Fernanda Rangel de Aquino

           B RECHÓ
            Vendo:
         Roupas usadas,
        Sapatos usados,
        Homens usados...

      Sim...Homens usados!
    Seduzidos pelo meu decote
 E descartados pelo meu coração!

    Homens desiludidos? Não!
      Homens adoradores:
   Saias curtas, roupas justas,
   Lingeries e transparências.
       Fúteis bajuladores!

    Também não estão gastos!
    Podem ser reaproveitados,
   E, até mesmo, domesticados.

      São apenas usados!
Homens que muito me satisfizeram,
 Mas agora não me servem mais.
    Usei, mas foi recíproco!
  Cansei e não os quero mais!

           Vendo sim!
        Homens usados
      Por um preço barato
     E uma única condição:
    Comprou está comprado!
       Eu não aceito troca,
    E muito menos devolução!
Aline Mendonça

                  P ALÁDIO
Há também vermes nos sepulcros de mármore.
     Onde jaz tão quieto a sono profundo.
     Tu a lm a p equ ena, esguia e na lápide
   Tão pobre, descrito, em letras de sabre.

    Quem és vencedor, na eterna rotina?
     Da vida vazia, carregas teu fardo!
   Num sonho perdido, entregaste a safira
   Tão qual preciosa, tão leve, tão fraco...

 Quebraste o silêncio, de penas, de chamas...
  As flores tão mortas, tão secas estiveram.
 Não cheiram, não brotam na terra abatida.
 Só os vermes que vivem, e seguem sua vida!
Aline Mendonça

    S ONETO    DA   ÁS   DE   C OPAS
 A princesa de copas não sabe quem é
 Em seu paradoxal caos pessoal tenta
de alguma forma, a si mesma encontrar
mas tudo o que encontra é sua maldição

é minha maldita, doce princesa de copas
 Em sua cruzada por amor e libertação
Teme jamais encontrar qualquer benção
   No seu caminho de dor e desolação

   Mas corre esta trilha até seu final
  b usca pelo seu reino, cara princesa
  e lá soberana terá poder para reinar

  Lá sua maldição conseguirá quebrar
   Seu beijo não será mais venenoso
  e assim, doce e maldita, livre estará.
Franklin dos Santos Moura

                       D ES ES PERO P OÉTICO
Papel, caneta, cadeira confortável,
uma taça de vinho, algumas lembranças.
Tudo pronto para o conhecido e prazeroso ritual,
é a hora da magnífica viagem pelo mundo das palavras.

O tempo passa, e a inquietação toma forma.
As palavras surgem sem sentido, as idéias fogem.
Boas músicas são ótima inspiração,
m a s o b a r u lh o a t r a p a lh a , e o p a p el con t in u a vir gem s ob a
mesa.

Lem b r a r d e p en s a m en t os , t em a s s ocia is ,      uma      a n t iga
namorada,
tudo parece tão normal e conhecido.
Os jornais já trazem estas poesias,
enquanto isso a terceira taça encontra-se vazia.

Acendo um cigarro, olho pela varanda.
Pessoas caminhando, natureza e prédios.
Carros quebram o silêncio, crianças o sossego,
e a criação permanece muda, inerte.

A primeira garrafa de vinho entorpece os pensamentos,
o es t a d o d e leveza é o m elh or ca m in h o p a r a en con t r a r a s
palavras.
Na lon ga ca m in h a d a p ela s a la , d ep a r o-m e com u m á lb u m d e
fotografias.
- O passado é o celeiro das poesias !

Vejo antigos amigos, amores.
Ao invés de inspiração, recebo a tristeza.
Tristeza, talvez o melhor dos temas.
Quando declamei minha idéia, as palavras voaram pela janela.

Percebo uma leve camada de poeira sobre a intocável folha.
Decid o com eça r u m a fr a s e e a o n ã o con s egu ir d er r a m o a
sétima taça de vinho.
A folha manchada de vinho, e a vida manchada de sangue.
Seria um ótimo tema, se o cotidiano não fosse tão real.

Desisto? Não! Talvez a esperança seja um bom tema.
E s qu eço! O n a t a l e os p olít icos já fa la m d em a is s ob r e
esperança.
Traição! Este tema nunca saiu de moda...
m a s m in h a s fer id a s im p ed em m in h a s m ã os d e d es en h a r u m a
só palavra.

Então esqueço que nesta noite sou poeta !
Se não tenho palavras, não tenho nada.
Sou um pobre embriagado, numa varanda ao fitar o mundo.
S ou u m s on h a d or , qu e m a l con s egu e er gu er a qu a r t a ga r r a fa
de vinho.

Que o próximo amanhecer traga a nova poesia,
ou pelos menos um motivo, um tema.
Pois, se não tenho palavras, não tenho nada.
Se não sou poeta, não sei o que sou.

Guardem o vinho, por favor !
Gabriela Zorzal

               A   MINHA   P OES IA .
        A poesia sai dos meus pensamentos
                  Pura, leve, bela.
           O verso sai feito, sem defeito,
        As palavras também feitas, perfeitas,
        O poema todo em rima, obra prima.
         Há quanto tempo que não escrevia.
           O verso que havia se perdido,
                Voltou arrependido,
           As palavras antes escondidas,
          Também voltaram arrependidas.
             O poema antes inexistente,
       Agora sai facilmente, perfeitamente...
                Eu voltei a escrever,
A poesia voltou para os meus olhos, para minha vida,
                Sinto como renascer.
Lorena Colodette Pessanha

ENTE QUERIDO

    Depende...
Há algo que pende,
      e tende
     no ente
       a fitar
     demente
          o
      toque.

     Doente?
     depende
        do
       Ente
      Galgar
   o aparante,
      roçar,
     contente
         a
       pele
       que
   surpreende.
Priscilla Reges Ferreira

       O LHO   D E PEIXE , PÉ DE COELHO

     Quando ouvi meu nome sendo chamado
                   Não acreditei.
         Atravessei os portões de Arcádia
                   Para encontrar
        A minha vida através do espelho.
      Deitei na relva da minha alma e sonhei
      Que tomava chá com o que havia sido
De mim num passado remoto de um futuro distante...
              Quando acordei percebi
          Que o meu espírito voava livre
          Como as borboletas e cantava
                 Como os pássaros
        Então abri minhas asas pra voar
             E caí no mar azul do céu
              E ao mergulhar percebi
            Que o segredo do universo
                      É a vida!

           E surpreso com a descoberta
            Despertei todos os sentidos
             Dei um suspiro profundo
        E acendi um cigarro pra descansar.
        A fumaça elevou meu ego ao infinito
               E tudo o que era Eu
                  Deixou de ser
               Para se tornar Tudo.

    Então o Gato Careteiro deu uma gargalhada
           E destruiu todas as barreiras
             E nada mais era mistério
            E tudo fazia parte de todos
        E as fadas podiam voar novamente
               Levando em suas asas
         O pó que restara de mim mesmo.
Brendda Dos Santos Neves

         S OU   VERS OS S OLTOS

  Mundos distintos povoam meu coração...
     Ao despertar do sol sou casulo;
            Rua sem tumulto
           Relógio sem horas...
              Caio em mim!
                Quem sou?

                 Hoje...
            Amanhã e sempre...
              Em toda parte
             A cada instante
              Saio de mim!

           _Sou eu meu amor....

       Minha mente é um quadrado:
     Lados perfeitos da mesma moeda,
        Sem portas nem janelas...
     Sou verso só sem sol sem casulo!

         Presa em tuas muralhas
      Ouço apenas o cair da chuva,
           Rítmico e constante...
Como o coração de um assassino calculista...
                Saio de ti!

   Sinto meu corpo dormente e pesado,
     Saindo de um coma profundo...
    Os pensamentos estão desconexos,
   Aos poucos recobro minha identidade:
                Sou EU...

            _É você meu amor?

          Deixo por trás da névoa
            Uma face de menina
          Perdida entre sombras...
Teu sorriso somente
  Aumenta minha agonia...
        Sou casulo!

   Doce sonho que findou!
    Teu amor-borboleta
     Bateu asas e voou!

Desperto e sinto o sol se pôr...
    Sou versos soltos...

           _Amor?!
Thalita Ferreira

                 ½

      Assim como a lua é cheia
              E não meia
    Não há como ter apenas meio
             Ter a metade
     Apenas a parte de um todo
       Pois se o todo é perfeito
  A metade será sempre imperfeita,
      Incompreensível, inapta...
Onde estará o completo, o preenchido,
          O acabado, o total,
  quando só se oferece parcialmente
     A parte, retamente dividida?
     Afinal, de que vale ter meia
 Meia-água, meia colher, meia tigela?
       De que adianta possuir
   Meio-dia, meio-fio, meio-termo?
  Se lhe falta o inteiro, o concluído,
        Vivendo toda uma vida
   Não deixando partes para trás,
     Pois viver apenas meia vida
       É como deixar de viver!
Gabriel Raposo
     MEL E V IOLÊNCIA A RMADA
 Embora a doce abóbora dos meus sonhos
  Esteja ela indo embora dessa paragem,
  Da brincadeira em muita meia margem
Fugiu-se a laranja do abraço do enfadonho.

    Gaveta que abre sem se ver; porém
    É amarelo pra tudo quanto é lado
    Ao gentil, ainda que sim, emulado,
   Rabiscando os traços de meu alguém.

  Tem-se feito ao beliscão de voada baixa,
  No verão de meia cor, todavia, natural.
Foste ao enterro de tuas últimas lembranças
 Conspurcada dos dejetos da mendicância

 Ao ver-me partido pela cretina má vontade
  Tua quase presença vigia a insegurança
   De uns farsistas jogados à caricatura
     De servos da alegoria qual blá-blá.
Flávia Barcellos de passos

                 POETA
              O poeta tem na veia
               A sede de escrever
              Ele apenas semeia
              Essa forma de viver
            A escrita é um desabafo
           E a cada linha um relato
                Talvez de amor
              Talvez de felicidade
            Quem sabe relate a dor
       Ou apenas a vida em sociedade
       É poeta, quem vê com o coração
É poeta, até mesmo quem não respeita a razão
                  Sou poeta!!!
            E qualquer um pode ser
                 Para ser poeta
         Não é preciso saber escrever
            A poesia está no sentir
           E se constrói no imaginar
             A poesia está na vida
          E poeta, é quem sente o ar
         Ou quem consegue perceber
              Que poesia é viver...
Gabriel Raposo
        O DE   AO AMOR PURO     0
 Embora a doce abóbora dos meus sonhos
  Esteja ela indo embora dessa paragem,
  Da brincadeira em muita meia margem
Fugiu-se a laranja do abraço do enfadonho.

    Gaveta que abre sem se ver; porém
    É amarelo pra tudo quanto é lado
    Ao gentil, ainda que sim, emulado,
   Rabiscando os traços de meu alguém.

  Tem-se feito ao beliscão de voada baixa,
  No verão de meia cor, todavia, natural.
Foste ao enterro de tuas últimas lembranças
 Conspurcada dos dejetos da mendicância

 Ao ver-me partido pela cretina má vontade
  Tua quase presença vigia a insegurança
   De uns farsistas jogados à caricatura
   De servos da alegoria qual blá-blá-blá.
Anaximandro Oliveira Santos Amorim

   SONETO DE F ANTAS IA
                (para minha afilhada Jade)

  Dorme princesinha! Um carrossel
 Espera por ti na Terra-dos-Sonhos!
  É tão fácil de ir! Fecha teus olhos
 E põe as mãos nas de Papai-de-céu!

  Confia em mim! Um lindo corcel
    Alado virá durante teu sono!
  Nele, vais partir! E o teu risonho
  Anjo da guarda abrirá teu dossel!

   Irás até um mundo encantado
  Onde os relógios vivem quebrados
  Para a brincadeira nunca ter fim!

 Mas para o anjo abrir teu cortinado
    E dar o teu lindo corcel alado,
Fecha os olhos, princesa. E vai dormir!
Franklin dos Santos Moura

         S AUDAÇÕES     AO VELHO     P ARKINS ON

                 Entre, sente-se a mesa
                    sirva-se a vontade.
              Leve meu ânimo, minha alegria
           e me dê a esperança de mais um dia.

          Já faz algum tempo, não sei se lembras.
         O primeiro tremor foi na mão que escrevo.
              A juventude permitia-me ignorar,
             era apenas um tremor, logo passa.

        Mas logo atacaste minhas pernas, e com isso
            pouco consegui segurar meus filhos.
             O incômodo da muleta, da bengala
   foi logo substituído pelo conforto da cadeira de rodas.

           Meus amigos desapareceram, sabia ?
 Que tipo de amizade teriam com um inteligente inválido ?
          Com o tempo minha taça virou caneca,
    não foi muito difícil vencer a guerra dos canudos.

Sentia medo quando o peito ofegante não permitia a voz sair,
        não conseguia conversar, que dirá discutir.
               Reconheço, você conseguiu !
            Confesso que não estou derrotado.

               Vejo que você também treme,
                suas pernas, seus braços,
               sua face abatida e sombria...
              Seu prazer é ignorante e inútil.

 Tenho lembranças do meu trabalho, da minha outra vida.
        Ajudava pessoas, vivia um dia após outro.
               Contudo, tudo foi em vão...
   Sou apenas um objeto decorativo na sala da casa que
                       construí.

       Já não escuto, respiro, durmo...velho maldito.
Vivo agarrado a misericórdia de pessoas que nunca vi,
     mas e você, velho inútil, agarra-se em quê?
     Não vejo muletas, garrafas, nem bengalas.

            Olhe para mim! Veja o que sou!
    Sou mais um tentando saber o que aconteceu,
       sou um monte de nada sem sustentação,
 sou o primeiro a atirar a pedra e o primeiro atingido.
            Não sorria assim velho maldito,
           não brinde com o meu desespero.
Não terás a vitória, pois ainda sou fé e você é somente o
                         destino.
        A hora ainda não chegou, vá embora !

 Fúnebre silêncio! A inércia dos móveis e meus inúteis
               involuntários movimentos.
A estatueta de porcelana mergulha rumo ao tapete. Meu
                  movimento: em vão.
              Mudanças são necessárias.
        é melhor sair da frente desse espelho...
Hanor F.

                             C ARAS D EMAIS !
                                    Cansei!
                                 É! Cansei... !!!

      De ouvir os outros, de falar dos problemas deles, dos
              relacionamentos deles, de falar de mim.
      Do que quero, do que vivi, - chega de falar de mim...
Não quero mais essas conseqüências, então resolvi parar com
es s a p r ocu r a id iot a p or u m a p es s oa es p ecia l s im p les m en t e
                      p or a cr ed it a r qu e ela exis t e .

                  Existe droga nenhuma!
 Existe um monte de pessoas querendo satisfazer como eu
                   seus desejos carnais.
 Querendo saciar suas mãos em corpos gostosos de se tocar.

       Existe sim, um monte de vermes inescrupulosos que
          con s egu em s a cia r es s a s fom es d e con t a t o fís ico.
Mas, não quero falar deles: Talvez eu me pareça mais com eles
                                      do que julgo.
                                      Tranquei-me!
       Pronto! Tranquei-me, e, não há chave, não há outras
en t r a d a s , n ã o h á s a íd a s , n ã o h á n in gu ém d o la d o d e d en t r o
                                 desse meu mundo.

    Que se danem todos os conceitos de felicidade,de amor
                                    próprio.
     Do amor com letra minúscula mesmo que para ser
r eceb id o p r ecis a s er d a d o s em qu a lqu er id éia d e r et r ib u içã o .

                    Isso aqui é um desabafo!
                   Sim! Um grande desabafo.
 Por que como disse outrora, agora vai ser assim: entre eu e o
                                  papel,
            es s e p á lid o p ed a ço in er t e d e p a p el .
    Não quero mais diálogo, não quero mais contato, e que
  venham as conseqüências que já não são diferentes das de
         agora, quando a busca também me devora.
Não quero gritar, não quero falar, não quero amar.
     Nã o qu er o d r oga n en h u m a d es s e m u n d in h o ch eio d e
                                 es cr ú p u los .
                          É, não quero mesmo!
                       E não vou me arrepender!
 Não quero pena, não quero compaixão, não quero ódio nem
                                    rancor.
Qu er o s olid ã o! Pois es s a , eu n ã o p r ecis o b u s ca r : já t en h o E
                                   de sobra!

      Vou trabalhar mais, mesmo que sem entusiasmo.
  Vou me ferrar nesse aspecto repugnante de vida, e se quer
                                    saber?
                     Da n e-s e       digo de coração!
   Eu posso ser um bom acompanhante para mim mesmo.
  Vou m e cu r t ir m a is , e s e a lgu ém t iver qu e m e d es t r u ir , qu e
                      eu s eja o ú n ico cu lp a d o!

                 Não quero sorrir, não farei sorrir.
                Não quero...não quero...não!...quero!

              Princípios? Não os tenho mais...
              Conceitos? Para mim tanto faz...
  Conselhos? Ninguém os ouve, nem mesmo eu que os tanto
                          procuro.

               Não existe felicidade! Não existe amor!

        Existe a realização de fantasias, quereres, desejos.
 E xis t e a t r oca d e fa vor es ;exis t e o ód io, a vin ga n ça , o m ed o!
                Existe um m on t e d e cois a s va lios a s ...
    Mas não quero mais saber de nada que vem do coração,
                esse desprezível ícone da dor e da vida,
             esse desprezível ícone do amor..., a.m.o.r.

                    Qu e lin d in h o, ele es t á a m a n d o ;

         S ã o con s eqü ên cia s m eu ca r o, a m or leva a es s a s
                            conseqü ên cia s ;

                 Vá em fr en t e, a m e e d eixe-s e a m a r .
Filos ofia s d o a m or ...Cois a s t ã o a b s t r a t a s qu a n t o a a b s t r a çã o
                                  da vida.
 Conheci pessoas loucas nesses últimos dias, não últimos de
                     tempo anterior há esse dia,
      mas sim tempo de últimas experiências, de últimas
                             concorrências.
 Vou s egu ir s ozin h o...e...m u n d o... - não quero ninguém, não
                           qu er o n in gu ém ... .

      Feia ou bonita, branca, negra, inteligente, burra,
                inconseqüente, crente, ateia,
  não quero platéia, não quero amigos, não quero inimigos,
              não quero sexo, carinho, beijos.
     Não quero olhar, não quero falar, não quero ouvir.
                       Não quero nada!
      Porque não quero pagar por nada dessas coisas.
                    Por que quer saber ?
                          Pra mim,

                               S ã o ca r a s d em a is .
Gabriela Zorzal

        N ÃO   ME CONF UNDE MAIS

     Eu estava tentando acertar as coisas
    E você veio de novo e atrapalhou tudo!
       Não posso trocar um amor certo
         Por você totalmente confuso.
            Não me confunde mais...
    Eu quase mudei todos os meus planos,
           E eu ia me magoar tanto!
            Não me confunde mais...
Por que meu coração não pode mais se quebrar
Quando eu não tenho nem forças pra recomeçar
            Não me confunde mais...
             Deixa-me te esquecer
            Antes de me arrepender
            Não me confunde mais...
           Antes que eu me entregue
    E seja tarde demais pra eu voltar atrás.
Joacles Costa Bento

                 INSTANTE
 C a d a h o r a s e i q u e n ã o vo lt a m a is .

C a d a m in u t o , s e i q u e é in c o n s t a n t e .

 C a d a s e g u n d o d is p e r s o n o t e m p o ,

        s e i q u e é s ó u m in s t a n t e .


O t e m p o n ã o e s t á a m in h a e s p e r a ,

   p o r is s o e le n ã o p á r a , p a r a q u e

   a c a d a s e g u n d o , m in u t o e h o r a ,

n ã o s e ja m o s m e s m o s e n o e s p e lh o

d e m in h a vid a , o b s e r vo o s a va n ç o s

       c r o n o m e t r a is d o t e m p o . . .

                 e m in s t a n t e s .
Fernanda Rangel de Aquino

            F ORA      DE    S INTONIA

      S o u u m s e r a s s it u a c io n a l !
    Nã o s ig o r e g r a s c o n ve n c io n a is
     J á q u e a s p r ó p r ia s s it u a ç õ e s
    S ã o m o vid a s à s u p e r fic ia lid a d e

            Q u e vid a s e m g r a ç a !
       P r e c is o q u e b r a r a s r e g r a s ,
                 B u r la r lim it e s ,
               In va d ir e s p a ç o s . . .
              Ar r e g a la r o s o lh o s
 D o s q u e m e o lh a m d e s a c r e d it a d o s .

      P r e c is o p e r d e r m e u s p a s s o s ,
                  P is a r n a s le is ,
          Lu t a r c o n t r a a s n o r m a s ,
     Ne g a r a p r ó p r ia n o r m a liz a ç ã o ,
       P o is lo u c o s . . . s o m o s t o d o s !

           E s t o u fo r a d o a lc a n c e ,
           C a n s a d a d e c o n c e it o s ,
           À p a r t e d os con t ext os ,
                    Le ilô o a vid a
               Nu m ú n ic o la n c e .


A in é r c ia d a s s it u a ç õ e s m e d e s g a s t a ,
        Ap r is io n a , d e vo r a . . . M a t a .

         S ou   a s s it u a c io n a l , s im ,
                Ma s d e a lm a . . .
            Por qu e o m eu cor p o
           Ain d a e s t á p r e s o a q u i!
Lindemberg O. Gomes

                    LEMBRANÇA
Sonhos de amor, sois como a rosa
(O Dia Seguinte do Amor)
            V. de Carvalho

   Penso no passado sua imagem se apresenta
     Lembrança cruel de um feliz momento.
            Men in a n ã o r ecob r a o s en t id o,
                    De u m a n jo despido,
    In s en s a t ez ju ven il, a ob r a r o fir m a m en t o .

          Olhos negros de feição ardil,
   Brilham qual lua cheia, em noite primaveril.
           Lábios ardentes em fulgor,
        Con s om em m in h a lm a em b r a s a s .
          Longos cabelos a embalsam,
          Meneando flutuar como asas.
          Pele dourada de jambo ao sol
              Feliz cortejo de um raio,
           Beleza radiante de arrebol.

               Abrasa meus desejos
                Num triunfo final.
         Deusa-Mulher, tem-me enfeitiçado
               Com figura angelical.

    Em seu seio adormeci, do colo calor senti
     Musa de inspiração espelha a reflexão.
       Em noite profunda, em sonhos vi
         O s eu cor p o p or m im s ofr er
      Delírios de amor, alma do meu ser;
    Amada de meus sonhos; tudo é confusão.

      Menina de meus olhos, alegria de viver,
        Fez-me feliz só por lhe conhecer.
       Passado triste de um momento feliz
       Qual espontâneo riso ao amanhecer.

            Sua imagem ficou no passado,
No presente restam as lembranças
    De um sonho eternizado.
Franklin dos Santos Moura

              UM   D IA NO   R IO . . .
              Galeão, pés no Rio,
    Canibais capitalistas na pela de taxistas
      Cerco de necessidades e ambições,
            Escolher já é um risco.

    Com sorte, um guia historiador ou calado
   Ou então, mal humorado pela curta corrida.
         Vejo a Maré, e alguns lutadores
    E o cheiro de comida se mistura ao canal.

          Ainda estou diante da Maré,
     Agora aves negras observam o tráfego
  Ninguém nas ruas, tempo nublado, dia cinza,
Alguns destemidos curiosos observam das janelas.

   Trânsito lento e pressa...incompatibilidade.
    Planos para o dia intenso...imprevisível.
    Compromissos, objetivos e o vôo de volta
         O vôo de volta...tudo se repete.

    Na estrada vermelha, dedos cruzados e fé.
       Na Maré só vejo a cortina da noite.
      Quando cruzo a Ilha, suspiro...alívio.
    No Galeão, filas enormes para o check in.


Os dedos continuam cruzados, mas não adianta.
      O vôo está atrasado...sem previsão.
       Paciência, café, uma boa leitura.
     Acordo no destino, sabendo que volto.
Lorena Colodette Pessanha

                     A VIS O :

            Não bata antes de entrar:
Você pode estar ferindo este lugar que se apresenta.
          Antes seja cúmplice dos olhos.
                     Eles sim!
            Focados em firmamentos,
              Projetados em órbitas,
               Tecem ruas inéditas
 e transitam por moradas nem sempre visitadas.

                  Olhos clínicos
               Porque apreendem,
                 Olhos artísticos
               Porque vislumbram,
                 Olhos mágicos
               Porque descortinam,
                  Olhos líricos
                  Porque vêem.
Priscilla Reges Ferreira

         C ONTO   DE F ADAS

  Quando o relógio soou a 13ª hora
         Cinderella se perdia
      Nos braços do rei dos elfos
   A Branca de Neve jogava cartas
    Enquanto a Bela Adormecida
        Preparava uns drinks
         A chuva caía lá fora
    Enquanto as flores dançavam
        Com os hipopótamos
     Para impressionar um tigre
  Que teve as suas listras roubadas
  E serviu para desenhar os bigodes
  De um príncipe perdido no deserto
     À procura da casa da Vovó.

      A Balada do Rei de Espadas

  Ah, meu grande mentiroso, tolo Rei,
Nada sabes e tudo sabes, sempre assim.
 No Caos caminhamos, juntos, porém,
Não facilitamos a jornada para ninguém.

         Um grande jogador
        Meu curinga preferido
    Eterno companheiro de contos
    E para todo o sempre, Amigo.

           Rides do mundo,
      Das pessoas e das coisas,
         Mas, acima de tudo,
    Rides de vós, e de vossa piada,
    Chamada ironicamente de vida.

          Mas ah, tolo Rei,
            Hás de reinar
      Comigo para todo o sempre
        E não mais tolo serás
         E não mais perdido
O mundo estará.
Thalita Ferreira

        O ÚLTIMO PEDAÇO

                  O chocolate
                   Late...bate
             Invade cruelmente
             Na forma escarlate
            Profundamente arde
      Provocando devaneios na tarde
       Loucuras, balbucio, tatibitate
             Mais um pedaço...
              ... hum ... invade
         Cada doçura quente parte
        A imaginação e a realidade
  Ao leite, branco ou amargo... a verdade
  É que a falta, o vício se torna nulidade.
     Quando deixar embriagar-te, ou
       Quando o frenesi enroscar-te
       Perceberás que não há nada
                   Que mate:
a vontade louca de voltar ao último pedaço
 Pois mesmo que busque, suplique, cate...
        Não há mais CHOCOLATE!
Aline Mendonça

               E S CARLATINA

     Há estrelas perdidas nos teus cabelos,
 E loucura na sã inocência que te corta a carne.
Ah!Se eu fosse um sonho, um simples devaneio...
   Ou mesmo a doce brisa que te toca a face!

        Vejo seu "eu" ao ouvir a sinfonia
    Das cores do silêncio imutável e mortal.
   E o céu, para mim, chora com tal melodia,
      Mas o agora padece: amargo e real!

       Desejo a fadiga, a miséria e a dor;
   Que o anseio sádico ainda me consome...
  Nessa contínua vivência em busca do fulgor.
  Ainda estou cansada de viver no meu ontem!

     Há estrelas perdidas nos teus cabelos:
    Na manta negra da escuridão fantástica.
   E o seu brilho, hoje, torna-se meu espelho
    Do imenso amor, no meu modo trágico!
Flávia Barcellos de Passos

         M(EU) CURRÍCULUM
 Não preciso de uma faculdade para aprender
  Não preciso de diploma pra ser inteligente
 Não dependo de um currículo para ser gente!
 Diploma e certificado não medem inteligência
        Preciso de gente para aprender
     Preciso viver, para adquirir o "saber"
  Um diploma não é capaz de dizer quem sou
Um simples diploma...não expressa como estou
 Pode "mostrar" algumas coisas que sei fazer
        Pode até mostrar algo que já fiz
    Mas não pode medir minha capacidade
    Nem mesmo mostrar minha integridade
      Não sou o que está escrito no papel
        Não tenho só o que nele contem
              Eu sou muito mais
 Sou mais do que as palavras podem mostrar
        Porque não sou ser inanimado
           Sou "ser vivo" e sou real
     Em mim não se pode pôr ponto final
           Sou parte do que é a vida
         Mas ainda não sei se sei viver
  Ainda não sei o que sou capaz de conhecer
    Acho que com o tempo vou descobrindo
         E ao final de um ano saberei
        Saberei que acabei construindo
   E continuo a construir a cada amanhecer
             Não construo pontes
             Não construo edifícios
    Construo apenas o espaço em que vivo
   Construo minhas crenças e meus ideais
Construo meus pensamentos e talvez algo mais
      Porque não sou apenas um diploma
      Porque não estou presa a um papel
      Não sou faculdades ou certificados
       Não faço parte de um enunciado
            Não sou algo que se leia
         Nem sou nada para se avaliar
              Sou uma existência
Uma existência como o mar
       E assim como o mar não tem
    Também não tenho um ponto final
       O mar cresce...e eu também
           Às vezes, ele diminui
       Também me sinto diminuída
          Ao fazer o tal currículo
             Porque já disse!!!
       Não sou o que está no papel
     Não caibo nesse pequeno espaço
         Porque não sou o que fiz
             Ou o que sei fazer
              Não sou só isso
          Porque se assim fosse,
        Quem não tem currículos
     Ou sequer sabe o que é diploma
              Um nada seria
         Portanto, volto a reforçar
         Não sou nem ninguém é
         Aquilo que está no papel
              Nós somos mais
               Muito mais...
     Nem 100 diplomas descreveriam
 Ainda que com ajuda de 100 certificados
Talvez sejamos, então, apenas como o mar
         Algo difícil de se decifrar
      Porque pode-se ver e até sentir
    Mas jamais corretamente o definir
           Ou saber e conhecer
          Tudo o que nele contém
        Porque somos profundos...
         Profundos e preenchidos.
Anaximandro Oliveira Santos Amorim

   SONETO DE AMOR             I

 O nosso amor é como as catedrais
 Prontas para rasgar o firmamento
  Feitas de rochas, torres eternais
Impávidas contra o sabor dos ventos

 Um nume passa por seus ogivais
 Iluminando nossos sacramentos
 Rezamos segundo antigos missais
 E damos as almas em casamento

Que saiam todos! deuses infernais
 Que ousam sair de suas capitais
 Para nos levar ao pecado imundo

Mas enquanto nós formos imortais
 Fecharemos as nossas catedrais
Para ficarmos seguros do mundo
Bernardo Silva Barbosa

C OMPLETAMENTE     APAIX ONAD O

        Apaixonado estou
   pois te achei em minha vida
      foi a coisa mais linda
     mas eu vivo esse amor.

    Quando eu olho pro céu
      te vejo nas estrelas
    quando escuto tua voz
       vejo a tua beleza.

      Eu te amo e te quero
    te chamar de meu amor
       eu te amo e desejo
        sentir o teu calor.

       O amor que eu sinto
         é enorme demais
      mas é que eu te quero
     e te amo cada vez mais.

      eu te amo e te quero
    te chamar de meu amor
       eu te amo e desejo
        sentir o teu calor.

        Porque te amo...
Brendda dos Santos Neves

                POEMA DAS CORES

                Li o diário onde segredos
               Insondáveis diziam que sou
               Menina-lima, menina sapeca!
                A brincar com tua vida...

               Amei teus sonhos sem medo:
              Menina-ameixa nas tuas mãos!
                E deixei meus sonhos ao
                Imaginar-te real e perto.
                         Xôôô...
                      Amor-ilusão!

Pulsa o amor em minhas veias Entrecortado...descompassado
                Leve bater de asas fugidias!
              Esqueça-me! Sou ave bandida...

            Pousa o beija-flor sempre a bailar...
             Repousa sobre o ninho a pensar,
              Espera ter enfim o beijo da flor,
               Ter nos lábios o sabor do mel
               O beija-flor sempre a bailar...

             Azul é o coração de quem ama!
              Zelar por ti todas as noites,
              Unicamente estar contigo...
          Lembranças azuis o tempo não apaga!

              Viajar nas lembranças vividas
            Esquecer-te em algum lugar verde,
               Ruínas de sonhos e amores
              Desfragmentados no coração...
                 Esquecer-te em mim...

                      Rios de flores
             Oscilam_ ornamentais_ ocultam
              Sabiamente a marca da idade
            Aflorada de tua interior mocidade!
Cai a chuva lentamente
            Imagino como seria se não fosse tarde
Nesta noite cinza de tempestade; Zuuummmmm....................
                 A tempestade levou o amor!

            Amar sem você é sentir tudo amarelo
                Marelado ao redor de mim!
            Amarelado sem fim a me envolver...
                Rasgado está o meu amor,
              Esmaecido está o meu coração:
             Lago sem vida e monocromático
                O amor amarelado do fim!

                Brinco com palavras e sonhos
                Rasuras de amor e amizade...
                  Amo o novo e o inusitado,
                 Não suporto o amor-clichê!
             Caio e desmaio nas palavras feitas...
                  Onde estará você agora?!

                   Venha ver o lindo mar
               E sinta as partículas salgadas
              Rompendo a rotina de tua vida...
                 Mergulhe em meu coração
              E veja a vermelhidão que nele há,
                 Luz de amor a te procurar,
                 Homem misterioso a vagar
              Onde o céu e o mar deságuam...

               O sol de teus cabelos dourados;
                  Uivantes ondas de verão;
              Rostos colados lábios amassados:
            O quadro perfeito do amor-relâmpago!

