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religião na esfera da ciência; é aí que se insere a luta daIgreja contra as doutrinas de Galileu e Darwin. Por outrolado, ...
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espiritualização religiosa de nossa compreensão da vida.Quanto mais avança a evolução espiritual da humanidade, maiscerto ...
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  1. 1. SOBRE A LIBERDADEPor Albert EinsteinSei que é inútil tentar discutir os juízos de valores fundamentais. Sealguém aprova como meta, por exemplo, a eliminação da espéciehumanada face da Terra, não se pode refutar esse ponto de vista em basesracionais. Se houver porém concordância quanto a certas metas evalores, é possível discutir racionalmente os meios pelos quais essesobjetivos podem ser atingidos. Indiquemos, portanto, duas metas comque certamente estarão de acordo quase todos os que lêem estas linhas.1. Os bens instrumentais que servem para preservar a vida e a saúde detodos os seres humanos devem ser produzidos mediante o menoresforçopossível de todos.2. A satisfação de necessidades físicas é por certo a precondiçãoindispensável de uma existência satisfatória, mas em si mesma não ésuficiente. Para se realizar, os homens precisam ter também apossibilidade de desenvolver suas capacidades intelectuais artísticassem limites restritivos, segundo suas características e aptidõespessoais.A primeira dessas duas metas exige a promoção de todo conhecimentoreferente às leis da natureza e dos processos sociais, isto é, apromoção de todo esforço científico. Pois o empreendimentocientíficoé um todo natural, cujas partes se sustentam mutuamente de umamaneiraque certamente ninguém pode prever.Entretanto, o progresso da ciência pressupõe a possibilidade decomunicação irrestrita de rodos os resultados e julgamentos -liberdade de expressão e ensino em todos os campos do esforço
  2. 2. intelectual. Por liberdade, entendo condições sociais, tais que, aexpressão de opiniões e afirmações sobre questões gerais eparticulares do conhecimento não envolvam perigos ou gravesdesvantagens para seu autor. Essa liberdade de comunicação éindispensável para o desenvolvimento e a ampliação do conhecimentocientífico, aspecto de grande importância prática. Em primeiro lugar,ela deve ser assegurada por lei. Mas as leis por si mesmas não podemassegurar a liberdade de expressão; para que todo homem possa exporsuas idéias sem ser punido, deve haver um espírito de tolerância emtoda a população. Tal ideal de liberdade externa jamais poderá serplenamente atingido, mas deve ser incansavelmente perseguido paraqueo pensamento científico e o pensamento filosófico, e criativo emgeral, possam avançar tanto quanto possível.Para que a segunda meta, isto é, a possibilidade de desenvolvimentoespiritual de todos os indivíduos, possa ser assegurada, é necessárioum segundo tipo de liberdade externa. O homem não deve ser obrigadoatrabalhar para suprir as necessidades da vida numa intensidade tal quenão lhe restem tempo nem forças para as atividades pessoais. Sem estesegundo tipo de liberdade externa, a liberdade de expressão é inútilpara ele. Avanços na tecnologia tornariam possível esse tipo deliberdade, se o problema de uma divisão justa do trabalho fosseresolvido.O desenvolvimento da ciência e das atividades criativas do espírito emgeral exige ainda outro tipo de liberdade, que pode ser caracterizadocomo liberdade interna. Trata-se daquela liberdade de espírito queconsiste na independência do pensamento em face das restrições depreconceitos autoritários e sociais, bem como, da "rotinização" e dohábito irrefletidos em geral. Essa liberdade interna é um raro dom danatureza e uma valiosa meta para o indivíduo. No entanto, acomunidadepode fazer muito para favorecer essa conquista, pelo menos, deixandode interferir no desenvolvimento. As escolas, por exemplo, podem
