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Projeto de pesquisa suas funções e partes constitutivas

  1. 1. Projeto de Pesquisa – suas funções e partes constitutivas 1 José D’Assunção Barros2 Resumo O artigo propõe-se a discutir, de modo didático, aspectos introdutórios relacionados à elaboração de um Projeto de Pesquisa. Discutem-se os motivos e razões para a utilização deste recurso de planejamento de pesquisa que é o Projeto, e as partes que o constituem. O texto remete a um livro mais aprofundado publicado pelo autor, e apresenta este livro como referência única devido à singularidade do artigo, que é a de apresentar-se como convite para que o leitor procure esta obra para maiores aprofundamentos. Palavras-chave: projeto, pesquisa, metodologia, teoria, planejamento. Abstract The article proposes to discuss, in a didactic way, introductory aspects pertinent to the elaboration of a Research Project. They are discussed the motives and reasons for the utilization of this resource of research planning, that is the Project, and they are discussed also the parts that constitute a Project. The text refers to a book more developed that was published by the author, and presents this books as reference, in order to attend to its singularity, that is to invite the reader to search this work for more deep approach. Keywords: project, research, methodology, theory, planning.1 Para que escrever um Projeto de ser construídos a cada momento pelo próprioPesquisa? pesquisador. Até mesmo a escolha do lugar a ser alcançado ou visitado não é mera questão Iniciar uma Pesquisa, em qualquer campo de apontar o dedo para um ponto do mapa,do conhecimento humano, é partir para uma pois este lugar deve ser, também ele, construídoviagem instigante e desafiadora. Mas trata-se, a partir da imaginação e da criatividade dodecerto, de uma viagem diferente, onde já não investigador.se pode contar com um caminho preexistente Delimitado o tema, o problema a ser inves-que bastará ser percorrido após a decisão de tigado, e os objetivos a serem atingidos, opartir. Se qualquer viagem traz consigo uma pesquisador deverá em seguida produzir ousensação de novidade e de confronto com o des- constituir os seus próprios materiais – poisconhecido, a viagem do conhecimento depara- não os encontrará prontos em uma agênciase adicionalmente com a inédita realidade de de viagens ou em uma loja de artigos apro-que a estrada e o percurso da Pesquisa devem priados para a ocasião – e isto inclui desde1 O artigo aqui apresentado sintetiza o capítulo inicial de um livro publicado pelo autor: BARROS, José D’Assunção, O Projeto de Pesquisa em História (Petrópolis: Vozes, 2008, 4ª edição).2 Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor visitante da Universidade Federal de Juiz de Fora (Juiz de Fora) e Professor Titular da Universidade Severino Sombra (USS) de Vassouras (Brasil). E-mail: jose.assun@globo.com
  2. 2. educação, ciência e tecnologia os instrumentos necessários à empreitada até os os capítulos de sua dissertação, à medida que modos de utilizá-los. É assim que, se qualquer vai levantando e analisando os seus materiais viagem necessita de um cuidadoso plane- (como na História ou na Sociologia), ou à jamento – de um roteiro que estabeleça as medida que vai realizando os seus experimen- etapas a serem cumpridas e que administre os tos (neste último caso, considerando ciências recursos e o tempo disponível – mais ainda a como a Física ou a Química). Se ele passa a ela- viagem da Pesquisa Científica necessitará borar o seu Projeto, a contragosto, é porque deste instrumento de planejamento, que neste se acha obrigado a isto institucionalmente, uma caso também será um instrumento de elabora- vez que deverá defendê-lo a certa altura do seu ção dos próprios materiais de que se servirá curso em um evento que nas universidades o viajante na sua aventura em busca da cons- brasileiras chama-se “exame de qualificação”. trução do conhecimento. Este é o papel do Já com relação ao pesquisador que par- Projeto na Pesquisa Científica. ticipa de um Programa