Abade - Jean VIOLLET
Moral familiar
Tradução aulolisada pelo
Prof. NELSON DE MELO E SOUSA
EDITORA GETULIO COSTA
Rua Teófilo Ot<>ni, 42 - Caixa postal, LS29
RIO DE JAN,EIRO
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íNDICE
PREFACIO . 7
I- A FAMíLIA 9
O sacramento do matrimnio. 10
Os deveres dos esposos . 12
Da ·autoridade do marido . 15
Deveres dos pais para com os filhos 18
Deveres para com os avós . 22
Conflito entre os diversos deveres . 23
11 --BOM HUMOR E MORAL FAMILIAR 29
Obstáculos Devidos a causas materiais 30
Obstáculos provenientes dos caracteres 31
Bases espirituais do bom humor . 33
q bom humor e a educação dos filhos. . 35
!li -A UNIÃO
.ESpiRITUAL E MORAL DOS ESPOSOS 39
O desinteresse 40
O divórcio contra a união dos corações 41
O divórcio contra a educação dos filhos 42
Santificação mutua 43
Defeitos mutuos 45
A dedicação . 46
IV - O MAGNO DEVER 49
O amor-casamento 51
Dever conjugal 52
Os filhos . •. 52
Da continência 54
Virtudes subsidiárias da continência 58
Da confiança em Deus . 59
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6 A.BADE - JEA.N VIOLLET
V - DA EDUCAÇÃO DOS FILHOS 63
Das qualidades· do educador 64
A infância 67
A idade dHicil 69
O jovem 71
A ·vida religiosa . 72
VI -· A VOCAÇÃO DOS FILHOS í5
Papel dos pais na escolha das vocações í5
Papel dos fiihos nn escolha da vocação 77
Das divergências que, acêrca da vocação, podem sur-
gir entre pais P- filhos . 80
VII - A EDUCAÇÃO DO SENTIMENTO E O PREPARO
AO MATRLlóNIO .
.
83
As iniciações necessárias 84
Aos mais jovens 86
Aos jovens adolescentes 87
As moças o 90
Antes do casamento o 93
VIII -O DEVER SOCIAL DA FA.JHLIA 97
O progresso social pela família 97
O egoismo familiar o 98
A educação social da família o 100
A educação social dos filhos o 103
A educação religiosa dos filhos 108
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PREFACIO
E' exprimir verdade trivial o falar-se na des­
cristianisação da França moderna. f!:rro é, porém,
comum, o querer devassar-lhe as causas nas trans-
•
formações poJiticas a que nosso país se submeteu
desde a grande Revolução. Os govêrnos são impo­
tentes para mudar a face dos costumes e as más
leis só vigoram quando se acumpliciam com os
proprios costumes. E' o que aconteceu com a
França.
As leis anti-familiares foram, facilmente, acei­
tas pelo pais porque a descristianisação estava, já,
latertie nas almas.
Ora, de toill1s as causas de descristianisação, a
mais grave é, sem dúvida, a perversão moral. Não
somente atinge a mocidade antes do casamento
mas alcança os proprios esposos, jazendo-lhes crer
que o amor humano se basta a si mesmo, indepen­
dente de qualquer esfôr�o virtuoso. Pensa a maio­
ria que lhe assiste o direito de levar a vida como
bem lhe quadre, de limitar, por exemplo, o núme­
ro dos filhos, sem qualquer interrupção dos pra-
•
zeres carnais.
E' dêsse mal que a França morre.
Desde a guerra o gQvêrno começ11 a procurar
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8 .ABADE - JEAN VIOLLET
os remedios a tão Jamentave l estado de coisas.
Baixa leis famiJiares e prepara outras tantas. Pro­
pende a melhorar o destino da famiJia. A própria
indústria mete-se pela vereda dos saci·ificios gene­
ralizando a instituição dos sindicatos familiares.
Ninguém se iluda, entretanto, com o valor dês·
ses reme.dios. São meros paliativos. E' a alma que
se precisa atingir. São os costumes que se trata de
reformar. E isso não se consegue a custa de di­
nheiro.
Eis o motivo que nos levou a relembrar às fa­
mílias cristãs os deveres d{' moral familiar.
E' ela o alicerce do futuro espiritual e social
do pais. A ela dedicamos as páginas que se seguem.
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I
A FAIHLIA
E' a familia uma sociedade fundada por D·eus. Tem
assento no amor e, mnralmente, só se desenvolve à custa
de um mutuo devotar-se.
Fôra estulto pensar qU'e o amor que uns aos outros
devem os membros de uma mesma família, atinge a
... perfeição, livre de tentações.
E' de crer, ao contrario, qu•e Deus põe, a miude, o
amor em frente de dificuldades que visam robustecê-lo
e ampliá-lo, 'embora quem as defronte esteja pouco pro­
penso a dominar-se em beneficio do bem comum.
O a"mor, na terra, exige uma educação que ensina
cada qual a de�int'�ressar-se de si mesmo para preocu­
par-se com o bem do ser amado e a êle consagrar-se.
Surgindo como um ideal, parece que o amôr só
pudera, normalmente, Yicejar na alegria. Será isto ver­
dadeiro no céu e .sê-lo hia, talvez, na terra se não fosse
o pecado.
Sucede, porém, que o pecado alterou tudo, infil­
trando no coração de cada um os germes do egoismo
que entravam () desenvolvimento nmmal do amor em
família. Pel a destruição dêsses germes deve lutar quem
quer que tenha consciencia dos graves deveres que
acompanham o viver fammar.
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10 .ABADE - JEAN VfOLLE T
O sacrermento do matrimonio.
Assim como a Igreja aparelha os. seus padres à
grande obra do sacerdocio e ao sacramento da ordem,
assim se preocupa em trazer aos esposos as graças de
que precisam para colaborar na obra de Deus e pôr
em relevo as do sacramento do matrimônio.
Os que se encaminham à obra do amôr, se ficam
entregues a si mesmos, esbarram, a todo momento, nas
miserias e deficiencias. da natureza humana.
Como poderá o amor frutear na santificação, se
Deus não o ampara?
As graças necessarias aos esposos critãos, é o sa­
cramento do matrimônio que lhas confere. Quantos,
porém, ignoram que êles são os sacerdotes do Casa­
mento I Pensam receber uma simples bênção, muito em­
bora a Igreja, testemunha da doação que, mutuamente,
fazem de seus corpos e vontades, os designe. pela graça
do sacramento, sacerdotes da família.
O ato pelo quâl se dão um ao outro acarreta a in­
tervenção sobrenatural de Deus e transfunde-lhes a vi­
da divina que os secundará para •:l })erfeito cumpri­
mento de sua vocação.
Entretanto, que é que se observa? O mais das vezes
o casamento não passa de um meio para uma "situa­
ção". Ninguém a êle se prepara convenientemente. A
donzela confia em que s·eus encantos lhe atraiam um
marido; o rapaz, depois de consumir na vida airada,
seus mais belos anos, se decide a procurar esposa. Am­
bos pedem à Igreja que lhes sancjone o casamento,
ignorantes da grandeza dessa vocação e, desprevenidos
para a recepção do sacramento.
Para êles a confissão é, quasi sempre, um ato ma-
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M O R A L F A MI L IA R 11
çador de q ue se desembaraçam sem saber qual seja
a condição indispensavel das graças do sacramento.
Para que o amor ampare os esposos na luta pelo bem;
para que o amor não tropece nos egoismos e nas imper­
feições da natureza, não será, por ventura, aconselha­
vel q ue as almas se purifiquem de todos os êrros que
lhe poderiam estorvar o desenvolvimento moral e es­
piritual ?
Por falta de preparação para recebê-la, a graça,
queda sem fruto. Cai nas urzes do caminho e aí morre.
Para que o sacramento santifique os esposos é mis­
tér que êstes encarell?, previamente, as obrigações e
responsabilidades de seu novo estado e entrem no ca­
samento com o que têm de melhor. O amor so pode per­
durar enquanto os esposos forem capazes de resistir às
tentações q ue os podem saltear. Cumpre-lhes· a refórma
do caráter e a imposição de duros sacrifícios. Ora, o
sacramento é um poder divino q ue só age em terreno
adrede p reparado. Só é eficaz a graça quando vontades
e inteligências se convencerem das respon.sabilidades
que acoli{am a vocação.
O homem e a m'.tlher entram no casamento trazen­
do, cada um, suas defidencias e misérias morais. Onde
irão buscar fôrça para se modificar e se dominar sem
a graça de Deus? Basta atentarmos nos frequentes fra­
cassos do amor humano, nos seus desalentos e desvios,
para compreendermos quão necessario é o amparo di­
vino aos que querem fielmente amar. Nos primeiros
tempos do matrimônio a alegria do amor vela as fra­
quezas da natureza �umana. Chegam, porém, os revezes
e o amor passará a conhecer os desânimos inevitaveis.
Como poderão os esposos supor-se assaz generosos
para aceitarem os filhos que Deus lhes confiará, e as-
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12 ABADE - JEAN VIOLLE T
saz elarjvidentes para conforma-los à vida }Jerfeita se
não esperam de Deus as luzes e os socorros que os de­
vem suster? Luz e socorro lhes serão dados pelo sacra­
men to, se êste fôr recebido com as disposições neces­
sárias.
A vi·da fammar conhece dolorosas provações.
Não é raro que um dos esposos tenha de tolerar os
desmandos do outro. Os filhos abrem ensejo a sacrifí­
cios sem conta e a morte pode separar os que ternamen­
te se amavam.
Como hão-de os ·esposos suportar êsses sofrimentos
se Deus não os sustém derram"-ndo-lhes nos corações
os bálsamos da vida espiritual ? Aqui, ainda, a graça do
sacramento será a fonte inesgotavel que os secundará
na sustentação de seu fardo.
Aliás, as verdadeiras alegrias da vida familiar es­
tão estreitamente unidas ao generoso cumprimento dos
deveres a ela impostos.
Eis porque não se pode conceber o amór humano
sem que Deus €steja presente para aluminá-lo, guiá-lo
e purificá-lo.
A graça é elemento necessáriô à•vocação dO" casa­
mento.
Os devere:; dos esposos.
Não quis Deus que os deveres mutuos que se de­
vem os esposos, provenham do constrangimento.
E' com liberdade que os esposos se escolhem; é,
}>ois, ·COm liberdade que decidem amar-se e cumprir os
deveres que êste amor implica.
Quais são, porém, êsses deveres ?
A Igreja nos ensina que os esposos se devem fideli-
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M6RAL FAMILIAR 13
dade, amparo e proteção.. Como devemos entender es­
sas palavras?
Trata-se, por ventura, de fidelidade puramente ex­
terior q ue mantendo cada um longe de ligação adúltera,
poderia não se relacionar com a fidelidade do coração?
Inter]>retar, assim, a lei, seria pôr letra em lugar do
espírito.
A fidelidade em apreço, porém - esta é a ver�
dade - é, antes de tudo, uma fidelidade de coração e
totalmente interior, para preservar a qual, deve cada um
dos espôsos, sustentar contra si mesmo, contra os tropê-
ços e as tentações, um
,
a luta sem treguas. ·
O primeiro dever sugerido pela palavra fidelidade
será, pois, o amparo mutuo. Quem não suporta os de­
feitos e desfalecimentos daquele a quem ama, não lhe
saberia ser fiel.
Aqui os esposos vão encontrar a primeira prova­
ção do amor ]>Orque, o mais das vezes, o egoismo que
subsiste por detrás das aparencias contrarias, nos faz
ver o ser amado em função do nosso gôso pessoal.
Somos, instinth·amente, levados a amar só até onde
o amor nos ofert;ce ,as alegrias e satisfações com que
sonhamos. Se êle nos traz, o sofrimento ou humilhação;
se ·descobrimos nele defeitos que, a princípio, não ví­
,ramos, afastamo-nos dêle deixando que arrefeçam os
nossos sentimentos.
O dever de fidelidade acarreta a precisão de do­
minarmos essas tendencias egoístas de nosso ser e de
continuarmos a amar nosso cônj uge sejam quais fo­
rem seus defeitos e, até, a empregarmos toda nossa in­
teligência, toda a n �ssa vontade na cm·a do mal que
nele nos faz sofrei'.
ê.ste primeiro dever de amparo arrasta um outro
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14 ABADE - JEAN VIO L LET
que se caracteriza }JOr estas palavras: auxílio e sustento
mutuos. Deixemos de parte o auxilio e o sustento mate­
riais, se bem fàra util salientar-se o conjunto de sacrifí­
cios de tempo, dinheiro e satisfações que tais palavras
sugerem, e limitemo-nos a definh· as condições que re­
quer o amparo moral e espiritual, justamente o mai.s
postergado.
O auxilio moral supõe o esfôrço previa para sair
de si e penetrar os pensamentos, os desejos as aspira­
ções e as necessidades do ser amado.
Não é facil a tarefa de .se pôr, assim, em lugar do
outro para melhor compreendê.-lo.
O homem há de pesquisar a natureza de sua mu­
lher, e a mulher, a do marido. O amor guiará a pesqui­
sa, a qual, entretanto, só será levada a bom termo se
o homem compreender em quê sua natureza de homem
deve completar a da mulher, e a mulher, como levará
ao homem o complemento vital de que êle carece. �ssc
trabalho especial do amor requer grande atenção, gran­
de desinteresse, sem o que jamais saberá o h9mem ser­
vir-se de sua fôrça e razão em prol da paz, da firme1
za e da confiança que deve inspiràr ã mulher, tão bem
como não saberá, a mulher lançar mão de sua graça,
de sua sensibilidade e devotamento para levar ao ho­
mem essa alegria especial do amor que o há-de ampa­
rar na luta e permitir-lhe de atirar-se aos trabalhos pre­
cisos ao desenvolvimento normal da família.
Auxiliar, moralmente, é, para a mulher, entender
os sofrimentos e as tentações que acompanham a vida
masculina, e, para o homem, compreender as que parti­
cularmente rondam a natureza feminina.
Como encontrar palavras e atos que esclareçam e
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M O R A L F A MILI A R 1 5
confortem se somos incapazes de ver onde reside o
mal?
O amor é um sentimento que não se basta a si
mesmo. Para conservá-lo e engrandecê-lo precisa de
um alimento especial, alimento feito de mil pequeni­
nos serviços mutuos que são como as malhas de uma
enorme rede, como os· pontos de uma cortina cuja fei­
tura só com a vida acaba.
Pretender subministrar ao amor emoções violen­
tas é matá-lo, antes de mais nada.
Cercá-lo de constantes sacrifícios mutuos, de aten­
ções recíprocas, de tnfôrços para secundar o trabalho
do outro e levar-lhe alegrias e consôlos que lhe permi­
tam vencer a aridez dos dias, eis os infinitamente pe­
quenos, graças aos quais o amor se avantaja e fortalece.
Em via de regra é por não ter modelado sua von­
tade nesses misteres humildes que o amor acaba por
<lesaparecer ou minguar, não trazendo, pelo menos, a
ajuda e o apôio que os esposos tinham o direito de
esperar.
,
(
Da autoridade do marido.
A le i .civil, em concordância com a religiosa, dá ao
marido autoridade sôbre a mulher.
Qual é, porém, o v erdadeiro sentido da palavra
•• autoridade" quando se trata de espô.so, se cada um
fica com a J>lena I'esponsabilidade de seus atos e se am­
bos se destinam a 1uocurar, em sua união, a fôrça e
as luzes necessaria� ao encaminhamento dos filhos?
A autoridade do chefe milHar impõe disciplina a
soldados tolhendo-lhes· o dis·cutirem as Ol'dens recebi-
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16 ABADE - JEAN VIOLLE'f
das. O marido que agisse JlOr modo idêntico em relaçâo
a espôsa cometeria in1oleravel abuso.
AIS autoridades constituídas zelam pela execução
das leis depois de vo1adas pelas assembléias delibera­
th·as.
�se gênero de autoridade não pode, porém, so­
frer paralelo com a do marido. Ao marido é vedado dar
ordens à mulher como um chefe aos seus subordinados.
Ambos estão no mesmo J)lano, e seria inconcebível
<JUe o marido pretendesse impor, arbitrariamente, a lei
do mais forte, obrigado, como está, a submeter-se às leis
que regem a vida familiar. Em caso de dissídio entre
êle e a mulher conta da definiç�o desta lei, o sentir
da mulher tem, teoricamente, o mesmo valor que o
dêle.
Seu papél de·chefe não pode, outrossim, definir-se
por comparação com a autoridade do educador sôbre
as crianças a seu cargo. E' a criança incapaz de reger­
se� por si. O mesmo não ocorre com a mulher que
se conserva livre e senhora de seus atos.
·Assim .sendo, como definir a autoridade de marido
em face da mulher? Outra coisa llão.póde ser senão
uma delegação de poderes depois de mutuo entendi­
mento.
Todas as relações conj ugais falseiam se a autori­
dade é tida como anterior ao amor ou pretende exer­
cer-se independente dêste. Transmuda-se, por isto mes­
mo, em tirania insuportavel. Para corresponder aos de­
sígnios da Providência, é mister considerá-la como co­
rolaria natural do bom entendimento conjugal.
O marido e a mulher constituem uma como que
assembléia deliberativa, na qual tem, cada um, voto na
matéria a resolver-se. A boa vontade mutua, a preo-
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MORAL f."MILIAR 17
cupação do bem comum, o desinteresse pessoal levam
catla um do.s esposos a apreciar melhor o valor dos alvi­
IJ·cs e opiniões do outro. Entrados em acôrdo, ao mari­
do compete superintender a boa execução das decisões.
O ,que será, porém, da autoridade do marido, em
cttso de desacôrdo? Não será, por ventura, êle quem
�ofre o julgamento supremo? E se assim é, não será o
caso de temer-se que a mulher se veja forçada a sub­
meter-se, quasi sempre, a decisões que sua consciência
repudia ou que julga ameaçadora da boa educação dos
filhos? Esses conflitos trágicos só se solucionam à luz
dos seguintes princípios: a decisão exigida pelo pai,
desagrade embora à !nãe, deha brecha a melhorias
possíveis. Neste caso vale mais que a quebra da har­
monia conjugal.
Esperará a CSJ>Ôsa que o futuro e a graça de Deus
melhorem a situação.
Se, porém, as decisões do marido implicam ordens
l'Onlrárias à moral ou manifestamente opostas ao bem
dos filhos, será, talvez, forçoso recorrer à deliberação
suprema .e coagir o marido a optar entre a renuncia
do seu J>Onto de vista ou a .separação.
Êsse direito era Jtmlher é a resultante necessária de
uma responsabilidade que se divide entre ela e o ma­
rido. E', todavia, um direito de que a mulher só se va­
lerá nas sHuações extremas. Mais vale tolerar um mal
relatiYo que recOI'rer a solução que rompe a unidade
familiar.
Atentando-se no número elos casos em que a mu­
lher e as filhos são vítimas do desman do ou dos ex­
cessos de autorida� do marido, chega-se a desejar a
reforma da lei civil, que parece considerar o pai de
família, senhor absoluto á feição das doutrinas pagãs
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18 ABADE - JE AN VIOLLET
da antiga Roma. No caso de desaveça grave entre o
marido e a mulhe1·, tendo-se em vista, sobretudo, a edu­
cação dos fj]]Jos, não se atina por que devam as deci­
sões do mal'ldo prevalecer sempre sôbre as da mulher.
A autoridade familiar se divide em duas. Seu exercício
normal só se dá quando (lai e mãe estão de acôrdo
sôbre os métodos e meios de educação.
Deveres dos pais para com os filhos.
Não nos alongaremos a respeito dos deveres de
ordem material. Não há pais dignos dêsse nome que
descurem a saúde física dos fLlhos e lhes deixem de
fornecer, fartamente, os bens materiais ·de que carecem.
O problema dos ·deveres paternos .só se complica
quando se trata dos de ordem espiritual. Aí é que se
vêem lacunas e fracassos numerosos cujos principais
temos como util assinalar neste ensejo.
Consagrar-se aos filhos não significa, por cer­
to, cumulá-los. de todos os prazeres possíveis e, sim,
formar-lhes a conciência e o coração, a vont�de e a in­
teligência. Nêsse domínio, entretanto quão poucos são
os pais clarividentes e capazes!
'
-
Para trabalharmos uma cJonciência de criança é
preciso amarmos a Deus, o bem e a perfeição mais do
que nós mesmos.
E' mistér sermo.s capazes de sacrificar nosso bem­
estar, impondo-nos os esfôrços que exige o ideal moral.
Depois de termos amado, pessoalmente, o bem mo­
ral, devemos aplicar-nos, com todas as nossas ener­
gias e por todos os meios que Deus nos faculta, à ta­
J·efa de o tornar conhecido, estimado e praticado pelos
filhos. E' de esperar-se, ai, que a antorjdade se exerça
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M O R A L FAMILIAR 19
sem esmorecimentos ; que uma atenção permanente
fuculte aos pais .o seguirem, na alma dos filhos, as·rea­
�õc� da Yida moral, os impulsos para o bem, as tenta­
ções do instinto, os logros da natureza.
A autoridade dos pais só se exerce utilmente se
êles se crêem depositarios da propria autoridade de
Deus, e encarregados de levar os filhos à santidade.
Tamanho encargo da autoridade pressupõe grande do­
mínio de si n1esmo, uma calma capaz de anular as
tempestades, um senso profundo da justiça, e uma von­
tade apostada em aplicá-la, uma bondade infatigavel,
sempre inclinada à misericordia mas nunca descaindo
para a fraqueza. A au!!oridade se exerce continuamen­
te, raro pelo emprêgo da fôrça, pelo encorajamento
sempre. Nunca se ausenta, nem mesmo quando os filhos
estão longe dos pais, porque aqueles sabem que êstes
lhes acompanham as ocupações e se inquietam por seus
atos.
Quantos pais há que abusam d.essa autor,idade
exercitando-a a torto e a direito segundo caprichos mo­
mentaneo� quando não abdicam por amor à paz e à
lranquilidade! Para acautelar seus egoísmos, desistem
de sua missão. Q'uantos pecam por omissão, deixando
ir tudo à matroca por indiferentismo e preguiça, teme­
rosos de dificuldades e sacrifícios! Amam o filho até
quando a presença dêste lhes satisfaz a sensibilidade ou
o orgulho, esquecidos de que ·O filho n
·
ão lhes foi dado
a êles e, sim, a si mesmo, ao cumprimento de sua vo­
cação e, finalmente, a Deus.
Muitos fingem ignorar seus deveres com respeito à
vpcação dos filhos. •
.
O que cumpre aos pais é auxiliar a yocação do fi­
lho a desabrochar e amadurecer. A autoridade há-de
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20 ABADE - JEAN VIOLLET
ter por e&COJlO secundar o filho a senhorear-se de seu
destino e do emprêgo que mais tarde virá fazer de suas
fôrças e inteligência.
Grave falta cometeriam em detrimento do filho e
em face de Deus se procurassem segregá-lo afim de
atender a gosos e desejos J)Cssoais, ou com o intuito de
explorá-lo J>ara as satisfações da vaidade.
Em matéria de educação, realizar a obra de Deus
consiste em tentar discernir, graças à.s aptidões, aos im­
pulsos do ·coração, aos engodos e às circunstâncias, o
caminho por onde há-de levar o filho para que a vida
toda se lhe não contorça e êle possa, mais tarde, sentir
que pisa um terreno onde se �ê perfeitamente apto e
útil.
Semelhante proceder acarreta muitos sacrifícios de
amor próprio. Os pais que procuram auxiliar os filhos
a realizarem suas vocações são os únicos a cumprirem
o dever essencial e primordial da autoridade. Compre­
endem que Deus só conferiu poder aos homens para
que auxiliem os fracos e as crianças a darem conta de
suas tarefas pessoais. •
Um outro dever há, ainda, 'pala o qual convém
chamemos a atenção dos pais. E' o que obsta a que
abandonem os filhos em mãos estranhas, a não ser por
necessidade e com as pos.siveis garantias.
A educação compete, propriamente, aos pais e
Deus não confiou a estranho a responsabilidade da vida
moral dos filhos. Não quer isto dizer que os J>ais não
hajam, em muitas circunstâncias, de valer-se da ajuda
de terceh·os, quando m ais não fô�e. para proporciona­
rem aos filhos a necessária instrução. A êles todavia
toca sempre, a responsabilidade, e cumpre considerar o
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MORAL FAMILIAR 21
111dhor dos professores mero acólito com quem hão de
l'slar em constante contato.
Dchar seu filho, sem mais Clüdar dêle, horas a
rio na escola ou, ainda mais, meses inteiros num inter­
ll:t to, é largar mão de suas responsabilidades, a menos
que todas as garantias sejam previstas.
Devem os pais seguir atentamente o procedimento
e os esforços do filho na escola ou no colégio e pôr o
mestre ao corrente de seu proceder e caráter em fa­
mília.
Queixam- se os pais quando o Estado baixa leis ou
t·cgulamentos que lhes �arecem contrários aos seus de­
sejos e aspirações? E', justamente, seu indiferentismo
11ue leva o Govêrno a agir a sua revelia, e como se êles
uüo existissem.
Educar um menino, formar-lhe a conciência e
a vontade pressupõe a comunhão de diferentes pessôas
its quais toca essa educação.
Quaisquer que sej am os auxiliares escolhidos, não
devem os Jlais, em caso algum, abrir mão de sua auto­
ridade e poder fiscalizador.• •
Há, ainda, uma outra negligência elos pais que não
seria inutH assinalar, por Jhe tolher parte da influência
moral imprescindível à educação: é a que leva os pais
a não se porem no mesmo nivel dos filhos para bem
entendê-los e ser, por êles, entendidos.
Só é eficaz a autoridade que anda sempre ao pé
daquêle sôbre quem se exerce ; é inopera nte ou causa
mêdo se vem de cim� sem que o menino pôssa compre­
ender-lhe o significado.
Eis JlOrque cump1·e aos pais fazerem-se crianças
com as crianças. Não J,:Ccearão acomodar-se aos seus ma-
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22 A.:BADE - JEAN VIOLLET
nejos e tentarão explicar-lhes as alegrias e as tdstezas,
as dúvidas e os anseios.
Tal atitude é difjcil porque obriga a sair de si e
absorve muito tempo. Exige que nos entremctamos nos
brjquedos, nos trabalhos e ocupações daqueles que ha­
vemos de educar. A consequência, porém, é o estabele�
cimento de laços intimos entre filhos e pais e a conclu­
são, por parte da criança, de que as ordens dadas não
são caprichos e decorrem do amor e da compreensão.
�ste esfôrço para se pôr ao nível dos filhos sem
quebra da autoridade, requer grandes qualidades mo­
rais de devotamento, de respeito1, à alma, de vontade cs�
clarecida e experta. E' êste esfôrço 'que constrói a verda­
deira educação, isto é, o desenvolvimento do amor e
do respeito.
Rematando essas observações col).vém acentuar que
os pais, se andam sempre satisfeitos consigo e se ima­
ginam possuir perfeitas qualidades de educadores, cor­
I'em o risco de se iludir por lhes faltar a humildade
que leva a pedir consêlho aos mais experimentados, e
a Deus o .socorro de que carecem.
Deveres para com os avós.
Parece que a família moderna, esquecida de seus
deveres essênciais, não mais dispensa às pessôas idosas
o respeito e o reconhecimento que é natural se lhes
tributem.
O número de avós que vivem solitários, mais ou
menos abandonados pelos filhos, yai crescendo dia a·
dia. Assim, pois, como esperar alguém para os seus as
bênçãos de Deus, como habituar os jovens ao sacrifício.
de alguns de seus cômodos, se não ·�omeçar por dar-lhes
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M O R A L F A M I L I A R 23
o (• x cmplo da gratidão e do devotamento para com os
que consagraram a melhor de suas existências a edu­
l'il-los, inculcando-lhe os princípios da vida moral que
constituem o melhor de nós mesmos?
Outrora os avós viviam no seio da família.
Era um prazer o cercá-los dos mil cuidados que
sua idade exigia; suportávamos fácil e cristãmente suas
enfermidades e fraquezas, felizes porque, assim, apren­
díamos a praticar a dedicação familiar. Hoje em dia
os toleramos, quando muito, e, o mais das vezes, aban­
donamo-los a uma solidão penosa e lamentavel.
A família cristã deve reagir, com todas as energias,
contra êste censurave(indiferentismo. Os que podem,
devem manter consigo seus avós.
Se isto não é pos.sivel, hão-de, ao menos, assisti-los
para um termino de vida honroso. Exijam-se, embora,
sacrifícios de tempo e dinheiro, é mistér sejam feitos
com alegria e bom humor, sem nunca procurar justi­
fic.ativas a atitudes indiferentes e egoístas a conta de
pretensas obrigações ou afazeres excessivos.
Noss� primeiro encargo, devemo-lo aos pais; nos­
sa ocupação pril).cip.íll, a d e levar-lhes à vida alegria
e reconhecimento.
Tai:s. são os ·deveres essênciais que norteiam os
membros de uma família a uma união cristã e a um es­
fôrço comum em busca da perfeição.
Conflito entre os diversO$ deveres.
Ser-nos há fácil, por ventura, cumprir essas dife-
•
re.ntes obrigações. sem que nos encontremos, a cada pas-
:so, em presença de conflitos que a mais escrupulosa
consciencia não pode resolver?
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24 A.J3A.DE - JEAN VIOLLE T
Será que as ocupações de alguém o impossibilitam
de consagrar aos seus, m ulher e filhos, o tempo exi­
gido? A falta· de recursos em que se vê um outro, não
desculpará o abandono em que deixa os �l·ós•!
Tais são as graves dolorosas dúvidas cu.ias solu­
ções convém pesquisar.
Convenhamos, ante.s do mais, que para vermos cla­
ro, é mistér a bôa localização dos deveres. O mais das
vezes, os ]Jretensos conflitos de deveres seriam resol­
vidos se não puséssemos -em prüneiro plano ocupações
secundárias. E' o caso dos que multiplicam os deveres
humanos que os distraem do lar, dos que desviam para
um luxo absorvente a soma .que, a rigor, "deveriam
destinar aos avós ou à educação dos filhos; dos que não
se querem privar de qualquer prazer. Quantos confli­
tos seriam resolvidos se se respeitasse a hierarquia dos
deveres, de sorte que nunca se sacrificassem os primor­
diais aos secundários e problemáticos. Nêste assunto
compete a cada .qual, rigoroso exame de consciência.
Se há boa vontade na pesquisa do bem, O& deveres
exátos surgem, quasi sempre, ao clarão de uma luz in­
tensa, e os conflitos desaparecem.
Não raro é o egoismo pessoal, o amor proprio, que
turvam a visão.
Não quer isto dizer que não haja dissídios de so­
lução difícil.
Ocorre, por exemplo, o caso de um médico às vol­
ta.s com a saúde de seus clientes, de um político absor­
vido pelas responsabilidades do govêrno, de um dema­
gogo arrastado pelo niovimento social que suscitou.
Nesses casos avulsos é de crer que a vida familiar
.seja fatalmente mais ou menos sacrificad�L
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M O R A L F A MILI A R 25
Examinados miudamente, êsses conflitos têm mais
aparência que realidade. Para êles ha, quase, sempre,
remédios eficazes.
Os tropeços que a Providência nos põe n.o caminho
têm em mira obrigar-nos a maior perfeição. Pode dar­
se, ·Com efeito, que Deus queira coagir-nos a maiores
trabalhos, a melhor coordenação de nossa vida para
seu melhor desempenho, à procura de colaboradores
que tragam o nece ssário amparp à nossa vocação.
Quantas vezes as dificuldades e os conflitos de de­
'eres se multiplicam porque lhes falta a vontade e a
capacidade para arcar�m com tarefas precisas e bem
definidas?
Não há-de a vida ser para nós como um caudal que
nos arrasta. Convém dominemo-la com inteligência
ponderada ·e vontade vigilante. Na maioria dos casos
são as nossas faculdades que nos levam a solucionar
muitos dos empêços da existência.
Se Deus permite os conflitos aparentes é de crêr
que os remédios existam, compeHndo a nós o procurá­
los e aplicá-los. ..
Não raro somos nó.s os culpados dos excessos de
ocupações que nos tolhem o cumprirmos deveres im­
portantes. Falta de reflexão, amor proprio, d emasiada
confiança em nós mesmos. Quando devêramos reparHr
as responsabilidades pedindo a colaboração da mulher,
dos filhos, de terceiros, procedemos como se fossemos
capazes de realizar, a sos, a programa complexo dos
nossos deveres familiares e sociais.•.
Em muitos· casos as dificuldades nos ensinam a
confiar aos que conosco ]Jrham, e aos nossos filhos,
trabalho,s. e deveres que os levarão à consciência da
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26 ABADE - JEAN VlOLLET
propria responsabilidad!e, tornando-os mais 'aptos ao
esfôrço e à dedicação.
Sucede, porém, que a natureza nos priva dos meios
necessários ao cumprimen to àe nossa vocação, mesmo
no que respeHa à família. Neste caso é forçoso nos sub­
metamos à vontade divina, por menos compreensível
que nos pareça.
Para o cristão a im])Ossibj]jdade material ou moral
de realizar sua vocação é t ida como sacrif:ício imposto
pel a presenç a do pecado no mundo, é cuja aceitação o
ergue acima de si mesmo, fazendo-o contemplar o sa-
•
crif:ício redentor, ao qual se une pessoalmente.
Assim como os meios humanos de realizar sua vo­
cação foram roubados a Jesús no decurso àe sua vida
terrena, do que resultou, praticamente, extraordinaria
eficaci a espiritual aos seus sofrimentos c morte, assim
havemos de crer que os nossos sacrifícios pessoais e
os obstáculos opostos à finalidade de nossa voca ção,
familiar embora, nos servirão de restaurar, catolicamen-
te, a família modern a.
'
As contraditas e oposições que: pÓr vezes, deparam
à fam:ília no realizar sua vocação, quando não sej am
resultado de má vontade, podem gerar vocações com­
plementares. Assim é que as irmãs de caridade man­
tém o celib ato para a criação de órfãos, e que almas
generosas como os missionários da fa m:t1ia levam à
prole numerosa o auxílio que lhe é mistér.
Para realizar essas vocações ,será, naturalmente,
preciso, aceitar todos os sacrifícios e renuncias que ha­
bilitem a levar a outrem os socorros de ordem moral e
material de que carecem.
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MOR A.L FAMIL!Al'{ 27
Em suma, para as almas cristãs, todas as dificul­
dades e contradições podem e devem resolver-se mercê
de um esfôrço pessoal a maior perfeição, mercê de con­
formidade com os sacrifícios enviados por Deus, mer­
cê de melhor prática da caridade.
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II
BOM HUMOR E MORAL FAMILIAR
Quando Jesús en;iava seus discipulos a pregarem
a Jlróxima implantação do reinado de Deus, ensinava­
lhes a saudarem, com estas palavras, os moradores das
casas em que entravam: "Que a paz esteja nesta ca�
sa (1) ". São, justamente, as palavras que nos vêm ao
espírito quando nos propomos expor os benefícios do
bom humor familiar. O bmn hmno1· traz a paz, conser­
va-a e facilita-a. Afasta discordias, pt·omove reconci­
liações, �ncm·aja o trabalho, leva amparo às tristezas
da vida. Numa p.alav1·a, é alavanca poderosa à vida es­
piritual, contanto que se firme nas bases da caridade
e de um querer sem treguas.
Que é que impede o bom humor?
lIuito.s-, infelizmente, são os obstáculos. Alguns nas­
cem das dificuldades da vida material; outros, dos de­
feitos de c�:ná.tet· e do desmando, ou más disposições
da alma.
(1) S. Mateus, x. 12.
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30 ABADE - JEAN VlOLLET
Obstáculos Devidos a causas maiuiaii>-.
Que se exija um minün o ele folga e esJórço I>ara
conservar-se o bom humo-r, é coisa fora de dúvida.
A menos que, por vocação es1>ecial, se haja esposa­
do a p obreza ou votado a vida toda ao sacrifício e à
mortificação, é penoso suportar-se a má acomodação
habitual, a €scassez de nutrição ou a deficiência de in­
dumentária. Mesmo quando se aceitasse, a rigor, pm·a
si certos incômodos ou sofrimentos, vos seriam insu­
portáveis nas pessoas que vos são caras sobretudo se
se trata de filhos. Tolera-se uma mortificação passa­
geira porque se espera cesse amanhã, mas a que haja
de durar .sem possibilidade de mudança e acaba, pra­
ticamente, p or impedir o des·envolvimento normal da
vocação, como aceitá-la sem revolta ou enfado? Acres­
cente-se, ainda, que o chefe
-
de família que sofre de mal­
estar material tem, não raro, a impressão de não ser
responsavel pelos males que afligem os seus e os con­
somem lentamente. E' o caso do chefe de familia que
não ·encontra onde alojar os filhos ou cujo g�nho é in­
suficiente para provê-los do necessário.
Como permanecer tranquilo quando se vê estiolar,
dia a dia, o rosto dantes roseo dos filhos ou quando a
exiguidade da acomodação não permite ás crianças os
movimentos livres que a idade exige, à mãe a feitura
de trabalhos exigidos pela boa ordem do lar e ao I>ai
os trabalhos complementares ao seu ganho vrofis­
sional?
Dessas fontes profundas de mau humor é respon­
savel a sociedade inteira. Longe ·de nos impacientar­
mos com os que gemem, se lastimam ou se revoltam,
devemos considerar obrigação nossa o consa.grarmos o
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MOR A L F A MI L IA R 31
111ais (1ue pudermos de nosso tem1>o, inteligência e di­
nlwiro para pt·oporcionar-lhes o minimo de confôrto
«fll<� permita o desenv-olvimento normal da família. (1)
Obstáculos p1·oveniente:s dos caracteres.
Outras causas há de mau humor, que provêm das
insuficiências ou defeitos de um dos membros da fa­
milia.
Que um marido não arque com as suas responsa­
bilidades; que, em vez de trazer ao lar os necessários
recursos, os esbanje; que se mostre indiferente às preo­
cupações da mulher e "não a socorra com a sua autori­
dade na obra da educação, será, por certo, responsa­
,·el pelas impertinência e de.scontentamentos dela.
Que a mulher, pm· seu turno, seja negligente, des­
cuidada do lar, ]>Ouco asseada ou descomedida; que
não saiba fazer do lar um t·ecanto de repouso e de
paz, sôbre ela t·ecairá a responsabilidade dos desvios
morais do mat·ido.
E', p�r igual, necessário que, em família, cada um
se entregue aos fncprgos de sua idade e vocação. A
preguiça ou a inação geram, necessáriamente, o fastio.
A atividade bem norteada, o sentimento do dever, o
esfôrço efetivo, a assiduidade ao trabalho trazem à
alma um bom humor natural que facilita, singular·
mente, o bom acôt·do mutuo.
Tudo está na vida moral. A desordem material
acarreta a desordem moral tão bem como a harmonia-
(1) . E', pois, dever dos amigos inserever-se numa das nu­
merosas instituiçiies que se destinam a. minorar a sorte da família.
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ABA.DE - JEA.N VIOL LET
sa concordância das condições da vida prepara a paz
.e a moralidade dos caracteres.
O céu e para a outra vida, bem o sabemos. De­
ve-se há concluir que a vida teiTestre seja um inferno?
As grandes dores e os constrangimentos constan­
tes não serão, por acaso, um grande perigo para as al­
mas?
Jesus não veio, por ventura, para aliviar as mise­
rias morais e materiais da humanidade? Como, então,
não se conceber, dêsde logo, a vida em famHia como
um esfôrço de cada um }>ara levar aos outros as ale­
grias e satisfações que os hão de ajudar a viver bem,
e como conceber um lar feliz" quando os defeitos do
homem ou da mulher tornam insuportavel a vida em
comum?
O lar é a casa de Deus tanto quanto fôr a casa da
paz. Deve cada um encontrar aí repouso espiritual
mais que corporal. O marido chega cheio de preocupa­
ções com o seu trabalho, a mulher aí está com as res­
ponsabilidades caseiras que lhe p esam nos ombros fran­
zinos, sendo a ela que in cumbe, principalme,nte, o zêlo
com os filhos. Esqueça um de partilhar as preocupa­
ções do outro, e a paz não entrará ho lar.