  3. 3. interferir no desenvolvimento da liberdade interna medianteinfluências autoritárias e a imposição de cargas espirituais aosjovens excessivas; por outro lado, as escolas podem favorecer essaliberdade, incentivando o pensamento independente. Só quando aliberdade externa e interna são constantes e conscienciosamenteperseguidas há possibilidade de desenvolvimento e aperfeiçoamentoespiritual e, portanto, de aprimorar a vida externa e interna dohomem.Albert EinsteinCiência e ReligiãoParte IDurante o século passado e em parte do que o precedeu, aexistência de um conflito insolúvel entre conhecimento ecrença foi amplamente sustentada. Prevalecia entre mentesavançadas a opinião de que chegara a hora de substituir,cada vez mais, a crença pelo conhecimento; toda crença quenão se fundasse ela própria em conhecimento era superstiçãoe, como tal, devia ser combatida. Segundo essa concepção, afunção exclusiva da educação seria abrir caminho para opensamento e o conhecimento, devendo a escola, como o órgãopor excelência para a educação do povo, servirexclusivamente a esse fim.É provável que raramente, ou mesmo nunca, possamos encontraro ponto de vista racionalista expresso com tanta crueza;pois todo homem sensível veria de imediato o quanto essaformulação é tendenciosa. Mas é conveniente formular umatese de maneira nua e crua quando se quer aclarar a própriamente com relação a sua natureza.É verdade que a experiência e o pensamento claro são amelhor maneira de fundamentar as convicções. Quanto a isto,podemos concordar irrestritamente com o racionalista
  4. 4. extremado. O ponto fraco dessa concepção, contudo, e que asconvicções necessárias e determinantes para nossa conduta enossos juízos não podem ser encontradas unicamente nessasólida via cientifica.Pois o método cientifico não nos pode ensinar outra coisaalém do modo como os fatos se relacionam e são condicionadosuns pelos outros. A aspiração a esse conhecimento objetivoestá entre as mais elevadas de que o homem e capaz, ecertamente ninguém pode suspeitar que eu deseje subestimaras realizações e os heróicos esforços do homem nessa esfera.É igualmente claro, no entanto, que o conhecimento do que é,não abre diretamente a porta para o que deve ser. Podemoster o mais claro e completo conhecimento do que é, semcontudo sermos capazes de deduzir disso qual deveria ser ameta de nossas aspirações humanas. O conhecimento objetivonos fornece poderosos instrumentos para atingir certos fins,mas a meta final em si é a mesma, e o desejo de atingi-ladevem emanar de outra fonte. E é praticamente desnecessáriodefender a idéia de que nossa existência e nossa atividadesó adquirem sentido mediante o estabelecimento de uma metacomo essa e dos valores correspondentes. O conhecimento daverdade como tal é maravilhoso, mas é tão pouco capaz deservir de guia que não consegue provar sequer a justificaçãoe o valor da aspiração a esse mesmo conhecimento da verdade.Aqui defrontamos, portanto, com os limites da concepçãopuramente racional de nossa existência.Mas não se deve presumir que o pensamento inteligente nãopossa desempenhar nenhum papel na formação da meta e dejuízos éticos. Quando alguém se dá conta de que certo meioseria útil para a consecução de um fim, isto faz com que opróprio meio se torne um fim. A inteligência elucida paranós a inter-relação entre meios e fins. O mero pensamentonão pode, contudo, nos dar uma consciência dos fins últimose fundamentais. Elucidar esses fins e valores fundamentais éengastá-los firmemente na vida emocional do indivíduo;parece-me, precisamente, a mais importante função que areligião tem a desempenhar na vida social do homem. E se
  5. 5. alguém pergunta de onde provém a autoridade desses finsfundamentais, já que eles não podem ser formulados ejustificados puramente pela razão, só há uma resposta: elesexistem numa sociedade saudável na forma de tradiçõesvigorosas, que agem sobre a conduta, as aspirações e osjuízos dos indivíduos; eles existem, isto é, vivem dentrodela, sem que seja preciso encontrar justificação para suaexistência. Nascem, não através da demonstração, mas darevelação, por meio de personalidades excepcionais. Não sedeve tentar justificá-los, mas antes, sentir, simples eclaramente, sua natureza. Os mais elevados princípios paranossas aspirações e juízos nos são dados pela tradiçãoreligiosa judáico-cristã. Trata-se de uma meta muitoelevada, que, com nossos parcos poderes, só podemos atingirde maneira muito insatisfatória, mas que da um sólidofundamento a nossas aspirações e avaliações. Se quiséssemostirar essa meta de sua forma religiosa e considerar apenasseu aspecto puramente humano, talvez pudéssemos formulá-laassim: desenvolvimento livre e responsável do indivíduo, demodo que ele possa por suas capacidades, com liberdade ealegria a serviço de toda a humanidade.Não há lugar nisso para a divinização de uma nação, de umaclasse, nem muito menos de um indivíduo. Não somos todosfilhos de um só pai, como se diz na linguagem religiosa? Naverdade, mesmo a divinização da humanidade, como totalidadeabstrata, não estaria no espírito desse ideal. E somente aoindivíduo que é dada uma alma. E o sublime destino doindivíduo é antes servir que comandar, ou impor-se dequalquer outra maneira.Se considerarmos mais a substância que a forma, poderemosver também nestas palavras a expressão da posturademocrática fundamental. Ao verdadeiro democrata e tãoinviável idolatrar sua nação quanto ao homem religioso, nosentido que damos ao termo.Qual será então, em tudo isto, a função da educação e daescola? Elas devem ajudar o jovem a crescer num espírito tal
