈N possui uma subsequˆencia convergente em M ent˜ao a sequˆencia (xn)n∈N ser´a convergente em M e ter´a o mesmo limite da subsequˆencia convergente. Demonstra¸c˜ao: Se (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy e (xnk )k∈N ´e uma subsequˆencia convergente para a ∈ M. Dado ε 0, como xnk → a, existe n1 ∈ N tal que se n n1 teremos dM (xnk , a) ε 2 . (∗) Mas (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy logo existe n2 ∈ N tal que se n, m n2 teremos dM (xn, xm) ε 2 . (∗∗) Seja n0 . = max{n1, n2} ∈ N. Escolhamos nk n0. Com isto se n n0 teremos dM (xn, a) ≤ dM (xn, xnk ) + dM (xnk , a) [(∗∗) e (∗)] ε 2 = ε 2 = ε mostrando que xn → a em M, como quer´ıamos mostrar. Como consequˆencia temos o Corol´ario 8.1.1 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e (xn)n∈N ´e uma sequˆencia em M que possui duas subsequˆencias convergentes para pontos diferentes em M. Ent˜ao a sequˆencia (xn)n∈N n˜ao ´e uma sequˆencia de Cauchy.
  • 266.
    266 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Demonstra¸c˜ao: Segue imediatamente da proposi¸c˜ao acima pois, por hip´otese, f e f−1 s˜ao aplica¸c˜oes uni- formemente cont´ınuas. 27.11.2008 31.a Proposi¸c˜ao 8.1.4 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N uniformemente cont´ınua em M. Ent˜ao se a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em M ent˜ao a sequˆencia (f(xn))n∈N ser´a uma sequˆencia de Cauchy em N. Demonstra¸c˜ao: Dado ε 0, como f ´e uniformemente cont´ınua em M, existe δ 0 tal que se dM (x, y) δ teremos dN (f(x), f(y)) ε. (∗) Por outro lado, como a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em M, existe n0 ∈ N tal que se n n0 teremos dM (xn, xm) δ. (∗∗) Logo se n, m n0, de (**) segue, dM (xn, xm) δ, e de (*) teremos, dM (f(xn), f(xm)) ε mostrando que sequˆencia (f(xn))n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em N. Como consequˆencia temos o Corol´ario 8.1.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N homeomorfismo uniforme de M em N. Ent˜ao a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em M se, e somente se, a sequˆencia (f(xn))n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em N. Demonstra¸c˜ao: Segue da proposi¸c˜ao acima que como f ´e um homeomorfismo uniforme ele e sua fun¸c˜ao inversa levam sequˆencias de Cauchy em sequˆencias de Cauchy e assim (M, dM ) ser´a um espa¸co m´etrico completo se, e somente se, (N, dN ) for um espa¸co m´etrico completo. Observa¸c˜ao 8.1.4 Uma aplica¸c˜ao f : M → N que ´e somente cont´ınua em M pode n˜ao levar sequˆencias de Cauchy de M em sequˆencias de Cauchy em N como mostra a exemplo a seguir. Em particular, a propriedade ”sequˆencia ser de Cauchy” n˜ao ´e uma propriedade topol´ogica (ou seja, n˜ao ´e, necessariamente, preservada por homeomorfismo). Exemplo 8.1.5 Consideremos f : (0, 1] → R dada por f(x) . = 1 x , x ∈ (0, 1]. Temos que f ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em (0, 1] e considerermos a sequˆencia (xn)n∈N dada por xn . = 1 n , n ∈ N que ´e uma sequˆencia de Cauchy em (0, 1] (pois ela ´e uma sequˆencia convergente
  • 267.
    8.1. SEQUˆENCIAS DECAUCHY 267 em R, logo ser´a uma sequˆencia de Cauchy em R e assim tamb´em ser´a uma sequˆencia de Cauchy em (0, 1]). Como f(xn) = 1 xn = n, n ∈ N ent˜ao (f(xn))n∈N n˜ao ser´a uma sequˆencia de Cauchy (pois n˜ao ´e limitada). Logo, da proposi¸c˜ao acima, podemos concluir que a aplica¸c˜ao f n˜ao poder´a ser uniforme- mente cont´ınua em (0, 1]. Observa¸c˜ao 8.1.5 Em geral, n˜ao vale a rec´ıproca da proposi¸c˜ao acima, isto ´e, exitem aplica¸c˜oes f : M → N que levam sequˆencias de Cauchy de M em sequˆencias de Cauchy de N que n˜ao s˜ao uniformemente cont´ınuas em M, como mostra o exemplo a seguir. Exemplo 8.1.6 Seja f : R → R dada por f(x) = x2, x ∈ R. Vimos no exemplo (7.0.1) que f n˜ao ´e uniformemente cont´ınua em R. Mostremos que f leva sequˆencias de Cauchy de R em sequˆencia de Cauchy de R. Seja (xn)n∈N uma sequˆencia de Cauchy em R. Logo a sequˆencia (xn)n∈N ser´a limitada em R, isto ´e, existe c ≥ 0 tal que |xn| ≤ c, n ∈ N. Mas f|[−c,c] ´e lipschitziana em [−c, c] (pois sua derivada ser´a limitada em [−c, c]), em par- ticular, uniformemente cont´ınua em [−c, c]. Logo da proposi¸c˜ao (8.1.4), segue que a sequˆencia (f(xn))n∈N ser´a uma sequˆencia de Cauchy em R. Para finalizar a se¸c˜ao temos a Proposi¸c˜ao 8.1.5 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, M×N com uma das trˆes m´etricas usuais, (xn)n∈N e (yn)n∈N sequˆencias em M e N, respectivamente. Ent˜ao (xn)n∈N e (yn)n∈N s˜ao sequˆencias de Cauchy em M e N, respectivamente se, e somente se, (zn)n∈N ´e sequˆencia de Cauchy em M × N, onde zn . = (xn, yn), n ∈ N. Demonstra¸c˜ao: Vamos considerar em M × N a m´etrica do m´aximo. Se (zn)n∈N ´e sequˆencia de Cauchy em M × N, onde zn . = (xn, yn), n ∈ N, como as proje¸c˜oes pM : M × N → M e pN : M × N → N s˜ao uniformemente cont´ınuas em M × N (ver observa¸c˜ao (7.0.5) item 3) segue da proposi¸c˜ao (8.1.4) que (xn)n∈N e (yn)n∈N ser˜ao sequˆencias de Cauchy em M e N, respectivamente. Por outro lado, se (xn)n∈N e (yn)n∈N ser˜ao sequˆencias de Cauchy em M e N, respectivamente, dado ε 0 existem n1, n2 ∈ N tal que se n, m n1 teremos dM (xn, xm) ε n, m n2 teremos dN (yn, ym) ε. Logo tomando-se n0 . = max{n1, n2} ∈ N se n, m n0 teremos dM×N (zn, zm) = max{dM (xn, xm), dN (yn, ym)} [n0≥n1,n2] ε, mostrando que a sequˆencia (zn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em M × N.
  • 268.
    268 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Como existem C, C 0 tais que dM×N (z, z ) ≤ dM×N (z, z ) ≤ CdM×N (z, z ) ≤ C dM×N (z, z ), z, z ∈ M × N segue que o mesmo valer´a para as outras m´etricas em M × N. Como consequˆencia temos o Corol´ario 8.1.3 Sejam (Mi, di), espa¸cos m´etricos, i = 1, · · · , m, M1 × · · · × Mm com uma das trˆes m´etricas usuais e (xni)n∈N sequˆencias em Mi , i = 1, · · · , m. Ent˜ao (xni)n∈N s˜ao sequˆencias de Cauchy em Mi para todo , i = 1, · · · , m se, e somente se, (zn)n∈N ´e sequˆencia de Cauchy em M1 × · · · × Mm, onde zn . = (xn1, · · · , xnm), n ∈ N. 8.2 Espa¸cos m´etricos completos Defini¸c˜ao 8.2.1 Diremos que um espa¸co m´etrico (M, d) ´e um espa¸co m´etrico completo se toda sequˆencia de Cauchy em M for convergente em M. Exemplo 8.2.1 Q munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R n˜ao ´e um espa¸co m´etrico completo (ver exemplo (8.1.1)). Exemplo 8.2.2 Seja (M, d) espa¸co m´etrico onde d ´e a m´etrica zero-um. Ent˜ao (M, d) ´e um espa¸co m´etrico completo pois, como vimos no exemplo (8.1.2), toda sequˆencia de Cauchy em (M, d) ser´a constante a partir de um determinado termo e portanto convergente. Observa¸c˜ao 8.2.1 Nem todo espa¸co m´etrico discreto ´e completo, como mostra o seguinte exem- plo Exemplo 8.2.3 Seja P . = {1, 1 2 , · · · , 1 n, · · · } munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R. Temos que (P, |.|) ´e um espa¸co m´etrico discreto e a sequˆencia ( 1 n)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em P (pois ela ´e convergente para 0 em R) que n˜ao ´e convergente em P (pois o ∈ P). Logo (P, |.|) ´e um espa¸co m´etrico discreto que n˜ao ´e completo. Tmos a Proposi¸c˜ao 8.2.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos e f : M → N homeomorfismo uniformemente de M em N. O espa¸co m´etrico (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo se, e somente se, o espa¸co m´etrico (N, dN ) ´e um espa¸co m´etrico completo. Demonstra¸c˜ao: Segu como consequˆencia do corol´ario (8.1.2). Proposi¸c˜ao 8.2.2 A reta R munido da m´etrica usual ´e um espa¸co m´etrico completo.
  • 269.
    8.2. ESPAC¸OS M´ETRICOSCOMPLETOS 269 Demonstra¸c˜ao: Seja (xn)n∈N uma sequˆencia de Cauchy em R. Logo, da proposi¸c˜ao (8.1.2) segue que (xn)n∈N ´e uma sequˆencia limitada em R. Definamos para cada n ∈ N Xn . = {xn, xn+1, · · · }. (∗) ´E f´acil ver que se n ≥ m temos Xn ⊆ Xm ⊆ X1, logo para todo n ∈ N, Xn ´e limitado em R assim existe an . = inf Xn, n ∈ N. De (*) segue que a sequˆencia (an)n∈N ´e crescente em R (pois se n ≥ m ent˜ao Xn ⊆ Xm assim inf Xn ≥ inf Xm) e limitada por b . = sup X1 (pois se n ≥ 1 ent˜ao Xn ⊆ X1 assim inf Xn ≤ sup X1 ), isto ´e, a sequˆencia (an)n∈N ´e mon´otona e limitada em R, logo ser´a convergente em R, isto ´e, existe a ∈ R tal que a = lim n→∞ an = (sup n∈N an). Afirmamos que a = lim n→∞ xn, isto ´e, a sequˆencia (xn)n∈N ser´a convergente em R, mostrando que R ´e um espa¸co m´etricos completo. Para provarmos a afirma¸c˜ao basta, pela proposi¸c˜ao (8.1.3), mostrar que existe uma sub- sequˆencia da sequˆencia (xn)n∈N que seja convergente para a em R. Para isto, dado ε 0, como a = lim n→∞ xn, existe n1 ∈ N tal que se m n1 teremos a − ε (I) am a + ε. Para cada m n1, como am = inf Xm (II) ≤ a, com o ε 0 acima, existir´a nm m tal que a − ε [por (I)] am xnm am + ε [por (II)] ≤ a + ε, em particular, xnm ∈ (a − ε, a + ε). Logo dado, ε 0 existe n1 ∈ N tal que se nm n1 teremos |xnm − a| ε, mostrando que a subsequˆencia (xnm )m∈N ´e convergene para a em R, ou sjea a = lim m→∞ xnm , e completando a demonstra¸c˜ao. Temos a Proposi¸c˜ao 8.2.3
  • 270.
    270 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS 1. Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo e F ⊆ M fechado em M. Ent˜ao (F, dM ) ´e um subespa¸co m´etrico completo de (M, dM ); 2. Se (F, dM ) ´e um subespa¸co m´etrico completo do espa¸co m´etrico (M, dM ) ent˜ao F ´e um subconjunto fechado de (M, dM ). Demonstra¸c˜ao: De 1.: Dada uma sequˆencia de Cauchy (xn)n∈N em F ent˜ao ela ser´a uma sequˆencia de Cauchy em M. Como M ´e um espa¸co m´etrico completo temos que existe a ∈ M tal que xn → a em M. Do corol´ario (6.4.6) segue que a ∈ F = F (pois F ´e um subconjunto fechado de M), mostrando que F a sequˆencia de Cauchy (xn)n∈N em F ´e convergente em (F, dM ) e assim (F, dM ) ser´a um espa¸co m´etrico completo. De 2.: Se F ⊆ M ´e tal que (F, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo e a ∈ F, ent˜ao da proposi¸c˜ao (6.4.2), existe uma sequˆencia (xn)n∈N em (F, dM ) que converge para a em M. Logo (xn)n∈N ser´a uma sequˆencia de Cauchy em (M, dM ), e portanto tamb´em ser´a em uma sequˆencia de Cauchy em (F, dM ). Mas (F, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo, logo a sequˆencia (xn)n∈N dever´a convergir b ∈ F. Da unicidade segue b = a, ou seja, a ∈ F, mostrando que F = F, ou seja, F ´e um subconjuto fechado de (M, dM ). Proposi¸c˜ao 8.2.4 Sejam (M, dM ), (N, dN ) um espa¸cos m´etricos e M × N munido de uma das trˆes m´etricas usuais. Ent˜ao M × N ´e um espa¸co m´etrico completo se, e somente se, M e N s˜ao espa¸cos m´etricos completos. Demonstra¸c˜ao: Se M e N s˜ao espa¸cos m´etricos completos e (zn)n∈N ´e um sequˆencia de Cauchy em M × N como zn = (xn, yn), xn ∈ M e yn ∈ N, n ∈ N ent˜ao, da proposi¸c˜ao (8.1.5), segue que as sequˆencias (xn)n∈N e (yn)n∈N s˜ao sequˆencias de Cauchy em M e N, respectivamente. Como M e N s˜ao espa¸cos m´etricos completos segue que existem x ∈ M e y ∈ N tal que xn → x em M e yn → y em N. Logo da proposi¸c˜ao (6.1.5), temos que zn → z em M × N onde z . = (x, y), mostrando que M × N ´e um espa¸co m´etrico completo. Reciprocamente, se M × N ´e um espa¸co m´etrico completo dado (a, b) ∈ M × N, temos que as aplica¸c˜oes fb : M → M × N e ga : N → M × N dadas por fb(x) . = (x, b), x ∈ M ga(y) . = (a, y), y ∈ N, s˜ao isometrias de M sobre o subespa¸co M ×{b} que ´e fechado de M ×N e de N sobre o subespa¸co {a} × N que ´e fechado de M × N, respectivamente. Logo, da proposi¸c˜ao (8.2.3) item 1., segue que M × {b} e {a} × N s˜ao subespa¸cos m´etricos completos de M × N. Assim se (xn)n∈N e (yn)n∈N s˜ao sequˆencias de Cauchy em M e N, respectivamente, ent˜ao, como fb e ga s˜ao isometrias, segue que (fb(xn))n∈N e (ga(yn))n∈N s˜ao sequˆencias de Cauchy em M × {b} e {a} × N, respectivamente.