Mas se o contrário se dá, eis que por uma obra
natural do amor, atribuição de alijeira ou, ao menos,
se torna suportavel, depois de haver surgido como in­
vencível pelas fôrças humanas.
O viver alguem egoisticamente, pouco se lhe dando
das preocupações dos outro.s é a obnubilação da alma;
enrija-a, torna-a má e descontente de tudo. Comnugm·
com as penas e inquietações alhe�as, abranda-a, escla­
rece-a e a predispõe, mui naturalmente, a sorrir ainda
que no meio das lágrimas.
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M O R A L F A M I L IAR 33
As nuvens do mau humor provêm, quasi sempre,
da l'alt a de compreensão mutua. Ser in compreendida
do marido é, para a mulher, a mais dolorosa impres­
s:'io ; e o marido m.&l suportaria que a leviandade tolhes­
se �� mulher o ter parte em suas angústias.
Do empenho que cada um puser em compreender o
o u tro, resultará a Tedução dos malentendi dos, o afugen­
l amento das inquietações e a volta do bom humor e
da confiança.
Bases espirituais do bom humor.
Até aqui temos pesquisado as causas naturais do
hom humor. Bem precário fôra o que .só se assentasse
no comodismo da vida ou nas bo as disposições do ca­
ráteT. Bastaria um acidente ma terial, um desgôsto para
(!UC êle desaparecesse.
O bom humor cristão, o que devemos adquirir, re­
pousa na vida inteTior e no esfôrço moral. Resiste a
lodas as provações porque ass-en ta em base inquebran­
lavel : o a,pwr de Deus e do próximo.
Êsse tipo de bom humor não é mera qualidade Im­
mana. Alheio ao temperamento e às circunstâncias, é
o fruto natural da graça de Deus em nós.
O bom humor sobrenatural é uma floração que tem
origem no trabalho espiritual, no desin terêsse pessoal,
na submissão cristã aos <'mhates da vida.
Do bom humor se serve ·o cristão p ara afugen­
tar o }lecado, robustecer a cm·agem moral e preparar­
se à caridade.
Bem s ab e que ·•não poderá ''iver em família,
sej a ·ela a m ais cristã e unida, se não está apto a su­
portar o entrechoque de caracteres, de interêsses ou
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3.4 A B A D E - J E .Jit N V I ó L L E T
pontos de 'isla. Os deveres e direitos de cada um. dos
J;liembro.s da unjdade familiar nem sempre se apre­
sentam meddianamente claros, de sorte que não dêem
ensej o a conflito. E', justamente, no meio dessas difi­
culdades múiHplas que o cdstão deve conservar, por .
si, pelos ou1ros e por Deus, inalteravel bom humor.
·
Ausente de to dos os membros da família essa dis�
posição ín1ima, os menores dissidios assumem pro­
p orções de conílítos, a união periclita, o amor se es­
tiola. O mau lmmor é contagioso e avassala, facilmen­
te, os mais tranquilos; é belicoso, desdenhante e altivo.
Tem raizes no amôr próprio ou no espírito de rebelião.
Faz de um argueiro um cavS:leiro; envenena 'udo o
que toca e dessora todas as coragens.
Tornando os indivíduos arredios, faz que se afas­
tem uns .dos outros, seres destinados por Deus a se
estimarem e se compreenderem.
O bom humor cristão nos leva a penetrar o co­
ração alheio. Forçando-nos a abandonar nosso egois­
mo inveterado, leva-nos a entender as luta�. os sohi­
mentos e as dores dos ou tros, consolando-os e ca1i­
vando-os. Aligeira os esforços e c'ria, naturalmente,
uma atmosfera de caridade e de paz.
A união em família compõe-s·e de pequenos ser­
viços mu1uoª que fazem de cada qual o servjdor de
todos. A paz só .se mantêm à custa de concessões recí­
procas. E' imoral e perigoso Jnocurar no casamento o
meio de aumentar a soma de seus gosos personalíssi­
mos. Tal desígnio só pode gerar decepções e multipli­
car as causas e os ensejos de desgostos. Saber, ao con­
trário, que a união de corações só se estreita com o
a ceitar-se de bom rosto todos os sacrifícios impostos
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M O R A L F A M I L I A R 35
J>ela vida em comum,
_
é robustecer, 1n·eviamente, a von­
tade contra as variações do carácter e do genio. E', ao
mesmo tempo, preparar-se para bem educar os filhos,
I>ois nada é, em verdade, mais infenso à boa educa­
ção que os altos e baixos de genio c as impertinencias
de carác1er.
O bom humor e a educação dos fillzos.
A criança é uma planta delicada que precisa do
sol claro da alegria e da paz para florecer normalmen­
te, inclinando-se franca e generosamente para o bem.
Se tem de haver-se com temperamentos nervosos, com
pais que se desmandam constantemente e, por ninha­
rias, se entregam a acessos de mau humor, vê-la-emos
fecbar-se, aprender a mentir para evitar-lhes os cho­
ques, perder toda � coragem moral, toda a boa von4
tade. O bom humor e o perfeito equilíbrio do carácter
obrigam, porém, o menino a valorizar os conselhos ou
as ordens que se lhe dão, p ermitindo-lhe à alma que
se desabrocbe e confie, sem reservas, nos p ais para os
numerosos esforçQs que há-de realizar na formação de
sua vontade e moral.
Para manter-se o bom humor é mistér pensar-se
nos outros m ais que em si mesmo, em Deus mais que
nos ouiros. Esta lei seria abusiva se devesse, pratica­
mente, levar �o perpetuo sacrifício e ao acoroçoamento
indefinido do egoísmo alheio. Assim fôra se a lei se
aplicasse a uma parte� apenas, dos membros da famí­
li a. Se, ao contrário, todos a ela se submetem d e boa
•
mente, trará, como resultado natural, um equilibrio e
urna reciprocidade admiráveis entre os incômodos que
uns sofrem e as alegria que de outros procedem. �ste
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16 A B A D E - J E A N V I O L L E T
e.sfôrço mutuo e reciproco de desin terêsse culminará,
mui na turalmen te, no progresso de todos, num ei_lten­
dimen to e compreen são mut uos que os dias só h ão de
a umen tar.
�ão aceitar esta lei é prever <JUe o egoísmo pessoal
se des envolverá à vontade ; é tomar por um beco sem
saída, contrádo às exigências da união e da p az. Quan­
to mais pensamos em nós, tanto mais tiranizantes nos
tornamos, cada vez menos preocupados com o bem
comum.
A lei do sacrifício deve começar nos albores do
casa�nento. Deve entender-se a todos os domínios, até
mesmo carnal. A carne é, de 'sí, egoísta e o e#ipôso
que lhe não souber impor nenhuma esp ecie de freio
ou s acrifício, verá diminuir os impulsos desinteressa­
dos d e sua alma. Menos apto será a êsse desprendi­
mento i nterior que mantém a alm a serena e igual.
Deve, ainda, a lei, abranger os filhos como os pais.
E' preparar boa soma de desilusões pretender secun­
dar os caprichos da criança, ao em vez de ensiná-la
a sacrificar certos desejos, mesmo legítimos,•·ao afeto
dos seus e à paz comum. • ,
Menino m uito mimado é atrabiliário J) elo simples
impulso de seu egoísmo exigente. Menino afeito a sa­
c.rifícios, f acilmente avassala os ímpetos eS])Ontâneos
de seu carácter. Aliás a afeição da criança p1·opende,
naturalmente, a quem mais lhe pede, graças ao vago
sentimento de que exigir maior soma de esforços é
conduzi-la a um viver mais bélo e harmoni oso. Meni­
no mimado senhoreia as pessôas que o mimam. Mete­
as, literalmente, em escravidão e, 'assim, destrúi todas
as alegrias familiares.
Educar o bom humor exige um regime especial,
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M O R A L F A M I L I A R 3 7
um cn!ra r J>rogressivo nas ,·ias d o sacrifício secundado
pelo sentimento, por igual J>rogressivo, do êxito moral.
Eis a vantagem de mostrar-se a cada um, sobre­
tudo às crian ças, o benefício resultante dos sacrifício&
voluntários. Para pcrsi.s tir no proposito, precisa o ho­
mem de ser encorajado.
Os sacrifícios impostos a cada um dos membros da
familia devem ser propo:rcionai!s ao desenvolvimento
moral. Exigir demais é provocar mau humor ; pedir
em escassez é encorajar o egoísmo. A alma cristã sà­
berá •istinguh· êsses matizes delicados e obter do Es­
pü·ito Santo a ciência e prudencia necessárias.
O que dissemos d; bom humor entre esposos é
exato paTa todos o.s que fazem vida em comum. Que se
trate de filhos tornados grandes em relação aos pais,
de irmãos e irmãs entre êles, de criados e amos, de
supc1·iores e inferiores, deve, sempre, cada um forcejar
por submeter-.se às regras do bom humor, tal como as
enunciamos. Mais ainda, há-de um cristão conservar
seu ])om humor mesmo quando o carácte1· daqueles
com qucn convive torne m ais difícil a paz e mais lou­
vaveis seus csforç�s. •
A lei do bom hmuor deve .s.er regra entre os mem­
bTos de uma família. Fará <fue êles encaminhem para
Deus as almas dos que lhe.<; são caros e cuja conversão
e progresso almejam.
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111
A UNIÃO ESPIRITUAL E MORAL DOS ESPOSOS
O amor que devem intercambiar os esposos vem
de D eus e a Deus há-eLe tornar. Elevado à dignidade
de sacramento, contribui para a santificação dos que
se amam e confere-lhes a graça que os há-de auxiliar
a bem cumprirem o encargo de educadores cristãos.
No pensamento de D eus o amor deveria .ser fonte
perene de felicidade e alegria. Em ver.dade, porém,
o pecado lhe faz conhecer não poucas tentações e dores.
À obra do amor traz cada um o seu quinhão de
egoísmo, .abrindo brecha a .satisfações pessoais. Daí
resulta um perigoso esquecimento da prática do altruís­
mo, sem o qual nâo pode haver união duravel e santi­
ficante.
Amar cristãmente é, p ois, antes de tudo, santifi­
car-se para só trazer benefícios a o ser amado. E', ao
mesmo tempo aspirar à santificação do outro em con­
comitancia com a propria, e tirar das alegrias e tris­
tezas do amor, um meio de perfeição. Esta obra espi­
ri tual e moral só se efetua a custa de permanentes es­
forços, e graças ao rtmparo, ao perdão e ao encoraj a­
mento mutuos.
Eis porque o amor que Jesus inspira às almas serve
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40 A B A DE - J E A N V I O L L E T
d e mo dêlo ao q u e os esposos s e devem trocar. Jesús
suporta o pecador e o robustece con tr a a J>rÚpria fra­
queza, ao rnesmo temJ>O em que o aconselha e oferece
ao Pai os sof:riment.os que o hão de re dimir. Foi a.ssim
que S. Paulo pôde comparar o amor entre h omem e
mulher ao amor entre o Cristo e a Igreja. (1 ) . Com
efeito. assirü como o Cristo amou a Igrej a até se entre­
gar por ela afim de a santificar e glorificar, assim aos
esposos cumpre o aceitarem o.s sacrifícios mutuos pro­
cm·ando um san tificar-se pelo outro para a I'ealização
da obra de Deus.
O desinteresse.
Como. porém, atingir o desinteresse pessoal? Em
seus primordios o amor é um mixto de abnegação c
egoísmo. Qual dessas tendências triunfará, e quem há­
de afirmar que a atração do prazer não sufoque a do
sacrifício ?
O dar-se coni desinteresse pertence, tão sómeu te, às
almas que a isto se prepararam de longa d atk Os que
no decorrer de sua mocidade não, cOJlheceram o sacri­
fício ; os que viram satisfeitos os seus CUJ>richos todos,
e não se cledkaram nem a irmãos, n em a J>ais, não
{ruererão, a menos que os alumie uma graça excepcio­
nal, conhecer do amor conjugal outra coisa Cjue não
sej am alegrias e p razeres. Muito ao contrário sucede
com os c1ue, quando j ovens, aprenderam a esquecer­
se de si e sacrificar-se por outrem.
Com os gosos violentos da carne os esposo� inci-
( 1 ) Todo o passo de S. Paulo convém ler-se. Cf. E las.
Y, 21-33.
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M O R A L F A M I L I A R 41
J>ien te.s correm, por igual, o risco de ver diminuídas as
forças espirituais do desinterêsse. Compete-lhes, pois,
T efrear os impul.sos sensoriais se ·quiserem conservar
c deson· oh: er as forças morais do amor. Nisto serão
aj udados à medida que se subme terem üs leis que re­
gem o amor cristão.
O divórcio contra a união dos corações.
A primeira dessas leis é a que interdita o divorcio.
A J>roihiçâo de os homens se divorciarem não obsta ao
aumento n atural do amor humano, como crêem os que,
não ate;.ntaram nas condições da evolução normal dos
sentimentos. Bem ap1·eciada, é es ta intcrdição um obs­
tú culo erguido ao egoísmo c à s paixões caJl azes ·de
estiolarem o amor.
O amor verdadeiro firma-se, ante.s de tudo, n a fusão
das almas. Assim, convém não confundir instinto e
amm·. Quantas uniões de corpos há comJ>letamente de­
samparadas dos s entimento de dedicação e responsa­
bilid ade,• alicerces do verda deiro amor ! Quantas outras,
entreta nto, feitas .de .um generoso e cluravel devotar-se,
ele to do alheias aos JH'azeres carn ais !
Os gosos d a carne podem ser complemento natural
do m uluo amor dos esposos; não são, porém, a finali­
dade. A união de corpos só assume o seu significado
moral s e a acomp anha a von t ad e de aceitar os nasci­
mentos que pode ge1·ar, tornando-se, -de.starte, instru­
mentos da ação primordial de Deus na obra criadora.
Se a lei moral se opõe ao divórcio é, justamente,
para livrar os espo s�s, a um tempo, das tentações egoís­
t as da carne, das falhas de carácter e do espirito de
independência.
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42 A B A D E - J E A N V I O L L E T
Em seus pcimordios, o amor, em que pese às apa­
rências, C. frágil. Se não se acautelam, os espôsos, eu­
golfados nos prazeres do casamento, serão incapazes de
aceitar os sacrifjcios impostos à vida em comum. Dei­
xarão que tomem vulto os caprichos pessoais e dia virá
em que êsses caprichos hão-de matar o amor.
Se os esposos sabem que, em face da ,�ontade di­
vina, lhes é defeso o separarem-se, removerão as ten­
tações, os m alentendidos e procurarão aplainar as con­
tradições praticando, mutuamente, a brandura e a tole­
rância.
A idéia de uma separação I!rovável, ao contrário,
impele cada um a extremos de ressentimentos e mal­
querenças.
A interdição do divórcio obriga, pois, os que se
amam a pelejar consigo mesmos, a arrancar de seus
corações faltas e impulsos infensos à boa harmonia.
O divórcio contra a educação dos filhos.
A fidelidade é lei necessária, também, à e:ducação
dos filhos.
O amor que um ao outro inspiram os espósos tem
por mira principal, à face de Deus, a difusão da vida.
Devem, assim, sobrepor o futuro material e moral dos
fHhos às próprias satisfações.
E' bem de ver-se que a criança requer, para se
desenvolver normalmente e para grangear confiança,
um ambiente de paz e afeição. Desde que seja teste­
munha inerme das desavenças patqnas, sua formação
periclita. A alma se lhe retrai dando-lhe ensej o a pro­
pender uáturalmente, à desconfiança e à tristeza. Eis a
manifesta inferioridade moral do filho de divorciados.
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M O R A L F A MI L I A R 43
Santificação mutua.
Como hão-de os esposos �rislãos man ter, entre êles,
a paz que sustenta o m utuo amor e o esfôrço moral ?
Nem sempre é fácil consegui-lo, j á <rue embora o espo­
sa do almeje o bem, nem por isto a sua Jlersonalidade
deixa d e s er uma amálgama de qualidades e defeitos.
E' preciso escu dar-se na paciência para suportar êstes
e melhorar aqueles, o que só a prática do Evangelho
dá, ensinando-nos a amar mesmo quando a pessoa a
quem devemos amor sej a, para nós, motivo de penas
e pesares.
E', podemos dizê-I�. a I>artir do dia em que os es­
posos descobrem seus defeito.s mutuos que têm início,
p ara êles, os meritos do amôr. Pouco nos custa o amar­
m os um sêr p erfei to. Digno de louvor é continuarmos a
a mar uma pessoa cujos defeitos· nos fazem, todos os dias,
sofrer. Se os esposos não pedem à paciência e à miseri­
córd i a o amparo ele que necessitam para se tolerar; se
o amor não se deha levar do desejo da perfeição, b a­
seando-se' no amor de D eu s, bem cedo a vida em co­
mum se tornará ,difjcil e, mais adiante, intolerável
talvez. Só a humildade e o amor de Deus os levarão a
reconhecer suas fal has redprocas, corrigin do-se e esti­
mulando-se mutuamente.
Embora os esposos propcndam aos mesmos esfor­
ços, sucede, não nuo, que só um dêles permanece fiel
às exigências da vida moral. Neste caso, qual deve ser
a sua atitude ? Terá, acaso, o direi to de permitir cres­
ç am nele os sentimen tos d e indiferentismo e rancor ?
Seria isto supor qu� os peca dos alheios autorizam os
próprios.
A verdade é que o espôso cristão, quaisquer que
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4 4 .A B A D E - J E A N V l O L L E T
sejam os defeitos de seu cànj uge, há-de man ter em
domi nio as ten tações que o empel em ao údio e à indi­
ferença. A união realiz ada c!Ían te de Deus subsiste, se­
jam quais forem os desfalecimentos e mesmo que as
drcuns.tâncias tornem neces sári a a separação <le corpos.
Orar pelo culpado e desej a r seu arrependimento e sal­
Yação é dever que se t:onfunde com o de rogar pelo.s.
pecadores e o de oferecer por êles, sofrimentos e penas.
O amor acarreta o respeito mutuo e a liberdade de
consciência. Assim , a influência que os esposos podem,
legitimamente, exercer um sobre o ouh·o, não deverá
nunca torná-los esqucddos dos �lireitos e JH'Opósitos da
consciência de seu companheiro.
. A influência mutua, só é, todavia, desej úvel quando
o.s conjuges com ungam o m esmo ideal moral c religioso.
Conclue-se que, faltando o ideal religioso comum, não
devem os moços esposar pessàa cuj a consciência não
seja reta ou não partilhe de suas preocupações morais
e familiares.
No que toca a esposos, o que sucederá, por cxem]>lo
se um dêles quisesse filhos, e o outro, não? •
À mulher lembre sem]>re que , o risco de perder a
liberdade de sua consciência moral a ameaça mui de
}>erto porque ela é, facilmen te, tentada a entregar-se,
de corpo e alma, à vontade do ser amado. Lembre-lhe
que a ninguém p ermite Deus, embora sob pretextos de
amor, o abandono da.s responsabilidades de sua cons­
ciência.
Requisito essencial à santificação é a confiança
mutua. E' ela que permite as confidên cias e os proje tos,
trazendo às almas o encorajament� e o apóio dé <1ue
carecem. Desgraçadamente essa confiança é, a miude,
impossivel a conta de êrros antigos ou recentes que não
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M O RA L F A M I L I A R 45
se ousam confessar e (jUe, não raro, seriam de molde
a quebrar o amor ou a lançar, em definitivo, a turva­
ção uma alma inocente. Confidencias há, porém, que,
impossíveis nas primícias da vida de casado, podem,
com o andar do tempo, ser feitas graças à intimidade
das almas e ao melhor conhecimento da fraqueza hu­
mana; graças, principalmente, u um espírito cristão
assaz forte e generoso para compreender e perdoar.
Referimo-nos ao ideal a que devem tender os verda­
deiros cristãos. Bem conhecemos todas as dificuldades
que, por vezes, se opõem a tais votos. Nossos conse­
lhos só vão até onde) a prática das virtudes. cristãs
permite que as almas lhes suportem as dolorosas con­
sequências.
Defeilo.<; mutuos.
A vida em comum faz, naturalmente, cada espôso
penetrar as qualidade.s e os senões do outro, pondo à
mostra os mais secretos movimentos de sua consciên­
cia moral>. Essa interpenetração é, por certo, obra de
Deus, e impele os, esposos a se corrigh·em e permuta­
rem benefícios.
O mesmo não se dá com a paixão. A J>aixão é,
voluntariamente, cega aos defeitos alheios. Rebelde a
qualquer responsabilidade, é surda a tudo o que lhe
}JOssa impecer os anseios egoístas e os desejos de gôso.
O amor cristão, ao contrário, dis}>Õe-se a conhecer os
méritos e os deméritos da pcssôa amada porque al­
meja colaborar em seu bem. Sem ferir, nem condenar
quem julga, tornar-se-lhe, com razão, fonte de luz e
e melhoria moral.
A união periclita quando o amor-proprio ou a au-
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46 A B AD E - J E A N V [ O L L E T
sência de vida cristã impedem à alma a posse de si
mesma e, por conseguênda, o reconhecimento e a con­
fissão dos próprios defeitos. Por menos que lhes apon­
temos, jrrHa-se e dá mostras de aversões que podem ,
culminar no divórcio e na separação. Podemos, assim,
concluir que a humildade é um dos mais poderosos
auxiliares do amor e da l>oa harmonia conjug.al.
A dedicação.
Os esposos devem ter em mente que as fontes da
verdadeira felicidade estão fóra do " eu''. Falsos go.sos
que deixam no fundo da alma o travor ·do fastio, eis
tudo o que o egoista pode conhecer. As verdadeiras
alegrias 1·epousam no devotamento e na abnegação.
Nossa vida desabrocha à proporção que saímos de nós
mesmos para dedicar-nos aos outros. E' norma rigoro­
samente exata para os esposos, e os que quiserem ter
um pouco de felici dade terrestre, deverão esquecer-se
de si em prol dos outros ; deverão fazê-lo cristãmente
e só procurar as alegrias que depuram e robtLstecem a
vontade.
A família sofre cada vez que um dos eS})OSOS se
lança, egoisticamente, em busca de prazeres pessoais.
Tornar-se-há - é fatal - tirâno dominador e orgu­
lhoso e, por pouco que o seu egoísmo reflita nos outros
(o que é quasi certo acontecer já que os defeitos con­
tagiam mais que as virtudes) a vida em família se
tornará incomportavel.
O fito precípuo dos esposos peve, pois, ser a re­
pressão das mil exigências do egoísmo, para substituí­
las pelos mil propósitos da dedicação. E' o único meio
de �liviar os sofrimentos da vida tornando-os supor-
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M O R A L F A M I L I A R 47
táveis. O egoísmo mul tiplica as aflições de todos; a
dedicação as r�duz ao mínimo. Sair de si é labor lento
e difícil. Requerem-se anos, mas, em suma, é por êle que
se realiza a maior soma de ventura tle que é suscetivel
a vida terrena.
:Este esfôrço exige íntima união a Jesús Cristo e
grande amparo da vontade divina.
E' me1·cê de uma vida religiosa profunda que os
esposos cristãos adquirem as virtudes que hão-de pre­
sidir a suas uniões; graças a ela se auxiliarão a supor­
tar os sofrimentos que ·acompanham .a vida terrena.
A paz, a serenidade, a fôrça necessárias ao bom
termo da tarefa quotidiana, como conservá-las se não
nos unirmos a Jesús Cristo e não nos esforçamos por
imitá-lo, suportando os }lesares da vida e os defeitos
alheios como êle mesmo suportou as dores de sua
Paixão e os pecados do mundo?
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IV
O MAGNO DEVER (1)
Da amizade.
Antes de se amarem pelos corpos, devem os espo­
sos amar-se pelo coração e pela vontade. Entra, assim,
seu amor n a categoria mais geral da amizade cristã.
Se os amigos se apoiam um ao outro na prática
do hem, estão pondo o bom entendimento mutuo a
salvo de atos que possam prejudicá-lo.
O amigo cristão é, assim, o sustentáculo de nossa
vida moral. Está sempre, a nosso lado para dizer­
nos as verdades necessárias e dar-nos -encoraj amen­
tos úteis. Traz-nos mna alegria e uma paz especial
que nos aliviam o fardo dos deveres e nos robuste
cem ·contra as tentações. Escudam-nos contra nós mes­
mos e contra as vkissitudes da vida, impelindo-nos ao
cumprimento do bem.
(1) Haverá quem nos queira acusar por jmpormos aos es­
posos uma lei conjugal por demais severa. Lembt·e-lhe que nos
dirigimos aos cristâ<>s que deliberam santificar-se. Saiba, igual­
mente,_ q11e a moral exige sejam os :princfpios apresentados com
t<>do o seu rigor, cumprindo a caila qual o devei' de ac11egar-se a
êl&s. à custa de lutas e es�orços quotidianos.
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50 A B A D E - J E A N V I O L L E T
Faz-se, habitualmente, distinção entre amor e ami­
zade, reservando-se aquele para os esposos e esta para
duas almas unidas por um mesmo senHmento de afei­
ção.
Será exata essa dis tinçã o ? Não se tiJOderá, com
todo o rigor, dizer que há amor sempre que houver
amizade, e amizade, sempre que houver amor ? O amor
é o sentimento; a amizade o estado que dêsse senti­
mento resulta. Pode um amigo não ter amor e um
espôso não ter amizade ? O sentimento que inspiram os
pais aos filhos e os filhos aos pais, cham a-se amôr.
Pois o estado de coração qte vos leva a desejar o
bem do próximo, é amor também.
Será conveniente, assim, para maior clareza do as­
sunto, que unamos as duas palavras muito embora
tenhamos de especificar os deveres Jlarticulares que
acornpanbam o amor conjugal.
O amor conj ugal, antes de ser uma união de corpos
é uma união de corações e vontades, e, nisto, se con­
funde com a amizade. O desejo da união dos corpos
que ai interfere, dá relêvo à finalidade principal que,
com o casamento, se propõem o hÓmem e a mulher,
e vem a ser, a fundação de uma família.
Este cunho do amor conjugal obriga-nos a alguns
reparos. O primeiro é que toda amizade, fora dos limi­
tes do casamento, é forçada a coibir os desejos de inti­
midade corporal Esse.s desejos podem, com facili dade,
nascer nos .adolescentes que, inexpertos, não sabem
estremar os desejos do cOf})O e os do coração. Dai as
amizades perigosas que nascem de admiração ou en�
tusiasmo irrefletidos e podem culminar em quedas la­
mentaveis.
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M O R A L F A M I L I A R 5 1
E isto não se verifica, somente, na amizade entre
jovens, senão, também, na amizade entre adultos de
sexo diferente. Se não se acautelarem, as amizades
mais puras podem degenerar em tentações e provocar
si tuações desastrosas de que as vítimas só se J>oderão
libertar à custa . de lutas arduas e dolorosas.
A amizade entre I>essoas de sexo diferente exige,
porisso, atento domínio sôbre os corpos. Há-se: sem­
pre, fazer-se acompanhar de um respeito que reprima
qualquer familiaridade sensível.
O amor-ca�amento.
O mesmo não sucede com o amor conjugal. Con­
fundem-se a atração dos corpos e a dos corações.
I
O homem e a mulher uniram-se para ter filhos.
Amam-se para corresponder a um ansêio da natureza.
Suas vocações não só justificam mas sugerem as inti­
midades que possibilitam a obra criadora de Deus.
Eis porque ninguém deve entregar-se aos liames
do casmnento sem ter son dado seu íntimo para asse­
gurar-se da reali<!ad� de sua vocação. O amor que pre­
tende encerrar-se em si mesmo e recusar o filho, é fra­
queza ou egoísmo, jamais uma vocação. Deus não o
assiste. Entra na categoria das falsas amizades.
Daí a conveniência de conhecer, previamente, as
disposições morais do futuro cônj uge, depois de estar
bem certo das suas. Este cuidado com1>ete às. moças
tanto quanto aos moços. Devem, ambos, estar apare­
lhados a sacrificar um sentimento ou atrativo que haj a
de contrariar a vôntade de Deus e as exigências da
moral.
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5.2 .A B A DE - J E A N V ! O L L E 1'
Dever conjllgal.
P-o de-se dizer que a umao dos corpos é o princi­
pal �scopo do casamen to, :partind9-se do princípio de
que aos esposos cumpre, an1es de tudo, o dever de se
consagrar à fundação de uma f.amilia. Nilo nos esque­
çamos de que o amor mutuo e a educação dos fil11os
implicam união moral e espirHual dos pais.
Não podendo, entretanto, os filhos nascer sem a
união corporal, torna-se esta elemento do amor con­
jugal e deve reger e dirigir as relações sexuais. Os fins
secundários, ajuda e amp aro mutuos, remédio à con­
cupiscência, não deixam, p oréni', de subsistir. O amor
�ntre esposos, a p az que entre eles devem reinar, são
fatores necessários à vida conjugal, e a boa harmonia
não raro precisa da união dos corpos, o que não tolhe­
rá aos esposos o am}lliarem e robustecerem a união
moral e espiritual à cust a da união corporal e cuj o
sacrifício é, muitas vezes, imposto JlOr imperativos
morais irreprimíveis.
Os filhos.
Fundar uma família é, pois, o primeiro dever dos
esposos, dever que comporta riscos e exige penas e
trabalhos, sendo, ao mesmo tempo, fonte de alegrias.
E', assim, perigoso multiplicar o número dos filhos.
Perigoso é, também, ter de guiá-los e dirigi-los até a
idade adulta.
Suprimir, porém, os perigos que acompa nham a
-vi da familiar, seria contorcer as leis da vida e da mo­
ral. O crente os domina pela fé. Sabe que D eus vela,
com paternal solicitude, por todos quantos põem o de�
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M O R A L F A M I L I A R 5 3
ver acima das inquietações e dos egoismos d a vida
Cjuotidiana.
E' por isto que a família cristã não receia o nú­
mero de filhos. Aludindo a número de filhos, não nos
pretendemos coloca:t," no terreno da natalidade, impon­
do o.s argumentos p atrioticos e sociais que militam em
favor de numerosa prole, se bem não seja permitido
a um cristão o desinteressar-se pelas consequências da
p1·ocriação !
Cumpre-lhe desenvolver a família para que, por
meio dos fHhos, possa êle ser, em muitos pontos, útil
á sociedade de que faz parte integrante. O dever social
é um só J>ara todos os
'
cidadãos, quaisquer que sej am
os seus credos religiosos. Mas ao dever social se super­
põe, para o cristão, o de realizar, plenamente, sua vo­
cação religiosa, a qual lhe impõe o emprêgo de suas
fôrças físicas e morais na educação do maior número
possível de cristãos.
A vocação do casamento exige que os esposos se
esforcem por aumentar o número de filhos porque o
poderio triadm·, a autoridade e prerrogativas que o
acompanham, o 11ra�er e .o convicção da paternidade,
Deus não lhos conferiu para que dêles se sirvam de
modo egoista e tacanho. A verdadeira -vocação há-de
empenl�ar-se em ir até o fim dela mesma. Um padre que
se satisfizesse com o limitar ao mjnimo os seus deveres
sacerdotais e não estivesse con.stantemente atento no
grangear o maior número possível de almas para o
reino de D eus, se1·ia um J>a dre ntedíocre e bem pouco
digno das graças recebidas.
Por igual modÔ, os esposos que r�stringissem o
número de filhos por falta de confiança em Deus, te­
merosos de canseiras e vreocupações, não satisfariam
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5 4 A B A D E - J E A N V I O L L E T
à vo nta de de Deus em to do o seu àmbHo, nem merece­
ri am a s graças reservadas às almas generosas.
Quando Deus nos infunde energias e p uj anças na­
turais não é p ara limi tarmos-Lhes .os efeitos pela }>Usi­
]animidade. Com mais forte razão, quando nos con­
fere graças sobre-naturais, como sucede no sacramento
do matrimônio. Os talentos recebidos devem frutificar
sob pena de serm os declarados in dignos e maus servos.
DQ continência.
Não diremos que não sej a, por vezes, legítima, a de­
limitação dos filhos. E' preciso, porém, pesar-lhe as ra­
zões. Qualquer restrição que rev.ele egoísmo, desejo d e
go.sar a vida, medo ao trabalho, é contraria à vontade
divina. Limitação ditada pelo bem moral e físico dos
esposos e dos filhos existentes, é, ao contrário, legítima
e pode aumen tar as graças de Deus em vez de as dimi­
nuir, contanto que essa limitação .se faça acompanhar
dos esforços de tontinência exigidos pela lei moral.
Po de, com efeito, suceder que a saúde, l.:t insufi­
ciência de recursos, os estorvos fi l:!Oa educação dos
filhos obriguem os esposos a contentar-se com restrito
número de herdeiros. Neste caso deverão, de comum
acôrdo, impor-se o doloroso esfôrço da continência.
Bem sei que uma aberração moral encontradiça gerou
o hábi to de impor sómente à mulher todas as restri­
ções e sofrimentos que acarreta a disciplina sexual.
A ela corre o dever de aceitar numerosas concepções
e de subordinar-se às exigências sexuais do marido ; a
êste a lib erdade de agir como bem lhe quadre. Como
S{: a lei moral coagisse a mulher a todos os sacrifícios
e autorizasse o homem a todos os gosos da carne .
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M O R A L F A M I L I A R 5 5
Não h á duas morais sexuais. Há uma só. O s sacri­
fícios e sofrimentos da mulher, hão-de compensá-los
os esforços e as lutas do homem para conservar-se abs­
tinente. O exame desapaixonado da lei natural obriga­
nos a concluir assim.
Para a mulher o ato sexual compreende duas fases
que se completam. Uma, seguida, como para o homem,
d e alegrias e prazeres, é a da união sexual. A outra
composta de longo.s meses de gravidez, ultima-se com
as dôres do parto. Esta lei que ao mesmo ato sexual
traz prazer e sofrimento, não toca só à mulher? E o
homem não deve, acaso, partilhar com a espôsa a do­
lorosa fase da vida sexual ? E pode-se lá aceitar haja
Deus permitido que o verdadeiro amor imponha sacri­
fícios só a um dos cônjuges? Isto não pode ser assim
e, de fato, não é.
Pelo que dizem os médicos a saúde da mulher e
a do filho exigem repouso e calma sexuais, ao menos
durante o.s últimos meses de gravidez e no período de
amamentação, visto que o engravidecer de novo poria
em risco • a saúde do })rimeho filho temporãmente,
desmamado, e a do segundo, temporâmente concebido.
• •
As disposições físicas e, por consequência, as dis-
posições morais do filho serão tanto melhores se êle
se desenvolver sem que o seu organismo em formação
sofra os embates das tensões nervosas que acompa­
nham, necessariamente, o ato sexual. O bem do filho
e o da mulher exigem, assim, do homem um período
mais ou menos longo de abstinência. :Esses sacrifícios
não são só as leis da concepção que os impõem. Po­
dem decorrer de quéstões de saúde, de dificuldades fi­
nanceiras, de motjyos reUgiosos. Não é impossível dar­
se que as razões sejam de tal sorte imperiosas que
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5 6 A B A D E - J E A N V I O L L E T
levem a contiuênda a prolongar-se indefinidamente
sob pena de lJÔr em risco, por exemplo, a vida de uma
espôsa incidindo 1mma como que monstruosidade mo�
ral mui semelhante a um crime. Os sacrifícios que à
mulher Ülll)Õe a concepção compensam-se, no homem,
pela pungente aceitação de uma abstinencia mais ou
menos longa. A lei que rege a vida sensorial é análoga,
quer a consideremos num sexo, quer noutro.
Não queremos aqui esmiuçar onde começa o pe­
cado e onde acaba, o que é lícito e o que c defeso. Diri­
gimo-nos a cdstãos que procuram aperfeiçoar-se, indi�
cando-lhes a direção conveniente para (IUC alcancem a
maior llerfeição possível no casamento.
Assim, pois, o amor que nos leva a amar o próxi­
mo mais que nós mesmos, deve, normalmente, culmi­
nar, no homem, em esforços de continência para hene�
fício da mulher e dos filhos.
Bem sei que quantos ignoram a luta e o sacrifício
propendem a declarar que a continência está acima
das fôrças humanas. A ser isto exato, cumprir-nos-ia
concluir que todo homem inibido de ter rela'!;ões com
sua mulher por motivos de saúqe pu por causa de
uma longa separação, tem o direito de sàtisfazer as
exigências de seus apetites, o que seria justificar todas
as fraquezas e pretender que o homem, ao contrário
da mulher, é um misero animal que não pode sujeitar­
se nem à lei do dever nem aos imperativos da fideli­
dade ao amor. Tal conclusão injuria o homem e con­
trai·ia a moral. A continencia é possível, contanto que
o homem evite os ensejos perigosos e se acautele, o
mais possiv el, contra as imagens l'ascivas que lhe pos­
sam povoar a imaginação. Ao relaxamento habitual da
vontade é que se há de atribuir a excessiva fraqueza
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M O R A L F A M I L I A R 5 7
do homem neste ponto. Temos o direito d e afirmar a
possibilidade da continência tanto mais quanto conhe­
cemos casais j ovens, cheios de vigor, que aceitam de
comum acôrdo, e a prazo não breve, o penoso fardo.
A paga dêsses sacrifícios é a mocidade e a fres­
cura de seu amor quando, em tantos outros casos, os
desmandos das satisfações do corpo de-pressa arrui­
naram as delicadezas do coração e fatigaram as ener­
gias do organismo. Em verdade nada enfraquece e
corrói tanto as fôrças de resistência da vontade, como
o convencer-se da inutilidade dos esforços ; nada, ao
contrário, que melhor se acautele contra as tentações
sedutoras que a fé na possibilidade e n a necessidade da
vitória. Se atentarmos em q ue cé1·ebros j ovens pennane­
ceram, durante longos anos, na idade em que se fir­
mam as convicções, na i déi a de que a castidade dos
moços e a continência dos e.sposos eram coi sas impos­
síveis, não nos admira o fracasso de tantos homens em
face das obrigações da lei conjugal.
O verdadeiro amor pressupõe e implica inúmeros
sacrifíchls corporais. O respeito à mulher, a obrigação
de nad a fazer que l�e p ossa prej u dicar a saúde, a edu­
cação dos filhos impõem numerosas restrições a pai­
xão, 1·estrições fatais ao amor se êste houvesse de ter
a carne p or único apôio.
Ao con trário, porém, como o prova a observação
atenta da obra de Deus, se o a mor vicej a a lravez dos
sacrifícios pessoais e das lutas con1Ta os in stintos egoís­
tas; se se firma nas disposições ínthnas do coração e
da vontade, crescerá e se fm·tifica1·á com as energias
(
morais e espirituais d os esposos. Há um sem número
de preocupações morais que refrigeram a carne e lhe
aquietam os apetites. O homem <(U e am a verdadeira-
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58 A B A D E - J E A N V I O L L E T
menie, encontra em seu amor o com «JUC refrear seus
desej os. E' fora de dúvi da que os a}JelHes inferiores
são tanto mais 'iolentos quanto o coração está mais
vasio. A carne e mais exigente quando a alma é mais
egoista. Atira-se facilmente, às excitações sensoriais
quando sente precisão de esquecer a propria deficiên­
cia espiritu al. Ao contrário, a .serenidade interior, a
união dos corações, as alegrias d a paternidade, o de­
sej o de progresso moral são outros tantos potenciais
que acalm am as violências da carne e facili tam os sa­
crifícios im]JOstos pela continencia.
Virtudes subsi.diárias da continência.
Não ha virtude natural ou sobrenatural cuja prá­
tica não contribua para acalmar os sentidos. Particulat·­
mente eficaz contra as tentações da carne é a humil­
d ade. Há íntima ligação entre espírito e carne, e o m·­
gulho daquele facilita e prepara a revolta desta. Quem
quem dominar o corpo há-de começar pela sujeição do
espírito à humildade.
Se a fé e a esperança são, ]JQr igual, auxiliares
preciosos C{Ue nos fazem vêr o reino futuro e nos dão
as graças necessárias para alcançá-lo, o amor de Deus
é a arma suprema que possibilita a vitória definitiva.