                      Lilazes mariposas
               Ilhadas em meus pensamentos...
              Lantejoulas libidinosas libertinas
                   Assumem aspecto sólido:
               Solidez que eu perdi ao te amar!
                    Violetas vilipendiosas:
              Instantâneas imagens primaveris!
                    O ano não parou aqui,
               Levou lentamente tua lembrança
E nunca mais voltará!
         Tua voz de viola
Amarga harmoniosamente no jardim!
Bruno Vial


   S ONETO    DO   R EI   DE   E SPADAS
 "Não me conhece e não sabe o que sou
não sabe meus nomes e sobre o que sinto
posso fingir, enganar e jamais descobrirá
que sou vazio e carente, tolo e orgulhoso

  mas algo sobre mim deve logo saber
 caminho no nada e na dor da Verdade
 Sustento o valor da chamada falsidade
 porém abomino esta sua tola hipocrisia

   Sou mal, saber, insolência e rancor
 temo e tremo, puro e também só o caos
  mas acima disso, sou eu temível vilão

  O Rei de Espadas, aquele que o mata
   o grande vazio, só um louco perdido
mas não vou admitir, continuarei a mentir"
Joacles Costa Bento

     LÁGRIMA

   Lágrima que cai

   da face chorosa,

   molha esse chão,

   aduba essa terra.

 Que nasça uma rosa

    com cheiro da

   moça que um dia

surgiu como o arco-íris.

   Belíssimas cores

   vem trazer a paz.

    Faça vir o amor

  que cesse esta dor

     doce gotícula,

lágrima, simplesmente.
Daniele Braga Pinheiro

   GERALDO BRAGA
   Sempre vou lembrar...
   Das suas mãos macias
  Dos seus cabelos brancos
    Do seu jeito ranzinza

   Sempre vou lembrar...
 Dos seus conselhos precisos
 Da sua experiência de vida
 Dos telefones aos domingos

    Sempre vou lembrar...
  Dos seus chinelos de couro
 Do grampeador e da furadeira
      Da pastinha preta

   Sempre vou lembrar...
   Do seu jeito carinhoso
 Do aperto de mão com força
      Da sua proteção

   Sempre vou lembrar...
   De você varrendo a rua
Desembrulhando um presente
    Abrindo um pacote
  Molhando o pão no leite

    Sempre vou lembrar...
   Das festas de fim de ano
    Da sua risada gostosa
      Da cara de safado
  Do nosso papai noel rosado

    Sempre vou lembrar...
Da saudade com a sua ausência
   Do amor sempre presente
 Da família que você plantou

    Sempre vou lembrar...
     A pessoa brilhante
que você sempre representou.
Ezequias Miller

                MUNDO I MPERF EITO
          Qualquer coisa que nos coloquem
         Abaixo de uma grande organização
         Supõe-nos apenas um pensamento:
           A minha natureza que se foi...

                  Qualquer fato...
             Qualquer ato de impiedade
Que nos conduzem a belas superfícies, porém falsas,
 e nos afastam da verdadeira face da arte de viver:
       viver em profundidades jamais vividas

           Não vive cautelosamente o perigo
           E sim vive o perigo intensamente
               De maneira inconsciente
            Que a consciência confunde-se
                 Entre o céu e a terra

        Não respira o ar, as flores, os rumores
           De que algo jamais será vivido
                Sem a plena emoção
               Em lugares dominados,
              sustentados pela razão...

             Em lugares sem portas
      Sem janelas, sem paredes, sem estrelas
      De onde o nada é partida para a estrada
        Que se constrói em cada passada...

    Isso tudo faz calar-me em toda e quaisquer
                     Situação...
      Faz apenas calar-me, insustentar-me,
                que de outra forma
              Faz-me apenas pensar:

     E u s ou m a is n a d a e n a d a m a is d o qu e is s o
Gabriel Raposo

        O DE   AO AMOR PURO      I
   Enterremos a faca no peito do irmão
  Pois meu cano é mais grosso que o teu.
    Já que teu miolo é defeito de Deus,
   Piso e afasto os unidos pelo fracasso.

  Corja de imbecis infantes que se amam
  Reunindo-se em derredor do deslumbre
   Garganteiam propaladas inverdades
   Do engajamento da miséria humana.

 Na faca enterrada, afasta a carne dura;
Entre vencidas costelas semeia pouca paz.
 Do béocio rejeitado sobram-lhe as penas
   Que não se excitam na tolice tardia.

       O DE    AO AMOR PURO      II
    Ai, que felicidade infinita e bonita!
     É grande como um bujão de gás.
  Daí, peguei uma linda meiga florzinha.
     Dei-lhe do fundo do meu coração
    Todo o aquele sensacional carinho.
   Vou voar de tão alegre, de sensação,
      Como a mão leve do cafajeste.
  Sorrir para as plantinhas e folhinhas
  Um bom-dia pra terra e pro mar!
   Minha querida rainhazinha!
   Cacarejar da goela à ponta da língua
 Fanfarronices vou da meia-humilhação.
 Não há -viva!- excremento que me iluda,
  Pois todo cheiro de merda me faz bem.
    Estou voando e voando sorridente
Cuspindo prantos no quengo dos contentes.
Lindemberg O. Gomes

                       MALDITO
Ó retrato da morte! Ó noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
               Bocage

       Quando da passagem do Velho Chico
            O barqueiro viu a criança,
         Praguejou e exclamou taxativo:
         Ma ld it o t r a z a lu m e t a l d es gr a ça !
             É s a m a ld içoa d o e s ofr er á
           As a gr u r a s qu e n a t er r a h á .

          Indiferente ao grande presságio
               A criança crescia e ágil
         Robustecia. Na pré-adolescença
           A previsão do barqueiro reluz;
           Sua vida informe e sem força,
       Qu e fizes t es pesa-m e t a n t o a cr u z .

        Os amigos aos poucos sumiam
     À medida que apareciam as desgraças;
     Em sua mente não havia esperanças;
   Dos amores fagueiros  nada lhes sorriam.

             Ma ld igo: o céu e a s es t r ela s
          Qu e s ob eja va m a n t e os olh a r es .
          Ma ld igo: d a s flor es a s m a is b ela s
    Qu e m e r ou b a r a m os m im os d a s m u lh er es .

       Ma ld igo: a Deu s p ela m in h a exis t ên cia
        Des ca b id a , p elo fla gelo in ces s a n t e .
       Ma ld igo: os p r ogen it or es p ela a n u ên cia
        E m in d ign a in fliçã o a u m in ocen t e .

          Ma ld igo: a s m a is va r ia d a s d oen ça s
          Qu e n ã o m u d a r a m a m in h a s or t e .
       Ma ld igo: o t or to Anjo Negro que danças
       É b r io, es qu ecen d o-s e d e m in h a m or t e .
Fernanda Rangel de Aquino

          MEIO T ERMO
        Queria ser mais feliz
            Menos tola
         Mais responsável
         Menos pensadora.

        Queria ser mais firme
        Menos predestinada
        Um pouco mais solta
        Menos atrapalhada.

      Queria ser mais sensata
        Menos sonhadora
             Mais livre
       Menos conservadora.

        Queria ser diferente...
Queria mesmo era não viver essa briga
           De querer ser.
        Queria não me meter
       E me contentar em viver
          Neste meio termo.

  Queria ser mais descomplicada...
     E muito menos confusa.

 Eu devia ter nascido mais decidida
            Menos louca
              Ou não...

        Mas eu nasci assim,
        Sou assim e pronto!
           Eu até gosto!
           Quer dizer...

           Pensando bem:
 Eita vidinha mais ou menos essa...
         Mas boa que só ela!
Gabriela Zorzal

          A MOR C OMPLICADO
          Descreveram para mim,
   Mas descobri que não é bem desse jeito
        Acho que amor não é assim,
    O meu pelo menos é cheio de defeito.
    Me disseram que o amor era infinito,
       Mas o meu tem fim e começo.
         Ou mentiram para mim,
        Ou eu não sei amar direito.
         Acho que quem me ama,
                Ama demais.
          E eu, amo de menos...
        Esse tal amor é complicado,
         Por isso eu não entendo.

Você acha que eu deveria amar um pouco mais,
           E isso pra mim é difícil.
       Desculpa, eu não consigo amar
              Mais do que isso.
Flávia Barcellos De Passos

           ALÍVIO E EMOÇÃO
         Alívio é poder chorar sem medo
  É ir em frente sem se preocupar com o erro
          É arriscar e seguir o coração
  É não depender dos conselhos ou da razão
         É querer sem se sentir culpado
             É sorrir e querer chorar
               Chorar de felicidade
                Chorar de emoção
          É deixar os sentimentos fluir
      Seguir os impulsos, deixando "rolar"
                    Que role...
Role lágrimas, arrepios, apertos e talvez aflição
     Permita a ansiedade, a curiosidade...
        Toque o céu com os pés no chão
        E alcance as estrelas com o olhar
  Sinta-se flutuar, mesmo que esteja sentado
    Mergulhe no turbilhão dos sentimentos
      Na invasão da contradição entre eles
  Queira dormir, acordar, sentar e descansar
Deseje amar,um olhar, um raiva e a empolgação
                   E aprenda...
      Aprenda a perdoar, a errar e a pecar
          A agradecer, a sorrir e a fugir
   Sinta cada gesto, cada dia e cada oração
          E perceba...tente perceber...
                Que só se vive bem
         A vida que é cheia de emoção.
Lorena Colodette Pessanha

   E CONOMIS TAS

     Economia de
  água, luz, telefone,
pensamento,verbo, ação,
  fala, visão,escuta...


     Economia de
         ...
         ...
         ...


    Todos os olhos
      deveriam
     economizar
      palavras.
Thalita Ferreira

      O PRAZER DO CHOCOLATE
                 A poluição sonora
           Empapuça minha capacidade
                     De ouvir...
             O choro, a verdade, o amor
           Como será o prazer adocicado
                  De um chocolate
              Sem precisar degustá-lo?
        Onde mais há prazer além do amar?
              Transforma-se mel em fel
            Jorrado em escudo prateado
               De cavaleiro de guerra
        A loucura de usar um par de óculos
   E lembras de quentes e apaixonantes ósculos
 De, numa consulta, após uma análise de reflexos
       Desejar fortes e protetores amplexos.
Pernas escondidas embaixo da saia crua e comprida
    Colo escondido por véus e rendas bordadas
        Posição cabisbaixa com olhar triste,
        Idôneo, apático, indolente e ansioso
      Pela carência voraz escondida na naveta
             Ou seria na velha gaveta?
          Brincadeiras de fingir felicidade
      Enquanto a tempestade não vai embora
                Preces à meia Lua
         Para a tempestade não aumentar!
                 O barulho cresce;
                 O coração aperta;
                E a poluição sonora
             Empapuça todo meu ser ...
Priscilla Reges Ferreira

         P ERD ID O
       Somos muitos,
     E ao mesmo tempo
          Nenhum.
  Temos idéias diferentes,
       E quase sempre
           Iguais.
  Temos vidas diferentes,
Mas dividimos o mesmo corpo.
Temos lembranças diferentes,
    Mas estão perdidas.

    O que é a realidade?
O que é a vida senão um sonho
  Por nós mesmos sonhado
 E que acreditamos ser real?

       O que é o sonho?
        O que é a paz?
        O que sou eu?
            Quem
           Sou eu?
     O que é verdadeiro?
  Qual é a minha realidade?
    O que é a minha vida?
  Qual é a minha lembrança?

      Desejo uma resposta
     Desejo a mim de volta
O tempo em que sabia o que era
          E quem era
               Eu
    E sabia a minha verdade
E era imperatriz de meu mundo
         E fazia sentido
              Viver
          Ou morrer...

   Não tenho mais vontades
De viver
       De odiar
      De morrer
      De destruir
       De amar
        De ser

Desejo minhas lembranças
    Minhas vontades
       Minha vida
     E minha morte
       Minha luz
    E minhas trevas

  E saber quem somos
   E o que desejamos
  As nossas diferenças
     E semelhanças
Não quero me perder mais
     Em meu nada
Quero ser alguém de novo
  Importante de novo
      Para alguém
        Para você
      Para a morte
     Para o mundo
       Eu quero...
Fernanda Rangel de Aquino

     U TOPIA G RAMATICAL

     Tu, te, ti, contigo...Chega!
          Esses pronomes,
       Que em meu coração
      Tem apenas um nome,
      Não fazem parte mais
       Do meu vocabulário.

Cor t a r ei t a m b ém os lh es , os s es
 E seus companheiros de ilusão,
                Porque do você
       Eu não quero mais nada.

        Excluirei ainda o vós,
         Para quando o você
         Juntar-se a alguém
            Eu não sofrer

       Nós? Nem pensar!
   União em meio a incógnitas?
          Não...Não...
     É melhor eu descartar.

     Ret ir a r ei, p or fim , o eles
      Para não correr riscos
         De falar do tal você
        Mesmo à distância.

          Sobra-m e o eu !
    E é tudo o que deve bastar.
      Vou galantear meu ego
         E só comigo ficar.
       Ao menos se um dia
     O relacionamento esfriar
     Terei a certeza absoluta:
          A culpa foi do eu
        E de ninguém mais.
Pode parecer uma tentativa frustrada, eu sei,
 Mas quem garante que não irá funcionar?
Não queimam fotos para destruir lembranças?
      Pois queimarei então a gramática
       Com seus pronomes ilusórios
        Para não mais pronunciá-los
         Que virem cinzas e pronto!

            De agora em diante,
              Somente o eu,
                 A mim,
                  Basta!
Aline Mendonça

                   A NIS TIA

     Clamo-te há séculos e nada me orienta
Somente suicidas bocas mudas me acompanham;
     Velam-me à noite, sacrificam-me ao dia,
 Apagam-me as estrelas, mutilam-me os anjos!
 Um dia, porém, hei de dizer morrer nas nuvens,
  Beber o ar fresco das rosas e dos alvos lírios
  E tardiamente, sem que talvez me importune,
     Tocar a pálida face do sétimo sentido...
   Mas, se outrora, pudesse, então, perceber
    Que a solidão é mais forte que o fascínio,
   Teria, pois, em clave, na carne borbulhante
   Marcas crepitantes e imutáveis do destino.
     E os estéreis atos, em vão, pacificantes
     Seriam apenas puro e macilento exílio!
Anaximandro Oliveira Santos Amorim

       SONETO DO MAR
                  Homme de l océan, tu toujours cheriras la mer
                                     La mer est votre mirroir
                                            Charles Baudelaire

 Monstro colossal, deus dos exegetas
   Desejo pisar os teus vagalhões
 Para atá-los aos pés, como grilhões,
  No mais puro delírio dos ascetas!

 Que sejam curvas ou que sejam retas
    Leva-me em todas as direções
   E juntos, ao sabor das estações,
     Sejamos o ocaso dos poetas!

 Arrasta-me a teus pélagos profundos,
Conduz-m e às entranhas de teu mundo
 - Quero afundar em ti cada vez mais!

  E, para que o meu corpo não corra,
Tranca-me em uma de tuas masmorras
  - Não quero ser encontrado jamais!
Bernardo Silva Barbosa

        UM   MIS TÉRIO

 Inspiração de onde você vem?
  Venho do seu subconsciente
         ou quem sabe,
venho do interior do seu coração.

     Esse dom que você tem
    poucos sabem aproveitar
        você foi escolhido
     para escrever e recitar.

        Fico honrado por
       ter te desenvolvido
         e farei bom uso.

    Sempre estarei com você
      onde quer que esteja
    pois sempre seremos um
          e mais nada.
Hanor F.

                      INDIGNAÇÃO
         Indignação! É isso que sinto no momento,
                 É esse meu sentimento...
   Queria poder colocar aqui toda minha indignação pelas
                         pessoas,
     Quero poetizar todo mal que sinto dentro de mim.

 São tantas coisas que norteiam o meu ser que não consigo
                 definir o que por no papel.
 Contento-me para a escrita dessa apenas com a luz de uma
                        casa simples,
           Cuja dona outrora fora amiga minha.

Aconchego-me com um simples estar em ver o mar ao longe,
As luzes da ponte, o tom de um agudo som que se repete ao
                    longo das tentativas.
Meu olhar agora vaga onde possa estar quem lê e lerá esta.
       E em que momento se dará o fim da mesma.

       Vejo ruas, monumentos, igrejas, becos, saídas,
             Vejo a morte viva em galhos secos,
             Sinto o ar úmido o cheiro do nada.

                   Que mundo meu Deus!

 Mundo de riquezas eternas e ternas que caem por terra pela
                   ganância dos homens.
  Vida que não é vivida que não se faz vívida por estupidez.
     Desejos da carne...do coração...desejos das mãos,
        por irmãos, sendo esses de sangue ou não.

              Ouço agora um profundo silêncio.
 Silêncio que se quebra por um grito mudo ou por um passo,
Pelo som, outrora descompassado e agudo, agora cadenciando
                         harmonias.
        Por minhas a encharcar esse pedaço de papel.

        Silêncio...desejos...vida...mundo...indignação.
                      Que se fez canção!
Palavras que saíram de meu ser e do que estava por acontecer
Bruno Vial

      I MPULS O
  Um poeta não tece
   Em seus versos
   Mentira alguma

  Suas palavras são
    Sempre retratos
Da sua alma e verdade
Por pior e dura que seja

Ele escreve sua busca
  O que representa
     O que sente

     Não importa
  Se por metáforas
  Ou cegas silabas
 Não verá nas estrofes
     Vãs tolices

 Cada letra significa
 Aquilo que no intimo
  Se passa e revive
  Desde a felicidade
 Até a pura angustia

 Um poeta não escreve
 Ele decifra as linhas
    E junto a elas
  Decifra a si mesmo

   É por isso que,
  Por mais medíocre
     Que eu seja
  Eu sou um poeta.
Daniele Braga Pinheiro

             WESDAN
         Você me conquistou
      De uma forma inesperada
               Dia a dia
           Sonhando junto
          Buscas parecidas
            Vidas cruzadas
         Se alma gêmea existe
      Acabou de ser encontrada
       Metade que se completa
          Amor que desperta
        Numa nova descoberta
         O medo ainda existe
       Mas a felicidade persiste
   Quero apenas viver cada momento
            De forma plena
                Serena
Lembrando que a vida sempre vale a pena
Ezequias Miller

      A G UERRA     D OS DES ES PERAD OS

            Maldita Santa Inquisição
Banham de sangue toda e quaisquer canção de amor
    Trocam farpas entre o mundo e o mundano
     São diamantes que brilham tão insanos

     Que o último papa morra com as tripas
                 Do último rei...
         E se enovele num mar em fúria
          E desconheça a cor púrpura
        Das rosas que nascem no quintal
 Que sua vida deixe de ser um falso manto imoral
     Para se tornar o frio do manto infernal

   Que os homens caiam em desgraça profunda
     E que a corrente tão pesada da âncora
        Que presa em seus pés se afunda
           E lhe cortam a respiração...

       Que lhe cortem como fio de navalha
       Os pulsos que passam o sangue...
        O sangue que jorra no alto e falha
           E falte-lhe ar para sempre

        Desta forma o misterioso se faz
     E tudo há de caminhar para o infinito
    Onde as borboletas descansam para o vôo
      Que tornam o universo mais bonito

        E desatem as correntes da ilusão
         De que o homem não pode nada
        Como os reis afirmam com incisão

   E cortam os sonhos de quem um dia almejou
         Cantar canções de amor profundas
   E que hoje apenas andam como mortas-vivas
    ... as pessoas... sem sentido... insensatas...
                      Sem vida...
Gabriel Raposo

      R UA   DE   V IDA
     Minha rua era viva
  Com moleques, malandros
  Passeavam os namorados
    Brigavam os parentes

      Minha rua era viva
      Até o dia de ontem
        O dia de hoje
      minha rua morreu

     Alvorecer de chuva
     Minha cidade chora
       A ocaso da rua
   Que até ontem incomoda

        É dia de natal
      É dia de tudo sim
   Mas a minha rua morreu
Levando na água toda a ternura

        Toda bagunça
       Toda esperança
       Toda vingança
          Abraços
         Canduras
         E tristezas

 Minha rua não tem mais sim
     Não tem mais não
   É um nada encruado.
Fernanda Rangel de Aquino

   PACTO

   Passos
    Perto
    Penso
   Perco...
   E peco!

     Uso
     Usa
     Suo
     Sua
    Abuso!

   Impulso
    Pulsa
  Um passo
   O pulso
  Impasse!

    Possuo
    Preciso
    Procuro
   Persisto...
E peco de novo!
Gabriela Zorzal

           O LIMITE    DO   A MOR
           O amor não tem limites?
               Teve para mim.
           O limite dos teus olhos.
   Depois de entrar em contato com os meus
              Não vi mais nada
             Bloqueou toda a luz
          Me cegou, me fez escrava.

          O amor não tem limites?
               Teve para mim.
             O limite da sua voz.
         Ao suavizar os meus ouvidos
             Não ouvi mais nada
         Sua voz se instalou em mim
         Mas uma vez me fez escrava.

               E o seu sorriso?
                 O que dizer?
       Que é tão belo como de um anjo,
             Reflexo da perfeição,
Que me faz pensar todos os dias nos seus olhos,
    Lembrar-me todas as horas de sua voz,
E não me sai do pensamento o seu lindo sorriso.
          Esse amor me limitou sim,
       A pensar em você todos os dias,
          Te desejar todas as horas,
          E te querer a vida inteira.
L INDEMBERG O. G OMES

                INTERCES S ÃO
Deixai vir a mim os meninos,
E não os impeçais,

            S. Lucas: 18.16

            Quem me clama há tal hora?
            Sou eu Senhor, Zé Ninguém!
           Que desejas? Vou-me embora.
          Nada Senhor. Clamo por alguém.
         Que desejas? Diga-me sem demora?
        Peço-te a atenção e não o teu desdém.

          Ela terá se o teu desejo a valer.
      Clamo pelas crianças rotas e esquecidas
  Num mundo de solidão onde vivem a sofrer.
    O teu desejo é justo, tornarei esclarecidas
  As tuas dúvidas. Nada deixarei de responder!
     Vertei bênçãos e a elas sejam oferecidas.

         Sejas tu mais claro em teu pedido!
    Senhor é tempo de festas no mundo terreno
    Muitas crianças têm seu clamor atendido
     Outras tantas vivem um palor horrendo.
     Que te queres que eu faça; estou ofendido
    Com tantas crianças que vivem morrendo.

         Senhor atente para o que vou expor:
   Elas são muitas, e muitas são as suas dores,
    Imaginam um mundo diferente a contrapor
       A sua realidade. Não peço presentes.
      Peço que as tornem dignas de se impor
          E serem tratadas como gentes.

        Zé Nin gu ém ! É ju s t o o t eu cla m or
 Mas nada posso fazer. Dotei-os do livre arbítrio
   Só vi agigantar-se no mundo o desamor.
     Pobres crianças que sofrem o martírio
  Do destino impuro; merecem o Divino Amor
Aqueles que para a sua dor buscam o alívio.
Lorena Colodette Pessanha

        AS   LINHAS D ES S E CADER NO

A lin h a é a m en or d is t â n cia en t r e d ois p on t os
                      de vista,
                    de encontro,
                       de táxi,
                        finais.

                    A linha é uma
                        tênue
                    massa ilusória
                     que insiste
                          em
                      prolongar
                           a
                       palavra.
Thalita Ferreira

          VITUPÉRIO *
      Por um instante a vitória,
           Por outro o fim;
      Cada palavra é uma arma
   Que destrói aquele que a escuta
   Na medida da censura, da dor,
 Do desapontamento, do desacordo,
       Do n ã o , d o d es p r ezo...
     A luxúria penetra na boca
        Dos que pouco falam,
    A torpeza se excreta da boca
        Dos que muito falam,
          Mas nada dizem!
     Ser vituperado, exprobrado
            É ser golpeado
          Com uma espada
          No meio do peito.
Afinal, uma palavra mal pronunciada,
           Mal significada,
            Mal pensada,
   Nunca mais retorna a quem diz
Mas eternamente destrói quem a ouve

    *censura áspera, injúria, desonra...
Aliene Mendonça

           A LENTE T URMALINA

      Pouco importa meu formoso anjo
     Se és injusta a vida que nos deste,
 Que espalhando-me dos dedos o sopro rouco
      Faz-te tão bela a vingativa veste.

Murmuro, então, teu nome em simples versos,
Pois noutra forma não te ocultas neste tanto.
  Serão efeitos de amor meu puro pranto?
 Ou a loucura de achar-te em amor eterno?

   Pois és o drama que amplio em poesia...
  Dizei que em mim me consome e me afaga!
     Tu és a causa de aceitada covardia,
   Se outra vida não aceito em tua causa!

 Queimam ainda, no céu, milhões de estrelas,
   Seres da terra e o minuto que me segue,
    O doce aroma n'alva brisa de tristezas.
 Sonho ser breve, ó meu amor, que seja breve!

Pois sou do mundo e não te nego meus suspiros
     Ao trazer junto contigo meus desejos.
     Se consumo a leve vida de teus beijos,
  Sois a manta do meu céu, os teus cabelos.
Bernardo Silva Barbosa

AS   QUATRO ES TAÇÕES

Primavera cheia de flores
m e enchendo de amores
  Primavera com Verão
esquentou meu coração.

O Outono vem chegando
 e as folhas vão voando
          p elo ar
 E as flores vão caindo
s ó pra ver você passar.

 Nós dois bem juntinhos
 vendo o Inverno chegar
     e nesse dia frio,
      n ossos corpos
    vão se esquentar.
Daniele Braga Pinheiro

    CICLO DA VIDA
              Tentar
               lutar
              correr
           Fraquejar
            fracassar
            renascer
           Continuar
             levantar
            esquecer
        A vida tem fases
    que precisamos vencer
     Um ciclo permanente
      que nos faz crescer
       Mas cada manhã
       traz-nos a certeza
   de que vale a pena viver
Pois foi numa surpresa da vida
      que encontrei você.
Bruno Vial

                  À S V EZES . . .
       Às vezes, digo tolices a mim mesmo
    Nesses momentos, penso que sou um bobo
        Por ficar dizendo coisas sem nexo
         Para o único que ainda me ouve

        É um grande problema se estar só
       Por não conseguir saber se o que falo
          É realmente estúpido ou genial

      A solidão é minha grande companheira
         E nela me conheço como nunca
         Mas, por vezes, admito fraqueza
         E sinto falta de uma companhia

         Rir sozinho produz eco e é sinistro
    Contar coisas engraçadas perde o sentido
        Estar só é fácil, porém também triste
É por isso que, às vezes, gostaria de alguém comigo
Ezequias Miller

 HÁ   UMA GRAND E RIQUEZA NAS PALAVRAS DE UM
                    POETA . . .

          A poesia faz o homem tocar as estrelas...
 E voltar para descansar em terra firme para poder lembrá-
                            las...
 Faz o homem beber toda água que desce de uma cachoeira
       O faz ser mais veloz que a velocidade da luz...
                  O faz sumir no espaço...

  O homem pode pular de um abismo sem cordas que lhe
                           seguram
             Que mesmo assim continuará vivo...
    Pode dar a volta ao mundo em questão de segundos
Pode ser a semente de manga que brota no fundo do oceano...
           E ainda lhes digo! Vai dar bons frutos...

           O homem pode ser de outro planeta...
              Pode desaparecer e aparecer...
             Pode voltar ao ponto de partida...
            Pode não haver partida para nada...

             A poesia se situa entre os extremos
   Do alto das montanhas até as profundezas dos oceanos
       Do centro da Terra até os lim it es d o u n iver s o
             Entre um homem e outro homem...
    Dois extremos que tentam se tocar a cada instante
            Mas a união total, a união completa
                Só vem por meio da poesia...

          E não são todas as criaturas dessa vida
       Que dão propósitos a essa tão suave melodia...
         Um canto a qual todo homem se espanta
          Se não..ouve e desce fino pela garganta
             Esse fardo chamado esperança...

           Mas a poesia tira todas as esperanças
                Tira todas as lembranças
                 tira o mundo do lugar...
E não dá nenhum lugar ao mundo
           Pois dele não há nada a se amparar
              Ela não se ampara no mundo
                  ... ela apenas está ...

    É viva nas cores que nos oferecem risos naturais
                      A vida é bela!
  Façamos dela o astral mais alto que as estrelas podem
                     Nos oferecer...
Façamos dela a singularidade que caracteriza os homens de
                         juízo...

            E viva a história dos belos homens
             de Shakeaspeare até os atuais...

  Coma o amor que a mais bela flor há de lhe oferecer...
     Vista-se de palhaço para saudar as crianças...
    Viva o mundo na esperança de dias melhores...
                  S e é qu e eles vir ã o...

    Ainda lhes digo que não há futuro para a poesia...
                  Não há esperanças...
      Ela faz do presente um presente tão simples
        Que faz o chocolate escorrer pelos lábios

        Faz as lágrimas terem sabor de chocolate
 E depois gota a gota repousar no céu estrelado da boca...
                Dá roupa ao descamisado
             Da encanto aos desencantados
            Dá grãos de areia aos esfomeados

              Dá a morte aos desgraçados...

     Enquanto que dá a eternidade aos maravilhados
             pela grandeza da existência...

              e a grandeza encolhe o real...
       redu-lo para dar beleza ao ponto de partida
   Mais um ponto de partida inventado pelos homens...

              Mas mistérios são mistérios...
          e se concentram em um único ponto,
                    de um ao outro
na orquestra da vida...
na música que nunca jaz esquecida...

            É assim...
         O Ciclo da Vida...
Gabriel Raposo

        B OA N OITE , D IA !
    O dia é amanhecer e ousado,
      Ar de trabalho e estudo.
      A noite é a observação,
      O olhar latente e mudo.

    De lembrança e festa pejada,
    Vem ela em leveza acariciando
      Pelo caminho dos leves.

 Mas a noite tem seu tempo ansioso
Seus cantos mistérios e canto gostoso.
   Ele tem de outro lado presença
De tempo claro e de percurso quente.

 Mas o dia da noite arranca o medo
    Dos pés à face lhe cobrindo.
Guia-a ao oeste, pousada em segredo.
    De modo ouro lhe atraindo.

    Vem a noite silenciosa e bela.
    O dia te protege puro sempre.
    E ela sem mistérios para ele
     Se cobre estrilada e plena.

 No entre a solidariedade da aurora.
 Vem ele cobrindo ela de cor quente?
Sim, na efusão de vermelho e branco,
De luz e respiradas de chegou a hora.

   Ou será a noite que cobre o dia?
Aline Mendonça

            C ORS O   DAS   MINÚCIAS
         A esquisitice dos planos traçados
         Que soam cansados da renovação.
        A impulsividade dos atos impulsivos
            A fortaleza d'uma paixão...

            A tristeza que é emoldurada
     Junto à eloqüência dos sons emudecidos.
             Imensa beleza inexistente
               Em atos esquecidos...

             Amo o brilho do teu olhar
          E a inocência do teu sorriso...
              A forma como caminha
          E a textura dos teus sentidos...
          As palavras de encorajamento,
         A paciência nos maus momentos,
            O aroma simples e carnal,
            A melancolia da tua figura,
           A jocosidade da tua doçura,
            Os beijos puros e infantis,
           Cada detalhe da tua alma...

              Jamais pensei te amar,
              Jamais pensei sonhar...
Jamais pensei achar alegria em te imaginar dormir...

  Há uma estreita linha entre a loucura e o amor?
Gabriela Zorzal

       UM   LUGAR PRA VOCÊ .

    Um anjo soou em meus ouvidos,
      Ele disse que era cedo demais
Eu não devia entregar meu coração ainda.
           Obedeci e aguardei.
         Mas o tempo foi rápido.
          Quando te reencontrei
      Meu coração estava ocupado.
         Eu não podia fazer nada
       Era um amor incondicional
       Eu mesma não queria nem
            Tentar combater.
Talvez se esse amor não tivesse aparecido,
          Meu coração seria teu.
    Mas acabei me vendo obrigada a
     Encontrar um lugar nele pra ti.
         Então separei um lugar:
   Não tão grande como do meu amor,
         Mas tão especial quanto
              E ao seu lado.
           Um lugar de amigo,
       Um lugar de melhor amigo,
         Um lugar que eu cuido
        Com carinho e confiança.
 Por que amigos tratam-se com carinho,
       Mas para melhores amigos,
             Basta confiança.
Flávia barcellos de Passos

              NÃO QUERO!!!
Não quero saber das coisas que não me pertencem
  Não quero essas coisas que não preenchem...
        Anseio por carinho e irmandade
        Longe de mim, esteja a falsidade
     Não quero sofrer o que ainda não vivi
        E não quero provar do dissabor
         De não saber o gosto do amor
    Não quero conselhos nem reconciliações
         Por hora servem os devaneios
       Só não posso permitir alucinações
       Não quero viver o que não mereço
            Não quero...não quero...
                 Senão padeço
               Não quero risadas
              E não quero agonias
    Não quero nada que não preencha o dia
             Não quero dia parado
       Tão pouco quero viver de passado
        Não, não quero o que me faz mal
       Não quero que piorem meu astral
      Não quero comida, não quero bebida
        Mas também não quero solidão
      Porque em meio a tantos "não quero"
       Há sempre outros tantos "quero".
Thalita Ferreira

     PSEUDO-SONETO DO CANSAÇO
           Cansei dos clichês destemidos
         Das mãos inquietas e despudoradas
           Dos forçados e falsos gemidos
         Das palavras omitidas e mal-faladas

       Só agora percebi os passos simulados
   Aqueles que vão e vem, sem mesmo sair do lugar
      Tentando, sem esforços, parecer fadados
    Enquanto o resultado é impossível encontrar

    Pudera eu controlar o tempo como um escravo
       Só assim o libertaria da insignificância
         Trazendo-o como um presente meu

        Cansado do insipiente mundo bravo
     Só mesmo levando todos de volta à infância
Ou quem sabe...aconchegando-os nos braços de Morfeu!
Lorena Colodette Pessanha

          P RECE

Articular um sorriso interno,
      Vertê-lo em lira,
       em linguagem,
         em convite,
           é prece.
Bernardo Silva Barbosa

       MAIS   UM ANO

Mais um ano que vem chegando,
m ais um ano que vai partindo,
   m ais um ano começando,
    m ais um ano sorrindo.

