SAMUEL
Luciano Duarte
Luciano Duarte
lucianoduarte.com
Copyright © Luciano Duarte, 2020
Todos os direitos reservados.
Texto em conformidade com o Acordo Ortográfi-
co da Língua Portuguesa (1990) em vigor desde 1
de janeiro de 2009.
Dados de Catalogação
D812 Duarte, Luciano
Samuel / Luciano Duarte. Belo Hori-
zonte, 2020 (1ª edição). 266 p.
ISBN: 979-86-576-4485-2
1. Ficção. 2. Ficção nacional. 3. Ro-
mance. 4. Romance Nacional
Sumário
Capítulo I. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
Capítulo II. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
Capítulo III . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
Capítulo IV . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
Capítulo V. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
Capítulo VI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43
Capítulo VII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
Capítulo VIII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
Capítulo IX. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
Capítulo X. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
Capítulo XI. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81
Capítulo XII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
Capítulo XIII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97
Capítulo XIV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105
Capítulo XV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111
Capítulo XVI. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119
Capítulo XVII . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127
Capítulo XVIII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137
Capítulo XIX. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143
Capítulo XX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151
Capítulo XXI. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157
Capítulo XXII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165
Capítulo XXIII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 173
Capítulo XXIV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 179
Capítulo XXV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 185
Capítulo XXVI. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 191
Capítulo XXVII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 197
Capítulo XXVIII . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205
Capítulo XXIX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213
Capítulo XXX. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219
Capítulo XXXI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225
Capítulo XXXII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 235
Capítulo XXXIII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 241
Capítulo XXXIV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 249
Capítulo XXXV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 255
Capítulo XXXVI. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 261
5Samuel
Capítulo I
Frio em Belo Horizonte. No escritório, Samuel
digitava a desejar o fim do expediente. “Hoje é sex-
ta!” — pensava, tomado pela euforia que prenuncia
o final de semana. Havia monotonia no setor, e o
relógio marcava cinco da tarde.
Súbito, o chefe irrompe na sala. Da porta, dispa-
ra:
— Faça o favor, Samuel.
Tensão. Que desejava o chefe? Às cinco da tarde
de uma sexta-feira se não deve demandar um fun-
cionário.
Samuel levantou-se e seguiu o homem, que ru-
mou para a própria sala. Como costumeiro, Val-
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mir esperou que o subalterno entrasse para fechar a
porta, então lhe indicou:
— Sente-se, sente-se.
Rodeou a mesa de vidro, acomodou-se na confor-
tável cadeira de costa alta e começou:
— Então, Samuel… — o chefe sorria. — Quero
lhe propor uma coisa.
Que coisa? Horas extras? Negativo: uma ascen-
são de cargo. Samuel congelou.
— Está na hora, você tem competência e merece.
A partir de segunda quero que tome para si a gerên-
cia do setor.
— A gerência?
E Samuel sentiu brotar-lhe na face o sorriso agra-
decido. A gerência, sim, a gerência! O salário, natu-
ralmente, engordaria, podendo chegar ao dobro em
meses de boas vendas. Nada mau para um jovem
com três anos de empresa…
— Eu não sei como agradecer… — Samuel falava
e tremia.
— Agradeça com resultados! Agora vá para casa
e descanse bem que na próxima segunda quero ver
sangue novo.
— Muito obrigado, Valmir! Você não irá se ar-
repender — despediu-se o novo gerente de vendas,
apertando a mão do diretor.
O sorriso estava esticado na face de Samuel, que
lhe tornou à sala extasiado, tremendo sobre os pés.
Adentrou o setor cabisbaixo, a disfarçar a boa-no-
va dos colegas. Silencioso, desligou o computador,
quando o sinal anunciou o termo do expediente. O
7Samuel
enlevo expandia. Do lado de fora da sala, a fila já
estava formada frente à máquina de ponto. A von-
tade de Samuel era correr ao carro para, em priva-
cidade, olhar ao céu e gritar. Logo deixou o galpão
da empresa discou para o amigo:
— Tá no bar do Régis, Gutão?
— Indo…
— Cinco minutos!
E, desligando o celular, Samuel teve a certeza:
aquele dia voltaria carregado para casa.
Como o bar realmente estivesse a cinco minutos
de carro, Samuel não tardou a chegar. Havia entre
os amigos a tradição: a primeira da sexta tomava-se
no bar do Régis. E assim procediam há três anos,
sempre lançando mão da desculpa de evitar o trân-
sito das seis.
Samuel entrou no bar com dedo em riste:
— Uma gelada e uma abençoada!
Reginaldo, solitário detrás do balcão, sacou dois
copos qual fossem pistolas, um em cada mão, ba-
tendo-os contra a bancada de ardósia. As garrafas
surgiram abertas em segundos.
— Tá na mão! — disse o bom comerciante, tam-
bém servindo um copo para si.
Samuel, eufórico, alçou o copo a propor um brin-
de:
— Que as nossas mulheres não faleçam viúvas!
Um sujeito passando ao lado de fora do bar er-
gueu o braço, e prosseguiu-se o estalido de copos
e a virada costumeira. Samuel, em sede voraz, deu
cabo também do copo de pinga.
8 Luciano Duarte
— Aperte a mão do doutor gerente de vendas! —
revelou ao amigo a novidade.
— Oh! Parabéns, meu caro!
E, a título de comemoração, Reginaldo puxou um
uísque da prateleira que servia de fachada. Pondo-o
sobre a bancada, Samuel objetou:
— Espera o Gutão.
Reginaldo assentiu.
— Mas então, jovem: como é que foi isso?
— Hoje, quase dando o sinal, o chefe chama-me
e atira a promoção. Não esperava…
— O trabalho compensa… Não há que dizer.
Apesar de que eu, aqui no bar…
Irrompe um grito da calçada:
— Vim buscar a minha loira!
Era Gustavo e suas largas espáduas, replicando
idêntica euforia e idêntico dedo em riste da chegada
de Samuel. Reginaldo, em destreza admirável, pu-
xou o abridor e o copo debaixo do balcão e, antes
que os apressados passos do recém-chegado puses-
sem-no junto dos amigos, a nova garrafa já estava
aberta e os copos preenchidos.
— Que as nossas mulheres não faleçam viúvas!
— entoou dessa vez Gustavo, em brinde triplo que
precedeu nova virada.
Após as batidas automáticas contra a bancada,
Reginaldo disse a Gustavo, já repondo as fontes de
alegria:
— A homoafetividade do seu lado agora é gerente
de vendas!
Gustavo crispou:
9Samuel
— Mentira!
Não era.
— Parabéns, meu caro! — e apertou a mão do
amigo promovido. — Três branquinhas pra come-
morar, Regiclênio! — e virou-se novamente a Sa-
muel: — Hoje é pra acabar! É beber até morrer!
Mas Reginaldo interrompeu-o:
— Branquinha? Tá louco? Aqui vai por conta da
casa… — disse e serviu três doses de uísque.
Sorrisos: era raro o comerciante fazer agrados.
De copos cheios, baixou-se um pouco a euforia, en-
tão Samuel pôs-se a falar:
— Cara, eu realmente tenho de agradecer… No
mesmo ano, o carro e a promoção… Em quinze
aposento.
Reginaldo objetou:
— Deus abençoa! Deus abençoa! Mas aposentar
é complicado…
E explanou-lhes a dificuldade que, aos trinta e
cinco, ainda se via enfrentando.
— Abri esse negócio com a mesma ilusão, mas,
hoje, diante dos números…
— Aposentar é uma questão de educação finan-
ceira, Régis — atalhou Samuel. — É poupar, apli-
car e esperar…
Silêncio.
Desde os dezessete, quando entrou no primeiro
emprego, a Samuel tomou-lhe a obsessão da apo-
sentadoria precoce. “Tanto para fazer da vida…
Trabalhar CLT é desperdício!” — raciocinava. E
elaborou um plano de aposentadoria que consistia,
10 Luciano Duarte
sumariamente, em poupar trinta por cento do que
ganhava para, aplicando o montante em ativos do
mercado financeiro, deixar que os juros compos-
tos trabalhassem. Vinte anos era o tempo calculado
para desobrigar-se da labuta. Agora, com a promo-
ção, a situação melhorava consideravelmente.
No bar, Gustavo teve uma ideia:
— Sabe o que seria bom pra hoje? Uma festa de
arrombar!
A sexta-feira inspirava-lhes como nenhum outro
dia.
— Lá em casa não tem jeito. Tá todo mundo lá…
— replicou Samuel.
Reginaldo, obviamente, ficaria no bar. Gustavo
tomou a iniciativa:
— Vou ver se arrumo alguma coisa pra gente.
Deixa eu ver nos meus contatos…
E pôs-se a enviar mensagens.
Correram alguns minutos. Os amigos bebiam e
conversavam, animados; o assunto rendia. Entre-
mentes, os copos iam esvaziando e enchendo, quan-
do Gustavo pareceu ter ajeitado uma festa para dali
a duas horas.
— Fecha pra gente, Regimilson. Hoje tem segun-
do tempo!
— Já, Gutão?
Mas era noite. Os amigos haviam conversado por
três boas horas. Agora, era sair ou abandonar os
planos da sequência. Gustavo e Samuel, trajados
em uniforme, ainda careciam de um banho e roupa
nova.
11Samuel
— Então tá… — assentiu Reginaldo, cabisbaixo,
prevendo para si outra noite monótona.
Pagando as contas, a agitação. Os amigos tinham
de correr para não ficarem de mãos vazias. Com-
praram a latinha do trajeto e acertaram quarenta
minutos para o novo encontro. Apertaram-se mu-
tuamente as mãos e cada qual tomou seu rumo. Era
voar para casa, tomar um banho de gato e sair.
Samuel entrou com agilidade em seu carro, deu
um gole de cerveja e acionou a partida. Antes que
os faróis luzissem, o veículo já arrancava. “Hoje
o pau quebra!” — sorria, a medir as expectativas
lançadas por Gustavo. Segundo o amigo, a “fes-
ta” seriam oito donzelas e quatro rapazes, ou seja,
proporção de duas para um. Era um cenário ex-
tremamente agradável para Samuel que, a dizer a
verdade, estava há boas semanas sem contato com
mulher.
Enquanto Samuel dirigia, devaneava. Parecia as
luzes noturnas provocarem um estado de leve alu-
cinação. Som alto, os pensamentos voando, e os
suaves delírios viam-se amplificados pelo álcool. A
sensação era agradável. Eis o que lhe passava pela
cabeça: via-se, simplesmente, aposentado e feliz; a
promoção avivara-lhe o brio: nenhum dos amigos
gozaria de semelhante renda mensal. O tempo, de
repente, pusera-se-lhe a favor. E como lhe instiga-
vam as possibilidades! Era só esperar… E então,
suponhamos, aos quarenta — quem sabe trinta e
cinco? — poderia dedicar-se a gozar da vida. Com
tempo e dinheiro, duas viagens internacionais por
12 Luciano Duarte
ano. Daria ao filho — e teria um filho — uma edu-
cação primorosa, uma atenção de pai exemplar; em
suma: estaria disponível, sempre disponível. E pode-
ria aprimorar-se em variadas atividades muito mais
interessantes do que gerenciar um departamento de
vendas, do que lidar diariamente com clientes…
Súbito, Samuel fura um semáforo. Em meio se-
gundo o susto, e uma van arrebenta-lhe a lateral
direita do carro.
13Samuel
Capítulo II
O impacto atirou Samuel para fora do carro. A
van, girando e derrapando, estourou-lhe o eixo
dianteiro no canteiro central. Um homem que tra-
fegava a poucos metros do acidente, vendo o cho-
que violento, parou de imediato e correu a prestar
socorro. Samuel, estirado no chão, não esboçou
reação. O motorista agachou-se, a buscar sinais de
vida. Foi quando, mirando de longe, avistou a si-
tuação trágica na van.
Já desciam, correndo, outros dois motoristas. Sa-
muel parecia pulsar. Fremente, o homem cuidou
que o acidentado não se movesse. Na van, chegou
14 Luciano Duarte
o primeiro socorrista: encontrou o condutor, des-
maiado e sangrando muito, com metade do corpo
sobre o capô. Houve desespero generalizado. Desa-
cordados, os acidentados pareciam mortos.
Já havia mais pessoas no local: todos, apreensi-
vos, não sabiam que fazer. Logo estaciona uma via-
tura, fechando o cruzamento. Descem dois policiais
e, correndo, dirigem-se cada qual a um acidentado.
Com as mãos, sinalizam para que as testemunhas
se afastem. Em cinco minutos, chega também a am-
bulância.
Samuel pareceu recuperar parcialmente a cons-
ciência. Atordoado, abriu vagarosamente os olhos.
Passou a gemer contínua e surdamente. Via um vul-
to embaçado diante de si, e as primeiras palavras
que reconheceu foram as instruções do socorrista
para que se não movesse.
— Qual o seu nome?
Samuel balbuciou-lhe a resposta. Sentia dor, mui-
ta dor, e continuava gemendo, contraindo-se, fa-
zendo força para não se mover. A dor trazia-lhe a
consciência. O socorrista perguntou-lhe a idade e a
profissão: ouviu réplica sofrida. Samuel gemia:
— Por favor, por favor…
O homem tentava acalmá-lo.
Em poucos minutos, ambos os acidentados eram
conduzidos ao hospital mais próximo.
Imobilizado, já dentro da ambulância, Samuel
passou a articular melhor os pensamentos. Viu-se
num pesadelo: aquela azáfama, as feições apreensi-
vas, a dor e a posição vulnerável em que se encon-
15Samuel
trava diante de desconhecidos assustavam-no. Onde
lhe estaria o celular? E o carro? Tentava reconstruir
mentalmente a sucessão dos fatos, mas havia um
vácuo na memória: lembrava-se somente a partir do
momento em que fora colocado numa maca.
Imobilizado pelo colar cervical, mirava de soslaio
em redor, encontrando inúmeros olhares tensos.
Os socorristas eram ágeis e falavam alto, agitados,
contaminando o ambiente da urgência. O ombro
direito pulsava e doía muito. “Como?” — pensava,
não encontrando resposta.
De um salto, os socorristas abriram a traseira
da ambulância e com a maca rasgaram o aglome-
rado de pessoas que se encontrava na entrada do
hospital. A sensação de Samuel era horrível: via-se
absolutamente impotente, exposto, sentindo uma
dor latejante e incapaz da menor reação. Não lhe
sabia sequer o próprio estado... Teria quebrado o
pescoço? Como estaria a cervical? Sangrava mui-
to? Sentia, por vezes, um fisgar violento abaixo do
peito. Seria a mortífera hemorragia interna? Que
agonia! Que horror! Mirava o teto, o saquinho de
soro a balançar. As luzes do hospital agrediam-lhe
os olhos. A maca, veloz, percorria os corredores em
zigue-zague.
Súbito, adentra uma sala, perfurando uma corti-
na de PVC. “Será que avisaram o meu pai?”. Aflito,
em desespero, escorreram-lhe lágrimas dos olhos.
“Irão me operar!” — soluçava. A enfermeira, ao
lado, percebeu-lhe a angústia e segurou-lhe a mão.
A maca estacou frente a um homem grisalho de
16 Luciano Duarte
meia-idade. Em três palavras, o socorrista explicou-
-lhe a situação de Samuel. O médico, gravemente,
direcionou-se ao acidentado:
— Meu nome é Oscar, sou cirurgião-geral e estou
aqui pra te ajudar. Quero que me diga o que você
está sentindo.
Samuel, chorando, articulou:
— Meu ombro tá doendo muito, doutor…
E soltar as palavras pareceu-lhe aumentar a afli-
ção:
— Por favor, doutor… — Samuel gaguejava e
tremia, ainda com o pescoço imobilizado. — Você
pode, por favor, ligar para o meu pai?
O médico tentou acalmá-lo:
— A gente já avisou sua família. Pode ficar tran-
quilo. Agora, eu preciso que você se acalme e me
diga o que está sentindo. Você consegue mover o
dedo do pé?
Esforçando-se, engolindo o choro, Samuel assen-
tiu levemente com a cabeça. O doutor ordenou a
enfermeira:
— Raio-X.
E voltou-se ao acidentado:
— A gente precisa fazer um exame pra saber o
grau da sua lesão. Tá bom? Fica calmo. A sua famí-
lia já tá vindo pra cá.
A enfermeira conduziu a maca ao raio-X. Samuel
percorria os corredores assustando e via-se aflito,
extremamente constrangido.
Chegando à escura sala de raio-X, a enfermei-
ra indicou a Samuel que o moveriam ao leito fixo
17Samuel
onde o exame seria realizado. Cuidadosamente, a
maca foi posicionada ao lado do novo leito e, so-
mando apoios, seis mãos executariam a operação.
Samuel sentiu arder o antebraço e gemeu: o ajudan-
te desculpou-se pelo involuntário esbarro. Todos
posicionados, contaram até três e, num só impulso,
transferiram o jovem ao novo leito. A elevação, ti-
rando-lhe o apoio do ombro, agravou-lhe a dor. A
nova posição era desconfortável.
— O exame é rápido, — disse a enfermeira, apro-
ximando-se, — mas eu preciso que você abra um
pouco o braço direito.
Tocou-lhe. O ombro destro era o dolorido.
— Vou mover bem devagarzi…
— Ah! — um centímetro bastou para que viesse
a fisgada.
— Desculpa, desculpa…
— Tá doendo demais!
Evitando a insistência no braço, a enfermeira pe-
diu-lhe tentasse mover levemente o corpo. Samuel
forçou-lhe ao lado o quadril.
— Isso, isso. Mais um pouquinho.
Foi. Então, posicionando a máquina de raio-X a
poucos centímetros do ombro direito de Samuel, a
enfermeira instruiu-lhe a não se mover e retirou-se
da sala.
Enquanto isso, no silêncio e no escuro, Samuel
observava o que conseguia. Imaginou na articula-
ção mecânica do aparelho um braço. “Se isso sol-
tar, perco meu ombro…”. Percebeu a maca ao lado
— agora a via! — tingida de sangue, uma bancada
18 Luciano Duarte
debaixo de um painel de vidro… tudo de um terrível
branco. A parede, descascada, passava impressão
de desleixo, e uma tela escura ao lado da máquina
completava o ambiente. Pouco ruído, o ombro a
doer. “Bati o carro!”.
De repente, um barulho estranho. Era a máquina.
Começou a radiografia, e Samuel guardava-se o di-
reito de não se mover. Decorrem três, talvez quatro
minutos de ruídos e inércia, então entrou novamen-
te a enfermeira.
— Agora a gente precisa fotografar a cervical…
Queria a mulher dizer que Samuel teria de sentar-
-se no leito. Na moça sobejou precaução:
— Não está nada dormente, nem formigando
não, né?
Samuel deu aval necessário e, auxiliado, ergueu-
-lhe o tronco. Já sentado sobre o leito, teve-lhe a
postura ajustada, ouvindo a repetida recomenda-
ção de permanecer imóvel. “Outros vinte minutos
parado…”. O ombro parecia mais pesado e mais
dorido em nova posição.
As radiografias posteriores foram morosas, prin-
cipalmente em razão da necessidade de fotografias
em muitos ângulos. A enfermeira entrou diversas
vezes na sala, a ajustar a posição de Samuel, dizen-
do-lhe que se estava movendo e censurando-o. A
moça parecia impaciente, e Samuel não pensava
senão na incompetência da coitada. “Já foram cin-
quenta fotos, não é possível!”. E lembrou-se nova-
mente da desdita geratriz: “Bati a porcaria do meu
carro! Mas que inferno! Por que eu fiz essa boba-
19Samuel
gem, meu Deus do céu?”. E antes que se lhe tomasse
mais uma vez a agonia, a enfermeira irrompeu na
sala e embargou-lhe os pensamentos:
— Acabou. Agora é o seguinte: eu preciso te levar
pra enfermaria. Você prefere deitado?
— Tanto faz.
A mulher pediu-lhe que deitasse na maca e Sa-
muel, obedecendo, pela primeira vez enxergou o
estado dos antebraços. Horrível, horrível… Nunca
se havia machucado em semelhante gravidade: as
feridas estavam na carne, brancas. Então percebeu
o quanto lhe havia de ser dramático o estado do
ombro, posto este incomodasse muito mais.
Em dois minutos, estavam ambos na enfermaria.
Outra vez, foi Samuel solicitado a sentar-se em leito
separado.
— Vai doer um pouquinho. Você quer uma coisa
pra morder? — indagou a cuidadosa enfermeira.
Que pergunta… Iriam lhe arrancar o braço? Não,
não… apenas higienizar as feridas. O risco de in-
fecção era grande, portanto, a ação era necessária
e urgente.
E assim a mulher, por cerca de vinte minutos, fez
com que Samuel esquecesse a dor do ombro, visto
o ser humano sentir somente uma dor de cada vez.
Vinte minutos de gemidos e suplícios: o antissépti-
co, água com sabão ou o que fosse parecia fogo em
contato com as feridas, parecia fritar o que lhe so-
brara de carne no antebraço. Quando a solução ter-
minou-lhe o labor, Samuel já se via resignado com a
dor eterna. Deixou, inclusive, de gemer.
20 Luciano Duarte
De braços enfaixados, exausto, Samuel foi con-
duzido a um quarto onde, deitando-se, logo se viu
apagar.
21Samuel
Capítulo III
Acordou diante do pai. João Arnaldo, alto e es-
guio, solene e formal, tinha voz cavernosa, muito
afeita às sentenças que lhe saíam como por auto-
matismo e que pareciam querer expressar as últi-
mas verdades do universo. Sentado num sofá diante
do leito, cofiava-lhe o denso bigode quando o filho
despertou encontrando-lhe os olhos negros perdi-
dos e imóveis.
Samuel, percebendo o pai, fingiu que ainda dor-
mia, quando lhe tomou a vergonha do ocorrido.
Certamente, o pai lhe passaria um sabão. “Bati a
22 Luciano Duarte
porcaria do meu carro!” E pensou na desculpa que
teria de dar no trabalho: “Lasquei-me. Perdi o car-
ro e o emprego”. Então lembrou-se da recente pro-
moção.
— Justo quando finalmente algo de bom acon-
tece… — lamentou ao pai, desistindo de simular o
sono.
O pai assustou-se, ajeitando-se no sofá:
— Você tem de agradecer muito, mas muito…
— Agradecer? No dia em que recebo a primeira
grande notícia em anos, destruo a minha vida ba-
tendo o carro.
O pai sorriu com ironia e disse baixinho, como
em segredo, inclinando-lhe o tronco:
— O que aconteceu hoje, você deve a Deus pelo
resto da sua vida. Você podia muito bem estar mor-
to, preso, tá me entendendo? E olha como são as
coisas… tudo não vai passar de um ligamento rom-
pido, o seguro te dará outro carro… Isso, sabe-se lá
o motivo, foi a vontade de Deus. É Deus que está,
diretamente, te passando uma lição, e é bom que
você aprenda, pois não é todo mundo que tem a
mesma…
O médico entrou com as radiografias em mãos.
João Arnaldo, calando-se, apoiou-lhe as costas no-
vamente no sofá.
— Boas notícias — iniciou o médico, que estacou
ao lado de Samuel.
Mostrou, uma por uma, as radiografias, apon-
tando-lhes as conclusões:
— Aqui, tudo certo, estão vendo? Não há lesão
23Samuel
de nenhuma espécie na cervical. Já aqui, reparem,
— e puxou a radiografia do tórax, — não há a con-
firmação da suspeita de fratura na costela, embora
não queira dizer que não haja, visto o exame não ser
capaz de detectar a totalidade das lesões. De qual-
quer maneira, é uma boa notícia, pois não há indí-
cio de complicações como sangramento ou escape
de ar, nem necessidade de intervenção cirúrgica.
O doutor tomou fôlego, puxou outra radiografia
e continuou:
— Quanto ao ombro destro, não houve luxação,
mas provavelmente houve rotura tendinosa, e pre-
cisaremos de realizar uma ressonância para avaliar
o grau da lesão.
— Precisarei operar, doutor?
— Creio que não, Samuel. Em verdade, seus exa-
mes tranquilizaram-nos a todos. Quando te trou-
xeram, em maca e desesperado, esperávamos que a
situação fosse grave. Estamos acostumados… São
muitos os acidentes como o seu que comprometem
além de tendão e costela. Aliás… — o médico pen-
sou e pareceu desistir do pensamento. — O fato é
que o acidente não lhe comprometeu gravemente, e
hoje mesmo você dormirá em sua casa.
Dizendo isso, o médico voltou-se a João Arnaldo,
dando a entender que já haviam palestrado.
— Tá certo, meu senhor?
— Muito obrigado, doutor Oscar! Muito obri-
gado!
E o médico rematou:
— Agora me deem licença, que eu preciso provi-
24 Luciano Duarte
denciar a ressonância e pedir urgência no processo.
A enfermeira trará as instruções — disse e deixou
a sala.
Em cerca de vinte minutos, pai e filho obtiveram
a confirmação da disponibilidade do exame e des-
ceram ao respectivo setor do hospital, onde foram
instruídos a aguardar em pequena sala de espera.
Samuel temia o silêncio do pai, que ostensiva-
mente lhe negava o contato visual, vagueando silen-
te, porém não camuflando o nervosismo. O filho,
atento, deduziu o pai ocultar-lhe informação. Que
seria? O desconforto estava escancarado, a feição
de João Arnaldo denunciava-lhe o conflito interior.
Receoso, Samuel nada disse, e sentaram ambos em
silêncio.
A sala de espera abria-se logo após uma rampa
entre um corredor no subsolo do hospital: o cor-
redor seguia seu rumo, convergindo para as salas
de exame; antes, porém, numa pequena recepção
fronteira a umas vinte cadeiras, uma enfermeira
anunciava os pacientes convocados pelos médicos.
No espaço que se abria à esquerda do corredor,
cadeiras; diante delas, uma televisão. Um hospital
raramente exibe feições divertidas, mas nessa pe-
quena sala contavam-se dez sorrisos bovinos entre-
tidos com o reality show exibido na televisão.
Samuel detestava reality shows; foi sentar-se e
ver-lhe a irritação brotar. Uma voz logo atrás co-
mentava:
— Tá vendo? Eu disse que ela não aguentava!
E outra rebatia:
25Samuel
— Não quer dizer nada. O programa é manipu-
lado. Isso que a gente tá vendo é só uma parte do
que aconteceu!
— Quer valer? Quer bater uma aposta? Eu te ga-
ranto que, nessa semana, ela pede pra sair!
“Pronto! Agora é ter de ouvir dois idiotas!”.
— Apostado! Ela vai ganhar, certeza!
O ânimo aumentou:
— Então é isso que a gente vai ver. Quanto cê
quer perder? Por mim trinta reais, agora!
— Trinta não, trinta é muito.
— Olha lá! De novo ela chorando! Não falei?
Olha lá! Tá escrito! Eu não quero nem saber, agora
cê vai ter que pagar: provocou, agora eu quero ver
se tem coragem!
“Mas que inferno!” — pensava Samuel, já irri-
tado, enquanto a discussão continuava. “Por que
as pessoas têm de ser tão insuportáveis?” Súbito,
sente uma saliva umedecer-lhe a nuca. Era demais.
Virou-se:
— Escuta aqui — percebeu discutirem um casal;
a mulher era um espetáculo. — Desculpa… vocês
podem falar um pouquinho mais baixo? Eu tô com
muita de dor de cabeça…
Silêncio. Desapareceram as expressões bovinas e
os olhares voltaram-se contra Samuel.
Ajeitando-se de volta na cadeira, Samuel perce-
beu o pai, sem dizer palavra, censurar-lhe violen-
tamente. Estava claro: guardava-lhe uma conversa.
Samuel calou-se pelo restante da noite no hospi-
tal. Em pouco mais de uma hora, a recepcionista
26 Luciano Duarte
anunciava-lhe o nome. Apresentou-se e foi instruí-
do a seguir sozinho pelo corredor.
O exame de ressonância magnética, cem vezes
pior que o de raio-X, não desviou de Samuel o tor-
mento gerado pelo olhar ferino que recebeu do pai
na sala de espera. Já nem pensava na dor que sentia.
Enfiou-se na cápsula medonha e aguardou silencio-
so pelo fim do moroso processo.
Completaram-se os protocolos, e Samuel foi in-
formado de que o resultado sairia no dia imediato.
Assim, foi liberado.
Cerca de uma e meia da manhã, pois, saíam pai e
filho do hospital. Entraram no carro. João Arnaldo
aguardou cruzasse a primeira esquina, então se pôs
a falar:
— Olha, Samu. É o seguinte. O que eu vou te falar
termina nesse carro e morre para sempre — dizia,
e o olhar se lhe direcionava ao trânsito. — Preste
bem atenção e calcule o tamanho da sua sorte e da
sua dívida. Meça bem a dimensão do que aconteceu
hoje na sua vida. Eu estava, em casa, assistindo à
televisão, quando me toca o telefone: era seu núme-
ro que chamava. Atendendo, tomo um susto, pois
falava um sargento da polícia. Ele intimou-me ao
hospital sem maiores explicações. Aliás, seu celular
e sua carteira estão aí, no porta-luvas. Pode abrir e
pegar. Recebi das mãos do sargento.
Samuel já se havia esquecido do inseparável apa-
relho multifuncional. O pai continuou:
— Então, cheguei ao hospital desesperado. O
sargento esperava-me sentado. Viu-me entrar e per-
27Samuel
guntar por você. Já a moça da recepção sabia do
acidente, todo o hospital sabia. Fui informado que
você passava bem e, de repente, o militar toca-me o
ombro, apresenta-se, e convida-me para uma con-
versa em particular. Eu queria, antes de tudo, ver
você. Desconfiei que seu estado não fosse exata-
mente o que me informaram, mas respeitei a farda e
segui para o estacionamento do hospital. O homem
levou-me para onde estacionara a viatura. Abrin-
do o banco do passageiro, sacou uma prancheta.
Então olhou em redor, a garantir que estávamos a
sós, e me disse que você havia furado um semáfo-
ro vermelho, sem usar o cinto de segurança, e que
uma van, trafegando em outro sentido, colidiu com
o seu carro. O sargento era o mesmo que lhe pres-
tou socorro, disse ter conferido o relatado por tes-
temunhas e através de câmeras de monitoramento.
A van, ele disse, trafegava normalmente, e você foi
o infrator único no acidente. Executando a perícia,
ele disse ter encontrado uma lata de cerveja aberta
dentro de seu carro. Você estava, mais uma vez, be-
bendo e dirigindo.
Samuel teve o impulso de mentir. Mas se calou,
posto o pai não perguntasse, somente estivesse rela-
tando as palavras do policial. Prosseguia João Ar-
naldo, elevando o tom:
— Quantas vezes te falei sobre a sua irrespon-
sabilidade? Aí está: seu carro, provavelmente, terá
perda total. Mas o seguro te dará outro, veja só
que maravilha! Agora você deve estar se perguntan-
do: por que dormirei em casa, ao invés de dormir
28 Luciano Duarte
na cadeia, já que o policial achou cerveja no meu
carro? É bem isso, não é mesmo? Você, bebendo e
dirigindo, deveria estar na cadeia após esse aciden-
te! Mas acontece, e julgue por si mesmo!, aconte-
ce que a van que bateu no seu carro era uma van
roubada cujo motorista é um criminoso procurado
há anos pela polícia. O sargento mostrou-me a fi-
cha criminal do homem e disse sem meias-palavras:
“Esse acidente poderia, muito bem, destruir a vida
do seu filho para sempre!”. Mas ele disse ter olhado
pra você e visto em sua face o próprio filho. Então
ele emendou: “Sabe o que, senhor João Arnaldo?
Eu acredito em Deus! E acredito que um acidente
como esse faz os sobreviventes renascerem. O seu
filho poderia ter morrido, mas não morreu. Poderia
ter matado um inocente, mas não matou. Pelo con-
trário, a imprudência do seu filho ajudou nós, da
polícia, a capturar um dos piores monstros de Belo
Horizonte. Então eu me pergunto como é que pode
um homicida, um estuprador dessa raça, com mais
de trinta crimes na bagagem, que há anos faz a po-
lícia gastar rios de dinheiro na sua captura, ser pego
justamente num acidente de trânsito? A resposta é
óbvia: foi Deus! Deus colocou o carro do seu filho,
naquele instante, entravando a rota do monstro. E
se Deus não quis o seu filho morto, se Ele colocou
justo a mim, que perdi um filho jovem, vendo mor-
rer-lhe todas as esperanças, vendo esmagado todo
um futuro, para socorrer o seu filho, então, senhor
João Arnaldo, isso para mim tem um sentido maior!
Eu não prenderei o seu filho. Não deixarei que acu-
29Samuel
sem o seu filho de tentativa de homicídio doloso. A
lata de cerveja está no lixo e eu espero que o senhor,
e principalmente o Samuel, lembrem-se desse dia
para o resto de suas vidas: o dia que a misericórdia
de Deus quis afastar de vocês a desgraça”.
Assim finalizou o pai.
31Samuel
Capítulo IV
Samuel entrou em casa aéreo, profundamente co-
movido. A mãe tentou fazer inferno do acidente,
importunou o filho quanto pôde; mas este, calado,
não lhe respondia, sequer lhe prestava atenção.
Na cozinha Samuel encheu a si um copo de água
que bebeu logo após pousar na língua os analgési-
cos recomendados pelo médico. Tinha fome, mas
a mãe lhe esganiçava no ouvido. Deliberou então
rumar ao quarto, onde se trancou.
Finalmente, silêncio. Na clausura, de luzes apa-
gadas, sentou-se apoiando as costas na cabeceira da
cama. Suspirou: que dia! que infortúnio e sorte ao
mesmo tempo! quão próximo estivera da desgraça!
32 Luciano Duarte
A dor no ombro pareceu-lhe insignificante. Atirou
o celular sobre o criado-mudo: já sabia que Gutão
se pusera a par do ocorrido e solicitava novas. Mas
quem seria Gutão? Que satisfação lhe devia? Talvez
Gutão quisesse comentar as notícias com terceiros:
decerto já era o acidente assunto de outras rodas…
Tanto fazia! Tudo se tornara tão pequeno, tão me-
díocre que essas banalidades não despertavam em
Samuel senão piedade. Agora ele bem via: Deus agi-
ra, diretamente, em sua vida, e a seu favor. Que-
rer lição maior? Só de pensar no risco que correra
causava-lhe arrepios: estava, em casa, no próprio
quarto, quando poderia estar na cadeia, ou talvez
morto, paralítico, quem saberia dizer? O alívio era
imenso, mas lhe não freava o tremor. E os sinais
se conectavam com nitidez descomunal: primeiro, a
promoção intempestiva, a alegria, a abertura de no-
vas possibilidades; depois, o acidente, o ver quase
cair tudo por terra, o escancaramento de sua vulne-
rabilidade. Então, a misericórdia, a graça divina, o
ensejo único caindo dos céus. Seria um estúpido não
percebesse a claríssima mensagem latejando-lhe no
ombro direito, ardendo no braço enfaixado. Coin-
cidência? Sorte? Isso é que seria, em verdade, acre-
ditar no absurdo! E percorrendo-lhe com os olhos
o quarto, reparou as roupas que passara na véspera
dobradas em cima de sua escrivaninha, o computa-
dor com um lembrete colado na tela, os carrinhos
de brinquedo dos tempos de criança, dispostos
numa prateleira logo acima da televisão, ladeando
meia dúzia de livros que lera em adolescente… em
33Samuel
tudo aquilo sentiu um aconchego, um conforto que
lhe fez lacrimejar. “Morto, eu poderia estar mor-
to!”. Então lhe vieram em mente as cenas de um
passado afetuoso, que lhe lembraram os ternos dias
de sua infância junto aos primos Julinho e Vinícius
na casa dos avós, jogando futebol na rua, machu-
cando-se; — tivera sempre essa inclinação para as
feridas… — lembrou-se do dia em que, ralando-se
inteiro após cair de bicicleta, julgou-se o “menino
mais infeliz do mundo”; riu-se ao recordar o ar-
dor dos pequenos machucados… E orçou quanto
conquistara: nunca foi aquele em que se deposita-
vam esperanças; na escola, desde pequeno, não foi
senão aluno mediano, sofreu para avançar no en-
sino médio. Entre os colegas, nunca se lhe deram
destaque, nunca angariou condição de popular; em
verdade, sempre se viu meio aos tímidos, aos discre-
tos, e conquanto não fosse frequentemente alvo de
piadas maliciosas dos garotos populares da escola,
também lhe não nutriam respeito, não lhe direcio-
navam atenção. Com as garotas nunca teve muito
tato; não lhes agradava, era evidente: seu perfil não
despertava atração. E, por isso, viu-se ao longo dos
anos convivendo com um recato, um bloqueio, uma
ansiedade toda vez que se punha a conversar com
qualquer menina de sua idade. Se fosse bonita, en-
tão… esquece! Nem comunicar-se com clareza con-
seguia, quase sempre passava por ridículo… Mas
lhe veja agora a situação: vinte e cinco anos e a ge-
rência de vendas de uma empresa de médio porte!
Haveria gente de melhor fortuna, decerto, mas o
34 Luciano Duarte
que alcançara não era de se desprezar…
Assim, Samuel ajuizou a quase queda poder ser-
vir-lhe a um impulso maior, mais seguro e defini-
tivo. O flerte com a perda total fê-lo valorizar o
que tinha, iluminou-lhe as prioridades e instou-lhe
a proceder naquela noite com um julgamento to-
tal de sua conduta. O primeiro vilão era o álcool:
que lhe trouxe alguma vez a bebida? Socialização?
Amigos? Mas que tipo de amigo lhe condicionaria
o afeto a rodas regadas à cerveja? Em adicional:
quanto lhe custavam todas aquelas noites de farra!
Se tinha como meta a independência, pois quanto
a anteciparia se deixasse de beber! Além do mais:
necessitava das noitadas? O prazer já não era o de
outros tempos: tudo ocorria muito mais por uma
questão de hábitos… E o tempo perdido? A bebida,
gananciosa, além da noite tomava-lhe o dia imedia-
to. O raciocínio lhe não deixava brechas: era o ál-
cool, em todos os quesitos, prejudicial, e quase lhe
tomara tudo. Não, não mais beberia! Expulsaria de
sua vida esse câncer! Faria o que o médico orde-
nasse, trataria do ombro, da costela, do que fosse;
pagaria a apólice do seguro; enviaria, já no próxi-
mo dia, uma mensagem ao chefe informando-lhe do
ocorrido, prevenindo-lhe de uma possível ausência;
afastaria de si tudo quanto o puxava para baixo.
Então cuidaria aproveitar a oportunidade que lhe
fora jogada do céu: seria o melhor gerente de ven-
das da história da empresa; geraria valor. Poupan-
do, compraria a tranquilidade e a aposentadoria
precoce. Era jovem, tinha potencial e motivação
35Samuel
para conquistar o que quisesse. E acima de tudo:
sabia Deus estar do seu lado! Sabia-se amparado,
incentivado diretamente pela providência para dar
cabo a seus planos, para seguir, desta vez, pelo úni-
co e feliz caminho, sem desvios e sem cambalear.
Que satisfação era ver a mente iluminando-se num
clarão repentino! Como tudo se havia tornado sim-
ples! Bem lhe dizia o avô Deus escrever certo por
linhas tortas…
Envolto num turbilhão de sensações, dolorido e
emocionado, agradecido e feliz, Samuel pegou no
sono devaneando-lhe o futuro. A partir deste dia
haveria uma mudança drástica em sua conduta.
Realmente, deixou de beber: o costume arraiga-
do através de anos sumiu-lhe da rotina. No início,
houve as presumíveis dificuldades; Samuel venceu-
-as com obstinação. O acidente cristalizou-lhe a
personalidade, deu-lhe força, afastando-lhe das dis-
trações juvenis. Em pouco tempo, percebeu que a
vida lhe havia melhorado: sobrava mais dinheiro e
mais tempo, sentia-se melhor. No ombro rompeu-
-lhe um tendão. Não haveria, por ora, necessidade
cirúrgica; mas quarenta sessões de fisioterapia fo-
ram prescritas pelo doutor. Na primeira semana o
inchaço sumira, levando junto de si a dor. Os mo-
vimentos rapidamente tornaram à amplitude ha-
bitual. Samuel não faltou à labuta um dia sequer:
trabalhou, ocultando da empresa o atestado médi-
co, o que muito lhe agradou o chefe. Então, se até
aqueles dias a vida lhe havia sido boa, foi quando
realmente começou a melhorar…
37Samuel
Capítulo V
Correram três meses do acidente. No trabalho,
Samuel aportou uma proatividade que chacoalhou
todo o setor de vendas da empresa. Motivado, coor-
denou estratégia habilíssima que logo se converteu
em indicadores. Os relatórios semanais passaram
a trazer satisfação generalizada, e o jovem gerente
tornou-se alvo frequente de elogios do chefe.
Num domingo de julho o sol raiou trazendo anos
a Samuel. Às oito horas de uma manhã cerúlea, ele
levantou-se, escovou os dentes e recebeu, na cozi-
nha, as felicitações do pai, que já trabalhava nos
arranjos do almoço que estava programado para a
comemoração em família.
38 Luciano Duarte
Foram convidados os avós paternos e o tio, com
consorte e dois filhos: eram os familiares que resi-
diam na capital. A família materna distava a quase
quinhentos quilômetros em direção ao Triângulo
Mineiro.
Samuel, findo o café da manhã, pôs-lhe as mãos
em auxílio do pai, que limpava um pescado. O pai
pediu-lhe tratasse do preparo de alguns vegetais e
raízes para a salada. Em pouco recebia o abraço da
mãe, que havia saído ao supermercado a finalizar a
compra dos ingredientes para a festa.
A seis mãos trabalhavam, e não era mais que dez
e meia da manhã quando os preparativos findaram-
-se. Na geladeira sobremesas, saladas, temperos e
acompanhamentos; o peixe a descansar em marina-
da; e os três familiares apressaram-se a tomar um
banho e aprontar-se, pois os convivas chegariam ao
meio-dia.
Viviam em casa de dois andares com modesta
área externa nos fundos, que dispunha de uma hor-
ta, uma churrasqueira e espaço para três ou quatro
mesas. Do segundo andar, onde lhe ficava o quarto,
Samuel ouviu tocar o interfone. Súbito, é chamado
pela voz da mãe:
— Samu! Faz o favor…
Então, já preparado para a recepção, desceu as
escadas, onde Maria Elvira lhe esperava forçando
disfarçar a alegria.
— Seu avô tá té chamando lá fora! — disse ela,
com olhar denunciando a surpresa.
Atento aos óbvios sinais, Samuel caminhou em
39Samuel
direção à porta imaginando o que lhe poderia espe-
rar. Os avós sempre cuidaram presentear-lhe duas
vezes ao ano: no aniversário e no natal. Geralmente
recebia alguma soma em dinheiro, posto os avós
soubessem que ninguém melhor a lhe comprar algo
do agrado que não a si mesmo. Acertavam. E o di-
nheiro festivo sempre foi a Samuel motivo de muita
alegria, principalmente porque, antes de começar a
trabalhar, praticamente não dispunha de orçamen-
to.
Abrindo o porta que dava para a rua, a surpresa:
os avós, à esquerda, distante dois metros dos tios
e primos, à direita. Sorrisos radiantes. Samuel não
atinou. Não levou dois segundos para que todos
apontassem os braços para a mesma direção: entre
eles, havia um carro cuja lataria remetia a um espe-
lho. Era este carro um presente para Samuel.
A euforia que lhe brotou no peito arrancou-lhe
lágrimas e contagiou-lhe o semblante. Abraçou e
beijou calorosamente cada um dos parentes, que
lhe explicaram a origem do presente: decidiram-se,
logo após o infortúnio do acidente, juntar forças
para comprar-lhe um novo carro, visto o seguro ti-
vesse se desdobrado para consertar o veículo antigo,
negando-se a assumir a perda total. Assim, sabendo
um conserto jamais restaurar os componentes ao
estado de origem, os familiares compadeceram, e o
presente contava também com a participação dos
pais.
Que tarde seria essa! Havia emoção sincera com
o contentamento de Samuel. Ligando e guardando
40 Luciano Duarte
o novo carro na garagem, o presenteado quedou
longos minutos a admirá-lo: era um popular usado,
não há de negar, mas estava num estado impecá-
vel de conservação. Pouco mais de um ano de uso,
dono único, modelo dois anos mais recente que o
seu. Em cobre, valia quase o dobro do antigo, e a
satisfação não poderia ser maior.
Nesse clima, foram todos para a área externa da
casa. A churrasqueira ansiava pelo estalo inicial.
João Arnaldo agitou a celebração, preenchendo de
cerveja os copos que aguardavam sobre uma mesa
de plástico. Brindaram ao aniversariante e refres-
caram-se da bebida geladíssima. Em pouco a chur-
rasqueira bafejava e o ambiente era estimulado por
um aparelho de som. Bebiam todos, exceto Maria
Elvira.
Samuel, logo após o brinde e gole eufórico, perce-
beu que lhe quebrava a promessa. Sentiu-se tomado
pelo desânimo: “Prometi-me não beber…”. Então
se iniciou o debate mental. Disfarçando, foi à co-
zinha, na parte interna da casa, para ponderar-lhe
as atitudes. Passou da cozinha para a sala, quando
se sentou no sofá. Alisando-lhe o queixo, repassou
mentalmente as expressões radiantes dos parentes,
toda a alegria que se lhes emanava desde a cena na
rua. O ambiente era feliz, contagiante, talvez como
nunca fora. Pensou no tamanho da desfeita que se-
ria recusar o copo, no balde de água fria que jogaria
sobre os parentes que lhe presentearam e queriam
vê-lo, especialmente nesta data, relaxado e alegre.
“Tenho de beber. Não posso me recusar a beber.”
41Samuel
Suspirando, levantou-se e voltou à área externa.
Em trinta minutos os goles acompanhava-os
churrasco. Neste tempo, o pescado deixou a sal-
moura rumo ao forno. A excitação já havia cedido
espaço a conversas serenas e alegres. Formaram-se
duas rodas: a primeira, entre as senhoras e Julinho,
o primo caçula, que contava dezoito anos. Estavam
em mesa separada, a fugir da fumaça que contami-
nava o ambiente. Do outro lado estavam o restante
dos homens, estando João Manoel, o vetusto da fa-
mília, sentado junto a Samuel e Vinícius em redor
de uma mesa, enquanto João Arnaldo e o irmão
mais velho, Raimundo, cuidavam do churrasco.
Este temperava asas de frango em pia ao lado da
churrasqueira; aquele virava carnes.
João Manoel contava aos netos uma história en-
graçadíssima: o dia em que ensinou Raimundo a
pescar. O primogênito, inexperiente, julgara ter
fisgado um jacaré quando o anzol fincara-se num
tronco afundado em terra, visto a desatenção do
garoto em jogar a linha próximo à margem. “É
muito forte, pai! Não puxa!” — o avô gesticula-
va relembrando o desespero do filho, levando os
garotos à gargalhada. João Arnaldo, percebendo o
assunto, ameaçou comentar com o irmão, mas de-
sistiu da empreitada. Acontece que o pescador da
história fora ele mesmo, e o pai cometia confusão.
Melhor nada dizer… Deixe que o querido velho ria
até estourar de alegria!
Quando o almoço foi posto em mesa, já havia
tempo que o pescado atiçava os olfatos. Todos em
42 Luciano Duarte
roda, os manjares ao centro, e cada um servindo o
próprio prato, com exceção dos idosos, que foram
servidos antes de todos por Maria Elvira.
Garfadas, sorrisos e elogios: assim se resumiu este
almoço que se estendeu por toda a tarde. A come-
moração terminou ao escurecer, quando as conver-
sas abrandaram e o álcool trouxe-lhes sono. Samuel
foi novamente abraçado com afeto por cada um dos
familiares, que tomaram o rumo das próprias casas.
Após rápida faxina na área externa, Samuel su-
biu ao seu quarto, sentindo dilatado o efeito da
cerveja. Ébrio, não estava. Estava? Talvez leve,
estimulado… Chegando ao quarto pôs-se à jane-
la, a pensar no seu dia. A vista não era agradável:
fronteiro à casa de Samuel, um lote vago, em muro
chapiscado e coberto de pichações. Postes de onde
pendiam emaranhados de fios. A cerca em espiral
sobre o muro da própria casa também contribuía
para a poluição visual. À esquerda do lote, porém,
um oiti, que destoava do cinza predominante. Seja
como for, tanto fazia… Que dia fora aquele! Talvez
tivesse sido o melhor de toda a sua vida. Nem uma
única ironia na comemoração, nem uma única de-
savença. O presente, os sorrisos… o álcool lhe não
fora inimigo, pelo contrário, havia estimulado a so-
cialização. Como era bom ver o avô a contar casos!
As sutilezas do velho eram deliciosas: um humor
diferente, sem maldade, talvez até infantil, que não
constrangia nem desagradava…
“Tenho família…” — e, olhando ao céu, Samuel
agradeceu.
43Samuel
Capítulo VI
No dia seguinte, Samuel brindou com o novo
possante a sua vaga no estacionamento da empre-
sa. Como habitual, estacionou a quinze minutos do
início do expediente, o suficiente para que todo o
setor lhe analisasse a novíssima aquisição. Já havia
assunto para a segunda-feira…
Era costume de Samuel, nas primeiras horas da
segunda, avaliar o desempenho da semana anterior.
Solicitava um relatório de cada um dos três vende-
dores de sua equipe, que havia de ser entregue nas
sextas. Assim, punha-se a analisá-los logo que a se-
mana começava, a ver como o planejamento corria
e se cabia alguma ação adicional.
44 Luciano Duarte
Havia uma planilha elaborada por Samuel que
servia de guia ao trabalho de venda e pós-venda do
setor. O gerente fazia o levantamento da carteira
de clientes, seccionava-os em categorias, adicionava
os de recente prospecção e traçava uma estratégia
para que os vendedores prosseguissem com o con-
tato comercial. Cada vendedor tinha uma carteira
individual de clientes, sobre os quais recebiam co-
missões pelas vendas, de forma que um vendedor
jamais poderia abordar o cliente do outro. Desta
forma, cada vendedor motivava-se a captar novos
clientes para a própria carteira, sabendo que, uma
vez captados, passariam a comissioná-lo em quais-
quer vendas que a empresa lhes realizasse. Samuel,
extremamente organizado, estruturara uma guia de
programação onde cada vendedor tomaria conhe-
cimento, após o almoço da segunda-feira, de quais
contatos comerciais deveria fazer na semana, em di-
visão por datas, temas e clientes, ficando a critério
do vendedor o horário e estratégia de abordagem,
que poderia ser feita via e-mail ou ligações diretas.
Feito o contato, os vendedores deveriam alimen-
tar a planilha com o resultado e suas observações.
Havia campos onde o próprio vendedor avaliava a
eficácia da estratégia, a possibilidade de efetivação
de novas vendas e outras minúcias que interessa-
vam ao planejamento do setor. Samuel munia-se de
todas essas informações e definia as diretrizes da
semana. Não era de sua política atravessar o ven-
dedor e entrar em contato direto com os clientes,
ainda que dispusesse de bom relacionamento com
45Samuel
eles: sabia que tal atitude geraria ressentimento em
sua equipe e raramente encontrava razão de fazê-lo.
Nesta especial segunda-feira, pois, Samuel entrou
em sua sala, separada das demais do setor, e co-
locou-se a analisar os resultados da última sema-
na. Havia um vendedor que lhe estava atiçando os
nervos. Ocorria o seguinte: há cerca de dois meses,
Samuel, em iniciativa própria, abordou um poten-
cial cliente por telefone. Tratava-se de uma indús-
tria enorme do ramo alimentício que certamente era
mercado para sua empresa, produtora de pulveriza-
dores eletrônicos para variados fluidos e aplicações.
Samuel fora informado pelo chefe do histórico de
contato com essa empresa: a vários vendedores já
havia sido delegada a tarefa no passado, sem ja-
mais efetivarem uma única venda. Samuel tomou o
desafio para si e, ao telefone, foi transferido para o
comprador. Que surpresa! O comprador portou-se
com enorme receptividade: disse consumir em larga
escala várias classes de pulverizadores, comprados
em sua maioria de empresa tal que oferecia ótimos
preços. Disse, também, enfrentar dificuldade em
encontrar opções no mercado, vendo-se um pouco
refém de seu fornecedor majoritário, e concedeu to-
tal abertura para que Samuel lhe apresentasse o seu
produto, convidando-o para uma visita.
“Não é possível!” — foi o que deu na cabeça do
gerente. E, na mesma semana, lá estava Samuel en-
cantado no pátio industrial do potencial cliente,
imaginando a dimensão do impulso que aquela vi-
sita poderia trazer-lhe aos gráficos de vendas. Tor-
46 Luciano Duarte
nando à empresa, Samuel teve a certeza que possuía
condições de introduzir seus componentes nos pro-
cessos da companhia visitada, e convenceu-se que a
visita convertera um novo cliente. Assim, por uma
questão de burocracia interna, o gerente deveria de-
legar um vendedor responsável pela nova empresa:
deu o presente a Jorge, colaborador mais experiente
da equipe, que beirava os cinquenta e cujo encéfalo
encapava-o respeitável calvície. Acontece que Jorge
orçava pelos dez anos de casa e pusera-se despeita-
díssimo vendo o jovem Samuel roubar-lhe a promo-
ção. Passou a ser elemento problemático que colo-
cou o novo gerente em péssimos lençóis. De Samuel
fora exigido um tato descomunal para lidar com a
frustração de um funcionário antigo, querido, com-
petente, que lhe passara a invejar. O próprio Val-
mir tinha excelente relacionamento com Jorge; elo-
giava-o com frequência. Mas se Jorge, pela frente,
permitia-se umas poucas palavras de insubordina-
ção ao novo chefe, pelas costas o que fazia era uma
verdadeira maquinação contra Samuel. Parcialmen-
te em ciência, o gerente tentava, de toda maneira,
estreitar relações, agradá-lo, pois o desempenho de
Jorge era fundamental num setor composto por três
vendedores. Assim, Samuel presenteara-o com um
cliente que poderia, quem sabe?, quase lhe dobrar
a comissão.
Jorge, no entanto, alimentava há sete semanas a
planilha relatando o insucesso dos contatos. Samuel
não entendia: “Como nenhum retorno, nenhuma
expectativa de venda, nenhuma previsão de orça-
47Samuel
mentos? Estive pessoalmente na empresa e vi-lhes a
demanda. O comprador dera-me total abertura…”.
E passou a ponderar que Jorge talvez mentia, talvez
não fizera contato algum com o potencial cliente,
talvez, acomodado, passara a apoiar-se-lhe nos dez
anos de casa e desleixar dos objetivos do setor. O
sangue ferveu-lhe: “Jorge está fazendo força con-
tra a empresa, puxando-nos para trás”. O “contra
a empresa” evidenciava o profissionalismo de Sa-
muel. “Não posso permitir um funcionário a agir
desta forma…” E, agitado pelas pulsações, teve um
impulso de coragem: “Eu sou o gerente!”.
Levantou-se e levou o semblante carregado à sala
contígua, onde o setor trabalhava em mesas dispos-
tas em plano aberto. Chegou num momento em que
todos riam. Foi pôr-se ao limiar da sala para que
ouvisse a voz de Lúcia:
— Carrão, hein, chefe? Para…
— Jorge, é o seguinte — Samuel atalhou-a: — eu
visitei pessoalmente a Tamóios, eu conversei pes-
soalmente com o comprador da Tamóios, eu vi pes-
soalmente pulverizadores na linha de produção da
Tamóios e ouvi da boca do comprador da Tamóios
que era interesse da Tamóios testar e desenvolver
novos fornecedores para a nossa linha. Eu quero sa-
ber o que está acontecendo para que nós não tenha-
mos enviado nem um único pulverizador de gra-
ça, para teste, em sete semanas do cliente sob sua
responsabilidade. Qual é o problema? Tá faltando
algum recurso? Você tá esperando alguma coisa?
Porque eu, e nós, queremos e precisamos vender.
48 Luciano Duarte
O setor arrepiou vendo, pela primeira vez em três
meses, o jovem chefe exaltado. Sim, era o chefe que
falava. Jorge, porém, após segundos congelado, de-
volveu-lhe em insolência:
— Eu acho que não entendi muito bem, Samuel…
O chefe respondeu-lhe em novo ímpeto:
— Eu quero entender por que, em sete semanas, a
gente não tem um único pulverizador na Tamóios.
Silêncio geral. As vendedoras, coitadas, já se ha-
viam ajeitado na cadeira e pregado os olhos na tela
do computador. Dez anos de casa ampararam a
réplica de Jorge que, em olhar desdenhoso, assim
respondeu o chefe:
— Por que você não pega o telefone e disca para a
Tamóios? Talvez eles te expliquem o porquê…
Era demais. O limite do respeito havia sido ultra-
passado. O gerente teve o impulso de berrar contra
o subordinado, mas, antes que da boca aberta es-
tourasse o grito, conteve-se. O dedo instintivamen-
te erguido voltou-se à posição inicial e, em olhar va-
rado pela cólera, Samuel deu meia-volta à sua sala.
49Samuel
Capítulo VII
Encerrado em sua sala, Samuel deixou o dia cor-
rer. A experiência já lhe havia mostrado os benefí-
cios de pôr a raiva a descansar. Distraiu-se de afa-
zeres burocráticos do setor.
Quando soou o sinal anunciando o termo do
expediente, pôde cruzar com Jorge próximo à má-
quina de ponto; não se olharam, mas não houve
agressão.
O novo carro de Samuel, saindo da empresa, ti-
nha destino obrigatório. O mesmo ombro que obri-
gara o gerente de vendas a cumprir quarenta ses-
sões de fisioterapia agora lhe exigia três meses de
50 Luciano Duarte
fortalecimento muscular. E não é que Samuel pegou
gosto do negócio?! Havia pouco mais de mês que
frequentava uma academia próxima à sua casa, e
não faltara sequer um único dia!
Lá pelos dezesseis, sempre magro desde a infân-
cia, Samuel iniciou-se na musculação a ver se lhe
alargava o físico franzino. Muito antes que a em-
preitada pudesse apresentar resultados vistosos, isto
é, exatamente dois meses depois, o jovem desmatri-
culava-se do ginásio visto ter conseguido o primeiro
emprego. Dali em diante seria de casa ao trabalho,
do trabalho ao curso técnico, e deste para casa.
Então os anos correram: o braço e o tronco sem-
pre abaixo da média, a cintura paulatinamente
angariando respeito e a rotina consumindo-lhe os
dias. Vinte e quatro anos e formava-se em gestão de
qualquer coisa: a barriga já lhe escondendo a fivela
do cinto e o físico exaltando-lhe os olhos negros
e vivos herdados do pai. Por essa época passara
a cortar mais baixo a lateral do cabelo, deixando
por cima um modesto topete, que lhe completava
o visual, bem à moda vigente. Em traje que lhe ca-
muflasse o vigor, poder-se-ia cravar-lhe o epíteto
moderno, talvez até jovem moderno…
Deste histórico, eis que novamente Samuel põe-
-se diante de uma academia. Mas agora o contexto
havia mudado. De início, a própria rotina permitia-
-lhe umas horas de lazer à noite, posto não tivesse
que estudar. O novo ginásio, em adicional, era sig-
nificativamente superior ao antigo: se antes Samuel
tinha de ir a pé ao treino, sujeitando-se a intempé-
51Samuel
ries ou assaltantes no trajeto, agora se via dispondo
de um aconchegante estacionamento interno. Além
disso, o próprio exercício físico passou a agradar
o jovem que, após a rotina estressante na empresa,
encontrou um meio para descarregar-lhe as irrita-
ções. O banho pós-treino passou a trazer-lhe um
agradável deleite, e mesmo as noites de sono passa-
ram a ser melhores.
Assim, Samuel deixou a empresa nesta especial
segunda-feira e rumou à academia. Cumpriu a roti-
na: guardou-lhe o carro no estacionamento, apeou
sustendo uma bolsa esportiva e dirigiu-se ao ves-
tiário onde se havia de trocar. Eis que ocorre algo
incomum.
O vestiário ficava aos fundos do ginásio: o ma-
triculado tinha de atravessar a recepção, onde lhe
deixava a digital, e então seguia em diagonal pelo
salão aberto, passando por entre os aparelhos, che-
gando ao extremo oposto da recepção.
Samuel, logo em liberando a catraca com o pole-
gar direito, sentiu uma ligeira inquietude. Fechou-
-lhe o semblante; mirava o chão e caminhava. Dez
passos e alça a vista. Súbito, o instinto força-lhe os
olhos à direita. Tremeu sobre os pés: o olhar levou-
-lhe a uma pintura que caminhava graciosamente
sobre uma esteira; a pintura olhava-lhe e sorria,
como que tapando os lábios e conversando com
uma amiga que se exercitava em esteira vizinha.
O susto fez Samuel desviar a vista logo se per-
cebeu alvo do olhar. Agitou-se. Baixou a cabeça,
cambaleado por emoção fortíssima que brotou ar-
52 Luciano Duarte
rancando-lhe um suspiro. A mente começava a…
— Ou! — censurou-lhe um sujeito.
— Desculpa, desculpa… — Samuel havia trom-
bado no cidadão.
Veio-lhe um tremor ainda mais forte. Samuel des-
viou-se do rapaz e zarpou ao vestiário.
Entrou como uma flecha e buscou um banco. Sen-
tou-se e suspirou. “Como isso? Que vexame!” — os
dedos já lhe entremeavam o topete e os olhos se
viam esbugalhados. Articulou novamente: “Menti-
ra! É pegadinha!”. Como é que aquele anjo estaria
olhando e sorrindo para ele? Não havia margem
para engano. Ou havia? Seria ele o alvo dos olha-
res, a razão do sorriso? Talvez seria outro em sua
direção… Sobre o caráter do sorriso a experiência
lhe afastava de qualquer suposição: não era riso de,
mas riso para, sem a menor sombra de dúvida! Era
saber quem seria o abençoado… “Inacreditável!
Isso não aconteceu!”
Samuel finalmente levantou-se, com pensamentos
ainda extasiados. Pôs-se a trocar de roupa quando
o lado esquerdo do cérebro passou a trabalhar: “É
bom que eu não seja tão estúpido como outrora.
Estou aqui a conjeturar um genuíno absurdo, quan-
do a maior possibilidade é que uma princesa como
aquela jamais sorria para alguém como eu. É usar
da razão a quebrar um pouquinho menos a cara,
como provavelmente irá acontecer…”. E assim con-
seguiu abrandar-lhe as expectativas, acalmar-lhe o
impulso que lhe impelia a abrir os braços e gritar.
Mas esquecia o jovem de um detalhe importantís-
53Samuel
simo: não mais percorria a academia um franzino
sedentário, e sim o gerente de vendas trajado em
social.
Já em vestes de treino, Samuel olhou-se no es-
pelho: viu-se ajeitado, talvez como nunca estive-
ra. Deu um leve toque no topete à direita e saiu de
fronte erguida.
Foi pôr o pé no piso emborrachado que se abria
diante do vestiário e olhar de esguelha à área onde
se enfileiravam as esteiras. Não foi possível verifi-
car se ainda caminhava a princesa. Então, andando
em linha reta ao local onde alongaria, distraiu-lhe a
tensão olhando em direção oposta. Observou qual-
quer coisa enquanto a mente perguntava: “E se ela
me olhar novamente?”. Aí estava uma bela ques-
tão. Abordá-la? Quanta ousadia! Samuel já se via
gaguejando e passando vexame diante da princesa.
Chegou ao conjunto de barras fixas onde se alon-
garia. Dali teria ângulo para mirar as esteiras. Vi-
rou-se, esticou os dois braços apoiando-se numa
barra e alçou a vista. Mais uma vez os olhos se lhe
cruzaram com os da garota.
“É verdade! É para mim!” — o choque arran-
cou-lhe um sorriso e forçou-lhe o olhar para baixo.
“Agora é certeza, Deus!” — e pensava, desacredi-
tando da própria sorte. Tratava-se de uma jovem
magnífica, que ele havia admirado em outra ocasião
enquanto treinava: pouco mais baixa que ele; cabe-
los sedosos, lisos, longos e castanhos; físico atléti-
co; pele rosada; lindos olhos amendoados e lábios
que sugeriam o beijo. Um espetáculo! E quando se
54 Luciano Duarte
punha a caminhar, então, é que a graça passava a
hipnotizar: o compasso leve, jeitoso, o cadenciado
movimento de quadril… um encanto! E ali estava
ela, de cabelo atado em rabo de cavalo, caminhan-
do e sorrindo-lhe indiscutivelmente…
“Que fazer?” — foi a questão que passou a ator-
mentá-lo durante o treino. Transitou entre dois
aparelhos, cumpriu as séries recomendadas pelo fi-
sioterapeuta, vez ou outra olhando com discrição
às esteiras. Abordar diretamente a garota seria lou-
cura, quanto mais ao lado de uma amiga… Inter-
romper-lhes-ia o diálogo, o constrangimento seria
imediato. E depois, que dizer? “Meu nome é Sa-
muel”? Ridículo, ridículo… Controlar a ansiedade,
então, seria impossível. Faria papel de palhaço.
Eis que, de repente, finalizando um exercício,
Samuel é levemente tocado no ombro. Vira-se: a
princesa! O susto lhe não permite reação. A garota
pergunta sorrindo:
— Como é seu nome?
— Samuel.
E estendendo a mão, ela remata:
— Prazer, Daniela.
As mãos se tocam. Samuel sente o contato da
pele fina, fria e delicada. Daniela, olhando-lhe nos
olhos, vira-se e deixa o ginásio, em passo leve, sor-
rindo e acompanhada da amiga.
55Samuel
Capítulo VIII
Daniela, Daniela… a noite correu e o nome per-
manecia ecoando na cabeça de Samuel. A menina
perguntara-lhe o nome. Sorrira e dissera: “Prazer”.
Nem em sonho, nem em filme Samuel esperaria que
uma Daniela lhe perguntasse o nome, sorrisse-lhe.
Vinte e seis anos e jamais fora abordado daquela
maneira. E logo assim, de repente, por uma prince-
sa, uma Daniela? Inacreditável!
Samuel completou o restante do treino aéreo, ex-
tasiado. Sorria de si para si como um louco. Cin-
co minutos após a partida da menina deu-lhe um
arrependimento: “Como lhe não pedi o número?
Por quê?”. E viu como o sorriso da garota não só
56 Luciano Duarte
lhe dava abertura, como instava, implorava pelo
pedido. Julgou vexatórios os poucos segundos que
Daniela se lhe pusera de frente, aguardando a ini-
ciativa. E que fizera Samuel? Nada, absolutamente
nada. Congelara, travado, surpreso e incapaz de
reação. “Como fui burro!…”
E, nesse misto de enlevo e decepção, nosso ge-
rente de vendas chegou em casa. Daniela! Recons-
truiu-lhe os lábios enquanto se banhava: finos, si-
nuosos na parte superior com laterais pontiagudas,
levemente arqueadas; por baixo, o traçado curvan-
do-se delicadamente, deixando o lábio inferior em
discreta evidência. Para Samuel, que detestava os
procedimentos cirúrgicos em voga que preenchiam
o lábio superior das garotas a torná-lo como que in-
flado, via em Daniela a perfeição estética: o ligeiro
contraste, o aspecto natural dos traços… E aquilo
se lhe abrira em largo sorriso, aquilo lhe convidava
ao contato!
Maria Elvira, vendo o filho a sorrir enquanto le-
vava a roupa suja para a máquina, tudo entendeu.
Sorriu também a mãe enquanto passava o tempo no
sofá de frente à televisão. A dúvida era quem seria
o motivo do sorriso. O filho apresentara-lhe uma
única mulher em toda a vida, e havia quatro ou cin-
co anos que não via a menina. Samuel, reservado e
introvertido, confessara o término uma única vez,
quando perguntado, cerca de dois meses após o
rompimento. Depois, nem menção à namorada al-
guma, nem sorriso estampando no rosto a paixão.
A mãe não errava, sabia e confirmou ao ver Samuel
57Samuel
voltando-lhe ao quarto: o filho, pela segunda vez na
vida, apaixonara-se.
Difícil foi esperar o entardecer da terça-feira que
raiou… Samuel, desde que se pôs de pé, pensou
somente em Daniela. Acordou com determinação
anormal: agiria, faria algo, só não sabia o quê…
Chegando ao trabalho assustou-se das anotações
da véspera. Quanta irritação! Planejara a demissão
de Jorge, pusera-se a levantar o histórico de ponto
do experiente vendedor. Não havia necessidade, ao
menos por ora… Precipitara-se e correra um grande
risco: compraria uma briga enorme e desnecessária,
geraria conflito quando ainda precisava provar-se
enquanto gerente.
Decidiu-se pelo inverso: chamou Jorge à sua sala
e lhe propôs um incentivo; desculpou-se e confes-
sou-se alvo de muita pressão. Disse depender de
Jorge, confiar no trabalho de Jorge e não esperar de
Jorge senão os melhores resultados do setor.
O subalterno, que se havia arrependido da inso-
lência logo após a saída do chefe, viu-se em alívio:
empurrasse os dias com a barriga e lhe teria o salá-
rio garantido com a certeza de pronto tomar para si
a gerência. Aceitou as desculpas do chefe, agrade-
ceu pela confiança e despejou meia dúzia de pala-
vras de motivação.
Samuel, finda a conversa, sentiu descarregar de si
peso imenso. “É mesmo tudo uma questão de saber
conversar… Gerenciar é transigir!” — refletia, sa-
tisfeito da palestra. O inimigo transformara-se em
aliado.
58 Luciano Duarte
Relaxado do desabafo, prazeroso da descarga de
tensões, não demorou para que lhe viesse novamen-
te à cabeça: “Daniela, Daniela…” — quando lhe
deu bruscamente: “Sabe o quê? Hoje lhe cumpri-
mento com beijo no rosto e peço-lhe o telefone!”.
Ajeitou-se na cadeira: a suposição trouxe-lhe um
calafrio. Mas era isso! Ou não? Que Daniela espe-
raria de um homem? Da garota, já nada se havia de
esperar… Que queria Samuel, que ela lhe beijasse
a boca a demonstrar interesse? Não, de jeito ne-
nhum… Agora o bastão havia sido passado e ele,
inclusive para se desculpar da covardia da véspera,
pediria o número da magnífica Daniela. Atitude!
Pois se lembrou de Gutão. Agora que não bebia,
erguera-se um muro entre os dois amigos obstan-
do-lhes a relação. Mantiveram ativas as conversas
até pouco mais de um mês após o acidente. Gusta-
vo, que inicialmente respeitara a decisão de Samuel,
que lhe ouvira as justificativas, a história do policial
e tudo o mais, não tardou para começar a instigar o
amigo. Vendo-lhe as tentativas baldarem, logo teve
de encontrar novo companheiro de farra, e a rela-
ção com Samuel naturalmente esmoreceu.
Entretanto Samuel, a despeito da distância, tinha
Gutão como o melhor amigo. Se não mais bebia,
se lhes não conciliavam as rotinas, tanto fazia… A
amizade perdurava.
Sacou o celular e contou, por mensagens, a histó-
ria a Gutão. O amigo naturalmente não acreditou,
pediu fotos, provas. Como não houvesse, acabou
por atirar o caso em descrédito. Samuel ouviu do
59Samuel
amigo que se fosse com ele… Ah! mas como seria
diferente! Jamais perderia uma oportunidade como
aquela, por isso a história parecia fantasiosa, mal
contada… “Mas se for mesmo verdade, se você não
estiver mesmo mentindo, então vá e peça o telefone
dessa tal Daniela! Senão, creio seja hora de anun-
ciar a mudança de time…” — recomendou textual-
mente o amigo.
“Pedirei o número dela. Simples. É vê-la e pedir.”
Assim caiu a tarde, soou o sinal e Samuel levan-
tou-se da cadeira resoluto. Trancando o escritório,
dizia: “É hoje!”.
Foi pôr-se no carro e começar as conjeturas:
“Como já estou calejado desta maldita Lei de Mur-
phy, muita calma…”. E logo trafegava entre os car-
ros. “Provavelmente algo inesperado irá acontecer,
como sempre, e eu não conseguirei pedir o número
da princesa…” O tráfego, de praxe, era lento. Oh,
horário das seis! Oh, ponto-morto e primeira! Pa-
rado entre filas e semáforos, continuava Samuel a
refletir: “É bem isso! Inflo o meu balão para que
estoure! Mas não interessa, a minha parte está deci-
dida: se vejo ela, peço o número, sem desculpa nem
demora”.
Quarenta minutos e Samuel adentrava o estacio-
namento da academia. Foi virar a chave e sentir a
tensão crescer. “Coragem! Sou homem!” Apeou,
acionou as travas elétricas do carro e pôs-se a ca-
minhar.
De onde estacionara distava leve descida à re-
cepção do ginásio. Em marcha, sentiu um vento
60 Luciano Duarte
gelado bater-lhe contra o peito. Tremeu e não sa-
bia se era frio ou nervosismo. Diante da porta de
vidro, o último suspiro. Então passa para dentro.
Música e rumor de correias. Samuel cumprimenta
a simpática recepcionista e deixa-lhe a impressão
digital frente à roleta. Concentra-se para não pa-
recer nervoso. Passa pela recepção, caminhando de
vista baixa. Quando ladeia o primeiro aparelho e
sente-se definitivamente dentro da academia, ergue
a fronte. Perpassa discretamente todo o ambiente
com os olhos: nada. Então, ainda concentrado para
não tremer, continua a caminhada. Que irritante
esse nervosismo! E põe-se a fazer movimentos de
maior amplitude com os olhos, já com o auxílio do
pescoço. “Nada, nada… Não veio”.
Consoante a cena da véspera, Samuel adentra o
vestiário e busca pelo banco amigo. Dessa vez, o
suspiro é de decepção. “Eu já sabia. O que acontece
é sempre igual. Só mudam os contextos…”
Assim Samuel trocou-se, não se olhou no espelho
e deixou o vestiário cabisbaixo. Havia, porém, uma
pequena esperança. Poderia não ter olhado direi-
to…
Chegou às barras habituais. O fisioterapeuta reco-
mendara-lhe muito zelo no alongamento do ombro:
deveria tensioná-lo em três direções, vinte segundos
para cada; depois, o aquecimento, a garantir que
os músculos preparem-se aos esforços posteriores; e
quanto aos exercícios, é preocupar-se primeiro com
a amplitude de execução, depois com a carga.
Súbito, Daniela irrompe do vestiário feminino.
61Samuel
Antes que Samuel pudesse formar raciocínio os
olhares já se lhes haviam cruzado. O arrepio su-
biu-lhe violentamente. “É agora! Ou vou agora, ou
não irei. Se esperar cinco segundos, desisto”. Soltou
a barra que segurava pelas costas e rompeu o blo-
queio em passos corajosos. “É agora!” O arroubo
que sentia era inédito. De olhar fixo, caminhou em
linha reta à Daniela, que já se via de costas diri-
gindo-se a algum aparelho. “Vou pedir o telefone
dela” — pensava e arrepiava-se da tensão prove-
niente da aproximação. A dez passos de distância,
Daniela vira-se bruscamente e dá de cara com Sa-
muel. O susto dura um segundo e transmuta-se em
sorriso.
— Daniela… Tudo bem? — Samuel expulsa de
si o nervosismo que estalava, abafa-lhe o calafrio
feroz e cumprimenta Daniela com um beijo na bo-
checha.
A menina assente. Sorri. Samuel emenda:
— Vem cá. Confere aqui se seu número tá certo.
Samuel ergue-lhe o celular e digita cinco núme-
ros aleatórios. Daniela capta a malícia e abre largo
sorriso.
— Não, Samuel. Meu número não é esse — e, pe-
gando-lhe da mão o aparelho, digita e conclui: — é
esse aqui!
E Samuel vê brilhar na tela do próprio celular o
número de Daniela.
63Samuel
Capítulo IX
A pergunta tornou-se forçosa: quem seria Danie-
la? Onde estaria Daniela desde o primeiro capítulo
desta história?
Façamos uma pausa e voltemos um pouco no
tempo.
A trajetória da belíssima Daniela é digna de nota.
O pai a tivera aos vinte e dois por descuido, não
suportara a pressão e fugira, deixando a namorada
em desamparo. Nunca mais Bárbara, mãe da crian-
ça, tivera notícias do rapaz. Parira três dias após
completar dezoito primaveras.
Poder-se-ia prever triste futuro para a pequena
que nascia, posto a mãe se encontrasse em aban-
64 Luciano Duarte
dono total pelo pai da criança, necessitando do tra-
balho e ainda de estudar. Não foi o que ocorrera.
De início, o obrigatório: a mãe deixara os estudos.
O trabalho dera-lhe, em seguida, a licença remu-
nerada, o que fora excelente notícia. E depois, o
verdadeiro alívio: os pais de Bárbara mobilizaram-
-se, encantaram-se com a pequenina e não só se
dispuseram, como solicitaram pudessem cuidar da
criação da menina. Fora uma surpresa que levara
Bárbara às lágrimas, posto que jamais pediria um
favor deste aos pais, primeiro, por estimar a car-
ga de trabalho que acarreta uma criação; segundo,
pelo péssimo relacionamento que mantinha com o
pai. Já não conversava com ele há anos, e subita-
mente os lindos e esverdeados olhos da criança res-
tauraram por completo a relação.
Assim, encarregaram-se os avós da criação de Da-
niela. Bárbara fazia questão de tirar do bolso cada
centavo gasto com a filha, mas sabemos como são
essas coisas… Os avós arcavam com boa parte dos
custos da menina, em segredo, até que a própria
Bárbara tomou ciência e deixou correr.
Aos nove anos, Daniela viu-lhe falecer a queri-
da avó. Sofreu… como sofreu!… e pior para a mãe
tendo de explicar a uma menina de nove anos que
jamais lhe tornaria a ver a avó.
Onze anos e novo fato marcante: Bárbara recebe
proposta irrecusável de emprego, para deixar Di-
vinópolis e transferir-se para a capital. O avô, de re-
pente, tornou-se o homem mais infeliz do universo:
não aceitava ver escorrer-lhe das mãos a netinha…
65Samuel
Que lhe sobraria da vida, que lhe tirara há pouco a
companheira de três décadas e meia? Mas sabemos,
novamente, como são vãs as lágrimas nesse mun-
do… Foi feita a vontade da mãe, a necessidade da
mãe. E Daniela guardou para sempre a fotografia
do avô de olhos rútilos, apoiado no pequeno gra-
dil que circundava a casa onde fora criada, chacoa-
lhando com tristeza a mão debilmente erguida.
Durou seis meses a tristeza do velho. Então Da-
niela, já aos doze anos, voltava a Divinópolis para
romper definitivamente com os laços de sua infân-
cia. Nem criança era mais…
À Bárbara, veio herança respeitável. Contava
trinta anos a mãe que agregou casa e carro ao
ótimo fluxo de caixa mensal. Por si só seria capaz
de, em alguns anos, deixar o aluguel na capital,
mas o falecimento do pai acelerou o processo e a
mãe pôde, inclusive, matricular Daniela em uma
escola melhor. A rotina era um açoite; Bárbara
quase não via a filha. Paciência… havia, decerto,
pior.
Todos esses fatos tiveram reflexos óbvios e fortís-
simos no caráter da pequena Daniela. Se, por toda a
infância, fora a menina alvo dos mais zelosos cuida-
dos, de todo o carinho dos avós, subitamente, viu-
-lhe a vida desabar, provando-nos que há pessoas
de que o fado parece não ter piedade.
Aos doze anos, portanto, Daniela tinha sobre as
costas uma carga de sofrimento atroz. Poderíamos
dizer parecido da mãe, mas a mãe tinha Daniela, e
Daniela não tinha os avós…
66 Luciano Duarte
Assim, a garota tornou-se assaz sorumbática e
silenciosa em idade que o natural é falar, correr e
abrir-se ao mundo. Não foi de desleixar dos estu-
dos, mas a reclusão sempre a prejudicou; quer dizer:
muito se aprende da relação com outros alunos, o
contato é um estimulante, gera interesse, e foi Da-
niela distante, de difícil relação, tímida e reservada,
cuja ligação com o mundo jamais se estendeu para
além da sala de aula. Isso até os dezessete.
Nesta idade encontrava-se Daniela no ano em que
se formaria no ensino médio. A escola era a mes-
ma desde o falecimento do avô. Fizera, assim, duas
amigas, que ao longo dos anos trataram de mitigar
paulatinamente a tristeza da pequena Daniela, cuja
própria imagem passou a se dissipar. Pouco a pou-
co, os interesses em comum cristalizaram a amiza-
de, entretiveram, motivaram e fortificaram-se. As
amigas chamavam-se Laura e Thalita. Ambas de
caráter parecido, entretanto, era esta comunicati-
va, enquanto a outra guardava-se em timidez seme-
lhante à de Daniela.
O trio fechou-se quando se juntaram as três em
mesma classe no primeiro ano do ensino médio. Foi
quando começaram as experiências amorosas das
garotas. Daniela apaixonou-se — dizia “gostava” —
por um jovem Leonardo. Não se falavam, não se co-
nheciam, nada. Mas os olhares confessavam, e o sen-
timento era recíproco. Thalita e Laura, entrementes,
começaram a trocar beijinhos, coisa que Daniela não
podia nem sonhar, visto não houvesse perdido parte
considerável do extremo acanhamento da infância.
