Introdução entre o mito e a fronteira

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Introdução do meu livro Entre o Mito e a Fronteira. Publicado pela editora Labor, de Belém, em novembro de 2011.

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Introdução entre o mito e a fronteira

  1. 1. Entre o Mito e a Fronteira.Estudo sobre a figuração da Amazônia naprodução artística contemporânea de Belém.Fábio Fonseca de CastroIntrodução A impressão de estar entre o mito e a fronteira, com as adjetivações e variaçõesque acompanham esses termos, foi uma experiência recorrente para quem vivia emBelém, bem como em outras cidades e espaços amazônicos, nas últimas décadas doséculo XX. Vivenciava-se, então, uma experiência de rápida integração da Amazônia aoespaço nacional brasileiro. A violência dessa integração, com seus capitais,transumâncias, devastações e “grandes projetos”, provocava sentimentos ambivalentesem quem pertencia à Amazônia e julgava que ela a si pertencia. Uma invasão subjetiva,com esferas de arrogância, determinismo e contradição. Tratava-se, em primeiro plano, desse sentimento ambivalente de perceber afronteirização do mundo próprio, o avanço do outro sobre o pretenso si-mesmo coletivo. Em plano decorrencial, tratava-se de empreender estratégias de verificação,verisdição e afirmação desse si-mesmo coletivo. Tratava-se de reorganizar o campo domito como forma de resistência aos avanços da fronteira. A história avançava muito rapidamente, em Belém, nesse tempo e uma dasrespostas mais intrigantes da cidade a esse processo de transformação foi dada porartistas, intelectuais e produtores culturais, que iniciaram um processo coletivo,intersubjetivo, de discutir a identidade e as fontes culturais da sua sociedade amazônica. Esse processo foi espontâneo. Não teve lideranças absolutas, dogmas ouprescrições. Foi um fazer-junto, um sentir-junto. Por isso mesmo, não foi teorizado,explicado ou mesmo percebido, claramente, em seu tempo. Da mesma forma, nãoproduziu sínteses absolutas, mas sim aproximações, tipificações, sedimentaçõesintersubjetivas. Algumas vezes utilizo a expressão “quadro de pensamento”, desenvolvida porMax Weber, para explicar esse processo. Com essa expressão, poderia compreendê-locomo um feixe de significações, códigos, operadores de sentido. Ou como a vontade,utopista, de um desejo-de-ser, um processo de sedimentação do sentido comum quecoisifica o mundo, transformando-o, levando-o ao encontro de um projeto intuído. Tratar-se-ia de um ideal-tipo, um projeto, uma vontade comum, cujo motecentral é a noção de identidade amazônica – análoga à de cultura amazônica. Essa identidade amazônica pode ser vista como um ideal-tipo, no sentidoweberiano: um sentido-em-curso, tempo-a-ser, lugar-a-chegar. Portanto, como umhorizonte de compreensão – que se conforma como blocos de experiências sociais, setraduz enquanto situações típicas e se sedimenta, na sociedade, constituindo estoques deconhecimento e historicidades. Trata-se de um processo comum a todo curso social,mas se torna peculiar quando se intensifica, quando se sente pressionado e crente de quealgo deve ser agilizado, algo deve ser salvo.
