DOMINGO I                     MENSAGEM URBI ET ORBI                DO SANTO PADRE EMÉRITO BENTO XVI                Domingo...
reina vivo após a morte». Os sinais da ressurreição atestam a vitória da vida sobrea morte, do amor sobre o ódio, da miser...
DOMINGO II                         PAPA EMÉRITO BENTO XVI                              AUDIÊNCIA GERAL                    ...
ela é válida também para todos nós e para sempre. Todas as vezes que ouvimosou lemos estas palavras, podemos colocar-nos c...
por Jesus nos recordam o verdadeiro sentido da fé madura e nos encorajam aprosseguir, apesar das dificuldades, pelo nosso ...
DOMINGO III                         PAPA EMÉRITO BENTO XVI                             AUDIÊNCIA GERAL                    ...
Deus"! Por outras palavras: João não se limita a descrever o agir divino, masprocede até às suas raízes. Além disso, não p...
são, ao mesmo tempo, um estímulo que não nos permite acomodar-nos no quepodemos realizar. Não permite que nos contentemos ...
DOMINGO IV                     SANTA MISSA CRISMAL               HOMILIA DO SANTO PADRE FRANCISCO                     Quin...
Aarão até às bordas da realidade, quando ilumina as situações extremas, «asperiferias» onde o povo fiel está mais exposto ...
pastores com o «cheiro das ovelhas» – isto vo-lo peço: sede pastores com o«cheiro das ovelhas», que se sinta este –, serem...
DOMINGO V                   VISITA PASTORAL A TURIM                 CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA               HOMILIA DO PAP...
nos amarmos uns aos outros, Jesus continuará a estar presente no meio de nós, aser glorificado no mundo.Jesus fala de um "...
Deus; testemunhai no ministério o poder do amor que vem do Alto, vem doSenhor presente no meio de nós.A primeira leitura q...
porque, como diz o Apocalipse: "(Deus) enxugará as lágrimas dos seus olhos; nãohaverá mais morte, nem pranto, nem gritos, ...
DOMINGO VI                      MENSAGEM URBI ET ORBI                     DO SANTO PADRE FRANCISCO                 PÁSCOA ...
Eis, portanto, o convite que dirijo a todos: acolhamos a graça da Ressurreição deCristo! Deixemo-nos renovar pela misericó...
ASCENSÃO DO SENHOR             DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS             PAPA EMÉRITO BENTO XVI - REGINA CÆLI      ...
testamento espiritual, escreveu: "Observai com maior frequência as estrelas.Quando tiverdes um peso na alma, olhai para as...
DOMINGO DE PENTECOSTES         CAPELA PAPAL NA SOLENIDADE DE PENTECOSTES             HOMILIA DO PAPA EMÉRITO BENTO XVI    ...
universal. Desde o início, do dia do Pentecostes, ela fala todas as línguas. A Igrejauniversal precede as Igrejas particul...
relação aos que são acendidos pelos ditadores de todas as épocas, também doséculo passado, que atrás de si deixam terra qu...
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  1. 1. DOMINGO I MENSAGEM URBI ET ORBI DO SANTO PADRE EMÉRITO BENTO XVI Domingo de Páscoa – 8 de Abril de 2012Amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro!«Surrexit Christus, spes mea – Ressuscitou Cristo, minha esperança» (SequênciaPascal).A todos vós chegue a voz jubilosa da Igreja, com as palavras que um antigo hinocoloca nos lábios de Maria Madalena, a primeira que encontrou Jesusressuscitado na manhã de Páscoa. Ela correu ao encontro dos outros discípulos e,emocionada, anunciou-lhes: «Vi o Senhor!» (Jo 20, 18). Hoje também nós, depoisde termos atravessado o deserto da Quaresma e os dias dolorosos da Paixão,damos largas ao brado de vitória: «Ressuscitou! Ressuscitou verdadeiramente!»Todo o cristão revive a experiência de Maria de Magdala. É um encontro quemuda a vida: o encontro como um Homem único, que nos faz sentir toda abondade e a verdade de Deus, que nos liberta do mal, não de modo superficial epassageiro mas liberta-nos radicalmente, cura-nos completamente e restitui-nosa nossa dignidade. Eis o motivo por que Madalena chama Jesus «minhaesperança»: porque foi Ele que a fez renascer, que lhe deu um futuro novo, umavida boa, liberta do mal. «Cristo minha esperança» significa que todo o meudesejo de bem encontra n’Ele uma possibilidade de realização: com Ele, possoesperar que a minha vida se torne boa e seja plena, eterna, porque é o próprioDeus que Se aproximou até ao ponto de entrar na nossa humanidade.Entretanto Maria de Magdala, tal como os outros discípulos, teve de ver Jesusrejeitado pelos chefes do povo, preso, flagelado, condenado à morte e crucificado.Deve ter sido insuportável ver a Bondade em pessoa sujeita à maldade humana, aVerdade escarnecida pela mentira, a Misericórdia injuriada pela vingança. Com amorte de Jesus, parecia falir a esperança de quantos confiavam n’Ele. Mas esta fénunca desfalece de todo: sobretudo no coração da Virgem Maria, a mãe de Jesus,a pequena chama continuou acesa e viva mesmo na escuridão da noite. Aesperança, neste mundo, não pode deixar de contar com a dureza do mal. Não éapenas o muro da morte a criar-lhe dificuldade, mas também e mais ainda asaguilhoadas da inveja e do orgulho, da mentira e da violência. Jesus passouatravés desta trama mortal, para nos abrir a passagem para o Reino da vida.Houve um momento em que Jesus aparecia derrotado: as trevas invadiram aterra, o silêncio de Deus era total, a esperança parecia reduzida a uma palavra vã.Mas eis que, ao alvorecer do dia depois do sábado, encontram vazio o sepulcro.Depois Jesus manifesta-Se a Madalena, às outras mulheres, aos discípulos. A férenasce mais viva e mais forte do que nunca, e já invencível porque fundada sobreuma experiência decisiva: «Morte e vida combateram, / mas o Príncipe da vida /
  2. 2. reina vivo após a morte». Os sinais da ressurreição atestam a vitória da vida sobrea morte, do amor sobre o ódio, da misericórdia sobre a vingança: «Vi o túmulo deCristo, / redivivo e glorioso; / vi os Anjos que o atestam, / e a mortalha com asvestes».Amados irmãos e irmãs! Se Jesus ressuscitou, então – e só então – aconteceu algode verdadeiramente novo, que muda a condição do homem e do mundo. EntãoEle, Jesus, é alguém de quem nos podemos absolutamente fiar, confiando nãoapenas na sua mensagem mas n’Elemesmo, porque o Ressuscitado não pertenceao passado, mas está presente e vivo hoje. Cristo é esperança e conforto de modoparticular para as comunidades cristãs que mais são provadas com discriminaçõese perseguições por causa da fé. E, através da sua Igreja, está presente como forçade esperança em cada situação humana de sofrimento e de injustiça.Cristo Ressuscitado dê esperança ao Médio Oriente, para que todas ascomponentes étnicas, culturais e religiosas daquele Região colaborem para o bemcomum e o respeito dos direitos humanos. De forma particular cesse, na Síria, oderramamento de sangue e adopte-se, sem demora, o caminho do respeito, dodiálogo e da reconciliação, como é vivo desejo também da comunidadeinternacional. Os numerosos prófugos, originários de lá e necessitados deassistência humanitária, possam encontrar o acolhimento e a solidariedade quemitiguem as suas penosas tribulações. Que a vitória pascal encoraje o povoiraquiano a não poupar esforços para avançar no caminho da estabilidade e doprogresso. Na Terra Santa, israelitas e palestinos retomem, com coragem, oprocesso de paz.Vitorioso sobre o mal e sobre a morte, o Senhor sustente as comunidades cristãsdo Continente Africano, conceda-lhes esperança para enfrentarem as dificuldadese torne-as obreiras de paz e artífices do progresso das sociedades a quepertencem.Jesus Ressuscitado conforte as populações atribuladas do Corno de África efavoreça a sua reconciliação; ajude a Região dos Grandes Lagos, o Sudão e oSudão do Sul, concedendo aos respectivos habitantes a força do perdão. Ao Mali,que atravessa um delicado momento político, Cristo Glorioso conceda paz eestabilidade. À Nigéria, que, nestes últimos tempos, foi palco de sangrentosataques terroristas, a alegria pascal infunda as energias necessárias para retomar aconstrução duma sociedade pacífica e respeitadora da liberdade religiosa detodos os seus cidadãos.Boa Páscoa para todos!
