LITERATURA
SANTACRUZENSE
  A atualização da forma e do discurso
literários de Santa Cruz-RN a partir do
surgimento do Núcleo de Ensino Superior
do Trairi.

                     Nailson Costa
Quero dedicar este trabalho aos poetas e cronistas de
ontem e de hoje, responsáveis pela construção da
literatura de Santa Cruz.




                                                        2
Agradeço a todos que, de uma forma ou de outra, me prestaram inestimável ajuda no

preparo deste trabalho.

       A todos os poetas e cronistas que me permitiram fazer uso de suas obras.

       À Marinalva Vilar, minha professora e paciente orientadora.

       À URCA, que me fez tornar concreto um projeto há muito sonhado.

       Ao professor Reinaldo, do CEDAP, pelo estímulo constante na realização deste.

       À poetisa Tereza Lúcia, pelo empréstimo valoroso da obra Canastra Véia, único

exemplar na cidade, de Cosme Ferreira Marques, escrito em 1946.

       À poetisa Rita Luna, pelo empréstimo da única obra existente na cidade, Rimário de

Poetas Brasileiros, compilado pelo poeta Abdias Gomes, em 1938.

       A Marcos Cavalcanti, por ter me indicado as poetisas proprietárias dessas obras.

       Ao Professor Arimatéia Rodrigues, pela contribuição técnica.

       Aos entrevistados, pela atenção a mim dedicada.

       À minha família, pela força e admiração que me foram dispensadas

       E, principalmente, agradeço a Deus, pela inspiração.




                                                   O Autor




                                                                                          3
BIOGRAFIA DO AUTOR


        José Nailson de Medeiros Costa nasceu em Santa Cruz – RN no dia 11 de setembro de
1963. Filho de Luís Precioso da Costa e de Teresa de Medeiros Costa. É servidor público do
RN. Formado em Letras e Ciências Contábeis pela UFRN. É Pós-Graduado em Identidade
Regional – A Questão Nordeste (Departamento de História). Ajudou a fundar o Partido dos
Trabalhadores em Santa Cruz e a APRN (Associação de Professores do RN, hoje o Sinte,
local). Participou como 1º secretário da APRN e da LDS (Liga Desportiva Santacruzense).
Foi Diretor de Esportes do mais atuante D.A. (Diretório Acadêmico do NEST). É membro da
ASPE (Associação Santacruzense de Poetas e Escritores). Ajudou a fundar e a construir o
IESC – Instituto Educacional de Santa Cruz, de onde foi professor de Língua Portuguesa por
10 anos. Publicou na década de 80 crônicas para o Diário de Natal/Poti, assim como nas
décadas seguintes para os jornais Memorial Santacruzense, Parnamirim em Notícias e Voz de
Natal. Publicou um livro de memórias, Futebol: Documento de uma Paixão; participou com
poemas das seguintes antologias: Templos Tempos Diversos; Monsenhor Raimundo, presente
de Deus; Antologia Literária II da SPVA/RN; Participou com uma crônica da antologia
Ribeiro, um professor. Gosta dos amigos, ama a esposa, os pais, os filhos e o Espírito Santo.
Amém.




                                                                                         4
SUMÁRIO



Prefácio................................................................................................................................07

Introdução............................................................................................................................09

I Parte: Um Presente do Passado......................................................................................... 18

Capítulo I – Da fundação à década de 20, literatura ao som de rabeca............................... 19

          1.1. – Fabião das Queimadas – o poeta dos vaqueiros............................................. 20

Capítulo II – Década de 30: domínio oligárquico versus reformismo igual à literatura

                    de exaltação................................................................................................... 27

          2.1. – Os jornais locais e seus discursos................................................................... 30

          2.2. – Abdias e a primeira antologia de Santa Cruz................................................. 31

          2.3. – Luís Patriota, o poeta das jangadas.................................................................34

Capítulo III – Década de 40: a estética da gratidão.............................................................37

Capítulo IV – A geração de 50............................................................................................ 42

Capítulo V – Os novos românticos de 60............................................................................ 49

Capítulo VI – A literatura da década do medo.................................................................... 54

             6.1. – Um poeta ultra-romântico............................................................................59

II Parte: Um Presente Para o Futuro....................................................................................62

Capítulo VII – Década de 80: atualizando a estética literária local.................................... 63

               7.1. – Ribeiro: um cronista de transição.............................................................. 68

               7.2. – Instantâneos Poéticos de Zedaluz e Otacílio............................................. 72

               7.3. – Os grilos do NEST na poesia de Hugo Tavares........................................ 78

Capítulo VIII – Anos 90: perspectivas................................................................................ 80

                8.1. – Tristes coincidências................................................................................ 81

                8.2. – A poesia das adutoras............................................................................... 83


                                                                                                                                         5
8.3. – Transpoesia do “Velho Chico”................................................................. 86

               8.4. – Brasil 500 versos...................................................................................... 87

               8.5. – Além das Viagens aos Templos e Túmulos em Versos, em Tempos

                         Diversos no Trairi.....................................................................................88

                8.6. – A poética nas poesias da vida.................................................................. 89

Considerações finais............................................................................................................ 96

Bibliografia..........................................................................................................................99

Entrevistas Utilizadas.......................................................................................................... 102




                                                                                                                                       6
PREFÁCIO



       Quando se fala de e sobre poesia rejuvenesce a alma criando um lastro de

conveniência em respaldo à transformação do belo no lindo. E quando isto está vinculado ao

resgate histórico-literário, enobrece a sabedoria lítero-social principalmente se concentrada e

dimensionada na relação e na busca das conexões literárias nacional, estadual e local. A obra

em foco está repleta dessa extensão.

       É um jogo de saber maior, privilégio dos aquinhoados da cultura do sentimento e da

causa grande, engendradas na identificação meritória do conhecimento literário.

       Para dar solidez e fortaleza à cultura, eis que se apresenta à sociedade, oriunda de

Santa Cruz, rincão potiguar, a obra salutar de José Nailson de Medeiros Costa configurando o

poder do sentimento que cria espaços de despojamento para o vislumbre das obras dos

grandes pensadores da literatura brasileira associada à local, numa inspiração lingüística e

reverência justa àqueles que, somente, pelo gosto de fazer a arte do desvendamento do ser

criador de poemas em estilos os mais diversos.

       Nailson soube mergulhar nas águas cristalinas do pensamento para descobrir e

enaltecer os valores poéticos em momentos e circunstâncias históricas bem específicas.

Soube, igualmente, nesta obra, analisar reminiscências, à luz de poder respeitoso à crença de

essência da produção de cada momento em que se deu.

       A fidelidade e a valorização literárias emitem um eco de qualidade a tudo que foi

motivo para arrancar de dentro de cada um a sabedoria poética em circunstâncias sociais e

políticas bem realistas. Um retrato do ontem, do hoje e do amanhã da riqueza circunscrita na

imaginação literária através dos dois últimos séculos, em Santa Cruz.

       É uma obra casta de arrogância e carregada de princípios altaneiros, de lealdade ao

real e, sobretudo, ao resgate de cada época. Nailson não se contentou em registrar produções


                                                                                           7
poéticas nem pareceres literários mediante informações obtidas, mas se deteve em cada

descoberta e cunhou sua observância analítica na mais nobre e suntuosa visão lingüístico-

literária, pois, foi se deleitando no verso de Fabião das Queimadas, Cosme e Márcio Marques

que ele descobriu as pérolas poéticas que instigavam a literatura santacruzense e que

perduram até nossos dias com tantos outros que resistem às intempéries de anticultura.

       Uma obra deste quilate coloca na poltrona da história as marcas de personagens da

vida real do ontem e do hoje. Também, personifica a criação literária e eterniza a obra

daqueles que souberam e sabem externar o seu sentimento no seu estilo poético-literário

próprio.

       Por isso, convém admitir a grandeza cultural que está implícita e explicitamente

registrada, resgatada, analisada e para apreciação de todos. A cultura, assim, é processada

como vertente do testemunho literário que se confunde com a vida da própria municipalidade

santacruzense, como diria o poeta Thiago de Mello em sua "Vida Verdadeira".

                                                           "Aprendi

                                                           o caminho me ensinou

                                                           a caminhar cantando

                                                           como convém

                                                           a mim e aos que vão

                                                           comigo.

                                                           Pois, já não vou mais

                                                           sozinho".

Eis, portanto, o contributo à cultura dessa plaga trairiense, manifestada pela vontade e a

audácia de José Nailson de Medeiros Costa de continuar a obra dos que se foram, mas

deixaram sua história provida de tantos amores pela terra de Santa Rita de Cássia.

                                                           Reinaldo Ricardo dos Santos


                                                                                         8
INTRODUÇÃO



                                                                                               Ó Santa Cruz
                                                                                        Minha terra querida
                                                                                             Tu és minha luz
                                                                                           Tu és minha vida
                                                                                              Ó terra amada
                                                                                          Como eu te adoro
                                                                                      Minha terra idolatrada
                                                                                          Longe de ti choro1

                                                                                                          Um
                                                                                                          dois
                                                                                                          Um
                                                                                                          dois
                                                                                                     e homens
                                                                                              Transformam-se
                                                                                                   Máquinas2

                                                                                     O trabalhador rural...
                                                              O trabalhador rural trabalha a vida inteira...
                                                                     O trabalhador rural trabalha a terra.
                                                         O trabalhador rural planta feijão, milho, algodão,
                                                                       batata, corta cana, cuida do gado...
                                                                            O trabalhador rural é a terra.
                                                                                          Mas o fazendeiro
                                                               não quer mais o trabalhador rural na terra3

        Os fragmentos dos poemas, acima citados, são exemplos de formas e de temáticas

preferidas pelos artistas da palavra escrita em nossa cidade, em épocas diferentes.

        A poesia concreta, em Otacílio Barreto, é visualmente social. O poeta une em sua arte

o avanço da tecnologia, a busca de novas formas de expressão que sejam condizentes com

uma sociedade em que tudo passou a acontecer de maneira rápida e objetiva, à realidade

social, à exploração do homem e sua transformação em máquina.

         O lirismo presente em Luiz de Almeida, o apelo ao sentimentalismo e a nostalgia são

características típicas do Romantismo e se contrapõem, tanto na forma quanto no conteúdo, à

poesia social e concreta de Otacílio, ou apenas social, de Hugo, em que a linguagem

1
  . Poesia de Luiz de Almeida, citada na entrevista de Terezinha e Neuza, em outubro de 2000.
2
  . Otacílio Barreto, “Máquinas”, in:_______. Instantâneos Poéticos, Santa Cruz-RN: datilografada, 1985, p. 12.
3
  . Hugo Tavares, apostila avulsa, março de 2002.


                                                                                                            9
discursiva, o estilo simples e direto pretendem fazer da poesia uma arte mais comunicativa, ao

alcance das camadas populares.

       A atualização da forma e do discurso literários de Santa Cruz, a partir do surgimento

do Núcleo de Ensino Superior do Trairi, foi o centro de interesse desta pesquisa, relacionada

ao campo da História Regional. Enfatizamos, especificamente, as produções literárias

desenvolvidas no município de Santa Cruz-RN. Estabelecemos argumentos segundo os quais

as técnicas dos recursos poéticos e as temáticas literárias desta cidade são vistas sob

perspectivas antagônicas delimitadas em espaços temporais bem definidos.

       O trabalho está dividido em duas Partes: Um Presente do Passado, em que é feito um

levantamento dos principais poetas, escritores e obras de Santa Cruz do início de sua

fundação, em 1825, ao final da década de 70 do século seguinte, tendo por objetivo

demonstrar que os poetas que viveram e fizeram a literatura dessa época não tiveram a

preocupação de seguir as tendências inovadoras que se apresentaram na literatura brasileira,

desde 1881, com o Realismo/Naturalismo, tais como a objetividade, o universalismo, o

materialismo, a contenção emocional, o antropocentrismo etc, ou, mais radicalmente, com a

Semana de Arte Moderna, em 1922; e Um Presente Para o Futuro, em que trabalhamos com

a produção realizada no período que vai da década de oitenta aos primeiros anos do século

XXI. Esta fase da produção literária de Santa Cruz, apresenta uma tendência contrária a que

foi observada na fase anterior, neste sentido pontuamos a preocupação dos artistas da palavra

em atualizar seu fazer poético, procurando manterem-se em sintonia com o que era praticado

nos centros mais avançados.

       As novas formas literárias e as temáticas de engajamento social, que apresentavam um

forte sentimento de denúncia das injustiças sofridas pelos mais humildes, começam a

aproximar a literatura local com a que era praticada no eixo Rio-São Paulo. Dessa forma,

podemos observar que os poetas santacruzenses passaram a refletir em suas obras o


                                                                                          10
cientificismo do Realismo, a modernidade da arte do Modernismo, a expressão visual e

concreta do Concretismo, a poesia-práxis, etc.

       A atualização do fazer literário de Santa Cruz deveu-se, em nosso entendimento, ao

Núcleo de Ensino Superior do Trairi – NEST -, na medida em que ele propiciou o surgimento

de calorosas agitações culturais, verificadas nas Semanas Universitárias e nos Jornaizinhos

Universitários; promoveu o desenvolvimento de Trabalhos Acadêmicos, principalmente nos

Cursos de Letras e de Pedagogia (muitas discussões teórico-literárias verificadas nas Rodas de

Bate-Papos e nas Mesas de Bares foram fontes de inspiração poética), enfim, criou um

Ambiente Cultural nunca antes visto na terra de Santa Rita de Cássia.

       Os seis capítulos que integralizam a Primeira Parte deste trabalho, bem como os dois

da Segunda Parte são iniciados com uma sucinta contextualização histórica, nos planos

nacional, estadual e municipal, de cada década, objetivando propiciar ao leitor uma

comparação das inovações das formas e das temáticas da literatura desenvolvida no eixo Rio-

São Paulo e, de certa forma, na capital do nosso Estado, com a literatura de Santa Cruz.

       Sem a pretensão de fazer análises literárias profundas, encontram-se também algumas

biografias e obras dos poetas e cronistas mais significativos da nossa literatura, em suas

respectivas épocas, para permitir ao leitor o acesso a elementos embasadores dos argumentos

que arrolamos no trabalho.

       Críticos nacionalmente renomados como Antônio Cândido, Alfredo Bosi, Afrânio

Coutinho, Umberto Peregrino somam-se a Tarcísio Gurgel, Diva Cunha, Luiz Eduardo

Brandão Suassuna, Professores da UFRN, para fundamentar teoricamente os argumentos aqui

propostos.

       O leitor observará que a Primeira Parte, Um Presente do Passado, reflete bem a poesia

trovadoresca, o lirismo clássico, neoclássico e romântico, as temáticas românticas, tais como a

vida simples no campo, a ascensão social em função de dotes artísticos, as vaquejadas, as


                                                                                           11
disputas (pelejas) de cantadores (muito presentes na poesia popular de Fabião das

Queimadas); a religiosidade, o saudosismo, a exaltação às festas juninas, bem como às festas

da padroeira Santa Rita de Cássia (nos versos clássicos de Luís Patriota ou de Abdias

Almeida); a valorização de famílias tradicionais e seus coronéis e o fazer poético (verificáveis

em Cosme Marques).

       Observa-se ainda, no crepúsculo da década de 70, nos versos de Joaquim de Lima,

Padre Émerson, Fabiano de Cristo, Franklin de Souza, Maria Celestina, Tereza Lúcia e outros,

constantes apelos lírico-ufânicos que serão predominantes na formação da poesia dessa época

e, portanto, de significação positiva, quando analisada à luz da busca de uma identidade para a

sua terra, bem como para o registro de um passado literário romântico, bucólico e em

harmonia com a natureza e a população local.

       A Segunda Parte, Um Presente para o Futuro, é destinada à constatação do

surgimento de uma literatura moderna - em sintonia com a já praticada nos centros

avançados-, de crítica social e de engajamento ideológico. São obras que abrangem o universo

municipal, estadual e nacional a partir da década de 80, mais precisamente a partir de 1982.

       Para alguns poetas e cronistas dessa nova fase, a literatura não deve existir apenas para

o prazer poético, a arte pela arte, a catarse, nem apenas ser um mecanismo de evasão ou de

conhecimento do homem e do mundo; a literatura deve ser, também, um instrumento de luta a

serviço de uma causa social, um elemento imprescindível para a transformação do meio social

em que vivem.

       As perspectivas da volta à democracia e, principalmente, o surgimento do Núcleo de

Ensino Superior do Trairi – NEST –, extensão do Campus Avançado da Universidade Federal

do Rio Grande Norte, foram fatores determinantes às novas posturas técnico-temáticas

modernas dos poetas e cronistas de Santa Cruz que viveram/vivem esse novo período.




                                                                                            12
O NEST – Núcleo de Ensino Superior do Trairi - é, à luz desta pesquisa, agente ativo

no processo de inserção da literatura local no universo da literatura moderna, na medida em

que propiciou a atualização dos produtores de nossa literatura nas formas e temas

desenvolvidos desde 1922, nos centros mais avançados do país, especialmente na Região

Sudeste.

       Em Santa Cruz, até o final de 70, tínhamos uma literatura mais identificada com as

formas e as temáticas medievais, clássicas, neoclássicas e românticas, através das poesias em

forma de cordéis, que refletiam o lirismo trovadoresco. Eram freqüentes nesse período as

poesias de perfeição estética e de inspiração clássica. Não raro encontramos poesias bucólicas

neoclássicas, em que o eu-lírico do poeta expressa o saudosismo, a religiosidade e a exaltação

à sua terra. Estão muito presentes, nas poesias de Márcio Marques, a fuga da realidade, o

pessimismo à Álvares de Azevedo, bem ao gosto das posturas românticas do Ultra-

Romantismo. As poesias de culto à forma, da arte pela arte, e de inclinação parnasiana são

uma constante nos versos de Luís Patriota.

       Com os debates sociais, políticos, econômicos e literários desencadeados pelos

estudantes do NEST, a partir dos primeiros anos da década de 80, surgiram novas

perspectivas, novos horizontes foram vislumbrados e a literatura local sentiu a necessidade de

se atualizar, de sintonizar-se com a literatura moderna, há muito já praticada em âmbito

nacional pelos famosos artistas da palavra.

       Seria incorreto dizer que o NEST formou os poetas e fez a literatura moderna de Santa

Cruz, porém não seria precipitado nem injusto atribuir a essa Instituição honrarias por

despertar os nossos artistas da hibernação literária. O ambiente estudantil ali criado despertou

o interesse dos jovens artistas da palavra. Os estudantes de literatura tiveram contato com as

novas tendências, as formas modernas, a poesia concreta, a poesia-práxis, a poesia marginal, a

poesia social com as suas temáticas de protesto e de denúncia das injustiças contra os


                                                                                            13
trabalhadores; enfim, é o NEST que aponta o caminho da atualização da forma e do discurso

literários a serem, daí em diante, seguidos pelos artistas da palavra escrita de Santa Cruz.

       A partir daí, a literatura local passou a refletir esses aspectos dando-lhes prioridade.

Entretanto, ela não abandona as temáticas do surgimento da cidade, da religiosidade, do

saudosismo, da evolução de sua gente e do folclore.

       Poetas como Hugo Tavares optam por esse caminho, o da literatura como instrumento

político, estabelecendo em suas obras todo um conjunto de questionamentos sociais. Seus

poemas prendem-se mais ao conteúdo do que à forma, o que não quer dizer que o poeta não

domine as “boas” técnicas literárias vigentes.

       As temáticas da saudade, da pátria, da família, do lar, da infância, da religiosidade e de

homenagem a entes queridos que se foram, enfim, a temática da evasão no tempo e no espaço,

características românticas predominantes na literatura da Primeira Parte da produção literária

de Santa Cruz, quase que desaparecem nas obras dos artistas sociais da Segunda Parte.

       No entanto, este novo período da literatura de Santa Cruz não é espaço exclusivo para

as poesias de caráter social. Os temas que caracterizaram as obras da Primeira Parte ainda se

fazem presentes, com menos intensidade, em poetas e cronistas como Francisco Ribeiro,

Bonitinho, Renan II, Aldenôra Ribeiro, Geraldo Moura, Edgar Santos, Maria Celestina,

Betânia Borges, Fátima Cavalcante, dentre outros.

       O poema de forma clássica, como o soneto, tão cultivado pelos parnasianos, ainda tem

lugar nas obras de Hélio Crisanto e José Letácio que, diferentemente dos parnasianos, tratam

o conteúdo com a profundidade subjetiva de suas visões filosóficas. O que diferencia alguns

destes poetas românticos da Segunda Parte daqueles que constituem a Primeira, é o fato de

que estes, os novos, também produziram obras sociais, de apelo à luta e as denúncias das

endêmicas mazelas sociais.




                                                                                               14
Os temas de engajamento social são freqüentemente encontrados nos poemas de

Teixeirinha Alves e Rita Luna. O pessimismo irônico, a presença constante da morte - o que,

diga-se de passagem, não tem nada a ver com o mal-do-século de Byron4 – são, na verdade,

um convite à vida, ao domínio das técnicas literárias, sendo que a riqueza e a diversidade de

seu conteúdo fazem dos versos de Marcos Cavalcanti um poeta carregado de todos os ismos

de que fizeram uso os estilos de épocas da história da literatura. Ou seja, podemos encontrar

nos versos de Cavalcanti características do Arcadismo, do Romantismo, do Realismo, do

Simbolismo, do Modernismo etc. Essas mesmas referências, sem dúvida nenhuma, podem ser

atribuídas ao também poeta e cronista José da Luz.

        Matias Filho, poeta de arroubos líricos e satíricos ao estilo Gregório de Matos,

escreveu também à maneira de Décio Pignatari, de Haroldo e Augusto de Campos, ao cultivar

a poesia concreta, que abandona o discurso tradicional e privilegia os recursos gráficos das

palavras, o “desenho” do poema, facilmente encontrado em outros poetas santacruzenses.

        Os dois caminhos percorridos pela nossa literatura, o do romantismo, o da arte pela

arte - em que seus artistas e obras se mantêm, do ponto de vista crítico, à margem dos

acontecimentos políticos e sociais mais relevantes - e o da reflexão crítica sobre a realidade e

a busca de novas formas de expressão, não se assemelham aos surgimentos dos novos estilos

de época da literatura universal, na perspectiva de embates, conflitos, manifestos em defesa de

suas formas, de seus temas, de suas estéticas, de suas filosofias e, é claro, de suas vaidades.

        Havia e há um grande respeito por parte dos poetas da Segunda Parte em relação aos

da Primeira. Na verdade, trata-se de uma espécie de admiração tácita, uma vez que fazer

literatura num país subdesenvolvido já é difícil, imagine no interior, onde as mudanças ou

atualizações em nome do moderno deparam-se com as tradicionais barreiras.


4
  Lord Byron ( 1788-1824), poeta do Romantismo inglês, influenciou os poetas da 2ª geração romântica
brasileira com seus versos pessimistas. O profundo desencanto pela vida, o cinismo e a exaltação à morte
receberam o nome de ultra-romantismo, ou mal-do- século, e influenciaram muito os poetas românticos da 2ª
geração do Romantismo brasileiro.

                                                                                                        15
Nunca é demais repetir que este trabalho não tem a pretensão de julgar os poetas e as

obras por eles produzidas, e que não se constitui, também, enquanto uma exegese crítica,

sendo seu principal objetivo o de demonstrar a percepção da existência de duas fases literárias

na produção santacruzense. Como já colocamos anteriormente, a Primeira fase seria aquela

em que a tônica predominante recaía no cultivo de procedimentos poéticos cristalizados pela

tradição, que remontam ao Trovadorismo, ao Classicismo, Arcadismo e Romantismo, e a

Segunda concerne ao momento em que os artistas da palavra escrita introduziram em suas

obras, sem manifestos agressivos nem conflitos estético-ideológicos, as temáticas sociais e

suas (des)compromissadas técnicas.

       E mais: se a Semana de Arte Moderna é o movimento responsável pela inserção do

Modernismo na literatura brasileira, mal comparando e respeitando às devidas proporções, é o

NEST, uma instituição sistematizada de ensino superior, o responsável, não pela mudança da

tônica da produção literária anterior, mas por desenvolver uma mentalidade na nossa

comunidade estudantil universitária/literária, capaz de introduzir as mudanças temáticas e

formais que outrora os românticos de transição, os realistas e, sobretudo, os artistas do

Modernismo brasileiro dignaram-se em fazê-las.

       Procuramos entender as obras dentro de suas épocas não instituindo uma valoração do

passado a partir dos interesses do presente. A análise que instauramos procurou dar conta dos

poetas e obras dentro dos interesses que as épocas lhes suscitaram.




                                                                                           16
Os diferentes discursos da nossa literatura, aqui expostos, deixam de ser antagônicos

na medida em que neles não se observam agitadas polêmicas à Questão Coimbrã5, ou à

Semana de Arte Moderna6, por exemplo.

        Muitos outros poetas, artistas da Segunda Parte, poderiam ser mencionados neste

trabalho, dada a riqueza quantitativa e qualitativa de suas produções. Todavia, aqui não se

encontram por se verificar que o recorte temporal escolhido para o estudo – A atualização da

forma e do discurso literários a partir do surgimento do Núcleo de Ensino Superior do Trairi

– não dispõe de espaço mais longo do que o já utilizado.

        Fica, entretanto, a certeza de que as muitas entrevistas realizadas - inclusive muitas

delas com pessoas octogenárias, testemunhas oculares de fatos aqui relatados –, a ampla

bibliografia consultada somadas à vivência do pesquisador nos meios literários serão de

grande relevância aos estudiosos do presente e do futuro da arte da palavra para as suas

dissecações teóricas futuras.

        As análises e as comprovações destas diferentes visões destinam-se, portanto, a unir e

a difundir o máximo possível a literatura local, para que ela venha a ocupar lugar proeminente

na cultura regional.

          Fazemos nossas as palavras do crítico literário Antônio Cândido no clássico

Formação da Literatura Brasileira:

                            Comparada às grandes obras, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela,
                            não outra, que exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e
                            se não a amarmos ninguém o fará por nós. Se não lermos as obras que a
                            compõe, ninguém as tomará do esquecimento, descaso ou incompreensão7.



5
  . Polêmica que se deu em Portugal, em 1865, entre os jovens poetas e prosadores e seus antigos mestres. Os
jovens estudantes da escola de Coimbra já se interessavam pelas novas correntes filosóficas, científicas e
artísticas. Os antigos, entretanto, rejeitavam-nas. Clenir Bellezi de Oliveira, Arte Literária, São Paulo: Ed.
Moderna, 2002, P. 259.
6
  . Marco inicial da literatura modernista brasileira. A Semana De Arte Moderna se deu em São Paulo nos dias 13,
15 e 17 de fevereiro de 1922. Esse movimento artístico revolucionário defendia a liberdade de criação em todas
as artes. José de Nicola, Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias, São Paulo: Ed. Scipione, 2001. p.
272.
7
  . Antônio Cândido, Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos, 6ª Ed., Belo Horizonte: Editora
Itatiaia Ltda., 1981. p. 346.

                                                                                                           17
I PARTE




UM PRESENTE DO PASSADO



                        “Todos cantam a sua terra
                     Também vou cantar a minha.”
                           (Casemiro de Abreu)




        CAPÍTULO I

                                             18
DA FUNDAÇÃO À DÉCADA DE 20, LITERATURA AO SOM DA RABECA



        Santa Cruz, “... deve datar a sua fundação no ano de 1825 e a prova está neste motivo

quando se fez a demolição da Igreja Matriz, de existência secular, para a construção de

outra igreja maior, no mesmo local, foi encontrada, na cobertura da igreja, uma telha, na

qual estava escrita a data de 18258”.

         Dessa data até as primeiras décadas do século seguinte, poucos documentos (oficial

ou não) fazem referência a poetas e escritores locais que tenham se destacado ou publicado

alguma obra literária. As informações registradas, acerca desse período, encontramos na obra

de Luís da Câmara Cascudo, em Tradições Populares da Pecuária Nordestina, de 1956; José

Fernandes Bezerra, em Retalhos de meu sertão, 1978; ou nas poesias do poeta Cosme Ferreira

Marques9, como “Cara Preta”, poesia publicada no livro Canastra Véia, de 1946, a qual faz

referência a um pobre homem das primeiras décadas do novo século, mendigo, vindo de um

pequeno povoado, hoje a cidade de São Bento do Trairi, a 15 quilômetros de Santa Cruz e que

vivera abandonado nas ruas da cidade a cantar hinos religiosos nas procissões de Santa Rita

de Cássia, padroeira de Santa Cruz, ou a recitar poesias de autoria desconhecida. O poeta

Marques assim o descreve em seu poema:

                                                                     Surgiu como fantasma na cidade;
                                                                 Vindo talvez de um pequeno povoado,
                                                                          Cantar, era única felicidade
                                                                 E cantava, sublime triste e maguado:

                                                                             -“Quando o sol nace é rei,
                                                                               a mei dia ele é morgado,
                                                                                   di tarde é isfalecido
                                                                                 di noite é serputado”-

                                                                Durante muito tempo, sua voz se ouvia,
                                                                    Ao belo alvorecer de um novo dia
8
  . Monsenhor Severino Bezerra, Memória Histórica de Santa Cruz, Natal: Editora Natal Gráfica, 1984, p.6.
Entretanto encontramos a seguinte informação em Marcus César Cavalcanti Morais, Terras Potiguares, Natal:
Editora Clima, junho de 1998, p. 227: “No ano de 1830, José Rodrigues da Silva, proprietário da Fazenda
Cachoeira, aliou-se a dois irmãos, José da Rocha e Lourenço da Rocha, novos proprietários de terras na
localidade e deu início à fundação da povoação de Santa Rita da Cachoeira, situada na Malhada do Trairi.”
9
  . Cosme Ferreira Marques é um dos principais poetas de Santa Cruz nas décadas de 30 e 40 do século XX.

                                                                                                    19
Ou a bela tardinha o ocaso quase posto:

                                                             Uma manhã, calou-se para sempre o canto,
                                                                     Ele morrera, partira sem um pranto
                                                            Ao raiar de uma formosa manhã de agosto10.

1. 1. FABIÃO DAS QUEIMADAS – O POETA DOS VAQUEIROS



        Sem dúvida nenhuma, o grande nome da literatura de Santa Cruz, do final do século

XIX ao início do século XX, é Fabião Hermenegildo da Rocha (1848 – 1928), o famoso

Fabião das Queimadas, natural da fazenda Queimadas, então município de Santa Cruz, hoje

pertencente ao município de Lagoa de Velhos.


                           O cantador negro Fabião das Queimadas foi poeta popular das vaquejadas
                           no Agreste do Rio Grande do Norte. Escravo do fazendeiro José Ferreira
                           da Rocha, juntou vintém a vintém, seu pecúlio e alforriou-se, assim como
                           sua mãe e uma sobrinha, Joaquina Ferreira da Silva, com quem casou.
                           Pagou 800$000 (oitocentos mil réis) por si, 100$000 (cem mil réis) por sua
                           mãe e 400$000 (quatrocentos mil réis) pela futura esposa. Cantava
                           acompanhando-se com a rabeca fanhosa e fiel, pondo-a à altura do peito
                           como os menestréis clássicos11.

        Diziam as más línguas que Fabião era filho apanhado do fazendeiro José Ferreira da

Rocha com uma escrava sua. E não é de admirar, pois naquele tempo eram muito comuns os

amores ilícitos entre os senhores de escravos, ou seus filhos, e as escravas. E o velho Zé

Ferreira, segundo contavam seus contemporâneos, não fugiu à regra da época. Do afeto do

fazendeiro pela jovem escrava, na senzala, ou quem sabe por trás das moitas, foi que a escrava

engravidou. Nove meses depois vinha ao mundo o, também, escravo Fabião. Contam que o

próprio poeta não negava que realmente era filho bastardo do senhor das Queimadas.

        Segundo seu filho, Filipe Ferreira da Silva, o pai havia iniciado sua vida de cantador

ainda muito jovem. Fabião das Queimadas nasceu poeta. Não teve nenhum curso, não estudou

em parte alguma.

        À sua rabeca dedicou esta redondilha:

10
 . Cosme Ferreira marques, Canastra Veia, Natal-RN: Tipografia Galhardo, 1946, p. 36.
11
 . Luís da Câmara Cascudo, Tradições Populares da Pecuária Nordestina, Rio de Janeiro: Ministério da
Agricultura, Serviço de Informação Agrícola, 1956, p.42.

                                                                                                       20
Minha rabequinha
                                                                               é meus pés e minhas mão,
                                                                                 é meu roçado de milho,
                                                                                  minha planta de feijão,
                                                                                 minha criação de gado,
                                                                               minha safra de algodão12.


        O Senador Eloy de Souza, que era negro, assistindo a uma apresentação de Fabião das

Queimadas, na residência oficial do então governador Ferreira Chaves, recebeu do famoso

poeta esta saudação:


                                                                               Seu Doutô Eloy de Souza
                                                                               Minha mãe sempre dizia,
                                                                              Se o senhor não fosse rico,
                                                                                  Era da nossa famia13.

        O Senador gostava tanto de Fabião que, sempre que podia, patrocinava-o nos grandes

festivais de repentes e de vaquejadas pelo Nordeste afora. O senador muitas vezes insistia que

o poeta negro se hospedasse em sua residência, quando este se encontrava em Natal para

participar de cantorias. Entretanto, Fabião preferia a residência e a companhia de seu grande

amigo, Luís da Câmara Cascudo.

        Encontramos muitas outras menções a Fabião das Queimadas:


                                                                                Era piqueno, mi alembru
                                                                                     Du cantadô Fabião
                                                                                    Su rebeca, seu baião
                                                                                                Gêmedô

                                                                                        Puéta provisadô;
                                                                                      Nego véi inteligente
                                                                                      Pirigoso nu repente
                                                                                               Da puizia;


                                                                                    Onde cantava, curria
                                                                                    Um povão pra iscutá

                                                                                        U puéta sem iguá
12
   . José Fernandes Bezerra, Retalhos do meu sertão, Rio de Janeiro: Gráfica e Papelaria Leão do Mar Ltda.,
1978. p. 5.
13
   . Trecho da entrevista realizada com o senhor Manuel Macedo, em abril de 2001.

                                                                                                      21
Na rêbêra;


                                                                                   I cantava a noite intera
                                                                                     Histára de apartação,
                                                                                   Das vaquejada de então
                                                                                                Qui havia;

                                                                                       A sua rebeca gimia
                                                                                    No seu Redondo sinhá,
                                                                                         A gaiganta ritinia
                                                                                    Num canto sintimentá14
         Seu José Bezerra, contemporâneo dos poetas Cosme Marques, Luís Patriota e José

Abdias15, lembra, com os olhos cheios de lágrimas, “de uns versinhos de Fabião que diziam

assim:


                                                                                 Minha mãe era pretinha,
                                                                               Pretinha que nem quixaba,
                                                                                 Mas o seu nome era doce
                                                                              Tão doce que nem mangaba.
                                                                                Quando forrei minha mãe,
                                                                                  A lua nasceu mais cedo,
                                                                                    Pra clareá o caminho
                                                                              De quem deixava o degredo.

                                                                                   O nome da mãe é doce
                                                                                 Que nem a pinha madura
                                                                                Mas passa o doce da fruta
                                                                               E o doce do nome atura16.”


         Os poemas de Fabião das Queimadas eram musicados pela sua inseparável rabeca.

Esses poemas, escritos ou cantados, remontam às cantigas trovadorescas, certamente

influenciadas pelas cantigas líricas do Trovadorismo português17, com uma pequena mudança

do foco temático: a vassalagem amorosa do trovador junto à mulher amada dá lugar a outra

espécie de vassalagem, o amor cortês às vaquejadas, às pelejas de trovadores, às apartações, à


14
   . Cosme Ferreira Marques, op. cit., p. 34.
15
   . Cosme Marques, Luiz Patriota e José Abdias foram, de acordo com as nossas pesquisas e análises os
principais nomes da literatura de Santa Cruz, nas décadas de 30 e 40 do século XX. Não encontramos nas muitas
buscas às suas obras nenhuma poesia de engajamento social.
16
   . Dados de memória do senhor José Bezerra, historiador e contemporâneo de Patriota, Abdias e Marques, seus
amigos. Entrevista realizada em janeiro de 2001.
17
   . Trovadorismo é um movimento de caráter exclusivamente poético que se deu de 1189 ou 1198 a 1434. As
composições líricas desse período são chamadas de cantigas porque eram efetivamente cantadas e recebiam
acompanhamento de instrumentos musicais da época. Clenir Bellezi de Oliveira, op. cit., p.. 34.

                                                                                                        22
obediência ao coronel da região, que, aliás, é visto como um ser inatingível, uma figura

idealizada, a quem é dedicado uma respeitabilidade e atenção sublimes, igualmente

idealizado, como fora a mulher nas cantigas de amor do Trovadorismo português, na Idade

Média etc. Com relação à forma, os poemas são compostos em redondilhas 18, características

marcantes nos poemas-cantigas da Idade Média; se nas cantigas líricas portuguesas era

comum a utilização do paralelismo e do refrão ou estribilho no final de cada verso, o redondo

sinhá era utilizado, pelos poetas populares do cordel, da rabeca e da viola nordestinos, como

forma de introdução de cada novo verso.

        O poema “Vaquejada na fazenda Belo Monte19” contém trinta e nove sextilhas

(estrofes de seis versos cada) de sete sílabas poéticas - redondilha maior - muito bem rimadas

e ritmadas. Nessa poesia, ele fala da beleza que foi a vaquejada, realizada na fazenda Belo

Monte, município de São Paulo do Potengi, propriedade do coronel Manoel Adelino dos

Santos, no mês de outubro de 1921. Descreve as proezas dos principais puxadores do Sertão,

do Seridó, do Trairi, do Potengi, faz referência aos pratos típicos do Nordeste, enaltece a

qualidade dos cavalos e bois, faz elogios a bondade dos coronéis da região; enfim, Fabião

desfila sua arte, agrada o povão e, inconscientemente, o seu discurso harmoniza-se com o

discurso e os interesses das elites dominantes da região. Leia a primeira e a última das trinta e

nove sextilhas desse poema:



                                                                               Eu peço a vosmicês todos
                                                                               Os senhores que aqui tão,
                                                                                     Olhe lá, escute bem
                                                                                     O que diz o Fabião.
                                                                                   Vou contá o sucedido
                                                                                     De uma apartação.
                                                                                                     (...)
                                                                                   Teve homes ilustrado,
                                                                                     Doutores e capitão,
                                                                                   Onde tava seu vigaro

18
   . Também conhecida por medidas velhas, a redondilha menor é a composição poética que apresenta cinco
sílabas poéticas em cada verso, e a redondilha maior é a que apresenta sete sílabas poéticas em cada verso.
19
   . José Fernandes Bezerra, op. cit., pp. 22 – 23.

                                                                                                      23
Junto com o sacristão.
                                                                                   Porém nenhum deles fez
                                                                                     O que fez o Fábião20.

            O poema “Romance do Boi Mão de Pau” é a epopéia do Ciclo da Pecuária

Nordestina. O poema contém quarenta e oito sextilhas, todas em redondilha maior. Nele,

Fabião personifica o Boi Mão de Pau, que é o valentão, o rei das vaquejadas, derrubador dos

vaqueiros derrubadores. Fala, ainda dos tempos de apartação e de muitos outros aspectos da

pecuária. Leia a primeira e a última sextilhas desse poema:



                                                                                       Vou puxá pelo juízo
                                                                                  Pra se sabê quem eu sou
                                                                                   Mode se sabe dum caso
                                                                                     Ta quá ele se passou,
                                                                                  Que é o boi liso-vermeio,
                                                                                   O Mão de Pau corredô.

                                                                                                       (...)
                                                                                  Já morreu, já se acabou,
                                                                                   Está fechada a questão.
                                                                                 Foi-se embora dessa terra
                                                                                       O dito boi valentão.
                                                                                 Pra corrê só Mão de Pau,
                                                                                     Pra verso só Fabião21.

            De acordo com José Fernandes Bezerra:

                                 As suas cantorias sempre repetiam o seu ‘Redondo, Sinhá’, que era uma
                                 espécie de coro. Em determinados versos, também servia de prefixo. Dizem
                                 que era quase analfabeto. Gostava de ditar para alguém escrever versos ou
                                 quadrinhas de sua autoria.Extraviou-se em noventa por cento a sua
                                 produção É lamentável, mas infelizmente o folclore do Rio Grande do Norte
                                 muito perdeu da literatura de cordel do famoso poeta dos vaqueiros.22

            Para alguns estudiosos, só se pode falar em literatura quando há um texto escrito. Para

outros, existe ainda a chamada literatura oral, aquela que persiste pela transmissão oral, não

escrita. Os cantadores de viola se incluiriam nesta categoria. A literatura de cordel é uma

manifestação que emprega os dois registros: o oral e o escrito. A figura dos violeiros que

20
     . José Fernandes Bezerra, op. cit., p. 22.
21
     . Ibidem, Idem, p. 23.


22
     . José Fernandes Bezerra, op. cit., p. 24.

                                                                                                        24
cantam os versos, por exemplo, é indissociável dos livretos que trazem o texto recitado por

eles23.

          Era comum a literatura de cordel ser classificada como sendo de pouco ou nenhum

valor. Hoje em dia, o cordel passou a ser estudado como fonte não apenas literária, mas,

sobretudo, histórica.

          Do final do século XIX às duas décadas do século seguinte, Fabião era unanimidade

na nossa região. Henrique Castriciano, Ferreira Itajubá, Nísia Floresta, Auta de Souza,

Segundo Wanderley ainda escreviam, no plano estadual, à Castro Alves, Tobias Barreto e,

muito incipientemente, à Bilac e Machado de Assis. Euclides da Cunha e Lima Barreto, ao

que parece, não tinham desembarcado o seu Pré-Modernismo em terras potiguares. Mário,

Oswald e suas revoluções de 1922 não se faziam presentes nas produções dos nossos famosos

provincianos.

           Os versos de Fabião não se enquadravam nas tradicionais funções literárias, quais

sejam a da arte pela arte, a da literatura como mecanismo de evasão, a da literatura como

forma de conhecimento do mundo e do homem, a da literatura como catarse; seus versos não

acompanhavam os modelos, as técnicas e as temáticas então vigentes em sua época; a sua arte

não se figuraria em uma literatura cujo fazer poético fosse utilizado como instrumento de

denúncias das injustiças sociais. Como vimos, Fabião não usou suas obras para tal finalidade.

          Fabião era homem simples, negro, escravo alforriado, totalmente desprovido de

ideologia política. Não se podia cobrar questionamentos sociais em suas obras.

          Na verdade, suas canções líricas eram a expressão de seus mais sinceros sentimentos.

          Fabião, com suas cantigas líricas, registrou a cultura local, divertiu as camadas

populares e brindou os palácios do poder. O Trovadorismo português, com uma nova

roupagem, marca presença em terras nordestinas.

23
 . Para maiores informações acerca da literatura de cordel veja: Marinalva Vilar de Lima, Narradores do Padre
Cícero: do auditório à bancada, Fortaleza-Ce: edições UFC, 2000. Há nesta obra muitas referências aos
pesquisadores que se dedicaram ao estudo da Literatura de cordel brasileira e portuguesa.

                                                                                                         25
26
CAPÍTULO II

          DÉCADA DE 30: DOMÍNIO OLIGÁRQUICO VERSUS REFORMISMO IGUAL

                              A LITERATURA DE EXALTAÇÃO



          No plano nacional, a Revolução de 30, o Estado Novo, o Levante Integralista, a

Intetona Comunista, a questão trabalhista, a revolução constitucionalista de 1932 em São

Paulo, a Constituição de 34, a ditadura do Estado Novo, são aspectos relevantes no contexto

histórico da nação a que a literatura local não destinou um único verso.

          E, em terras potiguares, aspectos históricos importantes como o cangaço, as secas, a

Intetona Comunista, a violência da campanha eleitoral, que colocou Rafael Fernandes no

Palácio Potengi, poderiam ter se transformado em temas interessantes, não só para o registro

da história, como para o prazer estético do leitor.

          Nem mesmo os acontecimentos mais relevantes da cidade nessa época, tais como o

surgimento dos partidos políticos e a eleição do primeiro prefeito de Santa Cruz, Cel.

Ezequiel Mergelino de Souza; a destituição desse prefeito eleito após dez meses de mandato;

a nomeação do interventor Cleto Antunes de Lima, indicado pelo Movimento Revolucionário

Militar; a inauguração do mercado público municipal; a instalação da primeira linha

telefônica – Santa Cruz – São Tomé; a inauguração do Grupo Escolar Quintino Bocaiúva; os

lançamentos dos jornais O Trairy, O Ideal e O Infantil, que fizeram         Santa Cruz viver

intensamente suas agitações políticas e sociais, foram merecedores da atenção dos poetas

locais.