  Mais um ano com bravura,
   m ais um ano de paixão,
  m ais um ano de ternura,
  m ais um ano de emoção.

    Mais um ano de guerra,
   mais um ano de carinho,
 m ais um ano que se encerra,
     m ais um ano sozinho.

        Mais um ano...
Daniele Braga Pinheiro

 CAMINHO REAL
     A vida muda
       Envelhece
      Amadurece
  O amor transforma
        Renova
       Fortalece
Bases de uma esperança
De um amanhã melhor
  Você é a minha luz
 De um caminho real
    Riqueza plena
 De uma alma serena.
Flávia Barcellos de Passos

             SAUDADES
       O que dizer sobre a saudade?
     Como explicar esse sentimento?
 Como entender a saudade aqui de dentro?
  Será passageira?apenas momentanea?
   Ou será aquela saudade que engana?
        Existem saudades em mim
Saudades do que já não tenho junto a mim
         Saudades de quem se foi
       E dos tempos que passaram
       Também dos que ainda vivem
    Mas estão longe de minha realidade
     Saudades boas e saudades ruins
As boas estampam sorrisos em meu coração
   As ruins me apertam e deixam aflição
       É, saudade não é passageira
          Saudade não é curada
     Porque saudade vira lembrança
    E a lembrança não se deixa por aí
         A lembrança é carregada
           E não importa a idade
  Porque com certeza dura a eternidade.
Gabriela Zorzal

              N ÃO   ME ES QUECE

          Tenho tanta coisa pra dizer
            Mas você não quer ouvir,
      Quer encontrar um jeito de esquecer
    Mas já caiu fundo demais pra conseguir.
    Medo de me envolver, medo de te iludir.
Não quero te fazer sofrer, muito menos te seduzir.
         E você me trouxe a realidade,
          Apagou tudo que se passou.
         Mal sabe que eu ainda sonho
     Mesmo sabendo que pra você acabou.
      E vou mesmo continuar sonhando.
        É que eu não consigo combater.
       E sei que mesmo que você tente,
        Não vai conseguir me esquecer.
Hanor F.
     Esperei muito tempo por você.
  Então agora te devorarei lentamente.
Degustando o gosto seu com o tempero EU.
   Degustando o teu cheiro que é bom,
         Teu sabor que é novo.
    Degustando você como um todo,
                  Mas,
              Aos poucos.
            Bem aos poucos,
        Quente e conseqüências,
  Misturando-te a uma pitada de amor.
ALine Mendonça

       D IÁLOGO C ÓS MICO II

  Sinto por perder mais uma vez a voz
E fazer desta agonia mais do que agonia:
  Apenas saudade perdida no silêncio!

 Que torna a insônia uma tortura diária
Enquanto as palavras fogem-me aos lábios
   Cada vez que mais me aproximo...

        Ah, poeira de estrelas...
      Finda a morte de teus olhos,
        Sendo o eco do silêncio
        Que perfuma a solidão!

       Mero e inútil envolvimento
        Gravidade encantadora,
         Obséquio do destino,
        Que clareia a escuridão!

    Se em toda a minha eloqüência
          Houvesse um ritmo,
  As palavras seriam folhas dançantes
      Se desprendendo no abismo
  Da loucura articulada do meu ser...
Bruno Vial

     D ES ES PERO
      Olh e p a r a m im
  Essa sombra patética
  Que caminha no ermo
    Sem destino algum
   Num mundo nojento
   Que não me pertence
     Que não pertenço
         Olha aqui
  Eu sou eu mas não sei
       Se sou só eu
     Isso é tudo tão...
      Olho a sombra
      Olhe na parede
 Ali perdida da realidade
       A qual não é
 Nada além de ausência
    Ouço os lamentos
 Que eu digo para a noite
      A sombra vazia
 Não escuridão não existe
  Mas ainda assim disse
             não
    Que verdade nada
           Não há
            Há?
 Está lá por um instante
       Sem exceção
   A eternidade do vazio
       É tão grande
  Que não me deixa ver
A efemeridade do momento
     Em que a sombra
   Implora ali no canto
      olh e p a r a m im
        Mas não dá
 Ignora o tolo o que pede
        Vira o rosto
       Sigo caminho
Para além dali
        E não espero
     O que viria depois
           Não virá
        Não vou olhar
          Não quero
      A sombra não vai
Mas seguirá onde quer que vá
      Só rindo mesmo
       Para não ouvir
             não
   Olha, olha, olha aqui
       Não sei o que é
           Mas foi
           Sempre
            Minha
    E eu não quis olhar
        Não era sofrer
       Ignorar, morrer
     Sem ter acontecido
       Olho para mim
      E rio e rio e rio...
Thalita Ferreira

  EU CONSUMO E TU CONSOMES
              E u con s u m o o m u n d o
             O m u n d o m e con s om e
          Quando o lobo lograr o ouro
       A tentativa sucumbirá a resposta
         É gasto o metal pela ferrugem
     É consumido o oxigênio perdido no ar
                Fecha-se o mundo,
                Relaxa-se os olhos,
     Perde-se o sentido de destreza e razão
                   Mataras a luz
                    Que se apaga
                   O feixe se esvai
          Perante infinda escuridão...
           A trindade, o trio, o tripé
         Três, tercetos, triplos, tantos
        Três, três, dois, três ... telefone
                  A vela se queima
                 A parafina escorre
                O tamanho diminui
                   Se na natureza
         Tudo nasce, tudo se Consome
                Tudo se transforma
Até que a vastidão se consome corrompendo-se!
               O cansaço desanima
                 O stress consome
                  O sono reanima
         O mundo premia o indivíduo
         A realidade retira-o liberdade
         Consumindo a paz, o sossego
               O sopro e a sanidade
            . . . CONSOME SE . . .
Lorena Colodette Pessanha

     D ESENCONTRO

       Ao anoitecer
        você se faz
        presença,
          afago,
       Lua atraente.


       Ao amanhecer
         você se faz
          ausência,
           vácuo,
e já não há Lua que possa...


         E há dias
       você se desfaz
           e não
          constrói
           nada.
Flávia Barcellos de Passos

       P(ARTE) DE MIM
Não quero pensar sobre o que escrever
        Quero apenas sentir
            Sentir e "dizer"
      Quero fluir naturalmente
          Deixar estampado
      E bem gravado no papel
     As idéias da minha mente
     Pode ser sobre o cotidiano
   Ou sobre o palpitar do coração
   Pode ser sobre coisas mínimas
        Ou sobre a imensidão
     Só o que não pode é parar
         Não posso estagnar
        É preciso prosseguir
       Num constante ir e vir
Porque o dia em que parar de escrever
    É o dia que deixarei de viver
     E aí, não verão mais a mim
     Mas apenas p(arte) de mim.
Joacles Costa Bento

          NADA

     O sempre não é tudo

        e o tudo nunca

           foi nada.

      Porque somos isso,

     Apenas isso (o nada).

     Que nada possuímos

e o que temos é apenas adotado,

 Pois quando o homem morre,

simplesmente, volta para casa.

      Será isso evolução?

            Nascer,

            crescer,

          envelhecer,

        (viver do irreal )

           e morrer.

         Isso é evoluir?
Lorena Colodette Pessanha

             MORADA

       Resido e pairo em você!
       Não por ocasião fortuita,
   pois que o amor requer morada,
          mas por lucidez.


       Uma lucidez enebriante,
     capaz de ruir as vicissitudes
      e de conjugar nosso verbo
        no infinitivo das horas.


      Não! Não mais o ocaso,
Nem mesmo os antigos hábitos tecidos,
     pois agora posso ser até
        a menina que sou!


           Esta é a morada
   em que minha assência se dilata,
na direção do caminho que escolhemos
           viver nós em nós.
Aline Mendonça

           F IS IOLOGIA H UMANA

       Faça agora mesmo o que é certo!
     E deita-me na lama fria da derrota!
    Regojiza-te feito o céu em sol nascente
   E jubila-te a cada instante dessa aurora

Vá e sinta o sangue sádico rir em tal momento
     E prover felicidade em meu prejuízo
 Que de tão pouca, vive só em pensamento
      Na fa lt a d a lm a d es t e cor p o es gu io.

   A voz trêmula e a anemia permanente
Que, tão loquazes, já fugiram da carne túrgida
Não são mais empecilhos neste tempo agouro
  Apenas testemunharam a minha loucura

     Vá que já é tarde e a noite assombra
   Abandona-me na solidão da terra escura
      A sós, eu, vazio corpo e a loucura
    Sob a dor vencida que agora queixa-se

  Vá. Amanhã o dia nasce e a vida é curta...
     Deixa-me a sós com a minha sorte!
  Que qualquer beleza é hoje chão fecundo
Na minha dor eterna, eu, um pobre moribundo
    Vá e deixa-me gozar da bela morte...!
Joacles Costa Bento

                    EU
        Queria não pensar no amor,
         Queria não sentir essa dor,
     Queria não lembrar nossa canção,
       Queria não sentir mais emoção,
       Queria não mais ver seu sorriso,
      Queria não tê-la em meu pranto,
Queria não vê-la no espelho da minha solidão,
    Queria não relembrar nosso passado
         e no reflexo de uma lagrima
         caída da face, queria poder
      lembrar de mim, para então fazer
                parte de você.
Fernanda Rangel de Aquino

           T RANSE

       Olho para o nada
       O estranho vazio
Algo longe... E tão perto de mim.

   O olhar não é recíproco
   Não existe... Ou é triste
  Num árduo silêncio sem fim

   Meu olhar busca perdido
    Desesperado e sozinho
   O reflexo do que há enfim

        Mas o espelho
    Cruel... Ou verdadeiro
 Mostra apenas a invisibilidade
    Do que é visível em mim.
Hanor F.

        S EPARAÇÃO
        É faz tempo!
 Que o amor não vence o fim.
 Que ninguém como eu quero
       Goste de mim.

    Não, não me acostumo!

     Quero separação,
    Deixo hoje a solidão,
Mesmo que ela não queira o fim.

   Que ela chore por mim.
 Que sinta o seu gosto de dor,
  Sua própria dose de frio.
Aline Mendonça

                S IMELITRON

     Nada peço além do fardo do perfume!
       Abraço a vida e não desejo nada!
     Sê a escória e feche as íris do abrigo,
    Enquanto o sonho ainda te embriaga...

      Vejo em teus olhos minha face nua
     Pegue a taça, acomode-se ao espelho.
 Pois conservo a máscara ainda em meu peito,
    Enquanto o fogo consome a carne crua!

   Que benefício traz a pressão do paraíso?
Que em sonhos entorpece com aroma de rosas...
    Sê do mundo o filho prodígio e valente,
   Para em vida conhecer visão de outrora!
Flávia Barcellos de Passos
    Mundo isolado, amigos bem longe
    Mundo entediante, amor distante
       Quero meu mundo de volta,
     Quero os que amo à minha volta
        Desejo voltar, desejo ficar
         Por vezes, é tão confuso
              Que nem sei...
      Não sei mesmo o que desejar.
            Quero isto e aquilo
             Mas não posso!!!
         Não tudo de uma só vez
Quero tantas coisas entre Brasil e Portugal
              Que nem sei...
           Só sei que estou mal
       E essa espera angustiante,
            Dúvida alarmante.
         O incerto me desespera
   Mas a determinação me acompanha
         Por isso fico na espera.
       Enquanto isso vou vivendo
    Criando e inventando o que fazer
      Porque as horas são inimigas
        E os dias parecem tardar
Nesses momentos em que quero vê-los voar
           Entretanto espero...
            E aqui me manterei
        Até que venha a resposta
         Resposta que irá definir
       Se fico ou embora irei daqui
Thalita Ferreira

          MEU   VENTRE

O que simplesmente depende de mim
Sem que necessariamente exista você
             Eu em mim
            Eu sem você
     Não o princípio de um fim
       Mas um desejo de mim
          Minimamente eu
 Minúscula neste gigantesco mundo
Fisgada por um debutar neste mundo
         Onde o eu seja mais
 Seja diferente no meio da multidão
           Seja não só seu
        Mas muito mais meu
              Meu Tudo
             Meu Ventre
             Meu Mundo
               Meu Eu!
Priscilla Reges Ferreira


 A B ALADA    DO   R EI   DE   E SPADAS
  Ah, meu grande mentiroso, tolo Rei,
Nada sabes e tudo sabes, sempre assim.
 No Caos caminhamos, juntos, porém,
Não facilitamos a jornada para ninguém.

         Um grande jogador
        Meu curinga preferido
    Eterno companheiro de contos
    E para todo o sempre, Amigo.

           Rides do mundo,
      Das pessoas e das coisas,
         Mas, acima de tudo,
    Rides de vós, e de vossa piada,
    Chamada ironicamente de vida.

          Mas ah, tolo Rei,
            Hás de reinar
      Comigo para todo o sempre
        E não mais tolo serás
         E não mais perdido
          O mundo estará.
Bruno Vial

O UTRO S ONETO      DO   6   DE   E S PAD AS
 Seria tão mais simples apenas aceitar
    viver com uma certeza absoluta
      mesmo que falsa ou até tola
    é mais fácil do que ter dúvidas

      É um fardo, uma maldição
    ser atormentado pela angustia
   não ser somente fútil e superficial
escondido confortavelmente na verdade

    é quase triste olhar para o lado
  ver um rosto sorridente e tranqüilo
 que não se inquieta ante os mistérios

 Mas não quero ser como eles outra vez
 vi um lampejo da resposta procurada
  e não foi no sorriso frívolo dos tolos.
Thalita Ferreira

               SONO
Vontade de cair nos braços de Morfeu
Envolvendo-se em devaneios e sonhos
   Como se estivesse em nuvens
 Como se estivesse deleitando-se em
                    [flocos de algodão
    A fuga do cansaço, da tensão
    Que insiste em se acumular
   Nas entranhas do dia-a -dia...
      Conseguir fechar os olhos
  É conseguir libertar-se de todos
                     [os pensamentos
  Apertando o botão OFF da mente
       Para que não haja nada
      Além de paz e escuridão,
Na busca da mais intensa meditação,
    Concentração e relaxamento
       Em que tudo se renova
         Se encaixa, se cura
     Para simplesmente acordar
     Com a verdadeira vontade
        De d izer : Bom d ia !
Ávila Jane

                              D E UM OLHAR ...
E s t a va eu a a p r oveit a r u m a n oit e qu e d ever ia , a t é o p r es en t e
m om en t o, s er m a r a vilh os a . Por ém o qu e eu t in h a p la n eja d o
n ã o a con t eceu . Mes m o a s s im , con t in u ei a d a n ça r con for m e a
música.
No m eio d e d es en con t r os e en con t r os , en con t r ei-o, e foi a í qu e
a noite realmente começou.
Foi com u m a m ú s ica qu e t u d o com eçou a a con t ecer : n os s os
olh os s e en con t r a r a m , e ca d a vez m a is in t en s o e p en et r a n t e
ficávamos a n os cor t eja r ; olh a r es s ed en t os e ca lor os os , t ã o
qu ã o o a m b ien t e o qu a l n em o a r con d icion a d o con s egu ia
refrescar.
Os olh a r es fica va m ca d a vez m a is en volven t es con for m e a s
m ú s ica s qu e t oca va m , e con s equ en t em en t e n os s os cor p os s e
a qu ecia m m a is , m es m o a in d a u m p ou co d is t a n t e u m d o
ou t r o, e a ca d a m ú s ica n os s os olh a r es fa zia m d ifer en t es
melodias, logo, nossos corpos começavam a juntos dançar.
 E olh a r es m a is e m a is p r óxim os , cor p os m a is e m a is cola d os ,
n os s os r os t os s e a ca r icia n d o, n os s os ch eir os s e exa la n d o, e
ca d a m ovim en t o, o ca lor d e n os s a a t m os fer a cor p or a l
a u m en t a va in t en s a e r a p id a m en t e; a s lu zes fa zia m s u a p a r t e,
d eixa n d o a in d a m a is p r ovoca n t es e s en s u a is n os s os
movimentos.
E m m eio a t a n t a p r es s ã o, n os s os h or m ôn ios en t r a m em
er u p çã o e, a s s im , n os s os lá b ios en t ã o s e t oca r a m e t od o
a qu ele ca lor qu e s en t ía m os em n os s o b eijo con cen t r ou -s e. E
beijavam-n os m a is e m a is , s u a s m ã os p er cor r ia m m eu r os t o,
m in h a n u ca e for t e s egu r a va m m eu s ca b elos , logo com eça r a m
a d es liza r em m eu cor p o, es p a lh a n d o t od o o ca lor (a t é en t ã o
con cen t r a d o em n os s o en volven t e b eijo) p or t od o o m eu cor p o
e fa z com qu e s eu cor p o t od o t a m b ém s en t is s e es s e ca lor ,
fa zen d o com qu e s eu s h or m ôn ios en t r a s s em em u m a exp los ã o
d e von t a d es e d es ejos , igu a la n d o n os s os p en s a m en t os , n os s a s
carícias, nossa malícia.
Neces s it á va m os s a ir d a qu ela m u lt id ã o, p r ecis á va m os d e
 s os s ego , m a s n ã o en t r e n os s os cor p os . E n t ã o, r et ir a m o-nos
dali, mas em nenhum momento nossos olhos se distanciaram.
E qu a n d o n os en con t r a m os a s ós , foi u m a exp los ã o d e
p en s a m en t os , t oqu es e volú p ia . E n t r ega m o-n os n os s os
cor p os , en t r ega m o-n os a o n os s o olh a r . Na d a d izía m os , m a s
n ã o p r ecis á va m os d izer n a d a , n os s o olh a r fa la va p or n ós ,
n os s os b eijos fa la va m p or n ós , n os s o ch eir o fa la va p or n ós , e
diziam incessantemente querer-nos.
O t eu t or s o n u p ed ia m in h a s m ã os , m in h a p ele p ed ia s eu s
b eijos , t u a n u ca cla m a va p or m in h a s m or d id a s e m in h a s
pernas imploravam o aconchego das suas.
Nos s os cor p os ca d a vez m a is en t r ela ça d os , n os s os
p en s a m en t os ca d a vez m a is via ja va m , n os s os lá b ios e feições
declarava m t ã o gr a n d e p r a zer , n os s os b eijos ca d a vez m a is
a lgoz. E n o a lge d e t od a es s a s in fon ia , n os s os "in s t r u m en t os
m u s ica is " fizer a m u m lin d o s olo, qu e en t oa va o com p lem en t o
d e d ois cor p os , a fu s ã o d e d ois s er es t or n a n d o-s e u m s ó,
s u p r in d o    t od os   n os s os    va zios ;    com p let a m o-n os        e
contemplamo-n os d ia n t e d e u m gozo p r ofu n d o e d e p od er
ouvir e embalar a canção do amor.
E s t a ca n çã o s em fim , qu e a ca d a d ia qu e p a s s a m os ju n t os e a
ca d a olh a r qu e d eleit a m o-n os , en t oa m o-a s com a cer t eza d e
felicidade eterna.
Bruno Vial

                        U M P ALHAÇO T RIS TE
Com o em qu a s e t od os os d ia s d e qu a s e t od a s u a vid a ,
seguindo a rotina durante anos programada para ser realizada
s em s equ er p en s a r n os a t os e fa t os d e s u a s a t it u d es , a cor d ou
ced o p ou co a p ós o n a s cer d o s ol. Ain d a com s on o m a s s em
reclamar p or n ã o t er n in gu ém p a r a ou vir , s equ er a s i m es m o,
levantou-s e es p r egu iça n d o e b oceja n d o e a in d a a s s im
ca m in h a n d o p a r a o b a n h eir o s em n ot a r o ca m in h o qu e já
con h ecia t a lvez qu a s e p or in s t in t o, com o p od er ia r es p on d er s e
in d a ga d o fos s e, a p es a r d e n a ver d a d e con h ece-lo p or p u r a
for ça d e h á b it o, cr ia d o p or t a n t a s e t a n t a s vezes r ep et ir o
m es m o p r oces s o, s em n u n ca p er gu n t a r o p or qu ê d e t u d o is s o.
Com a p or t a fech a d a e o ch u veir o liga d o, p a r ou d ia n t e o
es p elh o p a r a es cova r os d en t es a b r in d o a t or n eir a d em a is ,
m olh a n d o o ch ã o e ch a t ea n d o-s e p or t er , a n t es d e a cor d a r d o
r es qu ício d e s on o com o b a n h o qu en t e la va n d o o s eu cor p o,
lim p a r a á gu a d er r a m a d a n o p is o. Ba n h o t om a d o, d en t es
es cova d os , s a iu en r ola d o n a t oa lh a p a r a o qu a r t o, s em cr u za r
com n in gu ém e s em n en h u m p en s a m en t o m a is p r ofu n d o qu e
o cop o d e ca fé qu e o es p er a va n a m es a d a cozin h a , ju n t o com
t od a s u a fa m ília a qu em s e r eu n iu logo d ep ois d e t r oca r a s
r ou p a s e p ega r s u a s cois a s . O p a i com en t ou s ob r e o t em p o
fir m e s em d es via r os olh os d o jor n a l, a m ã e con cor d ou s em
d es via r os olh os r ep r ova d or es d a filh a , s u a ir m ã , n em d ois
a n os m a is n ova e a in d a a s s im t ã o d is t a n t e, cu jo n ovo p ier cin g
n a lín gu a ch oca va m a is qu e o d a s ob r a n celh a . Tr a n s cor r en d o
t u d o com o s em p r e t r a n s cor r ia , m a is u m a r efeiçã o em fa m ília
começou e terminou e seu caminho deveria ser seguido, pois o
d es t in o cer t o d e qu a s e t od os os d ia s d e qu a s e t od a s u a vid a o
es p er a va m a is u m a vez. J á n a r u a , p a s s a n d o p or a qu ele
m es m o ca m in h o p or on d e t a n t a s vezes já p a s s ou s em o
con h ecer , cr u zou com o p a lh a ço t r is t e. Vin d o d o n a d a , in d o
p r o m es m o lu ga r , p or u m m er o in s t a n t e, o p a lh a ço t r is t e
dominou sua mente por completo e tornou-se o mundo.
Havia um palhaço triste.
Pod er ia s er ? O ch oqu e com p let o p or exis t ir u m p a lh a ço t r is t e
n ã o p er m it iu qu e s e m oves s e. E s t a va p a r a lis a d o, s equ er
con s egu ia d a r u m p a s s o. S eu s p en s a m en t os en t r a r a m n a
p er igos a zon a d o ca os e er a m a r r a s t a d os p elo t u r b ilh ã o d o
p a r a d oxo. S e h a via u m p a lh a ço t r is t e, com o t er cer t eza s e o
ch ã o s er ia fir m e? S e a s n u ven s s er ia m flu t u a n t es ? S e o a r
s er ia r es p ir á vel? S e o S ol s er ia qu en t e? S e o ch ocola t e s er ia
gos t os o? S e 1 +1 s er ia 2 ? S e o m u n d o s er ia r ed on d o? S e a
á gu a s er ia m olh a d a ? S e a vid a s er ia u m a ob r iga çã o? S e o
in fin it o s er ia s em fim ? S e o qu a d r a d o s er ia com p os t o d e
qu a t r o la d os ? S e o a çú ca r s er ia d oce? Se a a r t e s er ia b ela ? S e
o p od er s er ia for ça ? S e o a m or s er ia b om ? S e a r eligiã o s er ia
s a gr a d a ? S e o fa t o s er ia r ea l? S e a n eve s er ia gela d a ? S e o
d es ejo s er ia in evit á vel? S e a s es t r ela s s er ia m lon gín qu a s ? S e a
d or s er ia s ofr im en t o? S e o fer r o s er ia s ólid o? S e a a legr ia s er ia
felicidade? Se a verdade seria necessária? Se a existência seria
uma certeza?
Por cu lp a d a qu ele p a lh a ço t r is t e, t u d o o qu e u m d ia foi a gor a
n ã o m a is o é. Da con for t á vel cer t eza d efin it iva , foi a r r a n ca d o
s em p er m is s ã o, com for ça e foi joga d o n a a n gu s t ia d a d ú vid a
p er en e. A p a r t ir d a qu i, s eu ca m in h o n ã o s er á m a is o m es m o,
s eu s olh os ver ã o o qu e a n t es n ã o via m . S eu p r óxim o p a s s o, e
a qu ele d ep ois d es s e e o p os t er ior s er ã o s em p r e r u m o a o
d es con h ecid o e a o in exp lor a d o, p r on t o a qu a lqu er t em p o p a r a
s en t ir o ch ã o va cila r , a s n u ven s ca ír em , o a r s u foca r , o s ol
con gela r , o ch ocola t e ca u s a r n a ú s ea s , 1 +1 s er or n it or r in co, o
m u n d o fica r cú b ico, a á gu a s eca r a a r eia , a vid a t or n a r -se
s u p ér flu a , con t a r a t é o in fin it o, fa zer u m qu a d r a d o s em
n en h u m la d o, s en t ir o a çú ca r a m a r go, d es p r eza r a a r t e, s er
p od er os o e fr a co, s ofr er p or a m or , n ega r a cr en ça , viver n a
ilu s ã o, s en t ir a n eve m or n a , d om a r o d es ejo, t oca r a s es t r ela s ,
s en t ir a d or e n ã o s e im p or t a r , a m ã o t r es p a s s a r p elo fer r o,
es t a r t r is t e d e felicid a d e, n ã o p r ecis a r d a ver d a d e e n ã o t er
certeza de nada.
O p a lh a ço t r is t e s egu iu s eu ca m in h o, o m es m o ca m in h o qu e
a gor a t a m b ém s egu ir á . Nã o im p or t a qu e a s d ir eções s eja m
op os t a s , s er ã o os m es m os p a s s os a s er em d a d os , p a s s os
d ecid id os e in t en s os , s u r p r es os e t em er os os p or t u d o
continuar da mesma forma enquanto tudo muda.
Pois olh a r o p a lh a ço t r is t e é olh a r o p a r a d oxo con s t a n t e, o
con t r a d it ór io im p er m is s ível qu e im p ed e a con s t â n cia d a s
cois a s d o m u n d o, a n ã o a ceit a çã o m a is d o d it o n or m a l. A
p a r t ir d e a gor a a o n ovo p a lh a ço t r is t e o im p os s ível n ã o é m a is
uma pergunta que não se faça, mas apenas uma consideração
sempre imaginável.
Lindemberg O. Gomes


                      CRIADOR E CRIATURA
Antes da criação do cosmo; do que hoje existe abaixo dos céus
Deu s , Lú cifer e s u a s legiões d e a n jos d iver t ia m -s e em
intermináveis banquetes. Essas festas estavam deixando Deus
en t ed ia d o. At é qu e u m d ia ele ch a m ou o com a n d a n t e d o
exército celestial, o seu número um, e disse-lhe:
     E u n ã o a gü en t o m a is es t a s fes t a s , s em p r e a s m es m a s
coisas. Esta rotina está me matando!
  Dizes com o s e r ea lm en t e p u d es s es m or r er , p en s ou o
comandante.
    Deixas de cinismo. Sabes muito bem que nada do que fazes
ou que pensas me escapa, eu sei de tudo.
    É a í qu e es t á o p r ob lem a m eu S en h or !            con clu iu       com o
a vos s a d ivin a excelên cia t em con h ecim en t o d o qu e va i
a con t ecer n a d a t e s u r p r een d e. Lem b r a s -t e d a fes t a d o s eu
s ext ilh ã o qu e es t á va m os or ga n iza n d o, n o m a is com p let o s igilo
e, ch ega m os a a cr ed it a r p ia m en t e d e qu e n a d a s a b ia s , m a s
qu a l n ã o foi a n os s a s u r p r es a . Tod os n o s a lã o d e fes t a s
es p er a va m a s u a en t r a d a e n a d a d a vos s a d ivin a excelên cia
ch ega r ; a t é qu e o s a lã o foi cla r ea n d o p a u la t in a m en t e, e a s s im ,
d a m os con t a d e qu e o S en h or es t a va h á m u it o t em p o n o s a lã o
e divertia-se com a nossa angústia à sua espera.
     É ver d a d e         d is s e Deu s es con d en d o u m leve r is o
n a qu ele d ia vós m e d iver t is t es m u it o p en s a n d o qu e eu n ã o
com p a r ecer ia a fes ta         con clu iu Deu s ilu m in a n d o o loca l com
um breve sorriso.
Con t in u a r a m     con ver s a n d o     p or      m u it o,    m u it o    t em p o
r elem b r a n d o ca s os in t er es s a n t es e ou t r os n em t a n t o. Foi
qu a n d o s u r gir a m u n s r a ios (a lâ m p a d a a in d a n ã o h a via s id o
inventada) sobre a cabeça do comandante.
    Arrá uma idéia!            Deus mostrou-se entusiasmado.
    É m eu S en h or u m a in t r iga n t e id éia . Ab a ixo d os céu s n ã o
h á n a d a a lém d o et er n o a b is m o, o Alt ís s im o p od er ia u s a r o
s eu gr a n d ios o p od er p a r a cr ia r u m m u n d o en t r e o céu e o
abismo dando vida a criaturas diversas dos seres celestiais.
     Ma s qu e id éia s u p im p a                d is s e Deu s d a n d o vid a a
primeira gíria.
Deu s foi con ven cid o p elo com a n d a n t e a cr ia r o m u n d o
p a r a lelo a o r ein o celes t ia l. E n qu a n t o ele es t ives s e d a n d o vid a
a u m n ovo m u n d o, o s eu n ú m er o u m , es t a r ia ocu p a n d o o s eu
p os t o. Deu s p a s s ou a s r ecom en d a ções n eces s á r ia s e d es ceu
a o ca os .         Lú cifer com a n d a n t e d o exér cit o celes t ia l fica r á em
m eu lu ga r , a s u a voz s er á a m in h a , a qu eles qu e o
d es ob ed ecer em es t a r ã o d es ob ed ecen d o a m im , s en t en ciou e
partiu para obrar o universo.
A ca d a p a la vr a s u a s u r gia m cois a s n ova s e a t er r a ia t om a n d o
n ovo for m a t o; cr ia t u r a s d ifer en t es d e d ifer en t es h a b itat
a p a r ecia m d a n oit e p a r a o d ia . A gr a n d e á gu a for a a ju n t a d a
d eixa n d o a t er r a livr e; cr ia t u r a s voa va m s ob r e a s á gu a s e
ou t r a s ia m t ã o a lt a s qu e p a r ecia m qu er er a lca n ça r os céu s . O
p od er d o S u p r em o r es p la n d ecia em t od o o s eu vigor , on d e
antes não havia nada surgiam coisas fantásticas.
E n qu a n t o es s a s m a r a vilh a s a con t ecia m n a t er r a             n o céu
Lúcifer planejava um golpe. Ele pretendia usurpar o poder que
es t a va va go, m a s o a r ca n jo Ga b r iel, líd er d a r es is t ên cia , vin h a
minando o seu plano.
Ap es a r d e t od a s a s m a r a vilh a s cr ia d a s Deu s p er m a n ecia
in s a t is feit o, es t a va fa lt a n d o a lgu m a cois a qu e r ep r es en t a s s e
n o t od o o s eu p od er . Dep ois d e m u it o p en s a r d ecid iu d a r vid a
a u m s er qu e s er ia s u p er ior a t u d o a t é en t ã o cr ia d o. E d is s e
Deu s : Fa ça m os o h om em à n os s a im a gem , con for m e a n os s a
s em elh a n ça ; e d om in e s ob r e os p eixes d o m a r , e s ob r e a s a ves
d os céu s , e s ob r e o ga d o, e s ob r e t od a a t er r a , e s ob r e t od o o
r ép t il qu e s e m ove s ob r e a t er r a .
E a s s im fin d ou a m a n h ã e à t a r d e d o s ext o d ia . Viu qu e tu d o
qu e cr ia r a er a b om e a gr a d á vel d e ver . E h a ven d o Deu s
t er m in a d o a s u a ob r a n o s ét im o d ia , ele o a b en çoou e n ele
descansou.
Dep ois d e u m d u r o em b a t e o a r ca n jo Ga b r iel e s eu s
s egu id or es ven cer a m a Lú cifer , a p r is ion a n d o-o n o Va le d o
E s qu ecim en t o. Deu s r et or n a n d o a os céu s r eceb eu d o a r ca n jo
Ga b r iel, o r ela t o d a r eb eliã o d e s eu com a n d a n t e. E s t e foi
d es p id o d e s u a s h on r a r ia s e la n ça d o ju n t a m en t e com os s eu s
seguidores no abismo eterno.
Tom a d o p elo ód io Lú cifer p r om et eu vin ga n ça ; ob s er va n d o a s
cr ia ções d e Deu s ele t eve u m a s a t â n ica id éia . De t od a s a s
criaturas            s ó o h om em n ã o t in h a u m a com p a n h eir a ; es s e
er a o t en d ã o d e Aqu iles a s er a t a ca d o. Ten t a t iva s a p ós
t en t a t iva s er a m fr a ca s s a d a s . S u a s cr ia ções n ã o p a s s a va m d e
aberrações da natureza.
E n fim , d ep ois d e m u it os fr a ca s s os a s u a ob r a es t a va a ca b a d a ,
er a lin d a d e feiçã o cor p ór ea , a d ocilid a d e d e s eu s ges t os
escondiam a natureza de sua criação. O seu único objetivo era
d es vir t u a r a cr ia çã o m a ior d o Deu s S u p r em o. E m s eu s olh os
es con d ia m a t er r ível ver d a d e qu e a r d e n o m a is p r ofu n d o
precipício da alma humana.
Deu s p r es s en t in d o os p r ob lem a s qu e es s a cr ia t u r a ir ia
p r ovoca r , n ã o t in h a a lt er n a t iva a n ã o s er d es t r u í-la . Ma s ela
er a lin d a d em a is e o Alt ís s im o ven d o qu e ela s er ia u m a b oa
companhia para o homem resolveu quebrar o encanto maligno
que a d om in a va . Dot ou -a d e s en t im en t os s u p er ior es a d o
homem              a s p a ixões . Decid iu t a m b ém qu e ela s er ia
eternamente subjugada pelo homem.
As s im a cr ia çã o m á xim a d e Deu s con s egu iu a s u a
com p a n h eir a : ela d ot a d a d e p a ixões , e ele, d ot a d o d a r a zã o.
Um n ã o vive s em o ou t r o, o ou t r o, n ã o vive s em o u m . E le
com o cr ia çã o d ivin a d om in a a t u d o o qu e s e en con t r a en t r e os
céus e o reino de Lúcifer.
Marcelo dos Santos Netto