  • 271.
    8.2. ESPAC¸OS M´ETRICOSCOMPLETOS 271 Como estes s˜ao espa¸cos m´etricos completos segue que existem (x, b) ∈ M × {b} e (a, y) ∈ {a} × N tais que (xn, b) = fb(xn) → (x, b) em M × {b} e (a, yn) = ga(yn) → (a, y) em {a} × N. Logo, da proposi¸c˜ao (6.1.5), segue que xn → x em M e yn → y em N, mostrando que M e N s˜ao espa¸cos m´etricos completos. Como consequˆencias temos o Corol´ario 8.2.1 Sejam (Mi, di), um espa¸cos m´etricos i = 1, 2, · · · , n e M1 × · · · × Mn munido de uma das trˆes m´etricas usuais. Ent˜ao M1×· · ·×Mn ´e um espa¸co m´etrico completo se, e somente se, Mi s˜ao espa¸cos m´etricos completos para i = 1, 2, · · · , n. Demonstra¸c˜ao: Segue da proposi¸c˜ao acima e de indu¸c˜ao sobre n ∈ N. Com isto temos o Corol´ario 8.2.2 Rn ´e um espa¸co m´etrico completo munido de uma das trˆes m´etricas usuais. Demonstra¸c˜ao: Sabemos que Mi . = R, i = 1, · · · , n, ´e um espa¸co m´etrico completo. Logo do corol´ario acima segue que Rn ´e um espa¸co m´etrico completo. Observa¸c˜ao 8.2.2 1. Uma bola fechada B[a; r] e sua fronteira, S[a; r] em Rn s˜ao espa¸cos m´etricos completos (pois s˜ao subsconjuntos fechado de Rn que ´e um espa¸co m´etrico completo). Mais geralmente, se (M, dM ) ´e ´e um espa¸co m´etrico completo ent˜ao as bolas fechadas e as esferas de M s˜ao espa¸cos m´etricos completos. 2. Por outro lado, nenhuma bola aberta de um espa¸co vetorial normado ser´a um espa¸co m´etrico completo, pois n˜ao ´e um subconjunto fechado do mesmo. 3. Logo podemos concluir que ”ser completo” n˜ao ´e uma propriedade topol´ogica (ou seja, n˜ao ´e preservada por homeomorfismos) pois uma bola aberta ´e homeomorfa a Rn mas a 1.a n˜ao ´e um espa¸co m´etrico completo e o 2.o ´e. Vale o mesmo para produto cartesiano infinito, a saber Proposi¸c˜ao 8.2.5 Sejam (Mi, di), um espa¸cos m´etricos i ∈ N Ent˜ao ∞ i=1 Mi ´e um espa¸co m´etrico completo se, e somente se, Mi s˜ao espa¸cos m´etricos completos para i ∈ N.
  • 272.
    272 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Demonstra¸c˜ao: A demostra¸c˜ao ´e semelhante a da proposi¸c˜ao (8.2.4). Sabemos que as proje¸c˜oes pj : ∞ i=1 Mi → Mj s˜ao uniformemente cont´ınuas em ∞ i=1 Mi (pois s˜ao lipischtzianas) e assim, pela proposi¸c˜ao (8.1.5), levam sequˆencias de Cauchy de ∞ i=1 Mi em sequˆencias de Cauchy de Mj para todo j ∈ N. Logo dada uma sequˆencia de Cauhcy (zn)n∈N em ∞ i=1 Mi, onde zn = (xnj)j∈N, temos que, para cada j ∈ N, (xnj)n∈N ser´a uma sequˆencia de Cauchy em Mj. Como Mj ´e um espa¸co m´etrico completo segue que, para cada j ∈ N, existe xj ∈ Mj tal que xnj → xj em Mj. Se z . = (xj)j∈N temos que z ∈ ∞ i=1 Mi e zn → z em ∞ i=1 Mi, mostrando que ∞ i=1 Mi ´e um esap¸co m´etrico completo. Reciprocamente, se ∞ i=1 Mi ´e um espa¸co m´etrico completo, a = (an) ∈ ∞ i=1 Mi e, para cada j ∈ N, temos que (xnj)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em Mj ent˜ao como faj : Mj → {a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · · dada por faj (xj) . = (a1, · · · , aj−1, xj, αj+1, · · · ) ´e uma isometria de Mj em {a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · · . Mas {a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · · ´e um subespa¸co m´etrico fechado de ∞ i=1 Mi, logo, pela proposi¸c˜ao (8.2.3) item 1, um espa¸co m´etrico completo. Logo, para cada j ∈ N, temos que a sequˆencia (faj (xnj))n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em {a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · · , que ´e um espa¸co m´etrico completo, ou seja, existe Xj . = (a1, · · · , aj−1, xj, aj+1, · · · ) ∈ {a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · · tal que xnj → Xj em {a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · · . Como faj ´e isometria de Mj em {a1} × · · · {aj−1} × Mj × {aj+1} × · · · segue que xnj → xj em Mj para cada j ∈ N, mostrando que Mj ´e um espa¸co m´etrico completo para todo j ∈ N. Observa¸c˜ao 8.2.3 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico, X = ∅ e para α : X → M fixada, consideremos Bα(X; M) . = {f : X → M : sup x∈X dM (f(x), α(x)) ∞}, que torna-se um espa¸co m´etrico quando munido da m´etrica d : Bα(X; M)×Bα(X; M) → R dada por d(f, g) . = sup x∈X dM (f(x), g(x)), f, g ∈ Bα(X; M). Proposi¸c˜ao 8.2.6 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo. Ent˜ao Bα(X; M) . = {f : X → M : sup x∈X dM (f(x), α(x)) ∞}, ´e um espa¸co m´etrico completo.
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    8.2. ESPAC¸OS M´ETRICOSCOMPLETOS 273 Demonstra¸c˜ao: Consideremos (fn)n∈N uma sequˆencia de Cauchy em Bα(X; M). Logo esta sequˆencia ser´a limitada, isto ´e, existe C 0 tal que d(fn, α) ≤ C, ou seja, sup x∈X dM (f(x), α(x)) = dM (fn(x), α(x)) ≤ C, para todo n ∈ N e x ∈ X. (∗) Fixando-se x0 ∈ X temos que dM (fn(x0), fm(x0)) ≤ sup x∈X dM (fn(x), fm(x)), logo, como (fn)n∈N uma sequˆencia de Cauchy em Bα(X; M) segue que a seguˆencia (fn(x0))n∈N ser´a um sequˆencia de Cauchy em M. Mas M ´e um espa¸co m´etrico completo, logo existe f(x0) ∈ M tal que fn(x0) → f(x0) para cada x0 ∈ X. Com isto temos definida uma fun¸c˜ao f : X → M. Observemos que para cada x ∈ X, da continuidade da fun¸c˜ao dM (., α(x)) e de (*), segue que dM (f(x), α(x)) = dM ( lim n→∞ fn(x), α(x)) = lim n→∞ dM (fn(x), α(x)) ≤ C, mostrando que f ∈ Bα(X; M). Mostremos que fn u → f em M. Dado ε 0 temos que existe n0 ∈ N tal que se n, m n0 temos d(fn, fm) ε, ou seja, n, m n0 temos dM (fn(x), fm(x)) ε, para todo x ∈ X. (∗∗) Fazendo m → ∞ em (**) obteremos n n0 temos dM (fn(x), f(x)) ε, para todo x ∈ X, mostrando que fn u → f, e assim (Bα(X; M), d) ´e um espa¸co m´etrico completo. Como consequˆencia temos o Corol´ario 8.2.3 Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo, X = ∅ e (fn)n∈N uma sequˆencia de fun¸c˜oes fn : X → M, n ∈ N. A sequˆencia (fn)n∈N converge uniformemente em X se, e somente se, dado ε 0 existir n0 ∈ N tal que se n, m n0 temos dM (fn(x), fm(x)) ε, para todo x ∈ X. (∗)
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    274 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Demonstra¸c˜ao: Se fn u → f ent˜ao dado ε = 1 existe n0 ∈ N tal que se n n0 temos dM (fn(x), f(x)) 1, para todo x ∈ X, ou seja, fn ∈ Bf (X; M) se n n0 e fn → f em Bf (X; M). Logo sequˆencia (fn)n∈N dever´a ser uma sequˆencia de Cauchy em Bf (X; M), isto ´e, ε 0 existir n0 ∈ N tal que se n, m n0 temos dM (fn(x), fm(x)) ε, para todo x ∈ X. Reciprocamente, tomandos-e ε = 1 em (*) temos que existe n0 ∈ N tal que se n n0 temos dM (fn0+1(x), fn(x)) 1, para todo x ∈ X, ou seja, fn ∈ Bfn0+1 (X; M) se n n0. Al´em disso, a condi¸c˜ao (*) nos diz que a sequˆencia (fn)nn0 ´e uma sequˆencia de Cauchy em Bfn0+1 (X; M) que, pela proposi¸c˜ao anterior, ´e um espa¸co m´etrico completo. Logo existe f ∈ Bfn0+1 (X; M) tal que fn→f em f ∈ Bfn0+1 (X; M), ou seja, fn u → f, completando a demonstra¸c˜ao. Observa¸c˜ao 8.2.4 O resultado acima ´e conhecido como crit´erio de Cauchy para con- vergˆencia uniforme de sequˆencias de fun¸c˜oes. At´e aqui para a 2.a Prova 2.12.2008 - 32.a 8.3 Espa¸cos de Banach e espa¸cos de Hilbert Defini¸c˜ao 8.3.1 Um espa¸co vetorial normado completo ser´a dito espa¸co de Bancah. A segui daremos alguns exemplos de espa¸co de Banach. Exemplo 8.3.1 Vimos que Rn munido de uma das trˆes normas usuais ´e um espa¸co de Banach. Exerc´ıcio 8.3.1 Sejam (E, . E), (F, . F ) espa¸cos vetoriais normados e L(E; F) o espa¸co ve- torial normado formado pelas transforma¸c˜oes lineares f : E → F que s˜ao cont´ınuas em E, munido da norma do supremo na esfera unit´aria, isto ´e, f L(E;F) . = sup{ f(x) F : x ∈ E, x E = 1}. Lembremos que se f ∈ L(E; F) ent˜ao, para todo x ∈ E temos que f(x) F ≤ f L(E;F) x E. Lembremos tamb´em que f : E → F transforma¸c˜ao linear ser´a cont´ınua em E se, e somente se, f|S : S → F for limitada em S, onde S . = {x ∈ E : x E = 1} (no teorema (3.5.2) temos que 1. se, e somente se, 3.). Al´em disso, temos que fn → f em L(E; F) se, e somente se fn − f L(E;F ) → 0 em R,
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    8.3. ESPAC¸OS DEBANACH E ESPAC¸OS DE HILBERT 275 ou, equivalentemente, fn u → f em S. (∗) Afirmamos que se (F, . F ) ´e um espa¸co de Banach ent˜ao (L(E; F), . sup) tamb´em ser´a um espa¸co de Banach. De fato, mostremos que (L(E; F), . L(E;F ) ) um espa¸co m´etrico completo. Para isto seja (fn)n∈N uma sequˆencia de Cauchy em (L(E; F), . L(E;F ) ). Logo (fn|S )n∈N uma sequˆencia de Cauchy em (B(S; F), . L(E;F ) ). Como (F, . F ) ´e um espa¸co m´etrico completo segue, da proposi¸c˜ao (8.2.6), que (B(S; F), . L(E;F ) ) ´e um espa¸co m´etrico completo. Logo existe f0 ∈ (B(S; F), . L(E;F ) ) tal que fn u → f0 em S. Seja f : E → F a extens˜ao de f0 : S → F definida por f(λu) . = λf(u), λ ∈ R, u ∈ S. (∗∗) Temos que lim n→∞ fn(0) = 0 = f(0), x = 0 temos lim n→∞ fn(x) = lim n→∞ fn( x E x x E ) [fn ´e linear] = x E lim n→∞ fn( x x E ) [ x x E ∈S e (∗)] = x Ef0( x x E ) [(∗∗) com λ= x E] = f( x E x x E ) = f(x), mostrando que fn p → f em E, isto ´e, lim n→∞ fn(x) = f(x), x ∈ E. Como fn : E → F ´e uma transforma¸c˜ao linear de E em F segue, da identidade acima, que f : E → F tamb´em ser´a uma transforma¸c˜ao linear de E em F (a verifica¸c˜ao disto ´e imediata e ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor). Como f|S = f0 ∈ B(S; F), segue que f ∈ L(S; F). Al´em disso, fn|S u → f|S , logo fn u → f em (L(S; F), . L(E;F ) ) (pois a na norma . L(E; F) s´o ´e levado em conta os pontos de S), completando demonstra¸c˜ao da nossa afirma¸c˜ao. Exemplo 8.3.2 Sejam X = ∅, (M, dM ) espa¸co m´etrico, (E, . E) um espa¸co vetorial normado e (F, . F ) um espa¸co de Banach. Ent˜ao segue das proposi¸c˜oes (8.2.6), (6.5.3) que os espa¸cos vetoriais normados (B(X; F), . sup), (C0(X; F), . sup), s˜ao espa¸cos de Banach. A verifica¸c˜ao destes fatos ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor. Observa¸c˜ao 8.3.1 Ser´a provado no pr´oximo cap´ıtulo que todo espa¸co vetorial normado de di- mens˜ao finita ´e um espa¸co de Banach. A dimens˜ao ser finita ser´a essencial no resultado acima, como mostra o seguinte exemplo.
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    276 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Exemplo 8.3.3 Consideremos P([0, 1]) o espa¸co vetorial formado por todas as fun¸c˜oes polino- miais reais p : [0, 1] → R definidas no intervalo [0, 1] (a verifica¸c˜ao deste fato ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor). Consideremos em P([0, 1]) a seguinte norma: se p ∈ P([0, 1]) definamos p . = sup 0≤t≤1 |p(t)|. Deixaremos para o leitor a verifica¸c˜ao de fato isto define uma norma em P([0, 1]). Afirmamos que (P([0, 1]), . ) n˜ao ´e um espa¸co de Banach, isto ´e, n˜ao ´e um espa¸co m´etrico completo. De fato, a sequˆencia (pn)n∈N de (P([0, 1]) dada por pn(x) . = 1 + x + · · · , xn n! , 0 ≤ x ≤ 1 converge uniformemente para a fun¸c˜ao f(x) . = ex, x ∈ [0, 1] (na verdade vale em toda R). Ser´a deixado para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato. Observemos que f n˜ao ´e uma fun¸c˜ao polinˆomial (por que?). Logo a sequˆencia (pn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em (P([0, 1]) que n˜ao ´e convergente em (P([0, 1]), . ), mostrando assim que (P([0, 1]), . ) n˜ao ´e um espa¸co m´etrico completo. Defini¸c˜ao 8.3.2 Diremos que um espa¸co vetorial com produto interno (E, ., . ) ´e um espa¸co de Hilbert se ele for um espa¸co m´etrico completo. Exemplo 8.3.4 O espa¸co Rn com o produto interno usual ´e um espa¸co de Hilbert (pois Rn munido da norma usual ´e um espa¸co de Banach, logo ´e um espa¸co m´etrico completo). Exemplo 8.3.5 Consideremos l2(R) . = {x = (xn)n∈N : ∞ n=1 x2 n ∞}, (∗) isto ´e, o conjunto formado pelas sequˆencias de n´umeros reais cujo s´erie dos elementos ao quadrado ´e convergente em R. Observemos que R∞ ⊆ l2(R). (onde R∞ que ´e o espa¸co vetorial das sequˆencias quase nulas, foi definido e estudado no exemplo (3.5.2)). Afirmamos que l2(R) ´e um espa¸co vetorial sobre R quando munido das opera¸c˜oes de adi¸c˜ao de sequˆencias e multipica¸c˜ao de n´umero real por sequˆencias. De fato, se x = (xn)n∈N e lambda ∈ R, para cada k ∈ N temos k n=1 (λxn)2 = λ2 k n=1 x2 n ≤ λ2 ∞ n=1 x2 n (∗) ∞. Logo fazendo k → ∞ teremos que ∞ n=1 (λxn)2 ≤ λ2 ∞ n=1 x2 n ∞, mostrando que λx ∈ l2(R).