67Samuel
Dois anos ficou Daniela a ouvir das amigas a ma-
ravilha do beijo, das carícias do afeto. Thalita já na-
morava o terceiro… Assim, a imaginação começou
a florescer na mente da menina que arrepiava só de
ouvir falar em beijo. O arrepio tornou-se instigante.
E neste ano corriam os preparativos para a forma-
tura, agitando as expectativas de todos os forman-
dos. Mesmo Bárbara cuidava, em casa, de aplicar
injeções de ânimo na filha. Já em janeiro viam-se
todos ansiosos, motivados com a independência de
poder organizar uma festa. E o clima não poderia
deixar de contagiar, também, nossa Daniela.
Ocorreu, pois, algo mais forte. Por junho deste
mesmo ano, deram os formandos uma festa a dis-
cutir detalhes da formatura. Daniela, já animada
dos planos, deixou-se conhecer, de uma só vez, o
álcool e o beijo. Quem era o garoto? O próprio
Leonardo de dois anos de flerte. Súbito, a vida lhe
havia sorrido! Belos dias subsequentes ao beijo…
Daniela, enfim, aos dezessete anos, engatava o pri-
meiro namoro e tornava-se uma mulher — sim,
mulher! — completamente diferente do que fora na
infância: fisicamente, demais, o vigor e a felicida-
de decorrente do amor transformaram-na; Daniela
tornou-se absolutamente radiante. Os olhos ainda
verdes como em criança, de contorno delicadamen-
te amendoado, davam-lhe uma distinção raríssima;
o sorriso quando se lhe abria era um charme! E,
aos dezessete, pôs-se em compromisso.
A sucessão foi a de costume: viveu a menina to-
dos os encantos da paixão, sentiu correr nas veias o
68 Luciano Duarte
fogo do primeiro amor. Formou-se. Seguiram jun-
tos, Daniela e Leonardo, para uma mesma univer-
sidade. Tornou-se o contato diário, o afeto diário,
a relação só dando trégua quando ambos dormiam
e não trocavam mensagens. Assim por quatro anos,
quando, súbito, troveja o término.
Estamos aqui há exatamente um mês de onde dei-
xamos a história no capítulo anterior. A vida de
Daniela, em suma, desabou com uma violência iné-
dita para a menina que perdeu em três anos os dois
avós. Quatro anos de namoro faz pensar em casa-
mento, em vida conjugal… E Leonardo cruelmente
a traíra e a descartara.
De início, a garota pensou em suicídio. Não era o
orgulho ferido, mas a desfeita, a decepção avassa-
ladora que lhe exterminara todos os planos. Tudo
caíra de uma vez. Sem chão, novamente atirada ao
limbo, vendo o amado com outra a sorrir, sentindo-
-se desprezada no mais alto grau, Daniela trancou-
-se em casa e desligou o celular por duas semanas.
Só chorava, não comia, pôs-se agressiva contra as
tímidas investidas da mãe, não foi um dia sequer à
faculdade. A postura como que renunciava a tudo,
digna de alguém a quem nada sobrara.
Então, já completamente enfraquecida, pálida
e inerte, Daniela viu bater-lhe na porta do quarto
Thalita e Laura que, juntas, foram saber do para-
deiro da amiga. Com muita insistência conseguiram
que a menina abrisse; arrepiaram-se vendo-lhe o
triste aspecto: cabelos desgrenhados, face cadavé-
rica, visível magreza e tibiez. Dois minutos de con-
69Samuel
versa e as amigas foram tomadas por uma revolta,
um ódio mortal contra Leonardo. Canalha! Cruel
e infame! E decidiram, as duas, pernoitar por algu-
mas noites na casa de Daniela. Bárbara muito lhes
agradeceu; aliás, foi iniciativa da mãe o contato
com elas.
Sabe-se lá que feitiço lançaram: a partir da che-
gada das garotas, três dias perdurou a depressão.
No quarto estava Daniela, bebendo e dançando, em
festa com as amigas. Como explicar? Sobre isso não
conjeturamos… Mas, por fora, a tristeza de Danie-
la desapareceu.
E assim começou nossa história. Na terceira se-
mana após o término, portanto, matricula-se Da-
niela numa academia. O ato era parte de um plano
maior: decidira-se a mulher valorizar-se, usar da
própria independência. O objetivo era, naturalmen-
te, a felicidade, e para isso queria ver-se no auge
da forma, no auge da beleza, tornando-se, como
a mãe, uma versão cada vez melhor. Dependia de
quem? Então aderiu à vida fitness, decidiu esforçar-
-se para formar como destaque na faculdade, e deli-
berou procurar imediatamente um estágio, empresa
que não havia pleiteado desde o início do curso.
Foi numa segunda-feira que, deixando a faculda-
de, passa em casa, troca de roupa e dirige-se à aca-
demia acompanhada de Thalita. Chegando lá, meio
dedo de burocracia e já estavam as duas treinando.
Enquanto o simpático instrutor passava-lhe alguns
conselhos para a execução dos exercícios, Danie-
la vê cruzar o salão do ginásio jovem mui estiloso,
70 Luciano Duarte
trajado em social e que, conquanto jovem, parecia
dispor da maturidade que lhe faltava ao ex-namo-
rado canalha.
Durante a semana, Daniela viu-lhe todos os dias,
um após o outro, fazendo notas com a amiga de
treino. Interessava-se pelo recato do rapaz. Até en-
tão o tipo de jovem que conhecera era o jovem ex-
pansivo, espalhafatoso, que tem gosto por fazer-se
impressionar; jovem do copo de cerveja para o alto,
das noites de farra e das bravatas disparadas sob
efeito do álcool. Samuel não parecia ser nada disso,
pelo contrário, parecia interessante apesar do reca-
to; inteligente, talvez, e estiloso. Thalita não perdia
ocasião de instigar a amiga, elencando as prováveis
qualidades do rapaz, de forma que na sexta-feira
já os tratava como o casal prometido, ainda que
Samuel lhe não tivesse direcionado um único olhar.
A história subsequente é conhecida. O ignoto é
que, naquela segunda-feira fatídica, Daniela tam-
bém tremia sobre os pés. O sorriso era puro dis-
farce e a iniciativa foi tomada sob impulso das
chicotadas de Thalita. O que fez a amiga não foi
incentivo, foi coação: exigiu a atitude de Daniela,
uma mulher independente, que deveria fazer o que
lhe desse vontade, correr atrás e agir pelos próprios
desejos. E Daniela fez o que pôde… Disfarçando
o nervosismo, cumprimentou Samuel. Vendo que
o rapaz não reagia e não tendo nada a mais para
falar, deixou-o exatamente com o mesmo sorriso
com que o abordara.
— Agora é só esperar… — disse Thalita, diverti-
71Samuel
da de ver a amiga a dizer: “Acho que ele não gostou
de mim”.
No dia seguinte, por mensagem Daniela:
— Ele não gostou de mim.
E a amiga:
— Espera…
Pela noite, na academia, foi ajeitar-se no espelho
do vestiário como e, antes que iniciasse o primeiro
exercício, ouve dos lábios do confiante Samuel:
— Daniela… Tudo bem?
Nem teve tempo para o susto. Congelada, apenas
assentiu com a cabeça e sorriu. Samuel, já próximo,
tasca-lhe um beijo na bochecha. Daniela arrepia-se
com o calor do contato. Vem a emenda:
— Vem cá. Confere aqui se seu número tá certo.
Samuel põe-lhe à vista o próprio celular. Núme-
ro? Antes que pensasse, via-o digitando proposital-
mente de forma aleatória. Percebe-lhe nos olhos a
malícia. “Ele está pedindo o seu número, sua bes-
ta!” — e, arqueando os lábios, começa:
— Não, Samuel. Meu número não é esse — to-
ma-lhe da mão o aparelho e, digitando, dá o rema-
te: — é esse aqui!
E Daniela sente aflorar no peito a sensação esti-
mulante de passar o próprio número ao charmoso
desconhecido.
73Samuel
Capítulo X
Sigamos a sombra da bela jovem.
Oito em ponto foi quando voltou a menina do
ambiente de treino, com sorriso esticado na face. A
mãe preparava o jantar.
Daniela entrou, foi à cozinha, tomou um copo de
água e rumou para o quarto, tudo isso numa leveza,
numa serenidade de quem habita simultaneamente
dois universos. Bárbara olhou-a com estranhamen-
to: normalmente a filha deixava escapar algum co-
mentário sobre o jantar…
Entrando no quarto, Daniela automaticamente
lhe direcionou os olhos para a pequena escrivaninha
fronteira à sua cama. Por cima da tampa de vidro,
74 Luciano Duarte
um notebook, alguns livros e dois porta-retratos:
um de si mesma, em criança, e outro acompanhada
da mãe. Mas não foi em nada disso que Daniela
cravou o olhar: foi para o espaço vazio que ladeava
o porta-retratos em que se via sorridente, com uma
janelinha em lugar do incisivo central.
Nova roupagem tirou da gaveta, então partiu ao
banho, demorando-se longos minutos debaixo do
chuveiro, até que Bárbara tivesse de lembrá-la o
custo da energia elétrica e alertasse-a contra o des-
perdício.
Daniela e Bárbara nutriam o hábito de jantarem
sempre juntas, em ocasião que geralmente lhes con-
sistia o contato diário. Quando a filha deixou o
banheiro, a mãe já conjeturava o que poderia ter
causado aquela quebra na rotina, o ponto fora da
curva de uma longa sequência de dias iguais.
Daniela, que tornou aos devaneios logo que disse
à mãe que já sairia do banho, aterrizou novamente
vendo o olhar fixo e interrogativo que lhe foi dire-
cionado assim que atravessou o limiar da da cozi-
nha. Sorrindo da cena, a filha perguntou:
— Que foi?
E a mãe, desconfiada do sorriso anormal:
— Que foi, é?! Eu que pergunto…
— Comigo? Nada, ué…
Bárbara sorriu da confissão. Sorriu, baixando a
vista e com sincera alegria.
Assim, a mãe logo entabulou novo assunto. Da-
niela lhe havia externado os planos do estágio há
poucos dias, dizendo das pesquisas que começara
75Samuel
a empreender e dos currículos que enviara. Bárba-
ra, satisfeita e impressionada, dissera-lhe que tal-
vez poderia ajudá-la. Dissera conhecer profissionais
de estética, área em que a filha se graduava, e que
faria contatos. Nesta noite, enquanto jantavam,
continuaram a conversa, com Bárbara dizendo que
nutria esperanças de que arranjaria para a filha o
estágio. Agradável jantar.
Comeram ambas, trataram de assear e organizar
a cozinha, como habitual, e seguiu cada uma a seu
canto: Bárbara, à televisão da sala; Daniela, ao pró-
prio quarto.
Havia uma tensão que brotara na mente de Da-
niela assim que deixara a academia e só crescia,
fazendo com que ela não desgrudasse do celular.
Volta e meia, os olhos na tela do aparelho, a ver se
havia atualização. Nove da noite e nada…
Daniela, então, entrou no quarto e ligou a tele-
visão, a disfarçar onde lhe estava a cabeça. “Será
que ele vai me chamar agora?” Sacou o celular,
enviando mensagem, de uma só vez, às duas me-
lhores amigas: à Thalita, a perguntar que achava
da demora; à Laura, a contar-lhe a história e per-
guntar que achava da demora. Laura, porém, já
se via informadíssima, sabia de todos os mínimos
detalhes, informados em tempo real por Thalita. E
via-se, em mesma medida, animada das novas: pa-
recia haver um pacto entre as amigas para motivar
a jovem Daniela a unir-se com o rapaz. Queriam,
acima de tudo, vê-la esquecer de vez o anterior ca-
nalha, quem sabe vê-lo arrepender-se amargamente
76 Luciano Duarte
do erro que cometera…
E Daniela teve de passar o restante da noite es-
cutando que era uma boba, uma apressada, que
nada se devia preocupar. Era esperar, somente isso.
A mensagem viria, e queriam as duas amigas se-
rem informadas de cada detalhe da nova conversa.
A curiosidade de Laura, em especial, era enorme,
posto não tivesse visto pessoalmente o rapaz. Ha-
via recebido algumas fotos tiradas na academia
por Thalita, mas só. Parecia-lhe, tanto a ela como
à fotógrafa, que o sujeito era bom partido, ótimo
partido. O relógio anunciou o novo dia, e nada de
mensagem. Daniela acabou por cochilar, esquecen-
do de desligar a televisão.
Soa o despertador: seis e meia da manhã e a cla-
ridade invade o quarto pela janela. Daniela, como
costume, desliga o sino insuportável e permite-se al-
guns minutos de soneca. Quinze para as sete e põe-
-se de pé. Confere o celular: nada. “Ele não enviou
mensagem pela madrugada…” Escova os dentes,
conversa qualquer coisa com a mãe na cozinha, e
logo está, na rua, caminhando em direção ao metrô
da cidade.
As aulas desta quarta-feira teriam início às oito.
O metrô, a nove minutos a pé de onde morava, le-
vava-a a cerca de dois quilômetros de sua faculda-
de, e Daniela optava por completar o trajeto de ôni-
bus. Portanto, um metrô e um ônibus: e como era
odiosa essa rotina!… O metrô de Belo Horizonte,
para início de conversa, não era sequer um metrô,
e absolutamente não comportava a demanda da
77Samuel
cidade. De segunda a sexta, era tomá-lo entupido
de gente, em desconforto, com medo constante de
ser assaltada ou qualquer coisa que o valha, visto
que casos semelhantes aconteciam não diariamente,
mas a cada vinte minutos. Era descuidar-se por um
átimo e pronto, um cidadão tomava-lhe o celular e
desaparecia em meio à multidão. Do metrô para o
ônibus, pior. A saída da estação era o trecho mais
perigoso do trajeto por inúmeros motivos, entre
eles, a aglomeração enorme de pessoas como que
se empurrando, esmagando-se e afunilando-se para
passar entre as estreitas escadas rolantes e corredo-
res do terminal, que vivia repleto de sujeitos mal-
-intencionados. Vencendo as catracas de saída da
estação, era tomar o ônibus, que consistia na parte
mais estressante do percurso até a faculdade.
Logo deixando o corredor do terminal que dava
para a rua, havia uma fileira de vendedores ambu-
lantes que, sempre fazendo barulho, angariavam
para a frente de seus produtos alguma aglomera-
ção. Como espertos que fossem, faziam questão
de se posicionar o mais próximo possível da saída
do metrô, a garantir que todos que o deixassem fi-
zessem contato visual com seus comércios. Como
ali nunca havia fiscalização, acontecia o seguinte:
próximo ao corredor de entrada e saída do termi-
nal, tumulto generalizado, praticamente impossível
de ser atravessado sem que se esbarrasse, roçasse,
esfregasse em outra pessoa. A dez metros estava o
ponto de ônibus, e ainda não chegamos à pior parte
do trajeto.
78 Luciano Duarte
Os ônibus de Belo Horizonte eram basicamente
divididos em duas seções separadas por uma role-
ta. A primeira seção era onde os passageiros deve-
riam pagar em dinheiro ao motorista-cobrador que
trafegava, fazia contas e repassava as moedas do
troco, ou realizar o pagamento através de um car-
tão magnético carregado previamente. Pagando, a
catraca liberava, e então o passageiro podia passar
para a segunda seção, onde estavam os assentos, o
corredor e as portas de saída do veículo.
Na primeira seção do ônibus, todos os dias e sem-
pre, havia uma aglomeração de quatro classes de
pessoas: idosos, que tinham direito à corrida livre;
pedintes, que somente deixavam a seção quando
alguém lhes pagava a passagem; vadios, que aguar-
davam que lhes chegasse o destino desejado para
saltar para fora do veículo pela porta dianteira; e
os passageiros que propriamente entravam visan-
do simplesmente pagar a própria passagem e passar
pela roleta.
Com alguma dificuldade era possível chegar à se-
gunda seção. Então acontecia o seguinte: jamais era
possível para Daniela cumprir o restante do traje-
to sentada, ou ao menos com algum espaço, não
entrando em contato físico com outra pessoa. O
motorista, que dirigia, fazia contas e passava tro-
cos, muitas vezes trafegava entre arranques e frea-
das, como brincasse a testar se os passageiros eram
bons de equilíbrio. Além disso, é razoável dizer que,
dentro de um ônibus, pensa-se que a paz é o traje-
to em metrô, visto o trânsito pelas vias urbanas,
79Samuel
repleto de curvas, semáforos, lentidão e buzinadas
ser um caos. Agora o agravante: num ônibus, não
bastasse o quase esmagamento dos que não foram
agraciados por Deus com um assento, uma única
gota de chuva era suficiente para fazer com que os
passageiros fechassem imediatamente todas as jane-
las, como que se protegendo da entrada de um gás
tóxico, capaz de exterminar em poucos segundos o
aglomerado de bons cidadãos. O resultado: em dias
chuvosos, o ambiente interno do ônibus, além de
tudo, era de um abafamento insuportável.
Assim, nesta quarta-feira, logo que deixou o ter-
minal de metrô Daniela tomou o primeiro ônibus
que apontou à vista. Não chovia. Passando pela ro-
leta, apoiou-se numa barra vertical próxima a uma
janela e, enquanto observava qualquer algazarra
que se formava na rua, sentiu o celular vibrar.
Era Samuel. E, junto ao arranque do veículo, Da-
niela sentiu-lhe o peito palpitar.
81Samuel
Capítulo XI
Que sensação gostosa! Quando Daniela viu bri-
lhar o bom-dia e o nome de Samuel na tela do ce-
lular, esticou-lhe mansamente os lábios na face.
Era um misto de alívio, realização, curiosidade e
sabe-se mais o quê. Três linhas bem escritas, sim-
páticas e elegantes para alegrar-lhe o início de dia.
“Respondo agora, ou espero?” Leu novamente a
mensagem: vinha o bom-dia, a apresentação e uma
graça: “(…) é o Samuel, que pediu descaradamente
o seu número ontem na academia…”. Novo sorri-
so. “Respondo depois.”
Desceu do ônibus a oito minutos do início do pri-
meiro horário. Em tempo. Foi sentar na cadeira da
82 Luciano Duarte
sala de aula e contar a nova às duas amigas: “Ele
me mandou mensagem”. E as amigas, textualmen-
te, aguçaram-lhe as expectativas, felicitaram-na.
A professora entrou, passou a expor a matéria
enquanto Daniela mantinha-lhe os dedos ativos. Os
dedos e a mente. Com as amigas, conjeturava a res-
peito das qualidades de Samuel: quantos anos teria?
Estudava ou formado? Por que chegava sempre em
social para treinar? Mistérios… Mas o rapaz apa-
rentava boa estirpe.
Vinte minutos de aula e Daniela decidiu-se: “Vou
responder!”. Retribuiu o bom-dia e o bom humor
de Samuel. Disse-lhe: “Só um pouquinho descara-
do…”. Assim entabularam animada conversa. De
cinco em cinco minutos, nova mensagem. E Daniela
tinha de prestar contas às amigas. Cada nova in-
formação de Samuel, novos comentários. Veio o
assunto das ocupações: “Sou gerente de uma…”.
Agradou a todas. Então as três passaram a ver fu-
turo, perspectivas. Samuel mostrava-se inteligente,
educado, escrevia com esmero, evitando abrevia-
ções e erros ortográficos.
Daniela, perguntada, contou-lhe toda a história
da primeira vez em que o vira, de que o havia acha-
do interessante, mas não tivera coragem de abordá-
-lo… disse, inclusive, achou Samuel ter estranhado
a aproximação fortuita que fizera na segunda, que
ficara constrangida do silêncio, considerando-o al-
gum tipo de desagrado. O rapaz desculpou-se en-
faticamente, disse surpreendido da ocasião, que ja-
mais esperaria uma abordagem como aquela, mas
83Samuel
agradeceu por ter havido ocasião de retratar-se em
descaro. Daniela riu novamente: “Divertido esse
Samuel…”.
Correram quatro horas de bate-papo. Findou-se
o último horário do turno da manhã, então Daniela
percebeu que não abrira sequer um caderno. Dei-
xando a sala, pôs-se em caminho do restaurante
onde costumava almoçar. Os olhos ardiam, via-se
tensa: fruto do frenético contato visual com a tela
brilhante. Sentia-se esgotada conquanto estimulada
de maneira inédita por Samuel. Que é que ele ti-
nha? Beleza não seria para tanto… O que instigava
era a conversa, o jeito, talvez… Um misto de edu-
cação, inteligência, bom humor, talvez ela mesmo
parecesse inferior aos olhos do rapaz. O que estava
escrito é que se tratava de alguém diferente. Veja-
mos pela conversa: quatro horas de pouquíssima
entrevista de emprego. De resto, pôde perceber que
emparelhavam alguns gostos, que Samuel possuía
diversas áreas de interesse e conhecimento; expe-
riências, também, Samuel parecia tê-las variadas e
interessantes… Que dizer? Em geral, não era esse o
tipo de palestra que estava acostumada em primeira
abordagem. Desta vez tudo ocorria como se fossem
íntimos, talvez fosse isso, íntimos, à vontade des-
de as primeiras palavras, sem bloqueios desneces-
sários, sem assuntos protocolares, e o interesse, o
desejo era mútuo, claramente mútuo. Que sensação
gostosa provinha disso tudo! Quedou satisfeita da
aplicação do próprio tempo pela manhã.
Assim, findo o almoço teria de retornar à sala de
84 Luciano Duarte
aula para o turno da tarde, onde faria duas ava-
liações. Logo que deixou o restaurante veio-lhe à
mente: “Não estudei…”. Pois contatou colegas de
classe. Havia, ainda, cerca de quarenta minutos an-
tes do início das provas.
Reunida a três, de livros abertos na biblioteca
da universidade, Daniela concentrou-se na revisão
das matérias, esquecendo-se de responder a última
mensagem de Samuel. A primeira avaliação metia
medo; certamente lhe não dominava o conteúdo.
Pôs-lhe o celular dentro da mochila e fez o que pôde
para aproveitar aqueles minutos.
Uma e quinze da tarde e entrou na sala, sentou-se
e aguardou a entrega das avaliações. Tensão? Nem
tanto, já estivera pior… O celular continuava na
mochila, silenciado, a não desviar-lhe o foco.
Provas entregues, foi pôr o olho no papel e cons-
tatar: não saberia resolver a questão única e aberta
que o professor lhe propunha. Tristeza!
Uma hora e meia, portanto, de tortura a pôr em
palavras um processo estético de mínima aplicação.
A questão solicitava-lhe abordagem completa, des-
de a execução do procedimento até suas aplicações,
riscos, parâmetros de avaliação e manutenção dos
resultados, com ilustrações elucidativas. Péssimo,
péssimo… encheu as linhas de evasivas quando
deveria muni-las de nomenclaturas técnicas. Por
fim, livrou-se da tortura entregando a avaliação ao
grave professor; em desalento, porém, frustrada do
desempenho e certa dos problemas que lhe aguar-
dariam naquela matéria.
85Samuel
Tomou ar fora da sala por cinco minutos, então
entrava a nova professora, empunhando as novas
avaliações. Coisa chata ficar fazendo provas! Tor-
nou a seu assento, respirou profundamente, e logo
estava respondendo questões fechadas sobre técni-
cas em estética corporal.
Pouco menos de quatro da tarde foi quando dei-
xou a sala de aula, completa a exaustiva carga horá-
ria daquela quarta. Só então se lembrou do celular.
Rumando ao ponto de ônibus respondeu, com
atraso, as últimas mensagens recebidas. Sentiu-se,
subitamente, dominada pelo cansaço vendo-se a
entrar no fatigante trajeto de volta para a própria
casa. Ao menos, naquele horário haveria trânsito
menor…
Do ponto ao ônibus, do ônibus ao metro e do
metrô, a pé, à sua casa. Deu cabo ao trajeto por
volta das cinco. Samuel, respondido há cerca de
uma hora, ainda não lera a mensagem. Que cha-
tice ter de esperar… Entretanto, vê-lo-ia em breve,
e o clima da conversa estava excelente, a despeito
do esmorecimento proveniente do atraso na última
resposta.
Em casa, a mãe não havia chegado. Daniela pas-
sou a imaginar como seria o encontro da noite: até
então, trocara com Samuel, ao vivo, meia dúzia de
palavras. Será que a conversa se estenderia? O que
queria, em verdade, era poder perguntar-lhe mais
coisas. Que é que ele fazia nos finais de semana?
Será que tinham algum contato em comum? Onde
estudara? Pois viu como sabia pouco do rapaz.
86 Luciano Duarte
Foi que ocorreu o imprevisto: chegou a mãe, às
seis da tarde, em febre violenta. Pediu que a filha a
acompanhasse ao hospital. Tomaram um táxi, visto
Bárbara se não visse em condições de dirigir. No ca-
minho, Daniela ouvia-lhe as queixas, via-lhe a mão
a tremer, em transpiração intensa, fria, denuncian-
do-lhe o estado preocupante.
No hospital, rapidamente Bárbara foi encami-
nhada a sessões de exames. Daniela teve de esperar.
Frustrava-se da mãe e do silêncio de Samuel, posto
o relógio marcasse sete da noite e ainda não tives-
se obtido resposta do rapaz. Hora dessas estaria,
pessoalmente, em seu contato. Não sendo possível,
custava-lhe ao menos responder?
O diagnóstico de Bárbara veio tranquilo: a febre,
disse o médico, não é senão um mecanismo de defe-
sa do organismo, dispensando, na maior parte das
vezes, uso de medicamentos adicionais. O doutor
passou-lhe receita a conter um ou outro sintoma, e
garantiu-lhe que no dia seguinte estaria melhor.
Assim, sete e meia da noite saíam mãe e filha do
hospital, já tendo Bárbara apresentado leve baixa
na temperatura corpórea. Tomaram um táxi à far-
mácia mais próxima, adquiriram os medicamentos
prescritos pelo médico e, antes das oito, Daniela
pôs-se solitária a preparar o jantar.
Neste tempo, vibra o celular: Samuel amavelmen-
te se queixava não tê-la visto aquela noite. Abran-
dou-se o dia da garota, que lhe contou o imprevis-
to. Obteve, em rápida resposta, a compaixão e os
votos de melhora da mãe.
87Samuel
A gentileza de Samuel fê-la dormir estampando
macio sorriso na face.
89Samuel
Capítulo XII
Quinta-feira. Desde o novo bom-dia pela manhã,
Daniela e Samuel trocaram mensagens com entu-
siasmo. Incrível como a conversa só fazia frutificar!
Neste dia, tiveram a oportunidade de aprofundar
os laços. A confissão de Samuel na véspera, dizendo
sentir a falta de Daniela em sua noite, elevou-lhes
a relação a outro estágio. Agora, definitivamente, a
intenção era clara.
Durante a tarde, rumando o assunto a relacio-
namentos, Daniela pôde expressar-lhe a frustração
e desdita com o ex-namorado. Digitava, vendo-lhe
subir novamente os sentimentos horríveis e destruti-
vos que o término lhe trouxera, revivendo os piores
90 Luciano Duarte
momentos daquelas duas semanas em depressão.
Percebeu-lhe duas lágrimas rolarem na face, então
teve a certeza de que a punhalada não cicatrizara.
Samuel foi tomado de surpresa: o relato era do-
loroso e recente. Pensando muito, visto as longas e
emocionadas mensagens que recebera, tardou além
do normal a formular resposta. Sentiu ter conhe-
cido a garota em momento inoportuno. “Será que
estou a aproveitar-me da carência?” — atirava-lhe
a consciência: — “Flertar com alguém nesse estado
é, para dizer o mínimo, antiético.” E julgou acerta-
do dizer a Daniela, com a sinceridade que lhe cabia,
o que lhe parecia da história e da relação entre os
dois.
Disse que, em primeiro lugar, julgava como atro-
cidade e canalhice o que o ex-namorado fizera.
Disse não respeitar, pessoalmente, o canalha, não
lhe ser possível trocar uma única palavra com esse
tipo de pessoa. Em adicional, manifestou sua em-
patia à garota, disse-lhe que conseguia imaginar o
que ela sentira e que se dispunha, em totalidade, a
dá-la o apoio que necessitasse. Finalizando, disse
que se sentia um pouco mal por estar estreitando
relações com ela naquele estado, que talvez estaria
se lhe aproveitando do momento de fraqueza, de
carência, exatamente como a consciência lhe havia
atirado no rosto.
Daniela, emocionada do caráter afetivo e com-
placente da resposta, deixou-se derreter, dizendo-
-lhe que não esperava o bem que lhe fizera aquela
mensagem, que nem com a própria mãe se havia
91Samuel
aberto daquela forma e que não só permitia, como
solicitava a presença de Samuel em sua vida.
Assim correu a tarde, terníssima tarde, e Daniela
chegou em casa desejosa de abraçar Samuel quando
o visse à noite. Entretanto, má notícia: Samuel dis-
se-lhe, por volta das seis, que teria um compromis-
so logo após o trabalho, impossibilitando-o compa-
recer à academia.
Dessa vez, foi Daniela a externar-lhe o lamento,
em atitude que tratou de lhes apertar ainda mais os
laços.
Thalita, pela noite, arrancou da amiga a confis-
são:
— É… acho que estou gostando desse Samuel…
E Daniela terminou-lhe o dia ávida da companhia
do rapaz, do jovem com quem trocara tão somente
algumas frases, que mal conhecia e que lhe provo-
cou naquela tarde uma avalanche de sentimentos.
Queria vê-lo, abraçá-lo, ouvir melhor a sua voz, re-
parar-lhe o sorriso…
Pouco antes de dormir, Samuel, tomado da li-
berdade concedida pela conversa sem interrupções
desde as sete da manhã, perguntou à menina: “Es-
cuta… Eu seria muito apressado se te chamasse
para sair amanhã?”. E Daniela, aproveitando dos
recentes lamentos que lhe fizera pela ausência, res-
pondeu-lhe: “Não”.
Assim, combinaram sair no dia seguinte. “Oito e
meia, nove?” — perguntou Samuel. “Amanhã com-
binamos.”
Desnecessário enfatizar a expectativa que o raiar
92 Luciano Duarte
da sexta imediata trouxe àqueles jovens… “É hoje!”
— diziam ambos de si para si, impressionados da
vertiginosa progressão da conversa.
Samuel, como criança, olhava-se no espelho e
sorria. “Não é possível…” — e desacreditava do
encontro marcado em dois dias de papo com a mu-
lher mais maravilhosa que Deus lhe havia posto no
campo de visão.
Daniela, por sua vez, sentiu-lhe a insegurança al-
vorecer junto ao dia. De uma só vez pensou não
estar preparada, não ter tempo para arrumar-se e
ter caído no conceito de Samuel permitindo-lhe en-
contro prematuro. Esta última era a que mais lhe
afligia, e que se agravou faltando-lhe o bom-dia de
Samuel com relógio cravando dez horas da manhã.
“Talvez tenha-se desinteressado. Como sou bur-
ra!” — e arrependia-se de ter deixado na véspera
verter a emoção: — “Deveria ter me controlado.
Falei demais.” Naturalmente, não suportou encer-
rar em si os pensamentos, externando a conversa da
véspera à Thalita. A amiga só faltou lhe beijar do
outro lado da tela, felicíssima do ocorrido, do cará-
ter afável do rapaz; deu-lhe a injeção de ânimo que
lhe faltava: “Deixa de ser boba! Desinteressado…
Tá louca?”.
E, fatalmente, veio o bom-dia animado por volta
do meio-dia, embora em réplica à mensagem que
a própria amiga obrigou-lhe a enviar. “Eu detesto
esses joguinhos…” — disse Daniela à Thalita, que
lhe explicava a necessidade de haver um acordo ve-
lado entre os dois. “Ninguém gosta de correr atrás
93Samuel
sozinho, entendeu? Se o Samuel te chamou por dois
dias seguidos, então você precisa dá-lo, também,
um sinal de interesse” — justificava.
É justo alteremos, por ora, o foco de nossa lente,
a ver melhor o que se passou neste dia na cabeça
de Samuel.
A antevéspera fora tensa e frustrante até o anoi-
tecer: “Sabe jogar. Está jogando comigo” — pen-
sava o jovem vendo-se subitamente ignorado. E,
entrementes, o maldito inconsciente o atormenta-
va fazendo-o pensar que talvez houvera cometido
qualquer erro. Veio a resposta no cair da tarde,
decidiu respondê-la pessoalmente na academia. En-
tão, a menina faltou. Frustrado, empalideceu: “Dis-
se algo…”.
Tomou coragem, pois, já à noite, quando enviou
a carinhosa mensagem à Daniela, que se encontrava
no hospital. Chegou a resposta trazendo-lhe alívio e
a certeza de que nada havia feito à menina.
O dia seguinte elevou-lhe os ânimos ao céu, como
ficou brevemente dito, e Samuel quase não acredita-
va no sucesso das conversas. Era sexta, e o sorriso
estampou-lhe no rosto a confiança desde que se pôs
de pé.
Sete horas da noite. Chega do trabalho e põe-se
a aprontar. De início, um banho demorado e longo
namoro frente ao espelho: tudo certo com a pele,
mas o topete havia de apresentar-se em perfeição.
Samuel aplicou-lhe mui requintada técnica apren-
dida de Gutão: inicialmente, enxágue em água fria,
a reduzir o frizz; depois, enxugamento em leves
94 Luciano Duarte
compressas de pano seco em redor da cabeça, até
que removido o escorrer dos fios; em seguida, com
madeixas ainda umedecidas, hidratação com creme
especial para pentear, em quantidade cautelosa, a
evitar que os fios se tornem oleosos; por fim, mo-
delação preliminar com finalizador e secagem ao
natural, com retoques de quinze em quinze minu-
tos. O leitor julgará que confundimos personagens:
engana-se e ofende-nos.
Desta forma, Samuel passou-lhe impecavelmente
a melhor camisa, vestiu-se em calça jeans recém-
-comprada e esfregou-lhe um pano no sapato até
que viesse a brilhar. Oito e meia da noite despedia-
-se do espelho, aplicando-se as últimas borrifadas
do perfume importado.
A cinco minutos, pois, distava a residência de
Daniela. A menina informou-lhe estar pronta, e Sa-
muel pôs-se dentro do carro cuidadosamente lava-
do e aspirado naquele dia em lava-jato próximo ao
trabalho, onde Samuel deixou-lhe por toda a ma-
nhã. O perfume do jovem misturou-se ao agradável
exalar do interior do carro e, ansioso, Samuel acio-
nou o motor de partida.
No caminho, o aparelho de som do carro alterou
volume e artista inúmeras vezes até que Samuel de-
cidisse por desligá-lo: “Melhor conversar. A música
atrapalha”. Quando estacionou frente ao número
indicado pela menina, Samuel suspirou e viu-se fre-
mente. “Cheguei” — informou-lhe por mensagem
de texto.
Sete minutos de tensão. Noite e o medo do as-
95Samuel
salto; Samuel pensou, por um momento, Daniela
ter desistido do encontro. Mas ali não havia o que
fazer, e fosse o que Deus quisesse… “Algo dará
errado. Sempre é assim” — refletia em desalento,
perscrutando os retrovisores.
Quando baixa uma luz sobre a entrada do edifício
de Daniela. Em segundos, aponta a garota, lindíssima,
atravessando uma porta de vidro. Percorre lentamen-
te o corredor iniciado pelo portão gradeado que dava
para a rua. O mesmo caminhar jeitoso, os mesmos
olhos que tanto o haviam encantado na academia…
Samuel baixa o vidro, a dar sinal. Daniela passa
para dentro do carro, também perfumada, quando se
cumprimentam sorrindo. A partir deste momento, a
noite correria maravilhosa.
Apearam dali a vinte minutos em restaurante con-
ceituado de Belo Horizonte. O requinte do ambiente,
a presteza dos funcionários e a qualidade da comida
concorreram para que a noite excedesse todas as ex-
pectativas. Não houve silêncio, não houve desencon-
tro de ideias e muito menos desconforto. Sentaram-se
e, por quatro horas, a noite sorriu-lhes.
A tensão de Samuel desapareceu logo que, ainda
no carro, Daniela pôs-se a falar. A menina, por sua
vez, dissipou o nervosismo vertendo palavras. Toda
a história de ambos, das conversas e da semana foi
repassada, ao vivo, em olhares e sorrisos. No decorrer
da noite as mãos já se lhes entrelaçavam por baixo da
mesa. Veio a conta e pouco depois a despedida, já na
porta do prédio da garota.
O encontro foi selado em beijos calorosos.
97Samuel
Capítulo XIII
Rindo à toa… Assim Samuel chegou em casa. A
felicidade, a euforia pareciam querer fazê-lo estou-
rar. Estacionou o carro na garagem, ainda sentindo
na boca o gosto de Daniela. “Não acredito!”
Silencioso, passou como um vulto pela casa a che-
gar-lhe ao quarto. Fechou cuidadosamente a porta
e, de luz apagada, sentou-se com as costas apoiadas
na cabeceira da cama, onde suspirou longamente,
ainda sorrindo, passando a devanear.
O que ocorrera fora, eufemisticamente, um so-
nho. Como explicar? Que tinha feito para me-
recê-lo? Como fora possível que, em dois dias de
conversa, saísse com mulher superior a tudo o que
98 Luciano Duarte
vira? Nunca, nem de perto, ficara com garota que
fizesse frente à pérola daquela noite. Não era capaz
de acreditar.
Então reconstruiu todos aqueles momentos em
deleite: a tensão quando em porta da casa da me-
nina, os devidos cumprimentos, o nervosismo que
parecera resistir até que Daniela pôs-se a falar…
Dali em diante, os nervos amoleceram, a fluidez da
conversa paulatinamente amansou a agitação inte-
rior e em pouco os dois já conversavam como um
verdadeiro casal. Casal: aí estava a palavra. Casal
sendo ele e a princesa, a maravilhosa Daniela. “Se
ela quiser, pode acabar com tudo hoje, agora! Não
importa. Esse gol nem Pelé!…”
Se a alegria era grande, Samuel sentiu o celular
vibrar. Daniela, Daniela perguntava-lhe em texto se
havia chegado em casa. “Estou no céu! Obrigado,
Deus!” E Samuel respondeu-lhe afirmativamente.
A menina fez questão de agradecê-lo, dizer-lhe o
quanto gostou do encontro e desejou-lhe uma boa
noite. O músculo da face já começava a doer… En-
tão Samuel deu a réplica e, eufórico, incrédulo, en-
caminhou a mensagem da menina a Gutão, que lhe
havia posto em descrédito a história. “Agora desli-
go esse celular, senão não consigo dormir.” Desli-
gou, deitou-se e fechou os olhos, sentindo, ademais,
a satisfação de esfregar na cara do amigo o próprio
valor.
No dia seguinte, Samuel acordou com a cabeça
na véspera. Ligou-lhe o celular e repassou as men-
sagens enviadas em madrugada pelo amigo Gutão,
99Samuel
que certamente as enviara em estado de lamentável
embriaguez. As últimas diziam mais ou menos as-
sim: “Amanhã é comemorar! Meio-dia no bar do
Régis etc. etc.”. Quão deplorável era o amigo… Be-
ber, sempre beber… A bebida como solução para
tudo, tudo como motivo a beber… Escusou-se de
dar-lhe a negativa até que, por volta das dez, veio
nova intimação. “Hoje não vai dar” — foi a res-
posta, que exigiu de Samuel sucessivas e fastidiosas
explicações…
Mas não iria beber. Não com Gutão. Samuel ar-
rependera-se, inclusive, de ter-lhe entregado a boa-
-nova. “Que ganhei com isso? Brio maldito…” E
desprezou-se por não controlar a própria euforia.
Sabia, calcado em amargas experiências, que lhe di-
zer da vida aos outros nunca, em hipótese alguma,
trazia-lhe vantagem. Pelo contrário: fosse o melhor
dos amigos, contando-lhe a vida, só teria a perder.
Foi que neste sábado ocorreu algo incomum.
Meio-dia e Samuel almoça com os pais, que lhe per-
cebem a evidente alegria estampada na face. Alegria
é sentimento camuflável apenas por cínicos profis-
sionais, o que não era o caso de Samuel. O pai, logo
que esvaziaram os pratos, chamou-lhe a um canto
e propôs:
— Hoje tem clássico. Vamos num bar?
E Samuel, visto a raridade do convite, prontamen-
te aceitou. Beberia, claro. Mas qual o problema?
Uma vez na vida, outra na morte. O álcool já lhe
não ditava a rotina, deixara de ser inimigo mortal.
Assim, seis e meia da tarde lá estavam pai e filho
100 Luciano Duarte
tomando cerveja, pedindo churrasco e aguardando
o início do Cruzeiro x Atlético-MG do dia.
Sentavam-se em área externa, onde havia melhor
ventilação e visibilidade. Uma estrutura metálica
forrada por lona tapava o sol na calçada; dela, pen-
dia um grande telão, posicionado num dos extremos
do bar, por onde o jogo seria transmitido. Talvez
uns vinte ocupavam a calçada, todos posicionados
em direção ao telão, ocupando João Arnaldo e Sa-
muel mesa de distância intermediária.
O pai via-se animado, pelo jogo e pelo filho. Es-
perava o momento certo de perguntar-lhe o motivo
da alegria, informada no início da semana por Ma-
ria Elvira e confirmada no almoço recente.
Três cervejas e o pai, curioso, insinua a Samuel:
— Conta pra gente: acertou na loteria?
E o filho, sorridente:
— Pois é…
— Mulher?
— Também… Conheci uma mulher, sim, e o tra-
balho anda bem… Tudo correndo melhor do que
eu poderia esperar.
João Arnaldo, risonho, ajeitou-se na cadeira.
Molhou o bigode e continuou, como tivesse qua-
trocentos anos de experiência:
— Mulher, é claro… Tá escrito na sua testa! E
como foi?
Samuel disse-lhe, vangloriando-se, que fora abor-
dado pela garota na academia, e que no dia seguinte
pediu-lhe corajosamente o número; conseguindo-o,
dois dias de conversa e saíram a um restaurante. Sa-
101Samuel
muel enfatizou a beleza singularíssima da menina.
O pai pediu fotos, e vendo-as, após alguns segundos
de deslumbramento, subitamente lhe fechou o sem-
blante. Calou-se, devolveu ao filho o celular, virou-
-se para o telão que exibia a transmissão pré-jogo,
umedeceu novamente o bigode e pôs-se a pensar.
Samuel, desentendido da mudança repentina, vi-
rou-lhe o pescoço ao telão, a ver se algo importante
ocorrera. Nada. Então, esticando um sorriso des-
concertado na face, perguntou-lhe:
— Que foi? Qual o problema?
E João Arnaldo, já mirando o filho nos olhos, pe-
netrando-lhe pelo contato visual, deu a resposta:
— Bom… O que vou te falar aqui, hoje, começa e
termina nesta mesa — e curvou-se a Samuel. — Tá
me entendendo?
Samuel assentiu, estranhando o tom grave, mas
ciente de que o pai adorava este tipo de ocasião.
João Arnaldo, como ficou dito, tinha certa cadên-
cia nas palavras, certo tom de voz que lhe conferia
enorme seriedade e crédito ao discurso. Quando se
punha a falar, parecia não estar senão declamando
verdades. E Samuel respeitava-lhe exageradamente.
João Arnaldo começou:
— É o seguinte, Samu. Estou sinceramente feliz em
te ver alegre, satisfeito de encontrar uma garota ma-
ravilhosa, que acredito seja ótima pessoa e tudo o
mais. Pouco sei da história dessa menina, mas desejo
que você, caso queira, seja feliz com ela, porém…
João Arnaldo fez sinal de nova cerveja ao garçom.
Samuel escutava com atenção.
102 Luciano Duarte
— Uma mulher como essa — emendou o pai —
tem, todos os dias, trinta homens interessantes ba-
tendo-lhe na porta, dando-lhe em cima. Todos eles
saberão ser divertidos por trinta segundos, caso a
oportunidade lhes seja concedida. Olha… — e o pai
cofiou o denso bigode — eu te falo não é duvidando
do caráter da garota, mas porque já vi muito. Mu-
lher bonita assim é fogo…
Chega o garçom, serve-os e sai. João Arnaldo sor-
ve metade do copo de uma vez e continua:
— Essa menina que você ficou tem um mundo
de possibilidades. Não digo que melhores, não me
entenda mal… Pelo contrário. Mas ela é incapaz
de ver e valorizar o que você tem a oferecer: o seu
caráter, o seu temperamento, a sua honestidade…
E será bombardeada o tempo inteiro com outras
possibilidades, talvez mais sedutoras do que a que
você entrega. Tá me entendendo? O que eu quero
te dizer é o seguinte: você já é homem para definir
sua vida. Siga em frente, seja feliz, invista nesse re-
lacionamento. Mas tome cuidado, muito cuidado,
e esteja sempre disposto a perder. Assim se joga a
vida: ganha quem se dispõe a abrir mão do que tem.
Samuel articulou as primeiras palavras após o
discurso:
— Pô, pai… Isso é um verdadeiro balde de água
fria…
E João Arnaldo respondeu-lhe:
— O seu tio, você sabe… — um tio materno ha-
via-se divorciado ao descobrir-se traído, perdera na
justiça a guarda dos filhos, metade do patrimônio,
103Samuel
tendo a outra metade vendida em um ano para sal-
dar-lhe a pensão exigida pela ex-esposa, a empresa
lhe foi acometida crise violentíssima, e o homem
acabou por suicidar-se. — Eu te falo porque quero
a sua felicidade. Mas não creia que te aconselho
a não seguir adiante. Pelo contrário: faça o que o
seu coração mandar e conte comigo. O meu alerta é
para que você não se perca, não crie, na medida do
possível, dependência desta garota, e sempre tenha
em mente que Deus pode tirar o que te deu, porque
assim é a vida: as coisas vêm e vão. É aceitar e se-
guir…
Samuel, silencioso, levou alguns minutos para di-
gerir os conselhos. Então, finalmente compreendeu:
o pai sabia do que falava, prevenia-o, de antemão,
dos riscos que alguém em dependência emocional
incorre, das ameaças provenientes da fomentação
de expectativas, em suma: de tudo aquilo que Sa-
muel já sabia, mas, estimulado do envolvimento,
era incapaz de observar.
A conversa no bar encaminhou para outros as-
suntos. O jogo começou e puseram-se a falar de
tática. Sorriam e contavam piadas. Volta e meia,
porém, Samuel recordava das palavras de João Ar-
naldo sobre Daniela, mesmo sem nunca tê-la visto,
e sentiu crescer em si uma imensa gratidão pelo pai
que tinha, pela sabedoria que o homem lhe passa-
va, sempre lhe auxiliando a enveredar pelo cami-
nho correto, prudente e sensato. O pai apoiava-o,
mas o alertava. Não se impressionava de nada: vira
muito, vivenciara o bom e o péssimo, o auspicioso e
104 Luciano Duarte
o desalentador, e entregava tudo isso ao filho, com
a tranquilidade de um sábio.
Tanto fazia o resultado do jogo, Samuel tornou
à sua casa neste sábado com a certeza de provir de
um grande pai.
105Samuel
Capítulo XIV
Havia programação para o dia seguinte: Raimun-
do, o tio, convidara toda a família para um churras-
co em sua casa, isto é, os de Samuel e os avós.
Reuniões assim eram frequentes: havia esforço
para manter a pequena família sempre unida, e
João Arnaldo e Raimundo viam-se na obrigação de
entreter os velhos pais.
Desta forma, de um encontro a outro jamais se
abria o espaço de duas semanas. Normalmente, a
tradição era o almoço dominical, porém não raro
reuniam-se às quartas ou quintas, quer em razão do
futebol, quer para jogar cartas.
Samuel acordou no domingo por volta das dez da
106 Luciano Duarte
manhã. Sabia do compromisso, e gostava de chegar
cedo para acompanhar os preparativos do almoço.
Levantou-se e sentiu-lhe a cabeça pulsar. Era, ob-
viamente, o que a cerveja da véspera havia-lhe es-
condido do dia seguinte. “Bebi demais. Hoje, nem
uma gota” — pensou rumando para a cozinha.
A mãe o viu e tratou de apressá-lo: combinara às
onze em casa de Raimundo. Samuel assentiu. Na
cozinha, o quanto de água o corpo suportasse e um
comprimido milagroso. De volta ao quarto, tratou
de aprontar-se: puxou qualquer roupa da gaveta e
partiu para o banho.
Durante a véspera trocara mensagens com Danie-
la enquanto se via no bar. Porém espaçadas, proto-
colares, posto estivesse diante de uma pessoa e seria
desfeita ficar com a cara enfiada no celular. Deixou
ciente a garota, a evitar qualquer constrangimento
ou arrefecimento na relação. Daniela entendeu, não
viu problema. Pela noite, pois, estando Samuel em
casa, trocaram outras mensagens, e já era hábito o
boa-noite antes de dormir.
Samuel, deixando o banheiro, desejou à garota
um bom dia. Em minutos a resposta, seguida de
novas palavras do jovem, dizendo da programação
que cumpriria.
Amanheceu nublado, parecendo guardar chuva
para a tarde. Tempo agradável, visto o calor quase
sempre incomodar. Pouco depois das onze chega-
va a família à casa de Raimundo. João Arnaldo,
motorista, tratou de passar na casa dos pais a bus-
cá-los. Era incrível como a presença de João Ma-
107Samuel
noel, sempre álacre, contagiava o ambiente. Foi
pôr-se no carro e começou a fazer notas sobre a
condução do filho: recomendava-lhe atenção aos
buracos, conferiu-lhe o aperto do cinto, perguntou
da calibração do estepe e dizia-se observando-o
pelo retrovisor. Todos divertiam-se.
Já devidamente acomodados na cobertura do
apartamento que sediaria o churrasco da tarde, di-
vidiram-se da seguinte maneira: Raimundo e João
Arnaldo a cuidar do churrasco, posto fossem apai-
xonados por assar uma carne; Maria Elvira e Ju-
dite, as cunhadas, à cozinha, cuidando do restan-
te dos preparos; os filhos até se ofereceram, como
sempre, a ajudar, mas qualquer tímida recusa era
motivo suficiente para permiti-los ficassem agar-
rados aos avós. Assim estavam Vinícius, Samuel e
Julinho, e João Manoel contava-lhes do dia em que
o filho pôs-se pela primeira vez a tocar o gado em
sua fazenda:
— O Raimundo, atrás de seis bois, batia com
uma taquara na terra, assim, ó… — e gesticulava
representando o desengonço do filho, levando os
netos à risada. — Aí aconteceu o seguinte: na beira
da estradinha de terra, tinha um pé de manga que
toda vez que a gente passava…
João Arnaldo, a dissimular atenção no posicio-
namento da carne na grelha, ouvia o pai a contar
a história. Súbito, estacou frente à brasa e sentiu
escorrer-lhe uma lágrima. Raimundo percebeu:
— Que é isso, Naldo?
O irmão recompôs-se, piscando com força:
108 Luciano Duarte
— Pus o olho na brasa…
Limpou com as costas da mão a face, em seguida
dando a volta por trás do irmão, rumo à pia, onde
lhe lavou as mãos. Raimundo, que lhe observou a
fugacidade com estranhamento, ao vê-lo abrindo a
torneira, tornou a concentrar-se no que fazia.
Acontece que, novamente, o Raimundo da histó-
ria de João Manoel era, em verdade, João Arnaldo,
que desta vez não pôde segurar a emoção que as
memórias do pai lhe evocaram. Na ocasião, ainda
jovem, lá pelos treze, ele tocava o gado e, avistando
uma manga madura, decidiu por pegá-la. Distraído
na tarefa, acabou por deixar o gado distanciar-se e,
percebendo, pôs-se a correr atrás dos bois. Quando
os encontrou, lá estava João Manoel tocando-os. O
pai fazia graça, dizendo que salvou o filho de uma
bordoada. Entretanto, outra vez se errava de filho,
o que, a João Arnaldo, era pungente e constrange-
dor.
Samuel, logo que se sentou a escutar os casos do
avô teve de enfrentar o primeiro e óbvio conflito.
Raimundo, a cumprir a tradição, estourou com
uma pancada a tampa de uma garrafa de cerveja,
levando copo cheio ao sobrinho. Samuel arriscou a
pueril negativa:
— Hoje não, tio… Valeu.
E o tio, rindo de orelha a orelha, virou-se a João
Arnaldo, que estava na churrasqueira, e apontou-
-lhe ao filho:
— Ouviu isso, Naldo?
Negativo.
109Samuel
— Seu filho disse que não vai beber.
E João Arnaldo, sorrindo, respondeu-lhe:
— Apaixonado!
— O quê? — o tio abriu os braços. — Apaixo-
nado?
E, com muita malícia, aproximou-se do sobrinho,
dizendo-lhe em tom de sussurro, mas suficiente para
que todos ouvissem, visto o brado precedente já lhe
houvesse angariado as atenções:
— Conta pro titio, Samu. Qual o nome do rapaz?
E Samuel, ele mesmo sorrindo da graça que levou
todos às gargalhadas, respondeu o tio tomando-lhe
o copo cheio da mão. Raimundo satisfez-se e tor-
nou triunfante à churrasqueira.
Aqui é necessário abrir um parêntese, posto o
costume dos mineiros possa estranhar habitantes
de outras paragens. Samuel, tomando-lhe da mão
o copo, dizendo-lhe em ato que iria beber, e de fato
bebendo, provou ao tio a própria honra. Isso quer
dizer que, recusasse o copo, seria considerado co-
varde. Podemos ainda adicionar: não beber, para o
mineiro, é pior que uma desfeita, é como que negar
explicitamente a socialização. Quando Samuel pro-
meteu-se a não mais beber, em suma, prometeu-se
uma impossibilidade. Em Minas Gerais simples-
mente não existe, para quem já bebeu uma vez, essa
coisa de “não vou beber”. O mesmo poderíamos
dizer a respeito do cheque especial, onde tomá-lo
uma vez é como assinar um contrato eterno assu-
mindo-se devedor.
Samuel, tomando o copo, imediatamente pensou:
110 Luciano Duarte
“Lá vou eu mais uma vez…”. Mas o remédio já
havia mitigado os colaterais da bebedeira da véspe-
ra. Paciência… Não beber, ali, não existia. Quises-
se mesmo parar de beber, era mudar-se de estado,
jamais se encontrar com a própria família. Deus o
entenderia…
E a tarde correu animada, como era habitual. Cer-
ca de duas e meia o almoço foi servido. Espaçosa,
a cobertura do apartamento dispunha de bancada
extensa, em mármore, do lado oposto da churras-
queira, em parte coberta. Ali, foram colocadas as
panelas e travessas com os preparos. Os familiares
serviram-se e distribuíram-se entre duas mesas de
vidro que ladeavam a bancada. Almoçando, obser-
vavam o céu, que se abria exatamente naquele ho-
rário.
Houve um incidente que assustou a todos. De
repente, enquanto almoçava, João Manoel engas-
gou-se. Os poucos segundos de respiração ofegante,
de mãos levadas à garganta, fizeram todos arrepiar.
Entretanto, foi susto. O velho, por si só, conseguiu
desobstruir-lhe a traqueia, e tudo voltou ao normal.
Os familiares despediram-se ao anoitecer.
111Samuel
Capítulo XV
No mesmo domingo em que Samuel passava a tar-
de junto aos familiares em casa de seu tio Raimun-
do, Daniela se lhe reunia com as duas fiéis amigas,
em encontro que se estendeu pela noite.
Por volta de uma da tarde, encontraram-se as
três. Havia um açaí muito gostoso próximo à casa
de Laura, mas, como aparentasse haver chuva para
a tarde, decidiram-se pela comida japonesa, em es-
tabelecimento coberto, onde poderiam tranquila-
mente colocar a conversa em dia.
Daniela havia recusado, na véspera, uma festa
com as amigas. A atitude causou-lhes desgosto,
pois as meninas não entendiam qual o problema de
112 Luciano Duarte
uma garota solteira, aliás, recém-solteira, sair com
as amigas num sábado. Que fizera? Ficara em casa,
sozinha, assistindo a qualquer filme.
Havia linha de sobra para o primeiro assunto.
Chegaram, pois, ao restaurante: primeiro Laura,
logo Thalita e Daniela, que partilharam do mes-
mo transporte. No trajeto, Thalita já dera sinais à
amiga do que viria logo que se sentassem. Feitos os
cumprimentos, estando as três acomodadas, Laura
começou a conversa assim:
— Olha, amiga… — dizia à Daniela — ontem
você perdeu!
Thalita emendou:
— Bem feito! Eu disse pra ela no carro!
E puseram-se as duas a dizer, ora uma, ora ou-
tra, as maravilhas da noite anterior. A ênfase era
forçada. Que se passara? Nada de mais… Mas as
palavras que dançavam naquela mesa exalavam
ânimo, satisfação, encantamento, pois que a noite
havia sido perfeita, haviam-se encontrado com vá-
rios conhecidos, a música estava ótima, os drinks
excelentes, e ainda receberam, no final, uma corte-
sia gratuita para outra festa na semana seguinte das
mãos do próprio promoter do evento.
Daniela simulava entusiasmo. Sentia-se mal por
não ter muito o que falar, mas se esforçava pergun-
tando detalhes, inclusive sobre os garotos da festa,
com o que as amigas riram escandalosamente. Al-
guém, observasse da mesa ao lado, facilmente nota-
ria o exagero nas palavras, nas inflexões, porquan-
to a dissimulação era evidente; entretanto julgaria,
113Samuel
sem sombra de dúvida, que as três ali se divertiam.
E, em certa medida, era o que acontecia. Daniela
gostava da companhia das amigas.
Porém a conversa pôs-se, subitamente, descon-
fortável. As amigas, muitíssimo bem treinadas para
esse tipo de situação, esperaram pelas primeiras pa-
lavras de entusiasmo de Daniela para convocá-la
à festa da semana seguinte. Eis o lado negro das
mesmas convenções que permitem a celebração do
natal em família... Daniela, por um automatismo,
uma mania de buscar, sempre que possível, estreitar
ideias, disse, em lamento simulado, que se arrepen-
dia não ter acompanhado as amigas na festa da vés-
pera. Pois recebeu à queima-roupa o novo convite.
Mania essa de simpatia…
Daniela, naquele momento, não desejava festa ne-
nhuma. Conhecera Samuel, gostara da companhia
do rapaz. Era cedo? Era. Mas que diferença fazia?
Então Thalita, percebendo a breve relutância da
amiga, disparou-lhe no rosto uma ironia. Insinuou
não seria possível ela, que acabara de sair de um
relacionamento de quatro anos, que acabara de
vencer o término, fosse grudar com o primeiro que
aparecesse, não podendo sequer sair com as amigas
que dormiram em sua casa nos momentos difíceis
pós-término. Laura mal esperou a amiga terminar
e reforçou a reprimenda, dizendo não acreditar que
Daniela, aos vinte e um, jogaria a juventude fora
daquela maneira… Nem sequer aproveitara a ado-
lescência, posto fosse uma reclusa e, logo amadure-
cendo, praticamente casara.
114 Luciano Duarte
Desta forma, estavam justamente as amigas que
incentivaram a aproximação de Daniela a Samuel,
logo ao primeiro beijo, dizendo-lhe que se não de-
veria apegar, que era livre, que era possível conci-
liar tudo e que, obviamente, as amigas deveriam ter
prioridade, porque ela era muito jovem e ainda não
tinha aproveitado nada, e não seria razoável que
ela, logo após um término, fosse engatar em novo
relacionamento.
Daniela não se lhes opunha argumento, escutan-
do e pensando. Quando arriscou justificativa, então
o tom de censura aumentou, e as amigas se lhes am-
paravam a agressividade mutuamente. Em poucos
minutos, estavam quase brigando.
Pois Daniela convenceu-se, pediu desculpas, dis-
se realmente se sentir uma tola ao ignorar como se
abria uma oportunidade incrível em sua vida. Pode-
ria, agora, compensar o tempo perdido no passado,
fazer o que nunca fizera.
Foi caírem essas palavras na mesa e a felicidade
subitamente se instalou. As amigas, percebendo a
posição humilde de Daniela, afagaram-na, e assim
passaram a planejar juntas. Em pouco a própria
Daniela via-se entusiasmada. A festa da semana se-
guinte, uma viagem no final do ano… as ideias co-
meçaram a brilhar nos olhos da garota.
Saíram do restaurante pelas quatro e levaram o
agito para a casa de Laura, onde ficaram a conver-
sar até nove da noite.
Quando Daniela chegou à própria casa, depois
daquele dia sacudido por ideias, a cabeça lhe fervia.
115Samuel
Estava, sim, feliz, visto a tarde com as amigas hou-
vera-lhe trazido alento, talvez se lhe tivesse aberto
os olhos, dotando-lhe de um sentimento agradável
de resolução e independência.
Tomou um banho. Pensava, ainda, no futuro. E
só então se lembrou de que se esquecera de respon-
der a última mensagem de Samuel, enviada ainda à
tarde. “Ah, amanhã eu respondo…” — pensou e,
assim, deitou-se a dormir.
Naturalmente, houve arrefecimento nas conver-
sas entre Samuel e Daniela exatamente após à calo-
rosa noite da sexta. Ambos, porém, pareceram não
se importar, posto lhes tivessem ocupado o tempo
e a mente relacionando-se com outras pessoas, em
especial neste domingo.
Alvoreceu a segunda com a impressão de que se
passara muito tempo desde que ficaram. Entretan-
to, coube à Daniela a inciativa de desculpar-se pelo
esquecimento da véspera, já pensando que talvez
desagradara o rapaz.
Samuel respondeu-lhe com a gentileza costumei-
ra, dizendo não haver problema algum, contando-
-lhe do próprio domingo e de como estivera entre-
tido com os tios e avós. Disse-lhe que fora alvo de
brincadeiras dos familiares após o pai insinuar que
o filho estivesse apaixonado, o que causou impres-
são estranha na garota.
“Então a família dele já sabe?” — e via-se con-
fusa. Era boa ou má notícia? Daniela, pensativa,
passou a avaliar a situação durante o dia. Se, por
um lado, a ciência da família logo após o primei-
116 Luciano Duarte
ro beijo era extremamente precipitada, por outro,
evidenciava que Samuel tinha-lhe em alto concei-
to. “Não estou sendo só mais uma…” — pensou e,
quando externou por mensagens a reflexão, ouviu
idêntica frase da boca do próprio Samuel.
Nessa toada por todo o dia, ambos os jovens sen-
tiram o contato restaurar-lhes a relação recém-co-
meçada. Em Daniela ressoava as reflexões da vés-
pera, mas a garota não enxergava o motivo por que
não pudesse continuar estendendo-se com Samuel.
Aliás, fora isso consenso entre as próprias amigas:
era perfeitamente possível a conciliação. Desta for-
ma, e animada pelas palavras sempre educadas e
serenas do rapaz, Daniela deixou-se comover. Iria à
festa no sábado, qual o problema? Mas continuaria
conversando com Samuel, continuaria relacionan-
do-se com ele, que era em muitos aspectos superior
a Leonardo.
Leonardo… A memória do ex-namorado trou-
xe-lhe a certeza: continuaria em avanço na relação
com Samuel.
Correu, pois, o dia. Daniela viu-se em aperto em
recebendo a nota da terrível avaliação da quar-
ta-feira anterior. Haveria de estudar, quisesse a
aprovação naquela matéria… Mas nada além da
normalidade. Como sabia, já estivera em piores e,
estudando, seria possível a aprovação.
À noite a atração do dia: pela primeira vez,
ver-se-iam Samuel e Daniela na academia após,
de fato, terem-se conhecido. Tudo mudara com a
virada da semana. A intimidade era outra.
117Samuel
Assim, e não sem ligeiro e mútuo estranhamen-
to, cumprimentaram-se, no ginásio, em carinhoso
selinho.
119Samuel
Capítulo XVI
A semana correu excelente aos jovens. O conta-
to físico diário, selado em beijos de cumprimento e
despedida, pareceu-lhes solidificar o afeto. No celu-
lar, a conversa era contínua e parecia não ter fim.
Pela noite diariamente o cume quando, despegados
dos afazeres da rotina, aquecidos pelo contato na
academia, chegavam em casa e punham-se a con-
versar. Neste horário, pouco antes que dormissem,
vinham as palavras de maior cunho emocional.
Daniela, logo em se distanciando do domingo
e cada vez em contato mais intenso com Samuel,
viu-se afastando das amigas, algo assaz natural.
Entretanto, o afastamento das garotas e o carinho
120 Luciano Duarte
que só fazia crescer pelo rapaz expôs à Daniela o
desencontro que havia entre seus próprios desejos e
ações. Estava, em suma, confusa e dividida.
O que a atormentava, e ecoava-lhe em mente
sempre que palavras de Samuel suscitavam-lhe bons
sentimentos, eram os planos que fizera no domin-
go. Não por peso na consciência, culpa, nem nada
parecido, mas simplesmente porque, no ritmo em
que as coisas andavam, não haveria fácil concilia-
ção entre o que planejara e o relacionamento com
o rapaz, como pressupusera. O pior de tudo é que
queria, de fato, acompanhar as amigas, as grandes
e verdadeiras amigas, e vivenciar com elas momen-
tos que talvez nunca se lhes haviam afigurado tão
próximos e possíveis como agora. Porém desejava,
também, sair novamente com Samuel, e era impos-
sibilidade levá-lo junto de si à festa. Que fazer? É o
que Daniela torturava-se por resposta. Haveria de
encontrá-la…
O dilema prorrogou-se, dia após dia, durante a
semana. Na quinta-feira Thalita e Laura já se puse-
ram ouriçadas nos preparativos para a festa. Bom-
bardearam-se umas às outras de mensagens. Danie-
la, que fora às lágrimas na véspera após palavras
carinhosíssimas de Samuel logo antes de dormir,
viu-se em apuros, porquanto o rapaz insinuara na
terça que saíssem no sábado e Daniela ficou de lhe
responder. Já era quinta e nada.
Com um estranho pesar, e não sem ser antes co-
brada, Daniela, na noite desta quinta-feira, disse a
Samuel não poder sair ao sábado, uma vez que já
121Samuel
teria combinado programa com as amigas. As pa-
lavras saíram lacônicas, causando estranhamento
ao rapaz. Daniela aguardou pela reprimenda emo-
cional, pelo arrefecimento do tom maravilhoso que
estavam as conversas naqueles dias. Não foi o que
ocorreu. Samuel, se bem que estranhando, respon-
deu-lhe com tranquilidade não haver problema al-
gum e que, se Daniela quisesse, poderiam sair em
outro dia naquela semana. “Eu vejo e te falo” —
disse a garota, e em cinco minutos estavam em ou-
tro assunto.
Veio o sábado. Assim que amanheceu, as três
amigas se reuniram para iniciar os preparativos.
Durante a manhã fizeram as unhas e o cabelo, em
sessão que acabou pelo meio-dia. Assim almoçaram
e passaram a tarde em casa de Daniela, aprontan-
do-se, conversando e testando roupas. A festa teria
início às 19h, portanto havia tempo de sobra para
as garotas, que logo se viram entediadas. Brotou
entre elas a ideia: por que não começar, ali mesmo,
a festa? Ótimo, ótimo! Perfeito! Pois se puseram,
pelas quatro da tarde, a beber qualquer drink de
vodca.
Seis e meia e, animadas, partiram para a festa.
Daniela estava lindíssima, em traje negro colado ao
corpo, cabelos soltos, reluzentes e levemente ondu-
lados, em penteado que lhe evidenciava os contor-
nos da face e, naturalmente, o olhar felino e os lá-
bios maravilhosamente desenhados. Pisou na festa
e abriu em torno de si o espanto: quem seria? de
onde viera? mora aqui? E o sorriso que lhe não des-
122 Luciano Duarte
pregava da face era como um farol que lhe atraía
todas as atenções. Olhares, esses vinham como tiros
em campo de batalha, incontáveis e agressivos, o
que lhe elevou o ego ao céu.
As amigas comentavam, divertiam-se, faziam
graça com a quantidade de pretendentes que anga-
riava a garota. Não tardou para que começassem
a ser abordadas. Bebendo e sempre conversando,
acompanhadas, deixaram a noite correr em ânimo
crescente. A música do local contribuía, injetando
adrenalina nas veias das jovens, que por vezes dan-
çavam e erguiam os braços, chegando a gritar.
Onze da noite. A carga alcoólica amplificou-lhes
todas as sensações. Subiu, no palco, a principal
atração da festa. Gritos e muita euforia. Havia mais
de uma hora que conversavam continuamente com
três rapazes que conheceram no correr da noite.
Os níveis de intimidade escalaram-se com rapidez.
Onze e quinze, Laura beija um deles. Pouco depois,
Thalita entrega-se nos braços de outro.
O leitor tentará negar o óbvio. Não aceitará o
que estamos por escrever. Que examine a própria
experiência e aceite: Daniela, minutos após Thalita,
deliciou-se em beijos ardentes com o último rapaz.
Grande sequência de noite… parece alegre, após
rasgada e atirada à lata de lixo.
Daniela, no domingo, levantou-se em mal-estar
terrível às duas e meia da tarde. Levantou-se e di-
reto à cozinha, a tomar qualquer remédio, a bus-
car água para a boca que lhe parecia um deserto.
Da cozinha novamente à cama, onde se pôs imóvel,
123Samuel
insone, esforçando-se para vencer o desconforto.
A cabeça mergulhou no travesseiro e começou a
pensar, a reconstruir a véspera, quando se lembrou
de ter bebido vodca desde as quatro da tarde até o
amanhecer. É claro que lhe fugia a sequência dos
acontecimentos…
Péssimo dia, péssimo dia… Mesmo as amigas,
tão entusiasmadas na véspera, acordaram em es-
tado lamentável: Thalita amanheceu vomitando.
E quando, já à noite, as garotas trocaram algumas
mensagens, o tom era desalentador. Para que tan-
ta bebida? E para que sempre essa vodca maldita?
Juntas, porém, conseguiram reconstruir grande
parte da noite.
Do lado de Samuel, neste mesmo final de semana
deu-se — como podemos dizer?… — uma coinci-
dência qual premeditada. Incríveis as coisas como
são…
Gutão, o Gutão do primeiro capítulo desta histó-
ria, esteve presente em mesmíssima festa de Danie-
la. Como a garota houvesse atraído para si todas
as atenções, o rapaz logo viu brilhar-lhe na mente
a associação, a estranha mas certeira sensação de
que já vira aquela fada em ocasião precedente. Es-
forçando-se pela solução do enigma, lembrou-se de
Samuel. Comparou as fotos que recebera do amigo
com o que via diante de si e obteve a confirmação.
Precavido, cuidou perguntar o amigo por mensa-
gem, enviando-lhe fotos sacadas em sigilo.
Samuel, como esperado, recebeu as ditas fotos
com extremo desconforto. Daniela lhe não dissera
124 Luciano Duarte
exatamente que tipo de programa faria com as ami-
gas. Um tolo poderia dizer: “Qual o problema? Não
há problema algum em Daniela ir a uma festa com
as amigas…” — mas nestes momentos um homem
comum consagra-se profeta. Gutão entristeceu-se
pelo silêncio do amigo, sabia lhe haver estragado a
noite; via, demais, em primeira pessoa a enxurrada
de olhares atirados à Daniela. Samuel, em casa e
sozinho, pôs-se a refletir.
O imediato e incontrolável impulso de nosso
jovem foi enviar à Daniela uma mensagem, qual-
quer mensagem, e percebeu a menina não lhe ter
respondido a última pergunta. Enviou-lhe uma in-
terrogação de reforço, arrependendo-se no instan-
te imediato. Samuel reconheceu-se impotente. Que
faria? Recomendar a menina que não beijasse ou-
tro rapaz? Seria ridículo… Além de que, em abono
da verdade, que tinham eles? Saíram uma vez e só.
Não estamos no século passado, e Daniela era li-
vre para fazer o que quiser. Mas Samuel bem sabia:
uma pérola como aquela, se exposta, seria corte-
jada enquanto não fugisse para casa. Era óbvio e,
em adicional, presumível que seria abordada por ao
menos um rapaz interessante, de forma que a garo-
ta, sob o efeito estimulante do álcool, em ambiente
instigador da socialização, dificilmente faria papel
de árvore.
A pergunta que restava era: tudo bem. Iria acon-
tecer. Talvez não, mas era provável que sim… Que
fazer depois? Como lidar com a situação, sabendo
que a mulher com que conversava e investia o pró-
125Samuel
prio tempo respondia-lhe as mensagens carinhosas,
mas, entrementes, aventurava-se em beijos com ou-
tro? Era horrível só de pensar. Era sentir-se rebaixa-
do a nada, digno de nenhum valor. Com o agravan-
te da ciência do amigo, da perda total do respeito
angariado pela prévia conquista. Humilhação.
Samuel não respondeu o amigo, não obteve retor-
no de Daniela. Quase meia-noite e vem, de Gutão,
a punhalada verbal. Nestes momentos de brio feri-
do o homem sente rebentar sentimentos dos piores
experimentados pela natureza humana. Samuel, en-
tretanto, calcado em espécie de fortaleza interior,
manteve-se calado, desligou o celular, fechou os
olhos e forçou-se a dormir.
O dia imediato foi o primeiro em duas semanas a
não haver “bom-dia” entre Daniela e Samuel. Este,
desiludido, sentia o travo lhe amargar a língua.
“Isso é o que dá esquecer do dinheiro, da minha
liberdade financeira.” E arrependia-se do tempo in-
vestido na medíocre Daniela, sentia vergonha pelas
estúpidas e infantis palavras carinhosas que lhe en-
viara, quando não deveria tratá-la senão como um
objeto, um número, um troféu. Mas que resposta
daria um homem para situação como essa? Um ver-
dadeiro homem? Decidiu-se.
Daniela enviou-lhe mensagem pela noite, foi
prontamente ignorada. Na segunda, a menina co-
brou-lhe a resposta, Samuel fingiu que não leu e,
à noite, faltou da academia. Era terça e, portanto,
a garota já era capaz de enxergar o óbvio. Só não
sabia como. Não era possível que Samuel tivesse
126 Luciano Duarte
informação do que ocorrera. Quem lhe informara?
As amigas? Impossível. Mas não havia outra justifi-
cativa para os inéditos dois dias e meio de silêncio:
ele sabia, o como era mistério, mas sabia.
Assim, sendo-lhe insuportável a dúvida, Danie-
la anunciou por mensagem querer confessar-lhe o
ocorrido no sábado. Suplicou por atenção para que
se pudesse explicar, desculpar-se de forma digna,
ser honesta com quem lhe dedicara carinho. Aqui
poderíamos levantar a pergunta: se era esse o reco-
nhecimento da garota, por que ela não… Samuel,
pois, dotado da virtude que lhe permitia se compa-
decer, disse disposto a ouvir o que Daniela tinha a
falar.
Então a garota, vertendo lágrimas enquanto digi-
tava, contou-lhe o sucedido e disse envergonhar-se
muito do que fizera, disse gostar muito dele, não
de uma forma banal, mas em profundidade, porque
via nele virtude que nunca encontrara em outros,
aliás, no único outro que tivera… disse arrepender-
-se muito, não querer perdê-lo em hipótese alguma
mas que, fosse a vontade do rapaz, aceitaria.
Samuel era capaz de perdoar. E perdoar o que,
se não tinham nada ou, no máximo, muito pouco?
Na sexta-feira imediata, Bárbara anunciou via-
gem pelo final de semana. Daniela convidou Sa-
muel para passar junto de si a noite e acordá-lo com
beijos no sábado.
A partir deste dia, os jovens passaram a dizer-se
namorados.
127Samuel
Capítulo XVII
As consequências previsíveis deste conturbado
início de relacionamento caíram, todas, por terra.
Correram, pois, doze meses pacíficos e felizes para
o casal.
Daniela, logo selado o namoro, entregou-se por
completo. Sentia uma espécie de gratidão por Sa-
muel tê-la perdoado e não ter tocado novamente no
assunto. Venceram o problema.
A relação, então, só tratou de avançar. Com um
mês de namoro Samuel conheceu-lhe a sogra, cau-
sando impressão mui positiva. A introversão do
rapaz ou, antes, a educação, a cautela e a sereni-
dade no trato angariaram a simpatia de Bárbara,
128 Luciano Duarte
que tinha certa repulsa por expansividade, já pela
maturidade, que lhe ensinara o quanto essa peculiar
qualidade associa-se a outras piores, já pela memó-
ria do expansivo Leonardo. Samuel, digamos, era-
-lhe o oposto.
Daniela, também, foi à casa de Samuel pelo mes-
mo tempo, logo passando a frequentar algumas
reuniões da família do rapaz. Também agradou.
Em seguida, Bárbara conseguiu para Daniela o
estágio prometido, tornando a rotina da filha um
caos. Como havia aula pela tarde em dois dias da
semana, a garota teve de conciliar estudos e traba-
lho e, posto não cumprisse a carga horária semanal
na labuta, tinha de completá-la ao sábado.
Mas correram, pois, doze meses felizes, produ-
tivos para o casal. Daniela, a despeito da rotina,
sentia-se realizada vendo a vida progredir. Samuel
firmara-se na gerência da empresa e, nestes meses,
pôde demonstrar ao chefe em resultados o valor
do seu trabalho. O patrimônio crescera substan-
cialmente, uma vez que o novo salário permitia-lhe
uma taxa de poupança superior à cinquenta por
cento. Samuel regozijava-se correndo os olhos pe-
los números de sua planilha de controle financeiro
pessoal.
Numa terça-feira, estacionava o jovem gerente de
vendas, como sempre, a quinze minutos do início
do expediente. Na véspera, palestrara em sua sala
com o experiente Jorge, a ver se motivava o homem
a trazer novos clientes para a empresa. Com Jorge,
Samuel tinha de usar todas as sutilezas que apren-
129Samuel
dera não em sua carreira, mas em toda a sua vida
para evitar causar atritos com o homem que já era
um ícone da empresa e constituía seu principal ven-
dedor. Entretanto, Jorge parecia acomodado com a
antiga carteira de clientes, desleixado posto as ven-
das viessem como que automáticas entregando-lhe
a comissão. Samuel havia de contornar essa situa-
ção, pois a postura de Jorge não só prejudicava os
resultados do setor, como influenciava diretamente
a motivação dos outros vendedores, que trabalha-
vam em escritório aberto e, portanto, conversavam
desde o início ao fim do expediente.
Samuel, refletindo na véspera, antes que chamas-
se Jorge a uma conversa, percebeu-se em dificílima
situação. Já concedia ao subalterno todo tipo de
incentivo financeiro que a posição lhe permitia, os
ganhos de Jorge, demais, destoavam do restante do
setor, mesmo este trabalhando menos. Como moti-
vá-lo? — pensava o gerente. — Motivação é codi-
nome do dinheiro.
Samuel estruturou um plano astucioso. Chamou
Jorge à sua sala e propôs-lhe o seguinte: se Jorge
desenvolvesse, efetivando vendas, o cliente X e Y,
trataria de remanejar a carteira de clientes do ven-
dedor fulano, transferindo para a carteira de Jorge
três clientes cujas vendas não estavam satisfatórias
na organização atual. O plano era talvez antiético
por colocar em xeque a carteira do outro vendedor
sem lhe deixar ciente. Samuel poderia, sem dúvida,
gerar insatisfação. Entretanto todos, excetuando
Jorge, temiam a demissão, e o plano atiçaria a cobi-
130 Luciano Duarte
ça do experiente vendedor, visto essa classe não po-
der escutar nome de cliente sem que o peito quase
estoure de entusiasmo.
Jorge aceitou a proposta, apertou a mão do chefe
que, falando baixinho, pediu-lhe sigilo.
Assim, chegou Samuel na terça-feira, consoante o
habitual, entrou-lhe no escritório e pôs-se a analisar
planilhas tomando café. Por volta das nove e meia,
deixou sua sala e dirigiu-se à produção, a confirmar
com o responsável o prazo de entrega de alguns
itens que sabia serem críticos na linha do cliente.
A sala contígua à de Samuel era onde trabalhavam
os vendedores de sua equipe. O gerente, deixando o
próprio escritório, desembocava num corredor em
que, avançando um passo, já ladeava a parede de
vidro que circundava a repartição vizinha. Viras-
se o pescoço no exato momento que lhe deixava a
sala, fotografava o estado de seu setor antes que os
próprios vendedores pudessem vê-lo.
Deixou sua sala, virou-lhe o pescoço, não viu Jor-
ge. Avançou. O final do corredor dava para o pátio
industrial. Pisou na fábrica e encontrou, no fundo do
galpão, Jorge a conversar, a sós, com Valmir: mos-
trava-lhe quaisquer papéis. Já no meio do pátio, ru-
mando para a sala do responsável que lhe responde-
ria a respeito dos prazos de entrega, Samuel foi visto
por Jorge, que claramente perdeu o sorriso da face.
O diretor, súbito, virou-se e, com o olhar, encontrou
o mesmo Samuel. Tornou a Jorge, tomou-lhe da mão
os papéis e, com um tapa no ombro, despachou o
vendedor, que simulou sorriso e pôs-se a andar.