  6. 6. que esses princípios fundamentais sejam para ele como o arque respira. O mero ensino não pode fazer isso.Se mantemos esses princípios elevados claramente diante denossos olhos, e os comparamos com a vida e o espírito denosso tempo, revela-se flagrantemente que a própriahumanidade civilizada encontra-se, neste momento, em graveperigo. Nos Estados totalitários, são os própriosgovernantes que se empenham hoje em destruir esse espíritode humanidade. Em lugares menos ameaçados, são onacionalismo e a intolerância, bem com a opressão dosindivíduos por meios econômicos, que ameaçam sufocar essastão preciosas tradições.A clareza da enormidade do perigo está se difundindo, noentanto, entre as pessoas que pensam, e há uma grandeprocura de meios que permitam enfrentar o perigo - meios nocampo da política nacional e internacional, da legislação,da organização em geral. Esses esforços são, sem dúvida,extremamente necessários. Contudo, os antigos sabiam algoque parecemos ter esquecido. "Todos os meios mostram-se uminstrumento grosseiro quando não tem atrás de si um espíritovivo". Se o desejo de alcançar a meta estiver vigorosamentevivo dentro de nós, porém, não nos faltarão forças paraencontrar os meios de alcançar a meta e traduzi-la em atos.Parte IINão seria difícil chegar a um acordo quanto ao queentendemos por ciência. Ciência é o esforço secular dereunir, através do pensamento sistemático, os fenômenosperceptíveis deste mundo, numa associação tão completaquanto possível. Falando claramente, é a tentativa dereconstrução posterior da existência pelo processo daconceituação. Mas, quando pergunto a mim mesmo o que é areligião, a resposta não me ocorre tão facilmente. E, mesmodepois de encontrar uma resposta que possa me satisfazer nummomento particular, continuo convencido de que nunca
  7. 7. consigo, em nenhuma circunstância, criar um acordo, mesmoque muito limitado, entre todos os que refletem seriamentesobre essa questão.De início, portanto, em vez de perguntar o que é religião,eu preferiria indagar o que caracteriza as aspirações de umapessoa que me dá a impressão de ser religiosa: uma pessoareligiosamente esclarecida parece-me ser aquela que, tantoquanto lhe foi possível, libertou-se dos grilhões, de seusdesejos egoístas e está preocupada com pensamentos,sentimentos e aspirações a que se apega em razão de seuvalor suprapessoal. Parece-me que o que importa é a forçadesse conteúdo suprapessoal, e a profundidade da convicçãona superioridade de seu significado, quer se faça ou nãoalguma tentativa de unir esse conteúdo com um Ser divino,pois, de outro modo, não poderíamos considerar Buda eSpinoza como personalidades religiosas. Assim, uma pessoareligiosa é devota no sentido de não ter nenhuma dúvidaquanto ao valor e eminência dos objetivos e metassuprapessoais que não exigem nem admitem fundamentaçãoracional. Eles existem, tão necessária e corriqueiramentequanto ela própria. Nesse sentido, a religião é oantiquíssimo esforço da humanidade para atingir uma clara ecompleta consciência desses valores e metas e reforçar eampliar incessantemente seu efeito. Quando concebemos areligião e a ciência segundo estas definições, um conflitoentre elas parece impossível. Pois a ciência pode apenasdeterminar o que é, não o que deve ser, está fora de seudomínio, todos os tipos de juízos de valor continuam sendonecessários. A religião, por outro lado, lida somente comavaliações do pensamento e da ação humanos: não lhe é lícitofalar de fatos e das relações entre os fatos. Segundo estainterpretação, os famosos conflitos ocorridos entre religiãoe ciência no passado devem ser todos atribuídos a umaapreensão equivocada da situação descrita.Um conflito surge, por exemplo, quando uma comunidadereligiosa insiste na absoluta veracidade de todos os relatosregistrados na Bíblia. Isso significa uma intervenção da