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    8.3. ESPAC¸OS DEBANACH E ESPAC¸OS DE HILBERT 277 Se x = (xn)n∈N, y = (yn)n∈N ∈ l2(R) ent˜ao, da deisigualdade de Cauhcy-Schwarz temos, para cada k ∈ N, que | k n=1 xn.yn| ≤ k n=1 x2 n. k n=1 y2 n ≤ ∞ n=1 x2 n. ∞ n=1 y2 n ∞. (∗∗) Assim ∞ n=1 xn.yn ser´a convergente em R. Logo para cada k ∈ N temos k n=1 (xn + yn)2 = k n=1 x2 n + k n=1 y2 n + 2 k n=1 xn.yn ≤ ∞ n=1 x2 n + ∞ n=1 y2 n + 2 ∞ n=1 xn.yn [(∗) e (∗∗)] ∞. Logo fazendo k → ∞ teremos que ∞ n=1 (xn + yn)2 ≤ ∞ n=1 x2 n + ∞ n=1 y2 n + 2 ∞ n=1 xn.yn ∞, mostrando que (x + y) ∈ l2(R). Com isto pode-se mostrar que l2(R) ´e um espa¸co vetorial sobre R (ser´a deixado com exerc´ıcio para o leitor). Definamos ., . 2: l2(R) × l2(R) → R por x, y 2 . = ∞ n=1 xn.yn, x = (xn)n∈N, y = (yn)n∈N ∈ l2(R). Segue de (**) que ., . 2 est´a bem definida. Al´em disso, pode-se mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que ., . 2 ´e um produto interno em l2(R). Com isto (l2(R), ., . 2) ´e um espa¸co vetorial sobre R com produto interno. Afirmamos que (l2(R), ., . 2) ´e um espa¸co de Hilbert. De fato, consideremos . 2 : l2(R) → R a norma associada ao produto interno ., . 2, isto ´e, x 2 . = x, x 2, x ∈ l2(R). Seja (xk)k∈N uma sequˆencia de Cauchy em l2(R), isto ´e, dado ε 0 existe n0 ∈ N tal que se n, m n0 teremos xn − xm 2 ε. (∗ ∗ ∗) Como (xk)k∈N ∈ l2(R) segue que pacada k ∈ N temos que xk = (xki)i∈N e ∞ i=1 x2 ki ∞. Logo (***) ´e equivalente a n, m n0 teremos ∞ i=1 (xni − xmi)2 ε, (∗ ∗ ∗∗)
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    278 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS em particular, para todo j ∈ N se n, m n0 teremos |xnj − xmj| ≤ ∞ i=1 (xni − xmi)2 ε, mostrando que, para cada j ∈ N, a sequˆencia (xnj)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em R. Mas R ´e um espa¸co m´etrico completo, logo, para cada j ∈ N, existe aj ∈ R tal que lim n→∞ xnj = aj. Seja a . = (aj)j ∈ N. Mostremos que a ∈ l2(R) e que xk → a em l2(R). Para tanto, observemos que de (****) segue que para todo p ∈ N temos que se n, m n0 teremos p i=1 (xni − xmi)2 ≤ ∞ i=1 (xni − xmi)2 ε2 . Fazendo m → ∞ obtemos n n0 teremos p i=1 (xni − ai)2 ε2 para todo n, i ∈ N. Fazendo p → ∞ obtemos n n0 teremos ∞ i=1 (xni − ai)2 ε2 , (∗ ∗ ∗ ∗ ∗) mostrando que xn − a ∈ l2(R). Mas a = xn + (a − xn) ∈ l2(R), e com sito temos que a ∈ l2(R). Logo (*****) pode ser reescrita como n n0 teremos xn − ai 2 ε2 , ou seja, xn → a em l2(R), completando o exemplo. Exemplo 8.3.6 Consideremos o conjunto formado por todas as sequˆencias de n´umeros reais , x = (xi)i∈N ∈ ∞ i=1 Ri onde Ri = R para todo i ∈ N, que ser´a indicado por RN. Vamos introduzir em RN a seguinte m´etrica: dN : RN × RN → R dada por dN(x, y) . = ∞ i=1 1 2i |xi − yi| 1 + |xi − yi| , onde x = (xi)i∈N, y = (yi)i∈N ∈ RN.
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    8.3. ESPAC¸OS DEBANACH E ESPAC¸OS DE HILBERT 279 Como 1 2i |xi − yi| 1 + |xi − yi| ≤ 1 2i , i ∈ N e a s´erie num´erica ∞ i=1 1 2i ´e convergente em R (pois ´e uma s´erie geom´etrica de raz˜ao 1 2 que ´e menor que 1), segue que dN est´a bem definida e pode-se mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que ´e uma m´etrica em RN. A m´etrica dN ser´a dita m´etrica produto. Observemos que uma sequˆencia (xn)n∈N em RN ´e convergente para x ∈ RN se, e somente se, dN(xn, x) . = ∞ i=1 1 2i |xni − xi| 1 + |xni − xi| → 0 quando n → ∞, ou equivalentemente, para todo i ∈ N temos 1 2i |xni − xi| 1 + |xni − xi| → 0 quando n → ∞, ou ainda, para todo i ∈ N |xni − xi| 1 + |xni − xi| → 0 quando n → ∞, que ´e equivalente a, para todo i ∈ N |xni − xi| → 0 quando n → ∞, ou seja, para todo i ∈ N xni → xi quando n → ∞. Conclus˜ao: xn → {x em RN se, e somente se, para todo i ∈ N temos xni → xi em R. Logo (RN, dN) ´e um espa¸co vetorial m´etrico completo. Observa¸c˜ao 8.3.2 1. Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e RN como acima. Lembremos que uma fun¸c˜ao f : M → RN ´e cont´ınua em M se, e somente se, para todo i ∈ N a i-´esima fun¸c˜ao coordenada de f, fi : M → Ri for cont´ınua em R (vale observar que fi = pi ◦f onde pi : M → Ri ´e a i-´esima proje¸c˜ao de RN sobre Ri dada por pi(x) . = xi, onde x = (xn)n∈N ∈ RN, i ∈ N). Isto coincide com o que hav´ıamos feito para o caso Rn, n ∈ N. 2. Observememos que B(N; R), o conjunto das sequˆencias limitadas em R pode ser visto como um subespa¸co vetorial de RN. No 1.o consideramos a m´etica da convergˆencia uniforme, isto ´e, d (x, y) = sup i∈N |xi − yi| onde x = (xi)i∈N, y = (yi)i∈N ∈ B(N; R).
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    280 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS 3. Vale observar que a m´etrica da convergˆencia uniforme ´e mais fina que a m´etrica induzida em B(N; R) pela m´etrica de RN. De fato, se x = (xi)i∈N, y = (yi)i∈N ∈ B(N; R) temos que |xi − yi| ≤ d (x, y), para todo i ∈ N. (∗) Logo se xn → a em (B(N; R), d ), onde a = (ai)i∈N ∈ B(N; R), segue, de (*), que xni → ai para todo i ∈ N. Logo, do exemplo acima temos que xn → a em RN . 4. N˜ao vale a rec´ıproca, isto ´e, existem sequˆencia em B(N; R) que convegem em RN mas n˜ao s˜ao convergentes em (B(N; R), d ), como por exemplo: Consideremos en . = (0, · · · , 0, 1 n−´esima posi¸c˜ao , 0, · · · ), n ∈ N. Ent˜ao en → 0 em RN (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato) mas en → 0 em (B(N; R), d ) (pois en d = 1 = 0). Conclus˜ao: d ´e mais fina que dN mas dN n˜ao ´e mais fina que d em (B(N; R). 5. Para finalizar observemos que l2(R) ⊆ B(N; R) ⊆ RN . Se xn → a em (l2(R), d2), onde xn = (xni)i∈N e an = (ani)i∈N, ent˜ao dado ε 0 existe n0 ∈ N tal que se n n0 teremos ∞ i=1 (xni − ai)2 ε, logo, para todo i ∈ N, se n n0 teremos |xni − ai| ε, ou ainda, n n0 teremos d (x, a) = sup i∈N |xni − ai| ε, ou seja, xn → a em (B(N; R), d ). Conclus˜ao: se xn → a em (l2(R), d2) ent˜ao xn → a em (B(N; R), d ). Logo d2 ´e mais fina que d que ´e estritamente mais fina que dN. Observemos que d n˜ao ´e mais fina que d2, como mostra o seguinte exemplo: considereos (xn)n∈N a sequˆencia em l2(R) onde xn = ( 1 √ n , 1 √ n , · · · , 1 √ n n−primeiras posi¸c˜oes , 0, · · · )
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    8.4. EXTENS ˜AODE FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS OU UNIFORMEMENTE CONT´INUAS 281 Temos que xn → 0 (pois d (xn, 0) = sup i∈N |xni − 0| = 1 √ n → 0 quando n → ∞) mas d2(xn, 0) = ∞ i=1 (xni − 0)2 = n i=1 ( 1 √ n )2 = n 1 n = 1 mostrando que xn → 0 em l2(R). Portanto podemos concluir que d2 ´e estritamente mais fina que d que ´e estritamente mais fina que dN. 6. Nas situa¸c˜oes acima temos que: (a) (l2(R), ., . 2) ´e um espa¸co de Hilbert; (b) (B(N; R), . ) ´e um espa¸co de Banach (mas n˜ao ´e um espa¸co de Hilbert, ou seja, sua norma n˜ao prov´em de um produto interno; verifique se a identidade do paralelogramo est´a satisfeita); (c) (RN, dN) ´e um espa¸co vetorial m´etrico completo (mas n˜ao ´e um espa¸co de Banach; verifique que n˜ao temos dN(λx, λy) = λdN(x, y) para todo λ ∈ R e x, y ∈ RN). (d) As fun¸c˜oes s : RN × RN → RN, m : R × RN → RN dadas por s(x, y) . = x + y, m(λ, x) . = λ.x, x, y ∈ RN , λ ∈ R s˜ao cont´ınuas em RN × RN e R × RN, respectivamente. A verifica¸c˜ao deste fatos ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor. Neste caso diremos que (RN, dN) ´e um espa¸co vetorial topol´ogico. Por ser completo e suas bolas serem convexas ele ser´a denominado espa¸co de Fr´echet. 8.4 Extens˜ao de fun¸c˜oes cont´ınuas ou uniformemente cont´ınuas Defini¸c˜ao 8.4.1 Sejam X ⊆ Y , e f : X → Z uma fun¸c˜ao. Diremos que F : Y → Z ´e uma extens˜ao da fun¸c˜ao f a Y se para todo x ∈ X temos F(x) = f(x), ou seja, F|X = f. Neste caso diremos que a fun¸c˜ao f se estende a Y . De modo semelhante temos a Defini¸c˜ao 8.4.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, X ⊆ M e f : X → N uma aplica¸c˜ao cont´ınua em X. Diremos que F : M → N ´e uma extens˜ao cont´ınua de f a Y se F for uma fun¸c˜ao cont´ınua em M e se ´e uma extens˜ao da fun¸c˜ao f a M (isto ´e, para todo x ∈ M temos F(x) = f(x), ou ainda, F|M = f). Observa¸c˜ao 8.4.1
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    282 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS 1. Observemos que nem toda fun¸c˜ao f : X → N cont´ınua em X tem uma extens˜ao F : M → N cont´ınua em M. Para ver isto, consideremos o seguinte exemplo: f : (0, 1) → R dada por f(x) . = 1 x(x − 1) , x ∈ (0, 1) n˜ao possui uma extens˜ao cont´ınua ao intervalo [0, 1] (pois n˜ao existem os limites laterais lim x→0+ f(x) e lim x→1− f(x)). 2. Come¸caremos obtendo uma extens˜ao da fun¸c˜ao f : X → N cont´ınua em X a todo M quando X for denso em M, isto ´e, X = M. Com isto temos a Proposi¸c˜ao 8.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos, X ⊆ M e f : X → N uma aplica¸c˜ao cont´ınua em X. Existe uma extens˜ao cont´ınua de f a X se, e somente se, para todo a ∈ X existe lim x→a, x∈X f(x). Demonstra¸c˜ao: Se existe F : X → N extens˜ao cont´ınua de f a X ent˜ao dado a ∈ X temos que lim x→a, x∈X f(x) [F(x)=f(x),x∈X] = lim x→a F(x) [F ´e cont´ınua em a] = F(a), ou seja, existe lim x→a, x∈X f(x). Reciprocamente, se existe lim x→a, x∈X f(x), definindo F : X → N por F(x) . =    f(x), x ∈ X lim y→x, y∈X f(y), x ∈ X X , segue da proposi¸c˜ao (6.7.2) que F ´e cont´ınua em X, logo ser´a um extens˜ao cont´ınua da fun¸c˜ao f a X. Observa¸c˜ao 8.4.2 Se existir a extens˜ao cont´ınua de f : X → N a X ent˜ao ela ser´a ´unica. De fato, para todo a ∈ X temos que o valor lim x→a,x∈X f(x) (que ´e F(a)) ´e unicamente deter- minado pelos valores de f em X. Proposi¸c˜ao 8.4.2 (Crit´erio de Cauchy) Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, (N, dN ) espa¸co m´etrico completo, X ⊆ M, f : X → N uma fun¸c˜ao e a ∈ X. Existe lim x→a, x∈X f(x) em N se, e somente se, dado ε 0 existe δ 0 tal que se dM (x, a), dM (y, a) δ, x, y ∈ X implicar dN (f(x), f(y)) ε. (∗) Demonstra¸c˜ao: Se lim x→a, x∈X f(x) = b ∈ N, dado ε 0 existe δ 0 tal que se x ∈ X, dM (x, a) δ ent˜ao dN (f(x), b) ε 2 . (∗)
  • 283.
