no 3        -   Ano 0

                             Paraná, março/abril de 2010




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                                             respectivos autores.
SUMÁRIO

ACADEMIAS                                                                        XXIII Jogos Florais de Ribeirão Preto .................... 98
Academia de Letras de Rondônia..............81                                   XI Jogos Florais Estudantis de Ribeirão Preto ........... 98
ANÁLISE DE OBRAS                                                                 ENTREVISTA
Mario de Andrade                                                                 Alberto Paco (Maringá/PR)
Contos Novos .............................................
                                                                                 O Escritor em Xeque................................................. 89
BIOGRAFIAS                                                                       ESTANTE DE LIVROS
Anayde Beiriz............................................................93      ALUÍSIO AZEVEDO
Antonio Augusto de Assis...........................................54            O cortiço .................................................... 106
Antonio Brás Constante..............................................4            ÁLVARES DE AZEVEDO
Antonio Roberto de Paula ..........................................15            Noite na taverna ....................................... 106
                                                                                 ALVARO CARDOSO GOMES
Aparecido Raimundo de Souza...................................52                 Fase terminal ............................................ 108
Branca Tirollo...........................................................80      ANTONIO CALLADO
Caio Porfírio Carneiro ...............................................58         A expedição Montaigne ............................. 107
Clarice Lispector........................................................70                       GUIMARÃES
                                                                                 BERNARDO GUIMARÃES
                                                                                 A escrava Isaura ....................................... 108
Dinair Leite ...............................................................81   O seminarista............................................ 109
Franklin Ras Lopes....................................................51         CAMILO CASTELO BRANCO
Helena Kolody...........................................................43       Amor de perdição ...................................... 107
José Carlos Capinan ...................................................28        EDUARDO BUENO
                                                                                 A viagem do descobrimento ...................... 107
Luiz Otávio................................................................36    Capitães do Brasil – A saga dos primeiros
Mario de Andrade......................................................21         colonizadores ............................................. 107
Nilto Maciel...............................................................13    Náufragos , traficantes e degredados ....... 107
Oswald de Andrade....................................................6           O descobrimento das Índias...................... 107
                                                                                 ELIAS JOSÉ
Pedro Ornellas ..........................................................79      Um pássaro em pânico.............................. 109
Pedro Silva ...............................................................18    ELISABETH LOIBL
Tatiana Belinky ........................................................29       O mistério do índio voador........................ 110
Tchelo D’ Barros........................................................57       O segredo do ídolo de barro....................... 110
                                                                                 GUILHERME DE OLIVEIRA FIGUEIREDO
Vicência Jaguaribe ....................................................3         Tratado geral dos chatos........................... 108
CONCURSOS COM INSCRIÇÕES ABERTAS                                                 HERNÂNI DONATO
XX Concurso de Trovas de Pindamonhangaba ...........94                           Brasil 5 séculos ......................................... 108
VI Concurso de Trovas da UBT-Maranguape/2010 ......94                            IVAN ÂNGELO
                                                                                 A face horrível ........................................... 106
Jogos Florais UBT Seccional Mérida – Venezuela.......95                          JOÃO GUIMARÃES ROSA
                                                                                 JOÃO
Jogos Florais de Cambuci/RJ – 2010 ........95                                    Grande sertão: veredas ............................. 109
Concurso Internacional de Literatura Para 2010. .......95                        Primeiras estórias ..................................... 109
Concursos da UBT São Paulo - 2010 (100 Anos do                                   Sagarana ................................................... 109
Nascimento de Noel Rosa) ...................................96                   JORGE AMADO
                                                                                 A descoberta da América pelos turcos ...... 105
IX Concurso de Trovas de Caicó -2010..................... 97                     A morte e a morte de Quincas Berro D’Água............... 105
IV Jogos Florais de Balneário Camboriú / SC ...........97                        ABC de Castro Alves................................. 105
V Jogos Florais de Cantagalo / RJ ............ 97                                Dona Flor e seus dois maridos .................. 105
Xl Jogos Florais de Niterói .................................97                  O sumiço da santa..................................... 106
Concurso de Trovas de Taubaté ................97                                 Os pastores da noite.................................. 105
XXX Concurso Estadual/Nacional e I Concurso Interno de Trovas                    São Jorge dos Ilhéus ................................. 106
da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte................. 97                 Tenda dos milagres ................................... 106
                                                                                 Terras do sem fim ..................................... 106
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                                                 respectivos autores.
Tieta do agreste .........................................106           De como Malasartes passa adiante a carneirada ......... 12
Tocaia grande: a face obscura ...................106                    O Saci ........................................................ 98
JORGE CALDEIRA
Mauá, empresário do Império ...................107
                                                                        HAIKAIS
JOSÉ DE ALENCAR                                                         Helena Kolody
Iracema: a lenda do Ceará.........................104                   Último........................................................ 42
Lucíola .......................................................104      Aplauso...................................................... 42
O garatuja: crônica dos tempos coloniais..104                           Alegria ....................................................... 42
O guarani...................................................104         Flecha de Sol ............................................. 42
O sertanejo.................................................105         Ipês Floridos.............................................. 42
Senhora......................................................105        Qual? ......................................................... 42
Til...............................................................105   Poesia Mínima........................................... 42
JOSUÉ GUIMARÃES                                                         Manhã ....................................................... 42
Camilo Mortágua.......................................109               Arco-Íris..................................................... 42
Os tambores silenciosos.............................109                 Jornada ..................................................... 42
LÚCIA MACHADO ALMEIDA                                                   Ressonâncias ............................................. 43
As viagens de Marco Pólo ..........................105                  Noite .......................................................... 43
            GARCIA-
LUIZ A. GARCIA-ROZA                                                     Repuxo Iluminado..................................... 43
O silêncio da chuva....................................108              Depois........................................................ 43
MANOEL ANTÔNIO DE ALMEIDA                                               Alquimia.................................................... 43
Memórias de um Sargento de Milícias......105                            Manhã ....................................................... 43
MARIA DEZONE PACHECO FERNANDES                                          No Mundo da Lua ..................................... 43
Sinhá moça ................................................108          Sem Poesia ................................................ 43
MARIA JOSÉ DUPRÉ                                                        Noturno ..................................................... 43
Éramos seis................................................108          Felicidade .................................................. 43
MÁRIO DE ANDRADE                                                        Dom ........................................................... 43
Macunaíma: o herói sem nenhum caráter 106                               NOSSO PORTUGUÊS DE CADA DIA
NILO ALGE                                                               Expressões Redundantes .......................... 49
Mergulho no fim ........................................105             NOTÍCIAS
ORÍGENES LESSA
A pedra no sapato do herói........................109                   Academia de Letras do Brasil/ Estado do Paraná
O feijão e o sonho.......................................109            Imortais ..................................................... 111
Rua do sol ..................................................109        Tatiana Belinky toma posse na Academia
Tio Pedro....................................................109                      Letras..................................... 110
                                                                        Paulista de Letras
PAULO LINS                                                              O ESCRITOR COM A PALAVRA
Cidade de Deus .........................................109             Anayde Beiriz
PAULO MENDES CAMPOS                                                     Carta de Amor........................................... 92
Cartas do meu moinho ..............................107                  Antonio Brás Constante
PEDRO BLOCH                                                             O Homem, o Carteiro e o Cachorro .......... 3
Cara nova ou beleza pura..........................106                   Aparecido Raimundo de Souza
RUBEM FONSECA                                                           O Homem Só ............................................. 51
O doente Molière .......................................108             Artur de Azevedo
RUY CASTRO                                                              A Filosofia do Mendes ............................... 88
Bilac vê estrelas.........................................108           Branca Tirollo
VERA FERREIRA/ ANTONIO AMAURY                                           Não Brinque com o Fogo ........................... 79
De Virgolino a Lampião.............................108                  Caio Porfírio Carneiro
ZÉLIA GATTAI                                                            Vingança.................................................... 57
Anarquistas graças a Deus........................108                    Clarice Lispector
Jardim de inverno .....................................108              Ruído de Passos......................................... 70
FOLCLORE                                                                Franklin RAS Lopes
Aventuras de Pedro Malasartes (3)                                       O Inesperado Aprendizado nas Curvas
Uma das de Pedro Malasartes ....................................11      Femininas do Preconceito ......................... 50
                                                                        Machado de Assis
De como Malasartes fingiu que se Matava....................12           A Cartomante............................................ 38
Nilto Maciel                                                        Pronominais .............................................. 5
Hiroito........................................................12   Vício na Fala ............................................. 5
Pedro Silva                                                         Balada do Esplanada ................................ 5
Uma Viagem na Época dos Descobrimentos ..............16             Escapulário ............................................... 5
Tatiana Belinky                                                     Ocaso ......................................................... 6
O Diabo e o Granjeiro ................................29            Brasil ......................................................... 6
Tchelo D’ Barros                                                    Relicário .................................................... 6
“M” E “H” no 609 ......................................
                        ......................................
                                                         ......54   Senhor Feudal........................................... 6
Vicência Jaguaribe                                                  Paulo Vieira Pinheiro
Mãe, ela parece um gatinho! .....................2                  A régua que mede...................................... 68
                                                                    Adverso...................................................... 68
POESIAS                                                             Amores à letra d'alma............................... 68
Alberto Paco (   (Maringá/PR)                                       Chuvisco .................................................... 69
Fruto do Carnaval .....................................86           Cintilar (Estudo 080608-1) ....................... 67
Antonio Augusto de Assis (Maringá/PR)                               De pé me deito........................................... 69
Carnaval ....................................................53     Desabafo.................................................... 69
Luolhar ......................................................53    Esperanças (Exercício 21042008-3) .......... 67
Terceira infância........................................53         Já ............................................................... 66
Aurora bela ................................................54      Momentos de insensatez ........................... 66
Por um beijo...............................................54       Tanto tempo que nem sei.......................... 66
Antonio Cândido da Silva (            (Porto Velho/RO)              Tempos de Inocência ................................. 69
Bar do Zizi .................................................85
Antonio Manuel Abreu Sardenberg (                    (São
                                                                    Universo das Palavras (Exercício 21042008-1)............ 66
                                                                    Veneta ....................................................... 66
Fidélis/RJ)
                                                                    Xadrez ....................................................... 66
Namorar em Sonhos ..................................85
                                                                    Ramsés Ramos (      (Teresina/PI)
Antonio Roberto de Paula (Maringá/PR)
O Silêncio de Maringá ...............................13             Sete Pecados do Amor ............................... 86
Cabrito na Horta ......................................14           Samuel Castiel Jr. (      (Porto Velho/ RO)
                                                                    Flor Tropical.............................................. 87
Emir Simionato Sabião (Ubiratã/PR)
                                                                    Tatiana Belinki (    (São Paulo/ SP)
Procura .....................................................2
                                                                    O Grande Cão-Curso................................. 86
Desejo.........................................................2
                                                                    Os "Limerick" ........................................... 87
José Carlos Capinan (Esplanada/BA)
Mudando de Conversa ...............................24               SOPA DE LETRAS
Algumas Fantasias ...................................24             A Origem da Escrita ................................. 58
Madrugadas de Narciso.............................25                TROVAS
Outras Confissões......................................25
                                                                    Alberto Paco (PR)
Didática......................................................25
                                                                    Quadro Trovadoresco ................................ 89
Poesia Pura................................................25
                                                                    Dinair Leite
O Rebanho e o Homem ..............................26
                                                                    Trovas........................................................ 80
Ponteio .......................................................26
                                                                    João Paulo Ouverney (SP)
Clarice........................................................26
                                                                    Quadro Trovadoresco ................................ 104
Papel Machê ..............................................27
                                                                    Luiz Otávio
Machado de Assis (       (Rio de Janeiro/RJ)
                                                                    100 Trovas................................................. 31
A Mosca Azul .............................................84
                                                                    Pedro Ornellas
Maria Eliana Palma (         (Maringá/PR)
                                                                    A Lágrima na Trova.................................. 77
Albatroz .....................................................87
                                                                    Wilma Mello Cavalheiro (RS)
Olga Agulhon (     (Maringá/PR)
                                                                    Quadro Trovadoresco ................................ 50
Ridícula......................................................84
Oswald de Andrade (São Paulo/SP)                                    INDICAÇÃO DE SITES DE LITERATURA ........... 112
Relógio .......................................................4
Erro de Português......................................4            FONTES .................................................... 113
                                                                           ....................................................
Canto de Regresso à Pátria .......................5
Revista Literária
                                              “O Voo da Gralha Azul”
                                                                 março/abril
                                                 n0. 3 – Paraná, março/abril 2010

 Idealização, seleção e edição: José
               Feldman

 Contatos, sugestões, colaborações:
   pavilhaoliterario@gmail.com
http://singrandohorizontes.blogsp
ot.com




Que a humanidade possa aprender com a nossa Gralha-azul e entender que o
equilíbrio e o respeito ecológico entre fauna e flora é fundamental para a existência
do Homem na face da Terra!!!


                                         Prezado Leitor



Esta revista não tem a pretensão e nunca poderá ser considerada como substituição aos livros, jornais,
colunas, etc. que circulam virtualmente ou não, mas sim como mola propulsora de incentivo ao
cidadão para buscar novos conhecimentos, ou relembrar aqueles perdidos na névoa do passado.

Por que o Voo da Gralha Azul? A poetisa norte-americana Emily Dickinson, que viveu no século XIX, diz
“Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes”. No caso da revista, esta
fragata é a Gralha Azul, que assim como semeia o pinheiro, ela alça voo e semeia no coração de cada
um que alcançar, o pinhão da cultura, em todas as suas manifestações.

Ao leitor, novos conhecimentos.
Ao escritor ou aspirante a tal, sejam poetas, trovadores, romancistas, dramaturgos, compositores, etc.,
um caminho de conhecimento e inspiração.

                     Obrigado por me permitir dividir consigo estes breves momentos,
                                                                          José Feldman
2



                                 Emir Simionato Sabião
                                        (Poesias)

PROCURA
                                                  DESEJO
Procurei tudo e não encontrei
Tentei tudo e não consegui                        No fundo dos olhos de alguém
Falei tudo e não ouvi                             mergulhei e me perdi
Olhei pra tudo e nada vi                          Nos lábios de alguém me entreguei
Andei muito, mas não saí                          e mesmo assim eu resisti
Toquei em tudo, mas não senti                     No corpo de alguém eu me esquentei
Perguntei muito e não respondi                    e nunca mais esqueci
Então não sei                                     Porém não sei o que fazer
porque ainda estou aqui!                          se nada disso está aqui!



                                  Vicência Jaguaribe
                                 (Mãe, ela parece um
                                       gatinho!)
                                       gatinho!)

        Nega do cabelo duro, / qual é o pente     segurava o barrigão inchado. Às vezes, soltava
que te penteia, / qual é o pente que te penteia   um gemido. A menina olhava-a e sentia que
/ qual é o pente que te penteia, ó nega...        algo estava errado – aliás, sentia isso há algum
       A menina ouvia a voz de uma das tias       tempo, já. Primeiro aquela barriga que todo dia
brincando com ela e com a irmã. Depois de         crescia um pouco, até ficar daquele tamanho,
adulta, sempre que ouvia o samba de Ary           ameaçando explodir. O que ela tinha naquela
Barroso, Rubens Soares e David Nasser,            barriga? Ninguém lhe dizia nada, e ela sentia
lembrava-se daquele dia. Mas, principalmente,     vergonha de perguntar. Há algum tempo, vira a
lembrava-se da tia. Aquela música havia           mãe vomitando e perguntara-lhe se ela comera
aderido à figura da tia como a areia adere ao     alguma coisa estragada. A mãe confirmou.
corpo molhado.                                            A coisa que ela tinha mais medo no
       Ela e a irmã estavam na casa da avó,       mundo era de perder a mãe. Quando ouvia
porque a mãe fora buscar o irmão delas, que       dizer que morrera uma mãe, ela passava o dia
nasceria naquele dia. Quando ela chegasse,        seguindo a sua. E era preciso que a mãe a
mandaria buscá-las. Foi isso o que lhes           pusesse no colo, conversasse com ela,
disseram. Ela só tinha cinco anos quando o        explicasse que não ia morrer, porque não
irmão nasceu, mas se lembra perfeitamente do      estava doente, para que ela voltasse ao normal.
que aconteceu. A irmã, com três anos, não                 Enquanto a irmã ria brincando com a
atinava para a situação nem guardou nenhum        tia, ela ficou sentada no chão, de frente para o
recordação.                                       corredor, observando o movimento, para tentar
       Mas ela, a mais velha, pressentia          entender alguma coisa. De vez em quando,
alguma coisa anormal no ar. Não sabia o que       entrava um tio ou uma tia com cara de
era. Mas que havia, havia. De manhã bem           preocupação. A avó estava todo o tempo
cedo, a mãe acordou-as, ajudou-as a escovar       ajoelhada em frente ao santuário, rezando para
os dentes; preparou-lhes o café e mandou a        os santos dela. Mais tarde, perto do almoço,
empregada levá-las para a casa da avó             uma das tias chegou chorando, entrou no
paterna. Mas a menina observara que ela não       quarto e disse alguma coisa à mãe. A menina
estava bem. De vez em quando, curvava-se e        apurou os ouvidos, mas só ouviu uma palavra:

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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hemorragia, que ela não sabia o que era. Mas      no carro, depois de despedir-se de seu pai, e o
viu quando a avó começou a chorar. A tia que      carro partir. O pai não entrou em casa, veio
havia chegado chamou a irmã que brincava          para a casa da mãe. Ao vê-la sentada na
com as meninas, cochichou alguma coisa. E a       calçada, botou-a no braço. Ele estava com a
irmã ficou com cara de enterro.                   cara alegre:
        A menina não sabia precisar, mas intuía           - Seu irmão chegou, e sua mãe agora
que algo grave acontecia com a mãe. O pai         está bem. Daqui a pouco você pode ir vê-la.
havia, poucas horas atrás, entrado na casa da             A menina começou a chorar, como se
mãe, dizendo que mandara buscar um médico         alguém houvesse apertado um botão liberador
na cidade vizinha. Logo depois, alguém lhe        de lágrimas.
dissera que não precisava mais, já estava tudo            - Mas por que essa menina está
bem. O pai, no entanto, não mandara o carro       chorando? – Perguntou à irmã, que se
voltar.                                           aproximava.
        Então, se o pai mandara chamar um                 Os adultos pensavam o que das
médico era porque alguém estava doente. E só      crianças? Que eram burras, insensíveis? E
podia ser a mãe dela, raciocinou a menina.        quanto mais tomava consciência de que nem
Teve vontade de chorar, mas se controlou.         passara pela cabeça do pai que ela podia estar
Olhou para a irmã, que continuava rindo e         sofrendo, mais chorava. Só se calou quando a
cantando. O pai foi para casa, e a menina ficou   tia, mesmo sem o consentimento do irmão,
mais preocupada ainda. Mas ninguém ali se         levou-a a ver a mãe.
importava com a sua tristeza. Parecia até que             A mãe abraçou-a e jurou que estava
ninguém a via.                                    bem. Mas percebeu que a sua menina não era
        Foi à cozinha, tentar escutar alguma      tão ingênua como se pensava. Teve certeza de
coisa das empregadas. Ela sabia – de ouvir        que percebera que a mãe quase se fora. E
dizer –     que empregada sabe de tudo e          mandou que ela fosse ver o irmão no berço.
conversa tudo na frente das crianças. Mas,                A menina ficou de ponta de pé e olhou o
daquela vez, nada. A tia aproximou-se e falou     irmão, que lhe pareceu um embrulho branco. E
em almoço. A menina, que normalmente quase        o primeiro sentimento que experimentou por
não comia, disse não estar com fome. Mas foi      ele foi raiva. Se não fosse ele, a mãe não tinha
obrigada a engolir alguns bocados, à força, a     ficado doente. Mas, de repente, ele mexeu-se e
tia fazendo bolinhos na mão. E aí ela se          abriu os olhos – uns grandes e belos olhos
lembrou dos perus que a mãe engordava para        azuis. Foi nesse momento que ela se
o Natal. Era exatamente assim que ela dava        descontraiu e, sorrindo, disse para a mãe:
comida aos bichos. Deus a livrasse de ser peru!           - Mãe, ele parece um gatinho!
Ave Maria!
        Quando a tia achou que ela havia
comido – à força – o suficiente, ou cansou de
tentar, liberou-a, e ela foi para a calçada.
Sentou-se à sombra do fícus benjamim, virada                  Vicência Jaguaribe
para o lado de sua casa, que ficava umas nove     Vicência Maria Freitas Jaguaribe, natural de
casas à frente. Viu, parado em frente à casa, o   Jaguaruana-Ce. Professora de Literatura e Estilística
carro que fora buscar o doutor. Mais ou menos     da Universidade Estadual do Ceará. Mestra em
uma hora depois – e durante esse tempo ela        Literatura pela UFC. Trabalhos publicados nas áreas
ficou na quentura da calçada, sem ninguém se      de Literatura, Estilística e Lingüística do Texto.
incomodar –, viu um homem de branco entrar
                                       Antonio Brás
                                        Constante
                                (O Homem, o Carteiro
                                    e o Cachorro)

     O cachorro é o melhor amigo do               primeiramente vamos tentar explicar para essa
homem, com exceção do carteiro. Mas               juventude que só conhece internet o que é um

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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carteiro. O carteiro seria uma espécie de          irrita e maltrata seu cão, que em contrapartida
provedor de e-mails biológico. Quando ele          morde o carteiro em sinal de represália.
entrega as correspondências a pé, isto                      Uma forma de contemporizar o
equivaleria a uma conexão discada e lenta. Se      problema de donos de cães que deixam os
ele estiver de moto poderia ser considerado        animais soltos ou mal trancados (facilitando
como uma conexão ADSL (banda larga), e o           ataques aos carteiros) seria fazer esses donos
SEDEX é a internet empresarial, rápida,            passarem um dia na função de carteiros
eficiente e muito mais cara.                       auxiliares, entregando cartas somente em
        O carteiro poderia entendido (na ótica     residências com grandes e ferozes cães. Um
dos cães) como uma espécie de válvula de           bom castigo, já que eles sentiriam na pele (que
escape para o cachorro, que muitas vezes sofre     é o primeiro lugar que sente a mordida dos
de forma obediente a crueldade de seu dono, e      cachorros) o problema enfrentado todos os dias
por não poder pagar um psicólogo canino,           pelos entregadores de cartas.
resolve descontar suas frustrações no carteiro,
                                                           Enfim, no mato sem cachorro em que
visto que ele, na teoria, é a imagem e
                                                   vivemos, onde quem não tem cão caça como
semelhança do seu dono. Ou seja, a profissão
                                                   um gato, nós estamos rumando para um
de carteiro acaba sendo um negócio bom pra
                                                   mundo sem cartas, ou carteiros, ou mesmo
cachorro, literalmente falando.
                                                   cachorros. E neste futuro, quando percebermos
        Talvez o cachorro entenda que o carteiro
                                                   que a idéia de que tínhamos as cartas na mesa,
é como algum tipo de ave de mau agouro, algo
                                                   era falsa, e que fizemos uma grande cachorrada
parecido com um corvo, como descrito pelo
                                                   com nosso fiel e amigável planeta, não haverá
escritor Edgar Alan Poe. O cão já deve ter
                                                   mais como reescrever a história, e a cartada
percebido que muitos dos papéis deixados pelos
                                                   final   de     nossa   existência  já    estará
carteiros têm símbolos que quando unidos
                                                   derradeiramente selada.
formam a frase: “C-O-N-T-A-S-A-P-A-G-A-R”, e
que cada vez que seu dono lê essas mensagens
escritas fica aborrecido, irritado, chegando
algumas vezes a amassar o papel. E o que o
dono do cachorro geralmente faz depois? Chuta
seu      pobre     companheiro     de    patas,
                                                           Antonio Brás Constante
provavelmente por achá-lo culpado pelo carteiro    Antonio Brás Constante, natural de Porto Alegre.
                                                   Residente em Canoas/RS. Bacharel em computação,
ter conseguido       entregar aquela infeliz
                                                   bancário e cronista de coração, escreve com
mensagem para ele.                                 naturalidade, descontraída e espontaneamente,
        Este é um dos ciclos da vida, o carteiro   sobre suas idéias, seus pontos-de-vista, sobre o
trás as contas para o dono da residência que se    panorama que se descortina diferente a cada
                                                   instante, a nossa frente: a vida. Membro da ACE
                                                   (Associação Canoense de Escritores).



                                  Oswald de Andrade
                                      (Poesias)

                                                                        Oswald, pintura de Tarsila do
                                                                                  Amaral

                  RELÓGIO                                             As horas
                                                                     Vão e vêm
                 As coisas são                                       Não em vão
                 As coisas vêm
                 As coisas vão                                ERRO DE PORTUGUÊS
                   As coisas
                  Vão e vêm                                 Quando o português chegou
                  Não em vão                                Debaixo duma bruta chuva

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              Vestiu o índio                          Uma balada
    Que pena!Fosse uma manhã de sol                    Antes de ir
          O índio tinha despido                      Pro meu hotel.
              O português                              É que este
                                                        Coração
   CANTO DE REGRESSO À PÁTRIA                         Já se cansou
                                                       De viver só
       Minha terra tem palmares                       E quer então
          Onde gorjeia o mar                         Morar contigo
         Os passarinhos daqui                        No Esplanada.
       Não cantam como os de lá
                                                       Eu queria
       Minha terra tem mais rosas                        Poder
       E quase que mais amores                           Encher
       Minha terra tem mais ouro                       Este papel
       Minha terra tem mais terra                   De versos lindos
                                                     É tão distinto
        Ouro terra amor e rosas                      Ser menestrel
          Eu quero tudo de lá                          No futuro
     Não permita Deus que eu morra                    As gerações
         Sem que volte para lá                      Que passariam
                                                         Diriam
     Não permita Deus que eu morra                      É o hotel
      Sem que volte pra São Paulo                       É o hotel
         Sem que veja a Rua 15                       Do menestrel
       E o progresso de São Paulo
                                                    Pra me inspirar
           PRONOMINAIS                               Abro a janela
                                                    Como um jornal
           Dê-me um cigarro                            Vou fazer
             Diz a gramática                           A balada
        Do professor e do aluno                      Do Esplanada
           E do mulato sabido                        E ficar sendo
    Mas o bom negro e o bom branco                   O menestrel
           Da Nação Brasileira                       De meu hotel
          Dizem todos os dias
         Deixa disso camarada                      Mas não há, poesia
            Me dá um cigarro                           Num hotel
                                                     Mesmo sendo
           VÍCIO NA FALA                               'Splanada
                                                    Ou Grand-Hotel
      Para dizerem milho dizem mio
         Para melhor dizem mió                         Há poesia
               Para pior pió                            Na dor
          Para telha dizem teia                         Na flor
        Para telhado dizem teiado                     No beija-flor
         E vão fazendo telhados                       No elevador

       BALADA DO ESPLANADA                          ESCAPULÁRIO

            Ontem à noite                          No Pão de Açúcar
              Eu procurei                            De Cada Dia
            Ver se aprendia                         Dai-nos Senhor
          Como é que se fazia

Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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                  A Poesia                                  À espera de visitas que não vêm
                 De Cada Dia                             (Primeiro caderno do aluno de poesia)

                   OCASO                             Em 11 de janeiro de 1890 nasce em São
                                                  Paulo José Oswald de Sousa Andrade, filho
         No anfiteatro de montanhas               único de José Oswald Nogueira de Andrade e
          Os profetas do Aleijadinho              Inês Henriqueta Inglês de Sousa Andrade.
         Monumentalizam a paisagem                   Inicia seus estudos, em 1900, na Escola
        As cúpulas brancas dos Passos             Modelo Caetano de Campos, ainda marcado
     E os cocares revirados das palmeiras         pelo fato de haver presenciado a mudança do
       São degraus da arte de meu país            século.
          Onde ninguém mais subiu                    Em 1901, vai para o Ginásio Nossa Senhora
                                                  do Carmo. Tem como colega Pedro Rodrigues
                   BRASIL                         de Almeida, o “João de Barros” do”Perfeito
                                                  Cozinheiro das Almas desse mundo...”.
       O Zé Pereira chegou de caravela               Em 1903, transfere-se para o Colégio São
   E perguntou pro guarani da mata virgem         Bento. Lá tem como colega o futuro poeta
                  - Sois cristão?                 modernista Guilherme de Almeida.
- Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte      Em 1905, com o São Paulo em ebulição —
        Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!            surge o bonde elétrico, o rádio, a propaganda,
   Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!         o cinema — participa da roda literária de
        O negro zonzo saído da fornalha           Indalécio Aguiar da qual faz parte o poeta
         Tomou a palavra e respondeu              Ricardo Gonçalves.
           - Sim pela graça de Deus                  Em 1908, conclui os estudos no Colégio São
    Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!              Bento com o diploma de Bacharel em
              E fizeram o Carnaval                Humanidades. De família abastada, Oswald, em
                                                  1909 inicia sua vida no jornalismo como redator
                RELICÁRIO                         e crítico teatral do “Diário Popular”, assinando a
                                                  coluna "Teatro e Salões". Ingressa na
               No baile da corte                  Faculdade de Direito.
         Foi o conde d’Eu quem disse                 Em 1910, monta um atelier com o pintor
              Pra Dona Benvinda                   Oswaldo Pinheiro, no Vale do Anhangabaú.
             Que farinha de Suruí                 Conhece o Rio de Janeiro, e fica hospedado na
                Pinga de Parati                   residência de seu tio, o escritor Inglês de
              Fumo de Baependi                    Souza. Passa o primeiro Natal longe da família
            É comê bebê pitá e caí                em Santos, numa hospedaria de carroceiros das
                                                  docas.
            SENHOR FEUDAL                            No ano seguinte, com a ajuda financeira de
                                                  sua mãe, funda “O Pirralho”, cujo primeiro
             Se Pedro Segundo                     número é lançado em 12 de agosto, tendo
                  Vier aqui                       como colaboradores Amadeu Amaral, Voltolino,
                Com história                      Alexandre Marcondes, Cornélio Pires e outros.
            Eu boto ele na cadeia                 Conhece o poeta Emílio de Meneses, de quem
                                                  se torna amigo. Lança a campanha civilista em
                                                  torno de Ruy Barbosa. Passa uma temporada
                                                  em Baependi, Minas, nas terras da família de
                                                  seu avô.
                                                     Em 1912, viaja à Europa. Visita vários países:
          Oswald de Andrade                       Itália, Alemanha, Bélgica, Inglaterra, França,
                                                  Espanha. Conhece durante a viagem a jovem
                   Senhor
                                                  dançarina Carmen Lydia, (Helena Carmen
           Que eu não fique nunca                 Hosbale) que Oswald batiza em Milão. Morre
            Como esse velho inglês                em São Paulo sua mãe, no dia 6 de setembro.
                  Aí do lado                      Retorna ao Brasil, trazendo a estudante
           Que dorme numa cadeira                 francesa Kamiá (Henriette Denise Boufflers).
Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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Reassume sua atividade de redator de “O            primeiro grupo modernista com Mário de
Pirralho”, onde publica crônicas em português      Andrade, Guilherme de Almeida, Ribeiro Couto
macarrônico com o pseudônimo de Annibale           e Di Cavalcanti. De 1917 a 1922 escreve
Scipione.                                          regularmente no “Jornal do Comércio”.
    No ano seguinte, participa das reuniões da         Trabalha em “A Gazeta”, em 1918. Começa a
Vila Kirial e conhece o artista plástico Lasar     compor “O perfeito cozinheiro das almas desse
Segall. Escreve “A recusa”, drama em três atos.    mundo...”,      diário  coletivo   escrito   em
    Nasce o seu filho, José Oswald Antônio de      colaboração com Maria de Lourdes Castro
Andrade (Nonê), com Kamiá, em 1914. Torna-         Dolzani de Andrade (Miss Cyclone), Guilherme
se Bacharel em Ciências e Letras pelo Colégio      de Almeida, Monteiro Lobato, Leo Vaz, Pedro
São. Bento, onde foi aluno do abade Sentroul.      Rodrigues de Almeida, Inácio Pereira da Costa,
Cursa Filosofia no Mosteiro de São Bento.          Edmundo Amaral e outros. Fecha a revista “O
    Em 1915, participa do almoço em                Pirralho”.
homenagem a Olavo Bilac, promovido pelos               Bacharel em Direito, é escolhido orador da
estudantes da Faculdade de Direito. Torna-se       turma. Morre seu pai, em fevereiro. Casa-se, “in
membro da Sociedade Brasileira dos Homens de       extremis”, com Maria de Lourdes Castro Dolzani
Letras, fundada em São Paulo por Bilac. Chega      de Andrade (Miss Cyclone).
ao Brasil a dançarina Carmen Lydia, com quem           Publica no jornal dos estudantes da
mantém um barulhento namoro. Faz viagens           Faculdade de Direito, “XI de Agosto”, três
constantes de trem ao Rio a negócio ou para        capítulos de “Memórias Sentimentais de João
acompanhar Carmen Lydia.                           Miramar”.
    No ano seguinte, publica em “A Cigarra” o          No ano seguinte edita “Papel e Tinta”,
primeiro capítulo — e, depois, lança, com          assinando com Menotti del Picchia o editorial e
Guilherme de Almeida, as peças teatrais            escrevendo regularmente para o periódico.
“Theatre Brésilien — Mon Coeur Balance” e          Descobre o escultor Brecheret. Escreve em “A
“Leur Âme”, pela Typographie Asbahr. Faz a         Raposa” artigo elogiando Brecheret com texto
leitura das peças em vários salões literários de   ilustrado com fotos de trabalhos do artista.
São Paulo, na Sociedade Brasileira de Homens           1921 – Em julho, publica artigo sobre o
de Letras, no Rio de Janeiro e na redação “A       poeta Alphonsus de Guimarães, ressaltando a
Cigarra”. Publica trechos de “Memórias             forma de expressão, no seu entender,
Sentimentais de João Miramar” na “A Cigarra” e     precursora da linguagem modernista. (“Jornal
na “A Vida Moderna”. Sofre de artritismo. A        do Comércio” (SP), 07/1921). Faz a saudação a
atriz Suzanne Després recita no Municipal          Menotti del Picchia no banquete oferecido para
trechos de “Leur Âme”. Passa a colaborar           políticos e poetas no Trianon. Revela Mário de
regularmente em “A Vida Moderna”, que publica      Andrade poeta, em polêmico artigo "O meu
em 24 de maio, cenas de “Leur Âme”. Volta a        poeta futurista". Principia a colaboração do
estudar Direito, cujo curso havia interrompido     “Correio Paulistano” até 1924.
em 1912. Recebe o convite de Valente de                 Participa da caravana de jovens escritores
Andrade para fazer parte do “Jornal do             paulistas ao Rio de Janeiro, a fim de fazer
Comércio”, edição de São Paulo e em 1º de          propaganda do Modernismo. Torna-se o líder
novembro começa seu trabalho como redator.         dessa campanha preparatória para a Semana
Redator social de “O Jornal”.                      de Arte Moderna.
     Continua a viajar intermitentemente ao Rio.       Em 1922, participa da Semana de Arte
Naquela cidade freqüenta a roda literária de       Moderna no Teatro Municipal de São Paulo. Faz
Emílio de Meneses, João do Rio, Alberto de         conferência, em 18 de setembro, comemorativa
Oliveira, Eloi Pontes, Olegário Mariano, Luis      ao centenário da Bandeira Nacional. É um dos
Edmundo, Olavo Bilac, Oscar Lopes e outros.        participantes do grupo da revista “Klaxon”,
Passa temporada em Aparecida do Norte. Está        onde colabora. Integra o grupo dos cinco com
escrevendo o drama “O Filho do Sonho”.             Mário de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do
    Em 1917, conhece Mário de Andrade.             Amaral e Menotti del Picchia.
Defende a pintora Anita Malfatti das críticas          Publica “Os Condenados”, com capa de Anita
violentas feitas por Monteiro Lobato ("A           Malfatti, primeiro romance de “A trilogia do
exposição de Anita Malfatti", no “Jornal do        exílio”. Viaja a negócios ao Rio. Em dezembro
Comércio”, São Paulo, 11/01/1918). Participa do

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embarca para a Europa. Começa sua amizade              Publica, em 1927, “A Estrela de Absinto”,
com Tarsila do Amaral.                              segundo romance de “A trilogia do exílio”, pela
    No ano seguinte, ganha na justiça a custódia    Editora Hélios com capa de Brecheret.
do seu filho Nonê. Faz viagem a Portugal e             Publica “Primeiro Caderno de Poesia do
Espanha, com passagem pelo Senegal,                 Aluno Oswald de Andrade”, ilustrado pelo autor,
acompanhado de Tarsila. Matricula seu filho no      com capa de Tarsila. Começa no “Jornal do
Licée Jaccard em Lausanne, Suiça. Reside em         Comércio” a coluna "Feira das Quintas".
Paris até agosto, no atelier de Tarsila.               Disputa o prêmio romance, patrocinado pela
    Conhece o poeta Blaise Cendrars.                Academia Brasileira de Letras, com “A Estrela
     Em Paris, de volta ao Brasil, é homenageado    de Absinto”, que obteve menção honrosa.
com um banquete pela Sociedade Amis des             Publica trechos de “Serafim Ponte Grande” na
Lettres Françaises, sendo saudado pela              revista “Verde”.
presidente do grupo Mme.Rachilde.                      Em 1928, publica o “Manifesto Antropófago”
    Em 1924, no dia 18 de março publica no          na “Revista de Antropofagia”, que ajuda a
“Correio da Manhã” o “Manifesto da Poesia Pau       fundar, com os amigos Raul Bopp e Antônio de
Brasil”. Toma parte na excursão ao carnaval do      Alcântara Machado.
Rio de Janeiro e à Minas com outros intelectuais       É expulso do Congresso de Lavradores,
brasileiros e do poeta Blaise Cendrars, chamada     realizado no Cinema República (SP) por propor
de “Caravana Modernista”. Em Minas Gerais,          um acordo com o trabalhador do campo.
recebidos por Aníbal Machado, Pedro Nava e          Separa-se de Tarsila do Amaral. Rompe com
Carlos Drummond de Andrade, excursionam             Mário de Andrade e Paulo Prado.
pelas      cidades    históricas.   No   “Correio      No dia 1º de abril de 1930 casa-se com
Paulistano”, publica o artigo “Blaise Cendrars —    Patrícia Galvão (Pagú) numa cerimônia pouco
Um mestre da sensibilidade contemporânea".          convencional. O acontecimento foi simbólico,
Participa do V Ciclo de Conferência da Vila         realizado no Cemitério da Consolação, em São
Kyrial falando sobre "os ambientes intelectuais     Paulo. Mais tarde, se retrataram na igreja.
da França". Publica “Memórias Sentimentais de          Escreve "A casa e a língua", em defesa da
João Miramar”, com capa de Tarsila. Faz uma         arquitetura de Warchavchik. Nasce seu filho
leitura do “Serafim Ponte Grande”, em casa de       Rudá Poronominare Galvão de Andrade com a
Paulo Prado para uma platéia de amigos              escritora Pagú. É preso pela polícia do Rio de
modernistas.                                        Janeiro, por ameaçar o antigo amigo, poeta
      Viaja à Europa. Monta com Tarsila um novo     Olegário Mariano.
apartamento em Paris, conservando este                 Em 1931, escreve “O mundo político”.
endereço até 1929.                                     Começa a escrever ensaios políticos,
     Publica em Paris pela editora Au Sans Pareil   geralmente sobre a situação e os problemas do
o livro de poemas “Pau Brasil”.                     operário. Funda com Queiroz Lima e Pagú “O
     Retorna ao Brasil. Candidata-se à Academia     Homem do Povo”. Publica o “Manifesto Ordem e
Brasileira de Letras. Oficializa o noivado com      Progresso”. Engaja-se no Partido Comunista.
Tarsila do Amaral.                                     No ano seguinte, redige o prefácio definitivo
    Recebido com outros brasileiros em              de “Serafim Ponte Grande”.
audiência pelo papa, a fim de tentarem a               Em 1933, publica “Serafim Ponte Grande”.
anulação do casamento de Tarsila.                   Patrocina a publicação de “Parque Industrial”,
    Casa-se com Tarsila do Amaral, em 30 de         romance de Pagú.
outubro, em cerimônia paraninfada pelo                 No ano seguinte, deixa Pagú e une-se à
Presidente Washington Luis.                         pianista Pilar Ferrer. Publica “A Escada
    Publica na “Revista do Brasil” o prefácio de    Vermelha”, terceiro romance de “A trilogia do
“Serafim Ponte Grande”, primeira versão,            exílio”, e “O Homem e o Cavalo”, com capa de
"Objeto e fim da presente obra".                    seu filho, Oswald de Andrade Filho. No dia 24
    Divulga em “Terra Roxa e Outras Terras” a       de dezembro, assina contrato ante-nupcial em
"Carta Oceânica", prefácio ao livro “Pathé Baby”    regime de separação de bens com Julieta
de Antônio de Alcântara Machado e um trecho         Bárbara Guerrini.
do “Serafim Ponte Grande”.                             Em 1935, compra uma serraria.
                                                       Escreve sátira política para “A Platéia”. Faz
                                                    parte     do   movimento      artístico   cultural

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“Quarteirão”. Fichado na polícia civil do          apresentada à cadeira de literatura brasileira da
Ministério da Justiça, como subversivo.            Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da
    No ano seguinte, publica na revista “XI de     Universidade de São Paulo, na qual o
agosto”, "Página de Natal" do Marco Zero.          biografado     é livre-docente.em         Literatura
Conclui o poema “O Santeiro do Mangue”, 1ª         Brasileira. Nasce sua filha Antonieta Marília.
versão, dedicado criticamente a Jorge de Lima e       Reúne no volume “Ponta de Lança” artigos
Murilo Mendes.                                     esparsos. Publica "A sátira na poesia brasileira",
    Em dezembro casa-se com a escritora Julieta    conferência pronunciada na Biblioteca Pública
Bárbara Guerrini, tendo como padrinho o            Municipal de São Paulo.
jornalista Casper Líbero, o pintor Portinari e        Publica “Poesias Reunidas - Oswald de
uma irmã da noiva, Clotilde. Passa a residir no    Andrade”, editora. Gazeta e “Marco Zero: II —
Rio de Janeiro.                                    Chão”, pela José Olympio.
    Escreve “O país da sobremesa”, em 1937. É         Inicia a organização da Ala Progressista
feita uma tentativa de encenação da peça “O        Brasileira, programa de conciliação nacional.
Rei da Vela” pela Companhia de Álvaro                 Lança um manifesto ao "Povo de São Paulo,
Moreyra. Atua na Frente Negra Brasileira.          Trabalhadores de São Paulo. Homens livres de
Escreve na revista “Problemas” (São Paulo).        São Paulo". Escreve o "Canto do Pracinha só".
Publica “A Morta” e “O Rei da Vela”. No Rio de     Rompe com o Partido Comunista do Brasil e
Janeiro, a edição de “Serafim Ponte Grande” é      Luis Carlos Prestes, seu secretário geral.
dada como esgotada.                                   Publica na “Gazeta de Limeira”, conferência
    Em 1938, publica o trecho "A vocação" da       pronunciada em Piracicaba intitulada "A lição da
série “Marco Zero: IV”, “A presença do Mar”.       inconfidência"
Está ligado ao Sindicato de Jornalista de São         Em 1946, publica “O Escaravelho de Ouro”
Paulo, matrícula nº. 179. Redige “Análise de       (poesia). Assina contrato com o governo de São
dois tipos de ficção”.                             Paulo para a realização da obra "O que fizemos
    1939, Oswald ingressa no Pen Club do Brasil.   em 25 anos", espécie de levantamento da vida
Publica no jornal “Meio Dia” as colunas "Banho     nacional, em todos os setores da atividade
de Sol" e "De literatura". É o representante do    técnica e social à literária e artística.
jornal “Meio Dia” em São Paulo. Escreve para o        Apresenta o escritor norte-americano Samuel
“Jornal da Manhã” (SP) uma série de                Putnam, em visita ao Brasil, na Escola de
reportagens sobre personalidades importantes       Sociologia e Política (São Paulo). Participa em
da vida política, econômica e social de São        Limeira (SP) do Congresso de Escritores.
Paulo.                                                Candidata-se a delegado regional da
    Escreve “O lar do operário”. Candidata-se à    Associação Brasileira de Escritores e perde a
Academia Brasileira de Letras pela segunda vez,    eleição. Envia bilhete-aberto ao Presidente da
enviando uma carta aberta aos imortais, em         Seção Estadual, escritor Sérgio Buarque de
1940.                                              Holanda, protestando e desligando-se da
    Em 1941, monta um escritório de imóveis na     Associação, em 1947.
rua Marconi, com Nonê, o filho mais velho.            Em 1948, pronuncia em Bauru a conferência
    1942, publica “Cântico dos Cânticos para       "O sentido do interior". Nasce seu filho Paulo
Flauta e Violão”, dedicado à sua futura mulher,    Marcos.
Maria Antonieta d’Alkmin. Lança, em 2ª edição         Publica na revista Anhembi o texto "O
pela Globo, “Os Condenados”, com capa de           modernismo", em 1949. Profere conferência no
Koetz.                                             Centro de Debates Casper Líbero: "Civilização e
    Publica “Marco Zero: I A revolução             dinheiro", e no Museu de Arte de São Paulo,
melancólica”, pela José Olympio, capa de Santa     “Novas dimensões da poesia". Realiza excursão
Rosa. Começa a publicar no “Diário de S.Paulo”     a Iguape, com Albert Camus, para assistir às
a coluna "Feira das Sextas". Casa-se com Maria     tradicionais festas do Divino. É encarregado de
Antonieta d'Alkmin, em 1943.                       apresentar e saudar o escritor francês de
    Em 1944, inicia a série “Telefonema”,          passagem por São Paulo para fazer
publicada no “Correio da Manhã”, até 1954.         conferências. Escreve a coluna "3 linhas e 4
    No ano seguinte escreve "O sentido da          verdades" na “Folha de S.Paulo”, até 1950.
nacionalidade no Caramuru e no Uruguai".           Profere nova conferência na Faculdade de
Publica "A Arcádia e a inconfidência", tese        Direito em homenagem a Rui Barbosa.

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    Em 1950, escreve “O antropófago”. É             Andrade;     é    lançado    o   filme    “Cem
homenageado com um banquete, no Automóvel           Oswaldinianos”, de Adilson Ruiz e instalado
Clube, pela passagem do 60º aniversário,            painel na estação República do Metrô paulista”.
saudado por Sérgio Milliet. Participa de
concurso para provimento da Cadeira de              OBRAS
Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e     Humor:
Letras da Universidade de São Paulo, ocasião        - Revista “O Pirralho” — crônicas em português
em que defende a tese "A crise da filosofia         macarrônico sob o pseudônimo de Annibale
messiânica", sem êxito. Candidata-se a              Scipione (1912 — 1917)
deputado federal pelo PRT, com o seguinte           Poesia:
slogan: “Pão – Teto – Roupa – Saúde –               - Pau-Brasil (1925)
Instrução”.      Pronuncia      as      seguintes   - Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald
conferências: "A arte moderna e a arte              de Andrade (1927)
soviética", "Velhos e novos livros atuais".         - Cântico dos cânticos para flauta e violão
Redige "Um aspecto antropofágico da cultura         (1945)
brasileira — o homem cordial" para o 1º             - O escaravelho de ouro (1946)
Congresso Brasileiro de Filosofia. Apresenta a      Romance:
versão definitiva de “O Santeiro do Mangue”.        - A trilogia do exílio: I — Os condenados, II —A
    Escreve,    em     1952,     “Introdução    à   estrela de absinto, III — A escada vermelha
antropofagia”. Profere discurso de saudação em      (1922-1934)
homenagem a Josué de Castro, representante          - Memórias sentimentais de João Miramar
da ONU, por iniciativa da Secretaria Municipal      (1924)
de Cultura de São Paulo. Escreve o artigo "Dois     - Serafim Ponte Grande (1933)
emancipados: Júlio Ribeiro e Inglês de Souza".      - Marco Zero: I - A revolução melancólica, II —
    É membro da Comissão Julgadora do Salão         Chão (1943).
Letras e Artes Carmen Dolores, em 1953.             - Memórias: Um homem sem profissão (1954)
Saudou o escritor José Lins do Rego, pelo           Teatro:
prêmio recebido em torno do romance                 - A recusa (1913)
“Cangaceiros”, patrocinado pelo Salão de Letras     - Théâtre Brésilien — Mon coeur balance e Leur
e Artes Carmen Dolores Barbosa. Começa a            Âme (1916) (com Guilherme de Almeida)
publicar a série “A Marcha das Utopias” no          - O homem e o cavalo (1934)
jornal “O Estado de S.Paulo”. Tenta em vão          - A morta (1937);
vender sua coleção de quadros.                      - O rei da vela (1937).
    Em 1954, escreve o ensaio “Do órfico e mais     - O rei floquinhos (1953)
cogitações" e "O primitivo e a antropofagia”.       Manifestos:
Envia comunicação, por intermédio de Di             - Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924)
Cavalcanti, para o Encontro de Intelectuais, no     - Manifesto Antropófago (1928)
Rio de Janeiro. Publica o primeiro volume das       - Manifesto Ordem e Progresso (1931)
“Memórias — Um homem sem profissão”, com            - Teses, artigos e conferências publicadas:
capa de seu filho, Oswaldo Jr., pela José           - O meu poeta futurista (1921)
Olympio. Graças à interferência de Vicente Rao,     - A Arcádia e a Inconfidência (1945)
foi indicado para ministrar um curso de cultura     - A sátira na poesia brasileira (1945)
brasileira em Genebra. Retorna como sócio à         Versões e adaptações:
Associação Brasileira de Escritores (A.B.D.E.).     - Filme “O homem do Pau-Brasil”, de Joaquim
    Falece em São Paulo, em 22 de outubro de        Pedro de Andrade, baseado na vida de Oswald
1954, na sua residência da rua Marquês de           de Andrade (1980)
Caravelas, 214. É sepultado no jazigo da            - Filme “Oswaldinianas”. Formado por cinco
família, no cemitério da Consolação, em São         episódios, dirigidos por Julio Bressane, Lucia
Paulo (SP).                                         Murat, Roberto Moreira, Inácio Zatz, Ricardo
    É    homenageado      postumamente       pelo   Dias e Rogério Sganzerla (1992)
Congresso Internacional de Escritores, em           Publicações póstumas:
1954. Em 1990, no centenário de seu                 - A utopia antropofágica – Globo
nascimento, a “Oficina Cultural Três Rios” passa    - Ponta de lança – Globo
a se chamar “Oficina Cultural Oswald de             - O rei da vela – Globo

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- Pau Brasil – Obras completas – Globo              - O perfeito cozinheiro das almas desse mundo
- O santeiro do mangue e outros poemas –            – Globo
Globo                                               - Os condenados – A trilogia do exílio – Globo
- Obras completas – Um homem sem profissão          - Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald
– Memórias e confissões sob as ordens de            de Andrade – Globo
mamãe – Globo                                       - Os dentes do dragão – Globo
- Telefonema – Globo                                - Mon coeur balance – Le Âme - Globo
- Dicionário de bolso – Globo


                                      Aventuras de
                                    Pedro Malasartes

UMA DAS DE PEDRO MALASARTES                                Tarde da noite, Pedro foi ao lugar onde
                                                    estavam os perus, e matou-os a todos,
        Um dia, Pedro Malasartes foi ter com o      labreando de sangue as ovelhas. O homem,
rei e lhe pediu três botijas de azeite,             indo-os buscar, achou-os mortos, e voltou
prometendo-lhe levar em troca três mulatas          muito aflito, dizendo: "Pedro, não sabe, as
moças e bonitas. O rei aceitou o negócio. Pedro     ovelhas mataram os seus perus". Ouvindo isto,
saiu e foi ter à casa de uma velha, ali pela        Malasartes fez um grande espalhafato, gritando
noitinha; pediu-lhe um rancho, e que lhe            que o homem tinha morto os perus do rei e
botasse as botijas no poleiro das galinhas. A       recebeu seis ovelhas pelos perus. Largou-se,
velha concordou com tudo. Alta noite, Pedro         indo dormir na casa de um homem que tinha
Malasartes levantou-se, foi de pontinha de pé       um curral de bois. Aí ele fez as mesmas
ao poleiro, quebrou as botijas, derramou o          artimanhas, até pegar seis bois pelas seis
azeite, lambuzando as galinhas. De manhã            ovelhas.
muito cedo Malasartes acordou a velha, e                   Mais adiante, ele encontrou uns
pediu-lhe as botijas de azeite. A velha foi         vendilhões de ouro e trocou os bois por ouro.
buscá-las, e, achando-as quebradas, disse:          Mais adiante encontrou uns homens que iam
        "Pedro, as galinhas quebraram as            carregando uma rede com um defunto. Pedro
botijas e derramaram o azeite".                     perguntou quem era, disseram-lhe que era uma
        – Não quero saber disso, -disse Pedro; -    moça. Ele pediu para ir enterrá-la e eles deram.
quero para aqui meu azeite, senão quero três               Logo que os homens se ausentaram, ele
galinhas.                                           tirou a moça da rede, encheu-a de bastante
        A velha ficou com medo, deu-lhe as três     ouro e de enfeites, e foi ter com ela nas costas
galinhas. Malasartes partiu e foi à noite à casa    à casa de um homem rico que havia ali perto.
de outra velha; pediu rancho e que agasalhasse      Pediu rancho, disse às filhas do tal homem que
aquelas três galinhas entre os perus. A velha,      aquela era a filha do rei que estava doente, e
como tola, consentiu. Alta noite, Pedro se          ele andava passeando com ela, e pediu que a
levantou, foi ao quintal, matou as três galinhas,   fossem deitar.
besuntando de sangue os perus. No dia                      Foram levar a moça para uma
seguinte, bem cedo, acordou a velha, pedindo        camarinha, indo Malasartes com ela, dizendo
as suas galinhas, porque queria seguir viagem.      que só com ele ela se acomodava. Deitou a
A velha foi buscá-las e encontrou o destroço.       moça defunta na cama e retirou-se, dizendo às
Voltou aflita, contando a Malasartes.               donas da casa: "Ela custa muito a dormir, ainda
        Ele fez um grande barulho até levar seis    chora como se fosse uma criança; quando
perus em troca das galinhas. Na noite seguinte,     chorar, metam-lhe a correia."
foi ter à casa de um homem que tinha um                    Alta noite, Pedro foi e se escondeu
chiqueiro de ovelhas, e pediu-lhe para passar a     debaixo da cama onde estava a moça e pôs-se
noite em sua casa e que lhe agasalhasse             a chorar como menino. As moças da casa,
aqueles perus lá no chiqueiro das ovelhas,          supondo ser a filha do rei, deram-lhe muito até
porque bicho com bicho se acomodavam bem.           ela se calar, que foi quando Pedro se calou.
O homem assim fez.                                  Depois ele escapuliu e foi para o seu quarto.

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        De manhã ele pediu a moça, que queria      Quando o perseguidor chegou à toda, e
ir-se embora. Foram ver a filha do rei, e nada     perguntou à lavadeira se tinha visto passar um
de a poderem acordar. Afinal conheceram que        homem      tocando     uma     carneirada,  ela
ela estava morta, e vieram dar parte a             respondeu, quase sem poder falar, que Pedro
Malasartes. Ele pôs as mãos na cabeça dizendo:     Malasartes havia feito o que ficou dito.
"Estou perdido; vou para a forca; me mataram              E, porque Pedro já estava longe com o
a filha do rei!…"                                  rebanho, o homem voltou soltando um milhão
        Os donos da casa ficaram muito aflitos,    de pragas.
e começaram a oferecer cousas pela moça, e
Pedro sem querer aceitar nada, até que ele         DE COMO MALASARTES PASSA ADIANTE
mesmo exigiu três mulatas das mais moças e         A CARNEIRADA
bonitas. O homem rico as deu, e Pedro disse
que dava uma desculpa ao rei sobre a morte de             Já muito longe, encontrou um porqueiro
sua filha, e lhe dava de presente as três          que vinha tocando também. Pedro Malasartes
mulatas, para o rei não se agastar muito.          que já previa que o fazendeiro havia de vir no
        Malasartes largou-se e foi logo para o     seu rasto, propôs troca dos carneiros, (que
palácio, onde entregou o rei as três mulatas       valiam menos, pelos porcos, que valiam mais).
com este dito: "Eu não disse a vossa majestade            Fecharam o negócio, tendo o porqueiro
que lhe dava três mulatas pelas três botijas de    feito uma volta em dinheiro.
azeite? Aí estão elas". O rei ficou muito                 Malasartes seguiu com a porcada e o
admirado.                                          outro com os carneiros, em direção oposta.
                                                          O porqueiro foi pousar em casa do dono
DE COMO MALASARTES FINGIU QUE                      dos carneiros. Ao ver o seu rebanho, o homem
SE MATAVA                                          avançou para o porqueiro, e exigiu entrega do
                                                   que era seu. O porqueiro quis resistir, mas
        Vendo que a vitima vinha em sua            vendo que o homem estava armado até os
perseguição, deu tudo quanto tinha e, ao           dentes e tinha muitos capangas, não teve outro
aproximar-se de um riacho, encontrou uma           remédio senão fazer a restituição, ficando no
mulher a lavar roupa. Estava perdido, porque a     prejuízo, e tocou pra trás a ver se encontrava o
lavadeira daria ao perseguidor a sua direção.      Malasartes que já estava longe, tendo tomado
        Mais que depressa tocou a carneirada a     por um atalho que foi dar numa fazenda. E, vai
atravessar o riacho, e tomando um dos              então, vendeu a porcada por um precinho
carneiros, tirou-lhe as tripas e meteu-as          barato, mas com a condição de o comprador
debaixo da camisa. Quando a manada passou,         deixar que ele cortasse a ponta do rabo de
ele arrancou da faca, fingiu que abriu o ventre    cada porco.
e deixou cair na água as tripas do carneiro, que          Fecharam o negócio e Pedro Malasartes
ali levou ocultas.                                 meteu no embornal os rabinhos dos porcos e
        A lavadeira deu um grito, caiu             bateu o pé na estrada.
desmaiada ao presenciar tal cena e Malasartes
desapareceu.



                                       Nilto Maciel
                                          Hiroito)
                                         (Hiroito)

       Japonezinho     mirrado,    já   velho,     sorria. Os moleques o chamavam de “japa”. Ele
enrugado, banguela. Vigiava carros num             se zangava, cuspia farelos e pingos de caldo.
estacionamento. Em troca recebia minguadas                 Deitado no catre imundo, Hiroito
moedas. Quando a fome apertava, corria ao          recordava a Grande Guerra. Dores, mortes,
vendedor de pastéis. Esmigalhava com os dedos      destruição. E a fuga para o Brasil. Dormia,
a iguaria e enchia a boca de farelos de carne      cansado, e sonhava horrores. Milhões de pulgas
moída e trigo assado. Pedia caldo de cana e        a roê-lo vivo. Baratas e ratos fardados,
 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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enormes, violentos. Prendiam-no, arrastavam-         a vitória. O poderoso exército do Império do Sol
no, molestavam-no.                                   Nascente. Quando a guerra terminasse, o Japão
        Mal amanhecia, pulava do gramado e,          seria dono do mundo. E ele, Hirohito, o homem
tonto, buscava a aurora. Fechava os olhinhos         mais poderoso da Terra.
sujos e enfiava as mãos na água da bacia. A                  E expirou.
fome de novo. Imaginava pastéis macios.                                  ---------–
Esquecia os inimigos, a guerra, os insetos.
Corria para pegar o ônibus. Precisava chegar
cedo ao estacionamento. E disputar com os
moleques o direito de receber moedas dos
donos dos carros. Moedas e insultos. “Vai
trabalhar, vagabundo!”                                               Nilto Maciel
        Um dia lhe disseram que no Japão havia
                                                           Nasceu em Baturité, Ceará, em 1945.
muita riqueza. Indústrias e mais indústrias.
                                                           Obteve primeiro lugar em alguns
Como em nenhum outro país. O povo vivia farto
                                                     concursos literários nacionais e estaduais, com
e feliz. Nem parecia aquele povo destruído em
                                                     o livro de contos Tempos de Mula Preta; livro
45. Riu. Não acreditou naquilo. E, se fosse
                                                     de contos Punhalzinho Cravado de Ódio; A
verdade, mesmo assim preferia viver no Brasil,
                                                     Última Noite de Helena; Os Luzeiros do Mundo;
onde não havia guerra.
                                                     A Rosa Gótica; conto “Apontamentos Para Um
        Noutro dia houve tiroteio entre policias e
                                                     Ensaio”; “livro Pescoço de Girafa na Poeira;
ladrões de carro. O estacionamento virou
                                                     "Eça de Queiroz", livro Vasto Abismo.
campo de batalha. Tiros a torto e a direito.
                                                           Tem contos e poemas publicados em
Correria e gritaria. Um pandemônio. Assustado,
                                                     esperanto, espanhol, italiano e francês. O Cabra
o velho japonês correu. Talvez alcançasse a
                                                     que Virou Bode foi transposto para a tela
barraca dos pastéis. Quando aquilo acabasse,
                                                     (vídeo), pelo cineasta Clébio Ribeiro, em 1993.
mataria a fome. Porém, antes de alcançar
                                                           Alguns livros:
refúgio, uma bala se incrustou em seu peito.
                                                           Itinerário, Tempos de Mula Preta, A
Atirado ao chão, rolou para debaixo de um
                                                     Guerra da Donzela, Punhalzinho Cravado de
carro. Se sentia dor, não sabia. Na verdade,
                                                     Ódio, Os Guerreiros de Monte-Mor, O Cabra que
tudo parecia grandioso aos seus olhos semi-
                                                     Virou Bode, Navegador, Vasto Abismo,
abertos. Aviões devastavam céus. Tanques
                                                     Panorama do Conto Cearense, A Leste da
rolavam sobre os inimigos, que viravam pastéis.
                                                     Morte, etc.
As tropas japonesas invadiam Ásias e Américas.
E ele, Hirohito, imperador do Japão, comandava



                             Antonio Roberto de Paula
                                      Poesias)
                                     (Poesias)


         O SILÊNCIO DE MARINGÁ                                      Um motor ronca
                                                                  Rompendo uma reta
                   É na noite                                       Perdendo força
            Quando procuro o sono                                  Nos meus ouvidos
                Fecho os olhos
                  E tento ouvir                                    Chega uma música
             O silêncio de Maringá                                  Em baixo volume
             Um silêncio que dura                                    Sobe poderosa
                  A eternidade                                   E se perde na escuridão
             De poucos segundos
                                                                    Logo outros sons

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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             Itinerantes de vozes                  Demarcava seu espaço sem pedir licença
                Passos e latidos
                Vêem e seguem                      Para Pedro Caveira era vencer ou morrer
              Sem dar boa-noite                    Dos homens ganhava o temor, o respeito
                                                    Das mulheres conseguia tirar o prazer
             A noite passa veloz                   Era na marra, na força, de qualquer jeito
        O dia começa na madrugada
            Acelerações e freios                      Entre as tantas moçoilas submissas
            Buzinas e máquinas                       Havia uma que ocupava seu coração
              É a cidade de pé                      Era a bela , doce e estonteante melissa
               Em movimento                         Morena brejeira exalando amor e paixão

              Houve um tempo                        Por ela é que Pedro Caveira se derretia
               Em que a cidade                     Um caso conhecido em toda comunidade
              Dormia mais cedo                     Quando ela chegava seu sorriso se abria
              Não vagava tanto                      Para ela, ele pedia só amor e fidelidade
            E acordava no horário
                                                    Na vida acontecem coisas inesperadas
              Tempo da poeira                      Por uma bronca sem grande repercussão
                Dos lampiões                         Caveira teve que tirar férias forçadas
            Das casas de madeira                     Fora de circulação, um ano de prisão
           E portões de balaústres
                                                     Um dia antes de se entregar à justiça
           A noite era de poucos                     Pediu ao bando a palavra em penhor
            Só dos profissionais                      Chorou abraçado à querida Melissa
          Hoje o dia ficou pequeno                     Que lhe fez juras de eterno amor
            A noite é a extensão
                                                      Chamou num canto o seu preferido
                  É na noite                          O humilde amigo Zequinha Terceiro
           Quando procuro o sono                       Lhe pediu em lágrimas, comovido
               Fecho os olhos                         Que cuidasse de todo o seu terreiro
                 E tento ouvir
            O silêncio de Maringá                    Zequinha levou à risca aquele pedido
            Um precioso silêncio                      Por sua conta incluiu a bela morena
              Um frágil silêncio                     Virou chefão do pedaço, cabra temido
              Que dura menos                         E botou as guampas no Pedro Caveira
          Que a pureza do instante
                                                    Passou o tempo, cumprida a sentença
                    A noite                          Caveira quis retornar ao antigo ninho
              Já não é mais noite                   Mas ninguém mais quis a sua presença
               É só o dia sem sol                     E até Melissa lhe negou os carinhos
            Entrando no outro dia
 (Antonio Roberto de Paula - Livro Maringânias -    Humilhado, pobre, com medo de morrer
2007 - Poesias comemorativas - Maringá 60 anos)     Pedro Caveira abandonou aquela cidade
                                                     Com ódio de Zequinha de endoidecer
CABRITO NA HORTA                                   Hoje perambula na estrada da infelicidade

  Patrono, manda-chuva, mandava brasa               O mundo sempre foi e será dos espertos
  Pedro Caveira era o tipo de fazer tremer         Zequinha agora é senhor, do alto escalão
   Nunca foi de levar desaforo para casa             O pai e o avô na vida não deram certo
  Não havia homem que podia lhe conter             Mas ele é o terceiro, o chefe, um campeão

    Na faca, na bala, no pau, na porrada               E finalizando essa incrível história
    Pedro Caveira se valia da truculência             Pra você não ser tomado de revolta
  A cada dia mais uma área era dominada
 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    E pra que a tua vida não seja inglória        Regional     do     Bradesco-Maringá;      e   foi
   Não deixe o cabrito tomar conta da horta       proprietário do Bar do Toninho ( 1985 a 1990),
                      ---                         na avenida Dr. Alexandre Rasgulaeff, no Jardim
        Letra: Antonio Roberto de Paula           Alvorada, em Maringá.
        Melodia: Helington Lopes                          Desde a adolescência escreve poesias,
        História contada por Cláudio Viola        contos, crônicas e artigos, inclusive com
        A música "Cabrito na horta" , em versão   publicações desde a década de 1970, nos
reduzida, participou do Femucic, em 2005, com
                                                  jornais O Diário do Norte do Paraná , O Jornal
apresentação do grupo Receita do Samba
                                                  de Maringá e Jornal do Povo . Sua primeira
                                                  experiência efetiva no jornalismo ocorreu em
                                                  1975, no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal,
                                                  com o jornal Skeletus , do CETA (Centro
                                                  Estudantil Tristão de Athaíde).
                                                          Publicado até 1977, o Skeletus tinha
      Antonio Roberto de Paula                    como editores, além de De Paula, seus amigos
        O jornalista Antonio Roberto de Paula,    Mário Sérgio Recco, José Miguel Grillo, Nivaldo
sócio-proprietário da TV Clipping Maringá,        Gôngora Verri, Edson Cemensati e Edson Luiz
nasceu na cidade paulista de Lupércio, em 17      Matias. Em 1981, foi colaborador do Vôo Livre ,
de junho de 1957. É o primogênito dos quatro      suplemento de O Diário publicado às sextas-
filhos de Alcebíades de Paula Neto e Rita         feiras, editado por Mário Sérgio Recco.
Andrade de Paula. A mudança para Maringá                  Seu primeiro emprego efetivo na
ocorreu em 1959. De Paula concluiu o curso        imprensa foi no Jornal do Povo, em 1991, como
primário em 1967, em Engenheiro Beltrão (PR),     colunista de futebol amador, passando depois
onde a família residiu até meados de 1972.        para a editoria de esportes e escrevendo a
        Em 1968 estudou no Seminário Verbo        coluna Visão de jogo. Neste mesmo ano atuou
Divino, em Ponta Grossa. De 1969 a 1976, fez o    como      comentarista     da     extinta    Rádio
ginásio e o científico, como eram chamados na     Metropolitana (Rádio Jornal).
época os ensinos fundamental e médio, nos                 Em 1992 e 1993 trabalhou como
seguintes estabelecimentos de ensino de           comentarista em transmissões de futebol
Maringá: Santo Inácio, Instituto de Educação,     amador pela RTV Maringá. Em 1993, deixou o
Gastão Vidigal e Paraná.                          Jornal do Povo e se transferiu para a sucursal
        Foi aprovado no vestibular do curso de    do Correio de Notícias, jornal curitibano que
Letras na UEM (Universidade Estadual de           encerrou as atividades na cidade no ano
Maringá) em 1981, mas desistiu do curso. Em       seguinte. Lá, foi colunista e editor de esportes.
2001, formou-se em Jornalismo pelo Cesumar                Ainda em 1993, deixou a RTV indo para
(Centro Universitário de Maringá). Em 2003, fez   a TV Maringá (Band) para ser editor, pauteiro e
o curso de pós-graduação Língua Portuguesa –      produtor do programa diário Esporte por
Teoria e Prática, pelo Instituto Paranaense de    Esporte , onde permaneceu até 1995.
Ensino e Univale (União das Escolas Superiores            Neste período, De Paula também foi
do Vale do Ivaí). Atualmente, cursa Mestrado      produtor e comentarista do programa Atalaia
em Letras na UEM.                                 Esportiva, da Rádio Atalaia de Maringá. De
        Sua monografia de conclusão do curso      1995 a 1997, trabalhou no O Diário exercendo
de graduação foi a apresentação do livro Os       as funções de editor de esportes, colunista do
homens da Folha do Norte do Paraná , jornal       DNP Esporte, repórter de matérias políticas e
maringaense fundado em 1962, pelo primeiro        locais, pauteiro e secretário de redação.
arcebispo de Maringá, dom Jaime Luiz Coelho,              De 1997 a 1998 foi repórter da Revista
e que teve suas atividades encerradas em          M-9. De 1997 a 1999 escreveu crônicas,
1979.                                             artigos, poesias e contos na coluna Linha
        Antes de atuar profissionalmente na       Expressa, no Jornal do Povo. Em 1998 e 1999
imprensa, De Paula foi escriturário na            atuou como editor-chefe do departamento de
Transparaná (1977), funcionário público           jornalismo da TV Cidade – Sistema NET. Em
municipal ( 1977 a 1979), tendo trabalhado na     2000, foi repórter, pauteiro e colunista do
extinta      Codemar        (Companhia       de   jornal Hoje Maringá.
Desenvolvimento de Maringá) e Secretaria de
Fazenda; bancário ( 1979 a 1985), no Centro

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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         De Paula e o jornalista Cláudio Viola são   produtores do programa Beca TV , da TV
parceiros em composições em que incluem os           Clipping Maringá, com Guilherme Tadeu e Allan
hinos do Maringá Futebol Clube (1996), do            Oliveira, em 2004. Em 2003, publicou o livro Da
Grêmio Maringá (2000) e as músicas Maringá           minha janela, de crônicas, artigos, poemas,
Velho, gravada em 2003 pela cantora                  contos inéditos e já publicados.
maringaense Márcia Mara, e Cabrito na horta ,                Em 2004 lançou o livro A história política
classificada no Femucic (Festival de Música          de um cabo de José, de Maria e de todos os
Cidade Canção), gravada por Helington Lopes          Santos , em que narra a história do vereador
(que também foi um dos compositores) e o             maringaense Cabo Zé Maria e seus dez anos de
grupo Receita do Samba.                              mandato. Em 2005, dirigiu o videodocumetário
         Em 2002, abriu com a jornalista Simone      Crônica democrática de uma cidade brasileira ,
Labegalini a TV Clipping Maringá. No início de       sobre as Eleições 2004, numa produção da TV
2003, De Paula trabalhou como produtor,              Clipping Maringá, com roteiro de Guilherme
repórter e comentarista do programa Estação          Tadeu de Paula e fotografia e montagem de
Comunitária , da Rádio Comunitária São               Allan Oliveira.
Francisco FM, do Jardim Alvorada, retornando                 Foi nomeado assessor de imprensa da
no ano seguinte. Foi responsável juntamente          Câmara Municipal de Maringá em 1997, vindo a
com seu filho Guilherme Tadeu de Paula da            ocupar a chefia do setor no final de 1999, onde
sucursal em Maringá do jornal londrinense            permanece até hoje.
Paraná Shimbun, em 2003 e 2004, e um dos



                                         Pedro Silva
                                   (Uma Viagem na Época
                                    dos Descobrimentos)
Um sonho de criança                                          Mas o nosso Bartolomeu iria ser ainda
                                                     mais famoso. Porém, nesta altura, ainda o não
        - Bartolomeu! Bartolomeu! – grita uma        sabia.
donzela formosa, com pouco mais de trinta                    Ao jantar, o seu pai, conhecedor por ser
anos.                                                de poucos sorrisos e de poucas falas, dirigiu-se
        Por todo o lado procurava, mas o seu         ao filho:
filho não aparecia em sítio algum.                           - Bartolomeu, tua mãe contou-me que
        De repente, um franzino jovem surge.         passaste o dia junto ao riacho. É verdade?
Tinha um olhar simpático. O cabelo                           - Sim, pai, é verdade. Perdoe-me. – e o
despenteado. Mas a sua maneira de ser era            jovem baixou a cabeça, em tom triste.
delicada:                                                    - Sabes que a vida não é só brincadeira,
        - Desculpe, mãe. Estava a brincar no         não sabes?
riacho.                                                      - Eu sei, meu pai, mas…
        - Outra vez, Bartolomeu? Mas tu só te                - E olha que a nossa vida tem sido de
sentes bem junto à água?                             trabalho. Os sonhos são apenas para quando
        O jovem, envergonhado, encolhe os            dormimos. A realidade é bem diferente quando
ombros e responde:                                   estamos acordados. – afirmou o pai de
        - Por acaso… sim! – e corre a abraçar a      Bartolomeu Dias.
sua mãe.                                                     - Desculpe, pai. Mas isto não é um
        Estávamos em 1465 e Bartolomeu Dias,         sonho, eu serei mesmo navegador!
nascido em Mirandela, uma belíssima localidade               O pai não deixou de esboçar um
transmontana, dava os primeiros passos na sua        pequeno sorriso. O empenho do seu filho era
futura vida de navegador. Apesar de ter apenas       de louvar. Dentro do seu coração, o pai de
quinze anos, já o seu pai o incentivava a seguir     Bartolomeu desejava que este conseguisse ser
as pisadas de Dinis Dias, seu parente e também       o mais famoso dos navegadores portugueses.
famoso navegador.                                    Mas também sabia as dificuldades que o filho


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teria de enfrentar. “Porém, sonhar não custa”,              - O que quereis de mim? – perguntou D.
pensava de si para si.                              João II, o Príncipe Perfeito.
                                                            - Senhor, eu gostaria… - a voz parecia
Vivendo um sonho                                    não sair, dada a sua timidez. – Eu gostaria de
                                                    poder participar na próxima viagem a África.
         Pouco anos depois, Bartolomeu Dias                 O rei pensou um pouco e respondeu:
despediu-se dos pais e rumou a Sul. O destino               - Pois bem, embarcarás daqui a dois
era a capital de Portugal, Lisboa. Era lá que       dias, rumo a São Jorge da Mina, a nossa mais
todos os sonhos seriam possíveis de conquistar.     importante feitoria.
Até então, passara os seus dias numa pequena                E assim foi.
povoação do interior do país. Nunca vira o mar,             Cruzando mares pela primeira vez
mas sonhara com ele todos os dias de sua vida.      chegou em 1484 ao local estipulado pelo rei. Ali
         Deslocou-se para Lisboa. Ali estudaria     esteve algum tempo, aperfeiçoando os seus
matemática e astronomia na Universidade de          conhecimentos marítimos e aprendendo os
Lisboa. Mas, ainda antes de começar a estudar,      costumes locais.
a primeira atitude que teve ao chegar à capital
foi deslocar-se à zona de Belém. A razão?           A viagem de uma vida
Queria ver o local de onde as caravelas partiam
rumo ao desconhecido.                                       Tão rapidamente ganhou experiência
         “Que    local     magnífico!”,   pensava   que, dois anos depois, o rei João II confiou-lhe
Bartolomeu, olhando para tanta agitação. Eram       uma importante missão: descobrir o Preste
marinheiros que se despediam das suas               João das Índias. Desde há alguns anos que em
famílias. Eram vendedores que apregoavam os         Portugal se contava a história da existência de
seus produtos. E, por fim, eram crianças que        um rei muito rico que vivia na Etiópia. Esse rei,
choravam de saudades ao ver a chegada dos           ao contrário dos reis que o rodeavam, era
seus pais ou que brincavam indiferentes a tudo      cristão. Portanto, poderia ajudar D. João II na
o mais.                                             conquista de novos territórios na África e na
         Com tudo isto sonhara o jovem              Ásia.
Bartolomeu Dias quando, pouco tempo antes,          No entanto, este era o plano secreto.
partira de Mirandela rumo a Lisboa. Na viagem               Oficialmente, Bartolomeu Dias tinha
não parara de fazer perguntas a Dinis Dias, o       como missão investigar as costas do continente
seu parente que ganhara alguma fama ao              africano. Isto para se tentar perceber se seria
comando de caravelas. Queria saber tudo:            possível chegar à Índia por mar.
como se preparava uma expedição; quantos            Nessa altura, em 1486, ninguém acreditava que
marinheiros levava a embarcação; e, mais            fosse possível ultrapassar a zona conhecida por
importante, quando ele poderia participar. A        Cabo das Tormentas. Este nome havia sido
tudo respondia Dinis com a sua calma de             ganho pelo fato de o mar ser muito perigoso e
sempre. À última pergunta, respondeu-lhe: “na       de muitos barcos ali terem desaparecido.
altura certa, chegará o teu momento de                      Mas Bartolomeu Dias não tinha medo de
embarcar”.                                          nada. Se o rei lhe havia solicitado essa missão,
         Os estudos passaram a correr. Tudo         assim seria cumprida.
aprendia a um ritmo louco tal a ânsia de largar             Na verdade, o navegador, que
terra firme e aventurar-se no alto mar.             comandava duas caravelas, não chegou a
         Quanto os estudos terminaram, e            encontrar qualquer notícia do mítico rei das
auxiliado pelo seu familiar Dinis Dias, entrou na   Índias, o famoso Preste João. Porém, trazia
corte portuguesa. À sua frente estava D. João       relatos muito entusiasmantes para D. João II.
II. Assim que o viu, Bartolomeu ajoelhou-se.                Chegado à corte, Bartolomeu correu
Era o seu rei que ali se encontrava. Portanto,      para junto do seu rei e declarou:
mandava a educação que lhe fizesse uma                      - Senhor, é possível dobrar o Cabo das
vénia.                                              Tormentas. Eu sei!
         - Levantai-te. – afirmou o soberano.               - Mas como tal será possível,
         - Obrigado, senhor. É uma honra poder      Bartolomeu? – perguntou o monarca.
estar aqui na tua presença. – disse Bartolomeu.             - Acreditai em mim.



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        Perante tamanha demonstração de              Adamastor. Mas nada disso aconteceu e
otimismo, o rei decidiu, uma vez mais, confiar       quando perceberam que haviam cruzado o
no seu navegador. Apesar de todos os projetos        ponto mais complicado de África, todos se
concretizados pelos portugueses, a cada              sentiram muito felizes. Lançaram os braços ao
momento sentia-se a necessidade de ir um             Céu, em jeito de agradecimento e alívio da
pouco mais além. E, neste momento, dobrar o          tensão acumulada.
Cabo das Tormentas era o maior desafio da                   Ao regressarem a Lisboa foram
nação. O rei sabia-o, tal como Bartolomeu Dias.      acolhidos como heróis. O rei veio recebê-los
        O dia da partida foi igual a tantos outros   pessoalmente e dar-lhes outra boa novidade: a
naquela zona de Belém do século XV. Muita            partir daí, em homenagem aos bravos
tristeza misturada com enorme dose de                marinheiros, o Cabo chamar-se-ia da Boa
esperança.                                           Esperança, pois permitiria chegar à Índia por
        Se, por um lado, já se chorava de            mar.
saudades do que estava para vir, por outro,                 - Obrigado Bartolomeu. – disse o rei,
havia sorrisos de expectativa em regressarem         olhando    para o       navegador entretanto
como heróis. Apenas Bartolomeu Dias se               regressado do alto mar.
mantinha sereno. As histórias do passado não o              - Senhor, apenas cumpri o meu dever.
atemorizavam. Os muitos barcos e vidas                      Tanta humildade encerrava no seu
perdidos algures no Cabo das Tormentas, onde         coração.
um gigante Adamastor afundaria as naus, não                 E tanta vontade de servir o seu país.
intimidavam o nosso Bartolomeu Dias. Ele             Assim como de estar junto à água, tal como
tinha, do seu lado, a força da experiência e o       quando era criança.
poder fornecido pela crença nas suas                        Pouco depois, partiu na expedição de
capacidades. Estudara a geografia marítima do        Vasco da Gama, que viria a tornar real o
local durante alguns anos. Preparara-se              Caminho Marítimo para a Índia.
enquanto comandante e enquanto marinheiro.                  E, em 1500, fez igualmente parte da
Faltava, apenas, concretizar o seu sonho:            missão de descoberta do Brasil, liderada por
tornar-se famoso honrando a bandeira de              Pedro Álvares Cabral.
Portugal.                                                   Tudo o que se seguiu ao feito principal,
        O mês de Agosto de 1487 marcou a             ou seja, o agora chamado Cabo da Boa
partida de Lisboa. O dia estava solarengo. As        Esperança, foi, para Bartolomeu Dias, apenas
almas dos marinheiros estavam iluminadas,            um justo acréscimo ao seu currículo de
quiçá do sol ou da esperança de um fruto             navegador.
radioso. Em Dezembro, alguns meses após a                   Bartolomeu Dias foi a Boa Esperança
partida, chegavam à Namíbia. Era o ponto mais        que necessitávamos para tornar Portugal um
a sul que havia sido registado pelos                 importante país de comércio e de navegação
portugueses. A partir daí, apenas o                  marítima. Sem ele, provavelmente, não haveria,
desconhecido imperava.                               hoje em dia, tanto interesse na História dos
        É então que o tempo deixa de ajudar.         Descobrimentos Portugueses…
Uma violenta tempestade abate-se sobre a
expedição marítima. Bartolomeu Dias manteve-
se calmo, apesar do temor da sua tripulação.
Voltava a pairar o medo de um acidente fatal.
Durante treze dias andaram à deriva,                                Pedro Silva
procurando a costa, mas não a encontrando.                   O autor Pedro Silva nasceu em Tomar
Na verdade, ainda que não o soubessem,               (Portugal). Cedo deu provas do seu interesse
andavam bem perto. Passado algum tempo,              pela escrita, tendo alcançado o seu primeiro
aproveitando o vento favorável, navegou para         prêmio literário com apenas dez anos de idade.
nordeste. Sem saber, tinha concretizado um           Colaborador assíduo de diversos órgãos de
feito histórico, dobrar o Cabo das Tormentas.        comunicação social, o autor alcançou a sua
Porém, apenas viria a aperceber-se do que            estréia literária em 2000, através da obra sobre
fizera na viagem de regresso. Ao regresso fora       os Templários chamada "Ordem do Templo: Em
obrigado pela tripulação que, supersticiosa,         Nome da Fé Cristã". Um ano depois lançou no
temia pelo súbito aparecimento do mítico             Brasil "História e Mistérios dos Templários". No

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ano de 2002, lança-se no campo da ficção, com        - "Os Grandes Mistérios da Humanidade" (Axcel
um conjunto de contos apelidados "Escritos           Books, Brasil, 2006) Ensaio
Errantes (histórias leves como o vento mas           - "Já Passou" (Corpos Editora, Portugal, 2006)
tocantes como a tempestade)".                        Ficção
       Com o lançamento de "Ku Klux Klan:            - "Assassinos" (Pulso Editorial, Brasil, 2006)
Pesadelo Branco", o autor reata a sua paixão         Ensaio
pelo ensaio histórico, é um estudo intenso           - "O Código da Maçonaria" (Universo dos
sobre a sociedade secreta norte-americana. Em        Livros, Brasil, 2007) Ensaio
2005, lança "Tripla Imparável I: Juventude em        - "1977" (Pulso Editorial, Brasil, 2007) Crónicas
Acção".                                              -     "Portugal-Brasil:       A     Aventura    do
       Paralelamente a isso, é cronista dos          Descobrimento" (LGE Editora, Brasil, 2007) co-
seguintes órgãos de comunicação portugueses:         autor: Jean Angelles / Ilustrações: Gleydson
Tribuna da Marinha Grande, Jornal O                  Caetano / Ficção Infantil
Templário, O Almonda e foi Diretor da revista        - "Cátaros (história de uma heresia)" (Via
templária "Das Brumas do Templo e do Graal.          Occidentalis, Portugal, 2007) Ensaio
                                                     - "História Mística de Portugal" (Saída de
Bibliografia:                                        Emergência, Portugal, 2007) Ensaio
- "Ordem do Templo: Em Nome da Fé Cristã"            - "Templarios (Cruz y Medialuna)" (Bajo Los
(Ulmeiro, Portugal, 2000) Ensaio                     Hielos, Chile, 2007) co-autor: Sergio Fritz Roa /
- "História e Mistérios dos Templários" 2ª           Ensaio
Edição Esgotada (Ediouro, Brasil, 2001) Ensaio       - "Roteiro do Portugal Templário" (Letras e
- "Escritos Errantes (histórias leves como o         Magia, Brasil, 2007) Turismo
vento mas tocantes como a tempestade)"               - "História Mística do Brasil" (Centauro Editora,
Esgotado (Publicações Senso, Portugal, 2002)         Brasil, 2007) Ensaio
Contos                                               - "Codex Templi (Os Mistérios Templários à Luz
- "Ku Klux Klan: Pesadelo Branco" (Magno             da História e da Tradição" (Zéfiro, Portugal,
Edições, Portugal, 2003) Ensaio                      2007) participação como autor do capítulo XXX
- "Tripla Imparável I: Juventude em Acção"           "Os Templários e o Brasil (Terra de Vera Cruz)"
(Magno Edições, Portugal, 2005) Ficção Juvenil       / Ensaio
- "Os Templários e o Brasil" (Flâmula Editora,       - "O dia em que a Corte Portuguesa chegou ao
Brasil, 2005) Ensaio                                 Brasil" (Pulso Editorial, Brasil, 2007) Ensaio
- "Templários em Portugal (a verdadeira              - "Tomar (cidade templária)" (Edições Outrora,
história)" (Ícone Editora, Brasil, 2005) Ensaio      Portugal, 2007) Ensaio
- "Templários em Portugal (a verdadeira              - "As Maiores Personalidades da História"
história)" (Dinalivro/Ícone Editora, Portugal,       (Universo dos Livros, Brasil, 2007) Primeiro
2005) Ensaio                                         Volume da Colecção "História Extraordinária do
- "Templários (Ordem Militar e Religiosa)"           Mundo" / Ensaio
(Catedral das Letras, Brasil, 2005) Ensaio           - "O Nascimento do Reino de Portugal" (Edições
- "Confraria Mística Brasileira: a História" (MAP,   Chimpanzé        Intelectual,    Portugal,   2007)
Brasil, 2006) Ensaio                                 Ilustrações: Filipa Canhestro / Ficção Infantil
- "Símbolos e Mitos Templários" (Centauro            - "Templários (História Integral)" (Letras e
Editora, Brasil, 2006) Ensaio                        Magia, Brasil, 2007) Ensaio
- "Mistérios da Humanidade" (Via Occidentalis,       - "Dos Templários à Ordem de Cristo" (Via
Portugal, 2006) Ensaio                               Occidentalis, Portugal, 2007) Ensaio
- "O Sol de Rita" (Corpos Editora, Portugal,         - "As Maiores Civilizações da História" (Universo
2006) Ficção                                         dos Livros, Brasil, 2008) Segundo Volume da
- "Roteiro Místico de Portugal" (Editora Leitura,    Colecção "História Extraordinária do Mundo" /
Brasil, 2006) Turismo                                Ensaio
- "Assassini (uma seita esotérica)" (Via             - "Aljubarrota: da Independência à Grande
Occidentalis, Portugal, 2006) Ensaio                 Batalha" (Edições Chimpanzé Intelectual,
- "História dos Lusitanos" (Editora Prefácio,        Portugal, 2008) Ilustrações: Filipa Canhestro /
Portugal, 2006) Ensaio                               Ficção Infantil
- "Romance na Net" (Idea Editora, Brasil, 2006)
co-autor: Eliete Madureira / Ficção

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- "Los Templarios en España y Portugal"            - "A Lança Sagrada de Hitler" (Universo dos
(Editorial Europa Viva, Espanha, 2008)             Livros, Brasil, 2008) Ensaio
Tradução: Maiquel da Costa Brito / Ensaio          - "Baphomet – um enigma templário" (Letras e
- "Os mais belos lugares para se conhecer          Magia, Brasil, 2008) Ficção
(antes que eles acabem)" (Universo dos Livros,     - "Ordem dos Assassini: os primeiros terroristas
Brasil, 2008) Ensaio                               da humanidade" 1ª Reimpressão (Pulso
- "A Magia das Palavras" (LGE Editora, Brasil,     Editorial, Brasil, 2009) Ensaio
2008) Ilustrações: Fernando Reis / Ficção          - "Historia Misteriosa de España y Portugal"
Infantil                                           (Editorial Europa Viva, Espanha, 2009) co-
- "Grandes Enigmas do Passado (Desvendando         autor: Jordi Buch Oliver / Tradução: Maiquel da
o Inexplicável)" (Pulso Editorial, Brasil, 2008)   Costa Brito / Ensaio
Ensaio                                             - "Portugal (país de tradição)" (Ramiro Leão,
                                                   Portugal, 2010) Ensaio



                                   Mario de Andrade
                                            Novos)
                                    (Contos Novos)

Autor                                              com     sua    prima      Maria,   bruscamente
Mário de Andrade (São Paulo, 1893-1945), líder     interrompidas por uma Tia Velha. A repressão
da geração que implantou o Modernismo na           associa-se à rejeição da prima, que o esnoba
cultura brasileira.                                na adolescência. A prima se casa, descasa, e o
                                                   convida    para    visitá-la.  "Fantasticamente
Obra                                               mulher", sua aparição deixa Juca assustado.
Contos Novos (1947), escrito num período de
crise pessoal, teve publicação póstuma. Reúne      2. "O ladrão": Numa madrugada paulistana,
narrativas da maturidade artística do autor,       um bairro operário é acordado por gritos de
marcadas pela maior depuração compositiva e        pega-ladrão. Num primeiro momento, marcado
estilística. "Eu também me gabo de levar de        pela agitação, os moradores reagem com
1927 a 42 pra achar o conto, e completá-lo em      atitudes que vão do medo ao pânico e à
seus elementos" (Carta a Alphonsus de              histeria, anulados pela solidariedade com que
Guimaraens Filho).                                 se unem na perseguição ao ladrão. Num
                                                   segundo      momento,     caracterizado     pela
Gênero literário                                   serenidade e enleio poético, um pequeno grupo
Contos de estrutura moderna, que acolhem as        de moradores experimenta momentos de
principais correntes ficcionistas que marcaram a   êxtase existencial. Os comportamentos se
Literatura Brasileira das décadas de 30 e 40.      sucedem, numa linha que vai do instinto
Mais do que os fatos exteriores, os relatos        gregário ao esvaziamento trazido pela rotina.
procuram registrar o fluxo de pensamento das
personagens.                                       3. "Primeiro de Maio": Conflito de um jovem
                                                   operário, identificado como "chapinha 35", com
Contexto histórico-cultural                        o momento histórico do Estado Novo. 35 vê
São Paulo, capital e interior, décadas de 20 a     passar o Dia do Trabalho, experimentando
40; processo de urbanização e industrialização     reflexões e emoções que vão da felicidade
(cidade);   patriarcalismo    X    progressismo    matinal à amargura e desencanto vespertinos.
(ambiente rural).                                  Mesmo assim, acalenta a esperança de que, no
                                                   futuro, haja liberdade democrática para que
Enredos:                                           "sua" data seja comemorada sem repressão.

1. "Vestida de preto": Juca, em flash-back,        4. "Atrás da catedral de Ruão": Relato dos
recupera as primeiras experiências amorosas        obsessivos anseios sexuais de uma professora

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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de francês, quarentona invicta, que procura          Integra-se de forma dinâmica nos conflitos das
hipocritamente dissimular seus impulsos              personagens. Por exemplo, em "O poço", o frio
carnais. Aplicação ficcional da psicanálise:         cortante do vento de julho, no interior paulista,
decifração freudiana.                                amplifica o tratamento desumano que o
                                                     fazendeiro Joaquim Prestes dá a seus
5. "O poço": Joaquim Prestes, fazendeiro             empregados.
dividido entre o autoritarismo e o progressismo,
é desafiado por um grupo de peões que se             Personagens
insubordinam, desrespeitando o mandonismo            Nas nove narrativas, evidencia-se um profundo
absurdo do patrão.                                   mergulho na realidade social e psíquica do
                                                     homem brasileiro. Os quatro contos de cunho
6. "Peru de Natal": Juca exorciza a figura do        biográfico e memorialista, centrados em Juca,
pai, "o puro-sangue dos desmancha-prazeres",         promovem uma "interiorização" de temas
proporcionando à família o que o velho,              sociais e familiares. Já os com enunciação em
"acolchoado no medíocre", sempre negara.             terceira pessoa apresentam personagens cuja
                                                     densidade psicológica procura expressar a
7. "Frederico Paciência": Dois adolescentes          relação conflituosa do homem com o mundo.
envolvidos por uma amizade dúbia, de                 Em contos como "Primeiro de Maio", "Atrás da
conotação homossexual, procuram encontrar            catedral de Ruão" e "Nélson", os protagonistas
justificativas para esse controvertido vínculo e     não têm nome: isso é índice da retificação e da
se rebelam contra as convenções impostas pela        alienação que fragmentam a existência humana
sociedade.                                           na sociedade contemporânea.

8. "Nélson": Registro do comportamento
insólito de um homem sem nome. Num bar, um
grupo de rapazes exercita seu "voyeurismo"
pela curiosidade despertada pelo estranho
sujeito: quatro relatos se acumulam, na                          Mário de Andrade
tentativa de decifrar a identidade e a história de
vida de uma pessoa que vive ilhada da                            Eu sou um escritor difícil
sociedade, ruminando sua misantropia.                          Que a muita gente enquisila,
                                                                 Porém essa culpa é fácil
9.    "Tempo     de   camisolinha":      Juca,                  De se acabar de uma vez:
posicionando-se novamente como personagem-                          E só tirar a cortina
narrador, evoca reminiscências da infância,                    Que entra luz nesta escuridez.
                                                                 (A Costela de Grão Cão)
especialmente do trauma que lhe causou o
corte de seus longos cabelos cacheados.
                                                        1893: Nasce Mário Raul de Moraes
Reconcilia-se com a vida ao presentear um
                                                     Andrade, no dia 9 de outubro, filho de Carlos
operário português com três estrelas-do-mar.
                                                     Augusto de Moraes Andrade e Maria Luísa Leite
                                                     Moraes Andrade; na Rua Aurora, 320, em São
Foco narrativo de 1ª pessoa
                                                     Paulo - SP.
Centra-se no eixo de individualidade de Juca,
                                                       1904: Escreve o primeiro poema, cantado
protagonista-narrador. Por meio de evocação
                                                     com palavras inventadas. "O estalo veio num
memorialista, em profunda introspecção, ele
                                                     desastre da Central durante um piquenique de
relembra a infância, a adolescência e o início de
                                                     subúrbio. Me deu de repente vontade de fazer
vida adulta.
                                                     um poema herói-cômico sobre o sucedido, e fiz.
                                                     Gostei, gostaram. Então continuei. Mas isso foi
Foco narrativo de 3ª pessoa
                                                     o estralo apenas. Apenas já fizera algumas
Centra-se num eixo de referência social, de
                                                     estrofes soltas, assim de dois em três anos; e
inspiração neo-realista. A denúncia de
                                                     aos dez, mais ou menos, uma poesia cantada,
problemas sociais se alia à análise da
                                                     de espírito digamos super realista, que
problemática existencial das personagens.
                                                     desgostou muito minha mãe. "— Que bobagem
                                                     é essa, meu filho?" — ela vinha. Mas eu não
Espaço
                                                     conseguia me conter. Cantava muito aquilo. Até

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hoje sei essa poesia de cor, e a música                1920: Lê obras Index . Faz parte do grupo
também. Mas na verdade ninguém se faz               modernista de São Paulo. Colabora em Papel e
escritor. Tenho a certeza de que fui escritor       Tinta (São Paulo), na Revista do Brasil (Rio de
desde que concebido. Ou antes... Meu avô            Janeiro - até 1926) e na Illustração Brasileira
materno foi escritor de ficção. Meu pai também.     (Rio de Janeiro - até - 1921).
Tenho uma desconfiança vaga de que refinei a           1921: É professor de História da Arte no
raça..." Este o depoimento do escritor a            Conservatório. Pertence à Sociedade de Cultura
Homero Senna, publicado no livro "República         Artística. Está presente no lançamento do
das Letras", Editora Civilização Brasileira - Rio   Modernismo no banquete do Trianon. É
de Janeiro, 1996, 3a. edição, sobre como havia      apresentado ao público por Oswald de Andrade
começado a escrever.                                através do artigo "Meu poeta futurista" (Jornal
    1905: Ingressa no Ginásio N. Sra. do Carmo      do Commércio São Paulo). Escreve "Mestres do
dos Irmãos Maristas.                                passado" para o citado jornal.
    1909: Forma-se bacharel em Ciências e              1922: Professor catedrático de História da
Letras. Terminado o curso multiplica leituras e     Música e Estética no Conservatório. Participa da
freqüenta concertos e conferências.                 Semana de Arte Moderna em São Paulo, de 13
    1910: Cursa o primeiro ano da faculdade de      a 18 de fevereiro, no Teatro Municipal de São
Filosofia e Letras de São Paulo.                    Paulo. Faz parte do grupo da revista Klaxon,
    1911: Inicia estudos no Conservatório           publicando poemas e críticas de literatura, artes
Dramático e Musical de São Paulo.                   plásticas, música e cinema. Escreve Losango
    1913: Morre seu irmão Renato, aos 14            Cáqui,     poesia    experimental.     Inicia   a
anos, devido a complicações decorrentes de          correspondência com Manuel Bandeira, que
uma cabeçada em jogo de futebol. Abalado            dura até o final de sua vida. Publica Paulicéia
pelo fato e trabalhando em excesso, Mário tem       desvairada, poesia.
uma profunda crise emocional. Passa um tempo           1923: Estuda alemão com Kaethe Meichen-
em Araraquara, na fazenda da família. Quando        Bosen, de quem se enamora. Faz parte da
retorna desiste da carreira de concertista          revista Ariel, de São Paulo. Escreve A escrava
devido a suas mãos terem se tornado trêmulas.       que não é Isaura, poética modernista. Continua
Dedica-se, então a carreira de professor de         a colaborar na Revista do Brasil (Rio de
música.                                             Janeiro).
    1915: Conclui curso de canto no                    1924: Realiza a histórica "Viagem da
Conservatório.                                      Descoberta do Brasil", Semana Santa dos
    1916: Conclui, como voluntário, o Serviço       modernistas e seus amigos, visitando as
Militar.                                            cidades históricas em Minas. Colabora em
    1917:     Diploma-se      em    piano    pelo   América Brasileira (contos de Belazarte),
Conservatório. Morre seu pai. Publica Há uma        Estética e Revista do Brasil (Rio de Janeiro).
gota de sangue em cada poema, poesia, sob o            1925: Colabora n'A Revista Nova de Belo
pseudônimo de Mário Sobral. Primeiro contato        Horizonte. Publica A Escrava que não é Isaura:
com a modernidade na Exposição de Anita             discurso sobre algumas tendências da poesia
Malfatti. Primeira viagem a Minas: encontra o       modernista. Adquire a tela de André Lhote,
barroco      mineiro,   visita   Alphonsus     de   Futebol, através de Tarsila.
Guimarães. Já iniciou sua Marginália.                  1926: Férias em Araraquara, escrevendo
    1918: Recebe Diploma de Membro da               Macunaíma. Publica Primeiro andar, contos, e
Congregação Mariana de N. Sra. da Conceição         Losango Cáqui (ou Afetos Militares de Mistura
da Igreja de Santa Ifigênia. Noviciado na           com os Porquês de eu Saber Alemão), poesia.
Ordem Terceira do Carmo. Nomeado professor          Escreve poemas de Clã do Jaboti. Colabora na
no Conservatório. Escreve contos e poemas.          Revista de Antropofagia, na Revista do Brasil e
Colabora ocasionalmente em jornais e revistas       em Terra Roxa e Outras Terras.
como crítico de arte e cronista; em A Gazeta e         1927: Colabora no Diário Nacional de São
O Echo (São Paulo).                                 Paulo: crítico de arte e cronista (até 1932,
    1919: Profissão na Ordem Terceira do            quando o jornal é fechado). Estréia como
Carmo a 19 de março. É colaborador de A             romancista,      publicando    Amar,     verbo
Cigarra, O Echo e A Gazeta. Viagem a Minas          intransitivo, que choca a burguesia paulistana
Gerais, visitando as cidades históricas.            com a história de Carlos, um adolescente de

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família tradicional iniciado nos prazeres do sexo   catedrático de Filosofia e História da Arte na
pela sua Fraülein, contratada por seu pai           Universidade do Distrito Federal e colabora no
exatamente para essa tarefa. Lança, também, o       Diário de Notícias daquela cidade. Publica
livro Clã do Jaboti, de poesias. Realiza a          Namoros com a Medicina, estudos de folclore.
primeira "viagem etnográfica": percorrendo o            1939: Cria a Sociedade de Etnologia e
Amazonas e o Peru, da qual resulta o diário O       Folclore de São Paulo, sendo seu primeiro
Turista Aprendiz.                                   presidente. Organiza o 1o. Congresso da Língua
    1928: Membro do Partido Democrático.            Nacional Cantada (jul.). Projeta a criação do
Realiza sua segunda "viagem etnográfica": ao        Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico
Nordeste do Brasil (dez. 1928 - mar. 1929).         Nacional, SPHAN. É nomeado encarregado do
Colabora na Revista de Antropofagia e em            Setor de São Paulo e Mato Grosso. Escreve
Verde. Publica Ensaio sobre a Música Brasileira     poemas de A Costela do Grão Cão. Publica
e Macunaíma - o Herói sem nenhum caráter,           Samba Rural Paulista, estudo de folclore. É
onde inova com audácia e rebela-se contra a         crítico do Diário de Notícias (até 1944) e
mesmice das normas vigentes. Com enorme             colabora na Revista Acadêmica (Rio de Janeiro)
sucesso a obre repercutiu em todo o país por        e em O Estado de S. Paulo. Publica A Expressão
seus enfoques inéditos. Sob um fundo                Musical nos Estados Unidos.
romanesco e satírico, aí se mesclavam numa             1941: Volta a viver em São Paulo, à Rua
narrativa exemplar a epopéia e o lirismo, a         Lopes Chaves 546. Está comissionado no
mitologia e o folclore, a história e o linguajar    SPHAN. Colabora em Clima (SP).
popular. O personagem-título, um "herói sem            1942: Sócio-fundador da Sociedade dos
nenhum caráter", viria a ser uma síntese, o         Escritores Brasileiros. Colabora no Diário de S.
resumo das virtudes e defeitos do brasileiro        Paulo e na Folha de S. Paulo. Publica Pequena
comum.                                              História da Música.
    1929: Inicia coluna de crônicas "Táxi", no         1943: Publica Aspectos da Literatura
Diário Nacional. "Viagem etnográfica" ao            Brasileira, O Baile das Quatro Artes, crítica, e
Nordeste, colhendo documentos: música               Os Filhos de Candinha, crônicas.
popular e danças dramáticas. Rompimento da             1944: Escreve Lira Paulistana, poesia.
amizade com Oswald de Andrade. Publica                  1945: Coberto de reconhecimento pelo
Compêndio de História da Música.                    papel de vanguarda que desempenhou em três
    1930: Apóia a Revolução de 30. Defende o        décadas, Mário de Andrade morreu em São
Nacionalismo     Musical.   Publica    Modinhas     Paulo - SP em 25 de fevereiro de 1945,
Imperiais, crítica e antologia, e Remate de         vitimado por um enfarte do miocárdio, em sua
Males, poesia.                                      casa. Foi enterrado no Cemitério da
    1933: Completa 40 anos. Faz crítica para o      Consolação. Publicação de Lira Paulistana e
Diário de São Paulo (até 1935).                     Poesias completas.
    1934: Diplomado Professor honorário do              Um capítulo à parte em sua produção
Instituto de Música da Bahia. Cria e passa a        literária sem fronteiras é constituído pela
dirigir a Coleção Cultural Musical (Edições         correspondência do autor, volumosa e cheia de
Cultura Brasileira - São Paulo). Colabora em        interesse, ininterruptamente mantida com
Festa (Rio de Janeiro), Boletim de Ariel. Publica   colegas como Manuel Bandeira, Carlos
Belazarte, contos, e Música, Doce Música,           Drummond de Andrade, Oswald de Andrade,
crítica.                                            Tarsila do Amaral, Fernando Sabino, Augusto
    1935: É nomeado chefe da Divisão de             Meyer e outros. Suas cartas conservaram, de
Expansão Cultural e Diretor do Departamento         regra, a mesma prosa saborosa de suas
de Cultura. Publica O Aleijadinho e Álvares de      criações com palavras — um lirismo que, como
Azevedo.                                            ele disse, "nascido no subconsciente, acrisolado
    1936: Deixa de lecionar no Conservatório.       num pensamento claro ou confuso, cria frases
Nomeado Chefe do Departamento de Cultura            que são versos inteiros, sem prejuízo de medir
da Prefeitura.                                      tantas sílabas, com acentuação determinada".
    1937: É contra o Estado Novo.                   Coberto de reconhecimento pelo papel de
    1938: Transfere-se para o Rio de Janeiro        vanguarda que desempenhou em três décadas,
(27 jun.), demitindo-se do Departamento de          Mário de Andrade morreu em São Paulo SP em
Cultura (12 mai.). É nomeado professor-             25 de fevereiro de 1945.