       TESTE DA FÁBULA DOS TRÊS RATOS
E r a m t r ês r a t os qu e d is p u t a r a m o m es m o n a co d e ca r n e
d a qu ela m es m a n oit e. Nen h u m d eles p er ceb eu qu e a ca r n e,
n a ver d a d e, er a is ca . Foi a s s im qu e ca ír a m os t r ês n a a r a p u ca
que o dono da mercearia preparou.
O d on o es t a va con t r a r ia d o com o a r r oz qu e p er d ia . S ep a r ou
u m b a ld e, b es u n t ou o la d o d e d en t r o com b a n h a ; ca vou u m
b u r a co n a a r eia , a s s en t ou o b a ld e a li d en t r o, jogou is ca s a o
fu n d o. E n t r a r a li foi fá cil. Os r a t os s ó p r ecis a r a m s e joga r .
Pa r a s a ir , im p os s ível. As ga r r a s es cor r ega va m n a b a n h a . Logo
os t r ês r a t os fica r a m à m er cê d o r a t o h om em , qu e os d es p ejou
n u m a ga iola e os p en d u r ou n o t et o d o t er r a ço. Pr om et eu a s i
mesmo que só veria o resultado daqui a dois dias.
De p r im eir a , os b ich os n ã o en t en d er a m . Roer a m a ca r n e e
t u d o b em . Ten t a r a m s a ir , n ã o con s egu ir a m . Res olver a m
d or m ir . At é qu e a m a n h eceu . A fom e a p er t ou m a is , e m a is . Foi
assim que os três perceberam as regras do jogo.
    E a gor a ?       p er gu n t ou o m en or .       Qu e fa r em os p a r a n ã o
morrer de fome?
   Bom concluiu o do meio só se a gente tirar na sorte...
   Tirar na sorte o quê? perguntou o maior.
   Quem vai servir de comida para os outros...
Depois de muito protesto e desconversa, assim foi feito. E o do
meio acabou sorteado.
   Injusto! protestou o escolhido.
   In ju s t o p or qu ê? p er gu n t a r a m os ou t r os d ois . Nã o qu er
aceitar as regras do próprio jogo?
    Nã o é is s o; b om , in ju s t o p or qu e... E u s ou o ju iz! É , is s o
m es m o! S e o jogo é m eu , en t ã o p r ecis o es t a r a qu i p a r a s a b er
se as regras vão ser cumpridas!
   Nã o s e p r eocu p e d is s e o m en or . Nos s a fom e va i ga r a n t ir
que suas regras sejam cumpridas!
   As cois a s n ã o fu n cion a m a s s im ! p r ot es t ou o r a t o. Como
vã o fa zer u m a d ivis ã o ju s t a s em u m ju iz p a r a is s o? Ten h o d e
estar aqui! É a única chance que vocês têm para garantir isso!
Meio contrariados, jogaram outra vez. O menor foi escolhido.
   Des t a vez s ou eu qu em p r ot es t a           d is s e o m a ior . E s s e a í
t em p ou ca ca r n e!, n ã o d á n em p a r a t a p a r o b u r a co d o m eu
dente.
Então jogaram outra vez e o maior foi escolhido.
   Acho que é justo disse o menor. Vai dar para nós dois.
   Seja um bom perdedor... disse o do meio.
   Pois b em ! d is s e en t ã o o m a ior         S e qu is er em , p od em vir !
Quem sou eu para impedi-los de tentar!
E o r a t ã o d evor ou os ou t r os d ois s em p r ob lem a a lgu m . Roeu
olh os , r oeu cou r o, r oeu ca r n e, r oeu u n h a s . Roeu os s os . Roeu
tudo. Uma fome de elefante na barriga de um rato.
Dois d ia s d ep ois , o d on o d a m er cea r ia volt ou a o t er r a ço e s ó
en con t r ou u m r a t o. Um filet e d e s or r is o es cor r eu p elo ca n t o
d a b oca d ele. Bem qu e o m u n d o t od o p od ia s er feit o d u m a
ju s t iça p oét ica a s s im    o r oed or , s en d o r oíd o, n u m a cois a d e
p r is ã o t u r ca e s er en a , p oes ia d e Ha m u r a b i e s u a s Doze
Tá b u a s Fla m eja n t es . S im s en h or . E le va i d a r ca b o d a qu ele
ú lt im o r a t ã o   s ó fa lt a lh e s u r gir ou t r a id éia , t ã o b r ilh a n t e
como a da gaiola.

Mo ral da His t ó ria: m or a l é cois a d e s it u a çã o; violên cia
doméstica não se domestica.
Franklin dos Santos Moura

                        SE    ELES S OUBES S EM !!!

Ma is u m a s ext a -feir a , e com o er a d e cos t u m e, lá es t a va m eles
em volt a d a m es a p a r a u m a r eflexiva r efeiçã o. Con t u d o,
n in gu ém s e a t r evia a d es a r r u m a r a m es a , en qu a n t o S a lva d or
n ã o ch ega s s e. E le gos t a va d e p r ofer ir a lgu m a s p a la vr a s , e
t a m b ém a gr a d ecer p elo a lim en t o d a qu ela h or a . Nã o t a r d ou
m u it o, e lá es t a va m t od os eles : fa m in t os , a legr es , e
ext r em a m en t e a t en cios os a S a lva d or . E s t e p or s u a vez, a p ós
a lgu n s m in u t os d e in icia d a a r efeiçã o, p ed iu a a t en çã o p lena
d e t od os p a r a con t a r u m s on h o. Pa r ecia u m p ou co
p r eocu p a d o, e is t o logo ficou vis ível qu a n d o foi a n u n cia d a s u a
in t en çã o. Im ed ia t a m en t e, t od a a t en çã o es t a va d is p on ível p a r a
ou vir e r eflet ir s ob r e s u a s p r eocu p a ções e a n s eios . Na qu ele
momento, a fome estava em segundo plano. Daí, disse o jovem
Salvador:

    -   Ca r ís s im os , n a n oit e p a s s a d a , t ive u m s on h o in t r iga n t e.
        Vá r ia s vis ões , e cois a s qu e ja m a is t in h a im a gin a d o.
        Gos t a r ia d e con t a r a vocês , e ju n t os , t en t a r m os
        entendê-la s . Tu d o com eçou qu a n d o eu em er gi n u m
        lago, e com ecei a ca m in h a r n u m a flor es t a . Nes s a
        flor es t a , a s en s a çã o er a d e gr a n d e p er igo, e vá r ios
        h om en s s e a p on t a va m com u m m et a l qu e em it ia u m a
        p equ en a fa gu lh a . Aos p ou cos , p u d e ver qu e a qu ela s
        fa gu lh a s r ep r es en t a va m d is p a r os , com o s e a lgo fos s e
        la n ça d o r a p id a m en t e. Nã o d em or ou m u it o, e p er ceb i
        qu e a s p es s oa s          a t in gid a s ca ia m p r a t ica m en t e s em
        vida...Fiquei admirado, mas não entendia por que aquilo
        es t a va a con t ecen d o. Im a gin em s ó, p es s oa s s e m a t a n d o,
        p or qu ê? De r ep en t e, u m a á gu ia fis gou m eu s om b r os e
        comecei a vis u a liza r t u d o p or cim a . Con fes s o qu e s en t i
        u m a for t e t r is t eza , p ois p a r ecia qu e o m u n d o er a
        h a b it a d o p or m on s t r os . Nã o m u it o d is t a n t e, vi
        m a s s a cr es on d e u m a n u vem d e fogo d eva s t a va en or m es
        áreas: pessoas, animais, plantas...tudo sendo destruído.
        E u m e p er gu n t a va qu e m u n d o er a a qu ele ? Olh ei p a r a
        cim a , e o céu t r a n s m it ia u m a en or m e a n gú s t ia . Ped i à
        á gu ia qu e m e s olt a s s e, e ca í n u m loca l on d e a s p es s oa s
        es t a va m a p r es s a d a s , n er vos a s , e d ep r im id a s . As ves t es
eram bem diferentes das nossas, e eles entravam numas
        ca r r oça s d e m et a l e color id a s p a r a s e locom over .
        Ha via m á r vor es d e p ed r a en or m es qu e qu a s e
        a lca n ça va m o céu . Qu a n d o a d m ir a va u m a d es s a s
        á r vor es , vi u m a p es s oa t en t a n d o voa r , s a lt a n d o d o t op o,
        ... d e b r a ços a b er t os . E s t a va p er p lexo, e p r ecis a va fa la r
        com a lgu ém , e p er gu n t a r o qu e es t a va a con t ecen d o,
        m a s n in gu ém m e ou via . Dep a r ei-m e com u m a m u lh er ,
        a t é s im p á t ica d ia n t e d a qu ela s p es s oa s , e com o con s egu i
        s u a a t en çã o, logo p er gu n t ei: - O qu e es t á a con t ecen d o
        a qu i? On d e es t á a h a r m on ia , a a legr ia , o a m or d este
        m u n d o? E la           s im p les m en t e b a la n çou         a     ca b eça
        n ega t iva m en t e, e m e d eu a s cos t a s . S egu r ei-a p elo
        b r a ço, e ela com lá gr im a s n os olh os r et r u cou : - Qu em é
        você? De qu ê p la n et a você veio? E s s a s p a la vr a s n ã o
        s ign ifica m n a d a p or a qu i...s in cer a m en t e, já for a m
        esqu ecid a s .Vivem os u m a ép oca qu e p a is e filh os s e
        m a ta m ,          ca s a m en t os         es t ã o       d es a cr ed it a d os ,
        a com p a n h a d os d e fom e e d es em p r ego, qu e d en t r e
        outras coisas, fazem parte do cotidiano. Agora, deixa-me
        ir , p ois p en s ei qu e você fos s e u m clien t e, e n ã o p os s o
        p er d er t em p o...p r ecis o ga n h a r o d ia . Mes m o n ã o
        en t en d en d o b em a qu ela s p a la vr a s , con t in u ei a
        caminhada pela floresta de pedra. Curiosamente, alguns
        m e joga r a m a lgu m a s m oed a s , m a s eu n ã o en t en d ia
        p or qu e. Ca m in h a n d o p ela s es t r a d a s vi u m m u n d o
        d ifer en t e, e qu a n d o s en t ei u m p ou co p a r a d es ca n s a r ,
        u m s en h or a lt o, com ves t e es cu r a e p ele b em cu id a d a ,
        s e a p r oxim a e p er gu n t a : - Qu er ga n h a r u n s t r oca d os ?
        Pr ecis o qu e leve es t a en com en d a a t é....Foi a í qu e
        acordei.

Tod os es cu t a r a m a t en t a m en t e o S a lva d or , e qu a n d o ele
t er m in ou , a a p r een s ã o er a ger a l. J oã o Ba t is t a , t en t a n d o
a m en iza r t od a a s it u a çã o, d is s e: Ach o qu e você vem
t r a b a lh a n d o d em a is . É m elh or t ir a r a lgu n s d ia s p a r a
d es ca n s a r . Ped r o e Tia go p r efer ir a m in t er p r et a r o s on h o (qu e
m a is p a r ece u m p es a d elo) e con clu ír a m qu e p od er ia s er
a lgu m a p r ofecia s ob r e os Rom a n os . Algu n s m in u t os d ep ois ,
S a lva d or es t a va m a is ca lm o, e a p ós u m a t a ça d e vin h o,
r et om ou a p a la vr a : - Acr ed it o qu e es t e s on h o t en h a s id o u m
a vis o. Nã o p a r a a n os s a ép oca , m a s p a r a u m t em p o qu e
possivelmente virá. Isto é, somente virá se as nossas sementes
for em n ociva s à h u m a n id a d e. Dia n t e d is s o, s in t o-me
t r a n qü ilo, p ois s ei o qu e ca d a u m d e vocês t em gu a r d a d o n o
cor a çã o. Nós s om os a s s em en t es d o a m a n h ã . Um a m a n h ã d e
harmonia, igualdade, confiança, respeito, esperança e fé.


Nã o h ou ve qu em n ã o con cor d a s s e com o S a lva d or . Tr a t a va -se
realmente de um sonho, e todos estavam ali contribuindo para
u m m u n d o m elh or . A r efeiçã o p r os s egu iu , com o d e cos t u m e, e
a fom e h a via r eceb id o u m for t e es t ím u lo. O s ilên cio er a t ot a l,
a t é qu e Ped r o olh a p a r a J oã o e p er gu n t a : - Tu vis t e o
m om en t o qu e J u d a s s a iu d a m es a e m in u t os d ep ois volt ou
com u m s a co d e m oed a s p en d u r a d o n a ves t e? Rep a r a s t e
t a m b ém qu e ele es t a va in qu iet o a p ós o r et or n o? Com o s er á
qu e ele ga n h ou a qu ela s m oed a s ? In es p er a d a m en t e (com o s e
t ives s e es cu t a d o o com en t á r io), S a lva d or , com u m t om
m ela n cólico, vir a p a r a J u d a s e p er gu n t a : - E t u J u d a s , o qu e
achastes do sonho?
Anaximandro Amorim

                           O TELEFONEMA
          Pedro encontrou a namorada em prantos.
          - O que foi amor?
          - Quem é essa Janaina?
          - Quem?
          Indagou, confuso. A moça não se deixou abater:
          - Nã o s e fa ça d e b ob o. Diga , qu em é es s a t a l d e
Janaina?
          - Ma s eu n ã o con h eço n en h u m a J a n a in a ! excla m ou o
r a p a z, d es es p er a d o. Olh ou p a r a a n a m or a d a : a m oça es t a va
com a s t êm p or a s ver m elh a s ; p a r ecia h a ver ch or a d o u m r io e,
ofegante, agora soltava fogo pelas ventas.
          - Ligou p a r a você a in d a a gor a u m a t a l d e J a n a in a .
Deixou r eca d o e t u d o m a is . Vozin h a m ole, jeit in h o d e
oferecida.
          O r a p a z n ã o p od ia a cr ed it a r ! Aqu ilo er a u m com p lô
con t r a ele. Qu em p od er ia s er ? Algu m ex-namorado d ela ? Um a
vizin h a en ca lh a d a , qu e t in h a in veja d o n a m or o d eles ? Ou
s er ia a lgu m colega d o fu teb olzin h o d e t od os os fin s d e
s em a n a , qu er en d o colocá -lo em m a u s len çóis ? S ó p or qu e ele
er a o a r t ilh eir o d o t im e, d is p a r a d o. Aqu ilo s ó p od ia s er
armação!
          - Ma s a m or ! E u já d is s e qu e n ã o con h eço n en h u m a
J a n a in a ! Você t em qu e a cr ed it a r em m im , b en zin h o! d is s e, e
foi d e a ch ega n d o à n a m or a d a , qu e o r ep u ls ou , es t ica n d o o
braço. E, com o semblante em riste, sentenciou:
          - Está tudo acabado, Pedro! Tudo acabado entre nós!
          - Ma s com o, com o m eu a m or ? E t od os es s es a n os
juntos? E os nossos planos?
          - Nã o vou fica r d ivid in d o você com n in gu ém . Ter m in ou .
Chega!
          A n a m or a d a er a d u r a n a qu ed a ! Ciu m en t a , b r iga va p or
qu a lqu er cois a . E r a gen ios a , t in h os a , qu a n d o s e d ecid ia , n ã o
h a via qu em a con ven ces s e. E le t eve en t ã o u m a id éia , u m t ir o
de misericórdia.
          - E s t á b em ! Você fa lou qu e es s a t a l d e J a n a in a a ca b ou
de me ligar, não é? Foi o último número?
          E a namorada só balançou a cabeça, fazendo que sim.
          - Então escute só.
Tir ou o fon e d o ga n ch o e a p er t ou u m b ot ã o qu e d is cou ,
a u t om a t ica m en t e, o n ú m er o gr a va d o n a m em ór ia . S eja lá o
quem fosse, ouviria umas boas.
           Uma voz de criança atendeu, ingênua:
           - Alô?
           - E s cu t a a qu i? Qu em é você p r a fica r liga n d o p r a m in h a
namorada, hein? Sua sirigaita... e despejou cobras e lagartos
n o in fa n t e qu e, m u d o, n ã o h a via a p r en d id o s equ er m eia d ú zia
das palavras que o rapaz despejou em seus ouvidos.
           E xa s p er a d o, Ped r o, p a r a t er m in a r , b a t eu o t elefon e,
dando à sua peroração um ar de gran d fin ale. A namorada, do
s eu la d o, d es fez a t r om b a . Um a r d e ca n d u r a t om ou con t a d o
seu semblante. Parecia tê-lo conhecido pela primeira vez.
           - E u s a b ia qu e você n ã o t in h a feit o n a d a d e er r a d o. - e
jogou-s e n os b r a ços d o n a m or a d o, im p lorando:- Des cu lp e-me,
desculpe-me.
           - O que é isso, amorzinho! Não precisa se desculpar.
           - Nã o, p r ecis o s im ! O qu e eu p os s o fa zer p a r a con s er t a r
meu erro?
           - Bem...
           Ficou b oa zin h a p or m u it o t em p o, a ceit a n d o a t é o
fu t eb olzin h o d ep ois d o h or á r io e a s s a íd a s com os a m igos ,
t od os os fin s d e s em a n a ; Um d ia , p or ém , r es olveu m a n d a r
t u d o p a r a a s fa va s . Foi qu a n d o u m a ta l d e Ma r cela d eixou
r eca d o p a r a Ped r o qu e, d es es p er a d o, ligou d e volt a p a r a o
n ú m er o, a gin d o d a m es m a for m a . Tu d o s e r es olveu e, em
t r oca , ele con t in u ou com s eu fu t eb ol e s u a s s a íd a s com os
a m igos . E a s s im ela foi leva n d o s em n u n ca en t en d er p or qu e
t a n t a s m u lh er es p r ocu r a va m p or ele, p or en ga n o, ju s t o
quando voltavam a brigar.
Ezequias Miller

                                  MULHERES
Algu m a vez você já t en t ou en t en d er a s m u lh er es ? S e a
r es p os t a foi s im , a ch o qu e n a qu ele m om en t o a in s en s a t ez
t om ou con t a d e você. E s e você con t in u a s s e eu d ir ia com o u m
n ã o en t en d ed or d e m u lh er es qu e você con t in u a r ia s em
entendê-la s . E s e fos s e o ca s o, a lgu m a s p es s oa s o in t er n a r ia
em u m a clín ica p a r a cu r a r o ou os t r a u m a s qu e es s e n ã o-
en t en d im en t o p od er ia m lh e ca u s a r . Qu a n d o b u s ca m os
en t en d er m u lh er es s ign ifica qu e n ã o es t a m os p r ep a r a d os p a r a
tê-la s . Is to é fa t o. É m a is fá cil s e p er d er n o en t en d im en t o d o
qu e n o n ã o-en t en d im en t o. As m u lh er es n ã o s ã o d e ou t r o
planeta. Os homens também não. Eles vivem trocando olhares
o t em p o t od o. Olh e p a r a u m a m u lh er n o ôn ib u s . Qu a n d o ela
olh a p a r a você, p od e n ã o s ign ifica r a qu ilo qu e você qu er
r ea lm en t e en t en d er . E la p od e es t a r t e a ch a n d o b on it o d em a is
ou feio d em a is . E la p od e a ch a r a s u a r ou p a m a r a vilh os a ou
n ã o. E la p od e qu er er n a m or a r com você ou n ã o. Pod e qu er er
fa zer s exo com você ou n ã o. Pod e qu er er t e ven d er a lgu m a
cois a ou n ã o. Pod e t e s ed u zir ou n ã o, m u it a s vezes d ep ois d a
s ed u çã o vem o n ã o, o n ã o s e en t r ega r , o n ã o n a m or a r , o n ã o
casar o não viver ao seu lado. Ela pode estar fazendo isso para
s a t is fa zer o p r óp r io ego. E la p od e t a n t a cois a qu e eu n ã o
en t en d o. Aí es t á a ch a ve. O n ã o en t en d im en t o. O n ã o
en t en d im en t o p od e n os fa zer a ceit a r a s cois a s com o s ã o. Ou
p od e n os leva r a lou cu r a , s im p les m en t e p or n ã o en t en d er m os .
Ma s é u m a lou cu r a s ã . Is s o eu a ch o. Ma s exis t e lou cu r a s ã ?
Loucos são loucos e são tratados como loucos.

Mu lh er es s ã o d e vid r o, d e p a p el, d e m et a l, d e á gu a , d e p ed r a ,
de fogo, de ar, de cores e muito mais, pois para mim todas são
n a t u r a is . E o qu e é n a t u r a l n ã o t em d e s er com p r een d id o.
Tem d e s er a ceit o, s ó is s o. Tem d e s er a ceit o. Qu a n d o
aceitamos algo, esse algo pode nos tornar agradável. E assim é
fá cil d es eja -lo. E o d es ejo é a lgo or gâ n ico? S im , p or qu e n ã o.
Ma s o d es ejo p od e s er a lgo m a is d o qu e or gâ n ico. Pod e s er
m á gico. Acr ed it o qu e é m á gico. Há a lgo d e m á gico s im . E n t ã o
a s m u lh er es s ã o m á gica s . Má gica s p or n a t u r eza . É a lgo qu e é
mágico é indesvendável. Portanto se elas são, elas apenas são.
Não precisamos compreende-las. Pois mágica é mágica.
Entendeu as mulheres?
Marcelo dos Santos Netto

                         VAI VER QUE S IM
Lem b r o d a ú lt im a vez qu e m in h a m ã e t en t ou s er in ven t iva .
Pa s s ei u m a r a iva d a qu ela s ; m a s t a m b ém s en t i p en a . Foi
a s s im qu e a p r en d i: o ca s a m en t o é u m a in ven çã o d o s ilên cio.
Os bichos assim unidos querem apenas se ignorar em paz, até
qu e a m or t e os s ep a r e ou t r a vez. Ap es a r d is s o, m in h a m ã e
es t a va s em p r e in ven t a n d o. E s ó d es is t iu n es s e d ia t r is t e,
qu a n d o en fim p a s s ou d a con t a . O qu e t er ia a in s p ir a d o?
Imaginei que o tempo me faria entender. E realmente fez.
Na qu ela m a n h ã , m in h a t ia m os t r ou a ela u m a m á qu in a
a b ot oa d or a . Com u m golp e d e a la va n ca , b ot ões d e p r es s ã o s e
a ga r r a va m a o t ecid o qu e fos s e. Lem b r o qu e a m a r ca d o
a p a r elh o er a a lgo com o Vigor eli . Ch a m a va m o m od elo d e
  Rob ô , p or qu e os r ob ôs p a r ecia m s er a s olu çã o p a r a t u d o
naquela época.
An t es d a Vigor eli, os b ot ões t in h a m d e s er cos t u r a d os e a s
roupas, caseadas. Dava muito trabalho. Não havia mulher que
gos t a s s e d e ca s ea r s em con t a r qu e er a m u it o ch a t o en s in a r
os filh os a a b ot oa r em a s p r óp r ia s r ou p a s . Foi p or is s o qu e
m in h a m ã e s e en ca n t ou com a t a l m á qu in a . Ma s s e en ca n t ou
t a n t o, qu e p er d eu a t a r d e in t eir a fa zen d o u m a r ou p a m u it o
feia p a r a m im lis t r a d a e cin zen t a , d e u m m a u gos t o terrível.
Ma s is s o n ã o a in com od a va . Pa r a ela , cos t u r a r er a com o
a s s in a r a lgo d o qu a l s e d izia fu i eu qu e fiz . S ozin h a . E p r ega r
aqueles botões seria um ritual de alforria, de emancipação.
Por con t a d is s o, t ive d e fica r u m b om t em p o p a r a d o, feit o
manequim d e ver d a d e. Ou d e m en t ir a com o m en in o, n u n ca
t ive voca çã o p a r a a b eleza . Hoje em d ia , t en h o cer t eza d e qu e
m in h a m ã e n ã o cos t u r a va p a r a m im . Ma s es t a va t ã o
a cos t u m a d a a fa zer t u d o p a r a os ou t r os cozin h a r e p a s s a r e
limpar , qu e t er m in ou s e es qu ecen d o d o ób vio: cos t u r a r p a r a
si mesma.
Ter m in a d o o s er viço, m in h a m ã e p a r ecia feliz. Ch ega n d o em
ca s a , m eu p a i qu is s a b er o m ot ivo d a qu ela fes t a . E la o levou
a o m eu qu a r t o, on d e h a via m e es con d id o d en t r o d o gu a r d a -
r ou p a .      Ta -d á ! , ca n t a r olou , r evela n d o-m e en t ã o. Qu e
surpresa ingrata. Papai levou a mão à testa.
   Que roupa horrível é essa? Tira o menino desse trapo agora!
O m eu p a i, ele er a d e u m a a u t or id a d e ú n ica . Um h om em
s ólid o e ob jet ivo, com o u m cód igo p en a l. A p r es en ça d ele
s em p r e m e in com od ou . Afin a l, fu i u m ga r ot o d is t a n t e, p er d id o
em u m m u n d o d e s ím b olos qu e fiz s ó p a r a m im . Ain d a a s s im ,
fiqu ei feliz em cu m p r ir a or d em d o m eu p a i. Aqu ela r ou p a er a
mesmo triste.
Depois daquele dia, minha mãe nunca mais tentou nada. Nem
m es m o cor t a r o m eu ca b elo, cois a qu e ela fa zia s em p r e. E
m u it o m a l. S ei qu e d ever ia es t a r con t en t e. Ma s n ã o m e
a cos t u m ei a t a n t a p a z. S en t i fa lt a d e gem er m e d eixa ir
em b or a , eu qu er o é b r in ca r . Pod e s er qu e eu t en h a en t en d id o
a qu ilo com o u m d es p r ezo. Rea lm en t e, ja m a is con s egu i fica r
gra t o p ela in t er ven çã o d o m eu p a i. Dep ois d ela , é ver d a d e qu e
conheci alguma paz. Mas isso não vinha ao caso. Não sei onde
li qu e a felicid a d e n ã o es t á a p en a s n o b em -es t a r . Tive d e
concordar, mesmo em segredo.
          De qu a lqu er for m a , eu es t a va fin a lm en t e livr e. Pod ia
s a ir e ga s t a r o r es to d e m in h a s t a r d es ju n t o a o Felip e. Pa r a
fa la r a ver d a d e, eu n ã o gos t a va m u it o d ele, n ã o. Mes m o
a s s im , eu o p r ocu r a va . Nos s a b r in ca d eir a fa vor it a er a a d e
b r iga r . Rolá va m os n a a r eia d a s con s t r u ções fin gin d o cen a d e
p a n ca d a r ia , t ip o d a qu eles film es d e a çã o qu e p a s s a va m n a s
n oit es d e s á b a d o. E foi a s s im qu e com ecei a d es con fia r d e qu e
Felip e gos t a va d e m im . Mu it o. Ma s eu gos t a va m a is d a
Mich ele. S ó qu e o Felip e er a m en in o, a s s im com o eu . Fa zia
xixi d e p é. Gos t a va d e b r in ca r d e gu er r a . Br iga va e fica va
r ep r ova d o n a es cola . E com cer t eza s a b ia m a is s ob r e o qu e
nós, meninos, gostamos. Pois é. Senti-me dividido.
Gabriel Raposo