    8.4. EXTENS ˜AODE FUNC¸ ˜OES CONT´INUAS OU UNIFORMEMENTE CONT´INUAS 283 Logo se x, y ∈ X, dM (x, a), dM (y, a) δ ent˜ao dN (f(x), f(y)) ≤ dN (f(x), b)+dN (b, f(y)) (∗) ε 2 + ε 2 = ε. Reciprocamente, seja (xn)n∈N ´e uma sequˆencia em X tal que xn → a em M ent˜ao, de (*), segue que dado ε 0 existe δ 0 e, como xn → a, existir´a n0 ∈ N tal que se n, m n0 teremos dM (xn, a), dM (xm, a) δ, e (*) implicar´a dN (f(xm), f(xn)) ε, ou seja, (f(xn))n∈N ser´a uma sequˆencia de Cauchy em N, que ´e um espa¸co m´etrico completo. Logo existe lim n→∞ f(xn) = b ∈ N. Segue da observa¸c˜ao (6.4.1) item 2. temos que existe lim x→a, x∈X f(xn) em N, como quer´ıamos mostrar. Como consequˆencia temos Proposi¸c˜ao 8.4.3 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, (N, dN ) espa¸co m´etrico completo, X ⊆ M e f : X → N uma aplica¸c˜ao uniformemente cont´ınua em X. Existe uma, ´unica, F : X → N extens˜ao cont´ınua de f a X. Al´em disso, F ser´a uniformemente cont´ınua em X. Demonstra¸c˜ao: Como f ´e uniformemente cont´ınua em X, dado ε 0 existe δ 0 tal que se dM (x, y) δ, x, y ∈ X implicar dN (f(x), f(y)) ε. (∗) Logo, se a ∈ X, existe x, y ∈ X tal que dM (x, a) δ 2 , dM (y, a) δ 2 , logo dM (x, y) ≤ dM (x, a) + dM ((a, y) δ 2 + δ 2 = δ. Portando, de (*), segue que dN (f(x), f(y)) ε. Portanto, pelo crit´erio de Cauchy (proposi¸c˜ao (8.4.2)) segue que existe lim x→a, x∈X f(x) em N. Assim, da proposi¸c˜ao (6.7.2), segue que F : X → N dada por F(y) . =    f(y) se y ∈ X lim x→y f(x) se y ∈ X X ser´a cont´ınua em X. Mostremos que F ´e uniformemente cont´ınua em X. Dado ε 0, como f ´e uniformemente cont´ınua em X, existe δ 0 tal que se dM (x, y) δ, x, y ∈ X implicar dN (f(x), f(y)) ε 2 . (∗∗)
  • 284.
    284 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Se u, v ∈ X s˜ao tais que dM (x, y) δ, ent˜ao existem sequˆencias (xn)n∈N, (yn)n∈N em X tais que xn → u e yn → v em X. Como a fun¸c˜ao dM ´e cont´ınua em M (logo em X), existe n0 ∈ N, tal que se n n0 teremos dM (xn, yn) δ. Logo, de (**), segue que, se n n0 teremos dM (f(xn), f(yn)) ε 2 . Assim, para u, v ∈ X se dM (u, v) δ teremos dN (F(u), F(v)) = dN ( lim n→∞ f(xn), lim n→∞ f(yn)) [dM ´e cont´ınua] = lim n→∞ dN (f(xn), f(yn)) ≤ ε 2 ε, mostrando que F ´e uniformemente cont´ınua em X. Como consequˆencia temos o Corol´ario 8.4.1 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos completos, X ⊆ M, Y ⊆ N e f : X → Y um homeomorfismo uniforme de X em Y . Existe uma, ´unica, F : X → Y extens˜ao de f a X homeomorfismo uniforme de X sobre Y . Demonstra¸c˜ao: Observemos que X e Y s˜ao subespa¸cos m´etricos completos de M e N, respectivamente (pois s˜ao subconjuntos fechados dos espa¸cos m´etricos completos M e N, respectivamente). Seja g = f−1 : Y → X o homeomorfismo inverso associado a f. Sabemos, do corol´ario (8.4.3), segue que existem, ´unicas, extens˜oes, F : X → Y , G : Y → X que s˜ao uniformemente cont´ınuas em X e Y , respectivamente. Observemos que, para x ∈ X, y ∈ Y temos que (G ◦ F)(x) = (g ◦ f)(x) = x = idX(x), e (F ◦ G)(y) = (f ◦ g)(y) = y = idY (y). Como X ´e denso X e Y ´e denso Y temos que G ◦ F = idX e F ◦ G = idY , logo G = F−1 e assim F, a ´unica extens˜ao de f a X, ser´a um homeomorfismo uniforme de X sobre Y . Observa¸c˜ao 8.4.3 A hip´otese do espa¸co m´etrico N ser completo ´e necess´aria para que proposi¸c˜ao (8.4.3) seja v´alida. O seguinte exemplo mostra este fato: A aplica¸c˜ao identidade id : Q → Q, que ´e uniformemente cont´ınua em Q, n˜ao possui uma extens˜ao F : R → Q cont´ınua em R, exceto se F for constante. De fato, se F ´e cont´ınua em R segue que F(R) ser´a conexo em Q, assim dever´a ser igual a um ponto, logo F ser´a constante e portanto n˜ao poder´a ser uma extens˜ao da fun¸c˜ao id. Para finalizar temos o Corol´ario 8.4.2 Sejam (M, dM ), (N, dN ) espa¸cos m´etricos completos, X ⊆ M, Y ⊆ N e f : X → Y uma isometria de X em Y . Existe uma, ´unica, F : X → Y extens˜ao de f a X que ´e uma isometria de X em Y .
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    8.5. COMPLETAMENTE DEUM ESPAC¸O M´ETRICO 285 Demonstra¸c˜ao: Como f ´e isometria de X em Y segue que f ´e um homeomorfismo uniforme de X em Y . Logo do corol´ario (8.4.1) segue que existe uma ´unica extens˜ao de f , F : X → Y , que ´e um homeomorfismo uniforme de X sobre Y . Mostremos que F ´e isometria de X sobre Y . Para isto sejam, x, y ∈ X e sejam (xn)n∈N) e (yn)n∈N) sequˆencias en X e Y , respectivamente, tais que xn → x, em X yn → y em Y. Mas dN (F(x), F(y)) = dN ( lim n→∞ f(xn), lim n→∞ f(yn)) [dN ´e cont´ınua em Y ] = lim n→∞ dN (f(xn), f(yn)) [f ´e isometria de X sobre Y ] = lim n→∞ dM (xn, yn) [dM ´e cont´ınua em X] = dM ( lim n→∞ xn, lim n→∞ yn) = dM (x, y), ou seja, F ´e uma isometria de X em Y . 8.5 Completamente de um espa¸co m´etrico Observa¸c˜ao 8.5.1 1. Dado um espa¸co m´etrico (M, dM ) mostraremos nesta se¸c˜ao que sempre existir´a um espa¸co m´etrico completo (M, dM ) que contenha M como subespa¸co m´etrico. 2. Lembremos que um subconjunto fechado de um espa¸co m´etrico completo ´e um subsepa¸co m´etrico completo, logo o fecho de M em M ser´a um subsepa¸co m´etrico completo e conter´a M, logo ser´a o suficiente para o que queremos. Logo basta impor a condi¸c˜ao que M seja denso no seu ”completamento”. 3. Para encontrar o ”completamento” de M basta que encontremos uma imers˜ao isom´etrica ϕ : M → N onde (N, dN ) seja um espa¸co m´etrico completo. De fato, pois neste caso temos que M = ϕ(M) ser´a um subconjunto fechado de um espa¸co m´etrico completo, N, logo dever´a ser um subespa¸co m´etrico completo. Portanto ϕ(M) ´e espa¸co m´etrico completo e assim este ser´a tomado como o ”completa- mente” de M, j´a que ϕ(M) ´e isom´etrico a M. Com isto temos a Defini¸c˜ao 8.5.1 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico. Um completamente de M ´e um par (M, ϕ) onde (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo e ϕ : M → M ´e uma imers˜ao isom´etrica cuja imagem ´e densa em M. Observa¸c˜ao 8.5.2 Frequentemente escreveremos M ⊆ M, identificando M com sua imagem pela aplica¸c˜ao ϕ, ϕ(M) (observemos que ϕ ´e injetora).
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    286 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Exemplo 8.5.1 Consideremos Q com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R. Ent˜ao o completamente de Q ser´a (R, iQ) onde iQ : Q → R ´e a aplica¸c˜ao inclus˜ao (que ´e uma imers˜ao isom´etrica). De fato, pois neste caso temos i(Q) = Q = R que ´e um espa¸co m´etrico completo. Mais geralmente temos Exemplo 8.5.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo e X ⊆ M, X = ∅. Ent˜ao X em M ´e um completamento de X. Basta observar que (X, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo, iX : X → X (a inclus˜ao) ´e uma imers˜ao isom´etrica e iX(X) = X, logo (X, iX) ´e um completamento de X. Em particular, se [0, 1] est´a a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R ent˜ao o completa- mento de (0, 1) ser´a [0, 1] (ou, mais precisamente, ([0, 1], i[0,1]), onde i[0,1] ´e a aplica¸c˜ao inclus˜ao). Temos a Proposi¸c˜ao 8.5.1 (Existˆencia do completamento) Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico. Ent˜ao existe um completamento de M. Demonstra¸c˜ao: Da proposi¸c˜ao (2.6.1) segue que existe uma imers˜ao isom´etrica ϕ : M → B(M; R), onde B(M; R) est´a munido da m´etrica da convergˆencia uniforme (isto ´e, do supremo). O exemplo (8.3.2) nos garante que B(M; R), dsup) ´e um espa¸co m´etrico completo (na verdade ´e um espa¸co de Banach). Logo basta considerar M . = ϕ(M) munido da m´etrica induzida pela m´etrica dsup. Temos tamb´em a Proposi¸c˜ao 8.5.2 (Unicidade do completamento) Sejam (M, dM ) um espa¸co m´etrico e (M, ϕ) e (N, ψ) completamentos de M. Ent˜ao existe uma isometria f : M → N tal que f ◦ ϕ = ψ. O diagram abaixo ilustra a situa¸c˜ao. ) … E M M N f ϕ ψ
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    8.5. COMPLETAMENTE DEUM ESPAC¸O M´ETRICO 287 Demonstra¸c˜ao: Se y ∈ ϕ(M) ent˜ao existe um, ´unico (pois ϕ ´e injetora) x ∈ M tal que ϕ(x) = y. Assim podemos definir f0 : ϕ(M) → N por f0(y) . = ψ(x), onde y = ϕ(x) ∈ ϕ(M). Em particular temos para x ∈ M que (f0 ◦ ϕ)(x) = ψ(x) mostrando que f0 ´e uma isometria de ϕ(M) sobre ψ(M) (pois ϕ e ψ s˜ao uma isometrias entre as suas respectivas imagens). Pelo corol´ario (8.4.2) segue que existe uma ´unica isometria f : ϕ(M) = M → ϕ(N) = N que estende a aplica¸c˜ao f0, ou seja, f ◦ ϕ = ψ, como quer´ıamos mostrar. Observa¸c˜ao 8.5.3 Observemos que dois espa¸cos m´etricos podem ser homeomorfos e seus com- pletamentos n˜ao serem homeomorfos. Para ver isto consideremos o seguinte exemplo: O completamento de M . = (0, 2π) (com a m´etrica induzida de R) ´e [0, 2π]. O completamento de N . = S1 {(1, 0)} (com a m´etrica induzida de R2) ´e S1. Temos que M = (0, 2π) ´e homeomorfoa S1 {(1, 0)} mas M = [0, 2π] n˜ao ´e homeomorfo a N = S1. Em geral temos a Proposi¸c˜ao 8.5.3 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos uniformemente homeomorfos. Ent˜ao M e N s˜ao uniformemente homeomorfos. Demonstra¸c˜ao: Se f : M → N ´e um homeomorfismo uniforme ent˜ao temos o seguinte diagrama M E N f c c ϕ(M) ψ(N) E F ϕ ψ T ϕ−1 ou seja, se F : ϕ(M) → ψ(N) ´e dada por F(x) . = (ψ ◦ f ◦ ϕ−1 )(y), y ∈ ϕ(M) ent˜ao esta ser´a um homeomorfismo uniforme. Logo do corol´ario (8.4.1) segue que F tem uma ´unica extens˜ao F : M = ϕ(M) → N = ψ(M) que ´e um homeomorfismo uniforme, completando a demostra¸c˜ao.
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    288 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Proposi¸c˜ao 8.5.4 Sejam (M, dM ) e (N, dN ) espa¸cos m´etricos. Ent˜ao M × N = M × N. Demonstra¸c˜ao: De fato, se (M, ϕ) e (N, ψ) s˜ao completamentos de M e N, respectivamente ent˜ao temos que ϕ(M) = M, ψ(N) = N. Mas ϕ(M) × ψ(N) = ϕ(M) × ψ(N) = M × N. (∗) Logo (ϕ, ψ) : M × N → M × N dada por (ϕ, ψ)(x, y) . = (ϕ(x), ψ(y)) ser´a uma imers˜ao isom´etrica e de (*) segue que (M × N, (ϕ, ψ)) ´e o completamento de M × N. Exerc´ıcio 8.5.1 Seja (E, . E) um espa¸co vetorial normado e (E, ϕ) seu completamento. Podemos munir E, de modo ´unico, com uma estrutura de espa¸co vetorial normado que estende a estrutura correspondente de E. Para ver isto, observemos que a aplica¸c˜ao s : E × E → E, s(x, y) . = x + y, x, y ∈ E, ´e uma aplica¸c˜ao uniformemente cont´ınua em E × E. Com isto temos definida a aplica¸c˜ao S : ϕ(E) × ϕ(E) → ϕ(E), S(X, Y ) . = [ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1 , ϕ−1 )](X, Y ), X, Y ∈ ϕ(E), que ´e uma aplica¸c˜ao uniformemente cont´ınua em ϕ(E) × ϕ(E) (pois ϕ : E → ϕ(E) ´e isometria em E e s ´e uniformemente cont´ınua em E × E) (veja diagrama abaixo). E × E E E s c c ϕ(E) × ϕ(E) ϕ(E) E S (ϕ, ϕ) ϕ T (ϕ−1 , ϕ−1 ) Logo, pela proposi¸c˜ao (8.4.3), segue que se estende, de modo ´unico, a uma aplica¸c˜ao S : E × E → E que ser´a uniformemente cont´ınua em E × E. Temos que S satisfaz as propriedades (A1)-(A4) da defini¸c˜ao de espa¸co m´etrico. De fato, verificaremos a propriedade comutativa para S em E: Sejam X, Y ∈ E.