131Samuel
Estranho? Seria, Samuel fosse idiota. Estava há
anos no mercado, já presenciara toda sorte de ma-
quinação e conhecia, de perto, essa nojenta cana-
lhice denominada política empresarial. Um subal-
terno jamais conversa com um superior senão para
bajulá-lo, forçar simpatia ou denegrir concorrentes.
Qualquer funcionário com dez anos de carreira
sabe muito bem como implantar ardilosa e sutil-
mente uma ideia na cabeça de um superior. Jorge
tinha dez só de empresa. A reação de ambos, chefe
e vendedor, não abria espaço para a dúvida. Patife!
Samuel desviou o olhar. Fingiu serenidade quan-
do a cabeça ferveu e rugiu. No meio do pátio, en-
veredou à direita, onde ficava a sala do responsável
pela produção, saindo do campo de vista de Jorge
e Valmir.
Teve a confirmação dos prazos em desalento: sa-
bia-se alvo da infâmia de Jorge, sabia-se em apuros.
O olhar de um canalha, quando pego em flagrante
por alguém experimentado, confessa.
A inquietação psicológica não durou duas horas,
porquanto antes do meio-dia o diretor chamou Sa-
muel à sua sala.
Cortês conquanto grave, Valmir era, antes de
tudo, um homem honrado, justíssimo, que inspi-
rava respeito onde quer que passasse. Tinha desa-
venças como qualquer indivíduo de forte posição as
tem, entretanto, carregava na consciência o troféu
de saber que ninguém poderia chamá-lo canalha.
Valmir, requisitando Samuel pelo telefone da em-
presa, esperou-o à porta. Chegando o gerente, o
132 Luciano Duarte
diretor apontou-lhe a cadeira. Então, calmamente
volteou a sua mesa. Sentou-se, carregou o semblan-
te, suspirou e começou:
— Samuel, é o seguinte. Dá uma olhada — o che-
fe virou a Samuel a tela do próprio notebook.
Lá estava, brilhando, a planilha que o próprio
gerente controlava, cujo acesso era permitido em
rede para o setor de vendas e para o diretor. Valmir
passou para a aba de acompanhamento de vendas.
— Eu andei conferindo alguns valores, por conta
da declaração anual… — o diretor apontava para
a tela. — Dá uma olhada: o que tá de vermelho eu
encontrei divergência com o faturamento.
A planilha estava inteira em vermelho. Em prati-
camente todos os meses havia algum erro de lança-
mento. Continuou Valmir:
— Aqui do lado — apontou para algumas células
— eu calculei a variação percentual entre o lançado
na planilha e o faturado. Aparentemente tá tudo
acima em taxa fixa de quinze por cento.
Samuel olhava, incrédulo, para os números. Era
ele que lançava e conferia aqueles dados. Valmir
mirou-o, a esperar resposta. Como não viesse, pros-
seguiu:
— Agora dá uma olhada nisso — trocou de aba.
— Por algum motivo, a carteira de Jorge está desfal-
cada em seis clientes. Clientes antigos, anteriores à
sua entrada na empresa. Sempre foram dele…
— Mas eu não…
— Samuel, — atalhou o chefe, olhando-o nos
olhos, — eu sei que é complicado, mas você é o
133Samuel
responsável por esses dados e estão todos, sistema-
ticamente, errados.
— Valmir…
— E a questão do Jorge, — o chefe novamen-
te o interrompeu, — eu não faço a menor ideia de
por que os clientes dele desapareceram, mas quem
tem permissão para alterar essa aba da planilha é só
você, o gerente.
Emoção fortíssima acometeu Samuel. O olho vi-
drou-lhe, não sabia que responder.
— Isso é sério, Samuel. O Jorge é funcionário an-
tigo, foi ele quem veio reclamar comigo.
Rolou a lágrima sobre a face do gerente. Era re-
voltante! Ele não alterara a planilha, não lançara
nada errado!
— Olha só — Valmir suspirou, meneando a ca-
beça; puxou para si o notebook. — Tá acontecendo
alguma coisa? Há alguma coisa que você quer me
falar?
Samuel tremia:
— Então, Valmir… — novas lágrimas escorreram
— eu, eu não sei, simplesmente não sei — gesticula-
va muito, nervoso. — Toda segunda pela manhã…
toda segunda, desde que eu a, que eu assumi o car-
go, eu confiro a planilha. A primeira coisa que eu
faço é conferir a planilha — gaguejava e o chefe
pareceu compadecer. — Eu confiro a planilha até o
meio-dia, confiro todos os dados, um por um, pu-
xando da planilha do faturamento. Depois eu pe…
— Samuel, calma.
Valmir levantou-se:
134 Luciano Duarte
— Espera um minuto. Vou buscar uma água.
Samuel levou-lhe as duas mãos aos olhos, tremen-
do de raiva. Lacrimejava muito, o nariz escorria. A
incompetência era pecha que lhe não cabia.
O chefe voltou em passos ágeis e pousou um copo
de água sobre a mesa, diante do gerente. Em silên-
cio, novamente se sentou. Samuel, entrementes,
agradeceu e bicou o copo de água. Seus olhos se
viam inchados.
— Tá melhor? — Valmir perguntou-lhe.
Samuel assentiu com a cabeça.
— Bom… Eu não duvido da sua competência, Sa-
muel. Confio no seu trabalho. Mas eu preciso que
você averigue o que aconteceu, ou o que está acon-
tecendo…
Valmir, calejado, perguntava por formalidade,
porquanto lia a verdade nos olhos de quem lhe res-
pondia; sabia, portanto, Samuel ser inocente. Pe-
quena pausa e retomada:
— Vamos fazer o seguinte: volta pra sua sala, in-
vestiga o que foi que aconteceu, e na sexta a gente
conversa, tá bom? Hoje é terça, na sexta a gente
senta e conversa.
Samuel já se havia recomposto o suficiente para
articular melhor as palavras:
— Olha, Valmir. Eu juro que não sei o que acon-
teceu. Estou tão surpreso como você…
— Eu sei, Samuel.
Agora era o gerente que atalhava:
— Mas averiguarei, levantarei todas as atualiza-
ções desta planilha, puxarei o backup no sistema e
135Samuel
até sexta, sem falta, você terá na sua mesa a origem
dos erros e o responsável. Eu posso errar, eu erro,
mas não assim. Eu não sou desleixado com meu
trabalho.
— Eu sei, Samuel.
— Antes de sexta eu te dou a resposta.
Samuel disse e levantou-se em olhar furioso. O
chefe era íntimo do sentimento que viu exalar do
gerente. Não precisou dizer mais nada. Tinham, ele
e Samuel, um acordo: o que conversavam morria na
conversa. Valmir, pois, sabia seu gerente ser discre-
to, fruto da experiência que acumulara na empresa.
Não faria escândalo. Porém, o diretor teve a certeza
lendo os olhos do rapaz: Jorge estava frito.
137Samuel
Capítulo XVIII
Terça-feira tensa para Samuel. Deixou a sala
do chefe pisando forte, trêmulo de cólera. O sinal
anunciou o horário de almoço: para não esbarrar
em Jorge no refeitório da empresa, Samuel recusou
almoçar. Trancou-se na sala e recusou almoçar.
Foi sentar-se e abrir a maldita planilha. Como se-
riam possíveis aqueles erros de lançamento? Confir-
mou: realmente, os dados estavam incorretos. Mas
ele os conferira na véspera, estava tudo conforme
os relatórios… Como explicar?
Samuel fez que ia ligar ao responsável pela rede
da empresa; lembrou-se que era horário de almoço.
Inferno! Então se pôs a analisar o histórico de atua-
138 Luciano Duarte
lizações da planilha, cujo diretório conhecia.
Havia uma atualização às 13h da véspera. Que
isso dizia? Nada. Não era possível verificar o com-
putador responsável pela atualização. Bela inutili-
dade de histórico!… Pensando, Samuel percebeu-se
incapaz de lembrar o momento em que fechou a
planilha no dia anterior. 13h era horário razoável
para ainda estar com ela aberta em seu computa-
dor… A informação lhe não servia de nada.
Súbito, uma luz. Samuel puxou a última gaveta de
sua mesa, onde arquivava os relatórios e projeções
de vendas que lhe eram entregues sistematicamente
pelos vendedores às sextas. Lembrou-se: havia, efe-
tivamente, conferido os valores lançados na véspera,
quando planificara as ações do setor para a semana.
Foi direto no relatório de Jorge e encontrou vários
erros. O disposto na planilha estava, de fato, dife-
rente do que tinha em mãos. Porém o mesmo ocorria
para todos os outros relatórios: havia incorreções em
todos! todos! Em mãos não havia prova, não havia
nada. O fato único era que a planilha estava errada,
como o chefe vira, como Samuel vira e como qual-
quer um poderia ver. Era possível que Samuel tivesse
lançado incorretamente os dados? O triste de dizer é
que sim, era possível…
Como não houvesse evidências, pistas, nada, Sa-
muel caiu em desalento. Alternava olhares entre a
planilha e os relatórios incrédulo. Não almoçou: a
marmita que a empresa lhe encomendava quedou,
fria, ostentando-lhe o nome na tampa em cima da
mesa do refeitório.
139Samuel
Três e meia da tarde e batia o ponto, de volta para
casa. O cargo lhe estava, evidentemente, ameaçado.
Que adiantava continuar trabalhando? Precisava
pensar.
Chegou em casa pelas quatro, tomou um banho e
sentou-se-lhe na cama a meditar. Daniela fora avi-
sada, por mensagem, da péssima notícia da manhã.
Samuel lhe não explicara exatamente, mas informa-
ra: “Estou mal”. A garota sabia não ser todo dia
que o namorado lhe dizia parecido: afagou-o; disse
ter aula até as cinco e que, na saída, podiam encon-
trar-se em sua casa, caso fosse a vontade de Samuel.
Sentado, o jovem esperava: iria, sim, à casa de
Daniela; precisava de um abraço. Demais, tornara-
-se costume Samuel dormir na casa da namorada,
posto Bárbara tivesse passado a se ausentar com
frequência: conseguira recolocação a alguns quilô-
metros da capital e, na maior parte dos dias, optava
por dormir em apartamento que alugara próximo
ao novo emprego a evitar o trânsito de volta em
horário de pico. O resultado era Daniela passar a
semana praticamente sozinha em casa.
Pensativo, Samuel reconstruiu as cenas da ma-
nhã: o chefe chamando-o, a reprimenda, a planilha
repleta de erros, a emoção que sentira e o vexame,
sim, o vexame de chorar na frente de um homem.
Como se dera aquilo? Lágrimas, várias lágrimas.
Na sala do chefe, no ambiente de trabalho, lágri-
mas. Um homem como Valmir certamente as inter-
pretaria qual manifestação de impotência. E não
seriam? Samuel, em verdade, não tinha o que lhe
140 Luciano Duarte
responder. Mas naquele choro vergonhoso havia a
indignação de alguém que exercia a função com di-
ligência, com boas intenções. Samuel nunca agira,
deliberadamente, contra a empresa. Era cuidadoso,
organizado e proativo. Quantas vezes, quando ain-
da vendedor, ouvira maquinações no setor de ven-
das! Isso era a rotina, o dia a dia. E Samuel nunca,
jamais participara desse jogo sujo de dizer pelas
costas o que se não tem brio de dizer pela frente,
de tramar contra colegas de trabalho, mesmo isso
lhe custando algumas antipatias e uma certa distân-
cia dos companheiros de setor. Então a promoção:
continuara agindo de forma íntegra, sendo justo
com todos, mesmo com os que não gostava, em es-
pecial com aquele canalha do Jorge. Fora ele, com
certeza fora ele que, de alguma maneira, conseguira
alterar a maldita planilha! O experiente vendedor
era assaz ardiloso para tramar algo semelhante, eli-
minando detrás de si as provas e disfarçando a pró-
pria culpa…
A mãe bateu-lhe na porta do quarto. Samuel
abriu os olhos, de susto, e suspirou.
— Tá tudo bem, Samu? — veio a voz do corredor.
Samuel percebeu ter chegado em horário inabi-
tual, não ter dito palavra e se trancado no quarto.
— Tá sim, mãe. Só tô com um pouco de dor de
cabeça.
— Quer que eu traga um remédio, alguma coisa?
— Não, pode deixar.
Duas horas depois, Samuel entrava no aparta-
mento de Daniela. Deixou, como se tornara cos-
141Samuel
tume, o carro estacionado na garagem do prédio e
subiu. A namorada logo percebeu o abatimento no
olhar do jovem, afagando-o com beijos e abraços.
Perguntado, Samuel resumiu-lhe o ocorrido:
— O que eu não entendo é como os dados foram
alterados. Da maneira que o sistema foi construído,
só alguém, entrando na minha sala, com acesso ao
meu computador, poderia alterar a aba do resulta-
do mensal consolidado…
E externou-lhe toda a perplexidade com o caso.
Daniela, também, não encontrou hipóteses para ex-
plicar o ocorrido, limitando-se a consolar a tristeza
de Samuel. Recomendou-lhe calma, fé e tranquili-
dade, dizendo que o malfeitor uma hora se revela-
ria.
— Será possível, — perguntava Samuel, — de ou-
tro computador que não o meu, alterar as permis-
sões de modificação na planilha?
Não sabiam.
— Porque julgo impossível que alguém, — emen-
dou, — exatamente às 13h de ontem, quando hou-
ve a última atualização, tenha entrado em minha
sala e feito o trabalho sujo. Talvez eu estivesse al-
moçando e…
Samuel lembrou-se de um detalhe. Sempre que
saía para almoçar, entrava a auxiliar de limpeza
para assear sua sala. Obviamente, seria piada pen-
sar que a ótima mulher houvera encostado no seu
computador, senão para limpá-lo. Não saberia se-
quer operar a planilha... Mas aí estava, ao menos
uma pista, de que a sala não seria impenetrável na
142 Luciano Duarte
ausência de Samuel. O gerente, ademais, só a tran-
cava no termo do expediente. Que situação…
Mas os lamentos duraram poucos minutos: o de-
sabafo foi intenso e breve. Pois logo os namorados
puseram-se à cozinha, a fazer qualquer prato para
a janta, em costume que muito lhes aprazia. Engra-
çada essa coisa de cozinhar, parece terapêutica…
Começaram os aprestos e, subitamente, já estavam
brincando um com o outro. Daniela costumava fa-
zer graça da imperícia de Samuel com ferramentas
gastronômicas: dizia-lhe indelicado, grosseiro com
os alimentos. Já Samuel arrogava-se a tarefa de ler
as instruções de preparo, que dizia todas mal elabo-
radas por cozinheiras profissionais como Daniela.
Aproveitou que a namorada palpitou sobre a medi-
da do tempero e retrucou:
— O que é uma xícara? uma colher de sopa? uma
pitada? Isso não são medidas… — dizia, como fosse
Daniela a responsável. — Se estou de bom apetite,
afundo a colher de chá no tempero; isto é: se estou
esfomeado, comerei condimentado... Escute aqui,
cozinheira, aprenda: medidas são gramas, libras e
similares, que são a mesma aqui, na China e em
todos os humores. Comprarei um caderninho para
que possamos traduzir todas essas suas receitas…
Assim, o restante da noite foi agradável para o
casal. Jantaram, deitaram-se, assistiram a qualquer
coisa na televisão e, abraçados, caíram no sono por
volta das onze.
143Samuel
Capítulo XIX
Quarta-feira. Samuel levantou-se às seis, antes
da namorada. Confortável no ambiente, cumpriu
a rotina: banho rápido, asseio dos dentes e preparo
de um simples café da manhã. Daniela só despertou
quando o namorado já saía. Despediram-se com um
beijo e o gerente, que já possuía cópia do controle
da garagem, deixou o prédio da namorada.
Samuel adiantou-se mais do que o habitual. Che-
gou na empresa motivado, cerca de quarenta minu-
tos antes do início do expediente. Entrou-lhe no es-
critório, acendeu as luzes e ligou o computador. No
corredor que dava para a sua sala havia uma exce-
lente cafeteira elétrica, instalada por Valmir como
144 Luciano Duarte
regalo aos funcionários. Samuel deu-lhe o primeiro
trabalho do dia, então tornou ao seu posto, fechan-
do a porta detrás de si.
Sentou-se, aproveitou o silêncio visto o expe-
diente não houvesse iniciado, então se pôs a refle-
tir. Solucionaria, agora que se via de mente limpa e
renovada, o enorme problema da véspera. Pensou
em Jorge. Estranho instinto que, inexplicavelmente,
costuma acertar. Jorge, Jorge… era ele o culpado,
com certeza. O canalha do Jorge…
Abriu a maldita planilha. Nada de novo, tudo
como na véspera. Então puxou alguns relatórios
antigos da gaveta: nos meses precedentes, tudo per-
feitamente condizente. O problema, pois, se dera no
mês atual, exatamente no último lançamento.
Como agiria, fosse ele Jorge e desejasse prejudicar
o chefe? Pensou e não lhe veio resposta. Tentaria
queimá-lo com Valmir? Isso seria o óbvio; arrisca-
do, porém. Não faria mais que insinuações quan-
do lhe brilhasse a oportunidade, embora sabendo
que qualquer postura incisiva poderia levantar de
si a suspeita, senão causar má impressão no diretor.
Desgastá-lo com todo o setor? Isso era a rotina, não
surtia grande efeito: os vendedores, demais, precisa-
vam de vender. A maneira mais fácil de arranhar a
reputação do chefe seria, sem dúvida, afetar a pro-
dutividade do setor: números gritam e são visíveis
a todos. Entretanto, o campo de ação, para si, seria
limitado. Poderia, também, como bem fizera, atra-
vessar o chefe e direcionar queixas a Valmir; é pos-
sível que tivesse, para isso, o apoio de mais alguém.
145Samuel
Mas era, novamente, um tanto arriscado. O que
não deixava dúvida é que, para prejudicar o chefe,
deveria fazer com que ele parecesse incompetente
aos olhos dos outros. Deveria, primeiro, expor-lhe
as fraquezas. Procuraria por injustiças cometidas
por ele, maus-tratos a subalternos, erros estratégi-
cos, tudo. Mas nisso Samuel não dava brechas…
Enquanto refletia, Samuel ouviu soar o sinal. Sú-
bito, veio-lhe uma ideia: se não podia encontrar a
prova cabal de Jorge como corruptor de sua plani-
lha, poderia devolvê-lo os mesmos ardis uma vez
que, para ele, o gerente da empresa, seria muito
mais fácil descredenciar um subalterno. Boa!
Mas a consciência censurou-lhe em meio à luz.
Era antiético, era rebaixar-se ao nível do canalha.
A questão, porém, impunha-se: perderia o emprego
por conta de um chacal? Permitindo-o, não somen-
te preservaria a honra, como também daria força
ao mal. Era justa, pois, a reação. Nesse caso, seria
lícito valer-se dos mesmos ardis.
De repente, pensou na Tamóios. Por que, jus-
to nela, não poderia explicar. Mas se lembrou de
como, há cerca de um ano, visitara a empresa, obti-
vera mais que anuência do comprador e entregara o
cliente em mãos de Jorge que, até o momento, não
efetivara uma única venda. Os bons resultados es-
moreceram a obsessão do gerente. Em alguns meses
já se não falava em Tamóios no setor. Uma ideia!
Samuel puxou o telefone e discou para a Tamóios.
Trinta segundos e a chamada era transferida.
— Opa! Tudo bem? — saudou-lhe o comprador.
146 Luciano Duarte
Tudo sim. Samuel apresentou-se, disse ter visita-
do a empresa há um ano, quando foi recebido pelo
anterior no cargo, que lhe mostrou as aplicações
de pulverizadores na linha de produção da empresa
etc. O comprador, de nome Márcio, subitamente
lhe interrompeu:
— Amigo, não estou entendendo.
Samuel estranhou.
— Você é gerente da Top Spray?
Era, evidente.
— Pois que você fala como se estivesse apresen-
tando a empresa para mim. Nós compramos de vo-
cês. Desde que eu entrei na empresa, vocês forne-
cem para…
— Como?
E o comprador mudou o tom:
— Cê tá de brincadeira, né? Ontem mesmo a gen-
te recebeu produtos de vocês, ó: modelos HighJet e
BlendJet.
Eram, com efeito, modelos patenteados pela em-
presa de Samuel.
— Márcio, olha. Desculpa — arregalou os olhos
e apertou o telefone contra a orelha. — Eu não sei
nem como te falar isso. Eu sou gerente de vendas, há
mais de ano, da Top Spray. Eu gerencio sozinho o
setor de vendas da empresa e visitei, pessoalmente,
a Tamóios antes de você ser contratado. Eu tenho
acesso a todas as vendas realizadas por nossa em-
presa, todas as notas fiscais emitidas e, tô olhando
agora mesmo para os relatórios… não há nenhuma
venda efetivada para vocês no último ano.
147Samuel
— Como assim?
— Não há. Eu tô com o sistema aberto. Se vocês
estão usando nosso produto, estão comprando de
outra fonte, não da gente.
— Espera um minutinho…
Samuel já não raciocinava: varria com os olhos a
lista de clientes da planilha. Na cabeça, um incên-
dio.
— Olha aqui, ó — começou o comprador: — JB
Sistemas de Pulverização. Essa é a razão social que
está na nota fiscal de ontem emitida e entregue por
vocês.
— JB? Essa empresa não é a gente.
— Foi um funcionário de vocês, uniformizado,
que a entregou em nosso setor de recebimento…
— Espera aí, Márcio. Por favor. Eu preciso da
sua ajuda — a mão apertava o braço da cadeira, o
peito palpitava. — Olha: a nossa empresa é séria,
tem trinta anos de mercado, e nós desconhecemos
essa JB Sistemas. Quem tá te falando sou eu, Sa-
muel, gerente de vendas da Top Jet. Pode conferir o
meu número no registro de chamadas do seu telefo-
ne. Você compra diretamente conosco?
— Claro. Quem me atende é o Jorge.
Samuel estacou. Houve silêncio por alguns segun-
dos. Então as palavras nervosas:
— Olha, Márcio. Minhas sinceras desculpas. Eu
peço, por favor, que anote o meu contato direto, o
meu e-mail, e faça o contato conosco, a partir de
agora, diretamente comigo. Eu sinceramente não
sei te explicar o que está acontecendo, o Jorge é,
148 Luciano Duarte
de fato, vendedor de nossa empresa. Mas o que eu
te garanto é que, aqui, nós não vendemos como JB
Sistemas.
— É… então, Samuel, você precisa averiguar por-
que, olha só: apenas no último mês essa JB Sistemas
faturou quatorze mil reais para nós.
— Quatorze mil? Márcio, perdão. Você poderia,
por favor, enviar-me o seu histórico de compras co-
nosco nos últimos meses?
— Claro, Samuel. Claro. Vou mandar no seu
e-mail.
— Muito obrigado, Márcio! E desculpa nova-
mente.
— Boa sorte! Qualquer coisa, pode me ligar.
Desligaram. Samuel estacou frente ao computa-
dor, incrédulo e assustado. Jorge abrira um CNPJ
paralelo para vender os produtos da empresa! Isso
era roubo! roubo descarado! Há quanto tempo fa-
zia isso? Quanto teria roubado da Top Jet? Quator-
ze mil só no último mês!
Gelou de medo. Não lidava com um subalterno,
um mero canalha, mas com um ladrão profissional.
O temor era saber o caso ser de polícia, de cadeia, e
Samuel fazia intuitivamente uma associação de cri-
mes. Denunciado, um ladrão seria capaz de mais.
O gerente meditou por três longas horas. Rece-
beu, por e-mail, o relatório prometido pelo com-
prador. Oitenta e quatro mil reais a JB vendera-lhes
nos últimos doze meses. Conferindo, pela internet,
o registro desta tal JB Sistemas de Pulverização, lá
estava o nome, o maldito nome de Jorge como só-
149Samuel
cio-proprietário. Samuel tornou a ligar para Már-
cio, explicou-lhe a gravidade do caso, pediu-lhe
notas fiscais, e-mails, tudo o que pudesse enviar. O
comprador mobilizou-se e consentiu.
Pelo almoço chegava no e-mail do gerente o ca-
minhão de provas. Samuel, novamente, não almo-
çou. Duas da tarde e tinha, em mãos, os documen-
tos impressos, quando se dirigiu à sala de Valmir.
O diretor recebeu-lhe com a benevolência costu-
meira. Dois minutos de conversa e Samuel vira, pela
primeira vez, o chefe em acesso de fúria. Valmir re-
passava os papéis e parecia não acreditar: saiu-lhe
da boca numerosas ofensas e palavrões. Quando se
percebeu diante de Samuel — e como ali, naque-
le momento, agradeceu ao gerente, vendo-lhe qual
aliado! — suspirou e abrandou o ânimo. Discuti-
ram, com cautela, o caminho a ser tomado. Valmir
disse preocupar-se com a integridade física de Sa-
muel, este disse-lhe não ter medo: deveriam fazer o
certo. Samuel ainda lhe tentou explicar como sus-
peitara de Jorge, e como tivera a intuição de Jorge
ter alterado a planilha, mas foi bruscamente inter-
rompido pelo chefe. Não precisava falar. Deveriam,
urgentemente, tomar uma ação.
Valmir, acalmando-se e raciocinando, lembrou
ser vizinho de porta de um delegado de polícia. Bas-
tou uma ligação.
Às cinco da tarde, Jorge deixava a empresa
algemado, alvo de olhares de ódio e ofensas
terríveis dos que eram, agora, seus ex-colegas de
trabalho.
151Samuel
Capítulo XX
Samuel acompanhou de perto a cena lamentável,
junto de outros funcionários da empresa. Foi um
escândalo. Olhavam todos, exaltados, o ladrão al-
gemado por dois policiais.
Sob aplausos, Jorge foi coagido a entrar pelo
porta-malas da viatura, quando Valmir, adiantado
em relação ao grupo que observava, virou-se. An-
tes que Samuel pudesse formar juízo do ocorrido,
recebeu um efusivo e vigoroso aperto de mão do
diretor, diante dos companheiros de trabalho.
— Eis o herói! O herói! — disse Valmir, dirigin-
do-se aos outros e apontando a Samuel.
Dois tapas nas costas deram cabo à saudação,
152 Luciano Duarte
quando o diretor deixou o grupo estampando um
sorriso na face. Samuel foi cumprimentado, em se-
quência, com novos apertos de mão, de forma que
todos os presentes manifestaram-lhe o respeito.
— Parabéns, detetive! Ganhou o patrão! — disse-
-lhe um operário.
Sorrindo por automatismo e simpatia, Samuel
tratou de tornar à sua sala e aguardar os poucos
minutos que restavam ao termo do expediente. Pu-
xou o celular e informou, em breve nota, o suce-
dido à Daniela. Estava feliz, sim, feliz, pois fizera
justiça, ganhara a aprovação de todos da empresa e
de Valmir. Fora homem, justo e corajoso, e ajudara
a polícia a apanhar um ladrão. Propôs à namorada
um jantar, com imediato consentimento.
Em pouco, soava o sinal. Samuel, dirigindo-se ao
estacionamento da empresa, encontrou em seu cam-
po de vista o diretor, que lhe acenou com a mão em
despedida, sorridente. Incrível! Valmir jamais o mi-
rara daquela maneira: havia sincero contentamento
no olhar do chefe. Tudo mudara de uma vez!…
Samuel enfrentou o trânsito enquanto a mente
voava. A consciência intentou censurá-lo, acusá-lo
sorrateiro, mas a aprovação unânime calou o mal-
dito fantasma da mente. Em seguida, o receio natu-
ral: “Jorge, se deixa a cadeia, mete-me um tiro!”.
Mas o pensamento era absurdo e mentiroso. Samuel
acreditava no arrependimento e, mais do que nele,
na vergonha. Não era o primeiro conhecido que se
aviltava em crimes da ganância. Em todos os casos
que tivera notícia, o criminoso saíra da cadeia e não
153Samuel
cobrara vingança da denúncia, sequer se envolvera
em novos atos de infâmia, como tentasse remover-
-se-lhe a abjeção. Samuel cuidava ser mais provável
Jorge mudar de cidade, suicidar, talvez, a atentar-
-lhe contra a vida ou buscar, de alguma forma, pre-
judicá-lo em vingança. Decerto, nesta perspectiva,
sua atitude rendera bons frutos. Ótimos frutos!
Samuel entrou em casa aliviado e sorrindo. A
mãe percebeu-lhe a alegria, visto estivesse atenta às
reações do filho em razão da véspera. Nada disse,
no entanto também se amainou.
Em contentamento que parecia ascendente, Sa-
muel entrou debaixo do chuveiro e banhou-se por
longos minutos. Quando a água morna tocou-lhe
a cabeça pôde, enfim, deixar de pensar na agonia
das últimas trinta e poucas horas. Onde levaria Da-
niela? Era a pergunta do momento. Havia, em Belo
Horizonte, um requintado restaurante francês que
abrira há pouco e fizera um sucesso estrondoso.
Nas redes sociais não se falava noutro. Seria nele!
Boa! O preço poderia ser salgado, mas o dia era,
sem dúvida, uma ocasião especial.
Sugeriu à namorada o local e ela só faltou explo-
dir de contentamento. Em seguida as reprimendas:
“Por que não falou antes? Por que me não dissera
das intenções? Eu me teria arrumado…”. Daniela,
Daniela… Como Samuel imaginaria os resultados
da tarde?
Assim, num animo mútuo e total, Samuel busca-
va, às oito da noite, a namorada em sua casa. A jo-
vem entrou no carro perfumada, belíssima, pintada
154 Luciano Duarte
qual lhe realçasse o esverdeado dos olhos, trajada
em vestido prateado que dava na altura do joelho;
vinha de celular em mãos e sorriso brilhando na
face. Cumprimentou Samuel com um beijo e logo
lhe mostrou algumas fotos de pratos do local. Que
pediriam?
No caminho, as discussões. Daniela não falava
francês, muito menos Samuel. Que seria um mo-
lho poivre? um gratin dauphinois? Uma espécie de
tempero? um animal comestível? Fosse o que fosse,
era interessantíssimo o mistério gastronômico. Sa-
muel, que jamais frequentara um restaurante fran-
cês, olhava para os pratos e imaginava: “Hoje volto
com fome”. Tanto fazia… voltaria feliz como fora.
Chegaram no tal restaurante. Daniela fizera a re-
serva pelo celular. Incrível a quantidade de pessoas!
Quarta-feira e pareciam todos subitamente ter com-
binado a jantar. Fila na porta. Por quinze minutos,
o casal aguardou para que pudesse mostrar ao se-
gurança o número da reserva. Foram liberados e
passaram para dentro.
Havia, logo entrando no espaço do restaurante,
um saguão enorme abarrotado de gente. Num pri-
meiro momento, Samuel e Daniela não entenderam
o motivo da aglomeração. Havia, novamente, uma
fila. Logo rodaram os olhos pelo ambiente e viram,
pelas paredes, certificados dependurados, fotos e
mais fotos do cheff com figuras influentes da re-
gião, premiações e tudo o mais. Uma inscrição dou-
rada e luminosa decorava a parede que antecedia o
salão principal, sendo este o motivo da fila: todos
155Samuel
que entravam queriam uma foto de si ao lado das
letras brilhantes. Nosso casal, também, não perdeu
a ocasião.
Um sujeito mais simples que entrasse no local,
vendo o cozinheiro chamado cheff e todas aquelas
excentricidades, diria do restaurante uma “igreja da
comida”. Todo aquele requinte excedia, e muito, o
razoável para um lugar que serve alimentos prepa-
rados por seres humanos. Os garçons, sérios como
pontífices, eretos como soldados, medindo palavras
como se dirigissem a reis e rainhas; o prato, como
que sacro, qual representasse o embrião de Deus…
Samuel, na alegria em que se encontrava, pouco
reparou. Pediu a, le carte des vins et le menu, s’il
vous plaît — em português, — e como não soubesse
escolher, solicitou ao garçom — em português —
que indicasse os pratos e o melhor vinho da casa.
Daniela, antes que chegasse a abertura, já se via
extasiada: o local, sejamos sinceros, era um char-
me! O ambiente à meia-luz, com velas distribuídas
pelas mesas, piano em música ambiente… era tudo
de um bom gosto notável. Parecia a luz das velas
acentuar o vermelho das madeiras, difundindo o
romantismo pelo salão.
Veio o vinho, brindaram e puseram-se a degustá-lo.
Agradou, como agradou! Samuel sorria em resposta
à alegria da querida namorada; Daniela encantava-se
com a noite que acabava de romper. Achegaram-se
nas cadeiras. De mãos dadas por baixo da mesa, delei-
taram-se na composição dos pratos, quando começa-
ram a soltar os elogios. “Qualidade tem preço.”
156 Luciano Duarte
Em breve chegou a entrada. Quarenta minutos
e a garrafa de vinho já se encontrava pela metade.
Samuel contou à Daniela o seu dia. A namorada
quase não acreditou: o subalterno saíra algemado
da empresa! Daniela desfez-se em elogios pela co-
ragem de Samuel, pela justiça que fizera, e acabou
compondo o time dos que aprovaram a denúncia
do ladrão, com a diferença que Daniela, sincera-
mente, sentia-se orgulhosa, e Samuel, percebendo-
-lhe a satisfação no contato, alegrou-se ainda mais.
A noite reunira todos os pretextos para ser perfei-
ta, e foi. Alguém, em mesa próxima ao casal apaixo-
nado, observando o carinho recíproco, a felicidade
plena e compartilhada, arriscaria que naquela noite
os jovens planejavam o casamento. O afetuoso, o
arrebatado olhar que cruzavam era de renovar as
paixões de qualquer senhora, porquanto represen-
tava o que mais próximo se pode chegar do amor.
157Samuel
Capítulo XXI
No sábado imediato, Samuel acordou com uma
estranha sensação de saudade. Percorria-lhe em
mente a atual situação, seu amadurecimento verti-
cal no último ano, os investimentos que avultavam,
o respeito granjeado no trabalho… mas sentia a
falta de algo. Não demorou para que viesse a con-
clusão: a saudade era de seu velho amigo Gutão,
dos momentos de descontração vividos, sempre às
sextas, no bar do Régis, das palavras animadas que
trocavam, as piadas, tudo aquilo subiu-lhe de uma
vez com uma carga emocional fortíssima. Mais que
saudoso, Samuel sentiu-se só.
Então percebeu como o tempo correra arrefecen-
158 Luciano Duarte
do a antiga relação. É claro que, fazendo um juí-
zo sensato, Samuel se não arrependia das escolhas
que fizera: avançara na vida, livrara-se de hábitos
nocivos, que lhe não contribuíam senão para o di-
vertimento. Despegara-se e pudera ajustar o foco
de seus esforços, distribuindo melhor o próprio
tempo, e os resultados provavam: o Samuel de ago-
ra era superior em todos os quesitos ao Samuel de
um ano atrás. Entretanto, restava evidente: nosso
jovem sentia combalida uma dimensão de sua per-
sonalidade, sentia falta da bonomia do grande Re-
ginaldo, que tantas vezes lhe honrara com assento
frente ao balcão compartilhando-lhe da mesma gar-
rafa de cerveja…
Que seria o isolamento consciente: ingratidão?
menosprezo do afeto? Amizade… Aí estava a pala-
vra. Samuel, na situação atual, faltava-lhe um ami-
go. Suas relações, senão profissionais, resumiam-
-se na namorada e nos familiares. De amigos, se a
amizade exige certa frequência de contato, talvez
somente os primos. Mas primos? Primos não são
exatamente amigos: são primos… E, apesar da boa
relação, não eram Julinho e Vinícius confidentes
de Samuel. Valmir? Evidente que não: Valmir era
o chefe. Mas seria absurdo pensar que um ano de
ausência e silêncio mataria uma relação como a que
construíra com Gutão…
Puxou o celular, encontrou o amigo online. Con-
vidou-lhe para uma cerveja pela tarde, no memo-
rável bar do Régis. Gustavo, ensaiando negativa,
ouviu os argumentos de Samuel a ressaltar o tempo
159Samuel
que não se viam, o pouco contato, a dizer-lhe que
havia coisas importantes para contá-lo etc. A in-
sistência forçou a concordância, com a ressalva de
que, pela noite, Gutão teria de deixar o bar, pois
marcara compromisso. Combinados.
Samuel chegou por volta de 13h no bar do ve-
lho amigo. Relembrando outrora, avistou do outro
lado da rua a fachada do boteco que tantas vezes
lhe entregara alegria. Rompendo-lhe o limiar, en-
controu Reginaldo conversando com dois sujeitos
no balcão. Samuel aproximou-se, o bom comer-
ciante o viu.
E Samuel, cumprimentando Reginaldo com sorri-
so aberto de orelha a orelha, estendendo-lhe a mão
por cima da estufa de salgados, obteve em resposta
o silêncio revestido de tímido sorriso.
— Quanto tempo, meu caro! — Samuel abriu o
diálogo.
E Reginaldo, apertando-lhe a mão, sorriu-lhe
como perguntasse: “O que você quer?”. O silên-
cio constrangeu e angariou olhares dos homens em
redor. Samuel percebeu interromper boa conversa.
— Pois é… — disse finalmente Reginaldo, em se-
guida lhe mirando em interrogação.
— Então, Régis, — o tom já era outro, — vê pra
mim uma cerveja e dois copos. O Gutão tá vindo.
Reginaldo, sem nada dizer, puxou do freezer uma
cerveja, abriu-a e entregou a Samuel, que rapida-
mente a pegou junto aos copos e dirigiu-se, de cabe-
ça baixa, à área externa do bar. Reginaldo retomou
com os homens a conversa.
160 Luciano Duarte
Em pouco, chegava Gutão. Havia engordado. O
amigo entrou no bar e demorou-se por alguns mi-
nutos quando, então, ocupou a cadeira ao lado de
Samuel. Brindaram, como nos velhos tempos:
— Que as nossas mulheres não faleçam viúvas!
— foi Samuel a entoar o mote.
Puseram-se, pois, a conversar. De início, houve
um ligeiro desconforto à mesa: os amigos estranha-
vam-se. Eis o que faz o tempo!… Mas nada, porém,
que não minguasse com os primeiros goles de cer-
veja.
Passaram a limpo, como é hábito nesses encon-
tros, os eventos ocorridos na distância. Samuel,
fisicamente, via-se melhor: efeitos da academia.
Contou ao amigo do trabalho, fez menção ao fato
recente da prisão de Jorge, entre outras coisas.
Gutão ouviu o amigo nos primeiros minutos da
conversa. Estava interessado e espantou-se do caso
da prisão. Perigoso, disse a Samuel.
Na terceira garrafa já se viam ambos relaxados,
e volatizara-se o estranhamento inicial. Quando o
verbo passou a Gutão, que contou sobre como lhe
correra a vida nos últimos meses.
Samuel ouvia o amigo e não conseguia deixar de
julgar. Gustavo, ainda no tempo em que se reuniam
naquele mesmo boteco, trancara a faculdade de
engenharia civil, a dizer “muito puxado” conciliar
os estudos ao trabalho que lhe esgotava. Contava,
agora, vinte e sete anos e não possuía diploma de
ensino superior. Que fizera nos últimos meses? As
palavras saíam-lhe da boca e Samuel conjeturava a
161Samuel
conclusão: nada, o amigo não fizera nada, ao me-
nos de útil, nos últimos meses. Gutão trocara de
carro, assumindo pesadas prestações por um pos-
sante moderno: pagaria em sessenta meses. Samuel,
calado, ouviu a decisão financeira julgando-a abso-
lutamente estúpida, completamente avessa ao seu
feitio parcimonioso e investidor. O carro, pensava,
não era senão um passivo dos piores, muito pior
que um filho, que não entregava valor: trocar de
carro, dessa forma, adquirindo um veículo acima
dos próprios padrões, era atrasar em anos a inde-
pendência financeira… Samuel não pôde deixar de
perguntar quanto fora o roubo que o amigo pagara
de IPVA. Gutão continuou, enveredando pelo as-
sunto previsível: mulheres. Contava ter ido em não
sei quantas festas, feito uma viagem muito boa há
alguns meses, ter ficado com várias garotas de di-
ferentes universidades... Samuel ouvia em silêncio,
só tornando a falar quando perguntado: “E você?”.
— Tô até hoje com a Daniela.
As palavras foram recebidas com um riso de es-
cárnio. Gustavo assoviou para Régis, que logo sur-
giu na área externa do bar e aproximou-se dos ami-
gos. Gustavo, mirando-lhe, apontou a Samuel:
— Casado! Casado e manso!
E o desprezo verteu também do bom comerciante.
— Nem falo nada… — respondeu, sequer olhan-
do a Samuel.
— Traz uma abençoada e mais uma pra gente! —
pediu Gustavo.
Samuel quedou desconcertado com a cena. A me-
162 Luciano Duarte
mória da traição ameaçou ferver-lhe o sangue. Con-
trolou-se. Gustavo, então, atirou-lhe uma ironia:
— Você está, simplesmente, jogando a sua vida
fora.
A réplica era inútil. Mas Samuel tentou, posto a
opção fosse o silêncio e o desânimo na mesa, dizen-
do ao amigo dos pontos positivos do relacionamen-
to, enfatizando como conseguira avançar financei-
ramente gastando menos com bebidas, em ponto
que aparentemente granjearia o respeito do rapaz.
— Tenho mais tempo, meus investimentos só fa-
zem crescer, tenho lido bastante e aprendido várias
coisas… Logo poderei deixar de trabalhar.
Gutão replicou, dono da razão:
— E de que adianta? Em cinco anos você já esta-
rá velho, sem o mesmo gás, não poderá aproveitar
nada desse seu dinheiro e se arrependerá amarga-
mente.
Chegou a pinga e nova cerveja. Quando brinda-
ram o líquido diabólico, Gutão tomou iniciativa e
virou a espessa dose de uma só vez. E Samuel, a ten-
tar replicar a ação do amigo… Que vergonha! Logo
ao tentar o gole, sentindo o vapor alcoólico de gosto
insuportável congestionar-lhe as vias nasais, cuspiu
em vômito no chão da calçada tudo quanto havia
bebido, para riso generalizado nas mesas em redor,
alertadas pela gargalhada estridente de Gutão.
Samuel, sentindo todo o olfato e paladar contami-
nado do sabor detestável da bebida de péssima qua-
lidade, viu-lhe os olhos rutilarem e a face ruborescer.
Há quanto tempo não bebia aquela porcaria!
163Samuel
Após toda a chacota e a imediata recuperação,
Samuel tornou a beber seu copo de cerveja, sentin-
do-se terminantemente inferior ao sujeito que ocu-
pava o lado oposto da mesa. O vômito era natural
— a novatos, imberbes, porém… — e Gutão não
viu no amigo incapacidade para continuar conver-
sando, conquanto não perdeu a primeira oportu-
nidade para escarnecer-lhe diante do dono do bar.
Avançou a tarde em assuntos que pouco adicio-
naram. Samuel despediu-se pelas seis, alvo de nova
piada, com a sensação de que em Gustavo já não
tinha um amigo.
165Samuel
Capítulo XXII
Daniela, neste mesmo sábado, aproveitou o en-
sejo e convidou as melhores amigas para passar a
tarde. Foi consenso do casal: distanciaram-se de
pessoas importantes, fazia bem dedicar um pouqui-
nho para se lhes aproximar novamente. Ver-se-iam,
portanto, somente no dia seguinte.
A ideia de Daniela foi bem recebida pelas duas
amigas, aliás, o contato entre as três não rareara
como ocorrera entre Samuel e Gustavo. As con-
versas por mensagens eram quase diárias, e tanto
Thalita, como Laura faziam questão de informar à
amiga tudo quanto ocorria em suas vidas, mesmo
não se vendo diariamente como no ensino médio.
166 Luciano Duarte
As três haviam-se reunido recentemente, em co-
memoração do aniversário de Thalita, há cinco
semanas. Samuel, na ocasião, esteve presente, e a
celebração deu-se numa boate muito ao gosto da
aniversariante. Como é de se imaginar, apesar da
companhia e dos sorrisos trocados, não puderam,
as amigas, conversar como estivessem a sós, já pela
presença do namorado, já por Thalita ter de conce-
der atenção a inúmeros outros convidados. Combi-
naram de tomar um açaí.
Cerca de duas e meia, pois, reuniam-se, sendo
Daniela a mais animada de todas e a que tratou
de liderar o assunto. Havia expectativa para a sua
formatura que se aproximava: dar-se-ia no semestre
seguinte. Não era, é claro, a mesma euforia da con-
clusão do ensino médio, mas a conquista era muito
maior. Daniela contou às amigas que, formando-se,
haveria promoção garantida no trabalho e a situa-
ção se lhe melhoraria consideravelmente. Recebeu
das amigas as felicitações.
Thalita e Laura, por esse tempo, ainda não tra-
balhavam nem haviam trabalhado, e Daniela, logo
iniciado o estágio conseguido pela mãe, subiu sen-
sivelmente em consideração das amigas, passando a
ser vista com admiração. Nem Thalita, nem Laura
viam-se aptas ao trabalho, consideravam-se iná-
beis, talvez incapazes das responsabilidades que as
atividades profissionais exigiam. É o receio natural
de alguém que nunca trabalhou… Vendo Daniela a
avançar, pois, as garotas admiravam-na, porquanto
em pouco tempo a postura se lhe mudara: parecia
167Samuel
mais confiante, madura e, de fato, deixara de ser,
aos olhos das amigas, a menina com histórico de ti-
midez. Consultavam-na com frequência, passaram-
-lhe a ter a opinião em alto valor.
Daniela, após o desabafo alegre de que os dias
de estudos chegariam ao fim, ouviu das amigas as
expectativas. Ambas estudavam, conquanto a for-
matura se lhes apresentasse mais distante, e nutriam
anseios análogos aos de Daniela: viam para si, tam-
bém, que boa mudança lhes aguardaria ao termo da
graduação.
Em uma hora chegava a conversa ao assunto
obrigatório. Thalita fora abordada em redes sociais
por um rapaz a parecer interessantíssimo. Mostrou-
-o novamente às amigas, porquanto já o fizera por
mensagens. Disse-lhes, desta vez pessoalmente, so-
bre como o jovem sabia conduzir uma conversa e
conjeturou ele dar indícios de querer chamá-la, em
breve, para sair. “Esse tá aprovado” — foi a respos-
ta de Laura. Daniela sorriu e pensou: “Sair…”. O
sorriso da jovem era o indício da bomba que escon-
dia para soltar na mesa pouco depois.
Continuaram, por alguns minutos, a conversar
sobre o charmoso pretendente de Thalita. Em se-
guida foi Laura a dizer a falta que sentia de conver-
sar com um rapaz interessante. Há quanto tempo o
último? três semanas? um mês? Mal sabia dizer…
Era estranho: ao mesmo tempo que, solteira, sentia-
-se dotada de uma liberdade enorme, gostava de ter
alguém mais próximo para conversar, como tivera
em outras ocasiões. “Faz falta…” — concordavam
168 Luciano Duarte
as três. E o tom do diálogo naturalmente levaria
alguma das amigas a perguntar Daniela sobre o ca-
minhar do namoro, ainda que já o soubessem.
Perguntaram. Daniela sentiu ter chegado o mo-
mento: o ambiente era assaz favorável. Tomou a
palavra e relembrou-lhes do restaurante que fora
na quarta. Imediatamente as amigas animaram-se:
“É mesmo! é mesmo! Conta tudo!”. Naturalmente,
o principal fora-lhes escondido por receio da res-
posta.
Daniela, então, colocou em palavras o jantar,
desde o início, exaltando o bom gosto do local, a fi-
neza do atendimento, a qualidade dos pratos, o am-
biente extremamente agradável e outros detalhes.
— A noite foi perfeita. Bem isso: perfeita.
Obteve sorrisos em retorno.
— Pelas fotos, tudo parece ser maravilhoso — co-
mentou Laura.
Era. Pois Daniela passou a dizer sobre o que sen-
tiu naquela noite em relação ao namorado.
— Sabe o quê? — confessou: — Acho que acertei.
As amigas silenciaram, atentas, como a esperar a
emenda.
— A noite foi linda. Não só o restaurante, sabe?
Pela primeira vez, ali, do lado do Samu, eu tive essa
sensação: de que acertei mesmo, de que eu e ele…
Thalita e Laura não piscavam. Daniela conti-
nuou:
— A gente fez planos. O Samu tá super bem no
trabalho, eu contei pra vocês do cara que ele desco-
briu roubando a empresa, né?
169Samuel
— Nossa! Contou… — respondeu Thalita.
— Pois é. Daí agora o chefe tipo que ama ele. E o
jantar foi no dia que aconteceu isso… O Samu tava
muito feliz, eu também, e pela primeira vez… —
Daniela pausou o discurso e sorriu.
— Conta, amiga! Anda logo — censurou-lhe
Laura.
Thalita emendou:
— Também tô curiosa.
Daniela anediou o cabelo por trás da orelha e
continuou:
— Nem sei como falo isso pra vocês… Mas a gen-
te, como posso dizer… a gente fez planos.
— Planos? — perguntou Thalita.
— Planos. O Samu comentou sobre a possibili-
dade de, daqui a alguns meses, ele dar entrada num
apartamento, até porque ele sente que chegou a
hora de deixar a casa dos pais, e aí perguntou o que
eu achava, se eu…
— Vocês dois morando juntos? — espantou-se
Laura.
— É… — disse Daniela, desviando o olhar em
sorriso dengoso. — A gente já dorme junto quase
todo dia mesmo, ué…
Silêncio geral. A novidade era a mesma que Sa-
muel não conseguira, ou não quisera externar para
Gutão neste mesmo dia.
— E há outra coisa… — começou Daniela, quan-
do Thalita a interrompeu.
— Mais? Fala!
Veio a bomba:
170 Luciano Duarte
— Pela primeira vez surgiu o assunto “casamen-
to”.
Susto geral.
— Casamento? Tá louca, Dani? — disse Thalita,
abafando o grito.
— Foi o vinho! — brincou Laura.
O clima não era de censura, as amigas riam con-
quanto reprovassem a ideia.
— Você tem vinte e dois anos, Dani. Tá ficando
doida de casar nessa idade? — argumentava Thali-
ta.
Então Daniela laborou a convencê-las de que o
assunto somente brotara na mesa, que fora a pri-
meira vez e que não havia, de fato, uma intenção
formal manifesta. Mas era consenso entre as ami-
gas:
— Tá muito cedo!
Daniela, porém, insistia, já não aceitava só ouvir
palavras de reprovo quando se tratava de seu rela-
cionamento, mesmo que em tom de brincadeira:
— Namorar é bom, gente. Vocês é que não sa-
bem. O Samu é legal e eu, sinceramente, não sinto
que tô perdendo meu tempo com ele. Pelo contrá-
rio…
Ambas amigas riram, em automatismo e escarne-
cendo. Superioridade numérica é uma coisa…
— É sério… A minha vida melhorou muito de-
pois que conheci o Samu. Vocês sabem disso…
Olha como eu tô hoje.
— Mas acontece — replicou Thalita — que você
ainda é muito jovem, e não sabe o dia de amanhã.
171Samuel
O Samu é legal mesmo, é ótimo você com ele. Mas
casamento, Dani? Casamento aos vinte e dois anos?
— Eu não disse que vou…
— Você já tá praticamente casada — atalhou
Laura. — Você precisa de um pouco de equilíbrio,
Dani, de coração. Vai com calma. Espera um pouco
e abra a cabeça.
Era inútil discutir, e Daniela percebeu-se derro-
tada.
A impressão do diálogo foi forte, Thalita e Laura
apresentaram persuasiva argumentação e Daniela
acabou por concluir, ainda que indecisa, que talvez
as amigas tivessem razão.
173Samuel
Capítulo XXIII
A semana rompeu fria para o casal, especialmente
porque Daniela, logo na segunda, foi alvo de cen-
sura da chefe no trabalho por passar muito tempo
digitando no celular. Daniela trabalhava como re-
cepcionista em uma clínica estética, e a chefe disse-
-lhe diante das colegas:
— Você vem aqui pra trabalhar ou pra ficar con-
versando?
Duríssima reprimenda, posto que as outras duas
recepcionistas não ficavam para trás. Por que só ela
a censurada? por que trabalhava em período redu-
zido? Mas estudava! Fosse como fosse, a indisposi-
ção da chefe, assim a descoberto, era fato inédito.
174 Luciano Duarte
A segunda, pois, para Daniela, foi péssima, prin-
cipalmente porque não era desleixada no trabalho
e considerava verdadeira humilhação ser criticada,
desta forma, em frente das colegas. Subiu-lhe um
impulso de choro pela censura, mas resistiu. Desli-
gou o celular pelo restante do expediente.
Samuel não gostou nem um pouco de ser igno-
rado, sem aviso, durante toda a tarde. Anoiteceu
e via-se despeitado pela mensagem não respondida
enviada ainda no almoço.
Daniela só ligou o aparelho quando deixou a clí-
nica. Frustrada, após passar o dia ensaiando réplica
que atirasse no rosto da chefe a própria dedicação,
foi seca em resposta ao namorado, escondendo-lhe
a reprimenda que recebera por vergonha e, tam-
bém, por nenhuma vontade de expor-lhe o seu pro-
blema pessoal.
Daniela faltara sem avisar à academia e os namo-
rados não conversaram pelo resto da noite, senão
quando Samuel enviou-lhe um sucinto boa-noite e
obteve, em resposta, as idênticas palavras lângui-
das.
O resultado de um dia como esse seria óbvio. A
frieza da resposta era um choque para ambos. Sa-
muel não compreendia, ao mesmo tempo que se
sentia injustiçado por aquela sequidão repentina:
que fizera para que a namorada mudasse daquela
forma o tratamento? Não merecia, de fato, não me-
recia e isso era motivo para justíssima indignação.
Seria por ter saído com Gutão no sábado? Não era
possível… Samuel contou-lhe, chegaram a um con-
175Samuel
senso, disse-lhe a categoria do boteco em que bebe-
riam, boteco que nunca servira uma única mulher…
Daniela sabia a classe de Gutão: era, exatamente, o
tipo de homem que detestava, o tipo de amigo que
jamais queria ver ao lado de Samuel. Mas fosse esse
o motivo, por que não dissera, sinceramente, antes
que Samuel encontrasse o rapaz? Então fora falsa, e
agora seria injusta?
Daniela experimentava mais amplos matizes de
sensações. De início, pensava que o simples fato de
não responder Samuel por todo um dia fosse mo-
tivo para ao menos uma pergunta, ao menos uma
demonstração de que lhe notara o silêncio, que se
preocupava com ela. Mas não: Samuel, respondi-
do às 18h, calou-se, como se lhe fosse indiferen-
te à situação e tivesse mais com que se preocupar.
Daniela, namorando, sofria e via-se em desampa-
ro. Para que servia, pois, o namoro? Mas antes que
continuasse a prosseguir nesse raciocínio, vinha-lhe
outro mais severo: poderia mesmo Samuel ajudá-la
em algo? Havia, com efeito, ajudado no passado?
Quem lhe conseguira o estágio fora a mãe, além de
que os problemas de sua vida, os reais problemas
da faculdade e trabalho, eram sempre solucionados
sem o auxílio do namorado. Era, em suma, um tan-
to fútil desejar palavras carinhosas quando a chefe
atirava-lhe uma ofensa diante das colegas de traba-
lho. E precisasse de um conselho, muito mais expe-
riente era a própria mãe…
Na terça-feira houve evento que credenciou, de
vez, a crise no relacionamento: deu o almoço e não
176 Luciano Duarte
veio o bom-dia de nenhum dos lados. Correu a tar-
de, nada. Daniela quedou de celular desligado por
todo o dia, mesmo quando ainda se via na faculda-
de. Chegando na clínica, foi impressionante. Como,
num átimo, tudo mudara! Tudo, tudo mudara! As
colegas olhavam-lhe com frieza, como que desejan-
do distância da funcionária displicente. A chefe,
quando viu-lhe ligando o computador, não a cum-
primentou. Doeu…
Foi que Samuel, não suportando a tensão agudís-
sima e inexplicável, solicitou à Daniela que se vis-
sem, fora da academia, depois do trabalho. A res-
posta veio às 18h: “Se quiser, pode ir lá pra casa”.
Foi. Sete e meia da noite Samuel saiu de casa com
temperamento soturno, mal sabendo o que pensar.
Por que, afinal, tudo aquilo? Dirigia e arriscava al-
gumas reflexões. Fez-se o favor de colocar qualquer
música no aparelho de som do carro, a ver se lhe
articulavam melhor os pensamentos. “O pior é que
nem sei o que dizer. Peço desculpas? Mas eu não fiz
nada…” Então sentiu um calafrio: era o prenúncio
da ideia maligna que, antes que pudesse articular
em palavras, instalou-se-lhe na mente. “Não é pos-
sível…” Trafegava as ruas do bairro em péssimo
humor quando, a reduzir em vista de um cruzamen-
to, girou levemente o pescoço à direita. O susto: um
carro atravessa-lhe o campo de vista buzinando. Sa-
muel freia bruscamente em reação, antes que levas-
se o outro pé à embreagem: o carro morre. Sobe-lhe
um violento tremor. “Meu Deus do céu!” — suspi-
rou. Era a lembrança do acidente que lhe assaltava.
177Samuel
Em poucos minutos chegou ao apartamento da
namorada. Ainda tremia. Ao entrar pela garagem
do prédio, descuidou-se e raspou a lateral do carro
no muro que sustentava o portão. “Inferno, infer-
no!” — não acreditou quando ouviu o barulho do
atrito. “Só falta ser na lataria…” Quando desceu,
a decepção: acima do pneu destro traseiro partia
um esfolamento que se estendia quase à porta do
passageiro: a lateral estava branca devido à tinta da
parede rugosa; a pintura do carro, onde em conta-
to com o muro, fora simplesmente arrancada. Não
havia espaço para choro e Samuel, suspirando em
desgosto, resignou-se: “Mando pintar e polir essa
porcaria”.
Nesse clima, subiu ao apartamento da namorada.
No elevador, olhou-se no espelho e tentou recom-
por-se: não evitou, porém, o sombrio aspecto com
que cumprimentou Daniela, aparentando ter com-
parecido para brigar.
Samuel contou-lhe do carro arranhado. “Ah, ar-
ranhou o carro…” — pensou em despeito a namo-
rada, respondendo-lhe com desinteresse total. O
rapaz sentiu-se ofendido:
— Que é que tá acontecendo, hein?
O tom foi o estopim para a briga, a primeira do
casal. Após poucas palavras, ambos já sentiam uma
espécie de desprezo pelo outro, quando veio o pior:
vibrou o celular de Daniela diante de Samuel. A ilu-
minação da tela lhe atraiu o olhar, denunciando-
-lhe que um desconhecido nome masculino acabara
de enviar mensagem direta à Daniela. A conversa
178 Luciano Duarte
acabou. Samuel não escutou sequer a justificativa:
ofendeu a namorada e retirou-se.
Daniela lhe não pôde deixar de comparar o ciúme
estúpido ao do canalha do ex-namorado.
179Samuel
Capítulo XXIV
A noite avançou sem novas palavras. A discussão
arrasou o humor de Samuel. Voltando à sua casa,
viu-lhe os olhos jorrarem ódio enquanto dirigia.
Não era possível tudo aquilo acontecendo de uma
só vez. Não era possível semanas tão radicalmen-
te díspares seguirem-se umas às outras. Mas estava
feito e a vida, como sempre, surpreendia.
O silêncio nas horas que precederam a virada do
dia serviu de amplificador para as frustrações do
casal. Daniela esperava ou, antes, exigia uma re-
tratação pelo papel ridículo feito em sua casa, es-
cutado pela mãe que assistia a um filme no quarto.
Exigia, porém tratou de desligar o celular, visto a
180 Luciano Duarte
atitude do rapaz não lhe despertasse senão despre-
zo. Que ele dormisse com suas desculpas!
Samuel, foi pisar em casa e sentir a lógica sabo-
tá-lo, afundá-lo em cólera, ferindo-lhe o orgulho.
Banhou-se amaldiçoando a namorada. Como fora
capaz? Mas, claro, daria o troco. E o troco era o
desdém, a indiferença: Samuel sentia vergonha não
por algum tipo de injustiça, mas por ter se envol-
vido a ponto de perder a cabeça daquela maneira.
Ofendendo-a, expunha-lhe a fraqueza. Sabedoria é
frieza, é ser um vampiro quando rompe o incêndio,
é olhar impassível para a desgraça, a desonra, ou o
que vier.
Saiu do banho, entrou em seu quarto e fechou
detrás de si a porta. Ligou a televisão e começou
a pensar, de olhos fechados. Estimulava o cérebro
a raciocinar apartando-se de qualquer emoção:
necessitava traçar acertadamente suas próximas
ações, para que não ficasse mais uma vez refém dos
furores momentâneos. O pai sempre lhe repetia:
“Não se toma decisão de cabeça quente”. Pensou
no conselho em boa hora: tratou de acalmar-se.
Então abriu os olhos e sintonizou a televisão em
qualquer filme. Por azar, caiu numa comédia que
gostava. Não mudou. O enredo da obra resumia
uma coincidência absurda: homem e mulher, com-
prometidos, apaixonavam-se; a trama corria em re-
dor deste amor proibido. Belo dia, marcam de sair
e encontram, no mesmo restaurante, exatamente os
seus cônjuges a sós em mesa próxima. Armam um
escândalo, cujo desenrolar é pouco interessante. O
181Samuel
final da história, porém, é digno de nota, quando a
tela preta rompe exibindo um chiste em letras bran-
cas, mais ou menos assim:
	 “Existe uma realidade
	 De que não escapa ninguém:
	 Ou beijamos quem trai a nós,
	 Ou beijamos quem trai alguém.”
Samuel, pensando neste desfecho ridículo, articu-
lou em mente, pela primeira vez, que a vida talvez
fosse medíocre e risível; que o homem, em suma,
talvez não valesse muita coisa. Quer dizer: se não
há moral que perdure, se não há compromisso que
não seja violado, se não há palavra que não seja
quebrada e se, com efeito, não há exceções à regra,
então a existência era vil. Que tinha o homem que
não tem o cachorro? Talvez nada... A moral do fil-
me era dura, mas real. E as risadas que a comédia
lhe gerara no passado, agora, produziam desgos-
to. Por que assim? Por que tanta canalhice? Todos,
será que todos já nascem condenados? Não pôde
controlar-lhe os pensamentos: e a mãe? e o pai? será
que já se traíram? Era repugnante, nojento o que
lhe vinha em mente, mas será? A mãe — asco! —
aparentemente nunca dera em cima de nenhum ho-
mem… Nunca recebera com — chega! — excesso
de benevolência outro macho, pelo menos não que
Samuel se lembrasse... E o pai? Ah, o pai partilha-
va-lhe do mesmo instinto! Era honrado? Sim. Mo-
ralmente um exemplo? Claro… Mas não seria im-
182 Luciano Duarte
possível que tivesse, digamos, esvaziado em outras
bandas o desejo acumulado em vinte e oito anos de
casamento… “Mente repugnante, cale a sua bocal”
— debalde berrava em silêncio: a mente humana é
indomável e ri da moral.
Samuel sentiu ferver-lhe a cabeça por toda a noi-
te. Não dormiu. Na quarta imediata, a sequência
natural de sua desdita: antes que soasse o sinal, ao
buscar a primeira xícara de café do dia, teve de res-
ponder a um subalterno sobre o vistoso esfolamen-
to na lateral do carro. A noite em claro destruiu-lhe
o humor pela manhã: não trabalhou, não fez nada;
encerrou-se em sua sala e tomou café a desejar que
o dia acabasse. A mente parecia determinada a fa-
zê-lo agir pela ira, não se calava um segundo, não
lhe deixava pensar, concentrar no trabalho, na rea-
lidade. “O meu relacionamento começou com uma
traição” — pensava: — “Que é que eu poderia espe-
rar de uma… de uma piranha como ela?” E orçava
quanto dinheiro investira na relação, em presentes,
em saídas, tudo: atrasara a própria vida por uma
mulher; fora, em suma, um idiota envolvendo-se
com uma indigna, uma ingrata.
Lembrou-se da tela do celular denunciando a in-
fâmia e desferiu um murro na própria mesa, aca-
bando por rachá-la. Assustou-se: “Preciso me con-
trolar!”. Ajeitou o quanto pôde a rachadura na
madeira, forçando as partes desjuntadas em sentido
contrário, conseguindo razoável camuflagem. Le-
vantou-se e andou pela sala, a pensar: “Estou agin-
do como um animal. Preciso deixar de agir como
183Samuel
um animal”. Lembrou-se da reflexão da véspera:
“Frio, tenho de ser frio”. E deliberou, pela própria
honra, responder a infâmia com indiferença total.
A obstinação de Samuel durou até a sexta-feira,
quando Daniela não pôde suportar o silêncio. “Va-
mos ficar assim então?” — indagou-lhe por mensa-
gem. Samuel sentiu-se na obrigação da resposta, na
obrigação de honrar-lhe o próprio brio e, logo se
pondo a digitar, viu-se como que possesso: a réplica
não foi senão o ódio convertido em palavras acusa-
tivas. Daniela congelou ao ler o texto enorme que
parecia escrito por outra pessoa visto a injustiça e
severidade das palavras. Chorou, chorou muito: a
mulher pintada na resposta não era ela, nunca seria
ela! Samuel estava sendo estupidamente injusto, in-
sensível e cruel. Pisava em mais de um ano de rela-
cionamento como se não fosse nada. Resgatava-lhe
o momento de maior arrependimento de sua vida e
atirava-lhe a pecha de infiel.
Após quarenta minutos, com os olhos inchados e
venosos, a garota respondeu-lhe a afronta: provou
a mensagem fatídica ter sido enviada por um colega
de faculdade, a respeito de um trabalho que teriam
de realizar juntos, provou não ter sequer intimidade
com esse rapaz e esfregou-lhe no rosto que não era
o tipo de mulher que ele havia pintado. Humilhou-
-lhe: disse que, se quisesse, tinha opções para traí-
-lo, opções que apareciam todos os dias, mas que
ela nunca, nunca passou nem perto disso, nunca
concedera sequer minutos de conversa para algum
rapaz que lhe manifestara interesse.
184 Luciano Duarte
Ao ler a réplica, Samuel não se desculpou: não
era capaz. Diante da prova cabal de que a namora-
da era inocente e que ele fora absolutamente injusto
e atroz, teve de dormir acompanhado da vergonha.
Cometera evidente injustiça, sim, injustiça. E o
que lhe restava era o vexame e a vontade de sumir.
185Samuel
Capítulo XXV
O hábito diria que, no dia seguinte, o casal se en-
contraria. Não foi o que aconteceu porque Samuel,
acordando, não teve forças para desculpar-se com
Daniela. Por algum estranho motivo, simplesmente
não conseguia: ele, de temperamento tão brando e
conciliatório, não era capaz de pedir desculpas pelo
próprio e claríssimo erro. Sentia, junto da vergo-
nha, um resquício de brio, de despeito, parecia-lhe
ainda resguardar consigo a razão.
A namorada, ainda na sexta-feira, certa de que
lhe havia provado a inocência, satisfeita de livrar-se
da acusação infame, não reforçou o que já havia
deixado claro. Porém dormiu e amanheceu choran-
186 Luciano Duarte
do: o silêncio, para a garota, induzia o terror. Não
deixou de conjeturar por toda a noite que Samuel
poderia estar, na rua, “dando-lhe o troco”. Como
saberia? O que restava evidente é que, daquela ma-
neira, vertendo aquelas palavras, direcionando-lhe
aquele ódio, Daniela jamais o vira. A compleição
do namorado já não era garantia de segurança.
Só de pensar, só de cogitar a hipótese de Samuel
trocando-a por outra, desprezando-a e tratando-
-a como um lixo causava-lhe desespero. A cabeça
adormeceu naquela sexta com a imagem fixa dos
olhos furiosos do rapaz.
Correu o sábado sem nenhuma palavra entre o
casal. Daniela, encerrada no quarto, decidiu não
daria o braço a torcer, aguardaria a iniciativa de
Samuel até as últimas consequências. Relembrou,
porém, os dias depressivos do último término. Bár-
bara, que não estava em casa, não a podia amparar,
não lhe sabia sequer do estado.
Quando caiu a noite, Samuel sentiu-lhe a cons-
ciência sufocar a mente. Sempre era assim! sem-
pre que errava! Após a falsa firmeza, a vergonha
e o arrependimento. Nada mais humilhante que se
acreditar injusto! E assumindo-o estaria não me-
nos que concedendo armas à sua adversária, armas
que poderiam ser usadas contra ele no futuro. Pedir
perdão era dar-lhe a razão para sempre. Entretan-
to, a impiedosa consciência assaltava-lhe, mostra-
va-lhe como agira feito um cão. A injustiça estava
claríssima: Samuel releu todas as mensagens, não
acreditou ter escrito tantas bobagens, tantos insul-
187Samuel
tos julgando-se fundamentado. Pudera voltar no
tempo! Brio maldito, pai de todos os males!… Em
pouco a mente reconstruía tudo quanto vivera com
aquela linda garota, desde o primeiro dia, quando
ainda se via nervoso por conquistar-lhe a afeição.
Que é que não conseguira de Daniela? A menina lhe
entregara a alma, declarava-se, a sós e diante dos
outros, dizia amá-lo e querer estar-lhe sempre ao
lado. E desde que começaram a sair, a ter contato
diário, Daniela nunca deixara de agradá-lo e de co-
locá-lo como prioridade. Renunciava a quase tudo
pelo relacionamento, valorizava-o a descoberto. E
como era agradável a sua presença! Samuel sentia
como que lhe afirmando a própria personalidade
na companhia da garota: sentia conforto, alegria,
relaxamento. A vida, junto de Daniela, era sempre
melhor. “Sou um traste desprezível…” — pensou,
já na cama, na noite daquele sábado: e não fora
capaz do pedido de perdão.
O domingo raiou e Samuel levantou-se em desâ-
nimo. “Isso não tá certo…” De olhar baixo e triste,
vagueou pela casa, comeu qualquer coisa e voltou
para o quarto. Dez e meia da manhã foi quando
enviou as geladíssimas desculpas. A resposta veio
em seguida, com o mesmo tom glacial. Samuel, des-
falecido pela crise que gerara, vendo o abatimento
evidente na mensagem de Daniela, tomou para si a
responsabilidade de restaurar a relação: chamou a
namorada para sair neste mesmo domingo. A res-
posta tardou mais de hora, mas veio positiva.
Assim se encontraram, pela tarde, em absoluta
188 Luciano Duarte
apatia: estavam, ambos, exaustos de brigar. Sa-
muel, enforcando o orgulho, pôs em palavras o
próprio arrependimento, disse da importância de
Daniela para a sua vida e, de olhos baixos, solici-
tou-lhe o perdão. Daniela aceitou com sinceridade,
conquanto a reação soou como fosse a desculpa de
pouca importância. Se abraçaram, comeram juntos,
trocaram carinhos… mas não havia, ali, satisfação:
saiu tudo como por automatismo.
A semana começou e as conversas entre o casal
pareciam artificiais. Houve algum diálogo na se-
gunda, houve o bom-dia e o boa-noite, conquanto
o restante soasse como protocolar. Samuel inten-
tou abrandar o clima, introduzir novamente o tom
amistoso: sem efeito.
Na terça-feira, Daniela, logo ao cumprir a carga
horária exigida pela faculdade, dirigiu-se ao traba-
lho, quando experimentou nova situação desagra-
dável, e desta vez muito pior.
Entrou na empresa, assumiu seu posto, e antes
que ligasse o computador era chamada à sala da
chefe pelo telefone. Levantou-se e foi; a sala era a
contígua. Bateu na porta, por educação, e foi ins-
truída por Sandra a sentar-se, lendo a censura pró-
xima nos olhos da mulher.
Sandra era não menos que a dona da pequena
clínica: conhecia Bárbara há bons anos, embora
não fossem exatamente amigas. Contatos profis-
sionais. Aproximava-se dos cinquenta, os cabelos
batiam-lhe pouco acima do ombro, negros assim
como os olhos, e geralmente era grave, a menos
189Samuel
que estivesse diante de algum cliente.
— Bom, Dani… — começou. — A gente tá com
um sério problema.
Subiu na garota um calafrio. Sandra emendou:
— Dá uma olhada nisso aqui — e passou para a
garota a cópia de uma nota fiscal. — Essa nota é de
sexta-feira, foi emitida por você e está errada.
Choque. Daniela, como estagiária, ajudava na
emissão de notas fiscais de produtos e serviços da
clínica. Na nota constava o código de seu compu-
tador. Sandra continuou, apontando para o papel
que Daniela pregava-lhe os olhos:
— A classe do produto. Dá uma olhada. Está er-
rada. E como se passaram as 24 horas, não é pos-
sível cancelar a nota. Quer dizer, não sem estresse,
não sem sujeição à multa. Mas o pior não é isso,
Daniela, o pior é que essa nota é pra revenda, es-
ses kits já estão em São Paulo e o cliente disse que
não pode pagar por mercadorias da classe fiscal
contida na nota. E agora?
Daniela não sabia que responder. Estava assus-
tada.
— E agora eu te falo o que vai acontecer — a chefe
direcionou-lhe um olhar severo: — o procedimento
normal seria pagar o frete de volta, dar entrada no
produto como devolução, e então emitir nova nota
e realizar novo envio para São Paulo. Esses dois fre-
tes ficariam por nossa conta, que acabariam com
a nossa margem. Isso não vai acontecer. O que vai
acontecer é o seguinte — a chefe tomou-lhe a nota
fiscal: — o cliente não vai sair prejudicado, não vai
190 Luciano Duarte
ficar sem o produto — Sandra rasgou a nota no
meio diante de Daniela. — Eu já liguei pra eles e
disse pra ficarem com os kits de cortesia. Essa nota
fiscal, para nós, não existe e o custo dos produtos
quem vai pagar é você.
A nota equivalia à metade do que ganhava Da-
niela no mês.
— Mas San…
— Agora faz o favor, Daniela. Volta pra sua mesa
e vê se não faz mais bobagem — rematou a chefe,
em olhar que expulsou a subalterna da sala.
Daniela, antes de tornar ao seu posto de trabalho,
dirigiu-se ao banheiro para chorar. Expulsou em lá-
grimas a decepção que sentia, a raiva e o sentimento
de impotência, de injustiça. Mas não houve demora,
porquanto a pressão psicológica lhe não permitiu.
A chefe poderia humilhá-la, mais uma vez, vendo
que se demorava a ocupar sua mesa. Engoliu o cho-
ro, secou os olhos a disfarçar das colegas, tomou ar
e enveredou pelo corredor da clínica.
Em vinte minutos Samuel enviava-lhe um troca-
dilho por mensagem. A resposta não tardou um mi-
nuto: “Me deixe em paz!”.
191Samuel
Capítulo XXVI
O pedido foi prontamente atendido: Samuel, no-
vamente ferido no brio, não mais incomodou a na-
morada. Inútil, absolutamente inútil tentar forçar a
reconciliação. Resignado, pois, Samuel calou-se de
vez.
Quanto a Daniela, foi responder e desligar o ce-
lular: tanto fazia a reação do namorado. Como era
fútil a tentativa deslavada de fingir que tudo estava
bem quando claramente não estava! Havia mais que
se preocupar, e logo direcionou o foco ao trabalho,
a interrogação óbvia: fora mesmo ela que emitira a
nota fiscal incorretamente? Via-se tensa, não con-
seguia recordar-se. Havia a impressão de que, na
192 Luciano Duarte
sexta-feira anterior, não emitira nota alguma. Se ao
menos tivesse a cópia do papel rasgado por Sandra
para averiguar… Mas não tinha e o pior: o olhar
da chefe deixava claríssima a ameaça de demissão:
mostrasse resistência, reclamasse do impacto no sa-
lário, iria para a rua.
É realmente difícil quando somos acometidos
assim: inopinadamente, tendo de reagir de
pronto e com firmeza. Concentradíssima, Daniela
disfarçou por toda a tarde o desalento, e quando
deixou a clínica pôde voltar a pensar. Não lhe saía
da mente a ideia de que, talvez, não fosse ela a cul-
pada pela nota fiscal. Conseguisse prová-lo, esfre-
garia no rosto da chefe e pediria demissão! Mas não
havia, simplesmente não havia meios para tal…
De pé, ao embarcar no coletivo, lembrou-se da
ríspida resposta que dera a Samuel. O celular conti-
nuava desligado. Daniela não pôde deixar de orçar
quanto o namoro se lhe tornara um incômodo, isso
porque, desta vez, fora ela que errara, cabia à ela
a reparação. Mas que coisa chata essa de brigar,
pedir desculpas, como se o relacionamento fosse
um encargo! Não estava num dia bom. E daí não
querer conversar? Samuel acaso soubesse a afron-
ta que sofrera, certamente não viria com trocadi-
lhos infantis… E o pior era pensar que, após um
dia como aquele, a noite guardava-lhe mais e mais
discussões. Desejosa de simplesmente se trancar e
esperar que o dia morresse, assistir a qualquer filme
ou fazer qualquer coisa que lhe distraísse a mente,
que lhe abrandasse as frustrações da tarde, teria de
193Samuel
pedir desculpas, justificar-se ainda que não devesse
justificações. Fastio de tudo…
Ainda no ônibus, ligou o celular: percebeu que
Samuel não respondera. Decidiu-se por deixar aqui-
lo morrer. Passaria o resto da noite acalmando os
ânimos para o dia seguinte. Havia de terminar um
trabalho da faculdade…
Assim fez. Já deitada, pouco antes de dormir, bri-
lhou-lhe na mente uma hipótese ou, por outra, uma
certeza: a maldita nota fiscal da sexta-feira não fora
emitida por ela, e sim por Vanessa, a colega que lhe
vivia usando o computador com a desculpa de não
haver o programa emissor instalado no próprio. E a
certeza vinha porque se lembrou de que, logo pisan-
do na empresa, vira Vanessa embalando três kits de
limpeza facial, já com a nota emitida; lembrou-se,
em sequência, de que encontrara o próprio compu-
tador ligado, como acontecia em várias ocasiões, e
deparou-se com o celular de Vanessa em sua mesa.
Era isso! Estava segura das memórias, não havia
dúvida quanto à origem da maldita nota. E no dia
seguinte atiraria na cara de Sandra!
A quarta raiou estourando de expectativa. Su-
miu de Daniela o desalento, e quanto mais pensava,
mais se convencia. Pela manhã, contou os minutos
para que lhe acabassem as aulas. Saiu da faculdade
ao meio-dia. Almoçou e direto para a empresa.
Havia tempo que não experimentava aquele sen-
timento. Entrou na clínica quase sorrindo: era a
confiança. De peito erguido, deixou calmamente
seus pertences na mesa; sentou-se apenas para ligar
194 Luciano Duarte
o computador e cumprir o protocolo. O discurso já
estava pronto, planejado durante todo o dia: entra-
ria na sala de Sandra, provaria que não fora ela a
emissora da nota, contaria todos os detalhes de sua
chegada na clínica na última sexta-feira e, à primei-
ra resistência da chefe, recorreria ao auxílio das câ-
meras de segurança. “Se ela abrir a boca, peço que
verifique nas gravações se o que eu digo é verdade
ou mentira!” Não havia espaço para o erro e, por
fim, quando se deparasse com a face apática da che-
fe, diria não precisar do emprego, vir de boa família
e não ter de se sujeitar por dinheiro a semelhantes
humilhações.
Levou cinco minutos para, após repassar todo o
discurso em mente, levantar-se e rumar à sala de
Sandra. Quando bateu na porta, percebeu-se ob-
servada pelas duas companheiras de sala. Sorriu e
entrou.
Sandra, logo reconhecendo Daniela, apontou-
-lhe a cadeira, antes que a garota pudesse pedi-lo.
E interrompeu o “com licença” da menina com um
“faça o favor” que arrogava para si a iniciativa da
conversação.
— Bom, Dani… — dessa vez Sandra mirava-o nos
olhos e, conquanto grave, o olhar não era agressivo.
Quando Daniela se esforçava por frear o ímpeto, a
chefe soltou palavras brandas: — Eu queria te pedir
desculpas por ontem.
Quê?
— Eu estava num péssimo dia, tive a notícia da
nota fiscal pelo próprio cliente, que ligou reclaman-
195Samuel
do e cobrando satisfação. Eu fui atrás desta nota
e descobri que, em verdade, quem a emitiu foi a
Vanessa.
— Pois é, Sandra. Exatamente isso que eu vim…
— Dani, — a chefe atalhou, — eu sei bem o que
você tá sentindo, tá bom? Desculpa. O erro é meu.
Você não vai ser prejudicada, eu não vou descontar
do seu salário e essa questão eu já resolvi com a
Vanessa.
Daniela silenciou-se. Não havia o que responder.
— Então… — começou a chefe, quando o telefo-
ne tocou.
Sandra prontamente atendeu e pôs-se a conversar
com um cliente. Daniela aguardou por trinta segun-
dos e, percebendo que a ligação se estenderia, fez
que se ia levantar. Sandra, notando que a garota
lhe solicitava a retirada, acedeu-lhe com o polegar.
Assim Daniela deixou, sorrindo e aliviada, a sala
da chefe. Havia, finalmente, arrancado um pedido
de desculpas daquela víbora! Entretanto, o clima
não pôde ser de alegria, posto se sentasse na mesa
ao lado de Vanessa. Afastara de si a bomba, mas
coitada da colega… teria de pagar pelo erro. Ga-
nhavam tão pouco… Era um absurdo a atitude de
Sandra, como se as pessoas não pudessem errar.