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                                                 - Música do Brasil, 1941
   Bibliografia:                                 - Poesias, 1941
- Há uma gota de sangue em cada poema,           - O movimento modernista, 1942
1917                                             - O baile das quatro artes, 1943
- Paulicéia desvairada, 1922                     - Os filhos da Candinha, 1943
- A escrava que não é Isaura, 1925               - Aspectos da literatura brasileira 1943 (alguns
- Losango cáqui, 1926                            dos seus mais férteis estudos literários estão
- Primeiro andar, 1926                           aqui reunidos)
- A clã do jabuti, 1927                          - O empalhador de passarinhos, 1944
- Amar, verbo intransitivo, 1927                 - Lira paulistana, 1945
- Ensaios sobra a música brasileira, 1928        - O carro da miséria, 1947
- Macunaíma, 1928                                - Contos novos, 1947
- Compêndio da história da música, 1929          - O banquete, 1978
(reescrito como Pequena história da música       - Será o Benedito!, 1992
brasileira, 1942)
- Modinhas imperiais, 1930                       Antologias:
- Remate de males, 1930                          - Obras completas, publicação iniciada em
- Música, doce música, 1933                      1944, compreendendo 20 volumes.
- Belasarte, 1934                                - Poesias completas, 1955.
- O Aleijadinho de Álvares de Azevedo, 1935      - Poesias completas, 1972.
- Lasar Segall, 1935



                                    José Carlos Capinan
                                          Poesias)
                                         (Poesias)


MUDANDO DE CONVERSA                              Há quem chore, há quem ligue a chave de
                                                 ignição
Não me venham falar de éticas                    Entretanto em meu coração fortemente chove
Prefiro locomotivas                              Chove chove chove
Ou motivos loucos para ser feliz
Prefiro vagões de urânio e feijão                Enquanto chove, choro e relampeja
Atravessando o país                              Se despem e se despedem todos os amantes
Vendo o povo acenando lenços brancos             As chaves de ignição acendem os trovões
(Campos férteis)                                 Apagam-se as velas e assim seja
Aos que vão sul a norte
Leste oeste                                      VII
Trilhos novos, outros brasis
                                                 Os carros são cada ano mais potentes
E eu menino outra vez a dar adeus aos tempos     E capazes de desenvolver velocidades
da antihistória                                  surpreendentes
Quero sorrir das janelas de trens supersônicos   São capazes de atirar quilômetros animais
Em trilhos magnéticos                            árvores
E novamente pensar que podemos alcançar as           gente
estrelas                                         Não sei porque a vida se faz tão urgente
(Dakar, em maio/2006)
                                                 VIII
ALGUMAS FANTASIAS
                                                 Sou político
I                                                E nem sei o que possa dizer com isso
É noite, tudo é mistério, eu vejo                Mas é da época ser político

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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E há vários políticos                              Os cães provavelmente ladrarão inteiramente a
E cada um tem a sua verdade política               noite
E a sua maneira política de ser político           Enquanto a lua cheia obtura os dentes podres
E cada político tem o seu melhor mundo a           das canções
oferecer                                           Um traficante boliviano
Sou político e também penso que talvez tenha       Diz alô de Amsterdã
um mundo                                           Um fracassado governante
Mas nem por isso, talvez somente fantasie inútil   Diz alô num telegrama
E acredite poder alterar esse inexorável rumo.     Tudo é ópio, para um ex-marxista
                                                   Para um ex-espiritualista, tudo é transe.
Fui tão político às vezes que desdenhei as         Tudo é provisoriamente eterno para os poetas
formas                                             Tudo é eternamente provisório para os
E contestei as normas                              amantes
E confessei ridículas as pétalas de rosas          E o poema apenas a configuração do instante
Fui tão político às vezes que fiz da beleza uma
coisa perigosa                                     DIDÁTICA
E tão político às vezes que tornou-se a noite
pavorosa                                           A poesia é a lógica mais simples.
Fui tão político às vezes que se desfizeram as     Isso surpreende
minhas                                             Aos que esperam ser um gato
   mãos amorosas                                   Drama maior que o meu sapato.
E tão político às vezes que pensei entender a      Ou aos que esperam ser o meu sapato,
guerra                                             Drama tanto mais duro que andar descalço
O chumbo e a pólvora                               E ainda aos que pensam não ser o meu andar
Fui tão político às vezes que despendi mil         descalço
impossíveis horas                                  Um modo calmo.
Dissolvendo em amnésia todas as memórias
                                                   (Maior surpresa terão passado
As máquinas são políticas                          Os que julgam que me engano:
As poéticas são políticas                          Ah, não sabem o quanto quero o sapato
As canções são políticas                           Nem sabem o quanto trago de humano
Mas eu desconfio que alguma coisa possa            Nesse desespero escasso.
deixar de ser                                      Não sabem mesmo o que falo
                                                   Em teorema tão claro.
MADRUGADAS DE NARCISO
                                                   Como não se cansariam ao me buscar os
Encalho nas madrugadas as minhas velas em          passos
farrapos                                           Pois tenho os pés soltos e ando aos saltos
Sou eu mesmo os marinheiros                        E, se me alcançassem, como se chocariam ao
Sou eu mesmo a cabotagem                           saber que faço
Sou eu quem traça os portos do roteiro             A lógica da verdade pelos pontos falsos)
E torna em desespero a bússola da viagem
                                                   POESIA PURA
Naufrago nas madrugadas
Mas eu mesmo me faço nadar em vão até as           Se esta é a busca da noite enquanto noite,
mais                                               A busca intensa que nada perturba,
    longínquas praias                              Nego a sensibilidade, pois ela acrescenta.
Sou eu a maresia, a calmaria e a tempestade        Nego a compreensão, pois ela já tem noções
Sou eu mesmo a terra à vista                       E pode perturbar a flor pelo conhecer do
Inalcançável                                       homem.
                                                   Hoje não relaciono, não comprometo.
OUTRAS CONFISSÕES                                  Quero a coisa em seu íntimo mais grave
                                                   Quero a coisa, essencialmente a coisa,
Narciso se despe, é noite, estão ladrando os
cães

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A coisa metafísica, para provar a             Violência, viola violeiro
impossibilidade.                              Era a morte em redor mundo inteiro
                                              Era um dia, era claro, quase meio
O REBANHO E O HOMEM                           Era um que jurou me quebrar
                                              Mas não lembro de dor nem receio
O rebanho trafega com tranqüilidade o         Só sabia das ondas do mar
caminho:                                      Jogaram a viola no mundo
É sempre uma surpresa ao rebanho que ele      Mas fui lá ho fundo buscar
chegue                                        Se toma a viola eu ponteio
Ao campo ou ao matadouro.                     Meu canto não posso parar
Nenhuma raiva
Nenhuma esperança o rebanho leva.             Quem me dera agora
Pouco importa que a flor sucumba aos cascos   Eu tivesse a viola
Ou ainda que sobreviva.                       Pra cantar
Nenhuma pergunta o rebanho não diz:           Era um era dois, era cem
Até na sede ele é tranqüilo                   Era um dia, era claro, quase meio
Até na guerra ele é mudo.                     Encerrar meu cantar já convém
O rebanho não pronuncia,                      Prometendo um novo ponteio
Usa a luz mas nunca explica a sua falta       Este dia bem claro por inteiro
Usa o alimento sem nunca se perguntar         Eu espero não vá demorar
Sobre o rebanho o sexo                        Este dia estou certo que vem
Que ele nunca explicara                       Digo logo que vim pra buscar
E as fêmeas cobertas                          Parado no meio do mundo
Recebem a fecundidade sem admiração.          Não deixo a viola de lado
A morte ele desconhece e a sua vida.          Vou ver o tempo mudado
No rebanho não há companheiros,               E um novo lugar pra cantar
Há cada corpo em si sem lucidez alguma.       Quem me dera agora
O rebanho não vê a cara dos homens            Eu tivesse a viola pra cantar
Aceita o caminho e vai escorrendo             Ponteio, ponteio
Num andar pesado sobre os campos.             Todo mundo
                                              Pontear
PONTEIO
                                              “Em 1967, Ponteio ganhou o III Festival da
(Música em parceria com Edu Lobo)             MPB, enquanto era morto em SantaCruz de la
                                              Sierra, Bolívia, um mito latino americano, que
Era um, era dois, era cem                     derrubara em Cuba, ao lado de Fidel, a ditadura
Era o mundo chegando e ninguém                de Fulgêncio Baptista, criando pela primeira vez
Que soubesse que eu sou violeiro              uma república socialista nas Américas. Neste
Que me desse ou amor ou dinheiro              festival, foram plantadas as sementes da
Era um era dois era cem                       Tropicália. Caetano Veloso defende Alegria,
Vieram pra me perguntar                       Alegria, e enquanto se preparava para cantar
Oh você de onde vai de onde vem               Domingo no Parque, entreguei a Gilberto Gil o
Diga logo o que tem pra cantar                poema-letra Soy Loco Por Ti, América.
Parado no meio do mundo                       Considero estas três canções precursoras do
Pensei chegar meu momento                     Tropicalismo.     E   considero     Ponteio    o
Olhei pro mundo e nem via                     encerramento do ciclo que elejera o Nordeste
Nem sombra nem sol nem vento                  como síntese de nossa postura estético-
                                              política”. (Capinan)
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
                                              CLARICE
Pra cantar
                                              (música em parceira com Caetano Veloso)
Era um dia, era claro, quase meio
Era um canto calado sem ponteio               Há muita gente
                                              Apagada pelo tempo
 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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Nos papéis desta lembrança                      Assistiu minha partida
Que tão pouca me ficou                          Chorando pediu lembrança
Igrejas brancas, luas claras nas varandas       E vendo o barco se afastar de Amaralina
Jardim de sonho e cirandas                      Desesperadamente linda
Foguetes claros no ar                           Soluçando e lentamente
                                                E lentamente despiu o corpo moreno
Que mistério tem Clarice                        E entre todos os presentes
Pra guardar-se assim tão firme                  Até que seu amor sumisse
No coração                                      Permaneceu no adeus chorando e nua
                                                Para que a tivesse toda
Clarice era morena                              Todo tempo que existisse
Como as manhãs são morenas
Era pequena no jeito de não ser quase ninguém   Que mistério tem Clarice
Andou conosco caminhos de frutas e              Que mistério tem Clarice
passarinhos                                     Pra guardar-se assim tão firme
Mas jamais que se despiu                        No coração?
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes                    “1966 (...) Morava no Rio de Janeiro, numa
Do rio                                          espécie de exílio interno, que vivi ao sair da
                                                Bahia, em 1964. Eu tinha uma idéia recorrente
Eu pergunto o mistério                          de voltar. Algumas vivências de adolescente
Que mistério tem Clarice                        insistiam em permanecer no meu coração,
Pra guardar-se assim tão firme                  resistindo ao sex appeal das garotas de
No coração                                      Ipanema, pelejando com as novas emoções
                                                que o Rio oferecia. E eram muitas. Mas a quase
Tinha receio do frio                            namoradinha do interior permaneceu como
Medo de assombração                             ícone da beleza nativa, a cobiçada filha de seu
Um corpo que não mostrava                       Cícero (...). Escrevi Clarice num surto de banzo.
Feito de adivinhação                            E mostrei o poema a Suzana (filha de Vinícius
Os botões sempre fechados                       de Moraes) e Macalé. Suzana identificou
Clarice tinha o recato                          Caetano como parceiro ideal (...) A morena
De convento e procissão                         Clarice foi gravada também por Orlando Silva, o
                                                que vim a descobrir após a sua morte”.
Que mistério tem Clarice                        (Capinan)
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme                  PAPEL MACHÊ
No coração                                      (música em parceria com João Bosco)
Soldado fez continência                         Cores do mar
O coronel reverência                            Festa do Sol
0 padre fez penitência                          Vida é fazer
Três novenas e uma trezena                      Todo sonho brilhar
Mas Clarice era inocência                       Ser feliz
Nunca mostrou-se a ninguém                      No seu colo dormir
Fez-se modelo das lendas                        E depois acordar
Das lendas que nos contaram                     Sendo seu colorido brinquedo
As avós                                         De papel machê

Eu pergunto o mistério                          Dormir no teu colo
Que mistério tem Clarice                        É tornar a nascer
Pra guardar-se assim tão firme                  Violeta e azul
No coração                                      Outro ser
                                                Luz do querer
Tem que um dia amanhecia e Clarice              Não vai desbotar

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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Lilás cor do mar                                     Festival da Record de 1967, com a canção
Seda cor do batom                                    “Ponteio”. Volta a se aproximar de seus
Arco-íris crepom                                     conterrâneos – compõe com Gil o clássico “Soy
Nada via desbotar                                    Loco por Ti, América”, e integra o histórico
Brinquedo de papel machê                             disco “Tropicália” (68), ao lado de Caetano, Gil,
                                                     Mutantes, Gal Costa, Tom Zé, Rogério Duprat e
“Poucas canções eu fiz tomando como ponto de         Torquato Neto.
partida uma melodia já composta. Ponteio e                    Não diminui o seu ritmo como letrista e
Papel Machê foram raras exceções. Gosto de           segue dividindo parcerias com grandes nomes
escrever os poemas ou letras livremente, sem         da música, como Jards Macalé (em “Gotham
um padrão a ser alcançado... Esta parceria com       City”, vaiadíssima no IV Festival Internacional
João Bosco é um dos maiores sucessos de tudo         da Canção de 1969), Fagner (em “Como se
que escrevi. Eu estava feliz e bem amado             Fosse”) e Geraldo Azevedo (em “For All Para
quando a fiz e me interessava muito pelas            Todos”). Em 2000, compôs a ópera “Rei Brasil
relações amorosas que dão certo, porque me           500 Anos” ao lado de Fernando Cerqueira e
sinto    mal-educado     afetivamente     (...)”     Paulo Dourado, uma crítica as comemoração
(Capinan)                                            dos 500 anos de Descobrimento do Brasil, e
                                                     dividiu parceria nos novos discos de Tom Zé
                                                     (em “Perisséia”) e de Sueli Costa (em
                                                     “Jardim”).
                                                              Segundo Gilberto Gil, (...) Capinan,
                                                     como todos nós outros, vivia aquela aventura
                                                     com a sofreguidão das almas jovens. Vindo de
             José Carlos Capinan                     um interior ainda mais agreste, ainda mais
         Nascido na cidade baiana de Esplanada,      nordeste do que o de onde vínhamos eu e
em 19 de dezembro de 1941, José Carlos               Caetano — porque ainda mais longe do mar de
Capinam é considerado um dos grandes                 águas e de luzes da baía —, Capinan era
letristas de sua geração, tendo participado          portador e manifestante de uma alma ainda
ativamente do movimento tropicalista no fim da       mais severina, no sentido joãocabralino da
década de 60.                                        palavra. Mais caprino, mais cismado mais
         Poeta desde a adolescência, mudou-se        dependurado nas argolas das interrogações,
para Salvador aos 19 anos, onde iniciou o curso      como se elas fossem aquelas gangorras toscas
de Direito, na Universidade Federal da Bahia.        pendendo dos galhos das mangueiras dos
         Militante fervoroso do CPC da UNE, fez      quintais das casas no seu sertão. De
logo amizade com Caetano Veloso e Gilberto           pensamento          arisco,    arredio,      mais
Gil, na época cursando, respectivamente, as          litera(l)riamente desconfiado do que os outros,
faculdades de Filosofia e de Administração de        Capinan viria depositar a palavra nas mãos do
Empresas.                                            seu coração semiárido. A sua poesia estava,
         Com o golpe militar, em 1964, é forçado     então, naquela região do sertão, naquele
a deixar Salvador e vai morar em São Paulo,          coração semiúmido e de lá ela se faria escrever
onde inicia os primeiros poemas de seu livro de      e falar.
estréia, “Inquisitórial”. Alguns anos depois,                 Aqui e ali essa poesia viria a ser, mais
volta à capital baiana, desta vez para fazer         tarde, um pouco mais entumescida pelo mar da
Medicina, profissão que chega a exercer por          viagem ao desconhecido ou pelo orvalho das
algum tempo.                                         últimas madrugadas neo-românticas, quando
         Paralelamente, intensifica o seu trabalho   dos estertores da revolução política e cultural
como poeta e participa do primeiro disco de          dos sessenta e dos setenta e logo dos oitenta e
Gilberto Gil, em 1966, dividindo a parceria na       tantos quantos foram os anos-luzes do seu
faixa “Viramundo”. No mesmo ano, sua música          percurso por sampas e riodejaneiros. Mas, no
“Canção para Maria”, defendida e composta em         fundo, eu quase arriscaria afirmar que a poesia
parceria com Paulinho da Viola, é um dos             de Capinan repousa, ainda e eternamente, no
destaques do II Festival de Música da Record,        caroço de umbu da sua caatinga. Umbu cuja
obtendo a terceira colocação.                        carne é assim meio fibra, meio nervo e um
         Torna-se um dos mais assediados             tanto pouca, que ao morder se dá mais parca
letristas da época e vence com Edu Lobo o

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que farta, com seu doce ancorado em seu           permanece. Aquilo que não se perde nas
azedo, cujo gosto é bom mas exigente e            névoas do delírio. Como a um fio de Ariadne
dificultoso, e cujo caroço é duro e traiçoeiro    atado. Aquilo que, como no sonho acordado do
para os dentes. Creio que assim será sempre a     menino, leva-o à exploração das grutas
poesia de Capinan, embora seu verso tenha         obscuras da fantasia mas o traz sempre de
uma vez ameaçado que “já não somos como na        volta ao ser do presente, ao claro recinto do
chegada”.                                         seu quarto — ainda que sob tênue luz de
         Sabemos que em todos nós há sempre       lamparina iluminado. Quatro paredes, o teto,
um que vai e um que fica, um que muda e um        seu ambiente. Sempre de volta à obstinada
que permanece, e que há um outro que atento       recusa da solidão. De volta a algum/alguém
os observa a ambos, quase sempre a um deles       sempre ao seu lado. Ele mesmo, o seu amigo
distinguindo como se com um amor de pai.          ambíguo, um tanto quanto deslocado, quase
         (...) A poesia de Capinan distingue,     que num quarto ao lado, contíguo a si mesmo,
elege e prestigia aquilo/aquele que nele          mas ainda no âmbito da sua con(si)guidade.

                                    Tatiana Belinky
                                            Belinky
                                       (O Diabo e o
                                        Granjeiro)


        Um pobre lavrador precisava construir a           E voltou correndo para casa, para
casa de sua pequena granja, mas não               comunicar à esposa o bom negócio que
conseguia realizar esse sonho, pois o que         acabara de fechar.
ganhava mal dava para alimentá-lo, junto com              A pobre mulher ficou horrorizada:
sua mulher. Por mais economia que fizesse,                — Tu és um louco, marido! Acabas de
não conseguia juntar o necessário para            prometer àquele velho, que só pode ser o
começar a construção.                             próprio diabo, o nosso primeiro filho, que vai
        Um dia, estando a caminhar pelo seu       nascer daqui a alguns meses!
pedaço de chão, mergulhado em tristes                     O homem, que não sabia da gravidez,
pensamentos, deu com um velho esquisito que       pôs as mãos na cabeça, mas não havia mais
lhe disse com voz desagradável:                   nada a fazer: o pacto estava selado.
        — Pára de preocupar-te, homem. Eu                 A mulher, porém, que não estava
posso resolver o teu problema antes do            disposta a aceitá-lo, ficou pensando num jeito
primeiro canto do galo, amanhã cedo.              de frustrar o plano do diabo.
        — Como assim? — espantou-se o                     E naquela noite, sem conseguir dormir,
lavrador.                                         ficou o tempo todo escutando apavorada o
        — Tu precisas construir a casa da         barulho que o demônio e seus auxiliares
granja, certo? Pois eu me encarrego de            infernais faziam, ao construírem a tal obra, com
construir e entregar-te essa obra, antes do       espantosa rapidez. A noite ia passando,
canto do galo, em troca de uma pequena            aproximava-se a madrugada.
promessa tua.                                             Mas, pouco antes de o céu clarear,
        — Que promessa? Não tenho nada para       quando faltavam só umas poucas telhas para a
te oferecer em troca de tal serviço.              conclusão da obra, a atenta mulher do
        — Não importa: o que quero que me         granjeiro pulou da cama e, rápida e ágil, correu
prometas é um bem que tu tens mas ainda não       até o galinheiro, onde o galo ainda não
sabes. É topar ou largar.                         despertara.
        O pobre granjeiro pensou com seus                 Tomando fôlego, imitou o canto do galo,
botões “o que é que eu tenho a perder?” e,        com tal perfeição que todos os galos da
sem hesitar mais, respondeu ao velho que          vizinhança, junto com o seu próprio, lhe
aceitava o trato e fez a promessa.                responderam com um coro sonoro de cocoricós
        — Só que quero ver a casa da granja       matinais, momentos antes do romper da
construída, amanhã, antes do canto do galo —      aurora.
observou ele, ainda meio incrédulo.

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        Como um trato com o diabo tem de ser               De 1948 a 1951, criou com o marido
estritamente observado, tanto pela vítima como     várias adaptações de histórias infantis para
por ele mesmo, a obra em final de construção       teatro. Nessas encenações, Tatiana fazia o
teve de ser parada naquele mesmo instante,         roteiro e o marido, a direção. As peças eram
por quebra de contrato “antes do primeiro          encenadas em teatros da Prefeitura de São
canto do galo”.                                    Paulo, com recursos da prefeitura.
        E o diabo, espumando de raiva por se               Em 1952, o casal encenou sua bem-
ver assim ludibriado e espoliado, se mandou de     sucedida adaptação “Os três ursos” na extinta
volta para o inferno, junto com seus acólitos,     TV Tupi. Com o sucesso da encenação na
para nunca mais voltar àquele lugar.               televisão, a Tupi convidou o casal a elaborar o
Mas a casa da granja permaneceu construída,        programa “Fábulas Animadas”, preenchendo
para alegria do granjeiro, faltando apenas umas    uma lacuna da programação da época para o
poucas telhas que jamais puderam ser               público infanto-juvenil.
colocadas.
                                                           A primeira versão do Sítio do Picapau
                                                   Amarelo, de Monteiro Lobato, estreou em 10 de
                                                   janeiro de 1952, e a direção coube a Tatiana
                                                   Belinky e Júlio Gouveia. Foram 300 episódios,
                                                   mas infelizmente não ficou nada registrado pois
            Tatiana Belinky                        o programa era feito ao vivo.
Sou antiga, mas não sou velha, porque dentro               A primeira adaptação ocorreu no Teatro
de mim continua vivinha a criança que fui e isto   Escola de São Paulo - TESP - um teleteatro
me permite estar em sintonia com crianças e        dirigido ao público infantil, criado em 1948 por
jovens, com quem procuro repartir minhas           Tatiana e Júlio Gouveia. "A Pílula Falante", um
curtições de ontem e de hoje. Meu prêmio           dos capítulos do livro "Reinações de Narizinho",
maior é saber que meus livros irão para as         foi a história escolhida para ser exibida ao vivo
mãos das crianças, e se elas sorrirem, ou se       na Tupi. O sucesso alcançado por esta única
emocionarem, ou ficarem pensativas, eu ficarei     apresentação levou a emissora a produzir a
feliz".                                            primeira série de televisão do "Sítio do Picapau
        Tatiana Belinky (São Petersburgo, 18 de    Amarelo".
março de 1919) é uma das mais importantes                  O primeiro programa estreou em 3 de
escritoras infanto-juvenis contemporâneas.         junho de 1952 (às quintas-feiras, 19h30), com
Embora russa, está radicada no Brasil há quase     a reprise do episódio "A Pílula Falante", ficando
oitenta anos.                                      no ar por 11 anos. Paralelamente à exibição ao
       Nasceu em São Petersburgo (Rússia) no       vivo em São Paulo, a TV Tupi do Rio de Janeiro
dia 18 de março de 1919, mudando-se para           exibiu, por dois meses no ano de 1955, uma
Riga aos dois anos de idade. Seu pai, Aron, era    versão da série com direção de Maurício
comerciante e a mãe, Rosa, cirurgiã-dentista. A    Sherman e produção de Lúcia Lambertini, que
menina Tatiana aprendeu a ler no idioma            também interpretava a Emília ao lado de Daniel
materno, o russo. Aos dez anos de idade,           Filho (o Visconde) e Zeni Pereira (Tia Nastácia).
fugindo das guerras civis que assolavam a                 Seguiram-se outros programas de
então União Soviética, Tatiana já falava russo,    sucesso, sempre na linha de adaptações para o
alemão e letão. Devido à perseguição aos           público infanto-juvenil, que estiveram no ar por
judeus na Rússia Soviética, a família Belinky,     um total de 13 anos, até 1966. Esses
que era judia, resolveu se mudar para o Brasil,    programas tinham sempre o propósito explícito
chegando a São Paulo em 1929.                      de estimular a leitura entre os jovens, criando
       Aos dezoito anos, após concluir um          nestes a curiosidade de ler os originais das
curso preparatório, começou a trabalhar como       adaptações.
secretária-correspondente bilíngüe, nos idiomas           Torna-se presidente da CET (Comissão
português e inglês. Aos vinte (1939) ingressou     Estadual de Teatro de São Paulo).
no curso de Filosofia da Faculdade São Bento,               Paralelamente    à    atividade   como
mas abandonou-o em 1940, quando casou-se           roteirista de teatro e televisão, Tatiana Belinky
com o médico e educador Júlio Gouveia.             deu início, em 1952, à atividade como tradutora

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literária, iniciada com suas adaptações de peças     outras premiações.
de teatro infantis e contos russos. Traduziu                 Na área de tradução, recebeu o Prêmio
mais de 80 livros do russo, alemão, inglês e         Monteiro Lobato de Tradução em 1988 e 1990.
francês. Entre os textos que traduziu e adaptou      Em 1994, deixou de atuar como tradutora, mas
estão obras de autores como Dostoiévski,             não abandonou, entretanto, sua atuação como
Tolstói, Gorki, Gogol, Turgueniev, Goethe,           escritora.
Brecht, Irmãos Grimm e Lewis Carroll. Sua
especialidade sempre foi a literatura infantil              De sua vasta obra, destacam-se "Coral
russa, ajudando a divulgar a cultura russa entre     dos    Bichos", "Limeriques",    "O Grande
crianças e adolescentes.                             Rabanete", "Di-versos russos", "Limerique das
                                                     Coisas Boas", entre outros.
        Também atuou, a partir de 1972, como
crítica de literatura infanto-juvenil e de teatro,         Nestes últimos anos, Tatiana Belinky
como colaboradora dos jornais Folha de São           tem também publicado livros de crônicas e
Paulo, O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde       memórias.
e da TV Cultura.                                             Tatiana   explica   o   que    significa
      Finalmente, em 1985, Tatiana Belinky           limerique:
desponta como escritora de livros, colaborando               O limerique é um estilo de verso
em uma série infanto-juvenil.                        inspirado numa cidade da Irlanda, Limerick, e
       Seu primeiro livro de poesia infantil,        desenvolvido pelo poeta Edward Lear. São
"Limeriques das Coisas Boas", foi publicado em       cinco linhas, três versos rimando, o primeiro, o
1987. Os poemas do livro, que brincam com            segundo e o quinto; o terceiro e o quarto, mais
cacófatos e exploram a riqueza verbal da língua      curtos, rimam entre si. Isso dá ritmo, é ótimo
portuguesa, inspiram-se nos "limerick", poemas       para fazer algumas brincadeiras. Aprendi na
de origem irlandesa de apenas cinco versos,          Playboy americana. Claro que o autor lá se valia
cuja característica é o non-sense e o bom-           do limerique de uma forma maliciosa. Mas aí eu
humor.                                               pensei: posso brincar com isso de outra
                                                     maneira. A idéia é ressaltar uma coisa que é o
       A partir desta publicação, Tatiana passa      contrário do que penso, e a criança, que não é
a trabalhar fervorosamente sobre novas               nada boba, vai entender direitinho. Olha este
criações, chegando a escrever mais de cem            exemplo aqui:
obras. Suas publicações são acompanhadas por
vários prêmios literários, entre eles o célebre      Quem pensa que eu sou uma ogra
Prêmio Jabuti, recebido em 1989.                     No seu pensamento malogra.
                                                     Língua bifurcada?
        Tatiana Belinky é autora premiada em         Só quando enfezada.
literatura e teatro. Recebeu o Prêmio Mérito         Porque eu sou mesmo é sogra."
Educacional em 1979, e o Prêmio Jabuti de
Personalidade Literária do Ano em 1989, entre

                                               Otávio
                                          Luiz Otávio
                                             rovas)
                                           (Trovas)
                         1                                     Tudo a juntar-nos: o amor,
          Ó trovas simples quadrinhas                          o gênio igual, a constância,
      que têm sempre um quê de novo...                        até mesmo a própria dor. . .
         - Como podem quatro linhas                           - Só nos separa a Distância.
       trazer toda a alma de um povo?!                                      4
                         2                                       A Vida com esta oferta
           Se a ti próprio dominares,                       nos prende... (Quanta esperteza)
          - pensa nisso bem a fundo,                            - para tostão de Alegria,
            serás feliz, porque assim                         contos de réis de Tristeza!...
          já venceste meio Mundo! ...                                       5
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 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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         Quando estou longe de ti,                              16
          o Tempo, malvado, traz:              Lábios trêmulos se unindo...
         Ventura sempre de menos,                 Bocas febris se beijando!
       Saudade sempre de mais! ...              - Ao Céu as almas subindo,
                        6                     na Terra os corpos deixando.
       Vejo-te sempre ao meu lado,                              17
           vá ao lugar aonde for...                Se demorares, querida,
       Vejo-te tanto ... ainda dizem                 algo triste vai se dar:
      que estou ceguinho de amor...               - encontrarás a Saudade
                        7                           vivendo no meu lugar.
         "O sábio tem por vingança                              18
        o silêncio. . ." disse alguém.            Duas vidas todos temos,
     - Não creio... Pois quem é sábio          - muitas vezes, sem saber...
       não se vinga de ninguém. . .              - A vida que nós vivemos
                        8                       e a que sonhamos viver. ..
         Cada quadrinha que faço,                               19
        em hora calma ou incalma,                 Toda noite ao me deitar,
             é pequenino pedaço                  (por certo você reprova),
   que eu mesmo furto à minha alma...            - eu me esqueço de rezar
                        9                             e fico fazendo trova
       Fechando os olhos, te vejo...                            20
        Abro os olhos - vejo a Vida!              Não gosto de teimosia...
          - Ah, se eu pudesse viver             Mas, não sei dizer por quê,
      de olhos fechados, querida! ...             sendo você tão teimosa,
                       10                           gosto tanto de você...
           Se é de amor tua ferida,                             21
      não busques remédio, - cala! -            A minha alma é consumida
           O Tempo, aliado à Vida,            por tormentos bem diversos!
        lentamente há de curá-la...              Porém, me vingo da vida,
                       11                      sorrindo... e fazendo versos
           O Tempo custa a passar                               22
        nas horas más da Desgraça!               Esta manhã clara e calma,
         Mas, se a Ventura chegar,                um tal contágio produz,
     bem depressa o Tempo passa ...           que sinto até que minha alma
                       12                          ficou cheinha de luz! ...
          E vai-se levando a vida...                            23
          Vives lá... eu vivo aqui...         Há sempre em tôdas as vidas,
            Mas a vida não é vida                     felizes ou infelizes,
         se eu vivo a vida sem ti ...           saudades, mágoas, feridas,
                       13                        de inescrutáveis raízes ...
         Este milagre, quem há-de                               24
            dizer que não é divino:                Do Passado faço culto!
           - Colocar tanta saudade               Mas tenho cá o meu rito:
        num verso tão pequenino?!              - Sendo triste, eu o sepulto!
                       14                         Se feliz, o ressuscito. . .
      Tão grande é o vazio da alma,                             25
             ao de ti me separar,                 Eu estava tão gripado ...
      que mesmo a Saudade imensa                  Depois ficaste também...
         é pequena em teu lugar...              - Por um simples resfriado,
                       15                     nós nos traímos, meu bem ...
         Eu, pecador, me confesso,                              26
            deste pecado também:                    Na Solidão e no Tédio,
      - Dei-te apressado um só beijo           em que tristonho hoje vivo,
          quando podia dar cem...

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         a Saudade é um remédio,                               37
          teu amor - um lenitivo ...                Nesta trova pequenina,
                      27                             quero deixar o sabor,
       Na Morte, nós encontramos                do beijo que ainda há pouco
          o final de nossas dores...              eu roubei do meu amor...
     - E é por isso que enfeitamos                             38
          a cova toda de flores. . .                Nada fala neste Mundo
                      28                        tanto bem de nossas vidas,
            O beijo de namorado,                  como o silêncio profundo
     mesmo escondido, é sublime:                    de duas bocas unidas...
           - Um pequenino pecado                               39
         que mil pecados redime...                Cada passo que pisamos,
                      29                      rumo ao Sul ou rumo ao Norte,
        Vais levando, entristecida,                é passo a menos na vida
            tua vida numa treva...             e passo a mais para a morte.
     Eu nem vou levando a vida...                              40
     Pois a vida é quem me leva ...              Um mês assim tão risonho,
                      30                              eu juro: nunca vivi!
              É desigual esta vida             - Uns dias cheios de Sonho...
     pois, nos engana... nos furta,               Uns sonhos cheios de ti...
        - Dá velhice tão comprida!                             41
          E mocidade tão curta! ...                 É feliz quem faz o Bem,
                      31                         mesmo sem bens receber;
            Paradoxo inexplicável!              pois Bem maior não se tem
             Misterioso contraste:                 que poder o Bem fazer...
       - Levaste tanta saudade! ...                            42
       Tanta saudade deixaste! ...                  Não lamentes tua vida!
                      32                          O teu sofrer sempre cala!
      Meus olhos ficam bem secos                - Se pões à mostra a ferida
          em cada tristeza nova ...                 podes até arruiná-la. . .
      - Meu pranto vai para dentro                             43
        e sai em forma de trova ...                Não desejo nem capela,
                      33                      nem mármore em minha cova...
        Se és infeliz nunca chores!                  Apenas escrevam nela
        Guarda bem a tua queixa!               pequenina e humilde trova. . .
          - Nenhuma Ventura vale                               44
       toda a saudade que deixa...                Qual o maior sofrimento:
                      34                        não se ver o amor ausente,
          Há pessoas neste Mundo                  ou querer o esquecimento
        tão pequenas moralmente,                e vê-lo constantemente?! ...
       que nem merecem, sequer,                                45
        o próprio ódio da gente. . .              Sem coração não vivemos
                      35                       nem um só momento, não ...
             Imita, no Sofrimento,               - Mas, como nos prejudica,
         as árvores que padecem:                    às vezes, ter coração...
        - quando feridas, podadas,                             46
     com mais vigor reflorescem...                  Que sina, que padecer
                      36                          foi a Sorte aos cegos dar:
         Inveja, anseios, dispensa!                - Não ter olhos para ver
           Os destinos são iguais...                 e tê-los para chorar...
          Com pequena diferença:                               47
     sofrer menos... sofrer mais...               Saudade que nasceu hoje
                                                  e amanhã já se esqueceu,



Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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       não é saudade, é lembrança.                             58
         Saudade nunca morreu! ...                 Eu receio que esta Vida,
                       48                          de lutas e desenganos,
          Por tudo o que tu fizeres,            modifique esta alma simples
            receberás, misturadas,            que eu carrego há tantos anos!
         com agradáveis surpresas,                             59
           tristezas inesperadas ...                Se foi sua alma ferida,
                       49                        não culpe à Vida, rapaz ...
         Menina, que tanto enfeitas             - Não é má ou boa a Vida...
            o teu rosto singular ...            É só vida ... e nada mais ...
       - Não esqueças que tua alma                             60
          também deves enfeitar...                  Tão etérea, tão airosa,
                       50                        passou naquele momento,
          Trabalhosa é minha lida !                 que parecia uma rosa
         Tenho tristezas também...             despetalando-se ao vento. . .
        - Mas não troco minha vida                             61
           pela vida de ninguém!...              Quem só deseja encontrar
                       51                          no futuro lar - bonança,
         Meu Coração, ó demente,                   entre rosas há de achar
        vê se agora tu me explicas:              um chorinho de criança. . .
       - Por que ajudas tanta gente,                           62
           e só a mim prejudicas?!              Por mais pesados, por mais
                       52                       que sejam nossos cansaços,
       Esta Saudade, em meu peito,               sempre é leve para os pais
         de um amor que feneceu,               trazer um filho nos braços ...
           é como o brilho perfeito                            63
       de um astro que já morreu...                 Tendo só o teu retrato
                       53                         é tua ausência tão cheia,
          A amizade grande e pura               que é mais presença de fato
             de duas almas iguais,               que muita presença alheia.
       quando chega a Desventura,                              64
          ainda se aprofunda mais.               É um prazer bem diferente
                       54                         e de sabor sempre novo,
         Há na janela uma grade...                  ouvir a trova da gente
     Dentro do quarto - estou eu. . .            andar na boca do povo ...
        Dentro de mim - a saudade                              65
    do beijo que alguém me deu. . .             Toda trova herdou o espírito
                       55                          navegante português ...
              A Virtude que flutua           - Nasce... foge... corre Mundo ...
           entre vícios, faz lembrar              e abandona quem a fez...
              um raio puro de lua                              66
         no lodo imundo a brilhar...           Não te lamentes se encontras
                       56                           desonestos e venais ...
            Vi morrer tanta ilusão!          - Quando os outros se rebaixam
           Tantos castelos perdi...             sem querer te elevam mais!
      - Não faz mal, pois tenho tudo                           67
         de pouco que vem de ti...               Ó livro, bom companheiro,
                       57                          do nosso espírito - pão.
            Às vezes, uma emoção              - Quem tem olhos e tem livros
       que na minh'alma se aninha,                nunca está em solidão ...
       não cabe bem num Poema...                               68
    ... Mas cabe numa quadrinha. . .        "Meu Deus como o Tempo passa!...
                                              - Nós, às vezes, exclamamos...



Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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      Mas por sorte ou por desgraça,                             79
    fica o tempo... e nós passamos ...                   A trova definitiva,
                       69                              - ideal do trovador -
            Toda saudade, de fato,               por mais que padeça e viva
           se dói consola também...               eu jamais hei de compor...
          Pois fica como um retrato                              80
          daquilo que nos fez bem. .             O tempo não me dá tempo
                       70                           de bem o tempo fruir...
              O lago, na pela nua,                 ... E nesta falta de tempo
          mostrava um leve arrepio,               nem vejo o Tempo fugir...
            por beijá-lo a luz da lua                            81
           ou porque sentisse frio...              Saudade. .. Horas ditosas
                       71                     que o Tempo mau nos levou. . .
             Muitas vezes ao partir,            - Pingos que ficam nas rosas
             (oh! tortura singular) -           de uma chuva que passou...
          os que ficam, querem ir...                             82
        os que vão, querem ficar. . .             De rosas fiz um colchão ...
                       72                           Fiz um lençol do luar ...
          Meu coração - triste lente                 Travesseiro fiz do peito
           de incríveis melancolias:             para o meu amor sonhar ...
          aumenta só as tristezas ...                            83
              diminui as alegrias...               Tua alma emotiva e pura
                       73                         nesta tristeza se expande:
          Depois de meses sem fim                  - de tão pequena ventura
            teu rosto vi com prazer.              ter a saudade tão grande!
        Mas a tua alma - ai de mim!                              84
          nunca mais a pude ver ...            Deste amor não sou culpado...
                       74                           Nem mesmo culpo você.
           Desconfio que a Saudade                - A gente ama ou é amado
          não gosta de ti, meu bem.              sem nunca saber por quê...
         - Quando tu vens ela vai ...                            85
          Quando tu vais ela vem ...            Igual à marca de um quadro
                       75                               da parede retirado,
            Tu és agora alta dama,               teu amor ficou-me, na alma
            de porte belo e correto!                 eternamente marcado.
         - Conheço bem tua fama ...                              86
      Mas - sossega! - sou discreto...             A Ventura não tem preço!
                       76                       É a experiência que o diz. . .
        A Ventura é uma quimera ...             - Quem compra a Felicidade
      Delgada nuvem que esvoaça ...                 é quase sempre infeliz...
        - A Vida é uma longa espera                              87
        da nuvem que logo passa...              Saudade - ausência presente
                       77                       sempre em nosso coração ...
            Para nossa desventura,               Perfume que a gente sente
             na vida, seja qual for,             de rosas que longe estão...
       - o prazer custa e não dura ...                           88
        Dura e não custa uma dor ...               Meu túmulo, belo ou feio,
                       78                           será pequeno, suponho,
           Tu és linda, na verdade.               para guardar tanto anseio,
         Porém, para meu desgosto,                para enterrar tanto sonho!
         na alma não tens a metade                               89
           da beleza do teu rosto ...          A desventura em minha alma
                                                   passou como um furacão!



Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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       Não me matou, por milagre...               Vivemos do amor que vem. . .
         Mas levou-me o coração ...              Do que chega. . . do que vai. . .
                       90                      - Sonho ... Ventura... e Saudade...
          Quem vive pela saudade                   Três atos ... e o pano cai ...
         por longos anos ou meses,
              possui a felicidade
         de reviver várias vezes! ...
                       91
             A tua alma irresoluta
           e invejosa de permeio,
                                                        Luiz Otávio
                                         Gilson de Castro nasceu a 18 de julho de 1916,
     sempre acha que a melhor fruta
                                         no Rio de Janeiro. Luiz Otávio foi o pseudônimo
           está no pomar alheio ...
                                         que ele adotou para assinar suas trovas,
                       92
                                         poesias e outras manifestações de seu talento
         Se a Vida num "ai" escorre
                                         literário. Era cirurgião-dentista, profissão que
      e a Morte, do Eterno, é a face,
                                         exerceu no Rio de Janeiro, onde se formou e
       quando a gente nasce, morre
                                         mais tarde se transferindo para Santos no final
     quando a gente morre, nasce...
                                         de sua vida.
                       93
        Saudade - quase se explica
                                         Começou a enviar seus versos para os jornais e
           nesta trova que te dou:
                                         revistas lá por 1938, ainda timidamente, oculto
        - Saudade é a falta que fica
                                         sob pseudônimo. Não pretendia misturar a vida
          daquilo que não ficou. . .
                                         literária com a profissional. As principais
                       94
                                         revistas e jornais da época começaram a
         Ventura não tem Presente,
                                         divulgar poesias e principalmente trovas de
         nem Passado; só Porvir ...
                                         Luiz Otávio, que podiam ser encontradas no
              Felicidade da gente
                                         "Correio da Manhã", "Vida Doméstica", "Fon-
         está só no que há de vir ...
                                         Fon", "O Malho", "Jornal das Moças", revistas
                       95
                                         que, como "O Cruzeiro", eram as mais lidas dos
           Na Vida sofre-se muito!
                                         anos 1939, 40 e 41, etc. A revista "Alterosa" de
        Mas não há maior tormento
                                         Belo Horizonte, também o divulgou. Pouco a
            que desejar esquecer
                                         pouco, a Trova tomou conta do coração do
        e não ter o esquecimento ...
                                         poeta, assumindo Literalmente papel de
                       96
                                         Liderança na sua vida. E ele confessa:
       A trova é tão pura e humilde,
       que eu julgo, pensando nisto,
                                                   A Trova tomou-me inteiro,
           que o primeiro trovador
                                                     tão amada e repetida,
         foi, por certo, Jesus Cristo.
                                                    que agora traça o roteiro
                       97
                                                   das horas da minha vida!...
        Comparo a saudade minha,
         tão manhosa e persistente
                                         Para a ascensão da Trova na vida de Luiz
            àquela tal borrachinha
                                         Otávio, muito contribuiu sua amizade com
      que o dentista põe na gente ...
                                         Adelmar Tavares. Quem os aproximou foi o
                       98
                                         consagrado poeta A. J Pereira da Silva.
           Eu tenho sofrido tanto!
                                         Recuperava-se Luiz Otávio na Fazenda Manga
      Nunca as dores vêm sozinhas!
                                         Larga em Pati de Alferes, quando teve
       Julgo até que estou sofrendo
                                         oportunidade de conhecer esse renomado
     as dores que não são minhas ...
                                         poeta, da Academia Brasileira de Letras, com
                       99
                                         quem iniciou amizade edificante, solidificada
        O pecado é sempre um mal.
                                         pela Poesia; amizade que se estendeu até os
          Isto é bem determinado.
                                         derradeiros dias de A. J. Pereira da Silva que,
          - Se a coisa é boa, afinal
                                         naquele tempo, já passava dos sessenta,
           não devia ser pecado...
                                         enquanto Luiz Otávio não galgara ainda o
                      100
                                         vigésimo segundo degrau de sua sofrida
                                         existência. Isto não perturbou as horas

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deliciosas de conversa amena e espiritualizada,      livros, publicava trovas, poesias e arrebanhava
em que a fina sensibilidade de ambos fazia           fãs e admiradores de todas as idades. Daí ai
desaparecer a diferença de idade, provando           constituir-se    Líder   de    um     Movimento
que um coração capaz de vibrar "de amor" e           Trovadoresco, era questão de um passo, muito
pulsar em ritmo de poesia, simplesmente não          embora isto viesse acontecer sem procura.
tem idade.                                           Idealista, lírico, por excelência, com um
                                                     profundo senso de organização, Luiz Otávio
A viúva do acadêmico Antônio Joaquim Pereira         acumulava        ainda     outras     qualidades
da Silva, doaria posteriormente, a preciosa          indispensáveis ao "verdadeiro Líder", seja lá do
Biblioteca do poeta ao seu particular amigo,         que for. Era simples, honesto, e sabia
Luiz Otávio, que, por sua vez, ao transferir         convencer sem forçar. Embora convicto e
residência para Santos, em 1973, doou parte          determinado, sabia humildemente ceder, se
desse valioso acervo, juntamente com livros de       preciso fosse. Se persuadido da necessidade de
sua própria estante - num total de mil               uma renúncia, cedia, sim, porém, não
exemplares devidamente catalogados - à               facilmente, mesmo porque antes de propor
Academia Santista de Letras, que só então teve       algo, o fazia convicto de que aquilo era o certo,
formada sua Biblioteca. Na época, a A.S.L. era       respondendo de antemão a todos os possíveis
presidida pelo Dr. Raul Ribeiro Florido que se       apartes - o que de certo modo desarmava, a
responsabilizou pelo transporte Rio-Santos.          priori, o opositor. Era bom, afável e acima de
Com esta doação, Luiz Otávio não pretendia           tudo,     profundamente      carismático.    Um
nada para si, como deixou bem claro em carta,        verdadeiro Príncipe!
(era de conhecimento geral sua quase aversão
às Academias, em virtude do próprio                  O TROVADOR
temperamento). Mas pediu, por uma questão
de justiça, que numa das estantes fosse              Era, portanto, o campo fecundo onde a
colocada uma placa que levasse o nome de A. J        semente da Trova encontrou chão propício
Pereira da Silva. Luiz Otávio recebeu um             para deitar raízes, expandindo sua opulência
carinhoso oficio de agradecimento do então           por todo território nacional. O ritmo da Trova
Presidente da Academia. O atual Presidente,          que embalava seus ouvidos desde os tempos
Dr. Nilo Entholzer. Ferreira, trovador de            de escoteiro, cresceu com ele, ganhando
méritos, comprometeu-se a cumprir essa               melodia ao som do violão de Glauco Vianna,
cláusula. Como já dito, A. J. Pereira da Silva foi   mais tarde pertencente ao "Bando dos
quem levou Luiz Otávio até Adelmar Tavares,          Tangarás", seu colega de faculdade e de
também da Academia Brasileira de Letras, em          noitadas de seresta.
visita à sua casa, em Copacabana. Corria o ano
de 1939. Adelmar Tavares sentia a idade              Luiz Otávio sempre gostou de cantar e compor
pesar-lhe nos ombros, e, mais uma vez, um            embora não conhecesse música. Aloysio de
jovem poeta e um velho e consagrado mestre           Oliveira, outro companheiro, também possuidor
da Poesia uniam-se por laços afetivos dos mais       de um bom timbre vocálico, iria pertencer, no
duradouros. A principal responsável por essa         futuro, ao Bando da Lua, que tanto sucesso fez
união foi a Trova, que Adelmar Tavares               na terra de Tio Sam ao lado de Carmen
cultivava e da qual Dr. Gilson de Castro já era      Miranda. A influência destes dois amigos foi
profundo apaixonado, trazendo-a para o               grande na iniciação poética de Luiz Otávio.
público     sob     o    Pseudônimo,        agora    Glauco tocava, Aloysio cantava e Luiz Otávio
definitivamente adotado.                             não apenas cantava como também compunha
                                                     letras e músicas de canções, sambas, fox-
Luiz Otávio. Luiz, por ser bonito, melodioso, e      trotes, valsas, etc. e continuou cantando e
combinar com Octávio, o nome do Pai, a quem,         compondo até o final dos seus dias. Nascia o
homenageava. Para atualizar o nome, o c foi          "Trovador" - assim carinhosamente chamado,
cortado em acordo às regras ortográficas             já naquele tempo, antes mesmo do seu
vigentes. A Poesia de Luiz Otávio ganhava            ingresso definitivo no Mundo da Trova.
espaço. Jornais de outros estados o acolhiam
em suas páginas, tinha ao seu dispor colunas                    Cada quadrinha que faço
literárias de crítica poética, onde comentava                  em hora calma ou incalma,

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             é pequenino pedaço                                Uma trova pequenina,
      que eu mesmo furto a minha alma.                      tão modesta, tão sem glória,
                                                             bem pouca gente imagina,
         Ó trovas – simples quadrinhas                     que também tem sua história.
      que tem sempre um que de novo...
          - Como podem quatro linhas
       trazer toda a alma de um povo?!



                                   Machado de Assis
                                    (A Cartomante)


         Hamlet observa a Horácio que há mais             Foi então que ela, sem saber que
cousas no céu e na terra do que sonha a nossa     traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia
filosofia. Era a mesma explicação que dava a      muito cousa misteriosa e verdadeira neste
bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de     mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o
Novembro de 1869, quando este ria dela, por       certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que
ter ido na véspera consultar uma cartomante; a    mais? A prova é que ela agora estava tranqüila
diferença é que o fazia por outras palavras.      e satisfeita.
         — Ria, ria. Os homens são assim; não             Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se,
acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que      Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também
ela adivinhou o motivo da consulta, antes         ele, em criança, e ainda depois, foi
mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas       supersticioso, teve um arsenal inteiro de
começou a botar as cartas, disse-me: "A           crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos
senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que     vinte anos desapareceram. No dia em que
sim, e então ela continuou a botar as cartas,     deixou cair toda essa vegetação parasita, e
combinou-as, e no fim declarou-me que eu          ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse
tinha medo de que você me esquecesse, mas         recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-
que não era verdade...                            os na mesma dúvida, e logo depois em uma só
         — Errou! Interrompeu Camilo, rindo.      negação total. Camilo não acreditava em nada.
         — Não diga isso, Camilo. Se você         Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um
soubesse como eu tenho andado, por sua            só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo
causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim,   mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não
não ria...                                        formulava a incredulidade; diante do mistério,
         Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou       contentou-se em levantar os ombros, e foi
para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria       andando.
muito, que os seus sustos pareciam de criança;            Separaram-se contentes, ele ainda mais
em todo o caso, quando tivesse algum receio, a    que ela. Rita estava certa de ser amada;
melhor cartomante era ele mesmo. Depois,          Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer
repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente        e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e,
andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e    por mais que a repreendesse, não podia deixar
depois...                                         de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era
         — Qual saber! tive muita cautela, ao     na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma
entrar na casa.                                   comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua
         — Onde é a casa?                         das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde
         — Aqui perto, na rua da Guarda Velha;    residia; Camilo desceu pela da Guarda velha,
não passava ninguém nessa ocasião. Descansa;      olhando de passagem para a casa da
eu não sou maluca.                                cartomante.
         Camilo riu outra vez:                            Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma
         — Tu crês deveras nessas coisas?         aventura, e nenhuma explicação das origens.
perguntou-lhe.                                    Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de

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infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado.   não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho.
Camilo entrou no funcionalismo, contra a            Palavras vulgares; mas há vulgaridades
vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o      sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha
pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até     caleça de praça, em que pela primeira vez
que a mãe lhe arranjou um emprego público.          passeaste com a mulher amada, fechadinhos
No princípio de 1869, voltou Vilela da província,   ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o
onde casara com uma dama formosa e tonta;           homem, assim são as cousas que o cercam.
abandonou a magistratura e veio abrir banca                 Camilo quis sinceramente fugir, mas já
de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os       não pôde. Rita como uma serpente, foi-se
lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.         acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar
         — É o senhor? exclamou Rita,               os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno
estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu          na boca. Ele ficou atordoado e subjugado.
marido é seu amigo; falava sempre do senhor.        Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu
         Camilo e Vilela olharam-se com ternura.    de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória
Eram amigos deveras. Depois, Camilo                 delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o
confessou de si para si que a mulher do Vilela      sapato se acomodasse ao pé, e aí foram
não desmentia as cartas do marido. Realmente,       ambos, estrada fora, braços dados, pisando
era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos,      folgadamente por cima de ervas e pedregulhos,
boca fina e interrogativa. Era um pouco mais        sem padecer nada mais que algumas saudades,
velha que ambos: contava trinta anos, Vilela        quando estavam ausentes um do outro. A
vinte e nove e Camilo vente e seis. Entretanto,     confiança e estima de Vilela continuavam a ser
o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais        as mesmas.
velho que a mulher, enquanto Camilo era um                  Um dia, porém, recebeu Camilo uma
ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe        carta anônima, que lhe chamava imoral e
tanto a ação do tempo, como os óculos de            pérfido, e dizia que a aventura era sabida de
cristal, que a natureza põe no berço de alguns      todos. Camilo teve medo, e, para desviar as
para adiantar os anos. Nem experiência, nem         suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de
intuição.                                           Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo
         Uniram-se os três. Convivência trouxe      respondeu que o motivo era uma paixão frívola
intimidade. Pouco depois morreu a mãe de            de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências
Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois        prolongaram-se, e as visitas cessaram
mostraram-se grandes amigos dele. Vilela            inteiramente. Pode ser que entrasse também
cuidou do enterro, dos sufrágios e do               nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção
inventário; Rita tratou especialmente do            de diminuir os obséquios do marido, para
coração, e ninguém o faria melhor.                  tornar menos dura a aleivosia do ato.
         Como daí chegaram ao amor, não o                   Foi por esse tempo que Rita,
soube ele nunca. A verdade é que gostava de         desconfiada e medrosa, correu à cartomante
passar as horas ao lado dela; era a sua             para consultá-la sobre a verdadeira causa do
enfermeira moral, quase uma irmã, mas               procedimento de Camilo. Vimos que a
principalmente era mulher e bonita. Odor di         cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o
femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta     rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez.
dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os      Correram ainda algumas semanas. Camilo
mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios.     recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão
Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e            apaixonadas, que não podiam ser advertência
jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe       da virtude, mas despeito             de algum
ser agradável, pouco menos mal. Até aí as           pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por
cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos            outras palavras mal compostas, formulou este
teimosos de Rita, que procuravam muita vez os       pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara,
dele, que os consultavam antes de o fazer ao        não gasta tempo nem papel; só o interesse é
marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um    ativo e pródigo.
dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma                Nem por isso Camilo ficou mais
rica bengala de presente, e de Rita apenas um       sossegado; temia que o anônimo fosse ter com
cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e         Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio.
foi então que ele pôde ler no próprio coração;      Rita concordou que era possível.

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        — Bem, disse ela; eu levo os               demora." Ditas, assim, pela voz do outro,
sobrescritos para comparar a letra com a das       tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já,
cartas que lá aparecerem; se alguma for igual,     já, para quê? Era perto de uma hora da tarde.
guardo-a e rasgo-a...                              A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto
        Nenhuma apareceu; mas daí a algum          imaginou o que se iria passar, que chegou a
tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio,         crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo.
falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se       Entrou a cogitar em ir armado, considerando
pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso           que, se nada houvesse, nada perdia, e a
deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia     precaução era útil. Logo depois rejeitava a
tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser   idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o
até que lhe ouvisse a confidência de algum         passo, na direção do largo da Carioca, para
negócio particular. Camilo divergia; aparecer      entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou
depois de tantos meses era confirmar a             seguir a trote largo.
suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-              — Quanto antes, melhor, pensou ele;
se, sacrificando-se por algumas semanas.           não posso estar assim...
Combinaram os meios de se corresponderem,                  Mas o mesmo trote do cavalo veio
em caso de necessidade, e separaram-se com         agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele
lágrimas.                                          não tardaria a entestar com o perigo. Quase no
        No dia seguinte, estando na repartição,    fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de
recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já,    parar; a rua estava atravancada com uma
já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora."    carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo,
Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua,    estimou o obstáculo, e esperou. No fim de
advertiu que teria sido mais natural chamá-lo      cinco minutos, reparou que ao lado, à
ao escritório; por que em casa? Tudo indicava      esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da
matéria especial, e a letra, fosse realidade ou    cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e
ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou      nunca ele desejou tanto crer na lição das
todas essas cousas com a notícia da véspera.       cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando
        — Vem já, já, à nossa casa; preciso        todas as outras estavam abertas e pejadas de
falar-te sem demora, — repetia ele com os          curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a
olhos no papel.                                    morada do indiferente Destino.
        Imaginariamente, viu a ponta da orelha             Camilo reclinou-se no tílburi, para não
de um drama, Rita subjugada e lacrimosa,           ver nada. A agitação dele era grande,
Vilela indignado, pegando na pena e                extraordinária, e do fundo das camadas morais
escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria,   emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as
e     esperando-o     para    matá-lo.    Camilo   velhas crenças, as superstições antigas. O
estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo,     cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa,
e em todo caso repugnava-lhe a idéia de            e ir por outro caminho; ele respondeu que não,
recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se      que esperasse. E inclinava-se para fitar a
de ir a casa; podia achar algum recado de Rita,    casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a
que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem       idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao
ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem        longe, muito longe, com vastas asas cinzentas;
descobertos parecia-lhe cada vez mais              desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se
verossímil; era natural uma denúncia anônima,      no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez
até da própria pessoa que o ameaçara antes;        as asas, mais perto, fazendo uns giros
podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A      concêntricos... Na rua, gritavam os homens,
mesma suspensão das suas visitas, sem motivo       safando a carroça:
aparente, apenas com um pretexto fútil, viria              — Anda! agora! empurra! vá! vá!
confirmar o resto.                                         Daí a pouco estaria removido o
        Camilo ia andando inquieto e nervoso.      obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava
Não relia o bilhete, mas as palavras estavam       em outras cousas; mas a voz do marido
decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, —    sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta:
o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas        "Vem já, já..." E ele via as contorções do drama
ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem       e tremia. A casa olhava para ele. As pernas
já, já à nossa casa; preciso falar-te sem          queriam descer e entrar... Camilo achou-se

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diante de um longo véu opaco... pensou             não tivesse medo de nada. Nada aconteceria
rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A    nem a um nem a outro; ele, o terceiro,
voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos         ignorava tudo. Não obstante, era indispensável
extraordinários; e a mesma frase do príncipe de    mais cautela; ferviam invejas e despeitos.
Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais             Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de
cousas no céu e na terra do que sonha a            Rita...    Camilo    estava    deslumbrado.    A
filosofia..." Que perdia ele, se...?               cartomante acabou, recolheu as cartas e
         Deu por si na calçada, ao pé da porta;    fechou-as na gaveta.
disse ao cocheiro que esperasse, e rápido                  — A senhora restituiu-me a paz ao
enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz      espírito, disse ele estendendo a mão por cima
era pouca, os degraus comidos dos pés, o           da mesa e apertando a da cartomante.
corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu              Esta levantou-se, rindo.
nada. Trepou e bateu. Não aparecendo                       — Vá, disse ela; vá, ragazzo
ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a    innamorato...
curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes              E de pé, com o dedo indicador, tocou-
latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas,       lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse
três pancadas. Veio uma mulher; era a              mão da própria sibila, e levantou-se também. A
cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela   cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava
fe-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma       um prato com passas, tirou um cacho destas,
escada ainda pior que a primeira e mais escura.    começou a despencá-las e comê-las, mostrando
Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por       duas fileiras de dentes que desmentiam as
uma janela, que dava para os telhados do           unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher
fundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar     tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair,
de pobreza, que antes aumentava do que             não sabia como pagasse; ignorava o preço.
destruía o prestígio.                                      — Passas custam dinheiro, disse ele
         A cartomante fe-lo sentar diante da       afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar
mesa, e sentou-se do lado oposto, com as           buscar?
costas para a janela, de maneira que a pouca               — Pergunte ao seu coração, respondeu
luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo.     ela.
Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas              Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e
compridas e enxovalhadas. Enquanto as              deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O
baralhava, rapidamente, olhava para ele, não       preço usual era dois mil-réis.
de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma                 — Vejo bem que o senhor gosta muito
mulher de quarenta anos, italiana, morena e        dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor.
magra, com grandes olhos sonsos e agudos.          Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura;
Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:      ponha o chapéu...
         — Vejamos primeiro o que é que o traz             A cartomante tinha já guardado a nota
aqui. O senhor tem um grande susto...              na algibeira, e descia com ele, falando, com um
         Camilo, maravilhado, fez um gesto         leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo,
afirmativo.                                        e desceu a escada que levava à rua, enquanto
         — E quer saber, continuou ela, se lhe     a cartomante alegre com a paga, tornava
acontecerá alguma coisa ou não...                  acima, cantarolando uma barcarola. Camilo
         — A mim e a ela, explicou vivamente       achou o tílburi esperando; a rua estava livre.
ele.                                               Entrou e seguiu a trote largo.
         A cartomante não sorriu; disse-lhe só             Tudo lhe parecia agora melhor, as
que esperasse. Rápido pegou outra vez as           outras cousas traziam outro aspecto, o céu
cartas e baralhou-as, com os longos dedos          estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir
finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem,       dos seus receios, que chamou pueris; recordou
transpôs os maços, uma, duas, três vezes;          os termos da carta de Vilela e reconheceu que
depois começou a estendê-las. Camilo tinha os      eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe
olhos nela, curioso e ansioso.                     descobrira a ameaça? Advertiu também que
         — As cartas dizem-me...                   eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se
         Camilo inclinou-se para beber uma a       tanto; podia ser algum negócio grave e
uma as palavras. Então ela declarou-lhe que        gravíssimo.

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       — Vamos, vamos depressa, repetia ele        outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela
ao cocheiro.                                       Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os
       E consigo, para explicar a demora ao        olhos para fora, até onde a água e o céu dão
amigo, engenhou qualquer cousa; parece que         um abraço infinito, e teve assim uma sensação
formou também o plano de aproveitar o              do futuro, longo, longo, interminável.
incidente para tornar à antiga assiduidade... De           Daí a pouco chegou à casa de Vilela.
volta com os planos, reboavam-lhe na alma as       Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim
palavras da cartomante. Em verdade, ela            e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis
adivinhara o objeto da consulta, o estado dele,    degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a
a existência de um terceiro; por que não           porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
adivinharia o resto? O presente que se ignora              — Desculpa, não pude vir mais cedo;
vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas,      que há?
que as velhas crenças do rapaz iam tornando                Vilela não lhe respondeu; tinha as
ao de cima, e o mistério empolgava-o com as        feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram
unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si   para uma saleta interior. Entrando, Camilo não
mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas,       pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo
as palavras secas e afirmativas, a exortação: —    sobre o canapé, estava Rita morta e
Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe,    ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e,
a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais   com dois tiros de revólver, estirou-o morto no
eram os elementos recentes, que formavam,          chão.
com os antigos, uma fé nova e vivaz.
       A verdade é que o coração ia alegre e               Gazeta de Notícias - Rio de Janeiro, em
impaciente, pensando nas horas felizes de          1884.


                                         Helena Kolody
                                           (Haicais)

       .
                     ÚLTIMO                                             QUAL?
                  Vôo solitário                               Damos nomes aos astros...
               na fímbria da noite                              Qual será nosso nome
           em busca do pouso distante.                          nas estrelas distantes?
                   APLAUSO                                         POESIA MÍNIMA
               Corrida no parque                               Pintou estrelas no muro
               O menino inválido                                     e teve o céu
               Aplaude os atletas.                              ao alcance das mãos.
                     ALEGRIA                                             MANHÃ
             Trêmula gota de orvalho                              Nas flores do cardo,
             presa na teia de aranha,                           leve poeira de orvalho.
            rebrilhando como estrela.                             Manhã no deserto.

                 FLECHA DE SOL                                       ARCO-ÍRIS
                  A flecha de sol                                 Arco-íris no céu.
            pinta estrelas na vidraça.                         Está sorrindo o menino
                Despede-se o dia.                              Que há pouco chorou.

                 IPÊS FLORIDOS                                        JORNADA
               Festa das lanternas!                             Tão longa a jornada!
              Os ipês se iluminaram                           E a gente cai, de repente,
            de globos de cor-de-ouro.                            No abismo do nada.

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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               RESSONÂNCIAS
             Bate breve o gongo.
         Na amplidão do templo ecoa
            o som lento e longo.
                   NOITE                                       Helena Kolody
              Luar nos cabelos.                   Nasce em Cruz Machado, Paraná, em 1912.
          Constelações na memória.                Primeira brasileira de família de imigrantes
              Orvalho no olhar.                   ucranianos. Pais: Miguel e Vitória Kolody.
             REPUXO ILUMINADO
              Em líquidos caules,                 Em 1931, Professora normalista pela Escola
            irisadas flores d´agua                Normal Secundária de Curitiba. Em 1937, passa
                cintilam ao sol.                  a lecionar na Escola Normal de Curitiba (futuro
                                                  Instituto de Educação), onde ficará por mais de
                   DEPOIS                         23 anos, interrompidos apenas por um ano
             Será sempre agora.                   quando vai a Jacarezinho (Escola de
            Viajarei pelas galáxias               Professores). Em 1947 presta concurso público
                universo afora.                   federal para Inspetora Federal de Ensino
                                                  Secundário do MEC. Em 1991, é eleita para a
                 ALQUIMIA
                                                  Academia Paranaense de Letras. Em 1992, o
             Nas mãos inspiradas
                                                  cineasta Sylvio Back faz um filme em 35 mm, A
           nascem antigas palavras
                                                  Babel de Luz, em homenagem aos 80 anos da
               com novo matiz.
                                                  poeta. O filme ganha o prêmio de melhor curta
             NO MUNDO DA LUA                      e melhor montagem, do 25o Festival de Brasília
               Não ando na rua.                   do Cinema Brasileiro. Em 2003 a Universidade
            Ando no mundo da lua,                 Federal do Paraná homenageia a autora com o
              falando às estrelas.                título de Doutora Honoris Causa.
                                                  Morre em fevereiro de 2004.
                 SEM POESIA
              Que fonte secou?                    Helena Kolody (1912-2004), a consagrada
         Que sol se apagou em mim?                poetisa do Paraná, inaugurou em 1941 a série
             Fugiu-me a poesia.                   de mulheres haicaístas do país. Dona de uma
                  NOTURNO                         enorme coleção de adjetivos-virtudes, palavras-
            Dormem as papoulas.                   emblemas, atribuídos a ela pelo povo
             A lua sonha no céu.                  paranaense, Helena deixou uma obra, que na
              Vigiam os grilos.                   qualidade lembra outra grande poeta: Cecília
                                                  Meirelles. O amor que ela conquistou pelos
                FELICIDADE                        poemas, pelos livros, juntou-se à lira de sua
             Os olhos do amado                    poesia feita de canções à vida, da
           esqueceram-se nos teus,                solidariedade, da natureza e a inquietude da
             perdidos em sonho.                   condição humana. Pode-se brincar dizendo que
                                                  as letras iniciais do nome da poeta, HK, são as
Na série Memória Paranaense (programa de
                                                  mesmas de quando se grafa hai-kai, como ela o
rádio e TV de 1997), o entrevistador pergunta à
                                                  fazia.
Helena: "Daquilo que foi escrito, o que a
senhora considera o mais importante em
                                                  Os Três Primeiros Haicais
poesia, resumindo o que foi a sua vida, a sua
trajetória?"- Com voz firme e demonstrando
                                                  Em 1941 Helena Kolody, com 29 anos de idade,
contentamento ela responde:
                                                  publicava seu primeiro livro, Paisagem Interior,
                                                  com 45 poemas. Entre os quais três eram
                   DOM:
                                                  haicais e, no meio destes, o mais popular da
           "Deus dá a todos uma estrela.
                                                  autora:
         Uns fazem da estrela um sol.
        Outros nem conseguem vê-la".


 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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                  ARCO-ÍRIS                        (certamente qualidades exigidas no haicai). Na
               Arco-íris no céu.                   entrevista pública, Um escritor na Biblioteca, de
            Está sorrindo o menino                 1986 (na qual participaram Paulo Leminski e
            Que há pouco chorou.                   Alice Ruiz como entrevistadores), ela fala sobre
                                                   o assunto: "Os literatos e os críticos
Os outros dois:                                    simplesmente ignoraram essa poesia que
                                                   ninguém, ainda, estava fazendo no Paraná. No
                  PRISÃO                           entanto, meus alunos, alunas principalmente,
              Puseste a gaiola                     decerto porque eram muito jovens, e os jovens
         Suspensa dum ramo em flor,                adoram novidades, gostaram muito. Tanto que
               Num dia de sol.                     a turma de 1943, se não me engano, ofereceu-
                                                   me, como presente de aniversário, seis
                FELICIDADE                         quadros, em pergaminho, com ilustrações dos
             Os olhos do amado                     três hai-kais de Paisagem Interior: três quadros
           Esqueceram-se nos teus,                 de Guido Viaro e três iluminuras de Garbácio."
             Perdidos em sonho.                    No depoimento que concedeu ao Museu da
                                                   Imagem e do Som, em 1989, ela reforçou esse
Era a primeira vez que uma mulher publicava        ponto dizendo que sabia fazer o haicai, "...
haicais no Brasil. A segunda foi Rosemary de       tinha técnica e tudo, mas ninguém ligou. Então
Barros em 1947, na Revista ASSA, do Centro         a gente se complexa".
Acadêmico da Universidade Católica de São
Paulo, que segundo Masuda: "...divulgou cinco      Fanny Dupré, amiga e orientadora
haicais, fortemente influenciados por Guilherme
de Almeida". E, a terceira, Fanny Luíza Dupré,     Fanny Luíza Dupré vinha, desde 1939,
em 1949, também de São Paulo.                      escrevendo haicais e preparando um livro
                                                   (Pétalas ao Vento), tendo feito "contato com o
Todavia, foi Fanny Dupré a primeira mulher a       haicai ao freqüentar o grupo de estudos de
publicar um livro exclusivamente de haicais no     cultura japonesa mantido por Jorge Fonseca Jr.
Brasil, em fevereiro de 1949: Pétalas ao Vento,    na Faculdade de Direito da USP". Foi com ela
em cujo prefácio o haicaísta Jorge Fonseca         que Helena estudou o haicai. Trocavam cartas,
Junior salientou: "...este livro se inclui, sem    indicações de leitura, e é provável que Fanny
dúvida, na primeira meia dúzia de coletâneas       tenha visitado Curitiba nesse período, cujo
exclusivamente de haikais publicadas em            registro se pode ler no haicai da página 89 do
português e em nosso País e é, por certo, entre    Pétalas ao Vento:
elas, o primeiro de autoria feminina, sendo,
mais - o que muitíssimo importa - obra de                       "Pinheirais augustos.
autêntica haikaista."                                            Curitiba. Paraná...
                                                                 Vestidos de verde".
Helena sempre fez questão de dizer que seus
primeiros haicais não foram bem recebidos. O       No livro há também um haicai dedicado a
que a desanimara não a impediu de continuar a      Helena, pág. 45:
fazê-los, pois em 1945, no segundo livro,
Música Submersa, o haicai estava lá, com o                        "À Helena Kolody
famoso Pereira em Flor. Entretanto, como                          Vastos pinheirais!
dissemos, é justamente daqueles primeiros que                   É clara noite de lua...
o público consagrou o seu favorito: Arco-íris. O                Mais abaixo, o mar!"
mais citado, copiado e incluído em antologias.
Talvez Helena quisesse uma aceitação maior         Na entrevista do MIS, Helena afirma: "Em 41 já
para os seus haicais, naquela ocasião, pois o      publicava, por causa da correspondência com
livro fora recebido com relativo sucesso para      uma poetisa paulista chamada Fanny Dupré; foi
uma estreante. Os outros poemas sempre             através dela, uma das pioneiras do hai-kai,
foram muito citados, como o famosíssimo            ainda agora eu recebi carta dela de São Paulo
Prece, p. ex., e já continham a marca indelével    [1989 - Fanny faleceu em 1996]. Então, já no
de sua poesia: a concisão e a simplicidade

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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primeiro livro eu fiz hai-kai, porque tinha          quanto ao haiku (...) deve indicar ou refletir a
aprendido com ela..."                                estação do ano (ao menos indiretamente) em
                                                     que é elaborado; e caracterizado, portanto, por
Na entrevista da Biblioteca, Helena acrescenta       sua extrema concisão, devendo, ao mesmo
mais um dado: "Foi através do Jornal de Letras       tempo, através desta, fluir com naturalidade o
e da correspondência com a poetisa paulista          conteúdo      poético".      Acrescenta      ser
Fanny Dupré que tive conhecimento dessa              "desnecessário colocar título em cada poema
miniatura japonesa que é o hai-kai" (Revisei         de haicai, nem observar rima".
todos os números do Jornal de Letras da época
e não encontrei nenhuma matéria sobre haicai         Um haicai de Fonseca, citado em Masuda:
ou poemas deste tipo publicados. O que me
leva a crer que o primeiro contato com o                           "Brisas refrescantes
aprendizado do haicai, Helena teve mesmo foi                  esgueiram-se ao sol ardente...
com a poetisa paulista).                                          Penumbra do tato..."

Através de Fanny, Helena estava ligada ao            Fanny seguirá seu professor na forma sugerida,
seleto grupo dos iniciadores do haicai no Brasil,    nos haicais de Pétalas ao Vento, o rigor da
em língua portuguesa, especialmente a Jorge          métrica, a dispensa de títulos, menos no uso do
Fonseca Júnior, orientador da amiga paulista.        kigo (que ela não o faz), e desenvolve uma
Fonseca, que inicialmente teve influência (como      temática brasílica de lirismo delicado. Helena,
os demais brasileiros) do haicai europeu (pela       por sua vez, colocará título em seus haicais,
via francesa, inglesa e portuguesa), já vinha        utilizará da métrica, algumas vezes a rima; e
recebendo desde 1937 "informações e                  terá uma temática mais voltada à condição
esclarecimentos sobre o haiku", de Masuda            humana. Diferenciando-se, por certo, da amiga
Goga (considerado um Mestre do haicai, cuja          Fanny, constrói Helena seu próprio jeito de
linha é japonesa). Goga e Fonseca mantiveram         fazer haicai, sempre fiel às suas vivências,
um "relacionamento de 50 anos (1937/1987)".          como pregava Fonseca.
Ele publica em 1939, Roteiro Lírico, e em 1940,
Do Haikai e em seu louvor, bem recebidos pela        Influencia de Guilherme de Almeida?
crítica. Fonseca viaja ao oriente neste ano,
Masuda anota: "...durante sua estada no Japão,       Em 1994, com 82 anos de idade, Helena foi
avistou-se com Kyoshi Takahama, enri-                entrevistada pelo Prof. Paulo Venturelli. A certa
quecendo seus conhecimentos sobre o haiku -          altura, perguntada sobre a "influência do haicai
fator muito positivo na evolução do seu haicai".     em sua obra", ela nos surpreende: "Também
                                                     aqui foi importante a correspondência com
Em 1940, em Do haikai e em seu louvor, o             poetas de outros lugares. Não me lembro mais
apresentador de Fonseca destaca como                 como foi que comecei a me corresponder com
qualidades do seu haicai a concentração,             Fanny Dupré, de São Paulo, que foi uma das
sutilidade,     imaginação.      Fonseca    Júnior   primeiras haicaístas do Brasil. E ela então me
recomenda a feitura do poema em dezessete            disse para ler um livro do Guilherme de
sílabas de 5-7-5, em três versos e sem rima.         Almeida, que era autor de haicais rimados. Por
"Superior sutileza do haikai. Um verdadeiro          isso, até hoje, sigo esta linha, isto é, metrifico e
haikai poderá exprimir o sentimento mais forte,      rimo os versos do haicai, o que não é comum."
sutilissimamente". E compreendia seu conteúdo
como "multiangular, sempre e todos lhe               Guilherme de Almeida inventou uma forma que
descobrirão fartos sentidos, a par de                não existia para o haicai: deu-lhe título e quatro
sonoridades, coloridos, sabores e sensações          rimas. Cito o haicaísta paranaense Domingos
variadas. (...) Delicioso valor da brevidade".       Pellegrini, para entendermos melhor isso: "Ele
                                                     fazia um tipo de haicai que parecia destinado a
No livreto O Haicai no Brasil, Masuda aponta         garantir que só ele fizesse haikais em
para a "influência de Kyoshi Takahama" sobre o       Português: além do rígido esquema de versos
haicai de Fonseca, que passa a defender a            de 5-7-5 sílabas, o primeiro verso tinha de
utilização da presença do termo de estação           rimar com o terceiro, e a segunda sílaba do
(kigo) em um dos três versos: "Assim (...)           segundo verso tinha que rimar com a sétima,

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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numa acrobática rima-interna." Vejamos um            Em 1968, ao fazer um prefácio para um livro do
haicai de Guilherme de Almeida e seu esquema:        poeta Mário Stasiak, seu amigo, Leminski
                                                     escreveu: "Lembrai-vos, irmãos, que o maior
                     O Haicai                        génio poético do Paraná é de raiz eslava, sendo
               Lava, escorre, agita                  Helena Kolody (pronunciar: Guélena Kolódi)". A
           a areia. E, enfim, na bateia              esse      admirador     apaixonado,      Helena
        fica uma pepita.        Esquema              correspondia com igual afeto, ela que havia
                     ----X                           deixado um tanto de lado o haicai, disse: "Só
                   -O----O                           voltei ao haikai quando o Paulo Leminski, então
                     ----X                           um jovem de 20 anos, vizinho de apartamento,
                                                     descobriu-me como a primeira pessoa a fazer
Quem fizer uma revisão da obra de Helena,            haikai no Paraná".
seguindo a trilha dos seus haicais, poderá
certificar-se de que ela não utilizava o esquema     Para a biografia de Leminski, Helena deu um
do que se convencionou denominar de "haicai          emocionado depoimento (cito um trecho): "Ele
guilhermino". Segui também, na coletânea             me emprestou as revistas Invenção e
Haikais, os setenta haicais reunidos e somente       Noigandres e foi assim que tomei conhecimento
encontrei 14 deles com rimas: 4 rimam o              do concretismo em S. Paulo. Mas, quando veio
segundo com o terceiro verso; 2 rimam o              me procurar, ele já estava em outra. Estava
primeiro com o segundo verso; e, 8 rimam o           interessado em haikais e se surpreendeu ao
primeiro com o terceiro verso. Vejamos dois          encontrar três deles em meu livro Paisagem
deles:                                               Interior, de 1941. Por isso ele me procurou.
                                                     Mas, o verdadeiro haikaísta era ele. Nesta
                    AVESSO                           ocasião, estava aprendendo japonês para
              Seu olhar profundo                     mergulhar no espírito da língua e na cultura
              olha na poça d'água                    oriental. Por isso seus haikais foram tão
          e enxerga estrelas no fundo.               autênticos".

                     AREIA                           Os anos 80 foram "leminskianos" em Curitiba.
              Da estátua de areia,                   Apesar de Leminski achar que a cidade não
                 nada restará,                       tinha uma vida cultural (como ele desejava),
             depois da maré cheia.                   sua Culturitiba - "Sem raízes e sem carências,
                                                     que fazer?"- foi o palco de sua vida e obra.
Como se pode ver, Helena seguiu Almeida              Inúmeros valores literários apareceram nesse
somente no item dar um título (que ela sempre        tempo, principalmente a consagração da poeta
o fez, ao contrário de Fanny e Fonseca), mas         Helena Kolody (a "Padroeira da Poesia", como
suas rimas, métrica e a forma do haicai não          ele dizia). Se Leminski se tornou um mito,
seguiam a proposta guilhermina; ela não usava        Helena seguiu junto, ampliando o espaço mítico
de sua bateia.                                       deixado por ele em 1989.

Helena e Leminski                                    Quando em 1985 Helena reinaugura-se,
                                                     lançando Sempre Palavra, fina concisão
Helena ficou feliz quando Paulo Leminski, em         poética, incluindo três haicais, Leminski tece-lhe
1965, elogiou seus haicais. Ele seria seu vizinho    rasgados elogios. Seu texto tinha o título de
no     edifício   São     Bernardo    por     três   Santa Helena Kolody, e diz que o livro "inclui
movimentados anos da vida dele, que, com 20          uns quarenta pequenos poemas. Mas tem luz
anos, já tinha fama de poeta e agitador cultural     bastante para iluminar esta cidade por todo um
na cidade. O biógrafo de Leminski, Vaz, assim        ano". Segue fazendo comparações e sugerindo
se referiu a este fato: "Foi também nesta época      análises mais profundas, e acrescenta: "Nossa
que conheceu pessoalmente a poeta Helena             padroeira é o poeta mais moderno de Curitiba,
Kolody, uma filha de ucranianos bem mais             de     uma      modernidade       enorme,    uma
velha, que morava no andar de cima - e desde         modernidade de quase oitenta anos. Nenhum
os anos 40 fazia poemas em forma de hai-kais".       de nós tem modernidade desse tamanho". E
                                                     termina: "Tem certas manhãs azuis em

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Curitiba, mas tão azuis, tão azuis, que eu tenho   A natureza vivencial da maioria de seus haicais
certeza: Helena Kolódy acordou cedo e olha por     pode-se perceber quando Helena conta a
todos nós". É desse livro este haicai:             história desse Pereira em Flor:

                 GESTAÇÃO                          "Eu morava na Rua Carlos de Carvalho. Uma
            Do longo sono secreto                  noite, ao sair da casa de uma amiga, dei com
         na entranha escura da terra,              aquela pereira completamente florescida,
         o carbono acorda diamante.                banhada pela luz da lua cheia. A beleza do
                                                   quadro foi um impacto na minha sensibilidade.
Aos estímulos do amigo poeta, Helena               Fiz o poema bem mais tarde. Associei a pereira
respondeu com mais livros, mais poemas de          com uma noiva: a noiva toda vestida de
amor pela poesia. E dedicou a ele, não um          branco, sonhando, com a pereira ao luar".
haicai, mas um de seus dísticos (que ela sabia
utilizar com mestria), Figo da Índia (1986):       Ainda frisando este aspecto importante do
                                                   haicaísta, qual seja o da observação,
             A casca espinhenta                    contemplação e vivência, base da poesia de
       guarda a macia doçura da polpa.             haicai, cito outra história de Helena: "Estou
                                                   numa idade em que dou-me ao luxo de sair nas
Mais tarde, ela diria: "Ele, às vezes, parecia     ruas com a maior tranqüilidade e parar para
agressivo. Todavia, tinha uma polpa doce, ele      contemplar uma árvore, um pássaro, um
era muito carinhoso. Tanto que ele me fez uma      transeunte - sem temer o ridículo. Dia destes,
dedicatória: "Mãe querida, nada como ter uma       quando cruzava a Praça Rui Barbosa, vi uma
fada na vida".                                     pena de pombo cair na calçada. Apanhei-a,
                                                   contemplando-a, e na hora pensei num poema.
A Palavra é uma Vivência Pessoal                   Como tinha apenas um lenço de papel, foi nele
                                                   que escrevi:
Carlos Drummond de Andrade enviou em 1980
uma pequena carta à poetisa, onde dizia: "Tão                    Apanhei na calçada
simples, tão pura - e tão funda - a poesia de                   Uma pena de pombo
Infinito Presente. Você domina a arte de                             Aprisionei
exprimir o máximo no mínimo, e com que                             Um momento
meditativa sensibilidade!" É do livro citado,                     De vôo e vento"
entre outros, este haicai:
                                                   Leiamos algumas frases ditas por Helena na
                 LUZ INTERIOR                      entrevista da Biblioteca, as quais nos dão uma
              O brilho da lâmpada                  idéia do seu fazer poético:
             no interior da morada
            empalidece as estrelas.                "Quando menos espero, e nas ocasiões mais
                                                   imprevistas, começo a sonhar palavras".
No segundo livro de Helena, Música Submersa,
de 1945, saiu um haicai, o Pereira em Flor:        "Na hora, invade-me a indizível alegria de
                                                   criar".
              De grinalda branca,
             Toda vestida de luar,                 "É verdade que, no fundo, todo poeta é autor e
               A pereira sonha.                    leitor de seu poema. É autor na hora da
                                                   inspiração, quando entra "em estado de
Drummond, segundo Kamita, fez um elogio            poesia." (...) No momento da inspiração, somos
dizendo ter ficado feliz com poemas como esse,     autores. Depois, o poeta lê o poema, avalia a
"em que à expressão mais simples e discreta se     composição,      corta,  acrescenta,   substitui
alia uma fina intuição dos imponderável            vocábulos. É a fase do leitor".
poéticos".
                                                   "O poeta, a princípio, escreve para si mesmo,
                                                   entrega-se ao prazer de criar; depois, quer



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alcançar o leitor. Sem isso, a poesia deixa de
ser comunicação".                                                  "persigo um pássaro
                                                                     e alcanço apenas
"Há dois tipos de temas em minha poesia: os                               no muro
que refletem meu próprio Eu, confessionais, e                     a sombra de um vôo".
os que mostram minha preocupação com os
outros e com os problemas do mundo, ou seja,         Reika, seu nome de haicaista
temas do eu íntimo e do eu social. Uso muito
imagens, metáforas, símbolos tirados da              Em 1993, a comunidade nipo-brasileira de
paisagem. Sou uma enamorada da beleza do             Curitiba fez-lhe uma homenagem, concedendo-
mundo que me cerca".                                 lhe     o    nome     haicaísta    Reika,    "em
                                                     reconhecimento à dedicação, divulgação e
"Creio que há sugestões plásticas em meus            grandiosidade que deu à poesia de origem
versos. Uma amiga pintora disse que meus             japonesa, haicai". O documento haiku no meigo
poemas poderiam ser pintados".                       (outorga de haimei - nome de poeta do haicai),
                                                     explica os ideogramas do nome Reika: Rei -
"Embora não pareça, o verso moderno é muito          designa pessoa de destaque no gênero de
mais sutil e mais difícil do que o tradicional".     poesia haiku (haicai), renome na literatura; Ka -
                                                     pode ser kaoru (aroma, fragrância) ou niou
"Como recursos estilísticos, uso muito               (aromatizar,     perfume).    Reika, portanto,
aliterações, anáforas e outros recursos              significa "perfume da literatura", ou "renomada
fonéticos".                                          fragrância da poesia", ou, ainda, "aroma da
                                                     poeta maior". E, o documento encerra,
"Há um elemento lúdico no fazer poético, uma         dizendo: "A tradução é difícil de se fazer,
emoção de prazer, como em qualquer jogo. É           porque não se refere ao perfume em si, mas
um jogo fascinante, feito com palavras".             sim ao contágio ou vibração que vai envolvendo
                                                     as pessoas pelo encanto, que a poesia dessa
"Creio que uma das características do poeta é        pessoa emite".
essa paixão pela palavra e pela leitura. A leitura
amplia nossos horizontes, enriquece nossa arte.      Compondo o conjunto vieram quadros com os
É preciso ler, ler e ler".                           ideogramas em belas caligrafias (shodô) em
                                                     quatro estilos.
"A sensibilidade do poeta é como a da harpa
eólica que os gregos penduravam nas árvores,         Helena e a Tanka
e que vibrava com o menor sopro de vento. Ele
vibra intensamente, não só com as próprias           Seu amor pela poesia japonesa a fez publicar
emoções; capta, com o radar da imaginação, o         no melhor jornal de literatura que se fez no
sentir do outro, o viver do outro. Esse ver os       Paraná, o Nicolau, quatro tankas (poema de
outros com os olhos da imaginação é, também,         cinco versos: 5-7-5-7-7), até então inéditos, em
um dom do poeta; nem sempre é a sua própria          dezembro de 1992; cito duas:
experiência que ele expressa em versos.
Incorporamos em nossa vivência as vivências                           PIRILAMPEJO
alheias que nos atingem, nos alegram, ou nos                         O sapo engoliu
fazem sofrer".                                                  a estrelinha que piscava
                                                                   no escuro do brejo.
E, perguntada sobre como escreveu o haicai                     Ficou mais sombria a noite
Pereira em Flor, esclareceu: "As impressões que                  sem o seu pirilampejo.
me atingem vão se acumulando em meu
inconsciente e elaborando uma espécie de                              AQUARELA
húmus, no qual se misturam impressões de                           Sol de primavera.
muitos tempos; desse húmus brota o poema,                       Céu azul, jardim em flor.
impregnado de minha própria personalidade". E                      Risos de crianças.
mais adiante, diz: "Junto com a alegria de criar,              Na pauta dos fios elétricos,
existe a agonia de perseguir o inatingível.                    uma escala de andorinhas.

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Em 1993, a Fundação Cultural de Curitiba         graciosos senryu. Aponto-os, entretanto,
publicou Reika, com 28 poemas (19 haicais e 9    apenas baseado no fato de haver autores
tankas), numa edição artística limitada. Mais    (mesmo entre os japoneses) que não
tarde, em 1996, a Secretaria da Cultura do       diferenciam o senryu do haiku, incluindo
Paraná, republica as mesmas tankas inclusas no   aqueles entre estes. Vejamos:
livro Caixinha de Música. Destaco duas:
                                                                    SALDO
                 SABEDORIA                                   Na página adolescente
             Tudo o tempo leva...                            deste mundo em flor,
           A própria vida não dura.                          sou um saldo anterior.
               Com sabedoria,
           colhe a alegria de agora                                VIGILÂNCIA
            para a saudade futura.                           O que vigia e reprime,
                                                            passa por baixo do pano
                   INVERNO                                 e salta na arena do circo...
              No céu de cristal
           cintila o sol sem calor.                               EPIGRAMA
            Sopra um vento frio.                              No círculo esotérico
            Tiritam árvores nuas                               dos novíssimos,
       nos campos que a geada veste.                          múmia não tem vez.

Helena e o Senryu                                                  IDADE
                                                          A morte desgoverna a vida.
O senryu tem a mesma forma do haicai (três                   Hoje sou mais velha
versos de 5-7-5) mas trata de temas                             que meu pai.
unicamente humanos, sempre em tom irônico,
satírico, humorístico. É provável que Helena     (artigo escrito pelo haicaista paranaense José
não tenha se dado conta de que fez alguns        Marins)



                                 O Nosso Português
                                    de Cada Dia
                                Expressões Redundantes

Ocorre redundância quando, numa frase,           Seria possível que eles encarassem "de trás"?
repete-se uma idéia já contida num termo
anteriormente expresso. Assim, as construções    "A modelo ESTREOU seu vestido NOVO."
redundantes    são   aquelas     que    trazem   Seria possível que ela estreasse um vestido
informações    desnecessárias,     que    nada   "velho"?
acrescentam à compreensão das mensagens.
No dia-a-dia, muitas pessoas utilizam tais       "Adoro    tomar  CANJA    DE   GALINHA."
expressões sem perceber que, na verdade, são     Se é canja que você toma, só pode ser "de
inadequadas. Veja a seguir frases com            galinha"!
expressões    redundantes      freqüentemente
utilizadas:                                      "O estado EXPORTOU PARA FORA menos
                                                 calçados este ano."
"Eu e minha irmã repartimos o chocolate em       E como ele poderia fazer para exportar para
METADES IGUAIS."                                 "dentro"?
Ao dividir algo pela metade, as duas partes só
podem ser "iguais"!                              "Quando AMANHECEU O DIA, o sol brilhava
                                                 forte."
"O casal ENCAROU DE FRENTE todas as              Você já viu amanhecer a "noite"?
acusações."

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"Tiradentes teve sua CABEÇA DECAPITADA."             "Pessoal, não vamos ADIAR PARA DEPOIS esta
Alguém já viu um "pé" ser decapitado?                reunião!"
 Decapitação só existe da cabeça mesmo!              O verbo adiar já indica que é "para depois".

"A criança sofreu uma HEMORRAGIA DE                  "Será que tenho OUTRA ALTERNATIVA?"
SANGUE e foi parar no hospital."                     A palavra alternativa significa "outra opção". A
Todas as hemorragias são "de sangue"!                forma correta seria: "Será que tenho
                                                     alternativa?"
"HÁ muito tempo ATRÁS fui à Portugal."
A forma verbal há já indica que o tempo é no         "Eu e meu marido CONVIVEMOS JUNTOS
passado.                                             durante dois anos."
                                                     O verbo conviver já expressa a idéia de "viver
"Ela é LOUCA DA CABEÇA!"                             com", "junto". "A professora ACRESCENTOU
Você já viu algum louco do "pé"?
                                                     MAIS UMA idéia ao projeto."
"O rapaz se INFILTROU DENTRO da festa sem            Será que ela poderia acrescentar "menos" uma
ser convidado."                                      idéia?
O verbo infiltrar já indica "para dentro".




                                     Franklin RAS Lopes
                                  (O Inesperado Aprendizado
                                   nas Curvas Femininas do
                                               emininas
                                         Preconceito)


       Vou contar um dos fatos pitorescos            segurando e sendo o porta retrato, etc e
desta vida nos mares, certa vez indo ao              também existia algumas posições de gosto
shopping em Florianópolis, vi uma exposição de       muito duvidoso..
um artista plástico, um escultor, que trabalhava             Mas existiu uma obra que realmente me
com pedra, argila, madeira e uns materiais que       chamou a atenção, era uma peça inteira e
não sei o nome ao certo, mas isto não importa        única de madeira de uma mulher de joelhos
em nossa historia, este escultor era                 inteiramente nua, com as mãos pra cima e com
especializado em mulheres.                           o pescoço virado para o lado, de tal forma que
       Sim, todas as suas esculturas eram            as duas mãos e a cabeça serviam de suporte
mulheres nuas ou semi nuas, deitadas em cima         para um tampo de uma mesa - Sim esta
de rochedos, deitadas confortavelmente, presas       escultura se tratava dos pés da mesa. Era um
em redes, sentadas, e algumas delas se               mulherão sendo o suporte da mesa e como o
misturavam      como    base     de     utensílios   tampo era de vidro era só sentar e ver aquela
domésticos, tipo: O suporte do abajur como           mulher de joelhos em uma posição no mínimo
uma mulher nua sentada, mulheres nuas                desconfortável..

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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        Depois de ver tantas obras tendo as            amigo, eu achei este tronco jogado em um
mulheres como suporte de utensílio, acho que a         terreno baldio era um tronco qualquer e eu
obra da mulher suporte de mesa fez sacudir             transformei ele em uma linda mulher, olhe ela é
alguma coisa nesta minha mascara cristã e quis         linda, eu não me importo com o que possam
saber qual era visão daquele homem, pois ele           dizer, ela é linda.
devia ter problemas com as feministas!!! Ainda         Neste momento eu entendi melhor a questão
mais sendo a exposição dentro de um shopping           da utilidade no Pequeno Príncipe, em que ele
o que aguçou a minha inquietação para                  dizia que a “utilidade esta na beleza”, confesso
conversar com o escultor.                              que isto me tirou da aridez acadêmica por um
        É claro que conhecendo a delicadeza em         tempo, eu ia ao shopping para ver este escultor
tocar certos assuntos, fui calmamente falando          trabalhar, ele estava fazendo uma releitura do
das mudanças ou tendências da escultura para           Pensador de Rodin (é assim mesmo?) em argila
o nu feminino, fato que não era comum na               para uma empresa de celular, na realidade ele
Grécia antiga aonde o homem era visto como o           estava fazendo o Falador de Celular rsss, ele
belo. E o escultor por minha sorte era um cara         mesmo disse mudanças nos tempos. No tempo
simpático, risonho conversou de forma                  de Rodin o pensar era valorizado, hoje não.
agradável dizendo que as mulheres eram mais            Além do que, para quem não sabe a bela
plásticas, e assim podia se trabalhar com uma          Gabriela trabalhava ali perto, e eu como um
maior multiplicidade de visões do que a simples        romântico medroso torcia para que a força dos
visão guerreira ou do ser reto masculino               ventos dos mares deixasse Gaby em meus
descansado... sim ele realmente gostava das            braços - aprendizado instantâneo da utilidade
mulheres mesmo.                                        do artista
       Mas ainda assim, achei que existia
alguma coisa de machismo em suas palavras e
em seu trabalho e finalmente questionei-o a
respeito daquela obra da mulher suporte de
mesa, dizendo de uma forma delicada que a
mulher podia ser vista como um objeto de uso
e ainda por cima não estando em uma posição
muito agradável:- de joelhos para servir.
                                                                  Franklin Ras Lopes
                                                       Franklin Rodolfo Aguiar Silveira (Ras) Lopes é
       A resposta deste escultor foi uma das
                                                       Oceanógrafo, Mestre em Aqüicultura, Doutor
coisas mais surpreendentes para mim, ele não
                                                       em ciências e atualmente trabalha como
se alterou em nem um momento apenas me
                                                       consultor ambiental. Reside em Piracicaba, SP.
chamou para frente da obra e disse: Olhe



                                          Aparecido
                                         Raimundo de
                                            Souza
                                         (O Homem Só)
                                                  Só)

                Como um fantasma que se refugia                    Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
                     Na solidão da natureza morta,                      E eu saí, como quem tudo repele,
              Por trás dos ermos túmulos, um dia,                   - Velho caixão a carregar destroços -
                    Eu fui refugiar-me à tua porta!
                                                                       Levando apenas na tumbal carcaça
                       Fazia frio e o frio que fazia                       O pergaminho singular da pele
          Não era esse que a carne nos conforta...                        E o chocalho fatídico dos ossos!
                Cortava assim como em carniçaria                                     (Augusto dos Anjos)
                   O aço das facas incisivas corta!                                       –––––––––––-



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       O homem                                      firmamento. Que belos e maravilhosos
       anda,                                        momentos de ternura e enlevo desfrutaram!...
       procura, procura,
       indaga...                                    No entanto, o copo do destino transbordou o
                                                    licor amargo. O céu tingiu-se de nuvens negras
E ninguém sabe dizer onde encontrar a mulher        e um vendaval inesperado fez-se forte, muito
dos seus sonhos. Todos negam com a cabeça.          poderoso e intransponível. Suas idéias e ideais,
Uns nem respondem. Outros viram-lhe o rosto         a partir daí, entraram em parafuso, como um
em sinal de pouco caso. Alguns posicionam-se        avião desgovernado e tudo o que era bom
indiferentes e alheios à sua presença. Na           voltou-se, de repente, para o nada. Toda
verdade, a multidão o trata como se o pobre         aquela plebe ao seu redor deve estar com
não existisse. A maioria daquela escumalha o        razão. Ele é mesmo, sem sombra de dúvidas,
considera um estróina, a julgar por seus modos      um alienado mental. Sente que as pernas
estranhos, pelo seu vestir e até pelo falar.        bambeiam a carcaça. Em derredor de si, coisas,
                                                    pessoas, casas...giram, e a medida que entram
E o coitado, o infeliz, parece mesmo                nesse movimento rotatório, as vistas turvam-se
apalermado, furioso, louco. E como um               por completo e quedam-se, em seguida, em
doidivanas,                                         pesadas brumas de solidão.

Portanto,                                           Está, pois, tolhido,
       segue adiante...                                     indefeso,
       persegue                                             vencido...vencido e
imagens distantes, figuras indistintas que nada             sem forças para soerguer o nariz,
têm a ver com a amada. Perdido e só, esse           levantar a moral, dar a volta por cima e berrar.
caminhante não vive. Vegeta um tempo                Na verdade, quer gritar que está vivo, carente,
obumbrado, esquecido no espaço irrecuperável        dependente do amor dessa deusa que
do compasso inconseqüente dos dias que              enfeitiçou sua alma e, no final das contas, o
passam um após outro, como se para o mundo          abandonou ao grotesco mais iracundo do
todas as coisas tivessem mortas há séculos. É o     ridículo.
destino imprecativo que manipula seus desejos
e ansiedades como melhor agrada. A                  - Te amo, te amo – grita o pobre infeliz olhando
esperança, aquela esperança ambígua de              para um pequeno retrato três por quatro. - Te
outrora retirou-se, às pressas, de seu peito, tal   amo, porque tu te escondestes de mim?
como quem foge de algo ruim e prestes a
acontecer. Tudo isso, porém, tem uma causa:         Seria esse homem um louco?
sua outra metade que busca incansavelmente.
O efeito, sente agora, abraçado à ausência da       Como louco? Se o mísero só quer saber onde
saudade que domina toda a mente,                    está a autora dos seus sonhos?
transformando o pensamento num redemoinho
de idéias confusas. Afinal, onde está, por Deus,
onde está a figura que coloriu seus devaneios?
Sem ela e seus aconchegos é um homem vazio
de vida, de cores, e de esperanças. A partida
da jovem doeu-lhe muito. Feriu de tal forma
que até o coração bate descompassado, numa            Aparecido Raimundo de Souza
atitude convulsiva de sofrimentos embaraçosos.      Aparecido Raimundo de Souza, 56 anos,
Em seu peito uma ferida imensa abriu feio à         jornalista. Natural de Andirá, Paraná. Free-
flor da pele, e desde então não cicatriza.          lancer das revistas "Textos Inteligentes" e "Isto
                                                    é gente". Publicou: Quem Se Abilita? (prefácio
Enquanto anda e procura, indaga e persegue,         de Paulo Coelho); Com Os Chifres À Flor Da
recorda o passado...                                Cabeça (25 cronicas); Tudo o que eu Gostaria
                                                    de Ter Dito (livro com 365 frases dos mais
Lembra a vida à dois; os verdes anos de             diversos autores, frases essas publicadas
prosperidade e fortuna como dádivas caídas do       durante três anos numa coluna que manteve na

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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Revista Class, em Vitória, no Espírito Santo); As   Os textos de Aparecido Raimundo de Souza
Mentiras Que As Mulheres Gostam De Ouvir (25        retratam o cotidiano das pessoas. São escritos
cronicas); A Outra Perna Do Saci, Refúgio para      leves e soltos, alguns cheios de intransigências,
Cornos Avariados (25 cronicas), Mulheres em         outros salpicados de ironia e muita picardia e
Estado de Coma; Travessuras de Mindinho e           irreverência. Seu estilo lembra o escritor
Fura Bolos; Talvez Eu Volte para Casa na            gaúcho Luiz Fernando Veríssimo, embora tenha
Primavera.                                          criado uma grafia própria e inconfundível.



