LIVRO         A BIOGRAFIA DA CANÇÃO QUE NA VOZ DE BILLIE HOLIDAY DENUNCIOU O RACISMO NOS EUA retrato                      ...
retrato                    doBRASIL              WWW.RETRATODOBRASIL.COM.BR | N O 65 | DEZEMBRO DE 2012                   ...
Ponto de Vista       Reprodução       A encenação do mensalão       Como se montou a prova do “maior escândalo da história...
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Mensalão 1                          UM ASSASSINATO                          SEM UM MORTO                          Henrique...
A TABELA DA CBMP PARA A RECEITA FEDERAL       A ex-Visanet, hoje Cielo, diz que tem todos os comprovantes de que os evento...
Renovação do patrocínio da Casa Tom Brasil; fatura do fornecedor, documentação                   26      2003       3804  ...
Campanha Visa Electron Pré-Datado; fatura dos fornecedores, plano de mídia,            55          2004   1243            ...
Previ — Encontro de conselheiros de administração e fiscal; fatura dos                   84      2004       3839          ...
Na Justiça, o procurador-geral        indevidos pela companhia, terem sido                                                ...
Mensalão 2    Sergio Bondioni                      14   | retratodoBRASIL 65RB65pizzolato.indd 14                         ...
A VERDADE O       ABSOLVERÁ?                               Henrique Pizzolato — na foto, na sacada de seu apartamento     ...
Resumindo a devassa feita pela Receita Federal:                          Pizzolato descontava da renda tributável a mesada...
um condomínio de classe média num             Casseb, um nome do mercado, ex-diretor        incriminar Pizzolato. Diz que,...
Danevita disse ser do BB e que teria se recusado a assinar               uma campanha falsa de R$ 60 milhões. Mas não era ...
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  1. 1. LIVRO A BIOGRAFIA DA CANÇÃO QUE NA VOZ DE BILLIE HOLIDAY DENUNCIOU O RACISMO NOS EUA retrato WWW.RETRATODOBRASIL.COM.BR | R$ 9,50 | NO 65 | DEZEMBRO DE 2012 doBRASIL MEMÓRIA MARIA AUGUSTA THOMAZ, O PERFIL DA GUERRILHEIRA DA ALN-MOLIPO QUE MORREU 4 VEZESRB65capaPSD.indd 1 26/11/12 23:28
  2. 2. retrato doBRASIL WWW.RETRATODOBRASIL.COM.BR | N O 65 | DEZEMBRO DE 2012 FALE CONOSCO: www.retratodobrasil.com.br CARTAS À REDAÇÃO redacao@retratodobrasil.com.br 5 Ponto de Vista Divulgação rua fidalga, 146 conj. 42 A ENCENAÇÃO DO MENSALÃO cep 05432-000 são paulo - sp ATENDIMENTO AO ASSINANTE da história da República” assinatura@retratodobrasil.com.br tel. 31 | 3281 4431 de 2a a 6a, das 9h às 17h 8 UM ASSASSINATO SEM UM MORTO Entre em contato com a redação de Retrato do Brasil. Dê sua sugestão, critique, opine. [Lia Imanishi e Raimundo Rodrigues Pereira] Reservamo-nos o direito de editar as mensagens recebidas para 14 A VERDADE O ABSOLVERÁ? adequá-las ao espaço disponível ou para facilitar a compreensão. Retrato do BRASIL é uma publicação mensal da Editora Manifesto S.A. [Lia Imanishi e Raimundo Rodrigues Pereira] 20 A GRANDE VITÓRIA DO PT EDITORA MANIFESTO S.A. PRESIDENTE Lula apostou e ganhou com o candidato Roberto Davis 34 ESTRANHA FRUTA PRECIOSA DIRETOR VICE-PRESIDENTE , a história de uma canção, de Armando Sartori DIRETOR EDITORIAL do clima dos EUA dos anos 1930 Raimundo Rodrigues Pereira [Pergentino Mendes de Almeida] DIRETOR DE RELAÇÕES INSTITUCIONAIS 28 A DIVISÃO APRESSADA Sérgio Miranda 36 LIXO VALIOSO EXPEDIENTE SUPERVISÃO EDITORIAL Raimundo Rodrigues Pereira [Téia Magalhães] agora abre novos caminhos para o estudo EDIÇÃO do genoma humano Armando Sartori 32 DE AZEREDO A CAROLINA SECRETÁRIO DE REDAÇÃO Thiago Domenici 38 AS MORTES DE MARIA AUGUSTA REDAÇÃO Dieckmann, a nova Lei de Crimes THOMAZ [Thiago Domenici] EDIÇÃO DE ARTE armas contra a ditadura, não temia a morte Pedro Ivo Sartori REVISÃO Reprodução Silvio Lourenço [OK Linguística] [Renato Pompeu] COLABORARAM NESTA EDIÇÃO 42 DO BOTA-ABAIXO AO PAC SOCIAL Numa história de iniciativas sem muita REPRESENTANTE EM BRASÍLIA [Ana Castro] 44 FASCINADO POR LENIN ADMINISTRAÇÃO Um obra sobre os principais feitos teóricos Aparecida Carvalho do líder da Revolução Russa de 1917 escrita DISTRIBUIÇÃO EM BANCAS 4 | retratodoBRASIL 65RB65pv.indd 4 26/11/12 10:54
  3. 3. Ponto de Vista Reprodução A encenação do mensalão Como se montou a prova do “maior escândalo da história da República”. E porque essa “prova” é falsa e precisa ser revista pelo STF VALE A PENA ver de novo. Está no relatos se desenvolverem, eu me per- excepcional, feito sob regras especiais, YouTube (http://youtu.be/-smLnl-CFJw), guntava, presidente: o que fizeram com para condenar os réus. nos votos dos ministros do Supremo Tri- o Ban-co-do-Bra-sil?” Esta tese diz que, sob o comando bunal Federal (STF) do dia 29 de agosto, Então, põe alguns dedos da mão es- de Henrique Pizzolato, o então diretor no julgamento do mensalão. A sessão já querda sobre os lábios e explica: “Quan- de marketing e comunicação do BB, foi tinha 47 minutos. Fala o ministro Gilmar do nós vemos que, em curtíssimas ope- possível tirar, graças a uma propina que Mendes. Ele esclarece que tratará da rações, em operações singelas, se tiram ele teria recebido, 73,8 milhões de reais “transferência de recursos por meio da desta instituição 73 milhões, sabendo para que uma trinca de quadrilhas co- Companhia Brasileira de Meios de Paga- que não era para fazer serviço algum...” mandadas pelo ex-chefe da Casa Civil do mento (CBMP)”. Diz, preliminarmente, Neste ponto, parece tentar repetir o governo Lula, José Dirceu, comprassem que, a seu ver, “se cuidava” de recursos que disse e fala engolindo pedaços das deputados. públicos. Faz, então, uma pausa. E adver- palavras: “E se diz isso, inclus... [parece Deixaram os advogados da defesa te ao presidente da casa, ministro Ayres que ele quis dizer inclusive] não era para falar por apenas uma hora em agosto. Britto, que fará um registro. De fato, é prestar servi [serviço, aparentemente].” E os ministros falaram por mais de dois uma espécie de pronunciamento ao País. E conclui, depois de pausa dramática, meses, com uma espécie de promotor Ele diz que todos que tivemos alguma ao final separando as sílabas da palavra público, o ministro Joaquim Barbosa, relação com esta “notável instituição” para destacá-la: “Eu fico a imaginar [...] brandindo a regra de condenar por que é o Banco do Brasil “certamente fi- como nós descemos na escala das de- indícios, e não por provas, réus a quem camos perplexos”. Lembra que o revisor, gra-da-ções.” foi negado um dos princípios históricos Ricardo Lewandowski, “destacou que RB vê a narrativa do ministro de do direito penal, o da presunção da reinava uma balbúrdia” na diretoria de outra forma. Foi um dramalhão, um mau inocência. marketing do banco e completa dizendo teatro. Mas, a despeito do grotesco, a E deu no que deu. A tese central do que parecia ser uma balbúrdia no próprio tese central do mensalão é exatamente mensalão é tão absurda que ainda se banco como um todo. A seguir, ergue a a encenada pelo ministro Mendes. E só espera que o STF possa revogá-la. Ela cabeça, tira os olhos do voto que lia meio foi possível aos ministros do STF con- diz que foram desviados para o PT os apressadamente, encara seus pares. E cordar com ela porque se tratou de um tais 73,8 milhões de recursos do BB para diz cadenciadamente: “Quando eu vi os julgamento de exceção. Um julgamento comprar sete deputados e aprovar, 65 retratodoBRASIL | 5RB65pv.indd 5 26/11/12 10:54