de Pós-Graduação em O Projeto de Pesquisa deve ser, natural- nível de Doutorado, este, na maior parte dos mente, um instrumento flexível, pronto a ser casos, já deve ter elaborado o seu Projeto antes ele mesmo reconstruído ao longo do próprio de ter ingressado no Programa – e neste caso percurso empreendido pelo pesquisador. Se o Projeto terá assumido para ele, para além o conhecimento é produto da permanente do papel de uma exigência institucional, a interação entre o pesquisador e o seu objeto função de uma “carta de intenções” a partir de estudo, como tende a ser considerado nos da qual ele procurou convencer a banca exa- dias de hoje, as mudanças de direção podem minadora de que era um candidato interes- ocorrer com alguma freqüência, à medida que sante para o Programa. esta interação se processa e modifica não apenas Por outro lado, para além dos ambientes o objeto de estudo, mas o próprio estudioso. acadêmicos e universitários, com freqüência Ao se deparar com novas fontes, ao ima- uma pesquisa é proposta pelo seu executante para ser financiada por organizações nacionais ginar novas hipóteses, ao se confrontar com as e internacionais, por institutos e órgãos de inevitáveis dificuldades, ao produzir novos fomento à pesquisa, e também por empresas vislumbres de rumos possíveis, ou ao amadu- da caráter privado ou estatal. Os professores recer no decorrer do próprio processo de pes- que atuam nos meios universitários também quisa, o investigador deverá estar preparado devem, na maior parte das vezes, registrar as para lidar com mudanças, para abandonar pesquisas que estão realizando como parte roteiros, para antecipar ou retardar etapas, para de suas atividades docentes. Em todos estes se desfazer de um instrumento de pesquisa casos, a elaboração do Projeto de Pesquisa em favor do outro, para repensar as esquema- se apresenta novamente como uma exigência tizações teóricas que até ali haviam orientado necessária, e a incapacidade de atender a esta o seu pensamento. Neste sentido, todo Projeto exigência de maneira minimamente satis- é provisório, sujeito a mutações, inacabado. fatória pode implicar perda de oportunida- Diante deste caráter provisório e inaca- des profissionais importantes. bado do Projeto, o pesquisador iniciante freqüen- Em que pesem estes aspectos institu- temente se vê tentado a supor que elaborar cionais de que se pode ver revestido, um Pro- um Projeto é mera perda de tempo, e que me- jeto de Pesquisa é na verdade muito mais do lhor seria iniciar logo a pesquisa. Da mesma que isto. Assim, contrariamente à falsa idéia de forma, o estudioso que acaba de ingressar em que o Projeto é meramente uma exigência for- um Programa de Mestrado, o estudante que mal e burocrática, ou de que se constitui apenas está em vias de elaborar a sua Monografia de naquele recurso necessário para a Instituição final de curso ou de pós-graduação, ou o alu- selecionar candidatos a pesquisadores ou ava- no envolvido em uma pesquisa de Iniciação liar o seu desempenho, o estudioso mais ama- Científica, não raro se põem a perguntar se durecido sabe que o Projeto é efetivamente não seria mais adequado começar já a escrever uma necessidade da própria pesquisa. Sem o68
  3. 3. LIBERATOProjeto, ele sabe que a sua viagem se transfor- Certamente que a principal função de ummará em uma caminhada a ermo, que os re- Projeto de Pesquisa é a de apresentar a suacursos em pouco tempo estarão esgotados por responsabilidade social – considerando quefalta de planejamento, e que os próprios ins- o Projeto é também um elo entre o Pesquisa-trumentos necessários para iniciar a viagem, dor e a sociedade que o acolhe, seja no quepara dar um passo depois do outro, sequer se refere àqueles que possibilitarão a pro-chegarão a ser elaborados. Ademais, sempre é dução e desenvolvimento da pesquisa en-bom ressaltar que uma das principais finalida- quanto base de apoio ou mesmo como objetodes do Projeto, além de visar a definição pre- de análise, para o caso das Ciências Sociais ecisa do que será pesquisado, é registrar do por- Humanas, seja no que