  3. 3. DOMINGO II PAPA EMÉRITO BENTO XVI AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 27 de Setembro de 2006ToméQueridos irmãos e irmãs!Prosseguindo os nossos encontros com os doze Apóstolos escolhidosdirectamente por Jesus, hoje dedicamos a nossa atenção a Tomé. Semprepresente nas quatro listas contempladas pelo Novo Testamento, ele, nosprimeiros três Evangelhos, é colocado ao lado de Mateus (cf. Mt 10, 3; Mc3,18; Lc 6, 15), enquanto nos Actos está próximo de Filipe (cf. Act 1, 13). O seu nomederiva de uma raiz hebraica, taam, que significa "junto", "gémeo". De facto, oEvangelho chama-o várias vezes com o sobrenome de "Dídimo" (cf. Jo 11, 16; 20,24; 21, 2), que em grego significa precisamente "gémeo". Não é claro o porquêdeste apelativo.Sobretudo o Quarto Evangelho oferece-nos informações que reproduzem algunstraços significativos da sua personalidade. O primeiro refere-se à exortação, queele fez aos outros Apóstolos, quando Jesus, num momento crítico da sua vida,decidiu ir a Betânia para ressuscitar Lázaro, aproximando-se assim perigosamentede Jerusalém (cf. Mc 10, 32). Naquela ocasião Tomé disse aos seus condiscípulos:"Vamos nós também, para morrermos com Ele" (Jo 11, 16).Esta sua determinação em seguir o Mestre é deveras exemplar e oferece-nos umprecioso ensinamento: revela a disponibilidade total a aderir a Jesus, atéidentificar o próprio destino com o dEle e querer partilhar com Ele a provasuprema da morte. De facto, o mais importante é nunca separar-se de Jesus. Poroutro lado, quando os Evangelhos usam o verbo "seguir" é para significar quepara onde Ele se dirige, para lá deve ir também o seu discípulo. Deste modo, avida cristã define-se como uma vida com Jesus Cristo, uma vida a ser transcorridajuntamente com Ele. São Paulo escreve algo semelhante, quando tranquiliza oscristãos de Corinto com estas palavras: "estais no nosso coração para a vida e paraa morte" (2 Cor 7, 3). O que se verifica entre o Apóstolo e os seus cristãos deve,obviamente, valer antes de tudo para a relação entre os cristãos e o próprio Jesus:morrer juntos, viver juntos, estar no seu coração como Ele está no nosso.Uma segunda intervenção de Tomé está registada na Última Ceia. Naquelaocasião Jesus, predizendo a sua partida iminente, anuncia que vai preparar umlugar para os discípulos para que também eles estejam onde Ele estiver; eesclarece: "E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho"(Jo 14, 4). É então queTomé intervém e diz: "Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nóssaber o caminho?" (Jo 14, 5). Na realidade, com esta expressão ele coloca-se a umnível de compreensão bastante baixo; mas estas suas palavras fornecem a Jesus aocasião para pronunciar a célebre definição: "Eu sou o Caminho, a Verdade e aVida" (Jo 14, 6). Portanto, Tomé é o primeiro a quem é feita esta revelação, mas
  4. 4. ela é válida também para todos nós e para sempre. Todas as vezes que ouvimosou lemos estas palavras, podemos colocar-nos com o pensamento ao lado deTomé e imaginar que o Senhor fala também connosco como falou com ele.Ao mesmo tempo, a sua pergunta confere também a nós o direito, por assimdizer, de pedir explicações a Jesus. Com frequência nós não o compreendemos.Temos a coragem para dizer: não te compreendo, Senhor, ouve-me, ajuda-me acompreender. Desta forma, com esta franqueza que é o verdadeiro modo derezar, de falar com Jesus, exprimimos a insuficiência da nossa capacidade decompreender, ao mesmo tempo colocamo-nos na atitude confiante de quemespera luz e força de quem é capaz de as doar.Depois, muito conhecida e até proverbial é a cena de Tomé incrédulo, queaconteceu oito dias depois da Páscoa. Num primeiro momento, ele não tinhaacreditado em Jesus que apareceu na sua ausência, e dissera: "Se eu não vir o sinaldos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e aminha mão no seu peito, não acredito" (Jo 20, 25). No fundo, destas palavrassobressai a convicção de que Jesus já é reconhecível não tanto pelo rosto quantopelas chagas. Tomé considera que os sinais qualificadores da identidade de Jesussão agora sobretudo as chagas, nas quais se revela até que ponto Ele nos amou.Nisto o Apóstolo não se engana. Como sabemos, oito dias depois Jesus aparece nomeio dos seus discípulos, e desta vez Tomé está presente. E Jesus interpela-o:"Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende tua mão e põe-na no meu lado enão sejas incrédulo, mas crê!" (Jo 20, 27). Tomé reage com a profissão de fé maismaravilhosa de todo o Novo Testamento: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20, 28).A este propósito, Santo Agostinho comenta: Tomé via e tocava o homem, masconfessava a sua fé em Deus, que não via nem tocava. Mas o que via e tocavalevava-o a crer naquilo de que até àquele momento tinha duvidado" (In Iohann.121, 5). O evangelista prossegue com uma última palavra de Jesus a Tomé: "Porqueme viste, acreditaste. Felizes os que, sem terem visto, crerão" (cf. Jo 20, 29). Estafrase também se pode conjugar no presente; "Bem-aventurados os que crêem semterem visto".Contudo, aqui Jesus enuncia um princípio fundamental para os cristãos que virãodepois de Tomé, portanto para todos nós. É interessante observar como o grandeteólogo medieval Tomás de Aquino, compara com esta fórmula de bem-aventurança aquela aparentemente oposta citada por Lucas: "Felizes os olhos quevêem o que estais a ver" (Lc 10, 23). Mas o Aquinate comenta: "Merece muito maisquem crê sem ver do que quem crê porque vê" (In Johann. XX lectio VI 2566). Defacto, a Carta aos Hebreus, recordando toda a série dos antigos Patriarcasbíblicos, que acreditaram em Deus sem ver o cumprimento das suas promessas,define a fé como "fundamento das coisas que se esperam e comprovação das quenão se vêem" (11, 1). O caso do Apóstolo Tomé é importante para nós pelo menospor três motivos: primeiro, porque nos conforta nas nossas inseguranças;segundo porque nos demonstra que qualquer dúvida pode levar a um êxitoluminoso além de qualquer incerteza; e por fim, porque as palavras dirigidas a ele
  5. 5. por Jesus nos recordam o verdadeiro sentido da fé madura e nos encorajam aprosseguir, apesar das dificuldades, pelo nosso caminho de adesão a Ele.Uma última anotação sobre Tomé é-nos conservada no Quarto Evangelho, que oapresenta como testemunha do Ressuscitado no momento seguinte à pescamilagrosa no Lago de Tiberíades (cf. Jo21, 2). Naquela ocasião ele é mencionadoinclusivamente logo depois de Simão Pedro: sinal evidente da grande importânciade que gozava no âmbito das primeiras comunidades cristãs. Com efeito, em seunome foram escritos depois os Actos e o Evangelho de Tomé, ambos apócrifos mascontudo importantes para o estudo das origens cristãs. Por fim recordamos quesegundo uma antiga tradição, Tomé evangelizou primeiro a Síria e a Pérsia (assimrefere já Orígenes, citado por Eusébio de Cesareia, Hist. eccl. 3, 1) depois foi até àÍndia ocidental (cf. Actos de Tomé 1-2 e 17ss.), de onde enfim alcançou também aÍndia meridional. Nesta perspectiva missionária terminamos a nossa reflexão,expressando votos de que o exemplo de Tomé corrobore cada vez mais a nossa féem Jesus Cristo, nosso Senhor e nosso Deus.