  4. 4. por exemplo, a reforma da Previdência, reservado da CBMP, preparado por um início das investigações, em meados de que todo mundo sabe ter passado com grande escritório de advocacia de São 2005, quando se descobriu que Henrique apoio da direita não governista sem Paulo para ser encaminhado à Receita Pizzolato estava envolvido no esquema precisar de um tostão para ser aprovada. Federal, no qual a companhia lista todos do “valerioduto”. E ganhou forma aca- Dos autos do processo, com apro- esses trabalhos, que confirma informa- bada no relatório final desta comissão, ximadamente 50 mil páginas, cerca de ções constantes das outras três audito- entregue à Procuradoria da República metade é dedicada a três auditorias do rias do BB. Porém, acrescenta um dado em meados de abril de 2006. BB sobre o uso do Fundo de Incentivo Vi- essencial: mostra que a empresa tem os O então procurador-geral Antônio sanet (FIV), do qual teriam sido roubados Fernando de Souza, menos de uma os tais milhões. Pois bem: em nenhuma semana depois, encaminhou a denúncia parte, nem em uma sequer das páginas Nem o Banco ao STF, onde ela caiu sob os cuidados dessas gigantescas auditorias, afirma-se do Brasil nem do ministro Joaquim Barbosa. O que que houve desvio de dinheiro do banco. Souza fez de destaque na denúncia foi Nem o BB nem a Visanet processa- a Visanet processaram tirar da lista de indiciados feita pela ram Pizzolato até agora. Simplesmente CPMI, na parte que apresentava os que porque, até agora, não se propuseram a Pizzolato até agora. operavam o FIV no BB ou que poderiam provar que ele comandou o desvio, nem ser vistos como responsáveis pelo des- mesmo se houve o desvio. E também Não se propuseram vio, todos os que não eram petistas. porque está escrito explicitamente nos Souza — não ingenuamente, deve-se autos que não era ele quem ordenava a provar que ele supor — retirou da lista de indiciados to- os adiantamentos de recursos para a dos os que vinham do governo anterior, empresa de propaganda DNA, de Marcos comandou o desvio do PSDB, entre os quais o diretor de Valério, fazer as promoções. nem sequer varejo, que tinha, no caso, o mesmo, ou O adiantamento de recursos à DNA até mais alto, nível de responsabilidade era feito não pela diretoria que ele se houve o desvio de Pizzolato. E excluiu também o novo comandava, a Dimac, mas por um fun- presidente do banco, Cássio Casseb, um cionário da Direv, a diretoria de varejo. homem do mercado. Esta diretoria era, com certeza, a gran- recibos e todos os comprovantes — como Sob a direção de Barbosa não foi de interessada na venda dos cartões, fotos, vídeos, cartazes, testemunhos — realizada nenhuma nova investigação de o que, aliás, fez com raro brilho, visto atestando que os serviços de promoção peso e a tese do desvio de dinheiro do que o BB desbancou o Bradesco, o sócio para a venda de cartões de bandeira Visa BB continuou sendo a peça central da ar- maior da CBMP, na venda de cartões de pelo BB foram realizados. Ou seja, que mação acusatória. O delegado da Polícia bandeira Visa. não houve o desvio. Federal, Luiz Flávio Zampronha, chegou Nesta edição, na matéria a seguir, A tese do grande desvio que criou o a ser mobilizado para investigar o que “Um assassinato sem um morto”, Re- mensalão surgiu na Comissão Parlamen- ainda se imaginava serem duas fontes trato do Brasil mostra um documento tar Mista de Inquérito dos Correios já no de dinheiro possíveis para o mensalão: o dinheiro do FIV e o de empresas então dirigidas pelo financista Daniel Dantas, Não foi Pizzolato: o jurídico do BB, já em 2001, autorizava a relação informal Visanet-BB a Telemig, a Amazônia Celular e a Brasil Telecom, que também tinham Marcos Valério como agente publicitário. Reprodução Zampronha, tudo indica, chegou a conclusões diferentes das de Souza e de Barbosa, mas seu relatório não consta dos autos da Ação Penal 470, em julga- mento no Supremo. Tanto Souza como Barbosa desqualificaram o delegado no começo de agosto, quando ele deu de- clarações como a de que os empréstimos dos banqueiros ao “valerioduto” de fato existiram e a de que as acusações contra José Dirceu por formação de quadrilha não passavam de figuração. Preocupado em construir uma historinha — em torno de, como vere- mos no caso de Pizzolato, simplórias acusações de corrupção —, o ministro Barbosa não quis entender a estrutura jurídica do Fundo de Incentivo Visa- net, sua natureza propositadamente 6 | retratodoBRASIL 65RB65pv.indd 6 26/11/12 10:54
  5. 5. Folhapress confusa. A CBMP, cujo nome fantasia era Visanet e hoje é Cielo, é dirigida pela Visa Internacional, empresa com sede na Califórnia e uma gigante da era dos cartões de crédito e débito de aceitação global. Em duas centenas de países, a Visa juntou interesses contrários localmente — como, no Brasil, os bancos de varejo Bradesco, BB, Santander — em empre- sas dirigidas por ela, como a CBMP, pela ambição comum de vender mais cartões de sua bandeira. A Visa dá a elas uma fração — 0,1%, um milésimo do movimento de dinheiro dos cartões — para publicidade. Em 2004, por exem- plo, no Brasil, como o giro de dinheiro nos cartões Visa foi estimado em 156 bilhões de reais, a CBMP adiantou para Henrique Pizzolato (o primeiro à direita), depondo na CPMI dos Correios, em 2005 os bancos o milésimo previsto para publicidade, 156 milhões de reais. O dinheiro sempre sai na forma de a inexistência desses contratos, como falsas alegações, o ônus da prova. Ele adiantamento, para que a máquina de se Pizzolato fosse o