          De acordo com as nossas pesquisas no campo da literatura local, é provável que os

poetas santacruzenses não tenham nem tomado conhecimento da realização da Semana de

Arte Moderna. Não encontramos registro literário algum que fizesse menção a esse evento,

responsável pela introdução do Modernismo brasileiro.


                                                                                          27
Aliás, o Modernismo da Primeira Fase pretendia colocar a cultura brasileira a par das

correntes de vanguarda do pensamento europeu, ao mesmo tempo em que pregava a tomada

de consciência da realidade brasileira. As muitas polêmicas, os muitos manifestos, os versos

postos em liberdade, todos os temas, da réstia de cebola, à paixão exarcebada, foram tidos

como poéticos; enfim, a Primeira Fase do Modernismo brasileiro, a Fase Heróica, de 1922 a

1930, projetou no cenário nacional poetas e escritores corajosos e sedentos por mudanças,

tanto na estrutura formal de suas obras quanto nas suas temáticas. Essas idéias, com certeza,

não tinham chegado ainda em Santa Cruz.

        No plano estadual, o poeta Jorge Fernandes 24 chama a atenção para as inovações

modernistas. A década de 30 marca o início de um novo gênero literário no Brasil, o conto.

        A literatura de Santa Cruz continua vivendo sua “belle époque”, não repercutindo as

inovações propostas pelos artistas da Semana de Arte Moderna. Poetas como Cosme Ferreira

Marques, Luís Patriota e José Abdias continuavam presos àquela arte burguesa de exaltação

às famílias tradicionais, à religiosidade, ao nacionalismo citadino, características marcantes da

literatura romântica do século XIX, sem, portanto, assumirem qualquer compromisso com as

questões sociais.

        A literatura local, surpreendentemente, não quis repercutir as temáticas político-sociais

que, diga-se de passagem, são riquíssimas, principalmente a da Intetona Comunista, que teve

seu desfecho na Região do Trairi, na Serra do Doutor, a menos de 30 quilômetros de Santa

Cruz. Os artistas desta arte optaram pelo caminho do não rompimento com o passado e

presente de glórias, em suas obras; optaram pela ausência de registros de fatos relevantes do

ponto de vista histórico; preferiram não fazer de suas obras veículos de denúncia daquela

realidade. Os poetas continuaram utilizando-se das técnicas tradicionais para transmitir a sua

arte.

24
  . Poeta potiguar que se preocupou em divulgar as inovações que o Modernismo apregoara. Para obter maiores
informações sobre a literatura potiguar, podemos consultar Tarcísio Gurgel Informação da Literatura Potiguar,
Natal –RN: Ed. Argos, 2001.

                                                                                                        28
O novo sempre assusta aqueles que estão no poder, e é claro que os artistas nacionais

viviam o patrulhamento político, em função do novo que se propunha e de suas posturas

ideológicas. As agitações literárias com suas intensas polêmicas temáticas e formais eram

uma rotina na década de 30. O professor Antônio Cândido, eminente crítico literário,

testemunha num artigo publicado no livro Recortes:

                          Em 30 nós vivemos o problema do realismo, ou neo-realismo, socialista ou
                          não, bem como a incorporação daquilo que as vanguardas do decênio
                          anterior tinham proposto como inovação. Vivemos um grande surto do
                          romance, ligado aos pontos de vista opostos na moda pela sociologia e a
                          antropologia, como um triunfo do social contraposto às tendências
                          espiritualistas e religiosas. Houve dilaceramentos e disputas, com a
                          formação de um antipólo metafísico e as mais rasgadas polêmicas que
                          marcaram todos nós. Quando comecei a fazer crítica literária, pouco
                          depois de 1940 (auge do Estado Novo, da censura e do arrocho), senti que
                          uma das tarefas era oferecer blindagem ideológica para os romancistas
                          mais significativos do decênio de 30, coisa que hoje há de parecer
                          incompreensível, pois eles se tornaram incorporados aos hábitos de leitura
                          como coisa óbvia.25


        A literatura local continuava, entretanto, totalmente desvinculada da literatura

nacional. Os nossos poetas optaram em não polemizar com quem quer que fosse, tendências

literárias, poetas emergentes, tampouco com políticos, fazendeiros, coronéis etc.;

continuaram priorizando o gênero lírico e suas formas tradicionais; não refletiram sequer o

momento histórico do final do século XIX, o evolucionismo, o positivismo, o materialismo, o

determinismo; enfim, não repercutiram o não-eu, o cientificismo do Realismo nem as

inovações propostas pela Semana de Arte Moderna.

        Não foram encontrados nos jornais caseiros dessa época quaisquer indícios das

inovações ocorridas na literatura do eixo Rio-São Paulo. Os redatores desses veículos de

comunicação, muitas vezes, eram os próprios poetas.




2. 1. OS JORNAIS LOCAIS E SEUS DISCURSOS
25
  . Antônio Cândido, Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos, 6ª Ed. Belo Horizonte: Editora
Itatiaia Ltda., 1981, p. 348.

                                                                                                     29
O jornal Infantil, de circulação efêmera, apenas seis números quinzenais, publica, no

dia 15 de fevereiro de 1931, uma poesia, de autoria desconhecida, que valoriza uma conquista

dos jovens rapazes que formavam a equipe de futebol Trairi Clube: a posse de um terreno

baldio, outrora um cemitério, para a prática do futebol. A prática desse esporte naquele

terreno – hoje lá estão o Bradesco, a Telemar, a Caixa Econômica e o Banco do Nordeste - foi

motivo de muito bate-boca com a igreja - que não admitia, em hipótese nenhuma, um

“desrespeito” daqueles – e com as autoridades municipais, que sempre comungavam com a

igreja. Os rapazes, valendo-se da tese segundo a qual a prática do esporte é salutar à vida,

ganharam a causa e o pequeno jornal fez-lhes a homenagem:



                                                                             Parabéns oh mocidade
                                                                                 nós enviamos daqui
                                                                              aos rapazes valorosos
                                                                                     do altivo Trairi
                                                                            que sem desfalecimento
                                                                           num constante trabalhar
                                                                               fizeram do Cemitério
                                                                           Santa Cruz ressuscitar26.

            Neste fragmento do poema, observamos que o mesmo não leva a assinatura de seu

autor. Acreditamos que fosse uma forma de não se expor, para não se indispor com o clero e

as elites dominantes daquela época.

            O jornal O Ideal, jornal dos namorados, ajudou a registrar a História de Santa Cruz na

década de 30. Seu primeiro número circulou em 1931, manuscrito, conforme declarado em

sua edição de 31 de dezembro de 1938, feito em comemoração ao oitavo ano de sua fundação.

O poeta Cosme Ferreira Marques (Jeca Tábua) era o diretor, o senhor José Bezerra, o gerente.

Zé Galvão, Pedro de Tico, e alguns outros ajudaram a fazer esse veículo que tratava de

cinema, poesia, aniversários, fofocas, falecimentos, etc.


26
     . Monsenhor Severino Bezerra, op. cit., P. 33.

                                                                                                30
Outro jornal que ajudou a divulgar, não só a poesia de Santa Cruz, mas, sobretudo, o

passado de glórias da cidade, foi O Trahiri. Esse jornal circulou durante todo o ano de 1932 e

era tido como um Órgão da Sociedade Educacional Santacruzense. O seu diretor era o poeta

Luís Patriota; Horácio F. da Rocha, seu gerente. Composto e impresso em tipografia própria

mantinha redação e oficinas à Rua Dr. Pedro Velho. Cobrava por assinatura anual 10$000,

semestral 6$000, número avulso $200 e atrasado $400. Assuntos como Santa Cruz e a

construção do açude Inharé, Ferreira Itajubá27, a seca de 32 (numa perspectiva natural, nunca

político-social), futebol, júri, concursos de beleza; Euclides Rodrigues de Carvalho, poesia,

cinema, além de fazer uma verdadeira apologia a administração do então prefeito Miguel

Rocha e ao seu sobrinho, o secretário Miguel Rocha Sobrinho.

        Não encontramos, nesses jornais, visões críticas da sociedade. É como se em Santa

Cruz tudo fossem flores.



2.2. ABDIAS E A PRIMEIRA ANTOLOGIA DE SANTA CRUZ



        Rimário de Poetas Brasileiros, antologia de poetas nacionais, regionais e locais,

publicada em 1938, pela Tipografia “O Trairi”, compilado pelo poeta Abdias Gomes de

Almeida Bezerra, é, de acordo com a nossa pesquisa, o primeiro livro a divulgar as obras

literárias dos poetas de Santa Cruz.

        Abdias nasceu no dia oito de novembro de 1884 na cidade de Araruna-PB e faleceu

em Santa Cruz no ano de 1942. Estabeleceu-se em Santa Cruz ainda bastante jovem. Era um

pequeno comerciante apaixonado pela literatura. Grande parte de suas pequenas economias

eram destinadas à aquisição de manuais de literatura. Conseguiu, junto ao seu amigo Luís

27
 . Nascido em Natal em 1876, Ferreira Itajubá era de família extremamente pobre, e assim viveu. Ingênuo e puro
viveu contemplando as belezas naturais de sua terra, ao estilo árcade. Morreu na miséria em 1912. Podemos
encontrar mais elementos em Constância Lima Duarte & Diva Cunha Pereira de Macedo, Literatura do Rio
Grande do Norte: antologia, Natal-RN: Governo do Estado do Rio Grande do Norte, Fundação José Augusto,
2001. p.121.

                                                                                                         31
Patriota – diretor da Tipografia, um bom desconto para publicar o livro Rimário de Poetas

Brasileiros.

        Essa antologia é composta por 113 poemas das mais variadas formas. 47 poetas

participam dessa antologia: José de Lorena, Pereira da Silva, Palmira Wanderley, Perillo de

Oliveira, Olegário Mariano, Luís Patriota, Auta de Souza, Segundo Wanderley, Casemiro de

Abreu, Castro Alves, Otoniel de Menezes, Múcio Teixeira, Herotides de Campos, Luís

Peixoto, Joaquim Lima, F. das Chagas Batista, Carlos Cermiciary, Valquíria Leite Dutra,

Joaquim Guilherme, Catulo Cearense, Mendes Martins, Augusto dos Anjos, Da Costa e Silva,

Carolina Vanderley, Gotardo Neto, Abdias A. Bezerra, Pe. Pedro Paulino, Maria Carolina,

Olavo Bilac, Cerquinho Nunes, Damasceno Vieira, Ponciano Barbosa, Pinto Coelho, Péricles

Maciel, Luís Pistarine, Pe. Antônio Tomaz, Júlio Salusse, Aníbal Teófilo, Jorge de Lima,

Venceslau de Queiroz, Ferreira Itajubá, Carlos Dias Fernandes, Zeferino Brasil, Guimarães

Júnior, H. Castriciano, Genar Vanderley e Afonso Celso. Esse livro, como bem disse Abdias

no prefácio:


                            ...teve por objetivo coligir rimas esparsas muitas delas prestes a
                            desaparecer, por entre a poeira dos tempos.
                            No número destes compreende-se essa falange de moços de então,
                            contemporâneos nas eras de 1900, filhos e admiradores da primorosa terra
                            de Pereira da Silva e Perillo de Oliveira. Quando estes tangiam as suas
                            lyras aedas e conosco cantavam as musas de nossa esplêndida mocidade28.

        São recorrentes nas obras de Abdias as temáticas do medo, do amor, da saudade,

especialmente a da terra natal. A lembrança da infância querida observada no poema Dia dos

Meus Anos assemelha-se às inquietações líricas de Casimiro de Abreu29:



                                                                Oito de Novembro. Ano de oitenta e quatro,
                                                                     Nasci. Quanta ledice no solar paterno.

28
   . Abdias Gomes de Almeida Bezerra, Rimário de Poetas Brasileiros, Santa Cruz – RN: Tipografia “O Trairi”,
1938. pp. 45-46.
29
   . Poeta do Romantismo brasileiro da 2ª geração. Cantou o saudosismo em todas as situações: o saudosismo
nacionalista e a saudade nostálgica da infância pura, acrescida da fixação sentimental na mãe e na irmã. José de
Nicola, op. cit., p. 144.

                                                                                                           32
Do planalto de Araruna, meu berço terno.
                                                                 Iluminado pelos fulgores do primeiro astro.

                                                               Nasci, certamente naquele dia, naquela hora,
                                                                     A natureza era queda, maviosa e lenta.
                                                                 Por isso que, minh’alma melhor se alenta.
                                                                         No silêncio onde a saudade mora...

                                                           Da mamãe! Quem saudades não tem! Ora essa!...
                                                                        Do primeiro beijo que inda ouço.
                                                                      Transportado nas asas da oressa!...

                                                             Carícias de outros seres a lembrança me acode,
                                                                 Belos refletores, de minhas ilusões de moço
                                            Dessas ilusões, que o tempo suplantar não pode30!

            Nessa antologia, além de Abdias, destacam-se poetas como Joaquim Lima, que faz

lembrar em seu poema Adeus, Santa Cruz, o saudosismo, o locus amoenos, características

árcades segundo as quais a natureza é vista como um lugar ameno, aprazível, onde o homem

poderia encontrar equilíbrio e paz:


                                                           Adeus, Santa Cruz, que eu de ti vou me ausentar.
                                                                  Cheio de recordações ternas lembranças,
                                                                    Quando um dia a teu céu eu regressar,
                                                                 Quero ver-te cheia de luz e de esperanças.

                                                                    Auras balsâmicas de manhãs fagueiras,
                                                                      Tardes amenas de candidez e doçura,
                                                                     Estrelas mil que no firmamento adejas,
                                                                          Lua brilhante que no azul fulgura.
                                                                    Flores campestres de esplendor infindo,
                                                                     Árvores sombrias de um Sertão antigo,
                                                                      De tudo enfim que nesta terra é lindo,
                                                                      Saudades sôfregas levo-as eu comigo.

                                                                        Adeus, solo ubérrimo de esperança,
                                                                         Torrão querido de minha alegria,


                                                                        Adeus parentes, amigos da infância,
                                                                           Adeus, Santa Cruz,até um dia31...

2.3 LUÍS PATRIOTA, O “POETA DAS JANGADAS”.




30
     . Abdias Gomes de Almeida Bezerra, op. cit., p. 47.
31
     . Ibidem, Idem. p. 48.

                                                                                                        33
Destacou-se também na antologia Rimário de Poetas Brasileiros o poeta Luís Patriota,

natural de Touros, nascido em 25 de novembro de 1899 e falecido em 21 de dezembro de

1978. Ele foi colaborador do jornal A República, de Natal, fundou o jornal O Trairi, em 1932,

em Santa Cruz. Luís Patriota pertenceu à Academia Norte-riograndense de Trovas e à

Academia Potiguar de Letras. É conhecido como “poeta das jangadas”, por ter escrito muitos

poemas inspirados nesse tema. Foi jornalista, juiz de paz, escrivão, advogado, promotor,

professor e secretário da Junta Comercial do Estado. Em Santa Cruz, onde morou por muitos

anos, trabalhou como Guarda-Livros (contador)32 dos Ferreira de Souza. Foi diretor da

tipografia “O Trairi”, trabalhou também como professor, continuou fazendo o que mais

gostava: escrever . Era poeta e escritor culto, exigente, adepto da poesia clássica, com ritmo,

rimas e métrica impecáveis ou de poesias sem tais exigências formais, como O Meu S. João,

em que o sentimentalismo, a religiosidade e a subjetividade de seu eu-lírico denunciam todo o

Romantismo romântico de seus versos:


                                                                  Oh! Como eu te amo, meu bom São João!
                                                                           Noite de encantos e de prazer!
                                                                               Pela mais doce recordação
                                                                         Com que me envolves o coração,
                                                                         Da melhor quadra do meu viver.

                                                                        Revejo agora com os olhos d’alma
                                                                              Entre coqueiros a farfalhar,
                                                                        A pobre vila, que é a minha palma,
                                                                        Meu céu de affecto, onde se acalma
                                                                        Toda a amargura do meu sonhar...

                                                                              E que revoadas de tradições,
                                                                              De coisas lindas e primitivas,
                                                                               Ao doce embalo das ilusões,
                                                                             No céu das minhas evocações,
                                                                       Deslumbradoras, radiantes,vivas!...33

        Luís Patriota, em Carta Aberta, fez a seguinte declaração sobre o livro Rimário de

Poetas Brasileiros, do compilador Abdias Almeida:

32
   . Guarda-Livros é atualmente o profissional que trabalha em escritório de contabilidade. Toda a contabilidade
da tradicional e oligárquica família Ferreira de Souza fora entregue aos cuidados de Luiz Patriota.
33
   . Abdias Gomes de Almeida Bezerra, op. cit., p. 49.

                                                                                                           34
Falar do Rimário de Poetas Brasileiros é mister, antes de qualquer outra
                            coisa, volver os olhos d’alma aos longes esmaecidos de um passado, que
                            tanto nos pode ter sido feliz como desditoso. Pouco importa...
                            Todos nós, venturosos ou não, temos sempre um passado a recordar!
                            E eu, que vivo do passado, sinto que a minha felicidade consiste unicamente
                            em revivê-lo, nos meus momentos de meditação e de tristeza!..34
        O passado, portanto, não o seu presente, nem o seu futuro, é, segundo Patriota, a

inspiração da sua obra. Patriota publicou as seguintes obras: Livro d’alma35 e Poemas das

jangadas36.

        A literatura de Santa Cruz, da década de 30, manteve-se isolada do resto do país, não

foi contaminada pelo espírito demolidor dos valores tradicionais que traziam os artistas da

primeira fase do Modernismo brasileiro, a fase heróica; não se manifestou à Pau-Brasil e nem

à Verde-Amarelismo e tampouco “Antropofagiou” como fizeram seus irmãos famosos da

região sudeste do Brasil.

        As narrativas em prosa, que conheceram um notável desenvolvimento desde o final do

século XVIII, inexplicavelmente ainda não se faziam presentes na literatura de Santa Cruz.

Escritores como José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis, Euclides

da Cunha, Lima Barreto, etc., compunham a biblioteca de Luís Patriota, Cosme Marques e

tantos outros intelectuais da literatura local. Entretanto, estes não se deixaram influenciar por

aqueles, e Santa Cruz não teve o privilégio de ler em prosa a sua cultura, os seus costumes, a

sua gente, a sua história.

        A literatura desse período, portanto, optou por dar ênfase a seus heróis, seus coronéis,

exaltar seu passado histórico, deu ênfase à religiosidade e às datas natalícias de seu povo;

supervalorizou as emoções pessoais; optou por não cantar as questões sociais, tais como o

cangaço, o messianismo, a seca, os acordos espúrios na política; não repercutiu o domínio

oligárquico nem o reformismo dessa época. Enfim, a literatura santacruzense da década de 30

manteve-se fiel ao conceito, até então, praticado pelos seus poetas, principalmente Luís
34
   . Jornal O Trairi. Seção Literatura. Santa Cruz-RN. 1938.
35
   . Luís Patriota, Livro d’alma, Recife: Imprensa Industrial, 1922. (Poesias).
36
   . Luís Patriota, Poemas das jangadas, Santa Cruz – RN: Tipografia O Trairi, 1933.

                                                                                                   35
Patriota, segundo o qual ela deve ser a expressão e a realização do belo literário, da meditação

e da tristeza, da recordação de um passado feliz, sem comprometimentos extras.




                                      CAPÍTULO III

                     DÉCADA DE 40: A ESTÉTICA DA GRATIDÃO




                                                                                            36
É na década de 40, mais precisamente em 1942, que o Brasil entra na segunda grande

guerra. O Rio Grande do Norte vivia intensamente o desenrolar do conflito. Parnamirim e

Natal recebiam um grande contingente militar norte-americano37.

        O Estado Novo de Getúlio Vargas precisava legitimar-se perante a opinião pública.

Com essa finalidade, foi criado em 1939 o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) o

qual se encarregou de fiscalizar todas as atividades culturais e jornalísticas. O programa

radiofônico A Voz do Brasil não se cansava de endeusar o presidente Vargas38.

        Santa Cruz dava boas-vindas ao IBGE, ao Instituto Cônego Monte, aos primeiros

protestantes e à sede dos escoteiros39.

        Na literatura nacional, destacavam-se as gerações de 30 e de 45, a poesia Pós-

Modernista e a prosa regionalista. Os poetas das Gerações de 30 e de 45, Carlos Drummond

de Andrade, Vinícius de Morais, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cecília Meireles e João

Cabral de Melo Neto, assim como os prosadores Graciliano Ramos, José Lins do Rego,

Rachel de Queiroz, Érico Veríssimo e Jorge Amado não eram famosos na terra de Santa Rita

de Cássia.

        Não encontramos, dessa década em Santa Cruz, nenhum indício das inovações

temáticas e lingüísticas introduzidas pelos artistas nacionais que viveram o período, como por

exemplo a tentativa de disciplinar a linguagem literária, tão desregrada pelo liberalismo

exagerado dos modernistas de 22.

        O fato é que, pela terceira vez no século XX, as letras brasileiras apresentaram novo

ciclo de renovação, tanto na poesia quanto na prosa. O elemento norteador dessa fase foi,




37
   . Para mais informações ver: Luiz Eduardo Brandão Suassuna, Anotações sobre a história do Rio Grande do
Norte, Natal – RN: Editora Clima. 1998.
38
   . Mais informações sobre esse assunto o leitor pode encontrar em Florival Cáceres, História do Brasil, São
Paulo – SP: Editora Moderna, 1995, pp. 290 – 91 -92.
39
   . Mais elementos ver: Hermano Amorim, Santa Cruz nos caminhos do desenvolvimento, Natal – RN: Editora
Santa Maria. 1998.

                                                                                                        37
sobretudo, as novas pesquisas formais, expressas no estilo personalístico de autores

estreantes, cada um deles com seus aspectos próprios40.

        No plano estadual, a literatura se ressentia, pelo menos no campo editorial no período

entre o final dos anos 20 à segunda metade de 40, de uma atividade literária mais consistente.

A Temporada Literária, ocorrida na década de 30, foi uma tentativa de movimentar a

literatura local41.

        Não encontramos nas obras literárias de Santa Cruz, nem tampouco nos jornais

caseiros da década de 40, os famosos embates entre os Modernistas e os Neomodernistas,

protagonizados por críticos literários como Sérgio Millet, Tristão de Ataíde, Périplo Eugênio

da Silva, entre outros42.

        Relevantes ou irrelevantes, dos muitos acontecimentos sociais, políticos, econômicos e

literários, o fato é que os poetas de Santa Cruz, da década de 40, tais como Cosme Marques,

Abdias Gomes e Luiz Patriota, continuaram cantando temas de exaltação de famílias

tradicionais, o fazer poético e a saudade de seus passados, se utilizando das mesmas técnicas

de outrora.

        Um tema que poderia ter sido bem aproveitado pelos nossos artistas da palavra é um

dos problemas que mais diretamente aflige o homem simples da nossa região, a seca. Raras

foram as vezes em que os poetas locais abordaram esse tema. Marques, ao enfocá-lo,

descreve-o como um problema natural, isto é, não vincula a seca aos interesses dos coronéis

da região que a tomaram como argumento poderoso para aquisição de vultosas verbas

federais, cargos, benefícios em suas propriedades, prestígio e perpetuação no jogo do poder.

        A não abordagem desse tema pelos poetas locais, passa-nos a impressão de que eles

entendiam que a seca não era um problema político. As autoridades, as elites que estavam no

40
   . O leitor pode acrescentar mais informações sobre essas renovações literárias propostas pelos modernistas
desse período em Faraco & Moura Língua e Literatura, São Paulo – SP: Editora Ática. 1998. pp. 499 -500.
41
   . Caso o leitor tenha interesse em aprofundar os conhecimentos sobre esse assunto, deve consultar Tarcísio
Gurgel, op. cit., p. 75.
42
   . Maiores elementos em Clenir Bellezi de Oliveira, op. cit., pp. 480 – 81.

                                                                                                        38
poder, não tinham culpa da miséria do povo, dos flagelos causados pela seca. O problema era

de ordem geográfica e meteorológica. Pelo contrário, as autoridades, as elites que estavam no

poder, eram generosas com os flagelados, na medida em que chegavam com “soluções”

emergenciais.

            Na década de 40, destacou-se o livro Canastra véia, citado anteriormente, do poeta,

professor, agente municipal de estatística, Cosme Ferreira Marques, publicado em 1946, pela

Tipografia Galhardo, de Natal.

            Cosme Ferreira Marques (1908 – 1959) nascera em Bananeiras-PB, mas viera para

Santa Cruz com cinco anos de idade. Adotou Santa Cruz como sua terra querida, e Santa Cruz

o adotou como seu poeta maior, em sua época. Seu Cocó, como era carinhosamente

conhecido, usava o pseudônimo de Jeca Tábua, quando escrevia versos matutos ou de pés-

quebrados. Ele nos dá, como bem disse Luís da Câmara Cascudo, no prefácio do livro

Canastra Véia,


                               ...uma lição de perseverança e de fidelidade letrada. Tudo que o podia
                               desanimar e vencer não o desanimou nem o venceu. Passou epidemia,
                               tempestade, crise, desalento, como um avião atravessa nuvem ou,
                               lembrando um verso de Ferreira Itajubá : - um gume cortando polpas de
                               maçãs maduras.
                               Quando muita gente desanimou e virou homem prático, acabando rico e
                               dispéptico, Jeca Tabua continuou poeta, poeta ,poeta43.

            O livro Canastra Véia está dividido em duas partes, a primeira é constituída de “pés -

quebrados” numa linguagem matuta, toda regional. A segunda, como escreveu o próprio autor

na apresentação, “... posso chamá-la de ‘Vibração d’Alma’. São cantos desferidos ao toque

de um sentimento, quer de afeição, de dedicação e de gratidão, a amigos, filhos e protetores”

[Grifos nosso]44.

            Como o próprio autor afirmou, suas composições poéticas são as mais puras

expressões sentimentais de gratidão e de amizade. Entretanto, pode-se perceber que o poeta,

43
     . Cosme Ferreira Marques, op. cit., p. 6.
44
     . Cosme Ferreira Marques, op. cit., p.12.

                                                                                                 39
sem qualquer intenção de analisá-los criticamente, menciona alguns aspectos da sociedade de

sua época, como por exemplo o coronelismo, fenômeno que se caracterizou pelo clientelismo,

pela troca de favores e pela obediência total e irrestrita ao coronel, presente no poema

“arritirantes”, o qual refere-se à seca, à miséria, à humilhação e à morte, muito presentes em

nossa região. Este poema, em hipótese alguma, deve ser lido com os olhos da crítica social, e

sim, com os da admiração e da gratidão pelo socorro certo do coronel. O problema do

sofrimento do homem comum, para o poeta, não é de ordem político-social, mas natural:


                                                                                Arritirantes...

                                                        Ao Coronel Ezequiel Mergelino de Souza

                                                                         Coroné num sadimire
                                                                           Du istadoqui mi vê,
                                                                     Venho di riba du quimquê,
                                                                                    Du sertúo:

                                                                       Mi arrepare meu patrão,
                                                                         A mizéra mi consome,
                                                                       Dois fio morreu de fome
                                                                                 Nus caminho;

                                                                       Aqui patrão, to sozinho,
                                                                      Morto di fome, cançado...
                                                                      A famia, ali nu quebrado
                                                                                     Mi ispéra,
                                                                        Cum fome, mardita era
                                                                         Qui trás a seca terrive
                                                                      É duro Patrão, é horrive,
                                                                                      Pra mim;

                                                                         Eu nunca mi vi assim,
                                                                           Nu istado qui mi vê,
                                                                         Vendu meus fio morrê
                                                                                    Nus braço,

                                                                 Foi pra mim cumo um pedaço,
                                                                           Tirado do coração,
                                                                           Mi secorra coroné,
                                                                     Uma ismola meu patrão.45




45
     . Cosme Ferreira Marques, op. cit., p. 22.

                                                                                            40
Marques também dá uma demonstração de que é poeta culto, ao escrever, em 1946, o

soneto, Poesia, homenagem póstuma ao também poeta, seu amigo, do início do século, o

culto Clovis J. de Andrade, de quem, infelizmente, nada foi encontrado:


                                                           Rimas, abecedário cheio de harmonia,
                                                          Pensamentos de um cérebro portentoso,
                                                               Sentir em verso, a própria poesia
                                                               De um ser inteligente e ardoroso.

                                                                  Ser Poeta, é caminhar numa via
                                                               De um sonho tão lindo e majestoso,
                                                           É lançar ao mundo, um canto de magia
                                                                    O hino dum rimário glorioso.

                                                                Ser Poeta, é sentir a dor, a alegria
                                                                   É rimar numa suprema agonia,
                                                              Uma vida, um mundo, um Universo;
                                                   Ser Poeta, é amar, gozar, sofrer,
                                                                    Ser Poeta, é em sonhos reviver
                                                             Vida e alma na estrofe de um verso.46

            Foi a década de 40 uma extensão da de 30, com a sua poesia de exaltação e de

desvinculação total com os principais poetas e escritores do país.




                                       CAPÍTULO IV

                                      A GERAÇÃO DE 50




46
     . Ibidem, Idem, p. 32.

                                                                                                41
Os acontecimentos históricos até pareciam se oferecer à literatura como fonte de

inspiração. Foi assim, também, com a década de 50, pois muitos fatos relevantes aconteceram

nesse período: o governo Vargas, o populismo e o nacionalismo econômico, a criação da

Petrobrás, a crise institucional, a perda da Copa, o suicídio e a sucessão de Vargas, a

inauguração da TV, o desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek, são alguns exemplos que

podemos citar47.

        No Estado do Rio Grande do Norte, essas “fontes de inspiração” também se ofereciam

aos nossos poetas locais. Com o fim da Segunda Guerra, a redemocratização trouxe, no

campo político, um sopro de novidade: um mossoroense, Dix-Sept Rosado emergiu ao poder

estadual, com seu companheiro de chapa Sílvio Pedroza. Um acidente aéreo levou o

intelectual Pedroza ao poder, e uma de suas atitudes, contraditórias por demais, foi a de fechar

o jornal oficial A República, grande incentivador da cultura no Estado48.

        Ao nosso ver, não se pode, em hipótese alguma, exigir que a literatura narre os

acontecimentos históricos. Nesse sentido, ela tem uma maior liberdade, podendo construir

idéias, imagens, quadros que se afastem por completo do universo de experiências de uma

época. Portanto, ao tomarmos a literatura enquanto objeto de estudo, não podemos exigir que

ela estabeleça uma relação de total atrelamento com os fatos históricos, ainda que a mesma

possa vir a estabelecer um diálogo com os acontecimentos de sua época, ou mesmo, os tome

como fonte de inspiração.

        A nossa preocupação, desde o início deste estudo, era a de verificar se os poetas locais

emitiam algum sinal de evolução em seu discurso e em suas técnicas, e se essa evolução

literária se dava no mesmo ritmo da verificada no contexto histórico. Assim foi que, a questão

do uso dos acontecimentos históricos enquanto motivo condutor das obras, foi observada


47
   . Mais informações sobre esse assunto ver: Nelson Pillet, História do Brasil, 18ª ed., São Paulo – SP: Editora
Ática, 1996. pp. 264 -65 -66.
48
   . Mais informações ver: Luiz Eduardo Brandão Suassuna, Anotações sobre a história do Rio Grande do Norte,
2ª ed., Natal – RN: Editora Clima, 1998. pp. 33 – 34.

                                                                                                            42
enquanto preocupação secundária. Logicamente que isso não implica dizer que não

destinamos atenção para este aspecto, visto que no universo da produção literária nacional

isso já vinha acontecendo há bastante tempo.

         Sempre à procura de indícios que nos permitissem afirmar que a nossa literatura já

havia se sintonizado com a praticada nos grandes centros, fomos descobrindo que o material,

até então publicado, só tratava do desenvolvimento econômico e social da nossa cidade, tais

como a criação da Escola Normal Regional, do Hospital Maternidade Ana Bezerra, do

Ginásio Comercial, do Trairi Clube, a construção da ponte Centro-Paraíso, a fundação do

SESP. Algumas evoluções políticas, como a emancipação política de Lajes Pintadas, de São

Bento do Trairi e de Tangará, pertencentes ao município de Santa Cruz49.

         A literatura, no eixo Rio-São Paulo, acompanhava o ritmo das mudanças verificadas

nessa década no Brasil. A poesia dessa época foi muito rica em experimentalismos. Os irmãos

Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari propuseram a poesia concreta. Em 1954,

Ferreira Gular lança o livro A luta Corporal, com experiências poéticas que levam em conta o

espaço em branco do papel e as possibilidades de diagramação da palavra em poesia, unindo

significado e significante. Em 1956, houve a Exposição Nacional de Arte Concreta e se

destacaram Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ferreira Gular e outros. É a

década em que o grande poeta Carlos Drummond de Andrade se dedica totalmente à arte

literária50.

         A literatura potiguar procurava sintonizar-se com a praticada nos grandes centros. De

certa forma, essa sintonia já se percebia, na medida em que surgiam estudiosos e críticos

literários, como o jornalista, poeta e crítico literário Antônio Pinto de Medeiros. Ele, em

muitos casos, utilizava-se de sua coluna provocativa “Santo Ofício”, no jornal O Poti, para

49
    Entrevistamos o senhor José Bezerra, historiador e contemporâneo dessa década, e dele ouvimos que os jornais
A centelha e O Pif-Paf “noticiavam com muito entusiasmo os avanços políticos, sociais e econômicos da nossa
cidade.”
50
   . Sobre os experimentalismos na poesia desse período, o leitor encontrará mais elementos em Clenir Bellezi de
Oliveira, op. cit., p. 558.

                                                                                                           43
condenar ao fogo da sua crítica implacável a mediocridade provinciana da produção literária

da época. Medeiros assinava essa coluna com o pseudônimo de Torquemada – terrível

inquisidor espanhol51.

            Não encontramos nenhum inquisidor literário na década de 50, em Santa Cruz. O que

descobrimos foi um grande número de jovens poetas. José Letácio Pereira, José Iválter

Ferreira, Gurgel, Valente, Dante Madri, Odete, Antônio Borges, Adonias Soares, Jorge

Quintiliano, Alexandre Ferreira Neto foram os poetas que mais se destacaram nesse período

em Santa Cruz.

            Esses jovens poetas e escritores, juntamente com os já consagrados veteranos

ajudaram a construir a história de Santa Cruz, sua poesia, sua música, sua arte nos parâmetros

até então utilizados.

            Os jornais A Centelha – de vida efêmera - e O Pif-Paf foram os canais para a

exposição de suas obras.

            O Pif-Paf era dedicado à Santa Rita de Cássia e circulou em maio de 1952 sob a

orientação das redatoras H2O, conforme sua própria indicação. Cleuse, apresentando o

jornalzinho, dizia que o mesmo era dirigido pela poetisa Margarida Meireles Bezerra e outras

auxiliares. Escreveram o jornal Cleuse S. Fiúza, C. S. F. e Carlos Antunes. As notícias

preferidas, além das já citadas anteriormente, eram as atividades da Igreja, as notas “bolindo”

com rapazes e moças de Santa Cruz. A seção literária servia apenas para divulgar os poemas.

Como foi dito antes, ainda não havia inquisidores literários em Santa Cruz. Com certeza, a

ausência de críticos contribuiu para a estagnação da literatura local.

            Ainda nessa década, a produção literária e musical ganhou um reforço: a chegada do

padre Émerson Deodato Fernandes de Negreiros, que se estabelecera nessa cidade de 12 de

julho de 1952 a 31 de janeiro de 1965. “Padre Emerso”, como era conhecido, tocava

acordeom, piano, órgão, lutava boxe, arrancava dente, receitava remédios e compunha
51
     . Mais elementos o leitor encontrará em Tarcísio Gurgel, op. cit., p.77.

                                                                                           44
músicas, como a que fez por ocasião da fundação do Centro Normal Regional de Santa Cruz,

em 1953, hoje Escola Estadual Francisco de Assis Dias Ribeiro:


                                                                                      Viva o Centro Estudantil
                                                                               Tudo aqui é amor, fraternidade
                                                                               Quem não vem ao nosso Centro
                                                                                Ai não sabe gozar a mocidade.

                                                                               O nosso Centro, o nosso Centro
                                                                                 É bom demais, é bom demais
                                                                                     O nosso Centro é alegria
                                                                                    O nosso Centro satisfaz52.

            Émerson sucedeu o monsenhor Alair na direção dessa Escola e foi sucedido pela

professora Terezinha Cury.

            O Monsenhor compôs muitos cantos e hinos que se perderam no tempo, como o que

fez em homenagem à chegada da energia elétrica no dia 2 de abril de 1963, em que Santa

Cruz se tornara a primeira cidade do Estado do Rio Grande Norte a receber, não só a energia,

como também a visita do então Presidente da República, João Goulart, para essa inauguração.

            Há de se registrar, também na década de 50, a participação do poeta boêmio Luís de

Almeida, que não era dado à arte escrita, mas muito chegado às noitadas de serenatas com os

amigos, regadas a cervejas, vinhos, cachaças e violões. Almeida, segundo seu grande amigo

Leôncio Fernandes de Carvalho, era poeta sábio, romântico e saudosista. Pouco do muito que

ele fez ainda insiste em permanecer na memória de seus contemporâneos:


                                                                                                Ó Santa Cruz
                                                                                           Minha terra querida
                                                                                               Tu és minha luz
                                                                                             Tu és minha vida
                                                                                                Ó terra amada
                                                                                             Como eu te adoro
                                                                                           Minha terra querida
                                                                                              Terra idolatrada
                                                                                           Longe de ti choro53.




52
     . Trecho de entrevista realizada com as professoras Terezinha e Neuza em outubro de 2000.
53
     . Trecho de entrevista realizada com as professoras Terezinha e Neuza em outubro de 2000.

                                                                                                           45
Nélson Patriota, irmão de Luís Patriota, também se destacou nessa década. Apesar de

nenhum poema, crônica, conto, composição musical ou outras produções terem sido

encontradas, muitos contemporâneos seus, ainda hoje vivos, afirmam que o escrivão de

polícia da cidade de Santa Cruz era tão brilhante quanto o seu irmão, com uma pequena

diferença:


                              Nelson, além de poeta e compositor, era seresteiro, gostava das farras com
                              seus amigos nas noites de luares, em sua residência. Ele transformava
                              todas as suas alegrias em festas, ou melhor, em lindos poemas, os quais,
                              com o seu inseparável violão, musicava. Era um poço de inteligência e
                              sabia ser interessante. Seus filhos João, Panina e Nilson herdaram os dons
                              artísticos daquele excelente e inesquecível cidadão54.

            Em 1952, Luís Patriota, eleito pela Academia de Trovas, decide ir morar na capital.

Porém, antes de deixar a terra que tanto lhe admirava, dá um presente ao povo de Santa Cruz,

ao escrever a letra do “Hino de Santa Rita de Cássia”. O Tenente José Gomes, então

delegado da cidade, completa o presente ao musicar o hino:


                                                                                       Santa Rita Padroeira
                                                                                        Da Cidade Teu Altar
                                                                                      Lá Do Céu Medianeira
                                                                                    Manda Luz Do Teu Olhar

                                                                                  Ó Santa Rita Doce Bendita
                                                                                És Nossa Vida És Nossa Luz
                                                                               Santa Querida Suave e Mansa
                                                                                És Esperança De Santa Cruz

                                                                      Santa Rita No Manto
                                                                                  Todos Nós Buscamos Paz
                                                                                    Acalenta Nosso Pranto
                                                                                 Consolando Os Nossos Ais

                                                                                      Nessa Terra Fervorosa
                                                                                    Todos Buscam Teu Poder
                                                                                      Vimos Todos Jubilosos
                                                                                       Corações Te oferecer

                                                                                       Santa Rita Nesse Dia
                                                                                  Te Louvamos Com Fervor
                                                                               Quer no Pranto ou na Alegria
                                                                               Tu És Sempre o Nosso Amor55.
54
     . Declaração do senhor Manuel Macedo de Oliveira em entrevista nos concedida em abril de 2001.
55
     . Paróquia de Santa Rita de Cássia, Informativo, Santa Cruz, 16 de setembro de 2000.

                                                                                                       46
A literatura local continuava utilizando-se das técnicas e temas de seus antecessores.

Os hinos continuavam embalando a religiosidade, o saudosismo, a valorização da natureza, as

paixões avassaladoras dos nossos poetas.

            É fácil encontrar algumas características árcades na poesia de 50: a busca de uma vida

simples, bucólica, pastoril, a beleza dos pássaros, das ovelhas, das águas.

            Essas temáticas fluem com leveza nos poemas de Antônio de Pádua Borges; para

muitos, era o poeta da palavra fácil. “Apresente-lhe um tema e ele faz nascer em pouco tempo

uma poesia”, Diz com orgulho a sua filha Betânia Borges, herdeira dos dotes artísticos de seu

pai. Em 1954, numa ocasião em que viu um urubu banqueteando-se, perguntaram-lhe o que

ele diria sobre o urubu, e eis a resposta:


                                                                                      Nada tenho o que dizer
                                                                                      Quanto à vida do urubu
                                                                                Sei que o mesmo é asqueroso
                                                                                    Conhecido de Norte a Sul
                                                                                    Comendo só da desgraça
                                                                                       Satisfeito vive e passa
                                                                                     Talvez melhor do que tu.

                                                                                      E sobre o mesmo urubu
                                                                                     O que é fácil esclarecer
                                                                                         Pois é ave de rapina
                                                                                         Conforme a gente vê
                                                                                     Só come o que é imundo
                                                                                    Mas talvez viva no mundo
                                                                                       Melhor do eu e você56.

            Borginho, como também é conhecido, nascera em Brejinho, em 11 de janeiro de 1924,

desde a década de 40 faz de Santa Cruz sua morada, é poeta popular e autor dos cordéis A

Tragédia das Águas em Santa Cruz – RN e A Rotina do Cangaço e as Garras de Lampião,

ambos publicados através do projeto Chico Traíra, da Fundação José Augusto, na década de

80. Todavia, além de cordelista, sua antologia Sonetos e Poemas Diversos, lançada no dia 6

de outubro de 2001, é um resumo de suas principais poesias. São 148 poemas distribuídos em



56
     . Antônio de Pádua Borges, Sonetos e Poemas Diversos, Natal –RN: Gráfica Santa Maria, 2001, p. 115.

                                                                                                           47
redondilhas, baladas, sonetos, idílios etc. A sua temática, assim como a técnica utilizada,

continuam fiéis às tradições.

            Como não poderia deixar de ser, os principais nomes da literatura santacruzense da

década de 50 continuaram sendo Cosme Ferreira Marques, Luís e Nelson Patriota, Émerson e

Luís de Almeida. Eles, juntamente com os jovens acima citados, ajudaram a construir a

história de Santa Cruz com as suas habilidades literárias. Entretanto, suas obras ainda não

estavam em consonância com o que vinha sendo praticado no eixo Rio-São Paulo, ou seja,

não se apresentavam atualizadas do ponto de vista das técnicas e das temáticas das lutas

sociais.




                                                   CAPÍTULO V

                                       OS NOVOS ROMÂNTICOS DE 60



            A década de 60 assistiu à mudança da capital do Brasil, do Rio de Janeiro para

Brasília; viu a renúncia de Jânio e a chegada João Goulart ao poder. 60 foi marcado pelo

golpe militar em 64 e suas conseqüências, como o AI-5, que suspendeu as garantias

constitucionais e individuais. Essa década foi o início de um longo período em que os

militares impuseram as suas vontades ao povo brasileiro57.

57
     . Mais elementos ver: Nelson Piletti, op. cit. 167.

                                                                                          48
Com a renúncia de Jânio, algumas inquietações são refletidas também no Rio Grande

do Norte; o udenista e conservador Dinarte Mariz deixou o governo e o jovem deputado

federal, jornalista e escritor Aluízio Alves chegou ao poder depois de uma campanha eleitoral

que mobilizou uma massa nunca vista em território potiguar58.

        Em Santa Cruz, há comemorações pela chegada da energia elétrica de Paulo Afonso à

cidade, pelos 50 anos de emancipação política59, pelos 115 km de asfalto de Natal a Santa

Cruz, pela chegada da agência do Banco do Nordeste, do CRUTAC, da Escola Cenecista

Gentil Ferreira de Souza, da Escola Estadual Cosme Ferreira Marques, pela elevação do

monumento ao Coronel Ezequiel Mergelino e pela chegada do Banco do Brasil. A cidade de

Santa Cruz perdeu, entretanto, seu último distrito – Campo Redondo, que se emancipara - e as

homenagens feitas às antigas lideranças políticas, como a feita ao coronel Ezequiel

Mergelino, e muitas outras após o golpe de 64, eram indicadores de que o povo de Santa

Cruz, (leia-se: sua intelectualidade e artistas) não continuavam dados às indisposições com os

poderosos locais.

