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                         MEDICINA Perfluorocarbonos abrem novas perspectivas para tratamento de doenças pulmonares
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                         Ventilação líquida:
                         da ficção à realidade
                         Cristiano Feijó Andrade, Luiz Alberto Forgiarini Junior (doutorando)
                         Programa de Pós-graduação em Ciências Pneumológicas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
                         e Paulo Francisco Guerreiro Cardoso
                         Departamento de Cirurgia, Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre




                         H    á décadas a ideia fascinante         viver nas profundezas do oceano




                                                                                                                                                     FoTo BEl PEDRosA/FolHA imAGEm
                              de animais terrestres respi­         sem lançar mão dos equipamentos
                         rarem em meio líquido tem des­            necessários para suportar a imen­
                         pertado o interesse de muitos pes­        sa pressão desse ambiente.
                         quisadores. E não só deles. A in­            As primeiras descrições sobre
                         dústria cinematográfica também            líquidos instilados nas vias aéreas
                         explorou o tema no filme de fic­          de mamíferos para o estudo da
                         ção científica O segredo do abismo        respiração datam do início do sé­
                         (Fox Films, 1989), em que um mer­         culo 20. O objetivo do trabalho era
                         gulhador, respirando por meio de          investigar a fisiologia pulmonar a
                         um líquido especial, podia sobre­         partir da introdução desses lí­
                                                                   quidos no interior dos pulmões.
                                                                   Graças ao desenvolvimento tecno­
                                                                   lógico, foram criadas diferentes
                A                                                  soluções, preparadas com os mais
                                                                   diversos tipos de substâncias, com
                                                                                                               Os perfluorocarbonos permitem que
                                                                   a finalidade de melhorar a troca
                                                                                                               animais terrestres respirem em meio
                                                                   gasosa. Embora essas soluções               líquido, assim como os peixes
                                                                   tenham­se apresentado como uma
                                                                   esperança, o sonho ainda estava
                                                                   longe de ser concretizado.
                                                                      Os indícios de sucesso surgi­            na Universidade de Buffalo, Esta­
                                                                   ram em 1962, quando o fisiologis­           dos Unidos, que ratos cujos pul­
                                                                   ta Johannes A. Kylstra (1925­               mões tinham sido preenchidos
                                                                   2008), nascido na Indonésia, filho          por um tipo de solução salina
                                                                   de pais holandeses, demonstrou,             oxigenada podiam ter uma sobre­
                                                                                                               vida de até 18 horas quando sub­
                B                                                                                              mersos em altas pressões, seme­
                                                                                                               lhantes às das regiões fundas dos
                                                                   Microscopia óptica de pulmão de rato.       oceanos. Na mesma década, o fi­
                                                                   Em A, observa-se o espessamento             siologista e bioquímico norte­
                                                                                                                                                     FoTos CRisTiANo F. ANDRADE (UFRGs)




                                                                   de septos alveolares (indicado pelas        americano Leland C. Clark Jr.
                                                                   setas) e a diminuição dos espaços           (1918­2005) e o bioquímico tche­
                                                                   alveolares (áreas brancas)                  co naturalizado norte­americano
                                                                   em uma lesão pulmonar; em B,
                                                                   as setas indicam alvéolos pulmonares        Frank Gollan (1910­1988), testa­
                                                                   abertos depois de preenchidos com           ram um novo líquido, denomina­
                                                                   perfluorocarbono                             do perfluorocarbono (PFC), que


    70 • CiênCia Hoje • vol . 4 4 • nº 260
ensaio
            havia sido desenvolvido durante
Fox Films




            a Segunda Guerra Mundial no            Cena do filme O segredo do abismo,
            âmbito do Projeto Manhattan.           do diretor norte-americano
                                                   James Cameron. Na trama,
                No artigo que publicaram em
                                                   um dos personagens respira
            1966 na revista Science, Clark e       com os pulmões cheios
            Gollan sustentavam que aquele          de um líquido especial
            líquido era um excelente meio de       para poder mergulhar
            transporte para o oxigênio e o gás     em local muito profundo
            carbônico. Quando os pulmões de
            ratos e gatos eram inundados por
            esses gases, eles observavam que
            os animais podiam respirar em
            meio líquido por um período de
            até 20 horas, voltando em seguida
            a respirar com sucesso o ar am­
            biente. Esse é considerado o mar­
            co inicial da ventilação líquida
            com PFCs.
                Os perfluorocarbonos são lí­
            quidos derivados dos fluorocar­
            bonetos, muito semelhantes a hi­
            drocarbonetos cujas moléculas de
            hidrogênio foram substituídas por
            moléculas de flúor. Com caracte­
            rísticas semelhantes às da água,
            são incolores, inodoros e insípi­
            dos. São quimicamente estáveis,
            têm baixa tensão superficial e sua
            densidade é maior que a da água.
            São excelentes carreadores de
            gases como hidrogênio, oxigênio,
            nitrogênio e dióxido de carbono.

