João Miguel Pereira – joaofreigil@hotmail.com 1
Universidade Católica Portuguesa – Faculdade de Teologia
Braga, 2019
Teologia – 1º ano de doutoramento | ano pastoral
Unidade: Dimensões da Pastoral
Aluno: João Miguel Pereira
Texto em estudo: «Os doze passos para uma espiritualidade missionária», in:
George Augustin, Eu sou uma missão – testemunho cristão de vida (Prior Velho:
Ed. Paulinas, 2019), 135-159.
A Igreja não é alheia àquilo que se passa no mundo. Não há nada de verdadeiramente humano que
não encontre eco nela, pois é constituída por seres humanos que foram unidos por Cristo, são conduzidos
pelo Espírito Santo em direção ao Pai, e incumbidos de transmitir a todos uma mensagem salvadora (cf.
Gaudium et spes 1).
Para transmitirmos essa mensagem salvadora a todas as pessoas, precisamos de uma espiritualidade
missionária. Desde logo implica a disponibilidade de sair do nosso conforto, saindo para as periferias, e
contactar com as pessoas que experimentam os seus limites existenciais. Implica o entusiasmo por Jesus
Cristo e pela Igreja, a alegria, a paciência, a bondade e a compaixão. Quem sente um verdadeiro amor por
Jesus Cristo, sente-se grato pela fé que recebeu e impelido interiormente a partilha-la com os outros.
É preciso o reconhecimento de «que nós próprios somos “estigmatizados” para esta missão de trazer
luz, de abençoar, animar, amparar, curar, libertar» (EG* 273). A renovação e o despertar da Igreja só serão
possíveis mediante uma renovação espiritual, fruto da conversão dos corações num encontro com Cristo.
A *Evangelii Gaudium (do Papa Francisco) inspira-nos doze passos para uma espiritualidade missionária:
1 Cultivar a relação com Deus: A relação intima e pessoal com Deus, conforme à de Jesus Cristo com
o Pai, transforma a nossa vida para a prática e de acordo com Jesus Cristo. O centro passa a ser Deus e não
cada indivíduo como autorreferencial, o que também tornava a Igreja também autorreferencial. Deus é o
centro estável ao redor do qual tudo o resto se desenvolve. Assim, a Igreja torna visível e celebra a presença
e intervenção de Deus.
2 Procurar ser semelhante a Cristo: O cristão todos os dias tem de estar num caminho de conversão
procurando-se assemelhar cada vez mais com Cristo. O crescimento na vida espiritual tem de ser contínuo,
e a ligação íntima com Cristo tem de ser diariamente solicitada, cultivada e aprofundada.
3 Estar aberto aos dons do Espírito: Confiar que o Espírito de Deus tudo pode fazer de novo e pode
fazer aquilo que sozinhos nós não conseguimos. Ele torna-nos generosos e ensina-nos a partilhar a vida
com os outros e a fazer o bem. Os carismas que o Espírito dota cada um individualmente têm em vista a
construção da Igreja. Por isso, devemos valorizá-los mutuamente e compreendê-los como
complementares.
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4 Assumir com convicção a própria missão: Somos convocados e enviados por Cristo, participamos
no seu serviço. Cristo precisa de emissários, oradores e testemunhas, para que a sua mensagem chegue a
todas as pessoas a partir do testemunho dos fiéis. Na celebração da liturgia e no anúncio feliz e convicto
do Evangelho em palavras e ações continuamos, no hoje, a obra realizada por Cristo. A evangelização não
significa convencer os outros, mas viver, como cristãos, de maneira que as outras pessoas sintam a nossa
vida como bela e repleta de sentido, para que elas próprias se preguntem quem é Jesus Cristo, o que
significa a Igreja e em que medida a fé cristã representa um fundamento para uma vida repleta de sentido.