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    8.5. COMPLETAMENTE DEUM ESPAC¸O M´ETRICO 289 Temos que X = lim n→∞ Xn, e Y = lim n→∞ Yn, onde (Xn)n∈N e (Yn)n∈N s˜ao sequˆencias em ϕ(E), ou seja, para cada n ∈ N existem, ´unicos, xn, yn ∈ E (pois ϕ : E → ϕ(E) ´e isometria) tais que Xn = ϕ(xn) e Yn = ϕ(yn). Logo S(X, Y ) = S( lim n→∞ Xn, lim n→∞ Yn) [S ´e cont´ınua em E×E] = lim n→∞ S(Xn, Yn) = lim n→∞ [ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1 , ϕ−1 )](Xn, Yn) = lim n→∞ [ϕ ◦ s](ϕ−1 (Xn), ϕ−1 (Yn)) [ϕ−1(Xn)=xn, ϕ−1(Yn)=yn] = lim n→∞ [ϕ ◦ s](xn, yn) = lim n→∞ [ϕ(s(xn, yn))] [s ´e comutativa em E] = lim n→∞ [ϕ(yn + xn)] = lim n→∞ [(ϕ ◦ s)(yn, xn)] [ϕ−1(Xn)=xn, ϕ−1(Yn)=yn] = lim n→∞ [ϕ ◦ s](ϕ−1 (Yn), ϕ−1 (Xn)) = [ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1 , ϕ−1 )](Yn, Xn) = lim n→∞ S(Yn, Xn) [S ´e cont´ınua em E×E] = S( lim n→∞ Yn, lim n→∞ sXn) = S(Y , X), mostrando que S satisfaz a propriedade comutativa. Observemos que 0 = ϕ(0) (verifique!). Al´em disso, como a aplica¸c˜ao f : E → E dada por f(x) . = −x, x ∈ E ´e uma isometria ent˜ao a aplica¸c˜ao F : ϕ(E) → ϕ(E) dada por F(X) . = [ϕ ◦ f ◦ ϕ−1 ](X), X ∈ ϕ(E) se estende a uma isometria (veja figura abaixo) F : E → E E E E f c c ϕ(E) ϕ(E) E F ϕ ϕ T ϕ−1
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    290 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Definamos −X . = F(X), X ∈ E. Se X ∈ E temos que X = lim n→∞ Xn, onde (Xn)n∈N ´e uma sequˆencia em ϕ(E), ou seja, para cada n ∈ N existe, ´unico, xn ∈ E tais que Xn = ϕ(xn). S(X, −X) = S(X, F(X)) = S( lim n→∞ Xn, F( lim n→∞ Xn)) [F e S s˜ao cont´ınuas] = lim n→∞ S(Xn, F(Xn)) = lim n→∞ [ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1 , ϕ−1 )](Xn, [ϕ ◦ f ◦ ϕ−1 ](Xn))] = lim n→∞ [(ϕ ◦ s)(ϕ−1 (Xn), f(ϕ−1 (Xn)))] = [ϕ−1(Xn)=xn] = lim n→∞ [(ϕ ◦ s)(xn, f(xn))] = lim n→∞ [ϕ(s(xn, −xn))] = lim n→∞ [ϕ(xn − xn))] = lim n→∞ [ϕ(0)] = 0, mostrando que −X ∈ E ´e o vetor oposto do vetor X ∈ E. A verifica¸c˜ao das outras propriedades ser˜ao deixadas como exerc´ıcio para o leitor. Sabemos que a aplica¸c˜ao m : R × E → E dada por m(λ, x) . = λ.x, (λ, x) ∈ R × E ´e localmente uniformemente cont´ınua em R × E. Logo podemos considerar a aplica¸c˜ao (veja figura abaixo) M : R × ϕ(E) → ϕ(E) dada por M(λ, X) . = (ϕ ◦ m ◦ (id, ϕ−1 ))(λ, X), (λ, X) ∈ R × ϕ(E). R × E E E m c c R × ϕ(E) ϕ(E) E M (id, ϕ) ϕ T (id, ϕ−1 )
  • 291.
    8.5. COMPLETAMENTE DEUM ESPAC¸O M´ETRICO 291 Observemos que M ´e localmente uniformemente cont´ınua em R × ϕ(E) logo se estende a uma fun¸c˜ao cont´ınua M : R × E → E. Observemos que se X, Y ∈ E e λ ∈ R ent˜ao X = lim n→∞ Xn, e Y = lim n→∞ Yn, onde (Xn)n∈N e (Yn)n∈N s˜ao sequˆencias em ϕ(E), ou seja, para cada n ∈ N existem, ´unicos, xn, yn ∈ E (pois ϕ : E → ϕ(E) ´e isometria) tais que Xn = ϕ(xn) e Yn = ϕ(yn). Logo λ.(X + Y ) = M(λ, S(X, Y )) = M(λ, S( lim n→∞ Xn, lim n→∞ Yn)) [M,S s˜ao cont´ınuas ] = lim n→∞ M(λ, S(Xn, Yn)) = lim n→∞ M(λ, (ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1 , ϕ−1 ))(Xn, Yn)) = lim n→∞ M(λ, (ϕ ◦ s)(ϕ−1 (Xn), ϕ−1 (Yn))) [ϕ−1(Xn)=xn, ϕ−1(Yn)=yn] = lim n→∞ M(λ, [ϕ ◦ s](xn, yn)) = lim n→∞ M(λ, ϕ(s(xn, yn))) = lim n→∞ [(ϕ ◦ m ◦ (id, ϕ−1 ))(λ, ϕ(s(xn, yn)))] = lim n→∞ [(ϕ ◦ m)(λ, xn + yn)] = lim n→∞ [ϕ(λ.(xn + yn))] [distribuitiva de . em rela¸c˜ao a + em E] = lim n→∞ [ϕ(λ.xn + λ.yn)] = lim n→∞ [(ϕ ◦ s)(λxn, λyn)] = lim n→∞ [(ϕ ◦ s)(m(λ, xn), m(λ, yn))] [xn=ϕ−1(Xn), yn=ϕ−1(Yn)] = lim n→∞ [(ϕ ◦ s)(m(λ, ϕ−1 (Xn)), m(λ, ϕ−1 (Yn)))] = lim n→∞ [(ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1 , ϕ−1 ))((ϕ ◦ m)(λ, ϕ−1 (Xn)), (ϕ ◦ m)(λ, ϕ−1 (Yn)))] = lim n→∞ [(ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1 , ϕ−1 ))((ϕ ◦ m ◦ (id, ϕ−1 ))(λ, Xn), (ϕ ◦ m ◦ (id, ϕ−1 ))(λ, Yn))] = lim n→∞ S(M(λ, Xn), M(λ, Yn)) [M,S s˜ao cont´ınuas ] = S(M(λ, lim n→∞ Xn), M(λ, lim n→∞ Yn)) = S(M(λ, X), M(λ, Y )) = S(λ.X, λ.Y ) = λX + λY mostrando que S satisfaz a propriedade distributiva da multiplica¸c˜ao de escalar por elementos de E. Deixaremos como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao das propriedades (M2)-(M4) da defin¸c˜ao de espa¸co vetoriais. Com isto (E, S, M) torna-se um espa¸co vetorial sobre R, onde as opera¸c˜oes S e , M s˜ao as extens˜oes das opera¸c˜oes de E, s e m, a E. A m´etrica dE em E pode ser reobtida da seguinte forma: Seja D : ϕ(E) × ϕ(E) → R dada por (veja figura abaixo) D(X, Y ) . = dM (ϕ−1 (X), ϕ−1 (Y )), X, Y ∈ ϕ(E).
  • 292.
    292 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS E × E E E d c ϕ(E) × ϕ(E) D (ϕ, ϕ) T (ϕ−1 , ϕ−1 ) Como dM ´e imers˜ao isom´etrica e ϕ ´e isometria segue que D ´e uniformemente cont´ınua em ϕ(E). Logo admite uma, ´unica, extens˜ao, que ser´a indicada por d : E × E → R que ser´a uma m´etrica em E (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor a verifica¸c˜ao deste fato), cont´ınua em E × E e que coincidir´a com dE . Tamb´em ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor, mostrar que as opera¸c˜oes S, M s˜ao cont´ınuas em rela¸c˜ao a m´etrica d em E. Observemos que a m´etrica d = dE prov´em de uma norma. De fato, se X, Y , A ∈ E ent˜ao X = lim n→∞ Xn, e Y = lim n→∞ Yn, A = lim n→∞ An onde (Xn)n∈N, (Yn)n∈N e (An)n∈N s˜ao sequˆencias em ϕ(E), ou seja, para cada n ∈ N existem, ´unicos, xn, yn, an ∈ E (pois ϕ : E → ϕ(E) ´e isometria) tais que Xn = ϕ(xn), Yn = ϕ(yn) e An = ϕ(an). (∗) Observemos que se X = ϕ(x), Y = ϕ(y) ∈ ϕ(E), onde x, y ∈ E ent˜ao ϕ−1 (S(X, Y )) = (ϕ−1 ◦ S)(X, Y ) = ϕ−1 [(ϕ ◦ s ◦ (ϕ−1 , ϕ−1 ))(X, Y )] = (s ◦ (ϕ−1 , ϕ−1 ))(X, Y ) = s(ϕ−1 (X), ϕ−1 (Y )). (∗∗) Logo
  • 293.
    8.5. COMPLETAMENTE DEUM ESPAC¸O M´ETRICO 293 dE (X + A, Y + A) =d(X + A, Y + A) = d(S(X, A), S(Y , A)) = d(S( lim n→∞ Xn, lim n→∞ An), S( lim n→∞ Yn, lim n→∞ An)) [d,S s˜ao cont´ınuas] = lim n→∞ d(S(Xn, An), S(Yn, An)) = lim n→∞ d(S(Xn, An), S(Yn, An)) = lim n→∞ D(S(Xn, An), S(Yn, An)) = lim n→∞ dM (ϕ−1 (S(Xn, An)), ϕ−1 (S(Yn, An))) (∗∗) = lim n→∞ dM (s(ϕ−1 (Xn), ϕ−1 (An)), (s(ϕ−1 (Yn), ϕ−1 (An))) = lim n→∞ dM (ϕ−1 (Xn) + ϕ−1 (An), ϕ−1 (Yn) + ϕ−1 (An)) [dM prov´em de uma norma] = lim n→∞ dM (ϕ−1 (Xn), ϕ−1 (Yn)) = lim n→∞ D(Xn, Yn) = lim n→∞ d(Xn, Yn) [d ´e cont´ınua] = = d( lim n→∞ Xn, lim n→∞ Yn) = d(X, Y ) = dE (X, Y ), mostrando que dE ´e invariante por transla¸c˜oes. Se X, Y ∈ E e λ ∈ R temos que X = lim n→∞ Xn, e Y = lim n→∞ Yn onde (Xn)n∈N, (Yn)n∈N s˜ao sequˆencias em ϕ(E), ou seja, para cada n ∈ N existem, ´unicos, xn, yn ∈ E (pois ϕ : E → ϕ(E) ´e isometria) tal que Xn = ϕ(xn) e Yn = ϕ(yn). (∗ ∗ ∗) Observemos que se X = ϕ(x), onde x ∈ E ent˜ao ϕ−1 (M(λ, X)) = (ϕ−1 ◦ M)(λ, X) = ϕ−1 [(ϕ ◦ m ◦ (id, ϕ−1 ))(λ, X)] = (m ◦ (id, ϕ−1 ))(λ, X) = m(λ, ϕ−1 (X)). (∗ ∗ ∗) Logo
  • 294.
    294 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS dE (λX, λY ) =d(λX, λY ) = d(M(λ, X), M(λ, Y )) = d(M(λ, lim n→∞ Xn), M(λ, lim n→∞ Yn)) [d,M s˜ao cont´ınuas] = lim n→∞ d(M(λ, Xn), M(λ, Yn)) = lim n→∞ d(M(λ, Xn), M(λ, Yn)) = lim n→∞ D(M(λ, Xn), M(λ, Yn)) = lim n→∞ dM (ϕ−1 (M(λ, Xn)), ϕ−1 (M(λ, Yn))) (∗∗∗) = lim n→∞ dM (m(λ, ϕ−1 (Xn)), m(λ, ϕ−1 (Yn))) = lim n→∞ dM (λ.ϕ−1 (Xn), λ.ϕ−1 (Yn)) [dM prov´em de uma norma] = lim n→∞ [|λ|dM (ϕ−1 (Xn), ϕ−1 (Yn)) = |λ| lim n→∞ D(Xn, Yn) = |λ| lim n→∞ d(Xn, Yn) [d ´e cont´ınua] = = |λ|d( lim n→∞ Xn, lim n→∞ Yn) = |λ|d(X, Y ) = |λ|dE (X, Y ), mostrando que dE prov´em de uma norma . E , assim E, . E ´e um espa¸co de normado. Observa¸c˜ao 8.5.4 Lembremos que X E = dE (X, 0), X ∈ E, ´e a extens˜ao da norma . E. 8.6 Espa¸co m´etricos topologicamente completos Observa¸c˜ao 8.6.1 1. Suponhamos que (M, d1) ´e um espa¸co m´etrico. Pergunta-se: ser´a que existe uma m´etrica d, equivalente `a m´etrica d1, de tal modo que (M, d) seja um espa¸co m´etrico completo? 2. Esta pergunta ´e equivalente a pergunta se (M, d1) ´e homeomorfo a um espa¸co m´etrico completo. De fato, se d1 ´e uma m´etrica em M, equivalente `a m´etrica d, de tal modo que (M, d) seja um espa¸co m´etrico completo ent˜ao a aplica¸c˜ao identidade id : (M, d1) → (M, d) ser´a um homeomorfismo. Por outro lado, se (M, d1) ´e homeomorfo a (N, dN ), espa¸co m´etrico completo ent˜ao existe ϕ : (M, d1) → (N, dN ) homeomorfismo. Logo definido-se d : M × M → R por d(x, y) . = dN (ϕ(x), ϕ(y)), x, y ∈ M,
  • 295.
    8.6. ESPAC¸O M´ETRICOSTOPOLOGICAMENTE COMPLETOS 295 segue que d ´e uma m´etrica em M que ´e equivalente a m´etrica d. Como (N, dN ) ´e um espa¸co m´etrico completo e ϕ : (M, d) → (N, dN ) ´e uma isometria segue que (M, d) tamb´em ser´a um espa¸co m´etrico completo. Exemplo 8.6.1 O intervalo aberto (−1, 1), munido da m´etrica d(−1,1) induzida pela m´etrica usual de R, n˜ao ´e um espa¸co m´etrico completo. Mas sabemos que a aplica¸c˜ao h : (−1, 1) → R dada por h(x) . = x 1 − |x| , x ∈ (−1, 1), ´e um homeomorfismo de (−1, 1) em R. Assim a m´etrica d : (−1, 1) × (−1, 1) → R dada por d1(x, y) . = |h(x) − h(y), x, y ∈ (−1, 1) ´e equivalente `a m´etrica d(−1,1) e ((−1, 1), d) ´e um espa¸co m´etrico completo. Em geral temos a Proposi¸c˜ao 8.6.1 Sejam (M, d) um espa¸co m´etrico completo e A um subcojunto aberto de M. Ent˜ao (A, d) ´e homeomorfo a um espa¸co m´etrico completo. Demonstra¸c˜ao: Como A um subcojunto aberto de M temos que M A ´e um subconjunto fechado de M. Logo a fun¸c˜ao ϕ : M → R dada por ϕ(x) . = d(x, M A), x ∈ M, ser´a uma fun¸c˜ao cont´ınua em M. Observemos que ϕ(x) 0 se, e somente se, x ∈ M A ou, equivalentemente, x ∈ A. Logo a fun¸c˜ao f : A → R dada por f(x) . = 1 ϕ(x) , x ∈ A, est´a bem definida e ser´a cont´ınua em A. Temos que G(f) = {(x, f(x)) : x ∈ A} = {(x, t) : x ∈ A, t = 1 ϕ(x) } = {(x, t) : x ∈ A, t.ϕ(x) = 1} [t.ϕ(x)=1⇒ϕ(x)0] = {(x, t) ∈ M × R : t.ϕ(x) = 1} A ´ultima identidade garante que G(f) ´e um subconjunto fechado do espa¸co m´etrico completo M × R. Logo G(f), pelas proposi¸c˜oes (8.2.3) e (8.2.4), segue ser´a um espa¸co m´etrico completo munido da m´etrica D : G(f) × G(f) → R dada por D((x, f(x)), (y, f(y)) . = d(x, y) + |f(x) − f(y)|, x, y ∈ A. Como a aplica¸c˜ao F : (A, d) → (G(f), D) dada por F(x) . = (x, f(x)), x ∈ A ´e um homeomorfismo segue que A ´e homeomormfo a F que por sua vez ´e homeomorfo a M, completando a demonstra¸c˜ao.