responsável pela é que tinha de provar que não recebeu promover a venda de cartões não pare. situação, e não a direção do BB. propina. O fato de Pizzolato ter aberto A CBMP fica com 4% a 6% do dinheiro A confusão estrutural, portanto, é seus sigilos bancário e fiscal logo que movimentado pelos cartões, tirando essa: por contrato considerado o mais o escândalo estourou e de a Receita essa parte como comissão dos que adequado pela direção do banco, o BB Federal ter feito uma devassa monu- vendem produtos ou serviços pagos pe- nem ficava com o controle completo da mental em suas contas — especialmente los cartões. E assina contratos-padrão execução das operações de promoção para saber se ele não havia comprado com os bancos constituidores dessas dos cartões nem tinha interesse em o apartamento em que mora em Copa- empresas locais. Nestes, permite que apresentar seus planos de venda de cabana com a suposta propina — e não o banco associado escolha se quer cartões de maneira muito aberta, para ter encontrado nada não convenceu os que ela pague diretamente aos forne- não dar dicas de suas estratégias de ministros, como se vê pelo mal informa- cedores pelos serviços de publicidade marketing para concorrentes, como o do e patético depoimento do ministro para promoção dos cartões ou se quer Bradesco. Gilmar Mendes. receber a verba para a promoção dire- Como se viu, Barbosa não tocou Resta um porém: como os serviços tamente em seu orçamento, prestando nestes assuntos mais complexos. Aca- de promoção dos cartões de fato foram contas posteriormente a ela. Como bou grosseiramente apresentando Pi- feitos, se não houve o desvio de dinheiro se lê na ilustração com um trecho do zzolato como o mandachuva do dinhei- do BB, como explicar a propina — a qual, parecer jurídico do BB, a escolha do ro do FIV, capaz de sacar dinheiro de lá aliás, o Supremo não tem prova de que banco estatal foi a de não receber os para não fazer nada — a não ser ajudar Pizzolato recebeu? De última hora, um recursos em seu orçamento, com o a quadrilha do PT, como ele acha que ministro do Supremo alegou, para con- objetivo de pagar menos imposto de provou. Barbosa não quis ver que, na denar Pizzolato, que tanto era verdade renda. Para tanto, não assinou contrato questão do uso do FIV, a figura central que ele havia recebido o dinheiro de Va- com a DNA para cuidar especificamente do BB não era o diretor de comunicação lério por meio de um contínuo da Previ, destes recursos. e marketing, mas o diretor de varejo, o fundo de pensão dos funcionários do Diz o texto do parecer reafirmado interessado em vender mais cartões e, BB, que dividiu a quantia recebida com em 2004 e firmado inicialmente em portanto, ganhar mais comissões. o próprio contínuo, a quem teria dado 2001, quando o BB associou-se à CBMP O ponto de partida de Barbosa foi o 18 mil reais. O ministro, Dias Tofolli, e foi criado o FIV: os artigos 436-438 fato de Pizzolato ter sido incluído na lista talvez deslumbrado com o ânimo anti- do Código Civil trazem a figura jurídica de recebedores de dinheiro do “valerio- corrupção do STF, esqueceu-se de que “Estipulação em favor de terceiros”, duto”. Pizzolato defendeu-se dizendo a contribuição de Pizzolato para o con- que permite este tipo de relação — a que apenas repassou dinheiro para o tínuo — dada junto com outras pessoas CBMP pagar ao fornecedor da DNA por PT do Rio, coisa verossímil, visto que, para que ele reconstruísse um barraco um serviço feito por demanda do BB. O como já demonstrou RB, esta seção do em que morava — era de bem antes do parecer afirma que não é necessária a partido foi a que mais recebeu recursos escândalo do mensalão. formalização de contratos nem do BB do “valerioduto”, depois do publicitário Nada a estranhar neste absurdo. Se com a DNA para esse fim específico e Duda Mendonça. a tese central do mensalão não tem pé nem da CBMP com a DNA. O ministro Pizzolato foi derrotado porque o STF nem cabeça, por que buscar coerência Barbosa ficou cobrando de Pizzolato inverteu, para este julgamento e sob nos seus detalhes? 65 retratodoBRASIL | 7RB65pv.indd 7 26/11/12 10:54
  6. 6. Mensalão 1 UM ASSASSINATO SEM UM MORTO Henrique Pizzolato foi condenado no STF por um crime – ter desviado 73,8 milhões de reais do Banco do Brasil. Mas o desvio não existe. Veja a prova disso na lista publicada a seguir por Lia Imanishi e Raimundo Rodrigues Pereira NA IDADE MÉDIA, condenava-se Foram feitas três auditorias pelo era tão poderoso assim que teria sido uma bruxa sem precisar provar a exis- BB sobre o emprego dos recursos capaz de ocultar todas as provas con- tência material do crime. Sua confis- que o banco recebia da Companhia cretas do desvio realizado? Jamais. Ele são bastava. Com Henrique Pizzolato, Brasileira de Meios de Pagamentos pediu demissão de seu cargo no BB e ex-diretor de marketing e comunicação (CBMP) para uso em promoções e na diretoria da Previ, o fundo de pen- do Banco do Brasil (BB), foi pior: ele publicidade para a venda de cartões são dos funcionários do banco, logo nunca confessou que tivesse desviado de bandeira Visa – dos quais os 73,8 que seu nome apareceu no escândalo, 73,8 milhões de reais do BB para o milhões teriam sido desviados. É certo em meados de 2005. Como se pode suposto esquema de corrupção do que em todas as auditorias há indícios verificar na tabela que começa na pá- mensalão. Mas foi condenado por 11 de irregularidades. O ministro revisor gina ao lado, os projetos de uso dos votos a zero, no Supremo Tribunal da Ação Penal do mensalão, a AP recursos do fundo dos quais os 73,8 Federal, por esse crime. 470, Ricardo Lewandowski – que fre- milhões de reais teriam sumido eram quentemente corrigiu, para menos, a todos, se realizados, de enorme expo- Cadeira africana do século XVIII, peça fúria condenatória do ministro relator sição pública. Se não realizados, eram da exposição sobre a arte africana, Joaquim Barbosa – disse que a gestão praticamente impossíveis de inventar. 