5 Assumir a solidariedade de companheiros de caminho na fé: A vida da fé é entendida como força
que fomenta o viver em plenitude. Daí nasce o desejo de partilhar essa experiência com outras pessoas: as
conversas sobre a fé e a hospitalidade tornam-se parte integrante do estilo de vida. Empatia, solidariedade
e amor fraternal refletem a força criadora do Evangelho que do individual se visibiliza no coletivo, numa
Igreja convidativa, aberta e sempre pronta a dar as boas-vindas a todas as pessoas, isto é, a plenitude da
catolicidade. É a partir da relação viva com Cristo que surgem estas relações novas de uma verdadeira rede
da irmandade cristã.
6 Ser grato pelo bem que há na Igreja: A nossa vergonha e dor pelos pecados de alguns membros da
Igreja não nos pode fazer esquecer tantos cristãos que entregam a sua vida e o seu tempo por amor para
benefício da humanidade (nos hospitais, no meio dos pobres, junto dos abandonados, na educação das
crianças e jovens, etc.). Temos de também saber lançar o olhar no contributo positivo da Igreja no mundo
de hoje. Não há outra instituição comparável, no mundo, capaz de fazer tanto bem mesmo de forma oculta.
Devemos ser gratos pelo bem e pelo belo que acontece na Igreja e sermos capazes de dar dele testemunho.
7 Encontrar um novo estilo de relacionamento: A atitude de culpar “os outros” ou “a Igreja” ou “os
padres” deve dar lugar a uma autocrítica: “como é que eu, no sítio onde vivo, na minha vida, no âmbito do
meu trabalho, posso tornar o Evangelho de Jesus Cristo uma realidade percetível?”. É preciso uma
revolução do coração. Temos de saber projetar para nós muito do que dizemos sobre a Igreja: “A Igreja
tem de ser mais humana e filantrópica!” – “eu tenho de ser…”; “A Igreja tem de estar disponível para o
diálogo!” – “eu tenho de…”; “O poder da Igreja tem de ser o serviço!” – “Como é que eu, que sou Igreja,
estou disponível a servir?”; “A Igreja tem de ser atrativa e atraente!” – “e o que faço eu para que isso
aconteça?”; “A Igreja tem de ser autêntica e credível!” – “E eu, vivo a fé que professo de forma autêntica e
credível?”; “A Igreja tem de ser misericordiosa e compassiva!” – “E eu, será que não sou autoritário e
narcisista no meu comportamento mesmo dentro da Igreja?”. Todos nós desejamos, e com toda a razão,
uma Igreja que seja autêntica, humilde, acessível e credível. Esse desejo tornar-se-á realidade à medida
que nós, todos os crentes e todos aqueles que trabalham na Igreja, soubermos viver, de uma forma
autêntica, humilde, acessível e credível, a nossa identidade cristã.
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8 Viver o espírito de servir: Muitos leigos temem que alguém os possa convidar a desempenharem
uma tarefa apostólica e tentam escapar a qualquer compromisso que lhes tire o tempo livre. Também
alguns sacerdotes se mostram obcecados com os seus tempos livres. É como se a tarefa da evangelização
fosse um veneno perigoso, em vez de uma resposta afirmativa e alegre ao amor de Deus. Ficam envoltos
numa preguiça paralisante (Papa Francisco, EG). Por outro lado, a Igreja também não precisa de burocratas
e técnicos, mas sim de místicos que transpareçam na sua vida uma íntima relação com Cristo. Também não
precisa de lutas e vaidades pelo poder ou por nomeações para cargos de destaque, mas sim da
disponibilidade e entrega total ao serviço de Jesus Cristo e da missão por Ele outorgada à Igreja. Só o
Evangelho do serviço vivido pode tocar verdadeiramente as pessoas no coração. A atitude deve ser de
disponibilidade para servir o Evangelho e de entusiasmo pela grandiosa visão de Deus de alcançar todos os
seres humanos. Não deve ser a busca da própria glória, mas tudo deve ser feito para infinita glória de Deus.