  6. 6. DOMINGO III PAPA EMÉRITO BENTO XVI AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 9 de Agosto de 2006 João, o teólogoQueridos irmãos e irmãs!Antes das férias eu tinha começado a fazer pequenos retratos dos doze Apóstolos.Os Apóstolos eram companheiros de vida de Jesus, amigos de Jesus e estecaminho deles com Jesus não era só um caminho exterior, da Galileia a Jerusalém,mas um caminho interior no qual aprenderam a fé em Jesus Cristo, não semdificuldades porque eram homens como nós. Mas precisamente por isto, porqueeram companheiros de vida de Jesus, amigos de Jesus que num caminho não fácilaprenderam a fé, são também guias para nós, que nos ajudam a conhecer JesusCristo, a amá-lo e a ter fé nEle. Eu já tinha falado sobre quatro dos dozeApóstolos: de Simão Pedro, do seu irmão André, de Tiago, o irmão de São João, edo outro Tiago, chamado "o Menor", que escreveu uma Carta que encontramosno Novo Testamento. E eu tinha começado a falar de João, o evangelista,mencionando na última audiência antes das férias os dados essenciais que traçama fisionomia deste Apóstolo. Agora gostaria de concentrar a atenção sobre oconteúdo do seu ensinamento. Por conseguinte, os escritos dos quais hojedesejamos ocupar-nos são o Evangelho e as Cartas que têm o seu nome.Se existe um assunto característico que mais sobressai nos escritos de João, é oamor. Não foi por acaso que quis iniciar a minha primeira Carta encíclica com aspalavras deste Apóstolo: "Deus é amor (Deus caritas est); quem está no amorhabita em Deus e Deus habita nele" (1 Jo 4, 16). É muito difícil encontrar textos dogénero noutras religiões. Portanto, tais expressões põem-nos diante de um dadoverdadeiramente peculiar do cristianismo. Certamente João não é o único autordas origens cristãs que fala do amor. Sendo este um elemento essencial docristianismo, todos os escritores do Novo Testamento falam dele, mesmo se comacentuações diferentes. Se agora nos detemos a reflectir sobre este tema em João,é porque ele nos traçou com insistência e de modo incisivo as suas linhasprincipais. Portanto, confiemo-nos às suas palavras. Uma coisa é certa: ele nãoreflecte de modo abstracto, filosófico, ou até teológico, sobre o que é o amor.Não, ele não é um teórico. De facto, o verdadeiro amor, por sua natureza, nunca émeramente especulativo, mas faz referência directa, concreta e verificável apessoas reais. Pois bem, João, como apóstolo e amigo de Jesus mostra-nos quaissão os componentes ou melhor as fases do amor cristão, um movimentocaracterizado por três momentos.O primeiro refere-se à própria Fonte do amor, que o Apóstolo coloca em Deus,chegando, como ouvimos, a afirmar que "Deus é amor" (1 Jo 4, 8.16). João é oúnico autor do Novo Testamento que nos dá uma espécie de definição de Deus.Ele diz, por exemplo, que "Deus é Espírito" (Jo 4, 24) ou que "Deus é luz" (1 Jo 1,5). Aqui proclama com intuição resplandecente que "Deus é amor". Observe-sebem: não é simplesmente afirmado que "Deus ama", nem sequer que "o amor é
  7. 7. Deus"! Por outras palavras: João não se limita a descrever o agir divino, masprocede até às suas raízes. Além disso, não pretende atribuir uma qualidade a umamor genérico e talvez impessoal; não se eleva do amor a Deus, mas dirige-sedirectamente a Deus para definir a sua natureza com a dimensão infinita doamor. Com isto João deseja dizer que o constitutivo essencial de Deus é o amor e,portanto, toda a actividade de Deus nasce do amor e está orientada para o amor:tudo o que Deus faz é por amor, mesmo se nem sempre podemos compreenderimediatamente que Ele é amor, o verdadeiro amor.Mas, a este ponto é indispensável dar um passo em frente e esclarecer que Deusdemonstrou concretamente o seu amor entrando na história humana mediante apessoa de Jesus Cristo, que encarnou, morreu e ressuscitou por nós. Este é osegundo momento constitutivo do amor de Deus. Ele não se limitou àsdeclarações verbais, mas, podemos dizer, empenhou-se verdadeiramente e"pagou" em primeira pessoa. Como escreve precisamente João, "Tanto amou Deuso mundo (isto é: todos nós) que lhe entregou o seu Filho Unigénito" (Jo 3, 16).Agora, o amor de Deus pelos homens concretiza-se e manifesta-se no amor dopróprio Jesus. João escreve ainda: Jesus "que amara os seus que estavam nomundo, levou o seu amor por eles até ao extremo" (Jo 13, 1). Em virtude desteamor oblativo e total nós somos radicalmente resgatados do pecado, comoescreve ainda São João: "Filhinhos meus... se alguém pecar, temos junto do Paium advogado, Jesus Cristo, o Justo, pois Ele é a vítima que expia os nossospecados, e não somente os nossos, mas também os de todo o mundo" (1 Jo 2, 1-2;cf. 1 Jo 1, 7). Eis até onde chegou o amor de Jesus por nós: até à efusão do própriosangue para a nossa salvação! O cristão, detendo-se em contemplação diantedeste "excesso" de amor, não pode deixar de reflectir sobre qual é a respostaobrigatória. E penso que sempre e de novo cada um de nós deve interrogar-sesobre isto.Esta pergunta introduz-nos no terceiro momento da dinâmica do amor: dedestinatários receptivos de um amor que nos precede e nos domina, somoschamados ao compromisso de uma resposta activa, que para ser adequada sópode ser uma resposta de amor. João fala de um "mandamento". De facto, elerefere estas palavras de Jesus: "Dou-vos um novo mandamento: que vos ameisuns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei" (Jo 13, 34).Onde está a novidade à qual Jesus se refere? Ela consiste no facto de que não secontenta de repetir o que já era exigido no Antigo Testamento e que lemos nosoutros Evangelhos: "Ama o próximo como a ti mesmo" (Lv 19, 18; cf. Mt 22, 37-39; Mc 12, 29-31; Lc 10, 27). No antigo preceito o critério normativo era presumidoa partir do homem ("como a ti mesmo"), enquanto que no preceito mencionadopor João, Jesus apresenta como motivo e norma do nosso amor a sua própriapessoa: "Como Eu vos amei". É assim que o amor se torna verdadeiramentecristão, levando em si a novidade do cristianismo: quer no sentido de que eledeve destinar-se a todos sem distinções, quer porque deve sobretudo chegar atéàs últimas consequências, tendo unicamente como medida chegar ao extremo.Aquelas palavras de Jesus, "como Eu vos amei", convidam-nos e ao mesmo tempopreocupam-nos; são uma meta cristológica que pode parecer inalcançável, mas
  8. 8. são, ao mesmo tempo, um estímulo que não nos permite acomodar-nos no quepodemos realizar. Não permite que nos contentemos do que somos, masestimula-nos a permanecer a caminho rumo a esta meta.Aquele texto áureo de espiritualidade que é o pequeno livro do final da IdadeMédia intituladoImitação de Cristo escreve a este propósito: "O nobre amor deJesus estimula-nos a realizar coisas grandes e a desejar coisas sempre maisperfeitas. O amor quer estar no alto e não ser aprisionado por baixeza alguma. Oamor quer ser livre e separado de qualquer afecto mundano... de facto, o amornasceu de Deus, e só pode repousar em Deus acima de todas as coisas criadas.Quem ama voa, corre e rejubila, é livre, e nada o retém. Dá tudo a todos e temtudo em todas as coisas, porque encontra repouso no Único grande que estáacima de todas as coisas, do qual brota e provém qualquer bem" (livro III, cap. 5).Qual melhor comentário do que o "mandamento novo", enunciado por João?Pedimos ao Pai que o possamos viver, mesmo se sempre de modo imperfeito, tãointensamente que contagiemos a todos os que encontrarmos no nosso caminho.
