450
História: Debates e Tendências – v. 9, n. 2, jul./dez. 2009, p. 450-452, publ. no 1o
sem. 2010
Debater gênero e história na contem-
poraneidade tem sido tema recorrente na
historiografia. Levando em consideração a
evidência do tema, a historiadora Andréa
Lisly Gonçalves lançou em 2006 o livro His-
tória & gênero. Na obra a autora objetivou
debater gênero com base numa perspecti-
va histórica das relações de gênero, como o
próprio título denota. O livro divide-se em
três capítulos, que são analisados nas na
sequência.
Militância feminista
O primeiro capítulo adentra o século
XVIII apontando a Convenção de Sêneca
Falls como simbólica na militância femi-
nista. A autora aponta o século XIX como
um momento de mobilizações em relação
às “questões femininas” quando da ocor-
rência da Revolução Francesa, que in-
fluenciou na prática da escrita, permitindo
a emergência de mulheres escritoras.
Gonçalves destaca que a literatura
foi explorada pelas mulheres por colocar o
privado em debate público. Ressalta a fi-
História & gênero: um olhar
crítico da obra1
Cintia Lima Crescêncio*
gura de Virgínia Woolf (1882-1941) como
forte representante da militância feminis-
ta, a qual fez uso da literatura como forma
de expressão. Com seu livro Um teto todo
seu, de 1929, Woolf já sugeria a escrita de
uma história das mulheres.
Segundo Gonçalves, o que diferencia
a militância feminista do século XIX do
movimento feminista do século XX é a luta
pela cidadania representada pelo sufra-
gismo, luta que precisou ser empreendida
apesar do conhecido voto “universal”, na
medida em que nele não estavam inclusas
as mulheres, ditas “inferiores”.
As transformações causariam medo
e provocariam discursos de contenção das
mulheres no mundo público, no entanto as
exigências do mundo capitalista permiti-
ram a inclusão de professoras, operárias
*
Mestranda em História na Universidade Fede-
ral de Santa Catarina. Graduada do curso de
História bacharelado da Universidade Federal
do Rio Grande. Pesquisa os temas de gênero e
aborto. Email: <cintialima23@gmail.com>
1
GONÇALVES, Andréa Lisly. História & gênero.
Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
451
História: Debates e Tendências – v. 9, n. 2, jul./dez. 2009, p. 450-452, publ. no 1o
sem. 2010
nessa esfera. Apesar dessa “saída”, o sé-
culo XIX, segundo Gonçalves, é marcado
pela criação de códigos de conduta que
normatizavam o comportamento feminino
e que instituíam um “modelo vitoriano”,
fruto da noção burguesa de privacidade e
de valorização da família.
Anatomia e destino
O segundo capítulo tem início com
uma referência a Freud, psicanalista que
afirmou ser a anatomia o destino, confir-
mando as ideias do século XIX de que as
identidades biológicas determinavam as
identidades femininas e masculinas. Mi-
chelet foi outra figura do século que, apesar
de ceder espaço aos sujeitos femininos em
suas narrativas, também concedeu aos su-
jeitos um caráter naturalizante, pelo qual
as mulheres estavam ligadas à natureza
(família, lar, maternidade) e o homem, à
civilização, visão bastante corriqueira sé-
culos antes.
Gonçalves apontou O segundo sexo de
Beauvoir como o estopim para o abandono
de concepções fatalistas e, agora sim, liga-
das a construções históricas e culturais,
precedido por teorias historiográficas.
O positivismo (XIX) negou a histó-
ria das mulheres, assim como não permi-
tia que mulheres fossem historiadoras. A
antropologia histórica (XIX) estudava ba-
sicamente a família e, portanto, também
o feminino. A Escola dos Annales (1930)
possibilitou que as mulheres fossem in-
corporadas à historiografia; mesmo não as
estudando, alargou o campo histórico. O
marxismo (fortalecido em 1960-1970) ce-
deu reduzido espaço às mulheres, apesar
de muitas feministas serem marxistas. Fi-
nalmente, a nova história concedeu voz a
sujeitos silenciados, entre os quais as mu-
lheres. Esse foi, segundo a autora, o cami-
nho historiográfico dos sujeitos femininos.
É Joan Scott umas das primeiras a
argumentar que se necessita de uma his-
tória das mulheres menos preocupada com
a questão linear, narrativa, para além da
chamada história tradicional, difusora de
uma ideia de dominação. Scott defende
uma história mais voltada à temática das
relações de gênero, no sentido crítico, que
leve em consideração a disciplina história
e o feminismo.