Sem testemunho e sem generosidade humana e humanidade espiritual de cada indivíduo, a comunidade
de fé não consegue tornar experiencial a autenticidade do Evangelho. É preciso, num espírito de serviço,
conseguir harmonizar o amor a Deus e o amor ao próximo. Com que eficácia poderíamos empenhar-nos
pelo bem das pessoas, pela justiça social, pela melhoria das condições dos pobres e carenciados, se não
desbaratássemos muita força e energia em intermináveis debates eclesiásticos e nas inúmeras guerras e
guerrilhas narcisistas.
9 Encontrar Cristo nos pobres: Uma espiritualidade missionária vive da experiência de que o serviço
prestado aos outros e ao mundo em sofrimento é o local do encontro com Cristo. O exemplo de Cristo deve
interpelar-nos ao compromisso pelos pobres e pela justiça no mundo.
10..Distinguir os espíritos: É missão dos fiéis comunicar, de forma argumentativa e dialogante, a
convicção fundamental católica de modo a transformar o mundo à luz do Evangelho. Para tal, os cristãos
hão-de exercitar-se para conseguirem distinguir aquilo que vem do Espírito Santo daquilo que é mero fruto
do espírito da época, usando como critério de distinção e opção aquilo que corresponde ao Evangelho de
Jesus Cristo. Há que prevenir o perigo de cair numa “mundanização” ou, ao contrário, de um medroso
afastamento do mundo: não nos podemos simplesmente orientar pela medida deste mundo, perdendo de
vista o Reino de Deus, nem afastar do mundo, para o qual e no qual temos de cumprir a nossa missão. A
missão do cristão é, como foi a de Jesus Cristo, uma participação ativa nos processos do mundo (com a
força de Evangelho), no quotidiano da sua vida, desmascarando de forma profética e crítica as estruturas
injustas, a opressão e os ataques à dignidade das pessoas. A religião não é um assunto privado, nem estar
no mundo significa deixar de ter em consideração as linhas de conflito do mundo. O cristão há-de manter
desperto no mundo o sinal do Reino: agir na vida presente conforme à vida escatológica esperada.
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11..Resistir às tentações: Como filhos do nosso tempo, também nós caímos frequentemente em
tentações que roubam à nossa mensagem a sua força de irradiação. O Papa Francisco nomeia como as
maiores tentações, para os agentes apostólicos, o egoísmo, o pessimismo, a desertificação espiritual, a
mundanização intelectual e as inumerosas formas de guerrilhas eclesiásticas internas. Tomar consciência,
humildemente, de que todos estamos sujeitos a estas tentações, é um primeiro passo para as superar.
Todos os que trabalham na Igreja têm de encarar o seu serviço não como uma profissão, mas como uma
vocação. O local e as horas não podem ser o fator decisivo, mas sim a nossa disponibilidade para Deus e
para as pessoas. É preciso aprender a resistir com um “Não!” à indolência egoísta.
12..Descobrir a força da oração de intercessão: A oração de intercessão motiva-nos a procurar o bem
dos outros. Rezar pelos outros faz-nos sair de nós mesmos, faz-nos estar como o outro e colocar a vida do
outro em conexão com Deus. «A oração de intercessão é como uma “levedura” no colo da Trindade. É um
entrar no Pai e um descobrir de novas dimensões capazes de iluminar e transformar as situações concretas.
Podemos dizer que o coração de Deus se comove com as nossas orações de intercessão, mas, na verdade,
Ele antecipa-se-nos sempre, e o que nós possibilitamos com a nossa oração de intercessão é que o seu
poder, o seu amor e a sua fidelidade se revelam entre o povo com maior clareza» (EG 281-283).
O objetivo destes 12 pontos é a consciencialização da missão da Igreja, bem como a missão atribuída
a cada fiel através do batismo e do crisma, de modo a tornar férteis todos os dons da fé para a
evangelização, para que a Igreja na nossa época se torne um sinal e instrumento útil do Reino de Deus.