  2. 2. Foi o que aconteceu, penso, na vida intelectual de Belém ao longo das últimastrês décadas do século XX. Nesse sentido, este livro procura funcionar como umaespécie de fotografia de um certo momento histórico, de uma experiência comum. Afotografia, talvez, da construção coletiva de uma identidade – ou do esforço deprodução de sentido para um estar-no-mundo ameaçado. Um processo de intensificaçãoda identificação social em curso. Este livro fala sobre esse processo. Fala sobre a moderna tradição amazônica eseu dinamismo, seu vitalismo. Fala sobre situações de ansiedade em relação ao fim dacultura e sobre a economia do sentido comum. A moderna tradição amazônica pode ser vista como um desvelamento social.Não como a recuperação e defesa de uma essência ou o resgate de tradições, comoquerem tantos autores, ainda dominados pelos paradigmas de uma modernidadecastradora, mas sim como uma bricolagem coletiva, uma invenção ou imaginação cujosprocessos, dispersos no corpo social, podem aqui ser chamados de intersubjetividade. O dinamismo do fenômeno social observado, com essa razão interna, teria, ameu ver, um equivalente na noção benjaminiana de tempo-já, ou melhor, agoridade, aqual se refere à fulguração de um futuro nos atos do presente, ou melhor, no sonho emrelação ao futuro, a uma situação de futuro, como força capaz de concentrar as energiasdo presente. Para Walter Benjamin, a agoridade seria uma suspensão espontânea do realcom o fim de alcançar o verdadeiro. Como disse, tento descrever, ou fotografar, um momento em seu curso. Natrajetória da minha observação, procurei situar, a princípio, o espaço-objeto – a intuiçãoda fronteira em seu momento de constituição. Em seguida, procurei situar, nessafronteira, minha trajetória de observação, precisando meu contato com tudo aquilo queconstitui a moderna tradição amazônica. Sem ilusões de objetividade, pretendi, reunir osfragmentos de uma realidade. Mapeada a fronteira, com suas intuições, procureiorganizar as impressões havidas, como a constituir uma cartografia dessa zonafronteiriça imprecisa. Enfim, empreendi uma reflexão sobre os dados coletados em sua “tipicidade”.Ou, mais precisamente, tentei observar o fenômeno de intersubjetividade assinalado emtermos de uma sociomorfologia da “identidade” amazônica. Minha conclusão, em síntese, é de que a moderna tradição amazônica nãoconstitui um tempo histórico, não é herdeira de um passado, não é a recuperação de umaessência. Ao contrário, ela é uma invenção do presente e no presente. Ela é aesthesis, ésentir coletivo, é refluxo de intersubjetividade, é alegoria do mundo – marcada pelaaurificação inusitada de seu objeto obsedante, de maneiras de ser, modos de pensar eestilos de comportamento. Nesse sentido, ela é a procura por uma forma, a indagação sobre uma origem,sobre uma casa, sobre um pertencimento que, fundamentalmente, não coincide com oespaço amazônico, especificamente, e nem com qualquer outro espaço geográfico-histórico, mas sim com a forma superior de uma identidade inexistente, ainda queprojetada e em constante reelaboração. É conhecido o pensamento de Paul Ricoeur de que não é possível historiar opresente. Enquanto atores de uma história em curso, não teríamos o distanciamento e aimparcialidade necessários para compreendê-la em suas formas gerais ou perceber nelaseus motivos e fundamentos, eventualmente mascarados pelas ideologias, ilusões eperspectivas dominantes em vigor. Estando imersos nesse presente – num tempo que
  3. 3. ainda não se constituiu em história – seria, portanto, impossível falar sobre a história.Porém, se não é possível historiar o presente, será possível, certamente, observá-lo e,talvez, intuí-lo. Por intuí-lo pode-se dizer vivenciá-lo, constituí-lo enquanto experiênciasensível. Narrá-lo. É nesse sentido que a sociologia compreensiva e fenomenológica quevislumbro se converte, ainda, numa prática etnográfica: narrar o que nos submerge,resgatando a compreensão – e a intuição – de um todo ainda complexo. Este trabalho constitui uma parte de minha tese de doutorado. Preferi decompô-la, a publicá-la em seu conjunto. Isso porque, enquanto tese, compus uma discussão emformato circular que inclui uma discussão teórica sobre o problema da identidade e oesboço de uma teorização a respeito da identificação social; uma observação sobre adinâmica social e temporal que envolve o tema da identidade nas sociedadesamazônicas e que toma a forma, num momento mais específico, de uma análise daformação econômica e social da Amazônia oriental (o horizonte daquilo que, nestelivro, equivale ao “avanço da fronteira”); e um estudo a respeito da representação daidentidade na Amazônia contemporânea. “Entre o mito e a fronteira”, correspondente aesse terceiro elemento, é o núcleo da tese, o objeto estudado. Porém, dele também extraíos capítulos que tratam das cenas culturais belemenses em sua dimensão histórica.Assim, sendo, este livro corresponde