Álvaro de Campos
Álvaro de Campos
Índice
Apresentação do
heterónimo
O imaginário épico
As três fases
A fase decadentista
A fase intimista
A fase futurista
Linguagem e estilo
Exercícios
Álvaro de Campos
«A origem dos meus heterónimos é
o fundo traço de histeria que existe em
mim. Não sei se sou simplesmente
histérico, se sou, mais propriamente, um
histero-neurasténico […]. Seja como for, a
origem mental dos meus heterónimos está
na minha tendência orgânica e constante
para a despersonalização e para a
simulação.» Excerto da Carta de Fernando Pessoa a
Adolfo Casais Monteiro, de 13 de janeiro
de 1935, in Correspondência 1923-1935,
ed. Manuela Parreira da Silva, Lisboa,
Assírio & Alvim, 1999
Fernando Pessoa, de Bottelho
Apresentação do heterónimo
Álvaro de Campos
«[…] pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à
vida. […] cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de
mim) seria um alarme para a vizinhança. […] Álvaro de Campos nasceu em
Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira
Gomes; […]. Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está
aqui em Lisboa em inactividade. […] Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura,
mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada
todos […] Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi
mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval.
Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o “Opiário”. Ensinou-lhe
latim um tio beirão que era padre. […].»
Excerto da Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 13 de janeiro de 1935,
in Correspondência 1923-1935, ed. Manuela Parreira da Silva, lisboa, Assírio & Alvim, 1999
Apresentação do heterónimo
Álvaro de Campos
A Poesia de Álvaro de Campos pode subdividir-se em:
Fase Decadentista Fase Futurista Fase Intimista
o Vocabulário disfórico;
o Tom emocional, evasivo e
que expressa emoção;
o Recurso à metáfora e
anáfora.
o Recurso à ode;
o Estilo declamatório e esfuziante;
o Ritmo desenfreado e tenso;
o Vocabulário do mundo moderno
da máquina, incluindo
neologismos e onomatopeias.
o Monólogo em tom confessional ;
o Ritmo distendido;
o Vocabulário disfórico e emotivo;
o Predomínio da metáfora;
o Recurso à exclamação,
reticências e interrogações.
Álvaro de Campos
A fase decadentista tem como características:
tédio de viver;
desilusão perante uma vida monótona e sem objetivos;
cansaço, frustração e enfado que levam o sujeito poético a desejar a evasão
para um não-lugar e a ver no ópio um refúgio;
procura de novas sensações;
atitude desafiadora das normas instituídas.
Álvaro de Campos
A fase futurista tem como características:
celebração da Modernidade: máquina,
energia e velocidade;
glorificação da tecnologia;
atitude provocatória e transgressora,
com o objetivo de escandalizar;
sensacionismo: desejo de experienciar
intensamente o mundo moderno nas suas
múltiplas facetas;
celebração do momento presente, onde
todos os tempos se fundem;
Álvaro de Campos
A fase futurista tem como características:
enaltecimento do cosmopolitismo,
sobretudo das nações ocidentais;
exaltação de uma nova conceção de
arte que privilegia a força, a tecnologia, o belo
feroz;
insatisfação e frustração perante a
incapacidade de abarcar a totalidade do real.
Álvaro de Campos
«Ode triunfal»
«À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical
–
[…].»
Celebração da modernidade: máquina
Celebração do momento presente, onde
tudo se funde (uso predominante do
presente do indicativo)
Exaltação de uma nova conceção de arte
baseada no belo feroz
Celebração da modernidade: energia e
velocidade
Sensacionismo: desejo de experienciar
intensamente o mundo moderno nas suas
múltiplas facetas
Comparação inusitada entre os motores e a
natureza, que promove uma atitude provocatória e
transgressora, com o objetivo de escandalizar
Álvaro de Campos
Fase futurista
O tom arrebatado e a paixão pelo Moderno da
leva-nos a constatar
Imaginário Épico
Álvaro de Campos
O imaginário épico caracteriza-se pela:
exaltação da realidade tecnológica moderna em termos épicos;
glorificação da grandiosidade e da euforia do progresso, como uma proeza
heroica da humanidade;
representação da emoção violenta e da «pujança da sensação», com pendor
épico;
expressão elevada do grandiloquente progresso e da vida moderna das
cidades: arrebatamento do canto;
exaltação excessiva, torrencial e em delírio das sensações que o sujeito poético
experiencia no frenesim do tempo presente;
defesa de uma nova poesia como expressão da civilização moderna.