Mas fazia bem se calando: já havia conquistado de-
mais.
O restante do dia, pois, afigurou-se-lhe tranqui-
lo. Na mente se lhe repetia, uma vez após a outra,
o pedido de desculpas da chefe. Pela primeira vez,
vira Sandra diante de si em postura de humildade.
196 Luciano Duarte
Tivera, de fato, a razão, e julgava que a chefe jamais
se atreveria a falar-lhe novamente no tom da véspe-
ra. “Bem feito!”
E sentiu-se, pelo resto da tarde, uma mulher va-
lorosa e potente.
197Samuel
Capítulo XXVII
O sucesso contagiou o ânimo de Daniela. Logo
chegou em casa, sacou o celular e discou para
Thalita, a quem contou detalhadamente o drama
dos últimos dias. A amiga direcionou-lhe palavras
de respeito e admiração, compartilhando do mesmo
juízo para com Sandra: fora muitíssimo bem feito
que a chefe engolisse o próprio orgulho, sentisse re-
morso pela injustiça cometida.
Em abono da verdade, Daniela não se portara
exatamente como planejara: não dissera palavra de
reprimenda à Sandra, é claro, muito em vista da
situação, do telefone que tocou de repente e das in-
terrupções da chefe. Mas Daniela não se havia im-
198 Luciano Duarte
posto como a conversa com Thalita induzia a pen-
sar.
Tanto fazia. Desligando o celular, Daniela sen-
tiu-se tomada pela alegria, e pelo resto da noite não
pensou em outra coisa senão no pedido de descul-
pas que recebera. Naturalmente, nenhuma palavra
com Samuel.
No dia seguinte, em razão de avaliações que fa-
ria pela tarde, não compareceu ao trabalho. Nada
além do normal: na clínica sabiam que o horário de
Daniela oscilava conforme às exigências acadêmi-
cas. O dia correu tíbio, sem evento que valha a nota
senão que, desde a terça-feira, o silêncio sepulcral
se havia instalado na conversa com o namorado.
Engraçado como são essas coisas… O amor,
quando experimenta a indiferença, em pouco se
mete a boca na taça do despeito. De ambos os lados
o mesmo: logo que se viram desanimados da dis-
cussão, sem a menor vontade de estender cada qual
com suas alegações, sentiram o peso do silêncio. A
mente, que não suporta silêncio nenhum, pôs-se a
ferver em ambos por um tempo, e as discussões que
não se interrompiam na cabeça não poderiam gerar
senão irritação. Era quinta-feira e, assim, Daniela e
Samuel sentiam repulsa quando pensavam na ima-
gem do outro.
Veio a sexta-feira. Daniela, pouco depois de uma
da tarde, batia o ponto na clínica. Na sala encon-
trou olhares tensos, e antes que se pudesse sentar
foi informada por Vanessa:
— Dani, a Sandra pediu que, assim que você che-
199Samuel
gasse, desse um pulo na sala dela.
Assim fez a garota, sem saber que esperar.
Então, logo entrando na sala da chefe e tomando
a cadeira, conforme foi indicada a fazê-lo, foi atin-
gida pelo discurso:
— Então, Dani. É o seguinte… — Sandra iniciou,
em tom calmo: — Por favor, eu não quero que pen-
se que isso tenha nada a ver com o que aconteceu
nessa semana. Mas é que a sua rotina tá gerando
uma complicação aqui na clínica, porque a gente
nunca sabe quando pode ou não contar com você.
Eu entendo muito bem a sua situação, admiro você
procurar trabalhar mesmo estudando, mas assim…
pra gente aqui não tá dando. Eu preciso de alguém
que esteja aqui em horário comercial, porque se
uma pessoa falta ou precisa faltar, gera um trans-
torno enorme pra gente, já que não temos ninguém
pra repor. E assim: se eu pudesse, eu gostaria muito
de te manter aqui na empresa, até pra te ajudar,
porque eu sei que você precisa do estágio pra con-
seguir o seu diploma, e sei que não falta muito pra
você cumprir a carga horária obrigatória. Mas infe-
lizmente eu não posso contratar outra pessoa com
você aqui, eu não posso arcar com os custos, enten-
de? A situação no mercado tá muito difícil… Por
isso, Dani, infelizmente, eu vou precisar te desligar
da empresa.
O discurso foi um tiro no peito da garota. As lá-
grimas automaticamente lhe brotaram dos olhos.
Não sabia o que dizer.
— Olha… — tentou afagá-la a chefe — Eu agra-
200 Luciano Duarte
deço muito pelo seu trabalho aqui na clínica. Você
foi uma excelente estagiária, desejo tudo de bom
pra sua carreira. Mas é que não dá, entende?
Daniela não entendia. Forçou o sim com a cabe-
ça.
— Se eu pudesse, Dani… mas infelizmente não há
outra saída. Aqui nesse envelope — a chefe apon-
tou para a mesa — tá toda a sua documentação de
estágio assinada, todas as horas que você cumpriu,
a rescisão do seu contrato e um folder com uma
mensagem da clínica. Eu só preciso que você assine
aqui, ó.
A chefe pôs diante de Daniela a via da empresa da
rescisão do contrato. Daniela tremia. Sandra puxou
uma caneta e pôs-lhe na mão, forçando-a a firmar
o documento, o que a garota fez com muita dificul-
dade, porquanto a mão vacilava.
— Eu te agradeço, viu Dani?! — o telefone pôs-se
a tocar; Sandra colocou-o no mudo — eu te agra-
deço sinceramente por tudo e te desejo boa sorte.
Pode ficar tranquila, que a Vanessa já recolheu os
pertences de sua mesa e colocou numa sacolinha, é
só você pegar com ela…
Dizendo isso, a chefe se calou. Claramente expul-
sava Daniela de sua sala. A garota assentia nervosa-
mente com a cabeça, e então arriscou suas primeiras
palavras, limpando as lágrimas que lhe escorriam
na face:
— É só isso?
— É sim, Dani. Tá tudo certo! Boa sorte!
Então Daniela, atordoada, levantou-se com di-
201Samuel
ficuldade da cadeira e sumiu, não despedindo de
Sandra, nem de ninguém. Quando deixou a sala da
chefe, Vanessa já sustinha com a mão a sacolinha
com os poucos objetos pessoais da colega, que se
resumiam a instrumentos de escritório e certifica-
ções da própria empresa. Vanessa apontava a saco-
la para a recém-demitida, mas esta passou como um
vulto pela sala, de olhar vago, não dizendo sequer
uma palavra de adeus.
— Coitada… — comentou Vanessa com a colega
à mesa ao lado.
O choro de Daniela rompeu na clínica, estendeu-
-se no trajeto de volta para casa e explodiu logo que
a garota se viu no próprio quarto. Teve de afogar o
rosto no travesseiro para poder gritar. Sandra mal-
dita! Víbora cruel! Que uma maldição caísse sobre
aquela desgraçada! que a vida dela se arruinasse!
Velha nojenta!…
E chorava, chorava muito e forte. O que Sandra
fez foi desumano: demitiu a estagiária no final do
estágio. Daniela cumpriria a carga acadêmica, mas
não teria acesso ao diploma. E a afronta de dizer
que a clínica não tinha dinheiro! Absurdo! Daniela
não ganhava mil reais por mês e a clínica faturava
mais de cem…
Quando o choro deixou de sufocar a palavra,
Daniela discou para Thalita que, percebendo-lhe o
estado, vendo-lhe articular em desespero palavras
desconexas, imediatamente desligou e tomou um
táxi.
Dez minutos e Thalita era recebida por Bárbara,
202 Luciano Duarte
que não reparara o estado da filha. Mãe e amiga,
pois, entraram no quarto de Daniela e abraçaram-
-na. Em seguida Bárbara, logo descoberto o motivo
do choro, correu à cozinha a buscar um copo de
água.
Então, com as três sentadas na mesma cama,
Daniela, ao centro, estourou em desabafo. Contou
tudo. No início, o nervosismo lhe desnorteou as
palavras, mas logo estava explicando em detalhes
quanto lhe fizera a vaca da Sandra, a víbora da San-
dra.
E a mãe não deixou de exprimir seu desalento e
seu remorso. Disse não ser íntima de Sandra, mas
julgar que a mulher seria ética e bondosa dando-lhe
oportunidade para a filha.
— É o que eu faria… o mínimo! Todo mundo um
dia começa… A Sandra não tem coração! — con-
cluía.
Mas em seguida a reviravolta. Bárbara emendou
o discurso mais emocionante que jamais proferira.
Contou às garotas a própria história, da gravidez,
desamparo e trabalho precoce; de todas as dificul-
dades que sofrera quando teve de largar os estudos
para trabalhar, da mudança de cidade, da força de
vontade que a vida não somente lhe exigira, mas lhe
impusera. Depois as tragédias: foi invocar o nome
dos pais e as três mulheres passaram a chorar copio-
samente. A memória dos avós assaltou Daniela com
violência, arrancou-lhe o soluço. E então Bárbara
prosseguia, com muita dificuldade, dizendo quanto
superaram juntas em todos aqueles anos: traçou a
203Samuel
resiliência que elas, mãe e filha, desenvolveram com
o tempo. Eram mulheres fortes, independentes e de
valor. Quando Thalita tomou a palavra, pôde ex-
pressar toda a mudança que presenciara no caráter
de Daniela na adolescência, que lhe viu a timidez
converter-se em maturidade, a inaptidão social em
confiança, expressando-lhe como se orgulhava da
amiga que tinha, do exemplo que a providência co-
locara em sua vida.
A conclusão não poderia ser diferente: para aque-
las mulheres, a dor era fonte de energia. Após duas
horas de conversa, as três, ainda de olhos inchados,
conversavam em tom encorajador: o que Daniela
havia de fazer é o que sempre fizera: renascer mais
forte, passar por cima do problema e amadurecer.
A sua história lhe não credenciava a outra postura.
E brotaram da boca da jovem as duas palavras
alvissareiras: vida nova.
205Samuel
Capítulo XXVIII
Nesta mesma sexta-feira, Samuel experimentou
a tristeza. Pela primeira vez, desde a terça, tomou-
-lhe a melancolia, ocupando o espaço do despeito.
Acontece que, no fundo, aquela situação não fazia
senão prejudicá-lo. Que importava o maldito brio,
diante de tudo que padecia com aquele distancia-
mento forçado? Valmir uma vez lhe dissera algo
que lhe marcara para sempre. Samuel, com poucos
meses de empresa, fora alvo da calúnia e inveja. O
diretor, cogitando a injustiça contra o jovem ven-
dedor, chamou-o para uma conversa. E Samuel, em
inocência quase estúpida, confessou quanto sentia
ao número um da empresa, citando nomes e expli-
206 Luciano Duarte
cando as intrigas em todos os mínimos detalhes.
Valmir, compadecido, enxergando a si mesmo no
início da carreira através dos olhos sinceros de Sa-
muel, simpatizou com o jovem. No ápice do diá-
logo, não sabendo interpretar o silêncio respeitoso
do chefe, Samuel disse-lhe que, fosse mesmo o juízo
geral na empresa que ele era incompetente, inapto
para a função, desde já se demitia, pois se ainda não
dominava o cargo exercido, não era pela própria
vontade e sim pelo pouquíssimo tempo de empresa
e por ser cobrado por funções para as quais não
fora treinado, visto os colegas de setor só lhe ensi-
nassem com má vontade, já lhe cobrando a execu-
ção das tarefas e zombando-lhe da inexperiência.
Valmir, condoído do tratamento que o recém-con-
tratado recebera, passou um verdadeiro sabão em
todo o setor e demitiu um funcionário; mas antes,
ainda diante das aflições de Samuel, perguntou-lhe
com toda a benevolência de um mestre:
— O que você deseja para a sua vida, Samuel?
O jovem não entendeu.
— Para a sua carreira, quais são seus planos?
Samuel disse-lhe querer crescer, ter sede de apren-
dizado e desejar, um dia, ser diretor de uma empre-
sa, como Valmir.
— E você, — continuou o diretor, — esquecendo
os problemas que acabou de me contar, a despei-
to de tudo isso, está satisfeito com o seu emprego?
satisfeito com a oportunidade de trabalhar na Top
Jet?
Timidamente, estava.
207Samuel
— Então, Samuel, quero que você guarde o que eu
vou te falar agora, porque eu também já fui como
você, comecei como estagiário e aprendi muito em
minha carreira…
Valmir mirou-o nos olhos e disse:
— Em sua trajetória, você sempre irá encontrar
pessoas boas e pessoas más, pessoas que te ajuda-
rão e outras que tentarão te prejudicar. Você é um
jovem de talento, e o talento atrai inveja. Na sua
vida, você terá de tomar decisões difíceis, como eu
também tive, e o que aprendi é que sempre, mesmo
nos piores ambientes de trabalho, se você procurar,
encontrará alguém que te ajude, alguém para remar
do seu lado. E se lhe bater a insatisfação, antes de
buscar a mudança, antes de romper, você deve co-
locar a situação numa balança: avaliar o que está
bom, e comparar com o que está ruim. E se o que
está bom valer a pena, se o que está bom realmen-
te fizer sentido pra você e a balança pender para
o lado positivo, então você deve encontrar forças
para vencer o que está ruim, caso contrário trairá
a si mesmo, será ingrato com quem esteve do seu
lado, e o futuro tratará de cobrá-lo através do arre-
pendimento.
Valmir ainda se desculpou pelos maus funcioná-
rios, disse tomaria providências imediatas e afagou
o ânimo do jovem vendedor, que nunca esqueceu
aquelas palavras e com elas acordou na sexta-feira
de que agora nos ocupamos.
A balança. Daniela, com quanto tinha de ruim,
com a mudança repentina de comportamento, seria
208 Luciano Duarte
injusto tratá-la como fosse qualquer uma. A cons-
ciência novamente lhe enforcava: fora ele a gerar a
desavença. Agira como um perfeito imbecil, e agora
pagava pelo erro. Tanto fazia se Daniela lhe direcio-
nara uma ou outra palavra de irritação: a ofensa, a
infâmia inicial havia partido, sem dúvida, de sua
própria boca. Samuel nada menos que classificara a
namorada que lhe esteve junto, em conversas ou ca-
rinhos, no último ano inteiro, como infiel e indigna.
Fora absolutamente atroz, e era incrível como pa-
gara tão pouco pelo erro… Em Daniela, com efeito,
a balança pendia para o lado positivo, e não foi sem
lágrimas que Samuel percebeu a estirpe do prato em
que cuspia. Não encontraria, jamais, outra Daniela:
nem pela beleza, nem pelo amor.
Foi assim que, pela tarde, enviou à namorada uma
mensagem. Não respondido, pela noite arriscou a
ligação. Debalde… Somente no sábado Daniela, em
frieza incomum, saudava-lhe e dizia, em resposta ao
repetido pedido de desculpas, também ter pensado
muito e querer conversar pessoalmente. Marcaram
para as três da tarde na praça de alimentação de um
shopping center.
Samuel chegou sozinho, posto a garota lhe hou-
vesse pedido que a não buscasse. Pouco depois cum-
primentava-o a namorada com um selinho gelado.
Sentaram-se. O ar condicionado caía-lhes no rosto.
— Então… — começou Daniela, inexpressiva. —
Eu andei pensando nesses dias e… — os olhos eram
fixos no chão. — Bom… eu acho melhor a gente
terminar.
209Samuel
Samuel sentiu-lhe o peito esmagado. Daniela con-
tinuou:
— Foi legal tudo o que a gente viveu… mas eu
tô numa fase diferente, eu preciso ficar sozinha e
eu não quero mais me dedicar para um relaciona-
mento.
Desviando o olhar por instinto, esforçando-se
tremendamente para manter o controle de si, o ra-
paz respondeu em longas pausas:
— Bom… se é assim… se é isso o que você quer…
então tá.
Silêncio.
— Tá? — perguntou Daniela, olhando-lhe pela
primeira e última vez.
— Tá — respondeu Samuel, anuindo com a ca-
beça.
O desconforto era imenso.
— Então tá — rematou Daniela.
Após essas palavras, a garota levantou-se, deu
meia-volta e sumiu do campo de vista de Samuel,
que se sentiu agredido, torturado quando acompa-
nhou com os olhos a melhor e mais linda compa-
nheira que jamais tivera perdendo-se para sempre.
Ali mesmo escorreram-lhe as primeiras lágrimas
pesarosas.
Samuel experimentou o vazio logo que se pôs a
caminhar. Lembrou-se das palavras do pai: “Na vida
ganha quem se dispõe a perder”. A moral era óbvia:
uma hora, todo mundo acaba perdendo o que tem.
Mas doía, doía porque não havia o que fazer. Aca-
bou. Era aceitar. Daniela não lhe concedera opção.
210 Luciano Duarte
Entrou no carro apático; pudesse permaneceria
sentado, não se poria a dirigir, deixaria que o mun-
do corresse enquanto estaria imóvel, sozinho, em
silêncio no banco do motorista, sem jamais acio-
nar a partida do carro. Até a mente se calou. Por
essa hora, passava diante de si uma mulher de mão
dada a uma criança, com a outra carregando umas
sacolas. A criança sorriu em direção a Samuel, con-
quanto não o visse. Desviando o olhar para o nada,
Samuel aguardou por quinze segundos, quando deu
a partida no motor.
Do shopping center para casa não distavam dez
minutos. No caminho, tudo sempre como esteve. A
cidade ridiculamente cinza, as construções iguais,
quadradas e pichadas, e os pedintes incomodando a
cada semáforo. “Então tá” — era só. Ligou o apa-
relho de som em qualquer música e imediatamente
o desligou. Precisava do silêncio, sabia que a músi-
ca lhe tiraria o juízo.
Um sujeito fazia malabarismo vestido de palhaço
em determinado sinal. Quando ladeou o vidro do
carro de Samuel a pedir dinheiro, deu de cara com
o desgosto. Não insistiu.
Chegando em casa, Samuel logo estacionou na
garagem e reparou um burburinho no final da rua:
eram sujeitos que conversavam em um bar. Foi au-
tomático: dirigiu-se-lhe friamente, pediu por um
isqueiro e um maço de cigarro de palha. Fumara
quantas: duas? Talvez três vezes na vida…
Em casa não encontrou os pais: ótimo. Assim
pôde, sozinho à janela do quarto, mirando o lote
211Samuel
vago do outro lado da rua, fumando e chorando,
experimentar os sentimentos mais amargos de toda
a sua vida.
213Samuel
Capítulo XXIX
Nas duas semanas seguintes vagueou por Belo
Horizonte um Samuel diferente. Em duas semanas,
nada próximo de um sorriso; de palavras, somente
o protocolar. Nem aos subalternos dirigiu-se-lhes
verbalmente a delegar tarefas: às terças, enviou-lhes
por e-mail as tradicionais orientações para a sema-
na. Desleixou-se e, assim, deixou a descoberto o
desgosto terrível que experimentava.
A rotina resumiu-se em acordar, ir ao trabalho
e, voltando, trancar-se no quarto a esperar que o
dia terminasse. Ainda pelo sábado, ignorou pai e
mãe em tentativa de conversa: negou-lhes o cum-
primento. E, ao domingo, quando requisitado para
214 Luciano Duarte
reunião familiar em casa do tio Raimundo, repli-
cou-lhes com rispidez. Era possível imaginar o que
se passava com o jovem, visto Daniela houvesse de-
saparecido…
Passou a buscar no cigarro o consolo: o amigo
que, queimando-se e dissipando-se para sempre,
trazia-lhe relaxamento, aliviava-lhe a tensão. Pois
que a dor do sábado rapidamente se transmutou:
os espasmos do desespero, os impulsos para a ação,
para a reversão do término desapareceram dando
lugar a uma aflição perene e silenciosa que, se não
esmagava como nos momentos imediatos ao rompi-
mento, também não cedia, não lhe abandonava por
um único segundo e contaminava qualquer pensa-
mento que lhe passasse na mente. A resignação era
difícil porque o remate não fora imposto pelo fado
cego, mas obrado pela própria estupidez. Isso per-
cebera ainda no shopping, talvez antes que Danie-
la anunciasse a decisão. Fosse alvo de injustiça da
garota, encontraria forças para suportar a perda,
teria em seu amparo o brio. Mas e agora? Da forma
como se dera o desenlace, contra si estava não so-
mente o brio, como também a maldita consciência.
Em todos os aspectos, a ruptura era-lhe prejudicial
e constituía autoflagelo conjeturar o que o futuro
lhe guardaria. A mente, entretanto, não se impor-
tava… Em primeiro lugar, Samuel teria de explicar,
a cada um dos vários parentes, a razão do término,
que não era senão a iniquidade que cometera con-
tra a menina. Padeceria sempre que remontasse os
fatos, como levasse violentas chicotadas. Depois, a
215Samuel
perda imediata do status que a belíssima garota ao
seu lado lhe conferia. Onde quer que pisasse com
Daniela, Samuel angariava respeito dos homens e
despertava curiosidade nas mulheres. Teria de ser
um idiota para não perceber que, agora, os olha-
res lhe não seriam direcionados da mesma maneira.
Agradava-lhe ser alvo de olhares reverentes, essa
era a verdade: sentia-se confiante. Mas tudo pas-
sado… E o pior era que se não perdoava, jamais se
perdoaria pelo futuro que não poderia viver. Essa
era a angústia mais forte: o que poderia ser e não
foi, a vida que poderia ter, o homem que se pode-
ria tornar e que, por um erro estúpido, por con-
trariar o que o pai sempre lhe dissera de não agir
impulsionado pela ira, atirara levianamente para o
ar. As palavras que dissera diante da ex-namora-
da e a mensagem que enviara lhe envergonhavam.
Não era, em verdade, digno de respeito nenhum da
garota, e seria ainda mais humilhante correr atrás
do que chegara ao fim. Um único ato de infâmia é
suficiente para condenar um caráter. E o que não
podia pensar, o que não podia sequer cogitar por
um único segundo, o que lhe ameaçava cravar um
punção para sempre no peito era o que, inexoravel-
mente, haveria de acontecer…
Durante as duas semanas que se seguiram ao tér-
mino, pois, Samuel viveu o terror de ser assaltado
incessantemente pela memória de Daniela. Jamais
experimentara tortura semelhante: era capaz de
controlar-lhe os atos, mas nunca, jamais a mente.
Com os pais ou no trabalho, já na segunda-feira lhes
216 Luciano Duarte
direcionava palavras serenas, se bem que lacônicas
e inexpressivas. Mas era absolutamente impotente,
absolutamente incapaz de rechaçar o filme que lhe
não saía da cabeça enquanto estivesse acordado,
fazendo aflorar-lhe a tristeza, o arrependimento,
porquanto o filme lhe atirava no rosto como fora
Daniela uma boa namorada, uma mulher de valor.
Os minutos corriam no trabalho, onde Samuel se
sentava e esperava, deixando o café, esse estimulan-
te inútil, a esfriar sobre a mesa, enquanto na mente
se lhe exibia a imagem fixa dos olhos de Daniela,
doces, mirando-o e sorrindo. Não havia cenário, e
a imagem era sempre idêntica: a linda garota, em
sorriso cândido, olhando-lhe nos olhos, olhando-
-lhe no interior da mente e ocupando-lhe todos os
pensamentos, preenchendo-lhe todos os sentimen-
tos e impedindo-lhe qualquer reação. A vonta-
de não era outra senão de chorar, senão de pedir
perdão por tudo quanto fizera e implorar por uma
segunda chance, implorar por ter novamente em
mãos o futuro que abandonara, a plenitude que só
seria possível em companhia da garota. E quando
o orgulho parecia acordar dizendo-lhe as reflexões
serem demasiado humilhantes, quando o racional
ameaçava conjeturar que Daniela, também, tinha
lá seus defeitos, então Samuel sentia-se derrotado
pela imagem fixa que seria a única que conseguiria
evocar de Daniela: a garota, carinhosa e ternamen-
te, mirando-o e sorrindo. Era impossível imaginar
qualquer outra coisa. Daniela jamais se lhe afigura-
ria em mente com feição desagradável. Assim, Sa-
217Samuel
muel levou alguns dias para se acostumar com as
chibatadas emocionais que tinha de suportar quan-
do não dormia. Convenceu-se que seria incapaz de
esquecer a garota.
Duas semanas, pois, correram quando, numa sex-
ta à noite, Samuel refletia e fumava à janela de seu
quarto. Observava o oiti solitário, à esquerda do
muro chapiscado fronteiro à sua casa, enquanto a
fumaça do cigarro de palha perdia-se no ar. Não
pôde deixar de julgar o oiti como a si mesmo: conde-
nado à morte desde sempre, abandonado ao envelhe-
cimento, rodeado do cinza em ambiente repleto de
grades, cercas cortantes, ameaças de um meio hostil.
Observando o estrago visual do emaranhado de fios
que pendia do poste mais próximo, da pintura des-
cascada da casa que ladeava o lote, Samuel recor-
dou-se com amargor de que já não tinha um único
amigo, ninguém para que pudesse ao menos desaba-
far-lhe o sofrimento, alguém que pudesse recorrer ao
afago. Na última conversa com Gutão, naquele dia
infeliz, descobrira a distância ter sufocado a amiza-
de que construíram: distância não somente pelo raro
convívio, mas também pela dessemelhança de cará-
ter. Contaria a Gutão do término? Piada, sarcástica
piada... Gutão tornara-se um imbecil festeiro, um
animal de ideia única, um sujeito nulo em profundi-
dade espiritual. Provavelmente faria chacota antes de
ensinar-lhe que a boa vida é a de solteiro, a alegria
são as comemorações em torno de nada, felicidade é
euforia irresponsável três ou quatro vezes por sema-
na, com doses e doses de álcool…
218 Luciano Duarte
Ainda fumando, Samuel tem o impulso de puxar
do bolso o celular. Abre instintivamente o seu perfil
numa rede social e dá de cara com a foto de Da-
niela, sorrindo e acompanhada, jantando a dois no
mesmo restaurante francês que a levara e, com ela,
viveu uma das melhores noites da sua vida.
219Samuel
Capítulo XXX
Samuel, diante da foto, sentiu que lhe afundavam
no peito um facão até o cabo. O choque foi tão
forte que soltou o celular e deixou-se tombar na
cama, desfalecido, contorcendo-se em contrações
violentíssimas, acometido por uma dor viva que lhe
esmagava todo o interior e arrancou-lhe do peito
um mugido grosso e surdo, como houvesse perdido
o ar. Fazia força, contraía-se como desejasse expul-
sar de dentro de si o agressor, contraía-se e girava
o tronco sobre a cama, quando lhe aplicou toda a
energia de uma só vez soltando um urro forte. O
esforço esgotou-lhe completamente e, tíbio, relaxou
de uma só vez todos os músculos do corpo, abrindo
220 Luciano Duarte
os braços sobre a cama, mirando fixamente o teto
do quarto. A agressão da luz aos olhos serviu de
centelha para que as lágrimas rompessem. E então,
com a feição de Daniela congelada em sua mente,
com a feição que acabara de fotografar estática e
permanente em seus pensamentos, rompeu a cho-
rar.
Após duas horas de apatia levantou-se da cama,
reuniu forças para passar a chave no quarto, de
onde jamais desejaria sair. Se Samuel olhasse a si
no espelho neste momento, vendo-lhe os olhos que
sangravam, encontraria diante de si um suicida: al-
guém cuja experiência terrena acabara. E não foi
outra coisa que lhe passou na cabeça: injetar dentro
de si um veneno potente, uma dose de mercúrio,
chumbo, qualquer coisa que lhe livrasse do terror.
Nem por um segundo pensou que fosse somente
uma ex-namorada, que não fosse sequer sua pri-
meira… A dor que experimentara era inédita, as-
sustava. Quando o peito parou de doer e o cérebro
voltou a funcionar veio-lhe o horror de tudo aquilo
que sentira, da dor física que lhe acometera violen-
tamente e que ninguém jamais acreditaria se con-
tasse. Uma força, talvez externa, agira diretamente
em seu corpo, agredindo-o. E a vergonha que expe-
rimentou sabendo-se trocado, vendo-se humilhado
a descoberto por Daniela gravou-se para sempre em
seu caráter.
Passando a chave na porta, apagou a luz do quar-
to e, apoiado na cabeceira da cama, acendeu novo
cigarro. Pelas três da manhã acabava com o maço
221Samuel
e deliberava precisar dormir com urgência, posto o
raciocínio do suicídio não lhe abandonasse. Estava
com medo, quase em delírio, e encostar no traves-
seiro fê-lo bem. Pelas seis da manhã, quando a clari-
dade invadia o quarto, apagou sem que percebesse.
Era meio-dia quando, num repelão violento, Sa-
muel despertou assustadíssimo. A cama estava en-
sopada. Samuel levantou-se, sentindo a camisa a
pregar no peito e a testa umedecida. Precisou de um
tempo para deixar o quarto e absorver o sonho que
tivera. No banheiro viu-lhe o aspecto horrível: pa-
recia um assassino, um sujeito hediondo e cruel, de
natureza incapaz de qualquer mostra de bondade.
Mirando-se ao espelho atestou: “Estou a ponto de
fazer uma bobagem”.
O sonho que tivera fora terrível: era exatamente
a memória do primeiro encontro com Daniela, ou
pelo menos das palavras que trocaram, dos olhares
que a menina lhe direcionara naquela noite. O ce-
nário era confuso, mesmo as falas se não apresen-
taram em sequência lógica. Mas sabia ser o dia do
primeiro encontro pelas sensações que experimen-
tara novamente, pela tensão que via dissipando-se,
pelo diálogo entusiasmado que nunca acabava e
pela intimidade que só fazia crescer. Enquanto con-
versava, imaginava-se galgando obstáculos, con-
quistando lentamente a confiança da garota. Cauto
conquanto tenso, a cada sorriso da menina conjetu-
rava se, naquela mesma noite, chegariam ao beijo.
O que de início parecera impossível paulatinamente
se fora afigurando como provável. Como era linda!
222 Luciano Duarte
Quase explodia de alegria só por estar, ali, conver-
sando com ela. E então a noite correra. Tudo exce-
dendo as expectativas. Quando chegara a conta as
mãos já se entrelaçavam por baixo da mesa. “Vou
beijá-la no carro” — convenceu-se. Então deixaram
o restaurante. Pelo caminho, a cada semáforo vira-
va-se à garota e encontrava-lhe na face o sorriso. A
mão saía da marcha para encontrar-se com a dela.
“Fecha, sinal! Fecha!” — parecia pedir a lograr vê-
-la melhor. Então fura um cruzamento e uma van
arrebenta-lhe a lateral do passageiro. Após a bati-
da, a fotografia da face ensanguentada e descom-
posta da mulher. Acordou.
O choque atordoou Samuel, fez-lhe o coração
palpitar. Levantou-se agitado, não sabia se havia
gritado no momento da colisão, não sabia sequer
por quanto tempo agonizara antes que acordasse,
visto a abundância de suor. A face de Daniela man-
tinha-se viva em sua mente.
Escovou os dentes, dirigiu-se à cozinha, encon-
trando-a vazia. Havia qualquer coisa de comida.
Tomou um copo de água gelada, negou o almoço
e saiu rumo à padaria, a comprar um maço de ci-
garro.
Pisou fora de casa, como costume, e olhou aos
dois lados antes de fechar o portão. A rua era am-
biente de ladrões. Enveredou à direita e, caminhan-
do, observava a monotonia do sábado. Na calçada
oposta, o bar fechado. Poucos carros estacionados.
Adiante uma caçamba de entulho, latas de cerveja
jogadas, e o sol do meio-dia agredindo-lhe a pele.
223Samuel
A padaria distava duas quadras da casa de Sa-
muel. Pronto chegou e, do limiar, pediu pelos ci-
garros de palha, junto ao caixa. O olhar assustado
do atendente lembrou-lhe não ter trocado a camisa
ensopada.
— Quero dois dessa marca aqui, ó… — apontou
Samuel para um maço na pequena vitrine.
O empregado, assentindo, puxou dois maços di-
ferentes e colocou diante de Samuel, passando a di-
gitar na caixa registradora. Imprimiu um cupom e
entregou ao jovem:
— Vinte e seis reais, amigo.
Samuel, irritado, olhou no fundo dos olhos do
homem, que não entendeu. Três segundos de silên-
cio.
— Eu pedi dois maços dessa marca aqui, ó —
repetiu Samuel, encostando o dedo com força no
vidro da vitrine e encarando novamente o caixa.
Entrou um homem na fila.
— Desculpa, amigo — disse o funcionário, sor-
rindo com ironia. — Mas não foi esse que você pe-
diu não. Você pediu o que eu te entreguei. Dois.
— Ah, foi?
Subiu-lhe a cólera.
— Foi.
Samuel puxou da bancada os dois maços.
— Mudei de ideia! — disse e atirou com toda for-
ça que pôde os dois maços no rosto do atendente.
— Seu palhaço! — bradou, deixando a padaria, pi-
sando forte.
O outro homem, coitado, tremeu com a fúria do
224 Luciano Duarte
jovem. E Samuel, fervendo de raiva, saiu da padaria
amaldiçoando o canalha do caixa, que simplesmen-
te lhe acusara de mentiroso.
A cólera durou cinquenta passos, quando Samuel
raciocinou sobre a própria estupidez, levando as
mãos à cabeça. Estava fora de si.
Na padaria seguinte, pediu por qualquer marca
de cigarro. A face já lhe não podia esboçar expres-
são. No caminho de volta a certeza: cometeria, em
breve, um ato de insanidade.
Entrou em casa. Encontrou o pai assistindo à te-
levisão. Caminhou até que chegasse bem próximo
do sofá. João Arnaldo virou-se. Calado, assustou-
-se do aspecto sombrio do filho, que disse apático,
quase em sussurro:
— Pai, preciso conversar.
João Arnaldo quedou de semblante fechado. A
mão esquerda tremeu sobre o braço do sofá. De
olhos fixos em Samuel, assentiu com a cabeça.
225Samuel
Capítulo XXXI
Foram, pai e filho, a um bar da região. O dia era
claro. Por volta de uma e meia da tarde, pois, am-
bos sentavam-se numa mesa externa do boteco.
O garçom, solicitado, abriu a primeira cerveja.
Após o brinde, João Arnaldo rompeu o silêncio:
— Que as nossas!
Samuel observava em redor antes de pôr-se a fa-
lar. Pai e filho eram circundados por mesas deso-
cupadas. O bar, àquele horário, via-se vazio: a des-
peito do calor, só deveria encher no final da tarde.
Uma árvore protegia-lhes do sol. Samuel começou
em voz baixa, olhando ao chão:
— Então… — João Arnaldo imediatamente mi-
226 Luciano Duarte
rou-o. — Estou a ponto de fazer uma bobagem.
O pai franziu o cenho:
— Bobagem?
— A Daniela terminou comigo.
O pai suspirou. Mulheres…
— Terminou comigo, após mais de um ano de
namoro — rutilaram-lhe os olhos — e agora está
com outro.
Samuel esfregou-lhe os olhos. Não choraria dian-
te do pai. Vergonha! Um gole de cerveja e a emenda:
— Como é que pode uma mulher ser tão abjeta,
tão miserável? Eu juro pra você, pai, se eu tives-
se, agora, uma arma, eu dava um tiro naquela des-
graçada! — Samuel disse e fechou o punho sobre a
mesa.
João Arnaldo tratou de acalmá-lo:
— Olha, Samu — as palavras saíram cadencia-
das. — O que eu te falo é que não adianta. Pode
ficar nervoso, brigar, dar o tiro, o que quiser. Mas
não adianta. Você lembra, da última vez, quando
conversamos?
Lembrava-se. Então o pai recordou-lhe o que dis-
sera na ocasião: a vida, para Daniela, era diferente.
Naturalmente apareceriam outras oportunidades e,
ainda que a culpa não fosse dela, o natural de um
namoro é terminar.
— E eu te falo uma coisa, Samu. Em mulheres,
em todas, o apelo moral é quase nulo ou, no míni-
mo, diferente. Você acredita, e eu te entendo, que
engatar com outro homem logo após o término é
uma falta de respeito. Eu te entendo e concordo.
227Samuel
Mas para ela, uma vez “terminado” o relaciona-
mento, ela encontra-se livre pra fazer o que quiser
e, mais do que isso, precisa de outra companhia pra
superar a sua ausência. Não há segredo. Essa é a
reação feminina universal.
Samuel fez que ia soltar qualquer palavra de ódio,
mas desistiu. O pai silenciou, tomou um gole de seu
copo e, vendo que o filho nada dizia, continuou:
— Sabe o que acontece, Samu? Acontece que
mulheres vêm e vão, e quando você encontra uma
que, na média, te agrada, então é hora de deixar de
procurar por outra melhor. Para o homem, é sa-
ber-se eternamente sujeito à traição e estar sempre
disposto a perder. Porém, você deve ser capaz de
oferecer algo que faça com que a mulher não queira
te trair, algo que a faça perder mais que você num
possível rompimento. A mulher não é infiel quando
teme a perda. Aí você me pergunta: por que os re-
lacionamentos falham? Essa é a questão mais sim-
ples do planeta: os relacionamentos falham porque
o homem busca, num relacionamento, estabilidade
emocional; já a mulher quer justamente o contrá-
rio: variedade e potência nas sensações. O homem
quer companhia e tranquilidade, a mulher quer
companhia e paixão. Em determinado momento, o
homem torna-se incapaz de satisfazer o desejo ines-
gotável da mulher e recebe, em troca, o pior veneno
para a própria satisfação. É assim e não adianta:
é burrice tentar brigar contra a natureza feminina.
Nem você, nem ninguém é capaz de vencê-la. A in-
satisfação avulta nelas o desejo de novas emoções
228 Luciano Duarte
com um vigor que supera tudo quanto foi construí-
do com o tempo: assim, o relacionamento acaba.
Periodicamente, ao menos enquanto não chega a
velhice, toda mulher tem esses arroubos infantis,
e brota-lhes a mesma aspiração fútil de liberdade
que destrói as relações. Então a mulher entedia-se,
passa a ver o companheiro como um sem graça, bri-
lha-lhe os olhos para o que poderia ter e não tem.
Todos os relacionamentos terminam pela mesma
razão. Por isso é indiferente que eu te pergunte o
que aconteceu antes ou depois, se vocês brigaram
ou não. Eu sei bem o motivo, já encarei esse motivo
algumas vezes e a única diferença entre os términos
que tive foi se a punhalada veio antes ou imediata-
mente depois.
Era a primeira vez que João Arnaldo falava sobre
outras mulheres com Samuel.
— Mas sabe o quê? — ia continuar, quando um
garçom aproximou-se. João Arnaldo pediu-lhe: —
Desce mais uma pra gente, chefe?
O simpático funcionário sorriu.
— Mas sabe o que, Samu? Eu tenho cinquenta e
seis anos de idade. A sua mãe foi uma bênção em
minha vida. Só que eu te falo o seguinte: enquanto
você não for capaz de blindar-se contra os sofri-
mentos emocionais que uma mulher pode lhe im-
pingir, você não encontrará a mulher da sua vida.
Parece haver qualquer sorte de instinto feminino
que, encontrando fraqueza, cutuca-a insistentemen-
te. De minha parte, eu só conheci sua mãe quando
eu deixei de me preocupar com as mulheres. Preo-
229Samuel
cupei-me em trabalhar, enriquecer, crescer no meu
emprego e comprar a nossa casa. Então as coisas
aconteceram. Eu fui criado, você sabe, na fazenda
do seu avô. Trabalhei desde os oito anos. Na roça,
eu não passei fome, mas nunca tive um centavo no
bolso. Quando o seu tio fez dezoito anos, arrumou
um emprego cá em Belo Horizonte e eu, com treze,
quis acompanhá-lo. De noite, eu ajudava o seu tio
com o que ele levava da empresa para casa e, de
dia, eu distribuía jornais. Naquela época o dinheiro
valia muito: em três anos seu tio comprou uma boa
casa e o pai veio pra cá também. Com dezessete eu
arrumei um emprego fixo e, só então, fui conhecer a
primeira mulher. Eu e o seu tio, quando o dinheiro
começou a sobrar, dávamos umas voltas pela cida-
de. A gente era novo, tinha algum dinheiro… Sem-
pre arrumava alguma coisa.
João Arnaldo pausou com a chegada do garçom.
Encheram-se os copos.
— Na minha vida, Samu, eu tive três namoradas,
sem contar a sua mãe. Você pode achar que são
poucas, mas pra minha geração não é. Três vezes,
pois, eu senti exatamente o que você tá sentindo,
experimentei todos os instintos agressivos que são
os piores e mais perigosos que um homem pode ex-
perimentar. Eu já fiz bobagem, não vou mentir. Eu
já fiz bobagem… Mas eu te falo o seguinte: hoje,
olhando para trás, vendo de onde eu saí e onde
eu estou, vendo tudo o que eu construí com a sua
mãe, essas mulheres pra mim não foram nada. E se
eu pudesse voltar no tempo e falar comigo mesmo
230 Luciano Duarte
quando me subiu a primeira revolta pós-término, eu
diria simplesmente: “Essas mulheres não são nada,
você é maior que todas elas”. E isso é exatamente
o que eu te falo, Samu. Olhe pra você mesmo, olhe
pro que você já conquistou, pro futuro que te espe-
ra e todas as possibilidades que estão abertas diante
de você: você é inteligente, sensato e trabalhador.
Você já tem carro… Eu só fui ter o primeiro carro
com trinta e dois anos… O que você precisa é res-
ponder: você é ou não maior que essa mulher? Você
vai deixar uma mulher te derrubar ou vai passar por
cima dela? Qual a postura de um homem? Imagine
se eu tivesse sucumbido no meu primeiro término,
quando eu trabalhava quinze horas por dia… Ima-
gine se uma mulher tivesse me derrubado, quando
morreu o seu outro tio, que você nem conheceu…
O pai calou-se por alguns segundos. Samuel, en-
tão, perguntou-lhe:
— Que bobagem você fez?
O semblante de João Arnaldo fechou. Ele pensou
por alguns segundos e respondeu tão somente:
— Uma vez, eu mandei um cara pro hospital.
O filho entendeu. Subitamente, começou a cho-
ver. Como era costume, encaminharam-se ambos
para dentro do bar, carregando a garrafa de cerve-
ja e os respectivos copos. Sentaram-se num banco
alto. Apoiados numa bancada, então, continuaram
a conversa. Samuel via-se calado e pensativo desde
que o pai pusera-se a falar. João Arnaldo indagou-
-lhe do silêncio.
— Você tem razão, pai. Tudo o que você disse
231Samuel
tá certo. Eu não tenho nada a dizer ou acrescentar.
Você abriu minha cabeça.
E o pai, satisfeito, continuou a falar no ambiente
cuja claridade fora expulsa pelas nuvens:
— Algumas coisas a gente só aprende vivendo.
Não vou dizer que términos são fáceis, o que digo
é que eles passam uma falsa impressão de impor-
tância. Peça ao seu avô para te contar a história
de vida dele e você o verá falando por horas sem
mencionar uma única mulher que não seja a sua
avó. Você acha que ele não viveu exatamente o
mesmo que você, que nós? É claro que viveu. Mas,
com o tempo, isso perde o valor… — João Arnal-
do fez sinal de cerveja ao garçom. — E eu vou te
falar uma coisa, Samu. Após o término, é sempre
a mesma história: primeiro, a sensação horrível do
vazio. Depois de muito tempo em contato frequen-
te com alguém, o rompimento expõe um buraco.
Parece a vida perder o sentido, mas a verdade é que
o tempo dedicado à outra pessoa ou com a outra
pessoa nos dá também uma falsa sensação de im-
portância. Além disso, a perda do afeto, o orgulho
ferido. O orgulho ferido é o pior… principalmente
porque o homem, logo após o término, sente-se in-
capaz de conquistar outra mulher do mesmo nível
e tem de encarar a duríssima rejeição social, que é a
coisa mais natural do universo. Um agravante pode
ser o distanciamento dos amigos gerado, também,
pelo longo tempo de namoro. Assim, impotente e
desanimado, tomado pelo vácuo, o homem passa
alguns dias. O arrependimento bate várias vezes, a
232 Luciano Duarte
consciência não dá trégua. Então o homem desco-
bre a ex-mulher estar com outro, e isso atinge com a
maior violência possível o seu brio. Nesse momento
a consciência se dissipa, levando consigo a razão,
e o homem é capaz de tudo. Os piores instintos
masculinos são provenientes desse tipo de situação,
vários dos piores crimes são cometidos em razão
do orgulho ferido. Se, porém, o homem consegue
vencer essa agressão duríssima sem fazer bobagem,
ele amadurece.
O garçom entregou-lhes nova cerveja. João Ar-
naldo agradeceu e retomou:
— Essa coisa a que chamamos consciência é nos-
sa única virtude. Por um lado, ela nos irrita. Pode
ter certeza que você irá arrepender-se inúmeras ve-
zes de ter deixado o seu relacionamento morrer. E
pode ter certeza que você nunca mais irá esquecer
essa menina. Nunca mais. Você pode não falar dela
para os outros, mas ela jamais deixará a sua men-
te. Por outro lado, é justamente a consciência que
nos dá qualquer dimensão moral. Não existe cará-
ter sem consciência, nem bondade, nem compaixão,
nem temperança… E é justamente na consciência
que você deve se apegar: na força que você teve pra
controlar os seus impulsos mais selvagens. Assim
você vencerá esse término e, dá uma olhada…
Uma bela garota passou diante da entrada do bar.
Caminhando jeitosa, de guarda-chuva em mãos.
— O Brasil tem mais mulher do que árvore — fi-
nalizou João Arnaldo, sorrindo; Samuel, em respos-
ta, também sorriu.
233Samuel
O assunto havia-se esgotado. As palavras do pai
dissiparam de vez toda a agressividade concentrada
no interior de Samuel. Como o pai era-lhe agradá-
vel! Que ponto de apoio possuía! E assim, ambos
passaram a conversar sobre outros assuntos. Em
pouco, o álcool arrebatou em Samuel a gratidão
que nutria pelo pai, já visivelmente enfraquecido
pela idade. Nada lhe disse. Em determinado mo-
mento da tarde, porém, João Arnaldo saiu para o
banheiro e Samuel, acompanhando-lhe com a vista,
sentiu brotarem duas lágrimas dos olhos. Foi só.
Pelas sete da noite o bar enchia e expulsava os
clientes da tarde. João Arnaldo, ébrio, esqueceu-se
dos próprios conselhos de sempre e pediu que o fi-
lho guiasse. Foi entrar no carro e assaltar Samuel a
memória do acidente. Estava bêbado. Então, com
atenção e cautela extremas, percorreu as ruas da
capital. Devagar e temeroso, passava marchas com
a batida na cabeça. O pai falava sobre qualquer coi-
sa. Não parava de falar! E, a cada cruzamento, a
tensão. Mas não houve infortúnio. Em quinze mi-
nutos Samuel estacionava na garagem de sua casa…
235Samuel
Capítulo XXXII
Durante o restante do sábado, Samuel ficou em
seu quarto, a digerir as numerosas palavras do pai.
Ora fumando, ora sentado na cama, deixou que
o efeito do álcool desvanecesse ruminando ideias,
convencendo-se. A bem dizer: o pai tinha razão em
tudo. E seria vergonhoso que Samuel sucumbisse
a um simples término. O inferno para a medíocre
Daniela, garota reles!… Ela era quem perdia. Ficas-
se com quantos quisesse, tocasse a vida. Mulheres
haviam outras, várias…
Samuel teve o feliz impulso de abrir o aplicativo
do banco no celular, o tradicional Home Broker,
então encontrou o deleite que precisava: ali estava
236 Luciano Duarte
quanto construíra do zero em anos de trabalho; ali
lhe residia o orgulho, o retrato do próprio valor em
números que só cresciam com o tempo. Alegrou-se:
era um grande homem.
Então Samuel, que havia perdido o almoço, jan-
tou. Tomou um banho pelas dez e meia da noite e
deitou-se para dormir. Dirigira bêbado e nada acon-
tecera. Talvez fosse a proteção divina que atuara
novamente, colocando as palavras certas na boca
do pai e finalmente lhe iluminou as ideias… Havia,
somente, de agradecer.
Domingo apático. Samuel, desde a manhã, assis-
tindo a filmes e recuperando-se da bebida do dia
anterior. Acordou, porém, aliviado: a conversa com
o pai fora profícua, já não sentia o despeito lhe cor-
rendo pelas veias; nada de frustração aguda, nem
de irritação. Foi quando, pela primeira vez em duas
semanas, pensou no trabalho.
O trabalho…
Rompeu a segunda-feira. Samuel chegou na em-
presa, ligou o computador e ficou a meditar. Abriu-
-lhe a gaveta e percebeu o próprio desleixo das
últimas semanas. Era como se não houvesse traba-
lhado. Quinze minutos após o sinal, deixa sua sala
a buscar café, deliberando dar uma breve olhada no
setor. Eis a surpresa: da equipe de quatro vendedo-
res, três faltavam. “Como assim?” — perguntou-se.
Então, do limiar da sala praticamente desocupada,
dirigiu-se à vendedora solitária:
— Bom dia, Flávia. O pessoal…? — falou apon-
tando às mesas vazias.
237Samuel
E a mulher:
— Ninguém chegou ainda não, Samuel.
— Beleza — disse-lhe e saiu, pensando: “Isso vai
dar problema…”.
Tornou à própria sala. Era agir, sabendo-se o
culpado. “Um líder não pode dar tréguas. Um se-
gundo de desatenção e eis o prêmio” — ruminava,
orçando como estaria o prognóstico para as vendas
naquela semana, coisa que nem sequer lhe passava
pela cabeça. Já esperava o pior.
Mas Samuel, com a experiência que possuía, sabia
essas situações resolverem-se com trabalho. Duas
semanas pífias, paciência… Era trabalhar pela re-
cuperação, sem choro. Pois se entupiu de café pela
manhã e analisou detalhadamente os resultados, as
atividades das últimas semanas, a distância para
com os benchmarkings estipulados. Percebeu-se
não só distante, como viu que os vendedores acom-
panharam-lhe a apatia no trabalho. O mês era o
pior da empresa nos últimos dois anos…
Decepcionado, resolveu dar uma bronca em todo
o setor. Conferiu o relógio de ponto e deparou-se
com os atrasos que já se haviam tornado rotina en-
tre os vendedores. Era quase meio-dia e um deles
não chegara, outro chegara há pouco, e o terceiro
pelas nove da manhã. “Vou acabar com eles…” —
pensava, quando toca o telefone.
— Top Jet, Samuel. Pois não?
Era Valmir. Solicitava-lhe a presença. “Agora
azedou…” — levantou-se e rumou à sala do dire-
tor. No caminho, ainda pôde atravessar o vidro da
238 Luciano Duarte
sala contígua com um olhar repreensivo que calou
imediatamente o burburinho entre a equipe de ven-
das.
Bom-dia ao chefe e sentou-se. Silêncio e olhares
graves. Então Valmir abriu os braços:
— O que é que tá acontecendo, Samuel?
Samuel baixou a vista, meneando negativamente
a cabeça. Valmir repetiu:
— Tá acontecendo alguma coisa? — e virando
o notebook: — Olha aqui: isso não paga a folha…
Desse jeito não dá!
O gerente arriscou o argumento automático:
— Bom, Valmir…
Mas foi atalhado:
— Bom nada, Samuel! — e engrossando a voz: —
Tá péssimo! Péssimo! Um mês assim destrói o caixa
da empresa. Você tá precisando de alguma coisa?
Hein?! Eu quero entender. Eu quero entender como
é que — enfatizou — você deixou isso acontecer.
Samuel, nervoso, continuava a menear a cabeça.
Não tinha forças para olhar ao chefe.
— Descul…
— Desculpa não, Samuel. Desculpa, pra isso,
não funciona. Um resultado desse arrisca a saúde
da empresa. Primeiro, eu quero o motivo claro, e
depois, a gente vai discutir quem vai ser desligado.
Silêncio. Valmir sentiu que exagerava, não lhe era
o tom habitual. Encontrou, demais, a indignação
nos olhos rútilos de Samuel. Então se levantou sem
dizer uma palavra. Buscou um copo de água e sen-
tou-se novamente. Tempo para que Samuel articu-
239Samuel
lasse as ideias. Disse pela terceira vez, agora em tom
brando:
— Aconteceu alguma coisa?
Samuel respirou fundo e então lhe explicou:
— Bom, Valmir. A culpa é minha: só isso eu pos-
so te dizer. Peço desculpas. É o que cabe a mim.
Toda a responsabilidade pelos últimos resultados é
minha: eu não fui eu mesmo por duas semanas. Sin-
to vergonha de dizer, mas isso aconteceu porque a
minha namorada terminou comigo após um ano…
— Valmir baixou as orelhas. — Pode ser pouco,
nada, mas eu não consegui pensar em outra coisa,
não consegui me concentrar e não consegui geren-
ciar o setor. Em seguida, descobri que minha ex-na-
morada estava… — desgosto! — estava saindo com
outro. Eu não tenho outra justificativa. É somente
isso: fui antiprofissional.
Após o discurso, silêncio. Valmir alisava o copo
de plástico com o dedo, como ruminasse. Levou a
mão a cabeça e, em expressão negativa, olhou nos
olhos do gerente:
— Samuel, você tem quase cinco anos de casa,
cara… Por que você não falou?
Samuel não entendeu.
— Olha. Esquece tudo o que eu te falei hoje. Você
tá bem, agora? Já resolveu o problema com a sua
ex-namorada? Já consegue trabalhar?
— Já.
— Então tá bom. Agora presta atenção no seguin-
te: se te acontecer alguma coisa, Samuel, você tem
que falar. Você tem que falar, cara. Você não tira
240 Luciano Duarte
férias há dois anos. Se não tá bem, pede uns dias,
avisa. Mas o que não pode acontecer é isso: você
não falar nada e puxar a empresa para o buraco
com você. Se você tivesse falado, a gente dava um
jeito… Mas olha isso aqui… — e mostrou nova-
mente os gráficos na tela do notebook.
Valmir estalou a língua, em gesto indulgente com
ambas as mãos.
— Agora paciência… É trabalhar. Volta pra sua
sala e amanhã a gente senta pra resolver o que fazer.
Samuel assentiu com a cabeça. Não havia que
agradecer, era agir. E enquanto tornava à própria
sala, refletiu que jamais teria um chefe como Val-
mir. Retribuiria o voto de confiança e a transigên-
cia do diretor.
Almoçou rapidamente ruminando o plano que
poria de imediato em execução. Tornou do almoço
e passou a analisar, um por um, o desempenho de
seus vendedores: um teria de pagar a conta do des-
leixo geral do setor…
Foi quando, às três e quarenta e cinco da tarde,
tocou-lhe o celular. Era Raimundo, o tio Raimun-
do. “Que seria? O tio raramente o chamava…”.
Então colocou o aparelho em contato com o ouvido
e escutou a voz fúnebre:
— Samu… — o tio suspirou e soltou de uma vez:
— O seu pai foi assaltado, resistiu e levou um tiro.
E o remate:
— Ele tá na UTI do hospital.
A verdadeira desgraça chegava para Samuel.
241Samuel
Capítulo XXXIII
Logo teve a notícia, Samuel deixou a empresa
em disparada. Honrosamente informou Valmir da
tragédia, deixando-o estupefato com seu profissio-
nalismo.
No carro, a agonia se manifestou na condução
agressiva, nas buzinadas e no pisca-alerta ligado:
Samuel furou continuamente os semáforos. Deses-
perado, gritava pela janela para que os motoristas
abrissem o caminho.
Chegou no hospital. Estavam reunidos numa sala
de espera o tio Raimundo e a tia Judite, soturnos.
A tia apoiava um lenço sobre o nariz. Avistando
Samuel, Raimundo levantou-se. Esperou que o so-
242 Luciano Duarte
brinho chegasse e então o recebeu com um abraço
apertado. Samuel, desvencilhando-se, perguntou
antes que cumprimentasse a tia:
— Como ele tá?
Raimundo gravemente respondeu-lhe:
— Inconsciente.
Samuel levou as duas mão à cabeça, meneando-a
negativamente.
— Como isso foi acontecer? — perguntou, incon-
formado.
O tio pediu que o sobrinho sentasse, acalmasse.
Conduziu-o, sentou-lhe ao lado e cuidou para que
as palavras saíssem brandas:
— O seu pai saiu para comprar umas pimentas, a
pé, no Mercado Central — Samuel ouvia assustado.
— Na volta, desceu do ônibus e, a três quadras de
sua casa, conversava ao celular, quando foi abor-
dado por dois motoqueiros. O da garupa desceu,
apontou-lhe um revólver e pediu celular e carteira.
O Naldo, segundo disseram, recusou-se a entregar.
Houve qualquer gritaria em redor, e o assaltante
pôs-se tenso. Tentou tomar à força o celular da
mão de seu pai, que reagiu lhe empurrando. Então
o homem meteu-lhe uma bala próxima ao peito, to-
mou-lhe quanto tinha e fugiu. O disparo assustou o
comércio, e um senhor de uma farmácia prestou os
primeiros socorros. Chamaram o SAMU, evacua-
ram a área… Muita gente viu o que aconteceu…
Samuel não piscava. Subitamente baixou a cabe-
ça e apoiou-se numa mão, que lhe tapava a boca.
Estava com medo.
243Samuel
Então chegou a mãe, em prantos, acompanhada
dos avós. Samuel levantou-se e foi abraçá-la. Maria
Elvira apoiou-lhe a cabeça no peito do filho e sus-
surrou:
— Uma desgraça, Samu. Uma desgraça…
Samuel, então, conduziu a mãe e os avós a uma
cadeira, e passou a fazer o que o instinto lhe orde-
nou:
— O meu pai vai sair dessa — dizia. — Vai dar
certo. Deus vai tirar ele dessa.
E a família, em silêncio, agonizava enquanto o
cirurgião responsável lhes não informava a situação
de João Arnaldo.
Na sala de espera o ambiente comum, o ambien-
te terrível de todo hospital. Olhos aflitos passando
de um lado para o outro, alguma conversa baixa,
uma televisão ligada e eventualmente uma maca em
disparada pelos corredores. Todas as direções co-
bertas de verde. De uma pequena recepção, nomes
eram convocados. Volta e meia aparecia um médico
de touca, máscara e luvas, e chamava alguém para
uma conversa.
Enquanto Samuel observava com desgosto os de-
talhes daquele lugar que já frequentara no passado,
passou a conjeturar os possíveis reflexos do desas-
tre. A mãe segurava-lhe a mão, silenciosa. Na cabe-
ça de Samuel a pergunta: “E se meu pai morrer?”.
Pensou e sentiu os olhos vidrarem. “Meu pai não
vai morrer!” — repetiu a si mesmo. Mas se mor-
resse, se não resistisse ao tiro covarde de que fora
alvo, Samuel teria de honrá-lo. Era o mínimo. Ser
244 Luciano Duarte
homem, amparar a família. Mas não podia pensar
por muito tempo na hipótese: o abandono repentino,
sem despedida, quando ainda havia muito que viver,
era intolerável. O pai haveria de sobreviver, Deus…
Deus! Deus salvaria o seu pai, o seu honrado e admi-
rável pai, que lhe ensinara desde pequeno a rezar, que
lhe batizara na Igreja Católica, que lhe dera por toda a
vida o exemplo da virtude… Assim como Deus atuara
na ocasião do acidente, far-se-ia presente desta vez. O
pai merecia, merecia mais do que qualquer outro.
Apontou no lado oposto da sala o cirurgião-che-
fe. Samuel percebeu por ver o tio ajeitar-se na ca-
deira, erguendo o tronco. O doutor aproximou-se
segurando uma prancheta; nos olhos, não lhe havia
emoção. Então, vendo que o médico caminhava mi-
rando-o, Raimundo levantou-se. Já próximo, ape-
nas com um gesto de cabeça o doutor solicitou que
o seguisse. Raimundo tocou no ombro de Samuel:
— Vamos.
Samuel pôs-se de pé e seguiu, com o tio, o mé-
dico, que enveredou por um corredor e caminhou
o suficiente para que saísse do campo de visão das
outras pessoas. A sós, o doutor estacou e disse-lhes,
ali mesmo no corredor:
— Você é o filho? — perguntou a Samuel, que as-
sentiu com a cabeça. — Pois bem. O quadro clínico
do paciente é grave. A bala atingiu-lhe o fígado. O
quadro é de choque hemorrágico. Estamos tentan-
do controlar-lhe a instabilidade fisiológica, mas eu
preciso de autorização para proceder com o trans-
plante hepático.
245Samuel
O doutor calou-se, em olhar interrogativo.
— Como? — perguntou-lhe Raimundo.
— Não é possível recuperar o fígado do paciente.
A solução é proceder com a intervenção cirúrgica
e intentar o transplante. Notei que vocês não pos-
suem convênio. Preciso da confirmação para pros-
seguir. Preciso que vocês assinem o termo de ciência
e consentimento.
Raimundo finalmente entendeu.
— Por quanto sai o processo, doutor?
— Preciso verificar a disponibilidade no banco de
órgãos. Em geral, trezentos e cinquenta mil reais.
— Trezentos e cinquenta mil? — Raimundo exal-
tou-se.
O doutor confirmou-lhe. Então tio e sobrinho
entreolharam-se. Não havia o dinheiro. O médico,
percebendo que os familiares teriam de discutir, re-
forçou:
— O caso é urgente. Eu preciso de breve resp…
— Qual a chance do transplante dar certo? — in-
terrompeu-lhe Samuel.
— Depende de quão rápido iniciarmos a inter-
venção — disse o médico. — O transplante dura de
seis a oito horas. O sucesso depende de sustentar-
mos o quadro do paciente.
Breve silêncio e o doutor remata:
— Vou deixar vocês discutirem, enquanto eu con-
sulto o banco de órgãos. Em dez minutos retorno e
preciso da resposta.
Virando-se, o médico deixou tio e sobrinho a sós.
Raimundo verbalizou-lhe o sofrimento:
246 Luciano Duarte
— Não tenho esse dinheiro.
Era o pior dia da vida de ambos.
— Quanto você tem? — Samuel perguntou ao tio.
— Que eu consigo juntar de imediato, uns cin-
quenta mil, no máximo.
E Samuel:
— Eu tenho uns duzentos. O resto eu consigo fi-
nanciar pelo banco.
A resolução brilhou nos olhos do jovem. Samuel
deixou imediatamente o hospital, ficando a cargo
de Raimundo amparar a família e confirmar a ci-
rurgia ao doutor. Combinaram não revelar aos fa-
miliares a situação do infeliz João Arnaldo.
Samuel dirigiu-se à agência bancária. Conhecia
o gerente por telefone. Entrou como um raio, sem
pegar senha e ativando os detectores de metais. O
segurança abordou-lhe e antes que abrisse a boca
Samuel puxou-lhe pelo colete e disse alto, no meio
da agência:
— Por favor, chame o Flávio. O meu pai tá na
UTI e eu preciso de uma liberação de crédito agora!
O segurança assustou-se, mas se condoeu da afli-
ção que suplicava.
Em dois minutos Samuel sentou diante do gerente
do banco. Assinou a papelada confirmando o res-
gate imediato de todos os seus ativos e comprome-
tendo-se num empréstimo de cento e vinte mil reais.
A operação foi confirmada em segundos. O saldo
lhe estaria disponível no dia seguinte.
— Tá feito — participou-lhe o gerente.
— É só isso?
247Samuel
— É.
Samuel agradeceu, virou-se e deixou a agência,
alvo de olhares compadecidos.
Entrando no carro, sacou o celular. Abriu-lhe o
Home Broker e confirmou: não tinha mais nada,
nem um centavo aplicado sob a custódia do banco.
Apoiou a cabeça no volante e desatou a chorar.
249Samuel
Capítulo XXXIV
A cirurgia de João Arnaldo fora marcada para a
manhã do dia imediato. Já era noite quando, sob
o pretexto de deixar em casa os pais, Raimundo
abandonou o hospital levando junto de si a esposa.
Tomaria um banho, descansaria o que pudesse e
tornaria ao amanhecer. Propôs a Samuel um rodí-
zio, e ouviu do jovem que não deixaria o hospital
enquanto não houvesse melhora do pai. A resposta
saiu num rasgo e o tio, a evitar irritá-lo, não discu-
tiu. Antes que deixasse o hospital, porém, arriscou
convencer Maria Elvira a tomar um banho, mas
esta não desgrudava por nada de Samuel. Mãe e
filho, pois, passaram o restante da terrível segunda-
250 Luciano Duarte
-feira na desconfortável cadeira do hospital.
Maria Elvira, pouco depois que os cunhados saí-
ram, cochilou sob o ombro de Samuel, que lhe per-
cebeu a fraqueza, o sofrimento talvez ainda mais
pungente que o próprio, se fosse possível… Os pais
já haviam passado das bodas de prata: a mãe, em
especial, não tinha muito mais do que o marido e o
filho. Do interior, deixara a família cedo. Os quase
setecentos quilômetros trataram de fazer rarear o
contato, e mesmo Samuel praticamente não tinha
apego à família materna, visto a raríssima convi-
vência ao longo de seus vinte e sete anos. A mãe
chorara muito, via-se fraca, acuada, parecia sofrer
quando o filho levantava-se para esticar o corpo,
beber água ou qualquer outra ação que lhes rom-
pesse o contato. De resto, não lhe largava o bra-
ço. E Samuel, sentindo a respiração da mãe colada
ao seu corpo enquanto dormia, convenceu-se a ser,
para ela, o ponto de apoio. O que sofresse, o que
sofria, que ficasse dentro de si. “Não vou mais cho-
rar” — decidiu.
Pouco antes das onze da noite, Maria Elvira des-
pertou. Samuel persuadiu-a a comerem qualquer
coisa no refeitório do hospital. Há muito que não
se alimentavam… A mãe acedeu.
Então foram ambos em passos lentos e desani-
mados. O refeitório não era ruim, pelo contrário:
havia boa variedade de lanches e pratos feitos. Es-
colheram o que lhes pareceu melhor. Samuel pas-
sou o cartão e sentaram-se, a esperar. Maria Elvira
então virou-se ao filho, mirou-o nos olhos e, quan-
251Samuel
do abria a boca para perguntá-lo, desistiu. Tornou
o olhar para a mesa, a ruminar melhor as palavras.
Samuel imaginou o que a mãe lhe indagaria. Em
alguns minutos, a pergunta quase inaudível, como
que direcionada para a mesa:
— A operação vai dar certo?
E Samuel, após alguns segundos de ponderação:
— Vai dar certo — disse e tomou-lhe a mão.
“Posso muito bem ter acabado de mentir” — ati-
rou-lhe a consciência infame. E a verdade é que Sa-
muel, ele mesmo, não sabia em que acreditar. O ci-
rurgião-chefe, sucinto como uma máquina, não quis
comprometer-se, sequer lhe explicou em detalhes a
situação do pai, os riscos da operação, as chances
de sucesso. Era profissional. Oh, grande profissio-
nal! E agora a mãe perguntava-lhe o que não sabia
responder. Paciência… Era obrigação afagar a dor
intensa que a pobre mulher sentia. Se a mentira fos-
se necessária, mentiria. A mãe não merecia sofrer
em medida maior…
Chegaram os pratos. Comeram. Então voltaram
para a mesma sala de espera e tornaram a velar.
Não haveria novidades pela madrugada. Com a
nuca apoiada na parede, Samuel alternou cochilos
e olhares ao corredor. Enquanto acordado, rezava.
Nunca lhe fora costume rezar, mas agora rezava.
Contudo a maldita televisão obrou, por toda a noi-
te, para interromper-lhe as preces…
Sete da manhã tornava a família, dessa vez com-
pleta, com os dois primos ausentes na véspera.
Após os abraços emotivos Raimundo, sentindo-se
252 Luciano Duarte
extremamente culpado pela ausência, tratou de in-
jetar-lhes motivação. A operação vingaria! Após o
almoço teriam boas-novas! E ao sobrinho, em par-
ticular, disse ter conseguido reunir a sua parte da
cirurgia.
Raimundo logrou, com muita insistência, con-
vencer Samuel e Maria Elvira a tomar o café da ma-
nhã em uma padaria ao lado do hospital. Samuel
exigiu ficasse alguém a esperar novas do doutor.
Quedaram os primos e avós. Assim, de olhos cavos
envoltos em olheiras visíveis, o jovem anuiu à ideia
do tio e tomou um robusto café da manhã.
Em trinta minutos, tornaram ao hospital. Rece-
beram a notícia da boca do cirurgião-chefe de que
o procedimento cirúrgico seria executado. A pape-
lada havia sido assinada por Raimundo na véspera.
Agora era rezar.
Judite passou a falar dos casos que sabia de trans-
plante de órgãos. Nunca ouvira falar de complica-
ções. O marido de uma conhecida precisara trans-
plantar o rim e tudo correra perfeitamente. Era
caro, isso era, mas a medicina era competente. Ten-
tou orçar quantas vezes aquele cirurgião já fizera o
mesmíssimo procedimento. Era tudo auxiliado por
computadores, sensores, vários outros médicos em
vigia. A precisão cirúrgica era admirável…
Não precisou de muito para que Samuel se irri-
tasse. Tomado pelo mau humor resultante da pés-
sima noite de sono, desejou que alguém tapasse a
boca da tia. Mas haveria pior…
Subitamente, João Manoel sentou-se ao lado do
253Samuel
neto e rompeu a falar com entusiasmo. A atitude do
avô assombrou Samuel. O velho começou dizendo
frases sem nexo, desconectadas umas das outras,
e Samuel estranhou-lhe a entonação, o gesticular.
Então o velho, sorrindo — sorrindo! — passou a
contar casos. Explicou a Samuel como construiu,
sozinho, o estábulo da própria fazenda, como fizera
o dimensionamento e calculara os ângulos de corte
para as vigas de madeira… toda a estrutura fora fei-
ta em base de encaixes. Depois contou ao neto de-
talhadamente sobre a construção da cisterna da fa-
zenda, quando o Raimundo já era nascido. Samuel
não acreditava, não podia acreditar no que estava
ouvindo. Era uma falta de respeito o avô, em meio
à tão severa agonia, falar como costumava fazer nas
reuniões de família. João Manoel falava e parecia as
palavras atropelarem-se umas às outras; por vezes
faltava-lhe a respiração. E o neto, estupefato, não
reuniu coragem para pedir encarecidamente que o
velho calasse a boca. Foi que João Manoel contou-
-lhe, em tom jocoso, da vez em que ele e Raimundo
foram pegos em flagrante roubando mangas da fa-
zenda do vizinho. Contou e brotou-lhe a vil garga-
lhada. Samuel levantou-se e pôs-se a caminhar, do
contrário enforcaria o avô com as mãos.
Raimundo, que não ouvira o palavrório do pai,
percebeu imediatamente a fúria nos olhos de Sa-
muel e, erguendo-se, encontrou o sorriso infame
na face de João Manoel. Abandonou-lhe a cadeira
e imediatamente sentou ao lado do velho. “O pai
perdeu o juízo” — certificou-se com tristeza vendo
254 Luciano Duarte
que João Manoel se não havia atinado para a ofen-
sa que cometera.
Essa ação tratou de liquidar o forçado otimismo
da família. Não chegara o meio-dia e ninguém mais
falava. De mãos dadas à mãe e longe do avô, Samuel
rezava pelo pai, agonizando, forçando-se a não ex-
teriorizar um único rasto do sentimento atroz que
lhe rasgava por dentro. Tinha medo. Mas o pai não
poderia morrer, não daquele jeito, não das mãos
de um ladrão covarde e infame, de um vagabundo
que lhe atirara por um celular. E via como, mais
uma vez, o pai poderia dar-lhe um exemplo de for-
ça. Por toda a sua vida, sempre que precisara, lá
estava o homem amparando-lhe, aconselhando-lhe,
guiando-lhe pelo melhor caminho. E quando lhe
confidenciara os problemas, sempre obtivera em re-
torno a sensata solução. O pai parecia versado em
todos os assuntos, parecia dotado de uma experiên-
cia milenar. O denso bigode, o feitio solene… a voz
cavernosa, penetrante, que lhe gravara para sempre
tantos conselhos na cabeça… o homem represen-
tava a virtude, a temperança e a bondade. Sempre,
sempre disponível e sempre ao seu lado desde que
nascera. E jamais tivera a oportunidade de lhe agra-
decer…
Uma da tarde e aproxima-se o cirurgião-chefe da
família. Solicita com a cabeça a presença de Samuel
e Raimundo. Repetindo a ação da véspera, condu-
ziu-lhes ao corredor. Sem a menor cerimônia, anun-
ciou-lhes:
— O paciente faleceu.
255Samuel
Capítulo XXXV
O velório foi marcado para o dia seguinte. Rai-
mundo tratou dos trâmites funerários. Foi ele, tam-
bém, a informar o restante da família do falecimen-
to do irmão.
Samuel, ao receber a infausta notícia, rompeu
em choro forte diante do doutor e sentou-se ali
mesmo, no chão do corredor, pedindo ao tio que
o deixasse. Quando, então, lembrou-se da mãe,
pensando no desmoronamento que a nova lhe
causaria. Levantou-se, limpando as lágrimas do
rosto e lutando contra os soluços que não deixa-
vam de romper. Encontrou os familiares em pran-
tos. Apegou-se à Maria Elvira e não disse uma
256 Luciano Duarte
única palavra enquanto permaneceu no hospital.
A família estendeu-se unida à casa de Samuel.
Raimundo teve de deixá-los para resolver as buro-
cracias funerárias. Pediu aos filhos que amparassem
a todos e estes, honrosamente, fizeram o que lhes foi
possível. Assim, pela tarde, sentados na sala de es-
tar viam-se os avós, num sofá; Samuel, com a mãe,
no adjacente; e Judite logo ao lado, numa cadei-
ra buscada da cozinha. Vinícius e Julinho viam-se
sempre de pé: pediram comida, forçaram todos a se
alimentar… Mas reinava na casa o silêncio e a dor.
Pelas quatro tornava Raimundo. E saiu nova-
mente a deixar-lhe os pais em casa. Deliberou, po-
rém, que os restantes pernoitassem ali, na casa de
Samuel. Então Julinho, o caçula, tratou de buscar
roupas limpas para toda a família. No dia seguin-
te, almoçaram e partiram juntos ao velório de João
Arnaldo.
Difícil dizer o que Samuel experimentou nesta
terça-feira que foi a pior de toda a sua vida. Quan-
do passaram as primeiras horas de choro intenso e
dor violenta, o cérebro passou a funcionar. Samuel
sentia necessidade de encontrar justificativa para o
falecimento do pai, necessitava convencer-se de que
houvera motivo, de que havia sentido na morte.
Vontade de Deus? Mas por que matá-lo daquela
maneira, pelas mãos de um ladrão covarde? Não
conseguia entender… E se a missão do pai na terra
houvera acabado, se Deus lhe requisitava a presença
no céu, por que não concedê-lo derradeiro momen-
to digno da própria obra? Deus lhe não respondia.
257Samuel
E o restante da família? E a dor que latejava, des-
truía a todos por dentro? Que lhes guardaria o futu-
ro? Que espécie de dias viriam à boa mãe? A morte
de João Arnaldo arrancou-lhes qualquer esperança.
Mesmo Samuel: e agora, que faria? O pai era-lhe a
inspiração, o apoio, o amigo que, necessitado, es-
tar-lhe-ia sempre junto. E o pior, o revoltante, era
o sentimento de que a obra do pai fora vã. Tudo
quanto conquistara, desde que saíra do interior a
distribuir jornais nas ruas de Belo Horizonte, a casa
que construíra com o próprio trabalho, o casamen-
to único e bem-sucedido, as relações afetivas que
nutrira por toda a vida, tudo isso reduzido a nada,
numa morte privada do adeus. Assassinado sem di-
reito à despedida. Morto por um celular. Que vale
a honra, se Deus parece indiferente? Indiferente à
dor da família, indiferente ao bom João Arnaldo,
que nunca deixara de lhe proferir o nome. Qual-
quer eufemismo seria afronta: Deus não se impor-
tava com o sofrimento de sua família. E conquanto
a mente rapidamente se lhe articulasse semelhantes
raciocínios, Samuel amparava a mãe. Esta, coitada,
não merecia a dor que lhe atravessava, o vazio e
a tristeza. Nela, Samuel encontrava olhos como os
seus: inchados, venosos, cansados de tanto chorar.
Decidiu terminantemente não dizer palavra de de-
salento. Fosse forçado pela mente a externar o que
pensava, abafaria, esmagaria esse impulso cruel. A
mãe não merecia…
Pela noite os familiares começaram a banhar-se.
Jantariam e, depois, deitar-se-iam a dormir. Samuel
258 Luciano Duarte
pôde avaliar o próprio estado no espelho do ba-
nheiro. Olhou-se e não houve susto. Mirou-se com
indiferença, desprezo. Então ligou o chuveiro com
a mente continuando a pensar. Súbito, a memó-
ria infame, a memória ofensiva da ex-namorada.
Odiou-se, odiou-se por, naquele momento, pensar
na garota mesquinha. E odiou-se por não poder
odiá-la. A imagem lhe assaltava, e Samuel sentia o
que lhe era o desejo: que Daniela soubesse do ocor-
rido, concedesse-lhe a compaixão. Amargou-lhe a
língua quando interpretou o sentimento. Vergonha,
vergonha! Mas desejava. Imaginava-se consolado
por Daniela, imaginava a garota pedindo-lhe per-
dão por tudo, comprometendo-se a jamais sair de
seu lado. “Sou o sujeito mais desprezível da face da
terra!” — torturava-se, e sabia que jamais se per-
doaria por pensar na garota logo após a morte do
pai. A indignação era inútil. Não deixou de pensar
em Daniela por toda a noite e ansiou, sinceramente,
que a ex-namorada se condoesse de sua dor.
Raiou a quarta-feira. Samuel não dormiu. Pela
manhã, a família tomou café em silêncio. Desapare-
ceram as lágrimas da véspera, conquanto o desalen-
to era geral. Contaminados pelo aspecto esgotado
de Maria Elvira, esperaram pelo almoço. Almoça-
ram e, assim, dirigiram-se ao velório de João Ar-
naldo.
Raimundo errou na escolha do horário, ou me-
lhor: fora forçado a marcar a cerimônia para o iní-
cio da tarde. O calor agredia: em vestes negras, era
um incômodo adicional.
259Samuel
A família chegou ao cemitério pouco antes de
uma da tarde. O corpo repousava no interior de
uma pequena capela contígua ao cemitério. Havia
velas em redor do caixão. Chegaram conhecidos,
cerca de trinta. Entravam, permaneciam alguns mi-
nutos dentro da capela, então a deixavam, aguar-
dando na rua pelo sepultamento. Alguns aproveita-
vam para fumar.
Duas e meia e o caixão era carregado por Samuel,
Raimundo, Julinho e Vinícius, amparados pelo sepul-
tador. Diante do túmulo, Raimundo arrogou-se o de-
ver de prestar as derradeiras homenagens ao irmão.
Ante os presentes, contou-lhe brevemente a história,
ressaltou-lhe as virtudes, finalizando, em lágrimas, a
dizer que sua memória jamais seria esquecida. Palmas.
Então o sepultador pôs-se a trabalhar.
Samuel mirava a cena ao lado da mãe, completa-
mente perdido. Não havia beleza na cerimônia. O tio,
faltou-lhe a boa articulação das palavras. Os demais
pareciam tomados pela indiferença. É verdade que al-
guns choravam, havia silêncio e olhares tristes. Mas
só isso? Um sujeito em uniforme verde despejava, com
uma pá, um punhado de terra sobre o caixão. Usa-
va botas de plástico brancas e visivelmente transpira-
va. Quanta solenidade! A simplicidade da cerimônia
ofendia. Tudo de uma imensa mediocridade.
Samuel olhava ao túmulo, quando repercutiu
uma voz sofrida. Era João Manoel que, fremente,
rompia em lamentos:
— Meu Raimundo… Deus levou meu Raimun-
do…
261Samuel
Capítulo XXXVI
Era quarta-feira. Havia corrido duas semanas da
morte do pai e Samuel via-se em casa, solitário e
pensativo. Repassava em mente as últimas semanas.
Valmir, que comparecera ao velório condolente do
jovem amigo, dera-lhe férias sem estipular retorno
logo no dia seguinte. Samuel recusara e pedira de-
missão. Tudo fizera o chefe para manter o ótimo
gerente e argumentara quanto pudera para conven-
cê-lo. Debalde: o jovem exigira demissão imediata
ainda que tivesse de abrir mão do acerto. O diretor,
pois, assinara-lhe a demissão, pagando-lhe tudo o
que tinha direito e não deixando de agradecê-lo no
final.
262 Luciano Duarte
Finda a cerimônia de sepultamento, Samuel, re-
cusando o abraço dos presentes, puxou junto de si a
mãe e abandonou o cemitério num táxi. Antes, po-
rém, deixou o recado ao ouvido do tio Raimundo:
“Nunca mais na minha vida quero ver o meu avô”.