                                    Antonio Augusto de
                                           Assis
                                           (Poesias)
                                           (Poesias)

                  CARNAVAL
                                                                   O trilo do apito,
                 É sexta-feira,                                    o grito do aflito,
                véspera da folia.                                o confete, o conflito.
                  Lá vai Maria.
                                                               É quarta-feira, cinzas.
            Lá vai lavar em lágrimas                                 Lá vai Maria.
              a vida ávida de vida,                                  Lavai, Maria.
              sofrida vida dividida                            Lavai o mundo, Maria.
             em dívidas e dúvidas.                                 Lavai o imundo,
                                                             mundo imundo vasto mundo,
             É sábado, é domingo,                               lavai o mundo, Maria!
           é segunda, é terça gorda.                          ––––––––––––––––––––
           Roda no asfalto o samba,                                   LUOLHAR
         geme o povo em sobressalto.
         Roda rotunda a moça moma,                                     Duas luas
         peitos nus lançando chamas.                                  viu Ismália
          Gemem bocas de crianças,                          na noite em que enlouqueceu:
                 barrigas ocas                                   “viu uma lua no céu,
             mendigando mamas.                                  viu outra lua no mar”.
            Roda impávido o desfile
              na avenida multicor.                                  Bem mais louco,
                Gemem pálidos                                           vejo três,
               rostos esquálidos                              quando me ponho a cismar:
               desfilando a dor.                                a terceira é a que flutua
         O sonho roda, geme o horror.                             tentadoramente nua
                                                                 na noite do teu olhar.
      O samba-enredo, o medo em roda.                            –––––––––––––––––
         A serpentina, o ser penante.
         A passarela, o pária ao lado.                          TERCEIRA INFÂNCIA
            O palanque, a pelanca.
            O pandeiro, a pancada.                                    Meu neto
           O sambeiro, o sem-nada.                                me disse um dia:
          O tamborim, o camburão.                              — Converse comigo, vô,
       O saxofone, o saque-sem-fundo.                         mas converse como amigo,
           A fantasia, a mão vazia.                            mais amigo do que vô.
          A apoteose, a verminose.
          A alegoria, onde a alegria?                         Desfez-se logo a distância.

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                                                  Por um beijo eu lhe dou meus anseios de paz,
                Conversamos.                        minha fé na ternura e no bem que ela faz,
                Conversamos.                        meu apego à esperança e ao que a possa
                Conversamos.                                         manter.

               Ele na primeira,                    Por um beijo, um só beijo, um momento de
            eu na terceira infância.                                 amor,
                                                  eu lhe dou meu sorriso, eu lhe dou minha dor,
               AURORA BELA                        o meu todo eu lhe dou, dou-lhe inteiro o meu
                                                                       ser!
           Da janela do meu quarto
            vejo Aurora na janela.

          Toda tarde, à mesma hora,
                  Aurora lá.
           Que será que ela olhará?
                                                       Antonio Augusto de Assis
               Aurora, Aurora,
                 Aurora bela,                             Nasceu em São Fidélis – Estado do Rio
            bela Aurora da janela,                de Janeiro, no dia 07 de abril de 1933. Filho de
                   Aurora                         Pedro Gomes de Assis e Maria Ângela
             de olhar sem fim...                  Guimarães de Assis. Casado com a professora
                                                  Lucilla Maria Simas de Assis, tem duas filhas e
           Se sobrar uma olhadinha,               cinco netos.
           por favor, olha pra mim!                      Residente em Maringá-PR desde janeiro
                                                  de 1955. Hoje aposentado, foi jornalista e
               POR UM BEIJO                       também professor do Departamento de Letras
                                                  da Universidade Estadual de Maringá.
  Por um beijo eu lhe dou o que sou e o que
                     tenho:                              Integrante da Academia de Letras de
 os bons sonhos que sonho, as plantinhas que      Maringá (Cadeira no. 27 - Patrono: Manuel
                     planto,                      Bandeira), da UBT – União Brasileira de
 a pureza, a alegria, as cantigas que eu canto,   Trovadores (seção de Maringá) e da Academia
  e o meu verso se acaso houver nele arte e       Virtual de Letras Luso-Brasileira. Editor da
                    engenho.                      revista eletrônica Trovia (da UBT-Maringá) e
                                                  co-editor da revista eletrônica Trovamar (da
  Por um beijo eu lhe dou, se preciso, o meu      UBT-Balneário Camboriú).
                    pranto,                              Autor de Robson, Itinerário, Bate-papo,
   as angústias da luta em que há tanto me        Trovas de paz e amor, Os quebra-molas do
                  empenho,                        casamento, Lufa-lufa, Chiquinho, Felicidade
  as saudades da infância e do chão de onde       sem camisa, Da arte de ser pai, Desafio do
                    venho,                        amor, Carta aos moços, Xangrilá, O português
as promessas que eu faço em segredo ao meu        nosso de cada dia, Poêmica, Caderno de Trovas
                     santo.                       e A missa em trovas.



                                       Tchelo D’ Barros
                                       (“M” E “H” no 609)
                                                     609)

São Paulo é uma cidade grande, muito grande.      inesperadas, que talvez por comodidade
M e H conheceram-se numa dessas situações         convencionamos chamar de acaso. M, há


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tempos que estava acostumada com a rotina do         ali, escolhendo alguns exemplares de bolsi-
metrô, meia hora para ir e outra longa meia          livros de faroeste, sua única distração literária.
hora para voltar. Para suportar melhor esse          M imaginou inicialmente que H estivesse lhe
limbo de tempo inútil, lia revistas de               seguindo, mas logo concluiu que isso não
fotonovelas, que adquiria numa loja de livros        poderia ser, pois quando ela chegou ele já se
usados, próxima à estação da Praça da Sé. A          encontrava no local. Depois pensou em
monotonia desse trajeto só era quebrada lá de        coincidência, em destino, essas coisas que não
vez em quando, com alguma paquera, pelo              entendemos muito bem, e logo já estava
fuzuê com algum trombadinha ou algum ator            fantasiando que fosse algum investigador
fazendo sua performance e passando o chapéu.         contratado, um tipo de detetive.

Aquela manhã de sábado com garoa não                 Saiu de tais devaneios quando percebeu que
prometia muito. Vagão cheio, M incomodou-se          ele já não estava mais naquela sala, então
um pouco por ter que ficar em pé, e                  tratou de escolher alguns exemplares de
cavalheirismo, como se sabe, não anda muito          revistas para sua coleção. O segundo susto foi
na moda. Incomodou-se um pouco mais                  na hora de pagar, pois ambos chegaram juntos
quando, no frenesi das pessoas que                   ao balcão, o que fez com que o balconista
apressadamente entravam e saíam do vagão,            perguntasse o típico 'quem está na vez?', o que
um sujeito passou por trás dela, encostando-se,      inicialmente causou um certo constrangimento
inevitavelmente. Este momento deve ter               para ambos, mas foi a ocasião para uma breve
durado apenas um segundo, mas foi o                  troca de olhares e o esboço de um sorriso. O
suficiente para ela sentir um hálito de hortelã, e   fato de H ter permitido que M pagasse
ele percebeu a fragrância de alfazema nos            primeiro, foi a senha para continuarem
cabelos dela. Quando ele se afastou, ela olhou       conversando e o manuseio do pagamento
de soslaio, para identificar o atrevido, ao tempo    permitiu que ambos vissem que nenhum dos
que H, também discretamente, observava sua           dois estava usando aliança.
silhueta bem desenhada pelo reflexo da janela.
Ato seguinte, um assento que ficou vago              As recentes aquisições permitiram que a
permitiu que a vida voltasse ao normal no            conversa se prolongasse num café próximo dali.
escapismo de mais algumas páginas da                 Esgotado o assunto das preferências literárias,
fotonovela.                                          trataram de puxar outros temas corriqueiros,
                                                     amenidades bem triviais, apenas umas
Desceu na estação de sempre e depois de mais         desculpas para poderem continuar se olhando,
uma manhã rotineira, ao meio-dia em ponto            um adentrando o semblante do outro, tentando
estava livre, seu fim-de-semana começou com          desvendar camadas de personalidades e
o fim da garoa. Logo ela estava zanzando pelas       nuances dessa atração inusitada. Esse mesmo
barracas da feirinha da Liberdade, onde              ardente encontro de olhares, sequer permitiu
adquiriu umas bonequinhas de origami. O              que falassem sobre relacionamentos, fossem
almoço se resumiu à alguns camarões no palito,       anteriores ou atuais, profissões ou endereços,
assim, almoçava caminhando, observando os            esses itens que definem tanta gente. Eram
artesanatos e antigüidades espalhados pelas          apenas dois intensos olhares cruzados, que em
banquinhas. Naquele vai-e-vem de tanta gente,        seguida receberam a cumplicidade de duas
julgou ter visto o sujeito do metrô, próximo à       mãos que se tocavam de leve, no início, e
uns quadros de paisagens japonesas que um            assim não demorou para que um certo par de
pintor apresentava no chão de uma pracinha.          lábios ávidos também se encontrassem. A vida
Tímida do tipo ousada, aproximou-se para ter         naquele momento era apenas um sabor de
certeza, mas não viu mais o vulto, certamente        hortelã e um suave aroma de alfazema,
era outra pessoa.                                    naquela       esquina       da     megalópole.

Lembrou-se que precisava renovar o estoque           Não se conheciam, não queriam se conhecer,
de suas revistas antigas de fotonovelas, e lá foi    mas desejavam se entregar. Talvez essa
ela em direção ao sebo. Ao chegar foi                substância abstrata que chamamos de natureza
diretamente à sala das tais revistas, onde levou     humana, explique o fato de que dentro de
um susto, pois ninguém menos que H estava            poucas horas, já no número 609 de um hotel

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da Rua Ipiranga, o par estivesse resfolegando      reencontraram, e assim foram repetindo seus
num faiscante entrelaçamento com fusão de          encontros semanais, pontuados pela entrega
corpo e alma. O caos e o céu ao mesmo tempo.       total em suas experiências, preservadas por
Depois,     quando     os    corações     foram    segredos mútuos, quase como se suas vidas
desacelerando, o suor foi secando e os instintos   particulares nem existissem, como se a vida
permitiram que alguma lucidez se instalasse no     real acontecesse apenas naquele idílico quarto
recinto, começaram a conversar e, conversaram      609. E mais não precisava. E como é próprio
demoradamente, outro prazer que descobriram        dessas raras uniões onde o casal se completa,
assim, sem querer. Concluíram que esse             se complementa e se funde, chegaram à um
enigma, que as pessoas chamam de amor,             nível de cumplicidade e simbiose onde era
pode acontecer assim, de repente, numa             possível sentir plenamente o estado emocional
nublada tarde de sábado, no labirinto da           do outro, apenas pelo olhar, pela voz, pelo
gigantesca cidade. Ao saírem do hotel, ninguém     toque. Não raro, depois do descanso, abriam os
sabia nome, idade, telefone, e-mail ou o que       olhos ao mesmo tempo, sonhavam um com o
quer que fosse sobre o outro, esses ítens que      outro, e muitas vezes um ia dizer uma coisa e o
identificam muita gente, o que não impediu de      outro completava. Ao final de um ano a sintonia
combinarem se encontrar no saguão do mesmo         era tanta que de vez em quando já se
hotel, no mesmo horário, uma semana depois.        conseguia até mesmo ler o pensamento.

E passados sete dias, na tarde paulistana, desta   Foi mais ou menos por essa época que M
vez ensolarada, lá estavam M e H novamente,        começou a pensar na possibilidade de
tentando ser discretos na recepção do hotel,       investigá-lo, de tentar saber mais sobre esse
mas mal disfarçando a gana de avançar um           homem misterioso, que lhe fazia tão feliz.
sobre o outro, o que aconteceu de fato, logo       Talvez desvendar o cotidiano desse íntimo
que fecharam a porta do mesmo quarto 609.          desconhecido, saber o que ele fazia durante a
Pura selvageria. Frisson e êxtase. Volúpia e       semana, onde morava, se era casado, no que
lascívia. Concupiscência e atração. Luxúria e      trabalhava, essas coisas. Mas refletiu bem e
lúbricas intimidades. Umidade e fricção. Ou o      escolheu deixar de lado a curiosidade, preferiu
que muitos preferem resumir como tesão.            não quebrar a magia que os unia, não queria
Apagado o primeiro de muitos incêndios, M          desconfianças, não queria que ele fizesse o
percebeu então que H havia trazido champanhe       mesmo, que descobrisse tudo sobre ela. E
com morangos, e H pode enfim também notar          assim continuaram, já que toda a felicidade do
os detalhes da lingerie provocante que M           mundo cabia naquele singelo quarto. Ali era o
escolheu para o novo encontro. Algumas             endereço do amor, da paixão, do romance e do
labaredas mais tarde, fruíram daquele prazer       desejo. O resto era apenas o mundo. E
de conversar, de poder falar das sensações,        pequenas mudanças naquele quarto eram
dos sentimentos e das percepções desses            quase um acontecimento. O dia em que
momentos incandescentes. E falavam da              trocaram as cortinas. Uma pequena gravura
saudade, e dos desejos, e dos medos, e das         que apareceu em uma das paredes. Os
vontades, e das fantasias, e de todo um outro      desenhos florais na estampa de um lençol. E
labirinto, o das afetividades que se               um dia as paredes receberam uma nova
entrelaçavam      nas     relações      e    no    tonalidade, o salmão suave passou para um
relacionamento. Antes de se despedir, H notou      rosa pálido. Isso foi uma grande novidade.
entre os pertences de M uma pequena réplica
de espada japonesa, dessas para abrir              E o tempo foi passando. As fronhas dos
envelopes, sinal de que ela devia ter passado      travesseiros foram naturalmente se gastando,
novamente pela feirinha oriental. Já M,            perdendo a cor, a textura. As conversas agora
percebeu que H havia adquirido mais alguns         tinham diminuído um pouco, entremeadas de
livrinhos com histórias de bang-bang. Mas          breves silêncios, que aos poucos foram se
ninguém quis comentar nada, nada de                prolongando e muitas vezes a falta de assunto
observações, nada de perguntas. Manter algum       era compensada com a leitura de fotonovelas e
mistério era muito mais excitante.                 os livrinhos de bolso. Num dos encontros
                                                   sequer fizeram amor, apenas trocaram carícias.
E     assim   se   despediram,   e   assim   se    Depois, uma viagem impediu o próximo

    Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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encontro, e uma desculpa aqui e outra ali
fizeram rarear os sábados dos amantes. Até
que numa dessas tardes de muito calor, as
paredes do 609 sequer viram o casal se despir,
apenas        conversaram,          olharam-se
demoradamente, choraram, abraçaram-se e
então convenceram-se de que poderiam parar                    Tchelo D’ Barros
de se encontrar. O rio da vida que seguisse seu                   Nascido em 1967, é escritor e
fluxo. Sem culpa, ou rancor, deram-se ainda       artista visual. Natural de Brunópolis/SC, residiu
um longo e afetuoso último beijo.                 15 anos em Blumenau/SC, onde iniciou a
                                                  carreira artística. Percorreu 20 países em
Na saída para a rua, nenhuma palavra, apenas      constantes pesquisas na área cultural e desde
dois semblantes que se encontravam quem           2004 está radicado em Maceió/AL onde escreve
sabe pela última vez e cada um seguiu para um     e produz sua obra visual, expondo na Internet
lado. H dobrou a próxima esquina, refletindo      e em diversos espaços culturais pelo Brasil.
sobre isso que as pessoas chamam de amor. Se              Publicou 5 livros de Poesia e possui 2
isso existe mesmo, dura pouco, uns dois anos,     inéditos de Conto e Crônica. Foi sócio-fundador
concluiu. De seu destino nada sabemos, apenas     da Sociedade Escritores de Blumenau,
que deixou de freqüentar uma certa loja de        presidente por duas gestões, tendo idealizado e
livros usados daquele lado da cidade. M, que      coordenado diversos projetos culturais. Foi um
tomou o metrô mais próximo, olhava                dos idealizadores e coordenadores das edições
demoradamente as fotografias da revista, mas      do      Fórum      Brasileiro    de     Literatura.
nada via, apenas pensava em como era                      Realizou 12 mostras individuais e como
possível conhecer alguém com tal profundidade     designer, desenvolveu ilustrações para agências
e sintonia sem sequer saber seu nome. Dela        de publicidade e estúdios de criação têxtil.
também pouco sabemos, apenas que continua         Ilustrou jornais, revistas e livros, num total de
usando xampu com perfume de alfazema e            mais          de         10.000         desenhos.
adquiriu o hábito de comprar pastilhas de                 É membro fundador do Fórum de Artes
hortelã.                                          Visuais de Alagoas, gestor de Literatura do APL
                                                  Cultura em Jaraguá, membro-fundador do INAV
Dizem que aquele sebo fechou. Dizem também        Instituto Nacional de Artes Visuais e integra a
que vai reabrir em outro ponto da cidade, mas     Câmara      Setorial    de    Artes    Visuais    -
não se sabe bem onde, pois como sabemos,          Minc/Funarte.
São Paulo é uma cidade grande, muito grande.



                                      Caio Porfírio
                                       Carneiro
                                        (Vingança)
                                         Vingança)

        Ele andava lentamente à minha frente.     igreja ali em frente, a banca de jornais e
Aproximei-me. Emparelhamo-nos. Sorri:             revistas tampando-me um pouco a visão da
        - Bom dia.                                fachada. Meu desprezo por aquele homem
        - Bom dia.                                ampliava-se:
        O bom dia dele foi de susto e                     - Vai comprar jornais ou vai rezar?
curiosidade. Voltei a sorrir:                             - Vou rezar.
        - O senhor não me conhece. Mas devo               - Acompanho.
conhecê-lo.                                               - Mas quem é você? Não estou
        - De onde?                                reconhecendo.
        - Depois lhe digo.                                Os olhos dele eram apertados, como de
        Chuvinha miúda e nós dois sem guarda-     míope, mas não usava óculos. A calvície luzidia,
chuva. Poucas pessoas passavam por nós. A         onde rebrilhavam pingos de chuva.

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       - Não importa agora. Não vai rezar? Eu
o acompanho. Rezar é bom. Alivia. Não é
mesmo?
       Olhava-me com rapidez. Apressou o
passo. Apressei o meu. E emparelhados
chegamos à igreja. Dei-lhe passagem, que a                    Caio Porfírio Carneiro
porta era estreita:                                  Natural de Fortaleza (1º de julho de 1928),
       - Faça o favor.                               tendo se radicado em São Paulo em 1955. Tem
       Ele se ajoelhou próximo ao altar, olhos       cultivado o conto com regularidade. Sua estréia
meio fechados fitos na cruz enorme, a cabeça         no gênero se deu em 1961, com o
de Cristo bambeada para a esquerda.                  elogiadíssimo Trapiá. Seguiram-se Os Meninos
Procurava afastar-se de mim, visivelmente            e o Agreste (1969), O Casarão (1975), Chuva –
incomodado, e eu pregado nele. As suas mãos,         Os Dez Cavaleiros (1977), O Contra-Espelho
cruzadas, tremiam, e os lábios caídos                (1981), Viagem sem Volta (1985), Os Dedos e
balbuciavam palavras em direção à cruz.              os Dados (1989), A Partida e a Chegada (1995)
       A raiva não me cessou. Cresceu. Não           e Maiores e Menores (2003). Seus romances
me contive, cochichei-lhe ao ouvido:                 são O Sal da Terra (1965) e Uma Luz no Sertão
       - Você me paga, canalha. Vai ver.             (1973). Publicou as novelas Bala de Rifle
       Pela         primeira     vez     abriu       (1965), Três Caminhos, Dias sem Sol e A
desmesuradamente os olhos, pestanejando              Oportunidade, estas em 1988.
muito, e eu me fui, o eco dos meus passos            É autor também de ensaios, como Do
reboando na nave quase deserta, duas-três            Cantochão à Bossa Nova (ensaio sobre música
cabeças dispersas e contritas.                       popular brasileira), literatura juvenil (Profissão:
       Na rua, sol nos olhos, que a chuva se         esperança, Quando o Sertão Virou Mar..., Da
fôra, desorientei-me um pouco. Depois, suando        Terra Para o Mar, do Mar Para a Terra, Cajueiro
muito, andei de cá para lá, de lá para cá,           Sem Sombra), poesia (Rastro Impreciso),
concentrando-me, inutilmente, para descobrir         reminiscências (Primeira Peregrinação, Mesa de
quem seria aquele homem, a fim de vingar-me          Bar, Perfis de Memoráveis).
dele.                                                Tem recebido diversos prêmios, como o Jabuti,
       Desalentado, voltei para casa.                da Câmara Brasileira do Livro, em 1975.




                                       A ORIGEM DA
                                         ESCRITA

A escrita propriamente dita surgiu no Oriente        300 a.C). Tanto as primeiras escritas
Médio e na China há cerca de 5.500 anos.             cuneiformes quanto a hieroglífica eram de
Destes dois focos principais (pois o americano,      natureza fonético-pictográfica. Isso significa
surgido independentemente há apenas 1.300            que os símbolos usados tanto representavam
anos, e o do Vale do Indo, que durou de 3.500        os sons de uma palavra quanto a forma do
a.C. até 1.200 a.C., não deixaram descendência       objeto que ela representava. Este sistema não
moderna), a escrita se irradiou para diversas        era muito diferente do utilizado pelo Chinês, o
outras partes da Eurásia.                            único dos primeiros que continua em uso até
                                                     hoje, chamado normalmente de ideográfico.
No Oriente Médio, originaram-se dois principais
sistemas de escrita: o cuneiforme, utilizado por     Cientificamente, a escrita cuneiforme sumeriana
diversos povos e línguas da Mesopotâmia e            e a ideográfica chinesa são denominadas
Pérsia de 3.000 a.C. até 300 d.C., e o               logográficas. Isso significa que cada palavra
hieroglífico, desenvolvido no Egito e lá utilizado   (“logo”) é representada por um símbolo
somente para a língua egípcia por mais de            (“graphos”). Os hieroglifos egípcios e as
quatro mil e quinhentos anos (4.900 a.C até          escritas cuneiformes assírias e acadianas

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(posteriores à sumeriana) são de natureza logo-   outro que lembrava o conceito. Por exemplo, se
silábica: há símbolos para palavras e outros      em chinês “andorinha” é “wong”, o ideograma
para sons isolados. É por isso que a              designado seria o para pássaro (que lembra o
denominação “ideográfica” (=escrita de idéias),   conceito) mais o de outra palavra qualquer que
consagrada para o chinês, é imprecisa, já que     rimasse com “wong”, como “wang” (parede). O
os “ideogramas” chineses não representam          leitor então se perguntaria: “qual o pássaro que
idéias, e sim palavras.                           rima com wang? - “Wong!”. (o exemplo é
                                                  inventado)
Embora separadamente, as escritas da China,
do Indo e do Oriente Médio ( e posteriormente     Cada símbolo representa uma palavra. “8”, por
na América) surgiram a partir de desenhos         exemplo, representa “guo” (país), “l”
neolíticos, que foram cada vez mais               representa “xin” (coração). As palavras em
simplificados até se tornarem bem estilizados.    chinês têm apenas uma sílaba e não variam.
Primeiramente, se desenhavam objetos,             Palavras que têm o mesmo som, mas significam
animais e pessoas, o que equivalia a uma cena,    coisas diferentes, têm ideogramas diferentes.
ou estória em quadrinhos; em seguida, passou-
se a inventar símbolos para noções abstratas e    Nas línguas do antigo Oriente Médio, como o
ações, e depois se procurou representar           acadiano, o persa e o egípcio, havia, como no
graficamente as palavras na mesma ordem e         português, uma série de formas que as
forma em que apareciam na língua falada - foi     palavras podiam assumir de acordo com a
aí que surgiu a verdadeira escrita. A distinção   conjugação verbal ou a função na oração, sem
entre escrita e desenhos de cenas jaz,            que seu significado se alterasse (como no
portanto, no fato de que a escrita realmente      português: eu> mim; tu> ti, amar> amo,
representa a língua de seus falantes (posição     amas; casa> casas, casinha). Era então
de palavras, gramática, pronúncia) e não          necessário que se desenvolvesse um sistema de
apenas suas idéias em forma de figuras.           escrita que mostrasse a pronúncia diferenciada
                                                  de cada forma das palavras. Os primeiros
China e Oriente Médio: dois caminhos              sistemas, que funcionavam à base de
diferentes.                                       logogramas, mostraram-se conseqüentemente
                                                  imprecisos,    sendo    desenvolvidos    depois
A escrita da China evoluiu diferentemente da do   caracteres-sílaba que não possuíam significado
Oriente Médio devido a diferenças na              e serviam apenas para registrar os diferentes
morfologia das línguas. Na parte ocidental da     sufixos, prefixos, partículas sem significado
Eurásia, as línguas faladas apresentavam          próprio e desinências gramaticais. Surgia assim
muitas formas gramaticais, como conjugações e     a escrita logo-silábica, misturando caracteres
declinações, exigindo que a escrita fosse mais    puramente logográficos (que eram desenhos
clara quanto à pronúncia - o que não acontecia    estilizados das palavras que representavam) e
no chinês, cujas palavras são invariáveis. Por    caracteres fonéticos (servindo apenas para
exemplo, em chinês moderno (que não é muito       indicar a pronúncia). Os hieroglifos egípcios
diferente do chinês arcaico), a palavra “gong”    eram claros exemplos desse sistema.
carrega em si o conceito geral de “trabalho”,
podendo significar “trabalho”, “trabalhar”,       E, assim como o chinês, o egípcio precisou criar
“trabalhista”, etc., dependendo do contexto,      representações para conceitos complexos,
sendo que não há variação no plural nem           utilizando-se de truques para tal fim. Era como
conjugação verbal.                                se usassem um hieroglifo composto das
                                                  palavras “cama” e “leão” para escrever
Era desnecessário, portanto, indicar com          “camaleão”.
precisão a pronúncia da palavra “gong”,
bastando designar-lhe um logograma. Com o         Fenícios, gregos e hindus: inovações
tempo, porém, surgiu a necessidade de se
escrever conceitos mais complexos, para os        Por volta de 1.200 a.C., os fenícios
quais não havia pictograma. Criaram-se então      desenvolveram uma escrita mais simples, a
caracteres mistos, compostos de um ideograma      partir das escritas logo-silábicas, devido à
bem conhecido que auxiliava na pronúncia e        necessidade de uma forma prática de escrita

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para que seu império comercial de então             ΤΙΝΑ ’ΑΙΣΘΕΣΘΑΙ Τ Ν ΠΟΛΕΜΙ Ν.
pudesse funcionar melhor. Nesse sistema, cada       Lê-se: epí to ákron anébe kheirisóphos prin tína
símbolo representava uma consoante, sendo           aisthésthai ton polemíon. (Kheirisophos subiu
que as vogais tinham que ser lembradas pelo         ao pico antes de qualquer inimigo perceber).
leitor. Para cada consoante, foi escolhido um
símbolo que previamente era um logograma            Na Índia, por volta de 700 a.C., surgiu, para a
representando uma palavra de uso comum, e           língua sagrada dos brâmanes, o sânscrito, uma
foi-lhe dado um valor puramente fonético, de        escrita silábico-alfabética, chamada brahmi, que
acordo com seu som inicial. Por exemplo: beth       deu origem a várias escritas indianas como o
(casa) foi escolhido para o fonema /b/, ‘aleph      devanágari (“escrita divina”, 1000 d.C.), além
(boi) foi escolhido para o fonema /’/, a parada     de escritas do Sudeste Asiático. Devido ao fato
glotal típica das línguas semíticas. Esse tipo de   de o sânscrito ser uma língua indo-européia
proto-alfabeto, denominado cientificamente de       como o grego (embora nem os gregos nem os
“alfabeto consonantal”, foi a origem imediata       indianos se reconhecessem como aparentados
dos atuais alfabetos hebraico e árabe, que          na época, pois as pesquisas lingüística de indo-
ainda deixam de marcar as vogais, talvez do         europeística têm apenas 200 anos), o os hindus
alfabeto da Índia, e do alfabeto grego, que         também sentiam a necessidade de marcar
apresentou a novidade de designar símbolos às       todos os sons na escrita com precisão. Só que
vogais. Surgia com os gregos, portanto, o           eles foram muito mais além, criando um
verdadeiro alfabeto, denominado de “alfabeto        alfabeto extremamente rico e complexo, capaz
vocálico-consonantal”.                              de representar qualquer som. Esse sistema
                                                    utiliza-se de formas teóricas de letras que são
Os árabes e os hebreus nunca sentiram a             então combinadas de forma complexa umas às
necessidade de marcar as vogais devido à            outras para formarem sílabas e então palavras,
peculiar estrutura morfológica de suas línguas,     sendo denominado “alfabeto silábico”. O
que são do grupo semítico, assim como os            resultado são algumas das escritas visualmente
antigos fenício e aramaico. Nas línguas desse       mais harmoniosas do mundo.
grupo, as conjugações se dão através do
correto preenchimento de um esqueleto de três       O devanágari ainda é utilizado hoje, com
consoantes por um certo grupo de vogais,            poucas modificações, por dezenas de línguas da
portanto pelo contexto pode-se deduzir estas        Índia e pelo bengalês, de Bangladesh. Contudo,
claramente. Já o grego, uma língua indo-            ainda se discute a verdadeira origem de sua
européia como o português, não tem                  escrita-mãe, o brahmi, pois, apesar de
paradigmas vocálicos tão fixos como o das           provavelmente ser de inspiração semítica, é um
línguas semíticas, o que levou à criação das        mistério o fato de ela já ter surgido pronta,
letras para as vogais, adaptadas a partir de        desde os mais antigos manuscritos, como se já
consoantes fenícias que não tinham utilidade        tivesse sido criada perfeita pelos deuses! O
para o grego. Por exemplo, o ‘aleph, que            tailandês, outro exemplo de escrita de base
representava em fenício o som da parada             brahmi, está em uso até hoje também.
glotal, foi reaproveitado para a vogal “a”
(alpha, em grego), já que na língua helênica        Etruscos e latinos: a escrita se expande
não havia tal fonema. Além disso, outra
mudança do grego foi a de escrever da               Os etruscos foram os antecessores dos
esquerda para a direita, pois o fenício, assim      romanos no domínio da península itálica.
como o árabe e o hebraico modernos, se              Mesmo Roma lhes foi subalterna. Dos gregos,
escreve da direita para a esquerda.                 os etruscos tomaram muitas coisas, entre elas
Inicialmente, contudo, os gregos se utilizavam      o alfabeto. Discute-se ainda hoje que tipo de
do sistema denominado “boustrophédon”               língua era o etrusco, se indo-européia ou não,
(arado), em que uma linha ia da esquerda para       mas, a essa altura, isso não importava mais: o
a direita e a seguinte da direita para a esquerda   alfabeto vocálico-consonantal já havia sido
e assim por diante.                                 inventado pelos grandes gregos e era de fácil
                                                    adaptação a qualquer língua. A Etrúria se
Exemplo de escrita grega antiga (400 a.C.):         extinguiu, Roma se ergueu, levando das cinzas
’ΕΠΙ ΤΟ ’ΑΚΡΟΝ ’ΑΝΕΒH ΧΕΙΡΙΣΟΦΟΣ ΠΡΙΝ               etruscas, ligeiramente modificado, o seu

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alfabeto - mais do que apropriado para se             falado, só escrito, mas agora já diferia do latim
escrever a língua latina, indo-européia por           clássico. A esse latim cristão dá-se o nome de
excelência e de fonética similar à do grego.          latim medieval, usado até hoje pela Igreja de
Com o Império Romano, a escrita foi divulgada         Roma.
por uma extensão territorial enorme, inclusive
por regiões não romanas, dando origem, ainda          Mas nas secretas bibliotecas monásticas, os
na Idade Antiga, por exemplo, à escrita rúnica        monges copistas cuidadosamente reproduziam
dos víquingues e a escrita céltica, entre             as grandes obras da Antigüidade para garantir
outras.                                               que sobrevivessem ao tempo. Esses monges,
                                                      em nome da praticidade e influenciados pela
A escrita munumental se usava em inscrições           estética medieval obscura, desenvolveram as
de monumentos e edifícios, e é a base da              escritas cursivas, manuscritas, em que as letras
forma atual das nossas letras de fôrma. Para          se ligavam umas às outras de modo a agilizar a
escrever textos, porém, os romanos se                 cópia. Essa escrita cursiva deu origem às letras
utilizavam de formas mais “garranchadas” das          minúsculas latinas e gregas, desconhecidas na
letras, muitas vezes sem espaço entre as              Antigüidade, quando só se usava as
palavras.                                             maiúsculas. Nossa atual escrita à mão,
                                                      obviamente, também tem essa origem.
Como se pode ver, a letra “V” representava o
som /u/, e o som /v/ não existia em latim             Assim formava-se a escrita atual, composta de
clássico. A letra e o som “j” não existiam, nem       minúsculas e maiúsculas. No início, não havia
tampouco o “w”. O alfabeto latino era portanto        padronização quanto ao uso das maiúsculas,
assim: A, B, C, D, E, F, G, H, I, K, L, M, N, O, P,   mas com o tempo, e dependendo da língua,
Q, R, S, T, V, X, Y, Z, sendo que as letras K, Y e    elas passaram a ser utilizadas como iniciais de
Z serviam apenas para grafar palavras de              parágrafos e palavras importantes. Em muitas
origem grega. A letra C representava sempre o         línguas, todos os substantivos, próprios ou
som /k/: Ave Caesar era pronunciado “áue              comuns, se iniciavam com maiúscula, mas hoje
cáissar”. Não é à toa que “imperador” em              apenas o alemão conserva essa excentricidade.
alemão até hoje é “Kaiser” - as tribos                A invenção da vírgula, do ponto final, de
germânicas ouviram o termo há 2.000 anos e            exclamação e interrogação data do final da
mantiveram sua pronúncia, enquanto nas                Idade Antiga, mas somente na Idade Média,
línguas latinas a palavra evoluiu para “César”        especialmente em seu final, se padronizou seu
em português, “Cesare” /tchézare/ em italiano,        uso tanto no alfabeto latino quanto no grego.
etc. Mesmo uma palavra como “cerevesia”               Uma curiosidade: no grego, o ponto de
(cerveja, em latim clássico) era pronunciada          interrogação é igual ao nosso ponto e vírgula
/kereuéssia/. Conclui-se, já que o alfabeto           (;).
latino fora adaptado a partir do grego
exclusivamente para o latim, que cada letra           No final da Idade Média, as outras línguas da
mantinha sempre seu valor básico, não importa         Europa passaram a ser escritas também. No
em que posição.                                       entanto, os alfabetos latino e grego não eram
                                                      perfeitos para os sons de todas as línguas. Por
Idade Média: as grandes línguas clássicas             exemplo, o som grafado em português “ch” não
morrem mas suas escritas não.                         existia nem em grego nem em latim, portanto
                                                      não havia uma letra para ele, o que causou a
O Império Romano chegou a um fim por volta            necessidade de se usar “dígrafos” -
de 340 d.C., e suas línguas oficiais - o grego        combinações de duas letras - para esse e
clássico e o latim - deixam de ser falados.           outros sons específicos de cada língua. Para o
Surgem o grego medieval e as línguas neo-             nosso som “ch”, em inglês, usa-se o dígrafo
latinas (português, castelhano, catalão, francês,     “sh”; em alemão, o trígrafo “sch”; em sueco,
italiano, provençal, romeno, etc.), marcadas          “sj”; em polonês, “sz”, e assim por diante. Nas
agora pela dominação da Igreja Católica               línguas dos povos ortodoxos, como os russos,
Ortodoxa (grega) e Romana. As línguas neo-            os búlgaros, os ucranianos, os sérvios e os
latinas ainda demorariam a ser escritas, pois         romenos, foi utilizado um alfabeto novo,
preferia-se ainda o latim, que não era mais           inventado a partir do grego, chamado “cirílico”,

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que foi incrementado com letras hebraicas para     Na China, a escrita, como a língua, sofreu
os sons “ch”, “tch”, “ts” e ainda com letras       poucas mudanças, pois sua civilização foi a
inéditas (mas o romeno, língua neo-latina,         única da Antigüidade a sobreviver até hoje. Mas
adotou o alfabeto latino no século XIX). O         seus ideogramas foram adotados pelos
alfabeto grego permaneceu em uso apenas            coreanos      e    japoneses,   que,    contudo,
para o próprio grego. Na Geórgia e na Armênia,     desenvolveram depois alfabetos silábicos para
os dois primeiros países a se tornarem cristãos    designar elementos gramaticais e conjugações,
(cerca de 400 d.C.), foram inventados alfabetos    para uso complementar aos ideogramas, já que
próprios para cada língua, cujas letras tinham     essas      línguas     têm    uma       estrutura
formas totalmente diferentes da das greco-         completamente diferente da chinesa. A escrita
latinas mas funcionando no mesmo sistema.          silábica coreana (hangul) é de inspiração
Assim se criaram os alfabetos da Europa            devanágari ou brahmi, enquanto que a
moderna: o latino (em suas dezenas de              japonesa (hiragana e katakana) consiste de
variantes) , o cirílico (com variações regionais   sílabas fixas derivadas de ideogramas
também) , o grego moderno, o armênio e o           simplificados. O japonês e o coreano são,
georgiano.                                         portanto, escritos de maneira logo-silábica.

Com o tempo, o alfabeto latino, que era aquele     A Etiópia permanece como o único país africano
utilizado por mais línguas, necessitou ser         negro a desenvolver uma escrita própria para
acrescido de sinais especiais para melhor          sua língua, o amárico, desenvolvida no século
indicar a pronúncia de cada idioma, como           VI e usada até hoje. Tanto a língua amárica
acentos, crase, cedilhas, e vários outros, a       como seu alfabeto são originados do Oriente
exemplo do que já vinha acontecendo no grego       Médio, mais precisamente de uma escrita do
medieval e no hebraico litúrgico. Esses sinais     Iêmen pré-islamico já extinta, a chamada
adicionais se chamam diacrícticos.                 escrita sul-arábica, que não marcava as vogais.
                                                   Mas os etíopes desenvolveram sinais para as
Mas essa onda de mudanças não varreu               vogais, o que os destaca como inventores de
somente a Europa: na Ásia, as diversas escritas    um alfabeto.
clássicas passaram a ser usadas para as novas
línguas emergentes, e para outras línguas que      A invenção da imprensa e a expansão colonial
jamais haviam sido escritas.                       européia: universalização do alfabeto latino.

Na Índia, o alfabeto devanágari passou por         Gutenberg inaugurou a era da imprensa, mas
modificações superficiais para se escrever o       só o fez porque morava na Europa. A
hindi, o gujarati, o bengalês, o nepalês, o        praticidade e simplicidade do alfabeto latino
caxemiro e outras. O Tibete, a Tailândia, a        facilitou em muito o conceito de imprensa. Na
Birmânia, o Laos e o Camboja, assim como           China, séculos antes do Ocidente, já houvera
certas línguas do sul da Índia, adotaram           tentativas de se usar tipos móveis para a
escritas de inspiração brahmi, devido à            impressão repetida de livros, mas o caráter
influência do budismo.                             complexo dos milhares de ideogramas eram
                                                   uma barreira intransponível para essa técnica
Os árabes solidificaram sua escrita de origem      funcionar. Nem mesmo os silabários dos
fenício-aramaica por volta de 650 d.C., com o      semitas e hindus eram muito práticos para a
surgimento do islamismo. Sua escrita passou        imprensa de tipos móveis.
para línguas de povos convertidos como o
persa - que já estava abandonando a escrita        Aliada ao Renascimento, a imprensa contribuiu
cuneifome mesmo- e o turco, que, contudo,          para o expansionismo colonial europeu que iria
veio a adotar a escrita latina em 1923. O          levar o alfabeto latino aos confins inexplorados
egípcio morreu definitivamente como língua         da Terra. Muitos povos que não tinham
falada com a conquista árabe no século VII,        qualquer escrita - como era o caso da maioria
mas então já se desenvolvera no Egito uma          dos africanos - adotaram o alfabeto ocidental,
escrita    alfabética  de   inspiração   grega     sem contar os que trocaram seus alfabetos de
denominada alfabeto cóptico - preservada até       então pelo latino, como muitos povos que já
hoje pela Igreja Cóptica.                          haviam tomado emprestado um alfabeto

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estrangeiro. Foi assim com os malaios e os          Os nossos algarismos atuais são, portanto, os
indonésios, que escreviam com o alfabeto            últimos vestígios de escrita logográfica- na
árabe, e os vietnamitas, que usavam                 verdade,    poderiam   ser   chamados      de
ideogramas chineses.                                ideogramas, já que representam o conceito de
                                                    número e não apenas palavras, servindo para
Apesar de que, com a revolução russa, o             qualquer língua.
alfabeto cirílico passasse a ser utilizado por
muitas línguas de regiões sob influência            A relação entre línguas e escritas: erros
soviética (cazaque, quirguiz, turcomeno,            comuns.
uzbeco, mongol), foi o alfabeto latino que se
estabeleceu como alfabeto universal, sendo          Intimamente ligada à língua, a escrita, contudo,
ensinado hoje em todas as escolas de todos os       em sua evolução, não pode ser tomada como
países, ao lado da escrita local.                   sinônimo do idioma que a utiliza. Se nós
Exemplos de escritas não européias a usarem o       vemos, por exemplo,       ‫ى‬      ً‫ى‬
                                                                                     ُ
                                                                                     ْ        escrito
alfabeto latino (na ordem: zulu, suaíli, turco e    em algum lugar, dizemos “olha lá aquilo escrito
malaio12[12]):                                      em árabe”. Mas na verdade, a menos que
                                                    conheçamos a língua árabe e saibamos lê-la,
Númerais: além da língua.                           não podemos afirmar ser aquilo árabe. Só
                                                    temos certeza de que se trata de letras árabes.
Não somente de letras, logogramas e silabários      O persa, por exemplo, que é uma língua tão
se faz a escrita humana. Desde os primórdios,       diferente do árabe quanto o português, é
centenas de outros símbolos vêm sido usadas         escrito com o mesmo alfabeto consonantal.
para se registrar o conhecimento humano. As         Saiba, portanto, distinguir entre escrita e
quantidades, por exemplo, desde cedo eram           língua. O exemplo arábico acima, por exemplo,
representadas não pelas palavras que as             não está escrito em nenhuma língua, é apenas
designavam na língua falada, mas por símbolos       um amontoado de letras.
especiais. Nada de mais para as escritas
logográficas, em que tudo tinha um símbolo          O mesmo vale para a evolução da escrita. Na
especial.    Mas      nas    línguas     escritas   escola, nada nos é ensinado sobre a evolução
alfabeticamente, as quantidades e cálculos          das línguas, e pouco se fala sobre a escrita:
permaneceram a ser caracterizadas por               surgiu no Oriente Médio, passou aos gregos e
simbolos especiais, geralmente uma letra do         daí aos romanos. Até aí nada de errado, mas
alfabeto. Os numerais romanos, exemplos             essa simplificação acaba por nos levar a crer
desse sistema, com sua notória precariedade -       que as línguas seguiram o mesmo curso que as
quem diria - são utilizados por nós até hoje. Os    escritas. Nada poderia estar mais longe da
romanos derivaram seu sistema dos gregos,           verdade. Os povos do antigo Oriente Médio
que o adaptaram dos fenícios e judeus. Mas se       eram todos semitas (na verdade o nome
não era tão difícil expressar quantidades           científico é camito-semítico), à exceção dos
simples com esse sistema alfabético de              persas e sumérios. Os persas, hindus e
numeração, calcular somas, divisões e               europeus eram (e são) indo-europeus. A escrita
multiplicações era uma tortura, um desafio para     nasceu, portanto, com um povo que não era
os gênios. Imagine dividir MCCVIII por              nem semita nem indo-europeu: os sumérios,
MMMCCXVIII... Muito mais fácil dividir 1208 por     que, até onde se saiba, não pertencem a
3218, não? Pois é, a diferença entre esses dois     nenhum grupo maior.
sistemas é nada. Isso mesmo, nada. Zero. O
zero, a noção abstrata de vazio, foi um             Mas o que significa “povo semita” e “povo indo-
desenvolvimento       fundamental     para      o   europeu”? Na verdade, essas denominações
pensamento humano. No ocidente, esse                não se aplicam a raças, e sim às línguas que
sistema    é    tradicionalmente    denominado      cada povo fala. Nós, brasileiros, somos “indo-
“arábico”. É verdade que ele foi introduzido na     europeus”, pois falamos português. Os judeus
Europa pelos árabes na Idade Média (cerca de        são considerados “semitas”, pois originalmente
910), mas estes apenas o conheceram dos             falavam hebraico. Mas qual a importância?
indianos, seus verdadeiros inventores.              Bem, para a história da escrita basta saber que
                                                    a estrutura da língua influencia na maneira com

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que elas são escritas, como se pôde ler no         logograma sem relação com a pronúncia, pois
capítulo sobre fenícios, gregos e hindus.          em chinês “lua” é “yue” e em japonês “tsuki”.

Os indo-europeus são, hoje, os europeus            Conclusão: razões e conseqüências.
(exceções: finlandeses, húngaros, estonianos,
lapões e bascos), os persas (ou iranianos), os     Depois de se ler tantos fatos sobre essa
curdos, os indianos (excetos alguns do sul),       invenção fundamental da humanidade, pode-se
paquistaneses,     afegãos     e    bengaleses.    perguntar qual a importância de se conhecer a
Pressupõe-se que as línguas faladas por esses      história da escrita. Bem, para começo de
povos tenha vindo a partir de uma tribo que há     conversa, a invenção da escrita equivale à
uns 6.500 anos começou a se espalhar do sul        invenção da civilização. É difícil precisar qual
da atual Rússia levando consigo sua língua até     proporcionou qual. Por onde quer que tenha
a Europa e Ásia, onde começaram a se cindir        passado, a escrita mudou para sempre os
em diferentes tribos e dialetos à medida em        povos e a maneira como levavam sua vida.
que se distanciavam uns dos outros e
encontravam outros povos no caminho. Há            No início, a escrita possuía um aspecto religioso
3.800 anos, já haviam se formado os principais     e político: era exclusiva das classes
troncos lingüísticos derivados do antigo indo-     dominantes, para que fossem os detentores do
europeu: Na Itália, o itálico; Na Grécia, o        conhecimento e do poder. Além disso, as
grego; na Europa Oriental, o eslavo; no norte      escritas antigas eram complexas pois sua
da Europa, o germânico; na Pérsia, o irânico;      finalidade não era prática, e sim ritualística,
na Europa Ocidental, o celta; no norte da Índia,   religiosa. Escrevia-se o conhecimento como um
o ariano e, no Cáucaso, o armênio. Do itálico,     auxílio às práticas orais e aos rituais, e para
depois     se   desenvolveram     o   latim    e   ensinar as tradições às novas gerações. Eles
descendentes; do eslavo, o russo, polonês,         deixavam de simplificar a escrita não por
servo-croata, tcheco, búlgaro e ucraniano; do      incapacidade, mas sim para evitar que o
germânico, o alemão, o holandês, o inglês e as     conhecimento se transferisse da memória para
línguas escandinavas (exceto finlandês); do        o papel, papiro ou pedra. Como diziam os
irânico, o persa antigo e moderno e o curdo; e,    antigos hindus, “todo conhecimento em livros é
do céltico, o gaulês antigo, e os modernos         inútil e perdido como dinheiro emprestado”. A
irlandês, escocês e galês.                         escrita, portanto, nasceu com a finalidade de
                                                   manter as estruturas sociais e não a de alterá-
Portanto é outro erro assumir que todas as         las.
línguas modernas derivam do latim. O alemão,
o russo, o inglês e o polonês na verdade são       À medida que o mundo se tornava mais
sobrinhas do latim, vindas de suas irmãs           complexo e surgiam rotas de comércio e
antigas. O latim, por sua vez, é irmão do grego,   impérios    vastos,    tornou-se     necessário
pois ambos derivam do antigo indo-europeu.         desenvolver uma escrita prática. Os fenícios,
                                                   pioneiros em finanças internacionais, é que
Os primeiros indo-europeus a aprenderam a          deram o golpe definitivo no elitismo da escrita:
escrita o fizeram através dos semitas, como os     com apenas vinte e poucas letras, podiam pôr
hindus (arianos) e gregos. Mas suas línguas        todo o conhecimento humano à disposição de
não derivam das línguas semíticas - de fato,       quem quisesse e pudesse. Os gregos apenas
diferem tanto delas que tiveram que inventar       deram um toque de racionalidade no alfabeto
as letras para as vogais.                          consonantal fenício, adicionando vogais à
                                                   escrita e dando-lhe um aspecto linear, quase
No caso do Extremo Oriente, também deve-se         como uma linha de montagem, sem o qual a
estar avisado que as línguas de lá diferem mais    grande filosofia grega talvez não se
entre si do que os da Europa e Oriente Médio.      desenvolvesse. Escreve Marshall McLuhan, em
Para efeito prático, pressuponha apenas que        seu “Understanding Media” (“Os meios de
todas as línguas do Extremo Oriente são 100%       comunicação como extensões do homem”, cap.
diferentes umas das outras. Mas então como         9):
tanto os japoneses quanto os chineses
escrevem “y”” para “lua”? É que se trata de um     “O mito grego sobre o alfabeto era que

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Cadmus, o rei mítico que teria introduzido as       alfabeto fonético. A eletricidade e a informática
letras fonéticas na Grécia, semeou os dentes de     nos dão novos meios de conhecer a realidade e
um dragão, e deles brotaram homens armados.         de armazenar nossos pensamentos além da
Como qualquer outro mito, este encapsula um         escrita. Logotipos, ícones, gráficos, filmes,
processo     prolongado     em    um    ‘insight’   vídeos, jingles, músicas ameaçam tirar (se é
instantâneo. O alfabeto significava poder,          que já não tiraram) o monopólio do alfabeto
autoridade e controle de estruturas militares a     como meio de registrar a cultura. Na China e no
distância. Quando combinado com papiro, o           Japão, que nunca saíram da cultura visual-
alfabeto significou o fim das burocracias           intuitiva por causa de seus logogramas, a nova
paralíticas dos templos e do monopólio religioso    cultura visual-eletrônica é absorvida com mais
do conhecimento e do poder. Diferentemente          naturalidade do que na Europa alfabética, e
da escrita pré-alfabética, que com seus             não é à toa que esses povos e outros do
inúmeros signos era difícil de dominar, o           Oriente são vistos como os que dominarão o
alfabeto podia ser aprendido em algumas             futuro.
horas. A aquisição do conhecimento tão
extenso e da habilidade tão complexa que a          Mas, no planeta Terra, o alfabeto vocálico-
escrita pré-alfabética representava, quando         consonantal ainda parece dominar, pois é com
aplicada a materiais tão pouco práticos como        ele que se escreve a língua internacional: o
tijolos e pedra, assegurava à casta dos escribas    inglês. Contudo, uma análise um pouco mais
o monopólio do poder religioso. O alfabeto mais     profunda mostra que o inglês concilia o visual
simples e o papiro barato, leve e transportável,    com o fonético, o linear com o caótico, e o
postos juntos, efetivaram a transferência do        lógico com o ilógico. Por exemplo, o grupo de
poder dos religiosos aos militares. Tudo isso       letras “ough” é pronunciado de maneira
implicava no mito de Cadmus, incluindo a            diferente nas palavras tough /tãf/, thought
queda das cidades-estado, o surgimento de           /thót/, though /dhôu/ e through /thru/. Não há
impérios e de burocracias militares.”               consistência na relação letra-fonema na
                                                    ortografia inglesa. Você simplesmente, em
O alfabeto vocálico-consonantal é uma               muitos casos, tem que olhar para a palavra e se
devastadora arma cultural, sacrificando mundos      lembrar de sua pronúncia. O inglês é quase
de significado logográficos em nome da              uma língua de escrita logo-silábica, pois
praticidade. A China, mantendo a escrita            algumas palavras têm pronúncia arbitrária e
logográfica através dos séculos, preservou sua      outras, lógica. Algumas palavras têm a mesma
estrutura social até o século XIX, quando           pronúncia, mas significando coisas diferentes e
classes cultas conheceram a escrita alfabética      portanto tendo escritas diferentes (cf. chinês,
estudando no ocidente e causando ultimamente        sumeriano): “write” (escrever), “right” (direito)
a queda do império chinês e depois a revolução      e “rite” (rito), todos pronunciados /ráit/.
comunista de 1949. Na Índia, que, com suas
escritas silábicas, era mais dinâmica que a         É claro que a comparação da escrita inglesa
China, o alfabeto vocálico-consonantal que          com as logo-silábicas ou silábicas é exagerada,
chegara com os europeus causou menos                mas serve para mostrar que a nova cultura
mudanças, mas alterou a cultura daquele país        visual do mundo de hoje aceita o sucesso do
milenar para sempre - hoje a Índia é a maior        inglês, em parte, por causa da visualidade e
democracia do mundo.                                arbitrariedade de sua ortografia, ativando,
                                                    como logotipos e logogramas, nossos sensos
Individualidade,    continuidade     linear e       visuais mais do que qualquer outra língua de
uniformidade de códigos são a marca do              escrita vocálico-consonantal. Alia, pois, a
homem civilizado, e sua origem está aqui, bem       linearidade industrial do alfabeto à intuitividade
nestas letras que você está lendo agora.            da cultura visual - que língua mais perfeita para
                                                    o mundo de hoje!
Mas agora o mundo é outro. No século vinte, a
cultura visual está ameaçando a cultura do




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                                            Vieira
                                      Paulo Vieira
                                       Pinheiro
                                          (Poesias)
                                          (Poesias)

                     JÁ                                           XADREZ

    No futuro bem próximo me vejo leve,              Minha alegria não se dá por solucionar
         assim como quem passou,                                   problemas.
          assim como quem se foi.                        Hoje estou de malas prontas.
               Livre de laços.                          Vou para o paraíso dos sonhos.
                                                 Dentro em breve estarei encontrando o ar que
       TANTO TEMPO QUE NEM SEI                                       quero.
                                                 Daqui há pouquinho pisarei miudinho em alvas
                Parei pela dor.                                     sombras.
  Constato que poderia, sim, mas não deu.        Reverei minhas matas e sentirei o seu cheiro.
 Juntando tudo que lembro fui, mas não fiz.          Odor tão intenso que me vem à boca.
 Voltando tudo sei que poderia ter sido mais,     Um amor que na serra me espera abraçarei.
                 mas não fui.                     Contaremos inúmeras estrelas, sem medos.
     Nesse rascunho escrevo o que quero             Curiangos valentes se lançarão em vôos
           e em pouca vez isto fiz.                                 abruptos.
             Um sucesso é tudo.                      Cintilantes estrelas por testemunhas.
               Que horas são?                                    Para quê mais?
                                                 Os nossos exageros que brotaram e o peso do
       MOMENTOS DE INSENSATEZ                                 sei não nos abateu.
                                                   O som do coração, em êxtase sóbrio, nos
          Bom dia minha querida!                               convida a aquietar.
         Como você dormiu? bem?
             O dia se faz largo.                       UNIVERSO DAS PALAVRAS
 O sol se enfeitou e todos os pássaros que                  Exercício 21042008-1
         cantam cantam para você.
Antes que o café esfrie venha ver uma coisa.                Para ir aprendi a falar,
          Sim... deixa pra depois.                      para ficar aprendi a escrever.
        Dormes como um bichinho.                  Bem idas e benvindas, estadas imperfeitas.

                  VENETA                           Degraus de palavras ascendem em mim.

  Quando te comecei pensava no que darias.                O primeiro me diz quem sou.
    Não sabia ao certo qual rumo tomarias.                O segundo me diz onde estou.
    Rubra tinta multicores sentidos desfia e              O terceiro me diz com quem,
assim sendo das veias minhas tinto destino és.        certamente com alguém ou ninguém.

     Do novelo arranco um fio que cria                       Outros, porem, há.
  Aponto ao longo do vão contido da página                  Aquele de raro barro.
        Digo a que vim e a que viria                         Uns de pedra firme.
  Se não me barro a passagem de meu dia                   Aqueloutro etéreo tropeço.

    Pensei em cantar uns versos antigos                       Em pouca página,
 Daqueles que a memória se esforça em vão                      muitas palavras.
     Dizer alegres cantares que contam                      Uma poesia que corrói,
   Histórias e glórias da alma em canção                   uma construção de idéias.


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              Construir degraus,                                  CINTILAR
          por mais caros que sejam,                             Estudo 080608-1
         encerra penares benfazejos.
       Traços de alegrias que chegam.                    Noite sem lua clara de estrelas
                                                         Faz viajar em mil pensamentos.
            Fazer em um segundo                            Calo agora a te contemplar
          um pensar tão fecundo...                         Esperança de alma noturna
         momento que não voltará...
        instante único em vida tanta.                      A beleza certa e tamanha
                                                        Cresce a cada vislumbre ao céu
               Um brusco mudar.                          Sou eu quem a admiro silente
        O intenso me ensinou a calar e                 Ou ela quem se expõe a meu olhar
       calando tive tempo de aprender.
             Sofro essa sede tanta.                        Cintilam olhos feito estrelas
    Minha boca seca seca imagens tantas.                    As olho com elas a me fitar
           Calar se tornou o normal.                       Visões de um espaço imenso
            Escrever se tornou letal.
 Sentenças de vida e de morte em grupos de               Contido num instante tão breve
                      letras                             Que encanta em nosso descobrir
        fazem de mim o deus que sou.                     Nos procuramos e nos achamos
          Tontas vidas, vidas... vidas?
              Embrulho de gentes.                            O preço de minha Liberdade.
               Rejeitos nascentes.                        (um tipo de oração - lamentação)
    Fluxos escorrem nos meio-fios de aço.             Pai, Deus meu, te suplico a tua Proteção
       A chuva corre e o lixo escorre...                Prometo agir em harmonia com Teus
  Todos os meus sentidos fendidos, torcidos,                        Ensinamentos
           meio vivos, meio mortos.                              Portanto ensinai-me
Onde estou agora? Onde estarei nessa hora?        Se tenho de vender a minha liberdade que seja
De certo não nasci para só vir ver, tenho ânsia                         para Ti
                      de ser.                      Tentei vender aos homens as minhas virtudes
 Preso neste mundo de quatro paredes, com                            (o que sabia)
                 céus sem sóis,                   Sobrou-me as maldades e é o preço que posso
     aspiro mais escrever do que ser lido.                               pagar
                                                      Sei que não é muito, mas é o que tenho
              ESPERANÇAS                               Sacrifiquei minhas virtudes aos homens
            Exercício 21042008-3                    Hoje, para o Teu altar, sobraram meus vícios
                                                      Sacrifico-os a Ti, minhas últimas moedas
                  Há braços                         Tomaram minha casa e me deram sua posse
                  Há maços                               Invadiram minha mente com idéias
                  Há traços                           Que não são minhas e que não são Tuas
                  De amor                              Pagam salários para difamar Teu Nome
                  De mora                                Tenho que mentir, sonegar, diminuir
                   De hora                              Dizem que isso é negociar com a vida
               Corola de honor.                          Acho que é negociar com o Inimigo
                                                      Faz-se passar por normal tudo que não é
                 Que trazes                              Aqui, a Tua Virtude não pode caber
                  Mais ases                        Chamam de humanidade algo que não parece
                  Mais ares                                               ser
                    De cor                         Um humano aqui vive da mentira e da ilusão
                   De fora                                      Paguei para ser feliz e
                    Agora                           Quem não pode pagar teve de se sentir mal
                Seja o que for                                           Então,
                                                               Consola-me com Tua Luz
                                                                Olhai para toda criação

Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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Esmaga a humanidade a Tua Casa, a Tua Terra       Os arrepios do frio se cura com o calor
    Choram as águas, árvores e Teus filhos       O ardor intenso do fogo no luar se esfria
    Parece ser isso normal quando distante      Assim os humanos e suas naturezas vazias
Acho que incomoda um pouco em nosso quintal       Reagindo à falta de inteligência natural
  Crucificamos Teu Filho em cada árvore que     Se aquece e se esfria fugindo de si sempre
                   matamos                      Assim são as naturezas de humanos vazios
    Corrompemos as águas de Teu Batismo         No viver perdemos os amigos aos pedaços
  Apodrecemos o Fogo de Teu Santo Espírito         Aparamos tanto até nos ver solitários
          Quem sou? Então quem sou?                Dificilmente entendemos nossas vidas
    Te compro a Proteção com meus vícios          Porque com a dos outros assim se faria
   Para reconquistar Tua Liberdade em mim       Assim na convivência reaprendemos a vida
                                                Nos desenganos melhor apuramos o rumo
       AMORES À LETRA D’ALMA                     Assim uns crescem buscando o progresso
                                                Enquanto outros não, assumem quem são
         Um só minuto em compasso                      Amar ainda é o melhor remédio
           a terra viva move a terra;                  Só isso faz mover o inemovível
          ela respira um ar de amor,                   A expressão no poema, poesia,
        cria e recria folha, fruto e flor.           Trova, conto, novela e suas letras
                                                           A luz guarida dos fortes
          Creio respiro e me movo                           O vício covil dos fracos
          num compasso de abraço                           O amor como expressão
          e assim amo a flora-cor...                      Vem aprender falar a quem
          minha terra viva em flor.                      O poeta que escreve para si
                                                         Nada escreve para os outros
         Num papel fino e ferino,
          letra levou mensagem,                         A RÉGUA QUE MEDE
         contou a outros meninos
        meu canto de luz selvagem:            A régua que uso para medir minha liberdade é
                                                               o que expresso
       - “Inda n’era o sol quando te vi        Se não me prendes, se não me prendem, sou
           prostrada a venerar a lua,                          eu quem o faço
          mensageira de quem ama,                 De todas as torturas a maior é o silêncio
          passageira luz que inflama.                               forçado
                                                        Por quem? Não importa, não.
         C’oa liberdade de quem vai,                 Medos de que não me entendam?
        vem e se aninha no coração,            Talvez sejam medos que não me deixam dizer
        ama até ser incompreendida,             Ouço diversas vozes que me dizem que cale
        ou ser amada ou esquecida”.                Não te exponhas, não me envergonhes
                                                Dizer tudo que vem a cabeça, nem sempre
       Língua que te quero amante...                  Acho que não é assim que se diz
       expresso tua língua doravante.                  Porém calar e não dizer é pior
                                                            Cantar a velha canção
                  ADVERSO                                  Repetir os velhos refrões
                                                     É velar a criação em leito de morte
   Nas noites escuras, sem estrelas ou lua    O novo, queremos o novo, aquilo que ainda não
  Uso meu entendimento para me orientar                               veio
    Nas horas meiodiais onde o sol esfola               Não importa a tua idade, diga
  Uso o meu entendimento prá me orientar                 Diga o mais torto, mas diga
   Olho os homens e suas vidas em saltos          Conte tuas histórias, as nossas histórias
  Fogem da vida, de nada, de tudo e de si                       ... mas conte!
   Acorrem às gotas de lírios, engargalam     Se queremos a nossa liberdade devemos usá-la
    Fogem pra dentro das garrafas vazias                 Seu uso a faz caber por fora
  A vida não é um jogo a jogar pros sábios             Seu uso a faz caber por dentro
  Fugir da sombra ao sol e do sol à sombra                Expresse e aperfeiçoe isso

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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                CHUVISCO                             Não que procure isto, mas acontece...
                                                      O feio não gosto, o grosseiro é pior.
                  Chuva miúda                   Falo sim das flores, mas olho atrás das cores.
             Enxada corta o mato                Me encantam as águas, dos risos às máguas,
          E passo a passo vira raízes           Suas chuvas nestas terras que rasga coração,
        Trabalho feliz de pronto visível        E cabem assim os meus olhos em tuas mãos.
     Pequenos alados saltam ao meu lado          Traço dos altos morros vidas, sopros, anjos.
  Ansiosos do alimento que brota dos torrões     Traço nas alvuras da tela de papel figuras do
                 Passo a passo                                        chão,
                Corto o terreno                        Figuras do céu e cavalgo Ventania
              Calma enxada corta                   Corcel do dia-a-dia que lambe as estrelas.
             Cai contínuo o sereno                   Na noite que viajo buscando a quadra,
            Delicioso verme no bico             Quadra perfeita que não vejo, estende o verso
          Leva pardoca para o ninho             Cada tom que de matiz surpreende vero anis.
                   Milho virá                     Cada pluma que me deste me fez aprendiz.
                 Tulha encherei                     E da pena, que pena, todo me emplumo
              Ano passará ligeiro                    Das dores de amores e me faço cantor.
         Guardarei dos companheiros                     Exclamo ao azul os dias felizes,
        De lida da terra o colher antes              As noites de prosa, do verso e da dor!
      Do trabalho deste seu companheiro                  E provoco, e me rio, e te conto
                                                           Segredo feliz que resposta:
                  Bem se vê                              Nada que faz pensar é bonito,
               Nos olhos a ânsia                         Nada que faz pensar é bonito.
              Nossos pequeninos
            Aguardando seu prato                        TEMPOS DE INOCÊNCIA
         Distante e sisudo se espanta              (um canto de esperança de quem espera
       Aquel’outro que canta: bem-te-vi          (por procurador da juventude silente, ainda)

            DE PÉ ME DEITO.                             Amanhã é o dia que não veio
                                                       Crescemos juntos e separados
  Eu te digo quem sou e o que fazes de mim?         Vimos as mesmas coisas diferentes
     Cantas tuas rimas, ou te afastas ou te          Amamos as mesmas coisas e não
                   aproximas.                         Criamos amizades nem sempre
                Fales sobre mim.                        Ouvimos as mesmas canções
  Eu te digo quem sou e o que fazes de mim?                 Minha amiga morreu
  Me cantas a metade, me encantas a metade                  Será quem a matou?
  Sou eu quem não fui ou você quem não viu?             Ou foi alguém quem não sei
 Eu te mostro quem sou e o que fazes de mim?               Ou fui eu quem não fui
 Me cortas, me deitas, me usas, me incendeias                Que será de mim?
    Me queimas, me queimas, me queimas.                       Minha inocência?
   Me impactas solenemente com teus bois.                     Minha liberdade?
  Me plantas com tuas estacas, teus tratores.              Quem cuidará de mim?
        Me dizes que sou... terra, enfim.              De minha juventude perdida?
E nem mais reconheço em mim a minha própria             Aquela que me arde o peito?
                    natureza!                    Os grandes homens se esqueceram de nós
              Me dizes quem sou?                  Perdem os nossos tempos em conversas
           Pois não sei mais de mim.                   Tão longas como suas velhices
   Mais digo que de ti sei mais que queria...       Tão curtas quanto suas esperanças
           De ti sei mais que queria.            Enquanto eles governam para os números
                                                          Quem respira somos nós
                DESABAFO                                   Quem vota somos nós
                                                        E isso podemos demonstrar.
     Nada que escrevo pode ser bonito.
     Talvez diferente, reverso, contrário.

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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                                Clarice Lispector
                                (Ruído de Passos)
                                          Passos)


  Do Livro: A VIA CRUCIS DO CORPO                 Tinha oitenta e um anos de idade. Chamava-se
                                                  dona Cândida Raposo. Essa senhora tinha a
Apresentação: Adriana Falcão                      vertigem de viver. A vertigem se acentuava
                                                  quando ia passar dias numa fazenda: a altitude,
"Sabia, gosto de você chegar assim, arrancando    o verde das árvores, a chuva, tudo isso a
páginas dentro de mim desde o primeiro dia."      piorava. Quando ouvia Liszt se arrepiava toda.
Chico Buarque
                                                  Fora linda na juventude. E tinha vertigem
        GOSTO QUANDO CLARICE chega assim          quando cheirava profundamente uma rosa.
e me dá uma rasteira.                             Pois foi com dona Cândida Raposo que o desejo
        Aconteceu com "Ruído de passos".          de prazer não passava.
        Comecei a me apaixonar por dona
Cândida Raposo nas primeiras linhas do conto.     Teve enfim a grande coragem de ir a um
        Quem não se apaixonaria por uma           ginecologista. E perguntou-lhe envergonhada,
velhinha de 8l anos que tem vertigem de viver?    de cabeça baixa:
        "A altitude", "o verde das árvores", "a
chuva", "arrepios com Liszt", "perfume de         - Quando é que passa?
rosa", e vamos compreendendo a vertigem de        - Passa o quê, minha senhora?
dona Cândida. Até que ela nos surpreende,         - A coisa.
quando vai ao consultório médico se queixar       - Que coisa?
que "ainda tem a coisa". Além de "a coisa",       - A coisa, repetiu. O desejo de prazer, disse
dona Cândida também se refere ao seu desejo       enfim.
de prazer como "o inferno". O diagnóstico do      - Minha senhora, lamento lhe dizer que não
médico é preciso: "é a vida."                     passa nunca.
        Quando achamos que era isso, que idéia
corajosa, um conto sobre uma velhinha             Olhou-o espantada.
aristocrática que ainda sente volúpia sexual, e
decide, sem mais alternativas, resolver seu       — Mas eu tenho oitenta e um anos de idade!
problema, sozinha, claro que Clarice vai além.    - Não importa, minha senhora. É até morrer.
        A filha que espera no carro, lá fora, o   - Mas isso é o inferno!
filho morto na guerra e "a intolerável dor no     - É a vida, senhora Raposo.
coração de sobreviver a um ser adorado", e lá
vou eu me apaixonando cada vez mais por essa      A vida era isso, então? Essa falta de vergonha?
dona Cândida, gente, bicho, ser vivo. E não é
que ela resolve se satisfazer sozinha, todas as   - E o que é que eu faço? Ninguém me quer
noites, "sempre triste", "esperando a benção da   mais...
morte"?
        O ruído de passos de seu marido,          O médico olhou-a com piedade.
Antenor Raposo, me assusta como um filme de
suspense.                                         - Não há remédio, minha senhora.
        E eu sinto a vida como um filme de        - E se eu pagasse?
suspense, e adoro e odeio minhas vertigens.       - Não ia adiantar de nada. A senhora tem que
                                                  se lembrar que tem oitenta e um anos de
              RUÍDO DE PASSOS                     idade.
                                                  - E... e se eu me arranjasse sozinha? O senhor
                                                  entende o que eu quero dizer?

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— É, disse o médico. Pode ser um remédio.           rica", peça em três atos, cujos originais foram
                                                    perdidos.    Seu    pai   resolve   adotar    a
Então saiu do consultório. A filha esperava-a       nacionalidade brasileira.
embaixo, de carro. Um filho Cândida Raposo          1931 - Inscreve-se para o exame de admissão
perdera na guerra, era um pracinha. Tinha essa      no Ginásio Pernambucano. Já escrevia suas
intolerável dor no coração: a de sobreviver a       historinhas, todas recusadas pelo Diário de
um ser adorado.                                     Pernambuco, que àquela época dedicava uma
                                                    página às composições infantis. Isso se devia
Nessa mesma noite deu um jeito e solitária          ao fato de que, ao contrário das outras
satisfez-se. Mudos fogos de artifícios. Depois      crianças, as histórias de Clarice não tinham
chorou. Tinha vergonha. Daí em diante usaria o      enredo e fatos — apenas sensações. Convive
mesmo processo. Sempre triste. É a vida,            com inúmeros primos e primas.
senhora Raposo, é a vida. Até a bênção da
morte.                                              1932 - É aprovada no exame de admissão e,
                                                    junto com sua irmã Tania e sua prima Bertha,
A morte.                                            ingressa no tradicional Ginásio Pernambucano,
                                                    fundado em 1825. Passa a visitar a livraria do
Pareceu-lhe ouvir ruído de passos. Os passos        pai de uma amiga. Lê "Reinações de Narizinho",
de seu marido Antenor Raposo.                       de Monteiro Lobato, que pegou emprestado, já
                                                    que não podia comprá-lo.
                                                    1935 - Viaja para o Rio, em companhia de sua
                                                    irmã Tania e de seu pai. No colégio Sílvio Leite,
                                                    cursa a quarta série ginasial. Lê romances
                                                    adocicados, próprios para sua idade.
            Clarice Lispector                       1936 - Termina o curso ginasial. Inicia-se na
                                                    leitura de livros de autores nacionais e
1920 - Clarice Lispector nasce em                   estrangeiros mais conhecidos, alugados em
Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de              uma biblioteca de seu bairro. Conhece os
dezembro, tendo recebido o nome de Haia             trabalhos de Rachel de Queiroz, Machado de
Lispector, terceira filha de Pinkouss e de Mania    Assis, Eça de Queiroz, Graciliano Ramos, Jorge
Lispector. Seu nascimento ocorre durante a          Amado, Dostoiévski e Júlio Diniz.
viagem de emigração da família em direção à
América.                                            1937 - Matricula-se no curso complementar
                                                    (dois últimos anos do curso secundário) visando
1922 - Chegam a Maceió em março desse ano.          o ingresso na Faculdade Nacional de Direito da
Por iniciativa de seu pai, à exceção de Tania —     Universidade do Brasil, hoje Universidade
irmã, todos mudam de nome: o pai passa a se         Federal do Rio de Janeiro.
chamar Pedro; Mania, Marieta; Leia — irmã,
Elisa; e Haia, em Clarice.                          1938      -   Transfere-se    para    o    curso
                                                    complementar do colégio Andrews, na praia de
1925 - A família muda-se para Recife,               Botafogo.     Às   voltas    com    dificuldades
Pernambuco, onde Pedro pretende construir           financeiras, dá aulas particulares de português
uma nova vida. A doença de sua mãe, Marieta,        e matemática. A relação professor/aluno seria
que ficou paralítica, faz com que sua irmã Elisa    um dos temas preferidos e recorrentes em toda
se dedique a cuidar de todos e da casa.             a sua obra — desde o primeiro romance: Perto
1928 - Passa a freqüentar o Grupo Escolar           do Coração Selvagem. Ao mesmo tempo,
João Barbalho, naquela cidade, onde aprende a       aprende datilografia e faz inglês na Cultura
ler.                                                Inglesa.
1930 - Morre a mãe de Clarice no dia 21 de          1939 - Inicia seus estudos na Faculdade
setembro. Nessa época, com nove anos,               Nacional de Direito. Faz traduções de textos
matricula-se    no    Collegio    Hebreo-Idisch-    científicos para revistas em um laboratório onde
Brasileiro, onde termina o terceiro ano primário.   trabalha como secretária. Trabalha, também
Estuda piano, hebraico e iídiche. Uma ida ao        como secretária, em um escritório de
teatro a inspira e ela escreve "Pobre menina        advocacia.


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1940 - Seu conto, Triunfo, é publicado em 25        1943 - Casa-se com o colega de faculdade
de maio no semanário "Pan", de Tasso da             Maury Gurgel Valente e termina o curso de
Silveira. Em outubro desse ano, é publicado na      Direito. Seu marido, por concurso, ingressa na
revista "Vamos Ler!", editada por Raymundo          carreira diplomática.
Magalhães Júnior, o conto Eu e Jimmy. Esses         1944 - Muda-se para Belém do Pará (PA),
trabalhos não fazem parte de nenhuma de suas        acompanhando seu marido. Fica por lá apenas
coletâneas. Após a morte de seu pai, no dia 26      seis meses. Seu livro recebe críticas favoráveis
de agosto, a escritora — talvez motivada por        de Guilherme Figueiredo, Breno Accioly, Dinah
esse acontecimento — escreve diversos contos:       Silveira de Queiroz, Lauro Escorel, Lúcio
A fuga, História interrompida e O delírio. Esses    Cardoso, Antonio Cândido e Ledo Ivo, entre
contos serão publicados postumamente em A           outros. Álvaro Lins publica resenha com reparos
bela e a fera, de 1979. Passa a morar com a         ao livro mesmo antes de sua publicação,
irmã Tania, já casada, no bairro do Catete.         baseado na leitura dos originais. Qualifica o
Consegue um emprego de tradutora no temido          livro de "experiência incompleta". Há os que
Departamento de Imprensa e Propaganda -             pretendem não compreender o romance, os
DIP, dirigido por Lourival Fontes. Como não         que procuram influências — de Virgínia Wolf e
havia vaga para esse trabalho, Clarice ganha o      James Joyce, quando ela nem os tinha lido — e
lugar de redatora e repórter da Agência             ainda os que invocam o temperamento
Nacional. Inicia-se, ai, sua carreira de            feminino. Nas palavras de Lauro Escorel, as
jornalista. No novo emprego, convive com            características do romance revelam uma
Antonio Callado, Francisco de Assis Barbosa,        "personalidade de romancista verdadeiramente
José Condé e, também, com Lúcio Cardoso, por        excepcional, pelos seus recursos técnicos e pela
quem nutre durante tempos uma paixão não            força da sua natureza inteligente e sensível." O
correspondida: o escritor era homossexual.          casal volta ao Rio e, em 13/07/44, muda-se
Com seu primeiro salário, entra numa livraria e     para Nápoles, em plena Segunda Guerra
compra "Bliss - Felicidade", de Katherine           Mundial, onde o marido da escritora vai
Mansfield, com tradução de Erico Verissimo,         trabalhar. Já na saída do Brasil, Clarice mostra-
pois sentiu afinidade com a escritora               se dividida entre a obrigação de acompanhar o
neozelandesa.                                       marido e ter de deixar a família e os amigos.
1941 - Em 19 de janeiro, publica a reportagem       Quando chega à Itália, depois de um mês de
"Onde se ensinará a ser feliz", no jornal "Diário   viagem, escreve: "Na verdade não sei escrever
do Povo", de Campinas (SP), sobra a                 cartas sobre viagens, na verdade nem mesmo
inauguração de um lar para meninas carentes         sei viajar." Termina seu segundo romance, O
realizada pela primeira-dama Darcy Vargas.          lustre. Recebe o prêmio Graça Aranha com
Além de textos jornalísticos, continua a publicar   Perto do coração selvagem, considerado o
textos literários. Cursando o terceiro ano de       melhor romance de 1943. Conhece Rubem
direito, colabora com a revista dos estudantes      Braga, então correspondente de guerra do
de sua faculdade, "A Época", com os artigos         jornal "Diário Carioca".
Observações sobre o fundamento do direito de
punir e Deve a mulher trabalhar? Passa a            1945 - Dá assistência a brasileiros feridos na
freqüentar o bar "Recreio", na Cinelândia,          guerra, trabalhando em hospital americano. O
centro do Rio de Janeiro, ponto de encontro de      pintor italiano Giorgio De Chirico pinta-lhe um
autores como Lúcio Cardoso, Vinicius de             retrato. Viaja pela Europa e conhece o poeta
Moraes, Rachel de Queiroz, Otávio de Faria, e       Giuseppe Ungaretti. O lustre é publicado no
muitos mais.                                        Brasil pela Livraria Agir Editora.
1942 - Começa a namorar com Maury Gurgel            1946 - Após o lançamento do livro, Clarice vem
Valente, seu colega de faculdade. Com 22 anos       ao Brasil como correio diplomático do Ministério
de idade, recebe seu primeiro registro              das Relações Exteriores, aqui ficando por quase
profissional, como redatora do jornal "A Noite".    três meses. Nessa época, apresentado por
Lê Drummond, Cecília Meireles, Fernando             Rubem Braga, conhece Fernando Sabino que a
Pessoa e Manuel Bandeira. Realiza cursos de         introduz a Otto Lara Resende, Paulo Mendes
antropologia brasileira e psicologia, na Casa do    Campos e, posteriormente, a Hélio Pellegrino.
Estudante do Brasil. Nesse ano, escreve seu         De volta à Europa, vai morar com a família em
primeiro romance, Perto do coração selvagem.

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Berna, Suíça, para onde seu marido havia sido      1952 - Cola grau na faculdade de direito,
designado como segundo-secretário. Sua             depois de muitos adiamentos. Volta a trabalhar
correspondência com amigos brasileiros a           em jornais, no período de maio a outubro,
mantinha a par das novidades, em especial as       assinando a página "Entre Mulheres", no jornal
trocadas com Fernando Sabino. A troca de           "Comício", sob o pseudônimo de "Tereza
cartas com o escritor, quase que diariamente,      Quadros". Atendeu a um pedido do amigo
duraria até janeiro de 1969. A convite, passam     Rubem Braga, um dos fundadores do jornal.
as festas de fim de ano com Bluma e Samuel         Nesse setembro, já grávida, embarca para a
Wainer, em Paris.                                  capital americana onde permanecerá por oito
1947 - Em carta às irmãs, em janeiro de 47,        anos. Clarice inicia o esboço do romance A veia
de Paris, Clarice expõe seu estado de              no pulso, que viria a ser A Maçã no Escuro,
inadaptação:"Tenho visto pessoas demais,           livro publicado em 1961.
falado demais, dito mentiras, tenho sido muito     1953 - Em 10 de fevereiro, nasce Paulo, seu
gentil. Quem está se divertindo é uma mulher       segundo filho. Ela continua a escrever A Maçã
que eu detesto, uma mulher que não é a irmã        no Escuro, em meio a conflitos domésticos e
de vocês. É qualquer uma." Em carta a Lúcio        interiores. Mãe, Clarice Lispector divide seu
Cardoso, que havia lhe enviado seu livro           tempo entre os filhos, A Maçã no Escuro, os
"Anfiteatro", demonstra sua admiração pelas        contos de Laços de Família e a literatura
personagens femininas da obra.                     infantil. Nos Estados Unidos, Clarice conhece o
1948 - Clarice fica grávida de seu primeiro        renomado escritor Erico Veríssimo e sua esposa
filho. Para ela, a vida em Berna é de miséria      Mafalda, dos quais torna-se grande amiga. O
existencial. A Cidade Sitiada, após três anos de   escritor gaúcho e sua esposa são escolhidos
trabalho, fica pronto. Terminado o último          para padrinhos de Paulo. Não tem sucesso seu
capítulo, dá à luz. Nasce então um                 projeto de escrever uma crônica semanal para
complemento ao método de trabalho. Ela             a revista "Manchete". Tem a agradável notícia
escreve com a máquina no colo, para cuidar do      de que seu romance Perto do coração selvagem
filho. Na crônica "Lembrança de uma fonte, de      seria traduzido para o francês.
uma cidade", Clarice afirma que, em Berna, sua     1954 - É lançada a primeira edição francesa de
vida foi salva por causa do nascimento do filho    Perto do coração selvagem, pela Editora Plon,
Pedro, ocorrido em 10/09/1948, e por ter           com capa de Henri Matisse, após inúmeras
escrito um dos livros "menos gostados" (a          reclamações da escritora sobre erros na
editora Agir recusara a publicação).               tradução. Em julho, com os filhos, viaja para o
1949 - Clarice volta ao Rio. Seu marido é          Brasil, aqui ficando até setembro. De volta aos
removido para a Secretaria de Estado, no Rio       Estados Unidos, interrompe a elaboração de A
de Janeiro. A cidade sitiada é publicado pela      maçã no escuro e se dedica, por cinco meses, a
editora "A Noite". O livro não obtém grande        escrever seis contos encomendados por Simeão
repercussão entre o público e a crítica.           Leal.

1950 - Escrevendo contos e convivendo com          1955 - Retorna a escrever o novo romance e
os amigos (Sabino, Otto, Lúcio e Paulo M.          contos. Sabino, que leu os seis contos feitos
Campos), vê chegar a hora de partir: seguindo      sob encomenda, os acho "obras de arte".
os passos de seu marido, retorna à Europa,         1956 - Termina de escrever A Maçã no Escuro
onde mora por seis meses na cidade de              (até então com o titulo de A veia no pulso).
Torquay,   Inglaterra.    Sofre   um    aborto     Érico Veríssimo e família retornam ao Brasil,
espontâneo em Londres. É atendida pelo vice-       não sem antes aceitarem serem os padrinhos
cônsul na capital inglesa, João Cabral de Melo     de Pedro e Paulo. Entre os escritores, inicia-se
Neto.                                              uma vasta correspondência. A escritora e filhos
1951 - A escritora retorna ao Rio de Janeiro,      vêm passar as férias no Brasil e Clarice
em março. Publica uma seleta com seis contos       aproveita para tentar a publicação de seu novo
na coleção "Cadernos de cultura", editada pelo     romance e os novos contos. Apesar de todo o
Ministério da Educação e Saúde. Falece sua         empenho de Fernando Sabino e Rubem Braga,
grande amiga Bluma, ex-esposa de Samuel            os livros não são editados. A escritora dá sinais
Wainer.                                            de sua indisposição para com o tipo de vida
                                                   que leva.

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1957 - Rompe unilateralmente o contrato com         mais tarde tradutor para o inglês de A maçã no
Simeão Leal e autoriza Sabino e Braga a             escuro. A paixão segundo G. H. é escrito em
encaminharem seus contos — nessa altura em          poucos meses, sendo entregue à Editora do
número de quinze — para serem publicados no         Autor, de Sabino e Braga, para publicação.
"Suplemento Cultural" do jornal "O Estado de        Compra um apartamento em construção no
São Paulo". Seu casamento vive momentos de          bairro do Leme.
tensão.                                             1964 - Publica o livro de contos A legião
1958 - Conhece e se torna amiga da pintora          estrangeira e o romance A Paixão Segundo G.
Maria Bonomi. É convidada a colaborar com a         H., ambos pela Editora do Autor. Em dezembro,
revista "Senhor", prevista para ser lançada no      o juiz profere a sentença que poria fim ao
início do ano seguinte. Erico Verissimo escreve     processo de separação de Clarice e Maury.
informando estar autorizado a editar seu            1965 - Em maio, muda-se para o apartamento
romance e, também, seus contos pela Editora         comprados em 1963. Sua obra passa a ser vista
Globo, de Porto Alegre. 1.000 exemplares —          com outros olhos — pela crítica e pelo público
dos mais de 1.700 remanescentes — de "Près          leitor — após A paixão segundo G. H. Resultado
du coeur sauvage" são incinerados, por falta de     de uma seleta de trechos de seus livros,
espaço de armazenamento. O casamento de             adaptados por Fauzi Arap, é encenada no
Clarice dá sinais de seu final.                     Teatro Maison de France o espetáculo Perto do
1959 - Separa-se do marido e, em julho,             coração selvagem, com José Wilker, Glauce
regressa ao Brasil com seus filhos. Seu livro       Rocha e outros. Dedica-se à educação dos
continua inédito. A escritora resolve comprar o     filhos e com a saúde de Pedro, que apresenta
apartamento onde está residindo, no bairro do       um quadro de esquizofrenia, exigindo cuidados
Leme, e, para isso, busca aumentar seus             especiais. Apesar de traduzida para diversos
ganhos. Sob o pseudônimo de "Helen Palmer",         idiomas e da republicação de diversos livros, a
inicia, em agosto, uma coluna no jornal             situação financeira de Clarice é muito difícil.
"Correio da Manhã", intitulada "Correio             1966 - Na madrugada de 14 de setembro a
feminino — Feira de utilidades".                    escritora dorme com um cigarro aceso ,
1960 - Publica, finalmente, Laços de Família,       provocando um incêndio. Seu quarto ficou
seu primeiro livro de contos, pela editora          totalmente      destruído.     Com   inúmeras
Francisco Alves. Começa a assinar a coluna "Só      queimaduras pelo corpo, passou três dias sob o
para Mulheres", como "ghost-writer" da atriz        risco de morte — e dois meses hospitalizada.
Ilka Soares, no "Diário da Noite", a convite do     Quase tem sua mão direita — a mais afetada —
jornalista Alberto Dines. Assina, com a             amputada pelos médicos. O acidente mudaria
Francisco Alves, novo contrato para a               em definitivo a vida de Clarice.
publicação de A maçã no escuro. Torna-se            1967 - As inúmeras e profundas cicatrizes
amiga da escritora Nélida Piñon.                    fazem com que a escritora caia em depressão,
1961 - Publica o romance A maçã no escuro.          apesar de todo o apoio recebido de seus
Recebe o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira        amigos. Não foi só um ano de acontecimentos
do Livro, por Laços de família                      ruins. Começa a publicar em agosto — a
1962 - Passa a assinar a coluna "Children's         convite de Dines — crônicas no "Jornal do
Corner", da seção "Sr. & Cia.", onde publica        Brasil", trabalho que mantém por seis anos.
contos e crônicas. Visita, com os filhos, seu ex-   Lança o livro infantil O mistério do coelho
marido que se encontra na Polônia. Recebe o         pensante, pela José Álvaro Editor. Em
prêmio Carmen Dolores Barbosa (oferecido pela       dezembro, passa a integrar o Conselho
senhora paulistana de mesmo nome), por A            Consultivo do Instituto Nacional do Livro.
maçã no escuro, considerado o melhor livro do       1968 - Em maio, o livro O mistério do coelho
ano.                                                pensante é agraciado com a "Ordem do
1963 - A convite, profere no XI Congresso           Calunga", concedido pela Campanha Nacional
Bienal do Instituto Internacional de Literatura     da Criança. Entrevista personalidades para a
Ibero-Americana, realizado em Austin - Texas,       revista "Manchete" na seção "Diálogos possíveis
conferência sobre o tema "Literatura de             com      Clarice  Lispector".   Participa   da
vanguarda no Brasil. Conhece Gregory Rabassa,       manifestação contra a ditadura militar, em


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junho, chamada "Passeata dos 100 mil".            em outras coletâneas. Alberto Dines, em carta
Morrem seus amigos e escritores Lúcio Cardoso     à escritora, diz sobre Água viva: "[...] É menos
e Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). É         um livro-carta e, muito mais, um livro música.
nomeada assistente de administração do            Acho que você escreveu uma sinfonia". Viaja à
Estado. Profere palestras na Universidade         Europa com a amiga Olga Borelli. Clarice deixa
Federal de Minas Gerais e na Livraria do          de colaborar com o "Jornal do Brasil", face à
Estudante, em Belo Horizonte. Publica A mulher    demissão de Alberto Dines, no mês de
que matou os peixes, outro livro infantil,        dezembro.
ilustrado por Carlos Scliar.                      1974 - Para manter seu nível de renda,
1969 - Publica seu "hino ao amor": Uma            aumenta sua atividade como tradutora. Verte,
aprendizagem ou O livro dos prazeres, pela        entre outros, "O retrato de Dorian Gray", de
Editora Sabiá. O romance ganha o prêmio           Oscar Wilde, adaptado para o público juvenil,
"Golfinho de Ouro", do Museu da Imagem e do       pela Ediouro. Publica, pela José Olympio
Som. Viaja à Bahia onde entrevista para a         Editora, outro livro infantil, A vida íntima de
"Manchete" o escritor Jorge Amado e os artistas   Laura e dois livros de contos, pela Artenova: A
Mário Cravo e Genaro. Em 14/08 é aposentada       via crucis do corpo e Onde estivestes de noite.
pelo INPS - Instituto Nacional de Previdência     Uma curiosidade: a primeira edição de Onde
Social. Seu filho Paulo, mora nos Estados         estivestes de noite foi recolhida porque foi
Unidos desde janeiro, num programa de             colocado, erroneamente, um ponto de
intercâmbio cultural. Seu irmão Pedro, em         interrogação no título. Seu cão, Ulisses, lhe
tratamento psiquiátrico, esteve internado por     morde o rosto, fazendo com que se submeta a
um mês, em junho.                                 cirurgia plástica reparadora. Lê, em Brasília
1970 - Começa a escrever um novo romance,         (DF), a convite da Fundação Cultural do Distrito
com o título provisório de Atrás do               Federal, a conferência "Literatura de vanguarda
pensamento: monólogo com a vida. Mais             no Brasil", que já apresentara no Texas.
adiante, é chamado Objeto gritante. Foi           Participa, em Cali — Colômbia, do IV Congresso
lançado com o título definitivo de Água viva.     da Nova Narrativa Hispano-americana. Seu
Conhece Olga Borelli, de que se tornaria grande   filho, Paulo, vai morar sozinho, em um
amiga.                                            apartamento próximo ao da escritora. Pedro vai
                                                  morar com o pai, em Montevidéu — Uruguai.
1971 - Publica a coletânea de contos Felicidade
clandestina, volume que inclui O ovo e a          1975 - Tendo como companheira de viagem a
galinha, escrito sob o impacto da morte do        amiga Olga Borelli, participa do I Congresso
bandido Mineirinho, assassinado pela polícia      Mundial de Bruxaria, em Bogotá, Colômbia. No
com treze tiros, no Rio de Janeiro. Há, também,   dia de sua apresentação sente-se indisposta e
um conjunto de escritos em que rememora a         pede a alguém que leia o conto O ovo e a
infância em Recife. Encarrega o professor         galinha, não apresentando a fala sobre a magia
Alexandre Severino da tradução, para o inglês,    que havia preparado para a introdução da
de Atrás do pensamento: monólogo com a vida.      leitura. Muito embora minimizada, essa
Dez de seus contos já publicados constam de       participação tem muito a ver com as palavras
"Elenco de cronistas modernos", lançado pela      ditas por Otto Lara Resende, conhecido
Editora Sabiá.                                    escritor, em um bate-papo com José Castello:
                                                  "Você deve tomar cuidado com Clarice. Não se
1972 - Retoma a revisão de Atrás do               trata de literatura, mas de bruxaria." Otto se
pensamento, com o qual não estava satisfeita.     baseava em estudos feitos por Claire Varin,
Faz inúmeras alterações no texto e passa a        professora de literatura canadense que
chamá-lo Objeto gritante. Repensando o            escreveu dois livros sobre a biografada.
romance, procura distrair-se. Durante um mês      Segundo ela, só é possível ler Clarice tomando
posa para o pintor Carlos Scliar, em Cabo Frio    seu lugar — sendo Clarice. "Não há outro
(RJ).                                             caminho", ela garante. Para corroborar sua
1973 - Publica o romance Água viva, após três     tese, Claire cita um trecho da crônica A
anos de elaboração, pela Editora Artenova, que    descoberta do mundo, onde a escritora diz: "O
lançaria também, nesse ano, A imitação da         personagem leitor é um personagem curioso,
rosa, quinze contos já publicados anteriormente   estranho. Ao mesmo tempo que inteiramente
                                                  individual e com reações próprias, é tão

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terrivelmente ligado ao escritor que na verdade     entrevista feita com a artista Elke Maravilha, a
ele, o leitor, é o escritor." Traduz romances,      primeira de uma série que se estenderia até
como "Luzes acesas", de Bella Chagall, "A           outubro de 1977.
rendeira", de Pascal Lainé, e livros policiais de   1977 - A revista "Fatos e Fotos Gente" publica,
Agatha Christie. Ao longo da década, faz            em janeiro, entrevista feita pela escritora com
adaptações de obras de Julio Verne, Edgar           Mário Soares, primeiro-ministro de Portugal. O
Allan Poe, Walter Scott e Jack London e Ibsen.      jornal "Última Hora" passa a publicar, a partir
Lança Visão do esplendor, com trabalhos já          de fevereiro, semanalmente, as suas crônicas.
publicados na coluna "Children's Corner", da        Ainda nesse mês, é entrevistada pelo jornalista
revista "Senhor" e também no "Jornal do             Júlio Lerner para o programa "Panorama
Brasil". Publica De corpo inteiro, com algumas      Especial", TV Cultura de São Paulo, com o
entrevistas que fizera anteriormente para           compromisso de só ser transmitida após a sua
revistas cariocas. É muito elogiada quando          morte. Escreve um livro para crianças, que
visita Belo Horizonte, fato que a deixa             seria publicado em 1978, sob o título Quase de
contrariada. Passa a dedicar-se à pintura.          verdade. Escreve, ainda, doze histórias infantis
Morre, dia 28 de novembro, seu grande amigo         para o calendário de 1978 da fábrica de
e compadre Erico Verissimo. Reúne trabalhos         brinquedos "Estrela", intitulado Como nasceram
de Andréa Azulay num volume artesanal               as estrelas. Vai à França e retorna
ilustrado por Sérgio Mata, intitulado "Meus         inesperadamente. Publica A hora da estrela,
primeiros contos". Andréa tinha, então, dez         pela José Olympio, com introdução — "O grito
anos de idade.                                      do silêncio" — de Eduardo Portella. Esse livro
1976 - Seu filho Paulo casa-se com Ilana            seria adaptado para o cinema, em 1985, por
Kauffmann. Participa, em Buenos Aires,              Suzana Amaral. A editora Ática lança nova
Argentina, da Segunda Exposición — Feria            edição de A legião estrangeira, com prefácio de
Internacional del Autor al Lector, onde recebe      Affonso Romano de Sant'Anna.
muitas homenagens. É agraciada, em abril,           Clarice morre, no Rio, no dia 9 de dezembro de
com o prêmio concedido pela Fundação Cultural       1977, um dia antes do seu 57° aniversário
do Distrito Federal, pelo conjunto de sua obra.     vitimada por uma súbita obstrução intestinal,
Grava depoimento no Museu da Imagem e do            de origem desconhecida que, depois, veio-se a
Som, no Rio de Janeiro, em outubro, conduzido       saber,     ter    sido   motivada    por    um
por Affonso Romano de Sant'Anna, Marina             adenocarcinoma de ovário irreversível. O
Colasanti e por João Salgueiro, diretor do MIS.     enterro aconteceu no Cemitério Comunal
Em maio, corre o boato de que a escritora não       Israelita, no bairro do Caju, no dia 11. Vai ao
mais receberia jornalistas. José Castello,          ar, pela TV Cultura, no dia 28/12, a entrevista
biógrafo e escritor, nessa época trabalhando no     gravada em fevereiro desse ano.
jornal "O Globo", mesmo assim telefona e            1978 - Três livros póstumos são publicados: o
consegue marcar um encontro. Após muitas            romance Um sopro de vida — Pulsações, pela
idas e vindas é recebido. Trava então o             Nova Fronteira, a partir de fragmentos em
seguinte diálogo com Clarice:                       parte reunidos por Olga Borelli; o de crônicas
J.C. "— Por que você escreve?                       Para não esquecer, e o infantil, Quase de
C.L. "— Vou lhe responder com outra pergunta:       verdade, em volume autônomo, pela Ática.
— Por que você bebe água?"                          Para não esquecer é composto de crônicas que
                                                    haviam sido publicadas na segunda parte do
J.C. "— Por que bebo água? Porque tenho             livro A legião estrangeira, em 1964, que
sede."                                              compunham a seção "Fundo de Gaveta" do
C.L. "— Quer dizer que você bebe água para          citado livro. A hora da estrela é agraciada com
não morrer. Pois eu também: escrevo para me         o prêmio Jabuti de "Melhor Romance". A paixão
manter viva."                                       sendo G. H. é publicada na França, com
                                                    tradução de Claude Farny.
Enquanto escreve A hora da estrela com a a
ajuda da amiga Olga, toma notas para o novo         1979 - É publicado A bela e a fera, pela Nova
romance, Um sopro de vida. Revê Recife e            Fronteira,   contendo    contos     publicados
visita parentes. Em dezembro, "Fatos e Fotos        esparsamente em jornais e revistas. Estréia, no
Gente", revista do grupo "Manchete", publica        teatro Ruth Escobar, em São Paulo, Um sopro

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de vida, baseado em livro de mesmo nome,          Bibliotèque des voix", fita cassete com trechos
com adaptação de Marilena Ansaldi e direção       de La passion selon G. H., lidos pela atríz Anouk
de José Possi Neto.                               Aimée.
1981 - "Clarice Lispector — Esboço para um        1985 - A hora da estrela recebe dois prêmios
retrato", de Olga Borelli, é lançado pela Nova    na 36ª edição do Festival de Berlim: da
Fronteira.                                        Confederação Internacional de Cineclubes —
1984 - Reunindo a quase totalidade de             Cicae, e da Organização Católica Internacional
crônicas publicadas no Jornal do Brasil, no       do Cinema e do Audiovisual — Ocic. O longa-
período de 1967 a 1973, é lançado "A              metragem de mesmo nome, dirigido por
descoberta do mundo", organização de Paulo        Suzana Amaral, com roteiro de Alfredo Oros
Gurgel Valente, filho da autora. A Éditions des   também é premiado: Marcélia Cartaxo recebe o
Femmes, da França, lança, em sua coleção "La      Urso de Prata de "Melhor Atriz".




                                  Pedro Ornellas
                                       (A Lágrima na
                                           Trova)

Trovador é poeta, poeta é sensível, poeta                   Chora o pobre, o rico chora,
chora, poeta sente quando outros choram...                uns por muito, outros por nada!

Por isso a lágrima está presente nos versos do    Quantas lágrimas e por quem você já chorou?
trovador, quer sejam as suas, quer as de          Não pergunte à Clenir Neves Ribeiro – Nova
outros, quer as que só ele consegue ver           Friburgo RJ:
brotando de olhos figurativos.
                                                               Tanta lágrima perdida
Reinaldo Aguiar, grande poeta potiguar,                    para esquecer me empenhei,
percebeu a força de comunicação que tem a                   que já nem sei nesta vida,
lágrima:                                                   porquê e por quem eu chorei!

            A lágrima, na verdade,                A dor é expressa na lágrima, certo? Nem
            por seu poder infinito,               sempre, diz a poeta gaúcha Delcy Canalles:
            traduz com fidelidade
          o que não pode ser dito...                           A lágrima mais doída
                                                            não é a que aos olhos vem,
E ela tem mesmo grande poder de persuasão,                   mas a que fica escondida
admitido prontamente pela Darly O. Barros, de               sem se mostrar a ninguém!
São Paulo:
                                                  O saudoso Newton Meyer, de Pouso Alegre MG,
          Meu perdão foi em tributo               concorda e lamenta não ter chorado:
          a uma lágrima suspensa:
           – um detalhe diminuto                        “Homem que é homem, não chora!”
          mas, que fez a diferença!                          – obedeci, sem defesas.
                                                            Pergunto: o que faço agora
Que todo mundo chora, todo mundo sabe...                   com tantas lágrimas presas?!
mas por que todo mundo chora?
O grande poeta A.A. de Assis, Maringá PR, tem     Na definição da saudade feita por Alberto Isaías
seu palpite:                                      Ramires – ES ela se faz presente:

          Noite e dia, mundo afora,                         Saudade - um berço vazio,
          quanta lágrima chorada...                           uma lágrima, uma dor;

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             coração sentindo frio                            é uma lágrima infinita
          longe da chama do amor...                      que Deus chorou sobre o mundo!

Numa das trovas mais expressivas que já           Rodolpho Abud – Nova Friburgo descreve um
conheci, Mário Peixoto - RJ, contou ao            tipo de lágrima que não seca nunca:
descobrir
que até o homem mais forte do mundo chora:                   Alcançando a eternidade,
                                                              dia e noite ela palpita:
          Eu vi meu Pai derramando                             A lágrima da saudade
           uma lágrima em segredo.                            tem dimensão infinita!
            Era uma fonte brotando
          pela fresta de um rochedo.              Para o Waldir Neves - RJ, a lágrima travestida
                                                  de saudade, é um caminho com destino certo:
E falando em descoberta, o imortal Waldir
Neves, do Rio, flagrou, fotografou e revelou um                Saudade é gota caída,
segredo guardado a sete chaves:                             é pranto que ninguém vê:
                                                              -É uma lágrima sentida
            É uma lágrima sentida                           que leva sempre a você. ...
          que toda mulher enxuga:
           a que lhe rola escondida               Ás vezes o próprio motivo da dor suprime a
          por sobre a primeira ruga!              lágrima. Pedro Ornellas – SP, descreve assim o
                                                  drama do retirante:
Heron Patrício, de São Paulo, deixa por
prevenção seu conforto para a amada, caso                   Ao partir, deixando norte,
venha a chorar sua partida:                                   uma lágrima ensaiou,
                                                             mas a seca era tão forte
          Sobre a minha campa nua,                          que até seu pranto secou!
            se tu chegares, amor,
            em cada lágrima tua,                  Cyroba B. O. Ritzmann - PR inveja a lágrima e
            há de brotar uma flor!                explica por que:

Não sei se o poeta imagina o que vê ou de vê o               Tão livre pelo meu rosto
que imagina... Pedro Ornellas, São Paulo, teve                 sinto a lágrima rolar.
a impressão de ver, ou quem sabe tenha                       Quando, terei eu, o gosto
mesmo visto o que diz nesta trova:                            de também me libertar?