Álvaro de Campos
«Ode triunfal»
«[…]
Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes —
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que
não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.
Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).
exaltação da realidade tecnológica
moderna em termos épicos;
expressão elevada do grandiloquente
progresso e da vida moderna das cidades:
arrebatamento do canto;
Álvaro de Campos
«Ode triunfal»
«[…]
Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo
dele.
[…].»
exaltação excessiva, torrencial e em delírio das
sensações que o sujeito poético experiencia no
frenesim do tempo presente.
Álvaro de Campos
A fase intimista tem como características:
a consciência (lucidez) que desencadeia uma reflexão existencial angustiante;
o eu tem uma consciência dramática da identidade fragmentada;
a deceção, o desalento e a angústia existencial da vida moderna;
o vazio, a falta de afeto e a ausência de ligação aos outros;
o abatimento, que leva o eu a sofrer fechado em si, consciente de que não sairá
deste estado;
Manifestação do vazio interior, cansaço e falta de ânimo, que se associam à
incapacidade de sentir, ao pessimismo e ao desencanto;
Álvaro de Campos
A fase intimista tem como características:
O sujeito poético sente-se minado pela «dor de pensar», como se lia na poesia
do ortónimo;
o eu revela um individualismo exacerbado que o condena ao isolamento
(solidão) e o impede de criar laços afetivos e de se relacionar com os demais;
a recordação nostálgica da infância, tempo dos afetos, que não voltará a aceitar.
Álvaro de Campos
Irregularidade estrófica, rítmica e métrica (verso longo e branco);
Linguagem simples, objetiva, prosaica com recurso a onomatopeias,
neologismos, empréstimos, topónimos e antropónimos;
Inclusão de diferentes registos de língua (do literário ao calão);
Presença de vocabulário concreto;
Construções sintáticas nominais, gerundivas, infinitivas e, por
vezes, presença de construções sintáticas inusitadas;
Privilégio do presente do indicativo;
Recursos expressivos predominantes: aliteração,
anáfora, apóstrofe, enumeração, gradação e metáfora.
Linguagem e estilo
Álvaro de Campos
«Lisbon Revisited»
«Não: não quero nada
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me
enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
[…].»
Uso do presente do indicativo
Inclusão de diferentes registos de
língua: do literário ao coloquial
Uso de exclamações para reforço de
frases imperativas
Análise Formal:
Irregularidade estrófica: dísticos, sextilha e monóstico;
irregularidade rítmica: aa/bc/defggh/i – versos soltos,
na sua maioria;
irregularidade métrica:
Ex. 1 – Não | Não | Que| ro| na| da – 5 sílabas
métricas;
Ex. 2 – Não | me | tra | gam | es| té| ti| cas– 6 sílabas
métricas
Álvaro de Campos
Exercícios
Álvaro de Campos
Exercícios
1. Assinale como verdadeiras ou falsas as afirmações.
Solução
A. A poesia de Álvaro de Campos apresenta três fases: estoica, futurista e intimista.
B. Na primeira fase, a sua poesia caracteriza-se pelo desejo de evasão.
C. O heterónimo pessoano apresenta características em comum com o ortónimo, como a
nostalgia da infância.
• Falsa
• Verdadeira
• Verdadeira
Álvaro de Campos
Exercícios
1. Assinale como verdadeiras ou falsas as afirmações.
Solução
D. A «Ode Triunfal» ilustra o período intimista de Campos.
E. A ode surge como forma poética predominante da fase intimista.
• Falsa
• Falsa
Álvaro de Campos
2.2 Mensagem aproxima-se da obra Os Lusíadas, uma vez que…
a) … ambas as obras têm como tema central o nacionalismo.
b) … têm ambas a mesma autoria.
c) … são as duas obras de caráter poético.
d) … ambas são escritas em português contemporâneo.