No que se refere à historiografia das
mulheres, a autora aponta a obra História
das mulheres no Ocidente, de George Duby
e Michelle Perrot, e a obra História das
mulheres no Brasil, de Mary Del Priore,
como marcos.
Para Gonçalves, a historiografia so-
bre as mulheres dividia-se em temáticas:
século XVIII e XIX – papel feminino na fa-
mília, casamento, maternidade, sexualida-
de; século XIX e XX – educação feminina,
prostituição.
História das mulheres: fontes,
temas, abordagens
A consolidação da história das mu-
lheres possibilitou uma revolução no uso
das fontes, que passaram a abranger es-
critas de si, documentos “oficiais”, jornais,
literatura, fontes policiais, censos, história
452
História: Debates e Tendências – v. 9, n. 2, jul./dez. 2009, p. 450-452, publ. no 1o
sem. 2010
oral. Essa variedade, segundo Gonçalves,
possibilitou ainda a ampliação dos temas.
A autora aponta autobiografias, diários
e cartas como facilitadoras na escrita da
história das mulheres, que, mesmo com fa-
lhas, serviu como relatora de fatos apaga-
dos pela historiografia convencional.
Considerações sobre a obra
Apesar de Gonçalves intitular sua
obra de História & gênero, notamos que a
historiadora preocupou-se essencialmente
com a historiografia das mulheres, apon-
tando estudiosos preocupados em escrever
a história das mulheres, detendo-se no ca-
ráter narrativo e na desconsideração de o
gênero feminino ser uma construção his-
tórica, como a própria autora reconheceu.
Citando historiadoras como Michelle Per-
rot, Mary Del Priore e apenas Joan Scott
como representante de historiadores que
utilizam a categoria gênero, Gonçalves,
contrariando seus objetivos e o título de
seu livro, disserta sobre história e história
das mulheres, não sobre história e gênero,
como se propôs inicialmente. Mesmo consi-
derando a categoria gênero como relevante
para a pesquisa histórica, Gonçalves cons-
truiu em seu texto um panorama da histó-
ria das mulheres, citando a emergência do
gênero apenas como “último ato” do campo
de pesquisas sobre os sujeitos femininos,
não levando em consideração historiado-
ras como Tânia Navarro Swain, Joana
Maria Pedro, Rachel Soihet, que utilizam
a categoria gênero como campo de estudos.
Consideramos o texto válido no sentido in-
trodutório no que se refere à história das
mulheres, no entanto para se aprofundar
nos estudos de gênero é necessário buscar
novos horizontes.

2976 10602-1-pb

  • 1.
    450 História: Debates eTendências – v. 9, n. 2, jul./dez. 2009, p. 450-452, publ. no 1o sem. 2010 Debater gênero e história na contem- poraneidade tem sido tema recorrente na historiografia. Levando em consideração a evidência do tema, a historiadora Andréa Lisly Gonçalves lançou em 2006 o livro His- tória & gênero. Na obra a autora objetivou debater gênero com base numa perspecti- va histórica das relações de gênero, como o próprio título denota. O livro divide-se em três capítulos, que são analisados nas na sequência. Militância feminista O primeiro capítulo adentra o século XVIII apontando a Convenção de Sêneca Falls como simbólica na militância femi- nista. A autora aponta o século XIX como um momento de mobilizações em relação às “questões femininas” quando da ocor- rência da Revolução Francesa, que in- fluenciou na prática da escrita, permitindo a emergência de mulheres escritoras. Gonçalves destaca que a literatura foi explorada pelas mulheres por colocar o privado em debate público. Ressalta a fi- História & gênero: um olhar crítico da obra1 Cintia Lima Crescêncio* gura de Virgínia Woolf (1882-1941) como forte representante da militância feminis- ta, a qual fez uso da literatura como forma de expressão. Com seu livro Um teto todo seu, de 1929, Woolf já sugeria a escrita de uma história das mulheres. Segundo Gonçalves, o que diferencia a militância feminista do século XIX do movimento feminista do século XX é a luta pela cidadania representada pelo sufra- gismo, luta que precisou ser empreendida apesar do conhecido voto “universal”, na medida em que nele não estavam inclusas as mulheres, ditas “inferiores”. As transformações causariam medo e provocariam discursos de contenção das mulheres no mundo público, no entanto as exigências do mundo capitalista permiti- ram a inclusão de professoras, operárias * Mestranda em História na Universidade Fede- ral de Santa Catarina. Graduada do curso de História bacharelado da Universidade Federal do Rio Grande. Pesquisa os temas de gênero e aborto. Email: <cintialima23@gmail.com> 1 GONÇALVES, Andréa Lisly. História & gênero. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
  • 2.