                                 F IGUEIRA

Figu eir a er a u m ga r ot o im p et u os o, s egu r o d e s i! Con vivia
com vá r ios a m igos . Leva u m ch oqu e a o s a b er qu e t u d o
a qu ilo qu e s u a fa m ília p os s u ír a n ã o er a r ea lid a d e, à m ed id a
qu e n ã o lh e p er m it ir ia con clu ir s eu s es t u d os m éd ios e d a r
p r os s egu im en t o à h er a n ça e a o en leva m en t o d a h is t ór ia
fa m ilia r . Figu eir a , qu e s e a ch a va b on it o e s u p er in t eligen t e,
m a s n u n ca t in h a a r r a n ja d o n a m or a d a e, t a m p ou co, b oa s
n ot a s , p or qu e s u a m en t e er a m a l com p r een d id a , a ch a va m a
s u a m ã e e ele, p r ep a r a va -s e p a r a o cu r s o d e od on t ologia
numa grande universidade, pois sua mãe lhe encucara isso.
Agor a , com o n u m s op r o d e ven t o r ep en t in o, ele s e
en qu a d r a va e r ot u la va -s e; a fa lt a d e d in h eir o fizer a
transformá-lo n u m m en in o con fu n d id o, p er d id o en t r e a s
m a is va r ia d a s cla s s es n om ea d a s . Cla s s es es s a s qu e n ã o
m a is a s en xer ga va com d is t a n cia m en t o d e s u p er m en in o. E
ou t r a s , a qu ela s ($ ), qu e d e t ã o lon ge lh e a r r ep ia va m os
cabelos lisos.
Lem b r a va ele d e qu e u m d ia viver a a vid a com o os
ver d a d eir os p la yb oys . E s en t ir a a n eces s id a d e d e con h ecer
uma garota a sua altura. Há mister de bom garbo e imbuída
de toda uma elegância finda, a que fora costumado. Não era
d e es p er a r -s e ou t r a cois a , d a d o qu e, com u m a ed u ca çã o
d a qu ela s , t u d o s e t or n a r ia o m a is leve s op r o d e a gr a d o p a r a
aquele corpo bem acostumado.
Com p let a va u m a id a d e d e r es p on s a b ilid a d e, e d e p r es en t e
ga n h a r a a ver d a d e. Um a r ecep çã o d e vid a a d u lt a ?
Comemor a va a gor a s eu d es p r en d im en t o com o p a s s a d o, o
qu a l n ã o lh e s er vir a p a r a m a is n a d a , a p en a s p a r a p a s s a d o,
lem b r a n ça s p or qu e, s eu r ela xa n t e n ot u r n o, en t r e s on h os
r ela xa va . E n o d ia -a -d ia cor r ia a t r á s com s u a s p er ip écia s
imaturas.
Ficou u m s u jeit o qu e ja z t a cit u r n o, m or ib u n d o e va d io.
Des ilu d id o e in s a t is feit o. Por qu ê? E xp lico! Pr es o n u m n ovo
s et or d e h u m a n os , u m a cla s s e m éd ia ilu d id a qu e s e a ch a va
em posição. Não há mulher que o suporte para com as suas
exigên cia s (n u n ca d eclin a d a s à s s u a s p a r ceir a s ) n em o
s a t is fa ça , a n ã o s er , a s m u it o fin a s , a s qu a is d e vez em vez
o p er ceb em gr a ça s à s u n h a s s u ja s d e p om a d a , n o p os t o d e
ga s olin a on d e t r a b a lh a . Pom a d a qu e com m u it o es for ço ele
s e d ign a va a com p r a r p a r a a m en iza r s eu s p r ob lem a s
psíquicos p u lu la va m n a p ele. S em for ça p a r a m a n t er u m a
p os t u r a , ele t or n a -s e a gor a u m in d ivíd u o a p á t ico: n ã o r i,
n ã o ch or a , n ã o ca n t a , n ã o t em a m igos n em r ea ções d e
s en t im en t o. S em p r e evit a va qu a lqu er con t a ct o com os
p a r en t es , p ou cos , m a s s em p r e a t en t os à s u a vid a , o qu e
m u it o o ir r it a va . Fizer a u m m u it o p a r a s er es qu ecid o, m a s
qu a lqu er con d u t a ch a m a va à a t en çã o d e s eu s fa m ilia r es ;
a t é m es m o p en s a r a em s u icíd io, a t o qu e ele r en ega va , d a d o
qu e u m a cois a d es s a s t r a r ia t od a a t en çã o d os p a r en t es , n o
m ín im o! Fica va en t ã o t en t a n d o m or r er em vid a , n ã o
d em on s t r a va n en h u m a exp r es s ã o fa cia l, s em p r e d e r os to
qu iet o. Pen s a va em a r r a n ja r u m a m u lh er s em m od os ? m a s
qu e ju n t os a ju d a r ia m u m a o ou t r o? n u n ca ! O qu e ele t er ia
d e b om a ofer ecer a ela s em d in h eir o!? S u a ed u ca çã o n ã o o
p er m it ia . E t en t a r fa zer u m cu r s o u n iver s it á r io qu e
r ep u t a va b a ixo, ele, n u n ca ! Tin h a feit o a m igos n a in fâ n cia ,
r icos e er u d it os , e n a h ip ót es e d e r een con t r á -los t od os b em
d e vid a , p r efer ia t r a b a lh a r n u m p os t o d o s u b ú r b io,
econ om iza n d o u m r es t o d e d in h eir o, n a es p er a n ça d e com
u m d in h eir o la u t o p od er r et om a r s u a in fâ n cia d e m en t ir a .
E m t u d o, s er es qu ecid o e a com p a n h a r a vit ór ia d os ou t r os
eram suas grandes e únicas diversões.
Lá ia Figueira. Mudara-se para uma cidade do interior fria.
As s im , d e ca s a cos ele s e s u m ia . Pa r a ir a o t r a b a lh o er a
s em p r e p on t u a l, n u n ca h a via s id o r ecla m a d o ou r ecla m a r
a lgo a s eu ch efe lembre-s e d e qu e n ã o ch a m a r a a t en çã o
alheia fazia parte, agora, do escopo de sua vida.
Nu m a cr is e econ ôm ica , Figu eir a t eve d e s er d em it id o, e com
is s o, logo p en s ou em t od a s a s econ om ia s qu e t in h a feit o. As
u s a r ia p a r a fin a n cia r u m p r ojet o, n ã o! Pa r a p a ga r a s con t a s
d e ca s a e s ob r eviver , n ã o! Tu d o er a m u it o in cer t o, com u m a
cr is e d es s a s , n ã o s e s a b e qu a n d o ir ia a ca b a r . E Figu eir a
p egou t od o o d in h eir o,           colocou -o n u m s a co, e p a r t iu
em b or a . Com t r ês d ia s n os om b r os , n ã o a gü en t a va d e fom e,
p en s ou em u s a r u m p ou co d o d in h eir o qu e a cu m u la r a p a r a
fa zer u m la n ch ezin h o. Nã o! S e em t r ês d ia s ele fr a qu eja s s e.
O qu e s er ia d a s p r óxim a s s em a n a s ? Fir m e, fit a va a vis t a
n os b a ld es d e lixo e execu t a r a o qu e p en s ou ..., p ois t in h a
u m a ed u ca çã o a u s t er a e d is cip lin a d a . Pa s s a d os cin co
m es es , o lixo e o es qu ecim en t o fizer a m d e Figu eir a u m
m en d igo a com od a d o. Agor a já n ã o ga s t a va o d in h eir o em
h ip ót es e a lgu m a ; s en t ir a -s e, com o n a in fâ n cia , r ico. Tinha
u m m on t a n t e d e d in h eir o qu e in veja va m os ou t r os (s e
s ou b es s em ). Ma s r ep et ia s em p r e em voz: qu e n ã o ga s t a o
d in h eir o p a r a n ã o fica r p ob r e; e levou es s e ver s o p or cin co
anos para junto dele ao túmulo.
E Figu eir a m or r eu , s os s ega d o e s em r em or s os , n u m
acid en t e, qu e ele m es m o p r ovoca r a , u m a cid en t e p er feit o d e
qu e n ã o h ou ves s e ch a n ce a lgu m a d e s ob r evivên cia ou
d eb ilit a m en t o. Do d in h eir o econ om iza d o, ele d eixou p a r a
s eu ir m ã o, o m a is n ovo, o qu a l ele a ch a r a t er u m a vid a
s em elh a n t e à s u a , m a s com o p or ém d os s on h os d a velh a
m ã e s er em m a ior es d o qu e os s on h os d a s cla s s es a lt a s . Ah !
Ma s ele t eve o cu id a d o d e o d in h eir o ch ega r à s m ã os d e s u a
m ã e, in cólu m e, ou s eja , n u n ca qu e ela cogit a r ia t er vin d o
das mãos dele.
E morre Figueira, sem rastro de personalidade, sem história
m a l con t a d a , s em b r iga s , s ep a r a ções e d es a fet os . Com o o
golp e d e ven t o r ep en t in o qu e levou ju n t o com s eu s s on h os ,
s u a p er s on a lid a d e, es p er a n ça , e t od a s a s p equ en a s p eça s
qu e com p õem a vid a h u m a n a . Va i-s e s em gr a n d es p om p a s ,
p r in cip a lm en t e p or n ã o t er con cr et iza d o os d eva n eios d a
mãe ou dado continuidade ao passado que de tão belo enjoa
e desagrada.
This document was created with Win2PDF available at http://www.win2pdf.com.
The unregistered version of Win2PDF is for evaluation or non-commercial use only.