  8. 8. religião na esfera da ciência; é aí que se insere a luta daIgreja contra as doutrinas de Galileu e Darwin. Por outrolado, representantes da ciência tem constantemente tentadochegar a juízos fundamentais com respeito a valores e finscom base no método científico, pondo-se assim em oposição areligião. Todos esses conflitos nasceram de erros fatais.Ora, ainda que os âmbitos da religião e da ciência sejam emsi claramente separados um do outro, existem entre os doisfortes relações recíprocas e dependências. Embora possa serela o que determina a meta, a religião aprendeu com aciência, no sentido mais amplo, que meios poderão contribuirpara que se alcancem as metas que ela estabeleceu. Aciência, porém, só pode ser criada por quem estejaplenamente imbuído da aspiração e verdade, e aoentendimento. A fonte desse sentimento, no entanto, brota naesfera da religião. A esta se liga também a fé napossibilidade de que as regulações válidas para o mundo daexistência sejam racionais, isto é, compreensíveis à razão.Não posso conceber um autêntico cientista sem essa féprofunda. A situação pode ser expressa por uma imagem: aciência sem religião e aleijada, a religião sem ciência ecega.Embora eu tenha afirmado acima que um conflito legítimoentre religião e ciência não pode existir verdadeiramente,devo fazer uma ressalva a esta afirmação, mais uma vez, numponto essencial, com referencia ao conteúdo efetivo dasreligiões históricas. Esta ressalva tem a ver com o conceitode Deus. Durante o período juvenil da evolução espiritual dahumanidade, a fantasia humana criou a sua própria imagemdeuses que, por seus atos de vontade, supostamentedeterminariam ou, pelo menos, influenciariam o mundofenomênico. O homem procurava alterar a disposição dessesdeuses a seu próprio favor, por meio da magia e da prece. Aidéia de Deus, nas religiões ensinadas atualmente, é umasublimação dessa antiga concepção dos deuses. Seu caráterantropomórfico se revela, por exemplo, no fato de os homensrecorrerem ao Ser Divino em preces, a suplicarem a
  9. 9. realização de seus desejos.Certamente, ninguém negará que a idéia da existência de umDeus pessoal, onipotente, justo e todo-misericordioso écapaz de dar ao homem consolo, ajuda e orientação; e também,em virtude de sua simplicidade, acessível as mentes menosdesenvolvidas. Por outro lado, porem, esta idéia traz em siaspectos vulneráveis e decisivos, que se fizeram sentirpenosamente desde o início da história. Ou seja, se esse seré onipotente, então tudo o que acontece, aí incluídos cadaação, cada pensamento, cada sentimento e aspiração do homem,é também obra Sua; nesse caso, como é possível pensar emresponsabilizar o homem por seus atos e pensamentos peranteesse Ser todo-poderoso? Ao distribuir punições erecompensas, Ele estaria, até certo ponto, julgando a Simesmo. Como conciliar isso com a bondade e a justiça a Eleatribuídas?A principal fonte dos conflitos atuais entre as esferas dareligião e da ciência reside nesse conceito de um Deuspessoal. A ciência tem por objetivo estabelecer regrasgerais que determinem a conexão recíproca de objetos eeventos no tempo e no espaço. A validade absolutamente geraldessas regras, ou leis da natureza, e algo que se pretende -mas não se prova. Trata-se sobretudo de um projeto, e aconfiança na possibilidade de sua realização, por princípio,funda-se apenas em sucessos parciais. Seria difícil, porém,encontrar alguém que negasse esses sucessos parciais e osatribuísse a ilusão humana. O fato de sermos capazes, combase nessas leis, de predizer o comportamento temporal dosfenômenos de certos domínios, com grande precisão e certeza,está profundamente enraizado na consciência do homemmoderno, ainda que possamos ter apreendido muito pouco doconteúdo dessas leis. Basta considerarmos que as trajetóriasplanetárias do sistema solar podem ser antecipadamentecalculadas, com grande exatidão, com base num númerolimitado de leis simples. De maneira similar, embora não coma mesma precisão, é possível calcular antecipadamente o modode funcionamento de um motor elétrico, de um sistema de