se refere à própria socie-quê e do para que realizar a pesquisa (isto é, a dade para a qual se direcionam os resultadossua responsabilidade social), o que, via de re- da Pesquisa. O Projeto, naturalmente, é registrogra, conforme veremos, deverá ser esclareci- de uma relevância social e acadêmica, de umdo em um item bastante específico do Proje- compromisso com a sociedade e a comunidadeto que é a ‘Justificativa’. científica. Reconhecendo esta dimensão fun- Retomando a questão de que o Projeto damental de um Projeto de Pesquisa, estare-corresponde à própria constituição dos mate- mos, em seguida, considerando aquelas funçõesriais e rumos a serem trilhados pela Pesquisa, do Projeto que se relacionam mais diretamentesem o Projeto, o pesquisador mais experiente com o próprio planejamento e desenvolvimentosabe que não existe sequer um caminho, uma da Pesquisa.vez que este deve ser construído gradualmente No esquema proposto, encontraremosa partir de materiais elaborados pelo próprio as já mencionadas funções formais ou buro-pesquisador – sendo a elaboração do Projeto cráticas, que os pesquisadores iniciantes con-simultaneamente o primeiro passo da cami- fundem com a única razão de ser do Projeto,nhada e o primeiro instrumento necessário mas também as funções operacionais, que sãopara se pôr a caminho. O Projeto de Pesquisa, inerentes à própria realização de uma Pes-desta maneira, mostra-se a este pesquisador quisa em si mesma. Assim, se o Projeto é umaprecisamente um ganho de tempo, um agili- “carta de intenções” (1) onde o pesquisadorzador da pesquisa, um eficaz roteiro direcio- exibe a sua proposta investigativa para umanador, um esquema prévio para a construção instituição acadêmica ou científica, e se ele édos materiais e técnicas que serão necessários um “item curricular” nas instituições de Pós-para alcançar os objetivos pretendidos. Graduação (2), o Projeto é também um pode- O “Quadro 1” procura resumir algumas das roso instrumento que cumpre as funções deprincipais funções de um Projeto de Pesquisa. “direcionador da pesquisa” (3). Quadro 1 – Funções do Projeto de Pesquisa 69
  4. 4. educação, ciência e tecnologia Neste último particular, o pesquisador Alguns destes diálogos, em se tratando que pretenda iniciar sem um Projeto a sua das pesquisas de Pós-Graduação, encontram viagem de construção do conhecimento, cedo precisamente o seu lugar nos momentos em perceberá que o próprio tema lhe parece fugir que o pesquisador expõe o seu Projeto a pro- constantemente. Facilmente o pesquisador pode fessores e colegas nos vários seminários que se pôr a perder em uma floresta temática, que habitualmente constituem parte dos itens curri- lhe oferece mil direções e possibilidades, até culares de um curso de Mestrado ou de Dou- que perceba que, dentro de um tema mais torado. O próprio “Exame de Qualificação” é amplo, é preciso recortar, criar um problema, precisamente um momento maior nesta rede estabelecer uma direção, e que o Projeto vai permanente de diálogos – um momento algo lhe permitir precisamente a efetivação destes ritualizado em que o pesquisador apresenta múltiplos recortes que tornarão a sua pesquisa o seu trabalho a alguns professores para receber possível, viável e relevante. críticas e sugestões que o ajudarão a aperfeiçoar Esta constituição gradual e sistemática o seu trabalho e a encontrar novos caminhos. de um objeto de pesquisa não necessita apenas O Projeto cumpre, desta forma, oferecer de uma direção e de um recorte delimitador, o “retrato de uma pesquisa em andamento” mas também de um planejamento. Aqui, o (7). Neste momento, em se tratando de uma Projeto vem trazer outra contribuição, uma pesquisa que visa a elaboração de uma Dis- vez que em uma de suas instâncias ele se sertação de Mestrado, é lícito chamar o pro- constitui em um “roteiro de trabalho” ou em jeto de “Projeto de Dissertação” (ao invés de um instrumento de planejamento (4) sem o “Projeto de Pesquisa”, expressão que impli- qual o pesquisador desperdiçaria os seus recur- caria uma investigação que ainda está por se sos, perdendo-se em