Aí está porque ao.s jovens esposos cabe um grande es­
fôrço afim de que as alegrias do amor humano não lhes
obscureçam as luzes do am or divino, e os prazeres car- .
nais não lhes tragam à alma religiosa a letargia e o
marasmo. Os eSJ>osos que procurarem unir suas almas
auxmando-se, mutuamente a bem servirem a Deus se­
rão, mais facilmente, senhores de seus desejos. Se in­
tervém um grande amor ao próximo e a preferencia
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M O R A L F A M I L I A R 5 9
p elo bem moral do cônjuge e dos filhos, conseguirão .
estabelecer neles o domínio do espírito sôbre o corpo,
do amor espiritual sôbre a p aixão da carne.
Da confiança em Deus.
Os que se decidiram a combater o bom combate,
llão-de encarar os inúmeros obstáculos opostos à fun­
dação de uma família numerosa, ou os sacrifícios que
a lei conj ugal impõe. De duas espécies são êsses obs­
táculos : uns de ordem moral, outros de ordem mate­
I'ial e social.
A socieda de contemporânea criou privilégios es­
candalosos para o celibatario e para a família neo­
maltusiana . Contra os hábitos e a legislação, os defen­
sores da família t erão de empenhar-se em luta labo­
riosas . Embora o movimento pro-familiar que se es­
boça de tempos a esta parte, não seja especificamente
I'eligioso, é dever do cristão auxiliá-lo económica e en­
tu siasticamente. Tudo o que favoreça o salario fami­
liar comó sej am as caixas de compensação ; tudo o que
facilite o alojam�ntQ sa dio e saudável da família, e,
de modo geral, o espirito de previdência, deveria me­
re cer-lhe solíci ta atenção. O não fornecer a cada um os
m eios práticos e materiais necessários ao bom desem­
l)enho de seu d ever, seria pl'égar uma moral acima das
fôrças humanas e atentar contra Deus. Se se quer que
os esposos tenham num erosa prole, é forçoso subminis­
trar-lhes os meios de man ter essa famíli a, de a acomo­
dar, de a alimentar e de dar a ca da filho situação con-
veniente.
Os mais graves ünp ecHhos são os de ordem espi­
I'iiual. Originam-se do egoísmo e do orgulho. Quantas
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60 A B A D E - J E A N V l O L L E T
moças há que eütam filhos, temeros as de .se }Ui v arem,
longos meses, das distrações a que es tão afeitas ou por
não quererem }J erder uma }Jan:e!a, si•Juer, de sua li­
berdade e encan tos !
Q uantos homens têm medo d as f adigas e trabalhos
n ecessaríos à man utenção de família numerosa, e pre­
tendem viver Jmm bem-estar que lhes seria forçoso per­
der se tivessem de criar muitos filhos ! Queremos reter
os prazeres da vida sem aceitar-lhe os onus, dando,
assim, deliberadamente, de ombros às exigências da
oJlloral.
Pt·etender pai'a os filhos o mesmo confôrto ma teria]
de que usufruímos pessoalmen te, falseia, por igual, a
vida familiar. Bem longe de fazerem do filho um ho­
mem corajoso e um cristão confiante, capaz de lutar
bravamente por cumpl'ir sua 1n·opria vocação, os pais.
o afeiçoam pelo modêlo dos vivedores e egoístas. A
perspectiva de uma vida sem esforços dessora as ener·
gias do moço quando uma educação mais viril teria
feito dêle um homem ativo, útil aos seus semelhantes
e desejoso de ser, também êle, um chefe de' família
numero sa.
A previdência é virtude contanto que não supTi­
mamos a fé em Deus. A sabedoria consiste em crêr que
Deus reserva bênçãos e bens a os que cumprem coraj osa
c integralmente o seu dever em conformidade com a
justiça do reino . divino.
Pal'ece que a sociedade moderna, firmada no es­
pírito <le previdência, conhece uma tentação que os
antigos i gnoravam, qual sej a a de confiar escassamente
�
e1.t Deus, temendo os perigos que acarreta o desenvol-
vjmento da vida. Mais v ale a sabedoria de Deus que a
dos h omens, e aquele cuj a família receberá a m aim·
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M O R A L F A MI L I A R 6 1
som a de bênçãos será o que, depois de haver lutado co­
mo lhe cumpria, confiar na paternidade soberana de
Deus. Que os esposos cristãos confiem, pois em Quem
é o ou tor de toda vida; que dispen<lam todos os esfor­
ços exigidos pela lei moral; que alicercem seus atos
com as orações e os sacran1entos, c Deus estará com
êles e com seus filhos, de geração em geração.
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v
DA EDUCAÇÃO DOS FILHOS
A hoa educação dos filhos é a principal obra da
família. Se o homem se entusiasma com o ser o instru­
mento da Providência criadora, mais se há-de entusias­
mar com a colaboração que Deus lhe J>ediu na feitura
da alma e da consciência dos filhos. A obra da educação
.se avantaj a à da procriação tanto quanto a vida da
alma se avantaj a à do corpo.
A autoridade que Deu s confiou aos pais é poderio
semelhante ao de que se serve a Providência para con­
duzir os h omens à vida eterna.
Pre}'Jostos de Deus, os pais são encarregados de di­
rigir, de robusteçer � aclarar a consciência moral e a
ansia de perfeição dos filhos. De tentores dos poderes
nece.ssários p ara fazer dêles homens e cristãos, cumpre­
lhes o amp ará-los na lut a contra êles mesmos e contra
todas as suges tões do mal, ensinando-os a amarem o
bem acima de tudo e a se prepararem llara a vida
eterna não se servindo dos bens dêste mundo além do
necess ário à sua vocação e aplicando-se a realizar, em
tudo, o amor de Deus e o elo próximo.
Ponhamos em p
"
aralelo o poder de D eus e dos pais,
e m ais claramente veremos com o êste é delegação da­
quele.
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64 A B A D E - J E A N V I O L L E 'T
A c1·iação da humaJüdade foi ato esJJOntâneo da
vontade clh·ina. E' por de.sejo e livre escolha dos pais
<JUe os filhos nascem. Todo-poderoso, Deus pode con­
ceder tudo ou recusar tudo. O poder dos pais p ermite·
lhes distribuir ao fj]ho alegrias e ]Jenas, conforme bem
lhes qua dre. Só a vontade divina limHa-lbes a auto­
ridade.
Conservando, embora, a liberdade da consciência
lmmana, a Providência traz a cada um o .socorro de que
precisa para viver :bem. O mesmo farão os pais auxi·
liando os filhos a bem servirem-se dos dons de Deus
e facilitando-lhes, pela autoridade, o caminho da per­
feição moral.
Das qualidades do educador.
Quais são as qualidades do educador para que pos­
sa levar a bom termo a bela missão que Deus lhe con­
fiou? E'-lhe forçoso conhecer bem o ideal a atingir, e
ter por êsse ideal um grande amor. Como burilar um
homem perfeito, um verdadeiro cristão, se nào prefi­
gm·armos em nossa mente o respectivo retrato e ima­
gem ?
Não pode a educação ficar entregue às circunstân­
cias. Terá de apoiar-se em princípios rígidos que orien­
tem os esforços do educador Jlelo meandro d a diversi­
dade de cal'acteres e temperamentos. O educador im­
previdente que se satisfaz com as exigências do mo­
mento não saberia distinguir entre as paixões reprimi­
veis e as que hão-de, ao contrário, ser encorajadas e
desenvolvidas. O educador deve ter � domínio de si mes­
mo e de suas impressões. Chamado a comandar, não
poderá dar mostras de fraqueza nem se deixar avassa-
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M O R A L F A M I L I A R 65
lar pela propria sensibilidade. Jamais terá sôbre a
criança o necessário l>re.stígio se lhe não soube inspirar
temor e respeito.
Não bastam, porém, o temor c o respei to. E' preciso
f«zer que ·brote na alma do menino o amor (JUe traz
a confiança e impede a dissimulação.
O verdadeiro problema consiste, pois, em possuir o
maior número possível de qualidades morais e em
fundí-las na vontade e consciência do filho. Tanto me­
lhor será a educação quanto mais o educador amar as
virtudes que quer fazer amadas. Quem não tem fôr­
ça de vontade não saberia inspirá-la ; quem, não esti­
m a a franqueza, não poderia formar consciências re­
tas. A inteligência e a vontade do filho acomodam-se,
naturalmente, ao meio. O primeiro empenho do educa­
dm· se1·á, destarte, o de constituir, a principio, um am­
biente em que us impressões recebidas se ajustem ao
ideal moral; depois, o de levar, progressivamente o fi­
lho ao julgamento de si mesmo afim de estremar o bem
e o mal que nêle existam. Não é cômodo o encargo de
esclai'ecer' uma consciência infantil, J>Orque a criança se
inclina, mui natmalmente, a justificar os átos que lhe
convén1 e a repelir, como improprios, os que lhe repu­
gnam ao feitio.
O papel do educador consiste em quebrar, de al­
gum modo, o pendôr que tem , natura]men te, a criança,
d(; confundir o l>em com o seu prazet· c o nwl com a
sua aflição. Trata-se de levá-lo ao dominio do prazer e
da dô:r até não mais os encantr como tais e, sim, do
ponto de ,·]sta do bem ou do m al <[Ue dêles possam
resultar.
Fazer amar o hem mais do que si mesmo, tal é o
escopo sup1·emo do educador. Eis porque a autoridade
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66 A B A D E - J E A N V l O L L E T
do homem perfeilo se exerce , de algum m odo, p or si
mesma, sem <JUe lhe se,ja necess.ário intervir, frequen­
temente, })ara punir e recompen sar. Fala, aconselha e
age. O filho é, naturalmente, levado a imitá-lo.
Graças a esta influên cia moral que se infiltra nos
pormen ores da vida, a consciênd a se ol'ienta, sem es­
fôrço, para a perfeição, e o filho chega, insensh:elnien­
te, a de tes tar o que os pais detestam, a amar o que êles
amam. Amparado pelas observações e conselhos de seus
e ducadores, surpreende, em si , a.s ten dências contrárias
ao ideal professa do por seus guias c .s e esforça por
corrigir-se. Odiando a alm a para salvá-la, colabora no
trabalho de espurgo de seus defeitos e lutas pela ob­
tenção das qualidades que lhe faltam . Vendo o quanto
seu egoísmo é infenso à bondade dos que o rodeiam ;
o quanto suas co]eras colidem com a brandura dêles, e
suas dissimulações e mentiras com a franqueza, acabm·á
por detestar êsses defeitos e curvar-se-há às exigências
dos que deliberaram corrigi-lo.
Muito às avessas se dará se ·O meio incorrer nos de­
feitos mesmos que se exprobam ao filho. C«nno com­
preender alguém que a men tira é um mal se é testemu­
nha das mentiras dos pais? Con;
·
o resistirmos aos im­
J>Ulsos quando somos as vítimas dos impulsos dos nos­
.s os ? Como amar a brandura tendo sob os olhos a
violência ?
Há natural correspondencia entre os átos exteriores
e as disposições íntimas da alma. A vida exterior é,
como que, . o símbolo da vida in terior. A criança imita
os atos CJUC presencia; sua alma também.
A e ducação implicando o apeHeiço amento do edu­
cador, será forçoso concluir que só os perfeitos de,·am
intervir na educação ? Praticamente, seria isto interdi tar
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M O R A L F A M I L I A R 67
ü .quase totalidade dos hoUicns o direito de educar os
filhos. Com efeito, os educadores imperfeitos hão-d.e su­
prir as imperfeições práticas por um esforçar- se cons­
tante pela perfeição. Testemunha dêstc esfôrço, o fi­
lho compreenderá que, se a pcd'eição não é dêste
mundo, devem todos se esforçar por consegui-la. E',
pois, inutil e perigoso mesmo, iludir o filho fazendo-lhe
c1·êr que nunca há em nós o que devamos reprovar.
Forçoso é reconhecermos nossas propri as fraquezas,
mostrando, ao mesmo tempo, ao filho que as detesta­
mos e que pelejamos por corrigi-las. Desta sorte o es­
fôrço aparece como lei universal que atinge grandes e
pequenos e à qual todos se hão-de submeter.
Não se esquecerá o educador que o entendimento
do menino é cada vez m ais penetrante e que dia virá
em que há- de atinar com os defeitos dos grandes. Des­
prevenido para essa perigosa descoberta, sua alma se
escandalizará, abalando-lhe, talvez, profunda c defin i­
tivamente, a fé c a confi ança.
A infânâa.
A educação deve ·começar com a infància. Bem sei
que a sensibilidade sup orta de má sombra os gritos c
as zangas do bebê e provoca a tentação grav e de con­
solar ou ceder quando fora mistér resistir.
Acautelem-se os pais e aprendam a dominar suas
i mpressões se quise rem ptk a salvo sua autoridade
futura e impor ao filho um rcgimen que o arrancará
ao caUveiro do capricho. Quanto mais concessões se
fiz�r a o fHho, tan to. mais e:-; igente se fará êle. E' pre­
llarar-se não J>oucas difi culdad es e abdicações o não
tel' a coragem de im}>Or desde o prin cipjo, os regula-
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68 ABAD E - J E A N V I O L L E T
menlos que tornam maleavel o corp o, ajeitando-o aos
hábitos n ecessádos.
Esta primeira educaçã o é da m ah alta importân­
cia. E' cdvel que muitos jo,·ens reshtissem, com. mais
coragem, aos engodos sensoriais se tivessem a dq uirido,
d esde tenra idade, o J1ábito de ven cer as exigênci as de
u ma carne que, por ser jovem, não está menos sujeita
us loucuras do gôso.
Habituar a criança ao sacrificio, obrigá-la a supor­
tar dores, aí estão os elementos essenciais da educação.
Em verdade, qual a causa de nossas fraquezas de adul­
to, gula, preguiça, impureza, senão as exigências egoís­
tas de criança ? Não se trata de subtrair os prazeres fí­
sicos a um pequenü10 ser que só vive para êsses pra­
zeres, e, sim, de zelar por que êles estejam sempre re­
laciona dos ao bem e jamais hajam de robustece:c. um
capricho ou um egoísmo incipiente.
No mais das vezes não é a orientação que falta aos
pais ; é a coragem. Não sabem dominar a propria sen­
sibilidade e receiam enfrentar os instintos perversos do
filho. Preferem recorrer a eyasivas que são puras ab­
dieações e covardias perigosas. Embora crianças, os
filhos trazem consigo, em miniatura, o mundo das pai­
xões : amor, egoísmo, ciumes, violência, orgulho. O edu­
cador que não o compreendeu, ou não soube vê-lo, es­
taria inapto a empregar os bons métodos de encoraja­
mento ou âe reforma. Para criar um filho é preciso
Yê-lo viver para descobrir os verdadeiros motivos de
suas ações.
Afinal é para permitir aos edttca dores o conheci­
mento pleno do coração das crianças, que Deus quis
que ela.s. agissem com inteira espontaneidade, sem nada
ocul tar de sens senti me11tos e disposições íntimas. Riem
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M O R A L F A M I L I A R 69
quando têm vontade de rir, mostram-se aborrecidas
sem atenção às conveniências, esfuriam-se diante de
quem quer que seja, fazem praça de seus fatos novos
e desprezam os demais. Tudo isto its cscâncaras, de
sorte que só não o vê a cegueira do amor-proprio pater­
no ou a abstração do devaneio. E' preparar uma cons­
ciência falsa o deixar sem reprcnsão uma tenden­
cia má e sem aplausos uma propensão boa. Enquanto o
menino é incapaz de compreensão, o trabalho se fará
por meios de alegrias c sofrimentos físicos. O medo de
sofrer Tetém a criança prestes a se deixar levar por incli­
nação má ; � esperança de uma satisfação robustece
nela o desejo do bem. Assim, cumpre ao educador fazer
com que castigos e distrações correspondam sempre e
exatamente ao mal e ao bem manifestados pela criança.
A idade difícil.
A gama das sanções deve ser infinita, segundo os
temperamentos e as disposições. A princípio meramen­
te físico§, devem os corretivos ir, pouco a J>Ouco, ce­
dendo o pôsto ao.s. morais. Para a aplicação dos casti­
gos não há regra absoluta. Bo a ·será a sanção que dá
certo, isto é, que emenda ou encoraja. Pode ser, alter­
nativamente, carinho ou severidade, beijo ou chicote,
conforme as ocasiões, as circunstâncias ou o carácter
de cada qual.
-
A punição não há-de enfraquecer a criança J>Or ex­
cessivamente branda, nem incitá-la à revolta ou à dis­
simulação, por demasiadam ente rigorosa. Se a autori­
dade se faz sentir pesada de mais, por pouco que o seja,
a criança retrai-se, in<{Uieta-se, em risco de tornar-se
uma fingida ou uma pusilânime; se abdica, a pretexto
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70 A B A D E - J E A N V J O L L E T
de apelar ]Jara o sentimento ou para a razão, a criança
se .deixa derivar por suas fantasias, não podendo, a
sós, nortear-se pela pro1>ria vontade, ainda em forma­
ção. AHás, temor e confhnça não sào contraditórios. O
menino mais bem educado será aquele em quem o te­
mor insinuará o respeHo, -e a confiança, a união íntima
dos corações.
Educação que abolisse o afeto mirraria o coração
e a vontade. Não imprimida à criança o entusiasmo
necessál'io aos esforços exigidos, jungindo-a a desígnios
inferiores. O amor é o fito supremo para o qual todos
os outros hão-de convergir. Não deve a criança recear
a confissão de seus esforços e desânimos. Ao contn'lrio,
há-de aceitar, antecipadamente, as sanções necessárias
indo, mesmo, a ponto de as reclamar, por ;si mesma, de
seu educador. Dia virá em que lute por satisfazer aos
pais e, por fim, a Deus. Nesse momento a educação
estará completa. Cumpre obter da criança uma gran­
de generosidade. Evitai que ela discuta consigo mesma
ou convosco. Que vossa ordem seja incisiva e não dê
aso a subterfugios ou a discussões dilatarias.
'
A obediência que se arrasta deixa a alma fatigada,
o que diminue a generosidade natural da vontade. A
pronta obediência traz à criança o hábito de não tergi­
versar com o dever, o que a torna forte e impávida con­
tra si mesma. Sej am -exátas as recompensas ou as pu­
nições se quiserdes que as crianças, mais tarde, sej am
capazes de praticar o bem sem f'raquezas ou hesitações.
A autoridade não discute. O que não quer dizer
que ela não se explique. Não se tr(lta de impôr o bem
à criança. O essencial é que ela o ame. Sua consciência
pessoal só se aclara quando a convencemos de que deve
agir .de um Ifwdo e não de outro. As luzes do coração
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M O R A L F A M I L I A R 7 1
e da inteligência hão-de aumentar dia a dia, o que só
conseguimos com as razões dos nossos atos. O mais co­
mum é não o conseguirdes no momento em que dais
uma ordem, porque aí as paixões .se agitam, tolhendo
à inteligência e ao coração bôa parte de sua capacidade
receptiva. Convém fazê-lo o mais cêdo possível, mas
sómente quando a criança, tornada à calma, for ca­
paz de ouvir e entender vossas explicações. A tarefa só
se ultima quando a criança vos tiver dado razão e con­
sentir em colaborar convosco aceitando, previamente,
os átos Jnomanados de vossa autoridade.
Graças a êsse método, recompensas e punições irão
diminuindo e bastará lembrar à criança o JH'Ometido
para ob ter dela a submissão ou o.s esfôrços necessários.
Se, J>Ois, a autoridade se há-de pôr ao serviço da crian­
ça, não é para prestar-lhe obediência mas para auxi­
liá-la a obedecer ao ideal moral. E' uma fôrça desti­
nada, sómente, a conduzir e encorajar. Em suma, a
obter o progresso .daquele em cujo benefício foi insti­
tuída.
O jovem.
E' a obediência a principal virtude dos meninos.
Não há-de durar indefinidamente. Dia virá em que o
menino tornado m oço, se con,• ence de sua vida moral
e age de a côr.do com suas escolhas e convicções pes­
soais. Grave é o momento. Dêle im pende todo o seu
futuro m oral. Se a educação o ensinou a amar o bem
mais que a si me smo ; se êle não descobre qualquer
contradição entre a
·
moral qu e lhe impuseram e a que
praticam seus prede
'
cessores; se à afeição que estes lhe
inspiram se segue forte adminção pm· suas virtudes ;
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72 A B A D E - J E A ::-.J' V I O 1 . L E T
se se habi tu ou a viver em presença de Deus c para o
seu amôr, escolherá, mui natural mente, a trilha da per­
feição. Todo o seu entusiasmo j m· enD o impelirá à imi­
tação dos belos exemplos que tem sob os olhos e os
que aprendeu u admirar. Se , por desgraça , seus capri­
chos foram sempre satisfeitos, s e surpreende em seus
educadores graves. lacunas morais, se o não retém o
aféto e o sen timento religioso, escolherá quas e infali­
velm ente o caminho que lhe permi ta satisfazer seu
egoismo e paixões.
Logo que a J)Crsonalidade começa a definir-se, o
orgulho de moço começa a tentar. Seus j ulgamentos
são absolutos, tem sempre razão e a menor reprimen­
da p arece-lhe um a tentado à sua dignidade de homem.
Para reagir contra esse espirito por de-mais p es­
soal, deve o educ ador multiplicar as responsabilidades,
mostrar-se confi ante nos esforços do j ovem, fazendo­
lhe, ao mesmo tempo yer, por que os conselhos e as
orientações lhe são, ainda, necessários. Êle supm·tará
u au tori dade se esta j á não fôr mais feita sómente de
ordens, mas se se transforma numa autoridade moral
desej osa, unkamente, de o .secund�r no cumprimento de
tarefas cada vez m ais difíceis e pessoais. O papel da
autoridade nesta i dade pode resumir-se assim : auxiliar
os jovens a toma rem consciência da vida e das respon­
sabilidades que a acomp anham, espicaçar-lhes o senti­
m ento do dever p ara com os mais j ovens e os que, ne­
cessariamente, lhes sofrerão a influência.
A vida religiosa.
A ed ucação só se ultima no dia em que o adoles­
cente é capa{: de faz er o bem por puro amor de D eus.
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M O R A L F A M I L I A R 73
E', assim, necessano que êle saiba, desde a mais ten­
t·a idade, que Deus esta presente em todos os seus atos
e que o vê mesmo quando ninguém o vigia. Cumpre­
lhe temer os castigos divh1os mais que os humanos e
saber que um êrro será punido à hora estabelecida por
Deus ainda que o educador não tenha tido ciência dêle.
Deus é o juiz supremo e absoluto (JUe penetra até os
mais secretos pensamentos.
Se o amor do fÜho aos pais é poderoso motivo de
boa vontade, queda, tod a via, muito abaixo do amor que
lhe h á-de inspirar Deus. E', antes, a Deus que cumpre
agradar; por amor de Deus que cumpre trabalhar a
propria perfeição.
A educação, em verdade, só se ultima quando Deus
se assenhoreou da consciênci a, e o menino, crescido,
só receia os castigo.s de além-túmulo c ama o bem pelo
bem, isto é, pelo amor de Deus.
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VI
A VOCAÇÃO DOS FILHOS (/)
A vocação se compõe de atrativos e de escolhas pes­
soais em que desempenha importante papel a influência
do meio. NaJural é, pois, que procuremo.s delimitar a
responsabilidade mutua dos vais e dos filhos na idade
em que aparecem 'os })l'imeiros sintomas da vocação
c atrativos que vão determinar-lhes a escolha. Quantos
conflítos se evitariam se pais e filhos encarassem deli­
beradamente os seus mutuo.s deveres!
Papel dÕs pais na e.scolha da.s vocações.
Seria desentender o desenvolvimento normal do
filho o ver em sua vocação uma energia espontânea que
se desenvolve à revelia dos pais. Salvo exceção, os filhos
S(, nutrem dos pensamentos dos que os cercam e seu
( 1) Lembramos aos lei.to res qae aqui empregamos o termo
"ocação em seu sentido mais la to, f.azendo qu& o vocábulo encerre
as profissões como, também, o casamento , o celib at{) 011 o estado
ecl�sjástico. Se bem seta termo T-e servado, por yez;es, para signi­
ficai' o pendor religiosa, julgamos de bo m avjso n ão o restringir
assjm n um trabalho que deve apreciar as m1t! Uplas variantes das
oTjen ta.ções �ossiveis da existência .
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76 A B A D E - J E A N V I O L L E T
i d eal d e vi d a ao do meio em que crescem, o que p ar;
ticulariza os deveres dos p ais.
O primeiro deles é mos trar ao filho que a vida é
um potenci al divino que cumpre emJ>regar unicamen­
te em favor do bem. Para que o filho possa, um dia,
praticar uma ljyre escolha, convém não lhe falsear o
j ulgamento com apreciações tell!porãs e perigosas. Pode
um cristão cumprir seu destino por diferen tes cami­
nhos, e é conveniente fJUe a criança n ão alimente, a este
respeito qualqu er especi e de preconceHo. A vocação
mesma dos pais, seus temperamentos, desejos e ambi­
ções, seus fracassos e tris tezas podem, insensivelmen te
orientar-lhes as predileções levan do- os a querer dirigir
o filho para esta ou aquela vocação. Se não se acautela­
rem, influenciarão, sem querer, a inteligência do filho
norteando-o a uma vocação que não é a que Deus lhe
des tinou. Sua vida toda estará em fal.so e a p az nunca
lhe será conhecida.
Não se diga que os pais devem permanecer impas­
síveis e in ativos em face dos desej os e aspirações do
filho. O coração da criança está cheio de paixões de
dlferente valor moral. Orgulho, preguiça, imaginação
podem falsear o desenvolvimento das facul dades e a
escolha da vocação. Aos p ais cabe o auxiliar o filho a
discernir os motivos de suas aspirações afim de que
só permaneçam as que inspirou Deus e o desej o do bem.
em filho só conhece a sua verdadeira vocação se
lhe derem o hábito de considerar a vida como fôrc a do
devotfmento, sendo, ainda, necessário que êste se
.
con­
forme às ap tidões e· disposições de cada um. O traba­
lhador manual, o médico, o engen�1eiro ou o sac.erdote
trabalham, em diferentes sectore.S, pelo bem comum.
E' dever dos p�is discernir as aptidões afim de instigar
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M O R A L F A M I L I A R 17
.o filho na direção conveniente a suas faculdades natu­
rais, pois no pensamento de Deus, as aptidões prepa­
ram e anunciam a vocação.
Para não contorcer o espíri to do filho, convém evi­
tar a crítica e o vexame. Qualquer vocação é nobre desde
que se apeesentu ao filho como expressão da von tade
divina. Mostrar a lJeleza das diferentes vocações huma­
nas : trabalho manual, tão 'bem como intelectual, pro­
pensão ao casamento, tão bem como à vida religiosa,
eis o dever evidente dos educadores.
Com efeilo, a influência dos pais deve culminar na
formação de uma responsabilid ade livre e uma cons­
ciência esclarecida. Não se trata de obter que o filho
realize os desejos particulare.s dos }Jais, e, sim, que seja
., capaz de discernir o encargo pessoal que lhe foi come­
tido pela vontade suprema de Deus.
Auxiliar a escolha, e não a impôr, tal é, em suma,
o dever dos pais em matéria de vocação.
Papel dq,s fillws na esl·olha da zwcação.
Para que o filho descubra sua verdadeira vocação
e a estreme dos desejos e impressões transitorias, cum­
pre que sua alma se disponha a submeter-se a Deus e
ao desinteresse pessoal.
Que a ação dos pais deva ser suficientemente po­
derosa p ara desenvolver essas predisposições, é mais
que evidente. O filho que, ele todo, confia nos pais c
a êles se submete, está, é claro, mais bem J>reparado a
obedecer às ordens Je Deus manifestadas pelos recla-"'
mos da consciência . moral e pelo encadeamento dos
sncessos. Quem se afez, desde cedo, a sacrificar-se ao
ideal moral se encontra, quando adulto, m ui natueal-
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A B A D E - J E A N V [ O L L E T
mn le, propenso ao desinte1·esse. Aceiia, de bom rosto,
os onu.s, quaisquer (fUe sejam, .da 'Ocaçüo a que Deus
o chama.
E', todavia, pendor na tural da j uventude o confun­
dir com a vocação a alegria de viver. Esta propensão,
até certo ponto, corresponde à realidade. Se o pecado e
o mal não existissem, o realizar a vocação tr�ria à al­
ma toda a felicidade terrena de que é susceptível. Aliás,
esta alegria natural subsiste, até ce1·to ponto, }>ara os
que elegeram a trilha que melhor corresponde às suas
aptidões e aos seus reais pendores. Os que, porém, for­
çaram a vocação defrontam-se com dissabores e tris­
tezas que avolumam as que decorrem, naturalmen te,
das fraquezas humanas.
E', pois, natural que os pais preparem o filho para
a sua vocação, fazendo-lhe prelibar as alegrias do de­
ver cumprido e auxiliando-o a joeirar as que fatigam
ou degradam a consciência, e as que lhe trazem novas
luzes e maiores ímpetos. A imaginação j uvenil irrequie­
ta, faz perigar a .vocação. Não será, por ventura, ela ín­
dole natural das crianças, o atirar-se a tudo o. que bri­
lha '? Daí a obrigação a reconduzi-la, a toda hül'a, às
dUl'as obrigações do dever presente mostrar-lhe que sú
a obediência ao devei' atual pode prepará-la, proveitosa­
mente, à realização de grandes coisas futuras. E' insi­
nuar a escolha acertada o não permitir nunca os deva­
neios que distraem a vontade infantil das obrigações
p1·esentes. Dever-se-há concluir que a imagin ação não
haja de repl'esenlar nenhum papel na pesquisa da voca­
ção? O me.smo fôra esquecer que ela se destina a I'om­
per-nos os véus do futuro mostrandt>-nos as diversas pos­
sibilidades de ação que se nos podem apresentar aos es­
fOI'ço.s. Mas pat·a que não se transYie, há-de a imaginação
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M O R A L F A M I L I A R 79
andar sempre de par com o desejo de praticar o bem,
e que as ·diversas vocações p ass i v as lhe sejam exibidas
com os respectivos sacrifícios. . e esforços.
Fazer brotar no espírito da criança, jú o entusias­
mo que arrebata, já o senso crHi co que refreia, tal é
um dos mais delicados e, todavia, um dos deveres es­
sencia i.<> do educador. Só poderá consegui-lo captando a
confiança I�a ·quadra difícil em que a criança mais
particularmente propende à presunção e ao espírito de
independência.
O trabalho de crítica a que os educadores se obri­
gmn assume, por yezes, aos olhos dos j avens, o aspecto
de op osição .sis temát ica, o que não raro as indispõe,
pri ncipalmente se não vêem nos pais o desinteresse que
"
' vence a admiração e o respei to. Mosirar as faces in­
convenientes de uma vocação, pormenorizar as falhas
de quem a deseja, é assumir uma função ingrata mas
necessária. O espírito da j uven tude não está, acaso, su­
jeit o a arroubos e caprichos? Não convirú coagi-los a
refletir e pesar o valor dos proj etos que lhe agitam a
im agina�ã o entusiasta e juvenil?
Quais<fuer, porém, que sej am as dificuldades dessa
harmonização, nunca é impossível numa família cristã.
A boa vontade e o desin t eresse dão por tena com os
p reconceitos e cegueiras do amor-proprio. Deus acaba
por manifestat·, sempre e claramente sua vontade, tra­
zendo a ca da um a fôrça para a submissão. En tre cris­
tãos as oposições e os sofrimentos resulta ntes da diversi­
dade d as vocações, nunca yão ao ponto de separar
corações e vontades.
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80 A B A D E - J L� N V l O L L E T
Das divergéJlcias que, acêrca da pocação , tmácm .mrgir
ent1·e pais e filhos.
Ai, nem sempre assi m se dú, c ns vocações abrem
fretjucntes ensejos a g;·aves e doloros os con flítos. E tan�
to m a i s graves süo qua n t o não se po dem resolver p ela
:m1ori d ade, ,jú <Jue o filho aiingin a idade das decisões
por con ta propria. E', pois, forçoso obter pela perstw­
sii o o que se não pode m a i s cons<·guir pel a autoridade .
O Lom entendimen to só renascerú se quem se engana
fôr assaz humilde p ara r�conhecer, lealmen te, os êrro s.
Desgraçadamen te, o orgulh o, o amor-1)roprio, os pre­
conccHos enraiza dos, não raro se opõem a êste exame
leal e desinteressado lfUe desanuviaria a situação, Jler­
m itindo a c ad a um verificar a pureza d e suas in tenções
e os m otivos de sua preferência.
Para possibilitar cs le exame é preciso que se acei­
tem os conselhos e as l uzes vindos, desinteressadamente,
de terceiros. Ai ! na maiori a dos casos os p ais teimam
nnm autoritarismo eego, e os fil hos, nmna pr·esuuçà o
p erigosa.
Não poucas vezes , entretanto, um dos parti t'tos, nor­
teado ]Jelas lu2es sinceras da sabedori a e da pruden�
cia, · em a convencer-se, intima e profun damen t e, <le
que não pode transigir com o partido con trário s em
incorrer na p echa de p usilanimidade. Neste caso o con­
flito é inevitavel e fmçõso é acei tá-lo com leald ade.
Se os pais se comp ene tram de que o filho cn a, que
jho ·digam francamen te, aceit an do, c.om antecÍJla ção,
os :aborrecimentos e dissi dências que daí poderã o ad­
vir. Não lhe.s corre , acaso, a obri
,
gação de ten t arem,
por t odos os meios ao seu alcancç, fazer luz sôbre o
assunto ? Deverão, todaYia, dis1inguir entre as e_scolha s
qne, se bem lhes pmeçmn i ngratas, não oneram a hou-
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M O R A L F A M I L I A R 8 1
ra da consciência, e as que acarretariam situação imo­
ral e irregular.
Há um sem número de casos em que os pais não
terão outro recurso que o de confiar o filho à proteção
de Deus, oferecendo por êle as consequentcs penas.
O problema oferece aspecto idêntico quando é no udo­
lescente que se encontram o.s sentimentos <Ine autori­
zam a crêr ter sido sua escolha ditada pelo desejo de
cumprir a vontade de Deus. Deverá, pois, m anter seu
designio, ctüdando de atenuar as dores de que é causa
involuntária.
São indisfarçavelmcnte graves as consequências de
tais conflitos e por demais frequentes os êrros da mo­
cidade para não insistirmos, com vigôr, sôbre a ne­
:;:essidade de aconselhar-se, não se ·deixando levar por
sua prOJ>ria decisão. O medo de enganar-se é o prin­
cípio da sabedoria sobretudo no que toca à vocação.
Os conflitos que, então, surgem entre pais e filhos
não hão de .distrair nen]mm dos deveres mutuos de
que trata o ca}>ítulo precedente. A J>rática é, não raro,
penosa. 'l'f má vontade de um dos partidos J>Oderá, até,
empecer a realização; o que não torna menos evidente
a subordinação moral em que pais e filhos se encon­
tram no que respeita aos deveres de afeição e ajuda
mutua imJ>Oslos pela lei natural.
Convém não esquecer que uma vocação só é rea­
lizavel se se verifica a submissão inicial às obrigações
da lei natural. Assim é que um filho não tem o direito
de ingressar num seminário ou de se casar se não cui­
dou de garantir o sustento da velhice paterna; crue tal
outro não poderá r;alizar seus desejos se o tempo
ainda não atenuou os sofrimentos ocasionados por sua
decisão.
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82 A B A D E - J E _� N V 1 O L L E T
Não nos esqueçamos de que as vocações momen­
tancas o u definitivamente sacrmcadas a conta de obe­
diencia a um dever necessário, mais valem aos olhos
de Deus do que as que se realizam sem d ificuldades.
Falso conceito ela vida espiritual é o supor que a vo­
cação religiosa ou sacerdotal tem, sôbre os deveres pri­
morcliais da família, situação privilegi ada. E tão ver­
da de é isto que as mais severas ordens religiosas abrem
suas portas de sai da, quando, im}Jeriosamente, o exi­
gem as necessid ades morais c econômicas dos pais dos
religiosos. Q uando o religioso não pode p1·over pessoal­
mente, às ]lrecisões dos seus, a ordem se põe solidaria
com os deveres de família do seu memb1·o.
Men tir à obra de Deus é o crêr que a s afeições
na tm·ais devam ser rompidas a pretexto de vocacão sa-.
.
cerdotal ou religiosa, corno sucede com alguns cristãos
po uco esclarecidos. Tais afeições se ori gi n am de Deus e
o tom a•· ordens as exalça c depura sem diminujr-Jhes
a i n tensi dade.
H umildade, prece, espírito de sacrifício I>enna ne­
cem como os m elhores auxiliares da consci�'ncia e do
ru mo d as vocações. Aos filhos há-de, igualmente, lem­
brar que a experiência dos pais é elemento eselaTe­
cedor que se não poderá postergar sem risco ou im­
prudência, sobre tudo se aos pais an ima um grande es­
pjri to de desinteresse pessoal.
Quando filhos e pais se prendem ao elo da con­
fiança reciproca, e procuram, sómente, a von t ade de
Deus, suas luzes se fundem num a só e dissipam as obs­
curidades e divergências de opiniões. Desde êsse m o­
mento a vocação se desenvolve nat.uralmente sob o pro­
tetor olhar de Deus.
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VII
A EDUCAÇÃO DO SENTIMENTO E O PREPARO
AO lIATRIMONIO
Ao pensar-se nas hórridas consequências dos êrros
da juventude, ocorre indagar por que é que quantos.
ten]tam a seu cargo a direção dos moços não cerram
fileiras para incutir nessas almas os princípios e as
luzes que os deverão JUeseTvar, com a graça de Deus,
das fraquezas da carne e do coração?
Os pecados da impureza destroem a fé, desfibram
a vontade e aumentam o egoismo. Famílias inteiras
sofrem e choram as cruezas de quem se abandona às
J>aixõcs.. A fé ·se apaga nas almas dos impudicos e o
materiasmo entra a dominar-lhes os corações depois
de se ter apossado da ca1·ne.
Nada, ao con-trário, está mais diante de Deus e
dos homens do que um adolescente pleno de seiva e
de vida, senhor de seus desej os e tentações. Nada eleva
majs os sentimentos do que o desejar ser puro para
ser, por antecipação, fiel àquela que um dia elegrá
pm espôsa. Nada sublinlm melhor a noção das res­
ponsabilidades que o prep arar-se, desde m oço, para
amar cristãmente � dirigir um lar praticando as vir­
tudes que dão vida •e amplitude ao amor cristão. Nada,
prindpalmente, que mais ati·aia, para um jovem, as
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84 A B A D E - J E A N Y l O L L E T
bênçãos de Deus do que a vontade de obedecer à lei
divina obrigando o corpo o iornar-se ]JUmHde escravo
do e.sp:írito e da alma.
As iniciações necessárias.
Não é por si sós e ao acaso que os jovens hão-de
conhecer os seus deveres em maieria de moral sexual
e vida sentimental.
A adolescência é, como que, um segundo nasci­
mento. A vida sensorial e a do coração delineiam-se,
-obscuramente, nas ]>rofundezas do ,s.er. Inquietam o san­
gue e sobem à sensibilidade e à imaginação para as
perturbar. Como poderá a razão, que deve sempre
gtdar e orientar a vida moral, avassalar essas fôrças c
obscuras e :instintivas se ninguém a houver esclarecido,
fazendo-lhe estremar o bem do mal, o puro, .do im­
puro ?.
Os pais é que recebem diretamente de Deus a mis­
são de conduzir os filhos pelas estradas perigosas que
se lhes abrem desde os primordios de sua ju'ventude.
E não há o que espantar se muitos deixaram, delibe­
radanlente, de cumprir seus devere.s nesse terreno es­
pecial. Timidez, falso pudor, mêdo à inaptidão, eis os
honrados sentimentos que, a miude, os detiveram, e
em muitos casos, ]>rovavelmente, a ausência de pureza
pessoal que os inibe de apreciar, em .sua magnitude, a
obra da procriação.
E', porém, fóra de .dúvida que no plano da Provi­
dência, toca, especialmente, aos pais o encargo de le­
varem o filho até à plena pujança' de sua vida moral..
Cabe-lhes, poi.s, o esclarecê-lo e guiá-lo nos albores do
senHmento e ao.s primeiros sintomas da puberdade.
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:M O R, A L F A M I L I A R 85
Como quer que sej a, nunca devem abandonar a cons­
ciência do fHbo aos encontros fortuitos c às iniciações
malsãs. Se receiam desconhecce a terminologia conve­
niente, transfiram o encargo a educadores espertos e
esclarecidos.