a metade objectual, embora não necessariamentefísica, de uma terça parte do trabalho original de tese. Todos esses excertos ganharãovida própria, no tempo hábil. Minha escolha por iniciar esse trabalho de recorte destacando “Entre o mito e afronteira” se deve não apenas ao fato de que, efetivamente, se trata do núcleo dapesquisa doutoral – e, assim, o objeto mais acabado do conjunto – mas também ànecessidade de colaborar com o debate, sempre em curso, sobre a representação daAmazônia pelos próprios amazônidas. Um debate análogo às sempre presentes, emBelém, discussões sobre a produção cultural amazônica, a identidade ou identidadeslocais e as políticas públicas para a identidade, a cultura e a comunicação. Acho necessário mencionar, porém, que fará alguma falta, a este livro, evocarcertos aspectos arqueológicos da formação econômica, social e cultural da produçãointelectual de Belém que estão presentes nas demais partes do trabalho. Digo-o semobstar a leitura do que o constitui, mas para que não falte saber que o que chamarei, aseguir, de moderna tradição amazônica, não é um fenômeno que surge espontaneamentee do nada. Há uma dimensão arqueológica na sua conformação como fenômenosociológico, representada por suas fontes no pensamento intelectual que a precedeu.Refiro-me a uma vasta experiência intelectual coletiva que pode ser encontrada nodebate cultural da cidade de Belém desde, pelo menos, meados do século XVIII e quetoma formas sociais, ao longo da primeira metade do século XX que constituirãoreferencias importantes para a moderna tradição amazônica, bem como para toda a vidaintelectual da Belém contemporânea. Todo esse material conforma os referidoscapítulos que tratam das cenas culturais belemenses em sua dimensão histórica. Notempo oportuno, pretendo ampliá-los e publicá-los – e isso, certamente, possibilitaráalgumas fontes a mais para a compreensão fenomenológica da moderna tradiçãoamazônica. E isto dito, passemos à estrutura deste livro. Ele se divide em cinco capítulos. Oprimeiro, intitulado “A moderna tradição amazônica”, apresenta o objeto investigado: oprocesso social intersubjetivo de figuração estética da Amazônia, com suas dinâmicashistóricas. Não se trata de um discurso ou de uma ideologia, mas de uma prática, de
  4. 4. uma figuração, que produz discursos e ideologias em certo momento, mas que lhesantecede enquanto processo de sedimentação coletiva do conhecimento. No capítulo seguinte, “Uma sociologia da forma e do contágio”, reúno oselementos teóricos e metodológicos que utilizei na pesquisa, explicitando-os edescrevendo, por meio deles, o percurso de observação realizado. Também nessecapítulo, coloco a questão metodológica de fundo, que ecoa em todo o trabalho e quepode ser resumida na seguinte indagação: é possível uma sociologia realmente capaz decompreender a obra de arte? Ao mesmo tempo, vou construindo minha plataforma deobservação – e, portanto, minha resposta a essa pergunta – desenhando, com apoio deMax Weber, Edmund Husserl, Alfred Schutz e Michel Maffesoli, dentre outros, umesboço de sociologia fenomenológica capaz de compreender a obra de arte comodinâmica social intersubjetiva. No terceiro capitulo, “O vitalismo da moderna tradição amazônica”, procuroconstruir um panorama da cena cultural belemense e, nesse processo, aplicar asociologia fenomenológica proposta. A idéia é desenhar um mosaico aberto, no quallinguagens artísticas, épocas, personagens e falas convergem em direção a uma formasocial específica. Procuro tornar compreensível um processo social indireto, algumasvezes subliminar e outras vezes ideológico, mas, mais que isso, um processo prática depactuação de sentidos. Com isso, pretendo identificar a razão interna do vínculo socialmas, também, contribuir, digamos assim, para a sedimentação da compreensão damoderna tradição amazônica. O quarto capítulo, “Sociomorfologia da identidade amazônica”, constitui umadiscussão aprofundada da moderna tradição amazônica. Nele, mapeio as diversassínteses de sentido que a operam e que traduzem os conflitos o estar entre o mito e afronteira. Anoto as dinâmicas gerais e, em seguida, as formas sociais sintetizadas maisamplas (sínteses politéticas) ou mais fechadas (sínteses monotéticas) da identidadeamazônica pretendida. A intenção é descrever as dinâmicas de tipificação da realidadeproduzidas, politicamente, a partir do embate de sentidos ali presentes. Porfim, no capítulo conclusivo do livro, “A Amazônia como alegoria daidentidade”, reúno as conclusões do trabalho, identificando a dimensão alegórica dasproduções de sentido identitário presentes no fim do século XX na cidade de Belém.Trata-se, na verdade, de uma conclusão, na qual sugiro que a identificação amazônicapresente nas figurações artísticas de Belém, conformam alegorias para o ser social,intersubjetivo e em permanente processo de reformulação de sentidos.

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