uma investigação não realizar ou que, no máximo, anunciaria pro- sistematizada para ficar a meio caminho dos cedimentos ainda exploratórios). No caso objetivos que sequer chegou a explicitar de de um “Projeto de Dissertação”, que o estu- maneira mais clara para si mesmo. dante de mestrado apresenta já na metade do Sobretudo, o Projeto é um eficaz “ins- seu curso, a Pesquisa já deve se encontrar trumento para elaboração de idéias” e para em estágio mais avançado e definido, e daí a auto-esclarecimento de quem o produz (5). pertinência desta mudança de designação. Ao elaborar um quadro teórico ou ao pensar Deve-se mencionar ainda que, neste e metodologias, ao construir hipóteses e fixar em outros casos, é aconselhável, ou mesmo objetivos, ao empreender uma revisão biblio- imprescindível, acrescentar ao Projeto um gráfica que colocará o pesquisador diante da “Plano de Capítulos”, no qual devem estar literatura já existente sobre o assunto, o Pro- sumariados, de modo sintético e preliminar, jeto vai gradualmente esclarecendo aquele os capítulos pretendidos para o texto final da que o produz, dando-lhe elementos para Dissertação de Mestrado ou Tese. Em tempo: articular melhor as suas idéias e confrontá- este “plano de capítulos” é também provisório, las com o que já foi feito naquele campo de sujeito a mudanças e redefinições, e as próprias conhecimento. sugestões recebidas pela banca examinadora Mais ainda, o Projeto permite que a pes- podem contribuir para este redirecionamento quisa em andamento seja exposta aos olhares que poderá conduzir a uma nova organiza- de outros pesquisadores, sejam professores ção de capítulos. e profissionais mais experientes, que incluem o orientador da dissertação ou da tese, sejam 2 As partes de um Projeto de Pesquisa os colegas de mesmo nível, também capazes de contribuir significativamente para uma pes- Conforme pudemos ver, o Projeto cum- quisa que, sabe-se muito bem, nunca é um pre múltiplas funções e finalidades no trabalho trabalho exclusivamente individual. O Projeto de Pesquisa. Ele procura antecipar algumas torna-se, desta maneira, um instrumento para perguntas fundamentais relacionadas à Pes- o “diálogo científico e acadêmico” (6). quisa proposta, tanto no sentido de dar uma70
  5. 5. LIBERATOsatisfação a terceiros (quando for o caso) como delimitações, bem como integrar recortes simul-no sentido de promover um auto-esclarecimento tâneos que podem remeter a um tempo, a umpara o próprio pesquisador e um delineamento espaço, a um problema investigado. Por ora,preciso do recorte temático, de cada etapa, de de uma maneira um tanto simplificada, dire-cada instrumento, de cada técnica a ser abordada. mos que é precisamente aqui que o pesqui-Assim, ele responde de antemão às seguintes sador deve esclarecer ao seu leitor qual é operguntas relacionadas à pesquisa proposta: objeto de sua investigação ou da sua realiza-O que se pretende fazer? Por que fazer? Para ção científica.que fazer? A partir de que fundamentos? Com “Por que fazer?” é uma pergunta impor-o que fazer? Como fazer? Com que materiais? tante, que interessa particularmente àquelesA partir de que diálogos? Quando fazer? que irão decidir se o seu projeto deve prosse- guir, se deve ser financiado, se pode ser aceito Cada uma destas perguntas remete, em em um programa de pesquisa ou de Pós-princípio, a uma parte específica do Projeto Graduação. O capítulo do Projeto que busca– a uma espécie de compartimento redacional esclarecer isto, de forma bem convincente eonde o pesquisador procura esclarecer de ma- argumentativa, denomina-se, habitualmente,neira clara e precisa, para os outros ou para ‘Justificativa’ (2). Não raro, também acrescen-si mesmo, as várias instâncias que devem ta-se a esta denominação as palavras ‘relevân-alicerçar o seu trabalho (Quadro 2). cia’ ou ‘viabilidade’, que no fundo não são mais “O que fazer?”, por exemplo, é uma per- do que aspectos específicos de uma ‘justifi-gunta que se busca esclarecer logo de princípio, cativa’ no seu sentido mais amplo.na “Introdução” do Projeto e, eventualmente, “Para