Exercícios
2. Complete as frases com a palavra adequada.
Solução
A. Álvaro de Campos é o heterónimo mais próximo do ortónimo, destacando-se, nesta
aproximação, a temática (do fingimento artístico/ da nostalgia da infância).
B. O tom épico pode ver-se em poemas como («Opiário»/«Ode Triunfal»), sendo este exemplo
da fase (futurista/decadentista).
C. O imaginário épico surge, devido ao enaltecimento da (máquina/evasão).
D. O tédio de viver é uma das características predominantes da fase (decadentista/intimista).
E. A (regularidade/irregularidade) formal subjacente à poesia deste heterónimo traduz a
(importância/insignificância) dada ao conteúdo.
(futurista/decadentista).
(do fingimento artístico/da nostalgia da infância).
(máquina/evasão).
(«Opiário»/«Ode Triunfal»),
(decadentista/intimista).
(regularidade/irregularidade)
(importância/insignificância)
Álvaro de Campos
1. Na poesia de Campos predomina o recurso
a) ao hipérbato, à metáfora e à personificação.
b) ao hipérbato, à apóstrofe e à anáfora.
c) à metáfora, à gradação e à apóstrofe.
d) ao eufemismo, à personificação e à comparação.
Exercícios
3. Selecione a opção correta para cada alínea.
Solução
c) à metáfora, à gradação e à apóstrofe.
Álvaro de Campos
2. A deceção, o desalento e a angústia existencial são características que marcam a poesia
alvariana na sua vertente
a) sensacionista.
b) futurista.
c) intimista.
d) épica.
Exercícios
3. Selecione a opção correta para cada alínea.
Solução
c) intimista.
Álvaro de Campos
3. A poesia do heterónimo, na sua fase intimista, caracteriza-se, essencialmente
a) pela desilusão e cansaço perante a vida.
b) pela vontade de superar a nostalgia da infância.
c) pela certeza da dor subjacente ao uso do ópio.
d) pelo uso de vocabulário épico e enaltecedor.
Exercícios
3. Selecione a opção correta para cada alínea.
Solução
a) pela desilusão e cansaço perante a vida.

Álvaro de Campos-síntese das características

  • 1.
  • 2.
    Álvaro de Campos Índice Apresentaçãodo heterónimo O imaginário épico As três fases A fase decadentista A fase intimista A fase futurista Linguagem e estilo Exercícios
  • 3.
    Álvaro de Campos «Aorigem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico […]. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação.» Excerto da Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 13 de janeiro de 1935, in Correspondência 1923-1935, ed. Manuela Parreira da Silva, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999 Fernando Pessoa, de Bottelho Apresentação do heterónimo
  • 4.
    Álvaro de Campos «[…]pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. […] cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. […] Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; […]. Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. […] Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos […] Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o “Opiário”. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre. […].» Excerto da Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 13 de janeiro de 1935, in Correspondência 1923-1935, ed. Manuela Parreira da Silva, lisboa, Assírio & Alvim, 1999 Apresentação do heterónimo
  • 5.
    Álvaro de Campos APoesia de Álvaro de Campos pode subdividir-se em: Fase Decadentista Fase Futurista Fase Intimista o Vocabulário disfórico; o Tom emocional, evasivo e que expressa emoção; o Recurso à metáfora e anáfora. o Recurso à ode; o Estilo declamatório e esfuziante; o Ritmo desenfreado e tenso; o Vocabulário do mundo moderno da máquina, incluindo neologismos e onomatopeias. o Monólogo em tom confessional ; o Ritmo distendido; o Vocabulário disfórico e emotivo; o Predomínio da metáfora; o Recurso à exclamação, reticências e interrogações.
  • 6.
    Álvaro de Campos Afase decadentista tem como características: tédio de viver; desilusão perante uma vida monótona e sem objetivos; cansaço, frustração e enfado que levam o sujeito poético a desejar a evasão para um não-lugar e a ver no ópio um refúgio; procura de novas sensações; atitude desafiadora das normas instituídas.
  • 7.
    Álvaro de Campos Afase futurista tem como características: celebração da Modernidade: máquina, energia e velocidade; glorificação da tecnologia; atitude provocatória e transgressora, com o objetivo de escandalizar; sensacionismo: desejo de experienciar intensamente o mundo moderno nas suas múltiplas facetas; celebração do momento presente, onde todos os tempos se fundem;
  • 8.