Dimensões da pastoral

  • 1.
    João Miguel Pereira– joaofreigil@hotmail.com 1 Universidade Católica Portuguesa – Faculdade de Teologia Braga, 2019 Teologia – 1º ano de doutoramento | ano pastoral Unidade: Dimensões da Pastoral Aluno: João Miguel Pereira Texto em estudo: «Os doze passos para uma espiritualidade missionária», in: George Augustin, Eu sou uma missão – testemunho cristão de vida (Prior Velho: Ed. Paulinas, 2019), 135-159. A Igreja não é alheia àquilo que se passa no mundo. Não há nada de verdadeiramente humano que não encontre eco nela, pois é constituída por seres humanos que foram unidos por Cristo, são conduzidos pelo Espírito Santo em direção ao Pai, e incumbidos de transmitir a todos uma mensagem salvadora (cf. Gaudium et spes 1). Para transmitirmos essa mensagem salvadora a todas as pessoas, precisamos de uma espiritualidade missionária. Desde logo implica a disponibilidade de sair do nosso conforto, saindo para as periferias, e contactar com as pessoas que experimentam os seus limites existenciais. Implica o entusiasmo por Jesus Cristo e pela Igreja, a alegria, a paciência, a bondade e a compaixão. Quem sente um verdadeiro amor por Jesus Cristo, sente-se grato pela fé que recebeu e impelido interiormente a partilha-la com os outros. É preciso o reconhecimento de «que nós próprios somos “estigmatizados” para esta missão de trazer luz, de abençoar, animar, amparar, curar, libertar» (EG* 273). A renovação e o despertar da Igreja só serão possíveis mediante uma renovação espiritual, fruto da conversão dos corações num encontro com Cristo. A *Evangelii Gaudium (do Papa Francisco) inspira-nos doze passos para uma espiritualidade missionária: 1 Cultivar a relação com Deus: A relação intima e pessoal com Deus, conforme à de Jesus Cristo com o Pai, transforma a nossa vida para a prática e de acordo com Jesus Cristo. O centro passa a ser Deus e não cada indivíduo como autorreferencial, o que também tornava a Igreja também autorreferencial. Deus é o centro estável ao redor do qual tudo o resto se desenvolve. Assim, a Igreja torna visível e celebra a presença e intervenção de Deus. 2 Procurar ser semelhante a Cristo: O cristão todos os dias tem de estar num caminho de conversão procurando-se assemelhar cada vez mais com Cristo. O crescimento na vida espiritual tem de ser contínuo, e a ligação íntima com Cristo tem de ser diariamente solicitada, cultivada e aprofundada. 3 Estar aberto aos dons do Espírito: Confiar que o Espírito de Deus tudo pode fazer de novo e pode fazer aquilo que sozinhos nós não conseguimos. Ele torna-nos generosos e ensina-nos a partilhar a vida com os outros e a fazer o bem. Os carismas que o Espírito dota cada um individualmente têm em vista a construção da Igreja. Por isso, devemos valorizá-los mutuamente e compreendê-los como complementares.
  • 2.