que fazer?” vincula-se ao estabele-em um capítulo denominado ‘Delimitação cimento de objetivos a atingir – dando origemTemática’ (1) ou ‘Exposição do Problema’ (estes a um capítulo bastante conciso que se referenomes variam muito, de instituição a institui- às finalidades a serem alcançadas, freqüen-ção, e não devem ser tomados como parâmetros temente enunciadas em ordem numérica e daabsolutos). Veremos mais adiante que a res- maneira mais simples possível. Este capítuloposta a esta pergunta deve sofrer sucessivas recebe, normalmente, o título de “Objetivos” (3). Quadro 2 – As partes de um Projeto de Pesquisa 71
  6. 6. educação, ciência e tecnologia “A partir de que fundamentos?” remete sobre os quais irá trabalhar – materiais que não a todo um conjunto de possibilidades teóricas são propriamente aparelhos e ferramentas, mas ou mesmo de visões de mundo que, pelo sim a matéria-prima que sofrerá a intervenção menos em parte, o pesquisador já deve trazer das ferramentas e instrumentais diversos. consigo ao iniciar a sua viagem produtora de No caso da História, para dar o exemplo conhecimento. O capítulo que busca concentrar de uma das ciências humanas, esta espécie a referência a estes aspectos fundamentais, de matéria-prima fundamental da qual preci- verdadeiros alicerces mentais que nortearão sará partir o historiador que empreende a sua as ações e as escolhas feitas pelo pesquisador, viagem ao passado é a “fonte” ou o “docu- denomina-se “Quadro Teórico” (4). Trata-se mento histórico”. É conveniente dissertar sobre aqui, de definir desde as filiações mais amplas, as “fontes” que serão utilizadas, antes de dis- até os conceitos, expressões e categorias que correr sobre as metodologias que serão utili- serão utilizados na elaboração reflexiva e na zadas para constituí-las em um corpus docu- sua exposição de resultados. mental definido e para interpretá-las. Daí ser “Com o que fazer?” e “Como fazer?” são bastante comum a designação ‘Fontes e indagações que reenviam respectivamente aos Metodologia’ em um Projeto de História instrumentos e às técnicas de pesquisa. De (equivalente a ‘Materiais e Metodologia’ em fato, um “instrumento” é aquilo com o que se projetos experimentais vinculados ao campo faz, e remete aos recursos de natureza material das ciências exatas). ou mesmo abstrata que serão empregados Deve-se acrescentar que a Metodologia, como verdadeiras ferramentas para a pesquisa. para muito além do mero registro dos materiais Neste caso, são ‘instrumentos’ um cronômetro e e técnicas, deve apresentar essencialmente a uma balança, um tubo de ensaio (para o caso caracterização da abordagem que a pesquisa de pesquisas nas áreas das ciências exatas e pretende utilizar em seu desenvolvimento, biológicas) mas também um formulário, um considerando o problema e seus objetivos. questionário, ou mesmo um gráfico que se Neste sentido, a Metodologia pressupõe todo elabora para acondicionar os dados colhidos um referencial ontológico, epistemológico do e prepará-los para a interpretação. pesquisador. Já uma ‘técnica’ remete ao modo de rea- “A partir de que diálogos?” é a pergunta lizar algo, e abrange procedimentos como as que situa uma Pesquisa em uma rede de intertex- coletas de informações, as entrevistas, as ma- tualidades com outros autores. Dito de outra neiras sistematizadas de empreender obser- forma, indaga-se aqui pelos “interlocutores” vações, e também as análises de conteúdo, as da reflexão a ser realizada. Dificilmente uma análises estatísticas, ou outras metodologias pesquisa científica parte do “ponto zero” (se é destinadas à interpretação dos dados que foram que já existiu alguma que o tenha feito na his- coletados ou captados. Enfim, as “técnicas” tória do conhecimento humano). Nem que seja podem se referir tanto à coleta de dados e à para contestar radicalmente os autores prece- constituição de documentação, como também dentes que já se debruçaram sobre o mesmo às análises destes dados e destas fontes. problema, o pesquisador precisa inserir a sua Os instrumentos e técnicas são habitual- reflexão em um