    Álvaro de Campos Afase futurista tem como características: enaltecimento do cosmopolitismo, sobretudo das nações ocidentais; exaltação de uma nova conceção de arte que privilegia a força, a tecnologia, o belo feroz; insatisfação e frustração perante a incapacidade de abarcar a totalidade do real.
  • 9.
    Álvaro de Campos «Odetriunfal» «À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica Tenho febre e escrevo. Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! Em fúria fora e dentro de mim, Por todos os meus nervos dissecados fora, Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, De vos ouvir demasiadamente de perto, E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso De expressão de todas as minhas sensações, Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical – […].» Celebração da modernidade: máquina Celebração do momento presente, onde tudo se funde (uso predominante do presente do indicativo) Exaltação de uma nova conceção de arte baseada no belo feroz Celebração da modernidade: energia e velocidade Sensacionismo: desejo de experienciar intensamente o mundo moderno nas suas múltiplas facetas Comparação inusitada entre os motores e a natureza, que promove uma atitude provocatória e transgressora, com o objetivo de escandalizar
  • 10.
    Álvaro de Campos Fasefuturista O tom arrebatado e a paixão pelo Moderno da leva-nos a constatar Imaginário Épico
  • 11.
    Álvaro de Campos Oimaginário épico caracteriza-se pela: exaltação da realidade tecnológica moderna em termos épicos; glorificação da grandiosidade e da euforia do progresso, como uma proeza heroica da humanidade; representação da emoção violenta e da «pujança da sensação», com pendor épico; expressão elevada do grandiloquente progresso e da vida moderna das cidades: arrebatamento do canto; exaltação excessiva, torrencial e em delírio das sensações que o sujeito poético experiencia no frenesim do tempo presente; defesa de uma nova poesia como expressão da civilização moderna.
  • 12.
    Álvaro de Campos «Odetriunfal» «[…] Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks, Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes — Na minha mente turbulenta e encandescida Possuo-vos como a uma mulher bela, Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama, Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima. Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas! Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios! Eh-lá-hô recomposições ministeriais! Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos, Orçamentos falsificados! (Um orçamento é tão natural como uma árvore E um parlamento tão belo como uma borboleta). exaltação da realidade tecnológica moderna em termos épicos; expressão elevada do grandiloquente progresso e da vida moderna das cidades: arrebatamento do canto;
  • 13.
    Álvaro de Campos «Odetriunfal» «[…] Eh-lá o interesse por tudo na vida, Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras Até à noite ponte misteriosa entre os astros E o mar antigo e solene, lavando as costas E sendo misericordiosamente o mesmo Que era quando Platão era realmente Platão Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro, E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele. […].» exaltação excessiva, torrencial e em delírio das sensações que o sujeito poético experiencia no frenesim do tempo presente.
  • 14.
    Álvaro de Campos Afase intimista tem como características: a consciência (lucidez) que desencadeia uma reflexão existencial angustiante; o eu tem uma consciência dramática da identidade fragmentada; a deceção, o desalento e a angústia existencial da vida moderna; o vazio, a falta de afeto e a ausência de ligação aos outros; o abatimento, que leva o eu a sofrer fechado em si, consciente de que não sairá deste estado; Manifestação do vazio interior, cansaço e falta de ânimo, que se associam à incapacidade de sentir, ao pessimismo e ao desencanto;
  • 15.
    Álvaro de Campos Afase intimista tem como características: O sujeito poético sente-se minado pela «dor de pensar», como se lia na poesia do ortónimo; o eu revela um individualismo exacerbado que o condena ao isolamento (solidão) e o impede de criar laços afetivos e de se relacionar com os demais; a recordação nostálgica da infância, tempo dos afetos, que não voltará a aceitar.
  • 16.
    Álvaro de Campos Irregularidadeestrófica, rítmica e métrica (verso longo e branco); Linguagem simples, objetiva, prosaica com recurso a onomatopeias, neologismos, empréstimos, topónimos e antropónimos; Inclusão de diferentes registos de língua (do literário ao calão); Presença de vocabulário concreto; Construções sintáticas nominais, gerundivas, infinitivas e, por vezes, presença de construções sintáticas inusitadas; Privilégio do presente do indicativo; Recursos expressivos predominantes: aliteração, anáfora, apóstrofe, enumeração, gradação e metáfora. Linguagem e estilo
  • 17.