        No plano nacional, a poesia concreta dá lugar a poesia-práxis, que valoriza a palavra

dentro do contexto extralingüístico, é a “palavra-energia”, uma ligação forte com a realidade

social. Nunca, na história do Brasil, os estudantes foram tão politizados e atuantes. Essa

comunidade estudantil foi, sem dúvida alguma, o combustível que impulsionou os

questionamentos acerca do regime autoritário então estabelecido60.

        Nessa década, no Rio Grande do Norte, o grande acontecimento literário foi o I

Festival do Escritor Norte-riograndense, em que, sem prejuízo das atrações existentes tais

como cantadores de viola, cantores, apresentações de grupos folclóricos e exposições, o ponto

alto foi o surgimento de jovens poetas61.
58
   . Mais elementos ver: Luiz Eduardo Brandão Suassuna, op. cit. 43.
59
   . No dia 11 de dezembro de 1876 é elevada à categoria de Vila a povoação de Santa Rita da Cachoeira, que
recebeu a denominação de “Vila do Trairi”. Marcus César Cavalcanti Morais, op. cit., p.132.
60
   . Mais informações ver: Antônio Cândido, op. cit., p. 457.
61
   . Mais elementos em: Deífilo Gurgel, Espaço e tempo do folclore potiguar, Parnamirim – RN: Grafpar –
Gráfica e Editora, Julho de 1999.

                                                                                                      49
A literatura de Santa Cruz continuou não acompanhando as inovações no campo

estético e temático. Preferiu andar de braços dados com as elites locais e viver os avanços

estruturais da cidade, viver a belle époque de sua cidade. Não encontramos em nossas buscas

obras inspiradas nas constantes agitações políticas que tomavam conta do país. No nosso

entendimento, os poetas locais, mais uma, vez optaram por viver sua eterna lua-de-mel com a

sua cidade, com a sua gente hospitaleira, seus açudes, sua padroeira, seu algodoal, suas

vaquejadas, seu “futuro promissor”. Enfim, as obras dessa década não fogem, como veremos

a seguir, dos padrões lírico-ufânicos caracterizadores de seu passado.

        Nas constantes pesquisas que fizemos, descobrimos um jornal que circulou nessa

época, A Voz do Trairi, órgão oficial da União Santacruzense de Estudantes. Esse jornal

circulou durante a década de 60. Fundado por José Abderraman Pinheiro Bezerra, o jornal foi

dirigido por Geraldo Emanuel Furtado e o seu redator-chefe era Onildo Cruz. Ajudaram a

escrever o jornal as seguintes pessoas: Miguel Cosme de Sousa, Jorge Quintiliano da Silva,

Yolanda Eulina de Sousa, J. Galisa, Dante Madri, Antônio de Pádua Borges, Gonçalves

Oliveira, Geraldo Emanuel Furtado, Adelgimar Rocha (Barbosa), Lêdy Azevedo Maia,

Socorro Furtado, José Nazareno Bezerra, Terezinha de Maria Bastos, Lenilson Antunes de

Lima, German Furt. Tivemos a preocupação de verificar a linha editorial desse jornal e

comprovamos a ausência de comentários políticos ou literários sobre as alterações e

inovações que, constantemente, se davam nos centros mais avançados62.

        Entretanto, entendemos os motivos pelos quais os poetas santacruzenses não faziam

comentários mais, digamos assim, fora dos padrões estabelecidos.

        Como nos dias atuais, para se publicar qualquer obra, jornalística ou literária, as

dificuldades financeiras estavam muito presentes. Contribuíram financeiramente para que os

abnegados da palavra escrita registrassem a história de sua cidade, de sua poesia, de seu


62
 . José Bezerra, em entrevista nos concedida em março de 2001, em Santa Cruz, nos mostrou o talvez único
exemplar existente do jornal A Voz do Trairi.

                                                                                                    50
cinema, de sua obra, as seguintes pessoas: Miguel Farias, José Aristeu, Antônio Nunes,

Miguel Andrade, Augusto Fernandes, Pedro Nunes, José de Balelê e Josias Azevedo63.

        O discurso de valorização de nossa cidade ainda não estava fora de moda e no dia 30

de novembro de 1964, a professora e poetisa Maria Celestina da Silveira, Dona Maroquinha,

publica, no jornal A Voz do Trairi, a poesia Hino a Santa Cruz a qual homenageia os 50 anos

de emancipação política de sua cidade64:


                                                                              Santa Cruz teu nome encerra
                                                                               Um passado de lutas e vigor
                                                                             Um presente que a todos atesta
                                                                               Um futuro feliz e promissor.

                                                                              Na beleza do campo ondulante
                                                                                   A riqueza do teu algodoal
                                                                               A fartura do feijão verdejante
                                                                                 A bonança do milho e sisal.

                                                                              A pecuária também empresta
                                                                            Uma fonte de renda, um penhor
                                                                            Que aliada ao minério da terra
                                                                         É expressão de esperança, é labor.

                                                                            Teus açudes tão belos e piscosos
                                                                                 Ornamentam este solo viril
                                                                            É turismo que ofertam garbosos
                                                                              Sob um céu com esta cor anil.

                                                                                Neste dia do teu aniversário,
                                                                            Tributamos louvores, honras mil
                                                                             Santa Cruz teu nome é lendário
                                                                             Santa Cruz teu nome é Brasil65.

        Este hino foi musicado pelos poetas-compositores Fabiano de Cristo Guimarães

Wanderley e Franklin de Souza, dois funcionários do Banco do Brasil que por aqui passaram.

Essa dupla, incentivada pelo povo de Santa Cruz, juntou-se mais tarde a um outro

companheiro, Neco, e fundaram o Trio Cigano, com muitos sucessos gravados. Aliás,


63
   . Informações obtidas através do jornal A Voz do Trairi, em entrevista realizada com o senhor José Bezerra em
março de 2001.
64
   . O dia 30 de novembro de 1914 foi elevada à categoria de cidade a Vila Trairi, com o nome de Santa Cruz,
através da Lei 372. A emancipação política de Santa Cruz, na verdade, deu-se no dia 11 de dezembro de 1876, e
não no dia 30 de novembro, como vem sendo comemorado.
65
   . Em entrevista realizada com a professora Maria Celestina da Silveira em novembro de 2000, ela nos mostrou
uma apostila avulsa de 1972 com este hino. Aliás, este hino também foi publicado no jornal A Voz do Trairi.

                                                                                                           51
enquanto estiveram em Santa Cruz, Fabiano e Franklin escreveram muitos poemas, mais tarde

musicados como Terra Querida, de forte apelo nacionalista (no caso a nação santacruzense).

Esses poetas eram dados a poesias românticas, de exaltação, que fazem lembrar o

Romantismo brasileiro com seus arroubos ufânicos, seus exotismos e farturas, suas cores

nacionais, sua natureza exuberante, seu povo hospitaleiro, enfim, tudo que seja gracioso e

original, bem à Gonçalves Dias66. O hino Terra Querida, de autoria de Fabiano e Franklin, foi

composto em 1966, mas ainda hoje é cantado nesta cidade:


                                                                            Ó gente, que terra boa tem aqui
                                                                                 Tanta fartura, tanta beleza
                                                                                                 Meu Trairi.
                                                                                    Santa Cruz hospitaleira
                                                                                       Cidade luz soberana
                                                                                       Santa Rita padroeira
                                                                                        Todo povo se ufana
                                                                                Santa Cruz das vaquejadas
                                                                                   Das noites de seresteiros
                                                                               Santa Cruz com seus açudes
                                                                                E os passeios domingueiros
                                                                                    O banho bom do Alívio
                                                                               E da piscina do Umbuzeiro67

        As características da literatura local na década de 60, não são muito diferentes das

características da literatura das décadas anteriores, como o bucolismo, e a supervalorização

das emoções pessoais.

        Constatamos que houve, nessa geração, um constante transitar de formas e de

temáticas que remontam os fazeres poéticos Trovadorescos, Clássicos, Neoclássicos e

Românticos.

        A literatura de Santa Cruz, na década de 60, portanto, manteve as tradições formais e

temáticas de seus antecessores, não contrariou as características das obras de outrora, apesar

de seus artistas disporem das inovações técnicas da forma poética e de vasto material

temático. O respeito e o medo impuseram-se diante de tudo e de todos.

66
   . Poeta da 1ª geração do Romantismo brasileiro. O saudosismo e a valorização da pátria eram temáticas
preferidas por esse poeta. Mais elementos sobre Gonçalves Dias ver: Antônio Cândido, op. cit., p.367.
67
   . Encontramos esse hino em uma apostila avulsa de 1970 pertencente à professora Maria Celestina da Silveira.

                                                                                                          52
CAPÍTULO VI

                                 A LITERATURA DA DÉCADA DO MEDO



            Na década de 70, a ditadura militar intensificou a repressão política, a censura e,

conseqüentemente, a violência. A propaganda ideológica do regime estava, cada vez mais,

presente na vida dos brasileiros68.

            No Rio Grande do Norte a censura, a repressão e a perseguição política não eram mais

suaves do que no resto do país. O governador Cortez Pereira usou sua retórica

desenvolvimentista para vender a imagem do Estado com suas riquezas econômicas e

naturais. A UFRN incentivou a realização de Semanas Culturais e com isso propiciou o

68
     . Mais informações ver: Florival Cáceres, op. cit., p. 342.

                                                                                            53
surgimento de talentosos artistas plásticos, escultores, poetas e cronistas detentores de

linguagens e de temáticas próprias69.

         Foram inaugurados em Santa Cruz o Ginásio Estadual (hoje a Escola Estadual Prof.

Francisco de Assis Dias Ribeiro), a Escola Normal (hoje a Escola Estadual José Bezerra

Cavalcanti – antigo Pedagógico), a Escola Estadual Isabel Oscarlina Marques, a Escola

Estadual João Ferreira de Souza, a Escola Municipal Antônio Alexandre Pontes, a Biblioteca

Municipal, a Caixa Econômica Federal, o Bradesco, o SAAE, o Conjunto Residencial Aluísio

Bezerra, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Santa Cruz continuou a passos largos nos

caminhos do desenvolvimento70.

         Na literatura nacional, o poema social – uma poesia de expressão política, de

linguagem simples e escolha de temas relacionados com a realidade do país – apesar da

repressão, começava a se fazer presente com mais freqüência.

         Nacionalmente, a poesia das décadas de 1960 e 1970 reuniu várias influências do que

ficou conhecido como contracultura71: a poesia de protesto, de denúncia social, de

esmagamento do indivíduo na sociedade industrial, na era da conquista espacial; o

psicodelismo. Além disso, apresentou a retomada de certos valores da Geração de 22, como o

prosaico, a simultaneidade de idéias e de imagens, bem como influências do Concretismo. Por

tudo isso, foi descrita como “sincrética”, ou seja, que reúne várias tendências diferentes.

         No plano estadual, o conto, gênero narrativo não muito utilizado pelos nossos artistas

da palavra escrita em terras potiguares, começou a ser praticado. Nomes como os de Eulício


69
   . Podemos encontrar mais elementos em Tarcísio Gurgel, op. cit., p.84.
70
   . Mais informações ver: Hermano Amorim, op. cit., p. 67.
71
   . Contracultura é a palavra que a imprensa norte-americana usou para designar as novas manifestações culturais
surgidas no mundo. Essas manifestações se opunham à cultura vigente e às instituições sociais. De caráter
marginal e independente, a contracultura não tem codificação nos meios acadêmicos; e é considerada, até os dias
de hoje, a última grande utopia de reforma radical da sociedade no Ocidente. A contracultura defende a busca do
prazer e da liberdade, condena a guerra, a sociedade de consumo, o capitalismo selvagem, os padrões familiares
squares, as convenções sociais, como a virgindade, o casamento etc. É uma época de “desbunde”, em que as
palavras de ordem são peace and love (‘paz e amor), flower power (“poder da flor”), paradise now (“paraíso
agora”), turno n, turn in and drop out (“ligue-se, sintonize-se e caia fora!”)... O movimento hippie foi a principal
expressão da contracultura. Clenir Belezzi de Oliveira, op. cit., p. 573.

                                                                                                               54
Farias de Lacerda, Socorro Trindade, Francisco Sobreira e Tarcísio Gurgel são

representativos quando se trata desse novo gênero literário.

        Socorro Trindade, sem medo de ousar na forma, corajosamente externou a sua

indignação com o atual momento político por que passava a nação brasileira e provocou a

censura ao lançar o livro Eu não tenho palavras em que só tinha na capa o título e o nome da

autora. O restante da folhas, como o próprio título sugere, não tinha palavras, as páginas

estavam dadaisticamente72 em branco.

        Se antes da repressão os artistas de Santa Cruz não optaram por temas polêmicos ou

não fizeram uso das mais variadas inovações formais já há muito praticada, inclusive pelos

nossos conterrâneos potiguares, no auge das perseguições, do medo, da morte, muito menos

ainda. A literatura local não deu trabalho àqueles encarregados de fiscalizar e manter a ordem

estabelecida. Nossas obras mantiveram, portanto, em seus versos, os traços medievais,

clássicos, neoclássicos ou românticos subjetivos de sua lírica.

        Os anos 70 seguem seus antecessores românticos lendo e cantando os poemas, cantos

e hinos que melhor traduziam suas tradicionais posturas líricas.

        Os artistas da palavra escrita e falada, responsáveis pela expressão desses sentimentos,

são Maria Celestina da Silveira (Dona Maroquinha), Joca Lindo, Luís Francisco Xavier,

Fabiano e Franklin, Rosemilton Silva, Teresa Lúcia de Carvalho Silva, Antônio Borges,

Adonias Soares, Letácio, José Iválter, José Antônio de Melo, Geraldo Moura e tantos outros.

        Como os poetas não queriam se indispor com o regime ditatorial no qual vivia o país,

restava-lhes escrever sobre temas que não questionassem aquela política imposta. As

vaquejadas, os amores, as saudades de tempos pretéritos foram poeticamente descritos, como

fez a poetisa Teresa Lúcia, neste poema que trata de suas recordações, escrito em 24 de

janeiro de 1972:
72
  . O Dadaísmo é o mais radical dos movimentos de vanguarda da literatura européia. O movimento dadá
propõe a destruição dos valores burgueses e usa o non-sense como forma de crítica feroz à sociedade. Mais
informações sobre o dadaísmo de Socorro Trindade ver: Tarcísio Gurgel, op. cit., pp. 128 -29

                                                                                                    55
Santa Cruz da Saudade


               Te vejo tão diferente
             Já não és mais aquela
             Viveste épocas áureas
        Coisas que não voltam mais
           Vestiste trajes modernos
         Esqueceste teus ancestrais

            Cidade de recordações
      Dos homens de letra e cultura
     Do saudoso Seu Nô do cartório
     Que sempre nos fins de semana
                 Reunia em seu lar
              Amigos para cantar.

             Nestas horas de lazer
             Ao som do seu violão
Cosme Marques que é o mesmo Cocó
           Entoava belas canções
                   Solava o violão
           Com esmero e emoção.

       O professor Cosme Marques
           Com sua voz harmoniosa
               Executava a canção:
    “Cai a tarde tristonha e serena”
          Na vibração do seu violão
          Com carinho e satisfação.

            Seu Sinésio também era
          Homem de grande talento
         As melodias daquele tempo
           Cantava com sonoridade
          Que com o passar do anos
           Somente ficou a saudade.

      Vinham os Ferreiras de Sousa
            Dr. Odorico e Lourival
             Partilhar com alegria
          Daquele modesto festival
             Cantavam e recitavam
      Para todos que os escutavam.

         Santa Cruz dos trovadores
         Que nas noites enluaradas
           Dedilhavam seus violões
           Em dupla a acompanhar
               As melodias sonoras
        Que se dispunham a cantar.

                    Cosme Marques
                     E Luís Patriota

                                56
Seu Nô e Seu Sinésio
                                                                              Seu Barroca e outros mais
                                                                                Sempre juntos cantavam
                                                                             Lembrando seus ancestrais.

                                                                               Santa Cruz daquele tempo
                                                                                  Da pálida luz do vapor
                                                                                  Das saudosas cantorias
                                                                                 Que seu povo dava valor
                                                                               Te relembro com saudade
                                                                                Santa Cruz do meu amor.

                                                                              Santa Cruz das vaquejadas
                                                                                     Do tempo do Major
                                                                              Que trazia para esta terra
                                                                             Sua orquestra e muito forró
                                                                                  E na derrubada do boi
                                                                                    Aristide era o maior.

                                                                                Santa Cruz de Santa Rita
                                                                                    Padroeira da cidade
                                                                                  Abençoa todo teu povo
                                                                                    Pedimos por piedade
                                                                                 Não deixes que a tirania
                                                                                  Tome conta da cidade73

        Muitos cordelistas (não violeiros) desta cidade contaram a saga de famílias

importantes, como a família Bezerra, que teve como seu principal expoente o Major

Theodorico Bezerra. O livro, O Imperador do Sertão, escrito pelo seu sobrinho, o médico e

político Lauro Bezerra, conta os muitos feitos do seu representante maior.

        Em 1978 é lançado em Natal o livro Retalhos do meu sertão do agente de estatística e

professor José Euzébio Fernandes Bezerra, nascido na fazenda Boa Vista, município de Santa

Cruz – RN, em 19 de outubro de 1910.

        O livro divide-se em duas partes. Na primeira, No mundo do vaqueiro, o escritor fala

de Apartação, Vaquejada, Aboio do vaqueiro, Poeta dos vaqueiros - Fabião das Queimadas –

e seus versos, Habilidades dos criadores e vaqueiros, O Curador de Rasto, Vestuário dos

vaqueiros e arreios, O cavalo e o burro-mulo, etc.; na segunda, Biografias e linhagens, são



73
 . Em entrevista realizada em dezembro de 2000, a professora Tereza Lúcia de Carvalho, gentilmente, nos
colocou a disposição todo o seu acervo literário contendo suas poesias, em apostilas avulsas, como esta que
apresentamos. O único livro na cidade, Canastra Véia, de Seu Cocó, é de sua propriedade.

                                                                                                      57
ressaltadas as biografias e linhagens dos principais fazendeiros, vaqueiros das micro-regiões

Trairi-Potengi.

        Apesar de o autor classificar, erroneamente, essas micro-regiões como sendo sertão,

sua obra é uma considerável fonte de pesquisas folclóricas da região. É literatura a serviço da

informação, gênero didático.

        De 1825 a 1979, a literatura de Santa Cruz esteve a serviço das homenagens, de suas

saudades, interessando-se apenas pelos sentimentos e emoções pessoais, frutos de uma visão

egocêntrica e de um universo limitado ao “eu”. Na verdade, o “eu-lírico” evade-se de seu

tempo e de seu espaço para encontrar nas glórias do passado e no imaginário uma espécie de

compensação das falhas encontradas no seu mundo real.




6.1. UM POETA ULTRA-ROMÂNTICO



        Os anos 70 testemunharam ainda poetas, como Márcio Marques, filho de Cosme

Marques, que nada devia a seu pai, quando se tratava de poesias, músicas e crônicas. Dele,

diz-se que, quando exagerava na bebida, pegava o seu violão e dirigia-se ao cemitério local,

onde, na cova de seu inesquecível pai, dedicava-lhe suas mais belas canções, versos e

crônicas. Segundo sua irmã, Maria do Rosário, Lalo, “o show juntava algumas dezenas de

curiosos e só terminava quando, tarde da noite, o coveiro nos comunicava o fato. Com muita

luta, nós o rebocávamos para casa74”.

        José Márcio Marques, que nascera no dia 2 de janeiro de 1950, era um poeta ao estilo

de Álvares de Azevedo. Sua angústia, seu pessimismo em função da realidade de injustiças

sociais, bem como o vazio que sentia de um amor verdadeiro aproximam esse poeta dos ultra-


74
 . Entrevista realizada com a senhora Maria do Rosário, uma das filhas do poeta Cosme Ferreira Marques, em
Santa Cruz no mês de outubro de 2000.

                                                                                                     58
românticos da segunda geração do Romantismo. Lord Byron, Alfred Musset e Álvares de

Azevedo exerceram, sem dúvida nenhuma, influência não só no eu-lírico deste jovem poeta,

como também em suas atitudes. Marques cantou o silêncio, a noite, a indiferença, a

melancolia, a morte. A evasão, a egótica, o spleen, o erótico caracterizam sua obra. Aliás,

Marques, assim como Álvares de Azevedo morreu muito jovem. Ele, como muitos poetas

ultra-românticos, evadiram-se, não só nas suas obras, como também no seu tempo e espaço

reais. Suicidara-se o poeta, no dia 23 de agosto de 1980, fazendo da morte a saída para as

crises de depressão de que muito constantemente era acometido. Os poetas ultra-românticos

vêem nessa atitude radical o único momento de paz. É de Márcio Marques:


                                                                                             Silêncio, espera

                                                                        Noite tristonha dos beirais do rio.
                                                                         Rio meu pranto-descanto. Alheia
                                                                            Alma penada mística se enleia
                                                                    Noutros fantasmas comungando o frio.

                                                                           Mágoa teórica, trêmula vagueia
                                                                         Teia sensível em que me contrario.
                                                                              Pio gemido temeroso e esguio
                                                                          Do meu desgosto, fina-se na areia

                                                                       Palavras que se vão nas reticências
                                                                      Marcadas, ressentidas das ausências.
                                                                       Desesperanças que maltratam mais;

                                                                  Incertezas da espera, a estrela apagada
                                                                      Só silêncio, só eu à procura de nada
                                                                 Na estrada infinita da noite em que vais75.

                                                                                                 Encontro
                                                                                       Foi seu olhar sereno
                                                                                   Que abriu o meu espírito
                                                                                             E o meu corpo
                                                                                       Para outros anseios;
                                                                                     Foi seu primeiro beijo,
                                                                                             O mais ameno,
                                                                      Que fez luzir na noite dos meus olhos
                                                                                                A primeira,
                                                                                                  A maior,
                                                                                       A grande esperança.
                                                                                                  Querida,
75
 . Apostila avulsa de 25 de agosto de 1980, cedida gentilmente por Maria do Rosário, em entrevista realizada no
ano de 2000, em Santa Cruz.

                                                                                                          59
Minha doce querida,
                                                                          Ao enlevo do seu abraço de fada
                                                                                          Eu quero sentir
                                                                            Todas as sensações desejadas
                                                                              E reprimidas no meu medo.
                                                                                Ah! Mas você for somente
                                                                                      Um momento breve,
                                                                                        Um sonho fugidio,
                                                                               Perdure em minha emoção
                                                                                                  Criança
                                                                                     Tempo e vida e amor
                                                                                                 Sentidos
                                                                                            Antes do nada
                                                                                  Antes do desencontro76.

                                                                                                    Pégaso

                                                                                   Pégaso do meu ocaso
                                                                                                 Leva-me
                                                                            Por entre as estrelas da noite
                                                                                              Do infinito,
                                                                                   Onde o amor não seja
                                                                                            Uma mentira,
                                                                          Onde os sorrisos sejam abertos
                                                                                               E sinceros,
                                                                               Onde as mãos se apertem
                                                                                                Sem nojo,
                                                                                  Onde a caridade existe
                                                                                            Sem egoísmo;
                                                                        Lá onde os homens são realmente
                                                                                                Humanos
                                                                                Leva-me ao cair da tarde
                                                                           No aconchego das tuas asas77.

        Muitos outros artistas literários com suas emoções, que só a arte das palavras sabe

traduzir, perderam-se no tempo, foram sepultados no túmulo do esquecimento. Só nos resta

dizer que eles existiram, e, mesmo que nesta pesquisa não constem, escreveram o seu

passado, viveram o seu presente, inspiraram o seu futuro e tornaram-se, como os aqui citados,

em UM PRESENTE DO PASSADO.




76
 . Idem.
77
 . Última poesia de Márcio Marques para o jornal Diário de Natal, dia 25. 08.80. Muitas foram as homenagens
de seus colegas de trabalho – Cosern . Maria Célia Ferreira Rocha, Manoel Alves, amigos jornalistas de toda a
cidade de Natal, pois Márcio desempenhava suas atividades profissionais nesta cidade, dedicaram poesias e
crônicas em página exclusiva deste informativo. A cópia da página do jornal Diário de Natal foi-nos cedida
gentilmente por Maria do Rosário, irmão do poeta e residente em Santa Cruz.

                                                                                                        60
II PARTE



UM PRESENTE PARA O FUTURO

       “A arte é um fazer. A arte é um conjunto de atos pelos quais se muda a
     forma, se transforma a matéria oferecida pela natureza e pela cultura.”
                                                                (Alfredo Bosi)



                                                                          61
CAPÍTULO VII

          DÉCADA DE 80: ATUALIZANDO A ESTÉTICA LITERÁRIA LOCAL



       A revogação do AI5 pelo presidente Ernesto Geisel em 1978, a abertura política do

presidente João Figueiredo, a campanha pela anistia, os novos partidos políticos, as eleições

de 1982, as diretas anunciavam o fim da ditadura militar imposta ao país desde 1964 e o início

da Nova República com Tancredo Neves sendo eleito indiretamente. Seu vice Sarney toma

posse, em função da trágica morte de Tancredo Neves, e, em 1988, entrega ao país a nova

Constituição.

       No Rio Grande do Norte, as eleições de 1982 conduzem o ex-prefeito de Natal, José

Agripino Maia ao Palácio Potengi. É o povo potiguar legitimando mais um Maia no poder.

Por vários anos, aliás, até hoje em dia, as oligarquias Maia e Alves se revezam no poder em

terras potiguares.

       Em Santa Cruz, o arrombamento do Açude Santa Cruz, no dia 1º de abril de 1981, a

construção, três meses depois, do Conjunto Cônego Monte (motivado pela tragédia

                                                                                          62
ocasionada pelo arrombamento do açude, uma vez que suas águas destruíram boa parte da

cidade) e a inauguração do Núcleo de Ensino Superior do Trairi – Nest – no dia 14 de

fevereiro do mesmo ano são os três acontecimentos Históricos de maior importância nessa

década na terra de Santa Rita de Cássia.

       A poesia, no plano nacional, segue com nomes surgidos nas quatro últimas décadas,

muitos dos quais, como João Cabral de Melo Neto, os irmãos Campos, Décio Pignatari e

Ferreira Gullar, ainda em plena e fértil atividade literária. Paulo Leminski, Arnaldo Antunes,

Frederico Barbosa, Cazuza, Renato Russo revolucionam, inovam cada vez mais as técnicas de

seu fazer poético.

       No Rio Grande do Norte, a contista Socorro Trindade, com o total apoio da UFRN, dá

início ao bem sucedido Laboratório de Criatividade. Esse projeto consistia em reunir

semanalmente os poetas potiguares, pelo menos aqueles que residiam na capital, para discutir

a literatura local, suas formas, suas temáticas e, principalmente, incentivar o surgimento de

novos nomes. O jornal Dito e Feito, semanário encarregado de divulgar as produções

literárias, a antologia Grande Ponto, o surgimento de poetas e escritores de formas e de

temáticas variadas são exemplos de algumas conseqüências desse laboratório.

       Em Santa Cruz, o ambiente universitário toma conta da cidade; os estudantes

universitários começam a questionar os políticos locais, estaduais e nacionais; os artistas da

palavra sentem cada vez mais a necessidade de expressar sua visão de mundo e seus

sentimentos, usando as técnicas literárias já tão utilizadas no eixo Rio-São Paulo.

       A poetisa Rita Luna faz uso da poesia concreta, da poesia-práxis, do poema-objeto, em

que se utilizam múltiplos recursos: o acústico, o visual, a carga semântica, o espaço

tipográfico e a disposição geométrica dos vocábulos na página, para construir sua poesia

social, de temática centrada na denúncia dos problemas, das desigualdades sociais do país.




                                                                                             63
O poema Inverso é o retrato em verso da desesperança e do definhamento do brasileiro

marginalizado pelo descaso dos dirigentes da nação e fotografado pela poesia marginal 78 de

Rita Luna:




                                       De olhos vendados, o pobre empobrece!
                                        Procura trabalho, encontra exploração
                                         Procura a terra, encontra a violência
                                         Procura justiça, encontra impunidade
                                          Procura político encontra corrupto
                                           Procura educação, encontra descaso
                                           Procura libertação, encontra drogas
                                            Procura ajuda, encontra desprezo
                                             Procura teto, encontra o mocamo
                                              Procura amor, encontra AIDS
                                               Procura saúde, encontra caos
                                                Procura valores morais
                                                Encontra a degradação
                                                 Procura     pela     paz,
                                                  Encontra a         dor
                                                   Procura a vida
                                                    Encontra a morte
                                                     Pra sua sorte
                                                      O que valeu
                                                       Sem amar?
                                                           Nada
                                                            Na
                                                            Da
                                                            Ar
                                                            A.79


        Ainda a respeito da poesia anterior, poderíamos interpretar a imagem criada de

diversas formas, tais como um cálice (o sangue de Jesus Cristo e o do homem sofrido
78
   . É considerada literatura marginal aquela que está fora do circuito editorial. São publicadas em folhas
mimeografadas, em jornais, em revistas, em portas de banheiros etc. Grande parte da poesia local é marginal.
Mais elementos sobre poesia marginal ver: Clenir Bellezi de Oliveira, op. cit., p.583.
79
   . Encontramos este poema em uma apostila avulsa de 1987, cedida gentilmente pela professora Rita Luna, em
entrevista realizada no dia 30 de maio de 2001 em Santa Cruz.


                                                                                                       64
encontram-se no mesmo cálice), redemoinho (a cidadania do homem é tratada pelas elites de

maneira abruta), pirâmide ao inverso (as muitas desesperanças levam ao nada) ou ainda um

apontar com dedo para o chão (as elites dominantes mostrando o chão como o lugar do

pobre). São apenas sugestões de interpretações. Crie a sua poesia para esse poema.

        Muitos outros poetas e prosadores começam, nesta década, a desfilar os seus talentos

em panfletos ou jornais universitários. A nova linguagem literária santacruzense entra

definitivamente em sintonia com os grandes centros do país.



        A década de 80 assiste ao lançamento de alguns desses jornaizinhos. A Voz

Universitária, Alerta e O Badalo80 foram três dos mais importantes jornais estudantis

responsáveis por divulgar as notícias mais relevantes não só do meio estudantil como também

da cidade e do país, fazendo reflexões e questionamentos de temas diversos.

        Nomes como os de Hugo Tavares Dutra, Otacílio Barreto, José da Luz Costa, Heraldo

Lins, Rita Luna dentre muitos outros começam a ser conhecidos não só pelas suas idéias, mas,

sobretudo, pela forma como elas foram expressas.

        O primeiro livro lançado nesta década foi o do Monsenhor Severino Bezerra, Memória

Histórica de Santa Cruz . Assim como A carta, de Pero Vaz de Caminha, o livro do

Monsenhor não tem valor literário (ou para os estudiosos mais transigentes, enquadra-se na

literatura a serviço da informação, gênero didático), entretanto, pelo seu caráter histórico -

informativo, faz-se necessário que neste trabalho conste.

        Foi a partir da década de 80, mais precisamente em 1984, que a literatura de Santa

Cruz começou a atualizar suas formas e suas temáticas. Foi o Campus de Santa Cruz, o

NEST, o agente acendedor da lamparina que clareou os caminhos da nossa literatura.



80
 . Os jornais A Voz Universitária (85–86), Alerta (87) e O badalo (88-89) foram cedidos gentilmente pelo poeta
Hugo Tavares Dutra. É possível localizar exemplares desses jornais com alguns estudantes do NEST do período
85 a 88. Esses jornais eram vozes dos estudantes universitários de Santa Cruz.

                                                                                                         65
Os calorosos debates nas aulas de EPB81 (Estudos de Problemas Brasileiros) sobre

reforma agrária, eleições presidenciais, estaduais, municipais e até do DCE (Diretório Central

dos Estudantes) ou DA (Diretório Acadêmico); as intermináveis discussões sobre a

interiorização dos Campi (uma verdadeira queda de braços travada pelos alunos do NEST e

alguns órgãos da UFRN); a tentativa maquiavélica de alguns professores de fechar o NEST e

as demais extensões já existentes (o que conseguiriam em 1994); o descaso dos políticos

locais com o NEST (não se levantou uma única voz em defesa dessa entidade); passeatas; atos

públicos; audiências; panfletos contribuíram de maneira significativa para a mudança do

discurso literário local.

        As aulas de Teoria da Literatura, Literatura Luso-Brasileira, os constantes trabalhos

escolares, as discussões literárias travadas em sala de aula, praça pública ou mesas de bares

por aqueles alunos mais dados ao fazer poético, como Zé Daluz, Otacílio Barreto, Ribeiro,

entre outros, capitaneados por professores como Cecília Falcão, Elizabeth e outros ajudaram a

despertar nos poetas locais a necessidade de se aproximar, ou melhor, de atualizar as suas

técnicas literárias com as já praticadas no eixo Rio-São Paulo.

        Não seria exagero afirmar que foi esse ambiente universitário criado em Santa Cruz, a

partir do surgimento do NEST, que alguns profissionais, professores de OSPB82, da Rede

Estadual de Ensino, por exemplo, mudaram de prática e de discursos ao estudarem e

utilizarem alguns teóricos como, Frei Beto, Leonardo Boff, Padre Pedrinho Guareshi,

Marilena Chauí, Paulo Freire em suas salas de aula.

        Entendemos, também, que a criação em 1986 da APRN (Associação de Professores do

Rio Grande do Norte, de Santa Cruz, mais tarde SINTE) e do Partido dos Trabalhadores, o PT

de Santa Cruz (entidades que se caracterizariam por suas intensas lutas em prol dos
81
   . EPB, Estudos de Problemas Brasileiros. Disciplina do currículo do Ensino Superior, uma das peças do
aparelho ideológico da escola. Como estávamos na abertura política, essa Disciplina tornara-se ponto de
encontro de efervescentes discussões político-ideológicas, principalmente com os professores que comungavam
com a ditadura.
82
    Organização Social e Política do Brasil. Disciplina do hoje Ensino Fundamental. Mais uma peça do aparelho
ideológico da escola.

                                                                                                        66
trabalhadores) são reflexos dessa agitada vida social verificada nesta cidade a partir da

segunda metade da década de 80.

       Foi, portanto, o NEST que despertou nos poetas e cronistas locais a consciência de que

a literatura local não estava acompanhando os avanços ocorridos no eixo Rio-São Paulo em

suas técnicas e temáticas.

       A poesia e a crônica santacruzense não deixaram, entretanto, de enaltecer a cidade. A

atualização da nossa literatura implicaria, também, em cantar os temas preferidos pelos seus

antecessores, como a cidade, por exemplo.

       Os poetas e cronistas mostrados nos próximos subitens são exemplos da diversidade

de gêneros, de formas e de temas da nossa literatura a partir dessa década. É a modernidade

literária chegando a Santa Cruz.



7.1. RIBEIRO: UM CRONISTA DE TRANSIÇÃO



       Francisco de Assis Dias Ribeiro, Professor Ribeiro, como era conhecido, nascera em

22 de julho de 1940, na cidade de Santa Cruz. Fora aprovado em primeiro lugar no vestibular

de 1981, primeira turma do curso de Letras de sua cidade. Não o concluíra, pois falecera no

dia 14 de agosto de 1984. Era o referencial da palavra escrita ou falada, literária ou não, na

década de 70, não só em Santa Cruz, como em toda a Região do Trairi. Publicou uma

monografia sobre os 66 anos da elevação de Santa Cruz à categoria de cidade em 1980. O

professor não era dado aos questionamentos sociais em sua arte.

       A crônica abaixo está longe de ser considerada um exemplo de texto de engajamento

social. Todavia, podemos observar que já não há mais o exagero do elogio aos aspectos

físicos e naturais da cidade, como demonstramos ter observado nos vários hinos dos poetas

locais das gerações anteriores. No próprio texto percebemos as suas muitas inquietações,


                                                                                          67
reveladas pelo uso repetido de indagações. O texto sugere a angústia do autor em constatar a

rapidez com que o tempo (ou o capitalismo em nome do progresso?) dissolve as colunas das

tradições que davam sustentação às suas fantasias. O texto, de modo sutil, insinua que alguém

é culpado pela destruição das tradições. E, mesmo fazendo a defesa da memória da cidade,

mesmo sentindo saudade do seu passado, o autor ergueu a sua voz contra algo que lhe

incomoda.




                                            CADÊ A HISTÓRIA?


                             Cadê o coreto que estava em frente à igrejinha, que olhava para o
                     Cruzeiro, que sustentava a Cruz do Inharé, que guardava as armas da rixa
                     das famílias que deram origem à Santa Cruz do Inharé, que perdeu o nome
                     para Trairi, e que por seu turno acabou também perdendo o Trairi?
                     Cadê aquela caixa dos Correios instalada na parede da sede da Prefeitura
                             Municipal, que cedeu lugar para a Câmara Municipal, situada
                     vizinha à Cooperativa,       que olhava para a Praça onde estava o “Bar do
                     Ponto”que abrigava de Dnaniro Moura a Doutor Ferreirinha, no Café do
                     Galego?
                             Cadê aquelas trepadeiras que davam sombra aos estudantes que
                     olhavam para os “fixus”plenos de “lacerdinhas”?
                     Cadê a quadra de areia onde se jogava vôlei e a outra de cimento onde
                             Monsenhor Émerson Negreiros – irmão de Sanderson - promovia
                     lutas de boxe com os meninos do Pré-Seminário?
                             Cadê a casa dos Ferreira de Souza que foi demolida pelo Banco do
                     Brasil para dar lugar a uma Agência que fica em frente à casa dos Balelê,
                     única peça que restou do conjunto arquitetônico da Praça Ezequiel
                     Mergelino?
                             Cadê as Usinas de descaroçamento de algodão que forneciam
                     matéria-prima para a fabricação do “Óleo Benedito”, que foram
                 “engolidas”         pelo bicudo que expulsou o homem da terra?
                             Quem hoje sabe a origem do nome da Rua Cosme Ferreira Marques?
                             Cadê a Casa Grande que ficava ao lado do riacho das Caibreiras,
                     que fora        cuidada por quase cem anos e destruída com algumas gotas
                     de óleo queimado de carro, que abrigava os versos e sofria ao som da poesia
                     do escoteiro Cosme Marques, que pouca gente sabe da existência do seu
                     livro?
                             Cadê Márcio Marques, poeta da frente da casa de dona Noca, onde a
                     gente esperava as meninas da Escola Normal que encantavam com o coral de
                     Marlene, Odaíres – entre outras?
                             Cadê a História, a Vida, a cidade de Santa Cruz, quase desaparecida
                     pelo arrombamento do açude novo?
                             Cadê a Festa do Natal e Ano Novo com os pastoris? Cadê o AZUL
                     brigando com o ENCARNADO tendo a Diana como a mediadora?

                                                                                            68
Cadê a Festa de Santa Rita de Cássia com o Parque São Luiz? Com
                        as barracas?
                                Cadê o resplendor da Santa que desapareceu misteriosamente como
                        em “Pedra      sobre pedra”? Onde foram desmanchar os gramas de ouro e
                        as pérolas que ornavam a cabeça de Santa Rita de Cássia?
                                Cadê “seu”Meireles gritando com suas jumentas como se fossem
                        gente?
                                Cadê o São João dos Cury?
                                Cadê o Santo Antônio da Escola Normal?
                                Cadê o banho na piscina natural do Umbuzeiro?
                                Cadê o leilão de Santa Rita de Cássia com os gritos de Mane da
                        Viúva?
                                Cadê Santa Cruz do Inharé?
                                Cadê a Tradição?
                                Cadê a História?83

        Para falar de um professor filósofo, poeta, escritor, enfim, para falar de um artista da

palavra, nada melhor do que os seus contemporâneos e amigos de ofício.

        O poema Homenagem ao inesquecível prof. Ribeiro, do poeta Adonias Soares,

caracteriza-se pelo misticismo religioso, com fortes doses de lirismo que, em determinados

momentos, relembra o poeta romântico Fagundes Varela no seu Cântico do calvário:


                                                                          Francisco de Assis RIBEIRO
                                                                             Um gênio em inteligência
                                                                                 Sua alta competência
                                                                          Lhe fez um grande guerreiro
                                                                                   Educador altaneiro
                                                                                 Cheio de amabilidade
                                                                               Porém na flor da idade
                                                                                 A morte lhe atraiçoou
                                                                                Sua existência roubou
                                                                                 Sem dó e sem piedade


                                                                                Porque a tirana morte
                                                                             Com a sua mão homicida
                                                                        Roubou-lhe a ROSA da VIDA
                                                                         E fugiu num velho transporte
                                                                          Deixando um grande pacote
                                                                           De lágrimas, tristeza e dor
                                                                                 Porém o Consolador
                                                                              Que cuida dos abatidos
                                                                       Que por Deus foram escolhidos
                                                                                Na hora certa chegou

                                                                                 Só temos uma certeza
                                                                                Neste mundo de ilusão
83
 . Aldenôra Dias Ribeiro, Compiladora, Ribeiro, um professor,Natal – RN: Nordeste Editora Gráfica, 1999,
Antologia, pp. 23 – 24.

                                                                                                   69
Um enlutado caixão
                                                                                Cheio de flor e tristeza
                                                                                  Desaparece a beleza
                                                                                 Da pessoa que morreu
                                                                                  Até no semblante seu
                                                                           Um ADEUS por DESPEDIDA
                                                                              Porque no curso da VIDA
                                                                                   Tudo desapareceu84.

        O professor Nailson Costa também fez uma homenagem àquele que foi um dos

maiores professores de Língua Portuguesa de Santa Cruz. E para falar de um exímio

gramático, como era o professor Ribeiro, Nailson utiliza-se daqueles mesmos instrumentos

gramaticais que tão bem Ribeiro soube usar durante toda a sua vida e que o deixaram

conhecido e famoso no nosso meio. A crônica a seguir, publicada na antologia Ribeiro, um

professor, da compiladora e irmã Aldenora Dias Ribeiro, é mais um exemplo da atualização

formal de nossa literatura. É a prosa cada vez mais presente.

                                                  A RIBEIRO DE PORTUGUÊS

                                  RIBEIRO era uma dessas raras inteligências que ainda existem por
                         aí. Ele era uma espécie de Gramática Ambulante, um Manual de Consulta,
                         uma Enciclopédia. Não, na         verdade ele era muito mais do que isso; isso é
                         muito pouco para adjetivá-lo. Substantivá-lo seria melhor, pois Ribeiro
não                      era apenas a qualidade do ser; Ribeiro era o próprio ser.          Aliás, até o
                         próprio dicionário o tem como adjetivo e substantivo. Acho que ele era mais
                         do       que isso; ele era o verbo (lembra quando Deus fez do verbo a
carne?),                          a               conjunção etc.
                                  Lembro-me, como se fosse hoje, de que Santa Cruz, ou melhor, a
                         nossa região, tirava     as dúvidas com ele, e ele, sem reticências,
                         pleonasmos, viciosos ou elegantes, era um objeto           direto.
                                  Mas ele era muito mais do que esse termo integrante. Em seus
                         discursos, fosse onde fosse: festas, colações, palanques, igreja, não fazia
                         uso de ambigüidades, prolixidades,         cacofonias ou quaisquer outras
                         maldades lingüísticas, muito pelo contrário, ele era conciso, muito claro,
                         correto e elegante; ele era Ribeiro.
                                  Professor, poeta, comunicador, católico, vascaíno, apesar de ser tão
                         bem composto, era um sujeito simples; Ribeiro era um termo essencial.
                                  Ele sabia ser uma poesia, uma crônica, um romance ... Em qualquer
                         redação: oficial,        escolar ou literária, ele era o tópico frasal, a idéia
                         central, a sinopse do enredo, o tempo, o           espaço, o personagem
                         principal; ele era a PALAVRA: a palavra de apoio, a palavra de ação;
        afinal,                   ele era a palavra intelectual, e ponto final.



84
 . Adonias Soares Pereira é poeta popular. Nascera em 1911em Jucurutu. Mora em Santa Cruz desde 1938.
Participou de todas as movimentações literárias de sua época. Essa e outras poesias podemos ver em: Aldenôra
Dias Ribeiro, op. cit., pp.45 -46.

                                                                                                       70
A seguir focalizaremos poetas e obras que mais claramente corroboraram/corroboram

com os argumentos aqui defendidos. São poetas e obras que fizeram, de grande parte de suas

obras, verdadeiros instrumentos de luta, de denúncia das mazelas sofridas pelo povo de Santa

Cruz, do Estado e da Nação e que utilizaram as mais variadas técnicas para assim se

expressar.