915 mil reais de patrocínio do Fundo dos recursos era uma balbúrdia. Mais uma vez, pobre Pizzolato, ne- de Incentivo Visanet, no Rio, linha 17 Uma das auditorias, feita em 2004, nhuma das instâncias com poder para da tabela ao lado: o STF diz quando Henrique Pizzolato ainda tal mandou fazer essa simples prova da que isso não existiu era diretor do BB, apontava muitas existência material do delito: investigar imperfeições no processo de uso dos se as ações de incentivo haviam sido Reprodução recursos. Nessa auditoria, como nas realizadas ou não, requisito essencial outras duas, aparecem – algumas vezes, para condená-lo pelo desvio dos inclusive – variações da mesma preo- recursos destinados a elas. O PT, do cupação: a gestão era ruim, a tal ponto qual Pizzolato foi um dos abnegados que deixava a dúvida de saber se todos criadores (veja a história: “A verdade o os projetos de promoção e publicidade absolverá?”, à página 14), que tinha a haviam sido de fato realizados. Presidência da República, o Ministério A corte não se preocupou em da Justiça e, em tese, o comando do obter as provas materiais do crime. O Banco do Brasil, o abandonou como argumento dos ministros do STF foi o se ele fosse culpado. de que, em casos de gente muito po- A principal das três comissões derosa, com enorme capacidade para parlamentares de inquérito que inves- ocultar as provas, e, especialmente, em tigou a história, a CPMI dos Correios, presidida pelo petista Delcídio Amaral impunidade, se deveria condenar com e relatada pelo peemedebista Osmar base nos indícios. E pobre Pizzolato: Serraglio, ambos da chamada base como se viu, havia indícios de irregu- aliada, encomendou inúmeros inqué- laridades. ritos à Polícia Federal, todos eles em Mas, afinal, os projetos foram busca, digamos assim, dos criminosos. realizados? Ou não? Antes: Pizzolato Nenhum em busca do “morto”. 8 | retratodoBRASIL 65RB65trabalhos.indd 8 26/11/12 11:08
  7. 7. A TABELA DA CBMP PARA A RECEITA FEDERAL A ex-Visanet, hoje Cielo, diz que tem todos os comprovantes de que os eventos foram feitos Valor em Ano Nota BB Evento e documentação comprobatória R$ (mil) Marketing Cultural Brasília Music Festival; fatura dos fornecedores e imagens do 1 2003 0833b 750 evento evidenciando a exposição da marca Visa 2 2003 30 Marketing Esportivo Tênis Brasil Torneio Exibição; faturas da empresa Octagon 600 Marketing Cultural Projeto Educativo Formação de Professores; contrato de 3 2003 48 300 patrocínio, notas fiscais, folheto do evento Guia D — Mapa Campos de Jordão, criação de espaços Ourocard em areas especiais 4 2003 1212 390 da cidade; cópias do mapa, evidências da exposição 48a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos; relatório fotográfico dos eventos 5 2003 1446 320 publicitários evidenciando a exposição da marca Ourocard Marketing Esportivo Vôlei de Praia Shelda e Adriana; contrato de patrocínio, notas 6 2003 1657 900 fiscais da empresa Adriana B.B. Marketing Social — contratação de atletas, produção de camisetas e divulgação; 7 2003 1677 324,4 faturas das empresas envolvidas; fotos da campanha Publicidade em edifícios, relógios de hora e temperatura, painéis; faturas dos 8 2003 1884 2.839,8 fornecedores, imagens da exposição da marca Visa Mídia aeroportuária; veiculação de publicidade em aeroportos; faturas de 9 2003 1885 2.608,7 fornecedores; documentação relativa à divulgação Publicidade em edifícios, relógios de hora e temperatura, painéis; fatura dos 10 2003 1898 501,3 fornecedores, comprovantes de veiculação Publicidade em doze aeroportos de dez capitais; planos de produção, fatura dos 11 2003 1899 389,9 fornecedores, comprovantes de veiculação Mídia de apoio — Brasília Music Festival; fatura dos fornecedores, documentação 12 2003 2290 605,6 relativa ao evento Mídia avulsa — Rede Vida de Televisão; fatura dos fornecedores, plano de mídia 13 2003 2805 760 relativo à veiculação Mídia de apoio — Brasília Music Festival; fatura dos fornecedores, documentação 14 2003 3057 89,7 relativa ao evento Doação Projeto Criança Esperança; recibo da Unicef referente à doação, carta de 15 2003 3058 350 agradecimento à doação Patrocínio do XVIII Congresso dos Magistrados; contrato de patrocínio*, 16 2003 3122 200 informativos da Associação Brasileira dos Magistrados* Veiculação e produção do projeto Africa CCBB RJ; descrição do projeto, material 17 2003 3163 915 publicitário do evento Material de relacionamento Ourocard (kit vinho, faca para queijo); fatura do 18 2003 3580 1.493,2 fornecedor, relatório fotográfico do material Marketing cultural: “Exposições Itinerantes acervo numismático BB”; descrição do 19 2003 3625 1.873,2 projeto, relatório fotográfico do evento Marketing cultural: Filme Foliar Brasil; fatura dos fornecedores, material relativo à 20 2003 3638 150 campanha Patrocínio Casa da Gávea — fatura de casa de show, contrato de patrocínio 21 2003 3726 200 obrigando a casa a dar descontos para clientes Ourocard Guia D — 450 anos de gastronomia de São Paulo; fatura do fornecedor, cópia do 22 2003 3749 500 livro produzido expondo a marca Ourocard Mídia aeroportuária e exterior — prorrogação; planos de produção, fatura dos 23 2003 3786 599,1 fornecedores e comprovantes de veiculação Mídia aeroportuária — Viracopos — Campinas; planos de produção, fatura dos 24 2003 3790 73,1 fornecedores e comprovantes de veiculação Propaganda e publicidade na revista 19º Prêmio Colunista Brasília 2003; fatura do 25 2003 3792 7,8 fornecedor, documentação relativa à veiculação 65 retratodoBRASIL | 9RB65trabalhos.indd 9 26/11/12 11:08
  8. 8. Renovação do patrocínio da Casa Tom Brasil; fatura do fornecedor, documentação 26 2003 3804 2.500 comprobatória do patrocínio Contratação de serviço técnico especializado — Trevisan Consultores; fatura do 27 2003 3843 534 fornecedor, proposta do serviço prestado Consultoria econômico-financeira da Projeta Consultoria; fatura do fornecedor, 28 2003 3859 12,6 contrato de prestação de serviços Marketing cultural “Bibi canta Piaf”; fatura dos fornecedores, documentação 29 2003 3899 40 relativa ao evento Patrocínio Paço da Alfândega Recife; descrição do projeto, contrato de patrocínio , * 30 2003 3903 1.000 documentação relativa ao evento* 31 2003 4136 Patrocínio do filme Cabra Cega; material relativo ao patrocínio 150 32 2003 4196 Marketing cultural DVD “Fábrica dos Sonhos”; material relativo ao patrocínio 110 Patrocínio réveillon Rio de Janeiro; descrição do projeto, evidências do evento com 33 2003 4289 637,7 exposição da marca Visa Patrocínio a eventos de incentivo à venda de cartões – Programa Superação 2003; 34 2003 4380 1.200 regulamento e lista dos funcionários contemplados “Parada 450 anos de São Paulo” — patrocínio, ações promocionais e 35 2003 4562 600 apresentações “Pia Fraus 1”; faturas e material relativo ao evento Espetáculo teatral “Despertando para sonhar”; faturas e fotos do evento, matéria 36 2003 4570 50 de jornal Casa da Beleza “Ações Promocionais”; descrição do projeto, evidências do evento 37 2003 