    Álvaro de Campos «LisbonRevisited» «Não: não quero nada Já disse que não quero nada. Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer. Não me tragam estéticas! Não me falem em moral! Tirem-me daqui a metafísica! Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — Das ciências, das artes, da civilização moderna! Que mal fiz eu aos deuses todos? […].» Uso do presente do indicativo Inclusão de diferentes registos de língua: do literário ao coloquial Uso de exclamações para reforço de frases imperativas Análise Formal: Irregularidade estrófica: dísticos, sextilha e monóstico; irregularidade rítmica: aa/bc/defggh/i – versos soltos, na sua maioria; irregularidade métrica: Ex. 1 – Não | Não | Que| ro| na| da – 5 sílabas métricas; Ex. 2 – Não | me | tra | gam | es| té| ti| cas– 6 sílabas métricas
  • 18.
  • 19.
    Álvaro de Campos Exercícios 1.Assinale como verdadeiras ou falsas as afirmações. Solução A. A poesia de Álvaro de Campos apresenta três fases: estoica, futurista e intimista. B. Na primeira fase, a sua poesia caracteriza-se pelo desejo de evasão. C. O heterónimo pessoano apresenta características em comum com o ortónimo, como a nostalgia da infância. • Falsa • Verdadeira • Verdadeira
  • 20.
    Álvaro de Campos Exercícios 1.Assinale como verdadeiras ou falsas as afirmações. Solução D. A «Ode Triunfal» ilustra o período intimista de Campos. E. A ode surge como forma poética predominante da fase intimista. • Falsa • Falsa
  • 21.
    Álvaro de Campos 2.2Mensagem aproxima-se da obra Os Lusíadas, uma vez que… a) … ambas as obras têm como tema central o nacionalismo. b) … têm ambas a mesma autoria. c) … são as duas obras de caráter poético. d) … ambas são escritas em português contemporâneo. Exercícios 2. Complete as frases com a palavra adequada. Solução A. Álvaro de Campos é o heterónimo mais próximo do ortónimo, destacando-se, nesta aproximação, a temática (do fingimento artístico/ da nostalgia da infância). B. O tom épico pode ver-se em poemas como («Opiário»/«Ode Triunfal»), sendo este exemplo da fase (futurista/decadentista). C. O imaginário épico surge, devido ao enaltecimento da (máquina/evasão). D. O tédio de viver é uma das características predominantes da fase (decadentista/intimista). E. A (regularidade/irregularidade) formal subjacente à poesia deste heterónimo traduz a (importância/insignificância) dada ao conteúdo. (futurista/decadentista). (do fingimento artístico/da nostalgia da infância). (máquina/evasão). («Opiário»/«Ode Triunfal»), (decadentista/intimista). (regularidade/irregularidade) (importância/insignificância)
  • 22.
    Álvaro de Campos 1.Na poesia de Campos predomina o recurso a) ao hipérbato, à metáfora e à personificação. b) ao hipérbato, à apóstrofe e à anáfora. c) à metáfora, à gradação e à apóstrofe. d) ao eufemismo, à personificação e à comparação. Exercícios 3. Selecione a opção correta para cada alínea. Solução c) à metáfora, à gradação e à apóstrofe.
  • 23.
    Álvaro de Campos 2.A deceção, o desalento e a angústia existencial são características que marcam a poesia alvariana na sua vertente a) sensacionista. b) futurista. c) intimista. d) épica. Exercícios 3. Selecione a opção correta para cada alínea. Solução c) intimista.
  • 24.
    Álvaro de Campos 3.A poesia do heterónimo, na sua fase intimista, caracteriza-se, essencialmente a) pela desilusão e cansaço perante a vida. b) pela vontade de superar a nostalgia da infância. c) pela certeza da dor subjacente ao uso do ópio. d) pelo uso de vocabulário épico e enaltecedor. Exercícios 3. Selecione a opção correta para cada alínea. Solução a) pela desilusão e cansaço perante a vida.