       A ênfase, agora dada a esses poetas e obras, evidencia uma forma de expressão que se

distingue da utilizada pelos poetas da Primeira Fase. Verificamos que os produtores da arte da

palavra escrita de Santa Cruz, que constituem esta Segunda Fase, vão ter preocupações que os

colocam em sintonia com as produções elaboradas em nível nacional. Portanto, não se trata,

em hipótese nenhuma de uma comparação que vise destituir a produção literária

santacruzense, antecedente à desenvolvida neste período, de importância, mas, antes de tecer

considerações, a partir da análise das obras, acerca da interferência promovida pelo Núcleo de

Ensino Superior do Trairi-NEST. Portanto, com a inserção de uma parcela da população no

ensino de nível superior, podemos observar consideráveis transformações, ocorrendo uma

canalização das atenções para outras questões, tais como os problemas sociais, as mazelas

estruturais de nossa sociedade, com ênfase para as questões de ordem local, dentre outras.

Dessa forma, vamos observar o reflexo destas alterações nos conteúdos veiculados nas obras

da geração de poetas deste período, conforme procuramos demonstrar a seguir.



7.2. INSTANTÂNEOS POÉTICOS DE ZEDALUZ E OTACÍLIO



       José da Luz da Costa é goiano de nascimento (Buriti Alegre) e nordestino pela

formação, é santacruzense desde criança. Formado em Letras e Pedagogia, hoje é professor-

mestre em Língua Portuguesa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.




                                                                                          71
Poeta de palavra fácil, com evidente domínio de todas as questões relativas à métrica,

à rima ou simplesmente ao ritmo dos versos que compõe, torna-se por um momento uma

espécie de unanimidade em Santa Cruz. Este reconhecimento inclui sua atuação como

professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Zedaluz sabia ser clássico na

modernidade de seus versos e claro no rebuscamento de seus poemas. Poeta de temáticas

variadas lançou sua primeira obra, Instantâneos Poéticos,( antologia datilografada) em 1987,

em parceria com o também poeta Otacílio Barreto. O poeta foi redator e prosador dos jornais

universitários dessa época. Participou com três poesias da antologia Templos, Tempos

Diversos, publicada em 1995. O poema Rio da vida é um bom exemplo de suas reflexões

sobre o fluir inexorável do tempo:


                                                                           Há um rio corrente em cada vida.
                                                                                Vida corrida no vasto vazio
                                                                                                  Do tempo.
                                                                                Tempo de muitas enchentes
                                                                                               e pouca vida.

                                                                                   Rio do mundo, rio da vida
                                                                                  desemboca na boca infinita
                                                                                                    do tempo,
                                                                              tragando a vida finita da gente.

                                                                                                  Rio infinito
                                                                                          de idade indefinida
                                                                                    corre na frente da gente.
                                                                                   Se a gente avança o nado
                                                                                                     da vida,
                                                                                            acaba na corrida
                                                                                                   do tempo.
                                                                           descobre a idade do rio que morre
                                                                                           dentro da gente85.

            O poeta Zedaluz, ao descrever a paisagem típica de sua região, sua fauna, sua flora,

faz uso de recursos de estilo como a prosopopéia para retratar a ação desgastante destes

elementos com o sol, companheiro inseparável destes. O poeta pede ao sol que recolha sua

liberdade em tempos de seca. A forma que o poeta encontrou para expressar um eterno


85
     . ADONIAS, et. alli. Templos Tempos Diversos, Natal – RN: Editora Clima, 1999, p. 143.

                                                                                                          72
problema da região, a seca, foi uma clássica forma do poema, o soneto decassílabo, com

rima e ritmo bem definidos.


                                                                            Sertão! És xique-xiques, cumarus,
                                                                        Facheiros, pedras, cactos, umbuzeiros,
                                                                          Mofumbos, gravatás, mandacarus...
                                                                           Os tísicos fantasmas dos terreiros!

                                                                             Sol! Sol! Corais,lagartos, cururus,
                                                                            Raposas, guaxinins, gatos-do-mato,
                                                                              Carcarás, e morcegos, e urubus...
                                                                             Os sutis mensageiros do ultimato!

                                                                            Sertão! Nas travessias do escarcéu:
                                                                                  Luto do verde, insônia do sol,
                                                                              Morte das águas sob insonte céu.

                                                                               Sol! Sol! Recolhe tua liberdade!
                                                                               Longe do eco da seca, foge sol!
                                                                           Os ventos soprarão tua saudade!...86

            O poeta e cronista Zedaluz é dado também a uma intertextualidade, a uma paráfrase,

uma das características da literatura moderna. A crônica E gora, José ? escrita no dia 19 de

março 1993, em função da seca que se vislumbra, estabelece um diálogo com o poema José,

de Carlos Drummond de Andrade, com José Agripino Maia, então governador do Estado,

com São José (o sertanejo acredita que, se não chover até o dia 19 de março, dia de São José,

o ano será de seca) e com o próprio autor, que se chama José.

            A narrativa em terceira pessoa é o produto do mergulho do escritor na alma do povo

sofrido da região, associando esse sofrimento ao contexto sócio-político e religioso em que

vive. Essa crônica é carregada com as técnicas modernas, no estilo Graciliano Ramos, com

suas frases curtas, coordenadas, para não ser complicado, para ser objetivo e claro. A

variedade de técnicas e de temáticas encontradas em Zedaluz é indício de que algo de novo e

de atual já começava a freqüentar os textos dos poetas locais.

                                                                E AGORA, JOSÉ?

                                      Nada de novo debaixo dos céus.
                                      Janeiro passou, e as chuvas não vieram.
86
     . Jose da Luz da Costa & Otacílio Barreto, Instantâneos Poéticos, Santa Cruz – RN: Datilografado, 1987. p. 33.

                                                                                                              73
O açude do Inharé tornou-se uma pequena lagoa de água lodosa,
     salgadíssima, cercada de ilhotas desertas.
              Os peixes se debatem na superfície da água: morte lenta, certa, sem
     isca. Dia após dia, o horizonte amanhece profundamente azul e ardente, com
     nuvens terrivelmente brancas, magras, ligeiras. O vento morno sopra durante
     todo o dia, levantando aqui e ali torres de poeira. O lixo dos canteiros sobe
     em caracol desenhando piruetas no ar. A criançada, desavisada do perigo,
     grita e se diverte com o espetáculo gratuito.
              O sol abrasador engole as nuvens como se fossem de algodão doce.
     Os       telhados das casas latejam. Na alvorada do amanhecer, olhos
     angustiados buscam a barra anunciadora de chuvas. A barra está para cata-
     ventos.
              A cidade de Santa Cruz vive a contagem regressiva para enfrentar a
     hora do pesadelo, acordada. Já existem rumores de uma nova tragédia nas
     esquinas, nas praças, nas estradas.
     As tardes estão poeticamente lindas e assustadoras. Aquarela de verão.
     Capricho da natureza.
              As noites infinitamente românticas, mil estrelas a brilhar sobre
praças        sem     pirilampos e namorados. A lua, testemunha clara e silenciosa
de sonos agitados. A          insônia, o medo e a esperança deitam na mesma
     cama. Na madrugada, uivos distantes de animais espreitando a desgraça.
     A população se agita. Começam as primeiras manifestações. A televisão
lança         em manchetes as imagens do drama coletivo. Hospitais e escolas
funcionam precariamente. As construções paralisam. Cresce o lamento dos
homens da cal e do cimento. Homens que só sabem vender o suor.
              A cada dia uma nova casa com placa de venda. O êxodo urbano.
              A Prefeitura Municipal tem novo endereço. Mas, infelizmente, a
     cidade não pode mudar de lugar.
     Hoje é o dia de São José. Tradicionalmente é data limite para início do
     inverno no sertão nordestino.
              E agora, José?
     Mais uma vez escutará a prece do povo? Mais uma vez conseguirás
convencer o           Grande Pai a abrir as comportas celestes? Não te esqueças,
José, das velinhas            bentas das velhinhas rezadeiras, em noites de vigília e
ofícios       na matriz de Santa Rita de Cássia.
              E agora, José?
              Água já! Esta é a campanha do povo no interior do Estado. A fome já
     existe. Fome de macambira. A sede Pode chegar mais cedo. E fome e sede são
     armas perigosíssimas.
     Mais uma vez, José, escute o clamor do povo e abra as portas do Palácio.
     Este povo        que pede água agora, pode fazer chover votos de vez em
     quando.
              E agora, José?
              Você vai partir? Certamente. Se o José do céu e o José da terra não
     entrarem em ação, resta a você, José do povo, pegar o comboio derradeiro.
              Fome e sede são caminhos difíceis. Nestas horas minguantes, oração
     é esperança, discurso é filosofia.
              No sertão, a política começa pela água.
              E agora, José?
              A comida Acabou.
              A água acabou,
              O fogo apagou,
              Não tem mais dinheiro,
              Não tem mais saúde,
              Mas resta você.

                                                                                74
- E agora, José?
                                     - Rensascer é preciso!87

           Outro poeta de técnicas e temáticas variadas é Otacílio Barreto, natural de Tangará. É

da segunda turma do curso de Letras do NEST, 83-87. Poeta irônico, satírico e politizado,

ajudou a escrever todos os jornais dos estudantes universitários de Santa Cruz. Num período

em que se vislumbra a democracia, seus versos boêmios traduzem seus anseios (ou do seu

“eu-poético?”), suas angústias; suas perspectivas são refletidas em constantes evasões espaço-

temporais. Nos Instantâneos Poéticos encontram-se muitos de seus momentos. É de Otacílio a

poesia Falso veneno:


                                                                                  Tomei um trago de veneno
                                                                                              Senti-me feliz
                                                                                     Outro trago e o mundo
                                                                                              Ficou em paz
                                                                                      Mais um, dois, três...

                                                                                     Minha cabeça explodiu
                                                                                         Fiquei sem cabeça
                                                                                   O mundo era maravilhoso

                                                                              Depois de péssimos momentos
                                                                                               Sem cabeça
                                                                                                Ressuscitei
                                                                               E o mundo estava PODRE88.

           Encontramos vasto material publicado em jornais universitários e panfletos da década

de 80. A presença de crônicas com temáticas românticas, sociais, políticas, filosóficas,

metalingüísticas e satíricas confirmam os nossos argumentos de que houve uma atualização

da literatura local. Não encontramos na geração anterior nenhum texto literário escrito em

prosa.

           Heraldo Lins, cronista, poeta e músico é um nome bastante atuante na prosa literária

de Santa Cruz nessa década de 80. A crônica metalingüística e carregada de humor que se

segue é uma reflexão sobre o ato de escrever e faz parte das preocupações desse artista, que

lembra o cronista Luiz Fernando Veríssimo:
87
     . Jornal O POTI, CIDADES, Natal – RN, domingo, 04 de abril de 1993, Coluna de Vicente Serejo.
88
     . José da Luz da Costa & Otacílio Barreto, op. cit., p. 26.

                                                                                                        75
A ESCRITA FALA DA FALA

             No princípio era o som. Depois surgiu o registro. Desde então as
duas         formas, fala e escrita, passaram a se odiar, planejando, sempre que
possível,    o assassinato uma da outra.
             A Fala defendia em palanques que ela já era o bastante, e esse
     negócio de      registrá-la não passava de uma invenção de mentes
     debilóides. Dizia:

                _ Quem tem alto grau de inteligência consegue aprender e nunca
mais            esquecer, por isso, deixemos a Escrita de lado. Ela atrofia a nossa
memória.

           A Escrita ressaltava sua importância sem desmerecer a outra. Seu
     argumento era:

                _ Precisamos registrar tudo, para servir de conhecimento às gerações
     futuras.

             Depois de muita peleja, a Fala conseguiu derrotar a Escrita e reinar
    sozinha no campo da comunicação. A partir daí, todos os registros escritos
    desapareceram como por encanto, restando ao homem apenas a voz para se
    fazer entender.
             Logo os carteiros começaram a sentir na pele os efeitos da mudança.
    As placas das ruas nada indicavam nem nas correspondências constavam os
    endereços. Na semana seguinte os funcionários dos correios foram demitidos.
    As cartas deixaram de ser escritas, passando a prevalecer, com mais
    intensidade, o sistema de telefonia.
             A euforia contagiou a população. Instigados pela Fala, assembléias
    foram realizadas para discutir assuntos verbais. Como o ofício circular foi
    extinto,         mensageiros com toca-fitas a tiracolo passaram a ser os
    divulgadores das ordens superiores. Imitadores foram presos, para evitar
    falsificações estilo Tom Cavalcante.
             Nos banheiros públicos a cada momento chegavam pessoas
    perguntando em qual deles deveriam entrar. Certa vez, um dos informantes
    passou mal e teve que se ausentar um pouco, exatamente quando uma
senhora      deparou-se com um       marmanjo no banheiro das mulheres. Assédio
sexual?      É ou não é? Foram parar nos tribunais. Registrou-se a queixa em fita
cassete,     mas como os códigos penais estavam em branco, ficou o disse pelo
não disse e o brechado pelo não visto.
             Jornalistas passaram a se chamar vocalistas, mas os cantores
    protestaram      na hora. Jamais iriam aceitar tamanho desrespeito. Houve
    discussão, gritos, sussurros, palavrões, palavrinhas, vários tipos de
    elucubrações verbais foram pronunciados, e por sorte a Fala escutou. Partiu
    para defender o seu reinado, ameaçando cortar a voz de todos se não
    parassem com aquela cachorrada. Água fria na fervura. Não estava mais ali
    quem havia protestado.
             Os apaixonados pela grafia, aqueles que até no banheiro liam, viram-
    se       perdidos. Argumentavam que esses momentos de lazer tinham sido
    deles roubado, pois não conseguiam fazer aquilo sem a leitura da playboy. A
    crise psicológica foi tão grave a ponto de baixarem ao hospital. O médico de
    plantão receitou diazepan, mas entenderam Amazan, e lá foram eles,
    desorientados, para Campina Grande atrás do poeta popular.
             A classe estudantil vibrava com a realidade. Agora, teria mais tempo
    para se alienar à televisão. As fofoqueiras viram seu público crescer, e

                                                                                76
haja boato.    Quando a Fala notou que estava sendo mal utilizada, pediu
                         perdão à sua inimiga, e tudo voltou ao normal. A Escrita, aproveitando o
                         espaço, agradece aos leitores pelos três minutos de atenção89.




7.3. OS GRILOS DO NEST NA POESIA DE HUGO TAVARES

        Hugo Tavares Dutra, natural de Brejo do Cruz-PB, viera para Santa Cruz cursar

Pedagogia. Em muito pouco tempo tornou-se uma ameaça em potencial para os políticos que

destoavam dos interesses dos trabalhadores e da classe estudantil. Aliás, por denunciar a falta

de empenho dos políticos na defesa do NEST e outras irregularidades, a Câmara Municipal

sugeriu o título de persona non grata para Hugo. Ficou apenas na sugestão.

        O Núcleo de Ensino Superior do Trairi, extensão do Campus Universitário de Santa

Cruz, mesmo ainda engatinhando, ou, como diziam os alunos, “em fase embrionária”, sempre

conviveu com as ameaças de encerramento de suas atividades. Era uma espécie de filho

rejeitado, principalmente por alguns professores recém aprovados em concurso para nele

atuar. O NEST, como era chamado, na verdade, não só incomodava os professores que

queriam atuar na capital, mas, sobretudo, os políticos locais reacionários que viam nesta

instituição uma ameaça concreta aos seus sonhos de perpetuação no poder.

        Os grilos do NEST a década da luta dos sindicatos, dos grêmios estudantis, do

Diretório Acadêmico do NEST, da fundação do Partido dos Trabalhadores, da realização de

Semanas Universitárias, enfim, é da metade da década de 80 em diante que Santa Cruz

começa a questionar suas autoridades, seus governos, seus políticos, seu rumo.

        O então aluno de Pedagogia, Hugo Tavares, lança em 1987 seu cordel “Olhai os

grilos dos Campi”. Com 119 sextilhas, datilografadas e impressas com a ajuda dos amigos do

Diretório Central dos Estudantes, Natal - RN. O poema, como o próprio título sugere, é um
89
 . Jornal Voz Universitária. Ano I, Nº 02, Santa Cruz, outubro de 1986, p. 3. É possível encontrar um exemplar
desse jornal com ex-alunos do NEST, da década de 80.

                                                                                                         77
desabafo do poeta, o qual, com a coragem que lhe é peculiar, dizia alto e em bom tom que o

Campus de Santa Cruz era mais uma manobra político-eleitoreira do então reitor Diógenes da

Cunha Lima, intenções essas totalmente diferentes daquelas para a qual o ensino superior é

destinado.

            Desde sua implantação, o Campus de Santa Cruz fora condenado ao fechamento de

suas portas. Segundo Hugo Tavares, a verdadeira intenção do então reitor não era interiorizar

o ensino superior para socializar o saber, mas construir uma base sólida para as suas breves

intenções de chegar ao governo do estado. É bastante consistente o argumento do poeta, pois

o que realmente se verificou durante os catorze anos em que esteve funcionando, o NEST

sempre viveu, como diziam os alunos, na UTI.

            O cordel é mais uma voz que se levanta contra aos abusos daqueles que se acham dono

do poder; é, sem dúvida, dedicado “aos que incondicionalmente lutam pela democracia”. Leia

a quarta e a última estrofes do poema:

                                                                                    Não é do Primeiro Grau
                                                                                     que eu venho lhe dizer
                                                                                  também não é do Segundo
                                                                                      não precisa se benzer
                                                                                          é da Universidade
                                                                                         antes dela falecer.

                                                                                                         (...)

                                                                                    Eu não sei se falei bem
                                                                                 Se fui fraco ou se fui forte
                                                                                  Se alguém foi arranhado
                                                                                     Meu desabafo suporte
                                                                                    VI A UNIVERSIDADE
                                                                           DO RIO GRANDE DO NORTE90.

            A década de 80 é encerrada com uma grande festa: a volta das eleições presidenciais e

a expectativa de o Brasil ter, pela primeira vez na sua história, um presidente vindo do meio

popular.




90
     . Hugo Tavares Dutra, Olhai os grilos dos Campi, Natal – RN: DCE, 1987.

                                                                                                         78
A nossa literatura começa a repercutir as técnicas e temáticas já praticadas nos centros

mais avançados.




                                          CAPÍTULO VIII

                                     ANOS 90: PERSPECTIVAS



          Hoje, nos planos nacional, estadual e municipal, a arte, e particularmente a literatura,

está coagulada em vários pontos de unidade, resultando numa imprecisão estética que, por ser

imprecisa, é ampla – possui liberdade de forma e conteúdo que termina por não apresentar

uma tendência predominante. Uma variante se sobrepõe a outras num frenesi de revezamento

e de simultaneidade.

          Em Santa Cruz a modernidade literária é chegada; surgem a todo instante poetas e

cronistas ansiosos em ver suas obras publicadas.

          Marco Antônio Bezerra Cavalcanti191, nascido em Santa Cruz em 17 de janeiro de

1973, formado em Letras e Jornalismo, é uma significativa renovação no fazer literário de sua

cidade.

          Além de poeta, Cavalcanti é incentivador cultural, cronista de palavra fácil, poeta

capaz de reunir em suas obras todas as tendências (ou todos os ismos, como se costuma dizer).

Em alguns de seus poemas não é difícil perceber um certo pessimismo, uma certa angústia,

em face dos muitos problemas sociais, das incertezas vividas pela humanidade, dos conflitos,

das guerras, enfim, é perceptível um tom de ironia que o poeta dá a alguns de seus poemas,


91
  . O poeta, escritor e jornalista, Marcos Cavalcanti é um dos responsáveis pelo lançamento das duas antologias
lançadas em Santa Cruz, Templos Tempos Diversos e Trairi em Versos, em 95 e 97, respectivamente. É também
um dos fundadores do Jornal Memorial Santacruzense. Marcos é um grande incentivador da nossa cultura na
década de 90.

                                                                                                          79
como se verifica no poema Necrófila viagem, em que o eu-poético vive, mesmo na morte,

intensamente seus corrosivos sonhos de amor.

            E é essa presença da morte, numa contradição compreensível, que mais lhe atiça a

vontade de viver. Cavalcanti, no modo de agir, está longe daqueles poetas que foram

influenciados por Lord Byron, os quais têm a morte como solução para os seus problemas;

distancia-se da vontade de morrer de um Álvares de Azevedo e muito menos foge de seu

tempo e de seu espaço reais; suas poesias, reunidas no seu primeiro livro, Viagens ao além

túmulo, são, na verdade, um convite para se viver eternamente cada minuto da vida, como é

verificável no poema Necrófila viagem:


                                                                                         Quero sentir a beleza
                                                                                      Sob sete palmos de terra,
                                                                                           Resumida a cabelos
                                                                                              Dourados e lisos,
                                                                                       Na face pálida, extática,
                                                                                       Com seu eterno e tétrico
                                                                                                       Sorriso.

                                                                                   Quero percorrer teu corpo
                                                                                        Milímetro a milímetro
                                                                                       Nas tuas curvas ósseas,
                                                                                E me alojar na caixa craniana
                                                                               Para brincar de globo da morte

                                                                                                 De quimeras.
                                                                                             Quero finalmente
                                                                                          Te sorver ao cúmulo
                                                                                      E abandonar te túmulo92.



8.1. TRISTES COINCIDÊNCIAS



            O NEST em 1992 propiciou não apenas a sintonia de nossa literatura como também a

criação de uma escola de ensino médio por um grupo de professores do Estado (fomos

partícipe desta luta) com a finalidade de preparar os alunos deste ensino para preencher as


92
     . Marcos Cavalcanti, Viagens ao além-túmulo, Natal – RN: Natal Gráfica,1999, p. 3.

                                                                                                            80
vagas que a cada ano se multiplicavam no Nest e se tornava o principal argumento dos

articuladores do fechamento do NEST.



        Em 1994 O Instituto Educacional de Santa Cruz – IESC 93 - cumpre com a finalidade

para a qual fora criado. É a primeira vez que Santa Cruz assiste a um grande número de

alunos, filhos da terra, aprovados no vestibular de 1994.

        O fato lamentável é que os santacruzenses aprovados se inscreveram em Natal para

preencher as vagas daquele campus e não as vagas do NEST, pois a batalha entre os alunos do

NEST e os articuladores do seu fechamento, que desde a inauguração era travada, teve seu

desfecho no final de 1993, com a vitória da desinteriorização dos Campi de Santa Cruz,

Macau e Nova Cruz.

        Atribui-se a perda da batalha aos “convincentes” argumentos de alguns professores

que ministravam suas aulas nessas unidades de ensino.

        Pura ironia: os professores que proporcionaram um discurso politizador nessas

unidades de ensino superior são os mesmos que amadureceram os discursos de fechamento do

NEST e das outras unidades do interior.

        As contradições entre o discurso e a prática não é, entretanto, uma exclusividade

nossa. Podemos encontrá-las também no principal movimento de renovação da literatura

brasileira, a Semana de Arte Moderna.

        A Semana deve ser vista não só como um movimento artístico, mas também como um

movimento social e político, de ataque à aristocracia e a burguesia, como verificamos no livro

de memórias de Di Cavalcanti: “(...) Eu sugeri a Paulo Prado a nossa Semana, que seria uma

semana de escândalos literários e artísticos, de meter os estribos na barriga da burguesiazinha

paulistana”94.
93
   . Se o NEST desencadeou um ambiente universitário questionador dos problemas sociais, é o IESC o
responsável por desenvolver nos estudantes do ensino médio um ambiente de estudos nunca antes verificado. As
bibliotecas estão sempre cheias e o número de escolas similares cresce a cada ano.
94
   . José de Nicola, op. cit., p. 275.

                                                                                                       81
Pois bem, foram essas aristocracia e burguesiazinha que tornaram possível a realização

da Semana. Esse movimento só foi possível graças à arrecadação de fundos promovida pelo

jornalista René Thiollier, que conseguiu 847 mil réis junto aos fazendeiros e exportadores de

café.

           O NEST realmente propiciou a sintonização de nossa arte literária com a dos grandes

centros. A realidade imita a arte. São as tristes coincidências de nossa literatura.



8.2. A POESIA DAS ADUTORAS



           Hugo foi uma das vozes mais vibrantes na luta pela permanência do NEST em Santa

Cruz. Muitos poemas, crônicas, artigos, etc., foram publicados nos jornais universitários dos

cursos de Pedagogia, Letras e Ciências Contábeis, inclusive, alguns deles dirigidos pelo então

diretor do Diretório Acadêmico, Hugo Tavares.

           Apesar de a luta não ter sido vitoriosa, pois o Campus de Santa Cruz se encontra de

portas fechadas, o poeta ajudou a plantar as sementes da resistência, as quais se estenderam

para os campos das exigências mais prementes, como é o caso da luta pela água, pelas

adutoras, pois, com a grande seca de 1993, a situação em todo estado se complicara muito,

principalmente em Santa Cruz, que ficara totalmente sem abastecimento.

           O poeta, escritor, músico e radialista, Hugo Tavares cerra fileiras com os movimentos

sociais de reivindicação pela água, dentre eles o Movimento Água para Todos, com raízes em

várias cidades, onde a sociedade civil se organizou e fortaleceu a luta pelas adutoras.

           Hugo lança mais um trabalho, um cordel, A LUTA PELAS ADUTORAS e “descreve

em linguagem simples, do gosto do povo, toda a caminhada em prol das adutoras, assumida

pela Arquidiocese de Natal-RN, tendo à frente o incansável Monsenhor Expedito Sobral de

Medeiros95”, como bem escreveu no prefácio o Monsenhor Raimundo Gomes Barbosa.
95
     Monsenhor Raimundo no prefácio da obra: Hugo Tavares, A luta pelas adutoras, Natal – RN: F.J.A. 1995.

                                                                                                         82
Este cordel lançado no dia 14 de abril de 1995 apresenta 120 sextilhas datilografadas

e impressas pela Fundação José Augusto, Natal-RN. Leia a primeira e a última estrofes:




                                                                             O Nordeste brasileiro
                                                                                uma grande região
                                                                         composta de nove estados
                                                                              ao vento sem direção
                                                                              a espera das esmolas
                                                                          que lhes sobre da Nação.

                                                                                              (...)

                                                                          Pesquisei em todo canto
                                                                             Galopei no carrossel
                                                                            E quando desanimava
                                                                         Chamava por São Miguel
                                                                          Ao Monsenhor Expedito
                                                                             Dedico este cordel96.




           Não se pode esquecer também da grande colaboração que o então pároco da cidade, o

Monsenhor Raimundo Gomes Barbosa, deu à luta pela adutora. A grande faixa que o religioso

corajosamente colocara na fachada da matriz com os dizeres “Adutora sim, voto sim; adutora

não, voto não!” fora decisiva para a implantação deste bem para o povo do Trairi.

           Por causa desta ação, o pároco foi homenageado pelo professor Nailson Costa com a

poesia Raimundo, padre nosso de cada dia, publicada na antologia Monsenhor Raimundo,

presente de Deus, a qual teve como compiladora a poetisa Aldenora Ribeiro, em que o poeta

faz um trabalho de intertextualidade com uma das estrofes da poesia Poema de sete faces, de

Carlos Drummond de Andrade. Todavia, ao contrário de Drummond que, em seu eu-lírico


96
     Hugo Tavares, op. cit. p. 47.

                                                                                              83
sente-se impotente diante da realidade, Nailson Costa louva a grande conquista, e o faz sem a

rigidez parnasiana da forma, usando a brincadeira dos trocadilhos e a alegria livre do ritmo e

da rima para dizer o quão poderoso é o povo quando luta bravamente pela construção de sua

identidade.



                                                   “Mundo mundo vasto mundo,
                                                   Se eu me chamasse Raimundo
                                                   Seria uma rima, não seria uma solução.
                                                   Mais vasto é meu coração.”

                                                   “Mundo mundo vasto mundo.”
                                                   O Raimundo que quero que veja
                                                   É Raimundo da Santa Igreja
                                                   Um mundo de oração.

                                                   Ave Raimundo cheio de graça
                                                   O Senhor está conosco em sua clara homilia
                                                   Mas o poeta Drummond em sua rica poesia
                                                   Não rimou o Raimundo dum profundo saber.

                                                   Mundo, tão vasto mundo,
                                                   Raimundo amigo, sacerdote, monsenhor
                                                   Pontual, confessor, sincero, professor
                                                   Vasto mundo, mais que rima pode ser.

                                                   Raimundo do mundo de Rita Santa
                                                   Cruz de nosso dia-a-dia
                                                   Raimundo, Jesus e Maria
                                                   Quão poético descrever!

                                                   Santo bordão de Raimundo de luta!
                                                   Bendita a adutora presente!
                                                   Voto sim na água benta da gente
                                                   Milagroso Raimundo também!

                                                   “Mundo mundo vasto mundo”
                                                   O mundo no verso ou na prosa
                                                   De Raimundo Gomes Barbosa
                                                   Carlos agora um relato tem.

                                                   Raimundo, Raimundo, vasto Raimundo,
                                                   O mundo de Carlos foi perdoado
                                                   E por Raimundo abençoado
                                                   Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo
                                                   AMÉM.

       Por três bons motivos esta poesia não deve ser entendida como sendo de cunho

encumiástico, ou seja, de bajulação a um nome que exerce uma certa liderança na cidade: 1. O
                                                                                            84
autor não é religioso e não tem nenhuma afinidade com o homenageado; 2.Necessário se faz

que estejamos sempre a dizer que foi o povo em comunhão com a igreja católica os soldados

vitoriosos dessa grande batalha, para que não surjam mais tarde politiqueiros dizendo-se pai

da criança; 3.Quem tem como passatempo preferido a produção de textos literários ou

científicos vive incessantemente à procura de temas para exercitar sua paixão. Aliás, os temas

preferidos de Nailson Costa são os de cunho social.




8.3. TRANSPOESIA DO “VELHO CHICO”



       A luta pelas águas – o tema da seca - continuava na palavra do poeta Hugo Tavares, e

mais um trabalho é lançado em 22 de março de 1998, A luta pela transposição de águas do

São Francisco. Com a pertinácia com que lhe caracteriza, dirige-se aos governantes, Rede

Globo, igrejas, povo, enfim, a todos, e mostra a viabilidade dessa transposição e a importância

para a Região Nordeste, em especial os três Estados, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.

       Aqui somos obrigados a dizer que essa questão exige um conhecimento mais apurado.

Há visões opostas, principalmente das populações ribeirinhas.

       Hugo, entretanto, acredita nessa causa e, com a sua sensibilidade poética e o

conhecimento da temática, inclusive de fatos históricos relacionados ao problema, ele, além

de levantar mais uma bandeira de luta pelas causas sociais, contribui de maneira significativa

para o engrandecimento da literatura local.




       “O FIPARTEL, filho particular do cordel, é o mínimo que eu posso fazer. E você?”,

diz o poeta se referindo à luta. São exemplos da obra a primeira e última estrofes:



                                                                                           85
Quando fiz esse trabalho
                                                                                   dei brilho no meu anil
                                                                                       espanei o amarelo
                                                                                        e o verde varonil
                                                                                 de branco fiz a pergunta
                                                                                    que nação é o Brasil.


                                                                                                       (...)

                                                                               Um novo tempo vem vindo
                                                                                       Semeador de ação
                                                                                     Esperto e envolvente
                                                                                      Mente-pele-coração
                                                                                    O Nordeste será outro
                                                                            Salve a TRANS-PO-SI-ÇÃO97.

8.4. BRASIL 500 VERSOS



           Hugo, conforme se verifica nas suas poesias e ativa participação nas lutas locais, é

verdadeiramente um poeta social e, como tal, não poderia deixar de refletir algumas questões

em seus versos. A questão agrária, a indiferença com que são tratados os povos indígenas, o

desemprego, as privatizações, o sucateamento das instituições públicas, o arrocho salarial não

poderiam ficar de fora de sua literatura. As comemorações realizadas no dia 22 de abril do

ano 2000, em Porto Seguro, Bahia, alusivas ao Brasil 500 anos, levaram o poeta a, mais uma

vez, produzir uma obra em que o tema foi apresentado de forma crítica.



             O livro Brasil antes e depois Brasil 500 anos, como escreveu em seu prefácio a

professora e poetisa Maria Celestina da Silva, aponta para questões que destoam do clima de

comemoração a que a mídia nacional conduzira a população a viver:


                               ... transcende ao trivial das muitas fundamentações livrescas e nos anuncia
                               criticamente um país além deste período cronológico tão comentado por
                               tantos historiadores, ele tem um tempo que antecede a tudo o que se vem
                               falando e registrando, porque o que existia antes é ainda uma controvérsia
                               de fatos e opiniões. Daí, portanto, o título que Hugo Tavares Dutra deu ao
                               seu escrito versejado e rimado, com humor, verdade e criatividade98...


97
     Hugo Tavares, op. cit., p. 48.

                                                                                                      86
O poeta, entretanto, adverte na introdução da obra: “O presente trabalho não tem a

intenção de ser nenhuma peça didática nem histórica. Ele é apenas uma janela para que

possamos vislumbrar um horizonte, ainda a ser construído, com bases em um passado

obscuro cheio de interrogações, frustrações, mas também de glórias99”. Podemos verificar

tais afirmações em uma das 75 estrofes dessa obra:


                                                                                  A vocês eu vou contar
                                                                             canto meu Brasil pandeiro
                                                                                     servil e privatizado
                                                                                devendo muito dinheiro
                                                                                   eternamente colônia
                                                                              escravo do estrangeiro100.

        O poeta Hugo Tavares, ao contrário do que se pode pensar, não produziu apenas

literatura de cordel. O poeta é autor de poemas de forma clássica, como o soneto, e de outros

tantos de formas diversas. Participou da primeira antologia, Templos Tempos Diversos,

lançada no dia 19 de maio de 1995, a qual reuniu 23 poetas dos mais variados estilos e

linguagens.




8.5. ALÉM DAS VIAGENS AOS TEMPLOS E TÚMULOS EM VERSOS EM

TEMPOS DIVERSOS NO TRAIRI



        A falta de uma política pública voltada para as artes leva os artistas a mendigarem, no

comércio da cidade, recursos para a publicação de suas obras.




98
   Hugo Tavares, Brasil Antes e Depois Brasil 500 anos, Mossoró – RN: Fundação Vingt – Um Rosado –
Coleção mossoroense, 2000 , pp. 2 - 3.
99
   Ibidem, Idem, p. 7
100
    Idem, p. 32.

                                                                                                     87
A antologia, Templos Tempos Diversos, lançada em 1995, reuniu 23 jovens e

veteranos poetas da cidade. Ela traça um quadro bastante significativo dos poetas locais, cada

qual com seus diferentes estilos, seus variados temas e ideologias.

        O livro, obviamente, não segue nenhuma tendência, nenhum estilo de época; na

verdade, a antologia se caracteriza pela multiplicidade de suas características e pela defesa e

enaltecimento de nossas cores literárias.

        Participaram da obra os seguintes artistas da palavra: Adonias Soares, Adriano Uberg,

Ana Umbelino, Antônio de Pádua Borges, Bonitinho, César Praxedes, Edgar Santos, Erivan

Silva, Graça Luna Barbosa, Hélio Crisanto, Hugo Tavares, Jair Elói, José Letácio Pereira,

Karina Grace, Marcos Cavalcanti, Maria Betânia Borges, Maria Celestina da Silveira, Meria

Suerleide, Matias Filho, Nailson Costa, Rita Luna, Teixeira Alves e Zé da Luz.

        A segunda antologia, Trairi em Versos, revelou novos nomes como os de Armando

José Luca Lemos, Edisângela Pereira, José Adriano Bezerra, José Antônio de Melo101, José

Iválter Ferreira102, José Jales, Josemar Câmara, Renan II de Pinheiro e Pereira, que através de

metáforas e emoções escreveram mais uma página da literatura de Santa Cruz.




8.6. A POÉTICA NAS POESIAS DA VIDA



        O livro de Matias Filho, Poemas que a vida inspirou do poeta Matias Filho é lançado

no dia sete de setembro de 2000. O livro é um verdadeiro grito de liberdade. É a

independência de formas e de temáticas. O autor o divide em duas partes, Poemas de Ontem e


101
    José Antônio de Melo é poeta popular, violeiro e repentista. Usou a profissão de violeiro durante 40 anos.
Participou de várias cantorias em programas de rádio em todo o Nordeste.
102
    José Iválter Ferreira não é uma revelação, pois desde a década de 50 vive a expressar liricamente seus
arroubos poéticos e arrebanhar conquistas em concursos literários. É advogado e Assessor Jurídico do Estado. É
membro do SPVA – Associação dos Poetas Vivos e Afins (Natal – RN).

                                                                                                          88
Poemas de Hoje. Na primeira parte é de fácil percepção os arroubos líricos característicos da

pouca idade do autor, regados, muitas vezes por muitos cálices de desventuras que as

amarguras da vida oferece ao poeta. “O cálice da amargura”, expressos no concretismo de

seus versos, é o sofrimento do seu eu-lírico:




                                                     Beberei       sofregamente
                                                   O cálice        da amargura
                                                   E triste, triste       somente
                                                   Sorverei     a      desventura
                                                    Amarga      da merencória
                                                   A vida que cansado levo.
                                                   Sempre, sempre sem ter glória,
                                                   Sem conquista, sem enlevo.
                                                          Resignei-me, pois
                                                             A padecer,
                                                              E depois
                                                               Morrer
                                                                 Só.
                                                                 Pó
                                                                Serei
                                                              E em luz
                                                            Com Jesus
                                                          Me encontrarei.
                                                    E livre, livre      estarei103.




           Na segunda parte, o poeta deixa de lado seus devaneios líricos para se posicionar

ironicamente, fazendo uso de poemas satíricos à Gregório de Mattos Guerra e fazendo de seus

versos não apenas um desabafo, mas, sobretudo, um instrumento de conscientização política,

de luta, além de demonstrar domínio de técnicas                     literárias. Podemos encontrar muitos

poemas de técnicas variadas em sua obra. O poema Inepta escolha é exemplo de poesia de

engajamento social:

103
      Matias Filho, Poemas que a vida inspirou, Natal –RN: Natal Editora Gráfica, 2000, p. 19.

                                                                                                    89
“Não culpes o teu presidente,
                                                                         Mísero votante imprudente!

                                                                            A culpa, estúpido, é tua:
                                                                       Deste o lombo à chibata crua.

                                                                     Agüenta, pois, mais alguns anos
                                                                     De apertos, fome e desenganos!

                                                                      Olhas pro passado e, inseguro,
                                                                         Não vislumbra o teu futuro.

                                                                         Mísero votante imprudente,
                                                                  Por acaso, o PROGRESSO sentes?

                                                                 E a ORDEM? Esta quimera ... Vês?
                                                                       No entanto, idiota, nela crês!

                                                                     SEGURANÇA!... outra utopia!...
                                                                       Mostra o perigo à luz do dia.

                                                                   Co’o teu voto insensato e obscuro
                                                                         Complicaste o nosso futuro.

                                                                           Sabes o que é um ataúde?
                                                                         É onde enterraste a SAÜDE.

                                                                        Com o teu voto apaixonado.
                                                                  E agora, Zé? DESEMPREGADO...

                                                                      Como hás-de dar EDUCAÇÃO
                                                                         Ao teu filho? Nessa aflição

                                                                        Muito chorarás amargamente
                                                                Por teres sido néscio e imprudente104!



            O livro de Matias Filho, além da arte literária presente, é, também, uma lição de vida,

uma evolução na estilística de suas ações, é uma demonstração da capacidade de o ser

humano se libertar das fúteis e etílicas ilusões juvenis para assumir uma postura mais digna da

poética da vida.

            Muitas poesias de engajamento social e de formas variadas foram produzidas na

década de 90 e início do novo século, como Brasil da poetisa Rita Luna, ex-aluna do NEST e,

portanto, produto daquele meio:
104
      Matias Filho, op. cit., pp. 115 -116.

                                                                                                  90
Grande Brasil
                                                                                  Brasil do FMI
                                                                         Brasil da fome do povo
                                                                             Meu Brasil assim...
                                                                            Alienante e alienado
                                                                                  Grande Brasil
                                                                                  Das ditaduras
                                                                            E da marginalização
                                                                          Do derramamento dos
                                                                                 Cofres públicos
                                                                                E da miséria do
                                                                                            Povo
                                                                            Alienante e alienado
                                                                                  Grande Brasil
                                                                         Da grande extensão de
                                                                                           Terra
                                                                                  Do êxido rural
                                                                            Das cidades infladas
                                                                                    E dos pivetes
                                                                           Brasil, grande Brasil
                                                                       Dos banquetes suntuosos
                                                                 Ironia de Deus ou dos homens?
                                                                          A maioria cala a fome.
                                                                    Cala porque o grito é calado
                                                                           Brasil, grande Brasil
                                                                            Alienante e alienado
                                                                              De olhos vendados
                                                                                Cala seus filhos,
                                                                            Que definha e morre
                                                                        Inocente, inocentemente
                                                                               Grande Brasil!105




            Nesta poesia de versos sem rima e sem metrificação, bem ao gosto dos poetas do

Modernismo, a poetisa expressa toda angústia em ver o país tão grande e submisso ao FMI, ao

descaso daqueles que o governam. É a sua poesia a serviço da denúncia das mazelas sociais.

            Outro exemplo de poesia e de poeta que seguiu caminho totalmente distinto daquele

seguido pelos poetas da Primeira Parte é o do professor e sociólogo Teixeirinha Alves. A

poesia Lute é um convite persuasivo àqueles que ainda não acordaram para o mundo real:


                                                                              Faça o que fizer,
                                                                             Diga o que disser,
                                                                            Venha de onde vier,

105
      Adonias, ati alli, op. cit., p.133.

                                                                                             91
Mas lute!

                                                                        Tenha a cor que tiver,
                                                                         A língua que quiser,
                                                                             Tendo ou não fé
                                                                                    Mas lute!

                                                                       Com Cristo ou Maomé,
                                                                        Magia ou candomblé
                                                                         De Deus ou Lúcifer,
                                                                                   Mas lute!

                                                                            De carro ou a pé,
                                                                           De frente ou de ré,
                                                                     Sendo homem ou mulher,
                                                                                    Mas lute!

                                                        Revolucione o mundo ao seu redor106!!!
           O poeta Teixeirinha Alves também usa a sua obra para lutar pela conscientização

política das massas. Utiliza-se também de técnicas modernas, ou seja, seu poema não está

preso a nenhuma regra literária academicamente preestabelecida.




           Encontramos, também, em nossas incansáveis buscas, indícios que cada vez mais

reforçavam os nossos argumentos a respeito da sintonização da literatura local com a

praticada nos centros avançados. Um exemplo é a metalinguagem poética em Hélio Crisanto,

tão ao gosto de um Carlos Drummond de Andrade. Hélio Crisanto na poesia Resgate tenta

não só desvendar o mistério, os caminhos da arte poética, mas também faz um convite sensual

à poesia para que ambos, poeta e poesia resgatem essa confidencial cumplicidade existente

em suas libertinas relações metalingüísticas:


                                                                                 Vem poesia,
                                                           Penetra surdamente nos meus poros

106
      Ibidem, Idem, p.138.

                                                                                          92
Arrebata-me.
                                                                  Embala-me com teus acordes
                                                                   Enquanto tenso vou tecendo
                                                                              O fio das horas
                                                                                Escorregando
                                                                          Na minha garganta
                                                                                  Suavemente
                                                                            Pra que eu possa
                                                                                  Te degustar,

                                                                                  Vem poesia,
                                                                            Masturba meu ego
                                                                              E rasga meu ser
                                                            Pois és meu verdadeiro orgasmo107.
           A década de 90 e o início do novo século, apesar da televisão, do vídeo cassete,

cinema, internet, etc., criou uma perspectiva muito positiva naqueles que ainda acreditavam

na leitura e reflexão de textos literários ou não como determinantes no acender das luzes dos

caminhos que levam a construção de uma nação forte, desenvolvida e cidadã.

           As antologias Templos Tempos Diversos e Trairi em Versos, além de propiciar a

divulgação literária daqueles que, anteriormente, não tiveram oportunidade de publicar os

seus trabalhos, exerceram também um papel de incentivadoras de novas publicações e de

criadoras de novos talentos.