            Aplicações
            Em modelos animais de lesão
            pulmonar, a ventilação líquida,
            quando comparada com a venti­
            lação mecânica convencional,
            demonstrou melhora na troca             A utilização de perfluorocarbo­        Apesar dos inúmeros avanços
            gasosa e diminuição de danos aos     nos na preservação de órgãos só­       ocorridos na utilização da venti­
            pulmões.                             lidos passou a ser apontada recen­     lação líquida, seu emprego ainda
               Relatos preliminares revelam      temente como alternativa para a        é limitado por diversos fatores,
            que o perfluorocarbono pode ser      proteção da chamada lesão de           destacando­se entre eles o elevado
            utilizado com segurança em hu­       reperfusão, que compreende vá­         custo. Sua utilização está restrita
            manos. A ventilação líquida au­      rios fenômenos decorrentes da          a poucos centros de pesquisa,
            menta a troca gasosa por recrutar    recirculação de sangue (reperfu­       especialmente nos Estados Uni­
            regiões do pulmão dependentes        são) em um órgão cuja circulação       dos e no Canadá, onde se utiliza
            da gravidade – em que há perfusão    sanguínea tenha sido interrompi­       o perfluorobromido (o único PFC
            (passagem de líquido), mas não       da (isquemia). No entanto, sua         liberado para ensaios clínicos).
            são ventiladas – e redistribui o     real utilidade ainda precisa ser       Em outros países são utilizados
            fluxo sanguíneo para as áreas        definida. Mas o uso de PFCs co­        PFCs ainda considerados não
            ventiladas. A utilização da venti­   mo carreadores de substâncias          ideais para a ventilação líquida. A
            lação líquida parcial atenua a       diretamente para o pulmão e seu        dificuldade de manejo dos pacien­
            lesão pulmonar devido à baixa        emprego em transplantes do órgão       tes submetidos à ventilação líqui­
            tensão superficial e às proprieda­   são a grande esperança na melho­       da também é um fator que restrin­
            des anti­inflamatórias dos PFCs.     ra da viabilidade pulmonar.            ge sua aplicação.                 n