  9. 9. DOMINGO IV SANTA MISSA CRISMAL HOMILIA DO SANTO PADRE FRANCISCO Quinta-feira Santa, 28 de março de 2013Amados irmãos e irmãs,Com alegria, celebro pela primeira vez a Missa Crismal como Bispo de Roma.Saúdo com afecto a todos vós, especialmente aos amados sacerdotes que hojerecordam, como eu, o dia da Ordenação.As Leituras e o Salmo falam-nos dos «Ungidos»: o Servo de Javé referido porIsaías, o rei David e Jesus nosso Senhor. Nos três, aparece um dado comum: aunção recebida destina-se ao povo fiel de Deus, de quem são servidores; a suaunção «é para» os pobres, os presos, os oprimidos… Encontramos uma imagemmuito bela de que o santo crisma «é para» no Salmo 133: «É como óleo perfumadoderramado sobre a cabeça, a escorrer pela barba, a barba de Aarão, a escorrer atéà orla das suas vestes» (v. 2). Este óleo derramado, que escorre pela barba deAarão até à orla das suas vestes, é imagem da unção sacerdotal, que, porintermédio do Ungido, chega até aos confins do universo representado nas vestes.As vestes sagradas do Sumo Sacerdote são ricas de simbolismos; um deles é o dosnomes dos filhos de Israel gravados nas pedras de ónix que adornavam asombreiras do efod, do qual provém a nossa casula actual: seis sobre a pedra doombro direito e seis na do ombro esquerdo (cf. Ex 28, 6-14). Também no peitoralestavam gravados os nomes das doze tribos de Israel (cf. Ex 28, 21). Isto significaque o sacerdote celebra levando sobre os ombros o povo que lhe está confiado etendo os seus nomes gravados no coração. Quando envergamos a nossa casulahumilde pode fazer-nos bem sentir sobre os ombros e no coração o peso e o rostodo nosso povo fiel, dos nossos santos e dos nossos mártires, que são tantos nestetempo.Depois da beleza de tudo o que é litúrgico – que não se reduz ao adorno e bomgosto dos paramentos, mas é presença da glória do nosso Deus que resplandeceno seu povo vivo e consolado –, fixemos agora o olhar na acção. O óleo precioso,que unge a cabeça de Aarão, não se limita a perfumá-lo a ele, mas espalha-se eatinge «as periferias». O Senhor dirá claramente que a sua unção é para ospobres, os presos, os doentes e quantos estão tristes e abandonados. A unção,amados irmãos, não é para nos perfumar a nós mesmos, e menos ainda para que aconservemos num frasco, pois o óleo tornar-se-ia rançoso... e o coração amargo.O bom sacerdote reconhece-se pelo modo como é ungido o seu povo; temos aquiuma prova clara. Nota-se quando o nosso povo é ungido com óleo da alegria; porexemplo, quando sai da Missa com o rosto de quem recebeu uma boa notícia. Onosso povo gosta do Evangelho quando é pregado com unção, quando oEvangelho que pregamos chega ao seu dia a dia, quando escorre como o óleo de
  10. 10. Aarão até às bordas da realidade, quando ilumina as situações extremas, «asperiferias» onde o povo fiel está mais exposto à invasão daqueles que queremsaquear a sua fé. As pessoas agradecem-nos porque sentem que rezámos a partirdas realidades da sua vida de todos os dias, as suas penas e alegrias, as suasangústias e esperanças. E, quando sentem que, através de nós, lhes chega operfume do Ungido, de Cristo, animam-se a confiar-nos tudo o que elas queremque chegue ao Senhor: «Reze por mim, padre, porque tenho este problema»,«abençoe-me, padre», «reze para mim»… Estas confidências são o sinal de que aunção chegou à orla do manto, porque é transformada em súplica – súplica doPovo de Deus. Quando estamos nesta relação com Deus e com o seu Povo e agraça passa através de nós, então somos sacerdotes, mediadores entre Deus e oshomens. O que pretendo sublinhar é que devemos reavivar sempre a graça, paraintuirmos, em cada pedido – por vezes inoportuno, puramente material oumesmo banal (mas só aparentemente!) –, o desejo que tem o nosso povo de serungido com o óleo perfumado, porque sabe que nós o possuímos. Intuir e sentir,como o Senhor sentiu a angústia permeada de esperança da hemorroíssa quandoela Lhe tocou a fímbria do manto. Este instante de Jesus, no meio das pessoas queO rodeavam por todos os lados, encarna toda a beleza de Aarão revestidosacerdotalmente e com o óleo que escorre pelas suas vestes. É uma belezaescondida, que brilha apenas para aqueles olhos cheios de fé da mulheratormentada com as perdas de sangue. Os próprios discípulos – futurossacerdotes – não conseguem ver, não compreendem: na «periferia existencial»,vêem apenas a superficialidade duma multidão que aperta Jesus de todos os ladosquase O sufocando (cf. Lc 8, 42). Ao contrário, o Senhor sente a força da unçãodivina que chega às bordas do seu manto.É preciso chegar a experimentar assim a nossa unção, com o seu poder e a suaeficácia redentora: nas «periferias» onde não falta sofrimento, há sanguederramado, há cegueira que quer ver, há prisioneiros de tantos patrões maus. Nãoé, concretamente, nas auto-experiências ou nas reiteradas introspecções queencontramos o Senhor: os cursos de auto-ajuda na vida podem ser úteis, masviver a nossa vida sacerdotal passando de um curso ao outro, de método emmétodo leva a tornar-se pelagianos, faz-nos minimizar o poder da graça, que seactiva e cresce na medida em que, com fé, saímos para nos dar a nós mesmosoferecendo o Evangelho aos outros, para dar a pouca unção que temos àquelesque não têm nada de nada.O sacerdote, que sai pouco de si mesmo, que unge pouco – não digo «nada»,porque, graças a Deus, o povo nos rouba a unção –, perde o melhor do nossopovo, aquilo que é capaz de activar a parte mais profunda do seu coraçãopresbiteral. Quem não sai de si mesmo, em vez de ser mediador, torna-se pouco apouco um intermediário, um gestor. A diferença é bem conhecida de todos: ointermediário e o gestor «já receberam a sua recompensa». É que, não colocandoem jogo a pele e o próprio coração, não recebem aquele agradecimento carinhosoque nasce do coração; e daqui deriva precisamente a insatisfação de alguns, queacabam por viver tristes, padres tristes, e transformados numa espécie decoleccionadores de antiguidades ou então de novidades, em vez de serem
  11. 11. pastores com o «cheiro das ovelhas» – isto vo-lo peço: sede pastores com o«cheiro das ovelhas», que se sinta este –, serem pastores no meio do seu rebanho,e pescadores de homens. É verdade que a chamada crise de identidade sacerdotalnos ameaça a todos e vem juntar-se a uma crise de civilização; mas, se soubermosquebrar a sua onda, poderemos fazer-nos ao largo no nome do Senhor e lançar asredes. É um bem que a própria realidade nos faça ir para onde, aquilo que somospor graça, apareça claramente como pura graça, ou seja, para este mar que é omundo actual onde vale só a unção – não a função – e se revelam fecundasunicamente as redes lançadas no nome d’Aquele em quem pusemos a nossaconfiança: Jesus.Amados fiéis, permanecei unidos aos vossos sacerdotes com o afecto e a oração,para que sejam sempre Pastores segundo o coração de Deus.Amados sacerdotes, Deus Pai renove em nós o Espírito de Santidade com quefomos ungidos, o renove no nosso coração de tal modo que a unção chegue atodos, mesmo nas «periferias» onde o nosso povo fiel mais a aguarda e aprecia.Que o nosso povo sinta que somos discípulos do Senhor, sinta que estamosrevestidos com os seus nomes e não procuramos outra identidade; e que ele possareceber, através das nossas palavras e obras, este óleo da alegria que nos veiotrazer Jesus, o Ungido. Amen.