Afinal de contas, a vida do coração mu ito se con­
vinha do desenvolvimento moral c religioso dos ado­
lescentes. E', pois, à luz dêsses scntimcntos I[Ue con­
virá iniciá-los nos mistérios do nascimento c do amor,
in iciação tanto mais facil quanto maior fúe a intimi­
dade e a confiança enh·e pais e filhos. Quando êstcs
são ainda muito crianças e ignoram a timidez do }m­
dôr ou do amor-proprio, seus labias inocentes não re­
têem as perguntas 'que lhes ocorrem à mente. A esta
cm·iosidade inicial é preciso atender, sempre com sin-
ceridade afim de que a explicação dada não venha a
ser de.smen tida pelas que será mistér acrescentar mais
h1rde. E', também, grave dano que pode vir a fechar,
para sempre, o coraçã o i n fantil, o responder-lhe com
evasivas uma série de questões. Inferindo que não há
como co.n tar com os pais na obtenção das luzes neces­
sárias, recorrerá aos companheiros que lhe pareçam
mais instruídos. Ei-lo a braços com a terrível desgra­
ça de ser iniciado nos mais augustos mistérios pelo veí­
culo das mais contaminadas bôcas, de sorte que odio­
sas impurezas se mesclam, em seu espírito, desde o
primeii·o momento, aos a tos c{ue lhe deveram surgir
aureolados pela patern idade e vela graça do sacra­
mento.
Para evitar que as impressões depositadas na al­
Iua do filho não se.. transformem em 1entações, jamais
se saberia insistir o•bast antc na face moral e espiritual
da obra da criação. Para que a moralidade de.ssas
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86 A B A D E - J E A N V l O L L E T
questões delicadas a}Jareça em todo. o seu resplendor
não é preciso que as descrições fisiológicas velem e
turvem a beleza dos sentimentos que preshlem à obra
do amor cristão.
Aos mais jovens.
Antes que os sentidos e o coração se tornem para
êle fonte de tentações, numa idade em <Jue guarda toda
a pureza de seus anos primeiros, o fj}ho a si mesmo
interroga sôbre questões relativas ao mistério do nas­
cimento. Isso lhe vem, naturalmente, ao espírito e é
m uito raro que se trate de perversidade precoce ou
curiosidade malsã. São perguntas naturais a que con­
vém sejam dadas respostas naturais.
À criança basta explicar que Deus pôs o bebê nos
braços da mãe. Mas ao menino que começa a descon­
fiar que a realidade é muito mais misteriosa ·do que o
s)m pies depósito de um filho nos braços da mãe, con­
virá dar explicações suplementares que se limitarão,
exclusivamente, ao p ap el reservado à mãe. �le ouvii·á
com infinito reSJ>eito e grande admiração as explica­
ções que lhe façam compreender como Deus escolheu,
predsamente, sua mãe para JlÔ-lo no mundo. "E' gran­
de maravHha, meu filho, se poderá dizer, que a Pro­
vidência não tenha querido que nascesses a não ser
pelo coração e corpo daquela que, na terra, te adora
mais que qualquer outra mulher. Em .seu corpo depo­
sitou Deus o pequenino germen destinado a ser mais
tarde "tu". �sse germen, confiado às entranhas de tua
mãe foi nutrido pelo seu sangue. Nela se formaram,•
pouco o J>ouco, teus membros, teu corpo e tua cabeça.
Quando atingiste. o desenvolvimento completo, deixas-
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M O R A L F A M I L I A R . 87
te o corpo materno rasgando-o e causando-lhe muitos
padecimentos. E' porisso que as mamãs adoecem quan­
do nascem seus bebês, e ficam, varias semanas, de ca-·
ma. Depois Deus quer que a mfíe continue a nutrir seu
filho dando-lhe de seu leite até que êle se fortaleça
bastante e passe a alimentos mais substaneiais. Bem
compreendes, agora, por que é tão profundo o amor
de mãe. Mãe e filho são uma só carne. Assim o quis
Deus para que o amor que os estreita sej a o mais forte
de todos os amores da terra. Maior, só há um : é o que
une Deus à sua criatura".
Explicações como estas não podem perturbar, em
n ada, a imaginação do filho. Ao contrário, como ime­
cliata consequência, fazem nascer nele, pela mãe, um.
o.mor mais vivo e profundo. Esta primeira revelação
pode-se fazer bem cedo, entre os oito e os doze anos,
conforme a precocidade intc1cctual do filho.
Aos jovens adolescentes.
Vem, 'a seguir, o periodo da puberdade. O filho vai
ver, em seu proprio corpo, transfonnaçõe.s que o po­
dem J>erturbar e tent ar, o que abre ensejo ao prosse­
guimento das revelações necessárias. Convém fazê-las
a nles ({UC o filho se bandeie a com1>anheiros cujas dis­
posições morais estão Mra de nossa fiscalização. Mais
,·ale evitar as <JUedas do moço que lei' de [l.S rep arar.
Revelação feita um ano mais cêdo é menos prej udicial
que explicação dada uma h ora mais tarde, porisso que
um pecado contra a pureza, cometido por imprudên­
d a ou ignorâncill p<Yde trazer as mais funestas conse­
quências à vida intéira e J>rovoear perversões defini­
tiYas. Afin al, quando se trata de pecado tão subtil co-
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88 A B A D E - J E A N V I O L L E T
�
mo o dos sentidos, quando se sabe como a impureza
se insinua nas almas por meio de d esejos obscuros e
insHntivos, é sempre bom insis tir na necessidade de
esclarecer a consdênci a, obrigando o moço a se exi­
mir de tudo o que lhe possa prej udicar o ideal de vida
confia do à guarda de seu coração.
De mais a mais, não é ·raro que a consciência dos
adolescentes, ign01·ando os fenômenos da puberdade
na ocasião em que .se formam, sofra abalos tais que
provoquem desequilíbrio psíquico de cónseqnências
cuj a duração pode vrolongar-se durante anos a fio.
�uma idade em que o indivíduo precisa concentrar
fôrças e vontades para domi nar os dislurbios da ima­
gi nação e da sensibilidade, é mister evi tar tudo o que
possa trazer a consciência em inquietação e desordem.,
Assim, ]Jois, antes mesmo que se produzam os fenô­
m enos da puberdade, os adolescentes hão-de receber os
ensinamentos adequados.
Poderá o pai dá-los aos filhos pelo modo seguinte :
"Heus, meu .bem, nos quis associar à grande obra
de seu zelo criador. Em sua bondade e sabedoria deci­
diu que nenhuma c1·iança venha ao mundo sem o con­
curso do homem e da mulher. Ora, como tu estás na
idade ·em que se deixa de ser m enino p ara tornar-se
homem, é J>reciso que conh eças os meios de que D eus
lançou m ão para realizar esta obra ".
"Não quis :tle que os filhos haj am d e nascer sem
a participação efetiva de duas vontades humanas uni­
das e associadas à grande o•bra da procriação : a von­
ta de d o ]>aj e a da mãe. E•, em verdade, por livre es­
colha que o homem e a mulher s.e dão p or mari do e
espôsa. Assim fazendo, um ao ou&·o juram total amor
e fidelidade definitiYa sem pretender gosar, egoística-
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M O R A L F A M I L I A R 89
mente, o prazer que acompanha o amor. Ao contário,
re&olvem, antecipadamente, aceitar os filhos que Deus
lhes dará, dividindo com êles o amor que se rnutuam".
Êsses exordios visam a depor no comção ·do filho
sentimentos de admiração c respei to (jliC irão abrir
caminh� às subse<juentes revelações de ordem fisio­
lógica.
Prosseguindo nos esclarecimentos neccssarws, con­
,·jrá chamar à colação as novas responsabilidades do
filho torn ado J>Úbere. .
" Se Deus quis que o amor que um ao outro i ns­
piram pai e mãe .seja a condição primordial dü nasci­
mento dos filhos, decidiu, igualmente, servir-se dos cor­
pos daqueles para formar os corpos dêstes. Assim pai
c mãe cedem a Deus corpos e corações para que se
opere o nascimento dos filhos que Êle deliberou criar.
Eis porque o pai traz consigo um germcn vital, um lí­
quido destinado a fecundar o corpo da mãe, do mesmo
modo como o polen fecunda os óvulos da flor. A mãe
traz em si os ovari os que .só podem servir ao nasci­
mento .Jo filho se o homem deposita ali um pouco
dêsse lí-quido, chamado semen ou esperma. E' bom
que saibas que trazes, também, em tua carne, êsse pre­
cioso li<juido. Está encerrado na parte do corpo que
se chama sexo, a qual, porisso mesmo, deves, particu­
larmente 1·espeitar e preservar de olhares c toques
impuros. Quando teu corpo (jUC é, ainda, um corpo de
menino, se transformar nnm corpo de adulto, bem de­
preMa o perceberás .
••Procurando sair, o semen pro,·ocará em teu sexo
Ulll movimento especial destinado a facilitar-lhe a eju­
culação. Fica. pois: sabendo que, se um dia surpreen­
deres em teu corpo algum movi·mento dêsse gênero,
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90 A B A D E - J E .1'.N V J O L L E T
não te cause ü;so, nem e5]Janto nem temor. Será, sim­
plesmente, a prova de que deixaste de ser criança para
passares a bOiuem.
•• Que novas obrigações, desde então, assumes? Jo­
vem de mais para teres filhos e criá-los conveniente­
mente, é preciso <1ue procures, sempre, evitar 'tudo o
que te poderia causar exci tações e disturbios. Se tive­
res a coragem de permanecer intacto até o dia de teu
casamen to, Deus abençoará o teu futm·o lar e te darú
filhos tanto mais belos e inclinados ao bem quanto
mai.$ a ten-tamente houveres sabido eviiar atos e pensa­
men-tos impuros. Os impulsos sexuais devem ser, com
efeito, dominados até o dia em que se fôr capaz de
compor um lar, escolhendo uma moça que se amará
total e ·defi nitivamente. Fóra do casamento os atos se­
xnai.<> voluntários são abominavel ' desobediência à lei
de Deus e aviltam os que os JH'alicam. Deslroem o amor
que Deus imaginou c arruinam a vida familiar".
"Ora conheces as razões do amor que a mim e a
tua mã e inspiras. És, a bem dizer, o fruto de nossa
união. Det]s quer que, todos os dias, possamos âlegraJ·­
nos de te haver pôsto no mundo."
A mãe falarú às :filhas de maneira um pouco di­
''ersa. DeJ)OÍs de lhes haver subministrado, com o o p ai
aos filhos, algun.s esclarecimentos gerais desli nados a
mostrar como <Juis Deus que os filhos nascessem do
. . .. -
amor que um ao outro Inspiram p�1 e mae, acrescen-
tará :
"E' posshel, .minha filha, que haj as sentid6, às
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M O R A L F A M I L I A R 9 1
vezes, uma melancolia inexplieuvel o u uma exhube­
rânda que dificHmen.te podes reprimir. Talves tenhas,
dai, concluído que eras de um fei tio excepcional ou
pensado que ninguém era capaz de compt·eender-te.
Foste presa de pensamentos vagos nos <JUai.s, se te de-. .
moraste na análise de teus scn limenlos; descobriste
uma vaga precisão de amar c ser amada. Fica saben­
do que êstes são os indícios certos de que vais deixar
de ser menina para t� fazeres mulher. Não é só por
ê.sses movimentos desordenados da imaginação que po­
des reconhecer as mudanças operadas em ti mas por
indícios em ieu organismo. Assim é que perderás, men­
salmente, um pouco de sangue. Não })recisas ficar in­
quieta ou perturbada. Este sangue quer dizer que teu
(torpo é, já, o de uma mulher.
"A mulher traz, com efeito, em si, ovarios produ­
tores de óvulos que, }}ericdicamente, se desprendem e
se destinam a gerar, um dia, os filhos. Esta atividade
orgânica torna, quasi sempre, a mulher fatigada, ner­
vosa e impressionavel. E' preciso, assim, que ela apren­
da a dominar-se. E', com efeito, o melhor meio de pre­
parar-se para ser sempre calma e senhora de si, como
o há-de ser a mulher que deseja levar ao seu lar as
fontes da paz e da alegria."
"E' preciso, outrossim, te acauteles contra os pe­
rigos que, ora, tens de combater. Uma moça é, natu­
I'almente, vaidosa c gosta de agradar. Se não estiveres
de sobre-aviso, irás ser, mais ou menos, perturbada
pelos rapazes e homens, e pm· pouco que um deles,
menos honesto que os outros, dê tento djsso, procura­
rá, a custa de peque}los manejos, exercer sôbre ti sua
influência. Se, por infelicidade, te deixasses levar por
amor-proprio ou fraqueza de coração, cor!'erias o ris-
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92 A B A D E - J E A N V I O L L E T
co de não po der sair dessa aventura sem grandes sofri­
mentos ou pecados graves!'
"'Bom é que saibas que a beleza tem sido, para
muitas moças, causa de êrros sentimen tais. Se queres
ser honesta e, um dia, eleita por homem capaz de te
oferecer um amor fiel, trata de l>reservar, carinhosa­
mente, o recato e a moàestia, virtudes primordiais de
uma moça."
Essas explicações devem ser o bastante enquanto
a moça vive no seio da família e não está suj eita a
outras tentações que não sej am as ·da propria imagi­
nação e sensibilidade. Por pouco, entretanto, que ela
seja obrigada a um viver independente, no meio de
homens inexcrupulosos -e raparigas perversas, bom se­
rá explicar-lhe, mais claramente, como as menores
familiaridades provocam no homem excitações que a
podem, pessoalmente, levar a grandes riscos.
Àquelas que estão em vias de casar-se não se re­
ceará precisar os direitos e deve·res no que toca à vida
sexual e conjugal, de sorte que o pudor não se choque
desde os primeiros dias de união e sejam caQazes de
controlar os maridos em tudo o que respeita à moral.
A consciência da mulher equivale à do homem e fôra
inadmis.sivel se desse uma moça ' a um marido sem
coisa alguma conhecer dos deveres precisos que aos
, esposos incumbem.
Em suma, as confidências são de duas espec1es
nitidamente distintas. Unias interessam ao filho ainda
jovem e têm por fim espertar-lhe a alma numa idade
em que ela é, facilmente, tentada a insurgir-se contra
o jugo familiar. Devem incutir-IV-e o maior respeito
e amor aos que se amaram para' que êle nascesse, e
por êle sofreram. E', justo, na idade em que acordam
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M O R A L F A M I L I A R 93
os desejos e as paixões pessoais que se devem comple­
tar as primeiras revelações. Terãn por fim dar à alma
uma orientação moral fazendo-lhe conhecer a lei de
Deus e norteando as
'
aspirações ·do coração a um ideal
cristão, prq>arado � robusteci do pela p1·ú t ica da casti­
dade do
'
coração e dos sentidos.
Antes do casamento.
Para que, no adolescente, ,se ultime a educação
dos sentimentos é mister, de um lado, fazer-lhe com­
preender a grandeza do celibato religioso, e, de outro,
a :beleza do casamento cristão, de sorte que êle, com
liberdade e pleno conhecimento de causa, escolha o
1 'seu caminho.
A castidade religiosa deve aparecer como um sa­
crificio destinado a libertar a alma e permitir-lhe o
consagrar- se a Deus e ao próximo fora das preocupa­
ções sentimentais e materiais que acompanham sem­
pre a vida familiar.
O cásamento deve ser aos ·que a êle se inclinam,
como um i deal destinado a canalisar os ·de.sej os da
carne dentro das normas de um amor cristão. Será,
pois, necessário completar-lhes a educação sentimen­
tal au
"
xiliando-os na prática das virtudes que preparam
e fortalecem o amor.
Para os jovens : o domínio dos sentidos sem o qual
nunca saberia um homem ser um chefe capaz de diri­
gir a vida conjugal e material. O aJ>rendizado da auto­
ridade, com tudo o que comporta ·de desinterêsse pes­
soal, de respeito ao próximo, de domínio sôbre si mes-•
mo, de fôrça genero.sa deve ser, igualmente, feito du-
rante os anos da mocidade. E' mister que os moços sai-
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94 A B A D E - J E A N V [ O L L E T
bam que cansam as energias morais da alma se s e en­
tregam aos prazeres sensoriais e às distrações egoístas.
E', emfim, necessário que tenham pela mulher, por
todas as mulheres, um respeito :infinito. E' o mico
meio de evitar as tentações vulgares que se podem
gerar dos contactos com a v:ida quotidiana. •
O homem voluntariamente casto saberá distinguir
numa mulher as qualidades morais e profundas, ao
passo que o que se entregou aos prazeres da carne, se
deixará levar por qualidades fískas superficiais. Por
ocasião do casamento a escolha sofre sempre a in­
fluência ·da vida anterior.
A moça cairá, facilmente, nas tentações do cora­
ção e dos sentidos se se deixa levar por familiaridades
de mau quilate. Para preparar-se à obra de Deus não
há-de provocar o olhar dos homens quer pelos vestidos,•
quer pelos decotes. Empenhar-se há em escorraçar
corajosamente as impres.sões perturbadoras que nela,
a con tra-gàsto, podem nascer em presença de certafi
pessoas.
Obi·igm·á todos os homens, sem cxceçã0, sejam,
mesmo, pm·enies, a Tespeitá-la por palavras c atitudes.
::-.'"ão consen tirá que a imaginação se nuh·a de sen­
timen tos irrealizáveis e terá por pecado o pretender
usufruir, no fundo de si mesma, um sentimento que
lhe se1·ia defeso se chegasse a exteriorizar-se, torn an­
do-se conhecido. Que ela não pense que dedicação e
amor são sempre sinônimos. A dedicação é virtude
necessana ao amol'. Só a praticam, porém, quando
casadas, aquelas que, desde moças, se inicial'am nessa
prática. �
'
Rapazes e moças deverão evitar a ociosidade, co­
mo a mais perigosa das conselheiras em matéria de
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M O R A L F A M I L I A R 9 5
impureza. E', o mais das vezes, o enfado e a indisci­
plina que geram os hábitos viciosos, os falsos sentimen­
talismos, os devaneios e as lei l u ras perigosas.
To dos êsses conselhos seriam i nute is se a vida re­
ligiosa de uns e outros viesse a mi nguar ou desapa­
recer. P:1ra que a castidade surj a em toda a sua beleza
e não se transforme em tirania in toleravel, é preciso
que a alma se nutra do pensamento de Deus e descu­
bra, por si mesma, que o amür humano sendo, apenas,
um reflexo do a mor divino, sc'J pode n ascer c se desen­
volver se o acomp anham as virtudes que nos tornam
semelhantes a D eus.
Para bem manter-se o coração e os sentidos, é for­
çoso que a alma não re tenha, sem pedir imediata ab­
solvição, o pecado da impureza a que se deixou levar
em hora de pusilanimida de. Envenena o sangue do co­
ração o guardar consigo um pecado sem o confessar
por falsa vergonha ou p ela rccondita vontade de tor­
nar ao êrro.
A confissilo, p orém, não basta para fortificar a al­
ma cortra a.s tentações. Para viver da pureza, para
fundar uma familia cristã c se santificar santificando
os outros, é preciso nu trir-se, a miude, da carne p urís­
sim a de Jesús na Eu caristia c aprender com f:le, n a
com•anhão, a amar como Ele amou.
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VIII
O DEVER SOCIAL DA FAMíLIA
No pensar de Deus, as famílias sã·o células cons­
titutivas. Sua união formam as diversas patrias e, aci­
ma das patrias, a humanidade. São, pois, chamadas a
se i dentificar e a se unir na procura do bem e da per�
r feição. Sem seu trabalho § dedicação mutua, a socie­
dade n ão J>Oderiam subsistir, e a pátria, com tudo o
que ela pode trazer de paz, de liberdade e de espe­
rança, não passaria de mera palavra despida de signi�
ficação. Grangeando o bem dos seus, o pai trabalha
para o bem comum : advogado, serve à justiça; operá­
rio ou a•gricultor contribue para o bem-estar geral. En­
'Sinando aos filhos a lealdade e afeiçoando-os ao tra­
balho, a mãe prepara os cidadãos que, por seu turno,
hão-de contribuir para a melhoria material e moral
do plóximo.
O progres$o social pela familia.
A vida religiosa da familia coope1·a no progresso
espiritual da humanidade, tão :bem como seu trabalho
assiste o progresso 'material. Suas virtudes são luz que•
alumia a vida social e penetra, pouco a pouco, nas
mais refratárias consciências. Tão verdade é que um
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98 A B A D E - J E A. N v r o L L E t
país só vale p elo valor mora] das famílias que o com­
põem. Há um espíri to de familia não já legítimo, se­
não necessario. Robustece as boas vontades, sustém os ·
fucos na luta difícil pela �xistência, consola os que
sofrem. E' um estímulo coletivo à melhor prática do
dever, e, ao me·smo tempo, uma barreira aos ímpetos do
Jnstinto e da paixão.
Os esposos que permanecem unidos a despeito das
dificuldades e sofrimentos, .robustecem seus concida­
dãos contra as tentações do divórcio e da libertinagem ;
e os pais que aceitam, de bom rosto, o encargo de nu­
merosos filhos, são a condenação viva do.s que, por um
egoismo culpado, restringem de-propósito e covarde­
mente, as fontes da vida. Graças a uma fé constante,
a mulher que suporta cristãmente a perda de um filho (
contribue para inflamar as esperanças espirituais .de
seus concidadãos ; e a família que não receia sacri­
ficai' a riqueza aos bens espirituais da alma trabalha
por difundir, no mundo, o reino de Deus.
O egoísmo familiar.
Desde, porém, que a família perde a noção da per­
f<.'ição moral, entra :,t decompor-se e torna-se elemento
deleterio para os seus e para o ambiente social 4 que
pertence. Desgraçadamente são múltiplas as tentações
que salteiam a família e a desviam de seu papel pro­
videncial.
As mais violentas são a.s que tendem fazer da fa­
mília um centro de egoísmo onde cada membro pro­
cura gosar egoisticamente as alegrias que, em gerai;
acompanham a vida familiar. Essas alegrias, cujo
'
es­
copo é aligei·r1;1r o dever, transformam-se, nas suas
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M o R A L F A M I L I A R 99
mãos, em gosos impuros que a distrai da vocação
providencial.
Principiam por falsear a obra do amor e da pro�
criação, fazendo�se escravos dos prazeres do corpo e
das ambições terrenas. �se egoísmo carnal gera, natu­
ralmentel' o néo-maltusianismo e todas as doutrinas an�
ti�sociais da união livre e do amor egoísta c irrespon­
sável. Mortais doutrinas que são a cau.sa principal da
espantosa diminuição da na_talidade francesa, com todo
o seu cortejo de ruínas e sofrimentos.
O mal que aos esposos causa o néo�maltusianismo
não se restringe à sua geração. Os raros filhos que
nascem dessa união são herdeiros de um princípio
egoi.sta que o tempo só tende a desenvolver.
O filho único (I) é, quasi sempre um ser volunta-
rioso que não sabe obedecer e força os pais a se dobra­
rem aos seus caprichos. Desobrigado de dividir com ir­
mãos afeições e carinhos, faz-se, naturalmente, centro
do mundo. Ignora a justiça porque não há direito de
irmãos a respeitar. Não lhe sendo preciso devotar-se
ou cola�orar par a a boa harmonia mutua, nada sabe
dos sacrifícios exigidos pela vida comum. Recebe tudo
e não dá nada. Chegada a época das respon.s·abilidades,
trabalhará, egoisticamente, pela sua felicidade, em de-
1rimooto do bem social. Ignorante sistemático e, por
assim dizer, inconsciente, dos direitos de outrem, é um
.O ) São, f�lizmento, numerosas as exceçõ&s ao que dizemos
da edllca!;ão dos filhos únicos. Por outro lado encontram-se, des- ·
graçada.mente, famílias numerosas -cujos filhos são educados àe
modo la:Iilentavel. Nem porisso é menos evidente que, suposto o
equili.brio de capa.cidadf do lado d()s pais, o filho único é mais di­
flcil de bem formar-se do que o filho c&rcado de muitos irmãos
e irmãs.
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1 00 A B A D E - J E A N V l O L L E T
revoltado iminente ({esde lJUe a vida sncial exij a dêle
sacrHicios pessoais.
A educação sociaJ da família.
Bem outro se apresenta o problema da •educação
social das fammas numerosas, conscien tes de suas res­
ponsabilidades morais. A generosidade dos esposos é
empeço às tentações do egoismo. A dedicação cresce
com o nunero dos filhos. O hábito de desprezar dis­
sabores, Q imporem-se, obrigatoriamente um sem nú­
mero de sacrifícios, os tornam aptos a se submeter às
injunções sociais e a se dedicar ao bem cmiium.
Os filhos, por seu turno, preparam-se J>ara a vida
social pelo hábito da dedicação adquirido em mil ser-
«
viços prestados à família. Cedem, naturalmente, ao.:;
imperaliYos da justiça social porque principiaram por
obedecer às exigência da justiça familiar submetendo­
se às decisões do pai, encarregado, por Deus, de diri­
mir os dissídios .que podem surgir entre os filhos, e de
os coagir a dominarem as espontaneidades de' uma ín­
dole egoísta ou irrefletida.
Nas famílias numerosas os filhos aprendem a es­
lfuecer-se de si e a dedicar-se a outrem porque são,
diariamente, levados a contar com a paz e a felic�dade
dos que os cercam. São-lhes os p ais exemplos constan­
tes de desinteresse que os exhortam a ir, sem esfôrço,
às obrigações morais de uma ,·ida social desinteres­
sa da.
E' preciso que o filho saiba, desde que lhe. reponta
a razão, que se êle recebe é p a1·a (/�ar. E' mister fazei'­
lhe entender que os bens tem1>orais e espirituais de
que usufruj, lhe vêm por intermcdio dos ]>ais e de
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M O R A L F A M I L I A R 1 0 1
numerosas gerações que, antes dele, penaram e
sofreram. Sua educação social c'xige que nunca •se
esqueça das dores e canseiras de todos os homens
que mourejam para que êle tenha pão, agasalho,
instrução e todos os demais bens da vida. Se vê alargar-
•
se, diariamente, o seu proprio ráio de ação, é para que
forneça aos outros, sob a forma de trabalho c dedica­
-ção, o que de outros recebeu. A lei social c a lei cristã
aí se irmanam para ditar-Ih� a conduta. E' indispcnsa­
vel que todo o filho saiba que é grande crime o que­
rer viver para si, egoisticamente.
Esta noção de responsabilidade e de dever social
só se desenvolve no filho graças a uma ativa colabo­
ração dos pais. Em vez de procurar nas qualidades e
tialentos dos fHhos um meio de satisfaze1·-lhes a vaidade
c a sensibilidade, os pais se obrigam, pela vontade di­
vina, a formar neles uma vontade altruísta e a pedir-lhes
os esforços e .sacrifícios que os levem a compreender os
outros e a J>or-sc em seu serviço. Muitas vezes, Jlor um
egoísmo inconsciente, os pais, longe de formarem a
vontade, a danificam. Bem longe de prepararem os fi-
lhos para ·que, um dia, sej am cidadãos uteis, empe­
nham-se em satisfazer as paixões nascentes do orgulho
e do egoi.smo. Preparam sêres anti-sociais e anti-cris­
tãos que ateian�, naturalmente, os odios e geram as
facções soc�ais ao simples manej o de seu indivi dualis­
Jno cego e feroz.
A mãe, ·quando abusa de seu afeto materno para
amparar o filho contra os seu.s. companheiros, à reve­
lia da propria lealdade e da justi ça, ensina-o a consi­
derar lei sua proprta ''ontade, fazendo-lhe supor que
basta dizer : "que1·o", para assumir o direito de se im­
}JOr aos outros. Ningué1n, pois, se admire se, um dia,
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1 02 A B A D E - J E A N V I O L L E T
vindo, por sua vez, a chefiar um a família, êsse mesmo
filho abuse de seu poderio social e de sua situação para
levar os filhos por u m .senda alheia à m ais rudimen�
tar j ustiça.
Tudo leva a crer que não o terem os pais habi­
tuado a sacrificar o progresso pessoal ao espírito de
justiça, é que tal usineiro ou administrador não vacila
em dar a filho ou parente uma situação que, de direito,
l>ertenceda a um terceiro Ínais competente ou antigo.
Êsse delito contra a justiça emperra o mecanismo so­
cial, multiplicando as incapacidades profissionais, e
inspira revoltas, espicaçando o j usto ressentimento de
quantos foram iniquamente postergados. Tão grave co­
mo êste, ou mais ainda, é o êrro que os pais cometem
ao recorrer a conhecidos p ara conseguir que o filho'
seja considerado inapto para o serviço militar, muito
embora gose de excelente saúde. Tamanho crime con­
tra a pátria faz supor ao filho que lhe é lícito iludir,
em proveito proprio, o grupo social quando devera
mostrar-se, em todas as ocasiões, seu fiel serv.idor.
Os pais que, sem vacilação, satisfazem os capri­
chos de um filhQ e acham natural que êle monopolise,
egoisticamente, os bdnquedos e prazeres que lhe cum­
pria aquinhoar com seus irmãos ou companheirrs de­
senvolvem um espírito de cobiça que levará, mais tar­
de os industriai.s e comerciantes a verem, tão sómente,
os pro1>rios lucros, sem receio de se locupletarem à
custa do bem geraL Qualquer que sej a a aparente prp­
bidade dos que pretendem estabelecer seus cabedais
"
ou
os dos filhos, já sonegando aos onerários a l>aga legí-c.
tima, já acumulando mercadorias para revendê-las côm
lucros exhorbitantes, j á atirando-se a operações que
vão ao arrepio das leis naturais da economia popular,
;.
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M O R A L F A M I L I A R 1 03
devem êles ser tidos como inimigos da ordem social, da
justiça e do espírito de lealdade.
O mesmo sucede com os pais <1uando burlam o
fisco, fazendo crêr aos filhos que aquilo a que se cha­
ma desonestidade quando se tru ta de transações priva­
das, é legítimo e normal em face de nossas relações
com a sociedade civil. Esquecem-se de <JUC o verda­
deiro cidadão deve, lealmente, participar dos en­
cargos comuns conforme à.<; leis c regulamen tos que os
impõem. Aquele .que frauda fére gravemente a socie­
dade, cujos benefícios aceita, e os cidadãos, em cujos
ombros irão pesar os encargos que êle não quis assu�
ruir pessoalmente. Acentuemos que as tentações anti­
sociais da familia são, por vezes, tanto mais subtís
�· quanto maior é a união e o desejo ardente, por parte
de cada membro, do triunfo dos demais. A e.ssa teu�
dência egoísta do grupo familiar convém que o� filhos
oponham a educação atenta do espírito de justiça e
de desinterêsse.
A educação social dos filhM.
Que aspecto deverá assumir a educação dos filhos
quando se quer fazer deles cidadãos úteis e cristãos
escl�recidos ?
De certo modo o filho começa por mostrar-se um
sêr anti-social, isto é, un1 .sêr <Iue, a princípio, só co­
nhece o seu " eu " e se inclina a subordinar tudo aos
seus deleites pessoais. D eve o educador esmerar-se em
trazê·lGI para fóra de si afim de que compreenda os
outros f! se dediqu� aos outros, respeitando-lhes as pes�
•
soas e os direitos. Esta formação da consciência social
começa pela obediencia. E', com efeito, pela submissão
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1 04 A B A D E - J E A N V I O L L E T
3 autm·idade albêia que a criança entra a levar em
linha de conta as legítimas exigências da autoridade.
Graças aos sacrifícios impostos desprende-se, pouco a
pouco, de sua personalidade egoista e afaz-se a servir
um bem moral CJue esta acima de si e ao qual êle aca­
bará J>Or lançar-se COrri to·das as veras ele sua vontade
e consciência l>essoais. Essa transmigração do amôr de
si para o amôr ao bem e ao res1)eito alhêio, torna-se
extraordinariamente fádl, clõ'mo vimos, })elo contado
diário com seus iguais, com irmãos e hmãs guiados
pela autoridade dos pais e obrigados a se imporem os
sacrifícios exigidos pelo acôrdo mutuo.
llais tarde, ·quando Yier a idade dos ,juizos pessoais,
os átos de autoridade não mais bastam à formação da
consciência do filho. Será, então, mistér o exemplo que 1
esclarece e seduz. O adolescente bem cêdo atina com
o valor que os pais dão ao trabalho e às ocupações. Mui
naturalmente passa a modelar pelo dêles o seu critério,
encarando a vida pelo mesmo aspecto. Conforme sur­
prenda neles, ou o desinteresse ou a preocupação dos
gosos egoistas, julgará as proprias aspirações jà como
um meio de contentar as ambições e ansias de goso,
já como apêlo ao desinterêsse e ao trabalho social.
Seus desejos vão, assim, confundir-se, natumlmente,
com os desejos dos que o ceream.
Sendo a juyentude a i dade precípua da decisão ·e
da liberdade, as fôrças que trabalham a alma do moço
tendem a arrastá-lo, com equilíbrio quasi perfeito, à sa­
tisfação das paixões ou ao desinterêsse total. :t:ste vivo'
entrechoque torna o homem responsável 1)ela orienta­
ção que da às ocupações e à vida. D� que modo valer­
se e guiar-se em sua escolha; onde achar energias para
dominar a violência das paixões e preferir o bem co-
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M O R A L F A M I L I A R 1 05
mum à.s �atisfações pessoais se o não ampara o exem­
plo dos que com êle convivem noite e dia ? A ciência
não poderá 'ser, aos seus olhos, um esfôrço altruísta em
busca da verdade; o comércio e a indústria, um meio
de tornar maior o bem-esta•· de todos ; o trabalho, um
serviço prestado aos outros, .se os que o cercam não
lhe dão o exemplo de lealdade ao trabalho onde se
equivalem a preocupação do bem social c o desejo de
triunfar. Se vê que o pai só se serve da inteligência e
do trabalho para finalidades egoístas, para se tornar
rico ou dar curso às .suas ambições, será levado, é cla­
ro, a imaginar que a vida é um bem para uso exclu­
sivo e de que se deve, exclusivamente, usar em pro­
veito proprio. Os padecimentos pessoais que esse egois-
mo há-de gerar semearão, mais tarde, odios e disser­
sões de que acarretará, em })arte, a responsabilidade.
Lutas, dissidios e inj ustiças sociais se originam,
quase sempre, da hÍJ)Ocrisia e da maleabilidade. Eis
por que devemos pôr a franqueza em primeiro plano
entre as virtudes sociais, preparando os filhos a prezar
a lealdà'de a ponto de aceitar-lhe, por vezes, os sacri­
fícios e as consequências dolorosas. O filho mente com
facilidade, por mêdo ao castigo, para satisfazer às pai­
xões incir>ientes, por amor-proprio ou orgulho. Para
corri�í-lo é mistér exaltar-lhe a noção de honra mos­
trando-lhe que menOr é baixej a e, ao mesmo tempo,
falta de confi ança em seu semelhante. E' preciso levá­
lo a preferir a punição ou o sacrifício de algum pra­
zer pessoal, à mentira aviltante, explicando-lhe que fu- ·
gir à verdade é inj uri ar o próximo e pôr um entrave
à bôa harmonia. Afl•eito, desde cedo, a aceitar as conse­
quências da franque';a, por dolorosas que sejam, em face,
muitas vezes, de pessoas menos misericordiosas que os
.
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1 06 A B A D E - J E A N V 1 0 L L E T
pais, como o são professores e companheiros, estará
apercebido para resisür, mais tarde, às sugestões de uma
sociedade qu ase sempre cruel e totalm�nte contaminada
pela burla e deslealdade. O homem social, acaso, não
será, por excelência, o que bravamente resistir a custa
de sacrificios pessoais, aos maus influxos ·da ainbição ?
À virtude social da lealdade vem sobrepor-se ou­
tra não menos importante, a do trabalho considerado
como serviço feito aos outros. Deus uniu os dife1·entes
membros da sociedade pelo elo de um esfôrço comum
feito de todos os esforços individuais de sorte que,
lJara viver e prosperar, carece, cada um, dos serviços
de todo.s. E' o trabalho dever tão rigoroso que São Pau­
lo não receou declarar que quem não trabalha não tem
o direito de comer. To dos os progressos de ordem moi'al t
ou material repousam nos esforços da humanidade. Os
progressos da religião, da arte da ciência, a satisfação
das necessidades materiais e espirituais dependem da
colaboração d e cada um. �ste é o pensamento que o.s
pais hão-de semp:re se -esforçar por incutir no coração
dos filhos. E' preciso que êles saibam ser um crime
contra o bem comum o pretender usufruir os benefí­
cios da vida sem que se tornem, pessoalmente, úteis ;
que o mesmo é aproveitar-se do labor alhéio e, por
assim dizer, explorá-lo; que os ociosos, .sobretudo
quando ricos, são os fatores principais dos desconten­
tamentos e revoltas que abalam, a toda hora, a paz e
a concordia sociais. Os indolentes são parasitas inimi­
gos da sociedade e do bem público. Mais que a nin­
guém, cumpre aos católicos o dever de proclamar, bém
alto, que nenhum ser humano tem�. o direito de arras­
tar na preguiça uma vida que lhe f.oi dada para a �ti­
lidade e o bem
_
geral. Esses pensam�ntos devem cres-
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M O R A L F A M I L I A R 1 07
cer na consciência do filho de par com .sua energia
para o tra,balho e esfôrço pessoal. Os pais que deseja­
rem ampliar seu peculio de família afim de que os
filhos possam, mais tarde, andar tl gandúia, sem obri­
gações .,que cumprir, alinham gcra��(H.'.S de egoístas cujo
ocio vai ser nota de escândalo para os que trabalham
e formal negação à lei divina : "Labutarás com o suor
do teu rosto." Que ao filho, pois, se imprima o hábito
de trabalhar nem se recêie lutar, energicamente, con­
tra o seu descaso e atonia naturais. Saibamos encora­
já-lo, .se necessário fôr, mas, também, admoestar-lhe a
preguiça J>ara que êle compreenda que quem não tra­
balha não faz júz ao alimento. Saibamos despertar-lhe
na consciência a vontade de ser útil, e, no coração, o
es]>Írito de gratidão por quantos, no passado c no pre­
sente, contribuham J>ara o seu bem-estar, para o seu
desenvolvimento físico e moral. Que sua educação lhe
descortine as mais lídimas alegrias, as que nascem na
alma de quantos souberam ser úteis a outrem.
Deus não quer, já o dissemos, que a família se con'"
centre egoisticamente, nela mesma. Se ela não souber
sacrificar-se pelos outros ; se não souber destinar à ca­
ridade paTte de seu tempo e dinheiro, e à miséria um
po-rt..co .de piedade, jamais ensin ará aos filhos o verda­
deiro sentido da dedicação social e da caridade. Ao
ver o pai preocupar-·se com a melhoria moral e mate­
rial dos companheiros de trabalho; a mãe visitar os
pobres e os enfermos; ao ver o sacrifício de ambos pelo
alívio da miséria humana, é que o.s filhos compreen­
derão "o que devem fazer pela caTidade e pela dedica-
ção social. .:
O exemplo, entretanto, não basta. E' mistér a par-
1icil>ação efetiva. do filho. Daí o habituá-lo a privar-se
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1 0 8 A B A D E - J E A N V I O L L E T
de um prazer para praticar, pessoalmente, a esmola,
ou ir em visita a alguma família infeliz. Nac,la sei que
mais eduque do que o métolo empregado por certa
família que obteve dos filhos o privarem-se, de boa
mente, e por varios dias, da sobremesa para que as•
economias deco-rrentes fossem mandadas aos meninos
famintos de um país estranho. Assim , também, para o
espírito de j ustiça .S·ocial, cuj a preparação, como vimos,
cabe à autoridade paterna o*Origando os filhos, cada
um de per si, a respeitar e defender o direito dos ir­
mãos, espírito, porém, que .só se desenvolve com o
exemplo. Vendo o pai defender pessoalmente, os fra­
cos, sem temer os aborrecimentos e lutas que podem
sobrevir, os fj]hos, por sua vez, se lançarão, impavi­
dos à defesa dos companheiros oprimidos ou mais fra­
cos, enfrentando as inj ustiças e perfídias tão comuns
entre as crianças, destemerosos das malquerenças que
podem gerar, adextrando-se, assim, para se tornaren1
os futuros defensors 'corajosos da j u.stiça social, que êles
sobrepõem à J>az e à tranquHidade pessoais.