Antologia livro

  • 2.
    Fernanda Rangel deAquino B RECHÓ Vendo: Roupas usadas, Sapatos usados, Homens usados... Sim...Homens usados! Seduzidos pelo meu decote E descartados pelo meu coração! Homens desiludidos? Não! Homens adoradores: Saias curtas, roupas justas, Lingeries e transparências. Fúteis bajuladores! Também não estão gastos! Podem ser reaproveitados, E, até mesmo, domesticados. São apenas usados! Homens que muito me satisfizeram, Mas agora não me servem mais. Usei, mas foi recíproco! Cansei e não os quero mais! Vendo sim! Homens usados Por um preço barato E uma única condição: Comprou está comprado! Eu não aceito troca, E muito menos devolução!
  • 3.
    Aline Mendonça P ALÁDIO Há também vermes nos sepulcros de mármore. Onde jaz tão quieto a sono profundo. Tu a lm a p equ ena, esguia e na lápide Tão pobre, descrito, em letras de sabre. Quem és vencedor, na eterna rotina? Da vida vazia, carregas teu fardo! Num sonho perdido, entregaste a safira Tão qual preciosa, tão leve, tão fraco... Quebraste o silêncio, de penas, de chamas... As flores tão mortas, tão secas estiveram. Não cheiram, não brotam na terra abatida. Só os vermes que vivem, e seguem sua vida!
  • 4.
    Aline Mendonça S ONETO DA ÁS DE C OPAS A princesa de copas não sabe quem é Em seu paradoxal caos pessoal tenta de alguma forma, a si mesma encontrar mas tudo o que encontra é sua maldição é minha maldita, doce princesa de copas Em sua cruzada por amor e libertação Teme jamais encontrar qualquer benção No seu caminho de dor e desolação Mas corre esta trilha até seu final b usca pelo seu reino, cara princesa e lá soberana terá poder para reinar Lá sua maldição conseguirá quebrar Seu beijo não será mais venenoso e assim, doce e maldita, livre estará.
  • 5.
    Franklin dos SantosMoura D ES ES PERO P OÉTICO Papel, caneta, cadeira confortável, uma taça de vinho, algumas lembranças. Tudo pronto para o conhecido e prazeroso ritual, é a hora da magnífica viagem pelo mundo das palavras. O tempo passa, e a inquietação toma forma. As palavras surgem sem sentido, as idéias fogem. Boas músicas são ótima inspiração, m a s o b a r u lh o a t r a p a lh a , e o p a p el con t in u a vir gem s ob a mesa. Lem b r a r d e p en s a m en t os , t em a s s ocia is , uma a n t iga namorada, tudo parece tão normal e conhecido. Os jornais já trazem estas poesias, enquanto isso a terceira taça encontra-se vazia. Acendo um cigarro, olho pela varanda. Pessoas caminhando, natureza e prédios. Carros quebram o silêncio, crianças o sossego, e a criação permanece muda, inerte. A primeira garrafa de vinho entorpece os pensamentos, o es t a d o d e leveza é o m elh or ca m in h o p a r a en con t r a r a s palavras. Na lon ga ca m in h a d a p ela s a la , d ep a r o-m e com u m á lb u m d e fotografias. - O passado é o celeiro das poesias ! Vejo antigos amigos, amores. Ao invés de inspiração, recebo a tristeza. Tristeza, talvez o melhor dos temas. Quando declamei minha idéia, as palavras voaram pela janela. Percebo uma leve camada de poeira sobre a intocável folha. Decid o com eça r u m a fr a s e e a o n ã o con s egu ir d er r a m o a sétima taça de vinho. A folha manchada de vinho, e a vida manchada de sangue.
  • 6.
    Seria um ótimotema, se o cotidiano não fosse tão real. Desisto? Não! Talvez a esperança seja um bom tema. E s qu eço! O n a t a l e os p olít icos já fa la m d em a is s ob r e esperança. Traição! Este tema nunca saiu de moda... m a s m in h a s fer id a s im p ed em m in h a s m ã os d e d es en h a r u m a só palavra. Então esqueço que nesta noite sou poeta ! Se não tenho palavras, não tenho nada. Sou um pobre embriagado, numa varanda ao fitar o mundo. S ou u m s on h a d or , qu e m a l con s egu e er gu er a qu a r t a ga r r a fa de vinho. Que o próximo amanhecer traga a nova poesia, ou pelos menos um motivo, um tema. Pois, se não tenho palavras, não tenho nada. Se não sou poeta, não sei o que sou. Guardem o vinho, por favor !
  • 7.
    Gabriela Zorzal A MINHA P OES IA . A poesia sai dos meus pensamentos Pura, leve, bela. O verso sai feito, sem defeito, As palavras também feitas, perfeitas, O poema todo em rima, obra prima. Há quanto tempo que não escrevia. O verso que havia se perdido, Voltou arrependido, As palavras antes escondidas, Também voltaram arrependidas. O poema antes inexistente, Agora sai facilmente, perfeitamente... Eu voltei a escrever, A poesia voltou para os meus olhos, para minha vida, Sinto como renascer.
  • 8.
    Lorena Colodette Pessanha ENTEQUERIDO Depende... Há algo que pende, e tende no ente a fitar demente o toque. Doente? depende do Ente Galgar o aparante, roçar, contente a pele que surpreende.
  • 9.
    Priscilla Reges Ferreira O LHO D E PEIXE , PÉ DE COELHO Quando ouvi meu nome sendo chamado Não acreditei. Atravessei os portões de Arcádia Para encontrar A minha vida através do espelho. Deitei na relva da minha alma e sonhei Que tomava chá com o que havia sido De mim num passado remoto de um futuro distante... Quando acordei percebi Que o meu espírito voava livre Como as borboletas e cantava Como os pássaros Então abri minhas asas pra voar E caí no mar azul do céu E ao mergulhar percebi Que o segredo do universo É a vida! E surpreso com a descoberta Despertei todos os sentidos Dei um suspiro profundo E acendi um cigarro pra descansar. A fumaça elevou meu ego ao infinito E tudo o que era Eu Deixou de ser Para se tornar Tudo. Então o Gato Careteiro deu uma gargalhada E destruiu todas as barreiras E nada mais era mistério E tudo fazia parte de todos E as fadas podiam voar novamente Levando em suas asas O pó que restara de mim mesmo.
  • 10.
    Brendda Dos SantosNeves S OU VERS OS S OLTOS Mundos distintos povoam meu coração... Ao despertar do sol sou casulo; Rua sem tumulto Relógio sem horas... Caio em mim! Quem sou? Hoje... Amanhã e sempre... Em toda parte A cada instante Saio de mim! _Sou eu meu amor.... Minha mente é um quadrado: Lados perfeitos da mesma moeda, Sem portas nem janelas... Sou verso só sem sol sem casulo! Presa em tuas muralhas Ouço apenas o cair da chuva, Rítmico e constante... Como o coração de um assassino calculista... Saio de ti! Sinto meu corpo dormente e pesado, Saindo de um coma profundo... Os pensamentos estão desconexos, Aos poucos recobro minha identidade: Sou EU... _É você meu amor? Deixo por trás da névoa Uma face de menina Perdida entre sombras...
  • 11.
    Teu sorriso somente Aumenta minha agonia... Sou casulo! Doce sonho que findou! Teu amor-borboleta Bateu asas e voou! Desperto e sinto o sol se pôr... Sou versos soltos... _Amor?!
  • 12.
    Thalita Ferreira ½ Assim como a lua é cheia E não meia Não há como ter apenas meio Ter a metade Apenas a parte de um todo Pois se o todo é perfeito A metade será sempre imperfeita, Incompreensível, inapta... Onde estará o completo, o preenchido, O acabado, o total, quando só se oferece parcialmente A parte, retamente dividida? Afinal, de que vale ter meia Meia-água, meia colher, meia tigela? De que adianta possuir Meio-dia, meio-fio, meio-termo? Se lhe falta o inteiro, o concluído, Vivendo toda uma vida Não deixando partes para trás, Pois viver apenas meia vida É como deixar de viver!
  • 13.
    Gabriel Raposo MEL E V IOLÊNCIA A RMADA Embora a doce abóbora dos meus sonhos Esteja ela indo embora dessa paragem, Da brincadeira em muita meia margem Fugiu-se a laranja do abraço do enfadonho. Gaveta que abre sem se ver; porém É amarelo pra tudo quanto é lado Ao gentil, ainda que sim, emulado, Rabiscando os traços de meu alguém. Tem-se feito ao beliscão de voada baixa, No verão de meia cor, todavia, natural. Foste ao enterro de tuas últimas lembranças Conspurcada dos dejetos da mendicância Ao ver-me partido pela cretina má vontade Tua quase presença vigia a insegurança De uns farsistas jogados à caricatura De servos da alegoria qual blá-blá.
  • 14.
    Flávia Barcellos depassos POETA O poeta tem na veia A sede de escrever Ele apenas semeia Essa forma de viver A escrita é um desabafo E a cada linha um relato Talvez de amor Talvez de felicidade Quem sabe relate a dor Ou apenas a vida em sociedade É poeta, quem vê com o coração É poeta, até mesmo quem não respeita a razão Sou poeta!!! E qualquer um pode ser Para ser poeta Não é preciso saber escrever A poesia está no sentir E se constrói no imaginar A poesia está na vida E poeta, é quem sente o ar Ou quem consegue perceber Que poesia é viver...
  • 15.
    Gabriel Raposo O DE AO AMOR PURO 0 Embora a doce abóbora dos meus sonhos Esteja ela indo embora dessa paragem, Da brincadeira em muita meia margem Fugiu-se a laranja do abraço do enfadonho. Gaveta que abre sem se ver; porém É amarelo pra tudo quanto é lado Ao gentil, ainda que sim, emulado, Rabiscando os traços de meu alguém. Tem-se feito ao beliscão de voada baixa, No verão de meia cor, todavia, natural. Foste ao enterro de tuas últimas lembranças Conspurcada dos dejetos da mendicância Ao ver-me partido pela cretina má vontade Tua quase presença vigia a insegurança De uns farsistas jogados à caricatura De servos da alegoria qual blá-blá-blá.
  • 16.
    Anaximandro Oliveira SantosAmorim SONETO DE F ANTAS IA (para minha afilhada Jade) Dorme princesinha! Um carrossel Espera por ti na Terra-dos-Sonhos! É tão fácil de ir! Fecha teus olhos E põe as mãos nas de Papai-de-céu! Confia em mim! Um lindo corcel Alado virá durante teu sono! Nele, vais partir! E o teu risonho Anjo da guarda abrirá teu dossel! Irás até um mundo encantado Onde os relógios vivem quebrados Para a brincadeira nunca ter fim! Mas para o anjo abrir teu cortinado E dar o teu lindo corcel alado, Fecha os olhos, princesa. E vai dormir!
  • 17.
    Franklin dos SantosMoura S AUDAÇÕES AO VELHO P ARKINS ON Entre, sente-se a mesa sirva-se a vontade. Leve meu ânimo, minha alegria e me dê a esperança de mais um dia. Já faz algum tempo, não sei se lembras. O primeiro tremor foi na mão que escrevo. A juventude permitia-me ignorar, era apenas um tremor, logo passa. Mas logo atacaste minhas pernas, e com isso pouco consegui segurar meus filhos. O incômodo da muleta, da bengala foi logo substituído pelo conforto da cadeira de rodas. Meus amigos desapareceram, sabia ? Que tipo de amizade teriam com um inteligente inválido ? Com o tempo minha taça virou caneca, não foi muito difícil vencer a guerra dos canudos. Sentia medo quando o peito ofegante não permitia a voz sair, não conseguia conversar, que dirá discutir. Reconheço, você conseguiu ! Confesso que não estou derrotado. Vejo que você também treme, suas pernas, seus braços, sua face abatida e sombria... Seu prazer é ignorante e inútil. Tenho lembranças do meu trabalho, da minha outra vida. Ajudava pessoas, vivia um dia após outro. Contudo, tudo foi em vão... Sou apenas um objeto decorativo na sala da casa que construí. Já não escuto, respiro, durmo...velho maldito.
  • 18.
    Vivo agarrado amisericórdia de pessoas que nunca vi, mas e você, velho inútil, agarra-se em quê? Não vejo muletas, garrafas, nem bengalas. Olhe para mim! Veja o que sou! Sou mais um tentando saber o que aconteceu, sou um monte de nada sem sustentação, sou o primeiro a atirar a pedra e o primeiro atingido. Não sorria assim velho maldito, não brinde com o meu desespero. Não terás a vitória, pois ainda sou fé e você é somente o destino. A hora ainda não chegou, vá embora ! Fúnebre silêncio! A inércia dos móveis e meus inúteis involuntários movimentos. A estatueta de porcelana mergulha rumo ao tapete. Meu movimento: em vão. Mudanças são necessárias. é melhor sair da frente desse espelho...
  • 19.
    Hanor F. C ARAS D EMAIS ! Cansei! É! Cansei... !!! De ouvir os outros, de falar dos problemas deles, dos relacionamentos deles, de falar de mim. Do que quero, do que vivi, - chega de falar de mim... Não quero mais essas conseqüências, então resolvi parar com es s a p r ocu r a id iot a p or u m a p es s oa es p ecia l s im p les m en t e p or a cr ed it a r qu e ela exis t e . Existe droga nenhuma! Existe um monte de pessoas querendo satisfazer como eu seus desejos carnais. Querendo saciar suas mãos em corpos gostosos de se tocar. Existe sim, um monte de vermes inescrupulosos que con s egu em s a cia r es s a s fom es d e con t a t o fís ico. Mas, não quero falar deles: Talvez eu me pareça mais com eles do que julgo. Tranquei-me! Pronto! Tranquei-me, e, não há chave, não há outras en t r a d a s , n ã o h á s a íd a s , n ã o h á n in gu ém d o la d o d e d en t r o desse meu mundo. Que se danem todos os conceitos de felicidade,de amor próprio. Do amor com letra minúscula mesmo que para ser r eceb id o p r ecis a s er d a d o s em qu a lqu er id éia d e r et r ib u içã o . Isso aqui é um desabafo! Sim! Um grande desabafo. Por que como disse outrora, agora vai ser assim: entre eu e o papel, es s e p á lid o p ed a ço in er t e d e p a p el . Não quero mais diálogo, não quero mais contato, e que venham as conseqüências que já não são diferentes das de agora, quando a busca também me devora.
  • 20.
    Não quero gritar,não quero falar, não quero amar. Nã o qu er o d r oga n en h u m a d es s e m u n d in h o ch eio d e es cr ú p u los . É, não quero mesmo! E não vou me arrepender! Não quero pena, não quero compaixão, não quero ódio nem rancor. Qu er o s olid ã o! Pois es s a , eu n ã o p r ecis o b u s ca r : já t en h o E de sobra! Vou trabalhar mais, mesmo que sem entusiasmo. Vou me ferrar nesse aspecto repugnante de vida, e se quer saber? Da n e-s e digo de coração! Eu posso ser um bom acompanhante para mim mesmo. Vou m e cu r t ir m a is , e s e a lgu ém t iver qu e m e d es t r u ir , qu e eu s eja o ú n ico cu lp a d o! Não quero sorrir, não farei sorrir. Não quero...não quero...não!...quero! Princípios? Não os tenho mais... Conceitos? Para mim tanto faz... Conselhos? Ninguém os ouve, nem mesmo eu que os tanto procuro. Não existe felicidade! Não existe amor! Existe a realização de fantasias, quereres, desejos. E xis t e a t r oca d e fa vor es ;exis t e o ód io, a vin ga n ça , o m ed o! Existe um m on t e d e cois a s va lios a s ... Mas não quero mais saber de nada que vem do coração, esse desprezível ícone da dor e da vida, esse desprezível ícone do amor..., a.m.o.r. Qu e lin d in h o, ele es t á a m a n d o ; S ã o con s eqü ên cia s m eu ca r o, a m or leva a es s a s conseqü ên cia s ; Vá em fr en t e, a m e e d eixe-s e a m a r .
  • 21.
    Filos ofia sd o a m or ...Cois a s t ã o a b s t r a t a s qu a n t o a a b s t r a çã o da vida. Conheci pessoas loucas nesses últimos dias, não últimos de tempo anterior há esse dia, mas sim tempo de últimas experiências, de últimas concorrências. Vou s egu ir s ozin h o...e...m u n d o... - não quero ninguém, não qu er o n in gu ém ... . Feia ou bonita, branca, negra, inteligente, burra, inconseqüente, crente, ateia, não quero platéia, não quero amigos, não quero inimigos, não quero sexo, carinho, beijos. Não quero olhar, não quero falar, não quero ouvir. Não quero nada! Porque não quero pagar por nada dessas coisas. Por que quer saber ? Pra mim, S ã o ca r a s d em a is .
  • 22.
    Gabriela Zorzal N ÃO ME CONF UNDE MAIS Eu estava tentando acertar as coisas E você veio de novo e atrapalhou tudo! Não posso trocar um amor certo Por você totalmente confuso. Não me confunde mais... Eu quase mudei todos os meus planos, E eu ia me magoar tanto! Não me confunde mais... Por que meu coração não pode mais se quebrar Quando eu não tenho nem forças pra recomeçar Não me confunde mais... Deixa-me te esquecer Antes de me arrepender Não me confunde mais... Antes que eu me entregue E seja tarde demais pra eu voltar atrás.
  • 23.
    Joacles Costa Bento INSTANTE C a d a h o r a s e i q u e n ã o vo lt a m a is . C a d a m in u t o , s e i q u e é in c o n s t a n t e . C a d a s e g u n d o d is p e r s o n o t e m p o , s e i q u e é s ó u m in s t a n t e . O t e m p o n ã o e s t á a m in h a e s p e r a , p o r is s o e le n ã o p á r a , p a r a q u e a c a d a s e g u n d o , m in u t o e h o r a , n ã o s e ja m o s m e s m o s e n o e s p e lh o d e m in h a vid a , o b s e r vo o s a va n ç o s c r o n o m e t r a is d o t e m p o . . . e m in s t a n t e s .
  • 24.
    Fernanda Rangel deAquino F ORA DE S INTONIA S o u u m s e r a s s it u a c io n a l ! Nã o s ig o r e g r a s c o n ve n c io n a is J á q u e a s p r ó p r ia s s it u a ç õ e s S ã o m o vid a s à s u p e r fic ia lid a d e Q u e vid a s e m g r a ç a ! P r e c is o q u e b r a r a s r e g r a s , B u r la r lim it e s , In va d ir e s p a ç o s . . . Ar r e g a la r o s o lh o s D o s q u e m e o lh a m d e s a c r e d it a d o s . P r e c is o p e r d e r m e u s p a s s o s , P is a r n a s le is , Lu t a r c o n t r a a s n o r m a s , Ne g a r a p r ó p r ia n o r m a liz a ç ã o , P o is lo u c o s . . . s o m o s t o d o s ! E s t o u fo r a d o a lc a n c e , C a n s a d a d e c o n c e it o s , À p a r t e d os con t ext os , Le ilô o a vid a Nu m ú n ic o la n c e . A in é r c ia d a s s it u a ç õ e s m e d e s g a s t a , Ap r is io n a , d e vo r a . . . M a t a . S ou a s s it u a c io n a l , s im , Ma s d e a lm a . . . Por qu e o m eu cor p o Ain d a e s t á p r e s o a q u i!
  • 25.
    Lindemberg O. Gomes LEMBRANÇA Sonhos de amor, sois como a rosa (O Dia Seguinte do Amor) V. de Carvalho Penso no passado sua imagem se apresenta Lembrança cruel de um feliz momento. Men in a n ã o r ecob r a o s en t id o, De u m a n jo despido, In s en s a t ez ju ven il, a ob r a r o fir m a m en t o . Olhos negros de feição ardil, Brilham qual lua cheia, em noite primaveril. Lábios ardentes em fulgor, Con s om em m in h a lm a em b r a s a s . Longos cabelos a embalsam, Meneando flutuar como asas. Pele dourada de jambo ao sol Feliz cortejo de um raio, Beleza radiante de arrebol. Abrasa meus desejos Num triunfo final. Deusa-Mulher, tem-me enfeitiçado Com figura angelical. Em seu seio adormeci, do colo calor senti Musa de inspiração espelha a reflexão. Em noite profunda, em sonhos vi O s eu cor p o p or m im s ofr er Delírios de amor, alma do meu ser; Amada de meus sonhos; tudo é confusão. Menina de meus olhos, alegria de viver, Fez-me feliz só por lhe conhecer. Passado triste de um momento feliz Qual espontâneo riso ao amanhecer. Sua imagem ficou no passado,
  • 26.
    No presente restamas lembranças De um sonho eternizado.
  • 27.
    Franklin dos SantosMoura UM D IA NO R IO . . . Galeão, pés no Rio, Canibais capitalistas na pela de taxistas Cerco de necessidades e ambições, Escolher já é um risco. Com sorte, um guia historiador ou calado Ou então, mal humorado pela curta corrida. Vejo a Maré, e alguns lutadores E o cheiro de comida se mistura ao canal. Ainda estou diante da Maré, Agora aves negras observam o tráfego Ninguém nas ruas, tempo nublado, dia cinza, Alguns destemidos curiosos observam das janelas. Trânsito lento e pressa...incompatibilidade. Planos para o dia intenso...imprevisível. Compromissos, objetivos e o vôo de volta O vôo de volta...tudo se repete. Na estrada vermelha, dedos cruzados e fé. Na Maré só vejo a cortina da noite. Quando cruzo a Ilha, suspiro...alívio. No Galeão, filas enormes para o check in. Os dedos continuam cruzados, mas não adianta. O vôo está atrasado...sem previsão. Paciência, café, uma boa leitura. Acordo no destino, sabendo que volto.
  • 28.
    Lorena Colodette Pessanha A VIS O : Não bata antes de entrar: Você pode estar ferindo este lugar que se apresenta. Antes seja cúmplice dos olhos. Eles sim! Focados em firmamentos, Projetados em órbitas, Tecem ruas inéditas e transitam por moradas nem sempre visitadas. Olhos clínicos Porque apreendem, Olhos artísticos Porque vislumbram, Olhos mágicos Porque descortinam, Olhos líricos Porque vêem.
  • 29.
    Priscilla Reges Ferreira C ONTO DE F ADAS Quando o relógio soou a 13ª hora Cinderella se perdia Nos braços do rei dos elfos A Branca de Neve jogava cartas Enquanto a Bela Adormecida Preparava uns drinks A chuva caía lá fora Enquanto as flores dançavam Com os hipopótamos Para impressionar um tigre Que teve as suas listras roubadas E serviu para desenhar os bigodes De um príncipe perdido no deserto À procura da casa da Vovó. A Balada do Rei de Espadas Ah, meu grande mentiroso, tolo Rei, Nada sabes e tudo sabes, sempre assim. No Caos caminhamos, juntos, porém, Não facilitamos a jornada para ninguém. Um grande jogador Meu curinga preferido Eterno companheiro de contos E para todo o sempre, Amigo. Rides do mundo, Das pessoas e das coisas, Mas, acima de tudo, Rides de vós, e de vossa piada, Chamada ironicamente de vida. Mas ah, tolo Rei, Hás de reinar Comigo para todo o sempre E não mais tolo serás E não mais perdido
  • 30.
  • 31.
    Thalita Ferreira O ÚLTIMO PEDAÇO O chocolate Late...bate Invade cruelmente Na forma escarlate Profundamente arde Provocando devaneios na tarde Loucuras, balbucio, tatibitate Mais um pedaço... ... hum ... invade Cada doçura quente parte A imaginação e a realidade Ao leite, branco ou amargo... a verdade É que a falta, o vício se torna nulidade. Quando deixar embriagar-te, ou Quando o frenesi enroscar-te Perceberás que não há nada Que mate: a vontade louca de voltar ao último pedaço Pois mesmo que busque, suplique, cate... Não há mais CHOCOLATE!
  • 32.
    Aline Mendonça E S CARLATINA Há estrelas perdidas nos teus cabelos, E loucura na sã inocência que te corta a carne. Ah!Se eu fosse um sonho, um simples devaneio... Ou mesmo a doce brisa que te toca a face! Vejo seu "eu" ao ouvir a sinfonia Das cores do silêncio imutável e mortal. E o céu, para mim, chora com tal melodia, Mas o agora padece: amargo e real! Desejo a fadiga, a miséria e a dor; Que o anseio sádico ainda me consome... Nessa contínua vivência em busca do fulgor. Ainda estou cansada de viver no meu ontem! Há estrelas perdidas nos teus cabelos: Na manta negra da escuridão fantástica. E o seu brilho, hoje, torna-se meu espelho Do imenso amor, no meu modo trágico!
  • 33.
    Flávia Barcellos dePassos M(EU) CURRÍCULUM Não preciso de uma faculdade para aprender Não preciso de diploma pra ser inteligente Não dependo de um currículo para ser gente! Diploma e certificado não medem inteligência Preciso de gente para aprender Preciso viver, para adquirir o "saber" Um diploma não é capaz de dizer quem sou Um simples diploma...não expressa como estou Pode "mostrar" algumas coisas que sei fazer Pode até mostrar algo que já fiz Mas não pode medir minha capacidade Nem mesmo mostrar minha integridade Não sou o que está escrito no papel Não tenho só o que nele contem Eu sou muito mais Sou mais do que as palavras podem mostrar Porque não sou ser inanimado Sou "ser vivo" e sou real Em mim não se pode pôr ponto final Sou parte do que é a vida Mas ainda não sei se sei viver Ainda não sei o que sou capaz de conhecer Acho que com o tempo vou descobrindo E ao final de um ano saberei Saberei que acabei construindo E continuo a construir a cada amanhecer Não construo pontes Não construo edifícios Construo apenas o espaço em que vivo Construo minhas crenças e meus ideais Construo meus pensamentos e talvez algo mais Porque não sou apenas um diploma Porque não estou presa a um papel Não sou faculdades ou certificados Não faço parte de um enunciado Não sou algo que se leia Nem sou nada para se avaliar Sou uma existência
  • 34.
    Uma existência comoo mar E assim como o mar não tem Também não tenho um ponto final O mar cresce...e eu também Às vezes, ele diminui Também me sinto diminuída Ao fazer o tal currículo Porque já disse!!! Não sou o que está no papel Não caibo nesse pequeno espaço Porque não sou o que fiz Ou o que sei fazer Não sou só isso Porque se assim fosse, Quem não tem currículos Ou sequer sabe o que é diploma Um nada seria Portanto, volto a reforçar Não sou nem ninguém é Aquilo que está no papel Nós somos mais Muito mais... Nem 100 diplomas descreveriam Ainda que com ajuda de 100 certificados Talvez sejamos, então, apenas como o mar Algo difícil de se decifrar Porque pode-se ver e até sentir Mas jamais corretamente o definir Ou saber e conhecer Tudo o que nele contém Porque somos profundos... Profundos e preenchidos.
  • 35.
    Anaximandro Oliveira SantosAmorim SONETO DE AMOR I O nosso amor é como as catedrais Prontas para rasgar o firmamento Feitas de rochas, torres eternais Impávidas contra o sabor dos ventos Um nume passa por seus ogivais Iluminando nossos sacramentos Rezamos segundo antigos missais E damos as almas em casamento Que saiam todos! deuses infernais Que ousam sair de suas capitais Para nos levar ao pecado imundo Mas enquanto nós formos imortais Fecharemos as nossas catedrais Para ficarmos seguros do mundo
  • 36.
    Bernardo Silva Barbosa COMPLETAMENTE APAIX ONAD O Apaixonado estou pois te achei em minha vida foi a coisa mais linda mas eu vivo esse amor. Quando eu olho pro céu te vejo nas estrelas quando escuto tua voz vejo a tua beleza. Eu te amo e te quero te chamar de meu amor eu te amo e desejo sentir o teu calor. O amor que eu sinto é enorme demais mas é que eu te quero e te amo cada vez mais. eu te amo e te quero te chamar de meu amor eu te amo e desejo sentir o teu calor. Porque te amo...
  • 37.
    Brendda dos SantosNeves POEMA DAS CORES Li o diário onde segredos Insondáveis diziam que sou Menina-lima, menina sapeca! A brincar com tua vida... Amei teus sonhos sem medo: Menina-ameixa nas tuas mãos! E deixei meus sonhos ao Imaginar-te real e perto. Xôôô... Amor-ilusão! Pulsa o amor em minhas veias Entrecortado...descompassado Leve bater de asas fugidias! Esqueça-me! Sou ave bandida... Pousa o beija-flor sempre a bailar... Repousa sobre o ninho a pensar, Espera ter enfim o beijo da flor, Ter nos lábios o sabor do mel O beija-flor sempre a bailar... Azul é o coração de quem ama! Zelar por ti todas as noites, Unicamente estar contigo... Lembranças azuis o tempo não apaga! Viajar nas lembranças vividas Esquecer-te em algum lugar verde, Ruínas de sonhos e amores Desfragmentados no coração... Esquecer-te em mim... Rios de flores Oscilam_ ornamentais_ ocultam Sabiamente a marca da idade Aflorada de tua interior mocidade!
  • 38.
    Cai a chuvalentamente Imagino como seria se não fosse tarde Nesta noite cinza de tempestade; Zuuummmmm.................... A tempestade levou o amor! Amar sem você é sentir tudo amarelo Marelado ao redor de mim! Amarelado sem fim a me envolver... Rasgado está o meu amor, Esmaecido está o meu coração: Lago sem vida e monocromático O amor amarelado do fim! Brinco com palavras e sonhos Rasuras de amor e amizade... Amo o novo e o inusitado, Não suporto o amor-clichê! Caio e desmaio nas palavras feitas... Onde estará você agora?! Venha ver o lindo mar E sinta as partículas salgadas Rompendo a rotina de tua vida... Mergulhe em meu coração E veja a vermelhidão que nele há, Luz de amor a te procurar, Homem misterioso a vagar Onde o céu e o mar deságuam... O sol de teus cabelos dourados; Uivantes ondas de verão; Rostos colados lábios amassados: O quadro perfeito do amor-relâmpago! Lilazes mariposas Ilhadas em meus pensamentos... Lantejoulas libidinosas libertinas Assumem aspecto sólido: Solidez que eu perdi ao te amar! Violetas vilipendiosas: Instantâneas imagens primaveris! O ano não parou aqui, Levou lentamente tua lembrança
  • 39.
    E nunca maisvoltará! Tua voz de viola Amarga harmoniosamente no jardim!
  • 40.
    Bruno Vial S ONETO DO R EI DE E SPADAS "Não me conhece e não sabe o que sou não sabe meus nomes e sobre o que sinto posso fingir, enganar e jamais descobrirá que sou vazio e carente, tolo e orgulhoso mas algo sobre mim deve logo saber caminho no nada e na dor da Verdade Sustento o valor da chamada falsidade porém abomino esta sua tola hipocrisia Sou mal, saber, insolência e rancor temo e tremo, puro e também só o caos mas acima disso, sou eu temível vilão O Rei de Espadas, aquele que o mata o grande vazio, só um louco perdido mas não vou admitir, continuarei a mentir"
  • 41.
    Joacles Costa Bento LÁGRIMA Lágrima que cai da face chorosa, molha esse chão, aduba essa terra. Que nasça uma rosa com cheiro da moça que um dia surgiu como o arco-íris. Belíssimas cores vem trazer a paz. Faça vir o amor que cesse esta dor doce gotícula, lágrima, simplesmente.
  • 42.
    Daniele Braga Pinheiro GERALDO BRAGA Sempre vou lembrar... Das suas mãos macias Dos seus cabelos brancos Do seu jeito ranzinza Sempre vou lembrar... Dos seus conselhos precisos Da sua experiência de vida Dos telefones aos domingos Sempre vou lembrar... Dos seus chinelos de couro Do grampeador e da furadeira Da pastinha preta Sempre vou lembrar... Do seu jeito carinhoso Do aperto de mão com força Da sua proteção Sempre vou lembrar... De você varrendo a rua Desembrulhando um presente Abrindo um pacote Molhando o pão no leite Sempre vou lembrar... Das festas de fim de ano Da sua risada gostosa Da cara de safado Do nosso papai noel rosado Sempre vou lembrar... Da saudade com a sua ausência Do amor sempre presente Da família que você plantou Sempre vou lembrar... A pessoa brilhante
  • 43.
    que você semprerepresentou.
  • 44.
    Ezequias Miller MUNDO I MPERF EITO Qualquer coisa que nos coloquem Abaixo de uma grande organização Supõe-nos apenas um pensamento: A minha natureza que se foi... Qualquer fato... Qualquer ato de impiedade Que nos conduzem a belas superfícies, porém falsas, e nos afastam da verdadeira face da arte de viver: viver em profundidades jamais vividas Não vive cautelosamente o perigo E sim vive o perigo intensamente De maneira inconsciente Que a consciência confunde-se Entre o céu e a terra Não respira o ar, as flores, os rumores De que algo jamais será vivido Sem a plena emoção Em lugares dominados, sustentados pela razão... Em lugares sem portas Sem janelas, sem paredes, sem estrelas De onde o nada é partida para a estrada Que se constrói em cada passada... Isso tudo faz calar-me em toda e quaisquer Situação... Faz apenas calar-me, insustentar-me, que de outra forma Faz-me apenas pensar: E u s ou m a is n a d a e n a d a m a is d o qu e is s o
  • 45.
    Gabriel Raposo O DE AO AMOR PURO I Enterremos a faca no peito do irmão Pois meu cano é mais grosso que o teu. Já que teu miolo é defeito de Deus, Piso e afasto os unidos pelo fracasso. Corja de imbecis infantes que se amam Reunindo-se em derredor do deslumbre Garganteiam propaladas inverdades Do engajamento da miséria humana. Na faca enterrada, afasta a carne dura; Entre vencidas costelas semeia pouca paz. Do béocio rejeitado sobram-lhe as penas Que não se excitam na tolice tardia. O DE AO AMOR PURO II Ai, que felicidade infinita e bonita! É grande como um bujão de gás. Daí, peguei uma linda meiga florzinha. Dei-lhe do fundo do meu coração Todo o aquele sensacional carinho. Vou voar de tão alegre, de sensação, Como a mão leve do cafajeste. Sorrir para as plantinhas e folhinhas Um bom-dia pra terra e pro mar! Minha querida rainhazinha! Cacarejar da goela à ponta da língua Fanfarronices vou da meia-humilhação. Não há -viva!- excremento que me iluda, Pois todo cheiro de merda me faz bem. Estou voando e voando sorridente Cuspindo prantos no quengo dos contentes.
  • 46.
    Lindemberg O. Gomes MALDITO Ó retrato da morte! Ó noite amiga, Por cuja escuridão suspiro há tanto! Bocage Quando da passagem do Velho Chico O barqueiro viu a criança, Praguejou e exclamou taxativo: Ma ld it o t r a z a lu m e t a l d es gr a ça ! É s a m a ld içoa d o e s ofr er á As a gr u r a s qu e n a t er r a h á . Indiferente ao grande presságio A criança crescia e ágil Robustecia. Na pré-adolescença A previsão do barqueiro reluz; Sua vida informe e sem força, Qu e fizes t es pesa-m e t a n t o a cr u z . Os amigos aos poucos sumiam À medida que apareciam as desgraças; Em sua mente não havia esperanças; Dos amores fagueiros nada lhes sorriam. Ma ld igo: o céu e a s es t r ela s Qu e s ob eja va m a n t e os olh a r es . Ma ld igo: d a s flor es a s m a is b ela s Qu e m e r ou b a r a m os m im os d a s m u lh er es . Ma ld igo: a Deu s p ela m in h a exis t ên cia Des ca b id a , p elo fla gelo in ces s a n t e . Ma ld igo: os p r ogen it or es p ela a n u ên cia E m in d ign a in fliçã o a u m in ocen t e . Ma ld igo: a s m a is va r ia d a s d oen ça s Qu e n ã o m u d a r a m a m in h a s or t e . Ma ld igo: o t or to Anjo Negro que danças É b r io, es qu ecen d o-s e d e m in h a m or t e .
  • 47.
    Fernanda Rangel deAquino MEIO T ERMO Queria ser mais feliz Menos tola Mais responsável Menos pensadora. Queria ser mais firme Menos predestinada Um pouco mais solta Menos atrapalhada. Queria ser mais sensata Menos sonhadora Mais livre Menos conservadora. Queria ser diferente... Queria mesmo era não viver essa briga De querer ser. Queria não me meter E me contentar em viver Neste meio termo. Queria ser mais descomplicada... E muito menos confusa. Eu devia ter nascido mais decidida Menos louca Ou não... Mas eu nasci assim, Sou assim e pronto! Eu até gosto! Quer dizer... Pensando bem: Eita vidinha mais ou menos essa... Mas boa que só ela!
  • 48.
    Gabriela Zorzal A MOR C OMPLICADO Descreveram para mim, Mas descobri que não é bem desse jeito Acho que amor não é assim, O meu pelo menos é cheio de defeito. Me disseram que o amor era infinito, Mas o meu tem fim e começo. Ou mentiram para mim, Ou eu não sei amar direito. Acho que quem me ama, Ama demais. E eu, amo de menos... Esse tal amor é complicado, Por isso eu não entendo. Você acha que eu deveria amar um pouco mais, E isso pra mim é difícil. Desculpa, eu não consigo amar Mais do que isso.
  • 49.
    Flávia Barcellos DePassos ALÍVIO E EMOÇÃO Alívio é poder chorar sem medo É ir em frente sem se preocupar com o erro É arriscar e seguir o coração É não depender dos conselhos ou da razão É querer sem se sentir culpado É sorrir e querer chorar Chorar de felicidade Chorar de emoção É deixar os sentimentos fluir Seguir os impulsos, deixando "rolar" Que role... Role lágrimas, arrepios, apertos e talvez aflição Permita a ansiedade, a curiosidade... Toque o céu com os pés no chão E alcance as estrelas com o olhar Sinta-se flutuar, mesmo que esteja sentado Mergulhe no turbilhão dos sentimentos Na invasão da contradição entre eles Queira dormir, acordar, sentar e descansar Deseje amar,um olhar, um raiva e a empolgação E aprenda... Aprenda a perdoar, a errar e a pecar A agradecer, a sorrir e a fugir Sinta cada gesto, cada dia e cada oração E perceba...tente perceber... Que só se vive bem A vida que é cheia de emoção.
  • 50.
    Lorena Colodette Pessanha E CONOMIS TAS Economia de água, luz, telefone, pensamento,verbo, ação, fala, visão,escuta... Economia de ... ... ... Todos os olhos deveriam economizar palavras.
  • 51.
    Thalita Ferreira O PRAZER DO CHOCOLATE A poluição sonora Empapuça minha capacidade De ouvir... O choro, a verdade, o amor Como será o prazer adocicado De um chocolate Sem precisar degustá-lo? Onde mais há prazer além do amar? Transforma-se mel em fel Jorrado em escudo prateado De cavaleiro de guerra A loucura de usar um par de óculos E lembras de quentes e apaixonantes ósculos De, numa consulta, após uma análise de reflexos Desejar fortes e protetores amplexos. Pernas escondidas embaixo da saia crua e comprida Colo escondido por véus e rendas bordadas Posição cabisbaixa com olhar triste, Idôneo, apático, indolente e ansioso Pela carência voraz escondida na naveta Ou seria na velha gaveta? Brincadeiras de fingir felicidade Enquanto a tempestade não vai embora Preces à meia Lua Para a tempestade não aumentar! O barulho cresce; O coração aperta; E a poluição sonora Empapuça todo meu ser ...
  • 52.
    Priscilla Reges Ferreira P ERD ID O Somos muitos, E ao mesmo tempo Nenhum. Temos idéias diferentes, E quase sempre Iguais. Temos vidas diferentes, Mas dividimos o mesmo corpo. Temos lembranças diferentes, Mas estão perdidas. O que é a realidade? O que é a vida senão um sonho Por nós mesmos sonhado E que acreditamos ser real? O que é o sonho? O que é a paz? O que sou eu? Quem Sou eu? O que é verdadeiro? Qual é a minha realidade? O que é a minha vida? Qual é a minha lembrança? Desejo uma resposta Desejo a mim de volta O tempo em que sabia o que era E quem era Eu E sabia a minha verdade E era imperatriz de meu mundo E fazia sentido Viver Ou morrer... Não tenho mais vontades
  • 53.
    De viver De odiar De morrer De destruir De amar De ser Desejo minhas lembranças Minhas vontades Minha vida E minha morte Minha luz E minhas trevas E saber quem somos E o que desejamos As nossas diferenças E semelhanças Não quero me perder mais Em meu nada Quero ser alguém de novo Importante de novo Para alguém Para você Para a morte Para o mundo Eu quero...
  • 54.
    Fernanda Rangel deAquino U TOPIA G RAMATICAL Tu, te, ti, contigo...Chega! Esses pronomes, Que em meu coração Tem apenas um nome, Não fazem parte mais Do meu vocabulário. Cor t a r ei t a m b ém os lh es , os s es E seus companheiros de ilusão, Porque do você Eu não quero mais nada. Excluirei ainda o vós, Para quando o você Juntar-se a alguém Eu não sofrer Nós? Nem pensar! União em meio a incógnitas? Não...Não... É melhor eu descartar. Ret ir a r ei, p or fim , o eles Para não correr riscos De falar do tal você Mesmo à distância. Sobra-m e o eu ! E é tudo o que deve bastar. Vou galantear meu ego E só comigo ficar. Ao menos se um dia O relacionamento esfriar Terei a certeza absoluta: A culpa foi do eu E de ninguém mais.
  • 55.