7540 49,3 (fotos e matérias de jornais e revistas)* TV Globo — campanha Ourocard Gestos Dia dos Pais; fatura dos fornecedores, 38 2003 nihil 870,7 plano de mídia Mídia Shopping — campanha Ourocard Gestos; fatura dos fornecedores, planos de 39 2003 nihil 350 mídia, material relativo à veiculação TV Globo — campanha Ourocard Gestos — Dia das Crianças; fatura dos 40 2003 nihil 1.832,4 fornecedores, plano de mídia TV Globo — campanha Ourocard Gestos — Natal; fatura dos fornecedores, plano de 41 2003 nihil 710,7 mídia Marketing cultural IV Festival de Teatro de Bonecos de Brasília; descrição do 42 2003 nihil 52,5 projeto, documentação relativa ao evento* Patrocínio do Brasil Open 2003; nota fiscal de serviços do fornecedor, material 43 2003 LC** 06705 3.000 relativo ao evento, contrato de patrocínio Premiação da campanha “Superação 2003”; nota fiscal da BB Turismo Ltda., 44 2003 LC** 10713 861,5 regulamento, relação de funcionários contemplados Serviços de tecnologia para desenvolvimento de sistemas; nota fiscal do 45 2003 LC** 17232 500,6 fornecedor, contrato de prestação de serviços, relatório Patrocínio Vila Ourocard — promoção e aquisição de brindes; nota fiscal do 46 2003 LC** 11140 500 fornecedor, fotos de jornais e revistas falando sobre o evento Evento para clientes corporate e empresarial na Casa Tom Brasil; fatura do 47 2003 LC** 20176 400 fornecedor, documentação comprobatória do evento Patrocínio do livro de registro da festa 450 anos de São Paulo; fatura da TV 48 2004 783 315 Editorial, estimativa de custos, cópia do livro produzido* “Embaixadores olímpicos”; faturas relativas a viagens dos atletas e a produção de 49 2004 785 891,9 camisetas, planilha de custos de contratação de atletas Patrocínio do livro O espírito e o sentimento da arte; estimativa de custos DNA, 50 2004 981 15,9 comprovação de patrocínio Mídia aeroportuária; fatura de emissão dos fornecedores, planos de mídia, 51 2004 1016 1.629,2 comprovantes de veiculação Mídia em outdoors, relógios de temperatura, abrigos de ônibus e busdoors; fatura 52 2004 1017 1.864,7 dos fornecedores, comprovantes de veiculação Patrocínio do evento “Antes, as histórias da pré-história”; faturas da empresa 53 2004 1141 2.000 Fazer Arte, material publicitário Patrocínio do programa de rádio “Em boa companhia”; fatura do fornecedor, 54 2004 1170 2.900 comprovantes da veiculação 10 | retratodoBRASIL 65RB65trabalhos.indd 10 26/11/12 11:27
  9. 9. Campanha Visa Electron Pré-Datado; fatura dos fornecedores, plano de mídia, 55 2004 1243 2.875 comprovantes de veiculação em jornais, rádio, TV e outros Patrocínio do 12º Anima Mundi; notas fiscais da patrocinada (Idea), contrato de 56 2004 1734 230 patrocínio, evidências de realização do evento* Patrocínio da exposição ”Do neoclassicismo ao impressionismo”; recibos, contrato 57 2004 1934 420 de patrocínio com a Artviva Produção Cultural Projeto Som na Casa da Gávea; faturas da casa de shows, evidências da realização 58 2004 1969 86,6 do evento (cartazes e material publicitário) Campanha Visa Alavancagem de vendas no varejo; lista dos funcionários que 59 2004 1378 172 participaram de treinamento, material do evento Patrocínio da exposição “Eduardo Sued”; descrição do projeto, contrato de 60 2004 1709 350,4 patrocínio, evidências da realização do evento* Seminário sobre Turismo da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado de São 61 2004 1684 10 Paulo; fatura da BBTur* Projeto Agência Carta Maior — Boletim diário de imprensa, internet; plano de mídia, 62 2004 1261 570 nota fiscal do agente de veiculação 63 2004 1263 Publicidade na Rede 21; plano de mídia, nota fiscal do agente de veiculação 798 Publicidade na Rede TV — TV CUT; plano de mídia, nota fiscal do agente de 64 2004 1264 280,7 veiculação Pesquisa de lançamento do cartão de crédito Banco Popular do Brasil; fatura 65 2004 1345 125 relativa aos serviços, relatório interno sobre pesquisa Mídia aeroportuária; fatura dos fornecedores, planos de mídia e fotos das 66 2004 2076 1.146,9 campanhas Mídia exterior (outdoors, abrigos de ônibus, busdoors etc); faturas dos 67 2004 2082 2.829,9 fornecedores, planos de mídia e fotos das campanhas 68 2004 2193 Projeto “Tênis Brasil Espetacular”; fatura da Octagon referente ao projeto 800 Campanha “Isto É Cinema”; recibos da Editora Três, material relativo à campanha 69 2004 2248 2.100 (revistas, DVDs e material publicitário) Festival Internacional de Cinema de Brasília; fatura dos fornecedores, 70 2004 2255 700 documentação relativa ao evento Estratégia de mídia — produção de folders; fatura dos fornecedores, exemplar do 71 2004 2353 47,1 material produzido Show de Zezé de Camargo e Luciano na churrascaria Porcão; documentação 72 2004 2372 73,5 relativa ao evento, lista das agências contempladas Patrocínio dos 52º Jogos Universitários Brasileiros; faturas da BBTur, evidências 73 2004 2429 200 da realização do evento* Complemento Registro festa 450 anos de São Paulo; fatura da TV Editorial, cópia 74 2004 2469 9,1 do livro produzido* 35º Festival de Inverno de Campos do Jordão; fatura dos fornecedores, relatório 75 2004 2524 350 fotográfico do evento Patrocínio do Bloco Maria Fumaça ; recibo referente ao patrocínio, evidências do 76 2004 2566 70 evento (cartazes e material publicitário) Contratação da Trevisan Consultoria; faturas da Trevisan, proposta de serviço 77 2004 2749 462 técnico relativo ao mercado de eventos Patrocínio da exposição “Antoni Tapies”; evidências do patrocínio na exposição 78 2004 2844 500 (cartazes e material publicitário) Mídia aeroportuária e exterior; planos de mídia, fatura dos fornecedores, 79 2004 3165 11.500 comprovantes de veiculação (TV, cinema, rádio etc.) Circuito Cultural Banco do Brasil 2004; fatura dos fornecedores, evidências do 80 2004 3647 206,5 evento Circuito Cultural Banco do Brasil Etapa Belo Horizonte; fatura dos fornecedores, 81 2004 3690 188,7 evidências do evento Circuito Cultural Banco do Brasil Etapa Porto Alegre; fatura dos fornecedores, 82 2004 3745 184,7 evidências do evento Programa de rádio “Em boa companhia”; fatura dos fornecedores, planos de 83 2004 3827 1.740 veiculação e textos de veiculação no rádio 65 retratodoBRASIL | 11RB65trabalhos.indd 11 26/11/12 11:27