        O trem partindo... um aceno...            Quem chora mais, o homem ou a mulher? A
         e ao retornar pela estrada,              resposta é óbvia para a Divenei Boseli - São
             vi lágrimas de sereno                Paulo:
          nos olhos da madrugada!
                                                               Uma lágrima, sequer,
Vanda Fagundes Queiroz – Curitiba          PR,             eu vi no adeus...Nem depois.
consegue acomodar a lua numa lágrima.                      Não faz mal...eu sou mulher,
                                                            posso chorar por nós dois!
            Essa lágrima suspensa
            reflete a luz do luar...              Alguns, na falta de lágrimas, choram trovas. É o
           parece que a lua imensa                que afirma Antonio Salomão - PR:
            naufraga no teu olhar!
                                                             A trova é gota de pranto
Mas há quem consiga dar a ela uma dimensão                 que cai dos olhos de alguém
ainda maior. Lilinha Fernandes, por exemplo:                e por alguém chorou tanto
                                                           que nem mais lágrimas tem
          O mar que geme e palpita
          no seu tormento profundo

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Não há como esconder sentimentos quando a                  Pedro Ornellas é poeta dedicado ao
lágrima assina a mensagem, revela José             cultivo de trova, isto é, o poema monostrófico
Ouverney, Pindamonhangaba - SP:                    de 4 versos em redondilhas menores. Neste
                                                   gênero, Pedro Ornellas consagrou-se junto à
           Expulsando a maquiagem,                 União Brasileira de Trovadores, onde é
             a lágrima veio, pura,                 conhecido como um grande trovador. Neste
         e pousou sobre a mensagem,                movimento, Pedro Ornellas ingressou na
           no lugar da assinatura!...              década de 80, após desligar da FEBET
                                                   (Federação Brasileira de Entidades Trovistas),
Renata Paccola – São Paulo, indica a melhor        entidade da qual participou da fundação com
maneira de lidar com o motivo da lágrima:          Eno Teodoro Wanke e outros escritores.
                                                           Na UBT, Pedro Ornellas alcançou grande
           Uma lágrima que escorre                 projeção, sendo premiado em diversos
        traz mais brilho à própria face            certames de trova, a maioria conhecida como
          se a cada sonho que morre                "Jogos Florais". Em Nova Friburgo, (década de
        há um novo sonho que nasce!                90) obteve o título de "Magnífico Trovador" no
                                                   gênero lírico/filosófico, após três classificações
Encerro com uma cena que todo mundo viu,           subsequentes entre os 10 primeiros colocados.
mas só o poeta entendeu. Pedro Ornellas - SP:      Em 2003, obteve novamente o título de
                                                   Magnífico Trovador após três classificações no
           Novo rumo, despedida...                 gênero humorístico.
         e ao pressentir minhas dores,                     Conforme supracitado, Pedro Ornellas
             a paineira entristecida               venceu muitos concursos de trova, logrando
           chora lágrimas de flores!               centenas de prêmios. Entre todas as suas
                        .                          premiações, no entanto, destacam-se as
                                                   obtidas na cidade fluminense de Nova Friburgo,
                                                   nos seus importantes Jogos Florais, o mais
                                                   antigo concurso literário realizado no Brasil,
                                                   ininterruptamente desde 1960.
                                                           Pedro         Ornellas       destacou-se
                 Pedro Ornellas
                                                   principalmente no gênero humorístico, no qual
       Pedro Ornellas (Nome artístico de Pedro
                                                   obteve seis vezes o 1o. lugar, a saber, em
Augusto de Ornellas) é um poeta, compositor e
                                                   1984, 1987, 1993, 1998, 2001 e 2003, além de
cantor de música caipira, nascido em Marialva,
                                                   vencedor entre o 2o. e o 5o. lugar, menções
estado do Paraná, em 1952, e radicado na
                                                   honrosas e menções especiais.
cidade de São Paulo.
                                                           Pedro Ornellas também se dedica ao
                                                   soneto, gênero que cultiva menos


                                    Branca Tirollo
                                  (Não Brinque com
                                       o Fogo)
       Notei a porta entreaberta. Não era o        ela, a pequenina luz desapareceu. De repente
vento a tocá-la. O ar estava parado, e as folhas   tudo escureceu e na negridão da noite eu me
do coqueiro, silenciosa. Levantei-me do sofá e     senti perdida. Pensava estar caminhando de
caminhei até a varanda. Então, notei uma luz       volta, mas sentia que o caminho de volta ficava
bem pequenina por trás das montanhas. Não          mais distante.
havia estrelas no céu, nem a lua estava                    Caminhei, caminhei, e quando dei por
exposta. Havia algumas nuvens escuras.             conta, estava à beira de um grande rio. Quase
       A luz me atraia cada vez mais, e            não enxergava, mas ouvia nitidamente o som
lentamente caminhando, cruzei a avenida.           das águas que bravas desciam para o mar.
       Do outro lado havia uma arvore
pequena e enquanto voltei meus olhos para

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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        Meus pés estavam machucados. Não          para limpar a sujeira, mas foi bem melhor do
tinha colocado os sapatos quando fui atraída      que estar perdida num lugar qualquer.
pela porta se abrindo.
        Eu não reconhecia o rio e tinha certeza
de que não estava em minha cidade, pois lá
não havia nenhum rio grande.
        Mas eu lembrei de um fato muito                        Branca Tirollo
importante: eu tinha deixado alguma coisa no      Branca Tirollo é Atriz de Teatro, Roteirista, e
fogão, acho que estava cozinhando algo. Só        Escritora. Presidente da Academia de Letras do
não me lembrava o que era.                        Brasil/ Piracicaba. Revolucionária desde sua
        Cada minuto que passava, sentia que a     mocidade, sempre praticou trabalho voluntário,
água daquele rio misterioso subia com muita       lutando pelo bem estar social. Empresária no
força. Já estavam molhados, os meus pés.          ramo de confecções há mais de vinte anos,
Ainda estava escuro e eu não enxergava nada.      abandonou a carreira profissional para levar
        De repente ouço um estouro: PUF!          adiante a carreira artística, cujo sonho de sua
        Nossa! Eu tinha adormecido no sofá que    mocidade, estava adormecido. Voltou a fazer
fica na copa, observando o gás aceso.             teatro, onde desenvolveu alguns projetos de
        Lá tinha se ido a minha panela de         sua autoria. A maioria de suas Peças Teatrais,
pressão. Hilariante! Precisei gastar muita água   são temas voltados para as questões do Meio
                                                  Ambiente.



                                        Dinair Leite
                                          (Trovas)


          O meu pai, bom trovador,                          que se abriu para o poeta
           trovava como ninguém                            deixou passar em cadência,
          hoje faz trova ao Senhor                             trovas da lira seleta
          nos campos azuis, além.
                                                                O poeta se despede
         Essa mão que lavra a terra                           da trova, poesia amada
         planta no chão a semente.                            Com devoção ele cede
         A benção de Deus encerra,                             sua obra, imortalizada
         pois mata a fome da gente.
                                                             Foi o poeta! Se chora...
     Confraria dos Poetas Encantados                       Quedou da rosa o perfume
                                                          que invadiu belo anjo que ora
          Extinguiu-se a flor do lume
                                                            pro poeta e acende lume!
           Do poeta expira o canto
           Qual menino vaga-lume,                          No último canto o queixume,
         chega ao céu e vira encanto                         por ele que foi embora
                                                           Na terra a flor, e o perfume
            O poeta pousa a lira
                                                               o anjo recolhe agora
            e se apaga sua tocha
           A sua arte aqui expira,                            Na terra ele virou flor,
          porém no céu desabrocha                          plantada por triste ausência
                                                            Deixou versos, deu amor
         Quando o poeta atravessa
                                                           e a Jesus deu sua essência
          para o outro lado da vida
       Chega ao céu leve e com pressa                       No morno sopro do vento,
           de prosseguir sua lida                            passarinho em revoada,
                                                             para viver novo evento,
           A nuvem azul-hortência
 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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             cantar a Deus em toada                      página cultural no Jornal de Poesia (do MPN), e
                                                         Revista Bali (do Kleber Leite - Itaocara/RJ).
           Murchou rosa, chorou trova                             No início de outubro o SESC promoveu a
             e o poeta emudeceu...                       28ª edição da Feira de Livros do SESC 2009 -
            Despertou em vida nova,                      Literatura e Jornalismo, na qual Dinair
              onde a rosa reviveu                        participou com a exposição de Livros Raros e
               O poeta emudeceu,                         Antigos, de seu acervo. Convidada a compor a
              dormiu sua inspiração                      homenagem Euclidiana, declamou as 10 trovas
              Mas no céu apareceu                        premiadas no concurso Cantagalo (Euclides da
              de lira e rosa na mão                      Cunha), o que estimulou muitos alunos
                                                         presentes a se interessarem pela feliz arte da
            A dor o meu peito invade,                    trova!
            ao ver tudo assim deserto                    A escritora Dinair Leite assumiu mais um cargo
            Mas lembro a sua saudade                     literário na cidade. Ela foi nomeada delegada
            de ouvir estrelas de perto                   municipal da UBT (União Brasileira de
            Na vida vibra seu verso...                   Trovadores) tendo como padrinho o vice-
             O poeta compõe, canta!                      presidente nacional da entidade Tadeu Haggen.
             Planta amor no universo                     Oradora da A.L.A.P. (Academia de Letras e
           e jamais morre, se encanta.                   Artes de Paranavaí), o que muito honra o
                                                         núcleo cultural local. A poetisa Dinair é membro
                                                         do MPN há 15 anos, onde sua obra é
                                                         apresentada em saraus e reuniões. Sua filha
                                                         Cristina Leite Goetten, é vice-presidente da
                 Dinair Leite                            A.L.A.P., assessora de Dinair nos trabalhos
                                                         culturais.
      Delegada    em    Paranavaí/PR,    do
Movimento Poético Nacional, colaboradora da



                                            Academia
                                           De Letras de
                                            Rondônia
         Academia de Letras de Rondônia –                da região. A seguir, a relação dos Acadêmicos
ACLER é uma entidade cultural, sem fins                  presentes à reunião de fundação da Academia,
lucrativos e de duração indeterminada, que tem           realizada no auditório da Biblioteca José Pontes
sua sede e foro na cidade de Porto Velho,                Pinto: Abnael Machado de Lima, Ary Tupinambá
capital do Estado de Rondônia. Foi fundada aos           Pena Pinheiro, Amizael Gomes da Silva, Bolívar
dez dias do mês de junho de hum mil                      Marcelino, Edson Jorge Badra, Emmanuel
novecentos e oitenta e seis. Sua fundação foi            Pontes Pinto, Esron Penha de Meneses, Eunice
fruto da iniciativa de um grupo de cidadãos,             Bueno da Silva e Souza, Gesson Álvares de
oriundos de diferentes segmentos da sociedade            Magalhães, Hélio Fonseca, José Calixto de
rondoniense, autores que contribuíram e                  Medeiros, José Valdir Pereira, Matias Alves
contribuem para a formação da literatura                 Mendes, Paulo Nunes Leal, Raymundo Nonato
rondoniense e brasileira, historiadores e críticos       de Castro e Vitor Hugo. Por ocasião desta
literários, cientistas sociais, jornalistas, políticos   reunião, em 10 de junho de 1986, deliberaram
e cientistas, cujas obras e vida profissional            os presentes nomear o Desembargador Hélio
constituem uma referência em suas respectivas            Fonseca para dirigir os trabalhos.
áreas.                                                           Assim sendo, a reunião foi conduzida
         Decidiram, com essa iniciativa, prover o        pelo desembargador Hélio Fonseca, que logo
Estado de Rondônia de uma instituição cultural           colocou em discussão os seguintes assuntos:
capaz de promover o cultivo dos livros e                 nome da entidade, composição da comissão
incentivar as atividades intelectuais e culturais        responsável pela elaboração do anteprojeto do

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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Estatuto da Academia, horário, local e datas      membros beneméritos e membros honorários,
das próximas reuniões. Após análise e             sendo as vagas preenchidas de acordo com
discussão da pauta, os presentes deliberaram,     critérios previstos no Estatuto. O quadro de
por unanimidade: a entidade cultural, fundada     Patronos é composto de escritores já falecidos,
na ocasião pelos presentes, chamar-se-á           de reconhecido conceito e valor literário, com
Academia de Letras de Rondônia – ACLER; a         sua vida ou obra apresentando algum vínculo
comissão responsável pela elaboração do           com o Estado de Rondônia.
anteprojeto do Estatuto da Academia será
constituída pelos membros: Edson Jorge Badra,     O Brasão
José Valdir Pereira, Matias Alves Mendes e
Gesson Álvares Magalhães, sendo que referida      a) Descrição Técnica Geometral:
comissão deverá apresentar o anteprojeto do             Da Forma:
Estatuto, para discussão e aprovação, na                   A forma geométrica do Brasão da
próxima reunião, dia 17 de junho de 1986.         Academia de Letras de Rondônia possui uma
Deliberou também os presentes, que as             forma ovalada distinguindo-se por uma figura
próximas reuniões acontecerão sempre às           geométrica Elipse Falsa constituída por dois
terças-feiras, no mesmo local, a partir das 20h   eixos. Dentro desse círculo elipsoidal forma-se
30min.                                            um anel circunscrevendo-se no seu interior uma
        No dia 17 de junho, na reunião            figura plana, distinguindo-se sobre ela uma
seguinte, atendendo convocação expressa           fração de arquitetura iconográfica do Forte do
registrada em Ata, os participantes, sob a        Príncipe da Beira, encimado por uma figura
coordenação do Desembargador Hélio Fonseca,       estilizada de uma coruja. Essas peças podem
Presidente do núcleo de fundadores da             ser em relevo – madeira ou metálica. Os ramos
Academia, foram informados da pauta da            de café e cacau ladeiam a figura. Abaixo da
Reunião, destacando como prioritário a análise,   figura iconográfica, está a frase Fundada em 10
discussão e aprovação do anteprojeto do           de junho de 1986, que marca a data de
Estatuto da Academia. Após análise e discussão    fundação da Academia.
do Estatuto, o Presidente o submeteu à                   Das Cores:
aprovação dos presentes, sendo aprovado por               A Fração arquitetônica do Forte do
unanimidade, já com a Diretoria provisória da     Príncipe da Beira, representa por uma guarita,
Academia definida, eleita por unanimidade,        em blau, sendo as faixas que a atravessam, a
ficando     assim     constituída:  Presidente:   superior, sinopla e a inferior, ouro. O desenho
Desembargador Hélio Fonseca, Vice-Presidente:     onde a guarita se apóia, representando a
Édson Jorge Badra e Secretário-Geral: José        muralha do Forte, em goles. Essas cores são as
Valdir Pereira.                                   utilizadas no Brasão do Estado de Rondônia,
        Até o ano de 2005, a Academia             tendo, para a Academia de letras de Rondônia,
funcionou na sua sede própria, imóvel doado       o mesmo significado.
pelo governo José Bianco, prédio onde
funcionou a Biblioteca José Pontes Pinto,         b) Descrição Filosófica:
situado à Av. Farqhuar, 1793, Bairro Caiari,            Da Forma Estrutural:
Porto Velho - Rondônia. Deixou de funcionar              A figura em forma de elipse, formando
em sua sede, a pedido do governo do Estado,       um círculo ovalado, significa a imortalidade da
Ivo Cassol, dizendo este que faria uma reforma    cultura e das letras, em cujos pontos não se
no referido prédio e o entregaria logo em         encontra princípio nem fim.
seguida. Atualmente, a Academia realiza suas             O círculo ovalado constitui-se um anel e
Sessões Ordinárias no auditório do Conselho       possui as seguintes legendas: na parte
Estadual     de    Educação      de   Rondônia,   superior,, onde se lê: ACADEMIA DE LETRAS
gentilmente cedido pela Presidência da colenda    DE RONDÔNIA. Na parte inferior, onde se lê:
Instituição de educação, de acordo com            NON VI, SED VIRTUTE, traduzindo NÃO PELA
convênio celebrado entre as duas entidades.       FORÇA, MAS PELA QUALIDADE, buscando
        A Academia é composta de quarenta         imprimir às sucessivas gerações a consciência
membros             titulares,         membros    do quanto é importante o conhecimento
correspondentes (brasileiros ou estrangeiros),    humano a serviço da valorização da vida, não
residentes no restante do país ou no exterior,    pela força, pela violência, mas pela coragem,

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pela qualidade, pelo mérito       da produção              6º.- Do lado direito, um ramo de cacau
literária de cada um de nós.                        e do esquerdo, um ramo de café, simbolizando
       Da Figura Iconográfica:                      as duas maiores riquezas do Estado de
         A guarita estilizada que guarnece os       Rondônia, à época da fundação da academia.
bastiões do Forte do Príncipe da Beira, significa          7º.- Em baixo, a inscrição latina “NON
a necessidade de os membros da Academia de          VI, SED VIRTUTE”, lema que traduz o
Letras de Rondônia estarem alertas às invasões      sentimento dos acadêmicos: “Não pela força,
lingüísticas e literárias danosas à preservação     mas pela virtude”.
do bom vernáculo, assim como o forte defendia
a Amazônia Ocidental das invasões espanholas               Acadêmicos
do século XVIII.                                           (Patrono)             Acadêmico Atual
         O desenho estilizado da coruja é o
símbolo da sabedoria que deve nortear as            1 (Francisco Meireles) Dimas Ribeiro Da Fonseca
ações e as obras intelectuais dos membros da        2 (Ary De Macedo) Gesson Álvares De Magalhães
Academia.                                           3 (Alkindar Brasil De Arouca) Edson Jorge Badra
         Dos ramos de cacau e de café:              4 (José Pontes Pinto) Emanuel Pontes Pinto
                                                    5 (Antônio Tavernard) Bolívar Marcelino
         Representam as principais riquezas do
                                                    6 (Manoel Nunes Pereira) Abnael Machado De
setor produtivo rural que, se conduzindo com
                                                    Lima
sustentabilidade,     poderá    ser   o    ícone    7 (Teotônio De Gusmão) Hélio Fonseca
econômico/social do Estado, contribuindo,           8 (Alexandre Rodrigues Ferreira) José Valdir
também, para a independência econômica do           Pereira
País.                                               9 (Amilkar B. Magalhães) Vaga
                                                    10 (Antur Virgílio) Vaga
RESUMO                                              11 (Cândido Mariano Da Silva Rondon)
         Em resumo, o Brasão da Academia de         Raymundo Nonato De Castro
Letras de Rondônia é constituído dos seguintes      12 (João Nicolleti) Vaga
elementos:                                          13 (Maria Madalena Neimeier Duarte) Matias
         1º.- Um bastião do Forte do Príncipe da    Alves Mendes
Beira, monumento construído às margens do           14 (Ricardo Franco De Almeida Serra) Heinz
rio Guaporé, no município de Costa Marques,         Roland Jakobi
na fronteira de Rondônia com a Bolívia,             15 (Ferreira De Castro) Eunice Bueno Da Silva E
                                                    Souza
construído em 1776, como marco de defesa do
                                                    16 (Antônio José Cantanhede) Antônio     Cândido
território brasileiro, contra as incursões
                                                    Da Silva
bolivianas que aconteciam àquela época. As          17 (Aluisio Pinheiro Ferreira) Yêeda Maria
cores do bastião, (verde, amarelo, azul e           Pinheiro Borzacov
branco) são as cores da bandeira nacional.          18 (Humberto De Campos) Pedro Albino De
         2º.- O bastião é encimado por uma          Aguiar
coruja, símbolo da sabedoria de que são             19 (Carlos Mendonça) Viriato José Da Silva Moura
portadores os membros da academia.                  20 (Ramayana Chevalier) João Teixeira De Souza
         3º.- Em vermelho, parte do muro            21 (Oswaldo Cruz) Aparício Carvalho De Moraes
daquele Forte, simbolizando o sangue dos            22 (Joaquim Tanajura) Joaquim Cercino Da Silva
brasileiros que morreram em defesa da pátria,       23 (Vespasiano Ramos) Átila Ibanez
em luta contra os bolivianos que invadiam           24 (Paulo Nunes Leal) Dante Ribeiro Da Fonseca
nossa terra. Parte do muro encontra-se              25 (José Alves De Lira)Marco Antônio Domingues
deteriorado, como deteriorado está todo o           Teixeira
forte, necessitando de reformas à época da          26 (Joaquim De Araújo Lima) Cláudio Batista
fundação da academia.                               Feitosa
                                                    27 (Jorge Teixeira De Oliveira) Zelite   Andrade
         4º.- Sob o muro, a inscrição “Fundada
                                                    Carneiro
em 10/06/1986”, data da fundação da                 28 (Raymundo Moraes) Antonio Serafim Da Silva
Academia de Letras de Rondônia.                     29 (José Calixto De Medeiros) Vaga
         5º.- Tudo isso é circundado por dois fio   30 (José Guilherme De Araújo Jorge) José Lúcio
negros, em forma oval, entre os quais há, em        Cavalcante De Albuquerque
cima, a inscrição “ACADEMIA DE LETRAS DE            31 (Pedro Tavares Batalha) William Haverly
RONDÔNIA”.                                          Martins

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32 (José Francisco Monteiro) Raimundo Neves De     37 (Marise Magalhães Costa Castiel) Samuel
Almeida                                            Moisés Castiel Júnior
33 (Emília Smithlaje) Vaga                         38 (Dom João Batista Costa) Adaídes Batista Dos
34 (Vitor Hugo) Arlene Pinheiro Gorayeb            Santos
35 (Ari Tupinanbá Penna Pinheiro) Paulo Cordeiro   39 (Júlio Nogueira)   Vaga
Saldanha                                           40 (Amizael Gomes Da Silva) Gerino Alves Da
36 (Enos Eduardo Lins) Vaga                        Silva Filho



                                       Brasil sem
                                       Fronteiras
                                       Fronteiras

                                                            Um brilhante do Grão-Mogol.
                      Olga Agulhon
                       Maringá/PR                   Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
                                                            Um poleá lhe perguntou:
                  RIDÍCULA                          — "Mosca, esse refulgir, que mais parece um
                                                                      sonho,
(a Fernando Pessoa)                                      Dize, quem foi que te ensinou?"

Quando deixar de escrever cartas de amor,               Então ela, voando e revoando, disse:
deixarei de ser ridícula,                                  — "Eu sou a vida, eu sou a flor
serei amarga.                                         Das graças, o padrão da eterna meninice,
                                                          E mais a glória, e mais o amor".
Quando deixar de chorar por amor,
deixarei de ser ridícula,                           E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
serei seca.                                                E tranqüilo, como um faquir,
                                                   Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Quando deixar de pedir seu amor,                            Sem comparar, nem refletir.
deixarei de ser ridícula,
serei outra.                                        Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
                                                               Uma coisa me pareceu
Quando aprender a fazer versos,                    Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
deixarei de ser ridícula,                                  Eu vi um rosto que era o seu.
                   serei Pessoa.
                                                       Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
                                                              Que tinha sobre o colo nu
                      Machado de Assis                 Um imenso colar de opala, e uma safira
                      Rio de Janeiro/RJ                       Tirada ao corpo de Vixnu.

               A MOSCA AZUL                         Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
                                                             Aos pés dele, no liso chão,
 Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,         Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
        Filha da China ou do Indostão.                    E todo o amor que têm lhe dão.
    Que entre as folhas brotou de uma rosa
                  encarnada.                          Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
            Em certa noite de verão.                      Com grandes leques de avestruz,
                                                    Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
    E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,                      Voluptuosamente nus.
         Refulgindo ao clarão do sol
     E da lua — melhor do que refulgiria           Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,

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          E enfim as páreas triunfais                      Doutor Tanajura, Mario Monteiro
  De trezentas nações, e os parabéns unidos                 e Bohemundo Álvares Afonso.
            Das coroas ocidentais.                       Protesta Professor Carlos Mendonça,
                                                                Doutor Celso Pinheiro
 Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto                    e Rui Brasil Cantanhede
        Das mulheres e dos varões,                        que o prédio finalmente concluiu.
Como em água que deixa o fundo descoberto,
          Via limpos os corações.                        Venham ver o que fizeram do mercado
                                                            e da luta de vocês que foi em vão.
 Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.                Ninguém se levantou pra defender
            Afeita a só carpintejar,                            o pedaço de nossa história
  Com um gesto pegou na fulgurante mosca,                        que teimava em não cair.
            Curioso de a examinar.                        Segismundo se calou, nem Zé Catraka
                                                        botou "Lenha na Fogueira" e se apagou.
  Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.        Zizi, nosso velho Zizi, tombou cansado depois
        E, fechando-a na mão, sorriu                              de tanto tempo resistir.
   De contente, ao pensar que ali tinha um
                    império,                             A última telha de Marselha virou pó.
             E para casa se partiu.                      Guarde a sua lembrança com carinho
                                                           pois o passado perdeu a realeza.
    Alvoroçado chega, examina, e parece                  Só nos resta mandar nossa saudade
       Que se houve nessa ocupação                              convocar Ernesto Melo
 Miudamente, como um homem que quisesse                        pra cantar nossa tristeza.
           Dissecar a sua ilusão.
                                                                         Antonio Manuel
Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,                       Abreu Sardenberg
            Rota, baça, nojenta, vil                                      São Fidélis/RJ
  Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
            Visão fantástica e sutil.
                                                              NAMORAR EM SONHOS
 Hoje quando ele aí cai, de áloe e cardamomo
           Na cabeça, com ar taful
                                                            Existe coisa melhor do que namorar
 Dizem que ensandeceu e que não sabe como
          Perdeu a sua mosca azul.
                                                    em sonhos, principalmente quando esse
                                                    sonho é acordado e esse namoro é com a
                                                    vida, a natureza e tudo aquilo que DEUS
                                                    nos dá no dia-a-dia: o ar que respiramos, o
             Antonio Cândido da Silva
                    Porto Velho/RO                  sol que nos aquece, a chuva que faz
                                                    germinar as sementes que dão flores e
                 BAR DO ZIZI                        frutos, enfim, tudo que de belo está ao
                                                    nosso alcance.
    A última telha importada de Marselha                    Existe coisa mais linda do que um
       Virou pó na dureza do cimento.               céu coalhado de estrelas, um mar azul,
   Resta somente o espaço, o pó e o tempo           filhos e netos à nossa volta?
     levando tudo para o esquecimento.                      Pois é! Acho que não existe e por
                                                    isso estou mandando esse modesto poema.
     E a tristeza nos arquivos da memória
     guarda mais um registro de saudade                      Namorei por toda a vida
           misturada com indignação
                                                           Todos os sonhos que sonhei,
         e o sentimento de impotência
                                                            Até meus sonhos perdidos
         diante de que tem nas mãos
                a força do poder.                            Confesso que namorei!

        Levanta do silêncio Guapindaia,                      Namorei sonhos distantes,

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      Que senti, mas não toquei,                     Beberam, fumaram.
     E até meus sonhos errantes,            Ao romper do dia se esgueiraram.
      Confesso: também gostei!                 Na areia úmida se deitaram,
                                         se abraçaram, esquecidos das diferenças
       Namorei sonhos do sul,                              sociais.
      Do norte e do nordeste,                   Não pensaram em gravidez
      Sonho rosa, sonho azul,                            nem AIDS.
     Sonho do centro e sudeste,                 Transaram sem camisinha,
      Sonhos que tanto sonhei                     livres como os animais.
     Mas que tu nunca me deste!                  Cansados, adormeceram.
                                                         Ao acordar,
      Namorei sonhos dourados,                      Maria estava sozinha!
      Pretos, brancos, coloridos,
      Sonhos nunca imaginados
     Que me tocaram os sentidos.                            Ramsés Ramos
                                                                Teresina/PI
       Namorei sonhos da noite
                                              SETE PECADOS DO AMOR
      E também da madrugada;
       Sonhos doces de criança
                                          o melhor amor é o que não faz alarde
      Com a primeira namorada,
                                                    (mar como arde)
       Sonhos que se perderam
                                            ao melhor amor nunca se esquece
       Na poeira das estradas...
                                                  (mas quem merece?)
                                            melhor amor sempre tem dinheiro
       Mas o sonho mais bonito,
                                                  (onde, o banqueiro?)
        Com gostinho de maçã,
                                             o melhor amor é desinteressado
         Foi aquele que sonhei
                                                (todo mundo é culpado!)
       No despertar da manhã:
                                               melhor amor jamais atraiçoa
        Eu te querendo todinha
                                                    (desse se caçoa)
        Você dizendo: hã, hã...
                                          o melhor amor te amará eternamente
                                                   (quanto se mente!)
                                          o melhor amor, enfim, de tudo abdica
                   Alberto Paco
                                                 (esse, com quem fica?)
                    Maringá/PR
           FRUTO DO CARNAVAL                                 Tatiana Belinky
               A bela Maria;                                   São Paulo/ SP
       Loira, olhos verdes, esguia,
 tem em seus braços uma linda criança,
                  negra.
                                               O GRANDE CÃO-CURSO
       Fruto do carnaval passado.
Do terraço da mansão, em São Conrado,
                                           Perante o Juiz, Senhor Dom Urso,
                  Maria
                                           Reunidos para o maior Cão-curso,
      vê o povo passar apressado,
                                         Apresentaram-se - sem seus patrões -
            a caminho da folia.
                                          Cachorros, cachorrinhos, cachorrões,
              Sente saudade!
                                           De muitas raças, tipos e modelos -
  Um ano atrás, exuberante de alegria,
                                         De pêlos lisos, crespos e outros pêlos -
             no meio do salão,
                                         Pra concorrer ao prêmio - um tesouro
     viu um belo rapaz, alto, forte,
                                         Por todos cobiçado: o "Osso de Ouro".
           negro como carvão.
                                                            ...
    Dançou com ele a noite inteira.

Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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          O Juiz, preocupado,              Paira sereno sobre os espasmos úmidos do
       Já bastante atrapalhado,                              mar.]
     Olha em volta - e de repente
      Vê, não longe, à sua frente              Altas vagas explodem desconexas
       Um cachorro desleixado,             espargindo espumas brancas de água e sal
                                                           complexas.]
          Pêlo todo arrepiado,
                                             O vento desafina tons de ópera funesta
      Cor de um tom indefinido,              mas o mantém na rota e não contesta
         De rabinho encolhido,                o roteiro alado que teima percorrer.
         O desfile a observar,
     Bem quietinho em seu lugar.                           Como fugir,
      - Vem cá, diz o Juiz Urso, -         se o clarão da tempestade não se esconde?
        Participe do Cão-curso,                            Para onde ir,
        Apresente-se também,                  se o rugir dos céus se ouve ao longe?
     Mostre o que é que você tem!                           Onde ficar,
                   ...                      se a segurança não é vista no horizonte ?
                                                          Por que temer,
                                                       se males vêm e vão
      Sou um pobre vagabundo,
                                             e depois da fúria fica em paz o coração?
     Sem família e só no mundo!
   Mas se encontro um bom senhor                    O amassado da superfície
      Dou-lhe todo o meu amor:            deixa escapar grunhidos de profundezas frias.
       Na alegria ou no perigo,              O negrume baixo do céu congestionado,
      Serei sempre o seu amigo!                 por riscos de luz pulsa, iluminado:
       É só isto. E disse o Urso,                 espetáculo de força magistral.
   - Quem ganhou este Cão-curso,              Explosão da natureza temperamental!
     Foi você, meu bom, valente,
          Viralata, inteligente               Exemplo e alento vêm, ave marinha,
       Mas modesto. O Troféu                   ensina a coragem para o embate.
                                          Reforça-nos o bico, prepara o bom combate.
     "Osso de Ouro" é todo seu!
                                            Dá-nos força para vencer o caos que se
                                                           avizinha!
                   ...
                                                Sobre a procela flutua o albatroz!
      Juiz, com toda a humildade,            Na certeza que vencerá este momento;
      Peço um osso... de verdade!             nunca faz do mau tempo seu algoz.
                                               Firme, contra ou a favor do vento,
                                               paira seguro aproveitando o tempo
           OS "LIMERICK"
                                                 enquanto voa livre, feliz, veloz!

     Os "limerick" são poeminhas
    Que sempre só têm cinco linhas,                            Samuel Castiel Jr.
          Contando, rimados,                                     Porto Velho/ RO
        Uns "causos" gozados:
       Estórias bem piradinhas.
                                                       FLOR TROPICAL

                                              Flor tropical, soberba e encantadora
                 Maria Eliana Palma         Que cresce e floresce em terrenos hostis
                         Maringá/PR                 Como guardiã desafiadora
                                               Do belo nativo e essências sutis!...
              ALBATROZ
                                             Como brisa que soprou todas as vidas
    Albatroz: mensageiro de tormenta.          Nascestes bela, livre e agreste,
 Dela nunca se afasta; nem mesmo tenta…

Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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      Repartindo-te em pétalas coloridas                  Fascinam-me teu porte, tua cor...
    Invejam-te o crisântemo e o cipreste...
                                                      Quero- te sempre assim bela e formosa
      Não queiras nunca te tornar rainha              Como um livro escrito em verso e prosa
     Pois sempre foste à preferida minha!             Como a mulher que me ensinou o amor!



                                   Artur de Azevedo
                                       (A Filosofia do
                                          Mendes)
                                          Mendes)

        Decididamente o Fulgêncio não nascera      mesmo antes de ter certeza de que eu o
para cavalarias altas: não havia rapaz de trinta   enganava, andava armado de revólver!
anos mais tímido nem mais pacato vivendo só,
na sua casinha de solteiro, independente e                 O Fulgêncio, que não tinha sangue de
feliz.                                             herói, viveu dali por diante em transes terríveis.
        Aconteceu, porém, que um dia o             Saía de casa o menos possível, e nas ruas só
Fulgêncio foi tão provocado pelos bonitos olhos    andava de tilburi, recomendando aos cocheiros
de uma senhora, que se sentara ao seu lado         que fossem depressa. Quando via ao longe um
num bondinho da Carris Urbanos, que se             sujeito qualquer parecido com o Mendes,
deixou arrastar numa aventura de amor.             punha-se a tremer que nem varas verdes.
        Quando, depois da primeira entrevista,             Um dia, tendo descido de um tílburi no
na casa dele, Bárbara - ela chamava-se Bárbara     Largo da Carioca, para comprar cigarros,
- lhe confessou que era casada com um sujeito      encontrou na charutaria o Mendes, que
chamado Mendes, o pobre rapaz, que a               comprava charutos. Ficou de repente muito
supunha solteira ou pelo menos viúva, ficou        pálido e trêmulo e quis fugir, mas o outro
horrorizado de si mesmo. Ficou horrorizado,        agarrou-o por um braço, dizendo-lhe com muita
mas era tarde: gostava dela, e não teve forças     brandura:
para fugir-lhe.
        As entrevistas amiudaram-se. Quando        - Faça favor... venha cá... não se assuste... não
Bárbara não ia ter pessoalmente com o              trema... não lhe quero mal... ouça-me... é para
Fulgêncio escrevia-lhe cartas inflamadas, e        o seu bem...
nenhuma ficava sem resposta.
        Essa imprudência teve mau resultado:              O Fulgêncio caiu das nuvens. O marido
um dia Bárbara Mendes entrou em casa do            continuou:
amante acompanhada de duas malas, uma
trouxa e um baú.                                   - Eu sei que o sr. tem medo de mim que se
                                                   péla: receia que eu o mate, ou que lhe bata...
- Que é isto?                                      Tranqüilize-se: não lhe farei o menor mal. Pelo
- Alegra-te! Meu marido, que é muito abelhudo,     contrário!
encontrou debaixo do meu travesseiro a tua
última carta e expulsou-me de casa.                        O pobre Fulgêncio não conseguiu
- Hein?                                            articular um monossílabo.
- Foi melhor assim: agora sou tua, só tua, e por           As maxilas batiam uma na outra.
toda a vida!... Não estás contente?
- Muito...                                         - Matá-lo? Bater-lhe? Seria uma ingratidão! O
- Estou te achando assim a modo que...             Sr. Prestou-me um relevante serviço: livrou-me
- É a surpresa... a comoção... a alegria...        de Bárbara! E não era meu amigo, sim, porque
- Como vamos ser felizes! Mas olha, peço-te        em geral são os amigos que têm a
que não te exponhas nestes primeiros               especialidade desses obséquios...
tempos... O Mendes é ciumento e brutal e,


 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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       O Fulgêncio continuava a tremer.           desassombradamente por toda a parte ... não
                                                  receie uma vingança que seria absurda... e se,
- Não esteja assim nervoso! Depois que o Sr.      algum dia, eu lhe puder servir para alguma
me libertou daquela peste, sou outro homem,       coisa, disponha de mim. Não sou nenhum
vivo mais satisfeito, como com mais apetite,      ingrato.
tudo me sabe melhor e durmo que é um                     Daí por diante, o Fulgêncio nunca mais
regalo... Aqui entre nós, se o amigo quiser uma   teve receio de estar na rua, mas em pouco
indenização em dinheiro, uma espécie de luvas,    tempo se convenceu de que não podia estar
não faça cerimônia; estou pronto a pagar - não    em casa, porque Bárbara era definitivamente
há      nada     mais      justo    ...    Ande   insuportável. O Mendes foi o mais feliz dos três.




                                      Alberto Paco
                                 (O Escritor em Xeque)

Alberto Paco, contabilista, empresário e          Lagoaça, uma aldeia um pouco maior que a
escritor. Nasceu em Vilarinho dos Galegos –       primeira, mas com as mesmas necessidades.
Portugal. Com vinte e dois anos chegou no         Com doze anos fui morar na cidade do Porto
Brasil para ficar residindo em caráter            onde me formei em Contabilidade enquanto
permanente. Em 2001 lançou seu primeiro           trabalhava. Com vinte e dois vim morar no
romance que foi escrito entre 1958 e 1959,        Brasil em caráter permanente.
logo após sua chegada ao Brasil. Assumiu a
cadeira de número 23 da Academia de Letras        Como era a formação de um jovem
de Maringá ocupando o cargo de tesoureiro.        naquele tempo? E a disciplina, como era?
Desde a posse escreveu mais oito livros sendo     Meu pai era militar. Impunha aos filhos o
um de contos, um de poesias e seis romances.      regime do quartel, mas nos ensinou a respeitar
Além de membro da ALM é membro da UBT-            os outros e principalmente a ler. Não admitia
Maringá, e do Elos Clube Maringá. Escritor        erros de português.
imortal ocupando a Cadeira n. 25 da Academia
de Letras do Brasil, cujo patrono é Jorge         Quais livros foram marcantes antes de
Amado.                                            começar a escrever?
                                                  O ano que passei na aldeia de Lagoaça, entre
Conte um pouco de sua trajetória de vida,         os onze e doze anos, recebi diversos livros de
onde nasceu, onde cresceu, o que                  presente. Eram obras famosas de diversos
estudou.                                          autores. Acredito que aí começou minha ligação
Nasci no pequeno vilarejo de Vilarinho dos        com a escrita. Lia esses livros e viajava com os
Galegos, distrito de Mogadouro, na Província de   personagens pelo mundo da fantasia.
Trás-os-Montes. Ali vivi meus primeiros onze
anos. Completei o quarto ano primário, único      Fale um pouco sobre sua trajetória
estudo existente naqueles lugares longínquos.     literária. Como começou a vida de
Com essa idade mudei com a família para           escritor?

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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Ao chegar em São Paulo no ano de 1958 entrei        Finalmente no ano de dois mil e um publiquei
a serviço de grande empresa multinacional no        aquele livro de quarenta anos atrás. Com essa
setor de contabilidade. Lá publicavam um jornal     publicação fui convidado a entrar para a
mensal com a tiragem de trinta mil unidades         Academia de Letras de Maringá e daí por diante
distribuídas pelos funcionários das diversas        recomecei minha trajetória literária.
filiais espalhadas pelo Brasil. Um dos editores,
vendo que eu gostava de leitura porque nas          Meus livros publicados são
horas vagas estava sempre com algum livro em
mãos, me convidou a participar do jornal com        “O homem do rio” romance (escrito em 1958)
algum artigo. Escrevi uma poesia que foi            publicado em 2001“
publicada e daí por diante, durante os dois anos    “No coração do vulcão” Romance de aventuras
que permaneci na empresa sempre era                 publicado em 2002
publicado algum trabalho de minha autoria. Foi      “Caminhos...” Poesias Publicado em 2002
nessa época que escrevi o meu primeiro              “Presídio feminino” Romance policial Publicado
romance.                                            em 2003
                                                    “Conjugando o verbo trair” Romance publicado
Você encontra muitas dificuldades em                em 2007
viver de literatura em um país que está             “As amantes de Carolino” Romance publicado
bem longe de ser um apreciador de                   em 2007
livros?                                             “ Focos de fogo” Contos Publicado em 2007
São muitos os apreciadores de livros no Brasil,
porém poucos têm acesso ao preço que                A publicar:
custam. Por isso são raros os que vivem de
literatura. Somente alguns privilegiados pela       “Mãe solteira” Romance
mídia     ou   então     autores    estrangeiros,   “Estupradores violentos” Romance policial
priorizados pelas editoras nacionais.               “Quinário – Traição consentida” Romance
                                                    “Atalhos...” Poesias
Como começou a tomar gosto pela                     “Lendo e escrevendo” Contos.
escrita?
Como disse quando falei de minha infância,          Dentre os seus livros escritos , qual te
comecei a ler obras famosas de aventuras, de        chamou mais atenção? E por quê?
amores intensos e policiais. Continuei sempre       O livro de minha autoria que mais gosto é o
preferindo esses estilos e daí surgiu minha         romance “Mãe solteira” porque é extraído de
tendência por esse tipo de literatura.              um caso real. Mostra a incompreensão de
                                                    alguns pais com esse tabu que dá nome ao
Como definiria seu estilo literário?                livro. Felizmente esse preconceito aos poucos
Meu estilo literário é simples e objetivo. Evito    vai sendo anulado.
fazer “rodeios” para não cansar o leitor nem
desviar sua atenção da história. Meus romances      Que acha de sua obra?
são do estilo que sempre gostei de ler, mas         Sou suspeito de falar de minha obra. Deixo isso
com meu próprio estilo sem imitar ninguém.          para meus leitores. No entanto, digo que gosto
Digamos uma mistura de todos.                       muito de tudo que escrevo.

Quais foram os seus livros escritos ?               Qual a sua opinião a respeito da Internet?
Entre mil novecentos e cinquenta e oito e           A seu ver, ela tem contribuído para a
cinquenta e nove escrevi meu primeiro               difusão do seu trabalho?
romance. Somente quarenta anos depois voltei        Em minha opinião, a internet é um meio rápido
a escrever. Em todo esse período que fiquei         e eficiente de se tomar conhecimento de tudo
afastado da escrita continuei lendo muito, mas      (bom e ruim), mas como divulgação de livros
os afazeres eram tantos, envolvido com              de tamanho razoável, deixa um pouco a
diversas atividades, principalmente a monetária     desejar. Acho que os reais adeptos da leitura
para dar um futuro digno aos familiares que         gostam mais de manusear as páginas do livro
foram surgindo ao longo do caminho, que não         do que acionar o mouse. É mais prazeroso.
houve tempo para continuar escrevendo.

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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                                                 é uma história insípida com começo
Você       precisa      ter uma    situação      incompreensível, meio que nada diz e fim sem
psicologicamente muito definida ou já            final definido.
chegou num ponto em que é só fazer um
"clic" e a musa pinta de lá de dentro?           Existe uma constelação de escritores que
Para se inspirar literariamente, precisa de      nos é desconhecida. Para nós, a quem
algum ambiente especial ?                        chega apenas o que a mídia divulga, que
A criação literária existe dentro da minha       autores são importantes descobrir?
mente. Simplesmente aflora sem muito esforço.    Na época atual acredito que há quase tantos
Gosto de escrever de noite, quando reina o       escritores quanto leitores. Existem pessoas que
silêncio. Costumo rascunhar meus escritos        juntam algumas receitas caseiras, formam um
durante a madrugada. Os personagens e os         livro e publicam. Porque essas pessoas são
acontecimentos vão surgindo e passo-os           famosas em outra atividade, a mídia já as
rapidamente para o papel. Quando a obra          considera escritores. Outras, que escrevem
termina é que passo a corrigir tudo, mas a       obras interessantes, mas não têm acesso aos
história já esta delineada.                      meios midiáticos, suas obras, muitas vezes
                                                 verdadeiras pérolas literárias, ficam para
Você acredita que para ser escritor basta        sempre escondidas no fundo do baú.
somente exercitar a escrita ou vocação é
essencial?                                       Na sua opinião, livro ou livros da
Acredito que a vocação é essencial, mas é        literatura da língua portuguesa deveriam
necessário ler muito porque vocação sem          ser leitura obrigatória?
conhecimento não leva a lugar nenhum.            A leitura obrigatória não deveria existir, mas ser
                                                 mais abrangente. Deveriam dar mais opções de
Como é que você concebe suas obras?              escolha aos jovens, para que cada um seguisse
O momento de escrever um livro às vezes          suas tendências.
surge de uma conversa com alguém que nos
conta uma história. A partir daí, modela-se o    Qual o papel do escritor na sociedade?
que nos foi contado, acrescentam-se fatos e      O papel do escritor é marcante na sociedade
personagens e a obra surge.                      porque apesar da pouca divulgação da
                                                 literatura, ainda consegue prender atenção de
Quanto tempo você leva para escrever um          muita gente que sente prazer na leitura.
livro?
Alguns livros são escritos em dois meses, mas    Há lugar para a poesia em nossos
para lhe dar forma aceitável demoram mais        tempos?
quatro ou cinco. È necessário uma revisão        A poesia é e será sempre uma peça importante
perfeita tanto nos textos quanto na gramática,   na literatura mundial. Muitos leitores têm pouco
então leio e reviso cinco ou seis vezes.         tempo disponível para ler um romance, que
                                                 deve ser lido com o menor tempo de
Como foi o processo de pesquisa para a           interrupção para se assimilar a história. No livro
escrita de seus livros?                          de poesias podem ser lidas uma ou duas
Minhas histórias são fictícias. Entretanto       páginas, colocá-lo de lado e retomar a leitura
pesquiso com muito cuidado os lugares a que      muito tempo depois, sem ter perdido nenhuma
me refiro para evitar que algum leitor que       sequência.
porventura conheça esses lugares me conteste.
As pesquisas são feitas geralmente na internet   Tem prêmios literários?
ou em enciclopédias em que as informações        Algumas trovas premiadas em diversos setores
são mais antigas.                                da União Brasileira de Trovadores da qual faço
                                                 parte. Por opção, não costumo concorrer a
No processo de formação do escritor é            prêmios literários.
preciso que ele leia porcaria?
Acredito que devemos ler de tudo um pouco. O     O que te choca ?
que não devemos é seguir o exemplo dos que       O que me abala profundamente é ver jovens
escrevem porcarias. Em minha opinião, porcaria   alunos serem aprovados e passar de ano sem

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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os mínimos conhecimentos de escrita ou             Que conselho daria a uma pessoa que
leitura. É uma falha dos dirigentes que vai        começasse agora a escrever ?
refletir mais adiante. O ensino está decadente.    Diria para ler muito e analisar bem o que
                                                   escreve antes de mostrar seus escritos ao
O que lê hoje em dia?                              público leitor, mas não pare nunca de escrever
Leio muito e sempre. Acabei de ler “O caçador      seja o que for. Escrever é um dom de Deus que
de pipas”, um romance que fala sobre as vidas      não pode ser desperdiçado.
de pessoas espezinhadas por regimes
autoritários e desumanos.                          O que é preciso para ser um bom poeta?
                                                   Bom poeta é todo aquele que escreve poesia.
Você possui algum projeto que pretende             Cada um tem seu gênero e cada leitor gosta de
ainda desenvolver?                                 um tipo. O campo é vasto, porém deve existir
Meu projeto maior é continuar escrevendo,          certa coerência para não escrever patacoadas.
tentando sempre melhorar. Existem outros
projetos que por enquanto não vejo                 E para encerrar a entrevista
necessidade de divulgar.                           Se Deus parasse na tua frente e lhe
                                                   concedesse três desejos, quais seriam?
De que forma você vê a cultura popular             Meu primeiro desejo seria que a paz reinasse
nos tempos atuais de globalização?                 entre os homens.
A globalização é muito importante para a           O segundo que a fome e a miséria fossem
cultura popular porque aumenta a possibilidade     erradicadas da face da terra.
de todos expandirem seus conhecimentos.            Finalmente que a Literatura fosse mais
Tudo se torna mais acessível.                      divulgada com incentivos para que os menos
                                                   favorecidos tivessem acesso constante e
                                                   garantido aos livros de sua preferência.


                                    Anayde Beiriz
                                   (Carta de Amor)


A carta é de 4 de julho de 1926.                   desenfreada, numas, pela grosseria e
                                                   desregramento        dos     apetites;    contida,
“(...) O amor que não se sente capaz de um         nobremente, em outras, pelas forças vitoriosas
sacrifício não é amor; será, quando muito,         da inteligência, da vontade, superiormente
desejo grosseiro, expressão bestial dos            dirigida pela delicadeza inata dos sentimento ou
instintos, incontinência desvairada dos sentido,   pelo poder selético e dignificador da cultura.
que morre com o objetivar-te, sem lograr
atingir aquela atura onde a vida se torna um       Não amamos num homem apenas a plástica ou
enlevo,      um     doce    arrebatamento,     a   o espírito: amamos o todo. Sim, meu Hery, nós,
transfiguração estética da realidade... E eu não   as mulheres, não temos meio termo no amor;
quero amar, não quero ser amada assim...           não amamos as linhas, as formas, o espírito ou
Porque quando tudo estivesse findo, quando o       essa alguma coisa de indefinível que arrasta
desejo morresse, em nós só ficaria o tédio;        vocês, homens, para um ente cuja posse é para
nem a saudade faria reviver em nossos              vocês um sonho ou raia às lides do impossível.
corações a lembrança dos dias findos, dos dias     Não, meu Hery, não é assim que as mulheres
de volúpia de gozo efêmero, que na nossa           amam. Amam na plenitude do ser e nesse
febre de amor sensual tínhamos sonhado             sentimento concentram, por vezes, todas as
eternos.                                           forças da sua individualidade física ou moral.

Mas não me julgues por isto diferente das          É pois assim que eu te amo, querido; e porque
outras mulheres; há, em todas nós, o mesmo         te amo, sinto-me capaz de esperar e de pedir-
instinto, a mesma animalidade primitiva,

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te que sejas paciente. O tempo passa lento,        e a maneira de vivenciar o amor livre causaram
mas passa...                                       escândalo.
                                                           Em 1928, iniciou seu romance com o
...E porque ele passa, e porque a noite já vai     deputado João Dantas, que era adversário de
alta, é-me preciso terminar.                       João Pessoa, candidato à presidência da
                                                   Paraíba. Em 1930, o Brasil sofreu reviravoltas
Adeus. Beija-te longamente, Anayde”                importantes. A chamada política do "café com
–––––––––––––––––                                  leite" centralizava o poder entre os Estados de
Uma das cartas de Anayde Beiriz a Heriberto        São Paulo e Minas Gerais. O bloco político, do
Paiva é bastante revelador da personalidade ao     qual a Paraíba fazia parte, interveio nas
mesmo tempo romântico e ousada da                  disputas políticas, que se tornaram violentas e
professora paraibana.                              as questões pessoais se misturaram às
                                                   questões da vida pública.
Anayde Beiriz                                              A ligação amorosa entre João Dantas e
        Anayde Beiriz (João Pessoa, 18 de          Anayde Beiriz não era bem vista pela hipocrisia
fevereiro de 1905 — Recife, 22 de outubro de       social, uma vez que não eram casados. Prato
1930) foi uma professora e poetisa brasileira.     feito para os inimigos políticos de João Dantas,
        O seu nome está ligado à História da       que sob as ordens de João Pessoa, arrombaram
Paraíba, devido à tragédia em que foi              a casa, apropriaram-se da correspondência
envolvida, juntamente com o advogado e             erótica do casal e publicaram-na nos jornais da
jornalista João Duarte Dantas, com quem            cidade. Sensual e libertária, Anayde foi
mantinha um relacionamento amoroso.                duramente exposta à sociedade paraibana. O
        Poetisa e professora, ela escandalizou a   que era uma invasão de cunho político,
sociedade retrógrada da Paraíba com o seu          mobilizou todo o Brasil ao ganhar o contorno de
vanguardismo: usava pintura, cabelos curtos,       uma grande paixão, vivida às escondidas.
saía às ruas sozinha, fumava, não queria casar             No dia 26 de julho, João Dantas, furioso
nem ter filhos, escrevia versos que causavam       com a publicação de suas cartas de amor,
impacto na intelectualidade paraibana e            correu pela cidade atrás do mandante e ao
escrevia para os jornais.                          encontrá-lo disse: "Sou João Duarte Dantas, a
        Anayde Beiriz nasceu em 1905 em João       quem tanto injuriaste e ofendeste". Matou com
Pessoa. Diplomou-se pela Escola Normal em          três tiros João Pessoa e logo em seguida foi
1922, com apenas 17 anos, destacando-se            preso. Este ocorrido serviu de pivô para uma
como primeira aluna da turma. Passou, assim,       convulsão nacional que sucumbiu na Revolução
a lecionar, alfabetizando os pescadores da         de 30. A morte de João Pessoa comoveu todo o
então vila de Cabedelo. Além de normalista, era    Brasil, pois ele nesta época já era muito
poeta e amante das artes. Logo que se formou,      famoso, ao ter concorrido à presidência como
passou a lecionar na colônia de pescadores         vice de Getúlio Vargas. Em outubro daquele
perto de sua cidade natal. Em 1925, ganhou         ano o movimento revolucionário foi deflagrado
um concurso de beleza. Circulava também nos        e Anayde passou a ser perseguida e apontada
meios      intelectuais,   onde     declarava-se   na rua como "a prostituta do bandido que
publicamente a favor da liberdade e da             matou o presidente."
autonomia feminina. Chamavam a atenção os                  Ela abandona sua casa e vai morar em
seus olhos de cor negra, que lhe valeram o         um abrigo na cidade de recife. Lá passa a
apelido, em seu círculo de amizades, de "a         visitar João Dantas, preso imediatamente após
pantera dos olhos dormentes".                      o crime. Este é achado morto nos primeiros
        Sendo uma mulher emancipada para os        dias da Revolução, supostamente por suicídio,
costumes do seu tempo, Anayde perturbou a          mas em circunstâncias pouco claras. A própria
sociedade conservadora da Paraíba, nos anos        Anayde é encontrada morta em 22 de outubro
30. Ousou exprimir uma sensibilidade que           daquele         ano,     supostamente        por
chocou o modelo de moralidade prevalente: sua      envenenamento,       sendo     enterrada   como
maneira de se vestir (o uso dos decotes), o        indigente no cemitério de Santo Amaro, e sua
corte dos cabelos, "à la garçonne", que eram       memória foi renegada durante anos pelos
pintados, as suas idéias políticas (quando as      paraibanos. Sua imagem só se tronou
mulheres não tinham sequer o direito ao voto)      emblemática quando foi elegida como uma das

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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personagens míticas da história do Brasil, pelo           Heriberto passou a chamá-la também de
movimento feminista. Mas, até hoje, sua           “pantera”, desde que ela lhe escreveu: “A
memória causa desconforto naquela região.         pantera é bem humana, não é verdade, amor?
        Quase todas as cartas do diário deixam    Mansa, dócil, amorosa, em se tratando de ti;
explícitas que a grande paixão de Anayde não      mas, para os outros. Eu queria poder esmagá-
foi o advogado João Dantas, mas o médico          los, a todos... Contudo, gostei desse título de
paraibano, que foi morar no Rio de Janeiro, e a   fera que eles me deram; escrevi um conto com
quem ela chamava de “Hery”. Já o nome             esse nome e enviei-o para a ‘Tribuna do Pará’.
“Panthera dos olhos dormentes” era como           Creio que brevemente será publicado”.
amigos de Anayde já a chamavam antes dela                 Hoje, a sua história, tematizada no
conhecer Heriberto. Eles justificavam a           teatro, no cinema e na literatura, instiga a
designação porque diziam que, em seus contos,     pensar sobre a intersecção entre os fatos da
Anayde sempre colocava uma mancha de              vida privada e da vida pública, no contexto da
sangue e porque ela gostava de tudo que era       história nacional. A encenação da vida de
vermelho. Tanto que, em carta, cujo teor          Anayde Beiriz nos chama a atenção para as
completo está no livro de Marcus Aranha,          "dobras do lado de dentro" da história oficial,
Anayde revelou a Heriberto Paiva: “Crêem eles     isto é, a dimensão do intimismo no contexto da
que eu sou trágica, que gosto desse amor que      experiência pública. Ficou conhecida como a
queima, dessa paixão que devora, dessa febre      "Paraíba masculina, mulher-macho sim senhor".
amorosa que mata...”.




  XX CONCURSO DE TROVAS DE                          VI CONCURSO DE TROVAS DA
      PINDAMONHANGABA                                 UBT-MARANGUAPE/2010
                                                        Promoção: UBT-MARANGUAPE e ACLA
Prazo: até 15 de abril de 2010
                                                                                    2010.
                                                           Prazo: até 22 de maio de 2010.
TEMAS:
                                                                 1. TEMA E ÂMBITO:
Nacional: "Multidão"
                                                     a) Nacional/Internacional: “Sonhos” (L/F) e
Regional: "Ninguém" (Pinda, Vale do Paraiba,                         “Rádio” (H)
Litoral Norte e Região Serrana)
                                                      b) Estadual: “Flor” (L/F) e “Cadeira(s)” (H)
Estudantil: "Galera"
                                                      c) Municipal: “Luz” (L/F) e “Safado(a)” (H)
Máximo de 03 trovas por autor, "Sistema de
Envelopes”                                        OBS.: Os trovadores de outros Estados/outros
                                                  países poderão participar em quaisquer dos
                  Enviar para:                    temas de âmbito Estadual e Municipal, como
    Biblioteca Municipal "Rômulo C. D'Arace"      Participação Especial.
Ladeira Barão Barão de Pindamonhangaba, S/N -
                    Bosque                        2. REQUISITOS: Trovas líricas ou filosóficas e
                Cep 12.401-320                    humorísticas em cada um dos temas e âmbitos,
             Pindamonhangaba - SP                 inéditas, de sentido completo, rimando o 1o.
                                                  verso com o 3o. e o 2o. com o 4o., sistema ABAB,
                                                  devendo o tema principal constar na trova, na
                                                  língua portuguesa.

                                                  3. LIMITES: No máximo uma (1) trova para cada

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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concorrente     por      tema    no      âmbito
nacional/internacional. Nos âmbitos Estadual e     Prazo: 15 de junho de 2010.
Municipal podem ser enviadas até duas (2) trovas
p/concorrente.                                              JOGOS FLORAIS DE
4. ENDEREÇO PARA REMESSA DAS TROVAS: i)Por                  CAMBUCI/RJ – 2010
e-mail para: ubt.mpe@gmail.com, indicando o        Seção de Cambuci - UBT/RJ
nome do autor, endereço completo, fone e CEP.
                                                          Prazo: até 31 de Maio de 2010.
5. PRAZO PARA REMESSA: Até 22 de maio de
2010.                                                    Enviar para:
                                                   ALMIR PINTO DE AZEVEDO
6. CLASSIFICAÇÕES: 5 Trovas vencedoras [1º. a      PRAÇA DA BANDEIRA, 79 - TEL.: (0xx) 22.
5º.] / 5 Menções honrosas [6º. a 10º.] / 5         2767.2010.
Menções especiais [11º a 15º.] e 5 Destaques       28.430–000- CAMBUCI – ESTADO DO RIO DE
[16º. a 20º.].                                     JANEIRO.

7. PRÊMIOS: Troféu para o 1º. colocado e diploma           Âmbito Nacional e Internacional
para cada um dos classificados, por tema e         Tema: Musa (necessidade de usar a palavra do
âmbito, inclusive diploma de participação          tema)
especial p/trovadores de outros Estados/outros             Paralelamente, haverá Concurso
países, no caso da trovas ser selecionada          Municipal e Estudantil
p/julgadores. A premiação está prevista para o             Sistema de Envelopes.
dia 24.10.2010, na sede da ACLA/Maranguape-                O trovador poderá concorrer somente com
CE.                                                            trova.
                                                   uma única trova
                                                           Premiação: 25 de Setembro de 2010
8. JULGAMENTO: A UBT-Maranguape formará a                  Troféu, Diploma, Hospedagem e Passeio
comissão      julgadora      do      concurso.     Turístico.
Obs: Serão desclassificadas as trovas que
fugirem aos temas propostos e/ou sem métrica,      CONCURSO INTERNACIONAL DE
bem como enviadas por e-mail após 22.05.2010.
Pelas simples remessa das trovas o(a)
                                                      LITERATURA PARA 2010.
concorrente aceita as normas do presente
regulamento e autoriza a publicação das trovas.    Prazo: até 15 de maio de 2010
Em 15.12.2009 - Moreira Lopes/Coord. Concurso
de Trovas                                          REGULAMENTO

Participe pelo e-mail: ubt.mpe@gmail.com           I - DOS PRÊMIOS
                                                           Art. 1.° - Ainda com a ressonância do
                                                   JUBILEU DE OURO recém-comemorado
        JOGOS FLORAIS UBT                          (1958/2008), a União Brasileira de Escritores
       SECCIONAL MÉRIDA –                          (UBE-RJ) concederá, no próximo ano (2010), os
                                                   seguintes prêmios literários para livros editados
           VENEZUELA                               em 2009:
                                                   – Contos - PRÊMIO CLARICE LISPECTOR;
Tema para os Trovadores de Língua Portuguesa:
                                                   – Crônicas - PRÊMIO PAULO MENDES CAMPOS;
IMENSIDÃO
                                                   – Ensaio - PRÊMIO AMELIA SPARANO;
Tema para os Trovadores de Língua Espanhola:
                                                   – Literatura Infantil e Juvenil - PRÊMIO VIRIATO
INMENSIDAD
                                                   CORRÊA;
                                                   – Poesia – PRÊMIO ADALGISA NERY;
Enviar para:
                                                   – Romance - PRÊMIO LÚCIO CARDOSO;
carlosrodriguezsanchez@hotmail.com
                                                   – Teatro - PRÊMIO MARTINS PENA.
con copia para:
carlosrodriguezsanchez@yahoo.es
                                                   Parágrafo único - Para livro de contos, será concedida também
                                                          Art. 2° - A critério das Comissões
Para os Trovadores dos dois idiomas, enviar as 3
                                                   Julgadoras poderão ser concedidas às obras
Trovas e junto, no mesmo e-mail, a identificação
                                                   concorrentes a qualquer dos prêmios uma
e endereço completo).
                                                   menção especial e uma menção honrosa, exceto
Máximo de 3 Trovas por tema

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a Medalha Harry Laus que terá somente um                     Art. 12 - Os casos omissos no presente
ganhador.                                             Regulamento serão resolvidos pela Diretoria da
                                                      UBE-RJ.
II - DA APRESENTAÇÃO DAS OBRAS
CONCORRENTES                                          Rio de Janeiro, RJ, 30 de outubro de 2009.
         Art. 3° - Poderão concorrer autores de       EDIR MEIRELLES
quaisquer nacionalidades, desde que se                Presidente da UBE-RJ
expressem em língua portuguesa e tenham sido
editados no ano de 2009. Enviar três exemplares
da obra concorrente.                                   CONCURSOS DA UBT SÃO
         § 1° - O autor deverá anexar envelope         PAULO - 2010 (100 ANOS
contendo: título da obra, nome e endereço
completo do autor, telefone, e-mail (se houver) e      DO NASCIMENTO DE NOEL
sucinto curriculum vitae.                                       ROSA)
         § 2° - Não haverá devolução de livros
concorrentes.
                                                      Prazo: até 30.04.2010
III - DAS INSCRIÇÕES E DOS PRAZOS
         Art. 4° - Não há limitação quanto ao         Máximo de 03 trovas por tema
número de livros por autor, observadas as
disposições do Art. 3.° e seus parágrafos.            TEMAS:
         Art. 5° - Os trabalhos deverão ser
enviados entre os dias 4 de janeiro a 15 de maio      01) Âmbito nacional/Internacional: FEITIÇO
de 2010, considerando-se, no caso de remessa          (Líricas/Filosóficas)
pelo correio, a respectiva data da postagem.
         Art. 6° - Os livros concorrentes a prêmios   Endereço para remessa:
devem ser remetidos, em separado por categoria,       Renata Paccola
para o seguinte endereço: Rua Teixeira de             Rua Cafelândia, 53, Cep 01255-030, São Paulo
Freitas, 5, Sala 303 - Lapa, CEP 20021-350 - Rio
de Janeiro, RJ, Brasil. Solicita-se colocar no        02) Assinantes do Informativo SP: DESEJO
envelope ou embalagem o nome do prêmio a que
                                                      (L/F)
se destina(m) a(s) obra(s).
         Art. 7° - É vedada a participação de         Endereço para remessa:
membros da Diretoria da UBE-RJ.                       Domitilla Borges Beltrame
                                                      Rua Batista Cepelos, 18, aptº 31, Cep 04109-
IV - DAS COMISSÕES JULGADORAS E ACEITAÇÃO             120, São Paulo
DOS CONCORRENTES
        Art. 8° - As comissões julgadoras serão       03) Associados da Seção São Paulo:
constituídas, cada uma, por três escritores           ORVALHO (L/F)
indicados pela Diretoria da União Brasileira de       APITO (humorísticas)
Escritores (UBE-RJ), sendo irrecorríveis as
decisões desses Colegiados.                           Enviar "Orvalho" para:
        Art. 9° - A participação no concurso          Marina Bruna
implica a aceitação, por parte do concorrente, de     Rua Changuá, 55, Cep 04141-070
todas as exigências regulamentares, resultando
em desclassificação o não-cumprimento de              Enviar "Apito" para:
quaisquer destas.
                                                      Héron Patrício
        Art. 10° - O resultado do concurso será
                                                      Av.Jabaquara, 2022, aptº 81, Cep 04046-400
tornado público até 90 (noventa) dias após o
encerramento das inscrições, devendo a entrega
dos prêmios ser em data e local previamente           NOTAS =
anunciados.                                           1 - Previsão das festividades de entrega de
        Art. 11 - Qualquer informação ou              prêmios e congraçamento: 16/17 de julho.
correspondência, enviar para a Secretária da
UBE-RJ Margarida Finkel - Rua Malvino Ferreira        2 - Na ocasião será homenageada a Magnífica
de Andrade, 69, Aleixo - CEP 25900-000 – Magé,        Trovadora Maria Nascimento Santos Carvalho.
RJ, Brasil. E-mail: margafinkel@hotmail.com


 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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  IX CONCURSO DE TROVAS DE                     Estadual: SONHO
         CAICÓ -2010                           Máximo de 03 trovas. É obrigatório o uso da
                                               palavra-tema. Cognatas não valem.
A/C do poeta Manoel Dantas
Rua: Izolda Medeiros, nº 388 - Conj. Vila do
Príncipe                                       XL JOGOS FLORAIS DE NITERÓI
Caicó,     RN CEP: 59300-000
                                               Caixa Postal 100.518
TEMAS:                                         Niterói/RJ, Cep 24.001-970
Nac/Internacional – OCASO (s) (L/F)
Estadual – FONTE (s)(L/F)                      TEMAS: (valendo palavras derivadas)
Máximo - 2 (duas) trovas.
PRAZO: 30.06.2010                              Nacional/Internacional: "Palavra"

                                               Estadual: "Algemas"
      IV JOGOS FLORAIS DE
    BALNEÁRIO CAMBORIÚ/SC                      Máximo de 03 trovas por autor
                                               Prazo: até 31.05.2010
A/C de Gislaine Canales                        Sistema de Envelopes
Rua 4.000, nº 85, aptº 411 - Barra Sul Hotel
Balneário Camboriú/SC,                             CONCURSO DE TROVAS DE
Cep 88.330 - 180
                                                         TAUBATÉ
Prazo máximo = 31.05.2010
                                               A/C de Angélica Villela Santos
Máximo de trovas por participante: 03          Rua Francisco Xavier de Assis, 36 - Jardim
                                               Morumbi
Âmbito estadual: "Segredo/s"                   Taubaté - SP, Cep 12.060-460

Restante do Brasil e países de língua          Temas:
portuguesa: "Vento/s"                          Regional e Nacional = "Mocidade"

"Sistema de Envelopes"                         Concurso Vicentino = "Esperança"

Para países de língua hispânica, tema          Concurso para alunos de Taubaté = "Atenção"
"Beso/s", os participantes deverão enviar
seus trabalhos para                            Concurso para professores de Taubaté = "Aula"
gislainecanales@gmail.com
                                               Máximo de 02 trovas por autor.
Festejos de encerramento marcados para o       Prazo = até 30.06.2010
período de 05 a 07/11/2010.
                                                      XXX CONCURSO
        V JOGOS FLORAIS DE                        ESTADUAL/NACIONAL E I
          CANTAGALO / RJ                          CONCURSO INTERNO DE
                                                        TROVAS DA
Rua Dr. Nagib Jorge de Farah, 204               ACADEMIA DE TROVAS DO RIO
Cantagalo / RJ, CEP 28,500-000
                                                    GRANDE DO NORTE
Prazo = até 30.06.2010                         NATAL/2010

Temas:                                         1)   ESTADUAL - Tema: AUSÊNCIA e
Nacional / Intern.: REALIDADE                  cognatos;



 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
98
coordenador: José Lucas de Barros,
                                                 VERDE – (Humorístico)
travessa Alda Ramalho Pereira, 1010, Tirol,
Natal/RN,                                        Estudantil para alunos de 5ª a 8ª e ensino
CEP 59014-605;                                   médio de todas as redes de ensino

2) NACIONAL – Tema: INSPIRAÇÃO e                 AMOR - (Lírico ou Filosófico)
cognatos;
coordenador: Neves de Macedo                     GATO - (Humorístico)
rua Ribeirão Preto, 218, Gramoré, Natal/RN
                                                 Os trovadores (autores de trovas) podem
3) INTERNO (só para sócios efetivos e            remeter até três (3) trovas, inéditas, escritas
correspondentes) –                               na face de envelopes 8/11, contendo no
                                                 interior a identificação completa. Os
Tema: e cognatos;                                estudantes devem colocar o nome e e-mail de
                                                 sua unidade escolar.
coordenador: Joamir Medeiros
Av. Romualdo Galvão, 968,                        Obs. Os temas destes concursos foram
Tirol, Natal/RN – 59056-100.                     lançados no livro dos Jogos Florais de 2009.
                                                 As trovas dos concursos nacional/internacional
Número de trovas por concorrente: 3              deverão ser remetidas para :
(três), remessa pelo sistema de envelopes,
para os respectivos coordenadores.               Trovador Nilton Manoel
                                                 Caixa Postal 448 -centro
Prazos: estadual e nacional, 30.9.2010;          CEP 14001-970
interno: 31.5.2010.                              Ribeirão Preto/SP -BRASIL

    XXIII JOGOS FLORAIS DE                       As trovas do concurso municipal deverão ser
                                                 enviadas para:
       RIBEIRÃO PRETO                            Trovadora Carmen Pio
XI JOGOS FLORAIS ESTUDANTIS                      Rua Uruguai, 91 - 523 - Centro
      DE RIBEIRÃO PRETO                          Porto Alegre - RS
                                                 CEP 90010-140
São temas nos concursos de trovas:
                                                 As trovas dos XI Jogos Florais Estudantis de
Nacional / internacional:                        Ribeirão Preto deverão ser enviadas para:
VIAGEM (Lírico)                                  Francisco Neves Macedo
TURISTA (Humoristico)                            Rua Ribeirão Preto, 218 - Gramoré
                                                 59135-550-Natal/RN
Municipal (somente aos trovadores de Ribeirão
Preto)                                           A recepção das trovas encerrar-se-á em
                                                 3 de maio (Dia Municipal da Poesia)
MADURO – ( Lirico ou filosófico)



                                     Folclore Brasileiro
                                             (O Saci)


        É um duende idealizado pelos indígenas   perneta, de cabelos avermelhados, encantador
brasileiros como apavorante guardião das         de crianças e adultos que pertubava o silêncio
florestas. A princípio ele era um curumim        das matas.
 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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        Saci é o duende mais popular do Brasil.    agulhas, esconde as tesourinhas de unha,
Sua lenda ocorre no Sul, no Centro e no Norte      embaraça os novelos de linha, faz o dedal das
do Brasil.                                         costureiras cair nos buracos, bota moscas na
        Gozando      da    faculdade   de     se   sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os
transformar, como todos os personagens             ovos das ninhadas. Quando encontra um prego,
elementais, ora é visto sob a forma de um          vira ele de ponta pra riba para que espete o pé
pequeno tapuio, sozinho ou acompanhado por         do primeiro que passa. Tudo que numa casa
uma horrível megera, ora como um negrinho          acontece de ruim é sempre arte do saci. Não
unípede, de barrete vermelho que aparecia aos      contente com isso, também atormenta os
viajantes extraviados na floresta, mas pode        cachorros, atropela as galinhas e persegue os
ainda, aparecer disfarçado de uma ave. Na          cavalos no pasto, chupando o sangue deles. O
maioria das lendas Tupis, o Saci é encontrado      saci não faz maldade grande, mas não há
na forma de um pássaro. Distingue-se pelo          maldade pequenina que não faça.
canto, que consiste em duas sílabas: "sa-cim".             Tio Barnabé continua:
        O cântico dos pássaros sempre esteve               - Tinha anoitecido e eu estava sozinho
ligado ao fato da crença greco-romana dos          em casa, rezando as minhas rezas. Rezei, e
augúrios que se julgava poder tirar-se da          depois me deu vontade de comer pipoca. Fui ali
aparição, do vôo ou do canto das aves.             no fumeiro e escolhi uma espiga de milho bem
        Quando os Tapuias ouviam o canto do        seca. Debulhei o milho numa caçarola, pus a
Saci, os velhos o esconjuravam, as crianças        caçarola no fogo e vim para este canto picar
procuravam o aconchego do colo de suas mães,       fumo pro pito. Nisto ouvi no terreiro um
os pais tremem, mas não negam o fumo que           barulhinho que não me engana. "Vai ver que é
espalham pelas cercas dos quintais, para que o     saci!" - pensei comigo. - E era mesmo. Dali a
Saci se cale e se retire, levando com que          pouco um saci preto que nem carvão, de
satisfazer o vício de fumar.                       carapuça vermelha e pitinho na boca, apareceu
        Em contato com o elemento africano e a     na janela. Eu imediatamente me encolhi no
superstição dos brancos, recebeu o cognome         meu canto e fingi que estava dormindo. Ele
de Taperê, Pererê Sá Pereira, etc. Tornou-se       espiou de um lado e de outro e por fim pulou
negro, ganhou um gorro vermelho e um               para dentro. Veio vindo, chegou pertinho de
cachimbo na boca. Em alguns lugares, como às       mim, escutou os meus roncos e convenceu-se
margens do rio São Francisco, adquiriu duas        de que eu estava mesmo dormindo. Então
penas e a personalidade de um demônio rural        começou a reinar na casa. Remexeu tudo, que
que faz travessuras e gosta de enganar             nem mulher velha, sempre farejando o ar com
pessoas. É o famoso Romão ou Romãozinho.           o seu narizinho muito aceso. Nisto o milho
        Na zona fronteiriça ao Paraguai ele é      começou a chiar na caçarola e ele dirigiu-se
um anão do tamanho de um menino de 7 a 8           para o fogão. Ficou de cócoras no cabo da
anos, que gosta de roubar criaturas dos            caçarola, fazendo micagens. Estava "rezando" o
povoados e largá-las em lugar de difícil acesso.   milho, como se diz. E adeus pipoca! Cada grão
Talvez devido aos vestígios culturais trazidos     que o saci reza não rebenta mais, vira piruá.
pelos bandeirantes em suas andanças pelo sul               Dali saiu para bulir numa ninhada de
do Brasil, o saci mineiro recebeu, além dessas     ovos que a minha carijó calçuda estava
qualidades do "Yaci-Yaterê" guarani, um            chocando num balaio velho, naquele canto. A
bastão, laço ou cinto, que usa como a "vara de     pobre galinha quase que morreu de susto. Fez
condão" das fadas européias. Sincretizado          cró, cró, cró... e voou do ninho feito uma louca,
freqüentemente como o capeta, tem medo de          mais arrepiada que um ouriço-cacheiro.
rosários e de imagens de santos. Quando quer       Resultado: o saci rezou os ovos e todos
desaparecer, transforma-se num corrupio de         goraram.
vento.                                                     Em seguida pôs-se a procurar o meu
        Através de Tio Barnabé, um dos seus        pito de barro. Achou o pito naquela mesa, pôs
personagens, Monteiro Lobato descreve o Saci-      uma brasinha dentro e paque, paque, paque...
Pererê:                                            tirou justamente sete fumaçadas. O saci gosta
        O saci é um diabinho de uma perna só       multo do número sete.
que anda solto pelo mundo, armando reinações
de toda sorte: azeda o leite, quebra pontas das

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        Eu disse cá comigo: "Deixe estar, coisa-           -"Ah! nossa avó, nós não somos mais
ruinzinho, que eu ainda apronto uma boa para       gente, e sim só espíritos. Assim, sendo, nós
você. Você há de voltar outro dia e eu te curo."   teremos que te deixar, mas quando ouvires
        E assim aconteceu. Depois de muito         cantar:
virar e mexer, o sacizinho foi-se embora e eu              Tincauan...Tincauan!...foge para casa.
fiquei armando o meu plano para assim que ele      Mas quando cantarmos:
voltasse.                                                  Ti....Ti...Ti...., então nos reconhecerás.
        Na sexta-feira seguinte apareceu aqui              Ficaram os jovens, desde então,
outra vez às mesmas horas. Espiou da janela,       mudados em dois pássaros de agouro, de
ouviu os meus roncos fingidos, pulou para          mistério e de morte. Um é Saci, o outro é o
dentro. Remexeu em tudo, como da primeira          Matintaperera. Ambos nascidos de uma
vez, e depois foi atrás do pito que eu tinha       tragédia, só espalham desgraças e semeiam
guardado no mesmo lugar. Pôs o pito na boca e      pavores.
foi ao fogão buscar uma brasinha, que trouxe
dançando nas mãos.                                         Impondo-se à crendice popular como
        Tem as mãos furadinhas bem no centro       um pássaro possuído pelo demônio, o Saci,
da palma; quando carrega brasa, vem                adquiriu feições de gente e à noite vagueava
brincando com ela, fazendo ela passar de uma       pelas estradas, cantando e assobiando.
para a outra mão pelo furo. Trouxe a brasa,                Contam que nos tempos coloniais,
pôs a brasa no pito e sentou-se de pernas          quando se avistava uma moça magra, triste,
cruzadas para fumar com todo o seu sossego.        pálida, logo diziam:
        Quando quer cruza as pernas como se                - "Isso é obra de Saci", porque, segundo
tivesse duas! São coisas que só ele entende e      os velhos colonos, as moças se apaixonavam
ninguém pode explicar. Cruzou as pernas e          por ele, sendo a morte a conseqüência
começou a tirar baforadas, uma atrás da outra,     inevitável desta paixão. Daí as quadrinhas
muito satisfeito da vida. Mas de repente, puf!     consagradas no folclore popular:
aquele estouro e aquela fumaceira!... O saci
deu tamanho pinote que foi parar lá longe, e                  "Menina, minha menina,
saiu ventando pela janela fora.                             Quem te fez tão triste assim?
        Eu tinha socado pólvora no fundo do                        De certo foi Saci
pito – exclamou tio Barnabé, dando uma risada               Que flor te fez do seu jardim."
gostosa. – A pólvora explodiu justamente
quando ele estava dando a fumaçada número                  Sua imagem e sua lenda, sofreram
sete, e o saci, com a cara toda sapecada,          transformações quando em contato com
raspou-se para nunca mais voltar.                  elementos africanos e europeus. Suas
                                                   características comportaram muitas variantes.
LENDA DA ORIGEM INDÍGENA DO SACI                   Cada qual o vê a seu modo. De suas diabruras
                                                   foram narradas coisas espantosas. Não se têm
        Um tuixaua tinha dois filhos. O tio        conta do número de molecagens e sortilégios
odiava os sobrinhos e convidou-os para ajudá-      que o diabinho infantil praticou. À noite dava
lo em uma derrubada de árvores para fazer um       nó na crina dos cavalos, roubava os ninhos das
plantio. Os dois sobrinhos aceitaram.              galinhas, cuspia nas panelas quando a
        Chegando na floresta, o tio embriagou      cozinheira era preta, deixava as porteiras
os jovens e os assassinou por pura maldade.        abertas, assobiava como o vento nas janelas e
        Depois um dos assassinados perguntou       nas portas, etc.
ao outro:                                                  O cavalo era uma das suas vítimas
        -"Eu tive um sonho muito estranho e tu     preferidas. Segundo a crendice popular, o Saci
o que sonhaste?"                                   corre as pastagens, lança um cipó no animal
        -"Sonhei, diz o outro, que nos             escolhido e nunca errou, trança-lhe a crina para
lavávamos com carajuru".                           amarrar com ela o estribo e, de um salto, ei-lo
        -"O mesmo sonhei eu".                      montado. O cavalo toma-se de pânico e deita a
        E resolveram voltar para a casa da avó.    corcovear campo a fora, enquanto o Saci lhe
Vendo-os, a velha já ia aquecer o jantar, mas      finca o dente no pescoço e chupa seu sangue.
os dois netos disseram:

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        Uma curiosidade em relação ao Saci-        exemplo, os da Escócia, com os quis, segundo
Pererê é que ele pode tornar-se invisível com o    Ramiz Galvão, muito se assemelha o "Trilby",
uso do sua carapuça vermelha. Contam alguns,       do conto de Nodier e o diabrete "Robin", de
que onde se forma um redemoinho de vento           que nos fala Shakespeare, ora tão prestativo e
que levanta muito poeira (pé de vento), é certo    ora tão perverso para com a gente da casa em
que dentro dele há um Saci. Para capturá-lo,       que se instala."
deve-se jogar dentro dele um rosário ou uma                Há também ainda, quem lhe pinte com
peneira. Todo o Saci, como todo o diabinho,        feições mais perversas, descrevendo-o como o
tem horror de cruz. Já outros, afirmam que ele     "terror dos caçadores", que salta à garupa dos
usa um barrete feito de marrequinhas (flores da    cavaleiros, chibatando-os e torturando-os.
corticeira) e é o Saci que governa as moscas               Foi Monteiro Lobato em seu livro "O
importunas, as mutucas e os mosquitos.             Saci", quem mais popularizou este personagem,
                                                   como uma entidade travessa. Conta-nos que
Mas porque nosso Saci tem uma perna                ele nascia em um local da floresta conhecida
só?                                                como "sacizeiros", constituída de bambuzais.
                                                   Desse local só sairá quando completar 7 anos e
        O Saci é considerado um fiel               viverá até os 77.
representante de um período social da história             Mas mesmo Lobato não conseguiu com
do Brasil: a época da escravidão. Portanto, não    sua obra apagar os traços estigmatizantes do
é por acaso que o Saci apresenta-se com uma        Saci, pois a mentalidade da escravidão ainda
perna só, pois todos os escravos fugidos que       era muito forte. Tais marcas só desaparecem
eram recapturados passavam por muitas              bem mais tarde, quando a indústria cultural
torturas e muitas vezes eram esquartejados. O      consegue domesticar o Saci e torná-lo tão
Saci retrata este negro escravo em sua luta        somente um molequinho arteiro, que perdeu
contra o dominador e o discriminador. A falta      seus poderes mágicos e sua agressividade.
da perna não é só metáfora, mas sim algo que               Serão suas travessura que lhe
realmente acontecia nesta época e passou para      garantirão popularidade em todo o País e fora
o folclore a partir das amas negras, ao            dele também. Conheça um pouco da sua
contarem suas estórias para embalar os sonhos      estória....
das crianças brancas.
        Com o passar do tempo, a imagem do         O SACI E A PERNA DE PAU
Saci rebelde e desordeiro, foi amenizada,
forçosamente controlada e passou então para                Conta-se que numa noite, há muito
estória brasileira como um símbolo nacional,       tempo atrás, em que outros homens se
um mestiço que une classes sociais e as etnias.    divertiam jogando e bebendo, um deles,
Mas sabemos que a verdade não é bem                chamado Felício, resolveu dar umas voltar e se
essa....!                                          deliciar com o luar. Sentou-se num grosso
        O valioso livro "Contos Populares" de      tronco de ipê, a beira do riacho e começou a
Lindolfo Gomes, conta-nos um curioso caso, em      preparar um "pito". Foi quando ouviu uma
que domina o Saci. E, das eruditas notas           vozinha:
explicativas, transcrevemos:                               - "Moço, tem um pouco de fumo aí?".
        "A respeito do Saci, há uns que afirmam            Pensando que fosse um de seus amigos,
ser um negrinho de uma banda, ou de uma            virou-se para responder, quando deu com o
perna só, gênio em alguns casos benfazejo e        Saci. Ele lhe sorria segurando um cachimbinho
protetor e em outros, perverso e malfazejo, que    vazio.
vaga à noite pelas estradas a perseguir os                 Felício, ficou branco, depois verde, um
viajantes ou penetrar nos lares para praticar      arco-íris de cores, tamanho foi seu susto. Quis
toda a sorte de malefícios e acender seu           gritar, mas sua voz sumiu por encanto, ou
cachimbo, sempre armado de um cacetinho,           medo mesmo. O Saci chegou mais perto e
pronto a descarregá-lo no lombo alheio. Já para    disse:
outros, o Saci é um passarinho cabuloso e                  - "Não tenha medo, meu amigo. Só
maléfico. Percebe-se logo que este mito saci foi   quero um pouco de fumo."
com o decorrer dos tempos se ampliando de                  Felício faz um esforço danado e tira do
elementos míticos estranhos, como por              bolso um pedaço de fumo.

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        - "Aqui está!". Diz ele ao Saci, mal                 Felício saiu atrás dos homens. Gritou um
conseguindo balbuciar as palavras.                  tempão até conseguir reunir todos. Eles não
        - "Assim não serve. Respondeu o             queriam ficar mais no barracão. Não queriam
diabinho. "Tem que ser picado, pois não tenho       nada com o Saci. Ajudar a fazer a perna dele?
canivete".                                          Nem sonhando! Mas acabaram concordando,
        Com medo de irritar o Saci, o pobre         pois era a única maneira de se livrar do
homem tratou de fazer rapidinho o que ele lhe       diabinho.
pediu. Depois, com muito sacrifício, Felício deu             Trabalharam com afinco. No dia
o fumo ao Saci.                                     marcado, o Saci voltou e ficou muito contente.
        - "Encha o pito!"                           Todos suspiraram aliviados. Mas pensam que a
        - "Agora acenda!". Ordenou ele.             estória acaba assim? Que nada! Ele falou que
        O Saci passou então, a dar baforadas de     desejava uma perna para cada Saci de sua
satisfação. Passados alguns minutos, o              família. Não esperou resposta, deu um assobio
danadinho chegou mais perto e perguntou a           e logo o barracão ficou cheio de sacis. É claro
Felício o que estava fazendo tão longe de casa.     que Felício ficou sozinho! Não vendo outra
Felício explicou então que trabalhava com           saída, ele concordou em fazer as pernas de
madeiras e foi contando sua história... No final    pau, mas ia levar anos. Quis saber então quais
o Saci deu uma grande risada e disse:               os Sacis que iam ser atendidos primeiro. Aí sim
        - "Madeira, não é mesmo? Pois é             o tumulto foi grande, ninguém queria ser o
justamente o que eu estava procurando..."           último.
        - "Mas para que?" Pergunta Felício.                  Foi quando Felício teve uma idéia. Ele
        - "Olhe, pois vou lhe confessar uma         viu uma enorme arca que haviam trazido para
coisa, as vezes tenho muita vontade de ser          deixar no rancho e mentalmente resolveu a
como as outras pessoas e ter duas pernas,           situação.
entende?                                                     Dirigiu-se ao Saci-chefe:
        - "Ah!". Respondeu, compreendendo a                  - "O melhor modo de resolver quais
intenção do Saci. "Você quer que eu lhe faça        serão os primeiros é este..." Pegou um
uma perna de pau, não é mesmo?"                     punhado de feijão e esparramou no fundo da
        - "Pois é isso mesmo e te darei três dias   arca. Depois disse que quem pegasse mais
para que esteja pronta, senão não darei             grãos seriam os primeiros. Todos os Sacis
sossego a você e seus companheiros!" Em             concordaram e mergulharam na arca. Mas
seguida saiu pulando e sumiu no meio do mato.       Felício havia esquecido do Saci-chefe. Foi
        Felício voltou ao seu barracão e contou     quando então tirou-lhe da mão a perna de pau
aos     companheiros      o   acontecido.    Uns    e atirou-a dentro da arca. O Saci nem piscou e
acreditaram ,outros acharam que tinha bebido        também se jogou dentro da arca. O Felício
demais.. Até que Felício acabou esquecendo o        então fechou-a. Chamou os homens e levaram
caso. No terceiro dia, conforme prometido,          a arca o mais longe possível. Desde então
quando os homens estavam em pleno trabalho,         nenhum Saci apareceu mais por aquelas
eis que um menino de gorro vermelho surge à         bandas.
porta do barracão. Quando deram com                 ----------------------------
ele..vocês      nem     podem      imaginar..uns             Em seu O Sacy-Perêrê – Resultado de
empurravam os outros, caiam, levantavam-se e        um inquerito , Monteiro Lobato faz um retrato
acabaram saindo todos pela abertura da janela.      falado do Saci, conforme lhe foi passado por
Apenas Felício ficou lá, estarrecido! Daí           entendidos no assunto:
perguntou:                                                   Só no convívio do sertanejo, valente de
        - "O que você quer?"                        dia e medroso de noite, ao som da viola num
        - "Ora, ora. Então não sabe? Vim buscar     rancho de tropeiros, vendo bruxolear a
minha perna de pau, lembra-se? Não vá dizer         fogueirinha e, fóra, na imprimadura da
que ainda não está pronta?"                         escuridão, lucilar o vagalume vagabundo é que
        Felício gaguejou, atrapalhou-se todo até    um artista poderá “ouvir e entender” sacys.
que consegui dizer que ainda não estava                      O medinho contagioso abrir-lhe-á todas
pronta. O Saci xingou, esbravejou, mas acabou       as valvulas da comprehensão. E saberá pela
indo embora com a promessa que tudo estaria         boca ingenuamente credula do Geca Tatu que
pronto dentro de mais três dias.                    tempéra a viola que o Sacy é um molecote

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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damninho, cabrinha malvado, amigo de montar        pássaro-Saci se convertem um no outro ou se
em pêllo nos “animaes” soltos no pasto e           trabalham em sociedade...
sugar-lhes o sangue emquanto os pobres                     Já Alceu Maynard Araújo, no primeiro
bichos se exhaurem em correria desapoderada,       volume de Folclore Nacional , cita o major
às tontas, loucos de pavor. E que em dias de       Benedito de Sousa Pinto, de São Luiz do
vento elle passa pinoteando nos remoinhos de       Paraitinga, evidentemente:
poeira. E que nessa ocasião basta lançar no                Conhecemos três espécies de Saci:
turbilhão um rosario de caiapiá para tel-o         trique, saçurá e pererê. O Saci mais encontrado
captivo e a seu serviço como um criadinho          por aqui é o Saci-pererê. É um negrinho de
invisível. E saberá mil particularidades mais,     uma perna só, capuz vermelho na cabeça e
ouvirá “causos” de mil diabruras pelos campos,     que, segundo alguns, usa cachimbo, mas eu
ou dentro de casa se uma cruz na porta             nunca vi. É comum ouvir-se no mato um
principal não a proteje do capeta. E ficará        “trique”isso é sinal que por ali deve estar um
encantado com a psychologia do pernetinha,         Saci-trique. Ele não é maldoso; gosta só de
cuja mania é atazanar a vida do sertanejo com      fazer certas brincadeiras como, por exemplo,
molecagens de todo o genero sem entretanto         amarrar o rabo de animais.
cahir em excessos de perversidade. Não tem                 O saçurá é um negrinho de olhos
maus bofes, o Sacy. O que quer é divertir-se a     vermelhos; o trique é moreninho e com uma
custa do caboclo e quebrar a vida monótona do      perna só; o pererê é um pretinho que, quando
sertão.                                            quer se esconder, vira um corrupio de vento e
        Mas há controvérsias.                      desaparece no espaço. Para se apanhar o
        Na Geografia dos Mitos Brasileiros ,       pererê, atira-se um rosário sobre o corrupio de
Câmara Cascudo cita uma passagem de                vento.
Poranduba Amazonense em que Barbosa                        Quando se perde qualquer objeto, pega-
Rodrigues vê a identidade do insigne perneta       se uma palha e dá-se três nós, pois se está
se sobrepor à de uma ave, o popularíssimo          amarrando o órgão genital do Saci. Enquanto
“Pássaro-Saci”:                                    ele não achar o objeto, não desatar os nós. Ele
        ... no Sul é Saci tapereré, no Centro      logo faz a gente encontrar o que se perdeu
Caipora e no Norte Maty-taperê.                    porque fica com vontade de urinar. Quando se
        O civilizado, que muitas vezes não         vê um rabo de cavalo amarrado, foi o Saci
entende a pronúncia do sertanejo, que é o mais     quem deu o nó. Tirando-se o gorrinho do Saci-
perseguido por ele nas suas viagens, tem-lhe       pererê, ele trará para quem o devolva tudo o
alterado o nome; já o fez Saci-pererê, Saperê,     que quiser.
Sererê, Siriri, Matim-taperê e até já lhe deu um           Quando passar o redemoinho de vento,
nome português, o de Matinta-Pereira, que          jogando-se nele um garfo sai o sangue do Saci.
mais tarde, talvez, terá o sobrenome “da Silva”    Há outras versões: dizem que jogando-se um
ou “da Mata”. Para conseguir seus fins, e fazer    rosário, o Saci fica laçado; e que jogando-se
suas proezas sem ser visto, sempre vive o Saci     uma peneira, fica nela.
ou Mati metamorfoseado em pássaro, que se
denuncia pelo canto, cujas notas melancólicas,            Um ancestral do Saci
ora graves ora agudas, iludem o caminhante
que não pode assim descobrir-lhe o pouso                   Pesquisando sobre a origem e
porque, quando procura vê-lo pelas notas           abrangência geográfica do saci, me aventurei
graves, que parecem indicar-lhe estar o Saci       por livros e enciclopédias de folclore. Embora
perto, ouve as agudas, que o fazem já longe. E     todos os continentes tenham duendes
assim, iludido pelo canto se perde, leva           protetores das florestas, nenhum tem as
descaminho nunca vendo o animal.                   características de nosso simpático unípede.
        Um adendo. Gabriel Esquerra, um            Nem mesmo na África negra descobri parentes
sociólogo argentino, diz existir uma dúvida        do saci, o que delimita seu habitat natural à
polêmica, entre a população de Misiones, na        América do Sul.
região fronteiriça com o Brasil e o Paraguai,              Os guaranis contam histórias de um
quanto à questão levantada por Barbosa             pequeno índio meio mágico, com o poder de
Rodrigues: ninguém sabe ao certo se o Saci e o     ficar invisível, que vive nos bosques e protege
                                                   os animais, escondendo-os dos caçadores. Seu

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nome é Cambai ou Cambay, e curiosamente ele                 Um saci estranhíssimo! Diz o texto, um
tem uma perna torta, e anda manquitolando.          relato dos primeiros desbravadores, que ele
Vem daí a expressão cambaio, que significa          assim agia para se proteger do sol naquela
manco, em português. Cambai pode ser                região desértica. Foi chamado de “patagon”
considerado um ancestral do saci moderno, que       (grande pata, pezão), e daí deriva o nome da
adquire a cor preta por influência da cultura       região: Patagônia. Como hoje não há mais
afro trazida para o Brasil.                         relatos sobre sua presença, podemos supor que
        Nas lendas amazônicas ou litorâneas         está extinto, infelizmente. Mas sua semelhança
(aruaques, tupinambás) não há registros de          com o nosso saci revela que foi um parente
saci, o que nos leva à conclusão de que ele é       próximo, um antepassado igualmente sul-
originário do Centro-Sul do país - área guarani -   americano.
tendo como centro de irradiação o Vale do
Paraíba, onde registramos a maior parte das
ocorrências.
        Quando já considerava encerrada a
pesquisa deparei com um fato assombroso, que
passo agora a relatar. Viajantes do século XVII,
explorando o extremo sul do continente,
chegaram às terras geladas da Terra do Fogo,
onde encontraram uns poucos índios, altos e
fortes, habituados à aridez do solo e à
inclemência do tempo. Uma rara ilustração da
época, encontrada num livro espanhol, revela
um pequeno homem, nu, barbado, deitado no
chão com sua única perna erguida e um
enorme pé sobre a cabeça.

                                        ESTANTE DE
                                          LIVROS

O garatuja: crônica dos tempos coloniais            O guarani
Alencar, José de                                    Alencar, José de
   O romance é ambientado na cidade de São                 A branca Ceci se apaixona pelo índio
Sebastião do Rio de Janeiro, em meados do           Peri, numa tragédia típica da época das
século XVII, integrando uma trilogia publicada      Bandeiras. O enredo, do mais famoso livro de
em 1873, com o título de Alfarrábios.               Alencar, já serviu para movimentar filmes,
Ivo, personagem principal, nasceu de um             óperas e novelas.
relacionamento conjugal e é enjeitado pela
                                                    Iracema: a lenda do Ceará
sociedade. Vive uma história de amor inocente,
                                                    Alencar, José de
escondida dos pais da moça, e participa
                                                           Lenda cearense que conta a história da
ativamente das peripécias políticas nas
                                                    Tabajara Iracema e do colonizador Martim, de
constantes intrigas entre a Coroa e a Igreja, as
                                                    cujo amor nasce Moacir. Relato poético sobre a
principais instituições da época. Ele, porém,
                                                    vida dos indígenas e dos homens brancos.
não é uma pessoa comum. Possui grande
talento para o desenho, daí o apelido de
                                                    Lucíola
"Garatuja". Suas caricaturas, rabiscadas nos
                                                    Alencar, José de Alencar
muros da cidade, são um dos elementos que
                                                           A linda Lúcia não se enquadrava nos
conduzem      o     enredo.   Nenhum      outro
                                                    preconceitos dos sonhos de Paulo. No Rio de
personagem é capaz de compreendê-lo e até
                                                    Janeiro de cem anos atrás, mundano, frívolo,
comentam que ele tem parte com o diabo, fato
                                                    materialista, Lúcia era a mundana, a frívola, a
que acaba contribuindo para sua expulsão do
                                                    materialista. E, por amor, os sonhos de Paulo
colégio dos jesuítas.
                                                    tiveram de se adaptar à realidade de Lucíola.
 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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Aos poucos, essa realidade revelou-se muito,      forma a tornar a história mais acessível e
muito melhor do que os sonhos.                    divertida aos adolescentes.

Senhora
                                                  Memórias de um Sargento de Milícias
Alencar, José de
                                                  Almeida, Manoel Antônio de
       Aurélia, uma personagem feminina
                                                          Crônica semi-histórica de amores e
universal. Criada há mais de cem anos, tornou-
                                                  aventuras no Rio de Janeiro de Dom João VI. O
se real, adquirindo uma existência mais sólida
                                                  livro retrata a sociedade brasileira no início do
do que se tivesse existido em carne e osso. Em
                                                  século XIX, por meio das peripécias do
carne e sangue. Em carne e charme. Em carne
                                                  vivaldino Leonardo.
e verdade. Nesse romance, José de Alencar
parecia antever o debate feminista do século
                                                  ABC de Castro Alves
XX, ao criar uma personagem jovem, mas forte,
                                                  Amado, Jorge
que procura impor sua condição de mulher no
                                                         A biografia sentimental do poeta baiano
mundo masculino, onde todas as decisões são
                                                  Antônio Castro Alves serve para que o autor se
tomadas pelos homens. E pelo dinheiro.
                                                  coloque como um de seus discípulos e
O sertanejo                                       transforma o poeta romântico em um profeta
Alencar, José de                                  revolucionário.
       Os dias e os trabalhos do vaqueiro
cearense Arnaldo traçam um painel do              A descoberta da América pelos turcos
Nordeste brasileiro no último romance             Amado, Jorge
publicado em vida por José de Alencar.                    Em 1922, Jorge Amado lançou a história
                                                  da chegada do árabe Jamil Bichara à Itabuna,
Til                                               no início do século XX. Foi a sua forma de falar
Alencar, José de                                  sobre os 500 anos da descoberta da América
        O desejo de vingança do capanga           sem deixar de ser original e regional.
profissional João Fera e a vida rural do Brasil
Imperial, são os temas desse romance de           Dona Flor e seus dois maridos
aventura do autor cearense.                       Amado, Jorge

Ubirajara                                         Florípedes, a Dona Flor, é professora de
Alencar, José de                                  culinária da escola Sabor & Arte e perde seu
       A continuação de Iracema conta as          primeiro      marido,   Vadinho,     malandro
guerras indígenas no Nordeste do Brasil antes     incorrigível, em pleno domingo de carnaval.
do Descobrimento.                                 Como ainda é jovem e bonita atrai a atenção
                                                  do corretíssimo farmacêutico Teodoro e casa-se
Mergulho no fim                                   com ele. As diferenças entre os dois maridos
Alge, Nilo                                        são gritantes. O fantasma de Vadinho passa a
        Marcos é convidado para jantar na casa    se entrometer na vida (e na cama) de D.Flor e
de seu amigo Jorge. Entre os presentes está       Teodoro.
um velho professor de Biologia, ainda dos
tempos em que eram estudantes. Os                 A morte e a morte de Quincas Berro
convidados passam a suspeitar das pesquisas       D’Água
feitas pelo cientista e a temer pelo destino da   Amado, Jorge
humanidade, após a divulgação do que ele vem             O respeitável Joaquim Soares da Cunha,
trazendo em segredo, segredo este somente         funcionário público exemplar, rompe com a
compartilhado por sua jovem assistente.           família e as convenções sociais para viver
                                                  aventuras no porto e na zona de meretrício de
As viagens de Marco Polo                          Salvador.
Almeida, Lúcia Machado                            Os pastores da noite
       O livro baseia-se nas viagens e            Amado, Jorge
aventuras do célebre navegador italiano da               Personagens inesquecíveis nesta trama
Idade Média, narrado de forma mais viva pela      que conta o dia-a-dia de um morro em
autora e tendo Marco Polo como herói, de          Salvador. O cabo Martim está para se casar

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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com Marialva, mas uma dona de bordel tem                  Uma trama de lutas, violência e paixão
razão para desconfiar da moça.                    na zona baiana do cacau, construída com
                                                  leveza, humor e sensualidade.
São Jorge dos Ilhéus
Amado, Jorge                                      Macunaíma: o herói sem nenhum caráter
       Continuação do livro “Terras do sem        Andrade, Mário de
fim”. A segunda geração de homens que                    Crítica social e política através de
conquistaram a terra, a política, os seres        alegorias e simbologia. O autor usa grande
humanos, a decadência do cacau. Intrigas,         quantidade de palavras indígenas.
amor e paixões.
                                                  A face horrível
O sumiço da santa: uma história de                Ângelo, Ivan
feitiçaria                                               Contos que manifestam ao primeiro
Amado, Jorge                                      exame, a essência de todo o texto irônico. A
        Dono de um estilo inconfundível, Jorge    atração inicial ou a criação de uma expectativa,
Amado reforça, neste livro, sua posição de        segue-se a traição ou a frustração dessa
artista fortemente identificado com o espírito    expectativa. O elemento surpresa está sempre
cultural baiano. O humor, a malícia e a           presente, geralmente oculto sob a poeira fina
influência do autor fazem deste romance uma       do cotidiano.
obra-prima. A história conta a visita de Santa
Bárbara , Yansã no candomblé, à cidade de         O cortiço
Salvador. Ela se mistura ao povo e interfere na   Azevedo, Aluísio
vida de duas de suas filhas.                              Um dos mais conhecidos e expressivos
                                                  romances da escola naturalista brasileira,
Tenda dos milagres                                retrata a vida numa habitação coletiva do Rio
Amado, Jorge                                      de Janeiro na época da escravatura. Seus
         Um painel social e político da Bahia,    personagens típicos, as pequenas trapaças e
desde o fim do século XIX até a Segunda           violências surgem aos olhos do leitor em cores
Guerra Mundial. O centro do romance é a vida      vivas e lances emocionantes. O autor pinta o
de Pedro Arcanjo, um personagem fascinante        retrato de todo um processo de transformação
que luta pela afirmação da cultura afro-          econômica e social que ocorreu com a
brasileira e pela dignidade social do negro       expansão urbana da antiga capital do país.
enfrentando os preconceitos e a repressão         Publicado em 1890, por muito tempo este
policial.                                         romance foi considerado escandaloso.