A edzzcaçiio religiosa do.ç filhos.
O de.svêlo social se confunde com o amôr '·ao pró­
ximo, tal como o ensinou Jesús. Ai está· por que é
·
que
a vida religiosa será a fonte generosa onde a família
vai beber as energias necessárias à dedicação. A dis-:
cipliq,a re]jgiosa modela, pois, a educação soóal por­
isso que traz à consciência o acúmulo de fô1·ças de que
precisa p ara permanecer fiel à lei do amôr até � acei­
tação do sacrHicio pessoal. A vida r�ligiosa da família
leva-a para além dela mesma relemhrando, sempre, a
cada um de seus membros que os se.ntip1entos de �môr,
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M O R A L F A M I L I A R 1 09
de j ustiça e dedicação gerados no .seio do grupo familiar,
se destinam, segundo Deus, a r<HH}Jer as lindes restri­
tas da vida familiar, espraiando-se na vida social. O
homem perfeitamente religioso há- de estar aparelhado
a amar o vróximo sem distinção de classe, de raça, de
religiã<1, amparando-o contra as injustiças da vida.
Para realizar êsse viver religioso, esclarecido e de­
sinteressado, a família terá de combater, no filho, as
falsas manifestações da idéia de religião. Lutará con­
tra o espirito de farisaísmo (JUe leva o filho a supor
que amar a Deus é dar mostras exteriores de piedade
e desprezar os companheiros que não fazem o mesmo.
Será preciso lembrar-lhe, incansavelmente, que as prá­
ticas religiosas tem por fim a reforma da alma e que
é comêço de desamor ao próximo o julgá-lo em vez de
socorrê-lo, o des1Jrezá-lo em vez de amá-lo. Será rnis­
tér explicar-lhe que Deus .só ama e protege os que na
religião procuraram as graças necessárias para se fazer
melhores e ampHar o seu amor a Deus c aos homens.
Convirá mostrar-lhe as reSJ>Onsabilidade.s terríveis dos
falsos He1,oios que engrossam. a cada passo, as fileiras
dos incréus e, até, dos revoltados. O verdadeiro cato­
Hcismo se rege pelo mandamento supremo de amar a
Deus e aü próximo com todas as energias. Desenvolvê­
lo n'.> filho só é possível se o hab ituarmos a multipli­
car os átos po·sitivos de amôr desinteressado.
Assim é que a familia verdadeiramente católica
prepara fiéis servidores à religião e à sociedade. . Por
ela se formmn as gerações devotadas em que se recru­
tam os. hmnens caJJazes de ser úteis aos seus concida­
dãos e de apontar(a todos o caminho do reino eterno
de Deus.
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Abade jean viollet moral familiar

  • 1.
    Abade - JeanVIOLLET Moral familiar Tradução aulolisada pelo Prof. NELSON DE MELO E SOUSA EDITORA GETULIO COSTA Rua Teófilo Ot<>ni, 42 - Caixa postal, LS29 RIO DE JAN,EIRO http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 2.
    íNDICE PREFACIO . 7 I-A FAMíLIA 9 O sacramento do matrimnio. 10 Os deveres dos esposos . 12 Da ·autoridade do marido . 15 Deveres dos pais para com os filhos 18 Deveres para com os avós . 22 Conflito entre os diversos deveres . 23 11 --BOM HUMOR E MORAL FAMILIAR 29 Obstáculos Devidos a causas materiais 30 Obstáculos provenientes dos caracteres 31 Bases espirituais do bom humor . 33 q bom humor e a educação dos filhos. . 35 !li -A UNIÃO .ESpiRITUAL E MORAL DOS ESPOSOS 39 O desinteresse 40 O divórcio contra a união dos corações 41 O divórcio contra a educação dos filhos 42 Santificação mutua 43 Defeitos mutuos 45 A dedicação . 46 IV - O MAGNO DEVER 49 O amor-casamento 51 Dever conjugal 52 Os filhos . •. 52 Da continência 54 Virtudes subsidiárias da continência 58 Da confiança em Deus . 59 http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 3.
    6 A.BADE -JEA.N VIOLLET V - DA EDUCAÇÃO DOS FILHOS 63 Das qualidades· do educador 64 A infância 67 A idade dHicil 69 O jovem 71 A ·vida religiosa . 72 VI -· A VOCAÇÃO DOS FILHOS í5 Papel dos pais na escolha das vocações í5 Papel dos fiihos nn escolha da vocação 77 Das divergências que, acêrca da vocação, podem sur- gir entre pais P- filhos . 80 VII - A EDUCAÇÃO DO SENTIMENTO E O PREPARO AO MATRLlóNIO . . 83 As iniciações necessárias 84 Aos mais jovens 86 Aos jovens adolescentes 87 As moças o 90 Antes do casamento o 93 VIII -O DEVER SOCIAL DA FA.JHLIA 97 O progresso social pela família 97 O egoismo familiar o 98 A educação social da família o 100 A educação social dos filhos o 103 A educação religiosa dos filhos 108 http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 4.
    PREFACIO E' exprimir verdadetrivial o falar-se na des­ cristianisação da França moderna. f!:rro é, porém, comum, o querer devassar-lhe as causas nas trans- • formações poJiticas a que nosso país se submeteu desde a grande Revolução. Os govêrnos são impo­ tentes para mudar a face dos costumes e as más leis só vigoram quando se acumpliciam com os proprios costumes. E' o que aconteceu com a França. As leis anti-familiares foram, facilmente, acei­ tas pelo pais porque a descristianisação estava, já, latertie nas almas. Ora, de toill1s as causas de descristianisação, a mais grave é, sem dúvida, a perversão moral. Não somente atinge a mocidade antes do casamento mas alcança os proprios esposos, jazendo-lhes crer que o amor humano se basta a si mesmo, indepen­ dente de qualquer esfôr�o virtuoso. Pensa a maio­ ria que lhe assiste o direito de levar a vida como bem lhe quadre, de limitar, por exemplo, o núme­ ro dos filhos, sem qualquer interrupção dos pra- • zeres carnais. E' dêsse mal que a França morre. Desde a guerra o gQvêrno começ11 a procurar http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 5.
    8 .ABADE -JEAN VIOLLET os remedios a tão Jamentave l estado de coisas. Baixa leis famiJiares e prepara outras tantas. Pro­ pende a melhorar o destino da famiJia. A própria indústria mete-se pela vereda dos saci·ificios gene­ ralizando a instituição dos sindicatos familiares. Ninguém se iluda, entretanto, com o valor dês· ses reme.dios. São meros paliativos. E' a alma que se precisa atingir. São os costumes que se trata de reformar. E isso não se consegue a custa de di­ nheiro. Eis o motivo que nos levou a relembrar às fa­ mílias cristãs os deveres d{' moral familiar. E' ela o alicerce do futuro espiritual e social do pais. A ela dedicamos as páginas que se seguem. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 6.
    I A FAIHLIA E' afamilia uma sociedade fundada por D·eus. Tem assento no amor e, mnralmente, só se desenvolve à custa de um mutuo devotar-se. Fôra estulto pensar qU'e o amor que uns aos outros devem os membros de uma mesma família, atinge a ... perfeição, livre de tentações. E' de crer, ao contrario, qu•e Deus põe, a miude, o amor em frente de dificuldades que visam robustecê-lo e ampliá-lo, 'embora quem as defronte esteja pouco pro­ penso a dominar-se em beneficio do bem comum. O a"mor, na terra, exige uma educação que ensina cada qual a de�int'�ressar-se de si mesmo para preocu­ par-se com o bem do ser amado e a êle consagrar-se. Surgindo como um ideal, parece que o amôr só pudera, normalmente, Yicejar na alegria. Será isto ver­ dadeiro no céu e .sê-lo hia, talvez, na terra se não fosse o pecado. Sucede, porém, que o pecado alterou tudo, infil­ trando no coração de cada um os germes do egoismo que entravam () desenvolvimento nmmal do amor em família. Pel a destruição dêsses germes deve lutar quem quer que tenha consciencia dos graves deveres que acompanham o viver fammar. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 7.
    10 .ABADE -JEAN VfOLLE T O sacrermento do matrimonio. Assim como a Igreja aparelha os. seus padres à grande obra do sacerdocio e ao sacramento da ordem, assim se preocupa em trazer aos esposos as graças de que precisam para colaborar na obra de Deus e pôr em relevo as do sacramento do matrimônio. Os que se encaminham à obra do amôr, se ficam entregues a si mesmos, esbarram, a todo momento, nas miserias e deficiencias. da natureza humana. Como poderá o amor frutear na santificação, se Deus não o ampara? As graças necessarias aos esposos critãos, é o sa­ cramento do matrimônio que lhas confere. Quantos, porém, ignoram que êles são os sacerdotes do Casa­ mento I Pensam receber uma simples bênção, muito em­ bora a Igreja, testemunha da doação que, mutuamente, fazem de seus corpos e vontades, os designe. pela graça do sacramento, sacerdotes da família. O ato pelo quâl se dão um ao outro acarreta a in­ tervenção sobrenatural de Deus e transfunde-lhes a vi­ da divina que os secundará para •:l })erfeito cumpri­ mento de sua vocação. Entretanto, que é que se observa? O mais das vezes o casamento não passa de um meio para uma "situa­ ção". Ninguém a êle se prepara convenientemente. A donzela confia em que s·eus encantos lhe atraiam um marido; o rapaz, depois de consumir na vida airada, seus mais belos anos, se decide a procurar esposa. Am­ bos pedem à Igreja que lhes sancjone o casamento, ignorantes da grandeza dessa vocação e, desprevenidos para a recepção do sacramento. Para êles a confissão é, quasi sempre, um ato ma- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 8.
    M O RA L F A MI L IA R 11 çador de q ue se desembaraçam sem saber qual seja a condição indispensavel das graças do sacramento. Para que o amor ampare os esposos na luta pelo bem; para que o amor não tropece nos egoismos e nas imper­ feições da natureza, não será, por ventura, aconselha­ vel q ue as almas se purifiquem de todos os êrros que lhe poderiam estorvar o desenvolvimento moral e es­ piritual ? Por falta de preparação para recebê-la, a graça, queda sem fruto. Cai nas urzes do caminho e aí morre. Para que o sacramento santifique os esposos é mis­ tér que êstes encarell?, previamente, as obrigações e responsabilidades de seu novo estado e entrem no ca­ samento com o que têm de melhor. O amor so pode per­ durar enquanto os esposos forem capazes de resistir às tentações q ue os podem saltear. Cumpre-lhes· a refórma do caráter e a imposição de duros sacrifícios. Ora, o sacramento é um poder divino q ue só age em terreno adrede p reparado. Só é eficaz a graça quando vontades e inteligências se convencerem das respon.sabilidades que acoli{am a vocação. O homem e a m'.tlher entram no casamento trazen­ do, cada um, suas defidencias e misérias morais. Onde irão buscar fôrça para se modificar e se dominar sem a graça de Deus? Basta atentarmos nos frequentes fra­ cassos do amor humano, nos seus desalentos e desvios, para compreendermos quão necessario é o amparo di­ vino aos que querem fielmente amar. Nos primeiros tempos do matrimônio a alegria do amor vela as fra­ quezas da natureza �umana. Chegam, porém, os revezes e o amor passará a conhecer os desânimos inevitaveis. Como poderão os esposos supor-se assaz generosos para aceitarem os filhos que Deus lhes confiará, e as- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 9.
    12 ABADE -JEAN VIOLLE T saz elarjvidentes para conforma-los à vida }Jerfeita se não esperam de Deus as luzes e os socorros que os de­ vem suster? Luz e socorro lhes serão dados pelo sacra­ men to, se êste fôr recebido com as disposições neces­ sárias. A vi·da fammar conhece dolorosas provações. Não é raro que um dos esposos tenha de tolerar os desmandos do outro. Os filhos abrem ensejo a sacrifí­ cios sem conta e a morte pode separar os que ternamen­ te se amavam. Como hão-de os ·esposos suportar êsses sofrimentos se Deus não os sustém derram"-ndo-lhes nos corações os bálsamos da vida espiritual ? Aqui, ainda, a graça do sacramento será a fonte inesgotavel que os secundará na sustentação de seu fardo. Aliás, as verdadeiras alegrias da vida familiar es­ tão estreitamente unidas ao generoso cumprimento dos deveres a ela impostos. Eis porque não se pode conceber o amór humano sem que Deus €steja presente para aluminá-lo, guiá-lo e purificá-lo. A graça é elemento necessáriô à•vocação dO" casa­ mento. Os devere:; dos esposos. Não quis Deus que os deveres mutuos que se de­ vem os esposos, provenham do constrangimento. E' com liberdade que os esposos se escolhem; é, }>ois, ·COm liberdade que decidem amar-se e cumprir os deveres que êste amor implica. Quais são, porém, êsses deveres ? A Igreja nos ensina que os esposos se devem fideli- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 10.
    M6RAL FAMILIAR 13 dade,amparo e proteção.. Como devemos entender es­ sas palavras? Trata-se, por ventura, de fidelidade puramente ex­ terior q ue mantendo cada um longe de ligação adúltera, poderia não se relacionar com a fidelidade do coração? Inter]>retar, assim, a lei, seria pôr letra em lugar do espírito. A fidelidade em apreço, porém - esta é a ver� dade - é, antes de tudo, uma fidelidade de coração e totalmente interior, para preservar a qual, deve cada um dos espôsos, sustentar contra si mesmo, contra os tropê- ços e as tentações, um , a luta sem treguas. · O primeiro dever sugerido pela palavra fidelidade será, pois, o amparo mutuo. Quem não suporta os de­ feitos e desfalecimentos daquele a quem ama, não lhe saberia ser fiel. Aqui os esposos vão encontrar a primeira prova­ ção do amor ]>Orque, o mais das vezes, o egoismo que subsiste por detrás das aparencias contrarias, nos faz ver o ser amado em função do nosso gôso pessoal. Somos, instinth·amente, levados a amar só até onde o amor nos ofert;ce ,as alegrias e satisfações com que sonhamos. Se êle nos traz, o sofrimento ou humilhação; se ·descobrimos nele defeitos que, a princípio, não ví­ ,ramos, afastamo-nos dêle deixando que arrefeçam os nossos sentimentos. O dever de fidelidade acarreta a precisão de do­ minarmos essas tendencias egoístas de nosso ser e de continuarmos a amar nosso cônj uge sejam quais fo­ rem seus defeitos e, até, a empregarmos toda nossa in­ teligência, toda a n �ssa vontade na cm·a do mal que nele nos faz sofrei'. ê.ste primeiro dever de amparo arrasta um outro http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 11.
    14 ABADE -JEAN VIO L LET que se caracteriza }JOr estas palavras: auxílio e sustento mutuos. Deixemos de parte o auxilio e o sustento mate­ riais, se bem fàra util salientar-se o conjunto de sacrifí­ cios de tempo, dinheiro e satisfações que tais palavras sugerem, e limitemo-nos a definh· as condições que re­ quer o amparo moral e espiritual, justamente o mai.s postergado. O auxilio moral supõe o esfôrço previa para sair de si e penetrar os pensamentos, os desejos as aspira­ ções e as necessidades do ser amado. Não é facil a tarefa de .se pôr, assim, em lugar do outro para melhor compreendê.-lo. O homem há de pesquisar a natureza de sua mu­ lher, e a mulher, a do marido. O amor guiará a pesqui­ sa, a qual, entretanto, só será levada a bom termo se o homem compreender em quê sua natureza de homem deve completar a da mulher, e a mulher, como levará ao homem o complemento vital de que êle carece. �ssc trabalho especial do amor requer grande atenção, gran­ de desinteresse, sem o que jamais saberá o h9mem ser­ vir-se de sua fôrça e razão em prol da paz, da firme1 za e da confiança que deve inspiràr ã mulher, tão bem como não saberá, a mulher lançar mão de sua graça, de sua sensibilidade e devotamento para levar ao ho­ mem essa alegria especial do amor que o há-de ampa­ rar na luta e permitir-lhe de atirar-se aos trabalhos pre­ cisos ao desenvolvimento normal da família. Auxiliar, moralmente, é, para a mulher, entender os sofrimentos e as tentações que acompanham a vida masculina, e, para o homem, compreender as que parti­ cularmente rondam a natureza feminina. Como encontrar palavras e atos que esclareçam e http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 12.
    M O RA L F A MILI A R 1 5 confortem se somos incapazes de ver onde reside o mal? O amor é um sentimento que não se basta a si mesmo. Para conservá-lo e engrandecê-lo precisa de um alimento especial, alimento feito de mil pequeni­ nos serviços mutuos que são como as malhas de uma enorme rede, como os· pontos de uma cortina cuja fei­ tura só com a vida acaba. Pretender subministrar ao amor emoções violen­ tas é matá-lo, antes de mais nada. Cercá-lo de constantes sacrifícios mutuos, de aten­ ções recíprocas, de tnfôrços para secundar o trabalho do outro e levar-lhe alegrias e consôlos que lhe permi­ tam vencer a aridez dos dias, eis os infinitamente pe­ quenos, graças aos quais o amor se avantaja e fortalece. Em via de regra é por não ter modelado sua von­ tade nesses misteres humildes que o amor acaba por <lesaparecer ou minguar, não trazendo, pelo menos, a ajuda e o apôio que os esposos tinham o direito de esperar. , ( Da autoridade do marido. A le i .civil, em concordância com a religiosa, dá ao marido autoridade sôbre a mulher. Qual é, porém, o v erdadeiro sentido da palavra •• autoridade" quando se trata de espô.so, se cada um fica com a J>lena I'esponsabilidade de seus atos e se am­ bos se destinam a 1uocurar, em sua união, a fôrça e as luzes necessaria� ao encaminhamento dos filhos? A autoridade do chefe milHar impõe disciplina a soldados tolhendo-lhes· o dis·cutirem as Ol'dens recebi- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 13.
    16 ABADE -JEAN VIOLLE'f das. O marido que agisse JlOr modo idêntico em relaçâo a espôsa cometeria in1oleravel abuso. AIS autoridades constituídas zelam pela execução das leis depois de vo1adas pelas assembléias delibera­ th·as. �se gênero de autoridade não pode, porém, so­ frer paralelo com a do marido. Ao marido é vedado dar ordens à mulher como um chefe aos seus subordinados. Ambos estão no mesmo J)lano, e seria inconcebível <JUe o marido pretendesse impor, arbitrariamente, a lei do mais forte, obrigado, como está, a submeter-se às leis que regem a vida familiar. Em caso de dissídio entre êle e a mulher conta da definiç�o desta lei, o sentir da mulher tem, teoricamente, o mesmo valor que o dêle. Seu papél de·chefe não pode, outrossim, definir-se por comparação com a autoridade do educador sôbre as crianças a seu cargo. E' a criança incapaz de reger­ se� por si. O mesmo não ocorre com a mulher que se conserva livre e senhora de seus atos. ·Assim .sendo, como definir a autoridade de marido em face da mulher? Outra coisa llão.póde ser senão uma delegação de poderes depois de mutuo entendi­ mento. Todas as relações conj ugais falseiam se a autori­ dade é tida como anterior ao amor ou pretende exer­ cer-se independente dêste. Transmuda-se, por isto mes­ mo, em tirania insuportavel. Para corresponder aos de­ sígnios da Providência, é mister considerá-la como co­ rolaria natural do bom entendimento conjugal. O marido e a mulher constituem uma como que assembléia deliberativa, na qual tem, cada um, voto na matéria a resolver-se. A boa vontade mutua, a preo- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 14.
    MORAL f."MILIAR 17 cupaçãodo bem comum, o desinteresse pessoal levam catla um do.s esposos a apreciar melhor o valor dos alvi­ IJ·cs e opiniões do outro. Entrados em acôrdo, ao mari­ do compete superintender a boa execução das decisões. O ,que será, porém, da autoridade do marido, em cttso de desacôrdo? Não será, por ventura, êle quem �ofre o julgamento supremo? E se assim é, não será o caso de temer-se que a mulher se veja forçada a sub­ meter-se, quasi sempre, a decisões que sua consciência repudia ou que julga ameaçadora da boa educação dos filhos? Esses conflitos trágicos só se solucionam à luz dos seguintes princípios: a decisão exigida pelo pai, desagrade embora à !nãe, deha brecha a melhorias possíveis. Neste caso vale mais que a quebra da har­ monia conjugal. Esperará a CSJ>Ôsa que o futuro e a graça de Deus melhorem a situação. Se, porém, as decisões do marido implicam ordens l'Onlrárias à moral ou manifestamente opostas ao bem dos filhos, será, talvez, forçoso recorrer à deliberação suprema .e coagir o marido a optar entre a renuncia do seu J>Onto de vista ou a .separação. Êsse direito era Jtmlher é a resultante necessária de uma responsabilidade que se divide entre ela e o ma­ rido. E', todavia, um direito de que a mulher só se va­ lerá nas sHuações extremas. Mais vale tolerar um mal relatiYo que recOI'rer a solução que rompe a unidade familiar. Atentando-se no número elos casos em que a mu­ lher e as filhos são vítimas do desman do ou dos ex­ cessos de autorida� do marido, chega-se a desejar a reforma da lei civil, que parece considerar o pai de família, senhor absoluto á feição das doutrinas pagãs http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 15.
    18 ABADE -JE AN VIOLLET da antiga Roma. No caso de desaveça grave entre o marido e a mulhe1·, tendo-se em vista, sobretudo, a edu­ cação dos fj]]Jos, não se atina por que devam as deci­ sões do mal'ldo prevalecer sempre sôbre as da mulher. A autoridade familiar se divide em duas. Seu exercício normal só se dá quando (lai e mãe estão de acôrdo sôbre os métodos e meios de educação. Deveres dos pais para com os filhos. Não nos alongaremos a respeito dos deveres de ordem material. Não há pais dignos dêsse nome que descurem a saúde física dos fLlhos e lhes deixem de fornecer, fartamente, os bens materiais ·de que carecem. O problema dos ·deveres paternos .só se complica quando se trata dos de ordem espiritual. Aí é que se vêem lacunas e fracassos numerosos cujos principais temos como util assinalar neste ensejo. Consagrar-se aos filhos não significa, por cer­ to, cumulá-los. de todos os prazeres possíveis e, sim, formar-lhes a conciência e o coração, a vont�de e a in­ teligência. Nêsse domínio, entretanto quão poucos são os pais clarividentes e capazes! ' - Para trabalharmos uma cJonciência de criança é preciso amarmos a Deus, o bem e a perfeição mais do que nós mesmos. E' mistér sermo.s capazes de sacrificar nosso bem­ estar, impondo-nos os esfôrços que exige o ideal moral. Depois de termos amado, pessoalmente, o bem mo­ ral, devemos aplicar-nos, com todas as nossas ener­ gias e por todos os meios que Deus nos faculta, à ta­ J·efa de o tornar conhecido, estimado e praticado pelos filhos. E' de esperar-se, ai, que a antorjdade se exerça http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 16.
    M O RA L FAMILIAR 19 sem esmorecimentos ; que uma atenção permanente fuculte aos pais .o seguirem, na alma dos filhos, as·rea­ �õc� da Yida moral, os impulsos para o bem, as tenta­ ções do instinto, os logros da natureza. A autoridade dos pais só se exerce utilmente se êles se crêem depositarios da propria autoridade de Deus, e encarregados de levar os filhos à santidade. Tamanho encargo da autoridade pressupõe grande do­ mínio de si n1esmo, uma calma capaz de anular as tempestades, um senso profundo da justiça, e uma von­ tade apostada em aplicá-la, uma bondade infatigavel, sempre inclinada à misericordia mas nunca descaindo para a fraqueza. A au!!oridade se exerce continuamen­ te, raro pelo emprêgo da fôrça, pelo encorajamento sempre. Nunca se ausenta, nem mesmo quando os filhos estão longe dos pais, porque aqueles sabem que êstes lhes acompanham as ocupações e se inquietam por seus atos. Quantos pais há que abusam d.essa autor,idade exercitando-a a torto e a direito segundo caprichos mo­ mentaneo� quando não abdicam por amor à paz e à lranquilidade! Para acautelar seus egoísmos, desistem de sua missão. Q'uantos pecam por omissão, deixando ir tudo à matroca por indiferentismo e preguiça, teme­ rosos de dificuldades e sacrifícios! Amam o filho até quando a presença dêste lhes satisfaz a sensibilidade ou o orgulho, esquecidos de que ·O filho n · ão lhes foi dado a êles e, sim, a si mesmo, ao cumprimento de sua vo­ cação e, finalmente, a Deus. Muitos fingem ignorar seus deveres com respeito à vpcação dos filhos. • . O que cumpre aos pais é auxiliar a yocação do fi­ lho a desabrochar e amadurecer. A autoridade há-de http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 17.
    20 ABADE -JEAN VIOLLET ter por e&COJlO secundar o filho a senhorear-se de seu destino e do emprêgo que mais tarde virá fazer de suas fôrças e inteligência. Grave falta cometeriam em detrimento do filho e em face de Deus se procurassem segregá-lo afim de atender a gosos e desejos J)Cssoais, ou com o intuito de explorá-lo J>ara as satisfações da vaidade. Em matéria de educação, realizar a obra de Deus consiste em tentar discernir, graças à.s aptidões, aos im­ pulsos do ·coração, aos engodos e às circunstâncias, o caminho por onde há-de levar o filho para que a vida toda se lhe não contorça e êle possa, mais tarde, sentir que pisa um terreno onde se �ê perfeitamente apto e útil. Semelhante proceder acarreta muitos sacrifícios de amor próprio. Os pais que procuram auxiliar os filhos a realizarem suas vocações são os únicos a cumprirem o dever essencial e primordial da autoridade. Compre­ endem que Deus só conferiu poder aos homens para que auxiliem os fracos e as crianças a darem conta de suas tarefas pessoais. • Um outro dever há, ainda, 'pala o qual convém chamemos a atenção dos pais. E' o que obsta a que abandonem os filhos em mãos estranhas, a não ser por necessidade e com as pos.siveis garantias. A educação compete, propriamente, aos pais e Deus não confiou a estranho a responsabilidade da vida moral dos filhos. Não quer isto dizer que os J>ais não hajam, em muitas circunstâncias, de valer-se da ajuda de terceh·os, quando m ais não fô�e. para proporciona­ rem aos filhos a necessária instrução. A êles todavia toca sempre, a responsabilidade, e cumpre considerar o http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 18.
    MORAL FAMILIAR 21 111dhordos professores mero acólito com quem hão de l'slar em constante contato. Dchar seu filho, sem mais Clüdar dêle, horas a rio na escola ou, ainda mais, meses inteiros num inter­ ll:t to, é largar mão de suas responsabilidades, a menos que todas as garantias sejam previstas. Devem os pais seguir atentamente o procedimento e os esforços do filho na escola ou no colégio e pôr o mestre ao corrente de seu proceder e caráter em fa­ mília. Queixam- se os pais quando o Estado baixa leis ou t·cgulamentos que lhes �arecem contrários aos seus de­ sejos e aspirações? E', justamente, seu indiferentismo 11ue leva o Govêrno a agir a sua revelia, e como se êles uüo existissem. Educar um menino, formar-lhe a conciência e a vontade pressupõe a comunhão de diferentes pessôas its quais toca essa educação. Quaisquer que sej am os auxiliares escolhidos, não devem os Jlais, em caso algum, abrir mão de sua auto­ ridade e poder fiscalizador.• • Há, ainda, uma outra negligência elos pais que não seria inutH assinalar, por Jhe tolher parte da influência moral imprescindível à educação: é a que leva os pais a não se porem no mesmo nivel dos filhos para bem entendê-los e ser, por êles, entendidos. Só é eficaz a autoridade que anda sempre ao pé daquêle sôbre quem se exerce ; é inopera nte ou causa mêdo se vem de cim� sem que o menino pôssa compre­ ender-lhe o significado. Eis JlOrque cump1·e aos pais fazerem-se crianças com as crianças. Não J,:Ccearão acomodar-se aos seus ma- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    22 A.:BADE -JEAN VIOLLET nejos e tentarão explicar-lhes as alegrias e as tdstezas, as dúvidas e os anseios. Tal atitude é difjcil porque obriga a sair de si e absorve muito tempo. Exige que nos entremctamos nos brjquedos, nos trabalhos e ocupações daqueles que ha­ vemos de educar. A consequência, porém, é o estabele� cimento de laços intimos entre filhos e pais e a conclu­ são, por parte da criança, de que as ordens dadas não são caprichos e decorrem do amor e da compreensão. �ste esfôrço para se pôr ao nível dos filhos sem quebra da autoridade, requer grandes qualidades mo­ rais de devotamento, de respeito1, à alma, de vontade cs� clarecida e experta. E' êste esfôrço 'que constrói a verda­ deira educação, isto é, o desenvolvimento do amor e do respeito. Rematando essas observações col).vém acentuar que os pais, se andam sempre satisfeitos consigo e se ima­ ginam possuir perfeitas qualidades de educadores, cor­ I'em o risco de se iludir por lhes faltar a humildade que leva a pedir consêlho aos mais experimentados, e a Deus o .socorro de que carecem. Deveres para com os avós. Parece que a família moderna, esquecida de seus deveres essênciais, não mais dispensa às pessôas idosas o respeito e o reconhecimento que é natural se lhes tributem. O número de avós que vivem solitários, mais ou menos abandonados pelos filhos, yai crescendo dia a· dia. Assim, pois, como esperar alguém para os seus as bênçãos de Deus, como habituar os jovens ao sacrifício. de alguns de seus cômodos, se não ·�omeçar por dar-lhes http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 23 o (• x cmplo da gratidão e do devotamento para com os que consagraram a melhor de suas existências a edu­ l'il-los, inculcando-lhe os princípios da vida moral que constituem o melhor de nós mesmos? Outrora os avós viviam no seio da família. Era um prazer o cercá-los dos mil cuidados que sua idade exigia; suportávamos fácil e cristãmente suas enfermidades e fraquezas, felizes porque, assim, apren­ díamos a praticar a dedicação familiar. Hoje em dia os toleramos, quando muito, e, o mais das vezes, aban­ donamo-los a uma solidão penosa e lamentavel. A família cristã deve reagir, com todas as energias, contra êste censurave(indiferentismo. Os que podem, devem manter consigo seus avós. Se isto não é pos.sivel, hão-de, ao menos, assisti-los para um termino de vida honroso. Exijam-se, embora, sacrifícios de tempo e dinheiro, é mistér sejam feitos com alegria e bom humor, sem nunca procurar justi­ fic.ativas a atitudes indiferentes e egoístas a conta de pretensas obrigações ou afazeres excessivos. Noss� primeiro encargo, devemo-lo aos pais; nos­ sa ocupação pril).cip.íll, a d e levar-lhes à vida alegria e reconhecimento. Tai:s. são os ·deveres essênciais que norteiam os membros de uma família a uma união cristã e a um es­ fôrço comum em busca da perfeição. Conflito entre os diversO$ deveres. Ser-nos há fácil, por ventura, cumprir essas dife- • re.ntes obrigações. sem que nos encontremos, a cada pas- :so, em presença de conflitos que a mais escrupulosa consciencia não pode resolver? http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    24 A.J3A.DE -JEAN VIOLLE T Será que as ocupações de alguém o impossibilitam de consagrar aos seus, m ulher e filhos, o tempo exi­ gido? A falta· de recursos em que se vê um outro, não desculpará o abandono em que deixa os �l·ós•! Tais são as graves dolorosas dúvidas cu.ias solu­ ções convém pesquisar. Convenhamos, ante.s do mais, que para vermos cla­ ro, é mistér a bôa localização dos deveres. O mais das vezes, os ]Jretensos conflitos de deveres seriam resol­ vidos se não puséssemos -em prüneiro plano ocupações secundárias. E' o caso dos que multiplicam os deveres humanos que os distraem do lar, dos que desviam para um luxo absorvente a soma .que, a rigor, "deveriam destinar aos avós ou à educação dos filhos; dos que não se querem privar de qualquer prazer. Quantos confli­ tos seriam resolvidos se se respeitasse a hierarquia dos deveres, de sorte que nunca se sacrificassem os primor­ diais aos secundários e problemáticos. Nêste assunto compete a cada .qual, rigoroso exame de consciência. Se há boa vontade na pesquisa do bem, O& deveres exátos surgem, quasi sempre, ao clarão de uma luz in­ tensa, e os conflitos desaparecem. Não raro é o egoismo pessoal, o amor proprio, que turvam a visão. Não quer isto dizer que não haja dissídios de so­ lução difícil. Ocorre, por exemplo, o caso de um médico às vol­ ta.s com a saúde de seus clientes, de um político absor­ vido pelas responsabilidades do govêrno, de um dema­ gogo arrastado pelo niovimento social que suscitou. Nesses casos avulsos é de crer que a vida familiar .seja fatalmente mais ou menos sacrificad�L http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A MILI A R 25 Examinados miudamente, êsses conflitos têm mais aparência que realidade. Para êles ha, quase, sempre, remédios eficazes. Os tropeços que a Providência nos põe n.o caminho têm em mira obrigar-nos a maior perfeição. Pode dar­ se, ·Com efeito, que Deus queira coagir-nos a maiores trabalhos, a melhor coordenação de nossa vida para seu melhor desempenho, à procura de colaboradores que tragam o nece ssário amparp à nossa vocação. Quantas vezes as dificuldades e os conflitos de de­ 'eres se multiplicam porque lhes falta a vontade e a capacidade para arcar�m com tarefas precisas e bem definidas? Não há-de a vida ser para nós como um caudal que nos arrasta. Convém dominemo-la com inteligência ponderada ·e vontade vigilante. Na maioria dos casos são as nossas faculdades que nos levam a solucionar muitos dos empêços da existência. Se Deus permite os conflitos aparentes é de crêr que os remédios existam, compeHndo a nós o procurá­ los e aplicá-los. .. Não raro somos nó.s os culpados dos excessos de ocupações que nos tolhem o cumprirmos deveres im­ portantes. Falta de reflexão, amor proprio, d emasiada confiança em nós mesmos. Quando devêramos reparHr as responsabilidades pedindo a colaboração da mulher, dos filhos, de terceiros, procedemos como se fossemos capazes de realizar, a sos, a programa complexo dos nossos deveres familiares e sociais.•. Em muitos· casos as dificuldades nos ensinam a confiar aos que conosco ]Jrham, e aos nossos filhos, trabalho,s. e deveres que os levarão à consciência da http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    26 ABADE -JEAN VlOLLET propria responsabilidad!e, tornando-os mais 'aptos ao esfôrço e à dedicação. Sucede, porém, que a natureza nos priva dos meios necessários ao cumprimen to àe nossa vocação, mesmo no que respeHa à família. Neste caso é forçoso nos sub­ metamos à vontade divina, por menos compreensível que nos pareça. Para o cristão a im])Ossibj]jdade material ou moral de realizar sua vocação é t ida como sacrif:ício imposto pel a presenç a do pecado no mundo, é cuja aceitação o ergue acima de si mesmo, fazendo-o contemplar o sa- • crif:ício redentor, ao qual se une pessoalmente. Assim como os meios humanos de realizar sua vo­ cação foram roubados a Jesús no decurso àe sua vida terrena, do que resultou, praticamente, extraordinaria eficaci a espiritual aos seus sofrimentos c morte, assim havemos de crer que os nossos sacrifícios pessoais e os obstáculos opostos à finalidade de nossa voca ção, familiar embora, nos servirão de restaurar, catolicamen- te, a família modern a. ' As contraditas e oposições que: pÓr vezes, deparam à fam:ília no realizar sua vocação, quando não sej am resultado de má vontade, podem gerar vocações com­ plementares. Assim é que as irmãs de caridade man­ tém o celib ato para a criação de órfãos, e que almas generosas como os missionários da fa m:t1ia levam à prole numerosa o auxílio que lhe é mistér. Para realizar essas vocações ,será, naturalmente, preciso, aceitar todos os sacrifícios e renuncias que ha­ bilitem a levar a outrem os socorros de ordem moral e material de que carecem. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    MOR A.L FAMIL!Al'{27 Em suma, para as almas cristãs, todas as dificul­ dades e contradições podem e devem resolver-se mercê de um esfôrço pessoal a maior perfeição, mercê de con­ formidade com os sacrifícios enviados por Deus, mer­ cê de melhor prática da caridade. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    II BOM HUMOR EMORAL FAMILIAR Quando Jesús en;iava seus discipulos a pregarem a Jlróxima implantação do reinado de Deus, ensinava­ lhes a saudarem, com estas palavras, os moradores das casas em que entravam: "Que a paz esteja nesta ca� sa (1) ". São, justamente, as palavras que nos vêm ao espírito quando nos propomos expor os benefícios do bom humor familiar. O bmn hmno1· traz a paz, conser­ va-a e facilita-a. Afasta discordias, pt·omove reconci­ liações, �ncm·aja o trabalho, leva amparo às tristezas da vida. Numa p.alav1·a, é alavanca poderosa à vida es­ piritual, contanto que se firme nas bases da caridade e de um querer sem treguas. Que é que impede o bom humor? lIuito.s-, infelizmente, são os obstáculos. Alguns nas­ cem das dificuldades da vida material; outros, dos de­ feitos de c�:ná.tet· e do desmando, ou más disposições da alma. (1) S. Mateus, x. 12. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    30 ABADE -JEAN VlOLLET Obstáculos Devidos a causas maiuiaii>-. Que se exija um minün o ele folga e esJórço I>ara conservar-se o bom humo-r, é coisa fora de dúvida. A menos que, por vocação es1>ecial, se haja esposa­ do a p obreza ou votado a vida toda ao sacrifício e à mortificação, é penoso suportar-se a má acomodação habitual, a €scassez de nutrição ou a deficiência de in­ dumentária. Mesmo quando se aceitasse, a rigor, pm·a si certos incômodos ou sofrimentos, vos seriam insu­ portáveis nas pessoas que vos são caras sobretudo se se trata de filhos. Tolera-se uma mortificação passa­ geira porque se espera cesse amanhã, mas a que haja de durar .sem possibilidade de mudança e acaba, pra­ ticamente, p or impedir o des·envolvimento normal da vocação, como aceitá-la sem revolta ou enfado? Acres­ cente-se, ainda, que o chefe - de família que sofre de mal­ estar material tem, não raro, a impressão de não ser responsavel pelos males que afligem os seus e os con­ somem lentamente. E' o caso do chefe de familia que não ·encontra onde alojar os filhos ou cujo g�nho é in­ suficiente para provê-los do necessário. Como permanecer tranquilo quando se vê estiolar, dia a dia, o rosto dantes roseo dos filhos ou quando a exiguidade da acomodação não permite ás crianças os movimentos livres que a idade exige, à mãe a feitura de trabalhos exigidos pela boa ordem do lar e ao I>ai os trabalhos complementares ao seu ganho vrofis­ sional? Dessas fontes profundas de mau humor é respon­ savel a sociedade inteira. Longe ·de nos impacientar­ mos com os que gemem, se lastimam ou se revoltam, devemos considerar obrigação nossa o consa.grarmos o http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    MOR A LF A MI L IA R 31 111ais (1ue pudermos de nosso tem1>o, inteligência e di­ nlwiro para pt·oporcionar-lhes o minimo de confôrto «fll<� permita o desenv-olvimento normal da família. (1) Obstáculos p1·oveniente:s dos caracteres. Outras causas há de mau humor, que provêm das insuficiências ou defeitos de um dos membros da fa­ milia. Que um marido não arque com as suas responsa­ bilidades; que, em vez de trazer ao lar os necessários recursos, os esbanje; que se mostre indiferente às preo­ cupações da mulher e "não a socorra com a sua autori­ dade na obra da educação, será, por certo, responsa­ ,·el pelas impertinência e de.scontentamentos dela. Que a mulher, pm· seu turno, seja negligente, des­ cuidada do lar, ]>Ouco asseada ou descomedida; que não saiba fazer do lar um t·ecanto de repouso e de paz, sôbre ela t·ecairá a responsabilidade dos desvios morais do mat·ido. E', p�r igual, necessário que, em família, cada um se entregue aos fncprgos de sua idade e vocação. A preguiça ou a inação geram, necessáriamente, o fastio. A atividade bem norteada, o sentimento do dever, o esfôrço efetivo, a assiduidade ao trabalho trazem à alma um bom humor natural que facilita, singular· mente, o bom acôt·do mutuo. Tudo está na vida moral. A desordem material acarreta a desordem moral tão bem como a harmonia- (1) . E', pois, dever dos amigos inserever-se numa das nu­ merosas instituiçiies que se destinam a. minorar a sorte da família. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    ABA.DE - JEA.NVIOL LET sa concordância das condições da vida prepara a paz .e a moralidade dos caracteres. O céu e para a outra vida, bem o sabemos. De­ ve-se há concluir que a vida teiTestre seja um inferno? As grandes dores e os constrangimentos constan­ tes não serão, por acaso, um grande perigo para as al­ mas? Jesus não veio, por ventura, para aliviar as mise­ rias morais e materiais da humanidade? Como, então, não se conceber, dêsde logo, a vida em famHia como um esfôrço de cada um }>ara levar aos outros as ale­ grias e satisfações que os hão de ajudar a viver bem, e como conceber um lar feliz" quando os defeitos do homem ou da mulher tornam insuportavel a vida em comum? O lar é a casa de Deus tanto quanto fôr a casa da paz. Deve cada um encontrar aí repouso espiritual mais que corporal. O marido chega cheio de preocupa­ ções com o seu trabalho, a mulher aí está com as res­ ponsabilidades caseiras que lhe p esam nos ombros fran­ zinos, sendo a ela que in cumbe, principalme,nte, o zêlo com os filhos. Esqueça um de partilhar as preocupa­ ções do outro, e a paz não entrará ho lar. Mas se o contrário se dá, eis que por uma obra natural do amor, atribuição de alijeira ou, ao menos, se torna suportavel, depois de haver surgido como in­ vencível pelas fôrças humanas. O viver alguem egoisticamente, pouco se lhe dando das preocupações dos outro.s é a obnubilação da alma; enrija-a, torna-a má e descontente de tudo. Comnugm· com as penas e inquietações alhe�as, abranda-a, escla­ rece-a e a predispõe, mui naturalmente, a sorrir ainda que no meio das lágrimas. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L IAR 33 As nuvens do mau humor provêm, quasi sempre, da l'alt a de compreensão mutua. Ser in compreendida do marido é, para a mulher, a mais dolorosa impres­ s:'io ; e o marido m.