  10. 10. Previ — Encontro de conselheiros de administração e fiscal; fatura dos 84 2004 3839 19,7 fornecedores, evidências do evento (relatório fotográfico) Circuito Cultural Banco do Brasil Etapa Porto Alegre; fatura dos fornecedores, 85 2004 3958 221,1 evidências do evento Circuito Cultural Banco do Brasil Etapa Joinville; fatura dos fornecedores, 86 2004 4072 268,5 evidências da realização do evento Cota de patrocínio Holiday on Ice Super; recibo da cota de patrocínio, contrato de 87 2004 4088 20 patrocínio Cota de patrocínio da 69ª Reunião da Associação de Ex-Alunos da Universidade de 88 2004 4120 50 Viçosa; recibo e documentação comprobatória Circuito Cultural Banco do Brasil Etapa Manaus; fatura de fornecedores, evidências 89 2004 4230 488,1 da realização do evento 90 2004 4261 Patrocínio Livro Brinde Culinária; descrição do projeto, cópia do livro 311,8 Previ — Encontro de conselheiros de administração e fiscal; fatura dos 91 2004 4297 115,5 fornecedores, relatório fotográfico do evento Campanha de lançamento do cartão BB Crédito Pronto; fatura de fornecedores, 92 2004 4326 119,9 exemplar de material de campanha “Embaixadores Olímpicos — Giovane Gávio”; fatura de fornecedores, contrato de 93 2004 4336 466,2 patrocínio, relatório fotográfico e matérias de jornais “Embaixadores Olímpicos — Carlão, Paulão e Pampa”; fatura de fornecedores, 94 2004 4351 120 contrato de patrocínio, fotos e matérias de jornais Prorrogação de patrocínio — Vôlei de Praia Adriana e Shelda; nota fiscal da 95 2004 4561 100 empresa Adriana B.B., contrato de patrocínio Patrocínio da “Festa Pré-Caju”; recibos referentes ao patrocínio, relatório 96 2004 4611 200 fotográfico do evento Evento “Círio de Nazaré”; fatura de fornecedores, documentação comprobatória 97 2004 4762 80 do evento Campanha de ativação cartão Ourocard Visa — Pesquisas; fatura dos fornecedores, 98 2004 5030 114,4 plano de mídia Veiculação de publicidade na revista Investidor Institucional; fatura do fornecedor, 99 2004 nihil 17,3 plano de mídia * Sem exposição ou menção à marca Ourocard ou Visa ** Lançamento contábil – o número da tabela é precedido, no documento, pelos números 51000 Nihil: Falta o número no documento original Nota da redação: a soma do valor dos eventos de 2003 e 2004 que, segundo o STF, não teriam sido feitos e cujo valor teria sido desviado é de R$ 73,8 milhões. A lista de eventos apresentada pela Visanet soma R$ 74,1 milhões. A diferença pode ser atribuída ao fato de um ou outro evento passar do orçamento de um ano para o outro. 12 | retratodoBRASIL 65RB65trabalhos.indd 12 26/11/12 11:28
  11. 11. Na Justiça, o procurador-geral indevidos pela companhia, terem sido Reprodução da República, Antônio Fernando de todas as ações de incentivo realizadas. Souza, mal recebeu, em abril de 2006, E observou, apenas, que algumas po- as grandiosas conclusões da CPMI, dem ter sido realizadas sem promover de que teria sido cometido um dos especificamente os cartões da bandeira maiores crimes da história política do Visa, que era o essencial para a CBMP, País, graças ao desvio de dinheiro do uma empresa controlada pela Visa BB, fez apenas uma depuração política Internacional, parte do oligopólio nas conclusões, para deixar somente internacional dos cartões de crédito e petistas na lista dos indiciados (con- débito de uso global. fira o “Ponto de Vista”, à página 5). Barbosa e o procurador-geral ti- E abriu o inquérito 2245, que seria veram toda a condição de entender a presidido – em nome do STF, visto que estranha forma de funcionamento do as investigações envolviam pessoas Fundo de Incentivo Visanet: a CBMP com foro privilegiado – pelo ministro pagava os serviços de promoção dos Joaquim Barbosa. cartões por meio da DNA, serviços Tanto o procurador-geral Souza esses programados pelo BB, sem que como o ministro Barbosa viram a existissem contratos entre a CBMP e a Todo mundo viu: Shelda e Adriana, complexidade do problema e não DNA, nem entre o BB e a DNA, para promovendo as marcas Visa e quiseram encará-lo, fazendo sim- operação desses recursos específicos. Ourocard, patrocínio do plesmente uma investigação policial, Nos autos existe um parecer jurídico Fundo de Incentivo Visanet, de campo, e não só de documentos, do BB que considera perfeitamente linha 6 da tabela, 900 mil reais. para saber se os serviços haviam sido legal essa engenharia jurídica. Ela foi O STF diz que isso não existiu realizados. Os dois se depararam, concreta- mente, com os advogados da CBMP, Lewandowski viços de promoção; e 2) disse que o dona e gestora – formalmente, por contrato – dos recursos que teriam poderia repetir: laudo 2828, do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, que sido desviados. Desde o início do ano, o procurador-geral Souza tentava ob- a acusação não examinara a documentação e ao qual ele fizera as perguntas consideradas ter da companhia os papéis originais das prestações de contas feitas pela foi provada. essenciais para esclarecer o caso, havia afirmado que Pizzolato e seu então agência de publicidade DNA, de Mar- cos Valério, a respeito dos serviços, O STF votou com chefe, Luiz Gushiken, secretário de Comunicação do governo Lula, eram seus e de fornecedores contratados os principais responsáveis pelo desvio para fazer os trabalhos de promoção a faca no pescoço – no entanto, no laudo 2828 os nomes para a venda dos cartões, mas a CBMP de Gushiken e Pizzolato nem sequer resistia. construída desde 2001 pelo banco foram citados. No dia 30 de junho de 2006, Bar- estatal e a empresa de cartões multina- O ministro Barbosa, ao defender a bosa autorizou a busca e apreensão de cional e seus outros sócios. Sobre ela, aceitação da denúncia que afinal criou documentos da CBMP. A empresa ape- é óbvio, Pizzolato não teve a menor a Ação Penal 470, também evitou lou à presidência do STF. Mas a então influência. todos os problemas estruturais que presidente, Ellen Gracie, reafirmou a Barbosa e Souza não viram nos precisavam ser compreendidos para busca, feita em julho. Houve petições autos, ou não quiseram ver, também, se contar efetivamente ao plenário dos advogados da companhia para que as vendas de cartões de bandeira do STF a história. Como ele mesmo que fossem devolvidos documentos Visa no BB eram atribuição essencial disse, fez uma historinha. Reorganizou protegidos pelo princípio da inviolabi- da diretoria de varejo (Direv), sendo a denúncia do procurador-geral para lidade das relações advogados-clientes. que o funcionário que autorizava destacar, em primeiro lugar, duas su- Os documentos que ficaram foram formalmente as ordens de serviço de postas ações de corrupção de petistas, encaminhados ao Instituto Nacional promoções dos cartões a serem pagas a de João Paulo Cunha e a de Henrique de