Terras do sem fim                                 Noite na taverna
Amado, Jorge                                      Azevedo, Álvares
        Romance sobre o ciclo do cacau na                Proporciona ao leitor uma viagem ao
Bahia. O poder absoluto dos coronéis na           mundo fantástico da melancolia e morbidez que
conquista das terras, domina tudo e todos pela    caracterizam a época em que viveu Alvares de
força. Este livro tem continuação em “São Jorge   Azevedo. Numa taverna, um grupo de
dos Ilhéus”.                                      conhecidos reúne-se para espantar o tédio com
                                                  o vinho nos lábios e contos macabros afluindo
Tieta do agreste                                  na mente.
Amado, Jorge
       Expulsa do lugarejo onde nasceu, após      Cara nova ou beleza pura
decorrer vários anos, Tieta retorna rica e        Bloch, Pedro
poderosa, guardando um segredo. Todos                    Pedro Bloch realiza uma viagem nesta
temem uma possível vingança, ao mesmo             sociedade moderna. É um desafio aos leitores
tempo que se defrontam com os costumes            para que reflitam sobre o consumismo, o
ousados de uma mulher que não temia nada.         modismo, os conflitos de diversos perfis
                                                  psicológicos,   sobre   os   seus   próprios
Tocaia grande: a face obscura                     sentimentos e atitudes.
Amado, Jorge

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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Amor de perdição                                    Eduardo Bueno leva o leitor a bordo da
Branco, Camilo Castelo                              esquadra de Cabral onde será conhecida cada
       O drama mais passional da língua             etapa decisiva que culmina na chegada dos
portuguesa, onde o autoritarismo e o                portugueses ao Brasil.
preconceito impedem a avassaladora paixão
                                                    Mauá, empresário do Império
banida:Teresa, para um convento e Simão,
                                                    Caldeira, Jorge
para o degredo nas Índias. Em segredo,
                                                            Biografia de Irineu Evangelista de
Mariana ama Simão, que não sabe desse amor.
                                                    Sousa, Barão e Visconde de Mauá, que
Ele só tem sentidos para a sua inatingível
                                                    começou sua vida como caixeiro e foi
Teresa. Resignada, Mariana ajuda o amor de
                                                    surpreendendo, enriquecendo e assustando a
Simão por sua rival, fazendo despontar a
                                                    todos numa sociedade de senhores e escravos,
tragédia. Uma história de extremos.
                                                    favores e conchavos. Trabalhou até o final da
Capitães do Brasil – A saga dos primeiros           vida e protagonizou uma aventura empresarial
colonizadores                                       sem paralelo em qualquer outro momento da
Bueno, Eduardo                                      história do Brasil.
        Que homens receberam os imensos
                                                    A expedição Montaigne
lotes da nova colônia portuguesa – as
                                                    Callado, Antonio
chamadas capitanias hereditárias? Por que
                                                            Disposto a organizar, no coração do
foram eleitos donatários e que missão,
                                                    Brasil, um exército de índios, rebelando-os
realmente, viriam a cumprir? A saga dos
                                                    contra os brancos, o jornalista Vicentino Beirão
primeiros capitães do Brasil, entre 1530 e 1550,
                                                    arrasta com ele, na louca empresa, o camaiurá
revela o jogo do poder e ambição da Coroa
                                                    Ipavu (ou Paiap),
portuguesa, e seu projeto para a colonização
da margem oriental do Atlântico, abandonada         tirado por ele do reformatório (ou presídio) de
desde o descobrimento.                              Crenape. O Resultado da expedição é
                                                    surpreendente.
O descobrimento das Índias
Bueno, Eduardo                                      Cartas do meu moinho
        O diário perdido da viagem de Vasco da      Campos, Paulo Mendes
Gama, escrito pelo marinheiro Álvaro Velho, é              Um escritor que mora em um moinho de
editado pela primeira vez no Brasil numa versão     pás móveis, observa os tipos humanos e as
atualizada e com prefácio do jornalista Eduardo     paisagens da Provença. Uma coletânea de
Bueno. O livro é o relato dramático da rota feita   contos escritos por autor perspicaz e sensível.
pelo navegador Vasco da Gama, de Lisboa até
                                                    Bilac vê estrelas
Calicute, sendo um documento precioso para
                                                    Castro, Ruy
quem gosta de história e aventura.
                                                            Rio de Janeiro, 1903. Olavo Bilac está
                                                    em seu posto de observação na calçada da
Náufragos , traficantes e degredados
                                                    Confeitaria Colombo. Com a própria glória
Bueno, Eduardo
                                                    garantida, só uma coisa o preocupa: como é
        O livro conta a saga dos primeiros
                                                    efêmera a glória alheia. Seu amigo José do
brasileiros, os esquecidos náufragos e
                                                    Patrocínio, grande jornalista da Abolição, pode
aventureiros que desbravaram nossas terras e
                                                    ter sido encontrado morto em Paquetá. Bilac se
travaram contato com os índios durante os
                                                    mete numa trama envolvendo um fabuloso
anos 1500 a 1530, um período obscuro da
                                                    dirigível, inventado por Patrocínio e objeto da
História do Brasil.
                                                    cobiça de dois aeronautas franceses e de uma
A viagem do descobrimento                           traiçoeira espiã portuguesa. Na tentativa de se
Bueno, Eduardo                                      apoderar dos planos do balão, a espiã e seu
       A partir de ampla pesquisa em                cúmplice, fazem Bilac literalmente ver estrelas
documentos da época e em textos de                  com uma bengalada na cabeça, que o leva ao
estudiosos no assunto, o autor revisita             espaço e ao Olimpo. O cenário e a época são
importante tema da nossa história: o                reais: boa parte da história se passa nas ruas
descobrimento do Brasil. Num texto bem              do Rio durante a agitada Belle Époque carioca.
humorado, repleto de casos pitorescos,


 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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Bilac vê estrelas é a estréia de Ruy Castro na    O silêncio da chuva
ficção.                                           Garcia-Roza, Luiz A.
                                                         No centro do Rio de Janeiro um
Brasil 5 séculos
                                                  executivo é encontrado morto sentado ao
Donato, Hernâni
                                                  volante de seu carro. Além de um tiro único,
        História do Brasil escrita de uma
                                                  não há outros sinais de violência. Ninguém viu
maneira justa, onde a verdade não sofre
                                                  nada, ninguém ouviu nada. O policial
influência das diferentes doutrinas tão
                                                  encarregado do caso, inspetor Espinoza,
numerosas no século XX e que muito
                                                  costuma refletir sobre a vida olhando o mar,
influenciaram os rumos da humanidade.
                                                  sentado em um banco da praça Mauá e no
Éramos seis                                       momento tem muito sobre o que refletir. De
Dupré, Maria José                                 um lado, um morto surgido num edifício-
       A luta e o destino de uma família muito    garagem; de outro, a incessante multiplicação
unida, na São Paulo dos anos 30 e 40.             de protagonistas do drama. Tudo se complica
                                                  quando ocorre outro assassinato e pessoas
Sinhá moça
                                                  começam a sumir.
Fernandes, Maria Dezone Pacheco
       Romance de amor, no tempo da luta          Anarquistas graças a Deus
contra a escravidão negra no Brasil.
                                                  Gattai, Zélia
De Virgolino a Lampião
                                                         Autobiografia. A indomável coragem de
Ferreira, Vera / Amaury, Antonio                  uma gente sofrida. Imigrantes italianos em São
                                                  Paulo, suas dificuldades, lutas e alegrias na
        Neste livro, os autores procuram
                                                  sobrevivência na grande metrópole. (Sugestão:
mostrar a história real de Lampião, o “Rei do
                                                  ler em seguida “Um chapéu para viagem”.)
Cangaço”, esclarecendo a verdade dos fatos e
separando a ficção da realidade, de uma forma     Jardim de inverno
clara, objetiva e imparcial.
                                                  Gattai, Zélia
Tratado geral dos chatos
                                                         Um outro sucesso da autora, onde
Figueiredo, Guilherme de Oliveira                 aborda    a   Guerra      fria, a    vida   na
                                                  Tchecoslováquia, a perseguição à comunistas
         A humanidade está chata. O Brasil está
                                                  devotados. Um livro politicamente oportuno.
chato. A chatura cresce a olhos vistos e se
espalha sobre nós. Não liqüidaremos com a         Fase terminal
chatura, mas aprendemos a conhecê-la em
                                                  Gomes, Alvaro Cardoso
todas as suas múltiplas facetas, pois assim
estabeleceremos as regras de convivência                  Para cada problema um antídoto
suportável que nos reconduzem à proposição        estimulante. Para o tédio e a falta de
inicial, "O chato não se chateia", e isso nos     perspectiva: louvor ao perigo e à violência. Para
permitirá, como último gesto de esperança,        a perda do afeto, da compreensão e do
bradar: Chatos de todo mundo, uni-vos!            diálogo: drogas e pichações. Esse era o
                                                  cotidiano de Teto, Kika e Caco, antes da
O doente Molière                                  doença de Vado, companheiro de aventuras.
Fonseca, Rubem                                    Centrados em si mesmos, os três desconheciam
                                                  as dificuldades daqueles que trabalham para
       Dando continuidade à proposta da           sobreviver. Desconheciam, principalmente, o
coleção literatura ou morte, Rubem Fonseca        poder destruidor da AIDS. Onde buscar
escolheu Molière para compor este policial que    antídotos para a fragilidade humana?
se passa na corte de Luis XIV. Após uma
apresentação da peça “ O doente imaginário “,     A escrava Isaura
Molière sente-se mal e, agonizante, revela a      Guimarães, Bernardo
seu amigo que foi envenenado. Na busca pelo
assassino, o leitor passeia pela França                  Isaura nasceu branca, mas nasceu na
setecentista e ainda tem o prazer de “assistir”   senzala. Nasceu escrava, destinada a uma vida
às peças do dramaturgo.                           de miséria, de humilhação, ao fim da qual só a
                                                  esperava uma morte cruel como a de sua mãe.

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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Linda, capaz de sobreviver em meio às moças        Um pássaro em pânico
mais aristocráticas do Recife, Isaura desperta a   José, Elias
paixão abjeta do fazendeiro Leôncio, seu                   Contos onde se misturam realidade e
“dono” de direito. Mas desperta também o           fantasia.
amor puro de Álvaro.
                                                   O feijão e o sonho
O seminarista                                      Lessa, Orígenes
Guimarães, Bernardo                                       Romance que narra a história do poeta
        Tornar-se padre e internar-se em um        Campos Lara, professor de uma pequena
seminário pela imposição dos pais, quando lá       cidade do interior paulista, dividido entre o
fora está Margarida, sua paixão.                   universo sensível da poesia e as amargas
                                                   necessidades do cotidiano.
Grande sertão: veredas
Guimarães Rosa, João                               A pedra no sapato do herói
       O único romance do escritor mineiro         Lessa, Orígenes
conta, em linguagem perturbadora, as                      A história de um garoto muito esperto,
lembranças do jagunço Riobaldo em suas             que se torna herói, ao livrar sua pequena
desventuras e cavalhadas no espaço mítico dos      namorada das mãos de um bandido que
campos gerais e seu amor impossível por            pretendia assaltar o prédio onde moravam.
Diadorim.
                                                   Rua do sol
Primeiras estórias                                 Lessa, Orígenes
Guimarães Rosa, João                                      O dia-a-dia da vida de um menino de 6
        Este é o melhor livro para começar a       anos, no Maranhão. Suas aventuras e
entender Guimarães Rosa. São vários contos         experiências, alegrias e tristezas.
que passeiam do fantástico ao anedótico,
                                                   Tio Pedro
passando pelo psicológico, o autobiográfico e o
                                                   Lessa, Orígenes
satírico.
                                                          É um livro que mostra como os
Sagarana                                           preconceitos e os falsos valores de uma
Guimarães Rosa, João                               sociedade consumista podem deformar a
        Estréia do autor no conto. O livro         consciência das crianças. Há 25 anos, Tio Pedro
desponta como a semente de uma obra cujo           tinha partido para os seringais do Acre e os
significado está longe de ser decifrado. São       sobrinhos esperavam que ele retornasse rico e
nove histórias, que apresentam a paisagem          cheio de presentes para satisfazer seus desejos
humana e geográfica do Brasil em linguagem         de crianças pobres. Riqueza e bens materiais, o
absolutamente pessoal. Obra de fundamental         sonho de consumo da classe média brasileira.
importância para a compreensão do universo
                                                   Cidade de Deus
ficcional de Guimarães Rosa. “Sagarana” é
                                                   Lins, Paulo
exaltação e deslumbramento, uma criação
                                                           Inaugurado em 1966, o conjunto
absoluta.
                                                   habitacional Cidade de Deus se tornou uma das
Camilo Mortágua                                    maiores e mais violentas favelas do Rio de
Guimarães, Josué                                   Janeiro. Neste seu romance de estréia, Paulo
        A história de Camilo Mortágua              Lins faz um painel das transformações sociais
amadureceu por oito anos, antes de tornar sua      pelas quais a favela passou: da pequena
estrutura definitiva. Trata-se da trajetória       criminalidade dos anos 60 à situação de
política de seu país.                              violência generalizada e de domínio do tráfico
                                                   de drogas dos tempos atuais. Para redefinir a
Os tambores silenciosos
                                                   situação do lugar onde cresceu, Lins usa o
Guimarães, Josué
                                                   termo “neofavela”, em oposição à favela antiga,
       Discussão sobre a legitimidade da
                                                   aquela das rodas de samba e as malandragens
censura, através da sátira de personagens de
                                                   românticas. Baseado em fatos reais, grande
uma cidade que não consta no mapa. Vasto
                                                   parte do material utilizado para escrever este
painel humano que se expressa em um
                                                   livro foi coletado durante oito anos de
romance realista e vencedor, por unanimidade
                                                   pesquisas antropológicas sobre a criminalidade
do prêmio Érico Veríssimo.
                                                   e as classes populares do Rio de Janeiro.

 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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O mistério do índio voador                          O segredo do ídolo de barro
Loibl, Elisabeth                                    Loibl, Elisabeth
       Aventura vivida pelos irmãos Nando e                 Quando o Dr. Henrique resolveu levar
Pituca que tem como cenário o Vale do Seridó,       seus jovens sobrinhos para os fascinantes
no Rio Grande do Norte, e sua arte rupestre. A      caminhos da arqueologia, as descobertas
autora relata o trabalho feito por uma              começaram na cidade de Belém, no Mercado
expedição arqueológica e a bonita integração        Ver o Peso, na visita ao Museu Emílio Goeldi.
dos cientistas/arqueólogos com os valiosos          Mas é na Ilha de Marajó que eles vivem uma
conhecimentos com os nativos da região.             incrível aventura quando Paulinho ganha de
                                                    presente um misterioso ídolo de barro, tesouro
                                                    de uma civilização perdida.


                                Tatiana Belinky
                                 toma posse na
                              Academia Paulista de
                                     Letras

        Dia 15 de abril de 2010, às 19,00 horas,            Ainda hoje, Tatiana é apaixonada por
no Colégio Dante Alighieri, haverá a solenidade     Monteiro Lobato e o coloca acima de todos os
de posse de TATIANA BELINKY, a grande dama          outros escritores que se dedicaram ao universo
da Literatura e da TV e tradutora das obras         da criança, inclusive estrangeiros. O amor
russas no Brasil, na ACADEMIA PAULISTA DE           surgiu logo no primeiro contato, quando se
LETRAS, com saudação do acadêmico                   mudou de São Petersburgo, à época parte da
FRANCISCO MARINS.                                   União Soviética, para São Paulo com sua
        Tatiana Belinky é uma das escritoras de     família. Ela vinha munida de toda a cultura
livros infantis mais conhecidas no Brasil.          cultivada em casa - a mãe cantava, o pai
Curiosamente, ela nasceu na Rússia, em 1919,        escrevia poesia - e de três idiomas na ponta da
e veio pequena ao Brasil, com apenas dez anos       língua (russo, alemão e letão). Logo aprenderia
de idade. Além dos livros infantis, Tatiana ficou   muito bem o português, e o adotou como a
famosa por ter sido responsável pela primeira       língua oficial de sua escrita.
adaptação do "O Sítio do Pica-Pau Amarelo", de              Outra novidade de Tatiana são seus
Monteiro Lobato, para a televisão. Já recebeu       contos, entre eles "A coruja e a onça",
muitos prêmios pelas suas histórias e trabalhos     republicados na coleção Ciranda Cirandinha, da
realizados na televisão e no teatro. Nesta          Editora Paulus, que reúne grandes autores da
entrevista concedida ao CRE, a escritora            literatura infanto-juvenil. Os volumes vêm
reafirma a importância do hábito da leitura para    engrossar a lista já impressionante de mais de
as crianças.                                        100 livros publicados, sem contar com as
        "Capitu que me desculpe, mas a Emília é     muitas traduções de obras-primas assinadas
a maior heroína literária brasileira". Esta         por ela, como dos contos de Hans Christian
declaração já virou marca registrada de Tatiana     Andersen e dos Irmãos Grimm. Tatiana foi
Belinky, que acaba de completar 91 anos e           responsável, ainda, pela primeira adaptação de
também de entrar para a Academia Paulista de        "O Sítio do Picapau Amarelo" para a TV,
Letras. "Nunca imaginei que fossem me indicar,      veiculada na década de 1950 pela Tupi. Seu
fiquei até um pouco assustada. Mas fui eleita e     marido, Júlio Gouveia, dirigia os episódios.
agora vou à festa da posse. Estou pensando em       Ganhou, mais tarde, o Prêmio Jabuti de
quem convidar", diverte-se a escritora com o        Personalidade Literária do Ano em 1989. Além
entusiasmo infantil que nutre desde menina,         disso, ao longo de sua carreira, traduziu muitos
quando queria ser bruxa para praticar               compatriotas, entre os quais Gogol, Tchekhov e
travessuras sem receio. Ruth Rocha, sua amiga       Tolstoi, mas a criança sempre foi seu público
e membro da Academia, participou do convite,        favorito. "Tomei conta do meu irmãozinho, que
o que a deixou ainda mais lisonjeada.               me ensinou metade de tudo que sei sobre

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crianças. Desde então, minha preferência é                falar com os pequenos, e sei falar com eles".


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                                                       Estado do Paraná

                                                                  Imortais
       A solenidade dos novos membros                     Patrono: Luiz Otávio
Imortais da ALB, pelo Estado do Paraná será
realizada na cidade de Maringá, na data de                020 – LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE (posse em agosto
14 de agosto de 2010, sábado, às 20hs.                    2010)
                                                          Pinhalão
     Pelo Paraná as cadeiras estão assim
compostas:                                                Patrono: Elias Domingos
CADEIRAS da Academia de Letras do Brasil                  025 – ALBERTO PACO (posse em agosto 2010)
001 - Dr. JOSÉ FELDMAN - Ph.I.                            Maringá
Ubiratã                                                   Patrono: Galdino Andrade
Patrono: Paulo Leminski                                   027 – ÁTILA JOSÉ BORGES (posse em agosto 2010)
002 – ROZA DE OLIVEIRA (posse em agosto 2010)             Maringá
Curitiba                                                  Patrono: Túlio Vargas
Patrono: Helena Kolody                                    028 - DARTAGNAN PINTO GUEDES - Ms.
003 – ANDRÉA MOTTA (posse em agosto 2010)                 Londrina
Curitiba                                                  033 – FRANCISCO JOSÉ SINKE PIMPÃO (posse em agosto
Patrono: Emiliano Perneta                                 2010)
004 – VALTER MARTINS DE TOLEDO (posse em agosto           Curitiba
2010)                                                     Patrono: Sebastião Paraná
Curitiba                                                  034 – MARIA ELIANA PALMA (posse em agosto 2010)
Patrono: Ildefonso Pereira Correia, Barão do Serro Azul   Maringá
007 – OLGA AGULHON (posse em agosto 2010)                 Patrono: Ary de Lima
Maringá
                                                          043 - ORLY BUCHI (UFPR)
Patrono: Antonio Facci
                                                          Curitiba
008 – VÂNIA MARIA DE SOUZA ENNES (posse em agosto
2010)
                                                          055 – SINCLAIR POZZA CASEMIRO (posse em agosto 2010)
Curitiba                                                  Campo Mourão
Patrono: Heitor Stockler de França                        Patrono: Aracyldo Marques

011 – DINAIR LEITE (posse em agosto de 2010)              069 - Dr. ANDRÉ G. CARNEIRO - Ph. I.
Paranavaí                                                 Curitiba
014 – ANTONIO AUGUSTO DE ASSIS (posse em agosto           Patrono: Oswald de Andrade
2010)                                                     077 - JORGE JOSÉ MATIEVICZ - Ph.I.
Maringá                                                   Cascavel
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                          INDICAÇÃO DE SITES DE LITERATURA

Literatura em geral                           Academia de Letras do Brasil
http://www.coladaweb.com                      http://www.academialetrasbrasil.org.br
http://www.releituras.com                     Domínio Público (livros digitais)
http://literaturasemfronteiras.blogspot.com   http://www.dominiopublico.gov.br
http://www.poetasdelmundo.com                 Escritores do Sul
http://www.vaniadiniz.pro.br                  http://www.escritoresdosul.com.br
http://singrandohorizontes.blogspot.com       Trovas
Literatura do Paraná                          http://www.falandodetrova.com.br
http://simultaneidades.blogspot.com           Alma de Poeta
Academia de Letras de Maringá                 http://www.sardenbergpoesias.com.br
http://www.academiadeletrasdemaringa.com.br   Portal de Literatura e Arte
Academia de Letras de Rondônia                http://www.cronopios.com.br
http://www.acler.josevaldir.com               Jornal de Poesia
Academia Sorocabana de Letras                 http://www.jornaldepoesia.jor.br
http://www.academiasorocabana.com.br          Cultura Popular Brasileira
Academia Paranaense de Letras                 http://www.jangadabrasil.com.br
http://www.academiaprletras.kit.net           Poetrix
Academia Brasileira de Letras                 http://www.gouglartgomes.com
http://www.academia.org.br




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                                                             FONTES

         Colaboradores

Academia Paulista de Letras
Alberto Paco
Antonio Augusto de Assis
Antonio Brás Constante
Antonio Manuel Abreu Sardenberg
Aparecido Raimundo de Souza
Branca Tirollo
Dinair Leite
Emir Simionato Sabião
Franklin Ras Lopes
Maria Eliana Palma
Nilto Maciel
Nilto Manoel (UBT/Ribeirão Preto)
Olga Agulhon
Paulo Vieira Pinheiro
Pedro Ornellas
Pedro Silva
Vicencia Jaguaribe

          Bibliografia:
- Blog do De Paula.
- CEMEP. Professora Vera Lúcia Ravagnani.
- Cliquemusic.
- Falando de Trova. José Ouverney.
- Jornal de Poesia.
- Jornal do Conto.
- Organização de Cláudio Murilo Leal. Toda poesia de Machado de Assis. Ed. Record.
- Organização de Teresa Montero . Clarice na Cabeceira. Ed. Rocco, 2009.
- Organização de Carlos Leite Ribeiro. Revista Recanto da Prosa e do Verso – Ano III - Fevereiro de 2010
- Portal São Francisco.
- Projeto Releituras.
- TV Clipping Maringá
- UBT Juiz de Fora
- Várias Histórias. Machado de Assis.
- Wikipedia.
- www.antoniomiranda.com.br
- www.singrandohorizontes.wordpress.com
- www.vestibular1.com.br



 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.