Imediatamente após ressoar o engano do velho, o
semblante de Maria Elvira transfigurou-se. O olhar
inerte lhe denunciava o interior arrasado, devasta-
do para sempre. Pálida e mecânica, deixou-se guiar
pelo filho a qualquer lugar.
Então entraram no táxi. Chegando em casa, nem
palavras, nem olhares. A mãe, rejeitando o quarto,
deitou-se no sofá da sala e ligou a televisão. Samuel
tomou um banho. Não comeram pelo resto do dia.
Na manhã imediata, o pedido de demissão. Sa-
muel acordou em determinação espantosa, parecen-
do guiado por uma força exterior. “Vou ao traba-
lho e me demito” — pensou logo se levantou. E o
espanto era maior posto o rapaz chegasse na em-
presa no horário habitual. Na volta, conseguindo
a anuência do chefe, trafegou de cabeça vazia. Não
sentia nem pensava. Observava, apático, os pedes-
tres, os carros, os semáforos a piscar. Então freava,
trocava as marchas, acelerava. Embreagem, freio,
embreagem, acelerador. Tudo conforme a rotina…
Na calçada, os passos acelerados daqueles que de-
viam possuir algum emprego; na avenida, veículos
comerciais. A paisagem em cinza estático, o cinza
de sempre; as construções, naturalmente, quadra-
das. Uma moça bonita atravessando a rua; outro,
em linha reta, empurrando um carrinho de pipoca.
263Samuel
Gente para lá e para cá, atarefada. E o relógio pú-
blico, na calçada, a informar: sete e trinta e oito da
manhã.
Chegou em casa livre. Estacionou o carro na ga-
ragem, estranhando a necessidade de trancar o por-
tão. Percebeu rompido um arame da cerca elétrica
do vizinho, caindo pelo muro de sua casa. Deixou
para lá dirigiu-se à cozinha. A mãe dormia. Abriu
a geladeira, puxou algum queijo, pô-lo em cima da
mesa e, olhando-se pelo reflexo no vidro do fogão,
concluiu: “Acabou”.
Era, pois, quarta-feira, duas semanas após a tra-
gédia e Samuel, apoiado na cabeceira da cama, re-
passava em mente todos esses momentos, que apa-
rentavam provenientes de um tempo distante. A
mãe, na semana seguinte ao enterro, passara a or-
ganizar, pela noite, reuniões com algumas amigas.
Jogavam cartas, conversavam, nada de mais. E fize-
ra as unhas; cortara o cabelo na altura do queixo,
tingira-o. Em duas semanas parecia outra mulher.
No diálogo, no palavrório fútil que Samuel escu-
tava contra a própria vontade, não lhe reconhecia
a mãe. Então conjeturou o que a vida lhe poderia
guardar. Com Maria Elvira, deixou de conversar.
O falar da mãe suscitava-lhe repulsa. Financeira-
mente… Financeiramente a morte do pai lhe des-
truíra o passado e o futuro. Devia cento e vinte mil
reais a quem nunca se condoeu dos assolados pela
fortuna. Como credora, cabia à instituição finan-
ceira enviar boletos e exigir o pagamento regular.
O acerto que recebera somava pouco mais de vinte
264 Luciano Duarte
mil. Posto não usara o saldo total tomado de em-
préstimo, devia, talvez, uns oitenta ou noventa mil.
Ótimo! E toda a sensatez, toda a parcimônia e todo
o planejamento de longos anos ardendo no inferno!
Tudo por nada! Trabalharia para pagar o banco?
Nunca! E o banco que fizesse o que julgasse pru-
dente. Tomasse-lhes a casa, tanto fazia… Se preci-
so, iria a qualquer outro lugar menor, e o troco da
casa que servisse a comprar comida… ”Deus levou
meu Raimundo…” — eis a maior lição que apren-
dera da vida. “Meu Raimundo, meu Raimundo…”
Sentiu vontade de fumar. Deixou a cama, puxou
um maço de cigarro dentre as dezenas que habita-
vam sua escrivaninha. Ergueu a vista, cruzou-lhe o
campo de visão os carrinhos de quando criança, es-
táticos na prateleira acima da televisão. Fitou-os por
alguns segundos: não lhe significavam nada. Bus-
cou em vão qualquer detalhe que lhe evocasse uma
reminiscência. Nada. Virou-se à janela com cigarro
na boca e isqueiro na mão. Reparou a paisagem,
não havia mais que fazer. Instintivamente os olhos
levaram-no ao oiti: a árvore mais desinteressante de
toda a flora mundial. Em Belo Horizonte, a cada es-
quina, um modelo: inerte e sem brilho. E ao lado do
oiti, o lote vago, o muro que reunia acabamento em
chapisco, pintura em arte de rua e proteção em ara-
me farpado. Um caminhão de gás interrompeu-lhe
a reflexão. Aproveitou para tragar mais fundo o ci-
garro. Foi que, de repente, ocorreu uma cena. Um
sujeito, num sedã importado, parou em fila dupla
diante da casa de Samuel. Ligou a seta e sinalizou
265Samuel
que estacionaria entre dois carros. O de trás era um
esportivo, cujo dono encontrava-se-lhe no interior,
de vidros abertos, a esperar. Então o motorista do
sedã, vagarosamente, iniciou a manobra. Logo viu
que não entraria e retornou à posição inicial. Na via,
um carro parou, aguardando que o motorista esta-
cionasse. Tudo isso observado por Samuel e pelo su-
jeito do carro esportivo. O sedã, novamente, tentou
encaixar-se na vaga: dessa vez conseguiu. Então, na
via, o carro em espera pôde prosseguir seu caminho
enquanto o cidadão ajeitava-se na vaga. De repente,
a fazer a última manobra, esbarrou no carro de trás.
Imediatamente desceu do esportivo um sujeito gor-
do, careca, furioso e de óculos de sol. Avançou dois
passos e mirou-o o para-choque do carro. Mãos à
cabeça. Então, em passos pesados e extrema agita-
ção, inclinou-se à janela do motorista do sedã, quan-
do este desceu pedindo desculpas com a mão; trajava
terno completo, era alto e magérrimo.
— Cê tá louco, cara? Cê bebeu? — bradava o
gordo. — Olha isso aqui! — e apontava ao para-
-choque do próprio carro.
O imprudente aproximou-se, analisou o arranha-
do e voltou-se ao outro:
— Que é isso, amigo. Isso aqui é só polir.
O gordo berrou:
— Cê sabe quanto custa esse para-choque? Vou
fazer o boletim! — e puxou do bolso o celular.
O esguio cidadão tentou impedi-lo, tentou tomar-
-lhe da mão o aparelho, mas o gordo esquivou-se,
gritando:
266 Luciano Duarte
— Cê tá bêbado! Bêbado! Vai me pagar outro
para-choque!
— Calma aí, amigo… Eu pago! Eu pago!
Samuel, vendo a cena ridícula, sentiu brotar de
si a gargalhada. Com o cigarro aceso, assistia ao
besteirol rindo forte. Que maravilhoso espetáculo!
A bola de boliche contra o cabo de vassoura! Ah!
ah! ah!…
Subitamente, os homens estacaram. Perceberam-
-se, da janela da casa fronteira, alvos de um olhar
assustador. Sumiram com seus carros e nunca mais
tornaram a estacionar naquele lugar.
Samuel - Luciano Duarte
Samuel - Luciano Duarte

Samuel - Luciano Duarte

  • 2.
  • 3.
    Luciano Duarte lucianoduarte.com Copyright ©Luciano Duarte, 2020 Todos os direitos reservados. Texto em conformidade com o Acordo Ortográfi- co da Língua Portuguesa (1990) em vigor desde 1 de janeiro de 2009. Dados de Catalogação D812 Duarte, Luciano Samuel / Luciano Duarte. Belo Hori- zonte, 2020 (1ª edição). 266 p. ISBN: 979-86-576-4485-2 1. Ficção. 2. Ficção nacional. 3. Ro- mance. 4. Romance Nacional
  • 4.
    Sumário Capítulo I. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 Capítulo II. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 Capítulo III . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 Capítulo IV . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 Capítulo V. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 Capítulo VI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43 Capítulo VII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 Capítulo VIII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55 Capítulo IX. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 Capítulo X. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73 Capítulo XI. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81 Capítulo XII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 Capítulo XIII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97 Capítulo XIV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105 Capítulo XV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 Capítulo XVI. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119 Capítulo XVII . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127 Capítulo XVIII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 Capítulo XIX. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143 Capítulo XX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151 Capítulo XXI. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157 Capítulo XXII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165 Capítulo XXIII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 173 Capítulo XXIV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 179 Capítulo XXV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 185 Capítulo XXVI. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 191 Capítulo XXVII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 197 Capítulo XXVIII . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 205 Capítulo XXIX . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213 Capítulo XXX. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219 Capítulo XXXI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225 Capítulo XXXII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 235 Capítulo XXXIII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 241 Capítulo XXXIV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 249 Capítulo XXXV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 255 Capítulo XXXVI. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 261
  • 6.
    5Samuel Capítulo I Frio emBelo Horizonte. No escritório, Samuel digitava a desejar o fim do expediente. “Hoje é sex- ta!” — pensava, tomado pela euforia que prenuncia o final de semana. Havia monotonia no setor, e o relógio marcava cinco da tarde. Súbito, o chefe irrompe na sala. Da porta, dispa- ra: — Faça o favor, Samuel. Tensão. Que desejava o chefe? Às cinco da tarde de uma sexta-feira se não deve demandar um fun- cionário. Samuel levantou-se e seguiu o homem, que ru- mou para a própria sala. Como costumeiro, Val-
  • 7.
    6 Luciano Duarte miresperou que o subalterno entrasse para fechar a porta, então lhe indicou: — Sente-se, sente-se. Rodeou a mesa de vidro, acomodou-se na confor- tável cadeira de costa alta e começou: — Então, Samuel… — o chefe sorria. — Quero lhe propor uma coisa. Que coisa? Horas extras? Negativo: uma ascen- são de cargo. Samuel congelou. — Está na hora, você tem competência e merece. A partir de segunda quero que tome para si a gerên- cia do setor. — A gerência? E Samuel sentiu brotar-lhe na face o sorriso agra- decido. A gerência, sim, a gerência! O salário, natu- ralmente, engordaria, podendo chegar ao dobro em meses de boas vendas. Nada mau para um jovem com três anos de empresa… — Eu não sei como agradecer… — Samuel falava e tremia. — Agradeça com resultados! Agora vá para casa e descanse bem que na próxima segunda quero ver sangue novo. — Muito obrigado, Valmir! Você não irá se ar- repender — despediu-se o novo gerente de vendas, apertando a mão do diretor. O sorriso estava esticado na face de Samuel, que lhe tornou à sala extasiado, tremendo sobre os pés. Adentrou o setor cabisbaixo, a disfarçar a boa-no- va dos colegas. Silencioso, desligou o computador, quando o sinal anunciou o termo do expediente. O
  • 8.
    7Samuel enlevo expandia. Dolado de fora da sala, a fila já estava formada frente à máquina de ponto. A von- tade de Samuel era correr ao carro para, em priva- cidade, olhar ao céu e gritar. Logo deixou o galpão da empresa discou para o amigo: — Tá no bar do Régis, Gutão? — Indo… — Cinco minutos! E, desligando o celular, Samuel teve a certeza: aquele dia voltaria carregado para casa. Como o bar realmente estivesse a cinco minutos de carro, Samuel não tardou a chegar. Havia entre os amigos a tradição: a primeira da sexta tomava-se no bar do Régis. E assim procediam há três anos, sempre lançando mão da desculpa de evitar o trân- sito das seis. Samuel entrou no bar com dedo em riste: — Uma gelada e uma abençoada! Reginaldo, solitário detrás do balcão, sacou dois copos qual fossem pistolas, um em cada mão, ba- tendo-os contra a bancada de ardósia. As garrafas surgiram abertas em segundos. — Tá na mão! — disse o bom comerciante, tam- bém servindo um copo para si. Samuel, eufórico, alçou o copo a propor um brin- de: — Que as nossas mulheres não faleçam viúvas! Um sujeito passando ao lado de fora do bar er- gueu o braço, e prosseguiu-se o estalido de copos e a virada costumeira. Samuel, em sede voraz, deu cabo também do copo de pinga.
  • 9.
    8 Luciano Duarte —Aperte a mão do doutor gerente de vendas! — revelou ao amigo a novidade. — Oh! Parabéns, meu caro! E, a título de comemoração, Reginaldo puxou um uísque da prateleira que servia de fachada. Pondo-o sobre a bancada, Samuel objetou: — Espera o Gutão. Reginaldo assentiu. — Mas então, jovem: como é que foi isso? — Hoje, quase dando o sinal, o chefe chama-me e atira a promoção. Não esperava… — O trabalho compensa… Não há que dizer. Apesar de que eu, aqui no bar… Irrompe um grito da calçada: — Vim buscar a minha loira! Era Gustavo e suas largas espáduas, replicando idêntica euforia e idêntico dedo em riste da chegada de Samuel. Reginaldo, em destreza admirável, pu- xou o abridor e o copo debaixo do balcão e, antes que os apressados passos do recém-chegado puses- sem-no junto dos amigos, a nova garrafa já estava aberta e os copos preenchidos. — Que as nossas mulheres não faleçam viúvas! — entoou dessa vez Gustavo, em brinde triplo que precedeu nova virada. Após as batidas automáticas contra a bancada, Reginaldo disse a Gustavo, já repondo as fontes de alegria: — A homoafetividade do seu lado agora é gerente de vendas! Gustavo crispou:
  • 10.
    9Samuel — Mentira! Não era. —Parabéns, meu caro! — e apertou a mão do amigo promovido. — Três branquinhas pra come- morar, Regiclênio! — e virou-se novamente a Sa- muel: — Hoje é pra acabar! É beber até morrer! Mas Reginaldo interrompeu-o: — Branquinha? Tá louco? Aqui vai por conta da casa… — disse e serviu três doses de uísque. Sorrisos: era raro o comerciante fazer agrados. De copos cheios, baixou-se um pouco a euforia, en- tão Samuel pôs-se a falar: — Cara, eu realmente tenho de agradecer… No mesmo ano, o carro e a promoção… Em quinze aposento. Reginaldo objetou: — Deus abençoa! Deus abençoa! Mas aposentar é complicado… E explanou-lhes a dificuldade que, aos trinta e cinco, ainda se via enfrentando. — Abri esse negócio com a mesma ilusão, mas, hoje, diante dos números… — Aposentar é uma questão de educação finan- ceira, Régis — atalhou Samuel. — É poupar, apli- car e esperar… Silêncio. Desde os dezessete, quando entrou no primeiro emprego, a Samuel tomou-lhe a obsessão da apo- sentadoria precoce. “Tanto para fazer da vida… Trabalhar CLT é desperdício!” — raciocinava. E elaborou um plano de aposentadoria que consistia,
  • 11.
    10 Luciano Duarte sumariamente,em poupar trinta por cento do que ganhava para, aplicando o montante em ativos do mercado financeiro, deixar que os juros compos- tos trabalhassem. Vinte anos era o tempo calculado para desobrigar-se da labuta. Agora, com a promo- ção, a situação melhorava consideravelmente. No bar, Gustavo teve uma ideia: — Sabe o que seria bom pra hoje? Uma festa de arrombar! A sexta-feira inspirava-lhes como nenhum outro dia. — Lá em casa não tem jeito. Tá todo mundo lá… — replicou Samuel. Reginaldo, obviamente, ficaria no bar. Gustavo tomou a iniciativa: — Vou ver se arrumo alguma coisa pra gente. Deixa eu ver nos meus contatos… E pôs-se a enviar mensagens. Correram alguns minutos. Os amigos bebiam e conversavam, animados; o assunto rendia. Entre- mentes, os copos iam esvaziando e enchendo, quan- do Gustavo pareceu ter ajeitado uma festa para dali a duas horas. — Fecha pra gente, Regimilson. Hoje tem segun- do tempo! — Já, Gutão? Mas era noite. Os amigos haviam conversado por três boas horas. Agora, era sair ou abandonar os planos da sequência. Gustavo e Samuel, trajados em uniforme, ainda careciam de um banho e roupa nova.
  • 12.
    11Samuel — Então tá…— assentiu Reginaldo, cabisbaixo, prevendo para si outra noite monótona. Pagando as contas, a agitação. Os amigos tinham de correr para não ficarem de mãos vazias. Com- praram a latinha do trajeto e acertaram quarenta minutos para o novo encontro. Apertaram-se mu- tuamente as mãos e cada qual tomou seu rumo. Era voar para casa, tomar um banho de gato e sair. Samuel entrou com agilidade em seu carro, deu um gole de cerveja e acionou a partida. Antes que os faróis luzissem, o veículo já arrancava. “Hoje o pau quebra!” — sorria, a medir as expectativas lançadas por Gustavo. Segundo o amigo, a “fes- ta” seriam oito donzelas e quatro rapazes, ou seja, proporção de duas para um. Era um cenário ex- tremamente agradável para Samuel que, a dizer a verdade, estava há boas semanas sem contato com mulher. Enquanto Samuel dirigia, devaneava. Parecia as luzes noturnas provocarem um estado de leve alu- cinação. Som alto, os pensamentos voando, e os suaves delírios viam-se amplificados pelo álcool. A sensação era agradável. Eis o que lhe passava pela cabeça: via-se, simplesmente, aposentado e feliz; a promoção avivara-lhe o brio: nenhum dos amigos gozaria de semelhante renda mensal. O tempo, de repente, pusera-se-lhe a favor. E como lhe instiga- vam as possibilidades! Era só esperar… E então, suponhamos, aos quarenta — quem sabe trinta e cinco? — poderia dedicar-se a gozar da vida. Com tempo e dinheiro, duas viagens internacionais por
  • 13.
    12 Luciano Duarte ano.Daria ao filho — e teria um filho — uma edu- cação primorosa, uma atenção de pai exemplar; em suma: estaria disponível, sempre disponível. E pode- ria aprimorar-se em variadas atividades muito mais interessantes do que gerenciar um departamento de vendas, do que lidar diariamente com clientes… Súbito, Samuel fura um semáforo. Em meio se- gundo o susto, e uma van arrebenta-lhe a lateral direita do carro.
  • 14.
    13Samuel Capítulo II O impactoatirou Samuel para fora do carro. A van, girando e derrapando, estourou-lhe o eixo dianteiro no canteiro central. Um homem que tra- fegava a poucos metros do acidente, vendo o cho- que violento, parou de imediato e correu a prestar socorro. Samuel, estirado no chão, não esboçou reação. O motorista agachou-se, a buscar sinais de vida. Foi quando, mirando de longe, avistou a si- tuação trágica na van. Já desciam, correndo, outros dois motoristas. Sa- muel parecia pulsar. Fremente, o homem cuidou que o acidentado não se movesse. Na van, chegou
  • 15.
    14 Luciano Duarte oprimeiro socorrista: encontrou o condutor, des- maiado e sangrando muito, com metade do corpo sobre o capô. Houve desespero generalizado. Desa- cordados, os acidentados pareciam mortos. Já havia mais pessoas no local: todos, apreensi- vos, não sabiam que fazer. Logo estaciona uma via- tura, fechando o cruzamento. Descem dois policiais e, correndo, dirigem-se cada qual a um acidentado. Com as mãos, sinalizam para que as testemunhas se afastem. Em cinco minutos, chega também a am- bulância. Samuel pareceu recuperar parcialmente a cons- ciência. Atordoado, abriu vagarosamente os olhos. Passou a gemer contínua e surdamente. Via um vul- to embaçado diante de si, e as primeiras palavras que reconheceu foram as instruções do socorrista para que se não movesse. — Qual o seu nome? Samuel balbuciou-lhe a resposta. Sentia dor, mui- ta dor, e continuava gemendo, contraindo-se, fa- zendo força para não se mover. A dor trazia-lhe a consciência. O socorrista perguntou-lhe a idade e a profissão: ouviu réplica sofrida. Samuel gemia: — Por favor, por favor… O homem tentava acalmá-lo. Em poucos minutos, ambos os acidentados eram conduzidos ao hospital mais próximo. Imobilizado, já dentro da ambulância, Samuel passou a articular melhor os pensamentos. Viu-se num pesadelo: aquela azáfama, as feições apreensi- vas, a dor e a posição vulnerável em que se encon-
  • 16.
    15Samuel trava diante dedesconhecidos assustavam-no. Onde lhe estaria o celular? E o carro? Tentava reconstruir mentalmente a sucessão dos fatos, mas havia um vácuo na memória: lembrava-se somente a partir do momento em que fora colocado numa maca. Imobilizado pelo colar cervical, mirava de soslaio em redor, encontrando inúmeros olhares tensos. Os socorristas eram ágeis e falavam alto, agitados, contaminando o ambiente da urgência. O ombro direito pulsava e doía muito. “Como?” — pensava, não encontrando resposta. De um salto, os socorristas abriram a traseira da ambulância e com a maca rasgaram o aglome- rado de pessoas que se encontrava na entrada do hospital. A sensação de Samuel era horrível: via-se absolutamente impotente, exposto, sentindo uma dor latejante e incapaz da menor reação. Não lhe sabia sequer o próprio estado... Teria quebrado o pescoço? Como estaria a cervical? Sangrava mui- to? Sentia, por vezes, um fisgar violento abaixo do peito. Seria a mortífera hemorragia interna? Que agonia! Que horror! Mirava o teto, o saquinho de soro a balançar. As luzes do hospital agrediam-lhe os olhos. A maca, veloz, percorria os corredores em zigue-zague. Súbito, adentra uma sala, perfurando uma corti- na de PVC. “Será que avisaram o meu pai?”. Aflito, em desespero, escorreram-lhe lágrimas dos olhos. “Irão me operar!” — soluçava. A enfermeira, ao lado, percebeu-lhe a angústia e segurou-lhe a mão. A maca estacou frente a um homem grisalho de
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    16 Luciano Duarte meia-idade.Em três palavras, o socorrista explicou- -lhe a situação de Samuel. O médico, gravemente, direcionou-se ao acidentado: — Meu nome é Oscar, sou cirurgião-geral e estou aqui pra te ajudar. Quero que me diga o que você está sentindo. Samuel, chorando, articulou: — Meu ombro tá doendo muito, doutor… E soltar as palavras pareceu-lhe aumentar a afli- ção: — Por favor, doutor… — Samuel gaguejava e tremia, ainda com o pescoço imobilizado. — Você pode, por favor, ligar para o meu pai? O médico tentou acalmá-lo: — A gente já avisou sua família. Pode ficar tran- quilo. Agora, eu preciso que você se acalme e me diga o que está sentindo. Você consegue mover o dedo do pé? Esforçando-se, engolindo o choro, Samuel assen- tiu levemente com a cabeça. O doutor ordenou a enfermeira: — Raio-X. E voltou-se ao acidentado: — A gente precisa fazer um exame pra saber o grau da sua lesão. Tá bom? Fica calmo. A sua famí- lia já tá vindo pra cá. A enfermeira conduziu a maca ao raio-X. Samuel percorria os corredores assustando e via-se aflito, extremamente constrangido. Chegando à escura sala de raio-X, a enfermei- ra indicou a Samuel que o moveriam ao leito fixo
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    17Samuel onde o exameseria realizado. Cuidadosamente, a maca foi posicionada ao lado do novo leito e, so- mando apoios, seis mãos executariam a operação. Samuel sentiu arder o antebraço e gemeu: o ajudan- te desculpou-se pelo involuntário esbarro. Todos posicionados, contaram até três e, num só impulso, transferiram o jovem ao novo leito. A elevação, ti- rando-lhe o apoio do ombro, agravou-lhe a dor. A nova posição era desconfortável. — O exame é rápido, — disse a enfermeira, apro- ximando-se, — mas eu preciso que você abra um pouco o braço direito. Tocou-lhe. O ombro destro era o dolorido. — Vou mover bem devagarzi… — Ah! — um centímetro bastou para que viesse a fisgada. — Desculpa, desculpa… — Tá doendo demais! Evitando a insistência no braço, a enfermeira pe- diu-lhe tentasse mover levemente o corpo. Samuel forçou-lhe ao lado o quadril. — Isso, isso. Mais um pouquinho. Foi. Então, posicionando a máquina de raio-X a poucos centímetros do ombro direito de Samuel, a enfermeira instruiu-lhe a não se mover e retirou-se da sala. Enquanto isso, no silêncio e no escuro, Samuel observava o que conseguia. Imaginou na articula- ção mecânica do aparelho um braço. “Se isso sol- tar, perco meu ombro…”. Percebeu a maca ao lado — agora a via! — tingida de sangue, uma bancada
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    18 Luciano Duarte debaixode um painel de vidro… tudo de um terrível branco. A parede, descascada, passava impressão de desleixo, e uma tela escura ao lado da máquina completava o ambiente. Pouco ruído, o ombro a doer. “Bati o carro!”. De repente, um barulho estranho. Era a máquina. Começou a radiografia, e Samuel guardava-se o di- reito de não se mover. Decorrem três, talvez quatro minutos de ruídos e inércia, então entrou novamen- te a enfermeira. — Agora a gente precisa fotografar a cervical… Queria a mulher dizer que Samuel teria de sentar- -se no leito. Na moça sobejou precaução: — Não está nada dormente, nem formigando não, né? Samuel deu aval necessário e, auxiliado, ergueu- -lhe o tronco. Já sentado sobre o leito, teve-lhe a postura ajustada, ouvindo a repetida recomenda- ção de permanecer imóvel. “Outros vinte minutos parado…”. O ombro parecia mais pesado e mais dorido em nova posição. As radiografias posteriores foram morosas, prin- cipalmente em razão da necessidade de fotografias em muitos ângulos. A enfermeira entrou diversas vezes na sala, a ajustar a posição de Samuel, dizen- do-lhe que se estava movendo e censurando-o. A moça parecia impaciente, e Samuel não pensava senão na incompetência da coitada. “Já foram cin- quenta fotos, não é possível!”. E lembrou-se nova- mente da desdita geratriz: “Bati a porcaria do meu carro! Mas que inferno! Por que eu fiz essa boba-
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    19Samuel gem, meu Deusdo céu?”. E antes que se lhe tomasse mais uma vez a agonia, a enfermeira irrompeu na sala e embargou-lhe os pensamentos: — Acabou. Agora é o seguinte: eu preciso te levar pra enfermaria. Você prefere deitado? — Tanto faz. A mulher pediu-lhe que deitasse na maca e Sa- muel, obedecendo, pela primeira vez enxergou o estado dos antebraços. Horrível, horrível… Nunca se havia machucado em semelhante gravidade: as feridas estavam na carne, brancas. Então percebeu o quanto lhe havia de ser dramático o estado do ombro, posto este incomodasse muito mais. Em dois minutos, estavam ambos na enfermaria. Outra vez, foi Samuel solicitado a sentar-se em leito separado. — Vai doer um pouquinho. Você quer uma coisa pra morder? — indagou a cuidadosa enfermeira. Que pergunta… Iriam lhe arrancar o braço? Não, não… apenas higienizar as feridas. O risco de in- fecção era grande, portanto, a ação era necessária e urgente. E assim a mulher, por cerca de vinte minutos, fez com que Samuel esquecesse a dor do ombro, visto o ser humano sentir somente uma dor de cada vez. Vinte minutos de gemidos e suplícios: o antissépti- co, água com sabão ou o que fosse parecia fogo em contato com as feridas, parecia fritar o que lhe so- brara de carne no antebraço. Quando a solução ter- minou-lhe o labor, Samuel já se via resignado com a dor eterna. Deixou, inclusive, de gemer.
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    20 Luciano Duarte Debraços enfaixados, exausto, Samuel foi con- duzido a um quarto onde, deitando-se, logo se viu apagar.
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    21Samuel Capítulo III Acordou diantedo pai. João Arnaldo, alto e es- guio, solene e formal, tinha voz cavernosa, muito afeita às sentenças que lhe saíam como por auto- matismo e que pareciam querer expressar as últi- mas verdades do universo. Sentado num sofá diante do leito, cofiava-lhe o denso bigode quando o filho despertou encontrando-lhe os olhos negros perdi- dos e imóveis. Samuel, percebendo o pai, fingiu que ainda dor- mia, quando lhe tomou a vergonha do ocorrido. Certamente, o pai lhe passaria um sabão. “Bati a
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    22 Luciano Duarte porcariado meu carro!” E pensou na desculpa que teria de dar no trabalho: “Lasquei-me. Perdi o car- ro e o emprego”. Então lembrou-se da recente pro- moção. — Justo quando finalmente algo de bom acon- tece… — lamentou ao pai, desistindo de simular o sono. O pai assustou-se, ajeitando-se no sofá: — Você tem de agradecer muito, mas muito… — Agradecer? No dia em que recebo a primeira grande notícia em anos, destruo a minha vida ba- tendo o carro. O pai sorriu com ironia e disse baixinho, como em segredo, inclinando-lhe o tronco: — O que aconteceu hoje, você deve a Deus pelo resto da sua vida. Você podia muito bem estar mor- to, preso, tá me entendendo? E olha como são as coisas… tudo não vai passar de um ligamento rom- pido, o seguro te dará outro carro… Isso, sabe-se lá o motivo, foi a vontade de Deus. É Deus que está, diretamente, te passando uma lição, e é bom que você aprenda, pois não é todo mundo que tem a mesma… O médico entrou com as radiografias em mãos. João Arnaldo, calando-se, apoiou-lhe as costas no- vamente no sofá. — Boas notícias — iniciou o médico, que estacou ao lado de Samuel. Mostrou, uma por uma, as radiografias, apon- tando-lhes as conclusões: — Aqui, tudo certo, estão vendo? Não há lesão
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    23Samuel de nenhuma espéciena cervical. Já aqui, reparem, — e puxou a radiografia do tórax, — não há a con- firmação da suspeita de fratura na costela, embora não queira dizer que não haja, visto o exame não ser capaz de detectar a totalidade das lesões. De qual- quer maneira, é uma boa notícia, pois não há indí- cio de complicações como sangramento ou escape de ar, nem necessidade de intervenção cirúrgica. O doutor tomou fôlego, puxou outra radiografia e continuou: — Quanto ao ombro destro, não houve luxação, mas provavelmente houve rotura tendinosa, e pre- cisaremos de realizar uma ressonância para avaliar o grau da lesão. — Precisarei operar, doutor? — Creio que não, Samuel. Em verdade, seus exa- mes tranquilizaram-nos a todos. Quando te trou- xeram, em maca e desesperado, esperávamos que a situação fosse grave. Estamos acostumados… São muitos os acidentes como o seu que comprometem além de tendão e costela. Aliás… — o médico pen- sou e pareceu desistir do pensamento. — O fato é que o acidente não lhe comprometeu gravemente, e hoje mesmo você dormirá em sua casa. Dizendo isso, o médico voltou-se a João Arnaldo, dando a entender que já haviam palestrado. — Tá certo, meu senhor? — Muito obrigado, doutor Oscar! Muito obri- gado! E o médico rematou: — Agora me deem licença, que eu preciso provi-
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    24 Luciano Duarte denciara ressonância e pedir urgência no processo. A enfermeira trará as instruções — disse e deixou a sala. Em cerca de vinte minutos, pai e filho obtiveram a confirmação da disponibilidade do exame e des- ceram ao respectivo setor do hospital, onde foram instruídos a aguardar em pequena sala de espera. Samuel temia o silêncio do pai, que ostensiva- mente lhe negava o contato visual, vagueando silen- te, porém não camuflando o nervosismo. O filho, atento, deduziu o pai ocultar-lhe informação. Que seria? O desconforto estava escancarado, a feição de João Arnaldo denunciava-lhe o conflito interior. Receoso, Samuel nada disse, e sentaram ambos em silêncio. A sala de espera abria-se logo após uma rampa entre um corredor no subsolo do hospital: o cor- redor seguia seu rumo, convergindo para as salas de exame; antes, porém, numa pequena recepção fronteira a umas vinte cadeiras, uma enfermeira anunciava os pacientes convocados pelos médicos. No espaço que se abria à esquerda do corredor, cadeiras; diante delas, uma televisão. Um hospital raramente exibe feições divertidas, mas nessa pe- quena sala contavam-se dez sorrisos bovinos entre- tidos com o reality show exibido na televisão. Samuel detestava reality shows; foi sentar-se e ver-lhe a irritação brotar. Uma voz logo atrás co- mentava: — Tá vendo? Eu disse que ela não aguentava! E outra rebatia:
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    25Samuel — Não querdizer nada. O programa é manipu- lado. Isso que a gente tá vendo é só uma parte do que aconteceu! — Quer valer? Quer bater uma aposta? Eu te ga- ranto que, nessa semana, ela pede pra sair! “Pronto! Agora é ter de ouvir dois idiotas!”. — Apostado! Ela vai ganhar, certeza! O ânimo aumentou: — Então é isso que a gente vai ver. Quanto cê quer perder? Por mim trinta reais, agora! — Trinta não, trinta é muito. — Olha lá! De novo ela chorando! Não falei? Olha lá! Tá escrito! Eu não quero nem saber, agora cê vai ter que pagar: provocou, agora eu quero ver se tem coragem! “Mas que inferno!” — pensava Samuel, já irri- tado, enquanto a discussão continuava. “Por que as pessoas têm de ser tão insuportáveis?” Súbito, sente uma saliva umedecer-lhe a nuca. Era demais. Virou-se: — Escuta aqui — percebeu discutirem um casal; a mulher era um espetáculo. — Desculpa… vocês podem falar um pouquinho mais baixo? Eu tô com muita de dor de cabeça… Silêncio. Desapareceram as expressões bovinas e os olhares voltaram-se contra Samuel. Ajeitando-se de volta na cadeira, Samuel perce- beu o pai, sem dizer palavra, censurar-lhe violen- tamente. Estava claro: guardava-lhe uma conversa. Samuel calou-se pelo restante da noite no hospi- tal. Em pouco mais de uma hora, a recepcionista
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    26 Luciano Duarte anunciava-lheo nome. Apresentou-se e foi instruí- do a seguir sozinho pelo corredor. O exame de ressonância magnética, cem vezes pior que o de raio-X, não desviou de Samuel o tor- mento gerado pelo olhar ferino que recebeu do pai na sala de espera. Já nem pensava na dor que sentia. Enfiou-se na cápsula medonha e aguardou silencio- so pelo fim do moroso processo. Completaram-se os protocolos, e Samuel foi in- formado de que o resultado sairia no dia imediato. Assim, foi liberado. Cerca de uma e meia da manhã, pois, saíam pai e filho do hospital. Entraram no carro. João Arnaldo aguardou cruzasse a primeira esquina, então se pôs a falar: — Olha, Samu. É o seguinte. O que eu vou te falar termina nesse carro e morre para sempre — dizia, e o olhar se lhe direcionava ao trânsito. — Preste bem atenção e calcule o tamanho da sua sorte e da sua dívida. Meça bem a dimensão do que aconteceu hoje na sua vida. Eu estava, em casa, assistindo à televisão, quando me toca o telefone: era seu núme- ro que chamava. Atendendo, tomo um susto, pois falava um sargento da polícia. Ele intimou-me ao hospital sem maiores explicações. Aliás, seu celular e sua carteira estão aí, no porta-luvas. Pode abrir e pegar. Recebi das mãos do sargento. Samuel já se havia esquecido do inseparável apa- relho multifuncional. O pai continuou: — Então, cheguei ao hospital desesperado. O sargento esperava-me sentado. Viu-me entrar e per-
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    27Samuel guntar por você.Já a moça da recepção sabia do acidente, todo o hospital sabia. Fui informado que você passava bem e, de repente, o militar toca-me o ombro, apresenta-se, e convida-me para uma con- versa em particular. Eu queria, antes de tudo, ver você. Desconfiei que seu estado não fosse exata- mente o que me informaram, mas respeitei a farda e segui para o estacionamento do hospital. O homem levou-me para onde estacionara a viatura. Abrin- do o banco do passageiro, sacou uma prancheta. Então olhou em redor, a garantir que estávamos a sós, e me disse que você havia furado um semáfo- ro vermelho, sem usar o cinto de segurança, e que uma van, trafegando em outro sentido, colidiu com o seu carro. O sargento era o mesmo que lhe pres- tou socorro, disse ter conferido o relatado por tes- temunhas e através de câmeras de monitoramento. A van, ele disse, trafegava normalmente, e você foi o infrator único no acidente. Executando a perícia, ele disse ter encontrado uma lata de cerveja aberta dentro de seu carro. Você estava, mais uma vez, be- bendo e dirigindo. Samuel teve o impulso de mentir. Mas se calou, posto o pai não perguntasse, somente estivesse rela- tando as palavras do policial. Prosseguia João Ar- naldo, elevando o tom: — Quantas vezes te falei sobre a sua irrespon- sabilidade? Aí está: seu carro, provavelmente, terá perda total. Mas o seguro te dará outro, veja só que maravilha! Agora você deve estar se perguntan- do: por que dormirei em casa, ao invés de dormir
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    28 Luciano Duarte nacadeia, já que o policial achou cerveja no meu carro? É bem isso, não é mesmo? Você, bebendo e dirigindo, deveria estar na cadeia após esse aciden- te! Mas acontece, e julgue por si mesmo!, aconte- ce que a van que bateu no seu carro era uma van roubada cujo motorista é um criminoso procurado há anos pela polícia. O sargento mostrou-me a fi- cha criminal do homem e disse sem meias-palavras: “Esse acidente poderia, muito bem, destruir a vida do seu filho para sempre!”. Mas ele disse ter olhado pra você e visto em sua face o próprio filho. Então ele emendou: “Sabe o que, senhor João Arnaldo? Eu acredito em Deus! E acredito que um acidente como esse faz os sobreviventes renascerem. O seu filho poderia ter morrido, mas não morreu. Poderia ter matado um inocente, mas não matou. Pelo con- trário, a imprudência do seu filho ajudou nós, da polícia, a capturar um dos piores monstros de Belo Horizonte. Então eu me pergunto como é que pode um homicida, um estuprador dessa raça, com mais de trinta crimes na bagagem, que há anos faz a po- lícia gastar rios de dinheiro na sua captura, ser pego justamente num acidente de trânsito? A resposta é óbvia: foi Deus! Deus colocou o carro do seu filho, naquele instante, entravando a rota do monstro. E se Deus não quis o seu filho morto, se Ele colocou justo a mim, que perdi um filho jovem, vendo mor- rer-lhe todas as esperanças, vendo esmagado todo um futuro, para socorrer o seu filho, então, senhor João Arnaldo, isso para mim tem um sentido maior! Eu não prenderei o seu filho. Não deixarei que acu-
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    29Samuel sem o seufilho de tentativa de homicídio doloso. A lata de cerveja está no lixo e eu espero que o senhor, e principalmente o Samuel, lembrem-se desse dia para o resto de suas vidas: o dia que a misericórdia de Deus quis afastar de vocês a desgraça”. Assim finalizou o pai.
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    31Samuel Capítulo IV Samuel entrouem casa aéreo, profundamente co- movido. A mãe tentou fazer inferno do acidente, importunou o filho quanto pôde; mas este, calado, não lhe respondia, sequer lhe prestava atenção. Na cozinha Samuel encheu a si um copo de água que bebeu logo após pousar na língua os analgési- cos recomendados pelo médico. Tinha fome, mas a mãe lhe esganiçava no ouvido. Deliberou então rumar ao quarto, onde se trancou. Finalmente, silêncio. Na clausura, de luzes apa- gadas, sentou-se apoiando as costas na cabeceira da cama. Suspirou: que dia! que infortúnio e sorte ao mesmo tempo! quão próximo estivera da desgraça!
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    32 Luciano Duarte Ador no ombro pareceu-lhe insignificante. Atirou o celular sobre o criado-mudo: já sabia que Gutão se pusera a par do ocorrido e solicitava novas. Mas quem seria Gutão? Que satisfação lhe devia? Talvez Gutão quisesse comentar as notícias com terceiros: decerto já era o acidente assunto de outras rodas… Tanto fazia! Tudo se tornara tão pequeno, tão me- díocre que essas banalidades não despertavam em Samuel senão piedade. Agora ele bem via: Deus agi- ra, diretamente, em sua vida, e a seu favor. Que- rer lição maior? Só de pensar no risco que correra causava-lhe arrepios: estava, em casa, no próprio quarto, quando poderia estar na cadeia, ou talvez morto, paralítico, quem saberia dizer? O alívio era imenso, mas lhe não freava o tremor. E os sinais se conectavam com nitidez descomunal: primeiro, a promoção intempestiva, a alegria, a abertura de no- vas possibilidades; depois, o acidente, o ver quase cair tudo por terra, o escancaramento de sua vulne- rabilidade. Então, a misericórdia, a graça divina, o ensejo único caindo dos céus. Seria um estúpido não percebesse a claríssima mensagem latejando-lhe no ombro direito, ardendo no braço enfaixado. Coin- cidência? Sorte? Isso é que seria, em verdade, acre- ditar no absurdo! E percorrendo-lhe com os olhos o quarto, reparou as roupas que passara na véspera dobradas em cima de sua escrivaninha, o computa- dor com um lembrete colado na tela, os carrinhos de brinquedo dos tempos de criança, dispostos numa prateleira logo acima da televisão, ladeando meia dúzia de livros que lera em adolescente… em
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    33Samuel tudo aquilo sentiuum aconchego, um conforto que lhe fez lacrimejar. “Morto, eu poderia estar mor- to!”. Então lhe vieram em mente as cenas de um passado afetuoso, que lhe lembraram os ternos dias de sua infância junto aos primos Julinho e Vinícius na casa dos avós, jogando futebol na rua, machu- cando-se; — tivera sempre essa inclinação para as feridas… — lembrou-se do dia em que, ralando-se inteiro após cair de bicicleta, julgou-se o “menino mais infeliz do mundo”; riu-se ao recordar o ar- dor dos pequenos machucados… E orçou quanto conquistara: nunca foi aquele em que se deposita- vam esperanças; na escola, desde pequeno, não foi senão aluno mediano, sofreu para avançar no en- sino médio. Entre os colegas, nunca se lhe deram destaque, nunca angariou condição de popular; em verdade, sempre se viu meio aos tímidos, aos discre- tos, e conquanto não fosse frequentemente alvo de piadas maliciosas dos garotos populares da escola, também lhe não nutriam respeito, não lhe direcio- navam atenção. Com as garotas nunca teve muito tato; não lhes agradava, era evidente: seu perfil não despertava atração. E, por isso, viu-se ao longo dos anos convivendo com um recato, um bloqueio, uma ansiedade toda vez que se punha a conversar com qualquer menina de sua idade. Se fosse bonita, en- tão… esquece! Nem comunicar-se com clareza con- seguia, quase sempre passava por ridículo… Mas lhe veja agora a situação: vinte e cinco anos e a ge- rência de vendas de uma empresa de médio porte! Haveria gente de melhor fortuna, decerto, mas o
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    34 Luciano Duarte quealcançara não era de se desprezar… Assim, Samuel ajuizou a quase queda poder ser- vir-lhe a um impulso maior, mais seguro e defini- tivo. O flerte com a perda total fê-lo valorizar o que tinha, iluminou-lhe as prioridades e instou-lhe a proceder naquela noite com um julgamento to- tal de sua conduta. O primeiro vilão era o álcool: que lhe trouxe alguma vez a bebida? Socialização? Amigos? Mas que tipo de amigo lhe condicionaria o afeto a rodas regadas à cerveja? Em adicional: quanto lhe custavam todas aquelas noites de farra! Se tinha como meta a independência, pois quanto a anteciparia se deixasse de beber! Além do mais: necessitava das noitadas? O prazer já não era o de outros tempos: tudo ocorria muito mais por uma questão de hábitos… E o tempo perdido? A bebida, gananciosa, além da noite tomava-lhe o dia imedia- to. O raciocínio lhe não deixava brechas: era o ál- cool, em todos os quesitos, prejudicial, e quase lhe tomara tudo. Não, não mais beberia! Expulsaria de sua vida esse câncer! Faria o que o médico orde- nasse, trataria do ombro, da costela, do que fosse; pagaria a apólice do seguro; enviaria, já no próxi- mo dia, uma mensagem ao chefe informando-lhe do ocorrido, prevenindo-lhe de uma possível ausência; afastaria de si tudo quanto o puxava para baixo. Então cuidaria aproveitar a oportunidade que lhe fora jogada do céu: seria o melhor gerente de ven- das da história da empresa; geraria valor. Poupan- do, compraria a tranquilidade e a aposentadoria precoce. Era jovem, tinha potencial e motivação
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    35Samuel para conquistar oque quisesse. E acima de tudo: sabia Deus estar do seu lado! Sabia-se amparado, incentivado diretamente pela providência para dar cabo a seus planos, para seguir, desta vez, pelo úni- co e feliz caminho, sem desvios e sem cambalear. Que satisfação era ver a mente iluminando-se num clarão repentino! Como tudo se havia tornado sim- ples! Bem lhe dizia o avô Deus escrever certo por linhas tortas… Envolto num turbilhão de sensações, dolorido e emocionado, agradecido e feliz, Samuel pegou no sono devaneando-lhe o futuro. A partir deste dia haveria uma mudança drástica em sua conduta. Realmente, deixou de beber: o costume arraiga- do através de anos sumiu-lhe da rotina. No início, houve as presumíveis dificuldades; Samuel venceu- -as com obstinação. O acidente cristalizou-lhe a personalidade, deu-lhe força, afastando-lhe das dis- trações juvenis. Em pouco tempo, percebeu que a vida lhe havia melhorado: sobrava mais dinheiro e mais tempo, sentia-se melhor. No ombro rompeu- -lhe um tendão. Não haveria, por ora, necessidade cirúrgica; mas quarenta sessões de fisioterapia fo- ram prescritas pelo doutor. Na primeira semana o inchaço sumira, levando junto de si a dor. Os mo- vimentos rapidamente tornaram à amplitude ha- bitual. Samuel não faltou à labuta um dia sequer: trabalhou, ocultando da empresa o atestado médi- co, o que muito lhe agradou o chefe. Então, se até aqueles dias a vida lhe havia sido boa, foi quando realmente começou a melhorar…
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    37Samuel Capítulo V Correram trêsmeses do acidente. No trabalho, Samuel aportou uma proatividade que chacoalhou todo o setor de vendas da empresa. Motivado, coor- denou estratégia habilíssima que logo se converteu em indicadores. Os relatórios semanais passaram a trazer satisfação generalizada, e o jovem gerente tornou-se alvo frequente de elogios do chefe. Num domingo de julho o sol raiou trazendo anos a Samuel. Às oito horas de uma manhã cerúlea, ele levantou-se, escovou os dentes e recebeu, na cozi- nha, as felicitações do pai, que já trabalhava nos arranjos do almoço que estava programado para a comemoração em família.
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    38 Luciano Duarte Foramconvidados os avós paternos e o tio, com consorte e dois filhos: eram os familiares que resi- diam na capital. A família materna distava a quase quinhentos quilômetros em direção ao Triângulo Mineiro. Samuel, findo o café da manhã, pôs-lhe as mãos em auxílio do pai, que limpava um pescado. O pai pediu-lhe tratasse do preparo de alguns vegetais e raízes para a salada. Em pouco recebia o abraço da mãe, que havia saído ao supermercado a finalizar a compra dos ingredientes para a festa. A seis mãos trabalhavam, e não era mais que dez e meia da manhã quando os preparativos findaram- -se. Na geladeira sobremesas, saladas, temperos e acompanhamentos; o peixe a descansar em marina- da; e os três familiares apressaram-se a tomar um banho e aprontar-se, pois os convivas chegariam ao meio-dia. Viviam em casa de dois andares com modesta área externa nos fundos, que dispunha de uma hor- ta, uma churrasqueira e espaço para três ou quatro mesas. Do segundo andar, onde lhe ficava o quarto, Samuel ouviu tocar o interfone. Súbito, é chamado pela voz da mãe: — Samu! Faz o favor… Então, já preparado para a recepção, desceu as escadas, onde Maria Elvira lhe esperava forçando disfarçar a alegria. — Seu avô tá té chamando lá fora! — disse ela, com olhar denunciando a surpresa. Atento aos óbvios sinais, Samuel caminhou em
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    39Samuel direção à portaimaginando o que lhe poderia espe- rar. Os avós sempre cuidaram presentear-lhe duas vezes ao ano: no aniversário e no natal. Geralmente recebia alguma soma em dinheiro, posto os avós soubessem que ninguém melhor a lhe comprar algo do agrado que não a si mesmo. Acertavam. E o di- nheiro festivo sempre foi a Samuel motivo de muita alegria, principalmente porque, antes de começar a trabalhar, praticamente não dispunha de orçamen- to. Abrindo o porta que dava para a rua, a surpresa: os avós, à esquerda, distante dois metros dos tios e primos, à direita. Sorrisos radiantes. Samuel não atinou. Não levou dois segundos para que todos apontassem os braços para a mesma direção: entre eles, havia um carro cuja lataria remetia a um espe- lho. Era este carro um presente para Samuel. A euforia que lhe brotou no peito arrancou-lhe lágrimas e contagiou-lhe o semblante. Abraçou e beijou calorosamente cada um dos parentes, que lhe explicaram a origem do presente: decidiram-se, logo após o infortúnio do acidente, juntar forças para comprar-lhe um novo carro, visto o seguro ti- vesse se desdobrado para consertar o veículo antigo, negando-se a assumir a perda total. Assim, sabendo um conserto jamais restaurar os componentes ao estado de origem, os familiares compadeceram, e o presente contava também com a participação dos pais. Que tarde seria essa! Havia emoção sincera com o contentamento de Samuel. Ligando e guardando
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    40 Luciano Duarte onovo carro na garagem, o presenteado quedou longos minutos a admirá-lo: era um popular usado, não há de negar, mas estava num estado impecá- vel de conservação. Pouco mais de um ano de uso, dono único, modelo dois anos mais recente que o seu. Em cobre, valia quase o dobro do antigo, e a satisfação não poderia ser maior. Nesse clima, foram todos para a área externa da casa. A churrasqueira ansiava pelo estalo inicial. João Arnaldo agitou a celebração, preenchendo de cerveja os copos que aguardavam sobre uma mesa de plástico. Brindaram ao aniversariante e refres- caram-se da bebida geladíssima. Em pouco a chur- rasqueira bafejava e o ambiente era estimulado por um aparelho de som. Bebiam todos, exceto Maria Elvira. Samuel, logo após o brinde e gole eufórico, perce- beu que lhe quebrava a promessa. Sentiu-se tomado pelo desânimo: “Prometi-me não beber…”. Então se iniciou o debate mental. Disfarçando, foi à co- zinha, na parte interna da casa, para ponderar-lhe as atitudes. Passou da cozinha para a sala, quando se sentou no sofá. Alisando-lhe o queixo, repassou mentalmente as expressões radiantes dos parentes, toda a alegria que se lhes emanava desde a cena na rua. O ambiente era feliz, contagiante, talvez como nunca fora. Pensou no tamanho da desfeita que se- ria recusar o copo, no balde de água fria que jogaria sobre os parentes que lhe presentearam e queriam vê-lo, especialmente nesta data, relaxado e alegre. “Tenho de beber. Não posso me recusar a beber.”
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    41Samuel Suspirando, levantou-se evoltou à área externa. Em trinta minutos os goles acompanhava-os churrasco. Neste tempo, o pescado deixou a sal- moura rumo ao forno. A excitação já havia cedido espaço a conversas serenas e alegres. Formaram-se duas rodas: a primeira, entre as senhoras e Julinho, o primo caçula, que contava dezoito anos. Estavam em mesa separada, a fugir da fumaça que contami- nava o ambiente. Do outro lado estavam o restante dos homens, estando João Manoel, o vetusto da fa- mília, sentado junto a Samuel e Vinícius em redor de uma mesa, enquanto João Arnaldo e o irmão mais velho, Raimundo, cuidavam do churrasco. Este temperava asas de frango em pia ao lado da churrasqueira; aquele virava carnes. João Manoel contava aos netos uma história en- graçadíssima: o dia em que ensinou Raimundo a pescar. O primogênito, inexperiente, julgara ter fisgado um jacaré quando o anzol fincara-se num tronco afundado em terra, visto a desatenção do garoto em jogar a linha próximo à margem. “É muito forte, pai! Não puxa!” — o avô gesticula- va relembrando o desespero do filho, levando os garotos à gargalhada. João Arnaldo, percebendo o assunto, ameaçou comentar com o irmão, mas de- sistiu da empreitada. Acontece que o pescador da história fora ele mesmo, e o pai cometia confusão. Melhor nada dizer… Deixe que o querido velho ria até estourar de alegria! Quando o almoço foi posto em mesa, já havia tempo que o pescado atiçava os olfatos. Todos em
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    42 Luciano Duarte roda,os manjares ao centro, e cada um servindo o próprio prato, com exceção dos idosos, que foram servidos antes de todos por Maria Elvira. Garfadas, sorrisos e elogios: assim se resumiu este almoço que se estendeu por toda a tarde. A come- moração terminou ao escurecer, quando as conver- sas abrandaram e o álcool trouxe-lhes sono. Samuel foi novamente abraçado com afeto por cada um dos familiares, que tomaram o rumo das próprias casas. Após rápida faxina na área externa, Samuel su- biu ao seu quarto, sentindo dilatado o efeito da cerveja. Ébrio, não estava. Estava? Talvez leve, estimulado… Chegando ao quarto pôs-se à jane- la, a pensar no seu dia. A vista não era agradável: fronteiro à casa de Samuel, um lote vago, em muro chapiscado e coberto de pichações. Postes de onde pendiam emaranhados de fios. A cerca em espiral sobre o muro da própria casa também contribuía para a poluição visual. À esquerda do lote, porém, um oiti, que destoava do cinza predominante. Seja como for, tanto fazia… Que dia fora aquele! Talvez tivesse sido o melhor de toda a sua vida. Nem uma única ironia na comemoração, nem uma única de- savença. O presente, os sorrisos… o álcool lhe não fora inimigo, pelo contrário, havia estimulado a so- cialização. Como era bom ver o avô a contar casos! As sutilezas do velho eram deliciosas: um humor diferente, sem maldade, talvez até infantil, que não constrangia nem desagradava… “Tenho família…” — e, olhando ao céu, Samuel agradeceu.
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    43Samuel Capítulo VI No diaseguinte, Samuel brindou com o novo possante a sua vaga no estacionamento da empre- sa. Como habitual, estacionou a quinze minutos do início do expediente, o suficiente para que todo o setor lhe analisasse a novíssima aquisição. Já havia assunto para a segunda-feira… Era costume de Samuel, nas primeiras horas da segunda, avaliar o desempenho da semana anterior. Solicitava um relatório de cada um dos três vende- dores de sua equipe, que havia de ser entregue nas sextas. Assim, punha-se a analisá-los logo que a se- mana começava, a ver como o planejamento corria e se cabia alguma ação adicional.
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    44 Luciano Duarte Haviauma planilha elaborada por Samuel que servia de guia ao trabalho de venda e pós-venda do setor. O gerente fazia o levantamento da carteira de clientes, seccionava-os em categorias, adicionava os de recente prospecção e traçava uma estratégia para que os vendedores prosseguissem com o con- tato comercial. Cada vendedor tinha uma carteira individual de clientes, sobre os quais recebiam co- missões pelas vendas, de forma que um vendedor jamais poderia abordar o cliente do outro. Desta forma, cada vendedor motivava-se a captar novos clientes para a própria carteira, sabendo que, uma vez captados, passariam a comissioná-lo em quais- quer vendas que a empresa lhes realizasse. Samuel, extremamente organizado, estruturara uma guia de programação onde cada vendedor tomaria conhe- cimento, após o almoço da segunda-feira, de quais contatos comerciais deveria fazer na semana, em di- visão por datas, temas e clientes, ficando a critério do vendedor o horário e estratégia de abordagem, que poderia ser feita via e-mail ou ligações diretas. Feito o contato, os vendedores deveriam alimen- tar a planilha com o resultado e suas observações. Havia campos onde o próprio vendedor avaliava a eficácia da estratégia, a possibilidade de efetivação de novas vendas e outras minúcias que interessa- vam ao planejamento do setor. Samuel munia-se de todas essas informações e definia as diretrizes da semana. Não era de sua política atravessar o ven- dedor e entrar em contato direto com os clientes, ainda que dispusesse de bom relacionamento com
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    45Samuel eles: sabia quetal atitude geraria ressentimento em sua equipe e raramente encontrava razão de fazê-lo. Nesta especial segunda-feira, pois, Samuel entrou em sua sala, separada das demais do setor, e co- locou-se a analisar os resultados da última sema- na. Havia um vendedor que lhe estava atiçando os nervos. Ocorria o seguinte: há cerca de dois meses, Samuel, em iniciativa própria, abordou um poten- cial cliente por telefone. Tratava-se de uma indús- tria enorme do ramo alimentício que certamente era mercado para sua empresa, produtora de pulveriza- dores eletrônicos para variados fluidos e aplicações. Samuel fora informado pelo chefe do histórico de contato com essa empresa: a vários vendedores já havia sido delegada a tarefa no passado, sem ja- mais efetivarem uma única venda. Samuel tomou o desafio para si e, ao telefone, foi transferido para o comprador. Que surpresa! O comprador portou-se com enorme receptividade: disse consumir em larga escala várias classes de pulverizadores, comprados em sua maioria de empresa tal que oferecia ótimos preços. Disse, também, enfrentar dificuldade em encontrar opções no mercado, vendo-se um pouco refém de seu fornecedor majoritário, e concedeu to- tal abertura para que Samuel lhe apresentasse o seu produto, convidando-o para uma visita. “Não é possível!” — foi o que deu na cabeça do gerente. E, na mesma semana, lá estava Samuel en- cantado no pátio industrial do potencial cliente, imaginando a dimensão do impulso que aquela vi- sita poderia trazer-lhe aos gráficos de vendas. Tor-
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    46 Luciano Duarte nandoà empresa, Samuel teve a certeza que possuía condições de introduzir seus componentes nos pro- cessos da companhia visitada, e convenceu-se que a visita convertera um novo cliente. Assim, por uma questão de burocracia interna, o gerente deveria de- legar um vendedor responsável pela nova empresa: deu o presente a Jorge, colaborador mais experiente da equipe, que beirava os cinquenta e cujo encéfalo encapava-o respeitável calvície. Acontece que Jorge orçava pelos dez anos de casa e pusera-se despeita- díssimo vendo o jovem Samuel roubar-lhe a promo- ção. Passou a ser elemento problemático que colo- cou o novo gerente em péssimos lençóis. De Samuel fora exigido um tato descomunal para lidar com a frustração de um funcionário antigo, querido, com- petente, que lhe passara a invejar. O próprio Val- mir tinha excelente relacionamento com Jorge; elo- giava-o com frequência. Mas se Jorge, pela frente, permitia-se umas poucas palavras de insubordina- ção ao novo chefe, pelas costas o que fazia era uma verdadeira maquinação contra Samuel. Parcialmen- te em ciência, o gerente tentava, de toda maneira, estreitar relações, agradá-lo, pois o desempenho de Jorge era fundamental num setor composto por três vendedores. Assim, Samuel presenteara-o com um cliente que poderia, quem sabe?, quase lhe dobrar a comissão. Jorge, no entanto, alimentava há sete semanas a planilha relatando o insucesso dos contatos. Samuel não entendia: “Como nenhum retorno, nenhuma expectativa de venda, nenhuma previsão de orça-
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    47Samuel mentos? Estive pessoalmentena empresa e vi-lhes a demanda. O comprador dera-me total abertura…”. E passou a ponderar que Jorge talvez mentia, talvez não fizera contato algum com o potencial cliente, talvez, acomodado, passara a apoiar-se-lhe nos dez anos de casa e desleixar dos objetivos do setor. O sangue ferveu-lhe: “Jorge está fazendo força con- tra a empresa, puxando-nos para trás”. O “contra a empresa” evidenciava o profissionalismo de Sa- muel. “Não posso permitir um funcionário a agir desta forma…” E, agitado pelas pulsações, teve um impulso de coragem: “Eu sou o gerente!”. Levantou-se e levou o semblante carregado à sala contígua, onde o setor trabalhava em mesas dispos- tas em plano aberto. Chegou num momento em que todos riam. Foi pôr-se ao limiar da sala para que ouvisse a voz de Lúcia: — Carrão, hein, chefe? Para… — Jorge, é o seguinte — Samuel atalhou-a: — eu visitei pessoalmente a Tamóios, eu conversei pes- soalmente com o comprador da Tamóios, eu vi pes- soalmente pulverizadores na linha de produção da Tamóios e ouvi da boca do comprador da Tamóios que era interesse da Tamóios testar e desenvolver novos fornecedores para a nossa linha. Eu quero sa- ber o que está acontecendo para que nós não tenha- mos enviado nem um único pulverizador de gra- ça, para teste, em sete semanas do cliente sob sua responsabilidade. Qual é o problema? Tá faltando algum recurso? Você tá esperando alguma coisa? Porque eu, e nós, queremos e precisamos vender.
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    48 Luciano Duarte Osetor arrepiou vendo, pela primeira vez em três meses, o jovem chefe exaltado. Sim, era o chefe que falava. Jorge, porém, após segundos congelado, de- volveu-lhe em insolência: — Eu acho que não entendi muito bem, Samuel… O chefe respondeu-lhe em novo ímpeto: — Eu quero entender por que, em sete semanas, a gente não tem um único pulverizador na Tamóios. Silêncio geral. As vendedoras, coitadas, já se ha- viam ajeitado na cadeira e pregado os olhos na tela do computador. Dez anos de casa ampararam a réplica de Jorge que, em olhar desdenhoso, assim respondeu o chefe: — Por que você não pega o telefone e disca para a Tamóios? Talvez eles te expliquem o porquê… Era demais. O limite do respeito havia sido ultra- passado. O gerente teve o impulso de berrar contra o subordinado, mas, antes que da boca aberta es- tourasse o grito, conteve-se. O dedo instintivamen- te erguido voltou-se à posição inicial e, em olhar va- rado pela cólera, Samuel deu meia-volta à sua sala.
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    49Samuel Capítulo VII Encerrado emsua sala, Samuel deixou o dia cor- rer. A experiência já lhe havia mostrado os benefí- cios de pôr a raiva a descansar. Distraiu-se de afa- zeres burocráticos do setor. Quando soou o sinal anunciando o termo do expediente, pôde cruzar com Jorge próximo à má- quina de ponto; não se olharam, mas não houve agressão. O novo carro de Samuel, saindo da empresa, ti- nha destino obrigatório. O mesmo ombro que obri- gara o gerente de vendas a cumprir quarenta ses- sões de fisioterapia agora lhe exigia três meses de
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    50 Luciano Duarte fortalecimentomuscular. E não é que Samuel pegou gosto do negócio?! Havia pouco mais de mês que frequentava uma academia próxima à sua casa, e não faltara sequer um único dia! Lá pelos dezesseis, sempre magro desde a infân- cia, Samuel iniciou-se na musculação a ver se lhe alargava o físico franzino. Muito antes que a em- preitada pudesse apresentar resultados vistosos, isto é, exatamente dois meses depois, o jovem desmatri- culava-se do ginásio visto ter conseguido o primeiro emprego. Dali em diante seria de casa ao trabalho, do trabalho ao curso técnico, e deste para casa. Então os anos correram: o braço e o tronco sem- pre abaixo da média, a cintura paulatinamente angariando respeito e a rotina consumindo-lhe os dias. Vinte e quatro anos e formava-se em gestão de qualquer coisa: a barriga já lhe escondendo a fivela do cinto e o físico exaltando-lhe os olhos negros e vivos herdados do pai. Por essa época passara a cortar mais baixo a lateral do cabelo, deixando por cima um modesto topete, que lhe completava o visual, bem à moda vigente. Em traje que lhe ca- muflasse o vigor, poder-se-ia cravar-lhe o epíteto moderno, talvez até jovem moderno… Deste histórico, eis que novamente Samuel põe- -se diante de uma academia. Mas agora o contexto havia mudado. De início, a própria rotina permitia- -lhe umas horas de lazer à noite, posto não tivesse que estudar. O novo ginásio, em adicional, era sig- nificativamente superior ao antigo: se antes Samuel tinha de ir a pé ao treino, sujeitando-se a intempé-
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    51Samuel ries ou assaltantesno trajeto, agora se via dispondo de um aconchegante estacionamento interno. Além disso, o próprio exercício físico passou a agradar o jovem que, após a rotina estressante na empresa, encontrou um meio para descarregar-lhe as irrita- ções. O banho pós-treino passou a trazer-lhe um agradável deleite, e mesmo as noites de sono passa- ram a ser melhores. Assim, Samuel deixou a empresa nesta especial segunda-feira e rumou à academia. Cumpriu a roti- na: guardou-lhe o carro no estacionamento, apeou sustendo uma bolsa esportiva e dirigiu-se ao ves- tiário onde se havia de trocar. Eis que ocorre algo incomum. O vestiário ficava aos fundos do ginásio: o ma- triculado tinha de atravessar a recepção, onde lhe deixava a digital, e então seguia em diagonal pelo salão aberto, passando por entre os aparelhos, che- gando ao extremo oposto da recepção. Samuel, logo em liberando a catraca com o pole- gar direito, sentiu uma ligeira inquietude. Fechou- -lhe o semblante; mirava o chão e caminhava. Dez passos e alça a vista. Súbito, o instinto força-lhe os olhos à direita. Tremeu sobre os pés: o olhar levou- -lhe a uma pintura que caminhava graciosamente sobre uma esteira; a pintura olhava-lhe e sorria, como que tapando os lábios e conversando com uma amiga que se exercitava em esteira vizinha. O susto fez Samuel desviar a vista logo se per- cebeu alvo do olhar. Agitou-se. Baixou a cabeça, cambaleado por emoção fortíssima que brotou ar-
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    52 Luciano Duarte rancando-lheum suspiro. A mente começava a… — Ou! — censurou-lhe um sujeito. — Desculpa, desculpa… — Samuel havia trom- bado no cidadão. Veio-lhe um tremor ainda mais forte. Samuel des- viou-se do rapaz e zarpou ao vestiário. Entrou como uma flecha e buscou um banco. Sen- tou-se e suspirou. “Como isso? Que vexame!” — os dedos já lhe entremeavam o topete e os olhos se viam esbugalhados. Articulou novamente: “Menti- ra! É pegadinha!”. Como é que aquele anjo estaria olhando e sorrindo para ele? Não havia margem para engano. Ou havia? Seria ele o alvo dos olha- res, a razão do sorriso? Talvez seria outro em sua direção… Sobre o caráter do sorriso a experiência lhe afastava de qualquer suposição: não era riso de, mas riso para, sem a menor sombra de dúvida! Era saber quem seria o abençoado… “Inacreditável! Isso não aconteceu!” Samuel finalmente levantou-se, com pensamentos ainda extasiados. Pôs-se a trocar de roupa quando o lado esquerdo do cérebro passou a trabalhar: “É bom que eu não seja tão estúpido como outrora. Estou aqui a conjeturar um genuíno absurdo, quan- do a maior possibilidade é que uma princesa como aquela jamais sorria para alguém como eu. É usar da razão a quebrar um pouquinho menos a cara, como provavelmente irá acontecer…”. E assim con- seguiu abrandar-lhe as expectativas, acalmar-lhe o impulso que lhe impelia a abrir os braços e gritar. Mas esquecia o jovem de um detalhe importantís-
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    53Samuel simo: não maispercorria a academia um franzino sedentário, e sim o gerente de vendas trajado em social. Já em vestes de treino, Samuel olhou-se no es- pelho: viu-se ajeitado, talvez como nunca estive- ra. Deu um leve toque no topete à direita e saiu de fronte erguida. Foi pôr o pé no piso emborrachado que se abria diante do vestiário e olhar de esguelha à área onde se enfileiravam as esteiras. Não foi possível verifi- car se ainda caminhava a princesa. Então, andando em linha reta ao local onde alongaria, distraiu-lhe a tensão olhando em direção oposta. Observou qual- quer coisa enquanto a mente perguntava: “E se ela me olhar novamente?”. Aí estava uma bela ques- tão. Abordá-la? Quanta ousadia! Samuel já se via gaguejando e passando vexame diante da princesa. Chegou ao conjunto de barras fixas onde se alon- garia. Dali teria ângulo para mirar as esteiras. Vi- rou-se, esticou os dois braços apoiando-se numa barra e alçou a vista. Mais uma vez os olhos se lhe cruzaram com os da garota. “É verdade! É para mim!” — o choque arran- cou-lhe um sorriso e forçou-lhe o olhar para baixo. “Agora é certeza, Deus!” — e pensava, desacredi- tando da própria sorte. Tratava-se de uma jovem magnífica, que ele havia admirado em outra ocasião enquanto treinava: pouco mais baixa que ele; cabe- los sedosos, lisos, longos e castanhos; físico atléti- co; pele rosada; lindos olhos amendoados e lábios que sugeriam o beijo. Um espetáculo! E quando se
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    54 Luciano Duarte punhaa caminhar, então, é que a graça passava a hipnotizar: o compasso leve, jeitoso, o cadenciado movimento de quadril… um encanto! E ali estava ela, de cabelo atado em rabo de cavalo, caminhan- do e sorrindo-lhe indiscutivelmente… “Que fazer?” — foi a questão que passou a ator- mentá-lo durante o treino. Transitou entre dois aparelhos, cumpriu as séries recomendadas pelo fi- sioterapeuta, vez ou outra olhando com discrição às esteiras. Abordar diretamente a garota seria lou- cura, quanto mais ao lado de uma amiga… Inter- romper-lhes-ia o diálogo, o constrangimento seria imediato. E depois, que dizer? “Meu nome é Sa- muel”? Ridículo, ridículo… Controlar a ansiedade, então, seria impossível. Faria papel de palhaço. Eis que, de repente, finalizando um exercício, Samuel é levemente tocado no ombro. Vira-se: a princesa! O susto lhe não permite reação. A garota pergunta sorrindo: — Como é seu nome? — Samuel. E estendendo a mão, ela remata: — Prazer, Daniela. As mãos se tocam. Samuel sente o contato da pele fina, fria e delicada. Daniela, olhando-lhe nos olhos, vira-se e deixa o ginásio, em passo leve, sor- rindo e acompanhada da amiga.
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    55Samuel Capítulo VIII Daniela, Daniela…a noite correu e o nome per- manecia ecoando na cabeça de Samuel. A menina perguntara-lhe o nome. Sorrira e dissera: “Prazer”. Nem em sonho, nem em filme Samuel esperaria que uma Daniela lhe perguntasse o nome, sorrisse-lhe. Vinte e seis anos e jamais fora abordado daquela maneira. E logo assim, de repente, por uma prince- sa, uma Daniela? Inacreditável! Samuel completou o restante do treino aéreo, ex- tasiado. Sorria de si para si como um louco. Cin- co minutos após a partida da menina deu-lhe um arrependimento: “Como lhe não pedi o número? Por quê?”. E viu como o sorriso da garota não só
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    56 Luciano Duarte lhedava abertura, como instava, implorava pelo pedido. Julgou vexatórios os poucos segundos que Daniela se lhe pusera de frente, aguardando a ini- ciativa. E que fizera Samuel? Nada, absolutamente nada. Congelara, travado, surpreso e incapaz de reação. “Como fui burro!…” E, nesse misto de enlevo e decepção, nosso ge- rente de vendas chegou em casa. Daniela! Recons- truiu-lhe os lábios enquanto se banhava: finos, si- nuosos na parte superior com laterais pontiagudas, levemente arqueadas; por baixo, o traçado curvan- do-se delicadamente, deixando o lábio inferior em discreta evidência. Para Samuel, que detestava os procedimentos cirúrgicos em voga que preenchiam o lábio superior das garotas a torná-lo como que in- flado, via em Daniela a perfeição estética: o ligeiro contraste, o aspecto natural dos traços… E aquilo se lhe abrira em largo sorriso, aquilo lhe convidava ao contato! Maria Elvira, vendo o filho a sorrir enquanto le- vava a roupa suja para a máquina, tudo entendeu. Sorriu também a mãe enquanto passava o tempo no sofá de frente à televisão. A dúvida era quem seria o motivo do sorriso. O filho apresentara-lhe uma única mulher em toda a vida, e havia quatro ou cin- co anos que não via a menina. Samuel, reservado e introvertido, confessara o término uma única vez, quando perguntado, cerca de dois meses após o rompimento. Depois, nem menção à namorada al- guma, nem sorriso estampando no rosto a paixão. A mãe não errava, sabia e confirmou ao ver Samuel
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    57Samuel voltando-lhe ao quarto:o filho, pela segunda vez na vida, apaixonara-se. Difícil foi esperar o entardecer da terça-feira que raiou… Samuel, desde que se pôs de pé, pensou somente em Daniela. Acordou com determinação anormal: agiria, faria algo, só não sabia o quê… Chegando ao trabalho assustou-se das anotações da véspera. Quanta irritação! Planejara a demissão de Jorge, pusera-se a levantar o histórico de ponto do experiente vendedor. Não havia necessidade, ao menos por ora… Precipitara-se e correra um grande risco: compraria uma briga enorme e desnecessária, geraria conflito quando ainda precisava provar-se enquanto gerente. Decidiu-se pelo inverso: chamou Jorge à sua sala e lhe propôs um incentivo; desculpou-se e confes- sou-se alvo de muita pressão. Disse depender de Jorge, confiar no trabalho de Jorge e não esperar de Jorge senão os melhores resultados do setor. O subalterno, que se havia arrependido da inso- lência logo após a saída do chefe, viu-se em alívio: empurrasse os dias com a barriga e lhe teria o salá- rio garantido com a certeza de pronto tomar para si a gerência. Aceitou as desculpas do chefe, agrade- ceu pela confiança e despejou meia dúzia de pala- vras de motivação. Samuel, finda a conversa, sentiu descarregar de si peso imenso. “É mesmo tudo uma questão de saber conversar… Gerenciar é transigir!” — refletia, sa- tisfeito da palestra. O inimigo transformara-se em aliado.
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    58 Luciano Duarte Relaxadodo desabafo, prazeroso da descarga de tensões, não demorou para que lhe viesse novamen- te à cabeça: “Daniela, Daniela…” — quando lhe deu bruscamente: “Sabe o quê? Hoje lhe cumpri- mento com beijo no rosto e peço-lhe o telefone!”. Ajeitou-se na cadeira: a suposição trouxe-lhe um calafrio. Mas era isso! Ou não? Que Daniela espe- raria de um homem? Da garota, já nada se havia de esperar… Que queria Samuel, que ela lhe beijasse a boca a demonstrar interesse? Não, de jeito ne- nhum… Agora o bastão havia sido passado e ele, inclusive para se desculpar da covardia da véspera, pediria o número da magnífica Daniela. Atitude! Pois se lembrou de Gutão. Agora que não bebia, erguera-se um muro entre os dois amigos obstan- do-lhes a relação. Mantiveram ativas as conversas até pouco mais de um mês após o acidente. Gusta- vo, que inicialmente respeitara a decisão de Samuel, que lhe ouvira as justificativas, a história do policial e tudo o mais, não tardou para começar a instigar o amigo. Vendo-lhe as tentativas baldarem, logo teve de encontrar novo companheiro de farra, e a rela- ção com Samuel naturalmente esmoreceu. Entretanto Samuel, a despeito da distância, tinha Gutão como o melhor amigo. Se não mais bebia, se lhes não conciliavam as rotinas, tanto fazia… A amizade perdurava. Sacou o celular e contou, por mensagens, a histó- ria a Gutão. O amigo naturalmente não acreditou, pediu fotos, provas. Como não houvesse, acabou por atirar o caso em descrédito. Samuel ouviu do
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    59Samuel amigo que sefosse com ele… Ah! mas como seria diferente! Jamais perderia uma oportunidade como aquela, por isso a história parecia fantasiosa, mal contada… “Mas se for mesmo verdade, se você não estiver mesmo mentindo, então vá e peça o telefone dessa tal Daniela! Senão, creio seja hora de anun- ciar a mudança de time…” — recomendou textual- mente o amigo. “Pedirei o número dela. Simples. É vê-la e pedir.” Assim caiu a tarde, soou o sinal e Samuel levan- tou-se da cadeira resoluto. Trancando o escritório, dizia: “É hoje!”. Foi pôr-se no carro e começar as conjeturas: “Como já estou calejado desta maldita Lei de Mur- phy, muita calma…”. E logo trafegava entre os car- ros. “Provavelmente algo inesperado irá acontecer, como sempre, e eu não conseguirei pedir o número da princesa…” O tráfego, de praxe, era lento. Oh, horário das seis! Oh, ponto-morto e primeira! Pa- rado entre filas e semáforos, continuava Samuel a refletir: “É bem isso! Inflo o meu balão para que estoure! Mas não interessa, a minha parte está deci- dida: se vejo ela, peço o número, sem desculpa nem demora”. Quarenta minutos e Samuel adentrava o estacio- namento da academia. Foi virar a chave e sentir a tensão crescer. “Coragem! Sou homem!” Apeou, acionou as travas elétricas do carro e pôs-se a ca- minhar. De onde estacionara distava leve descida à re- cepção do ginásio. Em marcha, sentiu um vento
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    60 Luciano Duarte geladobater-lhe contra o peito. Tremeu e não sa- bia se era frio ou nervosismo. Diante da porta de vidro, o último suspiro. Então passa para dentro. Música e rumor de correias. Samuel cumprimenta a simpática recepcionista e deixa-lhe a impressão digital frente à roleta. Concentra-se para não pa- recer nervoso. Passa pela recepção, caminhando de vista baixa. Quando ladeia o primeiro aparelho e sente-se definitivamente dentro da academia, ergue a fronte. Perpassa discretamente todo o ambiente com os olhos: nada. Então, ainda concentrado para não tremer, continua a caminhada. Que irritante esse nervosismo! E põe-se a fazer movimentos de maior amplitude com os olhos, já com o auxílio do pescoço. “Nada, nada… Não veio”. Consoante a cena da véspera, Samuel adentra o vestiário e busca pelo banco amigo. Dessa vez, o suspiro é de decepção. “Eu já sabia. O que acontece é sempre igual. Só mudam os contextos…” Assim Samuel trocou-se, não se olhou no espelho e deixou o vestiário cabisbaixo. Havia, porém, uma pequena esperança. Poderia não ter olhado direi- to… Chegou às barras habituais. O fisioterapeuta reco- mendara-lhe muito zelo no alongamento do ombro: deveria tensioná-lo em três direções, vinte segundos para cada; depois, o aquecimento, a garantir que os músculos preparem-se aos esforços posteriores; e quanto aos exercícios, é preocupar-se primeiro com a amplitude de execução, depois com a carga. Súbito, Daniela irrompe do vestiário feminino.
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    61Samuel Antes que Samuelpudesse formar raciocínio os olhares já se lhes haviam cruzado. O arrepio su- biu-lhe violentamente. “É agora! Ou vou agora, ou não irei. Se esperar cinco segundos, desisto”. Soltou a barra que segurava pelas costas e rompeu o blo- queio em passos corajosos. “É agora!” O arroubo que sentia era inédito. De olhar fixo, caminhou em linha reta à Daniela, que já se via de costas diri- gindo-se a algum aparelho. “Vou pedir o telefone dela” — pensava e arrepiava-se da tensão prove- niente da aproximação. A dez passos de distância, Daniela vira-se bruscamente e dá de cara com Sa- muel. O susto dura um segundo e transmuta-se em sorriso. — Daniela… Tudo bem? — Samuel expulsa de si o nervosismo que estalava, abafa-lhe o calafrio feroz e cumprimenta Daniela com um beijo na bo- checha. A menina assente. Sorri. Samuel emenda: — Vem cá. Confere aqui se seu número tá certo. Samuel ergue-lhe o celular e digita cinco núme- ros aleatórios. Daniela capta a malícia e abre largo sorriso. — Não, Samuel. Meu número não é esse — e, pe- gando-lhe da mão o aparelho, digita e conclui: — é esse aqui! E Samuel vê brilhar na tela do próprio celular o número de Daniela.