  • 296.
    296 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS 8.7 O teorema de Baire Come¸caremos pela Defini¸c˜ao 8.7.1 Seja (M, d) espa¸co m´etrico. Diremos que X ⊆ M ´e um subconjunto magro em M onde X = ∞ n=1 Xn, e int(Xn) = ∅, para todo n ∈ N. Observa¸c˜ao 8.7.1 1. ´E f´acil mostrar que (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) todo subconjunto de um conjunto magro de M tamb´em ser´a um conjunto magro de M. 2. Tamb´em pode-se mostrar que (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) a reuni˜ao enu- mer´avel de subconjuntos magros de M ser´a um subconjunto magro de M. 3. Nem todo subconjunto magro X de M tem interior vazio (isto ´e, int(X) = ∅). Para ver isto observemos X ⊆ Q ´e um subconjunto magro de Q, pois ele ser´a reuni˜ao enumer´avel de seus pontos, cada um dos quais tem interior vazio em Q mas n˜ao tem, necesssariamente, interior vazio em Q. Isto ocorre pois Q n˜ao ´e um espa¸co m´etrico completo (como veremos a seguir, se fosse, dever´ıamos ter int(X) = ∅ em Q). 4. Se (M, d) ´e um espa¸co m´etrico e a ∈ M ent˜ao X = {a} tem interior vazio se, e somente se, a n˜ao ´e ponto isolado de M. De fato, X = {a} tem interior vazio se, e somente se, toda bola aberta BM (a; ε) cont´em pontos de M {a} ou, equivalentemente, o ponto a n˜ao ´e ponto isolado de M. 5. Como consequˆencia temos que X ´e um subconjunto enumer´avel de M ´e um subconjunto magro de M se, e somente se, nenhum dos pontos de X ´e ponto isolado de M. 6. Em particular, se X = {reta em R2} ⊆ R2´e um subconjunto magro de R2. Mais geralmente, toda reuni˜ao enumer´avel de retas de R2 ser´a um subconjunto magro de R2. 7. Sejam (M, d) ´e um espa¸co m´etrico e X ⊆ M. Lembremos que int(X) = ∅ em M se, e somente se, M X ´e denso em M. Logo, um subconjunto F fechado em M ´e tal que int(F) = ∅ em M se, e somente se, M F ´e um subcojunto aberto de denso em M. Portanto podemos conlcuir que int(X) = ∅ em M se, e somente se, X est´a contido num subconjunto fechado que tem interior vazio em M ou, equivalentemente, M X cont´em um subconjunto aberto e denso em M, ou seja, int(M X) ´e denso em M. 8. Um subconjunto X de um espa¸co m´etrico (M, d) que ´e um subconjunto magro de M tamb´em ´e dito subconjunto de primeira categoria em M. Os subconjunto que n˜ao s˜ao subconjunto magros de M tamb´em s˜ao denominados subcon- juntos de segunda categoria em M.
  • 297.
    8.7. O TEOREMADE BAIRE 297 Exemplo 8.7.1 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico, A ⊆ M um subconjunto aberto em M. Ent˜ao ∂A ´e um subconjunto fechado de M que tem interior vazio em M. De fato, se x ∈ ∂A ent˜ao toda bola aberta BM (x, ε) cont´em pontos de A (e de M A). Como A ´e um subconjunto aberto de M temos que A ∩ ∂A = ∅ assim nehuma bola aberta BM (x; ε) poder´a estar contida em ∂A, ou seja x ∈ int(∂A), mostrando que int(∂A) = ∅. Exemplo 8.7.2 Sejam (M, d) espa¸co m´etrico, F ⊆ M um subconjunto fechado em M. Como ∂F = ∂(M F) e M F ´e um subconjunto aberto de M segue, do exemplo acima, que ∂F = ∂(M F) ter´a interior vazio em M. Observa¸c˜ao 8.7.2 Se X ´e um subconjunto de um espa¸co m´etrico (M, d) ´e tal que X n˜ao ´e um subconjunto nem aberto, nem fechado de X ent˜ao podemos ter int(∂X) = ∅ em M. Para ver isto consideremos X . = Q subconjunto do espa¸co m´etrico (R, d), onde d ´e a m´etrica usual de R. Ent˜ao ∂(Q) = R, que n˜ao tem interior vazio em R (na verdade int(R) = R em R). Exemplo 8.7.3 O conjunto de Cantor. Consideremos M . = [0, 1] munido da m´etrica induzida pela m´etrica usual de R. Seja E0 . = [0, 1] ⊆ R. 0 1 E0 Definamos A1 . = ( 1 3 , 2 3 ), denominado ter¸co m´edio do intervalo [0, 1], e consideremos E1 . = M A1, isto ´e, E1 = [0, 1 3 ] ∪ [ 2 3 , 1] = I11 ∪ I12. 0 1 E1 1 3 2 3 Definamos A2 = ( 1 9 , 2 9 ) ∪ ∪( 7 9 , 8 9 ), ou seja, os ter¸cos m´edios dos intervalos [0, 1 3 ] e [2 3 , 1] e consideremos E2 . = M A2, isto ´e, E2 = [0, 1 9 ] ∪ [ 2 9 , 3 9 ] ∪ [ 6 9 , 7 9 ] ∪ [ 8 9 , 1] = I21 ∪ I22 ∪ I23 ∪ I24. 0 1 E2 1 9 2 9 3 9 6 9 7 9 8 9 Continuando o processo acima obtemos uma sequˆencia de subconjuntos (En)n∈N formada por subconjuntos fechados e limitados de [0, 1] tais que 1. E1 ⊆ E2 ⊆ E3 ⊆ · · · , isto ´e, a sequˆencia (En)n∈N ´e decrescente; 2. Para cada n ∈ N temos que En ´e a reuni˜ao de 2n intervalos fechados, cada um dos quais tem comprimento 3−n.
  • 298.
    298 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS A verifica¸c˜ao destas propriedades ser´a deixada como exerc´ıcio para o leitor. Observemos que os intervalos retirados de [0, 1] para obtermos En s˜ao da forma: 3k + 1 3n , 3k + 2 3n , k = 0, 1, 2, · · · , n. (8.1) Definamos K . = ∞ n=1 En = [0, 1] ∞ n=1 An que ser´a denominado conjunto de Cantor. Observemos que os extremos dos intervalos ter¸cos m´edios retirados pertencer˜ao a K, isto ´e, 0, 1 3 , 2 3 , 2 9 , · · · ∈ K, mostrando que K = ∅. Mostremos que K n˜ao cont´em nenhum intervalo aberto e assim int(K) = ∅ em [0, 1] e como ele ´e intersec¸c˜ao de subconjuntos fechados de [0, 1] ele ser´a um subconjunto fechado de [0, 1]. Para isto, do item 2. acima, temos que cada um dos 2n intervalos de En tem comprimento 3−n. Se J ⊆ [0, 1] ´e um intervalo aberto de [0, 1] de comprimento 0 l seja n ∈ N tal 3−n l. Logo o intervalo J conter´a pontos que n˜ao pertencer˜ao a En e assim n˜ao pertencer´a a K, mostrando que int(K) = ∅. Com isto temos que K ´e um subconjunto fechado de [0, 1], n˜ao vazio, tal que int(K) = ∅, ou seja, K ´e um subconjunto magro de [0, 1]. Mostraremos, mais adiante, o conjunto de Cantor ´e n˜ao enumer´avel. Temos a Proposi¸c˜ao 8.7.1 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico, (Fn)n∈N sequˆencia decrescente de subscon- juntos fechados de M, n˜ao vazios, com lim n→∞ diam(Fn) = 0. Ent˜ao (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo se, e somente se, existe aiM tal que ∞ n=1 Fn = {a}. Demonstra¸c˜ao: Suponhamos que (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo e (Fn)n∈N ´e uma sequˆencia como acima. Para cada n ∈ N seja xn ∈ Fn. Como (Fn)n∈N ´e uma sequˆencia decrescente temos que a sequˆencia (xn)n∈N em M tem a segunte propriedade: se n, m ≥ n0 segue que xm, xn ∈ Fn0 . Como lim n→∞ diam(Fn) = 0, dado ε 0 existe N0 ∈ N tal que se n ≥ N0 segue que diam(Fn) ε. Logo se se n, m ≥ N0 segue que d(xm, xn) ≤ diam(FN0 ) ε, mostrando que a sequˆencia (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em (M, dM ).
  • 299.
    8.7. O TEOREMADE BAIRE 299 Como (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo segue que existe a ∈ M tal que lim n→∞ xn = a. Dado p ∈ N temos que se n ≥ p segue que xn ∈ Fp. Logo a = lim n→∞ xn ∈ Fp para todo p ∈ N, ou seja, a ∈ ∞ n=1 Fn. Suponhamos, por absurdo, que existe b ∈ ∞ n=1 Fn, b = a. Logo temos que a, b ∈ Fn para todo n ∈ N. Assim, se n ≥ N0 temos que 0 dM (a, b) ≤ diam(Fn) ε, o que ´e um absurdo. Portanto ∞ n=1 Fn = {a}. Reciprocamente, mostremos que (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo. Para isto consideremos (xn)n∈N uma sequˆencia de Cauchy em (M, dM ). Para cada n ∈ N definamos Xn . = {xn, xn+1, · · · }. Logo temos que a sequˆencia (Xn)n∈N ´e uma sequˆencia decrescente (pois Xn+1 = {xn+1, xn+2, · · · } ⊆ {xn, xn+1, · · · } = Xn) e portanto a sequˆencia (Xn)n∈N ser´a uma sequˆencia decrescente formada por subconjuntos fechados de (M, dM ) e n˜ao vazios. Como (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em (M, dM ), dado ε 0 existe N0 ∈ N tal que se n, m ≥ N0 temos que d(xn, xm) ε. Logo se se n ≥ N0 temos que diam(Fn) [m≥n] ≤ d(xn, xm) ε, mostrando que lim n→∞ diam(Xn) = lim n→∞ diam(Xn) = 0. Logo temos que ∞ n=1 Xn = {a}. Assim a ∈ Xn para todo n ∈ N, ou seja, toda bola aberta B(a; ε) cont´em ponto de Xn, ou seja, para cada n ∈ N existe xnj ∈ Xn ∩ B(a; ε), mostando que a sequˆencia (xn)n∈N possui uma subsequˆencia (xnj )j ∈ N que ´e convergente para a em M. Logo, da proposi¸c˜ao (8.1.3), segue que, xn → a em M, mostrando que (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo.
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    300 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Observa¸c˜ao 8.7.3 1. Na proposi¸c˜ao acima a hip´oete de ” lim n→∞ diam(Fn) = 0” ´e essencial, como mostra o seguinte exemplo: Para cada n ∈ N temos que Fn . = [n, ∞) s˜ao subconjuntos fechados de R, n˜ao vazios, a sequˆencia (Fn)n∈N ´e decrescente mas ∞ n=1 Fn = ∅. Observemos que diam(Fn) = ∞ para todo n ∈ N logo lim n→∞ diam(Fn) = ∞ = 0. 2. No exemplo acima temos que lim n→∞ diam(Fn) = ∞. Podemos obter uma situa¸c˜ao em que lim n→∞ diam(Fn) ∈ (0, ∞), como mostra o seguinte exemplo: Consideremos o espa¸co de Hilbert (l2(R), . 2) e para cada n ∈ N consideremos en . = (0, · · · , 0, 1 posi¸c˜ao n , 0 · · · ). Seja Fn . = {en, en+1, · · · }. Para cada n ∈ N temos Fn ´e um subconjunto fechado de l2(R) (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor), n˜ao vazio e a sequˆencia (Fn)n∈N ´e decrescente mas ∞ n=1 Fn = ∅. Observemos que neste caso, para cada n ∈ N, temos diam(Fn) = √ 2 ∈ (0, ∞), ou seja, lim n→∞ diam(Fn) = √ 2 ∈ (0, ∞). Temos a Proposi¸c˜ao 8.7.2 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo. Ent˜ao s˜ao equivalentes: 1. Se X ´e um subconjunto magro de (M, dM ) ent˜ao int(X) = ∅. 2. Se F . = ∞ n=1 Fn onde, para cada n ∈ N, Fn ´e um subconjunto fechado de M que tem interior vazio ent˜ao int(F) = ∅. 3. Toda interse¸c˜ao enumer´avel de subconjuntos abertos densos em M ´e denso em (M, dM ). Demonstra¸c˜ao: De 1. ⇒ 2.: Suponhamos que F . = ∞ n=1 Fn onde, para cada n ∈ N, Fn ´e um subconjunto fechado de (M, dM ) que tem interior vazio.
  • 301.