diálogo implícito ou explícito mente acondicionados em um capítulo bastante com a literatura e com o conhecimento já importante do Projeto, e que se denomina existente. Mais comum é que, além das even- “Metodologia” (5), “Métodos e Técnicas”, tuais contestações e correções a autores prece- “Procedimentos Metodológicos”, ou algo do dentes, o pesquisador também encontre autores gênero. Também é utilizada, talvez de ma- e obras que lhe servirão como pontos de apoio, neira ainda mais apropriada, a designação como alavancas para se impulsionar para mais “Materiais e Metodologia” (“Fontes e Metodo- adiante, como inspiração para novos rumos e logia”, por exemplo, para o caso da História). abordagens. É uma designação interessante quando o pesquisa- É neste sentido que, em um Projeto de dor precisa descrever também os materiais Pesquisa, não pode faltar o que se poderia72
  7. 7. LIBERATOchamar de uma “Revisão Bibliográfica”. Alguns Isto seria exaustivo, quando não impossível.modelos de Projeto atribuem um capítulo es- Algumas obras podem apenas ser referen-pecial a este levantamento crítico, no qual o ciadas no compartimento final do Projeto, apesquisador irá apresentar e discutir algumas “Bibliografia” ou “Referências Bibliográficas”das obras preexistentes que serão reapropriadas (8). Outras obras, consideradas pouco impor-no seu trabalho, seja sob a forma de assimilação tantes para a pesquisa, sequer precisam apa-ou de confronto. Mas, por outro lado, o já recer. O que não pode faltar são as fontes maismencionado “Quadro Teórico”, que vimos ser diretas, que no caso de uma pesquisaaquele capítulo em que o pesquisador expõe historiográfica, por exemplo, são os chamadoso seu referencial teórico e os conceitos de que “documentos” ou “fontes históricas”. Estasirá se valer, pode também incluir como item a “fontes primárias”, aliás, devem aparecer se-revisão bibliográfica, já que, de algum modo, paradas da “bibliografia geral”, precedendo-a.esta revisão também representa uma base de Ou seja, no caso dos projetos de História oteoria da qual partirá o pesquisador para ela- capítulo “Bibliografia” deve ser organizadoborar as suas próprias reflexões. em dois itens distintos, um relativo à docu- O importante é que este item (ou o seu mentação de época ou mais diretamente assi-conteúdo) esteja efetivamente presente, em- milada como material primário pertinente aobora sem repetições. Portanto, se foi destacado problema examinado, e outro relacionado àsum capítulo especial para a “Revisão Biblio- obras de autores vários que refletiram sobregráfica” (que muitas vezes aparece logo de- o mesmo tema, e que constituem o diálogopois da “Introdução” ou a da “Delimitação intertextual estabelecido pela Pesquisa.Temática”) as obras ali mencionadas não de- “Quando fazer?” é a pergunta que re-vem ser rediscutidas no “Quadro Teórico”. É mete à temporalidade relacionada à duraçãopossível também discutir algumas obras na “Re- da pesquisa, ao planejamento das suas váriasvisão Bibliográfica”, mais diretamente ligadas etapas. Toda pesquisa deve ser proposta emao tema, e deixar para o “Quadro Teórico” a relação a um intervalo de tempo definido,discussão de outras que se referem mais pro- mesmo que passível de renovação. Freqüen-priamente a instrumentais teóricos que serão temente, ela será realizada por etapas, e seutilizados, a conceitos importantes para a abranger um período relativamente amplopesquisa, a categorias e abordagens. (um ano ou mais) será necessário dar à Insti- Quando o Projeto de Pesquisa delimita tuição satisfações periódicas a respeito doum capítulo especial para a “Revisão Biblio- andamento da Pesquisa, o que poderá ser feitográfica”, logo depois da apresentação do tema com a utilização de um tipo de texto que ée da definição da problemática, esta oportu- chamado “Relatório de Pesquisa”.nidade deve ser aproveitada para apresentar Com relação ao Projeto, as várias etapasas lacunas existentes no conhecimento sobre previstas, as várias atividades que serão reali-o assunto que será abordado. Tornar claras zadas, os diferentes trabalhos