           Livros como Santa Cruz nos caminhos do desenvolvimento, do empresário Hermando

José de Amorim, lançado em 1998 (este livro pertence ao gênero didático, literatura de

informação); A luta pela transposição das águas do São Francisco, de Hugo Tavares, lançado

em 1998; Retalhos d’alma, da poetisa Aldenôra Dias Ribeiro, lançado em 1999; Ribeiro, um

professor – antologia em prosa e verso – da compiladora Aldenôra Dias Ribeiro, lançado em

1999; Viagem ao além-túmulo, do professor Marcos Cavalcanti, lançado em 1999;

Monsenhor Raimundo, presente de Deus – antologia em prosa e verso, da compiladora

Aldenôra Dias Ribeiro, lançado em 2000; Brasil antes e depois Brasil 500 anos, de Hugo

Tavares, lançado em 2000; Poemas que a vida inspirou, de Matias Filho, lançado em 2000;

107
      Ibidem, Idem, p. 41.

                                                                                          93
Sonetos e poemas diversos, de Antônio de Pádua Borges, lançado em 2001, são indícios de

que a literatura santacruzense reage a todas as forças antagônicas ao desenvolvimento dessa

arte; ela começa a reivindicar, naturalmente, através da publicação de suas obras, um lugar de

destaque na nossa cultura regional.




                                                                                          94
CONSIDERAÇÕES FINAIS



       O surgimento do Núcleo de Ensino Superior do Trairi – NEST –, em 1981, é, numa

perspectiva de atualização, ou seja, de seguir as tendências literárias dos centros mais

avançados, o marco divisório da literatura de Santa Cruz em seus aspectos temporal, formal e

temático.

       As formas e as temáticas tradicionais preferidas pelos poetas da Primeira Fase – da

fundação à década de setenta – não são mais priorizadas. A nova ordem, a partir de 80, é a da

sintonia com as liberdades modernas e suas estéticas, desde 1922, praticadas no país.

       Essas novas temáticas, na maioria de engajamento social, são um reflexo de uma

crescente politização dos novos poetas e cronistas locais.

       Órfãos do NEST, os já diplomados alunos-poetas do NEST sentem-se na obrigação de

repercutir sua nova visão de mundo e suas revolucionárias técnicas para a nova geração. A

sala de aula foi palco para algumas experiências literárias desenvolvidas por poetas que tem

como profissão a docência.

       O jornal Memorial Santacruzense, fundado pelo poeta Marcos Cavalcanti nos fins dos

anos 90, é um grande incentivador da nossa arte literária.

       No crepúsculo do século XX, alguns poetas da Primeira e da Segunda Fase criam a

Associação Santacruzense de Poetas e Escritores – ASPE – com o objetivo de estimular cada

vez mais o surgimento de novos talentos literários, bem como de publicar as suas obras.

       O concurso de poesia realizado pela Biblioteca Municipal é a grande novidade do

início do novo século. Surgem poetas e cronistas com suas líricas e prosas poéticas

revolucionárias, numa espécie de síntese de todos os ismos, todos os estilos individuais, todas

as temáticas, todas as vanguardas, em perfeita sintonia com as liberdades modernas do dia-a-

dia.


                                                                                           95
A literatura local que refletiu as cantigas de amor do Trovadorismo, a perfeição da

forma do Classicismo, o bucolismo do Arcadismo, a exaltação da terra querida e de seu povo,

o pessimismo e o mal-do-século byroniano do Romantismo, na poesia popular de Fabião das

Queimadas, ou no lirismo de Luís Patriota, Cosme Marques, Abdias, Márcio Marques, Luís

de Almeida, Letácio,Teresa Lúcia agora se incorpora às inovações da linguagem e o

cientificismo do Realismo, bem como à revolucionária proposta estético-literária da geração

de 22 apresentadas pelos novos poetas e escritores tais como Marcos Cavalcanti, Hugo

Tavares, Rita Luna, Nailson Costa, Hélio Crisanto, Heraldo Lins, Zedaluz, Otacílio entre

muitos outros, em dois espaços temporais delimitados pelo surgimento do Núcleo de Ensino

Superior do Trairi sem fazer uso de conflitos ou complexos de superioridades intelectuais.

            A transição das posturas formais e temáticas não se deu de forma abrupta, pois, em

momento nenhum, a estética anterior foi totalmente descartada.

            A nossa literatura não se caracterizou pelas rejeições dos estilos anteriores, não

polemizou a estética de seus antecessores, não refletiu o comportamento dos jovens

modernistas de 22, quando estes atacaram veementemente seus companheiros parnasianos,

com manifestos provocativos e insultos desnecessários.

            Muito pelo contrário, o período pós-NEST criara uma mentalidade nos novos poetas e

cronistas capaz de entender que não é a escola literária ou período que valoriza a criação

artística ou o artista, mas sim este que valoriza a arte, a escola ou o período.

            Em síntese, como bem escreveu o crítico literário Hênio Tavares:


                               ...preso ou não a uma determinada escola, o artista será grande se grande for a
                               sua obra. As escolas são como que os diversos caminhos condutores da Arte, e a
                               Arte é una e indivisível na sua essência. Compete ao artista, seja clássico ou
                               romântico, simbolista ou modernista, a sua mensagem será válida, sua obra será
                               legítima e irá fatalmente incorporar-se ao patrimônio da Arte108.




108
      Hênio Tavares, Teoria Literária, Belo Horizonte – MG: Editora Itatiaia, 1989, p. 47.

                                                                                                          96
Entendemos, entretanto, que enquadrar textos, poetas e escritores é uma violência

cometida pela história da literatura, mas necessária, uma vez que precisamos compreendê-los

nos seus mais diversos aspectos.

         Os pesquisadores da arte literária devem também entender que a beleza de uma arte

está exatamente na elegância de driblar as imposições espaço-temporais e de flutuar entre

passado, presente e futuro revelando as riquezas estético-utilitárias presentes em cada um

deles.

         Se a nossa pesquisa não é uma exegese crítica, mas sim, apenas uma comprovação

histórica, devemos nos deter apenas na análise objetiva de nossas investigações para

adquirirmos credibilidade junto aos leitores, estudiosos e críticos da nossa literatura.

         Nesta perspectiva, nós sentimos que a nossa missão foi cumprida e independentemente

de aplausos e/ou vaias fazemos nossas as palavras do grande Henfil:


                                                     Se não houver frutos, valeu a beleza das flores!
                                                   Se não houver flores, valeu a sombra das folhas!
                                                 Se não houver folhas, valeu a intenção da semente!




                                                                                                 97
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ENTREVISTAS UTILIZADAS



1. José Josias Bezerra – entrevista realizada em março de 2001, em Santa Cruz-RN

2. Josefa Neuza da Costa - entrevista realizada em outubro de 2000, em Santa Cruz-RN.

3. Teresa de Medeiros Costa – entrevista realizada em outubro de 2000, em Santa Cruz-RN.

4. Teresa Lúcia de Carvalho – entrevista realizada em dezembro de 2000, em Santa Cruz-RN.

5. Manuel Macedo de Oliveira – entrevista realizada em abril de 2001, em Natal-RN.

6. Maria Celestina da Silveira – entrevista realizada novembro de 2000, em Santa Cruz-RN.

7. Maria do Rosário – entrevista realizada em outubro de 2000, em Santa Cruz-RN.

8. Rita de Cássia Luna – entrevista realizada em maio de 2001, em Santa Cruz-RN.

9. Marcos Bezerrra Cavalcanti – entrevista realizada em junho de 2001, em Santa Cruz-RN.

10. Antônio de Pádua Borges – entrevista realizada em junho de 2001, em Santa Cruz-RN.




Obs.: O autor gostaria de ver este trabalho publicado em livro. Quem se interessar em
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LITERATURA SANTACRUZENSE