3 revista literária voo da gralha azul numero 3 marco abril 2010 final

  • 1.
    no 3 - Ano 0 Paraná, março/abril de 2010 Esta revista é gratuita, sendo proibido qualquer tipo de comercialização de seus artigos sem autorização dos respectivos autores.
  • 2.
    SUMÁRIO ACADEMIAS XXIII Jogos Florais de Ribeirão Preto .................... 98 Academia de Letras de Rondônia..............81 XI Jogos Florais Estudantis de Ribeirão Preto ........... 98 ANÁLISE DE OBRAS ENTREVISTA Mario de Andrade Alberto Paco (Maringá/PR) Contos Novos ............................................. O Escritor em Xeque................................................. 89 BIOGRAFIAS ESTANTE DE LIVROS Anayde Beiriz............................................................93 ALUÍSIO AZEVEDO Antonio Augusto de Assis...........................................54 O cortiço .................................................... 106 Antonio Brás Constante..............................................4 ÁLVARES DE AZEVEDO Antonio Roberto de Paula ..........................................15 Noite na taverna ....................................... 106 ALVARO CARDOSO GOMES Aparecido Raimundo de Souza...................................52 Fase terminal ............................................ 108 Branca Tirollo...........................................................80 ANTONIO CALLADO Caio Porfírio Carneiro ...............................................58 A expedição Montaigne ............................. 107 Clarice Lispector........................................................70 GUIMARÃES BERNARDO GUIMARÃES A escrava Isaura ....................................... 108 Dinair Leite ...............................................................81 O seminarista............................................ 109 Franklin Ras Lopes....................................................51 CAMILO CASTELO BRANCO Helena Kolody...........................................................43 Amor de perdição ...................................... 107 José Carlos Capinan ...................................................28 EDUARDO BUENO A viagem do descobrimento ...................... 107 Luiz Otávio................................................................36 Capitães do Brasil – A saga dos primeiros Mario de Andrade......................................................21 colonizadores ............................................. 107 Nilto Maciel...............................................................13 Náufragos , traficantes e degredados ....... 107 Oswald de Andrade....................................................6 O descobrimento das Índias...................... 107 ELIAS JOSÉ Pedro Ornellas ..........................................................79 Um pássaro em pânico.............................. 109 Pedro Silva ...............................................................18 ELISABETH LOIBL Tatiana Belinky ........................................................29 O mistério do índio voador........................ 110 Tchelo D’ Barros........................................................57 O segredo do ídolo de barro....................... 110 GUILHERME DE OLIVEIRA FIGUEIREDO Vicência Jaguaribe ....................................................3 Tratado geral dos chatos........................... 108 CONCURSOS COM INSCRIÇÕES ABERTAS HERNÂNI DONATO XX Concurso de Trovas de Pindamonhangaba ...........94 Brasil 5 séculos ......................................... 108 VI Concurso de Trovas da UBT-Maranguape/2010 ......94 IVAN ÂNGELO A face horrível ........................................... 106 Jogos Florais UBT Seccional Mérida – Venezuela.......95 JOÃO GUIMARÃES ROSA JOÃO Jogos Florais de Cambuci/RJ – 2010 ........95 Grande sertão: veredas ............................. 109 Concurso Internacional de Literatura Para 2010. .......95 Primeiras estórias ..................................... 109 Concursos da UBT São Paulo - 2010 (100 Anos do Sagarana ................................................... 109 Nascimento de Noel Rosa) ...................................96 JORGE AMADO A descoberta da América pelos turcos ...... 105 IX Concurso de Trovas de Caicó -2010..................... 97 A morte e a morte de Quincas Berro D’Água............... 105 IV Jogos Florais de Balneário Camboriú / SC ...........97 ABC de Castro Alves................................. 105 V Jogos Florais de Cantagalo / RJ ............ 97 Dona Flor e seus dois maridos .................. 105 Xl Jogos Florais de Niterói .................................97 O sumiço da santa..................................... 106 Concurso de Trovas de Taubaté ................97 Os pastores da noite.................................. 105 XXX Concurso Estadual/Nacional e I Concurso Interno de Trovas São Jorge dos Ilhéus ................................. 106 da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte................. 97 Tenda dos milagres ................................... 106 Terras do sem fim ..................................... 106 Esta revista é gratuita, sendo proibido qualquer tipo de comercialização de seus artigos sem autorização dos respectivos autores.
  • 3.
    Tieta do agreste.........................................106 De como Malasartes passa adiante a carneirada ......... 12 Tocaia grande: a face obscura ...................106 O Saci ........................................................ 98 JORGE CALDEIRA Mauá, empresário do Império ...................107 HAIKAIS JOSÉ DE ALENCAR Helena Kolody Iracema: a lenda do Ceará.........................104 Último........................................................ 42 Lucíola .......................................................104 Aplauso...................................................... 42 O garatuja: crônica dos tempos coloniais..104 Alegria ....................................................... 42 O guarani...................................................104 Flecha de Sol ............................................. 42 O sertanejo.................................................105 Ipês Floridos.............................................. 42 Senhora......................................................105 Qual? ......................................................... 42 Til...............................................................105 Poesia Mínima........................................... 42 JOSUÉ GUIMARÃES Manhã ....................................................... 42 Camilo Mortágua.......................................109 Arco-Íris..................................................... 42 Os tambores silenciosos.............................109 Jornada ..................................................... 42 LÚCIA MACHADO ALMEIDA Ressonâncias ............................................. 43 As viagens de Marco Pólo ..........................105 Noite .......................................................... 43 GARCIA- LUIZ A. GARCIA-ROZA Repuxo Iluminado..................................... 43 O silêncio da chuva....................................108 Depois........................................................ 43 MANOEL ANTÔNIO DE ALMEIDA Alquimia.................................................... 43 Memórias de um Sargento de Milícias......105 Manhã ....................................................... 43 MARIA DEZONE PACHECO FERNANDES No Mundo da Lua ..................................... 43 Sinhá moça ................................................108 Sem Poesia ................................................ 43 MARIA JOSÉ DUPRÉ Noturno ..................................................... 43 Éramos seis................................................108 Felicidade .................................................. 43 MÁRIO DE ANDRADE Dom ........................................................... 43 Macunaíma: o herói sem nenhum caráter 106 NOSSO PORTUGUÊS DE CADA DIA NILO ALGE Expressões Redundantes .......................... 49 Mergulho no fim ........................................105 NOTÍCIAS ORÍGENES LESSA A pedra no sapato do herói........................109 Academia de Letras do Brasil/ Estado do Paraná O feijão e o sonho.......................................109 Imortais ..................................................... 111 Rua do sol ..................................................109 Tatiana Belinky toma posse na Academia Tio Pedro....................................................109 Letras..................................... 110 Paulista de Letras PAULO LINS O ESCRITOR COM A PALAVRA Cidade de Deus .........................................109 Anayde Beiriz PAULO MENDES CAMPOS Carta de Amor........................................... 92 Cartas do meu moinho ..............................107 Antonio Brás Constante PEDRO BLOCH O Homem, o Carteiro e o Cachorro .......... 3 Cara nova ou beleza pura..........................106 Aparecido Raimundo de Souza RUBEM FONSECA O Homem Só ............................................. 51 O doente Molière .......................................108 Artur de Azevedo RUY CASTRO A Filosofia do Mendes ............................... 88 Bilac vê estrelas.........................................108 Branca Tirollo VERA FERREIRA/ ANTONIO AMAURY Não Brinque com o Fogo ........................... 79 De Virgolino a Lampião.............................108 Caio Porfírio Carneiro ZÉLIA GATTAI Vingança.................................................... 57 Anarquistas graças a Deus........................108 Clarice Lispector Jardim de inverno .....................................108 Ruído de Passos......................................... 70 FOLCLORE Franklin RAS Lopes Aventuras de Pedro Malasartes (3) O Inesperado Aprendizado nas Curvas Uma das de Pedro Malasartes ....................................11 Femininas do Preconceito ......................... 50 Machado de Assis De como Malasartes fingiu que se Matava....................12 A Cartomante............................................ 38
  • 4.
    Nilto Maciel Pronominais .............................................. 5 Hiroito........................................................12 Vício na Fala ............................................. 5 Pedro Silva Balada do Esplanada ................................ 5 Uma Viagem na Época dos Descobrimentos ..............16 Escapulário ............................................... 5 Tatiana Belinky Ocaso ......................................................... 6 O Diabo e o Granjeiro ................................29 Brasil ......................................................... 6 Tchelo D’ Barros Relicário .................................................... 6 “M” E “H” no 609 ...................................... ...................................... ......54 Senhor Feudal........................................... 6 Vicência Jaguaribe Paulo Vieira Pinheiro Mãe, ela parece um gatinho! .....................2 A régua que mede...................................... 68 Adverso...................................................... 68 POESIAS Amores à letra d'alma............................... 68 Alberto Paco ( (Maringá/PR) Chuvisco .................................................... 69 Fruto do Carnaval .....................................86 Cintilar (Estudo 080608-1) ....................... 67 Antonio Augusto de Assis (Maringá/PR) De pé me deito........................................... 69 Carnaval ....................................................53 Desabafo.................................................... 69 Luolhar ......................................................53 Esperanças (Exercício 21042008-3) .......... 67 Terceira infância........................................53 Já ............................................................... 66 Aurora bela ................................................54 Momentos de insensatez ........................... 66 Por um beijo...............................................54 Tanto tempo que nem sei.......................... 66 Antonio Cândido da Silva ( (Porto Velho/RO) Tempos de Inocência ................................. 69 Bar do Zizi .................................................85 Antonio Manuel Abreu Sardenberg ( (São Universo das Palavras (Exercício 21042008-1)............ 66 Veneta ....................................................... 66 Fidélis/RJ) Xadrez ....................................................... 66 Namorar em Sonhos ..................................85 Ramsés Ramos ( (Teresina/PI) Antonio Roberto de Paula (Maringá/PR) O Silêncio de Maringá ...............................13 Sete Pecados do Amor ............................... 86 Cabrito na Horta ......................................14 Samuel Castiel Jr. ( (Porto Velho/ RO) Flor Tropical.............................................. 87 Emir Simionato Sabião (Ubiratã/PR) Tatiana Belinki ( (São Paulo/ SP) Procura .....................................................2 O Grande Cão-Curso................................. 86 Desejo.........................................................2 Os "Limerick" ........................................... 87 José Carlos Capinan (Esplanada/BA) Mudando de Conversa ...............................24 SOPA DE LETRAS Algumas Fantasias ...................................24 A Origem da Escrita ................................. 58 Madrugadas de Narciso.............................25 TROVAS Outras Confissões......................................25 Alberto Paco (PR) Didática......................................................25 Quadro Trovadoresco ................................ 89 Poesia Pura................................................25 Dinair Leite O Rebanho e o Homem ..............................26 Trovas........................................................ 80 Ponteio .......................................................26 João Paulo Ouverney (SP) Clarice........................................................26 Quadro Trovadoresco ................................ 104 Papel Machê ..............................................27 Luiz Otávio Machado de Assis ( (Rio de Janeiro/RJ) 100 Trovas................................................. 31 A Mosca Azul .............................................84 Pedro Ornellas Maria Eliana Palma ( (Maringá/PR) A Lágrima na Trova.................................. 77 Albatroz .....................................................87 Wilma Mello Cavalheiro (RS) Olga Agulhon ( (Maringá/PR) Quadro Trovadoresco ................................ 50 Ridícula......................................................84 Oswald de Andrade (São Paulo/SP) INDICAÇÃO DE SITES DE LITERATURA ........... 112 Relógio .......................................................4 Erro de Português......................................4 FONTES .................................................... 113 .................................................... Canto de Regresso à Pátria .......................5
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    Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” março/abril n0. 3 – Paraná, março/abril 2010 Idealização, seleção e edição: José Feldman Contatos, sugestões, colaborações: pavilhaoliterario@gmail.com http://singrandohorizontes.blogsp ot.com Que a humanidade possa aprender com a nossa Gralha-azul e entender que o equilíbrio e o respeito ecológico entre fauna e flora é fundamental para a existência do Homem na face da Terra!!! Prezado Leitor Esta revista não tem a pretensão e nunca poderá ser considerada como substituição aos livros, jornais, colunas, etc. que circulam virtualmente ou não, mas sim como mola propulsora de incentivo ao cidadão para buscar novos conhecimentos, ou relembrar aqueles perdidos na névoa do passado. Por que o Voo da Gralha Azul? A poetisa norte-americana Emily Dickinson, que viveu no século XIX, diz “Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes”. No caso da revista, esta fragata é a Gralha Azul, que assim como semeia o pinheiro, ela alça voo e semeia no coração de cada um que alcançar, o pinhão da cultura, em todas as suas manifestações. Ao leitor, novos conhecimentos. Ao escritor ou aspirante a tal, sejam poetas, trovadores, romancistas, dramaturgos, compositores, etc., um caminho de conhecimento e inspiração. Obrigado por me permitir dividir consigo estes breves momentos, José Feldman
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    2 Emir Simionato Sabião (Poesias) PROCURA DESEJO Procurei tudo e não encontrei Tentei tudo e não consegui No fundo dos olhos de alguém Falei tudo e não ouvi mergulhei e me perdi Olhei pra tudo e nada vi Nos lábios de alguém me entreguei Andei muito, mas não saí e mesmo assim eu resisti Toquei em tudo, mas não senti No corpo de alguém eu me esquentei Perguntei muito e não respondi e nunca mais esqueci Então não sei Porém não sei o que fazer porque ainda estou aqui! se nada disso está aqui! Vicência Jaguaribe (Mãe, ela parece um gatinho!) gatinho!) Nega do cabelo duro, / qual é o pente segurava o barrigão inchado. Às vezes, soltava que te penteia, / qual é o pente que te penteia um gemido. A menina olhava-a e sentia que / qual é o pente que te penteia, ó nega... algo estava errado – aliás, sentia isso há algum A menina ouvia a voz de uma das tias tempo, já. Primeiro aquela barriga que todo dia brincando com ela e com a irmã. Depois de crescia um pouco, até ficar daquele tamanho, adulta, sempre que ouvia o samba de Ary ameaçando explodir. O que ela tinha naquela Barroso, Rubens Soares e David Nasser, barriga? Ninguém lhe dizia nada, e ela sentia lembrava-se daquele dia. Mas, principalmente, vergonha de perguntar. Há algum tempo, vira a lembrava-se da tia. Aquela música havia mãe vomitando e perguntara-lhe se ela comera aderido à figura da tia como a areia adere ao alguma coisa estragada. A mãe confirmou. corpo molhado. A coisa que ela tinha mais medo no Ela e a irmã estavam na casa da avó, mundo era de perder a mãe. Quando ouvia porque a mãe fora buscar o irmão delas, que dizer que morrera uma mãe, ela passava o dia nasceria naquele dia. Quando ela chegasse, seguindo a sua. E era preciso que a mãe a mandaria buscá-las. Foi isso o que lhes pusesse no colo, conversasse com ela, disseram. Ela só tinha cinco anos quando o explicasse que não ia morrer, porque não irmão nasceu, mas se lembra perfeitamente do estava doente, para que ela voltasse ao normal. que aconteceu. A irmã, com três anos, não Enquanto a irmã ria brincando com a atinava para a situação nem guardou nenhum tia, ela ficou sentada no chão, de frente para o recordação. corredor, observando o movimento, para tentar Mas ela, a mais velha, pressentia entender alguma coisa. De vez em quando, alguma coisa anormal no ar. Não sabia o que entrava um tio ou uma tia com cara de era. Mas que havia, havia. De manhã bem preocupação. A avó estava todo o tempo cedo, a mãe acordou-as, ajudou-as a escovar ajoelhada em frente ao santuário, rezando para os dentes; preparou-lhes o café e mandou a os santos dela. Mais tarde, perto do almoço, empregada levá-las para a casa da avó uma das tias chegou chorando, entrou no paterna. Mas a menina observara que ela não quarto e disse alguma coisa à mãe. A menina estava bem. De vez em quando, curvava-se e apurou os ouvidos, mas só ouviu uma palavra: Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    3 hemorragia, que elanão sabia o que era. Mas no carro, depois de despedir-se de seu pai, e o viu quando a avó começou a chorar. A tia que carro partir. O pai não entrou em casa, veio havia chegado chamou a irmã que brincava para a casa da mãe. Ao vê-la sentada na com as meninas, cochichou alguma coisa. E a calçada, botou-a no braço. Ele estava com a irmã ficou com cara de enterro. cara alegre: A menina não sabia precisar, mas intuía - Seu irmão chegou, e sua mãe agora que algo grave acontecia com a mãe. O pai está bem. Daqui a pouco você pode ir vê-la. havia, poucas horas atrás, entrado na casa da A menina começou a chorar, como se mãe, dizendo que mandara buscar um médico alguém houvesse apertado um botão liberador na cidade vizinha. Logo depois, alguém lhe de lágrimas. dissera que não precisava mais, já estava tudo - Mas por que essa menina está bem. O pai, no entanto, não mandara o carro chorando? – Perguntou à irmã, que se voltar. aproximava. Então, se o pai mandara chamar um Os adultos pensavam o que das médico era porque alguém estava doente. E só crianças? Que eram burras, insensíveis? E podia ser a mãe dela, raciocinou a menina. quanto mais tomava consciência de que nem Teve vontade de chorar, mas se controlou. passara pela cabeça do pai que ela podia estar Olhou para a irmã, que continuava rindo e sofrendo, mais chorava. Só se calou quando a cantando. O pai foi para casa, e a menina ficou tia, mesmo sem o consentimento do irmão, mais preocupada ainda. Mas ninguém ali se levou-a a ver a mãe. importava com a sua tristeza. Parecia até que A mãe abraçou-a e jurou que estava ninguém a via. bem. Mas percebeu que a sua menina não era Foi à cozinha, tentar escutar alguma tão ingênua como se pensava. Teve certeza de coisa das empregadas. Ela sabia – de ouvir que percebera que a mãe quase se fora. E dizer – que empregada sabe de tudo e mandou que ela fosse ver o irmão no berço. conversa tudo na frente das crianças. Mas, A menina ficou de ponta de pé e olhou o daquela vez, nada. A tia aproximou-se e falou irmão, que lhe pareceu um embrulho branco. E em almoço. A menina, que normalmente quase o primeiro sentimento que experimentou por não comia, disse não estar com fome. Mas foi ele foi raiva. Se não fosse ele, a mãe não tinha obrigada a engolir alguns bocados, à força, a ficado doente. Mas, de repente, ele mexeu-se e tia fazendo bolinhos na mão. E aí ela se abriu os olhos – uns grandes e belos olhos lembrou dos perus que a mãe engordava para azuis. Foi nesse momento que ela se o Natal. Era exatamente assim que ela dava descontraiu e, sorrindo, disse para a mãe: comida aos bichos. Deus a livrasse de ser peru! - Mãe, ele parece um gatinho! Ave Maria! Quando a tia achou que ela havia comido – à força – o suficiente, ou cansou de tentar, liberou-a, e ela foi para a calçada. Sentou-se à sombra do fícus benjamim, virada Vicência Jaguaribe para o lado de sua casa, que ficava umas nove Vicência Maria Freitas Jaguaribe, natural de casas à frente. Viu, parado em frente à casa, o Jaguaruana-Ce. Professora de Literatura e Estilística carro que fora buscar o doutor. Mais ou menos da Universidade Estadual do Ceará. Mestra em uma hora depois – e durante esse tempo ela Literatura pela UFC. Trabalhos publicados nas áreas ficou na quentura da calçada, sem ninguém se de Literatura, Estilística e Lingüística do Texto. incomodar –, viu um homem de branco entrar Antonio Brás Constante (O Homem, o Carteiro e o Cachorro) O cachorro é o melhor amigo do primeiramente vamos tentar explicar para essa homem, com exceção do carteiro. Mas juventude que só conhece internet o que é um Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    4 carteiro. O carteiroseria uma espécie de irrita e maltrata seu cão, que em contrapartida provedor de e-mails biológico. Quando ele morde o carteiro em sinal de represália. entrega as correspondências a pé, isto Uma forma de contemporizar o equivaleria a uma conexão discada e lenta. Se problema de donos de cães que deixam os ele estiver de moto poderia ser considerado animais soltos ou mal trancados (facilitando como uma conexão ADSL (banda larga), e o ataques aos carteiros) seria fazer esses donos SEDEX é a internet empresarial, rápida, passarem um dia na função de carteiros eficiente e muito mais cara. auxiliares, entregando cartas somente em O carteiro poderia entendido (na ótica residências com grandes e ferozes cães. Um dos cães) como uma espécie de válvula de bom castigo, já que eles sentiriam na pele (que escape para o cachorro, que muitas vezes sofre é o primeiro lugar que sente a mordida dos de forma obediente a crueldade de seu dono, e cachorros) o problema enfrentado todos os dias por não poder pagar um psicólogo canino, pelos entregadores de cartas. resolve descontar suas frustrações no carteiro, Enfim, no mato sem cachorro em que visto que ele, na teoria, é a imagem e vivemos, onde quem não tem cão caça como semelhança do seu dono. Ou seja, a profissão um gato, nós estamos rumando para um de carteiro acaba sendo um negócio bom pra mundo sem cartas, ou carteiros, ou mesmo cachorro, literalmente falando. cachorros. E neste futuro, quando percebermos Talvez o cachorro entenda que o carteiro que a idéia de que tínhamos as cartas na mesa, é como algum tipo de ave de mau agouro, algo era falsa, e que fizemos uma grande cachorrada parecido com um corvo, como descrito pelo com nosso fiel e amigável planeta, não haverá escritor Edgar Alan Poe. O cão já deve ter mais como reescrever a história, e a cartada percebido que muitos dos papéis deixados pelos final de nossa existência já estará carteiros têm símbolos que quando unidos derradeiramente selada. formam a frase: “C-O-N-T-A-S-A-P-A-G-A-R”, e que cada vez que seu dono lê essas mensagens escritas fica aborrecido, irritado, chegando algumas vezes a amassar o papel. E o que o dono do cachorro geralmente faz depois? Chuta seu pobre companheiro de patas, Antonio Brás Constante provavelmente por achá-lo culpado pelo carteiro Antonio Brás Constante, natural de Porto Alegre. Residente em Canoas/RS. Bacharel em computação, ter conseguido entregar aquela infeliz bancário e cronista de coração, escreve com mensagem para ele. naturalidade, descontraída e espontaneamente, Este é um dos ciclos da vida, o carteiro sobre suas idéias, seus pontos-de-vista, sobre o trás as contas para o dono da residência que se panorama que se descortina diferente a cada instante, a nossa frente: a vida. Membro da ACE (Associação Canoense de Escritores). Oswald de Andrade (Poesias) Oswald, pintura de Tarsila do Amaral RELÓGIO As horas Vão e vêm As coisas são Não em vão As coisas vêm As coisas vão ERRO DE PORTUGUÊS As coisas Vão e vêm Quando o português chegou Não em vão Debaixo duma bruta chuva Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    5 Vestiu o índio Uma balada Que pena!Fosse uma manhã de sol Antes de ir O índio tinha despido Pro meu hotel. O português É que este Coração CANTO DE REGRESSO À PÁTRIA Já se cansou De viver só Minha terra tem palmares E quer então Onde gorjeia o mar Morar contigo Os passarinhos daqui No Esplanada. Não cantam como os de lá Eu queria Minha terra tem mais rosas Poder E quase que mais amores Encher Minha terra tem mais ouro Este papel Minha terra tem mais terra De versos lindos É tão distinto Ouro terra amor e rosas Ser menestrel Eu quero tudo de lá No futuro Não permita Deus que eu morra As gerações Sem que volte para lá Que passariam Diriam Não permita Deus que eu morra É o hotel Sem que volte pra São Paulo É o hotel Sem que veja a Rua 15 Do menestrel E o progresso de São Paulo Pra me inspirar PRONOMINAIS Abro a janela Como um jornal Dê-me um cigarro Vou fazer Diz a gramática A balada Do professor e do aluno Do Esplanada E do mulato sabido E ficar sendo Mas o bom negro e o bom branco O menestrel Da Nação Brasileira De meu hotel Dizem todos os dias Deixa disso camarada Mas não há, poesia Me dá um cigarro Num hotel Mesmo sendo VÍCIO NA FALA 'Splanada Ou Grand-Hotel Para dizerem milho dizem mio Para melhor dizem mió Há poesia Para pior pió Na dor Para telha dizem teia Na flor Para telhado dizem teiado No beija-flor E vão fazendo telhados No elevador BALADA DO ESPLANADA ESCAPULÁRIO Ontem à noite No Pão de Açúcar Eu procurei De Cada Dia Ver se aprendia Dai-nos Senhor Como é que se fazia Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    6 A Poesia À espera de visitas que não vêm De Cada Dia (Primeiro caderno do aluno de poesia) OCASO Em 11 de janeiro de 1890 nasce em São Paulo José Oswald de Sousa Andrade, filho No anfiteatro de montanhas único de José Oswald Nogueira de Andrade e Os profetas do Aleijadinho Inês Henriqueta Inglês de Sousa Andrade. Monumentalizam a paisagem Inicia seus estudos, em 1900, na Escola As cúpulas brancas dos Passos Modelo Caetano de Campos, ainda marcado E os cocares revirados das palmeiras pelo fato de haver presenciado a mudança do São degraus da arte de meu país século. Onde ninguém mais subiu Em 1901, vai para o Ginásio Nossa Senhora do Carmo. Tem como colega Pedro Rodrigues BRASIL de Almeida, o “João de Barros” do”Perfeito Cozinheiro das Almas desse mundo...”. O Zé Pereira chegou de caravela Em 1903, transfere-se para o Colégio São E perguntou pro guarani da mata virgem Bento. Lá tem como colega o futuro poeta - Sois cristão? modernista Guilherme de Almeida. - Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte Em 1905, com o São Paulo em ebulição — Teterê tetê Quizá Quizá Quecê! surge o bonde elétrico, o rádio, a propaganda, Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu! o cinema — participa da roda literária de O negro zonzo saído da fornalha Indalécio Aguiar da qual faz parte o poeta Tomou a palavra e respondeu Ricardo Gonçalves. - Sim pela graça de Deus Em 1908, conclui os estudos no Colégio São Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum! Bento com o diploma de Bacharel em E fizeram o Carnaval Humanidades. De família abastada, Oswald, em 1909 inicia sua vida no jornalismo como redator RELICÁRIO e crítico teatral do “Diário Popular”, assinando a coluna "Teatro e Salões". Ingressa na No baile da corte Faculdade de Direito. Foi o conde d’Eu quem disse Em 1910, monta um atelier com o pintor Pra Dona Benvinda Oswaldo Pinheiro, no Vale do Anhangabaú. Que farinha de Suruí Conhece o Rio de Janeiro, e fica hospedado na Pinga de Parati residência de seu tio, o escritor Inglês de Fumo de Baependi Souza. Passa o primeiro Natal longe da família É comê bebê pitá e caí em Santos, numa hospedaria de carroceiros das docas. SENHOR FEUDAL No ano seguinte, com a ajuda financeira de sua mãe, funda “O Pirralho”, cujo primeiro Se Pedro Segundo número é lançado em 12 de agosto, tendo Vier aqui como colaboradores Amadeu Amaral, Voltolino, Com história Alexandre Marcondes, Cornélio Pires e outros. Eu boto ele na cadeia Conhece o poeta Emílio de Meneses, de quem se torna amigo. Lança a campanha civilista em torno de Ruy Barbosa. Passa uma temporada em Baependi, Minas, nas terras da família de seu avô. Em 1912, viaja à Europa. Visita vários países: Oswald de Andrade Itália, Alemanha, Bélgica, Inglaterra, França, Espanha. Conhece durante a viagem a jovem Senhor dançarina Carmen Lydia, (Helena Carmen Que eu não fique nunca Hosbale) que Oswald batiza em Milão. Morre Como esse velho inglês em São Paulo sua mãe, no dia 6 de setembro. Aí do lado Retorna ao Brasil, trazendo a estudante Que dorme numa cadeira francesa Kamiá (Henriette Denise Boufflers). Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    7 Reassume sua atividadede redator de “O primeiro grupo modernista com Mário de Pirralho”, onde publica crônicas em português Andrade, Guilherme de Almeida, Ribeiro Couto macarrônico com o pseudônimo de Annibale e Di Cavalcanti. De 1917 a 1922 escreve Scipione. regularmente no “Jornal do Comércio”. No ano seguinte, participa das reuniões da Trabalha em “A Gazeta”, em 1918. Começa a Vila Kirial e conhece o artista plástico Lasar compor “O perfeito cozinheiro das almas desse Segall. Escreve “A recusa”, drama em três atos. mundo...”, diário coletivo escrito em Nasce o seu filho, José Oswald Antônio de colaboração com Maria de Lourdes Castro Andrade (Nonê), com Kamiá, em 1914. Torna- Dolzani de Andrade (Miss Cyclone), Guilherme se Bacharel em Ciências e Letras pelo Colégio de Almeida, Monteiro Lobato, Leo Vaz, Pedro São. Bento, onde foi aluno do abade Sentroul. Rodrigues de Almeida, Inácio Pereira da Costa, Cursa Filosofia no Mosteiro de São Bento. Edmundo Amaral e outros. Fecha a revista “O Em 1915, participa do almoço em Pirralho”. homenagem a Olavo Bilac, promovido pelos Bacharel em Direito, é escolhido orador da estudantes da Faculdade de Direito. Torna-se turma. Morre seu pai, em fevereiro. Casa-se, “in membro da Sociedade Brasileira dos Homens de extremis”, com Maria de Lourdes Castro Dolzani Letras, fundada em São Paulo por Bilac. Chega de Andrade (Miss Cyclone). ao Brasil a dançarina Carmen Lydia, com quem Publica no jornal dos estudantes da mantém um barulhento namoro. Faz viagens Faculdade de Direito, “XI de Agosto”, três constantes de trem ao Rio a negócio ou para capítulos de “Memórias Sentimentais de João acompanhar Carmen Lydia. Miramar”. No ano seguinte, publica em “A Cigarra” o No ano seguinte edita “Papel e Tinta”, primeiro capítulo — e, depois, lança, com assinando com Menotti del Picchia o editorial e Guilherme de Almeida, as peças teatrais escrevendo regularmente para o periódico. “Theatre Brésilien — Mon Coeur Balance” e Descobre o escultor Brecheret. Escreve em “A “Leur Âme”, pela Typographie Asbahr. Faz a Raposa” artigo elogiando Brecheret com texto leitura das peças em vários salões literários de ilustrado com fotos de trabalhos do artista. São Paulo, na Sociedade Brasileira de Homens 1921 – Em julho, publica artigo sobre o de Letras, no Rio de Janeiro e na redação “A poeta Alphonsus de Guimarães, ressaltando a Cigarra”. Publica trechos de “Memórias forma de expressão, no seu entender, Sentimentais de João Miramar” na “A Cigarra” e precursora da linguagem modernista. (“Jornal na “A Vida Moderna”. Sofre de artritismo. A do Comércio” (SP), 07/1921). Faz a saudação a atriz Suzanne Després recita no Municipal Menotti del Picchia no banquete oferecido para trechos de “Leur Âme”. Passa a colaborar políticos e poetas no Trianon. Revela Mário de regularmente em “A Vida Moderna”, que publica Andrade poeta, em polêmico artigo "O meu em 24 de maio, cenas de “Leur Âme”. Volta a poeta futurista". Principia a colaboração do estudar Direito, cujo curso havia interrompido “Correio Paulistano” até 1924. em 1912. Recebe o convite de Valente de Participa da caravana de jovens escritores Andrade para fazer parte do “Jornal do paulistas ao Rio de Janeiro, a fim de fazer Comércio”, edição de São Paulo e em 1º de propaganda do Modernismo. Torna-se o líder novembro começa seu trabalho como redator. dessa campanha preparatória para a Semana Redator social de “O Jornal”. de Arte Moderna. Continua a viajar intermitentemente ao Rio. Em 1922, participa da Semana de Arte Naquela cidade freqüenta a roda literária de Moderna no Teatro Municipal de São Paulo. Faz Emílio de Meneses, João do Rio, Alberto de conferência, em 18 de setembro, comemorativa Oliveira, Eloi Pontes, Olegário Mariano, Luis ao centenário da Bandeira Nacional. É um dos Edmundo, Olavo Bilac, Oscar Lopes e outros. participantes do grupo da revista “Klaxon”, Passa temporada em Aparecida do Norte. Está onde colabora. Integra o grupo dos cinco com escrevendo o drama “O Filho do Sonho”. Mário de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do Em 1917, conhece Mário de Andrade. Amaral e Menotti del Picchia. Defende a pintora Anita Malfatti das críticas Publica “Os Condenados”, com capa de Anita violentas feitas por Monteiro Lobato ("A Malfatti, primeiro romance de “A trilogia do exposição de Anita Malfatti", no “Jornal do exílio”. Viaja a negócios ao Rio. Em dezembro Comércio”, São Paulo, 11/01/1918). Participa do Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    8 embarca para aEuropa. Começa sua amizade Publica, em 1927, “A Estrela de Absinto”, com Tarsila do Amaral. segundo romance de “A trilogia do exílio”, pela No ano seguinte, ganha na justiça a custódia Editora Hélios com capa de Brecheret. do seu filho Nonê. Faz viagem a Portugal e Publica “Primeiro Caderno de Poesia do Espanha, com passagem pelo Senegal, Aluno Oswald de Andrade”, ilustrado pelo autor, acompanhado de Tarsila. Matricula seu filho no com capa de Tarsila. Começa no “Jornal do Licée Jaccard em Lausanne, Suiça. Reside em Comércio” a coluna "Feira das Quintas". Paris até agosto, no atelier de Tarsila. Disputa o prêmio romance, patrocinado pela Conhece o poeta Blaise Cendrars. Academia Brasileira de Letras, com “A Estrela Em Paris, de volta ao Brasil, é homenageado de Absinto”, que obteve menção honrosa. com um banquete pela Sociedade Amis des Publica trechos de “Serafim Ponte Grande” na Lettres Françaises, sendo saudado pela revista “Verde”. presidente do grupo Mme.Rachilde. Em 1928, publica o “Manifesto Antropófago” Em 1924, no dia 18 de março publica no na “Revista de Antropofagia”, que ajuda a “Correio da Manhã” o “Manifesto da Poesia Pau fundar, com os amigos Raul Bopp e Antônio de Brasil”. Toma parte na excursão ao carnaval do Alcântara Machado. Rio de Janeiro e à Minas com outros intelectuais É expulso do Congresso de Lavradores, brasileiros e do poeta Blaise Cendrars, chamada realizado no Cinema República (SP) por propor de “Caravana Modernista”. Em Minas Gerais, um acordo com o trabalhador do campo. recebidos por Aníbal Machado, Pedro Nava e Separa-se de Tarsila do Amaral. Rompe com Carlos Drummond de Andrade, excursionam Mário de Andrade e Paulo Prado. pelas cidades históricas. No “Correio No dia 1º de abril de 1930 casa-se com Paulistano”, publica o artigo “Blaise Cendrars — Patrícia Galvão (Pagú) numa cerimônia pouco Um mestre da sensibilidade contemporânea". convencional. O acontecimento foi simbólico, Participa do V Ciclo de Conferência da Vila realizado no Cemitério da Consolação, em São Kyrial falando sobre "os ambientes intelectuais Paulo. Mais tarde, se retrataram na igreja. da França". Publica “Memórias Sentimentais de Escreve "A casa e a língua", em defesa da João Miramar”, com capa de Tarsila. Faz uma arquitetura de Warchavchik. Nasce seu filho leitura do “Serafim Ponte Grande”, em casa de Rudá Poronominare Galvão de Andrade com a Paulo Prado para uma platéia de amigos escritora Pagú. É preso pela polícia do Rio de modernistas. Janeiro, por ameaçar o antigo amigo, poeta Viaja à Europa. Monta com Tarsila um novo Olegário Mariano. apartamento em Paris, conservando este Em 1931, escreve “O mundo político”. endereço até 1929. Começa a escrever ensaios políticos, Publica em Paris pela editora Au Sans Pareil geralmente sobre a situação e os problemas do o livro de poemas “Pau Brasil”. operário. Funda com Queiroz Lima e Pagú “O Retorna ao Brasil. Candidata-se à Academia Homem do Povo”. Publica o “Manifesto Ordem e Brasileira de Letras. Oficializa o noivado com Progresso”. Engaja-se no Partido Comunista. Tarsila do Amaral. No ano seguinte, redige o prefácio definitivo Recebido com outros brasileiros em de “Serafim Ponte Grande”. audiência pelo papa, a fim de tentarem a Em 1933, publica “Serafim Ponte Grande”. anulação do casamento de Tarsila. Patrocina a publicação de “Parque Industrial”, Casa-se com Tarsila do Amaral, em 30 de romance de Pagú. outubro, em cerimônia paraninfada pelo No ano seguinte, deixa Pagú e une-se à Presidente Washington Luis. pianista Pilar Ferrer. Publica “A Escada Publica na “Revista do Brasil” o prefácio de Vermelha”, terceiro romance de “A trilogia do “Serafim Ponte Grande”, primeira versão, exílio”, e “O Homem e o Cavalo”, com capa de "Objeto e fim da presente obra". seu filho, Oswald de Andrade Filho. No dia 24 Divulga em “Terra Roxa e Outras Terras” a de dezembro, assina contrato ante-nupcial em "Carta Oceânica", prefácio ao livro “Pathé Baby” regime de separação de bens com Julieta de Antônio de Alcântara Machado e um trecho Bárbara Guerrini. do “Serafim Ponte Grande”. Em 1935, compra uma serraria. Escreve sátira política para “A Platéia”. Faz parte do movimento artístico cultural Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    9 “Quarteirão”. Fichado napolícia civil do apresentada à cadeira de literatura brasileira da Ministério da Justiça, como subversivo. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da No ano seguinte, publica na revista “XI de Universidade de São Paulo, na qual o agosto”, "Página de Natal" do Marco Zero. biografado é livre-docente.em Literatura Conclui o poema “O Santeiro do Mangue”, 1ª Brasileira. Nasce sua filha Antonieta Marília. versão, dedicado criticamente a Jorge de Lima e Reúne no volume “Ponta de Lança” artigos Murilo Mendes. esparsos. Publica "A sátira na poesia brasileira", Em dezembro casa-se com a escritora Julieta conferência pronunciada na Biblioteca Pública Bárbara Guerrini, tendo como padrinho o Municipal de São Paulo. jornalista Casper Líbero, o pintor Portinari e Publica “Poesias Reunidas - Oswald de uma irmã da noiva, Clotilde. Passa a residir no Andrade”, editora. Gazeta e “Marco Zero: II — Rio de Janeiro. Chão”, pela José Olympio. Escreve “O país da sobremesa”, em 1937. É Inicia a organização da Ala Progressista feita uma tentativa de encenação da peça “O Brasileira, programa de conciliação nacional. Rei da Vela” pela Companhia de Álvaro Lança um manifesto ao "Povo de São Paulo, Moreyra. Atua na Frente Negra Brasileira. Trabalhadores de São Paulo. Homens livres de Escreve na revista “Problemas” (São Paulo). São Paulo". Escreve o "Canto do Pracinha só". Publica “A Morta” e “O Rei da Vela”. No Rio de Rompe com o Partido Comunista do Brasil e Janeiro, a edição de “Serafim Ponte Grande” é Luis Carlos Prestes, seu secretário geral. dada como esgotada. Publica na “Gazeta de Limeira”, conferência Em 1938, publica o trecho "A vocação" da pronunciada em Piracicaba intitulada "A lição da série “Marco Zero: IV”, “A presença do Mar”. inconfidência" Está ligado ao Sindicato de Jornalista de São Em 1946, publica “O Escaravelho de Ouro” Paulo, matrícula nº. 179. Redige “Análise de (poesia). Assina contrato com o governo de São dois tipos de ficção”. Paulo para a realização da obra "O que fizemos 1939, Oswald ingressa no Pen Club do Brasil. em 25 anos", espécie de levantamento da vida Publica no jornal “Meio Dia” as colunas "Banho nacional, em todos os setores da atividade de Sol" e "De literatura". É o representante do técnica e social à literária e artística. jornal “Meio Dia” em São Paulo. Escreve para o Apresenta o escritor norte-americano Samuel “Jornal da Manhã” (SP) uma série de Putnam, em visita ao Brasil, na Escola de reportagens sobre personalidades importantes Sociologia e Política (São Paulo). Participa em da vida política, econômica e social de São Limeira (SP) do Congresso de Escritores. Paulo. Candidata-se a delegado regional da Escreve “O lar do operário”. Candidata-se à Associação Brasileira de Escritores e perde a Academia Brasileira de Letras pela segunda vez, eleição. Envia bilhete-aberto ao Presidente da enviando uma carta aberta aos imortais, em Seção Estadual, escritor Sérgio Buarque de 1940. Holanda, protestando e desligando-se da Em 1941, monta um escritório de imóveis na Associação, em 1947. rua Marconi, com Nonê, o filho mais velho. Em 1948, pronuncia em Bauru a conferência 1942, publica “Cântico dos Cânticos para "O sentido do interior". Nasce seu filho Paulo Flauta e Violão”, dedicado à sua futura mulher, Marcos. Maria Antonieta d’Alkmin. Lança, em 2ª edição Publica na revista Anhembi o texto "O pela Globo, “Os Condenados”, com capa de modernismo", em 1949. Profere conferência no Koetz. Centro de Debates Casper Líbero: "Civilização e Publica “Marco Zero: I A revolução dinheiro", e no Museu de Arte de São Paulo, melancólica”, pela José Olympio, capa de Santa “Novas dimensões da poesia". Realiza excursão Rosa. Começa a publicar no “Diário de S.Paulo” a Iguape, com Albert Camus, para assistir às a coluna "Feira das Sextas". Casa-se com Maria tradicionais festas do Divino. É encarregado de Antonieta d'Alkmin, em 1943. apresentar e saudar o escritor francês de Em 1944, inicia a série “Telefonema”, passagem por São Paulo para fazer publicada no “Correio da Manhã”, até 1954. conferências. Escreve a coluna "3 linhas e 4 No ano seguinte escreve "O sentido da verdades" na “Folha de S.Paulo”, até 1950. nacionalidade no Caramuru e no Uruguai". Profere nova conferência na Faculdade de Publica "A Arcádia e a inconfidência", tese Direito em homenagem a Rui Barbosa. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    10 Em 1950, escreve “O antropófago”. É Andrade; é lançado o filme “Cem homenageado com um banquete, no Automóvel Oswaldinianos”, de Adilson Ruiz e instalado Clube, pela passagem do 60º aniversário, painel na estação República do Metrô paulista”. saudado por Sérgio Milliet. Participa de concurso para provimento da Cadeira de OBRAS Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Humor: Letras da Universidade de São Paulo, ocasião - Revista “O Pirralho” — crônicas em português em que defende a tese "A crise da filosofia macarrônico sob o pseudônimo de Annibale messiânica", sem êxito. Candidata-se a Scipione (1912 — 1917) deputado federal pelo PRT, com o seguinte Poesia: slogan: “Pão – Teto – Roupa – Saúde – - Pau-Brasil (1925) Instrução”. Pronuncia as seguintes - Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald conferências: "A arte moderna e a arte de Andrade (1927) soviética", "Velhos e novos livros atuais". - Cântico dos cânticos para flauta e violão Redige "Um aspecto antropofágico da cultura (1945) brasileira — o homem cordial" para o 1º - O escaravelho de ouro (1946) Congresso Brasileiro de Filosofia. Apresenta a Romance: versão definitiva de “O Santeiro do Mangue”. - A trilogia do exílio: I — Os condenados, II —A Escreve, em 1952, “Introdução à estrela de absinto, III — A escada vermelha antropofagia”. Profere discurso de saudação em (1922-1934) homenagem a Josué de Castro, representante - Memórias sentimentais de João Miramar da ONU, por iniciativa da Secretaria Municipal (1924) de Cultura de São Paulo. Escreve o artigo "Dois - Serafim Ponte Grande (1933) emancipados: Júlio Ribeiro e Inglês de Souza". - Marco Zero: I - A revolução melancólica, II — É membro da Comissão Julgadora do Salão Chão (1943). Letras e Artes Carmen Dolores, em 1953. - Memórias: Um homem sem profissão (1954) Saudou o escritor José Lins do Rego, pelo Teatro: prêmio recebido em torno do romance - A recusa (1913) “Cangaceiros”, patrocinado pelo Salão de Letras - Théâtre Brésilien — Mon coeur balance e Leur e Artes Carmen Dolores Barbosa. Começa a Âme (1916) (com Guilherme de Almeida) publicar a série “A Marcha das Utopias” no - O homem e o cavalo (1934) jornal “O Estado de S.Paulo”. Tenta em vão - A morta (1937); vender sua coleção de quadros. - O rei da vela (1937). Em 1954, escreve o ensaio “Do órfico e mais - O rei floquinhos (1953) cogitações" e "O primitivo e a antropofagia”. Manifestos: Envia comunicação, por intermédio de Di - Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924) Cavalcanti, para o Encontro de Intelectuais, no - Manifesto Antropófago (1928) Rio de Janeiro. Publica o primeiro volume das - Manifesto Ordem e Progresso (1931) “Memórias — Um homem sem profissão”, com - Teses, artigos e conferências publicadas: capa de seu filho, Oswaldo Jr., pela José - O meu poeta futurista (1921) Olympio. Graças à interferência de Vicente Rao, - A Arcádia e a Inconfidência (1945) foi indicado para ministrar um curso de cultura - A sátira na poesia brasileira (1945) brasileira em Genebra. Retorna como sócio à Versões e adaptações: Associação Brasileira de Escritores (A.B.D.E.). - Filme “O homem do Pau-Brasil”, de Joaquim Falece em São Paulo, em 22 de outubro de Pedro de Andrade, baseado na vida de Oswald 1954, na sua residência da rua Marquês de de Andrade (1980) Caravelas, 214. É sepultado no jazigo da - Filme “Oswaldinianas”. Formado por cinco família, no cemitério da Consolação, em São episódios, dirigidos por Julio Bressane, Lucia Paulo (SP). Murat, Roberto Moreira, Inácio Zatz, Ricardo É homenageado postumamente pelo Dias e Rogério Sganzerla (1992) Congresso Internacional de Escritores, em Publicações póstumas: 1954. Em 1990, no centenário de seu - A utopia antropofágica – Globo nascimento, a “Oficina Cultural Três Rios” passa - Ponta de lança – Globo a se chamar “Oficina Cultural Oswald de - O rei da vela – Globo Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    11 - Pau Brasil– Obras completas – Globo - O perfeito cozinheiro das almas desse mundo - O santeiro do mangue e outros poemas – – Globo Globo - Os condenados – A trilogia do exílio – Globo - Obras completas – Um homem sem profissão - Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald – Memórias e confissões sob as ordens de de Andrade – Globo mamãe – Globo - Os dentes do dragão – Globo - Telefonema – Globo - Mon coeur balance – Le Âme - Globo - Dicionário de bolso – Globo Aventuras de Pedro Malasartes UMA DAS DE PEDRO MALASARTES Tarde da noite, Pedro foi ao lugar onde estavam os perus, e matou-os a todos, Um dia, Pedro Malasartes foi ter com o labreando de sangue as ovelhas. O homem, rei e lhe pediu três botijas de azeite, indo-os buscar, achou-os mortos, e voltou prometendo-lhe levar em troca três mulatas muito aflito, dizendo: "Pedro, não sabe, as moças e bonitas. O rei aceitou o negócio. Pedro ovelhas mataram os seus perus". Ouvindo isto, saiu e foi ter à casa de uma velha, ali pela Malasartes fez um grande espalhafato, gritando noitinha; pediu-lhe um rancho, e que lhe que o homem tinha morto os perus do rei e botasse as botijas no poleiro das galinhas. A recebeu seis ovelhas pelos perus. Largou-se, velha concordou com tudo. Alta noite, Pedro indo dormir na casa de um homem que tinha Malasartes levantou-se, foi de pontinha de pé um curral de bois. Aí ele fez as mesmas ao poleiro, quebrou as botijas, derramou o artimanhas, até pegar seis bois pelas seis azeite, lambuzando as galinhas. De manhã ovelhas. muito cedo Malasartes acordou a velha, e Mais adiante, ele encontrou uns pediu-lhe as botijas de azeite. A velha foi vendilhões de ouro e trocou os bois por ouro. buscá-las, e, achando-as quebradas, disse: Mais adiante encontrou uns homens que iam "Pedro, as galinhas quebraram as carregando uma rede com um defunto. Pedro botijas e derramaram o azeite". perguntou quem era, disseram-lhe que era uma – Não quero saber disso, -disse Pedro; - moça. Ele pediu para ir enterrá-la e eles deram. quero para aqui meu azeite, senão quero três Logo que os homens se ausentaram, ele galinhas. tirou a moça da rede, encheu-a de bastante A velha ficou com medo, deu-lhe as três ouro e de enfeites, e foi ter com ela nas costas galinhas. Malasartes partiu e foi à noite à casa à casa de um homem rico que havia ali perto. de outra velha; pediu rancho e que agasalhasse Pediu rancho, disse às filhas do tal homem que aquelas três galinhas entre os perus. A velha, aquela era a filha do rei que estava doente, e como tola, consentiu. Alta noite, Pedro se ele andava passeando com ela, e pediu que a levantou, foi ao quintal, matou as três galinhas, fossem deitar. besuntando de sangue os perus. No dia Foram levar a moça para uma seguinte, bem cedo, acordou a velha, pedindo camarinha, indo Malasartes com ela, dizendo as suas galinhas, porque queria seguir viagem. que só com ele ela se acomodava. Deitou a A velha foi buscá-las e encontrou o destroço. moça defunta na cama e retirou-se, dizendo às Voltou aflita, contando a Malasartes. donas da casa: "Ela custa muito a dormir, ainda Ele fez um grande barulho até levar seis chora como se fosse uma criança; quando perus em troca das galinhas. Na noite seguinte, chorar, metam-lhe a correia." foi ter à casa de um homem que tinha um Alta noite, Pedro foi e se escondeu chiqueiro de ovelhas, e pediu-lhe para passar a debaixo da cama onde estava a moça e pôs-se noite em sua casa e que lhe agasalhasse a chorar como menino. As moças da casa, aqueles perus lá no chiqueiro das ovelhas, supondo ser a filha do rei, deram-lhe muito até porque bicho com bicho se acomodavam bem. ela se calar, que foi quando Pedro se calou. O homem assim fez. Depois ele escapuliu e foi para o seu quarto. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    12 De manhã ele pediu a moça, que queria Quando o perseguidor chegou à toda, e ir-se embora. Foram ver a filha do rei, e nada perguntou à lavadeira se tinha visto passar um de a poderem acordar. Afinal conheceram que homem tocando uma carneirada, ela ela estava morta, e vieram dar parte a respondeu, quase sem poder falar, que Pedro Malasartes. Ele pôs as mãos na cabeça dizendo: Malasartes havia feito o que ficou dito. "Estou perdido; vou para a forca; me mataram E, porque Pedro já estava longe com o a filha do rei!…" rebanho, o homem voltou soltando um milhão Os donos da casa ficaram muito aflitos, de pragas. e começaram a oferecer cousas pela moça, e Pedro sem querer aceitar nada, até que ele DE COMO MALASARTES PASSA ADIANTE mesmo exigiu três mulatas das mais moças e A CARNEIRADA bonitas. O homem rico as deu, e Pedro disse que dava uma desculpa ao rei sobre a morte de Já muito longe, encontrou um porqueiro sua filha, e lhe dava de presente as três que vinha tocando também. Pedro Malasartes mulatas, para o rei não se agastar muito. que já previa que o fazendeiro havia de vir no Malasartes largou-se e foi logo para o seu rasto, propôs troca dos carneiros, (que palácio, onde entregou o rei as três mulatas valiam menos, pelos porcos, que valiam mais). com este dito: "Eu não disse a vossa majestade Fecharam o negócio, tendo o porqueiro que lhe dava três mulatas pelas três botijas de feito uma volta em dinheiro. azeite? Aí estão elas". O rei ficou muito Malasartes seguiu com a porcada e o admirado. outro com os carneiros, em direção oposta. O porqueiro foi pousar em casa do dono DE COMO MALASARTES FINGIU QUE dos carneiros. Ao ver o seu rebanho, o homem SE MATAVA avançou para o porqueiro, e exigiu entrega do que era seu. O porqueiro quis resistir, mas Vendo que a vitima vinha em sua vendo que o homem estava armado até os perseguição, deu tudo quanto tinha e, ao dentes e tinha muitos capangas, não teve outro aproximar-se de um riacho, encontrou uma remédio senão fazer a restituição, ficando no mulher a lavar roupa. Estava perdido, porque a prejuízo, e tocou pra trás a ver se encontrava o lavadeira daria ao perseguidor a sua direção. Malasartes que já estava longe, tendo tomado Mais que depressa tocou a carneirada a por um atalho que foi dar numa fazenda. E, vai atravessar o riacho, e tomando um dos então, vendeu a porcada por um precinho carneiros, tirou-lhe as tripas e meteu-as barato, mas com a condição de o comprador debaixo da camisa. Quando a manada passou, deixar que ele cortasse a ponta do rabo de ele arrancou da faca, fingiu que abriu o ventre cada porco. e deixou cair na água as tripas do carneiro, que Fecharam o negócio e Pedro Malasartes ali levou ocultas. meteu no embornal os rabinhos dos porcos e A lavadeira deu um grito, caiu bateu o pé na estrada. desmaiada ao presenciar tal cena e Malasartes desapareceu. Nilto Maciel Hiroito) (Hiroito) Japonezinho mirrado, já velho, sorria. Os moleques o chamavam de “japa”. Ele enrugado, banguela. Vigiava carros num se zangava, cuspia farelos e pingos de caldo. estacionamento. Em troca recebia minguadas Deitado no catre imundo, Hiroito moedas. Quando a fome apertava, corria ao recordava a Grande Guerra. Dores, mortes, vendedor de pastéis. Esmigalhava com os dedos destruição. E a fuga para o Brasil. Dormia, a iguaria e enchia a boca de farelos de carne cansado, e sonhava horrores. Milhões de pulgas moída e trigo assado. Pedia caldo de cana e a roê-lo vivo. Baratas e ratos fardados, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    13 enormes, violentos. Prendiam-no,arrastavam- a vitória. O poderoso exército do Império do Sol no, molestavam-no. Nascente. Quando a guerra terminasse, o Japão Mal amanhecia, pulava do gramado e, seria dono do mundo. E ele, Hirohito, o homem tonto, buscava a aurora. Fechava os olhinhos mais poderoso da Terra. sujos e enfiava as mãos na água da bacia. A E expirou. fome de novo. Imaginava pastéis macios. ---------– Esquecia os inimigos, a guerra, os insetos. Corria para pegar o ônibus. Precisava chegar cedo ao estacionamento. E disputar com os moleques o direito de receber moedas dos donos dos carros. Moedas e insultos. “Vai trabalhar, vagabundo!” Nilto Maciel Um dia lhe disseram que no Japão havia Nasceu em Baturité, Ceará, em 1945. muita riqueza. Indústrias e mais indústrias. Obteve primeiro lugar em alguns Como em nenhum outro país. O povo vivia farto concursos literários nacionais e estaduais, com e feliz. Nem parecia aquele povo destruído em o livro de contos Tempos de Mula Preta; livro 45. Riu. Não acreditou naquilo. E, se fosse de contos Punhalzinho Cravado de Ódio; A verdade, mesmo assim preferia viver no Brasil, Última Noite de Helena; Os Luzeiros do Mundo; onde não havia guerra. A Rosa Gótica; conto “Apontamentos Para Um Noutro dia houve tiroteio entre policias e Ensaio”; “livro Pescoço de Girafa na Poeira; ladrões de carro. O estacionamento virou "Eça de Queiroz", livro Vasto Abismo. campo de batalha. Tiros a torto e a direito. Tem contos e poemas publicados em Correria e gritaria. Um pandemônio. Assustado, esperanto, espanhol, italiano e francês. O Cabra o velho japonês correu. Talvez alcançasse a que Virou Bode foi transposto para a tela barraca dos pastéis. Quando aquilo acabasse, (vídeo), pelo cineasta Clébio Ribeiro, em 1993. mataria a fome. Porém, antes de alcançar Alguns livros: refúgio, uma bala se incrustou em seu peito. Itinerário, Tempos de Mula Preta, A Atirado ao chão, rolou para debaixo de um Guerra da Donzela, Punhalzinho Cravado de carro. Se sentia dor, não sabia. Na verdade, Ódio, Os Guerreiros de Monte-Mor, O Cabra que tudo parecia grandioso aos seus olhos semi- Virou Bode, Navegador, Vasto Abismo, abertos. Aviões devastavam céus. Tanques Panorama do Conto Cearense, A Leste da rolavam sobre os inimigos, que viravam pastéis. Morte, etc. As tropas japonesas invadiam Ásias e Américas. E ele, Hirohito, imperador do Japão, comandava Antonio Roberto de Paula Poesias) (Poesias) O SILÊNCIO DE MARINGÁ Um motor ronca Rompendo uma reta É na noite Perdendo força Quando procuro o sono Nos meus ouvidos Fecho os olhos E tento ouvir Chega uma música O silêncio de Maringá Em baixo volume Um silêncio que dura Sobe poderosa A eternidade E se perde na escuridão De poucos segundos Logo outros sons Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    14 Itinerantes de vozes Demarcava seu espaço sem pedir licença Passos e latidos Vêem e seguem Para Pedro Caveira era vencer ou morrer Sem dar boa-noite Dos homens ganhava o temor, o respeito Das mulheres conseguia tirar o prazer A noite passa veloz Era na marra, na força, de qualquer jeito O dia começa na madrugada Acelerações e freios Entre as tantas moçoilas submissas Buzinas e máquinas Havia uma que ocupava seu coração É a cidade de pé Era a bela , doce e estonteante melissa Em movimento Morena brejeira exalando amor e paixão Houve um tempo Por ela é que Pedro Caveira se derretia Em que a cidade Um caso conhecido em toda comunidade Dormia mais cedo Quando ela chegava seu sorriso se abria Não vagava tanto Para ela, ele pedia só amor e fidelidade E acordava no horário Na vida acontecem coisas inesperadas Tempo da poeira Por uma bronca sem grande repercussão Dos lampiões Caveira teve que tirar férias forçadas Das casas de madeira Fora de circulação, um ano de prisão E portões de balaústres Um dia antes de se entregar à justiça A noite era de poucos Pediu ao bando a palavra em penhor Só dos profissionais Chorou abraçado à querida Melissa Hoje o dia ficou pequeno Que lhe fez juras de eterno amor A noite é a extensão Chamou num canto o seu preferido É na noite O humilde amigo Zequinha Terceiro Quando procuro o sono Lhe pediu em lágrimas, comovido Fecho os olhos Que cuidasse de todo o seu terreiro E tento ouvir O silêncio de Maringá Zequinha levou à risca aquele pedido Um precioso silêncio Por sua conta incluiu a bela morena Um frágil silêncio Virou chefão do pedaço, cabra temido Que dura menos E botou as guampas no Pedro Caveira Que a pureza do instante Passou o tempo, cumprida a sentença A noite Caveira quis retornar ao antigo ninho Já não é mais noite Mas ninguém mais quis a sua presença É só o dia sem sol E até Melissa lhe negou os carinhos Entrando no outro dia (Antonio Roberto de Paula - Livro Maringânias - Humilhado, pobre, com medo de morrer 2007 - Poesias comemorativas - Maringá 60 anos) Pedro Caveira abandonou aquela cidade Com ódio de Zequinha de endoidecer CABRITO NA HORTA Hoje perambula na estrada da infelicidade Patrono, manda-chuva, mandava brasa O mundo sempre foi e será dos espertos Pedro Caveira era o tipo de fazer tremer Zequinha agora é senhor, do alto escalão Nunca foi de levar desaforo para casa O pai e o avô na vida não deram certo Não havia homem que podia lhe conter Mas ele é o terceiro, o chefe, um campeão Na faca, na bala, no pau, na porrada E finalizando essa incrível história Pedro Caveira se valia da truculência Pra você não ser tomado de revolta A cada dia mais uma área era dominada Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    15 E pra que a tua vida não seja inglória Regional do Bradesco-Maringá; e foi Não deixe o cabrito tomar conta da horta proprietário do Bar do Toninho ( 1985 a 1990), --- na avenida Dr. Alexandre Rasgulaeff, no Jardim Letra: Antonio Roberto de Paula Alvorada, em Maringá. Melodia: Helington Lopes Desde a adolescência escreve poesias, História contada por Cláudio Viola contos, crônicas e artigos, inclusive com A música "Cabrito na horta" , em versão publicações desde a década de 1970, nos reduzida, participou do Femucic, em 2005, com jornais O Diário do Norte do Paraná , O Jornal apresentação do grupo Receita do Samba de Maringá e Jornal do Povo . Sua primeira experiência efetiva no jornalismo ocorreu em 1975, no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, com o jornal Skeletus , do CETA (Centro Estudantil Tristão de Athaíde). Publicado até 1977, o Skeletus tinha Antonio Roberto de Paula como editores, além de De Paula, seus amigos O jornalista Antonio Roberto de Paula, Mário Sérgio Recco, José Miguel Grillo, Nivaldo sócio-proprietário da TV Clipping Maringá, Gôngora Verri, Edson Cemensati e Edson Luiz nasceu na cidade paulista de Lupércio, em 17 Matias. Em 1981, foi colaborador do Vôo Livre , de junho de 1957. É o primogênito dos quatro suplemento de O Diário publicado às sextas- filhos de Alcebíades de Paula Neto e Rita feiras, editado por Mário Sérgio Recco. Andrade de Paula. A mudança para Maringá Seu primeiro emprego efetivo na ocorreu em 1959. De Paula concluiu o curso imprensa foi no Jornal do Povo, em 1991, como primário em 1967, em Engenheiro Beltrão (PR), colunista de futebol amador, passando depois onde a família residiu até meados de 1972. para a editoria de esportes e escrevendo a Em 1968 estudou no Seminário Verbo coluna Visão de jogo. Neste mesmo ano atuou Divino, em Ponta Grossa. De 1969 a 1976, fez o como comentarista da extinta Rádio ginásio e o científico, como eram chamados na Metropolitana (Rádio Jornal). época os ensinos fundamental e médio, nos Em 1992 e 1993 trabalhou como seguintes estabelecimentos de ensino de comentarista em transmissões de futebol Maringá: Santo Inácio, Instituto de Educação, amador pela RTV Maringá. Em 1993, deixou o Gastão Vidigal e Paraná. Jornal do Povo e se transferiu para a sucursal Foi aprovado no vestibular do curso de do Correio de Notícias, jornal curitibano que Letras na UEM (Universidade Estadual de encerrou as atividades na cidade no ano Maringá) em 1981, mas desistiu do curso. Em seguinte. Lá, foi colunista e editor de esportes. 2001, formou-se em Jornalismo pelo Cesumar Ainda em 1993, deixou a RTV indo para (Centro Universitário de Maringá). Em 2003, fez a TV Maringá (Band) para ser editor, pauteiro e o curso de pós-graduação Língua Portuguesa – produtor do programa diário Esporte por Teoria e Prática, pelo Instituto Paranaense de Esporte , onde permaneceu até 1995. Ensino e Univale (União das Escolas Superiores Neste período, De Paula também foi do Vale do Ivaí). Atualmente, cursa Mestrado produtor e comentarista do programa Atalaia em Letras na UEM. Esportiva, da Rádio Atalaia de Maringá. De Sua monografia de conclusão do curso 1995 a 1997, trabalhou no O Diário exercendo de graduação foi a apresentação do livro Os as funções de editor de esportes, colunista do homens da Folha do Norte do Paraná , jornal DNP Esporte, repórter de matérias políticas e maringaense fundado em 1962, pelo primeiro locais, pauteiro e secretário de redação. arcebispo de Maringá, dom Jaime Luiz Coelho, De 1997 a 1998 foi repórter da Revista e que teve suas atividades encerradas em M-9. De 1997 a 1999 escreveu crônicas, 1979. artigos, poesias e contos na coluna Linha Antes de atuar profissionalmente na Expressa, no Jornal do Povo. Em 1998 e 1999 imprensa, De Paula foi escriturário na atuou como editor-chefe do departamento de Transparaná (1977), funcionário público jornalismo da TV Cidade – Sistema NET. Em municipal ( 1977 a 1979), tendo trabalhado na 2000, foi repórter, pauteiro e colunista do extinta Codemar (Companhia de jornal Hoje Maringá. Desenvolvimento de Maringá) e Secretaria de Fazenda; bancário ( 1979 a 1985), no Centro Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    16 De Paula e o jornalista Cláudio Viola são produtores do programa Beca TV , da TV parceiros em composições em que incluem os Clipping Maringá, com Guilherme Tadeu e Allan hinos do Maringá Futebol Clube (1996), do Oliveira, em 2004. Em 2003, publicou o livro Da Grêmio Maringá (2000) e as músicas Maringá minha janela, de crônicas, artigos, poemas, Velho, gravada em 2003 pela cantora contos inéditos e já publicados. maringaense Márcia Mara, e Cabrito na horta , Em 2004 lançou o livro A história política classificada no Femucic (Festival de Música de um cabo de José, de Maria e de todos os Cidade Canção), gravada por Helington Lopes Santos , em que narra a história do vereador (que também foi um dos compositores) e o maringaense Cabo Zé Maria e seus dez anos de grupo Receita do Samba. mandato. Em 2005, dirigiu o videodocumetário Em 2002, abriu com a jornalista Simone Crônica democrática de uma cidade brasileira , Labegalini a TV Clipping Maringá. No início de sobre as Eleições 2004, numa produção da TV 2003, De Paula trabalhou como produtor, Clipping Maringá, com roteiro de Guilherme repórter e comentarista do programa Estação Tadeu de Paula e fotografia e montagem de Comunitária , da Rádio Comunitária São Allan Oliveira. Francisco FM, do Jardim Alvorada, retornando Foi nomeado assessor de imprensa da no ano seguinte. Foi responsável juntamente Câmara Municipal de Maringá em 1997, vindo a com seu filho Guilherme Tadeu de Paula da ocupar a chefia do setor no final de 1999, onde sucursal em Maringá do jornal londrinense permanece até hoje. Paraná Shimbun, em 2003 e 2004, e um dos Pedro Silva (Uma Viagem na Época dos Descobrimentos) Um sonho de criança Mas o nosso Bartolomeu iria ser ainda mais famoso. Porém, nesta altura, ainda o não - Bartolomeu! Bartolomeu! – grita uma sabia. donzela formosa, com pouco mais de trinta Ao jantar, o seu pai, conhecedor por ser anos. de poucos sorrisos e de poucas falas, dirigiu-se Por todo o lado procurava, mas o seu ao filho: filho não aparecia em sítio algum. - Bartolomeu, tua mãe contou-me que De repente, um franzino jovem surge. passaste o dia junto ao riacho. É verdade? Tinha um olhar simpático. O cabelo - Sim, pai, é verdade. Perdoe-me. – e o despenteado. Mas a sua maneira de ser era jovem baixou a cabeça, em tom triste. delicada: - Sabes que a vida não é só brincadeira, - Desculpe, mãe. Estava a brincar no não sabes? riacho. - Eu sei, meu pai, mas… - Outra vez, Bartolomeu? Mas tu só te - E olha que a nossa vida tem sido de sentes bem junto à água? trabalho. Os sonhos são apenas para quando O jovem, envergonhado, encolhe os dormimos. A realidade é bem diferente quando ombros e responde: estamos acordados. – afirmou o pai de - Por acaso… sim! – e corre a abraçar a Bartolomeu Dias. sua mãe. - Desculpe, pai. Mas isto não é um Estávamos em 1465 e Bartolomeu Dias, sonho, eu serei mesmo navegador! nascido em Mirandela, uma belíssima localidade O pai não deixou de esboçar um transmontana, dava os primeiros passos na sua pequeno sorriso. O empenho do seu filho era futura vida de navegador. Apesar de ter apenas de louvar. Dentro do seu coração, o pai de quinze anos, já o seu pai o incentivava a seguir Bartolomeu desejava que este conseguisse ser as pisadas de Dinis Dias, seu parente e também o mais famoso dos navegadores portugueses. famoso navegador. Mas também sabia as dificuldades que o filho Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    17 teria de enfrentar.“Porém, sonhar não custa”, - O que quereis de mim? – perguntou D. pensava de si para si. João II, o Príncipe Perfeito. - Senhor, eu gostaria… - a voz parecia Vivendo um sonho não sair, dada a sua timidez. – Eu gostaria de poder participar na próxima viagem a África. Pouco anos depois, Bartolomeu Dias O rei pensou um pouco e respondeu: despediu-se dos pais e rumou a Sul. O destino - Pois bem, embarcarás daqui a dois era a capital de Portugal, Lisboa. Era lá que dias, rumo a São Jorge da Mina, a nossa mais todos os sonhos seriam possíveis de conquistar. importante feitoria. Até então, passara os seus dias numa pequena E assim foi. povoação do interior do país. Nunca vira o mar, Cruzando mares pela primeira vez mas sonhara com ele todos os dias de sua vida. chegou em 1484 ao local estipulado pelo rei. Ali Deslocou-se para Lisboa. Ali estudaria esteve algum tempo, aperfeiçoando os seus matemática e astronomia na Universidade de conhecimentos marítimos e aprendendo os Lisboa. Mas, ainda antes de começar a estudar, costumes locais. a primeira atitude que teve ao chegar à capital foi deslocar-se à zona de Belém. A razão? A viagem de uma vida Queria ver o local de onde as caravelas partiam rumo ao desconhecido. Tão rapidamente ganhou experiência “Que local magnífico!”, pensava que, dois anos depois, o rei João II confiou-lhe Bartolomeu, olhando para tanta agitação. Eram uma importante missão: descobrir o Preste marinheiros que se despediam das suas João das Índias. Desde há alguns anos que em famílias. Eram vendedores que apregoavam os Portugal se contava a história da existência de seus produtos. E, por fim, eram crianças que um rei muito rico que vivia na Etiópia. Esse rei, choravam de saudades ao ver a chegada dos ao contrário dos reis que o rodeavam, era seus pais ou que brincavam indiferentes a tudo cristão. Portanto, poderia ajudar D. João II na o mais. conquista de novos territórios na África e na Com tudo isto sonhara o jovem Ásia. Bartolomeu Dias quando, pouco tempo antes, No entanto, este era o plano secreto. partira de Mirandela rumo a Lisboa. Na viagem Oficialmente, Bartolomeu Dias tinha não parara de fazer perguntas a Dinis Dias, o como missão investigar as costas do continente seu parente que ganhara alguma fama ao africano. Isto para se tentar perceber se seria comando de caravelas. Queria saber tudo: possível chegar à Índia por mar. como se preparava uma expedição; quantos Nessa altura, em 1486, ninguém acreditava que marinheiros levava a embarcação; e, mais fosse possível ultrapassar a zona conhecida por importante, quando ele poderia participar. A Cabo das Tormentas. Este nome havia sido tudo respondia Dinis com a sua calma de ganho pelo fato de o mar ser muito perigoso e sempre. À última pergunta, respondeu-lhe: “na de muitos barcos ali terem desaparecido. altura certa, chegará o teu momento de Mas Bartolomeu Dias não tinha medo de embarcar”. nada. Se o rei lhe havia solicitado essa missão, Os estudos passaram a correr. Tudo assim seria cumprida. aprendia a um ritmo louco tal a ânsia de largar Na verdade, o navegador, que terra firme e aventurar-se no alto mar. comandava duas caravelas, não chegou a Quanto os estudos terminaram, e encontrar qualquer notícia do mítico rei das auxiliado pelo seu familiar Dinis Dias, entrou na Índias, o famoso Preste João. Porém, trazia corte portuguesa. À sua frente estava D. João relatos muito entusiasmantes para D. João II. II. Assim que o viu, Bartolomeu ajoelhou-se. Chegado à corte, Bartolomeu correu Era o seu rei que ali se encontrava. Portanto, para junto do seu rei e declarou: mandava a educação que lhe fizesse uma - Senhor, é possível dobrar o Cabo das vénia. Tormentas. Eu sei! - Levantai-te. – afirmou o soberano. - Mas como tal será possível, - Obrigado, senhor. É uma honra poder Bartolomeu? – perguntou o monarca. estar aqui na tua presença. – disse Bartolomeu. - Acreditai em mim. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    18 Perante tamanha demonstração de Adamastor. Mas nada disso aconteceu e otimismo, o rei decidiu, uma vez mais, confiar quando perceberam que haviam cruzado o no seu navegador. Apesar de todos os projetos ponto mais complicado de África, todos se concretizados pelos portugueses, a cada sentiram muito felizes. Lançaram os braços ao momento sentia-se a necessidade de ir um Céu, em jeito de agradecimento e alívio da pouco mais além. E, neste momento, dobrar o tensão acumulada. Cabo das Tormentas era o maior desafio da Ao regressarem a Lisboa foram nação. O rei sabia-o, tal como Bartolomeu Dias. acolhidos como heróis. O rei veio recebê-los O dia da partida foi igual a tantos outros pessoalmente e dar-lhes outra boa novidade: a naquela zona de Belém do século XV. Muita partir daí, em homenagem aos bravos tristeza misturada com enorme dose de marinheiros, o Cabo chamar-se-ia da Boa esperança. Esperança, pois permitiria chegar à Índia por Se, por um lado, já se chorava de mar. saudades do que estava para vir, por outro, - Obrigado Bartolomeu. – disse o rei, havia sorrisos de expectativa em regressarem olhando para o navegador entretanto como heróis. Apenas Bartolomeu Dias se regressado do alto mar. mantinha sereno. As histórias do passado não o - Senhor, apenas cumpri o meu dever. atemorizavam. Os muitos barcos e vidas Tanta humildade encerrava no seu perdidos algures no Cabo das Tormentas, onde coração. um gigante Adamastor afundaria as naus, não E tanta vontade de servir o seu país. intimidavam o nosso Bartolomeu Dias. Ele Assim como de estar junto à água, tal como tinha, do seu lado, a força da experiência e o quando era criança. poder fornecido pela crença nas suas Pouco depois, partiu na expedição de capacidades. Estudara a geografia marítima do Vasco da Gama, que viria a tornar real o local durante alguns anos. Preparara-se Caminho Marítimo para a Índia. enquanto comandante e enquanto marinheiro. E, em 1500, fez igualmente parte da Faltava, apenas, concretizar o seu sonho: missão de descoberta do Brasil, liderada por tornar-se famoso honrando a bandeira de Pedro Álvares Cabral. Portugal. Tudo o que se seguiu ao feito principal, O mês de Agosto de 1487 marcou a ou seja, o agora chamado Cabo da Boa partida de Lisboa. O dia estava solarengo. As Esperança, foi, para Bartolomeu Dias, apenas almas dos marinheiros estavam iluminadas, um justo acréscimo ao seu currículo de quiçá do sol ou da esperança de um fruto navegador. radioso. Em Dezembro, alguns meses após a Bartolomeu Dias foi a Boa Esperança partida, chegavam à Namíbia. Era o ponto mais que necessitávamos para tornar Portugal um a sul que havia sido registado pelos importante país de comércio e de navegação portugueses. A partir daí, apenas o marítima. Sem ele, provavelmente, não haveria, desconhecido imperava. hoje em dia, tanto interesse na História dos É então que o tempo deixa de ajudar. Descobrimentos Portugueses… Uma violenta tempestade abate-se sobre a expedição marítima. Bartolomeu Dias manteve- se calmo, apesar do temor da sua tripulação. Voltava a pairar o medo de um acidente fatal. Durante treze dias andaram à deriva, Pedro Silva procurando a costa, mas não a encontrando. O autor Pedro Silva nasceu em Tomar Na verdade, ainda que não o soubessem, (Portugal). Cedo deu provas do seu interesse andavam bem perto. Passado algum tempo, pela escrita, tendo alcançado o seu primeiro aproveitando o vento favorável, navegou para prêmio literário com apenas dez anos de idade. nordeste. Sem saber, tinha concretizado um Colaborador assíduo de diversos órgãos de feito histórico, dobrar o Cabo das Tormentas. comunicação social, o autor alcançou a sua Porém, apenas viria a aperceber-se do que estréia literária em 2000, através da obra sobre fizera na viagem de regresso. Ao regresso fora os Templários chamada "Ordem do Templo: Em obrigado pela tripulação que, supersticiosa, Nome da Fé Cristã". Um ano depois lançou no temia pelo súbito aparecimento do mítico Brasil "História e Mistérios dos Templários". No Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    19 ano de 2002,lança-se no campo da ficção, com - "Os Grandes Mistérios da Humanidade" (Axcel um conjunto de contos apelidados "Escritos Books, Brasil, 2006) Ensaio Errantes (histórias leves como o vento mas - "Já Passou" (Corpos Editora, Portugal, 2006) tocantes como a tempestade)". Ficção Com o lançamento de "Ku Klux Klan: - "Assassinos" (Pulso Editorial, Brasil, 2006) Pesadelo Branco", o autor reata a sua paixão Ensaio pelo ensaio histórico, é um estudo intenso - "O Código da Maçonaria" (Universo dos sobre a sociedade secreta norte-americana. Em Livros, Brasil, 2007) Ensaio 2005, lança "Tripla Imparável I: Juventude em - "1977" (Pulso Editorial, Brasil, 2007) Crónicas Acção". - "Portugal-Brasil: A Aventura do Paralelamente a isso, é cronista dos Descobrimento" (LGE Editora, Brasil, 2007) co- seguintes órgãos de comunicação portugueses: autor: Jean Angelles / Ilustrações: Gleydson Tribuna da Marinha Grande, Jornal O Caetano / Ficção Infantil Templário, O Almonda e foi Diretor da revista - "Cátaros (história de uma heresia)" (Via templária "Das Brumas do Templo e do Graal. Occidentalis, Portugal, 2007) Ensaio - "História Mística de Portugal" (Saída de Bibliografia: Emergência, Portugal, 2007) Ensaio - "Ordem do Templo: Em Nome da Fé Cristã" - "Templarios (Cruz y Medialuna)" (Bajo Los (Ulmeiro, Portugal, 2000) Ensaio Hielos, Chile, 2007) co-autor: Sergio Fritz Roa / - "História e Mistérios dos Templários" 2ª Ensaio Edição Esgotada (Ediouro, Brasil, 2001) Ensaio - "Roteiro do Portugal Templário" (Letras e - "Escritos Errantes (histórias leves como o Magia, Brasil, 2007) Turismo vento mas tocantes como a tempestade)" - "História Mística do Brasil" (Centauro Editora, Esgotado (Publicações Senso, Portugal, 2002) Brasil, 2007) Ensaio Contos - "Codex Templi (Os Mistérios Templários à Luz - "Ku Klux Klan: Pesadelo Branco" (Magno da História e da Tradição" (Zéfiro, Portugal, Edições, Portugal, 2003) Ensaio 2007) participação como autor do capítulo XXX - "Tripla Imparável I: Juventude em Acção" "Os Templários e o Brasil (Terra de Vera Cruz)" (Magno Edições, Portugal, 2005) Ficção Juvenil / Ensaio - "Os Templários e o Brasil" (Flâmula Editora, - "O dia em que a Corte Portuguesa chegou ao Brasil, 2005) Ensaio Brasil" (Pulso Editorial, Brasil, 2007) Ensaio - "Templários em Portugal (a verdadeira - "Tomar (cidade templária)" (Edições Outrora, história)" (Ícone Editora, Brasil, 2005) Ensaio Portugal, 2007) Ensaio - "Templários em Portugal (a verdadeira - "As Maiores Personalidades da História" história)" (Dinalivro/Ícone Editora, Portugal, (Universo dos Livros, Brasil, 2007) Primeiro 2005) Ensaio Volume da Colecção "História Extraordinária do - "Templários (Ordem Militar e Religiosa)" Mundo" / Ensaio (Catedral das Letras, Brasil, 2005) Ensaio - "O Nascimento do Reino de Portugal" (Edições - "Confraria Mística Brasileira: a História" (MAP, Chimpanzé Intelectual, Portugal, 2007) Brasil, 2006) Ensaio Ilustrações: Filipa Canhestro / Ficção Infantil - "Símbolos e Mitos Templários" (Centauro - "Templários (História Integral)" (Letras e Editora, Brasil, 2006) Ensaio Magia, Brasil, 2007) Ensaio - "Mistérios da Humanidade" (Via Occidentalis, - "Dos Templários à Ordem de Cristo" (Via Portugal, 2006) Ensaio Occidentalis, Portugal, 2007) Ensaio - "O Sol de Rita" (Corpos Editora, Portugal, - "As Maiores Civilizações da História" (Universo 2006) Ficção dos Livros, Brasil, 2008) Segundo Volume da - "Roteiro Místico de Portugal" (Editora Leitura, Colecção "História Extraordinária do Mundo" / Brasil, 2006) Turismo Ensaio - "Assassini (uma seita esotérica)" (Via - "Aljubarrota: da Independência à Grande Occidentalis, Portugal, 2006) Ensaio Batalha" (Edições Chimpanzé Intelectual, - "História dos Lusitanos" (Editora Prefácio, Portugal, 2008) Ilustrações: Filipa Canhestro / Portugal, 2006) Ensaio Ficção Infantil - "Romance na Net" (Idea Editora, Brasil, 2006) co-autor: Eliete Madureira / Ficção Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    20 - "Los Templariosen España y Portugal" - "A Lança Sagrada de Hitler" (Universo dos (Editorial Europa Viva, Espanha, 2008) Livros, Brasil, 2008) Ensaio Tradução: Maiquel da Costa Brito / Ensaio - "Baphomet – um enigma templário" (Letras e - "Os mais belos lugares para se conhecer Magia, Brasil, 2008) Ficção (antes que eles acabem)" (Universo dos Livros, - "Ordem dos Assassini: os primeiros terroristas Brasil, 2008) Ensaio da humanidade" 1ª Reimpressão (Pulso - "A Magia das Palavras" (LGE Editora, Brasil, Editorial, Brasil, 2009) Ensaio 2008) Ilustrações: Fernando Reis / Ficção - "Historia Misteriosa de España y Portugal" Infantil (Editorial Europa Viva, Espanha, 2009) co- - "Grandes Enigmas do Passado (Desvendando autor: Jordi Buch Oliver / Tradução: Maiquel da o Inexplicável)" (Pulso Editorial, Brasil, 2008) Costa Brito / Ensaio Ensaio - "Portugal (país de tradição)" (Ramiro Leão, Portugal, 2010) Ensaio Mario de Andrade Novos) (Contos Novos) Autor com sua prima Maria, bruscamente Mário de Andrade (São Paulo, 1893-1945), líder interrompidas por uma Tia Velha. A repressão da geração que implantou o Modernismo na associa-se à rejeição da prima, que o esnoba cultura brasileira. na adolescência. A prima se casa, descasa, e o convida para visitá-la. "Fantasticamente Obra mulher", sua aparição deixa Juca assustado. Contos Novos (1947), escrito num período de crise pessoal, teve publicação póstuma. Reúne 2. "O ladrão": Numa madrugada paulistana, narrativas da maturidade artística do autor, um bairro operário é acordado por gritos de marcadas pela maior depuração compositiva e pega-ladrão. Num primeiro momento, marcado estilística. "Eu também me gabo de levar de pela agitação, os moradores reagem com 1927 a 42 pra achar o conto, e completá-lo em atitudes que vão do medo ao pânico e à seus elementos" (Carta a Alphonsus de histeria, anulados pela solidariedade com que Guimaraens Filho). se unem na perseguição ao ladrão. Num segundo momento, caracterizado pela Gênero literário serenidade e enleio poético, um pequeno grupo Contos de estrutura moderna, que acolhem as de moradores experimenta momentos de principais correntes ficcionistas que marcaram a êxtase existencial. Os comportamentos se Literatura Brasileira das décadas de 30 e 40. sucedem, numa linha que vai do instinto Mais do que os fatos exteriores, os relatos gregário ao esvaziamento trazido pela rotina. procuram registrar o fluxo de pensamento das personagens. 3. "Primeiro de Maio": Conflito de um jovem operário, identificado como "chapinha 35", com Contexto histórico-cultural o momento histórico do Estado Novo. 35 vê São Paulo, capital e interior, décadas de 20 a passar o Dia do Trabalho, experimentando 40; processo de urbanização e industrialização reflexões e emoções que vão da felicidade (cidade); patriarcalismo X progressismo matinal à amargura e desencanto vespertinos. (ambiente rural). Mesmo assim, acalenta a esperança de que, no futuro, haja liberdade democrática para que Enredos: "sua" data seja comemorada sem repressão. 1. "Vestida de preto": Juca, em flash-back, 4. "Atrás da catedral de Ruão": Relato dos recupera as primeiras experiências amorosas obsessivos anseios sexuais de uma professora Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    21 de francês, quarentonainvicta, que procura Integra-se de forma dinâmica nos conflitos das hipocritamente dissimular seus impulsos personagens. Por exemplo, em "O poço", o frio carnais. Aplicação ficcional da psicanálise: cortante do vento de julho, no interior paulista, decifração freudiana. amplifica o tratamento desumano que o fazendeiro Joaquim Prestes dá a seus 5. "O poço": Joaquim Prestes, fazendeiro empregados. dividido entre o autoritarismo e o progressismo, é desafiado por um grupo de peões que se Personagens insubordinam, desrespeitando o mandonismo Nas nove narrativas, evidencia-se um profundo absurdo do patrão. mergulho na realidade social e psíquica do homem brasileiro. Os quatro contos de cunho 6. "Peru de Natal": Juca exorciza a figura do biográfico e memorialista, centrados em Juca, pai, "o puro-sangue dos desmancha-prazeres", promovem uma "interiorização" de temas proporcionando à família o que o velho, sociais e familiares. Já os com enunciação em "acolchoado no medíocre", sempre negara. terceira pessoa apresentam personagens cuja densidade psicológica procura expressar a 7. "Frederico Paciência": Dois adolescentes relação conflituosa do homem com o mundo. envolvidos por uma amizade dúbia, de Em contos como "Primeiro de Maio", "Atrás da conotação homossexual, procuram encontrar catedral de Ruão" e "Nélson", os protagonistas justificativas para esse controvertido vínculo e não têm nome: isso é índice da retificação e da se rebelam contra as convenções impostas pela alienação que fragmentam a existência humana sociedade. na sociedade contemporânea. 8. "Nélson": Registro do comportamento insólito de um homem sem nome. Num bar, um grupo de rapazes exercita seu "voyeurismo" pela curiosidade despertada pelo estranho sujeito: quatro relatos se acumulam, na Mário de Andrade tentativa de decifrar a identidade e a história de vida de uma pessoa que vive ilhada da Eu sou um escritor difícil sociedade, ruminando sua misantropia. Que a muita gente enquisila, Porém essa culpa é fácil 9. "Tempo de camisolinha": Juca, De se acabar de uma vez: posicionando-se novamente como personagem- E só tirar a cortina narrador, evoca reminiscências da infância, Que entra luz nesta escuridez. (A Costela de Grão Cão) especialmente do trauma que lhe causou o corte de seus longos cabelos cacheados. 1893: Nasce Mário Raul de Moraes Reconcilia-se com a vida ao presentear um Andrade, no dia 9 de outubro, filho de Carlos operário português com três estrelas-do-mar. Augusto de Moraes Andrade e Maria Luísa Leite Moraes Andrade; na Rua Aurora, 320, em São Foco narrativo de 1ª pessoa Paulo - SP. Centra-se no eixo de individualidade de Juca, 1904: Escreve o primeiro poema, cantado protagonista-narrador. Por meio de evocação com palavras inventadas. "O estalo veio num memorialista, em profunda introspecção, ele desastre da Central durante um piquenique de relembra a infância, a adolescência e o início de subúrbio. Me deu de repente vontade de fazer vida adulta. um poema herói-cômico sobre o sucedido, e fiz. Gostei, gostaram. Então continuei. Mas isso foi Foco narrativo de 3ª pessoa o estralo apenas. Apenas já fizera algumas Centra-se num eixo de referência social, de estrofes soltas, assim de dois em três anos; e inspiração neo-realista. A denúncia de aos dez, mais ou menos, uma poesia cantada, problemas sociais se alia à análise da de espírito digamos super realista, que problemática existencial das personagens. desgostou muito minha mãe. "— Que bobagem é essa, meu filho?" — ela vinha. Mas eu não Espaço conseguia me conter. Cantava muito aquilo. Até Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    22 hoje sei essapoesia de cor, e a música 1920: Lê obras Index . Faz parte do grupo também. Mas na verdade ninguém se faz modernista de São Paulo. Colabora em Papel e escritor. Tenho a certeza de que fui escritor Tinta (São Paulo), na Revista do Brasil (Rio de desde que concebido. Ou antes... Meu avô Janeiro - até 1926) e na Illustração Brasileira materno foi escritor de ficção. Meu pai também. (Rio de Janeiro - até - 1921). Tenho uma desconfiança vaga de que refinei a 1921: É professor de História da Arte no raça..." Este o depoimento do escritor a Conservatório. Pertence à Sociedade de Cultura Homero Senna, publicado no livro "República Artística. Está presente no lançamento do das Letras", Editora Civilização Brasileira - Rio Modernismo no banquete do Trianon. É de Janeiro, 1996, 3a. edição, sobre como havia apresentado ao público por Oswald de Andrade começado a escrever. através do artigo "Meu poeta futurista" (Jornal 1905: Ingressa no Ginásio N. Sra. do Carmo do Commércio São Paulo). Escreve "Mestres do dos Irmãos Maristas. passado" para o citado jornal. 1909: Forma-se bacharel em Ciências e 1922: Professor catedrático de História da Letras. Terminado o curso multiplica leituras e Música e Estética no Conservatório. Participa da freqüenta concertos e conferências. Semana de Arte Moderna em São Paulo, de 13 1910: Cursa o primeiro ano da faculdade de a 18 de fevereiro, no Teatro Municipal de São Filosofia e Letras de São Paulo. Paulo. Faz parte do grupo da revista Klaxon, 1911: Inicia estudos no Conservatório publicando poemas e críticas de literatura, artes Dramático e Musical de São Paulo. plásticas, música e cinema. Escreve Losango 1913: Morre seu irmão Renato, aos 14 Cáqui, poesia experimental. Inicia a anos, devido a complicações decorrentes de correspondência com Manuel Bandeira, que uma cabeçada em jogo de futebol. Abalado dura até o final de sua vida. Publica Paulicéia pelo fato e trabalhando em excesso, Mário tem desvairada, poesia. uma profunda crise emocional. Passa um tempo 1923: Estuda alemão com Kaethe Meichen- em Araraquara, na fazenda da família. Quando Bosen, de quem se enamora. Faz parte da retorna desiste da carreira de concertista revista Ariel, de São Paulo. Escreve A escrava devido a suas mãos terem se tornado trêmulas. que não é Isaura, poética modernista. Continua Dedica-se, então a carreira de professor de a colaborar na Revista do Brasil (Rio de música. Janeiro). 1915: Conclui curso de canto no 1924: Realiza a histórica "Viagem da Conservatório. Descoberta do Brasil", Semana Santa dos 1916: Conclui, como voluntário, o Serviço modernistas e seus amigos, visitando as Militar. cidades históricas em Minas. Colabora em 1917: Diploma-se em piano pelo América Brasileira (contos de Belazarte), Conservatório. Morre seu pai. Publica Há uma Estética e Revista do Brasil (Rio de Janeiro). gota de sangue em cada poema, poesia, sob o 1925: Colabora n'A Revista Nova de Belo pseudônimo de Mário Sobral. Primeiro contato Horizonte. Publica A Escrava que não é Isaura: com a modernidade na Exposição de Anita discurso sobre algumas tendências da poesia Malfatti. Primeira viagem a Minas: encontra o modernista. Adquire a tela de André Lhote, barroco mineiro, visita Alphonsus de Futebol, através de Tarsila. Guimarães. Já iniciou sua Marginália. 1926: Férias em Araraquara, escrevendo 1918: Recebe Diploma de Membro da Macunaíma. Publica Primeiro andar, contos, e Congregação Mariana de N. Sra. da Conceição Losango Cáqui (ou Afetos Militares de Mistura da Igreja de Santa Ifigênia. Noviciado na com os Porquês de eu Saber Alemão), poesia. Ordem Terceira do Carmo. Nomeado professor Escreve poemas de Clã do Jaboti. Colabora na no Conservatório. Escreve contos e poemas. Revista de Antropofagia, na Revista do Brasil e Colabora ocasionalmente em jornais e revistas em Terra Roxa e Outras Terras. como crítico de arte e cronista; em A Gazeta e 1927: Colabora no Diário Nacional de São O Echo (São Paulo). Paulo: crítico de arte e cronista (até 1932, 1919: Profissão na Ordem Terceira do quando o jornal é fechado). Estréia como Carmo a 19 de março. É colaborador de A romancista, publicando Amar, verbo Cigarra, O Echo e A Gazeta. Viagem a Minas intransitivo, que choca a burguesia paulistana Gerais, visitando as cidades históricas. com a história de Carlos, um adolescente de Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    23 família tradicional iniciadonos prazeres do sexo catedrático de Filosofia e História da Arte na pela sua Fraülein, contratada por seu pai Universidade do Distrito Federal e colabora no exatamente para essa tarefa. Lança, também, o Diário de Notícias daquela cidade. Publica livro Clã do Jaboti, de poesias. Realiza a Namoros com a Medicina, estudos de folclore. primeira "viagem etnográfica": percorrendo o 1939: Cria a Sociedade de Etnologia e Amazonas e o Peru, da qual resulta o diário O Folclore de São Paulo, sendo seu primeiro Turista Aprendiz. presidente. Organiza o 1o. Congresso da Língua 1928: Membro do Partido Democrático. Nacional Cantada (jul.). Projeta a criação do Realiza sua segunda "viagem etnográfica": ao Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nordeste do Brasil (dez. 1928 - mar. 1929). Nacional, SPHAN. É nomeado encarregado do Colabora na Revista de Antropofagia e em Setor de São Paulo e Mato Grosso. Escreve Verde. Publica Ensaio sobre a Música Brasileira poemas de A Costela do Grão Cão. Publica e Macunaíma - o Herói sem nenhum caráter, Samba Rural Paulista, estudo de folclore. É onde inova com audácia e rebela-se contra a crítico do Diário de Notícias (até 1944) e mesmice das normas vigentes. Com enorme colabora na Revista Acadêmica (Rio de Janeiro) sucesso a obre repercutiu em todo o país por e em O Estado de S. Paulo. Publica A Expressão seus enfoques inéditos. Sob um fundo Musical nos Estados Unidos. romanesco e satírico, aí se mesclavam numa 1941: Volta a viver em São Paulo, à Rua narrativa exemplar a epopéia e o lirismo, a Lopes Chaves 546. Está comissionado no mitologia e o folclore, a história e o linguajar SPHAN. Colabora em Clima (SP). popular. O personagem-título, um "herói sem 1942: Sócio-fundador da Sociedade dos nenhum caráter", viria a ser uma síntese, o Escritores Brasileiros. Colabora no Diário de S. resumo das virtudes e defeitos do brasileiro Paulo e na Folha de S. Paulo. Publica Pequena comum. História da Música. 1929: Inicia coluna de crônicas "Táxi", no 1943: Publica Aspectos da Literatura Diário Nacional. "Viagem etnográfica" ao Brasileira, O Baile das Quatro Artes, crítica, e Nordeste, colhendo documentos: música Os Filhos de Candinha, crônicas. popular e danças dramáticas. Rompimento da 1944: Escreve Lira Paulistana, poesia. amizade com Oswald de Andrade. Publica 1945: Coberto de reconhecimento pelo Compêndio de História da Música. papel de vanguarda que desempenhou em três 1930: Apóia a Revolução de 30. Defende o décadas, Mário de Andrade morreu em São Nacionalismo Musical. Publica Modinhas Paulo - SP em 25 de fevereiro de 1945, Imperiais, crítica e antologia, e Remate de vitimado por um enfarte do miocárdio, em sua Males, poesia. casa. Foi enterrado no Cemitério da 1933: Completa 40 anos. Faz crítica para o Consolação. Publicação de Lira Paulistana e Diário de São Paulo (até 1935). Poesias completas. 1934: Diplomado Professor honorário do Um capítulo à parte em sua produção Instituto de Música da Bahia. Cria e passa a literária sem fronteiras é constituído pela dirigir a Coleção Cultural Musical (Edições correspondência do autor, volumosa e cheia de Cultura Brasileira - São Paulo). Colabora em interesse, ininterruptamente mantida com Festa (Rio de Janeiro), Boletim de Ariel. Publica colegas como Manuel Bandeira, Carlos Belazarte, contos, e Música, Doce Música, Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, crítica. Tarsila do Amaral, Fernando Sabino, Augusto 1935: É nomeado chefe da Divisão de Meyer e outros. Suas cartas conservaram, de Expansão Cultural e Diretor do Departamento regra, a mesma prosa saborosa de suas de Cultura. Publica O Aleijadinho e Álvares de criações com palavras — um lirismo que, como Azevedo. ele disse, "nascido no subconsciente, acrisolado 1936: Deixa de lecionar no Conservatório. num pensamento claro ou confuso, cria frases Nomeado Chefe do Departamento de Cultura que são versos inteiros, sem prejuízo de medir da Prefeitura. tantas sílabas, com acentuação determinada". 1937: É contra o Estado Novo. Coberto de reconhecimento pelo papel de 1938: Transfere-se para o Rio de Janeiro vanguarda que desempenhou em três décadas, (27 jun.), demitindo-se do Departamento de Mário de Andrade morreu em São Paulo SP em Cultura (12 mai.). É nomeado professor- 25 de fevereiro de 1945. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    24 - Música do Brasil, 1941 Bibliografia: - Poesias, 1941 - Há uma gota de sangue em cada poema, - O movimento modernista, 1942 1917 - O baile das quatro artes, 1943 - Paulicéia desvairada, 1922 - Os filhos da Candinha, 1943 - A escrava que não é Isaura, 1925 - Aspectos da literatura brasileira 1943 (alguns - Losango cáqui, 1926 dos seus mais férteis estudos literários estão - Primeiro andar, 1926 aqui reunidos) - A clã do jabuti, 1927 - O empalhador de passarinhos, 1944 - Amar, verbo intransitivo, 1927 - Lira paulistana, 1945 - Ensaios sobra a música brasileira, 1928 - O carro da miséria, 1947 - Macunaíma, 1928 - Contos novos, 1947 - Compêndio da história da música, 1929 - O banquete, 1978 (reescrito como Pequena história da música - Será o Benedito!, 1992 brasileira, 1942) - Modinhas imperiais, 1930 Antologias: - Remate de males, 1930 - Obras completas, publicação iniciada em - Música, doce música, 1933 1944, compreendendo 20 volumes. - Belasarte, 1934 - Poesias completas, 1955. - O Aleijadinho de Álvares de Azevedo, 1935 - Poesias completas, 1972. - Lasar Segall, 1935 José Carlos Capinan Poesias) (Poesias) MUDANDO DE CONVERSA Há quem chore, há quem ligue a chave de ignição Não me venham falar de éticas Entretanto em meu coração fortemente chove Prefiro locomotivas Chove chove chove Ou motivos loucos para ser feliz Prefiro vagões de urânio e feijão Enquanto chove, choro e relampeja Atravessando o país Se despem e se despedem todos os amantes Vendo o povo acenando lenços brancos As chaves de ignição acendem os trovões (Campos férteis) Apagam-se as velas e assim seja Aos que vão sul a norte Leste oeste VII Trilhos novos, outros brasis Os carros são cada ano mais potentes E eu menino outra vez a dar adeus aos tempos E capazes de desenvolver velocidades da antihistória surpreendentes Quero sorrir das janelas de trens supersônicos São capazes de atirar quilômetros animais Em trilhos magnéticos árvores E novamente pensar que podemos alcançar as gente estrelas Não sei porque a vida se faz tão urgente (Dakar, em maio/2006) VIII ALGUMAS FANTASIAS Sou político I E nem sei o que possa dizer com isso É noite, tudo é mistério, eu vejo Mas é da época ser político Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    25 E há váriospolíticos Os cães provavelmente ladrarão inteiramente a E cada um tem a sua verdade política noite E a sua maneira política de ser político Enquanto a lua cheia obtura os dentes podres E cada político tem o seu melhor mundo a das canções oferecer Um traficante boliviano Sou político e também penso que talvez tenha Diz alô de Amsterdã um mundo Um fracassado governante Mas nem por isso, talvez somente fantasie inútil Diz alô num telegrama E acredite poder alterar esse inexorável rumo. Tudo é ópio, para um ex-marxista Para um ex-espiritualista, tudo é transe. Fui tão político às vezes que desdenhei as Tudo é provisoriamente eterno para os poetas formas Tudo é eternamente provisório para os E contestei as normas amantes E confessei ridículas as pétalas de rosas E o poema apenas a configuração do instante Fui tão político às vezes que fiz da beleza uma coisa perigosa DIDÁTICA E tão político às vezes que tornou-se a noite pavorosa A poesia é a lógica mais simples. Fui tão político às vezes que se desfizeram as Isso surpreende minhas Aos que esperam ser um gato mãos amorosas Drama maior que o meu sapato. E tão político às vezes que pensei entender a Ou aos que esperam ser o meu sapato, guerra Drama tanto mais duro que andar descalço O chumbo e a pólvora E ainda aos que pensam não ser o meu andar Fui tão político às vezes que despendi mil descalço impossíveis horas Um modo calmo. Dissolvendo em amnésia todas as memórias (Maior surpresa terão passado As máquinas são políticas Os que julgam que me engano: As poéticas são políticas Ah, não sabem o quanto quero o sapato As canções são políticas Nem sabem o quanto trago de humano Mas eu desconfio que alguma coisa possa Nesse desespero escasso. deixar de ser Não sabem mesmo o que falo Em teorema tão claro. MADRUGADAS DE NARCISO Como não se cansariam ao me buscar os Encalho nas madrugadas as minhas velas em passos farrapos Pois tenho os pés soltos e ando aos saltos Sou eu mesmo os marinheiros E, se me alcançassem, como se chocariam ao Sou eu mesmo a cabotagem saber que faço Sou eu quem traça os portos do roteiro A lógica da verdade pelos pontos falsos) E torna em desespero a bússola da viagem POESIA PURA Naufrago nas madrugadas Mas eu mesmo me faço nadar em vão até as Se esta é a busca da noite enquanto noite, mais A busca intensa que nada perturba, longínquas praias Nego a sensibilidade, pois ela acrescenta. Sou eu a maresia, a calmaria e a tempestade Nego a compreensão, pois ela já tem noções Sou eu mesmo a terra à vista E pode perturbar a flor pelo conhecer do Inalcançável homem. Hoje não relaciono, não comprometo. OUTRAS CONFISSÕES Quero a coisa em seu íntimo mais grave Quero a coisa, essencialmente a coisa, Narciso se despe, é noite, estão ladrando os cães Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    26 A coisa metafísica,para provar a Violência, viola violeiro impossibilidade. Era a morte em redor mundo inteiro Era um dia, era claro, quase meio O REBANHO E O HOMEM Era um que jurou me quebrar Mas não lembro de dor nem receio O rebanho trafega com tranqüilidade o Só sabia das ondas do mar caminho: Jogaram a viola no mundo É sempre uma surpresa ao rebanho que ele Mas fui lá ho fundo buscar chegue Se toma a viola eu ponteio Ao campo ou ao matadouro. Meu canto não posso parar Nenhuma raiva Nenhuma esperança o rebanho leva. Quem me dera agora Pouco importa que a flor sucumba aos cascos Eu tivesse a viola Ou ainda que sobreviva. Pra cantar Nenhuma pergunta o rebanho não diz: Era um era dois, era cem Até na sede ele é tranqüilo Era um dia, era claro, quase meio Até na guerra ele é mudo. Encerrar meu cantar já convém O rebanho não pronuncia, Prometendo um novo ponteio Usa a luz mas nunca explica a sua falta Este dia bem claro por inteiro Usa o alimento sem nunca se perguntar Eu espero não vá demorar Sobre o rebanho o sexo Este dia estou certo que vem Que ele nunca explicara Digo logo que vim pra buscar E as fêmeas cobertas Parado no meio do mundo Recebem a fecundidade sem admiração. Não deixo a viola de lado A morte ele desconhece e a sua vida. Vou ver o tempo mudado No rebanho não há companheiros, E um novo lugar pra cantar Há cada corpo em si sem lucidez alguma. Quem me dera agora O rebanho não vê a cara dos homens Eu tivesse a viola pra cantar Aceita o caminho e vai escorrendo Ponteio, ponteio Num andar pesado sobre os campos. Todo mundo Pontear PONTEIO “Em 1967, Ponteio ganhou o III Festival da (Música em parceria com Edu Lobo) MPB, enquanto era morto em SantaCruz de la Sierra, Bolívia, um mito latino americano, que Era um, era dois, era cem derrubara em Cuba, ao lado de Fidel, a ditadura Era o mundo chegando e ninguém de Fulgêncio Baptista, criando pela primeira vez Que soubesse que eu sou violeiro uma república socialista nas Américas. Neste Que me desse ou amor ou dinheiro festival, foram plantadas as sementes da Era um era dois era cem Tropicália. Caetano Veloso defende Alegria, Vieram pra me perguntar Alegria, e enquanto se preparava para cantar Oh você de onde vai de onde vem Domingo no Parque, entreguei a Gilberto Gil o Diga logo o que tem pra cantar poema-letra Soy Loco Por Ti, América. Parado no meio do mundo Considero estas três canções precursoras do Pensei chegar meu momento Tropicalismo. E considero Ponteio o Olhei pro mundo e nem via encerramento do ciclo que elejera o Nordeste Nem sombra nem sol nem vento como síntese de nossa postura estético- política”. (Capinan) Quem me dera agora Eu tivesse a viola CLARICE Pra cantar (música em parceira com Caetano Veloso) Era um dia, era claro, quase meio Era um canto calado sem ponteio Há muita gente Apagada pelo tempo Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    27 Nos papéis destalembrança Assistiu minha partida Que tão pouca me ficou Chorando pediu lembrança Igrejas brancas, luas claras nas varandas E vendo o barco se afastar de Amaralina Jardim de sonho e cirandas Desesperadamente linda Foguetes claros no ar Soluçando e lentamente E lentamente despiu o corpo moreno Que mistério tem Clarice E entre todos os presentes Pra guardar-se assim tão firme Até que seu amor sumisse No coração Permaneceu no adeus chorando e nua Para que a tivesse toda Clarice era morena Todo tempo que existisse Como as manhãs são morenas Era pequena no jeito de não ser quase ninguém Que mistério tem Clarice Andou conosco caminhos de frutas e Que mistério tem Clarice passarinhos Pra guardar-se assim tão firme Mas jamais que se despiu No coração? Entre os meninos e os peixes Entre os meninos e os peixes “1966 (...) Morava no Rio de Janeiro, numa Do rio espécie de exílio interno, que vivi ao sair da Bahia, em 1964. Eu tinha uma idéia recorrente Eu pergunto o mistério de voltar. Algumas vivências de adolescente Que mistério tem Clarice insistiam em permanecer no meu coração, Pra guardar-se assim tão firme resistindo ao sex appeal das garotas de No coração Ipanema, pelejando com as novas emoções que o Rio oferecia. E eram muitas. Mas a quase Tinha receio do frio namoradinha do interior permaneceu como Medo de assombração ícone da beleza nativa, a cobiçada filha de seu Um corpo que não mostrava Cícero (...). Escrevi Clarice num surto de banzo. Feito de adivinhação E mostrei o poema a Suzana (filha de Vinícius Os botões sempre fechados de Moraes) e Macalé. Suzana identificou Clarice tinha o recato Caetano como parceiro ideal (...) A morena De convento e procissão Clarice foi gravada também por Orlando Silva, o que vim a descobrir após a sua morte”. Que mistério tem Clarice (Capinan) Que mistério tem Clarice Pra guardar-se assim tão firme PAPEL MACHÊ No coração (música em parceria com João Bosco) Soldado fez continência Cores do mar O coronel reverência Festa do Sol 0 padre fez penitência Vida é fazer Três novenas e uma trezena Todo sonho brilhar Mas Clarice era inocência Ser feliz Nunca mostrou-se a ninguém No seu colo dormir Fez-se modelo das lendas E depois acordar Das lendas que nos contaram Sendo seu colorido brinquedo As avós De papel machê Eu pergunto o mistério Dormir no teu colo Que mistério tem Clarice É tornar a nascer Pra guardar-se assim tão firme Violeta e azul No coração Outro ser Luz do querer Tem que um dia amanhecia e Clarice Não vai desbotar Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    28 Lilás cor domar Festival da Record de 1967, com a canção Seda cor do batom “Ponteio”. Volta a se aproximar de seus Arco-íris crepom conterrâneos – compõe com Gil o clássico “Soy Nada via desbotar Loco por Ti, América”, e integra o histórico Brinquedo de papel machê disco “Tropicália” (68), ao lado de Caetano, Gil, Mutantes, Gal Costa, Tom Zé, Rogério Duprat e “Poucas canções eu fiz tomando como ponto de Torquato Neto. partida uma melodia já composta. Ponteio e Não diminui o seu ritmo como letrista e Papel Machê foram raras exceções. Gosto de segue dividindo parcerias com grandes nomes escrever os poemas ou letras livremente, sem da música, como Jards Macalé (em “Gotham um padrão a ser alcançado... Esta parceria com City”, vaiadíssima no IV Festival Internacional João Bosco é um dos maiores sucessos de tudo da Canção de 1969), Fagner (em “Como se que escrevi. Eu estava feliz e bem amado Fosse”) e Geraldo Azevedo (em “For All Para quando a fiz e me interessava muito pelas Todos”). Em 2000, compôs a ópera “Rei Brasil relações amorosas que dão certo, porque me 500 Anos” ao lado de Fernando Cerqueira e sinto mal-educado afetivamente (...)” Paulo Dourado, uma crítica as comemoração (Capinan) dos 500 anos de Descobrimento do Brasil, e dividiu parceria nos novos discos de Tom Zé (em “Perisséia”) e de Sueli Costa (em “Jardim”). Segundo Gilberto Gil, (...) Capinan, como todos nós outros, vivia aquela aventura com a sofreguidão das almas jovens. Vindo de José Carlos Capinan um interior ainda mais agreste, ainda mais Nascido na cidade baiana de Esplanada, nordeste do que o de onde vínhamos eu e em 19 de dezembro de 1941, José Carlos Caetano — porque ainda mais longe do mar de Capinam é considerado um dos grandes águas e de luzes da baía —, Capinan era letristas de sua geração, tendo participado portador e manifestante de uma alma ainda ativamente do movimento tropicalista no fim da mais severina, no sentido joãocabralino da década de 60. palavra. Mais caprino, mais cismado mais Poeta desde a adolescência, mudou-se dependurado nas argolas das interrogações, para Salvador aos 19 anos, onde iniciou o curso como se elas fossem aquelas gangorras toscas de Direito, na Universidade Federal da Bahia. pendendo dos galhos das mangueiras dos Militante fervoroso do CPC da UNE, fez quintais das casas no seu sertão. De logo amizade com Caetano Veloso e Gilberto pensamento arisco, arredio, mais Gil, na época cursando, respectivamente, as litera(l)riamente desconfiado do que os outros, faculdades de Filosofia e de Administração de Capinan viria depositar a palavra nas mãos do Empresas. seu coração semiárido. A sua poesia estava, Com o golpe militar, em 1964, é forçado então, naquela região do sertão, naquele a deixar Salvador e vai morar em São Paulo, coração semiúmido e de lá ela se faria escrever onde inicia os primeiros poemas de seu livro de e falar. estréia, “Inquisitórial”. Alguns anos depois, Aqui e ali essa poesia viria a ser, mais volta à capital baiana, desta vez para fazer tarde, um pouco mais entumescida pelo mar da Medicina, profissão que chega a exercer por viagem ao desconhecido ou pelo orvalho das algum tempo. últimas madrugadas neo-românticas, quando Paralelamente, intensifica o seu trabalho dos estertores da revolução política e cultural como poeta e participa do primeiro disco de dos sessenta e dos setenta e logo dos oitenta e Gilberto Gil, em 1966, dividindo a parceria na tantos quantos foram os anos-luzes do seu faixa “Viramundo”. No mesmo ano, sua música percurso por sampas e riodejaneiros. Mas, no “Canção para Maria”, defendida e composta em fundo, eu quase arriscaria afirmar que a poesia parceria com Paulinho da Viola, é um dos de Capinan repousa, ainda e eternamente, no destaques do II Festival de Música da Record, caroço de umbu da sua caatinga. Umbu cuja obtendo a terceira colocação. carne é assim meio fibra, meio nervo e um Torna-se um dos mais assediados tanto pouca, que ao morder se dá mais parca letristas da época e vence com Edu Lobo o Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    29 que farta, comseu doce ancorado em seu permanece. Aquilo que não se perde nas azedo, cujo gosto é bom mas exigente e névoas do delírio. Como a um fio de Ariadne dificultoso, e cujo caroço é duro e traiçoeiro atado. Aquilo que, como no sonho acordado do para os dentes. Creio que assim será sempre a menino, leva-o à exploração das grutas poesia de Capinan, embora seu verso tenha obscuras da fantasia mas o traz sempre de uma vez ameaçado que “já não somos como na volta ao ser do presente, ao claro recinto do chegada”. seu quarto — ainda que sob tênue luz de Sabemos que em todos nós há sempre lamparina iluminado. Quatro paredes, o teto, um que vai e um que fica, um que muda e um seu ambiente. Sempre de volta à obstinada que permanece, e que há um outro que atento recusa da solidão. De volta a algum/alguém os observa a ambos, quase sempre a um deles sempre ao seu lado. Ele mesmo, o seu amigo distinguindo como se com um amor de pai. ambíguo, um tanto quanto deslocado, quase (...) A poesia de Capinan distingue, que num quarto ao lado, contíguo a si mesmo, elege e prestigia aquilo/aquele que nele mas ainda no âmbito da sua con(si)guidade. Tatiana Belinky Belinky (O Diabo e o Granjeiro) Um pobre lavrador precisava construir a E voltou correndo para casa, para casa de sua pequena granja, mas não comunicar à esposa o bom negócio que conseguia realizar esse sonho, pois o que acabara de fechar. ganhava mal dava para alimentá-lo, junto com A pobre mulher ficou horrorizada: sua mulher. Por mais economia que fizesse, — Tu és um louco, marido! Acabas de não conseguia juntar o necessário para prometer àquele velho, que só pode ser o começar a construção. próprio diabo, o nosso primeiro filho, que vai Um dia, estando a caminhar pelo seu nascer daqui a alguns meses! pedaço de chão, mergulhado em tristes O homem, que não sabia da gravidez, pensamentos, deu com um velho esquisito que pôs as mãos na cabeça, mas não havia mais lhe disse com voz desagradável: nada a fazer: o pacto estava selado. — Pára de preocupar-te, homem. Eu A mulher, porém, que não estava posso resolver o teu problema antes do disposta a aceitá-lo, ficou pensando num jeito primeiro canto do galo, amanhã cedo. de frustrar o plano do diabo. — Como assim? — espantou-se o E naquela noite, sem conseguir dormir, lavrador. ficou o tempo todo escutando apavorada o — Tu precisas construir a casa da barulho que o demônio e seus auxiliares granja, certo? Pois eu me encarrego de infernais faziam, ao construírem a tal obra, com construir e entregar-te essa obra, antes do espantosa rapidez. A noite ia passando, canto do galo, em troca de uma pequena aproximava-se a madrugada. promessa tua. Mas, pouco antes de o céu clarear, — Que promessa? Não tenho nada para quando faltavam só umas poucas telhas para a te oferecer em troca de tal serviço. conclusão da obra, a atenta mulher do — Não importa: o que quero que me granjeiro pulou da cama e, rápida e ágil, correu prometas é um bem que tu tens mas ainda não até o galinheiro, onde o galo ainda não sabes. É topar ou largar. despertara. O pobre granjeiro pensou com seus Tomando fôlego, imitou o canto do galo, botões “o que é que eu tenho a perder?” e, com tal perfeição que todos os galos da sem hesitar mais, respondeu ao velho que vizinhança, junto com o seu próprio, lhe aceitava o trato e fez a promessa. responderam com um coro sonoro de cocoricós — Só que quero ver a casa da granja matinais, momentos antes do romper da construída, amanhã, antes do canto do galo — aurora. observou ele, ainda meio incrédulo. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    30 Como um trato com o diabo tem de ser De 1948 a 1951, criou com o marido estritamente observado, tanto pela vítima como várias adaptações de histórias infantis para por ele mesmo, a obra em final de construção teatro. Nessas encenações, Tatiana fazia o teve de ser parada naquele mesmo instante, roteiro e o marido, a direção. As peças eram por quebra de contrato “antes do primeiro encenadas em teatros da Prefeitura de São canto do galo”. Paulo, com recursos da prefeitura. E o diabo, espumando de raiva por se Em 1952, o casal encenou sua bem- ver assim ludibriado e espoliado, se mandou de sucedida adaptação “Os três ursos” na extinta volta para o inferno, junto com seus acólitos, TV Tupi. Com o sucesso da encenação na para nunca mais voltar àquele lugar. televisão, a Tupi convidou o casal a elaborar o Mas a casa da granja permaneceu construída, programa “Fábulas Animadas”, preenchendo para alegria do granjeiro, faltando apenas umas uma lacuna da programação da época para o poucas telhas que jamais puderam ser público infanto-juvenil. colocadas. A primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, estreou em 10 de janeiro de 1952, e a direção coube a Tatiana Belinky e Júlio Gouveia. Foram 300 episódios, mas infelizmente não ficou nada registrado pois Tatiana Belinky o programa era feito ao vivo. Sou antiga, mas não sou velha, porque dentro A primeira adaptação ocorreu no Teatro de mim continua vivinha a criança que fui e isto Escola de São Paulo - TESP - um teleteatro me permite estar em sintonia com crianças e dirigido ao público infantil, criado em 1948 por jovens, com quem procuro repartir minhas Tatiana e Júlio Gouveia. "A Pílula Falante", um curtições de ontem e de hoje. Meu prêmio dos capítulos do livro "Reinações de Narizinho", maior é saber que meus livros irão para as foi a história escolhida para ser exibida ao vivo mãos das crianças, e se elas sorrirem, ou se na Tupi. O sucesso alcançado por esta única emocionarem, ou ficarem pensativas, eu ficarei apresentação levou a emissora a produzir a feliz". primeira série de televisão do "Sítio do Picapau Tatiana Belinky (São Petersburgo, 18 de Amarelo". março de 1919) é uma das mais importantes O primeiro programa estreou em 3 de escritoras infanto-juvenis contemporâneas. junho de 1952 (às quintas-feiras, 19h30), com Embora russa, está radicada no Brasil há quase a reprise do episódio "A Pílula Falante", ficando oitenta anos. no ar por 11 anos. Paralelamente à exibição ao Nasceu em São Petersburgo (Rússia) no vivo em São Paulo, a TV Tupi do Rio de Janeiro dia 18 de março de 1919, mudando-se para exibiu, por dois meses no ano de 1955, uma Riga aos dois anos de idade. Seu pai, Aron, era versão da série com direção de Maurício comerciante e a mãe, Rosa, cirurgiã-dentista. A Sherman e produção de Lúcia Lambertini, que menina Tatiana aprendeu a ler no idioma também interpretava a Emília ao lado de Daniel materno, o russo. Aos dez anos de idade, Filho (o Visconde) e Zeni Pereira (Tia Nastácia). fugindo das guerras civis que assolavam a Seguiram-se outros programas de então União Soviética, Tatiana já falava russo, sucesso, sempre na linha de adaptações para o alemão e letão. Devido à perseguição aos público infanto-juvenil, que estiveram no ar por judeus na Rússia Soviética, a família Belinky, um total de 13 anos, até 1966. Esses que era judia, resolveu se mudar para o Brasil, programas tinham sempre o propósito explícito chegando a São Paulo em 1929. de estimular a leitura entre os jovens, criando Aos dezoito anos, após concluir um nestes a curiosidade de ler os originais das curso preparatório, começou a trabalhar como adaptações. secretária-correspondente bilíngüe, nos idiomas Torna-se presidente da CET (Comissão português e inglês. Aos vinte (1939) ingressou Estadual de Teatro de São Paulo). no curso de Filosofia da Faculdade São Bento, Paralelamente à atividade como mas abandonou-o em 1940, quando casou-se roteirista de teatro e televisão, Tatiana Belinky com o médico e educador Júlio Gouveia. deu início, em 1952, à atividade como tradutora Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    31 literária, iniciada comsuas adaptações de peças outras premiações. de teatro infantis e contos russos. Traduziu Na área de tradução, recebeu o Prêmio mais de 80 livros do russo, alemão, inglês e Monteiro Lobato de Tradução em 1988 e 1990. francês. Entre os textos que traduziu e adaptou Em 1994, deixou de atuar como tradutora, mas estão obras de autores como Dostoiévski, não abandonou, entretanto, sua atuação como Tolstói, Gorki, Gogol, Turgueniev, Goethe, escritora. Brecht, Irmãos Grimm e Lewis Carroll. Sua especialidade sempre foi a literatura infantil De sua vasta obra, destacam-se "Coral russa, ajudando a divulgar a cultura russa entre dos Bichos", "Limeriques", "O Grande crianças e adolescentes. Rabanete", "Di-versos russos", "Limerique das Coisas Boas", entre outros. Também atuou, a partir de 1972, como crítica de literatura infanto-juvenil e de teatro, Nestes últimos anos, Tatiana Belinky como colaboradora dos jornais Folha de São tem também publicado livros de crônicas e Paulo, O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde memórias. e da TV Cultura. Tatiana explica o que significa Finalmente, em 1985, Tatiana Belinky limerique: desponta como escritora de livros, colaborando O limerique é um estilo de verso em uma série infanto-juvenil. inspirado numa cidade da Irlanda, Limerick, e Seu primeiro livro de poesia infantil, desenvolvido pelo poeta Edward Lear. São "Limeriques das Coisas Boas", foi publicado em cinco linhas, três versos rimando, o primeiro, o 1987. Os poemas do livro, que brincam com segundo e o quinto; o terceiro e o quarto, mais cacófatos e exploram a riqueza verbal da língua curtos, rimam entre si. Isso dá ritmo, é ótimo portuguesa, inspiram-se nos "limerick", poemas para fazer algumas brincadeiras. Aprendi na de origem irlandesa de apenas cinco versos, Playboy americana. Claro que o autor lá se valia cuja característica é o non-sense e o bom- do limerique de uma forma maliciosa. Mas aí eu humor. pensei: posso brincar com isso de outra maneira. A idéia é ressaltar uma coisa que é o A partir desta publicação, Tatiana passa contrário do que penso, e a criança, que não é a trabalhar fervorosamente sobre novas nada boba, vai entender direitinho. Olha este criações, chegando a escrever mais de cem exemplo aqui: obras. Suas publicações são acompanhadas por vários prêmios literários, entre eles o célebre Quem pensa que eu sou uma ogra Prêmio Jabuti, recebido em 1989. No seu pensamento malogra. Língua bifurcada? Tatiana Belinky é autora premiada em Só quando enfezada. literatura e teatro. Recebeu o Prêmio Mérito Porque eu sou mesmo é sogra." Educacional em 1979, e o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano em 1989, entre Otávio Luiz Otávio rovas) (Trovas) 1 Tudo a juntar-nos: o amor, Ó trovas simples quadrinhas o gênio igual, a constância, que têm sempre um quê de novo... até mesmo a própria dor. . . - Como podem quatro linhas - Só nos separa a Distância. trazer toda a alma de um povo?! 4 2 A Vida com esta oferta Se a ti próprio dominares, nos prende... (Quanta esperteza) - pensa nisso bem a fundo, - para tostão de Alegria, serás feliz, porque assim contos de réis de Tristeza!... já venceste meio Mundo! ... 5 3 Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    32 Quando estou longe de ti, 16 o Tempo, malvado, traz: Lábios trêmulos se unindo... Ventura sempre de menos, Bocas febris se beijando! Saudade sempre de mais! ... - Ao Céu as almas subindo, 6 na Terra os corpos deixando. Vejo-te sempre ao meu lado, 17 vá ao lugar aonde for... Se demorares, querida, Vejo-te tanto ... ainda dizem algo triste vai se dar: que estou ceguinho de amor... - encontrarás a Saudade 7 vivendo no meu lugar. "O sábio tem por vingança 18 o silêncio. . ." disse alguém. Duas vidas todos temos, - Não creio... Pois quem é sábio - muitas vezes, sem saber... não se vinga de ninguém. . . - A vida que nós vivemos 8 e a que sonhamos viver. .. Cada quadrinha que faço, 19 em hora calma ou incalma, Toda noite ao me deitar, é pequenino pedaço (por certo você reprova), que eu mesmo furto à minha alma... - eu me esqueço de rezar 9 e fico fazendo trova Fechando os olhos, te vejo... 20 Abro os olhos - vejo a Vida! Não gosto de teimosia... - Ah, se eu pudesse viver Mas, não sei dizer por quê, de olhos fechados, querida! ... sendo você tão teimosa, 10 gosto tanto de você... Se é de amor tua ferida, 21 não busques remédio, - cala! - A minha alma é consumida O Tempo, aliado à Vida, por tormentos bem diversos! lentamente há de curá-la... Porém, me vingo da vida, 11 sorrindo... e fazendo versos O Tempo custa a passar 22 nas horas más da Desgraça! Esta manhã clara e calma, Mas, se a Ventura chegar, um tal contágio produz, bem depressa o Tempo passa ... que sinto até que minha alma 12 ficou cheinha de luz! ... E vai-se levando a vida... 23 Vives lá... eu vivo aqui... Há sempre em tôdas as vidas, Mas a vida não é vida felizes ou infelizes, se eu vivo a vida sem ti ... saudades, mágoas, feridas, 13 de inescrutáveis raízes ... Este milagre, quem há-de 24 dizer que não é divino: Do Passado faço culto! - Colocar tanta saudade Mas tenho cá o meu rito: num verso tão pequenino?! - Sendo triste, eu o sepulto! 14 Se feliz, o ressuscito. . . Tão grande é o vazio da alma, 25 ao de ti me separar, Eu estava tão gripado ... que mesmo a Saudade imensa Depois ficaste também... é pequena em teu lugar... - Por um simples resfriado, 15 nós nos traímos, meu bem ... Eu, pecador, me confesso, 26 deste pecado também: Na Solidão e no Tédio, - Dei-te apressado um só beijo em que tristonho hoje vivo, quando podia dar cem... Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    33 a Saudade é um remédio, 37 teu amor - um lenitivo ... Nesta trova pequenina, 27 quero deixar o sabor, Na Morte, nós encontramos do beijo que ainda há pouco o final de nossas dores... eu roubei do meu amor... - E é por isso que enfeitamos 38 a cova toda de flores. . . Nada fala neste Mundo 28 tanto bem de nossas vidas, O beijo de namorado, como o silêncio profundo mesmo escondido, é sublime: de duas bocas unidas... - Um pequenino pecado 39 que mil pecados redime... Cada passo que pisamos, 29 rumo ao Sul ou rumo ao Norte, Vais levando, entristecida, é passo a menos na vida tua vida numa treva... e passo a mais para a morte. Eu nem vou levando a vida... 40 Pois a vida é quem me leva ... Um mês assim tão risonho, 30 eu juro: nunca vivi! É desigual esta vida - Uns dias cheios de Sonho... pois, nos engana... nos furta, Uns sonhos cheios de ti... - Dá velhice tão comprida! 41 E mocidade tão curta! ... É feliz quem faz o Bem, 31 mesmo sem bens receber; Paradoxo inexplicável! pois Bem maior não se tem Misterioso contraste: que poder o Bem fazer... - Levaste tanta saudade! ... 42 Tanta saudade deixaste! ... Não lamentes tua vida! 32 O teu sofrer sempre cala! Meus olhos ficam bem secos - Se pões à mostra a ferida em cada tristeza nova ... podes até arruiná-la. . . - Meu pranto vai para dentro 43 e sai em forma de trova ... Não desejo nem capela, 33 nem mármore em minha cova... Se és infeliz nunca chores! Apenas escrevam nela Guarda bem a tua queixa! pequenina e humilde trova. . . - Nenhuma Ventura vale 44 toda a saudade que deixa... Qual o maior sofrimento: 34 não se ver o amor ausente, Há pessoas neste Mundo ou querer o esquecimento tão pequenas moralmente, e vê-lo constantemente?! ... que nem merecem, sequer, 45 o próprio ódio da gente. . . Sem coração não vivemos 35 nem um só momento, não ... Imita, no Sofrimento, - Mas, como nos prejudica, as árvores que padecem: às vezes, ter coração... - quando feridas, podadas, 46 com mais vigor reflorescem... Que sina, que padecer 36 foi a Sorte aos cegos dar: Inveja, anseios, dispensa! - Não ter olhos para ver Os destinos são iguais... e tê-los para chorar... Com pequena diferença: 47 sofrer menos... sofrer mais... Saudade que nasceu hoje e amanhã já se esqueceu, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    34 não é saudade, é lembrança. 58 Saudade nunca morreu! ... Eu receio que esta Vida, 48 de lutas e desenganos, Por tudo o que tu fizeres, modifique esta alma simples receberás, misturadas, que eu carrego há tantos anos! com agradáveis surpresas, 59 tristezas inesperadas ... Se foi sua alma ferida, 49 não culpe à Vida, rapaz ... Menina, que tanto enfeitas - Não é má ou boa a Vida... o teu rosto singular ... É só vida ... e nada mais ... - Não esqueças que tua alma 60 também deves enfeitar... Tão etérea, tão airosa, 50 passou naquele momento, Trabalhosa é minha lida ! que parecia uma rosa Tenho tristezas também... despetalando-se ao vento. . . - Mas não troco minha vida 61 pela vida de ninguém!... Quem só deseja encontrar 51 no futuro lar - bonança, Meu Coração, ó demente, entre rosas há de achar vê se agora tu me explicas: um chorinho de criança. . . - Por que ajudas tanta gente, 62 e só a mim prejudicas?! Por mais pesados, por mais 52 que sejam nossos cansaços, Esta Saudade, em meu peito, sempre é leve para os pais de um amor que feneceu, trazer um filho nos braços ... é como o brilho perfeito 63 de um astro que já morreu... Tendo só o teu retrato 53 é tua ausência tão cheia, A amizade grande e pura que é mais presença de fato de duas almas iguais, que muita presença alheia. quando chega a Desventura, 64 ainda se aprofunda mais. É um prazer bem diferente 54 e de sabor sempre novo, Há na janela uma grade... ouvir a trova da gente Dentro do quarto - estou eu. . . andar na boca do povo ... Dentro de mim - a saudade 65 do beijo que alguém me deu. . . Toda trova herdou o espírito 55 navegante português ... A Virtude que flutua - Nasce... foge... corre Mundo ... entre vícios, faz lembrar e abandona quem a fez... um raio puro de lua 66 no lodo imundo a brilhar... Não te lamentes se encontras 56 desonestos e venais ... Vi morrer tanta ilusão! - Quando os outros se rebaixam Tantos castelos perdi... sem querer te elevam mais! - Não faz mal, pois tenho tudo 67 de pouco que vem de ti... Ó livro, bom companheiro, 57 do nosso espírito - pão. Às vezes, uma emoção - Quem tem olhos e tem livros que na minh'alma se aninha, nunca está em solidão ... não cabe bem num Poema... 68 ... Mas cabe numa quadrinha. . . "Meu Deus como o Tempo passa!... - Nós, às vezes, exclamamos... Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    35 Mas por sorte ou por desgraça, 79 fica o tempo... e nós passamos ... A trova definitiva, 69 - ideal do trovador - Toda saudade, de fato, por mais que padeça e viva se dói consola também... eu jamais hei de compor... Pois fica como um retrato 80 daquilo que nos fez bem. . O tempo não me dá tempo 70 de bem o tempo fruir... O lago, na pela nua, ... E nesta falta de tempo mostrava um leve arrepio, nem vejo o Tempo fugir... por beijá-lo a luz da lua 81 ou porque sentisse frio... Saudade. .. Horas ditosas 71 que o Tempo mau nos levou. . . Muitas vezes ao partir, - Pingos que ficam nas rosas (oh! tortura singular) - de uma chuva que passou... os que ficam, querem ir... 82 os que vão, querem ficar. . . De rosas fiz um colchão ... 72 Fiz um lençol do luar ... Meu coração - triste lente Travesseiro fiz do peito de incríveis melancolias: para o meu amor sonhar ... aumenta só as tristezas ... 83 diminui as alegrias... Tua alma emotiva e pura 73 nesta tristeza se expande: Depois de meses sem fim - de tão pequena ventura teu rosto vi com prazer. ter a saudade tão grande! Mas a tua alma - ai de mim! 84 nunca mais a pude ver ... Deste amor não sou culpado... 74 Nem mesmo culpo você. Desconfio que a Saudade - A gente ama ou é amado não gosta de ti, meu bem. sem nunca saber por quê... - Quando tu vens ela vai ... 85 Quando tu vais ela vem ... Igual à marca de um quadro 75 da parede retirado, Tu és agora alta dama, teu amor ficou-me, na alma de porte belo e correto! eternamente marcado. - Conheço bem tua fama ... 86 Mas - sossega! - sou discreto... A Ventura não tem preço! 76 É a experiência que o diz. . . A Ventura é uma quimera ... - Quem compra a Felicidade Delgada nuvem que esvoaça ... é quase sempre infeliz... - A Vida é uma longa espera 87 da nuvem que logo passa... Saudade - ausência presente 77 sempre em nosso coração ... Para nossa desventura, Perfume que a gente sente na vida, seja qual for, de rosas que longe estão... - o prazer custa e não dura ... 88 Dura e não custa uma dor ... Meu túmulo, belo ou feio, 78 será pequeno, suponho, Tu és linda, na verdade. para guardar tanto anseio, Porém, para meu desgosto, para enterrar tanto sonho! na alma não tens a metade 89 da beleza do teu rosto ... A desventura em minha alma passou como um furacão! Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    36 Não me matou, por milagre... Vivemos do amor que vem. . . Mas levou-me o coração ... Do que chega. . . do que vai. . . 