    8.7. O TEOREMADE BAIRE 301 Temos que F ⊆ ∞ n=1 Fn. Logo, da observa¸c˜ao (8.7.1) item 1., segue que F ´e magro em (M, dM ). Logo, de 1., segue que int(F) = ∅. De 2. ⇒ 3.: Sejam An subconjuntos abertos e densos em (M, dM ), para cada n ∈ N. Ent˜ao, para cada n ∈ N, Fn . = M An = Ac n ser´a fechado e int(Fn) = ∅ (pois se x ∈ Fn = M An, como An ´e denso em M, segue que toda bola aberta B(x, ε) dever´a interceptar o conjunto An e assim n˜ao poder´a estar contida em M An = Fn). Assim se F . = ∞ n=1 Fn, onde para cada n ∈ N temos Fn ´e um subconjunto fechado que tem interior vazio, segue de 2., que int(F) = ∅. Mas ∞ n=1 An = ∞ n=1 Fc n = [ ∞ n=1 Fn]c = Fc [∂(F)=∂(MF)] = M (int(F)) [int(F)=∅] = M, mostrando que ∞ n=1 An ´e denso em M. De 3. ⇒ 1.: Suponhamos que X ´e um subconjunto magro em (M, dM ), isto ´e, X = ∞ n=1 Xn onde, para cada n ∈ N temos que int(Xn) = ∅. Para cada n ∈ N consideremos An . = M Xn = Xn c. Com isto temos que, para cada n ∈ N, An ser´a um subconjunto fechado de M e An = M Xn [∂(Xn)=∂(MXn)] = M (int(Xn) [int(Xn)=∅] = M, mostrando que An ´e denso em (M, dM ). Logo, de 3., segue que A . = ∞ n=1 An tamb´em ser´a denso em (M, dM ). Mas int(X) = int( ∞ n+1 Xn) = M [ ∞ n+1 Xn]c = M ∞ n+1 Xc n = M A = M M = ∅, logo int(X) = ∅, como quer´ıamos mostrar. Com isto temos o Teorema 8.7.1 (Teorema de Baire) Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo. Toda interse¸c˜ao enumer´avel de subconjuntos abertos densos em (M, dM ) ´e denso em (M, dM ). Em particular, valem os itens 1. e 2. da proposi¸c˜ao acima. Demonstra¸c˜ao: Suponhamos que para cada n ∈ N, An ´e um subconjunto aberto e denso em (M, dM ).
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    302 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Seja A . = ∞ n=1 An. Consideremos a ∈ A e B1 . = B(a; ε) bola aberta de (M, dM ) centrada no ponto a. Se mostrarmos que A ∩ B1 = ∅ ent˜ao temos que A ´e denso em M. Observemos que A1 ´e denso em (M, dM ), logo existe a1 ∈ B1 ∩ A1. Mas B1 ∩ A1 ´e um subconjunto aberto de M, logo existe B2 . = B(a1, ε1) ⊆ A1 ∩ B1. Podemos supor, sem perda de generalidade, que 0 ε1 1 2 e que B2 ⊆ B1 ∩ A1. Caso contr´ario, temos que B(a1; ε1 2 ) ⊆ B(a1; ε1) ⊆ B1 ∩ A1 e tomamos B2 . = B(a1; δ}), onde 0 δ min{ 1 2 , ε1 2 }. Como A2 ´e um subconjunto denso de (M, dM ) segue que existe a2 ∈ B2 ∩A2 e como A2 ∩B2 ´e um subconjunto aberto de M segue que existe B3 . = B(a2; ε2) tal que B3 ⊆ A2 ∩ B2. Como anteriormente, podemos supor, sem perda de generalidade, que 0 ε2 1 3 e que B3 ⊆ B2 ∩ A2. Prosseguindo, construimos uma sequˆencia (Bn)n∈N de subconjuntos fechados de M tal que, para todo n ∈ N, temos Bn+1 ⊆ Bn, Bn+1 ⊆ Bn ∩ An e 0 diam(Bn) ≤ 2 n , em particular temos que lim n→∞ diam(Bn) = 0. Logo da proposi¸c˜ao (8.7.1) segue que ∞ n=1 Bn = ∅, ou seja, existe a ∈ ∞ n=1 Bn e como Bn+1 ⊆ Bn ∩ An para todo n ∈ N segue que a ∈ An ∩ B1 para todo n ∈ N, mostrando que a ∈ ∞ n=1 An ∩B1 = A∩B1, mostrando que A∩B1 = ∅ e completando a demonstra¸c˜ao. Como consequencia temos o
  • 303.
    8.7. O TEOREMADE BAIRE 303 Corol´ario 8.7.1 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo. Se M = ∞ n=1 Fn, onde para cada n ∈ N temos que Fn ´e um subconjunto fechado de (M, dM ) ent˜ao existe, pelo menos, um n0 ∈ N tal que int(Fn0 ) = ∅. Demonstra¸c˜ao: Suponhamos, por absurdo que, int(Fn) = ∅ para todo n ∈ N. Ent˜ao, do teorema de Baire, segue int(M) = int( ∞ n=1 Fn) = ∅, o que ´e um absurdo (pois todo ponto de M ´e ponto interior de (M, dM )). Observa¸c˜ao 8.7.4 1. O teorema de Baire refere-se a abertos, fechados, fechos e interiores logo cont´ınua v´alido se substituirmos a m´etrica d do espa¸co m´etrico (M, d) por uma outra m´etrica, d , equivalente `a d, mesmo que (M, d ) n˜ao seja um espa¸co m´etrico completo. Mais geralmente, o teorema de Baire cont´ınua v´alido se subsituirmos a hip´otese do espa¸co m´etrico ser completo pela condi¸c˜ao dele ser homeomorfo a um espa¸co m´etrico completo. De fato, se (M1, d1) ´e um espa¸co m´etrico que ´e homeomorfo ao espa¸co m´etrico completo (M, dM ) ent˜ao existe ϕ : M1 → M homeomorfismo de (M1, d1) em (M, dM ). Logo se X = ∞ n=1 Xn ´e um subconjunto magro de (M1, d1) ent˜ao temos que int(Xn) = ∅ para todo n ∈ N. Afirmamos que ϕ(X) ´e um subconjunto magro de (M2, dM ) = (ϕ(M1), dM ), pois ϕ(X) = ϕ( ∞ n=1 Xn) = ∞ n=1 ϕ(Xn) e para cada n ∈ N temos int(ϕ(Xn)) [ϕ ´e homeomorfismo] = ϕ(int(Xn)) = ϕ(∅) = ∅. Logo, do teorema de Baire aplicado a (M, dM ) (que ´e completo), segue que int(ϕ(X)) = ∅, mostrando que ϕ(X) ´e um subconjunto magro de (M, dM ). Como ϕ ´e homeomorfismo de (M1, d1 em (M, dM ) segue que ϕ(int(X)) = int(ϕ(X)) = ∅, ou seja, X = ∅, como quer´ıamos mostrar. 2. Como uma exemplo da situa¸c˜ao aicma temos que M1 = (0, 1), com a m´etrica induzida pela m´etrica usual de R, n˜ao pode ser escrito como reuni˜ao enumer´avel de subconjuntos fechados de (0, 1) que tenham interior vazio (em (0, 1)). Isto segue do fato que ((0, 1), dR) ´e homeomorfo a (R, dR) que ´e um espa¸co m´etrico com- pleto.
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    304 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS 3. Como consequˆencia temos que se M1 ´e um subconjunto aberto de um espa¸co m´etrico com- pleto (M, dM ) ent˜ao se M1 = ∞ n=1 Fn onde, para cada n ∈ N, Fn ´e um subcojunto fechado em (M1, dM ) ent˜ao existe, pelo menos, um n0 ∈ N tal que intM1 (Fn0 ) = ∅. Pois, da proposi¸c˜ao (8.6.1), segue que (M1, dM ) ´e homeomorfo a (M, dM ). Com isto temos a Proposi¸c˜ao 8.7.3 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo. Se M = ∞ n=1 Fn onde, para cada n ∈ N, Fn ´e um subconjunto fechado de (M, dM ) ent˜ao A . = ∞ n=1 int(Fn) ´e um subconjunto aberto e denso em (M, dM ). Demonstra¸c˜ao: Seja U um subconjunto aberto, n˜ao vazio, de (M, dM ). Mostremos que A ∩ U = ∅, isto ´e, existe n0 ∈ N tal que U ∩ int(Fn0 ) = ∅. Observemos que U = U ∩ M = U ∩ [ ∞ n=1 Fn] = ∞ n=1 (U ∩ Fn) e, para cada n ∈ N, temos que U ∩ Fn ´e um subconjunto fechado de (U, dM ). Da observa¸c˜ao (8.7.4) item 3. temos que existe n0 ∈ N tal que intU (U ∩ Fn0 ) = ∅. Como U ´e aberto em (M, dM ) temos que intM (U ∩ Fn0 ) = intU (U ∩ Fn0 ) = ∅. Mas intM (U ∩ Fn0 ) = intU (U ∩ Fn0 ) ´e um subconjunto aberto de (M, dM ) que est´a contido em U e de Fn0 , ou seja, intM (U ∩ Fn0 ) ⊆ intM (U) e intM (U ∩ Fn0 ) ⊆ intM (Fn0 ), isto ´e, intM (U ∩ Fn0 ) ⊆ intM (U) ∩ int(Fn0 ) [U ´e aberto em M] = U ∩ int(Fn0 ), mostrando que U ∩ int(Fn0 ) = ∅, completando assim a demonstra¸c˜ao. Exemplo 8.7.4 Seja (M, dM ) um espa¸co m´etrico completo e enumer´avel. Como M ´e enumer´avel segue que M = n∈N {xn} e para cada n ∈ N temos que Fn . = {xn} ´e um subconjunto fechado de (M, dM ). Consideremos A . = {x ∈ M : x ´e ponto isolado de (M, dM )}.
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    8.7. O TEOREMADE BAIRE 305 Como A ⊆ M temos que A ´e enumer´avel, isto ´e, A = {xnk : k ∈ N}. Observemos que A = ∞ n=1 int(Fn). De fato, se a ∈ A ent˜ao a ´e ponto isolado de (M, dM ) logo int({a}) = {a} = {xn0 } para algum n0 ∈ N , ou seja, a ∈ int(Fn0 ) . Por outro lado, se para cada n ∈ N temos a ∈ inte(Fn) = int({xn}) ent˜ao a ´e ponto isolado de (M, dM ) Logo da proposi¸c˜ao (8.7.3), segue que A ´e um subconjunto (aberto) e denso em (M, dM ). Observa¸c˜ao 8.7.5 1. Em particular, isto mostra que Rn ´e um conjunto n˜ao enumer´avel. De fato, do exemplo acima temos que todo subconjunto fechado, infinito e enumer´avel de Rn cont´em uma infinidade de pontos isolados, pois caso contr´ario, se tivesse somente um n´umero finito de pontos isolados, este seria denso em Rn o que ´e um absurdo. 2. Observemos que Q munido da m´etrica, dQ, induzida pela m´etrica usual de R n˜ao ´e topo- logicamente completo. De fato, como Q ´e enumer´avel e n˜ao tem pontos isolados, segue do exemplo acima que n˜ao existe uma m´etrica equivalente `a m´etrica dQ, que o torne completo, caso contr´ario, o conjunto formado pelos seus pontos isolados (que ´e o vazio) seria denso em Q, o que ´e um absurdo. 3. Seja (M, dM ) espa¸co m´etrico completo n˜ao enumer´avel e A um subconjunto, n˜ao vazio, fechado de (M, dM ). Se nenhum ponto de A ´e ponto isolado de (M, dM ) ent˜ao A ´e n˜ao enumer´avel. Observemos que como A ´e subconjunto, n˜ao vazio, fechado de (M, dM ) ent˜ao (A, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo. De fato, A fosse enumer´avel, pelo exemplo acima, teremos que o conjunto formado por todos pontos isolados de A (que ´e vazio) seria (aberto) denso em A, o que ´e uma absurdo. Logo A ´e um conjunto n˜ao enumer´avel. Exemplo 8.7.5 O objetivo deste exemplo ´e mostrar que o conjunto de Cantor, K ´e n˜ao enu- mer´avel. Consideremos o espa¸co m´etrico (R, dR), onde dR ´e a m´etrica usual de R. Pela observa¸c˜ao (8.7.5) item 3., basta mostrarmos que nenhum ponto de K ´e ponto isolado de R. Sejam x ∈ K e B(x; ε) uma bola aberta, de R, centrada em x (isto ´e, um intervalo aberto de R). Considere In0 um intervalo de En0 que contenha x (que existe pois x ∈ K). Escolha n ∈ N suficientemente grande tal que In0 ⊆ B(x, ε), que existe pois os intervalos In tem comprimento tendendo a zero quando n tende a infinito e x ∈ In0 . Seja xn0 um extremo de In0 tal que xn0 = x (no m´aximo x pode ser um dos extremos). Da constru¸c˜ao do conjunto K, temos que xn0 ∈ [K ∩ B(x; ε)] {x}, mostrando que x n˜ao ´e ponto isolado de K e completando o exemplo.
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    306 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Observa¸c˜ao 8.7.6 Em um curso de Teoria da Medida mostra-se que K tem medida zero. Com isto temos que o conjunto de Cantor tem as seguintes propriedades: 1. ´e fechado em (R, dR); 2. n˜ao enumer´avel; 3. tem medida zero. 8.8 M´etodo das aproxima¸c˜oes sucessivas Come¸caremos pela Defini¸c˜ao 8.8.1 Seja f : M → M. Diremos que x ∈ M ´e um ponto fixo da fun¸c˜ao f em M se f(x) = x. Exemplo 8.8.1 Se f : Rn → Rn ´e dada por f(x) . = −x, x ∈ Rn , ent˜ao ´e f´acil mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que 0 ∈ Rn ser´a o ´unico ponto fixo da aplica¸c˜ao f em Rn. Exemplo 8.8.2 Se a = 0 e f : Rn → Rn ´e dada por f(x) . = x + a, x ∈ Rn , ent˜ao ´e f´acil ver (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que n˜ao existe um ponto fixo da aplica¸c˜ao f em Rn. Exemplo 8.8.3 Se f : R → R ´e dada por f(x) . = x2 , x ∈ R, ent˜ao ´e f´acil mostrar (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor) que 0, 1 ∈ R ser˜ao os ´unicos pontos fixos da aplica¸c˜ao f em R. Observa¸c˜ao 8.8.1 1. Se f : A ⊆ R → R os pontos fixos da aplica¸c˜ao f em A ser˜ao as abscissas dos pontos onde a diagonal em R2, y = x, corta o gr´afico da fun¸c˜ao f (veja figura abaixo). E T f(a) a y = x y = f(x) x y
  • 307.