Criminalística. pela CBMP era indicado pelo diretor Pizzolato. Essas historinhas, para a Àquela altura, Barbosa tinha am- da Direv. mídia mais conser vadora, caíram plas condições de entender o proble- No encaminhamento da denúncia como o queijo no macarrão. Como ma. Ele poderia ter visto – se é que aceita pelo STF em agosto de 2007, disse o ministro Ricardo Lewandowski não viu – o material que nos permitiu no entanto, Souza cometeu dois ab- nos dias da votação da aceitação da construir a tabela desta reportagem, surdos: 1) garantiu que o desvio de denúncia em 2007, e que poderia ter do final de 2006, de um dos maiores dinheiro do BB havia ocorrido, sem repetido agora: “A imprensa acuou o escritórios de advocacia do País a ter feito a prova contrária, muito Supremo. Não ficou suficientemente serviço da CBMP, que argumentou, a simples, de verificar os abundantes comprovada a acusação. Todo mundo fim de evitar o pagamento de impostos comprovantes de realização dos ser- votou com a faca no pescoço.” 65 retratodoBRASIL | 13RB65trabalhos.indd 13 26/11/12 11:09
  12. 12. Mensalão 2 Sergio Bondioni 14 | retratodoBRASIL 65RB65pizzolato.indd 14 26/11/12 10:45
  13. 13. A VERDADE O ABSOLVERÁ? Henrique Pizzolato — na foto, na sacada de seu apartamento em Copacabana — está há sete anos mergulhado na documentação que recolheu para sua defesa. Ela é profunda e coerente. Poderá levar à revisão de sua sentença? por Lia Imanishi e Raimundo Rodrigues Pereira O APARTAMENTO EM Copacabana onde mora Henrique tório estadual do Partido dos Trabalhadores do Rio de Janeiro. Pizzolato, ex-diretor de marketing e comunicação do Banco do Valério disse que o pacote conteria exatos 326.660,67 reais. Os Brasil (BB), tem uma sacada da qual, em dias sem nuvens, se jornais da época entrevistaram a vendedora do apartamento pode ver o Corcovado e o Cristo Redentor. Mas Pizzolato não e descobriram que Pizzolato o comprou por 400 mil reais. E curte muito a paisagem. De modo geral, é introspectivo, olha sugeriram então que o imóvel teria sido pago basicamente com como se fosse para dentro de si ou para o passado. E a história o dinheiro enviado por Valério. do imóvel é parte de sua tragédia. Em setembro deste ano, por unanimidade, os 11 juízes Pizzolato comprou o apartamento no começo de 2004, cerca do Supremo Tribunal Federal condenaram Pizzolato sob o de um mês depois de ter, segundo conta, repassado, a pedido argumento, entre outros, de que o dinheiro que Valério alegou do publicitário mineiro Marcos Valério, um pacote para o dire- estar contido no pacote seria a propina que ele recebeu por 65 retratodoBRASIL | 15RB65pizzolato.indd 15 26/11/12 10:45
  14. 14. Resumindo a devassa feita pela Receita Federal: Pizzolato descontava da renda tributável a mesada da madrasta que o criou desde os nove anos ter desviado 73,8 milhões de reais do BB e bens obtidos nos 20 anos até aquela ples, não têm carro, tiveram oito imóveis, para o esquema corrupto do mensalão. data, em meados de 2005. venderam a metade deles, os de menor A conclusão seria óbvia: com a propina, Foram encontrados, segundo a Recei- valor, para pagar um primeiro advogado. Pizzolato comprou o apartamento. ta, três erros em suas declarações dessas E o bem maior que têm hoje é o aparta- No julgamento, no entanto, ne- duas décadas: uma no aluguel de um mento de Copacabana, de cerca de 150 nhum dos juízes mencionou a história imóvel, outra no valor de uma “contri- metros quadrados. Os dois são arquitetos. da compra do apartamento. Por que buição de melhoria” relativa a um terreno Compraram o apartamento e o reforma- não? Retrato do Brasil já sabe, como também de sua propriedade e a terceira ram completamente, organizando-o em demonstrou no artigo anterior desta quanto ao fato de ele ter contabilizado torno de uma sala ampla e agradável, com edição, que o suposto desvio de 73,8 como sua dependente a madrasta que saída para uma sacada, na qual Andrea, milhões de reais do BB para o esquema o criou desde os seus nove anos. Em fumante há anos, faz suas incursões do mensalão não existiu. A propina, resumo, em números redondos: total da periódicas. então, também não existiu? – RB per- dívida com o IR pelos erros encontrados, gunta. É segunda-feira, 5 de novembro. Pizzolato é um homem metódico, organizado. Em dois minutos vai ao seu escritório e volta para a sala com uma pasta na qual está a conclusão de 5 mil reais; multa, mais 3 mil reais; juros sobre a soma das duas parcelas anteriores ao longo do período transcorrido entre a data do pagamento e as infrações, 7 mil reais; total, pago por Pizzolato à Receita N moram também dois amigos, um casal com uma bebê, o que anima o ambiente e ajuda reduzir as despesas per capita. Pizzolato e Andrea se uma devassa feita pela Receita Federal no dia 29 de dezembro do ano passado, conheceram em São Leopoldo (RS), onde em suas contas logo após o estouro do 15 mil reais. escândalo do mensalão, abrangendo Pizzolato e sua mulher, Andrea – ele, famosos graças a um trabalho de facul- todos os seus rendimentos, aplicações catarinense; ela, gaúcha – são gente sim- dade. O professor pediu que projetassem Pizzolato foi basicamente um sindicalista pela CUT, em Toledo, em Curitiba; em Brasília, como representante dos funcionários do BB. Mas teve também um início de carreira na política. Foi candidato a vereador, a prefeito, a governador. Para marcar posição, tornar o PT conhecido, buscar os primeiros votos. Na foto, com Lula, em 1990, quando foi candidato a governador do Paraná. Reprodução 16 | retratodoBRASIL 65RB65pizzolato.indd 16 26/11/12 10:45