    Pode parecer umatentativa frustrada, eu sei, Mas quem garante que não irá funcionar? Não queimam fotos para destruir lembranças? Pois queimarei então a gramática Com seus pronomes ilusórios Para não mais pronunciá-los Que virem cinzas e pronto! De agora em diante, Somente o eu, A mim, Basta!
  • 56.
    Aline Mendonça A NIS TIA Clamo-te há séculos e nada me orienta Somente suicidas bocas mudas me acompanham; Velam-me à noite, sacrificam-me ao dia, Apagam-me as estrelas, mutilam-me os anjos! Um dia, porém, hei de dizer morrer nas nuvens, Beber o ar fresco das rosas e dos alvos lírios E tardiamente, sem que talvez me importune, Tocar a pálida face do sétimo sentido... Mas, se outrora, pudesse, então, perceber Que a solidão é mais forte que o fascínio, Teria, pois, em clave, na carne borbulhante Marcas crepitantes e imutáveis do destino. E os estéreis atos, em vão, pacificantes Seriam apenas puro e macilento exílio!
  • 57.
    Anaximandro Oliveira SantosAmorim SONETO DO MAR Homme de l océan, tu toujours cheriras la mer La mer est votre mirroir Charles Baudelaire Monstro colossal, deus dos exegetas Desejo pisar os teus vagalhões Para atá-los aos pés, como grilhões, No mais puro delírio dos ascetas! Que sejam curvas ou que sejam retas Leva-me em todas as direções E juntos, ao sabor das estações, Sejamos o ocaso dos poetas! Arrasta-me a teus pélagos profundos, Conduz-m e às entranhas de teu mundo - Quero afundar em ti cada vez mais! E, para que o meu corpo não corra, Tranca-me em uma de tuas masmorras - Não quero ser encontrado jamais!
  • 58.
    Bernardo Silva Barbosa UM MIS TÉRIO Inspiração de onde você vem? Venho do seu subconsciente ou quem sabe, venho do interior do seu coração. Esse dom que você tem poucos sabem aproveitar você foi escolhido para escrever e recitar. Fico honrado por ter te desenvolvido e farei bom uso. Sempre estarei com você onde quer que esteja pois sempre seremos um e mais nada.
  • 59.
    Hanor F. INDIGNAÇÃO Indignação! É isso que sinto no momento, É esse meu sentimento... Queria poder colocar aqui toda minha indignação pelas pessoas, Quero poetizar todo mal que sinto dentro de mim. São tantas coisas que norteiam o meu ser que não consigo definir o que por no papel. Contento-me para a escrita dessa apenas com a luz de uma casa simples, Cuja dona outrora fora amiga minha. Aconchego-me com um simples estar em ver o mar ao longe, As luzes da ponte, o tom de um agudo som que se repete ao longo das tentativas. Meu olhar agora vaga onde possa estar quem lê e lerá esta. E em que momento se dará o fim da mesma. Vejo ruas, monumentos, igrejas, becos, saídas, Vejo a morte viva em galhos secos, Sinto o ar úmido o cheiro do nada. Que mundo meu Deus! Mundo de riquezas eternas e ternas que caem por terra pela ganância dos homens. Vida que não é vivida que não se faz vívida por estupidez. Desejos da carne...do coração...desejos das mãos, por irmãos, sendo esses de sangue ou não. Ouço agora um profundo silêncio. Silêncio que se quebra por um grito mudo ou por um passo, Pelo som, outrora descompassado e agudo, agora cadenciando harmonias. Por minhas a encharcar esse pedaço de papel. Silêncio...desejos...vida...mundo...indignação. Que se fez canção!
  • 60.
    Palavras que saíramde meu ser e do que estava por acontecer
  • 61.
    Bruno Vial I MPULS O Um poeta não tece Em seus versos Mentira alguma Suas palavras são Sempre retratos Da sua alma e verdade Por pior e dura que seja Ele escreve sua busca O que representa O que sente Não importa Se por metáforas Ou cegas silabas Não verá nas estrofes Vãs tolices Cada letra significa Aquilo que no intimo Se passa e revive Desde a felicidade Até a pura angustia Um poeta não escreve Ele decifra as linhas E junto a elas Decifra a si mesmo É por isso que, Por mais medíocre Que eu seja Eu sou um poeta.
  • 62.
    Daniele Braga Pinheiro WESDAN Você me conquistou De uma forma inesperada Dia a dia Sonhando junto Buscas parecidas Vidas cruzadas Se alma gêmea existe Acabou de ser encontrada Metade que se completa Amor que desperta Numa nova descoberta O medo ainda existe Mas a felicidade persiste Quero apenas viver cada momento De forma plena Serena Lembrando que a vida sempre vale a pena
  • 63.
    Ezequias Miller A G UERRA D OS DES ES PERAD OS Maldita Santa Inquisição Banham de sangue toda e quaisquer canção de amor Trocam farpas entre o mundo e o mundano São diamantes que brilham tão insanos Que o último papa morra com as tripas Do último rei... E se enovele num mar em fúria E desconheça a cor púrpura Das rosas que nascem no quintal Que sua vida deixe de ser um falso manto imoral Para se tornar o frio do manto infernal Que os homens caiam em desgraça profunda E que a corrente tão pesada da âncora Que presa em seus pés se afunda E lhe cortam a respiração... Que lhe cortem como fio de navalha Os pulsos que passam o sangue... O sangue que jorra no alto e falha E falte-lhe ar para sempre Desta forma o misterioso se faz E tudo há de caminhar para o infinito Onde as borboletas descansam para o vôo Que tornam o universo mais bonito E desatem as correntes da ilusão De que o homem não pode nada Como os reis afirmam com incisão E cortam os sonhos de quem um dia almejou Cantar canções de amor profundas E que hoje apenas andam como mortas-vivas ... as pessoas... sem sentido... insensatas... Sem vida...
  • 64.
    Gabriel Raposo R UA DE V IDA Minha rua era viva Com moleques, malandros Passeavam os namorados Brigavam os parentes Minha rua era viva Até o dia de ontem O dia de hoje minha rua morreu Alvorecer de chuva Minha cidade chora A ocaso da rua Que até ontem incomoda É dia de natal É dia de tudo sim Mas a minha rua morreu Levando na água toda a ternura Toda bagunça Toda esperança Toda vingança Abraços Canduras E tristezas Minha rua não tem mais sim Não tem mais não É um nada encruado.
  • 65.
    Fernanda Rangel deAquino PACTO Passos Perto Penso Perco... E peco! Uso Usa Suo Sua Abuso! Impulso Pulsa Um passo O pulso Impasse! Possuo Preciso Procuro Persisto... E peco de novo!
  • 66.
    Gabriela Zorzal O LIMITE DO A MOR O amor não tem limites? Teve para mim. O limite dos teus olhos. Depois de entrar em contato com os meus Não vi mais nada Bloqueou toda a luz Me cegou, me fez escrava. O amor não tem limites? Teve para mim. O limite da sua voz. Ao suavizar os meus ouvidos Não ouvi mais nada Sua voz se instalou em mim Mas uma vez me fez escrava. E o seu sorriso? O que dizer? Que é tão belo como de um anjo, Reflexo da perfeição, Que me faz pensar todos os dias nos seus olhos, Lembrar-me todas as horas de sua voz, E não me sai do pensamento o seu lindo sorriso. Esse amor me limitou sim, A pensar em você todos os dias, Te desejar todas as horas, E te querer a vida inteira.
  • 67.
    L INDEMBERG O.G OMES INTERCES S ÃO Deixai vir a mim os meninos, E não os impeçais, S. Lucas: 18.16 Quem me clama há tal hora? Sou eu Senhor, Zé Ninguém! Que desejas? Vou-me embora. Nada Senhor. Clamo por alguém. Que desejas? Diga-me sem demora? Peço-te a atenção e não o teu desdém. Ela terá se o teu desejo a valer. Clamo pelas crianças rotas e esquecidas Num mundo de solidão onde vivem a sofrer. O teu desejo é justo, tornarei esclarecidas As tuas dúvidas. Nada deixarei de responder! Vertei bênçãos e a elas sejam oferecidas. Sejas tu mais claro em teu pedido! Senhor é tempo de festas no mundo terreno Muitas crianças têm seu clamor atendido Outras tantas vivem um palor horrendo. Que te queres que eu faça; estou ofendido Com tantas crianças que vivem morrendo. Senhor atente para o que vou expor: Elas são muitas, e muitas são as suas dores, Imaginam um mundo diferente a contrapor A sua realidade. Não peço presentes. Peço que as tornem dignas de se impor E serem tratadas como gentes. Zé Nin gu ém ! É ju s t o o t eu cla m or Mas nada posso fazer. Dotei-os do livre arbítrio Só vi agigantar-se no mundo o desamor. Pobres crianças que sofrem o martírio Do destino impuro; merecem o Divino Amor
  • 68.
    Aqueles que paraa sua dor buscam o alívio.
  • 69.
    Lorena Colodette Pessanha AS LINHAS D ES S E CADER NO A lin h a é a m en or d is t â n cia en t r e d ois p on t os de vista, de encontro, de táxi, finais. A linha é uma tênue massa ilusória que insiste em prolongar a palavra.
  • 70.
    Thalita Ferreira VITUPÉRIO * Por um instante a vitória, Por outro o fim; Cada palavra é uma arma Que destrói aquele que a escuta Na medida da censura, da dor, Do desapontamento, do desacordo, Do n ã o , d o d es p r ezo... A luxúria penetra na boca Dos que pouco falam, A torpeza se excreta da boca Dos que muito falam, Mas nada dizem! Ser vituperado, exprobrado É ser golpeado Com uma espada No meio do peito. Afinal, uma palavra mal pronunciada, Mal significada, Mal pensada, Nunca mais retorna a quem diz Mas eternamente destrói quem a ouve *censura áspera, injúria, desonra...
  • 71.
    Aliene Mendonça A LENTE T URMALINA Pouco importa meu formoso anjo Se és injusta a vida que nos deste, Que espalhando-me dos dedos o sopro rouco Faz-te tão bela a vingativa veste. Murmuro, então, teu nome em simples versos, Pois noutra forma não te ocultas neste tanto. Serão efeitos de amor meu puro pranto? Ou a loucura de achar-te em amor eterno? Pois és o drama que amplio em poesia... Dizei que em mim me consome e me afaga! Tu és a causa de aceitada covardia, Se outra vida não aceito em tua causa! Queimam ainda, no céu, milhões de estrelas, Seres da terra e o minuto que me segue, O doce aroma n'alva brisa de tristezas. Sonho ser breve, ó meu amor, que seja breve! Pois sou do mundo e não te nego meus suspiros Ao trazer junto contigo meus desejos. Se consumo a leve vida de teus beijos, Sois a manta do meu céu, os teus cabelos.
  • 72.
    Bernardo Silva Barbosa AS QUATRO ES TAÇÕES Primavera cheia de flores m e enchendo de amores Primavera com Verão esquentou meu coração. O Outono vem chegando e as folhas vão voando p elo ar E as flores vão caindo s ó pra ver você passar. Nós dois bem juntinhos vendo o Inverno chegar e nesse dia frio, n ossos corpos vão se esquentar.
  • 73.
    Daniele Braga Pinheiro CICLO DA VIDA Tentar lutar correr Fraquejar fracassar renascer Continuar levantar esquecer A vida tem fases que precisamos vencer Um ciclo permanente que nos faz crescer Mas cada manhã traz-nos a certeza de que vale a pena viver Pois foi numa surpresa da vida que encontrei você.
  • 74.
    Bruno Vial À S V EZES . . . Às vezes, digo tolices a mim mesmo Nesses momentos, penso que sou um bobo Por ficar dizendo coisas sem nexo Para o único que ainda me ouve É um grande problema se estar só Por não conseguir saber se o que falo É realmente estúpido ou genial A solidão é minha grande companheira E nela me conheço como nunca Mas, por vezes, admito fraqueza E sinto falta de uma companhia Rir sozinho produz eco e é sinistro Contar coisas engraçadas perde o sentido Estar só é fácil, porém também triste É por isso que, às vezes, gostaria de alguém comigo
  • 75.
    Ezequias Miller HÁ UMA GRAND E RIQUEZA NAS PALAVRAS DE UM POETA . . . A poesia faz o homem tocar as estrelas... E voltar para descansar em terra firme para poder lembrá- las... Faz o homem beber toda água que desce de uma cachoeira O faz ser mais veloz que a velocidade da luz... O faz sumir no espaço... O homem pode pular de um abismo sem cordas que lhe seguram Que mesmo assim continuará vivo... Pode dar a volta ao mundo em questão de segundos Pode ser a semente de manga que brota no fundo do oceano... E ainda lhes digo! Vai dar bons frutos... O homem pode ser de outro planeta... Pode desaparecer e aparecer... Pode voltar ao ponto de partida... Pode não haver partida para nada... A poesia se situa entre os extremos Do alto das montanhas até as profundezas dos oceanos Do centro da Terra até os lim it es d o u n iver s o Entre um homem e outro homem... Dois extremos que tentam se tocar a cada instante Mas a união total, a união completa Só vem por meio da poesia... E não são todas as criaturas dessa vida Que dão propósitos a essa tão suave melodia... Um canto a qual todo homem se espanta Se não..ouve e desce fino pela garganta Esse fardo chamado esperança... Mas a poesia tira todas as esperanças Tira todas as lembranças tira o mundo do lugar...
  • 76.
    E não dánenhum lugar ao mundo Pois dele não há nada a se amparar Ela não se ampara no mundo ... ela apenas está ... É viva nas cores que nos oferecem risos naturais A vida é bela! Façamos dela o astral mais alto que as estrelas podem Nos oferecer... Façamos dela a singularidade que caracteriza os homens de juízo... E viva a história dos belos homens de Shakeaspeare até os atuais... Coma o amor que a mais bela flor há de lhe oferecer... Vista-se de palhaço para saudar as crianças... Viva o mundo na esperança de dias melhores... S e é qu e eles vir ã o... Ainda lhes digo que não há futuro para a poesia... Não há esperanças... Ela faz do presente um presente tão simples Que faz o chocolate escorrer pelos lábios Faz as lágrimas terem sabor de chocolate E depois gota a gota repousar no céu estrelado da boca... Dá roupa ao descamisado Da encanto aos desencantados Dá grãos de areia aos esfomeados Dá a morte aos desgraçados... Enquanto que dá a eternidade aos maravilhados pela grandeza da existência... e a grandeza encolhe o real... redu-lo para dar beleza ao ponto de partida Mais um ponto de partida inventado pelos homens... Mas mistérios são mistérios... e se concentram em um único ponto, de um ao outro
  • 77.
    na orquestra davida... na música que nunca jaz esquecida... É assim... O Ciclo da Vida...
  • 78.
    Gabriel Raposo B OA N OITE , D IA ! O dia é amanhecer e ousado, Ar de trabalho e estudo. A noite é a observação, O olhar latente e mudo. De lembrança e festa pejada, Vem ela em leveza acariciando Pelo caminho dos leves. Mas a noite tem seu tempo ansioso Seus cantos mistérios e canto gostoso. Ele tem de outro lado presença De tempo claro e de percurso quente. Mas o dia da noite arranca o medo Dos pés à face lhe cobrindo. Guia-a ao oeste, pousada em segredo. De modo ouro lhe atraindo. Vem a noite silenciosa e bela. O dia te protege puro sempre. E ela sem mistérios para ele Se cobre estrilada e plena. No entre a solidariedade da aurora. Vem ele cobrindo ela de cor quente? Sim, na efusão de vermelho e branco, De luz e respiradas de chegou a hora. Ou será a noite que cobre o dia?
  • 79.
    Aline Mendonça C ORS O DAS MINÚCIAS A esquisitice dos planos traçados Que soam cansados da renovação. A impulsividade dos atos impulsivos A fortaleza d'uma paixão... A tristeza que é emoldurada Junto à eloqüência dos sons emudecidos. Imensa beleza inexistente Em atos esquecidos... Amo o brilho do teu olhar E a inocência do teu sorriso... A forma como caminha E a textura dos teus sentidos... As palavras de encorajamento, A paciência nos maus momentos, O aroma simples e carnal, A melancolia da tua figura, A jocosidade da tua doçura, Os beijos puros e infantis, Cada detalhe da tua alma... Jamais pensei te amar, Jamais pensei sonhar... Jamais pensei achar alegria em te imaginar dormir... Há uma estreita linha entre a loucura e o amor?
  • 80.
    Gabriela Zorzal UM LUGAR PRA VOCÊ . Um anjo soou em meus ouvidos, Ele disse que era cedo demais Eu não devia entregar meu coração ainda. Obedeci e aguardei. Mas o tempo foi rápido. Quando te reencontrei Meu coração estava ocupado. Eu não podia fazer nada Era um amor incondicional Eu mesma não queria nem Tentar combater. Talvez se esse amor não tivesse aparecido, Meu coração seria teu. Mas acabei me vendo obrigada a Encontrar um lugar nele pra ti. Então separei um lugar: Não tão grande como do meu amor, Mas tão especial quanto E ao seu lado. Um lugar de amigo, Um lugar de melhor amigo, Um lugar que eu cuido Com carinho e confiança. Por que amigos tratam-se com carinho, Mas para melhores amigos, Basta confiança.
  • 81.
    Flávia barcellos dePassos NÃO QUERO!!! Não quero saber das coisas que não me pertencem Não quero essas coisas que não preenchem... Anseio por carinho e irmandade Longe de mim, esteja a falsidade Não quero sofrer o que ainda não vivi E não quero provar do dissabor De não saber o gosto do amor Não quero conselhos nem reconciliações Por hora servem os devaneios Só não posso permitir alucinações Não quero viver o que não mereço Não quero...não quero... Senão padeço Não quero risadas E não quero agonias Não quero nada que não preencha o dia Não quero dia parado Tão pouco quero viver de passado Não, não quero o que me faz mal Não quero que piorem meu astral Não quero comida, não quero bebida Mas também não quero solidão Porque em meio a tantos "não quero" Há sempre outros tantos "quero".
  • 82.
    Thalita Ferreira PSEUDO-SONETO DO CANSAÇO Cansei dos clichês destemidos Das mãos inquietas e despudoradas Dos forçados e falsos gemidos Das palavras omitidas e mal-faladas Só agora percebi os passos simulados Aqueles que vão e vem, sem mesmo sair do lugar Tentando, sem esforços, parecer fadados Enquanto o resultado é impossível encontrar Pudera eu controlar o tempo como um escravo Só assim o libertaria da insignificância Trazendo-o como um presente meu Cansado do insipiente mundo bravo Só mesmo levando todos de volta à infância Ou quem sabe...aconchegando-os nos braços de Morfeu!
  • 83.
    Lorena Colodette Pessanha P RECE Articular um sorriso interno, Vertê-lo em lira, em linguagem, em convite, é prece.
  • 84.
    Bernardo Silva Barbosa MAIS UM ANO Mais um ano que vem chegando, m ais um ano que vai partindo, m ais um ano começando, m ais um ano sorrindo. Mais um ano com bravura, m ais um ano de paixão, m ais um ano de ternura, m ais um ano de emoção. Mais um ano de guerra, mais um ano de carinho, m ais um ano que se encerra, m ais um ano sozinho. Mais um ano...
  • 85.
    Daniele Braga Pinheiro CAMINHO REAL A vida muda Envelhece Amadurece O amor transforma Renova Fortalece Bases de uma esperança De um amanhã melhor Você é a minha luz De um caminho real Riqueza plena De uma alma serena.
  • 86.
    Flávia Barcellos dePassos SAUDADES O que dizer sobre a saudade? Como explicar esse sentimento? Como entender a saudade aqui de dentro? Será passageira?apenas momentanea? Ou será aquela saudade que engana? Existem saudades em mim Saudades do que já não tenho junto a mim Saudades de quem se foi E dos tempos que passaram Também dos que ainda vivem Mas estão longe de minha realidade Saudades boas e saudades ruins As boas estampam sorrisos em meu coração As ruins me apertam e deixam aflição É, saudade não é passageira Saudade não é curada Porque saudade vira lembrança E a lembrança não se deixa por aí A lembrança é carregada E não importa a idade Porque com certeza dura a eternidade.
  • 87.
    Gabriela Zorzal N ÃO ME ES QUECE Tenho tanta coisa pra dizer Mas você não quer ouvir, Quer encontrar um jeito de esquecer Mas já caiu fundo demais pra conseguir. Medo de me envolver, medo de te iludir. Não quero te fazer sofrer, muito menos te seduzir. E você me trouxe a realidade, Apagou tudo que se passou. Mal sabe que eu ainda sonho Mesmo sabendo que pra você acabou. E vou mesmo continuar sonhando. É que eu não consigo combater. E sei que mesmo que você tente, Não vai conseguir me esquecer.
  • 88.
    Hanor F. Esperei muito tempo por você. Então agora te devorarei lentamente. Degustando o gosto seu com o tempero EU. Degustando o teu cheiro que é bom, Teu sabor que é novo. Degustando você como um todo, Mas, Aos poucos. Bem aos poucos, Quente e conseqüências, Misturando-te a uma pitada de amor.
  • 89.
    ALine Mendonça D IÁLOGO C ÓS MICO II Sinto por perder mais uma vez a voz E fazer desta agonia mais do que agonia: Apenas saudade perdida no silêncio! Que torna a insônia uma tortura diária Enquanto as palavras fogem-me aos lábios Cada vez que mais me aproximo... Ah, poeira de estrelas... Finda a morte de teus olhos, Sendo o eco do silêncio Que perfuma a solidão! Mero e inútil envolvimento Gravidade encantadora, Obséquio do destino, Que clareia a escuridão! Se em toda a minha eloqüência Houvesse um ritmo, As palavras seriam folhas dançantes Se desprendendo no abismo Da loucura articulada do meu ser...
  • 90.
    Bruno Vial D ES ES PERO Olh e p a r a m im Essa sombra patética Que caminha no ermo Sem destino algum Num mundo nojento Que não me pertence Que não pertenço Olha aqui Eu sou eu mas não sei Se sou só eu Isso é tudo tão... Olho a sombra Olhe na parede Ali perdida da realidade A qual não é Nada além de ausência Ouço os lamentos Que eu digo para a noite A sombra vazia Não escuridão não existe Mas ainda assim disse não Que verdade nada Não há Há? Está lá por um instante Sem exceção A eternidade do vazio É tão grande Que não me deixa ver A efemeridade do momento Em que a sombra Implora ali no canto olh e p a r a m im Mas não dá Ignora o tolo o que pede Vira o rosto Sigo caminho
  • 91.
    Para além dali E não espero O que viria depois Não virá Não vou olhar Não quero A sombra não vai Mas seguirá onde quer que vá Só rindo mesmo Para não ouvir não Olha, olha, olha aqui Não sei o que é Mas foi Sempre Minha E eu não quis olhar Não era sofrer Ignorar, morrer Sem ter acontecido Olho para mim E rio e rio e rio...
  • 92.
    Thalita Ferreira EU CONSUMO E TU CONSOMES E u con s u m o o m u n d o O m u n d o m e con s om e Quando o lobo lograr o ouro A tentativa sucumbirá a resposta É gasto o metal pela ferrugem É consumido o oxigênio perdido no ar Fecha-se o mundo, Relaxa-se os olhos, Perde-se o sentido de destreza e razão Mataras a luz Que se apaga O feixe se esvai Perante infinda escuridão... A trindade, o trio, o tripé Três, tercetos, triplos, tantos Três, três, dois, três ... telefone A vela se queima A parafina escorre O tamanho diminui Se na natureza Tudo nasce, tudo se Consome Tudo se transforma Até que a vastidão se consome corrompendo-se! O cansaço desanima O stress consome O sono reanima O mundo premia o indivíduo A realidade retira-o liberdade Consumindo a paz, o sossego O sopro e a sanidade . . . CONSOME SE . . .
  • 93.
    Lorena Colodette Pessanha D ESENCONTRO Ao anoitecer você se faz presença, afago, Lua atraente. Ao amanhecer você se faz ausência, vácuo, e já não há Lua que possa... E há dias você se desfaz e não constrói nada.
  • 94.
    Flávia Barcellos dePassos P(ARTE) DE MIM Não quero pensar sobre o que escrever Quero apenas sentir Sentir e "dizer" Quero fluir naturalmente Deixar estampado E bem gravado no papel As idéias da minha mente Pode ser sobre o cotidiano Ou sobre o palpitar do coração Pode ser sobre coisas mínimas Ou sobre a imensidão Só o que não pode é parar Não posso estagnar É preciso prosseguir Num constante ir e vir Porque o dia em que parar de escrever É o dia que deixarei de viver E aí, não verão mais a mim Mas apenas p(arte) de mim.
  • 95.
    Joacles Costa Bento NADA O sempre não é tudo e o tudo nunca foi nada. Porque somos isso, Apenas isso (o nada). Que nada possuímos e o que temos é apenas adotado, Pois quando o homem morre, simplesmente, volta para casa. Será isso evolução? Nascer, crescer, envelhecer, (viver do irreal ) e morrer. Isso é evoluir?
  • 96.
    Lorena Colodette Pessanha MORADA Resido e pairo em você! Não por ocasião fortuita, pois que o amor requer morada, mas por lucidez. Uma lucidez enebriante, capaz de ruir as vicissitudes e de conjugar nosso verbo no infinitivo das horas. Não! Não mais o ocaso, Nem mesmo os antigos hábitos tecidos, pois agora posso ser até a menina que sou! Esta é a morada em que minha assência se dilata, na direção do caminho que escolhemos viver nós em nós.
  • 97.
    Aline Mendonça F IS IOLOGIA H UMANA Faça agora mesmo o que é certo! E deita-me na lama fria da derrota! Regojiza-te feito o céu em sol nascente E jubila-te a cada instante dessa aurora Vá e sinta o sangue sádico rir em tal momento E prover felicidade em meu prejuízo Que de tão pouca, vive só em pensamento Na fa lt a d a lm a d es t e cor p o es gu io. A voz trêmula e a anemia permanente Que, tão loquazes, já fugiram da carne túrgida Não são mais empecilhos neste tempo agouro Apenas testemunharam a minha loucura Vá que já é tarde e a noite assombra Abandona-me na solidão da terra escura A sós, eu, vazio corpo e a loucura Sob a dor vencida que agora queixa-se Vá. Amanhã o dia nasce e a vida é curta... Deixa-me a sós com a minha sorte! Que qualquer beleza é hoje chão fecundo Na minha dor eterna, eu, um pobre moribundo Vá e deixa-me gozar da bela morte...!
  • 98.
    Joacles Costa Bento EU Queria não pensar no amor, Queria não sentir essa dor, Queria não lembrar nossa canção, Queria não sentir mais emoção, Queria não mais ver seu sorriso, Queria não tê-la em meu pranto, Queria não vê-la no espelho da minha solidão, Queria não relembrar nosso passado e no reflexo de uma lagrima caída da face, queria poder lembrar de mim, para então fazer parte de você.
  • 99.
    Fernanda Rangel deAquino T RANSE Olho para o nada O estranho vazio Algo longe... E tão perto de mim. O olhar não é recíproco Não existe... Ou é triste Num árduo silêncio sem fim Meu olhar busca perdido Desesperado e sozinho O reflexo do que há enfim Mas o espelho Cruel... Ou verdadeiro Mostra apenas a invisibilidade Do que é visível em mim.
  • 100.
    Hanor F. S EPARAÇÃO É faz tempo! Que o amor não vence o fim. Que ninguém como eu quero Goste de mim. Não, não me acostumo! Quero separação, Deixo hoje a solidão, Mesmo que ela não queira o fim. Que ela chore por mim. Que sinta o seu gosto de dor, Sua própria dose de frio.
  • 101.
    Aline Mendonça S IMELITRON Nada peço além do fardo do perfume! Abraço a vida e não desejo nada! Sê a escória e feche as íris do abrigo, Enquanto o sonho ainda te embriaga... Vejo em teus olhos minha face nua Pegue a taça, acomode-se ao espelho. Pois conservo a máscara ainda em meu peito, Enquanto o fogo consome a carne crua! Que benefício traz a pressão do paraíso? Que em sonhos entorpece com aroma de rosas... Sê do mundo o filho prodígio e valente, Para em vida conhecer visão de outrora!
  • 102.
    Flávia Barcellos dePassos Mundo isolado, amigos bem longe Mundo entediante, amor distante Quero meu mundo de volta, Quero os que amo à minha volta Desejo voltar, desejo ficar Por vezes, é tão confuso Que nem sei... Não sei mesmo o que desejar. Quero isto e aquilo Mas não posso!!! Não tudo de uma só vez Quero tantas coisas entre Brasil e Portugal Que nem sei... Só sei que estou mal E essa espera angustiante, Dúvida alarmante. O incerto me desespera Mas a determinação me acompanha Por isso fico na espera. Enquanto isso vou vivendo Criando e inventando o que fazer Porque as horas são inimigas E os dias parecem tardar Nesses momentos em que quero vê-los voar Entretanto espero... E aqui me manterei Até que venha a resposta Resposta que irá definir Se fico ou embora irei daqui
  • 103.
    Thalita Ferreira MEU VENTRE O que simplesmente depende de mim Sem que necessariamente exista você Eu em mim Eu sem você Não o princípio de um fim Mas um desejo de mim Minimamente eu Minúscula neste gigantesco mundo Fisgada por um debutar neste mundo Onde o eu seja mais Seja diferente no meio da multidão Seja não só seu Mas muito mais meu Meu Tudo Meu Ventre Meu Mundo Meu Eu!
  • 104.
    Priscilla Reges Ferreira A B ALADA DO R EI DE E SPADAS Ah, meu grande mentiroso, tolo Rei, Nada sabes e tudo sabes, sempre assim. No Caos caminhamos, juntos, porém, Não facilitamos a jornada para ninguém. Um grande jogador Meu curinga preferido Eterno companheiro de contos E para todo o sempre, Amigo. Rides do mundo, Das pessoas e das coisas, Mas, acima de tudo, Rides de vós, e de vossa piada, Chamada ironicamente de vida. Mas ah, tolo Rei, Hás de reinar Comigo para todo o sempre E não mais tolo serás E não mais perdido O mundo estará.
  • 105.
    Bruno Vial O UTROS ONETO DO 6 DE E S PAD AS Seria tão mais simples apenas aceitar viver com uma certeza absoluta mesmo que falsa ou até tola é mais fácil do que ter dúvidas É um fardo, uma maldição ser atormentado pela angustia não ser somente fútil e superficial escondido confortavelmente na verdade é quase triste olhar para o lado ver um rosto sorridente e tranqüilo que não se inquieta ante os mistérios Mas não quero ser como eles outra vez vi um lampejo da resposta procurada e não foi no sorriso frívolo dos tolos.
  • 106.
    Thalita Ferreira SONO Vontade de cair nos braços de Morfeu Envolvendo-se em devaneios e sonhos Como se estivesse em nuvens Como se estivesse deleitando-se em [flocos de algodão A fuga do cansaço, da tensão Que insiste em se acumular Nas entranhas do dia-a -dia... Conseguir fechar os olhos É conseguir libertar-se de todos [os pensamentos Apertando o botão OFF da mente Para que não haja nada Além de paz e escuridão, Na busca da mais intensa meditação, Concentração e relaxamento Em que tudo se renova Se encaixa, se cura Para simplesmente acordar Com a verdadeira vontade De d izer : Bom d ia !
  • 107.
    Ávila Jane D E UM OLHAR ... E s t a va eu a a p r oveit a r u m a n oit e qu e d ever ia , a t é o p r es en t e m om en t o, s er m a r a vilh os a . Por ém o qu e eu t in h a p la n eja d o n ã o a con t eceu . Mes m o a s s im , con t in u ei a d a n ça r con for m e a música. No m eio d e d es en con t r os e en con t r os , en con t r ei-o, e foi a í qu e a noite realmente começou. Foi com u m a m ú s ica qu e t u d o com eçou a a con t ecer : n os s os olh os s e en con t r a r a m , e ca d a vez m a is in t en s o e p en et r a n t e ficávamos a n os cor t eja r ; olh a r es s ed en t os e ca lor os os , t ã o qu ã o o a m b ien t e o qu a l n em o a r con d icion a d o con s egu ia refrescar. Os olh a r es fica va m ca d a vez m a is en volven t es con for m e a s m ú s ica s qu e t oca va m , e con s equ en t em en t e n os s os cor p os s e a qu ecia m m a is , m es m o a in d a u m p ou co d is t a n t e u m d o ou t r o, e a ca d a m ú s ica n os s os olh a r es fa zia m d ifer en t es melodias, logo, nossos corpos começavam a juntos dançar. E olh a r es m a is e m a is p r óxim os , cor p os m a is e m a is cola d os , n os s os r os t os s e a ca r icia n d o, n os s os ch eir os s e exa la n d o, e ca d a m ovim en t o, o ca lor d e n os s a a t m os fer a cor p or a l a u m en t a va in t en s a e r a p id a m en t e; a s lu zes fa zia m s u a p a r t e, d eixa n d o a in d a m a is p r ovoca n t es e s en s u a is n os s os movimentos. E m m eio a t a n t a p r es s ã o, n os s os h or m ôn ios en t r a m em er u p çã o e, a s s im , n os s os lá b ios en t ã o s e t oca r a m e t od o a qu ele ca lor qu e s en t ía m os em n os s o b eijo con cen t r ou -s e. E beijavam-n os m a is e m a is , s u a s m ã os p er cor r ia m m eu r os t o, m in h a n u ca e for t e s egu r a va m m eu s ca b elos , logo com eça r a m a d es liza r em m eu cor p o, es p a lh a n d o t od o o ca lor (a t é en t ã o con cen t r a d o em n os s o en volven t e b eijo) p or t od o o m eu cor p o e fa z com qu e s eu cor p o t od o t a m b ém s en t is s e es s e ca lor , fa zen d o com qu e s eu s h or m ôn ios en t r a s s em em u m a exp los ã o d e von t a d es e d es ejos , igu a la n d o n os s os p en s a m en t os , n os s a s carícias, nossa malícia. Neces s it á va m os s a ir d a qu ela m u lt id ã o, p r ecis á va m os d e s os s ego , m a s n ã o en t r e n os s os cor p os . E n t ã o, r et ir a m o-nos dali, mas em nenhum momento nossos olhos se distanciaram. E qu a n d o n os en con t r a m os a s ós , foi u m a exp los ã o d e p en s a m en t os , t oqu es e volú p ia . E n t r ega m o-n os n os s os
  • 108.
    cor p os, en t r ega m o-n os a o n os s o olh a r . Na d a d izía m os , m a s n ã o p r ecis á va m os d izer n a d a , n os s o olh a r fa la va p or n ós , n os s os b eijos fa la va m p or n ós , n os s o ch eir o fa la va p or n ós , e diziam incessantemente querer-nos. O t eu t or s o n u p ed ia m in h a s m ã os , m in h a p ele p ed ia s eu s b eijos , t u a n u ca cla m a va p or m in h a s m or d id a s e m in h a s pernas imploravam o aconchego das suas. Nos s os cor p os ca d a vez m a is en t r ela ça d os , n os s os p en s a m en t os ca d a vez m a is via ja va m , n os s os lá b ios e feições declarava m t ã o gr a n d e p r a zer , n os s os b eijos ca d a vez m a is a lgoz. E n o a lge d e t od a es s a s in fon ia , n os s os "in s t r u m en t os m u s ica is " fizer a m u m lin d o s olo, qu e en t oa va o com p lem en t o d e d ois cor p os , a fu s ã o d e d ois s er es t or n a n d o-s e u m s ó, s u p r in d o t od os n os s os va zios ; com p let a m o-n os e contemplamo-n os d ia n t e d e u m gozo p r ofu n d o e d e p od er ouvir e embalar a canção do amor. E s t a ca n çã o s em fim , qu e a ca d a d ia qu e p a s s a m os ju n t os e a ca d a olh a r qu e d eleit a m o-n os , en t oa m o-a s com a cer t eza d e felicidade eterna.
  • 109.
    Bruno Vial U M P ALHAÇO T RIS TE Com o em qu a s e t od os os d ia s d e qu a s e t od a s u a vid a , seguindo a rotina durante anos programada para ser realizada s em s equ er p en s a r n os a t os e fa t os d e s u a s a t it u d es , a cor d ou ced o p ou co a p ós o n a s cer d o s ol. Ain d a com s on o m a s s em reclamar p or n ã o t er n in gu ém p a r a ou vir , s equ er a s i m es m o, levantou-s e es p r egu iça n d o e b oceja n d o e a in d a a s s im ca m in h a n d o p a r a o b a n h eir o s em n ot a r o ca m in h o qu e já con h ecia t a lvez qu a s e p or in s t in t o, com o p od er ia r es p on d er s e in d a ga d o fos s e, a p es a r d e n a ver d a d e con h ece-lo p or p u r a for ça d e h á b it o, cr ia d o p or t a n t a s e t a n t a s vezes r ep et ir o m es m o p r oces s o, s em n u n ca p er gu n t a r o p or qu ê d e t u d o is s o. Com a p or t a fech a d a e o ch u veir o liga d o, p a r ou d ia n t e o es p elh o p a r a es cova r os d en t es a b r in d o a t or n eir a d em a is , m olh a n d o o ch ã o e ch a t ea n d o-s e p or t er , a n t es d e a cor d a r d o r es qu ício d e s on o com o b a n h o qu en t e la va n d o o s eu cor p o, lim p a r a á gu a d er r a m a d a n o p is o. Ba n h o t om a d o, d en t es es cova d os , s a iu en r ola d o n a t oa lh a p a r a o qu a r t o, s em cr u za r com n in gu ém e s em n en h u m p en s a m en t o m a is p r ofu n d o qu e o cop o d e ca fé qu e o es p er a va n a m es a d a cozin h a , ju n t o com t od a s u a fa m ília a qu em s e r eu n iu logo d ep ois d e t r oca r a s r ou p a s e p ega r s u a s cois a s . O p a i com en t ou s ob r e o t em p o fir m e s em d es via r os olh os d o jor n a l, a m ã e con cor d ou s em d es via r os olh os r ep r ova d or es d a filh a , s u a ir m ã , n em d ois a n os m a is n ova e a in d a a s s im t ã o d is t a n t e, cu jo n ovo p ier cin g n a lín gu a ch oca va m a is qu e o d a s ob r a n celh a . Tr a n s cor r en d o t u d o com o s em p r e t r a n s cor r ia , m a is u m a r efeiçã o em fa m ília começou e terminou e seu caminho deveria ser seguido, pois o d es t in o cer t o d e qu a s e t od os os d ia s d e qu a s e t od a s u a vid a o es p er a va m a is u m a vez. J á n a r u a , p a s s a n d o p or a qu ele m es m o ca m in h o p or on d e t a n t a s vezes já p a s s ou s em o con h ecer , cr u zou com o p a lh a ço t r is t e. Vin d o d o n a d a , in d o p r o m es m o lu ga r , p or u m m er o in s t a n t e, o p a lh a ço t r is t e dominou sua mente por completo e tornou-se o mundo. Havia um palhaço triste. Pod er ia s er ? O ch oqu e com p let o p or exis t ir u m p a lh a ço t r is t e n ã o p er m it iu qu e s e m oves s e. E s t a va p a r a lis a d o, s equ er con s egu ia d a r u m p a s s o. S eu s p en s a m en t os en t r a r a m n a p er igos a zon a d o ca os e er a m a r r a s t a d os p elo t u r b ilh ã o d o
  • 110.
    p a ra d oxo. S e h a via u m p a lh a ço t r is t e, com o t er cer t eza s e o ch ã o s er ia fir m e? S e a s n u ven s s er ia m flu t u a n t es ? S e o a r s er ia r es p ir á vel? S e o S ol s er ia qu en t e? S e o ch ocola t e s er ia gos t os o? S e 1 +1 s er ia 2 ? S e o m u n d o s er ia r ed on d o? S e a á gu a s er ia m olh a d a ? S e a vid a s er ia u m a ob r iga çã o? S e o in fin it o s er ia s em fim ? S e o qu a d r a d o s er ia com p os t o d e qu a t r o la d os ? S e o a çú ca r s er ia d oce? Se a a r t e s er ia b ela ? S e o p od er s er ia for ça ? S e o a m or s er ia b om ? S e a r eligiã o s er ia s a gr a d a ? S e o fa t o s er ia r ea l? S e a n eve s er ia gela d a ? S e o d es ejo s er ia in evit á vel? S e a s es t r ela s s er ia m lon gín qu a s ? S e a d or s er ia s ofr im en t o? S e o fer r o s er ia s ólid o? S e a a legr ia s er ia felicidade? Se a verdade seria necessária? Se a existência seria uma certeza? Por cu lp a d a qu ele p a lh a ço t r is t e, t u d o o qu e u m d ia foi a gor a n ã o m a is o é. Da con for t á vel cer t eza d efin it iva , foi a r r a n ca d o s em p er m is s ã o, com for ça e foi joga d o n a a n gu s t ia d a d ú vid a p er en e. A p a r t ir d a qu i, s eu ca m in h o n ã o s er á m a is o m es m o, s eu s olh os ver ã o o qu e a n t es n ã o via m . S eu p r óxim o p a s s o, e a qu ele d ep ois d es s e e o p os t er ior s er ã o s em p r e r u m o a o d es con h ecid o e a o in exp lor a d o, p r on t o a qu a lqu er t em p o p a r a s en t ir o ch ã o va cila r , a s n u ven s ca ír em , o a r s u foca r , o s ol con gela r , o ch ocola t e ca u s a r n a ú s ea s , 1 +1 s er or n it or r in co, o m u n d o fica r cú b ico, a á gu a s eca r a a r eia , a vid a t or n a r -se s u p ér flu a , con t a r a t é o in fin it o, fa zer u m qu a d r a d o s em n en h u m la d o, s en t ir o a çú ca r a m a r go, d es p r eza r a a r t e, s er p od er os o e fr a co, s ofr er p or a m or , n ega r a cr en ça , viver n a ilu s ã o, s en t ir a n eve m or n a , d om a r o d es ejo, t oca r a s es t r ela s , s en t ir a d or e n ã o s e im p or t a r , a m ã o t r es p a s s a r p elo fer r o, es t a r t r is t e d e felicid a d e, n ã o p r ecis a r d a ver d a d e e n ã o t er certeza de nada. O p a lh a ço t r is t e s egu iu s eu ca m in h o, o m es m o ca m in h o qu e a gor a t a m b ém s egu ir á . Nã o im p or t a qu e a s d ir eções s eja m op os t a s , s er ã o os m es m os p a s s os a s er em d a d os , p a s s os d ecid id os e in t en s os , s u r p r es os e t em er os os p or t u d o continuar da mesma forma enquanto tudo muda. Pois olh a r o p a lh a ço t r is t e é olh a r o p a r a d oxo con s t a n t e, o con t r a d it ór io im p er m is s ível qu e im p ed e a con s t â n cia d a s cois a s d o m u n d o, a n ã o a ceit a çã o m a is d o d it o n or m a l. A p a r t ir d e a gor a a o n ovo p a lh a ço t r is t e o im p os s ível n ã o é m a is uma pergunta que não se faça, mas apenas uma consideração sempre imaginável.