  12. 12. DOMINGO V VISITA PASTORAL A TURIM CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA HOMILIA DO PAPA EMÉRITO BENTO XVI Praça São Carlos Domingo, 2 de Maio de 2010Prezados irmãos e irmãs!Estou feliz por me encontrar convosco neste dia de festa e por celebrar para vósesta solene Eucaristia. Saúdo cada um dos presentes, de modo particular o Pastorda vossa Arquidiocese, Cardeal Severino Poletto, a quem agradeço as calorosasexpressões que me dirigiu em nome de todos. Saúdo também os Arcebispos e osBispos presentes, os Sacerdotes, os Religiosos, as Religiosas e os representantesdas Associações e dos Movimentos eclesiais. Dirijo um pensamento deferente aoPresidente da Câmara Municipal, Doutor Sérgio Chiamparino, grato pelo cortêsdiscurso de saudação, ao representante do Governo e às Autoridades civis emilitares, com um particular agradecimento a quantos ofereceramgenerosamente a sua colaboração para a realização desta minha Visita pastoral.Estendo o meu pensamento a quantos não puderam estar presentes, de modoespecial aos doentes, às pessoas sozinhas e a quantos se encontram emdificuldade. Confio ao Senhor a cidade de Turim e todos os seus habitantes nestacelebração eucarística que, como todos os domingos, nos convida a participar demodo comunitário na dúplice mesa da Palavra de verdade e do Pão de vidaeterna.Estamos no tempo pascal, que é o tempo da glorificação de Jesus. O Evangelhoque há pouco ouvimos recorda-nos que esta glorificação se realizou mediante apaixão. No mistério pascal, paixão e glorificação estão estreitamente ligadas entresi, formam uma unidade inseparável. Jesus afirma: "Agora foi glorificado o Filhodo Homem, e Deus foi glorificado nele" (Jo 13, 31), e fá-lo quando Judas sai doCenáculo para pôr em prática o plano da sua traição, que conduzirá à morte doMestre: precisamente naquele momento tem início a glorificação de Jesus. Oevangelista João fá-lo compreender claramente: com efeito, não diz que Jesus foiglorificado somente depois da sua paixão, por meio da ressurreição, mas mostraque a sua glorificação começou precisamente com a paixão. Nela, Jesus manifestaa sua glória, que é glória do amor, que se entrega totalmente a si mesmo. Eleamou o Pai, cumprindo a sua vontade até ao fim, com uma doação perfeita; amoua humanidade, dando a sua vida por nós. Assim, já na sua paixão Ele é glorificado,e Deus é glorificado nele. Mas a paixão – como expressão muito real e profundado seu amor – é apenas um início. Por isso, Jesus afirma que a sua glorificaçãoserá também futura (cf. v. 32). Depois o Senhor, no momento em que anuncia asua partida deste mundo (cf. v. 33), quase como testamento aos seus discípulos,para continuar de modo novo a sua presença no meio deles, dá-lhes ummandamento: "Um novo mandamento vos dou: que vois ameis uns aos outros;assim como Eu vos amei, vós também vos deveis amar uns aos outros" (v. 34). Se
  13. 13. nos amarmos uns aos outros, Jesus continuará a estar presente no meio de nós, aser glorificado no mundo.Jesus fala de um "novo mandamento". Mas qual é a sua novidade? Já no AntigoTestamento, Deus tinha dado o mandamento do amor; agora, porém, estemandamento tornou-se novo, enquanto Jesus lhe acrescenta um suplementomuito importante: "Assim como Eu vos amei, vós também vos deveis amar uns aosoutros". O que é novo é precisamente este "amar como Jesus amou". Todo onosso amor é precedido pelo seu amor e refere-se a este amor, insere-se nesteamor, realiza-se precisamente por este amor. O Antigo Testamento nãoapresentava modelo algum de amor, mas formulava apenas o preceito de amar.Jesus, ao contrário, deu-se-nos como modelo e fonte de amor. Trata-se de umamor sem limites, universal, capaz de transformar também todas ascircunstâncias negativas e todos os obstáculos em ocasiões para progredir noamor. E vemos nos santos desta Cidade a realização deste amor, sempre da fontedo amor de Jesus.Nos séculos passados, a Igreja que está em Turim conheceu uma rica tradição desantidade e de serviço generoso aos irmãos – como recordou o Cardeal Arcebispoe o Senhor Presidente da Câmara Municipal – graças à obra de zelosos sacerdotes,religiosos e religiosas de vida activa e contemplativa e de fiéis leigos. Então, aspalavras de Jesus adquirem uma ressonância particular para esta Igreja de Turim,uma Igreja generosa e activa, a começar pelos seus presbíteros. Dando-nos o novomandamento, Jesus pede-nos que vivamos o seu próprio amor, do seu próprioamor, que é o sinal verdadeiramente credível, eloquente e eficaz para anunciar aomundo a vinda do Reino de Deus. Obviamente, só com as nossas forças somosfracos e limitados. Existe sempre em nós uma resistência ao amor e na nossaexistência há muitas dificuldades que provocam divisões, ressentimentos erancores. Mas o Senhor prometeu-nos que estará presente na nossa vida,tornando-nos capazes deste amor generoso e total, que sabe superar todos osobstáculos, inclusive aqueles que estão nos nossos corações. Se estivermos unidosa Cristo, poderemos amar verdadeiramente deste modo. Amar os outros comoJesus nos amou só é possível com aquela força que nos é comunicada na relaçãocom Ele, especialmente na Eucaristia, na qual se torna presente de maneira real oseu Sacrifício de amor que gera amor: é a verdadeira novidade no mundo e a forçade uma glorificação permanente de Deus, que se glorifica na continuidade doamor de Jesus no nosso amor.Então, gostaria de transmitir uma palavra de encorajamento, em particular aosSacerdotes e aos Diáconos desta Igreja, que se dedicam com generosidade aotrabalho pastoral, como também aos Religiosos e às Religiosas. Às vezes, sertrabalhadores na vinha do Senhor pode ser cansativo, os compromissosmultiplicam-se, as exigências são muitas e não faltam problemas: sabei haurirdiariamente da relação de amor com Deus na oração, a força para transmitir oanúncio profético de salvação; voltai a centrar a vossa existência no essencial doEvangelho; cultivai uma dimensão real de comunhão e de fraternidade no interiordo presbitério, das vossas comunidades e nos relacionamentos com o Povo de