90 - Sonho ... Ventura... e Saudade... Quem vive pela saudade Três atos ... e o pano cai ... por longos anos ou meses, possui a felicidade de reviver várias vezes! ... 91 A tua alma irresoluta e invejosa de permeio, Luiz Otávio Gilson de Castro nasceu a 18 de julho de 1916, sempre acha que a melhor fruta no Rio de Janeiro. Luiz Otávio foi o pseudônimo está no pomar alheio ... que ele adotou para assinar suas trovas, 92 poesias e outras manifestações de seu talento Se a Vida num "ai" escorre literário. Era cirurgião-dentista, profissão que e a Morte, do Eterno, é a face, exerceu no Rio de Janeiro, onde se formou e quando a gente nasce, morre mais tarde se transferindo para Santos no final quando a gente morre, nasce... de sua vida. 93 Saudade - quase se explica Começou a enviar seus versos para os jornais e nesta trova que te dou: revistas lá por 1938, ainda timidamente, oculto - Saudade é a falta que fica sob pseudônimo. Não pretendia misturar a vida daquilo que não ficou. . . literária com a profissional. As principais 94 revistas e jornais da época começaram a Ventura não tem Presente, divulgar poesias e principalmente trovas de nem Passado; só Porvir ... Luiz Otávio, que podiam ser encontradas no Felicidade da gente "Correio da Manhã", "Vida Doméstica", "Fon- está só no que há de vir ... Fon", "O Malho", "Jornal das Moças", revistas 95 que, como "O Cruzeiro", eram as mais lidas dos Na Vida sofre-se muito! anos 1939, 40 e 41, etc. A revista "Alterosa" de Mas não há maior tormento Belo Horizonte, também o divulgou. Pouco a que desejar esquecer pouco, a Trova tomou conta do coração do e não ter o esquecimento ... poeta, assumindo Literalmente papel de 96 Liderança na sua vida. E ele confessa: A trova é tão pura e humilde, que eu julgo, pensando nisto, A Trova tomou-me inteiro, que o primeiro trovador tão amada e repetida, foi, por certo, Jesus Cristo. que agora traça o roteiro 97 das horas da minha vida!... Comparo a saudade minha, tão manhosa e persistente Para a ascensão da Trova na vida de Luiz àquela tal borrachinha Otávio, muito contribuiu sua amizade com que o dentista põe na gente ... Adelmar Tavares. Quem os aproximou foi o 98 consagrado poeta A. J Pereira da Silva. Eu tenho sofrido tanto! Recuperava-se Luiz Otávio na Fazenda Manga Nunca as dores vêm sozinhas! Larga em Pati de Alferes, quando teve Julgo até que estou sofrendo oportunidade de conhecer esse renomado as dores que não são minhas ... poeta, da Academia Brasileira de Letras, com 99 quem iniciou amizade edificante, solidificada O pecado é sempre um mal. pela Poesia; amizade que se estendeu até os Isto é bem determinado. derradeiros dias de A. J. Pereira da Silva que, - Se a coisa é boa, afinal naquele tempo, já passava dos sessenta, não devia ser pecado... enquanto Luiz Otávio não galgara ainda o 100 vigésimo segundo degrau de sua sofrida existência. Isto não perturbou as horas Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    37 deliciosas de conversaamena e espiritualizada, livros, publicava trovas, poesias e arrebanhava em que a fina sensibilidade de ambos fazia fãs e admiradores de todas as idades. Daí ai desaparecer a diferença de idade, provando constituir-se Líder de um Movimento que um coração capaz de vibrar "de amor" e Trovadoresco, era questão de um passo, muito pulsar em ritmo de poesia, simplesmente não embora isto viesse acontecer sem procura. tem idade. Idealista, lírico, por excelência, com um profundo senso de organização, Luiz Otávio A viúva do acadêmico Antônio Joaquim Pereira acumulava ainda outras qualidades da Silva, doaria posteriormente, a preciosa indispensáveis ao "verdadeiro Líder", seja lá do Biblioteca do poeta ao seu particular amigo, que for. Era simples, honesto, e sabia Luiz Otávio, que, por sua vez, ao transferir convencer sem forçar. Embora convicto e residência para Santos, em 1973, doou parte determinado, sabia humildemente ceder, se desse valioso acervo, juntamente com livros de preciso fosse. Se persuadido da necessidade de sua própria estante - num total de mil uma renúncia, cedia, sim, porém, não exemplares devidamente catalogados - à facilmente, mesmo porque antes de propor Academia Santista de Letras, que só então teve algo, o fazia convicto de que aquilo era o certo, formada sua Biblioteca. Na época, a A.S.L. era respondendo de antemão a todos os possíveis presidida pelo Dr. Raul Ribeiro Florido que se apartes - o que de certo modo desarmava, a responsabilizou pelo transporte Rio-Santos. priori, o opositor. Era bom, afável e acima de Com esta doação, Luiz Otávio não pretendia tudo, profundamente carismático. Um nada para si, como deixou bem claro em carta, verdadeiro Príncipe! (era de conhecimento geral sua quase aversão às Academias, em virtude do próprio O TROVADOR temperamento). Mas pediu, por uma questão de justiça, que numa das estantes fosse Era, portanto, o campo fecundo onde a colocada uma placa que levasse o nome de A. J semente da Trova encontrou chão propício Pereira da Silva. Luiz Otávio recebeu um para deitar raízes, expandindo sua opulência carinhoso oficio de agradecimento do então por todo território nacional. O ritmo da Trova Presidente da Academia. O atual Presidente, que embalava seus ouvidos desde os tempos Dr. Nilo Entholzer. Ferreira, trovador de de escoteiro, cresceu com ele, ganhando méritos, comprometeu-se a cumprir essa melodia ao som do violão de Glauco Vianna, cláusula. Como já dito, A. J. Pereira da Silva foi mais tarde pertencente ao "Bando dos quem levou Luiz Otávio até Adelmar Tavares, Tangarás", seu colega de faculdade e de também da Academia Brasileira de Letras, em noitadas de seresta. visita à sua casa, em Copacabana. Corria o ano de 1939. Adelmar Tavares sentia a idade Luiz Otávio sempre gostou de cantar e compor pesar-lhe nos ombros, e, mais uma vez, um embora não conhecesse música. Aloysio de jovem poeta e um velho e consagrado mestre Oliveira, outro companheiro, também possuidor da Poesia uniam-se por laços afetivos dos mais de um bom timbre vocálico, iria pertencer, no duradouros. A principal responsável por essa futuro, ao Bando da Lua, que tanto sucesso fez união foi a Trova, que Adelmar Tavares na terra de Tio Sam ao lado de Carmen cultivava e da qual Dr. Gilson de Castro já era Miranda. A influência destes dois amigos foi profundo apaixonado, trazendo-a para o grande na iniciação poética de Luiz Otávio. público sob o Pseudônimo, agora Glauco tocava, Aloysio cantava e Luiz Otávio definitivamente adotado. não apenas cantava como também compunha letras e músicas de canções, sambas, fox- Luiz Otávio. Luiz, por ser bonito, melodioso, e trotes, valsas, etc. e continuou cantando e combinar com Octávio, o nome do Pai, a quem, compondo até o final dos seus dias. Nascia o homenageava. Para atualizar o nome, o c foi "Trovador" - assim carinhosamente chamado, cortado em acordo às regras ortográficas já naquele tempo, antes mesmo do seu vigentes. A Poesia de Luiz Otávio ganhava ingresso definitivo no Mundo da Trova. espaço. Jornais de outros estados o acolhiam em suas páginas, tinha ao seu dispor colunas Cada quadrinha que faço literárias de crítica poética, onde comentava em hora calma ou incalma, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    38 é pequenino pedaço Uma trova pequenina, que eu mesmo furto a minha alma. tão modesta, tão sem glória, bem pouca gente imagina, Ó trovas – simples quadrinhas que também tem sua história. que tem sempre um que de novo... - Como podem quatro linhas trazer toda a alma de um povo?! Machado de Assis (A Cartomante) Hamlet observa a Horácio que há mais Foi então que ela, sem saber que cousas no céu e na terra do que sonha a nossa traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia filosofia. Era a mesma explicação que dava a muito cousa misteriosa e verdadeira neste bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o Novembro de 1869, quando este ria dela, por certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que ter ido na véspera consultar uma cartomante; a mais? A prova é que ela agora estava tranqüila diferença é que o fazia por outras palavras. e satisfeita. — Ria, ria. Os homens são assim; não Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se, acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ela adivinhou o motivo da consulta, antes ele, em criança, e ainda depois, foi mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas supersticioso, teve um arsenal inteiro de começou a botar as cartas, disse-me: "A crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que vinte anos desapareceram. No dia em que sim, e então ela continuou a botar as cartas, deixou cair toda essa vegetação parasita, e combinou-as, e no fim declarou-me que eu ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse tinha medo de que você me esquecesse, mas recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu- que não era verdade... os na mesma dúvida, e logo depois em uma só — Errou! Interrompeu Camilo, rindo. negação total. Camilo não acreditava em nada. — Não diga isso, Camilo. Se você Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um soubesse como eu tenho andado, por sua só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não não ria... formulava a incredulidade; diante do mistério, Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou contentou-se em levantar os ombros, e foi para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria andando. muito, que os seus sustos pareciam de criança; Separaram-se contentes, ele ainda mais em todo o caso, quando tivesse algum receio, a que ela. Rita estava certa de ser amada; melhor cartomante era ele mesmo. Depois, Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e por mais que a repreendesse, não podia deixar depois... de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era — Qual saber! tive muita cautela, ao na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma entrar na casa. comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua — Onde é a casa? das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde — Aqui perto, na rua da Guarda Velha; residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; olhando de passagem para a casa da eu não sou maluca. cartomante. Camilo riu outra vez: Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma — Tu crês deveras nessas coisas? aventura, e nenhuma explicação das origens. perguntou-lhe. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    39 infância. Vilela seguiua carreira de magistrado. não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Camilo entrou no funcionalismo, contra a Palavras vulgares; mas há vulgaridades vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até caleça de praça, em que pela primeira vez que a mãe lhe arranjou um emprego público. passeaste com a mulher amada, fechadinhos No princípio de 1869, voltou Vilela da província, ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o onde casara com uma dama formosa e tonta; homem, assim são as cousas que o cercam. abandonou a magistratura e veio abrir banca Camilo quis sinceramente fugir, mas já de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os não pôde. Rita como uma serpente, foi-se lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo. acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar — É o senhor? exclamou Rita, os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. marido é seu amigo; falava sempre do senhor. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu Camilo e Vilela olharam-se com ternura. de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória Eram amigos deveras. Depois, Camilo delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o confessou de si para si que a mulher do Vilela sapato se acomodasse ao pé, e aí foram não desmentia as cartas do marido. Realmente, ambos, estrada fora, braços dados, pisando era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais sem padecer nada mais que algumas saudades, velha que ambos: contava trinta anos, Vilela quando estavam ausentes um do outro. A vinte e nove e Camilo vente e seis. Entretanto, confiança e estima de Vilela continuavam a ser o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais as mesmas. velho que a mulher, enquanto Camilo era um Um dia, porém, recebeu Camilo uma ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe carta anônima, que lhe chamava imoral e tanto a ação do tempo, como os óculos de pérfido, e dizia que a aventura era sabida de cristal, que a natureza põe no berço de alguns todos. Camilo teve medo, e, para desviar as para adiantar os anos. Nem experiência, nem suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de intuição. Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo Uniram-se os três. Convivência trouxe respondeu que o motivo era uma paixão frívola intimidade. Pouco depois morreu a mãe de de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois prolongaram-se, e as visitas cessaram mostraram-se grandes amigos dele. Vilela inteiramente. Pode ser que entrasse também cuidou do enterro, dos sufrágios e do nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção inventário; Rita tratou especialmente do de diminuir os obséquios do marido, para coração, e ninguém o faria melhor. tornar menos dura a aleivosia do ato. Como daí chegaram ao amor, não o Foi por esse tempo que Rita, soube ele nunca. A verdade é que gostava de desconfiada e medrosa, correu à cartomante passar as horas ao lado dela; era a sua para consultá-la sobre a verdadeira causa do enfermeira moral, quase uma irmã, mas procedimento de Camilo. Vimos que a principalmente era mulher e bonita. Odor di cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os Correram ainda algumas semanas. Camilo mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e apaixonadas, que não podiam ser advertência jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe da virtude, mas despeito de algum ser agradável, pouco menos mal. Até aí as pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos outras palavras mal compostas, formulou este teimosos de Rita, que procuravam muita vez os pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, dele, que os consultavam antes de o fazer ao não gasta tempo nem papel; só o interesse é marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um ativo e pródigo. dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma Nem por isso Camilo ficou mais rica bengala de presente, e de Rita apenas um sossegado; temia que o anônimo fosse ter com cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. foi então que ele pôde ler no próprio coração; Rita concordou que era possível. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    40 — Bem, disse ela; eu levo os demora." Ditas, assim, pela voz do outro, sobrescritos para comparar a letra com a das tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. guardo-a e rasgo-a... A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto Nenhuma apareceu; mas daí a algum imaginou o que se iria passar, que chegou a tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se Entrou a cogitar em ir armado, considerando pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso que, se nada houvesse, nada perdia, e a deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia precaução era útil. Logo depois rejeitava a tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o até que lhe ouvisse a confidência de algum passo, na direção do largo da Carioca, para negócio particular. Camilo divergia; aparecer entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou depois de tantos meses era confirmar a seguir a trote largo. suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem- — Quanto antes, melhor, pensou ele; se, sacrificando-se por algumas semanas. não posso estar assim... Combinaram os meios de se corresponderem, Mas o mesmo trote do cavalo veio em caso de necessidade, e separaram-se com agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele lágrimas. não tardaria a entestar com o perigo. Quase no No dia seguinte, estando na repartição, fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, parar; a rua estava atravancada com uma já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de advertiu que teria sido mais natural chamá-lo cinco minutos, reparou que ao lado, à ao escritório; por que em casa? Tudo indicava esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da matéria especial, e a letra, fosse realidade ou cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou nunca ele desejou tanto crer na lição das todas essas cousas com a notícia da véspera. cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando — Vem já, já, à nossa casa; preciso todas as outras estavam abertas e pejadas de falar-te sem demora, — repetia ele com os curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a olhos no papel. morada do indiferente Destino. Imaginariamente, viu a ponta da orelha Camilo reclinou-se no tílburi, para não de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, ver nada. A agitação dele era grande, Vilela indignado, pegando na pena e extraordinária, e do fundo das camadas morais escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as e esperando-o para matá-lo. Camilo velhas crenças, as superstições antigas. O estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de e ir por outro caminho; ele respondeu que não, recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se que esperasse. E inclinava-se para fitar a de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; descobertos parecia-lhe cada vez mais desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se verossímil; era natural uma denúncia anônima, no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez até da própria pessoa que o ameaçara antes; as asas, mais perto, fazendo uns giros podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A concêntricos... Na rua, gritavam os homens, mesma suspensão das suas visitas, sem motivo safando a carroça: aparente, apenas com um pretexto fútil, viria — Anda! agora! empurra! vá! vá! confirmar o resto. Daí a pouco estaria removido o Camilo ia andando inquieto e nervoso. obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava Não relia o bilhete, mas as palavras estavam em outras cousas; mas a voz do marido decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas "Vem já, já..." E ele via as contorções do drama ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem e tremia. A casa olhava para ele. As pernas já, já à nossa casa; preciso falar-te sem queriam descer e entrar... Camilo achou-se Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    41 diante de umlongo véu opaco... pensou não tivesse medo de nada. Nada aconteceria rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A nem a um nem a outro; ele, o terceiro, voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos ignorava tudo. Não obstante, era indispensável extraordinários; e a mesma frase do príncipe de mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de cousas no céu e na terra do que sonha a Rita... Camilo estava deslumbrado. A filosofia..." Que perdia ele, se...? cartomante acabou, recolheu as cartas e Deu por si na calçada, ao pé da porta; fechou-as na gaveta. disse ao cocheiro que esperasse, e rápido — A senhora restituiu-me a paz ao enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz espírito, disse ele estendendo a mão por cima era pouca, os degraus comidos dos pés, o da mesa e apertando a da cartomante. corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu Esta levantou-se, rindo. nada. Trepou e bateu. Não aparecendo — Vá, disse ela; vá, ragazzo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a innamorato... curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes E de pé, com o dedo indicador, tocou- latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse três pancadas. Veio uma mulher; era a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava fe-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma um prato com passas, tirou um cacho destas, escada ainda pior que a primeira e mais escura. começou a despencá-las e comê-las, mostrando Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por duas fileiras de dentes que desmentiam as uma janela, que dava para os telhados do unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher fundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, de pobreza, que antes aumentava do que não sabia como pagasse; ignorava o preço. destruía o prestígio. — Passas custam dinheiro, disse ele A cartomante fe-lo sentar diante da afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar mesa, e sentou-se do lado oposto, com as buscar? costas para a janela, de maneira que a pouca — Pergunte ao seu coração, respondeu luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. ela. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e compridas e enxovalhadas. Enquanto as deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O baralhava, rapidamente, olhava para ele, não preço usual era dois mil-réis. de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma — Vejo bem que o senhor gosta muito mulher de quarenta anos, italiana, morena e dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe: ponha o chapéu... — Vejamos primeiro o que é que o traz A cartomante tinha já guardado a nota aqui. O senhor tem um grande susto... na algibeira, e descia com ele, falando, com um Camilo, maravilhado, fez um gesto leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, afirmativo. e desceu a escada que levava à rua, enquanto — E quer saber, continuou ela, se lhe a cartomante alegre com a paga, tornava acontecerá alguma coisa ou não... acima, cantarolando uma barcarola. Camilo — A mim e a ela, explicou vivamente achou o tílburi esperando; a rua estava livre. ele. Entrou e seguiu a trote largo. A cartomante não sorriu; disse-lhe só Tudo lhe parecia agora melhor, as que esperasse. Rápido pegou outra vez as outras cousas traziam outro aspecto, o céu cartas e baralhou-as, com os longos dedos estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, dos seus receios, que chamou pueris; recordou transpôs os maços, uma, duas, três vezes; os termos da carta de Vilela e reconheceu que depois começou a estendê-las. Camilo tinha os eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe olhos nela, curioso e ansioso. descobrira a ameaça? Advertiu também que — As cartas dizem-me... eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se Camilo inclinou-se para beber uma a tanto; podia ser algum negócio grave e uma as palavras. Então ela declarou-lhe que gravíssimo. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    42 — Vamos, vamos depressa, repetia ele outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela ao cocheiro. Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os E consigo, para explicar a demora ao olhos para fora, até onde a água e o céu dão amigo, engenhou qualquer cousa; parece que um abraço infinito, e teve assim uma sensação formou também o plano de aproveitar o do futuro, longo, longo, interminável. incidente para tornar à antiga assiduidade... De Daí a pouco chegou à casa de Vilela. volta com os planos, reboavam-lhe na alma as Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim palavras da cartomante. Em verdade, ela e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a a existência de um terceiro; por que não porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela. adivinharia o resto? O presente que se ignora — Desculpa, não pude vir mais cedo; vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que há? que as velhas crenças do rapaz iam tornando Vilela não lhe respondeu; tinha as ao de cima, e o mistério empolgava-o com as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si para uma saleta interior. Entrando, Camilo não mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo as palavras secas e afirmativas, a exortação: — sobre o canapé, estava Rita morta e Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais com dois tiros de revólver, estirou-o morto no eram os elementos recentes, que formavam, chão. com os antigos, uma fé nova e vivaz. A verdade é que o coração ia alegre e Gazeta de Notícias - Rio de Janeiro, em impaciente, pensando nas horas felizes de 1884. Helena Kolody (Haicais) . ÚLTIMO QUAL? Vôo solitário Damos nomes aos astros... na fímbria da noite Qual será nosso nome em busca do pouso distante. nas estrelas distantes? APLAUSO POESIA MÍNIMA Corrida no parque Pintou estrelas no muro O menino inválido e teve o céu Aplaude os atletas. ao alcance das mãos. ALEGRIA MANHÃ Trêmula gota de orvalho Nas flores do cardo, presa na teia de aranha, leve poeira de orvalho. rebrilhando como estrela. Manhã no deserto. FLECHA DE SOL ARCO-ÍRIS A flecha de sol Arco-íris no céu. pinta estrelas na vidraça. Está sorrindo o menino Despede-se o dia. Que há pouco chorou. IPÊS FLORIDOS JORNADA Festa das lanternas! Tão longa a jornada! Os ipês se iluminaram E a gente cai, de repente, de globos de cor-de-ouro. No abismo do nada. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    43 RESSONÂNCIAS Bate breve o gongo. Na amplidão do templo ecoa o som lento e longo. NOITE Helena Kolody Luar nos cabelos. Nasce em Cruz Machado, Paraná, em 1912. Constelações na memória. Primeira brasileira de família de imigrantes Orvalho no olhar. ucranianos. Pais: Miguel e Vitória Kolody. REPUXO ILUMINADO Em líquidos caules, Em 1931, Professora normalista pela Escola irisadas flores d´agua Normal Secundária de Curitiba. Em 1937, passa cintilam ao sol. a lecionar na Escola Normal de Curitiba (futuro Instituto de Educação), onde ficará por mais de DEPOIS 23 anos, interrompidos apenas por um ano Será sempre agora. quando vai a Jacarezinho (Escola de Viajarei pelas galáxias Professores). Em 1947 presta concurso público universo afora. federal para Inspetora Federal de Ensino Secundário do MEC. Em 1991, é eleita para a ALQUIMIA Academia Paranaense de Letras. Em 1992, o Nas mãos inspiradas cineasta Sylvio Back faz um filme em 35 mm, A nascem antigas palavras Babel de Luz, em homenagem aos 80 anos da com novo matiz. poeta. O filme ganha o prêmio de melhor curta NO MUNDO DA LUA e melhor montagem, do 25o Festival de Brasília Não ando na rua. do Cinema Brasileiro. Em 2003 a Universidade Ando no mundo da lua, Federal do Paraná homenageia a autora com o falando às estrelas. título de Doutora Honoris Causa. Morre em fevereiro de 2004. SEM POESIA Que fonte secou? Helena Kolody (1912-2004), a consagrada Que sol se apagou em mim? poetisa do Paraná, inaugurou em 1941 a série Fugiu-me a poesia. de mulheres haicaístas do país. Dona de uma NOTURNO enorme coleção de adjetivos-virtudes, palavras- Dormem as papoulas. emblemas, atribuídos a ela pelo povo A lua sonha no céu. paranaense, Helena deixou uma obra, que na Vigiam os grilos. qualidade lembra outra grande poeta: Cecília Meirelles. O amor que ela conquistou pelos FELICIDADE poemas, pelos livros, juntou-se à lira de sua Os olhos do amado poesia feita de canções à vida, da esqueceram-se nos teus, solidariedade, da natureza e a inquietude da perdidos em sonho. condição humana. Pode-se brincar dizendo que as letras iniciais do nome da poeta, HK, são as Na série Memória Paranaense (programa de mesmas de quando se grafa hai-kai, como ela o rádio e TV de 1997), o entrevistador pergunta à fazia. Helena: "Daquilo que foi escrito, o que a senhora considera o mais importante em Os Três Primeiros Haicais poesia, resumindo o que foi a sua vida, a sua trajetória?"- Com voz firme e demonstrando Em 1941 Helena Kolody, com 29 anos de idade, contentamento ela responde: publicava seu primeiro livro, Paisagem Interior, com 45 poemas. Entre os quais três eram DOM: haicais e, no meio destes, o mais popular da "Deus dá a todos uma estrela. autora: Uns fazem da estrela um sol. Outros nem conseguem vê-la". Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    44 ARCO-ÍRIS (certamente qualidades exigidas no haicai). Na Arco-íris no céu. entrevista pública, Um escritor na Biblioteca, de Está sorrindo o menino 1986 (na qual participaram Paulo Leminski e Que há pouco chorou. Alice Ruiz como entrevistadores), ela fala sobre o assunto: "Os literatos e os críticos Os outros dois: simplesmente ignoraram essa poesia que ninguém, ainda, estava fazendo no Paraná. No PRISÃO entanto, meus alunos, alunas principalmente, Puseste a gaiola decerto porque eram muito jovens, e os jovens Suspensa dum ramo em flor, adoram novidades, gostaram muito. Tanto que Num dia de sol. a turma de 1943, se não me engano, ofereceu- me, como presente de aniversário, seis FELICIDADE quadros, em pergaminho, com ilustrações dos Os olhos do amado três hai-kais de Paisagem Interior: três quadros Esqueceram-se nos teus, de Guido Viaro e três iluminuras de Garbácio." Perdidos em sonho. No depoimento que concedeu ao Museu da Imagem e do Som, em 1989, ela reforçou esse Era a primeira vez que uma mulher publicava ponto dizendo que sabia fazer o haicai, "... haicais no Brasil. A segunda foi Rosemary de tinha técnica e tudo, mas ninguém ligou. Então Barros em 1947, na Revista ASSA, do Centro a gente se complexa". Acadêmico da Universidade Católica de São Paulo, que segundo Masuda: "...divulgou cinco Fanny Dupré, amiga e orientadora haicais, fortemente influenciados por Guilherme de Almeida". E, a terceira, Fanny Luíza Dupré, Fanny Luíza Dupré vinha, desde 1939, em 1949, também de São Paulo. escrevendo haicais e preparando um livro (Pétalas ao Vento), tendo feito "contato com o Todavia, foi Fanny Dupré a primeira mulher a haicai ao freqüentar o grupo de estudos de publicar um livro exclusivamente de haicais no cultura japonesa mantido por Jorge Fonseca Jr. Brasil, em fevereiro de 1949: Pétalas ao Vento, na Faculdade de Direito da USP". Foi com ela em cujo prefácio o haicaísta Jorge Fonseca que Helena estudou o haicai. Trocavam cartas, Junior salientou: "...este livro se inclui, sem indicações de leitura, e é provável que Fanny dúvida, na primeira meia dúzia de coletâneas tenha visitado Curitiba nesse período, cujo exclusivamente de haikais publicadas em registro se pode ler no haicai da página 89 do português e em nosso País e é, por certo, entre Pétalas ao Vento: elas, o primeiro de autoria feminina, sendo, mais - o que muitíssimo importa - obra de "Pinheirais augustos. autêntica haikaista." Curitiba. Paraná... Vestidos de verde". Helena sempre fez questão de dizer que seus primeiros haicais não foram bem recebidos. O No livro há também um haicai dedicado a que a desanimara não a impediu de continuar a Helena, pág. 45: fazê-los, pois em 1945, no segundo livro, Música Submersa, o haicai estava lá, com o "À Helena Kolody famoso Pereira em Flor. Entretanto, como Vastos pinheirais! dissemos, é justamente daqueles primeiros que É clara noite de lua... o público consagrou o seu favorito: Arco-íris. O Mais abaixo, o mar!" mais citado, copiado e incluído em antologias. Talvez Helena quisesse uma aceitação maior Na entrevista do MIS, Helena afirma: "Em 41 já para os seus haicais, naquela ocasião, pois o publicava, por causa da correspondência com livro fora recebido com relativo sucesso para uma poetisa paulista chamada Fanny Dupré; foi uma estreante. Os outros poemas sempre através dela, uma das pioneiras do hai-kai, foram muito citados, como o famosíssimo ainda agora eu recebi carta dela de São Paulo Prece, p. ex., e já continham a marca indelével [1989 - Fanny faleceu em 1996]. Então, já no de sua poesia: a concisão e a simplicidade Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    45 primeiro livro eufiz hai-kai, porque tinha quanto ao haiku (...) deve indicar ou refletir a aprendido com ela..." estação do ano (ao menos indiretamente) em que é elaborado; e caracterizado, portanto, por Na entrevista da Biblioteca, Helena acrescenta sua extrema concisão, devendo, ao mesmo mais um dado: "Foi através do Jornal de Letras tempo, através desta, fluir com naturalidade o e da correspondência com a poetisa paulista conteúdo poético". Acrescenta ser Fanny Dupré que tive conhecimento dessa "desnecessário colocar título em cada poema miniatura japonesa que é o hai-kai" (Revisei de haicai, nem observar rima". todos os números do Jornal de Letras da época e não encontrei nenhuma matéria sobre haicai Um haicai de Fonseca, citado em Masuda: ou poemas deste tipo publicados. O que me leva a crer que o primeiro contato com o "Brisas refrescantes aprendizado do haicai, Helena teve mesmo foi esgueiram-se ao sol ardente... com a poetisa paulista). Penumbra do tato..." Através de Fanny, Helena estava ligada ao Fanny seguirá seu professor na forma sugerida, seleto grupo dos iniciadores do haicai no Brasil, nos haicais de Pétalas ao Vento, o rigor da em língua portuguesa, especialmente a Jorge métrica, a dispensa de títulos, menos no uso do Fonseca Júnior, orientador da amiga paulista. kigo (que ela não o faz), e desenvolve uma Fonseca, que inicialmente teve influência (como temática brasílica de lirismo delicado. Helena, os demais brasileiros) do haicai europeu (pela por sua vez, colocará título em seus haicais, via francesa, inglesa e portuguesa), já vinha utilizará da métrica, algumas vezes a rima; e recebendo desde 1937 "informações e terá uma temática mais voltada à condição esclarecimentos sobre o haiku", de Masuda humana. Diferenciando-se, por certo, da amiga Goga (considerado um Mestre do haicai, cuja Fanny, constrói Helena seu próprio jeito de linha é japonesa). Goga e Fonseca mantiveram fazer haicai, sempre fiel às suas vivências, um "relacionamento de 50 anos (1937/1987)". como pregava Fonseca. Ele publica em 1939, Roteiro Lírico, e em 1940, Do Haikai e em seu louvor, bem recebidos pela Influencia de Guilherme de Almeida? crítica. Fonseca viaja ao oriente neste ano, Masuda anota: "...durante sua estada no Japão, Em 1994, com 82 anos de idade, Helena foi avistou-se com Kyoshi Takahama, enri- entrevistada pelo Prof. Paulo Venturelli. A certa quecendo seus conhecimentos sobre o haiku - altura, perguntada sobre a "influência do haicai fator muito positivo na evolução do seu haicai". em sua obra", ela nos surpreende: "Também aqui foi importante a correspondência com Em 1940, em Do haikai e em seu louvor, o poetas de outros lugares. Não me lembro mais apresentador de Fonseca destaca como como foi que comecei a me corresponder com qualidades do seu haicai a concentração, Fanny Dupré, de São Paulo, que foi uma das sutilidade, imaginação. Fonseca Júnior primeiras haicaístas do Brasil. E ela então me recomenda a feitura do poema em dezessete disse para ler um livro do Guilherme de sílabas de 5-7-5, em três versos e sem rima. Almeida, que era autor de haicais rimados. Por "Superior sutileza do haikai. Um verdadeiro isso, até hoje, sigo esta linha, isto é, metrifico e haikai poderá exprimir o sentimento mais forte, rimo os versos do haicai, o que não é comum." sutilissimamente". E compreendia seu conteúdo como "multiangular, sempre e todos lhe Guilherme de Almeida inventou uma forma que descobrirão fartos sentidos, a par de não existia para o haicai: deu-lhe título e quatro sonoridades, coloridos, sabores e sensações rimas. Cito o haicaísta paranaense Domingos variadas. (...) Delicioso valor da brevidade". Pellegrini, para entendermos melhor isso: "Ele fazia um tipo de haicai que parecia destinado a No livreto O Haicai no Brasil, Masuda aponta garantir que só ele fizesse haikais em para a "influência de Kyoshi Takahama" sobre o Português: além do rígido esquema de versos haicai de Fonseca, que passa a defender a de 5-7-5 sílabas, o primeiro verso tinha de utilização da presença do termo de estação rimar com o terceiro, e a segunda sílaba do (kigo) em um dos três versos: "Assim (...) segundo verso tinha que rimar com a sétima, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    46 numa acrobática rima-interna."Vejamos um Em 1968, ao fazer um prefácio para um livro do haicai de Guilherme de Almeida e seu esquema: poeta Mário Stasiak, seu amigo, Leminski escreveu: "Lembrai-vos, irmãos, que o maior O Haicai génio poético do Paraná é de raiz eslava, sendo Lava, escorre, agita Helena Kolody (pronunciar: Guélena Kolódi)". A a areia. E, enfim, na bateia esse admirador apaixonado, Helena fica uma pepita. Esquema correspondia com igual afeto, ela que havia ----X deixado um tanto de lado o haicai, disse: "Só -O----O voltei ao haikai quando o Paulo Leminski, então ----X um jovem de 20 anos, vizinho de apartamento, descobriu-me como a primeira pessoa a fazer Quem fizer uma revisão da obra de Helena, haikai no Paraná". seguindo a trilha dos seus haicais, poderá certificar-se de que ela não utilizava o esquema Para a biografia de Leminski, Helena deu um do que se convencionou denominar de "haicai emocionado depoimento (cito um trecho): "Ele guilhermino". Segui também, na coletânea me emprestou as revistas Invenção e Haikais, os setenta haicais reunidos e somente Noigandres e foi assim que tomei conhecimento encontrei 14 deles com rimas: 4 rimam o do concretismo em S. Paulo. Mas, quando veio segundo com o terceiro verso; 2 rimam o me procurar, ele já estava em outra. Estava primeiro com o segundo verso; e, 8 rimam o interessado em haikais e se surpreendeu ao primeiro com o terceiro verso. Vejamos dois encontrar três deles em meu livro Paisagem deles: Interior, de 1941. Por isso ele me procurou. Mas, o verdadeiro haikaísta era ele. Nesta AVESSO ocasião, estava aprendendo japonês para Seu olhar profundo mergulhar no espírito da língua e na cultura olha na poça d'água oriental. Por isso seus haikais foram tão e enxerga estrelas no fundo. autênticos". AREIA Os anos 80 foram "leminskianos" em Curitiba. Da estátua de areia, Apesar de Leminski achar que a cidade não nada restará, tinha uma vida cultural (como ele desejava), depois da maré cheia. sua Culturitiba - "Sem raízes e sem carências, que fazer?"- foi o palco de sua vida e obra. Como se pode ver, Helena seguiu Almeida Inúmeros valores literários apareceram nesse somente no item dar um título (que ela sempre tempo, principalmente a consagração da poeta o fez, ao contrário de Fanny e Fonseca), mas Helena Kolody (a "Padroeira da Poesia", como suas rimas, métrica e a forma do haicai não ele dizia). Se Leminski se tornou um mito, seguiam a proposta guilhermina; ela não usava Helena seguiu junto, ampliando o espaço mítico de sua bateia. deixado por ele em 1989. Helena e Leminski Quando em 1985 Helena reinaugura-se, lançando Sempre Palavra, fina concisão Helena ficou feliz quando Paulo Leminski, em poética, incluindo três haicais, Leminski tece-lhe 1965, elogiou seus haicais. Ele seria seu vizinho rasgados elogios. Seu texto tinha o título de no edifício São Bernardo por três Santa Helena Kolody, e diz que o livro "inclui movimentados anos da vida dele, que, com 20 uns quarenta pequenos poemas. Mas tem luz anos, já tinha fama de poeta e agitador cultural bastante para iluminar esta cidade por todo um na cidade. O biógrafo de Leminski, Vaz, assim ano". Segue fazendo comparações e sugerindo se referiu a este fato: "Foi também nesta época análises mais profundas, e acrescenta: "Nossa que conheceu pessoalmente a poeta Helena padroeira é o poeta mais moderno de Curitiba, Kolody, uma filha de ucranianos bem mais de uma modernidade enorme, uma velha, que morava no andar de cima - e desde modernidade de quase oitenta anos. Nenhum os anos 40 fazia poemas em forma de hai-kais". de nós tem modernidade desse tamanho". E termina: "Tem certas manhãs azuis em Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    47 Curitiba, mas tãoazuis, tão azuis, que eu tenho A natureza vivencial da maioria de seus haicais certeza: Helena Kolódy acordou cedo e olha por pode-se perceber quando Helena conta a todos nós". É desse livro este haicai: história desse Pereira em Flor: GESTAÇÃO "Eu morava na Rua Carlos de Carvalho. Uma Do longo sono secreto noite, ao sair da casa de uma amiga, dei com na entranha escura da terra, aquela pereira completamente florescida, o carbono acorda diamante. banhada pela luz da lua cheia. A beleza do quadro foi um impacto na minha sensibilidade. Aos estímulos do amigo poeta, Helena Fiz o poema bem mais tarde. Associei a pereira respondeu com mais livros, mais poemas de com uma noiva: a noiva toda vestida de amor pela poesia. E dedicou a ele, não um branco, sonhando, com a pereira ao luar". haicai, mas um de seus dísticos (que ela sabia utilizar com mestria), Figo da Índia (1986): Ainda frisando este aspecto importante do haicaísta, qual seja o da observação, A casca espinhenta contemplação e vivência, base da poesia de guarda a macia doçura da polpa. haicai, cito outra história de Helena: "Estou numa idade em que dou-me ao luxo de sair nas Mais tarde, ela diria: "Ele, às vezes, parecia ruas com a maior tranqüilidade e parar para agressivo. Todavia, tinha uma polpa doce, ele contemplar uma árvore, um pássaro, um era muito carinhoso. Tanto que ele me fez uma transeunte - sem temer o ridículo. Dia destes, dedicatória: "Mãe querida, nada como ter uma quando cruzava a Praça Rui Barbosa, vi uma fada na vida". pena de pombo cair na calçada. Apanhei-a, contemplando-a, e na hora pensei num poema. A Palavra é uma Vivência Pessoal Como tinha apenas um lenço de papel, foi nele que escrevi: Carlos Drummond de Andrade enviou em 1980 uma pequena carta à poetisa, onde dizia: "Tão Apanhei na calçada simples, tão pura - e tão funda - a poesia de Uma pena de pombo Infinito Presente. Você domina a arte de Aprisionei exprimir o máximo no mínimo, e com que Um momento meditativa sensibilidade!" É do livro citado, De vôo e vento" entre outros, este haicai: Leiamos algumas frases ditas por Helena na LUZ INTERIOR entrevista da Biblioteca, as quais nos dão uma O brilho da lâmpada idéia do seu fazer poético: no interior da morada empalidece as estrelas. "Quando menos espero, e nas ocasiões mais imprevistas, começo a sonhar palavras". No segundo livro de Helena, Música Submersa, de 1945, saiu um haicai, o Pereira em Flor: "Na hora, invade-me a indizível alegria de criar". De grinalda branca, Toda vestida de luar, "É verdade que, no fundo, todo poeta é autor e A pereira sonha. leitor de seu poema. É autor na hora da inspiração, quando entra "em estado de Drummond, segundo Kamita, fez um elogio poesia." (...) No momento da inspiração, somos dizendo ter ficado feliz com poemas como esse, autores. Depois, o poeta lê o poema, avalia a "em que à expressão mais simples e discreta se composição, corta, acrescenta, substitui alia uma fina intuição dos imponderável vocábulos. É a fase do leitor". poéticos". "O poeta, a princípio, escreve para si mesmo, entrega-se ao prazer de criar; depois, quer Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    48 alcançar o leitor.Sem isso, a poesia deixa de ser comunicação". "persigo um pássaro e alcanço apenas "Há dois tipos de temas em minha poesia: os no muro que refletem meu próprio Eu, confessionais, e a sombra de um vôo". os que mostram minha preocupação com os outros e com os problemas do mundo, ou seja, Reika, seu nome de haicaista temas do eu íntimo e do eu social. Uso muito imagens, metáforas, símbolos tirados da Em 1993, a comunidade nipo-brasileira de paisagem. Sou uma enamorada da beleza do Curitiba fez-lhe uma homenagem, concedendo- mundo que me cerca". lhe o nome haicaísta Reika, "em reconhecimento à dedicação, divulgação e "Creio que há sugestões plásticas em meus grandiosidade que deu à poesia de origem versos. Uma amiga pintora disse que meus japonesa, haicai". O documento haiku no meigo poemas poderiam ser pintados". (outorga de haimei - nome de poeta do haicai), explica os ideogramas do nome Reika: Rei - "Embora não pareça, o verso moderno é muito designa pessoa de destaque no gênero de mais sutil e mais difícil do que o tradicional". poesia haiku (haicai), renome na literatura; Ka - pode ser kaoru (aroma, fragrância) ou niou "Como recursos estilísticos, uso muito (aromatizar, perfume). Reika, portanto, aliterações, anáforas e outros recursos significa "perfume da literatura", ou "renomada fonéticos". fragrância da poesia", ou, ainda, "aroma da poeta maior". E, o documento encerra, "Há um elemento lúdico no fazer poético, uma dizendo: "A tradução é difícil de se fazer, emoção de prazer, como em qualquer jogo. É porque não se refere ao perfume em si, mas um jogo fascinante, feito com palavras". sim ao contágio ou vibração que vai envolvendo as pessoas pelo encanto, que a poesia dessa "Creio que uma das características do poeta é pessoa emite". essa paixão pela palavra e pela leitura. A leitura amplia nossos horizontes, enriquece nossa arte. Compondo o conjunto vieram quadros com os É preciso ler, ler e ler". ideogramas em belas caligrafias (shodô) em quatro estilos. "A sensibilidade do poeta é como a da harpa eólica que os gregos penduravam nas árvores, Helena e a Tanka e que vibrava com o menor sopro de vento. Ele vibra intensamente, não só com as próprias Seu amor pela poesia japonesa a fez publicar emoções; capta, com o radar da imaginação, o no melhor jornal de literatura que se fez no sentir do outro, o viver do outro. Esse ver os Paraná, o Nicolau, quatro tankas (poema de outros com os olhos da imaginação é, também, cinco versos: 5-7-5-7-7), até então inéditos, em um dom do poeta; nem sempre é a sua própria dezembro de 1992; cito duas: experiência que ele expressa em versos. Incorporamos em nossa vivência as vivências PIRILAMPEJO alheias que nos atingem, nos alegram, ou nos O sapo engoliu fazem sofrer". a estrelinha que piscava no escuro do brejo. E, perguntada sobre como escreveu o haicai Ficou mais sombria a noite Pereira em Flor, esclareceu: "As impressões que sem o seu pirilampejo. me atingem vão se acumulando em meu inconsciente e elaborando uma espécie de AQUARELA húmus, no qual se misturam impressões de Sol de primavera. muitos tempos; desse húmus brota o poema, Céu azul, jardim em flor. impregnado de minha própria personalidade". E Risos de crianças. mais adiante, diz: "Junto com a alegria de criar, Na pauta dos fios elétricos, existe a agonia de perseguir o inatingível. uma escala de andorinhas. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    49 Em 1993, aFundação Cultural de Curitiba graciosos senryu. Aponto-os, entretanto, publicou Reika, com 28 poemas (19 haicais e 9 apenas baseado no fato de haver autores tankas), numa edição artística limitada. Mais (mesmo entre os japoneses) que não tarde, em 1996, a Secretaria da Cultura do diferenciam o senryu do haiku, incluindo Paraná, republica as mesmas tankas inclusas no aqueles entre estes. Vejamos: livro Caixinha de Música. Destaco duas: SALDO SABEDORIA Na página adolescente Tudo o tempo leva... deste mundo em flor, A própria vida não dura. sou um saldo anterior. Com sabedoria, colhe a alegria de agora VIGILÂNCIA para a saudade futura. O que vigia e reprime, passa por baixo do pano INVERNO e salta na arena do circo... No céu de cristal cintila o sol sem calor. EPIGRAMA Sopra um vento frio. No círculo esotérico Tiritam árvores nuas dos novíssimos, nos campos que a geada veste. múmia não tem vez. Helena e o Senryu IDADE A morte desgoverna a vida. O senryu tem a mesma forma do haicai (três Hoje sou mais velha versos de 5-7-5) mas trata de temas que meu pai. unicamente humanos, sempre em tom irônico, satírico, humorístico. É provável que Helena (artigo escrito pelo haicaista paranaense José não tenha se dado conta de que fez alguns Marins) O Nosso Português de Cada Dia Expressões Redundantes Ocorre redundância quando, numa frase, Seria possível que eles encarassem "de trás"? repete-se uma idéia já contida num termo anteriormente expresso. Assim, as construções "A modelo ESTREOU seu vestido NOVO." redundantes são aquelas que trazem Seria possível que ela estreasse um vestido informações desnecessárias, que nada "velho"? acrescentam à compreensão das mensagens. No dia-a-dia, muitas pessoas utilizam tais "Adoro tomar CANJA DE GALINHA." expressões sem perceber que, na verdade, são Se é canja que você toma, só pode ser "de inadequadas. Veja a seguir frases com galinha"! expressões redundantes freqüentemente utilizadas: "O estado EXPORTOU PARA FORA menos calçados este ano." "Eu e minha irmã repartimos o chocolate em E como ele poderia fazer para exportar para METADES IGUAIS." "dentro"? Ao dividir algo pela metade, as duas partes só podem ser "iguais"! "Quando AMANHECEU O DIA, o sol brilhava forte." "O casal ENCAROU DE FRENTE todas as Você já viu amanhecer a "noite"? acusações." Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    50 "Tiradentes teve suaCABEÇA DECAPITADA." "Pessoal, não vamos ADIAR PARA DEPOIS esta Alguém já viu um "pé" ser decapitado? reunião!" Decapitação só existe da cabeça mesmo! O verbo adiar já indica que é "para depois". "A criança sofreu uma HEMORRAGIA DE "Será que tenho OUTRA ALTERNATIVA?" SANGUE e foi parar no hospital." A palavra alternativa significa "outra opção". A Todas as hemorragias são "de sangue"! forma correta seria: "Será que tenho alternativa?" "HÁ muito tempo ATRÁS fui à Portugal." A forma verbal há já indica que o tempo é no "Eu e meu marido CONVIVEMOS JUNTOS passado. durante dois anos." O verbo conviver já expressa a idéia de "viver "Ela é LOUCA DA CABEÇA!" com", "junto". "A professora ACRESCENTOU Você já viu algum louco do "pé"? MAIS UMA idéia ao projeto." "O rapaz se INFILTROU DENTRO da festa sem Será que ela poderia acrescentar "menos" uma ser convidado." idéia? O verbo infiltrar já indica "para dentro". Franklin RAS Lopes (O Inesperado Aprendizado nas Curvas Femininas do emininas Preconceito) Vou contar um dos fatos pitorescos segurando e sendo o porta retrato, etc e desta vida nos mares, certa vez indo ao também existia algumas posições de gosto shopping em Florianópolis, vi uma exposição de muito duvidoso.. um artista plástico, um escultor, que trabalhava Mas existiu uma obra que realmente me com pedra, argila, madeira e uns materiais que chamou a atenção, era uma peça inteira e não sei o nome ao certo, mas isto não importa única de madeira de uma mulher de joelhos em nossa historia, este escultor era inteiramente nua, com as mãos pra cima e com especializado em mulheres. o pescoço virado para o lado, de tal forma que Sim, todas as suas esculturas eram as duas mãos e a cabeça serviam de suporte mulheres nuas ou semi nuas, deitadas em cima para um tampo de uma mesa - Sim esta de rochedos, deitadas confortavelmente, presas escultura se tratava dos pés da mesa. Era um em redes, sentadas, e algumas delas se mulherão sendo o suporte da mesa e como o misturavam como base de utensílios tampo era de vidro era só sentar e ver aquela domésticos, tipo: O suporte do abajur como mulher de joelhos em uma posição no mínimo uma mulher nua sentada, mulheres nuas desconfortável.. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    51 Depois de ver tantas obras tendo as amigo, eu achei este tronco jogado em um mulheres como suporte de utensílio, acho que a terreno baldio era um tronco qualquer e eu obra da mulher suporte de mesa fez sacudir transformei ele em uma linda mulher, olhe ela é alguma coisa nesta minha mascara cristã e quis linda, eu não me importo com o que possam saber qual era visão daquele homem, pois ele dizer, ela é linda. devia ter problemas com as feministas!!! Ainda Neste momento eu entendi melhor a questão mais sendo a exposição dentro de um shopping da utilidade no Pequeno Príncipe, em que ele o que aguçou a minha inquietação para dizia que a “utilidade esta na beleza”, confesso conversar com o escultor. que isto me tirou da aridez acadêmica por um É claro que conhecendo a delicadeza em tempo, eu ia ao shopping para ver este escultor tocar certos assuntos, fui calmamente falando trabalhar, ele estava fazendo uma releitura do das mudanças ou tendências da escultura para Pensador de Rodin (é assim mesmo?) em argila o nu feminino, fato que não era comum na para uma empresa de celular, na realidade ele Grécia antiga aonde o homem era visto como o estava fazendo o Falador de Celular rsss, ele belo. E o escultor por minha sorte era um cara mesmo disse mudanças nos tempos. No tempo simpático, risonho conversou de forma de Rodin o pensar era valorizado, hoje não. agradável dizendo que as mulheres eram mais Além do que, para quem não sabe a bela plásticas, e assim podia se trabalhar com uma Gabriela trabalhava ali perto, e eu como um maior multiplicidade de visões do que a simples romântico medroso torcia para que a força dos visão guerreira ou do ser reto masculino ventos dos mares deixasse Gaby em meus descansado... sim ele realmente gostava das braços - aprendizado instantâneo da utilidade mulheres mesmo. do artista Mas ainda assim, achei que existia alguma coisa de machismo em suas palavras e em seu trabalho e finalmente questionei-o a respeito daquela obra da mulher suporte de mesa, dizendo de uma forma delicada que a mulher podia ser vista como um objeto de uso e ainda por cima não estando em uma posição muito agradável:- de joelhos para servir. Franklin Ras Lopes Franklin Rodolfo Aguiar Silveira (Ras) Lopes é A resposta deste escultor foi uma das Oceanógrafo, Mestre em Aqüicultura, Doutor coisas mais surpreendentes para mim, ele não em ciências e atualmente trabalha como se alterou em nem um momento apenas me consultor ambiental. Reside em Piracicaba, SP. chamou para frente da obra e disse: Olhe Aparecido Raimundo de Souza (O Homem Só) Só) Como um fantasma que se refugia Mas tu não vieste ver minha Desgraça! Na solidão da natureza morta, E eu saí, como quem tudo repele, Por trás dos ermos túmulos, um dia, - Velho caixão a carregar destroços - Eu fui refugiar-me à tua porta! Levando apenas na tumbal carcaça Fazia frio e o frio que fazia O pergaminho singular da pele Não era esse que a carne nos conforta... E o chocalho fatídico dos ossos! Cortava assim como em carniçaria (Augusto dos Anjos) O aço das facas incisivas corta! –––––––––––- Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    52 O homem firmamento. Que belos e maravilhosos anda, momentos de ternura e enlevo desfrutaram!... procura, procura, indaga... No entanto, o copo do destino transbordou o licor amargo. O céu tingiu-se de nuvens negras E ninguém sabe dizer onde encontrar a mulher e um vendaval inesperado fez-se forte, muito dos seus sonhos. Todos negam com a cabeça. poderoso e intransponível. Suas idéias e ideais, Uns nem respondem. Outros viram-lhe o rosto a partir daí, entraram em parafuso, como um em sinal de pouco caso. Alguns posicionam-se avião desgovernado e tudo o que era bom indiferentes e alheios à sua presença. Na voltou-se, de repente, para o nada. Toda verdade, a multidão o trata como se o pobre aquela plebe ao seu redor deve estar com não existisse. A maioria daquela escumalha o razão. Ele é mesmo, sem sombra de dúvidas, considera um estróina, a julgar por seus modos um alienado mental. Sente que as pernas estranhos, pelo seu vestir e até pelo falar. bambeiam a carcaça. Em derredor de si, coisas, pessoas, casas...giram, e a medida que entram E o coitado, o infeliz, parece mesmo nesse movimento rotatório, as vistas turvam-se apalermado, furioso, louco. E como um por completo e quedam-se, em seguida, em doidivanas, pesadas brumas de solidão. Portanto, Está, pois, tolhido, segue adiante... indefeso, persegue vencido...vencido e imagens distantes, figuras indistintas que nada sem forças para soerguer o nariz, têm a ver com a amada. Perdido e só, esse levantar a moral, dar a volta por cima e berrar. caminhante não vive. Vegeta um tempo Na verdade, quer gritar que está vivo, carente, obumbrado, esquecido no espaço irrecuperável dependente do amor dessa deusa que do compasso inconseqüente dos dias que enfeitiçou sua alma e, no final das contas, o passam um após outro, como se para o mundo abandonou ao grotesco mais iracundo do todas as coisas tivessem mortas há séculos. É o ridículo. destino imprecativo que manipula seus desejos e ansiedades como melhor agrada. A - Te amo, te amo – grita o pobre infeliz olhando esperança, aquela esperança ambígua de para um pequeno retrato três por quatro. - Te outrora retirou-se, às pressas, de seu peito, tal amo, porque tu te escondestes de mim? como quem foge de algo ruim e prestes a acontecer. Tudo isso, porém, tem uma causa: Seria esse homem um louco? sua outra metade que busca incansavelmente. O efeito, sente agora, abraçado à ausência da Como louco? Se o mísero só quer saber onde saudade que domina toda a mente, está a autora dos seus sonhos? transformando o pensamento num redemoinho de idéias confusas. Afinal, onde está, por Deus, onde está a figura que coloriu seus devaneios? Sem ela e seus aconchegos é um homem vazio de vida, de cores, e de esperanças. A partida da jovem doeu-lhe muito. Feriu de tal forma que até o coração bate descompassado, numa Aparecido Raimundo de Souza atitude convulsiva de sofrimentos embaraçosos. Aparecido Raimundo de Souza, 56 anos, Em seu peito uma ferida imensa abriu feio à jornalista. Natural de Andirá, Paraná. Free- flor da pele, e desde então não cicatriza. lancer das revistas "Textos Inteligentes" e "Isto é gente". Publicou: Quem Se Abilita? (prefácio Enquanto anda e procura, indaga e persegue, de Paulo Coelho); Com Os Chifres À Flor Da recorda o passado... Cabeça (25 cronicas); Tudo o que eu Gostaria de Ter Dito (livro com 365 frases dos mais Lembra a vida à dois; os verdes anos de diversos autores, frases essas publicadas prosperidade e fortuna como dádivas caídas do durante três anos numa coluna que manteve na Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    53 Revista Class, emVitória, no Espírito Santo); As Os textos de Aparecido Raimundo de Souza Mentiras Que As Mulheres Gostam De Ouvir (25 retratam o cotidiano das pessoas. São escritos cronicas); A Outra Perna Do Saci, Refúgio para leves e soltos, alguns cheios de intransigências, Cornos Avariados (25 cronicas), Mulheres em outros salpicados de ironia e muita picardia e Estado de Coma; Travessuras de Mindinho e irreverência. Seu estilo lembra o escritor Fura Bolos; Talvez Eu Volte para Casa na gaúcho Luiz Fernando Veríssimo, embora tenha Primavera. criado uma grafia própria e inconfundível. Antonio Augusto de Assis (Poesias) (Poesias) CARNAVAL O trilo do apito, É sexta-feira, o grito do aflito, véspera da folia. o confete, o conflito. Lá vai Maria. É quarta-feira, cinzas. Lá vai lavar em lágrimas Lá vai Maria. a vida ávida de vida, Lavai, Maria. sofrida vida dividida Lavai o mundo, Maria. em dívidas e dúvidas. Lavai o imundo, mundo imundo vasto mundo, É sábado, é domingo, lavai o mundo, Maria! é segunda, é terça gorda. –––––––––––––––––––– Roda no asfalto o samba, LUOLHAR geme o povo em sobressalto. Roda rotunda a moça moma, Duas luas peitos nus lançando chamas. viu Ismália Gemem bocas de crianças, na noite em que enlouqueceu: barrigas ocas “viu uma lua no céu, mendigando mamas. viu outra lua no mar”. Roda impávido o desfile na avenida multicor. Bem mais louco, Gemem pálidos vejo três, rostos esquálidos quando me ponho a cismar: desfilando a dor. a terceira é a que flutua O sonho roda, geme o horror. tentadoramente nua na noite do teu olhar. O samba-enredo, o medo em roda. ––––––––––––––––– A serpentina, o ser penante. A passarela, o pária ao lado. TERCEIRA INFÂNCIA O palanque, a pelanca. O pandeiro, a pancada. Meu neto O sambeiro, o sem-nada. me disse um dia: O tamborim, o camburão. — Converse comigo, vô, O saxofone, o saque-sem-fundo. mas converse como amigo, A fantasia, a mão vazia. mais amigo do que vô. A apoteose, a verminose. A alegoria, onde a alegria? Desfez-se logo a distância. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    54 Por um beijo eu lhe dou meus anseios de paz, Conversamos. minha fé na ternura e no bem que ela faz, Conversamos. meu apego à esperança e ao que a possa Conversamos. manter. Ele na primeira, Por um beijo, um só beijo, um momento de eu na terceira infância. amor, eu lhe dou meu sorriso, eu lhe dou minha dor, AURORA BELA o meu todo eu lhe dou, dou-lhe inteiro o meu ser! Da janela do meu quarto vejo Aurora na janela. Toda tarde, à mesma hora, Aurora lá. Que será que ela olhará? Antonio Augusto de Assis Aurora, Aurora, Aurora bela, Nasceu em São Fidélis – Estado do Rio bela Aurora da janela, de Janeiro, no dia 07 de abril de 1933. Filho de Aurora Pedro Gomes de Assis e Maria Ângela de olhar sem fim... Guimarães de Assis. Casado com a professora Lucilla Maria Simas de Assis, tem duas filhas e Se sobrar uma olhadinha, cinco netos. por favor, olha pra mim! Residente em Maringá-PR desde janeiro de 1955. Hoje aposentado, foi jornalista e POR UM BEIJO também professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá. Por um beijo eu lhe dou o que sou e o que tenho: Integrante da Academia de Letras de os bons sonhos que sonho, as plantinhas que Maringá (Cadeira no. 27 - Patrono: Manuel planto, Bandeira), da UBT – União Brasileira de a pureza, a alegria, as cantigas que eu canto, Trovadores (seção de Maringá) e da Academia e o meu verso se acaso houver nele arte e Virtual de Letras Luso-Brasileira. Editor da engenho. revista eletrônica Trovia (da UBT-Maringá) e co-editor da revista eletrônica Trovamar (da Por um beijo eu lhe dou, se preciso, o meu UBT-Balneário Camboriú). pranto, Autor de Robson, Itinerário, Bate-papo, as angústias da luta em que há tanto me Trovas de paz e amor, Os quebra-molas do empenho, casamento, Lufa-lufa, Chiquinho, Felicidade as saudades da infância e do chão de onde sem camisa, Da arte de ser pai, Desafio do venho, amor, Carta aos moços, Xangrilá, O português as promessas que eu faço em segredo ao meu nosso de cada dia, Poêmica, Caderno de Trovas santo. e A missa em trovas. Tchelo D’ Barros (“M” E “H” no 609) 609) São Paulo é uma cidade grande, muito grande. inesperadas, que talvez por comodidade M e H conheceram-se numa dessas situações convencionamos chamar de acaso. M, há Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    55 tempos que estavaacostumada com a rotina do ali, escolhendo alguns exemplares de bolsi- metrô, meia hora para ir e outra longa meia livros de faroeste, sua única distração literária. hora para voltar. Para suportar melhor esse M imaginou inicialmente que H estivesse lhe limbo de tempo inútil, lia revistas de seguindo, mas logo concluiu que isso não fotonovelas, que adquiria numa loja de livros poderia ser, pois quando ela chegou ele já se usados, próxima à estação da Praça da Sé. A encontrava no local. Depois pensou em monotonia desse trajeto só era quebrada lá de coincidência, em destino, essas coisas que não vez em quando, com alguma paquera, pelo entendemos muito bem, e logo já estava fuzuê com algum trombadinha ou algum ator fantasiando que fosse algum investigador fazendo sua performance e passando o chapéu. contratado, um tipo de detetive. Aquela manhã de sábado com garoa não Saiu de tais devaneios quando percebeu que prometia muito. Vagão cheio, M incomodou-se ele já não estava mais naquela sala, então um pouco por ter que ficar em pé, e tratou de escolher alguns exemplares de cavalheirismo, como se sabe, não anda muito revistas para sua coleção. O segundo susto foi na moda. Incomodou-se um pouco mais na hora de pagar, pois ambos chegaram juntos quando, no frenesi das pessoas que ao balcão, o que fez com que o balconista apressadamente entravam e saíam do vagão, perguntasse o típico 'quem está na vez?', o que um sujeito passou por trás dela, encostando-se, inicialmente causou um certo constrangimento inevitavelmente. Este momento deve ter para ambos, mas foi a ocasião para uma breve durado apenas um segundo, mas foi o troca de olhares e o esboço de um sorriso. O suficiente para ela sentir um hálito de hortelã, e fato de H ter permitido que M pagasse ele percebeu a fragrância de alfazema nos primeiro, foi a senha para continuarem cabelos dela. Quando ele se afastou, ela olhou conversando e o manuseio do pagamento de soslaio, para identificar o atrevido, ao tempo permitiu que ambos vissem que nenhum dos que H, também discretamente, observava sua dois estava usando aliança. silhueta bem desenhada pelo reflexo da janela. Ato seguinte, um assento que ficou vago As recentes aquisições permitiram que a permitiu que a vida voltasse ao normal no conversa se prolongasse num café próximo dali. escapismo de mais algumas páginas da Esgotado o assunto das preferências literárias, fotonovela. trataram de puxar outros temas corriqueiros, amenidades bem triviais, apenas umas Desceu na estação de sempre e depois de mais desculpas para poderem continuar se olhando, uma manhã rotineira, ao meio-dia em ponto um adentrando o semblante do outro, tentando estava livre, seu fim-de-semana começou com desvendar camadas de personalidades e o fim da garoa. Logo ela estava zanzando pelas nuances dessa atração inusitada. Esse mesmo barracas da feirinha da Liberdade, onde ardente encontro de olhares, sequer permitiu adquiriu umas bonequinhas de origami. O que falassem sobre relacionamentos, fossem almoço se resumiu à alguns camarões no palito, anteriores ou atuais, profissões ou endereços, assim, almoçava caminhando, observando os esses itens que definem tanta gente. Eram artesanatos e antigüidades espalhados pelas apenas dois intensos olhares cruzados, que em banquinhas. Naquele vai-e-vem de tanta gente, seguida receberam a cumplicidade de duas julgou ter visto o sujeito do metrô, próximo à mãos que se tocavam de leve, no início, e uns quadros de paisagens japonesas que um assim não demorou para que um certo par de pintor apresentava no chão de uma pracinha. lábios ávidos também se encontrassem. A vida Tímida do tipo ousada, aproximou-se para ter naquele momento era apenas um sabor de certeza, mas não viu mais o vulto, certamente hortelã e um suave aroma de alfazema, era outra pessoa. naquela esquina da megalópole. Lembrou-se que precisava renovar o estoque Não se conheciam, não queriam se conhecer, de suas revistas antigas de fotonovelas, e lá foi mas desejavam se entregar. Talvez essa ela em direção ao sebo. Ao chegar foi substância abstrata que chamamos de natureza diretamente à sala das tais revistas, onde levou humana, explique o fato de que dentro de um susto, pois ninguém menos que H estava poucas horas, já no número 609 de um hotel Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    56 da Rua Ipiranga,o par estivesse resfolegando reencontraram, e assim foram repetindo seus num faiscante entrelaçamento com fusão de encontros semanais, pontuados pela entrega corpo e alma. O caos e o céu ao mesmo tempo. total em suas experiências, preservadas por Depois, quando os corações foram segredos mútuos, quase como se suas vidas desacelerando, o suor foi secando e os instintos particulares nem existissem, como se a vida permitiram que alguma lucidez se instalasse no real acontecesse apenas naquele idílico quarto recinto, começaram a conversar e, conversaram 609. E mais não precisava. E como é próprio demoradamente, outro prazer que descobriram dessas raras uniões onde o casal se completa, assim, sem querer. Concluíram que esse se complementa e se funde, chegaram à um enigma, que as pessoas chamam de amor, nível de cumplicidade e simbiose onde era pode acontecer assim, de repente, numa possível sentir plenamente o estado emocional nublada tarde de sábado, no labirinto da do outro, apenas pelo olhar, pela voz, pelo gigantesca cidade. Ao saírem do hotel, ninguém toque. Não raro, depois do descanso, abriam os sabia nome, idade, telefone, e-mail ou o que olhos ao mesmo tempo, sonhavam um com o quer que fosse sobre o outro, esses ítens que outro, e muitas vezes um ia dizer uma coisa e o identificam muita gente, o que não impediu de outro completava. Ao final de um ano a sintonia combinarem se encontrar no saguão do mesmo era tanta que de vez em quando já se hotel, no mesmo horário, uma semana depois. conseguia até mesmo ler o pensamento. E passados sete dias, na tarde paulistana, desta Foi mais ou menos por essa época que M vez ensolarada, lá estavam M e H novamente, começou a pensar na possibilidade de tentando ser discretos na recepção do hotel, investigá-lo, de tentar saber mais sobre esse mas mal disfarçando a gana de avançar um homem misterioso, que lhe fazia tão feliz. sobre o outro, o que aconteceu de fato, logo Talvez desvendar o cotidiano desse íntimo que fecharam a porta do mesmo quarto 609. desconhecido, saber o que ele fazia durante a Pura selvageria. Frisson e êxtase. Volúpia e semana, onde morava, se era casado, no que lascívia. Concupiscência e atração. Luxúria e trabalhava, essas coisas. Mas refletiu bem e lúbricas intimidades. Umidade e fricção. Ou o escolheu deixar de lado a curiosidade, preferiu que muitos preferem resumir como tesão. não quebrar a magia que os unia, não queria Apagado o primeiro de muitos incêndios, M desconfianças, não queria que ele fizesse o percebeu então que H havia trazido champanhe mesmo, que descobrisse tudo sobre ela. E com morangos, e H pode enfim também notar assim continuaram, já que toda a felicidade do os detalhes da lingerie provocante que M mundo cabia naquele singelo quarto. Ali era o escolheu para o novo encontro. Algumas endereço do amor, da paixão, do romance e do labaredas mais tarde, fruíram daquele prazer desejo. O resto era apenas o mundo. E de conversar, de poder falar das sensações, pequenas mudanças naquele quarto eram dos sentimentos e das percepções desses quase um acontecimento. O dia em que momentos incandescentes. E falavam da trocaram as cortinas. Uma pequena gravura saudade, e dos desejos, e dos medos, e das que apareceu em uma das paredes. Os vontades, e das fantasias, e de todo um outro desenhos florais na estampa de um lençol. E labirinto, o das afetividades que se um dia as paredes receberam uma nova entrelaçavam nas relações e no tonalidade, o salmão suave passou para um relacionamento. Antes de se despedir, H notou rosa pálido. Isso foi uma grande novidade. entre os pertences de M uma pequena réplica de espada japonesa, dessas para abrir E o tempo foi passando. As fronhas dos envelopes, sinal de que ela devia ter passado travesseiros foram naturalmente se gastando, novamente pela feirinha oriental. Já M, perdendo a cor, a textura. As conversas agora percebeu que H havia adquirido mais alguns tinham diminuído um pouco, entremeadas de livrinhos com histórias de bang-bang. Mas breves silêncios, que aos poucos foram se ninguém quis comentar nada, nada de prolongando e muitas vezes a falta de assunto observações, nada de perguntas. Manter algum era compensada com a leitura de fotonovelas e mistério era muito mais excitante. os livrinhos de bolso. Num dos encontros sequer fizeram amor, apenas trocaram carícias. E assim se despediram, e assim se Depois, uma viagem impediu o próximo Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    57 encontro, e umadesculpa aqui e outra ali fizeram rarear os sábados dos amantes. Até que numa dessas tardes de muito calor, as paredes do 609 sequer viram o casal se despir, apenas conversaram, olharam-se demoradamente, choraram, abraçaram-se e então convenceram-se de que poderiam parar Tchelo D’ Barros de se encontrar. O rio da vida que seguisse seu Nascido em 1967, é escritor e fluxo. Sem culpa, ou rancor, deram-se ainda artista visual. Natural de Brunópolis/SC, residiu um longo e afetuoso último beijo. 15 anos em Blumenau/SC, onde iniciou a carreira artística. Percorreu 20 países em Na saída para a rua, nenhuma palavra, apenas constantes pesquisas na área cultural e desde dois semblantes que se encontravam quem 2004 está radicado em Maceió/AL onde escreve sabe pela última vez e cada um seguiu para um e produz sua obra visual, expondo na Internet lado. H dobrou a próxima esquina, refletindo e em diversos espaços culturais pelo Brasil. sobre isso que as pessoas chamam de amor. Se Publicou 5 livros de Poesia e possui 2 isso existe mesmo, dura pouco, uns dois anos, inéditos de Conto e Crônica. Foi sócio-fundador concluiu. De seu destino nada sabemos, apenas da Sociedade Escritores de Blumenau, que deixou de freqüentar uma certa loja de presidente por duas gestões, tendo idealizado e livros usados daquele lado da cidade. M, que coordenado diversos projetos culturais. Foi um tomou o metrô mais próximo, olhava dos idealizadores e coordenadores das edições demoradamente as fotografias da revista, mas do Fórum Brasileiro de Literatura. nada via, apenas pensava em como era Realizou 12 mostras individuais e como possível conhecer alguém com tal profundidade designer, desenvolveu ilustrações para agências e sintonia sem sequer saber seu nome. Dela de publicidade e estúdios de criação têxtil. também pouco sabemos, apenas que continua Ilustrou jornais, revistas e livros, num total de usando xampu com perfume de alfazema e mais de 10.000 desenhos. adquiriu o hábito de comprar pastilhas de É membro fundador do Fórum de Artes hortelã. Visuais de Alagoas, gestor de Literatura do APL Cultura em Jaraguá, membro-fundador do INAV Dizem que aquele sebo fechou. Dizem também Instituto Nacional de Artes Visuais e integra a que vai reabrir em outro ponto da cidade, mas Câmara Setorial de Artes Visuais - não se sabe bem onde, pois como sabemos, Minc/Funarte. São Paulo é uma cidade grande, muito grande. Caio Porfírio Carneiro (Vingança) Vingança) Ele andava lentamente à minha frente. igreja ali em frente, a banca de jornais e Aproximei-me. Emparelhamo-nos. Sorri: revistas tampando-me um pouco a visão da - Bom dia. fachada. Meu desprezo por aquele homem - Bom dia. ampliava-se: O bom dia dele foi de susto e - Vai comprar jornais ou vai rezar? curiosidade. Voltei a sorrir: - Vou rezar. - O senhor não me conhece. Mas devo - Acompanho. conhecê-lo. - Mas quem é você? Não estou - De onde? reconhecendo. - Depois lhe digo. Os olhos dele eram apertados, como de Chuvinha miúda e nós dois sem guarda- míope, mas não usava óculos. A calvície luzidia, chuva. Poucas pessoas passavam por nós. A onde rebrilhavam pingos de chuva. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    58 - Não importa agora. Não vai rezar? Eu o acompanho. Rezar é bom. Alivia. Não é mesmo? Olhava-me com rapidez. Apressou o passo. Apressei o meu. E emparelhados chegamos à igreja. Dei-lhe passagem, que a Caio Porfírio Carneiro porta era estreita: Natural de Fortaleza (1º de julho de 1928), - Faça o favor. tendo se radicado em São Paulo em 1955. Tem Ele se ajoelhou próximo ao altar, olhos cultivado o conto com regularidade. Sua estréia meio fechados fitos na cruz enorme, a cabeça no gênero se deu em 1961, com o de Cristo bambeada para a esquerda. elogiadíssimo Trapiá. Seguiram-se Os Meninos Procurava afastar-se de mim, visivelmente e o Agreste (1969), O Casarão (1975), Chuva – incomodado, e eu pregado nele. As suas mãos, Os Dez Cavaleiros (1977), O Contra-Espelho cruzadas, tremiam, e os lábios caídos (1981), Viagem sem Volta (1985), Os Dedos e balbuciavam palavras em direção à cruz. os Dados (1989), A Partida e a Chegada (1995) A raiva não me cessou. Cresceu. Não e Maiores e Menores (2003). Seus romances me contive, cochichei-lhe ao ouvido: são O Sal da Terra (1965) e Uma Luz no Sertão - Você me paga, canalha. Vai ver. (1973). Publicou as novelas Bala de Rifle Pela primeira vez abriu (1965), Três Caminhos, Dias sem Sol e A desmesuradamente os olhos, pestanejando Oportunidade, estas em 1988. muito, e eu me fui, o eco dos meus passos É autor também de ensaios, como Do reboando na nave quase deserta, duas-três Cantochão à Bossa Nova (ensaio sobre música cabeças dispersas e contritas. popular brasileira), literatura juvenil (Profissão: Na rua, sol nos olhos, que a chuva se esperança, Quando o Sertão Virou Mar..., Da fôra, desorientei-me um pouco. Depois, suando Terra Para o Mar, do Mar Para a Terra, Cajueiro muito, andei de cá para lá, de lá para cá, Sem Sombra), poesia (Rastro Impreciso), concentrando-me, inutilmente, para descobrir reminiscências (Primeira Peregrinação, Mesa de quem seria aquele homem, a fim de vingar-me Bar, Perfis de Memoráveis). dele. Tem recebido diversos prêmios, como o Jabuti, Desalentado, voltei para casa. da Câmara Brasileira do Livro, em 1975. A ORIGEM DA ESCRITA A escrita propriamente dita surgiu no Oriente 300 a.C). Tanto as primeiras escritas Médio e na China há cerca de 5.500 anos. cuneiformes quanto a hieroglífica eram de Destes dois focos principais (pois o americano, natureza fonético-pictográfica. Isso significa surgido independentemente há apenas 1.300 que os símbolos usados tanto representavam anos, e o do Vale do Indo, que durou de 3.500 os sons de uma palavra quanto a forma do a.C. até 1.200 a.C., não deixaram descendência objeto que ela representava. Este sistema não moderna), a escrita se irradiou para diversas era muito diferente do utilizado pelo Chinês, o outras partes da Eurásia. único dos primeiros que continua em uso até hoje, chamado normalmente de ideográfico. No Oriente Médio, originaram-se dois principais sistemas de escrita: o cuneiforme, utilizado por Cientificamente, a escrita cuneiforme sumeriana diversos povos e línguas da Mesopotâmia e e a ideográfica chinesa são denominadas Pérsia de 3.000 a.C. até 300 d.C., e o logográficas. Isso significa que cada palavra hieroglífico, desenvolvido no Egito e lá utilizado (“logo”) é representada por um símbolo somente para a língua egípcia por mais de (“graphos”). Os hieroglifos egípcios e as quatro mil e quinhentos anos (4.900 a.C até escritas cuneiformes assírias e acadianas Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    59 (posteriores à sumeriana)são de natureza logo- outro que lembrava o conceito. Por exemplo, se silábica: há símbolos para palavras e outros em chinês “andorinha” é “wong”, o ideograma para sons isolados. É por isso que a designado seria o para pássaro (que lembra o denominação “ideográfica” (=escrita de idéias), conceito) mais o de outra palavra qualquer que consagrada para o chinês, é imprecisa, já que rimasse com “wong”, como “wang” (parede). O os “ideogramas” chineses não representam leitor então se perguntaria: “qual o pássaro que idéias, e sim palavras. rima com wang? - “Wong!”. (o exemplo é inventado) Embora separadamente, as escritas da China, do Indo e do Oriente Médio ( e posteriormente Cada símbolo representa uma palavra. “8”, por na América) surgiram a partir de desenhos exemplo, representa “guo” (país), “l” neolíticos, que foram cada vez mais representa “xin” (coração). As palavras em simplificados até se tornarem bem estilizados. chinês têm apenas uma sílaba e não variam. Primeiramente, se desenhavam objetos, Palavras que têm o mesmo som, mas significam animais e pessoas, o que equivalia a uma cena, coisas diferentes, têm ideogramas diferentes. ou estória em quadrinhos; em seguida, passou- se a inventar símbolos para noções abstratas e Nas línguas do antigo Oriente Médio, como o ações, e depois se procurou representar acadiano, o persa e o egípcio, havia, como no graficamente as palavras na mesma ordem e português, uma série de formas que as forma em que apareciam na língua falada - foi palavras podiam assumir de acordo com a aí que surgiu a verdadeira escrita. A distinção conjugação verbal ou a função na oração, sem entre escrita e desenhos de cenas jaz, que seu significado se alterasse (como no portanto, no fato de que a escrita realmente português: eu> mim; tu> ti, amar> amo, representa a língua de seus falantes (posição amas; casa> casas, casinha). Era então de palavras, gramática, pronúncia) e não necessário que se desenvolvesse um sistema de apenas suas idéias em forma de figuras. escrita que mostrasse a pronúncia diferenciada de cada forma das palavras. Os primeiros China e Oriente Médio: dois caminhos sistemas, que funcionavam à base de diferentes. logogramas, mostraram-se conseqüentemente imprecisos, sendo desenvolvidos depois A escrita da China evoluiu diferentemente da do caracteres-sílaba que não possuíam significado Oriente Médio devido a diferenças na e serviam apenas para registrar os diferentes morfologia das línguas. Na parte ocidental da sufixos, prefixos, partículas sem significado Eurásia, as línguas faladas apresentavam próprio e desinências gramaticais. Surgia assim muitas formas gramaticais, como conjugações e a escrita logo-silábica, misturando caracteres declinações, exigindo que a escrita fosse mais puramente logográficos (que eram desenhos clara quanto à pronúncia - o que não acontecia estilizados das palavras que representavam) e no chinês, cujas palavras são invariáveis. Por caracteres fonéticos (servindo apenas para exemplo, em chinês moderno (que não é muito indicar a pronúncia). Os hieroglifos egípcios diferente do chinês arcaico), a palavra “gong” eram claros exemplos desse sistema. carrega em si o conceito geral de “trabalho”, podendo significar “trabalho”, “trabalhar”, E, assim como o chinês, o egípcio precisou criar “trabalhista”, etc., dependendo do contexto, representações para conceitos complexos, sendo que não há variação no plural nem utilizando-se de truques para tal fim. Era como conjugação verbal. se usassem um hieroglifo composto das palavras “cama” e “leão” para escrever Era desnecessário, portanto, indicar com “camaleão”. precisão a pronúncia da palavra “gong”, bastando designar-lhe um logograma. Com o Fenícios, gregos e hindus: inovações tempo, porém, surgiu a necessidade de se escrever conceitos mais complexos, para os Por volta de 1.200 a.C., os fenícios quais não havia pictograma. Criaram-se então desenvolveram uma escrita mais simples, a caracteres mistos, compostos de um ideograma partir das escritas logo-silábicas, devido à bem conhecido que auxiliava na pronúncia e necessidade de uma forma prática de escrita Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    60 para que seuimpério comercial de então ΤΙΝΑ ’ΑΙΣΘΕΣΘΑΙ Τ Ν ΠΟΛΕΜΙ Ν. pudesse funcionar melhor. Nesse sistema, cada Lê-se: epí to ákron anébe kheirisóphos prin tína símbolo representava uma consoante, sendo aisthésthai ton polemíon. (Kheirisophos subiu que as vogais tinham que ser lembradas pelo ao pico antes de qualquer inimigo perceber). leitor. Para cada consoante, foi escolhido um símbolo que previamente era um logograma Na Índia, por volta de 700 a.C., surgiu, para a representando uma palavra de uso comum, e língua sagrada dos brâmanes, o sânscrito, uma foi-lhe dado um valor puramente fonético, de escrita silábico-alfabética, chamada brahmi, que acordo com seu som inicial. Por exemplo: beth deu origem a várias escritas indianas como o (casa) foi escolhido para o fonema /b/, ‘aleph devanágari (“escrita divina”, 1000 d.C.), além (boi) foi escolhido para o fonema /’/, a parada de escritas do Sudeste Asiático. Devido ao fato glotal típica das línguas semíticas. Esse tipo de de o sânscrito ser uma língua indo-européia proto-alfabeto, denominado cientificamente de como o grego (embora nem os gregos nem os “alfabeto consonantal”, foi a origem imediata indianos se reconhecessem como aparentados dos atuais alfabetos hebraico e árabe, que na época, pois as pesquisas lingüística de indo- ainda deixam de marcar as vogais, talvez do europeística têm apenas 200 anos), o os hindus alfabeto da Índia, e do alfabeto grego, que também sentiam a necessidade de marcar apresentou a novidade de designar símbolos às todos os sons na escrita com precisão. Só que vogais. Surgia com os gregos, portanto, o eles foram muito mais além, criando um verdadeiro alfabeto, denominado de “alfabeto alfabeto extremamente rico e complexo, capaz vocálico-consonantal”. de representar qualquer som. Esse sistema utiliza-se de formas teóricas de letras que são Os árabes e os hebreus nunca sentiram a então combinadas de forma complexa umas às necessidade de marcar as vogais devido à outras para formarem sílabas e então palavras, peculiar estrutura morfológica de suas línguas, sendo denominado “alfabeto silábico”. O que são do grupo semítico, assim como os resultado são algumas das escritas visualmente antigos fenício e aramaico. Nas línguas desse mais harmoniosas do mundo. grupo, as conjugações se dão através do correto preenchimento de um esqueleto de três O devanágari ainda é utilizado hoje, com consoantes por um certo grupo de vogais, poucas modificações, por dezenas de línguas da portanto pelo contexto pode-se deduzir estas Índia e pelo bengalês, de Bangladesh. Contudo, claramente. Já o grego, uma língua indo- ainda se discute a verdadeira origem de sua européia como o português, não tem escrita-mãe, o brahmi, pois, apesar de paradigmas vocálicos tão fixos como o das provavelmente ser de inspiração semítica, é um línguas semíticas, o que levou à criação das mistério o fato de ela já ter surgido pronta, letras para as vogais, adaptadas a partir de desde os mais antigos manuscritos, como se já consoantes fenícias que não tinham utilidade tivesse sido criada perfeita pelos deuses! O para o grego. Por exemplo, o ‘aleph, que tailandês, outro exemplo de escrita de base representava em fenício o som da parada brahmi, está em uso até hoje também. glotal, foi reaproveitado para a vogal “a” (alpha, em grego), já que na língua helênica Etruscos e latinos: a escrita se expande não havia tal fonema. Além disso, outra mudança do grego foi a de escrever da Os etruscos foram os antecessores dos esquerda para a direita, pois o fenício, assim romanos no domínio da península itálica. como o árabe e o hebraico modernos, se Mesmo Roma lhes foi subalterna. Dos gregos, escreve da direita para a esquerda. os etruscos tomaram muitas coisas, entre elas Inicialmente, contudo, os gregos se utilizavam o alfabeto. Discute-se ainda hoje que tipo de do sistema denominado “boustrophédon” língua era o etrusco, se indo-européia ou não, (arado), em que uma linha ia da esquerda para mas, a essa altura, isso não importava mais: o a direita e a seguinte da direita para a esquerda alfabeto vocálico-consonantal já havia sido e assim por diante. inventado pelos grandes gregos e era de fácil adaptação a qualquer língua. A Etrúria se Exemplo de escrita grega antiga (400 a.C.): extinguiu, Roma se ergueu, levando das cinzas ’ΕΠΙ ΤΟ ’ΑΚΡΟΝ ’ΑΝΕΒH ΧΕΙΡΙΣΟΦΟΣ ΠΡΙΝ etruscas, ligeiramente modificado, o seu Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    61 alfabeto - maisdo que apropriado para se falado, só escrito, mas agora já diferia do latim escrever a língua latina, indo-européia por clássico. A esse latim cristão dá-se o nome de excelência e de fonética similar à do grego. latim medieval, usado até hoje pela Igreja de Com o Império Romano, a escrita foi divulgada Roma. por uma extensão territorial enorme, inclusive por regiões não romanas, dando origem, ainda Mas nas secretas bibliotecas monásticas, os na Idade Antiga, por exemplo, à escrita rúnica monges copistas cuidadosamente reproduziam dos víquingues e a escrita céltica, entre as grandes obras da Antigüidade para garantir outras. que sobrevivessem ao tempo. Esses monges, em nome da praticidade e influenciados pela A escrita munumental se usava em inscrições estética medieval obscura, desenvolveram as de monumentos e edifícios, e é a base da escritas cursivas, manuscritas, em que as letras forma atual das nossas letras de fôrma. Para se ligavam umas às outras de modo a agilizar a escrever textos, porém, os romanos se cópia. Essa escrita cursiva deu origem às letras utilizavam de formas mais “garranchadas” das minúsculas latinas e gregas, desconhecidas na letras, muitas vezes sem espaço entre as Antigüidade, quando só se usava as palavras. maiúsculas. Nossa atual escrita à mão, obviamente, também tem essa origem. Como se pode ver, a letra “V” representava o som /u/, e o som /v/ não existia em latim Assim formava-se a escrita atual, composta de clássico. A letra e o som “j” não existiam, nem minúsculas e maiúsculas. No início, não havia tampouco o “w”. O alfabeto latino era portanto padronização quanto ao uso das maiúsculas, assim: A, B, C, D, E, F, G, H, I, K, L, M, N, O, P, mas com o tempo, e dependendo da língua, Q, R, S, T, V, X, Y, Z, sendo que as letras K, Y e elas passaram a ser utilizadas como iniciais de Z serviam apenas para grafar palavras de parágrafos e palavras importantes. Em muitas origem grega. A letra C representava sempre o línguas, todos os substantivos, próprios ou som /k/: Ave Caesar era pronunciado “áue comuns, se iniciavam com maiúscula, mas hoje cáissar”. Não é à toa que “imperador” em apenas o alemão conserva essa excentricidade. alemão até hoje é “Kaiser” - as tribos A invenção da vírgula, do ponto final, de germânicas ouviram o termo há 2.000 anos e exclamação e interrogação data do final da mantiveram sua pronúncia, enquanto nas Idade Antiga, mas somente na Idade Média, línguas latinas a palavra evoluiu para “César” especialmente em seu final, se padronizou seu em português, “Cesare” /tchézare/ em italiano, uso tanto no alfabeto latino quanto no grego. etc. Mesmo uma palavra como “cerevesia” Uma curiosidade: no grego, o ponto de (cerveja, em latim clássico) era pronunciada interrogação é igual ao nosso ponto e vírgula /kereuéssia/. Conclui-se, já que o alfabeto (;). latino fora adaptado a partir do grego exclusivamente para o latim, que cada letra No final da Idade Média, as outras línguas da mantinha sempre seu valor básico, não importa Europa passaram a ser escritas também. No em que posição. entanto, os alfabetos latino e grego não eram perfeitos para os sons de todas as línguas. Por Idade Média: as grandes línguas clássicas exemplo, o som grafado em português “ch” não morrem mas suas escritas não. existia nem em grego nem em latim, portanto não havia uma letra para ele, o que causou a O Império Romano chegou a um fim por volta necessidade de se usar “dígrafos” - de 340 d.C., e suas línguas oficiais - o grego combinações de duas letras - para esse e clássico e o latim - deixam de ser falados. outros sons específicos de cada língua. Para o Surgem o grego medieval e as línguas neo- nosso som “ch”, em inglês, usa-se o dígrafo latinas (português, castelhano, catalão, francês, “sh”; em alemão, o trígrafo “sch”; em sueco, italiano, provençal, romeno, etc.), marcadas “sj”; em polonês, “sz”, e assim por diante. Nas agora pela dominação da Igreja Católica línguas dos povos ortodoxos, como os russos, Ortodoxa (grega) e Romana. As línguas neo- os búlgaros, os ucranianos, os sérvios e os latinas ainda demorariam a ser escritas, pois romenos, foi utilizado um alfabeto novo, preferia-se ainda o latim, que não era mais inventado a partir do grego, chamado “cirílico”, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    62 que foi incrementadocom letras hebraicas para Na China, a escrita, como a língua, sofreu os sons “ch”, “tch”, “ts” e ainda com letras poucas mudanças, pois sua civilização foi a inéditas (mas o romeno, língua neo-latina, única da Antigüidade a sobreviver até hoje. Mas adotou o alfabeto latino no século XIX). O seus ideogramas foram adotados pelos alfabeto grego permaneceu em uso apenas coreanos e japoneses, que, contudo, para o próprio grego. Na Geórgia e na Armênia, desenvolveram depois alfabetos silábicos para os dois primeiros países a se tornarem cristãos designar elementos gramaticais e conjugações, (cerca de 400 d.C.), foram inventados alfabetos para uso complementar aos ideogramas, já que próprios para cada língua, cujas letras tinham essas línguas têm uma estrutura formas totalmente diferentes da das greco- completamente diferente da chinesa. A escrita latinas mas funcionando no mesmo sistema. silábica coreana (hangul) é de inspiração Assim se criaram os alfabetos da Europa devanágari ou brahmi, enquanto que a moderna: o latino (em suas dezenas de japonesa (hiragana e katakana) consiste de variantes) , o cirílico (com variações regionais sílabas fixas derivadas de ideogramas também) , o grego moderno, o armênio e o simplificados. O japonês e o coreano são, georgiano. portanto, escritos de maneira logo-silábica. Com o tempo, o alfabeto latino, que era aquele A Etiópia permanece como o único país africano utilizado por mais línguas, necessitou ser negro a desenvolver uma escrita própria para acrescido de sinais especiais para melhor sua língua, o amárico, desenvolvida no século indicar a pronúncia de cada idioma, como VI e usada até hoje. Tanto a língua amárica acentos, crase, cedilhas, e vários outros, a como seu alfabeto são originados do Oriente exemplo do que já vinha acontecendo no grego Médio, mais precisamente de uma escrita do medieval e no hebraico litúrgico. Esses sinais Iêmen pré-islamico já extinta, a chamada adicionais se chamam diacrícticos. escrita sul-arábica, que não marcava as vogais. Mas os etíopes desenvolveram sinais para as Mas essa onda de mudanças não varreu vogais, o que os destaca como inventores de somente a Europa: na Ásia, as diversas escritas um alfabeto. clássicas passaram a ser usadas para as novas línguas emergentes, e para outras línguas que A invenção da imprensa e a expansão colonial jamais haviam sido escritas. européia: universalização do alfabeto latino. Na Índia, o alfabeto devanágari passou por Gutenberg inaugurou a era da imprensa, mas modificações superficiais para se escrever o só o fez porque morava na Europa. A hindi, o gujarati, o bengalês, o nepalês, o praticidade e simplicidade do alfabeto latino caxemiro e outras. O Tibete, a Tailândia, a facilitou em muito o conceito de imprensa. Na Birmânia, o Laos e o Camboja, assim como China, séculos antes do Ocidente, já houvera certas línguas do sul da Índia, adotaram tentativas de se usar tipos móveis para a escritas de inspiração brahmi, devido à impressão repetida de livros, mas o caráter influência do budismo. complexo dos milhares de ideogramas eram uma barreira intransponível para essa técnica Os árabes solidificaram sua escrita de origem funcionar. Nem mesmo os silabários dos fenício-aramaica por volta de 650 d.C., com o semitas e hindus eram muito práticos para a surgimento do islamismo. Sua escrita passou imprensa de tipos móveis. para línguas de povos convertidos como o persa - que já estava abandonando a escrita Aliada ao Renascimento, a imprensa contribuiu cuneifome mesmo- e o turco, que, contudo, para o expansionismo colonial europeu que iria veio a adotar a escrita latina em 1923. O levar o alfabeto latino aos confins inexplorados egípcio morreu definitivamente como língua da Terra. Muitos povos que não tinham falada com a conquista árabe no século VII, qualquer escrita - como era o caso da maioria mas então já se desenvolvera no Egito uma dos africanos - adotaram o alfabeto ocidental, escrita alfabética de inspiração grega sem contar os que trocaram seus alfabetos de denominada alfabeto cóptico - preservada até então pelo latino, como muitos povos que já hoje pela Igreja Cóptica. haviam tomado emprestado um alfabeto Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    63 estrangeiro. Foi assimcom os malaios e os Os nossos algarismos atuais são, portanto, os indonésios, que escreviam com o alfabeto últimos vestígios de escrita logográfica- na árabe, e os vietnamitas, que usavam verdade, poderiam ser chamados de ideogramas chineses. ideogramas, já que representam o conceito de número e não apenas palavras, servindo para Apesar de que, com a revolução russa, o qualquer língua. alfabeto cirílico passasse a ser utilizado por muitas línguas de regiões sob influência A relação entre línguas e escritas: erros soviética (cazaque, quirguiz, turcomeno, comuns. uzbeco, mongol), foi o alfabeto latino que se estabeleceu como alfabeto universal, sendo Intimamente ligada à língua, a escrita, contudo, ensinado hoje em todas as escolas de todos os em sua evolução, não pode ser tomada como países, ao lado da escrita local. sinônimo do idioma que a utiliza. Se nós Exemplos de escritas não européias a usarem o vemos, por exemplo, ‫ى‬ ً‫ى‬ ُ ْ escrito alfabeto latino (na ordem: zulu, suaíli, turco e em algum lugar, dizemos “olha lá aquilo escrito malaio12[12]): em árabe”. Mas na verdade, a menos que conheçamos a língua árabe e saibamos lê-la, Númerais: além da língua. não podemos afirmar ser aquilo árabe. Só temos certeza de que se trata de letras árabes. Não somente de letras, logogramas e silabários O persa, por exemplo, que é uma língua tão se faz a escrita humana. Desde os primórdios, diferente do árabe quanto o português, é centenas de outros símbolos vêm sido usadas escrito com o mesmo alfabeto consonantal. para se registrar o conhecimento humano. As Saiba, portanto, distinguir entre escrita e quantidades, por exemplo, desde cedo eram língua. O exemplo arábico acima, por exemplo, representadas não pelas palavras que as não está escrito em nenhuma língua, é apenas designavam na língua falada, mas por símbolos um amontoado de letras. especiais. Nada de mais para as escritas logográficas, em que tudo tinha um símbolo O mesmo vale para a evolução da escrita. Na especial. Mas nas línguas escritas escola, nada nos é ensinado sobre a evolução alfabeticamente, as quantidades e cálculos das línguas, e pouco se fala sobre a escrita: permaneceram a ser caracterizadas por surgiu no Oriente Médio, passou aos gregos e simbolos especiais, geralmente uma letra do daí aos romanos. Até aí nada de errado, mas alfabeto. Os numerais romanos, exemplos essa simplificação acaba por nos levar a crer desse sistema, com sua notória precariedade - que as línguas seguiram o mesmo curso que as quem diria - são utilizados por nós até hoje. Os escritas. Nada poderia estar mais longe da romanos derivaram seu sistema dos gregos, verdade. Os povos do antigo Oriente Médio que o adaptaram dos fenícios e judeus. Mas se eram todos semitas (na verdade o nome não era tão difícil expressar quantidades científico é camito-semítico), à exceção dos simples com esse sistema alfabético de persas e sumérios. Os persas, hindus e numeração, calcular somas, divisões e europeus eram (e são) indo-europeus. A escrita multiplicações era uma tortura, um desafio para nasceu, portanto, com um povo que não era os gênios. Imagine dividir MCCVIII por nem semita nem indo-europeu: os sumérios, MMMCCXVIII... Muito mais fácil dividir 1208 por que, até onde se saiba, não pertencem a 3218, não? Pois é, a diferença entre esses dois nenhum grupo maior. sistemas é nada. Isso mesmo, nada. Zero. O zero, a noção abstrata de vazio, foi um Mas o que significa “povo semita” e “povo indo- desenvolvimento fundamental para o europeu”? Na verdade, essas denominações pensamento humano. No ocidente, esse não se aplicam a raças, e sim às línguas que sistema é tradicionalmente denominado cada povo fala. Nós, brasileiros, somos “indo- “arábico”. É verdade que ele foi introduzido na europeus”, pois falamos português. Os judeus Europa pelos árabes na Idade Média (cerca de são considerados “semitas”, pois originalmente 910), mas estes apenas o conheceram dos falavam hebraico. Mas qual a importância? indianos, seus verdadeiros inventores. Bem, para a história da escrita basta saber que a estrutura da língua influencia na maneira com Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    64 que elas sãoescritas, como se pôde ler no logograma sem relação com a pronúncia, pois capítulo sobre fenícios, gregos e hindus. em chinês “lua” é “yue” e em japonês “tsuki”. Os indo-europeus são, hoje, os europeus Conclusão: razões e conseqüências. (exceções: finlandeses, húngaros, estonianos, lapões e bascos), os persas (ou iranianos), os Depois de se ler tantos fatos sobre essa curdos, os indianos (excetos alguns do sul), invenção fundamental da humanidade, pode-se paquistaneses, afegãos e bengaleses. perguntar qual a importância de se conhecer a Pressupõe-se que as línguas faladas por esses história da escrita. Bem, para começo de povos tenha vindo a partir de uma tribo que há conversa, a invenção da escrita equivale à uns 6.500 anos começou a se espalhar do sul invenção da civilização. É difícil precisar qual da atual Rússia levando consigo sua língua até proporcionou qual. Por onde quer que tenha a Europa e Ásia, onde começaram a se cindir passado, a escrita mudou para sempre os em diferentes tribos e dialetos à medida em povos e a maneira como levavam sua vida. que se distanciavam uns dos outros e encontravam outros povos no caminho. Há No início, a escrita possuía um aspecto religioso 3.800 anos, já haviam se formado os principais e político: era exclusiva das classes troncos lingüísticos derivados do antigo indo- dominantes, para que fossem os detentores do europeu: Na Itália, o itálico; Na Grécia, o conhecimento e do poder. Além disso, as grego; na Europa Oriental, o eslavo; no norte escritas antigas eram complexas pois sua da Europa, o germânico; na Pérsia, o irânico; finalidade não era prática, e sim ritualística, na Europa Ocidental, o celta; no norte da Índia, religiosa. Escrevia-se o conhecimento como um o ariano e, no Cáucaso, o armênio. Do itálico, auxílio às práticas orais e aos rituais, e para depois se desenvolveram o latim e ensinar as tradições às novas gerações. Eles descendentes; do eslavo, o russo, polonês, deixavam de simplificar a escrita não por servo-croata, tcheco, búlgaro e ucraniano; do incapacidade, mas sim para evitar que o germânico, o alemão, o holandês, o inglês e as conhecimento se transferisse da memória para línguas escandinavas (exceto finlandês); do o papel, papiro ou pedra. Como diziam os irânico, o persa antigo e moderno e o curdo; e, antigos hindus, “todo conhecimento em livros é do céltico, o gaulês antigo, e os modernos inútil e perdido como dinheiro emprestado”. A irlandês, escocês e galês. escrita, portanto, nasceu com a finalidade de manter as estruturas sociais e não a de alterá- Portanto é outro erro assumir que todas as las. línguas modernas derivam do latim. O alemão, o russo, o inglês e o polonês na verdade são À medida que o mundo se tornava mais sobrinhas do latim, vindas de suas irmãs complexo e surgiam rotas de comércio e antigas. O latim, por sua vez, é irmão do grego, impérios vastos, tornou-se necessário pois ambos derivam do antigo indo-europeu. desenvolver uma escrita prática. Os fenícios, pioneiros em finanças internacionais, é que Os primeiros indo-europeus a aprenderam a deram o golpe definitivo no elitismo da escrita: escrita o fizeram através dos semitas, como os com apenas vinte e poucas letras, podiam pôr hindus (arianos) e gregos. Mas suas línguas todo o conhecimento humano à disposição de não derivam das línguas semíticas - de fato, quem quisesse e pudesse. Os gregos apenas diferem tanto delas que tiveram que inventar deram um toque de racionalidade no alfabeto as letras para as vogais. consonantal fenício, adicionando vogais à escrita e dando-lhe um aspecto linear, quase No caso do Extremo Oriente, também deve-se como uma linha de montagem, sem o qual a estar avisado que as línguas de lá diferem mais grande filosofia grega talvez não se entre si do que os da Europa e Oriente Médio. desenvolvesse. Escreve Marshall McLuhan, em Para efeito prático, pressuponha apenas que seu “Understanding Media” (“Os meios de todas as línguas do Extremo Oriente são 100% comunicação como extensões do homem”, cap. diferentes umas das outras. Mas então como 9): tanto os japoneses quanto os chineses escrevem “y”” para “lua”? É que se trata de um “O mito grego sobre o alfabeto era que Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    65 Cadmus, o reimítico que teria introduzido as alfabeto fonético. A eletricidade e a informática letras fonéticas na Grécia, semeou os dentes de nos dão novos meios de conhecer a realidade e um dragão, e deles brotaram homens armados. de armazenar nossos pensamentos além da Como qualquer outro mito, este encapsula um escrita. Logotipos, ícones, gráficos, filmes, processo prolongado em um ‘insight’ vídeos, jingles, músicas ameaçam tirar (se é instantâneo. O alfabeto significava poder, que já não tiraram) o monopólio do alfabeto autoridade e controle de estruturas militares a como meio de registrar a cultura. Na China e no distância. Quando combinado com papiro, o Japão, que nunca saíram da cultura visual- alfabeto significou o fim das burocracias intuitiva por causa de seus logogramas, a nova paralíticas dos templos e do monopólio religioso cultura visual-eletrônica é absorvida com mais do conhecimento e do poder. Diferentemente naturalidade do que na Europa alfabética, e da escrita pré-alfabética, que com seus não é à toa que esses povos e outros do inúmeros signos era difícil de dominar, o Oriente são vistos como os que dominarão o alfabeto podia ser aprendido em algumas futuro. horas. A aquisição do conhecimento tão extenso e da habilidade tão complexa que a Mas, no planeta Terra, o alfabeto vocálico- escrita pré-alfabética representava, quando consonantal ainda parece dominar, pois é com aplicada a materiais tão pouco práticos como ele que se escreve a língua internacional: o tijolos e pedra, assegurava à casta dos escribas inglês. Contudo, uma análise um pouco mais o monopólio do poder religioso. O alfabeto mais profunda mostra que o inglês concilia o visual simples e o papiro barato, leve e transportável, com o fonético, o linear com o caótico, e o postos juntos, efetivaram a transferência do lógico com o ilógico. Por exemplo, o grupo de poder dos religiosos aos militares. Tudo isso letras “ough” é pronunciado de maneira implicava no mito de Cadmus, incluindo a diferente nas palavras tough /tãf/, thought queda das cidades-estado, o surgimento de /thót/, though /dhôu/ e through /thru/. Não há impérios e de burocracias militares.” consistência na relação letra-fonema na ortografia inglesa. Você simplesmente, em O alfabeto vocálico-consonantal é uma muitos casos, tem que olhar para a palavra e se devastadora arma cultural, sacrificando mundos lembrar de sua pronúncia. O inglês é quase de significado logográficos em nome da uma língua de escrita logo-silábica, pois praticidade. A China, mantendo a escrita algumas palavras têm pronúncia arbitrária e logográfica através dos séculos, preservou sua outras, lógica. Algumas palavras têm a mesma estrutura social até o século XIX, quando pronúncia, mas significando coisas diferentes e classes cultas conheceram a escrita alfabética portanto tendo escritas diferentes (cf. chinês, estudando no ocidente e causando ultimamente sumeriano): “write” (escrever), “right” (direito) a queda do império chinês e depois a revolução e “rite” (rito), todos pronunciados /ráit/. comunista de 1949. Na Índia, que, com suas escritas silábicas, era mais dinâmica que a É claro que a comparação da escrita inglesa China, o alfabeto vocálico-consonantal que com as logo-silábicas ou silábicas é exagerada, chegara com os europeus causou menos mas serve para mostrar que a nova cultura mudanças, mas alterou a cultura daquele país visual do mundo de hoje aceita o sucesso do milenar para sempre - hoje a Índia é a maior inglês, em parte, por causa da visualidade e democracia do mundo. arbitrariedade de sua ortografia, ativando, como logotipos e logogramas, nossos sensos Individualidade, continuidade linear e visuais mais do que qualquer outra língua de uniformidade de códigos são a marca do escrita vocálico-consonantal. Alia, pois, a homem civilizado, e sua origem está aqui, bem linearidade industrial do alfabeto à intuitividade nestas letras que você está lendo agora. da cultura visual - que língua mais perfeita para o mundo de hoje! Mas agora o mundo é outro. No século vinte, a cultura visual está ameaçando a cultura do Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    66 Vieira Paulo Vieira Pinheiro (Poesias) (Poesias) JÁ XADREZ No futuro bem próximo me vejo leve, Minha alegria não se dá por solucionar assim como quem passou, problemas. assim como quem se foi. Hoje estou de malas prontas. Livre de laços. Vou para o paraíso dos sonhos. Dentro em breve estarei encontrando o ar que TANTO TEMPO QUE NEM SEI quero. Daqui há pouquinho pisarei miudinho em alvas Parei pela dor. sombras. Constato que poderia, sim, mas não deu. Reverei minhas matas e sentirei o seu cheiro. Juntando tudo que lembro fui, mas não fiz. Odor tão intenso que me vem à boca. Voltando tudo sei que poderia ter sido mais, Um amor que na serra me espera abraçarei. mas não fui. Contaremos inúmeras estrelas, sem medos. Nesse rascunho escrevo o que quero Curiangos valentes se lançarão em vôos e em pouca vez isto fiz. abruptos. Um sucesso é tudo. Cintilantes estrelas por testemunhas. Que horas são? Para quê mais? Os nossos exageros que brotaram e o peso do MOMENTOS DE INSENSATEZ sei não nos abateu. O som do coração, em êxtase sóbrio, nos Bom dia minha querida! convida a aquietar. Como você dormiu? bem? O dia se faz largo. UNIVERSO DAS PALAVRAS O sol se enfeitou e todos os pássaros que Exercício 21042008-1 cantam cantam para você. Antes que o café esfrie venha ver uma coisa. Para ir aprendi a falar, Sim... deixa pra depois. para ficar aprendi a escrever. Dormes como um bichinho. Bem idas e benvindas, estadas imperfeitas. VENETA Degraus de palavras ascendem em mim. Quando te comecei pensava no que darias. O primeiro me diz quem sou. Não sabia ao certo qual rumo tomarias. O segundo me diz onde estou. Rubra tinta multicores sentidos desfia e O terceiro me diz com quem, assim sendo das veias minhas tinto destino és. certamente com alguém ou ninguém. Do novelo arranco um fio que cria Outros, porem, há. Aponto ao longo do vão contido da página Aquele de raro barro. Digo a que vim e a que viria Uns de pedra firme. Se não me barro a passagem de meu dia Aqueloutro etéreo tropeço. Pensei em cantar uns versos antigos Em pouca página, Daqueles que a memória se esforça em vão muitas palavras. Dizer alegres cantares que contam Uma poesia que corrói, Histórias e glórias da alma em canção uma construção de idéias. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    67 Construir degraus, CINTILAR por mais caros que sejam, Estudo 080608-1 encerra penares benfazejos. Traços de alegrias que chegam. Noite sem lua clara de estrelas Faz viajar em mil pensamentos. Fazer em um segundo Calo agora a te contemplar um pensar tão fecundo... Esperança de alma noturna momento que não voltará... instante único em vida tanta. A beleza certa e tamanha Cresce a cada vislumbre ao céu Um brusco mudar. Sou eu quem a admiro silente O intenso me ensinou a calar e Ou ela quem se expõe a meu olhar calando tive tempo de aprender. Sofro essa sede tanta. Cintilam olhos feito estrelas Minha boca seca seca imagens tantas. As olho com elas a me fitar Calar se tornou o normal. Visões de um espaço imenso Escrever se tornou letal. Sentenças de vida e de morte em grupos de Contido num instante tão breve letras Que encanta em nosso descobrir fazem de mim o deus que sou. Nos procuramos e nos achamos Tontas vidas, vidas... vidas? Embrulho de gentes. O preço de minha Liberdade. Rejeitos nascentes. (um tipo de oração - lamentação) Fluxos escorrem nos meio-fios de aço. Pai, Deus meu, te suplico a tua Proteção A chuva corre e o lixo escorre... Prometo agir em harmonia com Teus Todos os meus sentidos fendidos, torcidos, Ensinamentos meio vivos, meio mortos. Portanto ensinai-me Onde estou agora? Onde estarei nessa hora? Se tenho de vender a minha liberdade que seja De certo não nasci para só vir ver, tenho ânsia para Ti de ser. Tentei vender aos homens as minhas virtudes Preso neste mundo de quatro paredes, com (o que sabia) céus sem sóis, Sobrou-me as maldades e é o preço que posso aspiro mais escrever do que ser lido. pagar Sei que não é muito, mas é o que tenho ESPERANÇAS Sacrifiquei minhas virtudes aos homens Exercício 21042008-3 Hoje, para o Teu altar, sobraram meus vícios Sacrifico-os a Ti, minhas últimas moedas Há braços Tomaram minha casa e me deram sua posse Há maços Invadiram minha mente com idéias Há traços Que não são minhas e que não são Tuas De amor Pagam salários para difamar Teu Nome De mora Tenho que mentir, sonegar, diminuir De hora Dizem que isso é negociar com a vida Corola de honor. Acho que é negociar com o Inimigo Faz-se passar por normal tudo que não é Que trazes Aqui, a Tua Virtude não pode caber Mais ases Chamam de humanidade algo que não parece Mais ares ser De cor Um humano aqui vive da mentira e da ilusão De fora Paguei para ser feliz e Agora Quem não pode pagar teve de se sentir mal Seja o que for Então, Consola-me com Tua Luz Olhai para toda criação Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    68 Esmaga a humanidadea Tua Casa, a Tua Terra Os arrepios do frio se cura com o calor Choram as águas, árvores e Teus filhos O ardor intenso do fogo no luar se esfria Parece ser isso normal quando distante Assim os humanos e suas naturezas vazias Acho que incomoda um pouco em nosso quintal Reagindo à falta de inteligência natural Crucificamos Teu Filho em cada árvore que Se aquece e se esfria fugindo de si sempre matamos Assim são as naturezas de humanos vazios Corrompemos as águas de Teu Batismo No viver perdemos os amigos aos pedaços Apodrecemos o Fogo de Teu Santo Espírito Aparamos tanto até nos ver solitários Quem sou? Então quem sou? Dificilmente entendemos nossas vidas Te compro a Proteção com meus vícios Porque com a dos outros assim se faria Para reconquistar Tua Liberdade em mim Assim na convivência reaprendemos a vida Nos desenganos melhor apuramos o rumo AMORES À LETRA D’ALMA Assim uns crescem buscando o progresso Enquanto outros não, assumem quem são Um só minuto em compasso Amar ainda é o melhor remédio a terra viva move a terra; Só isso faz mover o inemovível ela respira um ar de amor, A expressão no poema, poesia, cria e recria folha, fruto e flor. Trova, conto, novela e suas letras A luz guarida dos fortes Creio respiro e me movo O vício covil dos fracos num compasso de abraço O amor como expressão e assim amo a flora-cor... Vem aprender falar a quem minha terra viva em flor. O poeta que escreve para si Nada escreve para os outros Num papel fino e ferino, letra levou mensagem, A RÉGUA QUE MEDE contou a outros meninos meu canto de luz selvagem: A régua que uso para medir minha liberdade é o que expresso - “Inda n’era o sol quando te vi Se não me prendes, se não me prendem, sou prostrada a venerar a lua, eu quem o faço mensageira de quem ama, De todas as torturas a maior é o silêncio passageira luz que inflama. forçado Por quem? Não importa, não. C’oa liberdade de quem vai, Medos de que não me entendam? vem e se aninha no coração, Talvez sejam medos que não me deixam dizer ama até ser incompreendida, Ouço diversas vozes que me dizem que cale ou ser amada ou esquecida”. Não te exponhas, não me envergonhes Dizer tudo que vem a cabeça, nem sempre Língua que te quero amante... Acho que não é assim que se diz expresso tua língua doravante. Porém calar e não dizer é pior Cantar a velha canção ADVERSO Repetir os velhos refrões É velar a criação em leito de morte Nas noites escuras, sem estrelas ou lua O novo, queremos o novo, aquilo que ainda não Uso meu entendimento para me orientar veio Nas horas meiodiais onde o sol esfola Não importa a tua idade, diga Uso o meu entendimento prá me orientar Diga o mais torto, mas diga Olho os homens e suas vidas em saltos Conte tuas histórias, as nossas histórias Fogem da vida, de nada, de tudo e de si ... mas conte! Acorrem às gotas de lírios, engargalam Se queremos a nossa liberdade devemos usá-la Fogem pra dentro das garrafas vazias Seu uso a faz caber por fora A vida não é um jogo a jogar pros sábios Seu uso a faz caber por dentro Fugir da sombra ao sol e do sol à sombra Expresse e aperfeiçoe isso Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    69 CHUVISCO Não que procure isto, mas acontece... O feio não gosto, o grosseiro é pior. Chuva miúda Falo sim das flores, mas olho atrás das cores. Enxada corta o mato Me encantam as águas, dos risos às máguas, E passo a passo vira raízes Suas chuvas nestas terras que rasga coração, Trabalho feliz de pronto visível E cabem assim os meus olhos em tuas mãos. Pequenos alados saltam ao meu lado Traço dos altos morros vidas, sopros, anjos. Ansiosos do alimento que brota dos torrões Traço nas alvuras da tela de papel figuras do Passo a passo chão, Corto o terreno Figuras do céu e cavalgo Ventania Calma enxada corta Corcel do dia-a-dia que lambe as estrelas. Cai contínuo o sereno Na noite que viajo buscando a quadra, Delicioso verme no bico Quadra perfeita que não vejo, estende o verso Leva pardoca para o ninho Cada tom que de matiz surpreende vero anis. Milho virá Cada pluma que me deste me fez aprendiz. Tulha encherei E da pena, que pena, todo me emplumo Ano passará ligeiro Das dores de amores e me faço cantor. Guardarei dos companheiros Exclamo ao azul os dias felizes, De lida da terra o colher antes As noites de prosa, do verso e da dor! Do trabalho deste seu companheiro E provoco, e me rio, e te conto Segredo feliz que resposta: Bem se vê Nada que faz pensar é bonito, Nos olhos a ânsia Nada que faz pensar é bonito. Nossos pequeninos Aguardando seu prato TEMPOS DE INOCÊNCIA Distante e sisudo se espanta (um canto de esperança de quem espera Aquel’outro que canta: bem-te-vi (por procurador da juventude silente, ainda) DE PÉ ME DEITO. Amanhã é o dia que não veio Crescemos juntos e separados Eu te digo quem sou e o que fazes de mim? Vimos as mesmas coisas diferentes Cantas tuas rimas, ou te afastas ou te Amamos as mesmas coisas e não aproximas. Criamos amizades nem sempre Fales sobre mim. Ouvimos as mesmas canções Eu te digo quem sou e o que fazes de mim? Minha amiga morreu Me cantas a metade, me encantas a metade Será quem a matou? Sou eu quem não fui ou você quem não viu? Ou foi alguém quem não sei Eu te mostro quem sou e o que fazes de mim? Ou fui eu quem não fui Me cortas, me deitas, me usas, me incendeias Que será de mim? Me queimas, me queimas, me queimas. Minha inocência? Me impactas solenemente com teus bois. Minha liberdade? Me plantas com tuas estacas, teus tratores. Quem cuidará de mim? Me dizes que sou... terra, enfim. De minha juventude perdida? E nem mais reconheço em mim a minha própria Aquela que me arde o peito? natureza! Os grandes homens se esqueceram de nós Me dizes quem sou? Perdem os nossos tempos em conversas Pois não sei mais de mim. Tão longas como suas velhices Mais digo que de ti sei mais que queria... Tão curtas quanto suas esperanças De ti sei mais que queria. Enquanto eles governam para os números Quem respira somos nós DESABAFO Quem vota somos nós E isso podemos demonstrar. Nada que escrevo pode ser bonito. Talvez diferente, reverso, contrário. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    70 Clarice Lispector (Ruído de Passos) Passos) Do Livro: A VIA CRUCIS DO CORPO Tinha oitenta e um anos de idade. Chamava-se dona Cândida Raposo. Essa senhora tinha a Apresentação: Adriana Falcão vertigem de viver. A vertigem se acentuava quando ia passar dias numa fazenda: a altitude, "Sabia, gosto de você chegar assim, arrancando o verde das árvores, a chuva, tudo isso a páginas dentro de mim desde o primeiro dia." piorava. Quando ouvia Liszt se arrepiava toda. Chico Buarque Fora linda na juventude. E tinha vertigem GOSTO QUANDO CLARICE chega assim quando cheirava profundamente uma rosa. e me dá uma rasteira. Pois foi com dona Cândida Raposo que o desejo Aconteceu com "Ruído de passos". de prazer não passava. Comecei a me apaixonar por dona Cândida Raposo nas primeiras linhas do conto. Teve enfim a grande coragem de ir a um Quem não se apaixonaria por uma ginecologista. E perguntou-lhe envergonhada, velhinha de 8l anos que tem vertigem de viver? de cabeça baixa: "A altitude", "o verde das árvores", "a chuva", "arrepios com Liszt", "perfume de - Quando é que passa? rosa", e vamos compreendendo a vertigem de - Passa o quê, minha senhora? dona Cândida. Até que ela nos surpreende, - A coisa. quando vai ao consultório médico se queixar - Que coisa? que "ainda tem a coisa". Além de "a coisa", - A coisa, repetiu. O desejo de prazer, disse dona Cândida também se refere ao seu desejo enfim. de prazer como "o inferno". O diagnóstico do - Minha senhora, lamento lhe dizer que não médico é preciso: "é a vida." passa nunca. Quando achamos que era isso, que idéia corajosa, um conto sobre uma velhinha Olhou-o espantada. aristocrática que ainda sente volúpia sexual, e decide, sem mais alternativas, resolver seu — Mas eu tenho oitenta e um anos de idade! problema, sozinha, claro que Clarice vai além. - Não importa, minha senhora. É até morrer. A filha que espera no carro, lá fora, o - Mas isso é o inferno! filho morto na guerra e "a intolerável dor no - É a vida, senhora Raposo. coração de sobreviver a um ser adorado", e lá vou eu me apaixonando cada vez mais por essa A vida era isso, então? Essa falta de vergonha? dona Cândida, gente, bicho, ser vivo. E não é que ela resolve se satisfazer sozinha, todas as - E o que é que eu faço? Ninguém me quer noites, "sempre triste", "esperando a benção da mais... morte"? O ruído de passos de seu marido, O médico olhou-a com piedade. Antenor Raposo, me assusta como um filme de suspense. - Não há remédio, minha senhora. E eu sinto a vida como um filme de - E se eu pagasse? suspense, e adoro e odeio minhas vertigens. - Não ia adiantar de nada. A senhora tem que se lembrar que tem oitenta e um anos de RUÍDO DE PASSOS idade. - E... e se eu me arranjasse sozinha? O senhor entende o que eu quero dizer? Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    71 — É, disseo médico. Pode ser um remédio. rica", peça em três atos, cujos originais foram perdidos. Seu pai resolve adotar a Então saiu do consultório. A filha esperava-a nacionalidade brasileira. embaixo, de carro. Um filho Cândida Raposo 1931 - Inscreve-se para o exame de admissão perdera na guerra, era um pracinha. Tinha essa no Ginásio Pernambucano. Já escrevia suas intolerável dor no coração: a de sobreviver a historinhas, todas recusadas pelo Diário de um ser adorado. Pernambuco, que àquela época dedicava uma página às composições infantis. Isso se devia Nessa mesma noite deu um jeito e solitária ao fato de que, ao contrário das outras satisfez-se. Mudos fogos de artifícios. Depois crianças, as histórias de Clarice não tinham chorou. Tinha vergonha. Daí em diante usaria o enredo e fatos — apenas sensações. Convive mesmo processo. Sempre triste. É a vida, com inúmeros primos e primas. senhora Raposo, é a vida. Até a bênção da morte. 1932 - É aprovada no exame de admissão e, junto com sua irmã Tania e sua prima Bertha, A morte. ingressa no tradicional Ginásio Pernambucano, fundado em 1825. Passa a visitar a livraria do Pareceu-lhe ouvir ruído de passos. Os passos pai de uma amiga. Lê "Reinações de Narizinho", de seu marido Antenor Raposo. de Monteiro Lobato, que pegou emprestado, já que não podia comprá-lo. 1935 - Viaja para o Rio, em companhia de sua irmã Tania e de seu pai. No colégio Sílvio Leite, cursa a quarta série ginasial. Lê romances adocicados, próprios para sua idade. Clarice Lispector 1936 - Termina o curso ginasial. Inicia-se na leitura de livros de autores nacionais e 1920 - Clarice Lispector nasce em estrangeiros mais conhecidos, alugados em Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de uma biblioteca de seu bairro. Conhece os dezembro, tendo recebido o nome de Haia trabalhos de Rachel de Queiroz, Machado de Lispector, terceira filha de Pinkouss e de Mania Assis, Eça de Queiroz, Graciliano Ramos, Jorge Lispector. Seu nascimento ocorre durante a Amado, Dostoiévski e Júlio Diniz. viagem de emigração da família em direção à América. 1937 - Matricula-se no curso complementar (dois últimos anos do curso secundário) visando 1922 - Chegam a Maceió em março desse ano. o ingresso na Faculdade Nacional de Direito da Por iniciativa de seu pai, à exceção de Tania — Universidade do Brasil, hoje Universidade irmã, todos mudam de nome: o pai passa a se Federal do Rio de Janeiro. chamar Pedro; Mania, Marieta; Leia — irmã, Elisa; e Haia, em Clarice. 1938 - Transfere-se para o curso complementar do colégio Andrews, na praia de 1925 - A família muda-se para Recife, Botafogo. Às voltas com dificuldades Pernambuco, onde Pedro pretende construir financeiras, dá aulas particulares de português uma nova vida. A doença de sua mãe, Marieta, e matemática. A relação professor/aluno seria que ficou paralítica, faz com que sua irmã Elisa um dos temas preferidos e recorrentes em toda se dedique a cuidar de todos e da casa. a sua obra — desde o primeiro romance: Perto 1928 - Passa a freqüentar o Grupo Escolar do Coração Selvagem. Ao mesmo tempo, João Barbalho, naquela cidade, onde aprende a aprende datilografia e faz inglês na Cultura ler. Inglesa. 1930 - Morre a mãe de Clarice no dia 21 de 1939 - Inicia seus estudos na Faculdade setembro. Nessa época, com nove anos, Nacional de Direito. Faz traduções de textos matricula-se no Collegio Hebreo-Idisch- científicos para revistas em um laboratório onde Brasileiro, onde termina o terceiro ano primário. trabalha como secretária. Trabalha, também Estuda piano, hebraico e iídiche. Uma ida ao como secretária, em um escritório de teatro a inspira e ela escreve "Pobre menina advocacia. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    72 1940 - Seuconto, Triunfo, é publicado em 25 1943 - Casa-se com o colega de faculdade de maio no semanário "Pan", de Tasso da Maury Gurgel Valente e termina o curso de Silveira. Em outubro desse ano, é publicado na Direito. Seu marido, por concurso, ingressa na revista "Vamos Ler!", editada por Raymundo carreira diplomática. Magalhães Júnior, o conto Eu e Jimmy. Esses 1944 - Muda-se para Belém do Pará (PA), trabalhos não fazem parte de nenhuma de suas acompanhando seu marido. Fica por lá apenas coletâneas. Após a morte de seu pai, no dia 26 seis meses. Seu livro recebe críticas favoráveis de agosto, a escritora — talvez motivada por de Guilherme Figueiredo, Breno Accioly, Dinah esse acontecimento — escreve diversos contos: Silveira de Queiroz, Lauro Escorel, Lúcio A fuga, História interrompida e O delírio. Esses Cardoso, Antonio Cândido e Ledo Ivo, entre contos serão publicados postumamente em A outros. Álvaro Lins publica resenha com reparos bela e a fera, de 1979. Passa a morar com a ao livro mesmo antes de sua publicação, irmã Tania, já casada, no bairro do Catete. baseado na leitura dos originais. Qualifica o Consegue um emprego de tradutora no temido livro de "experiência incompleta". Há os que Departamento de Imprensa e Propaganda - pretendem não compreender o romance, os DIP, dirigido por Lourival Fontes. Como não que procuram influências — de Virgínia Wolf e havia vaga para esse trabalho, Clarice ganha o James Joyce, quando ela nem os tinha lido — e lugar de redatora e repórter da Agência ainda os que invocam o temperamento Nacional. Inicia-se, ai, sua carreira de feminino. Nas palavras de Lauro Escorel, as jornalista. No novo emprego, convive com características do romance revelam uma Antonio Callado, Francisco de Assis Barbosa, "personalidade de romancista verdadeiramente José Condé e, também, com Lúcio Cardoso, por excepcional, pelos seus recursos técnicos e pela quem nutre durante tempos uma paixão não força da sua natureza inteligente e sensível." O correspondida: o escritor era homossexual. casal volta ao Rio e, em 13/07/44, muda-se Com seu primeiro salário, entra numa livraria e para Nápoles, em plena Segunda Guerra compra "Bliss - Felicidade", de Katherine Mundial, onde o marido da escritora vai Mansfield, com tradução de Erico Verissimo, trabalhar. Já na saída do Brasil, Clarice mostra- pois sentiu afinidade com a escritora se dividida entre a obrigação de acompanhar o neozelandesa. marido e ter de deixar a família e os amigos. 1941 - Em 19 de janeiro, publica a reportagem Quando chega à Itália, depois de um mês de "Onde se ensinará a ser feliz", no jornal "Diário viagem, escreve: "Na verdade não sei escrever do Povo", de Campinas (SP), sobra a cartas sobre viagens, na verdade nem mesmo inauguração de um lar para meninas carentes sei viajar." Termina seu segundo romance, O realizada pela primeira-dama Darcy Vargas. lustre. Recebe o prêmio Graça Aranha com Além de textos jornalísticos, continua a publicar Perto do coração selvagem, considerado o textos literários. Cursando o terceiro ano de melhor romance de 1943. Conhece Rubem direito, colabora com a revista dos estudantes Braga, então correspondente de guerra do de sua faculdade, "A Época", com os artigos jornal "Diário Carioca". Observações sobre o fundamento do direito de punir e Deve a mulher trabalhar? Passa a 1945 - Dá assistência a brasileiros feridos na freqüentar o bar "Recreio", na Cinelândia, guerra, trabalhando em hospital americano. O centro do Rio de Janeiro, ponto de encontro de pintor italiano Giorgio De Chirico pinta-lhe um autores como Lúcio Cardoso, Vinicius de retrato. Viaja pela Europa e conhece o poeta Moraes, Rachel de Queiroz, Otávio de Faria, e Giuseppe Ungaretti. O lustre é publicado no muitos mais. Brasil pela Livraria Agir Editora. 1942 - Começa a namorar com Maury Gurgel 1946 - Após o lançamento do livro, Clarice vem Valente, seu colega de faculdade. Com 22 anos ao Brasil como correio diplomático do Ministério de idade, recebe seu primeiro registro das Relações Exteriores, aqui ficando por quase profissional, como redatora do jornal "A Noite". três meses. Nessa época, apresentado por Lê Drummond, Cecília Meireles, Fernando Rubem Braga, conhece Fernando Sabino que a Pessoa e Manuel Bandeira. Realiza cursos de introduz a Otto Lara Resende, Paulo Mendes antropologia brasileira e psicologia, na Casa do Campos e, posteriormente, a Hélio Pellegrino. Estudante do Brasil. Nesse ano, escreve seu De volta à Europa, vai morar com a família em primeiro romance, Perto do coração selvagem. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    73 Berna, Suíça, paraonde seu marido havia sido 1952 - Cola grau na faculdade de direito, designado como segundo-secretário. Sua depois de muitos adiamentos. Volta a trabalhar correspondência com amigos brasileiros a em jornais, no período de maio a outubro, mantinha a par das novidades, em especial as assinando a página "Entre Mulheres", no jornal trocadas com Fernando Sabino. A troca de "Comício", sob o pseudônimo de "Tereza cartas com o escritor, quase que diariamente, Quadros". Atendeu a um pedido do amigo duraria até janeiro de 1969. A convite, passam Rubem Braga, um dos fundadores do jornal. as festas de fim de ano com Bluma e Samuel Nesse setembro, já grávida, embarca para a Wainer, em Paris. capital americana onde permanecerá por oito 1947 - Em carta às irmãs, em janeiro de 47, anos. Clarice inicia o esboço do romance A veia de Paris, Clarice expõe seu estado de no pulso, que viria a ser A Maçã no Escuro, inadaptação:"Tenho visto pessoas demais, livro publicado em 1961. falado demais, dito mentiras, tenho sido muito 1953 - Em 10 de fevereiro, nasce Paulo, seu gentil. Quem está se divertindo é uma mulher segundo filho. Ela continua a escrever A Maçã que eu detesto, uma mulher que não é a irmã no Escuro, em meio a conflitos domésticos e de vocês. É qualquer uma." Em carta a Lúcio interiores. Mãe, Clarice Lispector divide seu Cardoso, que havia lhe enviado seu livro tempo entre os filhos, A Maçã no Escuro, os "Anfiteatro", demonstra sua admiração pelas contos de Laços de Família e a literatura personagens femininas da obra. infantil. Nos Estados Unidos, Clarice conhece o 1948 - Clarice fica grávida de seu primeiro renomado escritor Erico Veríssimo e sua esposa filho. Para ela, a vida em Berna é de miséria Mafalda, dos quais torna-se grande amiga. O existencial. A Cidade Sitiada, após três anos de escritor gaúcho e sua esposa são escolhidos trabalho, fica pronto. Terminado o último para padrinhos de Paulo. Não tem sucesso seu capítulo, dá à luz. Nasce então um projeto de escrever uma crônica semanal para complemento ao método de trabalho. Ela a revista "Manchete". Tem a agradável notícia escreve com a máquina no colo, para cuidar do de que seu romance Perto do coração selvagem filho. Na crônica "Lembrança de uma fonte, de seria traduzido para o francês. uma cidade", Clarice afirma que, em Berna, sua 1954 - É lançada a primeira edição francesa de vida foi salva por causa do nascimento do filho Perto do coração selvagem, pela Editora Plon, Pedro, ocorrido em 10/09/1948, e por ter com capa de Henri Matisse, após inúmeras escrito um dos livros "menos gostados" (a reclamações da escritora sobre erros na editora Agir recusara a publicação). tradução. Em julho, com os filhos, viaja para o 1949 - Clarice volta ao Rio. Seu marido é Brasil, aqui ficando até setembro. De volta aos removido para a Secretaria de Estado, no Rio Estados Unidos, interrompe a elaboração de A de Janeiro. A cidade sitiada é publicado pela maçã no escuro e se dedica, por cinco meses, a editora "A Noite". O livro não obtém grande escrever seis contos encomendados por Simeão repercussão entre o público e a crítica. Leal. 1950 - Escrevendo contos e convivendo com 1955 - Retorna a escrever o novo romance e os amigos (Sabino, Otto, Lúcio e Paulo M. contos. Sabino, que leu os seis contos feitos Campos), vê chegar a hora de partir: seguindo sob encomenda, os acho "obras de arte". os passos de seu marido, retorna à Europa, 1956 - Termina de escrever A Maçã no Escuro onde mora por seis meses na cidade de (até então com o titulo de A veia no pulso). Torquay, Inglaterra. Sofre um aborto Érico Veríssimo e família retornam ao Brasil, espontâneo em Londres. É atendida pelo vice- não sem antes aceitarem serem os padrinhos cônsul na capital inglesa, João Cabral de Melo de Pedro e Paulo. Entre os escritores, inicia-se Neto. uma vasta correspondência. A escritora e filhos 1951 - A escritora retorna ao Rio de Janeiro, vêm passar as férias no Brasil e Clarice em março. Publica uma seleta com seis contos aproveita para tentar a publicação de seu novo na coleção "Cadernos de cultura", editada pelo romance e os novos contos. Apesar de todo o Ministério da Educação e Saúde. Falece sua empenho de Fernando Sabino e Rubem Braga, grande amiga Bluma, ex-esposa de Samuel os livros não são editados. A escritora dá sinais Wainer. de sua indisposição para com o tipo de vida que leva. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    74 1957 - Rompeunilateralmente o contrato com mais tarde tradutor para o inglês de A maçã no Simeão Leal e autoriza Sabino e Braga a escuro. A paixão segundo G. H. é escrito em encaminharem seus contos — nessa altura em poucos meses, sendo entregue à Editora do número de quinze — para serem publicados no Autor, de Sabino e Braga, para publicação. "Suplemento Cultural" do jornal "O Estado de Compra um apartamento em construção no São Paulo". Seu casamento vive momentos de bairro do Leme. tensão. 1964 - Publica o livro de contos A legião 1958 - Conhece e se torna amiga da pintora estrangeira e o romance A Paixão Segundo G. Maria Bonomi. É convidada a colaborar com a H., ambos pela Editora do Autor. Em dezembro, revista "Senhor", prevista para ser lançada no o juiz profere a sentença que poria fim ao início do ano seguinte. Erico Verissimo escreve processo de separação de Clarice e Maury. informando estar autorizado a editar seu 1965 - Em maio, muda-se para o apartamento romance e, também, seus contos pela Editora comprados em 1963. Sua obra passa a ser vista Globo, de Porto Alegre. 1.000 exemplares — com outros olhos — pela crítica e pelo público dos mais de 1.700 remanescentes — de "Près leitor — após A paixão segundo G. H. Resultado du coeur sauvage" são incinerados, por falta de de uma seleta de trechos de seus livros, espaço de armazenamento. O casamento de adaptados por Fauzi Arap, é encenada no Clarice dá sinais de seu final. Teatro Maison de France o espetáculo Perto do 1959 - Separa-se do marido e, em julho, coração selvagem, com José Wilker, Glauce regressa ao Brasil com seus filhos. Seu livro Rocha e outros. Dedica-se à educação dos continua inédito. A escritora resolve comprar o filhos e com a saúde de Pedro, que apresenta apartamento onde está residindo, no bairro do um quadro de esquizofrenia, exigindo cuidados Leme, e, para isso, busca aumentar seus especiais. Apesar de traduzida para diversos ganhos. Sob o pseudônimo de "Helen Palmer", idiomas e da republicação de diversos livros, a inicia, em agosto, uma coluna no jornal situação financeira de Clarice é muito difícil. "Correio da Manhã", intitulada "Correio 1966 - Na madrugada de 14 de setembro a feminino — Feira de utilidades". escritora dorme com um cigarro aceso , 1960 - Publica, finalmente, Laços de Família, provocando um incêndio. Seu quarto ficou seu primeiro livro de contos, pela editora totalmente destruído. Com inúmeras Francisco Alves. Começa a assinar a coluna "Só queimaduras pelo corpo, passou três dias sob o para Mulheres", como "ghost-writer" da atriz risco de morte — e dois meses hospitalizada. Ilka Soares, no "Diário da Noite", a convite do Quase tem sua mão direita — a mais afetada — jornalista Alberto Dines. Assina, com a amputada pelos médicos. O acidente mudaria Francisco Alves, novo contrato para a em definitivo a vida de Clarice. publicação de A maçã no escuro. Torna-se 1967 - As inúmeras e profundas cicatrizes amiga da escritora Nélida Piñon. fazem com que a escritora caia em depressão, 1961 - Publica o romance A maçã no escuro. apesar de todo o apoio recebido de seus Recebe o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira amigos. Não foi só um ano de acontecimentos do Livro, por Laços de família ruins. Começa a publicar em agosto — a 1962 - Passa a assinar a coluna "Children's convite de Dines — crônicas no "Jornal do Corner", da seção "Sr. & Cia.", onde publica Brasil", trabalho que mantém por seis anos. contos e crônicas. Visita, com os filhos, seu ex- Lança o livro infantil O mistério do coelho marido que se encontra na Polônia. Recebe o pensante, pela José Álvaro Editor. Em prêmio Carmen Dolores Barbosa (oferecido pela dezembro, passa a integrar o Conselho senhora paulistana de mesmo nome), por A Consultivo do Instituto Nacional do Livro. maçã no escuro, considerado o melhor livro do 1968 - Em maio, o livro O mistério do coelho ano. pensante é agraciado com a "Ordem do 1963 - A convite, profere no XI Congresso Calunga", concedido pela Campanha Nacional Bienal do Instituto Internacional de Literatura da Criança. Entrevista personalidades para a Ibero-Americana, realizado em Austin - Texas, revista "Manchete" na seção "Diálogos possíveis conferência sobre o tema "Literatura de com Clarice Lispector". Participa da vanguarda no Brasil. Conhece Gregory Rabassa, manifestação contra a ditadura militar, em Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    75 junho, chamada "Passeatados 100 mil". em outras coletâneas. Alberto Dines, em carta Morrem seus amigos e escritores Lúcio Cardoso à escritora, diz sobre Água viva: "[...] É menos e Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). É um livro-carta e, muito mais, um livro música. nomeada assistente de administração do Acho que você escreveu uma sinfonia". Viaja à Estado. Profere palestras na Universidade Europa com a amiga Olga Borelli. Clarice deixa Federal de Minas Gerais e na Livraria do de colaborar com o "Jornal do Brasil", face à Estudante, em Belo Horizonte. Publica A mulher demissão de Alberto Dines, no mês de que matou os peixes, outro livro infantil, dezembro. ilustrado por Carlos Scliar. 1974 - Para manter seu nível de renda, 1969 - Publica seu "hino ao amor": Uma aumenta sua atividade como tradutora. Verte, aprendizagem ou O livro dos prazeres, pela entre outros, "O retrato de Dorian Gray", de Editora Sabiá. O romance ganha o prêmio Oscar Wilde, adaptado para o público juvenil, "Golfinho de Ouro", do Museu da Imagem e do pela Ediouro. Publica, pela José Olympio Som. Viaja à Bahia onde entrevista para a Editora, outro livro infantil, A vida íntima de "Manchete" o escritor Jorge Amado e os artistas Laura e dois livros de contos, pela Artenova: A Mário Cravo e Genaro. Em 14/08 é aposentada via crucis do corpo e Onde estivestes de noite. pelo INPS - Instituto Nacional de Previdência Uma curiosidade: a primeira edição de Onde Social. Seu filho Paulo, mora nos Estados estivestes de noite foi recolhida porque foi Unidos desde janeiro, num programa de colocado, erroneamente, um ponto de intercâmbio cultural. Seu irmão Pedro, em interrogação no título. Seu cão, Ulisses, lhe tratamento psiquiátrico, esteve internado por morde o rosto, fazendo com que se submeta a um mês, em junho. cirurgia plástica reparadora. Lê, em Brasília 1970 - Começa a escrever um novo romance, (DF), a convite da Fundação Cultural do Distrito com o título provisório de Atrás do Federal, a conferência "Literatura de vanguarda pensamento: monólogo com a vida. Mais no Brasil", que já apresentara no Texas. adiante, é chamado Objeto gritante. Foi Participa, em Cali — Colômbia, do IV Congresso lançado com o título definitivo de Água viva. da Nova Narrativa Hispano-americana. Seu Conhece Olga Borelli, de que se tornaria grande filho, Paulo, vai morar sozinho, em um amiga. apartamento próximo ao da escritora. Pedro vai morar com o pai, em Montevidéu — Uruguai. 1971 - Publica a coletânea de contos Felicidade clandestina, volume que inclui O ovo e a 1975 - Tendo como companheira de viagem a galinha, escrito sob o impacto da morte do amiga Olga Borelli, participa do I Congresso bandido Mineirinho, assassinado pela polícia Mundial de Bruxaria, em Bogotá, Colômbia. No com treze tiros, no Rio de Janeiro. Há, também, dia de sua apresentação sente-se indisposta e um conjunto de escritos em que rememora a pede a alguém que leia o conto O ovo e a infância em Recife. Encarrega o professor galinha, não apresentando a fala sobre a magia Alexandre Severino da tradução, para o inglês, que havia preparado para a introdução da de Atrás do pensamento: monólogo com a vida. leitura. Muito embora minimizada, essa Dez de seus contos já publicados constam de participação tem muito a ver com as palavras "Elenco de cronistas modernos", lançado pela ditas por Otto Lara Resende, conhecido Editora Sabiá. escritor, em um bate-papo com José Castello: "Você deve tomar cuidado com Clarice. Não se 1972 - Retoma a revisão de Atrás do trata de literatura, mas de bruxaria." Otto se pensamento, com o qual não estava satisfeita. baseava em estudos feitos por Claire Varin, Faz inúmeras alterações no texto e passa a professora de literatura canadense que chamá-lo Objeto gritante. Repensando o escreveu dois livros sobre a biografada. romance, procura distrair-se. Durante um mês Segundo ela, só é possível ler Clarice tomando posa para o pintor Carlos Scliar, em Cabo Frio seu lugar — sendo Clarice. "Não há outro (RJ). caminho", ela garante. Para corroborar sua 1973 - Publica o romance Água viva, após três tese, Claire cita um trecho da crônica A anos de elaboração, pela Editora Artenova, que descoberta do mundo, onde a escritora diz: "O lançaria também, nesse ano, A imitação da personagem leitor é um personagem curioso, rosa, quinze contos já publicados anteriormente estranho. Ao mesmo tempo que inteiramente individual e com reações próprias, é tão Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    76 terrivelmente ligado aoescritor que na verdade entrevista feita com a artista Elke Maravilha, a ele, o leitor, é o escritor." Traduz romances, primeira de uma série que se estenderia até como "Luzes acesas", de Bella Chagall, "A outubro de 1977. rendeira", de Pascal Lainé, e livros policiais de 1977 - A revista "Fatos e Fotos Gente" publica, Agatha Christie. Ao longo da década, faz em janeiro, entrevista feita pela escritora com adaptações de obras de Julio Verne, Edgar Mário Soares, primeiro-ministro de Portugal. O Allan Poe, Walter Scott e Jack London e Ibsen. jornal "Última Hora" passa a publicar, a partir Lança Visão do esplendor, com trabalhos já de fevereiro, semanalmente, as suas crônicas. publicados na coluna "Children's Corner", da Ainda nesse mês, é entrevistada pelo jornalista revista "Senhor" e também no "Jornal do Júlio Lerner para o programa "Panorama Brasil". Publica De corpo inteiro, com algumas Especial", TV Cultura de São Paulo, com o entrevistas que fizera anteriormente para compromisso de só ser transmitida após a sua revistas cariocas. É muito elogiada quando morte. Escreve um livro para crianças, que visita Belo Horizonte, fato que a deixa seria publicado em 1978, sob o título Quase de contrariada. Passa a dedicar-se à pintura. verdade. Escreve, ainda, doze histórias infantis Morre, dia 28 de novembro, seu grande amigo para o calendário de 1978 da fábrica de e compadre Erico Verissimo. Reúne trabalhos brinquedos "Estrela", intitulado Como nasceram de Andréa Azulay num volume artesanal as estrelas. Vai à França e retorna ilustrado por Sérgio Mata, intitulado "Meus inesperadamente. Publica A hora da estrela, primeiros contos". Andréa tinha, então, dez pela José Olympio, com introdução — "O grito anos de idade. do silêncio" — de Eduardo Portella. Esse livro 1976 - Seu filho Paulo casa-se com Ilana seria adaptado para o cinema, em 1985, por Kauffmann. Participa, em Buenos Aires, Suzana Amaral. A editora Ática lança nova Argentina, da Segunda Exposición — Feria edição de A legião estrangeira, com prefácio de Internacional del Autor al Lector, onde recebe Affonso Romano de Sant'Anna. muitas homenagens. É agraciada, em abril, Clarice morre, no Rio, no dia 9 de dezembro de com o prêmio concedido pela Fundação Cultural 1977, um dia antes do seu 57° aniversário do Distrito Federal, pelo conjunto de sua obra. vitimada por uma súbita obstrução intestinal, Grava depoimento no Museu da Imagem e do de origem desconhecida que, depois, veio-se a Som, no Rio de Janeiro, em outubro, conduzido saber, ter sido motivada por um por Affonso Romano de Sant'Anna, Marina adenocarcinoma de ovário irreversível. O Colasanti e por João Salgueiro, diretor do MIS. enterro aconteceu no Cemitério Comunal Em maio, corre o boato de que a escritora não Israelita, no bairro do Caju, no dia 11. Vai ao mais receberia jornalistas. José Castello, ar, pela TV Cultura, no dia 28/12, a entrevista biógrafo e escritor, nessa época trabalhando no gravada em fevereiro desse ano. jornal "O Globo", mesmo assim telefona e 1978 - Três livros póstumos são publicados: o consegue marcar um encontro. Após muitas romance Um sopro de vida — Pulsações, pela idas e vindas é recebido. Trava então o Nova Fronteira, a partir de fragmentos em seguinte diálogo com Clarice: parte reunidos por Olga Borelli; o de crônicas J.C. "— Por que você escreve? Para não esquecer, e o infantil, Quase de C.L. "— Vou lhe responder com outra pergunta: verdade, em volume autônomo, pela Ática. — Por que você bebe água?" Para não esquecer é composto de crônicas que haviam sido publicadas na segunda parte do J.C. "— Por que bebo água? Porque tenho livro A legião estrangeira, em 1964, que sede." compunham a seção "Fundo de Gaveta" do C.L. "— Quer dizer que você bebe água para citado livro. A hora da estrela é agraciada com não morrer. Pois eu também: escrevo para me o prêmio Jabuti de "Melhor Romance". A paixão manter viva." sendo G. H. é publicada na França, com tradução de Claude Farny. Enquanto escreve A hora da estrela com a a ajuda da amiga Olga, toma notas para o novo 1979 - É publicado A bela e a fera, pela Nova romance, Um sopro de vida. Revê Recife e Fronteira, contendo contos publicados visita parentes. Em dezembro, "Fatos e Fotos esparsamente em jornais e revistas. Estréia, no Gente", revista do grupo "Manchete", publica teatro Ruth Escobar, em São Paulo, Um sopro Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    77 de vida, baseadoem livro de mesmo nome, Bibliotèque des voix", fita cassete com trechos com adaptação de Marilena Ansaldi e direção de La passion selon G. H., lidos pela atríz Anouk de José Possi Neto. Aimée. 1981 - "Clarice Lispector — Esboço para um 1985 - A hora da estrela recebe dois prêmios retrato", de Olga Borelli, é lançado pela Nova na 36ª edição do Festival de Berlim: da Fronteira. Confederação Internacional de Cineclubes — 1984 - Reunindo a quase totalidade de Cicae, e da Organização Católica Internacional crônicas publicadas no Jornal do Brasil, no do Cinema e do Audiovisual — Ocic. O longa- período de 1967 a 1973, é lançado "A metragem de mesmo nome, dirigido por descoberta do mundo", organização de Paulo Suzana Amaral, com roteiro de Alfredo Oros Gurgel Valente, filho da autora. A Éditions des também é premiado: Marcélia Cartaxo recebe o Femmes, da França, lança, em sua coleção "La Urso de Prata de "Melhor Atriz". Pedro Ornellas (A Lágrima na Trova) Trovador é poeta, poeta é sensível, poeta Chora o pobre, o rico chora, chora, poeta sente quando outros choram... uns por muito, outros por nada! Por isso a lágrima está presente nos versos do Quantas lágrimas e por quem você já chorou? trovador, quer sejam as suas, quer as de Não pergunte à Clenir Neves Ribeiro – Nova outros, quer as que só ele consegue ver Friburgo RJ: brotando de olhos figurativos. Tanta lágrima perdida Reinaldo Aguiar, grande poeta potiguar, para esquecer me empenhei, percebeu a força de comunicação que tem a que já nem sei nesta vida, lágrima: porquê e por quem eu chorei! A lágrima, na verdade, A dor é expressa na lágrima, certo? Nem por seu poder infinito, sempre, diz a poeta gaúcha Delcy Canalles: traduz com fidelidade o que não pode ser dito... A lágrima mais doída não é a que aos olhos vem, E ela tem mesmo grande poder de persuasão, mas a que fica escondida admitido prontamente pela Darly O. Barros, de sem se mostrar a ninguém! São Paulo: O saudoso Newton Meyer, de Pouso Alegre MG, Meu perdão foi em tributo concorda e lamenta não ter chorado: a uma lágrima suspensa: – um detalhe diminuto “Homem que é homem, não chora!” mas, que fez a diferença! – obedeci, sem defesas. Pergunto: o que faço agora Que todo mundo chora, todo mundo sabe... com tantas lágrimas presas?! mas por que todo mundo chora? O grande poeta A.A. de Assis, Maringá PR, tem Na definição da saudade feita por Alberto Isaías seu palpite: Ramires – ES ela se faz presente: Noite e dia, mundo afora, Saudade - um berço vazio, quanta lágrima chorada... uma lágrima, uma dor; Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    78 coração sentindo frio é uma lágrima infinita longe da chama do amor... que Deus chorou sobre o mundo! Numa das trovas mais expressivas que já Rodolpho Abud – Nova Friburgo descreve um conheci, Mário Peixoto - RJ, contou ao tipo de lágrima que não seca nunca: descobrir que até o homem mais forte do mundo chora: Alcançando a eternidade, dia e noite ela palpita: Eu vi meu Pai derramando A lágrima da saudade uma lágrima em segredo. tem dimensão infinita! Era uma fonte brotando pela fresta de um rochedo. Para o Waldir Neves - RJ, a lágrima travestida de saudade, é um caminho com destino certo: E falando em descoberta, o imortal Waldir Neves, do Rio, flagrou, fotografou e revelou um Saudade é gota caída, segredo guardado a sete chaves: é pranto que ninguém vê: -É uma lágrima sentida É uma lágrima sentida que leva sempre a você. ... que toda mulher enxuga: a que lhe rola escondida Ás vezes o próprio motivo da dor suprime a por sobre a primeira ruga! lágrima. Pedro Ornellas – SP, descreve assim o drama do retirante: Heron Patrício, de São Paulo, deixa por prevenção seu conforto para a amada, caso Ao partir, deixando norte, venha a chorar sua partida: uma lágrima ensaiou, mas a seca era tão forte Sobre a minha campa nua, que até seu pranto secou! se tu chegares, amor, em cada lágrima tua, Cyroba B. O. Ritzmann - PR inveja a lágrima e há de brotar uma flor! explica por que: Não sei se o poeta imagina o que vê ou de vê o Tão livre pelo meu rosto que imagina... Pedro Ornellas, São Paulo, teve sinto a lágrima rolar. a impressão de ver, ou quem sabe tenha Quando, terei eu, o gosto mesmo visto o que diz nesta trova: de também me libertar? O trem partindo... um aceno... Quem chora mais, o homem ou a mulher? A e ao retornar pela estrada, resposta é óbvia para a Divenei Boseli - São vi lágrimas de sereno Paulo: nos olhos da madrugada! Uma lágrima, sequer, Vanda Fagundes Queiroz – Curitiba PR, eu vi no adeus...Nem depois. consegue acomodar a lua numa lágrima. Não faz mal...eu sou mulher, posso chorar por nós dois! Essa lágrima suspensa reflete a luz do luar... Alguns, na falta de lágrimas, choram trovas. É o parece que a lua imensa que afirma Antonio Salomão - PR: naufraga no teu olhar! A trova é gota de pranto Mas há quem consiga dar a ela uma dimensão que cai dos olhos de alguém ainda maior. Lilinha Fernandes, por exemplo: e por alguém chorou tanto que nem mais lágrimas tem O mar que geme e palpita no seu tormento profundo Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    79 Não há comoesconder sentimentos quando a Pedro Ornellas é poeta dedicado ao lágrima assina a mensagem, revela José cultivo de trova, isto é, o poema monostrófico Ouverney, Pindamonhangaba - SP: de 4 versos em redondilhas menores. Neste gênero, Pedro Ornellas consagrou-se junto à Expulsando a maquiagem, União Brasileira de Trovadores, onde é a lágrima veio, pura, conhecido como um grande trovador. Neste e pousou sobre a mensagem, movimento, Pedro Ornellas ingressou na no lugar da assinatura!... década de 80, após desligar da FEBET (Federação Brasileira de Entidades Trovistas), Renata Paccola – São Paulo, indica a melhor entidade da qual participou da fundação com maneira de lidar com o motivo da lágrima: Eno Teodoro Wanke e outros escritores. Na UBT, Pedro Ornellas alcançou grande Uma lágrima que escorre projeção, sendo premiado em diversos traz mais brilho à própria face certames de trova, a maioria conhecida como se a cada sonho que morre "Jogos Florais". Em Nova Friburgo, (década de há um novo sonho que nasce! 90) obteve o título de "Magnífico Trovador" no gênero lírico/filosófico, após três classificações Encerro com uma cena que todo mundo viu, subsequentes entre os 10 primeiros colocados. mas só o poeta entendeu. Pedro Ornellas - SP: Em 2003, obteve novamente o título de Magnífico Trovador após três classificações no Novo rumo, despedida... gênero humorístico. e ao pressentir minhas dores, Conforme supracitado, Pedro Ornellas a paineira entristecida venceu muitos concursos de trova, logrando chora lágrimas de flores! centenas de prêmios. Entre todas as suas . premiações, no entanto, destacam-se as obtidas na cidade fluminense de Nova Friburgo, nos seus importantes Jogos Florais, o mais antigo concurso literário realizado no Brasil, ininterruptamente desde 1960. Pedro Ornellas destacou-se Pedro Ornellas principalmente no gênero humorístico, no qual Pedro Ornellas (Nome artístico de Pedro obteve seis vezes o 1o. lugar, a saber, em Augusto de Ornellas) é um poeta, compositor e 1984, 1987, 1993, 1998, 2001 e 2003, além de cantor de música caipira, nascido em Marialva, vencedor entre o 2o. e o 5o. lugar, menções estado do Paraná, em 1952, e radicado na honrosas e menções especiais. cidade de São Paulo. Pedro Ornellas também se dedica ao soneto, gênero que cultiva menos Branca Tirollo (Não Brinque com o Fogo) Notei a porta entreaberta. Não era o ela, a pequenina luz desapareceu. De repente vento a tocá-la. O ar estava parado, e as folhas tudo escureceu e na negridão da noite eu me do coqueiro, silenciosa. Levantei-me do sofá e senti perdida. Pensava estar caminhando de caminhei até a varanda. Então, notei uma luz volta, mas sentia que o caminho de volta ficava bem pequenina por trás das montanhas. Não mais distante. havia estrelas no céu, nem a lua estava Caminhei, caminhei, e quando dei por exposta. Havia algumas nuvens escuras. conta, estava à beira de um grande rio. Quase A luz me atraia cada vez mais, e não enxergava, mas ouvia nitidamente o som lentamente caminhando, cruzei a avenida. das águas que bravas desciam para o mar. Do outro lado havia uma arvore pequena e enquanto voltei meus olhos para Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    80 Meus pés estavam machucados. Não para limpar a sujeira, mas foi bem melhor do tinha colocado os sapatos quando fui atraída que estar perdida num lugar qualquer. pela porta se abrindo. Eu não reconhecia o rio e tinha certeza de que não estava em minha cidade, pois lá não havia nenhum rio grande. Mas eu lembrei de um fato muito Branca Tirollo importante: eu tinha deixado alguma coisa no Branca Tirollo é Atriz de Teatro, Roteirista, e fogão, acho que estava cozinhando algo. Só Escritora. Presidente da Academia de Letras do não me lembrava o que era. Brasil/ Piracicaba. Revolucionária desde sua Cada minuto que passava, sentia que a mocidade, sempre praticou trabalho voluntário, água daquele rio misterioso subia com muita lutando pelo bem estar social. Empresária no força. Já estavam molhados, os meus pés. ramo de confecções há mais de vinte anos, Ainda estava escuro e eu não enxergava nada. abandonou a carreira profissional para levar De repente ouço um estouro: PUF! adiante a carreira artística, cujo sonho de sua Nossa! Eu tinha adormecido no sofá que mocidade, estava adormecido. Voltou a fazer fica na copa, observando o gás aceso. teatro, onde desenvolveu alguns projetos de Lá tinha se ido a minha panela de sua autoria. A maioria de suas Peças Teatrais, pressão. Hilariante! Precisei gastar muita água são temas voltados para as questões do Meio Ambiente. Dinair Leite (Trovas) O meu pai, bom trovador, que se abriu para o poeta trovava como ninguém deixou passar em cadência, hoje faz trova ao Senhor trovas da lira seleta nos campos azuis, além. O poeta se despede Essa mão que lavra a terra da trova, poesia amada planta no chão a semente. Com devoção ele cede A benção de Deus encerra, sua obra, imortalizada pois mata a fome da gente. Foi o poeta! Se chora... Confraria dos Poetas Encantados Quedou da rosa o perfume que invadiu belo anjo que ora Extinguiu-se a flor do lume pro poeta e acende lume! Do poeta expira o canto Qual menino vaga-lume, No último canto o queixume, chega ao céu e vira encanto por ele que foi embora Na terra a flor, e o perfume O poeta pousa a lira o anjo recolhe agora e se apaga sua tocha A sua arte aqui expira, Na terra ele virou flor, porém no céu desabrocha plantada por triste ausência Deixou versos, deu amor Quando o poeta atravessa e a Jesus deu sua essência para o outro lado da vida Chega ao céu leve e com pressa No morno sopro do vento, de prosseguir sua lida passarinho em revoada, para viver novo evento, A nuvem azul-hortência Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    81 cantar a Deus em toada página cultural no Jornal de Poesia (do MPN), e Revista Bali (do Kleber Leite - Itaocara/RJ). Murchou rosa, chorou trova No início de outubro o SESC promoveu a e o poeta emudeceu... 28ª edição da Feira de Livros do SESC 2009 - Despertou em vida nova, Literatura e Jornalismo, na qual Dinair onde a rosa reviveu participou com a exposição de Livros Raros e O poeta emudeceu, Antigos, de seu acervo. Convidada a compor a dormiu sua inspiração homenagem Euclidiana, declamou as 10 trovas Mas no céu apareceu premiadas no concurso Cantagalo (Euclides da de lira e rosa na mão Cunha), o que estimulou muitos alunos presentes a se interessarem pela feliz arte da A dor o meu peito invade, trova! ao ver tudo assim deserto A escritora Dinair Leite assumiu mais um cargo Mas lembro a sua saudade literário na cidade. Ela foi nomeada delegada de ouvir estrelas de perto municipal da UBT (União Brasileira de Na vida vibra seu verso... Trovadores) tendo como padrinho o vice- O poeta compõe, canta! presidente nacional da entidade Tadeu Haggen. Planta amor no universo Oradora da A.L.A.P. (Academia de Letras e e jamais morre, se encanta. Artes de Paranavaí), o que muito honra o núcleo cultural local. A poetisa Dinair é membro do MPN há 15 anos, onde sua obra é apresentada em saraus e reuniões. Sua filha Cristina Leite Goetten, é vice-presidente da Dinair Leite A.L.A.P., assessora de Dinair nos trabalhos culturais. Delegada em Paranavaí/PR, do Movimento Poético Nacional, colaboradora da Academia De Letras de Rondônia Academia de Letras de Rondônia – da região. A seguir, a relação dos Acadêmicos ACLER é uma entidade cultural, sem fins presentes à reunião de fundação da Academia, lucrativos e de duração indeterminada, que tem realizada no auditório da Biblioteca José Pontes sua sede e foro na cidade de Porto Velho, Pinto: Abnael Machado de Lima, Ary Tupinambá capital do Estado de Rondônia. Foi fundada aos Pena Pinheiro, Amizael Gomes da Silva, Bolívar dez dias do mês de junho de hum mil Marcelino, Edson Jorge Badra, Emmanuel novecentos e oitenta e seis. Sua fundação foi Pontes Pinto, Esron Penha de Meneses, Eunice fruto da iniciativa de um grupo de cidadãos, Bueno da Silva e Souza, Gesson Álvares de oriundos de diferentes segmentos da sociedade Magalhães, Hélio Fonseca, José Calixto de rondoniense, autores que contribuíram e Medeiros, José Valdir Pereira, Matias Alves contribuem para a formação da literatura Mendes, Paulo Nunes Leal, Raymundo Nonato rondoniense e brasileira, historiadores e críticos de Castro e Vitor Hugo. Por ocasião desta literários, cientistas sociais, jornalistas, políticos reunião, em 10 de junho de 1986, deliberaram e cientistas, cujas obras e vida profissional os presentes nomear o Desembargador Hélio constituem uma referência em suas respectivas Fonseca para dirigir os trabalhos. áreas. Assim sendo, a reunião foi conduzida Decidiram, com essa iniciativa, prover o pelo desembargador Hélio Fonseca, que logo Estado de Rondônia de uma instituição cultural colocou em discussão os seguintes assuntos: capaz de promover o cultivo dos livros e nome da entidade, composição da comissão incentivar as atividades intelectuais e culturais responsável pela elaboração do anteprojeto do Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    82 Estatuto da Academia,horário, local e datas membros beneméritos e membros honorários, das próximas reuniões. Após análise e sendo as vagas preenchidas de acordo com discussão da pauta, os presentes deliberaram, critérios previstos no Estatuto. O quadro de por unanimidade: a entidade cultural, fundada Patronos é composto de escritores já falecidos, na ocasião pelos presentes, chamar-se-á de reconhecido conceito e valor literário, com Academia de Letras de Rondônia – ACLER; a sua vida ou obra apresentando algum vínculo comissão responsável pela elaboração do com o Estado de Rondônia. anteprojeto do Estatuto da Academia será constituída pelos membros: Edson Jorge Badra, O Brasão José Valdir Pereira, Matias Alves Mendes e Gesson Álvares Magalhães, sendo que referida a) Descrição Técnica Geometral: comissão deverá apresentar o anteprojeto do Da Forma: Estatuto, para discussão e aprovação, na A forma geométrica do Brasão da próxima reunião, dia 17 de junho de 1986. Academia de Letras de Rondônia possui uma Deliberou também os presentes, que as forma ovalada distinguindo-se por uma figura próximas reuniões acontecerão sempre às geométrica Elipse Falsa constituída por dois terças-feiras, no mesmo local, a partir das 20h eixos. Dentro desse círculo elipsoidal forma-se 30min. um anel circunscrevendo-se no seu interior uma No dia 17 de junho, na reunião figura plana, distinguindo-se sobre ela uma seguinte, atendendo convocação expressa fração de arquitetura iconográfica do Forte do registrada em Ata, os participantes, sob a Príncipe da Beira, encimado por uma figura coordenação do Desembargador Hélio Fonseca, estilizada de uma coruja. Essas peças podem Presidente do núcleo de fundadores da ser em relevo – madeira ou metálica. Os ramos Academia, foram informados da pauta da de café e cacau ladeiam a figura. Abaixo da Reunião, destacando como prioritário a análise, figura iconográfica, está a frase Fundada em 10 discussão e aprovação do anteprojeto do de junho de 1986, que marca a data de Estatuto da Academia. Após análise e discussão fundação da Academia. do Estatuto, o Presidente o submeteu à Das Cores: aprovação dos presentes, sendo aprovado por A Fração arquitetônica do Forte do unanimidade, já com a Diretoria provisória da Príncipe da Beira, representa por uma guarita, Academia definida, eleita por unanimidade, em blau, sendo as faixas que a atravessam, a ficando assim constituída: Presidente: superior, sinopla e a inferior, ouro. O desenho Desembargador Hélio Fonseca, Vice-Presidente: onde a guarita se apóia, representando a Édson Jorge Badra e Secretário-Geral: José muralha do Forte, em goles. Essas cores são as Valdir Pereira. utilizadas no Brasão do Estado de Rondônia, Até o ano de 2005, a Academia tendo, para a Academia de letras de Rondônia, funcionou na sua sede própria, imóvel doado o mesmo significado. pelo governo José Bianco, prédio onde funcionou a Biblioteca José Pontes Pinto, b) Descrição Filosófica: situado à Av. Farqhuar, 1793, Bairro Caiari, Da Forma Estrutural: Porto Velho - Rondônia. Deixou de funcionar A figura em forma de elipse, formando em sua sede, a pedido do governo do Estado, um círculo ovalado, significa a imortalidade da Ivo Cassol, dizendo este que faria uma reforma cultura e das letras, em cujos pontos não se no referido prédio e o entregaria logo em encontra princípio nem fim. seguida. Atualmente, a Academia realiza suas O círculo ovalado constitui-se um anel e Sessões Ordinárias no auditório do Conselho possui as seguintes legendas: na parte Estadual de Educação de Rondônia, superior,, onde se lê: ACADEMIA DE LETRAS gentilmente cedido pela Presidência da colenda DE RONDÔNIA. Na parte inferior, onde se lê: Instituição de educação, de acordo com NON VI, SED VIRTUTE, traduzindo NÃO PELA convênio celebrado entre as duas entidades. FORÇA, MAS PELA QUALIDADE, buscando A Academia é composta de quarenta imprimir às sucessivas gerações a consciência membros titulares, membros do quanto é importante o conhecimento correspondentes (brasileiros ou estrangeiros), humano a serviço da valorização da vida, não residentes no restante do país ou no exterior, pela força, pela violência, mas pela coragem, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    83 pela qualidade, pelomérito da produção 6º.- Do lado direito, um ramo de cacau literária de cada um de nós. e do esquerdo, um ramo de café, simbolizando Da Figura Iconográfica: as duas maiores riquezas do Estado de A guarita estilizada que guarnece os Rondônia, à época da fundação da academia. bastiões do Forte do Príncipe da Beira, significa 7º.- Em baixo, a inscrição latina “NON a necessidade de os membros da Academia de VI, SED VIRTUTE”, lema que traduz o Letras de Rondônia estarem alertas às invasões sentimento dos acadêmicos: “Não pela força, lingüísticas e literárias danosas à preservação mas pela virtude”. do bom vernáculo, assim como o forte defendia a Amazônia Ocidental das invasões espanholas Acadêmicos do século XVIII. (Patrono) Acadêmico Atual O desenho estilizado da coruja é o símbolo da sabedoria que deve nortear as 1 (Francisco Meireles) Dimas Ribeiro Da Fonseca ações e as obras intelectuais dos membros da 2 (Ary De Macedo) Gesson Álvares De Magalhães Academia. 3 (Alkindar Brasil De Arouca) Edson Jorge Badra Dos ramos de cacau e de café: 4 (José Pontes Pinto) Emanuel Pontes Pinto 5 (Antônio Tavernard) Bolívar Marcelino Representam as principais riquezas do 6 (Manoel Nunes Pereira) Abnael Machado De setor produtivo rural que, se conduzindo com Lima sustentabilidade, poderá ser o ícone 7 (Teotônio De Gusmão) Hélio Fonseca econômico/social do Estado, contribuindo, 8 (Alexandre Rodrigues Ferreira) José Valdir também, para a independência econômica do Pereira País. 9 (Amilkar B. Magalhães) Vaga 10 (Antur Virgílio) Vaga RESUMO 11 (Cândido Mariano Da Silva Rondon) Em resumo, o Brasão da Academia de Raymundo Nonato De Castro Letras de Rondônia é constituído dos seguintes 12 (João Nicolleti) Vaga elementos: 13 (Maria Madalena Neimeier Duarte) Matias 1º.- Um bastião do Forte do Príncipe da Alves Mendes Beira, monumento construído às margens do 14 (Ricardo Franco De Almeida Serra) Heinz rio Guaporé, no município de Costa Marques, Roland Jakobi na fronteira de Rondônia com a Bolívia, 15 (Ferreira De Castro) Eunice Bueno Da Silva E Souza construído em 1776, como marco de defesa do 16 (Antônio José Cantanhede) Antônio Cândido território brasileiro, contra as incursões Da Silva bolivianas que aconteciam àquela época. As 17 (Aluisio Pinheiro Ferreira) Yêeda Maria cores do bastião, (verde, amarelo, azul e Pinheiro Borzacov branco) são as cores da bandeira nacional. 18 (Humberto De Campos) Pedro Albino De 2º.- O bastião é encimado por uma Aguiar coruja, símbolo da sabedoria de que são 19 (Carlos Mendonça) Viriato José Da Silva Moura portadores os membros da academia. 20 (Ramayana Chevalier) João Teixeira De Souza 3º.- Em vermelho, parte do muro 21 (Oswaldo Cruz) Aparício Carvalho De Moraes daquele Forte, simbolizando o sangue dos 22 (Joaquim Tanajura) Joaquim Cercino Da Silva brasileiros que morreram em defesa da pátria, 23 (Vespasiano Ramos) Átila Ibanez em luta contra os bolivianos que invadiam 24 (Paulo Nunes Leal) Dante Ribeiro Da Fonseca nossa terra. Parte do muro encontra-se 25 (José Alves De Lira)Marco Antônio Domingues deteriorado, como deteriorado está todo o Teixeira forte, necessitando de reformas à época da 26 (Joaquim De Araújo Lima) Cláudio Batista fundação da academia. Feitosa 27 (Jorge Teixeira De Oliveira) Zelite Andrade 4º.- Sob o muro, a inscrição “Fundada Carneiro em 10/06/1986”, data da fundação da 28 (Raymundo Moraes) Antonio Serafim Da Silva Academia de Letras de Rondônia. 29 (José Calixto De Medeiros) Vaga 5º.- Tudo isso é circundado por dois fio 30 (José Guilherme De Araújo Jorge) José Lúcio negros, em forma oval, entre os quais há, em Cavalcante De Albuquerque cima, a inscrição “ACADEMIA DE LETRAS DE 31 (Pedro Tavares Batalha) William Haverly RONDÔNIA”. Martins Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    84 32 (José FranciscoMonteiro) Raimundo Neves De 37 (Marise Magalhães Costa Castiel) Samuel Almeida Moisés Castiel Júnior 33 (Emília Smithlaje) Vaga 38 (Dom João Batista Costa) Adaídes Batista Dos 34 (Vitor Hugo) Arlene Pinheiro Gorayeb Santos 35 (Ari Tupinanbá Penna Pinheiro) Paulo Cordeiro 39 (Júlio Nogueira) Vaga Saldanha 40 (Amizael Gomes Da Silva) Gerino Alves Da 36 (Enos Eduardo Lins) Vaga Silva Filho Brasil sem Fronteiras Fronteiras Um brilhante do Grão-Mogol. Olga Agulhon Maringá/PR Um poleá que a viu, espantado e tristonho, Um poleá lhe perguntou: RIDÍCULA — "Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho, (a Fernando Pessoa) Dize, quem foi que te ensinou?" Quando deixar de escrever cartas de amor, Então ela, voando e revoando, disse: deixarei de ser ridícula, — "Eu sou a vida, eu sou a flor serei amarga. Das graças, o padrão da eterna meninice, E mais a glória, e mais o amor". Quando deixar de chorar por amor, deixarei de ser ridícula, E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo serei seca. E tranqüilo, como um faquir, Como alguém que ficou deslembrado de tudo, Quando deixar de pedir seu amor, Sem comparar, nem refletir. deixarei de ser ridícula, serei outra. Entre as asas do inseto a voltear no espaço, Uma coisa me pareceu Quando aprender a fazer versos, Que surdia, com todo o resplendor de um paço, deixarei de ser ridícula, Eu vi um rosto que era o seu. serei Pessoa. Era ele, era um rei, o rei de Cachemira, Que tinha sobre o colo nu Machado de Assis Um imenso colar de opala, e uma safira Rio de Janeiro/RJ Tirada ao corpo de Vixnu. A MOSCA AZUL Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas, Aos pés dele, no liso chão, Era uma mosca azul, asas de ouro e granada, Espreguiçam sorrindo as suas graças finas, Filha da China ou do Indostão. E todo o amor que têm lhe dão. Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada. Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios, Em certa noite de verão. Com grandes leques de avestruz, Refrescam-lhes de manso os aromados seios. E zumbia, e voava, e voava, e zumbia, Voluptuosamente nus. Refulgindo ao clarão do sol E da lua — melhor do que refulgiria Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    85 E enfim as páreas triunfais Doutor Tanajura, Mario Monteiro De trezentas nações, e os parabéns unidos e Bohemundo Álvares Afonso. Das coroas ocidentais. Protesta Professor Carlos Mendonça, Doutor Celso Pinheiro Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto e Rui Brasil Cantanhede Das mulheres e dos varões, que o prédio finalmente concluiu. Como em água que deixa o fundo descoberto, Via limpos os corações. Venham ver o que fizeram do mercado e da luta de vocês que foi em vão. Então ele, estendendo a mão calosa e tosca. Ninguém se levantou pra defender Afeita a só carpintejar, o pedaço de nossa história Com um gesto pegou na fulgurante mosca, que teimava em não cair. Curioso de a examinar. Segismundo se calou, nem Zé Catraka botou "Lenha na Fogueira" e se apagou. Quis vê-la, quis saber a causa do mistério. Zizi, nosso velho Zizi, tombou cansado depois E, fechando-a na mão, sorriu de tanto tempo resistir. De contente, ao pensar que ali tinha um império, A última telha de Marselha virou pó. E para casa se partiu. Guarde a sua lembrança com carinho pois o passado perdeu a realeza. Alvoroçado chega, examina, e parece Só nos resta mandar nossa saudade Que se houve nessa ocupação convocar Ernesto Melo Miudamente, como um homem que quisesse pra cantar nossa tristeza. Dissecar a sua ilusão. Antonio Manuel Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela, Abreu Sardenberg Rota, baça, nojenta, vil São Fidélis/RJ Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela Visão fantástica e sutil. NAMORAR EM SONHOS Hoje quando ele aí cai, de áloe e cardamomo Na cabeça, com ar taful Existe coisa melhor do que namorar Dizem que ensandeceu e que não sabe como Perdeu a sua mosca azul. em sonhos, principalmente quando esse sonho é acordado e esse namoro é com a vida, a natureza e tudo aquilo que DEUS nos dá no dia-a-dia: o ar que respiramos, o Antonio Cândido da Silva Porto Velho/RO sol que nos aquece, a chuva que faz germinar as sementes que dão flores e BAR DO ZIZI frutos, enfim, tudo que de belo está ao nosso alcance. A última telha importada de Marselha Existe coisa mais linda do que um Virou pó na dureza do cimento. céu coalhado de estrelas, um mar azul, Resta somente o espaço, o pó e o tempo filhos e netos à nossa volta? levando tudo para o esquecimento. Pois é! Acho que não existe e por isso estou mandando esse modesto poema. E a tristeza nos arquivos da memória guarda mais um registro de saudade Namorei por toda a vida misturada com indignação Todos os sonhos que sonhei, e o sentimento de impotência Até meus sonhos perdidos diante de que tem nas mãos a força do poder. Confesso que namorei! Levanta do silêncio Guapindaia, Namorei sonhos distantes, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    86 Que senti, mas não toquei, Beberam, fumaram. E até meus sonhos errantes, Ao romper do dia se esgueiraram. Confesso: também gostei! Na areia úmida se deitaram, se abraçaram, esquecidos das diferenças Namorei sonhos do sul, sociais. Do norte e do nordeste, Não pensaram em gravidez Sonho rosa, sonho azul, nem AIDS. Sonho do centro e sudeste, Transaram sem camisinha, Sonhos que tanto sonhei livres como os animais. Mas que tu nunca me deste! Cansados, adormeceram. Ao acordar, Namorei sonhos dourados, Maria estava sozinha! Pretos, brancos, coloridos, Sonhos nunca imaginados Que me tocaram os sentidos. Ramsés Ramos Teresina/PI Namorei sonhos da noite SETE PECADOS DO AMOR E também da madrugada; Sonhos doces de criança o melhor amor é o que não faz alarde Com a primeira namorada, (mar como arde) Sonhos que se perderam ao melhor amor nunca se esquece Na poeira das estradas... (mas quem merece?) melhor amor sempre tem dinheiro Mas o sonho mais bonito, (onde, o banqueiro?) Com gostinho de maçã, o melhor amor é desinteressado Foi aquele que sonhei (todo mundo é culpado!) No despertar da manhã: melhor amor jamais atraiçoa Eu te querendo todinha (desse se caçoa) Você dizendo: hã, hã... o melhor amor te amará eternamente (quanto se mente!) o melhor amor, enfim, de tudo abdica Alberto Paco (esse, com quem fica?) Maringá/PR FRUTO DO CARNAVAL Tatiana Belinky A bela Maria; São Paulo/ SP Loira, olhos verdes, esguia, tem em seus braços uma linda criança, negra. O GRANDE CÃO-CURSO Fruto do carnaval passado. Do terraço da mansão, em São Conrado, Perante o Juiz, Senhor Dom Urso, Maria Reunidos para o maior Cão-curso, vê o povo passar apressado, Apresentaram-se - sem seus patrões - a caminho da folia. Cachorros, cachorrinhos, cachorrões, Sente saudade! De muitas raças, tipos e modelos - Um ano atrás, exuberante de alegria, De pêlos lisos, crespos e outros pêlos - no meio do salão, Pra concorrer ao prêmio - um tesouro viu um belo rapaz, alto, forte, Por todos cobiçado: o "Osso de Ouro". negro como carvão. ... Dançou com ele a noite inteira. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    87 O Juiz, preocupado, Paira sereno sobre os espasmos úmidos do Já bastante atrapalhado, mar.] Olha em volta - e de repente Vê, não longe, à sua frente Altas vagas explodem desconexas Um cachorro desleixado, espargindo espumas brancas de água e sal complexas.] Pêlo todo arrepiado, O vento desafina tons de ópera funesta Cor de um tom indefinido, mas o mantém na rota e não contesta De rabinho encolhido, o roteiro alado que teima percorrer. O desfile a observar, Bem quietinho em seu lugar. Como fugir, - Vem cá, diz o Juiz Urso, - se o clarão da tempestade não se esconde? Participe do Cão-curso, Para onde ir, Apresente-se também, se o rugir dos céus se ouve ao longe? Mostre o que é que você tem! Onde ficar, ... se a segurança não é vista no horizonte ? Por que temer, se males vêm e vão Sou um pobre vagabundo, e depois da fúria fica em paz o coração? Sem família e só no mundo! Mas se encontro um bom senhor O amassado da superfície Dou-lhe todo o meu amor: deixa escapar grunhidos de profundezas frias. Na alegria ou no perigo, O negrume baixo do céu congestionado, Serei sempre o seu amigo! por riscos de luz pulsa, iluminado: É só isto. E disse o Urso, espetáculo de força magistral. - Quem ganhou este Cão-curso, Explosão da natureza temperamental! Foi você, meu bom, valente, Viralata, inteligente Exemplo e alento vêm, ave marinha, Mas modesto. O Troféu ensina a coragem para o embate. Reforça-nos o bico, prepara o bom combate. "Osso de Ouro" é todo seu! Dá-nos força para vencer o caos que se avizinha! ... Sobre a procela flutua o albatroz! Juiz, com toda a humildade, Na certeza que vencerá este momento; Peço um osso... de verdade! nunca faz do mau tempo seu algoz. Firme, contra ou a favor do vento, paira seguro aproveitando o tempo OS "LIMERICK" enquanto voa livre, feliz, veloz! Os "limerick" são poeminhas Que sempre só têm cinco linhas, Samuel Castiel Jr. Contando, rimados, Porto Velho/ RO Uns "causos" gozados: Estórias bem piradinhas. FLOR TROPICAL Flor tropical, soberba e encantadora Maria Eliana Palma Que cresce e floresce em terrenos hostis Maringá/PR Como guardiã desafiadora Do belo nativo e essências sutis!... ALBATROZ Como brisa que soprou todas as vidas Albatroz: mensageiro de tormenta. Nascestes bela, livre e agreste, Dela nunca se afasta; nem mesmo tenta… Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    88 Repartindo-te em pétalas coloridas Fascinam-me teu porte, tua cor... Invejam-te o crisântemo e o cipreste... Quero- te sempre assim bela e formosa Não queiras nunca te tornar rainha Como um livro escrito em verso e prosa Pois sempre foste à preferida minha! Como a mulher que me ensinou o amor! Artur de Azevedo (A Filosofia do Mendes) Mendes) Decididamente o Fulgêncio não nascera mesmo antes de ter certeza de que eu o para cavalarias altas: não havia rapaz de trinta enganava, andava armado de revólver! anos mais tímido nem mais pacato vivendo só, na sua casinha de solteiro, independente e O Fulgêncio, que não tinha sangue de feliz. herói, viveu dali por diante em transes terríveis. Aconteceu, porém, que um dia o Saía de casa o menos possível, e nas ruas só Fulgêncio foi tão provocado pelos bonitos olhos andava de tilburi, recomendando aos cocheiros de uma senhora, que se sentara ao seu lado que fossem depressa. Quando via ao longe um num bondinho da Carris Urbanos, que se sujeito qualquer parecido com o Mendes, deixou arrastar numa aventura de amor. punha-se a tremer que nem varas verdes. Quando, depois da primeira entrevista, Um dia, tendo descido de um tílburi no na casa dele, Bárbara - ela chamava-se Bárbara Largo da Carioca, para comprar cigarros, - lhe confessou que era casada com um sujeito encontrou na charutaria o Mendes, que chamado Mendes, o pobre rapaz, que a comprava charutos. Ficou de repente muito supunha solteira ou pelo menos viúva, ficou pálido e trêmulo e quis fugir, mas o outro horrorizado de si mesmo. Ficou horrorizado, agarrou-o por um braço, dizendo-lhe com muita mas era tarde: gostava dela, e não teve forças brandura: para fugir-lhe. As entrevistas amiudaram-se. Quando - Faça favor... venha cá... não se assuste... não Bárbara não ia ter pessoalmente com o trema... não lhe quero mal... ouça-me... é para Fulgêncio escrevia-lhe cartas inflamadas, e o seu bem... nenhuma ficava sem resposta. Essa imprudência teve mau resultado: O Fulgêncio caiu das nuvens. O marido um dia Bárbara Mendes entrou em casa do continuou: amante acompanhada de duas malas, uma trouxa e um baú. - Eu sei que o sr. tem medo de mim que se péla: receia que eu o mate, ou que lhe bata... - Que é isto? Tranqüilize-se: não lhe farei o menor mal. Pelo - Alegra-te! Meu marido, que é muito abelhudo, contrário! encontrou debaixo do meu travesseiro a tua última carta e expulsou-me de casa. O pobre Fulgêncio não conseguiu - Hein? articular um monossílabo. - Foi melhor assim: agora sou tua, só tua, e por As maxilas batiam uma na outra. toda a vida!... Não estás contente? - Muito... - Matá-lo? Bater-lhe? Seria uma ingratidão! O - Estou te achando assim a modo que... Sr. Prestou-me um relevante serviço: livrou-me - É a surpresa... a comoção... a alegria... de Bárbara! E não era meu amigo, sim, porque - Como vamos ser felizes! Mas olha, peço-te em geral são os amigos que têm a que não te exponhas nestes primeiros especialidade desses obséquios... tempos... O Mendes é ciumento e brutal e, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    89 O Fulgêncio continuava a tremer. desassombradamente por toda a parte ... não receie uma vingança que seria absurda... e se, - Não esteja assim nervoso! Depois que o Sr. algum dia, eu lhe puder servir para alguma me libertou daquela peste, sou outro homem, coisa, disponha de mim. Não sou nenhum vivo mais satisfeito, como com mais apetite, ingrato. tudo me sabe melhor e durmo que é um Daí por diante, o Fulgêncio nunca mais regalo... Aqui entre nós, se o amigo quiser uma teve receio de estar na rua, mas em pouco indenização em dinheiro, uma espécie de luvas, tempo se convenceu de que não podia estar não faça cerimônia; estou pronto a pagar - não em casa, porque Bárbara era definitivamente há nada mais justo ... Ande insuportável. O Mendes foi o mais feliz dos três. Alberto Paco (O Escritor em Xeque) Alberto Paco, contabilista, empresário e Lagoaça, uma aldeia um pouco maior que a escritor. Nasceu em Vilarinho dos Galegos – primeira, mas com as mesmas necessidades. Portugal. Com vinte e dois anos chegou no Com doze anos fui morar na cidade do Porto Brasil para ficar residindo em caráter onde me formei em Contabilidade enquanto permanente. Em 2001 lançou seu primeiro trabalhava. Com vinte e dois vim morar no romance que foi escrito entre 1958 e 1959, Brasil em caráter permanente. logo após sua chegada ao Brasil. Assumiu a cadeira de número 23 da Academia de Letras Como era a formação de um jovem de Maringá ocupando o cargo de tesoureiro. naquele tempo? E a disciplina, como era? Desde a posse escreveu mais oito livros sendo Meu pai era militar. Impunha aos filhos o um de contos, um de poesias e seis romances. regime do quartel, mas nos ensinou a respeitar Além de membro da ALM é membro da UBT- os outros e principalmente a ler. Não admitia Maringá, e do Elos Clube Maringá. Escritor erros de português. imortal ocupando a Cadeira n. 25 da Academia de Letras do Brasil, cujo patrono é Jorge Quais livros foram marcantes antes de Amado. começar a escrever? O ano que passei na aldeia de Lagoaça, entre Conte um pouco de sua trajetória de vida, os onze e doze anos, recebi diversos livros de onde nasceu, onde cresceu, o que presente. Eram obras famosas de diversos estudou. autores. Acredito que aí começou minha ligação Nasci no pequeno vilarejo de Vilarinho dos com a escrita. Lia esses livros e viajava com os Galegos, distrito de Mogadouro, na Província de personagens pelo mundo da fantasia. Trás-os-Montes. Ali vivi meus primeiros onze anos. Completei o quarto ano primário, único Fale um pouco sobre sua trajetória estudo existente naqueles lugares longínquos. literária. Como começou a vida de Com essa idade mudei com a família para escritor? Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    90 Ao chegar emSão Paulo no ano de 1958 entrei Finalmente no ano de dois mil e um publiquei a serviço de grande empresa multinacional no aquele livro de quarenta anos atrás. Com essa setor de contabilidade. Lá publicavam um jornal publicação fui convidado a entrar para a mensal com a tiragem de trinta mil unidades Academia de Letras de Maringá e daí por diante distribuídas pelos funcionários das diversas recomecei minha trajetória literária. filiais espalhadas pelo Brasil. Um dos editores, vendo que eu gostava de leitura porque nas Meus livros publicados são horas vagas estava sempre com algum livro em mãos, me convidou a participar do jornal com “O homem do rio” romance (escrito em 1958) algum artigo. Escrevi uma poesia que foi publicado em 2001“ publicada e daí por diante, durante os dois anos “No coração do vulcão” Romance de aventuras que permaneci na empresa sempre era publicado em 2002 publicado algum trabalho de minha autoria. Foi “Caminhos...” Poesias Publicado em 2002 nessa época que escrevi o meu primeiro “Presídio feminino” Romance policial Publicado romance. em 2003 “Conjugando o verbo trair” Romance publicado Você encontra muitas dificuldades em em 2007 viver de literatura em um país que está “As amantes de Carolino” Romance publicado bem longe de ser um apreciador de em 2007 livros? “ Focos de fogo” Contos Publicado em 2007 São muitos os apreciadores de livros no Brasil, porém poucos têm acesso ao preço que A publicar: custam. Por isso são raros os que vivem de literatura. Somente alguns privilegiados pela “Mãe solteira” Romance mídia ou então autores estrangeiros, “Estupradores violentos” Romance policial priorizados pelas editoras nacionais. “Quinário – Traição consentida” Romance “Atalhos...” Poesias Como começou a tomar gosto pela “Lendo e escrevendo” Contos. escrita? Como disse quando falei de minha infância, Dentre os seus livros escritos , qual te comecei a ler obras famosas de aventuras, de chamou mais atenção? E por quê? amores intensos e policiais. Continuei sempre O livro de minha autoria que mais gosto é o preferindo esses estilos e daí surgiu minha romance “Mãe solteira” porque é extraído de tendência por esse tipo de literatura. um caso real. Mostra a incompreensão de alguns pais com esse tabu que dá nome ao Como definiria seu estilo literário? livro. Felizmente esse preconceito aos poucos Meu estilo literário é simples e objetivo. Evito vai sendo anulado. fazer “rodeios” para não cansar o leitor nem desviar sua atenção da história. Meus romances Que acha de sua obra? são do estilo que sempre gostei de ler, mas Sou suspeito de falar de minha obra. Deixo isso com meu próprio estilo sem imitar ninguém. para meus leitores. No entanto, digo que gosto Digamos uma mistura de todos. muito de tudo que escrevo. Quais foram os seus livros escritos ? Qual a sua opinião a respeito da Internet? Entre mil novecentos e cinquenta e oito e A seu ver, ela tem contribuído para a cinquenta e nove escrevi meu primeiro difusão do seu trabalho? romance. Somente quarenta anos depois voltei Em minha opinião, a internet é um meio rápido a escrever. Em todo esse período que fiquei e eficiente de se tomar conhecimento de tudo afastado da escrita continuei lendo muito, mas (bom e ruim), mas como divulgação de livros os afazeres eram tantos, envolvido com de tamanho razoável, deixa um pouco a diversas atividades, principalmente a monetária desejar. Acho que os reais adeptos da leitura para dar um futuro digno aos familiares que gostam mais de manusear as páginas do livro foram surgindo ao longo do caminho, que não do que acionar o mouse. É mais prazeroso. houve tempo para continuar escrevendo. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    91 é uma história insípida com começo Você precisa ter uma situação incompreensível, meio que nada diz e fim sem psicologicamente muito definida ou já final definido. chegou num ponto em que é só fazer um "clic" e a musa pinta de lá de dentro? Existe uma constelação de escritores que Para se inspirar literariamente, precisa de nos é desconhecida. Para nós, a quem algum ambiente especial ? chega apenas o que a mídia divulga, que A criação literária existe dentro da minha autores são importantes descobrir? mente. Simplesmente aflora sem muito esforço. Na época atual acredito que há quase tantos Gosto de escrever de noite, quando reina o escritores quanto leitores. Existem pessoas que silêncio. Costumo rascunhar meus escritos juntam algumas receitas caseiras, formam um durante a madrugada. Os personagens e os livro e publicam. Porque essas pessoas são acontecimentos vão surgindo e passo-os famosas em outra atividade, a mídia já as rapidamente para o papel. Quando a obra considera escritores. Outras, que escrevem termina é que passo a corrigir tudo, mas a obras interessantes, mas não têm acesso aos história já esta delineada. meios midiáticos, suas obras, muitas vezes verdadeiras pérolas literárias, ficam para Você acredita que para ser escritor basta sempre escondidas no fundo do baú. somente exercitar a escrita ou vocação é essencial? Na sua opinião, livro ou livros da Acredito que a vocação é essencial, mas é literatura da língua portuguesa deveriam necessário ler muito porque vocação sem ser leitura obrigatória? conhecimento não leva a lugar nenhum. A leitura obrigatória não deveria existir, mas ser mais abrangente. Deveriam dar mais opções de Como é que você concebe suas obras? escolha aos jovens, para que cada um seguisse O momento de escrever um livro às vezes suas tendências. surge de uma conversa com alguém que nos conta uma história. A partir daí, modela-se o Qual o papel do escritor na sociedade? que nos foi contado, acrescentam-se fatos e O papel do escritor é marcante na sociedade personagens e a obra surge. porque apesar da pouca divulgação da literatura, ainda consegue prender atenção de Quanto tempo você leva para escrever um muita gente que sente prazer na leitura. livro? Alguns livros são escritos em dois meses, mas Há lugar para a poesia em nossos para lhe dar forma aceitável demoram mais tempos? quatro ou cinco. È necessário uma revisão A poesia é e será sempre uma peça importante perfeita tanto nos textos quanto na gramática, na literatura mundial. Muitos leitores têm pouco então leio e reviso cinco ou seis vezes. tempo disponível para ler um romance, que deve ser lido com o menor tempo de Como foi o processo de pesquisa para a interrupção para se assimilar a história. No livro escrita de seus livros? de poesias podem ser lidas uma ou duas Minhas histórias são fictícias. Entretanto páginas, colocá-lo de lado e retomar a leitura pesquiso com muito cuidado os lugares a que muito tempo depois, sem ter perdido nenhuma me refiro para evitar que algum leitor que sequência. porventura conheça esses lugares me conteste. As pesquisas são feitas geralmente na internet Tem prêmios literários? ou em enciclopédias em que as informações Algumas trovas premiadas em diversos setores são mais antigas. da União Brasileira de Trovadores da qual faço parte. Por opção, não costumo concorrer a No processo de formação do escritor é prêmios literários. preciso que ele leia porcaria? Acredito que devemos ler de tudo um pouco. O O que te choca ? que não devemos é seguir o exemplo dos que O que me abala profundamente é ver jovens escrevem porcarias. Em minha opinião, porcaria alunos serem aprovados e passar de ano sem Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    92 os mínimos conhecimentosde escrita ou Que conselho daria a uma pessoa que leitura. É uma falha dos dirigentes que vai começasse agora a escrever ? refletir mais adiante. O ensino está decadente. Diria para ler muito e analisar bem o que escreve antes de mostrar seus escritos ao O que lê hoje em dia? público leitor, mas não pare nunca de escrever Leio muito e sempre. Acabei de ler “O caçador seja o que for. Escrever é um dom de Deus que de pipas”, um romance que fala sobre as vidas não pode ser desperdiçado. de pessoas espezinhadas por regimes autoritários e desumanos. O que é preciso para ser um bom poeta? Bom poeta é todo aquele que escreve poesia. Você possui algum projeto que pretende Cada um tem seu gênero e cada leitor gosta de ainda desenvolver? um tipo. O campo é vasto, porém deve existir Meu projeto maior é continuar escrevendo, certa coerência para não escrever patacoadas. tentando sempre melhorar. Existem outros projetos que por enquanto não vejo E para encerrar a entrevista necessidade de divulgar. Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam? De que forma você vê a cultura popular Meu primeiro desejo seria que a paz reinasse nos tempos atuais de globalização? entre os homens. A globalização é muito importante para a O segundo que a fome e a miséria fossem cultura popular porque aumenta a possibilidade erradicadas da face da terra. de todos expandirem seus conhecimentos. Finalmente que a Literatura fosse mais Tudo se torna mais acessível. divulgada com incentivos para que os menos favorecidos tivessem acesso constante e garantido aos livros de sua preferência. Anayde Beiriz (Carta de Amor) A carta é de 4 de julho de 1926. desenfreada, numas, pela grosseria e desregramento dos apetites; contida, “(...) O amor que não se sente capaz de um nobremente, em outras, pelas forças vitoriosas sacrifício não é amor; será, quando muito, da inteligência, da vontade, superiormente desejo grosseiro, expressão bestial dos dirigida pela delicadeza inata dos sentimento ou instintos, incontinência desvairada dos sentido, pelo poder selético e dignificador da cultura. que morre com o objetivar-te, sem lograr atingir aquela atura onde a vida se torna um Não amamos num homem apenas a plástica ou enlevo, um doce arrebatamento, a o espírito: amamos o todo. Sim, meu Hery, nós, transfiguração estética da realidade... E eu não as mulheres, não temos meio termo no amor; quero amar, não quero ser amada assim... não amamos as linhas, as formas, o espírito ou Porque quando tudo estivesse findo, quando o essa alguma coisa de indefinível que arrasta desejo morresse, em nós só ficaria o tédio; vocês, homens, para um ente cuja posse é para nem a saudade faria reviver em nossos vocês um sonho ou raia às lides do impossível. corações a lembrança dos dias findos, dos dias Não, meu Hery, não é assim que as mulheres de volúpia de gozo efêmero, que na nossa amam. Amam na plenitude do ser e nesse febre de amor sensual tínhamos sonhado sentimento concentram, por vezes, todas as eternos. forças da sua individualidade física ou moral. Mas não me julgues por isto diferente das É pois assim que eu te amo, querido; e porque outras mulheres; há, em todas nós, o mesmo te amo, sinto-me capaz de esperar e de pedir- instinto, a mesma animalidade primitiva, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    93 te que sejaspaciente. O tempo passa lento, e a maneira de vivenciar o amor livre causaram mas passa... escândalo. Em 1928, iniciou seu romance com o ...E porque ele passa, e porque a noite já vai deputado João Dantas, que era adversário de alta, é-me preciso terminar. João Pessoa, candidato à presidência da Paraíba. Em 1930, o Brasil sofreu reviravoltas Adeus. Beija-te longamente, Anayde” importantes. A chamada política do "café com ––––––––––––––––– leite" centralizava o poder entre os Estados de Uma das cartas de Anayde Beiriz a Heriberto São Paulo e Minas Gerais. O bloco político, do Paiva é bastante revelador da personalidade ao qual a Paraíba fazia parte, interveio nas mesmo tempo romântico e ousada da disputas políticas, que se tornaram violentas e professora paraibana. as questões pessoais se misturaram às questões da vida pública. Anayde Beiriz A ligação amorosa entre João Dantas e Anayde Beiriz (João Pessoa, 18 de Anayde Beiriz não era bem vista pela hipocrisia fevereiro de 1905 — Recife, 22 de outubro de social, uma vez que não eram casados. Prato 1930) foi uma professora e poetisa brasileira. feito para os inimigos políticos de João Dantas, O seu nome está ligado à História da que sob as ordens de João Pessoa, arrombaram Paraíba, devido à tragédia em que foi a casa, apropriaram-se da correspondência envolvida, juntamente com o advogado e erótica do casal e publicaram-na nos jornais da jornalista João Duarte Dantas, com quem cidade. Sensual e libertária, Anayde foi mantinha um relacionamento amoroso. duramente exposta à sociedade paraibana. O Poetisa e professora, ela escandalizou a que era uma invasão de cunho político, sociedade retrógrada da Paraíba com o seu mobilizou todo o Brasil ao ganhar o contorno de vanguardismo: usava pintura, cabelos curtos, uma grande paixão, vivida às escondidas. saía às ruas sozinha, fumava, não queria casar No dia 26 de julho, João Dantas, furioso nem ter filhos, escrevia versos que causavam com a publicação de suas cartas de amor, impacto na intelectualidade paraibana e correu pela cidade atrás do mandante e ao escrevia para os jornais. encontrá-lo disse: "Sou João Duarte Dantas, a Anayde Beiriz nasceu em 1905 em João quem tanto injuriaste e ofendeste". Matou com Pessoa. Diplomou-se pela Escola Normal em três tiros João Pessoa e logo em seguida foi 1922, com apenas 17 anos, destacando-se preso. Este ocorrido serviu de pivô para uma como primeira aluna da turma. Passou, assim, convulsão nacional que sucumbiu na Revolução a lecionar, alfabetizando os pescadores da de 30. A morte de João Pessoa comoveu todo o então vila de Cabedelo. Além de normalista, era Brasil, pois ele nesta época já era muito poeta e amante das artes. Logo que se formou, famoso, ao ter concorrido à presidência como passou a lecionar na colônia de pescadores vice de Getúlio Vargas. Em outubro daquele perto de sua cidade natal. Em 1925, ganhou ano o movimento revolucionário foi deflagrado um concurso de beleza. Circulava também nos e Anayde passou a ser perseguida e apontada meios intelectuais, onde declarava-se na rua como "a prostituta do bandido que publicamente a favor da liberdade e da matou o presidente." autonomia feminina. Chamavam a atenção os Ela abandona sua casa e vai morar em seus olhos de cor negra, que lhe valeram o um abrigo na cidade de recife. Lá passa a apelido, em seu círculo de amizades, de "a visitar João Dantas, preso imediatamente após pantera dos olhos dormentes". o crime. Este é achado morto nos primeiros Sendo uma mulher emancipada para os dias da Revolução, supostamente por suicídio, costumes do seu tempo, Anayde perturbou a mas em circunstâncias pouco claras. A própria sociedade conservadora da Paraíba, nos anos Anayde é encontrada morta em 22 de outubro 30. Ousou exprimir uma sensibilidade que daquele ano, supostamente por chocou o modelo de moralidade prevalente: sua envenenamento, sendo enterrada como maneira de se vestir (o uso dos decotes), o indigente no cemitério de Santo Amaro, e sua corte dos cabelos, "à la garçonne", que eram memória foi renegada durante anos pelos pintados, as suas idéias políticas (quando as paraibanos. Sua imagem só se tronou mulheres não tinham sequer o direito ao voto) emblemática quando foi elegida como uma das Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    94 personagens míticas dahistória do Brasil, pelo Heriberto passou a chamá-la também de movimento feminista. Mas, até hoje, sua “pantera”, desde que ela lhe escreveu: “A memória causa desconforto naquela região. pantera é bem humana, não é verdade, amor? Quase todas as cartas do diário deixam Mansa, dócil, amorosa, em se tratando de ti; explícitas que a grande paixão de Anayde não mas, para os outros. Eu queria poder esmagá- foi o advogado João Dantas, mas o médico los, a todos... Contudo, gostei desse título de paraibano, que foi morar no Rio de Janeiro, e a fera que eles me deram; escrevi um conto com quem ela chamava de “Hery”. Já o nome esse nome e enviei-o para a ‘Tribuna do Pará’. “Panthera dos olhos dormentes” era como Creio que brevemente será publicado”. amigos de Anayde já a chamavam antes dela Hoje, a sua história, tematizada no conhecer Heriberto. Eles justificavam a teatro, no cinema e na literatura, instiga a designação porque diziam que, em seus contos, pensar sobre a intersecção entre os fatos da Anayde sempre colocava uma mancha de vida privada e da vida pública, no contexto da sangue e porque ela gostava de tudo que era história nacional. A encenação da vida de vermelho. Tanto que, em carta, cujo teor Anayde Beiriz nos chama a atenção para as completo está no livro de Marcus Aranha, "dobras do lado de dentro" da história oficial, Anayde revelou a Heriberto Paiva: “Crêem eles isto é, a dimensão do intimismo no contexto da que eu sou trágica, que gosto desse amor que experiência pública. Ficou conhecida como a queima, dessa paixão que devora, dessa febre "Paraíba masculina, mulher-macho sim senhor". amorosa que mata...”. XX CONCURSO DE TROVAS DE VI CONCURSO DE TROVAS DA PINDAMONHANGABA UBT-MARANGUAPE/2010 Promoção: UBT-MARANGUAPE e ACLA Prazo: até 15 de abril de 2010 2010. Prazo: até 22 de maio de 2010. TEMAS: 1. TEMA E ÂMBITO: Nacional: "Multidão" a) Nacional/Internacional: “Sonhos” (L/F) e Regional: "Ninguém" (Pinda, Vale do Paraiba, “Rádio” (H) Litoral Norte e Região Serrana) b) Estadual: “Flor” (L/F) e “Cadeira(s)” (H) Estudantil: "Galera" c) Municipal: “Luz” (L/F) e “Safado(a)” (H) Máximo de 03 trovas por autor, "Sistema de Envelopes” OBS.: Os trovadores de outros Estados/outros países poderão participar em quaisquer dos Enviar para: temas de âmbito Estadual e Municipal, como Biblioteca Municipal "Rômulo C. D'Arace" Participação Especial. Ladeira Barão Barão de Pindamonhangaba, S/N - Bosque 2. REQUISITOS: Trovas líricas ou filosóficas e Cep 12.401-320 humorísticas em cada um dos temas e âmbitos, Pindamonhangaba - SP inéditas, de sentido completo, rimando o 1o. verso com o 3o. e o 2o. com o 4o., sistema ABAB, devendo o tema principal constar na trova, na língua portuguesa. 3. LIMITES: No máximo uma (1) trova para cada Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    95 concorrente por tema no âmbito nacional/internacional. Nos âmbitos Estadual e Prazo: 15 de junho de 2010. Municipal podem ser enviadas até duas (2) trovas p/concorrente. JOGOS FLORAIS DE 4. ENDEREÇO PARA REMESSA DAS TROVAS: i)Por CAMBUCI/RJ – 2010 e-mail para: ubt.mpe@gmail.com, indicando o Seção de Cambuci - UBT/RJ nome do autor, endereço completo, fone e CEP. Prazo: até 31 de Maio de 2010. 5. PRAZO PARA REMESSA: Até 22 de maio de 2010. Enviar para: ALMIR PINTO DE AZEVEDO 6. CLASSIFICAÇÕES: 5 Trovas vencedoras [1º. a PRAÇA DA BANDEIRA, 79 - TEL.: (0xx) 22. 5º.] / 5 Menções honrosas [6º. a 10º.] / 5 2767.2010. Menções especiais [11º a 15º.] e 5 Destaques 28.430–000- CAMBUCI – ESTADO DO RIO DE [16º. a 20º.]. JANEIRO. 7. PRÊMIOS: Troféu para o 1º. colocado e diploma Âmbito Nacional e Internacional para cada um dos classificados, por tema e Tema: Musa (necessidade de usar a palavra do âmbito, inclusive diploma de participação tema) especial p/trovadores de outros Estados/outros Paralelamente, haverá Concurso países, no caso da trovas ser selecionada Municipal e Estudantil p/julgadores. A premiação está prevista para o Sistema de Envelopes. dia 24.10.2010, na sede da ACLA/Maranguape- O trovador poderá concorrer somente com CE. trova. uma única trova Premiação: 25 de Setembro de 2010 8. JULGAMENTO: A UBT-Maranguape formará a Troféu, Diploma, Hospedagem e Passeio comissão julgadora do concurso. Turístico. Obs: Serão desclassificadas as trovas que fugirem aos temas propostos e/ou sem métrica, CONCURSO INTERNACIONAL DE bem como enviadas por e-mail após 22.05.2010. Pelas simples remessa das trovas o(a) LITERATURA PARA 2010. concorrente aceita as normas do presente regulamento e autoriza a publicação das trovas. Prazo: até 15 de maio de 2010 Em 15.12.2009 - Moreira Lopes/Coord. Concurso de Trovas REGULAMENTO Participe pelo e-mail: ubt.mpe@gmail.com I - DOS PRÊMIOS Art. 1.° - Ainda com a ressonância do JUBILEU DE OURO recém-comemorado JOGOS FLORAIS UBT (1958/2008), a União Brasileira de Escritores SECCIONAL MÉRIDA – (UBE-RJ) concederá, no próximo ano (2010), os seguintes prêmios literários para livros editados VENEZUELA em 2009: – Contos - PRÊMIO CLARICE LISPECTOR; Tema para os Trovadores de Língua Portuguesa: – Crônicas - PRÊMIO PAULO MENDES CAMPOS; IMENSIDÃO – Ensaio - PRÊMIO AMELIA SPARANO; Tema para os Trovadores de Língua Espanhola: – Literatura Infantil e Juvenil - PRÊMIO VIRIATO INMENSIDAD CORRÊA; – Poesia – PRÊMIO ADALGISA NERY; Enviar para: – Romance - PRÊMIO LÚCIO CARDOSO; carlosrodriguezsanchez@hotmail.com – Teatro - PRÊMIO MARTINS PENA. con copia para: carlosrodriguezsanchez@yahoo.es Parágrafo único - Para livro de contos, será concedida também Art. 2° - A critério das Comissões Para os Trovadores dos dois idiomas, enviar as 3 Julgadoras poderão ser concedidas às obras Trovas e junto, no mesmo e-mail, a identificação concorrentes a qualquer dos prêmios uma e endereço completo). menção especial e uma menção honrosa, exceto Máximo de 3 Trovas por tema Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    96 a Medalha HarryLaus que terá somente um Art. 12 - Os casos omissos no presente ganhador. Regulamento serão resolvidos pela Diretoria da UBE-RJ. II - DA APRESENTAÇÃO DAS OBRAS CONCORRENTES Rio de Janeiro, RJ, 30 de outubro de 2009. Art. 3° - Poderão concorrer autores de EDIR MEIRELLES quaisquer nacionalidades, desde que se Presidente da UBE-RJ expressem em língua portuguesa e tenham sido editados no ano de 2009. Enviar três exemplares da obra concorrente. CONCURSOS DA UBT SÃO § 1° - O autor deverá anexar envelope PAULO - 2010 (100 ANOS contendo: título da obra, nome e endereço completo do autor, telefone, e-mail (se houver) e DO NASCIMENTO DE NOEL sucinto curriculum vitae. ROSA) § 2° - Não haverá devolução de livros concorrentes. Prazo: até 30.04.2010 III - DAS INSCRIÇÕES E DOS PRAZOS Art. 4° - Não há limitação quanto ao Máximo de 03 trovas por tema número de livros por autor, observadas as disposições do Art. 3.° e seus parágrafos. TEMAS: Art. 5° - Os trabalhos deverão ser enviados entre os dias 4 de janeiro a 15 de maio 01) Âmbito nacional/Internacional: FEITIÇO de 2010, considerando-se, no caso de remessa (Líricas/Filosóficas) pelo correio, a respectiva data da postagem. Art. 6° - Os livros concorrentes a prêmios Endereço para remessa: devem ser remetidos, em separado por categoria, Renata Paccola para o seguinte endereço: Rua Teixeira de Rua Cafelândia, 53, Cep 01255-030, São Paulo Freitas, 5, Sala 303 - Lapa, CEP 20021-350 - Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Solicita-se colocar no 02) Assinantes do Informativo SP: DESEJO envelope ou embalagem o nome do prêmio a que (L/F) se destina(m) a(s) obra(s). Art. 7° - É vedada a participação de Endereço para remessa: membros da Diretoria da UBE-RJ. Domitilla Borges Beltrame Rua Batista Cepelos, 18, aptº 31, Cep 04109- IV - DAS COMISSÕES JULGADORAS E ACEITAÇÃO 120, São Paulo DOS CONCORRENTES Art. 8° - As comissões julgadoras serão 03) Associados da Seção São Paulo: constituídas, cada uma, por três escritores ORVALHO (L/F) indicados pela Diretoria da União Brasileira de APITO (humorísticas) Escritores (UBE-RJ), sendo irrecorríveis as decisões desses Colegiados. Enviar "Orvalho" para: Art. 9° - A participação no concurso Marina Bruna implica a aceitação, por parte do concorrente, de Rua Changuá, 55, Cep 04141-070 todas as exigências regulamentares, resultando em desclassificação o não-cumprimento de Enviar "Apito" para: quaisquer destas. Héron Patrício Art. 10° - O resultado do concurso será Av.Jabaquara, 2022, aptº 81, Cep 04046-400 tornado público até 90 (noventa) dias após o encerramento das inscrições, devendo a entrega dos prêmios ser em data e local previamente NOTAS = anunciados. 1 - Previsão das festividades de entrega de Art. 11 - Qualquer informação ou prêmios e congraçamento: 16/17 de julho. correspondência, enviar para a Secretária da UBE-RJ Margarida Finkel - Rua Malvino Ferreira 2 - Na ocasião será homenageada a Magnífica de Andrade, 69, Aleixo - CEP 25900-000 – Magé, Trovadora Maria Nascimento Santos Carvalho. RJ, Brasil. E-mail: margafinkel@hotmail.com Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    97 IXCONCURSO DE TROVAS DE Estadual: SONHO CAICÓ -2010 Máximo de 03 trovas. É obrigatório o uso da palavra-tema. Cognatas não valem. A/C do poeta Manoel Dantas Rua: Izolda Medeiros, nº 388 - Conj. Vila do Príncipe XL JOGOS FLORAIS DE NITERÓI Caicó, RN CEP: 59300-000 Caixa Postal 100.518 TEMAS: Niterói/RJ, Cep 24.001-970 Nac/Internacional – OCASO (s) (L/F) Estadual – FONTE (s)(L/F) TEMAS: (valendo palavras derivadas) Máximo - 2 (duas) trovas. PRAZO: 30.06.2010 Nacional/Internacional: "Palavra" Estadual: "Algemas" IV JOGOS FLORAIS DE BALNEÁRIO CAMBORIÚ/SC Máximo de 03 trovas por autor Prazo: até 31.05.2010 A/C de Gislaine Canales Sistema de Envelopes Rua 4.000, nº 85, aptº 411 - Barra Sul Hotel Balneário Camboriú/SC, CONCURSO DE TROVAS DE Cep 88.330 - 180 TAUBATÉ Prazo máximo = 31.05.2010 A/C de Angélica Villela Santos Máximo de trovas por participante: 03 Rua Francisco Xavier de Assis, 36 - Jardim Morumbi Âmbito estadual: "Segredo/s" Taubaté - SP, Cep 12.060-460 Restante do Brasil e países de língua Temas: portuguesa: "Vento/s" Regional e Nacional = "Mocidade" "Sistema de Envelopes" Concurso Vicentino = "Esperança" Para países de língua hispânica, tema Concurso para alunos de Taubaté = "Atenção" "Beso/s", os participantes deverão enviar seus trabalhos para Concurso para professores de Taubaté = "Aula" gislainecanales@gmail.com Máximo de 02 trovas por autor. Festejos de encerramento marcados para o Prazo = até 30.06.2010 período de 05 a 07/11/2010. XXX CONCURSO V JOGOS FLORAIS DE ESTADUAL/NACIONAL E I CANTAGALO / RJ CONCURSO INTERNO DE TROVAS DA Rua Dr. Nagib Jorge de Farah, 204 ACADEMIA DE TROVAS DO RIO Cantagalo / RJ, CEP 28,500-000 GRANDE DO NORTE Prazo = até 30.06.2010 NATAL/2010 Temas: 1) ESTADUAL - Tema: AUSÊNCIA e Nacional / Intern.: REALIDADE cognatos; Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    98 coordenador: José Lucasde Barros, VERDE – (Humorístico) travessa Alda Ramalho Pereira, 1010, Tirol, Natal/RN, Estudantil para alunos de 5ª a 8ª e ensino CEP 59014-605; médio de todas as redes de ensino 2) NACIONAL – Tema: INSPIRAÇÃO e AMOR - (Lírico ou Filosófico) cognatos; coordenador: Neves de Macedo GATO - (Humorístico) rua Ribeirão Preto, 218, Gramoré, Natal/RN Os trovadores (autores de trovas) podem 3) INTERNO (só para sócios efetivos e remeter até três (3) trovas, inéditas, escritas correspondentes) – na face de envelopes 8/11, contendo no interior a identificação completa. Os Tema: e cognatos; estudantes devem colocar o nome e e-mail de sua unidade escolar. coordenador: Joamir Medeiros Av. Romualdo Galvão, 968, Obs. Os temas destes concursos foram Tirol, Natal/RN – 59056-100. lançados no livro dos Jogos Florais de 2009. As trovas dos concursos nacional/internacional Número de trovas por concorrente: 3 deverão ser remetidas para : (três), remessa pelo sistema de envelopes, para os respectivos coordenadores. Trovador Nilton Manoel Caixa Postal 448 -centro Prazos: estadual e nacional, 30.9.2010; CEP 14001-970 interno: 31.5.2010. Ribeirão Preto/SP -BRASIL XXIII JOGOS FLORAIS DE As trovas do concurso municipal deverão ser enviadas para: RIBEIRÃO PRETO Trovadora Carmen Pio XI JOGOS FLORAIS ESTUDANTIS Rua Uruguai, 91 - 523 - Centro DE RIBEIRÃO PRETO Porto Alegre - RS CEP 90010-140 São temas nos concursos de trovas: As trovas dos XI Jogos Florais Estudantis de Nacional / internacional: Ribeirão Preto deverão ser enviadas para: VIAGEM (Lírico) Francisco Neves Macedo TURISTA (Humoristico) Rua Ribeirão Preto, 218 - Gramoré 59135-550-Natal/RN Municipal (somente aos trovadores de Ribeirão Preto) A recepção das trovas encerrar-se-á em 3 de maio (Dia Municipal da Poesia) MADURO – ( Lirico ou filosófico) Folclore Brasileiro (O Saci) É um duende idealizado pelos indígenas perneta, de cabelos avermelhados, encantador brasileiros como apavorante guardião das de crianças e adultos que pertubava o silêncio florestas. A princípio ele era um curumim das matas. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    99 Saci é o duende mais popular do Brasil. agulhas, esconde as tesourinhas de unha, Sua lenda ocorre no Sul, no Centro e no Norte embaraça os novelos de linha, faz o dedal das do Brasil. costureiras cair nos buracos, bota moscas na Gozando da faculdade de se sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os transformar, como todos os personagens ovos das ninhadas. Quando encontra um prego, elementais, ora é visto sob a forma de um vira ele de ponta pra riba para que espete o pé pequeno tapuio, sozinho ou acompanhado por do primeiro que passa. Tudo que numa casa uma horrível megera, ora como um negrinho acontece de ruim é sempre arte do saci. Não unípede, de barrete vermelho que aparecia aos contente com isso, também atormenta os viajantes extraviados na floresta, mas pode cachorros, atropela as galinhas e persegue os ainda, aparecer disfarçado de uma ave. Na cavalos no pasto, chupando o sangue deles. O maioria das lendas Tupis, o Saci é encontrado saci não faz maldade grande, mas não há na forma de um pássaro. Distingue-se pelo maldade pequenina que não faça. canto, que consiste em duas sílabas: "sa-cim". Tio Barnabé continua: O cântico dos pássaros sempre esteve - Tinha anoitecido e eu estava sozinho ligado ao fato da crença greco-romana dos em casa, rezando as minhas rezas. Rezei, e augúrios que se julgava poder tirar-se da depois me deu vontade de comer pipoca. Fui ali aparição, do vôo ou do canto das aves. no fumeiro e escolhi uma espiga de milho bem Quando os Tapuias ouviam o canto do seca. Debulhei o milho numa caçarola, pus a Saci, os velhos o esconjuravam, as crianças caçarola no fogo e vim para este canto picar procuravam o aconchego do colo de suas mães, fumo pro pito. Nisto ouvi no terreiro um os pais tremem, mas não negam o fumo que barulhinho que não me engana. "Vai ver que é espalham pelas cercas dos quintais, para que o saci!" - pensei comigo. - E era mesmo. Dali a Saci se cale e se retire, levando com que pouco um saci preto que nem carvão, de satisfazer o vício de fumar. carapuça vermelha e pitinho na boca, apareceu Em contato com o elemento africano e a na janela. Eu imediatamente me encolhi no superstição dos brancos, recebeu o cognome meu canto e fingi que estava dormindo. Ele de Taperê, Pererê Sá Pereira, etc. Tornou-se espiou de um lado e de outro e por fim pulou negro, ganhou um gorro vermelho e um para dentro. Veio vindo, chegou pertinho de cachimbo na boca. Em alguns lugares, como às mim, escutou os meus roncos e convenceu-se margens do rio São Francisco, adquiriu duas de que eu estava mesmo dormindo. Então penas e a personalidade de um demônio rural começou a reinar na casa. Remexeu tudo, que que faz travessuras e gosta de enganar nem mulher velha, sempre farejando o ar com pessoas. É o famoso Romão ou Romãozinho. o seu narizinho muito aceso. Nisto o milho Na zona fronteiriça ao Paraguai ele é começou a chiar na caçarola e ele dirigiu-se um anão do tamanho de um menino de 7 a 8 para o fogão. Ficou de cócoras no cabo da anos, que gosta de roubar criaturas dos caçarola, fazendo micagens. Estava "rezando" o povoados e largá-las em lugar de difícil acesso. milho, como se diz. E adeus pipoca! Cada grão Talvez devido aos vestígios culturais trazidos que o saci reza não rebenta mais, vira piruá. pelos bandeirantes em suas andanças pelo sul Dali saiu para bulir numa ninhada de do Brasil, o saci mineiro recebeu, além dessas ovos que a minha carijó calçuda estava qualidades do "Yaci-Yaterê" guarani, um chocando num balaio velho, naquele canto. A bastão, laço ou cinto, que usa como a "vara de pobre galinha quase que morreu de susto. Fez condão" das fadas européias. Sincretizado cró, cró, cró... e voou do ninho feito uma louca, freqüentemente como o capeta, tem medo de mais arrepiada que um ouriço-cacheiro. rosários e de imagens de santos. Quando quer Resultado: o saci rezou os ovos e todos desaparecer, transforma-se num corrupio de goraram. vento. Em seguida pôs-se a procurar o meu Através de Tio Barnabé, um dos seus pito de barro. Achou o pito naquela mesa, pôs personagens, Monteiro Lobato descreve o Saci- uma brasinha dentro e paque, paque, paque... Pererê: tirou justamente sete fumaçadas. O saci gosta O saci é um diabinho de uma perna só multo do número sete. que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte: azeda o leite, quebra pontas das Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    100 Eu disse cá comigo: "Deixe estar, coisa- -"Ah! nossa avó, nós não somos mais ruinzinho, que eu ainda apronto uma boa para gente, e sim só espíritos. Assim, sendo, nós você. Você há de voltar outro dia e eu te curo." teremos que te deixar, mas quando ouvires E assim aconteceu. Depois de muito cantar: virar e mexer, o sacizinho foi-se embora e eu Tincauan...Tincauan!...foge para casa. fiquei armando o meu plano para assim que ele Mas quando cantarmos: voltasse. Ti....Ti...Ti...., então nos reconhecerás. Na sexta-feira seguinte apareceu aqui Ficaram os jovens, desde então, outra vez às mesmas horas. Espiou da janela, mudados em dois pássaros de agouro, de ouviu os meus roncos fingidos, pulou para mistério e de morte. Um é Saci, o outro é o dentro. Remexeu em tudo, como da primeira Matintaperera. Ambos nascidos de uma vez, e depois foi atrás do pito que eu tinha tragédia, só espalham desgraças e semeiam guardado no mesmo lugar. Pôs o pito na boca e pavores. foi ao fogão buscar uma brasinha, que trouxe dançando nas mãos. Impondo-se à crendice popular como Tem as mãos furadinhas bem no centro um pássaro possuído pelo demônio, o Saci, da palma; quando carrega brasa, vem adquiriu feições de gente e à noite vagueava brincando com ela, fazendo ela passar de uma pelas estradas, cantando e assobiando. para a outra mão pelo furo. Trouxe a brasa, Contam que nos tempos coloniais, pôs a brasa no pito e sentou-se de pernas quando se avistava uma moça magra, triste, cruzadas para fumar com todo o seu sossego. pálida, logo diziam: Quando quer cruza as pernas como se - "Isso é obra de Saci", porque, segundo tivesse duas! São coisas que só ele entende e os velhos colonos, as moças se apaixonavam ninguém pode explicar. Cruzou as pernas e por ele, sendo a morte a conseqüência começou a tirar baforadas, uma atrás da outra, inevitável desta paixão. Daí as quadrinhas muito satisfeito da vida. Mas de repente, puf! consagradas no folclore popular: aquele estouro e aquela fumaceira!... O saci deu tamanho pinote que foi parar lá longe, e "Menina, minha menina, saiu ventando pela janela fora. Quem te fez tão triste assim? Eu tinha socado pólvora no fundo do De certo foi Saci pito – exclamou tio Barnabé, dando uma risada Que flor te fez do seu jardim." gostosa. – A pólvora explodiu justamente quando ele estava dando a fumaçada número Sua imagem e sua lenda, sofreram sete, e o saci, com a cara toda sapecada, transformações quando em contato com raspou-se para nunca mais voltar. elementos africanos e europeus. Suas características comportaram muitas variantes. LENDA DA ORIGEM INDÍGENA DO SACI Cada qual o vê a seu modo. De suas diabruras foram narradas coisas espantosas. Não se têm Um tuixaua tinha dois filhos. O tio conta do número de molecagens e sortilégios odiava os sobrinhos e convidou-os para ajudá- que o diabinho infantil praticou. À noite dava lo em uma derrubada de árvores para fazer um nó na crina dos cavalos, roubava os ninhos das plantio. Os dois sobrinhos aceitaram. galinhas, cuspia nas panelas quando a Chegando na floresta, o tio embriagou cozinheira era preta, deixava as porteiras os jovens e os assassinou por pura maldade. abertas, assobiava como o vento nas janelas e Depois um dos assassinados perguntou nas portas, etc. ao outro: O cavalo era uma das suas vítimas -"Eu tive um sonho muito estranho e tu preferidas. Segundo a crendice popular, o Saci o que sonhaste?" corre as pastagens, lança um cipó no animal -"Sonhei, diz o outro, que nos escolhido e nunca errou, trança-lhe a crina para lavávamos com carajuru". amarrar com ela o estribo e, de um salto, ei-lo -"O mesmo sonhei eu". montado. O cavalo toma-se de pânico e deita a E resolveram voltar para a casa da avó. corcovear campo a fora, enquanto o Saci lhe Vendo-os, a velha já ia aquecer o jantar, mas finca o dente no pescoço e chupa seu sangue. os dois netos disseram: Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    101 Uma curiosidade em relação ao Saci- exemplo, os da Escócia, com os quis, segundo Pererê é que ele pode tornar-se invisível com o Ramiz Galvão, muito se assemelha o "Trilby", uso do sua carapuça vermelha. Contam alguns, do conto de Nodier e o diabrete "Robin", de que onde se forma um redemoinho de vento que nos fala Shakespeare, ora tão prestativo e que levanta muito poeira (pé de vento), é certo ora tão perverso para com a gente da casa em que dentro dele há um Saci. Para capturá-lo, que se instala." deve-se jogar dentro dele um rosário ou uma Há também ainda, quem lhe pinte com peneira. Todo o Saci, como todo o diabinho, feições mais perversas, descrevendo-o como o tem horror de cruz. Já outros, afirmam que ele "terror dos caçadores", que salta à garupa dos usa um barrete feito de marrequinhas (flores da cavaleiros, chibatando-os e torturando-os. corticeira) e é o Saci que governa as moscas Foi Monteiro Lobato em seu livro "O importunas, as mutucas e os mosquitos. Saci", quem mais popularizou este personagem, como uma entidade travessa. Conta-nos que Mas porque nosso Saci tem uma perna ele nascia em um local da floresta conhecida só? como "sacizeiros", constituída de bambuzais. Desse local só sairá quando completar 7 anos e O Saci é considerado um fiel viverá até os 77. representante de um período social da história Mas mesmo Lobato não conseguiu com do Brasil: a época da escravidão. Portanto, não sua obra apagar os traços estigmatizantes do é por acaso que o Saci apresenta-se com uma Saci, pois a mentalidade da escravidão ainda perna só, pois todos os escravos fugidos que era muito forte. Tais marcas só desaparecem eram recapturados passavam por muitas bem mais tarde, quando a indústria cultural torturas e muitas vezes eram esquartejados. O consegue domesticar o Saci e torná-lo tão Saci retrata este negro escravo em sua luta somente um molequinho arteiro, que perdeu contra o dominador e o discriminador. A falta seus poderes mágicos e sua agressividade. da perna não é só metáfora, mas sim algo que Serão suas travessura que lhe realmente acontecia nesta época e passou para garantirão popularidade em todo o País e fora o folclore a partir das amas negras, ao dele também. Conheça um pouco da sua contarem suas estórias para embalar os sonhos estória.... das crianças brancas. Com o passar do tempo, a imagem do O SACI E A PERNA DE PAU Saci rebelde e desordeiro, foi amenizada, forçosamente controlada e passou então para Conta-se que numa noite, há muito estória brasileira como um símbolo nacional, tempo atrás, em que outros homens se um mestiço que une classes sociais e as etnias. divertiam jogando e bebendo, um deles, Mas sabemos que a verdade não é bem chamado Felício, resolveu dar umas voltar e se essa....! deliciar com o luar. Sentou-se num grosso O valioso livro "Contos Populares" de tronco de ipê, a beira do riacho e começou a Lindolfo Gomes, conta-nos um curioso caso, em preparar um "pito". Foi quando ouviu uma que domina o Saci. E, das eruditas notas vozinha: explicativas, transcrevemos: - "Moço, tem um pouco de fumo aí?". "A respeito do Saci, há uns que afirmam Pensando que fosse um de seus amigos, ser um negrinho de uma banda, ou de uma virou-se para responder, quando deu com o perna só, gênio em alguns casos benfazejo e Saci. Ele lhe sorria segurando um cachimbinho protetor e em outros, perverso e malfazejo, que vazio. vaga à noite pelas estradas a perseguir os Felício, ficou branco, depois verde, um viajantes ou penetrar nos lares para praticar arco-íris de cores, tamanho foi seu susto. Quis toda a sorte de malefícios e acender seu gritar, mas sua voz sumiu por encanto, ou cachimbo, sempre armado de um cacetinho, medo mesmo. O Saci chegou mais perto e pronto a descarregá-lo no lombo alheio. Já para disse: outros, o Saci é um passarinho cabuloso e - "Não tenha medo, meu amigo. Só maléfico. Percebe-se logo que este mito saci foi quero um pouco de fumo." com o decorrer dos tempos se ampliando de Felício faz um esforço danado e tira do elementos míticos estranhos, como por bolso um pedaço de fumo. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    102 - "Aqui está!". Diz ele ao Saci, mal Felício saiu atrás dos homens. Gritou um conseguindo balbuciar as palavras. tempão até conseguir reunir todos. Eles não - "Assim não serve. Respondeu o queriam ficar mais no barracão. Não queriam diabinho. "Tem que ser picado, pois não tenho nada com o Saci. Ajudar a fazer a perna dele? canivete". Nem sonhando! Mas acabaram concordando, Com medo de irritar o Saci, o pobre pois era a única maneira de se livrar do homem tratou de fazer rapidinho o que ele lhe diabinho. pediu. Depois, com muito sacrifício, Felício deu Trabalharam com afinco. No dia o fumo ao Saci. marcado, o Saci voltou e ficou muito contente. - "Encha o pito!" Todos suspiraram aliviados. Mas pensam que a - "Agora acenda!". Ordenou ele. estória acaba assim? Que nada! Ele falou que O Saci passou então, a dar baforadas de desejava uma perna para cada Saci de sua satisfação. Passados alguns minutos, o família. Não esperou resposta, deu um assobio danadinho chegou mais perto e perguntou a e logo o barracão ficou cheio de sacis. É claro Felício o que estava fazendo tão longe de casa. que Felício ficou sozinho! Não vendo outra Felício explicou então que trabalhava com saída, ele concordou em fazer as pernas de madeiras e foi contando sua história... No final pau, mas ia levar anos. Quis saber então quais o Saci deu uma grande risada e disse: os Sacis que iam ser atendidos primeiro. Aí sim - "Madeira, não é mesmo? Pois é o tumulto foi grande, ninguém queria ser o justamente o que eu estava procurando..." último. - "Mas para que?" Pergunta Felício. Foi quando Felício teve uma idéia. Ele - "Olhe, pois vou lhe confessar uma viu uma enorme arca que haviam trazido para coisa, as vezes tenho muita vontade de ser deixar no rancho e mentalmente resolveu a como as outras pessoas e ter duas pernas, situação. entende? Dirigiu-se ao Saci-chefe: - "Ah!". Respondeu, compreendendo a - "O melhor modo de resolver quais intenção do Saci. "Você quer que eu lhe faça serão os primeiros é este..." Pegou um uma perna de pau, não é mesmo?" punhado de feijão e esparramou no fundo da - "Pois é isso mesmo e te darei três dias arca. Depois disse que quem pegasse mais para que esteja pronta, senão não darei grãos seriam os primeiros. Todos os Sacis sossego a você e seus companheiros!" Em concordaram e mergulharam na arca. Mas seguida saiu pulando e sumiu no meio do mato. Felício havia esquecido do Saci-chefe. Foi Felício voltou ao seu barracão e contou quando então tirou-lhe da mão a perna de pau aos companheiros o acontecido. Uns e atirou-a dentro da arca. O Saci nem piscou e acreditaram ,outros acharam que tinha bebido também se jogou dentro da arca. O Felício demais.. Até que Felício acabou esquecendo o então fechou-a. Chamou os homens e levaram caso. No terceiro dia, conforme prometido, a arca o mais longe possível. Desde então quando os homens estavam em pleno trabalho, nenhum Saci apareceu mais por aquelas eis que um menino de gorro vermelho surge à bandas. porta do barracão. Quando deram com ---------------------------- ele..vocês nem podem imaginar..uns Em seu O Sacy-Perêrê – Resultado de empurravam os outros, caiam, levantavam-se e um inquerito , Monteiro Lobato faz um retrato acabaram saindo todos pela abertura da janela. falado do Saci, conforme lhe foi passado por Apenas Felício ficou lá, estarrecido! Daí entendidos no assunto: perguntou: Só no convívio do sertanejo, valente de - "O que você quer?" dia e medroso de noite, ao som da viola num - "Ora, ora. Então não sabe? Vim buscar rancho de tropeiros, vendo bruxolear a minha perna de pau, lembra-se? Não vá dizer fogueirinha e, fóra, na imprimadura da que ainda não está pronta?" escuridão, lucilar o vagalume vagabundo é que Felício gaguejou, atrapalhou-se todo até um artista poderá “ouvir e entender” sacys. que consegui dizer que ainda não estava O medinho contagioso abrir-lhe-á todas pronta. O Saci xingou, esbravejou, mas acabou as valvulas da comprehensão. E saberá pela indo embora com a promessa que tudo estaria boca ingenuamente credula do Geca Tatu que pronto dentro de mais três dias. tempéra a viola que o Sacy é um molecote Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    103 damninho, cabrinha malvado,amigo de montar pássaro-Saci se convertem um no outro ou se em pêllo nos “animaes” soltos no pasto e trabalham em sociedade... sugar-lhes o sangue emquanto os pobres Já Alceu Maynard Araújo, no primeiro bichos se exhaurem em correria desapoderada, volume de Folclore Nacional , cita o major às tontas, loucos de pavor. E que em dias de Benedito de Sousa Pinto, de São Luiz do vento elle passa pinoteando nos remoinhos de Paraitinga, evidentemente: poeira. E que nessa ocasião basta lançar no Conhecemos três espécies de Saci: turbilhão um rosario de caiapiá para tel-o trique, saçurá e pererê. O Saci mais encontrado captivo e a seu serviço como um criadinho por aqui é o Saci-pererê. É um negrinho de invisível. E saberá mil particularidades mais, uma perna só, capuz vermelho na cabeça e ouvirá “causos” de mil diabruras pelos campos, que, segundo alguns, usa cachimbo, mas eu ou dentro de casa se uma cruz na porta nunca vi. É comum ouvir-se no mato um principal não a proteje do capeta. E ficará “trique”isso é sinal que por ali deve estar um encantado com a psychologia do pernetinha, Saci-trique. Ele não é maldoso; gosta só de cuja mania é atazanar a vida do sertanejo com fazer certas brincadeiras como, por exemplo, molecagens de todo o genero sem entretanto amarrar o rabo de animais. cahir em excessos de perversidade. Não tem O saçurá é um negrinho de olhos maus bofes, o Sacy. O que quer é divertir-se a vermelhos; o trique é moreninho e com uma custa do caboclo e quebrar a vida monótona do perna só; o pererê é um pretinho que, quando sertão. quer se esconder, vira um corrupio de vento e Mas há controvérsias. desaparece no espaço. Para se apanhar o Na Geografia dos Mitos Brasileiros , pererê, atira-se um rosário sobre o corrupio de Câmara Cascudo cita uma passagem de vento. Poranduba Amazonense em que Barbosa Quando se perde qualquer objeto, pega- Rodrigues vê a identidade do insigne perneta se uma palha e dá-se três nós, pois se está se sobrepor à de uma ave, o popularíssimo amarrando o órgão genital do Saci. Enquanto “Pássaro-Saci”: ele não achar o objeto, não desatar os nós. Ele ... no Sul é Saci tapereré, no Centro logo faz a gente encontrar o que se perdeu Caipora e no Norte Maty-taperê. porque fica com vontade de urinar. Quando se O civilizado, que muitas vezes não vê um rabo de cavalo amarrado, foi o Saci entende a pronúncia do sertanejo, que é o mais quem deu o nó. Tirando-se o gorrinho do Saci- perseguido por ele nas suas viagens, tem-lhe pererê, ele trará para quem o devolva tudo o alterado o nome; já o fez Saci-pererê, Saperê, que quiser. Sererê, Siriri, Matim-taperê e até já lhe deu um Quando passar o redemoinho de vento, nome português, o de Matinta-Pereira, que jogando-se nele um garfo sai o sangue do Saci. mais tarde, talvez, terá o sobrenome “da Silva” Há outras versões: dizem que jogando-se um ou “da Mata”. Para conseguir seus fins, e fazer rosário, o Saci fica laçado; e que jogando-se suas proezas sem ser visto, sempre vive o Saci uma peneira, fica nela. ou Mati metamorfoseado em pássaro, que se denuncia pelo canto, cujas notas melancólicas, Um ancestral do Saci ora graves ora agudas, iludem o caminhante que não pode assim descobrir-lhe o pouso Pesquisando sobre a origem e porque, quando procura vê-lo pelas notas abrangência geográfica do saci, me aventurei graves, que parecem indicar-lhe estar o Saci por livros e enciclopédias de folclore. Embora perto, ouve as agudas, que o fazem já longe. E todos os continentes tenham duendes assim, iludido pelo canto se perde, leva protetores das florestas, nenhum tem as descaminho nunca vendo o animal. características de nosso simpático unípede. Um adendo. Gabriel Esquerra, um Nem mesmo na África negra descobri parentes sociólogo argentino, diz existir uma dúvida do saci, o que delimita seu habitat natural à polêmica, entre a população de Misiones, na América do Sul. região fronteiriça com o Brasil e o Paraguai, Os guaranis contam histórias de um quanto à questão levantada por Barbosa pequeno índio meio mágico, com o poder de Rodrigues: ninguém sabe ao certo se o Saci e o ficar invisível, que vive nos bosques e protege os animais, escondendo-os dos caçadores. Seu Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    104 nome é Cambaiou Cambay, e curiosamente ele Um saci estranhíssimo! Diz o texto, um tem uma perna torta, e anda manquitolando. relato dos primeiros desbravadores, que ele Vem daí a expressão cambaio, que significa assim agia para se proteger do sol naquela manco, em português. Cambai pode ser região desértica. Foi chamado de “patagon” considerado um ancestral do saci moderno, que (grande pata, pezão), e daí deriva o nome da adquire a cor preta por influência da cultura região: Patagônia. Como hoje não há mais afro trazida para o Brasil. relatos sobre sua presença, podemos supor que Nas lendas amazônicas ou litorâneas está extinto, infelizmente. Mas sua semelhança (aruaques, tupinambás) não há registros de com o nosso saci revela que foi um parente saci, o que nos leva à conclusão de que ele é próximo, um antepassado igualmente sul- originário do Centro-Sul do país - área guarani - americano. tendo como centro de irradiação o Vale do Paraíba, onde registramos a maior parte das ocorrências. Quando já considerava encerrada a pesquisa deparei com um fato assombroso, que passo agora a relatar. Viajantes do século XVII, explorando o extremo sul do continente, chegaram às terras geladas da Terra do Fogo, onde encontraram uns poucos índios, altos e fortes, habituados à aridez do solo e à inclemência do tempo. Uma rara ilustração da época, encontrada num livro espanhol, revela um pequeno homem, nu, barbado, deitado no chão com sua única perna erguida e um enorme pé sobre a cabeça. ESTANTE DE LIVROS O garatuja: crônica dos tempos coloniais O guarani Alencar, José de Alencar, José de O romance é ambientado na cidade de São A branca Ceci se apaixona pelo índio Sebastião do Rio de Janeiro, em meados do Peri, numa tragédia típica da época das século XVII, integrando uma trilogia publicada Bandeiras. O enredo, do mais famoso livro de em 1873, com o título de Alfarrábios. Alencar, já serviu para movimentar filmes, Ivo, personagem principal, nasceu de um óperas e novelas. relacionamento conjugal e é enjeitado pela Iracema: a lenda do Ceará sociedade. Vive uma história de amor inocente, Alencar, José de escondida dos pais da moça, e participa Lenda cearense que conta a história da ativamente das peripécias políticas nas Tabajara Iracema e do colonizador Martim, de constantes intrigas entre a Coroa e a Igreja, as cujo amor nasce Moacir. Relato poético sobre a principais instituições da época. Ele, porém, vida dos indígenas e dos homens brancos. não é uma pessoa comum. Possui grande talento para o desenho, daí o apelido de Lucíola "Garatuja". Suas caricaturas, rabiscadas nos Alencar, José de Alencar muros da cidade, são um dos elementos que A linda Lúcia não se enquadrava nos conduzem o enredo. Nenhum outro preconceitos dos sonhos de Paulo. No Rio de personagem é capaz de compreendê-lo e até Janeiro de cem anos atrás, mundano, frívolo, comentam que ele tem parte com o diabo, fato materialista, Lúcia era a mundana, a frívola, a que acaba contribuindo para sua expulsão do materialista. E, por amor, os sonhos de Paulo colégio dos jesuítas. tiveram de se adaptar à realidade de Lucíola. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    105 Aos poucos, essarealidade revelou-se muito, forma a tornar a história mais acessível e muito melhor do que os sonhos. divertida aos adolescentes. Senhora Memórias de um Sargento de Milícias Alencar, José de Almeida, Manoel Antônio de Aurélia, uma personagem feminina Crônica semi-histórica de amores e universal. Criada há mais de cem anos, tornou- aventuras no Rio de Janeiro de Dom João VI. O se real, adquirindo uma existência mais sólida livro retrata a sociedade brasileira no início do do que se tivesse existido em carne e osso. Em século XIX, por meio das peripécias do carne e sangue. Em carne e charme. Em carne vivaldino Leonardo. e verdade. Nesse romance, José de Alencar parecia antever o debate feminista do século ABC de Castro Alves XX, ao criar uma personagem jovem, mas forte, Amado, Jorge que procura impor sua condição de mulher no A biografia sentimental do poeta baiano mundo masculino, onde todas as decisões são Antônio Castro Alves serve para que o autor se tomadas pelos homens. E pelo dinheiro. coloque como um de seus discípulos e O sertanejo transforma o poeta romântico em um profeta Alencar, José de revolucionário. Os dias e os trabalhos do vaqueiro cearense Arnaldo traçam um painel do A descoberta da América pelos turcos Nordeste brasileiro no último romance Amado, Jorge publicado em vida por José de Alencar. Em 1922, Jorge Amado lançou a história da chegada do árabe Jamil Bichara à Itabuna, Til no início do século XX. Foi a sua forma de falar Alencar, José de sobre os 500 anos da descoberta da América O desejo de vingança do capanga sem deixar de ser original e regional. profissional João Fera e a vida rural do Brasil Imperial, são os temas desse romance de Dona Flor e seus dois maridos aventura do autor cearense. Amado, Jorge Ubirajara Florípedes, a Dona Flor, é professora de Alencar, José de culinária da escola Sabor & Arte e perde seu A continuação de Iracema conta as primeiro marido, Vadinho, malandro guerras indígenas no Nordeste do Brasil antes incorrigível, em pleno domingo de carnaval. do Descobrimento. Como ainda é jovem e bonita atrai a atenção do corretíssimo farmacêutico Teodoro e casa-se Mergulho no fim com ele. As diferenças entre os dois maridos Alge, Nilo são gritantes. O fantasma de Vadinho passa a Marcos é convidado para jantar na casa se entrometer na vida (e na cama) de D.Flor e de seu amigo Jorge. Entre os presentes está Teodoro. um velho professor de Biologia, ainda dos tempos em que eram estudantes. Os A morte e a morte de Quincas Berro convidados passam a suspeitar das pesquisas D’Água feitas pelo cientista e a temer pelo destino da Amado, Jorge humanidade, após a divulgação do que ele vem O respeitável Joaquim Soares da Cunha, trazendo em segredo, segredo este somente funcionário público exemplar, rompe com a compartilhado por sua jovem assistente. família e as convenções sociais para viver aventuras no porto e na zona de meretrício de As viagens de Marco Polo Salvador. Almeida, Lúcia Machado Os pastores da noite O livro baseia-se nas viagens e Amado, Jorge aventuras do célebre navegador italiano da Personagens inesquecíveis nesta trama Idade Média, narrado de forma mais viva pela que conta o dia-a-dia de um morro em autora e tendo Marco Polo como herói, de Salvador. O cabo Martim está para se casar Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    106 com Marialva, masuma dona de bordel tem Uma trama de lutas, violência e paixão razão para desconfiar da moça. na zona baiana do cacau, construída com leveza, humor e sensualidade. São Jorge dos Ilhéus Amado, Jorge Macunaíma: o herói sem nenhum caráter Continuação do livro “Terras do sem Andrade, Mário de fim”. A segunda geração de homens que Crítica social e política através de conquistaram a terra, a política, os seres alegorias e simbologia. O autor usa grande humanos, a decadência do cacau. Intrigas, quantidade de palavras indígenas. amor e paixões. A face horrível O sumiço da santa: uma história de Ângelo, Ivan feitiçaria Contos que manifestam ao primeiro Amado, Jorge exame, a essência de todo o texto irônico. A Dono de um estilo inconfundível, Jorge atração inicial ou a criação de uma expectativa, Amado reforça, neste livro, sua posição de segue-se a traição ou a frustração dessa artista fortemente identificado com o espírito expectativa. O elemento surpresa está sempre cultural baiano. O humor, a malícia e a presente, geralmente oculto sob a poeira fina influência do autor fazem deste romance uma do cotidiano. obra-prima. A história conta a visita de Santa Bárbara , Yansã no candomblé, à cidade de O cortiço Salvador. Ela se mistura ao povo e interfere na Azevedo, Aluísio vida de duas de suas filhas. Um dos mais conhecidos e expressivos romances da escola naturalista brasileira, Tenda dos milagres retrata a vida numa habitação coletiva do Rio Amado, Jorge de Janeiro na época da escravatura. Seus Um painel social e político da Bahia, personagens típicos, as pequenas trapaças e desde o fim do século XIX até a Segunda violências surgem aos olhos do leitor em cores Guerra Mundial. O centro do romance é a vida vivas e lances emocionantes. O autor pinta o de Pedro Arcanjo, um personagem fascinante retrato de todo um processo de transformação que luta pela afirmação da cultura afro- econômica e social que ocorreu com a brasileira e pela dignidade social do negro expansão urbana da antiga capital do país. enfrentando os preconceitos e a repressão Publicado em 1890, por muito tempo este policial. romance foi considerado escandaloso. Terras do sem fim Noite na taverna Amado, Jorge Azevedo, Álvares Romance sobre o ciclo do cacau na Proporciona ao leitor uma viagem ao Bahia. O poder absoluto dos coronéis na mundo fantástico da melancolia e morbidez que conquista das terras, domina tudo e todos pela caracterizam a época em que viveu Alvares de força. Este livro tem continuação em “São Jorge Azevedo. Numa taverna, um grupo de dos Ilhéus”. conhecidos reúne-se para espantar o tédio com o vinho nos lábios e contos macabros afluindo Tieta do agreste na mente. Amado, Jorge Expulsa do lugarejo onde nasceu, após Cara nova ou beleza pura decorrer vários anos, Tieta retorna rica e Bloch, Pedro poderosa, guardando um segredo. Todos Pedro Bloch realiza uma viagem nesta temem uma possível vingança, ao mesmo sociedade moderna. É um desafio aos leitores tempo que se defrontam com os costumes para que reflitam sobre o consumismo, o ousados de uma mulher que não temia nada. modismo, os conflitos de diversos perfis psicológicos, sobre os seus próprios Tocaia grande: a face obscura sentimentos e atitudes. Amado, Jorge Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    107 Amor de perdição Eduardo Bueno leva o leitor a bordo da Branco, Camilo Castelo esquadra de Cabral onde será conhecida cada O drama mais passional da língua etapa decisiva que culmina na chegada dos portuguesa, onde o autoritarismo e o portugueses ao Brasil. preconceito impedem a avassaladora paixão Mauá, empresário do Império banida:Teresa, para um convento e Simão, Caldeira, Jorge para o degredo nas Índias. Em segredo, Biografia de Irineu Evangelista de Mariana ama Simão, que não sabe desse amor. Sousa, Barão e Visconde de Mauá, que Ele só tem sentidos para a sua inatingível começou sua vida como caixeiro e foi Teresa. Resignada, Mariana ajuda o amor de surpreendendo, enriquecendo e assustando a Simão por sua rival, fazendo despontar a todos numa sociedade de senhores e escravos, tragédia. Uma história de extremos. favores e conchavos. Trabalhou até o final da Capitães do Brasil – A saga dos primeiros vida e protagonizou uma aventura empresarial colonizadores sem paralelo em qualquer outro momento da Bueno, Eduardo história do Brasil. Que homens receberam os imensos A expedição Montaigne lotes da nova colônia portuguesa – as Callado, Antonio chamadas capitanias hereditárias? Por que Disposto a organizar, no coração do foram eleitos donatários e que missão, Brasil, um exército de índios, rebelando-os realmente, viriam a cumprir? A saga dos contra os brancos, o jornalista Vicentino Beirão primeiros capitães do Brasil, entre 1530 e 1550, arrasta com ele, na louca empresa, o camaiurá revela o jogo do poder e ambição da Coroa Ipavu (ou Paiap), portuguesa, e seu projeto para a colonização da margem oriental do Atlântico, abandonada tirado por ele do reformatório (ou presídio) de desde o descobrimento. Crenape. O Resultado da expedição é surpreendente. O descobrimento das Índias Bueno, Eduardo Cartas do meu moinho O diário perdido da viagem de Vasco da Campos, Paulo Mendes Gama, escrito pelo marinheiro Álvaro Velho, é Um escritor que mora em um moinho de editado pela primeira vez no Brasil numa versão pás móveis, observa os tipos humanos e as atualizada e com prefácio do jornalista Eduardo paisagens da Provença. Uma coletânea de Bueno. O livro é o relato dramático da rota feita contos escritos por autor perspicaz e sensível. pelo navegador Vasco da Gama, de Lisboa até Bilac vê estrelas Calicute, sendo um documento precioso para Castro, Ruy quem gosta de história e aventura. Rio de Janeiro, 1903. Olavo Bilac está em seu posto de observação na calçada da Náufragos , traficantes e degredados Confeitaria Colombo. Com a própria glória Bueno, Eduardo garantida, só uma coisa o preocupa: como é O livro conta a saga dos primeiros efêmera a glória alheia. Seu amigo José do brasileiros, os esquecidos náufragos e Patrocínio, grande jornalista da Abolição, pode aventureiros que desbravaram nossas terras e ter sido encontrado morto em Paquetá. Bilac se travaram contato com os índios durante os mete numa trama envolvendo um fabuloso anos 1500 a 1530, um período obscuro da dirigível, inventado por Patrocínio e objeto da História do Brasil. cobiça de dois aeronautas franceses e de uma A viagem do descobrimento traiçoeira espiã portuguesa. Na tentativa de se Bueno, Eduardo apoderar dos planos do balão, a espiã e seu A partir de ampla pesquisa em cúmplice, fazem Bilac literalmente ver estrelas documentos da época e em textos de com uma bengalada na cabeça, que o leva ao estudiosos no assunto, o autor revisita espaço e ao Olimpo. O cenário e a época são importante tema da nossa história: o reais: boa parte da história se passa nas ruas descobrimento do Brasil. Num texto bem do Rio durante a agitada Belle Époque carioca. humorado, repleto de casos pitorescos, Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    108 Bilac vê estrelasé a estréia de Ruy Castro na O silêncio da chuva ficção. Garcia-Roza, Luiz A. No centro do Rio de Janeiro um Brasil 5 séculos executivo é encontrado morto sentado ao Donato, Hernâni volante de seu carro. Além de um tiro único, História do Brasil escrita de uma não há outros sinais de violência. Ninguém viu maneira justa, onde a verdade não sofre nada, ninguém ouviu nada. O policial influência das diferentes doutrinas tão encarregado do caso, inspetor Espinoza, numerosas no século XX e que muito costuma refletir sobre a vida olhando o mar, influenciaram os rumos da humanidade. sentado em um banco da praça Mauá e no Éramos seis momento tem muito sobre o que refletir. De Dupré, Maria José um lado, um morto surgido num edifício- A luta e o destino de uma família muito garagem; de outro, a incessante multiplicação unida, na São Paulo dos anos 30 e 40. de protagonistas do drama. Tudo se complica quando ocorre outro assassinato e pessoas Sinhá moça começam a sumir. Fernandes, Maria Dezone Pacheco Romance de amor, no tempo da luta Anarquistas graças a Deus contra a escravidão negra no Brasil. Gattai, Zélia De Virgolino a Lampião Autobiografia. A indomável coragem de Ferreira, Vera / Amaury, Antonio uma gente sofrida. Imigrantes italianos em São Paulo, suas dificuldades, lutas e alegrias na Neste livro, os autores procuram sobrevivência na grande metrópole. (Sugestão: mostrar a história real de Lampião, o “Rei do ler em seguida “Um chapéu para viagem”.) Cangaço”, esclarecendo a verdade dos fatos e separando a ficção da realidade, de uma forma Jardim de inverno clara, objetiva e imparcial. Gattai, Zélia Tratado geral dos chatos Um outro sucesso da autora, onde Figueiredo, Guilherme de Oliveira aborda a Guerra fria, a vida na Tchecoslováquia, a perseguição à comunistas A humanidade está chata. O Brasil está devotados. Um livro politicamente oportuno. chato. A chatura cresce a olhos vistos e se espalha sobre nós. Não liqüidaremos com a Fase terminal chatura, mas aprendemos a conhecê-la em Gomes, Alvaro Cardoso todas as suas múltiplas facetas, pois assim estabeleceremos as regras de convivência Para cada problema um antídoto suportável que nos reconduzem à proposição estimulante. Para o tédio e a falta de inicial, "O chato não se chateia", e isso nos perspectiva: louvor ao perigo e à violência. Para permitirá, como último gesto de esperança, a perda do afeto, da compreensão e do bradar: Chatos de todo mundo, uni-vos! diálogo: drogas e pichações. Esse era o cotidiano de Teto, Kika e Caco, antes da O doente Molière doença de Vado, companheiro de aventuras. Fonseca, Rubem Centrados em si mesmos, os três desconheciam as dificuldades daqueles que trabalham para Dando continuidade à proposta da sobreviver. Desconheciam, principalmente, o coleção literatura ou morte, Rubem Fonseca poder destruidor da AIDS. Onde buscar escolheu Molière para compor este policial que antídotos para a fragilidade humana? se passa na corte de Luis XIV. Após uma apresentação da peça “ O doente imaginário “, A escrava Isaura Molière sente-se mal e, agonizante, revela a Guimarães, Bernardo seu amigo que foi envenenado. Na busca pelo assassino, o leitor passeia pela França Isaura nasceu branca, mas nasceu na setecentista e ainda tem o prazer de “assistir” senzala. Nasceu escrava, destinada a uma vida às peças do dramaturgo. de miséria, de humilhação, ao fim da qual só a esperava uma morte cruel como a de sua mãe. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    109 Linda, capaz desobreviver em meio às moças Um pássaro em pânico mais aristocráticas do Recife, Isaura desperta a José, Elias paixão abjeta do fazendeiro Leôncio, seu Contos onde se misturam realidade e “dono” de direito. Mas desperta também o fantasia. amor puro de Álvaro. O feijão e o sonho O seminarista Lessa, Orígenes Guimarães, Bernardo Romance que narra a história do poeta Tornar-se padre e internar-se em um Campos Lara, professor de uma pequena seminário pela imposição dos pais, quando lá cidade do interior paulista, dividido entre o fora está Margarida, sua paixão. universo sensível da poesia e as amargas necessidades do cotidiano. Grande sertão: veredas Guimarães Rosa, João A pedra no sapato do herói O único romance do escritor mineiro Lessa, Orígenes conta, em linguagem perturbadora, as A história de um garoto muito esperto, lembranças do jagunço Riobaldo em suas que se torna herói, ao livrar sua pequena desventuras e cavalhadas no espaço mítico dos namorada das mãos de um bandido que campos gerais e seu amor impossível por pretendia assaltar o prédio onde moravam. Diadorim. Rua do sol Primeiras estórias Lessa, Orígenes Guimarães Rosa, João O dia-a-dia da vida de um menino de 6 Este é o melhor livro para começar a anos, no Maranhão. Suas aventuras e entender Guimarães Rosa. São vários contos experiências, alegrias e tristezas. que passeiam do fantástico ao anedótico, Tio Pedro passando pelo psicológico, o autobiográfico e o Lessa, Orígenes satírico. É um livro que mostra como os Sagarana preconceitos e os falsos valores de uma Guimarães Rosa, João sociedade consumista podem deformar a Estréia do autor no conto. O livro consciência das crianças. Há 25 anos, Tio Pedro desponta como a semente de uma obra cujo tinha partido para os seringais do Acre e os significado está longe de ser decifrado. São sobrinhos esperavam que ele retornasse rico e nove histórias, que apresentam a paisagem cheio de presentes para satisfazer seus desejos humana e geográfica do Brasil em linguagem de crianças pobres. Riqueza e bens materiais, o absolutamente pessoal. Obra de fundamental sonho de consumo da classe média brasileira. importância para a compreensão do universo Cidade de Deus ficcional de Guimarães Rosa. “Sagarana” é Lins, Paulo exaltação e deslumbramento, uma criação Inaugurado em 1966, o conjunto absoluta. habitacional Cidade de Deus se tornou uma das Camilo Mortágua maiores e mais violentas favelas do Rio de Guimarães, Josué Janeiro. Neste seu romance de estréia, Paulo A história de Camilo Mortágua Lins faz um painel das transformações sociais amadureceu por oito anos, antes de tornar sua pelas quais a favela passou: da pequena estrutura definitiva. Trata-se da trajetória criminalidade dos anos 60 à situação de política de seu país. violência generalizada e de domínio do tráfico de drogas dos tempos atuais. Para redefinir a Os tambores silenciosos situação do lugar onde cresceu, Lins usa o Guimarães, Josué termo “neofavela”, em oposição à favela antiga, Discussão sobre a legitimidade da aquela das rodas de samba e as malandragens censura, através da sátira de personagens de românticas. Baseado em fatos reais, grande uma cidade que não consta no mapa. Vasto parte do material utilizado para escrever este painel humano que se expressa em um livro foi coletado durante oito anos de romance realista e vencedor, por unanimidade pesquisas antropológicas sobre a criminalidade do prêmio Érico Veríssimo. e as classes populares do Rio de Janeiro. Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    110 O mistério doíndio voador O segredo do ídolo de barro Loibl, Elisabeth Loibl, Elisabeth Aventura vivida pelos irmãos Nando e Quando o Dr. Henrique resolveu levar Pituca que tem como cenário o Vale do Seridó, seus jovens sobrinhos para os fascinantes no Rio Grande do Norte, e sua arte rupestre. A caminhos da arqueologia, as descobertas autora relata o trabalho feito por uma começaram na cidade de Belém, no Mercado expedição arqueológica e a bonita integração Ver o Peso, na visita ao Museu Emílio Goeldi. dos cientistas/arqueólogos com os valiosos Mas é na Ilha de Marajó que eles vivem uma conhecimentos com os nativos da região. incrível aventura quando Paulinho ganha de presente um misterioso ídolo de barro, tesouro de uma civilização perdida. Tatiana Belinky toma posse na Academia Paulista de Letras Dia 15 de abril de 2010, às 19,00 horas, Ainda hoje, Tatiana é apaixonada por no Colégio Dante Alighieri, haverá a solenidade Monteiro Lobato e o coloca acima de todos os de posse de TATIANA BELINKY, a grande dama outros escritores que se dedicaram ao universo da Literatura e da TV e tradutora das obras da criança, inclusive estrangeiros. O amor russas no Brasil, na ACADEMIA PAULISTA DE surgiu logo no primeiro contato, quando se LETRAS, com saudação do acadêmico mudou de São Petersburgo, à época parte da FRANCISCO MARINS. União Soviética, para São Paulo com sua Tatiana Belinky é uma das escritoras de família. Ela vinha munida de toda a cultura livros infantis mais conhecidas no Brasil. cultivada em casa - a mãe cantava, o pai Curiosamente, ela nasceu na Rússia, em 1919, escrevia poesia - e de três idiomas na ponta da e veio pequena ao Brasil, com apenas dez anos língua (russo, alemão e letão). Logo aprenderia de idade. Além dos livros infantis, Tatiana ficou muito bem o português, e o adotou como a famosa por ter sido responsável pela primeira língua oficial de sua escrita. adaptação do "O Sítio do Pica-Pau Amarelo", de Outra novidade de Tatiana são seus Monteiro Lobato, para a televisão. Já recebeu contos, entre eles "A coruja e a onça", muitos prêmios pelas suas histórias e trabalhos republicados na coleção Ciranda Cirandinha, da realizados na televisão e no teatro. Nesta Editora Paulus, que reúne grandes autores da entrevista concedida ao CRE, a escritora literatura infanto-juvenil. Os volumes vêm reafirma a importância do hábito da leitura para engrossar a lista já impressionante de mais de as crianças. 100 livros publicados, sem contar com as "Capitu que me desculpe, mas a Emília é muitas traduções de obras-primas assinadas a maior heroína literária brasileira". Esta por ela, como dos contos de Hans Christian declaração já virou marca registrada de Tatiana Andersen e dos Irmãos Grimm. Tatiana foi Belinky, que acaba de completar 91 anos e responsável, ainda, pela primeira adaptação de também de entrar para a Academia Paulista de "O Sítio do Picapau Amarelo" para a TV, Letras. "Nunca imaginei que fossem me indicar, veiculada na década de 1950 pela Tupi. Seu fiquei até um pouco assustada. Mas fui eleita e marido, Júlio Gouveia, dirigia os episódios. agora vou à festa da posse. Estou pensando em Ganhou, mais tarde, o Prêmio Jabuti de quem convidar", diverte-se a escritora com o Personalidade Literária do Ano em 1989. Além entusiasmo infantil que nutre desde menina, disso, ao longo de sua carreira, traduziu muitos quando queria ser bruxa para praticar compatriotas, entre os quais Gogol, Tchekhov e travessuras sem receio. Ruth Rocha, sua amiga Tolstoi, mas a criança sempre foi seu público e membro da Academia, participou do convite, favorito. "Tomei conta do meu irmãozinho, que o que a deixou ainda mais lisonjeada. me ensinou metade de tudo que sei sobre Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    111 crianças. Desde então,minha preferência é falar com os pequenos, e sei falar com eles". Academia de Letras do Brasil/ Estado do Paraná Imortais A solenidade dos novos membros Patrono: Luiz Otávio Imortais da ALB, pelo Estado do Paraná será realizada na cidade de Maringá, na data de 020 – LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE (posse em agosto 14 de agosto de 2010, sábado, às 20hs. 2010) Pinhalão Pelo Paraná as cadeiras estão assim compostas: Patrono: Elias Domingos CADEIRAS da Academia de Letras do Brasil 025 – ALBERTO PACO (posse em agosto 2010) 001 - Dr. JOSÉ FELDMAN - Ph.I. Maringá Ubiratã Patrono: Galdino Andrade Patrono: Paulo Leminski 027 – ÁTILA JOSÉ BORGES (posse em agosto 2010) 002 – ROZA DE OLIVEIRA (posse em agosto 2010) Maringá Curitiba Patrono: Túlio Vargas Patrono: Helena Kolody 028 - DARTAGNAN PINTO GUEDES - Ms. 003 – ANDRÉA MOTTA (posse em agosto 2010) Londrina Curitiba 033 – FRANCISCO JOSÉ SINKE PIMPÃO (posse em agosto Patrono: Emiliano Perneta 2010) 004 – VALTER MARTINS DE TOLEDO (posse em agosto Curitiba 2010) Patrono: Sebastião Paraná Curitiba 034 – MARIA ELIANA PALMA (posse em agosto 2010) Patrono: Ildefonso Pereira Correia, Barão do Serro Azul Maringá 007 – OLGA AGULHON (posse em agosto 2010) Patrono: Ary de Lima Maringá 043 - ORLY BUCHI (UFPR) Patrono: Antonio Facci Curitiba 008 – VÂNIA MARIA DE SOUZA ENNES (posse em agosto 2010) 055 – SINCLAIR POZZA CASEMIRO (posse em agosto 2010) Curitiba Campo Mourão Patrono: Heitor Stockler de França Patrono: Aracyldo Marques 011 – DINAIR LEITE (posse em agosto de 2010) 069 - Dr. ANDRÉ G. CARNEIRO - Ph. I. Paranavaí Curitiba 014 – ANTONIO AUGUSTO DE ASSIS (posse em agosto Patrono: Oswald de Andrade 2010) 077 - JORGE JOSÉ MATIEVICZ - Ph.I. Maringá Cascavel Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    112 INDICAÇÃO DE SITES DE LITERATURA Literatura em geral Academia de Letras do Brasil http://www.coladaweb.com http://www.academialetrasbrasil.org.br http://www.releituras.com Domínio Público (livros digitais) http://literaturasemfronteiras.blogspot.com http://www.dominiopublico.gov.br http://www.poetasdelmundo.com Escritores do Sul http://www.vaniadiniz.pro.br http://www.escritoresdosul.com.br http://singrandohorizontes.blogspot.com Trovas Literatura do Paraná http://www.falandodetrova.com.br http://simultaneidades.blogspot.com Alma de Poeta Academia de Letras de Maringá http://www.sardenbergpoesias.com.br http://www.academiadeletrasdemaringa.com.br Portal de Literatura e Arte Academia de Letras de Rondônia http://www.cronopios.com.br http://www.acler.josevaldir.com Jornal de Poesia Academia Sorocabana de Letras http://www.jornaldepoesia.jor.br http://www.academiasorocabana.com.br Cultura Popular Brasileira Academia Paranaense de Letras http://www.jangadabrasil.com.br http://www.academiaprletras.kit.net Poetrix Academia Brasileira de Letras http://www.gouglartgomes.com http://www.academia.org.br Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.
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    113 FONTES Colaboradores Academia Paulista de Letras Alberto Paco Antonio Augusto de Assis Antonio Brás Constante Antonio Manuel Abreu Sardenberg Aparecido Raimundo de Souza Branca Tirollo Dinair Leite Emir Simionato Sabião Franklin Ras Lopes Maria Eliana Palma Nilto Maciel Nilto Manoel (UBT/Ribeirão Preto) Olga Agulhon Paulo Vieira Pinheiro Pedro Ornellas Pedro Silva Vicencia Jaguaribe Bibliografia: - Blog do De Paula. - CEMEP. Professora Vera Lúcia Ravagnani. - Cliquemusic. - Falando de Trova. José Ouverney. - Jornal de Poesia. - Jornal do Conto. - Organização de Cláudio Murilo Leal. Toda poesia de Machado de Assis. Ed. Record. - Organização de Teresa Montero . Clarice na Cabeceira. Ed. Rocco, 2009. - Organização de Carlos Leite Ribeiro. Revista Recanto da Prosa e do Verso – Ano III - Fevereiro de 2010 - Portal São Francisco. - Projeto Releituras. - TV Clipping Maringá - UBT Juiz de Fora - Várias Histórias. Machado de Assis. - Wikipedia. - www.antoniomiranda.com.br - www.singrandohorizontes.wordpress.com - www.vestibular1.com.br Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” – n.3 – Paraná, março/abril de 2010.