  15. 15. um condomínio de classe média num Casseb, um nome do mercado, ex-diretor incriminar Pizzolato. Diz que, desde o terreno vazio da cidade. Eles sugeriram, do Citibank, foi nomeado presidente do início do funcionamento do Fundo de como alternativa, uma “comuna”, para BB. Foi ele quem convidou Pizzolato migrantes que tinham se apossado de para assumir a Diretoria de Marketing e fundo de onde vinham os recursos para um terreno, inundado durante parte do Comunicação (Dimac). a promoção da venda e uso dos cartões, ano. O projeto era vanguardista: previa Pizzolato assumiu em 17 de fevereiro havia um problema com a questão das o aproveitamento de água das chuvas, o de 2003. Dias antes, o conselho diretor do competências. uso de energia solar, tetos com plantas, BB tinha aprovado a renovação do con- No item 6.4.10 do relatório da audito- cozinhas comunitárias, ausência de muros trato do banco com a DNA, a empresa de ria está escrito: “As normas internas sobre internos. Deram palestras sobre o assunto Marcos Valério, para prestar serviços de competências e alçadas, no período de em outras universidades e se tornaram publicidade e promoção na área de varejo. 2001 a meados de 2004, não continham relativamente conhecidos. Duas outras agências trabalhavam para o Depois da faculdade, foram para BB na época, a Lowe e a D+, também decisórias para aprovação, no âmbito Toledo, interior do Paraná, cidade cuja especializadas, para as outras duas áreas do Banco, da utilização dos recursos do economia gira em torno da Sadia, a grande de negócios do banco: a das contas de Fundo de Incentivo Visanet.” A seguir, produtora de carnes e derivados, levados governos e a das de empresas. no item 6.4.10.1, o relatório da auditoria pelas propostas da Pastoral Operária. Durante o julgamento, o ministro-re- diz: “As primeiras referências formais Foram da turma que criou sindicatos e o lator Barbosa insistiu que Pizzolato era o relacionadas ao assunto ‘competências Partido dos Trabalhadores na região, junto principal e único responsável pelo desvio, e alçadas’ localizadas constam no ane- com pessoas como os atuais ministros do para um esquema de corrupção petista, de xo nº 3 à Nota Dimac 2004-2708, de governo Dilma, Paulo Bernardo e Gilber- recursos do fundo de incentivos Visanet 19.07.2004, que trata do ‘Fluxo de regis- to Carvalho. Pizzolato foi presidente do para a promoção da venda de cartões de tro dos processos e utilização do Fundo’, sindicato dos bancários de Toledo e da bandeira Visa pelo BB, que é a tese central aprovada pelo Comitê de Administração Central Única dos Trabalhadores (CUT) do mensalão. E detalhou esta acusação em da Dimac em 21.07.2004.” do Paraná. Pizzolato se aposentou quando vários aspectos. Um deles: Pizzolato não se demitiu da diretoria do BB e da Previ, logo após o escândalo do mensalão, com 31 anos de banco. Era, talvez, o bancário mais conhecido no País. Na primeira eleição direta entre os funcionários do BB das pelo banco para ordenar os serviços da DNA na promoção dos cartões. Barbosa, a rigor, escolheu Pizzolato como bode expiatório de um problema - C omo se vê pela sua data e ori- gem, essa nota foi elaborada pela Dimac, na gestão de Pizzolato, para aumentar o controle do uso dos recursos do fundo Visanet, como ele para eleger um representante no conselho que de fato existia. Mas não fora criado explicou a RB. Ela impunha, quando do de administração do banco, em 1993, teve por Pizzolato. E, além do mais, o próprio uso de recursos de terceiros – no caso, 53 mil votos, mais que a soma de votos de Pizzolato estava tentando ajudar a resol- os recursos do FIV obtidos da CBMP- todos os outros dez candidatos, escolhi- ver esse problema desde que assumiu a Visanet –, as mesmas competências e dos em prévias nas várias regiões do País. diretoria do banco e, já em maio, uma alçadas praticadas pelo banco no caso de recursos próprios, de seu orçamento. N o cargo até 1996, tinha um gabinete na sede do banco em Brasília. Mas não parava por lá. Viajou pelo Brasil inteiro. Estima ter pas- sado por agências do banco em cerca de se aumentar o controle sobre o uso dos recursos da Visanet. “Levei quase um ano trabalhando nisso lá dentro, junto com a diretoria de Organização, Controle e Estratégia, que A auditoria também mostra que vi- nha havendo uma pequena melhoria na observância dessas normas já no governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, e que após a intervenção de Pizzolato, 3 mil municípios, em apoio à campanha apontou o que poderíamos melhorar. no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, contra a fome impulsionada pelo famoso Em julho de 2004, já conseguimos mu- houve uma grande melhoria. Vejamos: Herbert de Souza (1935-1997), o Betinho, danças. A partir dali, a DNA passou a em 2001, 54,76% das ações de incenti- e sua Ação da Cidadania contra a Miséria ter que mandar relatórios mensais. Todo vo ao uso do cartão Visa foram feitas e Pela Vida, apoiada no governo, pelo BB com inobservância de alçada; em 2002, e pela criação do Conselho Nacional de ao gerenciamento dos recursos. Em no- 20,53%; em 2003, 21,59%; mas em 2004, Segurança Alimentar. vembro de 2003, o Conselho Diretor do apenas 7,20%. A auditoria citada ainda Depois, foi eleito diretor da Previ, banco aprovou alguns aperfeiçoamentos conclui: “Os eventos realizados em 2005 fundo de pensão dos funcionários do na Dimac. Implantados esses novos pro- têm seus processos melhor instruídos, re- BB. Nessa condição foi nomeado para cedimentos, começamos a trabalhar em o Conselho de Administração da Brasil várias áreas, e a dos recursos da Visanet que vêm sendo implementados a partir Telecom, na qual a Previ tinha parte do foi uma”, diz Pizzolato. de meados do segundo semestre de 2004, negócio. Lá conheceu Cássio Casseb, A maior das três auditorias internas existindo, porém, oportunidade de me- que era, também, conselheiro da empre- do BB sobre o uso dos recursos desse lhorias para aprimorar procedimentos.” sa – indicado pela Telecom Italia Movel fundo, feita por 20 auditores em quatro Durante o julgamento, Barbosa disse, (TIM). Por sugestão do então ministro meses no segundo semestre de 2005, também, que os gerentes-executivos da Antônio Palocci, para quem os mercados aborda o problema das competências da diretoria de marketing eram subordinados não gostariam da nomeação de um pe- gestão de recursos do fundo de incen- a Pizzolato. A acusação tem o objetivo tista para a presidência do banco, como tivos Visanet. Mas o faz de modo mais - contou a RB um alto dirigente do PT, amplo que o usado por Barbosa ao tentar deroso e que, embora esses gerentes 65 retratodoBRASIL | 17RB65pizzolato.indd 17 26/11/12 10:46
  16. 16. Danevita disse ser do BB e que teria se recusado a assinar uma campanha falsa de R$ 60 milhões. Mas não era do BB nem poderia haver campanha nesse montante assinassem as notas de serviço para uso social inicial do fundo foi da CBMP- publicidade no chamado núcleo de mídia do FIV, era ele quem mandava. Pizzola- Visanet, e não do BB. do BB – isto está claro em seus próprios to não tinha competência para demitir O item diz, ainda, que esse fundo depoimentos na AP 470 –, fato que Bar- um gerente-executivo. De fato, eles só “é administrado por um comitê gestor bosa, é claro, não considerou. podiam ser substituídos por ordem do  `

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