  • 111.
    Lindemberg O. Gomes CRIADOR E CRIATURA Antes da criação do cosmo; do que hoje existe abaixo dos céus Deu s , Lú cifer e s u a s legiões d e a n jos d iver t ia m -s e em intermináveis banquetes. Essas festas estavam deixando Deus en t ed ia d o. At é qu e u m d ia ele ch a m ou o com a n d a n t e d o exército celestial, o seu número um, e disse-lhe: E u n ã o a gü en t o m a is es t a s fes t a s , s em p r e a s m es m a s coisas. Esta rotina está me matando! Dizes com o s e r ea lm en t e p u d es s es m or r er , p en s ou o comandante. Deixas de cinismo. Sabes muito bem que nada do que fazes ou que pensas me escapa, eu sei de tudo. É a í qu e es t á o p r ob lem a m eu S en h or ! con clu iu com o a vos s a d ivin a excelên cia t em con h ecim en t o d o qu e va i a con t ecer n a d a t e s u r p r een d e. Lem b r a s -t e d a fes t a d o s eu s ext ilh ã o qu e es t á va m os or ga n iza n d o, n o m a is com p let o s igilo e, ch ega m os a a cr ed it a r p ia m en t e d e qu e n a d a s a b ia s , m a s qu a l n ã o foi a n os s a s u r p r es a . Tod os n o s a lã o d e fes t a s es p er a va m a s u a en t r a d a e n a d a d a vos s a d ivin a excelên cia ch ega r ; a t é qu e o s a lã o foi cla r ea n d o p a u la t in a m en t e, e a s s im , d a m os con t a d e qu e o S en h or es t a va h á m u it o t em p o n o s a lã o e divertia-se com a nossa angústia à sua espera. É ver d a d e d is s e Deu s es con d en d o u m leve r is o n a qu ele d ia vós m e d iver t is t es m u it o p en s a n d o qu e eu n ã o com p a r ecer ia a fes ta con clu iu Deu s ilu m in a n d o o loca l com um breve sorriso. Con t in u a r a m con ver s a n d o p or m u it o, m u it o t em p o r elem b r a n d o ca s os in t er es s a n t es e ou t r os n em t a n t o. Foi qu a n d o s u r gir a m u n s r a ios (a lâ m p a d a a in d a n ã o h a via s id o inventada) sobre a cabeça do comandante. Arrá uma idéia! Deus mostrou-se entusiasmado. É m eu S en h or u m a in t r iga n t e id éia . Ab a ixo d os céu s n ã o h á n a d a a lém d o et er n o a b is m o, o Alt ís s im o p od er ia u s a r o s eu gr a n d ios o p od er p a r a cr ia r u m m u n d o en t r e o céu e o abismo dando vida a criaturas diversas dos seres celestiais. Ma s qu e id éia s u p im p a d is s e Deu s d a n d o vid a a primeira gíria.
  • 112.
    Deu s foicon ven cid o p elo com a n d a n t e a cr ia r o m u n d o p a r a lelo a o r ein o celes t ia l. E n qu a n t o ele es t ives s e d a n d o vid a a u m n ovo m u n d o, o s eu n ú m er o u m , es t a r ia ocu p a n d o o s eu p os t o. Deu s p a s s ou a s r ecom en d a ções n eces s á r ia s e d es ceu a o ca os . Lú cifer com a n d a n t e d o exér cit o celes t ia l fica r á em m eu lu ga r , a s u a voz s er á a m in h a , a qu eles qu e o d es ob ed ecer em es t a r ã o d es ob ed ecen d o a m im , s en t en ciou e partiu para obrar o universo. A ca d a p a la vr a s u a s u r gia m cois a s n ova s e a t er r a ia t om a n d o n ovo for m a t o; cr ia t u r a s d ifer en t es d e d ifer en t es h a b itat a p a r ecia m d a n oit e p a r a o d ia . A gr a n d e á gu a for a a ju n t a d a d eixa n d o a t er r a livr e; cr ia t u r a s voa va m s ob r e a s á gu a s e ou t r a s ia m t ã o a lt a s qu e p a r ecia m qu er er a lca n ça r os céu s . O p od er d o S u p r em o r es p la n d ecia em t od o o s eu vigor , on d e antes não havia nada surgiam coisas fantásticas. E n qu a n t o es s a s m a r a vilh a s a con t ecia m n a t er r a n o céu Lúcifer planejava um golpe. Ele pretendia usurpar o poder que es t a va va go, m a s o a r ca n jo Ga b r iel, líd er d a r es is t ên cia , vin h a minando o seu plano. Ap es a r d e t od a s a s m a r a vilh a s cr ia d a s Deu s p er m a n ecia in s a t is feit o, es t a va fa lt a n d o a lgu m a cois a qu e r ep r es en t a s s e n o t od o o s eu p od er . Dep ois d e m u it o p en s a r d ecid iu d a r vid a a u m s er qu e s er ia s u p er ior a t u d o a t é en t ã o cr ia d o. E d is s e Deu s : Fa ça m os o h om em à n os s a im a gem , con for m e a n os s a s em elh a n ça ; e d om in e s ob r e os p eixes d o m a r , e s ob r e a s a ves d os céu s , e s ob r e o ga d o, e s ob r e t od a a t er r a , e s ob r e t od o o r ép t il qu e s e m ove s ob r e a t er r a . E a s s im fin d ou a m a n h ã e à t a r d e d o s ext o d ia . Viu qu e tu d o qu e cr ia r a er a b om e a gr a d á vel d e ver . E h a ven d o Deu s t er m in a d o a s u a ob r a n o s ét im o d ia , ele o a b en çoou e n ele descansou. Dep ois d e u m d u r o em b a t e o a r ca n jo Ga b r iel e s eu s s egu id or es ven cer a m a Lú cifer , a p r is ion a n d o-o n o Va le d o E s qu ecim en t o. Deu s r et or n a n d o a os céu s r eceb eu d o a r ca n jo Ga b r iel, o r ela t o d a r eb eliã o d e s eu com a n d a n t e. E s t e foi d es p id o d e s u a s h on r a r ia s e la n ça d o ju n t a m en t e com os s eu s seguidores no abismo eterno. Tom a d o p elo ód io Lú cifer p r om et eu vin ga n ça ; ob s er va n d o a s cr ia ções d e Deu s ele t eve u m a s a t â n ica id éia . De t od a s a s criaturas s ó o h om em n ã o t in h a u m a com p a n h eir a ; es s e er a o t en d ã o d e Aqu iles a s er a t a ca d o. Ten t a t iva s a p ós t en t a t iva s er a m fr a ca s s a d a s . S u a s cr ia ções n ã o p a s s a va m d e aberrações da natureza.
  • 113.
    E n fim, d ep ois d e m u it os fr a ca s s os a s u a ob r a es t a va a ca b a d a , er a lin d a d e feiçã o cor p ór ea , a d ocilid a d e d e s eu s ges t os escondiam a natureza de sua criação. O seu único objetivo era d es vir t u a r a cr ia çã o m a ior d o Deu s S u p r em o. E m s eu s olh os es con d ia m a t er r ível ver d a d e qu e a r d e n o m a is p r ofu n d o precipício da alma humana. Deu s p r es s en t in d o os p r ob lem a s qu e es s a cr ia t u r a ir ia p r ovoca r , n ã o t in h a a lt er n a t iva a n ã o s er d es t r u í-la . Ma s ela er a lin d a d em a is e o Alt ís s im o ven d o qu e ela s er ia u m a b oa companhia para o homem resolveu quebrar o encanto maligno que a d om in a va . Dot ou -a d e s en t im en t os s u p er ior es a d o homem a s p a ixões . Decid iu t a m b ém qu e ela s er ia eternamente subjugada pelo homem. As s im a cr ia çã o m á xim a d e Deu s con s egu iu a s u a com p a n h eir a : ela d ot a d a d e p a ixões , e ele, d ot a d o d a r a zã o. Um n ã o vive s em o ou t r o, o ou t r o, n ã o vive s em o u m . E le com o cr ia çã o d ivin a d om in a a t u d o o qu e s e en con t r a en t r e os céus e o reino de Lúcifer.
  • 114.
    Marcelo dos SantosNetto TESTE DA FÁBULA DOS TRÊS RATOS E r a m t r ês r a t os qu e d is p u t a r a m o m es m o n a co d e ca r n e d a qu ela m es m a n oit e. Nen h u m d eles p er ceb eu qu e a ca r n e, n a ver d a d e, er a is ca . Foi a s s im qu e ca ír a m os t r ês n a a r a p u ca que o dono da mercearia preparou. O d on o es t a va con t r a r ia d o com o a r r oz qu e p er d ia . S ep a r ou u m b a ld e, b es u n t ou o la d o d e d en t r o com b a n h a ; ca vou u m b u r a co n a a r eia , a s s en t ou o b a ld e a li d en t r o, jogou is ca s a o fu n d o. E n t r a r a li foi fá cil. Os r a t os s ó p r ecis a r a m s e joga r . Pa r a s a ir , im p os s ível. As ga r r a s es cor r ega va m n a b a n h a . Logo os t r ês r a t os fica r a m à m er cê d o r a t o h om em , qu e os d es p ejou n u m a ga iola e os p en d u r ou n o t et o d o t er r a ço. Pr om et eu a s i mesmo que só veria o resultado daqui a dois dias. De p r im eir a , os b ich os n ã o en t en d er a m . Roer a m a ca r n e e t u d o b em . Ten t a r a m s a ir , n ã o con s egu ir a m . Res olver a m d or m ir . At é qu e a m a n h eceu . A fom e a p er t ou m a is , e m a is . Foi assim que os três perceberam as regras do jogo. E a gor a ? p er gu n t ou o m en or . Qu e fa r em os p a r a n ã o morrer de fome? Bom concluiu o do meio só se a gente tirar na sorte... Tirar na sorte o quê? perguntou o maior. Quem vai servir de comida para os outros... Depois de muito protesto e desconversa, assim foi feito. E o do meio acabou sorteado. Injusto! protestou o escolhido. In ju s t o p or qu ê? p er gu n t a r a m os ou t r os d ois . Nã o qu er aceitar as regras do próprio jogo? Nã o é is s o; b om , in ju s t o p or qu e... E u s ou o ju iz! É , is s o m es m o! S e o jogo é m eu , en t ã o p r ecis o es t a r a qu i p a r a s a b er se as regras vão ser cumpridas! Nã o s e p r eocu p e d is s e o m en or . Nos s a fom e va i ga r a n t ir que suas regras sejam cumpridas! As cois a s n ã o fu n cion a m a s s im ! p r ot es t ou o r a t o. Como vã o fa zer u m a d ivis ã o ju s t a s em u m ju iz p a r a is s o? Ten h o d e estar aqui! É a única chance que vocês têm para garantir isso! Meio contrariados, jogaram outra vez. O menor foi escolhido. Des t a vez s ou eu qu em p r ot es t a d is s e o m a ior . E s s e a í t em p ou ca ca r n e!, n ã o d á n em p a r a t a p a r o b u r a co d o m eu dente.
  • 115.
    Então jogaram outravez e o maior foi escolhido. Acho que é justo disse o menor. Vai dar para nós dois. Seja um bom perdedor... disse o do meio. Pois b em ! d is s e en t ã o o m a ior S e qu is er em , p od em vir ! Quem sou eu para impedi-los de tentar! E o r a t ã o d evor ou os ou t r os d ois s em p r ob lem a a lgu m . Roeu olh os , r oeu cou r o, r oeu ca r n e, r oeu u n h a s . Roeu os s os . Roeu tudo. Uma fome de elefante na barriga de um rato. Dois d ia s d ep ois , o d on o d a m er cea r ia volt ou a o t er r a ço e s ó en con t r ou u m r a t o. Um filet e d e s or r is o es cor r eu p elo ca n t o d a b oca d ele. Bem qu e o m u n d o t od o p od ia s er feit o d u m a ju s t iça p oét ica a s s im o r oed or , s en d o r oíd o, n u m a cois a d e p r is ã o t u r ca e s er en a , p oes ia d e Ha m u r a b i e s u a s Doze Tá b u a s Fla m eja n t es . S im s en h or . E le va i d a r ca b o d a qu ele ú lt im o r a t ã o s ó fa lt a lh e s u r gir ou t r a id éia , t ã o b r ilh a n t e como a da gaiola. Mo ral da His t ó ria: m or a l é cois a d e s it u a çã o; violên cia doméstica não se domestica.
  • 116.
    Franklin dos SantosMoura SE ELES S OUBES S EM !!! Ma is u m a s ext a -feir a , e com o er a d e cos t u m e, lá es t a va m eles em volt a d a m es a p a r a u m a r eflexiva r efeiçã o. Con t u d o, n in gu ém s e a t r evia a d es a r r u m a r a m es a , en qu a n t o S a lva d or n ã o ch ega s s e. E le gos t a va d e p r ofer ir a lgu m a s p a la vr a s , e t a m b ém a gr a d ecer p elo a lim en t o d a qu ela h or a . Nã o t a r d ou m u it o, e lá es t a va m t od os eles : fa m in t os , a legr es , e ext r em a m en t e a t en cios os a S a lva d or . E s t e p or s u a vez, a p ós a lgu n s m in u t os d e in icia d a a r efeiçã o, p ed iu a a t en çã o p lena d e t od os p a r a con t a r u m s on h o. Pa r ecia u m p ou co p r eocu p a d o, e is t o logo ficou vis ível qu a n d o foi a n u n cia d a s u a in t en çã o. Im ed ia t a m en t e, t od a a t en çã o es t a va d is p on ível p a r a ou vir e r eflet ir s ob r e s u a s p r eocu p a ções e a n s eios . Na qu ele momento, a fome estava em segundo plano. Daí, disse o jovem Salvador: - Ca r ís s im os , n a n oit e p a s s a d a , t ive u m s on h o in t r iga n t e. Vá r ia s vis ões , e cois a s qu e ja m a is t in h a im a gin a d o. Gos t a r ia d e con t a r a vocês , e ju n t os , t en t a r m os entendê-la s . Tu d o com eçou qu a n d o eu em er gi n u m lago, e com ecei a ca m in h a r n u m a flor es t a . Nes s a flor es t a , a s en s a çã o er a d e gr a n d e p er igo, e vá r ios h om en s s e a p on t a va m com u m m et a l qu e em it ia u m a p equ en a fa gu lh a . Aos p ou cos , p u d e ver qu e a qu ela s fa gu lh a s r ep r es en t a va m d is p a r os , com o s e a lgo fos s e la n ça d o r a p id a m en t e. Nã o d em or ou m u it o, e p er ceb i qu e a s p es s oa s a t in gid a s ca ia m p r a t ica m en t e s em vida...Fiquei admirado, mas não entendia por que aquilo es t a va a con t ecen d o. Im a gin em s ó, p es s oa s s e m a t a n d o, p or qu ê? De r ep en t e, u m a á gu ia fis gou m eu s om b r os e comecei a vis u a liza r t u d o p or cim a . Con fes s o qu e s en t i u m a for t e t r is t eza , p ois p a r ecia qu e o m u n d o er a h a b it a d o p or m on s t r os . Nã o m u it o d is t a n t e, vi m a s s a cr es on d e u m a n u vem d e fogo d eva s t a va en or m es áreas: pessoas, animais, plantas...tudo sendo destruído. E u m e p er gu n t a va qu e m u n d o er a a qu ele ? Olh ei p a r a cim a , e o céu t r a n s m it ia u m a en or m e a n gú s t ia . Ped i à á gu ia qu e m e s olt a s s e, e ca í n u m loca l on d e a s p es s oa s es t a va m a p r es s a d a s , n er vos a s , e d ep r im id a s . As ves t es
  • 117.
    eram bem diferentesdas nossas, e eles entravam numas ca r r oça s d e m et a l e color id a s p a r a s e locom over . Ha via m á r vor es d e p ed r a en or m es qu e qu a s e a lca n ça va m o céu . Qu a n d o a d m ir a va u m a d es s a s á r vor es , vi u m a p es s oa t en t a n d o voa r , s a lt a n d o d o t op o, ... d e b r a ços a b er t os . E s t a va p er p lexo, e p r ecis a va fa la r com a lgu ém , e p er gu n t a r o qu e es t a va a con t ecen d o, m a s n in gu ém m e ou via . Dep a r ei-m e com u m a m u lh er , a t é s im p á t ica d ia n t e d a qu ela s p es s oa s , e com o con s egu i s u a a t en çã o, logo p er gu n t ei: - O qu e es t á a con t ecen d o a qu i? On d e es t á a h a r m on ia , a a legr ia , o a m or d este m u n d o? E la s im p les m en t e b a la n çou a ca b eça n ega t iva m en t e, e m e d eu a s cos t a s . S egu r ei-a p elo b r a ço, e ela com lá gr im a s n os olh os r et r u cou : - Qu em é você? De qu ê p la n et a você veio? E s s a s p a la vr a s n ã o s ign ifica m n a d a p or a qu i...s in cer a m en t e, já for a m esqu ecid a s .Vivem os u m a ép oca qu e p a is e filh os s e m a ta m , ca s a m en t os es t ã o d es a cr ed it a d os , a com p a n h a d os d e fom e e d es em p r ego, qu e d en t r e outras coisas, fazem parte do cotidiano. Agora, deixa-me ir , p ois p en s ei qu e você fos s e u m clien t e, e n ã o p os s o p er d er t em p o...p r ecis o ga n h a r o d ia . Mes m o n ã o en t en d en d o b em a qu ela s p a la vr a s , con t in u ei a caminhada pela floresta de pedra. Curiosamente, alguns m e joga r a m a lgu m a s m oed a s , m a s eu n ã o en t en d ia p or qu e. Ca m in h a n d o p ela s es t r a d a s vi u m m u n d o d ifer en t e, e qu a n d o s en t ei u m p ou co p a r a d es ca n s a r , u m s en h or a lt o, com ves t e es cu r a e p ele b em cu id a d a , s e a p r oxim a e p er gu n t a : - Qu er ga n h a r u n s t r oca d os ? Pr ecis o qu e leve es t a en com en d a a t é....Foi a í qu e acordei. Tod os es cu t a r a m a t en t a m en t e o S a lva d or , e qu a n d o ele t er m in ou , a a p r een s ã o er a ger a l. J oã o Ba t is t a , t en t a n d o a m en iza r t od a a s it u a çã o, d is s e: Ach o qu e você vem t r a b a lh a n d o d em a is . É m elh or t ir a r a lgu n s d ia s p a r a d es ca n s a r . Ped r o e Tia go p r efer ir a m in t er p r et a r o s on h o (qu e m a is p a r ece u m p es a d elo) e con clu ír a m qu e p od er ia s er a lgu m a p r ofecia s ob r e os Rom a n os . Algu n s m in u t os d ep ois , S a lva d or es t a va m a is ca lm o, e a p ós u m a t a ça d e vin h o, r et om ou a p a la vr a : - Acr ed it o qu e es t e s on h o t en h a s id o u m a vis o. Nã o p a r a a n os s a ép oca , m a s p a r a u m t em p o qu e possivelmente virá. Isto é, somente virá se as nossas sementes
  • 118.
    for em nociva s à h u m a n id a d e. Dia n t e d is s o, s in t o-me t r a n qü ilo, p ois s ei o qu e ca d a u m d e vocês t em gu a r d a d o n o cor a çã o. Nós s om os a s s em en t es d o a m a n h ã . Um a m a n h ã d e harmonia, igualdade, confiança, respeito, esperança e fé. Nã o h ou ve qu em n ã o con cor d a s s e com o S a lva d or . Tr a t a va -se realmente de um sonho, e todos estavam ali contribuindo para u m m u n d o m elh or . A r efeiçã o p r os s egu iu , com o d e cos t u m e, e a fom e h a via r eceb id o u m for t e es t ím u lo. O s ilên cio er a t ot a l, a t é qu e Ped r o olh a p a r a J oã o e p er gu n t a : - Tu vis t e o m om en t o qu e J u d a s s a iu d a m es a e m in u t os d ep ois volt ou com u m s a co d e m oed a s p en d u r a d o n a ves t e? Rep a r a s t e t a m b ém qu e ele es t a va in qu iet o a p ós o r et or n o? Com o s er á qu e ele ga n h ou a qu ela s m oed a s ? In es p er a d a m en t e (com o s e t ives s e es cu t a d o o com en t á r io), S a lva d or , com u m t om m ela n cólico, vir a p a r a J u d a s e p er gu n t a : - E t u J u d a s , o qu e achastes do sonho?
  • 119.
    Anaximandro Amorim O TELEFONEMA Pedro encontrou a namorada em prantos. - O que foi amor? - Quem é essa Janaina? - Quem? Indagou, confuso. A moça não se deixou abater: - Nã o s e fa ça d e b ob o. Diga , qu em é es s a t a l d e Janaina? - Ma s eu n ã o con h eço n en h u m a J a n a in a ! excla m ou o r a p a z, d es es p er a d o. Olh ou p a r a a n a m or a d a : a m oça es t a va com a s t êm p or a s ver m elh a s ; p a r ecia h a ver ch or a d o u m r io e, ofegante, agora soltava fogo pelas ventas. - Ligou p a r a você a in d a a gor a u m a t a l d e J a n a in a . Deixou r eca d o e t u d o m a is . Vozin h a m ole, jeit in h o d e oferecida. O r a p a z n ã o p od ia a cr ed it a r ! Aqu ilo er a u m com p lô con t r a ele. Qu em p od er ia s er ? Algu m ex-namorado d ela ? Um a vizin h a en ca lh a d a , qu e t in h a in veja d o n a m or o d eles ? Ou s er ia a lgu m colega d o fu teb olzin h o d e t od os os fin s d e s em a n a , qu er en d o colocá -lo em m a u s len çóis ? S ó p or qu e ele er a o a r t ilh eir o d o t im e, d is p a r a d o. Aqu ilo s ó p od ia s er armação! - Ma s a m or ! E u já d is s e qu e n ã o con h eço n en h u m a J a n a in a ! Você t em qu e a cr ed it a r em m im , b en zin h o! d is s e, e foi d e a ch ega n d o à n a m or a d a , qu e o r ep u ls ou , es t ica n d o o braço. E, com o semblante em riste, sentenciou: - Está tudo acabado, Pedro! Tudo acabado entre nós! - Ma s com o, com o m eu a m or ? E t od os es s es a n os juntos? E os nossos planos? - Nã o vou fica r d ivid in d o você com n in gu ém . Ter m in ou . Chega! A n a m or a d a er a d u r a n a qu ed a ! Ciu m en t a , b r iga va p or qu a lqu er cois a . E r a gen ios a , t in h os a , qu a n d o s e d ecid ia , n ã o h a via qu em a con ven ces s e. E le t eve en t ã o u m a id éia , u m t ir o de misericórdia. - E s t á b em ! Você fa lou qu e es s a t a l d e J a n a in a a ca b ou de me ligar, não é? Foi o último número? E a namorada só balançou a cabeça, fazendo que sim. - Então escute só.
  • 120.
    Tir ou ofon e d o ga n ch o e a p er t ou u m b ot ã o qu e d is cou , a u t om a t ica m en t e, o n ú m er o gr a va d o n a m em ór ia . S eja lá o quem fosse, ouviria umas boas. Uma voz de criança atendeu, ingênua: - Alô? - E s cu t a a qu i? Qu em é você p r a fica r liga n d o p r a m in h a namorada, hein? Sua sirigaita... e despejou cobras e lagartos n o in fa n t e qu e, m u d o, n ã o h a via a p r en d id o s equ er m eia d ú zia das palavras que o rapaz despejou em seus ouvidos. E xa s p er a d o, Ped r o, p a r a t er m in a r , b a t eu o t elefon e, dando à sua peroração um ar de gran d fin ale. A namorada, do s eu la d o, d es fez a t r om b a . Um a r d e ca n d u r a t om ou con t a d o seu semblante. Parecia tê-lo conhecido pela primeira vez. - E u s a b ia qu e você n ã o t in h a feit o n a d a d e er r a d o. - e jogou-s e n os b r a ços d o n a m or a d o, im p lorando:- Des cu lp e-me, desculpe-me. - O que é isso, amorzinho! Não precisa se desculpar. - Nã o, p r ecis o s im ! O qu e eu p os s o fa zer p a r a con s er t a r meu erro? - Bem... Ficou b oa zin h a p or m u it o t em p o, a ceit a n d o a t é o fu t eb olzin h o d ep ois d o h or á r io e a s s a íd a s com os a m igos , t od os os fin s d e s em a n a ; Um d ia , p or ém , r es olveu m a n d a r t u d o p a r a a s fa va s . Foi qu a n d o u m a ta l d e Ma r cela d eixou r eca d o p a r a Ped r o qu e, d es es p er a d o, ligou d e volt a p a r a o n ú m er o, a gin d o d a m es m a for m a . Tu d o s e r es olveu e, em t r oca , ele con t in u ou com s eu fu t eb ol e s u a s s a íd a s com os a m igos . E a s s im ela foi leva n d o s em n u n ca en t en d er p or qu e t a n t a s m u lh er es p r ocu r a va m p or ele, p or en ga n o, ju s t o quando voltavam a brigar.
  • 121.
    Ezequias Miller MULHERES Algu m a vez você já t en t ou en t en d er a s m u lh er es ? S e a r es p os t a foi s im , a ch o qu e n a qu ele m om en t o a in s en s a t ez t om ou con t a d e você. E s e você con t in u a s s e eu d ir ia com o u m n ã o en t en d ed or d e m u lh er es qu e você con t in u a r ia s em entendê-la s . E s e fos s e o ca s o, a lgu m a s p es s oa s o in t er n a r ia em u m a clín ica p a r a cu r a r o ou os t r a u m a s qu e es s e n ã o- en t en d im en t o p od er ia m lh e ca u s a r . Qu a n d o b u s ca m os en t en d er m u lh er es s ign ifica qu e n ã o es t a m os p r ep a r a d os p a r a tê-la s . Is to é fa t o. É m a is fá cil s e p er d er n o en t en d im en t o d o qu e n o n ã o-en t en d im en t o. As m u lh er es n ã o s ã o d e ou t r o planeta. Os homens também não. Eles vivem trocando olhares o t em p o t od o. Olh e p a r a u m a m u lh er n o ôn ib u s . Qu a n d o ela olh a p a r a você, p od e n ã o s ign ifica r a qu ilo qu e você qu er r ea lm en t e en t en d er . E la p od e es t a r t e a ch a n d o b on it o d em a is ou feio d em a is . E la p od e a ch a r a s u a r ou p a m a r a vilh os a ou n ã o. E la p od e qu er er n a m or a r com você ou n ã o. Pod e qu er er fa zer s exo com você ou n ã o. Pod e qu er er t e ven d er a lgu m a cois a ou n ã o. Pod e t e s ed u zir ou n ã o, m u it a s vezes d ep ois d a s ed u çã o vem o n ã o, o n ã o s e en t r ega r , o n ã o n a m or a r , o n ã o casar o não viver ao seu lado. Ela pode estar fazendo isso para s a t is fa zer o p r óp r io ego. E la p od e t a n t a cois a qu e eu n ã o en t en d o. Aí es t á a ch a ve. O n ã o en t en d im en t o. O n ã o en t en d im en t o p od e n os fa zer a ceit a r a s cois a s com o s ã o. Ou p od e n os leva r a lou cu r a , s im p les m en t e p or n ã o en t en d er m os . Ma s é u m a lou cu r a s ã . Is s o eu a ch o. Ma s exis t e lou cu r a s ã ? Loucos são loucos e são tratados como loucos. Mu lh er es s ã o d e vid r o, d e p a p el, d e m et a l, d e á gu a , d e p ed r a , de fogo, de ar, de cores e muito mais, pois para mim todas são n a t u r a is . E o qu e é n a t u r a l n ã o t em d e s er com p r een d id o. Tem d e s er a ceit o, s ó is s o. Tem d e s er a ceit o. Qu a n d o aceitamos algo, esse algo pode nos tornar agradável. E assim é fá cil d es eja -lo. E o d es ejo é a lgo or gâ n ico? S im , p or qu e n ã o. Ma s o d es ejo p od e s er a lgo m a is d o qu e or gâ n ico. Pod e s er m á gico. Acr ed it o qu e é m á gico. Há a lgo d e m á gico s im . E n t ã o a s m u lh er es s ã o m á gica s . Má gica s p or n a t u r eza . É a lgo qu e é mágico é indesvendável. Portanto se elas são, elas apenas são. Não precisamos compreende-las. Pois mágica é mágica.
  • 122.
  • 123.
    Marcelo dos SantosNetto VAI VER QUE S IM Lem b r o d a ú lt im a vez qu e m in h a m ã e t en t ou s er in ven t iva . Pa s s ei u m a r a iva d a qu ela s ; m a s t a m b ém s en t i p en a . Foi a s s im qu e a p r en d i: o ca s a m en t o é u m a in ven çã o d o s ilên cio. Os bichos assim unidos querem apenas se ignorar em paz, até qu e a m or t e os s ep a r e ou t r a vez. Ap es a r d is s o, m in h a m ã e es t a va s em p r e in ven t a n d o. E s ó d es is t iu n es s e d ia t r is t e, qu a n d o en fim p a s s ou d a con t a . O qu e t er ia a in s p ir a d o? Imaginei que o tempo me faria entender. E realmente fez. Na qu ela m a n h ã , m in h a t ia m os t r ou a ela u m a m á qu in a a b ot oa d or a . Com u m golp e d e a la va n ca , b ot ões d e p r es s ã o s e a ga r r a va m a o t ecid o qu e fos s e. Lem b r o qu e a m a r ca d o a p a r elh o er a a lgo com o Vigor eli . Ch a m a va m o m od elo d e Rob ô , p or qu e os r ob ôs p a r ecia m s er a s olu çã o p a r a t u d o naquela época. An t es d a Vigor eli, os b ot ões t in h a m d e s er cos t u r a d os e a s roupas, caseadas. Dava muito trabalho. Não havia mulher que gos t a s s e d e ca s ea r s em con t a r qu e er a m u it o ch a t o en s in a r os filh os a a b ot oa r em a s p r óp r ia s r ou p a s . Foi p or is s o qu e m in h a m ã e s e en ca n t ou com a t a l m á qu in a . Ma s s e en ca n t ou t a n t o, qu e p er d eu a t a r d e in t eir a fa zen d o u m a r ou p a m u it o feia p a r a m im lis t r a d a e cin zen t a , d e u m m a u gos t o terrível. Ma s is s o n ã o a in com od a va . Pa r a ela , cos t u r a r er a com o a s s in a r a lgo d o qu a l s e d izia fu i eu qu e fiz . S ozin h a . E p r ega r aqueles botões seria um ritual de alforria, de emancipação. Por con t a d is s o, t ive d e fica r u m b om t em p o p a r a d o, feit o manequim d e ver d a d e. Ou d e m en t ir a com o m en in o, n u n ca t ive voca çã o p a r a a b eleza . Hoje em d ia , t en h o cer t eza d e qu e m in h a m ã e n ã o cos t u r a va p a r a m im . Ma s es t a va t ã o a cos t u m a d a a fa zer t u d o p a r a os ou t r os cozin h a r e p a s s a r e limpar , qu e t er m in ou s e es qu ecen d o d o ób vio: cos t u r a r p a r a si mesma. Ter m in a d o o s er viço, m in h a m ã e p a r ecia feliz. Ch ega n d o em ca s a , m eu p a i qu is s a b er o m ot ivo d a qu ela fes t a . E la o levou a o m eu qu a r t o, on d e h a via m e es con d id o d en t r o d o gu a r d a - r ou p a . Ta -d á ! , ca n t a r olou , r evela n d o-m e en t ã o. Qu e surpresa ingrata. Papai levou a mão à testa. Que roupa horrível é essa? Tira o menino desse trapo agora!
  • 124.
    O m eup a i, ele er a d e u m a a u t or id a d e ú n ica . Um h om em s ólid o e ob jet ivo, com o u m cód igo p en a l. A p r es en ça d ele s em p r e m e in com od ou . Afin a l, fu i u m ga r ot o d is t a n t e, p er d id o em u m m u n d o d e s ím b olos qu e fiz s ó p a r a m im . Ain d a a s s im , fiqu ei feliz em cu m p r ir a or d em d o m eu p a i. Aqu ela r ou p a er a mesmo triste. Depois daquele dia, minha mãe nunca mais tentou nada. Nem m es m o cor t a r o m eu ca b elo, cois a qu e ela fa zia s em p r e. E m u it o m a l. S ei qu e d ever ia es t a r con t en t e. Ma s n ã o m e a cos t u m ei a t a n t a p a z. S en t i fa lt a d e gem er m e d eixa ir em b or a , eu qu er o é b r in ca r . Pod e s er qu e eu t en h a en t en d id o a qu ilo com o u m d es p r ezo. Rea lm en t e, ja m a is con s egu i fica r gra t o p ela in t er ven çã o d o m eu p a i. Dep ois d ela , é ver d a d e qu e conheci alguma paz. Mas isso não vinha ao caso. Não sei onde li qu e a felicid a d e n ã o es t á a p en a s n o b em -es t a r . Tive d e concordar, mesmo em segredo. De qu a lqu er for m a , eu es t a va fin a lm en t e livr e. Pod ia s a ir e ga s t a r o r es to d e m in h a s t a r d es ju n t o a o Felip e. Pa r a fa la r a ver d a d e, eu n ã o gos t a va m u it o d ele, n ã o. Mes m o a s s im , eu o p r ocu r a va . Nos s a b r in ca d eir a fa vor it a er a a d e b r iga r . Rolá va m os n a a r eia d a s con s t r u ções fin gin d o cen a d e p a n ca d a r ia , t ip o d a qu eles film es d e a çã o qu e p a s s a va m n a s n oit es d e s á b a d o. E foi a s s im qu e com ecei a d es con fia r d e qu e Felip e gos t a va d e m im . Mu it o. Ma s eu gos t a va m a is d a Mich ele. S ó qu e o Felip e er a m en in o, a s s im com o eu . Fa zia xixi d e p é. Gos t a va d e b r in ca r d e gu er r a . Br iga va e fica va r ep r ova d o n a es cola . E com cer t eza s a b ia m a is s ob r e o qu e nós, meninos, gostamos. Pois é. Senti-me dividido.
  • 125.
    Gabriel Raposo F IGUEIRA Figu eir a er a u m ga r ot o im p et u os o, s egu r o d e s i! Con vivia com vá r ios a m igos . Leva u m ch oqu e a o s a b er qu e t u d o a qu ilo qu e s u a fa m ília p os s u ír a n ã o er a r ea lid a d e, à m ed id a qu e n ã o lh e p er m it ir ia con clu ir s eu s es t u d os m éd ios e d a r p r os s egu im en t o à h er a n ça e a o en leva m en t o d a h is t ór ia fa m ilia r . Figu eir a , qu e s e a ch a va b on it o e s u p er in t eligen t e, m a s n u n ca t in h a a r r a n ja d o n a m or a d a e, t a m p ou co, b oa s n ot a s , p or qu e s u a m en t e er a m a l com p r een d id a , a ch a va m a s u a m ã e e ele, p r ep a r a va -s e p a r a o cu r s o d e od on t ologia numa grande universidade, pois sua mãe lhe encucara isso. Agor a , com o n u m s op r o d e ven t o r ep en t in o, ele s e en qu a d r a va e r ot u la va -s e; a fa lt a d e d in h eir o fizer a transformá-lo n u m m en in o con fu n d id o, p er d id o en t r e a s m a is va r ia d a s cla s s es n om ea d a s . Cla s s es es s a s qu e n ã o m a is a s en xer ga va com d is t a n cia m en t o d e s u p er m en in o. E ou t r a s , a qu ela s ($ ), qu e d e t ã o lon ge lh e a r r ep ia va m os cabelos lisos. Lem b r a va ele d e qu e u m d ia viver a a vid a com o os ver d a d eir os p la yb oys . E s en t ir a a n eces s id a d e d e con h ecer uma garota a sua altura. Há mister de bom garbo e imbuída de toda uma elegância finda, a que fora costumado. Não era d e es p er a r -s e ou t r a cois a , d a d o qu e, com u m a ed u ca çã o d a qu ela s , t u d o s e t or n a r ia o m a is leve s op r o d e a gr a d o p a r a aquele corpo bem acostumado. Com p let a va u m a id a d e d e r es p on s a b ilid a d e, e d e p r es en t e ga n h a r a a ver d a d e. Um a r ecep çã o d e vid a a d u lt a ? Comemor a va a gor a s eu d es p r en d im en t o com o p a s s a d o, o qu a l n ã o lh e s er vir a p a r a m a is n a d a , a p en a s p a r a p a s s a d o, lem b r a n ça s p or qu e, s eu r ela xa n t e n ot u r n o, en t r e s on h os r ela xa va . E n o d ia -a -d ia cor r ia a t r á s com s u a s p er ip écia s imaturas. Ficou u m s u jeit o qu e ja z t a cit u r n o, m or ib u n d o e va d io. Des ilu d id o e in s a t is feit o. Por qu ê? E xp lico! Pr es o n u m n ovo s et or d e h u m a n os , u m a cla s s e m éd ia ilu d id a qu e s e a ch a va em posição. Não há mulher que o suporte para com as suas
  • 126.
    exigên cia s(n u n ca d eclin a d a s à s s u a s p a r ceir a s ) n em o s a t is fa ça , a n ã o s er , a s m u it o fin a s , a s qu a is d e vez em vez o p er ceb em gr a ça s à s u n h a s s u ja s d e p om a d a , n o p os t o d e ga s olin a on d e t r a b a lh a . Pom a d a qu e com m u it o es for ço ele s e d ign a va a com p r a r p a r a a m en iza r s eu s p r ob lem a s psíquicos p u lu la va m n a p ele. S em for ça p a r a m a n t er u m a p os t u r a , ele t or n a -s e a gor a u m in d ivíd u o a p á t ico: n ã o r i, n ã o ch or a , n ã o ca n t a , n ã o t em a m igos n em r ea ções d e s en t im en t o. S em p r e evit a va qu a lqu er con t a ct o com os p a r en t es , p ou cos , m a s s em p r e a t en t os à s u a vid a , o qu e m u it o o ir r it a va . Fizer a u m m u it o p a r a s er es qu ecid o, m a s qu a lqu er con d u t a ch a m a va à a t en çã o d e s eu s fa m ilia r es ; a t é m es m o p en s a r a em s u icíd io, a t o qu e ele r en ega va , d a d o qu e u m a cois a d es s a s t r a r ia t od a a t en çã o d os p a r en t es , n o m ín im o! Fica va en t ã o t en t a n d o m or r er em vid a , n ã o d em on s t r a va n en h u m a exp r es s ã o fa cia l, s em p r e d e r os to qu iet o. Pen s a va em a r r a n ja r u m a m u lh er s em m od os ? m a s qu e ju n t os a ju d a r ia m u m a o ou t r o? n u n ca ! O qu e ele t er ia d e b om a ofer ecer a ela s em d in h eir o!? S u a ed u ca çã o n ã o o p er m it ia . E t en t a r fa zer u m cu r s o u n iver s it á r io qu e r ep u t a va b a ixo, ele, n u n ca ! Tin h a feit o a m igos n a in fâ n cia , r icos e er u d it os , e n a h ip ót es e d e r een con t r á -los t od os b em d e vid a , p r efer ia t r a b a lh a r n u m p os t o d o s u b ú r b io, econ om iza n d o u m r es t o d e d in h eir o, n a es p er a n ça d e com u m d in h eir o la u t o p od er r et om a r s u a in fâ n cia d e m en t ir a . E m t u d o, s er es qu ecid o e a com p a n h a r a vit ór ia d os ou t r os eram suas grandes e únicas diversões. Lá ia Figueira. Mudara-se para uma cidade do interior fria. As s im , d e ca s a cos ele s e s u m ia . Pa r a ir a o t r a b a lh o er a s em p r e p on t u a l, n u n ca h a via s id o r ecla m a d o ou r ecla m a r a lgo a s eu ch efe lembre-s e d e qu e n ã o ch a m a r a a t en çã o alheia fazia parte, agora, do escopo de sua vida. Nu m a cr is e econ ôm ica , Figu eir a t eve d e s er d em it id o, e com is s o, logo p en s ou em t od a s a s econ om ia s qu e t in h a feit o. As u s a r ia p a r a fin a n cia r u m p r ojet o, n ã o! Pa r a p a ga r a s con t a s d e ca s a e s ob r eviver , n ã o! Tu d o er a m u it o in cer t o, com u m a cr is e d es s a s , n ã o s e s a b e qu a n d o ir ia a ca b a r . E Figu eir a p egou t od o o d in h eir o, colocou -o n u m s a co, e p a r t iu em b or a . Com t r ês d ia s n os om b r os , n ã o a gü en t a va d e fom e, p en s ou em u s a r u m p ou co d o d in h eir o qu e a cu m u la r a p a r a fa zer u m la n ch ezin h o. Nã o! S e em t r ês d ia s ele fr a qu eja s s e. O qu e s er ia d a s p r óxim a s s em a n a s ? Fir m e, fit a va a vis t a
  • 127.
    n os ba ld es d e lixo e execu t a r a o qu e p en s ou ..., p ois t in h a u m a ed u ca çã o a u s t er a e d is cip lin a d a . Pa s s a d os cin co m es es , o lixo e o es qu ecim en t o fizer a m d e Figu eir a u m m en d igo a com od a d o. Agor a já n ã o ga s t a va o d in h eir o em h ip ót es e a lgu m a ; s en t ir a -s e, com o n a in fâ n cia , r ico. Tinha u m m on t a n t e d e d in h eir o qu e in veja va m os ou t r os (s e s ou b es s em ). Ma s r ep et ia s em p r e em voz: qu e n ã o ga s t a o d in h eir o p a r a n ã o fica r p ob r e; e levou es s e ver s o p or cin co anos para junto dele ao túmulo. E Figu eir a m or r eu , s os s ega d o e s em r em or s os , n u m acid en t e, qu e ele m es m o p r ovoca r a , u m a cid en t e p er feit o d e qu e n ã o h ou ves s e ch a n ce a lgu m a d e s ob r evivên cia ou d eb ilit a m en t o. Do d in h eir o econ om iza d o, ele d eixou p a r a s eu ir m ã o, o m a is n ovo, o qu a l ele a ch a r a t er u m a vid a s em elh a n t e à s u a , m a s com o p or ém d os s on h os d a velh a m ã e s er em m a ior es d o qu e os s on h os d a s cla s s es a lt a s . Ah ! Ma s ele t eve o cu id a d o d e o d in h eir o ch ega r à s m ã os d e s u a m ã e, in cólu m e, ou s eja , n u n ca qu e ela cogit a r ia t er vin d o das mãos dele. E morre Figueira, sem rastro de personalidade, sem história m a l con t a d a , s em b r iga s , s ep a r a ções e d es a fet os . Com o o golp e d e ven t o r ep en t in o qu e levou ju n t o com s eu s s on h os , s u a p er s on a lid a d e, es p er a n ça , e t od a s a s p equ en a s p eça s qu e com p õem a vid a h u m a n a . Va i-s e s em gr a n d es p om p a s , p r in cip a lm en t e p or n ã o t er con cr et iza d o os d eva n eios d a mãe ou dado continuidade ao passado que de tão belo enjoa e desagrada.
  • 128.
    This document wascreated with Win2PDF available at http://www.win2pdf.com. The unregistered version of Win2PDF is for evaluation or non-commercial use only.