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    63Samuel Capítulo IX A perguntatornou-se forçosa: quem seria Danie- la? Onde estaria Daniela desde o primeiro capítulo desta história? Façamos uma pausa e voltemos um pouco no tempo. A trajetória da belíssima Daniela é digna de nota. O pai a tivera aos vinte e dois por descuido, não suportara a pressão e fugira, deixando a namorada em desamparo. Nunca mais Bárbara, mãe da crian- ça, tivera notícias do rapaz. Parira três dias após completar dezoito primaveras. Poder-se-ia prever triste futuro para a pequena que nascia, posto a mãe se encontrasse em aban-
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    64 Luciano Duarte donototal pelo pai da criança, necessitando do tra- balho e ainda de estudar. Não foi o que ocorrera. De início, o obrigatório: a mãe deixara os estudos. O trabalho dera-lhe, em seguida, a licença remu- nerada, o que fora excelente notícia. E depois, o verdadeiro alívio: os pais de Bárbara mobilizaram- -se, encantaram-se com a pequenina e não só se dispuseram, como solicitaram pudessem cuidar da criação da menina. Fora uma surpresa que levara Bárbara às lágrimas, posto que jamais pediria um favor deste aos pais, primeiro, por estimar a car- ga de trabalho que acarreta uma criação; segundo, pelo péssimo relacionamento que mantinha com o pai. Já não conversava com ele há anos, e subita- mente os lindos e esverdeados olhos da criança res- tauraram por completo a relação. Assim, encarregaram-se os avós da criação de Da- niela. Bárbara fazia questão de tirar do bolso cada centavo gasto com a filha, mas sabemos como são essas coisas… Os avós arcavam com boa parte dos custos da menina, em segredo, até que a própria Bárbara tomou ciência e deixou correr. Aos nove anos, Daniela viu-lhe falecer a queri- da avó. Sofreu… como sofreu!… e pior para a mãe tendo de explicar a uma menina de nove anos que jamais lhe tornaria a ver a avó. Onze anos e novo fato marcante: Bárbara recebe proposta irrecusável de emprego, para deixar Di- vinópolis e transferir-se para a capital. O avô, de re- pente, tornou-se o homem mais infeliz do universo: não aceitava ver escorrer-lhe das mãos a netinha…
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    65Samuel Que lhe sobrariada vida, que lhe tirara há pouco a companheira de três décadas e meia? Mas sabemos, novamente, como são vãs as lágrimas nesse mun- do… Foi feita a vontade da mãe, a necessidade da mãe. E Daniela guardou para sempre a fotografia do avô de olhos rútilos, apoiado no pequeno gra- dil que circundava a casa onde fora criada, chacoa- lhando com tristeza a mão debilmente erguida. Durou seis meses a tristeza do velho. Então Da- niela, já aos doze anos, voltava a Divinópolis para romper definitivamente com os laços de sua infân- cia. Nem criança era mais… À Bárbara, veio herança respeitável. Contava trinta anos a mãe que agregou casa e carro ao ótimo fluxo de caixa mensal. Por si só seria capaz de, em alguns anos, deixar o aluguel na capital, mas o falecimento do pai acelerou o processo e a mãe pôde, inclusive, matricular Daniela em uma escola melhor. A rotina era um açoite; Bárbara quase não via a filha. Paciência… havia, decerto, pior. Todos esses fatos tiveram reflexos óbvios e fortís- simos no caráter da pequena Daniela. Se, por toda a infância, fora a menina alvo dos mais zelosos cuida- dos, de todo o carinho dos avós, subitamente, viu- -lhe a vida desabar, provando-nos que há pessoas de que o fado parece não ter piedade. Aos doze anos, portanto, Daniela tinha sobre as costas uma carga de sofrimento atroz. Poderíamos dizer parecido da mãe, mas a mãe tinha Daniela, e Daniela não tinha os avós…
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    66 Luciano Duarte Assim,a garota tornou-se assaz sorumbática e silenciosa em idade que o natural é falar, correr e abrir-se ao mundo. Não foi de desleixar dos estu- dos, mas a reclusão sempre a prejudicou; quer dizer: muito se aprende da relação com outros alunos, o contato é um estimulante, gera interesse, e foi Da- niela distante, de difícil relação, tímida e reservada, cuja ligação com o mundo jamais se estendeu para além da sala de aula. Isso até os dezessete. Nesta idade encontrava-se Daniela no ano em que se formaria no ensino médio. A escola era a mes- ma desde o falecimento do avô. Fizera, assim, duas amigas, que ao longo dos anos trataram de mitigar paulatinamente a tristeza da pequena Daniela, cuja própria imagem passou a se dissipar. Pouco a pou- co, os interesses em comum cristalizaram a amiza- de, entretiveram, motivaram e fortificaram-se. As amigas chamavam-se Laura e Thalita. Ambas de caráter parecido, entretanto, era esta comunicati- va, enquanto a outra guardava-se em timidez seme- lhante à de Daniela. O trio fechou-se quando se juntaram as três em mesma classe no primeiro ano do ensino médio. Foi quando começaram as experiências amorosas das garotas. Daniela apaixonou-se — dizia “gostava” — por um jovem Leonardo. Não se falavam, não se co- nheciam, nada. Mas os olhares confessavam, e o sen- timento era recíproco. Thalita e Laura, entrementes, começaram a trocar beijinhos, coisa que Daniela não podia nem sonhar, visto não houvesse perdido parte considerável do extremo acanhamento da infância.
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    67Samuel Dois anos ficouDaniela a ouvir das amigas a ma- ravilha do beijo, das carícias do afeto. Thalita já na- morava o terceiro… Assim, a imaginação começou a florescer na mente da menina que arrepiava só de ouvir falar em beijo. O arrepio tornou-se instigante. E neste ano corriam os preparativos para a forma- tura, agitando as expectativas de todos os forman- dos. Mesmo Bárbara cuidava, em casa, de aplicar injeções de ânimo na filha. Já em janeiro viam-se todos ansiosos, motivados com a independência de poder organizar uma festa. E o clima não poderia deixar de contagiar, também, nossa Daniela. Ocorreu, pois, algo mais forte. Por junho deste mesmo ano, deram os formandos uma festa a dis- cutir detalhes da formatura. Daniela, já animada dos planos, deixou-se conhecer, de uma só vez, o álcool e o beijo. Quem era o garoto? O próprio Leonardo de dois anos de flerte. Súbito, a vida lhe havia sorrido! Belos dias subsequentes ao beijo… Daniela, enfim, aos dezessete anos, engatava o pri- meiro namoro e tornava-se uma mulher — sim, mulher! — completamente diferente do que fora na infância: fisicamente, demais, o vigor e a felicida- de decorrente do amor transformaram-na; Daniela tornou-se absolutamente radiante. Os olhos ainda verdes como em criança, de contorno delicadamen- te amendoado, davam-lhe uma distinção raríssima; o sorriso quando se lhe abria era um charme! E, aos dezessete, pôs-se em compromisso. A sucessão foi a de costume: viveu a menina to- dos os encantos da paixão, sentiu correr nas veias o
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    68 Luciano Duarte fogodo primeiro amor. Formou-se. Seguiram jun- tos, Daniela e Leonardo, para uma mesma univer- sidade. Tornou-se o contato diário, o afeto diário, a relação só dando trégua quando ambos dormiam e não trocavam mensagens. Assim por quatro anos, quando, súbito, troveja o término. Estamos aqui há exatamente um mês de onde dei- xamos a história no capítulo anterior. A vida de Daniela, em suma, desabou com uma violência iné- dita para a menina que perdeu em três anos os dois avós. Quatro anos de namoro faz pensar em casa- mento, em vida conjugal… E Leonardo cruelmente a traíra e a descartara. De início, a garota pensou em suicídio. Não era o orgulho ferido, mas a desfeita, a decepção avassa- ladora que lhe exterminara todos os planos. Tudo caíra de uma vez. Sem chão, novamente atirada ao limbo, vendo o amado com outra a sorrir, sentindo- -se desprezada no mais alto grau, Daniela trancou- -se em casa e desligou o celular por duas semanas. Só chorava, não comia, pôs-se agressiva contra as tímidas investidas da mãe, não foi um dia sequer à faculdade. A postura como que renunciava a tudo, digna de alguém a quem nada sobrara. Então, já completamente enfraquecida, pálida e inerte, Daniela viu bater-lhe na porta do quarto Thalita e Laura que, juntas, foram saber do para- deiro da amiga. Com muita insistência conseguiram que a menina abrisse; arrepiaram-se vendo-lhe o triste aspecto: cabelos desgrenhados, face cadavé- rica, visível magreza e tibiez. Dois minutos de con-
  • 70.
    69Samuel versa e asamigas foram tomadas por uma revolta, um ódio mortal contra Leonardo. Canalha! Cruel e infame! E decidiram, as duas, pernoitar por algu- mas noites na casa de Daniela. Bárbara muito lhes agradeceu; aliás, foi iniciativa da mãe o contato com elas. Sabe-se lá que feitiço lançaram: a partir da che- gada das garotas, três dias perdurou a depressão. No quarto estava Daniela, bebendo e dançando, em festa com as amigas. Como explicar? Sobre isso não conjeturamos… Mas, por fora, a tristeza de Danie- la desapareceu. E assim começou nossa história. Na terceira se- mana após o término, portanto, matricula-se Da- niela numa academia. O ato era parte de um plano maior: decidira-se a mulher valorizar-se, usar da própria independência. O objetivo era, naturalmen- te, a felicidade, e para isso queria ver-se no auge da forma, no auge da beleza, tornando-se, como a mãe, uma versão cada vez melhor. Dependia de quem? Então aderiu à vida fitness, decidiu esforçar- -se para formar como destaque na faculdade, e deli- berou procurar imediatamente um estágio, empresa que não havia pleiteado desde o início do curso. Foi numa segunda-feira que, deixando a faculda- de, passa em casa, troca de roupa e dirige-se à aca- demia acompanhada de Thalita. Chegando lá, meio dedo de burocracia e já estavam as duas treinando. Enquanto o simpático instrutor passava-lhe alguns conselhos para a execução dos exercícios, Danie- la vê cruzar o salão do ginásio jovem mui estiloso,
  • 71.
    70 Luciano Duarte trajadoem social e que, conquanto jovem, parecia dispor da maturidade que lhe faltava ao ex-namo- rado canalha. Durante a semana, Daniela viu-lhe todos os dias, um após o outro, fazendo notas com a amiga de treino. Interessava-se pelo recato do rapaz. Até en- tão o tipo de jovem que conhecera era o jovem ex- pansivo, espalhafatoso, que tem gosto por fazer-se impressionar; jovem do copo de cerveja para o alto, das noites de farra e das bravatas disparadas sob efeito do álcool. Samuel não parecia ser nada disso, pelo contrário, parecia interessante apesar do reca- to; inteligente, talvez, e estiloso. Thalita não perdia ocasião de instigar a amiga, elencando as prováveis qualidades do rapaz, de forma que na sexta-feira já os tratava como o casal prometido, ainda que Samuel lhe não tivesse direcionado um único olhar. A história subsequente é conhecida. O ignoto é que, naquela segunda-feira fatídica, Daniela tam- bém tremia sobre os pés. O sorriso era puro dis- farce e a iniciativa foi tomada sob impulso das chicotadas de Thalita. O que fez a amiga não foi incentivo, foi coação: exigiu a atitude de Daniela, uma mulher independente, que deveria fazer o que lhe desse vontade, correr atrás e agir pelos próprios desejos. E Daniela fez o que pôde… Disfarçando o nervosismo, cumprimentou Samuel. Vendo que o rapaz não reagia e não tendo nada a mais para falar, deixou-o exatamente com o mesmo sorriso com que o abordara. — Agora é só esperar… — disse Thalita, diverti-
  • 72.
    71Samuel da de vera amiga a dizer: “Acho que ele não gostou de mim”. No dia seguinte, por mensagem Daniela: — Ele não gostou de mim. E a amiga: — Espera… Pela noite, na academia, foi ajeitar-se no espelho do vestiário como e, antes que iniciasse o primeiro exercício, ouve dos lábios do confiante Samuel: — Daniela… Tudo bem? Nem teve tempo para o susto. Congelada, apenas assentiu com a cabeça e sorriu. Samuel, já próximo, tasca-lhe um beijo na bochecha. Daniela arrepia-se com o calor do contato. Vem a emenda: — Vem cá. Confere aqui se seu número tá certo. Samuel põe-lhe à vista o próprio celular. Núme- ro? Antes que pensasse, via-o digitando proposital- mente de forma aleatória. Percebe-lhe nos olhos a malícia. “Ele está pedindo o seu número, sua bes- ta!” — e, arqueando os lábios, começa: — Não, Samuel. Meu número não é esse — to- ma-lhe da mão o aparelho e, digitando, dá o rema- te: — é esse aqui! E Daniela sente aflorar no peito a sensação esti- mulante de passar o próprio número ao charmoso desconhecido.
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    73Samuel Capítulo X Sigamos asombra da bela jovem. Oito em ponto foi quando voltou a menina do ambiente de treino, com sorriso esticado na face. A mãe preparava o jantar. Daniela entrou, foi à cozinha, tomou um copo de água e rumou para o quarto, tudo isso numa leveza, numa serenidade de quem habita simultaneamente dois universos. Bárbara olhou-a com estranhamen- to: normalmente a filha deixava escapar algum co- mentário sobre o jantar… Entrando no quarto, Daniela automaticamente lhe direcionou os olhos para a pequena escrivaninha fronteira à sua cama. Por cima da tampa de vidro,
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    74 Luciano Duarte umnotebook, alguns livros e dois porta-retratos: um de si mesma, em criança, e outro acompanhada da mãe. Mas não foi em nada disso que Daniela cravou o olhar: foi para o espaço vazio que ladeava o porta-retratos em que se via sorridente, com uma janelinha em lugar do incisivo central. Nova roupagem tirou da gaveta, então partiu ao banho, demorando-se longos minutos debaixo do chuveiro, até que Bárbara tivesse de lembrá-la o custo da energia elétrica e alertasse-a contra o des- perdício. Daniela e Bárbara nutriam o hábito de jantarem sempre juntas, em ocasião que geralmente lhes con- sistia o contato diário. Quando a filha deixou o banheiro, a mãe já conjeturava o que poderia ter causado aquela quebra na rotina, o ponto fora da curva de uma longa sequência de dias iguais. Daniela, que tornou aos devaneios logo que disse à mãe que já sairia do banho, aterrizou novamente vendo o olhar fixo e interrogativo que lhe foi dire- cionado assim que atravessou o limiar da da cozi- nha. Sorrindo da cena, a filha perguntou: — Que foi? E a mãe, desconfiada do sorriso anormal: — Que foi, é?! Eu que pergunto… — Comigo? Nada, ué… Bárbara sorriu da confissão. Sorriu, baixando a vista e com sincera alegria. Assim, a mãe logo entabulou novo assunto. Da- niela lhe havia externado os planos do estágio há poucos dias, dizendo das pesquisas que começara
  • 76.
    75Samuel a empreender edos currículos que enviara. Bárba- ra, satisfeita e impressionada, dissera-lhe que tal- vez poderia ajudá-la. Dissera conhecer profissionais de estética, área em que a filha se graduava, e que faria contatos. Nesta noite, enquanto jantavam, continuaram a conversa, com Bárbara dizendo que nutria esperanças de que arranjaria para a filha o estágio. Agradável jantar. Comeram ambas, trataram de assear e organizar a cozinha, como habitual, e seguiu cada uma a seu canto: Bárbara, à televisão da sala; Daniela, ao pró- prio quarto. Havia uma tensão que brotara na mente de Da- niela assim que deixara a academia e só crescia, fazendo com que ela não desgrudasse do celular. Volta e meia, os olhos na tela do aparelho, a ver se havia atualização. Nove da noite e nada… Daniela, então, entrou no quarto e ligou a tele- visão, a disfarçar onde lhe estava a cabeça. “Será que ele vai me chamar agora?” Sacou o celular, enviando mensagem, de uma só vez, às duas me- lhores amigas: à Thalita, a perguntar que achava da demora; à Laura, a contar-lhe a história e per- guntar que achava da demora. Laura, porém, já se via informadíssima, sabia de todos os mínimos detalhes, informados em tempo real por Thalita. E via-se, em mesma medida, animada das novas: pa- recia haver um pacto entre as amigas para motivar a jovem Daniela a unir-se com o rapaz. Queriam, acima de tudo, vê-la esquecer de vez o anterior ca- nalha, quem sabe vê-lo arrepender-se amargamente
  • 77.
    76 Luciano Duarte doerro que cometera… E Daniela teve de passar o restante da noite es- cutando que era uma boba, uma apressada, que nada se devia preocupar. Era esperar, somente isso. A mensagem viria, e queriam as duas amigas se- rem informadas de cada detalhe da nova conversa. A curiosidade de Laura, em especial, era enorme, posto não tivesse visto pessoalmente o rapaz. Ha- via recebido algumas fotos tiradas na academia por Thalita, mas só. Parecia-lhe, tanto a ela como à fotógrafa, que o sujeito era bom partido, ótimo partido. O relógio anunciou o novo dia, e nada de mensagem. Daniela acabou por cochilar, esquecen- do de desligar a televisão. Soa o despertador: seis e meia da manhã e a cla- ridade invade o quarto pela janela. Daniela, como costume, desliga o sino insuportável e permite-se al- guns minutos de soneca. Quinze para as sete e põe- -se de pé. Confere o celular: nada. “Ele não enviou mensagem pela madrugada…” Escova os dentes, conversa qualquer coisa com a mãe na cozinha, e logo está, na rua, caminhando em direção ao metrô da cidade. As aulas desta quarta-feira teriam início às oito. O metrô, a nove minutos a pé de onde morava, le- vava-a a cerca de dois quilômetros de sua faculda- de, e Daniela optava por completar o trajeto de ôni- bus. Portanto, um metrô e um ônibus: e como era odiosa essa rotina!… O metrô de Belo Horizonte, para início de conversa, não era sequer um metrô, e absolutamente não comportava a demanda da
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    77Samuel cidade. De segundaa sexta, era tomá-lo entupido de gente, em desconforto, com medo constante de ser assaltada ou qualquer coisa que o valha, visto que casos semelhantes aconteciam não diariamente, mas a cada vinte minutos. Era descuidar-se por um átimo e pronto, um cidadão tomava-lhe o celular e desaparecia em meio à multidão. Do metrô para o ônibus, pior. A saída da estação era o trecho mais perigoso do trajeto por inúmeros motivos, entre eles, a aglomeração enorme de pessoas como que se empurrando, esmagando-se e afunilando-se para passar entre as estreitas escadas rolantes e corredo- res do terminal, que vivia repleto de sujeitos mal- -intencionados. Vencendo as catracas de saída da estação, era tomar o ônibus, que consistia na parte mais estressante do percurso até a faculdade. Logo deixando o corredor do terminal que dava para a rua, havia uma fileira de vendedores ambu- lantes que, sempre fazendo barulho, angariavam para a frente de seus produtos alguma aglomera- ção. Como espertos que fossem, faziam questão de se posicionar o mais próximo possível da saída do metrô, a garantir que todos que o deixassem fi- zessem contato visual com seus comércios. Como ali nunca havia fiscalização, acontecia o seguinte: próximo ao corredor de entrada e saída do termi- nal, tumulto generalizado, praticamente impossível de ser atravessado sem que se esbarrasse, roçasse, esfregasse em outra pessoa. A dez metros estava o ponto de ônibus, e ainda não chegamos à pior parte do trajeto.
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    78 Luciano Duarte Osônibus de Belo Horizonte eram basicamente divididos em duas seções separadas por uma role- ta. A primeira seção era onde os passageiros deve- riam pagar em dinheiro ao motorista-cobrador que trafegava, fazia contas e repassava as moedas do troco, ou realizar o pagamento através de um car- tão magnético carregado previamente. Pagando, a catraca liberava, e então o passageiro podia passar para a segunda seção, onde estavam os assentos, o corredor e as portas de saída do veículo. Na primeira seção do ônibus, todos os dias e sem- pre, havia uma aglomeração de quatro classes de pessoas: idosos, que tinham direito à corrida livre; pedintes, que somente deixavam a seção quando alguém lhes pagava a passagem; vadios, que aguar- davam que lhes chegasse o destino desejado para saltar para fora do veículo pela porta dianteira; e os passageiros que propriamente entravam visan- do simplesmente pagar a própria passagem e passar pela roleta. Com alguma dificuldade era possível chegar à se- gunda seção. Então acontecia o seguinte: jamais era possível para Daniela cumprir o restante do traje- to sentada, ou ao menos com algum espaço, não entrando em contato físico com outra pessoa. O motorista, que dirigia, fazia contas e passava tro- cos, muitas vezes trafegava entre arranques e frea- das, como brincasse a testar se os passageiros eram bons de equilíbrio. Além disso, é razoável dizer que, dentro de um ônibus, pensa-se que a paz é o traje- to em metrô, visto o trânsito pelas vias urbanas,
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    79Samuel repleto de curvas,semáforos, lentidão e buzinadas ser um caos. Agora o agravante: num ônibus, não bastasse o quase esmagamento dos que não foram agraciados por Deus com um assento, uma única gota de chuva era suficiente para fazer com que os passageiros fechassem imediatamente todas as jane- las, como que se protegendo da entrada de um gás tóxico, capaz de exterminar em poucos segundos o aglomerado de bons cidadãos. O resultado: em dias chuvosos, o ambiente interno do ônibus, além de tudo, era de um abafamento insuportável. Assim, nesta quarta-feira, logo que deixou o ter- minal de metrô Daniela tomou o primeiro ônibus que apontou à vista. Não chovia. Passando pela ro- leta, apoiou-se numa barra vertical próxima a uma janela e, enquanto observava qualquer algazarra que se formava na rua, sentiu o celular vibrar. Era Samuel. E, junto ao arranque do veículo, Da- niela sentiu-lhe o peito palpitar.
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    81Samuel Capítulo XI Que sensaçãogostosa! Quando Daniela viu bri- lhar o bom-dia e o nome de Samuel na tela do ce- lular, esticou-lhe mansamente os lábios na face. Era um misto de alívio, realização, curiosidade e sabe-se mais o quê. Três linhas bem escritas, sim- páticas e elegantes para alegrar-lhe o início de dia. “Respondo agora, ou espero?” Leu novamente a mensagem: vinha o bom-dia, a apresentação e uma graça: “(…) é o Samuel, que pediu descaradamente o seu número ontem na academia…”. Novo sorri- so. “Respondo depois.” Desceu do ônibus a oito minutos do início do pri- meiro horário. Em tempo. Foi sentar na cadeira da
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    82 Luciano Duarte salade aula e contar a nova às duas amigas: “Ele me mandou mensagem”. E as amigas, textualmen- te, aguçaram-lhe as expectativas, felicitaram-na. A professora entrou, passou a expor a matéria enquanto Daniela mantinha-lhe os dedos ativos. Os dedos e a mente. Com as amigas, conjeturava a res- peito das qualidades de Samuel: quantos anos teria? Estudava ou formado? Por que chegava sempre em social para treinar? Mistérios… Mas o rapaz apa- rentava boa estirpe. Vinte minutos de aula e Daniela decidiu-se: “Vou responder!”. Retribuiu o bom-dia e o bom humor de Samuel. Disse-lhe: “Só um pouquinho descara- do…”. Assim entabularam animada conversa. De cinco em cinco minutos, nova mensagem. E Daniela tinha de prestar contas às amigas. Cada nova in- formação de Samuel, novos comentários. Veio o assunto das ocupações: “Sou gerente de uma…”. Agradou a todas. Então as três passaram a ver fu- turo, perspectivas. Samuel mostrava-se inteligente, educado, escrevia com esmero, evitando abrevia- ções e erros ortográficos. Daniela, perguntada, contou-lhe toda a história da primeira vez em que o vira, de que o havia acha- do interessante, mas não tivera coragem de abordá- -lo… disse, inclusive, achou Samuel ter estranhado a aproximação fortuita que fizera na segunda, que ficara constrangida do silêncio, considerando-o al- gum tipo de desagrado. O rapaz desculpou-se en- faticamente, disse surpreendido da ocasião, que ja- mais esperaria uma abordagem como aquela, mas
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    83Samuel agradeceu por terhavido ocasião de retratar-se em descaro. Daniela riu novamente: “Divertido esse Samuel…”. Correram quatro horas de bate-papo. Findou-se o último horário do turno da manhã, então Daniela percebeu que não abrira sequer um caderno. Dei- xando a sala, pôs-se em caminho do restaurante onde costumava almoçar. Os olhos ardiam, via-se tensa: fruto do frenético contato visual com a tela brilhante. Sentia-se esgotada conquanto estimulada de maneira inédita por Samuel. Que é que ele ti- nha? Beleza não seria para tanto… O que instigava era a conversa, o jeito, talvez… Um misto de edu- cação, inteligência, bom humor, talvez ela mesmo parecesse inferior aos olhos do rapaz. O que estava escrito é que se tratava de alguém diferente. Veja- mos pela conversa: quatro horas de pouquíssima entrevista de emprego. De resto, pôde perceber que emparelhavam alguns gostos, que Samuel possuía diversas áreas de interesse e conhecimento; expe- riências, também, Samuel parecia tê-las variadas e interessantes… Que dizer? Em geral, não era esse o tipo de palestra que estava acostumada em primeira abordagem. Desta vez tudo ocorria como se fossem íntimos, talvez fosse isso, íntimos, à vontade des- de as primeiras palavras, sem bloqueios desneces- sários, sem assuntos protocolares, e o interesse, o desejo era mútuo, claramente mútuo. Que sensação gostosa provinha disso tudo! Quedou satisfeita da aplicação do próprio tempo pela manhã. Assim, findo o almoço teria de retornar à sala de
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    84 Luciano Duarte aulapara o turno da tarde, onde faria duas ava- liações. Logo que deixou o restaurante veio-lhe à mente: “Não estudei…”. Pois contatou colegas de classe. Havia, ainda, cerca de quarenta minutos an- tes do início das provas. Reunida a três, de livros abertos na biblioteca da universidade, Daniela concentrou-se na revisão das matérias, esquecendo-se de responder a última mensagem de Samuel. A primeira avaliação metia medo; certamente lhe não dominava o conteúdo. Pôs-lhe o celular dentro da mochila e fez o que pôde para aproveitar aqueles minutos. Uma e quinze da tarde e entrou na sala, sentou-se e aguardou a entrega das avaliações. Tensão? Nem tanto, já estivera pior… O celular continuava na mochila, silenciado, a não desviar-lhe o foco. Provas entregues, foi pôr o olho no papel e cons- tatar: não saberia resolver a questão única e aberta que o professor lhe propunha. Tristeza! Uma hora e meia, portanto, de tortura a pôr em palavras um processo estético de mínima aplicação. A questão solicitava-lhe abordagem completa, des- de a execução do procedimento até suas aplicações, riscos, parâmetros de avaliação e manutenção dos resultados, com ilustrações elucidativas. Péssimo, péssimo… encheu as linhas de evasivas quando deveria muni-las de nomenclaturas técnicas. Por fim, livrou-se da tortura entregando a avaliação ao grave professor; em desalento, porém, frustrada do desempenho e certa dos problemas que lhe aguar- dariam naquela matéria.
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    85Samuel Tomou ar forada sala por cinco minutos, então entrava a nova professora, empunhando as novas avaliações. Coisa chata ficar fazendo provas! Tor- nou a seu assento, respirou profundamente, e logo estava respondendo questões fechadas sobre técni- cas em estética corporal. Pouco menos de quatro da tarde foi quando dei- xou a sala de aula, completa a exaustiva carga horá- ria daquela quarta. Só então se lembrou do celular. Rumando ao ponto de ônibus respondeu, com atraso, as últimas mensagens recebidas. Sentiu-se, subitamente, dominada pelo cansaço vendo-se a entrar no fatigante trajeto de volta para a própria casa. Ao menos, naquele horário haveria trânsito menor… Do ponto ao ônibus, do ônibus ao metro e do metrô, a pé, à sua casa. Deu cabo ao trajeto por volta das cinco. Samuel, respondido há cerca de uma hora, ainda não lera a mensagem. Que cha- tice ter de esperar… Entretanto, vê-lo-ia em breve, e o clima da conversa estava excelente, a despeito do esmorecimento proveniente do atraso na última resposta. Em casa, a mãe não havia chegado. Daniela pas- sou a imaginar como seria o encontro da noite: até então, trocara com Samuel, ao vivo, meia dúzia de palavras. Será que a conversa se estenderia? O que queria, em verdade, era poder perguntar-lhe mais coisas. Que é que ele fazia nos finais de semana? Será que tinham algum contato em comum? Onde estudara? Pois viu como sabia pouco do rapaz.
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    86 Luciano Duarte Foique ocorreu o imprevisto: chegou a mãe, às seis da tarde, em febre violenta. Pediu que a filha a acompanhasse ao hospital. Tomaram um táxi, visto Bárbara se não visse em condições de dirigir. No ca- minho, Daniela ouvia-lhe as queixas, via-lhe a mão a tremer, em transpiração intensa, fria, denuncian- do-lhe o estado preocupante. No hospital, rapidamente Bárbara foi encami- nhada a sessões de exames. Daniela teve de esperar. Frustrava-se da mãe e do silêncio de Samuel, posto o relógio marcasse sete da noite e ainda não tives- se obtido resposta do rapaz. Hora dessas estaria, pessoalmente, em seu contato. Não sendo possível, custava-lhe ao menos responder? O diagnóstico de Bárbara veio tranquilo: a febre, disse o médico, não é senão um mecanismo de defe- sa do organismo, dispensando, na maior parte das vezes, uso de medicamentos adicionais. O doutor passou-lhe receita a conter um ou outro sintoma, e garantiu-lhe que no dia seguinte estaria melhor. Assim, sete e meia da noite saíam mãe e filha do hospital, já tendo Bárbara apresentado leve baixa na temperatura corpórea. Tomaram um táxi à far- mácia mais próxima, adquiriram os medicamentos prescritos pelo médico e, antes das oito, Daniela pôs-se solitária a preparar o jantar. Neste tempo, vibra o celular: Samuel amavelmen- te se queixava não tê-la visto aquela noite. Abran- dou-se o dia da garota, que lhe contou o imprevis- to. Obteve, em rápida resposta, a compaixão e os votos de melhora da mãe.
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    87Samuel A gentileza deSamuel fê-la dormir estampando macio sorriso na face.
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    89Samuel Capítulo XII Quinta-feira. Desdeo novo bom-dia pela manhã, Daniela e Samuel trocaram mensagens com entu- siasmo. Incrível como a conversa só fazia frutificar! Neste dia, tiveram a oportunidade de aprofundar os laços. A confissão de Samuel na véspera, dizendo sentir a falta de Daniela em sua noite, elevou-lhes a relação a outro estágio. Agora, definitivamente, a intenção era clara. Durante a tarde, rumando o assunto a relacio- namentos, Daniela pôde expressar-lhe a frustração e desdita com o ex-namorado. Digitava, vendo-lhe subir novamente os sentimentos horríveis e destruti- vos que o término lhe trouxera, revivendo os piores
  • 91.
    90 Luciano Duarte momentosdaquelas duas semanas em depressão. Percebeu-lhe duas lágrimas rolarem na face, então teve a certeza de que a punhalada não cicatrizara. Samuel foi tomado de surpresa: o relato era do- loroso e recente. Pensando muito, visto as longas e emocionadas mensagens que recebera, tardou além do normal a formular resposta. Sentiu ter conhe- cido a garota em momento inoportuno. “Será que estou a aproveitar-me da carência?” — atirava-lhe a consciência: — “Flertar com alguém nesse estado é, para dizer o mínimo, antiético.” E julgou acerta- do dizer a Daniela, com a sinceridade que lhe cabia, o que lhe parecia da história e da relação entre os dois. Disse que, em primeiro lugar, julgava como atro- cidade e canalhice o que o ex-namorado fizera. Disse não respeitar, pessoalmente, o canalha, não lhe ser possível trocar uma única palavra com esse tipo de pessoa. Em adicional, manifestou sua em- patia à garota, disse-lhe que conseguia imaginar o que ela sentira e que se dispunha, em totalidade, a dá-la o apoio que necessitasse. Finalizando, disse que se sentia um pouco mal por estar estreitando relações com ela naquele estado, que talvez estaria se lhe aproveitando do momento de fraqueza, de carência, exatamente como a consciência lhe havia atirado no rosto. Daniela, emocionada do caráter afetivo e com- placente da resposta, deixou-se derreter, dizendo- -lhe que não esperava o bem que lhe fizera aquela mensagem, que nem com a própria mãe se havia
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    91Samuel aberto daquela formae que não só permitia, como solicitava a presença de Samuel em sua vida. Assim correu a tarde, terníssima tarde, e Daniela chegou em casa desejosa de abraçar Samuel quando o visse à noite. Entretanto, má notícia: Samuel dis- se-lhe, por volta das seis, que teria um compromis- so logo após o trabalho, impossibilitando-o compa- recer à academia. Dessa vez, foi Daniela a externar-lhe o lamento, em atitude que tratou de lhes apertar ainda mais os laços. Thalita, pela noite, arrancou da amiga a confis- são: — É… acho que estou gostando desse Samuel… E Daniela terminou-lhe o dia ávida da companhia do rapaz, do jovem com quem trocara tão somente algumas frases, que mal conhecia e que lhe provo- cou naquela tarde uma avalanche de sentimentos. Queria vê-lo, abraçá-lo, ouvir melhor a sua voz, re- parar-lhe o sorriso… Pouco antes de dormir, Samuel, tomado da li- berdade concedida pela conversa sem interrupções desde as sete da manhã, perguntou à menina: “Es- cuta… Eu seria muito apressado se te chamasse para sair amanhã?”. E Daniela, aproveitando dos recentes lamentos que lhe fizera pela ausência, res- pondeu-lhe: “Não”. Assim, combinaram sair no dia seguinte. “Oito e meia, nove?” — perguntou Samuel. “Amanhã com- binamos.” Desnecessário enfatizar a expectativa que o raiar
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    92 Luciano Duarte dasexta imediata trouxe àqueles jovens… “É hoje!” — diziam ambos de si para si, impressionados da vertiginosa progressão da conversa. Samuel, como criança, olhava-se no espelho e sorria. “Não é possível…” — e desacreditava do encontro marcado em dois dias de papo com a mu- lher mais maravilhosa que Deus lhe havia posto no campo de visão. Daniela, por sua vez, sentiu-lhe a insegurança al- vorecer junto ao dia. De uma só vez pensou não estar preparada, não ter tempo para arrumar-se e ter caído no conceito de Samuel permitindo-lhe en- contro prematuro. Esta última era a que mais lhe afligia, e que se agravou faltando-lhe o bom-dia de Samuel com relógio cravando dez horas da manhã. “Talvez tenha-se desinteressado. Como sou bur- ra!” — e arrependia-se de ter deixado na véspera verter a emoção: — “Deveria ter me controlado. Falei demais.” Naturalmente, não suportou encer- rar em si os pensamentos, externando a conversa da véspera à Thalita. A amiga só faltou lhe beijar do outro lado da tela, felicíssima do ocorrido, do cará- ter afável do rapaz; deu-lhe a injeção de ânimo que lhe faltava: “Deixa de ser boba! Desinteressado… Tá louca?”. E, fatalmente, veio o bom-dia animado por volta do meio-dia, embora em réplica à mensagem que a própria amiga obrigou-lhe a enviar. “Eu detesto esses joguinhos…” — disse Daniela à Thalita, que lhe explicava a necessidade de haver um acordo ve- lado entre os dois. “Ninguém gosta de correr atrás
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    93Samuel sozinho, entendeu? Seo Samuel te chamou por dois dias seguidos, então você precisa dá-lo, também, um sinal de interesse” — justificava. É justo alteremos, por ora, o foco de nossa lente, a ver melhor o que se passou neste dia na cabeça de Samuel. A antevéspera fora tensa e frustrante até o anoi- tecer: “Sabe jogar. Está jogando comigo” — pen- sava o jovem vendo-se subitamente ignorado. E, entrementes, o maldito inconsciente o atormenta- va fazendo-o pensar que talvez houvera cometido qualquer erro. Veio a resposta no cair da tarde, decidiu respondê-la pessoalmente na academia. En- tão, a menina faltou. Frustrado, empalideceu: “Dis- se algo…”. Tomou coragem, pois, já à noite, quando enviou a carinhosa mensagem à Daniela, que se encontrava no hospital. Chegou a resposta trazendo-lhe alívio e a certeza de que nada havia feito à menina. O dia seguinte elevou-lhe os ânimos ao céu, como ficou brevemente dito, e Samuel quase não acredita- va no sucesso das conversas. Era sexta, e o sorriso estampou-lhe no rosto a confiança desde que se pôs de pé. Sete horas da noite. Chega do trabalho e põe-se a aprontar. De início, um banho demorado e longo namoro frente ao espelho: tudo certo com a pele, mas o topete havia de apresentar-se em perfeição. Samuel aplicou-lhe mui requintada técnica apren- dida de Gutão: inicialmente, enxágue em água fria, a reduzir o frizz; depois, enxugamento em leves
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    94 Luciano Duarte compressasde pano seco em redor da cabeça, até que removido o escorrer dos fios; em seguida, com madeixas ainda umedecidas, hidratação com creme especial para pentear, em quantidade cautelosa, a evitar que os fios se tornem oleosos; por fim, mo- delação preliminar com finalizador e secagem ao natural, com retoques de quinze em quinze minu- tos. O leitor julgará que confundimos personagens: engana-se e ofende-nos. Desta forma, Samuel passou-lhe impecavelmente a melhor camisa, vestiu-se em calça jeans recém- -comprada e esfregou-lhe um pano no sapato até que viesse a brilhar. Oito e meia da noite despedia- -se do espelho, aplicando-se as últimas borrifadas do perfume importado. A cinco minutos, pois, distava a residência de Daniela. A menina informou-lhe estar pronta, e Sa- muel pôs-se dentro do carro cuidadosamente lava- do e aspirado naquele dia em lava-jato próximo ao trabalho, onde Samuel deixou-lhe por toda a ma- nhã. O perfume do jovem misturou-se ao agradável exalar do interior do carro e, ansioso, Samuel acio- nou o motor de partida. No caminho, o aparelho de som do carro alterou volume e artista inúmeras vezes até que Samuel de- cidisse por desligá-lo: “Melhor conversar. A música atrapalha”. Quando estacionou frente ao número indicado pela menina, Samuel suspirou e viu-se fre- mente. “Cheguei” — informou-lhe por mensagem de texto. Sete minutos de tensão. Noite e o medo do as-
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    95Samuel salto; Samuel pensou,por um momento, Daniela ter desistido do encontro. Mas ali não havia o que fazer, e fosse o que Deus quisesse… “Algo dará errado. Sempre é assim” — refletia em desalento, perscrutando os retrovisores. Quando baixa uma luz sobre a entrada do edifício de Daniela. Em segundos, aponta a garota, lindíssima, atravessando uma porta de vidro. Percorre lentamen- te o corredor iniciado pelo portão gradeado que dava para a rua. O mesmo caminhar jeitoso, os mesmos olhos que tanto o haviam encantado na academia… Samuel baixa o vidro, a dar sinal. Daniela passa para dentro do carro, também perfumada, quando se cumprimentam sorrindo. A partir deste momento, a noite correria maravilhosa. Apearam dali a vinte minutos em restaurante con- ceituado de Belo Horizonte. O requinte do ambiente, a presteza dos funcionários e a qualidade da comida concorreram para que a noite excedesse todas as ex- pectativas. Não houve silêncio, não houve desencon- tro de ideias e muito menos desconforto. Sentaram-se e, por quatro horas, a noite sorriu-lhes. A tensão de Samuel desapareceu logo que, ainda no carro, Daniela pôs-se a falar. A menina, por sua vez, dissipou o nervosismo vertendo palavras. Toda a história de ambos, das conversas e da semana foi repassada, ao vivo, em olhares e sorrisos. No decorrer da noite as mãos já se lhes entrelaçavam por baixo da mesa. Veio a conta e pouco depois a despedida, já na porta do prédio da garota. O encontro foi selado em beijos calorosos.
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    97Samuel Capítulo XIII Rindo àtoa… Assim Samuel chegou em casa. A felicidade, a euforia pareciam querer fazê-lo estou- rar. Estacionou o carro na garagem, ainda sentindo na boca o gosto de Daniela. “Não acredito!” Silencioso, passou como um vulto pela casa a che- gar-lhe ao quarto. Fechou cuidadosamente a porta e, de luz apagada, sentou-se com as costas apoiadas na cabeceira da cama, onde suspirou longamente, ainda sorrindo, passando a devanear. O que ocorrera fora, eufemisticamente, um so- nho. Como explicar? Que tinha feito para me- recê-lo? Como fora possível que, em dois dias de conversa, saísse com mulher superior a tudo o que
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    98 Luciano Duarte vira?Nunca, nem de perto, ficara com garota que fizesse frente à pérola daquela noite. Não era capaz de acreditar. Então reconstruiu todos aqueles momentos em deleite: a tensão quando em porta da casa da me- nina, os devidos cumprimentos, o nervosismo que parecera resistir até que Daniela pôs-se a falar… Dali em diante, os nervos amoleceram, a fluidez da conversa paulatinamente amansou a agitação inte- rior e em pouco os dois já conversavam como um verdadeiro casal. Casal: aí estava a palavra. Casal sendo ele e a princesa, a maravilhosa Daniela. “Se ela quiser, pode acabar com tudo hoje, agora! Não importa. Esse gol nem Pelé!…” Se a alegria era grande, Samuel sentiu o celular vibrar. Daniela, Daniela perguntava-lhe em texto se havia chegado em casa. “Estou no céu! Obrigado, Deus!” E Samuel respondeu-lhe afirmativamente. A menina fez questão de agradecê-lo, dizer-lhe o quanto gostou do encontro e desejou-lhe uma boa noite. O músculo da face já começava a doer… En- tão Samuel deu a réplica e, eufórico, incrédulo, en- caminhou a mensagem da menina a Gutão, que lhe havia posto em descrédito a história. “Agora desli- go esse celular, senão não consigo dormir.” Desli- gou, deitou-se e fechou os olhos, sentindo, ademais, a satisfação de esfregar na cara do amigo o próprio valor. No dia seguinte, Samuel acordou com a cabeça na véspera. Ligou-lhe o celular e repassou as men- sagens enviadas em madrugada pelo amigo Gutão,
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    99Samuel que certamente asenviara em estado de lamentável embriaguez. As últimas diziam mais ou menos as- sim: “Amanhã é comemorar! Meio-dia no bar do Régis etc. etc.”. Quão deplorável era o amigo… Be- ber, sempre beber… A bebida como solução para tudo, tudo como motivo a beber… Escusou-se de dar-lhe a negativa até que, por volta das dez, veio nova intimação. “Hoje não vai dar” — foi a res- posta, que exigiu de Samuel sucessivas e fastidiosas explicações… Mas não iria beber. Não com Gutão. Samuel ar- rependera-se, inclusive, de ter-lhe entregado a boa- -nova. “Que ganhei com isso? Brio maldito…” E desprezou-se por não controlar a própria euforia. Sabia, calcado em amargas experiências, que lhe di- zer da vida aos outros nunca, em hipótese alguma, trazia-lhe vantagem. Pelo contrário: fosse o melhor dos amigos, contando-lhe a vida, só teria a perder. Foi que neste sábado ocorreu algo incomum. Meio-dia e Samuel almoça com os pais, que lhe per- cebem a evidente alegria estampada na face. Alegria é sentimento camuflável apenas por cínicos profis- sionais, o que não era o caso de Samuel. O pai, logo que esvaziaram os pratos, chamou-lhe a um canto e propôs: — Hoje tem clássico. Vamos num bar? E Samuel, visto a raridade do convite, prontamen- te aceitou. Beberia, claro. Mas qual o problema? Uma vez na vida, outra na morte. O álcool já lhe não ditava a rotina, deixara de ser inimigo mortal. Assim, seis e meia da tarde lá estavam pai e filho
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    100 Luciano Duarte tomandocerveja, pedindo churrasco e aguardando o início do Cruzeiro x Atlético-MG do dia. Sentavam-se em área externa, onde havia melhor ventilação e visibilidade. Uma estrutura metálica forrada por lona tapava o sol na calçada; dela, pen- dia um grande telão, posicionado num dos extremos do bar, por onde o jogo seria transmitido. Talvez uns vinte ocupavam a calçada, todos posicionados em direção ao telão, ocupando João Arnaldo e Sa- muel mesa de distância intermediária. O pai via-se animado, pelo jogo e pelo filho. Es- perava o momento certo de perguntar-lhe o motivo da alegria, informada no início da semana por Ma- ria Elvira e confirmada no almoço recente. Três cervejas e o pai, curioso, insinua a Samuel: — Conta pra gente: acertou na loteria? E o filho, sorridente: — Pois é… — Mulher? — Também… Conheci uma mulher, sim, e o tra- balho anda bem… Tudo correndo melhor do que eu poderia esperar. João Arnaldo, risonho, ajeitou-se na cadeira. Molhou o bigode e continuou, como tivesse qua- trocentos anos de experiência: — Mulher, é claro… Tá escrito na sua testa! E como foi? Samuel disse-lhe, vangloriando-se, que fora abor- dado pela garota na academia, e que no dia seguinte pediu-lhe corajosamente o número; conseguindo-o, dois dias de conversa e saíram a um restaurante. Sa-
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    101Samuel muel enfatizou abeleza singularíssima da menina. O pai pediu fotos, e vendo-as, após alguns segundos de deslumbramento, subitamente lhe fechou o sem- blante. Calou-se, devolveu ao filho o celular, virou- -se para o telão que exibia a transmissão pré-jogo, umedeceu novamente o bigode e pôs-se a pensar. Samuel, desentendido da mudança repentina, vi- rou-lhe o pescoço ao telão, a ver se algo importante ocorrera. Nada. Então, esticando um sorriso des- concertado na face, perguntou-lhe: — Que foi? Qual o problema? E João Arnaldo, já mirando o filho nos olhos, pe- netrando-lhe pelo contato visual, deu a resposta: — Bom… O que vou te falar aqui, hoje, começa e termina nesta mesa — e curvou-se a Samuel. — Tá me entendendo? Samuel assentiu, estranhando o tom grave, mas ciente de que o pai adorava este tipo de ocasião. João Arnaldo, como ficou dito, tinha certa cadên- cia nas palavras, certo tom de voz que lhe conferia enorme seriedade e crédito ao discurso. Quando se punha a falar, parecia não estar senão declamando verdades. E Samuel respeitava-lhe exageradamente. João Arnaldo começou: — É o seguinte, Samu. Estou sinceramente feliz em te ver alegre, satisfeito de encontrar uma garota ma- ravilhosa, que acredito seja ótima pessoa e tudo o mais. Pouco sei da história dessa menina, mas desejo que você, caso queira, seja feliz com ela, porém… João Arnaldo fez sinal de nova cerveja ao garçom. Samuel escutava com atenção.
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    102 Luciano Duarte —Uma mulher como essa — emendou o pai — tem, todos os dias, trinta homens interessantes ba- tendo-lhe na porta, dando-lhe em cima. Todos eles saberão ser divertidos por trinta segundos, caso a oportunidade lhes seja concedida. Olha… — e o pai cofiou o denso bigode — eu te falo não é duvidando do caráter da garota, mas porque já vi muito. Mu- lher bonita assim é fogo… Chega o garçom, serve-os e sai. João Arnaldo sor- ve metade do copo de uma vez e continua: — Essa menina que você ficou tem um mundo de possibilidades. Não digo que melhores, não me entenda mal… Pelo contrário. Mas ela é incapaz de ver e valorizar o que você tem a oferecer: o seu caráter, o seu temperamento, a sua honestidade… E será bombardeada o tempo inteiro com outras possibilidades, talvez mais sedutoras do que a que você entrega. Tá me entendendo? O que eu quero te dizer é o seguinte: você já é homem para definir sua vida. Siga em frente, seja feliz, invista nesse re- lacionamento. Mas tome cuidado, muito cuidado, e esteja sempre disposto a perder. Assim se joga a vida: ganha quem se dispõe a abrir mão do que tem. Samuel articulou as primeiras palavras após o discurso: — Pô, pai… Isso é um verdadeiro balde de água fria… E João Arnaldo respondeu-lhe: — O seu tio, você sabe… — um tio materno ha- via-se divorciado ao descobrir-se traído, perdera na justiça a guarda dos filhos, metade do patrimônio,
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    103Samuel tendo a outrametade vendida em um ano para sal- dar-lhe a pensão exigida pela ex-esposa, a empresa lhe foi acometida crise violentíssima, e o homem acabou por suicidar-se. — Eu te falo porque quero a sua felicidade. Mas não creia que te aconselho a não seguir adiante. Pelo contrário: faça o que o seu coração mandar e conte comigo. O meu alerta é para que você não se perca, não crie, na medida do possível, dependência desta garota, e sempre tenha em mente que Deus pode tirar o que te deu, porque assim é a vida: as coisas vêm e vão. É aceitar e se- guir… Samuel, silencioso, levou alguns minutos para di- gerir os conselhos. Então, finalmente compreendeu: o pai sabia do que falava, prevenia-o, de antemão, dos riscos que alguém em dependência emocional incorre, das ameaças provenientes da fomentação de expectativas, em suma: de tudo aquilo que Sa- muel já sabia, mas, estimulado do envolvimento, era incapaz de observar. A conversa no bar encaminhou para outros as- suntos. O jogo começou e puseram-se a falar de tática. Sorriam e contavam piadas. Volta e meia, porém, Samuel recordava das palavras de João Ar- naldo sobre Daniela, mesmo sem nunca tê-la visto, e sentiu crescer em si uma imensa gratidão pelo pai que tinha, pela sabedoria que o homem lhe passa- va, sempre lhe auxiliando a enveredar pelo cami- nho correto, prudente e sensato. O pai apoiava-o, mas o alertava. Não se impressionava de nada: vira muito, vivenciara o bom e o péssimo, o auspicioso e
  • 105.
    104 Luciano Duarte odesalentador, e entregava tudo isso ao filho, com a tranquilidade de um sábio. Tanto fazia o resultado do jogo, Samuel tornou à sua casa neste sábado com a certeza de provir de um grande pai.
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    105Samuel Capítulo XIV Havia programaçãopara o dia seguinte: Raimun- do, o tio, convidara toda a família para um churras- co em sua casa, isto é, os de Samuel e os avós. Reuniões assim eram frequentes: havia esforço para manter a pequena família sempre unida, e João Arnaldo e Raimundo viam-se na obrigação de entreter os velhos pais. Desta forma, de um encontro a outro jamais se abria o espaço de duas semanas. Normalmente, a tradição era o almoço dominical, porém não raro reuniam-se às quartas ou quintas, quer em razão do futebol, quer para jogar cartas. Samuel acordou no domingo por volta das dez da
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    106 Luciano Duarte manhã.Sabia do compromisso, e gostava de chegar cedo para acompanhar os preparativos do almoço. Levantou-se e sentiu-lhe a cabeça pulsar. Era, ob- viamente, o que a cerveja da véspera havia-lhe es- condido do dia seguinte. “Bebi demais. Hoje, nem uma gota” — pensou rumando para a cozinha. A mãe o viu e tratou de apressá-lo: combinara às onze em casa de Raimundo. Samuel assentiu. Na cozinha, o quanto de água o corpo suportasse e um comprimido milagroso. De volta ao quarto, tratou de aprontar-se: puxou qualquer roupa da gaveta e partiu para o banho. Durante a véspera trocara mensagens com Danie- la enquanto se via no bar. Porém espaçadas, proto- colares, posto estivesse diante de uma pessoa e seria desfeita ficar com a cara enfiada no celular. Deixou ciente a garota, a evitar qualquer constrangimento ou arrefecimento na relação. Daniela entendeu, não viu problema. Pela noite, pois, estando Samuel em casa, trocaram outras mensagens, e já era hábito o boa-noite antes de dormir. Samuel, deixando o banheiro, desejou à garota um bom dia. Em minutos a resposta, seguida de novas palavras do jovem, dizendo da programação que cumpriria. Amanheceu nublado, parecendo guardar chuva para a tarde. Tempo agradável, visto o calor quase sempre incomodar. Pouco depois das onze chega- va a família à casa de Raimundo. João Arnaldo, motorista, tratou de passar na casa dos pais a bus- cá-los. Era incrível como a presença de João Ma-
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    107Samuel noel, sempre álacre,contagiava o ambiente. Foi pôr-se no carro e começou a fazer notas sobre a condução do filho: recomendava-lhe atenção aos buracos, conferiu-lhe o aperto do cinto, perguntou da calibração do estepe e dizia-se observando-o pelo retrovisor. Todos divertiam-se. Já devidamente acomodados na cobertura do apartamento que sediaria o churrasco da tarde, di- vidiram-se da seguinte maneira: Raimundo e João Arnaldo a cuidar do churrasco, posto fossem apai- xonados por assar uma carne; Maria Elvira e Ju- dite, as cunhadas, à cozinha, cuidando do restan- te dos preparos; os filhos até se ofereceram, como sempre, a ajudar, mas qualquer tímida recusa era motivo suficiente para permiti-los ficassem agar- rados aos avós. Assim estavam Vinícius, Samuel e Julinho, e João Manoel contava-lhes do dia em que o filho pôs-se pela primeira vez a tocar o gado em sua fazenda: — O Raimundo, atrás de seis bois, batia com uma taquara na terra, assim, ó… — e gesticulava representando o desengonço do filho, levando os netos à risada. — Aí aconteceu o seguinte: na beira da estradinha de terra, tinha um pé de manga que toda vez que a gente passava… João Arnaldo, a dissimular atenção no posicio- namento da carne na grelha, ouvia o pai a contar a história. Súbito, estacou frente à brasa e sentiu escorrer-lhe uma lágrima. Raimundo percebeu: — Que é isso, Naldo? O irmão recompôs-se, piscando com força:
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    108 Luciano Duarte —Pus o olho na brasa… Limpou com as costas da mão a face, em seguida dando a volta por trás do irmão, rumo à pia, onde lhe lavou as mãos. Raimundo, que lhe observou a fugacidade com estranhamento, ao vê-lo abrindo a torneira, tornou a concentrar-se no que fazia. Acontece que, novamente, o Raimundo da histó- ria de João Manoel era, em verdade, João Arnaldo, que desta vez não pôde segurar a emoção que as memórias do pai lhe evocaram. Na ocasião, ainda jovem, lá pelos treze, ele tocava o gado e, avistando uma manga madura, decidiu por pegá-la. Distraído na tarefa, acabou por deixar o gado distanciar-se e, percebendo, pôs-se a correr atrás dos bois. Quando os encontrou, lá estava João Manoel tocando-os. O pai fazia graça, dizendo que salvou o filho de uma bordoada. Entretanto, outra vez se errava de filho, o que, a João Arnaldo, era pungente e constrange- dor. Samuel, logo que se sentou a escutar os casos do avô teve de enfrentar o primeiro e óbvio conflito. Raimundo, a cumprir a tradição, estourou com uma pancada a tampa de uma garrafa de cerveja, levando copo cheio ao sobrinho. Samuel arriscou a pueril negativa: — Hoje não, tio… Valeu. E o tio, rindo de orelha a orelha, virou-se a João Arnaldo, que estava na churrasqueira, e apontou- -lhe ao filho: — Ouviu isso, Naldo? Negativo.
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    109Samuel — Seu filhodisse que não vai beber. E João Arnaldo, sorrindo, respondeu-lhe: — Apaixonado! — O quê? — o tio abriu os braços. — Apaixo- nado? E, com muita malícia, aproximou-se do sobrinho, dizendo-lhe em tom de sussurro, mas suficiente para que todos ouvissem, visto o brado precedente já lhe houvesse angariado as atenções: — Conta pro titio, Samu. Qual o nome do rapaz? E Samuel, ele mesmo sorrindo da graça que levou todos às gargalhadas, respondeu o tio tomando-lhe o copo cheio da mão. Raimundo satisfez-se e tor- nou triunfante à churrasqueira. Aqui é necessário abrir um parêntese, posto o costume dos mineiros possa estranhar habitantes de outras paragens. Samuel, tomando-lhe da mão o copo, dizendo-lhe em ato que iria beber, e de fato bebendo, provou ao tio a própria honra. Isso quer dizer que, recusasse o copo, seria considerado co- varde. Podemos ainda adicionar: não beber, para o mineiro, é pior que uma desfeita, é como que negar explicitamente a socialização. Quando Samuel pro- meteu-se a não mais beber, em suma, prometeu-se uma impossibilidade. Em Minas Gerais simples- mente não existe, para quem já bebeu uma vez, essa coisa de “não vou beber”. O mesmo poderíamos dizer a respeito do cheque especial, onde tomá-lo uma vez é como assinar um contrato eterno assu- mindo-se devedor. Samuel, tomando o copo, imediatamente pensou:
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    110 Luciano Duarte “Lávou eu mais uma vez…”. Mas o remédio já havia mitigado os colaterais da bebedeira da véspe- ra. Paciência… Não beber, ali, não existia. Quises- se mesmo parar de beber, era mudar-se de estado, jamais se encontrar com a própria família. Deus o entenderia… E a tarde correu animada, como era habitual. Cer- ca de duas e meia o almoço foi servido. Espaçosa, a cobertura do apartamento dispunha de bancada extensa, em mármore, do lado oposto da churras- queira, em parte coberta. Ali, foram colocadas as panelas e travessas com os preparos. Os familiares serviram-se e distribuíram-se entre duas mesas de vidro que ladeavam a bancada. Almoçando, obser- vavam o céu, que se abria exatamente naquele ho- rário. Houve um incidente que assustou a todos. De repente, enquanto almoçava, João Manoel engas- gou-se. Os poucos segundos de respiração ofegante, de mãos levadas à garganta, fizeram todos arrepiar. Entretanto, foi susto. O velho, por si só, conseguiu desobstruir-lhe a traqueia, e tudo voltou ao normal. Os familiares despediram-se ao anoitecer.
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    111Samuel Capítulo XV No mesmodomingo em que Samuel passava a tar- de junto aos familiares em casa de seu tio Raimun- do, Daniela se lhe reunia com as duas fiéis amigas, em encontro que se estendeu pela noite. Por volta de uma da tarde, encontraram-se as três. Havia um açaí muito gostoso próximo à casa de Laura, mas, como aparentasse haver chuva para a tarde, decidiram-se pela comida japonesa, em es- tabelecimento coberto, onde poderiam tranquila- mente colocar a conversa em dia. Daniela havia recusado, na véspera, uma festa com as amigas. A atitude causou-lhes desgosto, pois as meninas não entendiam qual o problema de
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    112 Luciano Duarte umagarota solteira, aliás, recém-solteira, sair com as amigas num sábado. Que fizera? Ficara em casa, sozinha, assistindo a qualquer filme. Havia linha de sobra para o primeiro assunto. Chegaram, pois, ao restaurante: primeiro Laura, logo Thalita e Daniela, que partilharam do mes- mo transporte. No trajeto, Thalita já dera sinais à amiga do que viria logo que se sentassem. Feitos os cumprimentos, estando as três acomodadas, Laura começou a conversa assim: — Olha, amiga… — dizia à Daniela — ontem você perdeu! Thalita emendou: — Bem feito! Eu disse pra ela no carro! E puseram-se as duas a dizer, ora uma, ora ou- tra, as maravilhas da noite anterior. A ênfase era forçada. Que se passara? Nada de mais… Mas as palavras que dançavam naquela mesa exalavam ânimo, satisfação, encantamento, pois que a noite havia sido perfeita, haviam-se encontrado com vá- rios conhecidos, a música estava ótima, os drinks excelentes, e ainda receberam, no final, uma corte- sia gratuita para outra festa na semana seguinte das mãos do próprio promoter do evento. Daniela simulava entusiasmo. Sentia-se mal por não ter muito o que falar, mas se esforçava pergun- tando detalhes, inclusive sobre os garotos da festa, com o que as amigas riram escandalosamente. Al- guém, observasse da mesa ao lado, facilmente nota- ria o exagero nas palavras, nas inflexões, porquan- to a dissimulação era evidente; entretanto julgaria,
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    113Samuel sem sombra dedúvida, que as três ali se divertiam. E, em certa medida, era o que acontecia. Daniela gostava da companhia das amigas. Porém a conversa pôs-se, subitamente, descon- fortável. As amigas, muitíssimo bem treinadas para esse tipo de situação, esperaram pelas primeiras pa- lavras de entusiasmo de Daniela para convocá-la à festa da semana seguinte. Eis o lado negro das mesmas convenções que permitem a celebração do natal em família... Daniela, por um automatismo, uma mania de buscar, sempre que possível, estreitar ideias, disse, em lamento simulado, que se arrepen- dia não ter acompanhado as amigas na festa da vés- pera. Pois recebeu à queima-roupa o novo convite. Mania essa de simpatia… Daniela, naquele momento, não desejava festa ne- nhuma. Conhecera Samuel, gostara da companhia do rapaz. Era cedo? Era. Mas que diferença fazia? Então Thalita, percebendo a breve relutância da amiga, disparou-lhe no rosto uma ironia. Insinuou não seria possível ela, que acabara de sair de um relacionamento de quatro anos, que acabara de vencer o término, fosse grudar com o primeiro que aparecesse, não podendo sequer sair com as amigas que dormiram em sua casa nos momentos difíceis pós-término. Laura mal esperou a amiga terminar e reforçou a reprimenda, dizendo não acreditar que Daniela, aos vinte e um, jogaria a juventude fora daquela maneira… Nem sequer aproveitara a ado- lescência, posto fosse uma reclusa e, logo amadure- cendo, praticamente casara.
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    114 Luciano Duarte Destaforma, estavam justamente as amigas que incentivaram a aproximação de Daniela a Samuel, logo ao primeiro beijo, dizendo-lhe que se não de- veria apegar, que era livre, que era possível conci- liar tudo e que, obviamente, as amigas deveriam ter prioridade, porque ela era muito jovem e ainda não tinha aproveitado nada, e não seria razoável que ela, logo após um término, fosse engatar em novo relacionamento. Daniela não se lhes opunha argumento, escutan- do e pensando. Quando arriscou justificativa, então o tom de censura aumentou, e as amigas se lhes am- paravam a agressividade mutuamente. Em poucos minutos, estavam quase brigando. Pois Daniela convenceu-se, pediu desculpas, dis- se realmente se sentir uma tola ao ignorar como se abria uma oportunidade incrível em sua vida. Pode- ria, agora, compensar o tempo perdido no passado, fazer o que nunca fizera. Foi caírem essas palavras na mesa e a felicidade subitamente se instalou. As amigas, percebendo a posição humilde de Daniela, afagaram-na, e assim passaram a planejar juntas. Em pouco a própria Daniela via-se entusiasmada. A festa da semana se- guinte, uma viagem no final do ano… as ideias co- meçaram a brilhar nos olhos da garota. Saíram do restaurante pelas quatro e levaram o agito para a casa de Laura, onde ficaram a conver- sar até nove da noite. Quando Daniela chegou à própria casa, depois daquele dia sacudido por ideias, a cabeça lhe fervia.
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    115Samuel Estava, sim, feliz,visto a tarde com as amigas hou- vera-lhe trazido alento, talvez se lhe tivesse aberto os olhos, dotando-lhe de um sentimento agradável de resolução e independência. Tomou um banho. Pensava, ainda, no futuro. E só então se lembrou de que se esquecera de respon- der a última mensagem de Samuel, enviada ainda à tarde. “Ah, amanhã eu respondo…” — pensou e, assim, deitou-se a dormir. Naturalmente, houve arrefecimento nas conver- sas entre Samuel e Daniela exatamente após à calo- rosa noite da sexta. Ambos, porém, pareceram não se importar, posto lhes tivessem ocupado o tempo e a mente relacionando-se com outras pessoas, em especial neste domingo. Alvoreceu a segunda com a impressão de que se passara muito tempo desde que ficaram. Entretan- to, coube à Daniela a inciativa de desculpar-se pelo esquecimento da véspera, já pensando que talvez desagradara o rapaz. Samuel respondeu-lhe com a gentileza costumei- ra, dizendo não haver problema algum, contando- -lhe do próprio domingo e de como estivera entre- tido com os tios e avós. Disse-lhe que fora alvo de brincadeiras dos familiares após o pai insinuar que o filho estivesse apaixonado, o que causou impres- são estranha na garota. “Então a família dele já sabe?” — e via-se con- fusa. Era boa ou má notícia? Daniela, pensativa, passou a avaliar a situação durante o dia. Se, por um lado, a ciência da família logo após o primei-
  • 117.
    116 Luciano Duarte robeijo era extremamente precipitada, por outro, evidenciava que Samuel tinha-lhe em alto concei- to. “Não estou sendo só mais uma…” — pensou e, quando externou por mensagens a reflexão, ouviu idêntica frase da boca do próprio Samuel. Nessa toada por todo o dia, ambos os jovens sen- tiram o contato restaurar-lhes a relação recém-co- meçada. Em Daniela ressoava as reflexões da vés- pera, mas a garota não enxergava o motivo por que não pudesse continuar estendendo-se com Samuel. Aliás, fora isso consenso entre as próprias amigas: era perfeitamente possível a conciliação. Desta for- ma, e animada pelas palavras sempre educadas e serenas do rapaz, Daniela deixou-se comover. Iria à festa no sábado, qual o problema? Mas continuaria conversando com Samuel, continuaria relacionan- do-se com ele, que era em muitos aspectos superior a Leonardo. Leonardo… A memória do ex-namorado trou- xe-lhe a certeza: continuaria em avanço na relação com Samuel. Correu, pois, o dia. Daniela viu-se em aperto em recebendo a nota da terrível avaliação da quar- ta-feira anterior. Haveria de estudar, quisesse a aprovação naquela matéria… Mas nada além da normalidade. Como sabia, já estivera em piores e, estudando, seria possível a aprovação. À noite a atração do dia: pela primeira vez, ver-se-iam Samuel e Daniela na academia após, de fato, terem-se conhecido. Tudo mudara com a virada da semana. A intimidade era outra.
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    117Samuel Assim, e nãosem ligeiro e mútuo estranhamen- to, cumprimentaram-se, no ginásio, em carinhoso selinho.
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    119Samuel Capítulo XVI A semanacorreu excelente aos jovens. O conta- to físico diário, selado em beijos de cumprimento e despedida, pareceu-lhes solidificar o afeto. No celu- lar, a conversa era contínua e parecia não ter fim. Pela noite diariamente o cume quando, despegados dos afazeres da rotina, aquecidos pelo contato na academia, chegavam em casa e punham-se a con- versar. Neste horário, pouco antes que dormissem, vinham as palavras de maior cunho emocional. Daniela, logo em se distanciando do domingo e cada vez em contato mais intenso com Samuel, viu-se afastando das amigas, algo assaz natural. Entretanto, o afastamento das garotas e o carinho
  • 121.
    120 Luciano Duarte quesó fazia crescer pelo rapaz expôs à Daniela o desencontro que havia entre seus próprios desejos e ações. Estava, em suma, confusa e dividida. O que a atormentava, e ecoava-lhe em mente sempre que palavras de Samuel suscitavam-lhe bons sentimentos, eram os planos que fizera no domin- go. Não por peso na consciência, culpa, nem nada parecido, mas simplesmente porque, no ritmo em que as coisas andavam, não haveria fácil concilia- ção entre o que planejara e o relacionamento com o rapaz, como pressupusera. O pior de tudo é que queria, de fato, acompanhar as amigas, as grandes e verdadeiras amigas, e vivenciar com elas momen- tos que talvez nunca se lhes haviam afigurado tão próximos e possíveis como agora. Porém desejava, também, sair novamente com Samuel, e era impos- sibilidade levá-lo junto de si à festa. Que fazer? É o que Daniela torturava-se por resposta. Haveria de encontrá-la… O dilema prorrogou-se, dia após dia, durante a semana. Na quinta-feira Thalita e Laura já se puse- ram ouriçadas nos preparativos para a festa. Bom- bardearam-se umas às outras de mensagens. Danie- la, que fora às lágrimas na véspera após palavras carinhosíssimas de Samuel logo antes de dormir, viu-se em apuros, porquanto o rapaz insinuara na terça que saíssem no sábado e Daniela ficou de lhe responder. Já era quinta e nada. Com um estranho pesar, e não sem ser antes co- brada, Daniela, na noite desta quinta-feira, disse a Samuel não poder sair ao sábado, uma vez que já
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    121Samuel teria combinado programacom as amigas. As pa- lavras saíram lacônicas, causando estranhamento ao rapaz. Daniela aguardou pela reprimenda emo- cional, pelo arrefecimento do tom maravilhoso que estavam as conversas naqueles dias. Não foi o que ocorreu. Samuel, se bem que estranhando, respon- deu-lhe com tranquilidade não haver problema al- gum e que, se Daniela quisesse, poderiam sair em outro dia naquela semana. “Eu vejo e te falo” — disse a garota, e em cinco minutos estavam em ou- tro assunto. Veio o sábado. Assim que amanheceu, as três amigas se reuniram para iniciar os preparativos. Durante a manhã fizeram as unhas e o cabelo, em sessão que acabou pelo meio-dia. Assim almoçaram e passaram a tarde em casa de Daniela, aprontan- do-se, conversando e testando roupas. A festa teria início às 19h, portanto havia tempo de sobra para as garotas, que logo se viram entediadas. Brotou entre elas a ideia: por que não começar, ali mesmo, a festa? Ótimo, ótimo! Perfeito! Pois se puseram, pelas quatro da tarde, a beber qualquer drink de vodca. Seis e meia e, animadas, partiram para a festa. Daniela estava lindíssima, em traje negro colado ao corpo, cabelos soltos, reluzentes e levemente ondu- lados, em penteado que lhe evidenciava os contor- nos da face e, naturalmente, o olhar felino e os lá- bios maravilhosamente desenhados. Pisou na festa e abriu em torno de si o espanto: quem seria? de onde viera? mora aqui? E o sorriso que lhe não des-
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    122 Luciano Duarte pregavada face era como um farol que lhe atraía todas as atenções. Olhares, esses vinham como tiros em campo de batalha, incontáveis e agressivos, o que lhe elevou o ego ao céu. As amigas comentavam, divertiam-se, faziam graça com a quantidade de pretendentes que anga- riava a garota. Não tardou para que começassem a ser abordadas. Bebendo e sempre conversando, acompanhadas, deixaram a noite correr em ânimo crescente. A música do local contribuía, injetando adrenalina nas veias das jovens, que por vezes dan- çavam e erguiam os braços, chegando a gritar. Onze da noite. A carga alcoólica amplificou-lhes todas as sensações. Subiu, no palco, a principal atração da festa. Gritos e muita euforia. Havia mais de uma hora que conversavam continuamente com três rapazes que conheceram no correr da noite. Os níveis de intimidade escalaram-se com rapidez. Onze e quinze, Laura beija um deles. Pouco depois, Thalita entrega-se nos braços de outro. O leitor tentará negar o óbvio. Não aceitará o que estamos por escrever. Que examine a própria experiência e aceite: Daniela, minutos após Thalita, deliciou-se em beijos ardentes com o último rapaz. Grande sequência de noite… parece alegre, após rasgada e atirada à lata de lixo. Daniela, no domingo, levantou-se em mal-estar terrível às duas e meia da tarde. Levantou-se e di- reto à cozinha, a tomar qualquer remédio, a bus- car água para a boca que lhe parecia um deserto. Da cozinha novamente à cama, onde se pôs imóvel,
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    123Samuel insone, esforçando-se paravencer o desconforto. A cabeça mergulhou no travesseiro e começou a pensar, a reconstruir a véspera, quando se lembrou de ter bebido vodca desde as quatro da tarde até o amanhecer. É claro que lhe fugia a sequência dos acontecimentos… Péssimo dia, péssimo dia… Mesmo as amigas, tão entusiasmadas na véspera, acordaram em es- tado lamentável: Thalita amanheceu vomitando. E quando, já à noite, as garotas trocaram algumas mensagens, o tom era desalentador. Para que tan- ta bebida? E para que sempre essa vodca maldita? Juntas, porém, conseguiram reconstruir grande parte da noite. Do lado de Samuel, neste mesmo final de semana deu-se — como podemos dizer?… — uma coinci- dência qual premeditada. Incríveis as coisas como são… Gutão, o Gutão do primeiro capítulo desta histó- ria, esteve presente em mesmíssima festa de Danie- la. Como a garota houvesse atraído para si todas as atenções, o rapaz logo viu brilhar-lhe na mente a associação, a estranha mas certeira sensação de que já vira aquela fada em ocasião precedente. Es- forçando-se pela solução do enigma, lembrou-se de Samuel. Comparou as fotos que recebera do amigo com o que via diante de si e obteve a confirmação. Precavido, cuidou perguntar o amigo por mensa- gem, enviando-lhe fotos sacadas em sigilo. Samuel, como esperado, recebeu as ditas fotos com extremo desconforto. Daniela lhe não dissera
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    124 Luciano Duarte exatamenteque tipo de programa faria com as ami- gas. Um tolo poderia dizer: “Qual o problema? Não há problema algum em Daniela ir a uma festa com as amigas…” — mas nestes momentos um homem comum consagra-se profeta. Gutão entristeceu-se pelo silêncio do amigo, sabia lhe haver estragado a noite; via, demais, em primeira pessoa a enxurrada de olhares atirados à Daniela. Samuel, em casa e sozinho, pôs-se a refletir. O imediato e incontrolável impulso de nosso jovem foi enviar à Daniela uma mensagem, qual- quer mensagem, e percebeu a menina não lhe ter respondido a última pergunta. Enviou-lhe uma in- terrogação de reforço, arrependendo-se no instan- te imediato. Samuel reconheceu-se impotente. Que faria? Recomendar a menina que não beijasse ou- tro rapaz? Seria ridículo… Além de que, em abono da verdade, que tinham eles? Saíram uma vez e só. Não estamos no século passado, e Daniela era li- vre para fazer o que quiser. Mas Samuel bem sabia: uma pérola como aquela, se exposta, seria corte- jada enquanto não fugisse para casa. Era óbvio e, em adicional, presumível que seria abordada por ao menos um rapaz interessante, de forma que a garo- ta, sob o efeito estimulante do álcool, em ambiente instigador da socialização, dificilmente faria papel de árvore. A pergunta que restava era: tudo bem. Iria acon- tecer. Talvez não, mas era provável que sim… Que fazer depois? Como lidar com a situação, sabendo que a mulher com que conversava e investia o pró-
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    125Samuel prio tempo respondia-lheas mensagens carinhosas, mas, entrementes, aventurava-se em beijos com ou- tro? Era horrível só de pensar. Era sentir-se rebaixa- do a nada, digno de nenhum valor. Com o agravan- te da ciência do amigo, da perda total do respeito angariado pela prévia conquista. Humilhação. Samuel não respondeu o amigo, não obteve retor- no de Daniela. Quase meia-noite e vem, de Gutão, a punhalada verbal. Nestes momentos de brio feri- do o homem sente rebentar sentimentos dos piores experimentados pela natureza humana. Samuel, en- tretanto, calcado em espécie de fortaleza interior, manteve-se calado, desligou o celular, fechou os olhos e forçou-se a dormir. O dia imediato foi o primeiro em duas semanas a não haver “bom-dia” entre Daniela e Samuel. Este, desiludido, sentia o travo lhe amargar a língua. “Isso é o que dá esquecer do dinheiro, da minha liberdade financeira.” E arrependia-se do tempo in- vestido na medíocre Daniela, sentia vergonha pelas estúpidas e infantis palavras carinhosas que lhe en- viara, quando não deveria tratá-la senão como um objeto, um número, um troféu. Mas que resposta daria um homem para situação como essa? Um ver- dadeiro homem? Decidiu-se. Daniela enviou-lhe mensagem pela noite, foi prontamente ignorada. Na segunda, a menina co- brou-lhe a resposta, Samuel fingiu que não leu e, à noite, faltou da academia. Era terça e, portanto, a garota já era capaz de enxergar o óbvio. Só não sabia como. Não era possível que Samuel tivesse
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    126 Luciano Duarte informaçãodo que ocorrera. Quem lhe informara? As amigas? Impossível. Mas não havia outra justifi- cativa para os inéditos dois dias e meio de silêncio: ele sabia, o como era mistério, mas sabia. Assim, sendo-lhe insuportável a dúvida, Danie- la anunciou por mensagem querer confessar-lhe o ocorrido no sábado. Suplicou por atenção para que se pudesse explicar, desculpar-se de forma digna, ser honesta com quem lhe dedicara carinho. Aqui poderíamos levantar a pergunta: se era esse o reco- nhecimento da garota, por que ela não… Samuel, pois, dotado da virtude que lhe permitia se compa- decer, disse disposto a ouvir o que Daniela tinha a falar. Então a garota, vertendo lágrimas enquanto digi- tava, contou-lhe o sucedido e disse envergonhar-se muito do que fizera, disse gostar muito dele, não de uma forma banal, mas em profundidade, porque via nele virtude que nunca encontrara em outros, aliás, no único outro que tivera… disse arrepender- -se muito, não querer perdê-lo em hipótese alguma mas que, fosse a vontade do rapaz, aceitaria. Samuel era capaz de perdoar. E perdoar o que, se não tinham nada ou, no máximo, muito pouco? Na sexta-feira imediata, Bárbara anunciou via- gem pelo final de semana. Daniela convidou Sa- muel para passar junto de si a noite e acordá-lo com beijos no sábado. A partir deste dia, os jovens passaram a dizer-se namorados.
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    127Samuel Capítulo XVII As consequênciasprevisíveis deste conturbado início de relacionamento caíram, todas, por terra. Correram, pois, doze meses pacíficos e felizes para o casal. Daniela, logo selado o namoro, entregou-se por completo. Sentia uma espécie de gratidão por Sa- muel tê-la perdoado e não ter tocado novamente no assunto. Venceram o problema. A relação, então, só tratou de avançar. Com um mês de namoro Samuel conheceu-lhe a sogra, cau- sando impressão mui positiva. A introversão do rapaz ou, antes, a educação, a cautela e a sereni- dade no trato angariaram a simpatia de Bárbara,
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    128 Luciano Duarte quetinha certa repulsa por expansividade, já pela maturidade, que lhe ensinara o quanto essa peculiar qualidade associa-se a outras piores, já pela memó- ria do expansivo Leonardo. Samuel, digamos, era- -lhe o oposto. Daniela, também, foi à casa de Samuel pelo mes- mo tempo, logo passando a frequentar algumas reuniões da família do rapaz. Também agradou. Em seguida, Bárbara conseguiu para Daniela o estágio prometido, tornando a rotina da filha um caos. Como havia aula pela tarde em dois dias da semana, a garota teve de conciliar estudos e traba- lho e, posto não cumprisse a carga horária semanal na labuta, tinha de completá-la ao sábado. Mas correram, pois, doze meses felizes, produ- tivos para o casal. Daniela, a despeito da rotina, sentia-se realizada vendo a vida progredir. Samuel firmara-se na gerência da empresa e, nestes meses, pôde demonstrar ao chefe em resultados o valor do seu trabalho. O patrimônio crescera substan- cialmente, uma vez que o novo salário permitia-lhe uma taxa de poupança superior à cinquenta por cento. Samuel regozijava-se correndo os olhos pe- los números de sua planilha de controle financeiro pessoal. Numa terça-feira, estacionava o jovem gerente de vendas, como sempre, a quinze minutos do início do expediente. Na véspera, palestrara em sua sala com o experiente Jorge, a ver se motivava o homem a trazer novos clientes para a empresa. Com Jorge, Samuel tinha de usar todas as sutilezas que apren-
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    129Samuel dera não emsua carreira, mas em toda a sua vida para evitar causar atritos com o homem que já era um ícone da empresa e constituía seu principal ven- dedor. Entretanto, Jorge parecia acomodado com a antiga carteira de clientes, desleixado posto as ven- das viessem como que automáticas entregando-lhe a comissão. Samuel havia de contornar essa situa- ção, pois a postura de Jorge não só prejudicava os resultados do setor, como influenciava diretamente a motivação dos outros vendedores, que trabalha- vam em escritório aberto e, portanto, conversavam desde o início ao fim do expediente. Samuel, refletindo na véspera, antes que chamas- se Jorge a uma conversa, percebeu-se em dificílima situação. Já concedia ao subalterno todo tipo de incentivo financeiro que a posição lhe permitia, os ganhos de Jorge, demais, destoavam do restante do setor, mesmo este trabalhando menos. Como moti- vá-lo? — pensava o gerente. — Motivação é codi- nome do dinheiro. Samuel estruturou um plano astucioso. Chamou Jorge à sua sala e propôs-lhe o seguinte: se Jorge desenvolvesse, efetivando vendas, o cliente X e Y, trataria de remanejar a carteira de clientes do ven- dedor fulano, transferindo para a carteira de Jorge três clientes cujas vendas não estavam satisfatórias na organização atual. O plano era talvez antiético por colocar em xeque a carteira do outro vendedor sem lhe deixar ciente. Samuel poderia, sem dúvida, gerar insatisfação. Entretanto todos, excetuando Jorge, temiam a demissão, e o plano atiçaria a cobi-
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    130 Luciano Duarte çado experiente vendedor, visto essa classe não po- der escutar nome de cliente sem que o peito quase estoure de entusiasmo. Jorge aceitou a proposta, apertou a mão do chefe que, falando baixinho, pediu-lhe sigilo. Assim, chegou Samuel na terça-feira, consoante o habitual, entrou-lhe no escritório e pôs-se a analisar planilhas tomando café. Por volta das nove e meia, deixou sua sala e dirigiu-se à produção, a confirmar com o responsável o prazo de entrega de alguns itens que sabia serem críticos na linha do cliente. A sala contígua à de Samuel era onde trabalhavam os vendedores de sua equipe. O gerente, deixando o próprio escritório, desembocava num corredor em que, avançando um passo, já ladeava a parede de vidro que circundava a repartição vizinha. Viras- se o pescoço no exato momento que lhe deixava a sala, fotografava o estado de seu setor antes que os próprios vendedores pudessem vê-lo. Deixou sua sala, virou-lhe o pescoço, não viu Jor- ge. Avançou. O final do corredor dava para o pátio industrial. Pisou na fábrica e encontrou, no fundo do galpão, Jorge a conversar, a sós, com Valmir: mos- trava-lhe quaisquer papéis. Já no meio do pátio, ru- mando para a sala do responsável que lhe responde- ria a respeito dos prazos de entrega, Samuel foi visto por Jorge, que claramente perdeu o sorriso da face. O diretor, súbito, virou-se e, com o olhar, encontrou o mesmo Samuel. Tornou a Jorge, tomou-lhe da mão os papéis e, com um tapa no ombro, despachou o vendedor, que simulou sorriso e pôs-se a andar.