  10. 10. transmissão ou de um aparelho de rádio, mesmo quando estamoslidando com uma invenção inédita.É bem verdade que, quando o número de fatores em jogo numcomplexo fenomenólogico é grande demais, o método científiconos decepciona na maioria dos casos. Basta pensarmos nascondições do tempo, cuja previsão, mesmo para alguns dias àfrente, é impossível. Ninguém duvida, contudo, de queestamos diante de uma conexão causal cujos componentescausais nos são essencialmente conhecidos. As ocorrênciasnessa esfera estão fora do alcance da predição exata porcausa da multiplicidade de fatores em ação, e não por algumafalta de ordem na natureza.Penetramos muito menos profundamente nas regularidades queprevalecem no âmbito das coisas vivas, mas o suficiente, detodo modo, para pelo menos perceber a existência de umaregra necessária. Basta pensarmos na ordem sistemáticapresente na hereditariedade e no efeito que provocam osvenenos - como o álcool, por exemplo - no comportamento dosseres orgânicos. O que ainda falta aqui é uma compreensão decaráter profundamente geral das conexões, não umconhecimento da ordem enquanto tal.Quanto mais o homem esta imbuído da regularidade ordenada detodos os eventos, mais firme se torna sua convicção de quenão sobra lugar, ao lado dessa regularidade ordenada, paracausas de natureza diferente. Para ele, nem o domínio davontade humana, nem o da vontade divina existirão como causaindependente dos eventos naturais. Não há dúvida de que adoutrina de um Deus pessoal que interfere nos eventosnaturais jamais poderia ser refratada, no sentidoverdadeiro, pela ciência, pois essa doutrina pode sempreprocurar refúgio nos campos em que o conhecimento científicoainda não foi capaz de se firmar. Estou convencido, porém,de que tal comportamento por parte dos representantes dareligião seria não só indigno como desastroso. Pois umadoutrina que não é capaz de se sustentar à "plena luz", masapenas na escuridão, está fadada a perder sua influência
  11. 11. sobre a humanidade, com incalculável prejuízo para oprogresso humano. Em sua luta pelo bem ético, os professoresde religião precisam ter a envergadura para abrir mão dadoutrina de um Deus pessoal, isto é, renunciar a fonte demedo e esperança que, no passado, concentrou um poder tãoamplo nas mãos dos sacerdotes. Em seu ofício, terão de sevaler daqueles forças que são capazes de cultivar o Bom, oVerdadeiro e o Belo na própria humanidade. Trata-se, semdúvida, de uma tarefa mais difícil, mas incomparavelmentemais valiosa. Quando tiverem realizado esse processo dedepuração, os professores da religião certamente hão dereconhecer com alegria que a verdadeira religião ficouenobrecida e mais profunda graças ao conhecimentocientífico.Se um dos objetivos da religião é libertar a humanidade,tanto quanto possível, da servidão dos anseios, desejos etemores egocêntricos, o raciocínio científico pode ajudar areligião em mais um sentido. Embora seja verdade que a metada ciência é descobrir regras que permitam associar e preveros fatos, essa não é sua única finalidade. Ela procuratambém reduzir as conexões descobertas ao menor númeropossível de elementos conceituais mutuamente independentes.E nessa busca da unificação racional do múltiplo que aciência logra seus maiores êxitos, embora seja precisamenteessa tentativa que a faz correr os maiores riscos de setornar uma presa das ilusões. Mas todo aquele queexperimentou intensamente os avanços bem-sucedidos feitosnesse domínio é movido por uma profunda reverência pelaracionalidade que se manifesta na existência. Através dacompreensão, ele conquista uma emancipação de amplasconseqüências dos grilhões das esperanças e desejospessoais, atingindo assim uma atitude mental de humildadeperante a grandeza da razão que se encarna na existência eque, em seus recônditos mais profundos, é inacessível aohomem. Essa atitude, contudo, parece-me ser religiosa, nomais elevado sentido da palavra. A meu ver, portanto, aciência não só purifica o impulso religioso do entulho deseu antropomorfismo, como contribui para uma
  12. 12. espiritualização religiosa de nossa compreensão da vida.Quanto mais avança a evolução espiritual da humanidade, maiscerto me parece que o caminho para a religiosidade genuínanão passa pelo medo da vida, nem pelo medo da morte, ou pelafé cega, mas pelo esforço em busca do conhecimento racional.Neste sentido, acredito que o sacerdote, se quiser fazer jusa sua sublime missão educacional, deve tornar-se umprofessor._____________________________________________________"Ciência e Religião" (1939-1941) - Págs. 25a 34. Einstein, Albert, 1870-1955 Títulooriginal: "Out of my later years."Escritos da Maturidade: artigos sobreciência, educação, relações sociais,racismo, ciências sociais e religião.Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges -Rio de Janeiro : Editora Nova Fronteira,1994.

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