que integrarãoas lacunas bibliográficas relativas ao enfoque a pesquisa – tudo isto precisa ser referenciadoproposto, por sinal, é um excelente elo de em um “Cronograma de Pesquisa”, normal-ligação para o item “Justificativa”, que pode mente sob a forma de um quadro ou tabelaprincipiar precisamente ressaltando que, dadas que expõe de maneira instantânea a relaçãoas lacunas ainda existentes neste ou naquele entre o conjunto de ações previstas e o tempoaspecto, o Projeto proposto torna-se extrema- previsto para serem realizadas. O Cronogramamente relevante, já que poderá contribuir de é um instrumento não apenas para o controlealguma maneira para suprí-las. Com isto, o da Instituição, mas principalmente para o auto-pesquisador já parte com um excelente argu- controle do pesquisador no que se refere aomento a favor da necessidade de a sua pes- andamento do seu trabalho. Ele não é, natural-quisa ser empreendida. mente, uma tábua sagrada e implacável, mas é Não é necessário, por outro lado, discutir uma orientação importante para a realização dotoda a bibliografia que existe sobre o assunto. trabalho. 73
  8. 8. educação, ciência e tecnologia Será oportuno mencionar um capítulo informações. Este tipo de pesquisa é em di- recorrente em Projetos que é aquele que se versas ocasiões requerido por empresas que relaciona às “Hipóteses” e que, normalmente, precisam se manter informadas para definir vem situado após o “Quadro Teórico” e antes suas linhas de ação. Pode-se, por exemplo, do capítulo relacionado à “Metodo-logia”. De encomendar uma “pesquisa de mercado”, ou certo modo, as hipóteses constituem o verda- ainda uma “pesquisa de tendências” que vise deiro cerne da pesquisa do tipo “tese”. Vere- acompanhar um processo eleitoral com tal mos adiante que uma hipótese corres-ponde ou qual finalidade. Pode-se visar o levanta- a uma resposta (ou possibilidade de respos- mento do perfil de determinado grupo de con- ta) que se relaciona ao problema formulado. sumidores, ou empreender uma pesquisa des- Dependendo da intencionalidade da Pesqui- critiva que busque levantar as características sa, seu problema e objetivos, pode-se ainda de determinada localidade. Neste caso, se o recorrer ao uso de ‘Questões Norteadoras de Projeto de Pesquisa do qual estamos falando Pesquisa’ em substituição às Hipóteses, o que, não é um projeto problematizado no mode- naturalmente, também implica diferenciação lo de tese, obviamente não tem sentido um de procedimentos de coleta e análise dos da- capítulo relativo a “Hipóteses”. dos ou informações. Em linhas gerais, as partes acima des- Retomando o esclarecimento relacio- critas compõem a totalidade do Projeto de nado à função de hipóteses em certos tipos Pesquisa, podendo ainda ser incluído um ca- de pesquisa, deve-se ressaltar que uma hipó- pítulo relacionado a “Recursos” para o caso tese representa uma direção que se imprime de serem requeridos a determinada instituição à Pesquisa, mesmo que seja abandonada no financiamentos diversos, equipamentos, pas- decorrer do processo de investigação em favor sagens, e também a contratação de pessoal de outra. Ao mesmo tempo em que deve estar técnico. O capítulo “Recursos”, que pode abran- intimamente relacionada ao “Quadro Teórico”, ger um plano de custos da pesquisa e uma as hipóteses também contribuem para definir exposição de suas necessidades materiais, a “Metodologia” que será empregada. Desta for- estaria respondendo a uma nova pergunta: ma, as hipóteses preenchem um certo espaço “Quanto vai custar?”. entre a teoria e a metodologia de um Projeto Pode-se dar, ainda, que para além dos de Pesquisa, razão por que se prefere recursos econômicos e materiais seja necessá- localizá-la entre estes dois capítulos. rio planejar diversificados recursos humanos. De certo modo, é somente quando se Neste caso, estaremos falando de uma pes- consegue elaborar uma ou mais hipóteses de quisa que não será empreendida por uma só trabalho que a Pesquisa começa a tomar a pessoa, mas por uma equipe que poderá ser forma requerida a uma Dissertação de coordenada pelo autor do Projeto. Trata-se, Mestrado ou a uma Tese de Doutorado. Caso neste caso, de planificar a contribuição e atua- contrário, tem-se apenas um trabalho descri- ção de todos os participantes, e de indicar tivo, que pode ser adequado a uma Monografia eventualmente entidades que estejam atuando ou a um Livro que se proponha a desenvolver em conjugação com o Projeto. Em uma pala- determinado assunto, mas que não corresponde vra, trata-se de responder às perguntas “Quem propriamente ao modelo de tese. Uma tese vai fazer?” e “O que cada um vai fazer?”