  14. 14. Deus; testemunhai no ministério o poder do amor que vem do Alto, vem doSenhor presente no meio de nós.A primeira leitura que ouvimos apresenta-nos precisamente um modo particularde glorificação de Jesus: o apostolado e os seus frutos. No final da sua primeiraviagem apostólica, Paulo e Barnabé voltam para as cidades já visitadas ereanimam os discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé porque, comoeles dizem, "temos que sofrer muitas tribulações para entrar no Reino de Deus"(Act 14, 22). Caros irmãos e irmãs, a vida cristã não é fácil; sei que também emTurim não faltam dificuldades, problemas e preocupações: penso, de modoparticular, naqueles que vivem concretamente a sua existência em condições deprecariedade, por causa da falta de trabalho, da incerteza em relação ao futuro,do sofrimento físico e moral; penso nas famílias, nos jovens, nas pessoas idosasque muitas vezes vivem na solidão, nos marginalizados e nos imigrados. Sim, avida leva a enfrentar muitas dificuldades, numerosos problemas, mas éprecisamente a certeza que nos vem da fé, a certeza de que não estamos sozinhos,que Deus ama cada um sem distinção e está próximo de cada um com o seuamor, que torna possível enfrentar, viver e superar o cansaço dos problemasquotidianos. Foi o amor universal de Cristo ressuscitado que impeliu osApóstolos a saírem de si mesmos, a difundirem a palavra de Deus, aprodigalizarem-se sem reservas pelo próximo, com coragem, alegria e serenidade.O Ressuscitado possui uma força de amor que ultrapassa todos os limites e não sedetém diante de qualquer obstáculo. E a Comunidade cristã, especialmente nasrealidades mais comprometidas sob o ponto de vista pastoral, deve serinstrumento concreto deste amor de Deus.Exorto as famílias a viverem a dimensão cristã do amor nos simples gestosquotidianos, nos relacionamentos familiares, superando divisões eincompreensões, cultivando a fé que torna a comunhão ainda mais sólida.Também no rico e diversificado mundo da Universidade e da cultura, não venha afaltar o testemunho do amor de que fala o Evangelho hodierno, na capacidade daescuta atenta e do diálogo humilde na busca da Verdade, convictos de que é aprópria Verdade que vem ao nosso encontro e nos conquista. Desejo encorajartambém o esforço, muitas vezes difícil, daqueles que são chamados a administraro Estado: a colaboração para perseguir o bem comum e tornar a Cidade cada vezmais humana e vivível é um sinal de que o pensamento cristão sobre o homemnunca é contrário à sua liberdade, mas a favor de uma maior plenitude, que sóencontra a sua realização numa "civilização do amor". A todos, em particular aosjovens, quero dizer que nunca percam a esperança, aquela que vem de CristoRessuscitado, da vitória de Deus sobre o pecado, o ódio e a morte.A segunda leitura hodierna mostra-nos precisamente o êxito final da Ressurreiçãode Jesus: é a nova Jerusalém, a cidade santa, que desce do céu, de Deus, prontacomo uma esposa ataviada para o seu esposo (cf. Ap 21, 2). Aquele que foicrucificado, que compartilhou o nosso sofrimento, como nos recorda também demaneira eloquente o santo Sudário, é aquele que ressuscitou e nos quer reunirtodos no seu amor. Trata-se de uma esperança maravilhosa, "forte" e sólida
  15. 15. porque, como diz o Apocalipse: "(Deus) enxugará as lágrimas dos seus olhos; nãohaverá mais morte, nem pranto, nem gritos, nem dor, porque as primeiras coisaspassaram" (21, 4). O santo Sudário, não comunica porventura esta mesmamensagem? Nele vemos, como que reflectidos, os nossos padecimentos nossofrimentos de Cristo: "Passio Christi. Passio hominis". Precisamente por isso, eleé um sinal de esperança: Cristo enfrentou a cruz para pôr um limite ao mal; paranos fazer entrever, na sua Páscoa, a antecipação daquele momento em quetambém para nós, todas as lágrimas serão enxugadas e já não haverá morte, nempranto, nem gritos, nem dor.O trecho do Apocalipse termina com a afirmação: "Aquele que se sentava notrono disse: "Eis que Eu renovo todas as coisas"" (21, 5). A primeira coisaabsolutamente nova, realizada por Deus, foi a Ressurreição de Jesus, a suaglorificação celestial. Ela é o início de toda uma série de "coisas novas", em quetambém nós participamos. "Coisas novas" são um mundo repleto de alegria, emque não existem mais sofrimentos, nem abusos, em que já não há rancor nemódio, mas somente o amor que vem de Deus e que transforma tudo.Amada Igreja que está em Turim, vim ao meio de vós para vos confirmar na fé.Desejo exortar-vos, com força e com carinho, a permanecer firmes naquela fé querecebestes e que dá sentido à vida, que dá força de amar; a nunca perder a luz daesperança em Cristo Ressuscitado, que é capaz de transformar a realidade erenovar todas as coisas; a viver na cidade, nos bairros, nas comunidades e nasfamílias, de maneira simples e concreta, o amor de Deus: "Assim como Eu vosamei, vós também vos deveis amar uns aos outros".
  16. 16. DOMINGO VI MENSAGEM URBI ET ORBI DO SANTO PADRE FRANCISCO PÁSCOA 2013 - Domingo, 31 de março de 2013Amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro, boa Páscoa! Boa Páscoa!Que grande alegria é para mim poder dar-vos este anúncio: Cristo ressuscitou!Queria que chegasse a cada casa, a cada família e, especialmente onde há maissofrimento, aos hospitais, às prisões...Sobretudo queria que chegasse a todos os corações, porque é lá que Deus quersemear esta Boa Nova: Jesus ressuscitou, há uma esperança que despertou para ti,já não estás sob o domínio do pecado, do mal! Venceu o amor, venceu amisericórdia! A misericórdia sempre vence!Também nós, como as mulheres discípulas de Jesus que foram ao sepulcro e oencontraram vazio, nos podemos interrogar que sentido tenha esteacontecimento (cf. Lc 24, 4). Que significa o fato de Jesus ter ressuscitado?Significa que o amor de Deus é mais forte que o mal e a própria morte; significaque o amor de Deus pode transformar a nossa vida, fazer florir aquelas parcelasde deserto que ainda existem no nosso coração. E isto é algo que o amor de Deuspode fazer.Este mesmo amor pelo qual o Filho de Deus Se fez homem e prosseguiu até aoextremo no caminho da humildade e do dom de Si mesmo, até a morada dosmortos, ao abismo da separação de Deus, este mesmo amor misericordiosoinundou de luz o corpo morto de Jesus e transfigurou-o, o fez passar à vidaeterna. Jesus não voltou à vida que tinha antes, à vida terrena, mas entrou na vidagloriosa de Deus e o fez com a nossa humanidade, abrindo-nos um futuro deesperança.Eis o que é a Páscoa: é o êxodo, a passagem do homem da escravidão do pecado,do mal, à liberdade do amor, do bem. Porque Deus é vida, somente vida, e a suaglória somos nós: o homem vivo (cf. Ireneu, Adversus haereses, 4, 20, 5-7).Amados irmãos e irmãs, Cristo morreu e ressuscitou de uma vez para sempre epara todos, mas a força da Ressurreição, esta passagem da escravidão do mal àliberdade do bem, deve realizar-se em todos os tempos, nos espaços concretos danossa existência, na nossa vida de cada dia. Quantos desertos tem o ser humanode atravessar ainda hoje! Sobretudo o deserto que existe dentro dele, quando faltao amor de Deus e ao próximo, quando falta a consciência de ser guardião de tudoo que o Criador nos deu e continua a dar. Mas a misericórdia de Deus pode fazerflorir mesmo a terra mais árida, pode devolver a vida aos ossos ressequidos (cf. Ez37, 1-14).