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    131Samuel Estranho? Seria, Samuelfosse idiota. Estava há anos no mercado, já presenciara toda sorte de ma- quinação e conhecia, de perto, essa nojenta cana- lhice denominada política empresarial. Um subal- terno jamais conversa com um superior senão para bajulá-lo, forçar simpatia ou denegrir concorrentes. Qualquer funcionário com dez anos de carreira sabe muito bem como implantar ardilosa e sutil- mente uma ideia na cabeça de um superior. Jorge tinha dez só de empresa. A reação de ambos, chefe e vendedor, não abria espaço para a dúvida. Patife! Samuel desviou o olhar. Fingiu serenidade quan- do a cabeça ferveu e rugiu. No meio do pátio, en- veredou à direita, onde ficava a sala do responsável pela produção, saindo do campo de vista de Jorge e Valmir. Teve a confirmação dos prazos em desalento: sa- bia-se alvo da infâmia de Jorge, sabia-se em apuros. O olhar de um canalha, quando pego em flagrante por alguém experimentado, confessa. A inquietação psicológica não durou duas horas, porquanto antes do meio-dia o diretor chamou Sa- muel à sua sala. Cortês conquanto grave, Valmir era, antes de tudo, um homem honrado, justíssimo, que inspi- rava respeito onde quer que passasse. Tinha desa- venças como qualquer indivíduo de forte posição as tem, entretanto, carregava na consciência o troféu de saber que ninguém poderia chamá-lo canalha. Valmir, requisitando Samuel pelo telefone da em- presa, esperou-o à porta. Chegando o gerente, o
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    132 Luciano Duarte diretorapontou-lhe a cadeira. Então, calmamente volteou a sua mesa. Sentou-se, carregou o semblan- te, suspirou e começou: — Samuel, é o seguinte. Dá uma olhada — o che- fe virou a Samuel a tela do próprio notebook. Lá estava, brilhando, a planilha que o próprio gerente controlava, cujo acesso era permitido em rede para o setor de vendas e para o diretor. Valmir passou para a aba de acompanhamento de vendas. — Eu andei conferindo alguns valores, por conta da declaração anual… — o diretor apontava para a tela. — Dá uma olhada: o que tá de vermelho eu encontrei divergência com o faturamento. A planilha estava inteira em vermelho. Em prati- camente todos os meses havia algum erro de lança- mento. Continuou Valmir: — Aqui do lado — apontou para algumas células — eu calculei a variação percentual entre o lançado na planilha e o faturado. Aparentemente tá tudo acima em taxa fixa de quinze por cento. Samuel olhava, incrédulo, para os números. Era ele que lançava e conferia aqueles dados. Valmir mirou-o, a esperar resposta. Como não viesse, pros- seguiu: — Agora dá uma olhada nisso — trocou de aba. — Por algum motivo, a carteira de Jorge está desfal- cada em seis clientes. Clientes antigos, anteriores à sua entrada na empresa. Sempre foram dele… — Mas eu não… — Samuel, — atalhou o chefe, olhando-o nos olhos, — eu sei que é complicado, mas você é o
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    133Samuel responsável por essesdados e estão todos, sistema- ticamente, errados. — Valmir… — E a questão do Jorge, — o chefe novamen- te o interrompeu, — eu não faço a menor ideia de por que os clientes dele desapareceram, mas quem tem permissão para alterar essa aba da planilha é só você, o gerente. Emoção fortíssima acometeu Samuel. O olho vi- drou-lhe, não sabia que responder. — Isso é sério, Samuel. O Jorge é funcionário an- tigo, foi ele quem veio reclamar comigo. Rolou a lágrima sobre a face do gerente. Era re- voltante! Ele não alterara a planilha, não lançara nada errado! — Olha só — Valmir suspirou, meneando a ca- beça; puxou para si o notebook. — Tá acontecendo alguma coisa? Há alguma coisa que você quer me falar? Samuel tremia: — Então, Valmir… — novas lágrimas escorreram — eu, eu não sei, simplesmente não sei — gesticula- va muito, nervoso. — Toda segunda pela manhã… toda segunda, desde que eu a, que eu assumi o car- go, eu confiro a planilha. A primeira coisa que eu faço é conferir a planilha — gaguejava e o chefe pareceu compadecer. — Eu confiro a planilha até o meio-dia, confiro todos os dados, um por um, pu- xando da planilha do faturamento. Depois eu pe… — Samuel, calma. Valmir levantou-se:
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    134 Luciano Duarte —Espera um minuto. Vou buscar uma água. Samuel levou-lhe as duas mãos aos olhos, tremen- do de raiva. Lacrimejava muito, o nariz escorria. A incompetência era pecha que lhe não cabia. O chefe voltou em passos ágeis e pousou um copo de água sobre a mesa, diante do gerente. Em silên- cio, novamente se sentou. Samuel, entrementes, agradeceu e bicou o copo de água. Seus olhos se viam inchados. — Tá melhor? — Valmir perguntou-lhe. Samuel assentiu com a cabeça. — Bom… Eu não duvido da sua competência, Sa- muel. Confio no seu trabalho. Mas eu preciso que você averigue o que aconteceu, ou o que está acon- tecendo… Valmir, calejado, perguntava por formalidade, porquanto lia a verdade nos olhos de quem lhe res- pondia; sabia, portanto, Samuel ser inocente. Pe- quena pausa e retomada: — Vamos fazer o seguinte: volta pra sua sala, in- vestiga o que foi que aconteceu, e na sexta a gente conversa, tá bom? Hoje é terça, na sexta a gente senta e conversa. Samuel já se havia recomposto o suficiente para articular melhor as palavras: — Olha, Valmir. Eu juro que não sei o que acon- teceu. Estou tão surpreso como você… — Eu sei, Samuel. Agora era o gerente que atalhava: — Mas averiguarei, levantarei todas as atualiza- ções desta planilha, puxarei o backup no sistema e
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    135Samuel até sexta, semfalta, você terá na sua mesa a origem dos erros e o responsável. Eu posso errar, eu erro, mas não assim. Eu não sou desleixado com meu trabalho. — Eu sei, Samuel. — Antes de sexta eu te dou a resposta. Samuel disse e levantou-se em olhar furioso. O chefe era íntimo do sentimento que viu exalar do gerente. Não precisou dizer mais nada. Tinham, ele e Samuel, um acordo: o que conversavam morria na conversa. Valmir, pois, sabia seu gerente ser discre- to, fruto da experiência que acumulara na empresa. Não faria escândalo. Porém, o diretor teve a certeza lendo os olhos do rapaz: Jorge estava frito.
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    137Samuel Capítulo XVIII Terça-feira tensapara Samuel. Deixou a sala do chefe pisando forte, trêmulo de cólera. O sinal anunciou o horário de almoço: para não esbarrar em Jorge no refeitório da empresa, Samuel recusou almoçar. Trancou-se na sala e recusou almoçar. Foi sentar-se e abrir a maldita planilha. Como se- riam possíveis aqueles erros de lançamento? Confir- mou: realmente, os dados estavam incorretos. Mas ele os conferira na véspera, estava tudo conforme os relatórios… Como explicar? Samuel fez que ia ligar ao responsável pela rede da empresa; lembrou-se que era horário de almoço. Inferno! Então se pôs a analisar o histórico de atua-
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    138 Luciano Duarte lizaçõesda planilha, cujo diretório conhecia. Havia uma atualização às 13h da véspera. Que isso dizia? Nada. Não era possível verificar o com- putador responsável pela atualização. Bela inutili- dade de histórico!… Pensando, Samuel percebeu-se incapaz de lembrar o momento em que fechou a planilha no dia anterior. 13h era horário razoável para ainda estar com ela aberta em seu computa- dor… A informação lhe não servia de nada. Súbito, uma luz. Samuel puxou a última gaveta de sua mesa, onde arquivava os relatórios e projeções de vendas que lhe eram entregues sistematicamente pelos vendedores às sextas. Lembrou-se: havia, efe- tivamente, conferido os valores lançados na véspera, quando planificara as ações do setor para a semana. Foi direto no relatório de Jorge e encontrou vários erros. O disposto na planilha estava, de fato, dife- rente do que tinha em mãos. Porém o mesmo ocorria para todos os outros relatórios: havia incorreções em todos! todos! Em mãos não havia prova, não havia nada. O fato único era que a planilha estava errada, como o chefe vira, como Samuel vira e como qual- quer um poderia ver. Era possível que Samuel tivesse lançado incorretamente os dados? O triste de dizer é que sim, era possível… Como não houvesse evidências, pistas, nada, Sa- muel caiu em desalento. Alternava olhares entre a planilha e os relatórios incrédulo. Não almoçou: a marmita que a empresa lhe encomendava quedou, fria, ostentando-lhe o nome na tampa em cima da mesa do refeitório.
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    139Samuel Três e meiada tarde e batia o ponto, de volta para casa. O cargo lhe estava, evidentemente, ameaçado. Que adiantava continuar trabalhando? Precisava pensar. Chegou em casa pelas quatro, tomou um banho e sentou-se-lhe na cama a meditar. Daniela fora avi- sada, por mensagem, da péssima notícia da manhã. Samuel lhe não explicara exatamente, mas informa- ra: “Estou mal”. A garota sabia não ser todo dia que o namorado lhe dizia parecido: afagou-o; disse ter aula até as cinco e que, na saída, podiam encon- trar-se em sua casa, caso fosse a vontade de Samuel. Sentado, o jovem esperava: iria, sim, à casa de Daniela; precisava de um abraço. Demais, tornara- -se costume Samuel dormir na casa da namorada, posto Bárbara tivesse passado a se ausentar com frequência: conseguira recolocação a alguns quilô- metros da capital e, na maior parte dos dias, optava por dormir em apartamento que alugara próximo ao novo emprego a evitar o trânsito de volta em horário de pico. O resultado era Daniela passar a semana praticamente sozinha em casa. Pensativo, Samuel reconstruiu as cenas da ma- nhã: o chefe chamando-o, a reprimenda, a planilha repleta de erros, a emoção que sentira e o vexame, sim, o vexame de chorar na frente de um homem. Como se dera aquilo? Lágrimas, várias lágrimas. Na sala do chefe, no ambiente de trabalho, lágri- mas. Um homem como Valmir certamente as inter- pretaria qual manifestação de impotência. E não seriam? Samuel, em verdade, não tinha o que lhe
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    140 Luciano Duarte responder.Mas naquele choro vergonhoso havia a indignação de alguém que exercia a função com di- ligência, com boas intenções. Samuel nunca agira, deliberadamente, contra a empresa. Era cuidadoso, organizado e proativo. Quantas vezes, quando ain- da vendedor, ouvira maquinações no setor de ven- das! Isso era a rotina, o dia a dia. E Samuel nunca, jamais participara desse jogo sujo de dizer pelas costas o que se não tem brio de dizer pela frente, de tramar contra colegas de trabalho, mesmo isso lhe custando algumas antipatias e uma certa distân- cia dos companheiros de setor. Então a promoção: continuara agindo de forma íntegra, sendo justo com todos, mesmo com os que não gostava, em es- pecial com aquele canalha do Jorge. Fora ele, com certeza fora ele que, de alguma maneira, conseguira alterar a maldita planilha! O experiente vendedor era assaz ardiloso para tramar algo semelhante, eli- minando detrás de si as provas e disfarçando a pró- pria culpa… A mãe bateu-lhe na porta do quarto. Samuel abriu os olhos, de susto, e suspirou. — Tá tudo bem, Samu? — veio a voz do corredor. Samuel percebeu ter chegado em horário inabi- tual, não ter dito palavra e se trancado no quarto. — Tá sim, mãe. Só tô com um pouco de dor de cabeça. — Quer que eu traga um remédio, alguma coisa? — Não, pode deixar. Duas horas depois, Samuel entrava no aparta- mento de Daniela. Deixou, como se tornara cos-
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    141Samuel tume, o carroestacionado na garagem do prédio e subiu. A namorada logo percebeu o abatimento no olhar do jovem, afagando-o com beijos e abraços. Perguntado, Samuel resumiu-lhe o ocorrido: — O que eu não entendo é como os dados foram alterados. Da maneira que o sistema foi construído, só alguém, entrando na minha sala, com acesso ao meu computador, poderia alterar a aba do resulta- do mensal consolidado… E externou-lhe toda a perplexidade com o caso. Daniela, também, não encontrou hipóteses para ex- plicar o ocorrido, limitando-se a consolar a tristeza de Samuel. Recomendou-lhe calma, fé e tranquili- dade, dizendo que o malfeitor uma hora se revela- ria. — Será possível, — perguntava Samuel, — de ou- tro computador que não o meu, alterar as permis- sões de modificação na planilha? Não sabiam. — Porque julgo impossível que alguém, — emen- dou, — exatamente às 13h de ontem, quando hou- ve a última atualização, tenha entrado em minha sala e feito o trabalho sujo. Talvez eu estivesse al- moçando e… Samuel lembrou-se de um detalhe. Sempre que saía para almoçar, entrava a auxiliar de limpeza para assear sua sala. Obviamente, seria piada pen- sar que a ótima mulher houvera encostado no seu computador, senão para limpá-lo. Não saberia se- quer operar a planilha... Mas aí estava, ao menos uma pista, de que a sala não seria impenetrável na
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    142 Luciano Duarte ausênciade Samuel. O gerente, ademais, só a tran- cava no termo do expediente. Que situação… Mas os lamentos duraram poucos minutos: o de- sabafo foi intenso e breve. Pois logo os namorados puseram-se à cozinha, a fazer qualquer prato para a janta, em costume que muito lhes aprazia. Engra- çada essa coisa de cozinhar, parece terapêutica… Começaram os aprestos e, subitamente, já estavam brincando um com o outro. Daniela costumava fa- zer graça da imperícia de Samuel com ferramentas gastronômicas: dizia-lhe indelicado, grosseiro com os alimentos. Já Samuel arrogava-se a tarefa de ler as instruções de preparo, que dizia todas mal elabo- radas por cozinheiras profissionais como Daniela. Aproveitou que a namorada palpitou sobre a medi- da do tempero e retrucou: — O que é uma xícara? uma colher de sopa? uma pitada? Isso não são medidas… — dizia, como fosse Daniela a responsável. — Se estou de bom apetite, afundo a colher de chá no tempero; isto é: se estou esfomeado, comerei condimentado... Escute aqui, cozinheira, aprenda: medidas são gramas, libras e similares, que são a mesma aqui, na China e em todos os humores. Comprarei um caderninho para que possamos traduzir todas essas suas receitas… Assim, o restante da noite foi agradável para o casal. Jantaram, deitaram-se, assistiram a qualquer coisa na televisão e, abraçados, caíram no sono por volta das onze.
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    143Samuel Capítulo XIX Quarta-feira. Samuellevantou-se às seis, antes da namorada. Confortável no ambiente, cumpriu a rotina: banho rápido, asseio dos dentes e preparo de um simples café da manhã. Daniela só despertou quando o namorado já saía. Despediram-se com um beijo e o gerente, que já possuía cópia do controle da garagem, deixou o prédio da namorada. Samuel adiantou-se mais do que o habitual. Che- gou na empresa motivado, cerca de quarenta minu- tos antes do início do expediente. Entrou-lhe no es- critório, acendeu as luzes e ligou o computador. No corredor que dava para a sua sala havia uma exce- lente cafeteira elétrica, instalada por Valmir como
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    144 Luciano Duarte regaloaos funcionários. Samuel deu-lhe o primeiro trabalho do dia, então tornou ao seu posto, fechan- do a porta detrás de si. Sentou-se, aproveitou o silêncio visto o expe- diente não houvesse iniciado, então se pôs a refle- tir. Solucionaria, agora que se via de mente limpa e renovada, o enorme problema da véspera. Pensou em Jorge. Estranho instinto que, inexplicavelmente, costuma acertar. Jorge, Jorge… era ele o culpado, com certeza. O canalha do Jorge… Abriu a maldita planilha. Nada de novo, tudo como na véspera. Então puxou alguns relatórios antigos da gaveta: nos meses precedentes, tudo per- feitamente condizente. O problema, pois, se dera no mês atual, exatamente no último lançamento. Como agiria, fosse ele Jorge e desejasse prejudicar o chefe? Pensou e não lhe veio resposta. Tentaria queimá-lo com Valmir? Isso seria o óbvio; arrisca- do, porém. Não faria mais que insinuações quan- do lhe brilhasse a oportunidade, embora sabendo que qualquer postura incisiva poderia levantar de si a suspeita, senão causar má impressão no diretor. Desgastá-lo com todo o setor? Isso era a rotina, não surtia grande efeito: os vendedores, demais, precisa- vam de vender. A maneira mais fácil de arranhar a reputação do chefe seria, sem dúvida, afetar a pro- dutividade do setor: números gritam e são visíveis a todos. Entretanto, o campo de ação, para si, seria limitado. Poderia, também, como bem fizera, atra- vessar o chefe e direcionar queixas a Valmir; é pos- sível que tivesse, para isso, o apoio de mais alguém.
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    145Samuel Mas era, novamente,um tanto arriscado. O que não deixava dúvida é que, para prejudicar o chefe, deveria fazer com que ele parecesse incompetente aos olhos dos outros. Deveria, primeiro, expor-lhe as fraquezas. Procuraria por injustiças cometidas por ele, maus-tratos a subalternos, erros estratégi- cos, tudo. Mas nisso Samuel não dava brechas… Enquanto refletia, Samuel ouviu soar o sinal. Sú- bito, veio-lhe uma ideia: se não podia encontrar a prova cabal de Jorge como corruptor de sua plani- lha, poderia devolvê-lo os mesmos ardis uma vez que, para ele, o gerente da empresa, seria muito mais fácil descredenciar um subalterno. Boa! Mas a consciência censurou-lhe em meio à luz. Era antiético, era rebaixar-se ao nível do canalha. A questão, porém, impunha-se: perderia o emprego por conta de um chacal? Permitindo-o, não somen- te preservaria a honra, como também daria força ao mal. Era justa, pois, a reação. Nesse caso, seria lícito valer-se dos mesmos ardis. De repente, pensou na Tamóios. Por que, jus- to nela, não poderia explicar. Mas se lembrou de como, há cerca de um ano, visitara a empresa, obti- vera mais que anuência do comprador e entregara o cliente em mãos de Jorge que, até o momento, não efetivara uma única venda. Os bons resultados es- moreceram a obsessão do gerente. Em alguns meses já se não falava em Tamóios no setor. Uma ideia! Samuel puxou o telefone e discou para a Tamóios. Trinta segundos e a chamada era transferida. — Opa! Tudo bem? — saudou-lhe o comprador.
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    146 Luciano Duarte Tudosim. Samuel apresentou-se, disse ter visita- do a empresa há um ano, quando foi recebido pelo anterior no cargo, que lhe mostrou as aplicações de pulverizadores na linha de produção da empresa etc. O comprador, de nome Márcio, subitamente lhe interrompeu: — Amigo, não estou entendendo. Samuel estranhou. — Você é gerente da Top Spray? Era, evidente. — Pois que você fala como se estivesse apresen- tando a empresa para mim. Nós compramos de vo- cês. Desde que eu entrei na empresa, vocês forne- cem para… — Como? E o comprador mudou o tom: — Cê tá de brincadeira, né? Ontem mesmo a gen- te recebeu produtos de vocês, ó: modelos HighJet e BlendJet. Eram, com efeito, modelos patenteados pela em- presa de Samuel. — Márcio, olha. Desculpa — arregalou os olhos e apertou o telefone contra a orelha. — Eu não sei nem como te falar isso. Eu sou gerente de vendas, há mais de ano, da Top Spray. Eu gerencio sozinho o setor de vendas da empresa e visitei, pessoalmente, a Tamóios antes de você ser contratado. Eu tenho acesso a todas as vendas realizadas por nossa em- presa, todas as notas fiscais emitidas e, tô olhando agora mesmo para os relatórios… não há nenhuma venda efetivada para vocês no último ano.
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    147Samuel — Como assim? —Não há. Eu tô com o sistema aberto. Se vocês estão usando nosso produto, estão comprando de outra fonte, não da gente. — Espera um minutinho… Samuel já não raciocinava: varria com os olhos a lista de clientes da planilha. Na cabeça, um incên- dio. — Olha aqui, ó — começou o comprador: — JB Sistemas de Pulverização. Essa é a razão social que está na nota fiscal de ontem emitida e entregue por vocês. — JB? Essa empresa não é a gente. — Foi um funcionário de vocês, uniformizado, que a entregou em nosso setor de recebimento… — Espera aí, Márcio. Por favor. Eu preciso da sua ajuda — a mão apertava o braço da cadeira, o peito palpitava. — Olha: a nossa empresa é séria, tem trinta anos de mercado, e nós desconhecemos essa JB Sistemas. Quem tá te falando sou eu, Sa- muel, gerente de vendas da Top Jet. Pode conferir o meu número no registro de chamadas do seu telefo- ne. Você compra diretamente conosco? — Claro. Quem me atende é o Jorge. Samuel estacou. Houve silêncio por alguns segun- dos. Então as palavras nervosas: — Olha, Márcio. Minhas sinceras desculpas. Eu peço, por favor, que anote o meu contato direto, o meu e-mail, e faça o contato conosco, a partir de agora, diretamente comigo. Eu sinceramente não sei te explicar o que está acontecendo, o Jorge é,
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    148 Luciano Duarte defato, vendedor de nossa empresa. Mas o que eu te garanto é que, aqui, nós não vendemos como JB Sistemas. — É… então, Samuel, você precisa averiguar por- que, olha só: apenas no último mês essa JB Sistemas faturou quatorze mil reais para nós. — Quatorze mil? Márcio, perdão. Você poderia, por favor, enviar-me o seu histórico de compras co- nosco nos últimos meses? — Claro, Samuel. Claro. Vou mandar no seu e-mail. — Muito obrigado, Márcio! E desculpa nova- mente. — Boa sorte! Qualquer coisa, pode me ligar. Desligaram. Samuel estacou frente ao computa- dor, incrédulo e assustado. Jorge abrira um CNPJ paralelo para vender os produtos da empresa! Isso era roubo! roubo descarado! Há quanto tempo fa- zia isso? Quanto teria roubado da Top Jet? Quator- ze mil só no último mês! Gelou de medo. Não lidava com um subalterno, um mero canalha, mas com um ladrão profissional. O temor era saber o caso ser de polícia, de cadeia, e Samuel fazia intuitivamente uma associação de cri- mes. Denunciado, um ladrão seria capaz de mais. O gerente meditou por três longas horas. Rece- beu, por e-mail, o relatório prometido pelo com- prador. Oitenta e quatro mil reais a JB vendera-lhes nos últimos doze meses. Conferindo, pela internet, o registro desta tal JB Sistemas de Pulverização, lá estava o nome, o maldito nome de Jorge como só-
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    149Samuel cio-proprietário. Samuel tornoua ligar para Már- cio, explicou-lhe a gravidade do caso, pediu-lhe notas fiscais, e-mails, tudo o que pudesse enviar. O comprador mobilizou-se e consentiu. Pelo almoço chegava no e-mail do gerente o ca- minhão de provas. Samuel, novamente, não almo- çou. Duas da tarde e tinha, em mãos, os documen- tos impressos, quando se dirigiu à sala de Valmir. O diretor recebeu-lhe com a benevolência costu- meira. Dois minutos de conversa e Samuel vira, pela primeira vez, o chefe em acesso de fúria. Valmir re- passava os papéis e parecia não acreditar: saiu-lhe da boca numerosas ofensas e palavrões. Quando se percebeu diante de Samuel — e como ali, naque- le momento, agradeceu ao gerente, vendo-lhe qual aliado! — suspirou e abrandou o ânimo. Discuti- ram, com cautela, o caminho a ser tomado. Valmir disse preocupar-se com a integridade física de Sa- muel, este disse-lhe não ter medo: deveriam fazer o certo. Samuel ainda lhe tentou explicar como sus- peitara de Jorge, e como tivera a intuição de Jorge ter alterado a planilha, mas foi bruscamente inter- rompido pelo chefe. Não precisava falar. Deveriam, urgentemente, tomar uma ação. Valmir, acalmando-se e raciocinando, lembrou ser vizinho de porta de um delegado de polícia. Bas- tou uma ligação. Às cinco da tarde, Jorge deixava a empresa algemado, alvo de olhares de ódio e ofensas terríveis dos que eram, agora, seus ex-colegas de trabalho.
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    151Samuel Capítulo XX Samuel acompanhoude perto a cena lamentável, junto de outros funcionários da empresa. Foi um escândalo. Olhavam todos, exaltados, o ladrão al- gemado por dois policiais. Sob aplausos, Jorge foi coagido a entrar pelo porta-malas da viatura, quando Valmir, adiantado em relação ao grupo que observava, virou-se. An- tes que Samuel pudesse formar juízo do ocorrido, recebeu um efusivo e vigoroso aperto de mão do diretor, diante dos companheiros de trabalho. — Eis o herói! O herói! — disse Valmir, dirigin- do-se aos outros e apontando a Samuel. Dois tapas nas costas deram cabo à saudação,
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    152 Luciano Duarte quandoo diretor deixou o grupo estampando um sorriso na face. Samuel foi cumprimentado, em se- quência, com novos apertos de mão, de forma que todos os presentes manifestaram-lhe o respeito. — Parabéns, detetive! Ganhou o patrão! — disse- -lhe um operário. Sorrindo por automatismo e simpatia, Samuel tratou de tornar à sua sala e aguardar os poucos minutos que restavam ao termo do expediente. Pu- xou o celular e informou, em breve nota, o suce- dido à Daniela. Estava feliz, sim, feliz, pois fizera justiça, ganhara a aprovação de todos da empresa e de Valmir. Fora homem, justo e corajoso, e ajudara a polícia a apanhar um ladrão. Propôs à namorada um jantar, com imediato consentimento. Em pouco, soava o sinal. Samuel, dirigindo-se ao estacionamento da empresa, encontrou em seu cam- po de vista o diretor, que lhe acenou com a mão em despedida, sorridente. Incrível! Valmir jamais o mi- rara daquela maneira: havia sincero contentamento no olhar do chefe. Tudo mudara de uma vez!… Samuel enfrentou o trânsito enquanto a mente voava. A consciência intentou censurá-lo, acusá-lo sorrateiro, mas a aprovação unânime calou o mal- dito fantasma da mente. Em seguida, o receio natu- ral: “Jorge, se deixa a cadeia, mete-me um tiro!”. Mas o pensamento era absurdo e mentiroso. Samuel acreditava no arrependimento e, mais do que nele, na vergonha. Não era o primeiro conhecido que se aviltava em crimes da ganância. Em todos os casos que tivera notícia, o criminoso saíra da cadeia e não
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    153Samuel cobrara vingança dadenúncia, sequer se envolvera em novos atos de infâmia, como tentasse remover- -se-lhe a abjeção. Samuel cuidava ser mais provável Jorge mudar de cidade, suicidar, talvez, a atentar- -lhe contra a vida ou buscar, de alguma forma, pre- judicá-lo em vingança. Decerto, nesta perspectiva, sua atitude rendera bons frutos. Ótimos frutos! Samuel entrou em casa aliviado e sorrindo. A mãe percebeu-lhe a alegria, visto estivesse atenta às reações do filho em razão da véspera. Nada disse, no entanto também se amainou. Em contentamento que parecia ascendente, Sa- muel entrou debaixo do chuveiro e banhou-se por longos minutos. Quando a água morna tocou-lhe a cabeça pôde, enfim, deixar de pensar na agonia das últimas trinta e poucas horas. Onde levaria Da- niela? Era a pergunta do momento. Havia, em Belo Horizonte, um requintado restaurante francês que abrira há pouco e fizera um sucesso estrondoso. Nas redes sociais não se falava noutro. Seria nele! Boa! O preço poderia ser salgado, mas o dia era, sem dúvida, uma ocasião especial. Sugeriu à namorada o local e ela só faltou explo- dir de contentamento. Em seguida as reprimendas: “Por que não falou antes? Por que me não dissera das intenções? Eu me teria arrumado…”. Daniela, Daniela… Como Samuel imaginaria os resultados da tarde? Assim, num animo mútuo e total, Samuel busca- va, às oito da noite, a namorada em sua casa. A jo- vem entrou no carro perfumada, belíssima, pintada
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    154 Luciano Duarte quallhe realçasse o esverdeado dos olhos, trajada em vestido prateado que dava na altura do joelho; vinha de celular em mãos e sorriso brilhando na face. Cumprimentou Samuel com um beijo e logo lhe mostrou algumas fotos de pratos do local. Que pediriam? No caminho, as discussões. Daniela não falava francês, muito menos Samuel. Que seria um mo- lho poivre? um gratin dauphinois? Uma espécie de tempero? um animal comestível? Fosse o que fosse, era interessantíssimo o mistério gastronômico. Sa- muel, que jamais frequentara um restaurante fran- cês, olhava para os pratos e imaginava: “Hoje volto com fome”. Tanto fazia… voltaria feliz como fora. Chegaram no tal restaurante. Daniela fizera a re- serva pelo celular. Incrível a quantidade de pessoas! Quarta-feira e pareciam todos subitamente ter com- binado a jantar. Fila na porta. Por quinze minutos, o casal aguardou para que pudesse mostrar ao se- gurança o número da reserva. Foram liberados e passaram para dentro. Havia, logo entrando no espaço do restaurante, um saguão enorme abarrotado de gente. Num pri- meiro momento, Samuel e Daniela não entenderam o motivo da aglomeração. Havia, novamente, uma fila. Logo rodaram os olhos pelo ambiente e viram, pelas paredes, certificados dependurados, fotos e mais fotos do cheff com figuras influentes da re- gião, premiações e tudo o mais. Uma inscrição dou- rada e luminosa decorava a parede que antecedia o salão principal, sendo este o motivo da fila: todos
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    155Samuel que entravam queriamuma foto de si ao lado das letras brilhantes. Nosso casal, também, não perdeu a ocasião. Um sujeito mais simples que entrasse no local, vendo o cozinheiro chamado cheff e todas aquelas excentricidades, diria do restaurante uma “igreja da comida”. Todo aquele requinte excedia, e muito, o razoável para um lugar que serve alimentos prepa- rados por seres humanos. Os garçons, sérios como pontífices, eretos como soldados, medindo palavras como se dirigissem a reis e rainhas; o prato, como que sacro, qual representasse o embrião de Deus… Samuel, na alegria em que se encontrava, pouco reparou. Pediu a, le carte des vins et le menu, s’il vous plaît — em português, — e como não soubesse escolher, solicitou ao garçom — em português — que indicasse os pratos e o melhor vinho da casa. Daniela, antes que chegasse a abertura, já se via extasiada: o local, sejamos sinceros, era um char- me! O ambiente à meia-luz, com velas distribuídas pelas mesas, piano em música ambiente… era tudo de um bom gosto notável. Parecia a luz das velas acentuar o vermelho das madeiras, difundindo o romantismo pelo salão. Veio o vinho, brindaram e puseram-se a degustá-lo. Agradou, como agradou! Samuel sorria em resposta à alegria da querida namorada; Daniela encantava-se com a noite que acabava de romper. Achegaram-se nas cadeiras. De mãos dadas por baixo da mesa, delei- taram-se na composição dos pratos, quando começa- ram a soltar os elogios. “Qualidade tem preço.”
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    156 Luciano Duarte Embreve chegou a entrada. Quarenta minutos e a garrafa de vinho já se encontrava pela metade. Samuel contou à Daniela o seu dia. A namorada quase não acreditou: o subalterno saíra algemado da empresa! Daniela desfez-se em elogios pela co- ragem de Samuel, pela justiça que fizera, e acabou compondo o time dos que aprovaram a denúncia do ladrão, com a diferença que Daniela, sincera- mente, sentia-se orgulhosa, e Samuel, percebendo- -lhe a satisfação no contato, alegrou-se ainda mais. A noite reunira todos os pretextos para ser perfei- ta, e foi. Alguém, em mesa próxima ao casal apaixo- nado, observando o carinho recíproco, a felicidade plena e compartilhada, arriscaria que naquela noite os jovens planejavam o casamento. O afetuoso, o arrebatado olhar que cruzavam era de renovar as paixões de qualquer senhora, porquanto represen- tava o que mais próximo se pode chegar do amor.
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    157Samuel Capítulo XXI No sábadoimediato, Samuel acordou com uma estranha sensação de saudade. Percorria-lhe em mente a atual situação, seu amadurecimento verti- cal no último ano, os investimentos que avultavam, o respeito granjeado no trabalho… mas sentia a falta de algo. Não demorou para que viesse a con- clusão: a saudade era de seu velho amigo Gutão, dos momentos de descontração vividos, sempre às sextas, no bar do Régis, das palavras animadas que trocavam, as piadas, tudo aquilo subiu-lhe de uma vez com uma carga emocional fortíssima. Mais que saudoso, Samuel sentiu-se só. Então percebeu como o tempo correra arrefecen-
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    158 Luciano Duarte doa antiga relação. É claro que, fazendo um juí- zo sensato, Samuel se não arrependia das escolhas que fizera: avançara na vida, livrara-se de hábitos nocivos, que lhe não contribuíam senão para o di- vertimento. Despegara-se e pudera ajustar o foco de seus esforços, distribuindo melhor o próprio tempo, e os resultados provavam: o Samuel de ago- ra era superior em todos os quesitos ao Samuel de um ano atrás. Entretanto, restava evidente: nosso jovem sentia combalida uma dimensão de sua per- sonalidade, sentia falta da bonomia do grande Re- ginaldo, que tantas vezes lhe honrara com assento frente ao balcão compartilhando-lhe da mesma gar- rafa de cerveja… Que seria o isolamento consciente: ingratidão? menosprezo do afeto? Amizade… Aí estava a pala- vra. Samuel, na situação atual, faltava-lhe um ami- go. Suas relações, senão profissionais, resumiam- -se na namorada e nos familiares. De amigos, se a amizade exige certa frequência de contato, talvez somente os primos. Mas primos? Primos não são exatamente amigos: são primos… E, apesar da boa relação, não eram Julinho e Vinícius confidentes de Samuel. Valmir? Evidente que não: Valmir era o chefe. Mas seria absurdo pensar que um ano de ausência e silêncio mataria uma relação como a que construíra com Gutão… Puxou o celular, encontrou o amigo online. Con- vidou-lhe para uma cerveja pela tarde, no memo- rável bar do Régis. Gustavo, ensaiando negativa, ouviu os argumentos de Samuel a ressaltar o tempo
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    159Samuel que não seviam, o pouco contato, a dizer-lhe que havia coisas importantes para contá-lo etc. A in- sistência forçou a concordância, com a ressalva de que, pela noite, Gutão teria de deixar o bar, pois marcara compromisso. Combinados. Samuel chegou por volta de 13h no bar do ve- lho amigo. Relembrando outrora, avistou do outro lado da rua a fachada do boteco que tantas vezes lhe entregara alegria. Rompendo-lhe o limiar, en- controu Reginaldo conversando com dois sujeitos no balcão. Samuel aproximou-se, o bom comer- ciante o viu. E Samuel, cumprimentando Reginaldo com sorri- so aberto de orelha a orelha, estendendo-lhe a mão por cima da estufa de salgados, obteve em resposta o silêncio revestido de tímido sorriso. — Quanto tempo, meu caro! — Samuel abriu o diálogo. E Reginaldo, apertando-lhe a mão, sorriu-lhe como perguntasse: “O que você quer?”. O silên- cio constrangeu e angariou olhares dos homens em redor. Samuel percebeu interromper boa conversa. — Pois é… — disse finalmente Reginaldo, em se- guida lhe mirando em interrogação. — Então, Régis, — o tom já era outro, — vê pra mim uma cerveja e dois copos. O Gutão tá vindo. Reginaldo, sem nada dizer, puxou do freezer uma cerveja, abriu-a e entregou a Samuel, que rapida- mente a pegou junto aos copos e dirigiu-se, de cabe- ça baixa, à área externa do bar. Reginaldo retomou com os homens a conversa.
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    160 Luciano Duarte Empouco, chegava Gutão. Havia engordado. O amigo entrou no bar e demorou-se por alguns mi- nutos quando, então, ocupou a cadeira ao lado de Samuel. Brindaram, como nos velhos tempos: — Que as nossas mulheres não faleçam viúvas! — foi Samuel a entoar o mote. Puseram-se, pois, a conversar. De início, houve um ligeiro desconforto à mesa: os amigos estranha- vam-se. Eis o que faz o tempo!… Mas nada, porém, que não minguasse com os primeiros goles de cer- veja. Passaram a limpo, como é hábito nesses encon- tros, os eventos ocorridos na distância. Samuel, fisicamente, via-se melhor: efeitos da academia. Contou ao amigo do trabalho, fez menção ao fato recente da prisão de Jorge, entre outras coisas. Gutão ouviu o amigo nos primeiros minutos da conversa. Estava interessado e espantou-se do caso da prisão. Perigoso, disse a Samuel. Na terceira garrafa já se viam ambos relaxados, e volatizara-se o estranhamento inicial. Quando o verbo passou a Gutão, que contou sobre como lhe correra a vida nos últimos meses. Samuel ouvia o amigo e não conseguia deixar de julgar. Gustavo, ainda no tempo em que se reuniam naquele mesmo boteco, trancara a faculdade de engenharia civil, a dizer “muito puxado” conciliar os estudos ao trabalho que lhe esgotava. Contava, agora, vinte e sete anos e não possuía diploma de ensino superior. Que fizera nos últimos meses? As palavras saíam-lhe da boca e Samuel conjeturava a
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    161Samuel conclusão: nada, oamigo não fizera nada, ao me- nos de útil, nos últimos meses. Gutão trocara de carro, assumindo pesadas prestações por um pos- sante moderno: pagaria em sessenta meses. Samuel, calado, ouviu a decisão financeira julgando-a abso- lutamente estúpida, completamente avessa ao seu feitio parcimonioso e investidor. O carro, pensava, não era senão um passivo dos piores, muito pior que um filho, que não entregava valor: trocar de carro, dessa forma, adquirindo um veículo acima dos próprios padrões, era atrasar em anos a inde- pendência financeira… Samuel não pôde deixar de perguntar quanto fora o roubo que o amigo pagara de IPVA. Gutão continuou, enveredando pelo as- sunto previsível: mulheres. Contava ter ido em não sei quantas festas, feito uma viagem muito boa há alguns meses, ter ficado com várias garotas de di- ferentes universidades... Samuel ouvia em silêncio, só tornando a falar quando perguntado: “E você?”. — Tô até hoje com a Daniela. As palavras foram recebidas com um riso de es- cárnio. Gustavo assoviou para Régis, que logo sur- giu na área externa do bar e aproximou-se dos ami- gos. Gustavo, mirando-lhe, apontou a Samuel: — Casado! Casado e manso! E o desprezo verteu também do bom comerciante. — Nem falo nada… — respondeu, sequer olhan- do a Samuel. — Traz uma abençoada e mais uma pra gente! — pediu Gustavo. Samuel quedou desconcertado com a cena. A me-
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    162 Luciano Duarte móriada traição ameaçou ferver-lhe o sangue. Con- trolou-se. Gustavo, então, atirou-lhe uma ironia: — Você está, simplesmente, jogando a sua vida fora. A réplica era inútil. Mas Samuel tentou, posto a opção fosse o silêncio e o desânimo na mesa, dizen- do ao amigo dos pontos positivos do relacionamen- to, enfatizando como conseguira avançar financei- ramente gastando menos com bebidas, em ponto que aparentemente granjearia o respeito do rapaz. — Tenho mais tempo, meus investimentos só fa- zem crescer, tenho lido bastante e aprendido várias coisas… Logo poderei deixar de trabalhar. Gutão replicou, dono da razão: — E de que adianta? Em cinco anos você já esta- rá velho, sem o mesmo gás, não poderá aproveitar nada desse seu dinheiro e se arrependerá amarga- mente. Chegou a pinga e nova cerveja. Quando brinda- ram o líquido diabólico, Gutão tomou iniciativa e virou a espessa dose de uma só vez. E Samuel, a ten- tar replicar a ação do amigo… Que vergonha! Logo ao tentar o gole, sentindo o vapor alcoólico de gosto insuportável congestionar-lhe as vias nasais, cuspiu em vômito no chão da calçada tudo quanto havia bebido, para riso generalizado nas mesas em redor, alertadas pela gargalhada estridente de Gutão. Samuel, sentindo todo o olfato e paladar contami- nado do sabor detestável da bebida de péssima qua- lidade, viu-lhe os olhos rutilarem e a face ruborescer. Há quanto tempo não bebia aquela porcaria!
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    163Samuel Após toda achacota e a imediata recuperação, Samuel tornou a beber seu copo de cerveja, sentin- do-se terminantemente inferior ao sujeito que ocu- pava o lado oposto da mesa. O vômito era natural — a novatos, imberbes, porém… — e Gutão não viu no amigo incapacidade para continuar conver- sando, conquanto não perdeu a primeira oportu- nidade para escarnecer-lhe diante do dono do bar. Avançou a tarde em assuntos que pouco adicio- naram. Samuel despediu-se pelas seis, alvo de nova piada, com a sensação de que em Gustavo já não tinha um amigo.
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    165Samuel Capítulo XXII Daniela, nestemesmo sábado, aproveitou o en- sejo e convidou as melhores amigas para passar a tarde. Foi consenso do casal: distanciaram-se de pessoas importantes, fazia bem dedicar um pouqui- nho para se lhes aproximar novamente. Ver-se-iam, portanto, somente no dia seguinte. A ideia de Daniela foi bem recebida pelas duas amigas, aliás, o contato entre as três não rareara como ocorrera entre Samuel e Gustavo. As con- versas por mensagens eram quase diárias, e tanto Thalita, como Laura faziam questão de informar à amiga tudo quanto ocorria em suas vidas, mesmo não se vendo diariamente como no ensino médio.
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    166 Luciano Duarte Astrês haviam-se reunido recentemente, em co- memoração do aniversário de Thalita, há cinco semanas. Samuel, na ocasião, esteve presente, e a celebração deu-se numa boate muito ao gosto da aniversariante. Como é de se imaginar, apesar da companhia e dos sorrisos trocados, não puderam, as amigas, conversar como estivessem a sós, já pela presença do namorado, já por Thalita ter de conce- der atenção a inúmeros outros convidados. Combi- naram de tomar um açaí. Cerca de duas e meia, pois, reuniam-se, sendo Daniela a mais animada de todas e a que tratou de liderar o assunto. Havia expectativa para a sua formatura que se aproximava: dar-se-ia no semestre seguinte. Não era, é claro, a mesma euforia da con- clusão do ensino médio, mas a conquista era muito maior. Daniela contou às amigas que, formando-se, haveria promoção garantida no trabalho e a situa- ção se lhe melhoraria consideravelmente. Recebeu das amigas as felicitações. Thalita e Laura, por esse tempo, ainda não tra- balhavam nem haviam trabalhado, e Daniela, logo iniciado o estágio conseguido pela mãe, subiu sen- sivelmente em consideração das amigas, passando a ser vista com admiração. Nem Thalita, nem Laura viam-se aptas ao trabalho, consideravam-se iná- beis, talvez incapazes das responsabilidades que as atividades profissionais exigiam. É o receio natural de alguém que nunca trabalhou… Vendo Daniela a avançar, pois, as garotas admiravam-na, porquanto em pouco tempo a postura se lhe mudara: parecia
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    167Samuel mais confiante, madurae, de fato, deixara de ser, aos olhos das amigas, a menina com histórico de ti- midez. Consultavam-na com frequência, passaram- -lhe a ter a opinião em alto valor. Daniela, após o desabafo alegre de que os dias de estudos chegariam ao fim, ouviu das amigas as expectativas. Ambas estudavam, conquanto a for- matura se lhes apresentasse mais distante, e nutriam anseios análogos aos de Daniela: viam para si, tam- bém, que boa mudança lhes aguardaria ao termo da graduação. Em uma hora chegava a conversa ao assunto obrigatório. Thalita fora abordada em redes sociais por um rapaz a parecer interessantíssimo. Mostrou- -o novamente às amigas, porquanto já o fizera por mensagens. Disse-lhes, desta vez pessoalmente, so- bre como o jovem sabia conduzir uma conversa e conjeturou ele dar indícios de querer chamá-la, em breve, para sair. “Esse tá aprovado” — foi a respos- ta de Laura. Daniela sorriu e pensou: “Sair…”. O sorriso da jovem era o indício da bomba que escon- dia para soltar na mesa pouco depois. Continuaram, por alguns minutos, a conversar sobre o charmoso pretendente de Thalita. Em se- guida foi Laura a dizer a falta que sentia de conver- sar com um rapaz interessante. Há quanto tempo o último? três semanas? um mês? Mal sabia dizer… Era estranho: ao mesmo tempo que, solteira, sentia- -se dotada de uma liberdade enorme, gostava de ter alguém mais próximo para conversar, como tivera em outras ocasiões. “Faz falta…” — concordavam
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    168 Luciano Duarte astrês. E o tom do diálogo naturalmente levaria alguma das amigas a perguntar Daniela sobre o ca- minhar do namoro, ainda que já o soubessem. Perguntaram. Daniela sentiu ter chegado o mo- mento: o ambiente era assaz favorável. Tomou a palavra e relembrou-lhes do restaurante que fora na quarta. Imediatamente as amigas animaram-se: “É mesmo! é mesmo! Conta tudo!”. Naturalmente, o principal fora-lhes escondido por receio da res- posta. Daniela, então, colocou em palavras o jantar, desde o início, exaltando o bom gosto do local, a fi- neza do atendimento, a qualidade dos pratos, o am- biente extremamente agradável e outros detalhes. — A noite foi perfeita. Bem isso: perfeita. Obteve sorrisos em retorno. — Pelas fotos, tudo parece ser maravilhoso — co- mentou Laura. Era. Pois Daniela passou a dizer sobre o que sen- tiu naquela noite em relação ao namorado. — Sabe o quê? — confessou: — Acho que acertei. As amigas silenciaram, atentas, como a esperar a emenda. — A noite foi linda. Não só o restaurante, sabe? Pela primeira vez, ali, do lado do Samu, eu tive essa sensação: de que acertei mesmo, de que eu e ele… Thalita e Laura não piscavam. Daniela conti- nuou: — A gente fez planos. O Samu tá super bem no trabalho, eu contei pra vocês do cara que ele desco- briu roubando a empresa, né?
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    169Samuel — Nossa! Contou…— respondeu Thalita. — Pois é. Daí agora o chefe tipo que ama ele. E o jantar foi no dia que aconteceu isso… O Samu tava muito feliz, eu também, e pela primeira vez… — Daniela pausou o discurso e sorriu. — Conta, amiga! Anda logo — censurou-lhe Laura. Thalita emendou: — Também tô curiosa. Daniela anediou o cabelo por trás da orelha e continuou: — Nem sei como falo isso pra vocês… Mas a gen- te, como posso dizer… a gente fez planos. — Planos? — perguntou Thalita. — Planos. O Samu comentou sobre a possibili- dade de, daqui a alguns meses, ele dar entrada num apartamento, até porque ele sente que chegou a hora de deixar a casa dos pais, e aí perguntou o que eu achava, se eu… — Vocês dois morando juntos? — espantou-se Laura. — É… — disse Daniela, desviando o olhar em sorriso dengoso. — A gente já dorme junto quase todo dia mesmo, ué… Silêncio geral. A novidade era a mesma que Sa- muel não conseguira, ou não quisera externar para Gutão neste mesmo dia. — E há outra coisa… — começou Daniela, quan- do Thalita a interrompeu. — Mais? Fala! Veio a bomba:
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    170 Luciano Duarte —Pela primeira vez surgiu o assunto “casamen- to”. Susto geral. — Casamento? Tá louca, Dani? — disse Thalita, abafando o grito. — Foi o vinho! — brincou Laura. O clima não era de censura, as amigas riam con- quanto reprovassem a ideia. — Você tem vinte e dois anos, Dani. Tá ficando doida de casar nessa idade? — argumentava Thali- ta. Então Daniela laborou a convencê-las de que o assunto somente brotara na mesa, que fora a pri- meira vez e que não havia, de fato, uma intenção formal manifesta. Mas era consenso entre as ami- gas: — Tá muito cedo! Daniela, porém, insistia, já não aceitava só ouvir palavras de reprovo quando se tratava de seu rela- cionamento, mesmo que em tom de brincadeira: — Namorar é bom, gente. Vocês é que não sa- bem. O Samu é legal e eu, sinceramente, não sinto que tô perdendo meu tempo com ele. Pelo contrá- rio… Ambas amigas riram, em automatismo e escarne- cendo. Superioridade numérica é uma coisa… — É sério… A minha vida melhorou muito de- pois que conheci o Samu. Vocês sabem disso… Olha como eu tô hoje. — Mas acontece — replicou Thalita — que você ainda é muito jovem, e não sabe o dia de amanhã.
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    171Samuel O Samu élegal mesmo, é ótimo você com ele. Mas casamento, Dani? Casamento aos vinte e dois anos? — Eu não disse que vou… — Você já tá praticamente casada — atalhou Laura. — Você precisa de um pouco de equilíbrio, Dani, de coração. Vai com calma. Espera um pouco e abra a cabeça. Era inútil discutir, e Daniela percebeu-se derro- tada. A impressão do diálogo foi forte, Thalita e Laura apresentaram persuasiva argumentação e Daniela acabou por concluir, ainda que indecisa, que talvez as amigas tivessem razão.
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    173Samuel Capítulo XXIII A semanarompeu fria para o casal, especialmente porque Daniela, logo na segunda, foi alvo de cen- sura da chefe no trabalho por passar muito tempo digitando no celular. Daniela trabalhava como re- cepcionista em uma clínica estética, e a chefe disse- -lhe diante das colegas: — Você vem aqui pra trabalhar ou pra ficar con- versando? Duríssima reprimenda, posto que as outras duas recepcionistas não ficavam para trás. Por que só ela a censurada? por que trabalhava em período redu- zido? Mas estudava! Fosse como fosse, a indisposi- ção da chefe, assim a descoberto, era fato inédito.
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    174 Luciano Duarte Asegunda, pois, para Daniela, foi péssima, prin- cipalmente porque não era desleixada no trabalho e considerava verdadeira humilhação ser criticada, desta forma, em frente das colegas. Subiu-lhe um impulso de choro pela censura, mas resistiu. Desli- gou o celular pelo restante do expediente. Samuel não gostou nem um pouco de ser igno- rado, sem aviso, durante toda a tarde. Anoiteceu e via-se despeitado pela mensagem não respondida enviada ainda no almoço. Daniela só ligou o aparelho quando deixou a clí- nica. Frustrada, após passar o dia ensaiando réplica que atirasse no rosto da chefe a própria dedicação, foi seca em resposta ao namorado, escondendo-lhe a reprimenda que recebera por vergonha e, tam- bém, por nenhuma vontade de expor-lhe o seu pro- blema pessoal. Daniela faltara sem avisar à academia e os namo- rados não conversaram pelo resto da noite, senão quando Samuel enviou-lhe um sucinto boa-noite e obteve, em resposta, as idênticas palavras lângui- das. O resultado de um dia como esse seria óbvio. A frieza da resposta era um choque para ambos. Sa- muel não compreendia, ao mesmo tempo que se sentia injustiçado por aquela sequidão repentina: que fizera para que a namorada mudasse daquela forma o tratamento? Não merecia, de fato, não me- recia e isso era motivo para justíssima indignação. Seria por ter saído com Gutão no sábado? Não era possível… Samuel contou-lhe, chegaram a um con-
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    175Samuel senso, disse-lhe acategoria do boteco em que bebe- riam, boteco que nunca servira uma única mulher… Daniela sabia a classe de Gutão: era, exatamente, o tipo de homem que detestava, o tipo de amigo que jamais queria ver ao lado de Samuel. Mas fosse esse o motivo, por que não dissera, sinceramente, antes que Samuel encontrasse o rapaz? Então fora falsa, e agora seria injusta? Daniela experimentava mais amplos matizes de sensações. De início, pensava que o simples fato de não responder Samuel por todo um dia fosse mo- tivo para ao menos uma pergunta, ao menos uma demonstração de que lhe notara o silêncio, que se preocupava com ela. Mas não: Samuel, respondi- do às 18h, calou-se, como se lhe fosse indiferen- te à situação e tivesse mais com que se preocupar. Daniela, namorando, sofria e via-se em desampa- ro. Para que servia, pois, o namoro? Mas antes que continuasse a prosseguir nesse raciocínio, vinha-lhe outro mais severo: poderia mesmo Samuel ajudá-la em algo? Havia, com efeito, ajudado no passado? Quem lhe conseguira o estágio fora a mãe, além de que os problemas de sua vida, os reais problemas da faculdade e trabalho, eram sempre solucionados sem o auxílio do namorado. Era, em suma, um tan- to fútil desejar palavras carinhosas quando a chefe atirava-lhe uma ofensa diante das colegas de traba- lho. E precisasse de um conselho, muito mais expe- riente era a própria mãe… Na terça-feira houve evento que credenciou, de vez, a crise no relacionamento: deu o almoço e não
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    176 Luciano Duarte veioo bom-dia de nenhum dos lados. Correu a tar- de, nada. Daniela quedou de celular desligado por todo o dia, mesmo quando ainda se via na faculda- de. Chegando na clínica, foi impressionante. Como, num átimo, tudo mudara! Tudo, tudo mudara! As colegas olhavam-lhe com frieza, como que desejan- do distância da funcionária displicente. A chefe, quando viu-lhe ligando o computador, não a cum- primentou. Doeu… Foi que Samuel, não suportando a tensão agudís- sima e inexplicável, solicitou à Daniela que se vis- sem, fora da academia, depois do trabalho. A res- posta veio às 18h: “Se quiser, pode ir lá pra casa”. Foi. Sete e meia da noite Samuel saiu de casa com temperamento soturno, mal sabendo o que pensar. Por que, afinal, tudo aquilo? Dirigia e arriscava al- gumas reflexões. Fez-se o favor de colocar qualquer música no aparelho de som do carro, a ver se lhe articulavam melhor os pensamentos. “O pior é que nem sei o que dizer. Peço desculpas? Mas eu não fiz nada…” Então sentiu um calafrio: era o prenúncio da ideia maligna que, antes que pudesse articular em palavras, instalou-se-lhe na mente. “Não é pos- sível…” Trafegava as ruas do bairro em péssimo humor quando, a reduzir em vista de um cruzamen- to, girou levemente o pescoço à direita. O susto: um carro atravessa-lhe o campo de vista buzinando. Sa- muel freia bruscamente em reação, antes que levas- se o outro pé à embreagem: o carro morre. Sobe-lhe um violento tremor. “Meu Deus do céu!” — suspi- rou. Era a lembrança do acidente que lhe assaltava.
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    177Samuel Em poucos minutoschegou ao apartamento da namorada. Ainda tremia. Ao entrar pela garagem do prédio, descuidou-se e raspou a lateral do carro no muro que sustentava o portão. “Inferno, infer- no!” — não acreditou quando ouviu o barulho do atrito. “Só falta ser na lataria…” Quando desceu, a decepção: acima do pneu destro traseiro partia um esfolamento que se estendia quase à porta do passageiro: a lateral estava branca devido à tinta da parede rugosa; a pintura do carro, onde em conta- to com o muro, fora simplesmente arrancada. Não havia espaço para choro e Samuel, suspirando em desgosto, resignou-se: “Mando pintar e polir essa porcaria”. Nesse clima, subiu ao apartamento da namorada. No elevador, olhou-se no espelho e tentou recom- por-se: não evitou, porém, o sombrio aspecto com que cumprimentou Daniela, aparentando ter com- parecido para brigar. Samuel contou-lhe do carro arranhado. “Ah, ar- ranhou o carro…” — pensou em despeito a namo- rada, respondendo-lhe com desinteresse total. O rapaz sentiu-se ofendido: — Que é que tá acontecendo, hein? O tom foi o estopim para a briga, a primeira do casal. Após poucas palavras, ambos já sentiam uma espécie de desprezo pelo outro, quando veio o pior: vibrou o celular de Daniela diante de Samuel. A ilu- minação da tela lhe atraiu o olhar, denunciando- -lhe que um desconhecido nome masculino acabara de enviar mensagem direta à Daniela. A conversa
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    178 Luciano Duarte acabou.Samuel não escutou sequer a justificativa: ofendeu a namorada e retirou-se. Daniela lhe não pôde deixar de comparar o ciúme estúpido ao do canalha do ex-namorado.
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    179Samuel Capítulo XXIV A noiteavançou sem novas palavras. A discussão arrasou o humor de Samuel. Voltando à sua casa, viu-lhe os olhos jorrarem ódio enquanto dirigia. Não era possível tudo aquilo acontecendo de uma só vez. Não era possível semanas tão radicalmen- te díspares seguirem-se umas às outras. Mas estava feito e a vida, como sempre, surpreendia. O silêncio nas horas que precederam a virada do dia serviu de amplificador para as frustrações do casal. Daniela esperava ou, antes, exigia uma re- tratação pelo papel ridículo feito em sua casa, es- cutado pela mãe que assistia a um filme no quarto. Exigia, porém tratou de desligar o celular, visto a
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    180 Luciano Duarte atitudedo rapaz não lhe despertasse senão despre- zo. Que ele dormisse com suas desculpas! Samuel, foi pisar em casa e sentir a lógica sabo- tá-lo, afundá-lo em cólera, ferindo-lhe o orgulho. Banhou-se amaldiçoando a namorada. Como fora capaz? Mas, claro, daria o troco. E o troco era o desdém, a indiferença: Samuel sentia vergonha não por algum tipo de injustiça, mas por ter se envol- vido a ponto de perder a cabeça daquela maneira. Ofendendo-a, expunha-lhe a fraqueza. Sabedoria é frieza, é ser um vampiro quando rompe o incêndio, é olhar impassível para a desgraça, a desonra, ou o que vier. Saiu do banho, entrou em seu quarto e fechou detrás de si a porta. Ligou a televisão e começou a pensar, de olhos fechados. Estimulava o cérebro a raciocinar apartando-se de qualquer emoção: necessitava traçar acertadamente suas próximas ações, para que não ficasse mais uma vez refém dos furores momentâneos. O pai sempre lhe repetia: “Não se toma decisão de cabeça quente”. Pensou no conselho em boa hora: tratou de acalmar-se. Então abriu os olhos e sintonizou a televisão em qualquer filme. Por azar, caiu numa comédia que gostava. Não mudou. O enredo da obra resumia uma coincidência absurda: homem e mulher, com- prometidos, apaixonavam-se; a trama corria em re- dor deste amor proibido. Belo dia, marcam de sair e encontram, no mesmo restaurante, exatamente os seus cônjuges a sós em mesa próxima. Armam um escândalo, cujo desenrolar é pouco interessante. O
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    181Samuel final da história,porém, é digno de nota, quando a tela preta rompe exibindo um chiste em letras bran- cas, mais ou menos assim: “Existe uma realidade De que não escapa ninguém: Ou beijamos quem trai a nós, Ou beijamos quem trai alguém.” Samuel, pensando neste desfecho ridículo, articu- lou em mente, pela primeira vez, que a vida talvez fosse medíocre e risível; que o homem, em suma, talvez não valesse muita coisa. Quer dizer: se não há moral que perdure, se não há compromisso que não seja violado, se não há palavra que não seja quebrada e se, com efeito, não há exceções à regra, então a existência era vil. Que tinha o homem que não tem o cachorro? Talvez nada... A moral do fil- me era dura, mas real. E as risadas que a comédia lhe gerara no passado, agora, produziam desgos- to. Por que assim? Por que tanta canalhice? Todos, será que todos já nascem condenados? Não pôde controlar-lhe os pensamentos: e a mãe? e o pai? será que já se traíram? Era repugnante, nojento o que lhe vinha em mente, mas será? A mãe — asco! — aparentemente nunca dera em cima de nenhum ho- mem… Nunca recebera com — chega! — excesso de benevolência outro macho, pelo menos não que Samuel se lembrasse... E o pai? Ah, o pai partilha- va-lhe do mesmo instinto! Era honrado? Sim. Mo- ralmente um exemplo? Claro… Mas não seria im-
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    182 Luciano Duarte possívelque tivesse, digamos, esvaziado em outras bandas o desejo acumulado em vinte e oito anos de casamento… “Mente repugnante, cale a sua bocal” — debalde berrava em silêncio: a mente humana é indomável e ri da moral. Samuel sentiu ferver-lhe a cabeça por toda a noi- te. Não dormiu. Na quarta imediata, a sequência natural de sua desdita: antes que soasse o sinal, ao buscar a primeira xícara de café do dia, teve de res- ponder a um subalterno sobre o vistoso esfolamen- to na lateral do carro. A noite em claro destruiu-lhe o humor pela manhã: não trabalhou, não fez nada; encerrou-se em sua sala e tomou café a desejar que o dia acabasse. A mente parecia determinada a fa- zê-lo agir pela ira, não se calava um segundo, não lhe deixava pensar, concentrar no trabalho, na rea- lidade. “O meu relacionamento começou com uma traição” — pensava: — “Que é que eu poderia espe- rar de uma… de uma piranha como ela?” E orçava quanto dinheiro investira na relação, em presentes, em saídas, tudo: atrasara a própria vida por uma mulher; fora, em suma, um idiota envolvendo-se com uma indigna, uma ingrata. Lembrou-se da tela do celular denunciando a in- fâmia e desferiu um murro na própria mesa, aca- bando por rachá-la. Assustou-se: “Preciso me con- trolar!”. Ajeitou o quanto pôde a rachadura na madeira, forçando as partes desjuntadas em sentido contrário, conseguindo razoável camuflagem. Le- vantou-se e andou pela sala, a pensar: “Estou agin- do como um animal. Preciso deixar de agir como
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    183Samuel um animal”. Lembrou-seda reflexão da véspera: “Frio, tenho de ser frio”. E deliberou, pela própria honra, responder a infâmia com indiferença total. A obstinação de Samuel durou até a sexta-feira, quando Daniela não pôde suportar o silêncio. “Va- mos ficar assim então?” — indagou-lhe por mensa- gem. Samuel sentiu-se na obrigação da resposta, na obrigação de honrar-lhe o próprio brio e, logo se pondo a digitar, viu-se como que possesso: a réplica não foi senão o ódio convertido em palavras acusa- tivas. Daniela congelou ao ler o texto enorme que parecia escrito por outra pessoa visto a injustiça e severidade das palavras. Chorou, chorou muito: a mulher pintada na resposta não era ela, nunca seria ela! Samuel estava sendo estupidamente injusto, in- sensível e cruel. Pisava em mais de um ano de rela- cionamento como se não fosse nada. Resgatava-lhe o momento de maior arrependimento de sua vida e atirava-lhe a pecha de infiel. Após quarenta minutos, com os olhos inchados e venosos, a garota respondeu-lhe a afronta: provou a mensagem fatídica ter sido enviada por um colega de faculdade, a respeito de um trabalho que teriam de realizar juntos, provou não ter sequer intimidade com esse rapaz e esfregou-lhe no rosto que não era o tipo de mulher que ele havia pintado. Humilhou- -lhe: disse que, se quisesse, tinha opções para traí- -lo, opções que apareciam todos os dias, mas que ela nunca, nunca passou nem perto disso, nunca concedera sequer minutos de conversa para algum rapaz que lhe manifestara interesse.
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    184 Luciano Duarte Aoler a réplica, Samuel não se desculpou: não era capaz. Diante da prova cabal de que a namora- da era inocente e que ele fora absolutamente injusto e atroz, teve de dormir acompanhado da vergonha. Cometera evidente injustiça, sim, injustiça. E o que lhe restava era o vexame e a vontade de sumir.
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    185Samuel Capítulo XXV O hábitodiria que, no dia seguinte, o casal se en- contraria. Não foi o que aconteceu porque Samuel, acordando, não teve forças para desculpar-se com Daniela. Por algum estranho motivo, simplesmente não conseguia: ele, de temperamento tão brando e conciliatório, não era capaz de pedir desculpas pelo próprio e claríssimo erro. Sentia, junto da vergo- nha, um resquício de brio, de despeito, parecia-lhe ainda resguardar consigo a razão. A namorada, ainda na sexta-feira, certa de que lhe havia provado a inocência, satisfeita de livrar-se da acusação infame, não reforçou o que já havia deixado claro. Porém dormiu e amanheceu choran-
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    186 Luciano Duarte do:o silêncio, para a garota, induzia o terror. Não deixou de conjeturar por toda a noite que Samuel poderia estar, na rua, “dando-lhe o troco”. Como saberia? O que restava evidente é que, daquela ma- neira, vertendo aquelas palavras, direcionando-lhe aquele ódio, Daniela jamais o vira. A compleição do namorado já não era garantia de segurança. Só de pensar, só de cogitar a hipótese de Samuel trocando-a por outra, desprezando-a e tratando- -a como um lixo causava-lhe desespero. A cabeça adormeceu naquela sexta com a imagem fixa dos olhos furiosos do rapaz. Correu o sábado sem nenhuma palavra entre o casal. Daniela, encerrada no quarto, decidiu não daria o braço a torcer, aguardaria a iniciativa de Samuel até as últimas consequências. Relembrou, porém, os dias depressivos do último término. Bár- bara, que não estava em casa, não a podia amparar, não lhe sabia sequer do estado. Quando caiu a noite, Samuel sentiu-lhe a cons- ciência sufocar a mente. Sempre era assim! sem- pre que errava! Após a falsa firmeza, a vergonha e o arrependimento. Nada mais humilhante que se acreditar injusto! E assumindo-o estaria não me- nos que concedendo armas à sua adversária, armas que poderiam ser usadas contra ele no futuro. Pedir perdão era dar-lhe a razão para sempre. Entretan- to, a impiedosa consciência assaltava-lhe, mostra- va-lhe como agira feito um cão. A injustiça estava claríssima: Samuel releu todas as mensagens, não acreditou ter escrito tantas bobagens, tantos insul-
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    187Samuel tos julgando-se fundamentado.Pudera voltar no tempo! Brio maldito, pai de todos os males!… Em pouco a mente reconstruía tudo quanto vivera com aquela linda garota, desde o primeiro dia, quando ainda se via nervoso por conquistar-lhe a afeição. Que é que não conseguira de Daniela? A menina lhe entregara a alma, declarava-se, a sós e diante dos outros, dizia amá-lo e querer estar-lhe sempre ao lado. E desde que começaram a sair, a ter contato diário, Daniela nunca deixara de agradá-lo e de co- locá-lo como prioridade. Renunciava a quase tudo pelo relacionamento, valorizava-o a descoberto. E como era agradável a sua presença! Samuel sentia como que lhe afirmando a própria personalidade na companhia da garota: sentia conforto, alegria, relaxamento. A vida, junto de Daniela, era sempre melhor. “Sou um traste desprezível…” — pensou, já na cama, na noite daquele sábado: e não fora capaz do pedido de perdão. O domingo raiou e Samuel levantou-se em desâ- nimo. “Isso não tá certo…” De olhar baixo e triste, vagueou pela casa, comeu qualquer coisa e voltou para o quarto. Dez e meia da manhã foi quando enviou as geladíssimas desculpas. A resposta veio em seguida, com o mesmo tom glacial. Samuel, des- falecido pela crise que gerara, vendo o abatimento evidente na mensagem de Daniela, tomou para si a responsabilidade de restaurar a relação: chamou a namorada para sair neste mesmo domingo. A res- posta tardou mais de hora, mas veio positiva. Assim se encontraram, pela tarde, em absoluta
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    188 Luciano Duarte apatia:estavam, ambos, exaustos de brigar. Sa- muel, enforcando o orgulho, pôs em palavras o próprio arrependimento, disse da importância de Daniela para a sua vida e, de olhos baixos, solici- tou-lhe o perdão. Daniela aceitou com sinceridade, conquanto a reação soou como fosse a desculpa de pouca importância. Se abraçaram, comeram juntos, trocaram carinhos… mas não havia, ali, satisfação: saiu tudo como por automatismo. A semana começou e as conversas entre o casal pareciam artificiais. Houve algum diálogo na se- gunda, houve o bom-dia e o boa-noite, conquanto o restante soasse como protocolar. Samuel inten- tou abrandar o clima, introduzir novamente o tom amistoso: sem efeito. Na terça-feira, Daniela, logo ao cumprir a carga horária exigida pela faculdade, dirigiu-se ao traba- lho, quando experimentou nova situação desagra- dável, e desta vez muito pior. Entrou na empresa, assumiu seu posto, e antes que ligasse o computador era chamada à sala da chefe pelo telefone. Levantou-se e foi; a sala era a contígua. Bateu na porta, por educação, e foi ins- truída por Sandra a sentar-se, lendo a censura pró- xima nos olhos da mulher. Sandra era não menos que a dona da pequena clínica: conhecia Bárbara há bons anos, embora não fossem exatamente amigas. Contatos profis- sionais. Aproximava-se dos cinquenta, os cabelos batiam-lhe pouco acima do ombro, negros assim como os olhos, e geralmente era grave, a menos
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    189Samuel que estivesse diantede algum cliente. — Bom, Dani… — começou. — A gente tá com um sério problema. Subiu na garota um calafrio. Sandra emendou: — Dá uma olhada nisso aqui — e passou para a garota a cópia de uma nota fiscal. — Essa nota é de sexta-feira, foi emitida por você e está errada. Choque. Daniela, como estagiária, ajudava na emissão de notas fiscais de produtos e serviços da clínica. Na nota constava o código de seu compu- tador. Sandra continuou, apontando para o papel que Daniela pregava-lhe os olhos: — A classe do produto. Dá uma olhada. Está er- rada. E como se passaram as 24 horas, não é pos- sível cancelar a nota. Quer dizer, não sem estresse, não sem sujeição à multa. Mas o pior não é isso, Daniela, o pior é que essa nota é pra revenda, es- ses kits já estão em São Paulo e o cliente disse que não pode pagar por mercadorias da classe fiscal contida na nota. E agora? Daniela não sabia que responder. Estava assus- tada. — E agora eu te falo o que vai acontecer — a chefe direcionou-lhe um olhar severo: — o procedimento normal seria pagar o frete de volta, dar entrada no produto como devolução, e então emitir nova nota e realizar novo envio para São Paulo. Esses dois fre- tes ficariam por nossa conta, que acabariam com a nossa margem. Isso não vai acontecer. O que vai acontecer é o seguinte — a chefe tomou-lhe a nota fiscal: — o cliente não vai sair prejudicado, não vai
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    190 Luciano Duarte ficarsem o produto — Sandra rasgou a nota no meio diante de Daniela. — Eu já liguei pra eles e disse pra ficarem com os kits de cortesia. Essa nota fiscal, para nós, não existe e o custo dos produtos quem vai pagar é você. A nota equivalia à metade do que ganhava Da- niela no mês. — Mas San… — Agora faz o favor, Daniela. Volta pra sua mesa e vê se não faz mais bobagem — rematou a chefe, em olhar que expulsou a subalterna da sala. Daniela, antes de tornar ao seu posto de trabalho, dirigiu-se ao banheiro para chorar. Expulsou em lá- grimas a decepção que sentia, a raiva e o sentimento de impotência, de injustiça. Mas não houve demora, porquanto a pressão psicológica lhe não permitiu. A chefe poderia humilhá-la, mais uma vez, vendo que se demorava a ocupar sua mesa. Engoliu o cho- ro, secou os olhos a disfarçar das colegas, tomou ar e enveredou pelo corredor da clínica. Em vinte minutos Samuel enviava-lhe um troca- dilho por mensagem. A resposta não tardou um mi- nuto: “Me deixe em paz!”.
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    191Samuel Capítulo XXVI O pedidofoi prontamente atendido: Samuel, no- vamente ferido no brio, não mais incomodou a na- morada. Inútil, absolutamente inútil tentar forçar a reconciliação. Resignado, pois, Samuel calou-se de vez. Quanto a Daniela, foi responder e desligar o ce- lular: tanto fazia a reação do namorado. Como era fútil a tentativa deslavada de fingir que tudo estava bem quando claramente não estava! Havia mais que se preocupar, e logo direcionou o foco ao trabalho, a interrogação óbvia: fora mesmo ela que emitira a nota fiscal incorretamente? Via-se tensa, não con- seguia recordar-se. Havia a impressão de que, na
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    192 Luciano Duarte sexta-feiraanterior, não emitira nota alguma. Se ao menos tivesse a cópia do papel rasgado por Sandra para averiguar… Mas não tinha e o pior: o olhar da chefe deixava claríssima a ameaça de demissão: mostrasse resistência, reclamasse do impacto no sa- lário, iria para a rua. É realmente difícil quando somos acometidos assim: inopinadamente, tendo de reagir de pronto e com firmeza. Concentradíssima, Daniela disfarçou por toda a tarde o desalento, e quando deixou a clínica pôde voltar a pensar. Não lhe saía da mente a ideia de que, talvez, não fosse ela a cul- pada pela nota fiscal. Conseguisse prová-lo, esfre- garia no rosto da chefe e pediria demissão! Mas não havia, simplesmente não havia meios para tal… De pé, ao embarcar no coletivo, lembrou-se da ríspida resposta que dera a Samuel. O celular conti- nuava desligado. Daniela não pôde deixar de orçar quanto o namoro se lhe tornara um incômodo, isso porque, desta vez, fora ela que errara, cabia à ela a reparação. Mas que coisa chata essa de brigar, pedir desculpas, como se o relacionamento fosse um encargo! Não estava num dia bom. E daí não querer conversar? Samuel acaso soubesse a afron- ta que sofrera, certamente não viria com trocadi- lhos infantis… E o pior era pensar que, após um dia como aquele, a noite guardava-lhe mais e mais discussões. Desejosa de simplesmente se trancar e esperar que o dia morresse, assistir a qualquer filme ou fazer qualquer coisa que lhe distraísse a mente, que lhe abrandasse as frustrações da tarde, teria de
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    193Samuel pedir desculpas, justificar-seainda que não devesse justificações. Fastio de tudo… Ainda no ônibus, ligou o celular: percebeu que Samuel não respondera. Decidiu-se por deixar aqui- lo morrer. Passaria o resto da noite acalmando os ânimos para o dia seguinte. Havia de terminar um trabalho da faculdade… Assim fez. Já deitada, pouco antes de dormir, bri- lhou-lhe na mente uma hipótese ou, por outra, uma certeza: a maldita nota fiscal da sexta-feira não fora emitida por ela, e sim por Vanessa, a colega que lhe vivia usando o computador com a desculpa de não haver o programa emissor instalado no próprio. E a certeza vinha porque se lembrou de que, logo pisan- do na empresa, vira Vanessa embalando três kits de limpeza facial, já com a nota emitida; lembrou-se, em sequência, de que encontrara o próprio compu- tador ligado, como acontecia em várias ocasiões, e deparou-se com o celular de Vanessa em sua mesa. Era isso! Estava segura das memórias, não havia dúvida quanto à origem da maldita nota. E no dia seguinte atiraria na cara de Sandra! A quarta raiou estourando de expectativa. Su- miu de Daniela o desalento, e quanto mais pensava, mais se convencia. Pela manhã, contou os minutos para que lhe acabassem as aulas. Saiu da faculdade ao meio-dia. Almoçou e direto para a empresa. Havia tempo que não experimentava aquele sen- timento. Entrou na clínica quase sorrindo: era a confiança. De peito erguido, deixou calmamente seus pertences na mesa; sentou-se apenas para ligar
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    194 Luciano Duarte ocomputador e cumprir o protocolo. O discurso já estava pronto, planejado durante todo o dia: entra- ria na sala de Sandra, provaria que não fora ela a emissora da nota, contaria todos os detalhes de sua chegada na clínica na última sexta-feira e, à primei- ra resistência da chefe, recorreria ao auxílio das câ- meras de segurança. “Se ela abrir a boca, peço que verifique nas gravações se o que eu digo é verdade ou mentira!” Não havia espaço para o erro e, por fim, quando se deparasse com a face apática da che- fe, diria não precisar do emprego, vir de boa família e não ter de se sujeitar por dinheiro a semelhantes humilhações. Levou cinco minutos para, após repassar todo o discurso em mente, levantar-se e rumar à sala de Sandra. Quando bateu na porta, percebeu-se ob- servada pelas duas companheiras de sala. Sorriu e entrou. Sandra, logo reconhecendo Daniela, apontou- -lhe a cadeira, antes que a garota pudesse pedi-lo. E interrompeu o “com licença” da menina com um “faça o favor” que arrogava para si a iniciativa da conversação. — Bom, Dani… — dessa vez Sandra mirava-o nos olhos e, conquanto grave, o olhar não era agressivo. Quando Daniela se esforçava por frear o ímpeto, a chefe soltou palavras brandas: — Eu queria te pedir desculpas por ontem. Quê? — Eu estava num péssimo dia, tive a notícia da nota fiscal pelo próprio cliente, que ligou reclaman-
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    195Samuel do e cobrandosatisfação. Eu fui atrás desta nota e descobri que, em verdade, quem a emitiu foi a Vanessa. — Pois é, Sandra. Exatamente isso que eu vim… — Dani, — a chefe atalhou, — eu sei bem o que você tá sentindo, tá bom? Desculpa. O erro é meu. Você não vai ser prejudicada, eu não vou descontar do seu salário e essa questão eu já resolvi com a Vanessa. Daniela silenciou-se. Não havia o que responder. — Então… — começou a chefe, quando o telefo- ne tocou. Sandra prontamente atendeu e pôs-se a conversar com um cliente. Daniela aguardou por trinta segun- dos e, percebendo que a ligação se estenderia, fez que se ia levantar. Sandra, notando que a garota lhe solicitava a retirada, acedeu-lhe com o polegar. Assim Daniela deixou, sorrindo e aliviada, a sala da chefe. Havia, finalmente, arrancado um pedido de desculpas daquela víbora! Entretanto, o clima não pôde ser de alegria, posto se sentasse na mesa ao lado de Vanessa. Afastara de si a bomba, mas coitada da colega… teria de pagar pelo erro. Ga- nhavam tão pouco… Era um absurdo a atitude de Sandra, como se as pessoas não pudessem errar. Mas fazia bem se calando: já havia conquistado de- mais. O restante do dia, pois, afigurou-se-lhe tranqui- lo. Na mente se lhe repetia, uma vez após a outra, o pedido de desculpas da chefe. Pela primeira vez, vira Sandra diante de si em postura de humildade.
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    196 Luciano Duarte Tivera,de fato, a razão, e julgava que a chefe jamais se atreveria a falar-lhe novamente no tom da véspe- ra. “Bem feito!” E sentiu-se, pelo resto da tarde, uma mulher va- lorosa e potente.