    João Miguel Pereira– joaofreigil@hotmail.com 2 4 Assumir com convicção a própria missão: Somos convocados e enviados por Cristo, participamos no seu serviço. Cristo precisa de emissários, oradores e testemunhas, para que a sua mensagem chegue a todas as pessoas a partir do testemunho dos fiéis. Na celebração da liturgia e no anúncio feliz e convicto do Evangelho em palavras e ações continuamos, no hoje, a obra realizada por Cristo. A evangelização não significa convencer os outros, mas viver, como cristãos, de maneira que as outras pessoas sintam a nossa vida como bela e repleta de sentido, para que elas próprias se preguntem quem é Jesus Cristo, o que significa a Igreja e em que medida a fé cristã representa um fundamento para uma vida repleta de sentido. 5 Assumir a solidariedade de companheiros de caminho na fé: A vida da fé é entendida como força que fomenta o viver em plenitude. Daí nasce o desejo de partilhar essa experiência com outras pessoas: as conversas sobre a fé e a hospitalidade tornam-se parte integrante do estilo de vida. Empatia, solidariedade e amor fraternal refletem a força criadora do Evangelho que do individual se visibiliza no coletivo, numa Igreja convidativa, aberta e sempre pronta a dar as boas-vindas a todas as pessoas, isto é, a plenitude da catolicidade. É a partir da relação viva com Cristo que surgem estas relações novas de uma verdadeira rede da irmandade cristã. 6 Ser grato pelo bem que há na Igreja: A nossa vergonha e dor pelos pecados de alguns membros da Igreja não nos pode fazer esquecer tantos cristãos que entregam a sua vida e o seu tempo por amor para benefício da humanidade (nos hospitais, no meio dos pobres, junto dos abandonados, na educação das crianças e jovens, etc.). Temos de também saber lançar o olhar no contributo positivo da Igreja no mundo de hoje. Não há outra instituição comparável, no mundo, capaz de fazer tanto bem mesmo de forma oculta. Devemos ser gratos pelo bem e pelo belo que acontece na Igreja e sermos capazes de dar dele testemunho. 7 Encontrar um novo estilo de relacionamento: A atitude de culpar “os outros” ou “a Igreja” ou “os padres” deve dar lugar a uma autocrítica: “como é que eu, no sítio onde vivo, na minha vida, no âmbito do meu trabalho, posso tornar o Evangelho de Jesus Cristo uma realidade percetível?”. É preciso uma revolução do coração. Temos de saber projetar para nós muito do que dizemos sobre a Igreja: “A Igreja tem de ser mais humana e filantrópica!” – “eu tenho de ser…”; “A Igreja tem de estar disponível para o diálogo!” – “eu tenho de…”; “O poder da Igreja tem de ser o serviço!” – “Como é que eu, que sou Igreja, estou disponível a servir?”; “A Igreja tem de ser atrativa e atraente!” – “e o que faço eu para que isso aconteça?”; “A Igreja tem de ser autêntica e credível!” – “E eu, vivo a fé que professo de forma autêntica e credível?”; “A Igreja tem de ser misericordiosa e compassiva!” – “E eu, será que não sou autoritário e narcisista no meu comportamento mesmo dentro da Igreja?”. Todos nós desejamos, e com toda a razão, uma Igreja que seja autêntica, humilde, acessível e credível. Esse desejo tornar-se-á realidade à medida que nós, todos os crentes e todos aqueles que trabalham na Igreja, soubermos viver, de uma forma autêntica, humilde, acessível e credível, a nossa identidade cristã.
  • 3.
    João Miguel Pereira– joaofreigil@hotmail.com 3 8 Viver o espírito de servir: Muitos leigos temem que alguém os possa convidar a desempenharem uma tarefa apostólica e tentam escapar a qualquer compromisso que lhes tire o tempo livre. Também alguns sacerdotes se mostram obcecados com os seus tempos livres. É como se a tarefa da evangelização fosse um veneno perigoso, em vez de uma resposta afirmativa e alegre ao amor de Deus. Ficam envoltos numa preguiça paralisante (Papa Francisco, EG). Por outro lado, a Igreja também não precisa de burocratas e técnicos, mas sim de místicos que transpareçam na sua vida uma íntima relação com Cristo. Também não precisa de lutas e vaidades pelo poder ou por nomeações para cargos de destaque, mas sim da disponibilidade e entrega total ao serviço de Jesus Cristo e da missão por Ele outorgada à Igreja. Só