. não é uma reflexão livre, descritiva ou ensaís- Estes últimos aspectos, naturalmente, tica, mas sim uma reflexão sistematizada e fogem ao caso dos Projetos de Dissertação orientada por um determinado problema. ou de Tese, que implicam, necessariamente, Por outro lado, vale lembrar que nem trabalhos individuais. Quanto aos demais as- toda Pesquisa corresponde necessariamente pectos, correspondem ao tipo de conteúdo a um modelo de Tese, e pode se dar que o que deve aparecer em qualquer espécie de objetivo do pesquisador seja apenas o de le- Projeto ao qual se queira dar um tratamento vantar determinado conjunto de dados ou de minimamente profissional. Para sintetizar o74
  9. 9. LIBERATOque já foi dito, o quadro 3 procura relacionar Outro ponto que se mostra oportunoas várias perguntas que se faz a um Projeto esclarecer é a distinção entre o Projeto e a Pes-com os seus capítulos correspondentes. quisa propriamente dita, ou ainda entre o Proje- to e a própria Tese ou Monografia que registrará os resultados da pesquisa. Um projeto é uma proposta de realizar algo, é um roteiro, um instrumento de planejamento. Sua linguagem, ou pelo menos sua intenção, está associada a um tempo verbal no futuro. Já a Tese, a Mono- grafia ou qualquer outro tipo de texto no qual o pesquisador registra o resultado de sua pes- quisa e a sua reflexão, corresponde um tra- balho já realizado e concluído. É a Tese, ou a Monografia, o que poderá se transformar eventualmente em livro, não o Projeto. Em vista disto, a linguagem da tese refere-se a uma pesquisa já realizada, enquanto a do Pro- jeto refere-se a uma Pesquisa por se realizar.Quadro 3 – Perguntas de um projeto e capítulos correspondentes Desta maneira, se em algumas ocasiões Por outro lado, embora os vários tipos de é possível aproveitar para o texto da Tese ouconteúdo atrás descritos marquem uma pre- Monografia trechos que haviam sido escritossença quase certa, deve ficar claro que não existe originalmente para o seu Projeto de Pesquisaum parâmetro oficial e único de Projeto de (um quadro teórico ou metodológico, umaPesquisa no que tange à sua ordem e definição revisão bibliográfica) deve-se ter o cuidadode capítulos. Partindo do modelo proposto, de adaptar a linguagem do ‘futuro ainda nãoo pesquisador pode considerar adequado su- realizado’ que aparece no Projeto para a lin-primir ou acrescentar capítulos, reunir duas guagem do ‘passado já realizado’, da pes-seções em uma única, modificar a ordem de quisa já concluída exposta na Tese. Por fim, acrescentaremos que o modeloapresentação dos capítulos propostos, e assim de Projeto de Pesquisa atrás discutido, empor diante – desde que isto faça algum sentido suas instâncias fundamentais, pode ser utili-para a sua pesquisa ou que atenda a um padrão zado de maneira eficaz para a maioria dosqualquer de lógica proposto pelo próprio campos de conhecimento, sejam os perten-autor do projeto. De igual maneira, um tipo centes ao universo das ciências humanas, sejamde pesquisa ou um campo de conhecimento os pertencentes ao universo das ciências exatasespecífico pode exigir a abertura de um capí- e biológicas.tulo que não seria necessário, ou mesmo perti- Referêncianente, em outro. Enfim, qualquer modelo deProjeto proposto em uma obra de MetodologiaCientífica não é mais que isto: um modelo, BARROS, José D’Assunção. O Projeto depronto para ser alterado e adaptado de acor- Pesquisa em História. 4. ed. Petrópolis: Vozes,do com as necessidades. 2008. 75

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