    8.8. M´ETODO DASAPROXIMAC¸ ˜OES SUCESSIVAS 307 2. Um resultado importante neste contexto ´e o Teorema do Ponto Fixo de Browder que diz: Seja Rn com a m´etrica usual e f : B[0; 1] → B[0; 1] cont´ınua em B[0; 1] (munida da m´etrica induzida pela m´etrica de Rn). Ent˜ao a aplica¸c˜ao f tem, pelo menos, um ponto em B[0; 1]. A seguir faremos a demonstra¸c˜ao para o caso em que n = 1. A demostra¸c˜ao do caso geral ser´a omitida. Temos que f : [−1, 1] → [−1, 1] ´e cont´ınua em [−1, 1]. Consideremos g : [−1, 1] → R dada por g(x) . = f(x) − x, x ∈ [−1, 1], que ´e cont´ınua em [−1, 1]. Mas g(−1) = f(−1) − (−1) ≥ −1 + 1 = 0 e g(1) = f(1) − 1 ≤ 1 − 1 ≤ 0, ou seja, g(−1) ≥ 0 e g(1) ≤ 0. Logo, do teorema do valor intermedi´ario, segue que existe x ∈ [−1, 1] tal que g(x) = 0, ou seja, existe x ∈ [−1, 1] tal que f(x) = x, mostrando que a aplica¸c˜ao f tem um ponto fixo em [−1, 1]. Temos a Proposi¸c˜ao 8.8.1 (Teorema do Ponto Fixo de Banach) Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico com- pleto e f : M → M uma contra¸c˜ao (forte) em (M, dM ). Ent˜ao existe um, ´unico, ponto fixo de f em M. Mais precisamente, se escolhermos x0 ∈ M e considerarmos a sequˆencia (xn)n∈N onde, para cada n ∈ N, definimos xn . = f(xn−1), ent˜ao xn → a em (M, dM ) e f(a) = a, (ou seja, o ponto fixo de f em M). Demonstra¸c˜ao: Come¸caremos provando a unicidade do ponto fixo. Para isto, suponhamos que a, b ∈ M s˜ao pontos fixos de f em M, isto ´e, f(a) = a e f(b) = b. Como f ´e uma contra¸c˜ao (forte) em (M, dM ), existe 0 c 1 tal que dM (f(x), f(y) ≤ c dM (x, y), x, y ∈ M. Em particular, dM (a, b) = dM (f(a), f(b) ≤ c dM (a, b) [c1] dM (a, b), mostrando que dM (a, b) = 0, ou seja, b = a, logo, o ponto fixo, se existir, ser´a ´unico em M. Mostremos que existe o ponto fixo em M. Dado x0 ∈ M, consideremos a sequˆencia (xn)n∈N onde, para cada n ∈ N definimos xn . = f(xn−1), n ∈ N. Se x1 = x0 ent˜ao f(x0) = x1 = x0 e assim x0 ser´a o ponto fixo procurado.
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    308 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Logo podemos supor que x1 = x0, ou seja, dM (x0, x1) 0. Afirmamos que (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em (M, dM ). Observemos que dM (x1, x2) = dM (f(x0), f(x1)) ≤ c dM (x0, x1) (1) dM (x2, x3) = dM (f(x1), f(x2)) ≤ c dM (x1, x2) (1) ≤ c2 dM (x0, x1) (2) dM (x3, x4) = dM (f(x2), f(x3)) ≤ c dM (x2, x3) (2) ≤ c3 dM (x0, x1), e, por indu¸c˜ao (ser´a deixado como exerc´ıcio para o leitor), teremos dM (xn, xn+1) ≤ cn dM (x0, x1), n ∈ N. Logo para n, p ∈ N temos que dM (xn, xn+p) = dM (xn, xn+1) + dM (xn+1, xn+2) + · · · + dM (xn+p−1, xn+p) ≤ cn dM (x1, x0) + cn+1 dM (x1, x0) + · · · + cn+p−1 dM (x1, x0) ≤ [cn + cn+1 + · · · + cn+p−1 ]dM (x1, x0) ≤ cn [1 + c + · · · + cp−1 ]dM (x1, x0) [ n k=0 ck ≤ ∞ k=0 ck = 1 1 − c ] ≤ cn 1 − c dM (x1, x0). (∗) Como, 0 c 1 temos que lim n→∞ cn = 0, assim, dado ε 0 existe N0 ∈ N tal que se n ≥ N0 teremos cn (1 − c) εdM (x1, x0) . (∗∗) Portanto se n ≥ N0 e p ∈ N teremos dM (xn, xn+p) cn 1 − c dM (x1, x0) (∗∗) ε, mostrando (xn)n∈N ´e uma sequˆencia de Cauchy em (M, dM ). Como (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo segue que existe a ∈ M tal que xn → a em (M, dM ). Mas f ´e cont´ınua em a, logo f(a) = f( lim n→∞ xn) = lim n→∞ f(xn) = lim n→∞ xn+1 = a, mostrando que a = lim n→∞ xn ´e o ponto fixo de f em M. Observa¸c˜ao 8.8.2 Como dM ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua em M × M, fazendo p → ∞ em (*), teremos dM (xn, a) = dM (xn, lim p→∞ xn+p) = lim p→∞ dM (xn, xn+p) ≤ cn 1 − c dM (x1, x0), que nos d´a uma estimativa para o erro que cometemos ao tomar o n-´esimo iterado, xn, como uma valor aproximado do ponto fixo de a.
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    8.8. M´ETODO DASAPROXIMAC¸ ˜OES SUCESSIVAS 309 Temos a Proposi¸c˜ao 8.8.2 Sejam (M, dM ) espa¸co m´etrico e f : M → M uma contra¸c˜ao (forte) em M. Dado b ∈ M se existir r 0 tal que dM (b, f(b)) ≤ r(1 − c) ent˜ao a bola fechada B[b; r] em (M, dM ) ´e invariante pela aplica¸c˜ao f (isto ´e, f(B[b; r]) ⊆ B[b; r]). Em particular, se (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo, o ponto fixo de f em M pertencer´a a bola fechada B[b; r]. Demonstra¸c˜ao: Se x ∈ B[b; r] temos que dM (x, b) ≤ r assim dM (f(x), b) ≤ dM (f(x), f(b)) + dM (f(b), b) ≤ c dM (x, b) + r(1 − c) ≤ cr + r(1 − c) = r, mostrando que f(x) ∈ B[b; r], logo f(B[b; r]) ⊆ B[b; r]. Se (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo, como B[b; r] ´e um subconjunto fechado em (M, dM ) segue que (B[b; r], dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo. Pelo teorema do ponto fixo de Banach, aplicado a B[b; r] temos que f tem um, ´unico, ponto fixo em B[b; r]. Temos tamb´em a Proposi¸c˜ao 8.8.3 (Perturba¸c˜ao da Identidade) Sejam (E, . E) espa¸co de Banach, U subcon- junto aberto de E e ϕ : U → E uma contra¸c˜ao (forte) em U. Ent˜ao a aplica¸c˜ao f : U → E dada por f(x) . = x − ϕ(x), x ∈ U, ´e um homeomorfismo de U sobre um subconjunto aberto de E (que ´e f(U)). Demonstra¸c˜ao: Como ϕ ´e uma contra¸c˜ao (forte) em U segue que existe 0 ≤ c 1 tal que ϕ(x) − ϕ(x) E ≤ c x − x E, x, y ∈ U. Com isto temos que, para x, y ∈ U, f(x) − f(y) E = [x − ϕ(x)] − [y − ϕ(y)] E ≤ x − y E − ϕ(x) − ϕ(y) E ≤ x − y E − c x − y E ≤ (1 − c) x − y E. (∗) Logo f ´e injetora e assim existe sua fun¸c˜ao inversa, f−1 : f(U) → U (na verdade f ´e uma contra¸c˜ao forte pois 0 1 − c 1). Al´em disso, se w, z ∈ f(U) temos que existem x, y ∈ U tal que w = f(x), z = f(y) logo f−1 (w) − f−1 (z) E = x − y E (∗) ≤ 1 (1 − c) f(x) − f(y) E = 1 (1 − c) w − z E, mostrando que f−1 ´e uma aplica¸c˜ao lipschitziana em f(U), em particular f−1 : f(U) → U ´e cont´ınua em f(U).
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    310 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Logo f : U → f(U) ´e um homeomorfismo de U sobre f(U). Mostremos que f(U) ´e um subconjunto aberto de E. Seja b ∈ f(U), logo existe a ∈ U tal que f(a) = b. Como a ∈ U e U ´e um subconjunto aberto de E segue que existe r 0 tal que B[a; r] ⊆ U. Mostremos que B(b; 1 − c r ) est´a contida em f(U), ou seja, f(U) ´e um subconjunto aberto de E. Para tanto, precisamos mostrar que se y ∈ B(b; (1 − c)r), existe x ∈ U tal que y = f(x). Na verdade, mostraremos que a aplica¸c˜ao ξy : B[a; r] → E dada por ξy(x) . = y − f(x) tem um (´unico) ponto fixo na bola fechada B[a; r]. Se isto ocorrer, existir´a x ∈ B[a; r] tal que x = ξy(x) = y − ϕ(x), (∗∗) ou seja, f(x) = x − ϕ(x) (∗∗) = y, isto ´e y ∈ f(B[a; r]) ⊆ f(U). Como (M, dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo e B[a; r] ´e um subconjunto fechado de (M, dM ), segue que (B[a; r], dM ) ´e um espa¸co m´etrico completo. Temos que ξy : B[a; r] → E ´e uma contra¸c˜ao em (B[a; r], dM ). De fato, z, w ∈ B[a; r] ⊆ U temos que ξy(z) − ξy(w) E = [y − ϕ(z)] − [y − ϕ(z)] E = ϕ(z) − ϕ(w) E [ϕ ´e contra¸c˜ao em U] ≤ c z − w E. (∗ ∗ ∗) Al´em disso, se z ∈ B[a; r] temos que ξy(z) − a E = [ξy(z) − ξy(a)] + [ξy(a) − a] E ≤ ξy(z) − ξy(a) E + ξy(a) − a E (∗∗∗) ≤ c z − a E + ξy(a) − a E = c z − a E + [y − ϕ(a)] − a E = c z − a E + y − f(a) E [b=f(a)] = c z − a E + y − b E ≤ c z − a E + y − b E ≤ cr + (1 − c)r = r, mostrando que ξy(z) ∈ B[a; r], ou seja, ξy : B[a; r] → B[a; r] ´e uma contra¸c˜ao, logo existe um (´unico) ponto fixo de ξy na bola fechada B[a; r], ou seja, f(U) ´e um subconjunto aberto de E, concluindo a demonstra¸c˜ao.
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    8.8. M´ETODO DASAPROXIMAC¸ ˜OES SUCESSIVAS 311 Exemplo 8.8.4 Sejam (E, . E) espa¸co de Banach, U um subconjunto aberto de R×E, (t0, x0) ∈ U e f : U → E uma aplica¸c˜ao cont´ınua em U e satisfazendo f(t, x) − f(t, y) E ≤ c x − y E, para todo (t, x), (t, y) ∈ U, onde c ≥ 0 n˜ao depende dos pontos (t, x), (t, y) ∈ U (ou seja, f ´e uniformemente lipschitziana na vari´avel x, para todo (t, x) ∈ U). Mostraremos que existe um intervalo I . = (t0, t0 + α) e uma ´unica x : I → E continuamente diferenci´avel em I tal que    x (t) = f(t, x(t)), t ∈ I (∗) x(t0) = x0 (∗∗) x ∈ C1(¯I; R) (∗ ∗ ∗) (t, x(t)) ∈ U, t ∈ I uma ´unica solu¸c˜ao do P.V.I. Observemos que, do teorema fundamental do C´alculo, as condi¸c˜oes (*), (**) e (***) s˜ao equivalentes a x(t) = x0 + t t0 f(s, x(s)) ds, t ∈ I. (∗ ∗ ∗∗) De fato, pois x satisafaz a EDO se, e somente se, t t0 x (s) ds = t t0 f(s, x(s)) ds, do teorema fundamental do C´alculo ser´a equivalente a x(t) − x(t0) = t t0 f(s, x(s)) ds, e como x(t0) = x0 teremos (****). Escolhamos α, β 0 tais que 1. I × B[x0; β] ⊆ U, que ´e poss´ıvel pois U ´e um subconjunto aberto de R × E e (t0, x0) ∈ U; 2. exista M 0 tal que |f(t, x)| ≤ M para todo (t, x) ∈ I × B[x0; β], que ´e poss´ıvel pois f ´e cont´ınua em U, logo ser´a limitada numa vizinhan¸ca limitada de (t0, x0) em R × U; 3. tenhamos α.M ≤ β e α.c 1, que ´e poss´ıvel se tomarmos α 0 suficientemente pequeno. Como isto podemos considerar o espa¸co m´etrico C(I; B[x0; β]) formado pelas fun¸c˜oes cont´ınuas x : I → B[x0; β], munido da m´etrica da convergˆencia uniforme, que ´e um espa¸co m´etrico com- pleto. De fato, pois como (E, . E) ´e um espa¸co de Banach e B[x0; β] ´e um subconjunto fechado de (E, . E), segue que (B[x0; β], . E) ´e um espa¸co m´etrico completo.
  • 312.
    312 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS Consideremos a aplica¸c˜ao T : C(I; B[x0; β]) → F(I; E) dada por [T(x)](t) . = x0 + t t0 f(s, x(s)) ds, t ∈ I, para x ∈ C(I; B[x0; β]). Observemos que 1. T(x) ∈ C(I; E), pois ´e uma integral definida no intervalo [t0, t] da fun¸c˜ao cont´ınua em s → f(s, x(s)); 2. [T(x)](t) ∈ B[x0; β] para todo t ∈ I, pois para todo t ∈ I temos [T(x)](t) − x0 E = [x0 + t t0 f(s, x(s)) ds] − x0 E ≤ t t0 f(s, x(s)) E ds [(s,x(s))∈I×B[x0;β]] ≤ t t0 M ds ≤ M(t − t0) ≤ M.α ≤ β 3. [T(x)] : I → B[x0; β] ´e lischitziana em I, pois se t, t ∈ I temos que [T(x)](t) − [T(x)](t ) E = [x0 + t t0 f(s, x(s)) ds] − [x0 + t t0 f(s, x(s)) ds] E = t t f(s, x(s)) ds E ≤ | t t f(s, x(s)) E ds| [ f(s,x(s)) E≤M] ≤ | t t M ds| ≤ M|t − t |. Em particular, T(x) : I → B[x0; β] ´e cont´ınua em I, ou seja, T(x) ∈ C(I; B[x0; β]). 4. Dos itens acima segue que T ´e uma aplica¸c˜ao do espa¸co m´etrico completo C(I; B[x0; β]) em si mesmo. 5. Se x, y ∈ C(I; B[x0; β]) temos [T(x)] − [T(y)] sup = sup t∈I [x0 + t t0 f(s, x(s)) ds] − [x0 + t t0 f(s, y(s)) ds] E = sup t∈I t t0 [f(s, x(s)) − f(s, y(s))] ds E ≤ sup t∈I | t t0 f(s, x(s)) − f(s, y(s)) E ds| ≤ sup s∈I f(s, x(s)) − f(s, y(s)) Eα ≤ α.c. sup s∈I x(s) − y(s) E ≤ α.c. x − y sup, ou seja, T ´e uma contra¸c˜ao (pois α.c 1) do espa¸co m´etrico completo C(I; B[x0; β]) em si mesmo.
  • 313.
    8.8. M´ETODO DASAPROXIMAC¸ ˜OES SUCESSIVAS 313 Logo, do teorema de ponto fixo de Banach, segue que existe uma ´unica x ∈ C(I; B[x0; β]) tal que x = T(x), isto ´e, para todo t ∈ I temos x(t) = x0 + t t0 f(s, x(s)) ds, que, siginifica uma ´unica solu¸c˜ao do P.V.I. dado inicialmente.
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    314 CAP´ITULO 8.ESPAC¸OS M´ETRICOS COMPLETOS
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    Cap´ıtulo 9 Bibliografia [ 1] E.L. Lima - Espa¸cos M´etricos - Projeto Euclides, IMPA, 1977. [ 2 ] G.F. Simmons - Introduction to Topology and Modern Analysis, McGraw-Hill, 1963 [ 3 ]S. Lipschutz - Topologia Geral, McGraw-Hill do Brasil, 1973. 315