&l suportaria que a leviandade tolhes­ se �� mulher o ter parte em suas angústias. Do empenho que cada um puser em compreender o o u tro, resultará a Tedução dos malentendi dos, o afugen­ l amento das inquietações e a volta do bom humor e da confiança. Bases espirituais do bom humor. Até aqui temos pesquisado as causas naturais do hom humor. Bem precário fôra o que .só se assentasse no comodismo da vida ou nas bo as disposições do ca­ ráteT. Bastaria um acidente ma terial, um desgôsto para (!UC êle desaparecesse. O bom humor cristão, o que devemos adquirir, re­ pousa na vida inteTior e no esfôrço moral. Resiste a lodas as provações porque ass-en ta em base inquebran­ lavel : o a,pwr de Deus e do próximo. Êsse tipo de bom humor não é mera qualidade Im­ mana. Alheio ao temperamento e às circunstâncias, é o fruto natural da graça de Deus em nós. O bom humor sobrenatural é uma floração que tem origem no trabalho espiritual, no desin terêsse pessoal, na submissão cristã aos <'mhates da vida. Do bom humor se serve ·o cristão p ara afugen­ tar o }lecado, robustecer a cm·agem moral e preparar­ se à caridade. Bem s ab e que ·•não poderá ''iver em família, sej a ·ela a m ais cristã e unida, se não está apto a su­ portar o entrechoque de caracteres, de interêsses ou http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    3.4 A BA D E - J E .Jit N V I ó L L E T pontos de 'isla. Os deveres e direitos de cada um. dos J;liembro.s da unjdade familiar nem sempre se apre­ sentam meddianamente claros, de sorte que não dêem ensej o a conflito. E', justamente, no meio dessas difi­ culdades múiHplas que o cdstão deve conservar, por . si, pelos ou1ros e por Deus, inalteravel bom humor. · Ausente de to dos os membros da família essa dis� posição ín1ima, os menores dissidios assumem pro­ p orções de conílítos, a união periclita, o amor se es­ tiola. O mau lmmor é contagioso e avassala, facilmen­ te, os mais tranquilos; é belicoso, desdenhante e altivo. Tem raizes no amôr próprio ou no espírito de rebelião. Faz de um argueiro um cavS:leiro; envenena 'udo o que toca e dessora todas as coragens. Tornando os indivíduos arredios, faz que se afas­ tem uns .dos outros, seres destinados por Deus a se estimarem e se compreenderem. O bom humor cristão nos leva a penetrar o co­ ração alheio. Forçando-nos a abandonar nosso egois­ mo inveterado, leva-nos a entender as luta�. os sohi­ mentos e as dores dos ou tros, consolando-os e ca1i­ vando-os. Aligeira os esforços e c'ria, naturalmente, uma atmosfera de caridade e de paz. A união em família compõe-s·e de pequenos ser­ viços mu1uoª que fazem de cada qual o servjdor de todos. A paz só .se mantêm à custa de concessões recí­ procas. E' imoral e perigoso Jnocurar no casamento o meio de aumentar a soma de seus gosos personalíssi­ mos. Tal desígnio só pode gerar decepções e multipli­ car as causas e os ensejos de desgostos. Saber, ao con­ trário, que a união de corações só se estreita com o a ceitar-se de bom rosto todos os sacrifícios impostos http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 35 J>ela vida em comum, _ é robustecer, 1n·eviamente, a von­ tade contra as variações do carácter e do genio. E', ao mesmo tempo, preparar-se para bem educar os filhos, I>ois nada é, em verdade, mais infenso à boa educa­ ção que os altos e baixos de genio c as impertinencias de carác1er. O bom humor e a educação dos fillzos. A criança é uma planta delicada que precisa do sol claro da alegria e da paz para florecer normalmen­ te, inclinando-se franca e generosamente para o bem. Se tem de haver-se com temperamentos nervosos, com pais que se desmandam constantemente e, por ninha­ rias, se entregam a acessos de mau humor, vê-la-emos fecbar-se, aprender a mentir para evitar-lhes os cho­ ques, perder toda � coragem moral, toda a boa von4 tade. O bom humor e o perfeito equilíbrio do carácter obrigam, porém, o menino a valorizar os conselhos ou as ordens que se lhe dão, p ermitindo-lhe à alma que se desabrocbe e confie, sem reservas, nos p ais para os numerosos esforçQs que há-de realizar na formação de sua vontade e moral. Para manter-se o bom humor é mistér pensar-se nos outros m ais que em si mesmo, em Deus mais que nos ouiros. Esta lei seria abusiva se devesse, pratica­ mente, levar �o perpetuo sacrifício e ao acoroçoamento indefinido do egoísmo alheio. Assim fôra se a lei se aplicasse a uma parte� apenas, dos membros da famí­ li a. Se, ao contrário, todos a ela se submetem d e boa • mente, trará, como resultado natural, um equilibrio e urna reciprocidade admiráveis entre os incômodos que uns sofrem e as alegria que de outros procedem. �ste http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    16 A BA D E - J E A N V I O L L E T e.sfôrço mutuo e reciproco de desin terêsse culminará, mui na turalmen te, no progresso de todos, num ei_lten­ dimen to e compreen são mut uos que os dias só h ão de a umen tar. �ão aceitar esta lei é prever <JUe o egoísmo pessoal se des envolverá à vontade ; é tomar por um beco sem saída, contrádo às exigências da união e da p az. Quan­ to mais pensamos em nós, tanto mais tiranizantes nos tornamos, cada vez menos preocupados com o bem comum. A lei do sacrifício deve começar nos albores do casa�nento. Deve entender-se a todos os domínios, até mesmo carnal. A carne é, de 'sí, egoísta e o e#ipôso que lhe não souber impor nenhuma esp ecie de freio ou s acrifício, verá diminuir os impulsos desinteressa­ dos d e sua alma. Menos apto será a êsse desprendi­ mento i nterior que mantém a alm a serena e igual. Deve, ainda, a lei, abranger os filhos como os pais. E' preparar boa soma de desilusões pretender secun­ dar os caprichos da criança, ao em vez de ensiná-la a sacrificar certos desejos, mesmo legítimos,•·ao afeto dos seus e à paz comum. • , Menino m uito mimado é atrabiliário J) elo simples impulso de seu egoísmo exigente. Menino afeito a sa­ c.rifícios, f acilmente avassala os ímpetos eS])Ontâneos de seu carácter. Aliás a afeição da criança p1·opende, naturalmente, a quem mais lhe pede, graças ao vago sentimento de que exigir maior soma de esforços é conduzi-la a um viver mais bélo e harmoni oso. Meni­ no mimado senhoreia as pessôas que o mimam. Mete­ as, literalmente, em escravidão e, 'assim, destrúi todas as alegrias familiares. Educar o bom humor exige um regime especial, http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 3 7 um cn!ra r J>rogressivo nas ,·ias d o sacrifício secundado pelo sentimento, por igual J>rogressivo, do êxito moral. Eis a vantagem de mostrar-se a cada um, sobre­ tudo às crian ças, o benefício resultante dos sacrifício& voluntários. Para pcrsi.s tir no proposito, precisa o ho­ mem de ser encorajado. Os sacrifícios impostos a cada um dos membros da familia devem ser propo:rcionai!s ao desenvolvimento moral. Exigir demais é provocar mau humor ; pedir em escassez é encorajar o egoísmo. A alma cristã sà­ berá •istinguh· êsses matizes delicados e obter do Es­ pü·ito Santo a ciência e prudencia necessárias. O que dissemos d; bom humor entre esposos é exato paTa todos o.s que fazem vida em comum. Que se trate de filhos tornados grandes em relação aos pais, de irmãos e irmãs entre êles, de criados e amos, de supc1·iores e inferiores, deve, sempre, cada um forcejar por submeter-.se às regras do bom humor, tal como as enunciamos. Mais ainda, há-de um cristão conservar seu ])om humor mesmo quando o carácte1· daqueles com qucn convive torne m ais difícil a paz e mais lou­ vaveis seus csforç�s. • A lei do bom hmuor deve .s.er regra entre os mem­ bTos de uma família. Fará <fue êles encaminhem para Deus as almas dos que lhe.<; são caros e cuja conversão e progresso almejam. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    111 A UNIÃO ESPIRITUALE MORAL DOS ESPOSOS O amor que devem intercambiar os esposos vem de D eus e a Deus há-eLe tornar. Elevado à dignidade de sacramento, contribui para a santificação dos que se amam e confere-lhes a graça que os há-de auxiliar a bem cumprirem o encargo de educadores cristãos. No pensamento de D eus o amor deveria .ser fonte perene de felicidade e alegria. Em ver.dade, porém, o pecado lhe faz conhecer não poucas tentações e dores. À obra do amor traz cada um o seu quinhão de egoísmo, .abrindo brecha a .satisfações pessoais. Daí resulta um perigoso esquecimento da prática do altruís­ mo, sem o qual nâo pode haver união duravel e santi­ ficante. Amar cristãmente é, p ois, antes de tudo, santifi­ car-se para só trazer benefícios a o ser amado. E', ao mesmo tempo aspirar à santificação do outro em con­ comitancia com a propria, e tirar das alegrias e tris­ tezas do amor, um meio de perfeição. Esta obra espi­ ri tual e moral só se efetua a custa de permanentes es­ forços, e graças ao rtmparo, ao perdão e ao encoraj a­ mento mutuos. Eis porque o amor que Jesus inspira às almas serve http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    40 A BA DE - J E A N V I O L L E T d e mo dêlo ao q u e os esposos s e devem trocar. Jesús suporta o pecador e o robustece con tr a a J>rÚpria fra­ queza, ao rnesmo temJ>O em que o aconselha e oferece ao Pai os sof:riment.os que o hão de re dimir. Foi a.ssim que S. Paulo pôde comparar o amor entre h omem e mulher ao amor entre o Cristo e a Igreja. (1 ) . Com efeito. assirü como o Cristo amou a Igrej a até se entre­ gar por ela afim de a santificar e glorificar, assim aos esposos cumpre o aceitarem o.s sacrifícios mutuos pro­ cm·ando um san tificar-se pelo outro para a I'ealização da obra de Deus. O desinteresse. Como. porém, atingir o desinteresse pessoal? Em seus primordios o amor é um mixto de abnegação c egoísmo. Qual dessas tendências triunfará, e quem há­ de afirmar que a atração do prazer não sufoque a do sacrifício ? O dar-se coni desinteresse pertence, tão sómeu te, às almas que a isto se prepararam de longa d atk Os que no decorrer de sua mocidade não, cOJlheceram o sacri­ fício ; os que viram satisfeitos os seus CUJ>richos todos, e não se cledkaram nem a irmãos, n em a J>ais, não {ruererão, a menos que os alumie uma graça excepcio­ nal, conhecer do amor conjugal outra coisa Cjue não sej am alegrias e p razeres. Muito ao contrário sucede com os c1ue, quando j ovens, aprenderam a esquecer­ se de si e sacrificar-se por outrem. Com os gosos violentos da carne os esposo� inci- ( 1 ) Todo o passo de S. Paulo convém ler-se. Cf. E las. Y, 21-33. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 41 J>ien te.s correm, por igual, o risco de ver diminuídas as forças espirituais do desinterêsse. Compete-lhes, pois, T efrear os impul.sos sensoriais se ·quiserem conservar c deson· oh: er as forças morais do amor. Nisto serão aj udados à medida que se subme terem üs leis que re­ gem o amor cristão. O divórcio contra a união dos corações. A primeira dessas leis é a que interdita o divorcio. A J>roihiçâo de os homens se divorciarem não obsta ao aumento n atural do amor humano, como crêem os que, não ate;.ntaram nas condições da evolução normal dos sentimentos. Bem ap1·eciada, é es ta intcrdição um obs­ tú culo erguido ao egoísmo c à s paixões caJl azes ·de estiolarem o amor. O amor verdadeiro firma-se, ante.s de tudo, n a fusão das almas. Assim, convém não confundir instinto e amm·. Quantas uniões de corpos há comJ>letamente de­ samparadas dos s entimento de dedicação e responsa­ bilid ade,• alicerces do verda deiro amor ! Quantas outras, entreta nto, feitas .de .um generoso e cluravel devotar-se, ele to do alheias aos JH'azeres carn ais ! Os gosos d a carne podem ser complemento natural do m uluo amor dos esposos; não são, porém, a finali­ dade. A união de corpos só assume o seu significado moral s e a acomp anha a von t ad e de aceitar os nasci­ mentos que pode ge1·ar, tornando-se, -de.starte, instru­ mentos da ação primordial de Deus na obra criadora. Se a lei moral se opõe ao divórcio é, justamente, para livrar os espo s�s, a um tempo, das tentações egoís­ t as da carne, das falhas de carácter e do espirito de independência. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    42 A BA D E - J E A N V I O L L E T Em seus pcimordios, o amor, em que pese às apa­ rências, C. frágil. Se não se acautelam, os espôsos, eu­ golfados nos prazeres do casamento, serão incapazes de aceitar os sacrifjcios impostos à vida em comum. Dei­ xarão que tomem vulto os caprichos pessoais e dia virá em que êsses caprichos hão-de matar o amor. Se os esposos sabem que, em face da ,�ontade di­ vina, lhes é defeso o separarem-se, removerão as ten­ tações, os m alentendidos e procurarão aplainar as con­ tradições praticando, mutuamente, a brandura e a tole­ rância. A idéia de uma separação I!rovável, ao contrário, impele cada um a extremos de ressentimentos e mal­ querenças. A interdição do divórcio obriga, pois, os que se amam a pelejar consigo mesmos, a arrancar de seus corações faltas e impulsos infensos à boa harmonia. O divórcio contra a educação dos filhos. A fidelidade é lei necessária, também, à e:ducação dos filhos. O amor que um ao outro inspiram os espósos tem por mira principal, à face de Deus, a difusão da vida. Devem, assim, sobrepor o futuro material e moral dos fHhos às próprias satisfações. E' bem de ver-se que a criança requer, para se desenvolver normalmente e para grangear confiança, um ambiente de paz e afeição. Desde que seja teste­ munha inerme das desavenças patqnas, sua formação periclita. A alma se lhe retrai dando-lhe ensej o a pro­ pender uáturalmente, à desconfiança e à tristeza. Eis a manifesta inferioridade moral do filho de divorciados. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 38.
    M O RA L F A MI L I A R 43 Santificação mutua. Como hão-de os esposos �rislãos man ter, entre êles, a paz que sustenta o m utuo amor e o esfôrço moral ? Nem sempre é fácil consegui-lo, j á <rue embora o espo­ sa do almeje o bem, nem por isto a sua Jlersonalidade deixa d e s er uma amálgama de qualidades e defeitos. E' preciso escu dar-se na paciência para suportar êstes e melhorar aqueles, o que só a prática do Evangelho dá, ensinando-nos a amar mesmo quando a pessoa a quem devemos amor sej a, para nós, motivo de penas e pesares. E', podemos dizê-I�. a I>artir do dia em que os es­ posos descobrem seus defeito.s mutuos que têm início, p ara êles, os meritos do amôr. Pouco nos custa o amar­ m os um sêr p erfei to. Digno de louvor é continuarmos a a mar uma pessoa cujos defeitos· nos fazem, todos os dias, sofrer. Se os esposos não pedem à paciência e à miseri­ córd i a o amparo ele que necessitam para se tolerar; se o amor não se deha levar do desejo da perfeição, b a­ seando-se' no amor de D eu s, bem cedo a vida em co­ mum se tornará ,difjcil e, mais adiante, intolerável talvez. Só a humildade e o amor de Deus os levarão a reconhecer suas fal has redprocas, corrigin do-se e esti­ mulando-se mutuamente. Embora os esposos propcndam aos mesmos esfor­ ços, sucede, não nuo, que só um dêles permanece fiel às exigências da vida moral. Neste caso, qual deve ser a sua atitude ? Terá, acaso, o direi to de permitir cres­ ç am nele os sentimen tos d e indiferentismo e rancor ? Seria isto supor qu� os peca dos alheios autorizam os próprios. A verdade é que o espôso cristão, quaisquer que http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    4 4 .AB A D E - J E A N V l O L L E T sejam os defeitos de seu cànj uge, há-de man ter em domi nio as ten tações que o empel em ao údio e à indi­ ferença. A união realiz ada c!Ían te de Deus subsiste, se­ jam quais forem os desfalecimentos e mesmo que as drcuns.tâncias tornem neces sári a a separação <le corpos. Orar pelo culpado e desej a r seu arrependimento e sal­ Yação é dever que se t:onfunde com o de rogar pelo.s. pecadores e o de oferecer por êles, sofrimentos e penas. O amor acarreta o respeito mutuo e a liberdade de consciência. Assim , a influência que os esposos podem, legitimamente, exercer um sobre o ouh·o, não deverá nunca torná-los esqucddos dos �lireitos e JH'Opósitos da consciência de seu companheiro. . A influência mutua, só é, todavia, desej úvel quando o.s conjuges com ungam o m esmo ideal moral c religioso. Conclue-se que, faltando o ideal religioso comum, não devem os moços esposar pessàa cuj a consciência não seja reta ou não partilhe de suas preocupações morais e familiares. No que toca a esposos, o que sucederá, por cxem]>lo se um dêles quisesse filhos, e o outro, não? • À mulher lembre sem]>re que , o risco de perder a liberdade de sua consciência moral a ameaça mui de }>erto porque ela é, facilmen te, tentada a entregar-se, de corpo e alma, à vontade do ser amado. Lembre-lhe que a ninguém p ermite Deus, embora sob pretextos de amor, o abandono da.s responsabilidades de sua cons­ ciência. Requisito essencial à santificação é a confiança mutua. E' ela que permite as confidên cias e os proje tos, trazendo às almas o encorajament� e o apóio dé <1ue carecem. Desgraçadamente essa confiança é, a miude, impossivel a conta de êrros antigos ou recentes que não http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RAL F A M I L I A R 45 se ousam confessar e (jUe, não raro, seriam de molde a quebrar o amor ou a lançar, em definitivo, a turva­ ção uma alma inocente. Confidencias há, porém, que, impossíveis nas primícias da vida de casado, podem, com o andar do tempo, ser feitas graças à intimidade das almas e ao melhor conhecimento da fraqueza hu­ mana; graças, principalmente, u um espírito cristão assaz forte e generoso para compreender e perdoar. Referimo-nos ao ideal a que devem tender os verda­ deiros cristãos. Bem conhecemos todas as dificuldades que, por vezes, se opõem a tais votos. Nossos conse­ lhos só vão até onde) a prática das virtudes. cristãs permite que as almas lhes suportem as dolorosas con­ sequências. Defeilo.<; mutuos. A vida em comum faz, naturalmente, cada espôso penetrar as qualidade.s e os senões do outro, pondo à mostra os mais secretos movimentos de sua consciên­ cia moral>. Essa interpenetração é, por certo, obra de Deus, e impele os, esposos a se corrigh·em e permuta­ rem benefícios. O mesmo não se dá com a paixão. A J>aixão é, voluntariamente, cega aos defeitos alheios. Rebelde a qualquer responsabilidade, é surda a tudo o que lhe }JOssa impecer os anseios egoístas e os desejos de gôso. O amor cristão, ao contrário, dis}>Õe-se a conhecer os méritos e os deméritos da pcssôa amada porque al­ meja colaborar em seu bem. Sem ferir, nem condenar quem julga, tornar-se-lhe, com razão, fonte de luz e e melhoria moral. A união periclita quando o amor-proprio ou a au- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    46 A BAD E - J E A N V [ O L L E T sência de vida cristã impedem à alma a posse de si mesma e, por conseguênda, o reconhecimento e a con­ fissão dos próprios defeitos. Por menos que lhes apon­ temos, jrrHa-se e dá mostras de aversões que podem , culminar no divórcio e na separação. Podemos, assim, concluir que a humildade é um dos mais poderosos auxiliares do amor e da l>oa harmonia conjug.al. A dedicação. Os esposos devem ter em mente que as fontes da verdadeira felicidade estão fóra do " eu''. Falsos go.sos que deixam no fundo da alma o travor ·do fastio, eis tudo o que o egoista pode conhecer. As verdadeiras alegrias 1·epousam no devotamento e na abnegação. Nossa vida desabrocha à proporção que saímos de nós mesmos para dedicar-nos aos outros. E' norma rigoro­ samente exata para os esposos, e os que quiserem ter um pouco de felici dade terrestre, deverão esquecer-se de si em prol dos outros ; deverão fazê-lo cristãmente e só procurar as alegrias que depuram e robtLstecem a vontade. A família sofre cada vez que um dos eS})OSOS se lança, egoisticamente, em busca de prazeres pessoais. Tornar-se-há - é fatal - tirâno dominador e orgu­ lhoso e, por pouco que o seu egoísmo reflita nos outros (o que é quasi certo acontecer já que os defeitos con­ tagiam mais que as virtudes) a vida em família se tornará incomportavel. O fito precípuo dos esposos peve, pois, ser a re­ pressão das mil exigências do egoísmo, para substituí­ las pelos mil propósitos da dedicação. E' o único meio de �liviar os sofrimentos da vida tornando-os supor- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 47 táveis. O egoísmo mul tiplica as aflições de todos; a dedicação as r�duz ao mínimo. Sair de si é labor lento e difícil. Requerem-se anos, mas, em suma, é por êle que se realiza a maior soma de ventura tle que é suscetivel a vida terrena. :Este esfôrço exige íntima união a Jesús Cristo e grande amparo da vontade divina. E' me1·cê de uma vida religiosa profunda que os esposos cristãos adquirem as virtudes que hão-de pre­ sidir a suas uniões; graças a ela se auxiliarão a supor­ tar os sofrimentos que ·acompanham .a vida terrena. A paz, a serenidade, a fôrça necessárias ao bom termo da tarefa quotidiana, como conservá-las se não nos unirmos a Jesús Cristo e não nos esforçamos por imitá-lo, suportando os }lesares da vida e os defeitos alheios como êle mesmo suportou as dores de sua Paixão e os pecados do mundo? http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    IV O MAGNO DEVER(1) Da amizade. Antes de se amarem pelos corpos, devem os espo­ sos amar-se pelo coração e pela vontade. Entra, assim, seu amor n a categoria mais geral da amizade cristã. Se os amigos se apoiam um ao outro na prática do hem, estão pondo o bom entendimento mutuo a salvo de atos que possam prejudicá-lo. O amigo cristão é, assim, o sustentáculo de nossa vida moral. Está sempre, a nosso lado para dizer­ nos as verdades necessárias e dar-nos -encoraj amen­ tos úteis. Traz-nos mna alegria e uma paz especial que nos aliviam o fardo dos deveres e nos robuste cem ·contra as tentações. Escudam-nos contra nós mes­ mos e contra as vkissitudes da vida, impelindo-nos ao cumprimento do bem. (1) Haverá quem nos queira acusar por jmpormos aos es­ posos uma lei conjugal por demais severa. Lembt·e-lhe que nos dirigimos aos cristâ<>s que deliberam santificar-se. Saiba, igual­ mente,_ q11e a moral exige sejam os :princfpios apresentados com t<>do o seu rigor, cumprindo a caila qual o devei' de ac11egar-se a êl&s. à custa de lutas e es�orços quotidianos. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    50 A BA D E - J E A N V I O L L E T Faz-se, habitualmente, distinção entre amor e ami­ zade, reservando-se aquele para os esposos e esta para duas almas unidas por um mesmo senHmento de afei­ ção. Será exata essa dis tinçã o ? Não se tiJOderá, com todo o rigor, dizer que há amor sempre que houver amizade, e amizade, sempre que houver amor ? O amor é o sentimento; a amizade o estado que dêsse senti­ mento resulta. Pode um amigo não ter amor e um espôso não ter amizade ? O sentimento que inspiram os pais aos filhos e os filhos aos pais, cham a-se amôr. Pois o estado de coração qte vos leva a desejar o bem do próximo, é amor também. Será conveniente, assim, para maior clareza do as­ sunto, que unamos as duas palavras muito embora tenhamos de especificar os deveres Jlarticulares que acornpanbam o amor conjugal. O amor conj ugal, antes de ser uma união de corpos é uma união de corações e vontades, e, nisto, se con­ funde com a amizade. O desejo da união dos corpos que ai interfere, dá relêvo à finalidade principal que, com o casamento, se propõem o hÓmem e a mulher, e vem a ser, a fundação de uma família. Este cunho do amor conjugal obriga-nos a alguns reparos. O primeiro é que toda amizade, fora dos limi­ tes do casamento, é forçada a coibir os desejos de inti­ midade corporal Esse.s desejos podem, com facili dade, nascer nos .adolescentes que, inexpertos, não sabem estremar os desejos do cOf})O e os do coração. Dai as amizades perigosas que nascem de admiração ou en� tusiasmo irrefletidos e podem culminar em quedas la­ mentaveis. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 5 1 E isto não se verifica, somente, na amizade entre jovens, senão, também, na amizade entre adultos de sexo diferente. Se não se acautelarem, as amizades mais puras podem degenerar em tentações e provocar si tuações desastrosas de que as vítimas só se J>oderão libertar à custa . de lutas arduas e dolorosas. A amizade entre I>essoas de sexo diferente exige, porisso, atento domínio sôbre os corpos. Há-se: sem­ pre, fazer-se acompanhar de um respeito que reprima qualquer familiaridade sensível. O amor-ca�amento. O mesmo não sucede com o amor conjugal. Con­ fundem-se a atração dos corpos e a dos corações. I O homem e a mulher uniram-se para ter filhos. Amam-se para corresponder a um ansêio da natureza. Suas vocações não só justificam mas sugerem as inti­ midades que possibilitam a obra criadora de Deus. Eis porque ninguém deve entregar-se aos liames do casmnento sem ter son dado seu íntimo para asse­ gurar-se da reali<!ad� de sua vocação. O amor que pre­ tende encerrar-se em si mesmo e recusar o filho, é fra­ queza ou egoísmo, jamais uma vocação. Deus não o assiste. Entra na categoria das falsas amizades. Daí a conveniência de conhecer, previamente, as disposições morais do futuro cônj uge, depois de estar bem certo das suas. Este cuidado com1>ete às. moças tanto quanto aos moços. Devem, ambos, estar apare­ lhados a sacrificar um sentimento ou atrativo que haj a de contrariar a vôntade de Deus e as exigências da moral. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    5.2 .A BA DE - J E A N V ! O L L E 1' Dever conjllgal. P-o de-se dizer que a umao dos corpos é o princi­ pal �scopo do casamen to, :partind9-se do princípio de que aos esposos cumpre, an1es de tudo, o dever de se consagrar à fundação de uma f.amilia. Nilo nos esque­ çamos de que o amor mutuo e a educação dos fil11os implicam união moral e espirHual dos pais. Não podendo, entretanto, os filhos nascer sem a união corporal, torna-se esta elemento do amor con­ jugal e deve reger e dirigir as relações sexuais. Os fins secundários, ajuda e amp aro mutuos, remédio à con­ cupiscência, não deixam, p oréni', de subsistir. O amor �ntre esposos, a p az que entre eles devem reinar, são fatores necessários à vida conjugal, e a boa harmonia não raro precisa da união dos corpos, o que não tolhe­ rá aos esposos o am}lliarem e robustecerem a união moral e espiritual à cust a da união corporal e cuj o sacrifício é, muitas vezes, imposto JlOr imperativos morais irreprimíveis. Os filhos. Fundar uma família é, pois, o primeiro dever dos esposos, dever que comporta riscos e exige penas e trabalhos, sendo, ao mesmo tempo, fonte de alegrias. E', assim, perigoso multiplicar o número dos filhos. Perigoso é, também, ter de guiá-los e dirigi-los até a idade adulta. Suprimir, porém, os perigos que acompa nham a -vi da familiar, seria contorcer as leis da vida e da mo­ ral. O crente os domina pela fé. Sabe que D eus vela, com paternal solicitude, por todos quantos põem o de� http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 5 3 ver acima das inquietações e dos egoismos d a vida Cjuotidiana. E' por isto que a família cristã não receia o nú­ mero de filhos. Aludindo a número de filhos, não nos pretendemos coloca:t," no terreno da natalidade, impon­ do o.s argumentos p atrioticos e sociais que militam em favor de numerosa prole, se bem não seja permitido a um cristão o desinteressar-se pelas consequências da p1·ocriação ! Cumpre-lhe desenvolver a família para que, por meio dos fHhos, possa êle ser, em muitos pontos, útil á sociedade de que faz parte integrante. O dever social é um só J>ara todos os ' cidadãos, quaisquer que sej am os seus credos religiosos. Mas ao dever social se super­ põe, para o cristão, o de realizar, plenamente, sua vo­ cação religiosa, a qual lhe impõe o emprêgo de suas fôrças físicas e morais na educação do maior número possível de cristãos. A vocação do casamento exige que os esposos se esforcem por aumentar o número de filhos porque o poderio triadm·, a autoridade e prerrogativas que o acompanham, o 11ra�er e .o convicção da paternidade, Deus não lhos conferiu para que dêles se sirvam de modo egoista e tacanho. A verdadeira -vocação há-de empenl�ar-se em ir até o fim dela mesma. Um padre que se satisfizesse com o limitar ao mjnimo os seus deveres sacerdotais e não estivesse con.stantemente atento no grangear o maior número possível de almas para o reino de D eus, se1·ia um J>a dre ntedíocre e bem pouco digno das graças recebidas. Por igual modÔ, os esposos que r�stringissem o número de filhos por falta de confiança em Deus, te­ merosos de canseiras e vreocupações, não satisfariam http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    5 4 AB A D E - J E A N V I O L L E T à vo nta de de Deus em to do o seu àmbHo, nem merece­ ri am a s graças reservadas às almas generosas. Quando Deus nos infunde energias e p uj anças na­ turais não é p ara limi tarmos-Lhes .os efeitos pela }>Usi­ ]animidade. Com mais forte razão, quando nos con­ fere graças sobre-naturais, como sucede no sacramento do matrimônio. Os talentos recebidos devem frutificar sob pena de serm os declarados in dignos e maus servos. DQ continência. Não diremos que não sej a, por vezes, legítima, a de­ limitação dos filhos. E' preciso, porém, pesar-lhe as ra­ zões. Qualquer restrição que rev.ele egoísmo, desejo d e go.sar a vida, medo ao trabalho, é contraria à vontade divina. Limitação ditada pelo bem moral e físico dos esposos e dos filhos existentes, é, ao contrário, legítima e pode aumen tar as graças de Deus em vez de as dimi­ nuir, contanto que essa limitação .se faça acompanhar dos esforços de tontinência exigidos pela lei moral. Po de, com efeito, suceder que a saúde, l.:t insufi­ ciência de recursos, os estorvos fi l:!Oa educação dos filhos obriguem os esposos a contentar-se com restrito número de herdeiros. Neste caso deverão, de comum acôrdo, impor-se o doloroso esfôrço da continência. Bem sei que uma aberração moral encontradiça gerou o hábi to de impor sómente à mulher todas as restri­ ções e sofrimentos que acarreta a disciplina sexual. A ela corre o dever de aceitar numerosas concepções e de subordinar-se às exigências sexuais do marido ; a êste a lib erdade de agir como bem lhe quadre. Como S{: a lei moral coagisse a mulher a todos os sacrifícios e autorizasse o homem a todos os gosos da carne . http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 5 5 Não h á duas morais sexuais. Há uma só. O s sacri­ fícios e sofrimentos da mulher, hão-de compensá-los os esforços e as lutas do homem para conservar-se abs­ tinente. O exame desapaixonado da lei natural obriga­ nos a concluir assim. Para a mulher o ato sexual compreende duas fases que se completam. Uma, seguida, como para o homem, d e alegrias e prazeres, é a da união sexual. A outra composta de longo.s meses de gravidez, ultima-se com as dôres do parto. Esta lei que ao mesmo ato sexual traz prazer e sofrimento, não toca só à mulher? E o homem não deve, acaso, partilhar com a espôsa a do­ lorosa fase da vida sexual ? E pode-se lá aceitar haja Deus permitido que o verdadeiro amor imponha sacri­ fícios só a um dos cônjuges? Isto não pode ser assim e, de fato, não é. Pelo que dizem os médicos a saúde da mulher e a do filho exigem repouso e calma sexuais, ao menos durante o.s últimos meses de gravidez e no período de amamentação, visto que o engravidecer de novo poria em risco • a saúde do })rimeho filho temporãmente, desmamado, e a do segundo, temporâmente concebido. • • As disposições físicas e, por consequência, as dis- posições morais do filho serão tanto melhores se êle se desenvolver sem que o seu organismo em formação sofra os embates das tensões nervosas que acompa­ nham, necessariamente, o ato sexual. O bem do filho e o da mulher exigem, assim, do homem um período mais ou menos longo de abstinência. :Esses sacrifícios não são só as leis da concepção que os impõem. Po­ dem decorrer de quéstões de saúde, de dificuldades fi­ nanceiras, de motjyos reUgiosos. Não é impossível dar­ se que as razões sejam de tal sorte imperiosas que http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    5 6 AB A D E - J E A N V I O L L E T levem a contiuênda a prolongar-se indefinidamente sob pena de lJÔr em risco, por exemplo, a vida de uma espôsa incidindo 1mma como que monstruosidade mo� ral mui semelhante a um crime. Os sacrifícios que à mulher Ülll)Õe a concepção compensam-se, no homem, pela pungente aceitação de uma abstinencia mais ou menos longa. A lei que rege a vida sensorial é análoga, quer a consideremos num sexo, quer noutro. Não queremos aqui esmiuçar onde começa o pe­ cado e onde acaba, o que é lícito e o que c defeso. Diri­ gimo-nos a cdstãos que procuram aperfeiçoar-se, indi� cando-lhes a direção conveniente para (IUC alcancem a maior llerfeição possível no casamento. Assim, pois, o amor que nos leva a amar o próxi­ mo mais que nós mesmos, deve, normalmente, culmi­ nar, no homem, em esforços de continência para hene� fício da mulher e dos filhos. Bem sei que quantos ignoram a luta e o sacrifício propendem a declarar que a continência está acima das fôrças humanas. A ser isto exato, cumprir-nos-ia concluir que todo homem inibido de ter rela'!;ões com sua mulher por motivos de saúqe pu por causa de uma longa separação, tem o direito de sàtisfazer as exigências de seus apetites, o que seria justificar todas as fraquezas e pretender que o homem, ao contrário da mulher, é um misero animal que não pode sujeitar­ se nem à lei do dever nem aos imperativos da fideli­ dade ao amor. Tal conclusão injuria o homem e con­ trai·ia a moral. A continencia é possível, contanto que o homem evite os ensejos perigosos e se acautele, o mais possiv el, contra as imagens l'ascivas que lhe pos­ sam povoar a imaginação. Ao relaxamento habitual da vontade é que se há de atribuir a excessiva fraqueza http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 5 7 do homem neste ponto. Temos o direito d e afirmar a possibilidade da continência tanto mais quanto conhe­ cemos casais j ovens, cheios de vigor, que aceitam de comum acôrdo, e a prazo não breve, o penoso fardo. A paga dêsses sacrifícios é a mocidade e a fres­ cura de seu amor quando, em tantos outros casos, os desmandos das satisfações do corpo de-pressa arrui­ naram as delicadezas do coração e fatigaram as ener­ gias do organismo. Em verdade nada enfraquece e corrói tanto as fôrças de resistência da vontade, como o convencer-se da inutilidade dos esforços ; nada, ao contrário, que melhor se acautele contra as tentações sedutoras que a fé na possibilidade e n a necessidade da vitória. Se atentarmos em q ue cé1·ebros j ovens pennane­ ceram, durante longos anos, na idade em que se fir­ mam as convicções, na i déi a de que a castidade dos moços e a continência dos e.sposos eram coi sas impos­ síveis, não nos admira o fracasso de tantos homens em face das obrigações da lei conjugal. O verdadeiro amor pressupõe e implica inúmeros sacrifíchls corporais. O respeito à mulher, a obrigação de nad a fazer que l�e p ossa prej u dicar a saúde, a edu­ cação dos filhos impõem numerosas restrições a pai­ xão, 1·estrições fatais ao amor se êste houvesse de ter a carne p or único apôio. Ao con trário, porém, como o prova a observação atenta da obra de Deus, se o a mor vicej a a lravez dos sacrifícios pessoais e das lutas con1Ta os in stintos egoís­ tas; se se firma nas disposições ínthnas do coração e da vontade, crescerá e se fm·tifica1·á com as energias ( morais e espirituais d os esposos. Há um sem número de preocupações morais que refrigeram a carne e lhe aquietam os apetites. O homem <(U e am a verdadeira- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    58 A BA D E - J E A N V I O L L E T menie, encontra em seu amor o com «JUC refrear seus desej os. E' fora de dúvi da que os a}JelHes inferiores são tanto mais 'iolentos quanto o coração está mais vasio. A carne e mais exigente quando a alma é mais egoista. Atira-se facilmente, às excitações sensoriais quando sente precisão de esquecer a propria deficiên­ cia espiritu al. Ao contrário, a .serenidade interior, a união dos corações, as alegrias d a paternidade, o de­ sej o de progresso moral são outros tantos potenciais que acalm am as violências da carne e facili tam os sa­ crifícios im]JOstos pela continencia. Virtudes subsi.diárias da continência. Não ha virtude natural ou sobrenatural cuja prá­ tica não contribua para acalmar os sentidos. Particulat·­ mente eficaz contra as tentações da carne é a humil­ d ade. Há íntima ligação entre espírito e carne, e o m·­ gulho daquele facilita e prepara a revolta desta. Quem quem dominar o corpo há-de começar pela sujeição do espírito à humildade. Se a fé e a esperança são, ]JQr igual, auxiliares preciosos C{Ue nos fazem vêr o reino futuro e nos dão as graças necessárias para alcançá-lo, o amor de Deus é a arma suprema que possibilita a vitória definitiva. Aí está porque ao.s jovens esposos cabe um grande es­ fôrço afim de que as alegrias do amor humano não lhes obscureçam as luzes do am or divino, e os prazeres car- . nais não lhes tragam à alma religiosa a letargia e o marasmo. Os eSJ>osos que procurarem unir suas almas auxmando-se, mutuamente a bem servirem a Deus se­ rão, mais facilmente, senhores de seus desejos. Se in­ tervém um grande amor ao próximo e a preferencia http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 5 9 p elo bem moral do cônjuge e dos filhos, conseguirão . estabelecer neles o domínio do espírito sôbre o corpo, do amor espiritual sôbre a p aixão da carne. Da confiança em Deus. Os que se decidiram a combater o bom combate, llão-de encarar os inúmeros obstáculos opostos à fun­ dação de uma família numerosa, ou os sacrifícios que a lei conj ugal impõe. De duas espécies são êsses obs­ táculos : uns de ordem moral, outros de ordem mate­ I'ial e social. A socieda de contemporânea criou privilégios es­ candalosos para o celibatario e para a família neo­ maltusiana . Contra os hábitos e a legislação, os defen­ sores da família t erão de empenhar-se em luta labo­ riosas . Embora o movimento pro-familiar que se es­ boça de tempos a esta parte, não seja especificamente I'eligioso, é dever do cristão auxiliá-lo económica e en­ tu siasticamente. Tudo o que favoreça o salario fami­ liar comó sej am as caixas de compensação ; tudo o que facilite o alojam�ntQ sa dio e saudável da família, e, de modo geral, o espirito de previdência, deveria me­ re cer-lhe solíci ta atenção. O não fornecer a cada um os m eios práticos e materiais necessários ao bom desem­ l)enho de seu d ever, seria pl'égar uma moral acima das fôrças humanas e atentar contra Deus. Se se quer que os esposos tenham num erosa prole, é forçoso subminis­ trar-lhes os meios de man ter essa famíli a, de a acomo­ dar, de a alimentar e de dar a ca da filho situação con- veniente. Os mais graves ünp ecHhos são os de ordem espi­ I'iiual. Originam-se do egoísmo e do orgulho. Quantas http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    60 A BA D E - J E A N V l O L L E T moças há que eütam filhos, temeros as de .se }Ui v arem, longos meses, das distrações a que es tão afeitas ou por não quererem }J erder uma }Jan:e!a, si•Juer, de sua li­ berdade e encan tos ! Q uantos homens têm medo d as f adigas e trabalhos n ecessaríos à man utenção de família numerosa, e pre­ tendem viver Jmm bem-estar que lhes seria forçoso per­ der se tivessem de criar muitos filhos ! Queremos reter os prazeres da vida sem aceitar-lhe os onus, dando, assim, deliberadamente, de ombros às exigências da oJlloral. Pt·etender pai'a os filhos o mesmo confôrto ma teria] de que usufruímos pessoalmen te, falseia, por igual, a vida familiar. Bem longe de fazerem do filho um ho­ mem corajoso e um cristão confiante, capaz de lutar bravamente por cumpl'ir sua 1n·opria vocação, os pais. o afeiçoam pelo modêlo dos vivedores e egoístas. A perspectiva de uma vida sem esforços dessora as ener· gias do moço quando uma educação mais viril teria feito dêle um homem ativo, útil aos seus semelhantes e desejoso de ser, também êle, um chefe de' família numero sa. A previdência é virtude contanto que não supTi­ mamos a fé em Deus. A sabedoria consiste em crêr que Deus reserva bênçãos e bens a os que cumprem coraj osa c integralmente o seu dever em conformidade com a justiça do reino . divino. Pal'ece que a sociedade moderna, firmada no es­ pírito <le previdência, conhece uma tentação que os antigos i gnoravam, qual sej a a de confiar escassamente � e1.t Deus, temendo os perigos que acarreta o desenvol- vjmento da vida. Mais v ale a sabedoria de Deus que a dos h omens, e aquele cuj a família receberá a m aim· http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A MI L I A R 6 1 som a de bênçãos será o que, depois de haver lutado co­ mo lhe cumpria, confiar na paternidade soberana de Deus. Que os esposos cristãos confiem, pois em Quem é o ou tor de toda vida; que dispen<lam todos os esfor­ ços exigidos pela lei moral; que alicercem seus atos com as orações e os sacran1entos, c Deus estará com êles e com seus filhos, de geração em geração. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    v DA EDUCAÇÃO DOSFILHOS A hoa educação dos filhos é a principal obra da família. Se o homem se entusiasma com o ser o instru­ mento da Providência criadora, mais se há-de entusias­ mar com a colaboração que Deus lhe J>ediu na feitura da alma e da consciência dos filhos. A obra da educação .se avantaj a à da procriação tanto quanto a vida da alma se avantaj a à do corpo. A autoridade que Deu s confiou aos pais é poderio semelhante ao de que se serve a Providência para con­ duzir os h omens à vida eterna. Pre}'Jostos de Deus, os pais são encarregados de di­ rigir, de robusteçer � aclarar a consciência moral e a ansia de perfeição dos filhos. De tentores dos poderes nece.ssários p ara fazer dêles homens e cristãos, cumpre­ lhes o amp ará-los na lut a contra êles mesmos e contra todas as suges tões do mal, ensinando-os a amarem o bem acima de tudo e a se prepararem llara a vida eterna não se servindo dos bens dêste mundo além do necess ário à sua vocação e aplicando-se a realizar, em tudo, o amor de Deus e o elo próximo. Ponhamos em p " aralelo o poder de D eus e dos pais, e m ais claramente veremos com o êste é delegação da­ quele. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
  • 57.