  17. 17. Eis, portanto, o convite que dirijo a todos: acolhamos a graça da Ressurreição deCristo! Deixemo-nos renovar pela misericórdia de Deus, deixemo-nos amar porJesus, deixemos que a força do seu amor transforme também a nossa vida,tornando-nos instrumentos desta misericórdia, canais através dos quais Deuspossa irrigar a terra, guardar a criação inteira e fazer florir a justiça e a paz.E assim, a Jesus ressuscitado que transforma a morte em vida, peçamos paramudar o ódio em amor, a vingança em perdão, a guerra em paz. Sim, Cristo é anossa paz e, por seu intermédio, imploramos a paz para o mundo inteiro.Paz para o Oriente Médio, especialmente entre israelitas e palestinos, que sentemdificuldade em encontrar a estrada da concórdia, a fim de que retomem, comcoragem e disponibilidade, as negociações para pôr termo a um conflito que jádura há demasiado tempo. Paz no Iraque, para que cesse definitivamente toda aviolência, e sobretudo para a amada Síria, para a sua população vítima do conflitoe para os numerosos refugiados, que esperam ajuda e conforto. Já foi derramadotanto sangue… Quantos sofrimentos deverão ainda atravessar antes de seconseguir encontrar uma solução política para a crise?Paz para a África, cenário ainda de sangrentos conflitos: no Mali, para quereencontre unidade e estabilidade; e na Nigéria, onde infelizmente não cessam osatentados, que ameaçam gravemente a vida de tantos inocentes, e onde nãopoucas pessoas, incluindo crianças, são mantidas como reféns por gruposterroristas. Paz no leste da República Democrática do Congo e na RepúblicaCentro-Africana, onde muitos se vêem forçados a deixar as suas casas e vivemainda no medo.Paz para a Ásia, sobretudo na península coreana, para que sejam superadas asdivergências e amadureça um renovado espírito de reconciliação.Paz para o mundo inteiro, ainda tão dividido pela ganância de quem procuralucros fáceis, ferido pelo egoísmo que ameaça a vida humana e a família – umegoísmo que faz continuar o tráfico de pessoas, a escravatura mais extensa nesteséculo vinte e um. O tráfico de pessoas é realmente a escravatura mais extensaneste século vinte e um! Paz para todo o mundo dilacerado pela violência ligadaao narcotráfico e por uma iníqua exploração dos recursos naturais. Paz para estanossa Terra! Jesus ressuscitado leve conforto a quem é vítima das calamidadesnaturais e nos torne guardiões responsáveis da criação.Amados irmãos e irmãs, originários de Roma ou de qualquer parte do mundo, atodos vós que me ouvis, dirijo este convite do Salmo 117: «Dai graças ao Senhor,porque Ele é bom, porque é eterno o seu amor. Diga a casa de Israel: É eterno oseu amor» (vv. 1-2).
  18. 18. ASCENSÃO DO SENHOR DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS PAPA EMÉRITO BENTO XVI - REGINA CÆLI Praça de São Pedro Solenidade da Ascensão do Senhor, Domingo, 16 de Maio de 2010Amados irmãos e irmãs!Celebra-se hoje, na Itália e noutros países, a Ascensão de Jesus ao Céu, queaconteceu no quadragésimo dia depois da Páscoa. Neste domingo celebra-se,ainda, o Dia Mundial das Comunicações Sociais, sobre o tema: "O sacerdote e apastoral no mundo digital: a nova mídia ao serviço da Palavra". Na liturgia narra-se o episódio da última separação do Senhor Jesus dos seus discípulos (cf. Lc 24,50-51; Act 1, 2.9); mas não se trata de um abandono, porque Ele permanece parasempre com eles – connosco – numa forma nova. São Bernardo de Claravalexplica que a ascensão ao céu de Jesus se realiza em três graus: "o primeiro é aglória da ressurreição, o segundo é o poder de julgar e, o terceiro, sentar-se àdireita do Pai" (Sermo de Ascensione Domini, 60, 2: Sancti Bernardi Opera, t. vi, 1,291, 20-21). Este acontecimento é precedido pela bênção dos discípulos, que osprepara para receber o dom do Espírito Santo, para que a salvação sejaproclamada em toda a parte. O próprio Jesus diz-lhes: "Disto vós soistestemunhas. E eis que Eu envio sobre vós aquele que Meu Pai me prometeu" (cf.Lc 24, 47-49).O Senhor atrai o olhar dos Apóstolos o nosso olhar para o Céu a fim de lhesindicar como percorrer o caminho do bem durante a vida terrena. Contudo, Elepermanece na trama da história humana, está próximo a cada um de nós e guia onosso caminho cristão: é companheiro dos perseguidos por causa da fé, está nocoração de todos os que são marginalizados, está presente naqueles aos quais énegado o direito à vida. Podemos ouvir, ver e tocar o Senhor Jesus na Igreja,sobretudo mediante a palavra e os sacramentos. A este propósito, exorto osadolescentes e os jovens que neste tempo pascal recebem o sacramento daConfirmação, a permanecer fiéis à Palavra de Deus e à doutrina aprendida, assimcomo a frequentar assiduamente a Confissão e a Eucaristia, conscientes de teremsido escolhidos e constituídos para testemunhar a Verdade. Renovo depois o meuconvite particular aos irmãos no Sacerdócio, para que "na sua vida e acção sedistingam por um forte testemunho evangélico" (Carta de proclamação do AnoSacerdotal) e saibam utilizar com sabedoria também os meios de comunicação,para fazer conhecer a vida da Igreja e ajudar os homens de hoje a descobrir orosto de Cristo (cf. Mensagem para o XLVI Dia Mundial das ComunicaçõesSociais, 24.1.2010).Queridos irmãos e irmãs, o Senhor, abrindo-nos o caminho do Céu, faz-nossaborear já nesta terra a vida divina. Um autor russo do século XX, no seu
  19. 19. testamento espiritual, escreveu: "Observai com maior frequência as estrelas.Quando tiverdes um peso na alma, olhai para as estrelas e para o azul do céu.Quando vos sentirdes tristes, quando vos ofenderem,... entretende-vos... com océu. Então a vossa alma encontrará a tranquilidade" (N. Valentini L. Zák [por],Pavel A. Florenskij. Non dimenticatemi. Le lettere dal gulag del grande matematico,filosofo e sacerdote russo, Milão 2000, p. 418). Agradeço à Virgem Maria, que nosdias passados pude venerar no Santuário de Fátima, pela sua materna protecçãodurante a intensa peregrinação realizada em Portugal. Àquela que vela sobre astestemunhas do seu dilecto Filho dirijamos com confiança a nossa oração.