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    197Samuel Capítulo XXVII O sucessocontagiou o ânimo de Daniela. Logo chegou em casa, sacou o celular e discou para Thalita, a quem contou detalhadamente o drama dos últimos dias. A amiga direcionou-lhe palavras de respeito e admiração, compartilhando do mesmo juízo para com Sandra: fora muitíssimo bem feito que a chefe engolisse o próprio orgulho, sentisse re- morso pela injustiça cometida. Em abono da verdade, Daniela não se portara exatamente como planejara: não dissera palavra de reprimenda à Sandra, é claro, muito em vista da situação, do telefone que tocou de repente e das in- terrupções da chefe. Mas Daniela não se havia im-
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    198 Luciano Duarte postocomo a conversa com Thalita induzia a pen- sar. Tanto fazia. Desligando o celular, Daniela sen- tiu-se tomada pela alegria, e pelo resto da noite não pensou em outra coisa senão no pedido de descul- pas que recebera. Naturalmente, nenhuma palavra com Samuel. No dia seguinte, em razão de avaliações que fa- ria pela tarde, não compareceu ao trabalho. Nada além do normal: na clínica sabiam que o horário de Daniela oscilava conforme às exigências acadêmi- cas. O dia correu tíbio, sem evento que valha a nota senão que, desde a terça-feira, o silêncio sepulcral se havia instalado na conversa com o namorado. Engraçado como são essas coisas… O amor, quando experimenta a indiferença, em pouco se mete a boca na taça do despeito. De ambos os lados o mesmo: logo que se viram desanimados da dis- cussão, sem a menor vontade de estender cada qual com suas alegações, sentiram o peso do silêncio. A mente, que não suporta silêncio nenhum, pôs-se a ferver em ambos por um tempo, e as discussões que não se interrompiam na cabeça não poderiam gerar senão irritação. Era quinta-feira e, assim, Daniela e Samuel sentiam repulsa quando pensavam na ima- gem do outro. Veio a sexta-feira. Daniela, pouco depois de uma da tarde, batia o ponto na clínica. Na sala encon- trou olhares tensos, e antes que se pudesse sentar foi informada por Vanessa: — Dani, a Sandra pediu que, assim que você che-
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    199Samuel gasse, desse umpulo na sala dela. Assim fez a garota, sem saber que esperar. Então, logo entrando na sala da chefe e tomando a cadeira, conforme foi indicada a fazê-lo, foi atin- gida pelo discurso: — Então, Dani. É o seguinte… — Sandra iniciou, em tom calmo: — Por favor, eu não quero que pen- se que isso tenha nada a ver com o que aconteceu nessa semana. Mas é que a sua rotina tá gerando uma complicação aqui na clínica, porque a gente nunca sabe quando pode ou não contar com você. Eu entendo muito bem a sua situação, admiro você procurar trabalhar mesmo estudando, mas assim… pra gente aqui não tá dando. Eu preciso de alguém que esteja aqui em horário comercial, porque se uma pessoa falta ou precisa faltar, gera um trans- torno enorme pra gente, já que não temos ninguém pra repor. E assim: se eu pudesse, eu gostaria muito de te manter aqui na empresa, até pra te ajudar, porque eu sei que você precisa do estágio pra con- seguir o seu diploma, e sei que não falta muito pra você cumprir a carga horária obrigatória. Mas infe- lizmente eu não posso contratar outra pessoa com você aqui, eu não posso arcar com os custos, enten- de? A situação no mercado tá muito difícil… Por isso, Dani, infelizmente, eu vou precisar te desligar da empresa. O discurso foi um tiro no peito da garota. As lá- grimas automaticamente lhe brotaram dos olhos. Não sabia o que dizer. — Olha… — tentou afagá-la a chefe — Eu agra-
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    200 Luciano Duarte deçomuito pelo seu trabalho aqui na clínica. Você foi uma excelente estagiária, desejo tudo de bom pra sua carreira. Mas é que não dá, entende? Daniela não entendia. Forçou o sim com a cabe- ça. — Se eu pudesse, Dani… mas infelizmente não há outra saída. Aqui nesse envelope — a chefe apon- tou para a mesa — tá toda a sua documentação de estágio assinada, todas as horas que você cumpriu, a rescisão do seu contrato e um folder com uma mensagem da clínica. Eu só preciso que você assine aqui, ó. A chefe pôs diante de Daniela a via da empresa da rescisão do contrato. Daniela tremia. Sandra puxou uma caneta e pôs-lhe na mão, forçando-a a firmar o documento, o que a garota fez com muita dificul- dade, porquanto a mão vacilava. — Eu te agradeço, viu Dani?! — o telefone pôs-se a tocar; Sandra colocou-o no mudo — eu te agra- deço sinceramente por tudo e te desejo boa sorte. Pode ficar tranquila, que a Vanessa já recolheu os pertences de sua mesa e colocou numa sacolinha, é só você pegar com ela… Dizendo isso, a chefe se calou. Claramente expul- sava Daniela de sua sala. A garota assentia nervosa- mente com a cabeça, e então arriscou suas primeiras palavras, limpando as lágrimas que lhe escorriam na face: — É só isso? — É sim, Dani. Tá tudo certo! Boa sorte! Então Daniela, atordoada, levantou-se com di-
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    201Samuel ficuldade da cadeirae sumiu, não despedindo de Sandra, nem de ninguém. Quando deixou a sala da chefe, Vanessa já sustinha com a mão a sacolinha com os poucos objetos pessoais da colega, que se resumiam a instrumentos de escritório e certifica- ções da própria empresa. Vanessa apontava a saco- la para a recém-demitida, mas esta passou como um vulto pela sala, de olhar vago, não dizendo sequer uma palavra de adeus. — Coitada… — comentou Vanessa com a colega à mesa ao lado. O choro de Daniela rompeu na clínica, estendeu- -se no trajeto de volta para casa e explodiu logo que a garota se viu no próprio quarto. Teve de afogar o rosto no travesseiro para poder gritar. Sandra mal- dita! Víbora cruel! Que uma maldição caísse sobre aquela desgraçada! que a vida dela se arruinasse! Velha nojenta!… E chorava, chorava muito e forte. O que Sandra fez foi desumano: demitiu a estagiária no final do estágio. Daniela cumpriria a carga acadêmica, mas não teria acesso ao diploma. E a afronta de dizer que a clínica não tinha dinheiro! Absurdo! Daniela não ganhava mil reais por mês e a clínica faturava mais de cem… Quando o choro deixou de sufocar a palavra, Daniela discou para Thalita que, percebendo-lhe o estado, vendo-lhe articular em desespero palavras desconexas, imediatamente desligou e tomou um táxi. Dez minutos e Thalita era recebida por Bárbara,
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    202 Luciano Duarte quenão reparara o estado da filha. Mãe e amiga, pois, entraram no quarto de Daniela e abraçaram- -na. Em seguida Bárbara, logo descoberto o motivo do choro, correu à cozinha a buscar um copo de água. Então, com as três sentadas na mesma cama, Daniela, ao centro, estourou em desabafo. Contou tudo. No início, o nervosismo lhe desnorteou as palavras, mas logo estava explicando em detalhes quanto lhe fizera a vaca da Sandra, a víbora da San- dra. E a mãe não deixou de exprimir seu desalento e seu remorso. Disse não ser íntima de Sandra, mas julgar que a mulher seria ética e bondosa dando-lhe oportunidade para a filha. — É o que eu faria… o mínimo! Todo mundo um dia começa… A Sandra não tem coração! — con- cluía. Mas em seguida a reviravolta. Bárbara emendou o discurso mais emocionante que jamais proferira. Contou às garotas a própria história, da gravidez, desamparo e trabalho precoce; de todas as dificul- dades que sofrera quando teve de largar os estudos para trabalhar, da mudança de cidade, da força de vontade que a vida não somente lhe exigira, mas lhe impusera. Depois as tragédias: foi invocar o nome dos pais e as três mulheres passaram a chorar copio- samente. A memória dos avós assaltou Daniela com violência, arrancou-lhe o soluço. E então Bárbara prosseguia, com muita dificuldade, dizendo quanto superaram juntas em todos aqueles anos: traçou a
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    203Samuel resiliência que elas,mãe e filha, desenvolveram com o tempo. Eram mulheres fortes, independentes e de valor. Quando Thalita tomou a palavra, pôde ex- pressar toda a mudança que presenciara no caráter de Daniela na adolescência, que lhe viu a timidez converter-se em maturidade, a inaptidão social em confiança, expressando-lhe como se orgulhava da amiga que tinha, do exemplo que a providência co- locara em sua vida. A conclusão não poderia ser diferente: para aque- las mulheres, a dor era fonte de energia. Após duas horas de conversa, as três, ainda de olhos inchados, conversavam em tom encorajador: o que Daniela havia de fazer é o que sempre fizera: renascer mais forte, passar por cima do problema e amadurecer. A sua história lhe não credenciava a outra postura. E brotaram da boca da jovem as duas palavras alvissareiras: vida nova.
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    205Samuel Capítulo XXVIII Nesta mesmasexta-feira, Samuel experimentou a tristeza. Pela primeira vez, desde a terça, tomou- -lhe a melancolia, ocupando o espaço do despeito. Acontece que, no fundo, aquela situação não fazia senão prejudicá-lo. Que importava o maldito brio, diante de tudo que padecia com aquele distancia- mento forçado? Valmir uma vez lhe dissera algo que lhe marcara para sempre. Samuel, com poucos meses de empresa, fora alvo da calúnia e inveja. O diretor, cogitando a injustiça contra o jovem ven- dedor, chamou-o para uma conversa. E Samuel, em inocência quase estúpida, confessou quanto sentia ao número um da empresa, citando nomes e expli-
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    206 Luciano Duarte candoas intrigas em todos os mínimos detalhes. Valmir, compadecido, enxergando a si mesmo no início da carreira através dos olhos sinceros de Sa- muel, simpatizou com o jovem. No ápice do diá- logo, não sabendo interpretar o silêncio respeitoso do chefe, Samuel disse-lhe que, fosse mesmo o juízo geral na empresa que ele era incompetente, inapto para a função, desde já se demitia, pois se ainda não dominava o cargo exercido, não era pela própria vontade e sim pelo pouquíssimo tempo de empresa e por ser cobrado por funções para as quais não fora treinado, visto os colegas de setor só lhe ensi- nassem com má vontade, já lhe cobrando a execu- ção das tarefas e zombando-lhe da inexperiência. Valmir, condoído do tratamento que o recém-con- tratado recebera, passou um verdadeiro sabão em todo o setor e demitiu um funcionário; mas antes, ainda diante das aflições de Samuel, perguntou-lhe com toda a benevolência de um mestre: — O que você deseja para a sua vida, Samuel? O jovem não entendeu. — Para a sua carreira, quais são seus planos? Samuel disse-lhe querer crescer, ter sede de apren- dizado e desejar, um dia, ser diretor de uma empre- sa, como Valmir. — E você, — continuou o diretor, — esquecendo os problemas que acabou de me contar, a despei- to de tudo isso, está satisfeito com o seu emprego? satisfeito com a oportunidade de trabalhar na Top Jet? Timidamente, estava.
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    207Samuel — Então, Samuel,quero que você guarde o que eu vou te falar agora, porque eu também já fui como você, comecei como estagiário e aprendi muito em minha carreira… Valmir mirou-o nos olhos e disse: — Em sua trajetória, você sempre irá encontrar pessoas boas e pessoas más, pessoas que te ajuda- rão e outras que tentarão te prejudicar. Você é um jovem de talento, e o talento atrai inveja. Na sua vida, você terá de tomar decisões difíceis, como eu também tive, e o que aprendi é que sempre, mesmo nos piores ambientes de trabalho, se você procurar, encontrará alguém que te ajude, alguém para remar do seu lado. E se lhe bater a insatisfação, antes de buscar a mudança, antes de romper, você deve co- locar a situação numa balança: avaliar o que está bom, e comparar com o que está ruim. E se o que está bom valer a pena, se o que está bom realmen- te fizer sentido pra você e a balança pender para o lado positivo, então você deve encontrar forças para vencer o que está ruim, caso contrário trairá a si mesmo, será ingrato com quem esteve do seu lado, e o futuro tratará de cobrá-lo através do arre- pendimento. Valmir ainda se desculpou pelos maus funcioná- rios, disse tomaria providências imediatas e afagou o ânimo do jovem vendedor, que nunca esqueceu aquelas palavras e com elas acordou na sexta-feira de que agora nos ocupamos. A balança. Daniela, com quanto tinha de ruim, com a mudança repentina de comportamento, seria
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    208 Luciano Duarte injustotratá-la como fosse qualquer uma. A cons- ciência novamente lhe enforcava: fora ele a gerar a desavença. Agira como um perfeito imbecil, e agora pagava pelo erro. Tanto fazia se Daniela lhe direcio- nara uma ou outra palavra de irritação: a ofensa, a infâmia inicial havia partido, sem dúvida, de sua própria boca. Samuel nada menos que classificara a namorada que lhe esteve junto, em conversas ou ca- rinhos, no último ano inteiro, como infiel e indigna. Fora absolutamente atroz, e era incrível como pa- gara tão pouco pelo erro… Em Daniela, com efeito, a balança pendia para o lado positivo, e não foi sem lágrimas que Samuel percebeu a estirpe do prato em que cuspia. Não encontraria, jamais, outra Daniela: nem pela beleza, nem pelo amor. Foi assim que, pela tarde, enviou à namorada uma mensagem. Não respondido, pela noite arriscou a ligação. Debalde… Somente no sábado Daniela, em frieza incomum, saudava-lhe e dizia, em resposta ao repetido pedido de desculpas, também ter pensado muito e querer conversar pessoalmente. Marcaram para as três da tarde na praça de alimentação de um shopping center. Samuel chegou sozinho, posto a garota lhe hou- vesse pedido que a não buscasse. Pouco depois cum- primentava-o a namorada com um selinho gelado. Sentaram-se. O ar condicionado caía-lhes no rosto. — Então… — começou Daniela, inexpressiva. — Eu andei pensando nesses dias e… — os olhos eram fixos no chão. — Bom… eu acho melhor a gente terminar.
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    209Samuel Samuel sentiu-lhe opeito esmagado. Daniela con- tinuou: — Foi legal tudo o que a gente viveu… mas eu tô numa fase diferente, eu preciso ficar sozinha e eu não quero mais me dedicar para um relaciona- mento. Desviando o olhar por instinto, esforçando-se tremendamente para manter o controle de si, o ra- paz respondeu em longas pausas: — Bom… se é assim… se é isso o que você quer… então tá. Silêncio. — Tá? — perguntou Daniela, olhando-lhe pela primeira e última vez. — Tá — respondeu Samuel, anuindo com a ca- beça. O desconforto era imenso. — Então tá — rematou Daniela. Após essas palavras, a garota levantou-se, deu meia-volta e sumiu do campo de vista de Samuel, que se sentiu agredido, torturado quando acompa- nhou com os olhos a melhor e mais linda compa- nheira que jamais tivera perdendo-se para sempre. Ali mesmo escorreram-lhe as primeiras lágrimas pesarosas. Samuel experimentou o vazio logo que se pôs a caminhar. Lembrou-se das palavras do pai: “Na vida ganha quem se dispõe a perder”. A moral era óbvia: uma hora, todo mundo acaba perdendo o que tem. Mas doía, doía porque não havia o que fazer. Aca- bou. Era aceitar. Daniela não lhe concedera opção.
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    210 Luciano Duarte Entrouno carro apático; pudesse permaneceria sentado, não se poria a dirigir, deixaria que o mun- do corresse enquanto estaria imóvel, sozinho, em silêncio no banco do motorista, sem jamais acio- nar a partida do carro. Até a mente se calou. Por essa hora, passava diante de si uma mulher de mão dada a uma criança, com a outra carregando umas sacolas. A criança sorriu em direção a Samuel, con- quanto não o visse. Desviando o olhar para o nada, Samuel aguardou por quinze segundos, quando deu a partida no motor. Do shopping center para casa não distavam dez minutos. No caminho, tudo sempre como esteve. A cidade ridiculamente cinza, as construções iguais, quadradas e pichadas, e os pedintes incomodando a cada semáforo. “Então tá” — era só. Ligou o apa- relho de som em qualquer música e imediatamente o desligou. Precisava do silêncio, sabia que a músi- ca lhe tiraria o juízo. Um sujeito fazia malabarismo vestido de palhaço em determinado sinal. Quando ladeou o vidro do carro de Samuel a pedir dinheiro, deu de cara com o desgosto. Não insistiu. Chegando em casa, Samuel logo estacionou na garagem e reparou um burburinho no final da rua: eram sujeitos que conversavam em um bar. Foi au- tomático: dirigiu-se-lhe friamente, pediu por um isqueiro e um maço de cigarro de palha. Fumara quantas: duas? Talvez três vezes na vida… Em casa não encontrou os pais: ótimo. Assim pôde, sozinho à janela do quarto, mirando o lote
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    211Samuel vago do outrolado da rua, fumando e chorando, experimentar os sentimentos mais amargos de toda a sua vida.
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    213Samuel Capítulo XXIX Nas duassemanas seguintes vagueou por Belo Horizonte um Samuel diferente. Em duas semanas, nada próximo de um sorriso; de palavras, somente o protocolar. Nem aos subalternos dirigiu-se-lhes verbalmente a delegar tarefas: às terças, enviou-lhes por e-mail as tradicionais orientações para a sema- na. Desleixou-se e, assim, deixou a descoberto o desgosto terrível que experimentava. A rotina resumiu-se em acordar, ir ao trabalho e, voltando, trancar-se no quarto a esperar que o dia terminasse. Ainda pelo sábado, ignorou pai e mãe em tentativa de conversa: negou-lhes o cum- primento. E, ao domingo, quando requisitado para
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    214 Luciano Duarte reuniãofamiliar em casa do tio Raimundo, repli- cou-lhes com rispidez. Era possível imaginar o que se passava com o jovem, visto Daniela houvesse de- saparecido… Passou a buscar no cigarro o consolo: o amigo que, queimando-se e dissipando-se para sempre, trazia-lhe relaxamento, aliviava-lhe a tensão. Pois que a dor do sábado rapidamente se transmutou: os espasmos do desespero, os impulsos para a ação, para a reversão do término desapareceram dando lugar a uma aflição perene e silenciosa que, se não esmagava como nos momentos imediatos ao rompi- mento, também não cedia, não lhe abandonava por um único segundo e contaminava qualquer pensa- mento que lhe passasse na mente. A resignação era difícil porque o remate não fora imposto pelo fado cego, mas obrado pela própria estupidez. Isso per- cebera ainda no shopping, talvez antes que Danie- la anunciasse a decisão. Fosse alvo de injustiça da garota, encontraria forças para suportar a perda, teria em seu amparo o brio. Mas e agora? Da forma como se dera o desenlace, contra si estava não so- mente o brio, como também a maldita consciência. Em todos os aspectos, a ruptura era-lhe prejudicial e constituía autoflagelo conjeturar o que o futuro lhe guardaria. A mente, entretanto, não se impor- tava… Em primeiro lugar, Samuel teria de explicar, a cada um dos vários parentes, a razão do término, que não era senão a iniquidade que cometera con- tra a menina. Padeceria sempre que remontasse os fatos, como levasse violentas chicotadas. Depois, a
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    215Samuel perda imediata dostatus que a belíssima garota ao seu lado lhe conferia. Onde quer que pisasse com Daniela, Samuel angariava respeito dos homens e despertava curiosidade nas mulheres. Teria de ser um idiota para não perceber que, agora, os olha- res lhe não seriam direcionados da mesma maneira. Agradava-lhe ser alvo de olhares reverentes, essa era a verdade: sentia-se confiante. Mas tudo pas- sado… E o pior era que se não perdoava, jamais se perdoaria pelo futuro que não poderia viver. Essa era a angústia mais forte: o que poderia ser e não foi, a vida que poderia ter, o homem que se pode- ria tornar e que, por um erro estúpido, por con- trariar o que o pai sempre lhe dissera de não agir impulsionado pela ira, atirara levianamente para o ar. As palavras que dissera diante da ex-namora- da e a mensagem que enviara lhe envergonhavam. Não era, em verdade, digno de respeito nenhum da garota, e seria ainda mais humilhante correr atrás do que chegara ao fim. Um único ato de infâmia é suficiente para condenar um caráter. E o que não podia pensar, o que não podia sequer cogitar por um único segundo, o que lhe ameaçava cravar um punção para sempre no peito era o que, inexoravel- mente, haveria de acontecer… Durante as duas semanas que se seguiram ao tér- mino, pois, Samuel viveu o terror de ser assaltado incessantemente pela memória de Daniela. Jamais experimentara tortura semelhante: era capaz de controlar-lhe os atos, mas nunca, jamais a mente. Com os pais ou no trabalho, já na segunda-feira lhes
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    216 Luciano Duarte direcionavapalavras serenas, se bem que lacônicas e inexpressivas. Mas era absolutamente impotente, absolutamente incapaz de rechaçar o filme que lhe não saía da cabeça enquanto estivesse acordado, fazendo aflorar-lhe a tristeza, o arrependimento, porquanto o filme lhe atirava no rosto como fora Daniela uma boa namorada, uma mulher de valor. Os minutos corriam no trabalho, onde Samuel se sentava e esperava, deixando o café, esse estimulan- te inútil, a esfriar sobre a mesa, enquanto na mente se lhe exibia a imagem fixa dos olhos de Daniela, doces, mirando-o e sorrindo. Não havia cenário, e a imagem era sempre idêntica: a linda garota, em sorriso cândido, olhando-lhe nos olhos, olhando- -lhe no interior da mente e ocupando-lhe todos os pensamentos, preenchendo-lhe todos os sentimen- tos e impedindo-lhe qualquer reação. A vonta- de não era outra senão de chorar, senão de pedir perdão por tudo quanto fizera e implorar por uma segunda chance, implorar por ter novamente em mãos o futuro que abandonara, a plenitude que só seria possível em companhia da garota. E quando o orgulho parecia acordar dizendo-lhe as reflexões serem demasiado humilhantes, quando o racional ameaçava conjeturar que Daniela, também, tinha lá seus defeitos, então Samuel sentia-se derrotado pela imagem fixa que seria a única que conseguiria evocar de Daniela: a garota, carinhosa e ternamen- te, mirando-o e sorrindo. Era impossível imaginar qualquer outra coisa. Daniela jamais se lhe afigura- ria em mente com feição desagradável. Assim, Sa-
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    217Samuel muel levou algunsdias para se acostumar com as chibatadas emocionais que tinha de suportar quan- do não dormia. Convenceu-se que seria incapaz de esquecer a garota. Duas semanas, pois, correram quando, numa sex- ta à noite, Samuel refletia e fumava à janela de seu quarto. Observava o oiti solitário, à esquerda do muro chapiscado fronteiro à sua casa, enquanto a fumaça do cigarro de palha perdia-se no ar. Não pôde deixar de julgar o oiti como a si mesmo: conde- nado à morte desde sempre, abandonado ao envelhe- cimento, rodeado do cinza em ambiente repleto de grades, cercas cortantes, ameaças de um meio hostil. Observando o estrago visual do emaranhado de fios que pendia do poste mais próximo, da pintura des- cascada da casa que ladeava o lote, Samuel recor- dou-se com amargor de que já não tinha um único amigo, ninguém para que pudesse ao menos desaba- far-lhe o sofrimento, alguém que pudesse recorrer ao afago. Na última conversa com Gutão, naquele dia infeliz, descobrira a distância ter sufocado a amiza- de que construíram: distância não somente pelo raro convívio, mas também pela dessemelhança de cará- ter. Contaria a Gutão do término? Piada, sarcástica piada... Gutão tornara-se um imbecil festeiro, um animal de ideia única, um sujeito nulo em profundi- dade espiritual. Provavelmente faria chacota antes de ensinar-lhe que a boa vida é a de solteiro, a alegria são as comemorações em torno de nada, felicidade é euforia irresponsável três ou quatro vezes por sema- na, com doses e doses de álcool…
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    218 Luciano Duarte Aindafumando, Samuel tem o impulso de puxar do bolso o celular. Abre instintivamente o seu perfil numa rede social e dá de cara com a foto de Da- niela, sorrindo e acompanhada, jantando a dois no mesmo restaurante francês que a levara e, com ela, viveu uma das melhores noites da sua vida.
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    219Samuel Capítulo XXX Samuel, dianteda foto, sentiu que lhe afundavam no peito um facão até o cabo. O choque foi tão forte que soltou o celular e deixou-se tombar na cama, desfalecido, contorcendo-se em contrações violentíssimas, acometido por uma dor viva que lhe esmagava todo o interior e arrancou-lhe do peito um mugido grosso e surdo, como houvesse perdido o ar. Fazia força, contraía-se como desejasse expul- sar de dentro de si o agressor, contraía-se e girava o tronco sobre a cama, quando lhe aplicou toda a energia de uma só vez soltando um urro forte. O esforço esgotou-lhe completamente e, tíbio, relaxou de uma só vez todos os músculos do corpo, abrindo
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    220 Luciano Duarte osbraços sobre a cama, mirando fixamente o teto do quarto. A agressão da luz aos olhos serviu de centelha para que as lágrimas rompessem. E então, com a feição de Daniela congelada em sua mente, com a feição que acabara de fotografar estática e permanente em seus pensamentos, rompeu a cho- rar. Após duas horas de apatia levantou-se da cama, reuniu forças para passar a chave no quarto, de onde jamais desejaria sair. Se Samuel olhasse a si no espelho neste momento, vendo-lhe os olhos que sangravam, encontraria diante de si um suicida: al- guém cuja experiência terrena acabara. E não foi outra coisa que lhe passou na cabeça: injetar dentro de si um veneno potente, uma dose de mercúrio, chumbo, qualquer coisa que lhe livrasse do terror. Nem por um segundo pensou que fosse somente uma ex-namorada, que não fosse sequer sua pri- meira… A dor que experimentara era inédita, as- sustava. Quando o peito parou de doer e o cérebro voltou a funcionar veio-lhe o horror de tudo aquilo que sentira, da dor física que lhe acometera violen- tamente e que ninguém jamais acreditaria se con- tasse. Uma força, talvez externa, agira diretamente em seu corpo, agredindo-o. E a vergonha que expe- rimentou sabendo-se trocado, vendo-se humilhado a descoberto por Daniela gravou-se para sempre em seu caráter. Passando a chave na porta, apagou a luz do quar- to e, apoiado na cabeceira da cama, acendeu novo cigarro. Pelas três da manhã acabava com o maço
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    221Samuel e deliberava precisardormir com urgência, posto o raciocínio do suicídio não lhe abandonasse. Estava com medo, quase em delírio, e encostar no traves- seiro fê-lo bem. Pelas seis da manhã, quando a clari- dade invadia o quarto, apagou sem que percebesse. Era meio-dia quando, num repelão violento, Sa- muel despertou assustadíssimo. A cama estava en- sopada. Samuel levantou-se, sentindo a camisa a pregar no peito e a testa umedecida. Precisou de um tempo para deixar o quarto e absorver o sonho que tivera. No banheiro viu-lhe o aspecto horrível: pa- recia um assassino, um sujeito hediondo e cruel, de natureza incapaz de qualquer mostra de bondade. Mirando-se ao espelho atestou: “Estou a ponto de fazer uma bobagem”. O sonho que tivera fora terrível: era exatamente a memória do primeiro encontro com Daniela, ou pelo menos das palavras que trocaram, dos olhares que a menina lhe direcionara naquela noite. O ce- nário era confuso, mesmo as falas se não apresen- taram em sequência lógica. Mas sabia ser o dia do primeiro encontro pelas sensações que experimen- tara novamente, pela tensão que via dissipando-se, pelo diálogo entusiasmado que nunca acabava e pela intimidade que só fazia crescer. Enquanto con- versava, imaginava-se galgando obstáculos, con- quistando lentamente a confiança da garota. Cauto conquanto tenso, a cada sorriso da menina conjetu- rava se, naquela mesma noite, chegariam ao beijo. O que de início parecera impossível paulatinamente se fora afigurando como provável. Como era linda!
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    222 Luciano Duarte Quaseexplodia de alegria só por estar, ali, conver- sando com ela. E então a noite correra. Tudo exce- dendo as expectativas. Quando chegara a conta as mãos já se entrelaçavam por baixo da mesa. “Vou beijá-la no carro” — convenceu-se. Então deixaram o restaurante. Pelo caminho, a cada semáforo vira- va-se à garota e encontrava-lhe na face o sorriso. A mão saía da marcha para encontrar-se com a dela. “Fecha, sinal! Fecha!” — parecia pedir a lograr vê- -la melhor. Então fura um cruzamento e uma van arrebenta-lhe a lateral do passageiro. Após a bati- da, a fotografia da face ensanguentada e descom- posta da mulher. Acordou. O choque atordoou Samuel, fez-lhe o coração palpitar. Levantou-se agitado, não sabia se havia gritado no momento da colisão, não sabia sequer por quanto tempo agonizara antes que acordasse, visto a abundância de suor. A face de Daniela man- tinha-se viva em sua mente. Escovou os dentes, dirigiu-se à cozinha, encon- trando-a vazia. Havia qualquer coisa de comida. Tomou um copo de água gelada, negou o almoço e saiu rumo à padaria, a comprar um maço de ci- garro. Pisou fora de casa, como costume, e olhou aos dois lados antes de fechar o portão. A rua era am- biente de ladrões. Enveredou à direita e, caminhan- do, observava a monotonia do sábado. Na calçada oposta, o bar fechado. Poucos carros estacionados. Adiante uma caçamba de entulho, latas de cerveja jogadas, e o sol do meio-dia agredindo-lhe a pele.
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    223Samuel A padaria distavaduas quadras da casa de Sa- muel. Pronto chegou e, do limiar, pediu pelos ci- garros de palha, junto ao caixa. O olhar assustado do atendente lembrou-lhe não ter trocado a camisa ensopada. — Quero dois dessa marca aqui, ó… — apontou Samuel para um maço na pequena vitrine. O empregado, assentindo, puxou dois maços di- ferentes e colocou diante de Samuel, passando a di- gitar na caixa registradora. Imprimiu um cupom e entregou ao jovem: — Vinte e seis reais, amigo. Samuel, irritado, olhou no fundo dos olhos do homem, que não entendeu. Três segundos de silên- cio. — Eu pedi dois maços dessa marca aqui, ó — repetiu Samuel, encostando o dedo com força no vidro da vitrine e encarando novamente o caixa. Entrou um homem na fila. — Desculpa, amigo — disse o funcionário, sor- rindo com ironia. — Mas não foi esse que você pe- diu não. Você pediu o que eu te entreguei. Dois. — Ah, foi? Subiu-lhe a cólera. — Foi. Samuel puxou da bancada os dois maços. — Mudei de ideia! — disse e atirou com toda for- ça que pôde os dois maços no rosto do atendente. — Seu palhaço! — bradou, deixando a padaria, pi- sando forte. O outro homem, coitado, tremeu com a fúria do
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    224 Luciano Duarte jovem.E Samuel, fervendo de raiva, saiu da padaria amaldiçoando o canalha do caixa, que simplesmen- te lhe acusara de mentiroso. A cólera durou cinquenta passos, quando Samuel raciocinou sobre a própria estupidez, levando as mãos à cabeça. Estava fora de si. Na padaria seguinte, pediu por qualquer marca de cigarro. A face já lhe não podia esboçar expres- são. No caminho de volta a certeza: cometeria, em breve, um ato de insanidade. Entrou em casa. Encontrou o pai assistindo à te- levisão. Caminhou até que chegasse bem próximo do sofá. João Arnaldo virou-se. Calado, assustou- -se do aspecto sombrio do filho, que disse apático, quase em sussurro: — Pai, preciso conversar. João Arnaldo quedou de semblante fechado. A mão esquerda tremeu sobre o braço do sofá. De olhos fixos em Samuel, assentiu com a cabeça.
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    225Samuel Capítulo XXXI Foram, paie filho, a um bar da região. O dia era claro. Por volta de uma e meia da tarde, pois, am- bos sentavam-se numa mesa externa do boteco. O garçom, solicitado, abriu a primeira cerveja. Após o brinde, João Arnaldo rompeu o silêncio: — Que as nossas! Samuel observava em redor antes de pôr-se a fa- lar. Pai e filho eram circundados por mesas deso- cupadas. O bar, àquele horário, via-se vazio: a des- peito do calor, só deveria encher no final da tarde. Uma árvore protegia-lhes do sol. Samuel começou em voz baixa, olhando ao chão: — Então… — João Arnaldo imediatamente mi-
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    226 Luciano Duarte rou-o.— Estou a ponto de fazer uma bobagem. O pai franziu o cenho: — Bobagem? — A Daniela terminou comigo. O pai suspirou. Mulheres… — Terminou comigo, após mais de um ano de namoro — rutilaram-lhe os olhos — e agora está com outro. Samuel esfregou-lhe os olhos. Não choraria dian- te do pai. Vergonha! Um gole de cerveja e a emenda: — Como é que pode uma mulher ser tão abjeta, tão miserável? Eu juro pra você, pai, se eu tives- se, agora, uma arma, eu dava um tiro naquela des- graçada! — Samuel disse e fechou o punho sobre a mesa. João Arnaldo tratou de acalmá-lo: — Olha, Samu — as palavras saíram cadencia- das. — O que eu te falo é que não adianta. Pode ficar nervoso, brigar, dar o tiro, o que quiser. Mas não adianta. Você lembra, da última vez, quando conversamos? Lembrava-se. Então o pai recordou-lhe o que dis- sera na ocasião: a vida, para Daniela, era diferente. Naturalmente apareceriam outras oportunidades e, ainda que a culpa não fosse dela, o natural de um namoro é terminar. — E eu te falo uma coisa, Samu. Em mulheres, em todas, o apelo moral é quase nulo ou, no míni- mo, diferente. Você acredita, e eu te entendo, que engatar com outro homem logo após o término é uma falta de respeito. Eu te entendo e concordo.
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    227Samuel Mas para ela,uma vez “terminado” o relaciona- mento, ela encontra-se livre pra fazer o que quiser e, mais do que isso, precisa de outra companhia pra superar a sua ausência. Não há segredo. Essa é a reação feminina universal. Samuel fez que ia soltar qualquer palavra de ódio, mas desistiu. O pai silenciou, tomou um gole de seu copo e, vendo que o filho nada dizia, continuou: — Sabe o que acontece, Samu? Acontece que mulheres vêm e vão, e quando você encontra uma que, na média, te agrada, então é hora de deixar de procurar por outra melhor. Para o homem, é sa- ber-se eternamente sujeito à traição e estar sempre disposto a perder. Porém, você deve ser capaz de oferecer algo que faça com que a mulher não queira te trair, algo que a faça perder mais que você num possível rompimento. A mulher não é infiel quando teme a perda. Aí você me pergunta: por que os re- lacionamentos falham? Essa é a questão mais sim- ples do planeta: os relacionamentos falham porque o homem busca, num relacionamento, estabilidade emocional; já a mulher quer justamente o contrá- rio: variedade e potência nas sensações. O homem quer companhia e tranquilidade, a mulher quer companhia e paixão. Em determinado momento, o homem torna-se incapaz de satisfazer o desejo ines- gotável da mulher e recebe, em troca, o pior veneno para a própria satisfação. É assim e não adianta: é burrice tentar brigar contra a natureza feminina. Nem você, nem ninguém é capaz de vencê-la. A in- satisfação avulta nelas o desejo de novas emoções
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    228 Luciano Duarte comum vigor que supera tudo quanto foi construí- do com o tempo: assim, o relacionamento acaba. Periodicamente, ao menos enquanto não chega a velhice, toda mulher tem esses arroubos infantis, e brota-lhes a mesma aspiração fútil de liberdade que destrói as relações. Então a mulher entedia-se, passa a ver o companheiro como um sem graça, bri- lha-lhe os olhos para o que poderia ter e não tem. Todos os relacionamentos terminam pela mesma razão. Por isso é indiferente que eu te pergunte o que aconteceu antes ou depois, se vocês brigaram ou não. Eu sei bem o motivo, já encarei esse motivo algumas vezes e a única diferença entre os términos que tive foi se a punhalada veio antes ou imediata- mente depois. Era a primeira vez que João Arnaldo falava sobre outras mulheres com Samuel. — Mas sabe o quê? — ia continuar, quando um garçom aproximou-se. João Arnaldo pediu-lhe: — Desce mais uma pra gente, chefe? O simpático funcionário sorriu. — Mas sabe o que, Samu? Eu tenho cinquenta e seis anos de idade. A sua mãe foi uma bênção em minha vida. Só que eu te falo o seguinte: enquanto você não for capaz de blindar-se contra os sofri- mentos emocionais que uma mulher pode lhe im- pingir, você não encontrará a mulher da sua vida. Parece haver qualquer sorte de instinto feminino que, encontrando fraqueza, cutuca-a insistentemen- te. De minha parte, eu só conheci sua mãe quando eu deixei de me preocupar com as mulheres. Preo-
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    229Samuel cupei-me em trabalhar,enriquecer, crescer no meu emprego e comprar a nossa casa. Então as coisas aconteceram. Eu fui criado, você sabe, na fazenda do seu avô. Trabalhei desde os oito anos. Na roça, eu não passei fome, mas nunca tive um centavo no bolso. Quando o seu tio fez dezoito anos, arrumou um emprego cá em Belo Horizonte e eu, com treze, quis acompanhá-lo. De noite, eu ajudava o seu tio com o que ele levava da empresa para casa e, de dia, eu distribuía jornais. Naquela época o dinheiro valia muito: em três anos seu tio comprou uma boa casa e o pai veio pra cá também. Com dezessete eu arrumei um emprego fixo e, só então, fui conhecer a primeira mulher. Eu e o seu tio, quando o dinheiro começou a sobrar, dávamos umas voltas pela cida- de. A gente era novo, tinha algum dinheiro… Sem- pre arrumava alguma coisa. João Arnaldo pausou com a chegada do garçom. Encheram-se os copos. — Na minha vida, Samu, eu tive três namoradas, sem contar a sua mãe. Você pode achar que são poucas, mas pra minha geração não é. Três vezes, pois, eu senti exatamente o que você tá sentindo, experimentei todos os instintos agressivos que são os piores e mais perigosos que um homem pode ex- perimentar. Eu já fiz bobagem, não vou mentir. Eu já fiz bobagem… Mas eu te falo o seguinte: hoje, olhando para trás, vendo de onde eu saí e onde eu estou, vendo tudo o que eu construí com a sua mãe, essas mulheres pra mim não foram nada. E se eu pudesse voltar no tempo e falar comigo mesmo
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    230 Luciano Duarte quandome subiu a primeira revolta pós-término, eu diria simplesmente: “Essas mulheres não são nada, você é maior que todas elas”. E isso é exatamente o que eu te falo, Samu. Olhe pra você mesmo, olhe pro que você já conquistou, pro futuro que te espe- ra e todas as possibilidades que estão abertas diante de você: você é inteligente, sensato e trabalhador. Você já tem carro… Eu só fui ter o primeiro carro com trinta e dois anos… O que você precisa é res- ponder: você é ou não maior que essa mulher? Você vai deixar uma mulher te derrubar ou vai passar por cima dela? Qual a postura de um homem? Imagine se eu tivesse sucumbido no meu primeiro término, quando eu trabalhava quinze horas por dia… Ima- gine se uma mulher tivesse me derrubado, quando morreu o seu outro tio, que você nem conheceu… O pai calou-se por alguns segundos. Samuel, en- tão, perguntou-lhe: — Que bobagem você fez? O semblante de João Arnaldo fechou. Ele pensou por alguns segundos e respondeu tão somente: — Uma vez, eu mandei um cara pro hospital. O filho entendeu. Subitamente, começou a cho- ver. Como era costume, encaminharam-se ambos para dentro do bar, carregando a garrafa de cerve- ja e os respectivos copos. Sentaram-se num banco alto. Apoiados numa bancada, então, continuaram a conversa. Samuel via-se calado e pensativo desde que o pai pusera-se a falar. João Arnaldo indagou- -lhe do silêncio. — Você tem razão, pai. Tudo o que você disse
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    231Samuel tá certo. Eunão tenho nada a dizer ou acrescentar. Você abriu minha cabeça. E o pai, satisfeito, continuou a falar no ambiente cuja claridade fora expulsa pelas nuvens: — Algumas coisas a gente só aprende vivendo. Não vou dizer que términos são fáceis, o que digo é que eles passam uma falsa impressão de impor- tância. Peça ao seu avô para te contar a história de vida dele e você o verá falando por horas sem mencionar uma única mulher que não seja a sua avó. Você acha que ele não viveu exatamente o mesmo que você, que nós? É claro que viveu. Mas, com o tempo, isso perde o valor… — João Arnal- do fez sinal de cerveja ao garçom. — E eu vou te falar uma coisa, Samu. Após o término, é sempre a mesma história: primeiro, a sensação horrível do vazio. Depois de muito tempo em contato frequen- te com alguém, o rompimento expõe um buraco. Parece a vida perder o sentido, mas a verdade é que o tempo dedicado à outra pessoa ou com a outra pessoa nos dá também uma falsa sensação de im- portância. Além disso, a perda do afeto, o orgulho ferido. O orgulho ferido é o pior… principalmente porque o homem, logo após o término, sente-se in- capaz de conquistar outra mulher do mesmo nível e tem de encarar a duríssima rejeição social, que é a coisa mais natural do universo. Um agravante pode ser o distanciamento dos amigos gerado, também, pelo longo tempo de namoro. Assim, impotente e desanimado, tomado pelo vácuo, o homem passa alguns dias. O arrependimento bate várias vezes, a
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    232 Luciano Duarte consciêncianão dá trégua. Então o homem desco- bre a ex-mulher estar com outro, e isso atinge com a maior violência possível o seu brio. Nesse momento a consciência se dissipa, levando consigo a razão, e o homem é capaz de tudo. Os piores instintos masculinos são provenientes desse tipo de situação, vários dos piores crimes são cometidos em razão do orgulho ferido. Se, porém, o homem consegue vencer essa agressão duríssima sem fazer bobagem, ele amadurece. O garçom entregou-lhes nova cerveja. João Ar- naldo agradeceu e retomou: — Essa coisa a que chamamos consciência é nos- sa única virtude. Por um lado, ela nos irrita. Pode ter certeza que você irá arrepender-se inúmeras ve- zes de ter deixado o seu relacionamento morrer. E pode ter certeza que você nunca mais irá esquecer essa menina. Nunca mais. Você pode não falar dela para os outros, mas ela jamais deixará a sua men- te. Por outro lado, é justamente a consciência que nos dá qualquer dimensão moral. Não existe cará- ter sem consciência, nem bondade, nem compaixão, nem temperança… E é justamente na consciência que você deve se apegar: na força que você teve pra controlar os seus impulsos mais selvagens. Assim você vencerá esse término e, dá uma olhada… Uma bela garota passou diante da entrada do bar. Caminhando jeitosa, de guarda-chuva em mãos. — O Brasil tem mais mulher do que árvore — fi- nalizou João Arnaldo, sorrindo; Samuel, em respos- ta, também sorriu.
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    233Samuel O assunto havia-seesgotado. As palavras do pai dissiparam de vez toda a agressividade concentrada no interior de Samuel. Como o pai era-lhe agradá- vel! Que ponto de apoio possuía! E assim, ambos passaram a conversar sobre outros assuntos. Em pouco, o álcool arrebatou em Samuel a gratidão que nutria pelo pai, já visivelmente enfraquecido pela idade. Nada lhe disse. Em determinado mo- mento da tarde, porém, João Arnaldo saiu para o banheiro e Samuel, acompanhando-lhe com a vista, sentiu brotarem duas lágrimas dos olhos. Foi só. Pelas sete da noite o bar enchia e expulsava os clientes da tarde. João Arnaldo, ébrio, esqueceu-se dos próprios conselhos de sempre e pediu que o fi- lho guiasse. Foi entrar no carro e assaltar Samuel a memória do acidente. Estava bêbado. Então, com atenção e cautela extremas, percorreu as ruas da capital. Devagar e temeroso, passava marchas com a batida na cabeça. O pai falava sobre qualquer coi- sa. Não parava de falar! E, a cada cruzamento, a tensão. Mas não houve infortúnio. Em quinze mi- nutos Samuel estacionava na garagem de sua casa…
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    235Samuel Capítulo XXXII Durante orestante do sábado, Samuel ficou em seu quarto, a digerir as numerosas palavras do pai. Ora fumando, ora sentado na cama, deixou que o efeito do álcool desvanecesse ruminando ideias, convencendo-se. A bem dizer: o pai tinha razão em tudo. E seria vergonhoso que Samuel sucumbisse a um simples término. O inferno para a medíocre Daniela, garota reles!… Ela era quem perdia. Ficas- se com quantos quisesse, tocasse a vida. Mulheres haviam outras, várias… Samuel teve o feliz impulso de abrir o aplicativo do banco no celular, o tradicional Home Broker, então encontrou o deleite que precisava: ali estava
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    236 Luciano Duarte quantoconstruíra do zero em anos de trabalho; ali lhe residia o orgulho, o retrato do próprio valor em números que só cresciam com o tempo. Alegrou-se: era um grande homem. Então Samuel, que havia perdido o almoço, jan- tou. Tomou um banho pelas dez e meia da noite e deitou-se para dormir. Dirigira bêbado e nada acon- tecera. Talvez fosse a proteção divina que atuara novamente, colocando as palavras certas na boca do pai e finalmente lhe iluminou as ideias… Havia, somente, de agradecer. Domingo apático. Samuel, desde a manhã, assis- tindo a filmes e recuperando-se da bebida do dia anterior. Acordou, porém, aliviado: a conversa com o pai fora profícua, já não sentia o despeito lhe cor- rendo pelas veias; nada de frustração aguda, nem de irritação. Foi quando, pela primeira vez em duas semanas, pensou no trabalho. O trabalho… Rompeu a segunda-feira. Samuel chegou na em- presa, ligou o computador e ficou a meditar. Abriu- -lhe a gaveta e percebeu o próprio desleixo das últimas semanas. Era como se não houvesse traba- lhado. Quinze minutos após o sinal, deixa sua sala a buscar café, deliberando dar uma breve olhada no setor. Eis a surpresa: da equipe de quatro vendedo- res, três faltavam. “Como assim?” — perguntou-se. Então, do limiar da sala praticamente desocupada, dirigiu-se à vendedora solitária: — Bom dia, Flávia. O pessoal…? — falou apon- tando às mesas vazias.
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    237Samuel E a mulher: —Ninguém chegou ainda não, Samuel. — Beleza — disse-lhe e saiu, pensando: “Isso vai dar problema…”. Tornou à própria sala. Era agir, sabendo-se o culpado. “Um líder não pode dar tréguas. Um se- gundo de desatenção e eis o prêmio” — ruminava, orçando como estaria o prognóstico para as vendas naquela semana, coisa que nem sequer lhe passava pela cabeça. Já esperava o pior. Mas Samuel, com a experiência que possuía, sabia essas situações resolverem-se com trabalho. Duas semanas pífias, paciência… Era trabalhar pela re- cuperação, sem choro. Pois se entupiu de café pela manhã e analisou detalhadamente os resultados, as atividades das últimas semanas, a distância para com os benchmarkings estipulados. Percebeu-se não só distante, como viu que os vendedores acom- panharam-lhe a apatia no trabalho. O mês era o pior da empresa nos últimos dois anos… Decepcionado, resolveu dar uma bronca em todo o setor. Conferiu o relógio de ponto e deparou-se com os atrasos que já se haviam tornado rotina en- tre os vendedores. Era quase meio-dia e um deles não chegara, outro chegara há pouco, e o terceiro pelas nove da manhã. “Vou acabar com eles…” — pensava, quando toca o telefone. — Top Jet, Samuel. Pois não? Era Valmir. Solicitava-lhe a presença. “Agora azedou…” — levantou-se e rumou à sala do dire- tor. No caminho, ainda pôde atravessar o vidro da
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    238 Luciano Duarte salacontígua com um olhar repreensivo que calou imediatamente o burburinho entre a equipe de ven- das. Bom-dia ao chefe e sentou-se. Silêncio e olhares graves. Então Valmir abriu os braços: — O que é que tá acontecendo, Samuel? Samuel baixou a vista, meneando negativamente a cabeça. Valmir repetiu: — Tá acontecendo alguma coisa? — e virando o notebook: — Olha aqui: isso não paga a folha… Desse jeito não dá! O gerente arriscou o argumento automático: — Bom, Valmir… Mas foi atalhado: — Bom nada, Samuel! — e engrossando a voz: — Tá péssimo! Péssimo! Um mês assim destrói o caixa da empresa. Você tá precisando de alguma coisa? Hein?! Eu quero entender. Eu quero entender como é que — enfatizou — você deixou isso acontecer. Samuel, nervoso, continuava a menear a cabeça. Não tinha forças para olhar ao chefe. — Descul… — Desculpa não, Samuel. Desculpa, pra isso, não funciona. Um resultado desse arrisca a saúde da empresa. Primeiro, eu quero o motivo claro, e depois, a gente vai discutir quem vai ser desligado. Silêncio. Valmir sentiu que exagerava, não lhe era o tom habitual. Encontrou, demais, a indignação nos olhos rútilos de Samuel. Então se levantou sem dizer uma palavra. Buscou um copo de água e sen- tou-se novamente. Tempo para que Samuel articu-
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    239Samuel lasse as ideias.Disse pela terceira vez, agora em tom brando: — Aconteceu alguma coisa? Samuel respirou fundo e então lhe explicou: — Bom, Valmir. A culpa é minha: só isso eu pos- so te dizer. Peço desculpas. É o que cabe a mim. Toda a responsabilidade pelos últimos resultados é minha: eu não fui eu mesmo por duas semanas. Sin- to vergonha de dizer, mas isso aconteceu porque a minha namorada terminou comigo após um ano… — Valmir baixou as orelhas. — Pode ser pouco, nada, mas eu não consegui pensar em outra coisa, não consegui me concentrar e não consegui geren- ciar o setor. Em seguida, descobri que minha ex-na- morada estava… — desgosto! — estava saindo com outro. Eu não tenho outra justificativa. É somente isso: fui antiprofissional. Após o discurso, silêncio. Valmir alisava o copo de plástico com o dedo, como ruminasse. Levou a mão a cabeça e, em expressão negativa, olhou nos olhos do gerente: — Samuel, você tem quase cinco anos de casa, cara… Por que você não falou? Samuel não entendeu. — Olha. Esquece tudo o que eu te falei hoje. Você tá bem, agora? Já resolveu o problema com a sua ex-namorada? Já consegue trabalhar? — Já. — Então tá bom. Agora presta atenção no seguin- te: se te acontecer alguma coisa, Samuel, você tem que falar. Você tem que falar, cara. Você não tira
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    240 Luciano Duarte fériashá dois anos. Se não tá bem, pede uns dias, avisa. Mas o que não pode acontecer é isso: você não falar nada e puxar a empresa para o buraco com você. Se você tivesse falado, a gente dava um jeito… Mas olha isso aqui… — e mostrou nova- mente os gráficos na tela do notebook. Valmir estalou a língua, em gesto indulgente com ambas as mãos. — Agora paciência… É trabalhar. Volta pra sua sala e amanhã a gente senta pra resolver o que fazer. Samuel assentiu com a cabeça. Não havia que agradecer, era agir. E enquanto tornava à própria sala, refletiu que jamais teria um chefe como Val- mir. Retribuiria o voto de confiança e a transigên- cia do diretor. Almoçou rapidamente ruminando o plano que poria de imediato em execução. Tornou do almoço e passou a analisar, um por um, o desempenho de seus vendedores: um teria de pagar a conta do des- leixo geral do setor… Foi quando, às três e quarenta e cinco da tarde, tocou-lhe o celular. Era Raimundo, o tio Raimun- do. “Que seria? O tio raramente o chamava…”. Então colocou o aparelho em contato com o ouvido e escutou a voz fúnebre: — Samu… — o tio suspirou e soltou de uma vez: — O seu pai foi assaltado, resistiu e levou um tiro. E o remate: — Ele tá na UTI do hospital. A verdadeira desgraça chegava para Samuel.
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    241Samuel Capítulo XXXIII Logo tevea notícia, Samuel deixou a empresa em disparada. Honrosamente informou Valmir da tragédia, deixando-o estupefato com seu profissio- nalismo. No carro, a agonia se manifestou na condução agressiva, nas buzinadas e no pisca-alerta ligado: Samuel furou continuamente os semáforos. Deses- perado, gritava pela janela para que os motoristas abrissem o caminho. Chegou no hospital. Estavam reunidos numa sala de espera o tio Raimundo e a tia Judite, soturnos. A tia apoiava um lenço sobre o nariz. Avistando Samuel, Raimundo levantou-se. Esperou que o so-
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    242 Luciano Duarte brinhochegasse e então o recebeu com um abraço apertado. Samuel, desvencilhando-se, perguntou antes que cumprimentasse a tia: — Como ele tá? Raimundo gravemente respondeu-lhe: — Inconsciente. Samuel levou as duas mão à cabeça, meneando-a negativamente. — Como isso foi acontecer? — perguntou, incon- formado. O tio pediu que o sobrinho sentasse, acalmasse. Conduziu-o, sentou-lhe ao lado e cuidou para que as palavras saíssem brandas: — O seu pai saiu para comprar umas pimentas, a pé, no Mercado Central — Samuel ouvia assustado. — Na volta, desceu do ônibus e, a três quadras de sua casa, conversava ao celular, quando foi abor- dado por dois motoqueiros. O da garupa desceu, apontou-lhe um revólver e pediu celular e carteira. O Naldo, segundo disseram, recusou-se a entregar. Houve qualquer gritaria em redor, e o assaltante pôs-se tenso. Tentou tomar à força o celular da mão de seu pai, que reagiu lhe empurrando. Então o homem meteu-lhe uma bala próxima ao peito, to- mou-lhe quanto tinha e fugiu. O disparo assustou o comércio, e um senhor de uma farmácia prestou os primeiros socorros. Chamaram o SAMU, evacua- ram a área… Muita gente viu o que aconteceu… Samuel não piscava. Subitamente baixou a cabe- ça e apoiou-se numa mão, que lhe tapava a boca. Estava com medo.
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    243Samuel Então chegou amãe, em prantos, acompanhada dos avós. Samuel levantou-se e foi abraçá-la. Maria Elvira apoiou-lhe a cabeça no peito do filho e sus- surrou: — Uma desgraça, Samu. Uma desgraça… Samuel, então, conduziu a mãe e os avós a uma cadeira, e passou a fazer o que o instinto lhe orde- nou: — O meu pai vai sair dessa — dizia. — Vai dar certo. Deus vai tirar ele dessa. E a família, em silêncio, agonizava enquanto o cirurgião responsável lhes não informava a situação de João Arnaldo. Na sala de espera o ambiente comum, o ambien- te terrível de todo hospital. Olhos aflitos passando de um lado para o outro, alguma conversa baixa, uma televisão ligada e eventualmente uma maca em disparada pelos corredores. Todas as direções co- bertas de verde. De uma pequena recepção, nomes eram convocados. Volta e meia aparecia um médico de touca, máscara e luvas, e chamava alguém para uma conversa. Enquanto Samuel observava com desgosto os de- talhes daquele lugar que já frequentara no passado, passou a conjeturar os possíveis reflexos do desas- tre. A mãe segurava-lhe a mão, silenciosa. Na cabe- ça de Samuel a pergunta: “E se meu pai morrer?”. Pensou e sentiu os olhos vidrarem. “Meu pai não vai morrer!” — repetiu a si mesmo. Mas se mor- resse, se não resistisse ao tiro covarde de que fora alvo, Samuel teria de honrá-lo. Era o mínimo. Ser
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    244 Luciano Duarte homem,amparar a família. Mas não podia pensar por muito tempo na hipótese: o abandono repentino, sem despedida, quando ainda havia muito que viver, era intolerável. O pai haveria de sobreviver, Deus… Deus! Deus salvaria o seu pai, o seu honrado e admi- rável pai, que lhe ensinara desde pequeno a rezar, que lhe batizara na Igreja Católica, que lhe dera por toda a vida o exemplo da virtude… Assim como Deus atuara na ocasião do acidente, far-se-ia presente desta vez. O pai merecia, merecia mais do que qualquer outro. Apontou no lado oposto da sala o cirurgião-che- fe. Samuel percebeu por ver o tio ajeitar-se na ca- deira, erguendo o tronco. O doutor aproximou-se segurando uma prancheta; nos olhos, não lhe havia emoção. Então, vendo que o médico caminhava mi- rando-o, Raimundo levantou-se. Já próximo, ape- nas com um gesto de cabeça o doutor solicitou que o seguisse. Raimundo tocou no ombro de Samuel: — Vamos. Samuel pôs-se de pé e seguiu, com o tio, o mé- dico, que enveredou por um corredor e caminhou o suficiente para que saísse do campo de visão das outras pessoas. A sós, o doutor estacou e disse-lhes, ali mesmo no corredor: — Você é o filho? — perguntou a Samuel, que as- sentiu com a cabeça. — Pois bem. O quadro clínico do paciente é grave. A bala atingiu-lhe o fígado. O quadro é de choque hemorrágico. Estamos tentan- do controlar-lhe a instabilidade fisiológica, mas eu preciso de autorização para proceder com o trans- plante hepático.
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    245Samuel O doutor calou-se,em olhar interrogativo. — Como? — perguntou-lhe Raimundo. — Não é possível recuperar o fígado do paciente. A solução é proceder com a intervenção cirúrgica e intentar o transplante. Notei que vocês não pos- suem convênio. Preciso da confirmação para pros- seguir. Preciso que vocês assinem o termo de ciência e consentimento. Raimundo finalmente entendeu. — Por quanto sai o processo, doutor? — Preciso verificar a disponibilidade no banco de órgãos. Em geral, trezentos e cinquenta mil reais. — Trezentos e cinquenta mil? — Raimundo exal- tou-se. O doutor confirmou-lhe. Então tio e sobrinho entreolharam-se. Não havia o dinheiro. O médico, percebendo que os familiares teriam de discutir, re- forçou: — O caso é urgente. Eu preciso de breve resp… — Qual a chance do transplante dar certo? — in- terrompeu-lhe Samuel. — Depende de quão rápido iniciarmos a inter- venção — disse o médico. — O transplante dura de seis a oito horas. O sucesso depende de sustentar- mos o quadro do paciente. Breve silêncio e o doutor remata: — Vou deixar vocês discutirem, enquanto eu con- sulto o banco de órgãos. Em dez minutos retorno e preciso da resposta. Virando-se, o médico deixou tio e sobrinho a sós. Raimundo verbalizou-lhe o sofrimento:
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    246 Luciano Duarte —Não tenho esse dinheiro. Era o pior dia da vida de ambos. — Quanto você tem? — Samuel perguntou ao tio. — Que eu consigo juntar de imediato, uns cin- quenta mil, no máximo. E Samuel: — Eu tenho uns duzentos. O resto eu consigo fi- nanciar pelo banco. A resolução brilhou nos olhos do jovem. Samuel deixou imediatamente o hospital, ficando a cargo de Raimundo amparar a família e confirmar a ci- rurgia ao doutor. Combinaram não revelar aos fa- miliares a situação do infeliz João Arnaldo. Samuel dirigiu-se à agência bancária. Conhecia o gerente por telefone. Entrou como um raio, sem pegar senha e ativando os detectores de metais. O segurança abordou-lhe e antes que abrisse a boca Samuel puxou-lhe pelo colete e disse alto, no meio da agência: — Por favor, chame o Flávio. O meu pai tá na UTI e eu preciso de uma liberação de crédito agora! O segurança assustou-se, mas se condoeu da afli- ção que suplicava. Em dois minutos Samuel sentou diante do gerente do banco. Assinou a papelada confirmando o res- gate imediato de todos os seus ativos e comprome- tendo-se num empréstimo de cento e vinte mil reais. A operação foi confirmada em segundos. O saldo lhe estaria disponível no dia seguinte. — Tá feito — participou-lhe o gerente. — É só isso?
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    247Samuel — É. Samuel agradeceu,virou-se e deixou a agência, alvo de olhares compadecidos. Entrando no carro, sacou o celular. Abriu-lhe o Home Broker e confirmou: não tinha mais nada, nem um centavo aplicado sob a custódia do banco. Apoiou a cabeça no volante e desatou a chorar.
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    249Samuel Capítulo XXXIV A cirurgiade João Arnaldo fora marcada para a manhã do dia imediato. Já era noite quando, sob o pretexto de deixar em casa os pais, Raimundo abandonou o hospital levando junto de si a esposa. Tomaria um banho, descansaria o que pudesse e tornaria ao amanhecer. Propôs a Samuel um rodí- zio, e ouviu do jovem que não deixaria o hospital enquanto não houvesse melhora do pai. A resposta saiu num rasgo e o tio, a evitar irritá-lo, não discu- tiu. Antes que deixasse o hospital, porém, arriscou convencer Maria Elvira a tomar um banho, mas esta não desgrudava por nada de Samuel. Mãe e filho, pois, passaram o restante da terrível segunda-
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    250 Luciano Duarte -feirana desconfortável cadeira do hospital. Maria Elvira, pouco depois que os cunhados saí- ram, cochilou sob o ombro de Samuel, que lhe per- cebeu a fraqueza, o sofrimento talvez ainda mais pungente que o próprio, se fosse possível… Os pais já haviam passado das bodas de prata: a mãe, em especial, não tinha muito mais do que o marido e o filho. Do interior, deixara a família cedo. Os quase setecentos quilômetros trataram de fazer rarear o contato, e mesmo Samuel praticamente não tinha apego à família materna, visto a raríssima convi- vência ao longo de seus vinte e sete anos. A mãe chorara muito, via-se fraca, acuada, parecia sofrer quando o filho levantava-se para esticar o corpo, beber água ou qualquer outra ação que lhes rom- pesse o contato. De resto, não lhe largava o bra- ço. E Samuel, sentindo a respiração da mãe colada ao seu corpo enquanto dormia, convenceu-se a ser, para ela, o ponto de apoio. O que sofresse, o que sofria, que ficasse dentro de si. “Não vou mais cho- rar” — decidiu. Pouco antes das onze da noite, Maria Elvira des- pertou. Samuel persuadiu-a a comerem qualquer coisa no refeitório do hospital. Há muito que não se alimentavam… A mãe acedeu. Então foram ambos em passos lentos e desani- mados. O refeitório não era ruim, pelo contrário: havia boa variedade de lanches e pratos feitos. Es- colheram o que lhes pareceu melhor. Samuel pas- sou o cartão e sentaram-se, a esperar. Maria Elvira então virou-se ao filho, mirou-o nos olhos e, quan-
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    251Samuel do abria aboca para perguntá-lo, desistiu. Tornou o olhar para a mesa, a ruminar melhor as palavras. Samuel imaginou o que a mãe lhe indagaria. Em alguns minutos, a pergunta quase inaudível, como que direcionada para a mesa: — A operação vai dar certo? E Samuel, após alguns segundos de ponderação: — Vai dar certo — disse e tomou-lhe a mão. “Posso muito bem ter acabado de mentir” — ati- rou-lhe a consciência infame. E a verdade é que Sa- muel, ele mesmo, não sabia em que acreditar. O ci- rurgião-chefe, sucinto como uma máquina, não quis comprometer-se, sequer lhe explicou em detalhes a situação do pai, os riscos da operação, as chances de sucesso. Era profissional. Oh, grande profissio- nal! E agora a mãe perguntava-lhe o que não sabia responder. Paciência… Era obrigação afagar a dor intensa que a pobre mulher sentia. Se a mentira fos- se necessária, mentiria. A mãe não merecia sofrer em medida maior… Chegaram os pratos. Comeram. Então voltaram para a mesma sala de espera e tornaram a velar. Não haveria novidades pela madrugada. Com a nuca apoiada na parede, Samuel alternou cochilos e olhares ao corredor. Enquanto acordado, rezava. Nunca lhe fora costume rezar, mas agora rezava. Contudo a maldita televisão obrou, por toda a noi- te, para interromper-lhe as preces… Sete da manhã tornava a família, dessa vez com- pleta, com os dois primos ausentes na véspera. Após os abraços emotivos Raimundo, sentindo-se
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    252 Luciano Duarte extremamenteculpado pela ausência, tratou de in- jetar-lhes motivação. A operação vingaria! Após o almoço teriam boas-novas! E ao sobrinho, em par- ticular, disse ter conseguido reunir a sua parte da cirurgia. Raimundo logrou, com muita insistência, con- vencer Samuel e Maria Elvira a tomar o café da ma- nhã em uma padaria ao lado do hospital. Samuel exigiu ficasse alguém a esperar novas do doutor. Quedaram os primos e avós. Assim, de olhos cavos envoltos em olheiras visíveis, o jovem anuiu à ideia do tio e tomou um robusto café da manhã. Em trinta minutos, tornaram ao hospital. Rece- beram a notícia da boca do cirurgião-chefe de que o procedimento cirúrgico seria executado. A pape- lada havia sido assinada por Raimundo na véspera. Agora era rezar. Judite passou a falar dos casos que sabia de trans- plante de órgãos. Nunca ouvira falar de complica- ções. O marido de uma conhecida precisara trans- plantar o rim e tudo correra perfeitamente. Era caro, isso era, mas a medicina era competente. Ten- tou orçar quantas vezes aquele cirurgião já fizera o mesmíssimo procedimento. Era tudo auxiliado por computadores, sensores, vários outros médicos em vigia. A precisão cirúrgica era admirável… Não precisou de muito para que Samuel se irri- tasse. Tomado pelo mau humor resultante da pés- sima noite de sono, desejou que alguém tapasse a boca da tia. Mas haveria pior… Subitamente, João Manoel sentou-se ao lado do
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    253Samuel neto e rompeua falar com entusiasmo. A atitude do avô assombrou Samuel. O velho começou dizendo frases sem nexo, desconectadas umas das outras, e Samuel estranhou-lhe a entonação, o gesticular. Então o velho, sorrindo — sorrindo! — passou a contar casos. Explicou a Samuel como construiu, sozinho, o estábulo da própria fazenda, como fizera o dimensionamento e calculara os ângulos de corte para as vigas de madeira… toda a estrutura fora fei- ta em base de encaixes. Depois contou ao neto de- talhadamente sobre a construção da cisterna da fa- zenda, quando o Raimundo já era nascido. Samuel não acreditava, não podia acreditar no que estava ouvindo. Era uma falta de respeito o avô, em meio à tão severa agonia, falar como costumava fazer nas reuniões de família. João Manoel falava e parecia as palavras atropelarem-se umas às outras; por vezes faltava-lhe a respiração. E o neto, estupefato, não reuniu coragem para pedir encarecidamente que o velho calasse a boca. Foi que João Manoel contou- -lhe, em tom jocoso, da vez em que ele e Raimundo foram pegos em flagrante roubando mangas da fa- zenda do vizinho. Contou e brotou-lhe a vil garga- lhada. Samuel levantou-se e pôs-se a caminhar, do contrário enforcaria o avô com as mãos. Raimundo, que não ouvira o palavrório do pai, percebeu imediatamente a fúria nos olhos de Sa- muel e, erguendo-se, encontrou o sorriso infame na face de João Manoel. Abandonou-lhe a cadeira e imediatamente sentou ao lado do velho. “O pai perdeu o juízo” — certificou-se com tristeza vendo
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    254 Luciano Duarte queJoão Manoel se não havia atinado para a ofen- sa que cometera. Essa ação tratou de liquidar o forçado otimismo da família. Não chegara o meio-dia e ninguém mais falava. De mãos dadas à mãe e longe do avô, Samuel rezava pelo pai, agonizando, forçando-se a não ex- teriorizar um único rasto do sentimento atroz que lhe rasgava por dentro. Tinha medo. Mas o pai não poderia morrer, não daquele jeito, não das mãos de um ladrão covarde e infame, de um vagabundo que lhe atirara por um celular. E via como, mais uma vez, o pai poderia dar-lhe um exemplo de for- ça. Por toda a sua vida, sempre que precisara, lá estava o homem amparando-lhe, aconselhando-lhe, guiando-lhe pelo melhor caminho. E quando lhe confidenciara os problemas, sempre obtivera em re- torno a sensata solução. O pai parecia versado em todos os assuntos, parecia dotado de uma experiên- cia milenar. O denso bigode, o feitio solene… a voz cavernosa, penetrante, que lhe gravara para sempre tantos conselhos na cabeça… o homem represen- tava a virtude, a temperança e a bondade. Sempre, sempre disponível e sempre ao seu lado desde que nascera. E jamais tivera a oportunidade de lhe agra- decer… Uma da tarde e aproxima-se o cirurgião-chefe da família. Solicita com a cabeça a presença de Samuel e Raimundo. Repetindo a ação da véspera, condu- ziu-lhes ao corredor. Sem a menor cerimônia, anun- ciou-lhes: — O paciente faleceu.
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    255Samuel Capítulo XXXV O velóriofoi marcado para o dia seguinte. Rai- mundo tratou dos trâmites funerários. Foi ele, tam- bém, a informar o restante da família do falecimen- to do irmão. Samuel, ao receber a infausta notícia, rompeu em choro forte diante do doutor e sentou-se ali mesmo, no chão do corredor, pedindo ao tio que o deixasse. Quando, então, lembrou-se da mãe, pensando no desmoronamento que a nova lhe causaria. Levantou-se, limpando as lágrimas do rosto e lutando contra os soluços que não deixa- vam de romper. Encontrou os familiares em pran- tos. Apegou-se à Maria Elvira e não disse uma
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    256 Luciano Duarte únicapalavra enquanto permaneceu no hospital. A família estendeu-se unida à casa de Samuel. Raimundo teve de deixá-los para resolver as buro- cracias funerárias. Pediu aos filhos que amparassem a todos e estes, honrosamente, fizeram o que lhes foi possível. Assim, pela tarde, sentados na sala de es- tar viam-se os avós, num sofá; Samuel, com a mãe, no adjacente; e Judite logo ao lado, numa cadei- ra buscada da cozinha. Vinícius e Julinho viam-se sempre de pé: pediram comida, forçaram todos a se alimentar… Mas reinava na casa o silêncio e a dor. Pelas quatro tornava Raimundo. E saiu nova- mente a deixar-lhe os pais em casa. Deliberou, po- rém, que os restantes pernoitassem ali, na casa de Samuel. Então Julinho, o caçula, tratou de buscar roupas limpas para toda a família. No dia seguin- te, almoçaram e partiram juntos ao velório de João Arnaldo. Difícil dizer o que Samuel experimentou nesta terça-feira que foi a pior de toda a sua vida. Quan- do passaram as primeiras horas de choro intenso e dor violenta, o cérebro passou a funcionar. Samuel sentia necessidade de encontrar justificativa para o falecimento do pai, necessitava convencer-se de que houvera motivo, de que havia sentido na morte. Vontade de Deus? Mas por que matá-lo daquela maneira, pelas mãos de um ladrão covarde? Não conseguia entender… E se a missão do pai na terra houvera acabado, se Deus lhe requisitava a presença no céu, por que não concedê-lo derradeiro momen- to digno da própria obra? Deus lhe não respondia.
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    257Samuel E o restanteda família? E a dor que latejava, des- truía a todos por dentro? Que lhes guardaria o futu- ro? Que espécie de dias viriam à boa mãe? A morte de João Arnaldo arrancou-lhes qualquer esperança. Mesmo Samuel: e agora, que faria? O pai era-lhe a inspiração, o apoio, o amigo que, necessitado, es- tar-lhe-ia sempre junto. E o pior, o revoltante, era o sentimento de que a obra do pai fora vã. Tudo quanto conquistara, desde que saíra do interior a distribuir jornais nas ruas de Belo Horizonte, a casa que construíra com o próprio trabalho, o casamen- to único e bem-sucedido, as relações afetivas que nutrira por toda a vida, tudo isso reduzido a nada, numa morte privada do adeus. Assassinado sem di- reito à despedida. Morto por um celular. Que vale a honra, se Deus parece indiferente? Indiferente à dor da família, indiferente ao bom João Arnaldo, que nunca deixara de lhe proferir o nome. Qual- quer eufemismo seria afronta: Deus não se impor- tava com o sofrimento de sua família. E conquanto a mente rapidamente se lhe articulasse semelhantes raciocínios, Samuel amparava a mãe. Esta, coitada, não merecia a dor que lhe atravessava, o vazio e a tristeza. Nela, Samuel encontrava olhos como os seus: inchados, venosos, cansados de tanto chorar. Decidiu terminantemente não dizer palavra de de- salento. Fosse forçado pela mente a externar o que pensava, abafaria, esmagaria esse impulso cruel. A mãe não merecia… Pela noite os familiares começaram a banhar-se. Jantariam e, depois, deitar-se-iam a dormir. Samuel
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    258 Luciano Duarte pôdeavaliar o próprio estado no espelho do ba- nheiro. Olhou-se e não houve susto. Mirou-se com indiferença, desprezo. Então ligou o chuveiro com a mente continuando a pensar. Súbito, a memó- ria infame, a memória ofensiva da ex-namorada. Odiou-se, odiou-se por, naquele momento, pensar na garota mesquinha. E odiou-se por não poder odiá-la. A imagem lhe assaltava, e Samuel sentia o que lhe era o desejo: que Daniela soubesse do ocor- rido, concedesse-lhe a compaixão. Amargou-lhe a língua quando interpretou o sentimento. Vergonha, vergonha! Mas desejava. Imaginava-se consolado por Daniela, imaginava a garota pedindo-lhe per- dão por tudo, comprometendo-se a jamais sair de seu lado. “Sou o sujeito mais desprezível da face da terra!” — torturava-se, e sabia que jamais se per- doaria por pensar na garota logo após a morte do pai. A indignação era inútil. Não deixou de pensar em Daniela por toda a noite e ansiou, sinceramente, que a ex-namorada se condoesse de sua dor. Raiou a quarta-feira. Samuel não dormiu. Pela manhã, a família tomou café em silêncio. Desapare- ceram as lágrimas da véspera, conquanto o desalen- to era geral. Contaminados pelo aspecto esgotado de Maria Elvira, esperaram pelo almoço. Almoça- ram e, assim, dirigiram-se ao velório de João Ar- naldo. Raimundo errou na escolha do horário, ou me- lhor: fora forçado a marcar a cerimônia para o iní- cio da tarde. O calor agredia: em vestes negras, era um incômodo adicional.
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    259Samuel A família chegouao cemitério pouco antes de uma da tarde. O corpo repousava no interior de uma pequena capela contígua ao cemitério. Havia velas em redor do caixão. Chegaram conhecidos, cerca de trinta. Entravam, permaneciam alguns mi- nutos dentro da capela, então a deixavam, aguar- dando na rua pelo sepultamento. Alguns aproveita- vam para fumar. Duas e meia e o caixão era carregado por Samuel, Raimundo, Julinho e Vinícius, amparados pelo sepul- tador. Diante do túmulo, Raimundo arrogou-se o de- ver de prestar as derradeiras homenagens ao irmão. Ante os presentes, contou-lhe brevemente a história, ressaltou-lhe as virtudes, finalizando, em lágrimas, a dizer que sua memória jamais seria esquecida. Palmas. Então o sepultador pôs-se a trabalhar. Samuel mirava a cena ao lado da mãe, completa- mente perdido. Não havia beleza na cerimônia. O tio, faltou-lhe a boa articulação das palavras. Os demais pareciam tomados pela indiferença. É verdade que al- guns choravam, havia silêncio e olhares tristes. Mas só isso? Um sujeito em uniforme verde despejava, com uma pá, um punhado de terra sobre o caixão. Usa- va botas de plástico brancas e visivelmente transpira- va. Quanta solenidade! A simplicidade da cerimônia ofendia. Tudo de uma imensa mediocridade. Samuel olhava ao túmulo, quando repercutiu uma voz sofrida. Era João Manoel que, fremente, rompia em lamentos: — Meu Raimundo… Deus levou meu Raimun- do…
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    261Samuel Capítulo XXXVI Era quarta-feira.Havia corrido duas semanas da morte do pai e Samuel via-se em casa, solitário e pensativo. Repassava em mente as últimas semanas. Valmir, que comparecera ao velório condolente do jovem amigo, dera-lhe férias sem estipular retorno logo no dia seguinte. Samuel recusara e pedira de- missão. Tudo fizera o chefe para manter o ótimo gerente e argumentara quanto pudera para conven- cê-lo. Debalde: o jovem exigira demissão imediata ainda que tivesse de abrir mão do acerto. O diretor, pois, assinara-lhe a demissão, pagando-lhe tudo o que tinha direito e não deixando de agradecê-lo no final.
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    262 Luciano Duarte Findaa cerimônia de sepultamento, Samuel, re- cusando o abraço dos presentes, puxou junto de si a mãe e abandonou o cemitério num táxi. Antes, po- rém, deixou o recado ao ouvido do tio Raimundo: “Nunca mais na minha vida quero ver o meu avô”. Imediatamente após ressoar o engano do velho, o semblante de Maria Elvira transfigurou-se. O olhar inerte lhe denunciava o interior arrasado, devasta- do para sempre. Pálida e mecânica, deixou-se guiar pelo filho a qualquer lugar. Então entraram no táxi. Chegando em casa, nem palavras, nem olhares. A mãe, rejeitando o quarto, deitou-se no sofá da sala e ligou a televisão. Samuel tomou um banho. Não comeram pelo resto do dia. Na manhã imediata, o pedido de demissão. Sa- muel acordou em determinação espantosa, parecen- do guiado por uma força exterior. “Vou ao traba- lho e me demito” — pensou logo se levantou. E o espanto era maior posto o rapaz chegasse na em- presa no horário habitual. Na volta, conseguindo a anuência do chefe, trafegou de cabeça vazia. Não sentia nem pensava. Observava, apático, os pedes- tres, os carros, os semáforos a piscar. Então freava, trocava as marchas, acelerava. Embreagem, freio, embreagem, acelerador. Tudo conforme a rotina… Na calçada, os passos acelerados daqueles que de- viam possuir algum emprego; na avenida, veículos comerciais. A paisagem em cinza estático, o cinza de sempre; as construções, naturalmente, quadra- das. Uma moça bonita atravessando a rua; outro, em linha reta, empurrando um carrinho de pipoca.
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    263Samuel Gente para láe para cá, atarefada. E o relógio pú- blico, na calçada, a informar: sete e trinta e oito da manhã. Chegou em casa livre. Estacionou o carro na ga- ragem, estranhando a necessidade de trancar o por- tão. Percebeu rompido um arame da cerca elétrica do vizinho, caindo pelo muro de sua casa. Deixou para lá dirigiu-se à cozinha. A mãe dormia. Abriu a geladeira, puxou algum queijo, pô-lo em cima da mesa e, olhando-se pelo reflexo no vidro do fogão, concluiu: “Acabou”. Era, pois, quarta-feira, duas semanas após a tra- gédia e Samuel, apoiado na cabeceira da cama, re- passava em mente todos esses momentos, que apa- rentavam provenientes de um tempo distante. A mãe, na semana seguinte ao enterro, passara a or- ganizar, pela noite, reuniões com algumas amigas. Jogavam cartas, conversavam, nada de mais. E fize- ra as unhas; cortara o cabelo na altura do queixo, tingira-o. Em duas semanas parecia outra mulher. No diálogo, no palavrório fútil que Samuel escu- tava contra a própria vontade, não lhe reconhecia a mãe. Então conjeturou o que a vida lhe poderia guardar. Com Maria Elvira, deixou de conversar. O falar da mãe suscitava-lhe repulsa. Financeira- mente… Financeiramente a morte do pai lhe des- truíra o passado e o futuro. Devia cento e vinte mil reais a quem nunca se condoeu dos assolados pela fortuna. Como credora, cabia à instituição finan- ceira enviar boletos e exigir o pagamento regular. O acerto que recebera somava pouco mais de vinte
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    264 Luciano Duarte mil.Posto não usara o saldo total tomado de em- préstimo, devia, talvez, uns oitenta ou noventa mil. Ótimo! E toda a sensatez, toda a parcimônia e todo o planejamento de longos anos ardendo no inferno! Tudo por nada! Trabalharia para pagar o banco? Nunca! E o banco que fizesse o que julgasse pru- dente. Tomasse-lhes a casa, tanto fazia… Se preci- so, iria a qualquer outro lugar menor, e o troco da casa que servisse a comprar comida… ”Deus levou meu Raimundo…” — eis a maior lição que apren- dera da vida. “Meu Raimundo, meu Raimundo…” Sentiu vontade de fumar. Deixou a cama, puxou um maço de cigarro dentre as dezenas que habita- vam sua escrivaninha. Ergueu a vista, cruzou-lhe o campo de visão os carrinhos de quando criança, es- táticos na prateleira acima da televisão. Fitou-os por alguns segundos: não lhe significavam nada. Bus- cou em vão qualquer detalhe que lhe evocasse uma reminiscência. Nada. Virou-se à janela com cigarro na boca e isqueiro na mão. Reparou a paisagem, não havia mais que fazer. Instintivamente os olhos levaram-no ao oiti: a árvore mais desinteressante de toda a flora mundial. Em Belo Horizonte, a cada es- quina, um modelo: inerte e sem brilho. E ao lado do oiti, o lote vago, o muro que reunia acabamento em chapisco, pintura em arte de rua e proteção em ara- me farpado. Um caminhão de gás interrompeu-lhe a reflexão. Aproveitou para tragar mais fundo o ci- garro. Foi que, de repente, ocorreu uma cena. Um sujeito, num sedã importado, parou em fila dupla diante da casa de Samuel. Ligou a seta e sinalizou
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    265Samuel que estacionaria entredois carros. O de trás era um esportivo, cujo dono encontrava-se-lhe no interior, de vidros abertos, a esperar. Então o motorista do sedã, vagarosamente, iniciou a manobra. Logo viu que não entraria e retornou à posição inicial. Na via, um carro parou, aguardando que o motorista esta- cionasse. Tudo isso observado por Samuel e pelo su- jeito do carro esportivo. O sedã, novamente, tentou encaixar-se na vaga: dessa vez conseguiu. Então, na via, o carro em espera pôde prosseguir seu caminho enquanto o cidadão ajeitava-se na vaga. De repente, a fazer a última manobra, esbarrou no carro de trás. Imediatamente desceu do esportivo um sujeito gor- do, careca, furioso e de óculos de sol. Avançou dois passos e mirou-o o para-choque do carro. Mãos à cabeça. Então, em passos pesados e extrema agita- ção, inclinou-se à janela do motorista do sedã, quan- do este desceu pedindo desculpas com a mão; trajava terno completo, era alto e magérrimo. — Cê tá louco, cara? Cê bebeu? — bradava o gordo. — Olha isso aqui! — e apontava ao para- -choque do próprio carro. O imprudente aproximou-se, analisou o arranha- do e voltou-se ao outro: — Que é isso, amigo. Isso aqui é só polir. O gordo berrou: — Cê sabe quanto custa esse para-choque? Vou fazer o boletim! — e puxou do bolso o celular. O esguio cidadão tentou impedi-lo, tentou tomar- -lhe da mão o aparelho, mas o gordo esquivou-se, gritando:
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    266 Luciano Duarte —Cê tá bêbado! Bêbado! Vai me pagar outro para-choque! — Calma aí, amigo… Eu pago! Eu pago! Samuel, vendo a cena ridícula, sentiu brotar de si a gargalhada. Com o cigarro aceso, assistia ao besteirol rindo forte. Que maravilhoso espetáculo! A bola de boliche contra o cabo de vassoura! Ah! ah! ah!… Subitamente, os homens estacaram. Perceberam- -se, da janela da casa fronteira, alvos de um olhar assustador. Sumiram com seus carros e nunca mais tornaram a estacionar naquele lugar.