  • 1.
    LITERATURA SANTACRUZENSE Aatualização da forma e do discurso literários de Santa Cruz-RN a partir do surgimento do Núcleo de Ensino Superior do Trairi. Nailson Costa
  • 2.
    Quero dedicar estetrabalho aos poetas e cronistas de ontem e de hoje, responsáveis pela construção da literatura de Santa Cruz. 2
  • 3.
    Agradeço a todosque, de uma forma ou de outra, me prestaram inestimável ajuda no preparo deste trabalho. A todos os poetas e cronistas que me permitiram fazer uso de suas obras. À Marinalva Vilar, minha professora e paciente orientadora. À URCA, que me fez tornar concreto um projeto há muito sonhado. Ao professor Reinaldo, do CEDAP, pelo estímulo constante na realização deste. À poetisa Tereza Lúcia, pelo empréstimo valoroso da obra Canastra Véia, único exemplar na cidade, de Cosme Ferreira Marques, escrito em 1946. À poetisa Rita Luna, pelo empréstimo da única obra existente na cidade, Rimário de Poetas Brasileiros, compilado pelo poeta Abdias Gomes, em 1938. A Marcos Cavalcanti, por ter me indicado as poetisas proprietárias dessas obras. Ao Professor Arimatéia Rodrigues, pela contribuição técnica. Aos entrevistados, pela atenção a mim dedicada. À minha família, pela força e admiração que me foram dispensadas E, principalmente, agradeço a Deus, pela inspiração. O Autor 3
  • 4.
    BIOGRAFIA DO AUTOR José Nailson de Medeiros Costa nasceu em Santa Cruz – RN no dia 11 de setembro de 1963. Filho de Luís Precioso da Costa e de Teresa de Medeiros Costa. É servidor público do RN. Formado em Letras e Ciências Contábeis pela UFRN. É Pós-Graduado em Identidade Regional – A Questão Nordeste (Departamento de História). Ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores em Santa Cruz e a APRN (Associação de Professores do RN, hoje o Sinte, local). Participou como 1º secretário da APRN e da LDS (Liga Desportiva Santacruzense). Foi Diretor de Esportes do mais atuante D.A. (Diretório Acadêmico do NEST). É membro da ASPE (Associação Santacruzense de Poetas e Escritores). Ajudou a fundar e a construir o IESC – Instituto Educacional de Santa Cruz, de onde foi professor de Língua Portuguesa por 10 anos. Publicou na década de 80 crônicas para o Diário de Natal/Poti, assim como nas décadas seguintes para os jornais Memorial Santacruzense, Parnamirim em Notícias e Voz de Natal. Publicou um livro de memórias, Futebol: Documento de uma Paixão; participou com poemas das seguintes antologias: Templos Tempos Diversos; Monsenhor Raimundo, presente de Deus; Antologia Literária II da SPVA/RN; Participou com uma crônica da antologia Ribeiro, um professor. Gosta dos amigos, ama a esposa, os pais, os filhos e o Espírito Santo. Amém. 4
  • 5.
    SUMÁRIO Prefácio................................................................................................................................07 Introdução............................................................................................................................09 I Parte: UmPresente do Passado......................................................................................... 18 Capítulo I – Da fundação à década de 20, literatura ao som de rabeca............................... 19 1.1. – Fabião das Queimadas – o poeta dos vaqueiros............................................. 20 Capítulo II – Década de 30: domínio oligárquico versus reformismo igual à literatura de exaltação................................................................................................... 27 2.1. – Os jornais locais e seus discursos................................................................... 30 2.2. – Abdias e a primeira antologia de Santa Cruz................................................. 31 2.3. – Luís Patriota, o poeta das jangadas.................................................................34 Capítulo III – Década de 40: a estética da gratidão.............................................................37 Capítulo IV – A geração de 50............................................................................................ 42 Capítulo V – Os novos românticos de 60............................................................................ 49 Capítulo VI – A literatura da década do medo.................................................................... 54 6.1. – Um poeta ultra-romântico............................................................................59 II Parte: Um Presente Para o Futuro....................................................................................62 Capítulo VII – Década de 80: atualizando a estética literária local.................................... 63 7.1. – Ribeiro: um cronista de transição.............................................................. 68 7.2. – Instantâneos Poéticos de Zedaluz e Otacílio............................................. 72 7.3. – Os grilos do NEST na poesia de Hugo Tavares........................................ 78 Capítulo VIII – Anos 90: perspectivas................................................................................ 80 8.1. – Tristes coincidências................................................................................ 81 8.2. – A poesia das adutoras............................................................................... 83 5
  • 6.
    8.3. – Transpoesiado “Velho Chico”................................................................. 86 8.4. – Brasil 500 versos...................................................................................... 87 8.5. – Além das Viagens aos Templos e Túmulos em Versos, em Tempos Diversos no Trairi.....................................................................................88 8.6. – A poética nas poesias da vida.................................................................. 89 Considerações finais............................................................................................................ 96 Bibliografia..........................................................................................................................99 Entrevistas Utilizadas.......................................................................................................... 102 6
  • 7.
    PREFÁCIO Quando se fala de e sobre poesia rejuvenesce a alma criando um lastro de conveniência em respaldo à transformação do belo no lindo. E quando isto está vinculado ao resgate histórico-literário, enobrece a sabedoria lítero-social principalmente se concentrada e dimensionada na relação e na busca das conexões literárias nacional, estadual e local. A obra em foco está repleta dessa extensão. É um jogo de saber maior, privilégio dos aquinhoados da cultura do sentimento e da causa grande, engendradas na identificação meritória do conhecimento literário. Para dar solidez e fortaleza à cultura, eis que se apresenta à sociedade, oriunda de Santa Cruz, rincão potiguar, a obra salutar de José Nailson de Medeiros Costa configurando o poder do sentimento que cria espaços de despojamento para o vislumbre das obras dos grandes pensadores da literatura brasileira associada à local, numa inspiração lingüística e reverência justa àqueles que, somente, pelo gosto de fazer a arte do desvendamento do ser criador de poemas em estilos os mais diversos. Nailson soube mergulhar nas águas cristalinas do pensamento para descobrir e enaltecer os valores poéticos em momentos e circunstâncias históricas bem específicas. Soube, igualmente, nesta obra, analisar reminiscências, à luz de poder respeitoso à crença de essência da produção de cada momento em que se deu. A fidelidade e a valorização literárias emitem um eco de qualidade a tudo que foi motivo para arrancar de dentro de cada um a sabedoria poética em circunstâncias sociais e políticas bem realistas. Um retrato do ontem, do hoje e do amanhã da riqueza circunscrita na imaginação literária através dos dois últimos séculos, em Santa Cruz. É uma obra casta de arrogância e carregada de princípios altaneiros, de lealdade ao real e, sobretudo, ao resgate de cada época. Nailson não se contentou em registrar produções 7
  • 8.
    poéticas nem pareceresliterários mediante informações obtidas, mas se deteve em cada descoberta e cunhou sua observância analítica na mais nobre e suntuosa visão lingüístico- literária, pois, foi se deleitando no verso de Fabião das Queimadas, Cosme e Márcio Marques que ele descobriu as pérolas poéticas que instigavam a literatura santacruzense e que perduram até nossos dias com tantos outros que resistem às intempéries de anticultura. Uma obra deste quilate coloca na poltrona da história as marcas de personagens da vida real do ontem e do hoje. Também, personifica a criação literária e eterniza a obra daqueles que souberam e sabem externar o seu sentimento no seu estilo poético-literário próprio. Por isso, convém admitir a grandeza cultural que está implícita e explicitamente registrada, resgatada, analisada e para apreciação de todos. A cultura, assim, é processada como vertente do testemunho literário que se confunde com a vida da própria municipalidade santacruzense, como diria o poeta Thiago de Mello em sua "Vida Verdadeira". "Aprendi o caminho me ensinou a caminhar cantando como convém a mim e aos que vão comigo. Pois, já não vou mais sozinho". Eis, portanto, o contributo à cultura dessa plaga trairiense, manifestada pela vontade e a audácia de José Nailson de Medeiros Costa de continuar a obra dos que se foram, mas deixaram sua história provida de tantos amores pela terra de Santa Rita de Cássia. Reinaldo Ricardo dos Santos 8
  • 9.
    INTRODUÇÃO Ó Santa Cruz Minha terra querida Tu és minha luz Tu és minha vida Ó terra amada Como eu te adoro Minha terra idolatrada Longe de ti choro1 Um dois Um dois e homens Transformam-se Máquinas2 O trabalhador rural... O trabalhador rural trabalha a vida inteira... O trabalhador rural trabalha a terra. O trabalhador rural planta feijão, milho, algodão, batata, corta cana, cuida do gado... O trabalhador rural é a terra. Mas o fazendeiro não quer mais o trabalhador rural na terra3 Os fragmentos dos poemas, acima citados, são exemplos de formas e de temáticas preferidas pelos artistas da palavra escrita em nossa cidade, em épocas diferentes. A poesia concreta, em Otacílio Barreto, é visualmente social. O poeta une em sua arte o avanço da tecnologia, a busca de novas formas de expressão que sejam condizentes com uma sociedade em que tudo passou a acontecer de maneira rápida e objetiva, à realidade social, à exploração do homem e sua transformação em máquina. O lirismo presente em Luiz de Almeida, o apelo ao sentimentalismo e a nostalgia são características típicas do Romantismo e se contrapõem, tanto na forma quanto no conteúdo, à poesia social e concreta de Otacílio, ou apenas social, de Hugo, em que a linguagem 1 . Poesia de Luiz de Almeida, citada na entrevista de Terezinha e Neuza, em outubro de 2000. 2 . Otacílio Barreto, “Máquinas”, in:_______. Instantâneos Poéticos, Santa Cruz-RN: datilografada, 1985, p. 12. 3 . Hugo Tavares, apostila avulsa, março de 2002. 9
  • 10.
    discursiva, o estilosimples e direto pretendem fazer da poesia uma arte mais comunicativa, ao alcance das camadas populares. A atualização da forma e do discurso literários de Santa Cruz, a partir do surgimento do Núcleo de Ensino Superior do Trairi, foi o centro de interesse desta pesquisa, relacionada ao campo da História Regional. Enfatizamos, especificamente, as produções literárias desenvolvidas no município de Santa Cruz-RN. Estabelecemos argumentos segundo os quais as técnicas dos recursos poéticos e as temáticas literárias desta cidade são vistas sob perspectivas antagônicas delimitadas em espaços temporais bem definidos. O trabalho está dividido em duas Partes: Um Presente do Passado, em que é feito um levantamento dos principais poetas, escritores e obras de Santa Cruz do início de sua fundação, em 1825, ao final da década de 70 do século seguinte, tendo por objetivo demonstrar que os poetas que viveram e fizeram a literatura dessa época não tiveram a preocupação de seguir as tendências inovadoras que se apresentaram na literatura brasileira, desde 1881, com o Realismo/Naturalismo, tais como a objetividade, o universalismo, o materialismo, a contenção emocional, o antropocentrismo etc, ou, mais radicalmente, com a Semana de Arte Moderna, em 1922; e Um Presente Para o Futuro, em que trabalhamos com a produção realizada no período que vai da década de oitenta aos primeiros anos do século XXI. Esta fase da produção literária de Santa Cruz, apresenta uma tendência contrária a que foi observada na fase anterior, neste sentido pontuamos a preocupação dos artistas da palavra em atualizar seu fazer poético, procurando manterem-se em sintonia com o que era praticado nos centros mais avançados. As novas formas literárias e as temáticas de engajamento social, que apresentavam um forte sentimento de denúncia das injustiças sofridas pelos mais humildes, começam a aproximar a literatura local com a que era praticada no eixo Rio-São Paulo. Dessa forma, podemos observar que os poetas santacruzenses passaram a refletir em suas obras o 10
  • 11.
    cientificismo do Realismo,a modernidade da arte do Modernismo, a expressão visual e concreta do Concretismo, a poesia-práxis, etc. A atualização do fazer literário de Santa Cruz deveu-se, em nosso entendimento, ao Núcleo de Ensino Superior do Trairi – NEST -, na medida em que ele propiciou o surgimento de calorosas agitações culturais, verificadas nas Semanas Universitárias e nos Jornaizinhos Universitários; promoveu o desenvolvimento de Trabalhos Acadêmicos, principalmente nos Cursos de Letras e de Pedagogia (muitas discussões teórico-literárias verificadas nas Rodas de Bate-Papos e nas Mesas de Bares foram fontes de inspiração poética), enfim, criou um Ambiente Cultural nunca antes visto na terra de Santa Rita de Cássia. Os seis capítulos que integralizam a Primeira Parte deste trabalho, bem como os dois da Segunda Parte são iniciados com uma sucinta contextualização histórica, nos planos nacional, estadual e municipal, de cada década, objetivando propiciar ao leitor uma comparação das inovações das formas e das temáticas da literatura desenvolvida no eixo Rio- São Paulo e, de certa forma, na capital do nosso Estado, com a literatura de Santa Cruz. Sem a pretensão de fazer análises literárias profundas, encontram-se também algumas biografias e obras dos poetas e cronistas mais significativos da nossa literatura, em suas respectivas épocas, para permitir ao leitor o acesso a elementos embasadores dos argumentos que arrolamos no trabalho. Críticos nacionalmente renomados como Antônio Cândido, Alfredo Bosi, Afrânio Coutinho, Umberto Peregrino somam-se a Tarcísio Gurgel, Diva Cunha, Luiz Eduardo Brandão Suassuna, Professores da UFRN, para fundamentar teoricamente os argumentos aqui propostos. O leitor observará que a Primeira Parte, Um Presente do Passado, reflete bem a poesia trovadoresca, o lirismo clássico, neoclássico e romântico, as temáticas românticas, tais como a vida simples no campo, a ascensão social em função de dotes artísticos, as vaquejadas, as 11
  • 12.
    disputas (pelejas) decantadores (muito presentes na poesia popular de Fabião das Queimadas); a religiosidade, o saudosismo, a exaltação às festas juninas, bem como às festas da padroeira Santa Rita de Cássia (nos versos clássicos de Luís Patriota ou de Abdias Almeida); a valorização de famílias tradicionais e seus coronéis e o fazer poético (verificáveis em Cosme Marques). Observa-se ainda, no crepúsculo da década de 70, nos versos de Joaquim de Lima, Padre Émerson, Fabiano de Cristo, Franklin de Souza, Maria Celestina, Tereza Lúcia e outros, constantes apelos lírico-ufânicos que serão predominantes na formação da poesia dessa época e, portanto, de significação positiva, quando analisada à luz da busca de uma identidade para a sua terra, bem como para o registro de um passado literário romântico, bucólico e em harmonia com a natureza e a população local. A Segunda Parte, Um Presente para o Futuro, é destinada à constatação do surgimento de uma literatura moderna - em sintonia com a já praticada nos centros avançados-, de crítica social e de engajamento ideológico. São obras que abrangem o universo municipal, estadual e nacional a partir da década de 80, mais precisamente a partir de 1982. Para alguns poetas e cronistas dessa nova fase, a literatura não deve existir apenas para o prazer poético, a arte pela arte, a catarse, nem apenas ser um mecanismo de evasão ou de conhecimento do homem e do mundo; a literatura deve ser, também, um instrumento de luta a serviço de uma causa social, um elemento imprescindível para a transformação do meio social em que vivem. As perspectivas da volta à democracia e, principalmente, o surgimento do Núcleo de Ensino Superior do Trairi – NEST –, extensão do Campus Avançado da Universidade Federal do Rio Grande Norte, foram fatores determinantes às novas posturas técnico-temáticas modernas dos poetas e cronistas de Santa Cruz que viveram/vivem esse novo período. 12
  • 13.
    O NEST –Núcleo de Ensino Superior do Trairi - é, à luz desta pesquisa, agente ativo no processo de inserção da literatura local no universo da literatura moderna, na medida em que propiciou a atualização dos produtores de nossa literatura nas formas e temas desenvolvidos desde 1922, nos centros mais avançados do país, especialmente na Região Sudeste. Em Santa Cruz, até o final de 70, tínhamos uma literatura mais identificada com as formas e as temáticas medievais, clássicas, neoclássicas e românticas, através das poesias em forma de cordéis, que refletiam o lirismo trovadoresco. Eram freqüentes nesse período as poesias de perfeição estética e de inspiração clássica. Não raro encontramos poesias bucólicas neoclássicas, em que o eu-lírico do poeta expressa o saudosismo, a religiosidade e a exaltação à sua terra. Estão muito presentes, nas poesias de Márcio Marques, a fuga da realidade, o pessimismo à Álvares de Azevedo, bem ao gosto das posturas românticas do Ultra- Romantismo. As poesias de culto à forma, da arte pela arte, e de inclinação parnasiana são uma constante nos versos de Luís Patriota. Com os debates sociais, políticos, econômicos e literários desencadeados pelos estudantes do NEST, a partir dos primeiros anos da década de 80, surgiram novas perspectivas, novos horizontes foram vislumbrados e a literatura local sentiu a necessidade de se atualizar, de sintonizar-se com a literatura moderna, há muito já praticada em âmbito nacional pelos famosos artistas da palavra. Seria incorreto dizer que o NEST formou os poetas e fez a literatura moderna de Santa Cruz, porém não seria precipitado nem injusto atribuir a essa Instituição honrarias por despertar os nossos artistas da hibernação literária. O ambiente estudantil ali criado despertou o interesse dos jovens artistas da palavra. Os estudantes de literatura tiveram contato com as novas tendências, as formas modernas, a poesia concreta, a poesia-práxis, a poesia marginal, a poesia social com as suas temáticas de protesto e de denúncia das injustiças contra os 13
  • 14.
    trabalhadores; enfim, éo NEST que aponta o caminho da atualização da forma e do discurso literários a serem, daí em diante, seguidos pelos artistas da palavra escrita de Santa Cruz. A partir daí, a literatura local passou a refletir esses aspectos dando-lhes prioridade. Entretanto, ela não abandona as temáticas do surgimento da cidade, da religiosidade, do saudosismo, da evolução de sua gente e do folclore. Poetas como Hugo Tavares optam por esse caminho, o da literatura como instrumento político, estabelecendo em suas obras todo um conjunto de questionamentos sociais. Seus poemas prendem-se mais ao conteúdo do que à forma, o que não quer dizer que o poeta não domine as “boas” técnicas literárias vigentes. As temáticas da saudade, da pátria, da família, do lar, da infância, da religiosidade e de homenagem a entes queridos que se foram, enfim, a temática da evasão no tempo e no espaço, características românticas predominantes na literatura da Primeira Parte da produção literária de Santa Cruz, quase que desaparecem nas obras dos artistas sociais da Segunda Parte. No entanto, este novo período da literatura de Santa Cruz não é espaço exclusivo para as poesias de caráter social. Os temas que caracterizaram as obras da Primeira Parte ainda se fazem presentes, com menos intensidade, em poetas e cronistas como Francisco Ribeiro, Bonitinho, Renan II, Aldenôra Ribeiro, Geraldo Moura, Edgar Santos, Maria Celestina, Betânia Borges, Fátima Cavalcante, dentre outros. O poema de forma clássica, como o soneto, tão cultivado pelos parnasianos, ainda tem lugar nas obras de Hélio Crisanto e José Letácio que, diferentemente dos parnasianos, tratam o conteúdo com a profundidade subjetiva de suas visões filosóficas. O que diferencia alguns destes poetas românticos da Segunda Parte daqueles que constituem a Primeira, é o fato de que estes, os novos, também produziram obras sociais, de apelo à luta e as denúncias das endêmicas mazelas sociais. 14
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    Os temas deengajamento social são freqüentemente encontrados nos poemas de Teixeirinha Alves e Rita Luna. O pessimismo irônico, a presença constante da morte - o que, diga-se de passagem, não tem nada a ver com o mal-do-século de Byron4 – são, na verdade, um convite à vida, ao domínio das técnicas literárias, sendo que a riqueza e a diversidade de seu conteúdo fazem dos versos de Marcos Cavalcanti um poeta carregado de todos os ismos de que fizeram uso os estilos de épocas da história da literatura. Ou seja, podemos encontrar nos versos de Cavalcanti características do Arcadismo, do Romantismo, do Realismo, do Simbolismo, do Modernismo etc. Essas mesmas referências, sem dúvida nenhuma, podem ser atribuídas ao também poeta e cronista José da Luz. Matias Filho, poeta de arroubos líricos e satíricos ao estilo Gregório de Matos, escreveu também à maneira de Décio Pignatari, de Haroldo e Augusto de Campos, ao cultivar a poesia concreta, que abandona o discurso tradicional e privilegia os recursos gráficos das palavras, o “desenho” do poema, facilmente encontrado em outros poetas santacruzenses. Os dois caminhos percorridos pela nossa literatura, o do romantismo, o da arte pela arte - em que seus artistas e obras se mantêm, do ponto de vista crítico, à margem dos acontecimentos políticos e sociais mais relevantes - e o da reflexão crítica sobre a realidade e a busca de novas formas de expressão, não se assemelham aos surgimentos dos novos estilos de época da literatura universal, na perspectiva de embates, conflitos, manifestos em defesa de suas formas, de seus temas, de suas estéticas, de suas filosofias e, é claro, de suas vaidades. Havia e há um grande respeito por parte dos poetas da Segunda Parte em relação aos da Primeira. Na verdade, trata-se de uma espécie de admiração tácita, uma vez que fazer literatura num país subdesenvolvido já é difícil, imagine no interior, onde as mudanças ou atualizações em nome do moderno deparam-se com as tradicionais barreiras. 4 Lord Byron ( 1788-1824), poeta do Romantismo inglês, influenciou os poetas da 2ª geração romântica brasileira com seus versos pessimistas. O profundo desencanto pela vida, o cinismo e a exaltação à morte receberam o nome de ultra-romantismo, ou mal-do- século, e influenciaram muito os poetas românticos da 2ª geração do Romantismo brasileiro. 15
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    Nunca é demaisrepetir que este trabalho não tem a pretensão de julgar os poetas e as obras por eles produzidas, e que não se constitui, também, enquanto uma exegese crítica, sendo seu principal objetivo o de demonstrar a percepção da existência de duas fases literárias na produção santacruzense. Como já colocamos anteriormente, a Primeira fase seria aquela em que a tônica predominante recaía no cultivo de procedimentos poéticos cristalizados pela tradição, que remontam ao Trovadorismo, ao Classicismo, Arcadismo e Romantismo, e a Segunda concerne ao momento em que os artistas da palavra escrita introduziram em suas obras, sem manifestos agressivos nem conflitos estético-ideológicos, as temáticas sociais e suas (des)compromissadas técnicas. E mais: se a Semana de Arte Moderna é o movimento responsável pela inserção do Modernismo na literatura brasileira, mal comparando e respeitando às devidas proporções, é o NEST, uma instituição sistematizada de ensino superior, o responsável, não pela mudança da tônica da produção literária anterior, mas por desenvolver uma mentalidade na nossa comunidade estudantil universitária/literária, capaz de introduzir as mudanças temáticas e formais que outrora os românticos de transição, os realistas e, sobretudo, os artistas do Modernismo brasileiro dignaram-se em fazê-las. Procuramos entender as obras dentro de suas épocas não instituindo uma valoração do passado a partir dos interesses do presente. A análise que instauramos procurou dar conta dos poetas e obras dentro dos interesses que as épocas lhes suscitaram. 16
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    Os diferentes discursosda nossa literatura, aqui expostos, deixam de ser antagônicos na medida em que neles não se observam agitadas polêmicas à Questão Coimbrã5, ou à Semana de Arte Moderna6, por exemplo. Muitos outros poetas, artistas da Segunda Parte, poderiam ser mencionados neste trabalho, dada a riqueza quantitativa e qualitativa de suas produções. Todavia, aqui não se encontram por se verificar que o recorte temporal escolhido para o estudo – A atualização da forma e do discurso literários a partir do surgimento do Núcleo de Ensino Superior do Trairi – não dispõe de espaço mais longo do que o já utilizado. Fica, entretanto, a certeza de que as muitas entrevistas realizadas - inclusive muitas delas com pessoas octogenárias, testemunhas oculares de fatos aqui relatados –, a ampla bibliografia consultada somadas à vivência do pesquisador nos meios literários serão de grande relevância aos estudiosos do presente e do futuro da arte da palavra para as suas dissecações teóricas futuras. As análises e as comprovações destas diferentes visões destinam-se, portanto, a unir e a difundir o máximo possível a literatura local, para que ela venha a ocupar lugar proeminente na cultura regional. Fazemos nossas as palavras do crítico literário Antônio Cândido no clássico Formação da Literatura Brasileira: Comparada às grandes obras, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos ninguém o fará por nós. Se não lermos as obras que a compõe, ninguém as tomará do esquecimento, descaso ou incompreensão7. 5 . Polêmica que se deu em Portugal, em 1865, entre os jovens poetas e prosadores e seus antigos mestres. Os jovens estudantes da escola de Coimbra já se interessavam pelas novas correntes filosóficas, científicas e artísticas. Os antigos, entretanto, rejeitavam-nas. Clenir Bellezi de Oliveira, Arte Literária, São Paulo: Ed. Moderna, 2002, P. 259. 6 . Marco inicial da literatura modernista brasileira. A Semana De Arte Moderna se deu em São Paulo nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922. Esse movimento artístico revolucionário defendia a liberdade de criação em todas as artes. José de Nicola, Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias, São Paulo: Ed. Scipione, 2001. p. 272. 7 . Antônio Cândido, Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos, 6ª Ed., Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda., 1981. p. 346. 17
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    I PARTE UM PRESENTEDO PASSADO “Todos cantam a sua terra Também vou cantar a minha.” (Casemiro de Abreu) CAPÍTULO I 18
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    DA FUNDAÇÃO ÀDÉCADA DE 20, LITERATURA AO SOM DA RABECA Santa Cruz, “... deve datar a sua fundação no ano de 1825 e a prova está neste motivo quando se fez a demolição da Igreja Matriz, de existência secular, para a construção de outra igreja maior, no mesmo local, foi encontrada, na cobertura da igreja, uma telha, na qual estava escrita a data de 18258”. Dessa data até as primeiras décadas do século seguinte, poucos documentos (oficial ou não) fazem referência a poetas e escritores locais que tenham se destacado ou publicado alguma obra literária. As informações registradas, acerca desse período, encontramos na obra de Luís da Câmara Cascudo, em Tradições Populares da Pecuária Nordestina, de 1956; José Fernandes Bezerra, em Retalhos de meu sertão, 1978; ou nas poesias do poeta Cosme Ferreira Marques9, como “Cara Preta”, poesia publicada no livro Canastra Véia, de 1946, a qual faz referência a um pobre homem das primeiras décadas do novo século, mendigo, vindo de um pequeno povoado, hoje a cidade de São Bento do Trairi, a 15 quilômetros de Santa Cruz e que vivera abandonado nas ruas da cidade a cantar hinos religiosos nas procissões de Santa Rita de Cássia, padroeira de Santa Cruz, ou a recitar poesias de autoria desconhecida. O poeta Marques assim o descreve em seu poema: Surgiu como fantasma na cidade; Vindo talvez de um pequeno povoado, Cantar, era única felicidade E cantava, sublime triste e maguado: -“Quando o sol nace é rei, a mei dia ele é morgado, di tarde é isfalecido di noite é serputado”- Durante muito tempo, sua voz se ouvia, Ao belo alvorecer de um novo dia 8 . Monsenhor Severino Bezerra, Memória Histórica de Santa Cruz, Natal: Editora Natal Gráfica, 1984, p.6. Entretanto encontramos a seguinte informação em Marcus César Cavalcanti Morais, Terras Potiguares, Natal: Editora Clima, junho de 1998, p. 227: “No ano de 1830, José Rodrigues da Silva, proprietário da Fazenda Cachoeira, aliou-se a dois irmãos, José da Rocha e Lourenço da Rocha, novos proprietários de terras na localidade e deu início à fundação da povoação de Santa Rita da Cachoeira, situada na Malhada do Trairi.” 9 . Cosme Ferreira Marques é um dos principais poetas de Santa Cruz nas décadas de 30 e 40 do século XX. 19
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    Ou a belatardinha o ocaso quase posto: Uma manhã, calou-se para sempre o canto, Ele morrera, partira sem um pranto Ao raiar de uma formosa manhã de agosto10. 1. 1. FABIÃO DAS QUEIMADAS – O POETA DOS VAQUEIROS Sem dúvida nenhuma, o grande nome da literatura de Santa Cruz, do final do século XIX ao início do século XX, é Fabião Hermenegildo da Rocha (1848 – 1928), o famoso Fabião das Queimadas, natural da fazenda Queimadas, então município de Santa Cruz, hoje pertencente ao município de Lagoa de Velhos. O cantador negro Fabião das Queimadas foi poeta popular das vaquejadas no Agreste do Rio Grande do Norte. Escravo do fazendeiro José Ferreira da Rocha, juntou vintém a vintém, seu pecúlio e alforriou-se, assim como sua mãe e uma sobrinha, Joaquina Ferreira da Silva, com quem casou. Pagou 800$000 (oitocentos mil réis) por si, 100$000 (cem mil réis) por sua mãe e 400$000 (quatrocentos mil réis) pela futura esposa. Cantava acompanhando-se com a rabeca fanhosa e fiel, pondo-a à altura do peito como os menestréis clássicos11. Diziam as más línguas que Fabião era filho apanhado do fazendeiro José Ferreira da Rocha com uma escrava sua. E não é de admirar, pois naquele tempo eram muito comuns os amores ilícitos entre os senhores de escravos, ou seus filhos, e as escravas. E o velho Zé Ferreira, segundo contavam seus contemporâneos, não fugiu à regra da época. Do afeto do fazendeiro pela jovem escrava, na senzala, ou quem sabe por trás das moitas, foi que a escrava engravidou. Nove meses depois vinha ao mundo o, também, escravo Fabião. Contam que o próprio poeta não negava que realmente era filho bastardo do senhor das Queimadas. Segundo seu filho, Filipe Ferreira da Silva, o pai havia iniciado sua vida de cantador ainda muito jovem. Fabião das Queimadas nasceu poeta. Não teve nenhum curso, não estudou em parte alguma. À sua rabeca dedicou esta redondilha: 10 . Cosme Ferreira marques, Canastra Veia, Natal-RN: Tipografia Galhardo, 1946, p. 36. 11 . Luís da Câmara Cascudo, Tradições Populares da Pecuária Nordestina, Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura, Serviço de Informação Agrícola, 1956, p.42. 20
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    Minha rabequinha é meus pés e minhas mão, é meu roçado de milho, minha planta de feijão, minha criação de gado, minha safra de algodão12. O Senador Eloy de Souza, que era negro, assistindo a uma apresentação de Fabião das Queimadas, na residência oficial do então governador Ferreira Chaves, recebeu do famoso poeta esta saudação: Seu Doutô Eloy de Souza Minha mãe sempre dizia, Se o senhor não fosse rico, Era da nossa famia13. O Senador gostava tanto de Fabião que, sempre que podia, patrocinava-o nos grandes festivais de repentes e de vaquejadas pelo Nordeste afora. O senador muitas vezes insistia que o poeta negro se hospedasse em sua residência, quando este se encontrava em Natal para participar de cantorias. Entretanto, Fabião preferia a residência e a companhia de seu grande amigo, Luís da Câmara Cascudo. Encontramos muitas outras menções a Fabião das Queimadas: Era piqueno, mi alembru Du cantadô Fabião Su rebeca, seu baião Gêmedô Puéta provisadô; Nego véi inteligente Pirigoso nu repente Da puizia; Onde cantava, curria Um povão pra iscutá U puéta sem iguá 12 . José Fernandes Bezerra, Retalhos do meu sertão, Rio de Janeiro: Gráfica e Papelaria Leão do Mar Ltda., 1978. p. 5. 13 . Trecho da entrevista realizada com o senhor Manuel Macedo, em abril de 2001. 21
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    Na rêbêra; I cantava a noite intera Histára de apartação, Das vaquejada de então Qui havia; A sua rebeca gimia No seu Redondo sinhá, A gaiganta ritinia Num canto sintimentá14 Seu José Bezerra, contemporâneo dos poetas Cosme Marques, Luís Patriota e José Abdias15, lembra, com os olhos cheios de lágrimas, “de uns versinhos de Fabião que diziam assim: Minha mãe era pretinha, Pretinha que nem quixaba, Mas o seu nome era doce Tão doce que nem mangaba. Quando forrei minha mãe, A lua nasceu mais cedo, Pra clareá o caminho De quem deixava o degredo. O nome da mãe é doce Que nem a pinha madura Mas passa o doce da fruta E o doce do nome atura16.” Os poemas de Fabião das Queimadas eram musicados pela sua inseparável rabeca. Esses poemas, escritos ou cantados, remontam às cantigas trovadorescas, certamente influenciadas pelas cantigas líricas do Trovadorismo português17, com uma pequena mudança do foco temático: a vassalagem amorosa do trovador junto à mulher amada dá lugar a outra espécie de vassalagem, o amor cortês às vaquejadas, às pelejas de trovadores, às apartações, à 14 . Cosme Ferreira Marques, op. cit., p. 34. 15 . Cosme Marques, Luiz Patriota e José Abdias foram, de acordo com as nossas pesquisas e análises os principais nomes da literatura de Santa Cruz, nas décadas de 30 e 40 do século XX. Não encontramos nas muitas buscas às suas obras nenhuma poesia de engajamento social. 16 . Dados de memória do senhor José Bezerra, historiador e contemporâneo de Patriota, Abdias e Marques, seus amigos. Entrevista realizada em janeiro de 2001. 17 . Trovadorismo é um movimento de caráter exclusivamente poético que se deu de 1189 ou 1198 a 1434. As composições líricas desse período são chamadas de cantigas porque eram efetivamente cantadas e recebiam acompanhamento de instrumentos musicais da época. Clenir Bellezi de Oliveira, op. cit., p.. 34. 22
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    obediência ao coronelda região, que, aliás, é visto como um ser inatingível, uma figura idealizada, a quem é dedicado uma respeitabilidade e atenção sublimes, igualmente idealizado, como fora a mulher nas cantigas de amor do Trovadorismo português, na Idade Média etc. Com relação à forma, os poemas são compostos em redondilhas 18, características marcantes nos poemas-cantigas da Idade Média; se nas cantigas líricas portuguesas era comum a utilização do paralelismo e do refrão ou estribilho no final de cada verso, o redondo sinhá era utilizado, pelos poetas populares do cordel, da rabeca e da viola nordestinos, como forma de introdução de cada novo verso. O poema “Vaquejada na fazenda Belo Monte19” contém trinta e nove sextilhas (estrofes de seis versos cada) de sete sílabas poéticas - redondilha maior - muito bem rimadas e ritmadas. Nessa poesia, ele fala da beleza que foi a vaquejada, realizada na fazenda Belo Monte, município de São Paulo do Potengi, propriedade do coronel Manoel Adelino dos Santos, no mês de outubro de 1921. Descreve as proezas dos principais puxadores do Sertão, do Seridó, do Trairi, do Potengi, faz referência aos pratos típicos do Nordeste, enaltece a qualidade dos cavalos e bois, faz elogios a bondade dos coronéis da região; enfim, Fabião desfila sua arte, agrada o povão e, inconscientemente, o seu discurso harmoniza-se com o discurso e os interesses das elites dominantes da região. Leia a primeira e a última das trinta e nove sextilhas desse poema: Eu peço a vosmicês todos Os senhores que aqui tão, Olhe lá, escute bem O que diz o Fabião. Vou contá o sucedido De uma apartação. (...) Teve homes ilustrado, Doutores e capitão, Onde tava seu vigaro 18 . Também conhecida por medidas velhas, a redondilha menor é a composição poética que apresenta cinco sílabas poéticas em cada verso, e a redondilha maior é a que apresenta sete sílabas poéticas em cada verso. 19 . José Fernandes Bezerra, op. cit., pp. 22 – 23. 23
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    Junto com osacristão. Porém nenhum deles fez O que fez o Fábião20. O poema “Romance do Boi Mão de Pau” é a epopéia do Ciclo da Pecuária Nordestina. O poema contém quarenta e oito sextilhas, todas em redondilha maior. Nele, Fabião personifica o Boi Mão de Pau, que é o valentão, o rei das vaquejadas, derrubador dos vaqueiros derrubadores. Fala, ainda dos tempos de apartação e de muitos outros aspectos da pecuária. Leia a primeira e a última sextilhas desse poema: Vou puxá pelo juízo Pra se sabê quem eu sou Mode se sabe dum caso Ta quá ele se passou, Que é o boi liso-vermeio, O Mão de Pau corredô. (...) Já morreu, já se acabou, Está fechada a questão. Foi-se embora dessa terra O dito boi valentão. Pra corrê só Mão de Pau, Pra verso só Fabião21. De acordo com José Fernandes Bezerra: As suas cantorias sempre repetiam o seu ‘Redondo, Sinhá’, que era uma espécie de coro. Em determinados versos, também servia de prefixo. Dizem que era quase analfabeto. Gostava de ditar para alguém escrever versos ou quadrinhas de sua autoria.Extraviou-se em noventa por cento a sua produção É lamentável, mas infelizmente o folclore do Rio Grande do Norte muito perdeu da literatura de cordel do famoso poeta dos vaqueiros.22 Para alguns estudiosos, só se pode falar em literatura quando há um texto escrito. Para outros, existe ainda a chamada literatura oral, aquela que persiste pela transmissão oral, não escrita. Os cantadores de viola se incluiriam nesta categoria. A literatura de cordel é uma manifestação que emprega os dois registros: o oral e o escrito. A figura dos violeiros que 20 . José Fernandes Bezerra, op. cit., p. 22. 21 . Ibidem, Idem, p. 23. 22 . José Fernandes Bezerra, op. cit., p. 24. 24
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    cantam os versos,por exemplo, é indissociável dos livretos que trazem o texto recitado por eles23. Era comum a literatura de cordel ser classificada como sendo de pouco ou nenhum valor. Hoje em dia, o cordel passou a ser estudado como fonte não apenas literária, mas, sobretudo, histórica. Do final do século XIX às duas décadas do século seguinte, Fabião era unanimidade na nossa região. Henrique Castriciano, Ferreira Itajubá, Nísia Floresta, Auta de Souza, Segundo Wanderley ainda escreviam, no plano estadual, à Castro Alves, Tobias Barreto e, muito incipientemente, à Bilac e Machado de Assis. Euclides da Cunha e Lima Barreto, ao que parece, não tinham desembarcado o seu Pré-Modernismo em terras potiguares. Mário, Oswald e suas revoluções de 1922 não se faziam presentes nas produções dos nossos famosos provincianos. Os versos de Fabião não se enquadravam nas tradicionais funções literárias, quais sejam a da arte pela arte, a da literatura como mecanismo de evasão, a da literatura como forma de conhecimento do mundo e do homem, a da literatura como catarse; seus versos não acompanhavam os modelos, as técnicas e as temáticas então vigentes em sua época; a sua arte não se figuraria em uma literatura cujo fazer poético fosse utilizado como instrumento de denúncias das injustiças sociais. Como vimos, Fabião não usou suas obras para tal finalidade. Fabião era homem simples, negro, escravo alforriado, totalmente desprovido de ideologia política. Não se podia cobrar questionamentos sociais em suas obras. Na verdade, suas canções líricas eram a expressão de seus mais sinceros sentimentos. Fabião, com suas cantigas líricas, registrou a cultura local, divertiu as camadas populares e brindou os palácios do poder. O Trovadorismo português, com uma nova roupagem, marca presença em terras nordestinas. 23 . Para maiores informações acerca da literatura de cordel veja: Marinalva Vilar de Lima, Narradores do Padre Cícero: do auditório à bancada, Fortaleza-Ce: edições UFC, 2000. Há nesta obra muitas referências aos pesquisadores que se dedicaram ao estudo da Literatura de cordel brasileira e portuguesa. 25
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    CAPÍTULO II DÉCADA DE 30: DOMÍNIO OLIGÁRQUICO VERSUS REFORMISMO IGUAL A LITERATURA DE EXALTAÇÃO No plano nacional, a Revolução de 30, o Estado Novo, o Levante Integralista, a Intetona Comunista, a questão trabalhista, a revolução constitucionalista de 1932 em São Paulo, a Constituição de 34, a ditadura do Estado Novo, são aspectos relevantes no contexto histórico da nação a que a literatura local não destinou um único verso. E, em terras potiguares, aspectos históricos importantes como o cangaço, as secas, a Intetona Comunista, a violência da campanha eleitoral, que colocou Rafael Fernandes no Palácio Potengi, poderiam ter se transformado em temas interessantes, não só para o registro da história, como para o prazer estético do leitor. Nem mesmo os acontecimentos mais relevantes da cidade nessa época, tais como o surgimento dos partidos políticos e a eleição do primeiro prefeito de Santa Cruz, Cel. Ezequiel Mergelino de Souza; a destituição desse prefeito eleito após dez meses de mandato; a nomeação do interventor Cleto Antunes de Lima, indicado pelo Movimento Revolucionário Militar; a inauguração do mercado público municipal; a instalação da primeira linha telefônica – Santa Cruz – São Tomé; a inauguração do Grupo Escolar Quintino Bocaiúva; os lançamentos dos jornais O Trairy, O Ideal e O Infantil, que fizeram Santa Cruz viver intensamente suas agitações políticas e sociais, foram merecedores da atenção dos poetas locais. De acordo com as nossas pesquisas no campo da literatura local, é provável que os poetas santacruzenses não tenham nem tomado conhecimento da realização da Semana de Arte Moderna. Não encontramos registro literário algum que fizesse menção a esse evento, responsável pela introdução do Modernismo brasileiro. 27
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    Aliás, o Modernismoda Primeira Fase pretendia colocar a cultura brasileira a par das correntes de vanguarda do pensamento europeu, ao mesmo tempo em que pregava a tomada de consciência da realidade brasileira. As muitas polêmicas, os muitos manifestos, os versos postos em liberdade, todos os temas, da réstia de cebola, à paixão exarcebada, foram tidos como poéticos; enfim, a Primeira Fase do Modernismo brasileiro, a Fase Heróica, de 1922 a 1930, projetou no cenário nacional poetas e escritores corajosos e sedentos por mudanças, tanto na estrutura formal de suas obras quanto nas suas temáticas. Essas idéias, com certeza, não tinham chegado ainda em Santa Cruz. No plano estadual, o poeta Jorge Fernandes 24 chama a atenção para as inovações modernistas. A década de 30 marca o início de um novo gênero literário no Brasil, o conto. A literatura de Santa Cruz continua vivendo sua “belle époque”, não repercutindo as inovações propostas pelos artistas da Semana de Arte Moderna. Poetas como Cosme Ferreira Marques, Luís Patriota e José Abdias continuavam presos àquela arte burguesa de exaltação às famílias tradicionais, à religiosidade, ao nacionalismo citadino, características marcantes da literatura romântica do século XIX, sem, portanto, assumirem qualquer compromisso com as questões sociais. A literatura local, surpreendentemente, não quis repercutir as temáticas político-sociais que, diga-se de passagem, são riquíssimas, principalmente a da Intetona Comunista, que teve seu desfecho na Região do Trairi, na Serra do Doutor, a menos de 30 quilômetros de Santa Cruz. Os artistas desta arte optaram pelo caminho do não rompimento com o passado e presente de glórias, em suas obras; optaram pela ausência de registros de fatos relevantes do ponto de vista histórico; preferiram não fazer de suas obras veículos de denúncia daquela realidade. Os poetas continuaram utilizando-se das técnicas tradicionais para transmitir a sua arte. 24 . Poeta potiguar que se preocupou em divulgar as inovações que o Modernismo apregoara. Para obter maiores informações sobre a literatura potiguar, podemos consultar Tarcísio Gurgel Informação da Literatura Potiguar, Natal –RN: Ed. Argos, 2001. 28
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    O novo sempreassusta aqueles que estão no poder, e é claro que os artistas nacionais viviam o patrulhamento político, em função do novo que se propunha e de suas posturas ideológicas. As agitações literárias com suas intensas polêmicas temáticas e formais eram uma rotina na década de 30. O professor Antônio Cândido, eminente crítico literário, testemunha num artigo publicado no livro Recortes: Em 30 nós vivemos o problema do realismo, ou neo-realismo, socialista ou não, bem como a incorporação daquilo que as vanguardas do decênio anterior tinham proposto como inovação. Vivemos um grande surto do romance, ligado aos pontos de vista opostos na moda pela sociologia e a antropologia, como um triunfo do social contraposto às tendências espiritualistas e religiosas. Houve dilaceramentos e disputas, com a formação de um antipólo metafísico e as mais rasgadas polêmicas que marcaram todos nós. Quando comecei a fazer crítica literária, pouco depois de 1940 (auge do Estado Novo, da censura e do arrocho), senti que uma das tarefas era oferecer blindagem ideológica para os romancistas mais significativos do decênio de 30, coisa que hoje há de parecer incompreensível, pois eles se tornaram incorporados aos hábitos de leitura como coisa óbvia.25 A literatura local continuava, entretanto, totalmente desvinculada da literatura nacional. Os nossos poetas optaram em não polemizar com quem quer que fosse, tendências literárias, poetas emergentes, tampouco com políticos, fazendeiros, coronéis etc.; continuaram priorizando o gênero lírico e suas formas tradicionais; não refletiram sequer o momento histórico do final do século XIX, o evolucionismo, o positivismo, o materialismo, o determinismo; enfim, não repercutiram o não-eu, o cientificismo do Realismo nem as inovações propostas pela Semana de Arte Moderna. Não foram encontrados nos jornais caseiros dessa época quaisquer indícios das inovações ocorridas na literatura do eixo Rio-São Paulo. Os redatores desses veículos de comunicação, muitas vezes, eram os próprios poetas. 2. 1. OS JORNAIS LOCAIS E SEUS DISCURSOS 25 . Antônio Cândido, Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos, 6ª Ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda., 1981, p. 348. 29
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    O jornal Infantil,de circulação efêmera, apenas seis números quinzenais, publica, no dia 15 de fevereiro de 1931, uma poesia, de autoria desconhecida, que valoriza uma conquista dos jovens rapazes que formavam a equipe de futebol Trairi Clube: a posse de um terreno baldio, outrora um cemitério, para a prática do futebol. A prática desse esporte naquele terreno – hoje lá estão o Bradesco, a Telemar, a Caixa Econômica e o Banco do Nordeste - foi motivo de muito bate-boca com a igreja - que não admitia, em hipótese nenhuma, um “desrespeito” daqueles – e com as autoridades municipais, que sempre comungavam com a igreja. Os rapazes, valendo-se da tese segundo a qual a prática do esporte é salutar à vida, ganharam a causa e o pequeno jornal fez-lhes a homenagem: Parabéns oh mocidade nós enviamos daqui aos rapazes valorosos do altivo Trairi que sem desfalecimento num constante trabalhar fizeram do Cemitério Santa Cruz ressuscitar26. Neste fragmento do poema, observamos que o mesmo não leva a assinatura de seu autor. Acreditamos que fosse uma forma de não se expor, para não se indispor com o clero e as elites dominantes daquela época. O jornal O Ideal, jornal dos namorados, ajudou a registrar a História de Santa Cruz na década de 30. Seu primeiro número circulou em 1931, manuscrito, conforme declarado em sua edição de 31 de dezembro de 1938, feito em comemoração ao oitavo ano de sua fundação. O poeta Cosme Ferreira Marques (Jeca Tábua) era o diretor, o senhor José Bezerra, o gerente. Zé Galvão, Pedro de Tico, e alguns outros ajudaram a fazer esse veículo que tratava de cinema, poesia, aniversários, fofocas, falecimentos, etc. 26 . Monsenhor Severino Bezerra, op. cit., P. 33. 30
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    Outro jornal queajudou a divulgar, não só a poesia de Santa Cruz, mas, sobretudo, o passado de glórias da cidade, foi O Trahiri. Esse jornal circulou durante todo o ano de 1932 e era tido como um Órgão da Sociedade Educacional Santacruzense. O seu diretor era o poeta Luís Patriota; Horácio F. da Rocha, seu gerente. Composto e impresso em tipografia própria mantinha redação e oficinas à Rua Dr. Pedro Velho. Cobrava por assinatura anual 10$000, semestral 6$000, número avulso $200 e atrasado $400. Assuntos como Santa Cruz e a construção do açude Inharé, Ferreira Itajubá27, a seca de 32 (numa perspectiva natural, nunca político-social), futebol, júri, concursos de beleza; Euclides Rodrigues de Carvalho, poesia, cinema, além de fazer uma verdadeira apologia a administração do então prefeito Miguel Rocha e ao seu sobrinho, o secretário Miguel Rocha Sobrinho. Não encontramos, nesses jornais, visões críticas da sociedade. É como se em Santa Cruz tudo fossem flores. 2.2. ABDIAS E A PRIMEIRA ANTOLOGIA DE SANTA CRUZ Rimário de Poetas Brasileiros, antologia de poetas nacionais, regionais e locais, publicada em 1938, pela Tipografia “O Trairi”, compilado pelo poeta Abdias Gomes de Almeida Bezerra, é, de acordo com a nossa pesquisa, o primeiro livro a divulgar as obras literárias dos poetas de Santa Cruz. Abdias nasceu no dia oito de novembro de 1884 na cidade de Araruna-PB e faleceu em Santa Cruz no ano de 1942. Estabeleceu-se em Santa Cruz ainda bastante jovem. Era um pequeno comerciante apaixonado pela literatura. Grande parte de suas pequenas economias eram destinadas à aquisição de manuais de literatura. Conseguiu, junto ao seu amigo Luís 27 . Nascido em Natal em 1876, Ferreira Itajubá era de família extremamente pobre, e assim viveu. Ingênuo e puro viveu contemplando as belezas naturais de sua terra, ao estilo árcade. Morreu na miséria em 1912. Podemos encontrar mais elementos em Constância Lima Duarte & Diva Cunha Pereira de Macedo, Literatura do Rio Grande do Norte: antologia, Natal-RN: Governo do Estado do Rio Grande do Norte, Fundação José Augusto, 2001. p.121. 31
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    Patriota – diretorda Tipografia, um bom desconto para publicar o livro Rimário de Poetas Brasileiros. Essa antologia é composta por 113 poemas das mais variadas formas. 47 poetas participam dessa antologia: José de Lorena, Pereira da Silva, Palmira Wanderley, Perillo de Oliveira, Olegário Mariano, Luís Patriota, Auta de Souza, Segundo Wanderley, Casemiro de Abreu, Castro Alves, Otoniel de Menezes, Múcio Teixeira, Herotides de Campos, Luís Peixoto, Joaquim Lima, F. das Chagas Batista, Carlos Cermiciary, Valquíria Leite Dutra, Joaquim Guilherme, Catulo Cearense, Mendes Martins, Augusto dos Anjos, Da Costa e Silva, Carolina Vanderley, Gotardo Neto, Abdias A. Bezerra, Pe. Pedro Paulino, Maria Carolina, Olavo Bilac, Cerquinho Nunes, Damasceno Vieira, Ponciano Barbosa, Pinto Coelho, Péricles Maciel, Luís Pistarine, Pe. Antônio Tomaz, Júlio Salusse, Aníbal Teófilo, Jorge de Lima, Venceslau de Queiroz, Ferreira Itajubá, Carlos Dias Fernandes, Zeferino Brasil, Guimarães Júnior, H. Castriciano, Genar Vanderley e Afonso Celso. Esse livro, como bem disse Abdias no prefácio: ...teve por objetivo coligir rimas esparsas muitas delas prestes a desaparecer, por entre a poeira dos tempos. No número destes compreende-se essa falange de moços de então, contemporâneos nas eras de 1900, filhos e admiradores da primorosa terra de Pereira da Silva e Perillo de Oliveira. Quando estes tangiam as suas lyras aedas e conosco cantavam as musas de nossa esplêndida mocidade28. São recorrentes nas obras de Abdias as temáticas do medo, do amor, da saudade, especialmente a da terra natal. A lembrança da infância querida observada no poema Dia dos Meus Anos assemelha-se às inquietações líricas de Casimiro de Abreu29: Oito de Novembro. Ano de oitenta e quatro, Nasci. Quanta ledice no solar paterno. 28 . Abdias Gomes de Almeida Bezerra, Rimário de Poetas Brasileiros, Santa Cruz – RN: Tipografia “O Trairi”, 1938. pp. 45-46. 29 . Poeta do Romantismo brasileiro da 2ª geração. Cantou o saudosismo em todas as situações: o saudosismo nacionalista e a saudade nostálgica da infância pura, acrescida da fixação sentimental na mãe e na irmã. José de Nicola, op. cit., p. 144. 32
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    Do planalto deAraruna, meu berço terno. Iluminado pelos fulgores do primeiro astro. Nasci, certamente naquele dia, naquela hora, A natureza era queda, maviosa e lenta. Por isso que, minh’alma melhor se alenta. No silêncio onde a saudade mora... Da mamãe! Quem saudades não tem! Ora essa!... Do primeiro beijo que inda ouço. Transportado nas asas da oressa!... Carícias de outros seres a lembrança me acode, Belos refletores, de minhas ilusões de moço Dessas ilusões, que o tempo suplantar não pode30! Nessa antologia, além de Abdias, destacam-se poetas como Joaquim Lima, que faz lembrar em seu poema Adeus, Santa Cruz, o saudosismo, o locus amoenos, características árcades segundo as quais a natureza é vista como um lugar ameno, aprazível, onde o homem poderia encontrar equilíbrio e paz: Adeus, Santa Cruz, que eu de ti vou me ausentar. Cheio de recordações ternas lembranças, Quando um dia a teu céu eu regressar, Quero ver-te cheia de luz e de esperanças. Auras balsâmicas de manhãs fagueiras, Tardes amenas de candidez e doçura, Estrelas mil que no firmamento adejas, Lua brilhante que no azul fulgura. Flores campestres de esplendor infindo, Árvores sombrias de um Sertão antigo, De tudo enfim que nesta terra é lindo, Saudades sôfregas levo-as eu comigo. Adeus, solo ubérrimo de esperança, Torrão querido de minha alegria, Adeus parentes, amigos da infância, Adeus, Santa Cruz,até um dia31... 2.3 LUÍS PATRIOTA, O “POETA DAS JANGADAS”. 30 . Abdias Gomes de Almeida Bezerra, op. cit., p. 47. 31 . Ibidem, Idem. p. 48. 33
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    Destacou-se também naantologia Rimário de Poetas Brasileiros o poeta Luís Patriota, natural de Touros, nascido em 25 de novembro de 1899 e falecido em 21 de dezembro de 1978. Ele foi colaborador do jornal A República, de Natal, fundou o jornal O Trairi, em 1932, em Santa Cruz. Luís Patriota pertenceu à Academia Norte-riograndense de Trovas e à Academia Potiguar de Letras. É conhecido como “poeta das jangadas”, por ter escrito muitos poemas inspirados nesse tema. Foi jornalista, juiz de paz, escrivão, advogado, promotor, professor e secretário da Junta Comercial do Estado. Em Santa Cruz, onde morou por muitos anos, trabalhou como Guarda-Livros (contador)32 dos Ferreira de Souza. Foi diretor da tipografia “O Trairi”, trabalhou também como professor, continuou fazendo o que mais gostava: escrever . Era poeta e escritor culto, exigente, adepto da poesia clássica, com ritmo, rimas e métrica impecáveis ou de poesias sem tais exigências formais, como O Meu S. João, em que o sentimentalismo, a religiosidade e a subjetividade de seu eu-lírico denunciam todo o Romantismo romântico de seus versos: Oh! Como eu te amo, meu bom São João! Noite de encantos e de prazer! Pela mais doce recordação Com que me envolves o coração, Da melhor quadra do meu viver. Revejo agora com os olhos d’alma Entre coqueiros a farfalhar, A pobre vila, que é a minha palma, Meu céu de affecto, onde se acalma Toda a amargura do meu sonhar... E que revoadas de tradições, De coisas lindas e primitivas, Ao doce embalo das ilusões, No céu das minhas evocações, Deslumbradoras, radiantes,vivas!...33 Luís Patriota, em Carta Aberta, fez a seguinte declaração sobre o livro Rimário de Poetas Brasileiros, do compilador Abdias Almeida: 32 . Guarda-Livros é atualmente o profissional que trabalha em escritório de contabilidade. Toda a contabilidade da tradicional e oligárquica família Ferreira de Souza fora entregue aos cuidados de Luiz Patriota. 33 . Abdias Gomes de Almeida Bezerra, op. cit., p. 49. 34