  20. 20. DOMINGO DE PENTECOSTES CAPELA PAPAL NA SOLENIDADE DE PENTECOSTES HOMILIA DO PAPA EMÉRITO BENTO XVI Basílica Vaticana Domingo, 23 de Maio de 2010Prezados irmãos e irmãs!Na solene celebração do Pentecostes, somos enviados a professar a nossa fé napresença e na acção do Espírito Santo e a invocar a sua efusão sobre nós, sobre aIgreja e sobre o mundo inteiro. Portanto, façamos nossa, e com intensidadeparticular, a invocação da própria Igreja: Veni, Sancte Spiritus! Uma invocaçãotão simples e imediata, mas ao mesmo tempo extraordinariamente profunda, quebrota em primeiro lugar do Coração de Cristo. Com efeito, o Espírito é o dom queJesus pediu e pede continuamente ao Pai pelos seus amigos; o primeiro eprincipal dom que nos obteve com a sua Ressurreição e Ascensão ao Céu.Desta oração de Cristo fala-nos o trecho evangélico hodierno, que tem comocontexto a Última Ceia. O Senhor Jesus disse aos seus discípulos: "Se Meamardes, guardareis os meus mandamentos. E Eu suplicarei ao Pai e Ele dar-vos-áoutro Consolador, a fim de permanecer convosco para sempre" (Jo 14, 15-16). Aquirevela-se-nos o Coração orante de Jesus, o seu Coração filial e fraterno. Estaoração alcança o seu ápice e o seu cumprimento na cruz, onde a invocação deCristo se identifica com o dom total que Ele faz de si mesmo, e deste modo o seurezar torna-se por assim dizer o próprio selo do seu doar-se em plenitude poramor ao Pai e à humanidade: invocação e doação do Espírito Santo encontram-se, compenetram-se e tornam-se uma única realidade. "E Eu suplicarei ao Pai eEle dar-vos-á outro Consolador, a fim de permanecer convosco para sempre". Narealidade, a oração de Jesus – a da Última Ceia e a da cruz – é uma oração quepermanece também no Céu, onde Cristo está sentado à direita do Pai. Com efeito,Jesus vive sempre o seu sacerdócio de intercessão a favor do povo de Deus e dahumanidade, e portanto reza por todos pedindo ao Pai o dom do Espírito Santo.A narração do Pentecostes no livro dos Actos dos Apóstolos – ouvimo-lo naprimeira leitura – (cf. Act 2, 1-11) apresenta o "novo curso" da obra de Deus,encetado com a ressurreição de Cristo, obra que envolve o homem, a história e ocosmos. Do Filho de Deus morto e ressuscitado, que voltou para o Pai, emanaagora sobre a humanidade com energia inédita o sopro divino, o Espírito Santo. Eo que produz esta nova e poderosa autocomunicação de Deus? Onde existemlacerações e estraneidades, ela cria unidade e compreensão. Tem início umprocesso de reunificação entre as partes da família humana, divididas e dispersas;as pessoas, muitas vezes reduzidas a indivíduos em competição ou em conflitoentre si, alcançadas pelo Espírito de Cristo, abrem-se à experiência da comunhão,que pode empenhá-las a ponto de fazer delas um novo organismo, um novosujeito: a Igreja. Este é o efeito da obra de Deus: a unidade; por isso, a unidade éo sinal de reconhecimento, o "cartão de visita" da Igreja no curso da sua história
  21. 21. universal. Desde o início, do dia do Pentecostes, ela fala todas as línguas. A Igrejauniversal precede as Igrejas particulares, as quais devem conformar-se semprecom ela, segundo um critério de unidade e universalidade. A Igreja nuncapermanece prisioneira de confins políticos, raciais ou culturais; não se podeconfundir com os Estados e nem sequer com as Federações de Estados, porque asua unidade é de outro tipo e aspira a atravessar todas as fronteiras humanas.Amados irmãos, disto deriva um critério prático de discernimento para a vidacristã: quando uma pessoa, ou uma comunidade, se fecha no seu próprio modode pensar e de agir, é sinal que se afastou do Espírito Santo. O caminho doscristãos e das Igrejas particulares deve confrontar-se sempre com o da Igreja, unae católica, e harmonizar-se com ele. Isto não significa que a unidade criada peloEspírito Santo é uma espécie de igualitarismo. Pelo contrário, ela é sobretudo omodelo de Babel, ou seja, a imposição de uma cultura da unidade quepoderíamos definir "técnica". Com efeito, a Bíblia diz-nos (cf. Gn 11, 1-9) que emBabel todos falavam uma só língua. Pelo contrário, no Pentecostes os Apóstolosfalam línguas diferentes, de modo que cada um compreenda a mensagem no seupróprio idioma. A unidade do Espírito manifesta-se na pluralidade dacompreensão. A Igreja é por sua natureza una e múltipla, destinada como está aviver em todas as nações, em todos os povos e nos mais diversificados contextossociais. Ela responde à sua vocação, de ser sinal e instrumento de unidade detodo o género humano (cf. Lumen gentium, 1), apenas se permanece autónoma dequalquer Estado e de toda a cultura particular. Sempre e em cada lugar, a Igrejadeve ser verdadeiramente católica e universal, a casa de todos, onde cada um sepode encontrar.A narração dos Actos dos Apóstolos oferece-nos também outra sugestão muitoconcreta. A universalidade da Igreja é expressa pelo elenco dos povos, segundo aantiga tradição: "Somos Partas, Médios, Elamitas...", etc. Pode-se observar aquique São Lucas vai além do número 12, que já expressa sempre umauniversalidade. Ele olha além dos horizontes da Ásia e do noroeste da África, eacrescenta outros três elementos: os "Romanos", ou seja, o mundo ocidental; os"judeus e prosélitos", incluindo de modo novo a unidade entre Israel e o mundo;e enfim "Cretenses e Árabes", que representam Ocidente e Oriente, ilhas e terrafirme. Esta abertura de horizontes confirma ulteriormente a novidade de Cristona dimensão do espaço humano, da história das gentes: o Espírito Santo envolvehomens e povos e, através deles, supera muros e barreiras.No Pentecostes, o Espírito Santo manifesta-se como fogo. A sua chama desceusobre os discípulos reunidos, acendeu-se neles e infundiu-lhes o novo ardor deDeus. Realiza-se assim aquilo que o Senhor Jesus tinha predito: "Vim lançar fogosobre a terra; e como gostaria que ele já tivesse sido ateado!" (Lc 12, 49).Juntamente com os fiéis das diversas comunidades, os Apóstolos levaram estachama divina até aos extremos confins da Terra; abriram assim um caminho paraa humanidade, uma senda luminosa, e colaboraram com Deus que com o seufogo quer renovar a face da terra. Como é diferente este fogo, daquele das guerrase das bombas! Como é diverso o incêndio de Cristo, propagado pela Igreja, em
  22. 22. relação aos que são acendidos pelos ditadores de todas as épocas, também doséculo passado, que atrás de si deixam terra queimada. O fogo de Deus, o fogo doEspírito Santo, é aquele da sarça que ardia sem se consumir (cf. Êx 3, 2). É umachama que arde, mas não destrói; aliás, ardendo faz emergir a parte melhor emais verdadeira do homem, como numa fusão faz sobressair a sua forma interior,a sua vocação à verdade e ao amor.Um Padre da Igreja, Orígenes, numa das suas Homilias sobre Jeremias, cita umdito atribuído a Jesus, não contido nas Sagradas Escrituras mas talvez autêntico,que reza assim: "Quem está comigo está junto do fogo" (Homilia sobre Jeremias l.I [III]). Com efeito, em Cristo habita a plenitude de Deus, que na Bíblia écomparado com o fogo. Há pouco pudemos observar que a chama do EspíritoSanto arde mas não queima. E todavia, ela realiza uma transformação, e por issodeve consumir algo no homem, as escórias que o corrompem e o impedem nassuas relações com Deus e com o próximo. Porém, este efeito do fogo divinoassusta-nos, temos medo de nos "queimar", preferiríamos permanecer assimcomo somos. Isto depende do facto que muitas vezes a nossa vida é delineadasegundo a lógica do ter, do possuir, e não do doar-se. Muitas pessoas crêem emDeus e admiram a figura de Jesus Cristo, mas quando se lhes pede queabandonem algo de si mesmas, então elas recuam, têm medo das exigências da fé.Existe o temor de ter que renunciar a algo de bonito, ao que estamos apegados; otemor de que seguir Cristo nos prive da liberdade, de certas experiências, de umaparte de nós mesmos. Por um lado, queremos permanecer com Jesus, segui-lo deperto, e por outro temos medo das consequências que isto comporta.Caros irmãos e irmãs, temos sempre necessidade de ouvir o Senhor Jesus dizer-nos aquilo que Ele repetia aos seus amigos: "Não tenhais medo!". Como SimãoPedro e os outros, temos que deixar que a sua presença e a sua graçatransformem o nosso coração, sempre sujeito às debilidades humanas. Temos quesaber reconhecer que perder algo, aliás, perder-se a si mesmo pelo Deusverdadeiro, o Deus do amor e da vida, é na realidade ganhar, encontrar-se maisplenamente a si próprio. Quem se confia a Jesus experimenta já nesta vida a paz ea alegria do coração, que o mundo não pode dar, e nem sequer pode tirar, umavez que foi Deus quem no-las concedeu. Portanto, vale a pena deixar-se tocarpelo fogo do Espírito Santo! A dor que nos causa é necessária para a nossatransformação. É a realidade da cruz: não é por acaso que, na linguagem de Jesus,o "fogo" é sobretudo uma representação do mistério da cruz, sem o qual ocristianismo não existe. Por isso, iluminados e confortados por estas palavras devida, elevemos a nossa invocação: Vinde, Espírito Santo! Ateai em nós o fogo dovosso amor! Sabemos que esta é uma oração audaz, com a qual pedimos para sertocados pela chama de Deus; mas sabemos sobretudo que esta chama – e só ela –tem o poder de nos salvar. Para defender a nossa vida, não queremos perder avida eterna que Deus nos quer conceder. Temos necessidade do fogo do EspíritoSanto, porque só o Amor redime. Amém!

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