                                                                                                             junho de 20 0 9 • CiênCia Hoje • 7 1

Ensaio260

  • 1.
    ensaio MEDICINA Perfluorocarbonos abrem novas perspectivas para tratamento de doenças pulmonares ensaio Ventilação líquida: da ficção à realidade Cristiano Feijó Andrade, Luiz Alberto Forgiarini Junior (doutorando) Programa de Pós-graduação em Ciências Pneumológicas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Paulo Francisco Guerreiro Cardoso Departamento de Cirurgia, Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre H á décadas a ideia fascinante viver nas profundezas do oceano FoTo BEl PEDRosA/FolHA imAGEm de animais terrestres respi­ sem lançar mão dos equipamentos rarem em meio líquido tem des­ necessários para suportar a imen­ pertado o interesse de muitos pes­ sa pressão desse ambiente. quisadores. E não só deles. A in­ As primeiras descrições sobre dústria cinematográfica também líquidos instilados nas vias aéreas explorou o tema no filme de fic­ de mamíferos para o estudo da ção científica O segredo do abismo respiração datam do início do sé­ (Fox Films, 1989), em que um mer­ culo 20. O objetivo do trabalho era gulhador, respirando por meio de investigar a fisiologia pulmonar a um líquido especial, podia sobre­ partir da introdução desses lí­ quidos no interior dos pulmões. Graças ao desenvolvimento tecno­ lógico, foram criadas diferentes A soluções, preparadas com os mais diversos tipos de substâncias, com Os perfluorocarbonos permitem que a finalidade de melhorar a troca animais terrestres respirem em meio gasosa. Embora essas soluções líquido, assim como os peixes tenham­se apresentado como uma esperança, o sonho ainda estava longe de ser concretizado. Os indícios de sucesso surgi­ na Universidade de Buffalo, Esta­ ram em 1962, quando o fisiologis­ dos Unidos, que ratos cujos pul­ ta Johannes A. Kylstra (1925­ mões tinham sido preenchidos 2008), nascido na Indonésia, filho por um tipo de solução salina de pais holandeses, demonstrou, oxigenada podiam ter uma sobre­ vida de até 18 horas quando sub­ B mersos em altas pressões, seme­ lhantes às das regiões fundas dos Microscopia óptica de pulmão de rato. oceanos. Na mesma década, o fi­ Em A, observa-se o espessamento siologista e bioquímico norte­ FoTos CRisTiANo F. ANDRADE (UFRGs) de septos alveolares (indicado pelas americano Leland C. Clark Jr. setas) e a diminuição dos espaços (1918­2005) e o bioquímico tche­ alveolares (áreas brancas) co naturalizado norte­americano em uma lesão pulmonar; em B, as setas indicam alvéolos pulmonares Frank Gollan (1910­1988), testa­ abertos depois de preenchidos com ram um novo líquido, denomina­ perfluorocarbono do perfluorocarbono (PFC), que 70 • CiênCia Hoje • vol . 4 4 • nº 260
  • 2.
    ensaio havia sido desenvolvido durante Fox Films a Segunda Guerra Mundial no Cena do filme O segredo do abismo, âmbito do Projeto Manhattan. do diretor norte-americano James Cameron. Na trama, No artigo que publicaram em um dos personagens respira 1966 na revista Science, Clark e com os pulmões cheios Gollan sustentavam que aquele de um líquido especial líquido era um excelente meio de para poder mergulhar transporte para o oxigênio e o gás em local muito profundo carbônico. Quando os pulmões de ratos e gatos eram inundados por esses gases, eles observavam que os animais podiam respirar em meio líquido por um período de até 20 horas, voltando em seguida a respirar com sucesso o ar am­ biente. Esse é considerado o mar­ co inicial da ventilação líquida com PFCs. Os perfluorocarbonos são lí­ quidos derivados dos fluorocar­ bonetos, muito semelhantes a hi­ drocarbonetos cujas moléculas de hidrogênio foram substituídas por moléculas de flúor. Com caracte­ rísticas semelhantes às da água, são incolores, inodoros e insípi­ dos. São quimicamente estáveis, têm baixa tensão superficial e sua densidade é maior que a da água. São excelentes carreadores de gases como hidrogênio, oxigênio, nitrogênio e dióxido de carbono. Aplicações Em modelos animais de lesão pulmonar, a ventilação líquida, quando comparada com a venti­ lação mecânica convencional, demonstrou melhora na troca A utilização de perfluorocarbo­ Apesar dos inúmeros avanços gasosa e diminuição de danos aos nos na preservação de órgãos só­ ocorridos na utilização da venti­ pulmões. lidos passou a ser apontada recen­ lação líquida, seu emprego ainda Relatos preliminares revelam temente como alternativa para a é limitado por diversos fatores, que o perfluorocarbono pode ser proteção da chamada lesão de destacando­se entre eles o elevado utilizado com segurança em hu­ reperfusão, que compreende vá­ custo. Sua utilização está restrita manos. A ventilação líquida au­ rios fenômenos decorrentes da a poucos centros de pesquisa, menta a troca gasosa por recrutar recirculação de sangue (reperfu­ especialmente nos Estados Uni­ regiões do pulmão dependentes são) em um órgão cuja circulação dos e no Canadá, onde se utiliza da gravidade – em que há perfusão sanguínea tenha sido interrompi­ o perfluorobromido (o único PFC (passagem de líquido), mas não da (isquemia). No entanto, sua liberado para ensaios clínicos). são ventiladas – e redistribui o real utilidade ainda precisa ser Em outros países são utilizados fluxo sanguíneo para as áreas definida. Mas o uso de PFCs co­ PFCs ainda considerados não ventiladas. A utilização da venti­ mo carreadores de substâncias ideais para a ventilação líquida. A lação líquida parcial atenua a diretamente para o pulmão e seu dificuldade de manejo dos pacien­ lesão pulmonar devido à baixa emprego em transplantes do órgão tes submetidos à ventilação líqui­ tensão superficial e às proprieda­ são a grande esperança na melho­ da também é um fator que restrin­ des anti­inflamatórias dos PFCs. ra da viabilidade pulmonar. ge sua aplicação. n junho de 20 0 9 • CiênCia Hoje • 7 1