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    Falar do Rimáriode Poetas Brasileiros é mister, antes de qualquer outra coisa, volver os olhos d’alma aos longes esmaecidos de um passado, que tanto nos pode ter sido feliz como desditoso. Pouco importa... Todos nós, venturosos ou não, temos sempre um passado a recordar! E eu, que vivo do passado, sinto que a minha felicidade consiste unicamente em revivê-lo, nos meus momentos de meditação e de tristeza!..34 O passado, portanto, não o seu presente, nem o seu futuro, é, segundo Patriota, a inspiração da sua obra. Patriota publicou as seguintes obras: Livro d’alma35 e Poemas das jangadas36. A literatura de Santa Cruz, da década de 30, manteve-se isolada do resto do país, não foi contaminada pelo espírito demolidor dos valores tradicionais que traziam os artistas da primeira fase do Modernismo brasileiro, a fase heróica; não se manifestou à Pau-Brasil e nem à Verde-Amarelismo e tampouco “Antropofagiou” como fizeram seus irmãos famosos da região sudeste do Brasil. As narrativas em prosa, que conheceram um notável desenvolvimento desde o final do século XVIII, inexplicavelmente ainda não se faziam presentes na literatura de Santa Cruz. Escritores como José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Lima Barreto, etc., compunham a biblioteca de Luís Patriota, Cosme Marques e tantos outros intelectuais da literatura local. Entretanto, estes não se deixaram influenciar por aqueles, e Santa Cruz não teve o privilégio de ler em prosa a sua cultura, os seus costumes, a sua gente, a sua história. A literatura desse período, portanto, optou por dar ênfase a seus heróis, seus coronéis, exaltar seu passado histórico, deu ênfase à religiosidade e às datas natalícias de seu povo; supervalorizou as emoções pessoais; optou por não cantar as questões sociais, tais como o cangaço, o messianismo, a seca, os acordos espúrios na política; não repercutiu o domínio oligárquico nem o reformismo dessa época. Enfim, a literatura santacruzense da década de 30 manteve-se fiel ao conceito, até então, praticado pelos seus poetas, principalmente Luís 34 . Jornal O Trairi. Seção Literatura. Santa Cruz-RN. 1938. 35 . Luís Patriota, Livro d’alma, Recife: Imprensa Industrial, 1922. (Poesias). 36 . Luís Patriota, Poemas das jangadas, Santa Cruz – RN: Tipografia O Trairi, 1933. 35
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    Patriota, segundo oqual ela deve ser a expressão e a realização do belo literário, da meditação e da tristeza, da recordação de um passado feliz, sem comprometimentos extras. CAPÍTULO III DÉCADA DE 40: A ESTÉTICA DA GRATIDÃO 36
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    É na décadade 40, mais precisamente em 1942, que o Brasil entra na segunda grande guerra. O Rio Grande do Norte vivia intensamente o desenrolar do conflito. Parnamirim e Natal recebiam um grande contingente militar norte-americano37. O Estado Novo de Getúlio Vargas precisava legitimar-se perante a opinião pública. Com essa finalidade, foi criado em 1939 o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) o qual se encarregou de fiscalizar todas as atividades culturais e jornalísticas. O programa radiofônico A Voz do Brasil não se cansava de endeusar o presidente Vargas38. Santa Cruz dava boas-vindas ao IBGE, ao Instituto Cônego Monte, aos primeiros protestantes e à sede dos escoteiros39. Na literatura nacional, destacavam-se as gerações de 30 e de 45, a poesia Pós- Modernista e a prosa regionalista. Os poetas das Gerações de 30 e de 45, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cecília Meireles e João Cabral de Melo Neto, assim como os prosadores Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Érico Veríssimo e Jorge Amado não eram famosos na terra de Santa Rita de Cássia. Não encontramos, dessa década em Santa Cruz, nenhum indício das inovações temáticas e lingüísticas introduzidas pelos artistas nacionais que viveram o período, como por exemplo a tentativa de disciplinar a linguagem literária, tão desregrada pelo liberalismo exagerado dos modernistas de 22. O fato é que, pela terceira vez no século XX, as letras brasileiras apresentaram novo ciclo de renovação, tanto na poesia quanto na prosa. O elemento norteador dessa fase foi, 37 . Para mais informações ver: Luiz Eduardo Brandão Suassuna, Anotações sobre a história do Rio Grande do Norte, Natal – RN: Editora Clima. 1998. 38 . Mais informações sobre esse assunto o leitor pode encontrar em Florival Cáceres, História do Brasil, São Paulo – SP: Editora Moderna, 1995, pp. 290 – 91 -92. 39 . Mais elementos ver: Hermano Amorim, Santa Cruz nos caminhos do desenvolvimento, Natal – RN: Editora Santa Maria. 1998. 37
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    sobretudo, as novaspesquisas formais, expressas no estilo personalístico de autores estreantes, cada um deles com seus aspectos próprios40. No plano estadual, a literatura se ressentia, pelo menos no campo editorial no período entre o final dos anos 20 à segunda metade de 40, de uma atividade literária mais consistente. A Temporada Literária, ocorrida na década de 30, foi uma tentativa de movimentar a literatura local41. Não encontramos nas obras literárias de Santa Cruz, nem tampouco nos jornais caseiros da década de 40, os famosos embates entre os Modernistas e os Neomodernistas, protagonizados por críticos literários como Sérgio Millet, Tristão de Ataíde, Périplo Eugênio da Silva, entre outros42. Relevantes ou irrelevantes, dos muitos acontecimentos sociais, políticos, econômicos e literários, o fato é que os poetas de Santa Cruz, da década de 40, tais como Cosme Marques, Abdias Gomes e Luiz Patriota, continuaram cantando temas de exaltação de famílias tradicionais, o fazer poético e a saudade de seus passados, se utilizando das mesmas técnicas de outrora. Um tema que poderia ter sido bem aproveitado pelos nossos artistas da palavra é um dos problemas que mais diretamente aflige o homem simples da nossa região, a seca. Raras foram as vezes em que os poetas locais abordaram esse tema. Marques, ao enfocá-lo, descreve-o como um problema natural, isto é, não vincula a seca aos interesses dos coronéis da região que a tomaram como argumento poderoso para aquisição de vultosas verbas federais, cargos, benefícios em suas propriedades, prestígio e perpetuação no jogo do poder. A não abordagem desse tema pelos poetas locais, passa-nos a impressão de que eles entendiam que a seca não era um problema político. As autoridades, as elites que estavam no 40 . O leitor pode acrescentar mais informações sobre essas renovações literárias propostas pelos modernistas desse período em Faraco & Moura Língua e Literatura, São Paulo – SP: Editora Ática. 1998. pp. 499 -500. 41 . Caso o leitor tenha interesse em aprofundar os conhecimentos sobre esse assunto, deve consultar Tarcísio Gurgel, op. cit., p. 75. 42 . Maiores elementos em Clenir Bellezi de Oliveira, op. cit., pp. 480 – 81. 38
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    poder, não tinhamculpa da miséria do povo, dos flagelos causados pela seca. O problema era de ordem geográfica e meteorológica. Pelo contrário, as autoridades, as elites que estavam no poder, eram generosas com os flagelados, na medida em que chegavam com “soluções” emergenciais. Na década de 40, destacou-se o livro Canastra véia, citado anteriormente, do poeta, professor, agente municipal de estatística, Cosme Ferreira Marques, publicado em 1946, pela Tipografia Galhardo, de Natal. Cosme Ferreira Marques (1908 – 1959) nascera em Bananeiras-PB, mas viera para Santa Cruz com cinco anos de idade. Adotou Santa Cruz como sua terra querida, e Santa Cruz o adotou como seu poeta maior, em sua época. Seu Cocó, como era carinhosamente conhecido, usava o pseudônimo de Jeca Tábua, quando escrevia versos matutos ou de pés- quebrados. Ele nos dá, como bem disse Luís da Câmara Cascudo, no prefácio do livro Canastra Véia, ...uma lição de perseverança e de fidelidade letrada. Tudo que o podia desanimar e vencer não o desanimou nem o venceu. Passou epidemia, tempestade, crise, desalento, como um avião atravessa nuvem ou, lembrando um verso de Ferreira Itajubá : - um gume cortando polpas de maçãs maduras. Quando muita gente desanimou e virou homem prático, acabando rico e dispéptico, Jeca Tabua continuou poeta, poeta ,poeta43. O livro Canastra Véia está dividido em duas partes, a primeira é constituída de “pés - quebrados” numa linguagem matuta, toda regional. A segunda, como escreveu o próprio autor na apresentação, “... posso chamá-la de ‘Vibração d’Alma’. São cantos desferidos ao toque de um sentimento, quer de afeição, de dedicação e de gratidão, a amigos, filhos e protetores” [Grifos nosso]44. Como o próprio autor afirmou, suas composições poéticas são as mais puras expressões sentimentais de gratidão e de amizade. Entretanto, pode-se perceber que o poeta, 43 . Cosme Ferreira Marques, op. cit., p. 6. 44 . Cosme Ferreira Marques, op. cit., p.12. 39
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    sem qualquer intençãode analisá-los criticamente, menciona alguns aspectos da sociedade de sua época, como por exemplo o coronelismo, fenômeno que se caracterizou pelo clientelismo, pela troca de favores e pela obediência total e irrestrita ao coronel, presente no poema “arritirantes”, o qual refere-se à seca, à miséria, à humilhação e à morte, muito presentes em nossa região. Este poema, em hipótese alguma, deve ser lido com os olhos da crítica social, e sim, com os da admiração e da gratidão pelo socorro certo do coronel. O problema do sofrimento do homem comum, para o poeta, não é de ordem político-social, mas natural: Arritirantes... Ao Coronel Ezequiel Mergelino de Souza Coroné num sadimire Du istadoqui mi vê, Venho di riba du quimquê, Du sertúo: Mi arrepare meu patrão, A mizéra mi consome, Dois fio morreu de fome Nus caminho; Aqui patrão, to sozinho, Morto di fome, cançado... A famia, ali nu quebrado Mi ispéra, Cum fome, mardita era Qui trás a seca terrive É duro Patrão, é horrive, Pra mim; Eu nunca mi vi assim, Nu istado qui mi vê, Vendu meus fio morrê Nus braço, Foi pra mim cumo um pedaço, Tirado do coração, Mi secorra coroné, Uma ismola meu patrão.45 45 . Cosme Ferreira Marques, op. cit., p. 22. 40
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    Marques também dáuma demonstração de que é poeta culto, ao escrever, em 1946, o soneto, Poesia, homenagem póstuma ao também poeta, seu amigo, do início do século, o culto Clovis J. de Andrade, de quem, infelizmente, nada foi encontrado: Rimas, abecedário cheio de harmonia, Pensamentos de um cérebro portentoso, Sentir em verso, a própria poesia De um ser inteligente e ardoroso. Ser Poeta, é caminhar numa via De um sonho tão lindo e majestoso, É lançar ao mundo, um canto de magia O hino dum rimário glorioso. Ser Poeta, é sentir a dor, a alegria É rimar numa suprema agonia, Uma vida, um mundo, um Universo; Ser Poeta, é amar, gozar, sofrer, Ser Poeta, é em sonhos reviver Vida e alma na estrofe de um verso.46 Foi a década de 40 uma extensão da de 30, com a sua poesia de exaltação e de desvinculação total com os principais poetas e escritores do país. CAPÍTULO IV A GERAÇÃO DE 50 46 . Ibidem, Idem, p. 32. 41
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    Os acontecimentos históricosaté pareciam se oferecer à literatura como fonte de inspiração. Foi assim, também, com a década de 50, pois muitos fatos relevantes aconteceram nesse período: o governo Vargas, o populismo e o nacionalismo econômico, a criação da Petrobrás, a crise institucional, a perda da Copa, o suicídio e a sucessão de Vargas, a inauguração da TV, o desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek, são alguns exemplos que podemos citar47. No Estado do Rio Grande do Norte, essas “fontes de inspiração” também se ofereciam aos nossos poetas locais. Com o fim da Segunda Guerra, a redemocratização trouxe, no campo político, um sopro de novidade: um mossoroense, Dix-Sept Rosado emergiu ao poder estadual, com seu companheiro de chapa Sílvio Pedroza. Um acidente aéreo levou o intelectual Pedroza ao poder, e uma de suas atitudes, contraditórias por demais, foi a de fechar o jornal oficial A República, grande incentivador da cultura no Estado48. Ao nosso ver, não se pode, em hipótese alguma, exigir que a literatura narre os acontecimentos históricos. Nesse sentido, ela tem uma maior liberdade, podendo construir idéias, imagens, quadros que se afastem por completo do universo de experiências de uma época. Portanto, ao tomarmos a literatura enquanto objeto de estudo, não podemos exigir que ela estabeleça uma relação de total atrelamento com os fatos históricos, ainda que a mesma possa vir a estabelecer um diálogo com os acontecimentos de sua época, ou mesmo, os tome como fonte de inspiração. A nossa preocupação, desde o início deste estudo, era a de verificar se os poetas locais emitiam algum sinal de evolução em seu discurso e em suas técnicas, e se essa evolução literária se dava no mesmo ritmo da verificada no contexto histórico. Assim foi que, a questão do uso dos acontecimentos históricos enquanto motivo condutor das obras, foi observada 47 . Mais informações sobre esse assunto ver: Nelson Pillet, História do Brasil, 18ª ed., São Paulo – SP: Editora Ática, 1996. pp. 264 -65 -66. 48 . Mais informações ver: Luiz Eduardo Brandão Suassuna, Anotações sobre a história do Rio Grande do Norte, 2ª ed., Natal – RN: Editora Clima, 1998. pp. 33 – 34. 42
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    enquanto preocupação secundária.Logicamente que isso não implica dizer que não destinamos atenção para este aspecto, visto que no universo da produção literária nacional isso já vinha acontecendo há bastante tempo. Sempre à procura de indícios que nos permitissem afirmar que a nossa literatura já havia se sintonizado com a praticada nos grandes centros, fomos descobrindo que o material, até então publicado, só tratava do desenvolvimento econômico e social da nossa cidade, tais como a criação da Escola Normal Regional, do Hospital Maternidade Ana Bezerra, do Ginásio Comercial, do Trairi Clube, a construção da ponte Centro-Paraíso, a fundação do SESP. Algumas evoluções políticas, como a emancipação política de Lajes Pintadas, de São Bento do Trairi e de Tangará, pertencentes ao município de Santa Cruz49. A literatura, no eixo Rio-São Paulo, acompanhava o ritmo das mudanças verificadas nessa década no Brasil. A poesia dessa época foi muito rica em experimentalismos. Os irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari propuseram a poesia concreta. Em 1954, Ferreira Gular lança o livro A luta Corporal, com experiências poéticas que levam em conta o espaço em branco do papel e as possibilidades de diagramação da palavra em poesia, unindo significado e significante. Em 1956, houve a Exposição Nacional de Arte Concreta e se destacaram Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ferreira Gular e outros. É a década em que o grande poeta Carlos Drummond de Andrade se dedica totalmente à arte literária50. A literatura potiguar procurava sintonizar-se com a praticada nos grandes centros. De certa forma, essa sintonia já se percebia, na medida em que surgiam estudiosos e críticos literários, como o jornalista, poeta e crítico literário Antônio Pinto de Medeiros. Ele, em muitos casos, utilizava-se de sua coluna provocativa “Santo Ofício”, no jornal O Poti, para 49 Entrevistamos o senhor José Bezerra, historiador e contemporâneo dessa década, e dele ouvimos que os jornais A centelha e O Pif-Paf “noticiavam com muito entusiasmo os avanços políticos, sociais e econômicos da nossa cidade.” 50 . Sobre os experimentalismos na poesia desse período, o leitor encontrará mais elementos em Clenir Bellezi de Oliveira, op. cit., p. 558. 43
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    condenar ao fogoda sua crítica implacável a mediocridade provinciana da produção literária da época. Medeiros assinava essa coluna com o pseudônimo de Torquemada – terrível inquisidor espanhol51. Não encontramos nenhum inquisidor literário na década de 50, em Santa Cruz. O que descobrimos foi um grande número de jovens poetas. José Letácio Pereira, José Iválter Ferreira, Gurgel, Valente, Dante Madri, Odete, Antônio Borges, Adonias Soares, Jorge Quintiliano, Alexandre Ferreira Neto foram os poetas que mais se destacaram nesse período em Santa Cruz. Esses jovens poetas e escritores, juntamente com os já consagrados veteranos ajudaram a construir a história de Santa Cruz, sua poesia, sua música, sua arte nos parâmetros até então utilizados. Os jornais A Centelha – de vida efêmera - e O Pif-Paf foram os canais para a exposição de suas obras. O Pif-Paf era dedicado à Santa Rita de Cássia e circulou em maio de 1952 sob a orientação das redatoras H2O, conforme sua própria indicação. Cleuse, apresentando o jornalzinho, dizia que o mesmo era dirigido pela poetisa Margarida Meireles Bezerra e outras auxiliares. Escreveram o jornal Cleuse S. Fiúza, C. S. F. e Carlos Antunes. As notícias preferidas, além das já citadas anteriormente, eram as atividades da Igreja, as notas “bolindo” com rapazes e moças de Santa Cruz. A seção literária servia apenas para divulgar os poemas. Como foi dito antes, ainda não havia inquisidores literários em Santa Cruz. Com certeza, a ausência de críticos contribuiu para a estagnação da literatura local. Ainda nessa década, a produção literária e musical ganhou um reforço: a chegada do padre Émerson Deodato Fernandes de Negreiros, que se estabelecera nessa cidade de 12 de julho de 1952 a 31 de janeiro de 1965. “Padre Emerso”, como era conhecido, tocava acordeom, piano, órgão, lutava boxe, arrancava dente, receitava remédios e compunha 51 . Mais elementos o leitor encontrará em Tarcísio Gurgel, op. cit., p.77. 44
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    músicas, como aque fez por ocasião da fundação do Centro Normal Regional de Santa Cruz, em 1953, hoje Escola Estadual Francisco de Assis Dias Ribeiro: Viva o Centro Estudantil Tudo aqui é amor, fraternidade Quem não vem ao nosso Centro Ai não sabe gozar a mocidade. O nosso Centro, o nosso Centro É bom demais, é bom demais O nosso Centro é alegria O nosso Centro satisfaz52. Émerson sucedeu o monsenhor Alair na direção dessa Escola e foi sucedido pela professora Terezinha Cury. O Monsenhor compôs muitos cantos e hinos que se perderam no tempo, como o que fez em homenagem à chegada da energia elétrica no dia 2 de abril de 1963, em que Santa Cruz se tornara a primeira cidade do Estado do Rio Grande Norte a receber, não só a energia, como também a visita do então Presidente da República, João Goulart, para essa inauguração. Há de se registrar, também na década de 50, a participação do poeta boêmio Luís de Almeida, que não era dado à arte escrita, mas muito chegado às noitadas de serenatas com os amigos, regadas a cervejas, vinhos, cachaças e violões. Almeida, segundo seu grande amigo Leôncio Fernandes de Carvalho, era poeta sábio, romântico e saudosista. Pouco do muito que ele fez ainda insiste em permanecer na memória de seus contemporâneos: Ó Santa Cruz Minha terra querida Tu és minha luz Tu és minha vida Ó terra amada Como eu te adoro Minha terra querida Terra idolatrada Longe de ti choro53. 52 . Trecho de entrevista realizada com as professoras Terezinha e Neuza em outubro de 2000. 53 . Trecho de entrevista realizada com as professoras Terezinha e Neuza em outubro de 2000. 45
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    Nélson Patriota, irmãode Luís Patriota, também se destacou nessa década. Apesar de nenhum poema, crônica, conto, composição musical ou outras produções terem sido encontradas, muitos contemporâneos seus, ainda hoje vivos, afirmam que o escrivão de polícia da cidade de Santa Cruz era tão brilhante quanto o seu irmão, com uma pequena diferença: Nelson, além de poeta e compositor, era seresteiro, gostava das farras com seus amigos nas noites de luares, em sua residência. Ele transformava todas as suas alegrias em festas, ou melhor, em lindos poemas, os quais, com o seu inseparável violão, musicava. Era um poço de inteligência e sabia ser interessante. Seus filhos João, Panina e Nilson herdaram os dons artísticos daquele excelente e inesquecível cidadão54. Em 1952, Luís Patriota, eleito pela Academia de Trovas, decide ir morar na capital. Porém, antes de deixar a terra que tanto lhe admirava, dá um presente ao povo de Santa Cruz, ao escrever a letra do “Hino de Santa Rita de Cássia”. O Tenente José Gomes, então delegado da cidade, completa o presente ao musicar o hino: Santa Rita Padroeira Da Cidade Teu Altar Lá Do Céu Medianeira Manda Luz Do Teu Olhar Ó Santa Rita Doce Bendita És Nossa Vida És Nossa Luz Santa Querida Suave e Mansa És Esperança De Santa Cruz Santa Rita No Manto Todos Nós Buscamos Paz Acalenta Nosso Pranto Consolando Os Nossos Ais Nessa Terra Fervorosa Todos Buscam Teu Poder Vimos Todos Jubilosos Corações Te oferecer Santa Rita Nesse Dia Te Louvamos Com Fervor Quer no Pranto ou na Alegria Tu És Sempre o Nosso Amor55. 54 . Declaração do senhor Manuel Macedo de Oliveira em entrevista nos concedida em abril de 2001. 55 . Paróquia de Santa Rita de Cássia, Informativo, Santa Cruz, 16 de setembro de 2000. 46
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    A literatura localcontinuava utilizando-se das técnicas e temas de seus antecessores. Os hinos continuavam embalando a religiosidade, o saudosismo, a valorização da natureza, as paixões avassaladoras dos nossos poetas. É fácil encontrar algumas características árcades na poesia de 50: a busca de uma vida simples, bucólica, pastoril, a beleza dos pássaros, das ovelhas, das águas. Essas temáticas fluem com leveza nos poemas de Antônio de Pádua Borges; para muitos, era o poeta da palavra fácil. “Apresente-lhe um tema e ele faz nascer em pouco tempo uma poesia”, Diz com orgulho a sua filha Betânia Borges, herdeira dos dotes artísticos de seu pai. Em 1954, numa ocasião em que viu um urubu banqueteando-se, perguntaram-lhe o que ele diria sobre o urubu, e eis a resposta: Nada tenho o que dizer Quanto à vida do urubu Sei que o mesmo é asqueroso Conhecido de Norte a Sul Comendo só da desgraça Satisfeito vive e passa Talvez melhor do que tu. E sobre o mesmo urubu O que é fácil esclarecer Pois é ave de rapina Conforme a gente vê Só come o que é imundo Mas talvez viva no mundo Melhor do eu e você56. Borginho, como também é conhecido, nascera em Brejinho, em 11 de janeiro de 1924, desde a década de 40 faz de Santa Cruz sua morada, é poeta popular e autor dos cordéis A Tragédia das Águas em Santa Cruz – RN e A Rotina do Cangaço e as Garras de Lampião, ambos publicados através do projeto Chico Traíra, da Fundação José Augusto, na década de 80. Todavia, além de cordelista, sua antologia Sonetos e Poemas Diversos, lançada no dia 6 de outubro de 2001, é um resumo de suas principais poesias. São 148 poemas distribuídos em 56 . Antônio de Pádua Borges, Sonetos e Poemas Diversos, Natal –RN: Gráfica Santa Maria, 2001, p. 115. 47
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    redondilhas, baladas, sonetos,idílios etc. A sua temática, assim como a técnica utilizada, continuam fiéis às tradições. Como não poderia deixar de ser, os principais nomes da literatura santacruzense da década de 50 continuaram sendo Cosme Ferreira Marques, Luís e Nelson Patriota, Émerson e Luís de Almeida. Eles, juntamente com os jovens acima citados, ajudaram a construir a história de Santa Cruz com as suas habilidades literárias. Entretanto, suas obras ainda não estavam em consonância com o que vinha sendo praticado no eixo Rio-São Paulo, ou seja, não se apresentavam atualizadas do ponto de vista das técnicas e das temáticas das lutas sociais. CAPÍTULO V OS NOVOS ROMÂNTICOS DE 60 A década de 60 assistiu à mudança da capital do Brasil, do Rio de Janeiro para Brasília; viu a renúncia de Jânio e a chegada João Goulart ao poder. 60 foi marcado pelo golpe militar em 64 e suas conseqüências, como o AI-5, que suspendeu as garantias constitucionais e individuais. Essa década foi o início de um longo período em que os militares impuseram as suas vontades ao povo brasileiro57. 57 . Mais elementos ver: Nelson Piletti, op. cit. 167. 48
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    Com a renúnciade Jânio, algumas inquietações são refletidas também no Rio Grande do Norte; o udenista e conservador Dinarte Mariz deixou o governo e o jovem deputado federal, jornalista e escritor Aluízio Alves chegou ao poder depois de uma campanha eleitoral que mobilizou uma massa nunca vista em território potiguar58. Em Santa Cruz, há comemorações pela chegada da energia elétrica de Paulo Afonso à cidade, pelos 50 anos de emancipação política59, pelos 115 km de asfalto de Natal a Santa Cruz, pela chegada da agência do Banco do Nordeste, do CRUTAC, da Escola Cenecista Gentil Ferreira de Souza, da Escola Estadual Cosme Ferreira Marques, pela elevação do monumento ao Coronel Ezequiel Mergelino e pela chegada do Banco do Brasil. A cidade de Santa Cruz perdeu, entretanto, seu último distrito – Campo Redondo, que se emancipara - e as homenagens feitas às antigas lideranças políticas, como a feita ao coronel Ezequiel Mergelino, e muitas outras após o golpe de 64, eram indicadores de que o povo de Santa Cruz, (leia-se: sua intelectualidade e artistas) não continuavam dados às indisposições com os poderosos locais. No plano nacional, a poesia concreta dá lugar a poesia-práxis, que valoriza a palavra dentro do contexto extralingüístico, é a “palavra-energia”, uma ligação forte com a realidade social. Nunca, na história do Brasil, os estudantes foram tão politizados e atuantes. Essa comunidade estudantil foi, sem dúvida alguma, o combustível que impulsionou os questionamentos acerca do regime autoritário então estabelecido60. Nessa década, no Rio Grande do Norte, o grande acontecimento literário foi o I Festival do Escritor Norte-riograndense, em que, sem prejuízo das atrações existentes tais como cantadores de viola, cantores, apresentações de grupos folclóricos e exposições, o ponto alto foi o surgimento de jovens poetas61. 58 . Mais elementos ver: Luiz Eduardo Brandão Suassuna, op. cit. 43. 59 . No dia 11 de dezembro de 1876 é elevada à categoria de Vila a povoação de Santa Rita da Cachoeira, que recebeu a denominação de “Vila do Trairi”. Marcus César Cavalcanti Morais, op. cit., p.132. 60 . Mais informações ver: Antônio Cândido, op. cit., p. 457. 61 . Mais elementos em: Deífilo Gurgel, Espaço e tempo do folclore potiguar, Parnamirim – RN: Grafpar – Gráfica e Editora, Julho de 1999. 49
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    A literatura deSanta Cruz continuou não acompanhando as inovações no campo estético e temático. Preferiu andar de braços dados com as elites locais e viver os avanços estruturais da cidade, viver a belle époque de sua cidade. Não encontramos em nossas buscas obras inspiradas nas constantes agitações políticas que tomavam conta do país. No nosso entendimento, os poetas locais, mais uma, vez optaram por viver sua eterna lua-de-mel com a sua cidade, com a sua gente hospitaleira, seus açudes, sua padroeira, seu algodoal, suas vaquejadas, seu “futuro promissor”. Enfim, as obras dessa década não fogem, como veremos a seguir, dos padrões lírico-ufânicos caracterizadores de seu passado. Nas constantes pesquisas que fizemos, descobrimos um jornal que circulou nessa época, A Voz do Trairi, órgão oficial da União Santacruzense de Estudantes. Esse jornal circulou durante a década de 60. Fundado por José Abderraman Pinheiro Bezerra, o jornal foi dirigido por Geraldo Emanuel Furtado e o seu redator-chefe era Onildo Cruz. Ajudaram a escrever o jornal as seguintes pessoas: Miguel Cosme de Sousa, Jorge Quintiliano da Silva, Yolanda Eulina de Sousa, J. Galisa, Dante Madri, Antônio de Pádua Borges, Gonçalves Oliveira, Geraldo Emanuel Furtado, Adelgimar Rocha (Barbosa), Lêdy Azevedo Maia, Socorro Furtado, José Nazareno Bezerra, Terezinha de Maria Bastos, Lenilson Antunes de Lima, German Furt. Tivemos a preocupação de verificar a linha editorial desse jornal e comprovamos a ausência de comentários políticos ou literários sobre as alterações e inovações que, constantemente, se davam nos centros mais avançados62. Entretanto, entendemos os motivos pelos quais os poetas santacruzenses não faziam comentários mais, digamos assim, fora dos padrões estabelecidos. Como nos dias atuais, para se publicar qualquer obra, jornalística ou literária, as dificuldades financeiras estavam muito presentes. Contribuíram financeiramente para que os abnegados da palavra escrita registrassem a história de sua cidade, de sua poesia, de seu 62 . José Bezerra, em entrevista nos concedida em março de 2001, em Santa Cruz, nos mostrou o talvez único exemplar existente do jornal A Voz do Trairi. 50
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    cinema, de suaobra, as seguintes pessoas: Miguel Farias, José Aristeu, Antônio Nunes, Miguel Andrade, Augusto Fernandes, Pedro Nunes, José de Balelê e Josias Azevedo63. O discurso de valorização de nossa cidade ainda não estava fora de moda e no dia 30 de novembro de 1964, a professora e poetisa Maria Celestina da Silveira, Dona Maroquinha, publica, no jornal A Voz do Trairi, a poesia Hino a Santa Cruz a qual homenageia os 50 anos de emancipação política de sua cidade64: Santa Cruz teu nome encerra Um passado de lutas e vigor Um presente que a todos atesta Um futuro feliz e promissor. Na beleza do campo ondulante A riqueza do teu algodoal A fartura do feijão verdejante A bonança do milho e sisal. A pecuária também empresta Uma fonte de renda, um penhor Que aliada ao minério da terra É expressão de esperança, é labor. Teus açudes tão belos e piscosos Ornamentam este solo viril É turismo que ofertam garbosos Sob um céu com esta cor anil. Neste dia do teu aniversário, Tributamos louvores, honras mil Santa Cruz teu nome é lendário Santa Cruz teu nome é Brasil65. Este hino foi musicado pelos poetas-compositores Fabiano de Cristo Guimarães Wanderley e Franklin de Souza, dois funcionários do Banco do Brasil que por aqui passaram. Essa dupla, incentivada pelo povo de Santa Cruz, juntou-se mais tarde a um outro companheiro, Neco, e fundaram o Trio Cigano, com muitos sucessos gravados. Aliás, 63 . Informações obtidas através do jornal A Voz do Trairi, em entrevista realizada com o senhor José Bezerra em março de 2001. 64 . O dia 30 de novembro de 1914 foi elevada à categoria de cidade a Vila Trairi, com o nome de Santa Cruz, através da Lei 372. A emancipação política de Santa Cruz, na verdade, deu-se no dia 11 de dezembro de 1876, e não no dia 30 de novembro, como vem sendo comemorado. 65 . Em entrevista realizada com a professora Maria Celestina da Silveira em novembro de 2000, ela nos mostrou uma apostila avulsa de 1972 com este hino. Aliás, este hino também foi publicado no jornal A Voz do Trairi. 51
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    enquanto estiveram emSanta Cruz, Fabiano e Franklin escreveram muitos poemas, mais tarde musicados como Terra Querida, de forte apelo nacionalista (no caso a nação santacruzense). Esses poetas eram dados a poesias românticas, de exaltação, que fazem lembrar o Romantismo brasileiro com seus arroubos ufânicos, seus exotismos e farturas, suas cores nacionais, sua natureza exuberante, seu povo hospitaleiro, enfim, tudo que seja gracioso e original, bem à Gonçalves Dias66. O hino Terra Querida, de autoria de Fabiano e Franklin, foi composto em 1966, mas ainda hoje é cantado nesta cidade: Ó gente, que terra boa tem aqui Tanta fartura, tanta beleza Meu Trairi. Santa Cruz hospitaleira Cidade luz soberana Santa Rita padroeira Todo povo se ufana Santa Cruz das vaquejadas Das noites de seresteiros Santa Cruz com seus açudes E os passeios domingueiros O banho bom do Alívio E da piscina do Umbuzeiro67 As características da literatura local na década de 60, não são muito diferentes das características da literatura das décadas anteriores, como o bucolismo, e a supervalorização das emoções pessoais. Constatamos que houve, nessa geração, um constante transitar de formas e de temáticas que remontam os fazeres poéticos Trovadorescos, Clássicos, Neoclássicos e Românticos. A literatura de Santa Cruz, na década de 60, portanto, manteve as tradições formais e temáticas de seus antecessores, não contrariou as características das obras de outrora, apesar de seus artistas disporem das inovações técnicas da forma poética e de vasto material temático. O respeito e o medo impuseram-se diante de tudo e de todos. 66 . Poeta da 1ª geração do Romantismo brasileiro. O saudosismo e a valorização da pátria eram temáticas preferidas por esse poeta. Mais elementos sobre Gonçalves Dias ver: Antônio Cândido, op. cit., p.367. 67 . Encontramos esse hino em uma apostila avulsa de 1970 pertencente à professora Maria Celestina da Silveira. 52
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    CAPÍTULO VI A LITERATURA DA DÉCADA DO MEDO Na década de 70, a ditadura militar intensificou a repressão política, a censura e, conseqüentemente, a violência. A propaganda ideológica do regime estava, cada vez mais, presente na vida dos brasileiros68. No Rio Grande do Norte a censura, a repressão e a perseguição política não eram mais suaves do que no resto do país. O governador Cortez Pereira usou sua retórica desenvolvimentista para vender a imagem do Estado com suas riquezas econômicas e naturais. A UFRN incentivou a realização de Semanas Culturais e com isso propiciou o 68 . Mais informações ver: Florival Cáceres, op. cit., p. 342. 53
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    surgimento de talentososartistas plásticos, escultores, poetas e cronistas detentores de linguagens e de temáticas próprias69. Foram inaugurados em Santa Cruz o Ginásio Estadual (hoje a Escola Estadual Prof. Francisco de Assis Dias Ribeiro), a Escola Normal (hoje a Escola Estadual José Bezerra Cavalcanti – antigo Pedagógico), a Escola Estadual Isabel Oscarlina Marques, a Escola Estadual João Ferreira de Souza, a Escola Municipal Antônio Alexandre Pontes, a Biblioteca Municipal, a Caixa Econômica Federal, o Bradesco, o SAAE, o Conjunto Residencial Aluísio Bezerra, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Santa Cruz continuou a passos largos nos caminhos do desenvolvimento70. Na literatura nacional, o poema social – uma poesia de expressão política, de linguagem simples e escolha de temas relacionados com a realidade do país – apesar da repressão, começava a se fazer presente com mais freqüência. Nacionalmente, a poesia das décadas de 1960 e 1970 reuniu várias influências do que ficou conhecido como contracultura71: a poesia de protesto, de denúncia social, de esmagamento do indivíduo na sociedade industrial, na era da conquista espacial; o psicodelismo. Além disso, apresentou a retomada de certos valores da Geração de 22, como o prosaico, a simultaneidade de idéias e de imagens, bem como influências do Concretismo. Por tudo isso, foi descrita como “sincrética”, ou seja, que reúne várias tendências diferentes. No plano estadual, o conto, gênero narrativo não muito utilizado pelos nossos artistas da palavra escrita em terras potiguares, começou a ser praticado. Nomes como os de Eulício 69 . Podemos encontrar mais elementos em Tarcísio Gurgel, op. cit., p.84. 70 . Mais informações ver: Hermano Amorim, op. cit., p. 67. 71 . Contracultura é a palavra que a imprensa norte-americana usou para designar as novas manifestações culturais surgidas no mundo. Essas manifestações se opunham à cultura vigente e às instituições sociais. De caráter marginal e independente, a contracultura não tem codificação nos meios acadêmicos; e é considerada, até os dias de hoje, a última grande utopia de reforma radical da sociedade no Ocidente. A contracultura defende a busca do prazer e da liberdade, condena a guerra, a sociedade de consumo, o capitalismo selvagem, os padrões familiares squares, as convenções sociais, como a virgindade, o casamento etc. É uma época de “desbunde”, em que as palavras de ordem são peace and love (‘paz e amor), flower power (“poder da flor”), paradise now (“paraíso agora”), turno n, turn in and drop out (“ligue-se, sintonize-se e caia fora!”)... O movimento hippie foi a principal expressão da contracultura. Clenir Belezzi de Oliveira, op. cit., p. 573. 54
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    Farias de Lacerda,Socorro Trindade, Francisco Sobreira e Tarcísio Gurgel são representativos quando se trata desse novo gênero literário. Socorro Trindade, sem medo de ousar na forma, corajosamente externou a sua indignação com o atual momento político por que passava a nação brasileira e provocou a censura ao lançar o livro Eu não tenho palavras em que só tinha na capa o título e o nome da autora. O restante da folhas, como o próprio título sugere, não tinha palavras, as páginas estavam dadaisticamente72 em branco. Se antes da repressão os artistas de Santa Cruz não optaram por temas polêmicos ou não fizeram uso das mais variadas inovações formais já há muito praticada, inclusive pelos nossos conterrâneos potiguares, no auge das perseguições, do medo, da morte, muito menos ainda. A literatura local não deu trabalho àqueles encarregados de fiscalizar e manter a ordem estabelecida. Nossas obras mantiveram, portanto, em seus versos, os traços medievais, clássicos, neoclássicos ou românticos subjetivos de sua lírica. Os anos 70 seguem seus antecessores românticos lendo e cantando os poemas, cantos e hinos que melhor traduziam suas tradicionais posturas líricas. Os artistas da palavra escrita e falada, responsáveis pela expressão desses sentimentos, são Maria Celestina da Silveira (Dona Maroquinha), Joca Lindo, Luís Francisco Xavier, Fabiano e Franklin, Rosemilton Silva, Teresa Lúcia de Carvalho Silva, Antônio Borges, Adonias Soares, Letácio, José Iválter, José Antônio de Melo, Geraldo Moura e tantos outros. Como os poetas não queriam se indispor com o regime ditatorial no qual vivia o país, restava-lhes escrever sobre temas que não questionassem aquela política imposta. As vaquejadas, os amores, as saudades de tempos pretéritos foram poeticamente descritos, como fez a poetisa Teresa Lúcia, neste poema que trata de suas recordações, escrito em 24 de janeiro de 1972: 72 . O Dadaísmo é o mais radical dos movimentos de vanguarda da literatura européia. O movimento dadá propõe a destruição dos valores burgueses e usa o non-sense como forma de crítica feroz à sociedade. Mais informações sobre o dadaísmo de Socorro Trindade ver: Tarcísio Gurgel, op. cit., pp. 128 -29 55
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    Santa Cruz daSaudade Te vejo tão diferente Já não és mais aquela Viveste épocas áureas Coisas que não voltam mais Vestiste trajes modernos Esqueceste teus ancestrais Cidade de recordações Dos homens de letra e cultura Do saudoso Seu Nô do cartório Que sempre nos fins de semana Reunia em seu lar Amigos para cantar. Nestas horas de lazer Ao som do seu violão Cosme Marques que é o mesmo Cocó Entoava belas canções Solava o violão Com esmero e emoção. O professor Cosme Marques Com sua voz harmoniosa Executava a canção: “Cai a tarde tristonha e serena” Na vibração do seu violão Com carinho e satisfação. Seu Sinésio também era Homem de grande talento As melodias daquele tempo Cantava com sonoridade Que com o passar do anos Somente ficou a saudade. Vinham os Ferreiras de Sousa Dr. Odorico e Lourival Partilhar com alegria Daquele modesto festival Cantavam e recitavam Para todos que os escutavam. Santa Cruz dos trovadores Que nas noites enluaradas Dedilhavam seus violões Em dupla a acompanhar As melodias sonoras Que se dispunham a cantar. Cosme Marques E Luís Patriota 56
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    Seu Nô eSeu Sinésio Seu Barroca e outros mais Sempre juntos cantavam Lembrando seus ancestrais. Santa Cruz daquele tempo Da pálida luz do vapor Das saudosas cantorias Que seu povo dava valor Te relembro com saudade Santa Cruz do meu amor. Santa Cruz das vaquejadas Do tempo do Major Que trazia para esta terra Sua orquestra e muito forró E na derrubada do boi Aristide era o maior. Santa Cruz de Santa Rita Padroeira da cidade Abençoa todo teu povo Pedimos por piedade Não deixes que a tirania Tome conta da cidade73 Muitos cordelistas (não violeiros) desta cidade contaram a saga de famílias importantes, como a família Bezerra, que teve como seu principal expoente o Major Theodorico Bezerra. O livro, O Imperador do Sertão, escrito pelo seu sobrinho, o médico e político Lauro Bezerra, conta os muitos feitos do seu representante maior. Em 1978 é lançado em Natal o livro Retalhos do meu sertão do agente de estatística e professor José Euzébio Fernandes Bezerra, nascido na fazenda Boa Vista, município de Santa Cruz – RN, em 19 de outubro de 1910. O livro divide-se em duas partes. Na primeira, No mundo do vaqueiro, o escritor fala de Apartação, Vaquejada, Aboio do vaqueiro, Poeta dos vaqueiros - Fabião das Queimadas – e seus versos, Habilidades dos criadores e vaqueiros, O Curador de Rasto, Vestuário dos vaqueiros e arreios, O cavalo e o burro-mulo, etc.; na segunda, Biografias e linhagens, são 73 . Em entrevista realizada em dezembro de 2000, a professora Tereza Lúcia de Carvalho, gentilmente, nos colocou a disposição todo o seu acervo literário contendo suas poesias, em apostilas avulsas, como esta que apresentamos. O único livro na cidade, Canastra Véia, de Seu Cocó, é de sua propriedade. 57
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    ressaltadas as biografiase linhagens dos principais fazendeiros, vaqueiros das micro-regiões Trairi-Potengi. Apesar de o autor classificar, erroneamente, essas micro-regiões como sendo sertão, sua obra é uma considerável fonte de pesquisas folclóricas da região. É literatura a serviço da informação, gênero didático. De 1825 a 1979, a literatura de Santa Cruz esteve a serviço das homenagens, de suas saudades, interessando-se apenas pelos sentimentos e emoções pessoais, frutos de uma visão egocêntrica e de um universo limitado ao “eu”. Na verdade, o “eu-lírico” evade-se de seu tempo e de seu espaço para encontrar nas glórias do passado e no imaginário uma espécie de compensação das falhas encontradas no seu mundo real. 6.1. UM POETA ULTRA-ROMÂNTICO Os anos 70 testemunharam ainda poetas, como Márcio Marques, filho de Cosme Marques, que nada devia a seu pai, quando se tratava de poesias, músicas e crônicas. Dele, diz-se que, quando exagerava na bebida, pegava o seu violão e dirigia-se ao cemitério local, onde, na cova de seu inesquecível pai, dedicava-lhe suas mais belas canções, versos e crônicas. Segundo sua irmã, Maria do Rosário, Lalo, “o show juntava algumas dezenas de curiosos e só terminava quando, tarde da noite, o coveiro nos comunicava o fato. Com muita luta, nós o rebocávamos para casa74”. José Márcio Marques, que nascera no dia 2 de janeiro de 1950, era um poeta ao estilo de Álvares de Azevedo. Sua angústia, seu pessimismo em função da realidade de injustiças sociais, bem como o vazio que sentia de um amor verdadeiro aproximam esse poeta dos ultra- 74 . Entrevista realizada com a senhora Maria do Rosário, uma das filhas do poeta Cosme Ferreira Marques, em Santa Cruz no mês de outubro de 2000. 58
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    românticos da segundageração do Romantismo. Lord Byron, Alfred Musset e Álvares de Azevedo exerceram, sem dúvida nenhuma, influência não só no eu-lírico deste jovem poeta, como também em suas atitudes. Marques cantou o silêncio, a noite, a indiferença, a melancolia, a morte. A evasão, a egótica, o spleen, o erótico caracterizam sua obra. Aliás, Marques, assim como Álvares de Azevedo morreu muito jovem. Ele, como muitos poetas ultra-românticos, evadiram-se, não só nas suas obras, como também no seu tempo e espaço reais. Suicidara-se o poeta, no dia 23 de agosto de 1980, fazendo da morte a saída para as crises de depressão de que muito constantemente era acometido. Os poetas ultra-românticos vêem nessa atitude radical o único momento de paz. É de Márcio Marques: Silêncio, espera Noite tristonha dos beirais do rio. Rio meu pranto-descanto. Alheia Alma penada mística se enleia Noutros fantasmas comungando o frio. Mágoa teórica, trêmula vagueia Teia sensível em que me contrario. Pio gemido temeroso e esguio Do meu desgosto, fina-se na areia Palavras que se vão nas reticências Marcadas, ressentidas das ausências. Desesperanças que maltratam mais; Incertezas da espera, a estrela apagada Só silêncio, só eu à procura de nada Na estrada infinita da noite em que vais75. Encontro Foi seu olhar sereno Que abriu o meu espírito E o meu corpo Para outros anseios; Foi seu primeiro beijo, O mais ameno, Que fez luzir na noite dos meus olhos A primeira, A maior, A grande esperança. Querida, 75 . Apostila avulsa de 25 de agosto de 1980, cedida gentilmente por Maria do Rosário, em entrevista realizada no ano de 2000, em Santa Cruz. 59
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    Minha doce querida, Ao enlevo do seu abraço de fada Eu quero sentir Todas as sensações desejadas E reprimidas no meu medo. Ah! Mas você for somente Um momento breve, Um sonho fugidio, Perdure em minha emoção Criança Tempo e vida e amor Sentidos Antes do nada Antes do desencontro76. Pégaso Pégaso do meu ocaso Leva-me Por entre as estrelas da noite Do infinito, Onde o amor não seja Uma mentira, Onde os sorrisos sejam abertos E sinceros, Onde as mãos se apertem Sem nojo, Onde a caridade existe Sem egoísmo; Lá onde os homens são realmente Humanos Leva-me ao cair da tarde No aconchego das tuas asas77. Muitos outros artistas literários com suas emoções, que só a arte das palavras sabe traduzir, perderam-se no tempo, foram sepultados no túmulo do esquecimento. Só nos resta dizer que eles existiram, e, mesmo que nesta pesquisa não constem, escreveram o seu passado, viveram o seu presente, inspiraram o seu futuro e tornaram-se, como os aqui citados, em UM PRESENTE DO PASSADO. 76 . Idem. 77 . Última poesia de Márcio Marques para o jornal Diário de Natal, dia 25. 08.80. Muitas foram as homenagens de seus colegas de trabalho – Cosern . Maria Célia Ferreira Rocha, Manoel Alves, amigos jornalistas de toda a cidade de Natal, pois Márcio desempenhava suas atividades profissionais nesta cidade, dedicaram poesias e crônicas em página exclusiva deste informativo. A cópia da página do jornal Diário de Natal foi-nos cedida gentilmente por Maria do Rosário, irmão do poeta e residente em Santa Cruz. 60
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    II PARTE UM PRESENTEPARA O FUTURO “A arte é um fazer. A arte é um conjunto de atos pelos quais se muda a forma, se transforma a matéria oferecida pela natureza e pela cultura.” (Alfredo Bosi) 61
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    CAPÍTULO VII DÉCADA DE 80: ATUALIZANDO A ESTÉTICA LITERÁRIA LOCAL A revogação do AI5 pelo presidente Ernesto Geisel em 1978, a abertura política do presidente João Figueiredo, a campanha pela anistia, os novos partidos políticos, as eleições de 1982, as diretas anunciavam o fim da ditadura militar imposta ao país desde 1964 e o início da Nova República com Tancredo Neves sendo eleito indiretamente. Seu vice Sarney toma posse, em função da trágica morte de Tancredo Neves, e, em 1988, entrega ao país a nova Constituição. No Rio Grande do Norte, as eleições de 1982 conduzem o ex-prefeito de Natal, José Agripino Maia ao Palácio Potengi. É o povo potiguar legitimando mais um Maia no poder. Por vários anos, aliás, até hoje em dia, as oligarquias Maia e Alves se revezam no poder em terras potiguares. Em Santa Cruz, o arrombamento do Açude Santa Cruz, no dia 1º de abril de 1981, a construção, três meses depois, do Conjunto Cônego Monte (motivado pela tragédia 62
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    ocasionada pelo arrombamentodo açude, uma vez que suas águas destruíram boa parte da cidade) e a inauguração do Núcleo de Ensino Superior do Trairi – Nest – no dia 14 de fevereiro do mesmo ano são os três acontecimentos Históricos de maior importância nessa década na terra de Santa Rita de Cássia. A poesia, no plano nacional, segue com nomes surgidos nas quatro últimas décadas, muitos dos quais, como João Cabral de Melo Neto, os irmãos Campos, Décio Pignatari e Ferreira Gullar, ainda em plena e fértil atividade literária. Paulo Leminski, Arnaldo Antunes, Frederico Barbosa, Cazuza, Renato Russo revolucionam, inovam cada vez mais as técnicas de seu fazer poético. No Rio Grande do Norte, a contista Socorro Trindade, com o total apoio da UFRN, dá início ao bem sucedido Laboratório de Criatividade. Esse projeto consistia em reunir semanalmente os poetas potiguares, pelo menos aqueles que residiam na capital, para discutir a literatura local, suas formas, suas temáticas e, principalmente, incentivar o surgimento de novos nomes. O jornal Dito e Feito, semanário encarregado de divulgar as produções literárias, a antologia Grande Ponto, o surgimento de poetas e escritores de formas e de temáticas variadas são exemplos de algumas conseqüências desse laboratório. Em Santa Cruz, o ambiente universitário toma conta da cidade; os estudantes universitários começam a questionar os políticos locais, estaduais e nacionais; os artistas da palavra sentem cada vez mais a necessidade de expressar sua visão de mundo e seus sentimentos, usando as técnicas literárias já tão utilizadas no eixo Rio-São Paulo. A poetisa Rita Luna faz uso da poesia concreta, da poesia-práxis, do poema-objeto, em que se utilizam múltiplos recursos: o acústico, o visual, a carga semântica, o espaço tipográfico e a disposição geométrica dos vocábulos na página, para construir sua poesia social, de temática centrada na denúncia dos problemas, das desigualdades sociais do país. 63
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    O poema Inversoé o retrato em verso da desesperança e do definhamento do brasileiro marginalizado pelo descaso dos dirigentes da nação e fotografado pela poesia marginal 78 de Rita Luna: De olhos vendados, o pobre empobrece! Procura trabalho, encontra exploração Procura a terra, encontra a violência Procura justiça, encontra impunidade Procura político encontra corrupto Procura educação, encontra descaso Procura libertação, encontra drogas Procura ajuda, encontra desprezo Procura teto, encontra o mocamo Procura amor, encontra AIDS Procura saúde, encontra caos Procura valores morais Encontra a degradação Procura pela paz, Encontra a dor Procura a vida Encontra a morte Pra sua sorte O que valeu Sem amar? Nada Na Da Ar A.79 Ainda a respeito da poesia anterior, poderíamos interpretar a imagem criada de diversas formas, tais como um cálice (o sangue de Jesus Cristo e o do homem sofrido 78 . É considerada literatura marginal aquela que está fora do circuito editorial. São publicadas em folhas mimeografadas, em jornais, em revistas, em portas de banheiros etc. Grande parte da poesia local é marginal. Mais elementos sobre poesia marginal ver: Clenir Bellezi de Oliveira, op. cit., p.583. 79 . Encontramos este poema em uma apostila avulsa de 1987, cedida gentilmente pela professora Rita Luna, em entrevista realizada no dia 30 de maio de 2001 em Santa Cruz. 64
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    encontram-se no mesmocálice), redemoinho (a cidadania do homem é tratada pelas elites de maneira abruta), pirâmide ao inverso (as muitas desesperanças levam ao nada) ou ainda um apontar com dedo para o chão (as elites dominantes mostrando o chão como o lugar do pobre). São apenas sugestões de interpretações. Crie a sua poesia para esse poema. Muitos outros poetas e prosadores começam, nesta década, a desfilar os seus talentos em panfletos ou jornais universitários. A nova linguagem literária santacruzense entra definitivamente em sintonia com os grandes centros do país. A década de 80 assiste ao lançamento de alguns desses jornaizinhos. A Voz Universitária, Alerta e O Badalo80 foram três dos mais importantes jornais estudantis responsáveis por divulgar as notícias mais relevantes não só do meio estudantil como também da cidade e do país, fazendo reflexões e questionamentos de temas diversos. Nomes como os de Hugo Tavares Dutra, Otacílio Barreto, José da Luz Costa, Heraldo Lins, Rita Luna dentre muitos outros começam a ser conhecidos não só pelas suas idéias, mas, sobretudo, pela forma como elas foram expressas. O primeiro livro lançado nesta década foi o do Monsenhor Severino Bezerra, Memória Histórica de Santa Cruz . Assim como A carta, de Pero Vaz de Caminha, o livro do Monsenhor não tem valor literário (ou para os estudiosos mais transigentes, enquadra-se na literatura a serviço da informação, gênero didático), entretanto, pelo seu caráter histórico - informativo, faz-se necessário que neste trabalho conste. Foi a partir da década de 80, mais precisamente em 1984, que a literatura de Santa Cruz começou a atualizar suas formas e suas temáticas. Foi o Campus de Santa Cruz, o NEST, o agente acendedor da lamparina que clareou os caminhos da nossa literatura. 80 . Os jornais A Voz Universitária (85–86), Alerta (87) e O badalo (88-89) foram cedidos gentilmente pelo poeta Hugo Tavares Dutra. É possível localizar exemplares desses jornais com alguns estudantes do NEST do período 85 a 88. Esses jornais eram vozes dos estudantes universitários de Santa Cruz. 65
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    Os calorosos debatesnas aulas de EPB81 (Estudos de Problemas Brasileiros) sobre reforma agrária, eleições presidenciais, estaduais, municipais e até do DCE (Diretório Central dos Estudantes) ou DA (Diretório Acadêmico); as intermináveis discussões sobre a interiorização dos Campi (uma verdadeira queda de braços travada pelos alunos do NEST e alguns órgãos da UFRN); a tentativa maquiavélica de alguns professores de fechar o NEST e as demais extensões já existentes (o que conseguiriam em 1994); o descaso dos políticos locais com o NEST (não se levantou uma única voz em defesa dessa entidade); passeatas; atos públicos; audiências; panfletos contribuíram de maneira significativa para a mudança do discurso literário local. As aulas de Teoria da Literatura, Literatura Luso-Brasileira, os constantes trabalhos escolares, as discussões literárias travadas em sala de aula, praça pública ou mesas de bares por aqueles alunos mais dados ao fazer poético, como Zé Daluz, Otacílio Barreto, Ribeiro, entre outros, capitaneados por professores como Cecília Falcão, Elizabeth e outros ajudaram a despertar nos poetas locais a necessidade de se aproximar, ou melhor, de atualizar as suas técnicas literárias com as já praticadas no eixo Rio-São Paulo. Não seria exagero afirmar que foi esse ambiente universitário criado em Santa Cruz, a partir do surgimento do NEST, que alguns profissionais, professores de OSPB82, da Rede Estadual de Ensino, por exemplo, mudaram de prática e de discursos ao estudarem e utilizarem alguns teóricos como, Frei Beto, Leonardo Boff, Padre Pedrinho Guareshi, Marilena Chauí, Paulo Freire em suas salas de aula. Entendemos, também, que a criação em 1986 da APRN (Associação de Professores do Rio Grande do Norte, de Santa Cruz, mais tarde SINTE) e do Partido dos Trabalhadores, o PT de Santa Cruz (entidades que se caracterizariam por suas intensas lutas em prol dos 81 . EPB, Estudos de Problemas Brasileiros. Disciplina do currículo do Ensino Superior, uma das peças do aparelho ideológico da escola. Como estávamos na abertura política, essa Disciplina tornara-se ponto de encontro de efervescentes discussões político-ideológicas, principalmente com os professores que comungavam com a ditadura. 82 Organização Social e Política do Brasil. Disciplina do hoje Ensino Fundamental. Mais uma peça do aparelho ideológico da escola. 66