    64 A BA D E - J E A N V I O L L E 'T A c1·iação da humaJüdade foi ato esJJOntâneo da vontade clh·ina. E' por de.sejo e livre escolha dos pais <JUe os filhos nascem. Todo-poderoso, Deus pode con­ ceder tudo ou recusar tudo. O poder dos pais p ermite· lhes distribuir ao fj]ho alegrias e ]Jenas, conforme bem lhes qua dre. Só a vontade divina limHa-lbes a auto­ ridade. Conservando, embora, a liberdade da consciência lmmana, a Providência traz a cada um o .socorro de que precisa para viver :bem. O mesmo farão os pais auxi· liando os filhos a bem servirem-se dos dons de Deus e facilitando-lhes, pela autoridade, o caminho da per­ feição moral. Das qualidades do educador. Quais são as qualidades do educador para que pos­ sa levar a bom termo a bela missão que Deus lhe con­ fiou? E'-lhe forçoso conhecer bem o ideal a atingir, e ter por êsse ideal um grande amor. Como burilar um homem perfeito, um verdadeiro cristão, se nào prefi­ gm·armos em nossa mente o respectivo retrato e ima­ gem ? Não pode a educação ficar entregue às circunstân­ cias. Terá de apoiar-se em princípios rígidos que orien­ tem os esforços do educador Jlelo meandro d a diversi­ dade de cal'acteres e temperamentos. O educador im­ previdente que se satisfaz com as exigências do mo­ mento não saberia distinguir entre as paixões reprimi­ veis e as que hão-de, ao contrário, ser encorajadas e desenvolvidas. O educador deve ter � domínio de si mes­ mo e de suas impressões. Chamado a comandar, não poderá dar mostras de fraqueza nem se deixar avassa- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 65 lar pela propria sensibilidade. Jamais terá sôbre a criança o necessário l>re.stígio se lhe não soube inspirar temor e respeito. Não bastam, porém, o temor c o respei to. E' preciso f«zer que ·brote na alma do menino o amor (JUe traz a confiança e impede a dissimulação. O verdadeiro problema consiste, pois, em possuir o maior número possível de qualidades morais e em fundí-las na vontade e consciência do filho. Tanto me­ lhor será a educação quanto mais o educador amar as virtudes que quer fazer amadas. Quem não tem fôr­ ça de vontade não saberia inspirá-la ; quem, não esti­ m a a franqueza, não poderia formar consciências re­ tas. A inteligência e a vontade do filho acomodam-se, naturalmente, ao meio. O primeiro empenho do educa­ dm· se1·á, destarte, o de constituir, a principio, um am­ biente em que us impressões recebidas se ajustem ao ideal moral; depois, o de levar, progressivamente o fi­ lho ao julgamento de si mesmo afim de estremar o bem e o mal que nêle existam. Não é cômodo o encargo de esclai'ecer' uma consciência infantil, J>Orque a criança se inclina, mui natmalmente, a justificar os átos que lhe convén1 e a repelir, como improprios, os que lhe repu­ gnam ao feitio. O papel do educador consiste em quebrar, de al­ gum modo, o pendôr que tem , natura]men te, a criança, d(; confundir o l>em com o seu prazet· c o nwl com a sua aflição. Trata-se de levá-lo ao dominio do prazer e da dô:r até não mais os encantr como tais e, sim, do ponto de ,·]sta do bem ou do m al <[Ue dêles possam resultar. Fazer amar o hem mais do que si mesmo, tal é o escopo sup1·emo do educador. Eis porque a autoridade http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    66 A BA D E - J E A N V l O L L E T do homem perfeilo se exerce , de algum m odo, p or si mesma, sem <JUe lhe se,ja necess.ário intervir, frequen­ temente, })ara punir e recompen sar. Fala, aconselha e age. O filho é, naturalmente, levado a imitá-lo. Graças a esta influên cia moral que se infiltra nos pormen ores da vida, a consciênd a se ol'ienta, sem es­ fôrço, para a perfeição, e o filho chega, insensh:elnien­ te, a de tes tar o que os pais detestam, a amar o que êles amam. Amparado pelas observações e conselhos de seus e ducadores, surpreende, em si , a.s ten dências contrárias ao ideal professa do por seus guias c .s e esforça por corrigir-se. Odiando a alm a para salvá-la, colabora no trabalho de espurgo de seus defeitos e lutas pela ob­ tenção das qualidades que lhe faltam . Vendo o quanto seu egoísmo é infenso à bondade dos que o rodeiam ; o quanto suas co]eras colidem com a brandura dêles, e suas dissimulações e mentiras com a franqueza, acabm·á por detestar êsses defeitos e curvar-se-há às exigências dos que deliberaram corrigi-lo. Muito às avessas se dará se ·O meio incorrer nos de­ feitos mesmos que se exprobam ao filho. C«nno com­ preender alguém que a men tira é um mal se é testemu­ nha das mentiras dos pais? Con; · o resistirmos aos im­ J>Ulsos quando somos as vítimas dos impulsos dos nos­ .s os ? Como amar a brandura tendo sob os olhos a violência ? Há natural correspondencia entre os átos exteriores e as disposições íntimas da alma. A vida exterior é, como que, . o símbolo da vida in terior. A criança imita os atos CJUC presencia; sua alma também. A e ducação implicando o apeHeiço amento do edu­ cador, será forçoso concluir que só os perfeitos de,·am intervir na educação ? Praticamente, seria isto interdi tar http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 67 ü .quase totalidade dos hoUicns o direito de educar os filhos. Com efeito, os educadores imperfeitos hão-d.e su­ prir as imperfeições práticas por um esforçar- se cons­ tante pela perfeição. Testemunha dêstc esfôrço, o fi­ lho compreenderá que, se a pcd'eição não é dêste mundo, devem todos se esforçar por consegui-la. E', pois, inutil e perigoso mesmo, iludir o filho fazendo-lhe c1·êr que nunca há em nós o que devamos reprovar. Forçoso é reconhecermos nossas propri as fraquezas, mostrando, ao mesmo tempo, ao filho que as detesta­ mos e que pelejamos por corrigi-las. Desta sorte o es­ fôrço aparece como lei universal que atinge grandes e pequenos e à qual todos se hão-de submeter. Não se esquecerá o educador que o entendimento do menino é cada vez m ais penetrante e que dia virá em que há- de atinar com os defeitos dos grandes. Des­ prevenido para essa perigosa descoberta, sua alma se escandalizará, abalando-lhe, talvez, profunda c defin i­ tivamente, a fé c a confi ança. A infânâa. A educação deve ·começar com a infància. Bem sei que a sensibilidade sup orta de má sombra os gritos c as zangas do bebê e provoca a tentação grav e de con­ solar ou ceder quando fora mistér resistir. Acautelem-se os pais e aprendam a dominar suas i mpressões se quise rem ptk a salvo sua autoridade futura e impor ao filho um rcgimen que o arrancará ao caUveiro do capricho. Quanto mais concessões se fiz�r a o fHho, tan to. mais e:-; igente se fará êle. E' pre­ llarar-se não J>oucas difi culdad es e abdicações o não tel' a coragem de im}>Or desde o prin cipjo, os regula- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    68 ABAD E- J E A N V I O L L E T menlos que tornam maleavel o corp o, ajeitando-o aos hábitos n ecessádos. Esta primeira educaçã o é da m ah alta importân­ cia. E' cdvel que muitos jo,·ens reshtissem, com. mais coragem, aos engodos sensoriais se tivessem a dq uirido, d esde tenra idade, o J1ábito de ven cer as exigênci as de u ma carne que, por ser jovem, não está menos sujeita us loucuras do gôso. Habituar a criança ao sacrificio, obrigá-la a supor­ tar dores, aí estão os elementos essenciais da educação. Em verdade, qual a causa de nossas fraquezas de adul­ to, gula, preguiça, impureza, senão as exigências egoís­ tas de criança ? Não se trata de subtrair os prazeres fí­ sicos a um pequenü10 ser que só vive para êsses pra­ zeres, e, sim, de zelar por que êles estejam sempre re­ laciona dos ao bem e jamais hajam de robustece:c. um capricho ou um egoísmo incipiente. No mais das vezes não é a orientação que falta aos pais ; é a coragem. Não sabem dominar a propria sen­ sibilidade e receiam enfrentar os instintos perversos do filho. Preferem recorrer a eyasivas que são puras ab­ dieações e covardias perigosas. Embora crianças, os filhos trazem consigo, em miniatura, o mundo das pai­ xões : amor, egoísmo, ciumes, violência, orgulho. O edu­ cador que não o compreendeu, ou não soube vê-lo, es­ taria inapto a empregar os bons métodos de encoraja­ mento ou âe reforma. Para criar um filho é preciso Yê-lo viver para descobrir os verdadeiros motivos de suas ações. Afinal é para permitir aos edttca dores o conheci­ mento pleno do coração das crianças, que Deus quis que ela.s. agissem com inteira espontaneidade, sem nada ocul tar de sens senti me11tos e disposições íntimas. Riem http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 69 quando têm vontade de rir, mostram-se aborrecidas sem atenção às conveniências, esfuriam-se diante de quem quer que seja, fazem praça de seus fatos novos e desprezam os demais. Tudo isto its cscâncaras, de sorte que só não o vê a cegueira do amor-proprio pater­ no ou a abstração do devaneio. E' preparar uma cons­ ciência falsa o deixar sem reprcnsão uma tenden­ cia má e sem aplausos uma propensão boa. Enquanto o menino é incapaz de compreensão, o trabalho se fará por meios de alegrias c sofrimentos físicos. O medo de sofrer Tetém a criança prestes a se deixar levar por incli­ nação má ; � esperança de uma satisfação robustece nela o desejo do bem. Assim, cumpre ao educador fazer com que castigos e distrações correspondam sempre e exatamente ao mal e ao bem manifestados pela criança. A idade difícil. A gama das sanções deve ser infinita, segundo os temperamentos e as disposições. A princípio meramen­ te físico§, devem os corretivos ir, pouco a J>Ouco, ce­ dendo o pôsto ao.s. morais. Para a aplicação dos casti­ gos não há regra absoluta. Bo a ·será a sanção que dá certo, isto é, que emenda ou encoraja. Pode ser, alter­ nativamente, carinho ou severidade, beijo ou chicote, conforme as ocasiões, as circunstâncias ou o carácter de cada qual. - A punição não há-de enfraquecer a criança J>Or ex­ cessivamente branda, nem incitá-la à revolta ou à dis­ simulação, por demasiadam ente rigorosa. Se a autori­ dade se faz sentir pesada de mais, por pouco que o seja, a criança retrai-se, in<{Uieta-se, em risco de tornar-se uma fingida ou uma pusilânime; se abdica, a pretexto http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    70 A BA D E - J E A N V J O L L E T de apelar ]Jara o sentimento ou para a razão, a criança se .deixa derivar por suas fantasias, não podendo, a sós, nortear-se pela pro1>ria vontade, ainda em forma­ ção. AHás, temor e confhnça não sào contraditórios. O menino mais bem educado será aquele em quem o te­ mor insinuará o respeHo, -e a confiança, a união íntima dos corações. Educação que abolisse o afeto mirraria o coração e a vontade. Não imprimida à criança o entusiasmo necessál'io aos esforços exigidos, jungindo-a a desígnios inferiores. O amor é o fito supremo para o qual todos os outros hão-de convergir. Não deve a criança recear a confissão de seus esforços e desânimos. Ao contn'lrio, há-de aceitar, antecipadamente, as sanções necessárias indo, mesmo, a ponto de as reclamar, por ;si mesma, de seu educador. Dia virá em que lute por satisfazer aos pais e, por fim, a Deus. Nesse momento a educação estará completa. Cumpre obter da criança uma gran­ de generosidade. Evitai que ela discuta consigo mesma ou convosco. Que vossa ordem seja incisiva e não dê aso a subterfugios ou a discussões dilatarias. ' A obediência que se arrasta deixa a alma fatigada, o que diminue a generosidade natural da vontade. A pronta obediência traz à criança o hábito de não tergi­ versar com o dever, o que a torna forte e impávida con­ tra si mesma. Sej am -exátas as recompensas ou as pu­ nições se quiserdes que as crianças, mais tarde, sej am capazes de praticar o bem sem f'raquezas ou hesitações. A autoridade não discute. O que não quer dizer que ela não se explique. Não se tr(lta de impôr o bem à criança. O essencial é que ela o ame. Sua consciência pessoal só se aclara quando a convencemos de que deve agir .de um Ifwdo e não de outro. As luzes do coração http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 7 1 e da inteligência hão-de aumentar dia a dia, o que só conseguimos com as razões dos nossos atos. O mais co­ mum é não o conseguirdes no momento em que dais uma ordem, porque aí as paixões .se agitam, tolhendo à inteligência e ao coração bôa parte de sua capacidade receptiva. Convém fazê-lo o mais cêdo possível, mas sómente quando a criança, tornada à calma, for ca­ paz de ouvir e entender vossas explicações. A tarefa só se ultima quando a criança vos tiver dado razão e con­ sentir em colaborar convosco aceitando, previamente, os átos Jnomanados de vossa autoridade. Graças a êsse método, recompensas e punições irão diminuindo e bastará lembrar à criança o JH'Ometido para ob ter dela a submissão ou o.s esfôrços necessários. Se, J>Ois, a autoridade se há-de pôr ao serviço da crian­ ça, não é para prestar-lhe obediência mas para auxi­ liá-la a obedecer ao ideal moral. E' uma fôrça desti­ nada, sómente, a conduzir e encorajar. Em suma, a obter o progresso .daquele em cujo benefício foi insti­ tuída. O jovem. E' a obediência a principal virtude dos meninos. Não há-de durar indefinidamente. Dia virá em que o menino tornado m oço, se con,• ence de sua vida moral e age de a côr.do com suas escolhas e convicções pes­ soais. Grave é o momento. Dêle im pende todo o seu futuro m oral. Se a educação o ensinou a amar o bem mais que a si me smo ; se êle não descobre qualquer contradição entre a · moral qu e lhe impuseram e a que praticam seus prede ' cessores; se à afeição que estes lhe inspiram se segue forte adminção pm· suas virtudes ; http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    72 A BA D E - J E A ::-.J' V I O 1 . L E T se se habi tu ou a viver em presença de Deus c para o seu amôr, escolherá, mui natural mente, a trilha da per­ feição. Todo o seu entusiasmo j m· enD o impelirá à imi­ tação dos belos exemplos que tem sob os olhos e os que aprendeu u admirar. Se , por desgraça , seus capri­ chos foram sempre satisfeitos, s e surpreende em seus educadores graves. lacunas morais, se o não retém o aféto e o sen timento religioso, escolherá quas e infali­ velm ente o caminho que lhe permi ta satisfazer seu egoismo e paixões. Logo que a J)Crsonalidade começa a definir-se, o orgulho de moço começa a tentar. Seus j ulgamentos são absolutos, tem sempre razão e a menor reprimen­ da p arece-lhe um a tentado à sua dignidade de homem. Para reagir contra esse espirito por de-mais p es­ soal, deve o educ ador multiplicar as responsabilidades, mostrar-se confi ante nos esforços do j ovem, fazendo­ lhe, ao mesmo tempo yer, por que os conselhos e as orientações lhe são, ainda, necessários. Êle supm·tará u au tori dade se esta j á não fôr mais feita sómente de ordens, mas se se transforma numa autoridade moral desej osa, unkamente, de o .secund�r no cumprimento de tarefas cada vez m ais difíceis e pessoais. O papel da autoridade nesta i dade pode resumir-se assim : auxiliar os jovens a toma rem consciência da vida e das respon­ sabilidades que a acomp anham, espicaçar-lhes o senti­ m ento do dever p ara com os mais j ovens e os que, ne­ cessariamente, lhes sofrerão a influência. A vida religiosa. A ed ucação só se ultima no dia em que o adoles­ cente é capa{: de faz er o bem por puro amor de D eus. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 73 E', assim, necessano que êle saiba, desde a mais ten­ t·a idade, que Deus esta presente em todos os seus atos e que o vê mesmo quando ninguém o vigia. Cumpre­ lhe temer os castigos divh1os mais que os humanos e saber que um êrro será punido à hora estabelecida por Deus ainda que o educador não tenha tido ciência dêle. Deus é o juiz supremo e absoluto (JUe penetra até os mais secretos pensamentos. Se o amor do fÜho aos pais é poderoso motivo de boa vontade, queda, tod a via, muito abaixo do amor que lhe h á-de inspirar Deus. E', antes, a Deus que cumpre agradar; por amor de Deus que cumpre trabalhar a propria perfeição. A educação, em verdade, só se ultima quando Deus se assenhoreou da consciênci a, e o menino, crescido, só receia os castigo.s de além-túmulo c ama o bem pelo bem, isto é, pelo amor de Deus. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    VI A VOCAÇÃO DOSFILHOS (/) A vocação se compõe de atrativos e de escolhas pes­ soais em que desempenha importante papel a influência do meio. NaJural é, pois, que procuremo.s delimitar a responsabilidade mutua dos vais e dos filhos na idade em que aparecem 'os })l'imeiros sintomas da vocação c atrativos que vão determinar-lhes a escolha. Quantos conflítos se evitariam se pais e filhos encarassem deli­ beradamente os seus mutuo.s deveres! Papel dÕs pais na e.scolha da.s vocações. Seria desentender o desenvolvimento normal do filho o ver em sua vocação uma energia espontânea que se desenvolve à revelia dos pais. Salvo exceção, os filhos S(, nutrem dos pensamentos dos que os cercam e seu ( 1) Lembramos aos lei.to res qae aqui empregamos o termo "ocação em seu sentido mais la to, f.azendo qu& o vocábulo encerre as profissões como, também, o casamento , o celib at{) 011 o estado ecl�sjástico. Se bem seta termo T-e servado, por yez;es, para signi­ ficai' o pendor religiosa, julgamos de bo m avjso n ão o restringir assjm n um trabalho que deve apreciar as m1t! Uplas variantes das oTjen ta.ções �ossiveis da existência . http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    76 A BA D E - J E A N V I O L L E T i d eal d e vi d a ao do meio em que crescem, o que p ar; ticulariza os deveres dos p ais. O primeiro deles é mos trar ao filho que a vida é um potenci al divino que cumpre emJ>regar unicamen­ te em favor do bem. Para que o filho possa, um dia, praticar uma ljyre escolha, convém não lhe falsear o j ulgamento com apreciações tell!porãs e perigosas. Pode um cristão cumprir seu destino por diferen tes cami­ nhos, e é conveniente fJUe a criança n ão alimente, a este respeito qualqu er especi e de preconceHo. A vocação mesma dos pais, seus temperamentos, desejos e ambi­ ções, seus fracassos e tris tezas podem, insensivelmen te orientar-lhes as predileções levan do- os a querer dirigir o filho para esta ou aquela vocação. Se não se acautela­ rem, influenciarão, sem querer, a inteligência do filho norteando-o a uma vocação que não é a que Deus lhe des tinou. Sua vida toda estará em fal.so e a p az nunca lhe será conhecida. Não se diga que os pais devem permanecer impas­ síveis e in ativos em face dos desej os e aspirações do filho. O coração da criança está cheio de paixões de dlferente valor moral. Orgulho, preguiça, imaginação podem falsear o desenvolvimento das facul dades e a escolha da vocação. Aos p ais cabe o auxiliar o filho a discernir os motivos de suas aspirações afim de que só permaneçam as que inspirou Deus e o desej o do bem. em filho só conhece a sua verdadeira vocação se lhe derem o hábito de considerar a vida como fôrc a do devotfmento, sendo, ainda, necessário que êste se . con­ forme às ap tidões e· disposições de cada um. O traba­ lhador manual, o médico, o engen�1eiro ou o sac.erdote trabalham, em diferentes sectore.S, pelo bem comum. E' dever dos p�is discernir as aptidões afim de instigar http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 17 .o filho na direção conveniente a suas faculdades natu­ rais, pois no pensamento de Deus, as aptidões prepa­ ram e anunciam a vocação. Para não contorcer o espíri to do filho, convém evi­ tar a crítica e o vexame. Qualquer vocação é nobre desde que se apeesentu ao filho como expressão da von tade divina. Mostrar a lJeleza das diferentes vocações huma­ nas : trabalho manual, tão 'bem como intelectual, pro­ pensão ao casamento, tão bem como à vida religiosa, eis o dever evidente dos educadores. Com efeilo, a influência dos pais deve culminar na formação de uma responsabilid ade livre e uma cons­ ciência esclarecida. Não se trata de obter que o filho realize os desejos particulare.s dos }Jais, e, sim, que seja ., capaz de discernir o encargo pessoal que lhe foi come­ tido pela vontade suprema de Deus. Auxiliar a escolha, e não a impôr, tal é, em suma, o dever dos pais em matéria de vocação. Papel dq,s fillws na esl·olha da zwcação. Para que o filho descubra sua verdadeira vocação e a estreme dos desejos e impressões transitorias, cum­ pre que sua alma se disponha a submeter-se a Deus e ao desinteresse pessoal. Que a ação dos pais deva ser suficientemente po­ derosa p ara desenvolver essas predisposições, é mais que evidente. O filho que, ele todo, confia nos pais c a êles se submete, está, é claro, mais bem J>reparado a obedecer às ordens Je Deus manifestadas pelos recla-"' mos da consciência . moral e pelo encadeamento dos sncessos. Quem se afez, desde cedo, a sacrificar-se ao ideal moral se encontra, quando adulto, m ui natueal- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    A B AD E - J E A N V [ O L L E T mn le, propenso ao desinte1·esse. Aceiia, de bom rosto, os onu.s, quaisquer (fUe sejam, .da 'Ocaçüo a que Deus o chama. E', todavia, pendor na tural da j uventude o confun­ dir com a vocação a alegria de viver. Esta propensão, até certo ponto, corresponde à realidade. Se o pecado e o mal não existissem, o realizar a vocação tr�ria à al­ ma toda a felicidade terrena de que é susceptível. Aliás, esta alegria natural subsiste, até ce1·to ponto, }>ara os que elegeram a trilha que melhor corresponde às suas aptidões e aos seus reais pendores. Os que, porém, for­ çaram a vocação defrontam-se com dissabores e tris­ tezas que avolumam as que decorrem, naturalmen te, das fraquezas humanas. E', pois, natural que os pais preparem o filho para a sua vocação, fazendo-lhe prelibar as alegrias do de­ ver cumprido e auxiliando-o a joeirar as que fatigam ou degradam a consciência, e as que lhe trazem novas luzes e maiores ímpetos. A imaginação j uvenil irrequie­ ta, faz perigar a .vocação. Não será, por ventura, ela ín­ dole natural das crianças, o atirar-se a tudo o. que bri­ lha '? Daí a obrigação a reconduzi-la, a toda hül'a, às dUl'as obrigações do dever presente mostrar-lhe que sú a obediência ao devei' atual pode prepará-la, proveitosa­ mente, à realização de grandes coisas futuras. E' insi­ nuar a escolha acertada o não permitir nunca os deva­ neios que distraem a vontade infantil das obrigações p1·esentes. Dever-se-há concluir que a imagin ação não haja de repl'esenlar nenhum papel na pesquisa da voca­ ção? O me.smo fôra esquecer que ela se destina a I'om­ per-nos os véus do futuro mostrandt>-nos as diversas pos­ sibilidades de ação que se nos podem apresentar aos es­ fOI'ço.s. Mas pat·a que não se transYie, há-de a imaginação http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 79 andar sempre de par com o desejo de praticar o bem, e que as ·diversas vocações p ass i v as lhe sejam exibidas com os respectivos sacrifícios. . e esforços. Fazer brotar no espírito da criança, jú o entusias­ mo que arrebata, já o senso crHi co que refreia, tal é um dos mais delicados e, todavia, um dos deveres es­ sencia i.<> do educador. Só poderá consegui-lo captando a confiança I�a ·quadra difícil em que a criança mais particularmente propende à presunção e ao espírito de independência. O trabalho de crítica a que os educadores se obri­ gmn assume, por yezes, aos olhos dos j avens, o aspecto de op osição .sis temát ica, o que não raro as indispõe, pri ncipalmente se não vêem nos pais o desinteresse que " ' vence a admiração e o respei to. Mosirar as faces in­ convenientes de uma vocação, pormenorizar as falhas de quem a deseja, é assumir uma função ingrata mas necessária. O espírito da j uven tude não está, acaso, su­ jeit o a arroubos e caprichos? Não convirú coagi-los a refletir e pesar o valor dos proj etos que lhe agitam a im agina�ã o entusiasta e juvenil? Quais<fuer, porém, que sej am as dificuldades dessa harmonização, nunca é impossível numa família cristã. A boa vontade e o desin t eresse dão por tena com os p reconceitos e cegueiras do amor-proprio. Deus acaba por manifestat·, sempre e claramente sua vontade, tra­ zendo a ca da um a fôrça para a submissão. En tre cris­ tãos as oposições e os sofrimentos resulta ntes da diversi­ dade d as vocações, nunca yão ao ponto de separar corações e vontades. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    80 A BA D E - J L� N V l O L L E T Das divergéJlcias que, acêrca da pocação , tmácm .mrgir ent1·e pais e filhos. Ai, nem sempre assi m se dú, c ns vocações abrem fretjucntes ensejos a g;·aves e doloros os con flítos. E tan� to m a i s graves süo qua n t o não se po dem resolver p ela :m1ori d ade, ,jú <Jue o filho aiingin a idade das decisões por con ta propria. E', pois, forçoso obter pela perstw­ sii o o que se não pode m a i s cons<·guir pel a autoridade . O Lom entendimen to só renascerú se quem se engana fôr assaz humilde p ara r�conhecer, lealmen te, os êrro s. Desgraçadamen te, o orgulh o, o amor-1)roprio, os pre­ conccHos enraiza dos, não raro se opõem a êste exame leal e desinteressado lfUe desanuviaria a situação, Jler­ m itindo a c ad a um verificar a pureza d e suas in tenções e os m otivos de sua preferência. Para possibilitar cs le exame é preciso que se acei­ tem os conselhos e as l uzes vindos, desinteressadamente, de terceiros. Ai ! na maiori a dos casos os p ais teimam nnm autoritarismo eego, e os fil hos, nmna pr·esuuçà o p erigosa. Não poucas vezes , entretanto, um dos parti t'tos, nor­ teado ]Jelas lu2es sinceras da sabedori a e da pruden� cia, · em a convencer-se, intima e profun damen t e, <le que não pode transigir com o partido con trário s em incorrer na p echa de p usilanimidade. Neste caso o con­ flito é inevitavel e fmçõso é acei tá-lo com leald ade. Se os pais se comp ene tram de que o filho cn a, que jho ·digam francamen te, aceit an do, c.om antecÍJla ção, os :aborrecimentos e dissi dências que daí poderã o ad­ vir. Não lhe.s corre , acaso, a obri , gação de ten t arem, por t odos os meios ao seu alcancç, fazer luz sôbre o assunto ? Deverão, todaYia, dis1inguir entre as e_scolha s qne, se bem lhes pmeçmn i ngratas, não oneram a hou- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 8 1 ra da consciência, e as que acarretariam situação imo­ ral e irregular. Há um sem número de casos em que os pais não terão outro recurso que o de confiar o filho à proteção de Deus, oferecendo por êle as consequentcs penas. O problema oferece aspecto idêntico quando é no udo­ lescente que se encontram o.s sentimentos <Ine autori­ zam a crêr ter sido sua escolha ditada pelo desejo de cumprir a vontade de Deus. Deverá, pois, m anter seu designio, ctüdando de atenuar as dores de que é causa involuntária. São indisfarçavelmcnte graves as consequências de tais conflitos e por demais frequentes os êrros da mo­ cidade para não insistirmos, com vigôr, sôbre a ne­ :;:essidade de aconselhar-se, não se ·deixando levar por sua prOJ>ria decisão. O medo de enganar-se é o prin­ cípio da sabedoria sobretudo no que toca à vocação. Os conflitos que, então, surgem entre pais e filhos não hão de .distrair nen]mm dos deveres mutuos de que trata o ca}>ítulo precedente. A J>rática é, não raro, penosa. 'l'f má vontade de um dos partidos J>Oderá, até, empecer a realização; o que não torna menos evidente a subordinação moral em que pais e filhos se encon­ tram no que respeita aos deveres de afeição e ajuda mutua imJ>Oslos pela lei natural. Convém não esquecer que uma vocação só é rea­ lizavel se se verifica a submissão inicial às obrigações da lei natural. Assim é que um filho não tem o direito de ingressar num seminário ou de se casar se não cui­ dou de garantir o sustento da velhice paterna; crue tal outro não poderá r;alizar seus desejos se o tempo ainda não atenuou os sofrimentos ocasionados por sua decisão. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    82 A BA D E - J E _� N V 1 O L L E T Não nos esqueçamos de que as vocações momen­ tancas o u definitivamente sacrmcadas a conta de obe­ diencia a um dever necessário, mais valem aos olhos de Deus do que as que se realizam sem d ificuldades. Falso conceito ela vida espiritual é o supor que a vo­ cação religiosa ou sacerdotal tem, sôbre os deveres pri­ morcliais da família, situação privilegi ada. E tão ver­ da de é isto que as mais severas ordens religiosas abrem suas portas de sai da, quando, im}Jeriosamente, o exi­ gem as necessid ades morais c econômicas dos pais dos religiosos. Q uando o religioso não pode p1·over pessoal­ mente, às ]lrecisões dos seus, a ordem se põe solidaria com os deveres de família do seu memb1·o. Men tir à obra de Deus é o crêr que a s afeições na tm·ais devam ser rompidas a pretexto de vocacão sa-. . cerdotal ou religiosa, corno sucede com alguns cristãos po uco esclarecidos. Tais afeições se ori gi n am de Deus e o tom a•· ordens as exalça c depura sem diminujr-Jhes a i n tensi dade. H umildade, prece, espírito de sacrifício I>enna ne­ cem como os m elhores auxiliares da consci�'ncia e do ru mo d as vocações. Aos filhos há-de, igualmente, lem­ brar que a experiência dos pais é elemento eselaTe­ cedor que se não poderá postergar sem risco ou im­ prudência, sobre tudo se aos pais an ima um grande es­ pjri to de desinteresse pessoal. Quando filhos e pais se prendem ao elo da con­ fiança reciproca, e procuram, sómente, a von t ade de Deus, suas luzes se fundem num a só e dissipam as obs­ curidades e divergências de opiniões. Desde êsse m o­ mento a vocação se desenvolve nat.uralmente sob o pro­ tetor olhar de Deus. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    VII A EDUCAÇÃO DOSENTIMENTO E O PREPARO AO lIATRIMONIO Ao pensar-se nas hórridas consequências dos êrros da juventude, ocorre indagar por que é que quantos. ten]tam a seu cargo a direção dos moços não cerram fileiras para incutir nessas almas os princípios e as luzes que os deverão JUeseTvar, com a graça de Deus, das fraquezas da carne e do coração? Os pecados da impureza destroem a fé, desfibram a vontade e aumentam o egoismo. Famílias inteiras sofrem e choram as cruezas de quem se abandona às J>aixõcs.. A fé ·se apaga nas almas dos impudicos e o materiasmo entra a dominar-lhes os corações depois de se ter apossado da ca1·ne. Nada, ao con-trário, está mais diante de Deus e dos homens do que um adolescente pleno de seiva e de vida, senhor de seus desej os e tentações. Nada eleva majs os sentimentos do que o desejar ser puro para ser, por antecipação, fiel àquela que um dia elegrá pm espôsa. Nada sublinlm melhor a noção das res­ ponsabilidades que o prep arar-se, desde m oço, para amar cristãmente � dirigir um lar praticando as vir­ tudes que dão vida •e amplitude ao amor cristão. Nada, prindpalmente, que mais ati·aia, para um jovem, as http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    84 A BA D E - J E A N Y l O L L E T bênçãos de Deus do que a vontade de obedecer à lei divina obrigando o corpo o iornar-se ]JUmHde escravo do e.sp:írito e da alma. As iniciações necessárias. Não é por si sós e ao acaso que os jovens hão-de conhecer os seus deveres em maieria de moral sexual e vida sentimental. A adolescência é, como que, um segundo nasci­ mento. A vida sensorial e a do coração delineiam-se, -obscuramente, nas ]>rofundezas do ,s.er. Inquietam o san­ gue e sobem à sensibilidade e à imaginação para as perturbar. Como poderá a razão, que deve sempre gtdar e orientar a vida moral, avassalar essas fôrças c obscuras e :instintivas se ninguém a houver esclarecido, fazendo-lhe estremar o bem do mal, o puro, .do im­ puro ?. Os pais é que recebem diretamente de Deus a mis­ são de conduzir os filhos pelas estradas perigosas que se lhes abrem desde os primordios de sua ju'ventude. E não há o que espantar se muitos deixaram, delibe­ radanlente, de cumprir seus devere.s nesse terreno es­ pecial. Timidez, falso pudor, mêdo à inaptidão, eis os honrados sentimentos que, a miude, os detiveram, e em muitos casos, ]>rovavelmente, a ausência de pureza pessoal que os inibe de apreciar, em .sua magnitude, a obra da procriação. E', porém, fóra de .dúvida que no plano da Provi­ dência, toca, especialmente, aos pais o encargo de le­ varem o filho até à plena pujança' de sua vida moral.. Cabe-lhes, poi.s, o esclarecê-lo e guiá-lo nos albores do senHmento e ao.s primeiros sintomas da puberdade. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    :M O R,A L F A M I L I A R 85 Como quer que sej a, nunca devem abandonar a cons­ ciência do fHbo aos encontros fortuitos c às iniciações malsãs. Se receiam desconhecce a terminologia conve­ niente, transfiram o encargo a educadores espertos e esclarecidos. Afinal de contas, a vida do coração mu ito se con­ vinha do desenvolvimento moral c religioso dos ado­ lescentes. E', pois, à luz dêsses scntimcntos I[Ue con­ virá iniciá-los nos mistérios do nascimento c do amor, in iciação tanto mais facil quanto maior fúe a intimi­ dade e a confiança enh·e pais e filhos. Quando êstcs são ainda muito crianças e ignoram a timidez do }m­ dôr ou do amor-proprio, seus labias inocentes não re­ têem as perguntas 'que lhes ocorrem à mente. A esta cm·iosidade inicial é preciso atender, sempre com sin- ceridade afim de que a explicação dada não venha a ser de.smen tida pelas que será mistér acrescentar mais h1rde. E', também, grave dano que pode vir a fechar, para sempre, o coraçã o i n fantil, o responder-lhe com evasivas uma série de questões. Inferindo que não há como co.n tar com os pais na obtenção das luzes neces­ sárias, recorrerá aos companheiros que lhe pareçam mais instruídos. Ei-lo a braços com a terrível desgra­ ça de ser iniciado nos mais augustos mistérios pelo veí­ culo das mais contaminadas bôcas, de sorte que odio­ sas impurezas se mesclam, em seu espírito, desde o primeii·o momento, aos a tos c{ue lhe deveram surgir aureolados pela patern idade e vela graça do sacra­ mento. Para evitar que as impressões depositadas na al­ Iua do filho não se.. transformem em 1entações, jamais se saberia insistir o•bast antc na face moral e espiritual da obra da criação. Para que a moralidade de.ssas http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    86 A BA D E - J E A N V l O L L E T questões delicadas a}Jareça em todo. o seu resplendor não é preciso que as descrições fisiológicas velem e turvem a beleza dos sentimentos que preshlem à obra do amor cristão. Aos mais jovens. Antes que os sentidos e o coração se tornem para êle fonte de tentações, numa idade em <Jue guarda toda a pureza de seus anos primeiros, o fj}ho a si mesmo interroga sôbre questões relativas ao mistério do nas­ cimento. Isso lhe vem, naturalmente, ao espírito e é m uito raro que se trate de perversidade precoce ou curiosidade malsã. São perguntas naturais a que con­ vém sejam dadas respostas naturais. À criança basta explicar que Deus pôs o bebê nos braços da mãe. Mas ao menino que começa a descon­ fiar que a realidade é muito mais misteriosa ·do que o s)m pies depósito de um filho nos braços da mãe, con­ virá dar explicações suplementares que se limitarão, exclusivamente, ao p ap el reservado à mãe. �le ouvii·á com infinito reSJ>eito e grande admiração as explica­ ções que lhe façam compreender como Deus escolheu, predsamente, sua mãe para JlÔ-lo no mundo. "E' gran­ de maravHha, meu filho, se poderá dizer, que a Pro­ vidência não tenha querido que nascesses a não ser pelo coração e corpo daquela que, na terra, te adora mais que qualquer outra mulher. Em .seu corpo depo­ sitou Deus o pequenino germen destinado a ser mais tarde "tu". �sse germen, confiado às entranhas de tua mãe foi nutrido pelo seu sangue. Nela se formaram,• pouco o J>ouco, teus membros, teu corpo e tua cabeça. Quando atingiste. o desenvolvimento completo, deixas- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R . 