o Evangelho do serviço vivido pode tocar verdadeiramente as pessoas no coração. A atitude deve ser de disponibilidade para servir o Evangelho e de entusiasmo pela grandiosa visão de Deus de alcançar todos os seres humanos. Não deve ser a busca da própria glória, mas tudo deve ser feito para infinita glória de Deus. Sem testemunho e sem generosidade humana e humanidade espiritual de cada indivíduo, a comunidade de fé não consegue tornar experiencial a autenticidade do Evangelho. É preciso, num espírito de serviço, conseguir harmonizar o amor a Deus e o amor ao próximo. Com que eficácia poderíamos empenhar-nos pelo bem das pessoas, pela justiça social, pela melhoria das condições dos pobres e carenciados, se não desbaratássemos muita força e energia em intermináveis debates eclesiásticos e nas inúmeras guerras e guerrilhas narcisistas. 9 Encontrar Cristo nos pobres: Uma espiritualidade missionária vive da experiência de que o serviço prestado aos outros e ao mundo em sofrimento é o local do encontro com Cristo. O exemplo de Cristo deve interpelar-nos ao compromisso pelos pobres e pela justiça no mundo. 10..Distinguir os espíritos: É missão dos fiéis comunicar, de forma argumentativa e dialogante, a convicção fundamental católica de modo a transformar o mundo à luz do Evangelho. Para tal, os cristãos hão-de exercitar-se para conseguirem distinguir aquilo que vem do Espírito Santo daquilo que é mero fruto do espírito da época, usando como critério de distinção e opção aquilo que corresponde ao Evangelho de Jesus Cristo. Há que prevenir o perigo de cair numa “mundanização” ou, ao contrário, de um medroso afastamento do mundo: não nos podemos simplesmente orientar pela medida deste mundo, perdendo de vista o Reino de Deus, nem afastar do mundo, para o qual e no qual temos de cumprir a nossa missão. A missão do cristão é, como foi a de Jesus Cristo, uma participação ativa nos processos do mundo (com a força de Evangelho), no quotidiano da sua vida, desmascarando de forma profética e crítica as estruturas injustas, a opressão e os ataques à dignidade das pessoas. A religião não é um assunto privado, nem estar no mundo significa deixar de ter em consideração as linhas de conflito do mundo. O cristão há-de manter desperto no mundo o sinal do Reino: agir na vida presente conforme à vida escatológica esperada.
  • 4.
    João Miguel Pereira– joaofreigil@hotmail.com 4 11..Resistir às tentações: Como filhos do nosso tempo, também nós caímos frequentemente em tentações que roubam à nossa mensagem a sua força de irradiação. O Papa Francisco nomeia como as maiores tentações, para os agentes apostólicos, o egoísmo, o pessimismo, a desertificação espiritual, a mundanização intelectual e as inumerosas formas de guerrilhas eclesiásticas internas. Tomar consciência, humildemente, de que todos estamos sujeitos a estas tentações, é um primeiro passo para as superar. Todos os que trabalham na Igreja têm de encarar o seu serviço não como uma profissão, mas como uma vocação. O local e as horas não podem ser o fator decisivo, mas sim a nossa disponibilidade para Deus e para as pessoas. É preciso aprender a resistir com um “Não!” à indolência egoísta. 12..Descobrir a força da oração de intercessão: A oração de intercessão motiva-nos a procurar o bem dos outros. Rezar pelos outros faz-nos sair de nós mesmos, faz-nos estar como o outro e colocar a vida do outro em conexão com Deus. «A oração de intercessão é como uma “levedura” no colo da Trindade. É um entrar no Pai e um descobrir de novas dimensões capazes de iluminar e transformar as situações concretas. Podemos dizer que o coração de Deus se comove com as nossas orações de intercessão, mas, na verdade, Ele antecipa-se-nos sempre, e o que nós possibilitamos com a nossa oração de intercessão é que o seu poder, o seu amor e a sua fidelidade se revelam entre o povo com maior clareza» (EG 281-283). O objetivo destes 12 pontos é a consciencialização da missão da Igreja, bem como a missão atribuída a cada fiel através do batismo e do crisma, de modo a tornar férteis todos os dons da fé para a evangelização, para que a Igreja na nossa época se torne um sinal e instrumento útil do Reino de Deus.