    451 História: Debates eTendências – v. 9, n. 2, jul./dez. 2009, p. 450-452, publ. no 1o sem. 2010 nessa esfera. Apesar dessa “saída”, o sé- culo XIX, segundo Gonçalves, é marcado pela criação de códigos de conduta que normatizavam o comportamento feminino e que instituíam um “modelo vitoriano”, fruto da noção burguesa de privacidade e de valorização da família. Anatomia e destino O segundo capítulo tem início com uma referência a Freud, psicanalista que afirmou ser a anatomia o destino, confir- mando as ideias do século XIX de que as identidades biológicas determinavam as identidades femininas e masculinas. Mi- chelet foi outra figura do século que, apesar de ceder espaço aos sujeitos femininos em suas narrativas, também concedeu aos su- jeitos um caráter naturalizante, pelo qual as mulheres estavam ligadas à natureza (família, lar, maternidade) e o homem, à civilização, visão bastante corriqueira sé- culos antes. Gonçalves apontou O segundo sexo de Beauvoir como o estopim para o abandono de concepções fatalistas e, agora sim, liga- das a construções históricas e culturais, precedido por teorias historiográficas. O positivismo (XIX) negou a histó- ria das mulheres, assim como não permi- tia que mulheres fossem historiadoras. A antropologia histórica (XIX) estudava ba- sicamente a família e, portanto, também o feminino. A Escola dos Annales (1930) possibilitou que as mulheres fossem in- corporadas à historiografia; mesmo não as estudando, alargou o campo histórico. O marxismo (fortalecido em 1960-1970) ce- deu reduzido espaço às mulheres, apesar de muitas feministas serem marxistas. Fi- nalmente, a nova história concedeu voz a sujeitos silenciados, entre os quais as mu- lheres. Esse foi, segundo a autora, o cami- nho historiográfico dos sujeitos femininos. É Joan Scott umas das primeiras a argumentar que se necessita de uma his- tória das mulheres menos preocupada com a questão linear, narrativa, para além da chamada história tradicional, difusora de uma ideia de dominação. Scott defende uma história mais voltada à temática das relações de gênero, no sentido crítico, que leve em consideração a disciplina história e o feminismo. No que se refere à historiografia das mulheres, a autora aponta a obra História das mulheres no Ocidente, de George Duby e Michelle Perrot, e a obra História das mulheres no Brasil, de Mary Del Priore, como marcos. Para Gonçalves, a historiografia so- bre as mulheres dividia-se em temáticas: século XVIII e XIX – papel feminino na fa- mília, casamento, maternidade, sexualida- de; século XIX e XX – educação feminina, prostituição. História das mulheres: fontes, temas, abordagens A consolidação da história das mu- lheres possibilitou uma revolução no uso das fontes, que passaram a abranger es- critas de si, documentos “oficiais”, jornais, literatura, fontes policiais, censos, história
  • 3.
    452 História: Debates eTendências – v. 9, n. 2, jul./dez. 2009, p. 450-452, publ. no 1o sem. 2010 oral. Essa variedade, segundo Gonçalves, possibilitou ainda a ampliação dos temas. A autora aponta autobiografias, diários e cartas como facilitadoras na escrita da história das mulheres, que, mesmo com fa- lhas, serviu como relatora de fatos apaga- dos pela historiografia convencional. Considerações sobre a obra Apesar de Gonçalves intitular sua obra de História & gênero, notamos que a historiadora preocupou-se essencialmente com a historiografia das mulheres, apon- tando estudiosos preocupados em escrever a história das mulheres, detendo-se no ca- ráter narrativo e na desconsideração de o gênero feminino ser uma construção his- tórica, como a própria autora reconheceu. Citando historiadoras como Michelle Per- rot, Mary Del Priore e apenas Joan Scott como representante de historiadores que utilizam a categoria gênero, Gonçalves, contrariando seus objetivos e o título de seu livro, disserta sobre história e história das mulheres, não sobre história e gênero, como se propôs inicialmente. Mesmo consi- derando a categoria gênero como relevante para a pesquisa histórica, Gonçalves cons- truiu em seu texto um panorama da histó- ria das mulheres, citando a emergência do gênero apenas como “último ato” do campo de pesquisas sobre os sujeitos femininos, não levando em consideração historiado- ras como Tânia Navarro Swain, Joana Maria Pedro, Rachel Soihet, que utilizam a categoria gênero como campo de estudos. Consideramos o texto válido no sentido in- trodutório no que se refere à história das mulheres, no entanto para se aprofundar nos estudos de gênero é necessário buscar novos horizontes.