87 te o corpo materno rasgando-o e causando-lhe muitos padecimentos. E' porisso que as mamãs adoecem quan­ do nascem seus bebês, e ficam, varias semanas, de ca-· ma. Depois Deus quer que a mfíe continue a nutrir seu filho dando-lhe de seu leite até que êle se fortaleça bastante e passe a alimentos mais substaneiais. Bem compreendes, agora, por que é tão profundo o amor de mãe. Mãe e filho são uma só carne. Assim o quis Deus para que o amor que os estreita sej a o mais forte de todos os amores da terra. Maior, só há um : é o que une Deus à sua criatura". Explicações como estas não podem perturbar, em n ada, a imaginação do filho. Ao contrário, como ime­ cliata consequência, fazem nascer nele, pela mãe, um. o.mor mais vivo e profundo. Esta primeira revelação pode-se fazer bem cedo, entre os oito e os doze anos, conforme a precocidade intc1cctual do filho. Aos jovens adolescentes. Vem, 'a seguir, o periodo da puberdade. O filho vai ver, em seu proprio corpo, transfonnaçõe.s que o po­ dem J>erturbar e tent ar, o que abre ensejo ao prosse­ guimento das revelações necessárias. Convém fazê-las a nles ({UC o filho se bandeie a com1>anheiros cujas dis­ posições morais estão Mra de nossa fiscalização. Mais ,·ale evitar as <JUedas do moço que lei' de [l.S rep arar. Revelação feita um ano mais cêdo é menos prej udicial que explicação dada uma h ora mais tarde, porisso que um pecado contra a pureza, cometido por imprudên­ d a ou ignorâncill p<Yde trazer as mais funestas conse­ quências à vida intéira e J>rovoear perversões defini­ tiYas. Afin al, quando se trata de pecado tão subtil co- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    88 A BA D E - J E A N V I O L L E T � mo o dos sentidos, quando se sabe como a impureza se insinua nas almas por meio de d esejos obscuros e insHntivos, é sempre bom insis tir na necessidade de esclarecer a consdênci a, obrigando o moço a se exi­ mir de tudo o que lhe possa prej udicar o ideal de vida confia do à guarda de seu coração. De mais a mais, não é ·raro que a consciência dos adolescentes, ign01·ando os fenômenos da puberdade na ocasião em que .se formam, sofra abalos tais que provoquem desequilíbrio psíquico de cónseqnências cuj a duração pode vrolongar-se durante anos a fio. �uma idade em que o indivíduo precisa concentrar fôrças e vontades para domi nar os dislurbios da ima­ gi nação e da sensibilidade, é mister evi tar tudo o que possa trazer a consciência em inquietação e desordem., Assim, ]Jois, antes mesmo que se produzam os fenô­ m enos da puberdade, os adolescentes hão-de receber os ensinamentos adequados. Poderá o pai dá-los aos filhos pelo modo seguinte : "Heus, meu .bem, nos quis associar à grande obra de seu zelo criador. Em sua bondade e sabedoria deci­ diu que nenhuma c1·iança venha ao mundo sem o con­ curso do homem e da mulher. Ora, como tu estás na idade ·em que se deixa de ser m enino p ara tornar-se homem, é J>reciso que conh eças os meios de que D eus lançou m ão para realizar esta obra ". "Não quis :tle que os filhos haj am d e nascer sem a participação efetiva de duas vontades humanas uni­ das e associadas à grande o•bra da procriação : a von­ ta de d o ]>aj e a da mãe. E•, em verdade, por livre es­ colha que o homem e a mulher s.e dão p or mari do e espôsa. Assim fazendo, um ao ou&·o juram total amor e fidelidade definitiYa sem pretender gosar, egoística- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 89 mente, o prazer que acompanha o amor. Ao contário, re&olvem, antecipadamente, aceitar os filhos que Deus lhes dará, dividindo com êles o amor que se rnutuam". Êsses exordios visam a depor no comção ·do filho sentimentos de admiração c respei to (jliC irão abrir caminh� às subse<juentes revelações de ordem fisio­ lógica. Prosseguindo nos esclarecimentos neccssarws, con­ ,·jrá chamar à colação as novas responsabilidades do filho torn ado J>Úbere. . " Se Deus quis que o amor que um ao outro i ns­ piram pai e mãe .seja a condição primordial dü nasci­ mento dos filhos, decidiu, igualmente, servir-se dos cor­ pos daqueles para formar os corpos dêstes. Assim pai c mãe cedem a Deus corpos e corações para que se opere o nascimento dos filhos que Êle deliberou criar. Eis porque o pai traz consigo um germcn vital, um lí­ quido destinado a fecundar o corpo da mãe, do mesmo modo como o polen fecunda os óvulos da flor. A mãe traz em si os ovari os que .só podem servir ao nasci­ mento .Jo filho se o homem deposita ali um pouco dêsse lí-quido, chamado semen ou esperma. E' bom que saibas que trazes, também, em tua carne, êsse pre­ cioso li<juido. Está encerrado na parte do corpo que se chama sexo, a qual, porisso mesmo, deves, particu­ larmente 1·espeitar e preservar de olhares c toques impuros. Quando teu corpo (jUC é, ainda, um corpo de menino, se transformar nnm corpo de adulto, bem de­ preMa o perceberás . ••Procurando sair, o semen pro,·ocará em teu sexo Ulll movimento especial destinado a facilitar-lhe a eju­ culação. Fica. pois: sabendo que, se um dia surpreen­ deres em teu corpo algum movi·mento dêsse gênero, http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    90 A BA D E - J E .1'.N V J O L L E T não te cause ü;so, nem e5]Janto nem temor. Será, sim­ plesmente, a prova de que deixaste de ser criança para passares a bOiuem. •• Que novas obrigações, desde então, assumes? Jo­ vem de mais para teres filhos e criá-los conveniente­ mente, é preciso <1ue procures, sempre, evitar 'tudo o que te poderia causar exci tações e disturbios. Se tive­ res a coragem de permanecer intacto até o dia de teu casamen to, Deus abençoará o teu futm·o lar e te darú filhos tanto mais belos e inclinados ao bem quanto mai.$ a ten-tamente houveres sabido eviiar atos e pensa­ men-tos impuros. Os impulsos sexuais devem ser, com efeito, dominados até o dia em que se fôr capaz de compor um lar, escolhendo uma moça que se amará total e ·defi nitivamente. Fóra do casamento os atos se­ xnai.<> voluntários são abominavel ' desobediência à lei de Deus e aviltam os que os JH'alicam. Deslroem o amor que Deus imaginou c arruinam a vida familiar". "Ora conheces as razões do amor que a mim e a tua mã e inspiras. És, a bem dizer, o fruto de nossa união. Det]s quer que, todos os dias, possamos âlegraJ·­ nos de te haver pôsto no mundo." A mãe falarú às :filhas de maneira um pouco di­ ''ersa. DeJ)OÍs de lhes haver subministrado, com o o p ai aos filhos, algun.s esclarecimentos gerais desli nados a mostrar como <Juis Deus que os filhos nascessem do . . .. - amor que um ao outro Inspiram p�1 e mae, acrescen- tará : "E' posshel, .minha filha, que haj as sentid6, às http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 9 1 vezes, uma melancolia inexplieuvel o u uma exhube­ rânda que dificHmen.te podes reprimir. Talves tenhas, dai, concluído que eras de um fei tio excepcional ou pensado que ninguém era capaz de compt·eender-te. Foste presa de pensamentos vagos nos <JUai.s, se te de-. . moraste na análise de teus scn limenlos; descobriste uma vaga precisão de amar c ser amada. Fica saben­ do que êstes são os indícios certos de que vais deixar de ser menina para t� fazeres mulher. Não é só por ê.sses movimentos desordenados da imaginação que po­ des reconhecer as mudanças operadas em ti mas por indícios em ieu organismo. Assim é que perderás, men­ salmente, um pouco de sangue. Não })recisas ficar in­ quieta ou perturbada. Este sangue quer dizer que teu (torpo é, já, o de uma mulher. "A mulher traz, com efeito, em si, ovarios produ­ tores de óvulos que, }}ericdicamente, se desprendem e se destinam a gerar, um dia, os filhos. Esta atividade orgânica torna, quasi sempre, a mulher fatigada, ner­ vosa e impressionavel. E' preciso, assim, que ela apren­ da a dominar-se. E', com efeito, o melhor meio de pre­ parar-se para ser sempre calma e senhora de si, como o há-de ser a mulher que deseja levar ao seu lar as fontes da paz e da alegria." "E' preciso, outrossim, te acauteles contra os pe­ rigos que, ora, tens de combater. Uma moça é, natu­ I'almente, vaidosa c gosta de agradar. Se não estiveres de sobre-aviso, irás ser, mais ou menos, perturbada pelos rapazes e homens, e pm· pouco que um deles, menos honesto que os outros, dê tento djsso, procura­ rá, a custa de peque}los manejos, exercer sôbre ti sua influência. Se, por infelicidade, te deixasses levar por amor-proprio ou fraqueza de coração, cor!'erias o ris- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    92 A BA D E - J E A N V I O L L E T co de não po der sair dessa aventura sem grandes sofri­ mentos ou pecados graves!' "'Bom é que saibas que a beleza tem sido, para muitas moças, causa de êrros sentimen tais. Se queres ser honesta e, um dia, eleita por homem capaz de te oferecer um amor fiel, trata de l>reservar, carinhosa­ mente, o recato e a moàestia, virtudes primordiais de uma moça." Essas explicações devem ser o bastante enquanto a moça vive no seio da família e não está suj eita a outras tentações que não sej am as ·da propria imagi­ nação e sensibilidade. Por pouco, entretanto, que ela seja obrigada a um viver independente, no meio de homens inexcrupulosos -e raparigas perversas, bom se­ rá explicar-lhe, mais claramente, como as menores familiaridades provocam no homem excitações que a podem, pessoalmente, levar a grandes riscos. Àquelas que estão em vias de casar-se não se re­ ceará precisar os direitos e deve·res no que toca à vida sexual e conjugal, de sorte que o pudor não se choque desde os primeiros dias de união e sejam caQazes de controlar os maridos em tudo o que respeita à moral. A consciência da mulher equivale à do homem e fôra inadmis.sivel se desse uma moça ' a um marido sem coisa alguma conhecer dos deveres precisos que aos , esposos incumbem. Em suma, as confidências são de duas espec1es nitidamente distintas. Unias interessam ao filho ainda jovem e têm por fim espertar-lhe a alma numa idade em que ela é, facilmente, tentada a insurgir-se contra o jugo familiar. Devem incutir-IV-e o maior respeito e amor aos que se amaram para' que êle nascesse, e por êle sofreram. E', justo, na idade em que acordam http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 93 os desejos e as paixões pessoais que se devem comple­ tar as primeiras revelações. Terãn por fim dar à alma uma orientação moral fazendo-lhe conhecer a lei de Deus e norteando as ' aspirações ·do coração a um ideal cristão, prq>arado � robusteci do pela p1·ú t ica da casti­ dade do ' coração e dos sentidos. Antes do casamento. Para que, no adolescente, ,se ultime a educação dos sentimentos é mister, de um lado, fazer-lhe com­ preender a grandeza do celibato religioso, e, de outro, a :beleza do casamento cristão, de sorte que êle, com liberdade e pleno conhecimento de causa, escolha o 1 'seu caminho. A castidade religiosa deve aparecer como um sa­ crificio destinado a libertar a alma e permitir-lhe o consagrar- se a Deus e ao próximo fora das preocupa­ ções sentimentais e materiais que acompanham sem­ pre a vida familiar. O cásamento deve ser aos ·que a êle se inclinam, como um i deal destinado a canalisar os ·de.sej os da carne dentro das normas de um amor cristão. Será, pois, necessário completar-lhes a educação sentimen­ tal au " xiliando-os na prática das virtudes que preparam e fortalecem o amor. Para os jovens : o domínio dos sentidos sem o qual nunca saberia um homem ser um chefe capaz de diri­ gir a vida conjugal e material. O aJ>rendizado da auto­ ridade, com tudo o que comporta ·de desinterêsse pes­ soal, de respeito ao próximo, de domínio sôbre si mes-• mo, de fôrça genero.sa deve ser, igualmente, feito du- rante os anos da mocidade. E' mister que os moços sai- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    94 A BA D E - J E A N V [ O L L E T bam que cansam as energias morais da alma se s e en­ tregam aos prazeres sensoriais e às distrações egoístas. E', emfim, necessário que tenham pela mulher, por todas as mulheres, um respeito :infinito. E' o mico meio de evitar as tentações vulgares que se podem gerar dos contactos com a v:ida quotidiana. • O homem voluntariamente casto saberá distinguir numa mulher as qualidades morais e profundas, ao passo que o que se entregou aos prazeres da carne, se deixará levar por qualidades fískas superficiais. Por ocasião do casamento a escolha sofre sempre a in­ fluência ·da vida anterior. A moça cairá, facilmente, nas tentações do cora­ ção e dos sentidos se se deixa levar por familiaridades de mau quilate. Para preparar-se à obra de Deus não há-de provocar o olhar dos homens quer pelos vestidos,• quer pelos decotes. Empenhar-se há em escorraçar corajosamente as impres.sões perturbadoras que nela, a con tra-gàsto, podem nascer em presença de certafi pessoas. Obi·igm·á todos os homens, sem cxceçã0, sejam, mesmo, pm·enies, a Tespeitá-la por palavras c atitudes. ::-.'"ão consen tirá que a imaginação se nuh·a de sen­ timen tos irrealizáveis e terá por pecado o pretender usufruir, no fundo de si mesma, um sentimento que lhe se1·ia defeso se chegasse a exteriorizar-se, torn an­ do-se conhecido. Que ela não pense que dedicação e amor são sempre sinônimos. A dedicação é virtude necessana ao amol'. Só a praticam, porém, quando casadas, aquelas que, desde moças, se inicial'am nessa prática. � ' Rapazes e moças deverão evitar a ociosidade, co­ mo a mais perigosa das conselheiras em matéria de http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 9 5 impureza. E', o mais das vezes, o enfado e a indisci­ plina que geram os hábitos viciosos, os falsos sentimen­ talismos, os devaneios e as lei l u ras perigosas. To dos êsses conselhos seriam i nute is se a vida re­ ligiosa de uns e outros viesse a mi nguar ou desapa­ recer. P:1ra que a castidade surj a em toda a sua beleza e não se transforme em tirania in toleravel, é preciso que a alma se nutra do pensamento de Deus e descu­ bra, por si mesma, que o amür humano sendo, apenas, um reflexo do a mor divino, sc'J pode n ascer c se desen­ volver se o acomp anham as virtudes que nos tornam semelhantes a D eus. Para bem manter-se o coração e os sentidos, é for­ çoso que a alma não re tenha, sem pedir imediata ab­ solvição, o pecado da impureza a que se deixou levar em hora de pusilanimida de. Envenena o sangue do co­ ração o guardar consigo um pecado sem o confessar por falsa vergonha ou p ela rccondita vontade de tor­ nar ao êrro. A confissilo, p orém, não basta para fortificar a al­ ma cortra a.s tentações. Para viver da pureza, para fundar uma familia cristã c se santificar santificando os outros, é preciso nu trir-se, a miude, da carne p urís­ sim a de Jesús na Eu caristia c aprender com f:le, n a com•anhão, a amar como Ele amou. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    VIII O DEVER SOCIALDA FAMíLIA No pensar de Deus, as famílias sã·o células cons­ titutivas. Sua união formam as diversas patrias e, aci­ ma das patrias, a humanidade. São, pois, chamadas a se i dentificar e a se unir na procura do bem e da per� r feição. Sem seu trabalho § dedicação mutua, a socie­ dade n ão J>Oderiam subsistir, e a pátria, com tudo o que ela pode trazer de paz, de liberdade e de espe­ rança, não passaria de mera palavra despida de signi� ficação. Grangeando o bem dos seus, o pai trabalha para o bem comum : advogado, serve à justiça; operá­ rio ou a•gricultor contribue para o bem-estar geral. En­ 'Sinando aos filhos a lealdade e afeiçoando-os ao tra­ balho, a mãe prepara os cidadãos que, por seu turno, hão-de contribuir para a melhoria material e moral do plóximo. O progres$o social pela familia. A vida religiosa da familia coope1·a no progresso espiritual da humanidade, tão :bem como seu trabalho assiste o progresso 'material. Suas virtudes são luz que• alumia a vida social e penetra, pouco a pouco, nas mais refratárias consciências. Tão verdade é que um http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    98 A BA D E - J E A. N v r o L L E t país só vale p elo valor mora] das famílias que o com­ põem. Há um espíri to de familia não já legítimo, se­ não necessario. Robustece as boas vontades, sustém os · fucos na luta difícil pela �xistência, consola os que sofrem. E' um estímulo coletivo à melhor prática do dever, e, ao me·smo tempo, uma barreira aos ímpetos do Jnstinto e da paixão. Os esposos que permanecem unidos a despeito das dificuldades e sofrimentos, .robustecem seus concida­ dãos contra as tentações do divórcio e da libertinagem ; e os pais que aceitam, de bom rosto, o encargo de nu­ merosos filhos, são a condenação viva do.s que, por um egoismo culpado, restringem de-propósito e covarde­ mente, as fontes da vida. Graças a uma fé constante, a mulher que suporta cristãmente a perda de um filho ( contribue para inflamar as esperanças espirituais .de seus concidadãos ; e a família que não receia sacri­ ficai' a riqueza aos bens espirituais da alma trabalha por difundir, no mundo, o reino de Deus. O egoísmo familiar. Desde, porém, que a família perde a noção da per­ f<.'ição moral, entra :,t decompor-se e torna-se elemento deleterio para os seus e para o ambiente social 4 que pertence. Desgraçadamente são múltiplas as tentações que salteiam a família e a desviam de seu papel pro­ videncial. As mais violentas são a.s que tendem fazer da fa­ mília um centro de egoísmo onde cada membro pro­ cura gosar egoisticamente as alegrias que, em gerai; acompanham a vida familiar. Essas alegrias, cujo ' es­ copo é aligei·r1;1r o dever, transformam-se, nas suas http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M o RA L F A M I L I A R 99 mãos, em gosos impuros que a distrai da vocação providencial. Principiam por falsear a obra do amor e da pro� criação, fazendo�se escravos dos prazeres do corpo e das ambições terrenas. �se egoísmo carnal gera, natu­ ralmentel' o néo-maltusianismo e todas as doutrinas an� ti�sociais da união livre e do amor egoísta c irrespon­ sável. Mortais doutrinas que são a cau.sa principal da espantosa diminuição da na_talidade francesa, com todo o seu cortejo de ruínas e sofrimentos. O mal que aos esposos causa o néo�maltusianismo não se restringe à sua geração. Os raros filhos que nascem dessa união são herdeiros de um princípio egoi.sta que o tempo só tende a desenvolver. O filho único (I) é, quasi sempre um ser volunta- rioso que não sabe obedecer e força os pais a se dobra­ rem aos seus caprichos. Desobrigado de dividir com ir­ mãos afeições e carinhos, faz-se, naturalmente, centro do mundo. Ignora a justiça porque não há direito de irmãos a respeitar. Não lhe sendo preciso devotar-se ou cola�orar par a a boa harmonia mutua, nada sabe dos sacrifícios exigidos pela vida comum. Recebe tudo e não dá nada. Chegada a época das respon.s·abilidades, trabalhará, egoisticamente, pela sua felicidade, em de- 1rimooto do bem social. Ignorante sistemático e, por assim dizer, inconsciente, dos direitos de outrem, é um .O ) São, f�lizmento, numerosas as exceçõ&s ao que dizemos da edllca!;ão dos filhos únicos. Por outro lado encontram-se, des- · graçada.mente, famílias numerosas -cujos filhos são educados àe modo la:Iilentavel. Nem porisso é menos evidente que, suposto o equili.brio de capa.cidadf do lado d()s pais, o filho único é mais di­ flcil de bem formar-se do que o filho c&rcado de muitos irmãos e irmãs. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    1 00 AB A D E - J E A N V l O L L E T revoltado iminente ({esde lJUe a vida sncial exij a dêle sacrHicios pessoais. A educação sociaJ da família. Bem outro se apresenta o problema da •educação social das fammas numerosas, conscien tes de suas res­ ponsabilidades morais. A generosidade dos esposos é empeço às tentações do egoismo. A dedicação cresce com o nunero dos filhos. O hábito de desprezar dis­ sabores, Q imporem-se, obrigatoriamente um sem nú­ mero de sacrifícios, os tornam aptos a se submeter às injunções sociais e a se dedicar ao bem cmiium. Os filhos, por seu turno, preparam-se J>ara a vida social pelo hábito da dedicação adquirido em mil ser- « viços prestados à família. Cedem, naturalmente, ao.:; imperaliYos da justiça social porque principiaram por obedecer às exigência da justiça familiar submetendo­ se às decisões do pai, encarregado, por Deus, de diri­ mir os dissídios .que podem surgir entre os filhos, e de os coagir a dominarem as espontaneidades de' uma ín­ dole egoísta ou irrefletida. Nas famílias numerosas os filhos aprendem a es­ lfuecer-se de si e a dedicar-se a outrem porque são, diariamente, levados a contar com a paz e a felic�dade dos que os cercam. São-lhes os p ais exemplos constan­ tes de desinteresse que os exhortam a ir, sem esfôrço, às obrigações morais de uma ,·ida social desinteres­ sa da. E' preciso que o filho saiba, desde que lhe. reponta a razão, que se êle recebe é p a1·a (/�ar. E' mister fazei'­ lhe entender que os bens tem1>orais e espirituais de que usufruj, lhe vêm por intermcdio dos ]>ais e de http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 1 0 1 numerosas gerações que, antes dele, penaram e sofreram. Sua educação social c'xige que nunca •se esqueça das dores e canseiras de todos os homens que mourejam para que êle tenha pão, agasalho, instrução e todos os demais bens da vida. Se vê alargar- • se, diariamente, o seu proprio ráio de ação, é para que forneça aos outros, sob a forma de trabalho c dedica­ -ção, o que de outros recebeu. A lei social c a lei cristã aí se irmanam para ditar-Ih� a conduta. E' indispcnsa­ vel que todo o filho saiba que é grande crime o que­ rer viver para si, egoisticamente. Esta noção de responsabilidade e de dever social só se desenvolve no filho graças a uma ativa colabo­ ração dos pais. Em vez de procurar nas qualidades e tialentos dos fHhos um meio de satisfaze1·-lhes a vaidade c a sensibilidade, os pais se obrigam, pela vontade di­ vina, a formar neles uma vontade altruísta e a pedir-lhes os esforços e .sacrifícios que os levem a compreender os outros e a J>or-sc em seu serviço. Muitas vezes, Jlor um egoísmo inconsciente, os pais, longe de formarem a vontade, a danificam. Bem longe de prepararem os fi- lhos para ·que, um dia, sej am cidadãos uteis, empe­ nham-se em satisfazer as paixões nascentes do orgulho e do egoi.smo. Preparam sêres anti-sociais e anti-cris­ tãos que ateian�, naturalmente, os odios e geram as facções soc�ais ao simples manej o de seu indivi dualis­ Jno cego e feroz. A mãe, ·quando abusa de seu afeto materno para amparar o filho contra os seu.s. companheiros, à reve­ lia da propria lealdade e da justi ça, ensina-o a consi­ derar lei sua proprta ''ontade, fazendo-lhe supor que basta dizer : "que1·o", para assumir o direito de se im­ }JOr aos outros. Ningué1n, pois, se admire se, um dia, http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    1 02 AB A D E - J E A N V I O L L E T vindo, por sua vez, a chefiar um a família, êsse mesmo filho abuse de seu poderio social e de sua situação para levar os filhos por u m .senda alheia à m ais rudimen� tar j ustiça. Tudo leva a crer que não o terem os pais habi­ tuado a sacrificar o progresso pessoal ao espírito de justiça, é que tal usineiro ou administrador não vacila em dar a filho ou parente uma situação que, de direito, l>ertenceda a um terceiro Ínais competente ou antigo. Êsse delito contra a justiça emperra o mecanismo so­ cial, multiplicando as incapacidades profissionais, e inspira revoltas, espicaçando o j usto ressentimento de quantos foram iniquamente postergados. Tão grave co­ mo êste, ou mais ainda, é o êrro que os pais cometem ao recorrer a conhecidos p ara conseguir que o filho' seja considerado inapto para o serviço militar, muito embora gose de excelente saúde. Tamanho crime con­ tra a pátria faz supor ao filho que lhe é lícito iludir, em proveito proprio, o grupo social quando devera mostrar-se, em todas as ocasiões, seu fiel serv.idor. Os pais que, sem vacilação, satisfazem os capri­ chos de um filhQ e acham natural que êle monopolise, egoisticamente, os bdnquedos e prazeres que lhe cum­ pria aquinhoar com seus irmãos ou companheirrs de­ senvolvem um espírito de cobiça que levará, mais tar­ de os industriai.s e comerciantes a verem, tão sómente, os pro1>rios lucros, sem receio de se locupletarem à custa do bem geraL Qualquer que sej a a aparente prp­ bidade dos que pretendem estabelecer seus cabedais " ou os dos filhos, já sonegando aos onerários a l>aga legí-c. tima, já acumulando mercadorias para revendê-las côm lucros exhorbitantes, j á atirando-se a operações que vão ao arrepio das leis naturais da economia popular, ;. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 1 03 devem êles ser tidos como inimigos da ordem social, da justiça e do espírito de lealdade. O mesmo sucede com os pais <1uando burlam o fisco, fazendo crêr aos filhos que aquilo a que se cha­ ma desonestidade quando se tru ta de transações priva­ das, é legítimo e normal em face de nossas relações com a sociedade civil. Esquecem-se de <JUC o verda­ deiro cidadão deve, lealmente, participar dos en­ cargos comuns conforme à.<; leis c regulamen tos que os impõem. Aquele .que frauda fére gravemente a socie­ dade, cujos benefícios aceita, e os cidadãos, em cujos ombros irão pesar os encargos que êle não quis assu� ruir pessoalmente. Acentuemos que as tentações anti­ sociais da familia são, por vezes, tanto mais subtís �· quanto maior é a união e o desejo ardente, por parte de cada membro, do triunfo dos demais. A e.ssa teu� dência egoísta do grupo familiar convém que o� filhos oponham a educação atenta do espírito de justiça e de desinterêsse. A educação social dos filhM. Que aspecto deverá assumir a educação dos filhos quando se quer fazer deles cidadãos úteis e cristãos escl�recidos ? De certo modo o filho começa por mostrar-se um sêr anti-social, isto é, un1 .sêr <Iue, a princípio, só co­ nhece o seu " eu " e se inclina a subordinar tudo aos seus deleites pessoais. D eve o educador esmerar-se em trazê·lGI para fóra de si afim de que compreenda os outros f! se dediqu� aos outros, respeitando-lhes as pes� • soas e os direitos. Esta formação da consciência social começa pela obediencia. E', com efeito, pela submissão http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    1 04 AB A D E - J E A N V I O L L E T 3 autm·idade albêia que a criança entra a levar em linha de conta as legítimas exigências da autoridade. Graças aos sacrifícios impostos desprende-se, pouco a pouco, de sua personalidade egoista e afaz-se a servir um bem moral CJue esta acima de si e ao qual êle aca­ bará J>Or lançar-se COrri to·das as veras ele sua vontade e consciência l>essoais. Essa transmigração do amôr de si para o amôr ao bem e ao res1)eito alhêio, torna-se extraordinariamente fádl, clõ'mo vimos, })elo contado diário com seus iguais, com irmãos e hmãs guiados pela autoridade dos pais e obrigados a se imporem os sacrifícios exigidos pelo acôrdo mutuo. llais tarde, ·quando Yier a idade dos ,juizos pessoais, os átos de autoridade não mais bastam à formação da consciência do filho. Será, então, mistér o exemplo que 1 esclarece e seduz. O adolescente bem cêdo atina com o valor que os pais dão ao trabalho e às ocupações. Mui naturalmente passa a modelar pelo dêles o seu critério, encarando a vida pelo mesmo aspecto. Conforme sur­ prenda neles, ou o desinteresse ou a preocupação dos gosos egoistas, julgará as proprias aspirações jà como um meio de contentar as ambições e ansias de goso, já como apêlo ao desinterêsse e ao trabalho social. Seus desejos vão, assim, confundir-se, natumlmente, com os desejos dos que o ceream. Sendo a juyentude a i dade precípua da decisão ·e da liberdade, as fôrças que trabalham a alma do moço tendem a arrastá-lo, com equilíbrio quasi perfeito, à sa­ tisfação das paixões ou ao desinterêsse total. :t:ste vivo' entrechoque torna o homem responsável 1)ela orienta­ ção que da às ocupações e à vida. D� que modo valer­ se e guiar-se em sua escolha; onde achar energias para dominar a violência das paixões e preferir o bem co- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 1 05 mum à.s �atisfações pessoais se o não ampara o exem­ plo dos que com êle convivem noite e dia ? A ciência não poderá 'ser, aos seus olhos, um esfôrço altruísta em busca da verdade; o comércio e a indústria, um meio de tornar maior o bem-esta•· de todos ; o trabalho, um serviço prestado aos outros, .se os que o cercam não lhe dão o exemplo de lealdade ao trabalho onde se equivalem a preocupação do bem social c o desejo de triunfar. Se vê que o pai só se serve da inteligência e do trabalho para finalidades egoístas, para se tornar rico ou dar curso às .suas ambições, será levado, é cla­ ro, a imaginar que a vida é um bem para uso exclu­ sivo e de que se deve, exclusivamente, usar em pro­ veito proprio. Os padecimentos pessoais que esse egois- mo há-de gerar semearão, mais tarde, odios e disser­ sões de que acarretará, em })arte, a responsabilidade. Lutas, dissidios e inj ustiças sociais se originam, quase sempre, da hÍJ)Ocrisia e da maleabilidade. Eis por que devemos pôr a franqueza em primeiro plano entre as virtudes sociais, preparando os filhos a prezar a lealdà'de a ponto de aceitar-lhe, por vezes, os sacri­ fícios e as consequências dolorosas. O filho mente com facilidade, por mêdo ao castigo, para satisfazer às pai­ xões incir>ientes, por amor-proprio ou orgulho. Para corri�í-lo é mistér exaltar-lhe a noção de honra mos­ trando-lhe que menOr é baixej a e, ao mesmo tempo, falta de confi ança em seu semelhante. E' preciso levá­ lo a preferir a punição ou o sacrifício de algum pra­ zer pessoal, à mentira aviltante, explicando-lhe que fu- · gir à verdade é inj uri ar o próximo e pôr um entrave à bôa harmonia. Afl•eito, desde cedo, a aceitar as conse­ quências da franque';a, por dolorosas que sejam, em face, muitas vezes, de pessoas menos misericordiosas que os . http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    1 06 AB A D E - J E A N V 1 0 L L E T pais, como o são professores e companheiros, estará apercebido para resisür, mais tarde, às sugestões de uma sociedade qu ase sempre cruel e totalm�nte contaminada pela burla e deslealdade. O homem social, acaso, não será, por excelência, o que bravamente resistir a custa de sacrificios pessoais, aos maus influxos ·da ainbição ? À virtude social da lealdade vem sobrepor-se ou­ tra não menos importante, a do trabalho considerado como serviço feito aos outros. Deus uniu os dife1·entes membros da sociedade pelo elo de um esfôrço comum feito de todos os esforços individuais de sorte que, lJara viver e prosperar, carece, cada um, dos serviços de todo.s. E' o trabalho dever tão rigoroso que São Pau­ lo não receou declarar que quem não trabalha não tem o direito de comer. To dos os progressos de ordem moi'al t ou material repousam nos esforços da humanidade. Os progressos da religião, da arte da ciência, a satisfação das necessidades materiais e espirituais dependem da colaboração d e cada um. �ste é o pensamento que o.s pais hão-de semp:re se -esforçar por incutir no coração dos filhos. E' preciso que êles saibam ser um crime contra o bem comum o pretender usufruir os benefí­ cios da vida sem que se tornem, pessoalmente, úteis ; que o mesmo é aproveitar-se do labor alhéio e, por assim dizer, explorá-lo; que os ociosos, .sobretudo quando ricos, são os fatores principais dos desconten­ tamentos e revoltas que abalam, a toda hora, a paz e a concordia sociais. Os indolentes são parasitas inimi­ gos da sociedade e do bem público. Mais que a nin­ guém, cumpre aos católicos o dever de proclamar, bém alto, que nenhum ser humano tem�. o direito de arras­ tar na preguiça uma vida que lhe f.oi dada para a �ti­ lidade e o bem _ geral. Esses pensam�ntos devem cres- http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 1 07 cer na consciência do filho de par com .sua energia para o tra,balho e esfôrço pessoal. Os pais que deseja­ rem ampliar seu peculio de família afim de que os filhos possam, mais tarde, andar tl gandúia, sem obri­ gações .,que cumprir, alinham gcra��(H.'.S de egoístas cujo ocio vai ser nota de escândalo para os que trabalham e formal negação à lei divina : "Labutarás com o suor do teu rosto." Que ao filho, pois, se imprima o hábito de trabalhar nem se recêie lutar, energicamente, con­ tra o seu descaso e atonia naturais. Saibamos encora­ já-lo, .se necessário fôr, mas, também, admoestar-lhe a preguiça J>ara que êle compreenda que quem não tra­ balha não faz júz ao alimento. Saibamos despertar-lhe na consciência a vontade de ser útil, e, no coração, o es]>Írito de gratidão por quantos, no passado c no pre­ sente, contribuham J>ara o seu bem-estar, para o seu desenvolvimento físico e moral. Que sua educação lhe descortine as mais lídimas alegrias, as que nascem na alma de quantos souberam ser úteis a outrem. Deus não quer, já o dissemos, que a família se con'" centre egoisticamente, nela mesma. Se ela não souber sacrificar-se pelos outros ; se não souber destinar à ca­ ridade paTte de seu tempo e dinheiro, e à miséria um po-rt..co .de piedade, jamais ensin ará aos filhos o verda­ deiro sentido da dedicação social e da caridade. Ao ver o pai preocupar-·se com a melhoria moral e mate­ rial dos companheiros de trabalho; a mãe visitar os pobres e os enfermos; ao ver o sacrifício de ambos pelo alívio da miséria humana, é que o.s filhos compreen­ derão "o que devem fazer pela caTidade e pela dedica- ção social. .: O exemplo, entretanto, não basta. E' mistér a par- 1icil>ação efetiva. do filho. Daí o habituá-lo a privar-se http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    1 0 8A B A D E - J E A N V I O L L E T de um prazer para praticar, pessoalmente, a esmola, ou ir em visita a alguma família infeliz. Nac,la sei que mais eduque do que o métolo empregado por certa família que obteve dos filhos o privarem-se, de boa mente, e por varios dias, da sobremesa para que as• economias deco-rrentes fossem mandadas aos meninos famintos de um país estranho. Assim , também, para o espírito de j ustiça .S·ocial, cuj a preparação, como vimos, cabe à autoridade paterna o*Origando os filhos, cada um de per si, a respeitar e defender o direito dos ir­ mãos, espírito, porém, que .só se desenvolve com o exemplo. Vendo o pai defender pessoalmente, os fra­ cos, sem temer os aborrecimentos e lutas que podem sobrevir, os fj]hos, por sua vez, se lançarão, impavi­ dos à defesa dos companheiros oprimidos ou mais fra­ cos, enfrentando as inj ustiças e perfídias tão comuns entre as crianças, destemerosos das malquerenças que podem gerar, adextrando-se, assim, para se tornaren1 os futuros defensors 'corajosos da j u.stiça social, que êles sobrepõem à J>az e à tranquHidade pessoais. A edzzcaçiio religiosa do.ç filhos. O de.svêlo social se confunde com o amôr '·ao pró­ ximo, tal como o ensinou Jesús. Ai está· por que é · que a vida religiosa será a fonte generosa onde a família vai beber as energias necessárias à dedicação. A dis-: cipliq,a re]jgiosa modela, pois, a educação soóal por­ isso que traz à consciência o acúmulo de fô1·ças de que precisa p ara permanecer fiel à lei do amôr até � acei­ tação do sacrHicio pessoal. A vida r�ligiosa da família leva-a para além dela mesma relemhrando, sempre, a cada um de seus membros que os se.ntip1entos de �môr, http://alexandriacatolica.blogspot.com.br
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    M O RA L F A M I L I A R 1 09 de j ustiça e dedicação gerados no .seio do grupo familiar, se destinam, segundo Deus, a r<HH}Jer as lindes restri­ tas da vida familiar, espraiando-se na vida social. O homem perfeitamente religioso há- de estar aparelhado a amar o vróximo sem distinção de classe, de raça, de religiã<1, amparando-o contra as injustiças da vida. Para realizar êsse viver religioso, esclarecido e de­ sinteressado, a família terá de combater, no filho, as falsas manifestações da idéia de religião. Lutará con­ tra o espirito de farisaísmo (JUe leva o filho a supor que amar a Deus é dar mostras exteriores de piedade e desprezar os companheiros que não fazem o mesmo. Será preciso lembrar-lhe, incansavelmente, que as prá­ ticas religiosas tem por fim a reforma da alma e que é comêço de desamor ao próximo o julgá-lo em vez de socorrê-lo, o des1Jrezá-lo em vez de amá-lo. Será rnis­ tér explicar-lhe que Deus .só ama e protege os que na religião procuraram as graças necessárias para se fazer melhores e ampHar o seu amor a Deus c aos homens. Convirá mostrar-lhe as reSJ>Onsabilidade.s terríveis dos falsos He1,oios que engrossam. a cada passo, as fileiras dos incréus e, até, dos revoltados. O verdadeiro cato­ Hcismo se rege pelo mandamento supremo de amar a Deus e aü próximo com todas as energias. Desenvolvê­ lo n'.> filho só é possível se o hab ituarmos a multipli­ car os átos po·sitivos de amôr desinteressado. Assim é que a familia verdadeiramente católica prepara fiéis servidores à religião e à sociedade. . Por ela se formmn as gerações devotadas em que se recru­ tam os. hmnens caJJazes de ser úteis aos seus concida­ dãos e de apontar(a todos o caminho do reino eterno de Deus. http://alexandriacatolica.blogspot.com.br