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    trabalhadores) são reflexosdessa agitada vida social verificada nesta cidade a partir da segunda metade da década de 80. Foi, portanto, o NEST que despertou nos poetas e cronistas locais a consciência de que a literatura local não estava acompanhando os avanços ocorridos no eixo Rio-São Paulo em suas técnicas e temáticas. A poesia e a crônica santacruzense não deixaram, entretanto, de enaltecer a cidade. A atualização da nossa literatura implicaria, também, em cantar os temas preferidos pelos seus antecessores, como a cidade, por exemplo. Os poetas e cronistas mostrados nos próximos subitens são exemplos da diversidade de gêneros, de formas e de temas da nossa literatura a partir dessa década. É a modernidade literária chegando a Santa Cruz. 7.1. RIBEIRO: UM CRONISTA DE TRANSIÇÃO Francisco de Assis Dias Ribeiro, Professor Ribeiro, como era conhecido, nascera em 22 de julho de 1940, na cidade de Santa Cruz. Fora aprovado em primeiro lugar no vestibular de 1981, primeira turma do curso de Letras de sua cidade. Não o concluíra, pois falecera no dia 14 de agosto de 1984. Era o referencial da palavra escrita ou falada, literária ou não, na década de 70, não só em Santa Cruz, como em toda a Região do Trairi. Publicou uma monografia sobre os 66 anos da elevação de Santa Cruz à categoria de cidade em 1980. O professor não era dado aos questionamentos sociais em sua arte. A crônica abaixo está longe de ser considerada um exemplo de texto de engajamento social. Todavia, podemos observar que já não há mais o exagero do elogio aos aspectos físicos e naturais da cidade, como demonstramos ter observado nos vários hinos dos poetas locais das gerações anteriores. No próprio texto percebemos as suas muitas inquietações, 67
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    reveladas pelo usorepetido de indagações. O texto sugere a angústia do autor em constatar a rapidez com que o tempo (ou o capitalismo em nome do progresso?) dissolve as colunas das tradições que davam sustentação às suas fantasias. O texto, de modo sutil, insinua que alguém é culpado pela destruição das tradições. E, mesmo fazendo a defesa da memória da cidade, mesmo sentindo saudade do seu passado, o autor ergueu a sua voz contra algo que lhe incomoda. CADÊ A HISTÓRIA? Cadê o coreto que estava em frente à igrejinha, que olhava para o Cruzeiro, que sustentava a Cruz do Inharé, que guardava as armas da rixa das famílias que deram origem à Santa Cruz do Inharé, que perdeu o nome para Trairi, e que por seu turno acabou também perdendo o Trairi? Cadê aquela caixa dos Correios instalada na parede da sede da Prefeitura Municipal, que cedeu lugar para a Câmara Municipal, situada vizinha à Cooperativa, que olhava para a Praça onde estava o “Bar do Ponto”que abrigava de Dnaniro Moura a Doutor Ferreirinha, no Café do Galego? Cadê aquelas trepadeiras que davam sombra aos estudantes que olhavam para os “fixus”plenos de “lacerdinhas”? Cadê a quadra de areia onde se jogava vôlei e a outra de cimento onde Monsenhor Émerson Negreiros – irmão de Sanderson - promovia lutas de boxe com os meninos do Pré-Seminário? Cadê a casa dos Ferreira de Souza que foi demolida pelo Banco do Brasil para dar lugar a uma Agência que fica em frente à casa dos Balelê, única peça que restou do conjunto arquitetônico da Praça Ezequiel Mergelino? Cadê as Usinas de descaroçamento de algodão que forneciam matéria-prima para a fabricação do “Óleo Benedito”, que foram “engolidas” pelo bicudo que expulsou o homem da terra? Quem hoje sabe a origem do nome da Rua Cosme Ferreira Marques? Cadê a Casa Grande que ficava ao lado do riacho das Caibreiras, que fora cuidada por quase cem anos e destruída com algumas gotas de óleo queimado de carro, que abrigava os versos e sofria ao som da poesia do escoteiro Cosme Marques, que pouca gente sabe da existência do seu livro? Cadê Márcio Marques, poeta da frente da casa de dona Noca, onde a gente esperava as meninas da Escola Normal que encantavam com o coral de Marlene, Odaíres – entre outras? Cadê a História, a Vida, a cidade de Santa Cruz, quase desaparecida pelo arrombamento do açude novo? Cadê a Festa do Natal e Ano Novo com os pastoris? Cadê o AZUL brigando com o ENCARNADO tendo a Diana como a mediadora? 68
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    Cadê a Festade Santa Rita de Cássia com o Parque São Luiz? Com as barracas? Cadê o resplendor da Santa que desapareceu misteriosamente como em “Pedra sobre pedra”? Onde foram desmanchar os gramas de ouro e as pérolas que ornavam a cabeça de Santa Rita de Cássia? Cadê “seu”Meireles gritando com suas jumentas como se fossem gente? Cadê o São João dos Cury? Cadê o Santo Antônio da Escola Normal? Cadê o banho na piscina natural do Umbuzeiro? Cadê o leilão de Santa Rita de Cássia com os gritos de Mane da Viúva? Cadê Santa Cruz do Inharé? Cadê a Tradição? Cadê a História?83 Para falar de um professor filósofo, poeta, escritor, enfim, para falar de um artista da palavra, nada melhor do que os seus contemporâneos e amigos de ofício. O poema Homenagem ao inesquecível prof. Ribeiro, do poeta Adonias Soares, caracteriza-se pelo misticismo religioso, com fortes doses de lirismo que, em determinados momentos, relembra o poeta romântico Fagundes Varela no seu Cântico do calvário: Francisco de Assis RIBEIRO Um gênio em inteligência Sua alta competência Lhe fez um grande guerreiro Educador altaneiro Cheio de amabilidade Porém na flor da idade A morte lhe atraiçoou Sua existência roubou Sem dó e sem piedade Porque a tirana morte Com a sua mão homicida Roubou-lhe a ROSA da VIDA E fugiu num velho transporte Deixando um grande pacote De lágrimas, tristeza e dor Porém o Consolador Que cuida dos abatidos Que por Deus foram escolhidos Na hora certa chegou Só temos uma certeza Neste mundo de ilusão 83 . Aldenôra Dias Ribeiro, Compiladora, Ribeiro, um professor,Natal – RN: Nordeste Editora Gráfica, 1999, Antologia, pp. 23 – 24. 69
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    Um enlutado caixão Cheio de flor e tristeza Desaparece a beleza Da pessoa que morreu Até no semblante seu Um ADEUS por DESPEDIDA Porque no curso da VIDA Tudo desapareceu84. O professor Nailson Costa também fez uma homenagem àquele que foi um dos maiores professores de Língua Portuguesa de Santa Cruz. E para falar de um exímio gramático, como era o professor Ribeiro, Nailson utiliza-se daqueles mesmos instrumentos gramaticais que tão bem Ribeiro soube usar durante toda a sua vida e que o deixaram conhecido e famoso no nosso meio. A crônica a seguir, publicada na antologia Ribeiro, um professor, da compiladora e irmã Aldenora Dias Ribeiro, é mais um exemplo da atualização formal de nossa literatura. É a prosa cada vez mais presente. A RIBEIRO DE PORTUGUÊS RIBEIRO era uma dessas raras inteligências que ainda existem por aí. Ele era uma espécie de Gramática Ambulante, um Manual de Consulta, uma Enciclopédia. Não, na verdade ele era muito mais do que isso; isso é muito pouco para adjetivá-lo. Substantivá-lo seria melhor, pois Ribeiro não era apenas a qualidade do ser; Ribeiro era o próprio ser. Aliás, até o próprio dicionário o tem como adjetivo e substantivo. Acho que ele era mais do que isso; ele era o verbo (lembra quando Deus fez do verbo a carne?), a conjunção etc. Lembro-me, como se fosse hoje, de que Santa Cruz, ou melhor, a nossa região, tirava as dúvidas com ele, e ele, sem reticências, pleonasmos, viciosos ou elegantes, era um objeto direto. Mas ele era muito mais do que esse termo integrante. Em seus discursos, fosse onde fosse: festas, colações, palanques, igreja, não fazia uso de ambigüidades, prolixidades, cacofonias ou quaisquer outras maldades lingüísticas, muito pelo contrário, ele era conciso, muito claro, correto e elegante; ele era Ribeiro. Professor, poeta, comunicador, católico, vascaíno, apesar de ser tão bem composto, era um sujeito simples; Ribeiro era um termo essencial. Ele sabia ser uma poesia, uma crônica, um romance ... Em qualquer redação: oficial, escolar ou literária, ele era o tópico frasal, a idéia central, a sinopse do enredo, o tempo, o espaço, o personagem principal; ele era a PALAVRA: a palavra de apoio, a palavra de ação; afinal, ele era a palavra intelectual, e ponto final. 84 . Adonias Soares Pereira é poeta popular. Nascera em 1911em Jucurutu. Mora em Santa Cruz desde 1938. Participou de todas as movimentações literárias de sua época. Essa e outras poesias podemos ver em: Aldenôra Dias Ribeiro, op. cit., pp.45 -46. 70
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    A seguir focalizaremospoetas e obras que mais claramente corroboraram/corroboram com os argumentos aqui defendidos. São poetas e obras que fizeram, de grande parte de suas obras, verdadeiros instrumentos de luta, de denúncia das mazelas sofridas pelo povo de Santa Cruz, do Estado e da Nação e que utilizaram as mais variadas técnicas para assim se expressar. A ênfase, agora dada a esses poetas e obras, evidencia uma forma de expressão que se distingue da utilizada pelos poetas da Primeira Fase. Verificamos que os produtores da arte da palavra escrita de Santa Cruz, que constituem esta Segunda Fase, vão ter preocupações que os colocam em sintonia com as produções elaboradas em nível nacional. Portanto, não se trata, em hipótese nenhuma de uma comparação que vise destituir a produção literária santacruzense, antecedente à desenvolvida neste período, de importância, mas, antes de tecer considerações, a partir da análise das obras, acerca da interferência promovida pelo Núcleo de Ensino Superior do Trairi-NEST. Portanto, com a inserção de uma parcela da população no ensino de nível superior, podemos observar consideráveis transformações, ocorrendo uma canalização das atenções para outras questões, tais como os problemas sociais, as mazelas estruturais de nossa sociedade, com ênfase para as questões de ordem local, dentre outras. Dessa forma, vamos observar o reflexo destas alterações nos conteúdos veiculados nas obras da geração de poetas deste período, conforme procuramos demonstrar a seguir. 7.2. INSTANTÂNEOS POÉTICOS DE ZEDALUZ E OTACÍLIO José da Luz da Costa é goiano de nascimento (Buriti Alegre) e nordestino pela formação, é santacruzense desde criança. Formado em Letras e Pedagogia, hoje é professor- mestre em Língua Portuguesa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 71
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    Poeta de palavrafácil, com evidente domínio de todas as questões relativas à métrica, à rima ou simplesmente ao ritmo dos versos que compõe, torna-se por um momento uma espécie de unanimidade em Santa Cruz. Este reconhecimento inclui sua atuação como professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Zedaluz sabia ser clássico na modernidade de seus versos e claro no rebuscamento de seus poemas. Poeta de temáticas variadas lançou sua primeira obra, Instantâneos Poéticos,( antologia datilografada) em 1987, em parceria com o também poeta Otacílio Barreto. O poeta foi redator e prosador dos jornais universitários dessa época. Participou com três poesias da antologia Templos, Tempos Diversos, publicada em 1995. O poema Rio da vida é um bom exemplo de suas reflexões sobre o fluir inexorável do tempo: Há um rio corrente em cada vida. Vida corrida no vasto vazio Do tempo. Tempo de muitas enchentes e pouca vida. Rio do mundo, rio da vida desemboca na boca infinita do tempo, tragando a vida finita da gente. Rio infinito de idade indefinida corre na frente da gente. Se a gente avança o nado da vida, acaba na corrida do tempo. descobre a idade do rio que morre dentro da gente85. O poeta Zedaluz, ao descrever a paisagem típica de sua região, sua fauna, sua flora, faz uso de recursos de estilo como a prosopopéia para retratar a ação desgastante destes elementos com o sol, companheiro inseparável destes. O poeta pede ao sol que recolha sua liberdade em tempos de seca. A forma que o poeta encontrou para expressar um eterno 85 . ADONIAS, et. alli. Templos Tempos Diversos, Natal – RN: Editora Clima, 1999, p. 143. 72
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    problema da região,a seca, foi uma clássica forma do poema, o soneto decassílabo, com rima e ritmo bem definidos. Sertão! És xique-xiques, cumarus, Facheiros, pedras, cactos, umbuzeiros, Mofumbos, gravatás, mandacarus... Os tísicos fantasmas dos terreiros! Sol! Sol! Corais,lagartos, cururus, Raposas, guaxinins, gatos-do-mato, Carcarás, e morcegos, e urubus... Os sutis mensageiros do ultimato! Sertão! Nas travessias do escarcéu: Luto do verde, insônia do sol, Morte das águas sob insonte céu. Sol! Sol! Recolhe tua liberdade! Longe do eco da seca, foge sol! Os ventos soprarão tua saudade!...86 O poeta e cronista Zedaluz é dado também a uma intertextualidade, a uma paráfrase, uma das características da literatura moderna. A crônica E gora, José ? escrita no dia 19 de março 1993, em função da seca que se vislumbra, estabelece um diálogo com o poema José, de Carlos Drummond de Andrade, com José Agripino Maia, então governador do Estado, com São José (o sertanejo acredita que, se não chover até o dia 19 de março, dia de São José, o ano será de seca) e com o próprio autor, que se chama José. A narrativa em terceira pessoa é o produto do mergulho do escritor na alma do povo sofrido da região, associando esse sofrimento ao contexto sócio-político e religioso em que vive. Essa crônica é carregada com as técnicas modernas, no estilo Graciliano Ramos, com suas frases curtas, coordenadas, para não ser complicado, para ser objetivo e claro. A variedade de técnicas e de temáticas encontradas em Zedaluz é indício de que algo de novo e de atual já começava a freqüentar os textos dos poetas locais. E AGORA, JOSÉ? Nada de novo debaixo dos céus. Janeiro passou, e as chuvas não vieram. 86 . Jose da Luz da Costa & Otacílio Barreto, Instantâneos Poéticos, Santa Cruz – RN: Datilografado, 1987. p. 33. 73
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    O açude doInharé tornou-se uma pequena lagoa de água lodosa, salgadíssima, cercada de ilhotas desertas. Os peixes se debatem na superfície da água: morte lenta, certa, sem isca. Dia após dia, o horizonte amanhece profundamente azul e ardente, com nuvens terrivelmente brancas, magras, ligeiras. O vento morno sopra durante todo o dia, levantando aqui e ali torres de poeira. O lixo dos canteiros sobe em caracol desenhando piruetas no ar. A criançada, desavisada do perigo, grita e se diverte com o espetáculo gratuito. O sol abrasador engole as nuvens como se fossem de algodão doce. Os telhados das casas latejam. Na alvorada do amanhecer, olhos angustiados buscam a barra anunciadora de chuvas. A barra está para cata- ventos. A cidade de Santa Cruz vive a contagem regressiva para enfrentar a hora do pesadelo, acordada. Já existem rumores de uma nova tragédia nas esquinas, nas praças, nas estradas. As tardes estão poeticamente lindas e assustadoras. Aquarela de verão. Capricho da natureza. As noites infinitamente românticas, mil estrelas a brilhar sobre praças sem pirilampos e namorados. A lua, testemunha clara e silenciosa de sonos agitados. A insônia, o medo e a esperança deitam na mesma cama. Na madrugada, uivos distantes de animais espreitando a desgraça. A população se agita. Começam as primeiras manifestações. A televisão lança em manchetes as imagens do drama coletivo. Hospitais e escolas funcionam precariamente. As construções paralisam. Cresce o lamento dos homens da cal e do cimento. Homens que só sabem vender o suor. A cada dia uma nova casa com placa de venda. O êxodo urbano. A Prefeitura Municipal tem novo endereço. Mas, infelizmente, a cidade não pode mudar de lugar. Hoje é o dia de São José. Tradicionalmente é data limite para início do inverno no sertão nordestino. E agora, José? Mais uma vez escutará a prece do povo? Mais uma vez conseguirás convencer o Grande Pai a abrir as comportas celestes? Não te esqueças, José, das velinhas bentas das velhinhas rezadeiras, em noites de vigília e ofícios na matriz de Santa Rita de Cássia. E agora, José? Água já! Esta é a campanha do povo no interior do Estado. A fome já existe. Fome de macambira. A sede Pode chegar mais cedo. E fome e sede são armas perigosíssimas. Mais uma vez, José, escute o clamor do povo e abra as portas do Palácio. Este povo que pede água agora, pode fazer chover votos de vez em quando. E agora, José? Você vai partir? Certamente. Se o José do céu e o José da terra não entrarem em ação, resta a você, José do povo, pegar o comboio derradeiro. Fome e sede são caminhos difíceis. Nestas horas minguantes, oração é esperança, discurso é filosofia. No sertão, a política começa pela água. E agora, José? A comida Acabou. A água acabou, O fogo apagou, Não tem mais dinheiro, Não tem mais saúde, Mas resta você. 74
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    - E agora,José? - Rensascer é preciso!87 Outro poeta de técnicas e temáticas variadas é Otacílio Barreto, natural de Tangará. É da segunda turma do curso de Letras do NEST, 83-87. Poeta irônico, satírico e politizado, ajudou a escrever todos os jornais dos estudantes universitários de Santa Cruz. Num período em que se vislumbra a democracia, seus versos boêmios traduzem seus anseios (ou do seu “eu-poético?”), suas angústias; suas perspectivas são refletidas em constantes evasões espaço- temporais. Nos Instantâneos Poéticos encontram-se muitos de seus momentos. É de Otacílio a poesia Falso veneno: Tomei um trago de veneno Senti-me feliz Outro trago e o mundo Ficou em paz Mais um, dois, três... Minha cabeça explodiu Fiquei sem cabeça O mundo era maravilhoso Depois de péssimos momentos Sem cabeça Ressuscitei E o mundo estava PODRE88. Encontramos vasto material publicado em jornais universitários e panfletos da década de 80. A presença de crônicas com temáticas românticas, sociais, políticas, filosóficas, metalingüísticas e satíricas confirmam os nossos argumentos de que houve uma atualização da literatura local. Não encontramos na geração anterior nenhum texto literário escrito em prosa. Heraldo Lins, cronista, poeta e músico é um nome bastante atuante na prosa literária de Santa Cruz nessa década de 80. A crônica metalingüística e carregada de humor que se segue é uma reflexão sobre o ato de escrever e faz parte das preocupações desse artista, que lembra o cronista Luiz Fernando Veríssimo: 87 . Jornal O POTI, CIDADES, Natal – RN, domingo, 04 de abril de 1993, Coluna de Vicente Serejo. 88 . José da Luz da Costa & Otacílio Barreto, op. cit., p. 26. 75
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    A ESCRITA FALADA FALA No princípio era o som. Depois surgiu o registro. Desde então as duas formas, fala e escrita, passaram a se odiar, planejando, sempre que possível, o assassinato uma da outra. A Fala defendia em palanques que ela já era o bastante, e esse negócio de registrá-la não passava de uma invenção de mentes debilóides. Dizia: _ Quem tem alto grau de inteligência consegue aprender e nunca mais esquecer, por isso, deixemos a Escrita de lado. Ela atrofia a nossa memória. A Escrita ressaltava sua importância sem desmerecer a outra. Seu argumento era: _ Precisamos registrar tudo, para servir de conhecimento às gerações futuras. Depois de muita peleja, a Fala conseguiu derrotar a Escrita e reinar sozinha no campo da comunicação. A partir daí, todos os registros escritos desapareceram como por encanto, restando ao homem apenas a voz para se fazer entender. Logo os carteiros começaram a sentir na pele os efeitos da mudança. As placas das ruas nada indicavam nem nas correspondências constavam os endereços. Na semana seguinte os funcionários dos correios foram demitidos. As cartas deixaram de ser escritas, passando a prevalecer, com mais intensidade, o sistema de telefonia. A euforia contagiou a população. Instigados pela Fala, assembléias foram realizadas para discutir assuntos verbais. Como o ofício circular foi extinto, mensageiros com toca-fitas a tiracolo passaram a ser os divulgadores das ordens superiores. Imitadores foram presos, para evitar falsificações estilo Tom Cavalcante. Nos banheiros públicos a cada momento chegavam pessoas perguntando em qual deles deveriam entrar. Certa vez, um dos informantes passou mal e teve que se ausentar um pouco, exatamente quando uma senhora deparou-se com um marmanjo no banheiro das mulheres. Assédio sexual? É ou não é? Foram parar nos tribunais. Registrou-se a queixa em fita cassete, mas como os códigos penais estavam em branco, ficou o disse pelo não disse e o brechado pelo não visto. Jornalistas passaram a se chamar vocalistas, mas os cantores protestaram na hora. Jamais iriam aceitar tamanho desrespeito. Houve discussão, gritos, sussurros, palavrões, palavrinhas, vários tipos de elucubrações verbais foram pronunciados, e por sorte a Fala escutou. Partiu para defender o seu reinado, ameaçando cortar a voz de todos se não parassem com aquela cachorrada. Água fria na fervura. Não estava mais ali quem havia protestado. Os apaixonados pela grafia, aqueles que até no banheiro liam, viram- se perdidos. Argumentavam que esses momentos de lazer tinham sido deles roubado, pois não conseguiam fazer aquilo sem a leitura da playboy. A crise psicológica foi tão grave a ponto de baixarem ao hospital. O médico de plantão receitou diazepan, mas entenderam Amazan, e lá foram eles, desorientados, para Campina Grande atrás do poeta popular. A classe estudantil vibrava com a realidade. Agora, teria mais tempo para se alienar à televisão. As fofoqueiras viram seu público crescer, e 76
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    haja boato. Quando a Fala notou que estava sendo mal utilizada, pediu perdão à sua inimiga, e tudo voltou ao normal. A Escrita, aproveitando o espaço, agradece aos leitores pelos três minutos de atenção89. 7.3. OS GRILOS DO NEST NA POESIA DE HUGO TAVARES Hugo Tavares Dutra, natural de Brejo do Cruz-PB, viera para Santa Cruz cursar Pedagogia. Em muito pouco tempo tornou-se uma ameaça em potencial para os políticos que destoavam dos interesses dos trabalhadores e da classe estudantil. Aliás, por denunciar a falta de empenho dos políticos na defesa do NEST e outras irregularidades, a Câmara Municipal sugeriu o título de persona non grata para Hugo. Ficou apenas na sugestão. O Núcleo de Ensino Superior do Trairi, extensão do Campus Universitário de Santa Cruz, mesmo ainda engatinhando, ou, como diziam os alunos, “em fase embrionária”, sempre conviveu com as ameaças de encerramento de suas atividades. Era uma espécie de filho rejeitado, principalmente por alguns professores recém aprovados em concurso para nele atuar. O NEST, como era chamado, na verdade, não só incomodava os professores que queriam atuar na capital, mas, sobretudo, os políticos locais reacionários que viam nesta instituição uma ameaça concreta aos seus sonhos de perpetuação no poder. Os grilos do NEST a década da luta dos sindicatos, dos grêmios estudantis, do Diretório Acadêmico do NEST, da fundação do Partido dos Trabalhadores, da realização de Semanas Universitárias, enfim, é da metade da década de 80 em diante que Santa Cruz começa a questionar suas autoridades, seus governos, seus políticos, seu rumo. O então aluno de Pedagogia, Hugo Tavares, lança em 1987 seu cordel “Olhai os grilos dos Campi”. Com 119 sextilhas, datilografadas e impressas com a ajuda dos amigos do Diretório Central dos Estudantes, Natal - RN. O poema, como o próprio título sugere, é um 89 . Jornal Voz Universitária. Ano I, Nº 02, Santa Cruz, outubro de 1986, p. 3. É possível encontrar um exemplar desse jornal com ex-alunos do NEST, da década de 80. 77
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    desabafo do poeta,o qual, com a coragem que lhe é peculiar, dizia alto e em bom tom que o Campus de Santa Cruz era mais uma manobra político-eleitoreira do então reitor Diógenes da Cunha Lima, intenções essas totalmente diferentes daquelas para a qual o ensino superior é destinado. Desde sua implantação, o Campus de Santa Cruz fora condenado ao fechamento de suas portas. Segundo Hugo Tavares, a verdadeira intenção do então reitor não era interiorizar o ensino superior para socializar o saber, mas construir uma base sólida para as suas breves intenções de chegar ao governo do estado. É bastante consistente o argumento do poeta, pois o que realmente se verificou durante os catorze anos em que esteve funcionando, o NEST sempre viveu, como diziam os alunos, na UTI. O cordel é mais uma voz que se levanta contra aos abusos daqueles que se acham dono do poder; é, sem dúvida, dedicado “aos que incondicionalmente lutam pela democracia”. Leia a quarta e a última estrofes do poema: Não é do Primeiro Grau que eu venho lhe dizer também não é do Segundo não precisa se benzer é da Universidade antes dela falecer. (...) Eu não sei se falei bem Se fui fraco ou se fui forte Se alguém foi arranhado Meu desabafo suporte VI A UNIVERSIDADE DO RIO GRANDE DO NORTE90. A década de 80 é encerrada com uma grande festa: a volta das eleições presidenciais e a expectativa de o Brasil ter, pela primeira vez na sua história, um presidente vindo do meio popular. 90 . Hugo Tavares Dutra, Olhai os grilos dos Campi, Natal – RN: DCE, 1987. 78
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    A nossa literaturacomeça a repercutir as técnicas e temáticas já praticadas nos centros mais avançados. CAPÍTULO VIII ANOS 90: PERSPECTIVAS Hoje, nos planos nacional, estadual e municipal, a arte, e particularmente a literatura, está coagulada em vários pontos de unidade, resultando numa imprecisão estética que, por ser imprecisa, é ampla – possui liberdade de forma e conteúdo que termina por não apresentar uma tendência predominante. Uma variante se sobrepõe a outras num frenesi de revezamento e de simultaneidade. Em Santa Cruz a modernidade literária é chegada; surgem a todo instante poetas e cronistas ansiosos em ver suas obras publicadas. Marco Antônio Bezerra Cavalcanti191, nascido em Santa Cruz em 17 de janeiro de 1973, formado em Letras e Jornalismo, é uma significativa renovação no fazer literário de sua cidade. Além de poeta, Cavalcanti é incentivador cultural, cronista de palavra fácil, poeta capaz de reunir em suas obras todas as tendências (ou todos os ismos, como se costuma dizer). Em alguns de seus poemas não é difícil perceber um certo pessimismo, uma certa angústia, em face dos muitos problemas sociais, das incertezas vividas pela humanidade, dos conflitos, das guerras, enfim, é perceptível um tom de ironia que o poeta dá a alguns de seus poemas, 91 . O poeta, escritor e jornalista, Marcos Cavalcanti é um dos responsáveis pelo lançamento das duas antologias lançadas em Santa Cruz, Templos Tempos Diversos e Trairi em Versos, em 95 e 97, respectivamente. É também um dos fundadores do Jornal Memorial Santacruzense. Marcos é um grande incentivador da nossa cultura na década de 90. 79
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    como se verificano poema Necrófila viagem, em que o eu-poético vive, mesmo na morte, intensamente seus corrosivos sonhos de amor. E é essa presença da morte, numa contradição compreensível, que mais lhe atiça a vontade de viver. Cavalcanti, no modo de agir, está longe daqueles poetas que foram influenciados por Lord Byron, os quais têm a morte como solução para os seus problemas; distancia-se da vontade de morrer de um Álvares de Azevedo e muito menos foge de seu tempo e de seu espaço reais; suas poesias, reunidas no seu primeiro livro, Viagens ao além túmulo, são, na verdade, um convite para se viver eternamente cada minuto da vida, como é verificável no poema Necrófila viagem: Quero sentir a beleza Sob sete palmos de terra, Resumida a cabelos Dourados e lisos, Na face pálida, extática, Com seu eterno e tétrico Sorriso. Quero percorrer teu corpo Milímetro a milímetro Nas tuas curvas ósseas, E me alojar na caixa craniana Para brincar de globo da morte De quimeras. Quero finalmente Te sorver ao cúmulo E abandonar te túmulo92. 8.1. TRISTES COINCIDÊNCIAS O NEST em 1992 propiciou não apenas a sintonia de nossa literatura como também a criação de uma escola de ensino médio por um grupo de professores do Estado (fomos partícipe desta luta) com a finalidade de preparar os alunos deste ensino para preencher as 92 . Marcos Cavalcanti, Viagens ao além-túmulo, Natal – RN: Natal Gráfica,1999, p. 3. 80
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    vagas que acada ano se multiplicavam no Nest e se tornava o principal argumento dos articuladores do fechamento do NEST. Em 1994 O Instituto Educacional de Santa Cruz – IESC 93 - cumpre com a finalidade para a qual fora criado. É a primeira vez que Santa Cruz assiste a um grande número de alunos, filhos da terra, aprovados no vestibular de 1994. O fato lamentável é que os santacruzenses aprovados se inscreveram em Natal para preencher as vagas daquele campus e não as vagas do NEST, pois a batalha entre os alunos do NEST e os articuladores do seu fechamento, que desde a inauguração era travada, teve seu desfecho no final de 1993, com a vitória da desinteriorização dos Campi de Santa Cruz, Macau e Nova Cruz. Atribui-se a perda da batalha aos “convincentes” argumentos de alguns professores que ministravam suas aulas nessas unidades de ensino. Pura ironia: os professores que proporcionaram um discurso politizador nessas unidades de ensino superior são os mesmos que amadureceram os discursos de fechamento do NEST e das outras unidades do interior. As contradições entre o discurso e a prática não é, entretanto, uma exclusividade nossa. Podemos encontrá-las também no principal movimento de renovação da literatura brasileira, a Semana de Arte Moderna. A Semana deve ser vista não só como um movimento artístico, mas também como um movimento social e político, de ataque à aristocracia e a burguesia, como verificamos no livro de memórias de Di Cavalcanti: “(...) Eu sugeri a Paulo Prado a nossa Semana, que seria uma semana de escândalos literários e artísticos, de meter os estribos na barriga da burguesiazinha paulistana”94. 93 . Se o NEST desencadeou um ambiente universitário questionador dos problemas sociais, é o IESC o responsável por desenvolver nos estudantes do ensino médio um ambiente de estudos nunca antes verificado. As bibliotecas estão sempre cheias e o número de escolas similares cresce a cada ano. 94 . José de Nicola, op. cit., p. 275. 81
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    Pois bem, foramessas aristocracia e burguesiazinha que tornaram possível a realização da Semana. Esse movimento só foi possível graças à arrecadação de fundos promovida pelo jornalista René Thiollier, que conseguiu 847 mil réis junto aos fazendeiros e exportadores de café. O NEST realmente propiciou a sintonização de nossa arte literária com a dos grandes centros. A realidade imita a arte. São as tristes coincidências de nossa literatura. 8.2. A POESIA DAS ADUTORAS Hugo foi uma das vozes mais vibrantes na luta pela permanência do NEST em Santa Cruz. Muitos poemas, crônicas, artigos, etc., foram publicados nos jornais universitários dos cursos de Pedagogia, Letras e Ciências Contábeis, inclusive, alguns deles dirigidos pelo então diretor do Diretório Acadêmico, Hugo Tavares. Apesar de a luta não ter sido vitoriosa, pois o Campus de Santa Cruz se encontra de portas fechadas, o poeta ajudou a plantar as sementes da resistência, as quais se estenderam para os campos das exigências mais prementes, como é o caso da luta pela água, pelas adutoras, pois, com a grande seca de 1993, a situação em todo estado se complicara muito, principalmente em Santa Cruz, que ficara totalmente sem abastecimento. O poeta, escritor, músico e radialista, Hugo Tavares cerra fileiras com os movimentos sociais de reivindicação pela água, dentre eles o Movimento Água para Todos, com raízes em várias cidades, onde a sociedade civil se organizou e fortaleceu a luta pelas adutoras. Hugo lança mais um trabalho, um cordel, A LUTA PELAS ADUTORAS e “descreve em linguagem simples, do gosto do povo, toda a caminhada em prol das adutoras, assumida pela Arquidiocese de Natal-RN, tendo à frente o incansável Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros95”, como bem escreveu no prefácio o Monsenhor Raimundo Gomes Barbosa. 95 Monsenhor Raimundo no prefácio da obra: Hugo Tavares, A luta pelas adutoras, Natal – RN: F.J.A. 1995. 82
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    Este cordel lançadono dia 14 de abril de 1995 apresenta 120 sextilhas datilografadas e impressas pela Fundação José Augusto, Natal-RN. Leia a primeira e a última estrofes: O Nordeste brasileiro uma grande região composta de nove estados ao vento sem direção a espera das esmolas que lhes sobre da Nação. (...) Pesquisei em todo canto Galopei no carrossel E quando desanimava Chamava por São Miguel Ao Monsenhor Expedito Dedico este cordel96. Não se pode esquecer também da grande colaboração que o então pároco da cidade, o Monsenhor Raimundo Gomes Barbosa, deu à luta pela adutora. A grande faixa que o religioso corajosamente colocara na fachada da matriz com os dizeres “Adutora sim, voto sim; adutora não, voto não!” fora decisiva para a implantação deste bem para o povo do Trairi. Por causa desta ação, o pároco foi homenageado pelo professor Nailson Costa com a poesia Raimundo, padre nosso de cada dia, publicada na antologia Monsenhor Raimundo, presente de Deus, a qual teve como compiladora a poetisa Aldenora Ribeiro, em que o poeta faz um trabalho de intertextualidade com uma das estrofes da poesia Poema de sete faces, de Carlos Drummond de Andrade. Todavia, ao contrário de Drummond que, em seu eu-lírico 96 Hugo Tavares, op. cit. p. 47. 83
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    sente-se impotente dianteda realidade, Nailson Costa louva a grande conquista, e o faz sem a rigidez parnasiana da forma, usando a brincadeira dos trocadilhos e a alegria livre do ritmo e da rima para dizer o quão poderoso é o povo quando luta bravamente pela construção de sua identidade. “Mundo mundo vasto mundo, Se eu me chamasse Raimundo Seria uma rima, não seria uma solução. Mais vasto é meu coração.” “Mundo mundo vasto mundo.” O Raimundo que quero que veja É Raimundo da Santa Igreja Um mundo de oração. Ave Raimundo cheio de graça O Senhor está conosco em sua clara homilia Mas o poeta Drummond em sua rica poesia Não rimou o Raimundo dum profundo saber. Mundo, tão vasto mundo, Raimundo amigo, sacerdote, monsenhor Pontual, confessor, sincero, professor Vasto mundo, mais que rima pode ser. Raimundo do mundo de Rita Santa Cruz de nosso dia-a-dia Raimundo, Jesus e Maria Quão poético descrever! Santo bordão de Raimundo de luta! Bendita a adutora presente! Voto sim na água benta da gente Milagroso Raimundo também! “Mundo mundo vasto mundo” O mundo no verso ou na prosa De Raimundo Gomes Barbosa Carlos agora um relato tem. Raimundo, Raimundo, vasto Raimundo, O mundo de Carlos foi perdoado E por Raimundo abençoado Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo AMÉM. Por três bons motivos esta poesia não deve ser entendida como sendo de cunho encumiástico, ou seja, de bajulação a um nome que exerce uma certa liderança na cidade: 1. O 84
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    autor não éreligioso e não tem nenhuma afinidade com o homenageado; 2.Necessário se faz que estejamos sempre a dizer que foi o povo em comunhão com a igreja católica os soldados vitoriosos dessa grande batalha, para que não surjam mais tarde politiqueiros dizendo-se pai da criança; 3.Quem tem como passatempo preferido a produção de textos literários ou científicos vive incessantemente à procura de temas para exercitar sua paixão. Aliás, os temas preferidos de Nailson Costa são os de cunho social. 8.3. TRANSPOESIA DO “VELHO CHICO” A luta pelas águas – o tema da seca - continuava na palavra do poeta Hugo Tavares, e mais um trabalho é lançado em 22 de março de 1998, A luta pela transposição de águas do São Francisco. Com a pertinácia com que lhe caracteriza, dirige-se aos governantes, Rede Globo, igrejas, povo, enfim, a todos, e mostra a viabilidade dessa transposição e a importância para a Região Nordeste, em especial os três Estados, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. Aqui somos obrigados a dizer que essa questão exige um conhecimento mais apurado. Há visões opostas, principalmente das populações ribeirinhas. Hugo, entretanto, acredita nessa causa e, com a sua sensibilidade poética e o conhecimento da temática, inclusive de fatos históricos relacionados ao problema, ele, além de levantar mais uma bandeira de luta pelas causas sociais, contribui de maneira significativa para o engrandecimento da literatura local. “O FIPARTEL, filho particular do cordel, é o mínimo que eu posso fazer. E você?”, diz o poeta se referindo à luta. São exemplos da obra a primeira e última estrofes: 85
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    Quando fiz essetrabalho dei brilho no meu anil espanei o amarelo e o verde varonil de branco fiz a pergunta que nação é o Brasil. (...) Um novo tempo vem vindo Semeador de ação Esperto e envolvente Mente-pele-coração O Nordeste será outro Salve a TRANS-PO-SI-ÇÃO97. 8.4. BRASIL 500 VERSOS Hugo, conforme se verifica nas suas poesias e ativa participação nas lutas locais, é verdadeiramente um poeta social e, como tal, não poderia deixar de refletir algumas questões em seus versos. A questão agrária, a indiferença com que são tratados os povos indígenas, o desemprego, as privatizações, o sucateamento das instituições públicas, o arrocho salarial não poderiam ficar de fora de sua literatura. As comemorações realizadas no dia 22 de abril do ano 2000, em Porto Seguro, Bahia, alusivas ao Brasil 500 anos, levaram o poeta a, mais uma vez, produzir uma obra em que o tema foi apresentado de forma crítica. O livro Brasil antes e depois Brasil 500 anos, como escreveu em seu prefácio a professora e poetisa Maria Celestina da Silva, aponta para questões que destoam do clima de comemoração a que a mídia nacional conduzira a população a viver: ... transcende ao trivial das muitas fundamentações livrescas e nos anuncia criticamente um país além deste período cronológico tão comentado por tantos historiadores, ele tem um tempo que antecede a tudo o que se vem falando e registrando, porque o que existia antes é ainda uma controvérsia de fatos e opiniões. Daí, portanto, o título que Hugo Tavares Dutra deu ao seu escrito versejado e rimado, com humor, verdade e criatividade98... 97 Hugo Tavares, op. cit., p. 48. 86
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    O poeta, entretanto,adverte na introdução da obra: “O presente trabalho não tem a intenção de ser nenhuma peça didática nem histórica. Ele é apenas uma janela para que possamos vislumbrar um horizonte, ainda a ser construído, com bases em um passado obscuro cheio de interrogações, frustrações, mas também de glórias99”. Podemos verificar tais afirmações em uma das 75 estrofes dessa obra: A vocês eu vou contar canto meu Brasil pandeiro servil e privatizado devendo muito dinheiro eternamente colônia escravo do estrangeiro100. O poeta Hugo Tavares, ao contrário do que se pode pensar, não produziu apenas literatura de cordel. O poeta é autor de poemas de forma clássica, como o soneto, e de outros tantos de formas diversas. Participou da primeira antologia, Templos Tempos Diversos, lançada no dia 19 de maio de 1995, a qual reuniu 23 poetas dos mais variados estilos e linguagens. 8.5. ALÉM DAS VIAGENS AOS TEMPLOS E TÚMULOS EM VERSOS EM TEMPOS DIVERSOS NO TRAIRI A falta de uma política pública voltada para as artes leva os artistas a mendigarem, no comércio da cidade, recursos para a publicação de suas obras. 98 Hugo Tavares, Brasil Antes e Depois Brasil 500 anos, Mossoró – RN: Fundação Vingt – Um Rosado – Coleção mossoroense, 2000 , pp. 2 - 3. 99 Ibidem, Idem, p. 7 100 Idem, p. 32. 87
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    A antologia, TemplosTempos Diversos, lançada em 1995, reuniu 23 jovens e veteranos poetas da cidade. Ela traça um quadro bastante significativo dos poetas locais, cada qual com seus diferentes estilos, seus variados temas e ideologias. O livro, obviamente, não segue nenhuma tendência, nenhum estilo de época; na verdade, a antologia se caracteriza pela multiplicidade de suas características e pela defesa e enaltecimento de nossas cores literárias. Participaram da obra os seguintes artistas da palavra: Adonias Soares, Adriano Uberg, Ana Umbelino, Antônio de Pádua Borges, Bonitinho, César Praxedes, Edgar Santos, Erivan Silva, Graça Luna Barbosa, Hélio Crisanto, Hugo Tavares, Jair Elói, José Letácio Pereira, Karina Grace, Marcos Cavalcanti, Maria Betânia Borges, Maria Celestina da Silveira, Meria Suerleide, Matias Filho, Nailson Costa, Rita Luna, Teixeira Alves e Zé da Luz. A segunda antologia, Trairi em Versos, revelou novos nomes como os de Armando José Luca Lemos, Edisângela Pereira, José Adriano Bezerra, José Antônio de Melo101, José Iválter Ferreira102, José Jales, Josemar Câmara, Renan II de Pinheiro e Pereira, que através de metáforas e emoções escreveram mais uma página da literatura de Santa Cruz. 8.6. A POÉTICA NAS POESIAS DA VIDA O livro de Matias Filho, Poemas que a vida inspirou do poeta Matias Filho é lançado no dia sete de setembro de 2000. O livro é um verdadeiro grito de liberdade. É a independência de formas e de temáticas. O autor o divide em duas partes, Poemas de Ontem e 101 José Antônio de Melo é poeta popular, violeiro e repentista. Usou a profissão de violeiro durante 40 anos. Participou de várias cantorias em programas de rádio em todo o Nordeste. 102 José Iválter Ferreira não é uma revelação, pois desde a década de 50 vive a expressar liricamente seus arroubos poéticos e arrebanhar conquistas em concursos literários. É advogado e Assessor Jurídico do Estado. É membro do SPVA – Associação dos Poetas Vivos e Afins (Natal – RN). 88
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    Poemas de Hoje.Na primeira parte é de fácil percepção os arroubos líricos característicos da pouca idade do autor, regados, muitas vezes por muitos cálices de desventuras que as amarguras da vida oferece ao poeta. “O cálice da amargura”, expressos no concretismo de seus versos, é o sofrimento do seu eu-lírico: Beberei sofregamente O cálice da amargura E triste, triste somente Sorverei a desventura Amarga da merencória A vida que cansado levo. Sempre, sempre sem ter glória, Sem conquista, sem enlevo. Resignei-me, pois A padecer, E depois Morrer Só. Pó Serei E em luz Com Jesus Me encontrarei. E livre, livre estarei103. Na segunda parte, o poeta deixa de lado seus devaneios líricos para se posicionar ironicamente, fazendo uso de poemas satíricos à Gregório de Mattos Guerra e fazendo de seus versos não apenas um desabafo, mas, sobretudo, um instrumento de conscientização política, de luta, além de demonstrar domínio de técnicas literárias. Podemos encontrar muitos poemas de técnicas variadas em sua obra. O poema Inepta escolha é exemplo de poesia de engajamento social: 103 Matias Filho, Poemas que a vida inspirou, Natal –RN: Natal Editora Gráfica, 2000, p. 19. 89
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    “Não culpes oteu presidente, Mísero votante imprudente! A culpa, estúpido, é tua: Deste o lombo à chibata crua. Agüenta, pois, mais alguns anos De apertos, fome e desenganos! Olhas pro passado e, inseguro, Não vislumbra o teu futuro. Mísero votante imprudente, Por acaso, o PROGRESSO sentes? E a ORDEM? Esta quimera ... Vês? No entanto, idiota, nela crês! SEGURANÇA!... outra utopia!... Mostra o perigo à luz do dia. Co’o teu voto insensato e obscuro Complicaste o nosso futuro. Sabes o que é um ataúde? É onde enterraste a SAÜDE. Com o teu voto apaixonado. E agora, Zé? DESEMPREGADO... Como hás-de dar EDUCAÇÃO Ao teu filho? Nessa aflição Muito chorarás amargamente Por teres sido néscio e imprudente104! O livro de Matias Filho, além da arte literária presente, é, também, uma lição de vida, uma evolução na estilística de suas ações, é uma demonstração da capacidade de o ser humano se libertar das fúteis e etílicas ilusões juvenis para assumir uma postura mais digna da poética da vida. Muitas poesias de engajamento social e de formas variadas foram produzidas na década de 90 e início do novo século, como Brasil da poetisa Rita Luna, ex-aluna do NEST e, portanto, produto daquele meio: 104 Matias Filho, op. cit., pp. 115 -116. 90
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    Grande Brasil Brasil do FMI Brasil da fome do povo Meu Brasil assim... Alienante e alienado Grande Brasil Das ditaduras E da marginalização Do derramamento dos Cofres públicos E da miséria do Povo Alienante e alienado Grande Brasil Da grande extensão de Terra Do êxido rural Das cidades infladas E dos pivetes Brasil, grande Brasil Dos banquetes suntuosos Ironia de Deus ou dos homens? A maioria cala a fome. Cala porque o grito é calado Brasil, grande Brasil Alienante e alienado De olhos vendados Cala seus filhos, Que definha e morre Inocente, inocentemente Grande Brasil!105 Nesta poesia de versos sem rima e sem metrificação, bem ao gosto dos poetas do Modernismo, a poetisa expressa toda angústia em ver o país tão grande e submisso ao FMI, ao descaso daqueles que o governam. É a sua poesia a serviço da denúncia das mazelas sociais. Outro exemplo de poesia e de poeta que seguiu caminho totalmente distinto daquele seguido pelos poetas da Primeira Parte é o do professor e sociólogo Teixeirinha Alves. A poesia Lute é um convite persuasivo àqueles que ainda não acordaram para o mundo real: Faça o que fizer, Diga o que disser, Venha de onde vier, 105 Adonias, ati alli, op. cit., p.133. 91
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    Mas lute! Tenha a cor que tiver, A língua que quiser, Tendo ou não fé Mas lute! Com Cristo ou Maomé, Magia ou candomblé De Deus ou Lúcifer, Mas lute! De carro ou a pé, De frente ou de ré, Sendo homem ou mulher, Mas lute! Revolucione o mundo ao seu redor106!!! O poeta Teixeirinha Alves também usa a sua obra para lutar pela conscientização política das massas. Utiliza-se também de técnicas modernas, ou seja, seu poema não está preso a nenhuma regra literária academicamente preestabelecida. Encontramos, também, em nossas incansáveis buscas, indícios que cada vez mais reforçavam os nossos argumentos a respeito da sintonização da literatura local com a praticada nos centros avançados. Um exemplo é a metalinguagem poética em Hélio Crisanto, tão ao gosto de um Carlos Drummond de Andrade. Hélio Crisanto na poesia Resgate tenta não só desvendar o mistério, os caminhos da arte poética, mas também faz um convite sensual à poesia para que ambos, poeta e poesia resgatem essa confidencial cumplicidade existente em suas libertinas relações metalingüísticas: Vem poesia, Penetra surdamente nos meus poros 106 Ibidem, Idem, p.138. 92
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    Arrebata-me. Embala-me com teus acordes Enquanto tenso vou tecendo O fio das horas Escorregando Na minha garganta Suavemente Pra que eu possa Te degustar, Vem poesia, Masturba meu ego E rasga meu ser Pois és meu verdadeiro orgasmo107. A década de 90 e o início do novo século, apesar da televisão, do vídeo cassete, cinema, internet, etc., criou uma perspectiva muito positiva naqueles que ainda acreditavam na leitura e reflexão de textos literários ou não como determinantes no acender das luzes dos caminhos que levam a construção de uma nação forte, desenvolvida e cidadã. As antologias Templos Tempos Diversos e Trairi em Versos, além de propiciar a divulgação literária daqueles que, anteriormente, não tiveram oportunidade de publicar os seus trabalhos, exerceram também um papel de incentivadoras de novas publicações e de criadoras de novos talentos. Livros como Santa Cruz nos caminhos do desenvolvimento, do empresário Hermando José de Amorim, lançado em 1998 (este livro pertence ao gênero didático, literatura de informação); A luta pela transposição das águas do São Francisco, de Hugo Tavares, lançado em 1998; Retalhos d’alma, da poetisa Aldenôra Dias Ribeiro, lançado em 1999; Ribeiro, um professor – antologia em prosa e verso – da compiladora Aldenôra Dias Ribeiro, lançado em 1999; Viagem ao além-túmulo, do professor Marcos Cavalcanti, lançado em 1999; Monsenhor Raimundo, presente de Deus – antologia em prosa e verso, da compiladora Aldenôra Dias Ribeiro, lançado em 2000; Brasil antes e depois Brasil 500 anos, de Hugo Tavares, lançado em 2000; Poemas que a vida inspirou, de Matias Filho, lançado em 2000; 107 Ibidem, Idem, p. 41. 93
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    Sonetos e poemasdiversos, de Antônio de Pádua Borges, lançado em 2001, são indícios de que a literatura santacruzense reage a todas as forças antagônicas ao desenvolvimento dessa arte; ela começa a reivindicar, naturalmente, através da publicação de suas obras, um lugar de destaque na nossa cultura regional. 94
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    CONSIDERAÇÕES FINAIS O surgimento do Núcleo de Ensino Superior do Trairi – NEST –, em 1981, é, numa perspectiva de atualização, ou seja, de seguir as tendências literárias dos centros mais avançados, o marco divisório da literatura de Santa Cruz em seus aspectos temporal, formal e temático. As formas e as temáticas tradicionais preferidas pelos poetas da Primeira Fase – da fundação à década de setenta – não são mais priorizadas. A nova ordem, a partir de 80, é a da sintonia com as liberdades modernas e suas estéticas, desde 1922, praticadas no país. Essas novas temáticas, na maioria de engajamento social, são um reflexo de uma crescente politização dos novos poetas e cronistas locais. Órfãos do NEST, os já diplomados alunos-poetas do NEST sentem-se na obrigação de repercutir sua nova visão de mundo e suas revolucionárias técnicas para a nova geração. A sala de aula foi palco para algumas experiências literárias desenvolvidas por poetas que tem como profissão a docência. O jornal Memorial Santacruzense, fundado pelo poeta Marcos Cavalcanti nos fins dos anos 90, é um grande incentivador da nossa arte literária. No crepúsculo do século XX, alguns poetas da Primeira e da Segunda Fase criam a Associação Santacruzense de Poetas e Escritores – ASPE – com o objetivo de estimular cada vez mais o surgimento de novos talentos literários, bem como de publicar as suas obras. O concurso de poesia realizado pela Biblioteca Municipal é a grande novidade do início do novo século. Surgem poetas e cronistas com suas líricas e prosas poéticas revolucionárias, numa espécie de síntese de todos os ismos, todos os estilos individuais, todas as temáticas, todas as vanguardas, em perfeita sintonia com as liberdades modernas do dia-a- dia. 95
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    A literatura localque refletiu as cantigas de amor do Trovadorismo, a perfeição da forma do Classicismo, o bucolismo do Arcadismo, a exaltação da terra querida e de seu povo, o pessimismo e o mal-do-século byroniano do Romantismo, na poesia popular de Fabião das Queimadas, ou no lirismo de Luís Patriota, Cosme Marques, Abdias, Márcio Marques, Luís de Almeida, Letácio,Teresa Lúcia agora se incorpora às inovações da linguagem e o cientificismo do Realismo, bem como à revolucionária proposta estético-literária da geração de 22 apresentadas pelos novos poetas e escritores tais como Marcos Cavalcanti, Hugo Tavares, Rita Luna, Nailson Costa, Hélio Crisanto, Heraldo Lins, Zedaluz, Otacílio entre muitos outros, em dois espaços temporais delimitados pelo surgimento do Núcleo de Ensino Superior do Trairi sem fazer uso de conflitos ou complexos de superioridades intelectuais. A transição das posturas formais e temáticas não se deu de forma abrupta, pois, em momento nenhum, a estética anterior foi totalmente descartada. A nossa literatura não se caracterizou pelas rejeições dos estilos anteriores, não polemizou a estética de seus antecessores, não refletiu o comportamento dos jovens modernistas de 22, quando estes atacaram veementemente seus companheiros parnasianos, com manifestos provocativos e insultos desnecessários. Muito pelo contrário, o período pós-NEST criara uma mentalidade nos novos poetas e cronistas capaz de entender que não é a escola literária ou período que valoriza a criação artística ou o artista, mas sim este que valoriza a arte, a escola ou o período. Em síntese, como bem escreveu o crítico literário Hênio Tavares: ...preso ou não a uma determinada escola, o artista será grande se grande for a sua obra. As escolas são como que os diversos caminhos condutores da Arte, e a Arte é una e indivisível na sua essência. Compete ao artista, seja clássico ou romântico, simbolista ou modernista, a sua mensagem será válida, sua obra será legítima e irá fatalmente incorporar-se ao patrimônio da Arte108. 108 Hênio Tavares, Teoria Literária, Belo Horizonte – MG: Editora Itatiaia, 1989, p. 47. 96
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    Entendemos, entretanto, queenquadrar textos, poetas e escritores é uma violência cometida pela história da literatura, mas necessária, uma vez que precisamos compreendê-los nos seus mais diversos aspectos. Os pesquisadores da arte literária devem também entender que a beleza de uma arte está exatamente na elegância de driblar as imposições espaço-temporais e de flutuar entre passado, presente e futuro revelando as riquezas estético-utilitárias presentes em cada um deles. Se a nossa pesquisa não é uma exegese crítica, mas sim, apenas uma comprovação histórica, devemos nos deter apenas na análise objetiva de nossas investigações para adquirirmos credibilidade junto aos leitores, estudiosos e críticos da nossa literatura. Nesta perspectiva, nós sentimos que a nossa missão foi cumprida e independentemente de aplausos e/ou vaias fazemos nossas as palavras do grande Henfil: Se não houver frutos, valeu a beleza das flores! Se não houver flores, valeu a sombra das folhas! Se não houver folhas, valeu a intenção da semente! 97
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    BIBLIOGRAFIA ADONIAS, eti alli.Templos Tempos Diversos. Natal: Gráfica Santa Maria. Editora Clima, 1995. ADONIAS, eti alli. Trairi em Versos. Natal: Editora Gráfica Santa Maria, 1997. AMORIM, Hermando José de. Santa Cruz nos caminhos do desenvolvimento. Natal: Gráfica Santa Maria, 1998. BARRETO, Otacílio & COSTA, José da Luz da. Instantâneos Poéticos. Santa Cruz, 1987. BELLEZI, Clenir de Oliveira. Arte Literária. São Paulo –SP: Ed. Moderna, 2001. BEZERRA, Abdias Gomes de Almeida. Rimário de Poetas Brasileiros. Santa Cruz: Tipografia “O Trairi”, 1938. BEZERRA, José Fernandes. Retalhos do meu sertão. Rio de Janeiro: Gráfica e Papelaria Leão do Mar Ltda, 1978. BEZERRA, Monsenhor Severino. Memória Histórica de Santa Cruz. Natal: Nordeste Gráfica Ltda, 1983. BORGES, Antonio de Pádua. Sonetos e Poemas Diversos. Natal: Gráfica Santa Maria, 2001. BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 3ª ed. São Paulo: Editora Pensamento. 1984. CÂNDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira Momentos Decisivos. 6ª Ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda., 1981. CARVALHO, Gastão Nunes de. BEZERRA, José Josias. SILVEIRA, Maria Celestina da. Histórico – Festa de Santa Rita de Cássia. Santa Cruz: 1991. 98
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    MELO, Manoel Rodriguesde. Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte, de 1907 a 1987. Cortez Editora. 1987. MORAIS. Marcus César Cavalcanti. Terras Potiguares. Natal: Dinâmica Editora, Junho de 1998. NICOLA, José de. Literatura Brasileira – Das Origens aos Nossos Dias. 15ª ed. São Paulo: Editora Scipione, 1998. OLIVEIRA, Clenir Bellezi de. Arte Literária. São Paulo: Editora Moderna, 2000. PATRIOTA, Luís. Livro d’alma. Recife – PE: Imprensa Industrial, 1922. PATRIOTA, Luís. Poema das jangadas. Santa Cruz – RN: Tipografia O Trairi, 1933. PEREGRINO, Umberto. Literatura de Cordel em Discussão. Rio de Janeiro: Presença Edições, 1984. PILETT, Nelson. História do Brasil. São Paulo: Editora Ática, 1998. RIBEIRO, Aldenôra Dias (Compiladora). Ribeiro, um Professor. Natal: Nordeste Gráfica e Editora, Agosto de 1999. SILVEIRA, Maria Celestina da. Dados sobre o Município de Santa Cruz. Entrevista aos alunos dos Cursos de Magistério, 1992. SUASSUNA, Luiz Eduardo Brandão. Anotações sobre a História do Rio Grande do Norte. Natal: Editora Clima, 1998. TAVARES, Hênio. Teoria Literária. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda, 1989. 10
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    ENTREVISTAS UTILIZADAS 1. JoséJosias Bezerra – entrevista realizada em março de 2001, em Santa Cruz-RN 2. Josefa Neuza da Costa - entrevista realizada em outubro de 2000, em Santa Cruz-RN. 3. Teresa de Medeiros Costa – entrevista realizada em outubro de 2000, em Santa Cruz-RN. 4. Teresa Lúcia de Carvalho – entrevista realizada em dezembro de 2000, em Santa Cruz-RN. 5. Manuel Macedo de Oliveira – entrevista realizada em abril de 2001, em Natal-RN. 6. Maria Celestina da Silveira – entrevista realizada novembro de 2000, em Santa Cruz-RN. 7. Maria do Rosário – entrevista realizada em outubro de 2000, em Santa Cruz-RN. 8. Rita de Cássia Luna – entrevista realizada em maio de 2001, em Santa Cruz-RN. 9. Marcos Bezerrra Cavalcanti – entrevista realizada em junho de 2001, em Santa Cruz-RN. 10. Antônio de Pádua Borges – entrevista realizada em junho de 2001, em Santa Cruz-RN. Obs.: O autor gostaria de ver este trabalho publicado em livro. Quem se interessar em patrocinar a publicação deste, entre em contato com o autor. Rua João Bezerra da Fonseca, 79, Bairro DNER, Santa Cruz-RN. CEP.: 59200 000. Fone: 0xx 84 2912661. Escola Estadual José Bezerra Cavalcanti, Rua Inharé, 50, Bairro 3 a 1, Santa Cruz-RN. CEP.: 59 200 000. Fone: 0xx 84 291 6924. 10